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1/22/2018 3:21:39 PM | Por Catherine Salles
Civilização Micênica
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Os túmulos dos Átridas

Sob um céu de um azul intenso ao centro de uma coroa de montanhas áridas, a acrópole de Micenas ergue suas maciças fortificações. Em um espaço circular, situado ao longo da rampa que leva à porta do palácio, dezenas de operários escavam o solo sob o calo acabrunhante do sol. Ao redor deles, varias estelas de pedra gravadas com motivos em espiral, enquadrando cenas de caça, indicam que o local já abriga vários túmulos. Trata-se nesse momento de realizar o enterro de um dos reis de Micenas, cuja ultima morada ficara perto do palácio onde viveu. Os operários escavam na rocha um grande fosso retangular de 4 metros per 6,40 metros, porque sabem que será utilizado em seguida para outros enterros. Os dignitários e a família escoltam os despojos reais carregados por escravos e vestidos com seus mais belos trajes. Os despojos são depositados no fundo do fosso. Os criados devem agora realizar o ornamento funerário do cadáver. Tudo o que vai ser levado ao fosso é destinado a celebrar por toda a eternidade a potencia e a superioridade do rei que acaba de morrer, a provar que foi o mais corajoso, o mais rico e o mais influente de sua geração. Seu corpo vai desaparecer sob placas de ouro, porque essa exposição de riquezas confere sua legitimidade ao poder que deteve. Sobre o rosto do morto, um escravo põe uma lamina de ouro que reproduz com realismo sua fisionomia: olhos fechados pela morte, bigode e barba representados por delicadas incisões. Não se trata, propriamente falando; de uma mascara funerária modelada diretamente sobre o rosto do morto, visto que há um espaço entre o rosto e a máscara. Escravos envolvem em seguida os membros com faixas de ouro. Costuram finalmente sobre os trajes placas de ouro trabalhadas, representando folhas e rosáceas. O corpo já á comparável a um ídolo precioso que brilha na penumbra do fosso.

É o momento agora de colocar em torno do defunto os diferentes objetos que o acompanharão no além. Tudo o que contribuiu para sua glória foi reunido para ser enterrado com ele. São, em primeiro lugar, os símbolos do poder real que exerceu em vida: varias coroas e diademas de ouro, anéis que levam seu selo, sinetes de pedra dura gravadas com personagens, com animais, com cenas religiosas. Colares de ametista e perolas de ouro, braceletes, anéis, milhares de perolas de âmbar espalhadas sobre o solo relembram sua grande fortuna. Para comprovar a bravura na guerra do rei desaparecido, um arsenal de armas é disposto sobre o solo: espadas maciças de bronze com empunhadura de ouro ou encrustado de lápis-lazúli e cristal de rocha, punhais com as lâminas marchetadas de ouro e de electro (liga natural de ouro e prata), objetos ornados com cenas de caça, de animais marinhos e de espirais decorativas, cinturões e boldriés. Esse instrumental funerário é completado por vasos de metais preciosos ou de alabastro, louça de ouro e prata, pequenas esculturas de marfim de feitura delicada, modelos de terracota de carros de guerra, de navios e de tronos.

Os escravos depositam com precaução as peças principais desse tesouro real, dois rhytons (vasos sagrados para as libações), um em forma de cabeça de leão, feito de ouro martelado de forma geométrica, e outro de prata com aparência de uma cabeça de touro com chifres e com uma rosácea frontal de ouro. Um recipiente de cristal de rocha, representando um pato virando a cabeça, surpreende por sua leveza e sua fragilidade no meio dessas oferendas brilhantes que cobrem o espaço que cerca o corpo.

Todas as riquezas de um luxo inaudito vão desaparecer aos olhos dos vivos, pois, agora, é necessário abandonar a morte a sua ultima morada. Em torno de todo o largo fosso cercado de muros de pedras secas, os operários colocam vigas horizontais a uma altura de cerca de 75 centímetros acima do solo. A seguir, constroem sobre essa estrutura um teto de juncos e de palha, que é recoberto com uma camada de argila. Espalham terra sobre o tumulo assim fechado e erguem uma estela de pedra. Todos os assistentes fazem libações sobre o tumulo e compartilham uma refeição funerária cujos restos são recobertos de terra.

Quando for necessário enterrar outro membro da família, os operários destruirão o teto do tumulo, depositarão o novo corpo, e se necessário, afastando o primeiro para um canto. Em seguida, tudo será reposto de maneira idêntica, a espera de um próximo enterro. Mais tarde um pequeno muro circular de pedras secas cercará o conjunto dos tumulo escavados nesse local para protegê-los das degradações.

 

O esplendor da Idade do Bronze

A descoberta do esplendor da civilização micênica Instalada no mundo egeu, entre os séculos XVII e XII a.e.c., é tão surpreendente como aquela do mundo minoico descoberta per Arthur Evans. Os gregos da época clássica podem ver ainda as ruínas de Micenas, de Tirinto ou Pilos, principais cidades dessa época antiga. Esses nomes evocam para eles episódios marcantes da mitologia.

Sobre Micenas, "rica em ouro", segundo Homero, reinou a funesta dinastia dos Atridas, cujos crimes monstruosos ainda provocam horror: o fundador, Atreu, para vingar-se de seu irmão Tieste, que tinha seduzido sua mulher, serviu-lhe, durante uma refeição, a carne de seus próprios filhos. A descendência de Atreu é maldita: seu filho Agamenon, designado como o grande rei da expedição grega contra Troia, aceita imolar sua filha Ifigênia para obter ventos favoráveis. Ao regressar de Troia, e assassinado per sua mulher Clitemnestra, e esta veio a ser degolada per seu filho Orestes. Perto de Micenas, Argos e Tirinto também foram palco de crimes lendários. Somente Pilos, a sudoeste do Peloponeso, evoca o velho Nestor, o mais sábio dos reis gregos.

Quando esses ricos reinos desmoronam entre os séculos XIII e XII a.e.c., muitos palácios são queimados e pilhadores se apoderam dos tesouros que eles contém. Assim, poucos elementos subsistem para permitir as gerações posteriores conhecer a potência dos micênicos.

Em 1841, o novo Estado grego manda escavar a acrópole de Micenas e a espetacular Porta das Leoas, enterrada ate o lintel, é descoberta inteiramente. Em 1876, o alemão Heinrich Schliemann traz à tona no interior da a acrópole de Micenas, um circulo de 6 túmulos reais (circulo  A) comendo 19 corpos, homens, mulheres e crianças, e um móvel funerário de um luxo inaudito: máscaras de ouro cobrindo o rosto dos homens, colares e diademas adornando as mulheres, joias, armas, num total de mais de 14 quilogramas de ouro. É realmente a Micenas, "rica em ouro", de Homero que acaba de ressuscitar. Schliemann se convence de ter descoberto os túmulos dos Atridas e julga reconhecer Em uma das mascaras funerárias o rosto de Agamenon. Em 1953, a exumação de um novo circulo de túmulos (circulo B), fora dos muros de Micenas, pouco mais antigo que o circulo A, permite dar uma explicação a certas obscuridades que subsistiam depois da descoberta principal de Schliemann.

Existente também, perto da acrópole de Micenas, túmulos coletivos em tholos (cúpulas), apresentados como os de Egisto, de Clitemnestra e de Agamenon. O deste ultimo, chamado também de "tesouro de Atreu", constitui o mais belo exemplo da arquitetura monumental micênica. Um longo corredor cortado na rocha leva a uma porta de 5 metros de altura, encimada de um lintel de dois blocos enormes, um dos quais pesa 120 toneladas. No interior, a câmara funerária circular é dominada por uma abóbada em cúpula de 13 metros de altura. É provável que esses túmulos em tholos contivessem tesouros comparáveis aos dos túmulos dos círculos A e B, mas foram pilhados desde a Antiguidade.

Durante todo o século XX, os arqueólogos descobrem no Peloponeso e na Grécia continental outras provas desse período histórico ate então desconhecido. Micenas se torna a cidade epônima dessa civilização grega do 2° milênio a.e.c., e o qualificativo "micênico" é conferido a todos os vestígios da Idade do Bronze exumados em quase 400 sítios arqueológicos da Grécia.

Numerosas hipóteses foram aventadas para explicar a presença dos micênicos na Grécia durante o 2° milênio. Hoje a prudência se impõe em relação às origens da civilização micênica, e parece que não é necessário procura-las fora da Grécia. Do mesmo modo, para justificar a importância do material funerário de Micenas, o mais rico de todos os túmulos conhecidos hoje na Grécia, não é necessário fazer intervir elementos externos. Parece muito mais provável que uma classe social dominante lentamente emergiu na Argólida, de cujas terras férteis, fonte de seu poder, progressivamente se apoderou.

Ao contrário dos minoicos, os micênicos são guerreiros, o que a robustez dos corpos descobertos nos túmulos e as numerosas armas defensivas e ofensivas em seu poder confirmam. As maciças fortalezas de Micenas, de Tirinto e de Pilos comprovam essa impressão. Os gregos atribuíam dos lendários ciclopes (gigantes de um só olho) essas construções "sobre-humanas": os blocos irregulares e mal desbastados dos muros de Tirinto podem pesar ate 13 toneladas cada um, o lintel da Porta das Leoas tem um peso de mais de 20 toneladas. Além do aparato ciclópico dos muros micênicos, os tuneis, as passagens subterrâneas, as casamatas escavadas na espessura das muralhas confirmam também a elevada técnica dos engenheiros.

O palácio micênico se situa geralmente fora da cidade e suas fortificações lhe permitem sustentar um assedio. Três deles são conhecidos, os de Micenas, Tirinto e Pilos. Seu projeto é muito simples, bem distante da complexidade do palácio minoico. Um pórtico anterior e um vestíbulo conduzem a uma grande sala, o megaron, cujo teto é sustentado por quatro colunas e possui em seu centro uma lareira. Em torno do megaron, estão distribuídos os apartamentos reais e as salas cultuais. Depósitos e celeiros são construídos no entorno do palácio.

No palácio de Nestor em Pilos, os arqueólogos descobriram, precisamente antes da Primeira Guerra Mundial, 1.200 placas gravadas em linear B. Em 1952, dois ingleses, Michael Ventris e John Chadwick, tem a ideia, para decifrar esses textos, de aplicar-lhes os métodos utilizados durante a guerra de 1939 a 1945 para a decodificação das mensagens secretas alemãs. Chegam assim a decifrar essas placas e se dão conta de que sua língua silábica é uma forma arcaica do grego clássico.

Os documentos de Pilos, como os de Creta, contem inventários e listas de empregados. Essas placas dão preciosas informações sobre a sociedade micênica, que é extremamente hierarquizada. Cada reino é colocado sob a autoridade do wanax (chefe ou rei), o maior proprietário de terras. O wanax comanda o exercito, recolhe impostos e controla a administração do palácio. Ao lado dele está um personagem muito importante, o lawagetas, este também proprietário de numerosas terras, mas cujas funções são mal conhecidas. O séquito do rei se compõe de equetai, provavelmente oficiais, e telestai, encarregados da administração. O resto da população constitui o damos, ou povo. As placas mencionam também os escravos, essencialmente mulheres e crianças, que trabalham como empregados ou criados no palácio.

As placas de Pilos trazem também informações sobre a religião dos micênicos. Contém os nomes da maioria dos deuses que constituirão mais tarde o panteão grego clássico. Como os minoicos, os micênicos praticam frequentemente seu culto ao ar livre, perto de uma fonte ou caverna. Existem também locais de culto nas aglomerações. Subsistem ainda muitas incertezas sobre as cerimonias religiosas micênicas e sobre a função precisa de cada divindade. O estatuto das terras que constituem um reino micênico e sua distribuição entre grandes proprietários e camponeses livres são pouco evidentes. A produção agrícola é abundante e deve ser suficiente para a alimentação da população. A administração real recolhe impostos sobre as colheitas e taxas in natura.

O artesanato é florescente nas sociedades micênicas, como provam os vestígios arqueológicos. Centenas de operários trabalham nos palácios e nas cidades para fabricar tecidos, forjar armas, confeccionar peças de cerâmica. Os micênicos comerciam com países remotos, especialmente no Mediterrâneo ocidental, para obter os materiais de que necessitam, em particular marfim, cobre, necessário para a fabricação do bronze, ouro, pedras preciosas, massa de vidro. Eles exportam objetos manufaturados.

A potência refinada das obras de arte micênicas é surpreendente. A influencia minoica é sensível e operários cretenses vieram, indubitavelmente trabalhar na Grécia. Os afrescos que ornam as paredes dos palácios tem como temas procissões solenes, cenas de caça e de guerra. A decoração das cerâmicas, muito sóbria, se define por uma estilização um tanto rude. Os ourives sabem realizar obras-primas, como as figuras fortemente individualizadas das mascaras funerárias, a decoração marchetada dos punhais ou as minúsculas cabeças de alfinete trabalhadas. Duas canecas de ouro batido, provenientes de um tumulo de Vaphio, perto de Esparta, apresentam cenas de um realismo muito expressivo. O trabalho das pedras preciosas e do marfim é também marcante.

A civilização micênica desaparece por volta do século XII a.e.c. Os palácios são destruídos ou perdem sua importância. A escrita linear B é abandonada na Grécia. Atribuído durante muito tempo a invasores vindos do norte, esse desaparecimento deve, de fato, ter sido provocado por perturbações internas nos reinos. Esquecida ou mal conhecida durante séculos, a civilização micênica, graças às descobertas arqueológicas, tornou-se o elo indispensável para melhor compreender o remoto passado da Grécia clássica.

História - Idade Antiga - Antiguidade Clássica - Civilização Grega - Mitologia Grega - Aqueus - Micenas - Civilização Micênica - Átridas - Heinrich Schliemann - Agamenon
1/21/2018 9:05:52 AM | Por
Rússia
Texto
Khalkhin Gol: A batalha mais decisiva da qual ninguém ouviu falar

Em 2009, o presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, foi à capital da Mongólia, Ulan Bator, celebrar os 70 anos de um evento militar. Medvedev disparou flechas junto com o presidente mongol, Tsakhiagiin Elbegdorj, provou da bebida local, o airag (ou kumis, fermentado de leite), visitou monumentos do período comunista e fez um discurso: "A vitória em Khalkhin Gol, como sabemos, mudou a paisagem política internacional, convencendo o Japão a não entrar em guerra contra a União Soviética ao lado da Alemanha nazista, e tornou possível movimentar um grande número de tropas do Extremo Oriente para Moscou em 1941".

O que eles sabem - e não muita gente além deles - é que entre 11 de maio e 16 de setembro de 1939, 57 mil soviéticos enfrentaram 75 mil japoneses na fronteira da Mongólia com a China. É uma região desértica, sem recursos naturais importantes e infestada de mosquitos. Mas essa disputa por uma faixa minúscula de terra seca teve imenso impacto no destino da Segunda Guerra.

Três momentos costumam ser apresentados como definidores da derrota do Eixo. Um deles é o ataque a Pearl Harbor pelo Japão, em 7 de dezembro de 1941, tirando os Estados Unidos da neutralidade no conflito. Outro é a vitória soviética em Stalingrado, em 2 de fevereiro 1943, que pôs os nazistas para correr e os fez começar uma guerra defensiva, na qual de nada servia a estratégia, até então vitoriosa, de blitzkrieg ("guerra-relâmpago"). O terceiro foi a invasão da Normandia, o Dia D, em 6 de junho de 1944, orquestrada pelos Estados Unidos. Ela fez Hitler lutar em dois fronts, comprometendo ainda mais sua capacidade bélica.

Khalkhin Gol não foi menos fundamental. Sem essa derrota na Mongólia, o Japão poderia ter decidido invadir a União Soviética por terra, em vez de atacar Pearl Harbor - e isso seria capaz de inviabilizar a vitória russa sobre os alemães em Stalingrado, além de manter os Estados Unidos fora do conflito. Sem os Estados Unidos, o desfecho da guerra poderia ser muito diferente.

O local

A batalha de Khalkhin Gol aconteceu ao lado do rio Khalkhin, ou Halha (gol em mongol quer dizer "rio"; o gol do futebol é gool). Os japoneses preferem chamá-la de Incidente em Nomonhan por causa da vila mongol que delimita o outro lado do campo de batalha. De 11 de maio a 16 de setembro de 1939, soviéticos e japoneses se digladiaram no maior conflito entre tanques já visto até então. O historiador militar Edward Drea, autor do livro Nomonhan: Japanese-Soviet Tactical Combat (sem tradução), escreve sobre o tema desde os anos 1980. Segundo ele, um fator que dificultou a divulgação e a análise da importância do episódio foi a barreira linguística - os documentos estavam em russo e japonês. Outro é que, antes do fim do confronto, em 1º de setembro, a Alemanha invadiu a Polônia, o que é considerado o inicio oficial da Segunda Guerra. Drea e o historiador Alvin Coox (morto em 1999), da Universidade da Califórnia, foram os primeiros a destacar a importância de Khalkhin Gol.

"Foi uma das batalhas mais importantes da guerra. Ela sangrou os japoneses. Eles ficaram com medo da União Soviética e decidiram que os americanos seriam um alvo mais fácil", afirmou ao New York Times o especialista Chalmers Johnson, aluno de Coox. "Foi tão importante quanto Stalingrado."

O pretexto

O confronto aconteceu no meio do nada. Entre Nomonhan e o rio Khalkhin, são 25 km de deserto, ocasionalmente pontuados por arbustos e grama baixa. O rio chega a 150 m de largura, e o terreno é pantanoso em uma faixa de até 2 km em suas margens. A temperatura no verão bate nos 40 ºC.

Em 11 de maio de 1939, cerca de 80 membros da cavalaria mongol atravessaram o rio para que seus cavalos pastassem do outro lado - os cavalos ainda eram usados para transportar tropas, que lutavam desmontadas com metralhadoras, fuzis e morteiros. Em Nomonhan, estava uma patrulha de novatos japoneses, deixados lá justamente para não enfrentarem a guerra de verdade, que acontecia com a China, ao sul. Esses soldados, que também andavam a cavalo, expulsaram os mongóis a tiros, matando sete deles. 

Os japoneses sabiam no que estavam se metendo. Desde uma revolução em 1924, a Mongólia era uma república comunista fortemente próxima à União Soviética. Segundo Drea, os japoneses simplesmente estavam dispostos a "castigar os violadores de suas fronteiras", custasse o que custasse. A patrulha em Nomonhan não era parte do Exército Imperial Japonês, mas do Exército de Kwangtung, uma força especial para administrar as possessões japonesas em terra. A força havia sido criada após a vitória na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), que deu ao Japão uma faixa de terra ao norte da Coreia. Em 1910, o Japão anexou a Coreia por meio de um tratado. Em 1931, os radicais do exército de Kwangtung armaram um falso atentado chinês, desobedeceram ordens do comando geral em Tóquio e conquistaram por conta própria a Manchúria, território ao norte da China, instalando um governo marionete. 

Apesar da insubordinação, a riqueza da região fez os oficiais japoneses considerarem a conquista um fato consumado e aceitarem suas consequências. A partir daí, o Japão tinha 3 mil km de fronteira com a URSS para administrar. No ano anterior, os japoneses haviam tentado conquistar um pedaço de terra próximo ao lago Khazan, 130 km ao sul de Vladivostok, a cidade mais importante do Extremo Oriente russo. Os japoneses foram repelidos, mas lutaram em menor número, 7 mil contra 22950, e tiveram menos baixas que os russos: 526 mortos e 913 feridos, contra 717 e 2752. Não ficaram impressionados.

Segundo Drea, o Japão acreditava que os russos eram ferozes em combate, mas um tanto sem imaginação. Os expurgos no Exército feitos por Stalin a partir de 1935 teriam deixado o Exército Vermelho descerebrado, e os soldados, submissos e atemorizados, ficariam sem iniciativa se atingidos pela tenacidade japonesa. Os japoneses sabiam que suas armas eram inferiores às dos soviéticos, mas esperavam vencer com seu "espírito de guerra" superior, isto é, sendo corajosos de forma suicida. A tática favorita da infantaria japonesa era atacar à noite, chegar o mais próximo possível do inimigo, de preferência pelos flancos, e executar uma carga com baionetas e espadas - a famosa carga banzai, que os americanos veriam na Segunda Guerra.

Os mongóis voltaram com seus amigos russos dois dias depois do primeiro incidente. Os japoneses em Nomonhan pediram ajuda, e ela veio com as tropas do 64º regimento, com carros leves e tropas de infantaria. Inicialmente, conseguiram expulsar os russos e mongóis com as táticas dos manuais japoneses. Mas os russos voltaram mais uma vez, liquidando o 64º em 28 de maio.

No mês de junho, japoneses e russos se enfrentaram esporadicamente, enquanto traziam mais tropas. O número de combatentes, que se mediam antes em dezenas (foram 97 mortos na destruição do 64º regimento), logo chegou a milhares. Em 1º de julho, os japoneses lançaram um assalto noturno em larga escala, com 75 tanques. Apesar de sérios problemas de comunicação (os tanques chegaram muito antes da infantaria), os japoneses expulsaram os russos para o outro lado do rio. Mas isso durou pouco. Os russos contra-atacaram com 186 tanques e 233 carros blindados, dominando novamente as duas bordas do rio no dia 3. Os tanques japoneses, com blindagem e armas inferiores, foram trucidados pelos tanques soviéticos. ➽

A derrota japonesa

Pouco antes do início oficial da Segunda Guerra, o Japão, já aliado da Alemanha nazista, planejava usar a Mongólia como plataforma para chegar à União Soviética, abrindo um front no sul do país. Para isso, enviou à região de Nomonhan, na Mongólia, perto do rio Khalkhin, 75 mil homens, tanques e aviões. Depois de quase quatro meses de luta, no fim de agosto, os soviéticos começaram a cercá-los, movendo seus 498 tanques pelos flancos, principalmente pelo sul do campo de batalha. A infantaria atacou os japoneses de frente e pelo norte. Atordoados pelo barulho dos 577 aviões inimigos que propositalmente voavam baixo, os japoneses não ouviram a aproximação dos tanques. E foram inapelavelmente massacrados.

➽ Após mais duas semanas de impasse, no dia 23 de julho, os japoneses montaram outro grande ataque, com mais tanques, aviões e artilharia. Dessa vez, sua inferioridade tecnológica, logística e tática tornou-se gritante: a artilharia japonesa não conseguiu alcançar a russa para silenciá-la - os soldados japoneses marcharam sob tiros de artilharia e canhões e, por mais corajosos que fossem, morriam antes de alcançar os russos. Os aviões japoneses venciam os soviéticos no ar, mas o simples fato de terem de enfrentá-los, em vez de dar suporte à infantaria, diminuiu sua utilidade. Cinco mil soldados morreram antes que os japoneses desistissem do ataque.

Os japoneses fortificaram-se na retaguarda, enquanto tentavam preparar uma nova investida. O comandante soviético Georgy Zhukov, que mais tarde se tornaria o grande herói da defesa de Stalingrado, tinha uma carta na manga: contrariando tudo o que os japoneses esperavam, ele seria criativo. Em 20 de agosto, simulou um ataque frontal de infantaria, com 57 mil homens contra os cerca de 30 mil japoneses que resistiam. Era o tipo de coisa que os japoneses esperavam dos russos: força bruta, mas previsibilidade. Enquanto isso, 577 caças e bombardeiros os sobrevoavam constantemente, mesmo sem atirar. O objetivo era fazer barulho: sem que os japoneses percebessem, 498 tanques russos os cercavam pelo sul, enquanto parte da infantaria se movia silenciosamente pelo norte. Os japoneses acabaram totalmente cercados, mas, seguindo os preceitos da honra militar nipônica, recusaram-se a se render. Em 31 de agosto, passaram para o outro lado da fronteira estabelecida pelos soviéticos, e Zhukov considerou sua missão cumprida.

A frustração

O general Michitaru Matsubara planejava mais um contra-ataque quando, no dia 16 de setembro, recebeu a notícia de que sua guerra estava encerrada. Tóquio havia feito um acordo de paz com os soviéticos. Além do fracasso na batalha, pesou na decisão do comando japonês o fato de que a Alemanha também havia acabado de assinar um armistício com os soviéticos. O tratado de Molotov-Ribbentrop, firmado em 23 de agosto de 1939, garantiu a paz entre os dois países e fez com que a Polônia fosse dividida em duas partes após a invasão pelos alemães, em 1º de setembro. O governo japonês considerou o pacto uma traição de seus aliados nazistas, mas qualquer plano de enfrentar a União Soviética ia por água abaixo com ele.

Segundo Edward Drea, os japoneses consideravam os soviéticos seus "inimigos naturais" desde a vitória em 1905. A questão não era se atacariam a União Soviética, mas quando. A ideologia japonesa tinha o característico socialismo de direita de Hitler e Mussolini, isto é, grandes programas sociais, mas também grandes corporações nacionais apoiadas e controladas pelo governo - nada de livre mercado. Como o fascismo à europeia, era radicalmente anticomunista.

Havia duas doutrinas sobre como abordar a questão soviética. A chamada nanshin-hon ("atacar ao sul"), defendida pelos líderes da Marinha e do Exército em Tóquio, consistia em conquistar colônias e recursos no oceano Pacífico e depois focar a Ásia continental e a União Soviética. E havia a doutrina hokushin-hon, ("atacar ao norte"), defendida principalmente por oficiais do Exército de Kwangtung e por anticomunistas mais radicais, como o ex-ministro da guerra Sadao Araki (1877-1966). Essa corrente previa cortar as linhas de suprimentos soviéticos ao norte da Mongólia e conquistar o leste da Rússia, principalmente a cidade de Vladivostok.

A derrota japonesa em Khalkhin Gol tornou claras suas deficiências em terra e na produção de tanques - e enterrou a ala hokushin-hon. Além disso, depois do episódio, o general Matsubara foi levado a Tóquio e aposentado - uma imensa desonra.

Do outro lado do mundo, o acordo Molotov-Ribbentrop se provaria uma farsa. Em 22 de junho de 1941, Hitler invadiu a União Soviética, a começar pelos territórios que a própria URSS havia ganho com o acordo, como o nordeste da Polônia. O Japão, no entanto, preferiu não intervir. Tinha outros planos: em 7 de dezembro de 1941, a partir de seis porta-aviões, decolaram 373 caças, bombardeiros e torpedeiros. Dirigiam-se a Pearl Harbor, no Havaí, e sua missão era aniquilar a maior parte das tropas americanas no oceano Pacífico. Os EUA perderam quatro encouraçados e dois destróieres, além de 188 aviões e 2402 soldados. Vários navios, danificados, levariam meses para sair novamente do estaleiro.

Os americanos não estavam em guerra com o Japão e a Alemanha, e a opinião pública era maciçamente contra o envolvimento numa guerra que era vista como assunto interno europeu. No dia seguinte, no entanto, eles declararam guerra ao Japão e, em 11 de dezembro, Itália e Alemanha declararam guerra aos EUA.

"Se o Japão tivesse atacado a União Soviética no verão de 1941, o choque de uma guerra de dois fronts poderia ter feito os soviéticos desabarem (o outro front era o efetivo enfrentamento contra os alemães). Sem os Estados Unidos na guerra, os parceiros do Eixo seriam capazes de garantir um acordo de paz, criando uma União Soviética enfraquecida e fragmentada", diz Drea. Esse cenário facilitaria a vitória final de Hitler. Sem Khalkhin Gol, o mundo poderia ser outro. Provavelmente, pior.

História, Idade contemporânea, Século XX, União Soviética, URSS, Japão, Segunda guerra mundial, Khalkhin Gol
12/28/2017 6:23:19 PM | Por Pierre Grimal
Civilização Romana
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As mulheres, o casamento e o poder na Roma imperial

No fim da República romana, o casamento tinha-se transformado em um instrumento político: o poder, que algumas famílias partilhavam entre si, ciosas dos seus privilégios e fortemente decididas a protegê-los contra os intrusos, pertencia àqueles a quem o nascimento ou as alianças das suas gens destinavam às magistraturas. Aliás, as uniões eram reali­zadas apenas com conhecimento de causa e os caprichos do coração não eram de modo nenhum tidos em conta. Por estas mesmas razões, não hesitavam no divórcio quando os interesses o exigiam. No entanto, en­volvendo uma contradição de graves consequências, não se deixava de considerar que estes mesmos casamentos, tão frágeis, eram essenciais à sobrevivência de uma sociedade que não chegava a esquecer totalmente as suas origens patriarcais. Uma das primeiras preocupações de Augusto quando começou a reorganizar o Estado foi forçar os principais cida­dãos a assumir este dever, de que pretendiam dispensar-se1. Durante o Império, os senadores foram obrigados, a bem ou a mal, a tomar mulher - não uma esposa qualquer, mas uma mulher com o seu estatuto, a fim de ser mantida esta aristocracia que César tinha, de fato, enfraquecido, mas à qual Augusto e os seus sucessores se propunham confiar uma parte das responsabilidades tradicionais. 

No entanto, o casamento era insuficiente só por si para garantir a intimidade dos cônjuges. Muitos foram, decerto, os homens e as mulhe­res que procuraram fora do casal a felicidade ou o prazer que nele não encontravam. Sêneca podia escrever à mãe: “O maior mal deste século, a imoralidade, não te levou a juntares-te à maioria”2. Parece realmente que, a acreditarmos nos autores romanos, entre os quais sobressai a voz de Juvenal, muitas esposas não foram fiéis ao seu juramento. Por seu lado, como sabemos, os maridos podiam exibir sem escândalo ligações que não os desonravam. Apesar de tudo, o casamento em si mesmo con­tinuava a ser uma instituição a que até os mais dissolutos prestavam homenagem. Era no casamento, fosse ou não respeitado, que se afirma­va o orgulho de uma casta: à medida que as mulheres conquistavam uma maior liberdade, tornavam-se conscientes do seu papel na cidade. As melhores delas aspiravam a compartilhar plenamente as preocupações do marido, a mostrarem-se dignas dos seus antepassados e, mais em geral, do nome romano. O amor ganhava, então, para elas, um outro aspecto. Já não era, como nos tempos antigos, obediência, respeito, apagamento, mas tornava-se estima, devoção, por vezes, camaradagem, ou mesmo cumplicidade. A perspectiva da vida conjugal transformava-se: as relações carnais e a procriação perdiam a sua tirânica importância e, em seu lugar, nascia a amizade. 

Nesta evolução, é possível detectar a influência da filosofia grega. Já nos parecera que a aventura de Catão e Márcia evidenciava uma atitude comandada por imperativos e até por paradoxos estoicos, pois quer Crisipo quer Zenão advogaram, por vezes, a comunidade das mulheres3, pelo menos entre os sábios. Catão, na verdade, é o único homem do seu tempo a ter levado os princípios da seita até ao sublime e ao absurdo, mas houve à sua volta, bem como nas gerações que se seguiram, muitos espíritos seduzidos pelo pensamento estoico e cuja conduta nele se ins­pirou. Se é verdade que o estoicismo em muito contribuiu para formar a doutrina do Império, é certo também que dominou as almas e tanto mais quanto há longo tempo estavam preparadas para ouvir os seus ensinamentos. Durante todo o Império, os nobres romanos foram, na sua grande maioria, estoicos ou, pelo menos, iniciados nos princípios da moral estoica. 

Ora, enquanto os epicuristas consideravam o amor como a satisfação de um mero prazer carnal, os estoicos atribuíam-lhe um lugar de eleição na vida interior. Independentemente da sua desconfiança em re­lação a todas as paixões, não se resignavam a condenar esta, de que diziam ser “uma tentativa para criar a amizade graças à beleza”4. Cícero, que retoma a fórmula, sublinha com justiça o seu carácter platônico5. Naturalmente, a beleza que desperta o amor é, por princípio, a beleza moral, a da alma, mas esta beleza ideal transparece na beleza do corpo, que se torna, de algum modo, mediadora entre o amante e amado. Em teoria, há uma grande distância entre esta “amizade” filosófica e o amor carnal e, na prática, os filósofos desviavam os seus discípulos dos ata­lhos demasiado fáceis e demasiado tentadores. A perfeição do amor “estóico” não pode ser realizada senão na alma do sábio. Só este é capaz de suplantar os perigos que o sentimento amoroso envolve. Crisipo e os seus sucessores estavam bem conscientes das dificuldades que uma alma insuficientemente firme encontraria para distinguir o amor verdadeiro da sua caricatura carnal. Não se consideravam, no entanto, no direito de formular uma condenação de princípio contra uma forma de relação hu­mana que lhes parecia ser a única capaz de realizar plenamente a com­ preensão e a comunhão das consciências. 

Quando falavam do amor, os primeiros estoicos, como também o próprio Platão, pensavam sobretudo nas relações do sábio com os seus discípulos, nos “amores filosóficos”, cujo objeto eram os jovens. Mas logo a sua doutrina foi aplicada aos amores mais normais, vindo a defi­nir, de maneira muito geral, um “uso filosófico” do sentimento amoroso. Era costume citar a propósito um estoico chamado Trasônides, que res­peitara a jovem que amava e que tinha em seu poder, com receio de fazer nascer nela um sentimento de aversão6

Um amor baseado na estima e na participação nos mesmos valores morais, tal era o ideal que o estoicismo propunha aos seus adeptos roma­nos. Em uma sociedade onde a mulher gostava de afirmar a sua indepen­dência, o amor “estoico" oferecia-lhe a possibilidade de realizar plena­mente esta liberdade, salvaguardando ao mesmo tempo as exigências do seu coração. Por isso, não surpreende que os meios estoicos, durante o Império, nos facultem vários exemplos de mulheres que praticaram esta moral. 

A mais célebre dentre elas é, sem dúvida, Arria, mulher de Cecina Peto. Plínio, Em uma carta que lhe dedicou integralmente, preservou al­guns traços heróicos de que a sua família guardava devotadamente a lembrança7. Durante uma doença que atingira o marido e o filho, este último acabou por falecer. Arria fez por esconder a verdade a Peto. En­carregou-se ela mesma do funeral, resolveu tudo e, quando estava na presença do marido, fingia que o seu filho ainda estava vivo. E mais, diz Plínio, inventava mil detalhes consoladores: “Dormiu bem - dizia ela -, comeu com bastante apetite.” Depois, saía do quarto e dava livre curso às suas lágrimas e só reentrava depois de ter os olhos secos e o rosto sereno, como se, diz ainda Plínio, “tivesse deixado o seu luto à porta”. Só revelou a verdade ao marido quando este ficou suficientemente forte para a suportar. 

Cecina Peto tinha participado, na Ilíria, em uma revolta contra Cláudio e foi preso após o malogro dos insurrectos. Quando os soldados o em­barcavam em um navio para o conduzir a Roma. Arria suplicou aos guardas que a levassem com eles. “Vejamos - dizia-lhes ela vão ter que destinar ao cônsul alguns escravos para o alimentar, vestir e calçar. To­dos estes serviços, seria apenas eu a prestá-los.” Os soldados afastaram-na. Então, alugou um barco de pesca e, nesta frágil embarcação, seguiu o navio. Durante o processo, deu provas da mesma alma indomável. Como Víbia, a mulher de Escriboniano, o principal instigador da revol­ta, aceitava fazer revelações na sua presença, Arria gritou-lhe: “Que oiço eu? Escriboniano foi morto nos teus braços e tu estás viva?” Quando o marido foi condenado, foi a primeira a agarrar o punhal, espetou-o no peito e, em seguida, retirando a arma ensanguentada, estendeu-lha di­zendo: “Peto, não é doloroso!” 

Os seus filhos, no decurso do processo, tinham querido dissuadi-la de morrer. Ao seu genro, Trásea, que lhe perguntara: “Quererias, portan­to, que a tua filha morresse comigo, se eu tivesse de morrer?”, respon­deu: “Sim, se ela tivesse vivido contigo tanto tempo e em uma concórdia tão total como Peto viveu comigo.” Contudo, Arria teria podido viver feliz muitos anos. Era íntima amiga de Messalina e ninguém teria pensa­ do em incomodá-la, se não tivesse procurado ela mesma a morte8

Seria ofender estas mulheres explicar a sua conduta por um acesso de paixão. Elas não são levadas pelo desespero, mas pelo sentimento da honra: seria desonroso para elas, inhonestum, sobreviver ao naufrágio daquilo que fora toda a sua vida. Colocam acima de qualquer outro valor esta “fidelidade” a um compromisso que livremente celebraram e que nem sequer a morte do seu companheiro poderá dissolver. A sua atitude, por um lado, está próxima da das matronas de outrora, cuja honra obri­gava a permanecer univirae, a não contrair um segundo casamento, se o seu primeiro marido viesse a desaparecer, e, por outro lado, é totalmente diferente dela quanto ao espírito: sacrificando o resto da sua vida, não obedecem à opinião comum, aos imperativos de uma moral que é sobre­tudo negativa, mas têm a consciência de realizar elas mesmas uma esco­lha livre. A amizade que as une ao marido leva-as a compartilhar, total e espontaneamente, um ideal que não poderiam negar em face da morte. Este é, sem dúvida, o sentido da palavra “concórdia”, com que Arria explicava ao genro a sua vontade de morrer. Não pensava certamente no acordo burguês que poupa aos cônjuges as pequenas contrariedades da vida quotidiana, mas, pelo contrário, na identidade de espírito que é a própria definição da amizade estoica. 

Acontece que o maior filósofo deste tempo, o estoico Sêneca, também teve a experiência de um tal amor, pelo menos na última fase da sua vida. Tendo casado, depois de regressar do exílio, com uma mulher muito jovem, Paulina, quando ele mesmo já tinha atingido os cinquenta anos, viveu em uma grande intimidade com ela. Paulina velava cuidadosamente pela sua saúde, que foi sempre delicada, e Sêneca até se lamentava de ser amado com demasiada complacência. Todavia, acrescentava: “Como não posso fazer com que ela me ame com menos indulgência, é ela que faz com que eu me ame com maior atenção.”9 São afirmações suspeitas, dir-se-á, e ditadas pela vaidade de um velho que o amor de uma jovem lisonjeia. No entanto, alguns meses mais tarde, um acontecimento iria provar de maneira dramática a sua verdade. 

Foi Tácito que nos relatou os últimos momentos de Sêneca. Implica­do na conspiração de Pisão e já totalmente caído em desgraça, Sêneca recebe de Nero a ordem de se matar. Então, Paulina declara que não lhe sobreviverá de modo nenhum e pede “uma mão que a fira”. Ao ouvir isto, Sêneca, para não se opor à sua glória e, para além disso, motivado pelo afeto, para não a deixar sem defesa perante a injustiça, disse-lhe - a ela que ele amara com tanta ternura: 

“Mostrei-te o que podia tornar doce a tua vida, mas preferes a honra de morrer. Não recusarei de modo nenhum o direito de te tomares um exem­plo. Ainda que a nossa morte revele neste momento que a coragem de ambos tem igual firmeza, será o teu fim o mais sublime”. 

Após estas palavras, com um mesmo golpe, abrem as veias dos bra­ços. Sêneca, cujo o corpo estava velho e emagrecido por um regime ascético, só lentamente deixava escoar o sangue, pelo que abre igual­ mente as veias das pernas e dos jarretes. Então, esgotado por dores vio­lentas, temendo que o seu próprio sofrimento abalasse a vontade da sua mulher e que o espectáculo do suplício dela o enfraquecesse a si mesmo a ponto de não lhe permitir suportá-lo mais, persuade-a a que se retire para outra sala. 

Mas Nero, que não tinha em relação a Paulina nenhuma animosidade pessoal e também desejando evitar chocar a opinião pública, passan­do por cruel, ordena que tragam a jovem de volta à vida. Por ordem dos soldados, os escravos e os libertos fazem um ligadura nos braços e estan­cam a hemorragia sem que se saiba se a paciente tem consciência do que lhe estão a fazer. Como a multidão está sempre pronta a dar uma inter­pretação maldosa, não foram poucas as pessoas que julgaram que, en­quanto temera enfrentar um Nero implacável, quisera obter a glória de morrer com o seu marido, mas, depois, quando lhe surgiu uma esperan­ça mais favorável, rendeu-se à atração pela vida10

O estoicismo gostava de reconhecer às mulheres a possibilidade de atingir a “virtude” e pensava mesmo que isso era nelas um mérito maior do que nos homens, porque tinham de superar uma natureza mais domi­nada pela paixão e pelo instinto. Em um tratado sobre o casamento, de que só nos restam uns fragmentos mínimos, Sêneca afirmava que a primeira virtude de uma mulher era a sua pureza, virtude cardeal cuja perda arrui­nava todas as outras. Dava para isso várias razões, pertencendo algumas à moral tradicional (garantir a genuinidade da sua descendência e conti­nuar digna dos seus antepassados e da sua gens), mas uma delas, pelo menos, a que era mais importante, exprime o imperativo absoluto da seita: o respeito por si mesma, o cuidado pela sua própria liberdade. Uma mulher que não respeite a sua honra torna-se escrava da paixão do seu amante, já não é livre. 

Foi o respeito pela sua honra, escreve Sêneca, que elevou Lucrécia ao mesmo plano que Brutus e talvez a tenha colocado acima dele, porque foi com uma mulher que Brutus aprendeu que não podia ser escravo.11 

Mas não era apenas o carácter ilegítimo do amor adúltero que o tor­nava imoral. Há casamentos, diz ainda Sêneca, que são verdadeiros adul­térios: “É ser adúltero para com a sua própria mulher amá-la com um amor demasiado ardente.” A fórmula é retirada de um dos seus mestres, o estoico Sêxtio, e Sêneca retoma-a por sua conta, acrescentando: “O sábio deve amar a sua mulher por um ato de vontade deliberada, e não por um impulso de paixão”12

Esta teoria coerente do casamento estoico, elaborada pelos moralis­tas na própria Roma. redescobre, justificando-os, os velhos preceitos da tradição ancestral: agora como antes, deparamos com a mesma descon­fiança em relação à paixão e às forças cegas do instinto, com o mesmo ideal de castidade para os dois cônjuges. Mas os filósofos acrescentam uma nova exigência: é necessário que também o marido respeite a sua mulher e lhe seja fiel. Apenas assim será realizada aquela “amizade” que eleva o casamento acima das preocupações vulgares e lhe confere o seu verdadeiro valor. Que esta concepção do casamento não tenha sido pura teoria, mas que se tenha realizado pelo menos em alguns casais de elite, é o que os exemplos que citamos, aqueles que podemos apresentar, nos obrigam a acreditar. Por si só, a espiritualidade ancestral eleva-se a um ideal que anuncia, por certo, o do casamento cristão, mas permanece fiel à antiga moral, pelo menos na forma, com a diferença de que aquilo que era até então uma simples norma de conduta se tornar agora em uma atitude espiritual que encontra a sua justificação e a sua recompensa em si mesma. 

Uma vez aceita esta exigência moral, compreenderemos melhor as críticas, por vezes muito acerbas, que Sêneca dirige às mulheres do seu tempo, quando as acusa de “contar os seus anos, não pelos cônsules, mas segundo os sucessivos maridos”13. Não é mais condescendente com os homens que se deixam arrastar por outras paixões igualmente perigosas para o seu aperfeiçoamento interior: a cupidez, a ambição e o gosto do luxo. Todos estes arrebatamentos são igualmente culpados, mas, para uma mulher, as faltas contra a castidade são o principal perigo. A pri­meira condição da “vida feliz” deve ser, para ela, aprender a dominar o que temos de designar como a maldição feminina, este apelo dos senti­dos que a encontra geralmente sem defesa. Não falemos aqui de “des­prezo” em relação à mulher14. Sêneca não despreza Márcia, nem Hélvia, nem Paulina, mas sabe que o ideal que lhes propõe é elevado, difícil de atingir e que necessitarão de uma força de alma pouco comum para su­perar nelas o irracional e, ultrapassando o amor, chegar ao mais alto da amizade. 

 

*** 

 

Ao mesmo tempo que a aristocracia estoica elaborava assim, com a ajuda dos filósofos, uma moral do amor legítimo singularmente elevada e “moderna” nas suas ressonâncias, outras tendências viam a luz do dia, reforçadas pelas novas condições que o advento do poder monárquico criava. Do mesmo modo que o conjunto da civilização romana, a histó­ria do sentimento amoroso revela influências simultâneas e contraditóri­as, procedendo umas da mais autêntica tradição nacional e outras de um Oriente onde o helenismo realizou uma síntese de morais e místicas he­terogêneas. Em Roma, estas influências ombreiam umas com as outras. Talvez nos surpreenda saber que uma mulher como Arria foi amiga e parente de Messalina. Todavia, é necessário pôr de parte as nossas indig­nações virtuosas e renunciar a aplicar, sem os devidos matizes, juízos tradicionais, mas anacrônicos. Por fim, a moral do Ocidente “inclinou-se” para o lado de Arria. Mas é necessário admitir, no entanto, que esta escolha só se pôde efetuar porque existia outra coisa pela qual se podia optar. 

Ouvindo os poetas, nomeadamente Propércio, pareceu-nos que o amor carnal nem sempre foi objeto de uma condenação implícita, mas pôde ser considerado como uma exaltação quase divina do ser, ou mesmo um mediador entre o humano e sobre-humano. No próprio pensamento reli­gioso romano existiu esta tendência, apesar dos esforços do “puritanismo” senatorial para o mascarar e para lhe reduzir as consequências15. Era natural que, após a derrota do Senado no campo de batalha de Farsália, se produzisse uma violenta reação e que alguns romanos acreditassem que chegara o momento de reabilitar formas de vida que a moral tradi­cional reprovava, reação tanto mais compreensível por ocorrer depois das angústias da guerra civil e que às grandes tensões nacionais sempre se seguiu um abrandamento geral dos costumes. 

O herói desta moral (ou, se se preferir, desta imoralidade) nova foi Marco Antônio. Foi conduzido a ela pelo seu temperamento, que predis­punha a todos os excessos, e também por uma tradição familiar que pre­tendia que a gens Antônia descendia de Hércules, o Hércules das proe­zas heroicas e grandiosas, “monstro sagrado” que escapa às normas da moral vulgar, capaz de estrangular um leão com as suas mãos e de dar, em uma noite, cinquenta filhos às filhas de Téspio. Plutarco conta-nos como, na sua maneira de vestir, no seu modo de andar, Antônio se esforçou sempre por imitar Hércules16. Enquanto César lutava ainda na Espanha para aniquilar os últimos restos do partido senatorial, Antônio percorria a Itália com mimos e dançarinas17, parando à beira das estradas para dar banquetes em que bebia mais do que era razoável e que degeneravam em orgias. Durante algum tempo, a influência de Fúlvia e talvez também as repreensões de César colocaram um travão a este exaltado desejo de gozo, que chocava profundamente a opinião pública, pelo menos a dos aristocratas, porque parece que a plebe se apaixonou por ele como sendo um herói. 

Era difícil, em uma Itália instintivamente “burguesa”, dar à sua própria personagem dimensões míticas. César, que o tentava de modo mais sutil do que Antônio, não o conseguiu, tendo pago o seu fracasso com a vida. Mas este permanecia no Oriente e é aí que o Heraclida vai tentar viver o seu próprio mito. 

