Filosofia Clássica - Período Pré-socrático

Períodos da Filosofia Clássica

Pre-Socrático Socrático Pós Socratico / Helenismo

Período Pré-Socrático

Escola Jônica Escola Itálica Escola Eleática Escola Atomista

 

 

 

 

 

Filósofo da escola jônica nascido na Ásia menor, foi o primeiro filósofo a se transferir para Atenas, de onde foi banido por considerar o sol uma pedra incandescente e a lua uma Terra, negando a divindade desses corpos celestes. Interessava-se muito por astronomia. Houve um processo que acabou por condená-lo, apesar de ser amigo de Péricles, seu mestre e protegido. Sócrates que nasceu cerca de trinta anos depois de Anaxágoras também foi condenado. Atenas considerava a novidade, a filosofia, uma impiedade e ateísmo. Anaxágoras se recusava a prestar culto aos grandes deuses gregos. Era filho de Hegesibuldo. Disse que as coisas corpóreas eram infinitas, e elas pareciam engendrar-se e destruir-se pela combinação e dissolução. No início, todas as coisas seriam infinitas em quantidade e pequenez, pois o pequeno também era infinito. Toda a matéria estava condensada. O ar e o éter são os maiores conjuntos de coisas. Muitas coisas de todas as espécies são contidas em todos os compostos e sementes.

Em tudo há um pouco de tudo. Em cada minúscula partícula, ou semente, há uma parte de todas as coisas, pois todas as coisas são formadas por essas sementes. Essas coisas se resolviam e separavam pela força e rapidez, a força é a rapidez que produz. E o espírito começou a se mover, e em todo movimento havia uma separação, e as partículas se desdobravam, o espírito sempre é, sempre afirma. O compacto, o fluído, o frio e o sombrio se colocaram onde se formou a terra, e o ralo o quente e o seco forma para longe do éter. As visões das coisas invisíveis são aparentes, a lua reflete os raios de sol, em sua filosofia. E as coisas, que estavam juntas foram separadas por esse espírito inteligente e puro (nous), que ordenava a matéria e se movia, separando os opostos e criando os seres diferenciados. Os graus de inteligência dos seres animados (animais e plantas) dependem da estrutura do corpo em que o nous está ligado sem se misturar.

Para Hegel, Anaxágoras foi um sóbrio entre os ébrios. Fundamenta sua crítica dizendo que ele foi o primeiro a dizer que o pensamento é universal, em si e para si, o puro pensamento é verdadeiro. Universal pela noção de causalidade. Essa noção, se não é universal, se não considera a coisa em si, costuma dizer coisas como: a causa da existência do capim é servir de alimento para os herbívoros, e a destes é servir de alimento para os carnívoros, os troncos fluem para determinado lugar, pois estão precisando deles lá e assim por diante. O nous de Anaxágoras é universal, move-se para diante. Cada idéia é um círculo de si mesma, e o bem universal de sua espécie. O nous é a alma que a tudo move, que liga e separa, uma atividade que põe uma primeira determinação como subjetiva, mas essa é feita objetiva, e assim se torna outra, e de novo esta oposição é sobreposta, assim até o infinito. Isso é dialética.

Vida

Professor de Perícles

Vida - Anaxágoras, filho de Hegesibuldo, nativo de Clazomene, nas proximidades de Esmirna, foi filósofo grego pré-socrático da escola jônica nova. Foi também o primeiro filósofo jônico a se estabelecer em Atenas, por volta de 480 a.e.c., razão do porque de sua importância no desenvolvimento ulterior da filosofia, sobretudo de Sócrates, Platão e Aristóteles.

Mas não poderia ter sido ouvinte imediato de Anaxímenes, porque este último dos três milesianos já havia falecido, não obstante a afirmação de Diógenes Laércio que "ele foi discípulo de Anaxímenes. Heráclito falecia quando Anaxágoras era apenas um adolescente, entre 490 e 480 a.e.c. Quanto à Empédocles, seu contemporâneo mais novo, mas do Ocidente, informa a respeito Aristóteles:

Anaxágoras de Clazomene, pela sua idade mais velho que Empédocles, mais jovem pelas suas obras.

Tendo como base as olimpíadas, Anaxágoras nasceu em 500 a.e.c. e morreu em 428 a.e.c., o que confere também com a idade de 72 anos e a invasão de Xerxes, rei da Pérsia, quando, em 480 a.e.c., ocorreu a batalha de Termópilas. Quanto à indicação de que permanecera 30 anos em Atenas, não implica em serem 30 anos sem interrupção, mas uma soma de 30 anos. Se fossem 30 anos a partir dos seus 20 anos, teria estado em Atenas de 480 a 450 a.e.c. É possível que se tenha estabelecido em Atenas por ocasião da movimentação de tropas, ocasionada pela invasão de Xerxes. Seguramente esteve em Atenas nos últimos anos de sua vida, quando fora acusado de impiedade.

Os detalhes sobre a pessoa de Anaxágoras são conhecidos praticamente só pela biografia legada por Diógenes Laércio, à qual se acrescentam algumas indicações de outros filósofos. Diógenes Laércio dizia que Anaxágoras de Clazomene, filho de Hegesíbulo ou Eubulo, foi ouvinte de Anaxímenes e o primeiro que atribuiu inteligência à matéria, como diz no começo de seu tratado, que foi composto em linguagem atraente e elegante. Todas as coisas estavam juntas; então veio a inteligência e estabeleceu a ordem.

Por esta razão ele foi apelidado Inteligência, porque, segundo ele, a Inteligência reuniu os elementos dispersos que antes estavam em caos. Ele era eminente pela riqueza e por nascimento, e além disto magnânimo, ao ponto de renunciar seus bens em favor dos seus domésticos.


    Aos que o acusavam de negligência, replicava:

- E vós, por que não sois mais diligentes?

Finalmente retirou-se e se dedicou à investigação da natureza, sem se preocupar com as coisas públicas.

A alguém que lhe disse, - tu não cuidas da pátria?

Respondeu, mostrando-lhe o céu: Meu caro eu me ocupo bastante com a pátria.

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Péricles - Escultura GregaProfessor de Péricles - Os cinqüenta anos de prosperidade de Atenas, entre o fim das guerras médicas 480 a.e.c., ditas também contra os persas, e os insucessos iniciais da guerra do Peloponeso (431-404 a.e.c.), entre Atenas e Esparta, foram também os dos sucessos de Anaxágoras, tendo como um de seus alunos o grande líder dos atenienses: Péricles (499-429 a.e.c.)
 
