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Manifesto Comunista - Burgueses e Proletários

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História
TEXTOS
Manifesto Comunista - Proletários e Comunistas
Comunismo
Texto
8/21/2017 2:45:37 PM
Odsson Ferreira
Por: Karl Marx
História - Idade Contemporânea - Século XIX - Comunismo - Progressismo - Karl Marx - Friedrich Engels - O manifesto comunista - Proletários e comunistas

Qual a posição dos comunistas diante dos proletários em geral? Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários. Não têm interesses que os separem do proletariado em geral. Não proclamam princípios particulares, segundo os quais pretenderiam modelar o movimento operário. Os comunistas só se distinguem dos outros partidos operários em dois pontos: 1) Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns do proletariado, independentemente da nacionalidade; 2) Nas diferentes fases por que passa a luta entre proletários e burgueses, representam, sempre e em toda parte, os interesses do movimento em seu conjunto.

Praticamente, os comunistas constituem, pois, a fração mais resoluta dos partidos [28] operários de cada país, a fração que impulsiona as demais; teoricamente têm sobre o resto do proletariado a vantagem de um a compreensão nítida das condições, da marcha e dos fins gerais do movimento proletário.

O objetivo imediato dos comunistas é o mesmo que o de todos os demais partidos proletários: constituição dos proletários em classe, derrubada da supremacia burguesa, conquista do poder político pelo proletariado.

As concepções teóricas dos comunistas não se baseiam, de modo algum, em ideias ou princípios inventados ou descobertos por tal ou qual reformador do mundo.

São apenas a expressão geral das condições reais de uma luta de classes existente, de um movimento histórico que se desenvolve sob os nossos olhos. A abolição das relações de propriedade que têm existido até hoje não é uma característica peculiar e exclusiva do comunismo.

Todas as relações de propriedade têm passado por modificações constantes em consequência das contínuas transformações das condições históricas.

A Revolução Francesa, por exemplo, aboliu a propriedade feudal em proveito da propriedade burguesa. [29] O que caracteriza o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Ora, a propriedade privada atual, a propriedade burguesa, é a última e mais perfeita expressão do modo de produção e de apropriação baseado nos antagonismos de classe, na exploração de uns pelos outros.

Nesse sentido, os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: abolição da propriedade privada. Censuram-nos, a nós comunistas, o querer abolir a propriedade pessoalmente adquirida, fruto do trabalho do indivíduo, propriedade que se declara ser a base de toda liberdade, de toda independência individual.

A propriedade pessoal, fruto do trabalho e do mérito! Pretende-se falar da propriedade do pequeno burguês, do pequeno camponês, forma de propriedade anterior à propriedade burguesa? Não precisamos aboli-la, porque o progresso da indústria já a aboliu e continua a aboli-la diariamente. Ou por ventura pretende-se falar da propriedade privada atual, da propriedade burguesa?

Mas, o trabalho do proletário, o trabalho assalariado cria propriedade para o proletário? De nenhum modo. Cria o capital, isto é, a propriedade que explora o trabalho assalariado e [30] que só pode aumentar sob a condição de produzir novo trabalho assalariado, a fim de explorá-lo novamente. Em sua forma atual a propriedade se move entre os dois termos antagônicos: capital e trabalho.

Examinemos os dois termos dessa antinomia.

Ser capitalista significa ocupar não somente uma posição pessoal, mas também uma posição social na produção. O capital é um produto coletivo: só pode ser posto em movimento pelos esforços combinados de muitos membros da sociedade, e mesmo, em última instância, pelos esforços combinados de todos os membros da sociedade.

O capital não é, pois, uma força pessoal; é uma força social. Assim, quando o capital é transformado em propriedade comum, pertencente a todos os membros da sociedade, não é uma propriedade pessoal que se transforma em propriedade social. O que se transformou foi apenas o caráter social da propriedade. Esta, perde seu caráter de classe.

Passemos ao trabalho assalariado.

O preço médio que se paga pelo trabalho assalariado é o mínimo de salário, isto é, a soma dos meios de subsistência necessária para que o operário viva como operário. Por conseguinte, o [31] que o operário obtém com o seu trabalho é o estritamente necessário para a mera conservação e reprodução de sua vida. Não queremos de nenhum modo abolir essa apropriação pessoal dos produtos do trabalho, indispensável à manutenção e à reprodução da vida humana, pois essa apropriação não deixa nenhum lucro líquido que confira poder sobre o trabalho alheio. O que queremos é suprimir o caráter miserável desta, apropriação que faz com que o operário só viva para aumentar o capital e só viva na medida em que o exigem os interesses da classe dominante.

Na sociedade burguesa, o trabalho vivo é sempre um meio de aumentar o trabalho acumulado. Na sociedade comunista, o trabalho acumulado é sempre um meio de ampliar, enriquecer e melhorar cada vez mais a existência dos trabalhadores.

Na sociedade burguesa, o passado domina o presente; na sociedade comunista é o presente que domina o passado. Na sociedade burguesa, o capital é independente e pessoal, ao passo que o indivíduo que trabalha não tem nem independência nem personalidade, a abolição de semelhante estado de coisas que a burguesia verbera como a abolição da individualidade e da liberdade. E com razão. Porque se trata efetivamente de abolir a individualidade [32] burguesa, a independência burguesa, a liberdade burguesa.

Por liberdade, nas condições atuais da produção burguesa, compreende-se a liberdade de comércio, a liberdade de comprar e vender.

Mas, se o tráfico desaparece, desaparecerá também a liberdade de traficar. Demais, toda a fraseologia sobre a liberdade de comércio, bem como todas as basófias liberais de nossa burguesia só têm sentido quando se referem ao comércio tolhido e ao burguês oprimido da Idade Média; nenhum sentido têm quando se trata da abolição comunista do tráfico, das relações burguesas de produção e da própria burguesia.

Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade.

Em resumo, acusai-nos de querer abolir vossa propriedade. De fato, é isso que queremos.

Desde o momento em que o trabalho não mais pode ser convertido em capital, em dinheiro, em [33] renda da terra, numa palavra, em poder social capaz de ser monopolizado, isto é, desde o momento em que a propriedade individual não possa mais se converter em propriedade burguesa, declarais que a individualidade está suprimida.

Confessais, pois, que quando falais do indivíduo, quereis referir-vos unicamente ao burguês, ao proprietário burguês. E este indivíduo, sem dúvida, deve ser suprimido.

O comunismo não retira a ninguém o poder de apropriar-se de sua parte dos produtos sociais, apenas suprime o poder de escravizar o trabalho de outrem por meio dessa apropriação.

Alega-se ainda que, com a abolição da propriedade privada, toda a atividade cessaria, uma inércia geral apoderar-se-ia do mundo.

Se isso fosse verdade, há muito que a sociedade burguesa teria sucumbido à ociosidade, pois que os que no regime burguês trabalham não lucram e os que lucram não trabalham. Toda a objeção se reduz a essa tautologia: não haverá mais trabalho assalariado quando não mais existir capital.

As acusações feitas contra o modo comunista de produção e de apropriação dos produtos materiais têm sido feitas igualmente contra a [34] e a apropriação dos produtos do trabalho intelectual. Assim como o desaparecimento da propriedade de classe equivale, para o burguês, ao desaparecimento de toda a produção, também o desaparecimento da cultura de classe significa, para ele, o desaparecimento de toda a cultura.

A cultura, cuja perda o burguês deplora, é, para a imensa maioria dos homens, apenas um adestramento que os transforma em máquinas.

Mas não discutais conosco enquanto aplicardes à abolição da propriedade burguesa o critério de vossas noções burguesas de liberdade, cultura, direito, etc. Vossas próprias ideias decorrem do regime burguês de produção e de propriedade burguesa, assim como vosso direito não passa da vontade de vossa classe erigida em lei, vontade cujo conteúdo é determinado pelas condições materiais de vossa existência como classe.

A falsa concepção interesseira que vos leva a erigir em leis eternas da natureza e da razão as relações sociais oriundas do vosso modo de produção e de propriedade — relações transitórias que surgem e desaparecem no curso da produção — a compartilhais com todas as classes dominantes já desaparecidas. O que admitis para a propriedade antiga, o que admitis [35] para a propriedade feudal, já não vos atreveis a admitir para a propriedade burguesa.

Abolição da família! Até os mais radicais ficam indignados diante desse desígnio infame dos comunistas. Sobre que fundamento repousa a família atual, a família burguesa? No capital, no ganho individual. A família, na sua plenitude, só existe para a burguesia, mas encontra seu complemento na supressão forçada da família para o proletário e na prostituição pública.

A família burguesa desvanece-se naturalmente com o desvanecer de seu complemento, e uma e outra desaparecerão com o desaparecimento do capital.

Acusai-nos de querer abolir a exploração das crianças por seus próprios pais? Confessamos este crime.

Dizeis também que destruímos os vínculos mais íntimos, substituindo a educação doméstica pela educação social. E vossa educação não é também determinada pela sociedade, pelas condições sociais em que educais vossos filhos, pela intervenção direta ou indireta da sociedade por meio de vossas escolas, etc? Os comunistas não inventaram essa intromissão da sociedade na educação, apenas mudam seu caráter e arrancam a educação à influência da classe dominante. [36]

As declamações burguesas sobre a família e a educação, sobre os doces laços que unem a criança aos pais, tornam-se cada vez mais repugnantes à medida que a grande indústria destrói todos os laços familiares do proletário e transforma as crianças em simples objetos de comércio, em simples instrumentos de trabalho.

Toda a burguesia grita em côro: “Vós, comunistas, quereis introduzir a comunidade das mulheres!”

Para o burguês, sua mulher nada mais é que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os instrumentos de produção serão explorados em comum, conclui naturalmente que haverá comunidade de mulheres. Não imagina que se trata precisamente de arrancar a mulher de seu papel atual de simples instrumento de produção.

Nada mais grotesco, aliás, que a virtuosa indignação que, a nossos burgueses, inspira a pretensa comunidade oficial das mulheres que adotariam os comunistas. Os comunistas não precisam introduzir a comunidade das mulheres. Esta quase sempre existiu.

Nossos burgueses, não contentes em ter à sua disposição as mulheres e as filhas dos proletários, sem falar da prostituição oficial, têm singular prazer em cornearem-se uns aos outros. [37]

O casamento burguês é, na realidade, a comunidade das mulheres casadas. No máximo, poderiam acusar os comunistas de querer substituir uma comunidade de mulheres, hipócrita e dissimulada, por outra que seria franca e oficial. De resto, é evidente que, com a abolição das relações de produção atuais, a comunidade das mulheres que deriva dessas relações, isto é, a prostituição oficial e não oficial, desaparecerá.

Além disso, os comunistas são acusados de querer abolir a pátria, a nacionalidade.

Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar aquilo que não possuem. Como, porém, o proletariado tem por objetivo conquistar o poder político e erigir-se em classe dirigente da nação, tornar-se ele mesmo a nação, ele é, nessa medida, nacional, embora de nenhum modo no sentido burguês da palavra.

As demarcações e os antagonismos nacionais entre os povos desaparecem cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia, com a liberdade do comércio e o mercado mundial, com a uniformidade da produção industrial e as condições de existência que lhe correspondem.

A supremacia do proletariado fará com que tais demarcações e antagonismos desapareçam ainda mais depressa. A ação comum do [38] proletariado, pelo menos nos países civilizados, é uma das primeiras condições para sua em ancipação.

Suprimi a exploração do homem pelo homem e tereis suprimido a exploração de uma nação por outra.

Quando os antagonismos de classe, no interior das nações, tiverem desaparecido, desaparecerá a hostilidade entre as próprias nações.

Quanto às acusações feitas aos comunistas em nome da religião, da filosofia e da ideologia em geral, não merecem um exame aprofundado.

Será preciso grande perspicácia para compreender que as ideias, as noções e as concepções, numa palavra, que a consciência do homem se modifica com toda mudança sobrevinda em suas condições de vida, em suas relações sociais, em sua existência social?

Que demonstra a história das ideias senão que a produção intelectual se transforma com a produção material? As ideias dominantes de uma epoca sempre foram as ideias da classe dominante.

Quando se fala de ideias que revolucionam uma sociedade inteira, isto quer dizer que, no [39] seio da velha sociedade, se formaram os elementos de uma nova sociedade e que a dissolução das velhas ideias marcha de par com a dissolução das antigas condições de vida.

Quando o mundo antigo declinava, as velhas religiões foram vencidas pela religião cristã; quando, no século XVIII, as ideias cristãs cederam lugar às ideias racionalistas, a sociedade feudal travava sua batalha decisiva contra a burguesia então revolucionária. As ideias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência não fizeram mais que proclamar o império da livre concorrência no domínio do conhecimento.

"Sem dúvida, — dir-se-á — as ideias religiosas, morais, filosóficas, políticas, jurídicas, etc, modificaram-se no curso do desenvolvimento histórico, mas a religião, a moral, a filosofia, a política, o direito mantiveram-se sempre através dessas transformações.

Além disso, há verdades eternas, como a liberdade, a justiça, etc, que são comuns a todos os regimes sociais. Mas o comunismo quer abolir estas verdades eternas, quer abolir a religião e a moral, em lugar de lhes dar uma nova forma, e isso contradiz todo o desenvolvimento histórico anterior.”

A que se reduz essa acusação? A história de toda a sociedade até nossos dias consiste no [40] desenvolvimento dos antagonismos de classe, antagonismos que se têm revestido de formas diferentes nas diferentes épocas.

Mas qualquer que tenha sido a forma desses antagonismos, a exploração de uma parte da sociedade por outra é um fato comum a todos os séculos anteriores. Portanto, nada há de espantoso que a consciência social de todos os séculos, apesar de toda sua variedade e diversidade, se tenha movido sempre sob certas formas comuns, formas de consciência que só se dissolverão completamente com o desaparecimento total dos antagonismos de classe.

A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais de propriedade; nada de estranho, portanto, que no curso de seu desenvolvimento, rompa, do modo mais radical, com as ideias tradicionais.

Mas deixemos de lado as objeções feitas pela burguesia ao comunismo.

Vimos acima que a primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante, a conquista da democracia.

O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia, para centralizar todos os [41] instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante, e para aumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas.

Isto naturalmente só poderá realizar-se, a principio, por uma violação despótica do direito de propriedade e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção.

Essas medidas, é claro, serão diferentes nos vários países.

Todavia, nos países mais adiantados, as seguintes medidas poderão geralmente ser postas em prática:

  1. Expropriação da propriedade latifundiária e emprego da renda da terra em proveito do Estado;
  2. Imposto fortemente progressivo;
  3. Abolição do direito de herança;
  4. Confiscação da propriedade de todos os emigrados e sediciosos;
  5. Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional [42] capital do Estado e com o monopólio exclusivo;
  6. Centralização, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte;
  7. Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento das terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo um plano geral;
  8. Trabalho obrigatório para todos, organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura;
  9. Combinação do trabalho agrícola e industrial, medidas tendentes a fazer desaparecer gradualmente a distinção entre a cidade e o campo;
  10. Educação pública e gratuita de todas as crianças, abolição do trabalho das crianças nas fábricas, tal como é praticado hoje. Combinação da educação com a produção material, etc.

Uma vez desaparecidos os antagonismos de classe no curso do desenvolvimento e sendo concentrada toda a produção propriamente dita nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua [43] luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe, se se converte por uma revolução em classe dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói, justamente com essas relações de produção, as condições dos antagonismos entre as classes, destrói as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.

Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classe, surge uma associação onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos. [44]

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Ritos nórdicos de passagem
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8/17/2017 1:27:08 PM
Odsson Ferreira
Por: Mirella Faur
História, Idade média, Alta idade média, Vikings, cotidiano, Religião, Germanos, Mitologia nórdica, vatni ausa, nafn geja, hamingja, Casamento, Vida após a morte

Em todas as culturas e sociedades ancestrais e nativas pré-cristãs existiram ritos de passagem, que representavam as mudanças de status e as transições na vida humana. Os povos nórdicos preservaram por mais tempo do que o resto da Europa seus antigos costumes (chamados forn sidr) devido à cristianização mais tardia; mesmo após a imposição dos novos costumes cristãos (nyr sidr) certos ritos de passagem continuaram a ser praticados, principalmente no interior da Escandinávia e da Islândia.

Infelizmente não existem registros escritos ou referências precisas sobre a maneira como os rituais eram praticados, nem sobre a finalidade de ritos específicos, além dos comuns às outras tradições ancestrais, como batizado, casamento e culto dos antepassados.

Rito de Nomeação

O escritor Edred Thorsson em seu livro Green Runa menciona duas cerimônias pré-cristãs: vatni ausa (aspergir com água) e nafn geja (dar o nome). Ambas eram feitas pelo chefe do clã ou da família, nove dias após o nascimento de uma criança, o período necessário para que o recém-nascido tivesse se mostrado merecedor para ser integrado ao clã, devido à sua força vital, resistência física e poder espiritual. As cerimônias tinham a intenção mágica de auxiliar o processo de reintegração do complexo energético hamingja-Jylgja no recém-nascido, servindo ao mesmo tempo como uma confirmação ritualística da reintegração do espírito na nova encarnação.

A hamingja era uma forma móvel de poder mágico, sendo o meio pelo qual o complexo formado pela combinação da consciência/ mente/ vontade (hugr)formava um novo corpo etérico e físico (hamr e lyke). A hamingja podia ser passada de uma pessoa para outra — parcial ou totalmente — através da reencarnação ou de uma iniciação sacerdotal, sendo uma força dinâmica que podia ser dividida e projetada para vários propósitos. A fylgja (ou Jetch) era acoplada ao corpo astral e nele permanecia durante toda a vida de um indivíduo. O corpo mental (hugr) podia seguir para Valhalla ou Hel, enquanto o corpo astral ou duplo etérico (hamr) permanecia com o cadáver no túmulo e em certas circunstâncias tornava-se manifesto, sendo visível como draugar, os mortos-vivos. Porém hamingja efylgja podiam acompanhar uma alma renascendo na mesma linhagem familiar ao longo de gerações, um ancestral morto recentemente, renascendo no seu descendente recém-nascido, algo difícil de compreender e aceitar do ponto de vista da doutrina espírita e de certos conceitos espiritualistas e dogmas religiosos.

Os complexos conceitos nórdicos explicavam de forma metafórica e prática a multiplicidade dos níveis de consciência e funções da alma, bem como a variedade das destinações e manifestações após a morte física, tendo sido perseguidas e combatidas pela igreja cristã. É importante compreender que os povos antigos não acreditavam no renascimento da consciência pessoal, apenas de certos poderes e habilidades inatas e transpessoais, assim como de certas obrigações e dívidas. O complexo energético formado pela hamingja-Jylgja se distanciava para longe do corpo físico no momento da morte. A Jylgja aparecia frequentemente como uma figura feminina semelhante à Valquíria e que se deslocava para um destino específico — Valhalla ou Hel —, mas podia também ser passada pelo moribundo para o seu filho ou outro ente querido, como no caso dos chefes de clã ou reis. Mas quando a Kynjylgja (característica de um clã) se alojava em um dos reinos ou mundos sutis, ela aguardava o nascimento da criança certa à qual ela iria se acoplar no momento das cerimônias citadas: vatni-ausa e nafni-geja.

O nome dado à criança podia ser de um ancestral falecido recentemente, escolhido por ter sido percebido durante um sonho pela mãe durante a sua gestação, encontrado em uma visão ou mensagem espiritual, ou revelado pelas práticas mágicas e oraculares realizadas pelo pai, chefe de clã ou xamã. Após a cerimônia, a criança era considerada o ancestral renascido na família e no clã, recebendo proteção e direitos como os outros integrantes da família, não podendo mais ser morta por “exposição”na natureza (método usado para apressar o fim de crianças fracas, doentes ou com anomalias físicas —menos as meninas, portadoras do dom da fertilidade —. que eram deixadas nuas perto de árvores ou rios). Esta prática não era realizada por crueldade ou frieza de sentimentos, mas devido à escassez de recursos alimentares, que dificultava a sobrevivência de uma criança frágil ou doente em um clima frio, inclemente e desafiador. Após a cristianização, os bastardos e filhos ilegítimos não eram batizados e tinham o mesmo fim.

A criança adquiria — além dos poderes e das habilidades do ancestral — suas obrigações, desafios e responsabilidades, que seriam cumpridas de acordo com a sua nova personalidade, tendo outras características físicas, mentais e espirituais. O novo indivíduo, detentor do potencial do passado (dons e dívidas) tornava-se responsável para realizar as suas possibilidades futuras por meio de conquistas e atos honrosos, aumentando assim a força do complexo hamingja-fylgja da família. Dessa maneira, a união dos mortos e dos vivos — de um mesmo clã —, podia ser representada como uma “árvore das gerações”, suas raízes ancestrais fornecendo a nutrição contínua proveniente do mundo dos mortos e os galhos sustentando a energia permanente fluindo entre os vivos e seus descendentes. Os presentes dados à criança eram representações simbólicas ou materiais dos dons desejados para ela como: força física, coragem, inteligência, proteção, sorte, lealdade, tenacidade, honestidade, prosperidade.

Esse conceito de origem indo-europeia é encontrado nas antigas tradições de outros povos (como os gregos, tracos, dacos e celtas) e inúmeras sagas, mitos escandinavos e germânicos descrevem exemplos de reencarnação de ancestrais, fenômeno nomeado aptr burdr, que literalmente significa “nascimento para trás”.

Os elementos importantes desta ideologia ancestral eram vatni ausa — a nomeação — e hefne, a responsabilidade do “renascido” para realizar atos honrosos ou vingar a morte do ancestral, caso ele tivesse sido assassinado. A vingança era necessária para liberar a alma do ancestral do desejo de vingança ou da dor da traição, podendo seguir livremente para a sua destinação e permitindo assim a transferência completa do complexo hamingja-Jylgja para a linha familiar. A interação entre os vivos e os mortos era ampliada pelo culto dos ancestrais, que visava honrar sua memória e continuar seu legado.

Na cerimônia de Vatni Ausa a mãe colocava a criança nos joelhos do pai ou do chefe de clã, que aspergia gotas de água de fonte com um galho verde sobre a cabeça da criança, enquanto pronunciava a sua nomeação com o nome do ancestral. Esse rito podia ser incluído em um Blot em alguma data festiva da Roda do Ano ou celebrado por si só, na presença de familiares, amigos e com muita alegria, por receber um ancestral renascido no seu meio. Além de usar nomes de ancestrais, podiam ser escolhidos nomes de divindades, personagens históricos ou heróis.

Como a gestação e o nascimento representavam perigos e desafios incógnitos e nem sempre contornáveis, tanto para a mãe quanto o filho, eram comuns as orações e pedidos de proteção feitos para as Nornas e divindades específicas como as Matronas, Disir, Frigga, Freyja, Frey e Nerthus, além das práticas curativas e mágicas orientadas pela deusa Eir e realizadas pelas mulheres (matriarcas, xamãs, parteiras, curandeiras e benzedeiras). No momento de dar à luz, a mulher se agarrava a uma árvore frutífera ou ao pilar da casa, chamado Bainstokk, que personificava a linhagem familiar e que iria auxiliar no parto. O cordão umbilical era guardado como amuleto de saúde e a placenta, enterrada sob uma árvore sagrada ou frutífera invocando as Disir. O cordão umbilical era amarrado com uma trança feita com três fios de lã vermelha e abençoado na cerimônia de nomeação. Por serem realizadas por mulheres e para mulheres, essas cerimônias faziam parte dos “Mistérios de sangue”, reservados e secretos, que não deixaram registros escritos, nem detalhes sobre os procedimentos, características comuns a todas as tradições antigas, costumes ancestrais ou nativos. Sabe-se, no entanto, que não existiam proibições, resguardos, purificações ou a exclusão da grávida ou parturiente do convívio familiar, religioso ou social, como determinaram os posteriores dogmas e regras cristãos que consideravam a mulher nessas condições como sendo impura e maculada pelo pecado original.

Consagração da União

O rito de consagração de uma união foi mais bem documentado e muitos dos seus vestígios foram preservados até os tempos modernos. Por ser o matrimônio uma importante instituição social, o casamento era celebrado de forma elaborada e seguindo certas regras. Além de representar um contrato legal envolvendo especificações de bens e herança, o casamento era a consagração de um um pacto de união e ajuda mútua entre duas famílias, visando a segurança dos descendentes, pacto que necessitava da aprovação dos respectivos chefes de clã e dos pais dos noivos. A relação harmoniosa e produtiva do casal era uma importante contribuição para a prosperidade e paz familiar e comunitária, fato que requeria o consentimento e apoio de ambos os cônjuges. Os demorados processos — no nível legal, familiar, material e ritualístico (para invocar e garantir a proteção e as bênçãos das divindades) - culminavam com a festa, que devia durar no mínimo três (ou nove) dias.

Os procedimentos pré-matrimoniais se iniciavam com o envio de um emissário, mensageiro ou de uma delegação conduzida pelo pai do noivo para a família da noiva. Neste primeiro encontro eram discutidos e estabelecidos os termos da proposta de casamento: o dote da noiva, os presentes do noivo e dos seus parentes (bens que se tornavam propriedade da mulher, mesmo após o divórcio ou a viuvez e parte da herança dos filhos), a data da união e os detalhes da comemoração (ritual, lugar e festa). Nesse encontro, cada família louvava e colocava em evidência as qualidades, aptidões e habilidades específicas da noiva ou do noivo, para conseguirem acordos mais vantajosos para seus protegidos. O acordo entre as famílias era selado com uma festa prévia, anunciando o noivado e a aparição pública dos noivos. Para a festa do casamento eram feitos muitos e demorados preparativos, que requeriam certo tempo e gastos, pois era necessário um grande estoque de comidas e bebidas para as famílias, os integrantes dos clãs e os amigos de outros lugares.

Pouco se sabe do ritual propriamente dito, além das invocações feitas para que a deusa Var testemunhasse o compromisso e sua consagração, colocando o martelo de Thor no colo da noiva e pedindo proteção para Thor e a prosperidade de Sif, sua consorte. Eram honradas outras divindades também, as Nornas, Frey, Frigga e Freyja, as Disir e os Alfar, os ancestrais familiares e os protetores individuais. O compromisso era selado ritualisticamente com um Blot, em que o oficiante consagrava as alianças ou as pulseiras de braço (arm rings) e pedia as bênçãos de Frigga, das Disir e Matronas para a estabilidade, harmonia e sustentação da união, de Fulla e Sif para prosperidade, de Thor, Odin e dos espíritos ancestrais para proteção e de Nerthus e Njord para a fertilidade.

O ponto culminante era uma procissão com tochas, levando o casal para a cama nupcial e as respectivas bênçãos para a sua felicidade, fertilidade e união duradoura. Estes requisitos pertenciam apenas às classes dominantes, os servos e os escravos precisavam da autorização dos seus donos para se casarem, muitas vezes suas uniões sendo ilegais ou feitas às escondidas, por contradizer os interesses financeiros dos proprietários das terras.

O dote da noiva incluía móveis, louças, roupas de cama e objetos de uso doméstico. O presente, que o noivo dava para a família da noiva, visava compensar a perda de mão de obra de uma filha, cuja contribuição através da tecelagem e costura era muito importante para a economia familiar. No dia após a consumação comprovada do casamento, o marido dava à esposa um presente de gratidão, geralmente uma soma em dinheiro, uma joia (um colar de âmbar ou ouro) ou um bem imóvel, que garantisse sua sobrevivência em caso de viuvez. Em caso de divórcio, o pai era responsável pela sustentação e educação dos seus filhos legítimos. Os presentes do noivo representavam sua capacidade de trabalho para sustentar a família, sendo a melhor recomendação para obter a aprovação dos futuros sogros. Nas antigas sociedades nórdicas, a estabilidade econômica e social era fundamental para a continuação da linhagem familiar, prevalecendo sobre os motivos e finalidades sentimentais.

Pacto de sangue

Um ritual solene e específico da tradição nórdica era o “pacto de sangue”, realizado entre pessoas do mesmo gênero (geralmente homens), em que era consagrada uma bebida misturando sangue de cada um, dela tomando os três goles tradicionais, enquanto ficavam com os braços entrelaçados. No nível sutil, esse compromisso envolvia muito cuidado e prudência, pois ele entrelaçava não apenas os braços, mas também os campos energéticos dos “irmãos de sangue”, uma relação que exigia a mesma vibração e nível espiritual, para evitar uma possível “vampirização energética” posterior ou o enfraquecimento áurico ou espiritual de um dos “irmãos”. Eventuais brigas, desavenças, maldições ou atos desonrosos de um dos “irmãos”, provocavam máculas mútuas e atraíam a má sorte e os infortúnios do seu parceiro. O “pacto de sangue” era considerado um “casamento energético”, o elo criado não podia ser rompido, nem mesmo pela morte, as dívidas e responsabilidades continuando a repercutir no plano sutil ao longo das gerações, daí a necessária cautela e discernimento antes que fosse realizado.

Ritos funerários

As crenças escandinavas e germânicas da vida pós-morte diferiam em função das épocas, dos lugares e dos cultos centrados na reverência a uma determinada divindade. O conceito comum era a ênfase na continuidade da unidade familiar, que atravessava tempo e espaço e ligava o mundo dos mortos com o dos vivos.

Na Idade do Bronze os mortos eram enterrados na posição fetal, dentro de túmulos individuais ou coletivos, em caixões rudimentares feitos de troncos de árvores. No final desta era começaram as cremações, as cinzas sendo guardadas em urnas e enterradas na terra. A cremação continuou durante as Migrações e depois da cristianização até o século XI. No Período Viking continuavam sendo feito sacrifícios e enterrados juntos objetos, joias, armas e vestimentas dos mortos. Uma descrição usada pelos povos nórdicos em relação à morte de alguém era “foi se reunir com seus parentes, que foram embora para as colinas antes dele”, significando a reunião familiar, seja no nível espiritual (nas moradas dos deuses), seja no plano físico (as colinas mortuárias ou os túmulos familiares).

Geralmente o processo da morte era visto como uma viagem e a palavra alemã para ancestrais é Vorfahren, “aqueles queforam antes”. A imagem mais comum nos enterros era o barco, sua réplica física em tamanho natural sendo usada nos enterros de pessoas importantes, enquanto naqueles de pessoas simples era colocada no tumulo uma pequena representação do barco, ou o túmulo era cercado por pedras delineando um barco. Imagens de barco são encontradas na literatura como metaforas para túmulos ou caixões, o barco sendo um antigo símbolo associado com as divindades Vanir, regentes da vida, da morte e do mundo subterrâneo. Os espíritos que não usavam o barco para navegar ao outro mundo costumavam cavalgar, fato que explica o porque dos mortos serem enterrados com seus cavalos, carruagens ou cremados juntos deles nas piras fúnebres. Na ilha de Gotland as imagens mais frequentes nas pedras funerárias mostram navios ou cavalheiros, às vezes o cavalo tendo oito patas representando Sleipnir, o cavalo de Odin, por ele enviado para levar os mais honrados chefes e guerreiros valentes para Valhalla. Para os mortos mais pobres eram colocados nos túmulos ou nos seus pés os pesados calçados de Hel, para que eles pudessem andar, sem se afastar ou extraviar do caminho para o reino da deusa Hel.

Uma precaução importante era amarrar o barco nas pedras ou os sapatos juntos, um com o outro, para que não fossem usados como meios de transporte físico. Para que o morto fosse retirado da sua casa abria-se uma porta especial na parede, cimentada depois, evitando assim que o seu espírito voltasse do além pelo mesmo caminho seguido na ida. O corpo era colocado na cama ou no caixão coberto por um lençol, com os pés para a porta e a cabeça para o norte, com um pratinho com sal sobre o peito; os espelhos eram cobertos para evitar que o espirito se refletisse neles. Após a vigília, acompanhada de bebida e estórias contadas pelos presentes e descrevendo passagens e feitios da vida do morto, a procissão seguia para o cemiterio, parando nas encruzilhadas (antigos locais dos altares ancestrais). Após a cristianização, em lugar dos sapatos de Hel eram fincadas agulhas nos pés daqueles suspeitos de bruxaria ou conhecidos por terem o dom da metamorfose ou projeção astral, que lhes permitisse assombrar os vivos.

