Filosofia Clássica - Período Pré-socrático

Períodos da Filosofia Clássica

Pre-Socrático Socrático Pós Socratico / Helenismo

Período Pré-Socrático

Escola Jônica Escola Itálica Escola Eleática Escola Atomista

 

 

 

 

 

Anaximandro foi discípulo de Tales, segundo filosofo da escola jônica, natural de Mileto. Foi geógrafo, matemático, astrônomo e político.   Escreveu um livro, Sobre a natureza, que se perdeu. Autor do primeiro mapa da história e iniciador da astronomia. Afirmou que a origem de todas as coisas seria o Ápeiron, o infinito. O mundo se dissolveria nele  também. É apenas um mundo dentre muitos. Ao contrário de Tales não deu à  gênese um caráter material. O apeíron é eterno e indivisível, infinito e indestrutível. O princípio é o fundamento da geração de todas as coisas, a ordem do mundo evoluiu do caos em virtude deste princípio.

Supôs a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. Anaximandro imaginava a terra como um disco suspenso no ar. Diz-se também, que preveniu o povo de Esparta de um terremoto.

Vida

Previsão de Um Terremoto

Gnonom ou Relógio de sol - IlustraçãoVida - Filho de Praxíades e discípulo de  Tales, 14 ou 24 anos mais jovem que o mestre, mas ambos morreram mais ou menos no mesmo ano. Nasceu na Cidade de Mileto em 610 a.e.c.. Segundo Diógenes Laércio, Anaximandro tinha 64 anos por ocasião da 58ª olimpíada (547 a.e.c.) e logo depois morreu, é possível fixar, que efetivamente faleceu cerca de 545 a.e.c. Esta informação coincide com a de Hipólito sobre o nascimento no terceiro ano da 42ª olimpíada (610 a.e.c.).

Diodoro de Éfeso, ao escrever a respeito de Anaximandro, diz que [Empédocles] o imitava no gesto e no uso de vestes solenes" 1. Como se sabe, Empédocles de Agrigento, da escola jônica nova, fora um filósofo festejado ao mesmo tempo como atleta olímpico. Sendo-lhe uma geração posterior, a comparação deve ser apenas de fundo histórico, por conta de quem a fez. Além disto, Anaximandro foi político, professor, administrador e construtor de relógios solares, há que diga que ele foi o inventor dos Gnômons (Relógios Solares), mas é uma teoria bastante discutível uma vez que os gregos adotaram essa tecnologia além das dozes horas do dia dos babilônicos. Mas de qualquer forma, foi Anaximandro quem introduziu os Gnômons na Grécia.

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Previsão de um Terromoto- Fez a previsão de um terremoto. Anaximandro foi até Lacedemonia e aconselhou o exército espartano a Mapa de Anaximandro - Ilustraçãoabandonar a cidade, segundo testemunho de Cicero 2   a cidade inteira foi destruída. A previsão do terremoto de Anaximandro deve ter acontecido pela experiência a respeito uma vez que Mileto estava dentro de uma zona sísmica.

Diógenes Laércio afirma que Anaximandro foi o primeiro a definir um perímetro da terra e do  mar. Além de construir um mapa da terra habitada, que foi aperfeiçoada posteriormente por Hecateo de Mileto. Seu mapa-múndi foi um desenho circular, em que as regiões conhecidas (Ásia e Europa) formavam segmentos aproximadamente iguais e todo ele rodeado pelo oceano 3. Os conhecimentos geográficos de Anaximandro se baseavam nas notícias de navegantes que seriam abundantes e variadas em Mileto, centro comercial e de colonização.

