Civilização - Religião

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A cultura egípcia era impregnada de religiosidade e a versão oficial da história egípcia era de caráter religioso. Em períodos mais recentes, até a própria economia se organizava à volta dos templos - o que não significa, necessariamente, que se tivesse tornadomais religiosa, já que os templos não eram, possivelmente, muito diferentes de outros senhorios. fosse como fosse, o que é claro é que o padrão de secularização, que temos tendência a tomar por certo no desenvolvimento das sociedades, não estava presente. A instituição central da monarquia acabou por perder o seu carisma, mas noutros aspectos tornou-se, de forma nítida, em vários aspectos: o oficiel, de que sabemos bastante, a esfera funerária, que stá tamb[em bem representada, e as práticas cotidianas da maioria da população, separadas, em larga medida, do culto oficial e mal conhecidas.

 
Ramsés II

Do ponto de vista oficial, a sociedade ra constituída pelos deuses, pelo faraó e pela humanidade. Mas a humanidade está ausente da maioria dos restistros pictóricos oficiais, que represetnam a história e a religião como a interação entre os deuses e o faraó. Isto deve-se, em parte, a um conjunto de regras que regem a compatibilidade de diferntes tipos de figura na representação e os contextos em que podem ocorrer; nos períodos mais antigos estas não permitem que um indivíduo particular e um deus sejam representados juntos e nunca permitem que as pessoas vulgares sejam representadas dentro de templos. Mas para além disso, o rei atua como mediador - em certos aspectos o único - entre o deus e os homens. Representa os homens junto dos deuses e os deuses junto dos homens, sendo também o exemplar vivo do deus criador na Terra - ideia que é definida por uma terminologia de grande riqueza e complexidade - e reinterpreta o papel deste ao estabelcer a ordem no caos. A história é um ritual no cosmo, de que sta reinterpretação é o tema principal.

O faraó é responsável pelo bem-estar do povo e toma sobre os seus ombros as procupações dele, como o "bom pastor" do Antigo Testamento - formulação conhecida também no Egito. Os reis procuravam também realçar o seu estatuto perante o povo, identificando-se com os deuses ou, em alguns casos, autodivinizando-se, de modo a poderem mesmo ser representados no seu aspecto normal apresentando oferendas aos seus alter egos divnos, como está testemunhado no que se refere a Amenhotep III e Ramsés II. Por fim, os faraós podiam ser divinizados depois da morte, mais segundo o modelo de indivíduos particulares divinizados do que como se fossem verdadeiros deuses. Assim, o rei não tinha um estatuto simples como deus ou homem. Em virtude do seu cargo, era um ser à parte e o seu papel era diferente, conforme o contexto em que atuava.

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A Supertição do Parto - 03:29

A religião oficial consistia em culto e festas religiosas nos principais templos e no processo histórico, tal como o acabamos de referir. O culto baseava-se na reciprocidade. O faraó (em teoria, mas na prática os sacerdotes) provia aos deuses e tomava conta das suas imagens. Em troca, os deuses habitavam essas imagens e mostravam a sua predileção por ele, e, assim, pela humanidade. A natureza quase comercial desta relação exprime-se com bastante clareza nas fórmulas de oferenda, no registro mais baixo da decoração dos templos, que dizem “O rei veio até vós [a divindade], trazendo oferendas que vos apresentou, para que lhe deis todas as terras [ou presente semelhante]”. O mesmo se pode ver nas principais áreas de relevos, se bem que mais discretamente. O contrato entre a divindade e os homens não exclui desta relação outras facetas, tal como acontece com um contrato de casamento. O faraó exprime a sua adoração e veneração pela divindade e celebra as suas qualidades. A divindade responde-lhe com amor e prazer na sua presença. A língua egípcia tem um enorme vocabulário para exprimir estas idéias básicas, de que alguns elementos chave funcionam de modos inesperados. O homem ou o faraó não podem “amar” o deus, mas apenas “respeitá-lo”, “adorá-lo” ou “agradecer-lhe”. As qualidades atribuídas aos reis ou às divindades são muitas vezes o que consideraríamos como reações a elas, de modo que “medo” significa a capacidade de provocar o medo e “amor” a de inspirá-lo. As relações entre os participantes são muito hierarquizadas e o subordinado de qualquer conjunto é um provedor ativo de modestos benefícios, mas receptor passivo de outros mais elevados.


