Templodeapolo.net
O Templodeapolo deseja a todos um 2017 de conquistas e uma melhor perspectiva para o Brasil e para os brasileiros!
O que meu coração concebe, minha ação executa!...
Sesóstris III
Todas as citações
{+} de Sesóstris III
NOTÍCIAS
23 dez , 2016 | Peixes-parasitas ajudam a desvendar surgimento do cérebro humano
14 Dec , 2016 | Planetólogos descobrem mais um elemento de vida em Marte
14 Dec , 2016 | O que é o imenso buraco que a Nasa encontrou no Sol e o que ele pode causar
13 Dec , 2016 | Astrônomos descobrem planeta onde chove rubis e safiras
12 Dec , 2016 | Enigmatica parede de fogo detectada no espaço vai contra as leis da física
[+] notícias
Publicado por:
Odsson Ferreira | 17 jan , 2017
Os povos nórdicos
berabbity.com
17 jan , 2017
Mirella Faur
História
Vikings

A Escandinávia é formada pelas ilhas da Dinamarca e uma grande península, em cujo lado leste fica a Suécia, com terras férteis ao redor
dos lagos e nas regiões do Sul, estendendo-se ao norte, além do Círculo Polar Ártico. A oeste fica a Noruega, uma faixa mais estreita formada por montanhas, fiordes e uma série de pequenas ilhas. Para fins didáticos, inclui-se também a Islândia, que atualmente é independente. O nome Escandinávia é uma suposta latinização do alemão arcaico Scandinaujá, cujo possível significado era a “Ilha de Skania”.

À medida que o gelo se retraía no norte europeu, no fim da era glacial, apareceram no sul os primeiros assentamentos humanos em torno de 10.000 a.e.c., que sobreviviam da caça e da pesca e reverenciavam as forças naturais temidas como “gigantes”. Essas tribos se deslocavam em função da mudança das estações, que eram comemoradas com encontros e rituais, dando assim origem aos posteriores festivais da Roda do Ano.

Em torno de 4.000 a.e.c., tribos nômades da Ásia Central (originárias da Anatólia e que se espalharam na direção do mar Cáspio, das estepes russas e acima do mar Negro até o mar Báltico) chegaram ao norte da Europa em várias ondas migratórias, conquistando os povos nativos e aos poucos se mesclando com eles. Chamados de indo-europeus, esses povos trouxeram para as tribos nativas mudanças tecnológicas (tais como os machados de pedra polida, a charrete, os vasos de argila), novos conceitos mitológicos, culturais e religiosos e o costume das sepulturas individuais. Essas influências permaneceram nas regiões por eles conquistadas na Asia Central e Menor, no sul e no norte da Europa. [15]

Aos poucos, os povos que foram se distanciando no tempo e no espaço desenvolveram características culturais e linguísticas diversas, dando origem aos vários ramos das línguas europeias: as germânicas, românicas, eslavas, celtas e bálticas, sendo as únicas exceções a finlandesa, a húngara e a basca. Apesar das mudanças e da diferenciação em vários idiomas, o estilo de vida, as crenças e os costumes dos grupos norte-europeus são similares.

Durante o período Neolítico, os indo-europeus formaram comunidades no Norte e leste do rio Reno, espalhando-se depois para o leste, desde o Danúbio e as cadeias dos Cárpatos até os rios Dnieper, Duna e Volga. A organização das tribos era baseada na união dos clãs e das famílias, que eram conduzidas pelos chefes e os guerreiros. Existia uma divisão em castas que se refletia também no seu panteão, no qual os deuses exerciam uma destas funções: soberania/magia, guerra/defesa e fornecimento dos alimentos através da fertilidade vegetal e animal. Os indo-europeus reverenciavam um deus celeste Dvaus, “o brilhante”, além dos regentes dos raios, vento, noite, mar, fogo, terra, uma deusa solar e um deus lunar, além da senhora da morte e um casal de gêmeos. O centro do lar era a lareira, consagrada ao culto dos espíritos guardiões e ancestrais. Eram feitas oferendas para as divindades e os seres da natureza, pedindo proteção para suas terras, famílias e animais.

Esses arquétipos reapareceram ampliados na mitologia escandinava, germânica e báltica, mesclados com as divindades e práticas nativas e os ritos xamânicos. A mitologia nórdica —que abrange os povos germânicos e escandinavos (incluindo os islandeses) — fundamentada nos arquétipos indo-europeus e xamânicos, se formou entre 1000 a.e.c. e 1000 d.e.c.; porém inscrições da Idade do Bronze revelaram a existência de elementos míticos mais antigos, do milênio anterior. Apenas no fim do século I d.e.c., aparece o primeiro registro escrito por intermédio da obra do historiador romano Tácito. As fontes principais são mais tardias, do século XII-XIII, ficando assim a meio-caminho entre a época atual e os povos que lhes deram origem. A presença de costumes e práticas xamânicas deve-se ao convívio com bálticos, iinlandeses e tribos nativas do norte europeu como os samis e samoiedos, remanescentes dos uralianos, um grupo antigo que habitava as tundras da Ásia e cujas crenças eram semelhantes às dos siberianos.

No final do período Neolítico (da Pedra Polida), os indo-europeus e os nativos já tinham se fundido, criando comunidades estáveis em lugar da vida nômade, começando a cultivar a terra e criar animais. Os cadáveres não eram mais deixados ao ar livre para serem descarnados pelas aves de rapina, mas enterrados em covas comuns ou individuais, cobertas com pedras, o que deu origem às [16] inúmeras câmaras funerárias — que são ainda visíveis em todo o continente — e ao culto dos ancestrais.

A transição para a vida estável, que dependia das dádivas e mudanças naturais, ampliou os cultos dos seres da natureza, dos seres sobrenaturais e dos espíritos elementais, além da reverência às divindades e aos ancestrais. Foram criados espaços especiais para rituais e celebrações como os alinhamentos e círculos de menires, as câmaras subterrâneas, os cairns (amontoados de pedras em forma de colina) e as formações de pedras reproduzindo barcos. Apareceram inúmeros petróglifos e desenhos rupestres nos rochedos e nas paredes das grutas, representando figuras humanas com chifres ou falo ereto, animais, cenas de caça ou luta, marcas de mãos, rodas solares, ondas, barcos, carruagens, armas, arados, procissões e rituais ou mulheres dançando. As pinturas rupestres de ursos, lobos, águias, javalis, auroques e alces representavam os animais totêmicos que sobreviveram ao longo de milênios como figuras legendárias, símbolos de clãs e nomes de família.

Com o passar do tempo, foram abertas estradas nas florestas para favorecer as trocas comerciais e os clãs se uniram sob a soberania de reis, constituindo pequenos estados. Os guerreiros se tornaram uma classe privilegiada, cujos atos heróicos eram louvados pelos poetas, enquanto os sacerdotes conduziam os sacrifícios e os rituais e aconselhavam, guiados pelas previsões oraculares e por sinais.

As evidências históricas sobre as crenças escandinavas pré-históricas provêm das inscrições rupestres com significados religiosos e das inúmeras oferendas encontradas em túmulos ou nas escavações nos pântanos, onde as camadas de turfa dos sítios próximos aos lagos ou mar preservaram armas (lanças e martelos), ferramentas, joias (de osso ou metais), amuletos, pedaços e objetos de âmbar, e corpos mumificados de homens e animais (das vítimas dos sacrifícios, cujas armas e pertences eram despedaçados como sinal de vitória).

São oriundos da Idade do Bronze e do Ferro os ricos vestígios arqueológicos, compostos dos achados nos túmulos e na turfa (as oferendas se tornando cada vez mais ricas e diversificadas ao longo dos tempos), como também medalhões de metal — denominados bracteata — com símbolos como rodas solares ou suásticas e figuras, pentes, tigelas, fíbulas de metal, amuletos com inscrições e figuras de divindades. Espalhadas pela Dinamarca, Noruega e principalmente Suécia (mais de 2000), foram encontradas milhares de pedras com gravações de cenas místicas e de guerra ou com inscrições rúnicas. Os desenhos rupestres da Idade do Bronze revelam a história religiosa de origem indo-europeia: barcos (para transportar as almas para o outro mundo); homens armados ou ajoelhados em [17] rituais, tocando um instrumento semelhante a uma serpente metálica (iur); discos solares transportados por barcos ou trenós (representando a jornada do sol); homens viris empunhando machados e flechas; ou cenas de caça. Os símbolos mais comuns eram rodas solares, relâmpagos, círculos concêntricos, marcas de pés e mãos, traçados quádruplos (suásticas) ou tríplices (triskele).

A partir do primeiro século da nossa era, inicia-se o Período das Migrações, que se estende até o século VI. Trata-se de um deslocamento constante na vida dos povos nórdicos, chamado de “marcha rumo ao sol” e provocado pelas baixas temperaturas, o aumento da população e a escassez dos produtos da terra. Várias tribos vindas do norte da Europa se deslocaram para o sul e o oeste, definindo novos limites entre os territórios conquistados. A partir do século I d.e.c., grupos diversos diferenciaram-se entre si e se espalharam, abrangendo as áreas da atual Dinamarca, sul da Suécia e norte da Alemanha. A área delimitada pelos rios Reno, Danúbio e Vístula, formada por extensas florestas, vales e planícies foi chamada de Germania pelos romanos.  O termo germani foi associado no início a uma só tribo e equivalia à palavra latina para “parentes”, termo depois substituído por alguns historiadores por teutões, um termo gótico, que significa “povo”. A partir do século II, os povos germânicos se reagrupam como saxões, alamanos, francos, bávaros e jutos.

As tribos vindas do centro e sul da Suécia (Sverige) e chamados de Suehi ou Svear dominaram a Prússia e desceram até o mar Negro, conquistando a Dácia, colonizada anteriormente por um ramo dos celtas. Os godos, formados por uma federação de várias tribos cuja língua pertencia ao grupo germânico e que viviam de caça e cultivo da terra, saíram do sul da Escandinávia, atravessaram o litoral báltico e o rio Vístula e se direcionaram para o leste; no entanto, dividiram-se em dois ramos, quando a ponte em que atravessavam o rio Dnieper se partiu. Os que ficaram na margem leste —nomeados ostrogodos — continuaram se espalhando ao longo dos rios Don e Volga até a Ucrânia, a Crimeia e o Bósforo, ali permanecendo até serem derrotados e expulsos pelos hunos, no século IV. O outro ramo — dos visigodos — rumaram para oeste e sul da Europa, chegando até o mar Negro; depois de atacar o exército romano e saquear várias cidades, eles assumiram o controle marítimo do Egeu e se espalharam até a Espanha, formando uma mescla da cultura germano-barbárica e da tradição mediterrânea.

A grande migração gótica continuou com outras tribos vindas do norte e leste e se fixando em novos lugares: os longobardos no norte da Itália, os alamani na [18] Alemanha e na Suíça, os francos ao longo do Reno, os burgundos na Gália e os vândalos — originários da Dinamarca —atravessaram o mar Mediterrâneo e se estabeleceram no norte da Africa, dominando o Mediterrâneo. O Império Romano não conseguiu conter as migrações dos godos, nem expulsar os francos e alamanos, e começou a se esfacelar; Roma caiu no ano 410 e foi saqueada. Nos séculos V e VI, as tribos dos godos continuaram lutando contra os romanos, depois se aliaram a eles contra as invasões dos exércitos islâmicos e bizantinos, batalhas que deram origem a muitas lendas e baladas, revelando a mentalidade e os valores daquela época.

Tribos de saxões vindas do centro da Europa invadiram e colonizaram o sul e o leste da Inglaterra, deslocando os celtas que ali habitavam, formando pequenos reinos anglo-saxões e mesclando a cultura celta com a saxã, que aos poucos foram desaparecendo devido aos conflitos internos e as lutas contínuas pelo poder. Após inúmeras batalhas, conquistas e derrotas, finalmente os povos germânicos derrotaram e destruíram o Império Romano, continuando sua expansão em toda a Europa. Enquanto a sociedade romana estava decrépita e corrupta, oprimida por uma burocracia autoritária e fundamentada sobre leis escritas, o mundo germânico era impulsionado pelo dinamismo e a lealdade aos objetivos nacionais, mesmo sendo rural, iletrado e sem organização estatal.

Os povos germânicos viviam em pequenas tribos lideradas por nobres e tinham muito orgulho da sua tradição oral, das suas lendas sobre deuses, gigantes e heróis. Eram fiéis aos ideais de coragem e lealdade, respeitavam e honravam suas mulheres e valorizavam as leis criadas pelos deuses. Foram encontrados vestígios de um complexo culto às deusas (as Matronas, Nehelennia) na Alemanha, ao longo do rio Reno. Ocorreu aos poucos uma diferenciação entre as diversas línguas e dialetos, definindo o ramo anglo-saxão (que deu origem às línguas escandinavas, ao alemão, holandês e inglês) e as várias línguas latinas (pela influência da cultura romana).

No final do Período das Migrações, pequenos reinos foram estabelecidos na Escandinávia, onde o paganismo [cultura ancestral] sobreviveu por séculos. Assim como os celtas e os germanos, os escandinavos também se deslocaram em várias direções, principalmente após o século VIII, com as expedições e conquistas dos vikings.  Entre os séculos VII e VIII, rigorosas condições climáticas contribuíram para certo isolamento do norte da Europa, fato que levou a um maior desenvolvimento cultural e material; essa época foi considerada uma nova “Era de Ouro” e imortalizada na lenda dos nibelungos. Grande parte da riqueza do norte da Europa deveu-se ao ouro vindo das descobertas romanas na Africa, enterrado pelos soldados que queriam preservar as riquezas dos seus saques, mas muitas vezes morriam sem revelar os esconderijos. [19]

 

 

O Vikings

É comum acreditar que a mitologia escandinava representa as crenças e costumes dos vikings, que ficaram conhecidos pelas suas expedições, conquistas, saques e sacrifícios sangrentos durante dois séculos (do VIII ao X), deixando marcas da Islândia ao mar Negro, do Mediterrâneo para o oeste até a Irlanda e o continente americano, no golfo de São Lourenço. Mas a origem dos mitos nórdicos é muito mais antiga, pois sobre as raízes remotas fincadas na Idade do Bronze floresceram os cultos aos deuses guerreiros durante o Período das Migrações (entre os séculos III eVI) na Escandinávia e Islândia, trazendo uma maior riqueza religiosa e simbólica e um variado folclore mágico e poético.

A mitologia nórdica abrange os povos germânicos e escandinavos, com contribuições dos habitantes do golfo Báltico e das tribos nativas, o que explica a existência de elementos e práticas xamânicas nos mitos. Porém, a maior parte dos mitos que sobreviveram no norte europeu originou-se na Escandinávia e na Islândia, e retratam as condições climáticas difíceis para a sobrevivência humana; a natureza desafiadora, defendida pelos espíritos da terra e do mar, dos rios, lagos, árvores (que precisavam ser honrados e agradados); a vida árdua; a luta contra a fome, o frio, doenças e animais; as permanentes guerras e o temperamento estoico e conformado dos homens perante suas provações, legadas pelas Senhoras do Destino.

Nas suas expedições, os vikings eram influenciados pelos costumes das terras por onde passavam, especialmente os do leste, ao longo dos rios russos, onde as tribos nativas e os hunos faziam sacrifícios humanos e animais. Os únicos testemunhos escritos desta época são as inscrições rúnicas das pedras funerárias e os relatos de escritores romanos e árabes.

Não se sabe ao certo o significado do termo viking, que possivelmente deriva da palavra vikingr (guerreiro). To-go-a-viking significava “aventurar-se por barco em terras estranhas em busca de fama e riqueza”. O início do Período Viking deu-se em 793, após o saque e a brutal pilhagem do monastério cristão de Lindisfarne na Inglaterra, que levou os povos europeus a um pavor crescente perante os piratas bárbaros, aventureiros e mercenários. Apesar de nenhum escandinavo se intitular viking e apenas grupos e bandos isolados saírem nas expedições - principalmente da Noruega —, o termo passou a ser sinônimo dos habitantes da Europa nórdica medieval.

A corrente viking se originou dos aristocratas camponeses e guerreiros, que valorizavam o prestígio obtido através da luta e a conquista de terras. O herói viking pertencia à família nobre e possuía grande força física, um temperamento [20] espírito combativo e um gosto permanente por lutas, brigas, conquistas, festas e aventuras. Ele tinha determinação para superar desafios e vencer batalhas e depois voltar e se instalar na sua fazenda, ou morrer lutando e ir para os salões de Odin em Valhalla.

Os vikings se tornaram os mais famosos guerreiros da Idade Média, ávidos de batalhas, saques e devastações de aldeias e igrejas na França, Alemanha, Espanha, Inglaterra, nas ilhas Hébridas, Orkney, Shetland e Faroe. Suas façanhas —reais ou aumentadas pelo temor dos seus atos sanguinários e sacrifícios humanos — criaram fama com histórias sobrenaturais sobre a sua valentia e força física. De fato, eles eram muito fortes e resistentes diante das dificuldades, privações e intempéries, e não recuavam enquanto não obtinham ganhos materiais, sem poupar inimigos, monastérios e igrejas cristãs. Mesmo que alguns vikings quisessem se vingar dos maus-tratos infligidos na conversão pelos padres cristãos, o motivo dos saques não era o ódio religioso, mas a simples cobiça pelas riquezas guardadas nas igrejas. Eles lutavam com ferocidade e destemor, mas, ao voltar para casa enquanto esperavam novas aventuras, se revelavam agricultores e artesãos competentes, bons contadores de histórias, poetas inspirados e dedicados pais de família.

Os vikings noruegueses chegaram com suas expedições até a Escócia, as Ilhas Shetland, Orknev, Hébridas, Arran e Man (onde foram encontrados registros rúnicos e resquícios de uma cultura celto-nórdica), Irlanda e Inglaterra.  Alguns aristocratas e guerreiros que não aceitavam pagar tributos ao rei, fugiram da Noruega e colonizaram a Islândia e a Groenlândia, descoberta em 900. Os aventureiros suecos eram chamados de varegues e se diferenciavam dos noruegueses por se deslocarem para o oeste e se ocuparem mais de comércio, sendo verdadeiros mercadores itinerantes. Na região dos lagos russos — Ladoga e Ónega —, foram criados pequenos estados suecos que preservaram seus costumes e trajes;  no final do século IX, incursões suecas chegaram até Constantinopla, onde muitos deles passaram a fazer parte da guarda do imperador de Bizâncio. Os dinamarqueses eram muito mais disciplinados e organizados, suas incursões eram militarizadas e eles ocuparam a Bretanha e o norte da França.

O deslocamento dos vikings era feito em pequenos grupos, eles eram leais aos seus chefes e companheiros, mas ao mesmo tempo independentes, rebeldes, criadores de conflitos, oportunistas e amantes de bebidas, festas, boas roupas, joias e armas caras. Pressupõe-se que o motivo das expedições era o anseio dos filhos mais jovens de buscar fortuna, pois apenas os primogênitos herdavam os bens da família. Contribuíram também a superpopulação, a perseguição de certos monarcas e chefes e, principalmente, a sua maestria em navegação e a solidez [21] dos seus navios, muito mais avançados em comparação aos dos conquistadores anteriores a eles (os celtas).

