Filosofia Clássica - Período Pré-socrático

Períodos da Filosofia Clássica

Pre-Socrático Socrático Pós Socratico / Helenismo

Período Pré-Socrático

Escola Jônica Escola Itálica Escola Eleatica Escola Atomista

 

 

 

 

 

Parmênides é um dos grandes nomes da filosofia pré-socrática e mais do que isto, um dos grandes filósofos de todos os tempos.

Na escola eleática é ele o referencial principal, ainda que cronologicamente situado como o segundo, ou seja, após Xenófanes.

Caracterizou-se pela concepção unicista do ser e redução dos sentidos á relatividade, figurando seu poema sobre a se como o primeiro importante documento sobre a ontologia.

Vida

Parmênides de Eleia 540 - 479 a.e.c. é filósofo de língua grega, nascido em Eleia. A antiguidade referia-se a Parmênides como um sábio importante e respeitável. Assim é configurado ao comparecer ficticiamente aos diálogos de Platão.

Um dos dialogantes se expressa enfaticamente: "O grande Parmênides" (Sofista 237 a).

Outro, que é Sócrates, não deixou por menor sua admiração: "A meu parecer, Parmênides, como um herói de Homero, é venerável e temível. Tive contato com este homem (diz Sócrates) quando eu era jovem e ele velho, e justamente me pareceu que tinha pensamentos profundos; temia não compreender suas palavras e que seu pensamento nos deixasse atrás" (Teeteto, 183 e).

Deste homem tão conceituado se conhecem todavia mui poucos episódios biográficos. Isto pode significar que se concentrou mais com a vida intelectual, do que com atividades administrativas. Diógenes Laércio, um dos raros informantes, dedicou a Parmênides tão só uma página, em que se refere à vida e à doutrina do mesmo. E o que se encontra nos diálogos de Platão, ainda que seja em forma de ficção, tem ao menos a validade testemunhal do prestígio doutrinário de Parmênides.

O mesmo acontece com as citações fragmentárias feitas do poema de Parmênides. Não trazendo embora informações biográficas, ao menos transmitiram o referido texto, o qual veio através de Teofrasto, Simplício, Sexto Empírico, Plotino, Proclo, Clemento de Alexandria e outros.

"Parmênides de Elea, filho de Pireto, era discípulo de Xenófanes (ou de Anaximandro, diz Teofrasto no Compêndio).

Ainda que discípulo de Xenófanes, abandonou suas doutrinas para seguir a Amínias e ao pitagórico Dioquete, homem pobre, segundo Sócion, porém. homem honesto e virtuoso. Dioquete era seu mestre predileto e, depois de sua morte, lhe edificou uma capela como a um herói. Rico e de ilustre nascimento. deveu mais a Amínias que a Xenófanes, seus estudos filosóficos, que levam à tranquilidade" (D. L., IX, 21).

Conhecendo embora o diálogo platônico denominado Parmênides, ao qual também cita Diógenes Laércio não incluiu o que alise narra, como sendo parte biográfica real de Parmênides. Se fosse, dever-se-ia dizer que Parmênides estivera em Atenas pela volta de 450 a.e.c., quando Sócrates era ainda jovem e que teria tido conhecido então o eleata e com ele dialogado. Nesta hipótese, inclusive, dever-se-á retardar a data de nascimento de Parmênides pelo menos 515 a.e.c.

A cronologia de Parmênides toma como base a afirmativa de Diógenes Laércio: "Floresceu na 69ª. Olimpíada" 504-501 a.e.c. (D. L., IX, 23). Esta data combina com as informações do mesmo Laércio, de que Parmênides fora discípulo de Xenófanes e de Anaximandro.

Também Aristóteles opina de maneira semelhante quando diz: "Quanto a Xenófanes, o mais antigo adepto da unidade (pois se diz que Parmênides foi seu discípulo)" (Metafísica, 986 b 20).

Sabe-se ainda: "Diz Espeusipo, em sua História dos filósofos, que havia dado leis aos seus concidadãos" (D. Laércio, IX, 23).

Isto quer dizer que Parmênides poderia ter ocupado posição de destaque em sua cidade, que era de recente fundação, de Jônicos vindos da Ásia menor. As referências doxográfìcas a Parmênides se devem principalmente aos filósofos que se ocuparam de importantes questões ontológicas e gnosiólogas, como Platão, Aristóteles, Teofrasto, Simplício, Sexto Empírico.

Ao mesmo tempo os doxógrafos fizeram citações relativamente numerosas dos textos originais do mesmo Parmênides. Dali resultou a possibilidade de reconstruir, pelo menos sofrivelmente, o texto propriamente dito.

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Obras

 

Introdução Doutrina do Ser Doutrina Sobre a Natureza

O texto filosófico de Parmênides não poderia ter sido mais solene, do que a forma de poema, que lhe deu.

"Nosso filósofo expôs suas doutrinas em verso, tal como fizeram Hesíodo, Xenófanes e Empédocles" (D. Laércio, IX, 22). Pelo conteúdo terá tido o nome Sobre a natureza, tal como acontece com as obras de Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito.

Restando embora apenas fragmentos, consegue-se conectá-los entre si, reconstruindo-se o texto. Sexto Empírico (VII,111) citou os versos 1 a 30. Estes se aglutinam com as citações de Simplício (Do céu, 557, 20) com os versos de 28 a 32. Da combinação de ambos se obtém a ordem interna do Frag. l do poema de Parmênides. Eis a Introdução, ou Proêmio, que solenemente introduz ao poema, e que nesta parte inicial se lê espontaneamente.