A Tradição considera Anaximandro, antes de tudo, um filósofo, sucessor e discípulo de Tales, cuja filosofia devemos interpretar como um desenvolvimento interno do racionalismo de seu mestre. Anaximandro desenvolveu, como crítica a filosofia de Tales, as idéias filosóficas seguintes:

a) O ápeiron. Segundo as fontes procedentes de Teofrasto, Anaximandro havia afirmado que o principio de todas as coisas existentes não é nenhum de os denominados elementos (água, ar, terra, fogo), se não alguma outra natureza ápeiron [indefinido o infinito]; 4
b) O cosmos. Do centro do ápeiron eterno se agrega espécies de elementos, sem determinações, principalmente sem qualidades contrárias 5,. Este cosmos é dinâmico e temporal que tem sua origem e seu fim no ápeiron.
c) A diversidade de mundos. Todas as fontes procedentes de Teofrasto (Simplicio, Hipólito e Ps. Plutarco) atribuem a Anaximandro idéia de mundos infinitos (simultâneos e sucessivos).

Em Anaximandro encontramos um problema semelhante ao de Tales de Mileto, pois em ambos pensadores as atividades científicas e filosóficas recaem na mesma pessoa subjetiva. Anaximandro poderia ser interpretado do ponto de vista científico como uma espécie de cosmólogo, do mesmo modo que Tales poderia ser interpretado como um fisiólogo ou biólogo. Mas a cosmologia de Anaximandro, é igual a physis de Tales e está coberta por idéias filosóficas. As idéias de Anaximandro (o ápeiron, o cosmos, a dinâmica e temporalidade do mundo) só adquirem uma escala adequada ao compará-las como um desenvolvimento interno dos problemas presentes no racionalismo de Tales, de tal modo que se poderia afirmar que muitos de suas idéias científicas estão cumprindo funções ontológicas 6, só podem ser entendidas por meio de suas idéias filosóficas.

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Obras

Suídas atribui a Anaximandro a autoria de quatro livros: Sobre a natureza, Perímetro da terra, Sobre as estrelas filhas e uma Esfera celeste. A denominação Sobre a natureza era o título clássico que tendia a conferir-se os escritos de todos aqueles que Aristóteles denominou fusikoí,. Possivelmente o livro de Anaximandro não tinha título e os títulos de Suídas seriam simplesmente capítulos de um livro fundamental. O que se parece certo, a partir dos fragmentos subsistentes e dos testemunhos, que Anaximandro foi o primeiro de que se tem noticia que escreveu um livro em prosa. A importância do escrito em prosa reside em que Anaximandro, como filósofo que continua a tradição de Tales, inaugura um gênero literário novo, distinto do verso utilizado pela tradição dos poetas e educadores.

Sobre a Natureza Perímetro da Terra Sobre as Estrelas Filhas Uma Esfera Celeste

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Doutrinas

O Ápeiron | O Cosmos | A Multiplicidade dos Mundos

O Ápeiron - Segundo  fontes de Teofrasto 7  e os textos de Aécio e D. Laércio, o Ápeiron é o  conteúdo da arché (origem de toda a matéria). A idéia de ápeiron é crítica-negativa, que não pode ser definida positivamente. Esta negação está contida em seu significado etimológico 8. O termo ápeiron está composto da partícula privativa a e o término péra (límite, borda). Etimologicamente ápeiron significa sem limites.

A idéia de ápeiron pode adquirir diferentes sentidos negativos segundo os diferentes parâmetros que fizermos para o limitado. Assim, se tomamos como parâmetros o limitado dos objetos concretos do mundo das formas (exemplo, uma lâmina metálica, uma cinta), ápeiron será o que não tem bordas ou extremos, porque se uniu a um anel. Aristóteles e Aristófanes apontaram a associação do ápeiron com algo circular ou esférico, circulo pode ser tomado, por sua vez, como referencia do limitado (exemplo: cosmos esférico limitado por uma superfície imersa em um espaço vazio), e, então o ápeiron seria uma esfera de raio infinito, sem limites. o ápeiron seria, pois, o circulo, o infinito em extensão espacial.

