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TEXTOS
7/5/2020 1:29:50 PM | Por Carlos Augusto de Proença Rosa
Livre
Ciência e conhecimento científico no Egito

É usual iniciar um estudo sobre a civilização egípcia pela geografia física da região. Monografias e trabalhos específicos enfatizam a importância do rio Nilo como fator preponderante no desenvolvimento de uma cultura local desde o Período Neolítico. O Egito – fruto da geografia e o Egito – um dom do Nilo – são corretas apreciações de uma realidade histórico-geográfica. O microclima e o isolamento natural do vale, pela proteção dos desertos, são fatores igualmente importantes que explicam o aparecimento de núcleos populacionais ao longo do grande rio. Essa população egípcia originou-se de uma variedade de povos que, desde os Tempos Pré-Históricos, habitavam a região, vindos da África do Norte e da Ásia ocidental em busca de melhores condições ambientais, e que desenvolveram características étnicas próprias. Contingentes de líbios, hamitas, neolíticos semitas e paleolíticos aborígenes foram os principais formadores da raça egípcia, que, já na época Tinita (cerca de 5000 anos atrás), se distinguia de seus vizinhos líbios e núbios.

Assim, o surgimento de condições de vida humana e de desenvolvimento cultural no Egito foi devido a um conjunto de fatores excepcionais, ligados à água. O vale do Nilo, que abrange uma área de 25 mil km2, com uma extensão de 850 km (da 1a Catarata ao Mediterrâneo), se limita a Leste, a Oeste e ao Sul com enormes regiões desérticas, inóspitas, impróprias para atividades econômicas intensivas. O regime do Nilo, cujas enchentes coincidiam com o período mais quente do ano (julho-outubro), beneficiava o vale com uma grande quantidade de lodo fértil, trazido desde a Etiópia, o que permitia a renovação anual do solo. Ao mesmo tempo, e desde o fim do último Período Glacial, o clima mais temperado favoreceu o crescimento da fauna e flora locais, que serviram de meio de subsistência para uma crescente população, inicialmente caçadora-coletora. Tornada insuficiente para a demanda alimentar, a caça deixaria de ser a principal atividade daquela população nômade, com a introdução do trigo e da cevada por volta de 7000 anos atrás, provenientes do Oriente Médio.

Antecedentes Históricos

A agricultura se desenvolveu rapidamente no vale do Nilo, graças à fertilidade do solo, às novas técnicas agrícolas (irrigação, arado puxado por dois bois) e às boas colheitas (três ao ano). A população, agora sedentária,  fixou-se ao longo do Nilo em pequenas comunidades rurais, onde desenvolveram sua principal atividade econômica. Os egípcios não trabalhavam a terra árida, limitando-se a agricultura às margens do Nilo. Além do trigo e da cevada, cultivavam, ainda, leguminosas, cebola, frutas (uva,  figo, tâmara), criavam animais para leite e corte. Região fértil e de fartas safras, o excedente alimentar representou um formidável acúmulo de riqueza que propiciou novas atividades mais diversificadas e desenvolvimento econômico. O Egito chegou a ser considerado o grande celeiro da Antiguidade. A agricultura foi a grande marca, a principal atividade, a característica maior da civilização egípcia. Diferente das civilizações urbanas da Grécia e de Roma, a egípcia foi rural[1]. Determinante da personalidade disciplinada, prática e submissa do camponês, o caráter rural de sua população explica seu comportamento diante do poder central e absoluto do Faraó, o rei-deus.

Na origem da civilização egípcia se encontra a cultura neolítica introduzida na região a partir do quarto milênio, quando surgiu a necessidade de coordenar atividades em um esforço coletivo, e de desenvolver técnicas apropriadas para enfrentar os problemas e as dificuldades da vida cotidiana. Os principais fatores que atuaram na formação dessa civilização foram os limites impostos pela Natureza às necessidades humanas e aos meios sociais e tecnológicos para enfrentar os desafios naturais[2]. Nesse processo de formação da civilização egípcia, foram marcos fundamentais a aquisição da técnica da escrita, inicialmente com ideogramas, e, depois, hieroglífica, a configuração concomitante dos principais ritos e crenças e a modelagem da língua egípcia. Todas essas aquisições datam do Período Pré-Dinástico, ou seja, da fase conhecida como Gerzeana (3300 a.e.c. – 3100 a.e.c.), o que vale dizer ter havido contatos com o Oriente Médio, em especial com os mesopotâmios, e ondas migratórias de regiões vizinhas, e, até mesmo, mais distantes, como a Etiópia e a Arábia. Desses contatos a cultura egípcia recebeu, principalmente, a influência da Mesopotâmia, em sua fase chamada Gerzeana[3]. A partir da unificação dos dois Reinos em um Império, o antigo Egito viveria em um isolamento cultural[4], apesar de superficiais contatos eventuais com outros povos, na maioria das vezes de um nível cultural inferior. O Egito, no dizer de Colin Ronan, era um universo autossuficiente: tinha seus deuses independentes e seu modo de vida especial.

Considerações Gerais

A História do Egito cobre um período de cerca de 3 mil anos, desde sua de formação, Gerzeano – de 3300 a 3100 – até sua decadência e dominação, com a conquista, pelos persas de Cambises, no século VI (525); por Alexandre, em 332; e,  finalmente, pelos romanos, em 31, quando, após a Batalha de Actium, incorporou o Egito como colônia do Império Romano. O Egito antigo, que no Período Pré-Dinástico era dividido em dois Reinos (Baixo Egito e Alto Egito), seria unificado por Meni/Narmer/A-ha, em 3100, quando fundou a capital do Império, Mênfis/Menufer; trinta e uma dinastias governariam o Império até sua conquista por Alexandre, seguindo-se mais duas dinastias (macedônia e ptolomaica) até sua incorporação a Roma. Exceto por dois períodos de instabilidade, o Egito manteve-se unificado por mais de dois mil anos.

A evolução da civilização egípcia é dependente da teocracia imposta pelos Faraós e pela casta sacerdotal, cujo relacionamento se transformou em verdadeira rivalidade, após o fortalecimento do poder do Sumo Sacerdote de Amon-Ra. Acreditavam os egípcios na vida após a morte, pelo que a passagem transitória por este mundo era preparatória para a imortalidade futura. Sua visão era de uma realidade estática, imutável,  fixa, desde o momento da criação; a mudança possível seria cíclica, mas as fases do ciclo seriam imutáveis. Seu interesse primordial estava em um mundo que não era o terreno; suas vistas estavam sempre voltadas para um futuro, além da morte, venturoso e eterno. Todos esses elementos são fundamentais na formação do espírito prático do egípcio. Guiado por uma imaginação e uma observação impossibilitadas de reverter ou alterar uma realidade imposta e imutável, o egípcio antigo foi incapaz de desenvolver um espírito crítico, analítico, especulativo, inventivo. A falta de um espírito investigativo e inovador limitaria, na realidade, o egípcio ao campo técnico, no qual seria bastante realizador, e determinaria um ritmo evolutivo mais lento que em outras sociedades.

Maurice Daumas observou que tudo já estava adquirido desde o Antigo Império, isto é, desde o início de sua História, a Técnica marcaria passo; ela se modificaria e aperfeiçoaria o estado das Artes e Ofícios, mas não se inventaria praticamente nada. O estado social e a estrutura religiosa, conservadores por excelência, permitiriam sustentar apenas o impulso inicial, de forma a manter, por três milênios, o mesmo conjunto de procedimentos técnicos[5]. Na ausência de conhecimento teórico, o valor dos construtores egípcios estava alicerçado em sólida experiência prática e e um instinto para a Engenharia estrutural. As técnicas utilizadas na construção do grande templo em Karnak, por volta de 1370, não foram muito diferentes das usadas na época de Khufu, cerca de treze séculos antes.

Como em todas as civilizações antigas, as atividades de transformação se circunscreveram ao artesanato em cerâmica, tecelagem, ourivesaria, vidraçaria, metais, couro, madeira. As habitações e moradias eram de tijolo. Os palácios, os templos e os grandes monumentos eram construídos em pedra, como testemunho da grandeza dos deuses e do Faraó. De uma planta comum do Nilo, o papiro, fabricaram os egípcios uma espécie de papel que serviu para registrar sua escrita hieroglífica. As Artes, principalmente a Arquitetura, a Escultura e a Pintura, se desenvolveram como técnicas, conforme atestam os monumentos de pedra (Luxor, Karnak, Menon, obeliscos), os murais e pequenos objetos decorativos nos túmulos encontrados nos Vales dos Reis e das Rainhas, sem, contudo, ter havido evolução no conceito ou na percepção da estética. As  figuras são rígidas, estáticas, paradas, frontais.

A Sociedade egípcia antiga se caracterizou, em resumo, por seu caráter teocrático, rural, conservador, hierarquizado. Tais condições estabeleceriam o lento ritmo de desenvolvimento cultural, baseado na acumulação de experiência técnica. Isolada e imune a influências externas, a Sociedade egípcia manteve intactas suas prioridades individuais e coletivas, ao longo dos milênios, sem atentar para a necessidade ou conveniência de evolução no campo mental e intelectual. A falta de interesse, ou mesmo a oposição, das elites que detinham o poder político, religioso, cultural e econômico, em alterar as bases em que se assentava a Sociedade explica o quase imobilismo, a relativa estagnação, o lento progresso, presentes no curso da História da Civilização Egípcia. O conhecimento das coisas estava além da capacidade e percepção humanas, interditado aos mortais, por ser privativo da divindade; desnecessário e irrelevante para o povo, o conhecimento era, na realidade, monopólio da elite governante, como na Mesopotâmia. O desperdício de recursos foi extraordinário. Reuniram-se recursos colossais de mão de obra apenas para construir os maiores túmulos que o mundo já viu. Empregou-se uma Arte de qualidade refinada apenas para construir túmulos. Uma elite instruída, utilizando um material conveniente de escrita, não legou à Humanidade nenhuma grande ideia  filosófica ou religiosa. É difícil não perceber, continua o já citado J. M. Roberts[6], uma esterilidade fundamental, um vazio, no âmago desse brilhante tour de force. Tais características expunham a fragilidade da civilização egípcia, que, uma vez anexada a Roma, desapareceu sem deixar muitos vestígios, além dos formidáveis monumentos. Sua influência em outras culturas foi ínfima, e sua contribuição para a Ciência universal, modesta, insignificante[7].

A Técnica na Cultura Egípcia

Em consequência de todas essas características, não se desenvolveram, na antiga cultura egípcia, o espírito crítico, abstrato, inquisitivo, investigativo, especulativo, e a reflexão  filosófica, capazes de gerar o conhecimento científico. Em tais circunstâncias, há um conhecimento empírico, fruto de observação e longa experiência, sem qualquer embasamento teórico. Como escreveu Abel Rey, citado por René Taton[8], a Ciência egípcia se distingue daquela que  floresceu na Grécia no século V pela falta de teoria e desprovida de toda metafísica. Ela não é mais que uma Técnica. Há um conhecimento prático em diversas áreas, como dos números, contas e cálculos, dos corpos celestes, dos animais e plantas, da cura de algumas doenças e da mumificação, sem haver, contudo, Matemática, Astronomia, Botânica, Zoologia, Biologia. Há uma técnica de cálculo, como também de mumificação e de observação dos astros, mas a falta de um verdadeiro espírito científico impediria o surgimento das respectivas ciências.

Os textos preservados (papiros) se limitavam a soluções de problemas, sem nenhuma teorização. Como na antiga Mesopotâmia, a preocupação era meramente prática, de como solucionar determinadas questões de interesse particular, mas não a de ensinar a raciocinar ou a de entender os fenômenos da Natureza. Ao  final de três mil anos de civilização, os egípcios continuavam a praticar a mumificação sem avançar no estudo da Anatomia ou da Fisiologia; a observar a abóbada celeste sem especular sobre o movimento dos astros; a lidar com doenças sem atinar com seu diagnóstico. Inatingível para os seres humanos, e estando tudo e todos sujeitos aos desígnios da divindade, era o acesso ao conhecimento absolutamente proibido, fora do círculo de uns poucos privilegiados; a observação astronômica, por exemplo, era reservada aos sacerdotes. O conhecimento empírico adquirido ao longo dos séculos se constituiria, assim, no repositório das observações e experiências acumuladas nas diversas áreas da atividade humana.

Se as grandes efemérides da História egípcia estão descritas ou desenhadas nos monumentos, túmulos e ruínas, relativamente pouco foi preservado sobre o conhecimento nas diversas disciplinas, dado que o papiro não é um material muito resistente ao tempo e ao manuseio. O material descoberto, desde meados do século XIX, tem sido a principal fonte para o conhecimento do nível a que chegou a Técnica no Egito antigo.

Deve ser salientado que a cidade de Alexandria, no delta do Nilo, grande centro comercial e cultural (Museu e Biblioteca) no Período Ptolomaico, não foi parte da cultura egípcia, mas da grega e estava inserida no mundo helênico. A força da tradição e a resistência a uma cultura forânea impediriam os egípcios de se beneficiarem dos estudos e investigações da civilização grega.

Matemática

A Matemática egípcia era basicamente uma aritmética prática, voltada para apresentar resposta a problemas. A pesquisa dos princípios matemáticos era desprezível; não havia uma teoria básica da Matemática, nem um sistema teórico de Geometria. Muito poucos documentos matemáticos (papiros) foram recuperados até hoje:

1) Papiro Rhind, escrito por Ahmes, por volta de 1650, mas adquirido pelo escocês Henry Rhind, em 1858, em Luxor, e desde 1864 no Museu Britânico. Trata-se da principal fonte da Matemática egípcia, no formato de um longo rolo de 5,50 m por 33 cm com duas tabelas numéricas, 87 problemas redigidos em escrita hierática sobre Aritmética, Geometria, Estereometria e da vida prática;

2) Papiro de Moscou, desde 1912 no Museu de Belas Artes de Moscou. Redigido por volta de 1850, contém 25 problemas da vida prática; não se encontraria em bom estado de conservação e de leitura o rolo de 8 cm por 5,50 m;

3) rolo de couro, de 43 cm por 26 cm, adquirido em 1858, em Luxor, por Henry Rhind, e no Museu Britânico desde 1858. Redigido em dois exemplares, contém uma tabela de 26 quocientes expressos em soma de frações unitárias;

4) Papiro de Kahun, descoberto por W. M. F. Petrie, em 1889, contém seis fragmentos, dos quais apenas três estão claramente explicitados;

5) Papiro de Berlim, de quatro rolos, em mau estado de conservação, foi descoberto, em 1904, por G. Reisner. Redigido por volta de 1880, o documento media, originariamente, 3,50 m por 30 cm, e se refere à Estereometria ou cálculo de volume dos sólidos[9]. A numeração egípcia era decimal, mas se escrevia de forma diferente quando se utilizava o sistema hieroglífico (aditivo, repetitivo, não posicional) ou os escritos hieráticos e demóticos (mais simples); na escrita hieroglífica, os números de 1 a 9 eram representados por tantos traços verticais quantas as unidades representadas. A ordem da disposição dos símbolos não era importante; de modo geral, a escrita se fazia da direita para a esquerda e do alto para baixo. Não conheciam o zero. As quatro operações aritméticas eram do domínio dos egípcios, porém não se conhece o método utilizado para a soma e a subtração; tanto a multiplicação quanto a divisão eram efetuadas pelo sistema das duplicações sucessivas. Quanto ao sistema de cálculo e representação das frações, todas, com exceção da fração 2/3, deveriam ter o numerador igual à unidade (1/2, 1/3, 1/4, 1/5, e assim, sucessivamente). Sabiam extrair a raiz quadrada e conheciam as progressões aritmética e geométrica. A Álgebra aparece nos papiros Rhind e de Berlim com problemas práticos que correspondem a equações do primeiro e do segundo graus[10]. Os papiros Rhind e de Moscou apresentam uma série de problemas de cálculo geométrico para áreas e volume, inclusive para pirâmides. A sugestão de alguns de que os egípcios conheceriam o valor de pi (π), isto é, a razão entre a circunferência e seu diâmetro, é rejeitada pela grande maioria dos especialistas. O ponto comum dos problemas aritméticos ou geométricos é a forma condensada das soluções apresentadas; a questão se resume a alguns números e operações, sem qualquer comentário. Assim, os problemas dos documentos matemáticos egípcios devem ser considerados como fórmulas para serem aplicadas na solução de problemas, e não como problemas com fórmulas[11].

Astronomia

Como a Matemática, a Astronomia estagnou em um estágio bastante elementar, rudimentar. A inexistência de papiros sobre Astronomia dificulta um completo conhecimento dos avanços atingidos, que são deduzidos de inscrições e representações em monumentos funerários e alguns calendários que adornam certos sarcófagos do Novo Império. Para os egípcios, a Astronomia era a base utilitária necessária para a marcação do tempo, sem maior interesse em teorias sobre o Sol, a Lua e demais corpos celestes; identificavam os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, bem como algumas constelações e estrelas (Orion, Cassiopeia, Grande Ursa, Sirius). Segundo a mitologia egípcia, o deus Osíris, ao morrer, se transformou na constelação Orion. A falta de preocupações com a natureza do universo físico decorria do desinteresse dos sacerdotes-astrônomos em pesquisar as posições das estrelas, o movimento dos astros, a ocorrência de eclipses, em especular a respeito da sua natureza. Dedicavam-se ao mundo espiritual, e não ao físico. Não há menção alguma, em qualquer documento egípcio, sobre eclipse[12]. A Astronomia egípcia tem, na realidade, um caráter religioso e litúrgico, tanto que só aos sacerdotes cabia o privilégio de observar a abóbada celeste e extrair informações precisas que lhes permitissem  fixar datas para as cerimônias religiosas e até as horas para a liturgia diária. As observações astronômicas tinham, assim, um objetivo prático, sem qualquer veleidade teórica, pelo que, segundo René Taton, não tem direito ao título de Ciência, pois o conceito científico deve apoiar-se sobre uma questão de método.

A Astronomia, ou melhor, a observação do Céu, combinada com as enchentes do Nilo, serviria, contudo, para a organização de um Calendário de real valor para a Sociedade egípcia. A inundação anual do Nilo coincidia com o aparecimento, antes da alvorada, no horizonte oriental, de Sirius, a mais brilhante estrela; esse nascimento helíaco de Sirius serviria, no Período Pré-Dinástico, para marcar o início do ano, cuja duração, de 354 dias, se dividia em 12 meses de 29 ou 30 dias, vinculados, assim, às fases da Lua; um mês adicional era acrescentado a cada três ou dois anos. Os egípcios, quando sedentários e agricultores, abandonariam os cálculos baseados na Lua e passariam a se guiar pelo Sol, ou seja, pelas estações, período entre um solstício de verão (Hemisfério Norte) e o seguinte, que corresponde a 365 dias. Os 12 meses estavam agrupados em três estações – Inundação, Germinação dos Campos e Colheita – de 4 meses cada. Tal Calendário civil (solar) teria sido adotado entre 2937 e 2820; porém, após dois séculos, já acumulava um erro de 50 dias. Em vez de proceder à correção do erro, os egípcios criaram outro Calendário lunar para ser usado junto com o solar. Desta forma, por volta de 2600, três calendários estavam em uso: o lunar original, baseado no nascimento helíaco de Sirius, o civil ou solar, de 365 dias, e o novo lunar.

Os egípcios foram os primeiros a dividir o dia (período entre um nascer do Sol e outro) em dois períodos iguais de 12 horas, cuja duração foi uniformizada. A escolha das 12 horas noturnas corresponde ao movimento das estrelas pelo Céu, desde seu nascimento, à noite, até seu desaparecimento, pela manhã; as doze horas do dia correspondem às dez horas entre o nascer e o pôr do sol, mais uma para a alvorada e mais outra para o crepúsculo vespertino. Do exposto, depreende-se ser a observação dos astros e estrelas limitada à  fixação de datas e horas para  fins religiosos e agrícolas, sem qualquer outra pretensão. Durante o dia, as horas eram medidas pelo relógio do sol (ou da sombra), dispondo, ainda, os egípcios, de um relógio de água ou clepsidra.

A Astrologia era desconhecida no Egito Antigo, tendo sido divulgada e praticada apenas a partir do Período Helenístico. Os instrumentos usados pelos sacerdotes egípcios eram aqueles utilizados por outros povos na Antiguidade: o gnômon, os círculos e os meios círculos para se achar a distância dos corpos celestes acima do horizonte e ao longo da eclíptica, a esfera armilar e os relógios de água.

Medicina

Os principais papiros que tratam de Medicina são em número de quatro: o Papiro Ebers (XVIII dinastia), descoberto em 1875, é um repositório de receitas, inclusive com encantamentos por magos; o Papiro Kahun (XII dinastia), descoberto em 1898, é muito curto, preciso e sóbrio; o Papiro de Berlim (XIX dinastia), descoberto em 1909, relaciona uma série de receitas; o Papiro Smith (XVIII dinastia), descoberto em 1930, expõe alguns casos cirúrgicos.

Sabe-se, pelo Papiro médico Ebers, que existiam três espécies de práticos em Medicina: o sinu ou seunu, que é o médico prático, com algum conhecimento empírico; o sacerdote, que, sob a inspiração da divindade, praticava uma medicina de caráter religioso (para os egípcios, e muitos outros povos da Antiguidade, a doença era de origem sobrenatural); e o feiticeiro ou mago, que se utilizava da magia para curar o paciente[13]. Apesar da prática milenar do embalsamamento, o conhecimento da Anatomia humana era elementar: desconheciam os rins e acreditavam ser o coração a sede do sangue, das lágrimas, do esperma e da urina. O tratamento médico se baseava em fórmulas mágicas, amuletos, poções, pomadas, ervas, em um total empirismo que não contribuía para o desenvolvimento da pesquisa. A Farmacopeia utilizava substâncias vegetais (árvores e plantas domésticas, frutas, cereais e ervas comestíveis e perfumadas), animais (carnes, gorduras, leite, mel) e minerais (arsênico, cobre, alabastro, galena). A cirurgia, particularmente a dentária (drenagem de abscessos, obturações), já era empregada desde a IV Dinastia. Como em outros ofícios, a prática médica passava de pai para  filho, sem haver escola de medicina, mas uma “casa da vida” na qual o jovem prático podia adquirir conhecimento adicional. Como em outras culturas da época, os práticos de Medicina, principalmente os sacerdotes-médicos, gozavam de grande prestígio na comunidade, em geral, e na corte, em particular. O personagem mais ilustre, reverenciado como herói, é Imhotep, que, além de médico, teria sido, igualmente, astrônomo e arquiteto (construtor das primeiras pirâmides, em Saqqara).

Química

O povo egípcio, como outros da Antiguidade, soube desenvolver e aperfeiçoar técnicas no aproveitamento de metais, resinas e óleos vegetais e animais. Ainda que o solo e subsolo fossem extremamente pobres em minérios, os egípcios foram capazes de trabalhar o ferro, provavelmente de origem de meteorito, desde 800 a.e.c., assim como o cobre, o bronze, o estanho e o chumbo, provenientes de regiões vizinhas. Os egípcios sabiam, ainda, fabricar objetos de vidro e de cerâmica, além de corantes, cosméticos e perfumes. A técnica da fermentação era conhecida, como atesta a fabricação da cerveja.

Muito pouco ou quase nada se sabe sobre o conhecimento dos egípcios antigos a respeito de outras disciplinas, como Mineralogia, Botânica, Zoologia e Física, apesar de que em suas atividades diárias deverão ter tido oportunidades de atentar para as particularidades e as qualidades dos objetos, materiais, elementos e seres sob observação. Não há documentos, nem papiros a respeito desses assuntos, inclusive sobre a fabricação de perfumes, corantes, cosméticos, e metalurgia.

Em conclusão, o Egito antigo foi, antes de tudo, uma teocracia hierarquizada, na qual a religião dominava todas as facetas de uma vida terrena, transitória, para a preparação da vida após a morte. Todos os recursos materiais e intelectuais estavam a serviço do Faraó; a casta sacerdotal monopolizava o conhecimento. O trabalho manual era o único permitido a uma população dominada pelos preconceitos e superstições. A técnica adquirida resultara de laboriosa acumulação de experiência, sem qualquer teorização. A pesquisa e a análise não eram usadas, ou conhecidas; a observação, superficial, era inconsequente, e o conhecimento, empírico. Esse ambiente hostil à reflexão não foi conducente à criação científica.

A numeração, a Aritmética e a Geometria permaneceram rudimentares; a observação da abóbada celeste serviu para criar calendário e  fixar datas para festejos religiosos; a cura de doenças, de origem sobrenatural, dependia de uma Medicina primitiva, exercida por magos, sacerdotes e práticos.

Do ponto de vista da História da Ciência, a contribuição da civilização egípcia foi inexpressiva, bastante modesta, se bem que tenham sido incontestáveis os avanços no campo da Técnica.

 

História - Civilização Egípcia
7/4/2020 4:41:18 PM | Por Calvin Springer Hall
Livre
A Teoria do Constructo Pessoal de George Kelly

As ciências mais antigas da física e da química com freqüência influenciaram o curso de ciências mais novas, como a psicologia, fornecendo-lhes maneiras de conceber e pensar sobre os fenômenos naturais. À medida que novos pontos de vista se desenvolvem na física e na química, é quase inevitável, considerando a unidade básica de todas as ciências, que eles sejam absorvidos pelas ciências menos maduras e aplicados em suas áreas especiais. Não surpreende, portanto, que o conceito de campo da física, iniciado pelo tra­ balho de Faraday, Maxwell e Hertz sobre campos eletromagnéticos no século XIX e culminando na po­derosa teoria de Einstein da relatividade no século XX, tenha tido um impacto sobre o pensamento psi­cológico moderno.

A primeira manifestação importante da influên­cia da teoria física de campo sobre a psicologia apare­ceu no movimento conhecido como psicologia da Gestalt, iniciado por três psicólogos alemães, Max Wertheimer, Wolfgang Kõhler e Kurt Koffka, nos anos imediatamente precedentes à Primeira Guerra Mun­dial. O princípio mais importante da psicologia da Gestalt é que o comportamento é determinado pelo campo psicofísico, que consiste em um sistema orga­nizado de pressões ou tensões (forças) análogas a um campo gravitacional ou eletromagnético. A nossa maneira de perceber um objeto, por exemplo, é de­terminada pelo campo total em que o objeto está in­ serido.

Embora a psicologia da Gestalt seja uma teoria psicológica geral, ela se ocupa primariamente da per­cepção, da aprendizagem e do pensamento, e não da personalidade. Mas Kurt Lewin criou uma teoria de campo da personalidade (1935, 1936, 1951). Apesar de profundamente influenciado pela psicologia da Ges­talt e também pela psicanálise, sua teoria é uma for­mulação inteiramente original. Nós começaremos con­siderando brevemente a teoria de Lewin da persona­lidade, e depois trataremos de George Kelly, cuja teo­ria é o foco do capítulo.

Kurt Lewin

Kurt Lewin nasceu em 9 de setembro de 1890, em uma pequena vila na província prussiana de Posen. O segundo de quatro filhos, seu pai possuía e adminis­trava um loja que vendia todo tipo de mercadorias. A família mudou-se para Berlim em 1905, onde Lewin completou o ensino secundário. Ele então ingressou na Universidade de Freiburg, pretendendo estudar me­dicina, mas logo desistiu da idéia e, depois de um semestre na Universidade de Munique, voltou a Berlim em 1910 para estudar psicologia na universidade de lá. Ele foi aluno de Carl Stumpf, um psicólogo experimental extremamente respeitado. Depois de obter seu doutorado em 1914, Lewin serviu no exército alemão quatro anos na infantaria, passando de soldado para tenente. No final da guerra, ele voltou à Universidade de Berlim como instrutor e assistente de pesquisa no Instituto Psicológico. Max Wertheimer e Wolfgang Köhler, dois dos três fundadores da psicologia da Gestalt, também estavam na Universidade de Berlim na época. Em 1926, Lewin foi promovido a professor. Durante sua permanência na Universidade se Berlim, Lewin e seus alunos publicaram uma série de brilhantes artigos experimentais e teóricos.

Quando Hitler subiu ao poder, Lewin trabalhava como professor-visitante na Universidade de Stanford. Ele voltou à Alemanha para encerrar seus negócios e depois retornou aos Estados Unidos, onde residiu pelo restante de sua vida. Ele lecionou psicologia da criança na Universidade de Cornell por dois anos (1933-1935), antes de ser chamado pela Universidade Estadual de Iowa como professor de psicologia na Child welfare Station. Em 1945, Lewin aceitou o cargo de professor e diretor do Research Center for Group Dynamics no Instituto deTecnologia de Massachusetts. Na mesma época, ele se tornou diretor da Commission of community interrelations of american jewish congress engajando-se na pesquisa de problemas da comunidade. Ele morreu de ataque cardíaco, subitamente, em Newtonville, Massachusetts, em 12 de fevereiro de 1947, aos 56 anos de idade.

As principais características da teoria de campo de Lewin podem ser resumidas conforme segue: (1) o comportamento é uma função do campo que existe no momento em que ocorre o comportamento, (2) a análise começa com a situação como um todo, a par­tir do qual as partes componentes são diferenciadas, e (3) a pessoa concreta em uma situação concreta pode ser representada matematicamente. Lewin também enfatizou forças subjacentes (necessidades) como de­terminantes do comportamento, e expressou uma pre­ferência por descrições psicológicas, não físicas ou fi­siológicas, do campo. Um campo é definido como “a totalidade de fatos coexistentes que são concebidos como mutuamente interdependentes” (Lewin, 1951, p. 240).

A estrutura da personalidade

O primeiro passo para definir a pessoa como um con­ceito estrutural é representá-la como uma entidade separada de tudo o mais no mundo. Essa separação pode ser feita em palavras, como em uma definição de dicionário, ou por uma representação espacial da pessoa. Já que as representações espaciais podem ser tratadas matematicamente e as definições verbais não, Lewin preferiu definir espacialmente os seus conceitos estruturais. Dessa maneira, ele tentou matematizar seus conceitos desde o início.

A separação da pessoa do resto do universo é rea­lizada desenhando-se uma figura fechada. As frontei­ras da figura definem os limites da entidade conheci­da como a pessoa. Tudo o que está dentro das fronteiras é P (a pessoa); tudo o que está fora das fronteiras é não-P.

O passo seguinte na representação da realidade psicológica é desenhar uma outra forma e o tamanho dessa figura circundante não são importantes uma vez que ela preenche as duas condições: ser maior do que a pessoa e circundá-la. Para essa representação, Lewin preferia uma figura de forma levemente elíptica.Tam­bém é necessária uma outra qualificação. A nova fi­gura não pode compartilhar qualquer parte da fron­teira do círculo que representa a pessoa. Deve haver um espaço entre a fronteira da pessoa e a fronteira da figura maior. Com exceção dessa restrição, o círculo pode ser colocado em qualquer lugar dentro da elip­se. Os tamanhos relativos das duas formas não são importantes. [319] 

Nós agora temos o desenho de um círculo circun­dado por uma elipse que não chega a tocar nele (Fi­gura 10.1). A região entre os dois perímetros é o am­biente psicológico, A. A área total dentro da elipse, incluindo o círculo é o espaço de vida, V. O espaço dentro da elipse representa os aspectos não-psicológico do universo. Por uma questão de conveniência, chamaremos essa região de mundo fisico. No mundo não-psicológico, por exemplo, também existem fatos sociais.

O Espaço de Vida

Embora nós tenhamos começado com a pessoa e de­ pois tenhamos a cercado com um ambiente psicológi­co, estaria mais de acordo com a regra de Lewin de ir do geral para o particular se tivéssemos começado com o espaço de vida e diferenciado-o da pessoa e do am­biente. Com efeito, o espaço de vida é o universo do psicólogo; é o todo da realidade psicológica. Ele con­tém a totalidade de fatos possíveis capazes de deter­minar o comportamento de um indivíduo. Ele inclui tudo o que precisa ser conhecido para se compreen­der o comportamento concreto de um determinado ser humano em um ambiente psicológico específico em dado momento. O comportamento é uma função do espaço de vida, C=f(V): A tarefa da psicologia dinamica é derivar inequivocamente o comportamento de um determinado indivíduo da totalidade dos fatos psicológicos que existem no espaço de vida em um dado momento” (Lewin, 1936).

O fato de o espaço de vida ser cercado pelo mun­do físico não significa que ele seja uma parte do mun­do físico. O espaço de vida e o espaço além dele são regiões diferenciadas e separadas de uma totalidade maior. A possibilidade dessa totalidade maior, o uni­verso, ser finita ou infinita, caos ou cosmos, não preocupa a psicologia, exceto em um aspecto muito im­portante. Os fatos que existem na região externa - adjacente à fronteira do espaço de vida, uma região que Lewin chama de “o invólucro exterior do espaço de vida”, podem influenciar materialmente o ambien­te psicológico. Isto é, os fatos não-psicológicos podem alterar e realmente alteram os fatos psicológicos. Lewin sugeriu chamar o estudo dos fatos no invólucro exte­rior de “ecologia psicológica” (1951, Capítulo VIII). O primeiro passo em uma investigação psicológica é es­tabelecer a natureza dos fatos que existem na frontei­ra do espaço de vida, uma vez que eles ajudam a de­terminar o que é e o que não é possível, o que pode ou não acontecer no espaço de vida.

Os fatos no ambiente psicológico também podem produzir mudanças no mundo físico. Existe uma co­municação bidirecional entre as duas esferas. Conse­qüentemente, dizemos que a fronteira entre o espaço de vida e o mundo externo tem a propriedade de permeabilidade. As implicações de uma fronteira perme­ável entre o espaço de vida e o mundo físico são de extrema importância. Uma vez que um fato no mun­do não-psicológico pode mudar radicalmente todo o curso de eventos no espaço de vida, a predição ape­nas a partir de leis psicológicas geralmente é ineficaz .Nunca podemos ter certeza, antecipadamente, de que um fato do invólucro exterior não vai penetrar na fron­teira do espaço de vida e virar tudo de pernas para o ar no ambiente psicológico. Um encontro casual um telefonema inesperado ou um acidente de automóvel podem mudar o curso de vida de uma pessoa. Portan­to, como Lewin enfatiza, é melhor o psicólogo tentar compreender a situação psicológica momentânea concreta, descrevendo-a e explicando-a em termos teóricos de campo do que tentando predizer como uma pessoa vai-se comportar em um momento futuro.

Uma outra propriedade do espaço de vida deve ser destacada. Embora a pessoa esteja cercada pelo [320] ambiente psicológico, ela não é parte dele, nem está incluída nele. Entretanto, a fronteira entre a pessoa e o ambiente também é uma fronteira permeável. Isso significa que os fatos ambientais podem influenciar a pessoa P=f(A) e que os fatos pessoais podem influenciar o ambiente, A=f(P). Antes de examinar a natureza dessa influência. precisamos fazer uma outra diferenciação dentro da estrutura da pessoa e do ambiente.

Diferenciação

Até este ponto, a pessoa foi representada como um vazio. A representação seria apropriada se a pesca fosse uma unidade perfeita, o que ela não é. Lewin afirmava que a estrutura da pessoa é hetorogênea, não homogênea, que ela está subdividida em partes separadas, mas intercomunicantes. Para representar essa situação, a área dentro do círculo é dividida em zonas.

O procedimento é o seguinte. Primeiro, dividir a pessoa em duas partes, desenhando um círculo concêntrico dentro do círculo maior. A parte externa representa a região perceptual-motora (P-M), a parte central representa a região intrapessoal. A região intrapessoal está completamente cercada pela área perceptual-motora, de modo que ela não tem nenhum contato direto com a fronteira que separa a pessoa do ambiente. O segundo passo é dividir a região intrapessoal em células (Figura 10.2). As céculas adjacentes à região perceptual-motora são chamadas de célu­las periféricas, p; as que estão no centro do círculo são chamadas de células centrais, c.

Em essência, a pessoa é definida como uma re­gião diferenciada no espaço de vida. Agora vamos examinar o ambiente psicológico. Um ambiente ho­mogêneo ou indiferenciado é aquele em que todos os fatos são igualmente influentes sobre a pessoa. Nesse ambiente, a pessoa teria perfeita liberdade de movi­mento, uma vez que não haveria nenhuma barreira para impedi-la. Essa completa liberdade de movimento obviamente não representa o verdadeiro estado de coisas. Portanto, é necessário subdividir o ambiente em regiões parciais (ver Figura 10.3, p. 322).

Existe uma diferença entre a diferenciação do ambiente e a diferenciação da pessoa. Não é necessá­ rio distinguir tipos diferentes de regiões ambientais. Oambientenãocontémnadacomparávelaumaca­ mada perceptual-motora ou a uma esfera intrapesso­ al. Todas as regiões do ambiente são semelhantes. Mas devemos salientar que, na representação concreta de uma pessoa específica, em uma situação psicológica concreta e em um determinado momento, devem ser conhecidos o número exato e as posições relativas das sub-regiões ambientais, bem como o número exato e as posições relativas da esfera intrapessoal, se quiser­mos compreender o comportamento. Uma análise es­trutural completa e acurada revela a totalidade dos fatos psicológicos possíveis na situação momentânea. Uma análise dinâmica, o tópico da próxima seção deste capítulo, nos diz quais dos fatos possíveis vão real­mente determinar o comportamento.

Conexões entre as Regiões

O espaço de vida está agora representado por uma pessoa diferenciada cercada por um ambiente dife­renciado. Tal diferenciação foi feita desenhando-se li­nhas que servem como fronteiras entre as regiões. Mas não pretendemos que essas fronteiras representem barreiras impenetráveis que dividem a pessoa e o ambiente em regiões independentes e desconectadas.

A permeabilidade, como já salientamos, é uma das propriedades de uma fronteira. Sendo assim, o espa­ço de vida consiste em uma rede de sistemas interconectados.

Figura 10.3O que queremos dizer com regiões conectadas? Para responder a esta pergunta, vamos supor que cada uma das sub-regiões do ambiente contém um fato psicológico, e que o mesmo fato não aparece em mais de uma região ao mesmo tempo. (O uso que Lewin faz da palavra fato neste contexto pode soar estranho para alguns ouvidos. Um fato, para Lewin, não é ape­nas alguma coisa observável como uma cadeira ou um jogo de futebol; é também alguma coisa que tal­vez não seja diretamente observável, mas que pode ser inferida a partir de algo observável. Em outras palavras, existem fatos empíricos e fenomenais e fa­tos hipotéticos ou dinâmicos. Qualquer coisa, quer sentida quer inferida, é um fato aos olhos de Lewin. Um evento, por outro lado, é o resultado da interação de vários fatos. Uma cadeira e uma pessoa são fatos, mas uma pessoa sentando-se em uma cadeira é um evento. Dizemos que duas regiões estão conectadas quando um fato em uma região está em comunicação com um fato em outra região. Por exemplo, dizemos que uma pessoa está conectada com o ambiente por­ que um fato contido nele pode alterar, modificar, des­locar, intensificar ou minimizar os fatos dentro da pes­soa. Em linguagem comum, o ambiente pode mudar a pessoa e vice-versa. Lewin também diz que duas regiões estão conectadas quando os fatos de uma re­gião são acessíveis aos fatos de outra região. A acessibilidade é o equivalente espacial da influência.

O nosso problema imediato, então, é como repre­sentar a extensão da influência ou a acessibilidade entre as regiões. Há várias maneiras de fazer isso. Uma delas é colocar as regiões próximas quando a influên­cia de uma sobre a outra é grande, e colocá-las sepa­radas quando a influência é fraca. A influência dimi­nui à medida que o número de regiões interveniente; diminui. Esse tipo de representação pode ser chama­do de dimensão proximidade-distância.

Duas regiões podem estar muito próximas, inclu­sive compartilhar uma fronteira comum, e, no entan­to, não influenciar ou ser acessível uma à outra. O grau de conexão ou interdependência não é apenas uma questão do número de fronteiras que precisa ser cruzado; mas também depende da força da resistên­cia oferecida pela fronteira. A resistência de uma fron­teira, ou sua permeabilidade, é representada pela lar­gura da linha da fronteira. Uma linha muito fina representa uma fronteira frágil; uma linha grossa re­presenta uma fronteira impermeável. Esse tipo de re­presentação pode ser chamado de dimensão firmeza-fragilidade.

Uma terceira maneira de representar as interconexões entre as regiões é levar em conta a natureza do meio de uma região. O meio de uma região é a qualidade de sua superfície. Lewin distinguiu várias propriedades do meio, a mais importante das quais é a dimensão de fluidez-rigidez.Um meio fluido é aque­le que responde rapidamente a qualquer influência agindo sobre ele. É flexível e maleável. Um meio rígi­do resiste à mudança. É duro e inelástico. Duas [323] regiões que estão separadas uma da outra por uma região cuja qualidade de superfície é extremamente rígida não poderão comunicar-se. É semelhante a uma pessoa tentando cruzar um pântano ou atravessar uma mata cerrada.

Utilizando os conceitos de proximidade-distância, firmeza-fragilidade e fluidez-rigidez, podemos representar a maioria das conexões possíveis no espaço de vida.

Figura 10.4Esses mesmos conceitos se aplicam também à pessoa. Por exemplo, uma pessoa inacessível está firmemente separada do ambiente por uma parede grossa. A Figura 10.4 retrata uma pessoa complexamente estruturada. As células p1 e p2 estão estreitamente conectadas, enquanto p2 e p3 estão separadas uma da outra por uma fronteira impermeável. A região c tem pouca ou nenhuma acessibilidade a qualquer outra região. É como se essa área estivesse dissociada do restante da pessoa. A célula quadriculada é impenetrável à influência devido à qualidade de sua superfície, enquanto a área cinzenta é facilmente influenciada. A região p4 está remotamente conectada com p1, p2 e p3. A Figura 10.5 retrata um ambiente psicológico complexamente estruturado

Devemos lembrar que esses desenhos represen­tam situações momentâneas. Não existe nada de fixo ou estático neles, que mudam constantemente em re­sultado de forças dinâmicas. Não podemos caracteri­zar a pessoa como sendo de uma determinada manei­ra por um longo período de tempo. Uma fronteira firme pode dissolver-se subitamente, uma fronteira frágil pode enrijecer-se. As regiões distantes podem aproximar-se. Um meio rígido se suaviza, enquanto um meio flexível endurece. Mesmo o número de regi­ões pode aumentar ou diminuir de momento a mo­mento. Conseqüentemente, as representações espaci­ais estão continuamente tornando-se obsoletas, porque a realidade psicológica está sempre mudando. Lewin não se interessava muito por traços fixos, hábitos rígi­dos ou outras constantes da personalidade. Os con­ceitos desse tipo são característicos do pensamento aristotélico que Lewin deplorava (1935, Capítulo 1).

O Número de Regiões

Figura 10.5O número de regiões no espaço de vida é determina­ do pelo número de fatos psicológicos separados que existem em um dado momento do tempo. Quando há apenas dois fatos, a pessoa e o ambiente, existem ape­nas duas regiões no espaço de vida. Se o ambiente contém dois fatos, por exemplo, o fato do jogar e o fato do trabalhar, então o ambiente tem de ser dividi­do em uma área de jogar e em uma área de trabalhar. Se existem vários tipos diferentes de fatos de jogar, por exemplo, o fato de jogar futebol, o fato de jogar xadrez e o fato de jogar dardos, então a área de jogar deve ser dividida em tantas sub-regiões quantos são os fatos de jogar. Da mesma forma, pode haver dife­rentes tipos de fatos de trabalho, cada um dos quais deve ter sua região separada. O número de regiões na pessoa também é determinado pelo número de fatos pessoais existentes. Se só existe o fato de sentir fome, a esfera intrapessoal consistirá apenas em uma região. Mas, se, além do fato da fome, também existir a ne­ cessidade de terminar um determinado trabalho, a região intrapessoal tem de ser dividida em duas regiões. Como veremos mais adiante, os principais fatos da região intrapessoal são chamados de necessidades, enquanto os fatos do ambiente psicológico são cha­mados de valências. Cada necessidade ocupa uma célula separada na região intrapessoal e cada valência ocupa uma região separada no ambiente psicológico.

A Pessoa no Ambiente

Anteriormente, quando discutimos a colocação da pessoa no ambiente, dissemos que não fazia diferen­ça onde o círculo era colocado dentro da elipse desde que suas duas fronteiras não se tocassem. Isso vale apenas para um ambiente indiferenciado, homogêneo, onde todos os fatos estão na mesma região, isto é, onde todos os fatos são idênticos. Assim que o ambi­ente se diferencia em regiões separadas por frontei­ras, o lugar onde colocamos o círculo faz uma consi­derável diferença. Em qualquer região que o coloquemos, os fatos dessa região estão mais próximos da pessoa e têm maior influência sobre ela do que os fatos de qualquer outra região. O entendimen­to de uma situação psicológica concreta requer, por­tanto, que saibamos onde a pessoa está em seu ambi­ente psicológico. Fisicamente a pessoa pode estar sentada em uma sala de aula, mas, psicologicamente, estar jogando beisebol no playground. Alguns fatos que existem na sala de aula, como aquilo que a professora esta falando, podem não causar nenhum efeito sobre um garoto, ao passo que um bilhete da menina da mesa ao lado pode facilmente desviar seu pensamento do jogo de beisebol.

A maneira como as regiões que constituem o espaço de vida estão interconectadas representa o grau de influência ou acessibilidade entre as regiões. Exatamente como se expressa essa influência ou acessibilidade? No exemplo anterior do garoto que é acessível ao bilhete da menina, mas é inacessível ao que a professora está dizendo, acessibilidade significa que o menino pode passar mais facilmente para a região da menina do que para a região da professora. Quando a menina realiza a ação de passar um bilhete para o menino, ele pode sair da região do beisebol e entrar na região dela. Ele fez o que Lewin chama de locomoção. As duas regiões estão estreitamente conenectadas, acessíveis uma à outra e mutuamente influentes se locomoções podem ser feitas facilmente entre ela. 

Uma locomoção no ambiente psicológico não significa que a pessoa tenha de fazer um movimento físico através do espaço; de fato, a maioria das locomoções que interessam à psicologia envolve muito pouco movimento físico. Existem locomoções sociais como juntar-se a um clube, locomoções profissionais como ser promovido, locomoções intelectuais como resolver um problema, e muitos outros tipos. Nós vemos agora que uma proprieda de importante do ambiente psicológico é ele ser uma região em que a locomoção é possível. "Podemos tratar todas as coisas como um ambiente no qual, rumo ao qual ou para longe do qual a pessoa, como um todo, pode realizar locomoções” (Lewin, 1936, p. 167). Ao realizar uma locomoção, a pessoa segue por um caminho através do ambiente. A direção do caminho e as regiões através das quais ele passa são determinadas em parte pela força das fronteiras e pela fluidez das regiões, em parte, por fatores dinâmicos que serão discutidos mais adiante.
Vamos examinar agora alguns conceitos dinâmi­cos de Lewin que, tomados juntos, constituem o que ele chama de psicologia de vetor.

A Dinâmica da Personalidade

Uma representação estrutural do espaço de vida é como um mapa de estrada. Um bom mapa de estrada contém todas as informações necessárias para plane­jarmos qualquer tipo de viagem, exatamente como uma boa representação estrutural de pessoas e de seu ambiente contém todos os fatos necessários para ex­plicarmos qualquer tipo possível de comportamento. Mas assim como um mapa de estrada não pode nos dizer que viagem a pessoa vai querer fazer, um qua­dro detalhado do espaço de vida também não nos dira como a pessoa vai-se comportar. Os conceitos estru­turais ou tipológicos sozinhos não conseguem explicar o comportamento concreto em uma situação psi­cológica real. Para esse tipo de entendimento precisamos de conceitos dinâmicos. Os principais con­ceitos dinâmicos de Lewin são energia, tensão, neces­sidade, valência e força ou vetor.