Seguem-se, empequenas dimensões, os fragmentos 2, 3, 4, 5, 6 respectivamente citados por Proclo, Clemente de Alexandria (duas vezes), de novo Proclo. Esta página introduz as teses fundamentais sobre o ser, e se fazem admirar pelo impacto com são apresentadas. Continua a reconstrução do texto com o grande enredo dos fragmentos 7 e 8. Representam mais duas páginas no texto geral do poema, e que se ocupam com a doutrina do ser.

O fragmento 7 deriva das citações de Platão (Sofista 237 a), versos 7, 1-2; e das citações de Sexto Empírico (VII, ll4), versos 3, 3-6. O fragmento 8 reúne duas citações de Simplício (Física, 114,29), versos 8,1-52; e (Física, 38,28) versos 50-61. Depois deste texto central, seguem-se os 11 textos menores finais, ocupando-se com a doutrina de Parmênides sobre a natureza:

fragmento 9 de Simplício; fragmento 10 de Clemente de Alexandria; fragmentos 11 e 12 de novo, de Simplício; fragmento 13 de Platão (Banquete 178 b); fragmentos 14 e 15 de Plutarco; fragmento 16 de Aristóteles (Metafísica 1009 b 21); fragmento 17 de Galeno; fragmento 18 de Célio Aureliano; fragmento 19 de Simplício (sendo este autor o que apresenta maior número de versos, seguido de Sexto Empírico).

Na tradução, o que nos importa hoje não é a reprodução cadenciada dos versos, mais que a enunciação direta do conteúdo das proposições. Importa atender primeiramente para o texto mesmo do poema do ser, de Parmênides, para assimilá-lo como um todo, para somente depois fazer sua leitura literária, lógica, física, metafísica.

INTRODUÇÃO

(Frag. 1) (Sexto, VIII, 111; Simplício, Do céu., 557,20)

(1,1) "As éguas, que me conduziam, quanto meu coração desejava, levaram-me pelo famoso caminho das deusas, que conduz o sábio através de todas as cidades. Por ele era eu conduzido; por ele me levavam as mui destras éguas (1, 2), puxando o carro, e as moças indicavam o caminho.

Os eixos ardiam nos cilindros e ressoavam com estridente sibilo (pois duas rodas se aceleravam de ambos os lados), sempre que as jovens heliades aumentavam a velocidade, que deixavam a morada da noite (1,10) na direção da luz, afastando os véus da cabeça. Ali estão os portais dos caminhos da noite e do dia, tendo em cima uma trave e em baixo um degrau de pedra; a porta mesma, a etérea, é fechada com duas imensas folhas; achave, de uso alternante, da porta, é guardada pela Justiça muito castigadora (l,15).

As jovens lhe falam com suaves palavras e a convencem habilmente, para que lhes retire da porta as aferrolhadas traves. Então esta abriu largamente o abismo entre seus batentes de bronze, que giraram sobre seus gonzos, (1, 20) providos de dobradiças e cravos. Conduziram então as jovens o carro e as éguas, através do portal sobre o caminho. E a deusa me acolheu com afeto, tomou a minha mão direita com a sua e me dirigiu a palavra, dizendo-me:

- Jovem, companheiro de imortais condutores (1, 25), que chegas à nossa morada com as éguas que te conduzem, saúdo-te!

Pois não foi nenhum fado mau que te induziu vir por este caminho (que está longe do caminho, dos homens), mas a Lei e a Justiça (1 X : 4 H , ) 4 6 Z ).

Porém é preciso que conheças tudo, tanto o coração imperturbável da verdade bem rotunda, (1,30) como as opiniões dos mortais, nas quais não reside a verdadeira crença. Aprenderás também isto, como as aparências são um saber aparente, estendendo-se todas através de tudo.

Esta última frase é de tradução difícil, e foi dada por H. Diels, na seguinte forma: "Doch wirst du trotzdem auch dieses kennen lernen und zwar so, wie das ihnen Scheinende auf eine probehafte, wahrscheinliche Weise sein musste, indem es alles ganz und gar durchdringt".
DOUTRINA DO SER

(Frag. 2) (Proclo, Comentário ao Timeu I, 345, l8; também Simplício, Física 1l6, 25), doutrina do ser

(2, 1) "Pois bem, eu te quero instruir (guarda as palavras que ouves) sobre quais os únicos caminhos da investigação que são pensáveis: O primeiro, o que é, é. E o não-ser, não é [Frag. 2,3]. Esta é a verdade da convicção (pois segue à verdade);

(frag. 2,5) o outro, o não-ser é e o ser necessariamente não é; esta vereda, eu te digo, é totalmente impraticável; pois não conhecerias o não-ente (porque isto é impraticável), nem o expressarias".

(Frag. 3) (Clemente de Alexandria, Strômata VI, 23; também Plotino, Enéada V, 1, 8)

(3,1) "...pois o mesmo é pensar e ser".

(Frag. 4) (Clemente de Alexandria, Strômata, V, 15)

(4,1) "Observa como o longínquo se fez firmemente presente ao pensamento; pois não separará o ente de sua conexão com o ente, nem como quando o dispersa totalmente por todas as partes conforme o cosmos (= ou ordem do universo), nem quando o reúne".

