Filosofia Clássica - Período Pré-socrático

Períodos da Filosofia Clássica

Pre-Socrático Socrático Pós Socratico / Helenismo

Período Pré-Socrático

Escola Jônica Escola Itálica Escola Eleática Escola Atomista

 

 

 

 

 

Vida

Leucipo de Ábdera nascido entre 490 e 460, falecido em 420 a.e.c. é o primeiro filósofo da escola atomista. É dito de Ábdera, talvez porque ali houvesse nascido, mas sobretudo porque ali floresceu. A informação vem de Diógenes Laércio. Este deu também outras possíveis procedências, como se lê em seu breve texto : "Leucipo, de Eleia, mas outros dizem de Ábdera, e outros de Mileto" (D. L., IX, 30).

O situamento de Leucipo entre 490 e 460 - 420 a.e.c., no quadro geral dos filósofos de seu tempo, ainda que parcamente conhecido, se consegue estabelecer através da convergência de várias pequenas informações. Dado uma vez como discípulo de Zenão (este nascido cerca de 490 a.e.c., e como anterior a Demócrito (este nascido cerca de 460 a.e.c., infere-se tranquilamente que Leucipo teria nascido entre 490 e 460 a.e.c., o que significa na década de 470 a.e.c.

No quadro geral dos filósofos do seu século, Leucipo está assim posicionado:

  • É mais jovem que Parmênides 540 a.e.c. - 479 a.e.c., Zenão de Eleia .490 - 430 a.e.c., Anaxágoras 500 -.428 a.e.c.;
  • É contemporâneo de Empédocles 490 - 435 a.e.c., Sócrates 469 - 399 a.e.c., e dos sofistas Protágoras 481 - 411 a.e.c.; Górgias de Leôncio 483 -.375 a.e.c.;
  • É mais velho, que Demócrito 460 - 370 a.e.c.;
  • Bem mais velho que Platão 427 - 347 a.e.c.

Diógenes Laércio, acrescentou ao informe sobre o nascimento: "Ele foi discípulo de Zenão" (D. L., IX, 30).

Mais adiante, o mesmo Diógenes Laércio, já situado no texto sobre Demócrito: "... Magos e caldeus foram os mestres de Demócrito... sendo criança... Mais tarde recebeu lições de Leucipo" (D. L., IX 34).

Voltando Diógenes a mencionar uma terceira vez a, ainda que passageiramente, a Leucipo, - desta vez ao escrever sobre Epicuro, - declara que este contestava o saber de Leucipo: "Negava o título de filósofo a Leucipo, mestre de Demócrito, como dizem Apolodoro e outros autores" (D. L., X,13).

De qualquer maneira, esta afirmação denota haver deixado Leucipo elementos que o fizessem ser conhecido e discutido.

Qualificado por Aristóteles como companheiro de Demócrito, esta condição afasta qualquer dúvida com referência ao relacionamento de Leucipo com o referido Demócrito e a cidade de Ábdera, ainda que pudesse ter vindo de outra parte, como de Eléia ou de Mileto. Não deixa de haver sentido no relacionamento com outras cidades, porque efetivamente o atomismo é influenciado pelo imutabilismo eleático e pela física jônica. Importante é a mencionada informação vinda de Aristóteles, que situa Leucipo em primeiro lugar, atribuindo a Demócrito a posição de companheiro, ou adepto (é como se pode traduzir. "Leucipo e seu companheiro (ou adepto) Demócrito..." (Metafísica, 985b 4).

Esta maneira muito simples de se referir aos atomistas, para a seguir tratar globalmente da doutrina atomista, significa a aceitação de que Leucipo não era figura insignificante. Em mais lugares cita Aristóteles a ambos os atomistas, com alternância: "Leucipo e Demócrito..." (Da geração e corrupção 324, 35); "Demócrito e Leucipo..." (Ibidem, 314a 21).

A mesma alternância se repete em Do céu. Simplício, comentador de Aristóteles, também conexiona a Leucipo com a escola eleática. Em Clemente de Alexandria igualmente se encontra a informação que relaciona Leucipo a Zenão, e com isso à escola eleática, mencionando inclusive a todos os seus representantes, desde o início: "Xenófanes tem por ouvinte Parmênides, ao qual sucederam Zenão, depois Leucipo, depois Demócrito" (Strômata, 64).

Praticamente se sabe apenas isto da vida pessoal do fundador do atomismo, colocado em relacionamento, de um lado com a escola de Elea, e de outro com Demócrito de Ábdera, de quem teria sido companheiro mais velho.

