| Dinastico Primitivo - Djoser 2630-2611 a.e.c. |
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 Djoser, o sábio |
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O reinado de, Djoser, marcará uma virada decisiva na evolução religiosa, artística e provavelmente social do Egito Antigo. Um pormenor ínfimo mstra-nos até que ponto a época inaugurada por Djoser é inovadora: na lista real de Turim, que apresenta uma sucessão de faraós, o nome de Djoser distingue-se imediatamente, pois o escriba usou tinta vermelha, fato de todo excepcional.
Na verdade, poucas coisas assinalam o extraordinário reinado de um dos maiores faraós egípcios. Mâneton, o sacerdote egípcio que confeccionou uma lista dos reis, chama-o de Tosortos e especifica que uma nova dinastia tem início com ele. Desta terceira dinastia quase nada conhecenãos no campo do “fato histórico”. O número e a ordem de sucessão dos reis ainda permanecem um enigma. Nem sequer é certo que Djoser seja o segundo ou primeiro faraó desta dinastia. Estes lapsos, no entanto, não cobriram os pontos altos: as fortes personalidades do rei Djoser, do seu primeiro-ministro Imhotep e o precioso conjunto arquitetônico de Sakkarah.
Djoser reina sobre um Egito unido. E estanãos certos disso, pois o complexo nãonumental de Sakkarah exigiu um forte poder central para ser edificado. O Alto e o Baixo Egito conservaram a sua originalidade e as suas instituições particulares, ao mesmo tempo em que foram reunidos sob a “dupla coroa”. As lutas tribais e partidárias terminaram. Todo o Egito se reconhece na pessoa do seu chefe e a paz interior tonãou-se uma realidade profundamente enraizada.
Terá Djoser aproveitado uma situação estabelecida, ou terá contribuído para criá-la? A resposta deve ser instigada. É certo que, quando ele subiu ao poder o Egito já ha muito ultrapassara o estágio da oposição entre clãs regionais. Mas também parece que a própria personalidade do nãonarca conduziu irreversivelmente o país na direção da unidade nacional. Resta apenas evocar o impressionante rosto de Djoser, conhecido graças a única estátua de Sakkarah, para compreendernãos a força de caráter, a vontade feroz e a autoridade natural inscritas no comportamento deste ser excepcional.
Este rei autoritário foi também um rei justo. A sua memória foi honrada ao longo de toda a história do Egito, e as gerações posteriores conservam dele a recordação de um homem sábio e competente. Djoser teria escrito livros de ensinamentos, provavelmente para uso dos futuros faraós, a fim de lhes ensinar as regras do “oficio” de rei e de ajudá-los a adotarem uma atitude certa perante os deuses e os homens.
A própria idéia de paz prende-se a pessoa de Djoser, pois nenhum faraó simboliza melhor o equilíbrio sereno de uma civilização em plena posse dos seus meios de criação, inteiramente preocupada com a concretização artística do seu ideal. O século de Djoser é o de uma autêntica sabedoria. O seu próprio nome é significativo: a palavra djoser significa, em egípcio, “prestigioso, admirável, sagrado”. Há neste ternão a noção de algo “a parte”, excepcional em relação ao mundo ordinário. Note-se que o nome de Djoser não aparece nos seus nãonumentos contemporâneos, mas muito mais tarde, no Médio Império. Os egípcios deram o nome de “Djoser, O Magnífico”, ao genial autor do conjunto funerário de Sakkarah que continuam a admirar.
Djoser é conhecido na terceira dinastia sob o patronímico Neterierkhet. Os nomes egípcios têm sempre um sentido que o historiador e o historiador das religiões devem examinar com o maior cuidado. Neste caso, Neterierkhetpode traduzir-se por “mais divino que os corpos (dos deuses)” ou “divino de corpo”. Em ambos os casos, a indicação é clara: o faraó afirma-se enquanto soberano investido de um poder sagrado que o situa acima do comum dos nãortais.
Não nos deixenãos enganar: a afirmação é de ordem religiosa e não consequência de uma tirania. Pelo fato de o corpo do faraó ser inãortal, o Egito inteiro se comunica com o divino. O destino de cada egípcio está ligado ao do seu rei. E por essa razão surpreendente, mas muito profunda, que o reinado de Djoser será consagrado à edificação do seu gigantesco complexo funerário de Sakkarah.
Tal é, de fato, o ponto-chave do reino: construir uma morada eterna para abrigar um corpo divino.
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 O reinado de Djoser |
| A Estela da Fome |
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Antes de nos interessarmos por Sakkarah e seu mestre-de-obras, Imhotep, convém que nos interroguemos acerca dos acontecimentos que marcaram o reinado de Djoser. Na verdade, estanãos pouco informados sobre este assunto. Graças a uma inscrição encontrada em Uadi Hammamat, vale por onde passa a estrada que vai da cidade de Coptos ao mar Vermelho, sabemos que o faraó enviou expedições ao Sinai. Nos rochedos do Uadi Maghara, na peninsula do Sinai, estão representados vários soberanos, entre os quais Djoser, que bate com sua maça piriforme num chefe beduíno prostrado em sinal de submissão.