A crença em Valhalla como morada daqueles escolhidos por Odin motivou a prática da cremação, conforme citado em Ynglínga Saga -.“todos os mortos e seus pertences devem ser cremados juntos, suas cinzas depois levadas para o mar ou enterradas na terra”. Como os povos nórdicos acreditavam na vida pós-morte, eles colocavam os pertences do morto ao seu lado, para que ele pudesse usá-los no local para onde seguia. Após a cremação das pessoas importantes junto com seus bens, as cinzas remanescentes eram cobertas por colinas mortuárias, como as de Uppsala, onde escavações arqueológicas revelaram ossadas humanas e de animais, restos de armas, joias e objetos de ouro. Acreditava-se que no ato da cremação a alma era libertada para seguir seu destino, enquanto aqueles enterrados direto nas colinas mortuárias continuavam lá, se manifestando seja como fantasmas benévolos ou os temidos draugar (mortos-vivos). Em casos especiais, os heróis se deslocavam dos seus túmulos para Valhalla e podiam aparecer para seus familiares, pedindo que vingassem sua morte se esta fosse provocada por traição, contando com a permissão de Odin para dar esses avisos.

Uma parte dos guerreiros mortos ia para Folkvangr, o palácio de Freyja, uma clara alusão às antigas práticas funerárias que antecederam as cremações associadas ao culto de Odin, quando as pessoas eram enterradas e seus espíritos levados para o reino dos deuses Vanir. Aqueles que não tinham tido uma morte heróica, seguiam para o reino da deusa Hel. Os que morriam no mar eram recebidos nos palácios dos deuses Ran e Aegir, as moças solteiras iam para a deusa Gefjon, as mulheres casadas e as crianças para o palácio de Frigga, enquanto os seguidores ou adeptos de uma determinada divindade seguiam para a sua respectiva morada. Os criminosos, os ladrões e os acusados de perjúrio, crimes infames ou atos vis não iam diretamente para o reino de Hel, mas permaneciam em Nastrond, um poço escuro e tenebroso, onde passavam por castigos e retificações dos seus comportamentos e a expiação dos seus crimes.

O nome da deusa Hel foi distorcido e usado pela Igreja cristã para designar o inferno (Hell), local de punição dos pecadores e desprovido do simbolismo complexo de Niflhel. Em lugar de compreender a dualidade dos atributos da deusa Heil— como regente da morte e ao mesmo tempo guardiã e protetora dos espíritos até o seu renascimento — ela foi equiparada com o temível espectro da morte, como fim da trajetória do espírito, desprovido da possibilidade de um novo retorno e recomeço em uma nova encarnação. Os nórdicos consideravam a reencarnação uma opção e não uma obrigação, mas que devia ser feita na mesma linhagem familiar; acreditava-se que durante a gestação, criava-se um novo corpo como abrigo temporário para uma antiga alma de um antepassado.

Uma importante imagem associada à morte é o dragão, considerado o guardião das colunas mortuárias e das câmaras megalíticas, tanto na Escandinávia, quanto na Inglaterra. Quando um túmulo era aberto por ladrões e um objeto fosse retirado, ou ele fosse saqueado ou profanado por inimigos, o dragão que fícava enrolado ao redor do seu tesouro (em uma colina mortuária ou monumento megalítico) acordava enfurecido e saía de dentro da terra lançando labaredas incendiárias sobre as terras próximas. Relatos de batalhas de heróis contra esses monstros ígneos aparecem em várias sagas ou poemas, como o que relata a morte do rei anglo-saxão “Beowulf”, lutando para salvar seu povo e matando o dragão antes que ele morresse devido às feridas. Às vezes o dragão era visto como a metamorfose do morto que guardava assim os seus bens enterrados junto dele. No poema “Völuspa” menciona-se que o dragão Nidhogg devorava os mortos com suas garras e presas afiadas.

O dragão era representado com características de réptil e de serpente, às vezes tendo asas e um ou mais chifres, o seu corpo coberto de escamas, com, ou sem, patas e garras. Os raios, relâmpagos e a aurora boreal, assim como os incêndios’ eram os fenômenos naturais associados com o dragão, assim como ele era uma imagem natural para a descrição da morte pelas chamas devoradoras das cremações. Após as batalhas, as chamas das inúmeras piras funerárias se elevavam como imensas línguas de fogo lambendo o céu, enquanto o som lúgubre dos ossos sendo queimados lembrava as antigas lendas dos monstros devoradores.

Mesmo após a cristianização, o fogo continuou sendo usado como uma prática e um símbolo funerário e as cremações continuaram apesar da sua proibição cristã, conforme comprovam resquícios de ossos enegrecidos pelo fogo, restos de carvão e urnas com cinzas em alguns cemitérios anglo-saxãos, na Alemanha e França. Durante muito tempo colocava-se nos túmulos uma mistura de carvão com resma de pinheiro como sinal de purificação dos miasmas da decomposição, pratica cristã remanescente dos costumes ancestrais de cremacão. Decoracões com motivos serpentiformes foram encontradas em várias pedras funerárias e monumentos rúnicos como os da Ilha de Gotland na Suécia, onde serpentes, dragões e barcos simbolizam a jornada da alma pelo reino da morte à espera da sua regeneração. Desde a Idade do Bronze, nos petróglifos apareciam figuras de serpentes, homens viris com chifres e barcos, uma complexa simbologia ligada a fertilidade, vida, morte e o além. Ao longo do tempo, a serpente pre-histórica com corpo alongado foi se metamorfoseando para uma figura híbrida de serpente-dragão até adquirir a forma tradicional do dragão com patas, mencionado em várias estórias na literatura e representado na arte do norte europeu. Tanto a serpente, quanto o dragão, eram ao mesmo tempo símbolos do mundo ctônico e do ciclo eterno de vida/morte, sendo seres aquáticos e ctônicos, com domínio sobre a água (símbolo da vida) e a terra (morte e regeneração). Nas embarcações vikings eram usadas formas de animais — geralmente serpentes e dragões — na proa e na popa, simbolizando a proteção nas viagens. No mito de Ragnarök, os agentes da destruição final são serpentes, dragões e o poder dos gigantes do fogo. Além do dragão Nidhogg, que roía incessantemente as raízes da Árvore do Mundo até sua queda final, a Serpente do Mundo — Jörmungand — saiu das profundezas do oceano para o combate mortal com seu eterno inimigo, o deus Thor, que a venceu, mas sucumbiu devido ao seu veneno.

A proteção oferecida pelos deuses — esquecimento temporário por Odin, crença na reencarnação e na continuidade da linhagem familiar por Frey, força protetora e ordem providenciadas por Thor — não eram garantias suficientes para impedir as ameaças dos dragões e dos monstros. Esta verdade se torna evidente e explícita na própria morte dos deuses, como foi visto no mito de Baldur e no cataclismo final do Ragnarök. O próprio Odin, deus padroeiro dos mortos, foi vencido pelas leis imutáveis da mortalidade e do destino.

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O surgimento das crenças e práticas escandinavas e germânicas, são originárias do passado comum indo-europeu, ampliadas com as tradições e os elementos nativos das tribos que já moravam no norte e nordeste europeu, lá existindo desde a pré-história. Foi comprovado, através de pesquisas de mitologia comparada e filologia, que os dialetos germânicos e escandinavos do continente, junto com as línguas de origem latina, eslava, celta, hindu e persa, pertenciam à mesma família linguística indo-europeia.

As várias tribos que saíram das suas pátrias da Ásia Central para conquistar novos territórios — no norte da Europa e no leste, chegando até a índia — levaram consigo nas suas migrações não apenas uma base linguística comum, mas uma mesma fé e mitologia, partilhadas por todos. Da mescla dos seus mitos e práticas surgiu o complexo panteão nórdico e os grupos das divindades Aesir e Vanir, além dos vários arquétipos de seres sobrenaturais, guardiões da natureza e os amplos e duradouros cultos aos ancestrais.

Do mesmo tronco indo-europeu, outras tribos arianas vindas da Ásia Central se deslocaram para o sul da Europa e, com o passar do tempo, lá floresceram duas relevantes culturas: a grega e a romana. Separadas por condições geográficas diferentes e com outro tipo de desenvolvimento histórico, social e cultural, à primeira vista a mitologia nórdica e a greco-romana têm pouco em comum. Mas, analisando com atenção e cuidado, observamos uma analogia dos conceitos fundamentais, com mitos e divindades semelhantes, as diferenças sendo devidas às influências recebidas pela diversidade das tribos conquistadas e integradas ao Império Romano, além do clima e da natureza específica às regiões temperadas e à bacia do Mediterrâneo. Percebem-se assim as sementes indo-europeias, que deram origem a ambas as tradições, mas com um colorido e descrições diferentes.

Oferecemos neste pequeno capítulo conhecimentos, comparações e analogias para aqueles leitores que desejam se aprofundar e compreender melhor o fascinante legado cultural e mitológico do norte e do sul da Europa.

O início dos tempos

Os povos nórdicos acreditavam que o mundo surgiu do caos, pois no princípio não existia nem céu, nem terra, apenas um abismo sem fundo, com uma extremidade de fogo e outra de gelo; espelhando o seu habitat, a criação do mundo na cosmologia nórdica era representada como um encontro dramático entre as forças primordiais do fogo e do gelo. Essa imagem é um traço característico da natureza islandesa, onde é visível o contraste entre o solo vulcânico, os gêiseres borbulhantes e os grandes icebergs ao redor. Desses elementos opostos — fogo e gelo, calor e frio, expansão e contração — nasceram os Jotnar (os gigantes nórdicos), que, semelhantes aos Titãs, os precursores dos deuses gregos, tinham uma impressionante força e resistência física, mas diferentes deles, suas feições eram rudes e a inteligência primitiva, prevalecendo os instintos.

Os gigantes representavam os poderes naturais dos elementos e do ambiente em que viviam, alguns deles se tornaram progenitores das divindades que os seguiram na regência do mundo. Do vazio primordial surgiram dois seres, personificações primevas da energia e da matéria, o gigante Ymir (equiparado com os Titãs, que também personificavam o fogo subterrâneo) e a vaca AucLhumbla, tornando-se cocriadores no processo de formação da vida.

Ymir, como ser hermafrodita e sendo ao mesmo tempo gigante e deus, gerou vários descendentes; seus netos — a tríade divina Odin, Vili e Vé — gerados por uma força tripla (a mescla do fogo, do gelo e do princípio feminino — a vaca Audhumbla) mataram Ymir e, da sua matéria cósmica bruta, remodelaram o cosmo estático e o transformaram em um sistema vivo e dinâmico.

No mito grego, no começo dos tempos prevalecia o caos, em que todos os elementos estavam misturados formando uma massa informe, mas que continha em si as sementes da criação. O primeiro ser que surgiu foi Gaia, a mais antiga deusa e a Grande Mãe primordial, a própria terra, que soprou a vida no vazio e criou montanhas (seus seios), rios (seu sangue), grutas (seu ventre), planícies, florestas e desertos (seu corpo). Apesar de Gaia representar o planeta inteiro, para os gregos ela personificava o seu país e a fertilidade e abundância da terra.

Ao unir-se ao seu primogênito, Urano, o céu, ela gerou os Titãs (entre os quais se sobressaíam Cronos, Oceano, Hipérion, Eurinome, Têmis e Mnemosine) e depois os Ciclopes, seres gigantes e imbuídos de força irracional, que foram aprisionados por Urano (que temia seu poder primal), no mundo ctônico, o Tártaro. Revoltada com a sorte dos seus filhos e preocupada com a crueldade do seu marido, Gaia persuadiu seu filho Cronos, o mais jovem dos Titãs, a castrar e matar Urano; do seu sangue, que fertilizou novamente Gaia, surgiram as Fúrias, vários seres gigantes e as ninfas das árvores.

Cronos regeu a Idade de Ouro, um período de paz e prosperidade, mas devorava seus filhos à medida que nasciam, com medo de ser por eles destronado, assim como ele tinha feito com seu pai. Como o Senhor do Tempo, Cronos na realidade representava o fim de todas as coisas. Seu filho Zeus escapou a esse cruel destino por ter sido escondido pela sua mãe em uma gruta no monte Ida, em Creta, onde foi amamentado pela cabra Amaltea e cuidado pelas ninfas. Com a ajuda da deusa Métis, Zeus administrou um veneno ao seu pai, que o fez vomitar e devolver todos os seus filhos. Zeus — ou o seu equivalente romano Júpiter — libertou alguns dos Titãs presos no Tártaro e entregou aos seus irmãos Posêidon e Hades, os reinos do oceano e do mundo subterrâneo. Zeus se declarou o governante supremo, dos deuses e dos homens e foi morar no palácio do Monte Olimpo, de onde supervisionava todos os recantos do mundo e seguia a sua própria jornada, a busca do poder e prazer.

Tanto os gigantes do fogo e do gelo, quanto os Titãs, foram vencidos após batalhas ferozes, em busca da supremacia e do poder e foram banidos pelos seus descendentes, após sua derrota, uns para jötunheim, os outros para Tártaro, sendo obrigados a ceder seu poder primevo para um novo panteão, mais refinado. Engrandecidos pela sua vitória, os vencedores — que eram aparentados entre si —se instalaram em palácios dourados, seja os do reino nórdico de Asgard (as moradas das divindades Aesir), situados num dos níveis sutis da Arvore do Mundo, Yggdrasil, seja os dos seus equivalentes gregos do Monte Olimpo.

Os deuses representam o poder de manipulação e transmutação das forças naturais; a interação entre deuses e gigantes pode se manifestar como conflito ou domínio das forças naturais, levando à preservação ou à destruição da terra e de todos os seres vivos.

Os mitos nórdicos e os gregos, bem como as estórias e relatos das peripécias e conquistas das divindades são parecidos com os dramas humanos, descrevendo os conflitos inerentes e existentes entre gerações, famílias e indivíduos. As divindades eram dotadas com as mesmas virtudes e defeitos comuns aos seres humanos, sendo descritas como seres orgulhosos, vaidosos, violentos, belicosos, ciumentos, vingativos, sensoriais e passionais, interessados em observar, ajudar ou desafiar a humanidade, mas sem muita complacência, tolerância ou compaixão com suas ações negativas, seus erros, objetivos ou necessidades. Por outro lado, certos humanos tornados imortais — os heróis — possuíam poderes físicos e sabedoria semelhantes aos deuses, como se vê na descrição dos 12 trabalhos de Hércules ou nas proezas dos personagens históricos citados nas sagas islandesas.

A criação do homem

A tríade nórdica divina, Odin, Vili, Vé —os  descendentes de Ymir —, é semelhante aos deuses Zeus (Júpiter), Posêidon (Netuno) e Hades (Plutão), que, por terem maior poder e astúcia, venceram os gigantes (ou osTitãs) e assumiram o controle do mundo.

Os gregos modelaram as suas primeiras imagens de argila, por isso imaginaram que Prometeu tivesse usado o mesmo material quando foi chamado para confeccionar uma criatura inferior aos deuses, mas acima dos animais. Como as estátuas nórdicas eram feitas de madeira, os nórdicos atribuíram a criação do primeiro casal humano ao uso de troncos de árvores.

Os deuses nórdicos criaram o primeiro casal humano a partir de troncos de árvores, ou seja, de matéria orgânica preexistente, aos quais deram o espírito, os sentidos, o movimento, as funções da mente, o dom da palavra, a energia vital e a consciência.

Na mitologia grega, quem criou o homem foi Prometeu, um dos Titãs, que misturou terra e água e modelou um ser à semelhança dos deuses, que, diferente dos animais, ficava em pé e olhava para os céus, podendo assim invocar os deuses e agradecê-los. Para torná-lo especial e diferente dos seus irmãos menores, Prometeu entregou-lhe depois o fogo tirado do sol, que lhe assegurou a superioridade ao usá-lo para cozinhar, se aquecer ou defender e modelar metais em ferramentas e armas.

A primeira mulher foi Pandora, criada no céu, onde cada deus contribuiu com alguma coisa para aperfeiçoá-la: Afrodite lhe deu beleza; Hermes, a persuasão; Apolo, a arte. Ela recebeu também uma caixa que não devia abrir, porém, movida pela curiosidade, destampou-a e espalhou para a humanidade o conteúdo de pragas, maldades, males e doenças, permanecendo na caixa apenas a esperança. Assim, sejam quais forem os males que nos ameaçarem, a esperança nos permite sobreviver e vencer.

Ambos os panteões seguiam uma hierarquia familiar e uma evolução progressiva, correspondendo às Idades de Ouro (em que prevalecia a justiça, a paz, a abundância da terra), Prata (quando o ano foi dividido em estações, as moradas se tornaram necessárias, a terra tinha que ser plantada e cuidada), Bronze (o começo da competição e dos combates entre os homens) e por último a de Ferro (quando a humanidade tornou-se vil e violenta, começando a destruição dos recursos da terra), que passou a ser dividida em propriedades cobiçadas e conquistadas à força. Inúmeras guerras irromperam, havia crimes até mesmo entre familiares e a terra ficou manchada de sangue, até que os deuses entristecidos decidiram abandoná-la. Zeus ficou enfurecido com o caos reinante e decidiu destruir todos os seres humanos, jogando sobre eles o seu raio, para propiciar o nascimento de uma nova e melhor geração. Porém, temendo que o fogo afetasse o proprio habitat dos deuses — o céu —, ele escolheu outra forma de punição, provocando um dilúvio. Para isso Zeus desencadeou o movimento dos ventos, o avolumar das ondas, deixou os rios saírem dos seus leitos, sacudiu a terra com terremotos e erupções vulcânicas, até que nada mais restou das moradas, dos animais, árvores, plantas, campos, florestas ou seres humanos.

Apenas um casal sobreviveu, Deucalião e Pirra, que pertencia à mesma raça de Prometeu. Desesperados, eles começaram a orar aos deuses, pedindo-lhes clemência.

Zeus ficou tocado com a sua conduta humilde e a prece fervorosa e ordenou aos elementos que voltassem aos seus lugares, pedindo também aos outros deuses que harmonizassem a desordem reinante. O casal se ajoelhou nos escombros do altar do único templo restante, de Delfos, orou agradecendo pela sua sobrevivência e pedindo um conselho para a sua futura conduta.

O Oráculo, na voz de Gaia, lhes disse que saíssem do templo cobrindo suas cabeças, e que jogassem pedras ao seu redor, para que delas fossem formados seres humanos novos e melhores, repovoando assim a Terra. Assim foi feito e, aos poucos, uma nova raça foi surgindo, cuidando melhor dos recursos da terra e respeitando todos os seres vivos. As descrições e eventos do mito grego são semelhantes ao Ragnarök, o fim dos tempos da mitologia nórdica.

Cosmogonia

Na visão nórdica, a morada da humanidade — Midgard ou Manaheim — era cercada pelo mar, em cujas profundezas habitava a terrível Serpente do Mundo, enrolada ao redor de si mesma e mordendo sua cauda, cujas contorções provocavam ondas gigantes e tempestades marinhas e que iria ser fator preponderante no cataclismo final do Ragnarök. A passagem entre o mundo divino e os outros mundos — incluindo o humano — era feita pela ponte do Arco-Íris, formada de fogo, agua, ar e guardada pelo deus Heimdall. O cosmo multidimensional era representado por Yggdrasil, a Arvore do Mundo, cujas três raizes correspondiam às três dimensões (dos deuses, homens e dos mortos), que interligavam nove mundos, intercalados no espaço e sob cujas raízes brotavam três fontes sagradas, com significados e funções diferentes. A árvore gerava e sustentava a vida e abrigava as almas à espera do renascimento.

Os gregos acreditavam que a Terra fosse redonda e chata e que o seu país ocupava o centro da Terra, sendo seu ponto central o Monte Olimpo a residência dos deuses, ou o templo oracular de Delfos. Na sua visão, o disco terrestre era atravessado de leste para oeste e dividido em duas partes iguais pelo mar (o Mediterrâneo); em torno da Terra corria o rio Oceano, cujo curso era do sul para o norte na parte ocidental da Terra e em direção contrária do lado oriental; era dele que todos os rios e mares da Terra recebiam suas águas. O rio Oceano tinha uma superfície calma e suas correntes eram amenas, assim como era também o mar ensolarado do Sul, o Mediterrâneo.

Na cosmogonia grega existia uma terra mítica dos Hiperbóreos (a contraparte de Niflheim, o reino enevoado e frio do mito nórdico), situada no extremo norte da Terra (possivelmente Escandinávia), inacessível por terra ou por mar, onde “penas brancas” caíam do céu cobrindo a terra (uma bela imagem da neve). Os hiperbóreos eram um povo evoluído, que desfrutava de uma felicidade perene, isentos de doenças, velhice e guerras; eles viviam atrás de gigantescas montanhas, de cujas cavernas saíam as gélidas lufadas do vento norte. Foi lá, numa tempestade de neve, que o herói Hércules realizou um dos seus 12 trabalhos, alcançando e amarrando a corça de Cerínia (que pertencia a Artemis), que tinha chifres de ouro e cascos de bronze e corria com espantosa rapidez, sem jamais ter sido presa. Na sua visão no extremo sul da Terra, próximo ao rio Oceano, vivia um povo tão virtuoso e feliz como os Hiperbóreos, chamado de Etíopes. Na parte ocidental da Terra, banhada pelo Oceano, ficava um lugar abençoado, os “Campos Elíseos” ou “Afortunados”, para onde mortais favorecidos pelos deuses eram levados para desfrutar da imortalidade, uma semelhança com a Valhalla nórdica, onde os espíritos dos guerreiros mortos em batalha, festejavam em cada noite e lutavam durante os dias. Porém, na extremidade oeste, os gregos imaginavam um mar escuro povoado com gigantes, monstros e feiticeiros, descrição que revelava o pouco conhecimento dos gregos sobre seus vizinhos, além daqueles do leste e sul do seu país.

Fenômenos celestes

Assim como os gregos, os povos nórdicos acreditavam que a Terra tinha sido criada em primeiro lugar e a abóbada celeste em seguida, para que lhe servisse de cobertura e proteção. Eles também acreditavam que as carruagens do sol e da lua, puxadas por velozes corcéis, percorriam o céu na sua trajetória diária. A diferença aparecia no gênero das divindades, enquanto Sunna é a deusa solar do norte, seus equivalentes no sul são os deuses Hélios (o predecessor de Apolo), Hipérion (o pai de Hélios) e Apolo. Hélios morava em um palácio dourado no extremo leste do mundo, perto do rio Oceano, de onde emergia em cada amanhecer, coroado com os raios solares e conduzindo sua carruagem dourada, puxada por quatro cavalos alados.

Essa imagem é semelhante à descrição da deusa solar nórdica — Sunna ou Sol; nos seus mitos ambas as divindades se retiravam das suas carruagens solares ao anoitecer, assumindo outros veículos com os quais atravessavam abaixo da terra onde repousavam, até de novo reaparecerem na madrugada do dia seguinte, retomando sua jornada. Os gregos acreditavam que a aurora, o sol e a lua levantavam-se do Oceano na sua parte oriental e após atravessarem o ar, deitavam-se no ocidente. Devido a uma particularidade da língua germânica, o gênero do sol era feminino e o da lua masculino, por isso o deus lunar Mani podia ser equiparado às deusas lunares Artemis, Selene e Hécate (as representações das fases lunares).

Os skalds islandeses e os poetas germânicos comparavam o galope das Valquírias - montadas sobre seus corcéis com crinas brilhantes e portando armaduras cintilantes - às luzes fulgurantes da aurora boreal. Os aregos viam no mesmo espetáculo celeste as manadas brancas de bois e ovelhas, que pertenciam a Apolo e que eram cuidadas pelas suas filhas Lampécia e Faetusa, nas terras de Sicília. O orvalho era atribuído pelos nórdicos ao suor respingando das crinas dos cavalos das Valquírias, enquanto os gregos acreditavam que ele provinha da ninfa Daíne, que, por ter sido perseguida sem cessar pelos raios solares de Apolo, transformou-se na arvore de louro, tornada sacra pelo arrependimento do deus e a ele consagrada.

A Terra era uma divindade feminina, tanto no norte quanto no sul, honrada como a Mãe Geradora e Protetora de todos os seres, mas diferenciada em função das características geográficas e climáticas do norte e do sul. As diferenças apareciam nas descrições da sua manifestação: rígida e congelada como Rinda, que devia ser conquistada com perseverança e abnegação, ou benevolente e fértil como a Deméter grega. Os gregos acreditavam que os ventos frios e o granizo vinham do norte, assim como os proprios nórdicos sabiam, mas atribuíam sua formação ao movimento das asas da grande águia pousada no topo da árvore Yggdrasil.

Segundo os gregos, existiam portas nas nuvens, guardadas pelas deusas das estações, que as abriam para permitir a passagem dos imortais nas suas viagens para a Terra. No mito nórdico a ligação entre o mundo dos humanos e o das divindades era feita pela ponte do Arco íris, Bifrost, protegida pelo deus Heimdall, que negava a entrada para aqueles seres (humanos ou sobrenaturais) que não tinham o direito ou a permissão de entrarem no mundo divino. Além de Bifrost existiam outras pontes, separando ou ligando os outros mundos.

Os deuses gregos tinham moradias distintas, mas quando convocados para os conselhos, se reuniam no palacio de Zeus, onde se regalavam diariamente com ambrosia e néctar, servidos pela linda deusa da juventude Hebe e, quando o sol se punha, se retiravam para seus palácios. As divindades nórdicas também se reuniam para deliberar, criar leis ou administrar assuntos do seu reino ou dos humanos, nos grandes salões de Valhalla, onde festejavam com brindes de hidromel, preparado no caldeirão mágico do deus Aegir. Eram 12 as divindades que se reuniam nos concílios para deliberar e decidir a melhor maneira de governar o mundo e a humanidade, tanto em Asgard, quanto no Monte Olimpo e elas foram associadas com constelações e corpos celestes.

Nornas e Moiras

É evidente a semelhança entre o conceito do orlög nórdico e do destino grego, entre as poderosas Senhoras do Destino — Nornas e Moiras, respectivamente — que presidiam a todos os nascimentos e determinavam o futuro das crianças, bem como o traçado da sorte dos homens.

Os povos nórdicos sabiam, que mesmo reverenciando, invocando e fazendo oferendas às divindades, elas não iriam deles afastar os perigos e as adversidades, por fazerem parte dos testes e provações dos seus destinos, previamente designados e traçados pelas Nornas. As lendas e os mitos nórdicos não descrevem atos de revolta, ou demonstrações de amargura e inconformação dos personagens perante as adversidades e contratempos das suas vidas; pelo contrário, observa-se uma heróica aceitação da inevitabilidade dos problemas e dificuldades, celebrando e agradecendo em troca os prazeres sensoriais e as dádivas materiais da existência.

Os deuses conferiram à humanidade a aceitação da vida como um traçado inalterável do destino, previamente escolhido e determinado pelas Nornas. Orlög representava o presente moldado pelas ações passadas, enquanto Wyrd era o destino individual, predestinação ao qual nem mesmo as divindades podiam escapar. As Nornas podiam aconselhar os deuses que as procuravam, sem jamais atenderem pedidos ou mudarem os seus destinos, como foi descrito no mito do deus Baldur. As Nornas habitavam uma gruta nas raízes de Yggdrasil, a Árvore do Mundo e os seus nomes podiam ser interpretados como atribuições ligadas à passagem do tempo: Urdh, “Aquilo que já aconteceu”, Verdandhi, “Aquilo que está sendo” e Skuld, “Aquilo que poderá vir a ser”, aspectos associados também ao nascimento, vida e morte. Sua função cósmica era estabelecer as leis e modelar os destinos de todos os seres vivos, de todos os mundos, inclusive dos deuses.

As Parcas ou Moiras, conhecidas como as “Fiandeiras” ou “Tecelãs”, eram também um grupo em número de três deusas — como as Nornas —, representando os marcos da passagem do tempo — passado, presente e futuro. A sua missão consistia em tecer o fio do destino humano, medi-lo e com sua tesoura cortá-lo, atividade revelada pelos seus nomes: Cloto, a tecelã; Láquesis, a distribuidora e Atropos, a inevitável. Diferente das Nornas, que tinham surgido antes do início dos tempos sem que fosse conhecida a sua origem ou descendência (portanto sendo imemoriais e eternas), as Moiras eram filhas da deusa Têmis (a guardiã da lei e da justiça) ou, segundo outras fontes, de Nix, a Senhora da Noite.

Em alguns mitos conta-se que o seu poder era mais antigo e anterior ao império de Zeus, tendo dele recebido a permissão para aconselhar os deuses, mas sem influírem no destino deles, somente assim obtendo a aceitação para pertenceram ao novo panteão olímpico. As Moiras viviam em uma caverna ao pé de um lago, cuja água branca é uma imagem do luar, imagem que as associa com as três fases lunares.

A mãe do mundo

Nas estórias gregas, relativas ao começo de tudo, três grandes deusas representam o papel da Mãe do Mundo: Tétis, a deusa do mar, Nix, a regente da noite e Gaia, a Mãe Terra, que juntas formam uma trindade, abrangendo o domínio do céu, do mar e da terra. Mesmo sendo uma trindade, elas não constituem divisões de uma deusa tríplice, atributo que ficou associado apenas com a deusa lunar e seus aspectos de lua crescente (incluindo a nova), cheia e minguante, fases ligadas também aos estágios de nascimento, crescimento e declínio.

Nos mitos nórdicos não existem referências claras ou comprovações assim ditas científicas sobre a existência de uma única Mãe Ancestral, mas encontramse inúmeras das Suas representações como mães tríplices, matronas, mães da natureza. Seus diversos elementos e aspectos eram reverenciados com diversos títulos e nomes, os atributos sendo diferenciados em função da tribo, localização geográfica, estação do ano ou época dos seus cultos.

Mitos das estações

As Horas (Horae) eram três deusas gregas, filhas de Zeus e Têmis, que regiam a estabilidade do tempo e a ordem na sociedade humana, quando assumiam os nomes de: Eunomia (Ordem), Dice (Justa retribuição) e Irene (Paz). Outras representações delas como governantes das três estações (primavera, verão e outono, específicas ao clima ameno do sul da Europa), do tempo e dos ciclos da vegetação (semeadura, brotação, amadurecimento e colheita) eram chamadas como Talo (regente da primavera), Auxo (do verão) e Carpo (do outono) e descritas como lindas moças, segurando flores e espigas. Elas abriam as portas do céu para a passagem das divindades nas suas incursões à Terra, traziam e conferiam oportunidades, iam e vinham de acordo com a lei firme da periodicidade da natureza e da vida, governavam as mudanças do tempo e mantinham a estabilidade no mundo natural.

Na mitologia nórdica, a passagem do tempo era representada pela Roda do Ano, cuja característica básica era o jogo entre as energias de luz e escuridão, calor e frio, expansão e contração. A Roda do Ano era dividida e celebrada pelos festivais solares (que marcavam a mudança das estações de acordo com a marcha do sol no céu, em datas fixas conhecidas como solstícios e equinócios) e pelos festivais do fogo (pautados em datas do calendário agrícola e que diferiam em função da localização geográfica). Cada um desses festivais tinha como ponto focal a reverência de certas divindades, descritas na Roda do Ano.

Os povos nórdicos reconheciam apenas três estações, cada uma delas correspondendo a certas divindades. O inverno era regido pelas Senhoras Brancas (Berchta, Holda), as deusas Rind e Skadhi e o deus Ullr; a primavera era associada com as deusas Freyja, Frigga, Idunna, Ostara, Rana Neidda, Rind e Walburga e o verão com Freyja, Frigga, Gerda, Nerthus, Sif, Sunna e os deuses Frey, Njord e Thor. As mudanças de tempo (chuvas, tempestades, vento, nuvens cinzas ou céu azul) eram provocadas pelas mudanças de humor, os deslocamentos ou atributos das deusas Thrud, das Senhoras Brancas (Berchta e Holda), de Gna, Skadhi, Vaiquírias e dos deuses Odin, Njord, Thor (relâmpagos e trovões) e Ullr (neve e névoa).

Idunna, assim como Perséfone e Eurídice, personificava a primavera e ajuventude, pois ela levava diariamente aos deuses as maçãs da juventude; todas elas tinham sido raptadas por um gigante (Thiazzi e Hades) e foram trazidas de volta pelo sopro do vento (representado por Loki, Hermes e o suave som da flauta de Orfeu).

Frey era o deus regente das chuvas da primavera, do calor do verão e da fartura das colheitas, que se deslocava numa carruagem puxada por javalis dourados, semelhante à carruagem dourada de Apolo. O belo e bondoso Frey tinha características solares comuns com Apolo, mas regia principalmente a fertilidade da terra e a prosperidade das comunidades.

A deusa Gerda era conhecida pela sua beleza que iluminava o céu, a terra e personificava a aurora boreal; mas ao mesmo tempo era a regente da terra congelada pelo frio do inverno, que teve que ser aquecida pelas insistências e o amor solar de Frey, antes de concordar em se tornar sua esposa.