Energia

Lewin, como a maioria dos teóricos da personalidade, supõe que a pessoa é um sistema complexo de energia. O tipo de energia que realiza o trabalho psi­cológico é chamado de energia psíquica. Uma vez que a teoria de Lewin tem um caráter exclusivamente psicológico, não é necessário que ele trate da questão da relação da energia psíquica com outros tipos de energia. A energia psíquica é liberada quando o sistema psíquico (a pessoa) tenta voltar ao equilíbrio depois de ter sido arremessado a um estado de desequilíbrio. O desequilíbrio por um aumento da tensão em uma parte do sistema relativo ao restante do sistema, como resultado de estimulação externa ou de mudança interna. Quando a tensão em todo o sistema fica novamente equilibrada, a saída de energia é interrompida e o sistema total entra em repouso.

Tensão

A tensão é um estado da pessoa ou, falando mais precisamente, é um estado de uma região intrapessoal relativo a outras regiões intrapessoais. Quando Lewin se referiu às propriedades dinâmicas de uma região ou célula da esfera intrapessoal, ele chamou a região de sistema. 

A tensão em um determinado sistema tende a igualar-se à quantidade de tensão em sistemas circundan­tes (cf. o princípio de entropia de Carl Jung). Os meios psicológicos pelos quais a tensão se equaliza sao chamados de processos. Um processo pode ser pensar, lembrar, sentir, perceber, agir ou algo parecido. Por semplo, uma pessoa que se depara com a tarefa de resolver um problema fica tensa em um de seus sistemas. Para resolver o problema e assim reduzir a ten­são, ela se empenha no processo de pensar. O proces­so de pensar continua até ser encontrada uma solução satisfatória, momento em que a pessoa retorna a um estado de equilíbrio. Quando a intenção pode ser lem­brar um nome, o processo de memória entra em ação, lembra o nome e faz com que a tensão desapareça.

Necessidade

O aumento de tensão ou a liberação de energia em uma região intrapessoal é causado pelo surgimento de uma necessidade. Uma necessidade pode ser uma condição fisiológica, como fome, sede ou sexo; pode ser um desejo de alguma coisa, como um emprego ou um cônjuge; ou pode ser uma intenção de fazer algu­ma coisa, como concluir uma tarefa ou cumprir um compromisso. Uma necessidade é, portanto, um con­ceito motivacional e equivale a termos como motivo, desejo, pulsão e impulso. 

Lewin evitou sistematicamente discutir a natureza, a fonte, o número e os tipos de necessidades, por­ que ele não estava nem um pouco satisfeito Ele achava que o termo necessidade acabaria sendo trocado na psicologia por um conceito mais adequado, mais observável e mensurável. Ele também não achava importante fazer uma lista de necessidades, como tantos psicólogos fazem. Em primeiro lugar, a lista seria quase infinitamente longa e, em se­gundo lugar, o único elemento que realmente importa na descrição da realidade psicológica é representar aquelas necessidades que realmente existem na ação momentânea. Elas são as únicas necessidades que estão produzindo efeitos. Em um nível abstrato podemos dizer que todo mundo pode sentir fome, mas só quando a pulsão de fome está realmente perturbando o equilíbrio da pessoa é que ela precisa ser levada em conta.

Lewin também distinguiu as necessicades das quase-necessidades. Uma necessidade se deve a um estado interno, como a fome, enquanto uma quase necessidade é equivalente a uma intenção específica como satisfazer a fome, comendo em um determinado restaurante. Lewin achava que as necessidades de uma pessoa são determinadas em grande estensa pelos fatores sociais (1951, p. 289).

Tensão e Ação Motora

Até o momento, nos preocupamos principalmente com a dinâmica interna dos sistemas de tensão, isto é, com a interdependência e a comunicação dinâmica entre sistemas. Qual é a relação da tensão com a ação? Po­deríamos conjecturar que a energia fluindo de uma região intrapessoal para a motora resultaria direta­mente em uma locomoção psicológica. Mas Lewin re­jeitou essa idéia. A tensão, pressionando sobre a fron­teira exterior da pessoa, não pode causar uma loco­moção. Portanto, em vez de ligar a necessidade ou a tensão diretamente à ação por meio da ação motora, ele ligou a necessidade a certas propriedades do am­biente que então determinam o tipo de locomoção que vai ocorrer. Essa é uma maneira muito engenhosa de conectar a motivação ao comportamento. Dois conceitos adicionais são necessários para tal propósito: valência e força.

Valência

A valência é a propriedade conceitual de uma região do ambiente psicológico. É o valor daquela região para a pessoa. Existem dois tipos de valor: positivo e nega­tivo. Uma região de valor positivo é aquela que con­tém um objeto-meta que reduzirá a tensão quando a pessoa entrar na região. Por exemplo, uma região que contenha comida terá uma valência positiva para uma pessoa que está com fome. Uma região de valor nega­tivo é aquela que vai aumentar a tensão. Para uma pessoa que tem medo de cachorros, qualquer região que contenha um cachorro terá uma valência negati­va. As valências positivas atraem, as valências negati­vas repelem.

Uma valência está coordenada com uma necessi­dade. Isso significa que o fato de uma determinada região do ambiente ter um valor positivo ou negativo depende diretamente de um sistema em um estado de tensão. As necessidades conferem valores ao am­biente. Elas organizam o ambiente em uma rede de regiões convidativas e repelentes. Mas a rede de va­lências também depende de fatores exteriores que fo­gem do escopo das leis psicológicas. A presença ou a ausência dos objetos dos quais precisamos obviamen­te desempenha um papel importante na estruturação do ambiente psicológico. O fato de a comida estar pre­sente e ser reconhecível, que tipo de comida ela é e em que quantidade, sua disponibilidade, e sua proxi­midade em relação a objetos que possuem valência negativa, todos esses são fatores não-psicológicos que influenciam a valência de uma região para uma pes­soa que está com fome.

Uma valência é uma quantidade variável: ela pode ser fraca, média ou forte. A força de uma valência depende da força da necessidade mais todos os fato­res não-psicológicos mencionados antes.

Uma valência não é uma força. Ela dirige a pes­soa através de seu ambiente psicológico, mas não pro­porciona a força motivadora para a locomoção. Como já vimos, um sistema em um estado de tensão tam­bém não produz uma locomoção. Precisamos de um outro conceito, que é o conceito de força ou vetor.

Força ou Vetor

Ocorre uma locomoção sempre que uma força de po­tência suficiente age sobre a pessoa. Uma força está coordenada com uma necessidade, mas não é uma tensão. A força existe no ambiente psicológico, en­quanto a tensão é uma propriedade de um sistema intrapessoal. As propriedades conceituais da força são direção, potência e ponto de aplicação. Essas três proprieda­des são representadas matematicamente por um ve­tor. A direção para a qual esse vetor aponta represen­ta a direção da força, o comprimento do vetor representa a potência da força, e o lugar onde a ponta da flecha se insere na fronteira externa da pessoa re­presenta o ponto de aplicação. Um vetor é sempre desenhado no lado de fora da pessoa e nunca dentro, porque as forças psicológicas são propriedades do ambiente, e não da pessoa.

Figura 10.6Se existe apenas um vetor (força) agindo sobre uma pessoa, haverá uma locomoção ou uma tendên­cia a mover-se na direção do vetor. Se dois ou mais vetores estão empurrando a pessoa em várias dire­ções diferentes, a locomoção conseqüente será o re­sultante de todas as forças.
Agora podemos ver a relação da valência com o vetor. Uma região que possui uma valência positiva é uma região em que as forças que agem sobre a pessoa estão dirigidas para essa região. Uma região de valên­cia negativa é aquela em que os vetores estão apon­tando na direção oposta. Em outras palavras, a dire­ção de um vetor é diretamente determinada pela  realização de uma região com valência positiva ou jatíva. A potência de um vetor está relacionada à pccència de uma valência, à distância psicológica entre a pessoa e a valência, e à potência relativa de outras valências.

Podemos observar, entre parênteses, que o conceito de necessidade é o único conceito com o qual todos os outros constructos dinâmicos estão coordenados. Uma necessidade libera energia, aumenta a tensão, confere valor e cria força. E o conceito central central ou nuclear de Lewin, em torno do qual se agrupam todos os outros conceitos.

Locomoção

Agora estamos em posição de representar o caminho específico que uma pessoa fará ao mover-se através ae seu ambiente psicológico. Por exemplo, uma criança passa diante de uma confeitaria, olha a vitrine e fica com vontade de comer um doce. A visão do doce desperta uma necessidade, e essa necessidade dá início a três estados. Ela libera energia e, então, desperta tensão em uma região intrapessoal (o sistema que
quer o doce). Ela confere uma valência positiva à re­gião em que o doce está localizado. Ela cria uma força que empurra a criança na direção do doce.

Figura 10.7Digamos que a criança tem de entrar na confeita­ria e comprar o doce. Essa situação está representada na Figura 10.6 (ver acima). Mas suponhamos que a criança não tem dinheiro; então a fronteira entre ela e o doce será uma barreira intransponível. Ela vai-se aproximar o máximo possível do doce, talvez encos­tando o nariz no vidro, sem conseguir alcançá-lo (Fi­gura 10.7).

Ela pode dizer a si mesma: “Se eu tivesse dinhei­ro, poderia comprar um doce. Talvez a mamãe me dê algum dinheiro.” Em outras palavras, é criada uma nova necessidade ou quase-necessidade, a intenção de conseguir algum dinheiro com a mãe. Essa inten­ção, por sua vez, desperta uma tensão, um vetor, e uma valência que estão representados na Figura 10.8. Foi desenhada uma estreita fronteira en­tre a criança e a mãe, a partir da suposição de que ela precisa ir para casa, encontrar a mãe e pedir-lhe di­nheiro. Uma outra fronteira foi desenhada entre a mãe e o doce para representar o esforço necessário para voltar à confeitaria e fazer a compra. A criança vai ao doce por intermédio da mãe.

Se a mãe se recusar a dar dinheiro à criança, ela pode pensar em pedir emprestado a uma amiga. Nes­se caso, a região que contém a mãe fica cercada por uma barreira impenetrável, e é feito um novo cami­nho, ligando a região que contém a amiga e a região em que se encontra o doce (Figura 10.9).

Figura 10.8Essa representação topológica poderia ser com­plicada interminavelmente pela introdução de novas regiões ambientais, de fronteiras com graus variados de firmeza e de necessidades adicionais com seus sis­temas de tensão, valências e vetores coordenados.

Embora Lewin não rejeitasse a idéia de que a heredi­tariedade e a maturação desempenham um papel no desenvolvimento, em nenhum momento ele discutiu com detalhes sua possível influência, e também não lhes atribuiu um lugar em suas representações con­ ceituais. Isso está de acordo com a preferência de Lewin por uma teoria puramente psicológica. Uma vez que a hereditariedade e a maturação situam-se no domínio dos fatos biológicos e, portanto, existem fora do espaço de vida juntamente com os fenômenos físi­cos e sociais, Lewin as ignorou. O desenvolvimento, para ele, é um processo contínuo em que é difícil re­conhecer estágios separados. Lewin também acredi­tava que uma escala de idade para descrever o desen­volvimento não é realmente adequada para se compreender o crescimento psicológico. A escala de idade terá eventualmente de ser abandonada em fa­vor de graus de diferenciação, organização, integra­ção e assim por diante. Além disso, a psicologia preci­sa dedicar-se à tarefa de descobrir os fatos coexistentes e dinamicamente relacionados que representam as condições para a mudança no momento em que ela ocorre. Não basta dizer que a criança de seis anos de idade pratica ações que a de três não. Precisamos ex­plicar a mudança, usando os conceitos da teoria de campo.

Figura 10.9

Geroge Kelly

A essência da abordagem da Gestalt, incluindo a abor­dagem gestáltica de Lewin à personalidade, é a suposição de que o comportamento é uma função do cam­po no qual ocorre o comportamento. O espaço de vida, ou a realidade psicológica do indivíduo, é o que de­termina seu comportamento. De maneira muito se­melhante, a abordagem de George Kelly à personali­dade baseia-se na suposição de que os indivíduos constroem a realidade à qual respondem, e a resposta está baseada no uso que o indivíduo faz de sua expe­riência em contextos prévios similares para antecipar as conseqüências do comportamento. Apesar da se­ melhança óbvia entre as abordagens de Lewin e de Kelly, logo se tornam aparentes as diferenças básicas. Por exemplo, Kelly fez uma suposição crítica crucial de que os seres humanos tentam antecipar acurada­mente as conseqüências de suas ações; na verdade, essa busca torna-se a marca registrada do funciona­mento sadio. Além disso, o comportamento é quase uma reflexão posterior para Kelly, ao passo que Lewin descreve detalhadamente as forças e os vetores. Da resma forma, Kelly não achava importante discutir as necessidades específicas ou os outros motivos. A construção da realidade, ou “interpretação” nos ter­mos de Kelly, baseia-se no sistema de constructos pessoais bipolares desenvolvido pelo indivíduo. A personalidade, por sua vez, deve ser compreendida em termos dos sistemas de constructos distintivos dos indivíduos; isto é, a personalidade reflete diferenças individuais nas tendências de interpretação e não nas tendências de comportamento. Essa abordagem singular requer uma redefinição de vários conceitos psicológicos familiares. A linguagem de Kelly pode ser difícil de compreender, mas o valor heurístico de seu rodeio merece o esforço do aluno.

História Pessoal

Maher (1969) oferece uma breve biografia da vida de Kelly, e o leitor também pode procurar Sechrest (1977) e o obituário escrito por Thompson (1968). O que se segue está baseado nessas três fontes. George Kelly nasceu em 28 de abril de 1905, em uma fazenda próxima de Perth, Kansas. Seu pai fora educado para ser ministro, mas mudou-se para essa fazenda logo de­pois de seu casamento. A escolarização inicial de Ke­lly foi irregular, mas seus pais supriam a educação dos filhos em casa. Eles finalmente decidiram mandá-lo para Wichita para cursar o ensino médio, e ele morou longe de casa a maior parte do tempo depois dos 13 anos. Kelly passou três anos na Friends University, uma escola Quaker, e formou-se com um B. A. em física e em matemática no Park College, em 1926. Ele preten­dia estudar engenharia mecânica, mas seu crescente interesse pelos problemas sociais, estimulado por sua participação em debates entre escolas, levou-o a estu­ dar sociologia educacional na Universidade de Kan­sas. Recebeu seu M.A. em 1928, com uma tese de mestrado sobre a distribuição das atividades no tem­po de lazer entre os trabalhadores de Kansas City. Após um período de tempo em que ensinou matérias varia­das e experimentou ser um engenheiro aeronáutico, Kelly recebeu uma bolsa de estudo de intercâmbio, em 1929. Ele viajou para a Universidade de Edinburgo, onde recebeu o grau de bacharel em educação em 1930. Kelly então voltou aos Estados Unidos, onde se matriculou em um programa de graduação em psico­logia na Universidade Estadual de Iowa. Ele recebeu seu Ph.D. depois de apenas um ano, e casou-se com Gladys Thompson dois dias depois da formatura. [329]

No outono de 1931, Kelly foi para o Fort Hays Kansas State College, onde ficou por treze anos. Foi durante esse período que ele se voltou para a psicolo­gia clínica e conseguiu apoio legislativo para estabe­lecer um programa de clínicas itinerantes, que lhe permitiu atender estudantes perturbados nas escolas de todo o estado e desenvolver novas abordagens de problemas clínicos. Kelly publicou uma série de seis artigos sobre questões clínicas práticas entre 1935 e 1940. Em The Autobiography of a Theory Kelly (1963) descreveu como chegou a uma “psicologia do próprio homem”, com um foco na escolha e na iniciação pes­soal de ações. No processo, ele voltou a uma perspec­tiva freudiana, que tinha ridicularizado durante o curso de graduação. Mas, gradualmente, ele passou a sentir-se desconfortável com seus “insights” freudianos, decidindo, em vez disso, que seus clientes precisavam de uma nova abordagem à vida e às futuras contin­gências. Ele também se desencantou com a importân­cia do “self”, acreditando que a questão central era ajudar os clientes a “imaginar novas hipóteses sobre outras maneiras de viver” (1963, p. 55).

A ênfase em novos comprometimentos e redefini­ções de si mesmo, em tornar-se diferente do que se é atualmente, montou o cenário para a teoria de Kelly da personalidade. Também foi durante esse período que Kelly chegou à conclusão de que as queixas que os professores e os pais faziam sobre seus alunos e filhos tinham pouco valor descritivo para se entender o mundo da pessoa que estava sendo diagnosticada. Kelly também começou a oferecer aos clientes esbo­ços de pessoas diferentes e pedir-lhes que experimen­tassem, fingindo ser essa outra pessoa. Isso tornou-se a base da terapia de papel fixo de Kelly e também levou-o a estabelecer sua analogia do homem-cientista. Em resumo, esta foi uma época fértil, durante a qual Kelly desenvolveu os fundamentos dos insights clínicos e de personalidade que publicou posteriormente.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Kelly recebeu um posto no Aviation Psychology Branch do Bureau of Medicine and Surgery da Marinha. Depois da guerra, ele trabalhou como professor-associado na Universidade de Maryland. Em 1946, tornou-se pro­fessor e diretor de psicologia clínica na Universidade Estadual de Ohio. Juntamente com Julian Rotter, Kelly levou o programa de psicologia clínica dessa uni­versidade a uma posição de proeminência nacional. Foi aí, em 1955, que Kelly publicou sua obra mais importante, The Psychology of Personal Constructs. Ele deixou essa universidade em 1965 para assumir a Ridus Chair of Behavioral Science na Universidade de Grandels, onde morreu prematuramente em 1967. Durante sua carreira, Kelly foi presidente das Divi­sões Clínica e Consultiva da Associação Psicológica Americana e do American Board of Examiners in Professional Pshychology. Ele também proferiu palestras por todos os Estados Unidos e pelo mundo afora.

Suposições Básicas

Kelly fundamentou sua teoria em uma série de suposições, e elas constituem um bom ponto de partida para a nossa discussão da teoria.

Alternativismo Construtivo

Esse é o título do primeiro capítulo da apresentação mais importante de Kelly (1955) de sua teoria. Kelly supôs que nós poderíamos compreender de várias maneiras o mundo que nos cerca; isto é, sempre exis­tem perspectivas alternativas que podemos escolher quando lidamos com o mundo. Conforme Kelly colo­ca: “Nós supomos que todas as nossas presentes inter­pretações do universo estão sujeitas à revisão ou à recolocação... sempre existem algumas construções alternativas entre as quais podemos escolher ao lidar com o mundo. Ninguém precisa pintar a si mesmo como em uma situação sem saída; ninguém precisa ser completamente encurralado pelas circunstâncias; ninguém precisa ser a vítima da sua biografia. Nós chamamos essa posição filosófica de alternativismo construtivo”(1955, p. 15). Observem como tal posi­ção é otimista, e como é extraordinariamente dife­rente da posição freudiana de determinismo da infân­cia ou da posição de Skinner da história de reforço e controle de estímulos. Em muitos aspectos, a suposi­ção de Kelly lembra a posição de Alfred Adler de que as falhas do homem “se devem a uma concepção er­rônea da vida. Ele não precisa ser oprimido por elas. Ele pode mudar. O passado está morto. Ele está livre para ser feliz. Na verdade, Kelly (1964) citou aprovadoramente a "filosofia do 'como se'" de Hans Vaihinger, e observou no mesmo artigo o paralelo com Adler, Kelly estava propondo que as pessoas são livres para escolher como querem ver o mundo, e seu comportamento decorre dessas escolhas.

Existem muitas implicações importantes nessa posição. Por exemplo, ela representa uma combinação do que geralmente é chamado de livre arbítrio e determinismo: e qualquer momento dado do tempo, o nosso comportamento é determinado pela nossa construção da realidade, mas somos livres para mudar tal construção ao longo do tempo. Kelly não estava sugerindo que as construções ou as interpretações alternativas estão certas ou erradas, e sim que elas têm implicações diferentes para o comportamento. As pessoas diferem, e diferem também através do tempo, porque são guiadas por construções ou interpretações alternativas do mundo. O aluno pode notar como essa suposição é semelhante à descrição de Henry Murray (ver Capítulo 6) da pressão beta. Observe também como passa a ser crítico que o clínico com­preenda a construção que o cliente faz da realidade.

Homem-Cientista

Os teóricos freqüentemente adotam metáforas em sua tentativa de compreender o comportamento. Por exemplo, Freud empregou a metáfora da vida mental como um campo de batalha entre impulsos e proibi­ções. Kelly adotou a metáfora do homem-cientista. Ele achava que devemos pensar nas pessoas vivendo suas vidas de uma maneira análoga a cientistas formulan­do e testando teorias. Isto é, assim como os cientistas, os indivíduos desenvolvem hipóteses sobre as conse­qüências de seu comportamento e avaliam a validade dessas hipóteses em termos da exatidão de suas pre­dições: o que eu esperava que acontecesse quando agi daquela maneira de fato aconteceu? Exatamente como um cientista, o indivíduo está tentando predi­zer e controlar as conseqüências do comportamento, saber o que vai acontecer. Os cientistas tentam cons­truir teorias que levem a predições cada vez melho­res, e os indivíduos tentam construir sistemas antecipatórios que lhes permitam compreender cada vez melhor o que vai acontecer se eles agirem de certa maneira. O bom cientista muda as hipóteses que são refutadas pelos dados, e a pessoa sadia muda constructos pessoais que se originam de predições refuta­das pela experiência. A pessoa não-sadia, pelo con­trário, é um “mau cientista”: ela tem uma teoria sobre conseqüências (principalmente conseqüências inter­pessoais) que não funciona, mas não consegue mudá-la. Conforme Kelly colocou: "A pessoa vive sua vida tentando alcançar o que vem a seguir e os únicos ca­nais que ela tem para conseguir aquilo são as suas construções pessoais daquilo que pode realmente es­tar acontecendo” (1955, p. 228).

Kelly (1963, p. 60-61) descreveu como ele che­gou a essa conclusão na seguinte passagem:

“Uma das minhas tarefas na década de 30 era ori­entar alunos que estavam fazendo mestrado. Uma tarde típica poderia me encontrar conversando com um aluno às 13 horas, fazendo todas aquelas coisas que os orientadores têm de fazer - estimu­lar o aluno a identificar as questões, a observar, a familiarizar-se com o problema, a criar hipóteses indutivamente ou dedutivamente, a fazer alguns testes preliminares, a relacionar os dados às suas predições, a controlar seus experimentos de modo a saber o que levou a que, a generalizar cautelo­samente e a revisar seu pensamento à luz da ex­periência.

“As 14 horas, eu poderia ter uma sessão com um cliente. Nessa entrevista eu não estaria assumin­do o papel do cientista, mas ajudando a pessoa perturbada a encontrar algumas soluções para seus problemas de vida. Então o que eu faria? Bem, eu tentaria fazer com que ele identificasse as ques­tões, observasse, se familiarizasse com o proble­ma, criasse hipóteses, fizesse alguns testes, rela­cionasse resultados a antecipações, controíass; suas aventuras de modo a saber o que levou a que, generalizasse cautelosamente, e revisasse seus dogmas à luz da experiência.

“As 15 horas eu atenderia um outro aluno. Prova­velmente ele estaria desinteressado e relutante; esperando planejar um experimento que sacudiria o mundo antes sequer de olhar para seu pri­meiro sujeito para ver em primeira mão com o que estava lidando; atirando-se a uma expedição irrefletida e grandiosa de busca de dados. Então eu tentaria novamente fazer com que ele identifi­casse as questões, observasse objetivamente, se familiarizasse com o problema, criasse hipóteses - tudo o que eu tivera de fazer às 13 horas.

“As 16 horas outro cliente! Adivinhem! Ele esta­ria desinteressado e relutante; esperando proje­tar uma personalidade completamente nova an­tes de se aventurar em sua primeira mudança de comportamento; atirando-se a uma atuação irre­fletida para escapar ao problema, etc, etc. Mas essa, é claro, não era a minha hora de ciência; era a minha hora de psicoterapia. E o que eu fizera com aquele aluno da hora anterior obviamente não fora psicoterapia - fora ciência!

Devo dizer que esse tipo de coisa aconteceu por um longo tempo antes de me ocorrer que na ver­dade eu fazia a mesma coisa a tarde inteira.”  A chave para se compreender o comportamento humano é reconhecer que as pessoas estão tentando antecipar as conseqüências de suas ações, e a chave para a personalidade é identificar os constructos pes­soais que as pessoas usam para gerar suas predições.

Foco no Constructor

Como vimos, a ênfase de Kelly foi em como o indiví­duo constrói, interpreta, ou compreende o mundo. No processo de chegar a esse entendimento, todavia, ele precisa cuidar para não confundir a nossa maneira de interpretar a realidade com como a realidade realmente é ou deveria ser vista. Quando uma pessoa faz alguma declaração sobre o mundo, nós devemos compreender essa declaração como revelando mais sobre a pessoa que a emitiu do que sobre a realidade. Kelly argumentou que as declarações sobre as pessoas ou outros aspectos do mundo devem ser considerados como proposições ou hipóteses, mas tanto os psicólolos como as pessoas leigas cometem o erro de tratá-las como afirmações factuais a serem endossadas ou ajeitadas. Kelly estava argumentando que nós acabamos prisioneiros da nossa linguagem e explica isso na sequinte passagem:

"Ocasionalmente posso dizer sobre mim mesmo ... ‘Eu sou introvertido’. ‘Eu’, o sujeito, ‘sou intro­vertido’, o predicado. A forma de linguagem da declaração coloca claramente o ônus de ser um introvertido sobre o sujeito - eu. O que eu real­mente sou, dizem as palavras, é introvertido ... Mas a interpretação adequada da minha declara­ção é que eu me vejo ou interpreto como intro­vertido, ou, se estou apenas sendo recatado ou desonesto, estou levando meu interlocutor a ver­ me ou interpretar em termos de introversão. O ponto que se perde nessa confusão de palavras é o fato psicológico de que me identifiquei em ter­mos de um constructo pessoal - ‘introversão’. Se meu interlocutor é suficientemente sem crítica para ser enganado por essa sutileza de palavras, ele pode perder muito tempo acreditando que precisa me ver como introvertido ou discordando
disso ... Mas, além disso, se eu digo a meu res­peito que sou introvertido, posso ficar preso na minha própria armadilha sujeito-predicado. Até o self interior - eu mesmo - fica sobrecarregado pelo ônus de realmente ser um introvertido ou de encontrar alguma maneira de livrar-se da introversão que pesa sobre minhas costas ... Eu me deparo com o dilema de ter de continuar a decla­rar que sou introvertido ou que não sou - ou um ou outro. Mas será que isso necessariamente é assim? a introversão não poderia se revelar um constructo totalmente irrelevante? ... Quando eu digo que o sapato do pé esquer­do do professor Lindzey é ‘introvertido’, todo mundo olha para o seu sapato, como se ele fosse responsável por essa afirmação. Ou se eu digo que a cabeça do professor Cattell é ‘discursiva’, todo mundo olha para ele, como se a proposição tives­se saído da cabeça dele, e não da minha. Não olhem para a cabeça dele! Não olhem para aque­le sapato! Olhem para mim: eu sou o responsável pela declaração. Depois de entender o que eu que­ro dizer, vocês podem olhar para ver se compre­endem sapatos e cabeças, interpretando-os como eu faço. Não será fácil fazer isso, pois significa abandonar uma das maneiras mais antigas de pen­sar e de falar consigo mesmo.” (1958, p. 70-72)

Motivação

Os componentes motivacionais das teorias da perso­nalidade destinam-se a explicar as forças que compe­lem as pessoas a agir de certas maneiras. Entretanto, de modo parecido com Carl Rogers (ver Capítulo 11) e B. F. Skinner (ver Capítulo 12), Kelly propôs que “motivação” é um constructo desnecessário e redun­dante. Ele tinha duas objeções fundamentais. Primei­ro, os modelos motivacionais são usados para expli­car por que uma pessoa é ativa ao invés de inerte. Mas, segundo Kelly, as pessoas são ativas por defini­ção, de modo que não precisamos explicar o “porquê” delas serem ativas: elas são ativas porque estão vivas! A motivação também é usada para explicar por que as pessoas agem de uma maneira e não de outra. Kelly argumentou que as pessoas agem como agem não devido a forças que atuam sobre elas ou dentro delas, mas devido às alternativas que percebem em função de sua interpretação do mundo. Em conseqüência, devemos dirigir a nossa atenção para o entendimento de como a interpretação individual da realidade canaliza o comportamento, e não para as forças motiva­doras que compelem esse comportamento. Segundo, coerente com a ênfase no constructor, Kelly rejeitava os motivos como rótulos que impomos aos outros. Esses rotulos têm mais utilidade para compreender­mos a visão de mundo da pessoa que os oferece do que o comportamento da pessoa que está sendo rotulada.

Kelly (1958, p.81) resumiu sua posição acerca da motivação conforme segue: “As teorias motivacionais podem ser divididas em dois tipos: teorias do ‘empur­rão’ e teorias do ‘puxão’. Nas teorias do empurrão, nos encontramos termos como pulsão, motivo, ou até estímulos. As teorias do puxão usam constructos como propósito, valor ou necessidade. Em termos de uma metáfora bem-conhecida, essas são as teorias do for­cado, por um lado, e as teorias da cenoura, por outro. Mas a nossa teoria não é nenhuma delas. Já que pre­ ferimos examinar a natureza do próprio animal, provavelmente é melhor chamar a nossa teoria de teoria do jumento.”

Ser Si Mesmo

De uma forma ou outra, o autoconceito do indivíduo ocupa um papel central na maioria das teorias da per­sonalidade. Não existe nenhum “agente” interno na teoria de Kelly análogo ao ego nas abordagens de Freud ou de Murray, mas ele falou sobre os construc­tos de papel nuclear que usamos para compreender nosso comportamento. Além disso, Kelly ergueu duas objeções a formulações sobre o self. Primeiro, elas geralmente funcionam como máscaras atrás das quais nos escondemos de nós mesmos e dos outros. Pensar em si mesmo como “introvertido” é impor um rótulo de self que cria expectativas de comportamento. Em muitos aspectos, isso é semelhante à idéia de Jung da “inflação da persona”. Segundo, Kelly via a auto-imagem como fluida, não como uma realidade predeter­minada ou uma verdade que de alguma forma deve­mos revelar. Se a interpretação da pessoa de quem ela é se mostrar problemática ou ineficaz, a pessoa deve mudá-la. Mais uma vez, deixemos que Kelly (1964, p. 157-158) fale por si mesmo:

"Muito se fala atualmente sobre ser si mesmo. Imaginamos que é saudável ser si mesmo. Embo­ra seja um pouco difícil para mim entender como alguém poderia ser qualquer outra coisa, suponho que o que se quer dizer é que a pessoa não deveria tentar ser aquilo que ela não é. Isso me parece uma maneira muito sem graça de viver de fato, eu estaria inclinado a argumentar se todos nós estaríamos bem melhor se tentássemos.
O que estou dizendo é que o que conta não é tanto o que o homem é, e sim o que se aventura a tornar-se. Para dar o salto, ele precisa fazer mais do que se revelar, ele precisa arriscar-se a certa confusão. Então, assim que consegue vislumbrar uma maneira diferente de vida, ele precisa encontrar uma maneira de superar o momento paralisante de ameaça, pois é nesse instante que ele se pergunta qual é a realidade - se ele é o que era um pouco antes ou o que está prestes a ser.”

Constructos pessoais 

Vimos que a teoria de Kelly depende da compreensão de como os indivíduos interpretam seu mundo. A uni­dade fundamental empregada por Kelly para esse pro­pósito é o constructo pessoal: “Um constructo é a ma­neira pela qual algumas coisas são interpretadas como sendo parecidas e no entanto diferentes de outras" (Kelly, 1955, p. 105). Como veremos adiante neste capítulo, os constructos são definidos por identificar uma distinção em que dois objetos são semelhantes e diferentes de um terceiro objeto. Por exemplo, uma pessoa poderia pensar em seu pai e em sua mãe como inteligentes, mas em seu melhor amigo como não-inteligente. Dizer que uma pessoa é inteligente implica que pelo menos uma outra pessoa também é inteli­gente e no mínimo outra não é inteligente.

Esse exemplo ilustra o aspecto distintivo dos cons­tructos: eles são bipolares. Assim, o constructo do úl­timo parágrafo é inteligente versus não-inteligente. A nossa interpretação basica do mundo é em termos dicotômicos, alternativas ou-ou, não em termos de escalas ou contínuos; o nosso julgamento fundamen­tal é se um objeto é bom ou mau, não quão bom ele é. Além disso, cada constructo tem um intervalo muito limitado de aplicação, ou intervalo de conveniência. O  constructo inteligente versus não-inteligente, por exem­plo, é útil para fazer predições sobre pessoas, sobre cães e gatos e sobre ratos de laboratório, mas não so­bre árvores; as árvores estão fora do intervalo de con­veniência deste constructo. Da mesma forma, o foco de conveniência de um constructo se refere à classe de objetos para a qual ele é mais relevante (as pessoas, presumivelmente, no nosso exemplo de inteligente vs. não-inteligente). Os constructos diferem em permea­bilidade, ou na facilidade com que podem ser estendi­dos a novos objetos ou eventos. Os constructos tam­bém podem ser preemptivos, constelatórios ou preposicionais. No caso de um constructo preemptivo, nada mais sobre o objeto importa. Em época de guerra, por exemplo, a distinção essencial que um solda­do precisa fazer é inimigo vs. amigo. Se alguém é in­terpretado como inimigo, não importa se essa pessoa é homem ou mulher, simpática ou antipática. O uso de um constructo constelatório desencadeia outros constructos, sem informações adicionais. Uma pessoa que chamamos de sexista, por exemplo, poderia, além de interpretar uma pessoa como mulher e não como homem, vê-la como passiva em vez de ativa, como emotiva em vez de não-emotiva e como caprichosa em vez de lógica. As outras poderiam usar homem versus mulher como um constructo proposicional; neste caso, designar uma pessoa como mulher não levaria a nenhum outro julgamento. Uma distinção final é entre constructo nuclear e periférico. Os construtos nucleares são centrais para o senso da pessoa de quem ela é, e como tal, são relativamentes resistentes à mudanças. Os constructos periféricos são menos fundamentais, e como tais, são mais suscetíveis à mudança.

O sistema de constructos pessoais do indivíduo é usado para compreender o mundo. Apesar de Kelly referir-se aos constructos como moldes, ou como análogos a grandes óculos que distorcem e estruturam o nundo de certas maneiras, o leitor não deve supor que eles são apenas mecanismos perceptivos. Pelo contrário, eles mal começam a capturar as nuanças envolvidas na percepção do mundo físico. O sistema
de constructos estrutura a realidade para que possamos antecipar eventos: “Criar constructos pode ser visto como amarrar conjuntos de eventos em feixes convenientes, de fácil manejo para a pessoa que tem de carregá-los. Os eventos, quando assim amarrados, tendem a tornar-se predizíveis, manejáveis e controlados” (1955, p. 126). Kelly está sugerindo que um constructo oferece um “caminho de movimento”, no sentido de uma escolha dicotômica entre percepções alternativas ou ações alternativas. Os constructos li­mitam as nossas possibilidades e oferecem-nos “caminhos de liberdade de movimento”.

Escalas

A natureza dicotômica dos constructos parece contrá­ria à experiência, porque todos nós achamos que in­terpretamos o mundo em termos de gradações, não de alternativas exclusivas. Os nossos conhecidos vari­am em inteligência, cordialidade, dominação, etc. (um conjunto de diferenças nas quais se baseiam os mode­los de traço da personalidade), e parece artificial ig­norar essas distinções. Uma analogia com o computa­dor pode ajudar. Um computador baseia-se em distinções exclusivas; um bit tem uma carga positiva ou negativa, e não há gradações envolvidas. No en­tanto, combinando-se bits, podemos construir progra­mas de computador de incrível complexidade. Da mesma forma, Kelly (1955, p. 142-145) descreveu como os constructos dicotômicos podem ser usados para se construir escalas supra-ordenadas, contínuas. Suponha que empregamos o constructo inteligente versus não-inteligente para observar três pessoas em dez ocasiões diferentes. A primeira pessoa pode ter mostrado um comportamento inteligente em oito das ocasiões, a segunda, em cinco das ocasiões, e a tercei­ra, em duas das ocasiões; a combinação das ocasiões nos permite escalar essas três pessoas em termos de seu grau de comportamento inteligente, criando o que Kelly chama de “escala de acumulação”.

Imagine também um tipo mais complicado de es­cala. Suponha que uma pessoa tem um constructo supra-ordenado de bom versus mau que inclui cons­tructos subordinados de jovem versus velho, republi­cano versus democrata, homem versus mulher e psi­cólogo versus não-psicólogo, em que a primeira alternativa sempre é “bom”. Se atribuirmos a cada pessoa um ponto em uma escala de “bondade” para cada característica boa, então um jovem psicólogo re­publicano tem um escore total de 4, uma jovem psi­cóloga democrata recebe um escore de 2, e uma ve­lha não-psicóloga democrata recebe um escore de 0. Dessa maneira, a pessoa converteu um conjunto de constructos bipolares no que Kelly chama de uma “es­cala aditiva”. Kelly ofereceu numerosos exemplos de scalas, mas essa extensão importante e razoável de seu modelo básico é freqüentemente ignorada.

O Postulado fundamental e seus corolários

Kelly (1955, p. 46-104) enunciou sua teoria na forma de um postulado fundamental e 11 corolários (ver Tabela 10.1). Nós anteriormente consideramos temas relativos aos corolários de dicotomia, intervalo e mo­dulação, e trataremos agora das nove declarações res­ tantes.

Postulado Fundamental

Os processos de uma pessoa são psicologicamente canalizados pelas maneiras por meio das quais ela antecipa eventos. 

O postulado fundamental de Kelly e os 11 Corolários

Esse postulado é o núcleo da posição de Kelly. Nele, Kelly propõe que o entendimento que a pessoa tem do mundo e seu comportamento neste mundo (“processos”) são dirigidos (“canalizados”) por uma rede existente de expectativas em relação ao que vai acon­tecer se ela agir de determinada maneira (“antecipa eventos”). Os vários outros aspectos desse postulado são dignos de nota. Primeiro, Kelly não estava suge­rindo que é assim que as pessoas verdadeiramente são: ele estava dizendo “vamos supor” que é assim que as pessoas funcionam e ver quão bem podemos explicar tal comportamento. Segundo, ele levou a sério o foco na pessoa: o postulado focaliza o indivíduo, não “al­guma parte da pessoa, ou algum grupo de pessoas ou algum processo específico manifestado no comporta­mento da pessoa" (1955, p. 47). Nessa atitude, Kelly
é consistente com outros teóricos da personalidade. Finalmente, Kelly referiu-se à antecipação porque acre­dita que os indivíduos, como os protótipos de cientis­ta que são, buscam a predição: “A antecipação é tanto um empurrão quanto o puxão da psicologia dos constructos pessoais” (1955, p. 49).

Corolário de Construção

Uma pessoa antecipa eventos ao interpretar suas reproduções. 

Kelly esclareceu sua posição básica nesse corolário. Os dois termos-chave aqui são “interpretar” e “reproduções”. Por “interpretar” Kelly quer dizer usar o sistema de constructos pessoais para dar uma interpretação a um evento, e tal interpretação dá significado ao evento. Por “reprodução” Kelly que rdizer usar a experiência para identificar temas recorrentes nos significados de eventos. Nós então usamos o nosso entendimento desse evento para fazer predições sobre o que provavelmente acontecerá, com base no que aconteceu em eventos similares no passado. Construir expectativas com base na experiência, não a simples categorização de eventos, está no âmago do modelo de Kelly. Poderíamos pensar nisso como uma versão "cognitiva” da história de reforço de Skinner. Uma analogia ainda melhor é com as antecipações e as expectativas introduzidas pelos teóricos da aprendizagem social (ver Capítulo 14).

Corolário de Organização

Cada pessoa desenvolve caracteristicamente um sistema de interpretação que abrange relacionamentos ordinais entre constructos, para ajudar na antecipa­ ção de eventos. 

Dois tipos de relacionamentos ordinais entre constructos: (a) estendendo a linha de clivagem; (b) ascendendo por meio da linha de clivagem

Cada indivíduo organiza seus constructos em um sistema hierárquico que caracteriza sua personalida­de. Esse sistema muda ou evolui continuamente de acordo com a experiência. O termo-chave nesse coro­lário é “relacionamentos ordinais”, pelo qual Kelly quer dizer que um constructo pode incluir outro como um de seus elementos. Ele usou um constructo de bom versus mau para ilustrar duas maneiras pelas quais isso pode ocorrer (ver Figura 10.10). Primeiro, bom versus mau pode incluir o constructo de inteligente versus burro ao “ampliar sua clivagem”. Nesse exem­plo, “bom” incluiria todas as coisas inteligentes bem como outras características, como moral e bravo. “Mau” incluiria todas as coisas burras bem como imo­rais e covardes. Na terminologia de Kelly, bom versus mau é um constructo superordinal, e inteligente ver­sus burro é um constructo subordinal. Alternativamen­te, um constructo superordinal de avaliativo versus descritivo pode “abstrair por meio da linha de cliva­gem” do constructo subordinai de inteligente versus burro. Nesse caso, todo o constructo de inteligente versus burro está incluído como um tipo “avaliativo” de constructo. Ao contrário, um outro constructo de claro versus escuro poderia ser considerado apenas “descritivo”.

Kelly estava sugerindo que as pessoas sistemati­zam seus constructos, organizando-os em hierarqui­as. Essa organização é fluida, e os relacionamentos ordinais podem inclusive inverter-se com o passar do tempo. A questão para Kelly não era a autoconsistência das estruturas psicológicas, mas o desenvolvimen­to de um sistema que levasse em conta a antecipação acurada de eventos ao identificar temas que se repetem.

Corolário de Fragmentação

Uma pessoa pode empregar sucessivamente uma va­riedade de subsistemas de interpretação inferencialmente incompatíveis entre si. O sistema de interpretação está continuamente em fluxo, e a evolução do sistema de interpretação é tal que os constructos específicos de uma pessoa e os comportamentos específicos resultantes podem não ser completamente consistentes ao longo do tempo. Uma vez que a pessoa busca continuamente um siste­ma de interpretação que produza melhor antecipa­ção, o comportamento em certo momento pode pare­cer incompatível com o comportamento imediata­mente precedente, porque os constructos governan­tes mudaram. Kelly via isso como um corolário im­portante, porque ele deixa claro que a única maneira de se compreender o comportamento é em termos do sistema de interpretação corrente ou “reinante”, não do comportamento imediatamente antecedente. O comportamento nem sempre será consistente ao lon­go do tempo ou das situações, mas ele sempre será consistente com o atual sistema de interpretação ou constructos.

Corolário de Experiência

O sistema de interpretação de uma pessoa varia con­forme ela interpreta sucessivamente as reproduções de eventos. As interpretações que damos aos eventos repre­sentam hipóteses sobre as conseqüências dos compor­tamentos, e nós usamos os resultados reais para “vali­dar” o sistema de constructos, exatamente como o cientista usa os dados para validar uma teoria. Nós revisamos continuamente as nossas antecipações di­ante dos resultados e, nesse processo, o sistema de constructos sofre uma evolução progressiva. Kelly usou “experiência” para referir-se à sucessiva interpretação de eventos, não à seqüência de eventos em si: “Não é o que acontece ao redor dele que torna um homem experiente; é a sucessiva interpretação e reinterpretação daquilo que acontece, à medida que acontece, que enriquece a experiência de sua vida” (1955, p. 73). A reprodução de eventos da qual depende o com­portamento envolve a experiência de abstrair temas recorrentes de uma seqüência de eventos únicos. Os resultados inesperados e a violação das expectativas nos obrigam a modificar os nossos sistemas de cons­tructos. Por fim, o leitor deve notar que a discussão de Kelly da experiência incluiu o tópico usual da apren­dizagem. Como a motivação, a aprendizagem faz parte do processo geral de antecipação e de reinterpretação no sistema de Kelly.

Corolário de Escolha

Uma pessoa escolhe aquela alternativa, em um constructo dicotomizado, pela qual ela antecipa a maior possibilidade de extensão e definição de seu sistema.

Esse é o mais difícil dos corolários de Kelly. O pos­tulado fundamental descreve como o comportamen­to é canalizado pelos constructos, e o corolário de es­colha revela que o comportamento se reduz a uma escolha entre definir melhor o sistema de constructos existente e agir de uma maneira que amplie o inter­valo de conveniência do sistema de constructos. Ima­ginem uma aluna que precisa escolher entre dois cur­sos. Um deles é o seu campo mais importante de estudo, de modo que ela tem uma boa idéia do que esperar. Selecionar esse curso seria a escolha “segura”, porque definiria melhor sua capacidade existente de antecipar os resultados. O outro curso é em um campo no qual ela não tem nenhum conhecimento. Selecionar esse curso seria arriscado ou “temerário”, porque a faria imergir em uma situação na qual ela tem pouca base para antecipar os resultados. Depois de designar os eventos para os pólos dos constructos, nós nos deparamos com a “escolha elaborativa” a ser orientada pelo pólo/comportamento seguro ou arris­cado. Segundo Kelly (1955, p. 65), o indivíduo “colo­ca valores relativos nas extremidades de suas dicoto­mias” e então precisa escolher uma das alternativas. A vida não é apenas interpretação; é escolha baseada nessa interpretação, e a escolha será feita em favor da alternativa que parece no momento oferecer a me­lhor base para melhorar a subseqüente antecipação de eventos. Tal corolário separa Kelly claramente dos outros teóricos: ele afirmava que a busca de uma an­tecipação cada vez melhor dos eventos, não o prazer, o reforço, a autodefesa ou a autoconsistência, é “a essência da vida humana em si” (1955, p. 68). Obser­vem também como a terminologia de Kelly de “exten­são e definição” é semelhante à discussão de Carl Rogers (ver Capítulo 11) da maneira como a tendência de realização serve para “manter e realçar” o organis­mo. Os meios usados pelos indivíduos para fazer a es­colha elaborativa não estão claros, mas Kelly descre­veu um ciclo C-P-C (circunspecção-preempção-controle) que as pessoas tipicamente atravessam ao decidir como agir. Retornemos à aluna que está tentando de­cidir em qual curso vai se matricular. Seu primeiro passo é o da circunspecção, ou identificar todos os constructos disponíveis possíveis. Por exemplo, o cur­so é no nível introdutório ou superior, difícil ou fácil, conhecido ou desconhecido, e assim por diante. O segundo passo é a preempção, ou identificar uma di­mensão como a dimensão crítica. A nossa aluna, por exemplo, poderia decidir que a questão mais impor­tante é se o curso é conhecido ou desconhecido. O passo final é o do controle, em que é feita uma esco­lha entre os pólos opostos do constructo selecionado. A aluna pode decidir que quer ampliar sua perspecti­va e, portanto, fazer o curso que é desconhecido.