Se tomarmos como modelo de limitado a água de Tales em quanto determinação do arché, então o ápeiron de Anaximandro será a negação que, em seu uso filosófico, se exerce sobre a metafísica de Tales. A água de Tales sim é algo determinado não pode ser arché. O ápeiron aparece assim como uma alternativa ao monismo da substância e, por onde, não pode ser nem água nem nenhum dos denominados elementos (ar, terra, fogo).

No racionalismo de Tales o arché aparece sempre determinado nas formas do mundo. A unidade destas formas é a unidade das transformações mutuas unidade por identidade. O racionalismo de Tales  unido a reductibilidade de algumas formas a outras (o mesmo que o bem e o mal, os gregos e bárbaros, os amos e os escravos, etc.). Agora o projeto de Tales começaria a perder-se quando as formas do mundo começam a mostrarem-se como irredutíveis: os opostos estão separados por fronteiras intransponíveis, ao menos de um modo direto. Contudo, Anaximandro conservaria o grupo de transformações de Tales, mas não de um modo direto, porém imediato.

A transformação de coisas em outras está mediada pelo  ápeiron. O ápeiron nos apresenta assim como a fonte inesgotável de energia que garante a transformação da unidade do cosmos. São duas as características do ápeiron de Anaximandro: Infinito e Indeterminado. Em quanto infinito o ápeiron é fonte de energia e movimento para que no mundo não cesse a geração e declínio; 9. Mas, além disso, o  ápeiron não é nenhum dos denominados elementos (água, ar, fogo, terra),  porém algo indeterminado. Esta indeterminação é relativa ao mundo gerado em seu ventre como um embrião na placenta. Anaxímenes, o discípulo de Anaximandro, conservará de seu mestre a concepção do arché, mas já não será indeterminado como em Anaximandro e sim algo determinado: o ar.

É de suma importância determinar as razões que levaram Anaximandro a opor-se ao projeto racionalista de Tales, em termos de discussão interna, própria da Escola. Quais são as razões que levaram Anaximandro a estabelecer a tese de que o arché infinito não pode ser algo determinado, não pode ser nenhum dos denominados elementos? Segundo Gomperz 10 , o grupo de transformações não pode servir para explicar a transformação de algumas coisas em outras. Assim, por exemplo, o ar para converter-se em fogo por rarefação (aumento de volume), necessita esquentar-se; As nuvens ao condensar-se se convertem em água, mas para elas necessitam esfriar-se, etc.

Mas o argumento decisivo é que a condensação e rarefação implicam na limitação do mundo. E se o mundo é finito então nenhuma de suas partes, nenhuma determinação, pode ser elevada a categoria de arché infinito. Mas porque a condensação e rarefação implicam no limite do mundo? Se partirmos da hipótese de que o mundo é infinito, e dizer, que o mundo é composto de infinitas partes [A, B, C, ........], então cabem duas possibilidades:

  1. Cada parte é algo determinado e finito; mas neste caso a parte se desintegraria na infinidade de transformações;
  2. A parte ou determinação é algo infinito, mas então nunca se transformaria em outra parte, pois por mais que condensemos o fogo, sempre obteremos fogo, etc.

Por reductio ad impossibilem se estabelece a tese de que o mundo das formas é um mundo finito. Logo se é possível a transformação em mundo das formas, Tanto que elas se absorvem em um ápeiron indeterminado. A crítica direta a Tales leva a estabelecer como primeiro principio o arché algo indeterminado.
A interpretação do arché como infinito e indeterminado, do ápeiron como aquele em que todas as formas do mundo, e em particular os opostos, se reabsorvem, como fonte inesgotável de energia que garante a transformação e unidade do cosmos, indica o caminho feito pela ontologia geral.

E, sem embargo, também é possível a interpretação do ápeiron nos limites da ontologia especial. As fontes de Simplicio, Ps. Plutarco, Hipólito, Aécio, etc. nos informam que o ápeiron não é nenhum dos denominados elementos, mas ao mesmo tempo nos dizem que o ápeiron é o principio de todas as cosas existentes. Neste caso o ápeiron não é nenhum elemento determinado mas indeterminado, em que as determinações se apagam e desaparecem. Alguns textos de Aristóteles 11nos apresentam o ápeiron como uma substancia intermediária, entre todos os elementos, Uma mescla indiferenciada de todas as matérias empíricas.