Na partilha do mundo que se seguiu ao fim do segundo triunvirato, Antônio obteve o Oriente e com uma facilidade tanto maior quanto Otávio ficava bastante satisfeito por afastar este aliado incerto de uma Itália onde, realmente, se disputava o futuro do mundo. A partir de 41, eis Antônio na Ásia Menor. Apresenta-se não como Hércules, como se­ ria de esperar, mas como Dioniso. Com efeito, expressas na mística des­te tempo, são várias as analogias entre Hércules e o deus das Ménades18: ambos são heróis triunfantes, desceram aos Infernos e penetraram nos segredos do além. Por outro lado, sabemos que os Ptolomeus atribuíram a si mesmos uma dupla ascendência que os relacionava com os dois. Estamos em um tempo em que os velhos mitos são objeto de uma exegese que umas vezes é sutil e outras complacente, prestando-se a todas as políticas. Ora, os reinos de Oriente tinham visto nascer e desenvolver-se confrarias de admiradores de Dioniso, que exerciam um grande poder sobre os espíritos. Estas confrarias recrutavam os seus elementos sobre­ tudo entre os “dionisiastas” - músicos, cantores, dançarinos -, cujo ofí­cio era precisamente colaborar, nas cidades, nas festas do deus. Logo que chega à Ásia Menor, vemos Antônio rodeado de artistas desta espé­cie, impondo-se junto dele, o que indigna fortemente Plutarco19: Quan­do fez a sua entrada em Éfeso, foi como um triunfador dionisíaco. Mu­lheres disfarçadas de bacantes, homens e jovens vestidos de sátiros e deuses Pã precediam o seu cortejo. A cidade estava cheia de hera e tirsos, liras, siringes e flautas, enquanto o povo o aclamava, chamando-lhe Dioniso, o benevolente, e Dioniso, o jubiloso20

Por trás desta aparente loucura ocultava-se uma intenção política. Pretendia atrair a si a simpatia popular e nada podia servir melhor as intenções de Antônio do que o apoio dos sectários do deus que pretendia encarnar. Herdeiro dos projetos de César, Antônio esperava empreen­der uma expedição à índia, para além do reino dos Partos. Quem não se recordava do triunfal passeio “militar” até às margens Ganges de que Dioniso fora o herói? Em Roma, tudo isto seria uma loucura, uma mas­carada sem dignidade. Em Éfeso, ao som de flautas e tamborins, era talvez sabedoria. 

Este foi o momento escolhido por Cleópatra para se apresentar ao futuro conquistador do mundo. Durante a guerra contra os assassinos de César, Cleópatra tinha apoiado o partido de Cássio, e Antônio, após a sua vitória, pretendia pedir-lhe contas. Enviou-lhe um mensageiro ordenando-lhe que se apresentasse na Cilicia para apresentar desculpas, se o pudesse fazer. Cleópatra, que conhecia bem Antônio, por tê-lo encontra­do em Roma - talvez por já ter sido aí sua amante21-, decidiu ir a Tarso e ter com ele uma conversa decisiva. Estava informada pelos seus agen­tes sobre a sua conduta desde a chegada à Ásia. Sabia quais eram as suas esperanças e os meios que usava e julgou que podia batê-lo no seu pró­prio terreno. Quando subiu o Cidno, fê-lo em uma embarcação real de popa dourada e com velas de púrpura. Os ramos estavam incrustados de di­nheiro. O ritmo era marcado aos remadores por flautas acompanhadas de liras e siringes. Ela mesma permanecia sob um dossel bordado a ouro, semelhante à deusa Afrodite, enquanto alguns Amores, como se via nas pinturas, estavam de pé, de ambos os lados da sua cama, refrescando-a com os seus leques. Dispersas entre a tripulação, servas jovens e belas representavam as Graças e as Nereides. Defumadores espalhavam os seus fumos aromáticos pelas margens22. A multidão acorreu de todo lado para gozar o espectáculo, pelo que, em pouco tempo, Antônio ficou só, no seu tribunal, no meio da ágora! Por toda a parte se espalhou o rumor de que a deusa Afrodite em pessoa viera alegrar-se com Dioniso para bene­fício da Ásia. 

Nessa mesma noite, no rio, houve uma festa extraordinária. Antônio, esquecendo que era ele o senhor e que a rainha vinha por sua ordem, aceitou a hospitalidade de Cleópatra na seu galera divina. Nesse mo­mento, começou uma aventura “inimitável” (foi essa a designação que os dois amantes deram à vida que levaram a partir daí) entre o novo Dioniso e a nova ísis. Voltaram ambos para Alexandria e, enquanto Fúlvia desencadeava a guerra civil na Itália, o marido entregava-se a mil facécias indignas de um romano, mas que encantavam a populaça egíp­cia. Ele e Cleópatra, à noite, corriam disfarçados pelas ruas, molestando os transeuntes, que lhes retribuíam as ofensas e, por vezes, lhes ganha­vam. No resto do tempo, Cleópatra jogava aos dados ou bebia com ele, caçava ou olhava-o a fazer armas. Foi uma época magnífica. Cleópatra sabia maravilhosamente importuná-lo e adulá-lo, ao mesmo tempo. Antônio fora um dia à pesca e a sorte não o estava a favorecer nada, deixando-o extremamente irritado, porque, como Cleópatra estava pre­sente, sentia-se humilhado. Pediu então, secretamente, a alguns pesca­dores que lá se encontravam para mergulharem e prenderem na sua linha peixes que já tinham. Antônio pensava ter salvo a sua honra e Cleópatra, aparentando acreditar, não lhe regateou elogios. Mas, para consigo, pen­sava na vingança. Organizou para o dia seguinte outra pescaria para a qual convidou um grande número de cortesãos. Depois, chegando antes de Antônio, encarregou um nadador de prender à linha deste um arenque salgado. Quando Antônio levantou a linha, todos se puseram a rir e Cleópatra gritou-lhe: “Imperator, deixa-nos a nós, gente de Faros e de Canopo, a preocupação com a pesca. A tua caça são as cidades, os reinos e os continentes”21

Enganar-nos-íamos, no entanto, se acreditássemos que Antônio estava completamente subjugado pela rainha. Não se tinha tomado, nas suas mãos, o instrumento dócil com que ela sonhava. Quando as notícias da Itália tornaram conhecidas as dificuldades em que Fúlvia o compro­metera sem o seu conhecimento, não hesitou em abandonar Alexandria e regressar à Grécia, indo depois a Brindes, onde acordou a paz com Otávio. Como a situação exigia um acordo duradouro e Fúlvia morrera entretanto, aceitou realizar um novo casamento, desta vez com Otávia, a irmã de Otávio. Provavelmente, não sentia realmente que era o “mari­do” da rainha: não era para ele senão uma concubina e apenas um pouco mais do que uma cortesã. Talvez a considerasse mesmo um instrumento para conseguir a anexação total do Oriente: afinal, os reis do Egito eram frequentemente feitos por casamento com a soberana do país. Con­tudo, de momento, era necessário esperar. O sonho de ser o soberano do Oriente não estava abandonado. Para realizá-lo, convinha, em primeiro lugar, ter as mãos livres na Itália, garantia que obteve com o casamento com Otávia. Durante três anos, sem mais se preocupar com Cleópatra, Antônio vai ser para a sua nova mulher um marido fiel. Mesmo quando tem de ir à Síria para chefiar as operações contra os Partas, na Primavera de 38, não aproveita a ocasião para se reencontrar com a rainha. Como é evidente, o seu amor por ela e a recordação do Inverno maravilhoso e da vida inimitável não ocupam de modo nenhum o seu espírito, o que não deixa de embaraçar um tanto os historiadores que querem explicar toda a história desta época com os encantos de Cleópatra. 

Há outros autores que, pelo contrário, reduzem o papel desempenhado pela rainha e asseguram que a política de Antônio a seu respeito, as concessões de territórios que lhe fez, não excedem, de maneira ne­nhuma, os limites das honras concedidas a reis vassalos que se desejava vincular à causa de Roma. Antônio não ignorava que estas transferên­cias de soberania não podiam ser senão temporárias e que mais cedo ou mais tarde Roma recuperaria as suas províncias. Além disso, os mesmos historiadores fazem notar, de acordo com testemunhos antigos, que Cleópatra, nesta altura, já não seria muito jovem e que Otávia era infi­nitamente mais sedutora do que ela. De fato, a questão não é talvez assim tão simples nem se situa apenas no plano da paixão. Otávia e Cleópatra simbolizam duas “tentações” de Antônio, tentações políticas ainda mais do que carnais, duas vias entre as quais era necessário esco­lher. Ora, se nos recordarmos de Pródico, é aplicar uma moral algo limi­tada pensar, que, destas duas vias, uma era a da virtude e outra a da indolência. Do lado de Otávia, estava Roma, com a tradição dos casa­mentos políticos e das alianças sabiamente doseadas, e a partilha do po­der com Otávio, uma partilha que, como Antônio bem sabe, só podia ser provisória. Do outro lado, estava Cleópatra, cujo apoio podia trans­formar o general romano em um soberano helenístico, velha tentação a que os imperatores que tinham tido a experiência do Oriente vinham resis­tindo com cada vez maior dificuldade. Junto da rainha, já mais de metade do caminho fora percorrido: em 40, nasceram os dois gêmeos que são fruto dos seus amores, Alexandre-Hélio e Cleópatra-Selênia, cujos no­mes astrais (o Sol e a Lua) dizem bem em que ambiente religioso eram educados. Antônio, em 37, encontrava-se realmente em uma encruzilhada. É necessário confessar, de fato, que a situação política na Itália, onde Otávio se esforçava, notoriamente, por eliminar os seus colegas do triunvirato, associados e cúmplices nos dias difíceis e agora rivais odia­dos, não o encorajava a permanecer inativo. A única possibilidade de Marco Antônio residia em uma vitória total no Oriente, no sucesso de uma aventura grandiosa que reduzisse a nada os cálculos ardilosos de Otávio. Ora, este prestígio acrescido, de que tinha uma tão grande necessidade e na ausência do qual seria infalivelmente eliminado da cena política, só o estreitamento da aliança com Cleópatra poderia dar-lhe. 

Cleópatra, por seu lado, também não estava inativa, e não era apenas, nem sobretudo, o amor que podia sentir em relação a Antônio que a motivava. Durante a ausência de Antônio, envolve-se em inúmeras intri­gas no Oriente. O seu objetivo é evidente: recuperar o “Grande Egito”, que englobava, anteriormente, sob a coroa dos Ptolomeus, uma par­te da Síria. Para o atingir, tem necessidade de se sentir segura perante Roma. O seu jogo consiste, em primeiro lugar, em manter o melhor que pode a divisão deste império, que, no tempo César, fracassou em devorar o seu reino, mas, melhor ainda, não perde a esperança de, graças a Antônio, fazer com que a potência romana sirva os seus desígnios. Nesta diplomacia, o amor é apenas um elemento, um meio entre outros, não é tudo. A propaganda otaviana popularizou a figura, tomada lendária, de um Antônio escravo dos sentidos e traidor da pátria, por complacência com a rainha, ou seja, um novo Hércules fiando aos pés de Ônfale. Era um excelente pretexto para justificar a ruptura definitiva com o senhor do Oriente, à volta do qual se reunia cada vez mais a oposição “republi­cana” que renascia. A propaganda otaviana não era decerto verdadeira, pelo menos, não era toda a verdade. 

Após o encontro de Tarento, na Primavera de 37, entre Otávio e Antônio, este regressou ao Oriente: a sua escolha estava feita. Retorna­va, após um interregno de três anos, os seus projetos de guerra contra o reino parto e a sua primeira decisão foi juntar-se a Cleópatra. Otávia continuava no Ocidente, confiada ao seu irmão. O Inverno de 37-36 pas­sou-o na Síria. Enquanto os preparativos de guerra prosseguiam, renas­ceu a intimidade entre Antônio e a rainha. As duas crianças de 40, Ale­xandre e Selênia, foram reconhecidas oficialmente, o que fazia de Antônio, do ponto de vista moral, o protetor do reino do Egito e o ligava mais estreitamente à dinastia legítima. Era uma solução muito hábil para o problema político colocado pelo Egito, cujo governo não era fácil. Antônio e Cleópatra opunham-se radicalmente um ao outro, devido a tudo o que representavam. A rainha tentava desesperadamente manter um reino anacrônico no mundo romano. Antônio esforçava-se por ligar mais estreitamente do que nunca este mesmo reino à sorte de Roma e por mobilizar as suas forças sem correr os riscos de uma anexa­ção declarada. Para realizar as suas intenções estes dois rivais, estas duas políticas, não tinham outro meio senão amar-se. Ora, e aí reside o mila­gre, nem a um nem ao outro isso desagradava. 

Parece que Antônio tinha perfeita consciência desta situação. Julgava-se chamado a um destino quase sobrenatural e gostava repetir que não confiava a sua linhagem a um ventre feminino apenas, que não era condicionado pelas leis de Sólon sobre a legitimidade da sua descendên­cia, mas deixava à natureza o cuidado de começar e fundar muitas dinas­tias.24 

O deus que tinha em si e o que o levava a amar, a prodigalizar-se em abraços sempre renovados, era o seu guia e a sua força. Não tinha sido Dioniso tanto o conquistador como o deus da orgia, da sexualidade de­senfreada? Quanto a Cleópatra, era a Ísis-Mãe, personificação da femi­nilidade e da fecundidade, de que são prova as suas sucessivas materni­dades, figura mística da esposa, que, com as suas carícias, devolvia a vida ao marido, que as potências do mal se obstinavam, em vão, por arrancar. No Egito, os Ptolomeus tinham inventado um deus novo, Serápis, em que se fundiam o antigo Osíris e o Dioniso grego, e este deus tinha-se tornado rapidamente popular em todo o mundo mediterrânico, a ponto de, na própria Roma, os poetas fazerem o seu elogio '’. Tudo estava pronto para a aventura “inimitável” dos dois aman­tes, unidos, quisessem-no ou não, por uma situação política que não tinha outra saída senão o seu amor e também pelos mitos que se tinham formado antes deles e os envolviam como a rede mágica em que Hefestos, em tempos muito antigos, tinha surpreendido os amores de Afrodite e Ares. 

Esta extraordinária situação prolongou-se durante seis anos. Otávia, que tinha compreendido Antônio e lhe era tão fiel como o tinha sido anteriormente Fúlvia, esforçou-se por dar-lhe o que ele pretendia de Cleópatra: armas e dinheiro. Veio até ao Oriente com estes presentes arrancados ao irmão. Ele teve a coragem de não sucumbir a esta tentação e de prosseguir no seu desígnio. O que eram dois ou três mil homens ao lado dos recursos de um reino? E depois, Cleópatra, face ao perigo, tornou-se insistente e entrou mais do que nunca na comédia do amor. Em breve, a ruptura estava consumada e Antônio, que se tornara de fato, como tencionara, rei helenístico, encontrou-se na obrigação de aceitar a guerra contra Roma. Assim terminou, nas águas de Áccio, este drama, que, se a fortuna tivesse dado a vitória à frota antoniana, teria alterado certamente a face do mundo. Porém, os encantos envelhecidos de Cleópatra não teriam tido nisso nenhuma responsabilidade. 

No entanto, a derrota de Antônio e o fim da “vida inimitável”, que se tornou em uma união na morte, não aboliram a experiência nem suprimi­ram a mística da realeza "dionisíaca”, que encontrará outros meios para sobreviver na própria Roma. 

Na noite que precedeu a morte de Antônio, cerca da meia-noite, en­quanto a cidade de Alexandria permanecia silenciosa, dominada pela angústia, eis que o ar se enche de uma música sobrenatural. Dir-se-ia os sons de uma infinidade de instrumentos diversos, acompanhando os cantos e os gritos de uma multidão de bacantes. Este tumulto encheu as ruas em um instante sem que ninguém fosse visto. Em seguida, deslocou-se e chegou à porta que se abria em direção ao inimigo. Aí, redobrou de intensidade e, abruptamente, terminou, como se a multidão invisível ti­vesse deixado a cidade. Todos os Alexandrinos entenderam e compreenderam: era Dioniso que abandonava Antônio26

De fato, era também o fim de uma era: a lei de Roma ia substituir a mística orgiástica de que Antônio e Cleópatra foram os últimos adeptos no trono dos Ptolomeus. Otávio, o novo senhor, era um conquistador triste. Arrastava atrás de si o puritanismo romano, cuja austeridade imi­tava sem dele ter as virtudes. Durante muito tempo, tinha tentado revol­tar a opinião romana contra Antônio, revelando o que chamava as suas “torpezas”, e Antônio, em cartas destinadas ao público, respondia-lhe com desenvoltura e sem qualquer pudor: 

"Por que te modificaste a meu respeito? É porque durmo com a rainha? Ela é a minha mulher. É por ter começado agora, ou porque dura há nove anos? E tu, será que dormes apenas com Drusila? Desejo-te uma imensa felicidade, se, quando tiveres lido esta carta, não te tiveres deitado já com Tertula ou Terentila ou Rufila ou Sálvia Titisénia ou qualquer uma das outras! Julgas que me incomodo em saber onde e com que mulher fazes amor?"27 

É certo que a conduta privada de Otávio não estava isenta de crítica: as que dirigia a Antônio soavam a falso na sua boca. 

A história dos seus amores assemelha-se bastante, aliás, à dos jovens nobres. Para começar, ficou noivo da filha de P. Servílio Isáurico, que pertencia ao clã de Servília, pois era neta desta28. A união, evidentemen­te, tinha sido projetada por César, entrando nos seus planos para refor­çar o regime. Todavia, quando terminou o segundo triunvirato, depois da guerra de Módena, os soldados de Antônio e os de Otávio exigiram que a aliança dos seus generais fosse selada por um casamento. Por conse­guinte, Otávio pôs termo ao seu noivado com Servília, a Jovem, e acei­tou a mão de Cláudia, uma filha de Fúlvia e P. Clódio, ou seja, nessa época, a enteada de Antônio, Cláudia era ainda uma criança: “mal tinha entrado na idade núbil”, diz Suetônio29. O casamento não foi consuma­do. Otávio usou o pretextou do seu diferendo com Fúlvia para repudiar a jovem aquando da guerra de Perúsia. 

No mesmo ano, no decurso da crise gravíssima que parecia poder abalar definitivamente a sorte de Otávio, este tentou uma aproximação com Sexto Pompeu, que parecia ser o árbitro da situação, e, como prova dos seus bons sentimentos, ofereceu-se para casar com Escribônia, que era tia de Sexto por afinidade. O assunto foi negociado por intermédio de Mecenas e a família de Escribônia apressou-se de aceitar o acordo. Mas não foi um casamento feliz. Escribônia já tinha sido casada duas vezes. Tinha filhos de pelo menos um destes casamentos (nomeadamen­te a jovem Cornélia, a quem Propércio, em 16 a.e.c., iria cantar as virtu­des e lamentar o fim prematuro31) e tomou rapidamente uma atitude au­toritária em relação ao marido, mais jovem do que ela (Otávio tinha então 23 anos), o que desagradou fortemente a este. No entanto, a sua união talvez tivesse durado, se, de súbito, Otávio não se tivesse apaixo­nado por outra mulher e não tivesse resolvido, apesar das dificuldades, efetuar, por fim, um casamento de amor. 

Escribônia, tendo casado com Otávio nos últimos meses de 40, tal­ vez mesmo no início de 3932, esperava um filho. Será Júlia, tão amada pelo pai e a quem ela recompensou bem mal um tal afeto. Após a paz de Miseno, celebrada no fim do Verão, acabaram as hostilidades entre os triúnviros e Sexto Pompeu. Escribônia já não era politicamente “útil”. Mas a paz teve ainda outra consequência que iria precipitar o seu repú­dio: os exilados foram amnistiados e entre eles encontravam-se Lívia Drusila e o seu marido Tibério Cláudio Nero. Ambos tinham tomado o partido de Lúcio Antônio, em Perúsia, e, após a derrota, tinham-se refu­giado junto de Sexto Pompeu, com quem, de resto, se entenderam bas­tante mal. Lívia tinha já um filho, que será, mais tarde, o imperador Tibério, mas era extremamente jovem: nascida a 30 de Janeiro de 58, não tinha ainda 19 anos no Outono de 39. Os seus retratos mostram-nos uma beleza calma, o rosto arredondado, a boca voluntariosa. Por isso, despertou no coração de Otávio uma viva paixão. Mas, à primeira vista, dois obstáculos opunham-se a este amor: Lívia era casada e esperava um segundo filho e, na sua família, havia razões sérias para odiar Otávio, dado que M. Lívio Druso Claudiano, o próprio pai de Lívia, tinha sido proscrito e havia-se suicidado depois da batalha de Filipos, onde tinha combatido ao lado de Brutus e de Cássio. Mas Otávio era o senhor e tudo vergou à sua frente. Logo que Escribônia deu à luz a sua filha, Otávio repudiou-a. Depois, conseguiu, não sabemos bem com que argumentos ou pressões, que Lívia lhe fosse entregue pelo próprio ma­rido, um pouco como, anteriormente, Catão, pela sua própria mão, ti­nha dado Márcia a Hortênsio33. Mas as circunstâncias eram bem dife­rentes! Antônio, em uma das cartas insultuosas que escreveu de Alexandria ao seu rival, assegura que Nero teve de ser testemunha da sua própria desonra, no dia em que, durante um banquete a que assistia com Lívia e Otávio, este, incapaz de resistir à paixão, deixou abruptamente a sala de jantar, levando Lívia para um quarto vizinho e trazendo-a de­pois com as orelhas vermelhas e o cabelo em desalinho.34 Nero, nestas condições, tinha que renunciar à mulher que o senhor desejava e Lívia, por seu lado, não podia fazer mais do que obedecer. Fê-lo com bastan­te relutância, parece jovem esposa, prestes a ser mãe segunda vez, repugnava-lhe abandonar o marido com quem partilhara os perigos da guerra e as dificuldades do exílio. Teve, no entanto, de deixar a casa do marido e instalou-se na de Otávio, onde, a 14 de Janeiro de 38, dava ao mundo um segundo filho, Druso. Três dias mais tarde, casava solenemente com Otávio, não sem que, antes, os sacerdotes tivessem as­segurado que os deuses não levantavam qualquer obstáculo a este ca­samento35. É claro que Antônio, por seu lado, não se comportava me­lhor, mas, a seus olhos, pelo menos, tinha a justificação de sentir-se um deus e comportar-se como tal. Quanto a Otávio, deixava-se arrastar simplesmente para uma imoralidade burguesa. 

Se, para casar com Lívia, Otávio não tivesse, então, de afrontar a opinião pública (que não se coibiu da maledicência), poderíamos pensar que não era apenas o amor que estava em causa nesta história: uma ali­ança com os Claudii, a gens muito aristocrática a que Lívia pertencia, consagrava, de alguma forma, a reconciliação entre o herdeiro de César e os proscritos de 43. Mas por que teriam de ser necessariamente insen­satos todos os casamentos de amor? O de Otávio, em todo o caso, foi-lhe extremamente vantajoso. 

No fim da vida, Augusto manifestava ainda a Lívia a sua ternura. No último momento, disse-lhe: “Lívia, recorda a nossa união, enquanto vi­veres. Adeus!” Foram as suas últimas palavras36. Não há dúvida de que, segundo o testemunho do próprio Augusto, este casamento, celebrado à pressa, com violência e escândalo, foi uma união feliz. No entanto, se não quisermos julgar apenas pelas aparências, como podemos chamar feliz um casamento que ficou estéril, ou quase (só nasceu um filho, mas não sobreviveu), e quando a ausência de herdeiro direto constituiu para Augusto um drama que carregou a vida inteira? Seria feliz, ainda, um casamento durante o qual Lívia permaneceu fiel, mas que teve muitas aventuras conduzidas por Augusto com toda a liberdade, às vezes mes­mo com a cumplicidade da mulher? Se Augusto o avalia diferentemente de como somos tentados a fazê-lo, é porque não se sentia sujeito aos imperativos comuns e porque, à semelhança dos Romanos do seu tem­po, punha acima dos “acidentes” da carne esta concordia, esta identida­de de vontades, que nos pareceu ser a grande conquista do amor romano. 

Os próprios amigos de Augusto não negavam os seus adultérios, como nos diz Suetônio. Desculpavam-no, assegurando que não os cometia por gostar do deboche, mas por cálculo, a fim de melhor se informar sobre os segredos dos maridos a que seduzia as mulheres37, um argumento que não é talvez muito convincente e que, a ser verdadeiro, não é lá muito abonatório do príncipe. Pouco faltou, aliás, para que uma destas aventu­ras se virasse contra ele. Teve uma longa ligação com Terência, a mulher do seu mais antigo partidário, Mecenas. Seria para vigiar este, em geral silencioso e secreto? Tal não é, por certo, impossível, pois dizia-se que Terência era caprichosa, altiva e, seguramente, não tratava melhor o seu amante “habitual” do que o marido. Ora, esta mesma Terência não soube guardar um segredo de Estado e revelou ao seu irmão. Terêncio Murena, que a conjura formada por este tinha sido descoberta38, o que impediu Augusto de desvendar, como desejava, todas as ramificações da conspi­ração. 

Lívia, por seu lado, nunca traía um segredo e o marido pedia-lhe frequentemente conselhos. À medida que passavam os anos. parece que a sua influência cresceu. É-nos difícil saber hoje com rigor o papel que desempenhou na formação e no estabelecimento do regime imperial. Os indícios que se invocam nem sempre permitem uma interpretação segu­ra, mas é certo que sem Lívia o Império não se teria tornado naquilo que vemos quando Augusto morre. 

Como as “matronas” da geração precedente, Lívia trabalha para ele­ para sua gens. Pertence à tradição de uma Servília e de uma Clódia e a sua gens, a dos Claudii, não tem sempre os mesmos interesses que os Julii. Toda a habilidade de Lívia vai consistir em pôr ao serviço dos primeiros o poder que César e depois Augusto deram aos segundos, e esta habilidade era grande. Conhecemos o juízo do seu bisneto Caligula (Caio César) acerca dela: “um Ulisses de saias”39. Caligula conheceu-a apenas na velhice, mas começa-se a detectar a sua influência muitos anos mais cedo. O grande problema de Augusto não era o de governar, mas o de assegurar a sua sucessão, fazer com que o sistema político que construíra e que se fundava na sua pessoa pudesse um dia funcionar sem ele. O seu poder pessoal dependia, em parte, do carácter semidivino que a opinião dos Romanos lhe reconhecia: era divifilius, filho do deus César. A quem transmitir este carisma senão a um filho? Ora, Lívia, de fato, não se revelava uma esposa fértil. Mas tinha dois filhos do seu primeiro casamento. Tibério e Druso. Não poderia conseguir que Augusto os adotasse, como ele mesmo tinha sido adotado por César e de quem não era realmente filho? 

Lívia levou longos anos para arrancar o Império das mãos dos Julii e dá-lo a um Cláudio, a este Tibério por quem Augusto não sentia nenhu­ma simpatia e que, no seu íntimo, era mesmo republicano. É possível que o acaso tenha favorecido as intenções de Lívia, fazendo desaparecer um a um todos os herdeiros que o príncipe sucessivamente escolheu: o jovem Marcelo, a partir de 23 a.e.c., e depois os dois netos de Augusto, Caio e Lúcio, os “príncipes da juventude”, que morreram respectivamente em 4 e 2 d.e.c. Não se tem hoje coragem de supor que Lívia ajudou a sua sorte, mas estas mortes sucessivas serviram-lhe tão bem que todas as suspeitas permanecem legítimas. Por fim, triunfou e foi a sua vontade que impôs Tibério, que Augusto se resignou a adotar, porque não dispunha de mais escolhas. 

Para além destes dramas secretos, a casa de Augusto conheceu outro, que teve também por origem as intrigas de uma mulher. Antes do seu repúdio, Escribônia tinha dado ao príncipe uma filha, Júlia, que este conservou junto de si e que criou na tradição de austeridade das antigas casas nobres. Júlia, na sua juventude, fiava a lã e tecia as túnicas do pai, o que não impedia que recebesse a educação refinada e a cultura das mulheres do seu tempo. Augusto sentia, certamente, pela filha uma grande afeição, mas esperava sobretudo, graças a ela, resolver o difícil proble­ma da sua sucessão. Como Lívia não era capaz de lhe dar um filho, Júlia podia trazer para a casa imperial um genro capaz de assumir um dia o encargo do poder. Sabia-se que, muitos séculos antes, os reis de Roma transmitiam assim a sua dignidade. Não foi por acaso que Propércio e Virgílio recordaram, cada um a seu modo, este antigo costume40. No tempo de Virgílio, contava-se como o velho Latino, o rei dos Laurentes, tinha concedido a Eneias a mão de Lavínia e o seu próprio reino. Augusto escolheu para genro o jovem Marcelo, ele mesmo filho de Otávia, a irmã do príncipe. Menos de um ano mais tarde, Marcelo morria. Júlia tinha apenas 16 anos. Augusto apressou-se a casá-la uma segunda vez. O novo marido de Júlia foi Agripa, fiel companheiro de Augusto. Agripa teve de dissolver o seu casamento, que, no entanto, era feliz, com a filha mais velha de Otávia, Marcela. Tinha quarenta e um anos. Esta escolha, bastante surpreendente, foi, sem dúvida, ditada a Augusto pela lembran­ça da crise que, em 23, quase conduziu o regime à destruição. Estando muito doente, teve de pensar, em determinada altura, em assegurar a sua sucessão em um futuro que podia estar muito próximo. O homem que de­signou foi precisamente Agripa. É natural que tenha querido tornar defi­nitiva a solução que, em 23, fora apenas uma improvisação arriscada. 

O casamento de Júlia e Agripa revelou-se imediatamente fecundo: Caio César e depois Lúcio nasceram em 21 e 17, separados por uma moça, Júlia, a Jovem. A partir de agora, podia pensar-se que a suces­são estava assegurada. Augusto apressa-se, em 17, a celebrar os jogos seculares, que simbolizam o início de uma era de prosperidade e de paz, a época que os filhos de Júlia auguram para Roma. Mas, cinco anos depois, Agripa morre subitamente e eis Augusto à procura de um tercei­ro marido para a sua filha. Desta vez, não pode furtar-se às instâncias de Lívia e escolhe Tibério. Durante alguns anos, os dois esposos entendem-se bem, mas, mais tarde, o desentendimento surge no casal. Recente­mente, foram evidenciadas as suas razões profundas41: Tibério foi esco­lhido apenas como "protetor" dos jovens príncipes. Augusto apenas o destinava a um papel secundário e temporário e isso Júlia não podia aceitar, embora a modéstia de Tibério se acomodasse muito bem a esse papel. Júlia, depois de ter esperado ser um dia a companheira do senhor, abomina regressar ao segundo lugar. Diz isso a Tibério e acusa-o de covardia. Tibério, por fim, decide deixar Roma e retirar-se para Rodes para viver como simples cidadão. 

Este exílio de Tibério, esta partida a que Augusto tentou por todos os meios opor-se, continua ainda hoje bastante envolto em mistério. Tibério, provavelmente, sentia-se em uma posição falsa. Já se começava a murmu­rar em Roma que conspirava para afastar Caio e Lúcio. Era uma calúnia, mas esta tinha tudo para que nela se acreditasse. Não é natural desejar o poder, sobretudo quando se tem junto de si uma mulher cuja ambição insaciável é conhecida de todos? Tibério não desejava, com certeza, o poder. É, pelo menos, o que sabemos, ou julgamos saber. Mas Tibério era considerado, no seu tempo, um mestre na arte de dissimular, uma arte que lhe vinha da mãe, e as suas recusas e a atitude apagada não convenciam ninguém. 

Tibério, ao retirar-se para Rodes, fugiria apenas dos riscos de uma situação ambígua? Uma tradição persistente sustenta que Júlia não lhe foi fiel e que ele fugiu também à desonra. Os historiadores antigos con­tam muitas histórias escandalosas acerca da filha de Augusto, repetidas à saciedade ao longo dos tempos. Falam-nos da sua coquetaria, que a levava a vestir-se, por vezes, com muito pouca decência, a ponto de pro­vocar os comentários irritados do pai. Falam-nos também das palavras que lhe são atribuídas em resposta à surpresa de alguns amigos ao veri­ficarem a que ponto as crianças que dera a Agripa se assemelhavam ao seu pai: "Só aceito passageiro quando o porão está cheio”42. Em suma, Júlia tornou-se o símbolo das torpezas que as pessoas gostam de imaginar nas sombras do palácio imperial e como que uma Messalina avant la lettre. Em tais assuntos, é tão difícil aceitar como contradizer os juízos da tradição, e podem ser alegados argumentos equivalentes tanto a favor da acusação como da defesa. Podemos dizer que é pouco verosímil que Júlia pudesse levar, durante muito tempo, uma vida de deboche, em uma cidade tão ávida de escândalos como Roma, quando todos os olhos estavam voltados para ela e quando a polícia imperial e, talvez, a clarividên­cia de Lívia tornavam tal licenciosidade impossível. Mas também pode­mos salientar que Júlia, esposa dissimulada enquanto esperou chegar ao poder, se entregou abertamente ao deboche, para o qual a sua verdadeira natureza a dotou, uma vez perdidas as esperanças depositadas em Tibério, e que talvez tenha começado as suas traições antes da partida do marido para Rodes. É possível, também, que se tenha feito, durante anos, como que uma conspiração de silêncio sobre os seus desregramentos, ninguém se incomodando em informar o imperador, e com Lívia a esperar, paci­entemente, a sua hora. Aliás, Júlia não foi a única grande dama a aceitar, por vezes, encontros clandestinos. O próprio Augusto, já o recordámos, não respeitava a honra das “matronas” e houve quem assegurasse que as leis sobre o adultério não lhe foram impostas senão por senadores que pretendiam embaraçá-lo43

Não se pode negar, contudo, que Júlia, depois da partida de Tibério para Rodes, teve várias ligações. Tinha trinta e três anos, estava no auge da sua beleza e a sua natureza violenta levava-a a exceder todos os limi­tes nos seus prazeres. No entanto, não era apenas a busca do prazer que a levava a rodear-se de amantes. A lista dos seus “amigos” foi feita pelo historiador Veleio Patérculo. Um nome sobretudo chama a atenção, o de Julo Antônio, filho de Antônio e de Fúlvia e um dos genros de Otávia. Julo parece ter sido o preferido, mas partilhava os favores de Júlia com um certo Apio Cláudio Pulcro e talvez, embora isso não seja uma certe­za, com um dos filhos de P. Clódio. Havia também um Semprônio Graco e um Cornélio Cipião. Em suma, encontramos em redor desta mulher os nomes mais famosos da aristocracia e não deveríamos surpreender-nos se se admitisse, como tudo convida a fazer, que Júlia, atraindo a si estes jovens, procurava menos satisfazer os seus sentidos do que formar uma conspiração contra o seu próprio pai44. Ela queria reinar. Ora, Augusto destinava o poder a Caio e a Lúcio César, que adotara, retirando-os assim à sua mãe, que não podia sequer exercer a mais pequena influên­cia sobre eles. Aliás, Júlia não tinha nenhuma apetência para a posição de imperatriz-mãe. Queria ser a companheira de um príncipe, a “primei­ra dama de Roma”, e substituir Lívia. Para isso, não via outro meio se­ não destronar Augusto, ou seja, assassiná-lo. Para o fazer, iria servir-se do seu ascendente sobre os jovens nobres a que dispensava os seus favo­res. Compreendemos, assim, por que tinha feito de Antônio seu favorito. Pensava, com ou sem razão, que a lembrança dos dias anteriores a Áccio não desaparecera e que podia existir um “partido antoniano” disposto a empunhar armas pelo filho do vencido. Era uma opinião compartilhada, evidentemente, pelo próprio Antônio, que, além disso, desejava vingar o pai. 

Podemos facilmente imaginar a cólera, quase o desespero, de Augusto quando soube que a sua própria filha planejava um parricídio e que re­nascia contra si, e do seu próprio sangue, a velha coligação de uma mu­lher e de um Antônio! Os outros amigos de Júlia também tinham muitas acusações contra o novo regime. Estavam saudosos do tempo da “liber­dade”, quando os nobres detinham o poder sem o partilhar. Era uma nova conspiração, formada por um círculo de jovens irresponsáveis, pro­vavelmente sem grande influência real, mas perigosos devido à sua pró­pria loucura, em que se pensava recomeçar os idos de Março. 

Sêneca deixou desta conspiração um quadro que se suspeita ser exa­gerado, mas que se baseia, certamente, em alguma verdade, porque outros testemunhos confirmam vários dos seus detalhes: 

"Amantes introduzidos aos bandos em casa dela, passeios vagabundos du­rante a noite, em turbas alegres e avinhadas, através da cidade. O próprio fórum e o rostro onde seu pai tinha promulgado as leis sobre o adultério, escolhidos pela filha para os seus excessos. Reuniões diárias no Mársias, ao mesmo tempo que, passando de adultera a prostituta profissional, se arrogava o direito de tudo experimentar no abraço de um amante desconhecido".45 

Júlia tinha cúmplices na sua própria casa, designadamente uma liberta chamada Febe, que se suicidou logo que Augusto foi informado destas escapadelas noturnas46

Não deixa de ser um pouco surpreendente que os conjurados tenham escolhido o fórum, ainda que em plena noite, para seus conciliábulos. Tal­ vez julgassem que a sua melhor salvaguarda era precisamente a publicida­de. Mas, sobretudo, estavam a desafiar a opinião pública. Júlia, tendo de­cidido cortar com a austeridade e mesmo com a decência, quis afirmar o seu direito soberano, que o seu estatuto parecia garantir-lhe, quis afrontar todas as conveniências. É possível também que tenha sido impelida para estas loucuras por Antônio, que se recordava das insolências do seu pai. Mas Antônio podia permitir-se transformar em lugar de deboche a casa de Pompeu e escandalizar a aristocracia no início da sua convalescência da guerra civil. Ele era Antônio, o vencedor, o companheiro do ditador. Antônio, o seu filho, era apenas o herdeiro de um nome perigoso. Só po­deria sobreviver aderindo ao novo regime. Não tinha sido em vão que Roma vivera durante vinte e cinco anos sob a autoridade moralizadora de Augusto. O tempo da “vida inimitável” tinha passado. 

Augusto acaba por saber tudo. Foi, diz-nos Dião Cássio, o último a ser informado. Só o alertaram quando as intenções reais dos conjurados foram descobertas e a sua cólera não poupou ninguém. O escândalo ti­nha durado uns três anos. Foi em 2 a.e.c. que se deu a punição. Julo Antônio foi condenado à morte. Júlia foi enviada para o exílio na ilha de Pandatária (atual Ventotene), ao largo da costa da Campânia, e viveu aí como prisioneira, não tendo por companhia senão a sua mãe, Escribônia, que pediu e obteve o direito de compartilhar a sua pena. Depois da morte de Augusto, o primeiro cuidado de Tibério foi agravar ainda mais o seu destino (entretanto, tinha sido transferida para Reggio di Calabria), a ponto de morrer de privações e de miséria, ao fim de alguns meses. Os outros amantes de Júlia foram apenas afastados: menos culpados, talvez simples comparsas que os dois protagonistas não julgaram conveniente introduzir no seu segredo, tiveram a vida poupada e puderam viver à sua vontade na residência que lhes foi designada. 

Alguns anos mais tarde, em 8 d. C., um novo drama, aparentemente bastante semelhante ao primeiro, veio ainda perturbar a casa imperial. Desta vez, a culpada era Júlia, a Jovem, a filha de Júlia e Agripa. As circunstâncias em que se deu o escândalo são ainda mais obscuras do que as que envolveram a condenação da primeira Júlia. Oficialmente, as acusações eram as mesmas: seguindo o exemplo da mãe, a segunda Júlia, que era mulher de um certo Emílio Paulo, teria tido uma ligação ilícita com um jovem nobre, D. Júnio Silano47. Mas certos indícios permitem pensar que isso foi apenas um pretexto: o seu marido (como sabemos por Suetônio) foi executado por ter conspirado contra Augusto48. Por outro lado, o exílio de Júlia, a Jovem, parece ter coincidido com o afas­tamento do seu irmão Agripa Póstumo, que foi acusado de ser um Brutus vigoroso e cruel49. É bastante inquietante ver assim deportar, um após outro, os dois últimos filhos de Júlia e Agripa, os únicos em que ainda corria o sangue de Augusto e que não se encontravam ligados aos Claudii. A outra filha, Agripina, a mais velha, ficou provavelmente a dever a sua salvação ao casamento com Germânico, o neto de Lívia. Finalmente, no mesmo ano, o poeta Ovídio foi exilado, o que pode bem ter acontecido em relação com alguma tentativa para retirar a herança de Augusto à “ninhada” de Lívia. Tibério fora, por fim, adotado por Augusto, ao mesmo tempo que Agripa Póstumo. O velho príncipe hesitava em deserdar completamente os que descendiam do seu sangue: nesta data, em 6 d.e.c., Agripa Póstumo tinha atingido os 18 anos e o que se designou mais tarde como sendo a sua “loucura”50 não seria, por certo, ainda evidente. É duvidoso que esta se tenha declarado abertamente em poucos meses, a ponto de impor o seu afastamento. Não podemos, na verdade, impedir-nos de suspeitar que o drama que atingiu sucessivamente os últimos descendentes de Augusto e de Escribônia pode ser o epílogo da política pacientemente conduzida por Lívia. Tibério, apesar do desagrado de Augusto, devia ficar como o único herdeiro. Era necessário evitar a todo o custo que, quando chegasse o momento, emergisse um partido “legitimista”, capaz de arrancar aos Claudii a herança tão cobiçada do senhor defunto. Por isso, Tácito, ao relatar a morte de Júlia, a Jovem, um dos acontecimentos de 28 d.e.c., podia escrever: 

"Nessa mesma época morreu Júlia, acusada de adultério e condenada por Augusto, embora fosse sua neta, e exilada para as ilhas Tremiti, não distantes das costas da Apúlia. Aí viveu exilada durante vinte anos, graças aos recursos que Lívia lhe enviava, a qual, depois de ter derrubado, com as suas intrigas secretas, os filhos do primeiro casamento quando estavam no cume da sua ventura, aparentava piedade para com eles na sua ruína".51 

Eis como decorreu o bom e frutuoso casamento com que Augusto se enternecia no seu leito de morte. 

Os dramas que dilaceraram a casa de Augusto e colocaram o Império nas mãos do “republicano” Tibério têm a sua origem na paixão de Otávio, ao tirar Lívia ao seu primeiro marido. Foi uma união que, justamente, se poderia dizer maldita, porque foi estéril e porque teve por efeito fazer passar o principado para as mãos dos Claudii, privando dele os represen­tantes legítimos da gens Julia. O desejo de prazer e, se assim o pensarmos, a própria imoralidade desempenharam o seu papel nesta série de tragédi­as, mas este papel foi menor do que o da ambição. Uma mulher, Lívia, recorria a tudo para garantir o seu poder sobre o homem que tinha nas suas mãos o destino de Roma. Para isso, estava disposta a suportar - e, mesmo, a favorecer as infidelidades e, depois, os gostos senis de Augusto52

Pagando este preço, foi um “boa esposa” e conseguiu que Augusto, definitivamente subjugado, renegasse o seu próprio sangue. Não foi por se ter passado na casa imperial que este drama é diferente daqueles a que os romancistas de todos os tempos nos habituaram, esteja em causa a posse de um campo, de uma quinta ou do Império Romano. Um homem que se opõe durante muito tempo às intrigas insidiosas da mulher que ama, mas de quem desconfia, e depois, à medida que vai envelhecendo, a quem cede gradualmente e por quem se deixa manipular, abdica de ser ele mesmo e consente todas as traições e todos as abdicações, alimentan­do-se da ilusão de que a sua companheira, já idosa, partilha sentimentos e intenções que, na realidade, foi ela a ditar. Esta foi, sem dúvida algu­ma, a história deste casamento, que algumas cortesãs e alguns poetas celebravam como a própria imagem da perfeição conjugal. 

A história das duas Júlia, a mãe e a filha, não é menos cruel nem menos dica de ensinamentos. A primeira Júlia não hesitou em organizar uma conspiração criminosa para retomar uma situação que lhe escapava e, com esse fim, concedeu os seus favores aos homens de quem esperava algum apoio. A sua filha, seguindo-lhe o exemplo (e apesar do terrível malogro de uma aventura que terminou em sangue), também acreditou poder contrariar as intrigas da toda-poderosa Lívia, recorrendo aos mes­mos meios. Que ideia do amor teriam estas duas mulheres? Somos ten­tados a pensar que, para elas, era apenas um instrumento. A pior das censuras que se poderia fazer-lhes seria, talvez, terem reduzido o amor a ser apenas isso. Se tivessem procurado, clandestinamente, apenas o pra­zer do deboche, como tantas outras do seu tempo ou em outros séculos, teriam envelhecido calmamente, honradas e, sem dúvida, felizes. Mas a tradição das mulheres romanas dizia-lhes que o amor em si mesmo é uma fraqueza, que só a grandeza e o poder merecem ser tentados. Era natural que, depois de terem chegado até ao despeito, inerente a todas as mulheres da sua raça e da sua classe, pela ligações carnais e sentimen­tais, tivessem terminado nesta mutilação do seu ser, que fora já realiza­da, em espírito, pelas matronas mais virtuosas do passado, em cuja feminidade se tinha tomado costume ver apenas o meio para assegurar a sobrevivência da cidade e a grandeza da sua gens. Reside aí, talvez, a origem profunda desta “imoralidade” de que é acusada a sociedade im­perial, uma perversão puritana dos valores naturais, que priva o amor do seu verdadeiro significado, que lhe retira o carácter essencial, que é o compromisso total de dois seres, e tenta sujeitá-lo a disciplinas arbitrári­as. Os poetas, como vimos, tinham sabido, sem dúvida, reencontrar o sentido do amor, mas ninguém os escutava, ou, como aconteceu ao infe­liz Ovídio, acusavam-nos de imoralidade e enviavam-nos para o exílio. E, no entanto, existiu marido mais terno que Ovídio e casal mais fundamentalmente pervertido do que Augusto e Lívia? 

 

*** 

 

Durante os reinados que se seguiram ao de Augusto, numerosas intrigas se urdiram muito semelhantes às conduzidas por Lívia e pelas mulheres da casa imperial, intrigas fatais, motivadas pela conquista do poder e, naturalmente, utilizando os mesmos meios. Nem todas as que os historiadores nos relatam serão, talvez, verdadeiras, mas algumas, pelo menos, comprovadas com segurança, provam que a corte do Palatino não ficava nada atrás das monarquias helenísticas, continuando, ao mes­mo tempo, as tradições da vida política do fim da República. Não temos a certeza absoluta de que Caligula, para obter os serviços de Macrão, prefeito do pretório, tenha procurado os favores de Énia, a mulher des­te53, e é menos verosímil ainda que se tenha comprometido por escrito a casar-se com ela quando se tornasse imperador. Apareceram demasiado lendas sobre os imperadores júlio-claudianos para que possamos acredi­tar inteiramente em todas as histórias que se contam. Mas podemos sali­entar, apesar de tudo, o papel desempenhado por certas mulheres da “casa divina” (domus divina), que tendem a ter uma importância crescente, como disso dão testemunho as honras com que as cumulam. 