O desaparecimento misterioso de Odin e Odhr durante alguns meses do ano e a decorrente desolação de Frigga e Freyja chorando lágrimas de ouro e âmbar, são estórias nórdicas semelhantes aos “Mistérios de Eleusis”, as famosas celebrações milenares gregas. Nos rituais gregos era encenado o rapto de Perséfone (levada ao mundo subterrâneo por Hades, simbolizando o fim da vegetação no outono e a hibernação das sementes), o desespero e luto de Deméter, chorando a ausência da sua amada filha e se retirando do mundo terrestre (fato que retratava a aridez da terra nos meses de inverno). O tema comum dos mitos é a alternância do inverno e do verão, da colheita e da semeadura, da morte e do renascimento da vegetação.

Os invernos gelados e os ventos cortantes dos países nórdicos eram personificados pelos gigantes de gelo ou Jómar, os seres primordiais das forças destrutivas da natureza, vencidos pelos deuses Aesir e isolados nas grutas escuras e geladas, antes de terem sido criadas as condições favoráveis para a vida humana. Eles representavam as adversidades climáticas do extremo norte, as geleiras e as tempestades de neve. Enquanto os gregos acreditavam que o Monte Atlas tinha sido a metamorfose de um Titã, os picos alemães Riesengebirge, (a montanha dos gigantes) eram considerados a morada dos gigantes de gelo, de onde eles jogavam o excesso de neve acumulado ao seu redor em forma de avalanches.

Mitos sobre o perigo e a beleza do gelo são frequentes nos países nórdicos, os gigantes eram considerados forças maléficas e destrutivas, que, durante os meses de inverno, lutavam contra as forças do verão, enviando os ventos gelados e as tempestades de neve. Porém, as gigantas eram cobiçadas pelos deuses como amantes ou companheiras, devido aos seus dons proféticos e sua beleza radiante; ao se casarem com eles, elas podiam adquirir status de deusas e morarem em Asgard (como Gerda, Gefjon, Jord)

Regentes da natureza

Os povos nórdicos honravam inúmeras regentes e guardiãs das florestas como as mulheres-freixo ou mulheres-arbusto, as Senhoras Verdes, o povo de Huldr, os espíritos da natureza (Land-vaettir), Vittra (a personificação da mulher selvagem), Nanna, a deusa da vegetação e do florescimento. Eles também cultuavam as deusas da terra (Nerthus, Jord, Fjorgyn, Gefjon), dos campos de trigo (Sif, Ziza), da vegetação (Idunna, Nana e o deus Frey) e das ervas curativas (Eir).

Os elfos claros — que eram responsáveis pelas árvores, plantas e rios, assim como os Seres Sobrenaturais e os Guardiões Ancestrais dos reinos e elementos da natureza nórdica — podem ser equiparados às ninfas dos bosques, dríades e hamadríades ligadas a determinadas árvores (carvalho e freixo), as Oréades, ninfas das montanhas e grutas, aos sátiros (meio-homens, meio-bodes), silvanos, silenos e faunos, acompanhantes do deus Pã (o deus fálico dos bosques, dos campos, dos rebanhos e pastores) e moradores das florestas, vales e campos da antiga Grécia.

Os anões e os elfos escuros, criados do corpo de Ymir, eram semelhantes aos servos escuros de Hades, que não podiam sair das profundezas da terra sob risco de ficarem petrificados pelos raios solares. No mundo subterrâneo eles deviam cuidar ou buscar os metais e as pedras preciosas necessárias para os ornamentos e joias dos deuses, auxiliar na confecção das armas inquebráveis (pelo deus Hefesto), ou na criação dos objetos mágicos (como os tesouros de Asgard), que eram presenteados aos deuses e heróis.

O roubo dos cabelos dourados de Sif — a esposa de Thor e regente dos campos de trigo — pelo traiçoeiro Loki pode ser comparado ao rapto de Perséfone por Hades, ambas as deusas representando a riqueza da vegetação. Para a recuperação da cabeleira da deusa Sif — depois de ter sido ameaçado com a morte por Thor — Loki teve que apelar aos elfos ferreiros, se esgueirando pelas frestas da terra até alcançar suas escuras moradas e lhes encomendar uma cabeleira igual, feita com fios de ouro. Hermes, enviado por Zeus para trazer de volta Perséfone raptada por Hades, teve que procurá-la, perambulando no sombrio mundo subterrâneo e depois escoltá-la de volta para a sua mãe, Deméter. A alegria do encontro da mãe com a filha devolveu a fertilidade à terra e os campos de trigo foram cobertos com o brilho dourado das suas espigas.

Divindades aquáticas

Os Titãs gregos — Oceano (o deus-rio) e Tétis (A Senhora ou a Mãe do Mar) —, eram os governantes primordiais das águas, que foram substituídos por Posêidon e Anfitrite, depois da derrota dos Titãs pelos deuses olímpicos. Anfitrite (Rainha das Nereidas, das 3 mil Oceânidas, das ninfas do mar e das Náiades, os espíritos femininos dos rios e fontes, semelhantes às Nixen nórdicas) era filha do deus marinho Nereu, mãe de inúmeros filhos, que se tornaram os rios do mundo e de Tritão, que era meio homem, meio peixe. Ela era descrita como uma linda mulher, que aparecia nua e coroada com algas e pérolas, deslizando pelo mar na sua carruagem prateada, puxada por golfinhos. As Nereidas eram ninfas marinhas, personificando as ondas e as qualidades do mar, que acompanhavam Posêidon e Anfitrite e apareciam como mulheres extremamente bonitas e sedutoras, mas com rabo de peixe.

Diferente da deusa marinha nórdica Ran, que tinha um temperamento imprevisível, agressivo e vingativo, a Mãe do Mar grega era gentil, personificando a superfície calma e ensolarada das ondas. Posêidon, em compensação, tinha uma natureza violenta, cíclica e explosiva: ele podia provocar terremotos (resquícios da sua representação mais antiga, quando regia o relâmpago e as tempestades), usar o tridente para desencadear ou amainar tempestades ou cavalgar tranquilamente as ondas, no meio dos golfinhos, na sua carruagem dourada puxada por cavalos marinhos.

Afrodite, a deusa do amor, da fertilidade e da beleza, apareceu do meio das ondas, assim como sua equivalente nórdica Freyja. Porém, enquanto Freyja era filha do deus marinho Njord, Afrodite surgiu da espuma formada sobre as ondas, quando Urano, após a castração de Cronos, jogou seus testículos no mar, uma metáfora que descrevia o poder fertilizador e a energia vital da água e do esperma.

Os deuses Fórcis, Nereus (pai das Nereidas) e Proteu eram conhecidos como “O velho homem do mar”, tendo sido anteriores a Posêidon e viviam em palácios luxuosos no fundo do mar. Assim como o nórdico Njord, eles descreviam a natureza do mar calmo e eram dotados do dom da metamorfose e da profecia. Njord (associado com o verão, a calmaria das águas e a fertilidade do mar) tem sua contraparte em Posêidon, e, principalmente em Nereus, que personificava o aspecto calmo, misterioso e prazeroso das profundezas marinhas.

Com exceção de Njord, as divindades nórdicas do mar refletiam o clima desafiador e o mar tempestuoso do seu habitat, assim como o grego Posêidon. O casal marinho Aegir e Ran tinha características semelhantes: Aegir regia as profundezas geladas do mar e as tempestades e tinha um palácio faustoso repleto de tesouros recolhidos dos navios. Ran era Rainha das Ondinas e das Sereias e era ela quem recolhia os afogados com sua rede mágica, levando-os para o palácio no fundo do mar, onde tratava bem aqueles que tinham ouro nos seus bolsos. Ambos eram violentos e terríveis, responsáveis pelos naufrágios e afogamentos e por isso cultuados pelos marinheiros e viajantes que lhes faziam oferendas de ouro, antes das suas viagens, para serem protegidos.

Os povos nórdicos cultuavam também outras deusas como Nehalennia, a protetora dos marinheiros, pescadores e viajantes (que propiciava também a abundância); Mere-Ama, a Mãe do Mar finlandesa, protetora das plantas e dos animais marinhos e as Donzelas das Ondas (as nove filhas de Ran e Aegir), protetoras dos marinheiros, guardiãs do Moinho do Mundo, em que moíam as mudanças das estações.

Zeus e Odin

Ambos eram filhos dos deuses mais antigos — respectivamente os gigantes Bestla e Bor e os Titãs, Cronos e Reia. Tanto Odin quanto Zeus eram personificações do “Pai supremo dos deuses” e regentes do universo, cujos tronos - Hlidskjalf e Olimpo - eram igualmente majestosos, permitindo a visão à longa distância. A espada invencível de Odin — Gungnir — era tão temida quanto os raios lançados por Zeus. Nas festas nórdicas as divindades se deliciavam com carne de javali e hidromel, enquanto no Olimpo, a nutrição era compatível com o clima suave, composta de frutas, néctar e ambrosia. Enquanto Apolo e as Musas cuidavam do entretenimento musical e poético dos festejos gregos, nos encontros dos deuses nórdicos era o deus Bragi que contava estórias e declamava poemas, acompanhado pelos sons mágicos da sua harpa.

Para ser orientado nas suas decisões, Odin procurava diariamente a deusa Saga, detentora da sabedoria ancestral, que morava às margens de uma cachoeira. No mito de Zeus, conta-se que uma das suas esposas foi Mnemosine (a guardiã da memória), mãe das Musas, cujas fontes sagradas conferiam inspiração àqueles que delas bebiam.

Quando Zeus soube que o filho gerado com a deusa Métis (filha de Tétis e Oceano) iria sobrepujá-lo no poder, ele o engoliu, mas como passou a sofrer de atrozes dores de cabeça, pediu ao ferreiro Hefesto que abrisse seu crânio com um machado. Da fenda aberta saltou Atena, adulta, vestida com armadura, portando todas as insígnias do seu poder e que se tornou sua filha preferida e conselheira em assuntos de guerra, deusa da sabedoria e protetora dos heróis.

Odin e Zeus são descritos como deuses majestosos e maduros, tendo muitas amantes e aventuras com deusas, gigantas (ou ninfas) e mortais, sendo conhecidos como progenitores de monarcas e detentores de inúmeros nomes, que descreviam seus atributos e funções. Os juramentos eram feitos sobre a lança de Odin e o cetro de Zeus, ambos os deuses peregrinando pela Terra, disfarçados ou metamorfoseados, para observar e julgar o comportamento dos humanos, dando-lhes presentes, avisos ou punições. Odin tinha em comum com Apolo o dom da poesia e da eloquência; assim como Hermes (Mercúrio) trouxe à humanidade o alfabeto, Odin ensinou o uso das runas, símbolos sagrados e mágicos.

Hermes era conhecido também pelo seu manto da invisibilidade, pelos seus talentos de convencer e enganar (era padroeiro dos comerciantes e dos ladrões) e pela sua habilidade de usar as palavras. Odin tinha o dom da metamorfose, podendo assumir diversas formas ou permanecer invisível, sendo imbuído de características ambíguas: deus dos juramentos e das traições, do poder de criar ou soltar amarras, de proteger nas batalhas ou escolher aqueles que iriam morrer, de ajudar ou enganar.

Um dos tesouros dos deuses nórdicos era o elixir mágico Odhroerír, que conferia inspiração aos mortais e imortais, da mesma forma como as águas sagradas do rio Helicon. Odin usou um manto de penas de águia para carregar este precioso elixir, depois de tê-lo furtado da deusa Gunnlod, enquanto Zeus usou um disfarce semelhante, de águia, para raptar Ganimedes, o jovem mortal que substituiu Hebe, a deusa da juventude, que servia o néctar aos deuses. Ela foi substituída após ter caído um dia enquanto servia o néctar ou, segundo outra versão, ter casado com Hércules.

A cabra nórdica Heidrun, que fornecia o hidromel celeste, pode ser assemelhada à cabra Amaltea que alimentou Zeus, os corvos de Odin são contrapartes da águia de Zeus, enquanto o esquilo Ratatosk — que criava discórdia com suas mensagens — é equivalente à gralha branca grega, cujas maledicências lhe causaram o enegrecimento das suas penas.

O conflito entre Aesir e Vanir lembra a disputa entre Zeus e Posêidon pela supremacia do mundo, mas no fim eles tornam-se amigos e aliados. Existe uma semelhança também entre os Vanir, regentes da abundância da terra e da água e as divindades gregas do mar e da terra.

Frigga e Hera

A deusa nórdica Frigga personificava tanto a terra, quanto o céu e detinha o dom da fertilidade e da tecelagem. Assim como a grega Hera, era casada com o deus supremo, vivendo com ele em um belo palácio no céu, mas passando uma boa parte do tempo junto com as suas acompanhantes, na sua morada no meio da névoa.

Ambas as deusas eram padroeiras do casamento, do amor conjugal e familiar, regentes do nascimento e do cuidado com as crianças, elas mesmas tendo tido vários filhos. Eram descritas como mulheres majestosas e lindas, ricamente vestidas, com cintos de ouro, colares de âmbar e muitas joias, reverenciadas pelas mulheres e os heróis, que lhes pediam ajuda e proteção. Como personificações da atmosfera elas controlavam as nuvens: Hera as movimentava com os movimentos das suas mãos e Frigga tecia as nuvens no seu tear celeste, sendo renomada pela sua elaborada tecelagem, dom que a aproximava das Moiras gregas, também Fiandeiras e Senhoras do Destino.

Frigga também era conhecida pelo seu dom de conhecer o futuro, mas que não revelava a ninguém, nem podia mudar o traçado do destino. Frigga e Hera tinham auxiliares para enviar mensagens e sinais aos seres humanos. A acompanhante e mensageira de Frigga, Gna, podia ser equiparada com íris, a deusa grega do arco-íris, regente do vento e da chuva; ambas as deusas agiam como mensageiras dos deuses e se deslocavam ao longo do arco-íris.

Tanto Frigga quanto Hera usaram de subterfúgios e estratagemas para impor seus desejos aos maridos: Hera conseguiu obter de Zeus a vaca Io, a metamorfose da ninfa amada do deus (que tinha se transformado em touro para escapar da vigilância de Hera e seduzir a linda mortal jovem), enquanto Frigga ardilosamente obteve a vitória da tribo dos Winilers por ela protegidos.

A raiva de Odin ao descobrir o furto do ouro da sua estátua por Frigga é equivalente às brigas do casal grego devidas ao ciúme de Hera. Estórias semelhantes descrevem as aventuras extraconjugais de Odin e Zeus e a maneira digna e altiva com que as suas esposas as ignoram ou perdoam. Diferente da deusa grega Hera —cujo arquétipo na adaptação romana como Juno foi distorcido para a figura de uma esposa ciumenta e vingativa — a nórdica Frigga sempre teve mantida nas estórias a sua altivez e comportamento equilibrado, imparcial e condescendente perante as aventuras de Odin com gigantas, deusas e mortais.

Outras divindades

Como regente dos raios e trovões, Thor se assemelha a Zeus, pela sua força física a Hércules, com qual partilha a descrição do seu disfarce como mulher: Thor para recuperar seu martelo roubado pelo gigante Thrym e Hércules fiando para agradar à rainha de Lídia, Ônfale. A força física de Thor é semelhante à de Hércules, que, ainda bebê, estrangulou as serpentes enviadas por Hera para matá-lo no seu berço e ao se tornar adulto, atacava e vencia gigantes e monstros.

Thor tem um martelo mágico, Mjollnir, o emblema nórdico do poder destruidor do relâmpago e, assim como Zeus, o usa livremente contra os gigantes. Porém Mjollnir era usado também para abençoar os casamentos e consagrar as piras funerárias; as estacas firmadas por um martelo, eram consideradas pelos nórdicos tão sagradas, quanto as estátuas de Hermes, cuja remoção era punida com a morte. No seu rápido crescimento, poder físico e coragem, Thor lembra Hermes, que roubou o touro de Apolo quando tinha apenas um dia de vida. A precocidade de Magni, filho de Thor, que, tendo apenas três anos, consegue liberar a perna do seu pai presa sob o corpo morto do gigante, lembra o jovem Hércules e sua força fora do comum. A luta de Thor contra o gigante Hrugnir é um paralelo com os combates de Hércules e seu famoso apetite na festa do gigante Thrym assemelha-se com a primeira refeição de Hermes, quando ele consumiu dois bois inteiros. A travessia do rio Veimer por Thor — para capturar o gigante Thrym —, lembra o heroísmo de Jasão, quando atravessou uma correnteza para desafiar o tirano Pélias, seu tio, e recuperar o trono do seu pai.

O famoso colar de âmbar usado por Frigga e Frevja é semelhante ao cinto mágico de Afrodite, que foi pego emprestado por Hera para encantar Zeus; assim como o cabelo de ouro de Sif e o anel mágico Draupnir, o colar é um emblema da vegetação luxuriante, da beleza feminina e do brilho das estrelas no céu (o planeta Vênus).

O deus Tyr é muito parecido com o deus Ares (Marte) nos atributos, ambos sendo honrados e lembrados no mesmo dia da semana (terça-feira), que tem os seus nomes nas respectivas línguas. Assim como Ares, Tyr era valente e destemido, se regozijando no calor das batalhas. Somente ele teve a coragem para enfrentar o lobo Fenrir que, amarrado por Tyr, personifica o fogo subterrâneo, a mesma equivalência dos Titãs amarrados pelos deuses no Tártaro.

Baldur, o radiante deus solar nórdico, lembra não apenas Apolo e Orfeu, mas os outros heróis dos mitos solares. Sua linda esposa Nanna, deusa da vegetação e parecida com Perséfone (cuja descida para a escuridão em baixo da terra corresponde aos meses áridos do inverno), pois ela também desce para o mundo subterrâneo, onde permanece até o surgimento de um novo mundo. O palácio dourado de Baldur é parecido como o do Apolo, ambos amavam as flores que desabrochavam na sua passagem e todos os seres vivos lhes sorriam. Assim como Aquiles, que tinha apenas um ponto vulnerável no seu calcanhar, Baldur somente podia ser morto com uma flecha feita de visco.

A morte de Baldur foi provocada pelo invejoso Loki, assim como a de Hércules pela vingança de um centauro, por ele ferido. Para se vingar, o centauro convenceu a sua esposa, Dejanira, a preparar uma poção mágica que garantisse a fidelidade do seu marido, mas que provocou a sua morte. A pira funerária de Baldur lembra a morte de Hércules no monte Etna, a cor das chamas e o brilho avermelhado - da fogueira e da erupção vulcânica - sendo típicas do sol poente. Baldur podia ser libertado de Niflheim apenas com o choro de todos os seres e coisas; Persefone poderia sair do Hades se não tivesse ingerido nenhum tipo de comida. O embuste de Loki disfarçado com a velha Tokk, recusando-se a verter sequer uma lágrima por Baldur, assemelha-se com o estratagema de Hades, ao convencer Perséfone a engolir algumas sementes de romã, ato que representava a sua permanência temporária no mundo subterrâneo, enquanto o choro de Frigga e Deméter é o mesmo lamento materno pela perda dos seus filhos.

A Idade de Ouro, de norte a sul, era descrita como uma época de felicidade idílica, com a paz, a abundância, o amor, a beleza e a harmonia reinando sobre a terra, sem que o mal existisse ou fosse conhecido. Através de Loki, de sua inveja, cobiça, maldade e vingança, o mal entrou no mundo nórdico, enquanto a dádiva de fogo trazido por Prometeu para a humanidade, trouxe uma maldição para os gregos.

A punição dos culpados é semelhante, pois enquanto Loki é preso com correntes numa gruta e torturado pelo lento escorrer de veneno da boca de uma serpente (amarrada acima da sua cabeça), Prometeu foi amarrado no monte Cáucaso e um abutre faminto continuamente devorava seu fígado, que crescia novamente no dia seguinte.

Outras punições semelhantes são as de Tito preso no Hades e de Encelado acorrentado em baixo do monte Etna, onde suas convulsões provocavam terremotos e seus gritos e maldições as erupções de lava. Loki tem um ponto em comum com Hefesto, ambos tendo assumido formas equinas e gerado velozes corcéis; com Hermes, Loki partilha a astúcia, as trapaças e os enganos.

Há uma semelhança entre o gentil e inspirado Bragi, tocando sua harpa e Apolo, o deus grego do sol, que tocava lira e era exímio arqueiro e médico. Ambos partilham os mesmos dons: da inspiração, da poesia e da música, porém o sábio Bragi era fiel à sua esposa Idunna, enquanto Apolo teve inúmeras amantes e aventuras. Idunna era a guardiã das maçãs da juventude e quando ela caiu dos galhos de Yggdrasil para as profundezas de Niflheim, Bragi foi buscá-la. Envolvendo-a em uma pele de lobo (metáfora da neve que protege as raízes do extremo frio nórdico) Bragi permaneceu ao lado da sua esposa até a sua recuperação e volta. Nesse tempo, a voz de Bragi silenciou, suas canções não mais eram ouvidas, pois sem a sua amada a vida não tinha mais alegria.

Um paralelo pode ser estabelecido com a estória de Orfeu e Eurídice, quando ela foi levada para o reino de Hades. Orfeu foi resgatá-la da escuridão, tocando a sua flauta. Idunna personifica a primavera e a juventude (semelhante a Adônis e Eurídice) e foi raptada por Thiazzi,o gigante de gelo, que representa o javali que matou Adônis, ou a serpente que envenenou Eurídice. Idunna foi retida pelo gigante no mundo de gelo de Jötunheim (equivalente ao reino de Hades, para onde Perséfone foi levada após o seu rapto) e, sem poder retornar sozinha para Asgard, se tornou pálida, enfraquecida e triste. Apenas quando Loki, representando o sopro do vento do Sul, vem resgatá-la transformado em pássaro, é que ela consegue escapar, metamorfoseada em uma noz. Essa imagem lembra a volta de Perséfone, conduzida pela tocha de Hécate e escoltada por Hermes, de Adônis acompanhado por Hermes, ou de Eurídice, atraída pelo som doce da flauta de Orfeu, que lembrava o sussurro do vento.

A deusa arqueira Skadhi se assemelha com a caçadora Ártemis, ambas usam arco, flechas e túnicas curtas para se movimentarem livremente, são acompanhadas por cães ou outros animais, amam o seu habitat selvagem que defendem dos invasores, demonstram independência, altivez e segurança nas suas escolhas.

Frey, o regente nordico do calor do verão e das chuvas fortes e repentinas, tem características comuns com Apolo, ambos são belos e bondosos, o primeiro cavalga um javali com pelos dourados, equivalentes aos raios solares, enquanto a carruagem solar de Apolo brilha no seu traslado pelo céu. Frey tem também algumas características de Zéfiro, pois ele espalha flores no seu caminho e rege principalmente a fertilidade da terra. Frey, assim como Odin e Zeus, foi considerado como sendo um rei humano; acredita-se que o seu túmulo está perto do de Odin eThor em Uppsala. O reino de Frey como monarca foi tão feliz e próspero, que foi denominado de Idade de Ouro, fato que lembra Cronos, que tendo sido exilado para a Terra, governou o povo da Itália, garantindo uma prosperidade semelhante.

Freyja, a linda deusa nórdica, filha do deus marinho Njord é semelhante a Afrodite, que também nasce do mar no seu aspecto de Anadiômena. Ambas regiam a juventude, o amor e a beleza, tiveram vários amantes, recebiam oferendas de frutas e flores e podiam atender os pedidos dos namorados e fiéis. Mas Freyja se assemelha tambem com Atena, tendo os mesmos olhos azuis, usando elmo e armadura e intervindo nos combates dos guerreiros como condutora das Valquírias, enquanto Afrodite entregou sua afeição a Ares, o deus da guerra e a outros heróis. As lágrimas vertidas por Freyja durante a ausência do seu amado Odh se transformaram em ambar e ouro, as de Afrodite em anémonas, pela ausência do seu amado Adônis,

Odh, o marido enigmático de Freyja, se assemelha a Adônis e, assim como Afrodite se alegra com a volta do seu amado Adônis, fazendo toda a natureza brotar e florescer, Freyja festeja o encontro com Odh em baixo das árvores floridas das terras do Sul. Freyja ama a beleza e se recusa a se casar com o feio gigante Thrym, enquanto Afrodite teve que aceitar como marido o aleijado Hefesto, mas o abandona ou trai por ter sido obrigada a se casar com ele. Enquanto a carruagem de Afrodite é puxada por pombas brancas, a de Freyja é por gatos, as pombas sendo símbolos do amor terno e os gatos do amor sexual.

Gerda se assemelha a Atalanta, difícil de conquistar, mas ambas acabam cedendo a perseguição e a pressão dos seus pretendentes e se tornam esposas felizes. As maçãs douradas, com as quais o mensageiro de Frey, Skirnir, tentou convencer Gerda a aceitar Frey como marido, lembram o fruto dourado que Hipômenes jogou no caminho de Atalanta, a linda donzela avessa ao casamento, fazendo-a assim perder a corrida. Atalanta tinha sido avisada que se casasse, seria infeliz e por isso fugia dos homens, dedicando-se a caça e aos esportes. Ela impunha como condição para se casar que o pretendente a vencesse numa corrida, caso contrário fosse morto. Esse feito corajoso foi conseguido por Hipômenes, mas com a ajuda de Afrodite, que lhe entregou os frutos de ouro. Por não ter agradecido a Afrodite pela graça alcançada, o casal foi transformado em leões atrelados ao carro da deusa Cibele, conforme visto nas estátuas e imagens dessa deusa.

A deusa Saga, cuja morada era ao lado do “rio dos tempos e dos eventos” era a guardiã das memórias e dos acontecimentos, conselheira do deus Odin, que a ela recorria diariamente. Saga assemelha-se com a grega Clio, a musa da estória, que ficava perto da fonte Helicon e que o deus Apolo procurava, para dela receber inspiração.

A forma ardilosa em que a deusa Gefjon obteve a terra do rei Gylfi para formar o seu reino de Zeeland (na Dinamarca) reproduz a estória da rainha Dido, que obteve por um estratagema a terra sobre a qual fundou a sua cidade de Cartago.

Os gregos representavam a Justiça como uma deusa vendada, segurando em uma mão a balança e na outra a espada, para indicar a imparcialidade nos julgamentos. O seu equivalente nórdico era Forsetti, que ouvia pacientemente as queixas e questões humanas, promulgando sentenças com imparcialidade e justiça.

A mosca varejeira que impediu Zeus de recuperar a sua amada Io, reaparece no mito nórdico para atormentar o anão ferreiro Brokk e perturbar a confecção do anel mágico Draupnir, do javali dourado de Frey e do martelo Mjollnir, que ficou com um cabo encurtado. O navio mágico de Frey — em que podiam entrar todos os deuses, mas que depois de minimizado cabia no bolso dele —, também confeccionado pelos anões, é semelhante ao navio grego Argo, que personificava o movimento rápido das nuvens e podia levar todos os herois gregos para as distantes terras de Cólquida.

O deus arqueiro Ullr parece com Apolo e também com Orion, pelo amor à caça, atividade que segue permanentemente. O deus Heimdall, assim como Argo, era dotado de uma visão apurada que lhe permitia enxergar de dia e de noite à longa distância. O seu trompete Gjallarhorn podia ser ouvido nos novos mundos, anunciando a passagem das divindades pela ponte Bifrost. Por ser ligado à água pelo lado materno (como filho das Donzelas das Ondas), Heimdall tinha, assim como o deus marinho Proteus, o dom da metamorfose, que ele usou quando impediu o roubo do colar mágico de Freyja por Loki (transformado em lontra), assumindo a mesma forma animal e lutando com ele ate vencer.

A transformação dos olhos do gigante Thiazi em estrelas que brilhavam no firmamento, lembra muitos mitos estelares gregos, principalmente da vigilância permanente dos olhos de Argo, do cinto brilhante de Orion e seu cão Sirius, todos transformados em estrelas por deuses ou deusas enfurecidas.

Hermod era um veloz mensageiro dos deuses nórdicos, que se deslocava com rapidez assim como Hermes, usando, em lugar de sandálias aladas, Sleipnir, o cavalo mágico de Odin (o único autorizado a cavalgá-lo) e em lugar do caduceu, um bastão imbuído de poderes mágicos (Gambãntein). Ele foi perguntar a um mago, depois às próprias Nornas, sobre a sorte do seu irmão Baldur, sabendo assim que outro irmão, Vali, ia suceder a Odin apos o Ragnarök.

Zeus queria se casar com a deusa Métis, mas desistiu depois que as Moiras lhe avisaram que o filho que ele teria com ela ia superá-lo em glória e poder, motivo que o fez engoli-la, grávida de uma filha, a deusa Atena.

Vidar parece com Hércules, que usou apenas um cajado para se defender do leão de Nemeia, enquanto Vidar consegue vencer o lobo Fenris usando seu sapato de ferro.

Odin teve que se empenhar bastante para conquistar Rinda, até “descongelar a frieza dela, assim como Zeus teve que se transformar em chuva de ouro para seduzir Dânae, que também simbolizava a terra. Em ambos os casos, a simbologia é ligada ao degelo da terra pelos raios solares, os filhos desta união - Vali e Perseu - sendo vingadores dos inimigos dos pais. Vali vinga a morte de Baldur matando Hodur, e Perseu mata os inimigos da sua mãe.

Tanto Hebe, quanto as Valquírias, personificavam a juventude e ofereciam a bebida sagrada - néctar, ambrosia e hidromel - aos deuses do Olimpo e Asgard. Hebe foi liberada do seu serviço de “copeira” após o seu casamento com Hércules, e as Valquírias, quando se casavam com heróis como Helgi, Hakon, Völund ou Sigurd,

Völund se parece com Hefesto pelo seu dom de trabalhar com os metais; ele os usa para se vingar do seu captor escapando da prisão após matar os filhos do rei, transformar seus olhos em joias, que envia para a mãe deles, e fabricar para ele mesmo um par de asas de metal, com cuja ajuda escapa da prisão e voa sobre mar e terra. Hefesto, aleijado por uma queda do Olimpo e abandonado por Hera, lhe envia como vinganca um trono dourado contendo garras metálicas para segura-la, sem que ela possa se soltar. Ele também cria uma rede metálica para nela prender Afrodite e seu amante Ares e expo-los depois se debatendo na rede para que todas as divindades de Olimpo caçoassem deles.

O deus Jano era o porteiro romano do céu, tendo duas cabeças para poder olhar para todos os lados e era ele quem abria as portas de cada ano, sendo lembrado até hoje no nome do primeiro mês. O deus nórdico Heimdall era o guardião da ponte do Arco-Íris, controlando a passagem de deuses e humanos, semelhante as Horas, que abriam as portas do ceu para a passagem dos deuses.

A missão de vigilância eterna de Heimdall era favorecida pelo seu olhar apurado (que o aproximava de Argo) e sua audição sobrenatural.

Os Penates eram os deuses romanos que cuidavam do bem-estar e da prosperidade das famílias e a despensa (penus) era a eles consagrada. Encontramos uma semelhança com os protetores nórdicos das moradias e com a deusa Fulla. Os Lares eram também protetores das famílias, mas diferiam dos Penates por serem espíritos deificados de mortais, as almas dos antepassados, uma característica que os aproxima dos espíritos ancestrais nórdicos, das Matronas, Disir e Dokkalfar.

Os nórdicos acreditavam que as tempestades eram provocadas pelos movimentos da Serpente do Mundo ou pela ira de Aegir, que, coroado com algas assim como Posêidon, enviava suas filhas — as Nereidas ou as Oceânides — para brincarem com as ondas. Posêidon tinha sua morada nas ilhas de coral do mar Mediterrâneo, e Aegir, nas grutas forradas de musgo do mar nórdico, onde era cercado pelas Nixies, ondinas, sereias e pelos deuses dos rios Reno, Elba e Neckar (seus equivalentes gregos sendo Alfeu e Peneu).

As sereias gregas têm seu paralelo com Lorelei, a ninfa do rio Reno, cujo canto melodioso atraía os marinheiros para o naufrágio entre os rochedos. Os naufrágios dos navios gregos deviam-se ao temperamento furioso de Posêidon, que era cercado pelas ondinas e sereias, semelhantes às Donzelas das Ondas e às Nixies nórdicas.

O reino subterrâneo de Niflheim reproduz as características do Hades grego; Mordgud, a guardiã da ponte dos mortos Gjallarbru, exigia um tributo para permitir a passagem, da mesma forma como o barqueiro Caronte pedia um pagamento para todos os espíritos que ele transportava para o outro lado do rio da morte, Aqueronte. O feroz cão Garm que vigiava o portão de Hel é muito parecido com Cérbero, o cão tricéfalo grego. Os nove mundos de Niflheim se assemelham as divisões de Hades, Naströnd sendo um adequado substituto para o Tártaro, onde os criminosos eram punidos pelos seus crimes e atos vis com a mesma severidade.