As expedições vikings tornaram os países escandinavos prósperos e contribuíram para a abertura de novas rotas de navegação e a colonização de territórios nas Ilhas Britânicas, Irlanda, Islândia, Groenlândia e o norte do Canadá (Newfoundland) e Estados Unidos (New England). Os suecos que seguiram para o oeste, ao longo dos rios Dnieper e Volga, eram astutos comerciantes e ampliaram as trocas comerciais com as tribos ao leste do Volga (onde ficaram conhecidos como Rus, os ruivos) e com os países da Ásia Menor e do Mediterrâneo. Apesar de beberrões e briguentos, os vikings respeitavam as mulheres e eram muito devocionais, fazendo cultos e oferendas aos deuses da guerra. Seus ganhos provinham de pilhagens, comércio e tributos impostos 12 às populações das regiões conquistadas, como os bálticos e os eslavos. Os prisioneiros eram vendidos como escravos ou sacrificados em rituais sangrentos, pois, como os vikings não temiam a morte, acreditavam que ofertar um escravo aos deuses era uma honra. Sacrifícios humanos eram feitos nas celebrações a cada nove anos (número sagrado), no templo de Uppsala, onde o bosque ao redor dos altares dos deuses Odin, Thor e Frey era consagrado pelo sangue de dezenas de vítimas, cujos corpos apodreciam pendurados nas árvores.

Os vikings fundaram poucas colônias estáveis, com exceção da Islândia, que permaneceu independente até ser dominada e anexada pela Noruega no século XIII. A Islândia tinha sido colonizada no século IX pelos navegadores e dissidentes noruegueses, que criaram um sistema religioso e social semelhante àquele seguido pelos celtas e povos germânicos. Eles pediam a proteção dos deuses Odin, Thor e Frey para guiarem seus navios aos locais propícios para a sobrevivência humana, buscavam colinas, rochedos e campos favoráveis para os cultos, invocando a proteção e a permissão dos Land vaettir — os guardiões do habitat natural —, e construíam réplicas das habitações e dos templos do seu país natal.

É da Islândia que provém o valioso acervo de mitos sobre cultos das divindades e práticas religiosas, preservado pela tradição oral, mas transcrito após a cristianização do país por monges e estudiosos. Além desses escritos, existem lendas, sagas, poemas, histórias e relatos de costumes ancestrais que, mesmo escassos, complementam as informações que chegaram até nós. Os mitos refletem o cenário natural da Islândia, o fogo dos vulcões próximos às geleiras, a inclemência das tempestades e a fúria do oceano, a força e a determinação das pessoas para enfrentar as intempéries e adversidades, auxiliadas pelas divindades na luta contra os gigantes da natureza. [22]

A Islândia era governada por um grupo de chefes escolhidos entre os homens notáveis — sem que existisse nenhuma outra autoridade central que se reuniam em uma assembleia, Thing, para solucionar litígios e decretar as leis. Estas eram recitadas oralmente por um representante oficial da assembleia, que tomava todas as decisões e as comunicava ao povo. Não havia uma organização sacerdotal; aqueles que construíssem os templos tornavam-se responsáveis pela sua manutenção, os sacrifícios e os rituais; as devoções para certa divindade faziam parte das tradições familiares e passavam de pai para filho. Cultuavam-se divindades, seres da natureza e ancestrais.

A Era Viking é dividida em dois períodos: o primeiro (dos séculos IX-X) é caracterizado pelas incursões e saques, a criação de povoados nas Ilhas Britânicas e Irlanda, a colonização da Islândia e as primeiras expedições pelo Mediterrâneo (até a Sicília) e pela Rússia (ao longo do rio Volga). No segundo período, ocorreu o fortalecimento de dinastias permanentes e poderosas na Escandinávia e a colonização do Atlântico Norte, com colônias na Groenlândia, América do Norte e Canadá. O fim da Era Viking coincide com a cristianização, mais tardia e lenta na Escandinávia do que no resto da Europa — fato que contribuiu para a preservação das antigas práticas religiosas e dos costumes ditos pagãos (paganus era o termo romano que definia os povos nativos, moradores dos campos, que não falavam grego ou latim e seguiam as antigas tradições).

É importante rever e corrigir certos estereótipos ainda vigentes relacionados aos vikings, como o suposto uso de capacetes com chifres e asas, o uso de crânios humanos para beber, as vestes de peles de animais, a alimentação com carne crua e sua ferocidade e força sobre-humana. Os novos estudos historiográficos e as descobertas arqueológicas que revelam dados sobre o modo de vida e os costumes vikings comprovam a falsidade desses estereótipos, criados e mantidos por livros, óperas, histórias e filmes.

 

 

A Cristianização

A conversão paulatina e demorada do norte europeu ao cristianismo iniciou-se com a conversão de algumas tribos germânicas — que tinham invadido os territórios romanos — a uma forma incipiente de “cristianismo ariano”, que deu origem à Igreja gótica, cuja bíblia foi traduzida para o gótico. Essa vertente foi abolida por incluir elementos ancestrais e representar uma ameaça para a Igreja cristã. Os francos, inimigos culturais e militares dos godos, foram convertidos em 496 e se tornaram aliados dos cristãos; depois de convertidos, fizeram uma aliança com o papa e, com sua ajuda militar, começaram a converter as tribos teutônicas vizinhas, [23] destruindo aos poucos o seu legado religioso ancestral. Os reinos ingleses permaneceram ancestrais até o século VI e os primeiros cristãos convertidos no sudoeste da Inglaterra foram mortos ou escravizados pelas tribos de anglo-saxões. A imposição da fé cristã foi possível com a conversão inicial dos reis, pressionados pelos missionários do papa. Estes sabiam ser mais eficiente converter primeiro os dirigentes, que depois iriam obrigar seus súditos a aceitarem a nova fé. Isto de fato aconteceu até o século VII, com a cristianização de todos os reinos da Inglaterra.

As tribos assentadas na Alemanha — como os francos, godos e frísios — foram convertidos em definitivo durante o século VII, quando a dinastia reinante dos merovíngios foi substituída pelos carolíngios. O rei Carlos Magno perseguiu os saxões, executando milhares de nobres que se opunham à cristianização forçada, cortou o pilar sagrado Irminsul — centro e símbolo dos seus cultos — e tornou-se o líder dos cristãos europeus, sendo coroado pelo papa como imperador et augusto, antigo título dos césares. Depois da sua coroação, ele iniciou sangrentas cruzadas cristãs na Irlanda e no Leste Europeu, convertendo os povos a ferro e fogo, destruindo templos e locais de cultos e matando os ancestrais que resistiam ao batismo cristão.

A fragmentação paulatina do império de Carlos Magno — culminando com sua morte — facilitou a continuação da cultura ancestral na Escandinávia, até que os monarcas, visando alianças e apoio cristão, proclamaram sua conversão e impuseram à força o cristianismo, apesar da oposição e resistência dos seus súditos.  No final do Período das Migrações, pequenos reinos tinham sido estabelecidos na Escandinávia, onde a cultura ancestral sobreviveu durante séculos e recebeu um grande impulso no Período Viking, com rituais e sacrifícios aos deuses e inúmeros testemunhos gravados em runas e em cenas míticas sobre pedras e monumentos funerários.

O primeiro país a ser convertido foi a Dinamarca, seguida pela Noruega, onde as duas religiões coexistiram por um bom tempo, devido à ferrenha oposição do povo e ao fracasso das tentativas reais de abolir os antigos costumes. Mesmo assim prevaleceu durante um tempo a“fé dupla”, coexistindo missas cristãs e cerimônias e práticas ancestrais. Apenas no século X o rei Olaf Haraldsson (canonizado como santo após sua morte) impôs o cristianismo na Noruega usando força armada, incendiando templos, torturando e matando quem resistisse ao batismo feito em nome de Cristo.

Como a Islândia era dirigida pela assembleia Thing, a conversão aconteceu apenas no ano 1000, supostamente devido a uma visão sobrenatural do representante legal, mas na realidade forçada por uma recompensa por ele recebida (prática cristã comum). Vários escritos cristãos relatam a vitória dos padres sobre os sacerdotes ancestrais em competições mágicas e realizações de “milagres”, táticas usadas para convencer o povo seguindo o modelo usado nos “relatos bíblicos”. [24]

Na Suécia houve várias tentativas de cristianização que fracassaram devido à revolta popular. A fé cristã foi aceita apenas no reinado de Eric IX em 1160 e ele tornou-se o santo padroeiro da Suécia. A Suécia resistiu mais tempo apoiada pela sua estabilidade econômica obtida pelo comércio com a Rússia, onde vários assentamentos tinham sido criados pelos vikings, conhecidos como Rus, “os ruivos”, termo que deu origem ao nome do pais. O templo ancestral de Uppsala, perto da atual capital Estocolmo, permaneceu por muito tempo como centro dos cultos e sacrifícios dedicados aos deuses Odin,Thor e Frey, até ser queimado em 1100 por fanáticos cristãos, que depois ergueram uma capela sobre as suas ruínas.

Depois de inúmeras imposições legais e revoltas populares, a fé cristã venceu parcialmente, pois as práticas ancestrais continuaram sendo aceitas até 1120, quando os últimos não cristãos foram batizados à força após serem torturados. Igrejas cristãs foram construídas sobre antigos locais sagrados ou no lugar dos templos destruídos; cruzes foram fixadas ou gravadas nos monumentos rúnicos; pedras rúnicas usadas nas fundações e pisos das igrejas, cenas míticas adaptadas para os requisitos cristãos (entalhadas em pedras ou nos portais de igrejas) e as datas festivas do calendário ancestral foram transformadas em comemorações de santos. Os deuses ancestrais foram equiparados com santos cristãos, como por exemplo Odin com São Miguel e Jesus, Freya com Santa Lúcia e Maria Madalena, entre outros.

Muitas tradições antigas foram preservadas pelas lendas e contos de fadas, e adaptadas nos costumes cristãos e nas “superstições” populares, por não ter sido possível à Igreja apagá-las da memória dos povos. Personagens históricos assumiram os feitios e as características dos deuses, como no caso de Odin, descrito como um mestre xamã e dirigente sábio, que introduziu certos costumes, ensinou práticas e mitos ancestrais e morreu ferido por uma espada. No interior, principalmente da Suécia e Islândia, os deuses, os seres espirituais, os guardiões da natureza e os ancestrais continuaram sendo lembrados e reverenciados. Símbolos rúnicos foram usados por muito tempo nas pedras funerárias, associados com cruzes e dizeres cristãos, até que todo o legado dos ancestrais foi mergulhando aos poucos nas brumas do esquecimento. Porém, mesmo tendo sido suprimida a religião, as memórias permaneceram no inconsciente coletivo, aguardando o dia em que seriam novamente reativadas e lembradas.

 

 

Fontes escritas

Os povos nórdicos deixaram pouquíssimos registros escritos sobre suas crenças e práticas ancestrais. As poucas inscrições sobre pedra, osso ou metal eram feitas com runas entalhadas, mas esse processo de gravação não era adequado para [25] textos longos ou detalhados. Como a arte da escrita sobre pergaminho chegou apenas com os padres e monges cristãos, a maior parte das fontes escritas devia- se aos estrangeiros, que escreviam em grego ou latim, e às transcrições de lendas nativas feitas pelos próprios monges cristãos. Existem algumas fontes principais e relevantes como base do estudo mitológico nórdico: as sagas islandesas do século XIII, os poemas dos skalds (poetas islandeses), os textos e poemas dos Eddas (Prose Edda e Poetic Edda ou Codex Regius), os textos de Gesta Danorum do século XII, os registros de escritores estrangeiros como Tácito, Júlio César, o árabe Ibn Fadlan e Adam von Bremen.

Os comentários antigos mais valiosos foram feitos pelo historiador romano Tacito no final do século I d.e.c. Sua obra conhecida como Germania era baseada nos vinte livros de Plínio, o Velho, sobre as campanhas romanas, cujo conteúdo era conhecido por Tacito, ele mesmo estudioso e admirador da sociedade germânica. Ele enfatiza a corrupção, a decadência e licenciosidade romanas em contraste com a existência simples, natural, saudável e idônea dos povos bárbaros. Mesmo louvando a coragem, lealdade, moral, ética e força dos nórdicos, ele também ressaltou sua ignorância, belicosidade, fanfarronice e gosto pela bebida e pela briga. Devem-se aos escritos de Tácito e de Júlio César o conhecimento dos cultos escandinavos ao Sol, ao fogo, a Odin (equiparado por eles ao deus romano Mercúrio) a Tyr (identificado com Júpiter ou Thor), a Thor (assemelhado a Marte), às deusas Nerthus e Nehalennia (semelhantes a Gaia e ísis ). É mencionado o status elevado das mulheres nórdicas e seu papel na sociedade, nas batalhas e na religião, e descrito o uso oracular das runas.

Outras fontes escritas são bem mais tardias e oriundas da Islândia cristã do século XIII, quando as antigas crenças já tinham sido proibidas e aos poucos esquecidas, mas algumas eram colecionadas e registradas por poetas e escritores. Em 1643 foi encontrado um manuscrito —no Codex Regius — escrito em torno de 1270, contendo 29 poemas místicos e heróicos, provavelmente criados entre 700 e 1200, e atribuídos a Saemund, o Sábio, um mago islandês. Junto com outros textos descobertos posteriormente, eles formam uma coletânea — de 34 poemas, unificados pelos assuntos e formas - chamada Elder ou Poetic Edda.

Apesar de a maioria dos textos ter sido supostamente escrita entre 700 e 1100, eles foram compilados em 1270, tornando essa obra uma antologia de poemas de diversos autores e lugares, fato que explica as contradições e inconsistências cronológicas. Dela faz parte a “Võluspa” (“a profecia da sibila”), o relato mais importante sobre a criação, destruição e regeneração do mundo e várias referências sobre trolls, anões, espíritos guardiões e draugar. [26]

Os poemas dos skalds (poetas islandeses) e as sagas familiares são outra fonte importante para o conhecimento dos mitos. Apesar da sua complexa e intrincada composição, eles contêm valiosos detalhes descrevendo cenas míticas e diversas metáforas originárias dos mitos, como por exemplo as “lágrimas de Freya”, o “cabelo de Sif” ou o “fogo de Aegir” como metáforas do ouro. Muitos desses skalds serviam como contadores de histórias nas cortes reais e nos encontros de pessoas importantes, e foram os autores dos mais remotos poemas dos séculos IX e X. Em troca das declamações, os poetas recebiam escudos sobre os quais eram gravadas cenas dos mitos por eles relatados e que forneceram dados importantes para as pesquisas posteriores. É possível que o conhecimento dos mitos tenha sobrevivido à cristianização devido à valorização dos poemas pelos monarcas e ao necessário treinamento dos poetas para memorizar os mitos e as lendas, mesmo que os antigos cultos ancestrais não fossem mais seguidos.

Para sistematizar e sintetizar os mitos e sagas e registrar os poemas dos Eddas e dos skalds, um talentoso historiador, escritor e brilhante poeta, de origem nobre, chamado Snorri Sturluson, decidiu reunir em 1220 um compêndio de imagens míticas destinado aos jovens poetas, que não mais recebiam uma instrução adequada. Instruído e com participação ativa nos movimentos políticos (que levaram ao seu assassinato em 1241), ele recolheu e comentou vários poemas para incentivar a apreciação da beleza dos mitos e resgatar o antigo estilo mítico, épico, métrico e metafórico.

Como bom cristão, ele interpretou e retocou com sua imaginação muitos dos mitos ancestrais, acrescentando uma dimensão histórica aos deuses, considerados por ele personagens de uma determinada época, cujos atos heróicos levaram à sua divinização pelos poetas e contadores de estórias. De acordo com sua visão, os homens e mulheres que permaneceram na Terra após o Dilúvio se esqueceram do deus criador que tinha salvo Noé, mas olhando ao seu redor se deslumbraram com as maravilhas do mundo e perceberam que elas deviam ter sido criadas por forças sobrenaturais, às quais eles atribuíram diversos nomes. Para se isentar de qualquer responsabilidade sobre as informações míticas que fornecia, Sturluson as atribuiu a três forças sobrenaturais que responderam às questões existenciais de certo rei sueco chamado Gylfí. Dessa forma fantasiosa e criativa, ele escreveu sua obra chamada Prose Edda, igualmente apreciada por historiadores e pessoas menos instruídas e preservada pelas gerações que o seguiram como o mais importante documento da Idade Média sobre a mitologia escandinava. Na sua prosa, pulsa um passado que ele não conheceu e seus 848 capítulos revelam um cristão fascinado por séculos de cultura ancestral. [27]

Alem do material da Islândia, outra fonte documentaria é a Gesta Dcinorurn. uma história dinamarquesa escrita em latim pelo padre Saxo Grammaticus, vinte anos antes de Snorri Sturluson. Dos dezesseis volumes, oito se referem ao passado ancestral e oito à Dinamarca já cristianizada. Apesar de ele ter pesquisado e se inspirado nos mesmos registros que Sturluson, sua interpretação é confusa e tendenciosa, nitidamente cristã. Saxo Grammaticus transformou os deuses em mortais e intercalou comentários irônicos ou depreciativos às narrativas sobre os antigos costumes e arquétipos ancestrais.

As grandes sagas islandesas - “Histórias dos Velhos Tempos” (em torno de 700) - constituem um relevante legado para a literatura europeia. Escritas no século XIII por diversos autores, abordam assuntos históricos, relatam vidas de reis e santos, celebram os heróis legendários (como Sigurd em Volsunga Saga), descrevem explorações e assentamentos nos territórios conquistados ou contam dramas familiares (guerras, conflitos, estórias de amor, disputas e realizações) na Islândia do primeiro milênio cristão. Por refletirem os conceitos religiosos e os atos dos protagonistas, eles revelam — mesmo que de maneira imprecisa ou confusa - muitas informações sobre as crenças e práticas pré-cristãs que persistiram após a conversão.

Em um registro cristão do ano 740, que enumerava as práticas ancestrais rurais sujeitas à proibição da Igreja, foram revelados antigos rituais dos povos nórdicos, entre eles, o culto dos mortos; as purificações de templos, casas e pessoas, realizadas no inicio de fevereiro; a existência de altares e locais sagrados nos bosques; o culto às fontes; os encantamentos, oferendas e amuletos para diversos fins; as práticas divinatórias; os augúrios baseados no movimento de cavalos ou pássaros; a conexão das mulheres com a Lua; os festivais de Odin, Thor e Frey, ocultos em datas cristãs; o uso de figuras feitas de massa de pão, barro, palha ou pano com finalidades mágicas e as festividades e danças ao redor de mastros e fogueiras.

A partir do século XIII, surge no mundo germânico a mitologia continental, sendo descoberto no século XVIII o famoso poema “Nibelungenlied” escrito em torno do ano de 1200. Na Suécia do século XV inicia-se o movimento de resgate da fé ancestral e, na Alemanha, inicia-se, no século XVII, o neorromantismo. Alguns textos escritos por estrangeiros oferecem informações importantes sobre os costumes nórdicos, como o detalhado relato de um sacrifício humano na Rússia, escrito pelo diplomata árabe Ibn Fadlan, que conviveu com os vikings da região, e a descrição dos templos de Uppsala feita por Adam Von Bremen. [28]

 

 

Vestígios arqueológicos

É fácil perceber que o conhecimento da mitologia nórdica é limitado pela natureza confusa, contraditória e tardia das fontes escritas depois da cristianização e, portanto, sujeitas às interpretações daqueles que as transcreveram. Felizmente podemos contar com as descobertas arqueológicas feitas na Suécia, Noruega e Dinamarca, que fornecem as melhores informações sobre o passado ancestral. Como a Islândia foi colonizada no século IX e cristianizada um século depois, o seu vínculo com os locais sagrados das terras natais foi cortado e o valor dos mitos, poemas e escritos islandeses é muito maior do que o dos vestígios arqueológicos, cuja maior riqueza vem da Suécia.

Os primeiros habitantes da Escandinávia — que viviam da caça, da pesca e da coleta de raízes — deixaram poucos vestígios, além de inscrições sobre rochedos inacessíveis ao longo dos fiordes, perto de rios ou cachoeiras. As gravações rudimentares retratam figuras enormes de ursos, alces e renas, além de esboços de pássaros, peixes, símbolos abstratos e esquematizações de barcos e armas primitivas. As figuras semi-humanas que às vezes aparecem talvez representassem poderes espirituais. Em algumas cenas, homens com máscaras de chifres aparecem dançando em possíveis práticas xamânicas.