Augusto sempre se recusou a unir oficialmente Lívia ao seu carácter divino e foi apenas por sua morte que recebeu o título de Augusta, mas Tibério opôs-se sempre a que recebesse outras honras e aparentava evi­tar todas as conversas com ela que pudessem levar a supor que exercia sobre ele alguma influência política54. Mas Caligula, desde o começo do seu reinado, está longe de observar tão cuidadosa reserva. Aceita (e sem dúvida sugere) que as suas três irmãs sejam incluídas nos votos oficiais pronunciados pelo Senado em sua honra e, ao mesmo tempo, faz cunhar moedas que as identificam com três divindades simbólicas com os nomes de Securitas, Concordia e Fortuna55. Quando morreu a mais amada de todas, Júlia Drusila, ordenou que fosse considerada uma deusa, com o nome de Panthea, o que era tornar oficial o culto que algumas cidades orientais lhe dedicaram, ainda em vida, e para as quais ela era a “Nova Afrodite”56. Assim, as mulheres da casa imperial foram incluídas nesta lenta ascensão para a divindade, que transforma progressivamente o prin­cipado em monarquia de direito divino. Mas não deixam também de ser “matronas”, movidas pelas mesmas paixões, prontas, para satisfazer a sua sede de honras e poder, aos mesmos comprometimentos que as suas mães, talvez ainda mais infimamente persuadidas do que elas de estarem acima das leis e da moral humanas, por pertencerem à família do deus reinante. 

Dois nomes simbolizam, hoje, para nós, estas “mulheres dos Césares”, o de Messalina e o de Agripina. São dois nomes carregados de vergonha e que parecem por si só justificar a reprovação dos “amores romanos” pela história. 

O editor da Galeria Universal, no momento de inserir na sua recolha uma nota sobre Messalina, julga dever tomar as suas precauções numa advertência: 

"Que os nossos leitores, escreve ele, não se alarmem de modo nenhum com o nome de Messalina. O nosso respeito pelos costumes e a sábia vigilância do censor que preside à publicação dos números da Galeria Universal devem ser garantes de que o quadro assustador que apresentamos dos excessos vergonhosos desta infame imperatriz, vergonha do trono e do seu sexo, não tem por objetivo senão inspirar o horror pelo vício e fazer admirar com mais esplendor a virtude, onde quer que ela brilhe".57 

Estes virtuosos protestos dissimulam mal o verdadeiro fascínio exer­cido por Messalina, em quem encarna o que se pode considerar um “amoralismo” total, uma liberdade com que se sonha secretamente, mas sem o querer confessar. Os versos de Juvenal que descrevem as proezas amorosas da imperatriz maldita estavam, há um século ou dois, na me­mória de todos - eram ditos em voz baixa nos bancos do colégio: 

"Olha então para os rivais dos deuses, ouve o que Cláudio suportou. Logo que a sua mulher pressentisse que dormia, a imperatriz cortesã, ousando preferir uma esteira à cama do Palatino, pegava uma capa para a noite e escapava-se, apenas com uma serva por companheira. Depois, com uma peruca ruiva, que lhe ocultava os seus cabelos pretos, muitas vezes passou pela velha cortina, entrando em um tépido bordel e em um compartimento vazio, que era o seu. Então, nua, com os seios apoiados em uma rede de ouro, oferecia- -se, sob o nome falso de Licisca, dando como visão o ventre que te transportou, nobre Britânico. Acolhia, sedutora, os visitantes e solicitava umas moedas. Depois, à hora em que já o dono mandava sair as suas pensionistas, ia-se embora triste e tão tarde quanto podia, sendo a última a fechar o quarto, ardendo ainda em um espasmo que feria os seus sentidos. Esgotada com o homem, mas não cansada, saía e, com a tez pálida e baça, manchada pelo fumo da lâmpada, trazia para a cama sagrada o fedor do bordel".58 

Os historiadores Dião Cássio e Plínio (que, por certo, se refere a si mesmo na sua História Natural) estão de acordo quando nos mostram uma Messalina freneticamente ávida de prazer carnal59. Juvenal não quis traçar, seguramente, senão um quadro simbólico, uma variação “brilhante” sobre o tema da imperatriz cortesã, em que se encontram e opõem a majestade divina do principado e as realidades sórdidas dos lupanares romanos. Não acreditemos de forma alguma que a imperatriz ocupou realmente um quarto cheio de fumo, por cima do qual uma inscrição a designava com o nome de Licisca (ou seja, com o equivalente grego do termo lupa, que, na linguagem do povo, não significava outra coisa se­ não cortesã). Que atraiu a sua casa, no próprio Palatino, amantes capazes de satisfazê-la, não podemos de modo nenhum duvidar. Que também organizou orgias no palácio para as quais convidava mulheres nobres acompanhadas dos maridos60, também é possível. Ninguém se teria in­comodado, se Messalina não fosse a imperatriz. O que pode haver de patológico na sua conduta não deveria suscitar um juízo de condenação sobre o conjunto de uma sociedade e mesmo de uma civilização que não são certamente as únicas a ter conhecido excessos deste gênero. Mas o que todos os censores esqueceram é que no momento em que Messalina se abandonava assim aos demônios da sua carne não tinha ainda vinte anos e talvez tivesse mesmo muito menos. 

Messalina casou com Cláudio um ou dois anos antes deste se tornar imperador. O seu casamento data provavelmente de 39 ou 4061, altura em que Cláudio, tio do imperador reinante (Caligula), era considerado, na corte, um palhaço de quem todos podiam troçar. Ninguém pensava que, em breve, iria ser senhor do Império. Cláudio já tinha sido casado duas vezes. Divorciara-se a primeira vez por acusações que se dizem bastante leves e a segunda porque a mulher se desonrara com o seu mau comportamento e houve mesmo suspeitas de ter morto um homem62. Já não era jovem, porque, nascido em 10 a.e.c., aproximava-se então dos 50. Para Messalina, era o seu primeiro marido, e sabe-se que o costume era casar as mulheres muito jovens. Não nos enganaremos se pensarmos que em 39 Messalina mal tinha entrado na adolescência. No mês de Fevereiro de 41, dava ao mundo um rapaz, o pequeno Britânico. Talvez Britânico tivesse sido precedido por uma filha, Otávia, ou, talvez, pelo contrário, esta fosse mais nova do que ele. Os primeiros tempos deste casamento foram felizes. Cláudio gostava muito da sua mulher-criança e estava feliz por ter sido pai. Parece que tudo começou a deteriorar-se depois da morte de Caligula e da ascensão de Cláudio a imperador. 

O novo imperador era extremamente influenciável e os libertos da sua casa não demoraram a exercer o poder em seu nome. Um deles, sobretudo, o famoso Narciso, parece ter feito da jovem imperatriz o ins­trumento da sua ambição. Messalina, treinada nas intermináveis intrigas da corte e cansada de um marido libidinoso, que perseguia as servas, e tão novas quanto era possível descobrir63, encontrando, para todas as fantasias, cumplicidades interesseiras e servis, teria tido o grande mérito de não abusar da sua total liberdade. Faltou-lhe uma alma de uma força excepcional e, na infância, não leve exemplos melhores do que os que lhe deu sua mãe, Domícia Lépida. 

Os historiadores antigos acusam-na, não apenas de se ter entregue ao prazer de inúmeros vícios, mas também de ter provocado a morte de vários grandes personagens, de que queria vingar-se ou, simplesmente, cujos bens desejava. Debochada, cruel e cúpida, descrevem-na como um monstro quando tinha a idade em que muitas jovens pensam ainda em bonecas. Mas é muito provável que, após a sua queda, lhe tenham atri­buído todos os crimes cometidos por outros em seu redor. Narciso, no­meadamente, que após ter sido o seu aliado foi responsável pela sua morte, tinha todo o interesse em inverter os papéis, pretendendo que apenas obedecera a Messalina, quando era ele mesmo que dirigia o jogo. No tempo de Nero, o delator Suílio, que foi um dos seu familiares, teve de prestar contas. Uma das vítimas de Cláudio, Sêneca, detinha então algum poder e abriu-se o processo. Suílio quis, em primeiro lugar, proteger-se com a memória de Cláudio, pretendendo que não fizera mais do que obedecer ao imperador, defesa que Nero reduziu a nada, afirmando que nunca Cláudio provocara a menor acusação contra quem quer que fosse e que as suas memórias eram disso a prova. Então Suílio alegou que, se Cláudio estava inocente, a responsabilidade de todos os crimes era de Messalina, sabendo que ninguém tomaria a defesa da imperatriz maldita64. Devemos aceitar cegamente as afirmações de Suílio? 

De fato, em redor de Messalina entrevemos como que um círculo, que não está ligado a ela apenas devido ao gosto comum pelo deboche, mas que se serve, para fins políticos, do inegável ascendente que ela exer­ce sobre o príncipe. Neste grupo figura, nomeadamente, Vitélio, o pai do futuro imperador, que finge um grande amor respeitoso65, mas, por outro lado, coloca no seu lararium estátuas de ouro dos libertos imperiais. Este círculo vinga-se de todos os que se opõem às suas manobras. Messalina está “do lado de Antônio”, a quem a ligam as suas duas linhas de ascendentes, a materna e a paterna. Desde o reinado de Augusto, uma surda rivalidade opõe este ramo da família aos “herdeiros legítimos”, represen­tados pelos descendentes de Germânico. Não é nada surpreendente, por conseguinte, que uma das primeiras vítimas tenha sido Júlia Livila, uma das filhas de Germânico, que, no reinado de Caligula, conspirara com Agripina contra o seu próprio irmão. Enquanto esta, que se tornara cuida­dosa, devido ao seu precedente malogro, permanecia na sombra e espera­va a sua hora, Júlia tentava seduzir Cláudio e eliminar Messalina. Entrava em longas conversas a sós com o velho imperador, que nunca não soubera resistir à atração de uma mulher. Por outro lado. Messalina acusou-a de se ter deixado seduzir por Sêneca e ter sido sua amante. Júlia foi enviada para o exílio e, dentro de pouco tempo, assassinada. Sêneca, contra quem não havia acusações demasiado graves, que, no partido das filhas de Germânico, era apenas um comparsa e de quem a eloquência e influência no Senado eram apreciadas, foi objeto de uma medida de clemência. Contentaram-se em relegá-lo para a Córsega, sem o privar dos seus bens. 

O processo e a morte de Valério Asiático incluem-se no número dos crimes mais terríveis de que Messalina é acusada. É por este relato que começa, hoje, para nós, o livro XI dos Anais de Tácito: 

"Vemos aí como a imperatriz, com ciúmes de Popeia Sabina, se irrita com Asiático, do qual esperava, sem dúvida, tornar-se a amante. Como se este motivo não bas­tasse, ao despeito amoroso acrescentou a cupidez. Não se contenta em desejar o homem, deseja também os seus jardins, o maravilhoso parque anteriormente desenhado por Lúculo e que se tornara uma das proprie­dades mais magníficas de Roma. Vitélio, Suílio e alguns outros encarre­garam-se de apresentar a acusação. Cláudio, segundo é relatado, ter-se-ia inclinado para a absolvição, mas Vitélio soube manobrá-lo, fingiu defender o acusado e, por fim, pediu, como medida de clemência, que se lhe permitisse escolher o tipo de morte. Cláudio concordou, estupidamente, e Messalina, que não pudera reter as lágrimas quando Asiático apresentava a sua defesa, obteve finalmente o que desejava, a morte do acusado".66

Este é o relato de Tácito, que não deixa de ser algo improvável. Asiático não era, com certeza, o personagem inofensivo que nos tenta apresentar. Tinha tomado parte ativa no assassinato de Caligula e era o chefe dos conjurados que tinham por objetivo confesso restaurar a Re­pública. Cláudio, longe de ser indulgente, persegue-o com ódio e, muito tempo após a condenação, explode em insultos à sua memória no discur­so que as tábuas claudianas nos deixaram67. Deveremos nós pensar que, deste modo, o imperador não faz mais do que seguir, cega e ridiculamen­te, uma atitude que é ditada por Messalina? A desgraça de Asiático não pode ter tido causas mais graves do que o despeito e a avidez de uma mulher impudica? Não será antes um episódio da luta constante em que se envolveram, nos reinados de todos os imperadores da dinastia júlio-claudiana, o “partido” dos libertos, as “gentes” do príncipe e os cam­peões do Senado, que desejavam arrancar o poder à influência dos “ga­binetes”? Asiático, muito bem na corte, no início do império de Cláudio, companheiro do imperador durante a expedição na Britânia, investido segunda vez como cônsul, em 46, podia passar pelo representante mais autorizado dos que, no fundo de si mesmos, estavam saudosos do bom tempo da oligarquia “republicana” e agiam para restaurar os privilégios da sua ordem. Asiático foi vítima deste duelo de morte, começado antes dele e que continuará, com peripécias diversas, no reinado de Nero e ainda depois dele. É provável que haja responsabilidade de Messalina. Confessemos, pelo menos, que ela partilha tal responsabilidade com os que, considerando que é um instrumento demasiado pouco dócil nas suas mãos, dentro em breve vão maquinar a sua perda. 

Durante o Verão do ano 48, provavelmente a 15 de Agosto68, Cláu­dio, que estava a terminar o “lustro” como censor, teve no Senado este discurso genial e revolucionário, conservado pelas tábuas claudianas, tratava-se de abrir mais amplamente o Senado aos originários das pro­víncias e, muito especialmente, aos notáveis da Gália “cabeluda”. Ao mesmo tempo, Cláudio mostrava-se de uma particular benevolência em relação aos senadores: em vez de usar brutalmente os seus poderes de censor para excluir da ordem os membros do Senado que o tivessem desmerecido, deixou-lhes o cuidado de pedirem eles mesmos o direito de se retirar66. Podia parecer que se estava em um momento decisivo do Império, que o equilíbrio entre a influência dos “gabinetes” e a do Sena­do estivesse prestes a ser rompida. Esta consciência inspirou uma moção lisonjeira do cônsul Vipstano, que propôs que se nomeasse Cláudio “pai do Senado”70. Cláudio recusou esta honra, o que confirmou a opi­nião que se podia ter da sua moderação e dos seus sentimentos “republicanos”, ou, em todo o caso, favoráveis ao Senado. Tal é também a im­pressão que se retira da leitura das próprias tábuas claudianas, pela bonomia do seu estilo, sem dúvida propositada. Havia em tudo isto com que preocupar os “libertos” do palácio, que ripostaram de imediato com uma audácia inacreditável, conseguindo reverter a situação. 

Os libertos aproveitaram uma nova imprudência de Messalina e, com uma hábil manobra, conseguiram tornar suspeita ao olhos do príncipe pelo menos uma parte dos senadores, eliminando ao mesmo tempo a imperatriz, que se tornava uma ameaça para eles. 

Há já algum tempo, Messalina estava apaixonada por um jovem, “o mais belo dos Romanos”71, diz Tácito. Era um senador chamado C. Sílio, que concordou, para a comprazer, em quebrar o seu casamento com uma grande senhora. Júnia Silana, porque Messalina, com a intransigência da sua juventude e o seu orgulho de princesa mimada, não tolerava nenhu­ma partilha. Entregou-se a este amor sem qualquer prudência. Cláudio fechava os olhos. Talvez ignorasse a aventura, ou, o que é mais provável, tenha decidido deixar a Messalina uma liberdade de que queria ignorar até onde poderia ir. O escândalo, de qualquer forma, tinha-se tornado público: Messalina vinha a casa de Sílio com um séquito numeroso e sem se ocultar. Os seus escravos e os seus libertos estavam à vontade na casa do amante e utilizavam a louça e os tesouros do mobiliário imperial para as festas e as reuniões que ela aí dava. Sílio pressentia, de fato, o perigo, mas que podia ele fazer? Como contrariar uma amante imperio­sa, feliz com a sua existência e por satisfazer aquele que amava? Era, para a descendente de Antônio, o recomeço da “vida inimitável”, que ela revivia fazendo ao mesmo tempo de Cleópatra e de Antônio. Aliás, Sílio pensou que o próprio excesso de perigo da situação e a temeridade de Messalina tornavam possível uma solução audaciosa: uma vez que se apoderara da mulher do imperador, por que não se assenhorear também do poder? E foi ele que começou a pressionar Messalina: Cláudio estava velho, porquê esperar o fim natural dos seus dias? Não era Sílio o cônsul designado e, durante algum tempo, pelo menos, um dos principais per­sonagens do Estado? Tinha partidários que ficariam felizes se apoiassem a sua investidura quando Cláudio desaparecesse. Desde a morte de Caligula que se sabia como se faziam os imperadores. Já ninguém acre­ditava no seu direito divino. Aliás, indo mais longe, Sílio fez notar a Messalina que não tinham nenhuma relação familiar e que nada o impedia de casar com ela, logo que ficasse livre pela morte de Cláudio. Pro­metia-lhe adotar os seus filhos. A linhagem de Britânico garantiria aos olhos dos Romanos (daqueles, pelo menos, que se preocupavam com isso) que o poder não excluía completamente a descendência de Augusto. 

Messalina não tinha pensado neste projeto e acolheu-o com frieza. Tácito assegura-nos que pensava apenas em satisfazer a sua paixão e também (o que não deixa de ser surpreendente, se aceitarmos o retrato tradicional de uma Messalina debochada, voando de prazer em prazer, incapaz de se prender a alguém e escrava apenas dos seus sentidos) que estes propósitos de Sílio lhe causaram preocupação quanto ao futuro da sua ligação: teve medo, diz-nos ele, que, uma vez chegado ao poder, Sílio a rejeitasse como um instrumento que se tornara inútil e acabasse, talvez, por a acusar do seu crime comum. Podemos também pensar, e Tácito não nos oferece aqui senão conjecturas, que Messalina ficou cho­cada com o espírito prático de Sílio e que não foi sem resistência que aceitou a ideia de mandar assassinar o marido. Era natural também que estivesse inquieta quanto ao amor dele, ao descobrir que Sílio podia considerá-la como o meio de satisfazer a sua ambição, em vez de sim­plesmente a amar. Do que o amante lhe disse, só quis saber de uma coisa: que desejava casar com ela. Decidiram celebrar o seu casamento na ausência de Cláudio, que tinha de se deslocar a Óstia para uma cerimônia oficial. E o casamento teve lugar. Foram cumpridos todos os ritos: observaram-se os auspícios, ofereceram-se os sacrifícios, testemu­nhas assistiram à assinatura do contrato e os esposos retiraram-se em seguida para passar a noite juntos. Tudo isto nos parece incrível. Os historiadores antigos hostis a Cláudio e a Messalina sublinharam o ca­rácter escandaloso deste casamento para evidenciar o que chamam de imbecilidade do imperador e perversidade da sua mulher. Mas alguns testemunhos dispersos permitem-nos compreender o significado da aven­tura e explicar-nos, mais ou menos, como foi ela possível. Em primeiro lugar, é Suetônio quem nos diz que Cláudio não ignorava a celebração do casamento com Sílio. Teria mesmo aposto a sua assinatura no contra­to. Mas tinham-lhe feito crer que se tratava apenas de um “casamento a fingir”, que havia presságios que ameaçavam o marido de Messalina e que, para desviar a cólera dos deuses, Sílio oferecia-se para desempe­nhar este papel72. Cláudio tinha aceito e partira para Óstia de espírito tranquilo. 

Todavia, as suas ilusões não duraram muito. Narciso, um dos seus libertos, encarregou-se de as dissipar e fazer-lhe compreender a verda­deira situação. Nos nossos dias, o casamento com Sílio pode parecer uma comédia escandalosa sem alcance real. Não acontecia o mesmo no tempo de Cláudio: a mulher possuía então o direito absoluto de repudiar o marido73. Cláudio devia considerar-se “repudiado”, ainda que nem to­das as formas legais tivessem sido estritamente observadas, e foi real­mente assim que Narciso apresentou a coisa. “Mas estarás, porventura - disse ele a Cláudio -, a par do teu divórcio? O casamento de Sílio teve por testemunhas o povo, o Senado e o exército. Se não ages prontamen­te, o marido de Messalina será senhor de Roma.”74 Teria falado assim, se o casamento não tivesse nenhum valor legal? O próprio Cláudio com­preende o perigo. A imperatriz não terá entregado ao seu novo marido o Império como dote? Ela pode fazê-lo. Também ela pertence à família de Augusto. Basta que os pretorianos, o povo ou o Senado pronunciem a queda de Cláudio para que a revolução se torne um fato consumado. Teria, sem dúvida, acontecido assim se Messalina o tivesse desejado e tivesse consentido em tomar as medidas necessárias, ou deixado que Sílio as tomasse. Sílio, cônsul designado, tinha-se distinguido no ano transacto ao atacar violentamente Suílio e fazendo-se porta-voz dos “con­servadores”: os senadores tê-lo-iam apoiado, se tivesse recorrido a eles, e Narciso sabia-o, com certeza, pois, sem perder tempo, trouxe Cláudio ao acampamento dos pretorianos, estes mesmos pretorianos que tinham impedido os senadores de restabelecer a “República” e que respeitavam no príncipe o irmão de Germânico, cuja memória lhes era cara. Messalina, enquanto Narciso conspirava contra ela, preocupava-se pouco com a política: feliz por ter casado com Sílio e sem querer preocupar-se com o dia seguinte, celebrava uma bacanal, porque era 23 de Agosto, dia em que começavam as festas das vindimas75. Na casa impe­rial, preparara-se uma encenação sagrada. Viam-se prensas cheias de uva, o mosto enchia as cubas e, um pouco por toda a parte, mulheres disfarçadas de bacantes, mal cobertas com peles de pantera, entrega­vam-se às danças desenfreadas que prazem a Dioniso. A própria Messalina, com os cabelos soltos, brandia um tirso. Ela era Ariadne, ao lado de Sílio disfarçado de Baco, com as suas grinaldas de hera e os seus coturnos. Quando Vétio Valente, um dos seus amigos, subiu a uma árvo­re e fingia perscrutar o horizonte, ao perguntarem-lhe o que via lá de cima, respondeu que via “uma trovoada violenta para os lados de Óstia”76. Não se enganava nada, porque, nesse mesmo momento, Cláudio, oculto por Narciso, estava instalado em uma liteira, onde ninguém o podia abor­dar, e regressava, mais inquieto e infeliz do que furioso, para enfrentar, contra a sua vontade, o golpe de Estado que, segundo a lógica, Sílio teria devido pelo menos tentar e que tinha algumas possibilidades de sucesso. 

Enquanto Messalina fora um instrumento nas mãos dos libertos, poderia ter-se criado a ilusão de que a imperatriz sabia conduzir uma intriga com habilidade e assegurar o seu sucesso. De fato, logo que, cedendo à sua paixão por Sílio, já não pôde contar com os conselhos de Narciso e dos outros, reduzida apenas às suas forças, entrou em derroca­da. Demasiado segura de si mesma, acreditou durante tempo de mais no seu poder sobre Cláudio, no que não se enganava nada, mas não imagi­nou a habilidade diabólica de Narciso, que a impediu de chegar junto daquele que não teria resistido a alguns momentos a sós com ela. Nem por um momento pensou que o liberto, arriscando tudo por tudo, daria ordem de a executar sem sequer consultar Cláudio. 

Tinha-se retirado para os jardins de que tanto gostava, os que perten­ceram antes a Valério Asiático, e dispunha-se a redigir uma suplica quando chegou um grupo de soldados, conduzidos por um empregado de Narci­so. Junto dela, estava sua mãe, Lépida, durante muito tempo zangada com ela, mas que acorrera ao saber da desgraça da filha. Compreenden­do melhor do que esta que a situação era desesperada, aconselhava-lhe a que não esperasse os carrascos. Messalina, contudo, não tinha coragem para morrer: afinal, tinha apenas vinte anos e, algumas horas mais cedo, estava ainda no momento mais sublime de um amor feliz, possuída por aquele espírito dionisíaco que anteriormente, em circunstâncias seme­lhantes, tinha arrebatado Antônio e que era para si a justificação dos seus arroubos carnais. O severo Tácito condena-a em poucas palavras: “A sua alma, corrompida pelas paixões, já não conservava nenhum sen­tido da honra.” No entanto, esboçou o gesto de se matar quando se aper­cebeu dos soldados, mas estes anteciparam-se-lhe e o tribuno trespas­sou-a com a espada77

O que se considerou ser a conspiração de Messalina, e que havia sido, sobretudo, a conspiração de Sílio, foi reprimida, como era hábito, com uma série de execuções. A severidade das condenações mostra que se pretendeu destruir os representantes mais ativos do “partido senato­rial”. Narciso levava a melhor. Já não estava em questão a aproximação entre o imperador e os senadores. Por uma última vez, os libertos tinham-se servido de Messalina para conduzir o seu jogo e os senadores rebaixaram-se até ao ponto de oferecer a Narciso as insígnias de questor, consagrando assim a sua própria derrota. 

É nestas condições que Agripina chega ao poder. Era necessário subs­tituir Messalina a qualquer preço. Cláudio não podia passar sem mulher e, oferecendo-lhe uma a seu jeito, cada grupo procurava assegurar este modo de o influenciar. Acerca do quarto do príncipe, houve inúmeras intrigas, cujos ecos enfraquecidos Tácito registrou. Finalmente, chegou-se a acordo sobre o nome de Agripina, que dava garantias a todos. Agripina foi escolhida porque tinha sangue de Augusto: era filha de Germânico. Os libertos sabiam que era permeável à corrupção. Em suma, cada um esperava ser recompensado por este casamento, casamento escandaloso, pois Cláudio era o tio de Agripina, mas que se conseguiu impor à opinião pública com uma lei especialmente promulgada para autorizar estas uniões até então consideradas incestuosas. 

No entanto, os que esperavam que Agripina fosse tão dócil como ha­via sido Messalina cedo se desenganaram. De fato, foi uma segunda Lívia que chegou ao poder e não tinha, para se lhe opor, a vontade de um homem semelhante a Augusto. Muito rapidamente, dispôs-se a seguir uma políti­ca pessoal. Abandonando os libertos, começa a seduzir o partido senato­rial. Chama Sêneca, confia-lhe o encargo de criar o jovem Nero e deixa entender que, quando chegasse o dia, saberia dar ao Império um príncipe mais respeitoso dos privilégios do Senado. Levou cinco anos para arruinar completamente a autoridade de Cláudio e ter do seu lado um partido. De qualquer modo, não teve, no fim de contas, nenhuma dificuldade em im­por Nero quando a morte de Cláudio - de que, não sem plausibilidade, a acusam de ter provocado - abriu as portas à sucessão. A sua previdência e a sua habilidade tinham afastado todas as dificuldades: pretorianos, sena­dores e plebe, todos aprovaram a ascensão de Nero à chefia do Império. Tinha sabido realizar o que os três reinados precedentes não tinham conse­guido senão muito raramente: a unanimidade política em Roma. 

Após o sucesso obtido contra o marido, tem de manter a sua influên­cia, desta vez sobre o filho e, antes de mais, sobre o próprio círculo que a ajudara na primeira parte da sua tarefa. Os homens com que rodeou o jovem Nero vão, pela primeira vez, pô-la em xeque. Tinha querido apoiar-se nos “conservadores” e Sêneca fora-lhe para isso muito útil. Mas ti­nha suscitado assim, sem o saber, um obstáculo insuperável. Nunca um “velho romano” permitiria a uma mulher exercer uma influência osten­siva sobre a vida política e os negócios do Estado. Ora, ela recusa per­manecer na sombra. Tem a ambição de todas as mulheres da sua estirpe, o sangue de Lívia corre-lhe nas veias, mas já não tem a sua prudência. Sabe que é capaz de levar a bom termo os mais importantes assuntos tão bem ou melhor do que um homem. Quer ser mais do que a mãe do príncipe, quer ser uma verdadeira rainha. Ora, se a tradição romana permite às mulheres, há muito tempo, ter peso nas decisões dos homens, esta tradição, que os homens em que Agripina se apoia representam, proíbe-lhes que apareçam em cena. 

O drama desencadeia-se desde os primeiros tempos do reinado de Nero: um dia em que embaixadores vindos da Armênia eram recebidos em audi­ência oficiai pelo imperador, Agripina dispunha-se a subir para o estrado e a sentar-se junto dele. Todos os presentes ficaram estupefados. Agripina aproximava-se da tribuna e ninguém ousava fazer um gesto para a impe­dir. Eis que Sêneca teve a presença de espírito de sugerir a Nero que o seu dever lhe impunha que fosse à frente da sua mãe. A sessão foi suspensa, o escândalo evitado, mas o incidente foi o prelúdio de uma longa crise78. Agripina compreendeu que estava longe de ter definitivamente ganho e que tinha de continuar a luta. Agora, era um filho que era necessário domi­nar, não um velho que se vence com uma carícia. 

Agripina vai continuar, durante quatro anos, este combate desigual, onde se usam, de ambos os lados, todas as armas. Nero ousa apaixonar-se por uma liberta de nome Acte. É, em si mesmo, um assunto sem consequências, mas Sêneca vê nele um meio para afastar da sua mãe o jovem príncipe. Favorece esta ligação. Um dos seus amigos, Sereno, o prefeito dos vigias noturnos, esforça-se, desde logo, por dissimular o escândalo, tomando a seu cargo os presentes que o jovem oferece à sua amante e exibindo-se com ela. Mas Agripina não é tola e enfurece-se. Então, privam-na de um dos seus aliados, o liberto Palas, um dos “gran­des funcionários” sobreviventes do reinado precedente, que favorecera a sua fortuna. Então ameaça. Britânico, o filho de Cláudio e Messalina, continua ali, como um remorso. Agripina sabe que pode sublevar os pretorianos a seu favor, diz ela. Britânico morre tão a propósito que nin­guém duvida de que Nero o mandara assassinar (o que de modo algum é certo). Em seguida, a própria Agripina é afastada do Palatino. Mas nem assim ela desarma. Há mesmo quem assegure que ela pensa tornar-se amante do seu próprio filho, crime que foi evitado, diz-se, por interven­ção de Sêneca79. Nero foi protegido também pelo seu amor por Popeia, que arrebatara a um dos seus amigos, Sálvio Otão, e com quem acabou por casar. Por fim, foi a influência de Popeia que o levou a cometer outro crime: o assassinato da sua própria mãe. 

Com Agripina e Nero termina uma linhagem. A família imperial procedente de Augusto tinha levado ao paroxismo estes dramas da pai­xão e da política, que não eram, certamente, novos em Roma, mas não tinham conhecido ainda uma tal intensidade nem uma tal continuidade. 

Os historiadores transmitiram-nos muitos detalhes sobre a perversidade sexual do último dos júlio-claudianos, que nos permitem supor que ce­dia com demasiada boa vontade aos arrebatamentos da sua imaginação e às curiosidades dos seus sentidos. Os mesmos historiadores relatam-nos também com que ternura gostou de Popeia, com que alegria acolheu o nascimento da sua filha, o único descendente que teve. Acrescentam que Popeia morreu por culpa do imperador, que ele lhe deu um dia um tal pontapé no ventre que a jovem, que estava grávida, não demorou a mor­rer. O que retira muito peso a esta versão é o rumor que correu entre o povo que Popeia morreu envenenada por Nero. O que é certo é que este continuou a amar a memória da sua mulher, a ponto de a “substituir” por um rapaz cujos traços recordavam os da morta. Também não devemos esquecer, para concluir o esboço do que foi, talvez, o verdadeiro perfil de Nero, o imperador que começou reinar aos dezessete anos, que a sua primeira amante, Acte, lhe permaneceu sempre fiel e que foi ela que o enterrou, quando todos o tinham abandonado, tendo morrido proscrito, declarado inimigo público pelo Senado, arrastando consigo a sorte de toda uma dinastia.

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TEXTOS DE HISTÓRIA ( 31 )
TODOS OS TEXTOS ( 134 )
O Ramesseum
O Ramesseum, o Templo de Ramsés II

Preparar sua morada no além faz parte des deveres do faraó. Ramsés II manda escavar um hipogeu no Vale dos Reis, na margem ocidental de Tebas; manda também edificar um templo fúnebre, não muito longe do vale. Segundo o costume, um contrato prestabelecido liga a esse templo uma fundação e um clero de serviço. Essa fundação é conhecida pelo nome de "Ramesseum". O faraó contrata para sua edificação a massa dos artesãos estabelecidos na aldeia de Deir el-Medineh na mesma margem, não muito distante da necrópole erguida nesse local no início da 18ª dinastia. Todos os segmentos de ofícios são representados. Os artesãos se revezam a cada dez dias sob a responsabilidade de um chefe de equipe. O prefeito da localidade está ligado ao vizir do sul, Paser, para regulamentar os salários pagos em produtos. Apesar das precauções de costume e a vigilância da necrópole, o hipogeu de Ramsés é pilhado desde a Antiguidade. A múmia de Ramsés II é encontrada somente em 1881, por Gaston Maspero, no esconderijo chamado “Deir el-Bahari” nas montanhas tebanas, onde sacerdotes, em torno de 970 a.e.c., haviam secretam ente enterrado de novo vários corpos dos reis das 18ª e 19ª dinastias, para poupá-los da destruição blasfematória. A mortalha de Ramsés levava em modesta homenagem coroas de folhas de acácia, mirto e centauros colocados por ocasião desse enterro.

CHADEFAUD, Catherine. Ramsés II, o maior faraó da 19ª dinastia. IN.: SALLES, Catherine. Larousse das civilizações antigas. São Paulo/SP: Larousse, 2008. p.64
GOVERNANTES
A
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H
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S
T
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V
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TODOS OS GOVERNANTES ( 64 )
BATALHAS
Batalha de Zama
Segunda Guerra Púnica
Civilização Romana - Númidas
Civilização Cartaginesa - Gauleses - Espanhóis - Númidas
Século III a.e.c.
202
Setembro
A destruição da Babilônia
Guerras Assírias
Civilização Assíria
Babilônia
Século VII a.e.c.
689
-
TODAS AS BATALHAS ( 3 )
MAPAS
The viking fort at Repton
Hedeby
Invasões dos líbios e dos povos do mar
TODOS OS MAPAS ( 61 )
PERSONALIDADES
Vercingetorix
'o chefe supremo dos guerreiros', ou 'o chefe dos grandes guerreiros' ou 'vencedor de cem batalhas'
General, aristocrata, líder tribal
Civilização Celta, Século I a.e.c.
TODAS PERSONALIDADES ( 19 )
cidades
Novgorod
Rússia
Fundada em 882,  Século IX e.c.
Vinland
América do norte
Fundada em 1000,  Século XI e.c.
TODAS AS CIDADES ( 15 )
A Europa nasce em Creta

Uma ilha abençoada pelos deuses, onde Zeus uniu-se à bela Europa, um rei todo-poderoso e tirânico, um monstro preso num labirinto, esses elementos que constituem o mito de Teseu são praticamente os únicos que, desde o I milênio a.e.c., os antigos conhecem do passado mítico de Creta, cujos últimos palácios desapareceram no século XIV a.e.c. Mal se recordam que, muito tempo antes, essa ilha era uma potência predominante no Mediterrâneo oriental. Homero a classifica como terra tão bonita quanto rica, isolada entre ondas. terra de inumeráveis homens, daí 90 cidades cujas línguas se mesclam.

Durante três milênios a civilização cretense e conhecida apenas por lendas. No inicio do século XX, a historia aparece como mito. Arqueólogos começam a se interessar por Creta. Os vestígios descobertos no sitio de Knossos incitam um etnólogo inglês, Arthur Evans, a escavar sistematicamente o terreno que comprou. A descoberta dos vestígios de uma grande construção que ele julga ser o palácio de Minos, a exumação de afrescos, de múltiplos objetos e placas de argila recobertas de escrita, revelam que uma civilização realmente brilhante existiu em Creta de 2000 a 1400 a.e.c. Na falta de designação melhor. Evans a chama de "minoica". Desde essa descoberta fundamental, as escavações prosseguem em Knossos e em outros sítios arqueológicos cretenses. Pouco a pouco se reconstitui a historia de Creta, o país onde aparece pela primeira vez uma civilização europeia. Evans restaurou as paredes do palácio e ornou suas salas com pinturas de cores vivas. Essas restituições, à luz de descobertas posteriores, são hoje muito controvertidas.

No inicio do 2° milênio a.e.c., foram construídos os primeiros palácios monumentais situados dentro de aglomerações urbanas. É provável que o sistema palaciano cretense resulte de um processo que tem sua origem em Creta durante a fase do bronze antigo (de 3000 a 2000 a.e.c.). Creta é dividida em grandes provincias, cada uma delas colocada sob a dominação de um palácio (Knossos, Malia, Faistos, Zakros).

Per volta de 1750 a 1700 a.e.c., os primeiros palácios desaparecem brutalmente sem que seja provável atribuir essa destruição geral a um terremoto ou a invasões decorrentes de guerras. A reconstrução dos palácios é imediata. É o inicio da segunda fase da civilização minoica, mais brilhante e mais elaborada que a precedente. Por volta de 1450 a.e.c., uma destruição total dos palácios ocorre de novo, tão misteriosa quanto a primeira. A maioria dos locais minoicos é abandonada, e micênicos, vindos do continente grego, ocupam a ilha. Contrariamente ao que se acreditava por muito tempo, a erupção do vulcão de Thera (hoje Santorin), remontando sem duvida ao inicio do século XVI a.e.c., não tem nenhuma relação com o fim da civilização dos palácios cretenses.

Tirando proveito de sua situação privilegiada no mar Mediterrâneo, na encruzilhada de três continentes (Europa, África e Ásia), Creta comercializa com as Cíclades, com Rodes e Chipre e com o Oriente. Enquanto os egípcios, os babilônios e os assírios fizeram fortuna em terra, os minoicos fundaram sua riqueza no mar. Graças à sua importante frota, exportam seus excedentes agrícolas e objetos manufaturados e importam os metais de que necessitam. Os historiadores gregos Heródoto e Tucídides evocam de maneira muito vaga uma "talassocracia" (potencia marítima) cretense, exercida pelo rei Minos sobre o conjunto das Cíclades. Mas esse termo é abusivo, pois nada permite afirmar que os cretenses conquistaram as ilhas do mar Egeu e nelas estabeleceram colônias. Eles se contentaram em controlar todo o comercio nessa parte do mar Mediterrâneo.

O palácio cretense reflete perfeitamente a pacifica doçura de viver que parece ter sido a característica principal do período minoico. Nenhuma muralha defensiva o cerca, os afrescos não representam cenas únicas e as armas são inofensivas, destinadas somente as cerimonias de pompa. O conjunto do palácio é uma verdadeira cidade, centro da vida politica, religiosa e econômica. O espaço que o palácio abrange é considerável: 13 mil metros quadrados para o de Knossos, com seu vasto conjunto de construções agrupadas em torno de uma praça central. Os bairros são repartidos segundo suas funções. Os aposentos suntuosos do rei, que encerram a sala do trono e a do culto, e os da rainha ficam próximos da praça central. Todas as outras construções, erigidas em torno de pequenos pátios, são ligadas à praça central por meio de galerias de colunas que tem por particularidade serem mais largas no alto que na base. Lances de degraus permitem o acesso aos andares superiores, e terraços são construídos entre as casas. O projeto do palácio é muito complexo, o que levou Evans a crer que o palácio de Knossos era o lendário Labirinto.

Tudo é organizado para permitir que a luz penetre. As salas suntuosas abrem-se para o exterior por grandes janelas separadas por pilares. Por toda parte reluzem cores vivas: ha motivos pintados sobre os revestimentos dos pisos e das paredes, afrescos monumentais recobrem as paredes mais extensas, pilares são pintados de vermelho vivo.

Uma grande parte do palácio tem uma vocação econômica: um setor agrupa os escritórios administrativos, outro contem ateliês nos quais trabalham funcionários. Os arqueólogos puderam reconhecer os ateliês dos ceramistas e dos gravadores de sigilos, assim como o forno de um fundidor de cobre. Depósitos conservam o excedente da produção agrícola e os impostos recolhidos in natura. Os cereais e outros produtos agrícolas são conservados em enormes pithoi, que são jarras de terracota.

Em volta de todo o palácio estão casas para moradia, coladas umas às outras em ruelas estreitas. Ao longo do litoral, vários estaleiros navais fabricam os navios de que os cretenses necessitam para percorrer o mar Mediterrâneo oriental. Para a pesca e a cabotagem, utilizam barcos redondos de madeira movidos a remo. Para o comercio, possuem grandes embarcações à vela.

Bem menos conhecida é a vida nos campos. Vestígios de habitações rurais, no entanto, agrupadas em vilarejos, mostram que os camponeses cretenses viviam em casas de tijolo e de madeira, construídas sobre blocos de calcário. Existem também grandes mansões de campo pertencentes a ricos proprietários que fazem cultivar suas terras por homens livres ou escravos. Em toda a ilha, pratica-se a policultura: cereais, leguminosas (fava, ervilha, grão-de-bico), videiras e oliveiras. Os camponeses devem levar ao palácio uma parte de sua produção como forma de imposto.

O episódio de Teseu que entra no Labirinto, cumpre reportar-se aos ritos religiosos dos cretenses. Eles os celebram em dois tipos de santuários, erguidos quer em locais naturais (fontes, cavernas, elevações), quer no âmbito palaciano. A religião minoica nos é conhecida apenas por suas representações em imagens. Nas salas do palácio reservadas ao culto existem altares de flancos arqueados, bacias lustrais (para fins de purificação), mesas de três pés para oferendas, símbolos como os machados duplos e os chifres duplos que servem para santificar o local, um rhyton (vaso para libações) em forma de cabeça de touro e afrescos que ilustram cerimonias religiosas. Os artistas pintaram procissões, danças sagradas, provas de atletismo e tauromaquia de valor religioso. Estatuetas femininas de quadris largos e brandindo serpentes foram interpretadas como deusas da fecundidade. Talvez se trate, no entanto, de sacerdotisas. De acordo com indícios extraídos dos vestígios arqueol6gicos, pareceria, portanto, que os cretenses não adoravam divindades masculinas. Mas, para além dessas formas externas da religião, nada permite apreender em que consistiam as crenças reais dos minoicos.

Descoberta a 12 quil6metros de Knossos; a caverna de Skotino foi reconhecida como o verdadeiro Labirinto, destinado a submeter os jovens a provas iniciáticas. Suas galerias subterrâneas descem ate 55 metros de profundidade dispondo-se em quatro níveis. Os futuros iniciados deveriam percorrer um circuito tortuoso que se tornava ainda mais difícil por rupturas de nível e becos sem saída. Blocos calcários esculpidos representam cabeças monstruosas. No fim do circuito encontrava-se um altar de pedra, que deveria estar cercado de oferendas variadas e das cinzas dos sacrifícios.

Na mitologia grega, a história de Creta começa com a chegada de Europa na ilha. Para a história mundial, o continente Europa encontrou em Creta o berço de sua civilização.

A civilização de Creta, incluindo as ilhas periféricas das quais a mais importante é Thera, usufruiu de uma cultura refinada e de avanços técnicos excepcionais para sua época, algo que mesmo durante o período clássico (mais de 1000 anos depois), Atenas ou nenhuma outra cidade conseguiria alcançar plenamente. Toda a fama dessa riqueza e requinte alcançou a civilização egípcia, com quem os cretenses mantinham ativo comércio na época do médio império dos faraós. Muitos anos depois, Platão ouviu estórias maravilhosas provenientes do Egito de um povo maravilhoso, de tecnologias avançadas que viveu há muitos anos e que sucumbiu devido a um desastre natural. De posse desses conhecimentos transmitidos por vias orais, Platão tinha às mãos os ingredientes necessários para elaborar alguns de seus mais famosos diálogos... Nascia aí a lenda de Atlântida. (Odsson Ferreira)

 

Teseu e o Minotauro

Quando os marinheiros que trabalham no cais de Knossos veem aparecer no horizonte uma nave de velas negras, se apressam em prevenir os habitantes da cidade, que se precipitam para o porto. Todos, com efeito, sabem que se trata do navio que vem entregar ao rei de Creta, Minos, os reféns atenienses.

Minos é um dos soberanos mais poderosos da mitologia grega. Tem por mãe a princesa originaria de Tiro, Europa, que Zeus, sob forma de touro branco, seduziu e carregou em seus ombros ate à costa de Creta. Minos herdou de seu divino pai uma sabedoria excepcional. Foi ele quem deu a seu povo leis diretamente inspiradas em Zeus e fez dos cretenses um povo civilizado. Minos é também um rei autoritário e implacável. Um de seus filhos, Androgeu, vindo a Atenas para participar dos jogos atenienses, e assassinado provavelmente por ordem de Egeu, rei de Atenas. Para vingar sua morte, Minos exige que, todos os anos, os atenienses lhe enviem um tributo constituído de sete rapazes e sete moças. Ao chegarem em Knossos, são encerrados no Labirinto - edifício extraordinário imaginado pelo arquiteto Dédalo - , de tal modo que é impossível sair dele. Os meandros do Labirinto e seus corredores traçados como armadilhas conduzem ao antro do Minotauro. Esse monstro hibrido, com corpo de homem e cabeça de touro, é fruto dos amores contra a natureza da mulher de Minos, Pasifae, e de um touro que o deus do Mar, Posídon, deu a Creta. Escondido no fundo do Labirinto, o Minotauro vigia os jovens reféns para devora-los.

Quando Atenas, pela terceira vez, deve pagar seu tributo, Teseu, filho do rei Egeu, se apresenta como voluntário para fazer parte dos reféns. Promete a seu pai que vai matar o Minotauro e, desse modo, libertar Atenas do funesto tributo expiatório. Teseu tem, como Héracles (filho ao, mesmo tempo de Zeus e de Anfitrião), a particularidade de ter dois pais: um deus, Posídon, e um homem, Egeu, rei de Atenas. Além disso, tem a ambição de igualar as proezas de Héracles, para gozar de uma fama tão grande como a dele. Assim, começa sua carreira heroóica exterminando forças monstruosas. Libertou os habitantes da Ática matando muitos criminosos temidos. Matar o Minotauro seria para ele o auge de suas proezas salvadoras. Teseu é também um herói leviano, sempre pronto a seduzir as mulheres, mas igualmente pronto a abandona-las.

Com muito esforço, Teseu consegue convencer seu pai; que teme enviar seu filho a morte. No momento em que o navio enviado por Minos para levar os reféns - e que traz, em sinal de Iuto, velas negras - aporta em Creta, Egeu faz o piloto prometer que, na volta, vai içar velas brancas se Teseu tiver conseguido vencer o Minotauro.

Na chegada do navio cretense ao porto de Knossos, entre os habitantes reunidos para assistir ao desembarque, encontra-se a própria filha de Minos, Ariane. À vista de Teseu, a princesa se sente imediatamente colhida por uma violenta paixão por ele. Em troca de uma promessa de casamento, dá ao herói um novelo de linha, segurando em sua mão uma das pontas do fio. Teseu avança no Labirinto, desenrolando o novelo. Chegando à presença do Minotauro, o herói o mata a socos.

Depois, graças ao fio de Ariane, consegue reencontrar o caminho que o leva para fora. Imediatamente faz embarcar todos os seus companheiros em seu navio. Por medida de precaução, fende o casco dos outros navios cretenses para impedi-los de seguir a seu encalço.

O regresso triunfal de Teseu a Atenas é marcado por dois episódios. Ariane, que fazia parte da viagem, é abandonada por Teseu por ocasião de uma escala na ilha de Naxos. Dioniso, de passagem pela ilha, a recolherá e fará dela sua esposa. Mais tarde, à vista das costas da Ática, a alegria é tamanha no navio que o piloto esquece de trocar as velas. Egeu, que vigia o regresso do navio, vê as velas negras e acredita que o Minotauro matou seu filho. Desesperado, lanca-se no mar, que leva dai em diante seu nome.

