Geografia do Antigo Egito

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Fronteiras | Vale do Nilo | Delta | Fayum | Deserto ocidental | Deserto oriental | Núbia | Siria
 

O EgitoO antigo Egito foi excepcional pelo seu ambiente e unico pela sua continuidade. Esse ambiente é o caso extremo de vários oásis culturais e fIsicos que foram grandes Estados da Antiguidade. E quase impossivel perceber este tipo de situação, com o seu misto de elementos geográficos e humanos, tal como nos é dificil compreender o período de tempo abrangido, equivalente a uma vez e meia a era cristã. A situação de quem desenhou a primeira pirâmide, de quem criou o mais antigo edificio de pedra daquelas dimensôes no mundo e viveu no único grande Estado unificado da época não pode ser recriada.

Qualquer tentativa de compreensão do antigo Egito deve incluir uma percepcão destas e de outras diferenças enormes entre a Antiguidade e a nossa época. Os homens são, no entanto, iguais em toda a parte, e muitos dos nossos conhecimentos pormenorizados de outras civilizações incluem objetos tão vulgares como os que nós próprios utilizamos no dia-a-dia. Ao abordarmos uma civilização desconhecida é necessário conhecermos tanto o vulgar como o exótico, pois ambos são afetados pelas restriçôes do ambiente. Um explora-o de forma rotineira, o outro de modo mais criativo, mas nenhum é independente do outro.

O Egito faz parte, no seu contexto geográfico, de uma zona mais vasta no Noroeste de Africa e, dentro desta região, a sua proximidade em relaçao ao coração do desenvolvirnento agricola na Asia ocidental foi, a princípio, muito significativo. o Egito dinástico manteve-se bastante fechado durante a maior parte dos períodos, o que se deveu apenas ao fato de a sua economia ser basicamente agricola. Para a obtenção de muitas matérias-primas e dos requisitos necessários a uma grande civilizaçao era necessário o comércio externo ou a travessia do deserto, sendo, assim, imprescindivel ter-se a perspectiva de uma região mais vasta para se compreender a cultura egípcia. O mesmo se pode dizer quanto a população do país, provavelmente originária de todas as zonas circundantes, e sempre racialmente heterogênea.

 
As Fronteiras do Antigo Egito
 

Os Nomos do alto EgitoNão é fácil definir as fronteiras do Egito na Antiguidade, tema muito da preferéncia dos textos antigos e que reflete a obsessão do Egito com as demarcações em geral. As principais regiões do país, o vale do Nilo, o delta e o Fayum, eram complementadas por partes das zonas circundantes, sobre as quais os Egípcios exerciam certos direitos, por exemplo o de exploracão mineira. A fronteira meridional, situada tradicionalmente na primeira catarata do Nilo, a sul de Assuão, foi alargada mais para sul em certos períodos. No lmpério Novo há, por vezes, textos que designam também por Egito partes da Núbia que estavam nessa altura incorporadas no Estado. Para além destas expansões do território egípcio, a linha de oásis que vai de Siwa, a norte, a el--Kharga, a sul, quase paralelamente ao Nilo e cerca de 200 km a oeste, foi ocupada e governada pot egipcios durante a maior parte do período dinástico. atingindo o auge da sua prosperidade na época romana.

As principais regiões do Egito tormam um oásis fluvial no deserto. Assim, o país estava mais isolado dos seus vizinhos do que os outros estados da Antiguidade e a sua excepcional estabilidade foi, em larga medida. devida ao seu isolamento, de que é notável indicio a total ausência de referências ao Egito nos textos da Mesopotâmia e da Siria do 3º milénio antes da era cristã. Talvez até ao sécubo XIII a.e.c, o Egito atraiu colonos, mas não uma invasão concertada, e os imigrantes eram sempre rapidamente absorvidos pela população. Mas embora grande parte da história egépcia seja uma história interna, tal não é inteiramente verdade no que se refere as mais vastas, e mal conhecidas, alteraçôes da Pré-História. Embora o oásis do Egito estivesse já completamente formado em finais do 3º milênio, é necessário relacionar esta fase da evolução climatérica com as alterações mais profundas verificadas em períodos anteriores.