Presume-se que, assim como em outros lugares, as comunidades eram chefiadas por xamãs, que realizavam danças extáticas para se conectar aos poderes que regiam a vida e a morte, e pedir sua permissão e ajuda na caça e na pesca.  Apenas depois que as tribos nómades começaram a viver em assentamentos estáveis e a praticar uma agricultura primitiva e a domesticação de animais é que se encontram traços de cultos organizados. Esses cultos, ligados a ritos agrários e à mudança das estações, eram realizados em locais sagrados, como os grandes túmulos neolíticos que guardavam as ossadas coletivas dos ancestrais.

A divindade primeva reverenciada era a Mãe Terra, que tornava os campos férteis, aumentava as manadas de animais, protegia as crianças e recebia os mortos de volta ao seu ventre. Não existem representações dessa divindade além de imagens de rostos com grandes olhos, encontradas em paredes e vasos de barro nos túmulos. As câmaras mortuárias reproduziam o ventre da Mãe Terra, com um corredor estreito que levava da entrada até a câmara, tudo coberto com pedras e terra; vasos e urnas quebradas de propósito foram encontrados ao lado das ossadas. Os cadáveres eram geralmente deixados sobre plataformas ao ar livre, para serem descarnados por aves de rapina e depois enterrados. Depois das cerimônias de purificação e encaminhamento dos espíritos para o mundo dos ancestrais, deixava-se uma abertura na abóbada ou [29] na entrada, para permitir o acesso dos familiares em datas especiais dedicadas ao culto dos ancestrais.

Durante a Idade do Bronze, as classes sociais mais abastadas e as famílias dos heróis e guerreiros não mais enterravam seus parentes nos túmulos megalíticos coletivos, mas junto com suas armas, ornamentos metálicos e joias, em covas individuais em formato de cairns, amontoados de pedras e terra que se sobressaem ainda hoje no horizonte das planícies suecas. Os desenhos rupestres revelam cerimônias religiosas e figuras de divindades como deuses celestes ou da guerra, figuras fálicas segurando machados ou lanças. Essas armas muito valiosas desde o Neolítico eram também símbolos sagrados associados aos poderes divinos. O machado era um emblema do regente celeste dos raios, trovões e da chuva, enquanto a lança pertencia ao líder das batalhas e conquistador das vitórias. As figuras masculinas e suas armas apareciam constantemente acompanhadas de figuras de cavalos e barcos.

No importante sítio de Tannum, em Bohuslán, bem como às margens dos lagos Màlaren e Vãttern, podem ser admirados e estudados, no meio de campos e florestas, milhares de petróglifos sobre rochas planas, originários da Idade do Bronze, entre 1500 e 500 a.e.c.

Acredita-se que o mito principal da Idade do Bronze dizia respeito à viagem do Sol em uma carruagem de ouro pelo céu, bem como à sua suposta jornada sob a terra, depois que desaparecia do céu ao anoitecer, quando trocava a carruagem por um barco. Um achado importante na Dinamarca, datado de 1400 a.e.c. e relacionado ao culto solar, é uma carruagem de bronze com seis rodas, puxada por um cavalo e que levava um enorme disco dourado, gravado com círculos e espirais entrelaçados. (No capítulo “Diferenças entre a Mitologia Nórdica e a Greco-romana”, são mencionadas semelhanças entre os atributos e a apresentação dos deuses nórdicos Baldur, Sunna e Frey com o grego Apolo.)

Há provas conclusivas de que os povos nórdicos (assim como os japoneses, sumérios, eslavos, bálticos, egípcios, celtas, nativos norte-americanos e australianos) consideravam o sol uma divindade feminina. Ela conduzia a carruagem durante o dia e desaparecia dentro da água ou da terra ao anoitecer, descansando durante a noite e reaparecendo na manhã seguinte. Inscrições encontradas na Suécia e expostas no museu de Vitlycke, em Tannumshede, descrevem essa eterna jornada solar. 21 Ao amanhecer, um peixe retirava o sol do Barco Noturno, passando-o para o Barco Matutino, no qual percorria o céu. Ao meio-dia, um cavalo assumia a direção do Barco Diurno até o anoitecer, quando uma serpente ocultava com o seu corpo o sol e o barco, auxiliando no mergulho no mundo subterrâneo, de onde o peixe iria retirá-lo na manhã seguinte. [30]

A associação do sol com a terra e a água reforça o poder revitalizante, sustentador e fertilizador desses elementos atribuídos a deusa.  Enquanto a roda solar era o emblema da jornada do sol ao longo do dia e das estações, a cruz solar representava o nascer e o pôr do sol, o meio-dia e a meia-noite, a espiral reproduzindo a eterna trajetória solar e a própria roda das encarnações. Os discos solares são semelhantes às rodas das carruagens e podem ser vistos nos petróglifos junto com figuras de pés, mãos, asas, entre as pernas das mulheres ou como um escudo na mão dos homens. São encontradas também carruagens puxadas, ou não, por cavalos, animais chifrudos ou pássaros. Como a roda foi introduzida na Escandinávia na Idade do Bronze pelos indo-europeus, ela era considerada um símbolo de poder. Os pássaros associados ao disco solar eram aves aquáticas (gansos ou cisnes), que tanto voavam como podiam nadar e mergulhar sob as ondas.
As vezes os barcos eram conduzidos por homens e alguns deles seguravam o lur (antigo instrumento musical na forma de chifre ou serpente) e outros aparecem dançando, o que sugere uma cerimônia. Simulacros de caixões, feitos de troncos ocos de carvalho, eram usados para enterrar os cadáveres nos túmulos, reproduzindo o barco do sol que levava os mortos ao mundo subterrâneo.

Nos petróglifos encontram-se também figuras de animais sagrados como o auroque, o touro, o javali, o alce, o cavalo e as renas. Os chifres eram vistos como símbolos de força e poder e eles aparecem em gravações sobre elmos de bronze encontrados na Dinamarca. Figuras geminadas encontradas no barco — tanto de homens quanto de cavalos e pássaros — parecem ligadas a jornada dupla do sol, acima e abaixo da terra ou na água, ou talvez representem os Gêmeos Celestes, regentes do céu e do trovão.

Apesar de os petróglifos representarem principalmente homens, muitos com o falo ereto ou segurando armas indicando cultos masculinos, foi comprovada a presença de deusas, representadas pelos barcos (símbolo da Mãe Terra), nas figuras dançando ou em estatuetas de bronze. Uma das figuras femininas mais famosas (encontrada na Dinamarca e exposta atualmente no museu de Copenhagen) tem apenas 5 centímetros, veste uma saia com franjas, tem os seios nus, usa um colar e o cabelo trançado, e seus grandes olhos são feitos de placas de ouro. Ela está ajoelhada, um braço segura o seio, o outro esta levantado, como se segurasse as rédeas de sua montaria, possivelmente uma grande serpente que se encontra ao seu lado.

Outras figuras femininas carregam vasos ou aparecem em poses acrobáticas, como as encontradas em gravações junto a homens armados; muitas oferendas [31] de tranças de cabelos, colares e brincos foram preservadas nos pântanos da Dinamarca. Um achado importante na Dinamarca é a tampa de uma urna funerária que representa um casal, a mulher de braços estendidos, o homem com o falo em evidência, cercados por uma guirlanda de espigas e talvez representando o hieros gamos, o casamento sagrado do deus celeste com a Mãe Terra. Em outras cenas, uma figura indefinida, maior que as outras, eleva um machado sobre um casal à sua frente, como se fosse o ritual de consagração da união feito nas épocas seguintes, quando o martelo de Thor era usado para consagrar os casamentos.

Também há cenas de mulheres conduzindo procissões em que todos parecem orar ou se lamentar com os braços levantados, em possíveis ritos funerários ou celebrando a mudança das estações ou a aparente morte do sol no inverno. Homens ao lado de fogueiras talvez representem a celebração do retorno do sol na primavera, o que deu origem aos festejos dos equinócios e solstícios, realizados durante séculos em toda a Escandinávia. O arado também aparece em algumas inscrições, puxado por homens com falo ereto, lembrando os antigos ritos sexuais realizados para fertilizar a terra antes da semeadura.

Túmulos em forma de barcos ou amontoados de pedras (cairns) reproduzindo barcos são encontrados em diversos locais da Escandinávia, desde a Idade do Bronze até a Era Viking, quando se iniciaram as cremações dos mortos acomodados em barcos e acompanhados de seus pertences — armas, cavalos, joias, alimentos, às vezes até escravos (para que fossem juntos dos seus donos ao mundo subterrâneo). Os túmulos eram um vínculo com o passado e com os ancestrais, e considerados como suas moradas, onde recebiam com festa os recém-falecidos.

Dizia-se dos mortos que “tinham viajado para as montanhas”, representadas pelas colinas formadas de pedras. Os barcos eram simples ou verdadeiros navios ornamentados, como o encontrado em Oseberg, na Noruega, que continha os esqueletos de duas mulheres e ricos objetos esculpidos em madeira e bronze, tudo enterrado sob várias camadas de terra. Túmulos em forma de barcos foram encontrados em grande quantidade nos cemitérios e nos sítios arqueológicos da Suécia, como os da Ilha de Õland e da região de Vàstra Gõtaland, locais muito ricos em monumentos pré-históricos e inscrições da Idade do Bronze. Muitas vezes a proa desses navios de pedras apontava para o mar ou para o rio, e os equipamentos encontrados nas escavações sugeriam uma longa viagem para o além.

Esse tipo de monumento era possivelmente associado aos cultos dos Vanir, deuses da fertilidade e regentes da terra e da água, como sugerem as mulheres do navio de Oseberg, prováveis sacerdotisas desses cultos. As vezes o local de [32] encontro das assembleias era o topo de uma das colinas mortuárias ou uma construção pré-histórica, para reforçar os elos entre os vivos e os seus antepassados. Pessoas dormiam sobre os túmulos de pessoas famosas ou de seus parentes para receber mensagens, visões, inspiração poética ou aconselhamento para dúvidas ou doenças.

Um dos mais notáveis achados arqueológicos é o caldeirão de Gundestrup, encontrado em um pântano de turfa na Dinamarca, confeccionado em prata e decorado com uma série de placas presas dentro e fora dele. Todas as placas eram douradas e ricamente ornamentadas com gravações de quatro figuras masculinas e três femininas, representando divindades, com os olhos feitos de vidro vermelho e azul, acompanhadas de outras figuras menores e de objetos. Uma das figuras é de um homem sentado com pernas cruzadas e chifres na cabeça, ao lado de um cervo e um javali, uma representação comum do Deus Cornífero. Uma figura feminina tem ao seu lado duas rodas e é acompanhada por alguns animais míticos (grifos, leões, serpentes).
Acredita-se que o caldeirão tenha sido confeccionado na Gália ou na Dácia em 80-50 a.e.c., por artesãos celtas, e ofertado em algum ritual por mercenários germânicos do exército de Júlio César. Há muita especulação acadêmica a seu respeito, mas o mais importante é seu valor ritualístico como receptáculo de oferendas (sangue, vinho, hidromel ou água), suposição confirmada pelas figuras femininas segurando taças e cercadas por animais, cena encontrada em rituais de fertilidade.

Alguns séculos após a provável data da confecção do caldeirão de Gundestrup, vários monumentos funerários foram erguidos na Ilha de Gotland, um importante porto na rota marítima entre a Suécia e a Europa do Leste no Período Viking, habitado por Vikings abastados. Um verdadeiro exército de menires foi erguido para homenagear os mortos, sendo que algumas das pedras tinham intrincados desenhos e inscrições rúnicas com detalhes coloridos. Algumas delas ainda permanecem nos campos, outras foram encontradas enterradas sob o assoalho das igrejas cristãs e atualmente estão guardadas no museu de Visby. O seu uso como pedras funerárias continuou ate o século XI, poucos anos depois da cristianização.
As imagens gravadas nessas pedras oferecem uma oportunidade única para se conhecer os conceitos ancestrais sobre a morte e o mundo dos mortos; as mais antigas são originarias do Período das Migrações e têm no seu centro discos solares cercados por espirais, rosetas e pequenas figuras humanas e animais. Em uma das pedras vê-se uma grande árvore, possivelmente a sagrada Yggdrasil. Nas pedras mais elaboradas do século VIII, vemos na sua base fileiras de barcos [33] sugerindo viagens para o além; no topo, figuras femininas estendem chifres com bebidas para guerreiros a cavalo, possíveis alusões a uma cena mítica em que, no palácio de Valhalla, as Valquírias recepcionam os espíritos dos guerreiros mortos em combate com os tradicionais brindes de hidromel.

Motivos semelhantes são encontrados em alguns poemas épicos dedicados aos reis, que após a morte se unem aos heróis para festejar nos salões de Odin e são saudados pelas Valquírias com o tradicional hidromel. A associação das referências mitológicas e poemas às imagens estilizadas nas pedras reforça a interpretação e importância desses achados. Em algumas das pedras, Odin aparece montado no seu cavalo mágico de oito patas, conduzindo a viagem dos mortos para o mundo subterrâneo.

Os monumentos e Pedras Rúnicas nos Dias de Hoje

Em uma viagem de estudos que fiz aos sítios arqueológicos e aos locais sagrados da Suécia e da Dinamarca, tive o privilégio de admirar in loco os antigos monumentos e as inúmeras pedras rúnicas espalhadas ao longo da costa e no interior de diversos estados como Skãne, Bohuslãn, Õstergotland, Uppland e Vástergotland, nos arredores de Málaren e Váttern e principalmente ao longo de toda a extensão da Ilha de Õland. Diferente de Gotland, onde a maioria das pedras está no museu, os monumentos pétreos e rúnicos de Õland continuam nos seus lugares originais, sem que tenham sofrido depredações ou sido removidos ao longo dos tempos. Vou citar a título de curiosidade alguns lugares que podem ser excelentes locais de visitação para estudiosos ou viajantes à procura de locais históricos e sagrados. Mesmo sendo pouco divulgados ou visitados pelos próprios suecos, eles continuam tendo ao seu redor uma atmosfera impregnada com as energias poderosas dos eventos ocorridos em um passado longínquo. No promontório agreste de Kásebirga, em Skãne, esculpido por geleiras de milhares de anos, encontra-se no topo da colina Àle Stenar uma misteriosa figura na forma de um barco gigante, composta de 56 pedras não encontradas na região, com dois monólitos na ponta, e diâmetro de 67 metros. Originário da Idade do Ferro, há indicações do seu uso mais antigo, pois na base das pedras foram encontrados objetos da Idade da Pedra (pontas de flechas e martelos). Desconhece-se a sua real finalidade, pois ele não oculta câmaras subterrâneas e foi erguido em um sítio ermo, coberto pela areia trazida pelos ventos e com uma subida íngreme; pode ter servido como lugar de cultos ou observações astronômicas. A sua atmosfera é sombria, com uma sensação de desolação reforçada pelos fortes ventos vindos do mar. [34]

Também na região sul da Suécia, em Kivik, encontra-se uma enorme câmara subterrânea chamada Kungagraven, “o túmulo do rei”, restaurada e aberta para visitação. Coberta de pedras, a câmara tem um diâmetro de 75 metros, um cor­redor que permite o acesso ao seu interior, onde há oito lajes de pedra cobertas com inscrições muito significativas. Além de rodas solares e beirais de ziguezagues, observam-se homens com armas ou conduzindo carruagens, figuras de ca­valos e machados, algumas silhuetas encapuzadas, reproduções do instrumento musical lur e cenas de um provável ritual de sacrifício. O local é de 3000 a.e.c., mas foi saqueado séculos depois e na sua reconstrução encontraram-se apenas pequenas peças de bronze e resquícios da Idade da Pedra.

Em Istaby, em Blekinge, encontra-se uma imponente pedra com runas gra­vadas antes do Periodo Viking, e em Bjõrketorp, também em Blekinge, pode ser visto um dos mais impressionantes monumentos suecos, com três pedras em formação triangular marcando um lugar sagrado. Uma inscrição de 675 contém uma ameaça aos que desejavam alterar o arranjo original das pedras com “segre­dos de runas poderosas e mágicas”. Uma pedra de granito vermelho de Jársberg, gravada em torno do ano 500 com uma fórmula rúnica, cita dois nomes mágicos que podiam invocar poderes maléficos ou benéficos, enquanto a pedra de Noleby, também na Suécia, com uma inscrição do ano 600, destinava-se a manter preso o homem enterrado no túmulo próximo, sem que ele pudesse sair ou perambular na forma de um draugar (fantasma).

A Ilha de Õland é ligada por uma ponte à fortaleza Kalmar, do século XVII (local de conflitos entre suecos e dinamarqueses), e preserva em toda a sua ex­tensão inúmeros monumentos antigos, entre eles, círculos de menires, pedras com inscrições rúnicas erguidas em homenagem a heróis mortos nas expedições ou batalhas, túmulos da Idade do Bronze e do Ferro, formações de pedras repro­duzindo barcos e vestígios de cremações e fortalezas medievais. Ali se encontra um enorme túmulo conhecido como Bla Ror, o maior cairn da Idade do Bronze, em cujo interior foi encontrado um caixão com ossos calcinados, armas e obje­tos de bronze. Datado de 450 d.e.c., Ismantorps Borg é um antigo círculo de pedras que cerca as runas dos 88 cômodos de um forte. Além de outras fortalezas re­formadas — antigas ou medievais —, a reconstituição do assentamento de Eketorp Fort revelou a existência de uma comunidade agrária — túmulos pré-históricos e restos de cremações de 400 até 1000 d.e.c. Atualmente as casas, oficinas e está­bulos do local tentam reproduzir o antigo modo de viver dos camponeses, cujos vestígios podem ser apreciados no pequeno museu. Entre os inúmeros menires datados de 500 a.e.c. até 400 d.e.c. e várias pedras rúnicas, sobressai-se em Karlevi [35] uma pedra bem preservada do século X, a única no mundo com o mais extenso texto rúnico em versos, e a grande pedra redonda de Folkeslunda, com um diâ­metro de 40 metros e uma pedra rúnica marcando o túmulo de uma mulher, no qual foram encontradas joias e alguns objetos de prata.

A mais longa e completa inscrição rúnica, com oitocentas runas (algumas rami­ficadas de pouco uso), é encontrada perto de Alvastra e datada do século IX. Essa pedra de quatro toneladas chamada Rokstenen é considerada a mais importante das 2 mil ou mais pedras rúnicas da Suécia. Atualmente é protegida por um telhado e a inscrição revela detalhes literários como a narrativa métrica e o estilo poético da época da sua gravação. De tão difícil compreensão — como a da pedra Rõk - é a inscrição de Sparlosa, em Vãstergótland, que além de runas têm vários desenhos enigmáticos. Perto da cidade de Eskilstuna encontra-se outra inscrição rúnica do século X, feita em uma laje de 4 metros junto a ilustrações de cenas do poema épico islandês “Sigurd”, o matador de dragões, enquanto em uma pedra na igreja de Altuna, Thor é retratado na tentativa de capturar a Serpente do Mundo. Na proximidade de Vásteras, existe o maior túmulo mortuário real, em Anunshõg, cercado de outros túmulos menores que cobrem uma grande extensão de terra sem árvores. Acredita-se que naquele lugar se reunia o Thing local, o parlamento viking; além dos menires encontra-se ali uma pedra rúnica do ano 1000.  Colinas artificiais foram erguidas sobre os resquícios dos três túmulos reais do século VI de Gamla Uppsala, que guardam centenas de ossadas humanas e animais, vítimas dos sangrentos sacrifícios feitos a cada nove anos para Odin, Frey e Thor. Essas brutais oferendas eram uma forma de retribuição dos homens aos deuses, nutrindo a ter­ra com a energia - vital do sangue ofertado, para que ela continuasse a produzir e sustentar as comunidades assoladas pelas intempéries e os escassos meios naturais. Para os povos antigos, a vida e a morte se entrelaçavam, um ciclo seguido por outro, ambos aceitos e honrados, sem apego à vida ou temor à morte. Atualmente no local existe apenas uma igreja cristã erguida sobre os sítios antigos e uma loja de souvenirs grotescos — Odinsborg —, com um troll vestindo um capacete com chifres na entrada, a usual caricatura viking.

