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| Formação da civilização e dos primeiros clãs | Raça Egípcia | Cidades pré-dinasticas |
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A cultura do Norte da Africa foi, até ao fim da últiima era glacial (cerca de 10 000 a.e.c.), muito uniforme e a formação gradual do Egito constituiu uma separação em relação a este cenário, muito afetado por alteraçôes climáticas. Os aspectos mais relevantes deste processo são a rápida aceleração das mudanças, nos séculos que antecederam o período dinástico, e a falta de semelhança entre o estado egípcio da 4ª dinastia e os seus antecedentes pré-dinásticos, talvez meio milênio antes. A cultura egipcia não Se tornou estática nessa altura, mas nunca mais voltou a haver uma vaga de crescimento, e pode descobrir-se uma continuidade, desde o Império Antigo até ao período romano, que não se encontra entre o Egito pré-dinástico e o dinástico.
As mais antigas culturas pré—dinásticas não eram uniformes em todo o país e não é fácil relacionar o desenvolvimento das duas regiões principais. No vale do Nilo, as mais antigas culturas neolíticas, sedentárias e produtoras de alimentos são as do Tasiano e do Badariano (dos nomes dos locais em que foram pela primeira vez identificadas, tal como acontece com as que se referem a seguir), que podem não ter sido, de fato, separadas (cerca de 4500 a.e.c.). Confinam-se a modestos cemitérios provavelmente próximos de povoações hoje desaparecidas. No Fayum, há conhecimento de culturas datando de uma época aproximadamente idêntica, nas margens do lago e ao seu nível, mas existem poucas provas de que aqueles povos fossem agricultores, podendo ter vivido apenas em grande medida da caça e da recolha. Nas margens do delta, as grandes ruínas de Merimda são talvez mais antigas do que as Badari e é possível que tenha existido população sedentária no delta central nessa altura. Conhecem-se várias outras culturas neolíticas na zona da 2ª catarata.
O Naqada I (por vezes designado "Amratiano" é, como os períodos culturais que o precederam uma cultura local, em pequena escala, mostrando poucos sinais de estratificaçäo social. E, no entanto, conhecida numa area bastante maior e constitui o prelúdio a fase mais expansiva de Naqada II (ou Gerzeano), não mostrando quaisquer vestígios de influência exterior.
O Naqada II constitui o ponto de viragem no desenvolvimento do Egito pré-dinástico. Foi a primeira cultura a estabelecer contatos com outros países, tendo-se espalhado por todo o vale do Nilo, a norte de Gebel el-Silsila e ate ao Delta. Verifica—se também a existência de estratificação social e um desenvolvirnento de centros populacionais significativos, nomeadamente Hieracônpolis (Kom el-Ahmar), Koptos (Qift), Naqada e Abido. Foi, por outro lado, o último período em que se verificou uma certa uniformidade cultural, que se estendia para sul da 1ª catarata. As culturas núbias deste período, que se encontram ate Cartum, não são muito distintas das do Egito. É provável que tenha havido trocas em toda esta região e que não houvesse uma autoridade poiltica central. A separação cultural em relação ao grupo núbio a, que se torna visível a sul de Gebel el-Silsila no Naqada II, acompanha, provavelmente, os começos da organização estatal no Egito e a definição de uma fronteira política. Este processo leva ao período dinástico primitivo, em que o Egito se unificou dentro de fronteiras cornparáveis as de periodos posteriores, sob um único governante. Não existe uma quebra marcada entre o Naqada II e o período dinistico primitivo, embora a transformação tenha sido, ao longo dos séculos, quase total.
Durante o Naqada II, alguns motivos artisticos e artigos de tecnobogia demonstram a existência de contatos culturais com a Mesopotâmia. É possível que a escrita egípcia tenha sido inventada em resposta ao estímulo vindo da Mesopotâmia, mas os sistemas dos dois paises não são rnuito semelhantes. O método mais provável de transmissão cultural entre países era o cornércio, já então desenvolvido. Encontraram-se testemunhos da existência de comércio entre o Egito, o Sinai e o Sul da Palestina no período dinástico primitivo, mas mantém -se em aberto a questão de saber se era acompanhado de imigracão ou de invasões. É possível um pequeno grupo nômade conquistar um grande grupo sedentário, hipótese que não pode ser posta de parte em relação ao Naqada II, sem quase deixar vestigios arqueológicos.
