Períodos da Filosofia Clássica 
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Período Pré-Socrático
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Filósofo grego, ao mesmo tempo que rapsoda, que emigrou da Jônia para o Ocidente. Fixando-se finalmente em Eleia, passou a ser considerado o fundador da escola do mesmo nome. Esta se fez famosa por defender a unidade e imutabilidade do ser, e pela reduzindo a diversidade e o movimento às impressões subjetivas dos sentidos.
A curta biografia legada por Diógenes Laércio sobre Xenófanes é praticamente só o que sabe a seu respeito. A partir de uma análise se determinam mais alguns esclarecimentos.
"Xenófanes, filho de Déxio, ou de acordo com Apolodoro, de Ortomenes, era de Colófon. Foi elogiado por Timon assim: Xenófanes, não altivo, castigador com homéricos embustes.
Foi banido de sua cidade natal. Viveu em Zancle, e em Catânia. Segundo alguns, não foi discípulo de ninguém; segundo outros foi discípulo de Boton de Atenas, ou como dizem alguns, de Arquelao. Socion o fez contemporâneo de Anaximandro. Seus escritos são em metro épico, como elegias e Jambos, contra Hesíodo e Homero, denunciando o que eles diziam sobre os deuses. Ele mesmo cantava seus versos.
Diz-se ainda que se opôs às opiniões de Tales e Pitágoras, e atacou também a Epimênides. Atingiu uma longa idade, como testemunhou por suas próprias palavras: Sessenta e sete são agora os anos em que me agito em cuidados pela terra grega; antes já eram passados outros vinte e cinco anos, se ainda sei dizer a verdade a cerca disto" (D. L., IX, 18-19).
Depois de se referir às suas doutrinas, retoma Diógenes Laércio as informações biográficas: "Xenófanes escreveu dois mil versos sobre a fundação de Altabosco [Colófon] e a colonização de Elea na Itália.
Floresceu na sexagésima olimpíada 540-537 a.e.c. Lê-se também em Demétrio de Falera, no Tratado da velhice,e em Panécio o Estóico, Da tranquilidade, que enterrou os filhos com as próprias mãos. Acredita-se houvesse sido vendido como escravo e posto em liberdade pelos pitagóricos Parmenisco e Orestades" (D., L., IX, 20). Pouquíssimo mais se encontra em outros doxógrafos, que citaremos oportunamente.
Vida 
Vida Acidentada no Oriente | Uma Longa vida no Ocidente | Anterior a Parmênides
Vida acidentada no Oriente - Infere-se dos dados conhecidos que Xenófanes tenha nascido pela volta de 570 a.e.c. Teria deixado a Ásia Menor aos 25 anos quando já não era considerada terra grega, pois em 548 a.e.c. a conquistara o rei Ciro da Pérsia. Para ter sido discípulo de Anaximandro, falecido por volta de 545 a.e.c., deveria também ter nascido cerca do ano 470 a.e.c.
Creso, rei da Lídia [Ásia Menor], que sucedeu a Aliates em 571 a.e.c., conquistou a vizinha Éfeso, principal cidade a cujo grupo pertence Colófon. A esta nova situação parece estar coerente uma referência de uma elegia de Xenófanes aos seus compatriotas colofônios, quando diz que: "Com os lídios aprenderam os modos relaxados, nocivos; e, antes de experimentarem a odiosa tirania, dirigiam-se ao agorá, não menos de mil cada vez, revestidos de púrpura, cheios de orgulho, envaidecidos de seus bem amaneirados cabelos, gotejantes de artificiosos bálsamos" (Frag. 3) (Atheneu XII, 526 A).
Poderia Xenófanes ter sido discípulo de Bóton, mas não de Arquelau. Veio-se a saber que este último é mais recente que Xenófanes cerca de um século. Haver-se oposto a Tales e Pitágoras, pode significar um contato com as doutrinas destes, já no oriente jônico. Também já aqui teria conhecido os textos de Homero e Hesíodo. E, se Xenófanes foi citado por Heráclito, isto demonstra sua forte presença, tanto no Ocidente como também na jônica Ásia Menor.