Kelly também descreveu um ciclo de criatividade para gerar novos constructos. Essa seqüência começa quando a pessoa “afrouxa” sua atual construção do mundo a fim de experimentar novas e flexíveis interpretações dele. Na terapia, o processo de exploração pode ser facilitado pelo uso de sonhos, fantasias ou associação livre. De alguma forma, a pessoa explora, por ensaio e erro, uma nova abordagem. O truque, escreveu Kelly, “é deixar nascer essas interpretações sem perder de vista o que elas são e sem assustar-se com suas monstruosas implicações” (1965, p. 128). Na outra extremidade do ciclo, a pessoa começa a "apertar” o constructo, testando sua consistência em comparação com constructos existentes e validando as resultantes antecipações comportamentais. Kelly sugeriu que tal processo cíclico está profundamen­te envolvido no empreendimento da pesquisa psicológica.

Corolário de Individualidade

As pessoas diferem umas das outras na sua interpre­tação dos eventos. As diferenças fundamentais entre os indivíduos residem na sua interpretação alternativa dos eventos e na antecipação das conseqüências, conforme con­troladas por seus sistemas de constructos distintos. Em outras palavras, as pessoas diferem não apenas porque foram expostas a eventos diferentes, mas tam­bém porque desenvolveram abordagens diferentes na antecipação dos mesmos eventos.

Corolário de Comunalidade

Na extensão em que uma pessoa emprega uma inter­pretação da experiência que é semelhante à emprega­da por outra pessoa, seus processos psicológicos são semelhantes aos da outra pessoa.

Assim como as interpretações diferentes de even­tos levam a diferenças individuais, uma interpretação similar dos eventos leva as pessoas a se comportarem de maneira semelhante. Observe que Kelly está pro­pondo que as ações semelhantes decorrem não da exposição a eventos idênticos, mas de interpretações semelhantes de eventos. Usando essa abordagem, Kelly explicou semelhanças dentro da cultura em termos de expectativas semelhantes, tanto expectativas em relação ao que os outros farão como expectativas em relação ao que os outros esperam que nós façamos.

Corolário de Sociabilidade

Na extensão em que uma pessoa interpreta os proces­sos de construção de outra, ela pode desempenhar um papel em um processo social, envolvendo a outra pessoa.

A apresentação mais importante de Kelly (1955) de sua posição enfatizou, em uma grande extensão, os relacionamentos interpessoais e terapêuticos, e o corolário de sociabilidade é crítico para o entendimen­to desses relacionamentos. Ao contrário do corolário da comunalidade, esse corolário discute o entendimen­to e não a semelhança real. Kelly acreditava que as pessoas só podem se envolver em relacionamentos significativos se compreendem os processos de interpre­tação umas das outras. A ausência do entendimento impede a comunicação e a interação efetivas. O cha­mado conflito de gerações entre pais e adolescentes pode ser maravilhosamente explicado nesses termos.

Kelly (1955, p. 97) definiu um papel como “um processo psicológico baseado na interpretação que o ator faz de aspectos dos sistemas de interpretação das pessoas às quais ele tenta reunir-se em um empreen­dimento social”. Em outras palavras, um papel é um padrão de comportamento que reflete o entendimen­to da pessoa de como os outros do grupo pensam. Uma elaboração do conceito de Kelly de papel está além do escopo deste texto, mas ele proporciona a base de sua terapia de papel fixo e do Role Construct Repertory Test, discutido mais adiante neste capítulo.

O Contínuo da consciência cognitiva

Kelly deixou claro que nem todos os constructos exis­tem em uma forma verbal, e eles podem não estar facilmente acessíveis à consciência. Entretanto, em vez de reverter a uma noção do inconsciente, ele introdu­ziu o que chamou de contínuo da “consciência cogni­tiva”. Os constructos pré-verbais, os constructos sub­mersos e os elementos suspensos caracterizam-se por uma baixa consciência cognitiva e poderiam, sob ou­tros aspectos, ser descritos como “inconscientes”.

Os constructos são tipicamente representados e modificados como palavras. Mas assim como Henry Murray descreveu complexos pré-verbais, Kelly indi­cou que é possível que constructos pessoais se estabe­leçam antes que a pessoa tenha a capacidade de re­presentá-los. Já que os constructos pré-verbais não estão codificados em uma forma lingüística, eles não podem ser articulados, mas continuam exercendo in­fluência sobre o comportamento. Dado o período de tempo em que foram estabelecidos, esses constructos tendem a centrar-se em dependência, confiança e outras preocupações infantis.

Cada constructo é definido em termos de dois pólos, mas ocasionalmente as pessoas agem como se um pólo do constructo não estivesse disponível. Por exemplo, uma pessoa pode interpretar o mundo em termos de infelicidade, sem o aparente reconhecimen­to de que logicamente deve existir também um pólo de felicidade. Quando um pólo está consideravelmente menos disponível do que o outro, Kelly disse que ele foi submerso. Uma vez que esse pólo está indisponí­vel, podemos considerá-lo inconsciente.

Um pólo de um constructo fica submerso por al­guma razão, e isso lembra muito o conceito freudiano de repressão como esquecimento motivado, mas Ke­lly preferiu conceitualizar a repressão em termos de elementos suspensos. No sistema de Kelly, as idéias e as memórias só estarão disponíveis se existirem cons­tructos para representá-las. À medida que o sistema de constructos se modifica, alguns elementos podem ficar indisponíveis para a consciência, porque a pes­soa não tem como recuperá-los e representá-los. O elemento continuará existindo em uma forma suspensa e poderá ser recuperado se mudanças posteriores no sistema de constructos proporcionarem acesso a ele. Por exemplo, um homem pode empregar um cons­tructo de bom versus mau para interpretar a memória de seu pai gritando com ele. Se esse constructo mu­dar, a memória pode ficar indisponível, mas pode re-emergir quando o homem mais tarde desenvolver um constructo de abusivo versus apoiador. Mais uma vez, todavia, não é o afeto que orienta o processo de sus­pensão, como acontece no modelo freudiano: “A nos­sa teoria não coloca a ênfase no lembrar o que é agra­dável ou esquecer o que é desagradável; ela enfatiza que nós lembramos o que está estruturado e esquece­mos o que não está estruturado. Em contraposição com algumas noções de repressão, a suspensão impli­ca que a idéia ou o elemento da experiência é esque­cido simplesmente porque a pessoa não consegue, no momento, tolerar nenhuma estrutura em que a idéia tenha significado” (1955, p. 473). Em resumo, Kelly propôs que os constructos diferem no nível de consci­ência cognitiva, variando dos claramente articulados, com dois pólos salientes, àqueles cuja estrutura os torna relativamente inacessíveis.

Constructos sobre mudança

Kelly também propôs redefinições de várias palavras conhecidas referentes ao afeto, em termos da inade­quação do sistema de constructos existente e da mudança subseqüente. Por exemplo, ele definiu ansiedade como “o reconhecimento de que os eventos com os quais nos deparamos estão fora do intervalo de con­veniência do nosso sistema de constructos” (Kelly, 1955, p. 495). A ansiedade resulta de depararmo-nos não com um evento aversivo, mas com um evento incognoscível. Além disso, a ansiedade pode proporcio­nar o ímpeto para a reorganização e o desenvolvimento sadio do sistema de constructos ou pode levar a pessoa a manobras defensivas que resultam em pólos submersos ou elementos suspensos, conforme discutido na seção anterior. A apreensão que os universitários freqüentemente sentem quando se deparam com a nova realidade da vida universitária se ajusta bem à concepção de ansiedade de Kelly. Um exemplo menos óbvio de ansiedade seria quando um aluno acostumado a receber notas medíocres recebe um A em um exame; isso certamente não é um evento ruim, mas é suficientemente inesperado para produzir um estado de ansiedade. Da mesma forma, a hostilidade reflete não assertividade em um sentido violento, mas assertividade em um sentido cognitivo: “o continuado esforço de extorquir evidência validacional em favor de um tipo de predição social que já provou ser um fracasso” (1955, p. 510). A ameaça se refere à “consciência de uma mudança iminente de grande alcance nas nossas estruturas nucleares” (1955, p. 489). Tal­vez o mais interessante em tudo isso é que Kelly definiu culpa como a “percepção do aparente desalojamento da pessoa de sua estrutura de papel nuclear” 1955, p. 502). As estruturas de papel nuclear se referem a como a pessoa compreende seu relacionamento com as outras pessoas significativas; portanto, existe culpa quando a pessoa percebe que violou uma expectativa ou um relacionamento de papel importan­te. Uma mãe recente que percebe que não tratou o filho de maneira aceitável ou o filho que percebe que abandonou os pais idosos sentirão a culpa que Kelly descreve. O leitor deve notar como a dinâmica da culpa é semelhante aos processos que Freud descreve em termos do superego (ver Capítulo 2), que Rogers descreve em termos de ansiedade (ver Capítulo 11) e que Sandura descreve em termos de auto-sistema (ver lapítulo 14). Essas são redefinições provocativas, e demonstram convincentemente o valor heurístico da aborbagem de Kelly.

Pesquisa característica e métodos de pesquisa

Kelly produziu poucos trabalhos empíricos, mas des­creveu um instrumento de avaliação notável para iden­tificar constructos pessoais. Este instrumento, o Role Construct Repertory Test, ou Rep Test (a Figura 10.11 ilustra a forma em grade do teste), provocou uma quantidade substancial de pesquisas.

O Rep Test foi planejado para revelar os construc­tos de papel que a pessoa emprega para estruturar suas expectativas de interação social. Em outras pala­vras, que constructos empregamos para interpretar outros sociais significativos? O primeiro passo para realizar o Rep Test é o sujeito identificar outras pesso­as que assumem vários papéis. Os papéis que poderi­am ser empregados no teste, em número de 20, estão listados na Figura 10.11. A primeira tarefa do sujeito é identificar uma pessoa separada que assuma cada papel. Segundo, a pessoa que está administrando o teste seleciona três das pessoas e pede aos sujeitos que pensem de que maneiras importantes duas das pessoas são semelhantes e diferentes da terceira. As colunas na Figura 10.11 ilustram alguns desses tri­plos. O triplo na coluna adjacente aos papéis pede ao sujeito que compare self, pai e mãe. Por exemplo, um respondente poderia dizer que seu pai e sua mãe são ambos assertivos (o pólo “emergente”), mas que ele é passivo. Nesse caso, assertivo versus passivo é escrito na base da coluna como o primeiro constructo de pa­pel do respondente. A segunda comparação é entre o self, uma pessoa atraente e uma pessoa bem-sucedi­da. O respondente poderia identificar ele mesmo e a pessoa bem-sucedida como ponderados e a pessoa atraente como avoada, produzindo assim um segun­do constructo. Tal processo continua até que a pessoa que está administrando o teste acredite ter provoca­do um número suficiente de constructos. A esta altu­ra, o testando já identificou um conjunto relevante de constructos de papel. Ele é então solicitado a conside­rar todos os ocupantes de papel em cada constructo, colocando um X na célula da pessoa a quem se aplica o pólo emergente do constructo. Assim, todas as pes­soas consideradas assertivas receberiam um X na pri­meira coluna.

O Rep Test proporciona muitas informações. Os constructos revelam os mecanismos de interpretação que o respondente utiliza para compreender as ou­tras pessoas, e as colunas da grade indicam como cada constructo é aplicado a um conjunto representativo de indivíduos-alvo. As linhas, por sua vez, demons­tram como o testando conceitualiza esses indivíduos-alvo. O leitor talvez queira experienciar o Rep Test, completando a grade em branco na Figura 10.11.

Existem diversas versões alternativas e sistemas de pontuação mais complicados do Rep Test (p. ex., Bannister & Mair, 1968; Landfield & Epting, 1987). Por exemplo, uma pessoa pode identificar dois cons­tructos distintos, mas empregá-los de maneira reduntante. Se o nosso respondente do exemplo indicasse que praticamente todas as pessoas-alvo que eram as­sertivas eram também ponderadas, e que todas as ressoas passivas eram também avoadas, então os dois constructos seriam funcionalmente redundantes. Tanto mais constructos únicos a pessoa empregar, maior a sua complexidade cognitiva (p. ex., Bieri, 1955).

Status atual e avaliação

Há muito a recomendar na teoria de Lewin. Existe, antes de tudo, a imensa atividade investigativa esti­mulada pelas idéias de Lewin. Ele abriu muitas portas novas para o psicólogo, portas que levaram a regiões da personalidade e do comportamento social previa­mente fechadas para o experimentador. O trabalho sobre substituição, nível de aspiração, efeitos da in­terrupção sobre a memória, regressão, conflito e di­nâmica de grupo foi iniciado por Lewin. A importân­cia de muitos desses fenômenos psicológicos foi estabelecida pelas observações dos psicanalistas, mas foi Lewin quem criou uma atmosfera teórica adequa­ da e planejou métodos para-investigá-los.

Lewin possuía o valioso talento de ser capaz de tornar explícitas e concretas algumas das mais implí­citas e elusivas suposições sobre a personalidade. Ele viu, por exemplo, a necessidade de explicar detalha­damente as suposições básicas dos teóricos psicanalíticos sobre a substituição de uma atividade por outra. Quando isso foi feito em termos de uma organização de sistemas de tensão separados cujas fronteiras pos­suíam a propriedade de permeabilidade, foi aberto o caminho para o ataque experimental. A sua capacida­de de pensar de forma rigorosa e esclarecedora sobre conceitos era um dos pontos fortes de Lewin, e ele iluminou muitos problemas que jaziam à sombra de conceitualizações incompletas e de teorizações con­fusas. Ele estava convencido de que a ciência da psi­cologia, para ser útil aos seres humanos, teria de pe­netrar na dimensão significativa da conduta humana e explorá-la experimentalmente. Embora Lewin pu­desse ser incompreensível em sua teorização, ele ra­ramente deixava de lado os casos concretos e as pres­crições práticas para a pesquisa.

Além disso, ele reconheceu claramente que uma teoria que abrange os aspectos vitais do comporta­mento humano tem de ter um alcance multidimen­sional. Em outras palavras, tem de ser uma teoria de campo, que abarque uma rede de variáveis interliga­das em vez de pares de variáveis. Essa ênfase no cam­po era necessária nas décadas de 20 e 30, para con­trabalançar a influência e o prestígio de uma psicologia supersimplificada e ingênua de estímulo-resposta. Enquanto a psicologia da Gestalt estava atacando e esmagando os baluartes da psicologia estrutural que defendiam a análise mental em elementos, a psicolo­gia topológica e vetorial de Lewin competia com uma forma de comportamentalismo bastante estéril, que reduzia a conduta humana a simples conexões de es­ tímulo-resposta. A teoria de Lewin ajudou a criar uma estrutura de referência subjetiva cientificamente res­peitável em um momento no qual o objetivismo era a voz dominante na psicologia. Os assim chamados de­terminantes internos da conduta, como aspirações, valores e intenções, tinham sido sumariamente descar­tados por uma psicologia “objetiva” em favor de reflexos condicionados, da aprendizagem por repetição e do provocar e eliminar automáticos dos vínculos de estímulo-resposta. O comportamentalismo ti­nha quase conseguido reduzir o ser humano a um autômato, um marionete mecânico que dançava de acordo com a melodia dos estímulos externos ou pu­lava ao ser aguilhoado pelos impulsos fisiológicos in­ternos, um robô destituído de espontaneidade e de criatividade, uma pessoa vazia.

A teoria de Lewin foi uma das que ajudaram a reviver a concepção do indivíduo como um campo ce energia complexo, motivado por forças psicológicas e comportando-se seletiva e criativamente. O homem vazio foi reabastecido com necessidades psicológicas, intenções, esperanças e aspirações. O robô foi trans­formado em um ser humano vivo. O crasso e árido materialismo do comportamentalismo foi substituído por um quadro mais humanístico das pessoas. Enquanto a psicologia “objetiva” talhava muitas de suas pro­posições empíricas para serem testadas em cães, gatos e ratos, a teoria de Lewin levou à pesquisa sobre o comportamento humano conforme expresso em am­bientes mais ou menos naturais. As crianças brincan­do, os adolescentes em atividades grupais, os traba­lhadores em fábricas, as pessoas planejando refeições essas foram algumas das situações naturais de vida em que hipóteses derivadas da teoria de campo de Lewin foram testadas empiricamente. Com essa pes­quisa vital sendo feita sob a égide persuasiva da teo­ria de campo, não surpreende que o ponto de vista de Lewin se tenha tornado tão popular. O poder heurísti­co da teoria, independentemente de sua adequação formal ou de suas pretensões de ser um modelo mate­mático, justifica a grande estima que a teoria de cam­po de Lewin tem recebido.

Um tanto paradoxalmente, Lewin tem sido am­plamente ignorado pela atual geração de psicólogos, em parte provavelmente porque sua abordagem to­pológica parece tão estranha. Apesar disso, suas idéi­as e seus insights permanecem vigorosos e apropriados. As evidências dessa fertilidade foram oferecidas pelos três simpósios que constituíram a Pré-conferência realizada pela Society of Personality and Social Psychology na convenção anual de 1996 pela Socieda­ de Psicológica Americana. A Pré-conferência intitulou-se: “Up to the roots: The role of Lewian thought in contemporary personality and social psychology” Con­forme ilustrado nesses artigos (p. ex., Funder, 1996; McAdams, 1996; Steele, 1996), a abordagem de Lewin permanece relevante.

A abordagem de constructo pessoal de George Kelly à personalidade teve uma espécie de renasci­mento nos últimos anos. Em parte, isso pode ser atri­buído ao Zeitgeist cognitivo que domina a psicologia atualmente. Além do fato de nós agora termos uma orientação com a qual recuperar essa teoria previa­mente “suspensa”, existe muito que atrai na aborda­ gem de Kelly. Sua premissa básica de que os indivídu­os diferem fundamentalmente na sua maneira de interpretar a realidade e nos resultados que anteci­pam como conseqüência soa verdadeira. Parece inegável que nós realmente impomos as nossas expecta­tivas ao mundo, e que essas expectativas servem para tcanalizar o nosso comportamento. Kelly nos prestou um serviço ao dirigir a nossa atenção para a maneira como criamos o mundo ao qual respondemos. Entre­tanto, existem vários pontos que podemos objetar em sua teoria.

Primeiro, a maior força de Kelly é sua ajuda para empreendermos como os indivíduos interpretam ou constroem a realidade. Ele disse muito pouco sobre como os indivíduos adquirem seus constructos e como esses constructos originam o comportamento. O co­rolário de experiência fala sobre a aquisição de constructos, mas de uma maneira muito geral. Ficamos sabendo que as pessoas desenvolvem constructos que lhe permitem antecipar resultados, mas não temos como saber que direção seguirá esse processo de aqui­sição. Os que apóiam a teoria de Kelly podem argumentar que isso é análogo a queixar-se de que a teoria da aprendizagem não especifica o que é aprendido, mas o fato é que Kelly nos diz muito pouco sobre o que governa a natureza dos constructos que forma­mos, a maneira como designamos objetos e eventos para pólos, ou a probabilidade de a pessoa responder apredições inexatas e à ansiedade com mudança cons­trutiva, em oposição à suspensão, submersão ou hostilidade. É como se nos dissessem que os bons cientis­tas “nascem prontos, não se fazem”. Igualmente, fica­mos sabendo que baseamos o nosso comportamento em conseqüências antecipadas, seguindo o corolário de escolha e o ciclo C-P-C, mas não nos dizem o que governa essas escolhas ou o movimento através do ciclo. Isso nos lembra a objeção de que os modelos cognitivos da aprendizagem deixam o rato “perdido em pensamentos”.

Segundo, existe uma pobreza emocional no mo­delo de Kelly da personalidade. Talvez em função dos clientes com os quais trabalhava, Kelly enfatizou a lógica e a racionalidade. No processo de articular essa faceta do comportamento humano, ele ignorou as paixões, que também desempenham um papel cen­tral na vida humana. Grande parte do apelo persis­tente da teoria freudiana é o destaque que ela dá à paixão humana, e não existe nada disso em Kelly. Essa falta de atenção à emocionalidade e aos mecanismos de excitação deixa uma imagem fraca e desbotada do comportamento humano. Da mesma forma, Kelly su­geriu que as pessoas sadias sempre agem em seus melhores interesses, mas grande parte da intriga no comportamento humano origina-se de casos em que tal suposição parece não se sustentar.

Finalmente, a plasticidade que Kelly atribuiu à personalidade é problemática. Os constructos de pa­pel nuclear existem para dar estrutura à personalida­de, mas não podemos contar com muito mais que per­maneça. Não existem metas, valores, unidades estruturais ou tendências comportamentais. Em resu­mo, não existe nenhum alicerce para a personalida­de. Que enfatizem as predisposições fisiológicas ou o condicionamento social, outros teóricos pintam um quadro bem mais claro de uma pessoa sólida e per­manente; o retrato de Kelly é vago. A fluidez que Ke­lly atribui às pessoas é um aspecto provocativo e oti­mista de sua teoria, mas isso também nos deixa sem saber bem onde estamos.
Mas todas as teorias têm limitações, e Kelly arti­culou uma perspectiva provocante e característica da personalidade. Ninguém nos fez compreender melhor o processo pelo qual os indivíduos constroem o mun­do ao qual respondem. A teoria pode ter um intervalo de conveniência limitado, mas esse intervalo é consi­deravelmente útil: os indivíduos são distintivos por­ que sua maneira particular de compreender a reali­dade social e física os leva a expectativas distintivas em relação às conseqüências de suas ações.

Psicologia - Gestalt
6/21/2020 1:36:40 PM | Por Hugo Elídio Rodrigues
Texto indicado para estudantes de Psicologia
Relações entre a teoria de campo de Kurt Lewin e a Gestalt-terapia

Frederick S. Perls citou algumas vezes que seria necessária uma teoria de campo para fundamentar a compreensão da atmosfera que se cria no encontro entre o psicoterapeuta e a pessoa que o procura. Ele diz: "Minha ambição tem sido criar uma teoria de campo unificada na psicologia" (Perls apud Stevens, 1977, p. 99).

Com a expressão "teoria de campo unificada", Perls (1981, p. 26) nos mostra uma correlação entre pensar e agir, afirmando que, quando o ser humano pensa, ele está agindo em imagem. Está fazendo simbolicamente o que poderia fazer fisicamente". Ele pondera que "pensamento" pode ser substituído por um termo mais amplo, que englobe as várias atividades mentais do ser humano, como imaginar, sonhar etc., e propõe usar o termo "fantasia" para isso. Daí, quando fantasiamos, estamos agindo simbolicamente, com menos gasto de energia do que quando agimos fisicamente. Podemos então ir de um nível (fantasia) para outro (ação) e vice-versa, dependendo da intensidade energética que empregamos.
Dessa maneira, Perls valida a inclusão, durante o encontro terapêutico, não apenas do que a pessoa pensa ou fala, mas também do que e como ela faz. Entre o fantasiar e o agir, ele dirá que existe uma zona intermediária — o "fazer de conta na terapia" (Perls, 1981, p. 30) — que, por meio do experimento vivido na situação presente do atendimento, colaborará para o próprio indivíduo compreender-se melhor. A pessoa poderá experimentar, na segurança do ambiente terapêutico, aquilo que suas fantasias ou ações não se arriscam a experimentar e, uma vez fazendo-o, conhecerá mais profundamente a si mesma por intermédio daquilo que viveu. Esses argumentos fundamentam o uso do experimento como técnica terapêutica na Gestalt-terapia.

A intenção dessa contribuição de Perls é louvável, e sua ideia de utilizar uma teoria de campo unificada poderia ser ampliada com o emprego da teoria de campo de Kurt Lewin (1890-1947), em virtude de sua ampla aplicação em experimentos psicológicos e de tantas contribuições metodológicas para a psicologia em geral e para a psicologia social em particular. No final da década de 1970, Festinger (apud Rodrigues, 1979) afirmou que a teoria de campo de Kurt Lewin foi utilizada em mais de 95% de todo o trabalho teórico na psicologia social.

A teoria de campo de Kurt Lewin se propõe a fundamentar nossa compreensão sobre como o sentido das ações de uma pessoa é algo que se coaduna à relação dela com seu meio. Segundo essa teoria, "meio" ou "campo" referem-se a "quando" e onde" algo pode produzir uma diferença na percepção da pessoa. Além disso, a noção de tempo se apresenta como unidade situacional, com foco no presente, que se articula com os dados a ele anteriores e aponta para possibilidades futuras.

Lewin critica a visão da psicologia da época, influenciada pelo paradigma aristotélico que impregna nossa cultura (não apenas a ciência), paradigma esse baseado em um pensamento classificatório, estatístico-histórico e abstrato. De acordo com Lewin, a psicologia até então não enxergava o ser humano de forma integrada.

Para ilustrar a influência desse tipo de pensamento em nosso cotidiano, notemos o exemplo a seguir, de uma conversa entre mãe e filha:
— Poxa, mãe, o João, meu namorado, aquele infeliz, me traiu!
— Ah, filha... Mas o que você esperava? Homem é assim mesmo!

A ênfase aqui é sobre o que subsiste ontologicamente, ou o que fundamenta a lógica da frase "Homem é assim mesmo". O que torna possível que uma comunicação dessa natureza seja feita?

Na frase "Homem é assim mesmo", João desapareceu, tendo sido substituído por uma classe, homens. Em outros termos, quando a mãe responde, não importa quem é João, quem é sua namorada, o que aconteceu ou ainda acontece na relação entre ambos. O que importa é que aquele homem agiu da mesma forma como, supostamente, todos os homens agem.

O pensamento classificatório exigirá a certeza de que sempre, ou na maior parte das vezes, um elemento daquela classe agirá conforme as características inerentes a ela. Tal certeza é amparada pelo pensamento estatístico-histórico, em que algo que muitas vezes aconteceu tende a ser visto como algo que se repetirá no futuro. Muitos homens, de fato, já traíram, e tal comportamento passa a ser algo esperado. Porém, acontecer algo com frequência, ainda que alta, não é critério suficiente para assegurar que volte a acontecer no futuro. Logo, mesmo que muitos homens já tenham traído, não necessariamente todo homem trairá.

Dessa forma, a experiência concreta entre João e sua namorada é substituída por uma generalização. Na frase "Homem é assim mesmo", encontramos o pensamento classificatório (classe dos homens traidores), estatístico-histórico (a frequência ocorrida que funda a tal classe) e abstrato (que generaliza e retira a implicação de cada pessoa na situação), elementos criticados por Lewin.

Para compreender a crítica lewiniana e sua proposta de pensar uma metodologia alternativa, será necessário destacar alguns dados históricos.
Lewin atribui o paradigma criticado ao filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.). Este dizia que, para que algo fosse considerado objeto da ciência, deveria estar sempre presente — ou com muita frequência — na natureza. Fenômenos fortuitos não seriam objeto da atenção científica. Uma vez constatado o fato, por exemplo, de que todo objeto pesado cai, Aristóteles passaria a estudar abstratamente a classe "objetos pesados", ignorando a concretude de cada objeto e seu peso. Com a base estatístico-histórica, cada objeto pesado que eu segure nas mãos — como uma pedra ao ser largado, necessariamente cairá. Não preciso testar isso com cada pedra, o que me permite otimizar a possibilidade de estudo focando apenas nas características inerentes à classe "objetos pesados". Por que a pedra cai? Ela cai porque é pesada, resposta coerente com esse pensamento. Por analogia, por que João trai? Ele trai porque é homem.

Mas tomemos esse mesmo exemplo da pedra para, inspirados na crítica de Lewin, começarmos a nos aproximar de outra forma de pensamento...
Suponhamos uma situação em que tal pedra, segurada pela mão, não caia quando largada. O que contrariaria esse histórico? Caso a pedra esteja no espaço sideral, longe de um campo gravitacional, ela simplesmente não cairá, porque nada a empurra para baixo. O que importa aqui é perceber que a característica "peso" não é algo inerente ao objeto "pedra", representante da classe "objetos pesados". É, sim, algo inerente à relação do objeto com um campo gravitacional. "Peso" é fruto de uma relação entre dois corpos dotados de massa, em que se leva em conta a distância entre eles, de modo que aqui, na Terra, a pedra cai, mas na Lua cairia seis vezes mais lentamente e, no espaço sideral, longe de outro corpo dotado de massa, simplesmente não cairia.

No exemplo original, do ponto de vista lewiniano, diríamos que João trai não "porque ele é homem". É necessário perceber a relação entre ele e sua namorada, na qual a traição (um aspecto circunstancial) surge como um comportamento que tem algum sentido em existir. Em outros termos, há de se inquirir o que estruturalmente na relação a torna propensa à traição.

Desse modo, em vez de um pensamento estatístico-histórico, buscamos uma ação descritiva que focaliza o que está acontecendo, presentemente, na relação entre João, sua namorada e o contexto de vida da relação deles.

Em vez de lidarmos com uma classe e com um pensamento abstrato generalizante, apontaremos o caso único que está aqui e agora à nossa frente: foi este João que traiu esta namorada, segundo o que ela conta à mãe.

Lewin procurou, ao criticar o paradigma aristotélico, preparar as pessoas para assimilar sua metodologia, não a enquadrando nos moldes do paradigma vigente. Com uma metodologia que visa compreender descritivamente as situações únicas vividas, sempre tendo como ponto central o contexto no qual a situação emerge, e o foco no presente, Lewin ergueu as bases de sua teoria de campo.

As bases da Teoria de Campo de Kurt Lewin

Sobre o conceito de "teoria" e de "campo"

Lewin nos dirá que seu trabalho estaria mais próximo do conceito de "método" do que propriamente de uma "teoria" conforme definido na citação. Segundo ele, "a teoria de campo provavelmente se caracteriza melhor como um método, isto é, um método de analisar relações causais e de criar construções científicas" (Lewin, 1965, p. 51). Consequentemente, poderíamos dizer que o conceito de "teoria" de Lewin seria mais próximo da "teoria executiva", pela forma de lidar primeiro com os fatos para depreender, a partir deles e gradativamente, suposições teóricas.

Sobre o conceito de "campo", que Lewin (1973, p. 29) também chamará de "espaço vital psicológico", temos uma sintética definição: "O espaço vital psicológico indica a totalidade de fatos que determinam o comportamento do indivíduo num certo momento", sendo dotado de duas regiões: a pessoa e o ambiente.

Lewin buscou um método mais próximo da descrição dos fatos do que um que se baseasse em hipóteses prévias sobre eles, tendo como foco de seu trabalho o campo psicológico e a totalidade de forças que podem interferir no comportamento de uma pessoa ou de várias pessoas em determinado tempo e lugar.

As principais características da teoria de campo

Segundo Lewin (1965, p. 69), pode-se compreender o método de construção contrapondo-o ao classificatório. Este se preocupa com uma forma comparativa de analisar os problemas, organizando os dados conforme suas semelhanças. Já "a representação de um caso individual com o auxílio de alguns 'elementos de construção' constitui a essência do método de construção" (Lewin, 1965, p. 70). Lewin dirá que, com base em elementos de construção como posição psicológica e forças psicológicas, é possível estabelecer afirmações sobre relações entre tais elementos ou entre algumas de suas propriedades empiricamente comprovadas. O método de construção será, portanto, uma representação simbólica, em uma situação (posição psicológica), de uma pessoa (ou várias pessoas) sobre a qual (sobre as quais) incidem forças do campo vivencial naquele momento. O método de construção será mais comentado adiante.

Quanto aos aspectos dinâmicos, estes se referem especificamente ao estudo das forças presentes na relação da pessoa com seu meio, conforme observamos na etimologia da própria palavra "dinâmica", proveniente do termo grego dynamis, que significa "força". Lewin terá interesse em descrever as forças presentes em dado momento de vida da pessoa, ou das pessoas, para que determinado comportamento ocorra. Porém, uma vez que as forças são inerentes aos momentos de vida, podem variar, neutralizando-se, aumentando ou diminuindo de intensidade. Em outros termos, a dinâmica também estabelece que, com o fluir das forças do campo, o próprio processo estudado se altera: "Em todo e qualquer processo, as forças no meio interno e externo são modificadas pelo próprio processo" (Lewin, 1975, p. 55).

Quanto à perspectiva psicológica e não física, Lewin alude ao fato de que sua teoria procura descrever o que acontece não apenas no que se refere a uma objetividade fiscalista, mas levando em conta que o importante é como o indivíduo experiência o que acontece no momento considerado: Um professor nunca será capaz de dar orientação apropriada a uma criança se não aprende a compreender o mundo psicológico no qual aquela criança vive" (Lewin, 1965, p. 71).

Uma vez que é o aspecto psicológico que deve ser considerado, é preciso aceitá-lo conforme a pessoa o percebe, ou seja, fenomenologicamente. Assim, qualquer aspecto particular focalizado deverá levar em conta a relação com a totalidade — aquilo que em psicologia da Gestalt e em Gestalt-terapia se chama relação figura/fundo.

Quanto à distinção entre problemas sistemáticos e históricos, Lewin ressalta a importância de considerar o que está acontecendo num campo vivencial no momento em que o comportamento analisado ocorre, ou seja, o comportamento passado só pode influenciar o comportamento presente por aspectos que tornam, no presente, tal influência possível. Dessa forma, o comportamento é resultante de um conjunto de fatores presentes no campo, como várias forças que atuam, compondo um sistema a ser descrito e analisável. Já os problemas históricos dependem de um conhecimento do passado que nem sempre está disponível. Lewin nos dá um exemplo utilizando a metáfora do "piano sobre o piso de madeira": caso tentássemos confirmar se um piso antigo suporta ou não o peso de um piano, poderíamos analisar historicamente esse piso, observando dados como o tempo em que ele está lá, o tipo de madeira utilizado em sua confecção e sua expectativa de durabilidade. Porém, mesmo de posse desses dados, poderemos ter absoluta certeza de que o piso aguentará o peso do piano?

O desgaste da madeira é um dado intangível numa análise histórica, uma vez que talvez não tenhamos acesso a ele. Já a análise do problema, em termos sistemáticos, nos faria, com a ajuda de cordas e roldanas, apoiar o piano gradativamente e ver como o piso reage. O "histórico", sendo conhecido ou não, é presentificado no método sistemático de análise, pois, se o piso estiver velho ou tiver sido indevidamente utilizado, por exemplo, na hora do teste do peso o sistema de forças presentes na situação evidenciará a resposta.

Por último, Lewin fala da importância de obter em psicologia uma linguagem que reduza os problemas dos conceitos que apresentam multiplicidade de sentidos. Para isso, defenderá o uso da linguagem matemática, descrita por ele como uma "linguagem que é logicamente estrita e ao mesmo tempo de acordo com os métodos de construção" (Lewin, 1965, p. 74).

Após a apresentação dessas características, é importante não subsumir que Lewin preocupou-se apenas com a formalização ou com o uso da matemática na psicologia. Vale lembrar que essas características se referem à sua teoria, mas não são suficientes para compreender a fundo suas aplicações — assim como conhecer os movimentos das peças de xadrez não é o bastante para entender a complexidade e a engenhosidade de um jogo em andamento. Lewin (1965, p. 7) ressalta que sua preocupação, assim como a de qualquer psicólogo, é "[...] conhecer melhor e compreender mais profundamente os processos psicológicos. Este é, e sempre foi, o princípio orientador".

Do formal ao prático: a noção de "tensão" e o trabalho de B. Zeigarnik

Vejamos agora como a teoria de campo de Lewin estabelece sua correlação com os fatos focalizados em suas análises. Como estender a teoria para a prática?

Formalmente, Lewin toma como base para sua teoria a análise do comportamento da pessoa, considerada um ponto de atuação de forças que mobiliza, então, uma fonte de energia para novos comportamentos. A essa fonte de energia proveniente das necessidades que a pessoa procurará satisfazer; na relação com o campo — que é, consequentemente, geradora de ações Lewin (1965, p. 14) chamará de "tensão". A tensão será considerada o "estado de um sistema em relação ao estado dos sistemas que o rodeiam". O termo designa o nível de energia com a qual uma região do campo se relaciona com outra região; nada apresenta tensão em si, mas sempre em relação a algo. Em direção a esse algo, a tensão tende a se aproximar (no caso de valência positiva) ou a se afastar (no caso de valência negativa). Segundo Lewin, o conceito de valência refere-se ao que mobiliza a pessoa para um potencial movimento, sempre pensando em uma situação vivida. A valência é uma espécie de "pedido" — ou de "ordem" — para a aproximação ou o distanciamento, sempre com base em um contexto referencial, por isso não deve ser confundida com a ideia de estímulo, como na relação estímulo/resposta.

Lewin fundamenta sua argumentação na premissa de que, em um campo psicológico, uma tensão, como correlato das forças presentes no campo, se concretiza como busca de locomoção psicológica, afastando-se ou aproximando-se de um referencial qualquer.

A fim de comprovar sua premissa, Lewin recorrerá ao trabalho de B. Zeigarnik sobre os experimentos relacionados à incidência de fatores que afetam a rememoração de fatos. Em resumo, a pesquisa de Zeigarnik consistiu nas seguintes etapas iniciais:

  1. Uma pessoa, em um campo psicológico, experimenta sobre si a incidência de forças externas presentes nesse campo.
  2. Eventualmente, tais forças podem provocar uma tensão interna, gerando uma locomoção rumo ao objetivo almejado.
  3. Em paralelo à locomoção, há uma atividade no nível do pensamento, pois a pessoa também pensará naquilo que almeja.

Com base nessas etapas, Zeigarnik elaborou um experimento que, operacionalmente, consistiu em dar várias tarefas a voluntários ao longo de um dia. Algumas dessas tarefas foram intencionalmente interrompidas pelos experimentadores e ficaram incompletas. Outras foram concluídas normalmente (ou seja, chegando ao objetivo).

Considerando as premissas "a" e "b", se há tensão até o cumprimento de um objetivo, podemos depreender que essa tensão não se esgota quando o objetivo não é alcançado, devido às interrupções alheias à vontade da pessoa. Dessa forma, somando a premissa c", podemos concluir que a pessoa tende a lembrar-se mais das tarefas interrompidas (devido à tensão não esgotada) do que das tarefas concluídas (pelo motivo inverso, a tensão esgotou-se).

Para constatar tal conclusão no experimento, ao final do dia, pediu-se aos voluntários que se recordassem de todas as tarefas que receberam, independentemente de estas terem sido concluídas ou não.

Zeigarnik mediu o número de recordações das tarefas incompletas (RI) e o número das recordações das tarefas completas (RC) e obteve o significativo quociente da divisão RI/RC de 1,9. Ou seja, lembramos quase duas vezes mais de algo que foi interrompido do que de algo que conseguimos concluir.

Os setores de propaganda e marketing utilizam esse estudo — que ficou conhecido como "Efeito Zeigarnik" — nos teasers, estilo de comunicação que mobiliza o público com uma informação incompleta, promovendo uma retenção maior da informação na memória das pessoas.

A Gestalt-terapia também considera até que ponto uma situação incompleta provoca uma tensão interna que, eventualmente, pode contribuir para um comportamento neurótico recorrente que busca o fechamento de tal situação.

Com esses dados, Lewin afirmou que a tensão interna provoca uma tendência à locomoção (no sentido psicológico, que é análoga ao "pensar em algo" de acordo com a premissa "c"), visando a um equilíbrio com o meio.

Do conceito de tensão depreende-se o conceito de campo, que se refere ao espaço psicológico no qual tal tensão flui.

Porém, se a relação da pessoa com o meio fosse completamente fluida, a tensão logo escoaria e a pessoa não a experimentaria. Logo, depreende-se que há, no campo, algo que interfere no fluxo das tensões, contribuindo dinamicamente para o seu escoamento ou retenção. É o conceito de "fronteira", que pode ser definido dinamicamente como o que permite fluir ou reter as descargas das tensões entre a pessoa e o meio, e também no sentido inverso.

Há ainda situações em que a tensão busca um comportamento cujo sentido satisfaça às próprias necessidades. Tal comportamento, no entanto, pode ser impedido ou dificultado. Lewin chamará de "barreira" àquilo que produzirá esse efeito. A fronteira demarca uma região, mas não necessariamente é vivida como algo que impede a locomoção, como é o caso da barreira (Lewin, 1973, p. 144).

Retomando ainda o conceito de locomoção, Lewin esclarecerá que esta se dá quando a pessoa pode alcançar ou acessar novos dados que, antes, não podia. Lembrando a definição de "espaço vital psicológico", a locomoção se dá quando novos fatos imediatamente se disponibilizam para gerar novos comportamentos do indivíduo em certo momento. Também não é algo restrito à relação com um espaço material e concreto. Vejamos um exemplo: um coordenador de equipe, sentado à sua mesa, recebe o diretor de seu setor. Este anuncia ao coordenador que, a partir daquele instante, ele passa a ser gerente, recebendo para tanto um salário maior. O coordenador não se mexe, mas seu campo se locomoveu, ampliando-se. Entre outras mudanças imediatas oriundas do novo cargo, ele passa a ter acesso financeiro a bens materiais a que antes não tinha. Novos fatos (sua rápida ascensão financeira) determinam novos comportamentos.

Com isso, temos aqui operacionalmente definidas as bases do pensamento lewiniano. O comportamento ("C") possível, em dado momento, deverá ser uma função ("f") da totalidade dos fatos coexistentes, que emergem da relação entre a pessoa ("p") e seu espaço de vida, ou meio ("m"). Daí, Lewin (1975, p. 75-83) concluirá que: "C= f (p, m)".

Os conceitos de espaço hodológico e de diferenciação do campo

O comportamento depreendido pela correlação C = f (p,m[se dará em um espaço vivencial, e não em um espaço submetido às leis da lógica matemática, que poderia, conforme a geometria euclidiana, dividi-lo infinitamente. Lewin (1985, p. 80-6) explica sua concepção de espaço com um exemplo prático: como uma pessoa reage ao chegar a uma cidade que não conhece para, então, se dirigir ao trabalho?

Numa época sem GPS, mapas virtuais, smartphones etc., a pessoa chegava a um espaço que lhe parecia apenas "um": a cidade onde nada conhece. À medida que perguntava, obtinha informações com a população local e a unidade "cidade que não conhece" passava a se diferenciar, pois agora o local de trabalho fica em uma direção, não interessando o restante da cidade, que passa a ser o "resto". Porém, conforme se dirige para o local do trabalho, o simples "ir naquela direção e não ir na direção contrária", que havia dividido a cidade em duas, gradativamente se diferencia ainda mais. No caminho, surge a visão de um restaurante agradável, próximo do trabalho; aparecem o banco utilizado por ele, o hotel, um bar. Com isso, um campo vivido como uma unidade (a cidade) diferencia-se em regiões que ainda podem se subdividir. O restaurante, por exemplo, pode comportar uma área com vista para a rua e outra com vista para o jardim, e assim por diante.

Temos aqui dois conceitos que se articulam no pensamento de Lewin e ainda podem trazer grande contribuição prática para a Gestalt-terapia. Como Lewin trabalhará topologicamente com áreas, regiões, ambientes etc., ele precisará pensar em um espaço coerente com a maneira como o ser humano percebe tais espaços e em como estes se diferenciam à medida que a pessoa aprende algo sobre eles. 

Como já vimos, a geometria euclidiana, coerente com o uso matemático, permite a divisão de espaços ao infinito. O espaço humano não é visto assim... O ser humano sai do trabalho (uma região), chega à sua casa (outra). Dentro de casa, pode haver os quartos dos filhos (sub-regiões da região "casa"), mas seu quarto é "seu quarto" (uma sub-região que não é mais passível de subdivisão). Ou seja, faz-se necessário um espaço que permita trabalhar com divisões ou subdivisões que fazem sentido, sempre apresentando finitude, limite. "O Espaço hodológico é finitamente estruturado, isto é, suas partes não são infinitamente divisíveis, mas compostas de determinadas unidades ou regiões" (Lewin, 1965, p. 30).

O conceito de espaço hodológico também se refere às regiões que a pessoa percebe diferenciar-se nela mesma, pois ela experiencia regiões mais internas, mais íntimas, que pouco se expõem. Lewin chamará essa região de "central". Outras regiões mais fáceis de expor são chamadas de "periféricas". Quanto às de maior contato com a fronteira do meio externo, ele chamará de região "perceptomotora". Lewin criou uma ilustração para demonstrar esses aspectos:

Figura 1

A Figura i mostra a região perceptomotora (1), que entra em contato com o meio. Há ainda as regiões periféricas (2), que envolvem as camadas mais centrais, mais íntimas do indivíduo (3). (Lewin, 1973, p. 199)

Voltando ao exemplo, no espaço hodológico, a pessoa pode vivenciar a cidade como uma unidade. Com o tempo, porém, aquela unidade vai-se diferenciando em regiões e subregiões, até a pessoa ter familiaridade com a cidade e poder se movimentar com segurança.

Esse processo de diferenciação é dinamicamente o mesmo para toda situação nova que a pessoa quer conhecer. Assim, podemos aplicar essa compreensão dinâmica a vários processos diferentes. Por exemplo:

  1. Como se dá a aprendizagem: o aluno vê primeiro a unidade chamada matemática, que depois se divide em regiões como álgebra, aritmética e geometria, e, com o tempo, aprende que em cada uma delas surgirão novas sub-regiões, como álgebra linear, álgebra booleana etc. Com a diferenciação, o aluno ganha mais familiaridade com a nova região.
  2. Como se dá a intimidade: uma mulher vê primeiro um homem por quem se interessa. Com o tempo, ela o vê se diferenciando em várias regiões, como "gostos" — sobre o que gosta de conversar, onde gosta de ir, o que gosta de comer — e "desgostos" — assuntos em que não gosta de tocar, pessoas de quem não gosta de se aproximar etc.
  3. Como se dá o amadurecimento: a pessoa se percebe tendo sempre o mesmo tipo de reação ruim diante de uma situação recorrente na vida e, com o tempo, nota que tal reação vai-se diferenciando em novas possibilidades mais satisfatórias ou atuais. Assim, o que antes era uma única reação neuroticamente compulsória se diferencia em novas escolhas.

Na Gestalt-terapia, o conceito de diferenciação pode ser aplicado, por exemplo, nas queixas de pessoas em atendimento que se referem às situações de vida muito "abstratas", que podem ser energizadas (conforme o conceito de teoria de campo unificada de Perls, citado no início deste capítulo) e transformadas em ação. É o caso dos experimentos em Gestalt-terapia. Com o processo de diferenciação em mente, o Gestalt-terapeuta pode ampliar o potencial de operacionalização do tema que o cliente precisa trabalhar, obtendo maior grau de convergência entre a proposta do experimento e aquilo de que a pessoa precisa.

Como isso se dá? A pessoa em terapia pode trazer suas questões de forma abstrata e aparentemente inexequível para um experimento (questões como "Minha vida não tem sentido", "Eu não me admiro" ou "Sou um estranho para mim mesmo"). Na frase "Minha vida não tem sentido", a palavra "sentido" tem também relação com direcionamento. O Gestalt-terapeuta pode pedir à pessoa que represente seu campo de vida no momento (seja desenhando ou usando o próprio espaço da sala etc.). Como é estar nesse campo de vida? O que vê? Como se diferenciam as possibilidades do seu campo existencial naquele momento? Talvez a pessoa se confronte com vários sentidos disponíveis e com a própria dificuldade de escolher e de ter de lidar com as conseqüências de acertos e erros...

Já na frase "Eu não me admiro", a palavra "admiração" tem também relação com aproximação, enquanto rejeição vai pelo caminho oposto. Como é estar num campo (ainda apoiado pelo mesmo tipo de desenho, ou usando o espaço da sala) e diferenciar as coisas das quais se aproxima ou se afasta? Como é se ver como alguém que está lá e não quer se aproximar de si mesmo? Pode surgir aqui o contato com o que realmente a pessoa rejeita (diferenciando melhor os espaços hodológicos) em si mesma, ajudando-a a diferenciar sua totalidade da parte rejeitada.