Mais do que um acontecimento particular, devenãos ver nisso o símbolo do poder exercido por Djoser sobre as tribos nômades que já não ousam transpor as fronteiras do “Duplo País” e perturbar a serenidade dos egípcios. E talvez devanãos igualmente compreender que Djoser já mandava explorar as minas de cobre do Sinai. Seja como foi, a cena clássica do faraó derrubando o inimigo assume aqui um valor especial: trata-se da vitória da ordem sobre o caos, de Djoser, o Magnífico, sobre as forças obscuras do mal, Outro fato parece pertencer mais à lenda do que à História, mas a sua importância merece que o assinalenãos com alguns pormenores. No reino de Djoser teria havido uma grande fome.
Estela da Fome - lnfelizmente, não o sabemos por meio de um documento contemporâneo, mas sim por uma estela da época ptolomaica separada da terceira dinastia por um bem considerável número de anos. A estela intitulada “da fome” está gravada num rochedo descoberto ao sul da ilha de Sebel, na região de Elefantina, na extremidade meridional do Egito. Fato extraordinário: os sacerdotes que gravaram esse texto dataram-no da época de Djoser! É evidente que não tencionavam enganar quem quer que fosse com um documento falso. Podemos, portanto, considerar que um dos Ptolomeus se identificou com o seu remoto e glorioso antepassado, Djoser, a fim de dar um caráter sagrado à sua própria luta contra a fome. Também é possível supor que tenha sido transmitido um documento histórico que evocava acontecimentos muito antigos.
O que nos conta a estela da fome? Ela nos diz que Djoser está profundamente triste. Sentado em seu trono, na solidão do seu palácio, sente um verdadeiro desespero. A seca já data sete anos. O Nilo Não voltou a transbordar e a depositar na terra do Egito o lodo fértil. É a miséria e a fome para todos. Os corpos mais vigorosos perdem a força; em breve sequer terão força para andar. As crianças choram, os velhos fatalistas estão sentados no chão a espera da morte. Mesmo os cortesãos passam privações. Os templos vão sendo fechados um a um. O serviço dos deuses já não é seguro.
Qual a razão desta desgraça?, pergunta Djoser. Volta-se para os sacerdotes do culto de Imhotep, o filho do deus Ptah, sábio entre os sabios. O que se passa? Por que motivo o Nilo, O sinuoso, aquele que serpenteia, já não cumpre a sua missão? Os sacerdotes procu¬ram nas salas dos arquivos do templo de Thot, na cidade santa de Heliópolis. Desenrolando os livros sagrados, recolhem preciosas informações, que transmitem a Djoser. No meio das águas existe uma cidade: Elefantina. É uma cida¬de notável, sede de Rá, o deus Sol, quando este decide conceder a vida.
Ora, existem lá duas tetas que dispensam todas as coisas. “O Nilo”, diz a estela, “acasala saltando do chão um rapaz que fecunda uma mulher e recomeça a ser um jovem cujo coração está vivo.” Mas este renascimento anual depende de um deus: Khnum, homem com cabeça de carneiro, cujas duas sandálias são colocadas sobre as ondas. Se Khnum não as levantar, não será libertado. O Nilo não rejuvenescerá, e o vale estará condenado a seca. Djoser compreende que o deus Khnum está irado. Manda, pois, realizar purificações e procissões em honra do deus, faz-lhe oferen¬das de pão cerveja, aves e vacas.
Khnum aparece-lhe num sonho: “se o rei continuar a honrá-lo como merece, levantará as sandálias, libertará O Nilo e fará voltar as inundações. Ao despertar, Djoser emite um decreto a favor de Khnum. O milagre realiza-se: graças à sabedoria do rei e à intervenção de Imhotep, as flores voltam a florir, a abundância regressa, a fome desaparece, a terra resplandece e a alegria volta a habitar o coração dos homens. Terá essa narrativa um conteúdo histórico preciso? De fato, não é impossível que conserve a memória da soberania exercida por Djoser sobre toda a região da primeira catarata e, mais particular-mente, sobre a Núbia.
Para apaziguar Khnum e obter seus favores, Djoser oferece-lhe a região compreendida entre Assuã e Takompso, O Dodecasceno, segundo o nome grego. Este território gozou de um estatuto especial durante toda a história do Egito, estatuto esse que lhe deve ter sido concedido durante o reinado de Djoser. A estela salienta a sabedoria e a piedade de Djoser. Desafiado por um dos flagelos mais graves — a fome — , a sua primeira reação não é de ordem econômica, mas religiosa. Volta-se para os sacerdotes mais sábios e mais competentes. Não restabelece a ordem das coisas adotando medidas materiais, mas aplacando o furor divino que está na origem da desventura da terra. Djoser, o Magnífico, foi um homem de fé, mas não se abandonou a uma mística estéril. A sua grande obra era de ordem arquitetônica. Para conseguir criar o conjunto de Sakkarah, recorreu a um arquiteto genial, Imhotep.
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 Imhotep |
| As funções | O Prestígio | Divinizado | A Tumba de Imhotep |
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“Graças à sua ciência médica”, escreve o sacerdote Mâneton acerca de Imhotep, “ele é comparado pelos egípcios a Esculápio; foi ele quem descobriu a maneira de talhar a pedra para a construção dos monumentos e também se consagrou às Letras”. Imhotep, “pri¬meiro-ministro”, e amigo pessoal de Djoser, o Magnífico, é um dos maiores gênios da História. É autor de uma revolução artística de grande alcance, à medida que foi o primeiro arquiteto a construir em pedra um conjunto monumental tão importante como o de Sakkarah.