As nossas fontes escritas mais recentes sugerem que já antes do início da 1ª dinastia existiam governantes para todo o Egito, que seriarn os sucessores de dinastias anteriores dos dois territórios do Alto e Baixo Egito. Mas a ideia da existéncia de dois reinos pré-dinásticos pode ser uma projeção do dualismo de que está impregnada a ideologia egípcia e não o registro de uma situação histórica verdadeira. É mais provável que se tivesse verificado a unificaçao gradual de uma sociedade anteriormente não centralizada, refletindo-se na uniformidade cultural do país no fim do Naqada II e em objetos marcados com versões antigas do que viria a ser o selo faraônico do serekh. Este selo consiste numa fachada de tijolo, cuja forma desenvolvida é o norne de Hórus do rei, que consistia num falcão encimando urn serekh, com um espaço para o nome. Foram encontrados motivos deste tipo no Alto Egito, na região a volta de Mêfis e no delta. O aparecimento deste motivo é mais ou menos da mesma época de um cerniténio em Abido, perto dos túmulos mais recentes dos faraós da 1ª dinastia, que talvez contenha túmulos reais pré-dinásticos. Se assim for, isso significa que já no fim do Naqada II havia governantes, centrados ern Abido, que controlavam grande parte do país.
As monumentais placas de ardósia e pontas de maca dos úlltimos reis pré—dinásticos, em particular Narmer, são de tipo semelhante ao de relevos reais posteriores e parecem registar vitórias em locais do delta e da Líbia, assim como acontecimentos agrícolas e rituais. Em períodos posteriores, a maior parte das cenas deste tipo não fornece, no entanto, informação histórica precisa, sendo mais significativas pelo fato de mostrarem que o papel do rei era definido e de Ihe ter sido, desde cedo, dada uma formulação visual. Os acontecimentos históricos em questão eram provavelmente anteriores.
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 Formação da civilização e dos primeiros clãs |
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Antes de se tornarem sedentários, eram talvez nômades dedicados a criação numa savana tornada cada vez mais inóspita entre o sétimo e o terceiro milênios. Aparecem a tecelagem, a cestaria e a olaria. Sabe-se que o trigo foi cultivado entre 4600 e 4200 a.e.c., no vale do Nilo, anunciando um desenvolvimento geral da agricultura. Provavebrnente nessa época os homens começaram a irrigar a semear elevações de vasa, a organizar a caça e a pesca, a construir santuários para os deuses e a escavar sepulturas onde depositavam objetos preciosos para servir os defuntos no outro mundo. A pré-história egípcia é, em essência, uma surpreendente Idade da Pedra, no qual os artifices revelam um virtuosismo sempre presente ao longo da história egípcia. Quer se trate de facas, macas, paletas ou de recipientes, a execução revela-se perfeita. O Nilo deve ter terminado de escavar o seu vale por volta de 4000 a.e.c., e um acontecimento importante: a paisagern estabilizou-se, o homem tornou realmente posse dela e começou a melhorá-la.
Assim nasceu verdadeiramente o Egito. A sedentarizaçao levou a criação de culturas locais, sendo muito dificil precisar a influência africana nessas culturas. Efetivamente, no final da época paleolítica, muitas regiões da Africa conhecem uma arte rupestre com personagens e animais como avestruzes e elefantes, onde alguns se tornarão talvez símbolos das províncias do Egito. Na verdade, as relações entre o Egito e a Africa durante a pré-história continuam a ser das mais obscuras. A civilização parece despontar, mas ainda muito rudimentar: nem cidades nem grandes edifícios, apenas cabanas de juncos, lodo e barro amassado formando pequenas povoações, sepulturas grosseiras, as vezes simples buracos no solo.