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O Cosmos - A segunda idéia de Anaximandro, que chega aos nossos dias é a idéia de cosmos. o termo kósmo se traduz geralmente por “mundo” e por ”natureza” (no contexto de “mundo natural”). Na evolução semântica do termo kósmo pode-se distinguir os seguintes estados:

a) Seu significado etimológico é “ordem ou disposição” de certa coisa (por exemplo, uma tropa de cavalos) e no de “ornamento” (por exemplo, o ornamento feminino, de onde provém cosmética). Segundo Heidegger, este segundo significado deve interpretar-se como beleza, noção ligada transcendentalmente a idéia de ser.
b) Ordem do mundo;
c) O Mundo como uma ordem;
d) O Mundo em geral sem especial referencia à estrutura ordenada 12.

Anaximandro havia efetuado o passo de (a) a (b) ou (c). Este passo só é possível através da experiência ou representação de uma ordem concreta no primeiro sentido de (a). Mas o que é ordenação concreta? Este se refere ao problema dos modelos (sociais, políticos, militares, ou tecnológicos) da idéia de cosmos. Para Paul Vernant, o cosmos de Anaximandro seria o emblema da nova polis democrática em que o príncipe o monarca havia sido substituído pelo equilíbrio de forças democráticas que se contrapesam em torno a um centro: o ágora.

Mas, além dos modelos sócio-políticos de este tipo, existem também os modelos tecnológicos que parecem gozar de una maior potencia explicativa. Esta interpretação foi sugerida por Gomperz. A experiência tecnológica da roda seria a corrente de transmissão para construção da idéia de cosmos. Assim, por exemplo, Anaximandro assina trajetórias circulares aos astros, enquanto corpos isolados, mas enquanto fragmentos de rodas de fogo envoltas em uma espécie de câmara de ar. A roda nos apresenta assim como esquema inteligível de continuidade ou conservação dos astros. Em todo caso o ágora pode ser considerado como um reforço do conceito de roda.

Na geração deste cosmos, o gérmen do quente e frio foi segregado 13 do eterno 14. A geração do cosmos a partir do ápeiron se produz não por alteração do elemento, mas ao separar os opostos: quente/frio, seco/úmido 15. O essencial do ápeiron de Anaximandro não é que se determine nos elementos e sim em uma ordem de elementos, formando um cosmos, mas um cosmos enantiológico, um sistema de oposições. O cosmos de Anaximandro é a unidade metafísica do mundo das formas, mas esta unidade se realiza de um modo diferente como ocorria no mundo de Tales. O monismo da substancia de Tales  unidade do mundo é a unidade própria das formas que desaparecem umas em outras. Em troca, o monismo da ordem de Anaximandro, a unidade do cosmos é a unidade das formas que aparecem: não de outras, mas do ápeiron. O cosmos é, pois, a unidade que as formas devem manter para subsistir como tais formas. Esta unidade é já um conceito M3, que no se absorve em nenhum corpo (M1), nem em nenhuma mente (M2).

O cosmos enantiológico forma um sistema de relações, uma estrutura, que se realiza em todos os campos, sobre todo o elo astronômico. Neste sentido Anaximandro, antecipando-se aos pitagóricos, é o primeiro em iniciar a análise matemática da natureza, estabelecendo relações numéricas entre os corpos celestes e o raio da Terra tomado como unidade:

  • Relaciones do raio da Terra com sua altura (a altura é igual a um terço do diâmetro);
  • Relações da distancia entre anéis com o raio terrestre (o anel das estrelas e dos planetas em 9 raios, da lua 18 raios, e o anel do sol em 27 raios).