Quando Péricles declinou politicamente, por causa dos insucessos iniciais da guerra do Peloponeso, também veio o fim de Anaxágoras. É o que se depreende confusamente do texto de Diógenes Laércio. Nem se depreende algo melhor de outros, que também se referem ao fim de Anaxágoras.

Sobre seu julgamento deram-se versões discordantes. Diz Sócion em sucessões dos filósofos, que foi acusado de impiedade por Cléon, porque declarara que o sol era uma massa de ferro incandescente. Tendo-o defendido seu discípulo Péricles, foi contudo condenado a pagar cinco talentos e banido. Sátiro em Vidas diz que o seu perseguidor foi Tucídides, opositor de Péricles, o qual não somente o acusou de impiedade, mas também de traição; e que a sentença de morte foi declarada em sua ausência.

Quando a notícia lhe foi levada, de que havia sido condenado e que seus filhos haviam sido mortos, seu comentário sobre a sentença foi: há já muito tempo a natureza condenou a meus juízos e a mim. Sobre seus filhos disse: Eu sabia que meus filhos haviam nascido mortais. Alguns entretanto narram esta história com referência a Sólon, outros a Xenofonte.Que ele enterrou seus filhos com as próprias mãos é asseverado por Demétrio de Falera em seu livro A velhice.
    
Pericles e Anaxagoras - Pintura Sobre Tela - Belle Augustin-Louis Hermipo em Vidas diz que ele fora encarcerado primeiramente, ficando no aguardo da execução; mas que Péricles, apresentou-se diante do povo, perguntando se havia alguma falta em sua própria vida a censurar; respondendo-lhe que não, ele continuou, - pois eu sou um discípulo deste homem; não o calunieis e nem o levai à morte; segui meu conselho e o absolvei. Ele foi efetivamente absolvido. Mas, não podendo suportar a afronta, deu-se a si mesmo a morte.

Jerônimo no segundo livro de suas Memórias diversas diz que Péricles o levou ante a corte tão fraco e extenuado pela enfermidade, que obteve a absolvição mais por piedade que pelo mérito da questão. Há quem pense que foi inimigo de Demócrito, por se ter recusado a admiti-lo em sua conversação. Por último retirou-se a Lâmpsaco e ali morreu. Quando os magistrados dessa cidade o pergunto o que desejava que fizessem em seu favor, respondeu que desejava que todos os anos no mês de sua morte houvesse um dia de festa, para as crianças. O costume é guardado desde então.

Quando morreu, os habitantes de Lâmpsaco lhe prestaram honras fúnebres, e colocaram sobre a tumba a seguinte inscrição:

Aqui jaz Anaxágoras, que em seu estudo dos céus, mais se aproximou da verdade.

Cícero também se refere à morte de Anaxágoras em Lâmpsaco, na Jônia. Situado em Lâmpsaco, calcula-se houve ali estabelecido uma escola. Reconhecidamente inteligente e apelidado mesmo de Inteligência, foi sempre espirituoso e de respostas certeiras.

"Certa vez o perguntaram::
Perdeu você a sociedade dos atenienses?
Respondeu:
- Não eu, mas eles me perderam.

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Obras

Escreveu Anaxágoras um livro Sobre a natureza, que é citado por Simplício. Vagamente também é mencionado por Diógenes Laércio que Anaxágoras foi o primeiro a publicar um livro com diagramas o que alguns têm traduzido inseguramente por "o primeira a escrever uma obra.

Poder-se-ia alegar que fosse a primeira obra filosófica em prosa; anteriores a obra de Anaxágoras foram certamente as de Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Empédocles, Xenófanes, Parmênides.
    
Hoje somente restam fragmentos da obra de Anaxágoras, e que foram citados principalmente por Simplício, em sua Física. Os documentos doxográficos procedem do mesmo Simplício, e de Aristóteles, Aécio, Diógenes Laércio, os primeiros para a sua doutrina, o último para a sua biografia.

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Doutrinas

Natureza do Nous | A Alma | O Conhecimento | A Cosmologia das Homeomerias | Astronomia

Caracterizou-se por ter concebido todas as coisas da natureza por um número indefinido de pequenas partículas homogêneas invariáveis, a que chamou espermas, às quais Aristóteles alude sob a denominação de homeomerias. Dotou uma destas partículas de inteligência (Nous) a qual é ordenadora de tudo.

Dispensou a ação da forças opostas como guerra e paz (Heráclito), amor e ódio (Empédocles), nem se limitou às forças mecânicas, como os atomistas (Leucipo, Demócrito). Estes conceitos são elaborados dentro do ponto de vista materialista da filosofia jônica, mas sob a influência eleática, em virtude da qual as homeomerias seriam em si mesmas imutáveis: mantêm pois a multiplicidade dos elementos, conforme os jônicos (de onde ser possível a transformação ainda que apenas por diversa composição) ao lado do imobilismo eleático, aplicado às partículas fundamentais.

A mistura, envolvendo composição e decomposição, explicaria a universal transformação das coisas. Não haveria, pois, verdadeira transformação substancial. Colocadas estas diretrizes gerais, semelhantes às de Empédocles, que lhe é anterior, e às dos atomistas, imediatamente posteriores, acrescenta Anaxágoras as suas particularidades filosóficas, marcadas primeiramente pelas homeomerias e o Nous. O Nous de Anaxágoras permite ver a este tema como seu lado metafísico, ao qual também se prendem algumas ponderações gnosiológicas. As homeomerias constituem fundamentalmente a filosofia da natureza de Anaxágoras, seguida finalmente de uma ciência positiva, a cosmogonia.

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Natureza do Nous - Que seria o Nous na filosofia de Anaxágoras? O Nous, ainda que signifique Inteligência, é também força motriz, ou primeiro motoro, todavia com ação racional. O termo significa diretamente Inteligência como faculdade de pensar. No contexto se encontra como substantivo e portanto como alma ou espírito. Dadas as circunstâncias em que Nous foi usado, tem-se preferido não traduzir o termo, citando-o simplesmente no original grego. Além disto, o Nous em seu sistema reflete o conceito materialista do ser, quer da filosofia jônica, quer da eleática, sempre concebido especializado.

O Nous é uma substância apenas "mais fina" e sutil que as demais substâncias materiais. Enfim, nem mesmo aparece como todo poderoso, nas informações de uns, ainda que não nas de outros. Ao Nous de Anaxágoras não se pode simplesmente denominar Deus, porquanto não detém todas as funções divinas, como posteriormente se dirá da divindade. Preocuparam-se os historiadores em determinar o que exatamente é este Nous, examinando os textos diretos (fragmentos) transmitidos principalmente por Simplício e as declarações mais antigas encontradas ainda em Platão e Aristóteles.