Teseu, saudado pelos atenienses como benfeitor e libertador, sucede a seu pai. Ele confedera todas as cidades da Ática a autoridade de Atenas. Ate o século IV a.e.c., os atenienses veneraram uma embarcação arcaica que teria sido aquela da expedição para Creta. Teseu tem a particularidade de ser para os gregos ao mesmo tempo um herói mitol6gico e um personagem histórico.

Aperfeiçoamento da escrita na Suméria

O país de Sumer, na Baixa Mesopotâmia. é constituído durante o 3º milênio a.e.c. de um conjunto de principados urbanos ou cidades-Estado, fortemente unidas por uma língua, uma escrita e uma religião comuns. A organização política, social e econômica é muito semelhante entre as cidades, mas rivalidades políticas ou econômicas constantes opõem-nas umas às outras. Um dos principais fatores de conflito é o controle dos recursos da água, determinantes para a prática da agricultura irrigada. O mais conhecido desses confrontos é o das cidades-Estado de Lagash e de Umma, que se opõem durante mais de um século, entre 2500 e 2400 a.e.c. Apesar de uma longa série de vitórias de Lagash, essa guerra terminou com sua derrota e a destruição de suas principais cidades: a própria Lagash, mas tamhém a cidade de Girsu, mais ao norte.

O último rei de Lagash, Urukagina, decide, no início de seu reinado, proceder a certo número de reformas, que julga indispensáveis para manter a supremacia do Estado de Lagash sobre o sudeste do país de Sumer. Urukagina começa por abrandar as taxas, muitas vezes abusivas, pesadas para a população. Aparece assim como o primeiro soberano da história mesopotâmica a integrar uma preocupação de justiça e de equidade no exercício do poder. O rei alterará também as relações entre a autoridade real e os templos. Algumas gerações antes, Enentarzid, ao mesmo tempo rei e sumo sacerdote de Ningirsu, o deus principal de Lagash, acumulava poder real e poder religioso, misturando os interesses econômicos do palácio com os templos, o que provocava confusão e desperdício. Urukagina confere autonomia aos templos: as terras do templo da grande deusa Bawa, constituindo anteriormente “a casa da rainha”, voltam a tornar-se “domínio de Bawa”. Mas essa reforma é ilusória, porque os responsáveis administrativos não mudam e a família real conserva seu poder sobre a gestão dos principais templos e a responsabilidade pelo bom funcionamento do culto: Urukagina controla o templo do deus Ningirsu, a rainha Sasag controla o de Bawa, seus filhos, o de Shulshagana. Essa gestão é conduzida naturalmente para resguardar da melhor maneira possível o interesse dos santuários. Mas, quando as necessidades do Estado os exigem, os recursos dos templos, em homens e nos produtos mais diversos, podem ser mobilizados a seu serviço.

Após ter rechaçado vitoriosamente as tropas de Uruk, Urukagina é atacado e vencido pelo rei de Umma, Lugalzaggesi. Este dirige suas forças para o centro do principado de Lagash, onde pilha e queima vários santuários. Pouco depois, triunfa sobre Uruk e unifica sob sua autoridade todo o sul sumério, antes de cair, por sua vez, sob os golpes de Sargão da Acádia.

No fim do século XIX. o arqueólogo francês Ernest de Sarzec descobriu no sítio de Girsu os primeiros vestígios dos sumérios. Nos níveis mais antigos do sítio, foram descobertos grande número de estátuas, objetos votivos e vários milhares de placas de escrita cuneiforme, que, uma vez decifradas, permitiram reconstituir o funcionamento de uma cidade-Estado suméria.

Os aproximadamente 1.200 documentos escritos, encontrados no templo de Bawa em Girsu, constituem os primeiros arquivos administrativos da Mesopotâmia e fornecem uma base sólida para reconstruir o que era a gestão de um grande organismo religioso sumério na época de Urukagina. Pesquisas recentes permitiram mostrar que, por meio das simples listas de nomes próprios, de distribuições de rações alimentares, de recenseamentos de rebanhos, surge não somente um sistema econômico, mas também a consequência direta dos acontecimentos militares do reinado de Urukagina.

Desde o início de seu reinado, Urukagina envolve-se em guerras com as outras cidades-Estado. A situação econômica torna-se mais difícil e a contabilidade do templo reflete essa realidade. Os registros de entrega de cevada e de espelta mostram uma diminuição da ordem de mais de 30%. Certos setores de despesas, como a “preparação da cerveja do rei”, desaparecem. A cerveja das rações correntes é diminuída numa proporção de 30% a 50%. Um pastor vê seu rebanho passar de 38 a 22 carneiros.

O estado de guerra acarreta também o estabelecimento de listas de recrutamento, nas quais são contados homens pertencentes aos grupos de trabalhadores do templo. A mais antiga lista registra 43 pessoas: pescadores de água doce, oleiros, arboricultores, dos juncais. Três anos mais tarde, quando do segundo assalto de Uruk contra Girsu, uma nova lista conta cerca de cem homens fornecidos pelo templo sob as ordens de quatro oficiais. No ano seguinte, uma tijoleta registra 167 soldados, tomados entre os agricultores, os pescadores e os pastores. Reunindo todos os dados, constata-se que o templo de Bawa dispõe de uma mão-de-obra de 400 trabalhadores, da qual 40% foram integrados no exército. O templo participa também no esforço de guerra pela fabricação, em seus próprios ateliês, de machados duplos e de pontas de lança.

Por volta de 3300 a.e.c. aparecem em Uruk os primeiros verdadeiros textos escritos. Os princípios básicos dessa escrita são simples: reproduzem elementos reais representados de maneira estilizada sobre a argila. São pictogramas (desenhos figurativos). Nesse sistema, um desenho representa um animal, um vegetal ou um objeto útil. Pouco a pouco, “codifica-se" a representação de certas noções: por exemplo, um pássaro e um ovo desenhados lado a lado permitem evocar a ideia de dar à luz. São introduzidos também elementos puramente abstratos como as anotações de quantidades.

Os pictogramas dão lugar então a ideogramas: um sinal re-presenta uma palavra da língua. A partir de então, a escrita funciona com sinais e não mais com desenhos, e a noção de “representaçâo explícita” desaparece progressivamente. Os sinais se simplificam em combinações de “cunhas”, mais fáceis de imprimir na argila mole que linhas curvas.

À medida que as vastas potencialidades desse sistema aparecem, os sumérios compõem lentamente um processo de escrita no qual, para cada palavra, é necessário um desenho correspondente. Recorrem então a agrupamentos de sentidos em torno de um único sinal. Por exemplo, um só e mesmo sinal designa a “boca", o “dente”, o “ato de comer”, a “palavra” etc. Depois, ao lado do valor de evocação de uma palavra inteira (ideograma) por meio de um sinal, atribui-se a este um ou vários valores fonéticos elementares (do tipo: “ba”, “bí”, mas também “ab” ou “ib”). No final desse processo, os sumérios dispõem, por volta de 2600 a.e.c., de uma escrita com cerca de um milhar de sinais, constituídos de agrupamentos de “cunhas” inscritas na argila e que só possuem uma remota relação com o desenho-pictograma original. Esses sinais devem ser lidos ora como palavras inteiras (valor ideogramático), ora como fonogramas (sinais-som), que combinados com os sinais vizinhos, permitem escrever uma palavra para a qual não existe ideograma adequado, por exemplo, uma forma verbal conjugada ou um nome próprio.

Essa escrita não é concebida como um simples “instrumento”, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo.

Esse sistema pode parecer muito complicado, visto que cada sinal pode ter ao mesmo tempo vários valores fonéticos e vários valores ideogramáticos, e que nada indica, a príori, qual ser escolhido. Entretanto, pode-se constatar que o sistema de escrita cunéiforme dos sumérios foi construído de maneira muito pragmática. Representa, na época de Urukagina, uma espécie de ponto de equilíbrio entre o número total de sinais razoavelmente memorizáveis e a quantidade dos valores que possui cada um desses sinais. Deve-se também ter em mente que essa escrita não é concebida como um simples “instrumento”, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo, a maneira de representá-lo e, com isso, de dominá-lo. De modo significativo, constata-se que, a partir dos primeiros corpos importantes de textos cunéiformes, por volta de 2600 a.e.c., se encontram listas nas quais são registradas, de maneira ordenada, todas as espécies de realidades: nomes de cidades, nomes de ofícios, nomes de divindades, nomes de animais, se colocar por escrito a realidade do mundo permitisse compreender melhor os mecanismos de seu funcionamento íntimo.

Mesmo simplificado desse modo, o sistema da escrita cuneiforme não está ao alcance de todos. Permanece privilégio de especialistas, os técnicos da escrita. Os escribas possuem ao mesmo tempo a arte de escrever, a de contar, o conhecimento das fórmulas jurídicas, espistolares, administrativas. Aprenderam a estabelecer listas de pessoal, a registrar movimentos de produtos ou de animais, a elaborar balanços, a reunir dados estatísticos. Sabem também redigir as inscrições oficiais pelas quais o rei celebra sua bravura ou sua piedade, ou as fórmulas religiosas pelas quais se pode enternecer o coração dos deuses.

Mas o aspecto mais importante dessa prática da escrita reside realmente na possibilidade conferida doravante aos grandes organismos econômicos das diversas cidades-Estado sumérias, palácios e templos, de praticar uma gestão escrita de seus recursos, de controlá-la e, por fim, de otimizá-la.

Início da construção do Templo de Salomão

No início do 1º milênio a.e.c, o reino de Israel, fortificado e engrandecido por Davi (1005-979 a.e.c.) que lhe deu como capital Jerusalém, está no auge de seu poderio. Abrange uma grande parte do Médio Oriente ocidental, desde o anel sírio do rio Eufrates a nordeste até a fronteira egípcia (chamada “torrente do Egito”, na Bíblia) a sudoeste. Seus vizinhos mais perigosos são os filisteus e os povos de Edom, de Moab e de Amon, que foram vencidos. O filho do rei Davi e de Betsabeia, Salomão (970-931 a.e.c.), quer fazer de seu reino um Estado poderoso e de sua capital, Jerusalém, uma cidade prestigiosa.

Entre os trabalhos empreendidos em Jerusalém, por Salomão, o templo ocupa um lugar todo particular, uma vez que é destinado a abrigar o objeto mais precioso do povo de Israel, a Arca da Aliança, que contém as Tábuas da Lei dadas por Javé a Moisés no monte Sinai. A Arca constitui o sinal visível da presença de Javé no meio de seu povo. A paz que reina no reino de Israel, a prosperidade que o acompanha e a abundância dos recursos de que dispõe o poder real, por meio dos impostos e do sistema de corveia instaurado por Salomão, permitem levar a termo, em sete anos (967-960 a.e.c.), a edificação do templo.

Quando Davi se apoderou de Jerusalém, em torno do ano 998, instalou a Arca da Aliança em seu palácio. Para dar-lhe uma morada digna, projeta construir um edifício imponente. No local mais elevado de Jerusalém, no monte Moriá, onde a tradição situa o sacrifício de Isaac por Abraão, Davi compra uma eira para bater os cereais de um tal de Oman ou Arauna, “o Jebuseu”. A primeira coisa que o rei faz é instalar ali um altar para sacrifícios, e Javé aprecia o holocausto que lhe é oferecido. No entanto, quando Davi quer edificar um templo de pedra, o profeta Natan, falando em nome de deus, dissuade-o: essa tarefa é reservada a seu filho e sucessor, Salomão.

Em 967 a.e.c, os trabalhos finalmente começam: os operários aterram primeiramente o fosso setentrional que separa “a cidade de Davi” do monte Moriá. Depois, aumentam o palácio real e o ligam por um adro à esplanada sobre a qual vão construir o templo. Salomão quer assim relembrar a estreita associação entre poder do rei e poder divino.

Ao mesmo tempo em que respeita os princípios fundamentais do culto de Javé, o templo é construído segundo modelos estrangeiros. Arquitetos são colocados à disposição de Salomão por seu aliado, o rei de Tiro. Hiram. Este fornece também os troncos de cedro e de zimbro destinados à cobertura, aos lambris e ao pavimento do templo. Salomão impõe a seus vassalos serviço de corveia para ajudar os habitantes de Tiro a cortar as árvores no monte Líbano e transportá-las até o mar, de onde são encaminhadas até a costa de Israel.

Durante sete anos, centenas de operários trabalham na esplanada do monte Moriá. As paredes do edifício são constituídas de blocos de pedra retangulares, talhadas nas pedreiras de extração por operários vindos de Tiro e de Biblos. Assim, nenhum barulho de cunha, de martelo ou de instrumento de ferro ressoou no recinto sagrado, cuja santidade é dessa forma preservada.

Para a consagração do templo, em setembro de 960, Salomão reúne os anciãos do povo de Israel, todos os chefes de tribo e os príncipes de Israel. Em presença dessa grande assembleia, os sacerdotes e os levitas tomam a arca sob a tenda onde havia sido depositada por Davi e sobem até o templo. Eles fazem a arca entrar no Santo dos Santos e a depositam entre dois querubins (de madeira de oliveira, chapeada de ouro e de 5 metros de altura) de asas estendidas.

Uma música triunfal ressoa no edifício: os cantores glorificam o deus, acompanhados pelas trombetas dos sacerdotes, pelas harpas e pelos címbalos dos levitas. De acordo com os relatos bíblicos, Javé manifesta então sua presença sob forma de uma nuvem que invade o templo.

A divindade não se encarna num objeto material ou num ídolo, mas indica claramente o lugar privilegiado onde sua glória e sua potência se revelam. É ali que o povo deve dirigir-lhe orações e súplicas. Assim é relembrada solenemente a aliança privilegiada entre Javé e o povo de Israel. Manifestando sua aprovação, o deus reconhece que o único e verdadeiro santuário de Israel é doravante o Templo de Jerusalém.

Um gigantesco sacrifício de vários milhares de bois e carneiros encerra a cerimônia de consagração. Todo o povo reunido permanece no local durante sete dias e sete noites. No oitavo dia, Salomão manda voltar para casa todos os seus súditos, que retornam “com a alegria no coração por causa de todo o bem que o deus havia feito a Israel, seu povo”.

Um templo para a glória de um deus solitário

No Médio Oriente ocidental, os filisteus, os cananeus ou os fenícios prestam culto a seus múltiplos deuses em templos onde a divindade é encarnada numa estátua ou num símbolo - às vezes um bétilo, uma simples pedra erguida. As mesas de oferenda e os altares são cercados de reservas de água lustral e de bosques sagrados. O acesso ao espaço interno do templo em geral só é permitido aos sacerdotes, detentores de conhecimentos mágicos que permitem entrar em contato com a divindade.

Israel é um caso isolado, pois seu deus único não se encarna materialmente como “os ídolos ancestrais” dos povos vizinhos. Essa especificidade é consequência de acontecimentos ocorridos vários séculos antes. Segundo a tradição bíblica, os hebreus, dedicados à criação de ovelhas, vieram instalar-se no Egito seguindo José, filho de Jacó (cognominado de Israel): José chega ao Egito por meio de seus irmãos, em razão de deportações ou da seca, o que os obriga a levar também seus rebanhos. Os doze filhos de Jacó, os Ben Israel, são os ancestrais fundadores das doze tribos de Israel: Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zabulon, Dan, Neftali, Gad, Aser, José (dele saíram duas tribos: a de Manassés e a de Efraim), Benjamin. Mas, no decorrer dos anos, a situação desse povo no Egito piora e eles se tornam dependentes, obrigados a um trabalho penoso e perpétuo. Graças à mediação de Moisés, o povo dos Ben Israel dá início à sua saída do Egito sob o reinado do faraó Ramsés II (1279-1213 a.e.c.)?. Antes, Moisés havia passado vários anos no deserto do Sinai, onde o deus se havia revelado a ele e lhe havia dado a missão de fazer sair do Egito os descendentes de Israel e conduzi-los até o país de Canaã. Esta terra então lhe será confiada, com a condição de observar estritamente as leis dadas pelo deus e de prestar-lhe um culto exclusivo. Na realidade, os Ben Israel, que saíram do Egito em torno de 1250 a.e.c.?, representam apenas um milhar de indivíduos. Mas esse período do Êxodo/expulsão e seus diversos episódios (passagem do mar Vermelho, estada no deserto, redação das Tábuas da Lei, conquista violenta do país de Canaã)? criam entre o povo de Israel e Javé uma relação de todo peculiar.

O resto do povo de Israel, que não participou do Êxodo/expulsão e que vive nos altos platôs situados entre o mar Morto e a Galileia, é constituído de clãs de origem nômade sedentarizados no final do 2º milênio. A unidade do conjunto, as doze tribos procedentes de Jacó/Israel, será estabelecida pela ficção de uma origem comum. Com um ancestral comum e com um território único, essas comunidades se reúnem no culto de Javé, que se manifestou, segundo o folclore, - por ocasião do episódio do deserto - sob forma de nuvem, envolvendo o santuário portátil da Arca da Aliança. Na origem, um simples cofre de madeira fabricado pelos hebreus durante seu Êxodo/expulsão no deserto, a arca contém as Tábuas da Lei. Graças a barras enfiadas em anéis, pode ser facilmente transportada. Uma tenda feita de peles de ovelha a recobre. A precariedade dessa instalação recorda permanentemente o período da fuga pelo deserto. A Arca está também presente nos combates travados pelos hebreus na conquista da terra de Canaã.

Desde sua instalação no país, o povo de Israel entra em contato com vizinhos hostis, especialmente filisteus, originários dos povos do mar, que estão estabelecidos na planície costeira. A arqueologia, de resto, mostrou que nos séculos XII e XI a.e.c., à parte as cidades dos filisteus da costa, as antigas cidades de Canaâ estão praticamente em ruínas. Mas, nas terras altas da Cisjordânia, constata-se o surgimento de pequenos centros rurais que se desenvolvem do leste para o oeste.

Esse período ininterrupto de conflitos entre os clãs hebraicos e seus vizinhos impõe uma evolução política: a partir de 1150-1130 a.e.c. destacam-se, à frente das diferentes tribos, líderes investidos de um poder de decisão para toda a comunidade e funcionando muitas vezes como chefes de guerra. Levam o título de juizes. Por exemplo, a aliança de Barac, chefe dos hebreus da Galileia, com a profetisa Débora, da confederação israelita da montanha de Efraim, permite vencer Sisera, um dos chefes dos povos do mar. Mais tarde, os sucessos militares de Gídeâo, da tribo de Manassés, levam uma parte do povo a querer proclamá-lo rei. Mas ele se recusa a fundar uma dinastia. Um dos juizes mais famosos é Sansaão, da tribo de Dan, que luta vitoriosamente contra os filisteus. Mas, traído por sua amante, Dalila, é entregue aos filisteus e morre no desabamento do templo do deus Dagon, que o próprio Sansão provocou, apoiando-se numa parede.

Aos poucos surge a ideia de que Israel tem necessidade de um dirigente único e que os juizes, se permitem a cada tribo manter sua individualidade, não são adequados para constituir o verdadeiro Estado que o povo exige. Pela mediação de um profeta, Samuel, Javé atribui ao povo de Israel esse poder monárquico. Por outro lado, ao mesmo tempo em que o adverte sobre os riscos gerados por sua liberdade, relembra que o rei deverá sempre permanecer sujeito à vontade divina. É a Saul (1025-1005 a.e.c.), da tribo de Benjamin que Samuel confere a primeira unção de óleo, que faz “o ungido do Senhor". Com um exército de 3 mi homens, Saul obtém várias vitórias sobre os filisteus. Ele também recebe a ajuda de um jovem pastor da tribo de Judá, chamado Davi, que vence o gigante filisteu Golias. Saul oferece sua filha em casamento. Entretanto, cai em seguida numa melancolia paranóica e procura eliminar Davi que tem de fugir. A morte de SauL após a debandada de seu exército diante dos filisteus, abre a Davi, estabelecido em Hebron, o caminho do trono. Acaba por ser reconhecido pelas tribos do norte de Israel e instala então sua capital em Jerusalém.

Depois da sangrenta derrota de Eben-Ezer em torno de 1050, os filisteus se apoderam da Arca da Aliança, mas são forçados a restituí-la seis meses depois. Até o reinado de Davi, a Arca reside em diferentes cidades de IsraeL primeiro em Gilgal. Depois em Siquém e, finalmente em Silo. Na época de Davi, ela está na colina de Qiriat Yearim, no limite entre os territórios de Israel e de Judá. Quando Davi faz de Jerusalém a capital política de seu reino, decide transferir para ela a Arca. Sua intenção era de demonstrar que a cidade é também o centro do culto para todo o povo de Israel.

Davi organiza e dirige o reino de Israel, e o eleva a uma potência nunca atingida até então. O fim de seu reinado glorioso, entretanto, é marcado por confusões que provocam dissenções e conspirações: Davi se envolve primeiro em um amor proibido com Betsabeia, futura mãe de Salomão, casada com um de seus generais, do qual se livra mandando matá-lo em combate. Depois, os filhos de Davi se dilaceram entre si: seu filho primogênito, Amnon, estupra sua meia-irmã Tamar. Absalão, irmão de Tamar, mata Amnon e depois se exila. O rei acaba por perdoá-lo e ele retorna a Jerusalém. Absalão continua suas intrigas e acaba por forçar seu pai a partir para o exílio. Graças a uma parte da população que permanece fiel, Davi enfrenta os conjurados: Absalão é morto e a paz é restabelecida em todo o reino. No fim de sua vida, Davi, ameaçado por uma nova conspiração, designa Salomão como seu único herdeiro legítimo.

A edificação do primeiro Templo de Jerusalém, entre 967 e 960 a.e.c., é a maior obra de Salomão, ao lado das construções das muralhas, de palácios, de fortalezas militares que, segundo a Bíblia, teria multiplicado em seu reino. O favor divino teria dotado a Salomão um senso particularmente desenvolvido de justiça e equidade, e sua fama se difunde por todo o Oriente Próximo. A rainha do reino de Sabá, no sul da península arábica, vem até Jerusalém para encontrá-lo. A construção e a consagração do templo constituem o apogeu da monarquia israelita. É neste momento que Javé concede mais claramente seus favores ao povo de Israel, antes que sejam cometidas faltas que provocam a cólera divina, a partir do fim do reinado de Salomão.

A partir do reinado de Davi, o relato bíblico nos mostra que uma profunda separação existia entre o sul do reino (Judá) e os territórios do norte (Israel). Quando uma dificuldade ocorre, os dois territórios seguem caminhos opostos. O reinado de Salomão, período de potência e de prosperidade, mascara essa oposição, mas esta se manifesta rapidamente após sua morte. Jeroboão, da tribo de Efraim (no norte), reúne os descontentes e exige de Roboão, filho de Salomão, uma redução dos impostos. Diante de sua recusa, cria um reino de Israel independente que reúne dez tribos. Assim Roboão reina apenas sobre as duas tribos de Judá e de Benjamin, no sul. Em torno de 930, a ruptura é consumada. Samaria se torna a capital do reino de Israel ao norte, Jerusalém permanece a de Judá, no sul. Há alguns anos, essa visão das coisas foi posta seriamente sob suspeita, a ponto de se chegar até mesmo a duvidar profundamente, se não da existência, pelo menos da importância dos reinados de Davi e de Salomão como a Bíblia os apresenta. Os argumentos invocados são sobretudo de ordem arqueológica; alega-se, por exemplo, que as vastas construções descobertas em Meggido, e Haçor, e Geser, cuja construção era atribuída a Salomão, são, de fato, mais recentes, remontando a um século mais tarde pelo menos. Além disso, a exploração arqueológica efetuada na própria Jerusalém não permitiu descobrir vestígio tangível de construções de prestígio que datam do século X a.e.c. Parece, ao contrário, que o território, cuja capital era Jerusalém e se tornou o reino de Judá, não contava nessa época senão com alguns milhares de habitantes, enquanto a parte setentrional, correspondendo a Israel depois da cisão, reunia cerca de 80 mil habitantes. Mesmo que não se trate se não de estimativas, o contraste é claro, o que leva a concluir que o início do século X não conheceu nem um vasto reino de Israel unificado, nem uma magnífica capital em Jerusalém, nem prestigiosos monumentos como o templo descrito pelo folclore bíblico.

Certamente, descobertas recentes provaram que a existência de “uma casa real de Davi” é atestada por pelo menos uma inscrição real de meados do século IX. Não há, portanto, razão para pôr em dúvida a existência verdadeira de um soberano com esse nome nem a de seu filho Salomão. Ambos exerceram realmente um poder local sobre Jerusalém, pequena povoação das altas terras de Judá no século X; suas proezas ou seu carisma transformaram essa lembrança em lenda nas gerações seguintes. No entanto, se um templo para Javé foi construído a partir dessa época em Jerusalém, não possuía o caráter excepcional que a Bíblia descreve. Parece, por outro lado, que o monoteísmo ainda não era a regra e que subsistiram, em todo o território de Judá no século X, formas ancestrais de culto nos “lugares altos” (expressão bíblica que designa os cumes das montanhas). A própria Bíblia, por exemplo, recrimina Salomão de ter, por amor a suas mulheres estrangeiras, prestado culto a Astarte, deusa de Sidon, e de ter construído santuários ao deus do povo de Moab, Kemosh, ou ao deus do povo de Amon, Milkom.

Como foi apresentada, essa dúvida se baseia exclusivamente na arqueologia de fatos comprováveis e muitas lacunas podem também ser explicadas pelo passar do tempo. Ela tem, contudo, o mérito de trazer à tona o fato de que a Bíblia em si não pode servir de única fonte de referência, mas apenas como um livro ilustrado com a cultura folclórica fantástica e rica de um povo. Com efeito, a transcrição de uma tradição oral que possui reais elementos históricos é acompanhada de seleção e de uma reconstrução voluntária da lógica dos acontecimentos. O ponto fundamental a tomar em consideração não é mais então o fato em si, mas o relato que dele é feito: aí é que reside a historicidade da fonte bíblica.

Se houve realmente um templo construído em 967 a.e.c. em Jerusalém para nele instaurar o culto de Javé, pareceria sem dúvida muito distante daquele do qual os livros bíblicos nos fornecem medidas e descrição. Mas, por meio do relato do “Livro dos Reis”, são destacados os traços essenciais da religião de Israel: a afirmação do monoteísmo, a recusa da encarnação de outro modo que não a divina, a recusa das práticas ancestrais do culto, às quais cederão, contudo, alguns dos sucessores de Salomão. Nela se relembra, por fim, a escolha da casa de Davi para governar o país, e sua estreita subordinação aa uma suposta vontade divina, diante de quem permanece perpetuamente responsável por suas decisões e seus atos. Nesse sentido, o relato da construção do primeiro Templo de Jerusalém é um fato histórico, rico de desenvolvimentos ulteriores.

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11/2/2017 8:12:43 PM | Por Julliette Wood
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A Sabedoria da eternidade

Os celtas eram fascinados pela imagem do nó sem fim - um modo de expressar o infinito em um padrão tangível. As linhas do nó, presente em monumentos e manuscritos, são torcidas e entrelaçadas, mas sempre voltam ao ponto de partida. Nas narrativas das jornadas ao Outro Mundo, os viajantes também têm experiências valiosas, mas que acabam terminando no mesmo ponto em que começaram. Desse ponto de vista extramundano, a morte não é um fim, mas uma porta para a vida eterna. [123]

As criaturas em padrões

A representação de animais na arte celta - em armas, esculturas de pedra e, de modo mais espetacular, em manuscritos ilustrados com iluminuras - baseiam-se, em sua maior parte, na sabedoria do mundo cristão como também nas tradições ancestrais. Os animais nos lembram a vitalidade da natureza, o dom divino da diversidade que existe neste mundo e, embora por associações simbólicas, a realidade do eterno.

O Livro de Kells, merecidamente o mais conhecido de todos os manuscritos celtas com iluminuras, é um texto ricamente ilustrado dos evangelhos, produzido entre os séculos VII e IX e.c. Alguns dos animais retratados com mais frequência nesse manuscrito são associados a Jesus Cristo. A cobra é um símbolo da Ressurreição, pois ela se renova com a troca de pele, enquanto o motivo do peixe é uma lembrança dos novos convertidos ao Cristianismo, que nadam no batismo (em grego, a palavra "peixe" também é um acrônimo de Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador). Todos os evangelistas, exceto São Mateus, que era retratado como um homem ou um anjo, foram simbolizados como animais: São Marcos, como um leão, São Lucas como um boi e São João como uma águia. Entre os pássaros retratados no Livro de Kells estão o pavão, que simboliza a natureza incorruptível de Cristo, e a pomba, ligada ao Espírito Santo.

Nem todas as criaturas da arte celta, porém, têm associações positivas. Nas ilustrações dos manuscritos e nas esculturas de pedra, existem muitos monstros, como dragões cuspidores de fogo, estranhas criaturas que devoram a própria calda e animais semelhantes a répteis retratados engolindo vítimas humanas (até mesmo um bispo, num dos casos). Por mais terríveis que essas criaturas possam parecer, sua fúria é abrandada pelo poder dos santos celtas. Dizia-se que São Sansão de Dol, reverenciado na Cornualha e na Britânia, era capaz de transformar um dragão em pedra; e que São Ronan cavalgou um monstro gigante até uma ilha, para fazer com que seus habitantes venenosos fugissem para o mar e ele pudesse construir ali um mosteiro. [124]

A videira trancada

Muitos dos padrões desenhados nos manuscritos e esculpidos nas cruzes celtas retratam plantas semelhantes à videira em formatos intrincados e retorcidos. Essas videiras muitas vezes estão enraizadas num cálice de ouro, e entre suas folhas e galhos trançados crescem cachos de uva do qual se alimentam pavões com caldas iridescentes e onduladas. O simbolismo cristão da videira é uma fusão das tradições de sabedoria celta e bizantina. A videira carregada de uvas e irrompendo de um cálice representa a promessa de redenção de Cristo; e os pavões, retratados com suas caudas coloridas abertas, simbolizam a Ressurreição.

Mesmo antes do simbolismo cristão se tornar popular, as plantas já representavam uma parte importante do imaginário celta. Um dia, três fadas de Cruachan, um portal que liga o mundo humano ao Outro Mundo trevoso, sentaram-se para fiar lã no sentido anti-horário, em fusos feitos com galhos retorcidos de azevinho. Qualquer coisa feita no sentido contrário ao movimento do Sol - isto é, no sentido anti-horário - é considerada magia negra. As ações das mulheres, combinadas com as propriedades mágicas do azevinho retorcido, permitiram que as anciãs envolvessem dois grandes heróis, Finn e Conan, em seus fios e os cegassem, sem lhes dar possibilidade de fuga. Os companheiros de Finn tentaram deter a malévola fiação, mas todos, com exceção de Goll mac Morna, ficaram enredados nos fios enfeitiçados. Goll por fim conseguiu matar as bruxas e resgatar os companheiros.

As qualidades mágicas do azevinho são mencionadas também na história de Taliesin. Quando o Príncipe Elphin, senhor do bardo Taliesin, gabou-se de que seus cavalos eram melhores do que os do Rei Maelgwn, o rei, muito zangado, insistiu para que fizessem uma corrida de cavalos. Taliesin deu uma vara de azevinho para o cavaleiro de Elphin e instruiu-o a golpear com ela as ancas de cada cavalo de Maelgwn durante a corrida. O cavaleiro obedeceu e os cavalos do rival logo não tinham mais condições de correr. No final da corrida, Taliesin diz a Elphin para cavar um buraco onde o cavaleiro deveria enterrar seu chapéu e sua vara. Nesse momento, ele descobre um caldeirão cheio de ouro. Assim, Elphin, sem caber em si de felicidade, ganha a corrida e também um tesouro. [126]

Muitos poemas celtas baseiam-se na beleza natural e na fragilidade das plantas e usam essa imagem como metáforas do amor. São frequentes nos versos imagens como a de rosas cheias de espinhos e do azevinho crescendo das sepulturas de amantes, entrelaçados por toda a eternidade. Aqueles que viajaram ao Outro Mundo voltam muitas vezes com estórias sobre uma terra onde é sempre verão e existem belas árvores que produzem frutos o ano todo. Quando seres humanos comem as maçãs prateadas que crescem nessas árvores, eles anseiam pelos seus amantes do Outro Mundo. [127]

O nó sem fim

Os celtas gostavam de padrões entrelaçados de grande complexidade, com cores e desenhos vibrantes. Nós elaborados, com linhas e curvas, adornavam armas, espelhos, cerâmicas e monumentos. Padrões semelhantes também apareciam nos manuscritos celtas, com agrupamentos de desenhos curvilíneos e geométricos decorando cada letra, palavra, frase e até páginas inteiras. Ali, encontrávamos figuras humanas, pássaros e animais aparentemente emaranhados num padrão de linhas entrelaçadas, com cabeças, mãos e pés emergindo de arabescos espiralados. Vemos homens lutando e puxando a barba trançada uns dos outros, e cães de caça perseguindo presas através de florestas de padrões abstratos.

Os celtas cristianizados usavam desenhos entrelaçados em seus manuscritos para refletir as “verdades” eternas da mensagem bíblica. O símbolo do nó sem fim, que expressa o infinito por meio de uma linha que se pode seguir até o ponto de partida, está ligado à lenda medieval do selo de Salomão, um anel mágico decorado com misteriosos símbolos que permitiam ao Rei Salomão controlar os espíritos. O escudo que Gawain carrega em sua busca pelo Cavaleiro Verde, no famoso poema do século XIV, é ornamentado com um nó sem fim de cinco pontas, descrito com detalhes; sua ligação com Salomão é destacada: "então ele lhe mostrou o escudo, que era de goles brilhante [vermelho]/ Com um pentagrama pintado de um ouro muito puro (...)/ É um sinal que um dia concebeu Salomão / Como um símbolo de fidelidade, em virtude do seu formato/ pois trata-se de uma figura de cinco pontas/ e cada linha cruza e se liga as outras/ E é interminável em uma e outra direção; e na Inglaterra é chamado/ Em toda parte, como eu ouvi, de nó sem fim".

Muitos nós entrelaçados são formados de folhas e vegetação. A ligação entre o mundo natural e esses padrões estilizados é ilustrada na lenda associada à capela de Locronan, em Finistère, dedicada a São Ronan. Depois da morte do santo, várias paróquias reivindicaram a custódia do corpo do santo e a honra de construir sua tumba. [128]

Colocaram o corpo de São Ronan num carro de boi sem condutor, na esperança de que o poder de Deus decidisse o lugar da tumba, guiando os bois até lá. Os paroquianos seguiam atrás. Ao cair da noite, os animais pararam num pequeno bosque no alto de uma colina e os seguidores do santo foram para casa. Na manhã seguinte, quando o povo voltou, ficaram surpresos ao descobrir que uma capela já havia sido construída ali. O carro de boi tinha se transformado milagrosamente numa tumba de pedra e os galhos das árvores do bosque tinham se petrificado, formando a intrincada estrutura de pedra da capela, que abriga o corpo do santo. [129]

Como viver e como morrer

De acordo com Diógenes Laércio, a máxima dos druidas era que todos os celtas vivessem de acordo com três condições: venerassem os deuses, não fizessem nenhum mal e fossem valentes. Como em muitas tríades celtas, o preceito mais importante - ser valente - vem por último. Como diz um provérbio celta, "A memória de um homem não envelhece". Ser lembrado, depois da morte, como um homem de boa reputação e lembrado pelos bardos, que louvam os vivos e homenageiam os mortos, é a aspiração de todo homem celta.

O poeta romano Lucano resume a atitude celta diante da morte quando afirma, "A morte é o meio de uma longa vida". Oferendas funerárias eram enterradas junto com o corpo para facilitar a passagem do espírito pelo reino dos mortos, até o Outro Mundo. Armas, muitos objetos pessoais, como taças, trompas de caça e até carruagens, acompanhavam os guerreiros, ao passo que peças de joalheria e cerâmica eram os principais bens sepultados com as mulheres. Alimentos e bebidas eram providenciados para sustentar a alma em sua jornada. Além dos objetos mais práticos, algumas sepulturas continham os ossos de animais domésticos, como cavalos e cães, e modelos de rodas, que simbolizavam o ciclo eterno de vida e morte. [132]

   Mitologia celta, Mitologia judaico-cristã, O Livro de Kells, infinito, simbolismo dos animais, nó sem fim, memória póstuma
11/1/2017 7:31:58 PM | Por Julliette Wood
Mitologia Celta
Texto
Viagens entre os reinos - O outro mundo celta

O avanço que fizemos, da inocência para o conhecimento ou da vingança para o perdão, se reflete nas jornadas dos heróis, que entre outras tarefas empreendem missões de resgate ou revanche e acabam por descobrir profundas verdades nas terras do Outro Mundo. Essas jornadas são odisséias da imaginação e também mergulhos no mundo interior. Neste capítulo, acompanhamos várias buscas épicas e viagens entre os mundos material e espiritual. [61]

O limiar do outro mundo

Os espíritos muitas vezes invadem a terra dos vivos e, para manter o equilíbrio entre os dois mundos, os seres humanos precisam às vezes viajar para o Outro Mundo. Existem muitas maneiras pelas quais os vivos podem entrar nos reinos do espírito e uma das mais diretas é cruzar o limiar entre a terra dos mortais e os reinos do sobrenatural, o local onde esses mundos se encontram ou se cruzam. Esses portais são encontrados tanto no centro quanto nos limites externos do mundo celta.

O cosmo celta irradia de um ponto em que os domínios humano e sobrenatural convergem. Júlio César conta que, numa certa época do ano, os druidas se encontravam num ponto central da Gália onde seria esse ponto de convergência. A localização podia ser um bosque sagrado - um dos lugares em que os druidas realizavam suas cerimônias e sacrifícios para aplacar a ira dos deuses e prever o futuro. Ou podia ser uma área aberta, como a Planície de Tara, em cujo centro fica a mágica Pedra de Fal, que grita quando o verdadeiro rei deve assumir o trono.

A visão da ordem cósmica altamente centralizada repercute na maneira pela qual as quatro províncias externas da antiga Irlanda - Connacht, Leinster, Munster e Ulster - se estendem do ponto mediano de Tara, na província central de Meath (que correspondem aproximadamente aos condados modernos de Meath e Westmeath). Como que ecoando esse padrão, no Festival de Tara, os reis das quatro províncias sentavam- se diante do Grande Rei, à direita, à esquerda e atrás dele, cercando-o assim com a segurança oferecida pela Irlanda e seus formidáveis guerreiros.

A tensão entre o cosmos e o caos assemelha-se a uma antiga forma de xadrez. No centro da Planície de Tara, ficam o rei e seus homens, como peças comandando o meio do tabuleiro. Ao redor deles estão as forças hostis. Assim como um jogador experiente pode ganhar o jogo por meio de uma combinação de sorte e perspicácia, os seres humanos [62] também podem sobreviver aos seus encontros com o sobrenatural confiando tanto nas próprias capacidades quanto no destino.

Os locais naturais onde o reino dos seres humanos e o do Outro Mundo se encontram têm características topográficas bem definidas. Fronteiras como rios os dividem, enquanto lagos e poços servem como uma passagem entre eles. Estruturas feitas pelo homem, como as muralhas de uma fortaleza, podem ser atacadas por forças sobrenaturais e também por mortais. Conn, Grande Rei de Tara, vigia as trincheiras da sua fortaleza diariamente, para evitar que o povo dos sidh ("colinas dos encantados") tome o forte de assalto. [63] Barreiras e passagens entre os mundos, tanto naturais quanto artificiais, são mais vulneráveis em certas épocas do ano. As festividades de Tara ocorriam durante o Samhain, que também era a época em que Aillen Mac Midna, inimigo dos Tuatha De Danann, vinha do Outro Mundo para incendiar o trono real. Todo ano, durante nove anos, ele aterrorizou Tara, induzindo ao sono todos da corte com uma música mágica e, então, destruindo o palácio até os alicerces com seu sopro abrasador. Por fim, o Grande Rei de Tara pediu a voluntários para desafiarem Aillen, e o herói Finn Mac Cumhaill se prontificou a cumprir a tarefa. Finn ofereceu-se para montar guarda a noite toda em troca da satisfação de um desejo. O Grande Rei aceitou a oferta e deu a Finn uma lança mágica que o faria capaz de resistir à melodia entorpecente e matar o inimigo. Quando Aillen chegou, Finn derrotou-o facilmente com a lança, e seu desejo - tornar-se o líder dos Fianna, a elite dos exércitos da Irlanda - foi realizado.

Nas noites em que os espíritos estão à solta, os mais cautelosos ficam em casa com portas e janelas trancadas, com receio de qualquer contato com o sobrenatural e temerosos de que os encantados possam raptá-los. Mas os mais aventureiros, como Nera, um servo de Ailill de Connacht (...) pôde aproveitar a oportunidade para entrar no Outro Mundo e aprender a sabedoria dos mortos. Outros viajantes humanos empreendem viagens por mar com a intenção de chegar às lendárias ilhas do Outro Mundo, que ficam a oeste. [64]

O arquipélago encantado

O oceano Atlântico era um desafio formidável até para os intrépidos viajantes celtas. Os marinheiros celtas, no entanto, se aventuravam em mar aberto em seus curraghs (barcos de estrutura de madeira, cobertos de couro à prova d'água e próprios para o alto-mar. No gênero narrativo conhecido como imram, que significa literalmente "remação", detalhes verossímeis de jornadas reais de exploração são intercalados com as crendices e estórias fantásticas dos viajantes sobre o pós-morte, dando origem a fábulas intrincadas, características dos celtas irlandeses.

Todas as estórias imrama seguem um padrão semelhante. Um grupo de homens se lança numa viagem por mar, normalmente por uma das três razões a seguir. Podem ter a intenção de encontrar as místicas ilhas dos Abençoados - um grupo de ilhas do Outro Mundo que fica "a oeste". Ou a sua viagem pode ser uma penitência por violarem um geas - uma maldição que requer que os homens cumpram uma série de tarefas para quebrar o encantamento. Ou seu motivo para a viagem pode ser o desejo de buscar revanche por uma injustiça que sofreram - como na estória de Mael Duin. Compondo seu próprio Livro Celta dos Vivos e dos Mortos, as estórias imrama levam os viajantes a uma série de aventuras, cada qual representando uma oportunidade de aprendizado. Cada ilha tem uma característica peculiar. Em algumas delas, o ato de comer determinado fruto ou beber a água de algumas fontes pode matar, curar ou causar estranhas transformações. Em outras, os habitantes realizam uma única atividade obsessivamente. As leis da natureza nem sempre vigoram - por exemplo, monstros podem aparecer das profundezas do mar, o mar congela ou ganha vida, ou peixes saem de rios e lagos para falar com os viajantes humanos.

Esses encontros fantásticos são freqüentes na estória de Mael Duin. O herói parte da Irlanda por mar com guerreiros e seus três irmãos de criação, para procurar os homens perversos que tinham assassinado seu pai. Desviados do seu curso por um vento [66] forte, os viajantes descobrem que estão nos arredores das ilhas do Outro Mundo. Navegando de ilha em ilha, eles aos poucos aprendem as artes da temperança, da humildade e do perdão (e Duin acaba perdendo todos os três irmãos no percurso). Depois de muitos anos no mar, os viajantes que sobrevivem decidem voltar para casa, e na viagem de volta para a Irlanda acabam encontrando a ilha onde moram os assassinos. Sem a mesma disposição de se vingar, Mael Duin demonstra sua recém-descoberta magnanimidade e oferece a sua amizade aos malfeitores, chegando até mesmo a se sentar à mesa com eles e contar as estórias de suas viagens.

Como outras imrama, essa narrativa épica é, para usar a terminologia moderna, uma alegoria sobre o crescimento pessoal - para o leitor, assim como para os viajantes. Diante de inumeráveis oportunidades, os viajantes tomam decisões de cunho moral a [68] todo instante. Se suas escolhas violam qualquer uma das regras rígidas (embora ocultas), ocorrem desastres, inclusive a perda de companheiros de viagem. Desse modo, os membros da tripulação que se desgarraram do grupo e foram para a Ilha da Risada ou para a Ilha do Choro, são forçados a permanecer ali para sempre, tornando-se tão obsessivos quanto os outros habitantes - um aviso contra a despreocupação e o pesar excessivos. Viajantes que cometeram um crime em segredo são levados por pássaros gigantes - no labirinto da moral é impossível escapar das conseqüências dos próprios atos. Aqueles que tentam roubar tesouros das ilhas do Outro Mundo também são roubados por felinos monstruosos - uma ironia cósmica (até kármica) ajusta a punição ao crime. Aqueles, porém, que vencem as armadilhas têm permissão para chegar às mais complexas e belas ilhas do Outro Mundo, as Ilhas dos Abençoados e a Ilha das Mulheres, onde o tempo parece ter parado numa primavera eterna e os habitantes são imortais.

Navegar pelo oceano desconhecido é lançar-se nas mãos do destino. O destino, contudo, nunca é meramente neutro - sempre existe uma dimensão moral. A própria vida é uma busca, e o buscador dedicado e consciente da verdade e do bem é recompensado da maneira apropriada no devido tempo. [69]

A sabedoria da água

A água, na qual existem tantos reinos misteriosos, é um símbolo apropriado da verdade que existe sob a superfície das coisas - um tipo de véu translúcido, às vezes transparente às vezes opaco, entre este mundo e os mundos do pós-morte. Por meio do poder mágico da água, podemos entrar em contato com a sabedoria do Outro Mundo. Isso pode ser matéria de profundas reflexões na vida, mas também de revelações muito simples. O poeta Neidne mac Adhna, caminhando um dia pela praia, ouve o som de um lamento e se detém para ouvir. As ondas então lhe revelam a morte iminente de seu pai.

Oceanos, rios, fontes e lagos, todos revelam a sabedoria da água, mas os poços ou nascentes têm um lugar especial no folclore celta. A água surge da terra como se, por magia, fosse imbuída de poderes reveladores de especial intensidade. Numa estória, o herói irlandês Cormac se perde nas brumas e, quando elas se dissipam, ele descobre que está ao lado de um poço. Logo descobre que cinco salmões vivem no poço, alimentando-se das avelãs que caem de nove avelãzeiras que crescem nas imediações. Cinco rios também fluem dessa fonte. Cormac percebe que esse é o Poço do Conhecimento: os rios correm para as cinco províncias da Irlanda e representam os cinco sentidos, dos quais derivam todo o conhecimento humano. [74]

Em outro conto, uma nascente tem o poder de devolver a vida aos mortos, caso o indivíduo tenha recebido amor, respeito e verdade de seus entes queridos em vida. Quando o servo mágico de Finn mac Cumhaill, Gilla na Grakin, é assassinado, a mulher de Gilla navega pelo oceano com seu corpo, em busca de uma maneira de trazer o marido de volta à vida. Por fim, ela desembarca numa ilha onde vê um pássaro morto recobrar a vida e sair voando. A devoção da mulher é recompensada. Nessa ilha, ela descobre uma fonte mágica; e, quando molha os lábios do marido com algumas gotas de água da fonte, ele ressuscita diante dos olhos dela. [75]

Receptáculos da verdade

Por ser a água, a essência da vida e também uma poderosa fonte de sabedoria e verdade, acessível a poetas, druidas, reis e heróis, o caldeirão e a taça, receptáculos desse fluido mágico, têm, eles próprios, poder espiritual. Esse simbolismo é complementado na lenda do Santo Graal por uma associação com o sangue. Às vezes, o graal é um recipiente que contém uma cabeça sangrenta, um símbolo celta primitivo, ou, numa versão mais cristã, é o cálice no qual se recolheu o sangue do Cristo na cruz. O caldeirão também está ligado ao renascimento e à abundância inesgotável: o deus irlandês Dagda possui, além da sua clava letal, um caldeirão com o qual ele distribuía um suprimento inesgotável de comida.

