Templodeapolo.net
No dia 26 de março de 1762, o grande mistério da longitude na navegação foi resolvido
O ser humano é mortal por seus temores e imortal por seus desejos...
Pitágoras
Todas as citações
{+} de Pitágoras
NOTÍCIAS
23/03/2017 13:45:49
Sputnik | História em quadrinhos de 5 mil anos atrás é encontrada no Irã
12/03/2017 12:09:40
BBC Brasil | Cientistas da Nasa defendem plano para tornar Marte habitável
04/03/2017 09:37:26
Sputnik | Civilizações antigas da América do Sul determinaram o tipo de vegetação na Amazônia
24/02/2017 14:10:06
Sputnik | Revolução de Fevereiro foi profundamente progressista, não teve igual
24/02/2017 09:29:47
Sputnik | Fevereiro de 1917 – 100 anos: A experiência soviética balizou o séc. 20
[+] notícias
Publicado por:
Odsson Ferreira | 25 fev , 2017
Surgimento do pensamento científico: a Grécia e a invenção da ciência
25 fev , 2017
Carlos Augusto de Proença Rosa
História
Civilização Grega

Na História da Ciência, um dos Períodos mais importantes e mais complexos foi o da Grécia Antiga, principalmente a partir do século VI antes da era comum, pois foi quando se iniciou e se desenvolveu, pela primeira vez, o espírito científico, marco fundamental na evolução do pensamento humano, e quando ocorreria, em consequência, o advento da Ciência abstrata. Esse novo espírito viria a ser o grande divisor entre a civilização grega e as demais civilizações daquele Período Histórico, os quais trilhariam caminhos distintos na busca de resposta às inquietações do Homem quanto a seu Destino e quanto à Natureza e seus fenômenos.

Assim, no Oriente surgiriam, por volta dos séculos VI e V, os fundadores de grandes Religiões, como Lao Tse (Taoismo) na China, Zoroastro na Pérsia e Buda e Mahavira (Janaísmo) na Índia; apareceriam, igualmente, reformadores sociais e políticos, como Confúcio, e se fortaleceriam, nessa mesma época, na Mesopotâmia, no Egito, na Pérsia e na Judeia as castas sacerdotais. No mundo helênico, nesse Período, no entanto, nasceria a Filosofia (pré-socráticos) que, à parte de todas as especulações, muitas vezes ditadas pela pura imaginação, sem apoio na observação e na experimentação, levaria ao desenvolvimento do espírito científico, e, por via de consequência, ao advento da Ciência. Enquanto nas culturas orientais se desenvolvia um espírito contemplativo e conservador, a Grécia seria capaz de criar, por seus  filósofos, um espírito especulativo e crítico. No Oriente, o grande interesse seria desvendar os mistérios da vida após a morte e obter a conquista do Nirvana ou da vida eterna; na [99]Grécia, o importante seria entender os fenômenos naturais, buscando uma explicação lógica e racional.

Aos gregos coube a glória de terem sido os primeiros a romper as algemas do conservadorismo e a libertar a Razão, capacitando-a a realizar sua obra. Ademais do brilhantismo nos diversos campos da Educação, das Artes, do Direito, da Política e da Filosofia, os gregos foram, assim, os criadores da Ciência e os iniciadores do espírito científico. Trata-se de uma obra que não pode ser atribuída a um indivíduo de gênio, ou mesmo a uma geração privilegiada, mas cujo desenvolvimento e aperfeiçoamento seriam frutos de longo e complexo processo, como atesta sua evolução desde seu começo.

Conquistada pela força das legiões de Roma, a cultura grega viria a predominar sobre os domínios do extenso Império, embora a civilização romana continuasse a manter suas características próprias, resultantes de um povo aguerrido e prático. Para efeitos da História da Ciência, o exame das realizações romanas no campo da Filosofia Natural deve ser incluído no contexto mais amplo da civilização helênica, sob a denominação genérica de civilização greco-romana, mas em separado, de forma a acentuar seu caráter técnico.

2.1 A Civilização Grega e o Advento do Pensamento Científico e da Ciência

2.1.1 Considerações Gerais

Sob a denominação genérica de Filosofia Natural, os gregos antigos criariam uma Ciência com o objetivo de estudar e compreender a Natureza. Essa busca por uma compreensão do Mundo físico abrangia um vasto campo, que englobava a Matemática, as Ciências Naturais e as Ciências Físicas (inclusive a Astronomia e a Meteorologia); ou seja, ao tempo dos filósofos pré-socráticos, os campos científicos e  filósofos se confundiam e se inter-relacionavam, ao ponto que os  filósofos tanto se dedicavam a especulações  filosóficas e metafísicas sobre a origem e a constituição do Universo quanto aos números (Aritmética), áreas (Geometria) e elementos (Física e Química). Aristóteles, com seu Organon, seria o grande pensador grego, cuja imensa influência seria decisiva na evolução do pensamento científico ao criar a Lógica Formal. Com o passar dos tempos, as disciplinas científicas foram adquirindo complexidade e extensão, o que as separaria, gradualmente, do campo  filosófico, reduzindo, assim, o papel da [100] especulação, em benefício do trabalho baseado na experimentação e na verificação. O estudo, a análise e a experimentação nas várias áreas dessas disciplinas passariam a especialistas, aos homens de Ciência. Os cientistas Eratóstenes, Herófilo, Erasístrato, Hiparco, Euclides, Arquimedes e Apolônio, do Período Helenístico, são as expressões maiores dessa evolução, no período áureo das Ciências na civilização grega.

O espírito científico, essencial para o surgimento das diversas Ciências, originou-se na Grécia, sem querer, contudo, significar que todas as Ciências se formariam durante a evolução da civilização helênica. A História das Ciências comprova o entendimento atual de que as Ciências menos complexas, não experimentais e de interesse imediato da Sociedade seriam as que primeiro se constituiriam e se desenvolveriam. Desta forma, a Matemática e a Astronomia foram criadas pelos gregos, ainda que a especulação  filosófica não estivesse abandonada. O desenvolvimento dessas duas Ciências levou ao nascimento de partes da Física, como a Mecânica (Estática e Dinâmica), a Óptica e a Acústica, mas, compreensivelmente, outros ramos da Física, como o Eletromagnetismo e a Termodinâmica, só surgiriam muitos séculos depois, quando criadas as condições para tanto. Somente após avanços significativos dessas três Ciências, refinamento do espírito e dos métodos científicos e acumulação de conhecimentos e técnicas (particularmente da metalurgia) é que a Química ingressaria, no século XVII, na era científica, pois o que havia até então era uma Química prática, sem base teórica; no entanto, deve ser apreciada a contribuição da Alquimia, cuja real contribuição à Química científica seria a introdução de uma série de instrumentos e material de laboratório para os experimentos e pesquisas. A História Natural, englobando os estudos de definição e classificação da flora, da fauna e dos minerais, se estruturaria a partir de Aristóteles, mantendo tais características até o Período do Renascimento Científico; o conhecimento da Anatomia e da Fisiologia humanas se iniciaria com a prática de uma Medicina que buscaria, a partir de Hipócrates, as causas naturais das enfermidades. As Ciências Sociais, criadas e estruturadas há menos de 200 anos, já seriam, também, objeto de consideração de pensadores, como Aristóteles.

O aparecimento do espírito científico não significaria a unidade de pensamento na Sociedade ou mesmo na elite intelectual gregas, nem implicaria ter essa nova mentalidade permeado as diversas camadas sociais. A grande massa popular helênica permaneceria presa, ainda, às tradições mitológicas, tão bem representadas por Homero (Ilíada e Odisseia) e Hesíodo (Teogonia e Os Trabalhos e Os Dias). As autoridades [101] das diversas cidades-Estados assegurariam o caráter oficial da religião mitológica, como atestam as conhecidas perseguições a Anaxágoras e a Sócrates. Conviveriam, assim, na antiga Grécia, uma consciência mitológica arcaica, influenciou influenciada pelas religiões do mistério e do medo, e um ceticismo humanístico, comprometido com a Razão. Erguiam-se templos, santuários, oráculos e monumentos em homenagem aos deuses, criados à semelhança e à imagem do Homem, mas ao mesmo tempo progredia o espírito científico, com uma nova metodologia – observação, análise, crítica, comparação e experimentação – criada para encontrar uma explicação racional e lógica para os fenômenos. Assim,

... embora a religião grega fosse, no mínimo, tão animista quanto as outras religiões antigas, baseando-se em sacrifícios aos deuses e na intervenção divina nos negócios, a Ciência grega representou um feito notável, separando a investigação das leis da Natureza de quaisquer questões religiosas entre o homem e os deuses..[1].

2.1.2 Nascimento do Pensamento Científico

Se bem que prevalecesse em todas as culturas da Antiguidade um espírito teocrático, de tradição neolítica, teria cada povo uma evolução própria, seguindo suas inclinações e sua mentalidade, influenciado por uma série de condicionantes socioculturais e físicas (Geografica, Meio Ambiente, Economia, Educação, História). Nas sociedades de economia rural, de regime teocrático, de mentalidade conservadora, de índole contemplativa e meditativa, o poder político (e tudo daí decorrente) foi exercido, através dos governantes e da Lei, pelas divindades, ou em seu nome exercido, sem ingerência popular. As Leis, de origem divina (Dez Mandamentos) ou cunho religioso (Torá), eram administradas pelo Rei, Faraó ou Imperador e pela casta sacerdotal, característica do regime teocrático. Preceitos morais e normas sociais e de conduta eram impostos por desígnios superiores.

O povo grego – comerciante, navegador, audacioso, competitivo, dinâmico, ambicioso – desenvolveria a noção de que cabia ao Homem a responsabilidade e a tarefa de se organizar, de se governar e de entender a Natureza. Para tanto contribuiu seu espírito aventureiro, que o lançou ao mar em busca de terras desconhecidas, onde, para sobreviver, teria de criar condições favoráveis para o desenvolvimento social das novas colônias ou cidades-Estados (polis). [102]

Na civilização helênica, a política foi obra humana, sem interferência dos deuses homéricos. O governo emanou do povo, e em seu nome foi exercido. As Leis eram de autoria de legisladores (Draco, Sólon), administradas por tribunais e corpos de jurados. Enquanto naquelas sociedades autocráticas e teocráticas a condição de súdito pressupunha uma inferioridade e uma dependência, na Grécia a atuante participação do indivíduo na vida pública refletia sua condição de cidadão, sujeito e objeto de Direito. A praça pública, onde se realizavam debates políticos, teria um papel fundamental no exercício democrático da cidadania. De acordo com declarações atribuídas a Péricles, “nossa Constituição nada tem a invejar dos outros: é modelo e não imita. Chama-se democracia, porque a maioria e não a minoria tem o poder... O progresso na vida pública depende dos méritos e não das classes; nem a pobreza, nem a obscuridade impedem um cidadão capaz de servir à cidade...”.

Aristóteles definiria o Homem como um animal político, na medida em que o exercício da atividade pública era obrigação e honra para o cidadão grego. Sua educação, voltada para a formação do Homem completo, fortaleceria e encorajaria o caráter laico e democrático da cultura grega. Como sintetizou o sofista Protágoras: o Homem é a medida de todas as coisas.

Assim, a tradicional visão do Mundo, oriunda dos tempos neolíticos, seria profunda e radicalmente alterada pelos filósofos gregos, que adotariam uma atitude crítica sobre as explicações e entendimentos de um Mundo governado e dirigido por divindades e entes sobrenaturais. A nova atitude foi, assim, de questionamento, de dúvidas, de indagações e de ceticismo para com as crenças predominantes. Tratava-se, portanto, do desenvolvimento de um espírito crítico, que não se satisfaria com explicações e argumentos sem fundamentação ou base plausível, lógica e racional.

O próprio politeísmo, etapa mais avançada do espírito humano que o fetichismo, seria posto em dúvida, e, até mesmo, rejeitado pela nova mentalidade que se delineava, como em Anaxágoras, Heráclito, Demócrito e Xenófanes. Bertrand Russell seria incisivo:

“Na verdade, um dos traços mais notáveis dos pré-socráticos consistiu na discordância de todos para com as tradições religiosas dominantes”.

Passou-se a defender a utilização do raciocínio e da reflexão para encontrar as respostas lógicas aos fenômenos naturais. As explicações com apelação para o sobrenatural e o misterioso já não satisfaziam as mentes céticas.

A grande inovação revolucionária da civilização helênica foi exatamente essa quase completa independência da Filosofia, e, por conseguinte, da Filosofia Natural, em relação aos dogmas e mitos[2]. Com os primeiros filósofos haveria uma superposição do mítico e do científico, passo fundamental na evolução do pensamento grego, empenhado em descobrir uma explicação natural para o Cosmos por meio da observação e da Razão. A explicação, com o tempo, se desfaria de seus residuais componentes mitológicos para utilizar a análise crítica em relação aos fenômenos naturais. Charles Seignobos reforçaria esse entendimento:

“As crenças dos gregos diferiam pouco das dos outros povos, mas os filósofos trabalharam com espírito independente da religião, pela observação e pelo raciocínio, sem levar em conta as crenças fundadas sobre a tradição”[3].

