Argos e Io 
Curiosa, Hera resolveu descer até Iá para ver o que se passava. Em má hora, porém, tomara está decisão, pois abaixo desta grande nuvem escura estava seu marido, Zeus, fazendo amor com a ninfa lo, filha do rio. Há vários dias que o deus adquirira o habito de dar estas ligeiras escapadas até as margens daquele rio, para desfrutar dos prazeres da nova amante. Como temesse, porém, que a sua esposa viesse um dia a descobri-los, estendera sobre o céu daquela região um imenso tapete de nuvens negras. De repente, sua bela amante, que estava deitada sobre a relva, percebeu que a nuvem se desfazia e que em meio a seus farrapos surgia a robusta e vingativa Hera.
— Zeus, sua esposa está chegando! — exclamou, assustada, a bela ninfa, procurando cobrir-se rapidamente. Zeus, levantando a cabeça do peito nu de Io, voltou o olhar para o céu, enquanto passava a mão em seu manto. Imediatamente ergueu-se, com os cabelos ainda revoltos, e disse a bela amante: — Não se assuste, Io querida, mas serei obrigado a metamorfosea-la em algo... Sem esperar resposta, transformou-a numa novilha. No mesmo instante, Hera descia à Terra, pousando às margens do rio.
— O que faz aqui, parado diante desta vaca? — perguntou a deusa, irritada. — Eu? — gaguejou Zeus — Bem, eu estava passeando por esta bela região quando vi pastando mansamente, às margens deste belo rio, esta encantadora novilha. Achei-a tão linda que fiquei observando-a um pouco. Hera, fingindo acreditar nesta desculpa indigna de um deus, acercou-se da novilha, como se fascinada com a beleza do animal: — É, de fato, uma bela novilha — disse, alisando o pêlo sedoso e macio. Estudou o animal durante um tempo, enquanto Zeus a observava, temeroso. — Realmente magnIfica — disse a deusa, por fim. — Dê-a para mim, querido Zeus! O pai dos deuses não sabia o que dizer, diante do inesperado pedido. Como negar o presente, sem atiçar de modo definitivo as suspeitas da esposa? Viu-se obrigado a ceder o animal a Hera, e assim foram embora, a novilha sendo puxada pelos cornos pela satisfeita deusa, que parecia muito feliz com o presente.
Tão logo chegaram ao Olimpo, Hera chamou o seu fiel criado Argos: — Argos, tenho uma tarefa para você — disse, de modo imperioso. — Pois não, rainha das deusas — disse a estranha criatura, que possuía cem olhos. — Está vendo esta novilha? — perguntou Hera, apontando para Io disfarçada. — Sim, poderosa Hera, meus cem olhos não poderiam deixar de admirar tão belo animal. — Silêncio! — disse a deusa, com rispidez. — Quero apenas que a leve para um local afastado, mantendo-a sob a mais estrita vigilância. Argos obedeceu, retirando-se logo ern seguida juntamente com a infe!iz Io.
A pobre ninfa derramava escondida grossas lágrimas de pesar, enquanto era carregada pelo horrendo criado para um vale deserto. Uma vez ali, Argos soltou-a, sentando-se numa alta pedra, de onde podia observar toda a região. Assim, fosse dia ou noite, a atenta criatura jamais despregava sua multidão de olhos da infeliz Io. Nem para dormir o gigante deixava de vigiá-la, pois jamais fechava mais de dois olhos durante o seu sono desperto. Desta maneira viveu Io durante muito tempo, lamentando a sua sorte: “Jamais me livrarei da vigília deste maldito monstro”, ponderava a pobre Io, enquanto arrancava do solo os horríveis tufos de grama, que engolia sem mastigar.
Zeus, saudoso dos prazeres de sua adoravel Io, foi disfarçadamente até os estabulos do Olimpo e lá ficou sabendo do ardil da esposa. Indignado, mandou chamar imediatamente o seu fiel Hermes. — Tenho uma sigilosa missão para você — disse o deus dos deuses para o filho. — Quero que vocé descubra onde estáa a minha adorada Io e a traga de volta. Mas antes deverá matar Argos, o gigante que a mantém prisioneira. — Assim o farei — disse Hermes, disposto a dar cumprimento às ordens. Disfarçou-se em pastor, escondendo as asas num manto que o envolvia por inteiro. Levava consigo o caduceu, bastão de ouro capaz de fazer adormecer qualquer ser vivente.
Em um instante Hermes percoria velozmente todos os vales e pastos da Grécia, tentando descobrir onde estava o esconderijo de Io. Sobrevoava uma certa região quando finalmente a avistou. Tomando o aspecto de um pastor, juntou algumas ovelhas e desceu à Terra. Foi se aproximando, lentamente, com um ar distraído, enquanto tocava sua flauta de pã. — Que instrumento maravilhoso é este? — perguntou Argos, tão logo percebeu a chegada do forasteiro. — Aproxime-se, jovem pastor, e toque um pouco mais! — Lindo dia, não? — foi dizendo de modo jovial o pastor, fingindo não perceber a novilha, já que Argos permanecia com seus outros noventa e nove olhos postos sobre ela. — Esta e minha flauta, e com eIa procuro distrair o tédio durante minhas caminhadas — disse, chamando a atenção do segundo olho do monstro.