Autores antigos todavia mais tardios, como Aécio e Cícero, dão o Nous de Anaxágoras simplesmente como divino, em que alguns modernos, entre eles Leibniz, os seguiram. Este divino não passa o sentido limitado que para os antigos tinha o temo. Pergunta-se, pois, se o Nous teria mesmo "toda a ciência sobre toda a coisa do passado, presente e futuro?", além de ser "suprema força"?
    
O Nous nas informações de Simplício.:

Em todas as coisas há partículas de tudo, exceto do Nous: pois o Nous se mantém uno.

Tudo o mais participa de cada coisa; o Nous é, porém, infinito, autônomo e com nenhuma coisa misturado, mantendo-se sozinho em si mesmo. Porquanto se não fosse por si mesmo, mas misturado com outra coisa, seria parte de todas as coisas, mesmo quando mesclado com uma só. Na verdade, em cada coisa há uma parte de tudo, como anteriormente se disse. As coisas com ele misturadas o estorvariam, de sorte a não poder exercer poder sobre coisa alguma, como o poderia ao estar sozinho em si mesmo.
    
O Nous é vivo em si mesmo, podendo transmitir aos outros o seu próprio movimento. Não recebe de nada sua própria capacidade de mover. Nesta condição, a natureza do Nous é excepcional. Não é, todavia, algo totalmente diferente; o Nous é uma coisa entre as outras coisas. Não deve ser concebido, pois, como um Deus, ao modo dualístico e transcendente, como se infere do mesmo dizer de Anaxágoras. O Nous é o mais fino, o mais subtil, o mais delicado dentre todas as coisas; de tudo tem conhecimento e tem o maior poder. Sobre o que só tem alma, seja grande, seja pequeno, sobre todos o Nous tem seu comando. Exerce o comando sobre o conjunto da revolução (no universo), desde o início.

Primeiramente começou este redemoinho em algo pequeno; transmitiu-se adiante e sempre mais. E o que então se misturou e se distinguiu, tudo o Nous reconhecia. E como deveria tornar-se e como era, o que já não é, e tudo o que é agora, e como virá a ser, tudo ordenou o Nous. E assim também a revolução que agora exercem os astros, o sol, a lua, o ar e o éter, que se diferenciam. Na verdade este redemoinho provoca a diferenciação. Distinguem-se o denso do raro, o frio do quente, o escuro do claro, o úmido do seco. As partes são constituídas de multiplicidades. Nada, por completo, se distingue de outra coisa, exceto o Nous. Mas o Nous é igual a todas as coisas, quer das grandes, quer das pequenas.

O Nous nas apreciações de Platão. Muito próximo cronologicamente de Anaxágoras, mas em diálogo situado no período de transição (380-365 a.e.c.), denominado Fedon, com surpresa Platão reduz Anaxágoras ao mesmo nível do naturalismo dos filósofos jônicos em geral, para no final mencionar, não sem alguma ironia, como é do seu uso, aos filósofos atomistas. Com palavras colocadas na boca de Sócrates diz:

Ora, certo dia ouvi alguém que lia um livro de Pitágoras. Dizia este que o Nous é o ordenador e a causa de todas as coisas. Isto me causou alegria. Pareceu-me que havia, sob certo aspecto, vantagem em considerar o Nous como causa universal.

Se assim é, pensei eu, a inteligência ou espírito deve ter ordenado tudo e tudo feito da melhor forma. Desse modo, se alguém desejar conhecer a causa da origem e morte das coisas, deve, antes de mais nada, procurar indagar qual é a melhor maneira pela qual ela existe.

E pareceu-me ainda que a única coisa, que o homem deve procurar, é aquilo que é melhor e mais perfeito; porque desde que ele tenha encontrado isso, necessariamente terá encontrado o que é o pior, visto que são objetos da mesma ciência.

Mas, a seguir, Platão encaminhou uma virada, interpretando o Nous como uma simples força motriz, que poderia até ser material:

Pensando desta forma, exultei acreditando haver encontrado em Anaxágoras o explicador da causa, inteligível para mim, de tudo que existe. Esperava que ele iria dizer-me, primeiro, se a terra é plana ou redonda, e, depois de o ter dito, que a explicação acrescentasse a causa e a necessidade desse fato, mostrando-me ainda assim como é ela a melhor. Esperava também que ele, dizendo que a terra se encontra no centro do universo, ajuntasse que, se assim é, é porque é melhor para ela estar no centro.

Se me explicasse tudo isso, eu ficaria satisfeito e nem sequer desejaria tomar conhecimento de outra espécie de causas. Naturalmente, a propósito do sol eu estava pronto também a receber a mesma espécie de explicação, e da mesma forma para a lua e os outros astros, assim como também a respeito de suas velocidades relativas, como de suas revoluções de cada astro e de outros movimentos que lhes são próprios. Nunca supus que depois dele haver dito que o Nous os havia ordenado, ele pudesse dar-me outra causa além dessa que é a melhor e que é a que serve a cada uma em particular assim como ao conjunto.

E Platão continua, já mostrando que as demais homeomerias tinham também alguma função na ordem do mundo, enquanto componentes dele:

Grandes eram as minhas esperanças! Pus-me logo a ler com muita atenção e entusiasmo os seus livros. Lia o mais depressa que podia, a fim de conhecer o que era o melhor e o pior.

Mas - meu grande amigo - bem depressa maravilhosa esperança se afastava de mim! À medida que avançava e ia estudando mais e mais, notava que esse homem não fazia nenhum uso do Nous, nem lhe atribuía papel algum como causa na ordem do universo, indo procurar tal causalidade no éter, no ar, na água e em muitas outras coisas absurdas.

Parecia-me que ele se portava como um homem que dissesse que Sócrates faz tudo o que faz porque age com seu espírito; mas que, em seguida, ao tentar descobrir as causas de tudo o que faço, dissesse que me acho sentado aqui porque meu corpo é formado de ossos e tendões, e os ossos são sólidos e separados uns dos outros por articulações, e os tendões contraem e distendem os membros, e os músculos circundam os ossos com as carnes e a pele a tudo envolve!.
    
Finalmente, foi Platão rejeitando a filosofia naturalista jônica declarando que tais causas constitutivas materiais são chamadas inadequadamente causas.

Dar o nome de causas a tais coisas seria ridículo. Que se diga que sem ossos, sem músculos e outras coisas eu não poderia fazer o que me parece, isso é certo.