Os mais deslumbrantes vestígios que visitei foram em Tannunshede, em Bõhuslan perto de Gõteborg, a maior concentração de inscrições da Idade do Bronze 1500-500 a.e.c., incluídas na lista de preservação da Unesco. Espalhadas em lajes de rocha nos campos, nos bosques e na floresta situada em uma colina — em cujo topo existe um enorme cairn não explorado —, milhares de inscrições (reforça­das com pigmentos vermelhos) trazem símbolos importantes do passado. São imagens de rodas solares, marcas de pés e mãos (simbolizando a presença das di­vindades), [36] barcos, trenós, animais, homens com o falo ereto e uma única figura feminina (provavelmente a deusa solar), com um enorme disco entre as pernas. O museu próximo de Vitlvcke oferece interpretações temáticas das inscrições, com a representação gráfica da jornada solar acima e abaixo da terra.

Pouco divulgadas são as pedras rúnicas encontradas nas ruas de Sigtuna, pe­quena cidade medieval perto da capital. Algumas estão nos quintais de residên­cias, outras ao redor da igreja, sem nenhuma proteção. Em muitos lugares, vi pedaços de pedras rúnicas englobadas nas paredes de igrejas, nos monumentos funerários ou até mesmo nas casas — uma falta de reconhecimento e reverência com relação à importância histórica e cultural do passado ancestral e que somente agora está sendo resgatado e preservado.

Nos museus de Estocolmo e Copenhagen, pude apreciar muitas pedras rú­nicas retiradas do seu local original, algumas com as inscrições retocadas com tinta branca e vermelha para torná-las mais legíveis, outras protegidas por pare­des de vidro. Além das pedras, há nos museus um rico legado viking, composto de armas, joias de ouro, pedaços e colares de âmbar, moedas, bem como acha­dos pré-históricos (pontas de flechas e machados de pedra) e uma preservada múmia de mulher, encontrada no pântano, cujos longos cabelos louros e roupas rústicas continuam intactas.

Amuletos

Uma fonte auxiliar para o estudo dos arquétipos divinos consiste em uma série de pequenos ornamentos de ouro e prata, confeccionados inicialmente no estilo de medalhões romanos, mas que depois foram adquirindo um padrão nativo. Pro­duzidos na Escandinávia entre os séculos V e VII, foram denominados bracteata, segundo seu nome latino. O grande número encontrado em túmulos de mulheres e homens (mais de 3000) demonstra o valor que tinham como amuletos da sorte e para proteção. Os motivos neles gravados diferem, incluindo cabeças reais ou sobrenaturais, animais, cenas épicas ou ornamentos abstratos. Algumas têm inscri­ções rúnicas, aparentemente fórmulas mágicas para reforçar o poder talismânico.

As mais antigas inscrições rúnicas encontradas na Suécia foram datadas do século III, entre elas estão a gravada sobre a ponta de uma lança e outra em um broche de prata. Em Kilver, sobre um sarcófago de século V, foi encontrada uma inscrição com runas para fins de proteção mágica. Foram encontradas em torno de duzentas inscrições com rimas arcaicas. Esse tipo de runas, chamado Futhark Antigo, vigorou até o ano 800, quando foi substituído por outro sistema de ape­nas dezesseis caracteres (em vez das 24 antigas), denominado Futhark Novo. [37]

Runas antigas também foram encontradas em Vadstena, sobre bracteatas de ouro datados do período entre 350-550, com fins mágicos de proteção contínua, por serem usadas como joias. As inscrições rúnicas tinham como finalidade favo­recer o contato com os poderes sobrenaturais para derrotar um inimigo, proteger contra doenças e acidentes, e defender os mortos e seus túmulos contra saques e profanação. Graças a runas mágicas, uma lança sempre alcançava seu alvo, um guerreiro tornava-se inviolável contra as armas inimigas, uma mulher era protegi­da de violências e um casal era abençoado com fertilidade e abundância.

Depois de analisar as figuras encontradas sobre amuletos e bracteatas, os pesqui­sadores as associaram ao culto de determinados deuses, como Odin, Thor, Tyr, Frey, Freya, a deusa solar e as Senhoras do Destino. Símbolos semelhantes de poder e proteção mágica foram encontrados na decoração de elmos, escudos, espadas e pu­nhais. Nos elmos suecos e saxões, junto com as figuras de guerreiros armados ou de homens dançando, aparecem animais como ursos e lobos, uma clara alusão aos ritos extáticos dos beiseih e uhednar, os fanáticos lutadores dedicados a Odin.

Outro tipo de amuleto eram as pequenas e finas rodelas de ouro (do ta­manho de uma unha humana), encontradas nas escavações de locais sagrados e representando casais. Acredita-se que reproduziam as divindades Vanir ou eram oferecidas aos noivos, em suas cerimônias de união, para atrair bênçãos de fertilidade, ou talvez como invocação de proteção, no início da construção de um templo ou casa. Podiam ser usadas como ornamentos nas roupas e armaduras ou enterradas no chão.

A dificuldade para identificar as figuras de divindades também se estende às placas votivas com inscrições e imagens gravadas. Em muitos museus romanos, há diversos registros “bárbaros”, trazidos por mercenários de exércitos de vários lugares do mundo. Enquanto os deuses romanos eram definidos com precisão pelos detalhes e inscrições, as divindades nórdicas não tinham uma identifica­ção especial, sendo apenas classificadas como pertencentes ao panteão nórdico. Assim, Thor foi equiparado a Júpiter, Odin a Mercúrio, Tiwaz a Marte, as Valquírias, consideradas deusas guerreiras e as outras deusas, englobadas na catego­ria de Mães (Matronas). Havia uma variação nos atributos e representações das deusas e dos seres sobrenaturais associados a determinadas regiões e áreas da sua atuação, sem no entanto se fazer uma diferenciação dos seus arquétipos.

Monumentos

No inicio do Período Viking, diminuiu a tendência de se inscrever memórias runicas sobre pedras; apenas do século XI em diante, esse costume voltou a ser [38] utilizado. Datam do século XI dois dos mais famosos monumentos suecos: a pe­dra Rok, localizada em Õstergótland, e a pedra Sparlosa, em Vástergõtland.

A primeira, além de ser o mais impressionante monumento comemorativo erguido no século IX em homenagem a um parente falecido, é um testemunho da literatura antiga. A inscrição faz referência a antigos poemas e lendas esquecidas ou perdidas, tem um estilo e ritmo poéticos peculiares, semelhantes aos poemas dos Eddas, e usa um tipo de código secreto em alguns versos, implicando conhe­cimentos místicos, mágicos e das famílias rúnicas. Trata-se da mais longa inscrição conhecida (700 símbolos) e foi feita com runas do tipo ramificado — que eram pouco usadas —, cobrindo toda a superfície da enorme pedra, em todos os lados, sem deixar nenhum espaço vazio. A segunda, menos famosa, é decorada com pin­turas interessantes e uma inscrição rúnica de difícil interpretação.

Uma inscrição diferente foi encontrada em uma pedra em Oklunda, Suécia, cujos dizeres constituem um documento legal pré-cristão, em que o solicitante pede asilo em um santuário ancestral, território inviolável e refúgio dos foragidos. Geralmente inscrições similares eram gravadas sobre madeira.

Em Istabv, em Blekinge, foi encontrada uma inscrição rúnica em sueco primiti­vo, originária do período pré-viking do século VI ou VII, e uma imponente forma­ção triangular de pedras com runas mágicas de proteção oriundas do século VII. Na região de Skãne, encontram-se pedras com registros das expedições vikings e, em Uppland, pedras memoriais para os guerreiros mortos. Nas estradas e rotas vikings, foram erguidas pedras com pedidos de proteção aos deuses Odin e Thor para os viajantes. Mas a mais impressionante pedra, muito bem preservada, é a de Karlevi, na Ilha de Oland, que homenageia um chefe morto em combate com um poema completo usando mil runas e uma métrica clássica perfeita.

Os monumentos comemorativos da Ilha de Gotland são exemplos de arte pic­tórica, uma vasta e viva interpretação de mitos, lendas e poemas conhecidos na época (século VIII), mas cujo significado se perdeu ao longo do tempo. A riqueza das inúmeras figuras — cavalheiros e seus cavalos, Valquírias segurando chifres de beber, navios desbravando mares, entre outras — oferece uma visão única do mun­do antigo. As pedras mais antigas — do século IX — têm inscrições rúnicas, mas outras quatrocentas, mais recentes, não têm inscrições rúnicas, apenas imagens, e em sua maioria estão guardadas no museu da cidade de Visby.

As mais conhecidas pinturas nas pedras suecas são as que retratam os heróis dos poemas, como Sigurd e Unnar da saga Võlsung e as aventuras de deuses, como Thor, cuja luta com a Serpente do Mundo foi um tema popular entre poe­tas e artistas da época; um exemplo dessas pedras são as de Altuna, em Uppland.  [39]

As cenas retratadas na bem preservada pedra de Ledberg, de Östergötland, com gravações em seus três lados, são do drama cósmico Ragnarök (a luta de Odin com o lobo Fenrir). Todas as inscrições devem ter sido pintadas com diferentes cores para realçar a beleza e o efeito artístico do monumento. Algumas pedras, principalmente as usadas na construção de igrejas cristãs, ao serem descobertas ainda guardavam o seu colorido original.

No final do Período Viking, as condições de vida dos camponeses e principal­mente dos jovens ficaram mais difíceis e o costume de erguer e gravar pedras rúnicas caiu em desuso. Mas, no século XI e XII, vários monumentos com inscrições rúnicas começaram a aparecer nos cemitérios cristãos, seja nas pedras funerárias ou na tampa dos túmulos e mausoléus, principalmente dos monarcas e de pessoas abastadas. Nas inúmeras inscrições rúnicas, encontram-se pedidos de orações para a redenção de pessoas falecidas e a paz de suas almas, com os termos comuns das preces. Representações de seres divinos e cenas de mitos ancestrais foram também encontradas em cruzes e pedras funerárias. O ensino cristão lançava mão da compa­ração com os antigos mitos para forçar sua aceitação pelos povos escandinavos.

Muitas interpretações cristãs associam detalhes dos deuses ancestrais (os corvos de Odin, a luta de Tyr com o lobo Fenrir, a pescaria de Thor, Ragnarök, a amar­ração de Loki, a morte de Baldur) a eventos bíblicos. Em algumas gravações sobre pedras do século X, em Cumberland, na Inglaterra — feitas possivelmente pelos vikings —, as cenas são semelhantes ao combate final do Ragnarök, mas lhes foram atribuídos significados cristãos. As crenças ancestrais e as preocupações com o fim do mundo, que se refletiam nos epitáfios funerários, existem desde muito antes da cristianização. Nega-se assim a suposta influência das ideias cris­tãs na elaboração do mito de Ragnarök, como, por exemplo, a equiparação do retorno do deus Baldur do mundo dos mortos com a ressurreição de Cristo e o fim do mundo do mito nórdico com o juízo Final. A crença ancestral do norte euro­peu sobre a destruição do mundo pelo fogo e seu renascimento do mar é antiquíssima e persistiu mesmo após a cristianização, sendo reavivada de tempos em tempos, quando cataclismos naturais ameaçavam a espécie humana e o planeta. Os pesquisadores identificaram inúmeras cenas míticas usadas como decoração em monumentos cristãos, e antigas pedras rúnicas foram “exorcizadas” das suas influências ancestrais com cruzes cimentadas no seu topo. Reproduções do martelo de Thor foram usadas como amuletos até os séculos X-XII e posteriormente substituídas pelos crucifixos cristãos, com o mesmo objetivo de proteção.

Um belo exemplo de pia batismal com gravações de runas encontra-se em uma igreja de Gotland. Ela foi feita no século XII e tem gravadas, em relevo, cenas da [40] vida de Cristo, do seu nascimento à crucificação. Surpreendentes são as extensas inscrições usando runas, mas escritas em latim, comuns nas igrejas de Gotland. Mais de vinte sinos medievais com inscrições rúnicas das igrejas suecas tiveram que ser “batizados” antes de serem usados nas cerimônias cristãs.

Até o século XVI, as runas continuavam a ser usadas nas pedras funerárias dos cemitérios de Gotland, às vezes juntamente com textos em latim. A força do antigo alfabeto se manteve até a Idade Média. Em certos lugares da Suécia, as pessoas comuns não queriam usar o alfabeto romano. As runas continuaram em uso por muito tempo nos calendários e varetas de madeira com mensagens; em livros; nos nomes dos proprietários de terras e lojas e dos fabricantes e artesãos de móveis; nas vasilhas e pratos domésticos; nos artigos de presente e, principal­mente, nos objetos com fins místicos e mágicos.

Na Islândia, as runas foram usadas até o século XVII, quando a Igreja instaurou a pena de morte para quem fizesse uso delas. A Inquisição condenou à fogueira todos os que tivessem runas entre seus pertences. Todavia, as runas subsistiram nos emblemas e brasões dos artesãos e comerciantes; para marcar animais, barcos e moinhos; entalhadas nas vigas das casas; tecidas nas tapeçarias e gravadas em vidro, metais e joias. Para a proteção das casas, usavam-se combinações de runas com ide­ogramas de ferramentas, e objetos e emblemas familiares foram criados utilizando-se runas ocultas no entrelaçamento dos traços e formas. A espiral era um antigo símbolo de renascimento que representava a viagem da alma após a morte.

Datam da Idade Média as mandalas germânicas pintadas em cores vivas sobre discos de madeira e cerâmica e usadas nas residências como proteção. Elas eram confeccionadas ritualisticamente e baseavam-se em um padrão hexagonal como uma estrela ou cruz de seis braços. No século XVII, os imigrantes alemães le­varam essa tradição medieval para a região de Pensilvânia, nos Estados Unidos, e ela sobrevive até hoje em objetos decorativos, sem que se conheçam os seus significados mágicos.

Mesmo indiretamente, os povos nórdicos foram os que por mais tempo se apegaram às antigas tradições e assim foi possível preservar o valioso legado dos seus ancestrais, conforme está escrito em uma pedra: “As runas vão permanecer na memória dos homens enquanto a humanidade existir”.

A menos que estejam acompanhados de inscrições rúnicas, é difícil identificar seres divinos representados em objetos de metal ou pedras. Porém, observando a paisagem e os nomes atribuídos a certas características naturais, podemos [41] reconhecer alguns atributos das divindades. Nomes de lugares e vilarejos muitas vezes são associados a antigos termos (referentes a templo, lugar de culto, sa­crifício) ou a sílabas dos nomes divinos (Vi do altar de Odin, Ti e Thui para Tyr e Thor, Ull para Ullr). Uma equivalência evidente é encontrada nos nomes dos dias da semana e de pessoas. Outra maneira de descobrir a natureza das divinda­des nórdicas é estudar os inúmeros títulos que descreviam seus atributos. Como exemplo, podemos mencionar os 170 títulos atribuídos a Odin, que podem ser compreendidos estudando-se os mitos e lendas a ele associados. Esses títulos aparecem em fontes literárias e inscrições e às vezes podem ser interpretados como pertencendo a várias divindades.

Uma forma metafórica — chamada Kenning — oferece frases descritivas para os deuses baseadas nas informações dos mitos e sagas. Nessas metáforas, o nome de uma pessoa, lugar ou objeto não é dado diretamente, mas substituído pela re­lação existente entre a pessoa e o lugar, o que torna as Kennings verdadeiras cha­radas. As vezes, surpreendentes e criativas, outras vezes, confusas e cansativas, as Kennings são importantes no estudo da mitologia nórdica, pois esclarecem ou completam trechos de poemas ou mitos esquecidos. As mulheres nelas descritas são geralmente representadas por deusas, Valquírias ou Nornes e seu estudo permite aprofundar o conhecimento desses seres míticos. As Kennings descre­vem os deuses por meio da relação existente entre eles (filho, pai, consorte) ou dos seus atributos (defensor, protetor).

No Período Viking, motivos e histórias foram importados pelos viajantes e acrescentados aos mitos originais, depois recontados e adaptados pelos poetas e contadores de estórias escandinavos. O contato com os nativos sami e os povos fino-úgricos acrescentou novos elementos pertencentes às tradições xamânicas e às práticas a elas associadas (transe, danças, divinação).

É difícil diferenciar as crenças e mitos indo-europeus da sua assimilação e adaptação pelos povos do norte europeu. Porém, o que importa é o rico legado de mitos, imagens, símbolos e divindades que teve origem na Escandinávia e foi preservado até os tempos atuais.

Locais Sagrados

Os povos germânicos e escandinavos tinham poucos templos permanentes ou locais reservados para seus cultos. Estes, apesar dos rigores do clima nórdico, eram realizados ao ar livre, nos bosques, nas clareiras ou no topo das colinas, per­to de fontes e lagos ou nas inúmeras ilhas. Como a Islândia foi colonizada e po­voada parcialmente no século IX, determinados locais naturais escolhidos como [42] santuários não tiveram seus limites definidos, nem foram cercados com muros. Um dos antigos locais sagrados, escolhido e venerado pelos primeiros habitantes, era Helgafell, no oeste da Islândia, um amontoado de rochedos visíveis ao longe e com aparência de túmulo. Este lugar, mencionado em um poema épico do século XIII, foi depois transformado pelos cristãos em um centro intelectual e ponto de encontro de escritores. Helgafell — assim como outros lugares sagrados — devia ser mantido livre da poluição humana, oferecendo abrigo seguro para homens e animais em situações de perigo, propício para o contato com os poderes divinos e o “outro mundo”, por ser considerado um “portal” de acesso.

O local de encontro da assembleia islandesa Althing era uma fenda vulcânica localizada em um vale próximo a um rio e cercada por rochedos que produziam eco, criando um efeito especial quando as leis eram recitadas anualmente para os representantes do povo, acomodados em abrigos de pedra e turfa. No festival do solstício de verão, as pessoas acampavam durante duas semanas com seus familiares e amigos; e como sede da assembleia, Althing permaneceu nesse local até 1798, quando foi deslocado para a capital do país. Esse lugar — Thingvellir — continua como uma meta de peregrinação para os islandeses, pois, mesmo não sendo o centro geográfico da Islândia, era o centro simbólico para onde conver­giam pessoas dos quatro cantos do país. Apesar dos fortes ventos e tempestades de areia que o assolam, a sua egrégora numinosa continua existindo, como um eco das assembleias em que leis eram mudadas, queixas e disputas solucionadas e decisões tomadas para o bem do povo.

Assim como esses dois lugares sagrados do Período Viking dispensavam monumentos ou construções elaboradas para fazê-los dignos de reverência e res­peito, outros locais de cultos semelhantes foram usados desde a Idade do Bronze — ou mesmo antes. A importância dos locais islandeses é a sua unicidade, pois foram escolhidos pelos primeiros colonizadores e consagrados em terras antes desabitadas, portanto preservando a energia original e os seres sobrenaturais, “senhores” do lugar.