O costume de cremar os heróis mortos junto com as suas armas e acompanhados de sacrifícios de animais (cavalos, cães) era o mesmo no norte e sul da Europa. A representação grega da morte — Tánatos ou Mors — era como um esqueleto carregando uma foice, enquanto a nórdica Hel aparecia meio-morta, meio-viva e usando um ancinho, ou uma vassoura, para recolher as almas. Ragnarök era considerado uma versão do dilúvio e seus sobreviventes em ambas as tradições eram destinados para repovoar o mundo.

O longo inverno Fimbul anunciando o Ragnarök foi comparado às demoradas lutas preliminares sob as paredes da fortaleza Troia e o proprio Ragnarök, com a queima final da famosa cidadela, Thor sendo equiparado com Heitor e Vidar com Eneias. A destruição do palácio do rei Príamo representa o ruir dos palacios dourados dos deuses; os lobos nórdicos que devoraram o sol e a lua são protótipos de Paris e outros seres sombrios, que raptaram a donzela solar Helena. De acordo com outra interpretação, Ragnarök é a submersão posterior do mundo nas ondas do mar, são semelhantes à estória grega do dilúvio; os sobreviventes Lif e Lifthrasir — da mesma maneira como Deucalião e Pirra — foram destinados a repovoar o mundo. Assim como o altar do templo de Delfos permaneceu ileso no meio dos escombros do cataclismo, o palácio dourado Gimli, em Asgard, permaneceu radiante à espera dos filhos dos deuses, que iriam recriar um novo e melhor mundo.

Enquanto os gregos imaginavam que os pesadelos eram os sonhos maléficos que tinham escapado da gruta de Somnos, os nórdicos os atribuíam aos trolls ou gnomos malvados, que tinham saído do seu escuro esconderijo para atormentar os seres humanos.Todos os objetos e armas mágicas dos deuses nórdicos tinham sido obra dos anões ferreiros, enquanto os dos gregos tinham sido confeccionados por Hefesto e os Ciclopes, na sua oficina em baixo do Monte Etna.

Essas semelhanças são as mais relevantes, entre muitas outras, que comprovam as analogias existentes entre a mitologia nórdica e grega, formadas a partir da mesma base indo-europeia, diversificadas no tempo e no espaço pelas características raciais, geográficas, climáticas, sociais e culturais, modificadas ou adaptadas ao longo dos tempos por historiadores, tradutores e escritores.

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A vida após a morte nas crenças nórdicas
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Vida após a morte
8/17/2017 2:01:58 PM
Laura Fernandes
Por: Mirella Faur
Mitologia nórdica, Nifheim, Hel, Vida após a morte

As crenças escandinavas e germânicas da vida pós-morte diferiam em função das épocas, dos lugares e dos cultos centrados na reverência a uma determinada divindade. O conceito comum era a ênfase na continuidade da unidade familiar, que atravessava tempo e espaço e ligava o mundo dos mortos com o dos vivos.

Na Idade do Bronze os mortos eram enterrados na posição fetal, dentro de túmulos individuais ou coletivos, em caixões rudimentares feitos de troncos de árvores. No final desta era começaram as cremações, as cinzas sendo guardadas em urnas e enterradas na terra. A cremação continuou durante as Migrações e depois da cristianização até o século XI. No Período Viking continuavam sendo feito sacrifícios e enterrados juntos objetos, joias, armas e vestimentas dos mortos. Uma descrição usada pelos povos nórdicos em relação à morte de alguém era “foi se reunir com seus parentes, que foram embora para as colinas antes dele”, significando a reunião familiar, seja no nível espiritual (nas moradas dos deuses), seja no plano físico (as colinas mortuárias ou os túmulos familiares).

Geralmente o processo da morte era visto como uma viagem e a palavra alemã para ancestrais é Vorfahren, “aqueles queforam antes”. A imagem mais comum nos enterros era o barco, sua réplica física em tamanho natural sendo usada nos enterros de pessoas importantes, enquanto naqueles de pessoas simples era colocada no tumulo uma pequena representação do barco, ou o túmulo era cercado por pedras delineando um barco. Imagens de barco são encontradas na literatura como metaforas para túmulos ou caixões, o barco sendo um antigo símbolo associado com as divindades Vanir, regentes da vida, da morte e do mundo subterrâneo. Os espíritos que não usavam o barco para navegar ao outro mundo costumavam cavalgar, fato que explica o porque dos mortos serem enterrados com seus cavalos, carruagens ou cremados juntos deles nas piras fúnebres. Na ilha de Gotland as imagens mais frequentes nas pedras funerárias mostram navios ou cavalheiros, às vezes o cavalo tendo oito patas representando Sleipnir, o cavalo de Odin, por ele enviado para levar os mais honrados chefes e guerreiros valentes para Valhalla. Para os mortos mais pobres eram colocados nos túmulos ou nos seus pés os pesados calçados de Hel, para que eles pudessem andar, sem se afastar ou extraviar do caminho para o reino da deusa Hel.

Uma precaução importante era amarrar o barco nas pedras ou os sapatos juntos, um com o outro, para que não fossem usados como meios de transporte físico. Para que o morto fosse retirado da sua casa abria-se uma porta especial na parede, cimentada depois, evitando assim que o seu espírito voltasse do além pelo mesmo caminho seguido na ida. O corpo era colocado na cama ou no caixão coberto por um lençol, com os pés para a porta e a cabeça para o norte, com um pratinho com sal sobre o peito; os espelhos eram cobertos para evitar que o espirito se refletisse neles. Após a vigília, acompanhada de bebida e estórias contadas pelos presentes e descrevendo passagens e feitios da vida do morto, a procissão seguia para o cemiterio, parando nas encruzilhadas (antigos locais dos altares ancestrais). Após a cristianização, em lugar dos sapatos de Hel eram fincadas agulhas nos pés daqueles suspeitos de bruxaria ou conhecidos por terem o dom da metamorfose ou projeção astral, que lhes permitisse assombrar os vivos.

A crença em Valhalla como morada daqueles escolhidos por Odin motivou a prática da cremação, conforme citado em Ynglínga Saga -.“todos os mortos e seus pertences devem ser cremados juntos, suas cinzas depois levadas para o mar ou enterradas na terra”. Como os povos nórdicos acreditavam na vida pós-morte, eles colocavam os pertences do morto ao seu lado, para que ele pudesse usá-los no local para onde seguia. Após a cremação das pessoas importantes junto com seus bens, as cinzas remanescentes eram cobertas por colinas mortuárias, como as de Uppsala, onde escavações arqueológicas revelaram ossadas humanas e de animais, restos de armas, joias e objetos de ouro. Acreditava-se que no ato da cremação a alma era libertada para seguir seu destino, enquanto aqueles enterrados direto nas colinas mortuárias continuavam lá, se manifestando seja como fantasmas benévolos ou os temidos draugar (mortos-vivos). Em casos especiais, os heróis se deslocavam dos seus túmulos para Valhalla e podiam aparecer para seus familiares, pedindo que vingassem sua morte se esta fosse provocada por traição, contando com a permissão de Odin para dar esses avisos.

Uma parte dos guerreiros mortos ia para Folkvangr, o palácio de Freyja, uma clara alusão às antigas práticas funerárias que antecederam as cremações associadas ao culto de Odin, quando as pessoas eram enterradas e seus espíritos levados para o reino dos deuses Vanir. Aqueles que não tinham tido uma morte heróica, seguiam para o reino da deusa Hel. Os que morriam no mar eram recebidos nos palácios dos deuses Ran e Aegir, as moças solteiras iam para a deusa Gefjon, as mulheres casadas e as crianças para o palácio de Frigga, enquanto os seguidores ou adeptos de uma determinada divindade seguiam para a sua respectiva morada. Os criminosos, os ladrões e os acusados de perjúrio, crimes infames ou atos vis não iam diretamente para o reino de Hel, mas permaneciam em Nastrond, um poço escuro e tenebroso, onde passavam por castigos e retificações dos seus comportamentos e a expiação dos seus crimes.

O nome da deusa Hel foi distorcido e usado pela Igreja cristã para designar o inferno (Hell), local de punição dos pecadores e desprovido do simbolismo complexo de Niflhel. Em lugar de compreender a dualidade dos atributos da deusa Heil— como regente da morte e ao mesmo tempo guardiã e protetora dos espíritos até o seu renascimento — ela foi equiparada com o temível espectro da morte, como fim da trajetória do espírito, desprovido da possibilidade de um novo retorno e recomeço em uma nova encarnação. Os nórdicos consideravam a reencarnação uma opção e não uma obrigação, mas que devia ser feita na mesma linhagem familiar; acreditava-se que durante a gestação, criava-se um novo corpo como abrigo temporário para uma antiga alma de um antepassado.

Uma importante imagem associada à morte é o dragão, considerado o guardião das colunas mortuárias e das câmaras megalíticas, tanto na Escandinávia, quanto na Inglaterra. Quando um túmulo era aberto por ladrões e um objeto fosse retirado, ou ele fosse saqueado ou profanado por inimigos, o dragão que fícava enrolado ao redor do seu tesouro (em uma colina mortuária ou monumento megalítico) acordava enfurecido e saía de dentro da terra lançando labaredas incendiárias sobre as terras próximas. Relatos de batalhas de heróis contra esses monstros ígneos aparecem em várias sagas ou poemas, como o que relata a morte do rei anglo-saxão “Beowulf”, lutando para salvar seu povo e matando o dragão antes que ele morresse devido às feridas. Às vezes o dragão era visto como a metamorfose do morto que guardava assim os seus bens enterrados junto dele. No poema “Völuspa” menciona-se que o dragão Nidhogg devorava os mortos com suas garras e presas afiadas.

O dragão era representado com características de réptil e de serpente, às vezes tendo asas e um ou mais chifres, o seu corpo coberto de escamas, com, ou sem, patas e garras. Os raios, relâmpagos e a aurora boreal, assim como os incêndios’ eram os fenômenos naturais associados com o dragão, assim como ele era uma imagem natural para a descrição da morte pelas chamas devoradoras das cremações. Após as batalhas, as chamas das inúmeras piras funerárias se elevavam como imensas línguas de fogo lambendo o céu, enquanto o som lúgubre dos ossos sendo queimados lembrava as antigas lendas dos monstros devoradores.

Mesmo após a cristianização, o fogo continuou sendo usado como uma prática e um símbolo funerário e as cremações continuaram apesar da sua proibição cristã, conforme comprovam resquícios de ossos enegrecidos pelo fogo, restos de carvão e urnas com cinzas em alguns cemitérios anglo-saxãos, na Alemanha e França. Durante muito tempo colocava-se nos túmulos uma mistura de carvão com resma de pinheiro como sinal de purificação dos miasmas da decomposição, pratica cristã remanescente dos costumes ancestrais de cremacão. Decoracões com motivos serpentiformes foram encontradas em várias pedras funerárias e monumentos rúnicos como os da Ilha de Gotland na Suécia, onde serpentes, dragões e barcos simbolizam a jornada da alma pelo reino da morte à espera da sua regeneração. Desde a Idade do Bronze, nos petróglifos apareciam figuras de serpentes, homens viris com chifres e barcos, uma complexa simbologia ligada a fertilidade, vida, morte e o além. Ao longo do tempo, a serpente pre-histórica com corpo alongado foi se metamorfoseando para uma figura híbrida de serpente-dragão até adquirir a forma tradicional do dragão com patas, mencionado em várias estórias na literatura e representado na arte do norte europeu. Tanto a serpente, quanto o dragão, eram ao mesmo tempo símbolos do mundo ctônico e do ciclo eterno de vida/morte, sendo seres aquáticos e ctônicos, com domínio sobre a água (símbolo da vida) e a terra (morte e regeneração). Nas embarcações vikings eram usadas formas de animais — geralmente serpentes e dragões — na proa e na popa, simbolizando a proteção nas viagens. No mito de Ragnarök, os agentes da destruição final são serpentes, dragões e o poder dos gigantes do fogo. Além do dragão Nidhogg, que roía incessantemente as raízes da Árvore do Mundo até sua queda final, a Serpente do Mundo — Jörmungand — saiu das profundezas do oceano para o combate mortal com seu eterno inimigo, o deus Thor, que a venceu, mas sucumbiu devido ao seu veneno.

A proteção oferecida pelos deuses — esquecimento temporário por Odin, crença na reencarnação e na continuidade da linhagem familiar por Frey, força protetora e ordem providenciadas por Thor — não eram garantias suficientes para impedir as ameaças dos dragões e dos monstros. Esta verdade se torna evidente e explícita na própria morte dos deuses, como foi visto no mito de Baldur e no cataclismo final do Ragnarök. O próprio Odin, deus padroeiro dos mortos, foi vencido pelas leis imutáveis da mortalidade e do destino.

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MITOS
A lenda de Saktivega
Mitologia Indiana
8/20/2017 6:03:59 PM
   Saktivega

Na cidade de Vardhamana vivia outrora um rei glorioso de nome Paropakarin. Esse poderoso monarca tinha como esposa a rainha Kanakaprabha, que éra para ele como o fulgor do raio para a nuvem escura — e sem a inconstância caprichosa daqueles clarões que ora brilham, ora se apagam. Ganhou da rainha uma filha, que o criador parecia ter concebido para abater o orgulho ostentado pela deusa Laksmi por sua beleza. Luar iluminando o mundo, revelava-se mais e mais com o passar do tempo. O rei a chamou de Kanakarekha, lembrando o nome da rainha. Quando ela atingiu a puberdade, o rei falou reservadamente com a rainha que nesse momento viera procurá-lo: — Eis que Kanakarekha cresceu e apreocupação de casá-la com homem de nível igual ao seu começa a inquietar-me. Uma filha que continua com a família é como um canto destoante: ouvi-lo causa irritação. E é também como o conhecimento, que, se é transmitido a quem não é digno, não traz fama nem mérito, mas só arrependimento. Não sei como decidir a que rei eu a poderia dar e que esteja à altura dela.

Kanakaprabha lhe respondeu sorrindo:

— Isso é o que pensas, mas não é o que nossa filha deseja. Hoje mesmo, enquanto ela brincava com suas bonecas, eu lhe perguntei quando poderia assistir a seu casamento. E ela me pediu para não falar assim, que não a deveriam dar em casamento a ninguém, que nada me obrigava a separá-la de mim. Disse estar contente em permanecer solteira, caso contrário preferia morrer! E afirmou que havia um motivo secreto por trás de sua recusa. Tais palavras me perturbaram e é por isso que vim ter contigo. De que serviria discutir sobre possíveis pretendentes para uma filha se ela se proíbe de casar-se:

Surpreso com o que a rainha dissera, o rei se dirigiu prontamente aos aposentos da filha.

— Como é possível, minha querida, negares a ti mesma o casamento, coisa que até as filhas dos devas e dos asuras desejam a ponto de razer penitência para conseguir?

De olhos voltados para o chão, a princesa ficou em silêncio por alguns instantes, e então respondeu:

— Pai, por enquanto não é isso o que quero. Porque te achas no dever de dar-me em casamento, por que tanta insistência?

— É porque sei que não tem como livrar-se de culpa quem não casa as filhas. Toda moça solteira submete-se à autoridade da família, que é responsável por ela, pois não saberia viver independentemente. Desde o nascimento, a mulher é educada para ser entregue a algum homem. Exceto durante a infância, como deixá-la então continuar na casa paterna, sem marido? Se passa da puberdade sem casar-se, seus parentes estão condenados. Torna-se uma pária, e se alguém vier a aceitá-la como esposa, é chamado marido de pária.

— Se é assim, meu pai, deves dar-me a alguém que, sendo brâmane ou xátria, tenha visto a cidade chamada Kanakapun. Tal nomem será meu marido. Senão, ó pai, é inútil atormentar-me.

Alegrou-se o rei ao ouvir que a filha admitia uma possibilidade. Mas — pensou — como poderia saber sobre a tal cidade? Não seria ela alguma deusa, nascida na casa dele para algum propósito desconhecido? Deu-lhe seu consentimento e foi cuidar de suas tarefas cotidianas.

No dia seguinte, na sala de audiência, perguntou aos homens da corte se algum deles já vira Kanakapuri, prometendo a filha e a condição de herdeiro a quem dissesse que sim. Eles se entreolharam e responderam todos que sequer tinham ouvido falar da cidade. O rei então chamou o porteiro do palácio, e lhe deu ordem de fazer apregoar por toda a capital, ao som de tambores:

— Se algum jovem, brâmane ou xátria, já viu a cidade de Kanakapuri, que o declare! O rei lhe concederá sua filha e o fará príncipe herdeiro!

Ao escutarem a proclamação, os cidadãos, estupefatos, interrogavam-se uns aos outros sobre essa cidade, cujo nome era repetido em voz alta em cada esquina. Se nem mesmo os mais velhos haviam ouvido falar nela, como poderia alguém afirmar tê-la visto? Nenhum deles declarou que a conhecia.

Nessa ocasião, havia entre os habitantes de Vardhamana um brâmane de nome Saktideva, filho de Baladeva. Presa fácil de paixões ruins, nesse mesmo dia se arruinara no jogo. Excitado ao ouvir como a filha do rei era oferecida, disse consigo mesmo:

— Agora que perdi tudo o que possuía no jogo, não tenho cara para entrar na casa de meus pais e muito menos na de alguma cortesã. Não vejo outra solução: é preciso que eu minta, dizendo aos pregoeiros que já vi Kanakapuri. Quem poderia comprovar minha ignorância? Quem já a teria visto e quando? E — quem sabe? — talvez me case com a princesa!

Com essa ideia, Saktideva abordou os homens do rei alegando ter visto a cidade. Eles o felicitaram e o acompanharam até o porteiro do palácio. A este também disse ter visto Kanakapuri. O porteiro o saudou cortesmente e o conduziu ao rei. Mesmo diante do soberano, repetiu sem hesitação a mesma balela. Para assegurar-se de que ele dizia a verdade, o rei o encaminhou à filha. Esta, já informada da chegada dele pelo porteiro, perguntou ao jovem:

— É verdade que viste a cidade de Kanakapuri?

— Por certo que sim! Eu a vi quando percorria o mundo em meus dias de estudante.

— E que caminho tomaste para chegar até ela?

— Partindo daqui, fui até Harapura. Daí segui para Varanasi e, dias depois, para Paundravardhana. De lá, por fim, cheguei à cidade chamada Kanakapuri, e vi esse lugar de delícias para os virtuosos, semelhante à cidade de Indra, cuja beleza faz o encanto dos deuses. Foi lá que acabei de instruir-me, antes de regressar para cá.

— Ora, grande brâmane — disse ela rindo. — Não há dúvida de que viste a cidade. Mas repete mais uma vez teu itinerário.

Quando ele se preparava para prosseguir com sua farsa deslavada, a princesa mandou que suas servas o pusessem para fora. Ao pai, que veio perguntar se o brâmane dissera a verdade, ela exclamou:

— Pai, de nada te serve seres rei se te dispões a agir sem refletir. Não sabes que os espertalhões fazem troça dos ingênuos: É em vão que esse brâmane tenta enganar-me; esse mentiroso vagabundo jamais viu Kanakapuri.

Ao rei Paropakarin não restou alternativa senão mandar repetir os proclamas.

Quanto ao jovem brâmane Saktideva, coberto de vergonha por ver-se insultado pela jovem, que agora desejava ardentemente como esposa, pôs-se contrito a meditar:

— Fingindo ter visto Kanakapuri não ganhei a princesa, mas apenas humilhação. Pois bem! Para conquistar Kanakarekha errarei pela terra até encontrar essa cidade, ou então perderei a vida! De que adianta viver se não consigo que ela seja minha?

Feito esse voto, o brâmane deixou a cidade de Vardhamana e tomou o caminho do sul. Atingiu a grande floresta que recobre os montes Vinddhya, tão espessa e interminável quanto sua vontade de prosseguir. Depois de atravessá-la por alguns dias, viu um lago de água fresca e transparente em um recanto solitário. Parecia um pavilhão real, sombreado pelo guarda-sol das plantas de lótus e abanado pela agitação da plumagem dos cisnes. Saktideva fez uma pausa para banhar-se.

Notou então um eremitério na margem norte do lago, cercado de árvores frutíferas. Ali avistou, sentado ao pé de uma figueira sagrada, ladeado de outros ascetas, um velho sábio, chamado Suryatapas. Uma fieira de uma centena de contas pendia de sua orelha, como que para indicar os anos de sua vida.

Saktideva se aproximou respeitosamente e o sábio o acolheu com a amabilidade devida a um hóspede. Depois de repartir frutas e outros alimentos com ele, o sábio falou:

— Queres dizer-nos, meu amigo, de onde vens e para onde caminhas?

— Venho de Vardhamana, ó venturoso, e fiz promessa de chegar a Kanakapuri, mas não sei onde fica essa cidade. Acaso saberias?

— Meu pequeno, passei 108 anos neste eremitério, mas nunca ouvi o nome Kanakapuri nesses anos todos.

— Vejo — disse Saktideva cheio de mágoa — que estou fadado a morrer vagueando em vão pelo mundo todo.

— Se estás determinado a encontrar a cidade a todo custo, então faze como te direi. A trezentas léguas daqui, encontrarás o reino de Kampilya. Nele ergue-se o monte Uttara, no topo do qual há um eremitério. Lá reside meu irmão mais velho, Dirghatapas. Vai ao encontro dele; esse ancião pode bem conhecer essa cidade.

Com a esperança renovada, Saktideva concordou e passou ali a noite, serenamente. Na manhã seguinte, apressou-se a retomar a marcha. Atravessando diversas florestas densas, com grande esforço, penetrou no reino de Kampilya e escalou o monte Uttara. Deparou-se com o asceta Dirghatapas e o saudou, e foi recebido bondosamente por ele. Esperançoso, disse ao sábio:

— Busco a cidade de Kanakapuri, da qual me falou uma princesa. Mas ignoro onde encontrá-la. Poderias dizer-me, ó bem-aventurado, por onde devo ir? Preciso achar a cidade para ganhar a princesa. O sábio Suryatapas, teu irmão, foi quem me aconselhou a recorrer a ti.

— Velho como sou, meu filho, é a primeira vez que ouço esse nome, embora eu tenha conhecido todo tipo de gente vinda de terras distantes. Nunca me falaram dessa cidade. Mas penso que deve situar-se em algum local muito distante, provavelmente em uma ilha remota. Vou ensinar-te o modo de procurá-la. No meio do oceano há uma ilha chamada Utsthala. Nela habita Satyavrata, o rico rei dos Nisadas — que vivem da pesca. Com freqüência, ele visita tudo quanto é ilha. Provavelmente já viu a cidade de Kanakapuri ou, pelo menos, ouviu falar dela. Mas, primeiro, deves dirigir-te à cidade de Vitankapura, à beira do mar. Ao chegar, trata de obter a ajuda de algum mercador que tenha um barco, e segue em companhia dele em demanda da ilha dos Nisadas.

Saktideva, acatando os conselhos do eremita, despediu-se e partiu imediatamente. Depois de viajar por longo tempo, percorrendo várias regiões, foi dar na jóia da beira do oceano, a soberba cidade de Vitankapura. Andou inquirindo e conseguiu localizar um mercador, Samudradatta, que se preparava para velejar para a ilha de Utsthala. Fez amizade com ele e o mercador o deixou embarcar em seu navio. Quando faltava pouca distância a percorrer, formou-se inesperadamente uma nuvem negra com os contornos de um demônio, com uma língua feita de raios, e que avançava fazendo reboar o trovão. Um vendaval terrível, semelhante aos embates do destino, arrebatava para cima o que era frágil e derrubava no mar tudo que lhe resistia. Vagalhões enormes como montanhas erguiam-se impelidos pelo vento. O navio era jogado para o alto e para baixo e, dentro de poucos instantes, partiu-se em pedaços, em meio aos gritos desesperados dos marinheiros.

O mercador Samudradatta, dono do barco, salvou-se agarrado a uma prancha e, depois de algum tempo, foi recolhido por outro navio. Mas um peixe enorme, de goela pavorosa como uma caverna, engoliu Saktideva assim que ele caiu no mar, sem no entanto ferir seu corpo. Quis o destino que o peixe fosse nadando até as proximidades da ilha de Utsthala. E, por puro acaso, servidores do rei dos pescadores o capturaram. Intrigados com o tamanho da presa, arrastaram o pesado corpo e o levaram a seu soberano. O rei Satyavrata, com a curiosidade despertada à vista de tal pescado, mandou que o abrissem. Do ventre aberto saiu Saktideva, são e salvo, como se nascesse do corpo da mãe pela segunda vez. Vendo o jovem brâmane sair do peixe e saudá-lo, o rei pescador lhe perguntou, tomado de espanto:

— Ó brâmane, quem és tu? Como e por que foste morar na barriga de um peixe? Que extraordinária aventura viveste?

— Meu nome é Saktideva e sou da cidade de Vardhamana. Tenho necessidade de ir a Kanakapuri. Como não conheço o caminho, andei sem destino por longo tempo. A conselho do asceta Dirghatapas, que achava que Kanakapuri poderia situar-se em uma ilha, consegui a ajuda de um mercador e velejei com ele na direção da ilha de Utsthala, para obter informações com o rei dos pescadores, Satyavrata, que nela habita. Mas o navio foi colhido por uma tempestade e fez-se em pedaços. Quando caí no mar, o peixe me engoliu e me trouxe para cá.

— Pois fica sabendo que sou o próprio Satyavrata, e esta é precisamente a ilha de Utsthala. Contudo, apesar de já ter visitado muitas ilhas, nunca vi aquela que procuras. Apenas ouvi rumores sobre sua existência nos confins do oceano.

Percebendo a aflição de Saktideva, e movido pela afeição que sentia por seu hóspede, Satyavrata apressou-se a acrescentar:

— Brâmane, não te desesperes. Passa a noite aqui e amanhã de manhã acharei algum meio de atingires tua meta.

Providenciou para que Saktideva fosse hospedado em um mosteiro. Vishnudatta, um dos brâmanes residentes, preparou-lhe uma refeição e os dois puseram-se a conversar. Quando Saktideva narrou sobre suas andanças e respondeu brevemente às perguntas do outro sobre seu país de origem e sua família, este irrompeu em lágrimas. Descobrira que eram primos, nascidos na mesma terra. Esquecendo as fadigas da viagem, Saktideva foi tomado de alegria. O encontro de um parente em terra estrangeira é como água jorrando no deserto. Teve a sensação de que a realização de seu desejo estava próxima: com efeito, um acontecimento feliz no curso de uma expedição costuma ser sinal de sucesso.

No dia seguinte, quando o sol se ergueu sobre a ilha de Utsthala, o rei dos pescadores veio ao mosteiro visitar Saktideva. Conforme prometera, tinha algo a dizer-lhe:

— O brâmane, refleti bastante e achei um modo de cumprires teu objetivo. Há no meio do mar uma ilha magnífica, que tem o nome de Ratnakuta; e há nela uma estátua de Vishnu, consagrada pelo senhor do oceano. No décimo segundo dia da quinzena clara do mês de Asadha, celebra-se ali um festival acompanhado de uma procissão. Vem gente de todas as ilhas para cumprir zelosamente suas devoções. Porventura lá estará alguém que conheça essa ilha de Kanakapuri. Vem! Vamos juntos! O dia do festival está próximo.

Saktideva concordou e reuniu muito contente as provisões de viagem que o primo Vishnudatta preparara. Subiu com elas ao barco trazido por Satyavrata, içaram as velas e partiram. Cruzavam esse mar repleto de maravilhas, onde nadavam grandes monstros marinhos semelhantes a ilhas, quando Saktideva perguntou a Satyavrata, que estava ao leme:

— O que é aquela coisa imensa que se vê lá longe saindo do mar, com a aparência de uma montanha alta provida de asas?

— E um ser sobrenatural, uma árvore banian, figueira divina. Dizem que o turbilhão gigante a se agitar debaixo dela é a entrada do inferno. Temos de navegar evitando cuidadosamente esse lugar, pois os que se aventuram par perto não voltam mais.

Mal havia Satyavrata dito estas palavras, uma correnteza começou a puxar o barco em direção ao redemoinho. Logo que notou o perigo, Satyavrata exclamou:

— O brâmane, chegou nossa hora! Olha! O barco vai naquela direçâo e não consigo mais desviá-lo! Vamos ser jogados nesse lugar horrendo que parece a garganta da Morte, a água nos arrasta, é nosso karma inevitável. Mas o que me dá pena não é morrer, nenhum corpo é permanente, o que me atormenta é não chegares, depois de todas as dificuldades suportadas, a finalmente realizar teu sonho. Enquanto me esforço para reter o barco, tenta gaigar um galho da árvore. Talvez te apareça um jeito de escapar, belo jovem, pois não se pode prever com mais certeza os caprichos do destino do que um movimento das vagas do mar.

Enquanto Satyavrata, firme em sua resolução, pronunciava estas palavras, o barco chegou perto da figueira divina. No mesmo instante. Saktideva encheu-se de ânimo e, de um salto, foi agarrar um galho da árvore que brotava do oceano. Satyavrata, porém, era tragado pela boca míemal, sacrificando o corpo junto com o navio pelo bem de um semelhante. Rerugiado sobre o galho da árvore, cuja copa da ramagem já preenchia o espaço até onde a vista alcançava, Saktideva lamentava:

— Pereço neste lugar, depois de ter causado a perda do rei dos pescadores e sem ter podido ver Kanakapuri. Mas quem ousa depender do Destino, essa divindade que continuamente repousa o pé sobre a cabeça de cada homem?

O jovem brâmane, remoendo esses pensamentos, passou o dia montado no galho. Ao entardecer, viu aproximar-se uma revoada de aves gigantescas, que faziam o ar vibrar com seus gritos, vindas de todas as direções para pousar na árvore banian. Ao se aproximarem em vôo baixo, ao vento provocado pelas asas, elevava-se o mar em ondas ao encontro delas, como movidas pela alegria de rever amigas. Escondido atrás da folhagem, Saktideva escutou os abutres pousados nos galhos a conversar em linguagem humana. Cada ave descrevia o lugar aonde fora naquele dia, ora alguma ilha, ora uma montanha, ora uma terra distante. Um velho pássaro contou:

— Hoje estive a divertir-me em Kanakapuri. Vou voltar amanhã para alimentar-me. Ao preço de uma viagem cansativa, onde acharia coisa melhor?

Com a doçura do néctar das flores, as palavras da ave fluíram pelos ouvidos de Saktideva, aliviando seus tormentos.

— Graças aos céus, essa cidade existe, e existe também um meio de atingi-la: esta ave de corpo gigantesco me transportará!

Logo que a ave adormeceu, Saktideva foi-se chegando discretamente e se acomodou, bem escondido, entre as plumas do dorso. De manhã, as aves começaram a debandar. A que levava Saktideva nas costas alçou vôo, batendo fortemente as asas. Em um instante pairou sobre Kanakapuri, à cata de comida. Pousou em um jardim e Saktideva deixou-se escorregar para o chão, sem se fazer notar. Explorando os arredores, deparou com duas mulheres que colhiam flores. Aproximou-se cortesmente delas, que o encaravam com surpresa, e perguntou-lhes:

— Encantadoras damas, que país é este e quem sois vós?

— Amigo, esta cidade se chama Kanakapuri e é habitada por vidyadharas. Uma vidyadhari chamada Candraprabha mora aqui, e nós duas somos encarregadas de cuidar de seu jardim; estas flores que colhemos são para ela.

— Por ventura podeis providenciar, é um favor que vos peço, para que eu possa ver vossa senhora?

Atendendo a seu pedido, elas conduziram o jovem ao palácio real, no centro da cidade. Era edificado sobre colunas resplandecentes de rubi, as paredes de ouro maciço, reunindo todas as riquezas imagináveis. Vendo-o chegar, os servidores de Candraprabha foram anunciar-lhe essa chegada extraordinária de um simples mortal. Ela deu instruções ao porteiro, que sem demora encaminhou o brâmane através do palácio à sua presença. Saktideva, entrando a passos lentos, contemplava essa criatura que era uma festa para os olhos, e parecia encarnar a capacidade do Criador de produzir maravilhas. Ela, subjugada por sua bela aparência, levantou-se da cadeira cravejada de jóias magníficas antes que ele chegasse mais perto, para dar-lhe as boas-vindas com o maior respeito. Quando o viu deter-se diante dela, perguntou-lhe:

— Quem és tu, jovem auspicioso, e como pudeste vir a este lugar inacessível aos mortais?

Saktideva declinou seu país, sua casta e seu nome: depois explicou que viera por causa da recompensa prometida a quem tivesse visto a cidade: a mão da grincesa Kanakarekha. Candraprabha refletiu por um instante, exalou um suspiro profundo e falou, em voz baixa, com discrição.

