Civilização Grega

Tirando-se Hecateu e Heródoto, e certamente o sábio Pitágoras, os gregos pouco sabiam da Índia
Prof. Voltaire Schilling

Alexandre, o GrandeNo projeto inicial das conquistas de Alexandre Magno, começado em 334 a.e.c. quando ele atravessou o Estreito do Helesponto, que separa a Europa da Ásia Menor, para ir derrubar o Império Persa e submeter parte do Oriente, não havia qualquer referência a uma possível conquista da Índia.

Todavia, foi a dinâmica das suas operações militares - especialmente aquelas últimas em que dedicou-se a liquidar com os derradeiros bolsões de resistência que os sátrapas persas lhe moviam - , que fizeram com que ele, depois de oito anos de marchas forçadas pela Lídia, Cária, Fenícia, Síria, Egito, pela Mesopotâmia e pelo Irã, chegasse às fronteiras do subcontinente, dando-lhe ganas de ir dominar as imensas terras do vale do Indo e do Ganges, distantes mais de 5,5 mil quilômetros dos limites da Macedônia.

Acampados nas margens do rio Oxo , os macedônios encontraram uma estranha fonte de onde jorrava um líquido denso como azeite.

Tirando-se Hecateu e Heródoto, e certamente o sábio Pitágoras, os gregos pouco sabiam da Índia. Tudo o que lhes chegava vindo do Continente das Flores (como os indianos a chamavam) - os sábios gimnosofistas, a teoria da reincarnação, a beleza dos rubis e das sedas, a miséria contratando com o luxo ostensivo dos palácios dos rajás - vinha sempre envolto em roupagens fantásticas, lendárias, como ecos de um lugar fabuloso mas remotíssimo. Um longínquo lugar de mistérios sem fim.

Fora os dois rios maiores, o Indo e o Ganges, pouco dominavam da geografia da Índia. Pode-se então dizer que a campanha de Alexandre, invadindo-a a partir do Afeganistão de hoje (depois de ter destruído o palácio real de Persépolis e posto um fim no Império Aquemênida), foi feita praticamente às cegas. Tamanha era o desconhecimento dele e dos seus sobre a região que então estavam a desbravar que confundiram a cordilheira do Hindu-Kush (que está no caminho para o vale do Indo) com os montes do Cáucaso, em cujos picos, dizia o mito, o titã Prometeu padecera agrilhoado por ter desafiado a Zeus.

Os auspícios para a expedição indiana eram favoráveis. Acampados nas margens do rio Oxo ( o atual Amu-Daria, que desemboca no Mar de Aral), os macedônios encontraram uma estranha fonte de onde jorrava um líquido denso como azeite, um licor com aroma de oliva, com a mesma cor e sabor. Isto numa terra que não tinha um só pé de oliveira. Para Alexandre, tal abundância, foi um sinal de bons augúrios. Se quase na fronteira milagres daquele tipo ocorriam, que surpresas maravilhosas não o aguardavam adentrando nos esplendorosos espaços da Índia?

O pretexto para lá seguirem surgira do apelo que um rajá da região, o rei Taxilo Ambhi de Taxila, da casta dos Chastrias, fizera junto a Alexandre, quando ele estava em Sogdiana, no ano de 327 a.e.c. dando caça ao sátrapa Beso. Queria que o estrangeiro o ajudasse na luta contra o poderoso rei Porus (Pauravan para os indianos) que reinava sobre o território do rio Hidaspes ( o atual rio Jhelum, no Paquistão).

O conquistador tinha ciência de que o subcontinente dividia-se em centenas de reinos rivais entre si, em religiões e crenças diferentes e hostis, e que as castas inimizavam-se o tempo todo. A Índia, desconhecendo a unidade política, era um prato feito para quem, com mão firme e determinação, se arrojava de espada na mão sobre ela. E foi assim, arregimentando um exército de 100 mil homens (acredita-se que somente 60 mil eram combates e apenas 30 mil deles eram macedônios e gregos), que ele marchou para a campanha. Naquelas alturas, Alexandre conseguira, como a maioria dos conquistadores bem-sucedido, engajar na invasão da Índia um número impressionante de tropas auxiliares de outras nacionalidades e grupos étnicos diversos, entre os quais sobressaiam os regimentos persas.

Em busca do Império Universal - Os gregos do tempo de Alexandre desconsideravam outra organização política que não fosse a Polis, a cidade-estado, em geral controlada por uma administração republicana (fosse oligarca ou democrática). Até a tirania era por vezes considerada por eles um regime tolerável que ainda permitia uma certa autonomia da parte do homem livre, coisa desconhecida entre os bárbaros, tradicionalmente submetidos ao despotismo (regime discricionário, indigno de um cidadão grego).

Aristóteles, parece ter fascinado o discípulo, com a teoria do basileu-filósofo e a possibilidade de um império universal

Aristóteles, o famoso preceptor de Alexandre, parece ter fascinado o discípulo quando da estada dele na Escola de Mieza, na Macedônia, com a teoria do basileu-filósofo (o rei-filósofo) e a possibilidade de um império universal poder algum dia vingar. Mesmo assim, um edifício imperial, onde centenas de povos diferentes eram governados por um autocrata distante, era algo desconhecido dos gregos, mas muito comum entre os orientais.