As divindades antropomórficas dariam lugar a substâncias primárias, entidades puramente materiais – como a água, o ar, a terra e o fogo, movidas mecanicamente pelo acaso ou pela necessidade. Buscar-se-ia compreender a Natureza, e, para tanto, suas leis. Como observou Colin Ronan:

...foram os gregos que não apenas colecionaram e examinaram fatos, mas também os fundiram em um grande esquema; que racionalizaram o Universo inteiro, sem recorrer à magia ou à superstição. Foram os primeiros filósofos da Natureza que formaram ideias e criaram interpretações que podiam manter-se por si mesmas, sem invocar qualquer deus para apoiar fraquezas ou obscurantismos em suas explanações[4].

Assim, a Filosofia Natural grega representou um feito notável, separando a investigação das leis da Natureza de quaisquer questões religiosas entre o Homem e os deuses. René Taton[5] explicou, de forma clara e concisa, esse ponto:

“Malgrado as divergências profundas de suas doutrinas e de suas hipóteses, os primeiros pensadores gregos podem ser legitimamente agrupados. Eles têm em comum serem os primeiros a tentar uma explicação racional do Mundo sensível, de ter proposto, sobre a estrutura da matéria e sobre a arquitetura do Universo, hipóteses desvinculadas – cada vez mais – de dados mitológicos. Em seu apetite de explicação total, eles trataram de todas as Ciências, mas os problemas que mais lhe chamaram a atenção foram, de uma parte, a natureza das coisas, a origem da matéria, suas transformações, seus elementos últimos e, de outra parte, a forma de nosso Universo e as leis que o regem”.

Seignobos, já citado, esclareceu que “pela primeira vez no Mundo, foi empregado um método racional, inspirado no desejo de penetrar até o fundo das coisas e dos fatos para descobrir-lhes os caracteres próprios e as leis gerais. Este [104] método os gregos o aplicaram à Matemática, Astronomia, Física, e mesmo à Medicina e à Política”.

Com Tales de Mileto se iniciaria o conceito grego de crença na força do pensamento humano para compreender e interpretar, racionalmente, o Mundo.

Até então, o Homem aceitara crença sem exigir provas ou evidências. Com os helenos se inaugurou a exigência de explicação natural, racional e coerente, germe do espírito científico. Para Harry Barnes.

“... os gregos emanciparam os homens do peso morto da tradição e do demônio da superstição. Deve-se-lhes a introdução do espírito científico e um modo profundamente secular de conceber a vida”[6].

Na civilização helênica, e pela primeira vez na História, a Razão, contrária a tudo aquilo que não lhe fizesse sentido ou não lhe chegasse ao conhecimento por meio de adequada teorização e fundamentação, faria o contraponto ao Mito e a todas as tradicionais superstições, que continuariam, no entanto, como crença oficial e amplamente majoritária. Roberts trata desse aspecto:

...essencial foi a nova importância que os gregos deram ao racional, a uma indagação consciente a respeito do Mundo em que viviam. O fato de muitos deles continuarem sendo supersticiosos e acreditarem em magia não obscurece esta visão. A maneira com que usavam a Razão e o argumento fez com que dessem aos seres humanos um melhor entendimento do Mundo... as ideias gregas nem sempre estavam certas, mas eram mais bem trabalhadas e testadas do que as anteriores....Um dos exemplos que se destaca é a Ciência grega, totalmente diferente de qualquer tentativa anterior de abordagem do Mundo natural... de o Universo trabalhar em termos de lei e de regras, e não de deuses e demônios[7].

Em seu estudo sobre a Ciência grega, Marshall Clagett menciona três aspectos fundamentais vinculados a esta criação helênica: i) a emergência de um espírito crítico a partir dos filósofos pré-socráticos, como a dessacralização da doença por Hipócrates; ii) o conceito da Ciência como universal e geral, (como a Geometria abstrata e teórica ou os trabalhos em Zoologia de Aristóteles), distinta de mero conjunto de regras empíricas; e iii) o desenvolvimento de uma estrita metodologia de Lógica, particularmente da Lógica dedutiva.

Ainda que se tenha beneficiado de influências de outras culturas, como as da Mesopotâmia, do Egito e de Micenas, para citar apenas três, [105] deve-se ao gênio grego ter criado a Ciência como disciplina separada e independente da religião e da magia, de uma parte, e da Técnica, de outra. Na realidade, o conhecimento empírico e pragmático do Oriente divergia, fundamentalmente, da Ciência grega, teorizante e desinteressada. Nas outras grandes civilizações antigas, o desenvolvimento técnico, ou tecnológico, foi uma das características marcantes. O estágio de desenvolvimento mental desses povos refletia a estrutura político-sócio-cultural, que restringia a uma pequena elite governante o acesso ao conhecimento e interditava às demais classes sociais o aprendizado e o estudo. Impossibilitadas de pensar, de raciocinar, de analisar, de compreender e de criticar, essas sociedades se dedicaram ao mero trabalho manual, ao qual introduziram inovações e melhoramentos de forma a amenizar as tarefas diárias e aumentar sua produtividade cotidiana. A Técnica precedeu, portanto, a Ciência e, por tal motivo, o desenvolvimento tecnológico, sem embasamento teórico, foi muito lento, apesar de ter abarcado grande parte de setores das atividades humanas (transporte, energia, construção, metalurgia, agricultura, cerâmica, tecelagem, etc.). Foram tais sociedades, por assim dizer, civilizações técnicas, que continuariam e desenvolveriam, de alguma maneira, as atividades dos povos neolíticos. O método adotado era, portanto, o empírico, limitativo de um rápido e e ciente desenvolvimento técnico.

A assombrosa civilização grega diferiu, no particular, das demais civilizações contemporâneas, na medida em que seus grandes feitos foram na esfera da Filosofia, da Ciência, das Artes, do Direito e da Política. Muitos autores argumentam que os gregos desprezavam as atividades manuais, por considerá-las indignas do ser humano livre. Esta posição elitista seria uma das causas que teria impedido a aplicação da Ciência à Técnica. Platão, por exemplo, julgava um rebaixamento trocar o estudo das coisas incorpóreas e inteligíveis pelo de objetos ao alcance dos sentidos. Xenofontes escreveria que as chamadas “Artes Mecânicas levam um estigma social, sendo devidamente desprezadas em nossas cidades”. Ainda, segundo Xenofontes, Sócrates considerava a Astronomia uma perda de tempo[8].

Essa tese é parcialmente correta, porquanto não podem ser desprezados os pioneiros trabalhos de Engenharia, durante o Período Helenístico, da parte de vários cientistas (Arquimedes, Ctesíbio, Herão, Filon e outros), cujas iniciativas não foram aproveitadas, por serem antieconômicas ou estarem bem adiante de seu tempo. Como afirma Marshall Clagett, seria incorreto a afirmar que não havia experimentação, para a descoberta de novos fatos sobre a Natureza ou para a confirmação de teoria científica. Mesmo nos estágios iniciais da Ciência grega, nos séculos [106] VI e V, Pitágoras e seus discípulos estabeleceram, por experimentação, a relação entre o comprimento das cordas vibrantes e a altura das notas emitidas pelas cordas; Empédocles provou, experimentalmente, a existência do ar, e discípulos de Teofrasto, no Liceu, como o físico Strato, se dedicaram à experimentação em suas investigações científicas. O Liceu, a Biblioteca de Alexandria, as escolas de Medicina e os centros de Astronomia e Física eram verdadeiros laboratórios de pesquisas. Embora tenha havido considerável atividade experimental, certamente que, comparada com a Ciência Moderna, foram insuficientes à maturidade e à universalidade do uso de técnicas matemáticas e experimentais, as quais ainda não eram comumente consideradas necessárias na investigação. Antes que tais técnicas se tornassem de uso corrente, o desenvolvimento do espírito científico receberia violento golpe com o domínio político de Roma, com a ascensão do cristianismo e o recrutamento de eruditos que poderiam estar em atividades científicas e com os efeitos de forças espirituais não críticas que assolaram a região no Período Greco-Romano[9]. Não há dúvida, por outro lado, de que a mentalidade grega, de relativo desinteresse pela aplicação prática das formulações teóricas, serviu, em compensação, para desenvolver sua capacidade de abstração, fundamental para gerar o espírito científico. Conhecimento refletido, a Ciência grega procurou utilizar e compreender os fatos, através da abstração, observação, raciocínio, análise, reflexão, conceituação, teorização.

Assim, os gregos souberam elevar seus conhecimentos a um nível muito superior, e sem paralelo, ao de todos os demais povos da Antiguidade, e fundaram uma Ciência abstrata. O desenvolvimento dos conhecimentos científicos se deveu a  filósofos e físicos, porquanto ambos se propunham a uma explicação abrangente do Universo. Esses estudiosos e pensadores trariam um espírito totalmente novo e revolucionário a esse processo pela compreensão do Mundo e do Homem: confiança na Razão humana.

Para o uso da Razão humana era imprescindível o conhecimento (episteme), a ser adquirido por meio de adequadas educação e instrução, um dos alicerces da cultura grega. Na realidade, ao contrário de todas as outras civilizações precedentes e contemporâneas, os gregos estabeleceram uma excelente formação para os cidadãos. A função da escola e do professor não se limitava à transmissão de informações, mas era fundamentalmente a de mentor ou orientador, para que o aluno aprendesse a pensar e a raciocinar, inculcando-lhe hábitos mentais independentes e um espírito de investigação isento das tendências e dos preconceitos do momento. [107]

A escola não descia ao nível de doutrinação[10], não asfixiando o espírito de crítica. O sistema educacional grego – Paideia – consistia, basicamente, de Ginástica, Gramática, Retórica, Poesia, Música, Matemática, Geografia, História Natural, Astronomia e Ciências físicas, História da Sociedade, Ética e Filosofia, o que a tornava curso pedagógico necessário para produzir o cidadão completo, plenamente instruído[11]. A ginástica e os jogos (proibidos pelo cristianismo) tinham um papel relevante na cultura grega para a formação do cidadão.

A importância dada à aquisição do conhecimento se refletia nas diversas instituições criadas ao longo do tempo nos diversos campos: a Academia (388) de Platão, o Liceu (335) de Aristóteles, os Jardins de Epicuro, a Biblioteca e o Museu (cerca de 290) de Alexandria, as quatro Escolas de Medicina (jônica, de Abdera, de Alexandria e de Agrigento), as duas Escolas de Matemática (Atenas, Alexandria), os dois centros de estudos médicos (Cós e Cnido), os centros de estudos de Astronomia, Física e Geogra a. Acrescente-se, ainda, a publicação e a divulgação de obras de cunho científico e  filosófico, criando, assim, uma efervescência intelectual e cultural até então desconhecida. A propósito, é bom ter presente que a própria mitologia dava a maior importância à inteligência, a ponto de a deusa preferida de Zeus ser sua  filha Palas Atena, nascida da cabeça de seu pai, patrona da sabedoria, do conhecimento e da inteligência; na mitologia romana Palas Atena recebeu o nome de Minerva.

De tal atitude mental e intelectual, decorreriam: 1) as várias correntes  filosóficas (jônica, pitagórica, atomista, eleática, sofista, estoica, platônica, aristotélica, cética, epicurista), e uma demonstração de grande capacidade especulativa, e 2) as diversas Ciências (Matemática, Astronomia, Mecânica, Óptica, História Natural, Medicina), fruto do pensamento científico, surgido da mentalidade inquisitiva e racional.

Nesse desbravamento de um terreno totalmente inexplorado, até então, como o da Filosofia, o extraordinário esforço mental grego se dirigiu para a busca de uma resposta convincente, lógica, racional para os mistérios do Universo. Para tanto, a maioria dos  filósofos dedicou-se, igualmente, ao exame dos fenômenos naturais, procurando fundamentar suas teses e doutrinas. Assim, Ciência e Filosofia estão na base dessa busca helênica por uma explicação racional e lógica do Universo e da Vida. Elas se entrelaçavam e se autoinfluenciavam, sem significar, contudo, que todas as doutrinas  filosócas tenham contribuído positivamente para o progresso da Ciência e do pensamento científico. Se não houve significativo aporte de [108] filósofos como Hecateu, Melisso, Diógenes e Sócrates, outros, como Tales (Matemática, Física, Astronomia, Cosmologia), Pitágoras (Matemática, Cosmologia), Aristóteles (História Natural, Biologia, Cosmologia, Física) e Epicuro (Física, Cosmologia) têm posição fundamental na História da Ciência. Filosofia e Ciência, duas criações gregas, só viriam a ser cultivadas separadamente a partir de Aristóteles, devido às crescentes complexidade e extensão temáticas (Euclides, Apolônio, Arquimedes, Hiparco, Eratóstenes, Ctesíbio, Herão, Ptolomeu, Herófilo, Erasístrato, Dioscórides, Galeno).