Nos milênios que se seguiram ao fim da última era glacial (cerca de 10 000 anos antes da era cristã), o vale do Nilo era uma das zonas que atraíam populacões do Saara e de grande parte do Norte de Africa. Durante o Pleistoceno o vale foi, grande parte do tempo, um pantano intransponível e os níveis do rio eram muito mais elevados do que agora. A medida que, em finais desta fase. o Saara se ia desertificando tornava—se cada vez mais inóspito para os grupos de nômades que se tinham inicialmente espalhado por grande parte desta regão. Já em 15 000 a.e.c. há uma concentração de povoacões do Paleolítico no planalto desértico no limiar do vale, e um por menor destas culturas pode indicar que sentiam já os efeitos da penúria e de uma pressão demográfica. Algumas das lâminas de sílex encontradas em certas escavações, tanto no Egito como na Núbia, mostram sinais de terem sido utilizadas para cortar erva, possivelmente plantas que forneciam grãos de cereais. E este. talvez. o primeiro indício de consumo de cereais conhecido no mundo, apenas comparável ao do Terraço de Hayonim, na Palestina, o que não constitui prova de uma vida sedentária e agrícola, mas antes de uma utilização intensiva dos recursos por parte de uma população ainda nomade.

Este exemplo isolado de "progresso" no Egito parece não ter tido quaisquer consequências a longo prazo. Nos anos que vão de cerca de 10 000 a 5000 a.e.c. venficou-se uma continuação dos modos de vida do Epipaleolítico e do Paleolítico tardio e não há uma evidente continuidade entre os vestígios deste período e os das culturas posteriores. Estas são normalmente designadas pelos Egípcios pot "pré-dinásticas" e são neolíticas e sedentárias, tendo alguns estímulos ao seu desenvolvimento vindo da Asia ocidental e datam, talvez, de 4500 a.e.c. até ao início do periodo dinástico. O ambiente do Egito do período pré-dinástico ofereceu oportunidades de exploracio não muito diferentes das encontradas no início do século XIX d.e.c. Esta analogia é importante porque grande parte do povoamento teve sempre lugar dentro do vale do Nilo e do delta, e não nas franjas do deserto (todas as áreas não atingidas pela cheia são desérticas, ou pelo menos savana desértica. a não ser que sejam irrigadas). E provável que a localização precisa das povoações não tenha mudado muito, tendo a construção por cima de povoações anteriores a vantagem de a acumulação de escombros elevar a aldeia acima do nível do vale e do perigo de grandes cheias. Tanto pelo fato de povoaçôes anteriores estarem enterradas por debaixo de outras mais modernas, como pelo de trés ou mais metros de sedimentos se terem depositado sobre todo o vale desde 3000 a.e.c., o registro arqueológico da fixação de populacões na zona inundada e cultivada é quase nulo. Grande parte da arqueologia egipcia é, portanto, muito hipotética.

Nomos do Baixo EgitoO vale do Nilo foi, no periodo pré-dinástico e em periodos posteriores, um centro de desenvolvimento da agricultura e, mais tarde, da sociedade urbana no Norte de Africa (encontra-se agricultura em data anterior mais para ocidente, ao longo da costa mediterrânica). Toda esta região, desde a confluéncia do Nilo Azul e do Nilo Branco até ao delta, deve ter tido primitivamente uma cultura semelhante, mas no Egito propriamente dito as diferenças tornaram-se marcadas a partir do inicio da 1ª dinastia. A concentração de população de várias origens trouxe inovações de diferentes origens, tendo o principal estimulo vindo, talvez, do Próximo Oriente. Uma caracteristica marcante da cultura egipcia de qualquer período é o fato de não ser tecnicamente inovadora. Talvez a própria prodigalidade da terra e da sua água não encorajasse a invenção.

Nestes períodos de formação, o contato entre o Egito e as regiões vizinhas era mais fácil do que agora, pois a desertificaçao do Saara não estava ainda completa e o deserto a ocidente do vale do Nilo e, em particular, a oriente alimentava uma variedade de flora e de fauna e, talvez, uma populacão nômade maior do que hoje. Até para os habitantes do vale do Nilo estas regiões tinham alguma importância. Durante a última parte do 4º milênio e o 3º, o deserto tornou-se progressivamente mais árido, desenvolvimento este que pode ter sido significativo no que se refere à formação do Estado egipcio. O, colapso politico que se verificou no final desta fase climática (cerca de 2150 a.e.c.) pode ter sido desencadeo do por cheias insuficientes, que talvez fossern sintoma de uma fase de seca em todo o Norte de Africa, um pouco como a que teve lugar no Sahel, no principio dos anos 70, outro periodo de cheias baixas.