O objetivo do culto é o objetivo da história: manter e realçar a ordem estabelecida do mundo. Os templos mais importantes eram consagrados a divindades locais, na sua maioria consideradas, nas suas regiões, como sendo os criadores e abarcando todos os aspectos do mundo divino. O culto era praticado por uma hierarquia de sacerdotes. Não tinha a ver com a população em geral, exceto com os sacerdotes a tempo parcial que prestavam serviço um mês em cada quatro, e das pessoas que trabalhavam as terras dos templos. Só os sacerdotes podiam entrar no templo. O deus deixava o templo para várias cerimônias, durante as quais as pessoas normais se podiam aproximar dele, nomeadamente para consultas de oráculo, mas mesmo nessas alturas a imagem permanecia escondida num altar e era transportada numa barca simbólica, sabendo-se assim que o deus estava presente, embora não fosse visto.


Fora destas cerimônias, o culto oficial era irrelevante para o indivíduo. É impossível saber-se qual a sua atitude em relação a esse culto, se o via como essencial mas não lhe dizendo respeito, ou se como extravagância sem significado. Há um ou dois excertos de textos que questionam o valor das oferendas, mas estes devem ser observados à luz do pressuposto geral de que eram necessárias. Qualquer que fosse a atitude do indivíduo, virava-se para outro lado para satisfazer as suas próprias necessidades religiosas. Para além dos templos principais, havia em todo o país muitos santuários locais de divindades menores, ou de formas diferentes das mais importantes, um tanto como nas cidades européias as catedrais coexistem com igrejas menores. As pessoas vulgares iam a estes santuários,onde rezavam, apresentavam oferendas e depositavam perguntas para o oráculo. Existiam também centros de peregrinação como Abido, que teve o seu apogeu no Império Médio, e Sakkara, onde a necrópole dos animais funcionou como pólo nos períodos tardio e ptolomaico. A julgar pelas fórmulas de cartas, as pessoas visitavam os santuários – ou talvez rezassem em casa – todos os dias para intercederem pelo bem-estar do correspondente ausente. Tais fórmulas não são necessariamente bons testemunhos, mas certos pormenores sugerem que há nelas um fundo de prática genuína.


As atividades religiosas deste tipo têm paralelo em imensas outras práticas, muitas das quais se aproximam da magia. Podemos citar, quase ao acaso, de entre os tipos de objetos religiosos, amuletos, incluindo decretos divinos salvaguardando os seus portadores, bustos de antepassados nas casas e numerosos objetos especiais e modos de vestuário que rodeavam o parto. Através de textos sabemos de curas mágicas para doenças, poções de amor, calendários de dias de sorte azar, afastamento do mau-olhado, adivinhação por meio de sonhos e várias práticas mais raras, cartas escritas a parentes mortos que se julgava estarem ressentidos com os vivos, e muito mais. Apesar das variadas formas de observância religiosa e de centenas de divindades diversas, alguns acontecimentos da vida eram, surpreendentemente, seculares. Não temos qualquer testemunho de rituais efetuados sobre os recém-nascidos, mas apenas dos destinados a facilitar o parto e a remover a impureza do ventre da mãe. Do mesmo modo, fases da vida como a circuncisão dos rapazes, ao que parece pouco antes da puberdade, ou o casamento, não parecem ter sido alvo de ritual.


Um campo da vida religiosa popular e oficial que impressionou os estrangeiros na antiguidade foi o culto dos animais. Sempre tinha havido animais considerados sagrados para determinadas divindades – ou talvez venerados eles próprios como divindades – e enterrados com cerimonial. No período tardio estas práticas proliferaram imenso. A espécie associada à principal divindade de uma região era muitas vezes ali considerada sagrada e um único membro ou todos os seus membros eram mumificados e enterrados. Pagar o funeral de um animal era uma “boa ação”. Em Mênfis, cuja população era certamente bastante mista, era enterradas muitas espécies. A mais famosa é o boi Ápis, animal sagrado de Ptah, enterrado numa catacumba (o Serápio), e a sua mãe numa segunda, existindo também testemunhos, em diversas quantidades, de íbis, cães ou chacais, gatos, babuínos, mangustos e carneiros. Outras espécies, incluindo vários tipo se peixes, cobras e crocodilos, são conhecidas em outras partes do país. Surgiu uma cidade inteira no deserto, a norte de Sakkara, para prover a estas necessidades, e criavam-se Íbis quase em escala industrial, antes de serem, talvez levadas a uma morte precoce. Estas práticas, que ainda não compreendemos inteiramente, eram comuns a todas as classes da sociedade. O seu caráter público e o declínio dos túmulos particulares naquela altura podem estar relacionados com um enfraquecimento da crença numa vida individual depois da morte.