Cultivados em diversas partes do mundo helênico, os diversos ramos da Filosofia Natural teriam um extraordinário desenvolvimento em um período de tempo relativamente curto. No dizer de René Taton,

“a rapidez surpreendente de seus progressos (justa recompensa de sua ambição desinteressada e de seus  fins teóricos) evidenciou sua superioridade sobre a ciência oriental, sem necessidade de proceder a uma minuciosa confrontação de seus resultados”[12].

Mesmo consideradas separadamente, e apesar de suas diferenças e suas particularidades, as diversas Ciências tiveram o mesmo progresso na esfera da explicação, a equivalente pesquisa das causas, a igual redução dos fatos a um número pequeno de princípios e a consequente passagem do Mito à procura do entendimento lógico dos fenômenos naturais.

Criadores e cultivadores da Filosofia, das Ciências, das grandes Artes, do Direito, da Lógica e de tantas outras manifestações do espírito humano, os gregos, em consequência, seriam capazes de desenvolver, no prazo de oito séculos, uma cultura sui generis, diferente de todas as demais, com base no raciocínio para explicação dos mistérios do Universo e da Natureza

 

2.1.3 O Pensamento Científico na Grécia

Uma pergunta recorrente nos livros de História das Ciências é a: por que surgiu na Grécia, e não em qualquer outro lugar, esse espírito crítico, inquisitivo? O que de extraordinário ocorreu naquela parte oriental do Mediterrâneo, para transformar a civilização helênica no maior centro cultural, científio,  filosófico e artístico da Antiguidade e berço da civilização ocidental? Como explicar o que alguns autores de séculos passados costumavam chamar de o milagre grego?

Todos os historiadores da Ciência se deparam com esta dificuldade inicial de explicar o surgimento do pensamento científico na cultura [109] grega, tanto que não há unanimidade nem consenso, a respeito, apesar da convergência nas explicações. Alguns autores enfatizam elementos culturais, outros priorizam fatores econômicos, outros, ainda, preferem argumentos de ordem política, e até a geografia é citada como fator preponderante no desenvolvimento mental e intelectual do povo grego.

Para Maurice Meuleau[13], as proezas técnicas gregas, comparadas com as dos impérios orientais, eram bastante modestas, e, depois do século VI, nenhuma inovação técnica de ponta surgiria, até o  final do Mundo Antigo. A cultura científica não poderia contar, assim, com o progresso e o desenvolvimento técnico, mas se beneficiaria do extraordinário desenvolvimento da vida intelectual. “Pode-se invocar o gênio grego, resultante do equilíbrio e da razão”, que soube dar os meios indispensáveis a esse progresso: a difusão da escrita, que não se limitou às classes privilegiadas, e que permitiria a rápida difusão do conhecimento a um mundo mais amplo, e não restrito ao mundo sacerdotal. O desenvolvimento do pensamento grego pode, assim, escapar à influência dos templos. O saber avançou pelas escolas dispersas da Jônia à Magna Grécia e agrupados em torno dos mestres, independentes dos santuários e do Estado, se formariam círculos de alunos e discípulos; a individualidade se afirmaria pela primeira vez: manifestações de individualismo, características de uma vida intelectual que escaparia do peso das tradições e dos conhecimentos revelados.

Para Martin Stevers[14], uma plêiade de homens ilustres moldou, no século VI, os contornos do pensamento nacional. Foram os sete sábios da Grécia (Tales, Sólon, Periandro, Pitaco, Cleóbulo, Bias e Quilon); desses, apenas Tales era  filósofo e matemático, mas todos eram estadistas (Pitaco, Periandro), humanistas (Tales, Cleóbulo), legisladores (Bias, Sólon, Quilon). O notável dessa lista é que todos granjearam fama pela forma e ciente e sábia com que procuraram resolver os problemas políticos (Atenas, Priene, Mitilene, Esparta, Rodes, Siracusa, Corinto). Os helenos, que haviam destruído a cultura de Micenas, se viram na necessidade de construir algo em substituição da cultura esmagada, de conceber novas ideias. O processo se manifestou primeiro nas ilhas do Egeu e da Jônia e nos estados ribeirinhos, que se dedicariam ao comércio marítimo, estabelecendo contatos com outros povos.

Richard Tarnas entende que “o desenvolvimento do autogoverno democrático e dos avanços técnicos na agricultura e na navegação expressavam e estimulavam o novo espírito humanista”. As especulações [110] losóficas se coadunavam com a vida intelectual da cidade que se movia em direção ao pensamento conceitual, à análise crítica, à re exão e à dialética[15]. De acordo com A. C. Crombie, os gregos inventaram a Ciência Natural ao buscar a permanência inteligível e impessoal que existe no Mundo cambiante, e ao descobrir a brilhante ideia do uso generalizado da teoria cientí ca, e propuseram a ideia de supor uma ordem permanente, uniforme, abstrata, da qual se poderia deduzir o Mundo mutável da observação. Os mitos foram reduzidos à condição de teorias, e suas entidades recortadas às exigências da previsão quantitativa. Com esta ideia, da qual a Geometria foi o paradigma, a Ciência grega deve ser considerada como a origem de tudo que se seguiu, constituiu o triunfo da ordem trazida pelo pensamento abstrato ao caos da experiência imediata, e continuou sendo característica do pensamento grego o interesse principal pelo conhecimento e compreensão, e apenas secundariamente, o interesse

pela utilidade prática[16].

Segundo o já citado Colin Ronan,

não parece haver razão geográ ca ou racial para que isso acontecesse; tudo que se pode dizer é que ali havia colonizadores vivendo em um novo ambiente político, de sua inteira criação, não imposta de fora, em uma área que também era nova para eles. Eles tendiam a fazer perguntas e procurar respostas, o que não teriam feito caso se tivesse estabelecido em um modo de vida tradicional... além disso, a Jônia era uma área de comércio, foco de mercadores do Leste e do Sudeste do Crescente Fértil e de mais além, do Irã, da Índia e até da China. Os jônicos viviam, então, em um ambiente estimulante.

Pierre Rousseau[17] argumentaria que, enquanto a Grécia peninsular estava ainda envolvida em guerras intermináveis, a região do mar Egeu e do mar Jônico desenvolvia-se graças ao comércio e às influências das regiões vizinhas. Cidades importantes resplandeciam no século VI, como Mileto, Éfeso, Colofon, Priene, Teo, Clazômenas, bem como as ilhas Quíos, Samos, Cós, Rodes. O saber egípcio e babilônico se infiltraria pouco a pouco na Jônia, encontrando aí um ambiente propício para se desenvolver. As cidades gregas eram independentes umas das outras, a expansão colonial tinha feito surgir uma classe e um espírito novos; a democracia sentou raízes. Nada poderia impedir o jogo da livre crítica, que redundaria em explorar as forças da Natureza, expulsando a feitiçaria. [111]

“Sonha-se purgar o Mundo de todos os agentes ocultos”. Harmonia e simplicidade seriam características do gênio grego. Assim, o espírito dos jônicos, favorecido pela liberdade de que gozavam, iria atuar sobre os acontecimentos oriundos do Oriente, e, pela lógica e busca da harmonia, imprimir à Ciência seu impulso primeiro.

Marshall Clagett, além de reconhecer a importância de fatores sociais, da mentalidade comercial do povo e da mudança mitológica (da Cosmogonia dos tempos heroicos para uma explicação natural do Cosmos), relaciona outros fatores para explicar o milagre grego; a passagem da Idade do Bronze para a do Ferro, isto é, a Grécia, como civilização da Idade do Ferro, teria condições, com as novas técnicas e instrumentos, de melhor competir no comércio com as monarquias do Oriente Próximo, e o desenvolvimento do alfabeto teriam sido fatores cruciais para as extraordinárias conquistas[18].

Outros autores, como Rubin Aquino[19], sugerem que as antigas civilizações do Oriente, por se caracterizarem como sociedades agrárias, eram, por sua natureza rústica, opressivas, fechadas, extremamente hostis ao desenvolvimento do pensamento racional; para elas “o pensamento mítico bastava para satisfazer às necessidades de explicações dos fenômenos daqueles homens voltados para o duro trabalho do dia-a-dia”. As condições para a passagem do Mito à Razão, ou seja, para o advento do pensamento racional, se deram, pela primeira vez, com o surgimento da polis grega. Um conjunto de condições a tornava mais própria ao desenvolvimento científico: a facilidade para viajar, o contato com povos diferentes, a divisão do trabalho, a moeda cunhada, garantida pelo Estado, e o desenvolvimento comercial.

Para Condorcet,

ali [Grécia] as Ciências não podiam ser a ocupação e o patrimônio de uma casta particular; as funções de seus sacerdotes se limitaram ao culto dos deuses. Ali o gênio podia desdobrar todas as suas forças, sem estar sujeito a observâncias pedantes, ao sistema de hipocrisia de um colégio sacerdotal. Todos os homens conservavam um direito igual ao conhecimento da verdade. Todos podiam procurar descobri-la para comunicá-la a todos, e comunicá-la por inteiro. Essa circunstância feliz, mais ainda que a liberdade política, deixava ao espírito humano uma independência, garantia segura da rapidez e da extensão de seus progressos.

 

Horta Barbosa escreveu:

Condições geográficas, econômicas e históricas favoráveis permitiram a essa nação realizar transformações em todos os campos da vida social, sem as quais o progresso geral da Humanidade ter-se-ia retardado de muitos séculos. Dentre os complexos e variados fatores desse chamado “milagre grego”, é fácil assinalar a rápida libertação, a partir de Homero, tanto das atividades práticas quanto das criações do espírito, das peias e rígidos moldes impostos pelos velhos regimes teocráticos... Os poderes temporal e espiritual, fundidos e imóveis em outros povos, por representarem a vontade eterna e sagrada dos deuses, a tudo regulavam e controlavam, impossibilitando, ou melhor, freando as liberdades, as mudanças e transformações que constituíam o progresso... o pequeno povo heleno agia, nos campos prático e teórico, com excepcional autonomia e individualismo, os governos políticos e religiosos eram fragmentários e débeis, a casta sacerdotal, absorvida ou submetida aos militares, colônias e núcleos distantes um dos outros e de reduzida população, vida marítima, relativo isolamento em relação aos grandes impérios, tais alguns fatores do “milagre grego”.

Na introdução do item Pré-Socráticos[20], consta o comentário de que:

a partir do século V (...) cedeu lugar a uma nova e mais radical forma de pensamento racional, que não partia da tradição mítica, mas de realidades apreendidas na experiência humana cotidiana. Fruto da progressiva valorização da “medida humana” e da laicização da cultura efetuada pelos gregos, despontou, nas colônias da Ásia Menor, uma nova mentalidade, que coordenou racionalmente os dados da experiência sensível, buscando integrá-los numa visão compreensiva e globalizadora. Dentro desse espírito surgiram, na Jônia, as primeiras concepções cientí cas e  losó cas da cultura ocidental, propostas pela Escola de Mileto.

O extraordinário desenvolvimento desse pensamento racional e cientíco ocorreu com um povo que habitava uma região completamente diferente de outras, onde  cresceram importantes civilizações, como as do Egito, da Mesopotâmia, da Índia e da China. Pode-se considerar, mesmo, que as condições de relevo e solo, pouco favoráveis ao desenvolvimento agrário (baixas produtividade e fertilidade, técnica rudimentar), dificultariam o assentamento de uma população numerosa e agrícola na Hélade, antigo nome da Grécia. [113]

A agricultura, praticamente para consumo local, se concentrava na vinha, na oliveira, em alguns cereais (de forma insuficiente), na  figueira; as pastagens e as  florestas tinham, igualmente, baixa rentabilidade. Essa seria a principal razão da dieta frugal do grego antigo. Os pouco férteis e úmidos vales e planícies, separados por montanhas, explicam o relativo isolamento em que viviam as populações dessas áreas, pelo que desenvolveriam um forte sentimento de devoção à Cidade-Estado (polis), entidade política independente e autônoma, verdadeiro centro comunitário, mas de proporções reduzidas, se comparadas com centros urbanos de outras civilizações antigas (China, Índia); a unificação da Grécia em um Estado não seria obtida pelos gregos na Antiguidade, devido às rivalidades entre as diversas cidades-Estados.

As vocações do povo seriam, assim, o mar (navegação marítima) e o comércio, e nessas atividades os gregos foram e cientes, ativos e competentes. Na falta de uma agricultura que pudesse abastecer a crescente população, a solução foi a emigração, com fins de colonização, para as ilhas do mar Egeu, Ásia Menor, litorais do mar Negro (Ponto Euxino) e do mar de Mármara (Propôntida), Norte da África, Sicília e Sul da Itália, Sul da Gália e da Península Ibérica.

A primeira expansão colonizadora, espontânea, foi no Período Histórico denominado de Homérico (1150-776), com a fundação de centenas de colônias, chamadas apoéquias.

