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"Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos..." Friedrich Nietzsche
“O importante é entender –me a mim mesmo, é perceber o que Deus realmente quer que eu faça; o importante é achar uma verdade que é verdadeira para mim, achar a idéia em prol da qual posso viver e morrer”
Jorge Luis Gutiérrez

KierkegaardSoren Aabye Kierkegaard, nasceu na capital dinamarquesa, Copenhague, em 1813.  Foi o último dos filhos do casamento precipitado que Michael Pedersen Kierkegaard (viúvo e sem filhos) realizou com sua governanta Anne Srensdatter (respectivamente 56 e 44 anos na época do nascimento de Soren) uma vez que já era viúvo sem filhos.  Kierkegaard teve um relacionamento muito difícil com seu pai, pois sua personalidade ficou marcada como a do filho da expiação.  Vive com uma vocação de sacrifício e de mártir idealizada pelo pai.

Considerava-se pecador diante do olhar de Deus, apesar de sua educação ter sido baseada no princípio do amor e temor de Deus, assim mesmo sentia sobre si a responsabilidade dos pecados de seu pai.  Vale mencionar que seu pai blasfemou contra Deus na sua infância.  Mais tarde quando a família mudou-se para Copenhague, seu pai enriqueceu tornando-se um comerciante de lã, apesar da forte crise que assolava o país deixando muitos dinamarqueses na miséria.

Dois outros fatores marcaram profundamente a vida do filósofo: a morte de seus irmãos Mikael em 1819, e de sua irmã Maren Cristine em 1822.  A fatalidade aumentou a angustia de seu pai que já era um homem marcado por um grande sentimento de culpa e deixou profundas cicatrizes em Kierkegaard.

Sua obra trás as marcas dos relacionamentos difíceis que teve com seu pai e com sua noiva Regina Olsen, com quem rompe um romântico noivado que durara aproximadamente um ano.  Apesar de muito apaixonado afirma estar fazendo um grande bem à noiva: “... nosso rompimento é um profundo ato de amor...”  Na verdade não havia nenhuma razão aparente para o rompimento.  Entretanto, em suas notas ele menciona um “terrível acontecimento” que chamou também de o “grande tremor de terra”.

Após esta experiência traumática do noivado rompido, vem um grande período de profundidade literária.  Não se pode deixar de mencionar que Kierkegaard escreve a partir de sua experiência pessoal.  No transcurso de sua filosofia vão se agregando aspectos de sua existência.  O filósofo vive momentos de profunda depressão, uma amargura sem limites.  Porém, esta energia negativa, se transforma em inspiração para a produção literária que aborda tema diverso da existência humana.

Em 1848, Kierkegaard passou pela experiência de conversão e registrou em um de seus Jounals o seguinte testemunho: “A totalidade do meu ser está transformada...  Mas a crença no perdão dos pecados significa crer que aqui no tempo o pecado é esquecido por Deus, que é realmente verdade que Deus o esquece.”  Kierkegaard se opunha a Hegel e ridiculariza os argumentos abstratos da metafísica especulativa. Ele escreve sobre Hegel em 1850:

“Quantas vezes demonstrei que fundamentalmente Hegel torna os homens em pagãos, em raça de animais com o dom do raciocínio.  No mundo animal, pois, "indivíduo” sempre é menos importante do que raça.  Mas a peculiaridade da raça humana é: justamente porque o indivíduo é criado à imagem de Deus, o “indivíduo” está acima da raça.  Isto pode ser entendido erroneamente  e terrivelmente abusado, reconheço.  Mas isso é o cristianismo.  E é aí que a batalha deve ser travada.” Journals.

Para Kierkegaard a subjetividade isolada é má, assim como a objetividade de Hegel por si só, também é má.  Para ele, a única salvação era a subjetividade.  Deus era como uma subjetividade infinita e compulsora.  Por se tratar o cristianismo de uma religião histórica e em decorrência das críticas desta realidade, Kierkegaard escreveu que os resultados dos fatos históricos para ele eram incertos, o importante era a escolha subjetiva.  Crer em Deus era um salto de fé, um comprometimento com o absurdo.  A pessoa faz uma escolha por aquele fato histórico porque este significa tanto para ela que até arrisca a vida por ele. “ Então vive; vive inteiramente cheio da idéia, e arrisca  sua vida por ela; e sua vida é a prova de que crê”.  Não precisa haver provas para a pessoa crer e viver esta fé.  A fé é impossível se houver provas e certezas.  Sem riscos não há fé, é uma impossibilidade.  A fé e a razão são opostas mutuamente exclusivas.

O autor Colin Browm compara o conceito de Deus de Kierkegaard comum à estória do Mágico de Oz, ou seja, não é tanto a sua existência o que importa, mas o pensamento sobre sua existência.  Nesta estória, o homem de palha, o homem de latão e o leão covarde mudam o curso de suas vidas porque crêem no Mágico de Oz.  Porém, no final, este mágico é na verdade um homem comum.  Do mesmo modo para Kierkegaard, o pensamento a respeito de  Deus o impulsionava para reagir, de certa forma, mais do que o encontro com o próprio Deus.

Surge no conceito de Deus no pensamento de Kierkegaard, uma palavra chave: o amor.  É por amor que Deus deve decidir-se eternamente a agir, mas como seu amor é a causa, seu amor deve também ser o fim.  Deus quer restabelecer a igualdade entre Si e o homem (discípulo), assim com um rei que se apaixona por uma plebéia.  Tal idéia per si é incongruente, mas o rei é o rei, acima de tudo.  Segundo Kierkegaard, “Deus encontra sua alegria em vestir ao lírio com mais esplendor que Salomão” (Fragmentos Filosóficos, p. 59).  O amor de Deus não somente ensina, mas também leva a um novo nascimento do discípulo, passando do não ser ao ser, pois “o fazer nascer pertence a Deus cujo amor é regenerador” (Fragmentos, p. 68).

Deus busca a unidade, de Si com o não ser do homem.  Assim, “para obter a unidade, Deus deve se fazer igual ao seu discípulo”, e para isto toma a forma de servo.  Deus sofre a fome, o deserto, tudo experimenta por amor ao discípulo.  Kierkegaard afirma que só Deus pode salvar o indivíduo do desespero: “Deus pode a todo instante...” (Chaves, Odilon. Sofrimento e Fé em Kierkegaard, 1978. p. 36).  Não seria também por isso que ele afirma que se deve “tremer” diante de Deus?  “É impossível enganar a Deus, Ele é o onisciente, o onipotente” (Attack Upon Christendom, p. 255).  E ainda, “Ele é o único que tem uma verdadeira concepção do infinito que Ele é” (Attack Upon Christendom, p. 255).

Por outro lado, Kierkegaard menciona ser fácil o enganar a Deus.  Não que Deus não notaria a “presença” do homem tentando agradá-lo.  Deus, na verdade, cria uma situação na qual o homem, se ele quiser, pode “enganar” a Deus.  Como isto é possível?  Deus permite que o homem sofra para que ele perceba que é um abandonado de Deus, e que tenta enganá-lo, e, se Deus, na opinião do homem não está atento para este fato, o homem enganou a Deus  (Attack Upon Christendom, p.256).  Por isso diz Kierkegaard: “Tremei!”

No tocante à justiça de Deus, Kierkegaard diz que cada criminoso, cada pecador, que pode ser punido neste mundo, pode também ser salvo para a eternidade.  Na eternidade, o que será lembrado?  O sofrer, aqui, pela verdade.  Todas as transações neste mundo têm como filtro o intelectualismo e a espiritualidade, sendo Deus nos Céus o parceiro.

 
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