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Antes do Império Novo não existia um clero permanente e numeroso. O crescimento dos templos, na 18ª dinastia, acompanhado de outras alterações religiosas, viu o aparecimento do clero como classe, o que se prolongou, apenas com ligeiros retrocessos, até ao período tardio. As necessidades básicas do culto podiam ser satisfeitas pó rum oficiante, por um especialista em rituais ou por um sacerdote-leitor, que podia ser a mesma pessoa que o oficiante, e pelos sacerdotes em tempo parcial que tratavam das funções mais práticas e menos sagradas.
Mas em Karnak, por exemplo, havia desde o primeiro ao quarto sacerdote de Amon, à frente de uma equipe enorme, detentora de poder considerável. Havia uma constante tendência, de acordo com um Princípio base egípcio, de o filho suceder ao pai no seu cargo sacerdotal. A esta se opunha outra doutrina, segundo a qual o faraó devi a nomear livremente a pessoa mais adequada para o cargo. Em finais do Império Novo a primeira triunfou e a sociedade egípcia começou a caminhar em direção a uma situação rígida, um pouco como a descrita por Heródoto no século V a.e.c., na qual existia uma divisão hierárquica segundo os vários tipos de ocupações, quase semelhante à das castas. A analogia é reforçada pelas restrições que os sacerdotes tinham de observar quanto a comida, modo de vestir, de se barbear e continência sexual quando estavam de serviço – mas talvez não em outras alturas.

Os sacerdotes obtinham rendimento dos templos e muitas vezes detinham sinecuras em vários. As oferendas eram colocadas diante do deus e, “depois de ele se ter satisfeito com elas”, revertiam primeiro para santuários menores e em seguida para os sacerdotes, que consumiam os seus resíduos menos espirituais. As próprias oferendas eram, no entanto certamente apenas uma pequena proporção do rendimento dos templos, destinando-se grande parte delas – também imaginariamente oferendas – a pagar diretamente ao pessoal e a comprar determinados produtos de que o templo não dispunha. Os templos tinham igualmente oficinas e escolas anexas, que funcionavam num contexto mais alargado, suprindo também às necessidades da instituição a que pertenciam.
Os sacerdotes e burocratas profissionais, incluindo os do exército, eram as duas categorias básicas as pessoas alfabetizadas a burocracia parece ter perdido a sua independência e importância na política no decorrer do período ramessida, sendo substituída pelo exército e pelo clero (muitas vezes uma só entidade). Assim, o clero tornou-se o repositório da cultura intelectual. A magia legítima, ou “branca”, tinha sido apanágio dos sacerdotes-leitores, mas no período tardio os sacerdotes adquiriram uma importância cultural mais vasta. Os visitantes gregos falam deles com freqüência e influenciavam os acontecimentos, sobretudo pela mobilização da opinião pública contra cortes nos seus rendimentos em alturas vitais da história, nomeadamente depois da morte de Cambises (522 a.e.c.) e no reinado de Teos (360 a.e.c.). A cultura dos templos do período Greco-romano era uma cultura sacerdotal, de que uma característica importante era a desvalorização do papel do rei. Em períodos anteriores, os sacerdotes apresentavam-se perante o deus como delgados do faraó, mas agora era este que s aproximava da divindade pelo fato de Ser sacerdote. O estereótipo de uma sociedade egípcia dominada por sacerdotes não é válido para períodos anteriores, mas tem alguma exatidão quando relacionada com períodos mais recentes.

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O Mito da Criação - 01:18

O politeísmo egípcio veste a reação do homem ao mundo com uma forma extremamente complexa. Os próprios deuses têm nele maior importância do que os mitos acerca deles, não sendo o mito um aspecto tão relevante da religião como o era, por exemplo, na Grécia antiga. Alguns deuses eram definidos pelo mito, outros pela localização geográfica e pela organização em grupos. Quase todos estão basicamente associados a um aspecto do mundo, Rá ao Sol, Ptah aos ofícios, Hathor às mulheres, etc., mas isto não esgota as suas características. Em contextos específicos, muitos deuses podem exibir o mesmo aspecto, e, ao mesmo templo qualquer um pode tomar praticamente todas as características da divindade para qualquer fiel.