Na frase "Sou um estranho para mim mesmo", a palavra "estranho" tem também relação com não familiaridade, podendo apresentar uma dinâmica psicológica semelhante à do trabalho com a palavra "admiração".

O conceito de temporalidade em Lewin

Lewin esclarece que o comportamento sempre acontece dinamicamente em processos cujo sentido é dado em virtude da relação da pessoa com o meio, sendo o tempo uma dimensão fundamental para essa compreensão. O tempo terá sua extensão limitada ao tema focalizado, porém não se restringirá apenas ao exato segundo presente, sendo o passado e as possibilidades futuras inclusos na situação considerada.

É necessário ainda articular o conceito de "unidade situacional" com a crítica anterior de Lewin ao paradigma aristotélico. Trabalhar com o tempo presente é também não limitar as investigações somente ao que ocorre com frequência ou sempre.

Temos até aqui uma compreensão mais clara daquilo com que a teoria de campo trabalha, de como ela visa às situações temporais e espaciais em que emerge o comportamento, trabalhando descritivamente, sempre em relação aos seus contextos referenciais totais e únicos, vividos no presente -que inclui passado e futuro psicológicos. Discutiremos a seguir como Lewin sugere operacionalizar seus conceitos.

Método geométrico (topológico) da construção

Tendo recebido forte influência da psicologia da Gestalt, Lewin, indiretamente, por meio desta, muito se aproximou da metodologia fenomenológica de Edmund Husserl.

Husserl (2000) nos apresenta, em sua primeira redução, a necessidade de não naturalizarmos nossa relação com a realidade e constatarmos que, na verdade, em vez de lidarmos com a percepção de que "há um mundo lá", lidamos com uma realidade indireta, pois só ouvimos o que escutamos, só olhamos o que vemos, só percebemos nossa percepção. Não percebemos diretamente o mundo. Logo, é vital a atitude descritiva perante o que percebemos perceber, e não uma atitude explicativa do mundo, como se ele estivesse dado, posicionado e "sempre sendo daquele jeito". Van Dusen (apud Stevens, 1977, p. 124) diz que, "na abordagem fenomenológica, simplesmente tenta-se descobrir o mundo do paciente tal como este é para ele, sem reduzi-lo a nenhuma categoria pseudo-científica (obsessiva, anal, etc.)".

Em vez de a teoria explicar o que é o homem, Lewin nos traz uma descrição de como ele vive para, então, nos dizer quem ele está sendo. O método geométrico da construção é uma analogia entre como a pessoa age e uma forma de representar isso. Independentemente de medida e tamanho, a geometria topológica lida com formas geométricas que poderão representar a pessoa, ou grupos de pessoas, nas situações vividas em seus campos psicológicos. Para aquilo que simboliza a intensidade do motivo para a ação ou as forças presentes no campo, Lewin utilizará vetores (setas) que apontam para a direção do objetivo desejado (valência positiva) ou no sentido contrário (valência negativa). As possibilidades de horizontes ou caminhos serão representadas emergindo em um espaço hodológico, diferenciadas por fronteiras, e aquilo que dinamicamente dificulta ou impossibilita a ação será representado como uma barreira.

Digamos, por exemplo, que a pessoa chegue ao consultório com a queixa de ter de lidar com a timidez no trabalho, pois para se destacar precisa mostrar o que faz ao chefe, que poderá futuramente promovê-la ou não. Porém, ao se aproximar do chefe, se sente paralisada, sem conseguir prosseguir.

Poderíamos supor que essa pessoa talvez esteja projetando sobre o chefe uma imagem parental repressora, agindo com ele da mesma forma que agia com o pai (foco no passado).

Poderíamos igualmente supor que a pessoa tenha uma elevada expectativa de si mesma. Diante da possibilidade de se colocar perante alguém que possa avaliá-la, seu temor de um não reconhecimento futuro e a conseqüente não confirmação de sua autoimagem elevada a fazem travar (foco no futuro).

Ambas as suposições são bem plausíveis. Agora, aplicaremos o método geométrico da construção, fazendo a analogia entre a situação da pessoa e a simbolização da geometria topológica. A pessoa que quer se aproximar do chefe no ambiente de trabalho será representada por uma região "P", e o chefe por uma região "C". A seta (vetor) representa a tensão que pressiona "P" em direção a "C", que corresponde à necessidade de ter seu trabalho reconhecido. Essa tensão decorre das forças presentes no campo, onde socialmente se pressiona a pessoa a agir; pois todos esperam que cada um faça seu próprio marketing - adulando o chefe, sendo mais competitivo etc. Nesse espaço, há uma linha que poderia ser traçada perpendicularmente, entre "P" e "C", que simbolizaria o que a pessoa descreve como "timidez" e a paralisa, impedindo-a de atingir "C". Chamaremos essa linha de barreira. A Figura 2 mostra essa situação:

É importante ressaltar que essa descrição é coerente com qualquer um dos dois modelos psicológicos explicativos supramencionados — sobre a projeção parental ou sobre o medo de não confirmação da autoimagem.

Lewin operacionaliza sua metodologia com construções topológicas como a da Figura 2, que representa uma situação (que tanto pode se enquadrar em visões teóricas orientadas temporalmente para o passado ou para o futuro) com ações em movimento (dinamicamente), considerando a totalidade do campo psicológico envolvido (o ambiente de trabalho).

Recursos da Teoria de Campo aplicados à Gestalt-terapia


Técnica de "dar voz" aliada à descrição topológica

Partindo da situação topologicamente descrita no exemplo anterior, no atendimento psicoterapêutico, poderíamos propor à pessoa um experimento baseado na queixa sobre sua timidez para com o chefe. Pediríamos a ela que posicionasse, no espaço do consultório, as partes descritas por ela, simbolizando-as por objetos da sala. Um objeto escolhido e posicionado para simbolizar o chefe, outro para ela mesma, outros para os colegas. No experimento, as pessoas envolvidas — como o chefe, a própria pessoa, os outro colegas etc — são naturalmente mais fáceis de emergir como figuras. A contribuição de Lewin ocorre para o que não é tão visualmente tangível, porém sensivelmente perceptível: os vetores que representam as forças, assim como as barreiras. Nesse caso, a existência de tensão sobre o objeto pode ser simbolizada por um simples barbante ligando o objeto pessoa ao objeto chefe, sendo interrompida por outro barbante, que representaria a barreira da timidez que torna o chefe inatingível.
Temos, então, uma situação de vida representada por elementos que simbolizam a dinâmica do que a pessoa está vivendo. Essa situação se mostra como algo descritível que amplia, para a própria pessoa em atendimento, as possibilidades compreensivas sobre seu processo existencial.
Ao propor um experimento, considero importante, antes de pedir que a pessoa experiências partes representadas na situação, que ela descreva o "clima" da situação, a atmosfera psicológica da totalidade do ambiente. Pergunto: "O que você está sentindo agora quando olha para isso que você representou?"

Segundo Lewin (1965, 1970), a atmosfera psicológica descreve uma propriedade do campo: poder ser visto como uma unidade coesa, a partir de um sentido dado (como um afeto). Pode ser momentânea (por exemplo, a atmosfera que se dá quando alguém entra no elevador com outras pessoas) ou até durar anos (como, após vários anos, uma pessoa volta a visitar a casa dos pais e sente as mesmas emoções de antes).

A atmosfera psicológica nos permite conhecer a noção que a pessoa tem do "todo" que está ali vivendo, como ela compreende o fundo referencial a partir do qual emerge a figura da situação entre ela e o chefe.

A pessoa pode ser convidada a entrar na situação representada e dar voz a cada elemento, ou seja, pode trocar de lugar com cada objeto escolhido e "ser" aquele objeto da situação total. É freqüente, nesse tipo de trabalho, a pessoa expressar grande familiaridade com o ponto de vista das pessoas envolvidas, mas raramente ela teria experimentado dar voz à própria tensão (dar voz ao "Tenho de falar com o chefe") ou à própria timidez (dar voz à barreira), o que poderá trazer pontos de vista ainda não explorados.

Com base nesse exemplo, podemos descrever algumas contribuições dessa metodologia:

Há um nítido ganho em relação ao espaço hodológico simbolizado com as informações que passam a ficar disponíveis. Ao posicionar as partes daquele todo vivido, a pessoa indica, na distância entre tais partes, um dado concreto a ser por ela mesma descrito. Os elementos estão próximos ou distantes demais? Alguns mais próximos e outros não? O que significam tais posicionamentos para a pessoa? A barreira é representada como forte demais ou o oposto? A tensão é representada como fraca demais ou o oposto?

Em conseqüência da possibilidade concreta descritível, decorrente da montagem da situação vivida, a pessoa se torna independente do terapeuta para elucidar os conteúdos do seu vivido. A situação está ali, e a própria pessoa poderá encontrar, dando voz às partes em contraste com o todo do campo psicológico, o sentido existencial do que está acontecendo. O terapeuta está junto, presente, acompanha de forma sensível o processo de ampliação de autodescoberta e de autossuporte.

Esse método é um recurso facilitador no que se refere à sua assimilação pela pessoa que o experimenta, pois esta tem diante de si um referencial descritível para interagir, quando antes, apenas no "pensamento" e no verbal, as palavras poderiam ter tantas significações distorcidas quanto a fixação neurótica pudesse permitir. Apenas falando, a pessoa reduz o acesso às informações presentes no campo e corre o risco de manter-se enredada nas tramas de sua própria história. Na situação vivencial isso não ocorre, pois muitas outras informações aparecem: a expressão corporal (gestos, olhares, jeito de caminhar; tons de voz) diante de cada parte do campo; a presentificação das formas dos objetos escolhidos para a simbolização; a ordem na qual são posicionados; a distância entre eles etc.

A pessoa pode identificar-se com as partes da situação vivida e experimentar, quando no lugar do outro, uma visão ampliada de sua própria percepção projetada no olhar do outro, sentindo as forças presentes no campo, como, por exemplo, presenças imaginárias de outras pessoas. Explorando novos pontos de vista, pode surgir um tipo de gesto que é particularmente importante: os "olhares", como se a pessoa enxergasse alguém. De fato, o campo é o horizonte de sentido de uma situação, e, eventualmente, isso inspira movimentos da pessoa em relação à existência de outras do seu contexto — atual ou não aparecendo olhares em direção aos espaços vazios onde ela via pessoas como a mãe, o pai, o marido, a esposa, o professor, a turma de colegas da escola etc. Isso amplia a abertura mais social ao contexto preponderantemente individualizante da terapia.

Como a situação, como um todo, pode ser representada no campo, os conflitos e suas possíveis soluções também estarão naquela unidade situacional. O campo permite que a pessoa visualize o conflito como uma parte desse campo e uma possível solução ou conclusão em outra parte. E, em vez de só viver um simples "resolvo" ou "não resolvo" (próprio de um pensamento reducionista), a pessoa pode experimentar aproximar-se mais de uma parte, voltar, afastar-se um pouco ou se aproximar. Ela ganha, assim, uma mobilidade com a qual ela pode se permitir gradativamente explorar pontos seguros ou mais ousados, correr riscos, retroceder — tudo isso até perceber-se em contato com a possibilidade de confrontar--se com o antes evitado, dando o encaminhamento que ela quiser ao conflito vivido. Poderá confrontar-se diretamente, desistir do conflito ou ignorá-lo. Lembrando: o que a pessoa entende por "solução" é sempre inerente à sua idiossincrasia, é algo dela, e não algo para atender à expectativa do terapeuta. No caso da timidez para com o chefe, a pessoa, em vez de só experimentar um "falar com o chefe" versus "não falar", pode experimentar gradativamente se aproximar dele, manter-se em contato com a experiência de cada passo mais próximo; pode permitir-se voltar atrás e tentar outro dia, e ir ganhando familiaridade com cada etapa experimentada.

Contribuições da teoria de campo para a Gestalt-terapia, segundo Parlett, Latner e Yontef

Parlett (1991) escreveu um artigo sobre os aspectos cruciais do trabalho de Lewin, que especificou mais detalhadamente em cinco princípios. Esse material também se encontra em português, citado nos livros de Robine (2006) e Silveira e Peixoto (2012).

Inicialmente, Parlett destacou o "princípio de organização": todo campo se organiza em função do que acontece nele e tudo que acontece no campo tem um sentido que precisa ser compreendido nessa interação. Nada deve ser compreendido como um em si; tudo que ocorre no campo está relacionado com seus elementos.

A partir do foco presentificante do princípio da contemporaneidade de Lewin, Parlett destacou que o que afeta o campo sempre é algo presente, pois até o passado é tido como o que está sendo agora lembrado, e o futuro como o que está sendo agora antecipado. Ressalta-se que o aqui e agora, tão caro à Gestalt-terapia, igualmente nunca pode ser tomado de forma simplista, como se a pessoa atendida na clínica só pudesse falar sobre o que está acontecendo durante a terapia.

Mesmo que fale do passado, como recordação, ou do futuro, como antecipação, isso é algo que acontece no presente.

Com base nessa questão temporal focada no presente, Parlett também destacou outro princípio, chamado por ele de "princípio do processo de transformação": o que acontece no campo é sempre algo em andamento, nunca fixo, pela simples impossibilidade de o próprio tempo se fixar. Como já vimos, "presente" se refere a um horizonte temporal, a partir do momento vivido, para as lembranças que são trazidas à tona, em direção a um futuro com um número de possibilidades finitas (limitadas pelo presente). Lewin nos lembra disso quando comenta que, em suas pesquisas, percebeu que o que nos impulsiona é o sentido do campo iluminado pelo presente (o "onde estamos"), a partir do "de onde viemos", em direção às finitas possibilidades (o "para onde iremos").

Retomando, partindo do enfoque lewiniano sobre os casos únicos, Parlett destacou o "princípio de singularidade": cada situação vivida é única e devemos, com isso, tolerar as ambigüidades e incertezas de lidar com situações nas quais nenhuma experiência anterior pode substituir o que está surgindo agora.

Por último, com base na metodologia descritiva de Lewin, que Parlett chamou de "princípio da possível relevância", depreendemos que, ao lidar com o campo vivencial, todos os elementos que estão presentes podem ser relevantes, mesmo aqueles de suposição contrária, ou aqueles que sempre estiveram lá, como tiques ou trejeitos que poderiam não ter relação com o que estava sendo presentemente vivenciado. Caso algo esteja presente em uma situação, mesmo que se repita em várias outras situações, sempre é importante considerar o ensejo desse algo na vivência atual.

Entre os princípios acima, o tema lewiniano da contemporaneidade recebeu um desdobramento teórico de Yontef (1998). Às vezes, um Gestalt-terapeuta recebe perguntas de pessoas que, baseadas em um pensamento causal/linear, não compreendem a ênfase que a Gestait-terapia dá ao presente e se indagam: como pode um acontecimento passado, como um trauma, não ser objeto de conversa na abordagem gestáltica só porque faz "parte do passado"?

A questão é que, em conformidade com o que foi dito antes sobre contemporaneidade, fatos igualmente importantes do passado só existem como passado na medida em que se ligam a algo que está acontecendo, como a uma tristeza ainda sentida. O que faz o passado aparecer é algo no presente, pois não há outro tempo onde ele possa surgir. Logo, é importante perguntar: como a pessoa está vivendo aqui e agora de tal forma que aquele passado retorne como figura para ela?

Segundo Perls, Hefferline e Goodman (1997, p. 42-5), quando pensamos em um organismo, devemos vê-lo inserido em uma situação, pois ele sempre existe em um campo organismo/ambiente, sendo a fronteira de contato um "órgão" específico de awareness da situação nova que se presentifica no campo. Joel Latner (1983) ressalta que Perls, Hefferline e Goodman se referiam à concepção de campo como uma unidade, não algo em cujo centro as coisas aconteciam, mas sendo ele próprio — o campo — o acontecimento. O campo não é algo que comporta o acontecimento, como se este fosse parte do campo. O campo é o que acontece.

Na Gestait-terapia, encontramos uma sintética definição de campo na obra de Yontef (1993, p. 297, tradução nossa), para quem "campo" significa "uma totalidade de forças que se influenciam mutuamente e juntas formam um todo unificado interativo". Esse autor também nos lembra de que um campo pode ser ampliado ou reduzido, dependendo do interesse em foco, de forma que sempre podemos ver o campo como uma teia de relacionamentos, num contexto de teias de relacionamentos ainda maior ou menor.

Concluindo, o trabalho de Kurt Lewin é bem amplo, com inúmeras possibilidades de aplicação e enorme potencial de convergência com a Gestalt-terapia. Esperamos que, com este capítulo, possamos contribuir para que esse trabalho de aproximação gere cada vez mais frutos.

Psicologia - Gestalt
6/20/2020 2:38:10 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
A evolução da Psicologia Contemporânea

Garry Kasparov não era só um grande jogador de xadrez: ele era o mestre dos grão-mestres. No con­senso universal, ele era o maior jogador de xadrez da história. Na primavera de 1997, aos 34 anos de idade, no auge do prolongado reconhecimento, vinha man­tendo o título mundial por 12 anos. Jamais perdera uma única vez em uma competição de várias partidas com um único oponente. Jamais exibira outra coisa que não a absoluta confiança na sua genialidade no xadrez. Sua atitude em relação a qualquer rival che­gava ao limite do desprezo, traço exibido novamente ao vencer, como havia previsto, a primeira das seis partidas da anunciada revanche, naquele mês de maio em Nova York, contra o oponente que arrasara havia um ano.

Ao reinicio da partida, os especialistas em xadrez, reunidos para assistir ao grande campeão esmagar seu adversário, testemunharam algo tão inesperado que ficaram mudos. Milhões de observadores que acompanhavam intensamente a partida pela internet e pela transmissão em cadeia mundial de televisão ficaram atônitos ao testemunhar Kasparov exibir sinais incomuns de perturbação. Primeiro, demonstrando muita dúvida, em seguida, terror, desespero e perda de controle. Finalmente, parecia sofrer de um colapso emocional, demonstrando estar aterrorizado.

O primeiro sinal de que o campeão estava à beira de um colapso nervoso surgiu durante a segunda partida. Foi aí que Kasparov enfrentou algo inusitado na sua experiência. No passado, ele sempre conseguiu explorar a fraqueza do oponente, aprendendo o padrão de pensamento adotado contra ele. Mas, dessa vez, não conseguiu.

Essa segunda partida terminou empatada. Depois, outro empate. Em seguida, o opo­nente venceu uma partida. Quando os enxadristas retomaram o confronto no sábado, a série estava empatada. Kasparov iniciou de forma agressiva, brilhante; sabia que estava vencendo. O oponente respondeu com uma série de movimentos inspirados, até brutais, deixando Kasparov visivelmente abalado.

Os grão-mestres estavam chocados ao verem o campeão, pela primeira vez, parecer insignificante. Ele foi forçado a aceitar outro empate. Depois de um dia de folga na com­petição, o desfecho viria na segunda-feira.

A atenção mundial se intensificou. As redes de televisão enviaram correspondentes para cobrir o evento para transmissão em horário nobre. A imprensa escrita enviou não apenas os analistas de xadrez, mas também os melhores jornalistas, e reservaram a pri­meira página para o resultado do confronto. Eles, bem como milhares de telespectadores, testemunharam pela televisão e pela internet o grande Garry Kasparov, o incontestável campeão cuja suprema confiança comparava-se apenas à sua arrogância, dando lugar a um enxadrista nervoso, encurvado, com olheiras e com o ar taciturno. Parecia derrotado mesmo antes de executar o primeiro movimento.

Kasparov ficava cada vez mais abatido, à medida que os movimentos rápidos e impla­cáveis do oponente o deixavam encurralado. Em um momento captado pelas imagens da televisão e, mais tarde, exibido nas capas dos jornais, depois de perder a rainha e com o rei perigosamente exposto em uma posição de xeque-mate, o campeão curvou-se sobre o tabuleiro. Colocou as mãos sobre o rosto, tapando os olhos, e baixou a cabeça, desanimado. Esse momento consolidou-se como o retrato duradouro da expressão do desespero huma­no. Alguns momentos depois, Kasparov levantou-se de repente. Anunciava a desistência da partida e da competição. Efetuara apenas 19 movimentos.

Os grão-mestres ficaram espantados com o modo abrupto como o campeão desmoro­nou. "Foi como o impacto de uma tragédia grega", disse o presidente do comitê de xadrez, responsável pelo reconhecimento da competição. Kasparov reagiu com mais simplicidade. "Perdi meu espírito de luta", disse. "Não estava mesmo com vontade de jogar."

Minutos depois, em uma tumultuada entrevista coletiva, quando lhe perguntaram sobre o porquê, respondeu: "Sou um ser humano. Quando vejo algo além da minha capacidade de compreensão, sinto medo."

O que Kasparov efetivamente viu que estava além da sua capacidade de compreen­são? O que o espantara tanto a ponto de não conseguir mais jogar o jogo do qual era mestre? O que isso tem a ver com a história da psicologia? Calma! Tudo será revelado mais adiante. Por enquanto, vamos acompanhar a evolução da psicologia cognitiva pelo século XXI.

As Escolas de Pensamento em Perspectiva

Cada escola obteve êxito de modo particular e cada uma contribuiu substancialmente para a evolução da psicologia. Esse fato se aplica até mesmo ao estruturalismo, embora esse movimento tenha publicado pouco material relacionado à psicologia como a conhecemos atualmente. Não existem mais estruturalistas como Titchener na psicologia moderna isso ocorre há décadas. Todavia, o estruturalismo obteve enorme sucesso em promover a empreitada iniciada por Wundt, estabelecendo uma ciência da psicologia independente e livre das limitações da filosofia. O fato de o estruturalismo haver fracassado em dominar a psicologia, fazendo-o apenas por um curto período, não desvaloriza a sua realização revolucionária como a primeira escola de pensamento da nova ciência e a fonte vital de oposição para os sistemas seguintes.

Analisemos o sucesso do funcionalismo, que não conseguiu persistir como escola separada. Os funcionalistas buscavam apenas impor uma atitude ou um ponto de vista e, nesse aspecto, o funcionalismo obteve êxito em penetrar no pensamento psicológico estadunidense. Na medida em que a psicologia estadunidense atual é vista mais como uma profis­são científica e suas descobertas são aplicadas praticamente em todos os aspectos da vida a atitude funcional e utilitária realmente mudou a natureza da psicologia.

E o que dizer da psicologia da Gestalt? A escola da Gestalt, em uma escala mais modes­ta, também cumpriu sua missão. A oposição ao elementarismo, o apoio à abordagem da "totalidade" e o interesse na consciência influenciaram os psicólogos da psicologia clínica, da aprendizagem, da percepção, da psicologia social e do pensamento. Embora a escola da Gestalt não tenha transformado a psicologia da forma como esperavam os fundadores, ela exerceu considerável impacto e deve ser considerada um sucesso.

Mesmo que as realizações do estruturalismo, do funcionalismo e da psicologia da Gestalt mereçam o devido destaque, esses movimentos ocupam o segundo lugar em com­ paração com o impacto fenomenal do behaviorismo e da psicanálise. Os efeitos desses movimentos foram profundos, mantendo identidades próprias e independentes como escolas únicas de pensamento.

Passada a época dos seus fundadores, Watson e Freud, tanto o behaviorismo como a psicanálise dividiram-se internamente em várias posições. Nenhuma forma de behaviorismo ou de psicanálise obteve adesão total dos membros de qualquer uma dessas escolas. O surgimento de subescolas dividiu os sistemas em facções concorrentes, cada uma com o próprio mapa para o caminho da verdade. Todavia, apesar dessa diversidade interna, tanto os behavioristas como os psicanalistas mantêm-se firmes na oposição, uns contra os outros, em relação às suas visões sobre a psicologia. Por exemplo, os behavioristas skinnerianos têm mais aspectos em comum com os sociobehavioristas seguidores de Bandura e de Rotter do que com os adeptos da psicanálise de Jung e de Horney. A vitalidade das duas escolas de pensamento é evidente na sua contínua evolução.

Assim como a psicologia individual de Adler em relação à psicanálise, a psicologia de Skinner não é o último estágio na evolução do behaviorismo. A psicologia humanista, mesmo não conseguindo provocar impacto como escola de pensamento independente, influenciou a psicologia contemporânea, incentivando o crescimento do movimento da psicologia positiva.

Por volta das décadas de 1960 e 1970, dois outros movimentos surgiram na psicologia estadunidense, cada um na tentativa de moldar uma nova definição para o campo - são eles a psicologia cognitiva e a psicologia evolucionista.

O Movimento Cognitivo no Psicologia

Em 1913, no seu manifesto behaviorista, Watson insistia na eliminação da psicologia de qual­quer referência à mente, à consciência ou aos processos conscientes. E, realmente, os psicólogos seguidores dos mandamentos de Watson eliminaram a menção desses conceitos e baniram toda a terminologia mentalista. Durante décadas, os livros básicos de introdução à psicologia apre­sentavam descrições sobre o funcionamento do cérebro mas não proporcionavam discussões acerca de qualquer conceito relacionado à mente. As pessoas comentavam, em tom de piada, que a psicologia perdeu a consciência" ou "perdeu a cabeça”, aparentemente para sempre.

No entanto, de repente (embora a tendência já estivesse se formando há algum tempo), a psicologia resgatou a consciência. Palavras, antes consideradas politicamente incorretas, estavam sendo pronunciadas em alto e bom tom nos encontros e utilizadas nos trabalhos escritos. Em 1979, a publicação American Psychologist apresentou um artigo intitulado "Behaviorism and the mind: a (limited) call for a return to introspection’’ ("O behaviorismo e a mente: um apelo (limitado) para a retomada da introspecção") (Lieberman, 1979), res­gatando não apenas a mente como também a suspeita técnica de introspecção. Alguns meses antes, a revista publicara um artigo com um título bem simples: "Consciousness’’. Seu autor escreveu: Depois de décadas de descaso proposital, a consciência passa nova­mente a ser alvo da investigação científica, com discussões sobre o tópico surgindo por toda parte na respeitada literatura da psicologia" (Natsoulas, 1978, p. 906).

Em 1976, em seu discurso no encontro anual da APA, o presidente falou ao público presente sobre as mudanças que estavam ocorrendo na psicologia, afirmando que o novo conceito incluía a retomada do enfoque na consciência. A imagem da psicologia a res­peito da natureza humana estava sendo "humanizada e não mecanizada" (McKeachie, 1976, p. 831). Quando um representante da APA e uma publicação científica de prestígio discutem a consciência de forma tão aberta e otimista, parece óbvio estar em andamento uma revolução, outro novo movimento. Em seguida, vieram as revisões dos livros básicos de introdução à psicologia, redefinindo o campo como uma ciência do comportamento e dos processos mentais e não apenas do comportamento, uma disciplina em busca da explicação do comportamento manifesto, bem como das suas relações com os processos mentais. Portanto, estava claro que a psicologia progredira muito além dos desejos e dos planos de Watson e de Skinner. Uma nova escola de pensamento estava surgindo.

As Influências Anteriores na Psicologia Cognitiva

Assim como todos os movimentos revolucionários da psicologia, o movimento cognitivo não surgiu de uma hora para outra. Muitas das características já haviam surgido antes.

O interesse na consciência era claro, no período inicial da psicologia, antes de a discipli­na ser considerada uma ciência formal. As obras dos filósofos gregos, Platão e Aristóteles mencionavam os processos de pensamento, como também o faziam as teorias dos associacionistas e empiristas britânicos.

Quando Wundt instituiu a psicologia como disciplina científica independente, seu trabalho concentrou-se na consciência. Ele pode ser considerado o precursor da psicologia cognitiva contemporânea pela ênfase do seu trabalho na atividade criativa da mente. As escolas de pensamento estruturalista e funcionalista abordavam a consciência, estudando os seus elementos e as suas funções. O behaviorismo, no entanto, alterou radicalmente essa visão, descartando a consciência e ignorando-a por cerca de 50 anos.

A retomada da consciência e o início formal do movimento da psicologia cognitiva remontam à década de 1950, embora já se observassem sinais aparentes na década de 1930. O behaviorista E. R. Guthrie, ao final da sua carreira, criticava o modelo mecanicista e afirmava nem sempre ser possível reduzir os estímulos a termos físicos. Ele sugeria que os psicólogos deviam descrever os estímulos em termos cognitivos ou perceptuais, de modo que os tornassem significativos para o organismo reagente (Guthrie, 1959). Por se tratar de um processo cognitivo ou mentalista, o conceito de significado não pode ser descrito exclusivamente por questões behavioristas.

O behaviorismo intencional de E. C. Tolman foi outro precursor do movimento cog­nitivo. Sua forma de behaviorismo reconhecia a importância das variáveis cognitivas e contribuiu para o declínio da visão de estímulo-resposta. Tolman propôs o mapa cognitivo, atribuiu comportamento intencional aos animais e enfatizou as variáveis intervenientes como uma forma de definir operacionalmente os estados internos não-observáveis.

Rudolf Carnap, filósofo positivista, exigia o retorno da introspecção. Em 1956, Carnap afirmou: "a consciência que o indivíduo tem do próprio estado de imaginação, sentimen­to etc. deve ser reconhecida como um tipo de observação, em princípio, semelhante à observação externa e, portanto, uma fonte legítima de conhecimento" (apud Koch, 1964, p. 22). Até mesmo Bridgman, o físico que proporcionou ao behaviorismo a noção de defi­nições operacionais, criticou o behaviorismo e insistiu em que os relatos introspectivos fossem usados para dar significado às análises operacionais.

A psicologia da Gestalt também influenciou a psicologia cognitiva por causa do enfo­que na organização, na estrutura, nas relações, no papel ativo do objeto e na participação importante da percepção na aprendizagem e na memória" (Hearst, 1979, p. 32). A escola de pensamento da Gestalt ajudou a manter vivo ao menos um pouco do interesse na cons­ciência durante os anos em que o behaviorismo dominava a psicologia estadunidense.

Outro precursor da psicologia cognitiva foi o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), que escreveu seu primeiro trabalho científico com 10 anos e viria, mais tarde, a estudar com Jung. Piaget também trabalhou com Théodore Simon, que, juntamente com Alfred Binet, desenvolveu o primeiro teste psicológico de habilidade mental. Piaget ajudava a aplicar os testes nas crianças. Posteriormente se tornaria importante por seu trabalho sobre o desenvolvimento infantil não com base nos estágios psicossexuais, conforme propunha Freud, mas em função dos estágios cognitivos. O método clínico de Piaget de entrevistar crianças e sua insistência em anotar tudo detalhadamente durante as entrevistas eram vistos como uma inspiração importante para o famoso estudo de Hawthorne sobre os trabalhadores industriais na década de 1920.

As hipóteses iniciais de Piaget, publicadas entre 1920 e 1930, embora altamente influen­tes na Europa, não foram muito bem-aceitas nos Estados Unidos por sua incompatibilidade com a posição behaviorista. Os primeiros teóricos cognitivos, no entanto, receberam bem a ênfase de Piaget nos fatores cognitivos. E, à medida que as ideias da psicologia cogniti­va tomavam conta da psicologia estadunidense, a importância dos conceitos de Piaget ficava ainda mais evidente. Em 1969, ele foi o primeiro psicólogo europeu a receber o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica. O enfoque do seu trabalho na criança ajudou a ampliar o campo de aplicação da psicologia cognitiva.

A Mudança do Zeitgeist na Física

Quando ocorre uma grande mudança na evolução de uma ciência, ela é entendida como um reflexo das modificações já concretizadas no Zeitgeist intelectual. Sabemos que a ciência, como uma espécie viva, adapta-se às condições e exigências do ambiente. Qual foi a atmosfera intelectual que favoreceu o movimento cognitivo e amenizou as ideias behavioristas, readmitindo a consciência? Mais uma vez, observa-se aqui o Zeitgeist da física, modelo para a psicologia há bastante tempo, e que tem influenciado a área desde o seu início como ciência.

No início do século XX, surge uma nova visão desenvolvida pelos trabalhos de Al­bert Einstein, Neils Bohr e Werner Heisenberg. Eles rejeitavam o modelo mecanicista do universo, originário da época de Galileu e Newton e protótipo para a visão mecanicista, reducionista e determinista da natureza humana adotada pelos psicólogos desde Wundt até Skinner. A nova perspectiva da física descartava a necessidade de total objetividade e a completa separação entre o universo externo e o observador.

Os físicos reconheciam a provável interferência de qualquer tipo de observação feita sobre o universo natural. Seria necessário tentar estabelecer uma relação na lacuna artifi­cial entre observador e observado, entre o universo interior e o exterior e entre o mental e o material. Desse modo, a investigação científica passou do universo independente identificável objetivamente para a observação do universo pelo indivíduo. Os cientistas modernos não podem mais permanecer tão distantes do foco da observação. Em certo sentido, devem se tornar "observadores participativos".

Consequentemente, o ideal da realidade totalmente objetiva agora era considerado inatingível. A física passou a se caracterizar pela crença de que o conhecimento objetivo na verdade é subjetivo e dependente do observador. Essa ideia de que todo conhecimento é pessoal parece muito semelhante à proposta por Berkeley há 300 anos: que o conhecimento é subjetivo porque depende da natureza do observador. Um escritor comentou que nossa visão de mundo, "bem longe de ser uma verdadeira reprodução fotográfica da realidade que está 'lá fora', na verdade, [está] mais para uma pintura: uma criação subjetiva da mente que reproduz uma imagem semelhante, jamais uma réplica" (Matson, 1964, p. 137).

A rejeição dos físicos do objeto de estudo mecanicista e objetivo e, ao mesmo tempo, o reconhecimento da subjetividade restabeleceram o papel vital da experiência conscien­te como uma forma de obter informações acerca do mundo real. Essa revolução na física foi um argumento efetivo para tornar novamente a consciência uma parte legítima do objeto de estudo da psicologia. Embora o sistema psicológico científico tenha resisitido à nova física por meio século, atendo-se a um modelo desatualizado e definindo-se insis­tentemente como uma ciência objetiva do comportamento, a disciplina acabou reagindo ao Zeitgeist e modificando-se, de modo que readmita os processos cognitivos.

A Fundação da Psicologia Cognitiva

Uma análise retrospectiva do movimento cognitivo deixa a impressão de uma rápida tran­sição que solapou as bases behavioristas da psicologia em alguns poucos anos. Ao mesmo tempo, é claro, essa transição não foi totalmente evidente. A mudança, agora percebida como drástica, ocorreu gradual e silenciosamente, sem alardes. Um psicólogo afirmou: "O termo revolução talvez não seja adequado. Não houve acontecimentos cataclísmicos; a mudança ocorreu lentamente, nos diferentes subcampos, ao longo de 10 a 15 anos; não houve nenhum momento e nenhum líder de destaque" (Mandler, 2002a, p. 339). ’

Geralmente, o progresso histórico fica evidente somente depois do acontecimento. A fundação da psicologia cognitiva não ocorreu da noite para o dia nem deve ser atribuída ao carisma de uma pessoa que — como Watson – transformou a área praticamente sozinha. Assim como a psicologia funcional, o movimento cognitivo não apresenta um fundador único, talvez porque nenhum dos psicólogos atuantes na área ambicionasse a liderança do novo movimento. Seu interesse era pragmático, apenas dar continuidade ao trabalho de redefinição da psicologia.

Em retrospecto, a história identifica dois pesquisadores que não foram fundadores, no sentido formal da palavra, mas contribuíram com o trabalho inovador e influente na forma de um centro de pesquisa e de livros considerados marcos no desenvolvimento da psicologia cognitiva. São eles George Miller e Ulric Neisser. As suas histórias indicam alguns fatores pessoais envolvidos na formação de novas escolas de pensamento.

George Miller (1920-)

George Miller formou-se em inglês na University of Alabama, onde completou o mestra­do em fala, em 1941. Durante esse período na universidade, demonstrou interesse pela psicologia e ganhou uma bolsa de estudos para, em troca, trabalhar como uma espécie de professor assistente, dando 16 aulas de introdução à psicologia, sem jamais haver fre­quentado um curso na área. Dizia que depois de lecionar sobre a mesma coisa 16 vezes por semana, começou a acreditar no que ensinava.

Miller foi para a Harvard University, onde trabalhou no laboratório de psicoacústica, lidando com problemas de comunicação oral, obtendo o Ph.D. em 1946. Cinco anos depois, publicou um livro sobre psicolinguística, considerado um marco divisório, Language and communication (1951). Miller reconhecia a escola de pensamento behaviorista, afirmando não ter outra alternativa, já que os behavioristas mantinham as posições de liderança nas principais universidades e associações profissionais.

O poder, as honras, a autoridade, os livros, os lucros, tudo relacionado à psicologia estava nas mãos da escola behaviorista (...) aqueles que desejassem ser psicólogos científicos não podiam opor-se ao behaviorismo. Senão, ficariam desempregados. (Miller apud Baars, 1986, p. 203) Em meados da década de 1950, após investigar a teoria estatística da aprendizagem, a teoria da informação e os modelos de mente com base no computador, Miller chegou à conclusão de que o behaviorismo, literalmente, não iria "funcionar". As semelhanças entre os computadores e o funcionamento da mente humana o impressionaram e sua visão voltou-se mais para a orientação cognitiva. Ao mesmo tempo, desenvolveu uma alergia grave a pelos e descamações de animais, não podendo mais fazer pesquisas com ratos de laboratório, e trabalhar apenas com seres humanos era uma desvantagem no universo dos behavioristas.

A mudança de Miller para a psicologia cognitiva também foi motivada por seu tempe­ramento rebelde, típico de muitos da sua geração de psicólogos. Estavam sempre dispostos a se revoltar contra a psicologia ensinada e praticada no momento, prontos para oferecer sua nova abordagem, seu enfoque no fator cognitivo em lugar do comportamental. Mas, como Miller escreveu cerca de 50 anos depois, "Na época em que estava acontecendo, não percebi que eu era, na realidade, um revolucionário" (2003, p. 141).

Em 1956, Miller publicou um artigo que, desde então, tornou-se um clássico, intitu­lado “The magical number seven, plus or minus two: some limits on our capacity for processing information ("O mágico número sete, mais ou menos dois: alguns limites da nossa capa­ cidade de processamento de informação"). Nesse trabalho, Miller demonstrou que a capa­ cidade consciente do indivíduo de lembrar números por um curto prazo (ou, igualmente, palavras ou cores) limita-se a aproximadamente sete "pedaços" de informação. Essa é a capacidade individual de processamento em determinado momento. A importância, o impacto dessa descoberta reside no fato de lidar com a experiência consciente ou cogni­tiva em uma época em que o behaviorismo ainda dominava o pensamento psicológico.

Ademais, o uso que ele fez da frase "processamento de informações" indicava a influência do modelo da mente humana baseado no computador.

O Centro de Estudos Cognitivos

Em parceria com Jerome Bruner (1915-), seu colega da Harvard, Miller criou um centro de pesquisa para investigar a mente humana. Miller e Bruner pediram ao reitor da universi­dade um espaço físico e, em 1960, ofereceram-lhes a casa em que William James morara. Não havia lugar mais apropriado, já que James abordou de modo tão requintado a natureza da vida mental no seu livro Principies. A escolha do nome para o novo centro não foi uma tarefa comum. Em virtude do fato de estar associado a Harvard, o centro tinha potencial para exercer grande influência na psicologia. Optaram pela palavra "cognição", para deno­tar o objeto de estudo, e decidiram chamar o local de Centro de Estudos Cognitivos.

Ao usarmos a palavra "cognição", estávamos nos colocando à parte do behaviorismo. Desejávamos algo relacionado a mental, no entanto, "psicologia mental" parecia extrema­mente redundante. "Psicologia do senso comum" podia dar a entender alguma espécie de investigação antropológica, e "psicologia do povo", a psicologia social de Wundt. Que palavra usar para rotular esse conjunto de conceitos? Optamos por cognição. (Miller apud Baars, 1986, p. 210)

Mais tarde, dois estudantes do centro lembraram-se de que, naquela época, ninguém conseguia lhes explicar o significado do termo cognição ou as ideias supostamente promo­vidas ali. O centro "não havia sido criado com um objetivo em particular; fora criado para se opor a algo. O importante não era saber o que era e sim saber o que não era" (Norman e Levelt, 1988, p. 101).

Não era o behaviorismo, não era a autoridade vigente, o sistema predominante ou a psicologia do presente. Ao definir o centro, os fundadores demonstravam quão diferentes eram dos behavioristas. Todo novo movimento anuncia a sua posição ou atitude como diferente da escola de pensamento corrente; esse é um estágio preliminar necessário para definir o objetivo e as alterações propostas. Miller, no entanto, atribuiu o devido crédito ao Zeitgeist. "Nenhum de nós deve receber muitos créditos pelo sucesso do Centro. Foi apenas uma ideia ocorrida no tempo certo" (Miller, 1989, p. 412).

Miller não considerava a psicologia cognitiva uma verdadeira revolução, apesar das diferenças em relação ao behaviorismo. Chamava-a de "acréscimo", uma mudança mediante um lento crescimento ou acúmulo. Enxergava o movimento como mais evolucionário que revolucionário e acreditava ser um retorno à psicologia do senso comum, que reconhecia e ratificava a preocupação psicológica com a vida mental e com o comportamento.

Os pesquisadores do centro investigavam ampla variedade de temas: linguagem, memória, percepção, formação de conceito, pensamento e psicologia do desenvolvimento. A maioria dessas áreas havia sido eliminada do vocabulário dos behavioristas. Mais tarde, Miller criou um programa de ciências cognitivas na Princeton University.

Miller tornou-se presidente da APA em 1969 e recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica e a Medalha de Ouro da Fundação Americana de Psicologia pelas Realizações na Aplicação da Psicologia. Em 1991, recebeu a Medalha Nacional da Ciência. Em 2003, recebeu da APA o Prêmio pela Extraordinária Contribuição à Psicologia. Outro reconhecimento do significado do seu trabalho é a quantidade de laboratórios de psicolo­gia cognitiva criados tendo o seu centro como modelo, além do rápido desenvolvimento e a formalização da abordagem à qual ele se dedicara com afinco para definir.

Ulric Neisser (1928-)

Nascido em Kiel, na Alemanha, Ulric Neisser foi para os Estados Unidos, com os pais, aos 3 anos. Iniciou os estudos universitários na Harvard, formando-se em física. Impressio­nado com um jovem professor de psicologia chamado George Miller, Neisser chegou à conclusão de que física não era assim tão interessante. Mudou para a psicologia e frequen­tou, com menção honrosa, o curso de Miller sobre a psicologia da comunicação e teoria da informação. Ele conta também que foi influenciado pelo livro de Koffka, Principies of Gestalt psychology. Depois de obter a graduação como bacharel em Harvard, em 1950, Neisser recebeu o título de mestrado na Swarthmore College, estudando sob a orientação do psicólogo da Gestalt, Wolfgang Köhler. Retornou a Harvard para obter o Ph.D., que completou em 1956.

Apesar do crescente interesse pela abordagem cognitiva da psicologia, Neisser não via como escapar do behaviorismo, já que desejava seguir a carreira acadêmica. "Não havia outra opção. Estávamos em uma era em que o fenômeno psicologia seria considerado real somente se demonstrado em um rato de laboratório" (apud Baars, 1986, p. 275). No entanto, Neisser teve sorte, pois sua primeira posição acadêmica foi na Brandeis University, onde o diretor do departamento de psicologia era Abraham Maslow. Naquela época, Maslow estava se afas­tando da sua formação behaviorista para desenvolver a abordagem humanista ao campo.

Maslow não conseguiu convencer Neisser a se tornar psicólogo humanista, ou em transfor­mar a psicologia humanista na terceira força da disciplina, mas proporcionou a Neisser a oportunidade de perseguir seu interesse nas questões cognitivas (mais tarde, Neisser afir­mou ser a psicologia cognitiva e não a humanista a terceira força da psicologia).

Em 1967, Neisser publicou a obra Cognitive psychology e alegou ser esse um livro pessoal, uma tentativa de definir a si próprio e o tipo de psicólogo que almejava ser. O trabalho também foi um marco divisório na história da psicologia, uma tentativa de definir um novo tratamento para a disciplina. A obra tornou-se extremamente conhecida, e Neisser sentia-se constrangido por ser identificado como o "pai" da psicologia cognitiva. Embora não desejasse fundar nenhuma escola de pensamento, seus trabalhos ajudaram a afastar a psicologia do behaviorismo, empurrando-a em direção ao cognitivismo. Mesmo assim, Neisser enfatizava que o estudo das questões cognitivas devia constituir apenas parte da psicologia e não caracterizar a disciplina toda.

Neisser definia a cognição como os processos pelos quais "a informação sensorial recebida é transformada, reduzida, elaborada, armazenada, recuperada e usada. (...) cognição está envol­vida em tudo que o ser humano é capaz de realizar" (Neisser, 1967, p. 4). Assim, a psicologia cognitiva está relacionada com a sensação, a percepção, a formação de imagens, a memória, a solução de problemas, o pensamento e as demais atividades mentais relacionadas.

Apenas nove anos depois, Neisser publicou Cognition and reality (1976), expressando a insatisfação com a restrição da posição cognitiva e a dependência da coleta de dados em laboratório e não no mundo real. Insistia em afirmar que os resultados da pesquisa psico­lógica deviam ter validade em termos ecológicos. Com isso, quis dizer que os resultados deviam ser generalizados para as situações além dos limites do laboratório. Além disso, alegava que a psicologia cognitiva devia permitir a aplicação das descobertas aos proble­mas práticos, ajudando as pessoas a lidarem com as questões cotidianas particulares e profissionais. Assim, Neisser mostrava-se decepcionado, concluindo que o movimento da psicologia cognitiva tinha pouco a contribuir com a psicologia, no sentido de compreender como as pessoas lidam com as situações. Desse modo, a principal figura na fundação da psicologia cognitiva tornara-se seu crítico audaz, desafiando o movimento, como fizera anteriormente com o behaviorismo.

Depois de 17 anos na Cornell University, onde seu escritório ficava perto do local em que foi guardado o cérebro conservado de Titchener, Neisser mudou-se para a Emory University, em Atlanta, retornando a Cornell em 1996.

A Metáfora do Computador

Os relógios e os robôs foram as metáforas do século XVII para a visão mecânica do uni­verso e, por analogia, para a mente humana. Essas máquinas bem conhecidas eram mode­los fáceis de entender daquilo que se acreditava ser o funcionamento da mente. Hoje, o modelo do universo mecânico e a psicologia behaviorista baseados nessas máquinas foram superados por outras visões - como a aceitação da subjetividade na física e o movimento cognitivo da psicologia.

Como resultado, o relógio não é mais um exemplo útil para a visão moderna da mente. Uma máquina do século XX, o computador, surgiu para servir de modelo, como uma nova metáfora para o funcionamento da mente. Um historiador da ciência comentou: "O veículo responsável pela reintrodução da mente e um agente vital da derrocada do behaviorismo foi a noção da mente comparada ao computador. Essa afirmação transformou-se em senso comum na literatura histórica da 'revolução cognitiva"' (Crowther-Heyck, 1999, p. 37). Os psicólogos tomam como base as operações do computador para explicar o fenômeno cognitivo. Dizem que os computadores exibem uma inteligência artificial e normalmente são descritos "de forma humana". A capacidade de armazenagem chama-se memória; os códigos de programação, linguagem, e as novas gerações de computadores, evoluções.

O funcionamento dos programas de computador, basicamente formados de conjuntos de instruções para o tratamento de símbolos, é semelhante ao da mente humana. Tanto o computador como a mente recebem do ambiente e processam grande quantidade de infor­mações (estímulos sensoriais ou dados). Ambos compilam essas informações, manipulando, armazenando e recuperando os dados, atuando de várias maneiras. Desse modo, a programa­ ção do computador foi sugerida como base para a visão cognitiva humana do processamento de informações, do raciocínio e da solução de problemas. É o programa (software) e não o computador em si (hardware) que serve como explicação para as operações da mente.