O clima e a geografia tiveram um papel importante nestes desenvolvirnentos. Não se pode dizer que tenham determinado o seu rumo, pois podem imaginar-se resultados diferentes, mas a verdade é que impediram a continuação dos padrôes de subsistência anteriores. O Nilo e as suas inundações foram fatores dominantes na organização do recém-formado Estado egipcio.

 
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O Vale do Nilo
 

A queda de chuva no vale do Nilo é quase nula, não ultrapassando os 100-200 mm por ano no delta. Sem o Nilo, a agricultura no Egito seria inviável, exceto, talvez, na costa mediterrânea. O Nilo é uma fonte de água mais regular e previsível do que qualquer outro dos grandes rios do mundo, cujos vales sçao utilizados para irrigação. Na Antiguidade, a sua cheia anual, entre Junho e Outubro, cobria a maior parte do terreno do vale e do delta e permitia, mediante uma gestão cuidadosa da água depositada, a obtenção de uma coIheita. Já não é possível observar—se o padrão dessa cheia devido a construção, desde 1830, de uma série de barragens e canais. Estes regularizam em niveis da água, desde Sennar, no Nilo Azul, ate ao vértice do delta, a norte do Cairo, e a eles se junta o canal de Jonglei, no Nilo Azul, no Sul do Sudão, entre Bahr el-Jebel e o rio Sobat. Em vez de observarmos as condiçöes atuais, temos de basear—nos em fontes mais antigas, desde documentos faraônicos até à Description de l'Égipte, elaborada pela expedição napoleônica do século XIX. Para se detrminar qual a área cultivada em qualquer época do passado é necessário realizar estudos pormenorizados no lcoal.

Corte Transversal do Vale do Nilo

As águas do Nilo vêm do Nilo Azul, que nasce nas terras altas da Etiópia, e do Nilo Branco, que, no sul do sudão, se divide numa curiosa séria de rios mais pequenos e alcança o lago Vitória, na África central. O Nilo Branco, que, no Sul do Sudão, se divide numa curiosa série de rios mais pequenos e alcança o lago vitória, na África central. O Nilo Branco é alimentado pelas chuvas da região tropical e tem um caudal relativamente constante ao longo do ano, graças ao Sudd, que absorve a maior parte da água na estação chuvosa. O Nilo Azul e o atbara, que se junta ao Nilo um pouco a norte de Cartum, trazem grandes quantidades de água, proveniente da monção da Etiópia, e fornecem quase toda a água do rio entre Julho e Outubro (mais cedo no Sudão). Este período corresponde ao tempo das chuvas na savana do centro do Sudão. No Egito, o caudal do rio atingia o seu mínimo entre Abril e Junho. Em Julho o nível subia e a cheia começava normalmente em Agosto, cobrindo quase todo o vale desde mados de Agosto a fins de Setembro, arrastando os sais do solo e depositando uma camada de aluviões que cresciam a um ritmo de vários centímetros por século. Depois de o nível da água dscer, as principais semesteiras eram feitas em Outubro e Novembro, podendo ser colhidas entre Janeiro e Abril, conforme a espécie. Na Antiguidade, a agricultura era possível na maior parte do vale do Nilo e m grande parte do delta, sendo as principais excepções algumas zonas pantanosas.

O vale e o delta formam, em conjunto, uma área de cerca de 34 mil Km2 (números de 1949-1950). Durante longos períodos, a superficie do vale tem variado consideravelmente, mas não houve qualquer alteração digna de nota nos últimos 5000 anos. A acumulação de sedimentos e a gestão da água pelo homem levaram, no entanto, a um aumento gradual do solo útil, pois os pântanos que se encontravam na orla do deserto foram tornados cultiváveis e as zonas planas deserticas foram incorporadas na planície sujeita a inundações. O perfil do vale e o padrão pormenorizado das cheias são relevantes para este processo. A água do próprio canal tinha tendéncia a desgastar o leito e a acumulação de sedimentos durante as cheias fazia subir o nivel das terras mais próximas do rio, onde a corrente era mais forte. Assim, o perfil do vale é convexo e os terrenos mais próximos do rio eram mais secos e ficavam mais rapidarnente firmes do que os que estavam mais afastados. As cheias não faziam o rio transbordar das margens em toda a sua extensão, mas sim ae longo de canais de inundação que seguiam ate as terras mais baixas por trás das margens. A crista da cheia cobria mais ou menos em paralelo na zona principal da planície e no rio.

