Períodos da Filosofia Clássica 
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Período Pré-Socrático
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Ainda que a filosofia pré-socrática se transformasse e resultasse no espetacular pensamento novo, - representado pelos sofistas, e ainda por Sócrates, Platão, Aristóteles e as escolas socráticas menores de Euclides de Mégara, Antístenes de Atenas, Aristipo de Cirene, - houve também dezenas de nomes que prosseguiram linearmente as filosofias anteriores das quais são portanto os remanescentes, ou epígonos. Uns, os primeiríssimos, são os epígonos jônicos.
Os epígonos destes últimos filósofos, situados já ao tempo da ilustração grega, são:
- Hípon de Samos, que se relaciona com Tales, porque estabeleceu a água como princípio primordial e é monista;
- O grupo Ideo de Himera, Cleidemo, Enópides de Quios, Diógenes de Apolônia, que se filiam a Anaxímenes, tendo o ar como princípio primordial;
- Crátilo de Atenas, que radicaliza o mobilismo de Heráclito;
- Finalmente Arquelaos de Atenas, discípulo de Anaxágoras e mestre de Sócrates.
Paralelamente ocorrem os epígonos das demais escolas pré-socráticas, que importa citar, porque em sua totalidade os epígonos interagem entre si. Os pitagóricos continuam remanescentes com:
- Hípasos de Metaponte, Ecfanto, Álcmeon de Crotona, Árquitas de Tarento.
- Também os eleatas continuam remanescentes, bem presentes na escola socrática menor, de Mégara, com Euclides.
Hipon de Samos 
Fiosofia Natural | Monismo de Hipon | O homem
Filósofo e médico grego, caracterizado como seguidor de Tales, situa-se cronologicamente no final do período pré-socrático, havendo sido contemporâneo de Péricles (+ 429 a.e.c.). Nasceu na Ilha de Samos, onde também houvera nascido Pitágoras. Igualmente como este, deslocou-se para o Ocidente. Os estudos de medicina de Hipon poderão ter acontecido junto aos pitagóricos, em Crotona, por conseguinte na então Itália grega.
Dos escritos de Hipon resta apenas um fragmento, conservado nos Escólios homéricos. Mas ocorrem ainda referências doxográficas do seu pensamento em vários autores antigos, o que significa também não haver sido um personagem de todo sem significação, ao menos em assuntos de filosofia; natural e medicina.
Filosofia Natural - Hípon de Samos propôs a água como elemento primordial na formação de todas as coisas. Nos Escólios homéricos foi apresentado como continuador dos ensinamentos do próprio Homero. Como se sabe, Homero fez o Oceano ser o pai do mar, dos rios, dos deuses (Ilíada XIV, 202) e de todas as coisas (Ilíada XIV, 246). A propósito ponderou Hípon, no fragmento contido no referido Escólio, que as águas fluviais procedem do Oceano, por ser este mais profundo que todos os rios (Schol. Homer. Genev. pag. 197 Nicole 38 B 1).
Aristóteles, na sua referência à doutrina de Tales de Mileto, que apresenta a água como elemento primordial de todas as coisas, não somente recordou a Homero, como ainda informou que Hípon fora da mesma opinião. Apôs, entretanto, que Hípon era um pensador rústico, isto é, sem profundidade (Metaf. 984 a 3; Da alma, 405b 2). Este depoimento não depõe entretanto diretamente contra a qualidade profissional de médico do mesmo Hipon.
Os comentadores de Aristóteles não deixaram também de repetir a informação. Simplício disse que Hípon como Tales, propusera a água como elemento primordial (Física 23, 22). Alexandre de Afrodísias disse, mais vagamente, que Hípon estabelecera como primordial o úmido (R L P D ` < ) (Metaf. 21,21), sem precisar se o ar úmido ou a água. Observa-se que Hípon não se deixou influenciar pelos pitagóricos em cujo ambiente se encontrava, firmando-se como continuador da filosofia natural milésia. O mesmo aconteceu com seu contemporâneo Diógenes de Apolônia, ao estabelecer o ar (de Anaxímenes) como princípio primordial.
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Monismo de Hipon - Estabelecendo a água como princípio único de todas as coisas, é claramente informado pelos que por primeiro dele falavam. Todavia informes posteriores parecem fazê-lo um dualista, apresentando-o como admitindo a matéria e o fogo. Efetivamente, é o que se lê em autores do 3º S éculo d.e.c.
Diz Sexto Empírico:
"Hípon de Régio diz que o fogo e a água são os princípios universais" (Hypotyposes pyrrhonianas III 30 e IX 361).