Mas dizer que é por causa disso que realizo as minhas ações e não pela escolha que faço do melhor e com inteligência - essa é uma afirmação absurda. Isso importaria, nada mais nada menos, em não distinguir e em não ver que uma coisa é a verdadeira causa e outra aquilo sem o que a causa nunca seria causa. Todavia é isso que aqueles que erram nas trevas, segundo me parece, dão o nome de causa usando impropriamente o termo.
    
Platão, ao usar o termo "aqueles que" ou "os demais", parece não querer citar nomes, por não lhes dar importância; mas é à filosofia dos jônicos, que ele se refere, à qual em lugar algum dos seus escritos deu importância, porquanto aqueles são naturalistas e ele mesmo racionalista idealizante, simpatizante do pitagorismo.

E imediatamente envolve, sem citar nomes, os atomistas, ligados aos jônicos, quando se refere ao turbilhão, termo característico do sistema dos atomistas de Leucipo e Demócrito. E quando se refere à gamela, ironiza ao jônico Anaxágoras:

O resultado é que um deles, tendo envolvido a terra num turbilhão, pretende que seja o céu o que a mantém em equilíbrio, ao passo que para outro ela não passa duma espécie de gamela ao qual o ar serve de base e de suporte. Mas quanto à força, que a dispôs para que essa fosse a melhor posição, essa força ninguém a procura; e nem pensam que ela deva ser uma potência divina.

Acreditam, ao contrário, haver descoberto um Atlas mais forte, mais imortal e mais garantidor da existência do universo do que esse espírito; recusam-se a aceitar que efetivamente o bom e o conveniente formem e conservem todas as coisas.

Ali está, pois, Anaxágoras, com o seu Nous, interpretado materialisticamente por Platão, reduzido aos demais jônicos e atomistas. Aristóteles também se refere ao Nous de Anaxágoras, sem o divinizar. Todavia diferentemente de Platão, elogia a Anaxágoras por haver introduzido um princípio inteligente como causa da ordem. O Deus desenvolvido pela filosofia de Aristóteles, ainda que mais eminente, contém algo deste Nous de Anaxágoras. É possível mesmo que Aristóteles esteja influenciado por Anaxágoras, ainda que fazendo seus retoques.

Também Platão havia desenvolvido o pensamento de que Deus é uma espécie de alma do mundo, enquanto possui movimento próprio sem recebê-lo de outro. Mas o pensamento platônico é mais influenciado pelo exemplarismo pitagórico, enquanto que Aristóteles concebe a Deus como motor, analisando-o como um primeiro motor imóvel.

Na sua preliminar sobre Deus como primeiro motor imóvel, e advertindo que a ordem e o movimento não poderiam vir dos componentes em si mesmos, e nem do azar, Aristóteles apontou a Anaxágoras como aquele que melhor até seu tempo houvera tratado o assunto. Efetivamente, depois de historiar sobre os elementos constitutivos, introduz a nova questão, primeiramente em seus termos genéricos:

Todos estes filósofos [de Tales a Anaxágoras] fazem pensar, ao que parece, que não há senão uma espécie de causa, aquela que é dita de natureza material. Mas a este ponto de sua marcha, a realidade mesma lhes traçou o caminho, e os obrigou a uma indagação mais profunda.

Quer se suponha que toda a geração e toda a corrupção venha de um princípio, quer de muitos, qual seria sua causa? Certamente não será o substrato mesmo o autor de suas próprias mudanças.

Por exemplo, não é nem a madeira, nem o bronze que é causa da alteração de um e de outro; não é a madeira que faz o leito, nem o bronze, a estátua, mas é qualquer outra coisa que é a causa da mudança.

E pesquisar esta outra coisa, é procurar o outro princípio, ou como diríamos, aquilo de onde vem o começo do movimento.

Depois de mostrar como se tentou explicar as mudanças, - que uns, como os eleatas, reduzem à ilusão, e outros as aceitam mas não explicam adequadamente, - advertiu Aristóteles, que não era possível explicar pelo azar e a fortuna uma obra tão grandiosa como o mundo, e que por isso Anaxágoras era digno de admiração, porque introduzira uma causa adequada.

Assim, quando um homem vem dizer que há na natureza, como junto dos animais, uma Inteligência (Nous), causa da ordem e do arranjo universal, ele aparece como único em seu bom senso em face das divagações dos seus predecessores. Nós sabemos, sem poder duvidar, que Anaxágoras adotou estes pontos de vista.
    
    Acrescentou Aristóteles à sua frase de elogio a Anaxágoras:

Mas se diz que ele teve por antecessor Hermótimo de Clazomene". Quem teria sido este Hermótimo?

Trata-se de um personagem provavelmente lendário, do qual se refere haver sua alma transitado por várias encarnações, inclusive por Pitágoras.

Aristóteles concluiu a referência:

Quaisquer sejam os que professaram esta doutrina, ao mesmo tempo que eles colocaram a causa do bem como princípio dos seres, fazem dele também o princípio do movimento dos seres.
    
O que preocupava a todos os filósofos era determinar qual era a causa última do movimento e da ordem. Em função a isto entrava em questão a existência de Deus e da alma, do movimento e da ordem.

Anaxágoras tem razão em proclamar que o Nous é impassível e sem mistura, porque faz dele um princípio do movimento: só pode mover, se não for movido; só pode dominar, se for sem mistura.

Elogiando embora o Nous como separado de tudo o mais, fez Aristóteles restrições à mistura inicial deste tudo o mais.

Passando a Anaxágoras, se poderia supor que ele reconhecia dois elementos, e esta suposição acordaria melhor com uma razão que ele mesmo não articulou, mas com a qual concordaria se a ela tivesse chegado.

Na verdade é absurdo sustentar, que, na origem, todas as coisas estavam misturadas, porquanto, entre outras razões, melhor seria que houvesse uma separação anterior. Nem seria natural que as essências se misturassem assim ao azar, e nem as qualidades e os acidentes existissem separados das substâncias.
Entretanto, se seguirmos o raciocínio de Anaxágoras, formulando distintamente o que ele teve a intenção de dizer, sem dúvida seu pensamento parece mais moderno.

Como se depreende do texto, Aristóteles não diviniza o Nous de Anaxágoras; todavia defendeu que, coerentemente, ele deveria tê-lo conduzido a esta divinização. À vista do fragmento 12, vindo de Simplício, não se pode sustentar a tendência, que Aristóteles atribuiu a Anaxágoras. Seu Nous é apenas o mais capaz e o mais puro (separado) dentre os elementos materiais. É possível mesmo que não tenha diferença do amor e do ódio atribuído por Empédocles a todos os elementos, ao passo que em Anaxágoras apenas a um só elemento.
    