Densidade Populacional no Vale do NiloA agricultura implicava, na medida do possível, o controle deste regime de caudal. As zonas da planície eram, ate certo ponto, niveladas, formando uma série de bacias de tamanho considerável que dispunharn a terra em socalcos, de modo a ser irrigada por fases, ao longo do rio e de dentro para fora das margens (cada socalco era quase imperceptivelmente mais baixo do que o anterior, visto que a diferença de nivel do rio entre Assuão o mar é de apenas 85 m). Devido a grande superficie das unidades irrigadas, deve ter sido necessário um certo grau de organização central para permitir uma exploração eficiente do solo. A extensão das unidades úteis teria sido semelhante a das antigas províncias ou nomos, que eram pouco mais de 20, desde a 1ª catarata ate ao Sul de Mênfis. No período dinástico, a area irrigada do vale aumentou gradualmente, sem retrocessos ocasionais, particularmente cerca do ano 2100 a.e.c., em parte devido a uma tecnologia mais avançada (na sua maior parte importada) e em parte ao aproveitamento das zonas pantanesas baixas. Nos períodos mais antigos as regiões pantanesas serviam de refúgio a animais selvagens, caçados pelos ricos, e eram fonte de papiro, que servia de material para a escrita e para o fabrico de tapetes, barcos e utensílios. Estes recursos foram substituidos pelos da agricultura intensiva e o papiro desapareceu durante a Idade Media.

As principais culturas eram es cereais, o Triticum dicoccum (espécie de trigo) para fazer pão e a cevada para fazer cerveja (o trigo foi introduzido no periode greco-romano). Para além destas culturas havia ainda as de leguminosas, por exemplo lentilhas e graõ-de-bico, alfaces, cebolas e alhos, as de frutas, especialmente tâmaras, uma certa quantidade de forragens para animais, importantes para a obtenção de peles e carne, e de plantas cultivadas para a extracão de óleo, como o sésamo. Pouco se sabe a respeito de ervas aromáticas, especiarias e temperos. O mel era e principal edulcorante e a apicultura deve ter sido uma atividade importante. A carne era um luxo. O gado pastava provavelmente em terrenos pantanosos marginais, em particular no delta. A carne mais apreciada era a de vaca, mas as de carneiro, porco e cabra eram certarnente também consumidas, assim como a de várias espécies de antilope. As aves eram o alimento dos ricos. Também o pombo, atualmente vulgar no Egito, era consumido, tal como acontecia com os patos, gansos e várias aves de caça. A gabinha era desconhecida antes do Império Novo e é prevável que só se tenha tornade vulgar no período greco-romano. As uvas eram cultivadas sebretudo na parte ocidental do delta e nos oasis e transformadas em vinho, produto de luxo; há bastantes testemunhas da existência de vinhos tintos e os brancos são conhecidos através de fontes gregas. A bebida alcoólica mais usual era uma cerveja de fabrico caseiro, mas também se fazia vinho de tâmara e de romã. Ppr último, o papiro e o linho eram duas culturas muito importantes, sendo este último utilizado para quase todo o tipo de vestuário e para velas e cordas talvez também para extração de óleo), e também exportado. O óleo de palma era uma importante fonte adicional de fibra.

 
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O Delta
 

Topografia do Delta do Nilo em 4000 a.e.c.A imagem do delta é, em geral, semelhante a do vale do Nilo. mas deve ter constituído um maior desafio no seu aproveitamento para a agricultura. Hoje em dia existem ainda zonas impróprias para o cultivo, mas algumas são pântanos e lagunas que podem ter sido criadas por posteriores incursões de mar. Devido as suas condições, e aproveitamento da terra deve ter sido sempre um elemento importante para o desenvolvimento desta região, e que era já verdade por altura da 4ª dinastia, quando e delta se salienta nas listas de prepriedades encontradas nos túmulos menfitas. Pela sua capacidade agricola, o delta dominou cada vez mais, a partir de cerca de 1400 a.e.c., a vida política e econômica do Egito. A superficie de terra utilizável era aqui duas vezes superior a do vale do Nilo e o delta estava mais perte do Próximo Oriente, tendo os contatos com esta região tido um papel cada vez mais importante na história egipcia posterior.