Durante a Idade Média, um monge irlandês compôs um poema sobre uma excursão ao Outro Mundo, no qual ele assumiu a voz de um dos mais famosos profetas - Taliesin, o líder dos bardos. O autor, fundindo os simbolismos ancestral e cristão do cálice, descreve Taliesin navegando com o Rei Arthur e os heróis antigos de Gales no navio Pridwen, à procura de um caldeirão mágico do Outro Mundo, decorado com jóias e pérolas. Eles penetram num mundo estranho, quase surreal, em que imagens de torres e fortalezas de vidro aparecem de modo fugidio [76] nas  ilhas do Outro Mundo. Acabam levando o caldeirão, mas por um preço alto - só sete dos companheiros de viagem voltam para casa.

Em outra estória, o Grande Rei Cormac adquire sabedoria de um caldeirão fervilhante e ganha dois preciosos presentes do Outro Mundo, exemplificando a maneira pela qual um caldeirão pode servir como uma imagem profunda da verdade.

Numa manhã de maio, um esplêndido guerreiro se aproxima das muralhas de Tara, carregando um ramo de prata de onde pendem maçãs de ouro. Ao bater umas contra as outras, as maçãs emitiam uma música suave, com o poder de confortar as pessoas e induzi-las a um sonho repousante. O visitante revela que veio da terra da verdade, onde não existe doença, nem decadência, nem tristeza, inveja ou ódio. Como prova da sua amizade, ele oferece ao Grande Rei Cormac o ramo de prata em troca de três favores.

O rei aceita a proposta, e um ano depois o guerreiro volta para cumprir sua promessa. Primeiro, ele exige a filha de Cormac; depois o filho. Cormac concede esses favores e usa os poderes do ramo de prata para amenizar a tristeza da corte pela perda dos filhos do rei. Quando o guerreiro exige, em seguida, a esposa de Cormac, o rei consente com relutância, mas depois sai, com seus homens, em perseguição ao visitante.

De repente, uma névoa desce sobre os companheiros e Cormac se vê sozinho ao lado de uma fortaleza murada, que é também onde fica o Poço do Conhecimento. Um belo estranho e sua linda companheira oferecem a Cormac a hospitalidade da fortaleza.

Logo um homem entra carregando um porco. Ele corta o animal em quatro partes e põe a carne num "caldeirão da verdade". O homem conta a Cormac que a carne só cozinhará se contarem quatro estórias verdadeiras, uma para cada porção. O dono do porco, o anfitrião e seus companheiros contam, cada um deles, uma estória verdadeira e as porções cozinham como deveriam. Então Cormac conta a estória do desaparecimento da sua família e sua porção de porco também cozinha. Mas, por ser um homem de muita honra e integridade, recusa-se a comer a carne sem os seus exércitos. O anfitrião canta uma canção para fazer o rei dormir e, quando Cormac acorda, ele está cercado pela família e pelos seus homens. [77]

Mais tarde, nessa mesma noite, o rei admira o trabalho artesanal do cálice de ouro de seu anfitrião. Este conta a Cormac que o cálice se quebra quando três mentiras são contadas, mas se recompõe depois que três verdades são proferidas. Ele então conta três mentiras e o lindo objeto se parte em pedaços. Depois, assegura a Cormac que, enquanto a mulher e a filha dele estiveram fora, nenhum homem as tocou, tampouco o filho dele dormiu com uma mulher. Para a surpresa de Cormac, o cálice se recompôs. Por fim, o anfitrião revela ser Manannan mac Lir  o misterioso visitante que havia presenteado Cormac com o ramo de prata. Nesse mesmo instante, Cormac se vê de volta à Planície de Tara com a mulher, os filhos e seu exército, segurando na mão o "cálice da verdade". Um grande rei, portanto, se torna muito mais grandioso quando é merecedor de dois presentes preciosos do Outro Mundo: o "ramo de prata do bem-estar" e o "cálice da verdade". [79]

Disfarçado de cisne

A graça e a beleza do cisne, com sua elegância, seu pescoço longo e penas brancas e macias, fazem dessa ave um símbolo natural de tudo o que é bom, sagrado e puro. Capaz de deslizar sobre rios e lagos, bambolear por terra ou cruzar os ares com suas asas poderosas, o cisne também liga as águas do Outro Mundo com os reinos da terra e do céu. Os cisnes do Outro Mundo são metamorfos, capazes de mudar de forma quando querem, e é possível identificá-los pelas correntes de ouro ou prata penduradas em volta do pescoço.

Como muitos habitantes do Outro Mundo, o cisne é uma criatura ambígua, com um aspecto obscuro que contrabalança suas qualidades positivas. Na estória dos filhos de Lir - um conto tão triste que é considerado um dos "Três Maiores Pesares da Contação de Estórias" - o viúvo rei Lir casa-se novamente para que sua filha Fionuala e seus três filhos possam voltar a ter mãe. Mas a nova rainha tem ciúmes da afeição do rei pelos filhos e por isso lança mão de feitiçaria para transformá-los em cisnes. As crianças-cisne, porém, conseguem manter sua capacidade de falar e seu dom para a música, e as pessoas vêm de longe para ouvi-las cantar no lago e se sentem reconfortadas com a sua música.

Depois de muitas aventuras tristes, as infelizes crianças encontram um ermitão que consegue consolá-las da sua dor por meio da fé cristã. Mas o sofrimento delas ainda não tem fim, pois um rei malvado as captura e as leva embora com ele, depois do que suas penas caem para revelar quatro criaturas velhas e trêmulas. Percebendo que morreriam, as crianças-cisne pedem apenas para serem enterradas juntas na mesma sepultura e o ermitão bondosamente atende ao pedido delas. Então os filhos de Lir encontram paz finalmente e conseguem entrar no reino do céu.

No conto arthuriano de Lohengrin, filho de sir Percival, o menino aparece primeiro dentro de um barco que vai para o Outro Mundo, atraído por um lindo cisne branco. Lohengrin é muitas vezes retratado usando branco (uma alusão às penas do cisne), em reconhecimento às suas origens sobrenaturais. [80]

   Mitologia celta, o outro mundo
8/17/2017 10:37:28 PM | Por Mirella Faur
Mitologia Nórdica
Texto
Similaridades e diferenças entre a mitologia nórdica e greco-romana

O surgimento das crenças e práticas escandinavas e germânicas, são originárias do passado comum indo-europeu, ampliadas com as tradições e os elementos nativos das tribos que já moravam no norte e nordeste europeu, lá existindo desde a pré-história. Foi comprovado, através de pesquisas de mitologia comparada e filologia, que os dialetos germânicos e escandinavos do continente, junto com as línguas de origem latina, eslava, celta, hindu e persa, pertenciam à mesma família linguística indo-europeia.

As várias tribos que saíram das suas pátrias da Ásia Central para conquistar novos territórios — no norte da Europa e no leste, chegando até a índia — levaram consigo nas suas migrações não apenas uma base linguística comum, mas uma mesma fé e mitologia, partilhadas por todos. Da mescla dos seus mitos e práticas surgiu o complexo panteão nórdico e os grupos das divindades Aesir e Vanir, além dos vários arquétipos de seres sobrenaturais, guardiões da natureza e os amplos e duradouros cultos aos ancestrais.

Do mesmo tronco indo-europeu, outras tribos arianas vindas da Ásia Central se deslocaram para o sul da Europa e, com o passar do tempo, lá floresceram duas relevantes culturas: a grega e a romana. Separadas por condições geográficas diferentes e com outro tipo de desenvolvimento histórico, social e cultural, à primeira vista a mitologia nórdica e a greco-romana têm pouco em comum. Mas, analisando com atenção e cuidado, observamos uma analogia dos conceitos fundamentais, com mitos e divindades semelhantes, as diferenças sendo devidas às influências recebidas pela diversidade das tribos conquistadas e integradas ao Império Romano, além do clima e da natureza específica às regiões temperadas e à bacia do Mediterrâneo. Percebem-se assim as sementes indo-europeias, que deram origem a ambas as tradições, mas com um colorido e descrições diferentes.

Oferecemos neste pequeno capítulo conhecimentos, comparações e analogias para aqueles leitores que desejam se aprofundar e compreender melhor o fascinante legado cultural e mitológico do norte e do sul da Europa.

O início dos tempos

Os povos nórdicos acreditavam que o mundo surgiu do caos, pois no princípio não existia nem céu, nem terra, apenas um abismo sem fundo, com uma extremidade de fogo e outra de gelo; espelhando o seu habitat, a criação do mundo na cosmologia nórdica era representada como um encontro dramático entre as forças primordiais do fogo e do gelo. Essa imagem é um traço característico da natureza islandesa, onde é visível o contraste entre o solo vulcânico, os gêiseres borbulhantes e os grandes icebergs ao redor. Desses elementos opostos — fogo e gelo, calor e frio, expansão e contração — nasceram os Jotnar (os gigantes nórdicos), que, semelhantes aos Titãs, os precursores dos deuses gregos, tinham uma impressionante força e resistência física, mas diferentes deles, suas feições eram rudes e a inteligência primitiva, prevalecendo os instintos.

Os gigantes representavam os poderes naturais dos elementos e do ambiente em que viviam, alguns deles se tornaram progenitores das divindades que os seguiram na regência do mundo. Do vazio primordial surgiram dois seres, personificações primevas da energia e da matéria, o gigante Ymir (equiparado com os Titãs, que também personificavam o fogo subterrâneo) e a vaca AucLhumbla, tornando-se cocriadores no processo de formação da vida.

Ymir, como ser hermafrodita e sendo ao mesmo tempo gigante e deus, gerou vários descendentes; seus netos — a tríade divina Odin, Vili e Vé — gerados por uma força tripla (a mescla do fogo, do gelo e do princípio feminino — a vaca Audhumbla) mataram Ymir e, da sua matéria cósmica bruta, remodelaram o cosmo estático e o transformaram em um sistema vivo e dinâmico.

No mito grego, no começo dos tempos prevalecia o caos, em que todos os elementos estavam misturados formando uma massa informe, mas que continha em si as sementes da criação. O primeiro ser que surgiu foi Gaia, a mais antiga deusa e a Grande Mãe primordial, a própria terra, que soprou a vida no vazio e criou montanhas (seus seios), rios (seu sangue), grutas (seu ventre), planícies, florestas e desertos (seu corpo). Apesar de Gaia representar o planeta inteiro, para os gregos ela personificava o seu país e a fertilidade e abundância da terra.

Ao unir-se ao seu primogênito, Urano, o céu, ela gerou os Titãs (entre os quais se sobressaíam Cronos, Oceano, Hipérion, Eurinome, Têmis e Mnemosine) e depois os Ciclopes, seres gigantes e imbuídos de força irracional, que foram aprisionados por Urano (que temia seu poder primal), no mundo ctônico, o Tártaro. Revoltada com a sorte dos seus filhos e preocupada com a crueldade do seu marido, Gaia persuadiu seu filho Cronos, o mais jovem dos Titãs, a castrar e matar Urano; do seu sangue, que fertilizou novamente Gaia, surgiram as Fúrias, vários seres gigantes e as ninfas das árvores.

Cronos regeu a Idade de Ouro, um período de paz e prosperidade, mas devorava seus filhos à medida que nasciam, com medo de ser por eles destronado, assim como ele tinha feito com seu pai. Como o Senhor do Tempo, Cronos na realidade representava o fim de todas as coisas. Seu filho Zeus escapou a esse cruel destino por ter sido escondido pela sua mãe em uma gruta no monte Ida, em Creta, onde foi amamentado pela cabra Amaltea e cuidado pelas ninfas. Com a ajuda da deusa Métis, Zeus administrou um veneno ao seu pai, que o fez vomitar e devolver todos os seus filhos. Zeus — ou o seu equivalente romano Júpiter — libertou alguns dos Titãs presos no Tártaro e entregou aos seus irmãos Posêidon e Hades, os reinos do oceano e do mundo subterrâneo. Zeus se declarou o governante supremo, dos deuses e dos homens e foi morar no palácio do Monte Olimpo, de onde supervisionava todos os recantos do mundo e seguia a sua própria jornada, a busca do poder e prazer.

Tanto os gigantes do fogo e do gelo, quanto os Titãs, foram vencidos após batalhas ferozes, em busca da supremacia e do poder e foram banidos pelos seus descendentes, após sua derrota, uns para jötunheim, os outros para Tártaro, sendo obrigados a ceder seu poder primevo para um novo panteão, mais refinado. Engrandecidos pela sua vitória, os vencedores — que eram aparentados entre si —se instalaram em palácios dourados, seja os do reino nórdico de Asgard (as moradas das divindades Aesir), situados num dos níveis sutis da Arvore do Mundo, Yggdrasil, seja os dos seus equivalentes gregos do Monte Olimpo.

Os deuses representam o poder de manipulação e transmutação das forças naturais; a interação entre deuses e gigantes pode se manifestar como conflito ou domínio das forças naturais, levando à preservação ou à destruição da terra e de todos os seres vivos.

Os mitos nórdicos e os gregos, bem como as estórias e relatos das peripécias e conquistas das divindades são parecidos com os dramas humanos, descrevendo os conflitos inerentes e existentes entre gerações, famílias e indivíduos. As divindades eram dotadas com as mesmas virtudes e defeitos comuns aos seres humanos, sendo descritas como seres orgulhosos, vaidosos, violentos, belicosos, ciumentos, vingativos, sensoriais e passionais, interessados em observar, ajudar ou desafiar a humanidade, mas sem muita complacência, tolerância ou compaixão com suas ações negativas, seus erros, objetivos ou necessidades. Por outro lado, certos humanos tornados imortais — os heróis — possuíam poderes físicos e sabedoria semelhantes aos deuses, como se vê na descrição dos 12 trabalhos de Hércules ou nas proezas dos personagens históricos citados nas sagas islandesas.

A criação do homem

A tríade nórdica divina, Odin, Vili, Vé —os  descendentes de Ymir —, é semelhante aos deuses Zeus (Júpiter), Posêidon (Netuno) e Hades (Plutão), que, por terem maior poder e astúcia, venceram os gigantes (ou osTitãs) e assumiram o controle do mundo.

Os gregos modelaram as suas primeiras imagens de argila, por isso imaginaram que Prometeu tivesse usado o mesmo material quando foi chamado para confeccionar uma criatura inferior aos deuses, mas acima dos animais. Como as estátuas nórdicas eram feitas de madeira, os nórdicos atribuíram a criação do primeiro casal humano ao uso de troncos de árvores.

Os deuses nórdicos criaram o primeiro casal humano a partir de troncos de árvores, ou seja, de matéria orgânica preexistente, aos quais deram o espírito, os sentidos, o movimento, as funções da mente, o dom da palavra, a energia vital e a consciência.

Na mitologia grega, quem criou o homem foi Prometeu, um dos Titãs, que misturou terra e água e modelou um ser à semelhança dos deuses, que, diferente dos animais, ficava em pé e olhava para os céus, podendo assim invocar os deuses e agradecê-los. Para torná-lo especial e diferente dos seus irmãos menores, Prometeu entregou-lhe depois o fogo tirado do sol, que lhe assegurou a superioridade ao usá-lo para cozinhar, se aquecer ou defender e modelar metais em ferramentas e armas.

A primeira mulher foi Pandora, criada no céu, onde cada deus contribuiu com alguma coisa para aperfeiçoá-la: Afrodite lhe deu beleza; Hermes, a persuasão; Apolo, a arte. Ela recebeu também uma caixa que não devia abrir, porém, movida pela curiosidade, destampou-a e espalhou para a humanidade o conteúdo de pragas, maldades, males e doenças, permanecendo na caixa apenas a esperança. Assim, sejam quais forem os males que nos ameaçarem, a esperança nos permite sobreviver e vencer.

Ambos os panteões seguiam uma hierarquia familiar e uma evolução progressiva, correspondendo às Idades de Ouro (em que prevalecia a justiça, a paz, a abundância da terra), Prata (quando o ano foi dividido em estações, as moradas se tornaram necessárias, a terra tinha que ser plantada e cuidada), Bronze (o começo da competição e dos combates entre os homens) e por último a de Ferro (quando a humanidade tornou-se vil e violenta, começando a destruição dos recursos da terra), que passou a ser dividida em propriedades cobiçadas e conquistadas à força. Inúmeras guerras irromperam, havia crimes até mesmo entre familiares e a terra ficou manchada de sangue, até que os deuses entristecidos decidiram abandoná-la. Zeus ficou enfurecido com o caos reinante e decidiu destruir todos os seres humanos, jogando sobre eles o seu raio, para propiciar o nascimento de uma nova e melhor geração. Porém, temendo que o fogo afetasse o proprio habitat dos deuses — o céu —, ele escolheu outra forma de punição, provocando um dilúvio. Para isso Zeus desencadeou o movimento dos ventos, o avolumar das ondas, deixou os rios saírem dos seus leitos, sacudiu a terra com terremotos e erupções vulcânicas, até que nada mais restou das moradas, dos animais, árvores, plantas, campos, florestas ou seres humanos.

Apenas um casal sobreviveu, Deucalião e Pirra, que pertencia à mesma raça de Prometeu. Desesperados, eles começaram a orar aos deuses, pedindo-lhes clemência.

Zeus ficou tocado com a sua conduta humilde e a prece fervorosa e ordenou aos elementos que voltassem aos seus lugares, pedindo também aos outros deuses que harmonizassem a desordem reinante. O casal se ajoelhou nos escombros do altar do único templo restante, de Delfos, orou agradecendo pela sua sobrevivência e pedindo um conselho para a sua futura conduta.

O Oráculo, na voz de Gaia, lhes disse que saíssem do templo cobrindo suas cabeças, e que jogassem pedras ao seu redor, para que delas fossem formados seres humanos novos e melhores, repovoando assim a Terra. Assim foi feito e, aos poucos, uma nova raça foi surgindo, cuidando melhor dos recursos da terra e respeitando todos os seres vivos. As descrições e eventos do mito grego são semelhantes ao Ragnarök, o fim dos tempos da mitologia nórdica.

Cosmogonia

Na visão nórdica, a morada da humanidade — Midgard ou Manaheim — era cercada pelo mar, em cujas profundezas habitava a terrível Serpente do Mundo, enrolada ao redor de si mesma e mordendo sua cauda, cujas contorções provocavam ondas gigantes e tempestades marinhas e que iria ser fator preponderante no cataclismo final do Ragnarök. A passagem entre o mundo divino e os outros mundos — incluindo o humano — era feita pela ponte do Arco-Íris, formada de fogo, agua, ar e guardada pelo deus Heimdall. O cosmo multidimensional era representado por Yggdrasil, a Arvore do Mundo, cujas três raizes correspondiam às três dimensões (dos deuses, homens e dos mortos), que interligavam nove mundos, intercalados no espaço e sob cujas raízes brotavam três fontes sagradas, com significados e funções diferentes. A árvore gerava e sustentava a vida e abrigava as almas à espera do renascimento.

Os gregos acreditavam que a Terra fosse redonda e chata e que o seu país ocupava o centro da Terra, sendo seu ponto central o Monte Olimpo a residência dos deuses, ou o templo oracular de Delfos. Na sua visão, o disco terrestre era atravessado de leste para oeste e dividido em duas partes iguais pelo mar (o Mediterrâneo); em torno da Terra corria o rio Oceano, cujo curso era do sul para o norte na parte ocidental da Terra e em direção contrária do lado oriental; era dele que todos os rios e mares da Terra recebiam suas águas. O rio Oceano tinha uma superfície calma e suas correntes eram amenas, assim como era também o mar ensolarado do Sul, o Mediterrâneo.

Na cosmogonia grega existia uma terra mítica dos Hiperbóreos (a contraparte de Niflheim, o reino enevoado e frio do mito nórdico), situada no extremo norte da Terra (possivelmente Escandinávia), inacessível por terra ou por mar, onde “penas brancas” caíam do céu cobrindo a terra (uma bela imagem da neve). Os hiperbóreos eram um povo evoluído, que desfrutava de uma felicidade perene, isentos de doenças, velhice e guerras; eles viviam atrás de gigantescas montanhas, de cujas cavernas saíam as gélidas lufadas do vento norte. Foi lá, numa tempestade de neve, que o herói Hércules realizou um dos seus 12 trabalhos, alcançando e amarrando a corça de Cerínia (que pertencia a Artemis), que tinha chifres de ouro e cascos de bronze e corria com espantosa rapidez, sem jamais ter sido presa. Na sua visão no extremo sul da Terra, próximo ao rio Oceano, vivia um povo tão virtuoso e feliz como os Hiperbóreos, chamado de Etíopes. Na parte ocidental da Terra, banhada pelo Oceano, ficava um lugar abençoado, os “Campos Elíseos” ou “Afortunados”, para onde mortais favorecidos pelos deuses eram levados para desfrutar da imortalidade, uma semelhança com a Valhalla nórdica, onde os espíritos dos guerreiros mortos em batalha, festejavam em cada noite e lutavam durante os dias. Porém, na extremidade oeste, os gregos imaginavam um mar escuro povoado com gigantes, monstros e feiticeiros, descrição que revelava o pouco conhecimento dos gregos sobre seus vizinhos, além daqueles do leste e sul do seu país.

Fenômenos celestes

Assim como os gregos, os povos nórdicos acreditavam que a Terra tinha sido criada em primeiro lugar e a abóbada celeste em seguida, para que lhe servisse de cobertura e proteção. Eles também acreditavam que as carruagens do sol e da lua, puxadas por velozes corcéis, percorriam o céu na sua trajetória diária. A diferença aparecia no gênero das divindades, enquanto Sunna é a deusa solar do norte, seus equivalentes no sul são os deuses Hélios (o predecessor de Apolo), Hipérion (o pai de Hélios) e Apolo. Hélios morava em um palácio dourado no extremo leste do mundo, perto do rio Oceano, de onde emergia em cada amanhecer, coroado com os raios solares e conduzindo sua carruagem dourada, puxada por quatro cavalos alados.

Essa imagem é semelhante à descrição da deusa solar nórdica — Sunna ou Sol; nos seus mitos ambas as divindades se retiravam das suas carruagens solares ao anoitecer, assumindo outros veículos com os quais atravessavam abaixo da terra onde repousavam, até de novo reaparecerem na madrugada do dia seguinte, retomando sua jornada. Os gregos acreditavam que a aurora, o sol e a lua levantavam-se do Oceano na sua parte oriental e após atravessarem o ar, deitavam-se no ocidente. Devido a uma particularidade da língua germânica, o gênero do sol era feminino e o da lua masculino, por isso o deus lunar Mani podia ser equiparado às deusas lunares Artemis, Selene e Hécate (as representações das fases lunares).

Os skalds islandeses e os poetas germânicos comparavam o galope das Valquírias - montadas sobre seus corcéis com crinas brilhantes e portando armaduras cintilantes - às luzes fulgurantes da aurora boreal. Os aregos viam no mesmo espetáculo celeste as manadas brancas de bois e ovelhas, que pertenciam a Apolo e que eram cuidadas pelas suas filhas Lampécia e Faetusa, nas terras de Sicília. O orvalho era atribuído pelos nórdicos ao suor respingando das crinas dos cavalos das Valquírias, enquanto os gregos acreditavam que ele provinha da ninfa Daíne, que, por ter sido perseguida sem cessar pelos raios solares de Apolo, transformou-se na arvore de louro, tornada sacra pelo arrependimento do deus e a ele consagrada.

A Terra era uma divindade feminina, tanto no norte quanto no sul, honrada como a Mãe Geradora e Protetora de todos os seres, mas diferenciada em função das características geográficas e climáticas do norte e do sul. As diferenças apareciam nas descrições da sua manifestação: rígida e congelada como Rinda, que devia ser conquistada com perseverança e abnegação, ou benevolente e fértil como a Deméter grega. Os gregos acreditavam que os ventos frios e o granizo vinham do norte, assim como os proprios nórdicos sabiam, mas atribuíam sua formação ao movimento das asas da grande águia pousada no topo da árvore Yggdrasil.

Segundo os gregos, existiam portas nas nuvens, guardadas pelas deusas das estações, que as abriam para permitir a passagem dos imortais nas suas viagens para a Terra. No mito nórdico a ligação entre o mundo dos humanos e o das divindades era feita pela ponte do Arco íris, Bifrost, protegida pelo deus Heimdall, que negava a entrada para aqueles seres (humanos ou sobrenaturais) que não tinham o direito ou a permissão de entrarem no mundo divino. Além de Bifrost existiam outras pontes, separando ou ligando os outros mundos.

Os deuses gregos tinham moradias distintas, mas quando convocados para os conselhos, se reuniam no palacio de Zeus, onde se regalavam diariamente com ambrosia e néctar, servidos pela linda deusa da juventude Hebe e, quando o sol se punha, se retiravam para seus palácios. As divindades nórdicas também se reuniam para deliberar, criar leis ou administrar assuntos do seu reino ou dos humanos, nos grandes salões de Valhalla, onde festejavam com brindes de hidromel, preparado no caldeirão mágico do deus Aegir. Eram 12 as divindades que se reuniam nos concílios para deliberar e decidir a melhor maneira de governar o mundo e a humanidade, tanto em Asgard, quanto no Monte Olimpo e elas foram associadas com constelações e corpos celestes.

Nornas e Moiras

É evidente a semelhança entre o conceito do orlög nórdico e do destino grego, entre as poderosas Senhoras do Destino — Nornas e Moiras, respectivamente — que presidiam a todos os nascimentos e determinavam o futuro das crianças, bem como o traçado da sorte dos homens.

Os povos nórdicos sabiam, que mesmo reverenciando, invocando e fazendo oferendas às divindades, elas não iriam deles afastar os perigos e as adversidades, por fazerem parte dos testes e provações dos seus destinos, previamente designados e traçados pelas Nornas. As lendas e os mitos nórdicos não descrevem atos de revolta, ou demonstrações de amargura e inconformação dos personagens perante as adversidades e contratempos das suas vidas; pelo contrário, observa-se uma heróica aceitação da inevitabilidade dos problemas e dificuldades, celebrando e agradecendo em troca os prazeres sensoriais e as dádivas materiais da existência.

Os deuses conferiram à humanidade a aceitação da vida como um traçado inalterável do destino, previamente escolhido e determinado pelas Nornas. Orlög representava o presente moldado pelas ações passadas, enquanto Wyrd era o destino individual, predestinação ao qual nem mesmo as divindades podiam escapar. As Nornas podiam aconselhar os deuses que as procuravam, sem jamais atenderem pedidos ou mudarem os seus destinos, como foi descrito no mito do deus Baldur. As Nornas habitavam uma gruta nas raízes de Yggdrasil, a Árvore do Mundo e os seus nomes podiam ser interpretados como atribuições ligadas à passagem do tempo: Urdh, “Aquilo que já aconteceu”, Verdandhi, “Aquilo que está sendo” e Skuld, “Aquilo que poderá vir a ser”, aspectos associados também ao nascimento, vida e morte. Sua função cósmica era estabelecer as leis e modelar os destinos de todos os seres vivos, de todos os mundos, inclusive dos deuses.

As Parcas ou Moiras, conhecidas como as “Fiandeiras” ou “Tecelãs”, eram também um grupo em número de três deusas — como as Nornas —, representando os marcos da passagem do tempo — passado, presente e futuro. A sua missão consistia em tecer o fio do destino humano, medi-lo e com sua tesoura cortá-lo, atividade revelada pelos seus nomes: Cloto, a tecelã; Láquesis, a distribuidora e Atropos, a inevitável. Diferente das Nornas, que tinham surgido antes do início dos tempos sem que fosse conhecida a sua origem ou descendência (portanto sendo imemoriais e eternas), as Moiras eram filhas da deusa Têmis (a guardiã da lei e da justiça) ou, segundo outras fontes, de Nix, a Senhora da Noite.

Em alguns mitos conta-se que o seu poder era mais antigo e anterior ao império de Zeus, tendo dele recebido a permissão para aconselhar os deuses, mas sem influírem no destino deles, somente assim obtendo a aceitação para pertenceram ao novo panteão olímpico. As Moiras viviam em uma caverna ao pé de um lago, cuja água branca é uma imagem do luar, imagem que as associa com as três fases lunares.

A mãe do mundo

Nas estórias gregas, relativas ao começo de tudo, três grandes deusas representam o papel da Mãe do Mundo: Tétis, a deusa do mar, Nix, a regente da noite e Gaia, a Mãe Terra, que juntas formam uma trindade, abrangendo o domínio do céu, do mar e da terra. Mesmo sendo uma trindade, elas não constituem divisões de uma deusa tríplice, atributo que ficou associado apenas com a deusa lunar e seus aspectos de lua crescente (incluindo a nova), cheia e minguante, fases ligadas também aos estágios de nascimento, crescimento e declínio.

Nos mitos nórdicos não existem referências claras ou comprovações assim ditas científicas sobre a existência de uma única Mãe Ancestral, mas encontramse inúmeras das Suas representações como mães tríplices, matronas, mães da natureza. Seus diversos elementos e aspectos eram reverenciados com diversos títulos e nomes, os atributos sendo diferenciados em função da tribo, localização geográfica, estação do ano ou época dos seus cultos.

Mitos das estações

As Horas (Horae) eram três deusas gregas, filhas de Zeus e Têmis, que regiam a estabilidade do tempo e a ordem na sociedade humana, quando assumiam os nomes de: Eunomia (Ordem), Dice (Justa retribuição) e Irene (Paz). Outras representações delas como governantes das três estações (primavera, verão e outono, específicas ao clima ameno do sul da Europa), do tempo e dos ciclos da vegetação (semeadura, brotação, amadurecimento e colheita) eram chamadas como Talo (regente da primavera), Auxo (do verão) e Carpo (do outono) e descritas como lindas moças, segurando flores e espigas. Elas abriam as portas do céu para a passagem das divindades nas suas incursões à Terra, traziam e conferiam oportunidades, iam e vinham de acordo com a lei firme da periodicidade da natureza e da vida, governavam as mudanças do tempo e mantinham a estabilidade no mundo natural.

Na mitologia nórdica, a passagem do tempo era representada pela Roda do Ano, cuja característica básica era o jogo entre as energias de luz e escuridão, calor e frio, expansão e contração. A Roda do Ano era dividida e celebrada pelos festivais solares (que marcavam a mudança das estações de acordo com a marcha do sol no céu, em datas fixas conhecidas como solstícios e equinócios) e pelos festivais do fogo (pautados em datas do calendário agrícola e que diferiam em função da localização geográfica). Cada um desses festivais tinha como ponto focal a reverência de certas divindades, descritas na Roda do Ano.

Os povos nórdicos reconheciam apenas três estações, cada uma delas correspondendo a certas divindades. O inverno era regido pelas Senhoras Brancas (Berchta, Holda), as deusas Rind e Skadhi e o deus Ullr; a primavera era associada com as deusas Freyja, Frigga, Idunna, Ostara, Rana Neidda, Rind e Walburga e o verão com Freyja, Frigga, Gerda, Nerthus, Sif, Sunna e os deuses Frey, Njord e Thor. As mudanças de tempo (chuvas, tempestades, vento, nuvens cinzas ou céu azul) eram provocadas pelas mudanças de humor, os deslocamentos ou atributos das deusas Thrud, das Senhoras Brancas (Berchta e Holda), de Gna, Skadhi, Vaiquírias e dos deuses Odin, Njord, Thor (relâmpagos e trovões) e Ullr (neve e névoa).

Idunna, assim como Perséfone e Eurídice, personificava a primavera e ajuventude, pois ela levava diariamente aos deuses as maçãs da juventude; todas elas tinham sido raptadas por um gigante (Thiazzi e Hades) e foram trazidas de volta pelo sopro do vento (representado por Loki, Hermes e o suave som da flauta de Orfeu).

Frey era o deus regente das chuvas da primavera, do calor do verão e da fartura das colheitas, que se deslocava numa carruagem puxada por javalis dourados, semelhante à carruagem dourada de Apolo. O belo e bondoso Frey tinha características solares comuns com Apolo, mas regia principalmente a fertilidade da terra e a prosperidade das comunidades.

A deusa Gerda era conhecida pela sua beleza que iluminava o céu, a terra e personificava a aurora boreal; mas ao mesmo tempo era a regente da terra congelada pelo frio do inverno, que teve que ser aquecida pelas insistências e o amor solar de Frey, antes de concordar em se tornar sua esposa.

O desaparecimento misterioso de Odin e Odhr durante alguns meses do ano e a decorrente desolação de Frigga e Freyja chorando lágrimas de ouro e âmbar, são estórias nórdicas semelhantes aos “Mistérios de Eleusis”, as famosas celebrações milenares gregas. Nos rituais gregos era encenado o rapto de Perséfone (levada ao mundo subterrâneo por Hades, simbolizando o fim da vegetação no outono e a hibernação das sementes), o desespero e luto de Deméter, chorando a ausência da sua amada filha e se retirando do mundo terrestre (fato que retratava a aridez da terra nos meses de inverno). O tema comum dos mitos é a alternância do inverno e do verão, da colheita e da semeadura, da morte e do renascimento da vegetação.

Os invernos gelados e os ventos cortantes dos países nórdicos eram personificados pelos gigantes de gelo ou Jómar, os seres primordiais das forças destrutivas da natureza, vencidos pelos deuses Aesir e isolados nas grutas escuras e geladas, antes de terem sido criadas as condições favoráveis para a vida humana. Eles representavam as adversidades climáticas do extremo norte, as geleiras e as tempestades de neve. Enquanto os gregos acreditavam que o Monte Atlas tinha sido a metamorfose de um Titã, os picos alemães Riesengebirge, (a montanha dos gigantes) eram considerados a morada dos gigantes de gelo, de onde eles jogavam o excesso de neve acumulado ao seu redor em forma de avalanches.

Mitos sobre o perigo e a beleza do gelo são frequentes nos países nórdicos, os gigantes eram considerados forças maléficas e destrutivas, que, durante os meses de inverno, lutavam contra as forças do verão, enviando os ventos gelados e as tempestades de neve. Porém, as gigantas eram cobiçadas pelos deuses como amantes ou companheiras, devido aos seus dons proféticos e sua beleza radiante; ao se casarem com eles, elas podiam adquirir status de deusas e morarem em Asgard (como Gerda, Gefjon, Jord)

Regentes da natureza

Os povos nórdicos honravam inúmeras regentes e guardiãs das florestas como as mulheres-freixo ou mulheres-arbusto, as Senhoras Verdes, o povo de Huldr, os espíritos da natureza (Land-vaettir), Vittra (a personificação da mulher selvagem), Nanna, a deusa da vegetação e do florescimento. Eles também cultuavam as deusas da terra (Nerthus, Jord, Fjorgyn, Gefjon), dos campos de trigo (Sif, Ziza), da vegetação (Idunna, Nana e o deus Frey) e das ervas curativas (Eir).

Os elfos claros — que eram responsáveis pelas árvores, plantas e rios, assim como os Seres Sobrenaturais e os Guardiões Ancestrais dos reinos e elementos da natureza nórdica — podem ser equiparados às ninfas dos bosques, dríades e hamadríades ligadas a determinadas árvores (carvalho e freixo), as Oréades, ninfas das montanhas e grutas, aos sátiros (meio-homens, meio-bodes), silvanos, silenos e faunos, acompanhantes do deus Pã (o deus fálico dos bosques, dos campos, dos rebanhos e pastores) e moradores das florestas, vales e campos da antiga Grécia.

Os anões e os elfos escuros, criados do corpo de Ymir, eram semelhantes aos servos escuros de Hades, que não podiam sair das profundezas da terra sob risco de ficarem petrificados pelos raios solares. No mundo subterrâneo eles deviam cuidar ou buscar os metais e as pedras preciosas necessárias para os ornamentos e joias dos deuses, auxiliar na confecção das armas inquebráveis (pelo deus Hefesto), ou na criação dos objetos mágicos (como os tesouros de Asgard), que eram presenteados aos deuses e heróis.

O roubo dos cabelos dourados de Sif — a esposa de Thor e regente dos campos de trigo — pelo traiçoeiro Loki pode ser comparado ao rapto de Perséfone por Hades, ambas as deusas representando a riqueza da vegetação. Para a recuperação da cabeleira da deusa Sif — depois de ter sido ameaçado com a morte por Thor — Loki teve que apelar aos elfos ferreiros, se esgueirando pelas frestas da terra até alcançar suas escuras moradas e lhes encomendar uma cabeleira igual, feita com fios de ouro. Hermes, enviado por Zeus para trazer de volta Perséfone raptada por Hades, teve que procurá-la, perambulando no sombrio mundo subterrâneo e depois escoltá-la de volta para a sua mãe, Deméter. A alegria do encontro da mãe com a filha devolveu a fertilidade à terra e os campos de trigo foram cobertos com o brilho dourado das suas espigas.

Divindades aquáticas

Os Titãs gregos — Oceano (o deus-rio) e Tétis (A Senhora ou a Mãe do Mar) —, eram os governantes primordiais das águas, que foram substituídos por Posêidon e Anfitrite, depois da derrota dos Titãs pelos deuses olímpicos. Anfitrite (Rainha das Nereidas, das 3 mil Oceânidas, das ninfas do mar e das Náiades, os espíritos femininos dos rios e fontes, semelhantes às Nixen nórdicas) era filha do deus marinho Nereu, mãe de inúmeros filhos, que se tornaram os rios do mundo e de Tritão, que era meio homem, meio peixe. Ela era descrita como uma linda mulher, que aparecia nua e coroada com algas e pérolas, deslizando pelo mar na sua carruagem prateada, puxada por golfinhos. As Nereidas eram ninfas marinhas, personificando as ondas e as qualidades do mar, que acompanhavam Posêidon e Anfitrite e apareciam como mulheres extremamente bonitas e sedutoras, mas com rabo de peixe.

Diferente da deusa marinha nórdica Ran, que tinha um temperamento imprevisível, agressivo e vingativo, a Mãe do Mar grega era gentil, personificando a superfície calma e ensolarada das ondas. Posêidon, em compensação, tinha uma natureza violenta, cíclica e explosiva: ele podia provocar terremotos (resquícios da sua representação mais antiga, quando regia o relâmpago e as tempestades), usar o tridente para desencadear ou amainar tempestades ou cavalgar tranquilamente as ondas, no meio dos golfinhos, na sua carruagem dourada puxada por cavalos marinhos.

Afrodite, a deusa do amor, da fertilidade e da beleza, apareceu do meio das ondas, assim como sua equivalente nórdica Freyja. Porém, enquanto Freyja era filha do deus marinho Njord, Afrodite surgiu da espuma formada sobre as ondas, quando Urano, após a castração de Cronos, jogou seus testículos no mar, uma metáfora que descrevia o poder fertilizador e a energia vital da água e do esperma.

Os deuses Fórcis, Nereus (pai das Nereidas) e Proteu eram conhecidos como “O velho homem do mar”, tendo sido anteriores a Posêidon e viviam em palácios luxuosos no fundo do mar. Assim como o nórdico Njord, eles descreviam a natureza do mar calmo e eram dotados do dom da metamorfose e da profecia. Njord (associado com o verão, a calmaria das águas e a fertilidade do mar) tem sua contraparte em Posêidon, e, principalmente em Nereus, que personificava o aspecto calmo, misterioso e prazeroso das profundezas marinhas.

Com exceção de Njord, as divindades nórdicas do mar refletiam o clima desafiador e o mar tempestuoso do seu habitat, assim como o grego Posêidon. O casal marinho Aegir e Ran tinha características semelhantes: Aegir regia as profundezas geladas do mar e as tempestades e tinha um palácio faustoso repleto de tesouros recolhidos dos navios. Ran era Rainha das Ondinas e das Sereias e era ela quem recolhia os afogados com sua rede mágica, levando-os para o palácio no fundo do mar, onde tratava bem aqueles que tinham ouro nos seus bolsos. Ambos eram violentos e terríveis, responsáveis pelos naufrágios e afogamentos e por isso cultuados pelos marinheiros e viajantes que lhes faziam oferendas de ouro, antes das suas viagens, para serem protegidos.

Os povos nórdicos cultuavam também outras deusas como Nehalennia, a protetora dos marinheiros, pescadores e viajantes (que propiciava também a abundância); Mere-Ama, a Mãe do Mar finlandesa, protetora das plantas e dos animais marinhos e as Donzelas das Ondas (as nove filhas de Ran e Aegir), protetoras dos marinheiros, guardiãs do Moinho do Mundo, em que moíam as mudanças das estações.

Zeus e Odin

Ambos eram filhos dos deuses mais antigos — respectivamente os gigantes Bestla e Bor e os Titãs, Cronos e Reia. Tanto Odin quanto Zeus eram personificações do “Pai supremo dos deuses” e regentes do universo, cujos tronos - Hlidskjalf e Olimpo - eram igualmente majestosos, permitindo a visão à longa distância. A espada invencível de Odin — Gungnir — era tão temida quanto os raios lançados por Zeus. Nas festas nórdicas as divindades se deliciavam com carne de javali e hidromel, enquanto no Olimpo, a nutrição era compatível com o clima suave, composta de frutas, néctar e ambrosia. Enquanto Apolo e as Musas cuidavam do entretenimento musical e poético dos festejos gregos, nos encontros dos deuses nórdicos era o deus Bragi que contava estórias e declamava poemas, acompanhado pelos sons mágicos da sua harpa.

Para ser orientado nas suas decisões, Odin procurava diariamente a deusa Saga, detentora da sabedoria ancestral, que morava às margens de uma cachoeira. No mito de Zeus, conta-se que uma das suas esposas foi Mnemosine (a guardiã da memória), mãe das Musas, cujas fontes sagradas conferiam inspiração àqueles que delas bebiam.

Quando Zeus soube que o filho gerado com a deusa Métis (filha de Tétis e Oceano) iria sobrepujá-lo no poder, ele o engoliu, mas como passou a sofrer de atrozes dores de cabeça, pediu ao ferreiro Hefesto que abrisse seu crânio com um machado. Da fenda aberta saltou Atena, adulta, vestida com armadura, portando todas as insígnias do seu poder e que se tornou sua filha preferida e conselheira em assuntos de guerra, deusa da sabedoria e protetora dos heróis.

Odin e Zeus são descritos como deuses majestosos e maduros, tendo muitas amantes e aventuras com deusas, gigantas (ou ninfas) e mortais, sendo conhecidos como progenitores de monarcas e detentores de inúmeros nomes, que descreviam seus atributos e funções. Os juramentos eram feitos sobre a lança de Odin e o cetro de Zeus, ambos os deuses peregrinando pela Terra, disfarçados ou metamorfoseados, para observar e julgar o comportamento dos humanos, dando-lhes presentes, avisos ou punições. Odin tinha em comum com Apolo o dom da poesia e da eloquência; assim como Hermes (Mercúrio) trouxe à humanidade o alfabeto, Odin ensinou o uso das runas, símbolos sagrados e mágicos.

Hermes era conhecido também pelo seu manto da invisibilidade, pelos seus talentos de convencer e enganar (era padroeiro dos comerciantes e dos ladrões) e pela sua habilidade de usar as palavras. Odin tinha o dom da metamorfose, podendo assumir diversas formas ou permanecer invisível, sendo imbuído de características ambíguas: deus dos juramentos e das traições, do poder de criar ou soltar amarras, de proteger nas batalhas ou escolher aqueles que iriam morrer, de ajudar ou enganar.

Um dos tesouros dos deuses nórdicos era o elixir mágico Odhroerír, que conferia inspiração aos mortais e imortais, da mesma forma como as águas sagradas do rio Helicon. Odin usou um manto de penas de águia para carregar este precioso elixir, depois de tê-lo furtado da deusa Gunnlod, enquanto Zeus usou um disfarce semelhante, de águia, para raptar Ganimedes, o jovem mortal que substituiu Hebe, a deusa da juventude, que servia o néctar aos deuses. Ela foi substituída após ter caído um dia enquanto servia o néctar ou, segundo outra versão, ter casado com Hércules.

A cabra nórdica Heidrun, que fornecia o hidromel celeste, pode ser assemelhada à cabra Amaltea que alimentou Zeus, os corvos de Odin são contrapartes da águia de Zeus, enquanto o esquilo Ratatosk — que criava discórdia com suas mensagens — é equivalente à gralha branca grega, cujas maledicências lhe causaram o enegrecimento das suas penas.

O conflito entre Aesir e Vanir lembra a disputa entre Zeus e Posêidon pela supremacia do mundo, mas no fim eles tornam-se amigos e aliados. Existe uma semelhança também entre os Vanir, regentes da abundância da terra e da água e as divindades gregas do mar e da terra.

Frigga e Hera

A deusa nórdica Frigga personificava tanto a terra, quanto o céu e detinha o dom da fertilidade e da tecelagem. Assim como a grega Hera, era casada com o deus supremo, vivendo com ele em um belo palácio no céu, mas passando uma boa parte do tempo junto com as suas acompanhantes, na sua morada no meio da névoa.

Ambas as deusas eram padroeiras do casamento, do amor conjugal e familiar, regentes do nascimento e do cuidado com as crianças, elas mesmas tendo tido vários filhos. Eram descritas como mulheres majestosas e lindas, ricamente vestidas, com cintos de ouro, colares de âmbar e muitas joias, reverenciadas pelas mulheres e os heróis, que lhes pediam ajuda e proteção. Como personificações da atmosfera elas controlavam as nuvens: Hera as movimentava com os movimentos das suas mãos e Frigga tecia as nuvens no seu tear celeste, sendo renomada pela sua elaborada tecelagem, dom que a aproximava das Moiras gregas, também Fiandeiras e Senhoras do Destino.

Frigga também era conhecida pelo seu dom de conhecer o futuro, mas que não revelava a ninguém, nem podia mudar o traçado do destino. Frigga e Hera tinham auxiliares para enviar mensagens e sinais aos seres humanos. A acompanhante e mensageira de Frigga, Gna, podia ser equiparada com íris, a deusa grega do arco-íris, regente do vento e da chuva; ambas as deusas agiam como mensageiras dos deuses e se deslocavam ao longo do arco-íris.

Tanto Frigga quanto Hera usaram de subterfúgios e estratagemas para impor seus desejos aos maridos: Hera conseguiu obter de Zeus a vaca Io, a metamorfose da ninfa amada do deus (que tinha se transformado em touro para escapar da vigilância de Hera e seduzir a linda mortal jovem), enquanto Frigga ardilosamente obteve a vitória da tribo dos Winilers por ela protegidos.

A raiva de Odin ao descobrir o furto do ouro da sua estátua por Frigga é equivalente às brigas do casal grego devidas ao ciúme de Hera. Estórias semelhantes descrevem as aventuras extraconjugais de Odin e Zeus e a maneira digna e altiva com que as suas esposas as ignoram ou perdoam. Diferente da deusa grega Hera —cujo arquétipo na adaptação romana como Juno foi distorcido para a figura de uma esposa ciumenta e vingativa — a nórdica Frigga sempre teve mantida nas estórias a sua altivez e comportamento equilibrado, imparcial e condescendente perante as aventuras de Odin com gigantas, deusas e mortais.