Quase não existem versões nativas completas dos mitos egípcios, e, no que se refere a alguns deles, temos de nos fiar em textos de autores clássicos. A forma da maioria dos textos religiosos egípcios exclui a narrativa e tem-se posto em dúvida se existiriam grandes textos que relatassem muitos completos. Dispomos de versões, do Império Médio, do Novo e do século IV, de episódios do conflito entre Hórus e Seth pela herança de Osíris, mas o texto não é o mesmo em nenhuma delas e os episódios variam. Estas versões têm em comum um tom bastante secular e uma representação pouco lisonjeira dos deuses. Podem considerar-se tanto ficção como textos religiosos, embora compreendam narrativas míticas comparáveis em tom às integradas em composições religiosas e, sobretudo, mágicas.

A Barca de Rá - 02:35

Os mitos da criação dão primazia ao deus-sol Rá, que se pode também chamar Rá-Harakhty ou (Rá) Aton. O mais generalizado é aquele em que o criador surge do caos líquido, no cimo de um morro, primeira matéria sólida, e, masturbando-se ou cuspindo, cria um par de divindades, Shu e Tefenet. Shu e Tefenet, por seu turno, deram origem a Geb e Nut, a terra e o céu, cujos filhos eram Osíris, Ísis, Seth e Néftis. Este grupo de nove divindades formavam a enéade de Heliópolis, possuindo outros centros populacionais grupos similares. Osíris e Ísis são os protagonistas do mais conhecido mito egípcio, que diz respeito ao assassínio de Osíris por Seth, à concepção de Hórus por Ísis e pelo corpo morto de Osíris e à eventual derrota de Seth por Hórus. Este mito foi registrado em grego por Plutarco, no século I d.e.c., parecendo grande parte da sua narrativa básica ser genuinamente egípcia.
As idéias sobre o ciclo solar são talvez mais tipicamente egípcias do que estes mitos. Tais idéias utilizavam um pequeno repertório de temas básicos, que variavam interminavelmente. Não seria correto procurar uma perfeita consistência nestas variações, sendo o significado constante o próprio ciclo. O deus-sol nasce de novo todas as manhãs, atravessa o céu na barca solar (sendo o barco o meio normal de transporte), envelhece, morre – o que nunca é afirmado explicitamente – e viaja pelo mundo dos mortos durante a noite, num ciclo de regeneração. Enquanto no mito da criação a deusa dos céus, Nut, é neta do deus-sol, neste ciclo ela é sua mãe, em cuja boca entra à noite e de quem nasce de manhã. Na altura do renascimento ela pode ser também Hathor, que é, de outro modo, designada por filha de Rá. É talvez por alusão a estas idéias que os deuses criadores, nomeadamente Amon-Rá, se podem chamar o “o touro da sua mãe”. Estes temas são mais situações míticas do que mitos completos, já que não se combinam para formar narrativas. Podem, no entanto, gerar mitos, de que conhecemos dois completos, a “Destruição da Humanidade” e “Ísis e Rá”, que tomam como ponto de partida a velhice do deus-sol – um dos aspectos básicos do ciclo cosmográfico – e desenvolvem-no em termos da decadência física e das suas conseqüências para o reinado do deus no final da era primeva da Terra.

 

Barca de Rá

O ciclo solar deu origem a uma infinidade de concepções interligadas, sendo as mais notáveis relacionadas com o momento crucial do nascer do Sol.Na sua viagem pela noite o deus é acompanhado no seu barco por um grupo de divindades, a maioria das quais são personificações de aspectos do seu ser, com nomes como “poder mágico” e “percepção”, sendo o barco puxado, em determinado ponto do percurso, por uma parelha de chacais. Tanto o pessoal como o mobiliários do barco variam em “livros” diferentes à medida que se conhecem as composições mistas de representação e texto acerca do mundo dos mortos. Quando o deus-sol emerge da noite, toda a criação se regozija e pode ser saudado por deuses e deusas, pelo rei, pelas “almas do oriente”, por personificações de categorias da humanidade e por babuínos que gritam aclamações. É de notar que, tal como nos templos, os homens comuns são excluídos desta cena. Todos estes elementos parecem ser quase respostas a perguntas como: “Quais são os aspectos do deus-sol que se alteram durante a noite?” ou “Como é anunciado o seu aparecimento de madrugada?”. As respostas são mais quadros do que mitos.