— Escuta, jovem encantador, presta atenção ao que vou narrar-te. Neste país reside um rei dos vidyadharas chamado Sasikhania. Nasceram-lhe, em seqüência, quatro filhas: primeiro eu, Candraprabha. que sou a mais velha; Candrarekha foi a segunda; em terceiro lugar, Sasirekrakehka e, por último, Sasiprabha. Uma após outra fomos atingindo a puberdade na casa de nosso pai. Num dia em que me vinham as regras, minhas irmãs foram todas banhar-se no rio Mandakini. Enquanto brincavam, respingaram com toda a insolência própria da adolescência, sobre um sábio chamado Agryatapas que estava imerso em meditação. Como elas não paravam com a travessura, o sábio irritado pronunciou uma maldição: “— Meninas perversas’ Renascei todas no mundo dos mortais!”. Ao ser informado, meu pai correu a apaziguá-lo, de sorte que o grande sábio consentiu em fixar as condições — muito diferentes, aliás — pelas quais cada uma seria afinal libertada da maldição. Concedeu a todas a faculdade de se lembrar de seus nascimentos anteriores durante a permanência entre os mortais, e permitiu que conservassem seu saber sobre-humano. Em seguida, depois que elas deixaram seus corpos para ingressar no mundo dos mortais, meu pai me legou esta cidade e, triste como estava, retirou-se para praticar o ascetismo na floresta.

Depois de uma pausa, Candraprabha prosseguiu:

— Saudosa de minhas irmãs, passei a viver nesta cidade. Certa noite, a deusa Ambika me apareceu em sonho e me disse: “ — Minha filha, hás de ter como esposo um homem mortal!” E por isso resisti sempre a meu pai, que me propôs diversos vidyadharas como pretendentes, e permaneci solteira até agora. Hoje, maravilhada com tua chegada extraordinária e vencida por tua beleza, entrego-me a ti! No décimo quarto dia da próxima quinzena lunar, irei ao monte Rishabha fazer a meu pai meu pedido a teu respeito. Nesse dia, os mais ilustres vidyadharas, vindo de todas as regiões do espaço, reúnem-se ali para homenagear o deus Shiva. Meu pai irá também. Logo que tiver obtido a permissão dele, voltarei depressa e tu me desposarás!

Então Candraprabha honrou Saktideva, propiciando-lhe todo tipo de prazeres a que os vidyadharas estão acostumados. Tendo consentido em ficar, gozou nesse lugar de uma felicidade comparável à que sente um homem queimado pelo fogo de um incêndio na floresta quando mergulha em um lago de néctar. Chegado o décimo quarto dia, disse Candraprabha:

— Irei hoje apresentar a meu pai o pedido. Todos os serviçais me acompanharão, mas nada te faltará nesses dois dias em que ficarás sozinho. Cuida apenas de não subir, em nenhuma circunstância, à plataforma situada no centro do palácio!

Com isso, Candraprabha partiu, abandonando o coração com o jovem, e, em troca, levando o dele.

Vendo-se só, Saktideva distraiu-se andando de um lado para o outro, entrando em cada dependência suntuosa. Lembrou-se de que a formosa vidyadhari lhe havia proibido escalar a plataforma central. Com a curiosidade despertada, decidiu subir assim mesmo. O que é proibido tem de fato um poder irrestível sobre nossa vontade! Nesse andar superior encontrou, bem dissimulados, três pavilhões fabricados com pedras preciosas. A porta de um deles estava aberta, e ele entrou. Notou no interior um divã trabalhado com jóias magníficas, com um tecido acolchoado por cima; sobre ele havia um corpo deitado, completamente envolvido em um pano macio. Erguendo o pano, descobriu estupefato a adorável filha do rei Paropakarin, que parecia morta. Vendo- a, pensou:

— Que grande maravilha é esta? Estaria ela entorpecida sem poder despertar, ou será uma ilusão que nem sei como esconjurar? A mulher pela qual eu me exilei está aqui, diante de meus olhos, sem vida, enquanto em meu país está viva; e, mesmo aqui, sua beleza permanece inalterada! É certamente uma feitiçaria, com que o Criador me põe à prova por alguma razão!

Saiu do pavilhão e entrou sucessivamente nos outros dois, onde viu igualmente duas jovens. Admirado, foi para fora do palácio e ficou sentado, pensando. Viu então mais abaixo um belo poço e, junto à borda, um corcel com uma sela incrustada de pedrarias. Desceu cheio de curiosidade e tentou montar no cavalo, mas este com um coice o projetou no poço. Submergiu na água e logo voltou à tona, olhando em redor cheio de espanto: estava no meio de um tanque oblongo situado no parque de Vardhamana, sua cidade natal! Estava de volta à pátria, em pé dentro d’água, tal como os talos dos lótus do tanque. E já lamentava a falta de Candraprabha.

— Que diferença entre Vardhamana e a cidade dos vidvadharas! Que prodígio de magia foi este? Como foi que eu, pobre de mim, fui enganado? Quem fabricou esta ilusão? Não podemos prever o que o destino nos reserva!

Tratou de sair do tanque e dirigiu-se à casa paterna, onde contou suas aventuras e foi bem recebido pelos familiares.

Na manhã seguinte, ao sair de casa, ouviu de novo a proclamação, feita ao rufar do tambor:

— Se algum jovem, brâmane ou xátria, realmente viu a cidade de Kanakapuri, que o declare! O rei lhe concederá sua filha e o fará príncipe herdeiro! Saktideva abordou alegremente os pregoeiros e, mais uma vez, lhes disse:

— Eu, sim, já vi essa cidde!

Eles o levaram rapidamente ao rei, mas o monarca o reconheceu e deduziu que, como antes, ele estava mentindo. Saktideva insistiu:

— Ponho minha vida em jogo! Que a princesa me interrogue imediatamente e, se o que digo é falso, se não vi a cidade, que eu seja punido com a morte!

O rei mandou que pessoas de seu séquito o levassem à princesa. Quando ela viu esse brâmane com o qual já tivera uma experiência, foi logo dizendo ao rei:

— Pai, esse indivíduo vai contar-nos de novo alguma invencionice!

E Saktideva, sem mais delongas:

— Princesa, talvez te diga a verdade, talvez uma mentira. Mas uma coisa me intriga: como posso ver-te viva aqui em Vardhamana, quando te estendes sem vida sobre um divã em Kanakapuri?

Assim que ouviu Saktideva dar-lhe essa prova irrefutável, a princesa Kanakarekha disse ao rei:

— Pai, este nobre jovem verdadeiramente viu a cidade e, daqui a pouco tempo, quando eu de novo habitar naquele lugar, ele se tornará meu marido. Também desposará minhas três outras irmãs e reinará sobre os vidyadharas. Hoje devo retornar a meu corpo e a minha cidade. Com efeito, foi uma maldição lançada por um asceta que me fez renascer um dia em tua casa. O sábio, abrandando a ira, assim fixou seu término no meu caso: “— No momento em que, estando tu na condição de mortal, um ser humano descobrir teu corpo na cidade de Kanakapuri, e revelar a verdade, estarás liberta da maldição e ele será teu esposo.” Assim se explica porque eu, embora humana ainda, tenha podido lembrar-me de minha existência anterior, e tenha possuído conhecimentos sobre-humanos. Agora volto para casa, onde moram os vidyadharas, a fim de recuperar meus poderes!

Com estas palavras a princesa desapareceu, enquanto a agonia e a confusão tomavam conta do palácio.

Decepcionado pela segunda vez, rememorando como havia ganho duas criaturas adoráveis, ao custo de dificuldades quase insuperáveis, sem no entanto torná-las suas, Saktideva afastou-se do palácio real. Acusava-se por não ter sabido converter em realidade suas aspirações. Mas, um instante depois um pensamento lhe ocorreu:

— Kanakarekha me predisse que eu alcançaria meu desejo, por que então me desespero? Irei de novo a Kanakapuri, pelo mesmo caminho e, sem dúvida alguma, o destino permitirá minha chegada — seja de que jeito for!

Aqueles que são resolutos não abandonam uma missão sem atingir a meta. Decidido e confiante, Saktideva partiu de Vardhamana. Depois de uma longa viagem, novamente chegou à cidade de Vitankapura, junto às dunas do litoral. Percorrendo as ruas, viu-se cara a cara com o mercador Samudradatta, em cuja companhia havia embarcado. Duvidou de seus próprios olhos: não o vira cair no mar, quando o navio dele se partira ao meio? Surpreendeu-se ao dar com um homem que julgava morto. Samudradatta, por sua vez, também o reconheceu e, contente por ele ter sobrevivido, correu a abraçá-lo.

Em seguida convidou Saktideva a hospedar-se em sua casa e, depois das cortesias de praxe, perguntou como havia podido salvar-se após o nautrágio. O jovem brâmane contou-lhe como fora engolido por um peixe e transportado na barriga dele até a ilha de Utsthala, e então quis saber como o negociante conseguira escapar.

— Depois de cair no mar, agarrei-me a uma prancha e fiquei boiando à deriva por três dias, quando de repente vi passar um navio. Aos gritos, atraí a atenção da tripulação e eles me guindaram para bordo. No navio encontrei meu pai, que um dia havia partido para uma ilha longuinqua e depois de tanto tempo. Ele me reconheceu e enlaçou meu pescoço em lagrímas, e me pediu que lhe narrasse minha história. Expliquei como, na ausência dele e sem saber se retornaria, eu me havia dedicado aos negócios, por ser a ocupação apropriada à minha casta. E fui contando tudo até nossa expedição através do mar, terminada com o naufrágio, quando então, por ordem dele, fui recolhido a bordo e agora me alegrava de estar em sua presença. Meu pai me respondeu em tom de censura: por que eu arriscava a coda desse modo? Ele possuía muitos bens e pretendia adquirir muitos mais: nesse momento voltava com o navio carregado de ouro! Depois de reconfortar-me com essas palavras, meu pai me levou em seu navio a Vitankapura, deixando-me em casa.

Finda a narrativa de Samudradatta, Saktideva foi repousar, cassando a noite na casa do mercador. De manhã, veio falar com ele:

— O negociante, é urgente que eu me dirija de novo à ilha de Utsthala. Poderias dizer-me como devo proceder?

— Uns homens que efetuam transações em meu nome estão neste momento a ponto de ir para lá. Podes perfeitamente partir com eles.

Saktideva seguiu o conselho do mercador e navegou para a ilha de Utsthala em companhia de seus prepostos. Uma vez na ilha. lembrou-se de seu parente Vishnudatta; como da vez anterior, seria bom acomodar-se ao lado do primo no mosteiro. Foi nessa direção, tomando um caminho que atravessava o mercado.

Quis o destino que os filhos de Satyavrata, o rei dos pescadores, o notassem quando ele passava. Reconheceram-no imediatamente e exclamaram:

— Brâmane! Foste tu que partiste em companhia de nosso pai em busca de Kanakapuri. Como explicas que és o único a retornar?

— Vosso pai foi tragado pelas águas, arrastado com seu barco para uma boca do inferno que se escancarou sob o mar.

Furiosos, os filhos do rei pescador bradaram para seus homens de armas:

— Prendei este criminoso, ele matou nosso pai! Como é possível que, dentre duas pessoas no mesmo barco, uma caia nas chamas do inferno e a outra escape? Amanhã, na hora do nascer do sol, ofereceremos o assassino de nosso pai como vítima sacrificial à deusa Durga!

Os homens armados obedeceram e conduziram Saktideva acorrentado ao horripilante templo de Candika, “a Violenta”, forma terrível da esposa de Shiva. O interior do templo, como um ventre inchado, fartava-se com a ingestão contínua de seres humanos; orlado de longas enfiadas de sinos, como arcadas cheias de dentes, dir-se-ia que era a fauce da Morte. Durante a noite, temendo pela vida, Saktideva ergueu os braços encadeados e orou a Durga:

— Ó deusa, nesta tua forma — que, por teres bebido o sangue rubro vomitado pela garganta do demonio Ruru, assemelha-se ao disco do sol nascente — ergue-te, vem proteger o mundo! Ó dispensadora de favores! Concede tua proteção a mim que constantemente me prosternei diante de ti; a mim que, tendo vindo de muito longe na sede de obter aquela a quem amo, caí sem ter cometido qualquer falta nas mãos de inimigos!

Após a prece à deusa, Saktideva acabou adormecendo. Mergulhado no sono, viu uma mulher de aspecto divino aproximar-se dele, saída do santuário do templo. Como que tomada de compaixão por ele, disse estas palavras:

— O Saktideva, não tenhas medo, nada de mal te acontecerá. Os filhos do rei pescador têm uma irmã chamada Bindumati. Ao amanhecer, essa jovem, logo que te enxergar, irá pedir-te para seres seu esposo. Tu consentirás e ela fará com que te libertem. Ela não pertence à casta dos pescadores — é uma criatura celeste, decaída por causa de uma maldição.

Ao ouvir isso, ele acordou e permaneceu desperto pelo resto da noite. Quando rompeu a aurora, uma beldade dentre as filhas dos pescadores, verdadeira bebida da imortalidade a derramar-se diante de seus olhos insones, penetrou no templo da deusa. Chegou-se a ele, impelida pelo desejo, pronta a oferecer-se:

— Farei com que te soltem deste lugar, se fizeres o que quero. Até hoje recusei todos os pretendentes escolhidos por meus irmãos, e no entanto, logo que te vi, o amor me invadiu — possui-me!

Era Bindumati, filha do rei dos pescadores, que assim vinha falar-lhe. Rememorando o sonho, Saktideva, radiante, pôs-se de acordo sem hesitação. Ela fez com que o livrassem e ele desposou a linda jovem. Os irmãos se conformaram com a vontade dela, tendo recebido em sonhos a ordem de Ambika, face materna da deusa.

Saktideva deixou-se ficar na ilha de Utsthala com essa criatura divina que lhe fora dada sob forma humana. Um dia, recostado no terraço de sua morada viu passar na estrada um pária que levava um carregamento de carne de vaca. Comentou com sua amada:

— Olha, ó mulher detalhe esbelto! As vacas devem ser reverenciadas nos três mundos; como pode esse infame consumir sua carne?

— Esposo querido isto é de fato um pecado, um ato inconcebível — que mais se pode dizer? Se o poder sobrenatural das vacas me fez nascer nesta família de pescadores, tendo eu cometido uma ofensa mínima contra elas o que deveria sofrer esse indivíduo para expiar seu crime?

— Ora, que coisa! Mas dize-me, minha cara, quem és afinal: E como foi que nasceste entre os pescadores?

Como Saktideva não parava de pressioná-la com sua curiosidade, ela declarou que lhe daria uma resposta, apesar de ser um segredo, se ele concordasse em fazer aquilo que ela iria indicar depois. Ele se comprometeu por força de juramento, e só então ela lhe expôs o que teria de fazer:

— Em pouco irás arranjar mais uma esposa nesta ilha, e logo ela ficará grávida. No oitavo mês, tu lhe abrirás o ventre e arrancarás o embrião — não, não fiques horrorizado!

Ela nem terminara de falar e Saktideva já protestava, perplexo e com visível repugnância, arrependido da promessa imprudente. Não podia entender que sentido teria um ato tão contrário a seus sentimentos de compaixão.

— Pois é o que terás de fazer, e por trás disso há um motivo que não posso revelar. E agora escuta quem sou eu e como vim a nascer entre os pescadores. Fui outrora, em outra existência, uma vidyadhari, mas uma maldição me condenou a viver no mundo dos mortais. E porque, enquanto eu era ainda vidyadhari, para ajustar as cordas de minha vina cortei-as com os dentes, fui fadada a nascer na casa de um pescador. É que minha boca havia tocado em tendões esticados de bovinos, de que são feitas as cordas desse tipo de alaúde. Se só por um simples contato tive de sofrer tal rebaixamento, que castigo caberia a quem se atreve a comer a carne desses animais?

Mal terminara de falar, quando um de seus irmãos entrou precipitadamente e disse a Saktideva:

— Levanta-te e foge com tua mulher! Um javali enorme, saído não se sabe de onde, está vindo para cá, deixando incontáveis vítimas pelo caminho!

Saktideva desceu rápido do terraço, montou em um cavalo e, empunhando um chuço, precipitou-se à procura do javali. Tratou de espetá-lo, logo que o avistou. Quando o valente brâmane voltou a atacá-lo, o javali, sentindo-se ferido, fugiu e se meteu em uma caverna com Saktideva atrás dele, sempre a persegui-lo. Dentro da caverna, ele divisou uma habitação erguida na amplidão de um parque. Lá avistou uma jovem de estonteante beleza, a vir apressada em sua direção; bem poderia ser a deusa da floresta, acorrendo por amor ao encontro dele.

— Quem és, ó encantadora? E o que te perturba?

— Amigo, sou a donzela Bindurekha, filha do rei Candavikrama, que reina sobre a região do sul. Um diabólico daitya de olhos flamejantes me seqüestrou ardilosamente da casa de meu pai e me trouxe para cá. Esfomeado, tomou forma de javali e saiu à caça de uma presa. Algum herói o trespassou com seu chuço, agora mesmo. Acabou de voltar ferido e está morto. Com isso estou livre dele, e mantive intacta minha virgindade.

— Cessa de inquietar-te, princesa. Fui eu que, com meu chuço, matei esse javali.

Às perguntas dela, respondeu ser um brâmane de nome Saktideva, e ela de imediato o convidou a tornar-se seu esposo, ao que o jovem consentiu com igual presteza. Saíram juntos pela abertura da caverna. De volta à casa, ele narrou o acontecido à mulher. Com a aprovação dela, casou-se com a princesa Bindurekha.

Mais tarde, embora Saktideva coabitasse com as duas, somente uma, Bindurekha, ficou grávida. Ao completar o oitavo mês, a primeira mulher, Bindumati, veio dizer-lhe sem preâmbulos:

— Ó herói! Lembra-te do que me prometeste! Eis que chegou o oitavo mês de gravidez de tua segunda esposa. Vai! Corta a barriga dela e traze-me o embrião! Não podes faltar com a palavra dada sob juramento!

Saktideva, cheio de ternura e compaixão mas ligado pelo compromisso, ficou paralisado por um instante, sem resposta. Depois saiu, tomado de agitação, e foi procurar Bindurekha. Esta, vendo-o chegar com o semblante abatido, tentou tranqüilizá-lo:

— Caro esposo, bem seio que hoje te desespera: Bindumati te envia para que extraias o embrião que trago no ventre. Deves fazer isso a todo custo, pois o ato tem uma razão oculta. Não te aterrorizes, não estarás cometendo vilania alguma. Arranca sem remorso o embrião que carrego, tal como te mandou Bindumati.

Malgrado as palavras de Bindurekha, Saktideva continuava temeroso de incorrer em um pecado. Uma voz então veio do céu:

— Arranca sem inquietude o embrião dessa mulher, Saktideva; ele se transformará em espada!

Ouvindo as palavras divinas, não hesitou mais: fendeu o ventre da mulher, arrancou rapidamente o embrião e o brandiu no ar, seguro pelo pescoço. Apenas o empunhara e ele se transformou em uma espada, longa como a cabeleira da Fortuna, que acabava corajosamente de conquistar! O brâmane se metamorfoseou em vidyadhara, ao mesmo tempo em que Bindurekha desaparecia.

Sob sua nova forma, acorreu a contar a Bindumati o que se passara com a segunda esposa. Disse a filha do rei pescador:

— Senhor, somos três irmãs, filhas de um rei dos vidyadharas, banidas de Kanakapuri em conseqüência de uma maldição. A primeira é Kanakarekha; tu assististe ao fim de sua maldição em Vardhamana, e ela está agora de volta em sua cidade. O destino quis que, para a segunda, a maldição terminasse daquele modo extraordinário. Eu sou a terceira, e minha maldição chega agora ao fim. Hoje mesmo, carinhoso amigo, devo voltar à minha cidade, onde se encontram nossos corpos de vidyadharis. Nossa irmã mais velha, Candraprabha, sempre esteve lá, onde a encontraste. Vem tu mesmo comigo, vem ligeiro!, agora podes voar graças aos poderes mágicos de tua espada! Nosso pai, que se retirou para a solidão da floresta, dará sua permissão: tu nos tomarás, todas as quatro, como esposas — e reinarás sobre nossa cidade.

Saktideva aquiesceu e, acompanhado por Bindumati, que acabara de revelar sua verdadeira história, dirigiu-se pelo caminho dos ares para Kanakapuri. Pousando, viu inclinar-se diante dele, com Kanakarekha à frente, suas três amadas, cujas almas haviam reentrado nos corpos femininos que observara antes, estendidos sem vida sobre os sofás dos três pavilhões. Viu também a quarta, a irmã mais velha, Candraprabha, que cumpria os ritos de bom augúrio por sua chegada, e o bebia com um olhar langoroso por ter ficado por tanto tempo à espera dele. Servos e servas, cada um aplicado à sua tarefa, saudaram alegremente o recém-chegado. Uma vez na intimidade dos aposentos privados, Candraprabha revelou por fim quem era de fato cada uma:

— Caro esposo, eis minha irmã Candrarekha; foi ela uma vez a princesa Kanakarekha que encontraste na cidade de Vardhamana. Minha irmã Sasirekha, aqui presente, era Bindumati, a filha do rei dos pescadores, que desposas­te em primeiro lugar na ilha de Utsthala. Eis por fim minha caçula, Sisiprabha; era a princesa Bindurekha com quem te casaste em seguida, depois que um demônio a carregou para aquela caverna. Agora vem conosco diante de nosso pai, ó afortunado, para receber sua concordância, e depois — depressa! — trata de desposar-nos todas!

Candraprabha falara com a ousadia dos que seguem os comandos do deus cujas flechas são flores. Quando ela terminou, Saktideva se dirigiu em companhia das quatro para a floresta, ao encontro do pai delas.

Ali, como lhe suplicavam em coro as filhas prosternadas a seus pés, e como, ao mesmo tempo, uma voz vinda do céu lhe prescrevia, o soberano dos vidyadharas, o magnânimo Sasikhandapada, com o espírito jubilante, concedeu-as, sem excetuar nenhuma, a Saktideva. Em seguida transferiu-lhe o domínio real sobre a próspera Kanakapuri, assim como a totalidade de seus conhecimentos mágicos.

— És poderoso demais para que outro rei qualquer te vença!

Para culminar a sagração, atribuiu ao herói o nome de Saktivega, conforme os usos dos vidyadharas.

Recebendo vênia do sogro para despedir-se, Saktivega, rodeado de suas esposas queridas, entrou como rei em Kanakapuri, glória do mundo dos vidyadharas. Nessa cidade, onde o ouro faz refulgir os templos, e que, por localizar-se nas alturas, parece feita dos raios condensados do sol caindo com violência entre os jardins, e onde escadarias incrustadas de jóias conduzem ao jorro d’água dos chafarizes, ele atingiu a felicidade perfeita em companhia de suas quatro bem-amadas de olhos encantadores.

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Evolução das Espécies
Texto
7/3/2017 10:47:31 AM
Odsson Ferreira
Por: Cláudio da Cunha
Antropologia, Evolução humana, Psicologia evolucionista, Evolução das espécies, Teoria da Evolução, Evolucionismo, fixismo, Ciência e pensamento científico, Criacionismo, Cosmogonia, Jean Baptist Lamarck, Tempo geológico, Lei do uso e desuso, Herança dos caracteres adquiridos, O darwinismo, seleção natural, seleção sexual

O termo ‘evolução’ deriva do latim evolvere, cuja etimologia tem a mesma base da palavra portuguesa revolver (‘remexer’). O conceito de ‘evolução biológica’ deve ser interpretado simplesmente como mudança dos seres vivos através do tempo, não necessariamente para algo maior ou melhor, confusão causada pelo uso incorreto do termo ‘evolução’ como sinônimo de ‘progressão’. A má utilização dos termos produziu uma série de conceitos erróneos e deturpados, utilizados, geralmente, como formas de contestação aos princípios da evolução.

Até o séc. XIX, o mundo ocidental tinha como única explicação para a diversidade de seres vivos o Gênesis bíblico e os animais salvos do dilúvio por Noé. Essa forma de pensamento, denominada fixismo, tinha por teoria a ideia de que os animais estariam imutáveis desde a criação divina.

O primeiro cientista que percebeu que os seres vivos se modificam através do tempo, por meio da observação de animais, foi Jean-Baptist de Lamarck (1744-1829), que apresentou sua Teoria da Evolução em 1809. Embora estivesse correto em relação à evolução, errou em relação à explicação do fenômeno. Em 1959, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace publicaram a proposta intitulada A origem das espécies por seleção natural, em que explicavam os mecanismos que determinam a evolução biológica. Somente no século XX os princípios de hereditariedade e de genética molecular foram associados ao evolucionismo e explicaram satisfatoriamente a grande maioria dos fenômenos evolutivos dos seres vivos.

 

A importância do pensamento evolutivo

Até o início do século XIX, o homem era visto como um ser completamente distinto e separado da natureza, uma concepção denominada antropocentrismo, filosofia baseada no conceito de que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, em um dia diferente dos animais e, portanto, sem correlação com os outros seres vivos.

Até 200 anos atrás, toda a história da humanidade estava pautada pela não separação entre o Estado, a Ciência e a Fé. Durante milênios os conhecimentos humanos foram restritos a uma pequena fração da população que tinha acesso à escrita: os nobres e o clero. Sendo assim, a ciência e o acesso à informação permaneceram ligados, desde suas origens, a dinastias imperiais ou instituições religiosas e suas milenares bibliotecas. O estado laico, isto é, sem uma religião que comanda a conduta de seus povos, é uma instituição bastante recente na história humana.

A descoberta dos mecanismos de evolução biológica abriu um novo caminho de pensamento independente, como, por exemplo, o do estudo comparativo dos mecanismos celulares encontrados nos diversos organismos vivos, o que abre portas inimagináveis para o desenvolvimento humano. Conhecendo os mecanismos evolutivos podemos compreender porque nossos medicamentos e inseticidas perdem seu efeito continuamente e, assim, contornar problemas práticos cotidianos como: as novas variedades de tuberculose incurável, insetos vetores de doenças cada vez mais resistentes ou, ainda, aumentar a produção agropecuária.

A maioria das pessoas não consegue perceber que todos os organismos que utilizamos como alimento, e todos os animais domesticados (como cães e gatos) mudaram continuamente nas últimas décadas ou milênios. A evolução biológica está ocorrendo a cada instante, mas em uma velocidade que nós não percebemos.

Estudar a sequência de eventos que levaram à descoberta dessa evolução é bastante interessante para percebermos a força da dedução lógica e do ceticismo no avanço científico.

Alguns críticos, particularmente ligados ao novo cristianismo do séc. XX, expressam de forma pouco esclarecida que isso é apenas uma “teoria” e isso nada prova e nada acrescenta ao conhecimento humano.

Talvez a maior diferença entre religião e ciência resida nos conceitos de dogma e teoria. Dogmas são fatos irrefutáveis, movidos por conceitos de fé, enquanto teorias não podem ser incontestáveis. Quando uma teoria é vista como irrefutável, passa a ser um dogma, torna-se, portanto, não científica, segundo o princípio da falseabilidade da ciência. Quando as teorias são comprovadas de forma ampla em grandes áreas do conhecimento e aceitas pela comunidade científica, geralmente são difundidas pelos livros didáticos como ‘leis’ (2a lei da termodinâmica, 1a lei de Mendel etc.). No mundo acadêmico, o termo ‘lei’ não é utilizado por fugir do conceito da falseabilidade, base da ciência moderna, em que toda teoria científica pode e deve ser contestada.

A ciência não traz consigo a verdade absoluta, mas sim uma grande probabilidade matemática de certeza, muitas vezes próxima de 100%. Cada ideia científica é baseada em outras ideias que, com o passar do tempo, servirão de alicerce para outras novas que a sucederão, em uma eterna construção. Cientistas não podem temer a mudança de conceitos de ideias, pois a ciência é feita dessa forma.

Quando usamos termos como ‘Teoria da Relatividade’, ou ‘Teoria Psicanalítica’ não estamos falando de algo que não existe de fato, mas sim, empregando, com pudor, o conceito de que a ciência não é proprietária da verdade absoluta, uma forma de pensamento intrinsecamente religiosa.

A evolução biológica é um fato. Fósseis são fatos, o petróleo existe de fato e é um fato que dinossauros dominaram a terra por mais de 200 milhões de anos e se extinguiram por volta de 65 milhões de anos antes de surgirem os primeiros registros de seres humanos sobre a Terra. Nós, humanos, somos apenas uma pequena parte da história evolutiva do planeta.

 

Criacionismo

Podemos encontrar muitas referências à palavra ‘religião’, por exemplo no dicionário da língua portuguesa Michaelis: do latim religione, I Serviço ou culto a Deus, ou a uma divindade qualquer, expresso por meio de ritos, preces e observância do que se considera mandamento divino.

Assim, se estudarmos quaisquer povos, em qualquer lugar do mundo, encontraremos várias religiões que se manifestam de forma particular e, junto delas, uma história característica que descreve a  criação daqueles povos e, muitas vezes, como foi a criação do universo conhecido. Esse conceito da origem do homem e do universo a partir de alguma divindade é conhecido como criacionismo, sendo possível expressar a mesma ideia básica pelo termo cosmogonia.

Estamos inseridos na cultura ocidental, a qual, por ampla maioria, pode ser considerada judaico-cristã, tendo como base a Torá, ou, o Antigo Testamento. Nela, há relatos de um momento específico da criação (Gênesis) e de outro em que toda Criação foi destruída e reiniciada (dilúvio). Assim, todos os animais que hoje vemos seriam derivados do casal original, ou do casal pós-diluviano, sem que tenham sido criados outros seres desde então, mantendo-os semelhantes após a reprodução dos animais originais.

Esse conceito que considera os seres vivos imutáveis através do tempo recebeu o nome de fixismo, um dogma religioso que não enfrentou contestações importantes até o início do século XVIII, com as primeiras ideias sobre evolução biológica descritas por Jean Baptist Lamarck, em 1809.

Apenas um século antes do surgimento da ideia de modificação dos seres vivos através do tempo, Giordano Bruno foi queimado vivo nas fogueiras da Santa Inquisição por defender a ideia de que a Terra gira em torno do Sol, assim como outros pensadores que foram firmemente pressionados a não divulgar “ideias heréticas”.

Nas últimas décadas foram feitas várias tentativas, por parte de legisladores ligados a diferentes religiões, de excluir do ensino escolar formal, os conceitos de evolução biológica ou de implantar, obrigatoriamente, o ensino religioso como contraponto ao evolucionismo. No Brasil, não há parâmetros escolares fixos e, como alternativa, escolas religiosas podem utilizar livros que negam a evolução biológica e pregam o criacionismo. Modernamente, com a impossibilidade de negar a evolução biológica como um fato, criou-se um novo conceito de evolução biológica direcionada pela vontade divina, denominado “design inteligente”, um movimento crescente que busca um equilíbrio entre ciência e fé, mas que, infelizmente, também tem entre seus seguidores algumas opiniões bastante extremistas.

Talvez a maior perda de tempo sobre o assunto seja o infrutífero embate “ciência versus religião”. Não cabe a esse texto tentar discutir ou concluir um assunto que jamais atingiu um consenso e, ainda pior, fomenta ódio, discórdia e guerra. Muitos leitores talvez já tenham se munido de armas para ir contra uma ou outra visão.

Em outros ramos da ciência, como a Física, não há uma imagem representativa que transmita a ideia de que tudo o que vemos e chamamos de matéria seja, na realidade, uma forma de energia. Há apenas uma fórmula: E = mc2. Essa equação virou símbolo de algo “inteligente” e costuma ilustrar apostilas escolares, capas de caderno e lousas em programas de televisão. A fórmula básica da relatividade e a física quântica descrevem a matéria e a energia como duas faces da mesma moeda e destroem todos nossos conceitos criacionistas sobre o tempo, o espaço, a origem e a constituição do universo e da vida. Mas, embora seja essa uma fórmula que mexa com nossos pilares de certeza, não é combatida como inimiga da espiritualidade ou religiosidade, simplesmente por não ser compreendida.

A ciência trabalha com conceitos físicos, palpáveis em nosso cotidiano, enquanto as religiões trabalham, principalmente, com conceitos de conduta moral. Dessa forma, não devem ser necessariamente excludentes pois, cada uma se preocupa com diferentes objetos de estudo, dentro de suas limitações. Os judeus passaram séculos conservando suas escrituras sagradas (Velho Testamento) até nossos dias e, ao mesmo tempo, cerca de metade dos prémios Nobel foram atribuídos a cientistas judeus, revelando, de certa forma, a possibilidade de convivência.