A argumentação, em virtude da qual no início as coisas não poderiam estar misturadas, não ultrapassa em muito a um verbalismo de Aristóteles. Insistindo nesta argumentação, prossegue seu texto, revelando ao menos a influência dialética de Anaxágoras sobre o próprio pensamento aristotélico:

Quando nada, com efeito, estava separado, não se podia evidentemente nada afirmar de verdadeiro do sujeito desta substância primitiva. Quero dizer que ela não era nem branca, nem preta, nem cinza, nem de outra qualquer cor; ela era necessariamente incolor, pois senão ela teria qualquer dessas cores.

Paralelamente, e por esta mesma razão, ela era sem sabor, bem outra propriedade deste gênero. Ela não poderia ter nem qualidade, nem quantidade, nem determinação alguma, porque qualquer das formas particulares lhe teria sido aplicada, o que é impossível, se tudo fosse misturado; uma forma particular é exigida, com efeito, uma separação anterior, ao passo que, seguindo Anaxágoras, tudo seria misturado, com exceção da Inteligência, a qual somente seria pura e sem mistura. Dali resulta que os princípios que ele admite são o Uno (pois é aquilo que é simples e sem mistura) e o Outro, o qual exerce o papel que atribuímos ao Indeterminado, antes de toda determinação e antes de toda participação em uma forma qualquer.

Assim esta opinião carece de retidão e de clareza; ela tende entretanto a se assemelhar às doutrinas posteriores e a se aproximar de soluções atualmente favoráveis.

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A Alma - O Nous move o universo no mesmo sentido como a alma é o motor do corpo. Entendiam os gregos a alma como sendo naturalmente capaz de se mover a si mesma, e em conseqüência também ao corpo. Assim agora o Nous tudo move e ordena.

É o que deixa a entender Aristóteles ao estudar a alma e ali comparando mesmo o pensar de Anaxágoras com o daqueles que definiam a alma como causa de seu mesmo movimento.

Certos entre eles [pitagóricos] declararam que a alma se constitui de partículas de ar, outros que é ela que as move; e a propósito destas partículas se anotou que elas parecem em movimento contínuo, mesmo quando a calma é completa. A mesma tendência é a daqueles (Platão, Xenócrates e Àlcmeon, segundo Philopono) que definem a alma como sendo o que se move por si mesmo; eles parecem todos pensar com efeito, que o movimento é a característica mais própria da alma, e que toda a coisa é movida pela alma, mas que esta é movida por ela mesma; a razão é porque não vê motor algum que não seja ele mesmo movido.

Da mesma maneira ainda Anaxágoras assevera que a alma é a causa motora motriz, e é também a opinião de todo outro filósofo, se ele existir [poderá ser referência possível a Hermótimo, conforme Metaf. 984b 19], que tenha admitido que a Inteligência imprimiu o movimento ao Universo.
    
Ao mesmo tempo que comparando a opinião de Anaxágoras com a de Demócrito, para diferenciá-la, deixou Aristóteles implícito que o Nous opera no mundo mais ou menos como a alma material opera no corpo para lhe dar movimento.

A posição de Anaxágoras não é todavia tal como do atomista Demócrito. Este, com efeito, identifica, absolutamente a alma e a inteligência, pois, segundo ele, a verdade é o que aparece; também aprova a Homero o haver dito em um verso que Heitor estava estendido, a razão desgarrada; ele não trata a inteligência como uma faculdade de conhecer a verdade.

Anaxágoras se exprime menos claramente a este respeito: em várias passagens ele assevera que a causa do belo e da ordem é a Inteligência, mas em outras ele identifica a inteligência e a alma, pois ele a atribui a todos os animais, grandes e pequenos, superiores e inferiores.

Não parece contudo que a inteligência entendida como senso de prudência pertença igualmente a todos os animais, nem mesmo a todos os homens.

O Nous é impassível. Esta posição de Anaxágoras é única entre os filósofos anteriores a Aristóteles. O Nous não é atingido pela ação das demais coisas, nem mesmo para se fazerem conhecidas a ele. Não exercendo o Nous o conhecimento por efeito da impressão das coisas sobre si, Anaxágoras não explica diretamente o porquê dessa impassibilidade. Mas ela é implícita ao ser perfeitíssimo. Discordou Anaxágoras, pelo menos em parte, dos que dizem obter-se o conhecimento por meio de semelhanças.
Aqueles que definem a alma pelo conhecimento, fazem dela, ora um elemento, ora um composto de elementos [do primeiro grupo são Diógenes, Heráclito, e do segundo são Empédocles, Crítias, Platão] professam, a exceção de um só, opiniões aproximadas entre si.

Eles dizem, como efeito, que o semelhante é conhecido pelo assemelhado, e como a alma conhece todas as coisas, eles a constituem a partir de todos os princípios. Assim os filósofos, que não admitem senão uma só causa e um só elemento, enquanto que aqueles que reconhecem uma pluralidade de princípios introduzem também a pluralidade em sua composição.

Anaxágoras é o único a sustentar que a inteligência é impassível e que ela não tem nada de comum com qualquer outra coisa. Mas, se tal é sua natureza, como conheceria ela, e por meio de que causa? Anaxágoras não o explicou, e a gente não o consegue inferir claramente de suas palavras.

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O Conhecimento - Suas colocações revelam que não se advertiu ainda a distinção entre causa eficiente e causa formal, com os respectivos efeitos na ordem da causa eficiente e na ordem da causa formal. Os semelhantes se acusam por efeito formal, e por isso se fazem conhecer. Não se pode dizer que os semelhantes produzem os mesmos efeitos na ordem da causa eficiente, em cujo plano precisamente mais atuam os contrários. Não advertido destas particularidades, as explicações sobre o conhecimento dadas por Anaxágoras importam apenas como um início de um questionamento que os filósofos seguintes levarão avante.

Advertindo Anaxágoras para o efeito dos contrastes - como o da mão fria que quanto mais sente o calor, mais dele se diferencia - criou a teoria de que o conhecimento se processa pelos contrários. Anaxágoras diz que a sensação nasce dos contrários, porque o semelhante não é afetável pelo semelhante. Vemos pela imagem da menina dos olhos, que não reflete a imagem da mesma cor, mas a diferente.

A cor inflete melhor sobre coisas diversas. Do mesmo modo o tato e o paladar discernem (seus objetos). O que é do mesmo calor e frio, que nós, não nos aquece, nem nos esfria, ao se dar o contato. Nem percebemos o doce e o amargo por meio deles. Sentimos, porém, o frio, com o quente; por meio do desagradável, o agradável; o doce, pelo amargo. Ou seja, pelo que falta em cada um. Efetivamente, dizem que (os opostos) se encontram em nós, desde o início.
    