Tácito relatou no seu livro Germania (século I d.e.c.) que os povos germânicos não confinavam seus deuses entre paredes nem os reproduziam em imagens, pois seus locais sagrados eram bosques e colinas e a presença divina era representada pelas forças sutis percebidas nas suas reverências e orações. Esse conceito nór­dico fez com que seus cultos fossem totalmente diferentes dos cultos romanos, realizados em templos suntuosos, repletos de inúmeras estátuas e rebuscados ornamentos. Algumas esculturas em madeira bruta, representando figuras tos­cas pouco definidas, com apenas alguns traços evidentes, foram encontradas em [43] alguns lugares do norte europeu; duas delas — de um homem e uma mulher — foram achadas perto das ruínas de uma lareira, com pedras polidas e fragmentos de vasos de argila, indicando um antigo local de culto das divindades Vanir ou dos Land-Vaettir, os espíritos da natureza.

Nos relatos históricos sobre os rituais praticados pelos vikings na Suécia, encontra-se uma descrição detalhada sobre as cerimônias associadas às figuras de madeira. Na frente de uma figura maior, cercada por um grupo de estátuas menores, os comerciantes que desejavam bons negócios oravam e faziam ofe­rendas de pão, carne, alho-poró, seda e cerveja. Se as orações fossem atendidas, eles retornavam e sacrificavam ovelhas ou gado, deixando cabeças e pedaços de carne ao lado das estátuas. Se as orações não fossem ouvidas, os homens vol­tavam e refaziam seus pedidos diante das figuras menores, que representavam filhos e filhas dos Deuses ou divindades secundárias. Poucas estátuas de madeira sobreviveram ao tempo, além das encontradas na turfa dos pântanos.

A maior parte dos monumentos nos locais sagrados era representada por ele­mentos naturais, como as grandes colinas artificiais de pedras e terra, erguidas so­bre túmulos de reis (personificando deuses) no local sagrado de Uppsala, na Suécia — um conjunto formado por três mounds maiores e cercado por vários menores, todos erguidos sobre restos de cremações do Período de Migrações (anterior aos vikings). Em alguns lugares na Escandinávia, no topo de colinas erguidas sobre túmulos, eram colocadas pedras gravadas com inscrições e figuras, com finalidades ritualísticas ou comemorativas na proclamação de um novo soberano.

De acordo com as tradições nórdicas, esse tipo de túmulo — com um topo achatado — servia como palco para que reis e videntes ali pernoitassem à espera de uma visão ou mensagem sobrenatural, ou para que fossem vistos e ouvidos à distância quando anunciavam novas leis ou decisões visando a segurança e o bem- estar dos súditos. Um exemplo é a colina Tynwald, na Ilha de Man, erguida pelos colonizadores noruegueses no século IX sobre um túmulo da Idade do Bronze e que serve até hoje como lugar de reunião do Parlamento no solstício de verão.

Um elemento importante nos locais sagrados germânicos era o Pilar do Céu, um poste alto de madeira chamado de Irminsul pelos saxões e encontrado no topo de túmulos ou perto dos antigos locais de culto da Idade do Bronze. Os historiadores o comparam aos pilares romanos associados a Marte e Júpi­ter, decorados com figuras e elementos míticos e destinados a atrair bênçãos e proteção. No entanto, os pilares saxões tinham mais semelhança com a Arvore do Mundo nórdica, a Yggdrasil, que representava o centro dos Nove Mundos (as moradas dos seres sobrenaturais e da humanidade). Nos mitos, esses pilares [44] eram associados ao deus Thor e foram levados pelos colonizadores noruegueses para seus novos lares na Islândia. O Pilar do Céu era a continuidade dos bosques sagrados onde os cultos ancestrais eram realizados, com o sacrifício de uma vítima humana enforcada no galho de uma árvore central, conforme descreve a obra de Tácito.

O centro simbólico e ritualístico — onde eram realizados os cultos e as pro­clamações dos reis — também representava o portal de acesso para o Outro Mun­do, a conexão entre homens e deuses. Se um raio caísse e queimasse uma ár­vore, esse era considerado um sinal do poder divino descendo como fogo, e foi equiparado depois ao martelo de Thor, que quebrava rochas, abria clareiras na floresta e controlava forças maléficas.

Existia uma antiga relação mística entre as profundezas da terra e da água com os vórtices de energia mágica e curadora, como comprova a existência de fontes próximas aos locais sagrados. Na mitologia escandinava, sob a Arvore do Mundo existiam fontes sagradas, ao redor da qual as divindades se reuniam para beber da água que lhes conferia inspiração e sabedoria às suas decisões.

Cachoeiras, margens de rios e terras à beira-mar serviam como lugares pro­pícios às oferendas, assim como as fendas na terra e nas rochas, enquanto as gru­tas eram locais poderosos para o contato com o mundo subterrâneo. O famoso caldeirão de Gundestrup parece ter sido uma oferenda para os poderes ctônicos, pois as placas decorativas do seu interior e exterior foram retiradas e colocadas do lado de dentro de uma cova no pântano. Inúmeros objetos significativos fo­ram recolhidos de lagos da Ilha de Õland; dos pântanos dinamarqueses foram recuperados valiosos achados do século III até o VI, contendo armas e armaduras amassadas, ossos e objetos cremados, indicando as oferendas feitas com os espó­lios dos guerreiros mortos em combate.

Mesmo considerando certos lugares da natureza como especialmente sagra­dos para cultos, os povos nórdicos também cercavam alguns espaços para isolá-los do contato com o mundo cotidiano, usando-os como recintos religiosos e ritualísticos ou para encontros comunitários. Os locais sagrados chamados de vih ou ve eram marcados por algum detalhe específico da paisagem, por cairns, labirintos de pedras, postes e mastros para rituais. O altar — hoigr — era prote­gido por um telhado, montado dentro de um espaço separado ou abrigado por uma construção simples, feita com troncos de madeira. Do Período Viking são conhecidos locais destinados às reuniões das assembleias, aos duelos ritualísticos ou a outros fins, bem como templos primitivos de madeira usados para rituais e celebrações, ritos mágicos ou divinatórios. Nesses lugares especiais, delimitados [45] com pedras, cordas, troncos ou valas, e de formato circular, quadrado ou retan­gular, foram encontrados pilares, fontes naturais, monólitos de pedra, lareiras e restos de objetos ritualísticos.

Em comparação à suntuosidade e grandiosidade dos santuários romanos, os templos germânicos eram construções simples de madeira, que se deterioraram com o tempo e, portanto, nada se sabe sobre seu estilo ou a estrutura dos seus altares. O cristianismo usou os antigos locais sagrados para construir sobre eles igrejas, e os túmulos ancestrais foram reutilizados como cemitérios cristãos. Em outro tipo de construção, feito com tijolos rudimentares, havia além do espaço sagrado um lugar para refeições comunais e, nos cantos, buracos repletos de ossos de animais.

Há poucas evidências de templos pré-cristãos na Escandinávia; são menciona­dos em várias fontes os templos de Uppsala, dedicados a Odin, Thor e Frey, e os erguidos para o culto exclusivo de Thor, reverenciado como o deus benevolente, protetor das colheitas e dos casamentos (em Gotland, Moeri, Hlader, Godey). Frey tinha um importante santuário erguido pelos vikings no fiorde Trondheim, na Noruega, e outro em Thvera (Islândia), onde era proibido entrar com armas. Tanto Thor quanto Frey eram cultuados principalmente no festival de Yule, sen­do o mês inteiro dedicado às festas que antecipavam o retorno do sol. Existem registros de templos em residências familiares e comunitárias, com altares sim­ples dedicados aos deuses protetores de pessoas ou residências. Nas fazendas existiam espaços chamados hof — onde eram feitas as celebrações sazonais e as festas anuais — e um santuário para guardar imagens e objetos sagrados.

Não há evidências de locais específicos de cura além daqueles associados aos túmulos dos ancestrais, onde as pessoas pernoitavam em busca de sonhos e orientações sobrenaturais para encontrar a cura ou serem ajudadas na tomada de decisões. Templos dedicados às divindades nórdicas foram achados em Jelling, na Dinamarca; Trondenes e Maeri, na Noruega; e Sigtuna e Uppsala, na Suécia. Além do solo em que eram erguidas as construções, também as árvores, os mas­tros e os postes eram considerados sagrados, assim como os bosques ao redor.

Em lugares remotos da Noruega, foram encontradas 31 igrejas feitas com troncos e vigas de madeira, com pedras cercando os pilares e paredes, cons­truídas entre os séculos XI-XIII e com uma profusão de figuras entalhadas nas paredes e portas. Nos cantos onde os pilares encontram o teto, foram achadas estranhas cabeças de madeira tosca, lembrando antigos deuses e gigantes e sem nenhuma associação com a simbologia cristã. Figuras de dragões enfeitavam os cantos do telhado, lembrando as antigas esculturas vikings. Diversos elementos 46 e detalhes no interior das igrejas se assemelhavam à estrutura da Árvore do Mundo, com as suas “moradas” sobrepostas para os vários seres. Diferentes das igrejas que se seguiram, construídas de tijolos e com símbolos cristãos, essas antigas construções de madeira constituem um elo com as lembranças ancestrais dos antigos templos pré-cristãos.

Independentemente do estilo e material utilizado, as construções com fins sagrados dos territórios nórdicos eram usadas para guardar estátuas e os objetos dos cultos e oferecer um local seguro e protegido para as pessoas que ali buscas­sem o contato com as forças sobrenaturais, para orientação e proteção. Ao seu redor havia espaço para oferendas, rituais, procissões e festas comunitárias, sem que houvesse uma rígida separação entre o mundo cotidiano e o lugar destinado aos cultos e reverências, ligando a realidade profana como os planos sagrados e sobrenaturais.

História, Idade média, Alta idade média, Escandinávia, Vikings, Mitologia nórdica, cristianismo, poemas dos skalds, Mãe Terra, runas, inscrições rúnicas, lealdade, moral nórdica, mitos, rituais, arquétipos divinos, sacrifícios animais, Seidhr, artes divinatórias, magia, hidromel, diaugai, ritos fúnebres, sacrifícios humanos, Nove Nobres Virtudes, Metas sêxtuplas, Wicca, Asatrú
Faur,
Mirella.
Ragnarok:
Publicado por:
Odsson Ferreira | 16 jan , 2017
Tipos e formas de memória
Memória.
16 jan , 2017
Iván Izquierdo
Psicologia
Neuropsicologia

Há basicamente dois tipos de memória de acordo com sua função. Uma, muito breve e fugaz, serve para “gerenciar a realidade” e determinar o contexto em que os diversos fatos, acontecimentos ou outro tipo de informação ocorrem, se vale a pena ou não fazer uma nova memória disso ou se esse tipo de informação já consta dos arquivos. É a memória de trabalho. Serve para manter durante alguns segundos, no máximo poucos minutos, a informação que está sendo pro mcessada no momento, e também para saber onde estamos ou o que estamos fazendo a cada momento, e o que fizemos ou onde estávamos no momento anterior. Dá continuidade, assim, a nossos atos.

A memória de trabalho diferencia-se das demais porque não deixa traços e não produz arquivos. Os demais tipos de memória, como veremos, sim.

A memória de trabalho se define melhor através de exemplos. Usamos memória de trabalho, por exemplo, quando “conservamos” na consciência por alguns segundos a terceira palavra da frase anterior (que a esta altura, já esquecemos). A retenção dessa palavra só serviu para conseguir entender essa frase, seu contexto e o significado do que veio a seguir. Usamos a memória de trabalho quando perguntamos para alguém o número de telefone do dentista: conservamos esse número o tempo suficiente para discá-lo e, uma vez feita a comunicação correspondente, o esquecemos. Um exemplo típico de memória de trabalho é o da terceira palavra de minha frase anterior: ao ler, a conservamos por alguns segundos [25] o suficiente para poder entender essa frase e talvez a seguinte; mas a es quecemos para sempre, logo depois. Ao escrevê-la, eu tive que conservá-la na minha mente também por alguns segundos para saber o que estava escrevendo, e apagá-la logo depois, para não confundir minha escrita.

A memória de trabalho pode ser medida através da memória imediata e, de fato, ambos os termos podem ser considerados sinônimos. Um bom teste de memória de trabalho, muito utilizado na clínica, é o da lembrança de números; no Brasil, esse teste é conhecido por seu nome em inglês, digit span. Mostram-se, ou falam-se, para o paciente, vários números. Depois de alguns segundos, os sujeitos normais geralmente conseguem lembrar sete ou oito algarismos. Um paciente com a doença de Alzheimer em estado avançado consegue lembrar apenas um, talvez dois.

A memória de trabalho é processada fundamentalmente pelo córtex pré-frontal - a porção mais anterior do lobo frontal (Figura 2.1) - suas porções anterolateral e órbito-frontal e suas conexões com a amígdala basolateral e o hipocampo, através do córtex entorrinal. A memória de trabalho, também chamada de memória operacional, depende, simplesmente, da atividade elétrica dos neurônios dessas regiões: há neurônios que “disparam” seus potenciais de ação no início; outros, no meio e outros, no fim dos acontecimentos, sejam estes quais forem. As células que detectam o início e o fim dos acontecimentos denominam-se neurônios on - e neurônios off -, encontrados não só no córtex prefrontal como também em todas a vias sensoriais.

Os primatas não humanos têm uma capacidade de memória de trabalho tão boa quanto os humanos. Em todas as espécies, o córtex pré-frontal atua em “conluio” com o córtex entorrinal, o parietal superior e cingulado anterior e com o hipocampo para gerir a memória de trabalho. O “conluio” é feito através da troca de informações entre essas regiões cerebrais por meio de suas conexões.

A memória de trabalho não é acompanhada por alterações bioquímicas importantes. Seu breve e fugaz processamento parece depender fundamentalmente da atividade elétrica dos neurônios do córtex prefrontal. Mas, como vimos, essa atividade elétrica neuronal, ao viajar pelos axônios e atingir sua extremidade, libera neurotransmissores sobre proteínas receptoras dos neurônios seguintes, comunicando, assim, traduções bioquímicas da informação processada. O córtex pré-frontal recebe axônios procedentes de regiões cerebrais vinculadas com a [26] dos estados de ânimo, dos níveis de consciência e das emoções. Os neurotransmissores liberados por estes axônios, que vêm de estruturas muito distantes que estudaremos em capítulos posteriores, modulam intensamente as células do lobo frontal que se encarregam da memória de trabalho; os principais neurotransmissores moduladores da memória de trabalho no córtex pré-fontal anterolateral são a acetilcolina - agindo sobre receptores muscarínicos - e a dopamina - agindo sobre receptores Dl.

Isso explica o fato tão conhecido de que um estado de ânimo negativo, por exemplo, por falta de sono, por depressão ou por simples tristeza ou desânimo, perturba nossa memória de trabalho. Todos nós alguma vez tivemos a experiência de quanto custa ler ou ouvir e entender algo, ou simplesmente recordar um número telefônico por tempo suficiente para discá-lo, quando estamos distraídos, cansados ou sem vontade.

Muitos não consideram a memória de trabalho como um verdadeiro tipo de memória, mas como um sistema gerenciador central (central manager) que mantém a informação “viva” pelo tempo suficiente para poder eventualmente entrar ou não na Memória propriamente dita. A expressão “memória de trabalho” provém da área da computação e se emprega pela analogia com sistemas que cumprem essa função nos computadores. De fato, a memória de trabalho dos animais e dos humanos obedece simplesmente à atividade neural de células do córtex pré-frontal em resposta imediata ou levemente retardada (segundos, ocasionalmente minutos) aos estímulos que a colocam em ação. Não deixa traços neuroquímicos ou comportamentais.

O papel gerenciador da memória de trabalho decorre do fato de que esta, no momento de receber qualquer tipo de informação, deve determinar, entre outras coisas, se essa informação é nova ou não e, em último caso, se é útil para o organismo ou não. Para fazer isso, a memória de trabalho deve ter acesso rápido às memórias preexistentes no indivíduo; se a informação que lhe chega é nova, não haverá registro dela no resto do cérebro, e o sujeito pode aprender (formar uma nova memória) aquilo que está recebendo do mundo externo ou interno. Essas explorações da memória,
realizadas pelo sistema gerenciador do
córtex pré-frontal, são feitas, seguramente, através das conexões dessa região, via córtex entorrinal, com o hipocampo e com as demais áreas envolvidas nos processos de memória em geral
(Figura 2.1). As possibilidades de que,
ante uma situação nova, ocorra ou não [27] um aprendizado, estão determinadas pela memória de trabalho e suas conexões com os demais sistemas mnemónicos.

Da mesma forma, para verificar se a informação que está lhe chegando é útil ou prejudicial para o organismo, a memória de trabalho deve indagar, junto aos demais sistemas mnemónicos, através do córtex entorrinal, as possíveis relações da experiência atual com outras semelhantes das quais possa haver registro. Perante um inseto desconhecido que é observado pela primeira vez, o córtex precisa verificar se não há memórias de outros insetos parecidos em tamanho, forma ou cor. Se, ao fazê-lo, verifica que o animal presente é muito semelhante a outro que transmite doenças, por exemplo, o organismo poderá reagir fugindo do inseto ou eliminando-o. Se não encontra registros perigosos de insetos ou outros seres semelhantes ao que está neste momento observando, poderá adotar uma atitude de indiferença ou de simples observação.

Esses exemplos ilustram a importância do sistema operacional do córtex pré-frontal para a supervivência e para o “diálogo” constante como meio e com as próprias lembranças. Esse diálogo depende da breve conservação da informação pertinente no cérebro por tempo suficiente para examiná-la e compará-la (segundos, poucos minutos), e do acervo de memórias de curta ou longa duração, declarativas ou procedurais, de cada indivíduo.

A memória de trabalho[1] permite ainda o ajuste fino do comportamento enquanto este está acontecendo. Uma falha na memória de trabalho dificultaria ou anularia o julgamento sobre a importância dos acontecimentos que ocorrem constantemente e, portanto, prejudicaria nossa percepção da realidade. Na esquizofrenia há falha na memória de trabalho: o sujeito fica incapaz de entender o mundo que o rodeia; por exemplo, o paciente pode enxergar uma parede com pessoas apoiadas contra ela como uma espécie de quadro ou como uma massa monstruosa cheia de corpos, cabeças e pernas. Ele não discrimina as memórias simultâneas ou sucessivas dessas pessoas que está vendo. Admitem muitos autores modernos (Weinberger, Danion) que o caráter alucinatório da realidade para os esquizofrênicos deriva da falha na memória de trabalho. Nessa doença, observam-se alterações morfológicas, geralmente congênitas, não só do córtex pré-frontal anterolateral, mas também de várias sub-regiões do hipocampo (Figura 2.1). Assim, o hipocampo, que é o principal encarregado de formar memórias declarativas, as forma mal e seu conteúdo pode ser alucinatório. [29]

Tipos de memória de acordo com seu conteúdo: memórias declarativas e procedurals

As memórias que registram fatos, eventos ou conhecimento se chamam declarativas, porque nós, os seres humanos, podemos declarar que existem e podemos relatar como as adquirimos. Entre elas, as referentes a eventos aos quais assistimos ou dos quais participamos denominam-se episódicas ou autobiográficas; as de conhecimentos gerais, semânticas. As lembranças de nossa formatura, de um rosto, de um filme ou de algo que lemos ou que nos contaram são memórias episódicas. As memórias episódicas são todas autobiográficas; existem na medida em que sabemos sua origem. Já nossos conhecimentos de Português, Medicina e Psicologia, ou do perfume das rosas, são memórias semânticas ou de índole geral. Podemos, é claro, lembrar dos episódios através dos quais adquirimos memórias semânticas: cada aula de inglês, a última vez que cheiramos uma rosa, o dia em que memorizamos um poema. Não sabemos o que constitui o limite entre o começo e a sequência de um episódio, ou entre esta e seu fim; na verdade, não sabemos quando o cérebro decide que “aqui começou” e depois que “aqui acabou” um determinado episódio. A determinação do início e do fim de cada episódio envolve uma interação entre memória declarativa e memória de trabalho por meio de suas áreas respectivas (Piolino et al., 2009). As memórias episódicas são caracteristicamente humanas, e a literatura sobre sua estrutura temporal ou psicológica refere-se a humanos quase na totalidade. Porém, não há dúvida de que os animais têm memória episódica; na verdade, em se tratando de memórias declarativas, os experimentos em animais de laboratório abrangem em geral quase exclusivamente memórias episódicas (reconhecer um evento em determinado contexto, determinar quando começa e quando acaba, etc.).