Tendo tido dois escravos e que mal conseguia manter, reconstrói-se com estes elementos sua imagem de pregador profissional. Ainda que não tão aquinhoado quanto outros bardos, caminha de povoado em povoado, tendo por companhia, além de mulher e filhos, dois servos. Perguntado por Hieron, quantos escravos tinha, respondeu: "dois, e ainda a estes resulta difícil manter" (Ápotegma incluído em Griomolog. Paris, 160).
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Uma longa vida no Ocidente - Depois de sua fase jovem de até 25 anos (e o poeta se revela sobretudo nesta idade), teria vivido mais 67 anos perambulando por terras gregas, como deixa calcular pelos seus versos. Resulta ter alcançado 92 anos, e, por conseguinte o ano de 475 a.e.c. O clima em que tudo isto se dá, admite dizer que tenha sido compelido a sair de sua pátria, por ocasião da conquista persa, quando, em 548 a.e.c., o rei Ciro derrota a Creso da Lídia (capital Sardes), à qual até ali estavam submetidos os efésios.
Xenófanes de Colófon, o cantor afoito, não teria sido bem visto pelos novos senhores da Ásia Menor, os persas. Expulso, terá sido mandado andar e cantar por outras terras. Agora o artista empobrecido, se aprimora como pensador e crítico, radicando-se finalmente em Elea, depois de passar por Zancle e Catânia cidades da Sicília.
O fato de haver enterrado seus próprios filhos outra vez confirma sua longa idade, ao ponto de ter sobrevivido a estes. Os versos para Colófon significa haver atuado em sua terra pelo tempo suficiente para formar vivências, que teria depois transformado em poema de saudade. Por sua vez os versos sobre Elea confirmam sua estadia significativa nesta.
Não tendo sido um homem rico e nem mestre de uma escola, o colofônio exilado foi um pregador de civismo e de pensamentos filosóficos, morais e religiosos, através de um importante instrumento de comunicação, o do canto e da recitação. Desta sorte influenciou aos de sua época. Receptivo, por causa de sua arte, ensinou um pensamento novo, reagindo contra os aspectos mais ingênuos da religiosidade mítica.
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Anterior a Parmênides - Não é clara a posição de Xenófanes 570 - 475 a.e.c. como fundador da escola de Eleia, sendo todavia muito plausível, que o tenha sido. Dado como mais antigo em relação a Parmênides, a atribuição de fundador da escola, se faz sem contradição. Apoia-se na afirmativa de Aristóteles, feita século e meio depois: "Xenófanes, o mais antigo partidário da unidade, pois Parmênides foi, se diz, seu discípulo…" (Metafísica 986 b 21-22).
As poucas informações colocam portanto a Xenófanes antes de Parmênides, e ainda como o mais antigo unicista, mas não o declara diretamente fundador da escola. Em Platão o texto também é fugidio: "Lá a nossa gente de Elea, que vem de Xenófanes, e de mais além… (Sofista, 242 d).
Diógenes Laércio, que se limitou a dizer que Parmênides fora discípulo de Xenófanes, não se refere a este como fundador da Escola de Elea. As informações vagas se repetem nos doxógrafos, vindo finalmente a ser expressamente afirmada a posição de Xenófanes como fundador da escola de Elea: "Xenófanes, o fundador da escola eleata…" (Teodoreto IV, 5, in Aécio).
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Obras 
Restaram apenas fragmentariamente, nas citações de outros autores, representadas por meia dúzia de páginas de versos, com predominância de elegias e sátiras.
Mas é sobretudo em informações doxográficas que encontramos suas doutrinas tipicamente eleáticas; elas vem de Platão, Aristóteles, Simplício, Sexto, Hipólito, Aécio. Mas os versos fragmentários se prestam para estabelecer o clima religioso e moral em que se situava. Perderam-se, todavia, os versos referentes à fundação mesma de Colófon e Elea.