O cosmos de Anaximandro é um sistema de relação temporal, pois a partir de onde há geração para as coisas, há ali também a produção da destruição, segundo a necessidade de acordo com a disposição do tempo 16. A dinâmica do cosmos se desenvolve conforme duas fases: a primeira é a formação do cosmos a partir do ápeiron, a segunda fase é a do retorno de todas as coisas ao ápeiron. O cosmos é um sistema de relação temporal, pois seus términos não procedem de si mesmos (da transformação de uns em outros), e sim do ápeiron. Anaximandro explica a formação do cosmos a partir do ápeiron em duas etapas: Na primeira etapa se explica a formação da Terra. Na segunda serão a da formação das Esferas os anéis.

Do ventre do ápeiron eterno se segrega um gerador do calor e do frio. Frio e calor são o primeiro par de opostos. O calor dá lugar ao fogo a massa ígnea17 que rodeia totalmente o frio como  casca e fruta. Esta esfera ígnea tem um movimento circular. O frio por sua  vez se determina em outro par de opostos: o sólido e o úmido. O sólido dá lugar a Terra. O úmido se determina em líquido (água) e gasoso (ar). Os quatro elementos (fogo, terra, água e ar) que formam nosso cosmos foram gerados — segundo a disposição do tempo — a partir das qualidade opostas.

Formação da Terra. o movimento circular da esfera ígnea dá lugar a um redemoinho que origina a Terra a partir do frio. A terra tem forma cilíndrica, como uma coluna de pedra 18, e o homem habita uma de suas superfícies planas. A altura da Terra é um terço de seu diâmetro19. No princípio, a Terra está rodeada de água (de umidade) por todas as partes, mas o calor do fogo transforma parte da água em ar, e o resto se converte em mar, caindo livre parte da terra que, sem embargo, propende a secar-se completamente: o mar é um resíduo da umidade primitiva. Depois uma parte da umidade se evaporou por causa do sol e se converteu em ventos; enquanto a parte que cai nos lugares ocos da terra, é mar. Que por ser secado pelo sol, diminui e acaba secando 20. A Terra está no centro do universo, suspendida livremente, sem estar sustentada por nada, movimentando-se em um espaço infinito, este movimento acaba neutralizado, pois, por estar no centro, as forças de atração que atuam desde os distintos lugares da abóbada 21 se compensam entre si. Assim, pois, a Terra tem que permanecer em seu lugar. Anaximandro parte da idéia de movimento e deduz dela o repouso da Terra.

Formação das esferas. A cobertura ígnea rodeia e tudo mais se desgarra para formar anéis separados. Este rompimento se produz por causa do movimento da própria esfera ígnea ou, também, porque a massa gasosa ao aquecer penetra na esfera ígnea. Estes anéis estão envoltos por uma massa atmosférica opaca e obscura; mas apresentam orifícios ou aberturas a través dos quais brilha o fogo que aprisionam. O que nós denominamos corpos celestes não são outra coisa que o fogo que nós percebemos a través destes orifícios. A obstrução destes orifícios produziria segundo Anaximandro, os eclipses e as fases da lua 22. Existem três classes de anéis: o do sol, o da lua, e  dos planetas e estrelas fixas. O sol é o maior (distante da Terra 27 raios), depois o da lua (18 raios) seguidos das estrelas fixas e dos planetas (9 raios) 23.

Origem dos animais e do homem. Anaximandro enuncia uma tese evolucionista, mediante generatio aequivoca, sobre a origem dos animais. Os primeiros animais surgem da lama que se vai secando mediante o calor do sol e estavam recobertos de uma pele ouriçada e espinhosa para proteger-se do mundo circundante 24. Com ele enuncia uma tese lamarquista-darwinista da defesa das espécies frente a seu meio ambiente e da troca da forma das espécies em virtude das mudanças produzidas nesse meio. As mudanças das condições de vida (a mudança fazia o elemento seco) ocasionam o desaparecimento da casca que rodeava estes seres.