O cristão Hipólito de Roma:
"Hípon de Régio diz que os princípios universais são o frio, a água, e o calor, o fogo" (Refutações I, 16).
Para manter, como parece plausível, o monismo inicial dos filósofos milésios (Tales a água, Anaximandro o infinito, Anaxímenes o ar) seria necessário reinterpretar os textos de Sexto e Hipólito, fazendo do fogo uma fase seguinte do desenvolvimento da água . Em virtude de sua importância, o fogo assume posição destacada apenas.
É possível interpretar a introdução deste segundo elemento como uma influência do pensamento ulterior na mente do historiador futuro, influenciado pelo dualismo pitagórico dos opostos e pelo dualismo dos contrários de Heráclito, bem como do pluralismo das homeomerias de Anaxágoras, dos quatro elementos de Empédocles (fogo, água, ar e terra), ou mesmo dos princípios complementares de Aristóteles (matéria e forma).
O monismo não era estranho aos filósofos jônicos remanescentes, pois Diógenes de Apolônia também o estabeleceu, com referência ao ar, renovando Anaxímenes de Mileto. Por isso mesmo o monismo de Hípon não pode ser afastado simplesmente como estranho ao seu tempo.
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Homem - A preocupação com o homem é também evidente em Hípon, que assim está coerente com a tendência humanística da ilustração grega. Não se ocupou em primeiro lugar com as explicações meteorológicas e astronômicas ao modo do hábito dos jônicos anteriores.
Entre os filósofos de pensamento mais superficial, alguns professaram mesmo que a alma é água, por exemplo Hípon; sua convicção parece derivar do fato que a semente em todos os animais é úmida; pois Hípon refuta aqueles que pretendem que a alma é o sangue, dizendo que a semente não é de sangue, e que é ela a alma primitiva. Hípon, o crotoniense, opina que existe em nós uma umidade natural, através da qual sentimos e por meio da qual vivemos.
Hípon disse que a alma é feita de água. Procurou mesmo uma prova etimológica, alegando uma aproximação entre alma e frio, o que equivaleria à água. Acreditava que a respiração se destinava à necessidade de esfriamento do calor que rodeia o coração. Sabemos hoje que o fenômeno é quase inverso: o oxigênio do ar é elemento necessário à combustão. Todavia Hípon levantou a questão de qual seria a função do ar que respiramos.
A escassez da água provoca a velhice e finalmente a morte. O cérebro é a sede da alma (= animi principale) (Censorino, De die natali 6,1). É o centro de coordenação dos sentidos (sensorium commune) e de onde se originam ordens para todo o corpo, como também diz Álcmeon de Crotona.
As vezes diz que a alma é o cérebro, outras vezes que é água (Hipólito, Refutações I, 16). Esta afirmação aparentemente contraditória se supera, entendendo que o mesmo cérebro é formado de água. Semelhantemente se pode entender o que diz Hérmias, que segundo Hípon, a alma é fertilizada e alimentada pela água (Irrisão dos filósofos 2). Semelhantemente a semente é dita úmida, o que é informado por Aristóteles, neste sentido já citado acima (Da alma 405 a 1-5).
Por último lembre-se a informação que apresenta a Hípon como tendo sido acusado de ateísmo. A acusação também atingiu então ou depois a Diógenes de Apolônia, Anaxágoras de Clazomene, Sócrates e outros, acusados frente aos juizes do Areópago. Filopono esclarece que Hípon foi chamado ateu "porque a nenhuma outra coisa senão à água atribuiu a causa do todo O ateísmo de Hípon foi também lembrado por Alexandre de Afrodísias (Metaf. 27,1; e 462, 29) e por Clemente de Alexandria (Protreptikós 24). Não se trata entretanto de um ateísmo agnosticista, e sim de um monismo.
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Ideo de Himera
Epígono da filosofia jônica, situa-se já no tempo da ilustração grega, no início do período socrático. Retomou, como seus contemporâneos Arquelao e Diógenes de Apolônia, a tese do ar, estabelecido já como por elemento primordial de todas as coisas
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Cleidemo 
Epígono da filosofia jônica, ocupou-se, como Anaxímenes com explicações metereológicas, dedicou-se a estudos sobre o homem, como era peculiar à ilustração grega e ao período socrático, em cujo início se encontra. Possivelmente estabelecia também, como Anaxímenes, o ar como princípio primordial de todas as coisas, porque em suas explicações se refere com frequência a este elemento.