Denominam-se memórias procedurais ou memórias de procedimentos as memórias de capacidades ou habilidades motoras e sensoriais e o que comumente chamamos de “hábitos”. Exemplos típicos são as memórias de como andar de bicicleta, nadar, saltar, soletrar, etc. É difícil “declarar” que possuímos tais memórias; para demonstrar que as temos, devemos de fato andar de bicicleta, nadar, saltar ou soletrar.

Seguindo os autores mais modernos (Danion et al., 2001), podemos dividir esses dois tipos de memória em explícitas e implícitas. (Até poucos anos atrás, consideravam-se explícitas só as memórias declarativas). As memórias de procedimentos são em geral adquiridas de maneira implícita, mais ou menos automática, e sem que o sujeito perceba de forma clara que as está aprendendo: resulta difícil, senão impossível, descrever de forma coerente (e, portanto, tornar explícito) cada passo da aquisição da capacidade de andar de bicicleta. Muitas das [30] memórias semânticas também são adquiridas de maneira inconsciente ou implícita; por exemplo, a língua materna. As memórias adquiridas sem a percepção do processo denominam-se implícitas. As memórias adquiridas com plena intervenção da consciência se chamam explícitas.

Nas amnésias ou perdas de memória costumam falhar primordial ou exclusivamente as memórias declarativas episódicas e explícitas. Na maioria das síndromes amnésicas encontram-se preservadas a maioria das memórias procedurais e boa parte das memórias semânticas adquiridas de maneira implícita. As exceções são a doença de Alzheimer na sua fase terminal e a doença de Parkinson nos seus estágios mais avançados (Capítulo 7).

Localização das memórias e função cerebral

Tanto as memórias episódicas quanto as semânticas requerem, para seu correto funcionamento na aquisição, na formação ou na evocação, uma boa memória de trabalho e, portanto, um bom funcionamento do córtex pré-frontal.

A localização da memória de trabalho no córtex pré-frontal explica parte das muitas funções dessa importante região o cérebro. Estudos de ressonância magnética funcional (fMRI), que medem basicamente o fluxo sanguíneo através de estruturas cerebrais em pessoas, permitiram estabelecer que várias regiões do córtex pré-frontal (predominantemente a anterolateral, a supraorbitária e a medial) se ativam durante a execução da memória de trabalho. Estudos com lesões demonstraram um papel-chave do córtex pré-frontal anterolateral e medial nesse tipo de memória.

Inibidores de receptores dopaminérgicos de tipo Dl ou colinérgicos muscarínicos aplicados nessa região dificultam ou cancelam a memória de trabalho. Lesões do córtex pré-frontal afetam profundamente a tomada de decisões dos sujeitos; nos humanos, inibem a atribuição de valor moral às ações dos outros e, principalmente, às do próprio sujeito. Os psicopatas caracteristicamente apresentam lesões, às vezes congênitas, em diferentes regiões do córtex pré-frontal.

As estruturas nervosas principais responsáveis pelas memórias declarativas episódicas e semânticas são duas áreas intercomunicadas do lobo temporal: o hipocampo e o córtex entorrinal. Ambas trabalham associadas entre si e em comunicação com outras regiões do córtex, como o córtex cingulado e o córtex parietal, e com os núcleos basal e lateral da amígdala, que como veremos a [31] seguir são também importantes moduladores da formação e da evocação da memória. Alguns autores distinguem sub-regiões diferentes nessas áreas encarregadas das memórias semânticas e episódicas; porém, a maioria considera difícil ou ilusória essa distinção. No Alzheimer e em outras doenças degenerativas do cérebro com perda de memória, as lesões características de cada uma aparecem primeiro no córtex entorrinal e no hipocampo e, mais tarde, no córtex pré-frontal e parietal e outros (ver Capítulo 9).

As principais regiões moduladoras da formação de memórias declarativas são a área basolateral do núcleo amigdalino ou amígdala, localizada também no lobo temporal (nas suas fases iniciais) e as grandes regiões reguladoras dos estados de ânimo e de alerta, da ansiedade e das emoções, localizadas à distância: a substância negra, o locus ceruleus, os núcleos da rafe e o núcleo basal de Meynert (Figura 2.1). Além de modular, a amígdala também armazena memórias, principalmente quando estas têm componentes de alerta emocional. Basta lembrar que os axônios dessas quatro estruturas inervam o hipocampo, a amígdala e o córtex entorrinal, o cingulado e o parietal, e liberam, respectivamente, os neuro-transmissores dopamina, noradrenalina, serotonina e acetilcolina. A imprensa tem popularizado bastante o nome desses neurotransmissores, nos anos recentes, devido ao fato de que numerosas drogas de uso corriqueiro para o tratamento de ansiedade, depressão e outras alterações das emoções ou do estado de ânimo agem alterando a função desses neurotransmissores. Mas contrariamente à opinião dos jornalistas, nenhum deles é “o transmissor da felicidade” ou “do prazer” ou “da angústia” ou “da excitação”. Tudo depende de onde são liberados e sobre que receptores de que estrutura atuam. A dopamina, por exemplo, agindo sobre receptores Dl no núcleo accumbens, é mediadora da dependência de drogas; agindo em outros lugares sobre o mesmo tipo de receptor, é mediadora da aten mção; em outros, de algumas sensações prazenteiras; em outros (hipocampo, amíg mdala), da formação de memórias e/ou de sua persistência (ver Capítulos 3 e 5).

A amígdala basolateral recebe, na hora da formação das memórias, o impacto inicial de hormônios periféricos (principalmente os corticoides) liberados no sangue pelo estresse ou pela emoção excessiva. É o núcleo através do qual essas substâncias modulam as memórias; sua ativação faz com que estas se gravem em geral melhor do que as outras. A adrenalina é também liberada perifericamente em situações de alerta, estresse ou exercício; mas não atravessa a barreira que existe entre os capilares sanguíneos e o tecido encefálico, chamada hematencefálica; age de maneira reflexa sobre a amígdala e sobre outras regiões cerebrais, modificando localmente a pressão sanguínea. O mesmo faz a noradrenalina liberada perifericamente pela estimulação do sistema simpático, cujos efeitos são semelhantes aos da adrenalina.

[32]

Os circuitos responsáveis pelas memórias de procedimentos envolvem o núcleo caudato (inervado pela substância nigra ou negra) e o cerebelo. Algumas delas também utilizam circuitos do lobo temporal (hipocampo, córtex entorrinal) nos primeiros dias depois de sua aquisição. Só se observam falhas notórias da memória procedural nas fases mais avançadas da doença de Alzheimer ou da doença de Parkinson, em que há lesões da substância negra e disfunção de sua conexão com o núcleo caudato, que se encarrega do controle motor. Nas fases mais avançadas da doença de Parkinson observa-se também um detrimento das memórias declarativas, cuja causa não é bem conhecida. Alguns autores atribuem ao núcleo caudato um papel na formação de memórias declarativas, paralelo ao do hipocampo, mas diferente deste e limitado só às interações estímulo-resposta mais simples. Para discussões sobre esse papel ainda controverso, recomendamos ao leitor interessado que se encaminhe ao site EntrezPubMed.

As memórias de procedimentos ou implícitas sofrem pouca modulação pelas emoções ou pelos estados de ânimo. A principal modulação dessas memórias é pela via substância negra —»núcleo caudato, que pode explicar, por exemplo, a aparição, o aumento ou a diminuição de tremores ou alterações do tônus muscular, que muitas vezes são observadas quando somos vítimas de tensões emocionais e queremos fazer ou deixar de fazer determinado movimento. A ansiedade intensifica a rigidez e os tremores da doença de Parkinson.

Em resumo: de acordo com seu conteúdo, as memórias se dividem em dois grandes grupos: as declarativas (governadas fundamentalmente pelo hipocampo e suas conexões) e as procedurais, a cargo do núcleo caudato e suas conexões e também ao cerebelo, segundo muitos estudos. As vias neuronais encarregadas de cada um desses dois grandes tipos de memória são diferentes, e as primeiras, as declarativas, são muito mais suscetíveis à modulação pelas emoções, pela ansiedade e pelo estado de ânimo.

A memória de trabalho é um tipo de memória completamente diferente das outras. E basicamente online, varia de instante em instante, utiliza poucas vias nervosas (principalmente o córtex pré-frontal), mantém as informações só uns poucos segundos - raras vezes um minuto ou dois - e cumpre uma função gerenciadora de nosso contato com a realidade. Decide, entre tudo aquilo que nos acontece, o que guardaremos e o que
não guardaremos na memória declarativa ou na procedural ou que memória
declarativa ou procedural valerá a pena
evocar em cada caso. Ao nos sentarmos
em uma bicicleta, ela decide que a coisa
certa é pedalar, e não recitar um poema, [33] por exemplo; pelo menos se não quisermos cair. Ao perceber algo potencial mente perigoso, a memória de trabalho o compara com nossas memórias declarativas de outras coisas perigosas e procura as capacidades motoras mais úteis entre as memórias procedurais: em geral, aquela que nos manda fugir, principalmente quando a circunstância ou o adversário for maior ou mais forte.

Quando falham as memórias declarativas, fala-se em amnésia. Dificilmente, no âmbito médico ou popular, alguém que apresente falhas da memória de procedimentos é rotulado como paciente amnésico. As pessoas vão à consulta se queixando de amnésia quando não conseguem lembrar o rosto de pessoas da família ou esquecem dados importantes de sua profissão; não quando esquecem como andar de bicicleta ou como nadar. Por outro lado, é raro que alguém esqueça essas habilidades motoras e/ou sensoriais. Já as falhas da memória de trabalho poderiam e deveriam ser chamadas de amnésia, porém raramente o são. Observam-se amnésias de memória de trabalho na idade avançada e principalmente - e de maneira mais proeminente - na esquizofrenia.

O priming (memória adquirida e evocada através de “dicas”)

Muitos autores consideram a memória evocada através de “dicas” (fragmentos de uma imagem, a primeira palavra de uma poesia, certos gestos, odores ou sons) como distinta dos demais tipos de memória mencionados (Figura 2.2). Em inglês, esse tipo de memória é chamado priming, palavra para a qual não existe uma boa tradução em português. Alguns utilizam a expressão “dica”, mas não quer dizer exatamente a mesma coisa.

O priming é notoriamente utilizado por atores, professores, alunos, declamadores, músicos e cantores. Porém, sem percebê-lo, é utilizado pelo resto da população humana e animal. Assim, muitas vezes um homem só lembra realmente da localização de um determinado edifício, por exemplo, quando vira a esquina prévia ao mesmo. Um músico só lembra o resto de uma partitura quando executa ou ouve as primeiras notas. Um rato ou
um camundongo só lembra do tramo final de um labirinto quando percorre o
tramo imediatamente precedente.

Para muitos, a existência do priming implica que muitas memórias semânticas, episódicas ou procedurais são adquiridas originalmente de duas maneiras paralelas: a) envolvendo conjuntos [34] relativamente grandes de estímulos (o mapa de um bairro, longos segmentos de uma partitura, a forma geral de um labirinto) e b) utilizando só fragmentos desse conjunto (uma esquina, quatro notas musicais, uns poucos centímetros de um corredor de um labirinto). [35] O priming é um fenômeno essencialmente neocortical. Participam dele o córtex pré-frontal e áreas associativas. Pacientes com lesões corticais extensas evidenciam déficits desse tipo de memória: requerem mais fragmentos do desenho de um avião, por exemplo, para lembrar uma figura que representa um avião (Figura 2.2).

Memória de curta duração, memória de longa duração e memória remota

As memórias também podem ser classificadas pelo tempo que duram. Fora da memória de trabalho, as memórias explícitas podem durar alguns minutos ou horas, ou alguns dias ou meses, ou muitas décadas. As memórias implícitas geralmente duram toda a vida.

As memórias declarativas de longa duração levam tempo para serem consolidadas. Nas primeiras horas após sua aquisição, são lábeis e suscetíveis à interferência por numerosos fatores, desde traumatismos cranianos ou eletrochoques convulsivos até uma variedade enorme de drogas ou, mesmo, à ocorrência de outras memórias. A exposição a um ambiente novo dentro da primeira hora após a aquisição, por exemplo, pode deturpar seriamente, ou até cancelar, a formação definitiva de uma memória de longa duração (Izquierdo et al., 1999b). Um traumatismo craniano ou um eletrochoque minutos depois da aquisição costumam ter um efeito similar ou até mais intenso: anulam por completo a gravação que está sendo feita nesse momento, e fazem com que o indivíduo perca a memória que acaba de adquirir. Uma liberação moderada de hormônios do estresse (adrenalina, corticoides) nos minutos seguintes à aquisição pode melhorar a consolidação da memória de longa duração; uma liberação excessiva, ou a administração desses hormônios em doses elevadas, pode resultar em amnésia. A administração de vários inibidores de enzimas importantes no hipocampo pode impedir a fixação de memórias nas primeiras seis ou mais horas depois da aquisição.

Justamente o fato de que a fixação definitiva de uma memória é sensível a numerosos agentes externos ou internos aplicados depois da aquisição definiu o conceito de consolidação. As memórias de longa duração não ficam estabelecidas em sua forma estável ou permanente imediatamente depois de sua aquisição. O processo que leva à sua fixação definitiva da maneira em que mais tarde poderão ser evocadas nos dias ou nos anos seguintes denomina-se consolidação.

Conhecemos em bastante detalhe os mecanismos da consolidação, que envolvem principalmente o hipocampo e suas conexões e que serão analisados no Capítulo 3. [36]

Desde William James (1890), que a chamou de “memória primária”, convencionou-se em denominar memória de curta duração aquela que dura entre 1 e 6 horas, justamente o tempo necessário para que as memórias de longa duração se consolidem (ver Capítulo 3). Discutiu-se durante mais de um século se a memória de curta duração é simplesmente uma fase inicial da memória como um todo ou se a memória de curta duração e a de longa duração envolvem processos paralelos e até certo ponto independentes. Como veremos no Capítulo 4, a segunda resposta é a correta. A memória de curta duração requer as mesmas estruturas nervosas que a de longa duração, mas envolve mecanismos próprios e distintos (Izquierdo et al, 1998 e 1999a).
A memória de curta duração é bastante resistente a muitos dos agentes que afetam os mecanismos da consolidação da memória de longa duração.
Por último, as memórias de longa duração que duram muitos meses ou anos costumam ser denominadas memórias remotas. Um rato é capaz de lembrar, um ano depois, que em determinado compartimento de determinada caixa recebeu um choque elétrico nas patas. Os ratos de laboratório vivem pouco mais de dois anos. Um ser humano de 70 anos é capaz de lembrar, até com detalhes, episódios importantes de sua infância. Essas constituem memórias remotas. Os mecanismos de sua evocação serão discutidos no Capítulo 5.

Reflexos condicionados, memórias associativas e não associativas

Muitas memórias são adquiridas por meio da associação de um estímulo a outro ou a uma resposta. Quem primeiro estabeleceu isso foi o fisiologista russo Ivan Pavlov no início do século XX. Ele observou que a resposta mais comum dos animais a qualquer estímulo ou conjunto de estímulos novos, não dolorosos, é uma reação de orientação, que denominou “reação do ‘Que é isto?’”. A reação compreende certo grau de alerta, o direcionamento da cabeça, dos olhos ou (se for um cachorro, por exemplo) o nariz e as orelhas em direção à fonte do estímulo. Se o estímulo for um ambiente novo, o animal reage com respostas exploratórias e de orientação geral. A repetição do estímulo leva à supressão gradual da reação de orientação; isso se denomina habituação. E a forma mais simples de aprendizado e deixa memória; esta se revela justamente pela diminuição gradual da resposta com a repetição do estímulo (Figura 2.3).

Pavlov (1926) estabeleceu que, nos aprendizados associativos, se um estímulo novo é pareado com outro “biologicamente significante” (doloroso, prazenteiro) que produz invariavelmente uma resposta (fuga, salivação, por exemplo), a resposta ao primeiro muda: fica condicionada ao pareamento. Assim, passou a se [37] denominar aos estímulos neutros cuja resposta muda por sua associação com outros, estímulos condicionados, e à resposta nova a esse estímulo, resposta condicionada. Os estímulos biologicamente significantes, que sempre evocam uma resposta, passaram a se chamar estímulos incondicionados, porque a sua resposta não depende de nenhum outro. As respostas naturais aos estímulos incondicionados (salivação, fuga, etc.) denominam-se respostas incondicionadas (Figura 2.3).

A ligação entre um estímulo e uma resposta se chama reflexo. O desenvolvimento de uma resposta condicionada a um estímulo originalmente neutro, que sozinho não a produzia, se chama reflexo condicionado (Figura 2.3). De uma maneira ou de outra, é possível conceber todas as formas de aprendizado associativo, como reflexos condicionados de um ou outro tipo. Há uma variante importante dos reflexos condicionados em que o animal aprende a fazer ou a omitir uma resposta condicionada para obter ou para evitar o estímulo condicionado; em outras palavras, utiliza sua resposta condicionada como um instrumento. Esse tipo de aprendizado denomina-se instrumental e é extraordinariamente comum e de grande valor adaptativo (Figura 2.3). Foi descoberto independentemente pelo polonês Jerzy Konorski e pelo estadunidense. Skinner em 1937. Exemplos do dia a dia são a série de atos que os animais e os humanos fazem para obter recompensas, por exemplo, um prato de comida; ou os que fazemos ou omitimos para evitar castigos, por exemplo, um choque elétrico ou uma bofetada. Chamar o garçom em um restaurante para que nos traga comida é um reflexo condicionado instrumental. O choro das crianças para que a mãe lhes dê leite, também. Evitar colocar os dedos na tomada para não sofrer um choque elétrico é outro. Atravessar a rua para não dar de frente com uma pessoa desagradável é mais um exemplo de reflexo condicionado instrumental.

Uma vez estabelecido um reflexo condicionado Pavloviano ou um reflexo condicionado instrumental, a apresentação reiterada do estímulo condicionado sem seu “reforço”, o estímulo incondicionado, provocará a extinção da memória ( F i g u r a 2 . 3 ) . Por exemplo, se vemos que com o choro não conseguimos leite, ou se vemos que atravessando a rua não nos vemos livres da pessoa que queríamos evitar, deixaremos de chorar ou de atravessar a rua.

A extinção é, assim, um fenômeno semelhante à habituação: perante a repetição de um estímulo condicionado, deixamos de emitir a resposta correspondente. Na habituação, paramos de responder por não ser necessário: o estímulo [38] nunca é pareado com outro. Na extinção, paramos de responder porque já não é necessário: o estímulo incondicionado não “vem” mais.

A habituação é claramente um tipo de aprendizado e de memória não associativo: resulta da simples repetição de um estímulo, sem associá-lo a nenhum outro. A extinção é considerada como o resultado de um novo pareamento: em vez de estímulo condicionado/estímulo incondicionado, a extinção associa o estímulo condicionado primeiro à recém-aprendida ausência do incondicionado. Não é uma forma de esquecimento nem uma diminuição da memória; é uma inibição da evocação.

Esquecimento

Pode se afirmar, com certeza, que esquecemos a imensa maioria das informações que alguma vez foram armazenadas. Já vimos que isso se aplica à totalidade das informações que passam pela memória de trabalho, mas também acontece com o resto das memórias, as que formam arquivos.