De acordo com uma inscrição encontrada no Uadi Hammamat, Imhotep era filho de Kanefer, “Chefe das Obras dos países do Sul e do Norte”, ou, em outras palavras, o mestre-de-obras do reino diretamente nomeado pelo faraó. Tinha, pois, a quem puxar e aprendeu provavelmente o seu ofício com o pai, nas oficinas reais de Mênfis, a capital do Egito. Antes de Imhotep, a pedra já havia sido utilizada nas sepulturas reais, mas de modo parcial as mastabas em tijolo tinham, efetivamente, partes de granito ou calcário, tímidas tentativas em comparação com o extraordinário projeto do mestre-de-obras de Djoser. Este último, consagrando o seu reinado à edificação de um gigantesco palácio funerário em pleno deserto, recorreu a este espe¬cialista, Imhotep, cujo nome significa “Aquele que vem em paz”. A novidade da concepção deve corresponder a das técnicas: Imhotep inventa a pedra talhada e estabelece métodos de transporte e de assentamento em larga escala.
As Funções - De acordo com a tradição, não possuía apenas qualidades de arquiteto: era igualmente medico, mago, astrólogo, escritor e filósofo, competências também atribuídas a muitos dos grandes mestres-de-obras, nomeadamente na Idade Media, tanto no Oriente como no Ocidente. Para dirigir as obras, conceber o plano de um edifício, orientar os operários que talhavam a pedra e os escultores, decidir o “programa” simbólico destinado a ornar o monumento, um mestre-de-obras precisava ter praticado estas disciplinas. Imhotep tinha ainda pesados cargos administrativos na corte de Djoser. Conhecemos os seus títulos graças a uma comovente inscrição gravada no pedestal de uma estátua de Djoser, do qual apenas subsistem os pés: ao lado do nome do rei lemos o do seu principal colaborador, Imhotep, “O chanceler do rei do Baixo Egito, O primeiro depois do rei, o administrador do grande palácio, o nobre hereditário, o sumo sacerdote de Heliópolis, o carpinteiro, o escultor, o fabricante de recipientes em pedra”.
Imhotep descreve-nos praticamente a sua carreira: começou por talhar recipientes de pedra data, tendo sido encontrada uma quantidade impressionante nos subterrâneos de Sakkarah. Depois foi escultor e arquiteto, e exerceu as mais altas funções administrativas e religiosas: administrativas na qualidade de porta-selos do rei, ou seja, de alto dignitário capaz de tomar decisões relativas ao destino do Estado egípcio; religiosas enquanto sumo sacerdote de Heliópolis, a cidade santa por excelência, a cidade do deus Sol. Os títulos de Imhotep pertencem aos mais antigos substratos da civilização egípcia.
Na época de Djoser conservam todo o seu significado e mostram, na realidade, que ele dispunha de quase todos os poderes civis e religiosos, e que trabalhava sob a responsabilidade direta do faraó. Como Imhotep era ao mesmo tempo chefe da justiça, superintendente dos arquivos reais, “vigilante” de todo o país, chefe dos magos, portador do rolo das formulas que tomam os ritos eficazes, constata-se que dispunha das qualificações de “vizir”. Mais tarde, na história do Egito o vizir será o segundo personagem do Estado, o confidente do faraó, o executivo. Sem usar o titulo, Imhotep criou a função e definiu o seu grande campo de responsabilidades.
Notem atentamente de passagem o oficio de sumo sacerdote de Heliópolis. O termo egípcio adotado para designar esta função é our maou, que se traduz por “Aquele que vê o Grande” (ou seja, o deus Sol,) ou por “O grande dos videntes”, sendo provavelmente esta segunda designação a melhor. Para um egípcio, ver é criar ou recriar o mundo. É ter a possibilidade de discernir a obra divina na Natureza, de perceber a intensidade do deus da Luz e de fazê-la resplandecer nas suas próprias obras. Sumo sacerdote do Sol e da Luz, Imhotep, como o seu senhor Djoser é um homem perfeitamente religioso. A sua obra arquitetônica não terá, pois, finalidades estéticas. Imhotep tem a sensação de que está construindo muito mais do que um túmulo destinado a um individuo, a aventura de Sakkarah é a salvaguarda de todo o Egito no Alem, é uma necessidade para que o país continue a ser protegido pelos deuses.
Numa das câmaras funerárias de Sakkarah, uma marca num cilindro, difícil de decifrar, parece referir o titulo: “carpinteiro de Nekhen” (uma cidade santa muito antiga). Não seria a assinatura, modesta e invisível para os vivos, do genial Imhotep?
O Prestígio - A glória de Imhotep não se limitou ao reinado de Djoser. O seu prestigio foi ainda maior do que o do faraó. Séculos mais tarde, quando canta uma poesia melancólica acerca dos grandes homens do passado, o harpista do rei Antef cita Imhotep entre os sábios e os escritores: “Ouvi”, diz ele, “os preceitos de Imhotep”. Infelizmente, seus livros de máximas desapareceram. Foi durante muito tempo padroeiro dos escritores e dos escribas: quando começavam a desenhar hieróglifos, deitavam umas gotas de água no godé para celebrarem a memória do seu antepassado Imhotep.