[Frag. 5] (Proclo, Comentário Parmênides, I,p.708, 16)

(5,1) "Igual é para mim, por onde comece, pois ali mesmo de novo retornarei",

[frag. 6] (Simplício, Física, 117,2:

(6, l) "É necessário dizer e pensar que o ente permanece; pois o ser é, o nada não é, - eu te exorto que consideres isto. Desta primeiro caminho da investigação eu te afasto. Mas então também daquele onde erram os mortais ignorantes, bicéfalos (6,5). Pois a incapacidade de seu peito dirige o pensamento vacilante. São impelidos como surdos e mudos, estupefatos, gente incerta, para as que o ser e o não-ser parece que são o mesmo e não o mesmo, como se houvesse para todas as coisas duas contrárias vias.

[Frag. 7 e 8 (7, 1-2 Platão, Sofista, 237 a; Aristóteles, Metafísica, 1089 a 2; 7, 2-7; Sexto Empírico VII, 114, 8,1-52; Simplício, Física, 114, 29; 8, 1-14 == Ders 78-5; 8, 3-4; Clemente de Alexandria, Strômata, V, 113; 8,38; Platão, Teeteto, 180 d;8,39 Melissos 30 B 8; 42 Simplício, Física, 147,13;843-45, Platão, Sofista, 244 e; Eudemo, em Simplício, Física, l43,4;8,44 Aristóteles, Física, 207 a 15; 8,50-61 Simplício, Física, 38,28; 8,50-59, Simplício, Física, 30,13; 8,52, Simplício, Física,147,28; 8,53-59 Simplício, Física, 179,31)

(7, 1) "Pois é impossível, conseguir que o ser não seja; afasta, pois, teu pensamento deste caminho de investigação. E que o costume não te obrigue a este caminho frequente, deixando valer a vista oscilante e o ouvido que zune (7,5) e a língua. Mas julga com a razão a discutida questão, por mim proposta.

(8,1) Resta então um só caminho para o discurso: é. Há nele muitos sinais; é ente ingênito e imperecível, é completo, imóvel e sem fim (8,5). Não terá sido e nem será, pois é agora tudo de uma vez, uno, contínuo. Pois que nascimento lhe acharias? Como, de onde teria nascido? Nem do não-ente permitirei que digas ou penses. Porque não é nem expressável e nem pensável que o é, seja como o não é. Que necessidade teria de nascer (8,10) antes ou depois, se procedesse do nada? Assim é necessário que seja todo, ou nada. Tão pouco a força da verdade permitirá que do não-ser nasça algo. Por isso, a justiça não relaxa as cadeias, nem para que engendrem nem para que pereça algo (8,15), porém, as mantêm firmes. O juízo sobre isso, a este respeito é: é ou não é. Decidido está, como fora necessário, que um (caminho) é impensável, (pois não é o caminho da verdade), em vista de que o outro avança e é verdadeiro. Como poderia, aliás, o ente perecer? Como poderia nascer? (8,20) Se tem nascido, não é, nem mesmo é se houver de ser alguma vez. Assim, está extinto o nascimento e inacreditável a destruição. Nem é tão pouco divisível, pois é todo homogêneo. Nem é mais aqui, pois impediria fosse contínuo; nem é menos ali, pois tudo está pleno de ente. (8,25) Todo ele é contínuo, pois o ente toca o ente.

É imóvel entre o vínculo de poderosas cadeias; é sem começo e nem fim, pois o nascimento e a destruição foram afastados mui longe, rechaçados pela verdadeira crença.

Ele mesmo permanece no mesmo e descansa sobre si mesmo, (8,30) e assim residirá imutável ali mesmo. A poderosa necessidade o mantém nas cadeias envolventes, cercando-o inteiramente. Por isso não é permitido ao ente ser incompleto (indefinido), pois não é indigente; e se o fosse, de tudo careceria. O mesmo é o pensar e aquilo por o que é o pensamento (8,35). Pois sem o ente, em que ele é expresso, não encontrarás o pensar. Não há, pois, nada, ou será outro, que o ente, visto que o Fado o encadeou para que permaneça inteiro e imóvel. Por isso são apenas nomes, o que os mortais em sua linguagem têm como sendo verdade: (8,40) nascer e morrer, ser o não ser, troca de lugar e alteração de cores resplendentes.

Sendo o seu limite o último, ele está completo por todos os lados, à maneira da massa de uma esfera bem redonda, desde o centro igual em equilíbrio. Não é (8,45) nem maior e nem mais pesado aqui ou ali. Já que não é, nem o não-ente, que o pudesse impedir de ser homogêneo; nem um ente que tivesse mais de ente aqui, menos lá, porquanto é todo inviolável. Em sendo igual em todas as direções, encontra de igual maneira todos os seus limites.

(8,50) Com isso encerro para ti o meu fidedigno discurso e pensamento sobre a verdade

[Vai encerrando aqui o frag. 8,50, a primeira metade do discurso, que abordava a metafísica, e anuncia a exposição da física, que virá pouco adiante].

Aprende, porém, a partir daqui, as opiniões dos mentais, escutando a ordem enganosa de minhas palavras.

Pois eles (os mortais) decidiram dar nomes a duas formas à maneira de interpretação (das quais não deveriam nomear uma, em que desandaram em erro). (8,55) Julgaram-nas com aspecto oposto; aqui o fogo etéreo da chama, doce, muito leve, idêntico a si mesmo por toda a parte, com a outra todavia não idêntica. Esta, diferentemente, é por si mesma, o oposto, noite escura, corpo pesado e espesso.

(8, 60) Esta razoável ordem do mundo eu te revelo, para que nunca ingresses em nenhuma interpretação dos mortais".

DOUTRINA SOBRE A NATUREZA

[Frag. 9] (Simplício, Física, 180,8)

"Posto, porém, que todas as coisas foram nomeadas luz e noite, esta e aquelas conforme as suas potências, tudo é pleno tanto de luz como de escura noite, de ambas por igual, por nada haver entre ambas."