Em nosso país, a liberdade de culto religioso é amplamente garantida pela Constituição, enquanto o direito universal à educação escolar vai além, constituindo-se em um dever do Estado, ou seja, o ensino de ciências é amparado pela constituição do país e não pode ser alterado segundo interesses de fé. Cabe a cada cidadão decidir sobre sua autonomia intelectual, mas as crianças devem ser protegidas contra o extremismo e o fundamentalismo religioso, já demonstrado infinitas vezes na história humana como causador de atrocidades indescritíveis.

 

Para compreender a evolução: tempo geológico e formas de estudo

A compreensão do tempo é talvez a grande barreira limitadora para perceber a evolução biológica. Seres humanos vivem geralmente menos de 100 anos. No Brasil, a mais velha árvore conhecida é um jequitibá rosa que tem sua idade estimada em mais de 3000 anos, situada no Parque Estadual do Vassununga - SP. Supondo que os ancestrais dessa árvore tenham chegado até a mesma idade antes de produzir novos descendentes, sua “avó”, provavelmente, estava viva quando a espécie humana ainda vagava como bandos de caçadores nômades pré-históricos. Ao contrário, uma bactéria pode se dividir a cada 30 minutos, com duas gerações de “filhos e netos”, em apenas uma hora.

Até meados do século XIX, nas sociedades ocidentais, o início dos tempos foi estudado e definido como ocorrido em meados do ano 4004 a.e.c. e, da mesma forma, cada povo do mundo estimava o início dos tempos conforme suas crenças e mitologias (3.114 a.e.c. para os Maias; 34.000 a.e.c. para os Chineses, 39.670 para os Egípcios etc.).

A grande barreira que nos separa da história da vida é o tempo, já que um minuto, uma semana ou uma década podem ser sentidos e compreendidos, mas imaginar o significado temporal de um século ou de um milênio, ultrapassa os limites da nossa capacidade cognitiva. Nosso tempo cotidiano é vivenciado fracionando o dia e a noite em partes iguais que nos permitem ter uma noção de nossas obrigações, mas bloqueando também a percepção de espaços de tempo mais longos. O tempo do planeta Terra é medido em bilhões de anos (b.a.) e em milhões de anos (m.a.) em uma escala de tempo denominada tempo geológico.

Veja um pequeno resumo da história geológica do nosso planeta (aceita até o presente momento), comparada de forma aproximada com um dia de 24 horas:

00:00:00 - Formação do planeta (4,5 ba)

05:00:00 - Primeiras células semelhantes às bactérias (3,5ba)

06:00:00 - Primeiros seres capazes de realizar fotossíntese (3,2 ba)

13:00:00 - O oxigênio livre muda a atmosfera (3,1 ba)

14:00:00 - Surgem células eucarióticas complexas, semelhantes às nossas (2,5 ba)

20:00:00 - Primeiros seres pluricelulares (700ma)

20:20:00 - Surgimento dos neurônios, em animais celenterados parecidos com anêmonas a aproximadamente 650 ma

20:50:00 - Primeiras plantas terrestres (450 ma)

21:10:00 - Era dos peixes (408 ma)

21:30:00 - Era dos anfíbios (380 ma)

22:15:00 - Início da Era dos répteis e dinossauros (248ma)

22:35:00 - Surgimento dos mamíferos (210ma)

22:45:00 - Surgimento das aves (170 ma)

23:00:00 - Fim da Era dos dinossauros (65 ma)

23:59:30 - Primeiros seres humanos Homo Sapiens (200 mil anos)

[ba = bilhões de anos; ma = milhões de anos)

Com base nessa percepção, o tempo geológico foi divido a partir do registro dos fósseis de animais e plantas mais comuns e, dos momentos de grandes extinções em massa ou do surgimento de novos seres. O tempo geológico foi dividido em Eras, que estão subdivididas em Períodos, e estes em Épocas. Por exemplo, a Era Mesozoica é caracterizada pelo domínio dos répteis terrestres, sendo dividida em três períodos: o Triássico, o Jurássico e o Cretáceo, marcados, respectivamente, pelo surgimento dos mamíferos, das aves e pelo fim dos dinossauros. 

O tempo geológico é medido através de estratigrafia dos fósseis, que se sucede através das eras geológicas de forma semelhante em todos os lugares do planeta e através da estimativa do tempo de formação das rochas onde eles são encontrados, utilizando principalmente o decaimento ou meia vida de elementos radioativos (radiometria), como o Potássio 40, que decai para Argônio 40 a cada 1,25 ba e o urânio 238 que decai para chumbo 206 a cada 4,5 ba. A famosa datação por Carbono 14 é utilizada para datações de até 50.000 anos e é utilizada extensamente em arqueologia e estudos sobre tempos menos remotos utilizando diretamente os restos orgânicos estudados.

Para estudar a evolução dos seres vivos utilizamos o conceito de proximidade ou parentesco evolutivo que, por sua vez, reflete modernamente a similaridade genética entre os diferentes organismos. Os gráficos utilizados nesse contexto são denominados cladogramas ou árvores filogenéticas de forma semelhante aos heredogramas utilizados em genética.

Nós somos descendentes de nossos pais e carregamos suas características hereditárias. Mas se voltarmos no tempo, nossos mais remotos ancestrais não eram iguais ao que vemos hoje. Mamíferos são descendentes de répteis e, ainda hoje, há espécies com características tipicamente reptilianas, como botar ovos que saem por cloacas e, após serem chocados, originam filhotes que se alimentam de leite (ornitorrinco e equidnas). Répteis são descendentes de anfíbios e estes são derivados de peixes. Um girino apresenta não só a forma, mas toda sua fisiologia semelhante à dos peixes, passando por uma lenta e gradual mudança durante sua metamorfose até adquirir pernas e a fisiologia de um animal terrestre. Os seres que apresentam características intermediárias entre diferentes grupos de seres vivos dão pistas muito importantes de como ocorreu o processo evolutivo.

Todos os animais vertebrados são aparentados e possuem ancestrais comuns, variando apenas o grau de parentesco. Humanos e peixes ósseos possuem aproximadamente 75% de seus genes em comum, enquanto chimpanzés e humanos possuem aproximadamente 99,2% de genes em comum. É o mesmo raciocínio utilizado para medir a similaridade gênica entre irmãos e primos de terceiro grau.

A gravura mais famosa utilizada em todo o mundo para representar a evolução é talvez, o maior mal entendido desse ramo da ciência. A gravura com um macaco virando homem, apareceu como uma forma simples de explicar a evolução, tendo sido utilizada com diversas modificações para expressar diferentes ideias de forma sintética e de simples compreensão. Uma boa intenção transformada em um monstro conceitual quase incontrolável.

O problema surge quando uma ideia complexa deve ser traduzida em uma ideia simples para um público leigo que jamais lerá um livro sobre o assunto. Essas figuras mostram erroneamente a evolução como uma progressão linear, transmitindo a ideia de que um macaco mudou lentamente até virar um homem. Ao contrário, a evolução ou modificação através do tempo ocorre em infinitas ramificações, mantendo as linhagens mais aptas para sobreviver e deixar descendentes. Humanos são geneticamente mais próximos dos grandes símios antropoides (gorilas, chimpanzés) e mais distantes, sucessivamente, de macacos com cauda, lêmures, cães, jacarés, insetos, árvores, cogumelos, algas e outros seres vivos que também estão ocupando algum lugar na árvore da vida.

A gravura falsa e infeliz da evolução humana causa uma reação imediata. Como é possível acreditar que homens descendem de chimpanzés (o macaco da figura)? Peço ao leitor que ponha seus pré-conceitos um pouco de lado e creia que os cientistas sérios não perdem seu tempo em discussões como essa. Evolução não significa “melhorar” ou ir de um estado inferior para um estado superior.

Nenhum chimpanzé evoluirá até virar gente, ou durante a evolução humana daqui a “milhares de anos” ficaremos sem pelos, sem genitais, sem pálpebras e sem cabelos tornando-nos semelhantes a “ETs”! Esse tipo de divulgação não é “científica”. Particularmente, certos grupos religiosos “declararam guerra” ao evolucionismo e, ao descartarem todas as evidências da natureza, utilizam-se da frase o homem descende do macaco, como um resumo ridículo e jocoso de uma das mais importantes deduções lógicas do conhecimento humano.

Da mesma forma que sabemos que os cães modernos descendem de outras raças preexistentes, sabemos que todos os organismos vivos têm um ancestral comum em um passado que remonta cerca de 3 bilhões de anos. A composição química, a fisiologia celular e o material genético de todos os organismos vivos é intrinsecamente semelhante, destacando esse parentesco. Não se esqueça de que você, brasileiro, alimenta-se de arroz, feijão, bife e salada, ou seja, seres ou partes de seres vivos bioquimicamente semelhantes.

Podemos estudar o processo evolutivo em laboratório, utilizando qualquer organismo de reprodução fácil e rápida. A evolução biológica é diretamente proporcional à velocidade de reprodução das espécies. Microorganismos geram descendentes diferentes em questão de horas, enquanto outros seres vivos apresentam ciclos de vida muito longos. Assim utilizamos como material de estudo de genética e evolução, seres vivos de reprodução rápida, com destaque para as bactérias (Escherichia coli), os ratos (Rattus rattus), as moscas das frutas (Drosophila sp.), os vermes (Caenorhabditis elegans) e os vegetais (Arabidopsis thaliana). Esses seres vivos têm seus genomas completamente decifrados e são utilizados em grande parte dos experimentos laboratoriais modernos.

 

O registro fóssil

As descobertas de fósseis foram as principais provas de que os seres vivos e o mundo como um todo estão em constante modificação. Os seres que conhecemos no presente momento representam uma minúscula parte da história da vida na Terra, incluindo-se nesse perfil, o ser humano.

Ao encontrarem conchas marinhas extintas no alto das montanhas do Himalaia a milhares de metros de altitude, pesquisadores se depararam com a concepção de que toda a crosta terrestre está em constante alteração e que, da mesma forma, estão os seres vivos.

Provavelmente, a principal imagem que vem à cabeça quando se fala em fósseis são esqueletos de dinossauros, fartamente expostos em filmes e na mídia televisiva, sendo o Tyrannosaurus rex seu ícone supremo. Porém, a palavra fóssil deriva do latim fossile, aquilo que está enterrado. E inclui qualquer tipo de evidência da existência de seres vivos em um passado remoto, objetos estudados especificamente pelo ramo da ciência denominado ‘paleontologia’.

O primeiro fóssil de animal vertebrado desenterrado e reconhecido como sendo de uma espécie que viveu em tempos remotos foi exposto ao público na Inglaterra em 1795. Era um Mosasaurus, um réptil marinho gigantesco, circunstância que gerou uma verdadeira corrida pela descoberta de mais fósseis, para estudo ou por dinheiro, que perdura até os dias de hoje. O termo dinossauro (lagarto terrível) surgiu em 1842 para descrever um grupo de répteis muito diferentes dos seres hoje viventes, não só pelo tamanho, mas também por características anatômicas exclusivas.

Durante muito tempo, no mundo ocidental, os fósseis foram associados a dogmas religiosos como produto inacabado da criação divina, ferramentas satânicas para incutir a dúvida e afastar os fiéis do caminho da verdade, seres que não foram escolhidos para entrar na arca do dilúvio, entre outras interpretações peculiares. Enquanto isso, no oriente, relatos e desenhos de fósseis têm sido retratados em manuscritos a mais de 1700 anos, reconhecendo a existência de animais que dominaram o mundo em tempos remotos e cuja diversidade é observada nos vários tipos de “dragões” chineses, associados à grandiosidade e à força, sem a conotação maligna típica do ocidente.

Embora tenhamos muitas vezes a impressão de que fósseis só existem em países desenvolvidos, o Brasil se destaca por sítios paleontológicos espalhados amplamente pelo território nacional, merecendo um particular destaque pela presença dos mais antigos registros de mamíferos no Rio Grande do Sul, dinossauros e outros répteis em Minas Gerais e São Paulo e, a maior diversidade de répteis voadores (Pterossauros) na região nordestina, além de peixes e de pegadas de dinossauro, principalmente no Ceará. Também são encontrados invertebrados e plantas fossilizadas em diversos locais, bem como florestas fossilizadas na forma de carvão, em Santa Catarina.

A megafauna sul-americana representada por tigres dente-de- sabre, mastodontes (elefantes), preguiças, tatus gigantes e inúmeros marsupiais remonta a eras mais recentes, mas também com grande representação. O petróleo, é composto principalmente pelo acúmulo de grandes quantidades de algas microscópicas que dão a tonalidade esverdeada aos mares litorâneos (fitoplâncton).

A diversidade paleontológica do Brasil e da vizinha Argentina é excepcional, mas infelizmente, por descuido educacional, não temos acesso a essa riqueza. 

 

O lamarquismo

A primeira pessoa que descreveu a evolução biológica foi Jean Baptist de Lamarck, em 1809, confrontando pela primeira vez a ideia de imutabilidade dos seres vivos. Embora absolutamente correto ao perceber a evolução das espécies, Lamarck falhou na explicação dos mecanismos que orientam o processo. Lamarquismo é o nome dado ao conceito de evolução biológica proposto por Lamarck e explicado por dois mecanismos básicos que se associam.

Lei do uso e desuso: as características físicas são alteradas conforme a necessidade dos animais. Se uma parte musculosa do corpo é muito utilizada, ela se desenvolverá mais; se for pouco utilizada será reduzida.

Herança dos caracteres adquiridos: as modificações sofridas pelos animais durante a sua existência são passadas para seus descendentes.

O tamanho e as capacidades do cérebro humano seriam explicados de forma lamarquista pela sua grande atividade, maior que a de outros animais. Um órgão muito requisitado cresceria naturalmente.

Um problema crucial do lamarquismo está na crença de que a evolução é uma progressão direcionada que toma os organismos cada vez melhores, a partir de uma força vital impulsionadora que leva irremediavelmente a estágios de maior perfeição.

A ideia é muito simples e pode ser facilmente compreendida. Nos livros didáticos, a ideia foi imortalizada pelo aumento do pescoço da girafa a partir de um ancestral de pescoço curto, quando o esforço de esticar o pescoço para comer as folhas das árvores induziu um aumento que seria passado para os filhos. Embora simples, o lamarquismo não consegue passar pelo crivo do método cientifico: logo depois do lançamento da ideia, várias gerações de ratos cruzados entre si tiveram suas caudas cortadas por August Weissman, mas o fato não ocasionou o surgimento de filhotes sem cauda, contradizendo a herança dos caracteres adquiridos.

Embora Lamarck tenha sido um grande cientista e tenha percebido o fenômeno da evolução biológica de forma brilhante, ele entrou para a história pelo seu erro na explicação, enquanto todos os louros da descoberta recaíram sobre Charles Darwin. 

  

O darwinismo, a seleção natural e a teoria sintética da evolução

Lamarck estava no fim da carreira acadêmica quando Charles Darwin estava iniciando seus estudos que comprovaram a ideia de evolução biológica e explicaram de forma satisfatória o mecanismo evolutivo que impulsiona a mudança. Darwinismo é o nome dado ao conceito de evolução biológica explicada pela seleção natural a partir de ancestrais comuns baseada em alguns pressupostos facilmente observáveis.

Variabilidade: existe uma notável variabilidade entre os indivíduos da mesma espécie, observável por sutis diferenças individuais. Não há dois seres humanos perfeitamente idênticos, fato constatado em outros organismos.

Seleção natural de indivíduos mais aptos: ocorre uma luta constante pela sobrevivência em que os organismos incapazes perecem ou deixam poucos descendentes, enquanto os melhores sobrevivem e deixam descendentes com características semelhantes.

O tamanho e as capacidades do cérebro humano seriam explicados de forma darwinista pela sobrevivência seletiva dos indivíduos com melhores capacidades mentais, ou sobrevivência do mais apto (mais inteligente).

A seleção natural é feita a partir de qualquer forma de desafio que altere as taxas de mortalidade e natalidade, pressionando os seres vivos de tal forma que as variantes genéticas sofrerão alterações através do tempo causando uma lenta substituição de variedades menos aptas por outras mais aptas nas diversas populações de organismos. Quando pensamos de forma estrita, podemos imaginar a “luta pela sobrevivência” ou a “sobrevivência do mais forte”, mas muitas vezes, a seleção natural ocorre de forma discreta. Seres humanos não são mais rápidos ou mais fortes que a maioria dos animais, mas são mais inteligentes, o que lhes dá uma enorme vantagem para sobreviver. Nenhuma outra espécie utiliza a pele de outros animais para se proteger do frio: as habilidades intelectuais suplantam as restrições naturais.

Se em uma ilha, o alimento se tomar escasso, não será o mais forte que irá sobreviver, mas sim o de menor tamanho, aquele capaz de sobreviver com menos alimento. Em um caso hipotético como esse, os menores animais de uma espécie deixariam mais descendentes que os grandes, produzindo um fenômeno de redução geral de tamanho através do tempo. Curiosamente, a Ilha de Flores, no Oceano Pacífico, possui fósseis de animais em miniatura (elefantes, rinocerontes, humanos, entre outros) que, provavelmente, passaram por esse tipo de pressão ambiental.

Ao contrário do lamarquismo, o darwinismo é empírico, passível de testes e análises matemáticas que comprovam a sua veracidade. Comparativamente, o caso da evolução das girafas seria explicado pela maior taxa de mortalidade de indivíduos mais baixos e maior sobrevivência e reprodução de indivíduos mais altos, em momentos de seca extrema quando o pasto não seria suficiente e as folhas das árvores seriam um dos poucos recursos disponíveis.

Ainda jovem, Darwin embarcou como naturalista em uma viagem realizada entre 1831 e 1836, contornando a América do sul e chegando até a Ásia. O arquipélago de Galápagos, no Equador, forneceu a sua principal fonte de argumentos.

O livro de Darwin é um cuidadoso compêndio de provas e relatos coletados em diversas partes do mundo, exaustivamente colocados em contra-argumentação: a cada ideia exposta segue-se uma contestação lógica.

Enquanto escrevia seu livro, processo que durou quase 40 anos, outro pesquisador, Alfred Russel Wallace teve as mesmas ideias durante viagens pela Ásia e descreveu o mesmo mecanismo para a evolução biológica. Wallace expôs sua ideia a Darwin e os dois publicaram em conjunto o trabalho A tendência das espécies em formar variedades; a perpetuação de variedades e espécies por meio da seleção natural em 1858. Wallace foi também um naturalista brilhante e definiu claramente a separação de grandes grupos de fauna espalhados pelo mundo, com coletas feitas inclusive no Brasil, mas infelizmente, seu nome foi apagado dos registros históricos. Logo depois, em 1859, Darwin publicou seu livro Origem das espécies, que acabou sendo considerado como o grande marco na história do pensamento evolutivo.

Uma grande influência para ambos foram as ideias do economista Thomas Malthus, que estudava o equilíbrio das populações humanas em relação à sua capacidade de produzir alimentos. Publicada em 1798, a teoria populacional malthusiana alertava que, se as populações humanas crescessem mais rapidamente que a capacidade de produção de alimentos, ocorreria fome e conflitos, numa espécie de sobrevivência das nações mais fortes ou que fossem capazes de controlar sua natalidade.

Na ausência de evidências seguras sobre a transmissão hereditária, Darwin assumiu como corretas as ideias de herança dos caracteres adquiridos do lamarquismo, descrevendo, inclusive, teorias que explicavam como pequenas cópias dos órgãos do corpo (gêmulas) chegavam aos espermatozóides através do sangue para “montar” os bebés.

Lamarck e Darwin desconheciam completamente os princípios de hereditariedade e suas teorias nunca conseguiram explicar os mecanismos de transmissão das características dos seres vivos de forma satisfatória.

Quando as conclusões de Gregor Mendel foram reconhecidas como corretas, dando início à genética moderna em 1901, o darwinismo ganhou um novo embasamento teórico e pode ser denominado a partir daí como neodarwinismo. Entretanto, a genética mendeliana explicava como as características são passadas através das gerações, mas não explicava como surgem as novas variedades, questão elucidada apenas na década de 1950 após a descoberta da composição do DNA e das diferentes formas de mutação gênica aleatória. Modernamente, o darwinismo associado a essas descobertas da genética clássica e molecular pode ser denominado como ‘Teoria Sintética da Evolução’, um termo pouco utilizado, sendo mais comum o emprego do termo neodarwinismo como um sinónimo.

Enquanto o darwinismo se sustenta em mecanismos e fatos concretos que permitem repetição e previsão de fenômenos, o lamarquismo oferece respostas fáceis, mas que não podem ser experimentadas e repetidas.

A evolução biológica por seleção natural é um processo infinito, que continuará enquanto houver vida na Terra.

 

Resistência a antibióticos e inseticidas

Quanto mais rápida é a reprodução de uma espécie, mais rápida é a sua evolução (mudança).

Seres vivos prolíficos (aqueles que têm muitos filhos), tais como os insetos e as bactérias, apresentam uma enorme velocidade de mudança através do tempo.

Algumas bactérias duplicam-se a cada 30 ou 40 minutos. Supondo que uma espécie de bactéria se duplique hipoteticamente em nosso corpo a cada 1 hora, uma infecção que se inicie a partir de um bilhão de bactérias terá produzido no final de oito horas, 256 bilhões de bactérias! Dessa forma, os antibióticos devem ser tomados em intervalos de tempo regulares para que nossos tecidos sempre estejam com a medicação.

Suponha agora que uma pessoa iniciou um tratamento para uma infecção simples na garganta e deverá tomar a medicação em intervalos de 8 horas durante 7 dias. No terceiro dia, a febre baixou e a região não incomoda mais. O doente para de tomar o antibiótico ou o toma de forma displicente, a cada 24 horas. Todas as bactérias morreram? Provavelmente não, apenas as mais sensíveis ao medicamento, sobrevivendo então as mais resistentes, ou “aptas”, segundo o darwinismo. Se essa pessoa tiver uma recaída, serão justamente as bactérias mais fortes que estarão presentes e o medicamento não surtirá o efeito esperado.

Os tratamentos prolongados com antibióticos para doenças como a tuberculose podem chegar a seis meses e têm uma alta taxa de desistência por parte dos doentes mal-informados, o que acarreta a seleção das bactérias mais resistentes.

Imagine agora que doentes reincidentes farão um tratamento mais avançado no hospital. No ambiente hospitalar, essas bactérias serão transmitidas ao ambiente, a outros pacientes e funcionários. Algumas dessas variedades de bactérias, de espécies comuns e bem conhecidas, apresentam resistência a múltiplos medicamentos, tornando-se um grave problema de saúde pública, causando infecções conhecidas popularmente pelo nome de infecção hospitalar. Cada hospital pode apresentar uma variedade particular de bactérias resistentes, que foram selecionadas independentemente, pelo princípio da seleção darwiniana.

O ambiente hospitalar é particularmente propenso a receber portadores de diversas enfermidades e uma grande variedade de microorganismos, que contaminam o ambiente, os instrumentos, os profissionais de saúde e os pacientes. Quando uma pessoa adquire, por exemplo, uma bactéria causadora de pneumonia presente no ambiente hospitalar, há uma probabilidade maior de que ela já seja uma variação resistente a antibióticos. Após a manifestação da doença, só é possível saber se a bactéria é resistente quando o tratamento não alcança os resultados esperados. Mas a bactéria causadora da infecção é resistente a qual antibiótico? É possível descobrir fazendo uma coleta de amostras, com a subsequente cultura (multiplicação) em laboratório e testes com várias drogas. Mas o tempo necessário para esse procedimento é demasiado longo durante emergências. O antibiótico deverá ser trocado na espera de resultados positivos. Mas, se a bactéria for também resistente ao segundo ou ao terceiro antibiótico, em um corpo já debilitado, a probabilidade de morte é muito grande.

Logo, note a diferença entre a explicação normalmente contada nos meios de comunicação e a explicação técnica:

De tanto entrarem em contato com muitos antibióticos, as bactérias ficaram resistentes.

A frase acima é uma explicação “mais fácil de entender”, porém é falsa, pois transmite a ideia de que as bactérias “criam” a resistência pelo contato com o antibiótico de forma direcionada, uma ideia de evolução lamarquista semelhante à do aumento do pescoço da girafa porque ela precisava esticá-lo cada vez mais. Na prática, essa afirmação não pode ser observada e confirmada.

Quando começamos a tomar o antibiótico, as bactérias mais fracas morrem primeiro e, quando paramos antes da hora ou o tomamos de forma incorreta, sobrevivem as bactérias mais resistentes.

A frase acima está correta e pode ser comprovada experimentalmente quando é administrado um certo tipo de antibiótico em uma cultura de bactérias. Nem todas respondem da mesma forma, pois os seres vivos apresentam variações genéticas em individuais típicas e algumas sobrevivem em condições semelhantes em que outras morrem.

E daí? Qual o problema da primeira frase? Quando a mídia opta pela explicação mais fácil, retira a nossa responsabilidade pelo surgimento de novas e terríveis doenças.

Bactérias não ficam ou tornam-se resistentes por vontade própria, mas nós estamos acelerando o processo evolutivo da resistência aos antibióticos ao ignorarmos o processo evolutivo.

As bactérias resistentes a múltiplos antibióticos apresentam genes que lhes conferem essa vantagem de sobrevivência e estes, por sua vez, localizam-se frequentemente em um cromossomo secundário chamado plasmídeo, cuja função principal é receber e transferir informações de uma bactéria para outra durante os processos de conjugação. Ou seja, além de surgirem variedades resistentes o tempo todo e de forma aleatória, elas ainda são capazes de espalhar essa característica para outras bactérias não resistentes da mesma espécie. Variedades específicas de microorganismos são chamadas de cepas. Em testes laboratoriais já foram observadas cepas com resistência a até sete tipos diferentes de antibióticos ao mesmo tempo e com a capacidade de transferir seus genes por conjugação.

Antes mesmo de descobrirmos e produzirmos um novo antibiótico, provavelmente, as variedades de bactérias resistentes já existam na natureza, pois as mutações gênicas são aleatórias. Pode parecer estranho, mas já há bactérias resistentes a antibióticos que ainda nem foram sintetizados. É, no mínimo, improvável que seja descoberto um “antibiótico perfeito”, pois a evolução biológica das bactérias é mais rápida que a nossa atual capacidade tecnológica de produzir novas drogas. A saída mais lógica é o uso correto e disciplinado de antibióticos, evitando a seleção de novas variedades resistentes. Bactérias resistentes, virtualmente, a todos os antibióticos conhecidos já foram detectadas em diversas partes do mundo, principalmente as bactérias causadoras da tuberculose, dado o longo tempo de tratamento e a grande taxa de desistência do tratamento pelo paciente. 

Os antibióticos são substâncias capazes de matar e/ou de impedir a reprodução de bactérias, agindo então como bactericidas e/ou bacteriostáticos, alterando o metabolismo celular bacteriano de diferentes maneiras: penicilinas e cefalosporinas interferem na síntese da parede celular, cloranfenicol inibe a síntese protéica, entre outras formas de ação. Diferentes tipos de microorganismos como vírus, protozoários e fungos patogênicos precisam ser combatidos com antimicrobianos que não recebem comumente o termo antibiótico. Vírus, protozoários e fungos são controlados por substâncias antivirais, protozoaricidas e antimicóticos (fungicidas), que apresentam, geralmente, atividades específicas sobre essas categorias de seres vivos. Tomar antibióticos para doenças virais como gripes e resfriados, além de não produzir efeito terapêutico, pode induzir à seleção de bactérias resistentes no corpo do doente. 

Note que a variabilidade dos seres vivos é proveniente de mutações genéticas de origem aleatória, associadas com a reprodução sexuada. Nunca existirá um microorganismo que cause uma “doença perfeita”, que mate 100% dos infectados, pois sempre há algum indivíduo naturalmente resistente. Um dos mais mortais e temidos vírus, o Ebola, causa uma taxa de mortalidade entre 70 e 90%, bastante elevada. Nem todos os portadores de HIV manifestam a síndrome de imunodefíciência e nem todas as pessoas que entram em contato com o vírus o adquirem. Um microorganismo excessivamente agressivo, que mate todos os seus hospedeiros, desaparecerá por não ter onde se reproduzir.

Insetos transmissores de doenças como baratas, pulgas e piolhos, foram selecionados da mesma forma que as bactérias. Em milhares de indivíduos, alguns apresentam mutações genéticas que lhes conferem resistência a um certo composto inseticida e serão estes então os mais aptos a sobreviver, tendo filhos que possivelmente herdarão tal característica, iniciando uma nova geração de insetos resistentes. Modernamente, as fórmulas dos inseticidas precisam ser alteradas constantemente.

O primeiro inseticida utilizado em larga escala foi o DDT, para controlar insetos transmissores de doenças durante a II Guerra Mundial. Com o fim da guerra, o DDT passou a ser utilizado por produtores agrícolas no controle de pragas e na “dedetização” de casas para controlar vetores de doenças como a malária. O inseticida apresentava baixíssima toxidade para humanos, com efeito residual de até um ano e seu uso no controle de doenças tropicais foi tão revolucionário que mereceu o prêmio Nobel de medicina de 1948.

Seu uso foi então disseminado em todo o mundo, com grande sucesso. Porém, em poucos anos começaram a surgir variedades de artrópodes resistentes, resultando na necessidade de produzir novos compostos como o BHC, que logo passou pelo mesmo fenômeno de seleção natural e, assim, iniciou-se a necessidade de sintetizar continuamente novos tipos de pesticidas. Modernamente, é difícil afirmar com certeza quantas formulações diferentes podem ser encontradas no mercado, além das muitas dezenas já retiradas de circulação por danos à saúde e ao meio ambiente com atividade persistente de muitos anos. Além de não poderem ser mais utilizados, dezenas de agro defensivos têm sua produção proibida por acordos internacionais e, dentre eles, estão o DDT e o BHC.

 

Seleção artificial

A seleção artificial é um mecanismo de seleção feita e direcionada pelo homem e para suas necessidades, reproduzindo seletivamente as variedades de organismos de maior interesse. Ela é muito mais rápida que a seleção natural, intrinsecamente dependente de fatores aleatórios da natureza. Em grande parte do livro Origem das espécies, Darwin utiliza argumentações relacionadas a descrições bastante acuradas sobre a seleção artificial, particularmente seguindo todas as variedades de pombos domésticos até seus ancestrais selvagens que viviam em rochedos.

O darwinismo está presente até em nossos alimentos. Todas as plantas e animais domesticados são produto da seleção humana a partir de ancestrais selvagens. O porco e o javali são, na realidade, a mesma espécie (Sus scrofa) cabendo ao ser humano apenas a tarefa de escolher as variedades mais dóceis para a criação em cativeiro. Assim, com o passar do tempo, os animais que cresciam mais rápido, os que produziam mais carne ou mais banha, os indivíduos com mais ou menos pelos, e os bons reprodutores foram entrecruzados para fins comerciais e seus descendentes foram modificados através do tempo.

Uma espécie de vegetal pode ser selecionada de diversas formas diferentes, conforme as necessidades humanas. A partir de um ancestral selvagem da espécie Brassica oleracea, foram selecionadas artificialmente muitas variedades conforme o sabor de suas diversas partes. Se queremos folhas retas em unidades, chamamos a variedade de couve ou couve mineira', se queremos os ramos florais, denominamos como brócolis; se desejamos muitas folhas protegidas, como repolho', se nos agrada apenas a flor, a couve-flor ou, ainda, miniaturas como a couve-de-bruxelas ou repolhinho. Novas variedades podem ser produzidas, como os cruzamentos entre as variedades de repolho roxo e repolho branco, para a produção de plantas ornamentais comercializadas em floriculturas.

O mesmo raciocínio se aplica para todas as variedades de feijão, de manga, de galinha ou de gado, não importando o tipo de organismo. Se uma vaca produz muito leite, seu dono redobra a atenção e procura reproduzi-la; do contrário, será abatida e consumida como animal de corte em uma sobrevivência seletiva determinada pelo interesse humano. Praticamente todos os tipos de alimento, cultivado ou domesticado, são produtos de seleção artificial, que pode ter sido iniciada a poucos ou há milhares de anos.

Provavelmente, um dos mais antigos animais que passaram por esse processo, é o cão doméstico, que hoje apresenta uma incontável variedade de raças selecionadas por tamanho, pelagem, beleza e utilidade prática, como guarda, caça e pastoreio a partir de lobos e cães selvagens a cerca de 15.000 anos atrás, quando os seres humanos ainda eram grupos nômades de caçadores-coletores. A domesticação dos gatos é bem mais recente, remontando a necessidade de controle de ratos após o domínio da agricultura, a partir de 10.000 anos atrás, conjuntamente com vacas, porcos e ovelhas. A galinha foi domesticada a aproximadamente 7.000 e os cavalos a cerca de 5.500 anos.