 Toda a sensação é acompanhada de dor. Esta opinião parece ser conseqüência da referida hipótese, porquanto, cada semelhante, pelo seu contato, trás a dor. A dor se torna manifesta com a longa duração e intensidade da sensação. As cores berrantes e os sons excessivos causam sofrimento, sendo-nos impossível ficar muito tempo sob sua ação". Acreditava também Anaxágoras que o desenvolvimento mental do homem estivesse ligado à circunstância de ter mãos. Disse Anaxágoras, que o homem é o mais inteligente de todos os animais por possuir mãos".

A este propósito não faltaram aqueles que advertiram para a semelhança que a frase de Anaxágoras tinha com o dizer de Benjamim Franklin sobre "o ser que produz ferramentas". Na força e ligeireza assemelhamo-nos aos animais; nós, porém, os aproveitamos. Valemo-nos da experiência, da memória, da sabedoria e da nossa arte". A relatividade no conhecimento. O problema gnosiológico levantado por Anaxágoras importa em mais algumas considerações, porque ele admite uma certa relatividade da certeza e da verdade. O relativismo ceticista será cultivado logo depois, amplamente, pelos sofistas. Quando Aristóteles se ocupa deste relativismo, destacando embora os sofistas, como Protágoras, não deixou finalmente de lembrar também a Anaxágoras.
    
Iniciando a exposição em termos gerais, diz Aristóteles:

"Há, como dissemos, quem afirme a possibilidade de a mesma coisa ser e não ser a um tempo, e que assim se pode pensar. E, entre outros, muitos físicos usam esta linguagem".

    Já citando nomes, continua Aristóteles:

"Da mesma opinião procede a doutrina de Protágoras, e ambas devem ser igualmente verdadeiras ou falsas".

"Os que realmente sentem as dificuldades foram conduzidos a essa opinião pela observação do mundo sensível. Eles acreditaram, que os contraditórios e contrários existem simultaneamente nos seres, ao verem a mesma coisa engendrar os contrários. Se, pois, não é possível que algo venha do nada, devem existir no objeto preexistente, ao mesmo tempo, os contrários, assim como Anaxágoras diz que tudo se acha misturado em tudo, e Demócrito também: pois este diz que o cheio e o vazio existem em todas as partes por igual, e no entanto, um deles é ser e o outro, não-ser".
    
Esclarece, então, ainda Aristóteles, que tais filósofos subjetivistas atribuem a relatividade à estrutura mutável do sujeito conhecedor:
"E, em geral, esses filósofos identificam o conhecimento com a sensação e consideram esta como uma alteração física; por este motivo dizem, que o testemunho dos nossos sentidos deve ser verdadeiro: foi isso que induziu em erro a Demócrito, Empédocles, e - e quase se poderia dizê-lo todos os outros, levando-os a adotar opiniões desta sorte. Pois Empédocles diz que quando os homens mudam de disposição, também o seu conhecimento muda".

Uns poucos fragmentos originais da gnosiologia relativista de Anaxágoras foram conservados nos comentários de Sexto Empírico. Referindo-se aos sentidos diz Anaxágoras que "por causa de sua debilidade não somos capazes de discernir o verdadeiro".

Não obstante algo conhecemos. Na verdade, "diz Anaxágoras que os fenômenos são uma visão do invisível". Ainda que a sensação deixe de perceber o que efetivamente ocorre nas coisas que se diferenciam, a razão consegue calcular que de fato as coisas não mudam senão acidentalmente, pela substituição de elementos em si mesmos imutáveis. E assim, para Anaxágoras, algumas das ilusões dos sentidos são superadas pelos cálculos da razão. Em vista da pequenez dos elementos. Dizendo-o, todavia, enfaticamente, declara, que, "em conseqüência não podemos conhecer com distinção as coisas, nem com a utilização da razão e nem da experiência.

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A Cosmologia das Homeomerias - Todas as coisas se compõem de elementos imutáveis a que Anaxágoras chamou espermas, plural de esperma, que em grego significa semente. Depois Aristóteles deu curso ao termo homeomerias, que não parece ter sido do mesmo Anaxágoras. No singular se diz homeomerê, derivado de Ò (= parte). Tudo se traduz, portanto, por partículas iguais, semelhantemente à átomos (= partículas insecáveis).

São as homeomerias de Anaximandro em número infinito, em espécie e quantidade. Por serem diferentes em espécie, diferem da terra de Empédocles, porque reduzia aos elementos a quatro espécies (terra, água, fogo, ar), ainda que as unidades fossem em número considerável. No entender de Anaxágoras também estes 4 elementos se compõem de homeomerias, podendo consequentemente se decompor em partículas ainda menores. Uma vez que os espermas são em tão grande número e variedade, facultam as mais variadas misturas. Os compostos resultantes se denominam pelos elementos que prevalecem. Os que se encontram em pequena dosagem, mal se manifestam.

A assimilação dos alimentos consiste na absorção daqueles espermas que são do interesse do ser vivo, deixados aqueles espermas que são de outra variedade. Assim resulta que verdadeiramente não há nascimento e nem morte, mas recomposição e decomposição de elementos em si mesmos imutáveis. Em vista do grande número dos espermas e sua pequenez, tudo se dá como um aparente nascer e morrer. Ainda que a sensação deixe de perceber partículas tão subtis, o cálculo da razão as descobre. Eis um modo eminentemente moderno de ver a universal transformação das coisas sem morte efetiva e sem nascimentos reais.

Há também alguma analogia entre as razões seminais (rationes seminales), de que fala Santo Agostinho, ao propor que poderia ter havido uma criação simultâneo de todas as variações que depois ocorreriam na natureza. O movimento é causado fundamentalmente por uma homeomeria peculiar, denominada Nous (= inteligência), - conforme já se adiantou. Somente o Nous é móvel a partir de si mesmo e capaz de mover os demais elementos, os quais possuem apenas o movimento por transmissão.
Platão tem da alma a mesma noção, - aquilo que possui por si a capacidade de mover-se e de mover o corpo.