O delta formou-se por uma interação entre e mar, em períodos de níveis elevados, em eras geológicas mais antigas, e a lama depositada pelo Nilo. As regiões propícias a um povoamente permanente eram zonas arenosas entre os braços do Nilo e outros canais. Algumas delas eram ja povoadas desde o início do período pré--dinastico, tendo o padrão de expansão sido, possivelmente, em direção ao Norte. O solo a volta das línguas da areia podia ser utilizado para cultivo e, se fosse mais húmido, para pastagem, e os pãntanos, tal como os do vale do Nilo, abrigavam animais selvagens, peixe e papiro. Dadas as características diferentes das duas regiões descritas, a sua utilização agrícola terá tido de ser substancialmente diferente, havendo vestigios de comércio entre elas. No delta não foram encontradas quaisquer cidades grandes datando de periodes mais antigos. Esta aparente falta de centros populacionais pode ter sido devido, em parte, a relativa proximidade de Mênfis, ao sul do vertice do delta, mas pode também ser ilusória, dado que os locais antigos do delta são muito menos acessíveis do que as do vale do Nilo. Não é de estranhar que o material arqueológico do delta seja apenas uma pequena parte do do Alto Egito, o que nÃo reflete a verdadeira importância da região.

 
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O Fayum
 

A terceira região importante de povoamento antigo era o Fayum. é um oásis a beira de um lago, a oeste do vale do Nilo e ao sul de Mênfis, alimentado pelo Bahr Yusuf, um braço do Nilo que diverge para oeste, a norte de Asyut, e que termina no Binket Qarun, o lago Moeris da Antiguidade. A extensão do lago que era, no Neolitico, um pouco inferior a de todo o Fayum, ten vindo gradualmente a diminuir. O lago era já um foco de povoamento no Paleolítico tardio (cerca de 7000 a.e.c.) e no Neolítico e também no lmpério Antigo. As culturas mais antigas eram de caçadores e recoletores, mas por altura do lmpério Antigo a agricultura tinha ja sido, certamente, introduzida. A exploração intensiva desta zona dependia de se fazer baixar o nivel do lago, para aproveitamento de terras, e da utilização da água dai proveniente para irrigar terrenos, tanto acima como abaixo do nivel normal do lago.

Os faraós da 12ª dinastia realizaram importantes obras que devem, a julgar pela localização de alguns monumentos, ter reduzido considenavelmente o lago o ganho cerca de 450 km2 para o cultivo. Mais tarde, os Ptolomeus tornaram esta região uma das mais prósperas e densamente pavoadas do pais comn cerca de 1200 km2 de terreno agrícola. A maior parte da area então irrigada é hoje deserta. No Fayum é necessária uma forma de irrigacão diferente da utilizada no resto do Egito, baseada em grande quantidade de mão-de-obra em vez de em técnicas avançadas. Nas zonas mais baixas talvez fosse possivel obter duas colheitas por ano, o que deve ter sido igualmente verdade em quase toda a região no período ptolomaico.

Região semelhante ao Fayum, mas muito menos importante, é o uadi el-Natrun, oasis natural próximo do delta, a noroeste do Cairo e a sul de Alexandria. A palavra "Natrun" refere-se aos seus lagos salgados. Estes eram. na Antiguidade, a principal fente de sódio, utilizado para limpeza, para fins rituais, incluindo a mumificação, e para o fabrico de faiança egipcia e de vidro. Este eósis é pobre em recursos agricolas e durante e periodo bizantino tornou-se refúgie para os ascetas cristãos.

 
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O Deserto Ocidental
 

As restantes regiões a tratar eram mais periféricas em relação ao Egito e só pediam ser mantidas quando havia um governo forte. Os oásis do deserto ocidental produziam algumas culturas valiosas, por exemplo uvas e as melhores tâmaras, e eram também pontos de ligação importantes no comércio com as regiões remotas. De norte para o sul, eram essencialmente quatro os oásis governados pelo Egito: Bahariya, Farafra, el—Dakhla e el—Kharga (a leste de el—Dakhla). sendo os dois últimos, de longe, os mais importantes. Para além destes, o mais remoto oásis a oeste de Siwa foi incorporado no Egito no periodo tardio, tendo adquirido renome mundial graças a fracassada missão de Cambises em 525 a.e.c (soube-se recentemente que foram encontrados no deserto vestígios do exército de Cambises), e a posterior consulta ai efetuada por Alexandre Magno ao oráculo. Existem também oásis mais pequenos, ao ocidente do Nilo e mais para sul, Kurkur, Dunqul e Salima, que são pontes de paragem onde não foram encontrados quaisquer vestígios da Antiguidade.

Há testemunhas, datando dos Impérios Médio e Novo, de pessoas que fugiam da justiça ou a perseguições para os oasis de el-Kharga e el-Dakhla, enquante na 21ª dinastia os exilados políticos eram para laá banidos. Nesse aspecto, esta região era uma faceta da Siberia egípcia, sendo outro o de trabalho forçado em condições horriveis, com enormes perdas de vidas, nas minas do deserto oriental.