Expressões como “Reis dos reis”, “Grande reis”, ou “Reis das regiões extremas da terra”, eram de domínio exclusivo dos déspotas persas ou mesopotâmicos, jamais de um estadista grego. Quando Alexandre cruzou a fronteira do ex-Império Aquemênida com o Hindustão, em direção ao rio Hidaspes, ele foi muito além de qualquer ambição que teve antes. Seguramente imaginou-se não somente um Rei da Ásia que unira gregos e persas, mas algo maior: o Filho de Zeus Amon, o Rei dos Deuses, o Imperador do Mundo.

A Batalha dos Elefantes - Avisado a tempo da chegada do exército invasor, o rei Porus acampou na margem esquerda do rio Hidaspes. Consigo havia um força formidável, composta de carruagens-de-combate e regimentos de elefantes, com cuja assustadora imponência procurava impor temor e respeito no jovem aventureiro que descera de Cabul, vindo pelo Hindu-Kush, para assombrar as terras da Índia. Era a época das monções e rajadas de vento e de água chicoteavam as tropas acampadas dos dois lados do rio, enfrentando-se à distância, separadas pelo tumulto da volumosa e perigosa corrente.

Alexandre soube usar com muito gênio tático o clima hostil a seu favor. A chuvarada que desabava na área serviu-lhe de cortina de proteção para uma manobra audaz que permitiu-lhe transpor o Hidaspes num ponto mais acima sem que o rei Porus se desse conta disso. Era a primeira vez na história que um exército vindo da Europa enfrentava um exército da Índia (batalha precursora das que muitos séculos depois os portugueses travaram em Calicute e em outras partes da Índia).

Cena do Filme "Alexandre"Na margem esquerda do rio, esperando para enfrentar a falange de Alexandre, alinhavam-se 200 elefantes treinados para a guerra. A cavalaria invasora composta pelos heteros, a nobreza da Macedônia, refugou, pois as montarias arrepiaram, mostrando-se assustadas frente aos mastodontes que viam pela frente. Coube assim aos peltastas, a infantaria ligeira, e os stichos, os pelotões adestrados, neutralizarem os possíveis estragos dos paquidermes. Travou-se então, em meio a chuva, na data imprecisa de maio ou julho de 326 a.e.c., uma batalha formidável: a última das batalhas memoráveis de Alexandre.

Depois de conseguir neutralizar a cavalaria de Porus, um regimento eqüestre dos macedônicos conseguiu, contornando as linhas inimigas, atingir a retaguarda do rei indiano. Os elefantes, feridos, foram tomados de pânico e seus tratadores, os mahouts, viram-se em apuros para tentar dominá-los. Por fim, a falange entrou em ação esmagando o restante das forças inimigas. A batalha foi longa, estendeu-se por oito horas (o que não era comum naqueles tempos), sendo que as baixas dos invasores somaram 980 homens (cavaleiros e infantes) e tiveram de 10 a 12 mil feridos.

As forças em confronto

Macedônicos Indianos
Rei Alexandre Rei Porus
Força atacante: 15 a 25 mil soldados Força de defesa: 22 a 34 mil soldados
Cavalaria e hypaspists (Escudos do Rei) Regimento com 200 elefantes

As consequências da Batalha de Hidaspes - Porus, aprisionado, impressionou a Alexandre com sua altivez exigindo “ser tratado como a um rei”. O conquistador o reconduziu ao trono com o compromisso dele aceitar ser seu vassalo. A confusão todavia deu-se logo depois da vitória, especialmente pelo amotinamento do batalhão de elite formado pelos hypaspists, os Escudos do Rei (*), que não desejavam dar continuidade a campanha que previa, a seguir, uma marcha para o Indo para o Ganges. Alexandre enfureceu-se, mas depois ele percebeu o sentimento profundo da tropa.

Os soldados há tempos que estavam longe de casa, carregados de vitórias e de despojos.

Os soldados há tempos que estavam longe de casa, carregados de vitórias e de despojos. Queriam voltar para o lar na Macedônia para poder usufruir dos ganhos dos saques e das pilhagens. Além disso, a batalha de Hidaspes, enfrentar aqueles elefantes todos, esfriou-lhes os ânimos. Quantos outros exército iguais aos de Porus, pensarem eles, ainda teriam pela frente? Um oficial, tomando coragem, teria inquirido o comandante supremo perguntando-lhe se ele “desejava expor aquele brilhante exército nu frente às bestas selvagens?”

O choque que Alexandre sofreu foi o suficiente para ele dar-se conta que soara a hora de retornar, de por um fim à trajetória de conquistas. A isso, reforçando a sua decisão, juntou-se o fato de que Esfiges, um filósofo gimnosofista que acompanhava o acampamento e a quem os gregos chamaram de Calano, querendo expor emblematicamente a situação de um império, colocara no chão um couro de boi totalmente seco, mostrando ao rei que cada vez que ele pisava numa extremidade do couro, numa das patas ou no rabo, as outras partes se levantavam, enquanto que se ele pisasse somente no centro nada se mexia.