A segunda onda colonizadora (séculos VI e V), planejada e executada pelos governos das polis, fundou, igualmente, um grande número de colônias, agora chamadas clerúquias. Calcula-se em 700 o número das colônias (cidades-Estado) gregas espalhadas pelo Mediterrâneo, Ásia Menor e mar Negro, que, com a Grécia continental, formavam o mundo grego, integravam a civilização helênica e serviam como postos avançados para a propagação da sua cultura e de seu modo de vida. Não se pode deixar de enfatizar o papel da maior importância que essas polis tiveram na formação, desenvolvimento e divulgação do pensamento e do espírito gregos, tanto na Filosofia, quanto nas Ciências. O intenso comércio entre essas colônias traria prosperidade à região, ao mesmo tempo em que tais frequentes contatos mantiveram vivos os laços que os identificavam como membros de uma mesma e grande comunidade helênica. A língua, a cultura, a religião, a história e os interesses faziam que habitantes de colônias tão distantes, como Cumes, na Itália, Siracusa, na Sicília, Mileto, na Jônia, Cirene, na Líbia e Teodósia, no mar Negro, se sentissem parte da mesma nação grega, ainda que rivalidades e constantes confrontações armadas impedissem uma aliança política tendente à unidade administrativa do mundo helênico. [114]

As mais importantes e significativas colônias (polis)[21], estabelecidas ao longo das costas do Mediterrâneo e do mar Negro até a Península Ibérica, de onde se irradiaria para outras regiões a cultura grega, foram:

  1. Mar Negro (Ponto Euxino): Fasis, Sinope, Odessa, Teodósia, Istros, Apolônia, Olbia, Callatis, Tomi, Cruni, Heracleia, Tomol, Megara;
  2. Mar de Mármara (Propôntida): Bizâncio, Lâmpsaco, Cízico, Calcedônia, Selymbria, Sestos;
  • Ásia Menor: (Eólia) Ábidos, Lesbos, Mitilene; (Jônia), Mileto, Éfeso, Priene, Esmirna, Clazômenas, Pérgamo, Colofon, (Dórida), Halicarnasso, Cnido;
  1. Grécia Insular: Quíos, Naxos, Samotrácia, Cós, Rodes, Delos, Chipre, Samos, Creta;
  2. Trácia: Abdera, Estagira, Potideia;
  3. Sul da Itália: Tarento, Crotona, Metaponto, Cumes, Ísquia, Nápoles, Eleia, Posidônia, Sibaris, Locres;
  • Sicília: Siracusa, Agrigento, Naxos, Catânia;
  • Sul da França: Marselha, Nice, Atenópolis, Olbia, Emporion; IX - Sul da Espanha: Tarragona, Empória, Sagunto;
  1. Norte da África: Líbia – Cirene, Apolônia; Egito – Naucratis.

A Cultura grega se espalharia, ainda mais, por vastas extensões da Ásia, após as fulminantes vitórias militares de Alexandre. Cidades foram fundadas, como Alexandria, sendo que a colônia mais afastada da Grécia continental talvez tenha sido Ay Khanoum, no Afeganistão, próxima da fronteira com a China.

2.1.4 Evolução da Ciência Grega

Apesar do inevitável arbítrio ao estabelecer divisões temporais, é importante, para fins expositivos, dividir em períodos o relevante processo da evolução do pensamento científico e da Ciência gregas entre aproximadamente 600 antes da era comum e o  final do século III. Quatro períodos podem ser estabelecidos: i) o primeiro abarca os séculos VI e V, caracterizado pelo chamado Período da Filosofia Pré-Socrática, no qual a Filosofia se orienta para compreender os fenômenos naturais pela investigação intelectual; ii) o segundo período corresponde ao século IV, [115] época das Escolas de Platão, Aristóteles e Epicuro, além das contribuições importantes de Anaxágoras, Empédocles, Parmênides, Leucipo, Demócrito, Hipócrates, Alcmeon, Arquitas, Eudoxo, Teofrasto; iii) o terceiro, chamado de Helenístico, do século III até 146 (ano da conquista da Grécia por Roma), caracterizado pela preeminência do cientista sobre o  filósofo, fundação da Biblioteca e do Museu de Alexandria, e época de Arquimedes, Euclides, Apolônio, Aristarco, Eratóstenes, Hiparco, Heró lo, Erasístrato; e iv) o quarto, Greco-Romano, de 146 até  nal do século III, invenções mecânicas (Ctesíbio, Herão, Filon), anexação do Egito (Alexandria), como província, ao Império Romano (31), decadência cultural, mas de expansão geográfica via Império Romano, época de Dioscórides, Ptolomeu, Possidônio, Sosígenes, Galeno, Diofanto, Teon, Pappus, misticismo, gnosticismo, neoplatonismo, Ciências ocultas (Alquimia, Astrologia).

Embora a Ciência grega tenha sobrevivido por mais alguns séculos, para efeitos da História da Ciência os Períodos relevantes são os do  final do século VI até o  final do Período Greco-Romano, tema a ser desenvolvido no atual capítulo. A Ciência grega, nos séculos imediatamente subsequentes, será tratada em um capítulo em separado, por corresponder a um período de seu de nitivo declínio e eventual rejeição e abandono por uma nova e emergente Sociedade.

A fase áurea da civilização grega correspondeu aos períodos entre os séculos VI e II, sendo que alcançaria seu apogeu na época de Arquimedes. As contribuições geniais, extraordinárias e pioneiras de cientistas do quilate de Tales, Pitágoras, Hipócrates, Aristóteles, Eudoxo, Arquitas, Teofrasto, Euclides, Herófilo, Erasístrato, Aristarco, Arquimedes, Eratóstenes, Apolônio e Hiparco, nos campos da Matemática, Astronomia, Mecânica, Óptica, Ciências Naturais e Biologia elevaram o conhecimento humano a patamares até então desconhecidos por civilizações anteriores e contemporâneas, e serviriam, séculos mais tarde, após longo esquecimento, rejeição ou incompreensão, de guia e inspiração do chamado Renascimento Científico.

O declínio da Grécia continental começou a ser transparente desde o século II (Período Greco-Romano), devido à concorrência estrangeira a seus produtos agrícolas, artesanais e industriais, com reflexos negativos nas atividades produtivas e comerciais, à redução das atividades portuárias em cidades-chave, como Rodes, Delos, Atenas, Corinto e Pireu, à ausência de progresso técnico e desinteresse pelo trabalho manual, à falta de união e cooperação entre as cidades-Estados, à sua subjugação pela Macedônia de Felipe e Alexandre, à fundação e desenvolvimento de [116] Alexandria, que se transformaria rapidamente em grande centro comercial e cultural, graças a incentivos oficiais e ao total comprometimento dos governantes em transformá-la na mais resplandecente cidade do Mundo[22]. A decadência da cultura grega se agravaria e se precipitaria com a dominação romana, em 146, depois da queda de Corinto. No momento em que Roma conquistou a Grécia, no século II, explica Tarnas, o vigor da cultura helênica se estiolava, deslocado pela visão mais oriental da subordinação do ser humano às forças avassaladoras do sobrenatural[23]. Ganhariam público os movimentos místicos e o ocultismo; a Alquimia e a Astrologia se espalhariam pelo vasto território do Império Romano; cresceria o desinteresse pelo estudo da Filosofia Natural.

A civilização helênica perdeu, por essa época, seu grande impulso criador nos diversos campos científicos. O declínio intelectual e criador de Alexandria e da civilização helênica é, evidentemente, devido a diversas causas, que afetariam a Ciência, de um modo geral. A virtual paralisação das pesquisas biológicas em Alexandria, a partir do século II, correspondeu, em termos cronológicos, ao declínio, igualmente, nos estudos e pesquisas em outros ramos da Ciência, como na Matemática, na Astronomia e na Física.

Foi, conforme explica Beaujeu, em La Vie Scienti que[24],

...a época que a atividade criadora começou a sentir um grave e duradouro eclipse; as disciplinas científicas recuavam em proveito da Filosofia e da erudição. Este declínio se manifestava mesmo na atitude em face dos problemas da Ciência; a partir do II século a.e.c. a sedução do irracional sob formas diversas começa a exercer estragos até nos meios interessados no conhecimento do Mundo: as Ciências ocultas, a Astrologia, sobretudo, fazem concorrência com as Ciências da Natureza, enquanto a magia se opõe ou se mistura com a Medicina; tende-se a confundir, com toda a inocência, fato observado e o prodígio fabuloso, a explicação racional e a falsa chave misteriosa, a investigação científica e as divagações desordenadas.

A desorganização política e social, os problemas econômicos e as influências desestabilizadoras e atrasadas de outras culturas teriam um impacto tremendo na cultura helenística, centrada, agora, em Alexandria. O mundo grego encontrava-se conquistado, submetido, enfraquecido, desmembrado pelos conquistadores romanos; a crise era generalizada e [117] abrangente, tanto na Grécia continental e insular quanto nas demais áreas (como Alexandria, cidades na Península Itálica). Péssimos governos se sucederiam, no Egito, aos primeiros Ptolomeus, inclusive pela falta de interesse na cultura e de apoio ao Museu. O apogeu científico alexandrino era, agora, coisa do passado; o espírito científico entraria em recesso. A inquietação intelectual, o espírito crítico, a pesquisa objetiva e sistemática cederiam lugar a uma retomada de práticas antigas, nas quais as crenças e o sobrenatural prevaleceriam na explicação do Universo e dos fenômenos.

Aos progressos alcançados, por exemplo, na Biologia e na Astronomia, novas atitudes e percepções iriam retardar o avanço científico nessas áreas: na Biologia, a proibição à dissecação e à autópsia, e a perseguição aos infratores dificultariam e, até mesmo, impediriam os cientistas de melhor conhecer o corpo humano e as funções de seus diversos órgãos. Hipócrates, Herófilo e Erasístrato,  figuras superlativas na História da Medicina, seriam criticados e combatidos, mas recuperados apenas muitos séculos adiante, quando o espírito científico voltaria a presidir os trabalhos de pesquisa na Biologia e na Medicina; na Astronomia, as descobertas e estudos de Aristarco, Eratóstenes e Hiparco seriam parcialmente aproveitados por Ptolomeu, autor do Almagesto, sem o brilhantismo daqueles predecessores. O Sistema de Ptolomeu dominaria a Astronomia por cerca de mil e duzentos anos, quando o caminho, apontado por Aristarco, só voltaria a ser trilhado por Copérnico.

A submissão da Magna Grécia e de outros territórios da África, Ásia Menor e Europa transformariam Roma na nova potência dominadora de toda a região mediterrânea e de boa parte da Europa ocidental, impondo suas leis e seu modo de vida aos povos subjugados.

A cultura grega sofreria, então, novo e forte golpe, porquanto à submissão política e econômica, seguiriam a perda de seu poder criador e as influências negativas e perversas (Alquimia, Astrologia) de outras culturas. A esse período de decadência corresponderia, contudo, a ampla divulgação e imposição da cultura grega no imenso Império Romano, em particular nas suas províncias no continente europeu. A cultura grega prevaleceria no mundo romano, tanto no domínio das Artes (Teatro, Literatura, Pintura, Escultura) quanto no da Filosofia Natural (Matemática, Astronomia, Física, Biologia, Medicina)[25]. Deste modo, se não foi possível à Grécia manter seu extraordinário nível cultural, prosseguindo no desbravamento do campo científico, inclusive com a divulgação e aprimoramento do espírito científico, seu invejável acúmulo de conhecimentos, ao menos, seria incorporado pelos romanos à sua cultura [118] tradicional, preservando-o, assim, de total abandono e esquecimento, o que teria resultado em uma perda irreparável para os séculos futuros. O mundo helênico fora, portanto, conquistado e subjugado pela nova potência, Roma, a qual buscaria absorver e difundir urbi et orbi a cultura grega, embora num novo contexto pouco favorável ao desenvolvimento da Ciência.

Sem mais o fulgor de antes, a contribuição helênica ainda seria muito importante à Ciência, como atestam as obras de Dioscórides, Ptolomeu, Herão, Filon, Galeno, Diofanto, Pappus, Teon e outros.

Aos sábios e gênios, sucederiam pesquisadores medíocres, cientistas de segunda ordem, sem contribuição importante para o desenvolvimento da Ciência. Meros seguidores de seus ilustres antecessores, alguns se notabilizariam por copiar e divulgar os ensinamentos dos mestres. Nos centros de estudo e nas diversas Escolas, os professores e os estudantes, em número cada vez menor, não teriam condições, nem incentivos para preservar o espírito científico, um dos galardões da extraordinária civilização grega.

Ainda que o Museu e a Biblioteca de Alexandria tivessem continuado a funcionar após a conquista romana, a notável pesquisa original decaiu em qualidade e quantidade; o ensino das várias disciplinas já não atraía maior interesse, tanto pelo desprestígio da Ciência quanto da Escola. Inspirado no Liceu de Aristóteles, o Museu de Alexandria era dotado de jardins botânico e zoológico, observatório astronômico, salas para aulas e uma Biblioteca com mais de 500 mil rolos de papiros; cerca de cem professores ensinavam, custeados pelo Estado, nessa primeira Universidade do Mundo[26]. O resultado final desse processo perverso foi o declínio paulatino da cultura helênica, até o ponto de ser perseguida pelas autoridades políticas e religiosas daqueles novos tempos.