Toda a zona a ocidente do vale do Nilo se chamava, na Antiguidade, Líbia. A região costeira ao ocidente de Alexandria, até a Cineraica, albergava provavelmente a maioria da população Líbia e era menos inóspita do que parece atualmente. Quase todos es vestígios egípcies ali encontrados datam do reinado de Ramsés II, que construiu fortalezas ao longo da costa ate Zawyet Umm el-Rakham, a 340 km ao ocidente de Alexandria, e do període greco-romano, quande os Ptolomeus construíram, nos estilos grego e egípcie, em Tolmeita, na Cirenaica, a 1000 km de Alexandria.

Durante quase toda a histíria do Egito os oásis constituiram um poste avançado contra os Líbieos, que tentaram, em vários periodos, infiltrar-se. Nos reinados de Merenre e de Pepi II, o chefe de expedicão Harkhu foi várias vezes ate Yam, zona que fica, provavelmente, na região moderna de Kerma e Dongola, ao sul da 3ª catarata do Nilo. Numa dessas ocasiões, Harkhuf seguiu pela estrada do deserte, deixando o vale do Nilo perto de Abido e passando, certamente, por el -Dakhla. Ao chegar verificou que o gevernador de Yam tinha ide "correr com o chefe do território libio para o canto ocidental do céu — descoberta esta provavelmente relacionada com a estrada do ocidente, utilizada nesta expedição. Este pormener mostra que, para as Egipcios, a "Libia" se estendia ate cerca de 1500 km ao sul do mar. As ruínas do Fezzan, que datam, provavelmente, do tempo de Cristo, revelam a possibilidade de o Sul da Libia ter side povoado na Antiguidade, enquanto a zona de Uweinat o foi no 3º milênio antes da era Cristã. Em períodos mais antigos a cultura dos Libios era semelhante a dos Egípcios e é possível que falassem um diabeto da mesma lingua, mas os contatos entre elss foram, durante o período dinástico, em boa parte hostis.

Dos oasis ocidentais sai um caminho, conhecide hoje por Darb el—Arba’in "o caminho dos 40 dias", que leva a el-Fasher, capital da província de Darfur, no Sudão ocidental. Harkhuf utiizou a primeira parte deste caminho, mas é possível que, já na Antiguidade, estivesse totalmente aberto ao comércio. Harkhuf viajava com burros, mas a exploração eficaz de tais caminhos deve ter dependido do camelo, introduzido no Egito, aeo que parece, nos séculos VI - V a.e.c.

 
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O Deserto Oriental
 

A Ieste do Egito existiam várias fontes importantes de minerais. A que se situava mais ao norte era o Sinai, que fornecia turquesas, extraiídas pelos Egípcios desde a 3ª dinastia até ao fim do Império Novo, mas não mais tarde (teve-se recentemente notícia de descobertas datando do inicio do período dinástico). As principais escavações de ruínas egipcias ficam no Sinai ocidental, no uadi Maghara e Serabit el-Khadim, tende havido, em certos períodos, um povoamento egipcie permanente nesta região. O Sinai é também fonte de cobre, e em Timna, próximo de Eilat, foram escavadas minas de cobre contemperâneas das 18ª - 20ª dinastias egípcias. Estas minas eram provavelmente exploradas pela população local, sob controle egípcio, não havendo indícios de que os Egipcios extraíssem eles próprios cobre em qualquer outro local do Sinai. é possível que, tal como acontecia com o comércio de cereais entre o Egito e o Próxime Oriente, os Egípcies extraissern cobre, não considerando, porém, essa atividade suficientemente prestigiosa para a registarem. Caso contrário, talvez utilizassem mão-de-obra local, como em Timna, ou comprassem cobre à população local, ou adquirissem a maior parte de que necessitavam noutro local.