Por outra parte, os homens e mulheres primitivos nasceram já adultos. Na lama esquentada pelo sol se originaram uns poucos peixes ou animais semelhantes aos peixes em cujo interior se haviam desenvolvido os homens que permaneceram ali até o amadurecimento 25. Anaximandro fundamenta esta tese no seguinte: se o homem houvesse chegado ao mundo na forma que chega atualmente, não haveria sobrevivido 26. A argumentação de Anaximandro deveria ser a seguinte: 1) Todos os seres podem valer-se por si mesmos ao nascerem, exceto o homem que necessita, ao crescimento, de um grande período de cuidados maternos. 2) Os primeiros homens necessitariam de uma proteção especial (biológica) que substituiria os cuidados maternos atuais. 3) Se houvessem tido essa proteção, a espécie humana não teria resistido. 4) mas a espécie humana resistiu. 5) Logo os homens primitivos não chegaram ao mundo na forma que chegam atualmente.

A dinâmica do cosmos em sua segunda fase consiste no retorno de todas as coisas ao ápeiron. O próprio sistema conduz a sua destruição e absorção no ápeiron.

Os anéis de fogo, e do sol particularmente, enquanto gira vão determinando uma evaporação da água terrestre, que terminará por secar a terra (sufocando a vida que há nela) e assim acabará com o próprio ar que envolve os anéis. Produzir-se-ia assim uma espécie de morte térmica do universo. Em termos mais modernos, se poderia dizer que o cosmos de Anaximandro leva em seu ventre a morte entrópica, seu desaparecimento pela conversão de todo o calor, em fogo.

O cosmos de Anaximandro é um equilíbrio — uma ordem, uma entropia 27 mínima—, mas um equilíbrio instável, porque não há perfeita e constante retribuição (segundo o critério do racionalismo de grupo) de uns términos a outros. Por ele diz Anaximandro que o mundo é injusto e por ele (segundo o texto de Simplicio) as coisas voltam de novo ao ápeiron segundo a ordem do tempo.

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A Multiplicidade dos Mundos - A dinâmica do cosmos de Anaximandro nos mostra que este tem um começo e um fim. O ápeiron apresenta dialeticamente no principio e no fim do cosmos. Mas o principio é diferente da idéia do Nada e de criação, e no fim significa aniquilação. Por ele o ápeiron nos apresenta como a conjunção de duas impossibilidades:

  1. A impossibilidade de um cosmos eterno;
  2. A impossibilidade da criação e aniquilação.

Se o cosmos não é eterno e a aniquilação desse cosmos não é possível, então o fim do cosmos tem que dar origem a novos mundos. Anaximandro concebe o ápeiron fora do tempo, mas integramente orientado no cosmos. O cosmos em que estamos começa e acaba, e o ápeiron dá lugar a novos mundos que começam e acabam. Mas a multiplicidade dos mundos pode ser entendida como simultânea ou como sucessiva. Defendem a pluralidade simultânea Santo Agostinho, Burnet, W. Capelle, e outros, sobre tudo Kirk e Raven ao manifestar que, em caso de atribuir a multiplicidade de mundos a Anaximandro, observação de nosso mundo sugere mais a pluralidade simultânea (a multiplicidade dos astros) que a sucessiva. Defendem a multiplicidade sucessiva de mundos Zeller e Cornford (Principium Sapientiae) quem demonstraram a falácia 28 de muitos dos argumentos de Burnet e conseguiram que a interpretação de Zeller desfrutasse do favor geral.