“Onde arrumarei mais noventa e oito novas distrações?”, pensou Hermes. — Esta bela flauta que você esta vendo foi criada pelo deus Pã — continuou a dizer, o filho de Zeus. — Existe, a propósito, uma lenda interessante que descreve a sua invenção. — É mesmo? — disse Argos, que adorava lendas. — É uma bela estória, na verdade! — acrescentou Hermes e em seguida começou a narrá-la, tornando-a aborrecida na tentativa de adormecer o monstro.
Haveis de saber e vós que me ouvis, que em eras mais recuadas os mais encantadores e majestosos bosques de toda a Grécia foram brindados corn o surgimento de uma esplendorosa ninfa. Seu noine era Sirinx, cujos lábios carmesins tinham o odor das açucenas e o tom escarlate das cerejas... Ele contou, naquele mesmo estilo enfadonho, que a bela ninfa jurara jamais se entregar a homem algum, sendo devota fiel de Artemis, a deusa da caça e das matas, protetora da virgindade. Um belo dia o deus Pã, passando por uma vereda do bosque, avistou-a voltando da sua caçada e apaixonou-se perdidamente. Saiu correndo em seu encalço, mas a ninfa fugiu a toda pressa por entre as arvores do bosque, até chegar à margem do rio. Ali o impaciente Pã. num salto agil de seus pés de bode, conseguiu agarra-la pela cintura. Apavorada, Sirinx pediu o auxílio de suas amigas ninfas, que imediatamente a tiraram das maõs do sátiro, deixando em seu lugar apenas um feixe de juncos. O pobre Pã. desconsolado, deixar-a-se cair ao chão. segurando o seu miseravel prêmio. No entanto. ao dar um suspiro, seu sopro passou por entre as varetas, produzindo um som melodioso, que encantou o infeliz amante. Tomou alguns dos juncos, de tamanhos desiguais e, colocando-os lado a lado, criou um novo instrumento. conhecido por “flauta de pã”, que o consolou da perda que sofrera.
Mal Hermes terminou de contar essa história e o seu adversário ja havia adormecido. Assim que ele percebeu que todos os olhos de Argos estavam cerrados, tomou sua varinha mágica e redobrou de intensidade o sono do inimigo. Depois, puxando da sacola uma grande espada, aproximou-se da presa fácil e desceu a lâmina sobre o pescoço do pobre Argos, decepando sua cabeça. que rolou pelo chão com seus cem olhos arregalados de espanto. Retirando Io daquele lugar maldito, disse-Ihe: — Pronto, agora já está iivre!
Hera, ao descobrir o horrível fim que tivera Argos, encheu-se de tristeza. Depois, recolhendo os cem olhos do monstro, colocou-os na cauda de seu pavão de estimação, homenageando desta forma o seu desastrado e infeliz servidor. Mas ela, que não era mulher de lamentações, decidiu ainda se vingar da causadora daquela tragédia. Para tanto convocou ao seu palácio uma das Erínias, as deusas do ódio. da vingança e da justiça, nascidas do sangue de Urano quando este fora mutilado. A deusa dos castigos apresentou-se imediatamente. — Quero que você atormente esta desgraçada, perseguindo-a até os confins da Terra! — ordenou Hera, tomada pela cólera.
A Erínia, tomando a forma de uma gigantesca mosca, saiu pelos ares ern busca de Io, que ainda estava metamorfoseada numa novilha. Tão logo a avistou, voou até ela cobrindo-a de picadas. Io, apavorada, disparou numa correria iouca pelo mundo, levando sempre atras de si o terrívei inseto. Fugiu, atravessando vários paises, até chegar às margens do Nilo, onde tombou, enfraquecida pela fadiga. Zeus, sabedor de mais este ato de crueldade da incansável esposa, decidiu pedir perdão a ela, prometendo que jamais tomaria a procurar a bela Io, desde que Hera cessasse de atormentá-la e Ihe devolvesse a sua antiga forma. Hera aceitou a proposta, e assim, Io, enquanto se recuperava do cansaço, ainda às margens do Nilo, percebeu que retomava, aos poucos, seu antigo aspecto. Seu rosto lentamente diminuía de tamanho, enquanto seus chifres recuavam para dar lugar outra vez a seus negros e sedosos cabelos. As patas dianteiras foram ganhando novamente o formato de seus antigos braços, enquanto os cascos retomavarn a condição de mãos. Tão logo retomou a sua esbelta forma, passou a viver no seu novo país, onde se tornou uma deusa muito venerada.
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