Imaginou-se Anaxágoras uma cosmogonia em que inicialmente tudo estivesse indiferenciado, com mistura homogênea dos elementos. Em seguida, o Nous coloca o todo em movimento, o qual assume o caráter circulatório, de onde finalmente resulta o universo atualmente existente, ao qual ele move com inteligência. Não insistiu Anaxágoras, como fez Empédocles, na existência de duas forças contrárias (ódio e amor), mas com um só poder natural, tudo é acionado pelo Nous; além disto, as partículas ínfimas são concebidas mais especulativamente, como elementos mínimos, em plano infra-miscroscópico, e não em nível visual, como a água e a terra, o fogo e o ar. Encontra-se, por conseguinte, Anaxágoras, muito próximo dos atomistas (Leucipo e Demócrito). Pode-se mesmo comparar seu sistema com a monadologia de Leibniz.

Alguns detalhes da doutrina de Anaxágoras não chegaram até nós com clareza. A falta destes detalhes não viciam contudo o conhecimento das linhas gerais do sistema das homeomerias. A divisibilidade das homeomerias é infinitesimal, de sorte que a divisão sempre mantém em cada coisa algo de todas as referidas homeomerias. Nesta condições elas explicam todas as diferenciações qualitativas. Há tantas homeomerias qualitativamente distintas quantas qualidades efetivamente houver no mundo. Praticamente, há infinitas modalidades de coisas.

Anaxágoras chega a esta conclusão em vista do parecer eleático de que nada se cria e nada se destrói. A divisibilidade infinitesimal proposta por Anaxágoras, como explicativa das diferenciações qualitativas da natureza, está exposta em textos que vêm principalmente de Simplício.
    
    "Juntas estavam todas as coisas, infinitas pela multidão e pela pequenez; porquanto também a pequenez era infinita (ápeiron). Enquanto estavam juntas, nada era claramente reconhecível, em virtude da pequenez (dos elementos).   E o ar e o éter dominam o todo, sendo ambos infinitos, pois eles são os maiores (elementos), em quantidade e grandeza" [Frag. 1 D] (Simplício, Física, 155, 23).
    
    Os infinitos de Anaxágoras são de variada ordem. O infinitamente grande se diz da totalidade do universo. O infinitamente pequeno, dos infinitésimos indiscerníveis, ou elementos. O infinitamente multíplice, do grande número de elementos, de que as coisa complexas de compõem.
    
    Não obstante o aspecto contraditório da frase que diz haverem se diferenciado o ar e o éter por dominarem o todo [Frag. 1], aparece sempre claro o pensamento de Anaxágoras sobre a indiferenciação inicial da mistura dos elementos. A mencionada diferenciação se reencontra noutros textos voltando a criar alguma dificuldade:

    "O ar e o éter distinguem-se na imensidão envolvente, e o envolvente é infinito em quantidade" [Frag. 2 D] (Simplício, Física, 155, 30).

Depois de narrar a formação do mundo, retoma Anaxágoras o pensamento inicial:

"Mas antes que estas coisas se separassem do todo, não era discernível nenhuma cor, nenhuma sequer. Opunha-se a isto, a mistura de todas as coisas do úmido e do seco, do quente e do frio, do claro e do escuro, da muita terra contida e da infinita multidão de espermas, nada semelhante entre si. Encontrando-se assim todas as coisas, importa ensinar que todas as coisas se encontram no todo [Frag. 4 D, no final]" (Simplício, Física, 34, 28).

A invariabilidade qualitativa do todo permanece, apesar da variação das misturas.

"Definidas assim estas coisa, compreendemos que elas em conjunto não perfazem maior, nem menor quantidade; não ultrapassam o todo; são sempre iguais ao todo [Frag. 5 D]" (Simplício, Física, 156, 9).

Mantém-se uma mistura permanente, por mais que alguns elementos saiam de um conjunto para outro. A divisibilidade infinitesimal não permite isolar a totalidade dos elementos diversos. Por isso "cada coisa misturada com cada coisa" permite haver este fenômeno de cada coisa possa gerar-se cada coisa", - como Aristóteles informa ser o pensamento de Anaxágoras (Física, I, 4, 187).

Sobre a permanência da mistura disse Anaxágoras:

"São iguais em número as partes do grande e do pequeno; assim, tudo está em todas as coisas. Não há partículas isoladas, mas todas as coisas têm parte de cada uma. E não sendo possível que possa haver uma que seja a menor, não é possível que se isole e seja por si. Como era no princípio, assim agora, tudo está junto. Em todas as coisas estão muitas. Ocorrendo a multiplicidade tanto nas coisas menores, como nas maiores" [Frag. 6 D] (Simplício, Física, 164, 25).

A presença dos contrários, no mesmo conjunto, é possibilitada precisamente pela omnipresença de tudo. É como diz o frag. 4, anteriormente citado: "...com germes de todas as coisas, com todas as modalidades de formas, cores, sabores...". sobra, desta maneira algo da doutrina dos contrários, existente na concepção do caos mítico, bem como ainda de Pitágoras e Heráclito, Anaxágoras e Empédocles.

Suposto que nada se cria e nada se destrói, mas tudo se transforma, explicam-se todas as coisas pela composição e decomposição dos elementos primordiais. Com referência ao nascer e ao morrer não possuem os gregos uma correta opinião. Nenhuma coisa nasce ou perece. Assim, com mais exatidão de denomina ao nascer, reunir-se; ao morrer, separar-se" [Frag. 17 D] (Simplício, Física, 18).

Diante da hipótese, do nascimento e morte por simples reunião e separação, Anaxágoras se aventura a admitir a possibilidade de outros mundos com as respectivas vidas humanas:

"... formam-se homens e outros seres vivos dotados de alma. Possuem cidades e campos cultivados, como nós. Têm um sol e uma lua e outros (astros) como também nós. A terra (deles) produz muitas coisas, das que levam as melhores para casa e delas fazem uso. A separação, que exponho, se dá não só entre nós, mas ainda em outros lugares [Frag. 4 D, ao meio]" (Simplício, Física, 34, 28).

Ainda sobre a divisibilidade infinitesimal das homeomerias se ocupam outros autores, complementando as informações de Simplício.

Anotou Aristóteles:

"Anaxágoras de Clazomene, que, embora mais velho do que Empédocles, lhe foi posterior na atividade filosófica, diz que os princípios são em número infinito; pois, no seu modo de pensar, quase todas as coisas que são compostas de partes semelhantes a elas próprias, como a água ou o fogo, são geradas e destruídas dessa maneira - isto é, apenas por agregação e dissociação - não o sendo em qualquer outro sentido e persistindo eternamente" (Metaf., 984 a 13-17).