Sobre os relâmpagos, na informação de Aristóteles:
"Há alguns, como Cleidemo, que dizem que os relâmpagos não existem, porquanto seriam aparências, e os assemelham ao fenômeno que se produz quando alguém fere o mar com uma vara: parece, então, que a água reluz na noite. Semelhantemente, o relâmpago é uma aparência de resplendor que se produz em uma nuvem tal como quando é ferida a água" (Aristóteles, Meteorologia II 9. 370a).
Também Sêneca se ocupou do fenômeno (em Questões da natureza II 55).
Dedicou-se Cleidemo a estudos sobre o homem, como era peculiar é ilustração grega e ao período socrático, em cujo início se encontra. Foi Cleidemo particularmente lembrado no estudo das sensações.
Teofrasto afirmou que Cleidemo foi o único que tratou em especial sobre a visão. Diz que se sente com os olhos, somente porque são transparentes; com os ouvidos, porque o ar, ao penetrá-los, produz um movimento; com as narinas, enquanto estas atraem a si o ar e com ele se mesclam; com a língua porque é porosa com referência aos sabores, ao sólido e ao frio; como o resto do corpo todavia nada se sente, pois suas partes contém elas mesmas o calor, a umidade e seus contrários.
Somente o ouvido nada julga (discrimina), mas remete (este juízo) à inteligência (Nous). Não faz, porém, da inteligência, como Anaxágoras, o princípio de todas as coisas" (Teofrasto, Dos sentidos 38). A assertiva de Teofrasto a respeito da importância de Cleidemo pelos seus estudos sobre a visão é significativa, porque foi o mesmo Teofrasto quem informou a respeito das doutrinas de Empédocles sobre os sentidos.
Tanto as idéias de Empédocles quanto as de Cleidemo, ambos do séc V a.e.c. e da escola jônica nova, ofereceram oportunidade aos desenvolvimentos ulteriores que teria a psicologia, com notável progresso sobretudo em Aristóteles (Da alma, II; Dos sentidos e sensações).
A preocupação de Cleidemo pelo detalhe se confirma também nos seus estudos sobre as plantas e a agronomia, de que Teofrasto conservou vários textos em sua Historia das plantas.
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Enópides de Quios 
É um epígono da filosofia jônica. Um pouco mais jovem que Anaxágoras (Proclo, In Eucl. 65, 21), foi contemporâneo de Demócrito e Arquelaos. De sua doutrina da natureza pouco se conhece hoje, sendo todavia mais notável pelos seus conhecimentos de astronomia, de que sobraram informações.
Defendeu um dualismo, cujos elementos primordiais são o fogo e o ar (Sexto, Hipotiposes pirronianas III 30). Mas é possível que o fogo se reduzisse ao ar, e então Enópides estaria no ponto de vista do monismo de Diógenes de Apolônia, renovador da de Anaxímenes. Este monismo coere com a assertiva de Aécio, quando diz ao mesmo tempo de Enópides, Diógenes de Apolônia e o estóico Cleantes, que a alma do mundo é Deus. Ora, para os dois últimos este Deus é o ar (Aécio I 7, 17).
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Diógenes de Apolônia
Obras | Doutrinas | Monismo Dinâmico
Filósofo pré-socrático e médico nascido em Apollonia, cidade fundada pelos milésios na região do Ponto, atual noreste da Turquia, a qual não deve ser confundida com outra cidade cretense de mesmo nome. Conhecido por suas teorias ecléticas e, portanto, fundador do ecletismo. De sua vida quase nada se sabe, porém Diógenes Laércio afirmou que ele foi contemporâneo de Anaxágoras e dos sofistas.
Escreveu um livro intitulado Sobre a Natureza e, além deste, mais três escritos, ao que se tem notícia: Contra os Sofistas, Meteorologia e Da Natureza do Homem. Segundo comentadores antigos, teria sido médico, interessando-se em investigar, em seus escritos, questões relativas à anatomia humana, e também teria se dedicado às causas das doenças, tanto quanto às questões de caráter filosófico. Do todo de seus escritos, chegaram até hoje apenas fragmentos, conservados sob forma de citação ou comentário (doxografia) em obras de pensadores posteriores. Diógenes é considerado, quanto a seu pensamento, um continuador da escola milésia, embora incorpore elementos da filosofia de Anaxágoras com quem teria estudado. Provavelmente morreu em Atenas e juntamente com Demócrito de Abdera, encerraram o denominado período pré-socrático. Seu pensamento tinha como princípio que o ar era a fonte de vida para todos os entes animados.
E onde há vida, há também pensamento, pois, assim que algo morre, seu pensamento prontamente se apaga. Se tudo é composto de ar, através de sua condensação e rarefação todas as coisas poderiam ser geradas ou destruídas, então a ele caberia, também, ser considerado como uma divindade. O ar figurava, desta forma, como o princípio único, eterno e ilimitado para todas as coisas, uma vez que sempre esteve e está em toda parte.