A Biblioteca, parcialmente queimada pelas legiões de Júlio César, foi danificada por diversas invasões e insurreições. Em 269, a Biblioteca foi novamente queimada por ordem de Zenóbia, Rainha de Palmira, quando conquistou o Egito.

É evidente que a cultura grega prosseguiria pelos séculos seguintes, ainda que em declínio e em desprestígio, devido, em parte, pelas novas ideias que começavam a prevalecer e a forjar uma nova Sociedade. A crescente popularidade do cristianismo, uma nova religião monoteica, reconhecida oficialmente no século IV e tornada oficial do Império, no século V, viria a se impor, em definitivo, em todas as regiões do vasto Império Romano, criando uma situação insuportável para o [119] desenvolvimento do espírito científico e do racionalismo grego. Diante de um ambiente político e cultural hostil, a Filosofia Natural viria a ser abandonada e esquecida, por desnecessária e perigosa, cedendo lugar a um conhecimento revelado, dogmático e absoluto.

Na partilha do Império Romano (395), por Teodósio, coube a seu  filho Arcádio, entre outros territórios, a Grécia, a Macedônia, a Capadócia, a Síria, a Ásia Menor, a Mesopotâmia e o Norte do Egito (Alexandria). Criado, assim, o Império Romano do Oriente, continuaria a prevalecer, contudo, nessa parte da Europa oriental, até o  final do reinado de Justiniano (565), a cultura greco-romana, apesar do desaparecimento do Império Romano do Ocidente, em 476. Nesse conturbado Período, o Museu de Alexandria foi atacado, em 415, por uma multidão instigada por Cirilo, bispo daquela cidade, “que patrocinava a ortodoxia contra aqueles que consideravam cristãos heréticos e contra os ensinamentos ancestrais. Hipácia, matemática,  filósofa neoplatônica e dirigente do Museu, foi brutalmente assassinada por monges...”[27]. A Academia de Platão, bem como as demais Escolas ancestrais, seria fechada em 529, por ordem de Justiniano.

O cristianismo, religião oficial em ambos os Impérios, tinha, porém, dois chefes, o Bispo de Roma e o Patriarca de Constantinopla, o que geraria, ao longo dos séculos, um grande número de disputas, divergências, debates teológicos e de jurisdição, e, finalmente, o cisma.

 

História, Idade antiga, Antiguidade clássica, Civilização romana, Civilização grega, História da ciência, Filosofia, Ciências
Proença-Rosa,
Carlos Augusto.
História da ciência, vol I:
Publicado por:
Odsson Ferreira | 23 fev , 2017
Revolução de Fevereiro: movimento que abriu portas à União Soviética
23 fev , 2017
Sputnik
História
Rússia

No dia 23 de fevereiro a Rússia assinala o 100º aniversário da Revolução de Fevereiro. Infelizmente, nem todos têm plena consciência histórica daquilo que se passou na época, das causas do acontecido e como a Revolução de Fevereiro foi diferente da de Outubro. A Sputnik explica e lhes propõe uma retrospectiva dos eventos.  A Rússia entrou no século XX dilacerada por problemas que se vinham agudizando. Dava para sentir o perigo revolucionário no ar — e não levou muito tempo para que este se concretizasse. 

Foi uma cadeia sólida de causas e condições prévias — não apenas ideias e lemas — que levou ao colapso de czarismo na Rússia e à futura instalação do regime comunista, mudando o registro civilizacional do país e de todo o globo de uma vez por todas.

Início de século turbulento

Algumas das causas mais flagrantes dos distúrbios que abalaram o país nas primeiras décadas do século XX foram más safras, o aumento exponencial da dívida orçamental, fracassos no plano militar e a ausência de qualquer tipo de direitos civis.

Tudo isso fez com que as massas populares se revoltassem contra o regime imperial e reivindicassem aquilo que eles consideravam ser algo que inerentemente lhes pertencia. Em primeiro lugar, foram os trabalhadores rurais que ficaram na "armadilha" de prolongadas contribuições sem um verdadeiro direito à terra na consequência da polêmica reforma que aboliu a servidão em 1861. Segundo, foram os recém-emergidos trabalhadores urbanos que se manifestaram com os principais lemas da época: "Nos deem pão!", "Abaixo a guerra!", "Fora com o absolutismo!".

A situação estava agravada pelo fato das autoridades imperiais terem envolvido o país em duas guerras desastrosas que acabaram por corroer a economia russa por dentro: ou seja, a derrota "vergonhosa" na confrontação com o Japão em 1904-1905 e a arrastada Primeira Guerra Mundial que drenou todo o sangue do regime czarista agonizante. 

O fator mais importante foi também a discordância que se tinha gerado a nível do Estado, sendo que em fevereiro de 1917 a Duma de Estado, já formada completamente pela oposição ao czarismo, se reunia apenas algumas vezes por ano, e o governo estava mergulhado em um incessante carrossel ministerial.

Além das razões puramente econômicas e materiais, o czarismo estava comprometido e privado da confiança por parte do povo devido aos acontecimentos em torno da figura mística de Grigory Rasputin, que oficialmente ajudava o príncipe Aleksei a sobreviver à hemofilia, porém, ele alegadamente teria exercido grande influência sobre as decisões da família real. Rasputin, de origem rural, era considerado como "profeta" e "ancião", e até hoje há muitas especulações quanto à sua participação nos acontecimentos de 1917.

Revolução russa de 1905: um futuro que não se deu

Seria justo dizer que, em grande sentido, a Revolução de Fevereiro foi impulsionada pela desilusão com a revolução anterior de 1905, que não chegou a trazer quaisquer frutos. Mesmo que tivessem sido declarados, as liberdades e princípios democráticos fracassaram na sua aplicação, o que ainda agravou mais a atmosfera de desilusão na sociedade.

Porém, vale ressaltar que, se a Revolução de 1905 era pautada por forças e motivos pouco definidos, tendo sido despoletada pelo chamado Domingo Sangrento (22 de janeiro de 1905), que consistiu de uma manifestação pacífica, encabeçada pelo padre ortodoxo Georgy Gapon, esmagada violentamente pela guarda czarista, a sua "sucessora" de fevereiro de 1917 já tinha uma base ideológica mais sólida. 

Deste modo, o movimento revolucionário caótico de 1905 resultou na obtenção ilusória de um leque de liberdades e na planejada transição da monarquia ao parlamentarismo, proclamadas pelo famoso Manifesto de Outubro, mas uma parte esmagadora destes resultados não passou de nada além de simples declarações.

Os grupos opositores ao czarismo ganharam poderes legislativos. Porém, eles não conseguiram obter consenso entre eles mesmos. A Duma de Estado virou um palco de briga entre os grupos que, em princípio, queriam o mesmo, mas divergiam nos métodos e nas ideias.

A fermentação no maior órgão legislativo do país fez com que os principais problemas do país, que tinham servido de ímpeto ao movimento de 1905, não fossem resolvidos. Primeiramente, se tratava da chamada "questão agrária". Pior ainda, a Rússia estava atolada em uma dispendiosa e infrutífera campanha militar — a Primeira Guerra Mundial.

Dias ousados da revolta popular

Nos dias de janeiro e, especialmente, de fevereiro de 1917, cada vez mais fábricas se viam paralisadas por greves, sendo o caso mais conhecido relacionado com a fábrica Putilov em Petrogrado (nome de então de São Petersburgo). Os motins públicos se realizavam sob os lemas "Abaixo a guerra!" e "Viva a República!".

Outra uma parte integrante dos acontecimentos de fevereiro foram as "rebeliões do pão", provocadas por um programa de distribuição de produtos agrícolas ineficiente, introduzido um ano antes. Todos estes distúrbios foram apenas um prólogo para a Revolução, que começou em 23 de fevereiro (8 de março atual, devido à mudança de calendário), com greves maciças contra czarismo, fome e escassez de direitos civis. 

A atmosfera se vinha agudizando, o tzar Nicolau II, de acordo com alguns relatos, ficou em pânico, a Duma de Estado acabou sendo dissolvida. As ruas viviam um caos armado. Neste contexto, o destino do Império dependia totalmente da lealdade do exército ao regime. 

Porém, a maior parte dos militares não justificou as esperanças da monarquia. Começou uma rebelião militar. Em 27 de fevereiro (atual 12 de março), os soldados de Petrogrado cercaram o Palácio Tauride onde estava sediada a Duma, supostamente já dissolvida. Em vez dela, foi formada uma nova entidade — o Comitê Provisório da Duma de Estado, que logo assumiu funções.

Uma das figuras-chave nos acontecimentos de fevereiro foi o socialista revolucionário Aleksandr Kerensky, que não só ascendeu ao poder na época, mas saudou a revolução lhe dando grande inspiração e apoio. Nos dias turbulentos da agonia dos antigos órgãos legislativos, Kerensky apelava aos deputados para que não cedessem ao tsar, chefiou o processo da substituição da guarda do Palácio pelos militares rebeldes e, finalmente, integrou a nova entidade legislativa.

De modo inesperado para as autoridades, o ardor revolucionário se via alastrando a Moscou e, provavelmente, bem poderia ter prosseguido para outras grandes cidades russas se nada tivesse sido feito. O caos revolucionário na Rússia resultou na chamada dualidade de poderes, ou seja, na governança exercida de fato por uma força (Soviete de Petrogrado), mas de jure atribuída a outra (Governo Provisório).

Em 2 de março, o tzar Nicolau II abdicou do trono, passando-o para seu irmão, Mikhail Aleksandrovich, que, por sua vez, o recusou. O czarismo caiu, a família real foi detida, privada de todos os direitos e todos os seus bens.

Herança de Fevereiro ou primeiro 'ato' da Grande Revolução Russa

O projeto de Estado que surgiu em resultado das manifestações de Fevereiro foi um dos mais democráticos, se não o mais democrático, da época. Poucos países podiam se gabar de ter um leque tão vasto de liberdades proclamadas, inclusive as das mulheres.

Mas isso acabou por não sair para além da moldura do projeto. No final, todas as principais reclamações de Fevereiro continuavam insatisfeitas — a guerra continuou, a crise econômica não dava fôlego ao país, a questão do campo permaneceu em impasse e, finalmente, a crise governamental sacudiu de novo a Rússia. 

O fenômeno emergido dos movimentos de fevereiro, a dualidade de poderes, era uma espécie de bomba-relógio. Por um lado, o Soviete de Petrogrado como órgão do povo, e por outro — a força da burguesia, mais treinada para as atividades públicas, mas muito menos apoiada pelos recém-manifestantes. 

Deste modo, o país ficou paralisado pela "ditadura da burguesia", ou seja, pelo Governo Provisório que não era capaz de promover as reformas necessárias e cumprir as promessas dadas. Os problemas econômicos e políticos se vinham agudizando, os setores agrário e industrial estavam na miséria e a questão das terras não se resolvia. Muitos, aliás, acreditam que a Revolução de Fevereiro foi uma parte da subsequente Guerra Civil Russa.

Tudo isso serviu como pretexto para o último "ato" deste grande movimento revolucionário — transformação de uma revolução democrática e burguesa em uma socialista, que ocorreu já no mês de outubro de 1917.

História, Idade contemporânea, Rússia, União soviética, Revolução, Comunismo
{+} Textos
personalidades
Atualizado em: 07/03/2017 16:16:38
Heráclito
Nascimento:
540 a.e.c.  Éfeso
Morte:
480 a.e.c. 
Principais opucações:
Filósofo
Atualizado em: 05/03/2017 01:51:17
Parmênides
Nascimento:
540 a.e.c.  Eléia
Morte:
479 a.e.c. 
Principais opucações:
Filósofo
{+} Personalidades
Fato histÓRICO
750
a.e.c.
Idade Antiga
Antiguidade Oriental
  Século VIII 
Os assírios atingem o auge de seu poder

O ressurgimento da Assíria

A rápida expansão assíria no século IX a.e.c. foi seguida de uma fase de estagnação na primeira metade do século VIII a.e.c. As fronteiras da Assíria continuaram a ser quase as mesmas, mas os governadores das províncias agiam como soberanos independentes. Os vizinhos da Assíria, como Urartu e Fenícia, continuavam políticas que não tinham em conta os interesses dos reis assírios. Este período de debilidade acabou com a ascensão de Tiglath-pileser III (744 a.e.c - 727 a.e.c.). A relação dos limmu registra uma revolta na cidade de Kalhu em 746 a.e.c., pouco antes de Tiglath-pileser se tornar rei. Se houve uma conexão entre os dois acontecimentos não se sabe, mas é possível que o novo rei fosse um usurpador. Tradicionalmente os reis assírios justificavam as suas pretensões ao trono com os argumentos da emanação divina ou do seu caráter hereditário. No entanto, Tiglathpileser nunca menciona os seus antepassados nas inscrições, talvez por causa da sua ascensão irregular ao trono. Na inscrição de um tijolo do templo de Assur chama-se a si próprio filho de Adad-nirari, que morrera cerca de quarenta anos antes de Tiglath-pileser reinar.