Os psicólogos cognitivos estão interessados na sequência de manipulação dos símbolos envolvida nos processos de pensamento humano. Em outras palavras, estão preocupados em descobrir como a mente processa a informação. Eles têm como objetivo descobrir o programa que cada indivíduo tem armazenado na memória, os padrões de pensamento que lhe permitem compreender e articular as ideias, lembrar e resgatar os acontecimentos e os conceitos, e assimilar e resolver um problema novo. Em quase 125 anos de história, a psicologia partiu do simples relógio até chegar aos sofisticados computadores como mode­los de objeto de estudo, mas é importante observar que ambos são máquinas. Esse aspecto demonstra a continuidade histórica na evolução da psicologia, desde as mais antigas esco­las de pensamento, até as mais recentes. É possível observar também uma continuidade histórica na própria evolução dos computadores.

O Desenvolvimento do Computador Moderno

Os trabalhos de Charles Babbage e Henry Hollerith visavam ao desenvolvimento de uma máquina capaz de "pensar" como o homem. No entanto, um problema prático surgido durante os primeiros dias da Segunda Guerra Mundial provocou o início da moderna era dos computadores. Em 1942, o exército estadunidense precisava desesperadamente encontrar uma forma de realizar com mais rapidez os cálculos necessários para disparar as peças de artilharia. A mira perfeita do canhão para o projétil atingir o alvo envolvia (e até hoje envolve) um processo muito complicado, bem mais complexo que o procedimento de o soldado mirar um rifle e apertar o gatilho. Por exemplo, "Para mirar um canhão, o atirador tinha de efetuar diversos ajustes. Esse procedimento exigia o uso de uma série de tabelas [matemáticas] para calcular todas as variáveis que afetam a trajetória do projétil, como a direção e a velocidade do vento, a umidade do ar, a temperatura, a elevação e até mesmo a temperatura da pólvora" (Keiger, 1999, p. 40).

O manual de ajustes para cada tipo de artilharia continha centenas, até milhares de tabelas de cálculos. Esse trabalho era realizado pelas mulheres, recém-contratadas durante o período da guerra, que usavam calculadores manuais (essas mulheres eram chamadas de "computadoras"). Todavia, um ano depois, elas foram superadas, pois não conseguiam acompanhar a demanda. A situação era tão crítica que alguns canhões chegaram a ser abandonados em combate por falta de tabelas com os cálculos para atirar.

Essa necessidade incentivou o desenvolvimento do primeiro computador de grande porte, o Eniac - Electronic Numerical Integrator and Calculator. Concluída em 1943, a máquina em formato de ferradura ocupava três paredes de uma sala enorme, com "braços de 24 metros de comprimento e altura aproximada de 2,4 metros, pesando em torno de 30 toneladas. Continha cerca de 17.468 válvulas eletrônicas (...) além de 10 mil capacitores, 70 mil resistores, 1.500 relés e 6 mil chaves manuais, uma quantidade tão grande de peças eletrônicas que exigia enormes ventiladores para dissipar o calor produzido" (Waldrop, 2001, p. 45).

As máquinas com capacidade para realizar operações mentais percorreram um longo caminho desde a época da calculadora de Babbage. Basta comparar o tamanho e a capaci­dade de um laptop ou palm top para perceber o quão primitivo era o Eniac. A evolução das máquinas para a realização de funções mentais prossegue em um ritmo tão rápido que nos leva, inevitavelmente, a questionar se elas realmente demonstram inteligência.

A Inteligência Artificial

Os psicólogos cognitivos aceitavam computadores como modelo para o funcionamento cognitivo humano, afirmando que as máquinas exibiam inteligência artificial e proces­samento de informação semelhantes aos do homem. É possível supor, então, que a inteli­gência do computador seja igual à do homem? Será que o computador é capaz de pensar? No século XVII, os robôs simulavam a fala e o movimento humanos. No século XXI, será que as novas gerações de computadores simularão o pensamento humano?

No início, os cientistas da computação e os psicólogos cognitivos acolheram com grande entusiasmo a noção da inteligência artificial. Já em 1949, quando os computadores ainda eram relativamente primitivos, o autor de um livro intitulado Giant brains afirmou: "...a máquina manipula informações; realiza cálculos, chega a conclusões e faz opções; a máquina faz uma quantidade razoável de operações com os dados. A máquina, portanto, pensa” {apud Dyson, 1997, p. 108).

Em 1950, o gênio da computação Alan Turing (1912-1954) propôs uma maneira de veri­ficar a hipótese de que o computador seria capaz de pensar. Chamado de Teste de Turing, o processo consistia em convencer um indivíduo de que o computador com o qual estava se comunicando era realmente uma pessoa, e não uma máquina. Se o indivíduo não conseguis­ se distinguir entre as respostas do computador e as humanas, a máquina estaria exibindo inteligência semelhante à do homem. O Teste de Turing funciona da seguinte forma.

O entrevistador [um indivíduo] estabelece duas formas diferentes de "conversação" com o programa interativo do computador. O entrevistador deve tentar descobrir qual das duas partes seria uma pessoa usando o computador para se comunicar e qual seria a própria máquina respondendo. O entrevistador formula qualquer tipo de pergunta. Entretanto, o computador tenta enganar o entrevistador, ou seja, tenta fazê-lo acreditar ser uma pessoa, enquanto a pessoa de verdade tenta mostrar que ela é humana. O computador é aprovado no Teste de Turing se o entrevistador não conseguir fazer a distinção entre a máquina e o indivíduo. (Sternberg, 1996, p. 481-482)

Nem todos concordavam com a premissa do Teste de Turing. John Searle (1932-), um filósofo que elaborou o problema da sala chinesa, foi quem apresentou as mais veementes objeções (Searle, 1980). Imagine-se sentado em uma cadeira, de frente para uma parede com duas aberturas. Pedaços de papel contendo um conjunto de ideogramas chineses ap­arecem um de cada vez na abertura da esquerda. A sua tarefa é combinar, de acordo com o formato, o conjunto de símbolos com os de um livro. Quando você consegue encontrar o conjunto correto, deve copiar outro conjunto de símbolos do livro em um pedaço.  O que está acontecendo aqui? Você está sendo alimentado com as informações pela abertura da esquerda e transmitindo dados pela da direita, obedecendo às instruções programadas recebidas. Assim como a maioria dos ocidentais, não se espera que você leia ou compreenda chinês. Você está apenas seguindo as instruções de forma mecânica.

No entanto, se um psicólogo chinês estivesse observando a uma distância bem razoá­vel da parede com as aberturas, não conseguiria perceber que você não sabe chinês. As comunicações chegam a você em chinês e, por sua vez, você responde corretamente em chinês, copiando-as do livro. Não importa quantas mensagens você receba ou a quantas responda, ainda continua não sabendo chinês. Você não está pensando, está apenas seguin­do instruções. Não está demonstrando inteligência, apenas obedecendo a ordens.

Searle afirmava que os programas de computador que parecem compreender os diferen­tes tipos de dados recebidos e responder a essas informações de forma inteligente estariam funcionando como a pessoa do problema da sala chinesa. O computador não entende as mensagens, tanto como você não sabe chinês. Nesses exemplos, tanto você como o compu­tador estão funcionando exatamente de acordo com o conjunto de regras programadas.

Vários psicólogos cognitivos chegaram a concordar que o computador passa no Teste de Turing e simula a inteligência sem realmente ser inteligente. Conclusão, o computador ainda não é capaz de pensar. Mas seu desempenho parece simular o pensamento, e isso nos remete às partidas de xadrez de 1997 que devastaram o campeão mundial Garry Kasparov. O que o deixara tão abatido, levando-o a abandonar o jogo? O seu oponente era um computador.

Fabricado pela IBM, o computador se chamava Deep Blue. Pesava cerca de 3 toneladas, e cada uma das suas duas torres media mais de 1,80m de altura. Tinha uma capacidade de processamento de 200 milhões de posições por segundo; em três minutos conseguia processar 50 bilhões de movimento. Não foi à toa que até o maior mestre do xadrez rendeu-se, desespe­rado. Todavia, com toda essa capacidade, o Deep Blue estava realmente pensando?

A conclusão geral foi de que a máquina não pensava, embora se “comportasse" como se estivesse pensando. Um escritor científico britânico, interessado em máquinas de jogos de xadrez, concluiu: "Apesar do incansável aperfeiçoamento do desempenho do computa­dor, houve pouco progresso na busca pela inteligência da máquina para aplicação geral. (...) O Deep Blue mostrou que a criação de um computador capaz de jogar xadrez como qualquer ser humano revela muito pouco sobre a inteligência em geral" (Standage, 2002, p. 241). O computador, apesar do fantástico desempenho exibido, ainda precisa ser progra­mado por um ser humano pensante. Em 2003, Kasparov voltou a jogar, dessa vez contra o Deep Junior, uma nova geração de computador enxadrista. Antes da partida ele disse: "Estou aqui representando a raça humana. Prometo fazer o melhor".

Mas Kasparov teve dificuldades para isso. Um observador para a revista Wired es­creveu: enquanto Kasparov está praticamente exausto, Deep Junior simplesmente continua jogando. Como um robô assassino, o computador com certeza não vai parar, jamais. Garry ficou cada vez mais exausto. Ele está tentando ficar calmo e concentrado para ver se consegue deixar a máquina aborrecida fazer com que ela erre; [mas] ficar aborrecida não é uma opção. A máquina não se irrita, (wired.com/news.7/6/2006) E quando Kasparov cedeu a um empate de 3 a 3, foi vaiado pela multidão. No entanto, seu desempenho mostrou que a inteligência artificial não atingiu o nível de complexidade da inteligência humana - pelo menos por enquanto.

A Natureza da Psicologia Cognitiva

No Capítulo 11, vimos como a inclusão dos fatores cognitivos nas teorias da aprendiza­gem social de Albert Bandura e de Julian Rotter alterou o behaviorismo estadunidense. Hoje, o impacto do movimento cognitivo é observado não apenas na psicologia behaviorista. Os fatores cognitivos são observados por pesquisadores em diversas áreas da disciplina: a teoria da atribuição da psicologia social, a teoria da dissonância cognitiva, a motivação e a emoção, a personalidade, a aprendizagem, a memória, a percepção e o processamen­to da informação na tomada de decisões ou solução de problemas. Nas áreas aplicadas, como a psicologia clínica, comunitária, educacional e industrial-organizacional, também se observam a ênfase nos fatores cognitivos.

A psicologia cognitiva é diferente do behaviorismo em vários aspectos. Primeiro, os psicólogos cognitivos dedicam-se a estudar o processo de aquisição do conhecimento e não apenas a mera resposta ao estímulo. Os principais fatores são os fatos e os processos mentais e não as conexões estímulo-resposta; a ênfase é dada à mente e não ao compor­tamento, o que não quer dizer que os psicólogos cognitivos ignorem o comportamento, mas que as reações comportamentais não consistem no único enfoque da pesquisa. As respostas comportamentais constituem fontes de dedução para se chegar à conclusão sobre os processos mentais associados a essas reações.

Segundo, os psicólogos cognitivos estão interessados em saber como a mente estrutura ou organiza as experiências. Os psicólogos da Gestalt, assim como Piaget, argumentavam em favor da tendência inata de organizar a experiência consciente (as sensações e as percepções) em unidades e padrões de significado. A mente dá forma e coerência à experiência mental; esse processo é o objeto de estudo da psicologia cognitiva. Os empiristas e associacionistas britânicos e a psicologia do século XX derivada dessas teorias, o behaviorismo skinneriano, insistiam em que a mente não é dotada de capacidade organizacional inata.

Terceiro, os psicólogos cognitivos acreditam na atuação ativa e criativa do indivíduo em organizar estímulos recebidos do ambiente. O indivíduo é capaz de participar da aquisição e aplicação do conhecimento, participando intencionalmente de alguns fatos e optando por associá-los à memória. O indivíduo não é, como afirmavam os behavioristas, respondente passivo às forças externas ou folhas em branco para o registro da experiência sensorial.

A Neurociência Cognitiva

As pesquisas sobre o mapeamento das funções cerebrais datam dos séculos XVIII e XIX e estão nos trabalhos de Hall, Flourens e Broca (veja no Capítulo 3). Empregando métodos como a extirpação e os choques elétricos, os primeiros psicólogos tentaram determinar as partes específicas do cérebro controladoras das várias funções cognitivas.

Essa investigação continua até hoje na disciplina chamada neurociência cognitiva, um híbrido da psicologia cognitiva e da neurociência. Os objetivos desse campo são determinar "como as funções cerebrais originam a atividade mental" e "correlacionar aspectos específicos do processamento de informação com as regiões específicas do cérebro" (Sarter Bernston e Cacioppo, 1996, p. 13).

Os pesquisadores da neurociência cognitiva obtiveram avanços extraordinários no mapeamento cerebral, principalmente em virtude do desenvolvimento e da aplicação das sofisticadas técnicas de utilização de imagens. Por exemplo, o eletroencefalograma (EEG - Electroencephalogram) registra as variações na atividade elétrica de partes selecionadas do cérebro. A leitura da tomografia axial computadorizada (CAT - Computerized Axial Tomography) revela perfis detalhados do cérebro. O exame de ressonância magnética (MRI - Magnetic Resonance Imagery) produz imagens tridimensionais do cérebro. Enquanto essas técnicas produzem imagens estáticas, a varredura da tomografia por emissão de pósitron (PET - Positron Emission Tomography) produz imagens ao vivo de várias atividades cogniti­vas. Essas e outras técnicas de uso de imagens vêm oferecendo aos cientistas um grau de precisão e de detalhes impossível de ser obtido até então.
Em 2006, os neurocientistas cognitivos demonstraram que o cérebro humano podia controlar um computador. O pensamento podia ser traduzido em movimento só por impulsos elétricos. O objeto de estudo era um homem de 25 anos de idade que estava totalmente paralisado havia três anos. Censores eletrônicos, implantados no córtex motor de seu cérebro, interagindo com um computador, permitindo controlar não somente o computador, mas também um aparelho de televisão e um robô - tudo isso usando somente seus pensamentos. Em poucos minutos ele havia aprendido a movimentar o cursor do computador, e abrir e-mails, movimentar objetos usando um braço robótico, jogar video-game simples, e desenhar um círculo na tela. Ele praticou esse controle pensando em tais movimentos, isto é, ao ter a intenção ou desejo de fazê-los. Naturalmente, ele não conseguia mover o controle com suas mãos.

Essa aplicação da neurociência cognitiva, chamada de neuroprostética, dá esperança a pessoas com esses tipos de deficiências, de que um dia serão capazes de interagir com objetos em seu ambiente, e controlá-los (Hochberg ET AL., 2006; Pollack, 2006).

O PapeI da Introspecção

A aceitação das experiências conscientes fez os psicólogos cognitivos reconsiderarem a primeira abordagem de pesquisa da psicologia científica, o método introspectivo introdu­zido por Wundt há mais de um século. Em uma declaração que podia ser de Wundt ou Titchener, um psicólogo fez uma afirmação óbvia, no final do século XX, de que "... se vamos estudar a consciência, devemos adotar a introspecção juntamente com os relatos introspectivos" (Farthing, 1992, p. 61).

Os psicólogos tentaram quantificar os relatos introspectivos a fim de permitir análises estatísticas mais objetivas e manipuláveis. Uma das abordagens, a avaliação fenomenológica retrospectiva, consiste em pedir ao indivíduo que avalie a intensidade das experiências subjetivas durante a resposta a uma situação de estímulo anterior. Em outras palavras, o indivíduo avalia retrospectivamente as experiências subjetivas ocorridas durante um período anterior, quando lhe pediram para responder a um dado estímulo.

Um psicólogo cognitivo notou que não somente a introspecção podia ser amplamente utilizada, como também que os estados conscientes revelados pela introspecção são "fre­quentemente bons preditivos do comportamento da pessoa" (Wilson, 2003, p. 131).

Embora alguma forma de introspecção constitua o método de pesquisa mais fre­quentemente usado na psicologia contemporânea, até mesmo os mais fervorosos adeptos reconhecem as limitações para a sua validação. Por exemplo, alguns sujeitos podem fazer relatos introspectivos socialmente desejáveis, falando aos pesquisadores aquilo que eles querem ouvir em um esforço para agradá-los. Outro problema com a introspecção é que os sujeitos podem não ser capazes de avaliar alguns de seus pensamentos ou sentimen­tos, pois eles residem muito profundamente no seu inconsciente, um tópico ao qual os psicólogos estão dedicando atenção crescente.

A Cognição Inconsciente

O estudo do processo mental consciente motivou um renovado interesse nas atividades cognitivas inconscientes. "Depois de cem anos de descaso, desconfiança e frustração, o processo inconsciente voltou com firmeza na mente coletiva dos psicólogos" (Kihlstrom, Barnhardt e Tataryn, 1992, p. 788). Cada vez mais, os psicólogos cognitivos concordam que o inconsciente é capaz de realizar muitas funções que antes se acreditava precisarem de deliberação, intenção e conscientização deliberada. As pesquisas sugerem que a maior parte de nosso pensamento e processamento de informações ocorre no inconsciente, que pode operar mais rápida e eficientemente do que a mente consciente (veja Hassin, Uleman e Margh, 2005; Wilson, 2002).

Entretanto, essa não é a mente inconsciente de que falava Freud, transbordando de lembranças e desejos reprimidos trazidos ao consciente somente por meio da psicanálise. Esse novo inconsciente é mais racional do que emocional, e está envolvido no primeiro estágio da cognição de resposta a um estímulo. Desse modo, o processo inconsciente forma uma parte integrante da aprendizagem e é passível de estudo experimental.

Para distinguir a versão moderna de inconsciente cognitivo da versão psicanalítica (e dos estados físicos de inconsciência, sonolência ou comatoso), alguns psicólogos cognitivos preferem empregar o termo "não-consciente". Em geral, os pesquisadores cognitivos con­cordam que a maioria dos processos mentais do homem ocorre no nível não-consciente. "Hoje, acredita-se ser o estado inconsciente mais 'alerta' do que se pensava, sendo capaz de processar informações visuais e verbais complexas e até prever (e planejar) acontecimen­tos futuros. (...) Não mais um simples depositário do ímpeto e do impulso, o inconsciente parece desempenhar importante papel na solução de problemas, no teste de hipóteses e na criatividade" (Bornstein e Masling, 1998, p. xx).

Tanto nos experimentos laboratoriais quanto nos estudos baseados na observação do comportamento do consumidor ao fazer compras, os pesquisadores verificaram que o pensamento inconsciente (chamado aqui de "atenção sem deliberação") era mais cria­tivo e diversificado e levava a compras mais satisfatórias do que quando as respostas no laboratório e comportamento de compra eram dirigidos pelo pensamento consciente (Kijksterhuis, Bos, Nordgren, e van Baaren, 2006; Dijksterhuis e Meurs, 2006).

Uma abordagem conhecida no estudo do processamento não-consciente envolve a percepção subliminar (ou ativação subliminar), na qual estímulos são apresentados abaixo do nível de consciência do indivíduo. Apesar da incapacidade do indivíduo de percebê-los, a estimulação ativa o processo consciente e o comportamento da pessoa. Desse modo, esse tipo de pesquisa demonstra que o indivíduo pode ser influenciado por um estímulo que não vê ou não ouve. Essas e outras descobertas semelhantes convenceram os psicólogos cognitivos de que o processo de aquisição do conhecimento (dentro ou fora do ambiente laboratorial) ocorre tanto no nível consciente como no não-consciente, mas a maior parte do trabalho mental envolvido na aprendizagem ocorre no nível não-consciente. A pesquisa também indica que o processamento da informação não-consciente pode ser mais rápido, mais eficiente e mais sofisticado do que as atividades semelhantes do nível consciente.

A Cognição Animal

O movimento cognitivo resgatou a consciência não apenas dos seres humanos, como também dos animais. Realmente, a psicologia comparativa e a animal fecharam o círculo completo, desde as observações da vida mental do animal relatadas por Romanes e Mor­gan nas décadas de 1880 e 1890, passando pelo estudo do condicionamento mecânico por estímulo-resposta dos behavioristas skinnerianos nas décadas de 1950 e 1960, até a restauração contemporânea da consciência pelos psicólogos cognitivos.

Desde a década de 1970, os estudiosos da psicologia animal tentam demonstrar como o animal codifica, transforma, computa e manipula as representações simbólicas das texturas espacial, temporal e causal do mundo real para adaptar e organizar o próprio comportamento" (Cook, 1993, p. 174). Em outras palavras, o sistema de processamento de informações semelhante ao do computador que se acredita operar nos humanos também está sendo estudado nos animais. As primeiras pesquisas de cognição animal utilizavam estímulos simples como luzes coloridas, sons e cliques. Esses estímulos talvez tenham sido básicos demais para permitir uma compreensão do processo cognitivo animal, pois não permitiam aos animais exibirem a gama completa de capacidades de processamento de informação. Pesquisas posteriores utilizavam estímulos mais realistas e complexos, tais como fotos coloridas de objetos conhecidos. Esses estímulos fotográficos revelaram capacidades conceituais até então não atribuídas aos animais.

Observou-se ainda uma memória animal complexa e flexível e pelo menos alguns processos cognitivos operando de modo semelhante no animal e nos seres humanos. Os animais de laboratório são capazes de aprender conceitos variados e sofisticados. Eles exi­bem processos mentais tais como a codificação e organização de símbolos, a capacidade de formar abstrações espaciais, temporais e numéricas e perceber as relações de causa e efeito. Além disso, o uso que fazem de ferramentas e outros acessórios implica um sentido básico de raciocínio (Wynne, 2001). 

Estudos feitos com animais, desde insetos até mamíferos (incluindo ratos, pombas, chimpanzés, papagaios, golfinhos e corvos), sugerem que os animais conseguem desempe­nhar uma série de funções cognitivas. Entre estas estão a formação de mapas cognitivos, percepção de motivos, planejamento levando em consideração experiências passadas, compreensão de conceitos de números e resolução de problemas pelo uso da razão (veja por exemplo, Emery e Clayton, 2005; Pennisi, 2006).

No entanto, alguns estudiosos da psicologia animal afirmam que as pesquisas rea­lizadas até hoje não oferecem comprovações suficientes para generalizar a afirmação de que a cognição animal funcione de modo semelhante à humana. A lacuna entre o fun­cionamento da mente animal e o da mente humana proposta por Descartes no século XVII mantém o seu apelo.

Os psicólogos comportamentais ainda rejeitam a noção de consciência, tanto em ani­mais como nos seres humanos. Um behaviorista afirmou sobre os psicólogos cognitivos animais: "Eles são os George Romaneses de hoje. Especular sobre memória, raciocínio e consciência dos animais não é menos ridículo do que era há 100 anos" (Baum, 1994, p. 138). Um historiador famoso apresentou uma opinião contraditória:
Será que os animais demonstram todos os aspectos observáveis da consciência? As evi­dências biológicas apontam para uma clara resposta positiva. Teriam, então, também, o lado subjetivo? Dada a longa e crescente lista de semelhanças, parece-me que o peso da evidência está inexoravelmente tendendo para uma resposta afirmativa. (...) Sinto que a comunidade científica agora inclinou-se a seu favor. Os fatos básicos acabaram retornando à origem. Não somos os únicos seres conscientes do planeta. (Baars, 1997, p. 33)

Se os animais são seres conscientes e podem desempenhar funções cognitivas se­melhantes às dos seres humanos, é possível perguntar se também exibem características comuns de personalidade? Um número crescente de psicólogos acredita que a resposta é afirmativa.

A Psicologia Animal

No início da década de 1990 dois psicólogos decidiram estudar 44 polvos vermelhos no aquário de Seattle, Washington, onde cientistas e cuidadores haviam notado que os polvos tinham personalidades diferentes entre si. De fato, eles haviam dado nomes que corres­pondiam às suas naturezas. Uma fêmea mais tímida foi chamada de Emily Dickinson, em homenagem à poetisa. Uma outra era tão agressiva e destrutiva que foi chamada de Lucrécia McEvil (Siebert, 2006).

Os psicólogos observaram o comportamento dos polvos em três situações experi­mentais e verificaram que diferiam em três fatores: atividade, reação e fuga. A resposta à pergunta: "Os polvos têm personalidade?" foi inexoravelmente afirmativa (Mather e Anderson, 1993).

Desde essa pesquisa, os estudos têm documentado características de personalidade em uma variedade de animais, incluindo peixes, aranhas, animais de grande porte, hienas, chimpanzés e cachorros. Por exemplo, algumas hienas foram observadas em um zoológi­co por seus cuidadores que relataram que apresentam características semelhantes às dos humanos, como excitabilidade, sociabilidade, curiosidade e positividade. Ratos exibiram um certo grau de empatia por outros ratos com dor, assim como os chimpanzés, elefantes e golfinhos. Os orangotangos com grau elevado de extroversão e amabilidade, e baixo grau de comportamento neurótico, também apresentam um alto grau de bem-estar subjetivo. Além disso, os traços de personalidade exibidos por cachorros têm sido medidos com a mesma exatidão que nos seres humanos (veja Gosling, Kwan e John, 2003; Miller, 2006; Siebert, 2006; Weiss, King e Perkins, 2006).

"Com os estudos da personalidade animal estamos obtendo uma apreciação ainda maior não só da distinção dos pássaros e animais e seus comportamentos, mas também de suas semelhanças profundas com nós mesmos e nossos comportamentos" (Siebert, 2006, p. 51). Se os animais são tão semelhantes aos seres humanos em termos de processamento cognitivo, temperamento e personalidade, isso significa confirmação adicional da impor­tância da evolução em todas as criaturas vivas? Como veremos, o campo relativamente novo da psicologia evolucionista dedica-se a investigar justamente essa questão.

O Estágio Atual da Psicologia Cognitiva

Com o movimento cognitivo na psicologia experimental e a ênfase na consciência den­tro da psicologia humanista e da psicanálise pós-freudiana, é possível observar que a consciência estava exigindo a posição central que ocupou quando do início formal da disciplina. Uma análise de 95 discursos presidenciais da APA mostra que a visão predo­minante do objeto de estudo da psicologia oscilou dos fatos subjetivos para os objetivos, retornando aos subjetivos (Gibson, 1993). A retomada da consciência ocorreu de forma vigorosa e substancial.

Como escola de pensamento, a psicologia cognitiva vangloria-se das aparências externas do sucesso. Na década de 1970, o movimento obteve tantos adeptos que conseguiu susten­tar as próprias revistas especializadas: Cognitive Psychology (publicada primeiro em 1970), Cognition (1971), Cognitive Science (1977), Cognitive Therapy and Research (1977), Journal of Mental Imagery (1977) e Memory and Cognition (1983). A revista Consciousness and Cognition começou a ser publicada em 1992, e a Journal of Consciousness Studies, em 1994.

Em uma ocasião, Jerome Bruner descreveu a psicologia cognitiva como "uma revolu­ção cujos limites ainda não podem ser previstos" (Bruner, 1983, p. 274). O cientista Roger Sperry, ganhador do prêmio Nobel, comentou que a revolução da consciência ou cognitiva, comparada às revoluções psicanalítica e behaviorista na psicologia, é "a reviravolta mais radical; a mais revisionista e mais transformadora" (Sperry, 1995, p. 35)

O impacto da psicologia cognitiva é sentido na maioria das áreas de interesse das comunidades de psicologia estadunidense e europeia. Ademais, os psicólogos cognitivos têm tentado aprofundar e consolidar o trabalho de diversas grandes disciplinas em um estudo unificado de aquisição do conhecimento. Essa perspectiva, intitulada ciência cognitiva, é uma fusão de psicologia cognitiva, linguística, antropologia, filosofia, ciência da compu­tação, inteligência artificial e neurociência. Embora George Miller questionasse em que se transformaria a união de campos de estudo tão distintos (ciências cognitivas, ele sugeriu, em vez de ciência cognitiva), não há como negar o crescimento da abordagem multidisci- plinar. Vários laboratórios e institutos de ciência cognitiva foram criados nas universidades dos Estados Unidos; alguns departamentos de psicologia passaram a se chamar departa­mentos de ciência cognitiva. Qualquer que seja o nome, a abordagem cognitiva para o estudo do fenômeno mental e dos processos mentais passou a dominar a psicologia e as disciplinas aliadas.

Todavia, nenhuma revolução, mesmo bem-sucedida, escapa das críticas. Por exemplo, a maioria dos psicólogos behavioristas posiciona-se contrária ao movimento cognitivo. Mesmo os que apoiam o movimento apontam suas limitações e seus pontos fracos, obser­vando que existem poucos conceitos com os quais a maioria dos psicólogos cognitivos concorda, ou que considera importantes, e ainda há muita confusão em torno da termi­nologia e das definições.

Outra crítica está relacionada à ênfase excessiva na cognição em detrimento das outras influências sobre o pensamento e o comportamento, tais como a motivação e a emoção. A literatura especializada em motivação e emoção diminuiu ao longo das últimas décadas, enquanto as publicações relacionadas à cognição aumentaram. Ulric Neisser afirmou ser o resultado uma abordagem limitada e improdutiva do campo. "O pensamento humano envolve paixão e emoção, as pessoas atuam sob motivações complexas. O programa de computador, ao contrário, (...) não trabalha por emoção e é monomaníaco na sua ingenui­dade” (Neisser apud Goleman, 1983, p. 57). Ele percebeu o risco da fixação excessiva da psicologia cognitiva nos processos de pensamento do mesmo modo que o behaviorismo se concentrou excessivamente no comportamento manifesto. Jerome Bruner alertou estar a ciência cognitiva restringindo-se a questões cada vez mais limitadas, até mesmo triviais (Bruner, 1990). Uma crítica mais agressiva aponta o fracasso em unificar os diversos campos de estudo relacionados ao funcionamento cognitivo. Um crítico observou que, até agora, "não existe uma visão comum sobre a mente" (Erneling, 1997, p. 381).

Apesar dessas críticas, a primazia da posição cognitiva é amplamente aceita na psicologia. Esse domínio foi confirmado em uma análise empírica englobando 19 anos de dissertações de doutorado e artigos publicados e citados nas quatro publicações da psi­cologia geral: American Psychologist, Annual Review of Psychology, Psychological BulletinPsychological Review (Robins, Gosling e Craik, 1999).
A psicologia cognitiva não está terminada. Está ainda em evolução, marcando o lugar na história em andamento, portanto ainda é cedo demais para avaliar suas contribuições definitivas. A disciplina é dotada de características de uma escola de pensamento: publi­cações próprias especializadas, laboratórios, encontros, jargões e convicções, bem como o zelo dos adeptos. Podemos falar de cognitivismo, assim como falamos do funcionalis­mo e do behaviorismo. A psicologia cognitiva já atingiu o estágio alcançado pelas outras escolas de pensamento em cada época, ou seja, tornar-se parte da psicologia geral. E essa situação, como já vimos, é o progresso natural das revoluções bem-sucedidas.

A Psicologia Evolucionista

A abordagem mais recente da psicologia, a psicologia evolucionista, afirma que os indivíduos são criaturas ligadas ou programadas pela evolução para se comportarem, pensarem e aprenderem segundo as formas que favoreceram a sobrevivência ao longo de várias gerações passadas. Essa abordagem é baseada na afirmação de que as pessoas com certas tendências comportamentais e cognitivas têm mais chances de sobreviver, perdurar e criar proles.

Conforme comentou um psicólogo evolucionista, "Os seres humanos que defende­ram territórios, alimentaram os filhos e lutaram pela dominação foram mais propensos a se reproduzir com êxito do que os que não o fizeram; resultando que seus últimos des­cendentes - membros da atual geração - normalmente demonstram todas as tendências comportamentais semelhantes" (Funder, 2001, p. 209). Os genes relacionados a esses comportamentos facilitadores da sobrevivência "passam de geração a geração porque se adaptam, aperfeiçoando a forma de sobrevivência e o sucesso reprodutivo, e acabam dis­seminados, tornando-se instrumento-padrão" (Goode, 2000, p. D9).

Assim o ser humano é moldado em grande parte, se não na maioria, pelo meio biológico e não pela aprendizagem. Sem negar que as forças sociais e culturais influenciam o compor­tamento humano pela aprendizagem, os psicólogos evolucionistas afirmam que o indivíduo é predisposto, ao nascer, a certas formas de comportamento moldadas pela evolução.

  1. Todos os mecanismos psicológicos, em algum nível básico, originam-se de pro­ cessos evolucionistas e devem sua existência a eles.
  2. As teorias de Darwin sobre a seleção natural e sexual são as mais importantes para os processos evolucionistas responsáveis por criarem mecanismos psicológicos desenvolvidos.
  3. Mecanismos psicológicos desenvolvidos podem ser descritos como instrumentos de processamento de informações.
  4. Mecanismos psicológicos desenvolvidos são funcionais; funcionam para resol­ver problemas recorrentes de adaptação que confrontaram nossos antepassados, (entrevista de David Buss em Barker, 2006, p. 69-70).

Psicologia evolucionista é uma ampla área que faz uso de resultados de pesquisas de outras disciplinas, incluindo a de comportamento animal, biologia, genética, neuropsicologia e teoria evolucionista. Ela aplica esses resultados em todas as áreas da psicologia. No capítulo 1 observamos que a psicologia atual está fragmentada em abordagens diversas para seus problemas, e que não há um único tema que reúna todas essas propostas em uma única psicologia. Os defensores da psicologia evolucionista afirmam que sua definição pode unir essas áreas discrepantes.

Um dos fundadores da psicologia evolucionista, David Buss, escreveu que "ela repre­senta uma revolução verdadeiramente científica, uma mudança padrão profunda na área de psicologia" (2005, p. xxiv). Em uma entrevista, no ano seguinte, ele chamou a psico­logia evolucionista de "uma das revoluções científicas mais importantes que já tivemos na história da psicologia" (apud Barker, 2006, p. 73).

As Influências Anteriores na Psicologia Evolucionista

Claramente, qualquer movimento que se denomina psicologia evolucionista deve ofere­cer os créditos a Charles Darwin, bem como a Herbert Spencer e sua noção a respeito da sobrevivência do mais apto. A ideia de que somente aqueles dotados de algumas caraterísticas sobrevivem e reproduzem uma espécie com as mesmas qualidades parece ser a base da psicologia evolucionista, assim como fora para Darwin e Spencer.
Em 1890, 31 anos depois da publicação do monumental trabalho de Darwin a respei­to da evolução, William James utilizou o termo "psicologia evolucionista" em seu livro, The principies o psychology. James previu que um dia a psicologia se basearia na teoria da evolução. Também propôs que a maior parte do comportamento humano é programada no nascimento por predisposições genéticas chamadas instinto. Esses comportamentos instintivos seriam passíveis de modificação por meio da experiência ou da aprendizagem, mas são inicialmente formados independentemente das experiências.

James acreditava ser instintiva uma ampla variedade de comportamentos, incluindo o medo de objetos específicos como cobras, animais estranhos e de altura, todos envol­vendo claramente o valor de sobrevivência. Outros comportamentos instintivos, afirmava James, seriam moldados pelos pais - o amor, a sociabilidade e a pugnacidade (a propensão à luta e à disputa). Afirmava que os comportamentos instintivos eram uma evolução mediante a seleção natural e adaptações destinadas a lidar com os problemas específicos de sobrevivência e de reprodução.

Durante o reinado do behaviorismo, de 1913 a cerca de 1960, a noção de determinação genética do comportamento era vista como uma espécie de maldição. Todo comportamen­to era aprendido, afirmavam os behavioristas, mas mesmo assim, durante esse período de supremacia e efetiva dominação do behaviorismo na psicologia, surgiam trabalhos a respeito da precedência das influências genéticas e das tendências herdadas sobre as res­postas condicionadas.

Por exemplo, no Capítulo 11, vimos o trabalho dos alunos de Skinner, os Brelands, que treinavam animais para apresentações em circos, propagandas de televisão e feiras comerciais.

Alguns desses animais demonstravam propensão à transferência instintiva. Os animais, às vezes, substituíam o comportamento instintivo por outros, reforçados por alimento, mesmo quando o instintivo interferia na obtenção de comida, uma violação clara do princípio básico behaviorista de que o reforço seria predominante.

Há um trabalho conhecido do psicólogo Harry Harlow, que realizou uma pesquisa sobre o amor materno dos macacos (Harlow, 1971). Harlow criou filhotes de macacos com mães artificiais de dois tipos. Ambas eram construídas de armações de arame, mas uma era coberta de tecido de pelúcia macio e aconchegante, enquanto a outra era descoberta e dura, mas com mamilos para fornecer leite. Para os skinnerianos, era óbvia a associação do reforço apenas com a mãe que fornecia a recompensa do leite. Entretanto, quando os macacos ficavam assustados, agarravam-se na mãe coberta de pelúcia e não na que sempre lhes fornecera o reforço. Parecia haver outra força atuando, impossível de ser explicada pelo condicionamento operante e pelo reforço.

Uma pesquisa realizada por Martin Seligman, o iniciador da psicologia positiva (discutida no Capítulo 14), demonstrou a facilidade de condicionamento do indivíduo a temer cobras, insetos, cães, altura e túneis. No entanto, percebeu-se que é mais difícil condicionar o indivíduo a temer objetos menos ameaçadores e mais neutros como um automóvel ou uma chave de fendas (Seligman, 1971).

O medo de cobras sempre serviu para a sobrevivência e, consequentemente, para a evolução, e assim, presume-se que o indivíduo já nasça com essa predisposição. Entre­tanto, o medo de objetos neutros não teve valor para a sobrevivência ao longo de várias gerações, não sendo, portanto, transmitido. Seligman chamou esse fenômeno de preparo biológico. Esse conceito sugere que "as fobias realmente são aprendidas por meios clássicos de condicionamento, mas que certos medos, que podem ter servido a algum propósito adaptador nos ambientes ancestrais, são mais facilmente condicionáveis" (Siegert e Ward, 2002, p. 244).

Portanto, a psicologia evolucionista, além de se valer da revolução cognitiva, também expande sua importância ao considerá-lo uma estrutura necessária para se compreender a natureza humana e a animal. Concentra-se na importância do consciente que se desenvolveu com o tempo, e dá uma grande ênfase à noção do computador como uma metáfora para todos os processos conscientes. Dois psicólogos evolucionistas famosos escreveram:

Os programas que abrangem a mente humana foram desenvolvidos por seleção natural para resolver problemas de adaptação regularmente encontrados por nossos ancestrais na caça e coleta - problemas como encontrar um companheiro, cooperar com outros, caçar, coletar, proteger as crianças, navegar, evitar predadores, evitar exploração, e assim por diante. A função desenvolvida do cérebro é a de extrair informações do ambiente e usá-la para gerar comportamentos e regular a fisiologia. Portanto, o cérebro não é só parecido com um computador. Ele é um computador - isto é, um sistema físico planejado para processar informações. (Tooby e Cosmides, 2005, p. 5)

A Influência da Sociobiologia

Surgiu outro ímpeto mais contemporâneo da psicologia evolucionista, em 1975, quando o biólogo Edward O. Wilson publicou um livro totalmente inovador, intitulado Sociobiology: a new synthesis (Wilson, 1975), o qual tanto foi aclamado como veementemente criticado.

Dois anos depois, era capa da revista Time. Nesse mesmo ano, Wilson ganhou a Medalha Nacional da Ciência e, durante a reunião anual da Associação Americana para o Progres­so da Ciência, sociedade não caracterizada pela violência física, ele recebeu um balde de água gelada na cabeça.

A tese simples e corajosa de Wilson era uma afronta para muitas pessoas porque o trabalho desafiava a crença nutrida pela igualdade da criação humana, e da atuação das forças sociais e ambientais motivando ou limitando o desenvolvimento humano. Wilson motivou a ira das pessoas por parecer dar maior ênfase às influências genéticas que às culturais. Se todo comportamento for geneticamente determinado, então, não há espe­ranças na mudança de atitude, mediante as práticas de criação e educação da criança ou por outro método. No entanto, não era esse o ponto central de Wilson, embora adotasse uma visão hereditária muito forte em uma época na qual esse tipo de perspectiva era malvisto. Wilson escreveu:

O ser humano herda a propensão a adquirir estruturas sociais e comportamentais, tendência compartilhada por uma quantidade suficiente de indivíduos para ser chamada de natureza humana. Os traços determinantes incluem a divisão de tarefas entre os sexos, a ligação entre pais e filhos, o grande altruísmo entre os semelhantes mais próximos, a rejeição do incesto, outras formas de comportamento ético, a suspeita de estranhos, o tribalismo, as ordens dominantes entre os grupos, o total domínio masculino e as agressões territoriais diante da limitação de recursos. Embora o indivíduo seja dotado de livre-arbítrio e de escolha das decisões, os canais do desenvolvimento psicológico são - embora muitos de nós desejássemos o contrário - mais determinados pelos genes em algumas direções do que em outras. (Wilson, 1994, p. 332-333)

Como resultado do enorme protesto contra o livro de Wilson, a palavra sociobiologia acabou criando uma conotação tão negativa que caiu em desuso. Em 1989, quando um grupo de cientistas estadunidenses decidiu criar uma associação profissional para estudar o campo iniciado por Wilson, deram o nome de Human Behavior and Evolution Society [Sociedade de Evolução e Comportamento Humano] e procuravam evitar a palavra socio­biologia nos encontros.

O campo de estudo iniciado por Wilson foi incorporado às visões modificadas de vários psicólogos estadunidenses que chamavam seus trabalhos de psicologia evolucionista. Com esse nome aparentemente mais aceitável, o campo tornou-se imensamente popular.

O Estágio Atual da Psicologia Evolucionista

Apesar da sua popularidade, a psicologia evolucionista vem gerando muitas críticas. Como mencionamos anteriormente, as pessoas que acreditam no ser humano exclusivamente, ou pelo menos principalmente, como produto da aprendizagem que se opõem a qualquer discussão a respeito de determinantes biológicas do comportamento. Se a natureza huma­na é determinada apenas pelo dom natural genético, não há possibilidade de as forças culturais e sociais positivas alterarem o comportamento para melhor, ou de as pessoas tentarem exercer o livre-arbítrio.

A resposta dos psicólogos evolucionistas para essa crítica é observar, como fez Wilson, que eles não afirmam ser todo tipo de comportamento imutável e determinado pelos genes.

O comportamento humano é modificável; nós continuamos livres para escolher. As forças sociais e culturais são influentes e, algumas vezes, superam ou alteram a programação herdada para responder de determinada forma.

Os opositores argumentam que a amplitude do campo "dificulta a testagem convin­cente da teoria. A capacidade da psicologia evolucionista de explicar praticamente tudo não é nenhuma virtude" (Funder, 2001, p. 210). Os críticos também questionam como é possível identificar com clareza uma história de adaptação em um comportamento especí­fico, por várias gerações, até chegar aos povos primitivos, quando o valor de sobrevivência possivelmente teria iniciado.

Comentários

Observamos em todo o livro que todas as abordagens da psicologia e as tentativas de defi­nir o campo receberam críticas e apresentaram pontos de aparente vulnerabilidade. Como no caso da psicologia cognitiva, ainda é cedo demais para julgar se a psicologia evolucio­nista terá seu valor legitimado. Também esse campo faz parte da história em andamento. Um defensor do movimento da psicologia evolucionista resumiu o estágio atual da área nos seguintes termos: "Penso que ainda não sabemos realmente como trabalhar com a psicologia evolucionista. Enfrentamos muitas dificuldades para formular as hipóteses, e ainda mais obstáculos para descobrir como testar as afirmações. No momento, temos um princípio poderoso que acabará fornecendo a base para uma psicologia mais profunda e mais enriquecida. No entanto, ainda temos de trabalhar muito” (Randolph Nesse apud Goode, 2000, p. D9).

Assim, a busca pela abordagem verdadeiramente final da psicologia, pela escola de pensamento definitiva que venha a caracterizar o campo por mais de algumas décadas, continua. Será que a psicologia evolucionista ou a psicologia cognitiva se tornará o juiz final e definirá a psicologia e o seu objeto de estudo? Com base no que foi visto até aqui, provavelmente não.

A única afirmação possível fundamentada na história da psicologia estudada até aqui é que, quando um movimento se formaliza em uma escola, ficará em evidência até que um novo movimento apresente ideias que a superem com êxito. Quando isso ocorre, as artérias desobstruídas do até então jovem e vigoroso movimento começam a endurecer. A flexibilidade transforma-se em rigidez, a paixão revolucionária começa a ser protetora da sua posição e os olhos e a mente se fecham para as novas ideias. É dessa maneira que nasce um novo sistema. Assim acontece no progresso de qualquer ciência, uma construção evolucionista para níveis mais elevados de desenvolvimento. Não há complementação nem final, apenas um processo interminável de crescimento, como as novas espécies evoluem das antigas e tentam se adaptar a um ambiente eterno de mudanças.
 

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Os três cérebros de Paul D. Maclean
Teoria do Cérebro Trino | Paul D. Maclean

Segundo a visão do neurocientista Paul D. MacLean, desenvolvida nos anos 1940 e 1950, o cérebro humano seria composto de "três níveis": o "cérebro reptiliano”, composto pelo tronco encefálico, mais primitivo e típico da fase animal evolutiva réptil, responsável por respostas instintivas e estereotipadas; o "cérebro mamífero primitivo", composto pelo sistema límbico, relacionado a respostas emocionais, agressivas e sexuais; e, finalmente, o "cérebro mamífero superior", composto pelo córtex cerebral, relacionado a funções cognitivas mais elaboradas, como a inteligência. Tal modelo, muito difundido há algumas décadas, apesar de heurístico e atraente, traz consigo uma visão linear de progresso e de evolução, fazendo com que todos os cérebros vertebrados culminem em uma forma superior, a do cérebro mamífero primata, sobretudo do humano. De modo geral, essa visão não é mais aceita nos dias atuais, pois a evolução não ocorre de forma linear, mas em ramificações arbóreas, e cada ramo segue seu próprio caminho evolutivo. O cérebro dos répteis atuais continuou evoluindo, em paralelo com o cérebro dos mamíferos modernos, "encontrando” suas soluções próprias. Além disso, o ambiente de uma espécie, família ou filo não permanece constante na natureza; mudam as condições climáticas, o ecossistema, a paisagem adaptativa das populações. Por conta disso, em cada período e para cada nicho, a solução em termos de organização do sistema nervoso torna-se diferente.

Dalgalarrondo, P. (2011). Algumas noções sobre evolução biológica e evolução do cérebro. in: P . Dalgalarrondo. Evolução do Cérebro: Sob a perspectiva evolucionista. (p.21). Porto Alegre/RS: Artmed
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A campanha mítica de Alexandre Magno

Alexandre III, cognominado “o Grande”, foi rei da Macedônia e. em sua curta vida de 33 anos (356-323 a.e.c.), conquistou pelas armas boa parte do mundo conhecido. Enquanto vivia, já começava a tornar-se lendário. Era filho do rei Filipe e da rainha Olímpia, mas cedo surgiu a crença de que o deus egípcio Amon seria seu verdadeiro pai. Alexandre tratou de aproveitar essa pretensa origem divina com fins políticos e militares; numa moeda antiga é representado com chifres de carneiro, um atributo de Amon.