Filósofo monista grego, de após os jônicos, dos quais se fez um continuador. Dentre seus epígonos talvez seja o principal e do qual maiores são as informações. Havendo atuado em Atenas, ali foi ridicularizado por Aristófanes na comédia As nuvens (423 a.e.c.). Atentos a referências diversas, pode-se situar a Diógenes de Apolônia como contemporâneo de Sócrates, e portanto como tendo vivido mais ou menos entre 470 a 400 a.e.c
"Filho de Apolotemis, Diógenes de Apolônia é um dos filósofos mais célebres da escola dos físicos. Antístenes (de Rodes) diz que fora discípulo de Anaxímenes e contemporâneo de Anaxágoras. Conta Demétrio de Falera em sua Apologia de Sócrates, que frustrou a inveja de seus inimigos ao intentarem tirar-lhe a vida em Atenas" (D. L., IX, 57). Considerando que havia cerca de vinte cidades gregas com o mesmo nome de Apolônia, e que homenageiam ao Deus Apolo, pergunta-se em qual delas teria nascido Diógenes?
A primeira referência que se fez, e que não parece segura, é Apolônia de Creta, conforme indicação de Estevão de Bizâncio, escritor tardio do séc. V d.e.c. Melhor diz Eliano, ao mencionar o filósofo como Diógenes o Frígio, em Histórias várias. Com isto permite identificar a pátria de origem do filósofo com a Apolônia fundada pelos milésios, que a estabeleceram como colônia grega sobre o Ponto Euxínio (hoje costa norte da Turquia). O fato de haver Diógenes escrito em dialeto jônico confirma esta interpretação. Se houvesse vindo de Apolônia de Creta, esperar-se-ia que houvesse escrito em dialeto dórico.
A afirmação de que Diógenes de Apolônia fora discípulo de Anaxímenes, falecido cerca do ano 528 a.e.c., e contemporâneo de Anaxágoras, por sua vez falecido em 428 a.e.c. importa em ser compreendido apenas como discípulo no sentido de identidade doutrinária do primeiro; porque cronologicamente não o poderia ter sido de pessoa para pessoa. Pelas informações de Simplício, Diógenes seria ainda mais novo do que seu contemporâneo Anaxágoras, porque o fez dependente dele doutrinariamente, bem como de Leucipo, do mesmo tempo do referido Anaxágoras.
Também Diógenes de Apolônia, que foi quase o último dos que a estas coisas dedicaram seus ócios, escreveu a maioria (de seus livros) recolhendo algumas (doutrinas) de Anaxágoras e outras de Leucipo" (Simplício, Física 25,1). Quem teria sido o mestre de Diógenes, situado cronologicamente entre ele mesmo e Anaxímenes? O espaço entre os milésios (Tales, Anaximandro, Anaxímenes) e a posteridade não é bem conhecido. Presume-se que tenha havido um intermediário, ou mesmo vários.Especula-se em torno do nome de Hermótimo de Clazomene, mencionado de trânsito por Aristóteles em seu I livro da Metafísica; teria sido o possível mestre de Anaxágoras, que através dele contataria a escola de Mileto. Assim também sem nenhuma prova positiva poderá ter sido Hermótimo o mestre de Diógenes.
Infere-se do seu grande saber biológico reproduzido em detalhes por Aristóteles (História dos animais, 551 b), que Diógenes de Apolônia houvesse sido um médico. Talvez vivesse por conta desta profissão. A projeção de Diógenes de Apolônia no cenário cultural de Atenas fez com que suas doutrinas se refletissem, como já se adiantou, nas comédias e dramas de Eurípides. Ocorre mesmo a presença das doutrinas de Diógenes em algumas das obras pseudohipocráticas, tendo portanto contribuído para o desenvolvimento do corpus hippocraticum.
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Obras - Restam ainda fragmentos e longas referências doxográficas. Sua obra principal se intitula Sobre a natureza. Esta subsistiu por mais tempo antes que desaparecesse, e foi ainda estudada por Simplício (Séc. VI d.e.c..). Deve-se saber que muitas obras foram escritas por este Diógenes, - como ele mesmo recorda em Sobre a natureza, ao dizer que também escreveu Contra os filósofos físicos, aos quais chama de sofistas, e que compôs Meteorologia, - em que afirma haver falado sobre o princípio, - e Sobre a natureza do homem.