Outras divindades

Como regente dos raios e trovões, Thor se assemelha a Zeus, pela sua força física a Hércules, com qual partilha a descrição do seu disfarce como mulher: Thor para recuperar seu martelo roubado pelo gigante Thrym e Hércules fiando para agradar à rainha de Lídia, Ônfale. A força física de Thor é semelhante à de Hércules, que, ainda bebê, estrangulou as serpentes enviadas por Hera para matá-lo no seu berço e ao se tornar adulto, atacava e vencia gigantes e monstros.

Thor tem um martelo mágico, Mjollnir, o emblema nórdico do poder destruidor do relâmpago e, assim como Zeus, o usa livremente contra os gigantes. Porém Mjollnir era usado também para abençoar os casamentos e consagrar as piras funerárias; as estacas firmadas por um martelo, eram consideradas pelos nórdicos tão sagradas, quanto as estátuas de Hermes, cuja remoção era punida com a morte. No seu rápido crescimento, poder físico e coragem, Thor lembra Hermes, que roubou o touro de Apolo quando tinha apenas um dia de vida. A precocidade de Magni, filho de Thor, que, tendo apenas três anos, consegue liberar a perna do seu pai presa sob o corpo morto do gigante, lembra o jovem Hércules e sua força fora do comum. A luta de Thor contra o gigante Hrugnir é um paralelo com os combates de Hércules e seu famoso apetite na festa do gigante Thrym assemelha-se com a primeira refeição de Hermes, quando ele consumiu dois bois inteiros. A travessia do rio Veimer por Thor — para capturar o gigante Thrym —, lembra o heroísmo de Jasão, quando atravessou uma correnteza para desafiar o tirano Pélias, seu tio, e recuperar o trono do seu pai.

O famoso colar de âmbar usado por Frigga e Frevja é semelhante ao cinto mágico de Afrodite, que foi pego emprestado por Hera para encantar Zeus; assim como o cabelo de ouro de Sif e o anel mágico Draupnir, o colar é um emblema da vegetação luxuriante, da beleza feminina e do brilho das estrelas no céu (o planeta Vênus).

O deus Tyr é muito parecido com o deus Ares (Marte) nos atributos, ambos sendo honrados e lembrados no mesmo dia da semana (terça-feira), que tem os seus nomes nas respectivas línguas. Assim como Ares, Tyr era valente e destemido, se regozijando no calor das batalhas. Somente ele teve a coragem para enfrentar o lobo Fenrir que, amarrado por Tyr, personifica o fogo subterrâneo, a mesma equivalência dos Titãs amarrados pelos deuses no Tártaro.

Baldur, o radiante deus solar nórdico, lembra não apenas Apolo e Orfeu, mas os outros heróis dos mitos solares. Sua linda esposa Nanna, deusa da vegetação e parecida com Perséfone (cuja descida para a escuridão em baixo da terra corresponde aos meses áridos do inverno), pois ela também desce para o mundo subterrâneo, onde permanece até o surgimento de um novo mundo. O palácio dourado de Baldur é parecido como o do Apolo, ambos amavam as flores que desabrochavam na sua passagem e todos os seres vivos lhes sorriam. Assim como Aquiles, que tinha apenas um ponto vulnerável no seu calcanhar, Baldur somente podia ser morto com uma flecha feita de visco.

A morte de Baldur foi provocada pelo invejoso Loki, assim como a de Hércules pela vingança de um centauro, por ele ferido. Para se vingar, o centauro convenceu a sua esposa, Dejanira, a preparar uma poção mágica que garantisse a fidelidade do seu marido, mas que provocou a sua morte. A pira funerária de Baldur lembra a morte de Hércules no monte Etna, a cor das chamas e o brilho avermelhado - da fogueira e da erupção vulcânica - sendo típicas do sol poente. Baldur podia ser libertado de Niflheim apenas com o choro de todos os seres e coisas; Persefone poderia sair do Hades se não tivesse ingerido nenhum tipo de comida. O embuste de Loki disfarçado com a velha Tokk, recusando-se a verter sequer uma lágrima por Baldur, assemelha-se com o estratagema de Hades, ao convencer Perséfone a engolir algumas sementes de romã, ato que representava a sua permanência temporária no mundo subterrâneo, enquanto o choro de Frigga e Deméter é o mesmo lamento materno pela perda dos seus filhos.

A Idade de Ouro, de norte a sul, era descrita como uma época de felicidade idílica, com a paz, a abundância, o amor, a beleza e a harmonia reinando sobre a terra, sem que o mal existisse ou fosse conhecido. Através de Loki, de sua inveja, cobiça, maldade e vingança, o mal entrou no mundo nórdico, enquanto a dádiva de fogo trazido por Prometeu para a humanidade, trouxe uma maldição para os gregos.

A punição dos culpados é semelhante, pois enquanto Loki é preso com correntes numa gruta e torturado pelo lento escorrer de veneno da boca de uma serpente (amarrada acima da sua cabeça), Prometeu foi amarrado no monte Cáucaso e um abutre faminto continuamente devorava seu fígado, que crescia novamente no dia seguinte.

Outras punições semelhantes são as de Tito preso no Hades e de Encelado acorrentado em baixo do monte Etna, onde suas convulsões provocavam terremotos e seus gritos e maldições as erupções de lava. Loki tem um ponto em comum com Hefesto, ambos tendo assumido formas equinas e gerado velozes corcéis; com Hermes, Loki partilha a astúcia, as trapaças e os enganos.

Há uma semelhança entre o gentil e inspirado Bragi, tocando sua harpa e Apolo, o deus grego do sol, que tocava lira e era exímio arqueiro e médico. Ambos partilham os mesmos dons: da inspiração, da poesia e da música, porém o sábio Bragi era fiel à sua esposa Idunna, enquanto Apolo teve inúmeras amantes e aventuras. Idunna era a guardiã das maçãs da juventude e quando ela caiu dos galhos de Yggdrasil para as profundezas de Niflheim, Bragi foi buscá-la. Envolvendo-a em uma pele de lobo (metáfora da neve que protege as raízes do extremo frio nórdico) Bragi permaneceu ao lado da sua esposa até a sua recuperação e volta. Nesse tempo, a voz de Bragi silenciou, suas canções não mais eram ouvidas, pois sem a sua amada a vida não tinha mais alegria.

Um paralelo pode ser estabelecido com a estória de Orfeu e Eurídice, quando ela foi levada para o reino de Hades. Orfeu foi resgatá-la da escuridão, tocando a sua flauta. Idunna personifica a primavera e a juventude (semelhante a Adônis e Eurídice) e foi raptada por Thiazzi,o gigante de gelo, que representa o javali que matou Adônis, ou a serpente que envenenou Eurídice. Idunna foi retida pelo gigante no mundo de gelo de Jötunheim (equivalente ao reino de Hades, para onde Perséfone foi levada após o seu rapto) e, sem poder retornar sozinha para Asgard, se tornou pálida, enfraquecida e triste. Apenas quando Loki, representando o sopro do vento do Sul, vem resgatá-la transformado em pássaro, é que ela consegue escapar, metamorfoseada em uma noz. Essa imagem lembra a volta de Perséfone, conduzida pela tocha de Hécate e escoltada por Hermes, de Adônis acompanhado por Hermes, ou de Eurídice, atraída pelo som doce da flauta de Orfeu, que lembrava o sussurro do vento.

A deusa arqueira Skadhi se assemelha com a caçadora Ártemis, ambas usam arco, flechas e túnicas curtas para se movimentarem livremente, são acompanhadas por cães ou outros animais, amam o seu habitat selvagem que defendem dos invasores, demonstram independência, altivez e segurança nas suas escolhas.

Frey, o regente nordico do calor do verão e das chuvas fortes e repentinas, tem características comuns com Apolo, ambos são belos e bondosos, o primeiro cavalga um javali com pelos dourados, equivalentes aos raios solares, enquanto a carruagem solar de Apolo brilha no seu traslado pelo céu. Frey tem também algumas características de Zéfiro, pois ele espalha flores no seu caminho e rege principalmente a fertilidade da terra. Frey, assim como Odin e Zeus, foi considerado como sendo um rei humano; acredita-se que o seu túmulo está perto do de Odin eThor em Uppsala. O reino de Frey como monarca foi tão feliz e próspero, que foi denominado de Idade de Ouro, fato que lembra Cronos, que tendo sido exilado para a Terra, governou o povo da Itália, garantindo uma prosperidade semelhante.

Freyja, a linda deusa nórdica, filha do deus marinho Njord é semelhante a Afrodite, que também nasce do mar no seu aspecto de Anadiômena. Ambas regiam a juventude, o amor e a beleza, tiveram vários amantes, recebiam oferendas de frutas e flores e podiam atender os pedidos dos namorados e fiéis. Mas Freyja se assemelha tambem com Atena, tendo os mesmos olhos azuis, usando elmo e armadura e intervindo nos combates dos guerreiros como condutora das Valquírias, enquanto Afrodite entregou sua afeição a Ares, o deus da guerra e a outros heróis. As lágrimas vertidas por Freyja durante a ausência do seu amado Odh se transformaram em ambar e ouro, as de Afrodite em anémonas, pela ausência do seu amado Adônis,

Odh, o marido enigmático de Freyja, se assemelha a Adônis e, assim como Afrodite se alegra com a volta do seu amado Adônis, fazendo toda a natureza brotar e florescer, Freyja festeja o encontro com Odh em baixo das árvores floridas das terras do Sul. Freyja ama a beleza e se recusa a se casar com o feio gigante Thrym, enquanto Afrodite teve que aceitar como marido o aleijado Hefesto, mas o abandona ou trai por ter sido obrigada a se casar com ele. Enquanto a carruagem de Afrodite é puxada por pombas brancas, a de Freyja é por gatos, as pombas sendo símbolos do amor terno e os gatos do amor sexual.

Gerda se assemelha a Atalanta, difícil de conquistar, mas ambas acabam cedendo a perseguição e a pressão dos seus pretendentes e se tornam esposas felizes. As maçãs douradas, com as quais o mensageiro de Frey, Skirnir, tentou convencer Gerda a aceitar Frey como marido, lembram o fruto dourado que Hipômenes jogou no caminho de Atalanta, a linda donzela avessa ao casamento, fazendo-a assim perder a corrida. Atalanta tinha sido avisada que se casasse, seria infeliz e por isso fugia dos homens, dedicando-se a caça e aos esportes. Ela impunha como condição para se casar que o pretendente a vencesse numa corrida, caso contrário fosse morto. Esse feito corajoso foi conseguido por Hipômenes, mas com a ajuda de Afrodite, que lhe entregou os frutos de ouro. Por não ter agradecido a Afrodite pela graça alcançada, o casal foi transformado em leões atrelados ao carro da deusa Cibele, conforme visto nas estátuas e imagens dessa deusa.

A deusa Saga, cuja morada era ao lado do “rio dos tempos e dos eventos” era a guardiã das memórias e dos acontecimentos, conselheira do deus Odin, que a ela recorria diariamente. Saga assemelha-se com a grega Clio, a musa da estória, que ficava perto da fonte Helicon e que o deus Apolo procurava, para dela receber inspiração.

A forma ardilosa em que a deusa Gefjon obteve a terra do rei Gylfi para formar o seu reino de Zeeland (na Dinamarca) reproduz a estória da rainha Dido, que obteve por um estratagema a terra sobre a qual fundou a sua cidade de Cartago.

Os gregos representavam a Justiça como uma deusa vendada, segurando em uma mão a balança e na outra a espada, para indicar a imparcialidade nos julgamentos. O seu equivalente nórdico era Forsetti, que ouvia pacientemente as queixas e questões humanas, promulgando sentenças com imparcialidade e justiça.

A mosca varejeira que impediu Zeus de recuperar a sua amada Io, reaparece no mito nórdico para atormentar o anão ferreiro Brokk e perturbar a confecção do anel mágico Draupnir, do javali dourado de Frey e do martelo Mjollnir, que ficou com um cabo encurtado. O navio mágico de Frey — em que podiam entrar todos os deuses, mas que depois de minimizado cabia no bolso dele —, também confeccionado pelos anões, é semelhante ao navio grego Argo, que personificava o movimento rápido das nuvens e podia levar todos os herois gregos para as distantes terras de Cólquida.

O deus arqueiro Ullr parece com Apolo e também com Orion, pelo amor à caça, atividade que segue permanentemente. O deus Heimdall, assim como Argo, era dotado de uma visão apurada que lhe permitia enxergar de dia e de noite à longa distância. O seu trompete Gjallarhorn podia ser ouvido nos novos mundos, anunciando a passagem das divindades pela ponte Bifrost. Por ser ligado à água pelo lado materno (como filho das Donzelas das Ondas), Heimdall tinha, assim como o deus marinho Proteus, o dom da metamorfose, que ele usou quando impediu o roubo do colar mágico de Freyja por Loki (transformado em lontra), assumindo a mesma forma animal e lutando com ele ate vencer.

A transformação dos olhos do gigante Thiazi em estrelas que brilhavam no firmamento, lembra muitos mitos estelares gregos, principalmente da vigilância permanente dos olhos de Argo, do cinto brilhante de Orion e seu cão Sirius, todos transformados em estrelas por deuses ou deusas enfurecidas.

Hermod era um veloz mensageiro dos deuses nórdicos, que se deslocava com rapidez assim como Hermes, usando, em lugar de sandálias aladas, Sleipnir, o cavalo mágico de Odin (o único autorizado a cavalgá-lo) e em lugar do caduceu, um bastão imbuído de poderes mágicos (Gambãntein). Ele foi perguntar a um mago, depois às próprias Nornas, sobre a sorte do seu irmão Baldur, sabendo assim que outro irmão, Vali, ia suceder a Odin apos o Ragnarök.

Zeus queria se casar com a deusa Métis, mas desistiu depois que as Moiras lhe avisaram que o filho que ele teria com ela ia superá-lo em glória e poder, motivo que o fez engoli-la, grávida de uma filha, a deusa Atena.

Vidar parece com Hércules, que usou apenas um cajado para se defender do leão de Nemeia, enquanto Vidar consegue vencer o lobo Fenris usando seu sapato de ferro.

Odin teve que se empenhar bastante para conquistar Rinda, até “descongelar a frieza dela, assim como Zeus teve que se transformar em chuva de ouro para seduzir Dânae, que também simbolizava a terra. Em ambos os casos, a simbologia é ligada ao degelo da terra pelos raios solares, os filhos desta união - Vali e Perseu - sendo vingadores dos inimigos dos pais. Vali vinga a morte de Baldur matando Hodur, e Perseu mata os inimigos da sua mãe.

Tanto Hebe, quanto as Valquírias, personificavam a juventude e ofereciam a bebida sagrada - néctar, ambrosia e hidromel - aos deuses do Olimpo e Asgard. Hebe foi liberada do seu serviço de “copeira” após o seu casamento com Hércules, e as Valquírias, quando se casavam com heróis como Helgi, Hakon, Völund ou Sigurd,

Völund se parece com Hefesto pelo seu dom de trabalhar com os metais; ele os usa para se vingar do seu captor escapando da prisão após matar os filhos do rei, transformar seus olhos em joias, que envia para a mãe deles, e fabricar para ele mesmo um par de asas de metal, com cuja ajuda escapa da prisão e voa sobre mar e terra. Hefesto, aleijado por uma queda do Olimpo e abandonado por Hera, lhe envia como vinganca um trono dourado contendo garras metálicas para segura-la, sem que ela possa se soltar. Ele também cria uma rede metálica para nela prender Afrodite e seu amante Ares e expo-los depois se debatendo na rede para que todas as divindades de Olimpo caçoassem deles.

O deus Jano era o porteiro romano do céu, tendo duas cabeças para poder olhar para todos os lados e era ele quem abria as portas de cada ano, sendo lembrado até hoje no nome do primeiro mês. O deus nórdico Heimdall era o guardião da ponte do Arco-Íris, controlando a passagem de deuses e humanos, semelhante as Horas, que abriam as portas do ceu para a passagem dos deuses.

A missão de vigilância eterna de Heimdall era favorecida pelo seu olhar apurado (que o aproximava de Argo) e sua audição sobrenatural.

Os Penates eram os deuses romanos que cuidavam do bem-estar e da prosperidade das famílias e a despensa (penus) era a eles consagrada. Encontramos uma semelhança com os protetores nórdicos das moradias e com a deusa Fulla. Os Lares eram também protetores das famílias, mas diferiam dos Penates por serem espíritos deificados de mortais, as almas dos antepassados, uma característica que os aproxima dos espíritos ancestrais nórdicos, das Matronas, Disir e Dokkalfar.

Os nórdicos acreditavam que as tempestades eram provocadas pelos movimentos da Serpente do Mundo ou pela ira de Aegir, que, coroado com algas assim como Posêidon, enviava suas filhas — as Nereidas ou as Oceânides — para brincarem com as ondas. Posêidon tinha sua morada nas ilhas de coral do mar Mediterrâneo, e Aegir, nas grutas forradas de musgo do mar nórdico, onde era cercado pelas Nixies, ondinas, sereias e pelos deuses dos rios Reno, Elba e Neckar (seus equivalentes gregos sendo Alfeu e Peneu).

As sereias gregas têm seu paralelo com Lorelei, a ninfa do rio Reno, cujo canto melodioso atraía os marinheiros para o naufrágio entre os rochedos. Os naufrágios dos navios gregos deviam-se ao temperamento furioso de Posêidon, que era cercado pelas ondinas e sereias, semelhantes às Donzelas das Ondas e às Nixies nórdicas.

O reino subterrâneo de Niflheim reproduz as características do Hades grego; Mordgud, a guardiã da ponte dos mortos Gjallarbru, exigia um tributo para permitir a passagem, da mesma forma como o barqueiro Caronte pedia um pagamento para todos os espíritos que ele transportava para o outro lado do rio da morte, Aqueronte. O feroz cão Garm que vigiava o portão de Hel é muito parecido com Cérbero, o cão tricéfalo grego. Os nove mundos de Niflheim se assemelham as divisões de Hades, Naströnd sendo um adequado substituto para o Tártaro, onde os criminosos eram punidos pelos seus crimes e atos vis com a mesma severidade.

O costume de cremar os heróis mortos junto com as suas armas e acompanhados de sacrifícios de animais (cavalos, cães) era o mesmo no norte e sul da Europa. A representação grega da morte — Tánatos ou Mors — era como um esqueleto carregando uma foice, enquanto a nórdica Hel aparecia meio-morta, meio-viva e usando um ancinho, ou uma vassoura, para recolher as almas. Ragnarök era considerado uma versão do dilúvio e seus sobreviventes em ambas as tradições eram destinados para repovoar o mundo.

O longo inverno Fimbul anunciando o Ragnarök foi comparado às demoradas lutas preliminares sob as paredes da fortaleza Troia e o proprio Ragnarök, com a queima final da famosa cidadela, Thor sendo equiparado com Heitor e Vidar com Eneias. A destruição do palácio do rei Príamo representa o ruir dos palacios dourados dos deuses; os lobos nórdicos que devoraram o sol e a lua são protótipos de Paris e outros seres sombrios, que raptaram a donzela solar Helena. De acordo com outra interpretação, Ragnarök é a submersão posterior do mundo nas ondas do mar, são semelhantes à estória grega do dilúvio; os sobreviventes Lif e Lifthrasir — da mesma maneira como Deucalião e Pirra — foram destinados a repovoar o mundo. Assim como o altar do templo de Delfos permaneceu ileso no meio dos escombros do cataclismo, o palácio dourado Gimli, em Asgard, permaneceu radiante à espera dos filhos dos deuses, que iriam recriar um novo e melhor mundo.

Enquanto os gregos imaginavam que os pesadelos eram os sonhos maléficos que tinham escapado da gruta de Somnos, os nórdicos os atribuíam aos trolls ou gnomos malvados, que tinham saído do seu escuro esconderijo para atormentar os seres humanos.Todos os objetos e armas mágicas dos deuses nórdicos tinham sido obra dos anões ferreiros, enquanto os dos gregos tinham sido confeccionados por Hefesto e os Ciclopes, na sua oficina em baixo do Monte Etna.

Essas semelhanças são as mais relevantes, entre muitas outras, que comprovam as analogias existentes entre a mitologia nórdica e grega, formadas a partir da mesma base indo-europeia, diversificadas no tempo e no espaço pelas características raciais, geográficas, climáticas, sociais e culturais, modificadas ou adaptadas ao longo dos tempos por historiadores, tradutores e escritores.

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MITOS
Mayahuel (Goddess of Agave) | Rock Cyfi Martinez
10/25/2017 3:26:48 PM | Por A. S. Franchini
Mitologia Asteca
Mayahuel e a origem do maguey

Mayahuel era a deusa do maguey, a planta da qual se fabricava o pulque (em nahuatl se diz octli), bebida ainda hoje muito apreciada no México e adjacências. Como a maioria dos deuses, ela possuía a pele colorida - às vezes azul com manchas amarelas, outras vezes com a face tingida de vermelho e negro, [141] simbolizando sua condição de deusa do pulque. Normalmente, seja nos códices ou nas ilustrações modernas, a deusa surge por entre as folhas do maguey vestida de branco, pois branca é a cor da bebida, trazendo na mão o octecomatl, a "jarra do pulque”, ou simplesmente uma taça espumante.

Os astecas possuem uma lenda para contar como surgiu o maguey, e ela começa dizendo que Mayahuel vivia, num tempo muito antigo, junto com sua avó - uma das estrelas tzitzimime, também tidas como os monstros que, no fim do mundo, devorarão os homens -, submetida a uma severa vigilância.

Um dia, o deus Quetzalcoatl, apaixonando-se pela neta desta avó tirana, lhe pediu que descesse dos céus junto com ele, para que fossem divertir-se um bocado pela Terra.

- Mas minha avó não vai gostar... - balbuciou Mayahuel.

- Ora, esqueça a vovó! - exclamou a Serpente Emplumada. - Vamos namorar um pouco lá embaixo, já que aqui em cima, com essa vigilância toda, é simplesmente impossível.

Mayahuel relutou mais um pouco, mas o desejo acabou prevalecendo sobre o medo.

- Está bem, mas tomemos cuidado para que ela não nos veja.

- Eu tenho um jeito perfeito! - disse o deus. - Vamos nos transformar nos ramos de uma árvore.

Quetzalcoatl e Mayahuel assim fizeram, mas, quando a avó acordou e viu que a neta fugira, desceu à terra, junto com as suas irmãs tzitzimime, e não tardou a descobrir os dois amantes disfarçados de ramas.

- Maldita! - bradou a avó. - Agora verá o preço de me desobedecer!

A velha fez em pedaços a rama na qual Mayahuel se metamorfoseara, e deixou espalhados pelo chão os seus pobres pedaços. Quando Quetzalcoatl viu que a velha desaparecera, lamentou-se muito do fim que tivera a amante, enterrando em seguida os seus pedaços.

Mas, para sua felicidade, viu brotar do solo as ramas de uma nova planta - a planta do maguey -, e, junto com ela, a própria amante, agora transformada numa bela e colorida deusa.

E foi assim que surgiu uma das plantas mais típicas da América Central. [142]

Mas a própria deusa Mayahuel, como terá surgido?

Diz uma lenda antiga que foi da seguinte maneira: antes de ser a deusa que se tornou, Mayahuel era a modesta esposa de um lavrador. A pobrezinha passava os dias correndo atrás dos ratos que devastavam a plantação do marido. Certa feita, ela estava empreendendo mais uma de suas caçadas quando o rato por ela perseguido pôs-se a dar voltas ao seu redor. O bichinho parecia muito estranho, como se não estivesse no seu estado normal. Mayahuel ficou com pena do rato e deixou-o partir.

Ao retornar para casa, ela passou por uma planta e viu que o seu caule estava roído.

- Deve ter sido por aqui que aquele danadinho andou afiando seus dentes! - disse ela.

Ao observar melhor, ela viu que uma seiva leitosa escorria do caule da planta, e decidiu recolhê-la numa cabaça e levá-la para casa. Talvez fosse possível utilizá-la como remédio ou uma beberagem.

Ao chegar em casa, a jovem resolveu experimentar para ver que gosto tinha aquilo.

"Nada mal!” pensou ela, tomando logo em seguida outro gole ainda maior.

Dali a pouco o marido chegou.

- O que está bebendo aí? - disse ele. - Dê-me um gole, estou morto de sede!

Mayahuel estendeu-lhe a cabaça, que já estava quase vazia. Ela estava bastante alegrinha e, depois de encher a boca, verteu ela mesma a bebida na boca do esposo, dando uma gostosa gargalhada.

Nem bem ingerira a bebida, o esposo também começou a sentir-se alegre.

- Isso é bom! Dê-me mais! - disse ele.

Como não havia mais na cabaça, ambos retornaram ao pé da planta desconhecida e, depois de aplicarem novos talhes no seu caule, encheram a cabaça do líquido.

Foi uma festa! Beberam tudo ali mesmo e dançaram e cantaram à luz da lua até perderem os sentidos. Depois, ao acordarem, descobriram estar na presença dos deuses.

- Que bebida é essa que tanto vos alegrou? - quis saber um dos deuses.

Mayahuel tomou a cabaça e estendeu-a ao ente divino.

- Não sabemos seu nome, mas é muito saborosa. Prove! [143]

O deus provou e aprovou, e a partir dali a bebida, batizada de "pulque", passou a ser adotada pelos deuses em seus cerimoniais. Por ter feito a descoberta, Mayahuel foi transformada em deusa, o mesmo acontecendo com seu esposo, transformado no deus Xochipilli ("Príncipe Flor"), deus das flores, da poesia e das festas. [144]

Mayahuel, Quetzalcoatl, Xochipilli  tzitzimime 
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2/8/2018 12:26:56 PM | Por Paulo Dalgalarrondo
Psicologia Evolucionista
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O surgimento da teoria evolucionista e seleção natural

Um grande número de sociedades e culturas formularam, e ainda formulam, ideias, concepções e histórias sobre a origem do mundo, dos diferentes seres vivos e do ser humano. Entre muitos povos indígenas, tais concepções ocorrem por meio de mitos de origem, narrativas que relatam o surgimento e a história do mundo, dos seres da natureza e dos homens. Muitas dessas sociedades formularam tais origens como algo que ocorreu de modo abrupto, em que os seres já surgiram prontos, em sua forma definitiva. Assim, o mundo teria sido criado não só pronto, mas também perfeito; não haveria nada mais a ser mudado ou substancialmente transformado; mudanças nessa ordem originária só poderiam conduzir à degradação, a uma espécie de “queda fundamental”, que revelaria os descaminhos dos seres no mundo.

Uma das visões contemporâneas do mundo ocidental, expressa pelas ciências da vida, é distinta desse tipo de perspectiva. Segundo a ciência dos últimos 200 a 250 anos, os seres vivos teriam surgido de formas simples, ancestrais, que foram se transformando, evoluindo, para formas derivadas, em geral mais complexas do que as ancestrais.

A noção ocidental, entretanto, nem sempre foi assim. Nas origens do pensamento ocidental (que podem ser traçadas até a combinação sui generis de vertente greco-romana com a hebraico-cristã), o mundo, os seres da natureza e o homem surgiram em sua forma acabada, mas com o potencial de serem aperfeiçoados. Na Antiguidade, os filósofos das colônias gregas na Ásia Menor, os chamados filósofos jônicos ou pré-socráticos, foram os primeiros, no século VI a.e.c., a formular teorias originais e independentes de noções religiosas sobre a origem e a evolução do cosmos e da vida. Ainda que a maior parte dos escritos desses filósofos tenha se perdido e tenham nos restado apenas fragmentos, pelos trechos que sobreviveram, é possível notar que eles formularam teses sumamente interessantes e perspicazes, implicando noções transformistas de distintos matizes em relação aos seres vivos.

Depois dos filósofos pré-socráticos

Não foram, entretanto, as teses dos filósofos pré-socráticos as que, a partir da Antiguidade, mais influenciaram o Ocidente nos períodos subsequentes (Idade Média, Renascença e Modernidade). Foram os filósofos do auge do pensamento grego, Platão (427-347 a.e.c.) e Aristóteles (384-322 a.e.c.). Suas teorias sobre a natureza não contemplavam uma visão transformista. Pelo contrário, as semelhanças e diferenças entre os animais obrigavam a uma ordenação em grupos determinados e relativamente fixos, separando-os formalmente e rejeitando a perspectiva transformista.

Para o historiador das ideias Arthur Lovejoy (1873-1962), em Platão encontra-se a origem de uma das mais persitentes e poderosas pressuposições do pensamento ocidental, a de que há um “esquema geral das coisas”, um “padrão constitutivo do universo”, que, de forma condensada, é traduzido pela expressão “a grande cadeia do ser” (também denominada scala naturae, échelle des êtres ou chain of being). É a ideia de que o universo corresponde a um esquema inteligível e racional; uma crença sobre a estrutura da natureza, retomada no início do século XVIII por Gottfried Leibniz (1646-1716), que, de diversas formas, influencia as teses da ciência moderna.

Aristóteles é, com justiça, considerado fundador das ciências da vida como disciplina. Em suas obras naturalísticas que restaram, História dos animais, As partes dos animais e A geração dos animais (além de opúsculos como Marcha dos animais, Movimento dos animais e Pequeno tratado de história natural), assim como em obras de anatomia e botânica que se perderam, revela o estudo de cerca de 400 animais que buscou classificar, tendo dissecado cerca de 50 deles. Realizou observações anatômicas, embriológicas e etológicas detalhadas de animais terrestres e aquáticos (moluscos, peixes), fez observações sobre cetáceos e morcegos, tendo insights em ecologia e biogeografia. Obviamente, muitas de suas observações e, sobretudo, conclusões são falsas aos olhos da ciência de hoje, mas sua obra naturalística não deixa de ser notável. A vida é vista por ele como um princípio imaterial que anima a matéria, e a natureza está ordenada por uma inteligência suprema (noção aristotélica de Enteléquia). Assim, sua biologia tem caráter vitalista e finalista. O conceito de espécie na biologia de Aristóteles é bastante complexo, articulando a visão fixista e essencialista do platonismo com componentes de uma visão gradualista, que ele mesmo desenvolveu. Aristóteles, além disso, introduziu noções como de homologia entre partes e órgãos dos animais.

As noções platónicas e aristotélicas em relação à natureza marcaram de forma penetrante o pensamento do ocidente durante toda a Idade Média, pois foram elas que serviram de referência aos "pensadores" oficiais do cristianismo e do mundo intelectual ocidental até a modernidade. Tanto para Aristóteles como para Platão, os seres são a manifestação de suas essências metafísicas. Para Aristóteles, a natureza constitui uma hierarquia, a chamada scala naturae, com o homem no topo. Assim, nessa perspectiva, todos os outros seres vivos representam determinada degradação em relação à forma humana, que expressaria o auge das espécies vivas. Tais degradações, que formam a série animal, preveem também a separação entre animais inferiores e superiores.

A visão cristã tradicional do período medieval sustentava que as espécies teriam sido criadas de uma só vez por Deus e seriam perfeitas e imutáveis, posto serem criações de Deus. Quase não se veem naturalistas na Idade Média. Exceções são Alberto Magno (1193-1280) e Frederico II de Hohenstaufen (1194- 1250). Alberto Magno redigiu um tratado (De animalibus, 1270) sobre anatomia comparada de animais, incluindo invertebrados terrestres e marinhos, assim como o homem, obra baseada em Aristóteles e Galeno. Frederico II escreveu um notável tratado de falconaria (De arte venandi cum avibus), na verdade uma obra enciclopédica sobre aves em geral. Todavia, a biologia medieval não pôde ousar, tendo que se restringir a descrições e obedecer os cânones da Igreja. Alguns eruditos islâmicos (Ibn Sina ou Avicena [980-1037] e Al-Zahrawi ou Abulcasis [936-1013]), assim como judeus (Moisés Maimónides ou Rambam [1135-1204], que redige um Traité des poisons, sobre animais e plantas venenosas e medicinais), dão contribuições originais, mas sem ainda afetar a rigidez das concepções medievais.

Baseados nas narrativas sobre genealogias contidas no Antigo Testamento, vários autores cristãos "calcularam" a idade do mundo, incluindo a das plantas e dos animais existentes. Segundo pensadores como Theophilus de Antióquia (falecido entre 183 e 185 d.e.c.), Lactantius (240-320 d.e.c.) e Santo Agostinho (354-430 d.e.c.), a Terra, os seres vivos e o ser humano deveriam ter em torno de 6 mil anos. Exprimindo as concepções ortodoxas da Igreja, é conhecida a afirmação categórica do arcebispo James Ussher, em 1664, o qual, apoiado pela leitura cuidadosa da Bíblia, em particular do Antigo Testamento, declarou que o dia da criação teria ocorrido em 26 de outubro de 4004 a.e.c., mais precisamente às 9 horas da manhã. Assim, a Terra tinha, quando o arcebispo fez seus cálculos, 5.668 anos de idade (um pouco menos do que os 4 bilhões de anos que se supõe atualmente). Nos dois séculos seguintes à afirmação do bispo, as descobertas geológicas e de fósseis de plantas e animais colocaram em evidência que a idade da Terra e da vida neste planeta deveria ser bem mais antiga do que supôs James Ussher.

Com o fim da Idade Média, a observação naturalística foi retomada no Renascimento. Alguns zoólogos franceses (Pierre Belon, 1517-1564; Guillaume Rondelet, 1507-1556) fizeram detalhadas observações de plantas e animais na Europa e no Oriente Próximo. Naturalistas espanhóis (Oviedo, Acosta, Hérnandez) acompanharam os conquistadores das Américas, descrevendo a flora e a fauna desconhecidas dessas regiões. Leonardo da Vinci (1452-1519), por sua vez, fez importantes estudos anatômicos do corpo humano e de animais, investigou o voo dos pássaros, o mecanismo da visão e a fisiologia sexual. Leonardo também chegou a afirmar que fósseis eram restos de animais e que as rochas que os conservam devem ter se erguido de um ponto mais baixo do que o nível do mar. O belga André Vésale (1514-1564) revolucionou a anatomia humana com sua obra De humanis corporis fabrica (1543).

 

No século XVII, William Harvey (1578-1657) descreveu com precisão a então desconhecida circulação do sangue (1628). O microscópio é inventado e permite a Hooke (1635-1703) relatar os aspectos de organismos vivos invisíveis a olho nu (Micrographia, 1665). Jan Swammerdam (1637-1680) realiza dissecções de insetos (abelha, piolho, ephemeroptera), criando a anatomia de invertebrados, e Marcello Malpighi, por meio do microscópio, descreve elementos da estrutura do córtex cerebral, reconhecendo as células piramidais.

Cabe notar que, mesmo após a Renascença, a Igreja continuou a influenciar por meio de seu controle as visões sobre origens do mundo e do homem. Em 1616, por exemplo, o filósofo italiano Lucilio Vanini (1585-1619), que, como Giordano Bruno (1548-1600), desafiava os dogmas da Igreja, foi o primeiro autor a sugerir que o homem descende de primatas símios (em sua obra De Admimndis Naturae Reginae Deaeque Mortalium Aj-canis). Foi, por isso e por outras teses suas sobre a natureza e sobre Deus (teses algo panteístas), condenado a ter sua língua cortada e, depois, assim como Bruno, executado.

Um dos aspectos mais importantes das ciências naturais no século XVII é a criação de sociedades e academias científicas, nas quais se relata e se discute os achados e teorias científicas, como, na Itália, a Accademia del Cimento (Academia de Experiências), de 1657, fundada por discípulos de Galileu, Viviani e Torricelli; na Inglaterra, o Gresham College, de 1596, apoiado por Francis Bacon, depois a Royal Society of London for Improving Natural Knowledge (Londres, 1660); na França, primeiro o Jardin Royal dês Plantes Medicinales ou Jardim do Rei (1635), criado por Luís XIII, que será denominado posteriormente Muséum National d’Histoire Naturelle, depois a Académie des Sciences de Paris (1666), onde debateram Descartes e Pascal; e, na Alemanha, a Academia de Ciência de Rostock, de 1620, a Academia Naturae Curiosorum (em Schweinfurt, 1652) e a Academia de Ciências de Berlim, no início do século XVIII. Essas são, entre outras, as condições para o incremento de um vigoroso movimento científico naturalista na Europa nos séculos XVIII e XIX. Nesses séculos, era de se esperar que os naturalistas pesquisassem e debatessem sobre a origem e a transformação dos seres vivos existentes nos diversos pontos do planeta, assim como se dedicassem ao estudo comparativo da morfologia dos distintos animais e de seus sistemas nervosos.

O surgimento do pensamento evolucionista moderno no século XVIII

Preparado pelo surgimento da nova ciência dos séculos XVI e XVII, o século XVIII foi época de intensos debates e disputas entre noções fixistas e transformistas da vida. O sueco Carl von Linné, ou Carolus Linnaeus (1707-1778), conhecido por seu sistema binominal de nomenclatura das espécies vivas, defendeu, em seus anos iniciais, uma noção fixista das espécies, pois “o Ser Infinito (Deus) produziu as espécies diversas na origem do universo” (Classificado plantarum, 1738). Nesse sentido, ele acompanhava o importante botânico inglês, John Ray (1627-1705), o qual afirmava que “jamais uma espécie nasceu da semente de outra espécie” (Historia plantamm, 1686). No final de sua vida, Linnaeus, provavelmente influenciado pela observação de mutações em plantas, admite aspectos transformistas nas espécies que estudara, pois as espécies (tais como as que sofrem mutações) “são filhas do tempo” (Amaenitates academicae, 1779).

Já no início do século XVIII, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) retoma a perspectiva aristotélica de continuidade entre os seres (assim como a concepção platônica relacionada à “grande cadeia do ser”), defendendo, entretanto, que, se todos os seres formam uma só cadeia na qual as diferentes classes de organismos se relacionam tão estreitamente umas com as outras, é quase impossível precisar o ponto em que uma começa e outra termina. Tal noção se traduz pelo aforismo citado por Leibniz, “Natura non saltum facit”, a natureza não dá saltos. As plantas e os animais, que são definidos como espécies pelo processo de geração (Leibniz já utiliza uma noção de espécie próxima à contemporânea) vieram, ou podem ter vindo, diz ele, de uma mesma origem ou semente, ou seja, de uma única e mesma espécie. Em seus Novos ensaios, escreve:

Tudo procede por graus na natureza, e nada em saltos, sendo que esta regra a respeito das mudanças constitui uma parte da minha lei sobre a continuidade. Entretanto, a beleza da natureza, que quer percepções distintas, exige aparências de saltos e, por assim dizer, quedas de música nos fenômenos, e tem prazer em mesclar as espécies. [...] Aliás, aprovo a pesquisa sobre as analogias: as plantas, os insetos e a anatomia comparativa dos animais fornecerão sempre mais analogias, sobretudo se continuarmos a servir-nos do microscópio ainda mais do que se faz agora.

Em meados do século XVIII, o pensamento do naturalista suíço Charles Bonnet (1720-1793) acompanha as noções de Leibniz. Em sua obra Contemplation de la nature (1764), Bonnet diz que, “entre o degrau mais baixo e o mais elevado da perfeição corporal ou espiritual, há um número infinito de graus intermediários, que compõem a cadeia universal. Ela une todos os seres, liga todos os mundos, abraça todas as esferas”.

Os dois maiores transformistas do século XVIII foram o naturalista Pierre - Louis Moreau de Maupertuis (1698-1759) e o filósofo iluminista Denis Diderot (1713-1784). Maupertuis propõe, precedendo em certo sentido Charles Darwin, um princípio de eliminação dos indivíduos menos aptos à sobrevivência. Na natureza, um número grande de indivíduos nas várias espécies, segundo ele, é composto por partes e órgãos que não satisfazem a suas necessidades; todos eles irão perecer. Os organismos que vemos hoje são os poucos sobreviventes de um destino cego que os produziu (Essai de cosmologie, 1750). Na mesma linha de Maupertuis, o filósofo iluminista Denis Diderot defendia que os seres vivos não representavam espécies fixas, mas seres em contínua transformação. Já em 1754, em seus Pensamentos sobre a interpretação da natureza, Diderot se pergunta, pensando na organização anatômica e funcional dos animais: “é impossível não acreditar que não houve um primeiro animal, protótipo de todos os outros animais, sobre o qual a natureza não fez mais do que alongar, encurtar, transformar, multiplicar ou obliterar certos órgãos?”.

Poucos anos depois, em sua obra Diálogo de D’Alembert e Diderot, ele é ainda mais explícito sobre a necessidade de uma teoria transformista que explique as mudanças que os organismos vivos sofreram ao longo de sua existência na Terra. Diderot afirma que:

Se a questão da prioridade do ovo sobre a galinha ou da galinha sobre o ovo vos embaraça, é porque supondes que os animais foram originalmente o que são agora. Que loucura! Não sabemos o que foram, assim como não sabemos o que se tornarão. O vermezinho imperceptível que se agita na lama encaminha-se talvez para o estado de grande animal; o animal enorme, que nos apavora por sua grandeza, encaminha-se talvez para o estado de vermezinho, é talvez uma produção particular momentânea deste planeta.

No início do século XVIII, o principal naturalista representante do fixismo era o profícuo e polígrafo Georges Marie Leclerc, conde de Buffon (1707-1788). Opositor dos praticantes da nomenclatura lineliana, recusou também a ideia de Leibniz de uma gradação insensível entre os seres. Nenhuma espécie foi produzida pela degeneração (o modelo de transformação). Os animais foram criados pela graça do Criador, e permanecem inalterados em sua forma e estrutura. No final da vida, entretanto, Buffon admitiu a possibilidade de um transformismo limitado, no qual espécies nobres não se transformam, mas gêneros e espécies menos nobres podem sofrer transformações, como o cavalo, a zebra e o asno, que teriam se originado de um mesmo molde.

Também se opõem ao naturalismo materialista de Maupertuis e Diderot, intelectuais filiados ao movimento romântico, como Goethe (1749-1832) e Lorens Oken (1779-1851), que formulam que o conhecimento da natureza pode ser ganho não apenas pela razão materialista e empiricista, mas pela intuição que transcende as experiências sensoriais (por isso, fundam uma anatomia transcendentalista ligada à Natuiphilosophie). Oken e outros trancendentalistas postulam, entretanto, em perspectiva transformista, que toda matéria, tanto inorgânica como orgânica, pode ser colocada e analisada em uma série linear progressiva (na perspectiva da scala naturae) e o desenvolvimento do organismo passa através de todos os grupos de animais abaixo dele (forma inicial da lei do paralelismo)', assim, todos os animais seriam, em relação ao homem, permanências de formas embrionárias que ainda não chegaram ao estágio humano.

Na segunda metade do século XVIII, os naturalistas franceses são testemunhas de um caloroso debate entre o principal cientista de sua época, Georges Cuvier (1769-1832), e o menos prestigiado Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844). Cuvier, excelente anatomista comparativo, vê na estrutura dos organismos uma harmonia organizada, um sistema fechado, único e perfeito, em que todas as partes se correspondem mutuamente; nenhuma parte ou órgão, como, por exemplo, nos carnívoros, os intestinos, a mandíbula, os dentes afiados, as pernas e as patas, as capacidades perceptivas da visão e do olfato e os mecanismos instintivos neuronais de atração por presas, poderiam se transformar de maneira independente. Se uma parte mudasse, todo o organismo deveria mudar. Assim, Curvier rejeita o transformismo e mesmo a scala naturae. Como paleontólogo, Cuvier reconhece a antiguidade dos fósseis, mas cria uma engenhosa “teoria catastrófica” (série de dilúvios, terremotos, maremotos) para explicá-los, a qual produz o cenário hipotético de fases em que as espécies são destruídas e depois novas espécies são recriadas do zero. Já Saint-Hilaire é assumidamente transformista e continualista. Focado na estrutura dos grupos de animais, ele postula haver uma unidade de composição orgânica na natureza. A semelhança da estrutura esquelética nos vertebrados, por exemplo, revela um princípio de conexão entre essas espécies; em todos vertebrados a medula espinal está alojada em um tubo ósseo, o que é prova inconteste da existência de um mesmo modelo.

É também no século XVIII que a paleontologia começa a se constituir de modo mais consistente; Giovanni Arduino (1714-1795) propõe a classificação de colunas geológicas relativas à evolução temporal e a períodos geológicos sequenciais da Terra: (coluna no estádio) primário (onde não se observam fósseis); secundário (coluna deformada e já com fósseis); terciário (com fósseis e com organização horizontal) e quaternário ou vulcânico (onde além de fósseis se verificam distintos tipos de areia e cascalho espalhados). No final desse século, o escocês James Hutton (1726-1797) propõe que os processos geológicos sejam vistos como um ciclo, sem começo e sem fim. Em relação à evolução dos organismos, Erasmus Darwin (1731-1802), médico, naturalista, poeta e avô de Charles Darwin, revelou intuições originais interessantes em suas obras biológicas. Para ele, a variedade de espécies animais e botânicas pode ter tido sua origem de um “pequeno número de ordens naturais, e os mestiços animais ou vegetais que puderam perpetuar suas espécies o fizeram e deram nascimento a numerosas famílias de animais ou de vegetais que existem atualmente” (Zoonomia, 1794). Intuindo no sentido da seleção natural de seu neto, ele diz que “os animais mais fortes e mais ativos são os implicados na perpetuação da espécie, que, desse modo, deve se aperfeiçoar”. Contudo, logo em seguida, alia-se à noção mais lamarckiana, quando diz que, “durante uma longa sucessão de gerações, por esforços contínuos realizados para busca de alimentos, os animais adquirem características que são transmitidas aos descendentes, resultando em uma melhora constante de suas partes, para obter seus objetivos desejados” (Zoonomia, 1794).

Todavia, a figura mais importante na transição do século XVIII para o XIX é, sem dúvida, Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, o Cavaleiro de Lamarck (1744-1829). Suas teses são bem conhecidas, pois são ensinadas até hoje nas escolas para mostrar seus erros e os acertos de Darwin. Comete-se, entretanto, bastante injustiça com Lamarck, pois ele foi um naturalista dos mais argutos e um teórico sofisticado. Suas teses evolucionistas basearam-se em duas ideias bem marcadas: a existência de uma gradação insensível entre os animais e a afirmação de que seus hábitos de vida influenciam a sua constituição e são transmitidos para as gerações subsequentes. Charles Darwin, que muito admirava Lamarck, concordava plenamente com essas duas teses principais, não tendo se oposto a Lamarck (como ensinam alguns livros escolares), mas, com a intuição genial de sua teoria da seleção natural, expandia e introduzia novos mecanismos evolutivos (segundo pensava o próprio Darwin), em vez de derrubar a teoria evolucionista de Lamarck. A bióloga e historiadora da ciência Lilian Al-Chueyr Pereira Martins realizou minuciosa leitura da obra de Lamarck, revelando como ele produziu uma obra avançada para sua época, abordando desde assuntos como química, origem da vida, desenvolvimento biológico, até a sua elaborada teoria da evolução.

O século XIX e o surgimento do darwinismo

Assim, no final do século XVIII e no início do XIX, a scala naturae de Aristóteles foi, em certo sentido, colocada de ponta-cabeça. Muitos cientistas passaram, de modo crescente, a defender uma visão oposta à de Aristóteles: as séries animais não representam séries de sucessivas degradações a partir do ser humano perfeito, mas, pelo contrário, os seres vivos evoluem, progridem de formas simples para formas cada vez mais complexas. Também nessa visão linear, nós, humanos, continuamos no topo, mas os outros seres vivos não são mais vistos como formas degeneradas, mas antes como formas pregressas ou primitivas (também em relação ao humano).