Obras

Sobre as obras de Leucipo as informações são muito fragmentárias e mal documentadas. Escreveu um livro, cujo título é retomado por Demócrito para um seu outro texto, o que fez confundir provavelmente as informações.

Tácio Aquiles séc. III a.e.c., em seu Introdução aos ‘Fenômenos’ de Arato, I, 13 (Diels-Kranz 67 B 1) atribui a Demócrito livro com o título "Grande sistema cósmico", traduzível também por Grande ordem do mundo.

No Papiro Herculano 1788 (Diels-Kranz 67 B 1a) se acusa a Demócrito de haver plagiado a obra de Leucipo. Com referência ao Grande sistema cósmico (= Mégas diákosmos), Teofrasto discorda de alguns autores e o atribui a Leucipo. Sobre o espírito é citado por Aécio (I, 24, 4; DK 67 B 2), como obra de Leucipo, ao transcrever uma frase (Frag. 2). Esta obra é interpretável como sendo apenas a citação de parte da primeira.

Grande sistema cósmico Sobre o Espírito

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Doutrinas

Atomismo | Astronomia

Atomismo - Em princípio todas as doutrinas pré-socráticas sobre a natureza são de caráter atomista, porque se imaginam elementos iniciais, de que as coisas se formam por composição progressiva, ao mesmo tempo que podendo retornar aos elementos originários.

Entretanto o atomismo de Leucipo e Demócrito, inaugura um tratamento novo dado ao tema, que destaca nos elementos o seu caráter inicial insecável. São os átomos partículas homogêneas quanto ao conteúdo, ficando a diversificação por conta da figura dos mesmos e dos arranjos atômicos. Alguns dos aspectos do atomismo foram confirmados pela física moderna, e se citam neste sentido as descobertas de John Dalton (1766-1844), inglês criador da química atômica, e Amadeo Avogadro (1776-1856), físico e químico italiano, com trabalhos sobre o número de átomos e moléculas, sobretudo em massas gasosas.

O que entretanto o atomismo antigo esteve longe de prever foi a atuação das forças, que então se consideravam meramente mecânicas. Além disto, o atomismo clássico supõe a existência do vácuo como um espaço simplesmente vazio. Isto não parece fazer sentido, sobretudo se através deste suposto vácuo, como hoje se acredita, atuam forças de atração e repulsão. Por isso, a transformação final do atomismo clássico deverá seguir para a efetiva substancialização do vácuo, fazendo-o um campo de forças e não apenas um vazio.

Mas ainda sobre o vácuo não sabemos com toda a precisão como o entendiam os atomistas, porquanto nos faltam informações. Por isso, não podemos reduzir o atomismo clássico ao atomismo ingênuo daqueles modernos que simplesmente equacionam a realidade como átomos no vazio absoluto. O primeiro informante sobre o atomismo de Leucipo é Aristóteles, que o equaciona juntamente com Demócrito.

"Leucipo e Demócrito explicam todas as coisas por uma só maneira, por um princípio primeiro por natureza" (Geração e corrupção I. 8. 325 a 3 ss.).

Também se refere a ambos o texto de Metafísica I, 4. 985 b 4 - 20 em que se definem o átomo e o vazio, as mudanças pela mistura, as diferenças dos átomos pela sua forma ou figura, como A de N; pela ordem como AN de NA; pela posição, como N e Z (N é um Z deitado). "Leucipo e seu companheiro Demócrito tomam como elemento o pleno e o vazio, que eles chamam respectivamente o ser e não-ser. Destes princípios, o pleno e o sólido é o ente: o vazio e o raro, o não-ser (é porque, na sentido deles o não-ser não tem menos existência que o ser, o vazio não existindo menos que os corpos. Estas são as causas dos seres, no sentido de causa material.

E tal como aqueles que admitem a unidade da substância tomada como material engendram todas as outras coisas por meio de modificações desta substância, colocando o raro e o denso como princípios de modificação, estes filósofos pretendem que as diferenças nos elementos são as causas de todas as demais qualidades.

Estas diferenças são, segundo eles, somente em número de três: a figura, a ordem, a mudança. As diferenças do ser, dizem eles, não vêm senão da proporção, do contato, do deslocamento. Ora a proporção é a figura, o contato é a ordem, e o deslocamento é a posição. Assim A difere de N pela figura, AN de NA pela ordem, e Z de N pela posição.

Quanto ao problema do movimento: de onde e como os seres o possuem, estes filósofos o têm, como os outros, negligentemente passado em silêncio" (Metafísica, 985b 4-20).

Prenuncia-se aqui o moderno sistema dos elementos, até porque Demócrito usou a linguagem das letras.

"E como os corpos diferem pelas formas, e são infinitas as formas, dizem que também os corpos simples são infinitos" (Aristóteles, Do céu III, 4.303).