A partir da vigésima sexta dinastia, que tanto admirou o Antigo Império, criam-se estatuetas de bronze representando Imhotep: está sentado numa postura severa, com um rolo de papiro desenrolado sobre os joelhos tem a cabeça raspada e usa uma veste comprida. Tudo nele respira calma e serenidade. A sua reputação aumenta constantemente. Ser-lhe-á especialmente atribuído um colégio de sacerdotes, porque Imhotep se torna um deus, fazendo até parte de uma “tríade”, a surpreendente concepção egípcia da família divina, que não deixará de influenciar a concepção da trindade cristã. Com efeito, Imhotep é filho do deus Ptah, padroeiro dos artifíces, e da deusa Sekhmet. É, pois, um “deus-filho” venerado até a época dos Ptolomeus. Sob a ocupação do persa Dario, os egípcios celebram a memória de um Imhotep mestre-de-obras e atribuem-lhe a criação do plano do imenso templo de Edfu no Alto Egito. Afirmava a lenda que um livro descera do céu ao norte de Mênfis, a antiga capital de Djoser. Imhotep lera o milagroso livro e nele descobrira o plano de Edfu.
Construíram-se templos e santuários em honra de Imhotep divinizado em Karnak, em Deir el-Bahari, em Deir el-Medina, na ilha de Fias e, de certo, em muitos outros lugares. Mas o seu santuário mais famoso foi uma capela de Sakkarah.
Divinizado - Durante a Baixa Época, os gregos identificaram Imhotep com o seu próprio deus da medicina, Asclépios, também conhecido pelo nome de Esculápio. A capela de Imhotep foi considerada como um Asclepeion, sanatório onde Imhotep-Asclépios curava os enfermos. As curas milagrosas eram narradas em livros que inspiravam esperança e confiança aos pacientes. Não era a ciência dos deuses egípcios a mais antiga e eficaz?
Uma história de magia em que Imhotep ocupa O primeiro papel merece ser contada. Um papiro grego nos fala do caso de um escritor encarregado de traduzir em grego um livro egípcio consagrado aos milagres de Imhotep. Por ser preguiçoso, estava muito atrasado. O deus, descontente, fez adoecer a mãe do escriba, afligida por uma febre. O escriba compreende e suplica a Imhotep que cure a sua mãe. Este aparece-lhe em sonhos e aceita. No entanto, o escriba continua a não trabalhar com o devido afinco. Desta vez, é ele que se vê afligido por uma dor no lado direito. Imhotep aparece-lhe de novo em sonhos com um livro na mão. A censura é muda, mas a mensagem é clara: que se apresse a terminar a tradução. O escriba celebra a grandeza de Imhotep, cura-se e, finalmente, dedica-se a sério ao trabalho.
A gloria de Imhotep foi tão grande que o seu nome se encontra ainda nos escritos herméticos e nos tratados de ciências ditas “ocultas”. Ele, o grande mago, foi um modelo dos alquimistas. Zósimo de Penápolis, alquimista grego cuja obra teve uma certa influência no Ocidente, Não redigiu um livro dedicado a Imhotep?
A Tumba de Imhotep - O arqueólogo britânico W. B. Emery estava persuadido de que a sepultura do grande sábio havia sido escavada no setor norte de Sakkarah. Procurou-a e descobriu um poço funerário da terceira dinastia, a de Djoser e lmhotep. Cheio de esperança, chegou a um verdadeiro labirinto com mais de dez metros abaixo do solo. Estavam ali amontoadas milhares de múmias de Ibis! A ave sagrada de Thot está relacionada com Imhotep, que venerava o deus com cabeça de Ibis, padroeiro dos escribas e dos magos. Mais precisamente, o próprio Imhotep foi chamado “O Ibis”, e os sacerdotes dedicados ao seu culto formavam “o colégio de Ibis”. Este labirinto subterrâneo era uma homenagem indireta à memória do mestre-de-obras.
Se a múmia e a sepultura de Imhotep não foram encontradas, a sua obra essencial, porém, manteve-se viva e bem visível.
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 O Complexo de Sakkarah |
| As Obras |
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Tal como Luxor, Kamak, Abidos ou Edfu, Sakkarah é um lugar mágico onde sopra o espírito egípcio em toda a sua pureza. Neste planalto desértico onde o gênio da velha civilização faraônica é quase palpável, somos bruscamente transportados para muito longe do Cairo e da nossa época. Temos a impressão de nos comunicarmos com estes homens que, Não obstante os séculos, permanecem próximos de nós. A pirâmide em degraus de Djoser e Imhotep, O recinto sagrado do complexo funerário e os monumentos que se erguem aos céus não nos são estranhos. Fazem parte da nossa paisagem interior, são criações tão poderosas que, uma vez contempladas, nunca mais poderão ser esquecidas.

O sitio de Sakkarah foi redescoberto por um general prussiano, von Minutoli, em 1821. O engenheiro J. S. Peming começou a desentulhá-lo em 1837, e o arqueólogo alemão Richard Lepsius realizou, em 1842-1843, uma primeira exploração sistemática. Em 1851, Auguste Mariette descobre o Serapeum, chamando a atenção do mundo para Sakkarah. Quanto ao conjunto de Djoser este esperará pela campanha de escavações dirigida por Cecil M. Firth, de 1924 a 1927, que no mês de janeiro de 1924 começa a desentulhar o complexo funerário para seu grande espanto, descobre os alicerces de uma fachada em pedra talhada com colunas caneladas. Não pode crer que seja uma obra egípcia e pensa que se trata de arquitetura grega! Mas Firth tem de render-se à evidência: trata-se de uma arquitetura da época faraônica.