O deserto oriental do Egito fornecia grande quantidade de pedras para a construção e pedras semi preciosas e era o caminho para o mar Vermelho. Algumas pedreiras localizavam-se perto do vale do Nilo, como era o caso de Gebel Ahmar (quartzito) e de Hatnub (alabastro egipcio), mas outras, particularmente as de grauvaque (pedra dura e negra), em uadi Hammamat, e as de ouro, na sua maior parte ao sul da latitude de Koptos, implicavam expedições em grande escala. Sem o dominio egipcio sobre a população nômade local, ou sem a sua colaboração, estas minas não podiam ter sido exploradas. Este controle era-Ihes igualmente necessaria para poderem utilizar as três principais vias de acesso ao mar Vermelho que seguem pelo uadi Gasssus ate Safaga, pelo uadi Hammamat ate Quseir e pelo uadi Abbad ate Berenike, existindo igualmente um caminho menos importante que vai de cerca de 80 km ao sul de Cairo até ao golfo de Suez, de cuja existência há provas que datam do reinado de Ramsés II. O testemunho mais antigo da utilização destas rotas data do fim do periodo pré-dinástico (uadi el-Qash, de Koptos a Berenike), podendo estar relacionada com o comércio do mar Vermelho ou com a exploração mineira. Existem provas da utiização das rotas mais ao norte em todos os principais periodos da história egípcia e mais ao sul a partir do lmpério Novo.

Nos confins do uadi Gassus encontrava-se um templo da 12ª dinastia e em 1976 foram descobertas ruínas do porte egípcio próxima, da mesma época. Existem mais vestígios, das 25ª e 26ª dinastias (700-525 a.e.c.), e este padrão manteve-se provavelmente durante o període persa (séculos VI-V a.e.c.), altura em que existiam ligações com o lrão, contornando a costa arábica. O período romano esta representado em sítios como Quseir e Berenike, que eram portos de comércio com a Africa oriental e com a India. Embora não existam provas de que os contatos dos Egipcios tivessern chegado tão longe, tais portos deviam ser utilizados para o comércio com as terras quase míticas do Ponto, que aparece referido em textos a partir do Império Antigo. A localização do Ponto não esta rigorosamente estabelecida, sendo, para os Egipcios, uma região com várias associações idealizadas, mas é muiteo pnovável que se tratasse da região da moderna Eritreia ou Somália, onde há noticia de recentes descobertas dos periodos helenistico e romano, Os artigos que vinham do Ponto eram quase todos exóticos ou de luxo, sendo o mais importante o incenso. Não se sabe se o comércio com o país do Ponto era a única razão para a navegação no mar Vermelho, para além do acesso a algumas zonas do Sinai. Há noticia de tenem sido encontradas pérolas egípcias de 18ª dinastia na costa ao sul do rio Juba, perto do equador, mas isto não significa que os Egipcios tivessem chegado eles próprios ate aí.

 
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A Núbia
 

Recursos Naturais no Egito AntigoA fronteira politica do Egito, na 1ª catarata, foi provavelmente estabelecida em fins do periodo pre-dinástico e princípios do dinastico, substituindo a anterior fronteira natural em Gebel el—Silsila, onde os montes calcários de cada lado do Nilo dão lugar a arenitos, elemento básico das nochas ate Butana, no centno do Sudão. Em Gebeb eb-Silsiba os arenitos chegam até cada uma das mangens do rio, e era neste local que se encontrava a principal pedreira de onde es Egipcios extraiam, a partir do Império Novo, material para construção. O calcário permitiu que o Nilo formasse uma planície inundavel relativamente longa, enquanto a area do terreno útil nas zonas de arenito é muita pequena.

Ao sul de Gebeb el-Silsila encontrava-se a primeira província egipcia, ou nomo, cujas principais cidades eram Assuão e Kom Ombo. O seu estatute à parte foi, desde cedo, atestado pelo seu nome, Núbia. Entre as 1ª e 2ª cataratas encontrava—se a Baixa Núbia, que foi sempre o principal alvo para incorporação no Egito. Inscrições e relevos na rocha, na zona da 2ª catarata, datando de principios do periodo dinástico, mostram o interesse do Egito por esta terra, nessa altura. Na 4ª e 5ª dinastias quase não havia população permanente na Baixa Núbia. Uma povoacão egipcia em Buhen, ao norte da 2ª catarata, implica, senão governo, pelo menos hegemonia. Na 6ª dinastia os Egipcios cederarn perante os habitantes locais, mas retomaram o controle durante a 2ª dinastia e, novamente, no tim da 17ª Os faraós da 18ª dinastia estendenam o dominio egipcio até Kurgus, ao sul da rota das caravanas que atravessam o deserto de Karosko até Abu Hamed. Esta aquisicão de terrirório foi muito importante para a história posterior, uma vez que se estabeleceu em Napata, capital da Alta Núbia, uma cultura de influência egípcia, que viria a dar origem à 25ª dinastia egípcia e ao reino de Napata-Meroe, que se manteve até ao século IV d.e.c.