A seleção de variedades para produção comercial é um dos pilares da agricultura moderna: se antes alterávamos o solo para a sobrevivência das plantas, hoje selecionamos as plantas que melhor se adaptam aos variados tipos de solos. Eucalipto para madeira ou para fabricação de celulose; cavalos para tração ou para corridas; galinhas poedeiras ou para corte; tomate para molho ou para salada; nada disso existiria sem a seleção artificial.

 

Seleção sexual

Observa-se na natureza um curioso fenômeno de diferenciação morfológica, fisiológica e comportamental entre machos e fêmeas de diferentes espécies. Os pavões machos apresentam uma espetacular plumagem e as fêmeas apresentam cantos pouco destacados, sinais de que o organismo masculino apresenta características altamente chamativas, enquanto o organismo feminino apresenta características físicas e comportamentais consideradas discretas (crípticas) em relação aos machos. 

A produção de ovos, o choco, a gestação e a criação dos filhotes apresenta, individualmente ou em conjunto, um enorme gasto energético para as fêmeas quando comparado com os machos, cujo sêmem é razoavelmente “barato” do ponto de vista energético.

Dessa forma, as fêmeas escolhem os melhores machos que vão garantir, de alguma forma, o melhor material genético, a melhor defesa de território e, consequentemente, mais alimento e proteção para seus filhotes, direcionando vantagens para a perpetuação da espécie. 

Seguindo esse raciocínio, as fêmeas costumam ser muito seletivas em relação aos machos, e estes, por sua vez, precisam demonstrar de alguma forma que são mais fortes, mais saudáveis ou mais inteligentes, produzindo lentamente a seleção de variedades do sexo masculino com características típicas e diferenciais em relação às fêmeas, culminando em um dimorfismo sexual, ou seja, duas formas para os gêneros masculino e feminino na mesma espécie. Muitas vezes, o dimorfismo sexual não é visível, mas se manifesta como cantos e/ou comportamentos peculiares.

Algumas das mais belas plumagens, adornos, chifres, cantos, danças, tocas e ninhos são produto de machos disputando entre si a atenção de fêmeas muito rigorosas na seleção de pais para seus filhos.

Mas nem sempre o dimorfismo ocorre para chamar a atenção, muito pelo contrário; às vezes existe para não chamar a atenção. Em várias espécies de aranhas de teia, os machos são diminutos em relação às fêmeas, que caçam e matam suas presas baseando-se em vibrações nos fios de seda. Nesses casos, os machos podem ser confundidos com o “almoço”, portanto, serão selecionados os menores machos capazes de chegar até a fêmea sem serem devorados, mas que tenham também habilidades especiais para realizar a fecundação satisfatoriamente. 

 

Espécies e especiação

Uma das ideias mais difíceis de serem definidas é o conceito de espécie. Para evitar conflitos, este texto assumirá uma antiga, mas prática, definição utilizada de forma geral para os animais.

Espécie: conjunto de seres semelhantes que se entrecruzam e produzem descendentes férteis.

Dentre as muitas formas de classificação dos seres vivos, o conceito de espécie é natural, pois embora não saibamos diferenciar minhocas por aparência, elas se separam e se cruzam com os indivíduos da sua espécie, sem que precisemos interferir. Os organismos da mesma espécie se reconhecem de diversas maneiras, evitando o desperdício de energia e matéria ao tentar cruzar com organismos de espécies diferentes que não resultem em filhos férteis.

As espécies recebem nomes científicos por uma nomenclatura binomial em que o primeiro nome (ou nome genérico) identifica um grupo de parentesco (como um sobrenome para nomes humanos) e um segundo nome (ou nome específico) que é restrito à espécie. Por convenção e por comunicação internacional, os nomes científicos são derivados do latim, do grego ou de formas latinizadas; o nome genérico é escrito com inicial maiúscula e o nome específico com inicial minúscula. Os dois nomes em conjunto identificam uma espécie e sua grafia deve estar em destaque do texto. Nossa espécie é identificada em qualquer lugar do mundo pelo nome científico Homo sapiens, os cães por Canis familiaris, o arroz por Oriza sativa e assim por diante. 

Especiação é o processo de formação de novas espécies a partir de um ancestral em comum. 

No Brasil há quatro espécies de mico-leão: o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), que vive na Mata Atlântica do Rio de Janeiro; o mico-leão-preto (Leontopithecus clnysopygus), que vive no interior de São Paulo; o mico-leão-preto-de-cara-dourada (Leontopithecus chiysomelas), que vive no sul da Bahia e o mico-leão-dourado-de-cara-preta (Leontopithecus caissara), que vive na ilha de Superagui, no Paraná. Como se formaram essas espécies? Provavelmente, um ancestral comum de mico-leão tinha uma grande distribuição na Mata Atlântica, cujas populações foram isoladas geograficamente por algum motivo desconhecido. Com o passar de algumas dezenas de milhares de anos, a partir de cruzamentos restritos às áreas das populações isoladas, variedades genéticas peculiares foram fixadas nessas regiões de tal forma que, hoje, as variações são tão grandes que impediriam o reconhecimento e a reprodução entre os grupos, caso eles voltassem a se encontrar.

Logo, a especiação é um processo de acúmulo de diferenças genéticas que culmina com o isolamento reprodutivo entre os grupos aparentados, considerados então como diferentes espécies.

A variabilidade genética ocorre naturalmente em todos os organismos vivos, já os fenômenos de isolamento geográfico dependem de fatores naturais como o surgimento de um rio, a descontinuidade de uma floresta, o surgimento de uma cadeia de montanhas, a movimentação e separação dos continentes (deriva continental), entre outros muitos processos possíveis. Através da deriva continental, surgiram espécies de grandes aves que não voam espalhadas pelos continentes do hemisfério sul, a partir da fragmentação de um antigo continente (Gondwana): avestruzes na África, emas na América do Sul, cazuares e emus na Oceania, todos derivados de um ancestral comum, mas que se diferenciaram seguindo os padrões ecológicos de cada local através do tempo.

  

Homologias, analogias e convergência evolutiva

Darwin e Wallace perceberam, observando os animais e as plantas de várias partes do mundo, que algumas espécies aparentadas ocorrem em locais diferentes, adaptadas aos mais diversos desafios, sendo, claro, derivadas de ancestrais comuns. No interior do pescoço de uma girafa existem sete vértebras cervicais, da mesma forma que no pescoço de qualquer mamífero, incluindo os humanos. A asa de um morcego é apenas a mão do animal, com os dedos ligados entre si por uma fina membrana, ou seja, a mão humana e a asa de um morcego possuem a mesma estrutura atuando em diferentes funções e, por terem a mesma origem embrioária, são denominadas estruturas homólogas. Da mesma forma, a unha dos nossos dedos médios e os cascos dos çavalos são homólogos.

Por outro lado, muitas vezes, estruturas totalmente diferentes do ponto de vista de suas origens embrionárias apresentam funções semelhantes. As asas de um inseto não têm nenhuma ligação evolutiva com as asas de uma ave, mas exercem a mesma função, sendo então chamadas estruturas análogas. 

Também é possível encontrar espécies que não têm nenhum tipo de parentesco claro, mas que apresentam determinadas estruturas corporais ou capacidades fisiológicas semelhantes. O perfil de um peixe, de um golfinho ou de um pinguim na água são semelhantes, pois o formato fisiforme é o mais eficiente para reduzir o atrito com a água, permitindo um deslocamento com o menor gasto de energia possível. Esse fenômeno é chamado de convergência evolutiva ou convergência adaptativa.

Alguns mamíferos de pequeno porte que vivem em diferentes desertos do mundo adquiriram perfis anatômicos e fisiológicos semelhantes e são todos chamados de “ratos do deserto”, embora, muitas vezes, não possuam nenhum parentesco entre si. Da mesma forma, plantas de deserto na América (cactáceas) e na África (euforbiáceas), possuem características semelhantes, como a redução das folhas em espinhos para diminuir a perda de água e são muito parecidas em aspecto, decorrente de convergência evolutiva, mas sem qualquer ligação de parentesco.

 

Neutralismo

Muitas das características encontradas nos diversos tipos de seres vivos não apresentam funções claras. Por uma questão cultural, baseada em um conceito de utilitarismo da natureza e dos seres vivos para uso humano, buscamos constantemente compreender o mundo a partir da questão “pra que serve isso?”.

Para a maioria das pessoas, cada coisa na natureza tem uma função determinada. Do ponto de vista evolutivo, como as características dos organismos vivos são produzidas de forma não direcionada, há três possibilidades de destino para uma mutação gênica aleatória: se ela for negativa para a sobrevivência e reprodução, tende a desaparecer; se é positiva tende a ser ampliada e fixada na população; se não é positiva nem negativa, pode permanecer de forma discreta por um tempo indeterminado, fenômeno chamado de neutralismo.

O conceito de neutralismo foi criado particularmente para descrever fenômenos de diversidade molecular que ocorrem em células e tecidos. Mas como o que acontece nas células se reflete nos organismos, o neutralismo é uma explicação bastante plausível para uma enorme diversidade de características que, aparentemente, são apenas o produto de variabilidade genética aleatória.

Para que serve termos o sangue tipo A ou tipo O? Modernamente, para transfusões de sangue, mas historicamente, os diferentes tipos sanguíneos do sistema ABO, não servem para absolutamente nada, não conferindo qualquer vantagem ou desvantagem extra para seus portadores. Seguindo o mesmo raciocínio, a impressão digital única dos polegares pode ser útil para identificação em documentos, mas na natureza, não teria nenhuma influência sobre a reprodução e sobrevivência de nossos ancestrais.

 

A origem da variabilidade genética

A evolução biológica depende diretamente da variabilidade apresentada pelos indivíduos de uma população. A principal fonte de variações na natureza são as mutações gênicas aleatórias que ocorrem normalmente a cada divisão celular. Quanto mais rápida for a velocidade de reprodução, mais rápida será a seleção natural de variedades aptas a sobreviver durante alterações no ambiente.

Quanto maior a variabilidade genética, maior o número de opções para a sobrevivência seletiva em diferentes hábitats. Assim, espécies que apresentam baixa variabilidade genética possuem menores chances de sobrevivência durante os fenômenos cíclicos de alteração ambiental. Quando os seres se reproduzem sem sexo, os filhos são geneticamente semelhantes aos pais e, assim, caso apareça uma nova doença ou desafio, todos os indivíduos serão afetados.

O surgimento da reprodução sexuada foi um enorme salto qualitativo para os seres vivos, pois, através do sexo, dois seres produzem uma nova geração geneticamente diferente dos ancestrais. Nos animais, o sexo ocorre pela fecundação de gametas originados através da meiose, divisão celular em que ocorre a redução do número de cromossomos pela metade, estimulando a variabilidade genética em três momentos: na permutação gênica, na separação aleatória dos cromossomos e no encontro aleatório dos gametas durante a fecundação. Seres unicelulares como as bactérias não possuem nem fecundação nem meiose, mas um tipo primitivo de reprodução sexuada chamada conjugação, onde duas bactérias da mesma espécie se reconhecem, se emparelham e formam um tubo que as une e por onde são trocados cromossomos secundários com genes que serão compartilhados entre os indivíduos. Protozoários, seres unicelulares de outra categoria, também podem realizar a conjugação, mas já com a meiose presente e por contato direto entre as membranas plasmáticas.

As bactérias, particularmente a espécie Escherichia coli, representam o principal modelo experimental para estudos de mutações gênicas e estimativas de velocidade de evolução biológica, pela sua simplicidade genômica, facilidade de multiplicação em laboratório e pela alta taxa reprodutiva.

Em seres macroscópicos, as taxas de mutação e de seleção são mais difíceis de serem acompanhadas. Para uma pessoa leiga, as girafas são todas iguais: com pescoço longo e manchadas. Para os mais atentos, as manchas são marcas absolutamente individuais, e cada uma das seis espécies de girafa se reconhecem e evitam o cruzamento entre si com a formação de híbridos estéreis. Além disso, cada uma apresenta uma altura particular em torno de uma média.

A grande maioria das características biológicas apresentará uma distribuição na população com uma variação chamada de normal, representada por gráficos com curvas normais de distribuição. Se imaginarmos a altura como referência, há algumas pessoas muito altas, outras muito baixas e uma grande maioria girando em torno de uma média. No Brasil, a altura média é de aproximadamente 1,71 m para homens e mulheres. Apenas para homens é de 1,75 m e para mulheres, 1,65 m, sempre lembrando que os números são sempre aproximações.

Em termos gerais, normal é aquilo que acontece com mais frequência. Estatisticamente é a mesma coisa, só que com maior precisão: normal é o conjunto de ocorrências em tomo de um intervalo de confiança, que pode envolver 68, 95 ou 99,7% do conjunto amostral, dependendo do grau de interesse da pesquisa. Ou seja, em estudos de evolução, a variabilidade será sempre avaliada através de aproximações estatísticas.

Hoje, sabemos muito mais sobre a origem da variabilidade genética e sobre a expressividade diferencial dos genes em cada organismo. As principais fontes de variabilidade são as mutações genéticas aleatórias, a separação independente e a permutação entre os cromossomos na formação dos gametas, entre outros fatores descritos a seguir em mais detalhes.

a) Mutações genicas aleatórias: elas podem ocorrer naturalmente por falhas esperadas durante os processos de duplicação celular, momento em que bases nitrogenadas podem ser trocadas, perdidas ou agregadas à fita de DNA. As mutações gênicas aleatórias podem também ser induzidas por agentes mutagênicos como radiação ultravioleta e outras radiações ionizantes, calor, toxinas, radicais livres produzidos no interior das células dos organismos vivos e uma enorme quantidade de substâncias mutagênicas provenientes do meio ambiente, incluindo poluentes, agrodefensivos, tabaco e substâncias provenientes de alimentos industrializados.

b) Mutações cromossômicas estruturais e numéricas. Os seres humanos destacam-se dos outros grandes primatas por uma alteração citogenética em que dois cromossomos fundiram-se em um só. Humanos possuem 46 cromossomos e os outros grandes primatas possuem 48. Em plantas é comum encontrarmos o fenômeno da poliploidia, em que diferentes organismos da mesma espécie possuem cargas genéticas multiplicadas (4n, 6n, 8n) permanecendo viáveis e férteis. A poliploidia não é comum em animais.

c) A reprodução sexuada representa um dos grandes momentos da evolução dos seres vivos no planeta. Ela envolve a mistura de materiais genéticos de dois organismos da mesma espécie. O sexo surge de forma primitiva em organismos unicelulares, denominado de conjugação. Bactérias podem trocar cromossomos secundários (plasmídios) através de um tubo de conjugação, trocando informações preciosas para a sobrevivência dos indivíduos, como os genes codificadores de enzimas capazes de inativar os antibióticos utilizados por humanos para impedir sua multiplicação. O sexo, como conhecemos, parte do pressuposto da presença de meiose, a divisão celular que divide a carga genética ao meio, formando gametas ou núcleos gaméticos haploides (n) que se fundem na fecundação, restituindo a carga genética dupla (2n) em um novo organismo. Em protozoários ciliados (unicelulares) a conjugação já apresenta meiose e troca de micronúcleos entre duas células, porém, sem formar gametas semelhantes a óvulos e espermatozóides e sem ter “filhos”, apenas uma troca de informações entre dois organismos. A produção de gametas por meiose, a fecundação e os “filhos” surgiram independentemente várias vezes na história geológica da Terra, em diferentes grupos de organismos como algas e fungos, por convergência evolutiva. O sexo permite a formação de organismos diferentes dos pais e assim se tornou uma poderosa ferramenta de sobrevivência e de perpetuação das espécies.

d) Variabilidade genética durante a formação dos gametas por meio da segregação independente dos cromossomos e por permutação cromossômica (crossing-over) entre cromossomos homólogos. Nós possuímos metade dos nossos cromossomos (23) de origem materna e outra metade (23), de origem paterna. Quando fazemos os nossos gametas, dentro dos óvulos e dos espermatozóides será colocado apenas um dos cromossomos de cada um dos 23 pares. Paterno ou materno? Tanto faz, mas deve ser apenas um. Portanto, um espermatozóide pode receber o cromossomo número 1 de origem paterna, o número 2 de origem materna, o número 3 de origem materna e assim, sucessivamente. Note que o termo materno, refere-se à mãe do homem formador do espermatozóide, ou seja, da avó paterna. Nós somos constituídos, na realidade, por quatro fontes de cromossomos derivados de nossos avós matemos e paternos que chegaram de forma absolutamente aleatória até nós pela segregação (separação) independente dos cromossomos. Para aumentar ainda mais a variabilidade, os cromossomos maternos e paternos se organizam aos pares antes de se separarem e trocam pedaços entre si (permutação), formando então cromossomos híbridos, com cargas genéticas misturadas. Os cromossomos do par 1 humano foram observados com até 21 pontos de troca de fragmentos, sendo que cada par cromossômico possui diferentes números de pontos de troca, variando entre os indivíduos e entre as diferentes espécies.

e) A variabilidade genética dos indivíduos pode ser amplificada pela atividade de transposons, ou, “genes saltadores”, que são trechos de DNA capazes de mudar de lugar aleatoriamente com o comportamento semelhante aos dos vírus, que inserem seus genes no nosso DNA. Cada vez que um transposon muda de lugar, ele pode alterar uma sequência gênica funcional, produzindo efeitos semelhantes às das mutações genéticas aleatórias. Eles produzem uma variabilidade na atividade das células e tecidos dos organismos, mas se o transposon alterar os genes das células  germinativas, as modificações poderão ser passadas para a próxima geração através dos gametas.

Outras formas de variação ocorrem de forma individual no nosso organismo, sem necessariamente serem geradas a partir dos genes que herdamos de nossos pais. As células nervosas do nosso cérebro apresentam uma curiosa variação no número de cromossomos, fenômeno que, em outras partes do corpo, está associado com doenças, mas que, aparentemente, auxilia a formação de variações nas redes neurais que, em última instância, nos torna pessoas únicas. A produção de anticorpos (proteínas) que se “encaixam” em todos os antígenos do planeta demanda uma infinita variabilidade, derivada de mecanismos de combinação aleatória dos produtos de regiões do DNA específicas para a síntese de anticorpos, pois cada animal vertebrado apresenta um conjunto único de anticorpos esperando os desafios do mundo.

 

Variabilidade versus estabilidade

Grande parte das mutações gênicas espontâneas é temporária, pois há vários mecanismos celulares de reparo de DNA.

O tempo todo, nosso DNA sofre alterações pelos mais variados agentes mutagênicos como calor, radiação, toxinas, entre outros.

Estima-se que a cada 1000 mutações pontuais que ocorram nas bases do DNA, apenas uma será realmente fixada, produto do constante reparo que ocorre no interior dos núcleos celulares. Esse sistema de reparo depende da atividade de variadas enzimas, que atuam de diferentes maneiras para exercer essa função sobre o material genético. Ao produzimos nossos gametas aos 20 anos de idade, utilizamos um DNA que já tem 20 anos, passou por muitas divisões celulares e, fatalmente, apresenta um acúmulo de erros; mas curiosamente, o material genético que passamos aos nossos filhos é espetacularmente “jovem”, organizado em cromossomos que possuem grandes telômeros, como se tivessem passado por uma “revisão de texto”, cujo efeito é “rejuvenescedor” sobre os genes.

A evolução biológica é totalmente dependente da presença de organismos portadores de diferenças peculiares entre si, mas uma variabilidade descontrolada tomaria o material genético instável e colocaria em risco a sobrevivência e a reprodução dos organismos. Há várias doenças e síndromes hereditárias, dentre elas algumas famosas  como a síndrome do envelhecimento precoce, decorrentes de falhas nos sistemas de correção de DNA (Alberts, 2003). Nessa síndrome, crianças ainda muito pequenas passam por um processo de envelhecimento acelerado, ficando com os aspectos físicos e fisionômicos de pessoas muito idosas, morrendo precocemente.

Assim, todos os seres vivos vivem em uma balança genética que oscila entre a necessidade de variabilidade genética e a necessidade de uma estabilidade gênica que garanta o bom funcionamento celular e a perpetuação das espécies. 

 

Sociobiologia

O termo sociobiologia foi popularizado por Edward Wilson, em 1974, a partir de pesquisa sobre a intrincada complexidade dos insetos sociais como abelhas e formigas e seus comportamentos complexos e muito peculiares, como o altruísmo, ou seja, a capacidade de um organismo se sacrificar de alguma forma pela sobrevivência dos outros indivíduos daquela sociedade. Abelhas operárias passam sua vida coletando néctar para fazer mel e alimentar suas irmãs e, por não serem férteis, não se reproduzem. Porém, para a evolução biológica, o natural e esperado seria a sequência: nascer, crescer, reproduzir e morrer. Quando um animal deixa de cuidar de si mesmo e de sua prole para ajudar na sobrevivência de outros organismos, ele está seguindo um caminho evolutivo aparentemente sem sentido.

Os comportamentos inatos ou “instintos” de sobrevivência, para a obtenção de alimento, água, parceiros reprodutivos e outros comportamentos motivacionais, estão diretamente relacionados com a perpetuação das espécies. Do ponto de vista estritamente darwinista, o altruísmo não parece ser lógico, pois maximizar recursos para a própria sobrevivência e a dos descendentes é uma regra aparentemente universal.

Novas linhas de pesquisa centradas em genética se desenvolveram nas décadas de 1960 e 1970, a partir das ideias de W. D. Hamilton e produziram interessantes respostas para o problema do altruísmo a partir de conceitos matemáticos de proporção genética. Nos insetos sociais não há cromossomos sexuais como nos mamíferos, os organismos do sexo masculino (Ex. zangões de abelhas) são produzidos a partir de um óvulo não fecundado, enquanto as fêmeas (operárias e rainhas) possuem duas cargas genéticas, uma do óvulo e outra do espermatozóide. Assim, as abelhas possuem um parentesco genético maior entre as irmãs (aproximadamente 75% dos genes em comum) que com os próprios filhos (50% dos genes em comum).

 

Teoria do gene egoísta

A ideia de que os genes comandam os padrões reprodutivos mostrou-se muito poderosa, pois se enquadra literalmente a qualquer ser vivo. Sob essa perspectiva, os genes estão no comando de todas as formas de vida do planeta e, em 1974, foi publicado o livro O gene egoísta, de Richard Dawkins popularizando esse conceito entre as diferentes áreas do conhecimento. Quando observamos a natureza munidos dessa ideia percebemos sua força. Um vírus nada mais é do que uma capa de proteínas (capsídeo) envolvendo um filamento de DNA ou RNA, ou seja, de genes. Os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios, muito menores que as células que parasitam e não conseguem se multiplicar fora de um outro organismo, seja ele uma planta, um animal ou uma bactéria. Quando um vírus invade uma célula hospedeira, seus genes tomam o comando celular e utilizam todos os recursos metabólicos, “escravizando” e esgotando os recursos da célula para a produção maciça de mais partículas virais, que, no caso dos vírus animais, geralmente acabam por destruir a célula hospedeira, espalhando-se em busca de novas “vítimas”. Note que quando estamos com doenças virais respiratórias ou de transmissão aérea, espirramos e tossimos. Do nosso ponto de vista, o espirro e a tosse servem para limpar as vias congestionadas. Do ponto de vista dos vírus, o espirro e a tosse são formas de espalhar seus descendentes para outros organismos de forma bastante eficiente.

Todos nós derivamos de uma única célula, o zigoto, derivado da fertilização de um óvulo. Quando ocorre a fecundação, ao contrário do que geralmente se imagina, o espermatozóide não “entra” no óvulo, mas apenas os genes são inseridos. As membranas celulares se fundem, o núcleo espermático é “arremessado” para o interior do óvulo e os restos do espermatozóide (flagelo e pescoço com mitocôndrias) ficam do lado de fora. Da mesma forma que o capsídeo de um vírus é uma espécie de transportador de genes virais e o espirro é uma forma de transmissão, nossas células reprodutivas seriam os transportadores de nossos genes e o comportamento reprodutivo seria uma forma de transmissão.

A ideia do gene egoísta chega a ser assustadora, pois todos os organismos vivos seriam apenas uma engenhosa forma que os genes criaram para se perpetuar, incluindo você e eu. Alguns dos comportamentos humanos mais terríveis e hediondos, como o estupro, seriam uma forma extrema e sem limites de perpetuação dos genes.

Felizmente, nós continuamos a ter controle sobre nossas vidas e o fenótipo continua sendo o produto da interação entre os genes e o meio ambiente. Se os genes comandassem nossas vidas por completo, seríamos apenas uma máquina de perpetuação genética sem livre arbítrio e consciência. Quando utilizamos pílulas anticoncepcionais e preservativos ou definimos as regras de conduta social que definem nossos mecanismos afetivos e reprodutivos, estamos constantemente driblando a atividade egoísta dos nossos genes.

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O futuro do tratamento ao vício em drogas e comportamentos compulsivos
Sistema Nervoso
Sistema límbico
6/27/2017 9:18:33 PM
Odsson Ferreira
Por: David Linden
Psicologia - Neuropsicologia - Tendências no combate ao vício em drogas - nanobots

Ray Kurzweil, renomado inventor e futurista, mal pode esperar para que nanobots sejam injetados em seu cérebro. Ele acredita que esses dispositivos serão equipados com uma variedade de sensores e esti­muladores que se comunicarão sem fio com computadores fora do corpo. Além de proporcionar um insight sem precedentes no funcionamento cere­bral no nível celular, nanobots capazes de penetrar no cérebro proporcionarão a experiência definitiva de realidade virtual: 

Até o final dos anos 2020, nanobots no nosso cérebro (que chegarão ao cérebro de forma não invasiva, pelos vasos capilares) criarão ambien­tes de realidade virtual de imersão total atuando no sistema nervoso. Então, se quiser entrar na realidade virtual, os nanobots bloquearão os sinais provenientes dos seus sentidos reais e os substituirão pelos si­nais que o seu cérebro estaria recebendo se você realmente estivesse no ambiente virtual. Dessa forma, isso proporcionará uma imersão total na realidade virtual incorporando todos os sentidos.

É claro, esses nanobots não precisariam se limitar em suas manipulações às porções sensoriais do cérebro. No cenário projetado por Kurzweil, nanobots no cérebro poderiam com a mesma facilidade manipular funções motoras, pro­cessos cognitivos, memórias, emoções e impulsos básicos. Basicamente, essa ideia se baseia na suposição de que cada neurônio do cérebro humano poderia ter sua atividade elétrica ou química ativada ou desativada com precisão de microssegundos. Cada aspecto do funcionamento cerebral, da cognição social à regulação da temperatura do corpo, poderia ser controlado. A realidade virtual controlada por nanobots não precisa ser uma experiência puramente sensorial. De modo mais pertinente ao tema desta discussão, os nanobots no cérebro poderiam manipular os neurônios do circuito do prazer com extrema precisão. Você deseja um novo tipo de onda de prazer que seja uma experiência metade parecida com a provocada pela heroína e metade gustativa? Sem problema. Quer uma pitada de dor para torná-la supersaliente? Fácil. 

Mas a realidade virtual mediada por nanobots é só o começo. Kurzweil prevê que, até o fim dos anos 2030, seremos capazes de escanear rotineira­mente o cérebro de uma pessoa com tamanha precisão molecular e com uma compreensão tão completa das regras que fundamentam a plasticidade e o funcionamento neuronal que seremos capazes de fazer um “upload’ desses processos mentais em um computador do futuro, extremamente poderoso e espaçoso. De acordo com a descrição de Kurzweil, “esse processo mobiliza toda a personalidade, memória, habilidades e história da pessoa”. Quando chegarmos a esse ponto, as fronteiras entre cérebro, mente e máquina dei­xarão de existir. Quando nosso “eu” mental individual for instanciado na forma de uma máquina, manipulações do funcionamento mental, percepção e ação se transformarão em simples módulos de software. Quer melhorar o seu humor? Quer preservar todas as suas experiências em memórias com uma fidelidade perfeita? Quer ter o maior orgasmo do mundo? Vai haver um aplicativo para isso. 

Por mais que eu respeite Ray Kurzweil e aprecie sua disposição de fazer previsões sobre eventos futuros específicos, não concordo plenamente com a programação prevista por ele, tanto para a introdução de nanobots cerebrais quanto para a capacidade de fazer o upload, do conteúdo de um cérebro. A premissa central que fundamenta as previsões de Kurzweil é que tecnologias facilitadoras, como processadores de computador, memória de computador, microscópios e dispositivos de sequenciamento de DNA têm percorrido uma trajetória exponencial e não linear em termos de capacidade, velocida­de, resolução e custo, e que é razoável imaginar que essa tendência exponen­cial será mantida. Kurzweil também presume que a mente humana resida completamente no cérebro (ou pelo menos no sistema nervoso): não existe uma alma imortal, uma energia coletiva ou outro componente não biológico que codifique nosso “eu” mental individual. Concordo com a argumentação até este ponto. 

No entanto, Kurzweil argumenta que nossa compreensão da biologia - e em particular da neurobiologia - também segue uma trajetória exponencial impulsionada por tecnologias possibilitadoras. O fundamento implícito po­rém crucial do cenário de Kurzweil requer a ocorrência de um milagre em algum momento dos anos 2020: se continuarmos acumulando dados sobre o cérebro em uma taxa exponencial (seus padrões de conexão, seus padrões de atividade etc.), os mistérios da consciência, percepção, decisão e ação necessariamente serão revelados. Em consequência, nossa compreensão do funcionamento do cérebro e nossa capacidade de mensurar os parâmetros relevantes de cérebros individuais (com a ajuda de tecnologias como na­nobots cerebrais) se expandirão de maneira exponencial para permitir fazer o upload do cérebro em computadores já no ano 2039. É nesse ponto que começo a duvidar do argumento. Sustento que nossa compreensão dos pro­cessos biológicos permanece em uma trajetória implacavelmente linear. Do meu ponto de vista, o problema central aqui é que Kurzweil confunde a coleta de dados biológicos com o insight biológico. 

Vamos analisar o exemplo do sequenciamento genético. Sim, sequenciamos alguns genomas humanos, e a velocidade e o custo de fazer isso estão melho­rando exponencialmente. O sequenciamento do genoma humano e do rato, camundongo, mosca e macaco, que também foram concluídos, constituem  ferramentas de valor inestimável para os biólogos. Dito isso, apesar de os insi­ghts fundamentais surgidos até o momento com base na sequência do genoma humano terem sido importantes, eles estão longe de serem revolucionários. Por exemplo, descobrimos que a duplicação genética é mais comum do que originalmente acreditávamos que fosse. E descobrimos que os seres humanos possuem menos genes, mas que esses genes possuem modos mais complexos de regulação e mais formas de splicing do que previmos inicialmente. São in­formações úteis, mas que não representam uma transformação exponencial revolucionária no nosso conhecimento da genética. Quando o sequenciamento do genoma humano foi concluído, ninguém foi capaz de olhar para ele e dizer: “Aha! Agora entendi o que faz de nós distintamente humanos” ou “Aha! Agora entendi como um óvulo fertilizado se transforma em um recém- -nascido no decorrer da gestação”. De fato houve vários autênticos insights transformadores de paradigmas na genética nos últimos anos. Por exemplo, agora sabemos que a modificação química do DNA por meio de um processo chamado de metilação pode alterar sua estrutura e a forma pela qual ele intera­ge com um conjunto de proteínas reguladoras/estruturais chamadas histonas, silenciando a expressão de determinados genes. Também sabemos que um conjunto de sequências codificando “micro-RNAs” têm poderosos papéis na determinação de como outros genes, convencionais, são expressos. Insights como esses explicaram toda uma série de mistérios e representam um grande passo no progresso da nossa compreensão da genética. Mas essas descobertas e a maioria de outros avanços revolucionários conceituais fundamentais na área foram desenvolvidos lentamente, como resultado de uma ciência pequena implacavelmente linear e não dos enormes conjuntos de dados possibilitados pela tecnologia que Kurzweil descreve. 

Esse progresso linear também se aplica à expansão do nosso conheci­mento sobre o funcionamento cerebral. Por exemplo, agora temos um mapa, chamado Allen Brain Atlas, que mostra o padrão de expressão de praticamente todos os genes do cérebro do camundongo, acompanhado de uma série enorme de imagens microscópicas. Esse recurso, disponível a todos na internet, representa uma excelente ferramenta para pesquisadores do cérebro, mas não produziu aumento exponencial de momentos “heureca!”. A resolução temporal e espacial dos nossos aparelhos de escaneamento cerebral também está melhorando, mas essas melhorias, da mesma forma, têm gera­do insights fundamentalmente lineares. 