O novo Grande Rei devia fazer isto: encontrar o centro do seu império e nele fixar o trono definitivamente (Plutarco – Vidas Paralelas –Alexandre: LXV). Mas antes disso, de ordenar a retirada geral das terras da Índia, mandou que fossem erguidos nas margens do rio Hidaspes 12 altares gigantes, um para cada deus olímpico, para sinalizar os limites setentrionais do seus domínios na Ásia Oriental.

(*) Os Hypaspists , também conhecidos depois da campanha da Índia como os Escudos de Prata, foram os antecessores da Guarda Pretoriana dos imperadores romanos e da Guarda Imperial de Napoleão Bonaparte.

Retirando-se pelas águas e pelo deserto -
Para evitar ter que voltar pelo mesmo trajeto que viera, tendo que transpor os impressionantes desfiladeiros do Hindu-Kush, Alexandre ordenou a Nearco (que a partir de então se transformaria no mais famoso dos almirantes de Alexandre) que construísse uma frota composta de barcos e batelões em número suficiente para transportar parte dos cem mil homens pelo rio Indo até o seu delta que desemboca no Mar Arábico. Marchando pelas margens, uma parte da falange era liderada por Heféstion, o favorito de Alexandre, e a outra por Crátero. No caminho em direção ao Índico ele realizou operações de surpresa para submeter os povos ribeirinhos do vale do Indo.

Num destes desembarques-relâmpago, ao tentar a submissão dos malavas, numa ação tipicamente juvenil e despropositada, o conquistador foi gravemente ferido por um flecha que lhe trespassou a couraça, sofrendo ainda várias outras contusões ao cair em meio aos inimigos. Os soldados temeram por sua vida. Mas uns dias depois, recuperado, Alexandre, no alto da popa do barco real, apareceu a todos, envolto no seu manto abanando para as tropas.

Quando, oito meses depois da invasão da Índia, nos começos de 325 a.e.c., chegaram às braçadas finais do rio, ele decidiu separar suas forças em três corpos. Não era possível enfrenta o mar aberto com os navios da frota, pois eram insuficientes para transportar os soldados. Parte deles foi mantida a bordo sob o leme de Nearco, com a missão de enfrentar o Oceano Índico e ir encontrar-se com Alexandre depois, navegando pelo Golfo Pérsico. (Nearco, de origem cipriota, autor do livro de viagens “Périplo”, iria se consagrar como um almirante desbravador de cenários desconhecidos para os gregos). Outro tanto da tropa, acredita-se que 1/3 dos soldados, acompanhou o general Craterus numa marcha para o norte, para a Carmina, cabendo a maioria do exército à chefia de Alexandre.

Desconhecendo as reais condições do território que tinha a frente, ele embrenhou-se numa das regiões mais áridas do sul do Irã, o deserto de Gedrosia

Desconhecendo as reais condições do território que tinha a frente, ele embrenhou-se numa das regiões mais áridas do sul do Irã, o deserto de Gedrosia (hoje Beluquistão). Foi uma travessia desastrosa mas heróica. As perdas humanas, por doença e flagelos outros, provavelmente foram superiores às baixas que até então a falange tivera em campo de batalha. A aridez do solo, o sol inclemente, as areias e as pedras quentes, a fome e a sede intermitente, mostraram-se uma combinação mortífera para as tropas. Durante 60 dias Alexandre padeceu num inferno de desolação e desespero até que conseguiu acampar a salvo (historiadores militares comparam os estragos padecidos na retirada de Alexandre pelo deserto de Gedrosia ao desastre de Napoleão na Russia, em 1812).

Quando o jovem conquistador subitamente morreu na Babilônia no ano de 323 a.e.c., acometido por violenta febre (parte pelos excessos dos bacanais, forrados a álcool e a todo tipo de exagero, mas também pelo desgaste do esforço físico despendido nas marchas e batalhas), os diádocos (os generais sucessores de Alexandre), confirmaram na Conferência de Triparadeisos, realizada no ano de 320 a.e.c., as indicações que o conquistador havia feito antes para os governos do norte da Índia, legitimando Porus em Patala e Taxiles na região do Hidaspe.

Na verdade a presença dos macedônios e dos poucos gregos que os acompanhavam foi passageira na história da Índia, muito aquém daquela marca deixada mais tarde pelos mongóis ou pelos britânicos, mas mesmo assim, até os nosso dias, os indianos fazem referência ao jovem guerreiro que eles tiveram que combater com suas espadas e seus elefantes.

Texto extraído de: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

 

Topo

 

Sobre o Autor | Mapa do Site | Publique seu Artigo | Contato | ©2007 Templo de Apolo - Por Odsson Ferreira
"O prazer e a dor são o critério do útil e do prejudicial..." Demócrito de Abdera