Nada disso parece anunciar o nascimento de uma grande cultura e do mais poderoso Estado da Antiguidade. Em cidades corno Merimde Beni Salame, a noroeste do Cairo, na orla do deserto, foram encontrados celeiros de trigo e objetos ornamentais em marfim. Em Tasa e em Badari (entre Assiut e Akhmim) produziam-se peças de olaria de qualidade e utilizava-se o cobre para fabricar utensílios, armas e objetos de toalete. No período dito “gerziano”, os recipientes ostentam homens, barcos, animais e insignias das províncias — as cidades devem ter-se agrupado em unidades mais importantes; assim unidos, os clãs partilham os seus recursos e as suas capacidades de trabalho.
O fenômeno da hierarquização tem início, impõe-se o poder de urn chefe mais autoritário e mais respeitado e, à sua volta, agrupa-se uma elite. O confronto entre duas povoações que queiram afirmar a sua soberania sobre este ou aquele território pode desencadear um conflito. Cada clãa faz questão de se caracterizar por um ernblema sagrado, muitas vezes em forma de animal . Em suma, os “principados” locals surgern, desenvoivern-se e alargam pouco a pouco as suas zonas de cultura e de caça. Note-se, de resto, que se começa a colocar em redes e ate em mortalhas de linho os despojos de animais como chacais, touros, carneiros e gazelas. O conceito de animals sagrados, que tanta surpresa causará aos viajantes gregos, já deve estar presente. Tradições religiosas, como a exumacão do defunto num caixão ou a escolha da margem ocidental do Nilo para situar as necrópoles, nasceram igualmente numa época muito remota.
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 A Raça Egípcia |
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Existe uma raça egípcia caracteristicamente tipica? é muito dificil responder a essa pergunta. O homem egípcio talvez seja uma sintese de várias raças: nôrnades errantes da savana saariana, norte-africanos aparentados com os berberes e as cabilas, indivíduos semitas vindos ao mesmo tempo do norte do Sinai e do sul do deserto arábico. Os esqueletos pré-dinásticos apresentam simultaneamente tipos europeus e negróides, e dai a hipótese de uma fusão dessas duas raças. Pensou-se igualmente numa grande cultura próxirno-oriental muito antiga, cujos ramos teriam alcançado ao mesmo tempo o Nordeste africano e o Oeste asiático.
O vale do Nilo teria constituído um berço ideal para uma mlstura de populações. Sem vestígio apareceria em mitos análogos conhecidos em civilizações diferentes (por exernpbo, o de OsIris e de Adônis), dadas as proximidades linguísticas, as comparações, as armas, os trajes. Como não evocar igualnente migrações de povos, viagens que teriam trazido ao Egito mesopotâmios, asiáticos e outros? Alguns autores chegaram a fantasiar que os egípcios seriarn extraterrestres que vieram colonizar urn ponto particularmente fértil do nosso planeta. A mais elementar honestidade consiste em dizer que nada sabernos de definitivo acerca da raça primitiva dos egípcios. São, evidentemente, africanos brancos com uma mentalidade, uma visão do mundo e uma contribuição civilizacional compreensiveis para as europeus. Como é quase impossivel penetrar o âmago do pensarnento africano, então um europeu não tera dificuldade em apreciar intimamente a arte egipcia e em sentir-se em cornunhão com a expressão de um pensarnento que, embora muito diferente do da época moderna, está inscrito no mais profundo da nossa memória.
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 As Cidades-Estados Egípcias |
| O Rei Escorpião |
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Ao final do período Naqada I, o palco já estava preparado para a unificação egípcia. Os elementos clássicos da civilização do Antigo Império já estavam organizados. Os séculos seguintes assistiriam a variações de ênfase, mudanças na religião e a adoção de novas idéias, habilidades e crenças. Mas a economia do Egito, sua arte e até seus pensamentos permaneceriam essencialmente os mesmos.