Tiglath-pileser não perdeu tempo e conseguiu uma vez mais a hegemonia para a Assíria no Oriente Médio. No início do seu reinado dirigiu o seu exército para o sul e derrotou as tribos aramaicas instaladas no Norte e no Nordeste da Babilônia. Chegou até Dur-Kurigalzu e Sippar e recebeu o remanescente das oferendas dos templos da Babilônia, Borsippa e Kutha, que geralmente só se entregava aos reis da Babilônia. Vangloriou-se de ter conquistado os territórios que chegavam até o rio Uknu (talvez o Karkheh) nas margens do mar Inferior (o golfo Pérsico). Modificando a política dos reis assírios anteriores, Tiglath-pileser anexou Estados situados nas margens mais afastadas do Eufrates, fora dos limites tradicionais da Assíria. Designou um sha reshe (eunuco) como governador das cidades da Babilônia e reclamou o título do rei de Suméria e de Acádia, mas permitiu a Nabu-nasir, rei da Babilônia (747 a.e.c. - 734 a.e.c.), conservar o trono. Em 734 a.e.c, Tiglath-pileser confrontou-se com uma coligação dos soberanos de Urartu, Arpad, Malatya, Kummuh e Gurgum, liderada por Sarduri II, rei de Urartu. Tiglath-pileser derrotou os seus inimigos na batalha de Kummuh (Commagen, no Sul da Turquia). Sarduri fugiu para as montanhas, mas o assírio perseguiu-o e chegou até Tushpa, a capital de Urartu (nas margens do lago de Van), onde mandou erigir uma estela apesar de não conquistar a cidade.

Nos doze anos seguintes, Tiglath-pileser fez campanhas no oeste, primeiramente contra Arpad, que caiu em 740 a.e.c, depois contra Unqi (a planície de Amuq) e Aram (Damasco). Alguns dos Estados conquistados eram anexados às províncias existentes ou constituíam novas províncias; outros ficavam nas mãos de soberanos pró-assírios, que pagavam um tributo anual ao rei assírio. No final do reinado de Tiglathpileser, a lista das regiões tributárias incluía os Estados neo-hititas e aramaicos da Síria e do Tauro, as cidades fenícias do litoral, Israel, Judéia e Gaza, os Estados do interior Amon,

Moab e Edom, assim como as tribos árabes do interior, entre elas as de Tima e de Sab'a (Sheba). Aliados destas conquistas, os pequenos Estados vizinhos, aliados dos assírios, reclamavam muitas vezes a intervenção da Assíria para solucionar os seus assuntos internos. Em uma inscrição de Kilawuma de Sam'al, menciona-se que este rei "alugou os serviços" do rei da Assíria (talvez Sham-shi-Adad V, 823 a.e.c - 811 a.e.c.) para lutar contra o reino vizinho de Adana (Danuna). Ahaz da Judéia reclamou a ajuda de Tiglath-pileser, e Bar-rakib, um rei posterior de Sam'al, fez consignar que o seu pai tinha "tocado na ponta do fato de Tiglath-pileser" e que ele próprio ao lado do seu pai "correram ao lado da roda do carro do rei da Assíria" e que o seu reino prosperou à custa desta aliança.

 

Os fenícios

Os fenícios que habitavam as cidades do litoral mediterrânico no l. milênio a.e.c. eram provavelmente os descendentes dos povoadores cananeus do Levante na Idade do Bronze. A palavra "fenício" era grega e aplicava-se também à tintura de púrpura que se obtinha da concha do múrice, que tanta fama deu aos fenícios. Estes geralmente se referiam a si próprios com o nome da sua cidade de origem. Eram grandes marinheiros e a sua prosperidade vinha do comércio e, especialmente, da madeira dos valiosos bosques de cedros das montanhas situadas nos arredores das cidades costeiras.

Nos últimos séculos do 2. milênio, algumas regiões de Chipre ficaram sob influência fenícia e posteriormente os fenícios estabeleceram colônias na ilha. O comércio de cobre cipriota, que na Idade do Bronze passava por Ugarit, desviou-se pelas cidades fenícias de Tiro, Sidon, Biblos e Arvard. Conforme os autores clássicos, os fenícios estabeleceram colônias por todo o Mediterrâneo e fundaram Cádis (Gades) em 1110 a.e.c., Utica em 1101 a.e.c., Lixus um pouco antes, Sicília no século VIII a.e.c. antes da colonização grega, e Cartago em 814 a.e.c. No entanto, estes dados não estão confirmados com provas arqueológicas. As inscrições fenícias mais antigas em Chipre foram datadas por volta de 850 a.e.c. e qualquer vestígio dos fenícios parece ser posterior ao ano 800 a.e.c. Uma das razões do estabelecimento de colônias pode ser a crescente pressão da Assíria, que impôs tributos às cidades fenícias. No século VII a.e.c. os assírios conquistaram Sidon e Tiro e as colônias ocidentais passaram para mãos de Cartago.

 

Relações entre a Assíria e a Babilônia

Nabu-nasir, rei da Babilônia, morreu em 734 a.e.c. Dois anos depois o seu filho foi expulso do trono e, um pouco depois, o senhor de Bit-Amukani, uma tribo caldéia da região a sul de Nippur, tomou o poder na Babilônia. Como resposta, Tiglath-pileser marchou contra os caldeus e, depois de uma campanha vitoriosa, recebeu a submissão dos caudilhos caldeus e aramaicos. Entre eles encontrava-se Marduk-apla-iddina, o chefe da tribo Bit-Yakin, que depois se confrontaria com os sucessores de Tiglath-pileser. Em 729 a.e.c. este decidiu assumir o governo da Babilônia em vez de designar um rei vassalo ou reduzir a santa e venerável cidade à condição de província. Nos festejos do ano-novo de 728 a.e.c. e 727 a.e.c., fez as vezes de rei da Babilônia. As relações entre a Assíria e a Babilônia tinham um grande significado. A Babilônia era um importante centro religioso e cultural que, apesar da sua debilidade militar, influía na política assíria. Os assírios usavam o dialeto babilônico nas obras literárias e até nas inscrições reais, enquanto as cartas e os contratos se escreviam em assírio. Os soberanos assírios tendiam a manifestar-se pró ou contra os babilônios e no decurso do século seguinte a sua política sobre a Babilônia oscilou com violência, porque queriam obter um acordo estável para o governo da região sul.

 

Reformas de Tiglath-pileser

Os êxitos políticos e militares de Tiglath-pileser baseavam-se em uma reorganização fundamental do aparelho estatal assírio. Reformou o exército, estabelecendo uma força profissional de mercenários, sobretudo arameus, como soldados de infantaria. As tropas montadas, a cavalaria e os soldados em carro eram na sua maioria assírios, mas também incluíam alguns reforços estrangeiros. Os carros eram controlados pelo rab sha reshe, o eunuco principal. O rei valia-se dos eunucos para travar as aspirações de poder dos nobres assírios; os governadores provinciais eram na sua maioria eunucos, dado que, por não terem descendência, se mantinham fiéis ao rei. Como medida de governo, Tiglath-pileser levou a cabo deportações em grande escala e relocações de povos inteiros; avança-se o número de 150.000 caldeus e de 65.000 medos deportados. Muitos eram transladados para a Assíria, onde trabalhavam ao serviço do rei ou como camponeses. Por vezes, transladavam-se os habitantes de umas regiões para outras como método para reprimir as tendências nacionalistas e locais.

Shalmaneser V sucedeu a seu pai Tiglath-pileser. Durante o seu breve reinado (726 a.e.c. - 722 a.e.c.) continuou a política daquele e foi coroado rei da Babilônia e da Assíria. Na Lista dos Reis da Babilônia, Shalmaneser e o seu pai aparecem registrados como Ululayu e Pulu respectivamente, e os mesmos nomes encontram-se nas fontes gregas e bíblicas. Tratava-se provavelmente dos seus nomes originais, que trocaram por outros mais adequados por causa da sua ascensão ao trono. Os anais de Shalmaneser não sobreviveram, mas, segundo a Bíblia, Samaria, a capital de Israel, foi atacada e destruída por Shalmaneser, e os israelitas deportados para a Assíria.

 

A ascensão de Sargão II

Permanecem obscuras as circunstâncias que levaram Sargão a substituir Shalmaneser V como rei da Assíria em 722 a.e.c. Uma das inscrições de Sargão sugere que este contou com a ajuda dos cidadãos de Assur, que se negavam a pagar os impostos que Shalmeneser tinha estabelecido. Nas suas inscrições Sargão não menciona os seus antepassados e evita qualquer referência ao seu predecessor, a quem chama "o príncipe que esteve antes de mim". O nome Sargão significa "rei legítimo", e faz suspeitar que não foi o sucessor designado por Shalmaneser.

Não há nenhum texto sobre as campanhas de Sargão nos primeiros dois anos do seu reinado, talvez porque estivesse ocupado em reafirmar a sua posição na Assíria. No entanto, os anais posteriores ao seu reinado retiram a conquista de Samaria, obra de Shalmaneser, e atribuem-na a Sargão, situando-a nos primeiros tempos do seu reinado. Na primavera de 720 a.e.c, Sargão marchou para o sul, possivelmente com a intenção de reconquistar a Babilônia, que, durante as desordens que rodearam a ascensão de Sargão caiu nas mãos de um senhor caldeu, Marduk-apla-iddina II, chamado Mero- dach-baladan na Bíblia, da tribo Bit-Yakin. Quando chegaram às proximidades de Der, os assírios confrontaram-se com os elamitas, dirigidos pelo seu rei Hum-ban-nikash I (743 a.e.c. - 717 a.e.c.), mas os babilônios só chegaram depois de terminada a batalha.

Sargão vangloriou-se de ter obtido uma vitória total enquanto em uma crônica da Babilônia aparece claro que os elamitas tinham vencido. De fato, é possível que tudo tenha ficado em nada, e que os assírios tenham mantido o controle da cidade de Der, mas evitaram qualquer confronto adicional com o Elam ou a Babilônia durante os próximos dez anos.

Sargão dirigiu a sua atenção para o oeste, onde os soberanos de Hama, Simurru, Damasco e Samaria tinham abandonado a sua aliança com a Assíria de modo oportunista. Foram vencidos por Sargão em Qarqar, onde em 853 a.e.c. uma coligação semelhante se confrontara com Shalmaneser. Quando Gaza, ajudada ativamente pelos egípcios, se revoltou, Sargão estendeu o controle assírio até as próprias fronteiras egípcias.

Os assírios fizeram também tentativas de dominar os territórios ao norte e a oeste do Eufrates, mas enfrentaram a competição de duas das principais potências do planalto da Anatólia, os mushkis no noroeste, e Urartu no nordeste. Quase 400 anos antes Tiglath-pileser I (1114 a.e.c - 1076 a.e.c.) tinha feito frente aos mushkis. Não há provas arqueológicas da ocupação das povoações na Anatólia central entre os séculos XII a.e.c. e VIII a.e.c., mas é certo que os mushkis viviam na região que os gregos denominavam Frígia. Segundo as lendas gregas, os frígios chegaram à Anatólia na época da guerra de Tróia, no final da Idade do Bronze Final. Alguns especialistas pensam que foram os responsáveis pela destruição de Hattusa no final do Império Hitita, por volta de 1200. a.e.c., mas não há provas que corroborem a sua presença na região em épocas tão precoces. É falível também que mushkis e frígios fossem nomes alternativos para designar o mesmo povo. Em qualquer caso, no século VIII a.e.c. estavam unidos sob a égide de um único soberano.

 

O rei Midas da Frígia

O rival de Sargão nesta região, o soberano a quem ele denomina Mita de Mushki, era sem dúvida o mesmo rei Midas da Frígia, o qual, segundo as lendas gregas, convertia em ouro tudo o que tocava e a quem cresceram orelhas de burro. A capital de Midas era Gordion, denominada assim por Gordias, pai de Midas, que possivelmente voltou a fundar a cidade. Pelas escavações sabe-se que os edifícios de Gordion seguiam um modelo regular, consistindo de uma antecâmara e de um vestíbulo retangular (a chamada planta de megaron), com galerias de cada lado do vestíbulo que se apoiavam em colunas de madeira. Outro megaron tinha o piso de mosaico decorado com motivos geométricos feito com pedras ornamentais.