Aécio:

"Anaxágoras, filho de Hegesíbulo, de Clazomene, dizia que as homeomerias são o princípio de todas as coisas. Parecia-lhe inexplicável, que alguma coisa pudesse vir do não-ser ou findas em não-ser. Pois nos nutrimos com alimentos de aparência simples uniforme, como o pão e a água. Destes alimentos nutrem-se cabelos, veias, artérias, carne, nervos, ossos e todas as outras partes. Forçoso nos é reconhecer que, no alimento que tomamos, existem todas as coisas, e que se podem desenvolver.

Naquele alimento estão contidas partes geradoras de sangue, nervos, ossos e demais partes que só são reconhecíveis pela razão.
Pois não se deve reduzir tudo aos sentidos que nos mostram o pão e a água, mas reconhecer pela razão que são compostos de partes. Por serem, para as coisas formadas, semelhantes estas partes contidas nos alimentos, chama-as de homeomerias, afirmando-as como princípio das coisas: as homeomerias, como matéria, e a inteligência, que ordenou o universo, como causa eficiente.

Começa assim: "Todas as coisas estavam juntas; a inteligência as separou e ordenou (...).  É mister aprová-lo, por ter acrescentado à matéria o artesão" (Aécio I, 3).
    
"Segundo Anaxágoras e Demócrito, as misturas se fazem por justaposição dos elementos" (Aécio I, 17, 2).

Diógenes Laércio, que foi relativamente longo na biografia, mas muito breve nas informações doutrinárias, contudo informa:

"Ele dizia que os princípios das coisas são pequenas partículas homogêneas; o ouro é composto de pequenas partículas de pó de ouro, e assim todo o universo é composto de partículas mínimas" (D. L., II, 8).

Destas diferenciações se formou a terra. Da nuvens separou-se a água. Da água, a terra. Da terra, as pedras, pelo efeito do frio.

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Astronomia - Prosseguindo, ensaiou Anaxágoras algumas teorias, sobre fenômenos naturais, em que se mostrou perspicaz.   Advertiu Anaxágoras para a força centrífuga, como uma das causas que mantinha fora do centro (a terra) os astros, como o sol, a lua e as estrelas. E, desde que diminuísse esta força centrífuga, os corpos celestes haveriam de cair sobre a Terra. Neste sentido apontou para o meteorito de Egos Pótamos (Trácia), dizendo que ele caiu por perda de força centrífuga. Ponderou que o mesmo deveria acontecer, se os demais astros perdessem sua velocidade. Ainda que não esteja ali toda a teoria de Newton de duas componentes de forças, apresenta alguma analogia e admirável intuição de Anaxágoras.

Menos precisos foram estes outros conceitos:

"Os cometas são uma aglomeração de estrelas errantes que atiram chamas. As estrelas fugazes são como chispas desprendidas do ar" (D. L., II, 9).

Ainda menos bem:

"A via Láctea é resultado da reflexão da luz solar, quando não se interpõe nenhum astro que eclipse a claridade" (D. L. II, 9).

Teve Anaxágoras oportunidade de argumentar suas explicações científicas a partir do meteorito de Egos Pótamos (Trácia), como já se adiantou, dizendo que ele caiu por perda de sua força centrífuga, o mesmo dizendo acontecer com os demais astros se perdessem a sua velocidade.

O meteorito também se prestou para induzir que os astros são de materiais semelhantes aos da Terra. Mas estas explicações científicas custaram ao filósofo a perseguição dos religiosos fundados no mito. Pelo contrário, deveriam os religiosos ter aproveitado a oportunidade para reformular as idéias sobre que apoiar a religião.

"Diz-se que havia predito a queda de uma pedra sobre Egos Pótamos, e caíra do sol; que por este motivo seu discípulo Eurípides diz em Faeton que o sol é uma massa de ouro" (D. L., II, 10).

Conta Sileno, no livro primeiro de História, que uma pedra caiu do céu durante o arcontado de Dimilo e que a este propósito ele disse, seguindo a Anaxágoras, que todo o céu está formado de pedra, que esta massa se mantém pela rapidez do movimento e que se cessasse este movimento, se despencaria imediatamente.

Foi acusado de impiedade por haver dito que o sol era uma pedra incandescente e condenado a multa de cinco talentos

Com referência à Terra mesma, a conceituação de Anaxágoras não aproveitou os novos adiantamentos resultantes da hipótese parmenídea da esfericidade do globo terrestre, que também se difundira entre os pitagóricos. Anaxágoras se manteve na tradição milesiana de Tales e Anaxímenes, da terra plana. Ente os milésios apenas Anaximandro se aproximara do conceito de uma terra central e equidistante de todos os lados do mundo, mas sem maiores desenvolvimentos teóricos. O assunto, que não preocupou muito a Anaxágoras, ficou, por isso mesmo, sem notícias claras.

Aristóteles disse que Anaxímenes, Anaxágoras e Demócrito pretendem que é por ser a Terra chata, que ela se sustém. Assim ela não pode soltar o ar que tem sob si, porquanto se apóia sobre ele como uma tampa, o que fazem manifestamente os corpos chatos, pois que mesmo os ventos não os podem mover senão dificilmente, em razão da resistência que oferecem.

A mesma imobilidade é em consequência produzida, segundo eles, pelo fato que a Terra apresenta uma face chata ao ar situado debaixo dela; o ar, na falta de dispor de um lugar suficiente para onde ir, fica ;em repouso sob a terra, comprimindo-se em uma só massa, como se observa com a água contida por uma clepsidra. Provam que o ar quando está isolado e em repouso é capaz de suportar um peso considerável" (Do céu II, 13; p. 294 b15-20).
    
Com referência à clepsidra, à semelhança de um vaso emborcado, esclareciam um escolástico latino:

"Si enim sit clepsidra, in qua sit parvum foramen, et conetur quis illud introducere aquam, si aer sit pressus ita ut non possit magis premi, aqua non potest introduci, sed sustinetur et impeditur ab aere, ne descendat in clepsidram" (Sylvester Maurus, 345).
    Também Simplício, Física 524, 17; Empédocles [Frag. 100].

Quando Aristóteles comparou Anaxágoras com Anaxímenes, parece não haver dúvida que pretendeu, que a terra de Anaxágoras fosse chata e não um cilindro chato. Apesar de Simplício haver falado em tympanoeidés (= forma de tambor), ainda convém atender apenas ao aspecto chato de uma das faces deste instrumento, porquanto o mesmo Simplício cita a Anaxágoras ao lado de Anaxímenes; ora este último concebia a Terra como chata.

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Principais Fragmentos

I Prefiro uma gota de sabedoria a toneladas de riqueza."

II De todos aqueles que consideramos felizes, não há um que o seja."

III Mede-se a grandeza de uma idéia pela resistência que ela provoca."

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