O arqueólogo francês Jean-Philippe Lauer deixou o seu nome ligado à exploração arqueológica da obra de Djoser. Começou a trabalhar em Sakkarah em dezembro de 1926 e ainda hoje continua a velar sobre os monumentos.
Sakkarah fica no deserto, na orla do planalto limo, diante de terras cultivadas e do palmar onde foram encontrados pobres restos da gloriosa Mênfis. O local escolhido por Imhotep dominava a capital de Djoser e não distava muito da necrópole dos faraós da primeira e segunda dinastias, assegurando assim uma espécie de continuidade espacial. Estamos, portanto, diante de um sítio que viyeu desde o mais Antigo Egito até o século III d.e.c., cuja vitalidade é ainda testemunhada por algumas obras da estatuária grega.
Grafites gravados nas paredes dos monumentos provam a admiração das sucessivas gerações pela criação de Imhotep. Mais de mil anos após o reinado de Djoser, fiéis, peregrinos e escribas vão ao deserto homenagear a memória do grande rei. Encontram o seu monumento “como se o céu estivesse nele e Rá se erguesse nele”. Os peregrinos formulam desejos: que o bom e o puro venham do céu e sejam oferecidos a alma do faraó, justificado no outro mundo. Um escriba nos dá uma preciosa indicação de que no reinado de Ramsés II assistiu a uma festa religiosa e gravou as seguintes palavras: “Veio o escriba Nachuiu junto da pirâmide de Djoser inaugurador-da-pedra”. A memória de Djoser e Imhotep estava mais do que viva e precisa, sendo-lhes atribuído com razão um grande número de inovações, a começar pela utilização sistemática da pedra para erguer aos céus um dos mais belos conjuntos monumentais da história humana.
Djoser e Sakkarah, O rei e a sua obra. Ali foi enterrado e, para além deste aspecto funerário, identificou-se plenamente com ela, confundindo a vida e a morte de maneira inextricável no “castelo encantado” de Sakkarah.
As Obras - Como começaram as obras? Imhotep mandou retirar a areia e apararar a superfície calcária. Depois, abriram-se poços na pedra a uma profundidade de vinte e cinco metros. O seu fundo foi guarnecido de granito, embora não existam pedreiras de granito nos arredores de Mênfis. A pedra de melhor qualidade encontra-se na Ilha da primeira catarata, a oitocentos quilômetros de Sakkarah. Não houve problema quanto a isso: os blocos foram conduzidos de barco até a região menfita, O faraó Não recua perante nenhuma dificuldade técnica.
Sakkarah começa já como uma pirâmide em degraus, ficando no centro da superfície de quinze hectares ocupada pelo domínio funerário e também no centro do admirável ideal de Djoser: subir aos céus utilizando esta gigantesca escadaria de pedra, aceder ao paraíso terrestre pelos degraus da pirâmide, a fim de viver na companhia dos seus irmãos deuses.
Entre os numerosos e complexos edifícios concebidos por Imhotep, a pirâmide em degraus impõe-se imediatamente ao nosso olhar. É sob ela que O corpo mortal do faraó é depositado, e é no seu vértice, confundido com o sol, que se encontra o seu corpo imortal, brilhando para sempre como uma estrela para iluminar as gerações futuras.
Uma imensa muralha rodeava o conjunto funerário que, medindo mais de 1.5OO metros de comprimento, erguia-se a uma altura de cerca de onze metros. De quatro em quatro metros aproximadamente, o ritmo da muralha era marcado por uma espécie de bastão saliente ornado por uma falsa porta de dois batentes. Este dispositivo de proteção era, portanto, marcado por uma alternância de partes salientes e reentrantes que lhe davam a feição de “fachada fortificada de um palácio”. Djoser deve ter querido reproduzir a famosa “muralha branca” que cercava Mênfis e cuja construção havia sido decidida por Menés. Homenageava, assim, o mais ilustre dos seus antecessores e exaltava a unidade do Duplo País.
E de se imaginar que o recinto fortificado de Djoser tinha ao longe a aparência de uma longa crista branca rompendo a uniformidade do deserto. Cintilante à luz do sol, impunha da maneira mais espetacular a presença da eternidade de um faraó na terra dos homens.
O fato mais marcante é ainda o nascimento da forma piramidal. Peia primeira vez na história egípcia, esta tão poderosa e criativa forma monumental é criada por um arquiteto. Era indispensável na economia geral do conjunto de Djoser: efetivamente, a certa altura da construção, a linha horizontal do recinto era mais alta que a mastaba clássica (o “banquinho”, segundo o significado do temo) que servia de túmulo ao faraó.
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 A Pirâmide de Degraus
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| O Exterior |
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No espírito de Djoser e de Imhotep impôs-se a necessidade de uma linha vertical, de um impulso em direção ao mundo celeste. A linha horizontal do recinto devia corresponder a vertical de outra forma arquitetônica: a pirâmide.
Os degraus da pirâmide são ao mesmo tempo mastabas sobrepostas e os degraus de uma escada que une o Céu e a Terra. Tudo se passa como se o arquiteto arrancasse a matéria do solo, como se o peso da pedra não constituísse para ele um obstáculo, mas uma possibilidade de elevação. Com o nascimento da pirâmide, o Egito sai do acanhado âmbito de uma civilização primitiva para entrar na História universal.