"Assim como Leucipo, também Demócrito, seu discípulo, dizia que o cheio e o vazio são os princípios, sendo um existente, e o outro não-existente. Pois os átomos são a matéria das coisas, e todo o resto se segue de suas diferenças. Estas são três: forma, movimento e ordem" (Simplício, Física, 28,15).

Ainda sobre o movimento, informou Aristóteles: "Alguns filósofos, como Leucipo e Platão, consideram que o ato é eterno, porquanto afirmam que o movimento existe sempre. Não obstante, não explicam, nem a natureza do movimento e nem a causa do movimento eterno" (Metafísica XII, 6. 1071 b 32-33).

Em Cícero: "Ista enim flagitia, Democriti, sive etiam ante Leucipi, esse corpuscula quaedam levia... (De deorum natura, I, 24, 66).

Diógenes Laércio informa sobre o pensamento de Leucipo, primeiramente em geral, depois entrando em alguns detalhes sobre o atomismo, finalmente sobre sua cosmogonia e astronomia.

"Admitia a pluralidade absoluta dos seres e suas transformações recíprocas, e ainda a existência simultânea do vazio e do cheio no universo.

Os mundos, diz ele, são formados quando os átomos caem no vazio e ali se aglomeram. Estes corpos, acrescidos de sucessivas adições, formam os astros. O sol, colocado mais além da Lua, percorre um círculo maior.

A Terra, situada no centro, está sujeita a um movimento circular. Sua forma é a de um tambor. Foi [Leucipo] o primeiro a estabelecer os átomos como princípios das coisas. Estas é uma exposição geral de seus pontos de vista. Os detalhes são como seguem: Ele declara que o todo é ilimitado, como já disse. Mas, o todo parte é cheio [matéria, átomos], parte é vazio [espaço]. Ambos estes elementos são infinitos, como também os mundos que produzem e que neles se resolvem.

Os mundos se formam desta maneira: Grande número de corpos separados do infinito e afetando todas as formas possíveis, se movem na imensidade do vazio; de seu conjunto resulta um redemoinho único, de onde, arrastados circularmente, entrechocam uns com os outros e acabam por desfazer-se, de tal sorte, que se reúnem os que são semelhantes.

Mas, como todas as partículas não podem, por causa de sua multiplicidade, seguir uniformemente o movimento do torvelinho, as mais ligeiras são lançadas para o vazio exterior. As outras permanecem e, abraçadas no mesmo movimento, se enlaçam e formam uma espécie de contínuo, um primeiro conglomerado esférico, uma membrana que envolve corpos de toda espécie.

Depois, a continuidade do movimento circular, unida à resistência do núcleo central, faz que os corpos sejam levados incessantemente para o centro, chegando a ser cada vez menos densa a membrana exterior; uma vez no centro, permanecem unidos nele, e se forma a terra. Por outra parte, se produz no espaço outro conglomerado que se acrescenta constantemente pela arribação de corpos exteriores e que, animado o mesmo de um movimento circular, arrasta e leva consigo tudo o que encontra.

Alguns dos corpos assim agrupados se reúnem, e formam compostos primeiramente úmidos e lamacentos; despejados seguidamente e arrastados pelo movimento universal do torvelinho circular, se inflamam e constituem as substâncias dos astros" (D. Laércio, IX, 33).

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Astronomia - É possível considerar em separado de sua cosmogonia, a astronomia. Já inicialmente o texto de Diógenes Laércio coloca alguns elementos neste sentido:

"O sol, colocado mais além da Lua, percorre um círculo maior.

A Terra, situada no centro, está sujeita a um movimento circular. Sua forma é a de um tambor" (D. L., IX, 20

 

Prossegue o restante texto de D. Laércio:

"A órbita do sol é a mais afastada, a da Lua é a mais próxima à Terra; entre os dois estão as órbitas dos outros corpos celestes.

Todas estrelas se inflamam por causa da rapidez do movimento; o calor do Sol é ajudado também pelas outras estrelas; a Lua só é iluminada debilmente. O Sol e a Lua são eclipsados [quando... ] (uma provável lacuna do texto).

[ ... mas a obliquidade do círculo do Zodíaco é devida], à que a Terra está inclinada ao meio dia (Sul).

 

Às regiões árticas estão nevadas, são extremamente frias e geladas. Os eclipses do Sol são raros. A frequência dos da Lua se devem à desigualdades das órbitas destes astros.

A produção dos mundos, seu desenvolvimento e declínio se devem a certa necessidade, cuja natureza ele não especifica" (D. Laércio, IX, 31-33).

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