É no século XIX que a perspectiva de surgimento e transformação da vida como um processo natural, não controlado por forças sobrenaturais, que implica uma evolução biológica das espécies e de seus órgãos e sistemas, irá se consolidar. De fato, os naturalistas do final do século XVIII e início do XIX, como Erasmus Darwin, Saint-Hilaire e Lamark, tornaram-se cada vez mais convencidos de que os seres vivos atuais são o resultado de um lento processo evolutivo.

Por conta disso, os naturalistas do século XIX foram gradativamente se convencendo que deveria haver uma relação de parentesco entre os diversos seres vivos, entre as diferentes espécies. Nessa linha, as espécies biológicas não pareciam ser imutáveis, e as relações de semelhança entre elas deveriam ter algum significado, não apenas teológico (o plano de criação de Deus), mas natural, biológico. Era necessária, pois, uma teoria bem construída da mudança biológica para se compreender como fósseis de animais extintos há milhares de anos poderiam se relacionar com espécies vivas, atuais.

Cabe lembrar que foi também ao longo do século XIX que paleontólogos descreveram um grande número de fósseis vegetais e animais, incrementando as necessidades de teorização em termos de evolução biológica. Embora no século XVII o reverendo Robert Plot (1640-1696) já tivesse descrito ossos de dinossauros (atribuindo-os a elefantes), foi em 1824 que o geólogo inglês William Buckland (1784-1856) descreveu o primeiro dinossauro (um megalossauro). Em 1842, Sir Richard Owen propõe o termo dinosauria para designar três fósseis encontrados desse grupo. O paleontólogo norte-americano Othniel Charles Marsch (1831- 1899) coletou cerca de 80 novos gêneros de dinossauros, demonstrando a amplidão da vida fóssil; rivalizou com Edward Drinker Cope (1840-1897), que descreveu cerca de 65 novos gêneros de dinossauros. A competição dos dois no sentido de quem coletara o maior número de dinossauros fósseis ficou conhecida como “guerra dos ossos”. As evidências no sentido de transformações morfológicas temporais dos animais se avolumavam. Assim, faziam-se necessárias teorizações mais consistentes e mais bem amparadas em fatos naturalísticos.

Charles Darwin (1809-1882) investigou os seres vivos ao longo de sua vida para, ao final, chegar a algumas noções aparentemente simples que revolucionaram a ciência (e também, em certo sentido, a sociedade). Após uma infância e juventude colecionando besouros e aranhas, aos 22 anos de idade, empreendeu uma longa viagem como naturalista, em um pequeno navio real inglês, o Beagle, viagem cujo trajeto era ao redor do mundo, mas delongava-se na América do Sul. Por quatro anos e nove meses, de 27 de dezembro de 1831 a 2 de outubro de 1836, Darwin teve que suportar enjoos terríveis, vómitos, diarreias e dores de cabeça intensas, pois ele era extremamente sensível aos balanços do barco e ficava muito debilitado durante a viagem, para poder observar material geológico, plantas, insetos, aves, répteis e mamíferos, espécies vivas e fósseis, resgatados por nativos nas regiões que percorreu. Coletou tudo o que pôde, anotou em diários que somam vários volumes, dissecou animais, conservou-os em álcool e enviou-os para a Inglaterra, para estudos posteriores.

Além disso, antes e depois da viagem, Darwin cultivou plantas e criou animais em sua casa, escreveu um grande número de cartas para criadores de animais e agricultores, fazendo sempre perguntas sobre o processo de aperfeiçoamento das crias, tudo para entender como as espécies se modificam, sob a orientação dos homens, em hortas, pomares, granjas e criadouros, ou na natureza intocada. A mudança das espécies (Darwin quase não usa a palavra evolução), já aceita por muitos, foi o tema de sua vida, o mecanismo principal de tal transformação, a seleção natural (cujo esboço foi feito em 1842 e a publicação completa em 1859, em A origem das espécies), a descoberta, o longo insight que o transformaria em uma das principais referências da ciência biológica moderna (a “descoberta” da seleção natural, feita, diga-se de passagem, em paralelo por ele e Alfred Russel Wallace [1823-1913],[1] é até hoje tema de disputas entre simpatizantes de Darwin ou de Wallace).

A partir de suas observações detalhadas, Darwin logo concluiu que, se ocorreram mudanças nas espécies (ele se tornou cada vez mais seguro disso), tais mudanças não foram abruptas, mas muito lentas e graduais. Como a potencialidade para a reprodução das espécies é muito grande, mas as condições ambientais (sobretudo a quantidade de alimento disponível) são limitadas, ocorre uma constante luta pela sobrevivência. Os indivíduos mais aptos, mais bem adaptados para obter alimentos, escapar de predadores e reproduzir a contento, irão sobreviver e transmitir aos seus descendentes suas características. Além disso, a variação que se observa entre indivíduos, em determinados contextos ambientais, ora fixos, ora em intensa mudança, e sua seleção através da luta pela vida favorecem o surgimento de subpopulações diferenciadas dentro da espécie, as chamadas subespécies. Muito lentamente, tais subpopulações mais bem adaptadas às condições ambientais cambiantes dão origem a novas espécies.

Ao longo de incansáveis estudos, observações e reflexões, impedidos intermitentemente apenas por uma misteriosa doença crónica, Darwin percebeu que a evolução não poderia ser um processo linear, como pensava Lamarck (em linhas paralelas), mas um processo no qual ocorrem divergências a partir de ancestrais comuns.” No centro do modelo, em vez de linhas paralelas, Darwin propõe a árvore. Assim, duas espécies muito parecidas entre si deveriam ser descendentes de uma única espécie, que teria existido no passado e se extinguido. Dessa forma, concluiu Darwin, todas as espécies, parecidas ou muito distantes, são, de alguma forma, aparentadas entre si.

A evolução das espécies poderia, portanto, ser esquematizada por meio de uma “árvore da vida”. O mecanismo de tal processo não seria apenas a aquisição de caracteres adquiridos e a transmissão aos descendentes (a proposta de Lamarck, que, como referido. Darwin também aceitava, porém a considerava secundária em importância), mas a seleção dos indivíduos mais aptos à sobrevivência e à reprodução, cujos caracteres seriam transmitidos aos seus descendentes.

Segundo aquele que foi um dos principais biólogos evolucionistas do século XX, Emst Mayr, a teoria evolutiva em meados e finais do século XIX. ou seja, ao tempo de Darwin, deve ser desmembrada em cinco aspectos básicos, em relação aos quais os grandes naturalistas nem sempre concordavam. Assim, fariam parte das concepções darwinianas de evolução a ideia de uma descendência comum (espécies diferentes provêm de ancestrais comuns, até o extremo de todos os seres vivos provirem de uma única matriz comum), o caráter gradual da evolução das diferentes espécies (a transformação evolutiva sempre procede gradualmente, nunca aos saltos), a multiplicação das espécies (a diversidade de espécies ocorre continuamente e é produzida por adaptação diferencial), a seleção natural (que ocorre em duas etapas, a produção de variação e sua discriminação por seleção e eliminação, ou seja, diferentes taxas de sobrevivência e reprodução). A seleção natural foi o componente mais ousado e inovador do evolucionismo de Darwin, e que sofreu mais resistência por seus contemporâneos. O quinto aspecto básico é a especiação populacional. Segundo Mayr. embora Darwin, em A origem das espécies, revele ainda certa confusão acerca do conceito de espécie e especiação, pensava a especiação como um processo geográfico, tendo lentamente intuído um “princípio de divergência”, abrindo caminho para a noção de especiação simpátrica.          

No final do século XIX e início do XX, várias sínteses foram buscadas no sentido de tornar a teoria da evolução mais abrangente, com êxitos variados. O paleontólogo de vertebrados norte-americano Edward Drinker Cope (1840-1897) propôs uma interessante lei de não especialização de formas basais, que afirmava que as formas basais, ancestrais, deveriam possuir características anatômicas capazes de ter dado origem aos diversos tipos e estruturas mais especializadas na história do filo. Compatível com essa proposta de Cope, foi sugerido que as formas mais apicais, mais ramificadas nas árvores dos filos, tenderiam a ser mais especializadas. Posteriormente, foi formulada uma lei de complexidade morfológica crescente (pelo sueco Erik H. O. Stensiö, 1891-1984, e pelo inglês David M. S. Watson, 1886-1973), que afirmava que, ao se estudar as camadas geológicas, os fósseis revelavam modificações progressivas da flora e da fauna, as quais indicavam transições de formas simples para formas mais complexas.

Mais ousado, entretanto, foi o paleontólogo belga Louis Dollo (1851-1931), que defendeu que a evolução deveria ser vista como um processo irreversível, asseverando que a evolução ocorria por saltos bruscos, que um organismo não pode voltar, mesmo que parcialmente, a um estado anterior já realizado por seus ancestrais, que todas as organizações irão, por fim, se extinguir, após percorrerem um longo percurso evolutivo. A evolução, para Dollo, seria, então, descontínua, irreversível e limitada. Dessas várias hipóteses, a irreversibilidade parece ter maior sustentação empírica. A evolução em saltos foi retomada, de forma mais sofisticada, através da teoria de equilíbrio pontuado (punctuated equilibria), formulada por Niles Eldredge e Stephen Jay Gould. Ela propõe que mudanças morfológicas rápidas no surgimento de novos grupos (ciados) filogenéticos são mais importantes do que processos graduais (gradualismo filético). O estado normal da linhagem é a ausência de mudança (stasis), com longos períodos de estagnação e, de tempos em tempos, ocorre a especiação, sendo que tais eventos de especiação seriam rápidos e revolucionários. Eles baseiam tal teoria no fato paleontológico de que a stasis é frequente no registro fóssil. Houve grande debate, nos anos 1970 e 1980, entre a visão de equilíbrio pontuado e o gradualismo (defendido por Mayr e outros). Atualmente, ao que parece, aceita-se que ambos os processos ocorrem; em alguns grupos de organismos prevalece a evolução e a especiação gradual; em outros, o equilíbrio pontuado.

Admite-se hoje que a evolução seja vista como o processo biológico fundamental que coloca a mudança dos organismos ao longo do tempo como elemento central das ciências da vida, ocorrendo mudança na forma ou na anatomia dos  organismos e também em suas funções (fisiologia) e comportamentos. Nesse sentido, relembramos aqui a frase lapidar de Dobzhansky, “nada na biologia faz sentido, exceto à luz da evolução”.

Assim, o processo evolutivo inclui praticamente todas as dimensões da vida, desde as formas dos organismos, em todos os níveis, incluindo as sequências de DNA, a estrutura celular, até a anatomia macroscópica, bem como a fisiologia do organismo, seu comportamento individual e social. A evolução pode também ser definida sucintamente, como postulou Darwin, como "descendência com modificações", ou melhor, mudança ao longo do tempo por meio de descendência com modificações. Outro modo de definir evolução, apoiando-se mais na genética de populações é como “mudança de frequência gênica de uma geração para outra".

Contudo, em que nível da vida dos organismos ocorre a evolução? Os biólogos evolucionistas concordam que ela ocorre em níveis diversos; no indivíduo, em famílias e em populações de indivíduos, mas também no nível genômico (evolução de genes, estruturas moleculares, DNA. RNA, nucleotídeos ou conjunto deles), no nível celular e dos órgãos e em sistemas orgânicos. Há considerável debate sobre quais são, em ordem de importância, as “unidades de seleção" que implicam os benefícios das adaptações produzidas pela seleção. Seriam, por exemplo, os genes, como postularam Williams e Dawkins, ou os indivíduos (como defende Mayr) ou, ainda, as populações (tese defendida inicialmente por Vero C. Wynne-Edwards [1906-1997], e atualmente por J. H. Koeslag)? Além da seleção natural, percebida por Darwin como o principal mecanismo da evolução biológica, outros mecanismos também são relevantes para a evolução: a seleção sexual e a seleção grupal (vistas por muitos como variantes da seleção natural), a deriva genética (processos aleatórios que ocorrem em populações pequenas, nas quais alelos podem, devido ao acaso, se perder ou permanecer), assim como uma série de processos de evolução neutra, sem implicar seleção.

Hoje, os biólogos evolucionistas concordam que a vida complexa surgiu e evoluiu na Terra apenas uma vez; todos os organismos que existem são linhagens evolutivas de um ancestral comum. Assim, a vida de todos os organismos baseia-se em um padrão molecular único que passa de geração para geração, mesmo sendo também basicamente modificável.

O entomologista alemão Willi Hennig (1913-1976) revigorou o estudo das relações evolutivas entre as espécies, formulando um método comparativo rigoroso de reconstrução das relações filogenéticas, denominado cladística. Esse termo reflete a ênfase de Hennig na correta identificação dos ciados, isto é, dos grupos de organismos que compartilham um ancestral comum. Assim, todos os taxa classificados corretamente segundo a perspectiva filogenética devem representar grupos monofiléticos (com apenas um ancestral comum). Um ciado é simplesmente um galho de uma árvore evolutiva; os galhos são conectados entre si através de um (ou um grupo de) ancestral comum.

No método de Hennig, as relações evolutivas são reconstruídas por um processo denominado “análise de caracteres” (character analysis). Um caracter é um aspecto morfológico, funcional ou comportamental observável, podendo ser uma estrutura anatômica (como o corpo caloso no cérebro dos mamíferos placentários), um padrão comportamental de acasalamento ou uma proteína ou sequência de DNA. Considera-se, então, o maior número de caracteres possíveis que identificam uma espécie e adota-se a noção de que espécies mais proximamente relacionadas filogeneticamente compartilham mais conjuntos de caracteres do que espécies mais longínquas. Para reconstruir a árvore evolutiva, busca-se o menor número de mudanças que expliquem a contento os padrões observados de caracteres; esta é a chamada “solução de máxima parcimónia”. Segundo Joseph Travis, apenas Carolus Linnaeus rivaliza com Hennig em influência sobre o processo de classificação dos organismos vivos.

Outro aspecto a salientar é que, em biologia evolutiva, busca-se explicar as semelhanças entre as espécies através de dois conceitos fundamentais; homologia e analogia. Quando diferentes espécies possuem características semelhantes porque elas as herdaram de um ancestral comum, diz-se que tais características são homólogas. Todos os mamíferos compartilham uma área cortical somatossensorial primária semelhante (Sl, área da percepção do sentido tátil) como uma divisão do isocórtex. Tanto humanos como monotremos, como o ornitorrinco, apresentam tal área cortical em seus cérebros por terem um ancestral comum. Assim, possuir tal área é um exemplo de homologia entre mamíferos.

Quando certas características semelhantes evoluíram de forma independente, diz-se que elas são análogas ou homeoplásicas. Alguns autores preferem o termo “análogo” para semelhanças em termos de função e “homeoplásico” para semelhanças aparentes, morfológicas. Assim, embora os membros anteriores de todos os vertebrados tenham evoluído de forma homóloga, o fato de morcegos e aves terem transformado tais membros anteriores em asas ocorreu de forma independente do ponto de vista evolutivo, sendo, portanto, as asas das aves e dos morcegos caracteres análogos e não homólogos. Quando semelhanças análogas evoluem produzindo órgãos parecidos funcional ou anatomicamente, diz-se que ocorreu uma evolução paralela ou convergente.

Teoria sintética da evolução ou síntese moderna

A partir dos anos 1920, vários geneticistas e bioestatísticos passaram a trabalhar com os princípios da evolução, buscando dar a eles uma base experimental mais sólida. A teoria sintética da evolução foi o esforço bastante exitoso de integrar a teoria evolutiva de Darwin com a teoria genética de Gregor Mendel (1822- 1884). Apesar de Mendel ter publicado seu trabalho enunciando os princípios da hereditariedade nos anos 1860, foi apenas no início do século XX que sua contribuição revolucionária foi, de fato, assimilada.

Nos anos 1920, muitos geneticistas pensavam que a noção de Darwin de que a evolução ocorria de forma profundamente gradual, continuista, era incompatível com a visão atomística da genética de Mendel, que havia sido erigida  sobre elementos discretos, caracteres fenotípicos determinados por genes hipotéticos que estariam na base da hereditariedade dos seres vivos. Foi um grupo de matemáticos e geneticistas (sobretudo o matemático britânico Ronald Fisher e os geneticistas J.B.S. Haldane, também britânico, e o norte-americano Sewall Wright ) que produziu modelos que prediziam que os genes mendelianos se arranjam, se misturam e separam-se por si mesmos, e são transmitidos em grupos, o que tomou tal modelo compatível com o gradualismo da teoria evolutiva de Darwin. Foi ficando claro que a maioria dos genes transmite caracteres de modo poligênico, em que muitos genes contribuem, assim, para traços fenotípicos contínuos (como a altura de uma pessoa) e bem menos frequentemente se encontram traços discretos ou dicotômicos transmitidos por um gene apenas (herança monogênica, dita mendeliana). Assim, a seleção natural de Darwin, utilizando-se do conceito de genes formulados por Mendel, era, de fato, compatível com um suave e gradativo processo de variações observáveis nos seres vivos.

Fisher, Haldane e Wright contribuíram para o início de uma vigorosa disciplina, a genética de populações, tornando claro que a evolução se relaciona mais a populações do que a organismos individuais. A evolução ocorre, nessa perspectiva, sempre que acontecem mudanças na frequência global dos genes de uma população, ainda que tais mudanças não sejam claramente perceptíveis.

Em 1908, o matemático inglês G. F. Hardy e o médico alemão W. Weinberg propuseram um princípio de equilíbrio de frequências de genes alelos, que passou a ser conhecido como equilíbrio de Hardy-Weinberg. Tal princípio tem uma sólida base matemática (que não abordaremos aqui) e parte de sete pressupostos para provar a ocorrência da evolução (concebida, então, como mudança da frequência de genes em uma população em sucessivas gerações). Se as sete condições estiverem presentes, não há evolução. Dito de outra forma, a evolução pressupõe que um ou mais desses pressupostos sejam rompidos. São eles: 1) não haver mutação; 2) não haver seleção natural; 3) existência de populações muito grandes (assim não há deriva genética); 4) não haver migração; 5) os cruzamentos entre os indivíduos devem ser regidos pelo acaso; 6) não deve haver diferenças nas frequências dos genótipos entre machos e fêmeas; 7) não deve haver mistura genética entre as gerações.

Tal princípio ganhou grande importância em genética de populações e teoria evolutiva, pois fornecia um padrão relativamente simples para comparação da frequência-padrão de genes em populações reais ao longo das gerações. Se a frequência gênica predita pela lei de Hardy-Weinberg não é obtida ao longo das gerações estudadas, então algo alterou o equilíbrio. Talvez os cruzamentos não se deram seguindo o acaso, talvez genes novos foram introduzidos na população, ou alguma pressão seletiva afetou a população (ocorrendo, p. ex., seleção natural). Talvez se trate de uma população pequena em que a deriva genética exerceu seu efeito. Enfim, se as frequências gênicas sob investigação não se mantêm constantes, então algo deve estar produzindo a mudança. A base para estudos experimentais em evolução se tornou disponível de forma simples e aplicável.

Além disso, foram fundamentais para a aceitação ampla da teoria da evolução e da síntese moderna no século XX as obras de autores como o biólogo inglês Julian Huxley, o geneticista nascido na Ucrânia Tehodosius Dobzhansky (Genetics and the Origins of Species, 1937), o taxonomista alemão Ernst Mayr (iSystematics and the Origins of Species, 1942), o paleontólogo norte-americam George Gaylord Simpson (Tempo and Mode in Evolution, 1944) e o botânico, também norte-americano, George Ledyard Stebbins Jr. (Variation and Evolution in Plants, 1950).

A síntese moderna envolveu, portanto, os campos da genética, paleontologia, sistemática, zoologia e botânica, estabelecendo cinco princípios evolutivos principais: 1) há uma imensa variação intrapopulacional e geográfica nos caracteres fenotípicos; 2) em última análise, tal variação é devida apenas à mutação genética e à recombinação; 3) tal variação é necessária para que a seleção natural funcione; 4) as variações geográficas de caracteres são adaptativas e, finalmente. 5) os fenômenos macroevolucionários, assim como os microevolucionários, são regidos por variação fenotípica e seleção natural. A esses princípios correspondem rejeições de noções assentadas na biologia do século XIX e do início do XX, tais como: 1) a scala naturae ou “grande cadeia do ser”, como compreendida pela tradição intelectual ocidental, ou simplesmente não existe, ou não faz sentido: 2) noções como ortogênese (evolução para formas cada vez mais perfeitas) e a transmissão de caracteres adquiridos não ocorrem, são fantasias teóricas apenas: 3) não há “animais primitivos viventes” ou “fósseis vivos” (todo organismo vivente é o produto de um processo evolutivo particular), pois apenas os caracteres podem ser considerados mais basais ou mais derivados, e os caracteres podem se tomar mais complexos ou mais simples com o passar do tempo evolutivo.

Nessa mesma linha, na segunda metade do século XX, os biólogos evolucionistas chegaram à conclusão que os processos macroevolutivos (evolução de novas espécies) e microevolutivos (evolução de sistemas orgânicos intraespecíficos) são, em essência, os mesmos. Há, em conclusão, quatro forças evolutivas: seleção natural, mutação, migração e deriva genética.

A partir dos anos 1980, a comparação dos genes do desenvolvimento de várias espécies de grupos taxonômicos diversos fez emergir uma nova perspectiva em biologia, a que integra a biologia do desenvolvimento com a biologia evolucionista, aproximando a genética molecular e a embriologia dos conceitos fundamentais da evolução. Assim nasceu o que se passou a chamar de “evo-devo”, de evolution-development. Trata-se da descoberta de que a maioria dos genes reconhecidos como organizadores da construção corporal de invertebrados, como a drosófila (mosca-de-frutas), são os mesmos genes que organizam a constituição corporal da maioria dos animais, inclusive mamíferos e a espécie humana. Todos os animais complexos, artrópodes, moluscos, répteis, aves ou mamíferos, compartilham um “kit de ferramentas” comum que contém os genes ditos “mestres”, que, como verdadeiros maestros, coordenam a formação e a diferenciação do corpo de seus organismos.

O estudo desses genes e a compreensão de mecanismos de desenvolvimento dos organismos abriram novas perspectivas para o estudo da evolução. A noção, permitida, inclusive, pela análise dos genomas de diversas espécies, revelou que moscas, camundongos e humanos compartilham um grande número de genes fundamentais para suas constituições. Assim, ficamos sabendo que 21% dos genes do Homo sapiens são compartilhados com todos os seres vivos, procariotos e eucariotos, outros 32% são homólogos aos de todos os eucariotos (organismos com membrana nuclear e organelas). Além desses 53% de genes compartilhados até com organismos unicelulares, outros 24% são compartilhados apenas com animais multicelulares (somando, então, 77% dos genes). Por fim, compartilhamos mais 22% de nossos genes apenas com os outros vertebrados. Dessa forma, compartilhamos 99% de todos os nossos genes com um camundongo. Tais dados da evo-devo e da genômica contemporânea apoiam de forma contundente o genial insight de Darwin sobre a descendência comum de todos os seres vivos deste planeta.

A investigação sobre o desenvolvimento dos organismos e sua articulação com seus processos evolutivos filogenéticos foi, recentemente, aplicada ao caso humano (com inspiração no projeto evo-devo). O antropólogo e psiquiatra de crianças Melvin Konner escreveu uma longa e preciosa obra analisando a evolução (filogenética) da infância humana, mostrando como a compreensão do desenvolvimento da criança humana ganha nova luz sob a perspectiva do evolucionismo darwiniano.

Origem e a evolução do homem segundo Darwin

Charles Darwin reconhece, em sua autobiografia, que o livro mais importante que escreveu foi A origem das espécies, publicado em novembro de 1859 (“Trata-se, sem dúvida, da principal obra de minha vida”). Nele, todas as provas possíveis que pôde reunir a favor da evolução e da transformação das espécies são apresentadas, juntamente com uma teoria central destinada a explicar o mecanismo pelo qual novas espécies surgem e desaparecem, a seleção natural. Em A origem das espécies, Darwin não quis expor a evolução de qualquer espécie em particular e evitou deliberadamente discutir como isso teria ocorrido no caso do homem. Ele acreditava que incluir o homem no debate sobre a evolução das espécies favoreceria a rejeição de seu livro por parte das mentes mais conservadoras e religiosas do mundo intelectual da época. Contudo, a questão do lugar do homem na natureza era, de fato, um tema central para Darwin e seus interlocutores científicos mais próximos.

O cirurgião, paleontólogo e professor de anatomia comparada Thomas Henry Huxley, amigo e colaborador, conhecido como “o buldogue de Darwin”, publicou, em 1863, um livro apresentando “Evidências do lugar do homem na natureza” (Evidences as to Man’s Place in Nature), analisando em detalhes os símios mais parecidos com o ser humano. Nessa obra, Huxley descreve os conhecimentos acumulados por viajantes, exploradores e alguns poucos naturalistas sobre os grandes símios: gibões, mandris, orangotangos, chimpanzés e gorilas. Analisa aspectos anatômicos e comportamentais desses primatas. Huxley defendia a ancestralidade símia do homem com base em semelhanças anatômicas, afirmando que a proximidade entre o homem e esses grandes símios era maior do que entre estes e outros primatas.

Huxley também ficou conhecido por seu intenso debate com Sir Richard Owen (1804-1892). Chamado o “Cuvier inglês”, por sua grande erudição em anatomia comparada, Owen era um dos principais especialistas em anatomia de primatas. Em 1857, Owen afirmou enfaticamente que o cérebro humano era tão distinto, que separava o ser humano de todos os outros mamíferos, criando para o Homo sapiens uma subclasse especial, Archencephala (para ele, com o sentido de ruling brain, ou “cérebro dirigente”). Tal distinção baseava-se em três critérios: 1) apenas humanos possuiriam o lobo cerebral posterior que se estende inteiramente sobre o cerebelo; 2) apenas humanos possuiriam o como posterior do ventrículo lateral; e 3) apenas humanos apresentariam o hippo  campus minor (o hipocampo, uma estrutura muito importante para a memória, situada na parte medial do lobo temporal. Além disso, Owen, o mais prestigiado anatomista comparativo da Inglaterra, rejeitava a um só tempo a teoria da evolução de Darwin, a seleção natural e a origem primata do ser humano. Huxley procurou desmontar ponto por ponto os argumentos de Owen, mostrando, ao que parece, evidências mais convincentes. O debate Owen-Huxley durou dois anos, chegando à imprensa geral. O escritor Charles Kingsley, em seu livro para crianças The Water Babies, de 1863, ironizou os dois, dizendo que “os macacos têm hippopotamus majors, assim como os homens... Não se pode confiar em nada a não ser no teste do hippopoamus majors”.

As polêmicas em tomo da ascendência do homem estavam borbulhando. Da mesma forma que Huxley publicara Evidences as to Man’s Place in Nature, o também amigo de Darwin e mais importante geólogo inglês daquele século, Charles Lyell, havia, no mesmo ano de 1863, publicado o livro Antiquity of Man. Darwin não poderia ficar fora do debate sobre o lugar e a origem da espécie humana. Além disso, sua convicção de que o homem, apesar das acentuadas diferenças em relação aos animais, era, ao final, um animal como os outros, marcava sua mente de naturalista. As diferenças intelectuais, comportamentais, linguísticas e mesmo morais entre o homem e os animais eram, sobretudo, de grau, e não de qualidade ou essência. Entre o homem e seus parentes animais (e não apenas os primatas, mas também cães, gatos, aves e mesmo insetos) haveria uma continuidade inescapável.

Curiosamente, a obra sobre a origem do homem, The Descent of Man, publicada em 1871, é um livro aparentemente duplo; seu título completo é The Descent of Man and Selection in Relation to Sex. A seleção sexual, mecanismo complementar à seleção natural, tratava do mecanismo por meio do qual, na escolha e na relação entre os parceiros sexuais, fêmeas escolhem determinadas características dos machos, estes lutam entre si ou competem mediante caracteres visíveis, como a plumagem, ou comportamentos, como danças, cantos e outros atos exibicionistas para ganhar a preferência das fêmeas do bando. Tal mecanismo seleciona caracteres eventualmente relacionados a maior força e capacidade de luta, mas também outros caracteres em princípio inúteis. Isso intrigava Darwin desde sempre. Analisemos, contudo, um pouco mais devagar o livro sobre a origem do homem.

A parte destinada exclusivamente à origem do homem tem sete capítulos, a seleção sexual tem mais 11, e, na parte de conclusões, mais três capítulos. Os sete capítulos da origem do homem relatam as evidências anatômicas, embriológicas e, sobretudo, comportamentais e mentais que demonstram como o homem descende de espécies anteriores, intermediárias entre o homem moderno e os macacos antropoides; Darwin as designa como “early progenitors of man”, “our early semi-human progenitors”, “primeval men” e “ape-like progenitors”. No início do Capítulo VI, Darwin resume as principais teses defendidas no livro:

O homem passou por variações numerosas, ligeiras e diversificadas, que foram provocadas pelas próprias causas gerais, reguladas e transmitidas segundo as mesmas leis gerais válidas para os animais inferiores. O homem multiplicou-se tão rápido que, necessariamente, ficou exposto à luta pela existência (struggle for existence) e, portanto, à seleção natural. [...] O seu corpo é construído no mesmo plano homológico dos outros mamíferos.

Passa pelas mesmas fases de desenvolvimento embriológico. Conserva algumas estruturas rudimentares e fora de uso que, sem dúvida, em outras épocas deviam ser úteis. Neles reaparecem, ocasionalmente, alguns caracteres que temos razão de crer que os seus primeiros antepassados possuíram. [...] Essas características, por outro lado, são inteligíveis, pelo menos em larga medida, somente no caso de o homem descender, juntamente com os outros mamíferos, de algumas formas inferiores desconhecidas.

Do início ao fim do livro Darwin busca demonstrar com uma infinidade de exemplos da zoologia e da etnologia de sua época, sejam observações dele próprio ou de outros, que o homem é, ao final, como as outras espécies, um animal que pertence à natureza. Como todo organismo, ele foi e é sujeito à evolução. Tal evolução ocorre principalmente por ação da seleção natural. Os organismos e, entre eles, os símios antropoides de quem o Homo sapiens descende, são produzidos em número superior às capacidades do meio de sustentá-los, devendo, por isso, lutar pela existência, e tal luta seleciona os mais bem adaptados ao seu meio.

Além disso, nos animais, principalmente nos “mais evoluídos”, operam outros mecanismos evolutivos, como a seleção sexual e a seleção grupal. Na seleção sexual, os machos lutam entre si pelas fêmeas e estas escolhem os machos mais bonitos, com o canto ou plumagem mais atraente. Para Darwin, a seleção sexual teria sido responsável pela origem das diferentes raças humanas, já que ele acreditava que características como corpo sem pelos, cor da pele e dos cabelos têm pouca relevância para a sobrevivência, mas são caracteres externos que as fêmeas (principalmente) escolhem como mais ou menos atraentes. Isso culminou na origem das diferentes raças humanas, após o surgimento e a migração pelo mundo do Homo sapiens original. A seleção grupal explicaria por que sobreviveriam características como o altruísmo de certos indivíduos que se prejudicam individualmente (sendo eliminados antes de se reproduzirem) em prol do grupo.

Pode-se ver na obra The Descent of Man a análise de quase todas as questões que ocuparam as pesquisas do século XX sobre a origem e a evolução da espécie humana. Como foi possível que o Homo sapiens surgisse de espécies anteriores, primatas antropoides mais antigos que originaram o homem e os seus primos chimpanzés e gorilas? Darwin expõe teorias suas sobre o papel fundamental da linguagem nessa evolução (e na evolução do cérebro humano), a questão do bipedalismo e da posição ereta, como os instintos sociais e a sociabilidade devem ter sido elementos fundamentais para a sobrevivência dos grupos de hominíneos, o surgimento da inteligência humana para produzir o fogo, os instrumentos de pedra, armas e armadilhas, o papel da arte e da música. Enfim, Darwin estabeleceu um grande projeto de investigação científica, seguido, de modo consciente ou não, pela maioria dos paleoantropólogos até hoje.

 

2/6/2018 4:37:42 PM | Por Paulo Dalgalarrondo
Psicologia Evolucionista
Texto
Noções sobre evolução biológica e evolução do cérebro

A EVOLUÇÃO DOS ORGANISMOS VIVOS NÃO VISA UM FIM PREDETERMINADO

Devedora da ideia de progresso do Iluminismo europeu do século XVIII, parte da ciência dos séculos XIX e XX concebeu a evolução dos organismos vivos atribuindo-lhe um sentido, uma direção que aponta para sua crescente perfeição. A evolução filogenética das espécies conteria uma tendência quase incoercível para o progresso. Assim, a evolução progrediria dos organismos mais simples aos mais complexos, dos mais distantes aos mais próximos do homem; enfim, de organismos “inferiores” para organismos “superiores”. H. Beaunis, professor de fisiologia e psicologia fisiológica em Nancy e Paris, produziu um livro que sintetizava, no final do XIX, tudo o que se sabia sobre a evolução do sistema nervoso nos animais invertebrados e vertebrados. Já havia, naquele momento, um acervo de conhecimentos considerável; entretanto, ele era fortemente marcado pela ideia de que os distintos sistemas nervosos e cérebros, para serem compreendidos, deveriam ser colocados em uma linha única, ascendente e cumulativa, de animais inferiores ao topo da criação, a espécie humana. Faz-se necessário reexaminar aqui, logo de início, tais noções enviesadas, ainda arraigadas no discurso científico e no senso comum.

Seguindo o pensamento de paleontólogos e biólogos como Stephen Jay Gould e Richard Lewontin, assim como de filósofos da ciência como Daniel Dennett e Elliott Sober, seria bem mais sensato e pertinente conceber a natureza e a evolução de forma não teleológica. Isso quer dizer que assumo com esses autores o postulado de que a natureza não visa um fim determinado, não tem uma vocação para o melhor e para o mais perfeito, não possui uma intencionalidade para algo presumivelmente superior ou para o progresso (na verdade, como eles demonstram, esta visão não teleológica é um dos pressupostos centrais do pensamento de Charles Darwin). As espécies vivas não objetivam progresso algum; os indivíduos e as populações de qualquer espécie “buscam” (se é que se pode aqui utilizar este verbo), antes de tudo e de alguma forma, sobreviver e reproduzir. Foram os humanos, sobretudo a partir do século XVIII, que inventaram tal perspectiva e a projetaram para os animais e para todos os organismos vivos.

Talvez, se por “progresso” se compreender “melhor adaptado biologicamente”, possa ser salva essa noção de progresso para a biologia. Entretanto, há uma infinidade de modos pelos quais um organismo pode ser considerado “mais adaptado”. Muitos deles não implicam adquirir, por exemplo, cérebros maiores, ser “mais esperto” ou mais parecido com os humanos. Não há, seguramente, uma dimensão única de progresso que a noção de escala filogenética unilinear representa. Por exemplo, “progresso” (ou melhor, adaptação) para alguns mamíferos de vida subterrânea pode significar reduzir o sistema nervoso visual (ficar “mais cego”), para diminuir custos metabólicos.

Historicamente, foi ao longo da primeira metade do século XX que a noção de evolução linear progressiva foi sendo revista e criticada. Embora, ao final dos anos 1950, os paleontólogos e taxonomistas já tivessem abandonado totalmente a perspectiva linear da evolução, a maioria dos neurocientistas e pesquisadores do comportamento apenas se deram conta de tal mudança de paradigma nos anos 1970, sobretudo por meio do brilhante artigo de Hodos e Campbell (1969 y Scala naurae: Why there is no theory in comparative psychology.

Assim, atualmente é importante enfatizar que as diferenças da estrutura do sistema nervoso e do comportamento entre os vários organismos não os situam em uma escala hierárquica de seres inferiores e seres superiores. Cada organismo deve ser tomado como uma realidade singular. As distintas espécies têm histórias evolutivas específicas e peculiaridades adaptativas também específicas em seus ambientes. Em termos de tempo de sobrevivência na Terra, por exemplo, algas e bactérias seriam organismos “superiores”, mais bem adaptados, devido à maior capacidade de sobrevivência na dimensão geológica do tempo (mas poucos biólogos afirmarão que algas e bactérias são “superiores” em relação a insetos, aves ou mamíferos). Assim, ideias como a de progresso, de “seres superiores” e de hierarquia valorativa na natureza são noções antropomorfas aplicadas quase sempre indevidamente à natureza.

Os primatas, e, entre eles, o homem, têm cérebros maiores (em comparação com outros grupos de animais vertebrados e também com outros mamíferos) em relação ao tamanho de seus corpos e apresentam comportamentos sociais marcadamente complexos. Entretanto, insetos sociais, como abelhas, formigas e cupins, apesar de terem cérebros muito menores, também têm comportamentos sociais complexos (embora diferentes qualitativamente dos primatas) e funcionalmente exitosos. Assim, mesmo o tamanho do cérebro e o grau de encefalização devem ser relativizados em sua “importância evolutiva” (isso não quer dizer de modo algum, que o tamanho absoluto do cérebro não tenha importância funcional e estrutural).

O beija-flor de pescoço rubi tem um cérebro que pesa menos do que 1 g, e a baleia de barbatanas possui um cérebro com mais de 5 kg. Ambos os animais possuem uma variedade maravilhosa de comportamentos. Ambos cantam (o beija-flor adiciona ao canto uma dança para a corte da parceira), defendem seus territórios e parceiros, criam seus filhotes e migram sazonalmente para lugares muito distantes. Os beija-flores também constroem ninhos e resolvem alguns desafios que exigem reconhecimento de padrões na busca de distintas flores. Assim, é duvidoso atribuir maior valor ou complexidade para cérebros maiores. Os sistemas nervosos dos distintos organismos devem ser considerados em relação a suas condições específicas de vida nos seus hábitats particulares; devem, portanto, ser colocados em perspectiva com relação aos seus desafios de sobrevivência e reprodução e à história filogenética própria de cada espécie.

Os biólogos evolucionistas fazem uma distinção entre traços ancestrais, primários ou plesiomórficos que seriam características morfológicas, fisiológicas ou comportamentais herdadas desde os ancestrais do grupo do organismo em questão, e traços secundários, derivados ou apomórficos, adquiridos mais recentemente ao longo da evolução filogenética. É importante frisar, então, que traços apomórficos ou secundários não são, necessariamente, mais complexos do que os primários ou plesiomórficos; embora, muitas vezes, seja o caso, não é sempre que a evolução caminha do simples para o complexo, podendo ocorrer o contrário.

Assim, primitivo-evoluído deve ser lido preferencialmente como ancestral, mais antigo versus mais recente na sequência temporal (ou seja, derivado), e não de menor valor ou menor complexidade ou de menor valor adaptativo-evolutivo. O binómio simples-complexo indica apenas o número e a variedade de fatores envolvidos, sendo que simples não é igual a inferior e complexo não significa de valor mais elevado. Como já referido, nem sempre as soluções evolutivas fazem aumentar a complexidade. Em muitos casos, é a simplificação que representa uma melhor adaptação biológica. A evolução do cérebro não implica que cérebros maiores e mais complexos tenham sido produzidos para que surgissem animais cada vez “mais bem adaptados” ou “mais evoluídos”. O animal mais bem adaptado é aquele que responde melhor aos desafios ambientais e reprodutivos específicos que se colocaram para ele ao longo de sua existência em seu nicho, que não é estático, mas em permanente transformação. Para mantermos a humildade e reforçarmos a perspectiva, vale sempre lembrar que algas e bactérias nos precederam em bilhões de anos neste planeta e, possivelmente, presenciarão (ou talvez mesmo até causem) nossa extinção.

A noção estabelecida por Ernst Haeckel de que a ontogenia (o desenvolvimento do organismo na sua vida, da fecundação, passando pelo nascimento, até a morte) repete a filogenia (a evolução da espécie na história da vida no planeta), denominada teoria da recapitulação ou lei biogenética (na verdade, um desdobramento da “lei do paralelismo” dos filósofos naturalistas alemães do século XVIII e início do XIX, ou seja, a ideia de um certo paralelismo entre o desenvolvimento ontogenético do organismo individual e o desenvolvimento histórico das espécies naturais), muito popular no final do século XIX e em boa parte do XX, tem sido debatida e revista pelos biólogos na atualidade. Na época de Haeckel, acreditava-se que a evolução progredia em determinada sequência linear, na qual eram adicionadas partes novas às mais antigas (conceito de adição terminal), e que, ao longo do desenvolvimento, as partes mais complexas se superpunham às mais simples, as mais recentes às mais antigas (p. ex., o cérebro trino-triune brain, de Paul MacLean). O que a biologia evolucionista contemporânea tem constatado é que essa não é de forma alguma, uma regra.

O fundador da embriologia, Karl von Baer (1792-1876) foi um dos primeiros autores que com sua autoridade passou a refutar a “lei do paralelismo” (relacionada à teoria da recaptulação de Haeckel). O estudo do desenvolvimento do indivíduo e de seu cérebro ao longo da ontogenia é de importância para a compreensão da evolução por outro motivo. A evolução opera também em relação às distintas fases do desenvolvimento, havendo, portanto, a possibilidade de se estudar como cada fase do desenvolvimento é afetada por processos evolutivos.

Na segunda metade do século XIX e início do século XX, o estudo comparativo sistemático do cérebro de diferentes animais vertebrados e invertebrados foi “fundado” por Ludwig Edinger (1855-1918). influenciado em Heidelberg, Alemanha, por Karl Gegenbaur (1826-1903), um dos mais importantes anatomistas comparativos do século XIX. Curiosamente, em neuroanatomia comparativa, foi a filha de Ludwig Edinger, Ottilie (Tilly) Edinger (1897-1967), uma das principais personagens que contribuiu para o rompimento do paradigma evolutivo linear e hierárquico que dominou o campo até a segunda metade do século XX. No início de sua carreira, ela trabalhava com as teses do paleontólogo norte-americano Othniel Charles Marsh (1831-1899), que propunha que a evolução do cérebro dos mamíferos durante o período terciário se caracterizava pelo aumento progressivo de tamanho envolvendo os hemisférios cerebrais. A “lei de Marsh” afirmava que as espécies de mamíferos com cérebros pequenos estavam predestinadas à extinção por conta de limitações neuronais. Tilly Edinger começou a trabalhar sobre essa visão e talvez a questioná-la, já em finais dos anos 1920. Nesse contexto, ela ainda defendia uma visão linear e hierárquica da evolução do sistema nervoso, quando publicou seu famoso DieFossilen Gehime (Os cérebros fósseis), em 1929. Em 1938, ela teve de fugir da Alemanha nazista, indo para o Museu de Zoologia Comparada de Harvard, entrando em contato com Ernst Mayr e George Gaylord Simpson, muito envolvidos naquele momento com a elaboração da “síntese evolucionista” (compatibilização da teoria evolucionista de Darwin com a genética de Mendel). Sua concepção de evolução do cérebro transformou-se radicalmente, passando a rejeitar a visão linear e a lei progressiva de Marsh; não há linha evolutiva, não há hierarquia, o que há é a evolução adaptativa aos contextos ambientais cambiantes, podendo os cérebros aumentar, diminuir ou manter seus tamanhos com as transformações evolutivas.

 

NÃO HÁ TIPOS CEREBRAIS RELACIONADOS A GRUPOS HUMANOS ESPECÍFICOS

Toda e qualquer tentativa de associar habilidades mentais, capacidades cognitivas e diferenças entre os indivíduos com um tipo de cérebro ou com características do cérebro deve ser vista com ressalva. Há uma longa história, de pelo menos 200 anos, daquilo que foi chamado de “mitologia cerebral” (Hhnmythologie, na crítica de Karl Jaspers), ou seja, das formulações reducionistas, exageradas e equivocadas em aproximar cérebro e características comportamentais e mentais. Particularmente problemática e funesta é a associação entre grupos humanos como distintas raças, etnias, grupos religiosos, grupos profissionais, criminosos ou mesmo os chamados “homens de gênio” e um tipo ou perfil especial de cérebro. Nessa busca por identificar e marcar as pessoas por seu cérebro, profundas e danosas formas de discriminação social (racismo, etnocentrismo e sexismo, p. ex.) foram inspiradas, formuladas ou sustentadas por parte da ciência ocidental nos últimos dois séculos.

Stephen Jay Gould demonstrou de forma exaustiva como muitos autores da ciência (sobretudo correntes da antropologia física, da anatomia comparada, da psiquiatria, da psicologia e da neurologia) do século XIX e da primeira metade do século XX utilizou dados falsos e análises distorcidas para “provar” a superioridade dos brancos sobre nativos americanos e negros e dos homens sobre as mulheres. Nesse sentido, lançou-se mão de medidas (quase sempre com vieses de amostragem e/ou de mensuração) do tamanho global dos crânios, de partes do cérebro e de testes de inteligência feitos sem controle ou consideração por fatores culturais, estrutura e contexto de aplicação dos testes, fatores educacionais e socioeconômicos.

É consensual a noção de que o cérebro seja considerado um órgão de importância fundamental e intimamente relacionado ao comportamento e ao que se convencionou chamar mente. Isso é válido tanto para os animais como para o ser humano. Cérebros lesionados resultam em alterações sensoriais, motoras, cognitivas, comportamentais e mentais. Entretanto, saltar dessa noção bem estabelecida do ponto de vista empírico para tentativas de uma aproximação muito próxima e determinista entre tipos e áreas cerebrais e funções mentais e compotamentos específicos e subgrupos humanos é um ato de especulação bastante arriscado e impreciso, conduzindo, na maioria das vezes, a afirmações falsas.

 

O CÉREBRO NÃO É UMA UNIDADE AUTÔNOMA DE REFERÊNCIA DO COMPORTAMENTO E DA MENTE, MAS O ORGANISMO OU A PESSOA COMO UM TODO

Há uma tendência quase irresistível de atribuir ao cérebro ou a certas partes, áreas ou circuitos cerebrais determinadas características. Assim, lê-se, eventualmente, que as áreas pré-frontais planejam a ação, o lobo occipital enxerga os objetos, as áreas mesotemporais registram e produzem a memória e o aprendizado, a linguagem é captada e gerada pelos giros temporais superiores e frontais inferiores no hemisfério esquerdo, e assim por diante. A rigor, essas são formulações conceitualmente equivocadas ou, no mínimo, metáforas que podem induzir ao erro.

Nenhuma área ou circuito cerebral “percebe”, “sente”, “planeja”, “pensa”, “deseja”, “fala”, “se lembra” ou “alucina”. É a pessoa toda, esta sim, unidade de todos os fenômenos humanos que são estudados, ou o animal individual, no caso dos não humanos. Só na pessoa ou no animal individual é que, de fato, esses fenômenos ocorrem. O filósofo britânico P.M.S. Hacker, um dos principais estudiosos da filosofia de Ludwig Wittgenstein (1889-1951), afirmou:

Um cérebro não pode falar, não porque seja um imbecil, mas porque não faz sentido dizer - “meu cérebro está falando”. Eu posso ser um tagarela. Meu cérebro não pode. Cérebros não utilizam linguagem. Eles não têm opiniões, não argumentam, não levantam hipóteses, nem fazem conjeturas. Somos nós que fazemos essas coisas todas.

