Civilização Grega

Um homem descrente de si e ocupado por necessidades estranhas que se apresentam no campo de suas responsabilidades canaliza a busca da qualidade de vida num consumismo desenfreado.
Prof. Gilson Cláudio Barbosa de Miranda

Cópia romana de original gregoNa cultura ocidental, o homem sempre se perguntou sobre o fim último da vida, e diversas respostas marcararn diferentes momentos da história de nossa civilização. Algumas dessas respostas foram importantes no processo de construção de nossa cultura. Por exemplo, para Aristóteles, o fim ultimo da vida è a busca da felicidade pela prática da virtude. Para Os pensadores cristãos, por outro lado, seria a salvação da alma conquistada pela prática da moral cristã. Uma terceira resposta foi formulada por Aristipo de Cirene, nascido em Cirene, cidade egipcia fundada por colonos gregos. Ele viveu provavelmente entre 435 e 356 a.e.c. O seu pensamento hedonista foi sistematizado por Epicuro (341-323 a.e.c), nascido na Cidade de Samos, pertencente a uma região grega recornhecida como Jônia, filho de um professor e de uma espécie de conselheira, que exercia uma atividade de vidente, feiticeira, atividade bem comum na sociedade grega.

Para esses autores a felicidade consiste no prazez inclusive o físico. Portanto, a filosofia do prazer é o objetivo maior da nossa existência. Na tese deles encontrarnos i pensamento que é, hoje, o pano de fundo existencial de muita gente que se empenha para viver com, pelo e para o prazer. Considerando as dificuldades de trabalharmos com os dois antores anteriormente citados, o que demandana um estudo mais aprofundado, trabalharemos no presente texto com o pensamento de Epicuro.

Em seus ensinamentos sobre o prazer como fim último da existência humana, este filósofo ensina e propõe um remédio quádruplo. Um projeto de sabedoria filosófica aberta a todos e independente dos deuses. Para ele, a sua filosofia oferece remédlio do bem viver, o tetrapharmakon, e busca combater com este as dores culturais que impedem a conquista da experlência do prazer. O fármaco do pensador grego parte do principio de que “os deuses não são terniveis; a morte não nos traz riscos; não é dificil atingir o bem nem suportar o mal com coragem.” (Moraes p. 64).

Um fato curioso é que Epicuro viveu durante um período considerado decadente na Grécia - semelhante ao tempo presente - sem o esplendor; encontrava-se perdida em meio a uma crise sem precedentes em sua história. O sistema social que permitiu que por mais de seis séculos o cidadão grego vivesse para o ócio produtivo havia desmoronado, e o enfraquecimento politico gerou a fragmentação daquela sociedade. As instituições públicas e os deuses do pantheon grego estavam desacreditados. Esse complexo quadro de decadéncia leva Epicuro a prôpor duas atitudes para executar e conquistar o objetivo da existéncia humana. A primeira é buscar a vida prazerosa sustentada na amizade. Isto seria o principio do seu hedonismo ético implicado na busca constante do prazer. A segunda é uma atitude prática: a fundação da comunidade auto-sustentável. Entende-se essa última ação como o sonho de todo cientista social, govemo on empresário contemporâneo.

Quando Aristipo de Cirene afirmou que o supremo bem do homem consistia no prazer físico, com certeza ele não estava sonhando, pois, afinal, o fisiculturismo, outra marca do nosso tempo, sempre esteve em alta na magna Grécia. A prova disso são as Olimpíadas, a maior festa religiosa dos helênicos que era o únlco evento, além da guerra, que reunia todos os povos gregos para celebrar as habilidades do corpo e a força fisica. A boa forma fisica era considerada uma graça, uma manifestação divina materializada nos feitos dos atletas.

Entretanto, nenhum outro pensador além de Epicuro levou mais seriamente a proposta de que o fim último da vida é o prazer. Na sua trajetória ascendente no mundo intelectual grcgo, antes de chegar a Atenas, teria, provavelmente, ensinado em Colofon, depois de receber iniciação filosófica em sua cidade natal. Na capital intelectual do mundo antigo, o pensador observou que as escolas deixadas por Platão e Aristóteles viviam praticamente do glorioso passado, sem nenhuma preocupação com o decadente presente. Decidiu então fundar sua própria escola, pois entendia que tinha que dizer algo novo para o seu tempo e para o futuro.