Não me entenda mal. Eu de fato acredito que os antigos mistérios fun­damentais do cérebro, mais cedo ou mais tarde, serão revelados. Não me coloco ao lado dos pessimistas que alegam que nunca poderemos entender nosso cérebro por meio da utilização do nosso cérebro. Também compar­tilho da crença de Kurzweil de que os avanços tecnológicos serão funda­mentais para revelar os antigos mistérios que cercam o funcionamento do cérebro. Mas, apesar de ver uma trajetória exponencial no volume de dados neurobiológicos coletados até o presente momento, a expansão linear da nossa compreensão do funcionamento neural significa que uma ideia como nanobots penetrando no cérebro para realizar funções úteis já nos anos 2020 me parece excessivamente otimista. 

Os nanobots de Kurzweil medem sete microns - cerca de metade do diâ­metro do corpo celular de um neurônio - e sua função é percorrer o tecido do cérebro e liberar microssensores e estimuladores para analisar o funcionamen­to normal do cérebro. É possível imaginar o nanobot atuando como um Fusca: ele percorre a estrada, encontra um grande veículo utilitário (um neurônio) estacionado no acostamento, para ao lado dele e começa a escanear. Eis o primeiro de muitos problemas no cenário projetado por Kurzweil: o cérebro é composto de neurônios e neuroglias tão comprimidos que quase não há espa­ço entre eles. Ademais, os minúsculos espaços entre essas células são tomados não apenas por solução salina, como também por cabos estrutu­rais feitos de proteínas e açúcares, que têm a importante função de transmitir sinais entre as células adjacentes. Então, vamos imaginar nosso Fusca nano­bot se aproximando do cérebro, onde encontra um estacionamento repleto de grandes utilitários e Hummers, que se estende até onde os olhos podem ver. Os veículos estão estacionados em uma rede, com apenas 2,5 centímetros entre eles, e esse espaço é preenchido com cabos ligados aos seus sistemas me­cânicos. (Para sermos mais precisos, deveríamos imaginar o estacionamento como uma matriz tridimensional, um estacionamento repleto de utilitários com vários andares de altura e se estendendo além do que os olhos conseguem enxergar, mas você entendeu a ideia.) Mesmo se o nosso intrépido nanobot tivesse trânsito ilimitado e fosse equipado com um poderoso laser cortante, como ele poderia percorrer o cérebro sem deixar uma trilha de destruição por onde passasse? Ele também precisará da própria fonte de energia. E precisará escapar de microglias reativas, células cerebrais especializadas que atacam, en­globam e digerem corpos estranhos. E tudo isso deve acontecer de um modo que não comprometa os processos fisiológicos que o nanobot está tentando mensurar. Esses problemas não são fundamentalmente impossíveis, mas são enormes. Os anos 2020 estão logo ali e muita coisa ainda precisa acontecer em muito pouco tempo para cumprir o prazo estabelecido para a concretização do cenário dos nanobots de Kurzweil. 

Deixando de lado nanobots exploradores e uploads cerebrais por enquanto, como podemos esperar que o desenvolvimento da nossa compreensão da neurobiologia do prazer influencie a nossa vida nos próximos 20 anos? Nós, biólogos, somos treinados para evitar esse tipo de especulação, já que é fácil demais errar nas previsões. Dito isto, estou disposto a correr esse risco e apresentar algumas ideias sobre o futuro do prazer tanto no curto prazo quanto em um futuro mais distante. 

Uma área que certamente se desenvolverá no futuro não muito distante é a análise genética para prever o risco de uma pessoa desenvolver vícios. Você deve lembrar que a hereditariedade responde por cerca de 50% da variação do risco de desenvolver vários vícios. Mais especificamente, vimos como a variação genética na codificação do gene do receptor D2 de dopamina se correlaciona com várias formas diferentes de vício: portadores de mutações que reduzem a eficácia do funcionamento do receptor D2 têm em média mais chances de desenvolver vícios tanto em substâncias (como álcool, nico­tina, opiáceos e comida) quanto em comportamentos (como jogo compulsi­vo ou sexo compulsivo). Também há evidências de envolvimento da variação genética em outros componentes moleculares do circuito prosencefálico me­dial do prazer utilizador de dopamina. Esses componentes incluem outros tipos de receptores de dopamina, o transportador de dopamina que medeia a receptação no terminal sináptico da dopamina liberada na fenda sináptica e a enzima COMT (catecol O-metiltransferase), que decom­põe a dopamina e alguns outros neurotransmissores relacionados. Proteínas codificadoras de genes que atuam a um passo da ação direta da dopamina também podem ser significativas. Por exemplo, a ativação de receptores de dopamina resulta na modificação química de uma proteína em neurônios chamados DARPP-32, e a variação do gene do DARPP-32 é preditiva do comportamento exploratório, um correlato do vício. É provável que a deter­minação da sequência genética de um grupo de genes envolvidos na função da dopamina no prosencéfalo medial nos proporcione uma imagem muito mais precisa do risco de desenvolvimento de vícios do que a análise de qual­ quer gene individual.

Apesar de os genes envolvidos na sinalização da dopamina constituírem uma área-chave para procurar indícios da natureza hereditária do vício, a variação genética em alguns dos outros sistemas bioquímicos envolvidos em vários prazeres provavelmente também é relevante. Esses sistemas incluem opioides endógenos e os endocanabinoides. Será interessante ver como es­tudos envolvendo esses sistemas se desenvolverão em termos de vícios es­pecíficos e até vícios em substâncias específicas. Apesar de alguma variação genética poder ser preditiva de predisposição generalizada ao vício, é possí­vel que uma variação particular em receptores opioides possa, por exemplo, se correlacionar com o alcoolismo mas não com o vício em cocaína (trata-se de mera especulação, cujo objetivo é apenas ilustrar o argumento geral). Nessa linha, também vale lembrar que alguns sistemas bioquímicos podem estar envolvidos em uma variedade limitada de comportamentos prazerosos. Não será surpresa se a variação de genes que codificam a oxitocina ou seus receptores for relevante para o vício em sexo, mas não para outros vícios. De forma similar, variações dos genes que codificam o hormônio orexina ou o neurotransmissor NPY (ou seus receptores ou efetores), que constituem componentes fundamentais do circuito de regulação do apetite, podem ser relevantes para o vício em comida mas não para outros comportamentos compulsivos. 

A análise genética é não invasiva — ela envolve um swab (esfregaço) da mucosa oral para coletar algumas células - e seu custo ficará relativamente acessível, uma vez que o exame seja padronizado. A análise genética para a avaliação do risco de vício utilizando o escaneamento cerebral é muito mais invasiva e custosa. Par­ticipantes obesas de um experimento apresentaram significativamente menos ativação do corpo estriado dorsal em resposta a goles de milk-shake em comparação com par­ticipantes magras, o que sustenta a hipótese do prazer enfraquecido levando ao vício em comida. É possível que a amplitude de respostas mediadas pela dopamina em regiões como o corpo estriado dorsal e o núcleo accumbens seja capaz de prever a propensão a ampla variedade de vícios. Apesar de essa abordagem ter a vantagem de poder ser adaptada para analisar vícios parti­culares (jogo, comida, nicotina), na prática trata-se de uma ferramenta in­conveniente e dispendiosa com poucas chances de ser utilizada amplamente fora dos laboratórios de pesquisa. 

Uma área na qual o escaneamento cerebral do circuito do prazer já está começando a ser aplicado é em decisões relativas ao tratamento e à conces­são de liberdade condicional a pedófilos do sexo masculino condenados. Vá­rios estudos têm defendido a utilização de medidas de ereção peniana para orientar essas decisões, argumentando que, se depois da terapia um pedófilo ainda tiver uma ereção em resposta a fotos ou vídeos de crianças nuas, ele ainda corre o risco de cometer outros abusos sexuais.Mais recentemen­te, Elke Gizewski e uma equipe do Swiss Federal Institute of Technolo­gy em Zurique demonstraram que entre pedófilos homossexuais do sexo masculino internos (que ainda não receberam terapia), fotos de garotos nus evocavam significativa ativação do circuito prosencefálico medial do pra­zer. Isso não ocorreu em uma população similar de homens homossexuais que não apresentavam sinais de pedofilia. Naturalmente, há um perigo em tentar interpretar demais tanto medidas de ereção peniana quanto medidas de escaneamento cerebral nesses estudos. Quase todos nós já estivemos em situações nas quais sentimos excitação sexual inapropriada mas nos abstive­mos de agir para concretizar o sentimento. Apesar de ser natural querer fazer o possível para proteger as crianças de predadores sexuais, ainda não está cla­ro se a ativação do circuito cerebral do prazer em resposta a fotos de crianças nuas constitui um preditor útil do comportamento futuro de pedófilos. 

No momento da escrita deste texto, os medicamentos disponíveis para ajudar os dependentes a se recuperarem e se manterem livres da droga ainda são bastante rudimentares. Os tratamentos mais comumente usados substituem uma forma de substância viciante por outra. Adesivos de nicotina podem substituir ou reduzir o tabagismo. Essa abordagem de fato reduz alguns pro­blemas de saúde relacionados com o tabagismo, mas por si só não trata o vício que o fundamenta: o paciente continua sendo dependente de nicotina. De forma similar, o tratamento de dependentes de heroína com os opiáceos semissintéticos metadona e buprenorfina não passa de um substituto tempo­rário, do tipo “tapa-buracos”. Essas substâncias atuam mais lentamente que a heroína e produzem menos euforia. Elas também são tomadas oralmente, eliminando, dessa forma, os riscos associados com a injeção (como trans­missão de infecções pelo sangue). Mesmo assim, como no caso do adesivo de nicotina, o vício subjacente permanece sem tratamento, de forma que as substâncias substitutas não constituem solução de longo prazo viável. 

Outra estratégia tem sido criar substâncias que promovam a abstinência criando uma reação aversiva. O dissulfiram (comercializado como Antabuse), aprovado como tratamento do alcoolismo pela Federal Drug Administration (FDA) desde 1954, funciona inibindo uma enzima-chave na decomposição em vários passos do etanol chamada acetaldeído desidrogenase. Quando essa enzima é bloqueada, o consumo do etanol produz aumento dos níveis de acetaldeído na corrente sanguínea, o que faz a pessoa se sentir muito mal. O dissulfiram, naturalmente, só é útil em contextos cuidadosamente monitorados. Qualquer pessoa que realmente queira consumir álcool parará de tomar o dissulfiram. E, é claro, essa substância não faz nada para impedir o craving por álcool, mas só faz tornar a recaída excepcionalmente dolorosa. 

Uma terceira estratégia tem sido desenvolver terapias que impeçam o acesso de uma droga ao cérebro e, portanto, de exercer seus efeitos psicoativos. Uma das abordagens mais interessantes ao longo dessas linhas envolve produzir uma vacina que mobilizará o sistema imunológico do próprio pa­ciente para se ligar à droga na corrente sanguínea e destruí-la antes de ela entrar no cérebro. Vacinas utilizando nicotina, metanfetamina ou cocaína ligada a proteínas acionadoras da resposta do sistema imunológico estão atu­almente na fase de testes em estudos com animais. Uma proposta carrega­da de questões éticas é oferecer essas vacinas já na infância para pessoas com forte predisposição genética ao vício. 

Só nos últimos anos é que começamos a ver substâncias que de fato ajudam a enfraquecer os cravings de viciados em recuperação. Uma dessas substâncias é a naltrexona (um medicamento genérico, também comercializado como Revia), que parece entorpecer significativamente os cravings de alcoólicos em abstinência. Quando combinada com a terapia comportamental cog­nitiva, ela produz redução adicional significativa do índice de recaídas. A naltrexona é antagonista de receptores opioides do tipo mu e, dessa forma, apresenta tanto uma ação direta sobre a sinalização de opioides endógenos quanto provavelmente também exerce efeitos indiretos sobre a sinalização da dopamina. A tendência dos pacientes de descontinuar o tratamento por naltrexona pode ser reduzida pela utilização de uma formulação mais recente e mais duradora de naltrexona (comercializada como Vivitrol), que pode ser  administrada na forma de injeção mensal. A naltrexona também teve algum sucesso na redução da recaída de viciados em heroína. 

Dois medicamentos diferentes foram aprovados para o tratamento do vício em nicotina. A bupropiona (vendida como Wellbutrin ou Zyban) é um transportador de dopamina, enquanto a vareniclina (vendida como Chantix ou Champix) reduz a ativação de um tipo particular de receptor de nicotina no cérebro. Essas duas substâncias supostamente reduzem os cravings de nicotina de fumantes em abstinência, e as duas reduzem significativamen­te o índice de recaída (apesar de a vareniclina parecer ser um pouco mais eficaz). Infelizmente, os dois medicamentos também apresentam efeitos colaterais arriscados, com destaque para o aumento da incidência de pensa­mentos suicidas, e só devem ser utilizados sob a supervisão de um psiquiatra. A alteração de humor é um problema comum de substâncias que almejam o circuito do prazer: o rimonabanto, o medicamento de redução de apetite recentemente banido na maior parte da Europa por aumentar o risco de suicídio, é um bom exemplo disso. 

Apesar de estarmos começando a ver os primeiros medicamentos úteis para reduzir cravings de nicotina e de drogas sedativas como o álcool e a he­roína, quase nada foi disponibilizado para ajudar as pessoas que estão tentan­do se abster de estimulantes como a cocaína e anfetaminas. É encorajador, portanto, que grande número de novos medicamentos de combate ao vício estejam em vários estágios de desenvolvimento. Apesar de algumas dessas substâncias se direcionarem a aspectos ligeiramente diferentes dos sistemas bioquímicos centrais do prazer, como dopamina, opioides e endocanabinoides, outros se ramificam a empolgantes novas direções. Por exemplo, como sabemos que o estresse é um acionador comum da recaída na maioria dos vícios, inclusive vícios em substâncias como o álcool e vícios comportamentais como o jogo, uma solução óbvia seria tentar reduzir o estresse por meio de métodos comportamentais, como exercícios físicos e meditação. Outra solução seria tentar interferir na ação dos hormônios de estresse no cérebro utilizando substâncias para bloquear receptores de hormônios de estresse como o CRF e a neurocinina-1 na esperança de redução dos cravings. Uma hipótese é que os bloqueadores de receptores de hormônios de estresse po­deriam impedir a LTP induzida pelo estresse das sinapses utilizadoras de  glutamato recebidas pelos neurônios de dopamina da ATV e, dessa forma, reduzir os cravings acionados por sinais comportamentais associados ao pra­zer (a imagem de um cachimbo de crack, o som do caça-níqueis). 

A hipótese de que o desenvolvimento do vício envolve mudanças lentas e persistentes na força e na microestrutura de sinapses utilizadoras de glu­tamato no circuito do prazer sugere que substâncias direcionadas contra os receptores de glutamato ou as proteínas que modulam seu funcionamento podem ser alvos úteis no desenvolvimento de terapias de combate ao vício. O problema aqui é que o glutamato é o neurotransmissor mais amplamente utilizado do cérebro (e da medula espinhal), de forma que substâncias que alteram a neurotransmissão do glutamato podem apresentar potencial excepcionalmente grande de efeitos colaterais. Felizmente, por haver ampla variedade de receptores de glutamato, substâncias direcionadas a um subtipo particular deles têm chances de serem úteis. Isso se aplica particularmen­te a um subconjunto de receptores de glutamato de ação lenta chamados receptores metabotrópicos, que apresentam distribuição mais limitada no sistema nervoso e estão envolvidos em apenas alguns padrões particulares de atividade neural. Um receptor, chamado de receptor metabotrópico de glutamato tipo 5 (mGluR5), tem recebido grande atenção e é fortemente expresso em porções-chave do circuito do prazer, inclusive os neurônios do núcleo accumbens e do corpo estriado dorsal. 

Quando François Conquet e seus colegas da GlaxoSmithKline Laboratories em Lausanne, Suíça, utilizaram truques genéticos para criar um camundongo sem o mGluR5, fizeram uma descoberta surpreendente: os camundongos se mostravam totalmente indiferentes à cocaína. Eles não pressionavam uma alavanca para autoadministrar a droga e não apresenta­vam nenhum interesse especial pela câmara experimental onde a cocaína era administrada. Não era como se a cocaína não tivesse ação: os níveis de dopa­mina no circuito do prazer dos camundongos sem mGluR5 ainda eram ele­vados. Em vez disso, parecia que os camundongos deixavam de desenvolver o vício em cocaína. Naturalmente, esse resultado e outros similares ajuda­ram a instigar um enorme interesse por parte de companhias farmacêuticas para desenvolver compostos que bloqueiem ou modulem especificamente o mGluR5. Atualmente, a maioria dessas substâncias está em estágio pré-clínico: experimentos com ratos e camundongos sugerem que antagonistas de mGluR5 podem ser promissores no tratamento do vício em cocaína, anfetaminas, nicotina e álcool. À medida que esses compostos puderem ser clinicamente testados em humanos, será possível verificar sua eficácia em vícios comportamentais, como jogo compulsivo, para os quais não existem modelos animais viáveis. Pode ser que daqui a alguns anos o tratamen­to ótimo de vícios envolva uma combinação de substâncias para reduzir o craving (por exemplo, a naltrexona com um antagonista de mGluR5) com terapia comportamental. 

Quando neurofisiologistas caem no sono à noite, eles sonham com um fu­turo no qual poderão registrar cada um das aproximadamente centenas de bilhões de neurônios do cérebro humano e individualmente estimulá-los (ou inativá-los) em combinações totalmente ilimitadas. Infelizmente, esse sonho ainda demorará muito para se tornar realidade. No decorrer dos últimos 60 anos, pesquisadores interessados em sistemas cerebrais em geral abordaram problemas da neurofisiologia implantando eletrodos no cérebro de macacos e ratos, e registrando a atividade de spikes de neurônios individuais. Essa abordagem “neurônio a neurônio” gerou, e continua gerando, muitas infor­mações sobre o funcionamento cerebral, mas tem muitas limitações. Uma delas é que certos tipos de informação no cérebro só são revelados quando grande número de neurônios é analisado simultaneamente: eles residem no padrão geral de atividade da população de neurônios (medida como o núme­ro e a identidade de neurônios acionados simultaneamente, as sequências de acionamento distribuídos ao longo da população de neurônios, e assim por diante). Nos últimos 20 anos, arranjos especiais de eletrodos implantados muito próximos uns dos outros foram desenvolvidos para permitir a análise simultânea de cerca de 50 a 200 neurônios em determinada região do cére­bro. Em alguns casos, arranjos de eletrodos foram implantados em duas re­giões cerebrais diferentes simultaneamente. Esses experimentos, conduzidos com ratos, camundongos ou macacos despertos e em ação, revelou alguns princípios básicos importantes do funcionamento cerebral (por exemplo, neurônios no hipocampo criam um mapa espacial do ambiente por meio de padrões de descarga determinados pela trajetória; prestar atenção a um estí­mulo sensorial tende a aumentar a sincronia das descargas dos neurônios no cérebro que são ativados por esse estímulo). Também foi possível utilizar sinais capturados por arranjos de eletrodos no córtex motor para controlar membros robóticos do corpo, uma técnica com grande potencial de ajudar as pessoas que sofrem de paralisia devido a lesões na medula espinhal.

Um grande problema com eletrodos individuais ou em arranjos é a ne­cessidade de perfurar o crânio do participante do experimento para inseri-los no cérebro. Outro problema é que os eletrodos podem acionar respostas de microgliócitos e reações inflamatórias potencialmente danosas no cérebro. Em consequência, essas técnicas são utilizadas em seres humanos apenas em circunstâncias muito limitadas. Os aparelhos atuais de escaneamento cerebral não apresentam essas desvantagens, já que podem ser utilizados repetidamente em seres humanos sem efeitos danosos. Mas as informações que eles proporcionam são bastante rudimentares. A forma mais comum de escaneamento cerebral, chamada ressonância magné­tica funcional (fMRI), não mensura diretamente a atividade neuronal. Em vez disso, ela mensura o aumento regional do fluxo sanguíneo que ocorre (com um atraso de cerca de 1 a 3 segundos) quando uma região do cérebro intensifica sua atividade. No momento da escrita deste texto, até os melhores aparelhos de escaneamento cerebral possuem resolução espacial de cerca de um milímetro e resolução temporal de vários segundos. A estimulação ou inativação cerebral não invasiva, utilizando uma técnica chamada estimula­ção magnética transcraniana (EMT), é ainda menos refinada: ela tem uma resolução espacial típica de 1 a 2 centímetros e não pode agir com eficácia em regiões profundas do cérebro. 

Apesar de ainda estarmos muito longe de atingir o sonho dos neurofisiologistas de analisar e estimular de maneira não invasiva simultaneamente neurônios individuais no cérebro humano, várias tecnologias ópticas atuais para aquisição de imagens e estimulação apontam para novos caminhos no futuro, em termos gerais. O maior desafio nessa área é que, quando se per­fura o crânio para dar uma espiada na superfície do cérebro, ele se parece um pouco com um ovo cozido: é opaco, não transparente. O cérebro não permite a passagem eficaz da luz em comprimentos de onda que nossos olhos sejam capazes de detectar. Felizmente, a luz infravermelha pode penetrar o tecido cerebral relativamente com mais facilidade. Em uma técnica conhe­cida como microscopia multifóton in vivo, um buraco é perfurado no crânio (normalmente de um camundongo) e uma janela de vidro é instalada para cobri-lo. Então, depois de uma ou duas semanas nas quais o camundongo se recupera da cirurgia, sua cabeça é colocada sob a lente de um microscópio que emite pulsos breves e extremamente intensos de luz de um laser infra­ vermelho através do vidro da janela e no cérebro do camundongo. Essa luz é capaz de excitar com eficácia moléculas fluorescentes em um único plano focal, até cerca de meio milímetro de profundidade no cérebro. Essas moléculas, por sua vez, emitem luz de um comprimento de onda mais longo e visível, e essa luz azul, verde ou vermelha é capturada por um sensor insta­ lado no microscópio para formar uma imagem clara de estruturas por trás da superfície opaca do cérebro vivo. A essa altura, imagino que você esteja pensando: “Tudo isso é muito interessante, mas o que tem a ver com o futuro do prazer?” Tenha um pouco mais de paciência e você verá. 

Uma dificuldade com a microscopia multifóton é que relativamente pou­cas moléculas dos neurônios são naturalmente fluorescentes. Para enxergar a estrutura dos neurônios no cérebro vivo, moléculas fluorescentes devem ser artificialmente introduzidas. No entanto, uma vantagem dessa técnica é que sondas fluorescentes podem ser projetadas para mensurar diferentes aspectos da estrutura e funcionamento neuronal. Uma molécula que brilha constantemente e se difunde por toda parte na célula mostrará o contorno geral da célula e pode ser utilizada para mensurar mudanças microestrutu- rais nos neurônios. Outras moléculas podem ser utilizadas para informar a concentração local de íons cálcio (que é um proxy para a atividade de spikes) ou até do potencial elétrico pela superfície da membrana neuronal. Moléculas fluorescentes ligadas a receptores de neurotransmissor podem ser utilizadas para mensurar o número de moléculas receptoras em dada sinapse. 

Essas técnicas de medição óptica foram recentemente complementa­das com outra série de ferramentas para manipular a atividade de neurônios com luz. Vários laboratórios diferentes, com destaque para o de Karl Deisseroth, da Stanford University, têm desenvolvido proteínas capazes de ativar ou inibir neurônios muito rapidamente quando absorvem várias cores de luz. Por exemplo, uma proteína chamada de canal rodopsina-2 proveniente de uma alga absorve a luz azul e abre rapidamente um canal iônico que permite o influxo de íons positivos. Quando essa proteína é expressa em neurônios (utilizando vários truques genéticos), lampejos de luz azul podem acionar potenciais de ação com precisão de milissegundos. Outra proteína microbiana chamada halor-hodopsina tem o efeito opos­to. Quando iluminada com luz amarela, ela inibe a descarga contínua de neurônios. Neurofisiologistas têm se mostrado extremamente interessados nessas ferramentas, e um empenho considerável tem sido direcionado para a sua otimização e aplicação. 

Então, eis um resumo dos últimos avanços: podemos utilizar a microscopia multifóton e moléculas ativadas por luz para registrar a atividade elé­trica e a estrutura de neurônios individuais, e podemos ativar e inibir com precisão esses neurônios de uma forma que requer a perfuração do crânio até uma profundidade de cerca de meio milímetro mas que deixa o cérebro intacto. Isso significa que podemos acessar as camadas externas do neocórtex, bulbos olfatórios e cerebelo, mas não o centro do circuito do prazer, centros emocionais, regiões de controle hormonal, e assim por diante, que se localizam profundamente no cérebro. Se quisermos utilizar técnicas ópticas para mensurar e estimular neurônios nessas estruturas mais profundas, deve­mos inserir uma fibra ótica para emitir e capturar a luz - processo que causa significativos danos ao cérebro. Em qualquer uma das técnicas, é necessário perfurar o crânio e instalar um volumoso equipamento auxiliar (microscó­pio, laser etc.). As técnicas de sondas fluorescentes para a mensuração ou de canais iônicos acionados pela luz para o controle óptico da atividade devem ser aplicadas por meio de truques genéticos, infecção viral ou, em alguns casos, injeção de pequenas sondas moleculares. Há um raio de esperança, contudo, no fato de truques genéticos ou vírus poderem ser construídos para levar sondas direcionadas a subpopulações específicas de neurônios. Classes diferentes de neurônios e neuroglias se posicionam apinhadas no cérebro. Por exemplo, os neurônios de dopamina da ATV se lo­calizam adjacentes às neuroglias e outros neurônios não dopaminérgicos da ATV. Se utilizarmos técnicas ópticas para mensurar ou controlar a atividade dos neurônios de dopamina da ATV, como podemos ter certeza de estarmos analisando a célula certa e não meramente seu vizinho não dopaminérgico? Uma estratégia seria tentar encontrar um gene expresso somente nos neu­rônios de dopamina (talvez o transportador de dopamina) e utilizar seus elementos de controle para forçar a expressão da canal rodopsina-2 apenas nessas células. Então, quando lampejos de luz azul forem emitidos na ATV, só as células de dopamina serão acionadas para descarregar spikes. Atual­mente, esse tipo de estratégia, combinando a genética e a óptica, constitui o maior avanço em termos de controle específico e mensuração de neurônios identificados no cérebro vivo. 

Vamos fingir por um momento que somos escritores de ficção científica e imaginar um futuro distante no qual o sonho do neurofisiologista se concre­tizou. Talvez isso envolva alguma forma das tecnologias que terão evoluído a partir dos atuais microscópios multifóton e controles ópticos do funcionamen­to neuronal. Basta colocar um boné de beisebol equipado com instrumentos capazes de controlar com precisão a atividade de qualquer combinação de neu­rônios identificados no seu cérebro. Quais são as possibilidades disso no que diz respeito ao prazer? Vamos começar com o cenário mais simples e avançar nas nossas especulações a partir daí. Você, sem dúvida, poderia vivenciar uma sensação prazerosa similar à sentida pelos ratos de Olds ou os pacientes de Heath em resposta à estimulação do circuito central do prazer no prosencéfalo medial. Você poderia, por exemplo, simular os prazeres associados a um barato de heroína ou um orgasmo. O mais difícil de imaginar seria como o controle fino dos circuitos neurais poderia levar a prazeres mais sutis com novos matizes e combinações. Por exemplo, sabemos que a heroína ativa os neurônios de dopamina da ATV (e outras regiões). Também sabe­mos que os neurônios de dopamina da ATV se projetam a inúmeras regiões almejadas (o núcleo accumbens, o corpo estriado dorsal, a ínsula, o córtex or- bitofrontal etc.). Qual seria a sensação de estimular apenas um subconjunto dessas projeções neurais ou determinado grupo em determinada sequência? Todo um parâmetro espacial de prazer artificial poderia ser explorado, com um grupo muito mais sutil e variado de experiências que podem ser mobili­zadas por substâncias como a heroína ou a cocaína ou comportamentos como transar, comer ou jogar. Imagine que o seu boné de beisebol abra uma janela no seu campo de visão e essa janela tenha um conjunto de controles deslizantes que você poderá controlar com movimentos oculares. Você pode misturar um pouco de sensação sexual com a emoção da sensação de risco e uma pitada de saciedade alimentar. Você pode manipular as suas emoções em conjun­to com esses prazeres, talvez acrescentando só um pouco de dor à mistura para tornar tudo mais interessante, como comer um bom prato apimentado. As pessoas poderiam trocar as próprias receitas de prazer da mesma manei­ra como hoje divulgam “relatos de viagem” sobre substâncias psicoativas no site www.erowid.org: “Tente 2 segundos de estimulação de alta frequência do núcleo accumbens seguidos de uma onda sustentada de oxitocina.” Como o seu boné também é um dispositivo de registro, você poderia programá-lo para mobilizar sequências específicas de prazer em resposta a determinadas experiências sensoriais no mundo real (ou no mundo virtual). E, é claro, você poderia escolher conectar seu boné de beisebol em rede com outros usuários permitindo todos os tipos de interação. 

E o que dizer do vício? Será que grande parcela da população não se viciará no boné? Talvez, mas, se o seu boné for capaz de controlar os cir­cuitos neurais com tanta precisão, ele provavelmente também será capaz de desvincular prazer e vício. Se o vício é mediado por mudanças como a LTP nas fibras utilizadoras de glutamato recebidas pelos neurônios de dopamina da ATV ou alterações na excitabilidade intrínseca dos neurônios no núcleo accumbens, uma sequência de estimulação no final da sessão poderá reinicia­lizar essas sinapses ou os canais iônicos para combater o desenvolvimento do vício (o boné também poderia apagar parte da memória da experiên­cia). Naturalmente, esse tratamento poderia ser aplicado para reinicializar o funcionamento do circuito do prazer também em vícios convencionais (não provocados pelo boné de beisebol). 

Porque o arco não pode se manter sempre curvado nem a natureza humana ou a fragilidade humana podem subsistir sem uma recreação permitida por lei. 

Miguel de Cervantes Saavedra, Don Quixote de la Mancha, 1605 

Talvez a maior dificuldade de imaginar o futuro distante do prazer não seja a tecnologia envolvida, mas os sistemas sociais, legais e financeiros que a cercam. Quando alguém puder controlar com precisão seus circuitos de pra­zer com um dispositivo de custo acessível montado na cabeça, como essa possibilidade será utilizada, abusada, comercializada e regulamentada? Se a nossa experiência passada com substâncias psicoativas for alguma indicação, estaremos diante de um grande caos. Em vários momentos do nosso passa­do recente, álcool, nicotina, heroína e cocaína foram legalizados, banidos, tributados e regulamentados pelo governo. Nossas políticas relativas às dro­gas refletem uma rede complexa de interesses conflitantes. Da perspectiva capitalista, temos promovido e continuamos a promover a venda e o uso de substâncias psicoativas porque elas geram enormes lucros. Da perspectiva médica e social, buscamos banir ou restringir as substâncias psicoativas que causam danos ou vício. Mas nossas leis nem sempre refletem o verdadeiro risco de várias substâncias à sociedade: o tabaco é altamente viciante e o tabagismo mata milhões de pessoas todos os anos, apesar de ser a substância mais tolerada. É quase impossível se matar com cânabis e, no entanto, ela permanece criminalizada. Não acredito que o desenvolvimento de tecno­logias futuras de prazer será regulamentado ou comercializado de maneira mais racional. Muito provavelmente enfrentaremos um desastre política e comercialmente orientado, como acontece com nossas leis atuais relativas às drogas.
Se o prazer eufórico for desassociado do vício, como nossas normas le­gais, sociais e religiosas para a utilização de substâncias psicoativas muda­rão? Costumamos falar da boca para fora sobre a ideia de que o vício é uma doença fisiológica, mas a maioria de nós continua a cultivar a noção de que, em algum nível, o vício representa uma falta de força de vontade. E, o mais importante, essa noção fundamenta nosso sistema financeiro médico, no qual a maioria das seguradoras não paga pelo tratamento contínuo do vício, e o nosso sistema legal, no qual os viciados são em geral punidos e não tra­tados. Quando o boné do prazer for disponibilizado, precisaremos repensar nossas noções morais sobre o prazer. Se todos os tipos de prazer puderem ser sentidos sem risco de vício, será que ainda veremos a moderação como uma virtude? Será que ainda consideraremos o prazer algo que deve ser con­quistado pelo trabalho duro ou pelo sacrifício? Talvez essas previsões sociais sejam as mais difíceis de elaborar com precisão. 

No fim das contas, contudo, pensar sobre o futuro do prazer diz respeito ao indivíduo. Se o prazer for ubíquo, o que acontecerá com o nosso “super-poder” humano de sermos capazes de associar o prazer a ideias abstratas? Será que ele será varrido em um mar de ruído de fundo? Se o prazer estiver por toda parte, será que as metas exclusivamente humanas continuarão a existir? Quando o prazer for onipresente, o que desejaremos?

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