Certamente, é no cérebro que ocorrem processos funcionais fundamentais, sejam eles bioquímicos, biofísicos, celulares ou de grupos e circuitos neuronais pelo homem ou pelo animal. Também é certo que os processos mentais e os comportamentos ocorrem de forma mais “proximamente correlata” com funções cerebrais do que, digamos, funções do fígado ou dos rins. Isso é evidente e consensual.

Afirmar que “o cérebro pensa isto ou aquilo” pode ser um modo de se expressar. Entretanto, é preciso cuidado para não atribuir a uma parte do corpo, a um órgão específico (o cérebro) ou a parte dele (um dos lobos cerebrais, um circuito cerebral) processos complexos que são sentidos e realizados pela unidade total do organismo. Assim, Bennett e Hacker esclarecem que é o animal que percebe, não partes do seu cérebro, é o ser humano que pensa e raciocina, não seu cérebro. O cérebro e suas atividades, afirmam esses autores, tornam possível para nós - não para ele mesmo (cérebro) - perceber e pensar, sentir emoções e fazer e realizar projetos.

 

PRINCÍPIOS EVOLUCIONISTAS DE ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO E DO CÉREBRO

Há alguns princípios que orientam a compreensão da evolução dos sistemas nervosos dos animais. A maior parte dos princípios expostos a seguir foi apresentada de modo exemplar por Georg Striedter.

O primeiro princípio, possivelmente um dos mais relevantes para a evolução do cérebro, é o que afirma que muitos aspectos da estrutura e da função do cérebro são conservados ao longo da evolução das espécies animais. Associado a tal princípio da conservação está o fato de que espécies relacionadas mais proximamente do ponto de vista filogenético tendem a ter cérebros mais parecidos do que aquelas espécies mais distantes desse ponto de vista. Nessa linha, os neurocientistas constatam que o grau de conservação é mais elevado nos níveis de organização mais básicos do organismo (genes e moléculas), assim como nas fases iniciais do desenvolvimento. Assim, os cérebros dos embriões tendem a ser mais semelhantes entre si do que os cérebros de organismos adultos, quando são comparadas duas ou mais espécies. Também é interessante notar que, em particular nos vertebrados, os sistemas de conexão neuronal (vias, feixes, tratos, nervos, ou seja, estruturas de ligação compostas principalmente pelos axônios dos neurônios) são bastante conservadas filogeneticamente.

Um segundo princípio, também muito importante, está relacionado ao tamanho absoluto dos cérebros. Ao focar não as semelhanças entre os cérebros de duas espécies (baseadas na “conservação”), mas as diferenças nas novidades que se produzem, constata-se o importante princípio de que os cérebros tendem a mudar suas organizações internas à medida que mudam de tamanho. Nos grupos de animais vertebrados, o tamanho absoluto dos cérebros varia cinco vezes na ordem de magnitude, de menos de 20 mg a mais de 2 kg. Tais variações correlacionam-se com vários aspectos estruturais que também variam: número, tamanho e densidade dos neurônios, assim como determinados padrões de conectividade neuronal e o tamanho relativo das várias regiões cerebrais.

Dessa forma, as mudanças evolutivas relacionadas ao tamanho absoluto do cérebro necessariamente implicam uma reviravolta de mudanças estruturais, que, em sua totalidade, terão efeitos acentuados sobre o comportamento do animal. É curioso, no entanto, como lembra Striedter, que muitos neurocientistas veem o tamanho absoluto do cérebro como uma variável antiquada e que não informa nada; o relevante seria apenas o tamanho relativo do cérebro (divisão do volume ou peso do cérebro pelo volume ou peso do animal). Todavia, os dados da pesquisa neurocientífica evolucionista mostram que, embora o tamanho relativo do cérebro seja uma medida “calibrada”, importante porque controla a variável confundidora do tamanho global do corpo do animal, o tamanho absoluto do cérebro importa também, sobretudo para profundos rearranjos estruturais que tal aumento absoluto obriga.

Que mudanças estruturais mais evidentes se observam quando os cérebros mudam de tamanho absoluto? São de três tipos:

  1. mudanças desproporcionais no tamanho de certas subestruturas com o aumento global; 
  2. mudanças da organização interna das subestruturas; e 
  3. mudanças no padrão de conectividade.

 

Mudanças desproporcionais no tamanho de certas subestruturas. 

O exemplo mais expressivo é o do telencéfalo dorsal (nos mamíferos, p. ex., é representado pelos hemisférios cerebrais). A proporção que o tamanho global do cérebro aumenta, sobretudo nas aves e nos mamíferos, o telencéfalo dorsal aumenta muito mais, de modo desproporcional. Cada grande subestrutura cerebral apresenta um padrão (ou coeficiente) de aumento com o aumento global do cérebro, e cada um desses padrões é diferente para cada subestrutura. Um bom exemplo é o de que, nos mamíferos, conforme seus cérebros crescem, verifica-se um aumento desproporcional de isocórtex (neocórtex) e redução relativa do tronco cerebral.

Um aspecto importante a se destacar relacionado ao aumento do cérebro ao longo da evolução filogenética é o de que, à medida que a evolução foi criando cérebros maiores (sobretudo nas aves e mamíferos), isso foi ocorrendo através de um processo de “esticar” o tempo de maturação relativo do cérebro. Assim, estruturas (o lobo frontal em alguns mamíferos é um bom exemplo) que ficam prontas tardiamente no desenvolvimento ontogênico (do indivíduo, do nascimento ao período adulto) são também aquelas que se tornam desproporcionalmente maiores. Tal princípio pode ser resumido com a regra late equals large (mais tardios no desenvolvimento igual a maiores anatomicamente).

 

Mudanças da organização interna das subestruturas

Como o cérebro aumenta de tamanho globalmente, vai mudando também a organização interna das subestruturas. De modo mais específico, as regiões cerebrais, quando o cérebro cresce, tendem a fracionar-se em mais subdivisões, como núcleos ou áreas. Nesse sentido, com o crescimento do cérebro, formam-se mais subdivisões independentes, e o cérebro se toma um sistema mais complexo. As subdivisões formadas tendem a ganhar especificidade e a se especializarem para melhorar seu desempenho em determinadas tarefas. Uma forma de adaptar-se ao aumento do cérebro, em vez de formar novos núcleos ou áreas, é a laminação, isto é, os neurônios formam camadas ou lâminas especializadas. O modo como o isocórtex evoluiu nos mamíferos é o melhor exemplo de laminação como reorganização para dar conta do aumento absoluto do cérebro. A laminação é uma estratégia útil para a otimização do espaço e da energia despendida, que se tornam mais limitados conforme o número de neurônios aumenta. A laminação também permite o incremento da funcionalidade do sistema.

Mudanças no padrão de conectividade dos neurônios.

Constituem a terceira consequência do tamanho absoluto do cérebro. Assim, uma distinção entre cérebros pequenos e grandes é que, em cérebros maiores, tem-se um número maior de neurônios e as conexões nervosas tornam-se mais longas. Conforme os cérebros crescem, com o aumento do número de neurônios, diminui a densidade de conexões (proporção de neurônios que estão ligados diretamente). Isso é resultado natural do fato de que os neurônios individuais têm um limite em relação ao número de neurônios com os quais podem conectar-se. Ao diminuir a densidade de conexões, força-se o cérebro a tornar-se mais “modular". Isso significa que subestruturas cerebrais distantes entre si tornam-se mais independentes e autónomas funcionalmente e mais diferentes entre si. Até certo ponto, o aumento da “modularidade” é benéfico para o funcionamento do cérebro, mas “modularidade” excessiva impede um funcionamento coordenado do sistema como um todo.

Um bom exemplo de aumento de modularidade com o aumento do tamanho do cérebro é o surgimento de áreas corticais muito especializadas no córtex dos primatas, sobretudo no Homo sapiens. Essas áreas apresentam acentuada especialização para a visão, a audição, a percepção do próprio corpo, a motricidade e as funções cognitivas complexas (como é caso da linguagem na espécie humana).

Ainda que as modificações dos cérebros das espécies dependentes da mudança global do tamanho do cérebro sejam muito importantes, como relatado, mudanças independentes da variação de tamanho são também consideravelmente relevantes. Por exemplo, muitos padrões diferenciais entre as espécies em termos de neurogênese, migração neuronal e direcionamento dos axônios ocorrem de forma específica entre as distintas espécies e são independentes da mudança de tamanho global dos cérebros.

Por fim, um terceiro princípio diz respeito à relação entre o cérebro do organismo, todo o espectro de comportamentos que ele utiliza em sua vida e as condições e os desafios ambientais impostos pelo seu nicho ecológico específico, pelo seu hábitat. Como nos ensinaram Darwin e Wallace, a seleção natural é o principal fator na evolução das espécies, assim como dos diferentes sistemas orgânicos pertencentes a cada espécie. Sendo a evolução natural movida, sobretudo, pela relação da espécie com seu ambiente cambiante, irão se manter principalmente aquelas soluções evolutivas adequadas ao nicho ecológico. O sistema nervoso de uma espécie animal só pode ser compreendido considerando-se seu ambiente e os desafios de sobrevivência e reprodução impostos por tal ambiente. Tais desafios corresponderão a comportamentos mais ou menos aptos; tais comportamentos, por sua vez, se relacionam às estruturas nervosas que os viabilizam.

 

BAUPLAN OU PLANO ESTRUTURAL COMUM

Desde o século XVIII, os naturalistas perceberam que os grupos de organismos vivos eram constituídos segundo um número relativamente limitado de tipos, planos ou estruturas. O poeta e naturalista alemão Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832) notou que classes de organismos são constituídas de estruturas que compartilham os mesmos padrões morfológicos. Essas estruturas básicas passam por transformações em distintas partes do organismo; pétalas de flores seriam transformações de folhas, assim como o crânio representaria transformações de vértebras (muitas de suas intuições têm sido confirmadas por estudos atuais). Outros naturalistas como Etienne Geoffroy Saint Hilaire (1772-1844) e Lorenz Oken (1779-1851) defenderam resolutamente, como Goethe, a ideia de plano estrutural comum.

No século XIX, mais precisamente em 1848, o anatomista e naturalista inglês Richard Owen (famoso inimigo do darwinismo) sugeriu o termo arquétipo para indicar um organismo-modelo ou o conjunto de características compartilhadas por um grupo de seres vivos relacionados. Planos corpóreos conservados foram identificados por embriologistas e naturalistas como Karl Von Baer e Ernst Haeckel na segunda metade do século XIX. Foi apenas em 1945 que o filósofo e biólogo britânico Joseph Henry Woodger (1894-1981) sugeriu que o termo bauplan (bau-, construção; -plan, plano, mapa), do alemão mapa ou projeto de construção, deveria ser utilizado cientificamente em zoologia.

O conceito de bauplan é muito importante, pois revela a estabilidade morfológica presente em grupos de organismos (de filos até gêneros), assim como indica que alguns aspectos da morfologia embrionária ou adulta podem variar dentro de certos limites. A evidência mais forte a favor do bauplan é o fato de que existem relativamente poucos planos básicos de construção dos corpos dos animais comparando-se à enorme variedade de animais vivos ou extintos encontrados na natureza, assim como é extrema a variação de ambientes e nichos ecológicos que “forçam” a evolução diferencial dos animais. Perante tanta variabilidade, o número de planos de construção dos sistemas nervosos dos animais, por exemplo, é, de certa forma, reduzido.

De modo geral, as estruturas mais básicas que constituem o bauplan de um grupo de organismos desenvolvem-se no início da vida embrionária. Além disso, hoje se aceita que o conceito de bauplan pode ser evidenciado do nível genômico ao da morfologia total de organismos adultos.

Do ponto de vista evolucionista, o bauplan associa-se a duas outras noções relacionadas: conservação (princípio já mencionado anteriormente) e restrição. Tanto no nível genômico como no da estrutura anatômica ou no plano funcional, há estruturas que limitam e canalizam o que a evolução pode fazer com os organismos. Tais limites correspondem também a determinada história “assentada”, a estruturas já conformadas, a determinado sucesso evolutivo adquirido, que, por seu êxito, seria um desperdício reconstruir do zero a estrutura envolvida. Restrição é, de fato, um termo ruim para a ideia, pois grupos com caracteres restritos revelam grande sucesso adaptativo. Assim, por exemplo, os insetos são construídos com um número de segmentos limitados, muito “restritos” morfologicamente, mas ninguém questiona que os insetos sejam, como grupo zoológico, muito sofisticados em termos estruturais e muito bem-sucedidos evolutivamente.

Em relação ao cérebro, o exame do sistema nervoso dos animais, tanto invertebrados como vertebrados, ao longo da evolução filogenética, revela algumas dimensões que expressam as noções de conservação e restrição mencionadas: centralização (as células nervosas tendem a se dirigir para um ponto ou pontos centrais do organismo), cefalização (as células nervosas concentram-se no polo frontal do organismo), simetria (de vários tipos, mas sobretudo bilateral) e regionalização das subestruturas dentro do sistema nervoso.

A centralização é ilustrada pelo sistema nervoso dos anelídeos e dos artrópodes. Para o processamento de informações, a concentração das células nervosas em um ponto do organismo representa uma economia considerável tanto em termos de material citoplasmático (células distantes umas das outras necessitam de alongamentos maiores para se comunicarem) como de tempo de processamento. A cefalização relaciona-se ao fato de os organismos se locomoverem com o polo cefálico adiante. Assim, a primeira parte do corpo do animal que entra em contato com os estímulos químicos e físicos do ambiente é a porção cefálica. Estando os órgãos perceptivos nessa porção, a transmissão para o centro nervoso localizado no polo cefálico é mais rápida e eficiente. Simetria e regionalização são explicadas pelo segundo princípio anteriormente mencionado.

Tais dimensões, centralização, cefalização, simetria e regionalização, que foram conservadas ao longo da evolução dos organismos são, entre muitas outras, as que exercem canalização e restrição marcantes para o desenvolvimento de novidades na construção do sistema nervoso, ou seja, do bauplan de cada grupo de animais .Também se deve recordar que os mecanismos genéticos, celulares e moleculares básicos relacionados especificamente à função neuronal foram bastante te conservados, mudando pouco desde o surgimento dos sistemas nervosos mais simples em hidras, planárias e águas-vivas até o surgimento de organismos mais complexos, como aves e mamíferos. Dessa forma, é interessante seguir o desenvolvimento do sistema nervoso do conjunto de animais invertebrados e vertebrados, em seus diversos filos, classes e ordens, que, se transformou mantendo alguns planos de construção básicos relativamente inalterados. 

10/12/2017 6:27:52 PM | Por Reinaldo Dias
Psicologia social
Texto
O setor não estatal e as parcerias estratégicas

Na segunda metade do século XX destacou-se, no cenário global, um tipo de organizações agrupadas no que se convencionou denominar terceiro setor embora não fossem novas, assumiram um papel fundamental na articulação de políticas públicas setoriais em todos os níveis. Seu papel complementar ao do Estado se tornou de tal significado que em muitos âmbitos é inconcebível se desenvolverem políticas sem a parceria com essas organizações não governamentais, sem fins lucrativos. Neste texto, pretende-se discutir o seu papel complementar às políticas oficiais e outras características que as tornam agentes essenciais de uma sociedade mais participativa. Como desdobramento natural do texto, discute-se o papel das parcerias na gestão pública, incluindo as modalidades que envolvem somente o setor privado.

O setor público não estatal e as políticas públicas

Há um aumento crescente das demandas que o Estado deve assumir para atender às necessidades da população. Ocorre que esta ampliação de atendimento de novas necessidades não vem acompanhada por uma ampliação da estrutura estatal, nem por uma crescente capacitação de agentes públicos em temos novos, emergentes, o que poderia levar a uma perda de legitimidade dos governos que gerenciam os negócios do Estado. É nesse contexto que as organizações não governamentais sem fins lucrativos surgem para suprir esta lacuna, apresentando-se como organizações bastante flexíveis do ponto de vista estrutural, e focadas em determinados temas, os que as tornam especializadas, reunindo condições de um melhor atendimento dessas questões pontuais, que podem estar relacionadas ao meio ambiente, ao idoso, ao esporte, à educação, à saúde entre outras áreas.

É nesse sentido que surge uma necessidade crescente do Poder Público de estabelecer parcerias na execução de políticas públicas. Essas parcerias, que ainda são relativas, mas crescentes, permitem a ascensão de atores sociais com poder significativo no enfrentamento de questões pontuais e que dizem respeito a prerrogativas antes exclusivas do Estado. Este é o caso das organizações do terceiro setor (ONGs, fundações, entidades filantrópicas etc.) que se mostram cada vez mais como uma alternativa no processo de reorganização do Estado, intensificando o processo de parceria entre as organizações sem fins lucrativos e o Estado, na execução de políticas públicas antes exclusivas do aparelho estatal.

Essas organizações do terceiro setor estruturam-se de modo geral em torno de um único tema, o que as torna altamente competentes no enfrentamento ou no atendimento de temas públicos. Sua especificidade, sem vínculo com o Estado, e o fato de não visarem lucro em sua atividade permitem que mantenham articulações permanentes a nível internacional, sendo capazes de obter apoio financeiro e moral às suas ações, possibilitando inclusive que façam frente ao poder do Estado quando haja necessidade, embora na maior parte das vezes ocorra um entendimento em questões específicas.

A necessidade de o Estado manter políticas sociais em função dos problemas gerados pela globalização e por uma política neoliberal predominante faz com que haja necessidade de reorganizar o seu papel e se corrigir as distorções ocorridas.

As principais distorções, como, por exemplo, a falta de transparência no manuseio dos recursos e a ausência da participação da sociedade em todo o ciclo em que se processam os benefícios sociais, deverão ser enfrentadas através da progressiva diminuição das atividades no seio do Estado e do fortalecimento dessas estruturas não governamentais sem fins lucrativos, que proliferam na sociedade e buscam melhorar as condições de vida e existência de vários segmentos da sociedade.

Essas organizações não substituem os partidos ou sindicatos, pois não apresentam propostas gerais para a sociedade ou para determinados ramos produtivos. No entanto, devido ao seu alto grau de conhecimento dos temas específicos que enfrentam, tornam-se uma alternativa de reorganização não só do Estado, que compartilhará com estas a execução dos serviços públicos, mas também de uma reorganização da sociedade como um todo, aumentando e propiciando canais de participação do cidadão, que retiram do Estado o monopólio e a responsabilidade exclusiva de execução de serviços públicos.

Por outro lado, a tendência de formação de blocos econômicos regionais com o Estado, abrindo mão de várias prerrogativas, aponta para um futuro de livre circulação de pessoas e produtos. Isto trará para o Estado maiores dificuldades no enfrentamento da questão social, pois haverá aqueles que atrairão mão de obra de outras regiões e que se tornarão caudatários da ação do Estado no território onde se encontram. A intensificação do fluxo turístico, por outro lado, causará inúmeros problemas em regiões e localidades que só poderão ser enfrentados com a parceria entre as organizações da sociedade civil e os órgãos do Estado em todos os níveis (federal, estadual e municipal).

Um mundo globalizado e integrado traz novos problemas e novas realidades em todos os campos - social, econômico, cultural etc. Necessita-se de novas abordagens que não podem ficar restritas aos velhos paradigmas, onde estão concentradas no Estado as responsabilidades de definição e execução das políticas públicas.

O terceiro setor: setor público não estatal

Como tema relativamente novo na análise social, essas organizações da sociedade civil assumiram importância crescente como alternativa de organização social, que apresentam como objetivo a prestação de serviços públicos nas mais diversas áreas - educação, saúde, lazer, turismo, direitos humanos, meio ambiente, cultura, habitação etc. - e que, no entanto, permanecem como organizações privadas sem vínculo com o Estado. Ou, dito de outro modo, podemos afirmar que o terceiro setor é constituído por organizações privadas, sem fins lucrativos, que geram bens e serviços de caráter público.

O espaço ocupado na sociedade por essas organizações constitui-se como um terceiro setor, público não estatal, onde tomam relevância novos valores, particularmente a solidariedade, em contraposição aos valores predominantes no setor privado - o lucro - e no setor público - o poder. Embora não sejam um fenômeno novo, pois sempre existiram entre o Estado e o mercado associações de todo tipo, têm assumido, nos últimos anos, papel relevante, tanto em termos econômicos como sob o ponto de vista social.

Esse terceiro setor compreende as organizações sem fins lucrativos: fundações, institutos, entidades filantrópicas, entidades de serviços sociais, entidades religiosas, as organizações não governamentais (ONGs), organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs), associações comunitárias e as mais diversas organizações de defesa dos direitos civis.

A caracterização mais difundida do terceiro setor foi formulada pela Johns Hopkins University, que identificou cinco aspectos principais para caracterizá-las:[1]

  1. são, em grande parte, organizadas e institucionalizadas;
  2. são privadas, ou seja, institucionalmente separadas do governo;
  3. não são distribuidoras de lucro;
  4. são autogovernadas;
  5. são, em grande parte, voluntárias.

É importante reafirmar que as organizações sem fins lucrativos não representam uma novidade no cenário social. Elas sempre existiram ao longo de todo o processo de consolidação do sistema capitalista. São organizações que não visavam ao lucro e não pertenciam ao Estado. O diferencial é que, ao longo da história, essas organizações nunca chegaram a ter o papel que vêm assumindo atualmente, chegando a se constituir numa alternativa aos dois setores tradicionalmente existentes.

O espaço das organizações do terceiro setor vem se ampliando porque se caracterizam mais como uma manifestação da cidadania em um estágio superior de organização e participação do que como uma alternativa política e social. Na realidade, a imensa maioria dessas organizações não chega a questionar as bases do sistema e caracterizam-se por se ocupar de temas pontuais, não procurando disputar o poder político e tampouco competir com os partidos.

Um aspecto que deve ser considerado na história dessas organizações é a crise de identidade que durante certo tempo impediu-as de se colocarem como uma alternativa de organização da sociedade, constituindo o que estamos chamando de espaço público não estatal.

Nascidas dentro de um processo dialético de “negação da negação”, muitas vezes não compreenderam ou não aceitaram este novo papel que chega a se constituir em um processo de evolução da sociedade como um todo. Negaram primeiro ser governo (não governamentais), e, ao ocuparem o espaço privado, preocuparam-se em marcar sua diferença com o mercado (não visam ao lucro). O que de início poderia parecer um limbo - nem privado, nem público -, hoje, na realidade, desponta como uma alternativa de organização da sociedade.

Devido ao seu crescimento, pode-se considerá-las como um pressuposto de organização social que busca o bem-estar nas suas mais variadas formas. São, de modo geral, monotemáticas: atuam em prol da ecologia, direitos humanos, crianças, paz, e um sem-número de bandeiras sempre pontuais e bastante específicas. Embora não necessitem do Estado para seu desempenho, o consideram um interlocutor [114] importante por este ser um ator que, além de deter muito poder, dispõe de significativo capital retirado do processo de acumulação.

Sua importância crescente pode ser vislumbrada por um estudo divulgado pelo IBGE, em 2008, mostrando que, em 2005, existiam 338 mil fundações privadas e associações sem fins lucrativos, que empregavam 1,7 milhões de pessoas em todo o País. Desse total, 35,2% atuavam na defesa dos direitos e interesses dos cidadãos, 24,8% eram instituições religiosas e 7,2% desenvolviam ações de saúde e educação e pesquisa.[2]

Essas organizações têm como vantagem em relação ao Estado o fato de constituírem, em sua maioria, estruturas flexíveis, de baixo custo, o que lhes permite uma maior agilidade e uma permanente capacidade inovadora na ação.

A globalização, ao colocar em crise o Estado de Bem-estar Social, com todos os aspectos negativos decorrentes, em particular o aumento da miséria e do desemprego considerado em termos globais, coloca, ao mesmo tempo, a questão do retorno ao debate da ação social do Estado e da participação (integração) da sociedade nessa ação.

As organizações do terceiro setor tornam possível a realidade de ampliar a participação da sociedade civil na execução de serviços sociais anteriormente restritos à ação “mecânica” do Estado e se colocam como uma opção para o Estado transferir parte de suas atribuições a essas entidades.

Outro aspecto a ser considerado é que a solidariedade humana, ausente na ação do Estado, é um fator necessário e absolutamente indispensável no combate à pobreza, à desigualdade e às injustiças sociais. Na sociedade globalizada, as organizações do terceiro setor apresentam esse componente fundamental da solidariedade que ocupa o “terreno abandonado pelo mercado e pelo Estado em virtude da baixa rentabilidade ou da falta de recursos financeiros".[3]

As possibilidades de aumento do desempenho das organizações do terceiro setor em um mundo globalizado crescem na medida em que aumenta sua autonomia, propiciada pelas múltiplas articulações globais e pela relativa facilidade de locomoção no cenário internacional. De fato, suas ações específicas, de modo geral, podem apresentar articulações extranacionais que lhes dão suporte e possibilitam o seu desempenho, mesmo contrariando interesses nacionais e internacionais poderosos, sejam estes econômicos ou políticos.

As ações desenvolvidas pelas ONGs, de modo geral, apresentam uma certa semelhança entre si. Induzem a uma ação da comunidade internacional, do Estado ou da sociedade em aspectos pontuais da problemática social — os meninos de [115] rua, menores explorados no trabalho, turismo sexual, discriminação de todos os tipos, direitos humanos. Diferentemente dos movimentos sociais, as ONGs não interrompem sua ação após obtida a atenção do Estado -, acompanham, fiscalizam, especializam-se e capacitam-se cada vez mais.

Uma possível sociedade com foco no bem-estar social poderia ser constituída tendo por base a articulação da sociedade, representada pelas organizações sem fins lucrativos e o Estado, fiscalizado e controlado em aspectos pontuais de sua ação por essas organizações.

Embora o terceiro setor venha assumindo papel cada vez mais relevante nas economias nacionais, muitas organizações sem fins lucrativos ainda não compreenderam ou não dimensionaram as modificações que estão em curso na sociedade, mantendo-se presas a seus objetivos específicos e evitando relacioná-los com a realidade mais geral.

Há necessidade de uma evolução, por parte de suas próprias lideranças, na compreensão do papel a ser desempenhado pelas organizações sociais. A visão particularista que permitiu durante muito tempo que essas organizações realizassem um trabalho efetivo obtendo resultados pontuais significativos deve ser substituída pela visão holística que permita situar cada ação específica da entidade dentro de um todo complexo que inclua a discussão de seu papel perante o Estado e o mercado.

Numa visão bastante crítica do setor, Jeremy Rifkin expressou que:[4]

“o problema é que os participantes do Terceiro Setor estão em um status neocolonial. Pensam como um setor subjugado. Suplicam ao governo, ao mercado e às instituições filantrópicas para obter verbas. Têm de compreender que o governo está começando a desaparecer da vida das comunidades, que seu papel é cada vez menos importante, que está passando a delegar verbas e programas. O mercado está tornando-se cada vez mais globalizado e não interno. Que vai acontecer com as fundações? A responsabilidade da vida cívica passará a ser delas e do setor não governamental. Esse é o processo de libertação”.

Embora Rifkin tenha escolhido um determinado cenário futuro para o papel a ser desempenhado pelas organizações do terceiro setor, o fato é que outras alternativas a esse papel deverão incluir do mesmo modo o terceiro setor numa posição de destaque na sociedade.

Particularidades das organizações do terceiro setor

A importância que vem assumindo o papel das organizações sociais, como já foi visto, em função da crise do Estado do Bem-estar Social, e do surgimento de novos espaços transnacionais, coloca em xeque o papel tradicional do Estado de realocador principal dos recursos escassos. Para essas organizações do terceiro setor assumirem novas responsabilidades há, em particular, a necessidade de uma maior capacidade gerencial na captação e na destinação dos recursos.

Na questão da destinação dos recursos, o que diferencia uma entidade não governamental da governamental é a sua maior eficácia no atendimento das necessidades humanas. Por se estruturar em torno de determinada necessidade social, a entidade do terceiro setor apresenta-se com o domínio do conhecimento e técnica específica no enfrentamento de determinada realidade. Por outro lado, com a crescente complexidade das sociedades humanas, o aparelho de Estado não consegue criar mecanismos eficientes no enfrentamento de todas as questões que despontam neste fim de século. São diferentes realidades - o problema da violência, crianças desamparadas, turismo predatório, grupos sociais portadores de doenças específicas, diversos aspectos do problema ambiental, marginalização de minorias, urbanização, defesa de diferentes culturas, lazer etc. - que só superficialmente o Estado pode enfrentar.

O Estado brasileiro vem tentando formalizar a parceria entre o setor público estatal e o terceiro setor de modo a aumentar a eficiência no atendimento das demandas da população. Tendo em conta essa necessidade, foi criada lei, em 1999, definindo o que são organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIP) e se estabelecendo os termos de parceria dessas organizações com o Estado.[5]

A lei das OSCIPs, de 1999, visa estabelecer parcerias do Estado com a sociedade para a gestão de serviços de natureza social, contemplando o foco no cidadão-cliente, a ênfase no desempenho, a autonomia administrativa e o controle social. O Estado mantém as suas responsabilidades no fomento a estas atividades, transferindo recursos públicos para as organizações, passando a desenvolver controles mais eficazes, com base nos resultados efetivamente alcançados.

A ideia de aumentar o papel a ser desempenhado pelas organizações do terceiro setor traz em seu bojo a visão de que estas entidades sem fins lucrativos poderiam desenvolver uma administração mais eficiente na medida em que estariam submetidas à competição, e haveria maior transparência no uso dos recursos públicos na medida em que existisse uma maior fiscalização por parte da sociedade civil. O poder público realiza contratos de gestão com essas organizações especializadas, [117] que assim prestam serviços por prazo determinado, que só será renovado se forem alcançados certos patamares de produtividade e qualidade.

O grande problema a ser resolvido pelas entidades sem fins lucrativos é a obtenção de recursos para cumprir sua finalidade. A parceria com o Estado é importante, bem como a sua independência organizacional em relação a este, para se conseguir canalizar recursos que possam ser utilizados pelas organizações não governamentais.

Por outro lado, a manutenção de independência do terceiro setor permite a obtenção de recursos, não só do Estado, mas também de organismos internacionais, outros Estados e junto ao mercado. Essa capacidade de captação de recursos nos mais diversos setores torna a organização social cada vez mais autônoma e capaz de realizar parcerias com os setores que mais contribuem para a realização do seu fim específico. Entre as formas de captação de recursos mais comuns estão: obtenção de incentivo fiscal, renúncia fiscal de empresas, resultado da prestação de serviços, acesso a programas governamentais, comercialização de produtos, obtenção de linhas institucionais de financiamento e obtenção de recursos através de parcerias empresariais.

A característica do terceiro setor de ser ‘não governamental’ e ‘não lucrativo’ não o torna imune às influências do Estado e do mercado e dos condicionamentos sociais.[6] As instituições sem fins lucrativos, como toda organização, desenvolvem cultura organizacional em que afloram todos os problemas característicos existentes em qualquer corporação: luta pelo poder, distribuição dos recursos, definição de prioridades, disputa por hegemonia e muitos outros que podem ser encontrados em qualquer compêndio de administração. No entanto, se a referência para o estudo e a gestão da organização pública é a luta e manutenção do poder, e a da organização empresarial tem por base o lucro, as instituições do terceiro setor devem ter sua administração orientadas com base na solidariedade, um valor predominante neste segmento que as distinguem dos outros dois setores.

Deste modo, os diferentes interesses que se manifestam nas organizações sociais devem ter como referência a solidariedade. Este ponto é importante, pois ao se levar os instrumentos de administração científica, próprios da administração das empresas para se aumentar a eficácia ou eficiência das organizações do terceiro setor corre-se o risco de buscar a maximização na utilização dos recursos dentro dos parâmetros próprios do setor privado - aumento do lucro. A perspectiva das organizações do terceiro setor deve ser outra, completamente diferente, como vimos. Seu parâmetro de funcionamento é a solidariedade, o atendimento das necessidades humanas tendo como base um valor subjetivo relacionado com o sentimento humano. Desse modo, a contabilidade das organizações sociais não [118] pode se restringir a uma relação de custo-benefício visando à maximização do uso dos recursos do ponto de vista contábil.

Claro está que as organizações, sociais não podem, por outro lado, cair no subjetivismo próprio das organizações públicas patrimoniais anteriores à racionalidade capitalista e que se mantiveram em muitos Estados contemporâneos, o que as tomariam algo parecido com as organizações estatais, com todos os vícios de gestão próprios do setor público: tráfico de influência, compadrio, corrupção, clientelismo etc.

A administração do terceiro setor tem essa característica nova e difícil de ser articulada. Ser uma administração onde a eficácia e a eficiência da empresa privada estejam à disposição do atendimento das demandas e necessidades humanas tendo por base a solidariedade, não a solidariedade mecânica própria das estruturas do Estado, mas aquela existente em qualquer comunidade e que permitiu diferenciar a espécie humana de outras espécies.

As organizações do terceiro setor devem manter sua identidade dentro dos marcos de seu compromisso social. E, ao mesmo tempo, dar ênfase na necessidade de aumentar a sua eficiência e eficácia e o grau de profissionalização, para cumprir as novas exigências que irão surgindo em função da diminuição do papel do Estado e sua consequente incapacidade de gerenciar todos os aspectos da realidade social.

Algumas linhas de ação são possíveis de serem delineadas de imediato:[7]

  1. Aumentar a eficiência das organizações sociais mediante sua profissionalização. Isto implica evitar a dispersão, aumentando a concentração e especialização em determinadas áreas temáticas. Melhorar continuamente a qualidade dos serviços prestados e, ao mesmo tempo, desenvolver o conhecimento cada vez maior dos custos dessas atividades;
  2. Melhorar a administração interna das organizações sociais. Dispor permanentemente de sistemas de monitoramento e avaliação de suas atividades. Aumentar a transparência de suas ações aumentando a confiança do público-alvo e de possíveis contribuintes. Estabelecer estruturas mais democráticas e eficientes, aumentando sempre a independência política em relação aos órgãos de governo e dos partidos. Isso não significa que não deva ter posicionamento político, o que é bem diferente;
  3. Melhorar a capacidade de sustentação econômica e ampliar a fonte de recursos. Há um grande número de possibilidades de arrecadação, desde a cobrança pelas atividades que realiza e que estejam dentro do campo de sua competência até o recurso ao acesso a financiamento externo, [119] internacional ou mesmo comercial. O importante é adequar a sua ação à sua capacidade de captação de recursos de modo que possam realizar suas atividades sem quebra de continuidade.

Está claro que existem outras medidas que poderão e deverão ser tomadas e que fortalecerão o aspecto de se constituírem cada vez mais como alternativa de organização da sociedade.

Foram apresentadas aqui algumas ideias que poderão contribuir ao desenvolvimento de novos métodos de gestão do terceiro setor. E, ao mesmo tempo, tentamos demonstrar que a gestão deve ser diferenciada em relação àquela existente nos outros setores em virtude das motivações de sua constituição ser diferente: o mercado estrutura-se em torno do lucro, o Estado constitui-se tendo como referência o poder, enquanto o terceiro setor tem como fundamento de sua organização a solidariedade.

Tipologia das organizações do terceiro setor: OSCIPs/ONGs/ fundações etc.

Entre as inúmeras transformações que ocorrem no início do século XXI, a que atinge o Estado, como vimos, é uma das mais importantes. Ao redefinir suas funções, o Estado passa a compartilhar com outros agentes a realização de políticas públicas, que complementam sua ação e estabelecem uma nova forma de relacionamento na sociedade, ampliando a participação do cidadão comum, explicitando uma cidadania ativa que se envolve na realização de atividades em diversas áreas como: saúde, educação, serviço social, cultura, esportes, lazer, turismo, entre outras.

Como visto, esses novos agentes que complementam a ação do Estado, atuando em áreas onde este não pode, ou não consegue, atuar constituem um novo setor, que se contrapõe aos setores privado e público, e tem sido denominado terceiro setor.

Esse fenômeno que inclui um sem-número de organizações sem fins lucrativos, marca, no início do século XXI, a consolidação de um setor alternativo de atendimento a inúmeras demandas da população. Esse setor constitui um espaço público não pertencente ao Estado, embora realize funções anteriormente exclusivas deste.

Desse modo, ao se abordar o fenômeno de reestruturação das funções do Estado, deve-se incluir na discussão a constituição de um espaço público não estatal que se desenvolve e tende a crescer, motivado, por um lado, pelas dificuldades porque passa o poder público, que vê esvaziada sua capacidade de arrecadação. Entre outros motivos, podem ser destacados a volatilidade do capital financeiro e, [120] por outro lado, o aumento da complexidade das demandas da sociedade, que busca maior qualidade de vida e passa a dar maior importância a aspectos de sua realidade antes colocados em plano secundário, como, por exemplo: lazer, turismo, práticas de alguma atividade esportiva, atividades culturais, cuidado com o meio ambiente etc.

O fato é que as relações estruturais tradicionais entre o Estado, o mercado e a sociedade, estão sendo modificadas substancialmente e vêm passando por um processo de reestruturação. Novos atores se fazem presentes no tecido social, além das organizações que formam o terceiro setor, surgiram outras estruturas transnacionais não subordinadas a nenhum Estado em particular e que gozam de autonomia relativa na proposição de políticas comuns a serem seguidas por vários Estados.[8]

O terceiro setor é formado de vários tipos de organizações que, embora tenham características comuns, também apresentam particularidades importantes que as tornam úteis em determinadas circunstâncias e não em outras. São encontradas sob as mais diversas denominações como: fundações, organizações não governamentais, entidades filantrópicas, organizações sociais sem fins lucrativos, organizações sociais entre outras.

As organizações não governamentais (ONGs)

A expressão “ONG” foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) na década de 1940, para designar entidades não oficiais que recebiam ajuda financeira para executar projetos de interesse de grupos ou comunidades. Hoje, ela diz respeito a coisas tão diferentes quanto à Associação Internacional de Uniões de Consumidores, à Anistia Internacional ou aos Amigos da Terra, uma das maiores organizações ecológicas do mundo, com filiais em 47 países.

Os membros de uma ONG participam da solução de problemas coletivos, e suas principais características são: não têm fins lucrativos; são monotemáticas, ou seja, ocupam-se de um tema pontual, especializando-se neste assunto; são formadas por vontade própria de seus associados; respeitam as posições daquele pelas (e com as) quais atuam, mantendo em suas atividades um pleno respeito pelas filiações religiosas, políticas, ou de qualquer outra natureza, dos indivíduos e grupos sociais com os quais têm contato.

As ONGs ganharam maior notoriedade a partir da sua atuação em prol do meio ambiente, principalmente na década de 1970, logo após a Conferência Mundial do Meio Ambiente Humano, organizada pela ONU em 1972 e realizada em Estocolmo [120] movimento ambientalista decorrente tinha como eixo central inúmeras ONGs que foram ganhando notoriedade, e muitas, hoje, são mundialmente conhecidas.

Ampliando o leque de atuação setorial das ONGs, estas se multiplicaram, envolvendo-se em outras questões sociais no período final da ditadura militar, na década de 1980, e definitivamente se incorporando ao cenário político-social no Brasil na década de 1990, quando o termo ONG se popularizou.

O processo de ganho de notoriedade das ONGs se deu também em função da reformulação do Estado, ou do processo da reforma do Estado brasileiro, iniciado na década de 1990. A crise econômica vivida na década de 1980 foi basicamente fiscal, ou seja, os gastos eram extremamente maiores que a receita. Tudo isso levou a uma mudança na percepção do papel do Estado, que não poderia mais continuar a financiar inúmeros programas sociais como anteriormente.[9]

Percebe-se, assim, que o processo é simultâneo: ao mesmo tempo em que as ONGs se fortaleceram, o Estado, diante de tantas crises, foi sendo reformulado e deu mais espaço para a atuação de organizações da sociedade civil. Não houve o enfraquecimento de um em detrimento do outro, mas, sim, uma mudança nas relações e no papel dessas instituições.[10]

Há vários modos de se classificar as ONGs, o mais comum é levando em consideração seus membros e as causas que defendem. Deste modo, podemos ter dois grandes grupos:[11] organizações que defendem a causa de seus membros e aquelas que defendem a causa dos outros.

O primeiro grupo é constituído por organizações que defendem a causa de seus membros sendo formadas por pessoas que lutam por seus direitos, de expressão, de inclusão etc. Por exemplo, organizações formadas por negros que lutam contra o racismo, ou por mulheres contra o sexismo, ou por gays contra o preconceito em relação à escolha sexual.

O segundo grupo é formado por organizações compostas por pessoas que se dedicam a defender o direito dos outros. São exemplos: meninos de rua, pessoas, sem-teto, usuários de drogas, vítimas de abusos contra os direitos humanos, vítimas de abuso sexual, excluídos da cidadania por pobreza ou ignorância etc.

Essa relação com o outro é uma características fundamental destas organizações, pois é segundo as reações que estabelecem com o outro que se podem entender e analisar seu papel e suas funções nas relações sociedade civil-mundo da exclusão e sociedade civil-Estado.[12]

Fundações

Uma fundação tem sua origem em um patrimônio ou conjunto de bens, enquanto uma associação se origina da vontade de um grupo de pessoas unidas por uma causa ou objetivos sociais comuns.

O art. 62. do Código Civil (Lei na 10.406, de 10 de janeiro de 2002) estabelece que, para criar uma fundação, “o seu instituidor fará, por escritura pública ou testamento, dotação especial de bens livres, especificando o fim a que se destina, e declarando, se quiser, a maneira de administrá-la. Parágrafo único. A fundação somente poderá constituir-se para fins religiosos, morais, culturais ou de assistência”.

As associações e/ou fundações de caráter beneficente, que desenvolvem ações no campo de assistência social, educação e saúde gozam de imunidade tributária - e também podem ser isentas das contribuições da cota patronal junto ao INSS.

Para fazer jus a esta imunidade tributária que significa estar livre de impostos de qualquer natureza, sejam federais, estaduais ou municipais, as organizações precisam atender ao dispositivo do Código Tributário Nacional, que, para classificá-las como entidades beneficentes sem fins lucrativos, exige que seus estatutos tenham os seguintes dispositivos:[13]

  1. não distribuir qualquer parcela de seu patrimônio ou de suas rendas a qualquer título. Isso significa que as entidades beneficentes sem fins lucrativos não distribuem lucros. Elas podem organizar serviços para obter recursos para sua manutenção, mas os resultados devem ser aplicados integralmente no cumprimento de suas finalidades;
  2. aplicar integralmente no país seus recursos na manutenção de seus objetivos institucionais. Portanto, estão proibidas de fazer qualquer remessa de receita para o exterior. Podem importar produtos que serão utilizados no cumprimento de suas finalidades;
  3. manter escrituração de suas receitas e despesas em livros revestidos das formalidades capazes de assegurar sua exatidão. Ou seja, são obrigadas a seguir as normas contábeis relativas aos balanços, escrituração e sua apresentação à fiscalização quando solicitado. Essas entidades também estão obrigadas a cumprir toda a legislação trabalhista, previdenciária e fiscal, pois sua gestão deve ser transparente, ordenada e clara.

Organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP)

A expressão “organização da sociedade civil de interesse público” (OSCIP) se tornou mais conhecida devido a Lei n. 9.790, de 23 de março de 1999 e pelo Decreto n. 3.100 de 30 de junho de 1999, que tratam da qualificação de pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos como OSCIPs, e instituem e disciplinam o termo de parceria.

A qualificação como OSCIP diferencia, no universo do terceiro setor, as organizações que efetivamente têm finalidade pública, que recebem ou podem receber delegação para a gestão de serviço público, enquanto as demais organizações sociais exercem atividade de natureza privada, com a ajuda do Estado.

A Lei das OSCIPs tem como um dos seus principais objetivos imprimir maior agilidade gerencial aos projetos e realizar o controle pelos resultados, com garantias de que os recursos estatais sejam utilizados de acordo com os fins públicos. O termo de parceria possibilita a escolha do parceiro mais adequado do ponto de vista técnico e mais desejável dos pontos de vista social e econômico, além de favorecer a publicidade e a transparência.

Uma condição de OSCIP é mais ampla do que a de uma organização social, possibilitando o acesso a benefícios fiscais, por exemplo. No entanto, toda organização social pode também se equiparar, de certa forma, com uma OSCIP bastando para tanto ter um contrato de gestão com o Estado, que deve acontecer quando são organizações sociais de grande tamanho. Pois nos demais casos, basta um convênio para o Estado lhes transferir recursos.

A grande diferença entre organização social e OSCIP está em que a primeira recebe ou pode receber delegação para a gestão de serviço público, enquanto segunda exerce atividade de natureza privada, com a ajuda do Estado.

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Os nomes de Odin
Odin | Desconhecido

O seu nome principal —Wotan ou Odin — que significava “fúria”, referia-se ao transe extático por ele causado nos berserks. Outros títulos mais significativos são: Grimnir (o encapuzado), Yggr (o terrível), Sigfadhir (pai da vitória), Valfadhir (pai dos escolhidos para morrer), Harbardr (barba grisalha), Har (o altíssimo), Hroptr (o malvado), Hetjan (o senhor), Fimbultjr (deus poderoso), Hrjotr (o trovejante), Svipall (o mutante), Hangagod (deus dos enforcados), Geirvaldr (senhor da lança), Oski (“realizador dos desejos”), Sangetal (aquele que encontra a verdade), Galdrfadhir (pai dos sons mágicos), Svithur (o sábio), Diauga Diottin (senhor dos fantasmas), Gangleri (o peregrino), Herteit (aquele que ama a guerra), Omi (aquele cuja voz ressoa), Svafnir (aquele que adormece os homens), Glapsvidr (o sedutor), entre muitos outros.

FAUR, Mirella. O princípio masculino. Os deuses e seus mitos. in:__________. Ragnarok: O crepúsculo dos deuses. Cultrix, 2011. p.153.
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O Ramesseum, o Templo de Ramsés II

Preparar sua morada no além faz parte des deveres do faraó. Ramsés II manda escavar um hipogeu no Vale dos Reis, na margem ocidental de Tebas; manda também edificar um templo fúnebre, não muito longe do vale. Segundo o costume, um contrato prestabelecido liga a esse templo uma fundação e um clero de serviço. Essa fundação é conhecida pelo nome de "Ramesseum". O faraó contrata para sua edificação a massa dos artesãos estabelecidos na aldeia de Deir el-Medineh na mesma margem, não muito distante da necrópole erguida nesse local no início da 18ª dinastia. Todos os segmentos de ofícios são representados. Os artesãos se revezam a cada dez dias sob a responsabilidade de um chefe de equipe. O prefeito da localidade está ligado ao vizir do sul, Paser, para regulamentar os salários pagos em produtos. Apesar das precauções de costume e a vigilância da necrópole, o hipogeu de Ramsés é pilhado desde a Antiguidade. A múmia de Ramsés II é encontrada somente em 1881, por Gaston Maspero, no esconderijo chamado “Deir el-Bahari” nas montanhas tebanas, onde sacerdotes, em torno de 970 a.e.c., haviam secretam ente enterrado de novo vários corpos dos reis das 18ª e 19ª dinastias, para poupá-los da destruição blasfematória. A mortalha de Ramsés levava em modesta homenagem coroas de folhas de acácia, mirto e centauros colocados por ocasião desse enterro.

CHADEFAUD, Catherine. Ramsés II, o maior faraó da 19ª dinastia. IN.: SALLES, Catherine. Larousse das civilizações antigas. São Paulo/SP: Larousse, 2008. p.64
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