O final do período Naqada assistiu a um Egito ocupado por uma série de cidades ou cidades-estados independentes e suas comunidades agrícolas satélites, unidas por uma dependência comum do rio Nilo. Supomos que também havia uma língua comum, talvez com dialetos regionais, embora a ausência de textos escritos dificulte a comprovação desse fato. Dentro do cada Estado vivia a elite que controlava o acesso a recursos, Os artesãos que convertiam matérias-primas em bens de valor agregado, e os camponeses, a grande maioria da população, que trabalhavam a terra e seus recursos.
Alguns, aqueles enterrados nas tumbas mais sofisticadas, tinham se tornado muito ricos; tinham acesso ao ouro, a pedras semipreciosas e as mercadorias exóticas e luxuosas vindas de terras distantes. A maioria era relativamente pobre e era enterrada com poucos ou nenhum material de valor. Essa diferenciação social é mais óbvia no vale do Nilo. Os túmulos do Baixo Egito possuíam menos objetos em suas tumbas, o que sugere uma sociedade mais igualitária ou uma sociedade com tradições funerárias diferentes.
Na crescente aridez do vale, um aumento da densidade populacional e um progressiva dependência do comércio forçavam os assentamentos para o interior, em direção ao rio. Cada vez mais as comunidades independentes comercializavam jun tas, exportando não só bens materiais, mas também idéias. De modo lento e implacável, a cultura do final do período Naqada se espalhou a partir do sul do Egito. Rio acima, ela se estendeu para a baixa Núbia, substituindo a cultura monolítica local do chamado grupo A. Rio abaixo, esmagou e suplantou a marcante tradição nortista de Maadi.
Ao final da fase Naqada III, o Egito podia se vangloriar de uma cultura material amplamente homogênea, com bem poucas variações regionais de monta.
E claro que a homogeneidade material não implica unidade política ou religiosa, embora sugira que a unidade entre povos com uma mesma cultura e uma só língua seja possível. Nesse ponto crucial do desenvolvimento do Egito, o arqueólogo se depara com o problema de sempre. Na ausência de textos escritos e sítios de povoamento, são cemitérios terrivelmente saqueados que fornecem as evidências de processo político. Devemos supor que cemitérios onde só encontram túmulos cada vez maiores, repletos de bens cada vez mais valiosos, pertencem a cidades ou vilas com uma crescente influência econômica e política e maior estratificação social, e que cemitérios com sepultamentos inferiores pertencem a assentamentos de riqueza e importância menores, Usando esses critérios, podemos detectar a concentração de poder político no sul do Egito.
Naqada, situada ma margem ocidental do rio, no final da rota de comércio do Deserto Oriental através do Wadi Hammamat, ora conhecida pelos egípcios dinásticos como Nubt, ou "Cidade do Ouro", em homenagem a sua riqueza.
Entretanto, Naqada, uma das maiores cidades do Egito durante o período Naqada II, e sede de algumas das sepulturas mais ricas do período, estava então perdendo comércio para seus vizinhos mais dinâmicos, houve uma diminuição da riqueza disponível um declínio em influência e um inevitável isolamento político. Mesmo seu deus, o incontrolável Seth, estava sendo eclipsado por seu rival local, Hórus de Hieracômpolis. Naqada não era mais uma potência a ser reconhecida e os sepultamentos da sua elite eram pobres, quando comparados as esplêndidas tumbas que estavam sendo construídas em Hieracômpolis e Abidos.
Mais adiante, rio acima, o também antigo assentamento murado de Hieracômpolis ou Nekhen, lar do deus falcão Hórus, se tornara uma cidade próspera, densamente povoada, girando em torno do um amplo centro de culto ou cerimonial aberto, circundado por sua vez por edifícios, santuários, muros e cercas. Os vestígios de grandes centros de artes e ofícios e de uma vasta cervejaria falam por si mesmos. Nesses locais, matérias-primas camas, importadas do leste e do sul, eram transformadas em atraentes artefatos, comercializados com enorme lucro. A demanda do Egito por artigos de 1uxo parecia insaciável, e Hieracômpolis lucrava com a tradição agora bem estabelecida de dotar os mortos de bens dispendiosos. A tradição egípcia posterior iria considerar Nekhen como uma de suas cidades mais antigas, um grande centro do culto e o coração do reinado pré-dinástico do Alto Egito.