Aos vinte anos, com a morte do rei Filipe, Alexandre assumiu o trono da Macedônia. Apostando em sua inexperiência, as cidades gregas, que se ressentiam da dura hegemonia de Filipe, revoltaram-se, como também outros povos, incluindo os trácios. Alexandre teve de usar a força para subjugá-los, em alguns casos; mas muitas vezes conseguiu impor-se através de uma hábil combinação de diplomacia e intimidação. Ganhou o apoio dos gregos para desafiar e dominar o Império Persa. Nunca satisfeito, prosseguiu através da índia, até que seus soldados se recusaram a ir mais adiante. Empreendeu, então, a longa e penosa viagem de volta, morrendo, porém, de causa desconhecida ao chegar à Babilônia. Durante sua ausência da Macedônia, deixara como regen­te um certo Antipatro, a quem a lenda atribui a conspiração para matá-lo por envenenamento. Um grande herói só pode ser vencido por traição — como o folclore nos repete, por exemplo, com o rei Artur, morto pelo mesmo Mordred que ficara de regente ao sair o rei para a guerra.

Alexandre se fazia acompanhar por um sobrinho de Aristóteles, Calístenes, com a missão de escrever a crônica de suas campanhas. Dos escritos de Ca­lístenes, como também de registros feitos por generais de Alexandre, só nos chegaram fragmentos. As biografias de Alexandre que foram preservadas, embora com algumas lacunas, são de autores dos dois primeiros séculos da era cristã: Plutarco, Arriano e Diodoro Sículo, em grego; Justino (resumindo tex­to perdido de Trogo) e Quinto Cúrcio, em latim. Esses textos gregos e latinos parecem respeitar a verdade histórica, apesar de certas liberdades, tais como o encontro de Alexandre com uma rainha das Amazonas...

Mas uma tradição separada, fundamentalmente lendária, iniciou-se no Egito, no terceiro século de nossa era, com o Romance Grego de Alexandre. Seu autor desconhecido é referido pelos especialistas como o “Pseudo-Calístenes”, já que houve no passado quem atribuísse o livro a esse sobrinho de Aristóteles. Durante a Idade Média o livro foi traduzido para o latim, língua bem mais disseminada na época, e com isso contribuiu para espalhar a fama do herói por muitas regiões. Na França, inspirou o Roman d’Alexandre, cuja versão fi­nal (século XII) foi composta em versos de doze sílabas, por isso ainda hoje chamados “alexandrinos”. É curioso notar que em algumas das primeiras ver­sões do Roman d’Alexandre aparece, pela primeira vez em obra literária, a pa­lavra “graal”— não ainda como o objeto mágico dos romances arturianos, mas como um simples prato largo ou travessa.

O relato de uma navegação fantástica, escrito entre 1100 e 1175, denomina­ do Alexandri Magni Iter ad Paradisum (Jornada de Alexandre Magno ao Paraíso), fez o herói navegar ao longo do Ganges, que seus homens, cansados de tantas lutas, haviam-se recusado a transpor. O rio teria também o nome de Fison e sua nascente seria o Paraíso da Alegria. Encontrando um misterioso navio equipado com velas e remos, Alexandre embarcou com alguns de seus homens e seguiu até as portas desse Paraíso. As portas estavam fechadas, mas por uma janela um ancião lhe fez chegar uma pedra preciosa, de peso miraculoso: posta em um dos pratos de uma balança, nenhuma quantidade de ouro posta no outro prato po­dia fazê-la erguer-se, mas, ao ser coberta de poeira, uma simples pluma provava ser mais pesada do que ela. A gema representaria o olho de um homem com sua ambição jamais saciada mas que, uma vez sem vida e retornado ao pó, nada mais valia. Era uma lição de moral, para que Alexandre desistisse de seus planos de conquista. Por uma coincidência notável, também isso contribuiu para uma outra versão do Graal, apresentada no Parzival do alemão Wolfram von Eschenbach, em que, em vez de ser uma travessa ou um cálice, o Graal é uma pedra maravi­lhosa de tamanho exíguo (“lapis exilis” em latim).

Alexandre foi discípulo de Aristóteles, que lhe inspirou uma ânsia de aprender tudo sobre todas as coisas. Passou a ter a dupla ambição de possuir o mun­do e de explorar seus segredos. Plutarco lhe atribuiu a frase: “Preferiria sobre­por-me ao restante da humanidade pelo meu conhecimento do que há de melhor do que pela extensão de meu poder.” Essa curiosidade, de fato uma de suas características, é levada ao extremo nas narrativas lendárias sobre sua expedição à índia, extraídas do Romance Grego de Alexandre, na maior parte, e do Roman d’Alexandre (o trecho das meninas-flores). Entre esses episódios sobre as maravilhas da índia há um que lembra a busca frustrada de Gilgamesh pela imortalidade, enquanto outros antecipam os fei­tos absurdos do Barão de Munchhausen e as aventuras fantásticas narradas por Jules Verne, um dos preconizadores da moderna ficção científica.  

 

O mito de Alexandre

Desembarcando das naves em que viajavam, Alexandre e seus homens passeavam pela beira da praia quando depararam com um caranguejo saindo do mar. Era do tamanho de uma couraça de guerreiro e cada pinça tinha uma braça de comprimento. Os homens tomaram das lanças e o mataram; foi preciso um grande esforço, pois o ferro não penetrava em sua carapaça e com as patas dianteiras ele partia as lanças. Quando afinal foi morto e retalhado, en­contraram sob a carapaça sete pérolas das mais valiosas, como ninguém vira antes. Ao examiná-las, o rei imaginou que procediam das profundezas insondáveis daquele mar.

Mandou fabricar uma grande jaula de ferro e introduzir nela uma enorme tina de cristal, com uma espessura de dois codos e meio. Determinou que recortassem uma abertura na parte de baixo da tina, grande o suficiente para deixar passar a mão de um homem. Sua intenção era descer e verificar o que havia no leito daquele mar. A abertura ficaria vedada até atingir o fundo; então, faria uma fresta, enfiaria rapidamente o braço através dela para agarrar o que encontrasse sobre a areia, e logo recolheria a mão, voltando a tapar a tina. Mandou fazer tam­bém uma corrente de 308 braças, que os homens usariam para içar a jaula, mas deu instruções para não puxarem até a corrente ser agitada por ele.

Quando tudo estava pronto, entrou na tina disposto a tentar o impossível. Com ele dentro, a entrada foi vedada com uma tampa de chumbo. Tendo descido 120 codos, um peixe que passava bateu na jaula com a cauda, e os ho­mens a içaram porque sentiram a corrente sacudir. Da vez seguinte, sucedeu o mesmo. Na terceira tentativa, atingiu uma profundidade de 308 codos, e ob­servou todos os tipos de peixe nadando em volta. Eis que chegou um, real­mente enorme, e abocanhou a jaula e a levou com o rei dentro, por mais de uma milha. Havia 360 homens nos quatro navios aos quais a jaula estava presa, e o peixe arrastou tudo consigo. Ao se avizinhar da terra firme, despedaçou a jaula e a tina com os dentes e atirou o rei na praia, ofegan­te e semimorto de pavor.

Alexandre ajoelhou-se e agradeceu à Providência do alto por tê-lo salvado da terrível besta. E disse a si mesmo:

— Alexandre, desiste de buscar o impossível, para que ao rastrear o abis­mo não percas a vida!

Em seguida, ordenou ao exército que levantasse acampamento e seguisse adiante.

Depois de dois dias de marcha, atingiram um lugar em que não brilhava o sol. Ali se situava a Terra dos Bem-aventurados. O rei queria ver e explorar essa região, acompanhado apenas de seus servidores pessoais. Mas Calístenes o aconselhou a levar quarenta de seus companheiros graduados, cem escravos e mil e duzentos soldados de confiança. Deixou portanto a infantaria, junta­mente com os velhos e as mulheres, e levou somente soldados jovens, dando ordens para que nenhum velho seguisse com o grupo.

Mas havia um velho muito curioso, que tinha dois filhos soldados, moços valentes e leais, e lhes disse:

— Filhos, ouvi o conselho de vosso pai e levai-me convosco. Não me achareis uma carga inútil nessa jornada. No momento do perigo, o rei Alexandre terá necessidade de um velho. Se souber então que estou convosco, recebereis farta recompensa.

— Pai,tememos as ameaças do rei. Se nos pega a desobedecer suas ordens, podemos ser privados não só de participar da expedição, mas até de nossas vidas. — Ajudai-me a cortar a barba e vestir outra roupa, de modo a mudar de aparência. Assim viajarei no meio do exército, e, no momento certo, serei de grande utilidade para vós.

Eles fizeram como o pai ordenara.

Após uma caminhada de três dias, chegaram a um lugar coberto de nebli­na. Incapazes de prosseguir, uma vez que não se viam nem estradas nem qualquer caminho, armaram as tendas. No dia seguinte, Alexandre reuniu mil homens armados e avançou com eles para verificar se ali era de fato o limite extremo da terra. Seguiram pela esquerda, pois esse lado estava mais ilumina­do, e caminharam por terrenos rochosos, cortados de ravinas, durante a meta­ de do dia. Não vendo o sol, estimavam a passagem do tempo e a posição em que estavam pela distância percorrida. Mas acabaram voltando temerosos, ao atingir um ponto em que o caminho se tornou intransponível.

Tentaram então seguir pela direita. O terreno era mais plano, mas envol­vido pela névoa e de uma escuridão impenetrável. Alexandre foi tomado de incerteza, visto que seus jovens companheiros o aconselhavam todos a não penetrar mais fundo por aquela região, com medo de os cavalos errarem o rumo e se desgarrarem nas trevas durante o longo percurso. Se assim acontecesse, não mais poderiam regressar. O rei lhes disse:

— Vós, tão bravos na guerra, percebeis agora que sem experiência e tino nada se faz direito! Se houvesse um velho entre nós, saberia aconselhar-nos sobre o modo de avançar por esta terra escura. Mas qual de vós é valente o bastante para voltar ao acampamento e trazer-me um veterano? Prometo que vai ganhar dez libras de ouro.

Ninguém se ofereceu para a missão; temiam partir, em meio àquela atmosfera opaca, para voltar ao longínquo acampamento no qual haviam deixa­ do os que o rei não quisera levar na expedição. Então se aproximaram os fi­lhos do velho soldado e falaram ao rei:

— Senhor, se nos escutas sem rancor, temos algo a dizer-te.

— Falai o que quiserdes. Juro pela Providência do Alto que não vos farei nenhum mal.  E eles logo lhe contaram sobre o pai, e como o haviam trazido com eles; e correram a mostrá-lo diante do rei. Este o saudou calorosamente e lhe pediu que o aconselhasse. Respondeu o velho:

— Rei Alexandre, hás de compreender que, se os cavalos perderem o rumo, jamais verás de novo a luz do céu. Leva as éguas que tenham potros. E deixa os potros aqui enquanto segues avante a explorar esta terra, pois as éguas, por amor às crias, sem falta te trarão depois de volta.

Dentre as montarias foram encontradas apenas cem éguas com cria. Além delas, foram escolhidos cem cavalos, e mais alguns para transportar as provi­sões. Seguindo o conselho do velho, partiram deixando para trás os potros,

Ele havia recomendado aos filhos pegar qualquer coisa que encontrassem no chão desde que entrassem na terra inexplorada, e guardar nas mochilas. Dos 360 soldados do grupo, os 160 que iam a pé foram destacados para ir na frente, e assim foram por umas quinze léguas. Chegaram a um lugar em que havia uma fonte cristalina, cuja água fulgurava como relâmpago. Existiam por perto outros mananciais, e o ar era perfumado e bem menos sombrio.

O rei sentiu fome e chamou seu cozinheiro, Andreas, e lhe ordenou:

— Prepara-me alguma comida.

Ele pegou um peixe seco e foi até a água cristalina para lavá-lo. Tão logo foi molhado na água, o peixe reviveu e escapou das mãos do cozinheiro! Este se espantou e não contou ao rei o que acontecera. Em vez disso, bebeu da água, e com ela encheu também um vaso de prata, que guardou consigo. Como o lugar estava repleto de outras nascentes d’água, Alexandre e os demais bebe­ram delas, e não dessa fonte que dava vida ao que estava morto, e da qual so­mente o cozinheiro tivera a sorte de provar.

Depois de comer e beber, continuaram por cerca de 230 léguas. Viram então uma luz que não provinha do sol, nem da lua, nem das estrelas. Viram duas aves no ar, com rostos humanos, uma delas falando em grego:

— Por que, Alexandre, vens pisar em um solo reservado aos deuses? Vai embora, infeliz, vai embora! Não te é dado penetrar nas Ilhas dos Bem-aventurados. Retrocede, ó homem, anda na terra que te foi concedida e não te metas em buscas vãs! Estremecendo, o rei preparou-se para obedecer de imediato à advertência. A segunda ave falou, também em grego:

— O Oriente te chama, o reino de Porus será submetido a teu domínio!

Com estas palavras, as aves partiram voando. Alexandre orou para aplacar os deuses. Logo, puseram-se em marcha, tendo as éguas à frente. Estas, guia­das pelo chamado dos potros deixados no acampamento, conduziram-nos de volta em 22 dias. Muitos soldados vinham recolhendo coisas pelo caminho; mais do que os outros, os dois filhos do velho haviam enchido suas mochilas, conforme o pai lhes recomendara. Mal saíram da zona escura, com a luz do dia voltando a brilhar, perceberam que haviam trazido ouro puro e pérolas de grande valor. Houve então quem se arrependesse de não ter recolhido mais, e alguns de nem ter-se dado a esse trabalho. Todos congratularam o velho que dera tão bons conselhos.

Na saída das trevas, dispôs-se o cozinheiro a contar o que sucedera à beira da fonte. O rei desesperou-se e encheu-se de furia contra ele. Ainda assim, pensou em seu íntimo:

— De que te serve, Alexandre, lamentar o que passou?

O rei ainda não sabia que o cozinheiro bebera da água, nem que havia guardado um pouco, pois este só revelara o fato de o peixe seco voltar à vida. Mas, então, o cozinheiro chegou-se a Kale, filha de Alexandre com sua concu­bina Unna, e a seduziu em troca da água da imortalidade. Quando Alexandre ficou sabendo, foi tomado de inveja — como não deixou de admitir para si mesmo — da imortalidade deles. Chamou a filha e disse-lhe:

— Toma o que é teu e afasta-te de mim. Ao se tornar imortal foste con­vertida em divindade, e serás chamada Nereida por teres recebido da água a imortalidade.

Gemendo e chorando, ela se afastou e foi viver com outras divindades em lugares solitários. Quanto ao cozinheiro, o rei ordenou que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho e o jogassem ao mar. Converteu-se em um ser divino, habitando em certo recanto do mar, que, por causa dele, passou a chamar-se Andreas.

Em face de todos esses acontecimentos, novamente Alexandre se pôs a pensar se este lugar seria realmente o confim último do mundo, onde o céu toca a terra. Quis apurar a verdade. Com esse intento, mandou capturar duas aves que viviam ali. Eram grandes aves brancas, muito fortes mas mansas: não fugiam ao ver os homens. Alguns soldados haviam experimentado subir nas costas delas, e elas saíram voando com eles agarrados a seus pescoços. As aves alimentavam-se de carniça; por isso muitas freqüentavam o acampamento, atraídas pelos cavalos mortos.

Capturadas as duas aves, o rei determinou que não lhes dessem comida por três dias. No terceiro dia, mandou fabricar uma espécie de jugo de madei­ra, que lhes foi atado aos pescoços. Do couro de um boi foi feita então uma cesta, que foi amarrada ao jugo. Alexandre acomodou-se dentro da cesta, se­gurando duas lanças de sete codos de comprimento, cada uma com uma posta de fígado espetada na ponta. De imediato, as aves se precipitaram tentando alcançar as postas, e com isso alçaram vôo, subindo com o rei, até que ele achou estar perto do céu. A pele arrepiava-se e tremia por causa do frio extremo do ar, tornado mais gélido pelo vento causado pela batida das asas.

De repente, uma criatura voadora em forma de homem aproximou-se falando:

— Ó Alexandre, tu, que tão pouco conheces das coisas da terra, preten­des explorar as do céu? Volta rápido para a terra, ou servirás de pasto a estas aves. Olha agora para baixo, Alexandre!

Ele olhou, um tanto aflito, e viu uma imensa cobra enroscada sobre si mesma, formando um anel em cujo centro se via um círculo diminuto. Do alto, o círculo parecia do tamanho de uma eira de debulhar trigo. O ser alado falou de novo:

— Para as aves te levarem de volta, aponta com tua lança para a eira. pois o que te parece ser uma eira é a terra. A serpente é na verdade o mar a circundá-la. Pelo desígnio da Providência do Alto, Alexandre regressou à terra, num ponto situado a sete dias de caminhada de seu exército. No final estava gelado e semimorto de exaustão. Encontrou por ali um dos símapas a seu comando. Obtendo dele uma escolta de trezentos cavaleiros, retornou ao acampamento, com a decisão de não mais tentar o impossível.

Alguns homens sábios do reino da índia vieram um dia falar com Alexan­dre, e lhe disseram:  — Senhor, confia em nós que te conduziremos, com teus homens, a ver maravilhas em nossas florestas.

Alexandre lhes agradeceu e lhes deu mulas e rica equipagem para a via­gem. Depois de longa marcha, viram-se diante de um vergel muito antigo, onde os ramos das árvores curvavam-se ao peso dos frutos e, cobrindo o chão, ervas preciosas exalavam um perfume que restaurava a saúde de qualquer enfermo. Debaixo de cada árvore havia uma jovem mulher de corpo delicado e olhos claros e sorridentes.

Ao cair da noite, elas se chegaram aos homens, cada uma escolheu um deles, sem receio. À vontade deles não se negavam, muitas vezes os repreendiam docemente se hesitavam. Quando eles sentiram fome, todas as iguarias, todas as frutas que podiam desejar lhes foram servidas sobre panos estendidos na relva. Por três dias folgaram nessa floresta.

No quarto dia, Alexandre avistou uma que era tão formosa como jamais vira, a pele macia da brancura da neve. Quis levá-la consigo e um de seus ca­ pitães a fez montar em uma mula. Ao ver que a levavam, ela se apavorou, des­ faleceu mais de uma vez, olhou para Alexandre e lhe pediu mercê:

— Rei gentil, não me queiras matar, senhor honrado! Pois se me afasto da floresta, se passo além da sombra das árvores, morrerei na certa, tal é meu destino.

Alexandre a contemplou; era mais bela que uma fada, ainda mais pálida por ter chorado tanto. Com pena dela, mandou que a fizessem demonstrar, recomendou-a à proteção de seus deuses. Ela se ajoelhou, demonstrou grande alegria ao ver-se livre e logo embrenhou-se na mata. Depois foi confabular com as outras e, às escondidas, puseram-se a acompanhar o exército que partia, dispostas a seguir os homens até o limite da sombra das árvores. Alguns solda­dos que as perceberam, seduzidos pela beleza delas, quiseram voltar — mas Alexandre os ameaçou de fazê-los arder na fogueira!

Chamou os velhos guias e os exortou a explicar a origem daquelas lindas criaturas. E eles, que bem sabiam sobre a natureza delas, disseram:

— Na entrada do inverno, para abrigar-se da friagem, elas todas pene­tram na terra e mudam de aparência. Quando volta o bom tempo, elas ressur­gem, sob a forma de flores brancas. Por dentro das flores renascem seus corpos, enquanto por fora as pétalas lhes servem de vestido. E tudo de que preci­sam lhes é dado sempre: basta sentir o desejo de manhã para receberem de tarde, antes de escurecer.

Admirava-se Alexandre com essas meninas-flores; em nenhuma parte do mundo encontrara alguém que lhe contasse tal prodígio. Mas os guias conhe­ciam coisa ainda mais rara:

— Rei, temos para mostrar-te uma maravilha digna de ti. Iremos levar-te a umas árvores que falam com voz humana.

E assim o conduziram ao lugar em que se erguia o santuário do sol e da lua. Havia um posto de guarda e duas árvores semelhantes a ciprestes. Em círculo, dispunham-se árvores de espécie parecida à que no Egito se chama mirobálano, produtoras de mirra; também os frutos eram seme­lhantes aos do mirobálano.

As duas árvores do centro do jardim podiam falar, uma com voz masculi­na e a outra com voz feminina. O nome da árvore masculina era Sol, e o da feminina, Lua. Eram chamadas muteamatos na língua local. Estavam envoltas em peles de diversos tipos de animais — mas somente peles de machos para a árvore masculina e de fêmeas para a feminina. Em sua vizinhança não era permitida a presença de ferro, bronze ou estanho, nem mesmo de argila de oleiro. Quando Alexandre perguntou de quais espécies de animais eram as peles, responderam que eram de leões e panteras. O rei quis saber mais sobre as árvores, e lhe disseram:

— Ao amanhecer, mal se ergue o sol, sai uma voz da árvore do sol, e sai de novo quando o sol está no meio do céu, e por uma terceira vez no mo­mento do ocaso. Sucede da mesma forma com a outra árvore, conforme a passagem da lua.

Os que aparentavam ser sacerdotes acercaram-se de Alexandre.

— Entra, se és puro, e prosterna-te; assim ouvirás o oráculo. Mas deves saber que o ferro é proibido no santuário.

Alexandre ordenou que seus homens deixassem as espadas fora do local sagrado. Muitos deles o acompanhavam, e ele os mandou examinar toda a área. Também manteve junto a si alguns dentre os naturais da índia, para servirem de intérpretes, e ameaçou queimá-los vivos se o sol se pusesse sem que soasse a voz do oráculo.

Nesse exato momento o sol se pôs. Uma voz vinda de uma das árvores fez- se ouvir, falando hindu. Os hindus em sua companhia se atemorizaram e não queriam traduzir as palavras. Alexandre os chamou à parte e eles então lhe confidenciaram a tradução:

— Rei Alexandre, cedo vais morrer pela mão dos teus.

Os que escutaram perturbaram-se ante o prodígio, mas Alexandre quis consultar de novo o oráculo. Movido pelas previsões do que lhe iria acontecer, expressou seu desejo de abraçar uma vez mais Olímpia, sua mãe. Quando a lua se ergueu, a árvore da lua falou em grego:

— Rei Alexandre, hás de morrer em Babilônia, pela mão dos teus, e não poderás retornar a tua mãe Olímpia.

Tomado de assombro, Alexandre quis recobrir as árvores com as mais fi­nas grinaldas, mas os sacerdotes objetaram:

— Isso não é permitido. Mas, se quiseres impor tua vontade, faze como desejares, pois, quando um rei não ouve a lei, fica o dito por não dito.

Muito entristecido, Alexandre levantou-se na hora da alvorada. Com os sacerdotes, os companheiros e os hindus, voltou ao santuário. Depois de orar, adiantou-se ladeado por um dos sacerdotes e, colocando a mão sobre a árvore do sol, perguntou se lhe seria dado completar o curso inteiro de sua vida — era isso o que precisava saber. Quando o sol despontou e os primeiros raios tocaram no cimo da árvore, uma voz ressoou:

— O curso de tua vida está completo. Não regressarás a tua mãe, Olímpia, porque irás morrer em Babilônia. Pouco tempo depois, tua mãe e tua mulher serão cruelmente mortas pelos teus. Não perguntes mais sobre essas coisas, pois nada mais ouvirás.

Muito angustiado ao escutar estas palavras, Alexandre partiu da índia, seguindo para a Pérsia.

Concebeu então o desejo de ver o renomado palácio de Semíramis. O país era governado por uma mulher de notável beleza e idade madura, a rainha Candace de Méroe. Alexandre e Candace trocaram cartas. Ela ouvira contar como Alexandre tinha derrotado os reis mais poderosos, e quis saber mais sobre ele. Chamou um de seus cortesãos, um pintor grego, e mandou que fosse aonde estava Alexandre e pintasse seu retrato disfarçadamente. Ele assim fez; Candace recebeu o retrato e o guardou em lugar secreto.

Pouco tempo depois, um filho de Candace, de nome Candaules, que via­java acompanhado de uns poucos cavaleiros, foi atacado pelo rei dos bébrices. Levando a pior, Candaules buscou refugiar-se no acampamento de Alexandre. Vendo-o aproximar-se das tendas, as sentinelas o prenderam e trouxeram a Ptolomeu, que era o segundo em comando. Ptolomeu indagou:

— Quem és e quem são teus companheiros?

— Sou filho da rainha Candace. 

— A que vieste?

— Seguia meu caminho, com minha mulher e pequena tropa, para par­ticipar dos mistérios anuais no país das amazonas. Mas o rei dos bébrices viu minha mulher e nos assaltou com grande contingente, raptando-a e matando a maior parte de meus soldados. Estou voltando para reunir uma força maior para invadir a terra dos bébrices.

Ouvindo isso, Ptolomeu dirigiu-se a Alexandre, que no momento dormia, acordou-o e contou-lhe o que escutara do filho de Candace. Alexandre ergueu-se de pronto, tomou da coroa e a pôs na cabeça de Ptolomeu, colocou seu manto sobre os ombros dele e disse:

— Senta-te no trono como se fosses Alexandre e dize a um servidor: “Vai chamar Antígono, capitão de minha guarda pessoal.” Quando eu mesmo vier, fingindo ser Antígono, conta-me exatamente essa história e dize: “Dá-me teu conselho sobre o que deveremos fazer.”

Assim foi que Ptolomeu tomou lugar no trono, vestido com os trajes régios. Ao vê-lo, os soldados perguntavam admirados uns aos outros o que pretende­ria Alexandre desta vez. Mas quando Candaules viu Ptolomeu com os para­mentos reais e supôs estar diante de Alexandre, receou que ele estivesse em vias de mandá-lo executar. Sem demora, Ptolomeu ordenou:

— Chamai Antígono, capitão de minha guarda.

Alexandre compareceu e Ptolomeu foi dizendo:

— Antígono, este é um dos filhos da rainha Candace. Sua mulher foi seqüestrada pelo rei dos bébrices. O que me recomendas fazer? — Aconselho-te, ó rei Alexandre, que armes teus homens e faças guerra aos bébrices, a fim de resgatar a mulher deste homem, e que a devolvamos a ele em sinal de respeito à rainha.

Candaules ficou deleitado ao ouvir isso. Ptolomeu concluiu:

— Se é assim que pensas, ó Antígono, podes agir tu

Mitologia Grega
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MITOS, FÁBULAS E LENDAS
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

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FATOS HISTÓRICOS
Imhotep constrói a pirâmide de degraus de Djoser

Conselheiro do faraó, o arquiteto Imhotep imagina para Djoser um novo dispositivo funerário e, rompendo com as práticas de seus antecessores, escolhe a pedra mais apropriada que o tijolo, para desafiar o tempo. Imhotep deve formar artesãos qualificados: nas pedreiras da margem direita do Nilo, trabalhadores extraem blocos de calcário aos quais, em seguida, talhadores de pedra dão forma. Depois, milhares de pedras cortadas são carregadas e içadas sobre o alto do platô. A construção desse monumento de novo tipo torna-se o mais importante canteiro de obras do país, no qual trabalham milhares de artesãos, operários e camponeses.

Imhotep se empenha em projetar um túmulo digno da grandeza do faraó. Começa por mandar construir uma mastaba plana e retangular, sob a qual é cavado um poço na própria rocha. A 28 metros de profundidade, a câmara funerária é revestida de granito oriundo das pedreiras de Assuan. Depois da morte do faraó, seu sarcófago é depositado nessa câmara e um enorme bloco de granito fecha o corredor de acesso. Por volta dela há corredores e outras câmaras funerárias, talvez destinadas à família de Djoser. Apesar de seus 8 metros de altura, essa mastaba, que deve ter sido cercada por um muro, é praticamente invisível de longe. Ora, isso não corresponde ao plano de Imhotep, que deseja que o túmulo de Djoser seja um testemunho ostensivo da grandeza e da divindade do faraó.

Imhotep decide modificar o plano inicial. Cobre a mastaba com um monumento que tem quatro degraus. Essa primeira construção é visível desde o vale do Nilo: ela se destaca sobre os palmeirais e seus degraus se elevam bem acima do muro. Imhotep transforma esse primeiro edifício piramidal numa construção maior na base e deslocado em relação à sepultura original. Essa pirâmide já tem cinco degraus e se eleva a 61 metros de altura.

Sob a pirâmide, perto do jazigo, outras câmaras funerárias, ligadas por corredores, são escavadas na rocha. São ornadas com fileiras de azulejos azul-turquesa, cujos motivos lembram esteiras de caniços. Baixos- relevos religiosos mostram Djoser. dirigindo rituais. Na parte externa da construção, um grande muro de cerca de 1.600 metros de perímetro e 10 metros de altura é construído com ângulos salientes das pedras, comparável à fachada do palácio. Uma única porta dá acesso ao complexo funerário.

Entre a pirâmide e o muro, o espaço é ocupado por várias pequenas construções. Imhotep edifica também um templo para os ritos funerários e dispõe, alinhados, no pátio frontal, diversas imitações de pequenas capelas, além de baixos-relevos na fachada do muro. A função desses é permitir a celebração da festa Sed, ou jubileu, que regenera o poder real. Supõe-se que o falecido soberano assista a essas festas: vestido com um traje peculiar, está sentado sobre um estrado e se abriga sob um duplo pavilhão, alusão a seu título de rei do Alto e do Baixo Egito. Os motivos que decoram essas capelas reproduzem as leves estruturas de caniços e de madeira, levantadas para o desenrolar das cerimônias.

Imhotep completa o conjunto de Sakkarah com uma pequena câmara fechada, um serdab, que abriga a estátua de Djoser. Na altura do rosto da estátua, há duas fendas circulares. O soberano, representado pela estátua, pode, segundo os ritos, beneficiar-se com as fumigações feitas pelos sacerdotes encarregados dos funerais.

Esse espaço ligado ao culto funerário, essa “cidade-pirâmide”, não é silenciosa. Ecoa o barulho incessante dos canteiros de obras, além das vozes dos trabalhadores e dos serviços de reparação. As idas e vindas dos sacerdotes, responsáveis pelo culto funerário, e seus empregados, artesãos, criados ou camponeses, fazem desse local dedicado aos mortos um universo bem vivo.

Doravante, subindo o vale do Nilo, os egípcios avistam de longe a pirâmide em degraus, que emerge bem acima do muro. Na luz incerta da aurora ou do crepúsculo, ela evoca o poderoso vínculo entre o universo terrestre e o reino celestial. Quanto a Imhotep, que teve a ideia de construir essa escadaria de pedra, que é a pirâmide, subindo em direção ao céu, foi respeitado durante séculos como um sábio divinizado. Sua reputação se difundiu até entre os gregos.

Civilização Egípcia
A Europa nasce em Creta

Uma ilha abençoada pelos deuses, onde Zeus uniu-se à bela Europa, um rei todo-poderoso e tirânico, um monstro preso num labirinto, esses elementos que constituem o mito de Teseu são praticamente os únicos que, desde o I milênio a.e.c., os antigos conhecem do passado mítico de Creta, cujos últimos palácios desapareceram no século XIV a.e.c. Mal se recordam que, muito tempo antes, essa ilha era uma potência predominante no Mediterrâneo oriental. Homero a classifica como terra tão bonita quanto rica, isolada entre ondas. terra de inumeráveis homens, daí 90 cidades cujas línguas se mesclam.

Durante três milênios a civilização cretense e conhecida apenas por lendas. No inicio do século XX, a historia aparece como mito. Arqueólogos começam a se interessar por Creta. Os vestígios descobertos no sitio de Knossos incitam um etnólogo inglês, Arthur Evans, a escavar sistematicamente o terreno que comprou. A descoberta dos vestígios de uma grande construção que ele julga ser o palácio de Minos, a exumação de afrescos, de múltiplos objetos e placas de argila recobertas de escrita, revelam que uma civilização realmente brilhante existiu em Creta de 2000 a 1400 a.e.c. Na falta de designação melhor. Evans a chama de "minoica". Desde essa descoberta fundamental, as escavações prosseguem em Knossos e em outros sítios arqueológicos cretenses. Pouco a pouco se reconstitui a historia de Creta, o país onde aparece pela primeira vez uma civilização europeia. Evans restaurou as paredes do palácio e ornou suas salas com pinturas de cores vivas. Essas restituições, à luz de descobertas posteriores, são hoje muito controvertidas.

No inicio do 2° milênio a.e.c., foram construídos os primeiros palácios monumentais situados dentro de aglomerações urbanas. É provável que o sistema palaciano cretense resulte de um processo que tem sua origem em Creta durante a fase do bronze antigo (de 3000 a 2000 a.e.c.). Creta é dividida em grandes provincias, cada uma delas colocada sob a dominação de um palácio (Knossos, Malia, Faistos, Zakros).

Per volta de 1750 a 1700 a.e.c., os primeiros palácios desaparecem brutalmente sem que seja provável atribuir essa destruição geral a um terremoto ou a invasões decorrentes de guerras. A reconstrução dos palácios é imediata. É o inicio da segunda fase da civilização minoica, mais brilhante e mais elaborada que a precedente. Por volta de 1450 a.e.c., uma destruição total dos palácios ocorre de novo, tão misteriosa quanto a primeira. A maioria dos locais minoicos é abandonada, e micênicos, vindos do continente grego, ocupam a ilha. Contrariamente ao que se acreditava por muito tempo, a erupção do vulcão de Thera (hoje Santorin), remontando sem duvida ao inicio do século XVI a.e.c., não tem nenhuma relação com o fim da civilização dos palácios cretenses.

Tirando proveito de sua situação privilegiada no mar Mediterrâneo, na encruzilhada de três continentes (Europa, África e Ásia), Creta comercializa com as Cíclades, com Rodes e Chipre e com o Oriente. Enquanto os egípcios, os babilônios e os assírios fizeram fortuna em terra, os minoicos fundaram sua riqueza no mar. Graças à sua importante frota, exportam seus excedentes agrícolas e objetos manufaturados e importam os metais de que necessitam. Os historiadores gregos Heródoto e Tucídides evocam de maneira muito vaga uma "talassocracia" (potencia marítima) cretense, exercida pelo rei Minos sobre o conjunto das Cíclades. Mas esse termo é abusivo, pois nada permite afirmar que os cretenses conquistaram as ilhas do mar Egeu e nelas estabeleceram colônias. Eles se contentaram em controlar todo o comercio nessa parte do mar Mediterrâneo.

O palácio cretense reflete perfeitamente a pacifica doçura de viver que parece ter sido a característica principal do período minoico. Nenhuma muralha defensiva o cerca, os afrescos não representam cenas únicas e as armas são inofensivas, destinadas somente as cerimonias de pompa. O conjunto do palácio é uma verdadeira cidade, centro da vida politica, religiosa e econômica. O espaço que o palácio abrange é considerável: 13 mil metros quadrados para o de Knossos, com seu vasto conjunto de construções agrupadas em torno de uma praça central. Os bairros são repartidos segundo suas funções. Os aposentos suntuosos do rei, que encerram a sala do trono e a do culto, e os da rainha ficam próximos da praça central. Todas as outras construções, erigidas em torno de pequenos pátios, são ligadas à praça central por meio de galerias de colunas que tem por particularidade serem mais largas no alto que na base. Lances de degraus permitem o acesso aos andares superiores, e terraços são construídos entre as casas. O projeto do palácio é muito complexo, o que levou Evans a crer que o palácio de Knossos era o lendário Labirinto.

Tudo é organizado para permitir que a luz penetre. As salas suntuosas abrem-se para o exterior por grandes janelas separadas por pilares. Por toda parte reluzem cores vivas: ha motivos pintados sobre os revestimentos dos pisos e das paredes, afrescos monumentais recobrem as paredes mais extensas, pilares são pintados de vermelho vivo.

Uma grande parte do palácio tem uma vocação econômica: um setor agrupa os escritórios administrativos, outro contem ateliês nos quais trabalham funcionários. Os arqueólogos puderam reconhecer os ateliês dos ceramistas e dos gravadores de sigilos, assim como o forno de um fundidor de cobre. Depósitos conservam o excedente da produção agrícola e os impostos recolhidos in natura. Os cereais e outros produtos agrícolas são conservados em enormes pithoi, que são jarras de terracota.

Em volta de todo o palácio estão casas para moradia, coladas umas às outras em ruelas estreitas. Ao longo do litoral, vários estaleiros navais fabricam os navios de que os cretenses necessitam para percorrer o mar Mediterrâneo oriental. Para a pesca e a cabotagem, utilizam barcos redondos de madeira movidos a remo. Para o comercio, possuem grandes embarcações à vela.

Bem menos conhecida é a vida nos campos. Vestígios de habitações rurais, no entanto, agrupadas em vilarejos, mostram que os camponeses cretenses viviam em casas de tijolo e de madeira, construídas sobre blocos de calcário. Existem também grandes mansões de campo pertencentes a ricos proprietários que fazem cultivar suas terras por homens livres ou escravos. Em toda a ilha, pratica-se a policultura: cereais, leguminosas (fava, ervilha, grão-de-bico), videiras e oliveiras. Os camponeses devem levar ao palácio uma parte de sua produção como forma de imposto.

O episódio de Teseu que entra no Labirinto, cumpre reportar-se aos ritos religiosos dos cretenses. Eles os celebram em dois tipos de santuários, erguidos quer em locais naturais (fontes, cavernas, elevações), quer no âmbito palaciano. A religião minoica nos é conhecida apenas por suas representações em imagens. Nas salas do palácio reservadas ao culto existem altares de flancos arqueados, bacias lustrais (para fins de purificação), mesas de três pés para oferendas, símbolos como os machados duplos e os chifres duplos que servem para santificar o local, um rhyton (vaso para libações) em forma de cabeça de touro e afrescos que ilustram cerimonias religiosas. Os artistas pintaram procissões, danças sagradas, provas de atletismo e tauromaquia de valor religioso. Estatuetas femininas de quadris largos e brandindo serpentes foram interpretadas como deusas da fecundidade. Talvez se trate, no entanto, de sacerdotisas. De acordo com indícios extraídos dos vestígios arqueol6gicos, pareceria, portanto, que os cretenses não adoravam divindades masculinas. Mas, para além dessas formas externas da religião, nada permite apreender em que consistiam as crenças reais dos minoicos.

Descoberta a 12 quil6metros de Knossos; a caverna de Skotino foi reconhecida como o verdadeiro Labirinto, destinado a submeter os jovens a provas iniciáticas. Suas galerias subterrâneas descem ate 55 metros de profundidade dispondo-se em quatro níveis. Os futuros iniciados deveriam percorrer um circuito tortuoso que se tornava ainda mais difícil por rupturas de nível e becos sem saída. Blocos calcários esculpidos representam cabeças monstruosas. No fim do circuito encontrava-se um altar de pedra, que deveria estar cercado de oferendas variadas e das cinzas dos sacrifícios.

Na mitologia grega, a história de Creta começa com a chegada de Europa na ilha. Para a história mundial, o continente Europa encontrou em Creta o berço de sua civilização.

A civilização de Creta, incluindo as ilhas periféricas das quais a mais importante é Thera, usufruiu de uma cultura refinada e de avanços técnicos excepcionais para sua época, algo que mesmo durante o período clássico (mais de 1000 anos depois), Atenas ou nenhuma outra cidade conseguiria alcançar plenamente. Toda a fama dessa riqueza e requinte alcançou a civilização egípcia, com quem os cretenses mantinham ativo comércio na época do médio império dos faraós. Muitos anos depois, Platão ouviu estórias maravilhosas provenientes do Egito de um povo maravilhoso, de tecnologias avançadas que viveu há muitos anos e que sucumbiu devido a um desastre natural. De posse desses conhecimentos transmitidos por vias orais, Platão tinha às mãos os ingredientes necessários para elaborar alguns de seus mais famosos diálogos... Nascia aí a lenda de Atlântida. (Odsson Ferreira)

 

Teseu e o Minotauro

Quando os marinheiros que trabalham no cais de Knossos veem aparecer no horizonte uma nave de velas negras, se apressam em prevenir os habitantes da cidade, que se precipitam para o porto. Todos, com efeito, sabem que se trata do navio que vem entregar ao rei de Creta, Minos, os reféns atenienses.

Minos é um dos soberanos mais poderosos da mitologia grega. Tem por mãe a princesa originaria de Tiro, Europa, que Zeus, sob forma de touro branco, seduziu e carregou em seus ombros ate à costa de Creta. Minos herdou de seu divino pai uma sabedoria excepcional. Foi ele quem deu a seu povo leis diretamente inspiradas em Zeus e fez dos cretenses um povo civilizado. Minos é também um rei autoritário e implacável. Um de seus filhos, Androgeu, vindo a Atenas para participar dos jogos atenienses, e assassinado provavelmente por ordem de Egeu, rei de Atenas. Para vingar sua morte, Minos exige que, todos os anos, os atenienses lhe enviem um tributo constituído de sete rapazes e sete moças. Ao chegarem em Knossos, são encerrados no Labirinto - edifício extraordinário imaginado pelo arquiteto Dédalo - , de tal modo que é impossível sair dele. Os meandros do Labirinto e seus corredores traçados como armadilhas conduzem ao antro do Minotauro. Esse monstro hibrido, com corpo de homem e cabeça de touro, é fruto dos amores contra a natureza da mulher de Minos, Pasifae, e de um touro que o deus do Mar, Posídon, deu a Creta. Escondido no fundo do Labirinto, o Minotauro vigia os jovens reféns para devora-los.

Quando Atenas, pela terceira vez, deve pagar seu tributo, Teseu, filho do rei Egeu, se apresenta como voluntário para fazer parte dos reféns. Promete a seu pai que vai matar o Minotauro e, desse modo, libertar Atenas do funesto tributo expiatório. Teseu tem, como Héracles (filho ao, mesmo tempo de Zeus e de Anfitrião), a particularidade de ter dois pais: um deus, Posídon, e um homem, Egeu, rei de Atenas. Além disso, tem a ambição de igualar as proezas de Héracles, para gozar de uma fama tão grande como a dele. Assim, começa sua carreira heroóica exterminando forças monstruosas. Libertou os habitantes da Ática matando muitos criminosos temidos. Matar o Minotauro seria para ele o auge de suas proezas salvadoras. Teseu é também um herói leviano, sempre pronto a seduzir as mulheres, mas igualmente pronto a abandona-las.

Com muito esforço, Teseu consegue convencer seu pai; que teme enviar seu filho a morte. No momento em que o navio enviado por Minos para levar os reféns - e que traz, em sinal de Iuto, velas negras - aporta em Creta, Egeu faz o piloto prometer que, na volta, vai içar velas brancas se Teseu tiver conseguido vencer o Minotauro.

Na chegada do navio cretense ao porto de Knossos, entre os habitantes reunidos para assistir ao desembarque, encontra-se a própria filha de Minos, Ariane. À vista de Teseu, a princesa se sente imediatamente colhida por uma violenta paixão por ele. Em troca de uma promessa de casamento, dá ao herói um novelo de linha, segurando em sua mão uma das pontas do fio. Teseu avança no Labirinto, desenrolando o novelo. Chegando à presença do Minotauro, o herói o mata a socos.

Depois, graças ao fio de Ariane, consegue reencontrar o caminho que o leva para fora. Imediatamente faz embarcar todos os seus companheiros em seu navio. Por medida de precaução, fende o casco dos outros navios cretenses para impedi-los de seguir a seu encalço.

O regresso triunfal de Teseu a Atenas é marcado por dois episódios. Ariane, que fazia parte da viagem, é abandonada por Teseu por ocasião de uma escala na ilha de Naxos. Dioniso, de passagem pela ilha, a recolherá e fará dela sua esposa. Mais tarde, à vista das costas da Ática, a alegria é tamanha no navio que o piloto esquece de trocar as velas. Egeu, que vigia o regresso do navio, vê as velas negras e acredita que o Minotauro matou seu filho. Desesperado, lanca-se no mar, que leva dai em diante seu nome.

Teseu, saudado pelos atenienses como benfeitor e libertador, sucede a seu pai. Ele confedera todas as cidades da Ática a autoridade de Atenas. Ate o século IV a.e.c., os atenienses veneraram uma embarcação arcaica que teria sido aquela da expedição para Creta. Teseu tem a particularidade de ser para os gregos ao mesmo tempo um herói mitol6gico e um personagem histórico.

Civilização Cretense
GOVERNANTES
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Por civilização
CIVILIZAÇÃO
Por Carlos Augusto de Proença Rosa
Ciência e conhecimento científico no Egito

É usual iniciar um estudo sobre a civilização egípcia pela geografia física da região. Monografias e trabalhos específicos enfatizam a importância do rio Nilo como fator preponderante no desenvolvimento de uma cultura local desde o Período Neolítico. O Egito – fruto da geografia e o Egito – um dom do Nilo – são corretas apreciações de uma realidade histórico-geográfica. O microclima e o isolamento natural do vale, pela proteção dos desertos, são fatores igualmente importantes que explicam o aparecimento de núcleos populacionais ao longo do grande rio. Essa população egípcia originou-se de uma variedade de povos que, desde os Tempos Pré-Históricos, habitavam a região, vindos da África do Norte e da Ásia ocidental em busca de melhores condições ambientais, e que desenvolveram características étnicas próprias. Contingentes de líbios, hamitas, neolíticos semitas e paleolíticos aborígenes foram os principais formadores da raça egípcia, que, já na época Tinita (cerca de 5000 anos atrás), se distinguia de seus vizinhos líbios e núbios.

Assim, o surgimento de condições de vida humana e de desenvolvimento cultural no Egito foi devido a um conjunto de fatores excepcionais, ligados à água. O vale do Nilo, que abrange uma área de 25 mil km2, com uma extensão de 850 km (da 1a Catarata ao Mediterrâneo), se limita a Leste, a Oeste e ao Sul com enormes regiões desérticas, inóspitas, impróprias para atividades econômicas intensivas. O regime do Nilo, cujas enchentes coincidiam com o período mais quente do ano (julho-outubro), beneficiava o vale com uma grande quantidade de lodo fértil, trazido desde a Etiópia, o que permitia a renovação anual do solo. Ao mesmo tempo, e desde o fim do último Período Glacial, o clima mais temperado favoreceu o crescimento da fauna e flora locais, que serviram de meio de subsistência para uma crescente população, inicialmente caçadora-coletora. Tornada insuficiente para a demanda alimentar, a caça deixaria de ser a principal atividade daquela população nômade, com a introdução do trigo e da cevada por volta de 7000 anos atrás, provenientes do Oriente Médio.

Antecedentes Históricos

A agricultura se desenvolveu rapidamente no vale do Nilo, graças à fertilidade do solo, às novas técnicas agrícolas (irrigação, arado puxado por dois bois) e às boas colheitas (três ao ano). A população, agora sedentária,  fixou-se ao longo do Nilo em pequenas comunidades rurais, onde desenvolveram sua principal atividade econômica. Os egípcios não trabalhavam a terra árida, limitando-se a agricultura às margens do Nilo. Além do trigo e da cevada, cultivavam, ainda, leguminosas, cebola, frutas (uva,  figo, tâmara), criavam animais para leite e corte. Região fértil e de fartas safras, o excedente alimentar representou um formidável acúmulo de riqueza que propiciou novas atividades mais diversificadas e desenvolvimento econômico. O Egito chegou a ser considerado o grande celeiro da Antiguidade. A agricultura foi a grande marca, a principal atividade, a característica maior da civilização egípcia. Diferente das civilizações urbanas da Grécia e de Roma, a egípcia foi rural[1]. Determinante da personalidade disciplinada, prática e submissa do camponês, o caráter rural de sua população explica seu comportamento diante do poder central e absoluto do Faraó, o rei-deus.