Porém em Sobre a natureza, a única das quais chegou a mim, propõe-se demonstrar mediante diversas razões, que no princípio por ele estabelecido há muita inteligência" (Simplício, Física 151, 20). As informações de Simplício nos levam a especular sobre a duração da influência de Diógenes de Apolônia, cuja obra talvez estivesse à disposição na biblioteca da Academia de Atenas e mesmo de Alexandria.
Os títulos mencionados permitem imaginar que seus escritos tivessem abordado em sistema os diversos assuntos. Pela ordem, Sobre a natureza teria exposto a hipótese monista do mesmo autor sobre a natureza. Contra os filósofos físicos teria tratado do mesmo assunto refutando as teses opostas, talvez exatamente as dos pluralistas como Empédocles e Anaxágoras.
Meteorologia teria tratado em especial da natureza exterior; Sobre a natureza do homem teria feito o mesmo, em especial para o ser humano. Esta sistemática abre o caminho para se imaginar também que todos os livros mencionados houvessem constituído de fato uma única grande obra sob o título da primeira: Sobre a natureza. Mas, desta simples possibilidade não podemos passar à certeza do fato.
O fragmento sobre as veias poderá ser parte do texto do tratado Sobre a natureza do homem, que teria sido um estudo de fisiologia e medicina, em vez de uma consideração meramente filosófica ou moral sobre o homem. Teofrasto ( 372-285 a.e.c.), discípulo de Aristóteles e dedicado à história do pensamento, também deu atenção a Diógenes de Apolônia, conforme se constata no catálogo de seus livros, na maioria depois desaparecidos; entre os desaparecidos consta o título "Coleção dos ditos de Diógenes".
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Doutrinas - Sobre a realidade em geral teve uma concepção monista, como era peculiar a todos os representantes da escola jônica, quer antiga, quer; nova. Alegando que as coisas radicalmente distintas não poderiam atuar umas sobre as outras, concluiu que todas as coisas derivam de um mesmo elemento, e este seria o ar. Seguiu, pois, a Anaxímenes de Mileto. Mas como já a Anaxímenes, o que importava em primeiro lugar a Diógenes de Apolônia é que o primeiro princípio seja de uma só natureza e que tenha as propriedades adequadas a esta condição de primeiro. Eventualmente escolheu o ar, como também poderia ser outro este primeiro elemento.
O primeiro elemento não é algo morto e nem estúpido, mas é dinâmico e inteligente. Sem estas características, o mundo não se poderia ter organizado. O monismo é, pois, um destaque no sistema doutrinário de Diógenes de Apolônia, porque, como se disse, coloca na base de tudo um só ser (contra Empédocles e Anaxágoras e contra o dualismo pitagórico) e este ser com a característica de dinâmico (contra os eleatas) e inteligente (reformulando o Nous de Anaxágoras).
Damos um esquema do seu pensamento científico:
- O ar é o princípio de todas as coisas. Existem mundo infinitos [no sentido que se podem formar uns após outros indefinidamente] e infinito é também o espaço;
- O ar produz os mundos ao condensar-se e rarefazer-se;
- Nada procede do não ser, e nada se resolve no não-ser;
O monismo é apresentado como condição inicial de todas as transformações. Por isso logo de começo o monismo envolve a dinâmica do ser. Se não houvesse uma só natureza, os seres, resultantes da diversificação operada pelo primeiro ser, não se poderiam misturar uns com os outros; como a planta volta a ser terra, e a terra de novo surge como planta. Uns não poderiam nascer de outros, nem estes outros poderiam retornar aos primeiros, e finalmente ao primeiríssimo; também uns não poderiam agir sobre os outros, - conforme se depreende de textos de Aristóteles e Simplício.
Com palavras próprias destacou Aristóteles as razões do monismo de Diógenes:
"É necessário dizer que a produção (do mundo) deriva de um único (princípio) e isto o exprime corretamente Diógenes, pois se todas as coisas não derivassem de um (princípio) único, não seria possível que trocassem ações entre si, como quando o quente se esfria e de novo se esquenta: não são, com efeito, o calor e o frio os que entre si se trocam, senão evidentemente o substrato" (Aristóteles, Sobre geração e a corrupção A6, 332b 12).
Simplício considereva de modo similiar so dizer que verdadeiramente importava a Diógenes de Apolônia ao apresentar o ar como principio primordial não era ser este ou aquele o primeiro ser; o que importava era a unidade de um princípio gerador inicial; portanto o monismo em si mesmo. Ainda que se posso criticar a Diógenes de Apolônia por ter escolhido o ar como princípio primeiro, não prejudica este fato sua tese mais fundamental.