Esse rico passado só reflete em sua grande quantidade de vestígios arqueológicos A área 6 do cemitério de Hieracômpolis revelou uma serie de grandes tumbas em adobe, saqueadas, encimadas por estruturas de madeira e junco. Nesse local, ao lado da cerâmica parda característica do período Naqada III, encontramos os vestígios lamentavelmente danificados de um dispendioso e talvez ate régio estilo de vida. Há fragmentos de jóias feitas em ouro, prata, marfim, obsidiana o lápis-lazúli,além de uma grande quantidade do cobre e cerâmica. O proprietário da Tumba II, um dos túmulos mais ricos, seguiu para a eternidade equipado com uma coleção de contas preciosas e amuletos, miniaturas de pessoas e animais em pedra e cerâmica, entalhos em marfim e uma extraordinária cama do madeira cujos pés formam cascos de touro. Claro que esses bens são os menos valiosos, descartados pelos ladrões que profanaram a sepultura, e a nós resta apenas especular sobre o que a tumba conteria originalmente. E evidente que havia pessoas muito ricas sendo enterradas em Nekhen, Entretanto, essas não eram as sepulturas mais ricas do Egito.
Thinis ou Tis (provavelmente a atual Cirga) era uma pequena e ate insignificante cidade do período pré-dinástico cujo cemitério era situado em Umm el-Qa'ab, próximo a Abidos. durante os períodos Naqada I e II, esse cemitério era usado por todos, independentemente da classe ou riqueza.
Entretanto, ao final do período pré-dinástico, Umm el-Qa'ab tornara-se o cemitério mais exclusivo do Alto Egito, sede de suas tumbas mais impressionantes. A mais espetacular, uma estrutura de doze cômodos conhecida hoje como Tumba U-j, tom uma área de quase 67 m2 É muito maior do que qualquer outra estrutura já escavada em Hieracômpolis.
Embora U-j tenha sido bastante pilhada na antiguidade, escavações minuciosas se mostraram frutíferas, revelando grande quantidade do jarros de vinho egípcios e importados da Palestina, pequenos artefatos em osso e marfim e uma série de etiquetas inscritas removidas dos bens funerários desaparecidos, as quais representam nosso primeiro encontro com a escrita hieroglífica. Alguns desses textos podem ser traduzidos - referem-se a propriedades agrícolas e aos sítios de Buto e Bubastis no delta -, embora a figura enigmática de um escorpião esboçado em diversas vasilhas também possa ser interpretada como um símbolo hieroglífico. Vestígios de uma estrutura em madeira, provavelmente remanescente de um santuário, e encontrados na câmara mortuária, além da descoberta de uma maca de guerra de marfim em forma de cajado, sugerem que se trata da tumba do um rei regional.
O Rei Escorpião - Seria possível deduzir que esse rei anônimo, com bens muito mais descartáveis do que os outros governantes de Naqada e Hieracômpolis, fosse então o principal governante do sul? A influência do rei se estenderia para além de sua própria região? Sabemos que ele tinha acesso a mercadorias fabricadas na Palestina. Por ventura teria ele ambições além do Alto Egito?
As perguntas são intermináveis. Felizmente, o templo dinástico de Hórus em Hieracômpolis propiciou dois artefatos que podem ajudar a entender um pouco essa época confusa.
A maça de guerra extremamente grande e enfeitada, mas também danificada, hoje conhecida como a Maça de guerra do Escorpião (Museu de Oxford), apresenta um rei usando a coroa branca do Alto Egito. O rei, que usa um saiote, está em pé em um campo e porta uma enxada. Do frente para ele estão dois servos em escala menor, um carregando o que geralmente se interpreta como um feixe de cereais, e o outro carregando um cesto, enquanto atrás do rei estão dois servos portando abanos para protegê-lo do sol quente. Na altura da cabeça do rei estão dois entalhes pequemos, uma roseta e um escorpião, que geralmente são interpretados como representação do nome e/ou titulo do rei, embora "nome" talvez seja um termo preciso demais nesse contexto. Os entalhes podem ser classificados com igual validade como emblemas ou símbolos tribais/regionais representando a posição ou o poder do rei.