A revolução promovida por ele teve início inclusive na escolha do lugar, um prédio na periferia de Atenas com um grande jardim, e que estava longe do tumulto daquela grande cidade. Nesse local, Epicuro inicia sua vida inovadora de pensador. No aspecto prático, cria uma comunidade auto-sustentável. Seus discipulos não apenas frequentavam-na, mas viviam Ia em tempo integral. Eles plantavam o essencial para viver com harmonia e todos procuravam desenvolver os princIpios propostos por Epicuro, e tomavam contato corn a cultura filosófica em geral. Alguns pensadores chegam a comparar a comunidade de Epicuro com os mosteiros medievais ou com as comunidades alternativas de hoje. Na sua escola não ensinava os utilitarismos dos sofistas e nem a elitização do acesso a cultura, privilégios dos cidadãos gregos do periodo filosóflco clássico. O objetivo maior de sua comunidade era preparar pessoas para obter qualidade de vida.

Assim, o primeiro ensinamento era o de buscar o máximo de qualidade de vida, com harmonia e sabedoria. Digasse de passagem, Epicuro é o autor desse conceito. Por trás desse conceito está a identidade da ética epicuréia, que pode ser demonstrada por esta citação da carta a Meneceu. Diz Epicuro: “Assim como dos alimentos (o sábio) não deseja a porção mais abundante de todas, mas a mais agradável, do tempo deseja desfrutar não o mais longo e sim o mais propicio.” (Epiciro carta a Meneceu).

No ensinamento acima descrito, podemos encontrar as duas boas dimensões da alimentação. A primeira é o prazer, em suas palavras, “o mais agradável”. A segunda, na expressão do pensador, “o mais propício”, trata da dimensão da saúde que até hoje esta esquecida em nossa cultura alimentícia e que nesses dias começa a ser recuperada. O compromisso de coexistir harmonicamente era assumido por todos os membros da comunidade, fraterna e solidaria, numa partilha de afetos, bens e sabedoria. Nesse ensinamento se apresenta o conteúdo da proposta do “fllósofo dos jardins”.

Já no segundo ensinamento encontra-se aquilo que há de mais nobre no pensarnento desse pensador, e também o motivo pelo qual se tornou, por muito tempo, censurado ao extremo. (A perseguição ao pensamento de Epicuro foi tão forte que de suas mais de trezentas obras, cinco chegaram até o nosso tempo, sendo três cartas completas e em torno de trinta fragmentos de outras duas obras). Numa visão de conjunto, os ensinamentos consistem em buscar o prazer e celebra-lo na amizade. Seus preceitos foram duramente castigados pela cultura ocidental, em sentido moral e religioso que via na questão do prazer a banalização da sexualidade humana, restrita a formalidade da procriação. Essa realidade ainda continua em alguns segmentos religiosos e entre os moralistas conservadores.

Numa possivel leitura, conforme abordarnos no começo deste texto, O pensamento de Epicuro é atual e desejado por empresários que anseiam por ernpresas estáveis, auto-sustentaveis e lucrativas, como também pelo poder público no desempenho de suas funções econômico-sociais. Nesse momento da história parece-nos que Epicuro está vivissimo no mundo governamental e empresarial, ainda que estes não tenham consciência disso.

Por outro lado, o mesmo não ocorre no âmbito psicológico e social das pessoas. Enquanto personagens anônimos, o homem do nosso tempo experimenta a sociedade como algo complexo e estranho, da qual não tem uma consciéncia adequada de seus critérios e valores, do seu processo e também de seus objetivos. Essa realidade o atrapalhou no sentido de formar uma idéia de sua origern, sua caminhada, seu presente e futuro.

Desse modo, ele vive de improviso em uma sociedade minuciosamente planejada, situação que o leva a embarcar em algumas armadilhas existenciais de qualidade de vida imediata quase sempre realizada por um processo consumista que compromete sua liberdade pessoal e seu poder de conquista. Assim sendo. esse homem se divorcia de sua vontade de reallzação. O resultado dessa dinâmica gera o esvaziarnento do conceito de qualidade de vida que o homem contemporâneo tanto almeja. Além disso, nessa experiência o homem perde o contato consigo mesmo enquanto sujeito, e se reduz a um objeto de uma existênda anônima. Perdida a liberdade, ele é tornado por estranhas necessidades que o impossibilitam na construção subjetiva do seu conceito de qualidade de vida. Nesse ponto, ocorre, também, o divórcio entre vida pratica e pensarnento teórico.