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Doutrinas 
A terra como elemento | Metafisica é a Glória de Xenófanes | Unidade do Ser | Subjetivismo e Relativismo | Ser Uno | Antropomorfismo | Entidades Divinas Secundárias | Ética | Entidades Divinas Secundárias | Cosmogonia | Meteorologia
A terra como elemento - Tal como os primeiros jônicos, a investigação de Xenófanes foi primeiramente à busca de uma natureza elementar a partir da qual se formariam todas as coisas. Tales propusera como primeiro elemento a água, Anaximandro o infinito, Anaxímenes o ar, Heráclito o fogo. Xenófanes propõe a terra. "Pois tudo vem da terra e na terra tudo finda" [Frag. 27] (Aécio IV, 5). Todavia, não há rigidez na proposição de Xenófanes.
Também diz: "Terra e água é tudo quanto vem a ser e cresce" [Frag. 29] (Simplício, Física 188, 32).
"Pois todos nascemos da terra e da água" [Frag. 33] (Sexto, Contra os matemáticos X, 314).
"Porfírio afirma que Xenófanes considera princípios o seco e o úmido; eu digo que ele considera a terra e a água" (Filopono, Física 125, 27).
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A metafísica é a glória de Xenófanes- Partindo para uma nova interpretação da diversidade múltipla da natureza, dizendo que esta multiplicidade é apenas o efeito aparente dos sentidos, estabeleceu a unidade em si mesma da coisa que existe. O ser é uno e imutável, não se dividindo e não se multiplicando, nem se transformando e nem se movendo. A base desta afirmação a estabeleceu Xenófanes mediante considerações metafísicas. Seus sucessores avançarão as especulações, mas é com o velho rapsodo que tiveram início. As relações entre o uno e o múltiplo são diferentes das que se supunham até então: "Opõe-se às opiniões de Tales e Pitágoras, e também de Epimênides" (D. Laércio, IX, 18), – eis como se pode entender o texto já citado anteriormente.
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Unidade do ser - Percebendo a unidade da natureza – à que chama terra, a intuiu já não somente como sendo esta matéria sensível, mas simplesmente como um todo entitativo, assim apreendido pela inteligência. As coisas são simplesmente ser, instituído como resultado de uma especulação abstrata, alteado este ser acima do meramente sensível. O ser é indicado por qualificativos como uno, eterno, imutável, infinito, divino.
Num diálogo de Platão se exprime pitorescamente o Estrangeiro de Eleia: "Cada qual parece que nos conta um conto, como se fossemos crianças. Diz um que são três os seres que ora se combatem, ora se convertem em amigos, dos quais assistimos as bodas, os partos e a criação dos filhos. Outro, dizendo que são apenas dois, o úmido e o seco, ou quente e o frio, junta-se e os casa. Mas, lá a nossa gente de Eleia, que vem de Xenófanes, e de mais além, admite em suas doutrinas que um único é o ser, designando tudo" (Platão, Sofista 242 c-d).
Adverte Aristóteles contudo que Xenófanes não aprofundou a doutrina da unidade do ente. Concluída a exposição das doutrinas pluralistas do ente, continua o Mestre do Liceu, comentando as da unidade. "O pensamento dos velhos filósofos, que admitiram a pluralidade dos elementos da natureza, está suficientemente conhecida pelo que precedeu. Há ainda outros que professaram que o todo é uma só realidade, mas a excelência da exposição não alcança o mesmo nível junto de todos, nem a conformidade com os fatos" (Aristóteles, Metafísica, 986, b, 10).
Esclarece que não se trata de um princípio primordial, a partir do qual as coisas derivam. "A discussão de suas doutrinas não entra no quadro do presente exame de causas. Eles não procedem à maneira de certos fisiólogos; estabelecendo o ser como um, não engendra todas as coisas a partir do Uno considerado como matéria. Suas doutrinas são outras. Enquanto os fisiólogos admitem o movimento no todo, os filósofos de que falamos pretendem, pelo contrário, que o todo é imóvel" (Metafísica, 986b 13).
Prossegue Aristóteles distinguindo entre unidade material (aquela adquirida por um elemento de determinada espécie, por exemplo, a água) e a unidade formal (por definição), adquirida pela unidade simplesmente do ente. Pretende, então, dizer que Parmênides alcança a unidade formal do ser, ao passo que não Melisso. Quanto a Xenófanes não teria alcançado precisão de conceitos sobre o assunto. Na verdade, Xenófanes tem a visão da unidade, através da unidade da natureza, de suas leis, de suas transformações cíclicas. Transcende à unidade material, sem maiores esclarecimentos, sobre monismo fundamental.