[Frag. 10] (Clemente de Alexandria, Strômata, V, 138, Vgl. Plut. Adv. Col. 1114 a)

"Conhecerás, pois a natureza do éter, todas as constelações no Éter e a força ofuscante da pura tocha clara do sol, e de onde procedem terás notícia das operações, do giro da lua (10,5) e sua natureza; saberás também do céu que tudo circunda e de onde ele vem e ainda como a Necessidade, que o regem o destinou a manter os limites dos astros".

(1) Encerra aqui em fragmento 8,50 a primeira metade do discurso, que abordava a metafísica; segue a exposição da física.

[Frag. 11] (Simplício, Do céu, 559,20)

"(Eu quero começar a narrar) como a terra e o sol e a lua e o éter comum a todas e a celeste via láctea e o Olímpio remoto e a força ardente dos astros esforçaram-se para nascer".

[Frag. 12] (Simplício, Física, 39,12)

"Os círculos mais estreitos estão cheios de fogo puro, os que vêm depois cheios de noite; pelo meio se projeta uma parte de chama. No centro está a deusa que tudo governa. Por toda a parte reina o odioso nascimento e a união, (12,5) impelindo a fêmea unir-se ao macho, inversamente o macho à fêmea".

[Frag. 13] (Platão, Banquete, 178 b; Simplício, Física, 39, 18)

"Por primeiro dentre todos os deuses, foi Eros, por ela concebido".

[Frag. 14] (Plutarco, Contra Colotes, 15, 1116 a)

"(A lua uma) luz noturna, em torno à terra, errante e com luz de outro".

[Frag. 15] (Plutarco, Da face da Lua, 16, 6. 929 a)

" (A lua) sempre olhando para os raios do sol".

[Frag. 16] (Aristóteles, Metafísica, 1009 b 21)

"Como em qualquer tempo, a mistura torna os órgãos enganosos, assim se apresenta o pensamento dos homens. São a mesma coisa: a inteligência e a natureza dos órgãos nos homens, em todos os homens e para todo o homem, pois o que predomina no corpo faz o pensamento".

[Frag. 17] (Galeno, In Hippocratis Epidemias, VI, 48)

"À direita os moços, à esquerda as moças".

[Frag. 18] (Célio Aureliano, De morbis chronicis., IV 9 p.116 Sichard)

"Quando o homem e a mulher misturam as sementes do amor, a força, que informa as veias com sangues opostos, modela corpos bem constituídos, se se exerce com mistura exata. Se, porém, as forças conflitam e não realizam nenhuma unidade, tornarão funesto o sexo daquele que nasce".

[Frag. 19] (Simplício, Do céu, 558,8)

"Assim, segundo a opinião, estas coisas nasceram e são agora. Depois, passado o tempo, crescerão e morrerão. Para cada uma, os homens estabeleceram um nome determinado".

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Doutrinas

Gnosiologia | Ser como objeto específico do pensamento | Subjetividade do Conhecimento Senvível | Ontologia | Criacionismo | Contra o mobilismo de Heráclito? | O Ser é Extenso | O Ente Unívoco | Cosmogonia

Os temas, - abordados pelo mesmo Parmênides em seu poema e chegados até nós também através dos doxógrafos, - se alargam sobretudo sobre a metafísica, na qual se destacam uma gnosiologia e uma ontologia. Mas, não deixou de se manifestar sobre a natureza, assim se ajustando com a tendência pré-socrática prioritariamente ocupada com os temas físicos e cosmológicos.

Em Parmênides é difícil abordar separadamente os diversos temas da filosofia, não só porque seus textos os abordam de maneira abrangente, mas porque efetivamente há uma coesão interna entre os mesmos. Também aqui é Parmênides mais profundo que os demais pré-socráticos. É entretanto o primeiro filósofo do qual se pode tratar com nítido destaque a gnosiologia e a ontologia.

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A Gnosiologia - A metafísica é a única ciência filosófica que deve justificar seu próprio objeto. Principia pois a metafísica sua primeira tarefa, e que se denomina gnosiologia, para depois desenvolver, de acordo com estes resultados, uma ontologia. Efetivamente, o saber sistemático principia com a justificação do ponto de partida, e por isso tudo começa com a metafísica, ou outro nome que se dê esta parte inicial de todo o saber.

Assim procedeu Parmênides, justificando um começo, o qual para ele era o conhecimento do ser. Embora não contasse ainda com a palavra metafísica, criada apenas ao tempo da filosofia helênico-romana, e com os termos ontologia e gnosiologia, que são de criação moderna, ainda que sob base da língua grega, - o que Parmênides inaugurava era a metafísica sistemática, ou seja uma gnosiologia e uma ontologia. Depois dele a tarefa será levada avante por Aristóteles, que foi o primeiro a entrar pelas definições destes setores da filosofia.

A gnosiologia (também dita teoria do conhecimento), enquanto examina a validade do conteúdo do conhecimento, ganhou nos eleatas as primeiras considerações, embora tenha seu maior desenvolvimento só muito tempo depois, com Platão, Aristóteles, os céticos, mas sobretudo com os modernos. O primeiro da escola eleática foi Xenófanes de Colófon, ao qual Parmênides retomou e aprofundou.

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O ser como objeto específico do pensamento- Que é que surge efetivamente ao nosso pensamento? Eis uma pergunta subtil, por onde principia sistematicamente a gnosiologia. Posto um objeto de conhecimento, importa determinar com que certeza ocorre, - se com efetiva certeza, ou se com nenhuma certeza, isto é, com dúvida; se com verdade objetiva, ou se com subjetividade; se com evidência clara e distinta, ou se com evidência confusa.