Como parece improvável que um personagem nobre sujasse suas mãos com trabalho manual, podemos supor que o rei esteja ali dando sua benção a algum programa cívico, talvez inaugurando um dique de irrigação, cortando a primeira faixa de grama, numa cerimônia semelhante a do que participa a moderna realeza quando, por exemplo, é chamada a plantar árvores, assentar tijolos e batizar navios. Nesse caso, a cena estaria nos fornecendo a primeira evidência de irrigação artificial patrocinada pelo Estado. Ate aí, é apenas uma vinheta agrícola agradável e inofensiva. Mas as inchadas podem ser usadas como armas de guerra. A contemporânea "Cidades" ou "Paleta das Cidades" ou "Líbia" mostra urna serie de animais; símbolos tribais, atacando cidades muradas usando inchadas. E sabemos, a partir de documentos posteriores, que as pássaros rekhyt mortos, pendurados pelo pescoço em estandartes militares posicionados acima da cabeça do rei, significam a conquista de um povo não especificado.
No Egito sempre haverá uma confusão entre arte e escrita. Tal como os hieróglifos usam figuras para representar palavras específicas, urna cena pintada ou entalhada pode ser lida como urna sentença. Só ha um ponto em que cessam as palavras e começa a escrita, onde exatamente se situa? Em certa medida, isso acontece em nossa própria tradição artística, mais que uma pintura religiosa aparentemente simples podo estar carregada de significado o simbolismo para os iniciados é em um nível mais básico, um desenho pode dizer muito a uma criança. No Egito isso é levado ao extremo, com os artistas recorrendo a figuras, muitas vezes a custa do texto, que pode ser mínirno ou ate ausente, para contar uma história; assim, toda arte formal só torna passível de mais de uma interpretação e podemos encontrar muitas camadas sobrepostas do significados em cada cena.
Os pedreiros de Naqada tinham a intenção de que a Maça de guerra do Escorpião fosse tida corno um texto. Para os observadores modernos, ela porta uma mensagem enigmática, embora seus significados mais óbvios atravessem uma vasta barreira cultural. A partir de seu tamanho extremo, dos entalhos detalhados e de sua inserção em um esconderijo do templo, podemos deduzir que a Maça de guerra é muito mais que o registro do um evento agrícola especifico e um tanto insípido. é uma peça que tem um valor sagrado ou religioso definido e celebra o papel do rei. O escorpião é maior do que os objetos que o acompanham. No Egito, tamanho sempre transmite autoridade e o rei naturalmente sempre dominará toda cena terrestre. A coroa fala por si só; estamos olhando para um monarca que já apreciava as vantagens das insígnias reais. O que surpreende e quanto as formalidades da arte egípcia - formalidades que persistirão quase inalteradas durante 3 mil anos - já estão bem esclarecidas. Sabemos, por seu estilo e origem, que, embora a Maça de Guerra do Escorpião seja datada do fim da era Naqada, sua imagem do perfil da realeza, com a coroa imediatamente identificável, não ficaria deslocada no período dinástico tardio.
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Referências Bibliográficas |
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Baines, John e Málek, Jaromír. O mundo egípcio, Madri, Edições del Prado, 1996; |
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| 2 |
Jacq, Christian. O Egito dos grandes faraós, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2007; |
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| 3 |
J.H. Breasted, A History of Egypt, 2ª ed. New York, 1909; |
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| 4 |
Revista Edição Ilustrada Egito Antigo, Escala, 2007; |
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| 5 |
Tyldesley, Joyce. Pirâmides a verdadeira história por trás dos mais antigos monumentos do Egito, São Paulo, Globo, 2005; |
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| 6 |
www.wikipedia.org |
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