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Monismo Dinâmico - Portanto não é estático, como dos eleatas (Xenófanes, Parmênides, Zenão, Melisso), porque não exclui a transformação, que implica em movimento, causa e efeito. Manteve, pois, o monismo dinâmico dos jônicos novos (Heráclito, Empédocles e Anaxágoras). A escola jônica antiga, de Mileto, não houvera ainda explorado o problema da dinâmica, ocupando-se apenas do elemento constitutivo das coisas. Mas, a causa e o efeito estavam contudo virtualmente contidos nos sistemas daqueles mais antigos.
Os jônicos posteriores, ou novos, sobretudo Empédocles e Anaxágoras, haviam conduzido, contudo as soluções para a multiplicidade dos elementos: Empédocles para os 4 elementos (terra, fogo, água e ar) e Anaxágoras para as homeomerias em número infinito. Similarmente também os atomistas (Leucipo e Demócrito) multiplicaram os átomos infinitamente. Contra todos estes físicos da escola jônica nova, restabeleceu Diógenes de Apolônia o monismo da escola jônica antiga, de Mileto. Concebendo ao primeiro elemento como capaz de causar, o monismo de Diógenes de Apolônia passou a ser eminentemente dinâmico.
Diógenes de Apolônia estabelece o ar como elemento e (diz) que todas as coisas se movem e que os mundos são infinitos. Surge assim o mundo. Como um Todo se move, e aqui se rarefaz, ali se condensa. Onde se condensa, faz as coisas; as mais leves tomando o lugar superior, constituem o sol" (Plutarco, Tapetes 12). Diógenes elogia a Homero, porque discorre sobre o divino de maneira poética mas verídica; diz, com efeito, crer que Deus é o ar, pois sustenta que Zeus tudo conhece" (Filodemo, Sobre a piedade c. 6 b).
Diógenes, Cleantes e Enópides (dizem que Deus) é a alma do mundo" (Aécio 17, 17). A dinâmica do primeiro princípio é aquela do fogo de Heráclito, o qual alterando-se sempre, continua sempre o fogo, apesar de todas as formas que assume nas coisas em que o mundo se divide. Tal é o modo dos milésios conceberem o mundo, e ainda de novo de Diógenes.
O primeiro princípio, além de dinâmico, deverá ser inteligente, porquanto sem esta condição deixará de ordenar o todo. Ora, este de fato se ordena inteligentemente, conforme se observa na ordem do mundo. Temos, pois como supor esta inteligência do princípio do qual tudo deriva. Simplício, em meio aos seus comentários, cita um texto do mesmo Diógenes. O comentário vem imediatamente após o texto (antes citado), em que Simplício prossegue:
"Ao encontrar-me com estas primeiras (palavras), também eu acreditei que ele se referia a este algo diferente substrato comum, que está além dos quatro elementos, pois dizia que aqueles não se misturariam nos outros, se um deles fosse o princípio, tivesse sua própria natureza, e não estivesse subjacente, idêntico, a todas as coisas, a partir de onde todas se diversificam".
Em seguida, havendo demonstrado que há neste princípio muita inteligência, (diz):
"Pois seria impossível que houvesse uma divisão tal como a há, apta para estabelecer a medida de todas as coisas, do inverno e do verão, da noite e do dia, da chuva, dos ventos e das boas temporadas, sem inteligência; e todas as demais coisa, se alguém quiser meditar nisto, encontrará ordenadas do melhor modo possível" (Simplício, Física 151, 28).
O que Diógenes de Apolônia parece ter diante de si é a lei da unidade da natureza, e que constitui do simples azar. O raciocínio de Diógenes está na dependência da interpretação finalística da natureza, reclamando por isso um ser inteligente, ou pelos menos a lógica interna ao ser em geral. O teleológico poderá ser interpretado, portanto, como simples unidade das leis naturais, as quais, então, fatalmente criam o estado de coisas que se observa. Não haverá então um finalismo inteligente do modelo antropológico a orientar o mundo para a ordem em que atualmente se encontra, mas um finalismo ontológico intrínseco ao ser, o qual em vez absurdo, tem uma lei.
Não oferece Diógenes outro argumento para que o ser primeiro seja inteligente. Implicitamente, apenas, supõe que ele seja algo superior ou abarcante, porque somente assim terá como gerar as diversificações. Se é infinito, também por esta via o princípio primeiro implica em ser perfeito e consequentemente inteligente. Como se vê, não derivou o monismo de Diógenes para o panteísmo de Spinoza, o qual apresenta o espaço e o pensamento como "modos" do ser infinito. O caráter divino do princípio estabelecido por Diógenes é frequentemente anotado, mesmo por autores cristãos, como Agostinho de Hipona:
"Também Diógenes, o outro discípulo de Anaxímenes, disse em verdade que o ar é a matéria das coisas, do qual todas se fazem, porém que participa da razão divina, sem a qual nada se pode fazer" (Cidade de Deus, 8, 2).