Encontraram-se cerca de 75 túmulos funerários à volta da cidadela de Gordion, o maior dos quais tinha mais de 50 m de altura e segundo a tradição local era o túmulo de Midas. Devido ao seu tamanho, o túmulo não foi alvo da depredação dos ladrões de túmulos. Só se pôde fazer o reconhecimento perfurando por cima para localizar a câmara funerária e depois cavando um túnel lateral. A câmara era construída com largas vigas de madeira e albergava o corpo de um homem de cerca de sessenta anos de idade e de 1,59 m de altura. No interior havia mesas e pedestais de madeira finamente lavrada, três grandes caldeiros de bronze, mais de cem fíbulas de bronze, e mais de cento e cinqüenta vasilhas e cacos de outros metais. Um dos recipientes de cobre terminava em uma cabeça de carneiro e outro em uma de leão, semelhantes às representadas nos relevos do palácio de Sargão II. Curiosamente, o túmulo não contém armas nem objetos de materiais preciosos, ouro ou prata, nem marfins ou cristais, nem pedras preciosas, nem sequer, para além das fíbulas, jóias. Algumas das fíbulas e das vasilhas de metal eram de latão (uma liga de cobre e de zinco). Este é um dos exemplares mais antigos da sua utilização. O seu aspecto, brilhante e amarelo, levou a pensar que foi a descoberta do modo de fabricar objetos com esta liga, em vez de bronze (liga de estanho e cobre) a causa da história do rei Midas. Não foi ainda esclarecido se o ocupante do túmulo era Midas ou o seu pai. Segundo uma tradição posterior, o rei Midas suicidou-se quando o seu reino foi invadido pelos cimérios por volta de 695 a.e.c., povo cuja origem possível era a Ásia central.

Na primeira fase do reinado de Sargão, Midas foi um dos seus inimigos. O receio de uma conspiração que implicasse os reis de Mushki ou de Urartu foi suficiente para provocar a cólera dos assírios, o que conduziu à anexação de Karkemish em 717 a.e.c. Quando Ambaris de Tabal enviou mensageiros a Rusa de Urartu e a Midas da Frígia, os assírios destronaram-no e anexaram o seu território em 713. No entanto, em 709, em conseqüência dos ataques do governador de Que (Cilícia), Midas converteu-se em um aliado da Assíria.

Uma cópia da carta de Sargão a Assur-sharra-u-sur, o governador eunuco assírio de Que, dá notícias desta aproximação entre Midas e Sargão e descreve as conseqüências para a futura política assíria. Diz-se que pressionados pela Assíria e pela Frígia, os soberanos desta região não tinham outro remédio a não ser submeterem-se e "limpar as sandálias do governador assírio com a sua barba".

 

O correio real assírio

Não seria estranho que a versão da história, que se dá nos anais assírios, fosse parcial, mas em algumas ocasiões as inscrições dos inimigos e dos vizinhos da Assíria forneciam dados que serviram para retificá-la. A correspondência real da corte assíria contribui também com um ponto de vista mais objetivo. Conservaram-se cerca de 1.300 cartas trocadas entre Sargão e funcionários de todo o império e os agentes no estrangeiro. Muitas delas estão fragmentadas, datadas sem nenhuma precisão e de difícil interpretação, dado que ao tratar-se de informações familiares aos correspondentes, omitem-se muitas vezes os antecedentes. De todas as formas, são um expoente das preocupações da Assíria em política nacional e internacional, que em nenhum momento se evidenciam na propaganda oficial. As inscrições reais causam uma inevitável impressão de êxito, dando por certo que ninguém oferecia resistência à vontade do rei, a quem, com os deuses do seu lado, tudo tinha de se submeter. Pelo contrário, as cartas suscitam dúvidas sobre os efeitos de alguma medida política, e descrevem como se consultavam os oráculos e os auspícios antes de empreender qualquer ação, registrando também tanto derrotas como vitórias.

Um problema com que os assírios se confrontaram foi o governo de um império tão extenso. A administração local estava sob controle do governador provincial, que cumpria ordens do rei, a quem mandava relatórios regulares. O amplo atraso nas comunicações levava a correr o risco de os governadores adquirirem demasiada independência e a adiar decisões vitais. Para solucionar este problema os reis assírios criaram um eficiente serviço de estradas e de mensageiros. Ao longo das rotas principais, com intervalos regulares de aproximadamente um dia de marcha (30 km), existiam locais onde os mensageiros reais podiam descansar e obter mulas folgadas para puxar os seus carros. Deste modo, as ordens do rei demoravam poucos dias a alcançar os destinos mais afastados do império. Este sistema foi a base da admirável rede de comunicações do Império Persa posterior.

 

Guerra com Urartu

A maquinaria bélica assíria necessitava de constantes reforços de homens, animais e equipamentos. Estes eram conseguidos por intermédio dos impostos, dos tributos e dos espólios e as campanhas anuais dirigidas pelos reis ou pelos seus oficiais principais garantiam que os povos submetidos ou aliados da Assíria não se esquecessem das suas obrigações. No norte, o poderoso reino de Urartu opunha-se aos desígnios assírios. Quando o poder da Assíria se fortaleceu e tentou exercer a sua influência sobre as regiões próximas a Urartu, as probabilidades de conflito entre ambos aumentaram. No mapa, a Assíria e Urartu partilham uma fronteira, mas na realidade eram separadas por cadeias montanhosas quase intransponíveis, que tornavam impossível qualquer ataque militar direto.

E, se os assírios tivessem conseguido atravessar as montanhas ou chegar até Urartu pelos caminhos do leste ou do oeste, que se podiam percorrer mais fácilmente, os habitantes de Urartu poderiam refugiar-se nas suas fortalezas da montanha, deixando que o inverno terrível se encarregasse de forçar a retirada dos assírios. A anexação de Urartu não estava nos planos assírios, e Sargão evitou qualquer confronto direto com Urartu, com o Egito e com Mushki. No entanto, o conflito surgiu por causa dos Estados aliados ou vassalos.

Em 716 a.e.c, Rusa I, o rei de Urartu, depôs o soberano de Maneia, no Irã ocidental, no sul do lago Urmia, e colocou Bagdatti no seu lugar. Aos olhos de Sargão, que considerava Maneia sob a influência assíria, dado que este reino representava uma fonte vital de cavalos para o exército assírio, a interferência de Rusa I era uma provocação. Portanto, invadiu Maneia, mandou degolar Bagdatti e entronizou o irmão deste, Ullusunu. Em resposta, Urartu ocupou 22 fortalezas de Maneia, mas no ano seguinte Sargão foi em ajuda de Ullusunu e reconquistou-as. Em 714 a.e.c., Sargão dirigiu-se à Média e recebeu os tributos dos soberanos de Zagros central, antes de seguir na direção do norte para o interior de Maneia, onde Ullusunu o persuadiu a marchar contra Rusa I. Quando os exércitos da Assíria e de Urartu se encontraram em um lugar próximo à extremidade sudoeste do lago de Urmia, Sargão obteve a vitória. Depois de vencer Rusa, marchou para o interior do território de Urartu, regressando à Assíria pela rota de Musair, a cidade de Haldi, onde os reis de Urartu eram coroados. Sargão saqueou a cidade e levou consigo um enorme espólio. Faz um pormenorizado relato da sua campanha em uma carta dirigida ao deus Assur, que provavelmente foi lida em voz alta nalguma cerimônia triunfal em Assur. Sargão consignou cada passagem da sua campanha, registrando em uma lista os tributos e o espólio recebido e, por fim, a menção do número de baixas, tão pouco credível, como as que por vezes se dão hoje em dia nos relatórios militares de imprensa: curiosamente, só caíram um auriga, um ginete e três infantes do exército assírio.

A vitória de Sargão sobre Urartu, no entanto, não foi tão completa ou decisiva como sugere na sua inscrição. Rusa recuperou a sua influência sobre Musair e é provável que não se suicidasse, como se afirma nos anais de Sargão, "apunhalando-se com a sua própria adaga de ferro como um porco". Foi assim inaugurado um período de difíceis tréguas entre Urartu e a Assíria. Os espias assírios informavam das condições em Urartu e em uma ocasião afirmaram que tinha sido invadido pelos cimérios. Nestas circunstâncias, era conveniente para Urartu e para a Assíria manter a paz. Assim, durante os cem anos seguintes não há notícias de qualquer guerra.

 

O fim do reinado de Sargão

No Sul de Urartu, à volta da próxima rota comercial da Mesopotâmia, existia um povo que era conhecido como os medos, dividido em numerosos grupos tribais. Nas inscrições de Sargão são chamados "os poderosos medos" ou "os distantes medos do extremo do monte Bikni", que foi identificado com o monte Al-vand, situado exatamente ao sul daquela que seria a capital meda Hamadã. Segundo Heródoto, historiador grego do século V a.e.c., os medos unificaram-se sob Deioces, que construiu a sua capital em Hamadã. Os relatos assírios levam a pensar que esta unificação não se produziu até a segunda metade do século VII a.e.c. Só se escavaram algumas povoações dos medos, as quais parecem datar do século VIII a.e.c. Uma delas, Tepe Nush-i Jan, contém os restos de um impressionante santuário religioso. Outra ficava em Godin Tepe, onde se encontravam os restos de um palácio fortificado com um vestíbulo de colunas que pode ser a residência oficial de algum líder local medo. É provável que uma estela erigida por Sargão encontrada em Najafehabad procedesse de Godin Tepe e indicasse assim o alcance definitivo da penetração assíria nos montes Zagros.

Depois de resolver os problemas no norte, no leste e no oeste em 710 a.e.c., Sargão dirigiu o seu olhar para o sul, onde Marduk-apla-iddina II governava na Babilônia. Sargão desalojou-o dali no decurso de duas campanhas, forçando-o a refugiar-se nos pântanos do sul, e em 709 a.e.c. Sargão proclamou-se rei da Babilônia nos festejos do ano-novo. Em 707, Sargão apoderou-se de Dur-Yakin, a cidade principal da tribo de Bit-Yakin, cujo chefe era Marduk-apla-iddina, que não conseguiram capturar. Sargão anexou a Babilônia para o Império Assírio, designando um governador na Babilônia e outro em Gambulu, na fronteira do Elam. Mais de 108.000 arameus e caldeus foram deportados da Babilônia em uma tentativa de pacificar o país.

Como era de esperar de um soberano que renegava os seus antepassados, Sargão decidiu construir uma nova capital. Escolheu uma localização completamente nova e chamou-lhe Dur-Sharrukin ou Fortaleza de Sargão. A primeira pedra foi colocada em 717 a.e.c. e, em 707 a.e.c., os deuses de Dur-Sharrukin entraram nos seus templos, um ano antes da inauguração da cidade. Em 705 a.e.c., Sargão dirigiu os exércitos contra o país de Tabal, nas montanhas do Tauro, onde encontrou a morte ao lutar contra um guerreiro chamado Gurdi (Gordias), nome comum entre os senhores dos reinos anatólios. Sargão alcançou o ponto alto do poder e pareceu sempre invencível. Governou o coração do Oriente Médio, do golfo Pérsico ao Tauro, das montanhas do Zagros ao Sinai. Derrotou Urartu e obrigou a uma série de reis a pagar-lhe tributo - Midas de Frígia, o faraó egípcio, Uperi de Dilmunn e sete monarcas de Yadnana (Chipre). A sua morte em combate e o fato de o seu corpo não ter sido encontrado para ser enterrado no palácio foram um duro golpe no orgulho assírio.

 

Nínive, capital natural da Assíria

Quando o filho e sucessor de Sargão, Sennakeribe, foi coroado rei em 704 a.e.c, consultou os oráculos para averiguar qual teria sido o pecado do seu pai. Para afastar de si o destino aziago de Sargão, omitiu o nome do seu pai em todas as inscrições e transferiu a capital para a nova cidade, para a antiga cidade de Nínive, que constituía o centro natural da Ásia. Situado no meio dos campos férteis de cereais, controlava uma importante passagem do Tigre e albergava o templo principal para o culto da deusa Istar na Assíria. Sennakeribe reconstruiu Nínive, levantando uma fortaleza com palácios e templos sobre o montículo de localização da antiga cidade (Tell Kuyunjik). O palácio principal era decorado com relevos gravados na rocha, muitos dos quais representavam as suas vitórias militares. Tal como em Kalhu e Dur-Sharrukin, construiu-se um palácio com um arsenal nos arredores da cidadela, em Tell Nebi Yunnus, onde segundo a tradição muçulmana está o túmulo do profeta Jonas.

Uma sólida muralha de mais de 12 km de comprimento rodeava a cidade, que tinha uma extensão de 2 mais de 7 km.

Sennakeribe empreendeu importantes obras de irrigação para fornecer água à sua cidade, que tinha crescido enormemente, aos campos de orquídeas, aos campos à volta de Nínive e ao parque real, onde cultivava plantas das montanhas de Amanu e da Caldéia.

Uma das espécies mais exóticas era "a árvore da lã", que foi identificada com o algodão, cultivado na índia desde o 3. milênio a.e.c.

