| A doutrina cristã manteve, no começo de sua difusão, uma relação de amizade com a filosofla grega, em particular com o pensamento platônico. |
| Maria Lígia Pagenotto | |
Segundo artigo do pesquisador do Instituto de Estudos da Linguagern, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fábio Della Paschoa Rodrigues, intitalado Amor e Neoplatonismo em Camões, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, fllósofos cristãos da Idade Media, ‘apropriam-se’ dos clássicos gregos e latinos porque acreditavam que a fiosofia amiga, sobretudo a de Aristóteles e Platão, podia ser reutilizada a luz de uma nova interpretação cristã. “Como assinalou Flemâni Cidade (Cf. Cidade, 1967:168), as idéias de Platão estavam em voga no século XVI devido ao movimento de reação antiaristotélico”. Dessa maneira, o “filósofo do arnor” arrebatou diversos seguidores, quase religiosos. “.Ninguém melhor que o fllósofo para falar de tão elevado tema, através de suas alegorias com encanto poético. Além dlisso, ‘sua doutrina era parecida com a da tradição cristã, que os poetas podiam exprimir pelos termos de uma a essência da outra, como confundindo na mesrna corrente de lírica inspiração águas manadas de fontes diferentes, mas do mesmo veio subterrâneo’ (Cidade, 1967:169). Os poetas bebem dessas fontes, mas não se contentando com o sabor, alteram-nas de modo a tomá-las agradáveis a seu paladar. Eles procuram no platonisrno uma maior dligniflcaçao intelectual, encontrando nele a expressão filosófica do amor cristão”.D De acordo com o estudioso, o Mundo das Idéias platônico nos remete a imagern do paraíso cristão. “Para Platão as realidades concretas deste mundo, dito mundo sensível, são sombras das idéias que existem no mundo inteligível. As belezas terrestres participarn da idéia da beleza universal, da beleza absoluta; elas trazem lembranças, recordações, reminiscências do mundo inteligível. Ora, esse mundo intelígivel pode ser reinterpretado, a luz cristã, como o paraiso bíblico e a beleza absoluta, poder regedor do mundo, como Deus”, assinala Rodrigues em seu ensaio. A doutrina cristã manteve, no começo de sua difusão, uma relação de amizade com a filosofla grega, em particular com o pensamento platônico. Mas, claro que em certos momentos essa “amizade” se viu dividida e haá vários episódios em que fica claro o distanciamento entre as idéias propagadas pelos gregos antigos e os cristãos. Para ilustrar essa situação, o professor da Faculdade Jesuita de Fiosofla e Teologia (Faje), de Belo Horizonte (MG), Delmar Cardoso, cita a passagern dos Atos dos Apóstolos (At 17,28), em que São Paulo está no famoso tribunal de Atenas, conhecido como Areópago, e fala aos atenienses que os seres humanos são da linhagem de Deus — ou seja, “somos da descendência de Deus, da raça de Deus”, ressalta o professor na verdade, diz ele, a expressão de São Paulo não faz uma referéncia direta a Platão, mas ao poeta estóico Cleanto. O estoicismo, corrente com a qual se identiflca Cleanto, exerceu profunda influéncia na ética cristã. Fundada por Zenão de Cicio (335-264 a.e.c.), a doutrina é caracterizada essencialmente pela aceitação resignada do destino. Essa seria, na visão dos seus seguidores, a marca fundamental do homern sabio, o único que estaria apto a usufruir da verdadeira felicidade. Cardoso, autor do livro A alma como centro do filosofar de Platão (Edições Loyola) aflrma, no entanto, que o trecho do Novo Testamento da Bíblia, dito por São Paulo, deixa ebaro que a fé que os cristãos têm em Deus encontra na filosofla grega uma ajuda para se expleitar e se explicar. “Fiquemos atentos ao fato de que essa apropriação é feita sempre a partir do cristianismo, os cristãos não assumem as doutrinas gregas — no caso especiflco, a doutrina de Platão — sem as transformar a partir de sua fé”, explica o professor da Faje.