A respeito do que Parmênides disse sobre o objeto específico do pensamento, restou um texto breve e relativamente claro:

"... pois o mesmo é pensar e ser" (Frag. 3, em Clemente de Alexandria, Strômata, VI, 23).

A insistência com que Parmênides opõe a doutrina do ser e o conhecimento sensível, deixam como certa a especificidade destas duas modalidades de conhecer. Na mesma direção operam a insistência com que deu como verdadeiro o conhecimento do ser e subjetivo o que nos apresentam os sentidos.

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Subjetividade do Conhecimento Sensível - Que é que surge efetivamente ao nosso pensamento? Eis uma pergunta subtil, por onde principia sistematicamente a gnosiologia. Posto um objeto de conhecimento, importa determinar com que certeza ocorre, - se com efetiva certeza, ou se com nenhuma certeza, isto é, com dúvida; se com verdade objetiva, ou se com subjetividade; se com evidência clara e distinta, ou se com evidência confusa.

A respeito do que Parmênides disse sobre o objeto específico do pensamento, restou um texto breve e relativamente claro:

"... pois o mesmo é pensar e ser" (Frag. 3, em Clemente de Alexandria, Strômata, VI, 23).

A insistência com que Parmênides opõe a doutrina do ser e o conhecimento sensível, deixam como certa a especificidade destas duas modalidades de conhecer. Na mesma direção operam a insistência com que deu como verdadeiro o conhecimento do ser e subjetivo o que nos apresentam os sentidos.

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Ontologia - Na base de todas as coisas está o ser. Tudo é ser. Nada há, que não seja ser. O não-ser, simplesmente não existe. Estas e outras afirmativas do gênero começaram a ser veiculadas em filosofia a partir de Parmênides. As primeiras afirmativas neste campo da ontologia já se manifestam em Xenófanes, havendo sido levadas a plena enfaticidade com o grande Parmênides.

Em Xenófanes se afirmara do ser quase tão somente a sua unidade, portanto, apenas uma de suas peculiaridades. Do ser em si mesmo, anterior à sua unidade, pouco disse Xenófanes; de certo modo o entendia quase somente como algo material, como terra, e nem isso com clareza, conforme advertiu depois Aristóteles. A leitura dos fragmentos de Parmênides nos coloca prontamente diante especulações inteiramente novas sobre o ser (Frag. 2, encontrado em Proclo, Comentário ao Timeu I, 345, l8; também Simplício, Física 1l6, 25):

(2,1) "Pois bem, eu te quero instruir (guarda as palavras que ouves) sobre quais os únicos caminhos da investigação que são pensáveis: O primeiro, o que é, é; e o não-ser não é, - esta é a verdade da convicção (pois segue à verdade);

(2,5) o outro, o não-ser é e o ser necessariamente não é; esta vereda, eu te digo, é totalmente impraticável; pois não conhecerias o não-ente (porque isto é impraticável), nem o expressarias".

Tais expressões, de notória enfaticidade, - originariamente ditas em grego, - tiveram diferentes traduções, mas todas conduzindo para a idéia do ente e da inefabilidade do não-ente. Ao mesmo tempo que Parmênides estabelece a noção de ser, encaminha a sua propriedade de verdade ontológica. O ser objetivo é idêntico à sua noção ideal de ser. Uma vez que o ser da idéia é o mesmo que o ser objetivamente, não é possível pensar o não-ser.

Tem o ser a propriedade de ser o que é e de não poder ser o que não é. Não pode ser tratado de outro modo. O caminho praticável é somente a do ser enquanto é, e do não-ser enquanto não é. Jamais o ser não é; como jamais o não-ser é. Verdade ontológica se distingue da verdade lógica (pelo menos abstratamente), pela diferença dos termos do acordo, verdade lógica, se diz do acordo entre a representação mental e o objeto representado. Diz-se a verdade ontológica do acordo entre um objeto e seu modelo ideal. Assim, para a verdade ontológica de um automóvel se exige que este automóvel seja um veículo de acordo com o seu modelo ideal, isto é, com algo que seja capaz de transportar de um lugar a outro; só então é verdadeiramente um automóvel.

No plano eminentemente geral do ente, a pergunta é, - também o ente obedece a um modelo arquétipo, sem o qual nenhum ente seria ente? Pretendendo-o, como existente, os entes, para terem verdade ontológica, deverão estar de acordo com o ser ideal de ente. Este seria o de serem ser… Então, o ente, enquanto é, é verdadeiramente ente; enquanto não é, ente (é falso ente). A negação da verdade ontológica leva ao relativismo, à facticidade pura, à situação simplesmente, à desnecessidade da logicidade presa por todos os lados. Parmênides deu início à ontológica da verdade ontológica, absoluta, imutável, pela qual enveredaria a metafísica de Platão e Aristóteles.

Esta propriedade ontológica do ser, ao converter-se em princípio de argumentação, se denomina princípio de contradição. Neste sentido, pois, a metafísica de Parmênides encaminhou também a formulação do princípio de contradição. O estabelecimento da verdade ontológica como propriedade do ser permite dizer que o ser é pensável, o não-ser não é pensável, porque o ser é verdadeiro (não verdadeiramente ser). a pensabilidade do ser, torna-o vereda praticável; só o ser é expressável, finalmente, ser o pensamento coincidem.