Na origem da civilização egípcia se encontra a cultura neolítica introduzida na região a partir do quarto milênio, quando surgiu a necessidade de coordenar atividades em um esforço coletivo, e de desenvolver técnicas apropriadas para enfrentar os problemas e as dificuldades da vida cotidiana. Os principais fatores que atuaram na formação dessa civilização foram os limites impostos pela Natureza às necessidades humanas e aos meios sociais e tecnológicos para enfrentar os desafios naturais[2]. Nesse processo de formação da civilização egípcia, foram marcos fundamentais a aquisição da técnica da escrita, inicialmente com ideogramas, e, depois, hieroglífica, a configuração concomitante dos principais ritos e crenças e a modelagem da língua egípcia. Todas essas aquisições datam do Período Pré-Dinástico, ou seja, da fase conhecida como Gerzeana (3300 a.e.c. – 3100 a.e.c.), o que vale dizer ter havido contatos com o Oriente Médio, em especial com os mesopotâmios, e ondas migratórias de regiões vizinhas, e, até mesmo, mais distantes, como a Etiópia e a Arábia. Desses contatos a cultura egípcia recebeu, principalmente, a influência da Mesopotâmia, em sua fase chamada Gerzeana[3]. A partir da unificação dos dois Reinos em um Império, o antigo Egito viveria em um isolamento cultural[4], apesar de superficiais contatos eventuais com outros povos, na maioria das vezes de um nível cultural inferior. O Egito, no dizer de Colin Ronan, era um universo autossuficiente: tinha seus deuses independentes e seu modo de vida especial.

Considerações Gerais

A História do Egito cobre um período de cerca de 3 mil anos, desde sua de formação, Gerzeano – de 3300 a 3100 – até sua decadência e dominação, com a conquista, pelos persas de Cambises, no século VI (525); por Alexandre, em 332; e,  finalmente, pelos romanos, em 31, quando, após a Batalha de Actium, incorporou o Egito como colônia do Império Romano. O Egito antigo, que no Período Pré-Dinástico era dividido em dois Reinos (Baixo Egito e Alto Egito), seria unificado por Meni/Narmer/A-ha, em 3100, quando fundou a capital do Império, Mênfis/Menufer; trinta e uma dinastias governariam o Império até sua conquista por Alexandre, seguindo-se mais duas dinastias (macedônia e ptolomaica) até sua incorporação a Roma. Exceto por dois períodos de instabilidade, o Egito manteve-se unificado por mais de dois mil anos.

A evolução da civilização egípcia é dependente da teocracia imposta pelos Faraós e pela casta sacerdotal, cujo relacionamento se transformou em verdadeira rivalidade, após o fortalecimento do poder do Sumo Sacerdote de Amon-Ra. Acreditavam os egípcios na vida após a morte, pelo que a passagem transitória por este mundo era preparatória para a imortalidade futura. Sua visão era de uma realidade estática, imutável,  fixa, desde o momento da criação; a mudança possível seria cíclica, mas as fases do ciclo seriam imutáveis. Seu interesse primordial estava em um mundo que não era o terreno; suas vistas estavam sempre voltadas para um futuro, além da morte, venturoso e eterno. Todos esses elementos são fundamentais na formação do espírito prático do egípcio. Guiado por uma imaginação e uma observação impossibilitadas de reverter ou alterar uma realidade imposta e imutável, o egípcio antigo foi incapaz de desenvolver um espírito crítico, analítico, especulativo, inventivo. A falta de um espírito investigativo e inovador limitaria, na realidade, o egípcio ao campo técnico, no qual seria bastante realizador, e determinaria um ritmo evolutivo mais lento que em outras sociedades.

Maurice Daumas observou que tudo já estava adquirido desde o Antigo Império, isto é, desde o início de sua História, a Técnica marcaria passo; ela se modificaria e aperfeiçoaria o estado das Artes e Ofícios, mas não se inventaria praticamente nada. O estado social e a estrutura religiosa, conservadores por excelência, permitiriam sustentar apenas o impulso inicial, de forma a manter, por três milênios, o mesmo conjunto de procedimentos técnicos[5]. Na ausência de conhecimento teórico, o valor dos construtores egípcios estava alicerçado em sólida experiência prática e e um instinto para a Engenharia estrutural. As técnicas utilizadas na construção do grande templo em Karnak, por volta de 1370, não foram muito diferentes das usadas na época de Khufu, cerca de treze séculos antes.

Como em todas as civilizações antigas, as atividades de transformação se circunscreveram ao artesanato em cerâmica, tecelagem, ourivesaria, vidraçaria, metais, couro, madeira. As habitações e moradias eram de tijolo. Os palácios, os templos e os grandes monumentos eram construídos em pedra, como testemunho da grandeza dos deuses e do Faraó. De uma planta comum do Nilo, o papiro, fabricaram os egípcios uma espécie de papel que serviu para registrar sua escrita hieroglífica. As Artes, principalmente a Arquitetura, a Escultura e a Pintura, se desenvolveram como técnicas, conforme atestam os monumentos de pedra (Luxor, Karnak, Menon, obeliscos), os murais e pequenos objetos decorativos nos túmulos encontrados nos Vales dos Reis e das Rainhas, sem, contudo, ter havido evolução no conceito ou na percepção da estética. As  figuras são rígidas, estáticas, paradas, frontais.

A Sociedade egípcia antiga se caracterizou, em resumo, por seu caráter teocrático, rural, conservador, hierarquizado. Tais condições estabeleceriam o lento ritmo de desenvolvimento cultural, baseado na acumulação de experiência técnica. Isolada e imune a influências externas, a Sociedade egípcia manteve intactas suas prioridades individuais e coletivas, ao longo dos milênios, sem atentar para a necessidade ou conveniência de evolução no campo mental e intelectual. A falta de interesse, ou mesmo a oposição, das elites que detinham o poder político, religioso, cultural e econômico, em alterar as bases em que se assentava a Sociedade explica o quase imobilismo, a relativa estagnação, o lento progresso, presentes no curso da História da Civilização Egípcia. O conhecimento das coisas estava além da capacidade e percepção humanas, interditado aos mortais, por ser privativo da divindade; desnecessário e irrelevante para o povo, o conhecimento era, na realidade, monopólio da elite governante, como na Mesopotâmia. O desperdício de recursos foi extraordinário. Reuniram-se recursos colossais de mão de obra apenas para construir os maiores túmulos que o mundo já viu. Empregou-se uma Arte de qualidade refinada apenas para construir túmulos. Uma elite instruída, utilizando um material conveniente de escrita, não legou à Humanidade nenhuma grande ideia  filosófica ou religiosa. É difícil não perceber, continua o já citado J. M. Roberts[6], uma esterilidade fundamental, um vazio, no âmago desse brilhante tour de force. Tais características expunham a fragilidade da civilização egípcia, que, uma vez anexada a Roma, desapareceu sem deixar muitos vestígios, além dos formidáveis monumentos. Sua influência em outras culturas foi ínfima, e sua contribuição para a Ciência universal, modesta, insignificante[7].

A Técnica na Cultura Egípcia

Em consequência de todas essas características, não se desenvolveram, na antiga cultura egípcia, o espírito crítico, abstrato, inquisitivo, investigativo, especulativo, e a reflexão  filosófica, capazes de gerar o conhecimento científico. Em tais circunstâncias, há um conhecimento empírico, fruto de observação e longa experiência, sem qualquer embasamento teórico. Como escreveu Abel Rey, citado por René Taton[8], a Ciência egípcia se distingue daquela que  floresceu na Grécia no século V pela falta de teoria e desprovida de toda metafísica. Ela não é mais que uma Técnica. Há um conhecimento prático em diversas áreas, como dos números, contas e cálculos, dos corpos celestes, dos animais e plantas, da cura de algumas doenças e da mumificação, sem haver, contudo, Matemática, Astronomia, Botânica, Zoologia, Biologia. Há uma técnica de cálculo, como também de mumificação e de observação dos astros, mas a falta de um verdadeiro espírito científico impediria o surgimento das respectivas ciências.

Os textos preservados (papiros) se limitavam a soluções de problemas, sem nenhuma teorização. Como na antiga Mesopotâmia, a preocupação era meramente prática, de como solucionar determinadas questões de interesse particular, mas não a de ensinar a raciocinar ou a de entender os fenômenos da Natureza. Ao  final de três mil anos de civilização, os egípcios continuavam a praticar a mumificação sem avançar no estudo da Anatomia ou da Fisiologia; a observar a abóbada celeste sem especular sobre o movimento dos astros; a lidar com doenças sem atinar com seu diagnóstico. Inatingível para os seres humanos, e estando tudo e todos sujeitos aos desígnios da divindade, era o acesso ao conhecimento absolutamente proibido, fora do círculo de uns poucos privilegiados; a observação astronômica, por exemplo, era reservada aos sacerdotes. O conhecimento empírico adquirido ao longo dos séculos se constituiria, assim, no repositório das observações e experiências acumuladas nas diversas áreas da atividade humana.

Se as grandes efemérides da História egípcia estão descritas ou desenhadas nos monumentos, túmulos e ruínas, relativamente pouco foi preservado sobre o conhecimento nas diversas disciplinas, dado que o papiro não é um material muito resistente ao tempo e ao manuseio. O material descoberto, desde meados do século XIX, tem sido a principal fonte para o conhecimento do nível a que chegou a Técnica no Egito antigo.

Deve ser salientado que a cidade de Alexandria, no delta do Nilo, grande centro comercial e cultural (Museu e Biblioteca) no Período Ptolomaico, não foi parte da cultura egípcia, mas da grega e estava inserida no mundo helênico. A força da tradição e a resistência a uma cultura forânea impediriam os egípcios de se beneficiarem dos estudos e investigações da civilização grega.

Matemática

A Matemática egípcia era basicamente uma aritmética prática, voltada para apresentar resposta a problemas. A pesquisa dos princípios matemáticos era desprezível; não havia uma teoria básica da Matemática, nem um sistema teórico de Geometria. Muito poucos documentos matemáticos (papiros) foram recuperados até hoje:

1) Papiro Rhind, escrito por Ahmes, por volta de 1650, mas adquirido pelo escocês Henry Rhind, em 1858, em Luxor, e desde 1864 no Museu Britânico. Trata-se da principal fonte da Matemática egípcia, no formato de um longo rolo de 5,50 m por 33 cm com duas tabelas numéricas, 87 problemas redigidos em escrita hierática sobre Aritmética, Geometria, Estereometria e da vida prática;

2) Papiro de Moscou, desde 1912 no Museu de Belas Artes de Moscou. Redigido por volta de 1850, contém 25 problemas da vida prática; não se encontraria em bom estado de conservação e de leitura o rolo de 8 cm por 5,50 m;

3) rolo de couro, de 43 cm por 26 cm, adquirido em 1858, em Luxor, por Henry Rhind, e no Museu Britânico desde 1858. Redigido em dois exemplares, contém uma tabela de 26 quocientes expressos em soma de frações unitárias;

4) Papiro de Kahun, descoberto por W. M. F. Petrie, em 1889, contém seis fragmentos, dos quais apenas três estão claramente explicitados;

5) Papiro de Berlim, de quatro rolos, em mau estado de conservação, foi descoberto, em 1904, por G. Reisner. Redigido por volta de 1880, o documento media, originariamente, 3,50 m por 30 cm, e se refere à Estereometria ou cálculo de volume dos sólidos[9]. A numeração egípcia era decimal, mas se escrevia de forma diferente quando se utilizava o sistema hieroglífico (aditivo, repetitivo, não posicional) ou os escritos hieráticos e demóticos (mais simples); na escrita hieroglífica, os números de 1 a 9 eram representados por tantos traços verticais quantas as unidades representadas. A ordem da disposição dos símbolos não era importante; de modo geral, a escrita se fazia da direita para a esquerda e do alto para baixo. Não conheciam o zero. As quatro operações aritméticas eram do domínio dos egípcios, porém não se conhece o método utilizado para a soma e a subtração; tanto a multiplicação quanto a divisão eram efetuadas pelo sistema das duplicações sucessivas. Quanto ao sistema de cálculo e representação das frações, todas, com exceção da fração 2/3, deveriam ter o numerador igual à unidade (1/2, 1/3, 1/4, 1/5, e assim, sucessivamente). Sabiam extrair a raiz quadrada e conheciam as progressões aritmética e geométrica. A Álgebra aparece nos papiros Rhind e de Berlim com problemas práticos que correspondem a equações do primeiro e do segundo graus[10]. Os papiros Rhind e de Moscou apresentam uma série de problemas de cálculo geométrico para áreas e volume, inclusive para pirâmides. A sugestão de alguns de que os egípcios conheceriam o valor de pi (π), isto é, a razão entre a circunferência e seu diâmetro, é rejeitada pela grande maioria dos especialistas. O ponto comum dos problemas aritméticos ou geométricos é a forma condensada das soluções apresentadas; a questão se resume a alguns números e operações, sem qualquer comentário. Assim, os problemas dos documentos matemáticos egípcios devem ser considerados como fórmulas para serem aplicadas na solução de problemas, e não como problemas com fórmulas[11].

Astronomia

Como a Matemática, a Astronomia estagnou em um estágio bastante elementar, rudimentar. A inexistência de papiros sobre Astronomia dificulta um completo conhecimento dos avanços atingidos, que são deduzidos de inscrições e representações em monumentos funerários e alguns calendários que adornam certos sarcófagos do Novo Império. Para os egípcios, a Astronomia era a base utilitária necessária para a marcação do tempo, sem maior interesse em teorias sobre o Sol, a Lua e demais corpos celestes; identificavam os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, bem como algumas constelações e estrelas (Orion, Cassiopeia, Grande Ursa, Sirius). Segundo a mitologia egípcia, o deus Osíris, ao morrer, se transformou na constelação Orion. A falta de preocupações com a natureza do universo físico decorria do desinteresse dos sacerdotes-astrônomos em pesquisar as posições das estrelas, o movimento dos astros, a ocorrência de eclipses, em especular a respeito da sua natureza. Dedicavam-se ao mundo espiritual, e não ao físico. Não há menção alguma, em qualquer documento egípcio, sobre eclipse[12]. A Astronomia egípcia tem, na realidade, um caráter religioso e litúrgico, tanto que só aos sacerdotes cabia o privilégio de observar a abóbada celeste e extrair informações precisas que lhes permitissem  fixar datas para as cerimônias religiosas e até as horas para a liturgia diária. As observações astronômicas tinham, assim, um objetivo prático, sem qualquer veleidade teórica, pelo que, segundo René Taton, não tem direito ao título de Ciência, pois o conceito científico deve apoiar-se sobre uma questão de método.

A Astronomia, ou melhor, a observação do Céu, combinada com as enchentes do Nilo, serviria, contudo, para a organização de um Calendário de real valor para a Sociedade egípcia. A inundação anual do Nilo coincidia com o aparecimento, antes da alvorada, no horizonte oriental, de Sirius, a mais brilhante estrela; esse nascimento helíaco de Sirius serviria, no Período Pré-Dinástico, para marcar o início do ano, cuja duração, de 354 dias, se dividia em 12 meses de 29 ou 30 dias, vinculados, assim, às fases da Lua; um mês adicional era acrescentado a cada três ou dois anos. Os egípcios, quando sedentários e agricultores, abandonariam os cálculos baseados na Lua e passariam a se guiar pelo Sol, ou seja, pelas estações, período entre um solstício de verão (Hemisfério Norte) e o seguinte, que corresponde a 365 dias. Os 12 meses estavam agrupados em três estações – Inundação, Germinação dos Campos e Colheita – de 4 meses cada. Tal Calendário civil (solar) teria sido adotado entre 2937 e 2820; porém, após dois séculos, já acumulava um erro de 50 dias. Em vez de proceder à correção do erro, os egípcios criaram outro Calendário lunar para ser usado junto com o solar. Desta forma, por volta de 2600, três calendários estavam em uso: o lunar original, baseado no nascimento helíaco de Sirius, o civil ou solar, de 365 dias, e o novo lunar.

Os egípcios foram os primeiros a dividir o dia (período entre um nascer do Sol e outro) em dois períodos iguais de 12 horas, cuja duração foi uniformizada. A escolha das 12 horas noturnas corresponde ao movimento das estrelas pelo Céu, desde seu nascimento, à noite, até seu desaparecimento, pela manhã; as doze horas do dia correspondem às dez horas entre o nascer e o pôr do sol, mais uma para a alvorada e mais outra para o crepúsculo vespertino. Do exposto, depreende-se ser a observação dos astros e estrelas limitada à  fixação de datas e horas para  fins religiosos e agrícolas, sem qualquer outra pretensão. Durante o dia, as horas eram medidas pelo relógio do sol (ou da sombra), dispondo, ainda, os egípcios, de um relógio de água ou clepsidra.

A Astrologia era desconhecida no Egito Antigo, tendo sido divulgada e praticada apenas a partir do Período Helenístico. Os instrumentos usados pelos sacerdotes egípcios eram aqueles utilizados por outros povos na Antiguidade: o gnômon, os círculos e os meios círculos para se achar a distância dos corpos celestes acima do horizonte e ao longo da eclíptica, a esfera armilar e os relógios de água.

Medicina

Os principais papiros que tratam de Medicina são em número de quatro: o Papiro Ebers (XVIII dinastia), descoberto em 1875, é um repositório de receitas, inclusive com encantamentos por magos; o Papiro Kahun (XII dinastia), descoberto em 1898, é muito curto, preciso e sóbrio; o Papiro de Berlim (XIX dinastia), descoberto em 1909, relaciona uma série de receitas; o Papiro Smith (XVIII dinastia), descoberto em 1930, expõe alguns casos cirúrgicos.

Sabe-se, pelo Papiro médico Ebers, que existiam três espécies de práticos em Medicina: o sinu ou seunu, que é o médico prático, com algum conhecimento empírico; o sacerdote, que, sob a inspiração da divindade, praticava uma medicina de caráter religioso (para os egípcios, e muitos outros povos da Antiguidade, a doença era de origem sobrenatural); e o feiticeiro ou mago, que se utilizava da magia para curar o paciente[13]. Apesar da prática milenar do embalsamamento, o conhecimento da Anatomia humana era elementar: desconheciam os rins e acreditavam ser o coração a sede do sangue, das lágrimas, do esperma e da urina. O tratamento médico se baseava em fórmulas mágicas, amuletos, poções, pomadas, ervas, em um total empirismo que não contribuía para o desenvolvimento da pesquisa. A Farmacopeia utilizava substâncias vegetais (árvores e plantas domésticas, frutas, cereais e ervas comestíveis e perfumadas), animais (carnes, gorduras, leite, mel) e minerais (arsênico, cobre, alabastro, galena). A cirurgia, particularmente a dentária (drenagem de abscessos, obturações), já era empregada desde a IV Dinastia. Como em outros ofícios, a prática médica passava de pai para  filho, sem haver escola de medicina, mas uma “casa da vida” na qual o jovem prático podia adquirir conhecimento adicional. Como em outras culturas da época, os práticos de Medicina, principalmente os sacerdotes-médicos, gozavam de grande prestígio na comunidade, em geral, e na corte, em particular. O personagem mais ilustre, reverenciado como herói, é Imhotep, que, além de médico, teria sido, igualmente, astrônomo e arquiteto (construtor das primeiras pirâmides, em Saqqara).

Química

O povo egípcio, como outros da Antiguidade, soube desenvolver e aperfeiçoar técnicas no aproveitamento de metais, resinas e óleos vegetais e animais. Ainda que o solo e subsolo fossem extremamente pobres em minérios, os egípcios foram capazes de trabalhar o ferro, provavelmente de origem de meteorito, desde 800 a.e.c., assim como o cobre, o bronze, o estanho e o chumbo, provenientes de regiões vizinhas. Os egípcios sabiam, ainda, fabricar objetos de vidro e de cerâmica, além de corantes, cosméticos e perfumes. A técnica da fermentação era conhecida, como atesta a fabricação da cerveja.

Muito pouco ou quase nada se sabe sobre o conhecimento dos egípcios antigos a respeito de outras disciplinas, como Mineralogia, Botânica, Zoologia e Física, apesar de que em suas atividades diárias deverão ter tido oportunidades de atentar para as particularidades e as qualidades dos objetos, materiais, elementos e seres sob observação. Não há documentos, nem papiros a respeito desses assuntos, inclusive sobre a fabricação de perfumes, corantes, cosméticos, e metalurgia.

Em conclusão, o Egito antigo foi, antes de tudo, uma teocracia hierarquizada, na qual a religião dominava todas as facetas de uma vida terrena, transitória, para a preparação da vida após a morte. Todos os recursos materiais e intelectuais estavam a serviço do Faraó; a casta sacerdotal monopolizava o conhecimento. O trabalho manual era o único permitido a uma população dominada pelos preconceitos e superstições. A técnica adquirida resultara de laboriosa acumulação de experiência, sem qualquer teorização. A pesquisa e a análise não eram usadas, ou conhecidas; a observação, superficial, era inconsequente, e o conhecimento, empírico. Esse ambiente hostil à reflexão não foi conducente à criação científica.

A numeração, a Aritmética e a Geometria permaneceram rudimentares; a observação da abóbada celeste serviu para criar calendário e  fixar datas para festejos religiosos; a cura de doenças, de origem sobrenatural, dependia de uma Medicina primitiva, exercida por magos, sacerdotes e práticos.

Do ponto de vista da História da Ciência, a contribuição da civilização egípcia foi inexpressiva, bastante modesta, se bem que tenham sido incontestáveis os avanços no campo da Técnica.

 

Civilização Egípcia | Ciências
Por André Bonnard
Na terra grega, o povo grego

A ultima das expedições guerreiras dos príncipes aqueus, que levaram consigo os seus numerosos vassalos, foi a não lendária mas histórica guerra de Troia. A cidade de Troia-ilion, que era também uma cidade helênica, situada a pequena distância dos Dardanelos, enriquecera cobrando direitos aos mercadores que, para passar o mar Negro, tomavam o caminho de terra, ao longo do estreito, a fim de evitar as correntes, levando aos ombros barcos e mercadorias. Os Troianos espoliavam-nos largamente a passagem. Estes ratoneiros foram pilhados por seu turno. Ilion foi tomada e incendiada após um longo cerco, no principio do século XII (cerca de 1200). Numerosas lendas, aliás belas, mascaravam as razões verdadeiras, que eram razões econômicas, não heróicas, desta rivalidade de salteadores. A Ilíada dá-nos algumas. Os arqueólogos que fizeram escavações em Troia, no século passado, encontraram, nos restos de uma cidade que mostra sinais de incêndio e que a terra de uma colina recobria há mais de três mil anos, objetos da mesma época que os encontrados em Micenas. Os ladrões não escapam aos pacientes inquéritos dos arqueólogos-policiais.

Entretanto, novas tribos helênicas - Eólios, Jônios, por fim, Dórios - invadiram, depois dos Aqueus, o solo da Grécia. A invasão dos Dórios, os últimos a chegar, situa-se por volta de 1100. Enquanto que os Aqueus se tinham civilizado um pouco em contato com os Cretenses, os Dórios continuavam a ser muito primitivos. Contudo, conheciam o uso do ferro: com este metal tinham feito diversas armas. Entre os Aqueus, o ferro era ainda tão raro que o consideravam um metal tão precioso como o ouro e a prata.

Foi com estas armas novas, mais resistentes e sobretudo mais longas (espadas de ferro contra punhais de bronze), que os Dórios invadiram a Grécia como uma tempestade. Micenas e Tirinto são por sua vez destruídas e saqueadas. A civilização aquéia, inspirada na dos Egeus, afunda-se no esquecimento. Torna-se por muito tempo uma terra meio fabulosa da historia. A Grécia, rasgada pela invasão Doria, esta povoada agora unicamente de tribos gregas. A historia grega pode começar. Ela começa na noite dos séculos XI, X e IX. Mas o dia está perto.

Que terra era esta que iria tornar-se a Hélade? Que recursos primeiros, que obstáculos oferecia a um povo primitivo para uma longa duração histórica, uma marcha tacteante para a civilização?

Dois caracteres importa revelar: a montanha e o mar.

A Grécia é um pais muito montanhoso, embora os seus pontos mais altos não atinjam nunca três mil metros. Mas a montanha está por toda a parte, corre e trepa em todas as direções, por vezes muito abrupta. Os antigos marinhavam-na por carreiros que subiam a direito, sem se dar ao trabalho de zigue-zaguear. Degraus talhados na rocha, no mais escarpado da encosta. Esta montanha anárquica dava um país dividido numa multidão de pequenos cantões, a maior parte dos quais, aliás, tocavam o mar. Daqui resultava uma compartimentarão favorável à forma política a que os Gregos chamam cidade.

Forma cantonal do Estado. Pequeno território fácil de defender. Natural de amar. Nenhuma necessidade de ideologia para isto nem de carta geográfica. Subindo a uma elevação, cada qual abraça, com um olhar, o seu país inteiro. No pé das encostas ou na planície, algumas aldeias. Uma povoação construída sobre uma acrópole, eis a capital. Ao mesmo tempo, fortaleza onde se refugiam os camponeses em caso de agressão, e, nos tempos de paz, que pouco dura entre tantas cidades, praça de mercado. Esta acrópole fortificada é o núcleo da cidade quando nasce o regime urbano. A cidade não é construída a beira-mar - cuidado com os piratas! -, suficientemente próxima dele, no entanto, para instalar um porto.

As aldeias e os seus campos, uma povoação fortificada, meio citadina, eis os membros esparsos e juntos dum Estado grego. A cidade de Atenas não é menos a campina e as suas lavouras que a cidade e as suas lojas, o porto e os seus barcos, e todo o povo dos Atenienses atrás do seu muro de montanhas, com a sua janela largamente aberta para o mar: e o cantão a que se chama Ática.

Outras cidades, as dúzias, noutras molduras semelhantes. Entre estas cidades numerosas, múltiplas rivalidades: políticas, econômicas - e a guerra ao cabo delas. Nunca se assinam tratados de paz entre cidades gregas, apenas tréguas: contratos a curto prazo, cinco anos, dez, trinta anos, o Maximo. Mas antes de passado o prazo já a guerra recomeçou. As guerras de trinta anos e mais são mais numerosas na historia grega que as pazes de trinta anos.

Mas a eterna rivalidade grega merece por vezes um nome mais belo: emulação. Emulação desportiva, cultural. O concurso é uma das formas preferidas da atividade grega. Os grandes concursos desportivos de Olímpia e outros santuários fazem largar as armas das mãos dos beligerantes. Durante estes dias de festa, os embaixadores, os atletas, as multidões circulam livremente por todas as estradas da Grécia. Há também em todas as cidades formas múltiplas de concursos entre os cidadãos. Em Atenas, concursos de tragédias, de comedias, de poesia lírica. A recompensa é insignificante: uma coroa de hera para os poetas ou um cesto de figos, mas a gloria é grande. Por vezes um monumento a consagra. Apos a Antígona, Sófocles foi eleito general! E saiu-se com honra de operações que teve de conduzir. Em Delfos, sob o signo de Apolo ou de Dioniso, concursos de canto acompanhado de lira ou de flauta. Arias militares, cantos de luto ou de bodas. Em Esparta e em toda a parte concursos de dança. Em Atenas e em outros lugares, concursos de beleza. Entre homens ou entre mulheres, conforme os sítios. O vencedor do concurso de beleza masculina recebe, em Atenas, um escudo.

A gloria das vitorias desportivas alcançadas nos grandes concursos nacionais não pertence somente à nação: é a gloria da cidade do vencedor. Os maiores poetas - Pindaro e Simonides - celebram essas vitorias em esplendidas arquiteturas líricas onde a musica e a dança se juntam à poesia para dizerem ao povo a grandeza da comunidade dos cidadãos de que o atleta vencedor não é mais que delegado. Acontece o vencedor receber a mais alta recompensa que pode honrar um benfeitor da pátria: ser pensionado - alimentado, instalado - no pritaneu, que é a câmara municipal da cidade.

Tal como os exércitos, enquanto duram os jogos nacionais, os tribunais folgam, adiam-se execuções capitais. Tréguas que não duram mais de alguns dias, por vezes trinta.

A guerra crônica das cidades é um mal que acabara por ser mortal ao povo grego. Os Gregos nunca foram além - quando muito, em imaginação - da forma do Estado cidade-cantão. A linha do horizonte das colinas que limitam e defendem a cidade parece limitar, ao mesmo tempo que a visão, a vontade de cada povo de ser grego antes de ser ateniense, tebano ou espartano. As ligas, alianças ou confederações de cidades são precárias, prontas a desfazer-se, a desagregar-se por dentro, mais do que a sucumbir aos golpes de fora. A cidade forte que constitui o núcleo dessas alianças não leva muito tempo a tratar como súditos aqueles a quem continua a chamar, por cortesia, aliados: faz da liga um império cujo jugo pesa muito em contribuições militares e em tributos.

No entanto, não há uma cidade grega que não tenha a consciência vivíssima de pertencer à comunidade helênica. Da Sicilia a Ásia, das cidades da costa africana às que ficam para lá do Bosforo, até a Crimeia e ao Caucaso, o corpo helênico é do mesmo sangue, escreve Herodoto, fala a mesma língua, tem os mesmos deuses, os mesmos templos, os mesmos sacrifícios, os mesmos usos, os mesmos costumes. Fazer aliança com o Bárbaro, contra outros Gregos, é trair.

O Bárbaro, termo não pejorativo, é simplesmente o estrangeiro, e o não-Grego, aquele que fala essas línguas que soam bar-bar-bar, tão estranhas que parecem línguas de aves. A andorinha também fala bárbaro. O Grego não despreza os Bárbaros, admira a civilização dos Egípcios, dos Caldeus e de muitos outros: sente-se diferente deles porque tem a paixão da liberdade e não quer ser ,escravo de ninguém.

O Bárbaro nasceu para a escravatura, o Grego para a liberdade: por isto mesmo morreu Ifigênia. (Pontinha de racismo).

Perante a agressão bárbara, os Gregos unem-se. Não todos, nem por muito tempo: Salamina e Plateia, Grécia unida por um ano, não mais. Tema oratório, não realidade viva. Em Plateia, o exercito grego combate, ao mesmo tempo que aos Persas, numerosos contingentes doutras cidades gregas que se deixaram alistar pelo invasor. A grande guerra da independência nacional e ainda uma guerra intestina. Mais tarde, as divergências das cidades abrirão a porta à Macedônia, aos Romanos.

A montanha protege e separa, o mar amedronta mas une. Os Gregos não estavam encerrados nos seus compartimentos montanhosos. O mar envolvia todo o pais, penetrava profundamente nele. Havia pouquíssimos cantões, mesmo recuados, que o mar não atingisse.

Mar temível, mas tentador é mais aliciante que qualquer outro. Sob um céu claro, na atmosfera límpida, o olhar do nauta descobre a terra duma ilha montanhosa a cento e cinqüenta quilômetros de distância. Vê-a como um escudo pousado sobre o mar..

As costas do mar grego oferecem portos numerosos, ora praias de declive suave, para onde os marinheiros podem a noite puxar os seus leves barcos, ora portos de água profunda, protegidos por paredes rochosas, onde as grandes naves de comercio e os navios de guerra podem ancorar ao abrigo dos ventos. Um dos nomes que o mar toma em grego significa estrada. Ir pelo mar, é ir pela estrada. O mar Egeu é uma estrada que, de ilha em ilha, conduz o marinheiro da Europa à Ásia sem que ele perca nunca a terra de vista. Estas cadeias de ilhotas parecem calhaus lançados por garotos num regato para o atravessarem, saltando de um para outro.

Não há um cantão grego de onde não se distingue, subindo a qualquer elevação, uma toalha de água que reflete no horizonte. Nem um ponto do Egeu que esteja a mais de sessenta quilômetros de terra. Nem um ponto da terra grega a mais de noventa quilômetros do mar.

As viagens são baratas. Algumas dracmas e estamos no cabo do mundo conhecido. Alguns séculos de desconfiança e pirataria, e os Gregos, mercadores ou poetas, por vezes uma coisa e outra, tomam contato amigável com as velhas civilizações que os precederam. As viagens de Racine e de La Fontaine não vão além de Ferte-Milon ou Chateau-Thierry. As viagens de Sólon, de Esquilo, de Heródoto e de Platão chegam ao Egito, à Ásia Menor e Babilônia, à Cirenaica e a Sicilia. Não há um Grego que não saiba que os Bárbaros são civilizados há milhares de anos e que tem muito para ensinar ao povo do "Nós-Gregos-somos-crianças". O mar grego não é a pesca do atum e da sardinha, é a via das permutas com os outros homens, a viagem ao pais das grandes obras de arte e das invenções surpreendentes, do trigo que cresce basto nas vastas planícies, do ouro que se esconde na terra e nos rios, a viagem ao pais das maravilhas, tendo por única bussola a carta noturna das estrelas. Para além do mar, há uma grande abundancia de terra desconhecida para descobrir, cultivar e povoar. Todas as grandes cidades, a partir do século VIII, vão plantar rebentos nas cidades novas em terra nova. Os marinheiros de Mileto fundam noventa cidades nas margens do mar Negro. E de caminho fundam também a astronomia.

Concluindo: o Mediterrâneo é um lago grego de caminhos familiares. As cidades instalam-se nas margens dele "como rãs ao redor de um charco", diz Platão. Evoe ou coaxo! O mar civilizou os Gregos.

Alias, foi só à força que o povo grego se tornou um povo de marinheiros. E o grito do ventre faminto que arma os barcos e os lança ao mar. A Grécia era um pais pobre. A Grécia foi criada na escola da pobreza. (Outra vez Heródoto.) O solo é pobre, e ingrato. Nas encostas e, muitas vezes, pedregoso. O clima é seco de mais. Apos uma Primavera precoce e efêmera, com uma magnífica e brusca floração das arvores e dos prados, o Sol não se cobre nunca mais. O Verão instala-se como rei e queima tudo. As cigarras zangarreiam na poeira. Durante meses, nem uma nuvem no céu. Muitas vezes, nem uma gota de água cai em Atenas de meados de Maio ao fim de Setembro. Com o Outono vem a chuva, e no Inverno rebentam as tempestades. Borrascas de neve, mas que não se agüentam dois dias. A chuva cai em grossas pancadas, em tromba. Ha sítios em que a oitava parte ou mesmo a quarta parte da chuva de um ano, cai em um só dia. Os rios, meio secos, tornam-se correntes temerosas, de água rugidora e devoradora que come a delgada camada de terra das encostas calvas e a arrasta para o mar. A desejada água torna-se um flagelo. Em cestos vales fechados, as chuvas formam baixos pantanosos. Deste modo, o camponês tinha que lutar, ao mesmo tempo, contra a seca que queimava os centeios e contra a inundação que lhe afogava os prados. E mal o podia fazer. Construía os seus campos nas encostas, em terraços, e transportava em cestos, de um muro para outro, a terra que resvalara do seu bocado. Tentava irrigar os campos, drenar os fundos pantanosos e limpar as bocas por onde havia de escoar-se a água dos lagos. Todo este trabalho, feito com ferramentas de hotentote, era duríssimo e insuficiente. Teria sido preciso repovoar de árvores a montanha nua, mas isso não sabia ele. Ao principio, a montanha grega era bastante arborizada. Pinheiros e plátanos, ulmeiros e carvalhos coroavam-na de bosques centenários. A caça pululava. Mas desde os tempos primitivos os Gregos derrubaram árvores, fosse para construir aldeias, fosse para fazer carvão. A floresta perdeu-se. No século V, colinas e picos perfilavam já contra o céu as mesmas arestas secas de hoje. A Grécia ignorante entregou-se ao sol, a água desregrada, a pedra.

Lutava-se pela sombra de um burro.

Sobre este solo duro, sobre este céu caprichosamente implacável, davam-se bem oliveiras e vinhas, menos bem os cereais, cuja raiz não pode ir buscar a umidade suficientemente funda. Não falemos das charruas, ramos em forquilha ou grosseiros arados de madeira que mal arranhavam a terra. Abandonando os cereais, os Gregos vão buscar o trigo as terras mais afortunadas da Sicilia ou das regiões a que hoje chamamos Ucrânia e Romênia. Toda a política imperialista de Atenas grande cidade, no século V, e, antes de mais, política do trigo. Para alimentar o seu povo, Atenas tem de se manter senhora dos caminhos do mar, em particular dos estreitos que são a chave do mar Negro.

O azeite e as vinhas são a moeda de troca e o orgulho da filha deserdada do mundo antigo. O produto precioso da oliveira cinzenta, dom de Atena, responde as necessidades alimentares da vida quotidiana: cozinham com azeite, alumiam-se com azeite, à falta de água lavam-se com azeite, esfregam-se, alimentam de azeite a pele sempre seca.

Quanto ao vinho, maravilhoso presente de Dioniso, só nos dias de festa o bebem, ou a noite, entre amigos, e sempre cortado com água.

"Bebamos. Para que esperar a luz da lâmpada? só resta da luz do dia um quase nada. Traz para baixo, menino, as grandes taças coloridas. O vinho foi dado aos homens pelo filho de Zeus e de Semele para que esqueçam as suas penas. Enche-as até a borda com uma parte de vinho e duas partes de água, e que uma taça empurre a outra..." (O Ramuz! Não, Alceu.)

"Não plantes nenhuma outra arvore antes de teres plantado vinha." (Outra vez o velho Alceu de Lesbos, antes de Horacio.) O vinho, espelho da verdade, fresta por onde se vê o homem por dentro!

A vinha, amparada em tanchões, ocupa as encostas, arquitetadas em terraços, da terra grega. Na planície plantam-na entre as arvores dos pomares, empada de uma para outra.

O Grego é sóbrio. O clima assim o exige, repetem os livros. Sem duvida, mas a pobreza nao o exige menos. O Grego vive de pão de cevada e de centeio, amassado em bolos chatos, de legumes, de peixe, de frutos, de queijo e de leite de cabra. E muito alho.

Carne - caça, criação, cordeiro e porco -, só nos dias de festa, como o vinho, não falando dos senhores (os "gordos", como se diz).

Desta pobreza de regime e de vida (é claro, esta gente do Meio-dia é preguiçosa, vive de coisa nenhuma, regalada de bom sol), a causa não está apenas no solo ingrato ou mesmo nos processos elementares de cultura. Acima de tudo, resulta da desigual repartição da terra pelos seus habitantes.

No começo, as tribos que ocupavam a região tinham feito da terra uma propriedade coletiva do clã. Cada aldeia tinha o seu chefe de clã, responsável pela cultura do solo do distrito, pelo trabalho de cada um e pela distribuição dos produtos da terra. O clã agrupa um certo numero de famílias - no sentido amplo de gente duma casa -, cada uma das quais recebe uma extensão de terra para cultivar. Não há, nesses tempos primitivos, propriedade privada: a terra devoluta não pode ser vendida ou comprada, e não se reparte por morte do chefe de família. É inalienável. Em compensação, o parcelamento pode ser refeito, a terra outra vez distribuída, segundo as necessidades de cada família.

Esta terra comum é cultivada em comum pelos membros da casa. Os frutos da cultura são repartidos sob a garantia de uma divindade que se chama Moira, cujo nome quer dizer parte e sorte, e que presidira igualmente a repartição, por sorteio, dos lotes de terra. Entretanto, uma parte do domínio, mais ou menos metade, é sempre posta de pousio: é preciso deixar repousar a terra, não se pratica ainda, de um ano para outro, a cultura alternada de produtos diferentes. O rendimento é muito baixo.

Mas as coisas não ficam por aqui. O antigo comunismo rural, forma de propriedade própria do estado da vida primitiva (ver os Batongas da Africa do Sul, ou certos povos de Bengala), começa a desagregar-se a partir da época dos salteadores aqueus. A monarquia de Micenas era militar. A guerra exige um comando unificado. Após uma campanha proveitosa, o rei dos reis e os reis subalternos, seus vassalos, talhavam para si a parte de ledo, na partilha do saque como na redistribuição da terra. Ou então certos chefes apropriam-se simplesmente das terras de que apenas eram administradores. O edifício da sociedade comunitária, onde se introduzem graves desigualdades, destrói-se pelo topo. A propriedade privada cria-se em beneficio dos grandes.

Instala-se também por outra maneira, sinal de progresso... Alguns indivíduos podem ser, por razões diversas, excluídos dos clãs. Podem também sair deles de sua própria vontade. O espírito de aventura leva muitos a tomar o caminho do mar. Outros ocupam, fora dos limites do domínio do clã, terras que haviam sido julgadas demasiado medíocres para ser cultivadas. Forma-se uma classe de pequenos proprietários à margem dos clãs: a propriedade deixa de ser comunal, torna-se, por fases, individual. Esta classe e pobríssima, mas muito ativa. Quebrou os laços com o clã: rompe-os por vezes com a terra. Estes homens formam guildas de artífices: oferecem aos clãs as ferramentas que fabricam, ou simplesmente trabalho artesanal como carpinteiros, ferreiros, etc. Entre estes "artífices", não esqueçamos nem os médicos nem os poetas. Agrupados em corporações, os médicos tem regras, receitas, bálsamos e remédios que vão propondo de aldeia em aldeia: estas receitas são sua exclusiva propriedade. Do mesmo modo, as belas narrativas em verso, improvisadas e transmitidas por tradição oral nas corporações de poetas, são propriedade dessas corporações.

Todos estes novos grupos sociais nascem e se desenvolvem no quadro da "cidade". E aqui temos as cidades divididas em duas metades de força desigual: os grandes proprietários rurais, por um lado, e, por outro, uma classe de pequenos proprietários mal favorecidos, de artífices, de simples trabalhadores do campo, de marinheiros,  tudo gente de ofício, "demiurgos", diz o Grego, turba miserável ao princípio.

Todo o drama da historia grega, toda a sua grandeza futura se enraíza no aparecimento e no progresso destes novos grupos sociais. Nasceu uma nova classe que vai tentar arrancar aos "grandes" os privilégios que fazem deles os senhores da cidade. É que só estes proprietários nobres são magistrados, sacerdotes, juízes e generais. Mas a turba popular depressa tem por seu lado o numero. Quer refundar a cidade na igualdade dos direitos de todos. Mete-se na luta, abre o caminho para a soberania popular. Aparentemente desarmada, marcha à conquista da democracia. O poder e os desses são contra ela. Mesmo assim, a vitoria será sua.

Eis, sumariamente indicadas, algumas das circunstâncias cuja ação conjunta permite e condiciona o nascimento da civilização grega. Repare-se que não foram somente as condições naturais (clima, solo e mar), como o não foi o momento histórico (herança de civilizações anteriores), nem as simples condições sociais (conflito dos pobres e dos ricos, o "motor" da história), mas sim a convergência de todos estes elementos, tornados no seu conjunto, que constituíram uma conjuntura favorável ao nascimento da civilização grega.

E então o "milagre grego"? - perguntarão certos sábios ou assim chamados. Não há "milagre grego". A noção de milagre é fundamentalmente anti-cientifica, e é também não-helenica. O milagre não explica nada: substitui uma explicação por pontos de exclamação.

O povo grego não faz mais que desenvolver, nas condições em que se encontra, com os meios que tem a mão, e sem que seja necessário apelar para dons particulares de que o Céu lhe teria feito dom, uma evolução começada antes dele e que permite a espécie humana viver e melhorar a sua vida.

Um exemplo só. Os Gregos parecem ter inventado, como que por milagre, a ciência. Inventam-na, com efeito, no sentido moderno da palavra: inventam o método cientifico. Mas se o fazem é porque, antes deles, os Caldeus, os Egípcios, outros ainda, tinham reunido numerosas observações dos astros ou sobre as figuras geométricas, observações que permitiam, por exemplo, aos marinheiros, dirigirem-se no mar, aos camponeses medir os seus campos, fixar a data dos seus trabalhos.

Os Gregos aparecem no momento em que, destas observações sobre as propriedades das figuras e o curso regular dos astros, se tornava possível extrair leis, formular uma explicação dos fenômenos. Fazem-no, enganam-se muitas vezes, recomeçam. Não há nada aqui de miraculoso, mas apenas um novo passo do lento progresso da humanidade.

Tirar-se-iam outros exemplos, e com abundância, dos outros domínios da atividade humana.

Toda a civilização grega tem o homem como ponto de partida e como objeto. Procede das suas necessidades, procura a sua utilidade e o seu progresso. Para ai chegar, desbrava ao mesmo tempo o mundo e o homem, e um pelo outro. O homem e o mundo são, para ela, espelhos um do outro, espelhos que se defrontam e se lêem mutuamente.

A civilização grega articula um no outro o mundo e o homem. Casa-os na luta e no combate, numa fecunda amizade, que tem por nome Harmonia.

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O menino solitário viu os dois gatinhos perdidos e os pegou nos braços. Precisava algo para amar, algo para sentir perto. Ele os trouxe para casa, mas assim que sua mãe viu as criaturas, ela os agarrou e os jogou contra a parede, de cabeça, até que morressem. Isso era típico de seu comportamento desequilibrado. Ele devia saber que ela faria algo parecido.

Abraham Maslow nunca amou sua mãe, pelo menos não do jeito que Freud dizia que meninos o faziam. Não tinha complexo de Édipo armazenado para ele. Ao con­trário, seu ódio irascível, profundo por sua mãe ajudou a determinar a direção de seu trabalho.

Sendo um de sete filhos de pais pobres, imigrantes russos, vivendo em um apartamento pobre no Brooklyn, Nova York, Maslow teve uma infância difícil. Posterior­mente disse em uma entrevista: "Com a infância que tive, não sei como não sou psicótico” (apud Hall, 1968, p. 37). "Minha família era miserável e minha mãe uma criatura horrível" {apud Hoffman, 1996, p. 2).

Cresceu isolado, não era amado nem querido. Não tinha amigos, e seu pai não ajudava muito. Distante e desligado, o pai de Maslow frequentemente abandonava a família, além de beber, brigar e ser mulherengo. Descreveu sentimentos de raiva e hostilidade em relação a seu pai, mas seu relacionamento com sua mãe era ainda pior. Ela claramente o rejeitava a favor de seus irmãos e irmãs e frequentemente o punia com severidade por qualquer coisa, ameaçando que Deus o iria punir por seu comportamento. Ele jamais a perdoou pelo modo que o tratou. Quando ela morreu, ele se recusou a ir ao enterro.

O relacionamento com a mãe afetou não somente sua vida emocional, mas também seu trabalho em psicologia. "Todo o impulso da minha filosofia", ele disse ao biógrafo, "e toda minha pesquisa e teoria tem suas raízes no ódio e revolta por tudo que ela defendia" (apud Hoffman, 1988, p. 9). Quando adolescente, enfrentou ainda outros problemas. Convencido de que era feio por causa de um nariz saliente, também se sentia inferiorizado por ser extremamente magro. Seus pais sempre o insultavam a respeito de sua aparência e frequentemente faziam comentários a respeito de como era desajeitado e pouco atraente. Quis compensar esses sen­timentos de inferioridade tornando-se um atleta, achando que isso poderia levar ao reconhecimento e aceitação. Mas, quando falhou nos esportes, voltou-se para os livros. A biblioteca local tornou-se seu jardim solitário; ler e estudar formaram o caminho que iria tirá-lo de sua solidão.

Seus anos de estudo o puseram em contato com as es­colas de pensamento mais importantes, desde Titchener até Freud, e dessas definições diferentes de psicologia, Maslow criou seu próprio modo de estudar a natureza humana. Na maturidade, suas ideias lhe trouxeram a aceitação, admi­ração e adulação que não teve quando criança.