Para nos aproximamos, temos de encontrar a entrada do domínio de Djoser. Imaginemos a muralha no seu estado primitivo. Por toda parte deparamos com bastões, pontas falsas que parecem abertas, mas, na verdade, estão pintadas na pedra. Por toda parte, menos junto do Angulo sul do lado leste da muralha, onde se encontra O único acesso, aberto numa porta monumental. Uma entrada muito pequena para um domínio tão gigantesco: seis metros de altura por um metro de largura. Sem fechadura. O paradoxo impressiona: enquanto as fortificações eram edificadas com todas as precauções, a (única passagem possível tem apenas como defesa o fato de ser estreita.
E que, como vamos ver, a grande obra de Djoser não foi construída para os mortais. Só a alma pode penetrar através desta fenda. Todas as vezes que transpusemos esta porta, ficamos profundamente emocionados. Apesar do sol, da grande claridade dispensada pelo deus Rá, sentimos que ultrapassamos a fronteira para um outro mundo. Para Djoser, era o limiar do Além, transposto e manifestado na terra dos vivos.
A magia de Djoser e Imhotep atravessou séculos. Apesar da degradação, apesar do que nos separa do grande rei da terceira dinastia, avançamos no seu domínio com o respeito e a surpresa de quem se ve diante de um mundo novo, surpreendente e inquietante. Uma vez ali dentro, descobrimos uma alameda primitivamente coberta e ladeada por quarenta colunas ao longo de cinqüenta e quatro metros.
Trata-se, aliás, do primeiro espaço coberto por pedras que se conhece. A coluna é sinônima de elevação: após a passagem da porta, encontramo-nos na presença da vertical, que se detêm ainda no espetáculo que contemplamos no eixo da entrada: passadas as colunas, uma saleta e o simulacro de uma porta aberta, desembocamos no grande pátio ao sul da pirâmide. No ângulo sudoeste existe uma parede encimada por um friso de serpentes enfurecidas. Somos cativados pelos répteis ameaçadores que se destacam do céu azul. O seu papel está longe de ser negativo: as uraei destinam-se a afastar as forças nocivas que poderiam alterar o destino póstumo do faraó. Que os deuses permitam, portanto, que a nossa presença não os incomode, recordemos, efetivamente, que os sinais inscritos na pedra estão vivos. Nos textos gravados nas paredes das pirâmides (quinta e sexta dinastias), o sacerdote tem o cuidado de cortar ao meio os animais “ répteis e insetos perigosos” para que não ataquem o rei.
Aproximamo-nos da pirâmide e dos seus seis degraus desiguais que se elevam a mais de sessenta metros de altura. Seu núcleo foi uma mastaba de forma absolutamente excepcional, de base quadrada. Logo na origem do monumento, Imhotep liberta-se do passado e manifesta seu gênio inovador. Os quatro lados da pirâmide, cada um com cerca de sessenta e seis metros, estão alinhados segundo os pontos cardeais. Devemos ver nisso um ensejo religioso, uma vontade de harmonizar o monumento com a ardem cósmica. A idéia é característica da religião de Heliópolis, que Djoser protegeu e do qual Imhotep foi um dos sumos sacerdotes.
O que nos impressiona nesta primeira pirâmide da história egípcia é a força de um nascimento. Tudo é coerência e unidade na pirâmide em degraus de Djoser. Uma hipótese muitas vezes repetida tem força de lei em certos manuais de arqueologia: o monumento teria sofrido várias e sucessivas mudanças de plano, pois Imhotep teria concebido primeiro um plano e depois outro. Confessemos que, embora permita hábeis dissertações técnicas, esta tese não convence. O que sabemos acerca de Djoser e Imhotep não nos leva a considerá-los como criadores inábeis e hesitantes, que não sabem muito bem para onde vão. Não, a pirâmide em degraus foi concebida tal e qual desde o início da obra. O desejo do vertical respondia a um ideal religioso, que consistia em alcançar o céu de onde a faraó proviera.
Existe o céu, existe a terra e existe a mundo subterrâneo. E neste último que agora penetramos, descobrindo os aposentos funerários de Djoser situados sob a pirâmide. Quando, a vinte e oito metros de profundidade, Lauer perturbou pela primeira vez o silêncio destes lugares, descobriu uma verdadeira cidade-labirinto formada pela sepultura do rei, as suas dependências, o túmulo das rainhas e dos filhos do rei, galerias, corredores e câmaras de diversos tamanhos. Ali havia sido escavada uma cidade em pedra eterna. A exploração arqueológica está longe de ter elucidado completamente. Ainda somos incapazes de explicar a totalidade deste complicado dispositivo. Alguns pontos de referência, porém, nos permitem perceber as intenções de Djoser.
A decoração de certas partes destes aposentos funerários é espantosa. Nota-se a presença de pequenas placas de faiança azul imitando as redes de juncos que ornavam o palácio menfita do rei. De resto, dir-se-ia que o arquiteto Imhotep quis reproduzir na pedra elementos vegetais como juncos, palmas e elementos em madeira. A pedra tem aqui um valor transmutativo, transformando o perecível em imperecível. Essa idéia é, aliás, confirmada pela presença de câmaras contendo alimentos: pães, frutos, espigas de trigo, lentilhas, uvas e figos. O alimento é, assim, eternamente assegurado ao rei, que não consome a aparência dos alimentos e sim a sua essência sutil. Outra indicia: a presença na decoração de pilares djed, ou seja, uma espécie de arvore barrada por quatro traças horizontais. Este pilar constitui por excelência o símbolo do que é estável e duradouro. É particularmente bem-vindo nos alicerces de uma pirâmide destinada a preservar a vida eterna de um faraó.