De fato, conservamos só uma fração de toda a informação que passa por nossa memória de trabalho; e uma fração menor ainda de tudo aquilo que eventualmente conservamos por um tempo nas nossas memórias de curta e de longa duração. Nossas memórias remotas são às vezes intensas e quase sempre valiosas; porém, representam somente uma pequena parte de tudo aquilo que alguma vez aprendemos e lembramos.

Nossa vida social, de fato, seria impossível se lembrássemos de todos os detalhes de nossa interação com todas as pessoas e de todas as impressões que tivemos de cada uma dessas interações. Não poderíamos sequer dialogar com os seres queridos se cada vez que os víssemos viesse à nossa lembrança algum mal-estar ou alguma briga ou humilhação, por menor que fosse (Izquierdo, 2010).

Existem, além do esquecimento e da perda real de memórias, a habituação e a extinção. Estas são, porém, como vimos, supressões reversíveis da evocação. Uma memória habituada ou extinta não está realmente esquecida: está, pelo contrário, suprimida no que diz respeito à sua expressão. Um aumento da intensidade do estímulo reverte a habituação; uma nova apresentação do estímulo condicionado reverte a extinção.

Repressão

Vizinho à extinção encontra-se o fenômeno que a Psicanálise denominou repressão. Trata-se de memórias declarativas, quase sempre episódicas, que o indivíduo simplesmente decide ignorar, e cuja evocação suprime, muitas vezes durante [40] décadas. São aquelas memórias que decidimos tornar inacessíveis, cujo acesso bloqueamos. O conteúdo dessas memórias compreende episódios humilhantes, desagradáveis ou simplesmente inconvenientes do acervo de memórias de cada pessoa. Não inclui necessariamente extinção, embora possa ter algum componente disso; também não se trata de esquecimento, porque as memórias reprimidas podem voltar à tona em todo seu esplendor espontaneamente, através da recordação de outras memórias ou através de sessões de psicanálise ou outro tipo de exame detalhado da autobiografia do sujeito. A repressão pode certamente ser voluntária; às vezes dizemos “não quero lembrar mais desse assunto” e o cons guimos. Mas, na imensa maioria das vezes, é totalmente involuntária ou inconsciente, e o cérebro nos poupa o esforço de almejá-la: reprime espontaneamente memórias que considera que poderiam nos ser desagradáveis ou prejudiciais.

A repressão envolve provavelmente sistemas corticais capazes de inibir a função de outras áreas corticais ou do hipocampo. Porém, não há nenhum estudo detalhado nem sistemático dos processos nela envolvidos. Não existe nenhum modelo de repressão em animais de laboratório, e é bem possível que eles não a manifestem; ou seja, é possível que se trate de um fenômeno peculiar aos humanos. Em humanos, estudos de ressonância magnética funcional têm revelado ativações do córtex pré-frontal ventromedial acompanhadas de redução do fluxo sanguíneo no hipocampo; mas só em repressões voluntárias. Não há como saber quando as outras irão acontecer.

É possível que exista repressão na negativa quase voluntária dos sujeitos deprimidos em lembrar fatos favoráveis de seu passado. É possível, também, que aconteça um fenômeno oposto na tendência quase automática dos deprimidos em lembrar episódios humilhantes, desagradáveis ou inconvenientes.

Misturas de memórias

Embora tenham valor descritivo e aplicação clínica, as classificações das memórias não devem ser tomadas ao pé da letra: a maioria se constitui de misturas de memórias de vários tipos, e/ou misturas
de memórias antigas com outras que estão sendo adquiridas ou evocadas no momento.

Assim, enquanto estamos evocando qualquer experiência, conhecimento ou procedimento, ativa-se a memória de trabalho para verificar se essa informação consta ou não de nossos “arquivos”; [41] evocam-se memórias de conteúdo similar ou não e misturam-se todas elas, às vezes formando, no momento, uma nova memória.

Difícil é evocar uma memória procedural (por exemplo, nadar) sem lembrar também alguma situação prévia em que esse ato nos tenha produzido prazer, desprazer ou medo, ou que tenha sido associada a alguma situação determinada. Recordaremos, de maneira inconsciente, a primeira vez que caímos numa piscina ou num rio, o temor que isso nos causou, e os movimentos defensivos que fizemos; lembraremos também como foi bom entrar na água uma ou mais vezes em que fazia calor ou como foi bom fazê-lo com a namorada ou com um filho.

Mais difícil ainda é adquirir ou evocar uma memória declarativa (por exemplo, a letra de uma canção), sem relacioná-la a outras (a da linguagem em geral, a da melodia dessa canção) e com memórias procedurais (a memória de como se faz para cantar), ativando ao mesmo tempo a memória de trabalho.

É comum confundir o rosto, o nome ou os atos de uma pessoa com os de outra. É comum confundir aniversários próprios e alheios. Isso ocorre em todas as idades, mas as pessoas mais velhas se tornam especialistas no assunto. Conheceram tanta gente ao longo de sua vida, que é natural confundir ou misturar fatos ou características de umas com os de outras. Minha mãe, já aos 70 anos, costumava misturar acontecimentos de minha vida com os de seu irmão, que era fisicamente um pouco parecido comigo.

A repetição da evocação das diversas misturas de memórias, somada à extinção parcial da maioria delas, pode nos levar à elaboração de memórias falsas.

Memórias acima de memórias

Nosso cérebro possui milhões de memórias e fragmentos de memórias. É sobre essa base que formamos ou evocamos outras. O conjunto de nossas memórias é semelhante àquelas cidades europeias ou asiáticas muito velhas, em que sucessivas construções ao longo de muitos séculos, muitas vezes umas acima das outras, lhes dão um caráter e uma aparência própria. Ninguém que visite Roma poderá confundi-la com Atenas ou Londres, embora a arquitetura primitiva possa ter sido muito semelhante.

Assim somos, também, como indivíduos, os humanos e os demais animais.

É bom lembrar que a base sobre a qual formamos e evocamos memórias constantemente está constituída por “memórias e fragmentos de memórias”, mas principalmente por estes últimos. Temos mais memórias extintas ou quase-extintas no nosso cérebro do que memórias inteiras e exatas. Como vimos no capítulo anterior, é fácil demonstrá-lo: basta pedir a qualquer um que relate tudo o que aconteceu no ano passado ou no dia de ontem. Podemos fazê-lo em poucos minutos. [42]

A imensa maioria das coisas que aprendemos ao longo de todos os dias de nossa vida se extingue ou se perde. Talvez a mais importante forma de esquecimento seja a extinção: a maioria das memórias que fomos juntando se perde por falta de reforço. Mas a perda simples, por lesão ou por falta de uso neuronal, desempenha também um papel essencial nesse processo. Lembremos aqui algo que poucos sabem: os seres humanos começam a perder neurônios na época em que aprendem a caminhar, entre os 9 e os 14 meses. A perda é maior no segundo ano de vida e depois se desacelera. A desaparição de neurônios pode se acelerar por doenças degenerativas (alcoolismo, Alzheimer, Parkinson) e causar problemas circunscritos às áreas mais afetadas em cada uma dessas doenças (Figura 2.4). Na maioria das pessoas, a morte neuronal gradativa faz com que, a  partir de determinada idade (90 ou 100 anos) as células necessárias para cada [43] função cerebral atinjam um limiar mínimo abaixo do qual essas funções ficam impossibilitadas. Isso acontece também com a memória. A perda de neurônios e a disfunção cerebral que delas resulta ocorre com velocidade variável em cada indivíduo: há pessoas de 100 anos que se encontram perfeitamente lúcidas, e outras de 80 que não.

O uso contínuo da memória desacelera ou reduz o déficit funcional da memória que ocorre com a idade. As funções cerebrais são o exemplo característico de que “a função faz o órgão”. No referente à memória, quanto mais se usa, menos se perde. Perde antes a memória um indivíduo que dedica a maior parte de seu tempo a dormir ou a não fazer nada do que outro que se preocupa sempre em aprender, em manter sua mente ativa. Como veremos mais adiante, até a perda da memória da doença de Alzheimer, que costuma ser gravíssima, é menor nos indivíduos com educação superior, que adquiriram presumivelmente muitas memórias ao longo da vida. A perda de memórias pela falta de uso relaciona-se a uma propriedade neuronal conhecida há pelo menos meio século: a perda de função, seguida da atrofia das sinapses pela falta de uso. Essa propriedade foi estudada inicialmente na sinapse entre o nervo frênico e o diafragma; a estimulação repetida do nervo mantém a sinapse funcional; a secção do nervo atrofia a sinapse.

Sobre como usar a memória para mantê-la, principalmente praticando o hábito da leitura, ver Capítulo 9.

 

Psicologia, Neuropsicologia Memória
{+} Textos
LINHA EVOLUTIVA HUMANA - HOMINÍDEOS
Homem do Quênia
Kenianthropus platyops
Gênero:
Kenianthropus
Habitat:
Lago Turkana, Quênia, África
Viveu há:
3,5 a 3,3 Milhões de Anos
{+} Hominídeos
personalidades
Friedrich Engels
Engels
Nascimento: 1820 - Barmen, Renânia
Morte: 1895 - Londres, Inglaterra | Século XIX d.e.c.
Filósofo, Teórico, Escritor
35px
{+} Personalidades
Fato histÓRICO
1800
a.e.c.
Idade Antiga
Antiguidade Americana
  Século XIX 
O desenvolvimento da metalurgia no Perú

Na América do Sul, a metalurgia é um processo complexo que aparece na região andina (colômbia, Equador e norte do Peru), por volta de 1800 a.e.c. Uma vez que o ferro era desconhecido, é especialmente o ouro e o cobre que são explorados. Os sítios de Waywaka Andalahuaylas, nos Andes centrais (Apurimac), forneceram assim folhas de ouro e de cobre, marteladas e gravadas, datadas de 1500 a.e.c. Nos andes meridionais, restos de cobre foram recolhidos nos sítios de Wankarai e Chiripa, nos altos platôs bolivianos. E, no norte da Argentna (Condorwasi, Cienaga e La Aguada) e do Chile (Atacama), a utilização de ligas de cobre e prata e de bronze com arsênico e estanho é atestada a partir do 1º Milênio a.e.c.

O metal era fundido em pequenos fornos ventilados com a ajuda de tubos direcionados para o forno e nos quais era suficiente soprar para reativar o fogo. Martelado quente, permitia obter folhas que era recortadas em seguida, rebatidas e soldadas para confeccionar ornamentos (alfinetes, broches, braceletes, colares, ornamentos de nariz...) de ouro ou de cobre dourado, destinados aos dignitários locais e, mais raramente, utensílios (tesouras, facas, louça).

De 200 a 500, com o desenvolvimento das culturas Vicus, Moche, e Recuay, todas as técnicas de ourivesaria foram empregadas, como a fundição em cera perdida, a coloração, a filigrama e a utilização de uma liga de ouro e de cobre (chamada tumbago) na Colômbia, ou de ouro e prata (ou e ouro e platina) no Equador.

História - Idade Antiga - Antiguidade Americana - América do Sul - civilização Moche - Vicus - Recuay
{+} Fato históricos
Batalhas
Guerras Bíblicas
Vitória sobre Sísera
1240 a.e.c. Século XIII -
Juíza Débora
Civilização Hebráica
   
General Sísera
Civilização Fenícia - (cananeus)
{+} Batalhas
astros celestes
Planeta
Saturno
Sistema:
Sistema Solar
{+} Corpos celetes
TEMAS DA FILOSOFIA
Período Pós-Socrático - Liceu Aristotélico (Ética)
Aristóteles
A ética aristotélica
Por Giovanni Reale

1. Relações entre ética e política

Na sistematização aristotélica do saber, depois das ciências teoréticas, em segundo lugar aparecem, as ciências práticas. Estas são hierarquicamente inferiores às primeiras, enquanto nelas o saber não é mais fim para si mesmo em sentido absoluto, mas subordinado e, em certo sentido, servo da atividade prática. Estas ciências práticas, de fato, dizem respeito à conduta dos homens, bem como ao fim que através dessa conduta eles querem alcançar, seja enquanto indivíduos, seja enquanto fazendo parte de uma sociedade, sobretudo da sociedade política. Aristoteles chama, em geral, “política”[1] (mas também “filosofia das coisas humanas[2]) a ciência complexiva da atividade moral dos homens, quer como indivíduos, quer como cidadãos. Em seguida subdivide a “política” (ou “filosofia das coisas humanas”), respectivamente, em ética e em política propriamente dita (teoria do Estado).

Nessa subordinação da ética à política, incidiu clara e determinantemente a doutrina platônica, a qual, como sabemos, dava forma paradigmática à concepção tipicamente helênica, que entendia o homem unicamente como cidadão e punha a Cidade completamente acima da família e do homem individual: o indivíduo existia em função da Cidade e não a Cidade em função do indivíduo. Diz expressamente Aristóteles:

“Se, de fato, idêntico é o bera para o indivíduo e para a cidade, parece mais importante e mais perfeito escolher e defender o bem da cidade; é certo que o bem é desejável mesmo quando diz respeito só a uma pessoa, porém é mais belo e mais divino quando se refere a um povo e às cidades”[3].

Portanto, à política compete a função arquitetônica, ou seja, de comando: a ela compete determinar “que ciências são necessárias na cidade, quais devem aprender cada um e até que ponto”[4]. É verdade, porém, que, como algum estudioso observou, à medida que Aristóteles procede na sua Ética, a relação entre indivíduo e Estado corre o risco de inverter-se, “e no final da obra fala como se o Estado tivesse uma simples função subsidiária com relação à vida moral do indivíduo, fornecendo o elemento de compulsão para tornar os desejos dos homens submissos à razão”[5]. Todavia este fato, que em si mesmo é importantíssimo, não é levado por Aristóteles ao nível de consciência crítica, e tampouco são tiradas por ele as conseqüências que, no limite, teriam rompido a concepção geral da “filosofia das coisas humanas”. Os condicionamentos histórico-culturais tiveram mais peso do que as conclusões especulativas e a pólis permaneceu, para o Estagirita, fundamentalmente, o horizonte que encerrava os valores do homem.

2. O bem supremo do homem: a felicidade


Nas suas várias ações, o homem tende sempre a precisos fins, que se configuram como bens. Assim começa a Ética Nicomaquéia:

“Toda arte e toda pesquisa e, do mesmo modo, toda ação e todo projeto parecem visar a algum bem: por isso, com razão, o bem foi definido como aquilo a que tendem todas as coisas[6]”.

Ora, há fins e bens que nós queremos em vista de ulteriores fins e bens e que, portanto, são fins e bens relativos; mas, sendo impensável um processo que leve de fim em fim e de bem em bem ao infinito (tal processo destruiria até mesmo os próprios conceitos de bem e de fim, os quais implicam estruturalmente um termo), devemos pensar que todos os fins e os bens aos quais tende o homem estão em função de um fim último e de um bem supremo. Precisa o Estagirita:

“Se há um fim das nossas ações que queremos por ele mesmo, enquanto os outros os queremos só em vista daquele, e não desejamos nada em vista de outra coisa particular (assim, de fato, iríamos ao infinito, de modo que a nossa tendência seria vazia e inútil), é claro que esse deve ser o bem e o bem supremo”[7].

Qual é esse bem supremo? Aristóteles não tem dúvidas: todos os homens, sem distinção, consideram que tal bem é a eudaimonia, ou seja, a felicidade:

Quanto ao seu nome, a maioria está praticamente de acordo: felicidade o chamam, tanto o vulgo como as pessoas cultas, supondo que ser feliz consiste em viver bem e em ter sucesso“[8].

Portanto, a felicidade é o fim ao qual conscientemente tendem todos os homens. Mas que é a felicidade?

Vejamos mais de perto este ponto, que é essencial.

A multidão dos homens considera que a felicidade consiste no prazer e no gozo. Mas uma vida dedicada aos prazeres torna “semelhante aos escravos” e é uma “existência digna dos animais”[9].

As Pessoas mais evoluídas e mais cultas põem o bem supremo e a felicidade na honra. E a honra buscam, sobretudo, aqueles que se dedicam ativamente à vida política. Contudo, este não pode ser o fim ultimo que buscamos, porque, nota Aristóteles, é algo exterior.

Ele, de fato, parece depender mais de quem confere a honra do que de quem é honrado: nós, ao invés, consideramos que o bem é algo individualmente inalienável[10].

Ademais, os homens buscam a honra não por ela mesma, mas como prova e reconhecimento público da sua bondade e virtude, as quais, portanto, demonstram ser mais importantes que a honra.

Se o tipo de vida dedicado ao prazer e o dedicado à busca das honras embora inadequados pelas razões vistas, têm uma aparente plausibilidade, o mesmo não se pode dizer do tipo de vida dedicado a acumular riquezas, o qual, a juízo do nosso filósofo, não tem nem sequer essa aparente plausibilidade:

A vida [...] dedicada ao comércio é contra a natureza, e é evidente que a riqueza não é o bem que buscamos; com efeito, ela só existe em vista do lucro e é um meio para outra coisa".

De fato, prazeres e honras são buscados por eles mesmos; as riquezas não: a vida dedicada a acumular riquezas é a mais absurda e a mais inautêntica, porque é gasta para buscar coisas que, no máximo, valem como meios e não como fins.

Mas o bem supremo do homem não pode ser nem mesmo o que Platão e os platônicos indicaram como tal, vale dizer, a Idéia do Bem, ou seja, o transcendente Bem-em-si:

Se, de fato, o bem fosse uno e predicável em geral, e subsistisse separado [como, justamente, é a idéia do Bem], é evidente que não seria realizável nem adquirível pelo homem; mas é justamente isso que nós buscamos[11].

Não se trata de um Bem transcendente, mas de um Bem imanente, não de um bem definitivamente realizado, mas de um bem realizável e atuável pelo homem e para o homem. (O bem, para Aristóteles, não é uma realidade única e unívoca, mas, como vimos a propósito do conceito de ser, é algo polívoco, diferente nas diversas categorias e diferente também nas diversas realidades que entram em cada uma das categorias, mas sempre ligado por uma relação de analogia).

Mas qual é o bem supremo realizável pelo homem?

A resposta de Aristóteles está em perfeita harmonia com a concepção tipicamente helénica da areté, e sem a qual seria vão esperar compreender toda a construção ética do nosso filósofo.