O ar é estabelecido por Diógenes de Apolônia como primeiro princípio de todas as coisas, porque é o que ele encontra em melhores condições de exercer tal função. Certas condições se podem de pronto observar, como sua dinâmica e subtilidade. Outras se lhe atribuem ao menos especulativamente, como as de ser infinito, eterno, inteligente.
Repetindo a tese de Anaxímenes em virtude da qual o ar é o elemento primordial único, Diógenes lhe deu contudo novos desenvolvimentos. Mais do que um simples epígono, ele explicitou o monismo e o dinamismo que ainda não estavam de todo explicitados na escola de Mileto e nem suficiente adequação na escola jônica nova.
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Crátilo de Atenas 
Filósofo grego é o mais conhecido entre os seguidores do mobilismo de Heráclito, ao qual radicalizou. É lembrado principalmente por ter sido mestre, ou familiar, de Platão (417-347 a.e.c.), conforme Aristóteles (Metaf., 687a 29). Teria Platão deixado a Crátilo, apenas quando encontrou a Sócrates. Era Crátilo mais jovem do que Sócrates, por quem foi trocado. Entretanto, não deixou Platão de destacar ao seu jovem primeiro mestre, designando pelo seu nome um diálogo.
Uma outra notícia, - que veio através de Diógenes Laércio, - narra pela inversa, que Platão primeiramente seguira, a partir dos seus 27 anos, a Sócrates. E que Platão, "depois da morte de Sócrates (+399 a.e.c.), seguiu as lições de Crátilo, discípulo de Heráclides, e as de Hermógenes da escola de Parmênides. Aos 28 anos [Platão] se retirou para Mégara" (L. L., III,6)
Dentro deste contexto, as lições recebidas de Crátilo, teriam ocorrido pelo ano 399 a.e.c. e por curto tempo. É possível que houvesse acontecido um relacionamento simultâneo de Platão com ambos os mestres, ora mais formalizado com um, ora mais com outro, e que o contato com Crátilo pudesse ter ocorrido mesmo antes que com Sócrates. O diálogo platônico apresenta a Crátilo como jovem (Crátilo 440 d). Pode-se depreender dali que fora um mestre de um Platão ainda jovem, e que este jovem Crátilo fora, apesar de tudo, mais velho que Sócrates, que o sucedeu.
Crátilo, como seguidor de Heráclito, tomou deste apenas a doutrina do fluxo essencial de todas as coisas, sem interpretá-las como um Logos, fogo sempre vivente e uno. Em vez disto, reduziu tudo a um instantismo inteiramente mobilista. Em consequência deste mobilismo não é sequer possível conhecer as coisas, porquanto nos escapam. Nem sequer podemos entrar uma vez no mesmo rio (Heráclito apenas dizia não ser possível entrar duas vezes). Nem mesmo é possível pronunciar o nome das coisas (porquanto já são outras, quando termina a palavra). Importa limitar-nos a apenas indicá-las com um sinal natural, como um som, ou como um movimento instantâneo do dedo.
Informou Aristóteles referindo-se aos heraclíteos em geral e depois ao mesmo Crátilo:
"Estes filósofos, vendo que toda esta natureza sensível estava em movimento, e que a gente não pode julgar da verdade daquilo que muda, pensaram, que, a gente não pudesse enunciar a verdade de nenhuma maneira, muito menos sobre o que muda em tudo e em todo o sentido. Este modo de ver se desenvolveu na mais radical de todas as doutrinas que nós temos mencionado, que é aquela dos filósofos que se dizem discípulos de Heráclito, e tal como a sustenta Crátilo.
Este último chegou por fim a pensar que não era possível algo dizer, e se contentava em mover o dedo, ele reprovava a Heráclito de ter dito que não se desce duas vezes ao mesmo rio, porque ele considerava que nem sequer se podia fazê-lo uma vez" (Aristóteles, Metaf. IV, c. 5. 101a 5-15).
Complementou Aristóteles em outro lugar:
"E como sobre Crátilo disse Ésquines, que silvava e agitava as mãos: o que é verossímil, porquanto as coisas se conhecidas vem a ser sinais das que não se conhecem" (Retórica III, 16. 147 b).