"Parmênides concebeu a unidade quanto à definição e Melisso a unidade material; ela é finita, para o primeiro, infinita, para o segundo.
Quanto a Xenófanes, o mais antigo adepto da unidade (pois se diz que Parmênides foi seu discípulo), não há nada claro, visto que não parece ter entendido a natureza de uma e de outra destas causas. Mas, observando o universo material em conjunto, asseverou que o Uno é Deus. Estes filósofos, como dissemos, deverão ser postos à margem da presente investigação, e completamente dois deles, cujas concepções são, em verdade, muito grosseiras, a saber, Xenófanes e Melisso. Pelo contrário, Parmênides parece raciocinar aqui com mais penetração" (Metafísica, 986b 20-25).
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Subjetivismo e relativismo - O unicismo de Xenófanes, - qualquer seja a avaliação de sua profundidade, - tem implicações gnosiológicas, - o caráter subjetivo e relativo do conhecimento. Conscientizou-se Xenófanes sobre a dificuldade do problema levantado. E isto é importante anotar. Parece haver estado próximo do vago ceticismo depois praticado por outros: "Não há homem algum que claramente visse, e nenhum haverá jamais que claramente tivesse visto, e saiba dos deuses e de tudo quanto eu falo; pois ainda que alguém viesse a pronunciar o melhor possível a lavra definitiva, nem esse saberia: sobre tudo recai a opinião" (Sexto, Contra os matemáticos, VII 49, 110; Plut. Aud. Poet. 2 p.17 E).
Sobre a relatividade advertiu Xenófanes que: "Se Deus não tivesse feito o dourado mel, muito mais doces diriam [os homens] são os figos" (Frag. 38, em Herodiano Gramático, Sobre particularidades da linguagem, 41,5).
Diante da diversidade oferecida pelos sentidos, os eleatas advertem que é preciso ficar com a razão, que oferece a unidade e a imobilidade do ser. Sobre esta ponderação dos eleatas informou genericamente Aristóteles: " Achavam, com efeito, alguns dos antigos, que o ser é um e imóvel. Alegando, que o vazio é um não -, não podendo haver nele movimento, porquanto não há vazio separado" (Da geração e corrupção, I, 8. 825a 2).
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O ser uno é caracterizado como divino – a tudo superior - Repete aqui Xenófanes o pensamento dos milésios, que faziam do elemento primordial um ser divino. Trata-se, pois um panteísmo monista, ou simplesmente de um monismo materialista.
"Teofrasto assevera que Xenófanes admite um só princípio, considerando o ser como um e tudo (nem finito, nem infinito, nem móvel, nem imóvel). Concorda, Teofrasto, que a menção desta doutrina mais convém a outro domínio, que ao da história natural. Porque, na verdade, no dizer de Xenófanes, este um e tudo é Deus.
Declara que é um, por ser o mais poderoso de todos; se vários entes houvesse, estaria repartido em igualdade o poder entre todos; ora Deus é o que há de mais sublime e a tudo superior quanto ao poder. É ingênito; o que nasce, haveria de nascer, ou do semelhante, ou do dissemelhante. Ora, o semelhante, diz ele, não pode exercer este efeito (de gerador) sobre o semelhante, porquanto não convém mais a um que a outro o gerar e o ser gerado. De outra parte, se nascesse do dissemelhante, nasceria do que não é. Assim demonstra a ingenerabilidade e a eternidade.
Não é infinito; porque o infinito é o não ser, pois não tem início, nem meio, nem fim e porque (só) os múltiplos seres se limitam reciprocamente. Do mesmo modo elimina o movimento e o repouso; porque o imóvel é o não ser, que em outro não se torna, nem outro nele se torna; o movimento convém mais ao múltiplo, que o uno, pois neste caso podem um em outro se transmutar. Por conseguinte, quando se diz – E sempre se mantém no mesmo lugar, sem mover-se, nem convém à sua natureza que se mova para cá e para lá [Frag. 24], entenda-se não a imobilidade que se opõe à mobilidade, mas sim a estabilidade sem movimento e sem repouso.