Nas suas inscrições e relevos, Sennakeribe dava a impressão de ser um monarca invencível e triunfante. Na realidade, o seu reinado foi marcado por uma série de levantamentos e de derrotas. Em 701 a.e.c, Sennakeribe marchou para o Levante e a Palestina para esmagar uma rebelião, tendo iniciado o combate com o exército egípcio, que foi ajudar os rebeldes próximo de Eltekeh, na planície litoral da Filistéia. Os anais de Sennakeribe transmitem a vitória assíria. No entanto, não continuou a avançar para o sul, para a fronteira egípcia, mas regressou ao interior para se confrontar com Lachish, em uma campanha vivamente representada nos relevos do palácio de Sennakeribe. Atacaram depois Jerusalém, a sede do rei da judéia, mas não conseguiu capturar a cidade. A Bíblia e o historiador grego Heródoto assinalam que os assírios foram derrotados pelos egípcios, embora alguns historiadores pensem que a derrota se produziu em uma campanha posterior não documentada nos anais.

Ao contrário do seu pai, Sennakeribe no ano 24 do seu reinado não avançou com conquistas territoriais, tendo-se contentado em manter as fronteiras de Sargão. A anexação da Babilônia por parte de Sargão revelou-se como um problema irresolúvel e as relações com o sul dominaram a política exterior durante a maior parte do reinado de Sennakeribe. Em 703 a.e.c, Marduk-apla-iddina II revoltou-se e apoderou-se do trono da Babilônia uma vez mais. Sennakeribe teve de se confrontar com uma aliança de babilônios, caldeus, arameus, elamitas e árabes perto de Kutha. Reconquistou a Babilônia e seqüestrou membros da família e da corte de Marduk-apla-iddina, embora o líder caldeu voltasse a fugir para os pântanos. Sennakeribe designou um babilônio, Bel-ibni, como rei da Babilônia e prosseguiu a campanha na Caldéia, regressando com 208.000 presos. Os caldeus continuaram a causar problemas e em 700 a.e.c, Sennakeribe regressou à Babilônia para depor Bel-ibni e nomear o seu filho primogênito, Assur-nadinshumi, rei da Babilônia.

 

A destruição da Babilônia

Em 694 a.e.c, Sennakeribe organizou outra expedição contra os caldeus e os seus aliados elamitas. Lançou o seu ataque com navios construídos pelos fenícios, depois de descer pelo Tigre e pelo Eufrates, através dos pântanos do território elamita. Os assírios vangloriaram-se de ter obtido uma grande vitória, mas pouco depois os elamitas contra-atacaram no Norte da Babilônia, capturando Sippar e expulsando Assur-nadin-shumi.

Os acontecimentos dos próximos três anos são muito confusos. Os assírios capturaram a pessoa designada pelos elamitas para o trono da Babilônia, mas um caldeu tomou o poder nesta cidade. O próprio rei do Elam foi deposto em uma revolta, tal como o seu sucessor no ano seguinte. Apesar destas desordens, os assírios não conseguiram recuperar o controle sobre a Babilônia e em 691 a.e.c. uma coligação meridional subiu pelo Tigre para atacar a Assíria. Os dois exércitos encontraram-se em Halule (talvez próximo de Samarra), e os assírios atribuíram a si próprios a vitória, apesar de uma crônica babilônica mais confiável informar que os assírios tiveram de se redrar. No ano seguinte, no entanto, voltaram a tentar e sitiaram a Babilônia, que resistiu durante 15 meses até a sua rendição em novembro de 689 a.e.c.

A vingança de Sennakeribe foi cruel, apesar de não ser inesperada. Levou as riquezas da cidade, derrubou as estátuas dos deuses, destruiu as casas, palácios e templos da cidade e mandou cavar canais para inundar a cidade. Parte da terra das ruínas foi atirada para o Eufrates, que a arrastou até Dilmun, outra parte foi levada até regiões mais remotas do Império Assírio e outra parte ainda utilizou-se na reconstrução dos templos de Assur, levado a cabo por Sennakeribe em uma tentativa de substituir Babilônia como centro religioso.

Embora aparentemente durante o resto do reinado de Sennakeribe a Assíria tenha vivido em paz, ele morreu de forma violenta. Foi assassinado pelo seu filho Arda-Mulissi em fevereiro de 680 a.e.c. Segundo os judeus foi uma justa compensação pelo seu ataque a Jerusalém; para os babilônios representou um castigo pelo seu sacrilégio contra a Babilônia. De fato, é possível que houvesse certa conveniência babilônica na conjuração, mas provavelmente foi resultado de um confronto dinástico.

 

As lutas de sucessão

Como o primogênito de Sennakeribe, Assur-nadin-shumi, desapareceu depois de ter sido seqüestrado pelos elamitas, quando invadiram a Babilônia em 694 a.e.c., Arda-Mussili, provavelmente o seu segundo filho, concebeu fundadas esperanças de ser designado herdeiro. No entanto, Zaqutu (Nagia em aramaico), a esposa de Sennakeribe, apoiou o seu filho Esarhaddon, que foi coroado príncipe herdeiro no lugar do irmão.

Desde a época de Sargão II, era hábito o rei escolher um dos seus filhos, e não necessariamente o primogênito, como sucessor. Consultavam então os oráculos dos deuses Shamash e Adad, e se a resposta fosse favorável, o príncipe coroado entrava na bit reduti, a casa de sucessão ou do governo, onde se preparava para reinar. Nesta fase, o herdeiro podia optar por uma mudança de nome, e Esarhaddon escolhe

História - Idade Antiga - Antigüidade Oriental - Civilização Assíria
{+} Fato históricos
Batalhas
Segunda Guerra Púnica
Batalha de Ticino
218 a.e.c. Século III Novembro
Hannibal Barca
Cartagineses, líbios, hispânicos, mercenários
   
Publius Cornelius Scipio
Romanos, latinos, gauleses
{+} Batalhas
astros celestes
Planeta
Júpiter
Sistema:
Sistema Joviano, Sistema Solar
{+} Corpos celetes
TEMAS DA FILOSOFIA
Período Pré-Socrático - Escola Jônica (Matemática)
Tales de Mileto
Teorema de Tales
Por

"Quando duas retas se cortam, são iguais os ângulos"

Tales observou que, num mesmo instante, a razão entre a altura de um objeto e o comprimento da sombra que esse objeto projetava no chão era sempre a mesma para quaisquer objetos

"Este teorema certamente mostra, que de duas linhas retas, que se cortam, os ângulos contrários pelo vértice são iguais. Contudo a questão se apresenta pouco clara, porque o teorema supõe também outros conhecimentos mais simples, os quais possivelmente Tales não tivesse. Por isso, melhor é supor que Tales se tenha valido de sua experiência adquirida em cálculos práticos.

"Com referência à geometria, Pânfilo diz, que:

Tales, - aprendiz dos egípcios, - foi o primeiro, que inscreveu no círculo o ângulo reto, e que por isso ofereceu a Deus um boi. 21

O matemático Apolodoro e outros atribuem isto a Pitágoras. Só, ou ambos, Tales e Pitágoras estudaram este aspecto da matemática, e cada um com resultado Com referência ao sacrifício do boi, por causa de uma descoberta matemática, eis uma assertiva não convincente, gerada todavia dentro dos parâmetros do pensamento mítico, que faz o saber derivar de uma inspiração externa superior.

Não é impossível, que entre muitos sábios continuasse a haver um resto deste modo de pensar. Ainda o eminente Descartes, apesar de seu espírito crítico, fez uma promessa a N. Sra. do Loreto de visitar o seu santuário, se resolvesse as suas dúvidas, e como julgasse havê-lo conseguido, foi especialmente à Itália pagar seu voto. Assim também o saber de Platão gerou o mito, de que fora gerado por Apolo, o qual teria engravidado sua mãe; então o seu saber estaria explicado, porquanto era filho de um Deus, e dali porque passou a ser citado como o Divino Platão. O mesmo se dirá de alguns dos fundadores de religiões. E assim também a descoberta do teorema de Tales teria valido o sacrifício de um boi.

Tales ensinou sobre a descoberta das propriedades do ângulo escaleno e das linhas em geral.

Tales de Mileto - Período Pré-Socrático - Pré-Socráticos - Escola Jônica - Filosofia Clássica
{+} Textos
GOVERNANTES
Titus Flavius Vespasianus
Nascimento:
9 e.c.  Rieti
Morte:
79 e.c. Água Cutília
Reinado/Governo:
69 e.c. - 79 e.c. [Século I]
Sede de governo:
Roma
Aulus Vitellius Germanicus
Nascimento:
15 e.c.  Roma
Morte:
69 e.c. Roma
Reinado/Governo:
69 e.c. - 69 e.c. [Século I]
Sede de governo:
Roma
Marcus Salvius Otho
Nascimento:
32 e.c.  Ferentino
Morte:
69 e.c. Bedríaco
Reinado/Governo:
69 e.c. - 69 e.c. [Século I]
Sede de governo:
Roma
{+} Governantes
CIDADES
Alto Egito Setentrional
Madu
Fundação:
 2030  a.e.c.
Civilizações:
Civilização Egípcia - Idade Antiga - Antiguidade Oriental
{+} Cidades
SERES DIVINOS
Divindade
Deus
Protetor dos domicílios
Deus
Discordia
{+} Seres Divinos
MAPAS
Wikimedia Commons
Império romano em 69 e.c.
L'impero di Claudio dal 37 al 54 A.D. | Cristiano64 - 2007
O império de Cláudio (37 - 54)
A China antiga - Maurizio Scarpari
A dinastia Han oriental
{+} Mapas
busca
Antropologia
Cultura e civilização
Evolução Humana
Astronomia
Astrobiologia
Missões espaciais
Sistema Solar
Universo
Via Láctea
Filosofia
Filosofia Clássica
Filósofos
Temas da filosofia
Geologia
Formação dos continentes
Evolução das Espécies
4,6 Bi - Hádico
3,8 Bi - Arcáico
2,5 Bi - Proterozóico
248 Mi - Mesozóico
65 Mi - Cenozóico
História
Pré, proto-hostória - 248 mil
Idade antiga - 4000 a.e.c.
Idade média - 476 d.e.c.
Idade moderna - 1453 d. e.c.
Idade contemp. - 1789 d.e.c.
Era da informação - 1946 d.e.c.
Mitologia
Lendas medievais
Mitologia Africana
Mitologia Asteca
Mitologia Celta
Mitologia Chinesa
Mitologia Egípcia
Mitologia Eslava
Mitologia Finlandesa
Mitologia Grega
Mitologia Indiana
Mitologia japonesa
Mitologia Judaico-cristã
Mitologia Maia
Mitologia Mesopotâmica
Mitologia Nórdica
Mitologia Norte-Americana
Mitologia Persa
Mitologia Romana
Psicologia
História da Psicologia
Neuropsicologia
Psicanálise
Psicologia Evolucionista
The History Channel
O Universo
2 Temporada Ep. 06
Matéria escura
Áudio
44m27s
The History Channel
Evolução
1 Temporada Ep. 03
Forma
Áudio
44m47s
The History Channel
Evolução
1 Temporada Ep. 02
Comunicação
Áudio
44m49s
The History Channel
Evolução
1 Temporada Ep. 01
Aparelho digestivo
Áudio
44m48s
The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 17
A grande história, episódio final
Áudio
1h27m39s

Essa é a historia épica do nosso mundo mas não é a que estamos acostumados, é a historia de quase não nascemos.

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 16
H2O
Áudio
21m23s

A Terra vista do espaço é um mármore azul envolta em uma pele que muda de forma e que mantém o planeta em seu lugar, uma estrutura invisivel com o poder de mover a humanidade.

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 15
Sol
Áudio
21m22s

O estranho círculo de stonehendge, pirâmides maias, obeliscos egípcios, monumentos de pedra macica que escondem um antigo código misterioso ligados pela Grande História do Sol.

The History Channel
A grande história
1 Temporada Ep. 14
Prata
Áudio
21m23s

A prata é mais brilhante, mais resistente e mais forte do que o ouro e a prata tem uma propriedade incomum: ela mata germes. A prata pode fazer muito, mas o ouro sempre foi mais valiooso por ser mais dificil de encontrar: existe cerca de 10 vezes mais prata na Terra do que ouro. Por que existe mais prata do que ouro? A Grande História se volta para as estrelas.

[+] Vídeos
2007/2017 - v.10.6
Contato, crítica, sugestões
Reclamações de direitos
Seja um colaborador

Templodeapolo.net desde 2007 - Todos os textos publicados e seus respectivos direitos são de resposabilidade de seus autores e editoras - Textos que não incluam a autoria não são propriedade do editor deste sítio. Para receber as referências nestes casos, clique no link respectivo e solicite autoria e referências. - O Templodeapolo.net não possui nenhuma finalidade comercial. Não há propaganda e esperamos continuar assim. A proposta do sítio é puramente acadêmica, consistindo na publicação de textos com temas variados, classificados e organizados contextualmente para facilitar as pesquisas e navegação. - Caso você seja autor de algum material publicado sem sua devida autorização, por favor entre em contato para remoção imediata. - O editor é formado em Administração de empresas pela Universo/RJ. Fez cursos de extesão de História e Antiguidade Clássica/Oriental. Atualmente (2017) é graduando em Psicologia/Licenciatura pela PUC Goiás. - Templodeapolo.net ® Todos os direitos reservados aos seus respectivos proprietários.