O principal problema que questiona a pluralidade dos mundos é sua compatibilidade com o monismo, e Santo Agustinho não deixou de contrapor o pluralismo de Anaximandro e o monismo de Tales, pois acreditava (Anaximandro) que o princípio das coisas singulares era infinito e dava origem a mundos inumeráveis 29. Efetivamente, se o ápeiron dá origem a infinitos mundos coexistentes no tempo (simultâneos), então não é possível incluir Anaximandro no monismo milesiano. A unidade do ápeiron implica na unidade do cosmos, mas esta unidade chocar-se-ia com a multiplicidade simultânea de mundos singulares. Para tanto a pluralidade de mundos coexistentes romperia a unidade do ápeiron em quanto esta se funda por referencia al cosmos.
Sem embargo a multiplicidade sucessiva de mundos se parece compatível com o monismo, pois a unidade do ápeiron se mantém por referência a singularidade de cada mundo. A sucessão infinita de mundos pode ser entendida de duas maneiras:

  1. Como continuidade cósmica. A sucessão entre dois mundos é uma continuidade cósmica. Mas se a sucessão entre dois mundos se mantém no plano cósmico então existe uma continuidade de cosmos. Isso conduz à tese de que, em realidade, não existe propriamente uma pluralidade nem sucessiva nem simultânea de mundos (idéia de continuo que havíamos atribuído a Tales de Mileto).
  2. Como hiatos acósmicos (metakósmia). Entre mundo e mundo existiriam hiatos extracósmicos (ápeiron). A idéia de inter-mundia (metakósmia) é uma idéia limite de cosmos, que não podemos conhecer em si e por isso nos apresenta como indeterminado.

Mas a Idéia de metacosmia tampouco é incompatível com a de simultaneidade, no caso de que a multiplicidade de mundos isolados constitui um cosmos que tem como limite a idéia de metacosmos.

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Principais Fragmentos

I “... Nosso mundo é um dos muitos mundos que surgem de alguma coisa e se dissolvem no infinito...”.
II “...O que vem antes e depois do finito, tende a ser infinito...”.
III “... As estrelas são porções comprimidas de ar, com a forma de rodas cheias de fogo, e emitem chamas a partir de pequenas aberturas ...'' .
IV ”... O Sol é um círculo vinte e oito vezes maior que a Terra; é como uma roda de carruagem, cujo aro é côncavo e cheio de fogo, que brilha em certos pontos de abertura como os bicos dos foles ...''.
V “... O ilimitado é eterno...”
VI “... O ilimitado é imortal e indissolúvel...”

Referências

1 D. L., VIII, 70
2 De divinatione, I, 50, 112
3 Herodoto, IV, 36
4 Simplicio, Fís. 24, 13-25
5 Ps. Plutarco, Strom. 2
6 Parte da filosofia que trata do ser enquanto ser, i. e., do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres.
7 Simplicio, Fís. 24, 13-25; Hipólito, Ref. I, 6, 2; y Ps. Plutarco, Strom. 2
8 Estudo das palavras, de sua história, e das possíveis mudanças de seu significado.
9 Simplicio, Fís. 24, 18-19
10 Pensadores gregos
11 Física, 187a; De ge. et corr. 328b, e 332a
12 Guthrie
13 Afastar-se, isolar-se
14 Ps. Plutarco, Strom., 2
15 Simplicio, Fís. 24, 23-25, y 150, 20-25
16 Simplicio, Fís. 24, 18-20
17 Que é do fogo; Da natureza e/ou cor do fogo
18 Hipólito, Ref. I, 6, 3; Aecio, III, 10, 2
19 Ps. Plutarco, Strom., 2
20 Alejandro, Meteor., 67, 3
21 Qualquer formação que, exteriormente, é convexa e arredondada e, interiormente, tem aspecto côncavo e arqueado; Céu ou Firmamento.
22 Hipólito, I, 6, 4-5
23 Aecio, II, 15, 6, Hipólito, I, 6, 4-5
24 Aecio, V, 19, 4
25 Censorino, 4, 7
26 Ps. Plutarco, Strom., 2
27 Função termodinâmica de estado, associada à organização espacial e energética das partículas de um sistema, e cuja variação, numa transformação desse sistema, é medida pela integral do quociente da quantidade infinitesimal do calor trocado reversivelmente entre o sistema e o exterior pela temperatura absoluta do sistema.; Medida da quantidade de desordem dum sistema
28 Afirmação falsa ou errônea
29 Civ. Dei, VIII, 2

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