A organização dos deuses em conjunto locais é semelhante na sua variedade e aparente arbitrariedade. O agrupamento mais comum é a tríade, compreendendo duas divindades “adultas” e uma jovem. As tríades são, contudo, apenas seleções, podendo outras divindades ter uma ligação vaga com o grupo ou trocar membros com ele. Assim, a tríade de Tebas compreende Amon-Rá, Mut e Khons, divindades dos três principais templos de Karnak. Tem a forma de um grupo familiar, mas Mut não é mulher de Amon-Rá, nem Khons é filho deles. Trata-se antes de três divindades locais com origens diferentes, associadas segundo um modelo familiar, cuja falta de realismo é vivenciada pelo fato de haver apenas uma “criança”. Esta simplificação pode ser justificada pelas importância do número 3 e por um princípio de economia. Amaunet, uma Amon feminina, é outra divindade tebana, que se encontra por vezes no lugar de Mut, enquanto Montu, provavelmente o deus primitivo do nomo de Tebas, tinha o seu próprio complexo de templo logo a norte do recinto principal, em Karnak. Em Mênfis, as quatro principais divindades, Ptah, Sekhmet, Nefertem e Sokar (o deus da necrópole), variavam de igual modo na sua associação: os primeiros três formam uma tríade, enquanto Sokar é muitas vezes identificado com Ptah. Hathor e Neith, cujo culto era importante em Mênfis, estão incluídas do grupo principal. Em Heliópolis o deus-sol, cujo culto se dividia nos de Rá e Aton, estava quase sempre só, mas adquiria duas companheiras femininas, Iusas e Hathor Nebethetepet, essencialmente personificações do aspecto sexual dos mitos da criação solar.

Chama-se “sincretismo” a um outro meio importante de associas divindades. Uma divindade adquire um nome múltiplo, sobretudo ao tomar o nome e caráter de outra mais importante. Amon-Rá é, assim, Amon no seu aspecto de Rá, o que pode alargar-se para formar Amo-Ra-Aton, Amon como Rá e Aton, o aspecto envelhecido do deus-sol e a sua importância em períodos primitivos. Num caso um pouco diferente, em Abido, Osíris é identificado, como Osíris-Khantamentiu, com um deus local cujo culto foi talvez o original na zona. Tais associações nunca submergem completamente a Identidade das divindades cujos nomes estão ligados.

Os deuses até aqui referidos podem ser considerados divindades maiores. Quase todos tinham um culto e uma região onde eram soberanos. Algumas divindades cósmicas, com Geb, não tinham culto local. Mas há também divindades menores, encontradas apenas em contextos restritos. As mais conhecidas são, talvez, Bes e Taweret, figuras “domésticas” associadas em particular ao nascimento. Ambas têm formas compósitas monstruosas, de um tipo que não se encontra entre as divindades maiores, sendo Bes um anão com um rosto enorme, tipo máscara, e Taweret um misto de hipopótamo e crocodilo, com seus pendentes, aparentemente humanos, e um ventre enorme. Para além destes há uma infinidade de demônios, de que se encontram testemunhos em textos mágicos e funerários, com diversos nomes e, muitas vezes, formas grotescas. A maioria parece restringir-se a um ou dois contextos cada um – um texto em particular, ou uma hora da noite. A principal exceção é Apópis, uma serpente gigante, inimiga do deus-sol quando este passa pelas fases cruciais do seu ciclo, e que tem de ser derrotada por Seth, que, na proa do barco solar, a trespassa com o arpão.

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Papiro de Ani

O mundo subterrâneo que foi referido é uma versão particular do reino dos mortos, conhecido, sobretudo, através dos túmulos do Império Novo, existindo, tal como em todos os aspectos da religião egípcia, muitas alternativas.  As concepções da vida do rei depois da morte, que se acreditava iria juntar-se aos deuses na morte, eram a princípio diferentes das que eram válidas para o resto da humanidade, embora viessem a ser difundidas cada vez entre mais pessoas. Qualquer que fosse o destino de uma pessoa, não estava de modo algum assegurado. A outra vida era cheia de perigos, ultrapassáveis, sobretudo, por meios mágicos.