Já Platão se referia aos discípulos de Heráclito de modo jocoso:
"Sobre as teorias dos heraclíteos não é possível entreter-se com elas com a gente de Éfeso em pessoa, eles que fazem todos profissão de estarem em movimento como se fossem loucos. Efetivamente, em se conformando com as doutrinas dos seus tratados, eles estão em movimento. Não se detém no objeto da questão que lhes é apresentada, porque isto lhes é contrário (Teeteto 179 e).
No diálogo, de nome Crátilo, Platão apresentou as duas teorias sobre a origem da língua, - a convencionalista, defendida pela boca de Hermógenes e Sócrates, e a naturalista, pela do heracliteo Crátilo. Ocorre a ocupação com um tema particular referente ao homem, que caracterizou o período socrático e pós-socrático. De futuro, os naturalistas, a que pertence Crátilo, serão chamados anomalistas, e ocorrem entre os gramáticos de Pérgamo e estóicos em geral.
Os convencionalistas serão denominados analogistas, havendo sido mais frequentes entre os gramáticos Alexandrinos. Estão aqui também os primeiros marcos da linguística e da filosofia da língua. Mas os gramáticos antigos não chegaram a tentar uma língua planejada.
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Arquelao de Atenas
Filósofo da escola jônica, na linha de Anaxágoras, de quem foi discípulo, e como este tendo vivido em Atenas. Por isso, é dito de Atenas, embora pela origem se diga também de Mileto. Transferiu os conhecimentos de sua escola jônica a Sócrates, de quem foi mestre. Sua importância está ainda em haver sido um dos últimos representantes conhecidos da escola jônica nova.
Possivelmente Arquelao tenha escrito uma obra sobre filosofia da natureza, ou sobre fisiologia, de que nenhum fragmento restou. Foi mencionado por alguns poucos doxógrafos. Manteve-se entretanto conhecido pelo apreciável resumo de Diógenes Laércio:
"Arquelao, de Atenas ou de Mileto, filho de Apolodoro, segundo outros, Mison, foi discípulo de Anaxágoras e mestre de Sócrates, e o primeiro que da Jônia trouxe a filosofia natural. Por esta razão chamaram-no o físico, ou então porque com ele termina a filosofia natural, introduzindo Sócrates a moral. Parece que Arquelao a cultivou também, porque tratou das leis, do bem e do justo. Tendo-o ouvido Sócrates, o propagou e ampliou, e passou a ser tido como autor da mesma" (D. L., II, 15).
Considere-se que Arquelao, como discípulo de Anaxágoras, recebeu da Jônia, sua filosofia. Ainda que melhor se atribua a Anaxágoras, como vindo da Jônia, o haver introduzido em Atenas a filosofia natural, o título também cabe a Arquelao, como se vê na informação de Diógenes Laércio. Pode-se subentender que Aquelao participava deste processo, acontecido quando Atenas passou, após a vitória sobre os persas, a se desenvolver econômica e culturalmente. Anaxágoras foi um ádvena, um protegido de Péricles, seu mais ilustre discípulo. Arquelao talvez já seja um filósofo instruído na mesma Atenas, como ádvena ali desenvolvido e até mesmo influenciado pela tendência pelos estudos humanos, que associou aos da física.
Diferentemente, Anaxágoras teve de fugir, ao ser acusado de contrário aos deuses, morrendo em naufrágio ocorrido quando se evadia para a Sicília.
As homeomerias de Anaxágoras são comparadas por Arquelao ao ar. Conforme o hilozoísmo jônico o todo é vivo e infinito. O espírito não é simples, mas contém uma certa mescla. Neste sentido informou Hipólito de Roma a respeito de Arquelao:
"Este concebe de pronto que há no Espírito uma certa mescla" (Refutações I 9).
"Dizia que as causas da geração eram o calor e o frio. Que os animais eram formados do limo. E que o justo e o injusto não o são por natureza, mas pela lei".
Fundava-se no seguinte raciocínio: a água, cuja liquidez dimana do calor, enquanto se conserva condensada produz a terra, e quando se liquidifica produz o ar. Por conseguinte a terra é conservada pelo frio, o ar pelo movimento do fogo. Que os animais se engendram do calor da terra, a qual distila um limo semelhante ao leite que lhes serve de nutrimento. Assim também foram procriados os homens.
Arquelao foi o primeiro que disse que a voz é a percussão do ar. Que as águas do mar estão nas entranhas da terra, por cujas veias se infiltrou. Que o Sol é o maior de todos os astros. Que o universo não tem limites.
A interpretação do som como trepidação do ar, atribuída a Arquelao, também é dita de Anaxágoras (Teofrasto, Da sensação 59), podendo ser uma tese em que ambos tenham mérito, porquanto são mais ou menos da mesma época. Importa destacar a tendência de Arquelao para temas de ordem humana e moral.
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