A Baixa Núbia parece ter side considerada como pertencendo de direito ao Egito e era importante para o acesso a matérias—primas, sobretudo pedras duras e ouro, no deserto de cada lado do Nilo. Num período antige esta região foi utilizada como fonte de madeira, mas nunca pode ter tide grande importância do ponto de vista agricola, dado a área cultivavel se limitar a uma estreita faixa de cada lado do rio. Era também, no entanto, a passagem por onde vinham muitos dos produtos africanos apreciados pelos Egipcios, que incluiam especiarias, ébano, penas de avestruz e algumas espécies de babuíno. Ocasionalmente vendiam-se também pigmeus, fazendo estes parte da paisagem estereotipada do Egito na antiguidade clássica. Nãa se sabe como é que os Egípcios pagavam tuda isto, e não ha praticamente nenhum vestigio arqueológico egipcio na região subsariana. Desconhece-se a origem de muitos dos produtos - os pigmeus nunca se devem ter expandido para norte do divisor hidrográfico Nilo-Congo, enquanto alguns dos outros artigos devem ter atravessado a floresta tropical, passando por um certo número de intermediários antes de chegarern ao Egito. Não nos é facil avaliar a importância destes produtos para os Egipcios, muitas vezes de natuneza religiosa, mas foram transformados em foco de prestigio camparável atualmente ao das pedras preciosas.

 
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A Síria e a Palestina
 

A úlima região importante que é necessário mencionar aqui é a da costa da Palestina. já no periodo pré-dinastico existem testemunhos dos contatos entre o Egito e o Próximo Oriente e a nome de Narmer, último rei pré -dinástico, foi encontrado em Tel-Gat e Tel-Arad, na Palestina. O comérdio de Lápis-lazúli, cuja principal fonte era, na Antiguidade, Badakshan, no Afeganistão, era então próspero e é possível que o Egito importasse também metal da àsia. Há testemunhos, datando do Império Antigo, de ligações entre o Egito e Biblos, no Líbano, e o barco funerário de Kéops, o constutor da grande-pirâmide, era feito de cedro do Líbano. Há poucas árvores no Egito e a sua madeira é de má qualidade, por isso a madeira boa teve sempre de ser importada do Próximo Oriente. Durante o Império Médio estas ligações intensificaram-se, enquanto no Império NOvo os faraós egípcios conquistaram grande parte desta região, que mantiveram em seu poder durante mais de dois séculos, explorando os povos subjugados e fazendo conmércio com os viznhos. Durante o ressurgimento do poder egípcio da 22ª à 26ª dinastias, foram de novo conquistadas partes da Palestina, o que s repetiu no período ptolomaico. A possa da parte da Síria-Palestina era um objetivo normal para um regime forte no Egito, mas verificou-se ser muito mais difícil do que a Núbia.

Muitos dos progressos na cultura material no Egito vieram do Próximo Oriente. Em troca destas importações "invisíveis", assim como da madeira, cobre, talvez também estanho, prata, pedras preciosas, vinha e óleo, os Egípcios podiam oferecer quatro recursos principais: ouro, excedents alimentares, linho e, especialmente em períodos mais recents, papiro. O comércio do ouro e o intercâmbio de produtos africanos importados pleo Egito são bem conhecidos, mas a exportação de comida e de outros produtos sem prestígio só em casos excepcionais pode ser comprovada. Quase não deixa marcas nos registros arqueológicos e quase nunca é mencionada em textos, sendo a mais conhecida referência escrita um presente de cerais de Merneptah aos Hititas, durante um período de fome, o que não constitui comércio. Mas a agricultura egípcia era bastante mais certa e mais produtiva do que qualquer outra no Próximo Oriente e tal como o celeiro de Roma na época imperial era o Egito, o mesmo pode ter acontecido para o Róximo Oriente em épocas anteriores. Os cereais foram um elemento importante da política externa no período tardio.

 
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Referências Bibliográficas
1 A. Erman e H. Ranke, Agypten and agyptisches Leben im Altertum. 2ª ed. Tübingen 1923;  
2 Baines, John. O mundo egípcio, Madri Edições del Prado, 1996;  
3 British Museum, An Introduction to Ancient Egypt. Londes, 1979;  
4 C.F. Nims, Thebes of the Pharaohs. Londres 1965;  
5 E. Hornung, Einführung in die Agyptologie. Darmstadtt, 1967;  
6 E. Otto, Wesen un Wandel der Agyptischen Kultur. Berlim 1969;  
7 F. Daumas, La Civilisation de l'Egypte pharaonique. Paris 1965;  
8 W.C. Hayes, The Scepter of Egypt, i-i. New York 1953.  
 
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