Segundo Cardoso, esse foi o dialogo de Platão mais lido no Renascimento. “Os renascentistas, como muitos outros autores cristãos, logo se apressararn em fazer aproximações entre o demiurgo que formou o mundo a partir das idéias com a crença cristã no Deus criador do céu e da terra. Portanto, o dedo indicador do afresco de Rafael não esta apontado somente para a realidade inteligivel das idéias, mas aponta também para uma concepção transcendente de Deus”, resume. Para o professor da Universidade Católica de Santos (Unisantos), João Vieira dos Santos Filho, a influência de Platão na religião reporta-se a época clássiea, do sec. V a.e.c. “Nesse periodo, a manifestação religiosa aparece como fato social, civico. Religião e cidade são inseparaveis. Os deuses estão ligados a cidade e são conhecidos como seus protetores”, explica. Desde o nascimento ate a morte, a vida dos cidadãos naquele momento está intimamente ligada ao culto desses deuses.Trata-se de uma religião pública, segundo Santos Filho, em que o naturalisrno se faz presente: o homem deve seguir sua própria natureza. “É uma religião em que os deuses não respondem questões sobre o divino no mundo”. Paralelamente a religião pública, faz-se presente a religião que trata do mistério. “Ela é encontrada em Orfeu e Pitágoras. A questão da alma e seu destino e colocada, agora, de forma individual e não pública" Na explicação de Santos Filho, pode-se dizer que Platão é o iniciador da religião individual. “As noções como Verdade, Justiça, Bondade e Bem, entre outras, tem seus fundamentos num primeiro prineípio: Deus, um Ser imutável, verdadeiro. Um Ser reconhecido como a idéia de Bem uniflcado, uma Beatitude e supremo objeto de amor. Platão proporciona tudo isso”, explica. Mas, como essa idéia platônica entra em contato corn o cristianismo? Segundo ele, é por meio do que se nomeia “filosofia” patrística — ou seja, a reflexão dos primeiros padres da Igreja Católica. Patristiea, explica, é uma tentativa de síntese entre a tradição filosófica helênia e as doutrinas da Sagrada Escritura. “Que doutrina helênica mais seduziu esses padres?”, indaga o professor da Unisantos. “Os padres escolhem textos platônicos de transcendência teológica, principalmente os dialogos Timeu e Teeteto”, afirma. No Timeu (28 a.e.c.), diz Santos Filho, há uma passagem que serve como fundamentação racional e que vem reforçar a verdade revelada na Sagrada Escritura: “Sem embargo, descobrir o autor e pai deste Cosmo é uma grande façanha e uma vez se o há descoberto, é impossIvel divulgá-lo de modo que chegue a todo o mundo”. Realizar essa façanha e divulgá-la para chegar a todo o mundo, explica o professor, se era um desaflo para o platonisrno, não o foi para o cristianismo. “Cristo vem ao mundo como fliho de Deus para anunciar; anunciar valores que transcendem o mundo sensível, cuja realização Platão propõe pelo exercício da inteligência”.
Para Santos Filho, está clara a aproximação entre o pensamento de Platão e o cristianismo. “Platão faz filosofia. A filosofia é um saber que se endereça a inteligência, o cristianismo é uma religiào que se endereça ao homem para salvá-lo de sua miséria. A sabedoria dos filósofos é reconhecida pelo cristianismo que não condena a razão, mas alerta para o fato de que o conhecimento natural não é exclusivo”, completa. O filósofo alemão Hans-Georg Gadarner (1900-2002), que era luterano, falando sobre a permanência do pensamento de Platão nos nossos dias, destacou que a noção de unidade, tão importante na filosofia de Platão, continua viva na Igreja Católica, enquanto instituição que conserva esse traço como caracteristico. No entanto, o aspecto mais importante do pensarnento de Platão que mais penetrou o cristianismo, ou melhor, que mais se encontrou com ele, e que também mais permanece no nosso cotidiano, afirma Cardoso, é a convicção de que o bem está acima de tudo e de que vale a pena lutar e se esforçar para fazer com que este se realize. “Isso ate pode parecer estranho, ainda mais se pensarmos na mediocridade e no pouco interesse de muitas pessoas. Todavia, a noção de bem permanece como o sol, tal como Platão a exemplificou no mito da caverna. E justarnente essa noção de bem que veio ao encontro da concepção cristã de Deus. Se levarmos em conta as sociedades ocidentais, onde Deus parece se ter transformado numa hépótese a ser descartada, temos que convir que o pensarnento de Platão continua a ser um terreno fértil a produzir questionamentos aos que se ocuparn da reflexao filosóflca”, flnaliza Cardoso. Segundo Rodrigues, uma outra dimensão da influência platônica na filosofla é compreendida na obra O Banquete. “A Beleza Absoluta, a que todos tem como objetivo, é Deus. O homem que quer chegar a Deus procura atingir o bem, o amor elevado, que está na alma e não no corpo. Aqui, facilmente tem-se um paralelo de conceitos pagãos e cristãos do que é alma, espírito; a aproximação é quase intuitiva. Só o amor eleva o homem ate o Céu, é ele a ponte entre o homem e Deus. O homem une-se ao Divino em momentos de Razão e Beleza”, afirma em seu artigo o estudioso da Unicamp. A distinção entre o amor celeste e o amor vulgar, continua Rodrigues, “também vem ao encontro dos preceitos cristãos, que pregam O amor fraterno, o amor a Deus e a todas as suas coisas: ‘Amaivos uns aos outros como eu vos amei, o amor carnal, este não conduz a Deus, mas, quando desregrado e sem amor, acaba sendo visto como algo que remete ao pecado, a fornicação. O amor celeste conduz os homens ao bem, as boas .açães”, flnaliza. |
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| Texto extraído de: Revista Filosofia Ed. 10 |

O título de primeiro cristão da história é atribuIdo a um pensador que viveu entre 427 e 347 a.e.c. A expressão pode soar um tanto quanto descabida do ponto de vista cronológico, mas são vários os estudiosos da Filosofla que vêem proximidade entre as idéias do grego Platão e as defendidas pelo cristianismo. Os preceitos fllosóflcos cristãos, que pregam o arnor como meio para se chegar ao Paraíso, por exemplo, encontram com frequência ressonância nas idéias de Platão.