O paralelismo entre o ser e sua pensabilidade não deve ser entendida ao modo idealista kantiano, como se bastaria poder pensar, para que as coisas passem a existir. Inversamente, só se pensa o ser, que de algum modo já existe, de tal sorte que o não-ser não é pensável e nem existe. Além do atributo da intrínseca inteligibilidade do ser, ocorrem ainda no ser de Parmênides atributos tais como:

  • a unicidade, negando a diversificação numérica;
  • a homogeneidade, negando a diversificação qualitativa;
  • a indivisibilidade, negando a composição;
  • a eternidade, negando o devir de toda a sorte, sendo pois ingênito e imperecível;
  • plenitude, negando portanto o crescimento e a mobilidade.

Os fragmentos são taxativos: "julga com a razão a discutida questão por mim proposta. Resta um só caminho para o discurso; é. Há nele muitos sinais: é ente ingênito e imperecível, é completo, imóvel e sem fim. Não terá sido e nem será, pois é agora tudo de uma vez, uno, contínuo" [Frag. 8, 1ss.]

Depois de arrazoar porque é impossível o nascer e perecer, volta a afirmar a tese: "Assim, está extinto o nascimento e inacreditável a destruição" [Frag. 8, 20].

E prossegue: "Não é tão pouco divisível, pois é todo homogêneo. Nem é mais aqui, pois impediria fosse contínuo, pois o ente toda o ente. É imóvel entre o vínculo de poderosas cadeias; é sem começo e nem fim, pois o nascimento e a destruição foram afastados mui longe, rechaçados pela verdadeira crença. Ele mesmo permanece no mesmo e descansa sobre si mesmo, e assim residirá imutável ali mesmo. A poderosa necessidade o mantém nas cadeias envolventes, cercando-o inteiramente. Por isso não é permitido ao ente ser incompleto (indefinido), pois não é indigente, e se fosse, de tudo careceria" [Frag. 8,23,33].

Mais, para dizer que tudo não passa de nomes: "Não há pois, nada, ou será outro, que o ente, visto que o Fado o encadeou para que permaneça inteiro e imóvel. Por isso são apenas nomes, o que os mortais em sua linguagem têm como sendo verdade: nascer e morrer, ser e não ser, troca de lugar e alteração de cores resplendentes" [Frag. 8,36-41].

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Impossível o devir e qualquer criacionismo- Particularmente significativa é a argumentação de Parmênides contra a possibilidade do devir. Percebe as sutis dificuldades do criacionismo. Aponta para a dificuldade de onde viria o que ainda não existia:

  • ou viria do nada, que não existe;
  • ou viria do ser que já existe, o que também é impossível, porquanto o que já existe, existe, e não passa a poder existir como antes não existente.

E assim, o devir é impossível, pelo seu caráter contraditório, inconcebível. Parmênides não admite, pois, o ser que vem do nada. E nem admite o ser que venha de um ser potencial. Esta última posição será defendida por Aristóteles como alternativa contra as alegações de Parmênides. Pretende Aristóteles, alegando os fatos, que o ser é com alguma atualidade, contendo ainda realmente a potência de poder ser mais, pela atualização das potencialidades.

No futuro, os criacionistas cristãos defenderão ainda a possibilidade pura e simples do nascimento do ser, a partir do nada, por obra de Deus; desta sorte, a mera possibilidade, combinada com a potência de Deus, criaria novos entes; é claro que se apresenta difícil compreender como isto seja possível, que um ente cause algo extrínseco a ele mesmo, e que aquele outro ente novo possa surgir simplesmente do nada. A questão levantada por Parmênides, contraditado pelos criacionistas, é, seguramente, de difícil resposta.

Atendamos às poucas ponderações que restaram de Parmênides, sempre contrário à possibilidade da criação do nada:

"Não terá sido e nem será, pois é agora tudo de uma vez, uno, contínuo. Pois que nascimento lhe acharias? Como, de onde teria nascido?

Nem do não-ente permitirei que digas ou penses. Porque não é nem expressável e nem pensável que o é, seja como não-é. Que necessidade teria de nascer antes ou depois, se procedesse do nada? Assim é necessário que seja todo, ou nada. Tão pouco a força da verdade permitirá que do não-ser nasça algo. Por isso, a justiça não relaxa as cadeias, bem para que engendre, nem para que pareça algo, porém as mantém firmes. O juízo sobre isto, a este respeito, é. Decidido está, como fora necessário, que um caminho é impensável e inexpressável (pois não é o caminho da verdade), em vista de que o outro avança e é verdadeiro. Como poderia, aliás, o ente perecer? Como poderia nascer? Se tem nascido, não é, nem mesmo é se houver de ser alguma vez. Assim está extinto o nascimento e a inacreditável destruição" [Frag. 8,5-22].

De futuro surgirão as filosofias antiontológicas para advertir que as coisas em si mesmas são neutras. Com isso, respolidem mesmo tempo contra Aristóteles e contra Parmênides, que todos os principais da verdade ontológica de não-contradição de razão suficiente de causalidade são exigências meramente mentais (conforme o idealismo) ou mesmo não existem ( conforme o empirismo). Mas também agora as colocações encontram dificuldades. E é sempre Parmênides que ressurge como atualidade, em vista de haver colocado por primeiro a questão e assumido uma posição.

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Contra o mobilismo de Heráclito? Historicamente, contra quem teriam sido endereçadas as ponderações de Parmênides, ao agredir tão drasticamente o devir do ser?