Nicolau Damasceno, em seu tratado A cerca de Deus, atribui a ele [Xenófanes] a declaração de que o princípio é infinito e imóvel.
Conforme Alexandre (de Afrodísio), seria limitado e esférico. Claramente sua doutrina é a que ele é infinito e ilimitado; demonstra a limitação e a forma esférica dizendo que semelhante é o ente por todos os lados. Também afirma que ele pensa todas as coisas, dizendo – e sem custo tudo move por força do próprio pensamento (Simplício, Física, 22,22ss).
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A mais antiga advertência contra o antropomorfismo teológico - Destacou-se Xenófanes pelo seu combate aos conceitos antropomórficos da divindade, ocorridas sobretudo na religião tradicional. Ainda que se pudesse pôr restrições a tudo o que houvera o mesmo Xenófanes dito sobre a natureza divina, encontrava-se no reto caminho, o de uma análise ontológica a partir do ser. Até seu tempo, foi Xenófanes o melhor dos profetas, no sentido de haver melhor falado sobre Deus. Nenhuma teologia é boa, sem uma correta noção filosófica de divindade.
Aqui importa relembrar o texto de Platão em que o Estrangeiro ridiculariza o que se diz dos deuses e adverte para a doutrina do ser: "Mas lá a nossa gente de Eleia, que vem de Xenófanes , e de mais além, admite em suas doutrinas que um único ser é o que designa tudo" (Sofista 242 d).
O mérito teológico de Xenófanes também foi reconhecido por Aristóteles: "Os poetas representam a opinião dos homens, como as histórias que se contam dos deuses. Essas narrativas talvez não sejam verdadeiras, nem melhores; talvez as coisas sejam como pareciam a Xenófanes; no entretanto, assim as dizem os homens" (Poética, 25 p.1460 b 35).
Em outro passo: "… dizia Xenófanes que tantos são ímpios os que afirmam que os deuses nasceram, como os que asseveram que eles morreram. De ambos os modos se diz que em determinado tempo não existiram" (Retórica, II, 23 p. 1399 b 5).
"Perguntaram os cidadãos de Eleia a Xenófanes se deviam, ou não, oferecer sacrifícios a Leucotéia, e lamentá-la como uma defunta. Aconselhou-os a que não lamentassem, se como deusa a veneravam; mas se a consideravam como um ser humano, não lhe deveriam sacrificar" (Ibidem, II, 26 p. 1400 b 5). Fragmentos dos Silos apresentam a mesma linguagem satírica de Xenófanes contra as imaginações antropomórficas.
"Homero e Hesíodo imputaram aos deuses tudo quanto entre os homens e indecoroso e censurável: roubos, adultérios, enganos recíprocos" [Frag. 11] (Sexto, Contra os matemáticos, IX, 193). "Muitos atos ilícitos eles contam dos deuses: roubos, adultérios, enganos recíprocos" [Frag. 12] (Ibidem, I, 289).
"Mas crêem os mortais que os deuses nasceram, e que, tal como eles, têm figura, vestes e voz" (Clemente de Alexandria, Strômata, V, 109).
"Os etíopes se afiguram os deuses, com pele negra e nariz achatado; os trácios, com olhos azuis e cabelos loiros" [Frag. 16] (Ibidem, VII, 22).
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Entidades divinas secundárias. A noção de um deus supremo e único nesta condição, ainda não exclui a admissão de deuses como entidades secundárias e criaturas como os anjos, desde que não sejam aventados como uma necessidade ontológica. Por esta outra via os deuses foram admitidos por Xenófanes, ao que parece. De futuro, também Heráclito, Platão, Aristóteles não sacrificarão totalmente a idéias das deidades individuais e subalternas.
Seria demais, que um homem, como Xenófanes, em tão remota época se despojasse inteiramente do lastro cultural da religiosidade helênica de seu povo. Xenófanes não foi um monoteísta em sentido pleno. Ou melhor, não foi um monista em sua totalidade. Não há conflito entre combater o antropomorfismo religioso e a admissão de divindades secundárias. Combateu Xenófanes, a figuração humana dos deuses, mas não os deuses simplesmente em si mesmos.