Estes aposentos funerários estão ao mesmo tempo neste e no outro mundo. Neste, porque existem, escavados na pedra. No outro, por estarem cheios de portas, janelas e aberturas falsas.
Falsas na nossa perspectiva humana, mas reais para as almas justas que se movimentam à vontade nesta cidade marcada com o selo da coroa azul, como se o céu se encontrasse assim sob a terra.
Espera-nos uma revelação maravilhosa, pois o faraó Djoser está fisicamente presente no seu domínio subterrâneo. Não a sua múmia, pois só foi encontrado um pé, mas em estelas onde Djoser é representado em atos rituais. Vemo-la em atitude de corrida, com uma musculatura possante, o flagellum numa das mãos e a mekes na outra: o flagellum é uma insígnia de soberania; a mekes, um estojo contenda um “testamento” pelo qual os deuses legam ao faraó a terra do Egito a fim de lhe assegurarem ventura e prosperidade. A corrida realizada por Djoser é um momento da festa sed, durante a qual os deuses das províncias do Egito, representados por sacerdotes, se unem em torno da pessoa do rei para lhe darem força e vigor. Efetivamente, os egípcios pensavam que a energia do faraó se esgotava ao fim de alguns anos de reinado. Revivificado pelos deuses, Djoser corre e manifesta assim a sua força reencontrada e a sua capacidade para governar.
Durante a festa sed o rei ascende ao trono do Alto Egito, usando a coroa branca, e ao trono do Baixo Egito, usando a coroa vermelha. Um “pavilhão” especial foi reservado para este rito encontrou-se em Sakkarah um estrado com uma escada dupla que corresponde à dupla aparição do faraó unindo o Sul e o Norte. Djoser considerou a comemoração deste acontecimento suficientemente importante para figurar ao mesmo tempo na temática dos aposentos subterrâneos e na dos monumentos da superfície, assegurando assim a eternidade das festas sed e uma infinita renovação do seu poder. Mais tarde, certos reis vão se contentar com alguns baixos-relevos. Djoser mandou construir um imenso complexo monumental com o mesmo intuito
— um impressionante contraste.
Outro enigma dificulta a nossa compreensão dos “aposentos” subterrâneos de Djoser. O faraó reservara tais túmulos para si: o que se encontra sob a pirâmide, e outro, sob a maciça da muralha sul, a mais de 2OO metros da sua múmia. Este túmulo do sul imita, aliás, o jazigo situado sob a pirâmide, no qual encontramos a figuração de Djoser celebrando os mesmos ritos. Só as convicções religiosas podem explicar a estranheza deste dispositivo. Os egípcios tinham compreendida a complexidade do ser humano, sabiam que era composto por unidades tão diferentes como o poder energético, o coração-consciência, a sombra etc. Um dos túmulos de Djoser é destinado a um dos aspectos do seu ser, provavelmente o que se poderia chamar a seu corpo mortal, ao passo que o outro está reservado ao seu corpo “sutil”.
Importa sublinhar outras descobertas marcantes. Foram encontrados nas câmaras dois sarcófagos de alabastro, um deles contendo os restos de uma criança, talvez uma filha de Djoser. Um dos sarcófagos era uma obra-prima de marcenaria, parcialmente chapeada a ouro. E qual não foi a surpresa dos pesquisadores ao descobrirem em certas salas uma incrível quantidade de recipientes em pedra dura! Contaram-se pelo menos quarenta mil em alabastro, xisto, diorito, dolerito, granito etc. Vários deles tinham gravados os nomes de faraós da primeira e segunda dinastias, e de grandes personagens. Um é excepcional e oferece uma das chaves do conjunto: servia de suporte a um texto no qual se desejava a Djoser um milhão de festas sed em outras palavras, um reinado eternamente renovado.
O acúmulo destes recipientes constitui um ato mágico. Djoser presta homenagem aos faraós que o antecederam e preserva a sua memória na cidade eterna. Num dom recíproco, estes antepassados asseguram-lhe a perenidade do seu ser.
O Exterior - Vamos sair agora do domínio subterrâneo e voltar à superfície. nos chamam a atenção, edifícios retangulares de teto abobadado: a “casa do Norte” e a “casa do Sul”, correspondentes as duas partes do Egito e que desempenham um papel na celebração da festa sed para a qual foi concebida a complexa rede de monumentos situados no interior das muralhas. Notaremos ainda cabanas que prefiguram a cabana dórica grega, a qual só aparecerá 2.OOO anos depois.
Dirigindo-nos ao pátio do serdab, diante da extremidade leste do lado norte da pirâmide em degraus, sentimos uma emoção intensa. Djaser espera-nos no serdab, uma câmara sem aberturas.
Está ali, petrificada para sempre numa estátua extraordinária. Atualmente, uma replica substitui o original conservado no Museu do Cairo, mas a representação do faraó conserva toda a sua força. Na realidade, a serdab não é completamente destituída de aberturas: dois buracos abertos numa das paredes permitem a Djoser a contemplação do mundo dos vivos. Como se estivesse situado no interior de uma pedra cúbica, ele assiste do outro lado do espelho o desenrolar da comédia humana, inspirando com os seus conselhos aqueles que buscam a sabedoria.