Pensa-se que fosse contra Heráclito de Éfeso . Florescera este vigoroso espírito, como o mesmo Parmênides, na 69ª olimpíada 504 - 501 a.e.c. Para que Parmênides se opusesse à doutrina do efesino, importava o livro deste já estivesse escrito pela volta de 480 a.e.c. Teria sido então possível que Parmênides ainda o tivesse em vista, nos seu poema, antes que viesse ele mesmo a falecer por volta de 470 a.e.c. As dificuldades cronológicas possíveis, não se opõem rijamente à esta hipótese. O que mais fortalece este ponto de vista anti-heraclíteo é a clara oposição entre o pensamento de um e de outro.

Com referência aos pitagóricos, merece alguma consideração houvesse sido Parmênides por certo tempo um discípulo da escola destes, como informou Diógenes Laércio (IX, 21), que relata a estima que teve por Dioquete. Mas não terá tido aos pitagóricos como seus oponentes principais, ao insistir sobre a noção do ser, contrária ao não ser; da unidade contrária à mobilidade, da unidade contrária à multiplicidade. Dificilmente se poderia considerar o pitagorismo uma doutrina já desenvolvida ao tempo de Parmênides. Eram variadas as tendências dos pitagóricos e o mesmo Parmênides é influenciado por eles no atinente aos princípios opostos e complementares.

Não obstante as diferenciações ocorrem entre Parmênides e os pitagóricos. Estes admitiam os contrários, o que está excluído em Parmênides. Admitiam o primeiro Uno, ou Céu, o qual teria um desenvolvimento de expansão para o vácuo circundante. Ora, Parmênides não admite acréscimo ao ser e nem o não ser do vácuo.

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O ser é extenso - Diferentemente da de Aristóteles, a ontologia de Parmênides não se desprende do ser natural. É a ontologia de um ser material, corpóreo, extenso. Nesta condição, acredita que o ser mais perfeito é esférico e pleno (contrário do vácuo). É possível que Parmênides chegasse a esta conclusão em vista da correlação estabelecida entre o ser e o pensamento. Se o ser e o pensado se equivalem, se o ser que efetivamente se pensa é o ser das coisas empíricas, resulta que o ser é material, corpóreo, extenso. Retirar do ser esta propriedade, não parece possível, ou, pelo menos, não se oferece de pronto ao pensador.

Depois, Aristóteles insistirá que a extensão é uma determinação particularizante, que não pertence ao ser em geral.

Diz o texto parmenídeo: "Sendo o seu limite o último, ele está completo por todos os lados, à maneira da massa de uma esfera bem redonda, desde o centro igual em equilíbrio. Não é nem maior e nem mais pesado aqui ou ali. Já que não é, nem o não-ser, que o pudesse impedir de ser homogêneo; nem um ente que tivesse mais de ente aqui, menos lá, porquanto é tudo inviolável. Em sendo igual em todas as direções, encontra de igual maneira todos os seus limites" [Frag. 8, 43-49].

A identificação do ser com o corpóreo, o faz identificar-se com o pleno, ou o cheio. Consequentemente, o vazio equivale ao não ser. a impossibilidade do não-ser redunda em não admitir o vácuo "Nem é mais aqui, pois impediria fosse contínuo; nem é menos ali, pois tudo está pleno de ente. Todo ele é contínuo, pois o ente toca o ente" [Frag. 8, 24-25].

Entendido o movimento como deslocamento para o vácuo, e, não existindo este, o movimento é impossível. "É imóvel entre o vínculo de poderosas cadeias; é sem começo e nem fim, pois o nascimento e a destruição foram afastados mui longe, rechaçados pela verdadeira crença" [Frag. 8,26].

Zenão de Elea, discípulo de Parmênides, insistirá especialmente nesta imobilidade.

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O ente unívoco- Comparando ainda a ontologia de Parmênides com a de Aristóteles, há a observar que a ontologia parmenídea concebe o ente como conceito unívoco, quando para a ontologia aristotélica o ente é análogo. Como análogo, o ente se distribui nos diferentes indivíduos em parte igual e me parte não.

Parmênides não se advertira ainda para esta distinção. Mas, desatento a ela, criou um ontologia unicista, a qual caracterizou a escola de Elea. Do impasse se evadirá, mais conscientemente, o pluralismo transcendentalista da ontologia aristotélica. Finalmente, a ontologia de Parmênides opera com a noção abstrata de ente, como se a abstrata fosse a concreta. Efetivamente noção abstrata é um ente uno e imutável.

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Cosmogonia - Na opinião de Parmênides, a partir de dois elementos fundamentais, - o fogo e a terra, - ocorre a diversificação de todas as coisas físicas, como os astros e as esferas, inclusive dos deuses e dos homens.Identificou Parmênides o fogo e a terra com o frio e o calor. Pela ordem da diversificação, tudo teve início pela água e pelo ar.

Tais conceitos de Parmênides sobre a natureza não se apresentam muito originais frente aos demais filósofos de seu tempo. Nem poderia sê-lo, porquanto não havia como dizer coisas novas, depois do muito que já haviam proposto os filósofos anteriores. De outra parte, não restam muitas informações para julgar sobre o que efetivamente Parmênides pudesse ter proposto sobre a natureza. Os informes sobre os elementos primordiais, - fogo e terra, - são geralmente breves, mas suficientemente claros sobre serem dois, dos quais derivam os demais seres.

Diógenes Laércio, diz o seguinte sintetiza: "Admitia [Parmênides] dois elementos, o fogo e a terra, considerando ao primeiro como princípio ordenador [como Demiurgo], ao segundo como matéria [hyle]. Fazia nascer primitivamente aos homens do limo da terra. E identifica com a terra e o fogo ao frio e ao calor, do qual fazia derivar todas as coisas" (D. L., IX, 21-22).