O bem do homem só poderá consistir na obra que lhe é peculiar, isto é, na obra que ele e só ele pode realizar, assim como, em geral, o bem de cada coisa consiste na obra que é peculiar a cada coisa. A obra do olho é ver, a obra do ouvido é ouvir, e assim por diante. E a obra do homem? a) Esta não pode ser o simples viver, dado que o viver é próprio de todos os seres vegetativos. b) E não pode ser também o sentir, dado que este é comum também aos animais, c) Resta, pois, que a obra peculiar do homem seja a razão e a atividade da alma segundo a razão. O verdadeiro bem do homem consiste nessa obra ou atividade de razão, e, mais precisamente, no perfeito desenvolvimento e atuação dessa atividade. Esta é, pois, a virtude do homem e aqui deve ser buscada a felicidade. Leiamos toda a página da Ética Nicomaquéia que desenvolve esses conceitos, porque é uma das mais esclarecedoras, não só da mentalidade aristotélica, mas também de todo o pensamento moral da grecidade:

“Se dizer que a felicidade é o sumo bem parece algo sobre o qual se está de acordo, todavia sente-se a necessidade de dizer ainda algo mais preciso sobre a sua natureza. Poderemos fazer isso sem dificuldade, se examinarmos a obra (êpyov) do homem. Como, de fato, para o flautista, o escultor, qualquer artesão e, em suma, qualquer um que tenha um trabalho e uma atividade, parece que o bem e a perfeição residam na sua obra, assim poderia parecer também para o homem, se existe alguma obra que lhe seja própria. Será que para o arquiteto e para o sapateiro existem obras e atividades próprias, enquanto não existe nenhuma obra própria do homem, e que este nasceu inativo? Ou antes, com o parece haver uma obra própria do olho, da mão, dos pés e, em suma, de cada membro, deve-se admitir, além dessas, uma obra própria do homem? E qual seria essa obra? Não o viver, pois este é comum também às plantas, uma vez que se busca algo que lhe seja próprio. É preciso, pois, excluir a nutrição e o crescimento. Seguiria a sensação, mas também esta mostra-se comum ao cavalo, ao boi e a todo animal. Resta, pois, uma vida ativa própria de um ser racional. E dessa distingue-se ainda uma parte obediente à razão, uma outra que a possui e raciocina. Podendo-se, pois, considerar também esta de duas maneiras, é preciso considerar a que tem uma real atividade: esta, de fato, parece ser superior. Se própria do homem é, pois, a atividade da alma segundo a razão, ou não sem razão, e se dissemos que esta é a obra do seu gênero e, em particular, do virtuoso, assim como há uma obra do citaredo e, em particular, do citaredo virtuoso e, em suma, como sempre se verifica, quando consideramos a virtude que se acrescenta à ação (do citaredo é próprio tocar a cítara, do citaredo virtuoso o tocá-la bem): se é assim, nós supomos que do homem seja próprio determinado gênero de vida, e que esta seja constituída pela atividade da alma e das ações racionais, enquanto do homem virtuoso seja próprio isto, porém, realizado segundo o bem e o belo, de modo que cada um dos seus atos se cumpra bem segundo a própria virtude. Se, pois, é assim, então o bem próprio do homem é a atividade da alma segundo a virtude, e se múltiplas são as virtudes, segundo a melhor e a mais perfeita. E isso vale também para uma vida realizada. Com efeito, uma única andorinha ou um único dia não fazem verão; assim também um único dia ou um breve tempo não proporcionam a, beatitude ou a felicidade[12]”.

A bela página que lemos mostra de maneira exemplar, além do que observamos acima, a substancial adesão de Aristóteles à doutrina socrático-platônica que punha a essência do homem na alma e, precisamente, na parte racional da alma, no espírito. Somos a nossa razão e o nosso espírito. O homem bom, diz expressamente Aristóteles, [...] age pela parte racional de si mesmo, que parece constituir cada um de nós[13].

E ainda:

É, pois, claro que cada um é, acima de tudo, intelecto e que a pessoa moralmente conveniente ama sobretudo isso[14].

E, enfim:

E se esta [a alma racional e, em particular, a parte mais elevada dela, isto é, o intelecto] é a parte dominante e melhor, parece que cada um de nós consiste exatamente nela[15].

É dado que este é o próprio fundamento da ética socrático-platônica, não é de admirar que Aristóteles, aceitando o fundamento, acabe por concordar com Sócrates e com Platão, muito mais do que se crê comumente. Os autênticos valores, também para o Estagirita (como acima já pusemos implicitamente em relevo), não poderão ser nem os exteriores (como as riquezas), que tocam apenas tangencialmente o homem, nem os corporais (como os prazeres), que não dizem respeito ao eu verdadeiro do homem, mas só os da alma, já que na alma consiste o verdadeiro homem. Diz explicitamente o Estagirita:

Tendo, pois, repartido os bens em três grupos: os assim chamados exteriores, os da alma e os do corpo, dizemos que os relativos à alma são os principais e mais perfeitos[16].

Em conclusão, pode-se dizer que os verdadeiros bens do homem são os bens espirituais, que consistem na virtude da sua alma, e é neles que está a felicidade. Quando falamos de virtude humana, não entendemos de modo algum a virtude do corpo — precisa de modo inequívoco Aristóteles, mas a virtude da alma; e dizemos que a felicidade consiste em uma atividade própria da alma.

A socrática cura da alma” permanece, pois, também para Aristóteles, a única via que conduz à felicidade. Todavia, à diferença de Sócrates e, sobretudo, de Platão, Aristóteles considera indispensável ser suficientemente dotado também de bens exteriores e de meios de fortuna. De fato, se estes, com a sua presença, não podem dar a felicidade, todavia podem arruiná-la ou comprometê-la (pelo menos em parte) com a sua ausência. E a esta parcial reavaliação dos bens exteriores associa-se também certa reavaliação do prazer, que, para Aristóteles, coroa a vida virtuosa, e é a necessária conseqüência da qual a virtude é o antecedente, como veremos.

Mas estas afirmações são ditadas mais pelo bom senso (e pelo bom senso à maneira grega) que pelo realismo aristotélico, cuja natureza conhecemos bem. De fato, ele não hesita em fazer afirmações como estas:

“Parece, todavia, que a felicidade precisa também dos bens exteriores, na medida em que é impossível, ou não é fácil, realizar as belas ações sem meios de ajuda. Com efeito, muitas coisas são realizadas através de meios de execução, através dos amigos, da riqueza e do poder político. E se somos privados de alguns desses meios, a felicidade se nos arruina, como quando carecemos de uma boa estirpe, de uma boa prole, da beleza física. De fato, não pode ser de todo feliz quem é totalmente feio de forma, ou de obscura estirpe, ou sozinho na vida e sem filhos; e menos ainda, talvez, se tem filhos e amigos celerados, ou se os tem bons e os vê morrer. Por isso, como dissemos parece que a felicidade exige também tal bem-estar exterior”[17].

Aristóteles esta convencido de que também as desventuras comprometem a felicidade, não as desventuras comuns, mas as grandes desventuras, ou seja, aquelas das quais não podemos nos refazer em pouco tempo. Por isso, diz ele, ninguém poderá ser verdadeiramente feliz se tiver a sorte de Príamo[18]. Mas, se é assim, nem mesmo Sócrates poderia ser considerado feliz, nem mesmo aquele Sócrates que viveu toda a sua vida buscando e atuando na virtude. Evidentemente, a experiência da vida e, sobretudo, da morte feliz de Sócrates, que bebeu a cicuta com plena serenidade de espírito, consciente de ter atuado plenamente o seu destino, não é considerada por Aristóteles. Com efeito, ela contrasta com as asserções que lemos. De resto, o que o próprio Aristóteles dirá sobre a vida contemplativa redimensiona radicalmente estas concepções do senso comum[19].

3. Dedução das “virtudes” a partir das “partes da alma”

A felicidade consiste em uma atividade da alma segundo a virtude. É claro que qualquer ulterior aprofundamento no conceito de “virtude” depende de um aprofundamento no conceito de alma. Ora, vimos que a alma se divide, segundo Aristóteles, em três partes, duas irracionais, isto é, a alma vegetativa e a alma sensitiva, e uma racional, a alma intelectiva. É dado que cada uma dessas partes tem a sua atividade peculiar, cada uma tem uma peculiar virtude ou excelência. Todavia, a virtude humana só é aquela na qual entra a atividade da razão. De fato, a alma vegetativa é comum a todos os viventes:

A virtude de tal faculdade mostra-se, pois, como coisa comum a todos os seres e não especificamente humana[20].

Diferente é a questão no que concerne à alma sensitiva e concupiscível, a qual, embora sendo por si irracional, participa de certo modo da razão:

Entretanto, é preciso supor que também na alma há algo contra a razão, que se opõe e resiste a ela. Não importa de que modo se dá essa oposição. Também este elemento parece participar da razão [...]: dado que ele obedece à razão, quando pertence a um homem continente. E se pertence a um homem moderado e corajoso, ele é, talvez, ainda mais dócil; tudo nele está, de fato, em harmonia com a razão. Portanto, a parte irracional mostra-se de duas espécies: uma, vegetativa, não participa em nada da razão; a outra, ao invés, concupiscível e, em geral, apetitiva, participa dela de certo modo, enquanto é obediente e dócil à razão[21].

Fica claro que existe uma virtude dessa parte da alma especificamente humana, que consiste em dominar, por assim dizer, essas tendências e impulsos que são por si desmedidos, e a esta o Estagirita chama de “virtude ética”.

Enfim, dado que existe em nós uma alma puramente racional, então deverá haver também uma virtude peculiar dessa parte da alma, e esta será a virtude dianoética”, ou seja, a virtude racional.

4. As virtudes éticas

Comecemos pelo exame da virtude ética, mais exatamente, das virtudes éticas, dado que são numerosas, bem como numerosos são os impulsos e os sentimentos que a razão deve moderar. As virtudes éticas derivam em nós do hábito: pela natureza, somos potencialmente capazes de formá-los e, mediante o exercício, traduzimos essa potencialidade em atualidade. Realizando atos justos, tornamo-nos justos, adquirimos a virtude da justiça, que, depois, permanece em nós de maneira estável como um habitus, o qual, em seguida, nos fará realizar mais facilmente ulteriores atos de justiça. Realizando atos de coragem, tornamo-nos corajosos, isto é, adquirimos o habitus da coragem, que em seguida nos levará a realizar facilmente atos corajosos. E assim por diante. Em suma, para Aristóteles, as virtudes éticas são aprendidas à semelhança do aprendizado das diferentes artes, que também são hábitos:

Como, por exemplo, construindo casas tornamo-nos arquitetos, e tocando a cítara tomamo-nos citaredos, assim realizando coisas justas tornamo-nos justos, realizando coisas moderadas tornamo-nos moderados, fazendo coisas corajosas, corajosos[22].

Esse raciocínio, porquanto esclarecedor, não leva ainda ao centro da questão: diz-nos como adquirimos e como possuímos essas virtudes, mas não nos diz em que consistem as virtudes. Qual é a natureza comum a todas as virtudes éticas? O Estagirita responde com exatidão: nunca há virtude quando há excesso ou falta, ou seja, quando há demais ou de menos; virtude implica, ao invés, a justa proporção, que é a via de meio entre dois excessos. Eis as palavras do nosso filósofo:

“Em qualquer coisa, seja ela homogênea ou divisível, é possível distinguir o mais, o menos e o igual, e isto ou em relação à própria coisa ou em relação a nós: o igual é uma via de meio entre o excesso e a falta. Eu chamo, pois, posição de meio de uma coisa a que dista igualmente de cada um dos extremos, e esta é uma só e idêntica em todas as coisas; e chamo posição de meio com relação a nós o que não excede nem carece; esta, porém, não é única, nem igual para todos. Por exemplo, pondo o dez como quantidade excessiva e o dois como quantidade defectiva, o seis é considerado o meio com relação à coisa: este é, de fato, o meio segundo a proporção numérica. A posição de meio com relação a nós não é interpretada assim: com efeito, se comer dez minas é muito e comer duas é pouco para alguém, não por isso o mestre de ginástica mandará comer seis minas; de fato, para quem receber tal porção, ela pode ser muito ou mesmo pouco: para Milo [que era um atleta excepcional], de fato, é pouco, para um principiante de ginástica é muito. O mesmo deve-se dizer da corrida e da luta. Assim, pois, cada pessoa que tem ciência evita o excesso e a falta, enquanto busca o meio e prefere-o, e esse meio é estabelecido não em relação à coisa, mas em relação a nós[23]”.

Mas — perguntar-se-á — a que se referem “excesso”, “falta” e “justo meio” do qual se fala a propósito das virtudes éticas? Referem-se — esclarece Aristóteles — a sentimentos, paixões e ações.

Com relação ao temor, ao ardor, ao desejo, à ira, à piedade e, em geral, ao gozo e à dor há um excesso e uma falta, e ambos não são bons; mas se experimentamos aquelas paixões quando se deve, no que se deve, contra quem se deve, com a finalidade e do modo como se deve, então estaremos no meio e na excelência, que são próprios da virtude; e do mesmo modo, também para as ações há um excesso, uma falta e um meio. A virtude, portanto, refere-se às paixões e às ações, nas quais encontra-se o erro do excesso e a desaprovação da falta, enquanto o meio é louvado e tem sucesso: e essas duas coisas são próprias da virtude. Portanto, a virtude é uma certa mediania, que tem por escopo o justo meio[24].

Em conclusão: a virtude ética é, precisamente, mediania entre dois vícios, dos quais um é por falta, o outro por excesso. É óbvio, para quem compreendeu bem essa doutrina de Aristóteles, que a mediania não só não é mediocridade, mas a sua antítese: o “justo meio, de fato, está nitidamente acima dos extremos, representando, por assim dizer, a sua superação e, portanto, como bem diz Aristóteles’ um “cume”, isto é, o ponto mais elevado do ponto de vista do valor’ enquanto assinala a afirmação da razão sobre o irracional: Por isso, segundo a sua essência e segundo a razão que estabelece a sua natureza, a virtude é uma mediania, mas com relação ao bem e à perfeição ela é o ponto mais elevado[25].

Há aqui como que uma síntese de toda a sabedoria grega que encontrou expressão típica nos poetas e nos sete sábios, a qual, amiúde, indicara na via média, no nada em excesso, na justa medida, a suprema regra do agir moral: regra que é como uma cifra paradigmática do modo de sentir helênico. E há, também, a afirmação da lição pitagórica que indicava no limite (o péras) a perfeição e, mais ainda, há um preciso aproveitamento do conceito de “justa medida”, que tanta importância teve sobretudo no último Platão.

Essa doutrina da virtude ética como “justo meio” entre os extremos é ilustrada por uma ampla análise das principais virtudes éticas (ou, melhor, daquelas que a grecidade considerava tais), naturalmente deduzidas, não segundo um preciso fio condutor, mas empiricamente e quase rapsodicamente elencadas. A virtude da coragem é o “justo meio” entre os excessos da temeridade e da covardia; a coragem é, pois, a justa medida imposta ao sentimento de medo que, privado do controle racional, pode degenerar, por falta, em covardia, por excesso, em descontrolada audácia. A temperança é o “justo meio” entre os excessos da intemperança ou dissolução e a insensibilidade; a temperança é, pois, a justa atitude que a razão nos faz assumir ante determinados prazeres. A liberalidade é o “justo meio” entre a avareza e a prodigalidade; ela é, portanto, a justa atitude que a razão nos faz assumir diante da ação de gastar dinheiro. E assim por diante.

Na Ética Endêmica, Aristóteles fornece o seguinte elenco de virtudes e vícios:

  1. a mansidão é a via média entre a iracúndia e a impassibilidade;
  2. a coragem é a via média entre a temeridade e a covardia;
  3. a verecúndia é a via média entre a impudência e a timidez;
  4. a temperança é a via média entre a intemperança e a insensibilidade;
  5. a indignação é a via média entre a inveja e o excesso oposto que não tem nome;
  6. a justiça é a via média entre o ganho e a
Filosofia, Filosofia Clássica, Liceu Aristotélico, Aristoteles, Ética aristotélica
{+} Textos
GOVERNANTES
Gaius Marius
Caio Mário
Reinado/Governo:
157 - 86 Século I a.e.c.
Sede de governo:
Roma
{+} Governantes
CIDADES
Trácia
Constantinopla
Fundação:
 330  d.e.c.
Civilizações:
Civilização Romana - Império Bizantino - Idade Antiga - Antiguidade Tardia
{+} Cidades
SERES DIVINOS
Deus
Terra
Mortal
Divindade
Amor e fertilidade
{+} Seres Divinos
MAPAS
A China antiga - Maurizio Scarpari
A dinastia Han oriental
A China antiga - Maurizio Scarpari
A dinastia Han ocidental
A China antiga - Maurizio Scarpari
A dinastia Qin
{+} Mapas
Contato, crítica, sugestões
Reclamações de direitos
Seja um colaborador
Antropologia
Cultura e civilização
Evolução Humana
Astronomia
Astrobiologia
Missões espaciais
Sistema Solar
Universo
Via Láctea
Filosofia
Filosofia Clássica
Filósofos
Temas da filosofia
Geologia
Formação dos continentes
Evolução das Espécies
4,6 Bi - Hádico
3,8 Bi - Arcáico
2,5 Bi - Proterozóico
248 Mi - Mesozóico
65 Mi - Cenozóico
História
Pré, proto-hostória - 248 mil
Idade antiga - 4000 a.e.c.
Idade média - 476 d.e.c.
Idade moderna - 1453 d. e.c.
Idade contemp. - 1789 d.e.c.
Era da informação - 1946 d.e.c.
Mitologia
Lendas medievais
Mitologia Africana
Mitologia Asteca
Mitologia Celta
Mitologia Chinesa
Mitologia Egípcia
Mitologia Eslava
Mitologia Finlandesa
Mitologia Grega
Mitologia Indiana
Mitologia japonesa
Mitologia Judaico-cristã
Mitologia Maia
Mitologia Mesopotâmica
Mitologia Nórdica
Mitologia Norte-Americana
Mitologia Persa
Mitologia Romana
Psicologia
História da Psicologia
Neuropsicologia
Psicanálise
Psicologia Evolucionista
The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 17
A Grande História - Final
Áudio
1h27m39s

Essa é a historia épica do nosso mundo, mas não é a que estamos acostumados. É a história de como quase não nascemos. Voltamos no tempo 4,5 bilhões de anos até nosso sistema solar ainda se formando em torno do Sol. Esse planeta é a Terra primitiva, está sob uma distância crítica do Sol. É nesta zona que a agua liquida pode existir.

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 16
H2O
Áudio
21m23s

A Terra vista do espaço é um marmore azul envolta em uma pele que muda de forma e que mantém o planeta em seu lugar, uma estrutura invisivel com o poder de mover a humanidade.

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 15
O Sol
Áudio
21m22s

O estranho circulo de Stonehenge, uma pirâmide maia imponente, os obeliscos do antigo Egito, monumentos de pedra macica que escondem um antigo código misteriosos ligados pela Grande História do Sol.

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 14
Prata
Áudio
21m23s

Imagens ocultas marcam a moeda mais famosa do mundo, mas o dólar tem outros mistérios, ligações ocultas que conectam paises nos quatro continentes, seus dolares e um símbulo que representa riqueza em todo mundo. É um segredo nascido há bilhões de anos e revelado em A Grande História.

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 13
Decodificado
Parte...
Áudio
21m24s

O mundo está em guerra e os nazistas governam os mares com uma das maiores potências da humanidade, um codigo secreto que pode vencer guerras mas que pode também revelar os segredos, do Universo. Uma cifra revelada pela Grande História

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 12
Meteoros Mortais
Áudio
21m23s

A batalha de dois navios de guerras estrangeiros em uma cratera inundada de água causada por um meteoro. Isso não é ficção científica é o começo de um novo tipo de guerra aqui na Terra, com uma arma secreta escondida na Grande História.

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 11
Máquina do tempo portátil
Parte...
Áudio
21m24s

Você tem a história do universo na palma de sua mão. Toda vez que faz uma chamada pelo celular se conecta ao Big bang, aos primeiros humanos e até ao naufrágio do Titanic. Eventos conectados e revelados pela Grande História.

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 10
Desafiando a gravidade
Áudio
21m22s

Desenhos que ninguém podia ver, planos escritos em códigos, pistas da obseção oculta de Leonardo daVinci: Voar. Serão necessários centenas de anos para decodificar os segredos do vôo. Segredos decodificados pela Grande História

[+] Vídeos

Templodeapolo.net desde 2007 - Todos os textos publicados e seus respectivos direitos são de resposabilidade de seus autores e editoras - Textos que não incluam a autoria não são propriedade do editor deste sítio. Para receber as referências nestes casos, clique no link respectivo e solicite autoria e referências. - O Templodeapolo.net não possui nenhuma finalidade comercial. Não há propaganda e esperamos continuar assim. A proposta do sítio é puramente acadêmica, consistindo na publicação de textos com temas variados, classificados e organizados contextualmente para facilitar as pesquisas e navegação. - Caso você seja autor de algum material publicado sem sua devida autorização, por favor entre em contato para remoção imediata. - O editor é formado em Administração de empresas pela Universo/RJ. Fez cursos de extesão de História e Antiguidade Clássica/Oriental. Atualmente (2017) é graduando em Psicologia/Licenciatura pela PUC Goiás. - Templodeapolo.net ® Todos os direitos reservados aos seus respectivos proprietários.