Djoser está vestido num comprido manto ritual que deixa ver apenas as mãos e uma longa peruca coberta com um tecido pregueado; tem uma barba postiça, considerada uma divindade; e as alias, em cristal e engastados em alvéolas de cobre, desapareceram. Mesma assim, o olhar de Djoser manteve-se presente, animando-lhe ainda o resto com uma incrível serenidade, com as pômulos salientes, e sublinha a atitude hierática do faraó, que tem a mão esquerda pausada na coxa, e a direita, fechada sabre o peito. Seus alias trespassam-nas ate a alma. Diante da estátua de Djoser, sentimos ate que ponto o faraó era o lugar de uma sutil comunhão entre o homem e a divindade.
Havia provavelmente outras estatuas do rei no interior das muralhas, mas só a fabulosa obra-prima sobreviveu. Mencionemos ainda os muito comoventes vestígios de um grupo esculpido, do qual subsistem apenas quatro pares de pés pertencentes a personagens diferentes depois de comparadas com obras contemporâneas, supõe-se que se trata de Djoser, de sua esposa e de suas duas filhas.
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 Djoser, o sol de ouro
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Pensou-se durante muito tempo que Djoser era originário do Médio Egito por causa da descoberta, na região de Abidos, de uma sepultura com o seu nome gravado. Teria sido previsto neste lugar um primeiro túmulo do rei? Entretanto, a fragilidade destes argumentos foi demonstrada. A carreira de Djoser está ligada ao desenvolvimento de Mênfis, cidade-chave do Antigo Império. De resto, havia uma nítida diferença de nivel de vida entre a capital e a província.
Facilmente se compreende que a criação do complexo funerário de Sakkarah foi obra de todo um reinado. No entanto, sabemos que Djoser mandou construir em Heliópolis, ou seja, muito perto de Mênfis, um pequeno santuário de que restam poucos elementos. Um deles preserva, porém, um título excepcional: Djoser é qualificado camo “Sol de ouro”, assim marcando o seu domínio à religião solar e cósmica de Heliópolis. Outro dos fragmentos mostra o rei sentado, envolto no grande manto ritual; a sua estatura É elevadíssima, comparada com a da mulher e a das duas filhas. A rainha segura afetuosamente o calcanhar do esposo. Essa representação exalta o valor da família, ideal profundamente enraizada no coração egípcio.
A terceira dinastia nos faz conhecer, além de Imhotep, outros grandes personagens: Hesyrê, cujo túmulo abriga admiráveis relevos; Bedjmes, o construtor de barcos, cuja estátua, conservada no Museu Britânico, nos revela um homem severo e competente com uma enxó nas mãos; o funcionário Sepa e sua mulher Neset, formando um casal muita digno; ele com a sua comprida bengala na mão direita; ela, envergando uma túnica colada ao corpo, com um decote e com grandes pulseiras nos braços.
Uma observação se impõe: estes grandes dignitários, estes homens que foram contemplados pelos favores de Djoser, são “trabalhadores”, construtores, artífices. Provaram suas capacidades num determinado setor e são profundamente “operativos”. O Egito de Djoser não é dominado pela administração. Não é por acaso que a figura do mestre-de-obras Imhotep domina uma época em que a criatividade é o principal valor.
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 Considerações finais
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Antes de deixarmos Djoser, o Magnífico, voltemos uma vez mais a Sakkarah, uma das mais puras obras-primas do espírito humano. Apesar do seu caráter funerário, todos sentem até que ponto tudo aqui é força nascente, juventude de uma civilização, paixão da descoberta e da novidade. A eficácia mágica não é uma palavra inútil: Djoser venceu a prova do tempo, deu ao Egito um alerta que Irá durar milênios e criou a forma piramidal, certamente a mais pura e a mais perfeita de todas as visões arquitetônicas do homem.
Como é forte a vontade de Djoser de unir indissoluvelmente o divino e o humano. Constrói o seu túmulo em Sakkarah, mas também reproduz o seu palácio régio, o lugar da sua existência terrestre. Utiliza a pedra, o material aparentemente mais opaco, mas o torna transparente para a circulação milagrosa da alma. E, sobretudo, não esqueçamos que Sakkarah é o lugar de uma festa. Pelo que sabemos, os egiptólogos não sublinharam bem este ponto. Hoje em dia, todos sabem que o conjunto funerário de Djoser é votado principalmente à eterna celebração da festa sed. Mas temos que ultrapassar esta simples constatação e evocar a uma de alegria do Egito Antigo, as suas cores, o júbilo dos homens que a celebram, os cantos, os risos, as danças. Em Sakkarah, a morte é uma festa porque a morte não existe. Não começam os Textos das Pirâmides com esta extraordinária formula: “Oh rei, tu nãa partiste morta, partiste vivo”?
É verdade que Djoser não partiu morto. Transmitiu a vida através da pedra. Por trás das fachadas do seu palácio do Além, cuidadosamente aparelhadas, não ha entulho. Quando transpomos as muralhas, passamos para o outro lado do espelho, entramos na paisagem da alma, na realidade de uma festa eterna.
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Referências Bibliográficas |
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Jacq, Christian. O Egito dos grandes faraós, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2007; |
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www.wikipedia.org |
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