A conceituação politeísta de Xenófanes está bem clara neste fragmento: "Um só Deus, o maior entre os deuses e os homens, diferente na forma e no pensamento dos mortais" [frag.23] (Clemente de Alexandria, Strômata V, 109).
O mesmo contexto politeísta se reencontra nos versos, como este: "Ter sempre veneração pelos deuses, isto é bom" (Final do Frag. 1, em Atebeo X, 462 C).
Por isso se tem contestado a afirmação de outros tempos de que Xenófanes fosse o primeiro monoteísta.
"Xenófanes havia sido considerado antigamente como o primeiro monoteísta grego. Os argumentos contra esta opinião foram expostos e defendidos com êxito por Freudenthal em sua obra Ueber die Theologie des Xenophanes, Breslau, 1866, trabalho a que nós devemos muito. O argumento decisivo contra o pretendido monoteísmo de Xenófanes está contido no único verso: um só deus, entre os deuses..." (Th. Gompers, Pensadores gregos, nota ao item Xenófanes).
Não obstante, importa não desatender ao fato de que Xenófanes foi também um poeta, e neste sentido poderia ter usado por vezes a linguagem poética, a qual certamente é favorecida pela imaginação politeísta. Sobre a alma "Xenófanes foi o primeiro a declarar, que tudo está destinado a perecer, e que a alma é um sopro" (D. Laércio, IX, 19).
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A Ética - de Xenófanes se mantém ainda nas frases sentenciosas, peculiares às religiões tradicionais, envolvidas em considerações episódicas. Depois de se referir ao fato de ser apreciado como mais ilustre aquele que vence nos jogos, adverte:
"A sabedoria de certo é mais nobre que o vigor dos homens e dos cavalos. Insensato costume, e injusto, este, de mais prezar a força que a sabedoria. Mesmo que haja entre o povo um pugilista hábil, ou quem vença no pentatlo e na luta, ou até na corrida (que mais estimada é a rapidez que a força), quem quer que vitorioso saia das másculas competições, - nem por isso o povo andará mais bem governado. Pouco proveito adviria à cidade, se algum cidadão vencesse as margens do Pisa. Não é isso que lhe aumenta tesouros da cidade" [Frag.2] (em Ateneo X, 413 F).
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Um sentir geral de tolerância- Se observa no pensamento religioso e moral de Xenófanes, não sendo nem fanático e nem contrário ao culto popular dos deuses, tudo dentro de uma ética aberta. Este é o clima de um longo fragmento elegíaco, em que participa, e ao mesmo tempo que recomenda moderações:
"Agora o chão da casa está limpo, as mãos de todos e as taças; um cinge as cabeças com guirlandas de flores, outro oferece odorante mirra numa salva; plena de alegria ergue-se uma cratera, à mão está outro vinho, que promete jamais faltar, vinho doce, nas jarras cheirando flor; pelo meio perpassa sagrado aroma de incenso, fresca é a água, agradável e pura; ao lado estão pães tostados e suntuosa mesa carregada de queijo a espesso mel; no centro está um altar todo recoberto de flores, canto e graça envolvem a casa. É preciso que alegres os homens primeiro cantem os deuses com mitos piedosos e palavras puras. Depois de verter libações e pedir forças para realizar o que é justo – isto é que vem em primeiro lugar -, não é excesso beber quanto te permita chegar à casa sem guia, se não fores muito idoso. É louvar-se o homem que, bebendo, revela atos nobres como a memória que tem e o desejo de virtude sem nada falar de titãs, nem de gigantes, nem de centauros, ficções criadas pelos antigos, ou de lutas civis violentas, nas quais nada há de útil. Ter sempre veneração pelos deuses, isto é bom" [Frag. 1] (em Ateneo X, 462 C).
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Cosmogonia e cosmologia- Não obstante sua nova maneira de interpretar a variedade dos entes como sendo fundamentalmente um unicismo, Xenófanes apresentou uma filosofia da natureza não menos curiosa. Não deve todavia condenar a Xenófanes de contradição com sua tese da unidade do ente ao estabelecer una interpretação cosmológica à natureza, como já o quis invectivar de incoerência, na antiguidade, Teodoreto: "Xenófanes, o fundador da seita eleática, assevera que o todo é um, esférico e limitado; ingênito, mas eterno e absolutamente imóvel; mas depois, olvidado destas doutrinas, diz que da Terra tudo nasce" (Teodoreto, IV, 5 em Aécio).