O ponto de partida de todas estas idéias era o túmulo. O dispêndio sem paralelo de recursos dos egípcios ricos nos funerais tinha, obviamente, por objetivo realçar o prestígio do dono do túmulo durante a vida, mas isto era apenas secundário face à sua finalidade última. O defunto podia continuar a existir dentro e à volta do tumulo, ou podia viajar pelo outro mundo. O seu objetivo era identificar-se com os deuses, sobretudo com Osíris, ou juntar-se como espírito transfigurado, ao ciclo solar, como membro do “barco dos milhões”. O barco nunca é representado com a sua vasta equipagem, possivelmente porque os seres humanos eram excluídos do tipo de pintura em que aparece. Ambos estes últimos destinos parecem ter sido primitivamente restritos ao rei e os textos particulares do Império Antigo referem-se antes a “caminhar nos caminhos perfeitos do Ocidente [o reino dos mortos]”.

Entre a morte a incorporação no mundo divino havia um julgamento, tema menos importante para os reis do que para o resto da humanidade. O julgamento é representado com freqüência em túmulos, papiros, sarcófagos e mortalhas. O seu tema central é a pesagem do coração do morto numa balança, com Maat, a concepção egípcia da ordem correta, representada quase sempre como um hieróglifo, ou por uma pena de avestruz, ou por uma figura da personificação de Maat, deusa com uma pena metida numa fita à volta da cabeleira. Thot, o deus-escriba da sabedoria e da justiça, efetua a pesagem diante de Osíris, que preside a uma sala de julgamento com 42 juízes. Se o coração e Maat estão em equilíbrio, o teste é favorável e o morto é apresentado a Osíris em triunfo. O julgamento é segundo Maat, ou seja, a conduta correta em vida. Como é natural, toda a gente pretendia evitá-lo e os mortos tinham preparada uma declaração de inocência de todo o tipo de pecado. Tanto a declaração como a ilustração de um resultado favorável eram modos mágicos de contornar o julgamento, tal como a literatura funerária e outras provisões no túmulo eram auxílios mágicos para o êxito no outro mundo.

As cenas de julgamentos mostram um híbrido mostro feminino chamado “Devoradora” ou “Devoradora dos Mortos”. O seu papel era o de comer os que não passavam no teste, o que se pode ver representado num exemplo do período romano. Para os Egípcios, a partida desta vida era uma primeira fase, sendo a segunda a morte, que causava uma total aniquilação, o que era de evitar. Aqui, contudo, as noções de utilizavam tornam-se estranhas aos olhos Ocidentais. A aniquilação não fazia desaparecer totalmente as vítimas, mas os “mortos” – isto é, segundos mortos – são representados no mundo subterrâneo. Entravam num outro modo de existência, que era uma ameaça para o mundo ordenado e que tinha de ser combatido.

Algumas cenas das paredes dos templos eram parte das providências tomadas para a vida depois da morte, mas em muitos casos a sua relevância para a sobrevivência não é clara e o seu conteúdo superficial é secular. Para além destas pinturas, o sepulcro continha grande variedade de bens materiais, incluindo (nos períodos mais antigos) enormes quantidades de comida, estátuas que podiam ser habitadas pela “alma” do defunto – como uma estátua de culto o podia ser por um deus – e a múmia em si, cuidadosamente enfaixada, protegida por numerosos amuletos, colocada num caixão ou em vários, encaixados uns dentro dos outros, e magicamente ressuscitada num ritual chamado “abertura da boca”. Muitos dos bens encontrados nos túmulos repetiam simbolicamente o tema da ressurreição, sendo esta idéia expressa numa enorme variedade de formas. Alguns objetos correspondiam a determinadas necessidades no outro mundo. O morto era acompanhado, no seu funeral, por umas 400 figuras shawabty, talvez a mais comum de todas as antiguidades egípcias. Estas eram pequenas figuras substitutas do morto, um dos papéis das quais era o de trabalhadores que deviam responder a um possível dever de corvéia que implicava carregar areia. Esta concepção é obscura e não parece fazer parte de um corpo coerente de crenças, mas antes ser uma idéia isolada.

O acento nas crenças funerárias mudou, mas poucas desapareceram. Em vez disso, eram utilizados nos túmulos objetos correspondendo a várias concepções diferentes. Não se deve procurar nelas qualquer consistência global, exceto na medida em que se relacionam com a esperança na ressurreição e na continuação da vida depois da morte. As mais variadas e numerosas provisões que se conservaram são as de Tutankhamon, mas o seu equipamento funerário era, sem dúvida, modesto em comparação com o de Amenhotep III ou Ramsés II.

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Referências Bibliográficas
1 H. Frankfot, Ancient Egyptian Religion. Nova Iorque, 1998.  
 
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