Um homem descrente de si e ocupado por necessidades estranhas que se apresentam no campo de suas responsabilidades canaliza a busca da qualidade de vida num consumismo desenfreado. Outra forma de manifestação da falsa busca dessa qualidade de vida esta presente na cultura da sorte. Esta realidade leva o homem contemporâneo a acreditar que é mais fácil mudar sua vida apostando nas várias dezenas de loterias existentes do que gerar novas possibiidades pelo trabalho ou pela produção de novos conhecimentos. E a ideologia da desvalorização da, ação do homern como modo de transformação da vida para melhor. Dessa maneira, ele cada vez se ve mais distante do prazer e não o satisfaz a idéia da parafernália consumida para lhe oferecer quaildade de vida.

No pensamento de Epicuro o prazer de viver é celebrado na amizade e não na aquisição de bens materiais. A natureza do prazer epicurista pertence a ordem do ser e não do ter Hoje, essa ordern do ‘ser’ foi trocada pela ordem do "ter" A consequência disso é que o prazer deixou de pertencer a subjetividade, ao interior do homem, e passou para o lado objetivo da sociedade mercantilista. Nesse momento, o sujeito tornou-se deficiente e necessitado de objetos externos, sendo estes que o fazem ser. Isto é o que denominamos de armadilha existencial.

Assim, o prazer dos bens adquiridos não traz o prazer desejado ao homem porque o sacrificio imposto pela compra o afasta da experiência prazerosa. Partindo do princípio de que a riqueza que se adquire é a de objetos, o prazer da aquisição cai no esquecimento e abre espaço para novos desejos, ja que o sujeito continua pobre e divorciado de suas vontades subjetivas. Sem contato com a subjetividade de seu eu, esse homem vive a condição da coisiflcação de si. Tornar-se coisa significa deixar de ser sujeito e se reduzir a condição de objeto. Em ontros termos, isso significa o divórcio do homem de suas vontades e dos seus desejos e a sua redução a experiência do necessário. Isto é grave para a conquista da qualidade de vida, pois significa afastar o homern da consciência de si e leva-lo ao comprometimento do espaço de sua liberdade.

Por fim, o pensador hedonista foi raptado pelos mentores neoliberais que o prenderam numa caverna e projetam constantemente as suas sombras na parede do fundo da caverna. O homem do nosso tempo, de costas para as luzes do mundo verdadeiro, busca nas sombras de Epicuro o prazer que ele propôs, mas que so se pode conquistar no mundo das luzes da sua consciência subjetiva. Desse modo, o homem corre atras de sombras de prazer e não se satisfaz porque as sombras pertencem ao mundo externo e não ao interior desse homem.

Entretanto, a genialidade de Epicuro supera a astúcia de seus raptores que são mantidos no camarote da caverna, bastante ocupados com o trabalho de flscalização do espetaculo incessante de projeção de sombras. Dessa forma, também eles não conquistam o prazer de um viver qualificado pelo fato de estarem ocupados em pensar o viver objetivo da sociedade. Também entre estes falta tempo para celebrar a amizade, palavra apagada do dicionário do viver prático dos promotores e dos espectadores do espetáculo.

A superação dessa realidade é dificii, pois o tetrapharmakon precisa ser traçado por outro medicamento porque o diagnóstico de Epicuro que separa o medo dos deuses, da morte e da dor, além do sentido atribuído ao prazer, mudou. Tudo isso nos leva a propor a manutenção das propostas de Epicuro. Entretanto, a aplicativa, isto é, a prática, precisa ser recriada. É necessário decretar a aposentadoria do remédio tetrapharmakon pelo fato de outros fatores terem surgido no processo que adoece o ser do homem e o impede de celebrar a vida prazerosa na amizade. Este é o estado de sanidade proposto por Epicuro e com o qual concordamos na construção do novo fármaco social para viabiizar essa condição.

Texto extraído de: Revista Filosofia Ed. 10

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