Não temos informações sobre a evolução cronológica do pensamento de Xenófanes. Mas não é impossível que seu unicismo fosse uma evolução ulterior, e que de início pensasse apenas como os jônicos, sobre um ser material. Nesta condição inicial terá desenvolvido uma cosmologia em que os elementos seriam a terra e a água. Depois com a teoria do ser uno, esta cosmologia somente se manteria como aparência sensível. No futuro, também o idealista Emanuel Kant, apresentará uma teoria do céu astronômico. E assim já na antiguidade os eleatas desenvolveram a doutrina da aparente variedade e movimento do ser.
"Nasce o sol por via de aglomeração de partículas inflamadas, que vai aumentando dia a dia; a terra é ilimitada, e nem o ar, nem o céu a cingem, infinito O mar é salgado porque nele convergem muitas matérias amálgamas. Xenófanes crê que a terra se mistura com o mar. Com o tempo nele se dissolvera" (Hipólito, Refutação, I, 14).
"Todos os dias os astros se apagam e todas as noites se reacendem como carvões; nascimentos e ocasos, são inflamações e extinções" (Aécio II, 13,14). Por mais hipotéticas que sejam as teorias de Xenófanes sobre os astros, elas representam algo muito mais evoluído que a interpretação mítica e mitológica então dominante.
"Muitos afirmam que a parte inferior da terra se prolonga indefinidamente, asseverando que ela radica no infinito, assim o diz Xenófanes de Colófon" (Aristóteles, Do céu, 2,13. 294a 21).
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Um conceito adiantado da meteorologia - Já se encontra formulado em Xenófanes. Um circulo de ações ocorreria a começar da água salgada, continuando pela água doce, pela evaporação, finalmente pela formação das nuvens, das chuvas, dos rios e de novo do mar. Ocorre ali a visão da natureza como um sistema de leis, sem mitos.
"Supurada a água do mar, a doce separa-se pela subtileza própria, e depois, condensando-se em névoa, forma as nuvens; e prosseguindo a condensação, cai a chuva e sopram os ventos" (Aécio, III,4,4).
Diz então Xenófanes: "Fonte da água é o mar, e fonte dos ventos; pois nem existiriam as nuvens sem o vasto mar, nem o curso dos rios, nem a chuva dos céus. Mas é ele, o vasto mar, que gera as nuvens, os ventos e os rios" [Frag. 30] (Aécio, III,4,4).
A terra e a água são as fontes sempre presentes nas explicações de Xenófanes. Não importa a qual dê prioridade. O importante é que formula o sistema de uma explicação.
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Principais Fragmentos
I "...Deus é uma substância esférica sob nenhum aspecto parecido com o homem. O todo vê, o todo ouve, porém não respira. Ele é ao mesmo tempo todas as coisas, inteligência, pensamento, eternidade" (D. Laércio, IX, 19).
II "...Todo inteiro vê, todo inteiro pensa, todo inteiro ouve" [Frag. 24] (em Sexto, Contra os matemáticos, IX 144).
III "...Se a divindade é a mais forte de todas as coisas, só pode ser uma única (...), pois se houvesse dois ou mais deuses, não poderia ser o mais forte e o melhor de tudo. Portanto, só pode haver uma divindade (Pseudo-Aristóteles, De Meliso, Xenophonte, Gorgias 3,3)
IV "...Se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões, e se pudessem com as mãos pintar ou produzir obras de arte, como se fossem homens, pintariam as figuras dos deuses, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois; esculpiriam os corpos deles, respectivamente, de acordo com o próprio aspecto" [Frag. 15] (Ibidem, V, 110).
V "...Um só Deus, o maior entre os deuses e os homens, diferente na forma e no pensamento dos mortais" [frag.23] (Clemente de Alexandria, Strômata V, 109).
VI "...O sol apaga-se, e outro sol renasce no Oriente" (Aécio,II,24,2).
VII "...O sol provém de nuvens inflamadas... provenientes de exalações úmidas"
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