Aristóteles foi mais abrangente e liga a cosmologia ao contexto geral do pensamento parmenídio: "Parmênides parece raciocinar com mais penetração (que Xenófanes e Melisso). Persuadido que, fora do ente, o não-ente não existe, ele pensa que necessariamente uma só coisa é, a saber, o ente ele mesmo, e que não existe nada mais; mas constrangido de se inclinar diante dos fatos, de admitir respectivamente a unidade formal e a pluralidade sensível, ele coloca duas causas, dois princípios, o quente e o frio, dito de outro modo, o fogo e a terra; e, destes dois princípios, reduz o quente ao ente, o outro ao não-ente" (Aristóteles, Metaf'. 986 b, 28 - 987 a 2).

Distanciou-se portanto Parmênides dos pontos de vista de Tales de Mileto e Anaxímenes de Mileto, que haviam colocado respectivamente a água e o ar como elementos primordiais. E assim também se manteve afastado da posição de Empédocles de Agrigento, que arrolara ao todo quatro elementos primordiais (água, ar, terra e fogo). Nem ficara com Heráclito, que houvera colocado um só elemento, o fogo. Havendo admitido dois elementos, e estes entre si contrários, Parmênides se conservou próximo ao pitagorismo.

Completa Aristóteles: "Para os que professam que há apenas um (elemento) e que engendram os outros seres por condensação e rarefação, são conduzidos a colocar de fato dois princípios, a saber, o raro e o denso, ou melhor: o quente e o frio, pois são essas qualidades que são as forças ordenadoras, enquanto um lhes serve de sujeito como matéria. Mas os filósofos que desde o início colocam dois elementos (tal Parmênides, o fogo e a terra) consideram os elementos intermediários, a saber o ar e a água, misturas desses elementos" (Aristóteles, Do céu, 330 b 9-15).

Tais doutrinas, sobre os dois elementos primordiais, transmitidas pelos doxógrafos, são também conhecidas diretamente em texto do mesmo Parmênides, sobretudo no fragmento citado por Simplício: "Aprende, porém, a partir daqui, as opiniões dos mortais, escutando a ordem enganosa de minhas palavras. Pois eles (os mortais) decidiram dar nomes a duas formas à maneira de interpretação (das quais não deveriam nomear uma, em que desandaram em erro). Julgaram–nas com aspecto oposto: aqui o fogo etéreo da chama, doce, muito leve, idêntico a si mesmo por toda a parte, com a outra todavia não idêntica. Esta, diferentemente, é por si mesma, o oposto, noite escura, corpo pesado e espesso" [Frag. 8, 50-8, 59].

Ainda citado pelo mesmo Simplício: "Posto, porém, que todas as coisas foram nomeadas luz e noite, estas e aquelas conforme as suas potências, tudo é pleno tanto de luz, como de escura noite, de ambas por igual, por nada haver entre ambas" [Frag. 9].

A concepção cosmogônica de Parmênides é excepcional, todavia tomada aos pitagóricos ou desenvolvida em conjunto com eles. Defendeu a esfericidade da terra e seu interior ígneo. O universo teria a terra como centro; em torno se formariam círculos sucessivos de fogo e terra, com sucessões ora de fogo puro, ora de misturas. O governo de tudo estaria no centro, ao cuidado de uma deusa (daimon).

"Foi o primeiro a declarar a esfericidade da terra e sua posição no centro do mundo" (D. Laércio, IX, 11).

Diz um texto do mesmo Parmênides: "Os círculos mais estreitos estão cheios de fogo puro, os que vêm depois cheios de noite; pelo meio se projeta uma parte de chama. No centro está a deusa que tudo governa. Por toda a parte reina o odioso nascimento e a união, impelindo a fêmea a unir-se ao macho, inversamente o macho à fêmea" (Frag. 12, citado por Simplício, Física, 39, 12).

Notável é ainda a conceituação da lua como "luz noturna", em torno à terra, errante e com luz de outro (Frag. 14, em Plutarco, Contra Colotes, 15, 1116a) e "sempre olhando para os raios do sol" (Frag. 15, em Plutarco, Da face da Lua, 16,6 729a). A declaração de que entre todos os deuses, a divindade gerou por primeiro a Eros, permite entrever por mais uma fresta a presença órfica no pensamento de Parmênides. Tudo aliás coere com a presença das demais peculiaridades pitagóricas já anotadas, - a complementaridade dos elementos, calor e frio.

Mas, pelo seu esquema total, o sistema parmenídeo não é misticista ao conservar estas noções. Eleva-as à objetividade e as ordena logicamente.

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Principais Fragmentos

I "...Não terá sido e nem será, pois é agora tudo de uma vez, uno, contínuo. Pois que nascimento lhe acharias? Como, de onde teria nascido?";

II "...Nem é mais aqui, pois impediria fosse contínuo; nem é menos ali, pois tudo está pleno de ente. Todo ele é contínuo, pois o ente toca o ente";

III "...julga com a razão a discutida questão por mim proposta. Resta um só caminho para o discurso; é. Há nele muitos sinais: é ente ingênito e imperecível, é completo, imóvel e sem fim. Não terá sido e nem será, pois é agora tudo de uma vez, uno, contínuo";

IV "...Assim, segundo a opinião, estas coisas nasceram e são agora. Depois, passado o tempo, crescerão e morrerão. Para cada uma, os homens estabeleceram um nome determinado".

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"Não terá sido e nem será, pois é agora tudo de uma vez, uno, contínuo. Pois que nascimento lhe acharias? Como, de onde teria nascido..." Parmênides