As Facções Concorrentes

Assim como ocorreu com Wundt e sua psicologia expe­rimental, Freud não manteve o monopólio do seu novo sistema de psicanálise por muito tempo. Passados apenas 20 anos da fundação, o movimento se dividia em facções concorrentes lideradas pelos analistas que discordavam dos pontos básicos. Freud não reagia bem a esses dissidentes e via com desprezo os analistas que adotavam novas posições. Não importava o quão próximas fossem as relações pessoal e profissional: se abandonassem os seus ensinamentos, Freud os expulsava e nunca mais falava com eles.

Mencionaremos primeiro os vários analistas que não discordavam totalmente das visões básicas de Freud; eles trabalhavam baseados no estudo de Freud a fim de aperfeiçoá-lo. Entre esses analistas estão a sua filha Anna e os teóricos do objeto Melanie Klein e Heinz Kohut. Em segui­da, discutiremos os dois principais dissidentes, que desen­volveram teorias próprias ao longo da vida de Freud: Carl Jung e Alfred Adler (a maioria dos neofreudianos, tais como os teóricos com relações entre os objetos, ainda se identificam como "freudianos", porém, esse rótulo não a aplica aos dissidentes como Jung e Adler). Por último, descreveremos o movimen­to da psicologia humanista desenvolvido na década de 1960, vários anos depois da morte de Freud. Dois grandes teóricos, Abraham Maslow e Carl Rogers, aspiravam substituir a psicanálise (bem como o behaviorismo) pela sua visão da natureza humana (uma variação e expansão da psicologia humanística podem ser atualmente encontradas no movimento popular da psicologia positiva, que aplica o método experimental ao estudo das forças e virtudes humanas). É preciso ter em mente que, independentemente da extensão das diver­gências entre essas últimas teorias e os ensinamentos de Freud, esses teóricos extraíram suas ideias no trabalho de Freud, seja aperfeiçoando-o, seja opondo-se à sua teoria.

Os Neofreudianos e a Psicologia do Ego

Nem todo teórico e profissional seguidor da tradição psicanalítica freudiana sentia neces­sidade de abandonar ou suplantar o sistema de Freud. Conservou-se um grupo razoável de analistas neofreudianos que, mesmo adotando as premissas centrais da psicanálise, modificaram-lhe o sistema. A principal mudança introduzida por esses leais seguidores foi a expansão do conceito de ego (Hartmann, 1964), o qual, para eles, era dotado de um papel mais abrangente do que apenas servir ao id. A psicologia do ego incluía a noção de maior independência do ego em relação ao id, ou seja, ele era dotado de energia própria, e não derivada deste, e com funções separadas das do id. Os analistas neofreudianos também sugeriam a isenção do ego em relação ao conflito produzido pela pressão dos impulsos do id em busca da satisfação. Na visão de Freud, o ego sempre respondia ao id, jamais estava livre das suas demandas. Em uma visão revisada, o ego funcionaria independentemente do id - perspectiva bem distante do pensamento ortodoxo freudiano.

Outra alteração introduzida pelos neofreudianos foi a redução da ênfase na influên­cia das forças biológicas sobre a personalidade. Ao contrário, mais ênfase foi dada ao impacto das forças psicológicas e sociais. Os neofreudianos também minimizavam a importância da sexualidade infantil e do complexo de Édipo, sugerindo que o desenvol­vimento da personalidade era determinado principalmente pelas forças psicossociais e não pelas psicossexuais. Dessa forma, as interações sociais na infância passaram a assu­mir maior importância do que as interações sexuais reais ou imaginárias.

Anna Freud (1895-1982)

A filha de Freud, Anna, foi a líder da psicologia do ego neofreudiana. Caçula dentre os seis filhos, Anna Freud afirmou que não teria nascido se na época existissem métodos contraceptivos mais seguros. Em uma carta que escrevera a um amigo, Freud anunciara o nascimento da filha com um tom de resignação e não de entusiasmo, comentando que, se fosse um menino, teria mandado um telegrama para contar a novidade (Young-Bruehl, 1988). No entanto, o ano do nascimento de Anna (1895) foi simbólico, talvez até proféti­co, já que coincide com o surgimento da psicanálise. Anna seria a única dentre os filhos de Freud a seguir a carreira do pai, tornando-se analista.

Sendo a menos favorecida das meninas da família, Anna teve uma infância infeliz. Ela se lembrava de ter sido uma criança triste e solitária, muitas vezes excluída das brin­cadeiras pelos irmãos mais velhos. Sentia ciúmes da irmã Sophie, claramente a favorita da mãe. Anna tornou-se a predileta do pai; ele "ficou viciado na caçula tanto quanto era viciado nos charutos" (Appignanesi e Forrester, 1992, p. 277).

Aos 14 anos, interessou-se pelo trabalho de Freud. Ficava sentada discretamente em um canto, nas reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, absorvendo tudo o que ouvia. Aos 22, por causa da ligação emocional com Freud e da preocupação com a sua sexualidade, Anna começou a fazer análise com o pai. Ela relatava violentos sonhos em que atirava, matava, morria e defendia o pai dos inimigos. A análise, mantida secreta por muito tempo, durou quatro anos, com seis sessões noturnas por semana, começando às 10 da noite. Posterior­mente, Freud seria criticado por tentar analisar a própria filha. A situação foi considerada "absurda e incestuosa”, "um acontecimento bizarro e sério" e uma "atuação do complexo de Édipo em ambos os lados do divã" (apud Mahony, 1992, p. 307). Naquela época, entretanto, parecia-lhes não haver outra opção. Um historiador afirmou que “Ninguém mais ousaria realizar essa tarefa, já que a análise de Anna inevitavelmente acabaria levantando questões acerca do papel de Freud como pai” (Donaldson, 1996, p. 167). Era impensável admitir outro analista ouvindo os detalhes íntimos sobre a vida do pai da psicanálise.

Em 1924, Anna apresentou seu primeiro trabalho acadêmico para a Sociedade Psica­nalítica de Viena. O trabalho, intitulado "Beating fantasies and daydreams" ("Fantasias de espancamento e devaneios"), fora supostamente baseado no caso de uma paciente, mas, na verdade, abordava as suas fantasias. Ela descrevia sonhos envolvendo surras, masturba­ção e relações incestuosas entre pai e filha. O trabalho foi bem recebido por Freud e seus colegas, rendendo-lhe a admissão na Sociedade.

Freud era ambivalente a respeito de Anna tornar-se psicóloga, e ela passou por uma crise de identidade por causa dessa situação que durou cerca de seis anos. Aos 30 anos de idade, tendo rejeitado propostas de casamento de diversos discípulos de seu pai - mais jovens que ela -, e de amigos da família, ela finalmente tomou a decisão de se tornar analista. Também iniciou uma longa amizade com uma herdeira estadunidense, Dorothy Tiffany Burlingham, e passou a ser como uma segunda mãe para os filhos desta.

Sabe-se que Freud ficou "perturbado quando soube que Anna havia finalmente se decidido a não se casar e a não ter seus próprios filhos, além de desenvolver uma relação emocional intensa com uma mulher" (Elms, 2001, p. 88). Mas o biógrafo de Anna Freud sempre insistiu no fato de que o relacionamento era estritamente emocional, e não sexual (veja Young-Bruehl, 1988).

Anna Freud dedicou sua vida ao desenvolvimento e aprimoramento da teoria psicana­lítica, bem como sua aplicação no tratamento de crianças emocionalmente perturbadas. Outra atividade a que se dedicou foi a de cuidar do pai durante a sua prolongada doença. Quando ele morreu, ela guardou o casaco dele em seu armário. Muitos anos após a morte de seu pai ela relatou uma série de sonhos que tinha tido com ele. Escreveu:

Ele está aqui novamente. Todos esses sonhos recentes têm o mesmo caráter: o papel principal não é desempenhado por meu pai, objeto de meu desejo, mas, ao contrário, do desejo que ele tinha por mim.... No primeiro sonho desse tipo, ele abertamente disse: "Sempre a desejei tanto!" (apud Zaretsky, 2004, p. 263).

Em uma ocasião, mais de 40 anos depois, quando a própria Anna estava quase morrendo, um amigo a acompanhou ao parque e a observou como "a diminuta figura de Anna Freud, hoje tão pequena quanto uma aluna de escola primária, sentada [na cadeira de rodas agasalhada dentro do enorme casaco de lã do pai" (Webster, 1995, p. 4 3 4 ).

A Análise Infantil

Em 1927, Anna Freud publicou o livro Introduction to the technique of child analysis prenúncio dos rumos dos seus interesses. Ela desenvolveu uma abordagem para a aplicação da terapia psicanalítica em crianças, levando em conta a relativa imaturidade e o nível da capacidade verbal infantil. Embora Sigmund Freud não houvesse trabalhado com crianças, sentiu-se orgulhoso com o trabalho de Anna. Ele disse: "As visões de Anna acerca da análise infantil são independentes das minhas; compartilho das suas opiniões, mas ela as desenvolveu a partir de experiências próprias e independentes" (apud Viena 1996, p. 9).

Entre as inovações introduzidas estavam o uso de brincadeiras e a observação da criança no ambiente da família. Grande parte dessas observações foi realizada em Londres, onde a família de Freud se instalara em 1938, depois de fugir de Viena por causa dos nazistas. Ela abriu uma clínica ao lado da casa do pai e ali estabeleceu um centro de tratamento e um instituto de treinamento em psicanálise que atraía psicólogos clínicos do mundo inteiro. O Centro Anna Freud de Londres dá continuidade ao seu trabalho até hoje. Seus estudos constaram dos volumes anuais da publicação The psychoanalytic study of the child lançada inicialmente em 1945. A coletânea dos seus trabalhos compreende oito volumes publicados entre 1965 e 1981.

Anna Freud revisou a teoria psicanalítica ortodoxa, expandindo o papel do ego com um funcionamento independente do id. Em The ego and the mechanisms of defense (1936), ela explicou como os mecanismos de defesa funcionam para proteger o ego da ansiedade. A lista-padrão dos mecanismos de defesa freudianos era substancialmente um trabalho seu. Anna definiu com mais precisão os mecanismos e contribuiu com exemplos extraídos das análises conduzidas com as crian­ças na sua clínica.

Comentários

O sistema de psicologia do ego desenvolvido por Anna Freud e outros tornou-se a prin­cipal forma de psicanálise estadunidense, desde a década de 1940 até o início da década de 1970. Um dos objetivos dos neofreudianos era transformar a psicanálise em uma parte aceita da psicologia científica. "Assim o fizeram, traduzindo, simplificando e definindo operacionalmente as noções freudianas, incentivando a investigação experimental das hipóteses psicanalíticas e modificando a psicoterapia psicanalítica" (Steele, 1985, p. 222)

Nesse processo, os neofreudianos promoveram uma relação mais conciliatória entre a psi­canálise e a psicologia experimental acadêmica.

As Teorias das Relações entre os Objetos

Freud usava a palavra "objeto" para se referir a qualquer pessoa, objeto ou atividade com capacidade para satisfazer ao instinto. Na sua visão, o primeiro objeto na vida do bebê capaz de satisfazer ao instinto era o seio materno. Mais tarde, a própria mãe como pessoa torna-se um objeto de satisfação do instinto. E, à medida que a criança cresce, outras pes­soas tornam-se objetos de satisfação do instinto.

As teorias dos objetos concentram-se nas relações interpessoais entre esses objetos, enquanto a de Freud enfocava mais os impulsos instintivos propriamente ditos. Assim, os teóricos das relações entre os objetos dão ênfase às influências sociais e ambientais sobre a personalidade, principalmente na interação entre mãe e filho. Eles também acreditavam que, em virtude da natureza dessas relações, a formação da personalidade na infância ocorria mais cedo do que Freud afirmava.

Os adeptos da teoria dos objetos afirmam que as questões mais cruciais no desen­volvimento da personalidade envolvem o aumento da capacidade e da necessidade da criança, com o passar do tempo, de libertar-se do objeto primário (a mãe) a fim de estabe­lecer uma firme noção de si mesma e desenvolver relações com outros objetos (pessoas). Destacamos o trabalho de dois teóricos das relações entre os objetos: Melanie Klein e Heinz Kohut.

Melanie Klein (1882-1960)

Melanie Klein sabia da importância das relações entre pais e filhos por causa da pró­pria experiência como criança e como mãe. Filha não desejada, sofreu a vida toda de depressão por causa do sentimento que tinha de que seus pais a rejeitavam. Ela pró­pria acabou se afastando da filha adulta (que mais tarde tornou-se analista). A filha acusava Klein de interferir na sua vida e afirmava que seu irmão, morto durante uma escalada a uma montanha, na verdade se suicidara por causa da péssima relação que tinha com a mãe.

A teoria dos objetos de Klein concentrava-se na ligação emocional intensa entre mãe e filho, principalmente durante os seis primeiros meses de vida do bebê. Descre­veu a ligação entre o bebê e a mãe em termos sociais e cognitivos, e não em termos sexuais. Na visão de Klein, o seio materno seria o primeiro objeto parcial para o bebê, que o julgaria como bom ou não, dependendo da satisfação do instinto do id. Dessa forma, o bebê percebe o seu ambiente, definido e representado com base nesse objeto parcial bom ou ruim, como satisfatório ou hostil. À medida que se expande o univer­so do bebê, ele se relaciona com objetos completos (a mãe como pessoa, por exemplo) e não com objetos parciais, e define aqueles objetos completos do mesmo modo que definiu o seio, ou seja, satisfatórios ou hostis. A interação social inicial entre a mãe e o bebê é generalizada a todos os objetos (pessoas) da vida da criança e assim a formação da personalidade do adulto baseia-se na natureza da relação dos primeiros seis meses de vida.

Heinz Kohut (1913-1981)

Heinz Kohut nasceu e cresceu em Viena onde, aos 24 anos, mortificado pela morte de seu pai, optou por fazer psicanálise com um amigo de Freud. A análise foi bem-sucedida e Kohut decidiu fazer medicina e foi treinado para se tornar analista. Jamais conheceu Freud e o viu somente uma vez. Quando Freud deixou Viena em 1939, Kohut ficou na plataforma do lado da janela onde ele estava, e fez uma reverência com seu chapéu para cumprimentá-lo. Por sua vez Freud acenou. Nove meses depois Kohut também foi for­çado a abandonar Viena. Foi para Chicago para fazer parte do corpo docente do Chicago Institute for Psychoanalysis (Strozier, 2001).

Kohut enfatizava aquilo que chamava de self nuclear, o que considerava ser a base para um indivíduo tornar-se independente. O self nuclear se desenvolve a partir das relações formadas entre a criança e os chamados "objetos do self" no ambiente, que eram as pes­soas que desempenham papéis tão vitais na nossa vida infantil que passamos a acreditar que são partes de nosso self.

Tipicamente, a mãe é o objeto do self primário do bebê. Na visão de Kohut, o papel da mãe é o de satisfazer não apenas às necessidades físicas da criança como também às psicológicas. E, para tanto, a mãe deve atuar como um espelho para a criança, refletindo o sentimento de peculiaridade, de importância e de grandeza. Desse modo, a mãe confirma o senso de orgulho da criança, o qual acaba se tornando parte do self nuclear. Se a mãe rejeita a sua criança, refletindo, assim, o sentimento de falta de importância, a criança pode desenvolver vergonha ou culpa. Dessa forma, todos os aspectos do self adulto (os positivos e negativos) são formados pelas relações iniciais da criança com o objeto self primário.

Kohut enfatizou que seu trabalho era uma continuidade do trabalho de Freud. Não considerava a sua psicologia do eu como uma variação da psicanálise freudiana, mas, sim, uma expansão ou extensão dela.

Carl Jung (1875-1961)

Freud chegou a considerar Carl Jung o seu substituto e herdeiro do movimento psicanalítico, chamando-o de "meu sucessor e príncipe coroado" (apud McGuire, 1974, p. 218). Depois do rompimento da amizade entre os dois, em 1914, Jung desenvolveu a psicologia analítica, em oposição à grande parte do trabalho de Freud.

Psicologia analítica: teoria da personalidade de Jung.

A Biografia de Jung

Talentoso yodeler - cantor à moda dos montanheses suíços e tiroleses -, Jung foi criado em um vilarejo no nordeste da Suíça, próximo à famosa queda do Reno. Ele próprio foi o responsável por sua infância solitária, isolada e infeliz (Jung, 1961). Seu pai, religioso que aparentemente havia perdido a fé, era irascível e rabugento. "Carl ouvia tudo”, um biógrafo observou, "quando os acessos de raiva de seu pai ressoavam por toda a casa" (Bair, 2003, p. 20).

Sua mãe sofria de distúrbios emocionais, exibindo um comportamento excêntrico, pas­sando em um instante de uma esposa feliz para uma mulher endemoninhada e incoe­rente, falando coisas sem nenhum sentido. Um biógrafo chegou a comentar que "todo o lado da família materna parecia apresentar traços de insanidade" (Ellenberger, 1978. p. 149). Jung aprendeu desde cedo a não confiar nem acreditar nos pais e, por analogia, a desconfiar do resto do mundo. Saía do universo consciente da razão para mergulhar no dos seus sonhos, visões e fantasias, ou seja, no seu inconsciente. Esse tipo de fuga dirigiu a sua infância, e assim seguiu até a vida adulta. Mais de 50 anos depois, um vizinho da família Jung, lembrando-se de quando conheceu Carl, escreveu: "Jamais havia conhecido um monstro tão antissocial antes" (apud Bair, 2003, p. 23).

Nos momentos difíceis, Jung resolvia os problemas e tomava as decisões baseado no que o inconsciente lhe dizia por meio dos sonhos. Quando estava para ingressar na univer­sidade, um sonho revelou-lhe a carreira que seguiria. Ele se viu desenterrando ossadas de animais pré-históricos em um local bem abaixo da superfície terrestre. Interpretou como um sinal de que ele devia estudar algo relacionado à natureza e à ciência. Uma lembrança que teve dos 3 anos de idade, quando sonhou estar em uma caverna subterrânea, previa o seu futuro como um estudioso da personalidade. Jung viria a dedicar-se ao estudo das forças inconscientes enterradas bem abaixo da superfície da mente.

Jung frequentou a University of Basel, na Suíça, formando-se em medicina, em 1900. Estava interessado em psiquiatria e sua primeira indicação profissional foi para trabalhar em um hospital de doentes mentais em Zurique. O diretor do hospital era Eugen Bleuler, um psiquiatra famoso por seu trabalho sobre a esquizofrenia. Em 1905, Jung foi indicado para ser professor de psiquiatria na Universidade de Zurique. Muitos anos mais tarde, depois de se casar com a segunda herdeira mais rica de toda a Suíça, ele pôde se afastar da univer­sidade para se dedicar à escrita, à pesquisa e ao atendimento a pacientes particulares.

No atendimento aos pacientes, diferentemente de Freud, Jung não pedia que se deitassem no divã, comentando que não era o seu desejo colocá-los na cama. Jung e o paciente sentavam-se em confortáveis poltronas, um de frente para o outro. Às vezes ele realizava as sessões de terapia a bordo do seu barco a vela, aproveitando o vento forte do lago, velejando, feliz. Algumas vezes chegava até a cantar para os seus pacientes. No entanto, outras vezes, chegava a ser deliberadamente rude. Nessas ocasiões, quando um paciente chegava para a consulta, Jung dizia: "Ah, não! Não aguento ver mais ninguém. Vá para casa e cure-se sozinho, hoje" (apud Brome, 1981, p. 185).

Jung interessou-se pelo trabalho de Freud, em 1900, quando leu The interpretation of dreams, considerando-o uma obra-prima. Por volta de 1906, os dois começaram a se cor­responder e, um ano depois, Jung viajou para Viena a fim de visitar Freud. O primeiro encontro dos dois durou 13 horas, um início bem animado para o que viria a se tornar uma relação íntima como a de pai e filho (Freud era quase 20 anos mais velho que Jung).

A proximidade entre os dois pode ter envolvido elementos do complexo de Édipo, como propõe a teoria psicanalítica de Freud, com o desejo do filho de destruir o pai. Outro fator complicador, que pode ter prejudicado a relação desde o início, foi uma experiência sexual vivida por Jung aos 18 anos. Um amigo da família, que ele via como uma figura paterna, teria assediado Jung sexualmente, que o teria repelido e imediatamente rompido a relação. Anos depois, quando Freud tentou assegurar que Jung daria continuidade ao movimento psicanalítico como ele previra, Jung rebelou-se contra o encargo, talvez sentindo novamente ser dominado por um homem mais velho. Em ambos os casos, Jung ficara decepcionado com a sua escolha de figura paterna. Talvez por causa do primeiro incidente Jung não conseguisse manter a íntima relação emocional desejada por Freud (Alexander, 1994; Elms, 1994).

Ao contrário da maioria dos discípulos da psicanálise, Jung já construíra uma reputa­ção profissional antes de associar-se a Freud. Era o mais conhecido entre os primeiros acetos da psicanálise. Por isso, talvez ele fosse menos sujeito a se impressionar e sugestionar do que os jovens analistas membros da família psicanalítica de Freud, muitos dos quais ainda cursavam a escola de medicina ou a pós-graduação e eram indecisos em relação à identidade profissional.

Embora durante algum tempo Jung se identificasse como discípulo de Freud, jamais deixou de expressar sua opinião. No início da relação entre os dois, tentou dirimir dúvidas e expressar suas objeções. Enquanto escrevia a obra The psychology of the unconcious (1912), comentou que estava enfrentando um problema, já que, quando o livro fosse lan­çado, a apresentação pública da sua posição significativamente diferente da psicanálise ortodoxa prejudicaria o seu prestígio junto a Freud. Durante meses, Jung não conseguia levar adiante o projeto, tamanha a preocupação com a provável reação de Freud. Evidentemente, acabou publicando o livro, e o inevitável aconteceu.

Em 1911, por insistência de Freud, e apesar da oposição dos membros vienenses, Jung tornou-se o primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional. Freud acredita­va que o antissemitismo impediria o crescimento da psicanálise se o presidente do grupo fosse judeu. Os analistas vienenses, quase todos judeus, ressentiram-se e desconfiavam do jovem suíço Jung, que claramente era o favorito de Freud. Esses analistas não apenas estavam há mais tempo no movimento, como também acreditavam que Jung tivesse visões antissemíticas. Pouco tempo depois, a amizade entre Jung e Freud começou a exi­bir sinais de tensão e, por volta de 1912, os dois deixaram de se corresponder. Em 1914 Jung renunciou e deixou a Associação.

Aos 38 anos, Jung foi acometido de problemas emocionais profundos que persistiram por três anos; Freud passara por um período de turbulência semelhante mais ou menos na mesma etapa da vida. Acreditando que estava ficando louco, Jung sentia-se incapaz de realizar qualquer tipo de trabalho intelectual ou até mesmo de ler um livro científi­co. Pensou em suicídio e mantinha uma arma ao lado da cama "caso sentisse que havia chegado ao ponto sem retorno" (Noll, 1994, p. 207). É interessante observar que, mesmo durante essa crise, ele não deixou de atender aos seus pacientes.

Resolveu o seu dilema basicamente da mesma maneira que Freud, confrontando a sua mente inconsciente. Embora não analisasse constantemente os seus sonhos, como fazia Freud, Jung seguiu os impulsos inconscientes neles revelados, bem como nas suas fanta­sias. Assim como ocorreu com Freud, esse período foi de intensa criatividade para Jung, levando-o a formular a sua teoria da personalidade. Ele escreveu que "Os anos em que estava voltado às suas imagens interiores foram os mais importantes de sua vida - nesses anos foi decidido tudo o que é essencial" (Jung, 1961, p. 199). Concluiu, com base em sua experiência, que a fase mais importante do desenvolvimento da personalidade não era a infância, como Freud queria, mas a meia-idade, período de sua própria crise.

O interesse de Jung por mitologia o incentivou a realizar expedições de campo na África, na década de 1920, para estudar os processos cognitivos do indivíduo pré-alfabetizado. Em 1932, foi indicado para lecionar na Federal Polytechnical University, em Zu­rique, onde permaneceu por 10 anos até que a fragilidade da sua saúde o obrigou a pedir demissão. Uma cadeira de psicologia médica foi criada para ele na University of Basel, na Suíça, mas a doença não lhe permitiu manter essa posição por mais de um ano. Durante grande parte da vida até os 86 anos, trabalhou ativamente, pesquisando e escrevendo, tendo publicado uma quantidade impressionante de livros.

A Psicologia Analítica

As experiências da vida de Jung sem dúvida influenciaram sua psicologia analítica. Como se observou anteriormente, a aceitação das forças da própria mente inconsciente antevia seus futuros interesses profissionais. Há também fortes evidências autobiográficas acerca da sua visão de sexo. Na teoria de Jung não havia espaço para o complexo de Édipo; esse conceito simplesmente não teve importância na sua infância. Ele achava a mãe gorda e nem um pouco atraente, e jamais entendeu a insistência de Freud em afirmar que os meninos desenvolvem paixões sexuais pela mãe.

Ao contrário de Freud, Jung não desenvolveu nenhum tipo de insegurança, inibição ou ansiedade sexual na vida adulta. Ademais, Jung não tentava refrear suas atividades sexuais, assim como fazia Freud. Preferia a companhia de mulheres em vez de homens e vivia rodeado de adoráveis discípulas e pacientes do sexo feminino. Quando inevita­velmente surgia algum tipo de paixão, ele não hesitava em iniciar um relacionamento sexual, alguns dos quais duraram anos. Ele até alertava as alunas de que cedo ou tarde elas acabariam se apaixonando por ele (Noll, 1997). Uma análise da malfadada relação entre Freud e Jung revelou que, "Para Jung, que satisfazia livre e frequentemente às suas necessidade sexuais, o sexo desempenhava um papel pequeno na motivação humana. Para Freud, bloqueado pelas frustrações e ansioso por causa dos seus desejos reprimidos, o sexo desempenhava um papel fundamental" (Schultz, 1990, p. 148).

Na infância, Jung preferia se isolar das outras crianças e ficar sozinho. Essa opção também se reflete na sua teoria, por meio do enfoque no crescimento interior em lugar do cultivo das relações sociais. Entretanto, a teoria de Freud está mais voltada para as relações interpessoais, até porque não teve uma infância assim tão isolada e introvertida.

Outro ponto de divergência entre a psicologia analítica de Jung e a psicanálise de Freud refere-se à libido. Enquanto Freud a definia exclusivamente em termos sexuais, Jung referia-se à libido como uma energia de vida generalizada da qual o sexo apenas fazia parte. Para
Jung, a energia básica da libido expressava-se no crescimento, na reprodução e em outras atividades, dependendo do que o indivíduo considerava crucial em determinado período.

Outra diferença entre o trabalho de Jung e de Freud consiste na direção das forças que afetam a personalidade. Freud descrevia o indivíduo como vítima dos acontecimentos da infância, enquanto Jung acreditava na pessoa moldada não apenas pelos acontecimentos do passado, como também pelas próprias metas, esperanças e aspirações futuras. Na visão de Jung, a personalidade não era totalmente determinada pelas experiências vividas durante os primeiros cinco anos de vida e podia ser modificada ao longo da vida do indivíduo.

Além disso, Jung tentou investigar a mente inconsciente mais a fundo do que Freud. Ele acrescentou uma nova dimensão - o inconsciente coletivo - que descreveu como as experiências herdadas das espécies humanas e de seus ancestrais animais.

O Inconsciente Coletivo

Jung descreveu dois estados da mente inconsciente. Um pouco abaixo da consciência estaria o inconsciente pessoal, contendo as lembranças, os impulsos, os desejos, as per­cepções indistintas e outras experiências da vida do indivíduo suprimidas ou esquecidas. O inconsciente pessoal não é muito profundo e os incidentes ali armazenados podem ser facilmente trazidos para o nível consciente.

As experiências do inconsciente pessoal são agrupadas em complexos, ou seja, em padrões de emoções e de lembranças com temas comuns. O indivíduo manifesta um complexo por causa da preocupação com alguma ideia (como a inferioridade ou a supe­rioridade) que, por sua vez, influencia o comportamento. Portanto, o complexo consiste basicamente em uma personalidade menor na personalidade total.

Em um nível abaixo do inconsciente pessoal estaria o inconsciente coletivo, desco­nhecido para o indivíduo. Nele estariam armazenadas as experiências acumuladas das gerações anteriores, inclusive dos nossos ancestrais animais. Essas experiências universais e evolutivas formam a base da personalidade. Todavia observe que as experiências con­tidas no inconsciente coletivo são inconscientes. O indivíduo não está ciente delas nem se lembra ou as tem em imagens, assim como ocorre com as experiências contidas no inconsciente pessoal.

Os Arquétipos

As tendências herdadas, armazenadas dentro do inconsciente coletivo, são denominadas arquétipos e consistem em determinantes inatos da vida mental, que levam o indivíduo a comportar-se de modo semelhante aos ancestrais que enfrentaram situações similares. A experiência do arquétipo normalmente se concretiza na forma de emoções associadas aos acontecimentos importantes da vida, tais como o nascimento, a adolescência, o casa­mento e a morte, ou às reações diante de um perigo extremo. Jung referia-se aos arquétipos como as "divindades" do inconsciente (Noll, 1997).

Quando Jung investigou as criações artísticas e místicas das civilizações antigas, des­cobriu símbolos de arquétipos comuns, mesmo entre culturas bem distantes no tempo e no espaço, sem nenhum indício de influência direta. Também descobriu o que pensou serem traços desses símbolos nos sonhos relatados pelos pacientes. Todo esse material confirmava o seu conceito de inconsciente coletivo. Os arquétipos que ocorrem com mais frequência são a persona, a anima e o animus, a sombra e o self

A persona seria a máscara que o indivíduo usa quando está em contato com outra pes­soa, para representá-lo na forma como ele deseja parecer aos olhos da sociedade. Assim, a persona pode não corresponder à verdadeira personalidade do indivíduo. A noção de persona é semelhante ao conceito sociológico do desempenho de papel, em que a pessoa atua da forma como crê que as outras esperam que ela atue nas diferentes situações.

Os arquétipos da anima e do animus refletem a noção de que cada indivíduo exibe algumas características do sexo oposto. A anima refere-se às características femininas pre­sentes no homem, e o animus denota as características masculinas observadas na mulher. Assim como os demais arquétipos, a anima e o animus surgem do passado primitivo das espécies humanas, quando o homem e a mulher adotavam as tendências emocionais e comportamentais do sexo oposto.

O arquétipo da sombra, o nosso ser mais sombrio, consiste na parte animalesca da personalidade. Para Jung, esse arquétipo é herdado das formas inferiores de vida. A som­bra contém as atividades e os desejos imorais, violentos e inaceitáveis. Ela nos incita a nos comportarmos de uma forma que ordinariamente não nos permitiríamos. E, quando isso ocorre, geralmente o indivíduo insiste em afirmar que foi acometido por algo. Esse algo seria a sombra, a parte primitiva da natureza do indivíduo. No entanto, a sombra possui também um lado positivo, responsável pela espontaneidade, pela criatividade, pelo insight e pela emoção profunda, características necessárias para o total desenvolvi­mento humano.

Na opinião de Jung, o principal arquétipo é o self. Integrando e equilibrando todos os aspectos do inconsciente, o self proporciona unidade e estabilidade à personalidade. Jung o comparava a um impulso para a autorrealização, para a harmonização, a completitude e o total desenvolvimento das habilidades individuais. Entretanto acreditava que a autorrealização plena seria atingida somente na meia-idade (30 a 40 anos), período crucial para o desenvolvimento da personalidade. Esse seria o período natural para a transição, quando a personalidade passa por várias mudanças necessárias e benéficas. Observa-se aqui outro exemplo de elemento autobiográfico na teoria de Jung. Na meia-idade ele próprio havia atingido a autointegração resultante da solução de sua crise neurótica. Dessa forma, para Jung, o estágio mais importante no desenvolvimento da personalidade não seria a infância (como foi no sistema e na vida de Freud), mas o período da vida adulta, entre os 30 e os 40 anos, quando ocorreram as mudanças na sua personalidade.

A Introversão e a Extroversão

Os conceitos de Jung a respeito da introversão e da extroversão são bem conhecidos. O indivíduo extrovertido libera a libido (a energia de vida) dentro dele, direcionando-a aos acontecimentos e às pessoas do mundo exterior. A pessoa desse tipo é bastante influen­ciada pelas forças do ambiente, além de se demonstrar sociável e confiante nas diversas situações. Ao contrário, o introvertido direciona a libido para o seu interior. Esse tipo de pessoa é pensativo, introspectivo e resistente às influências externas. O introvertido nor­malmente é mais inseguro do que o extrovertido ao lidar com pessoas e situações.

Todo indivíduo é dotado de algum nível dessas atitudes opostas, mas normalmen­te uma é mais forte que a outra. Nenhum indivíduo é completamente extrovertido ou introvertido. A atitude dominante em algum momento específico pode ser determinada pelas circunstâncias. Muitas vezes, o introvertido torna-se sociável e expansivo diante de situações de seu interesse.

Os Tipos Psicológicos: Funções e Atitudes

Na teoria de Jung, as diferenças de personalidade são expressas não apenas por atitudes introvertidas ou extrovertidas, como também por meio de quatro funções: o pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição. Essas funções consistem em formas de orientação seguidas pelo indivíduo para se comportar tanto diante do universo exterior objetivo como diante do universo interior subjetivo.

  • O pensamento é o processo conceitual que proporciona o significado e a com­preensão;
  • O sentimento é o processo subjetivo de ponderação e de avaliação;
  • A sensação é a percepção consciente dos objetos físicos;
  • A intuição envolve a percepção de maneira inconsciente.

Jung rotulou o pensamento e o sentimento como modos racionais de reação, por envol­verem processos cognitivos de raciocínio e de julgamento. A sensação e a intuição são con­sideradas irracionais, pois não envolvem o uso da razão. Dentro de cada par de funções, em determinado momento, apenas uma função é dominante. A combinação das funções dominantes com a atitude dominante de extroversão e introversão produz os oito tipos psi­cológicos (por exemplo, o tipo pensador extrovertido ou o tipo intuitivo extrovertido).

Comentários

As ideias de Jung influenciaram várias áreas bastante distintas como a religião, a história, a arte e a literatura. Muitos historiadores, teólogos e escritores reconheciam-no como uma fonte de inspiração. No entanto, a psicologia científica em geral ignorou a sua psicologia analítica. Muitos dos seus livros foram traduzidos para o inglês somente depois da década de 1960, e o estilo confuso e a organização não-sistemática da redação impediram a total compreensão do seu trabalho. Esse desprezo pelos métodos científicos tradicionais afasta muitos psicólogos experimentais, para quem as teorias com base religiosa e mística contêm menos apelo que as visões de Freud. Ademais, as críticas observadas em relação à busca de evidências para apoiar a psicanálise de Freud também se aplicam ao trabalho de Jung, pois ele também se apoiava na interpretação e orientação clínica e não na investigação controlada em laboratório.

No entanto, alguns dos trabalhos de Jung tiveram uma influência duradoura e cons­tante na psicologia. Por exemplo, o teste de associação de palavras, que Jung desenvolveu no início da década de 1900, é ainda hoje um instrumento padrão de laboratório de clínico em psicologia. A versão de Jung do teste usava uma lista de 100 palavras como estímulo, que ele acreditava serem capazes de provocar emoções. Ele media o tempo que levava para um paciente responder a cada palavra, bem como às reações fisiológicas da pessoa, para determinar a intensidade emocional das palavras de estímulo.

Os oito tipos psicológicos de Jung motivaram muitas pesquisas. Vale a pena mencionar o teste de personalidade Indicador de Tipo Myers-Briggs, elaborado para medir os tipos psicológicos. Criado na década de 1920 por Katharine Briggs e Isabel Briggs Myers, esse teste é amplamente usado para fins de aplicação e de pesquisa, especialmente na seleção e orientação de pessoal. A fórmula introversão-extroversão inspirou o psicólogo inglês Hans Eysenck a desenvolver o teste de Inventário de Personalidade Maudsley para medir as duas atitudes. Pesquisas realizadas com esses testes produziram evidências empíricas para esses conceitos e demonstraram que pelo menos uma das noções de Jung seria passí­vel de teste experimental. De fato, os conceitos de introversão e extroversão de Jung ainda são muito aceitos na psicologia atualmente.

No entanto, assim como ocorreu com o trabalho de Freud, muitos outros aspectos da teoria de Jung (os complexos, os arquétipos e o inconsciente coletivo) resistem às tenta­tivas de validação científica. O conceito de autorrealização serviu de base para o desenvol­vimento do trabalho de Abraham Maslow e dos psicólogos humanistas. A noção da crise da meia-idade foi adotada por Maslow e outros psicólogos e aceita por muitos como um estágio necessário no desenvolvimento da personalidade. Esse conceito foi comprovado por muitas pesquisas.

Cursos formais de análise junguiana são ministrados em várias cidades da Europa e dos Estados Unidos, inclusive em Nova York, São Francisco e Los Angeles. A Sociedade de Psicologia Analítica publica a revista junguiana Journal of Analytical Psychology.

Psicologia Analítica

PSICÓLOGOS E OUTRAS PERSONALIDADES
Por área e/ou origem
TEXTOS
A Teoria do Constructo Pessoal de George Kelly

As ciências mais antigas da física e da química com freqüência influenciaram o curso de ciências mais novas, como a psicologia, fornecendo-lhes maneiras de conceber e pensar sobre os fenômenos naturais. À medida que novos pontos de vista se desenvolvem na física e na química, é quase inevitável, considerando a unidade básica de todas as ciências, que eles sejam absorvidos pelas ciências menos maduras e aplicados em suas áreas especiais. Não surpreende, portanto, que o conceito de campo da física, iniciado pelo tra­ balho de Faraday, Maxwell e Hertz sobre campos eletromagnéticos no século XIX e culminando na po­derosa teoria de Einstein da relatividade no século XX, tenha tido um impacto sobre o pensamento psi­cológico moderno.

A primeira manifestação importante da influên­cia da teoria física de campo sobre a psicologia apare­ceu no movimento conhecido como psicologia da Gestalt, iniciado por três psicólogos alemães, Max Wertheimer, Wolfgang Kõhler e Kurt Koffka, nos anos imediatamente precedentes à Primeira Guerra Mun­dial. O princípio mais importante da psicologia da Gestalt é que o comportamento é determinado pelo campo psicofísico, que consiste em um sistema orga­nizado de pressões ou tensões (forças) análogas a um campo gravitacional ou eletromagnético. A nossa maneira de perceber um objeto, por exemplo, é de­terminada pelo campo total em que o objeto está in­ serido.

Embora a psicologia da Gestalt seja uma teoria psicológica geral, ela se ocupa primariamente da per­cepção, da aprendizagem e do pensamento, e não da personalidade. Mas Kurt Lewin criou uma teoria de campo da personalidade (1935, 1936, 1951). Apesar de profundamente influenciado pela psicologia da Ges­talt e também pela psicanálise, sua teoria é uma for­mulação inteiramente original. Nós começaremos con­siderando brevemente a teoria de Lewin da persona­lidade, e depois trataremos de George Kelly, cuja teo­ria é o foco do capítulo.

Kurt Lewin

Kurt Lewin nasceu em 9 de setembro de 1890, em uma pequena vila na província prussiana de Posen. O segundo de quatro filhos, seu pai possuía e adminis­trava um loja que vendia todo tipo de mercadorias. A família mudou-se para Berlim em 1905, onde Lewin completou o ensino secundário. Ele então ingressou na Universidade de Freiburg, pretendendo estudar me­dicina, mas logo desistiu da idéia e, depois de um semestre na Universidade de Munique, voltou a Berlim em 1910 para estudar psicologia na universidade de lá. Ele foi aluno de Carl Stumpf, um psicólogo experimental extremamente respeitado. Depois de obter seu doutorado em 1914, Lewin serviu no exército alemão quatro anos na infantaria, passando de soldado para tenente. No final da guerra, ele voltou à Universidade de Berlim como instrutor e assistente de pesquisa no Instituto Psicológico. Max Wertheimer e Wolfgang Köhler, dois dos três fundadores da psicologia da Gestalt, também estavam na Universidade de Berlim na época. Em 1926, Lewin foi promovido a professor. Durante sua permanência na Universidade se Berlim, Lewin e seus alunos publicaram uma série de brilhantes artigos experimentais e teóricos.

Quando Hitler subiu ao poder, Lewin trabalhava como professor-visitante na Universidade de Stanford. Ele voltou à Alemanha para encerrar seus negócios e depois retornou aos Estados Unidos, onde residiu pelo restante de sua vida. Ele lecionou psicologia da criança na Universidade de Cornell por dois anos (1933-1935), antes de ser chamado pela Universidade Estadual de Iowa como professor de psicologia na Child welfare Station. Em 1945, Lewin aceitou o cargo de professor e diretor do Research Center for Group Dynamics no Instituto deTecnologia de Massachusetts. Na mesma época, ele se tornou diretor da Commission of community interrelations of american jewish congress engajando-se na pesquisa de problemas da comunidade. Ele morreu de ataque cardíaco, subitamente, em Newtonville, Massachusetts, em 12 de fevereiro de 1947, aos 56 anos de idade.

As principais características da teoria de campo de Lewin podem ser resumidas conforme segue: (1) o comportamento é uma função do campo que existe no momento em que ocorre o comportamento, (2) a análise começa com a situação como um todo, a par­tir do qual as partes componentes são diferenciadas, e (3) a pessoa concreta em uma situação concreta pode ser representada matematicamente. Lewin também enfatizou forças subjacentes (necessidades) como de­terminantes do comportamento, e expressou uma pre­ferência por descrições psicológicas, não físicas ou fi­siológicas, do campo. Um campo é definido como “a totalidade de fatos coexistentes que são concebidos como mutuamente interdependentes” (Lewin, 1951, p. 240).

A estrutura da personalidade

O primeiro passo para definir a pessoa como um con­ceito estrutural é representá-la como uma entidade separada de tudo o mais no mundo. Essa separação pode ser feita em palavras, como em uma definição de dicionário, ou por uma representação espacial da pessoa. Já que as representações espaciais podem ser tratadas matematicamente e as definições verbais não, Lewin preferiu definir espacialmente os seus conceitos estruturais. Dessa maneira, ele tentou matematizar seus conceitos desde o início.

A separação da pessoa do resto do universo é rea­lizada desenhando-se uma figura fechada. As frontei­ras da figura definem os limites da entidade conheci­da como a pessoa. Tudo o que está dentro das fronteiras é P (a pessoa); tudo o que está fora das fronteiras é não-P.

O passo seguinte na representação da realidade psicológica é desenhar uma outra forma e o tamanho dessa figura circundante não são importantes uma vez que ela preenche as duas condições: ser maior do que a pessoa e circundá-la. Para essa representação, Lewin preferia uma figura de forma levemente elíptica.Tam­bém é necessária uma outra qualificação. A nova fi­gura não pode compartilhar qualquer parte da fron­teira do círculo que representa a pessoa. Deve haver um espaço entre a fronteira da pessoa e a fronteira da figura maior. Com exceção dessa restrição, o círculo pode ser colocado em qualquer lugar dentro da elip­se. Os tamanhos relativos das duas formas não são importantes. [319] 

Nós agora temos o desenho de um círculo circun­dado por uma elipse que não chega a tocar nele (Fi­gura 10.1). A região entre os dois perímetros é o am­biente psicológico, A. A área total dentro da elipse, incluindo o círculo é o espaço de vida, V. O espaço dentro da elipse representa os aspectos não-psicológico do universo. Por uma questão de conveniência, chamaremos essa região de mundo fisico. No mundo não-psicológico, por exemplo, também existem fatos sociais.

O Espaço de Vida

Embora nós tenhamos começado com a pessoa e de­ pois tenhamos a cercado com um ambiente psicológi­co, estaria mais de acordo com a regra de Lewin de ir do geral para o particular se tivéssemos começado com o espaço de vida e diferenciado-o da pessoa e do am­biente. Com efeito, o espaço de vida é o universo do psicólogo; é o todo da realidade psicológica. Ele con­tém a totalidade de fatos possíveis capazes de deter­minar o comportamento de um indivíduo. Ele inclui tudo o que precisa ser conhecido para se compreen­der o comportamento concreto de um determinado ser humano em um ambiente psicológico específico em dado momento. O comportamento é uma função do espaço de vida, C=f(V): A tarefa da psicologia dinamica é derivar inequivocamente o comportamento de um determinado indivíduo da totalidade dos fatos psicológicos que existem no espaço de vida em um dado momento” (Lewin, 1936).

O fato de o espaço de vida ser cercado pelo mun­do físico não significa que ele seja uma parte do mun­do físico. O espaço de vida e o espaço além dele são regiões diferenciadas e separadas de uma totalidade maior. A possibilidade dessa totalidade maior, o uni­verso, ser finita ou infinita, caos ou cosmos, não preocupa a psicologia, exceto em um aspecto muito im­portante. Os fatos que existem na região externa - adjacente à fronteira do espaço de vida, uma região que Lewin chama de “o invólucro exterior do espaço de vida”, podem influenciar materialmente o ambien­te psicológico. Isto é, os fatos não-psicológicos podem alterar e realmente alteram os fatos psicológicos. Lewin sugeriu chamar o estudo dos fatos no invólucro exte­rior de “ecologia psicológica” (1951, Capítulo VIII). O primeiro passo em uma investigação psicológica é es­tabelecer a natureza dos fatos que existem na frontei­ra do espaço de vida, uma vez que eles ajudam a de­terminar o que é e o que não é possível, o que pode ou não acontecer no espaço de vida.

Os fatos no ambiente psicológico também podem produzir mudanças no mundo físico. Existe uma co­municação bidirecional entre as duas esferas. Conse­qüentemente, dizemos que a fronteira entre o espaço de vida e o mundo externo tem a propriedade de permeabilidade. As implicações de uma fronteira perme­ável entre o espaço de vida e o mundo físico são de extrema importância. Uma vez que um fato no mun­do não-psicológico pode mudar radicalmente todo o curso de eventos no espaço de vida, a predição ape­nas a partir de leis psicológicas geralmente é ineficaz .Nunca podemos ter certeza, antecipadamente, de que um fato do invólucro exterior não vai penetrar na fron­teira do espaço de vida e virar tudo de pernas para o ar no ambiente psicológico. Um encontro casual um telefonema inesperado ou um acidente de automóvel podem mudar o curso de vida de uma pessoa. Portan­to, como Lewin enfatiza, é melhor o psicólogo tentar compreender a situação psicológica momentânea concreta, descrevendo-a e explicando-a em termos teóricos de campo do que tentando predizer como uma pessoa vai-se comportar em um momento futuro.

Uma outra propriedade do espaço de vida deve ser destacada. Embora a pessoa esteja cercada pelo [320] ambiente psicológico, ela não é parte dele, nem está incluída nele. Entretanto, a fronteira entre a pessoa e o ambiente também é uma fronteira permeável. Isso significa que os fatos ambientais podem influenciar a pessoa P=f(A) e que os fatos pessoais podem influenciar o ambiente, A=f(P). Antes de examinar a natureza dessa influência. precisamos fazer uma outra diferenciação dentro da estrutura da pessoa e do ambiente.

Diferenciação

Até este ponto, a pessoa foi representada como um vazio. A representação seria apropriada se a pesca fosse uma unidade perfeita, o que ela não é. Lewin afirmava que a estrutura da pessoa é hetorogênea, não homogênea, que ela está subdividida em partes separadas, mas intercomunicantes. Para representar essa situação, a área dentro do círculo é dividida em zonas.

O procedimento é o seguinte. Primeiro, dividir a pessoa em duas partes, desenhando um círculo concêntrico dentro do círculo maior. A parte externa representa a região perceptual-motora (P-M), a parte central representa a região intrapessoal. A região intrapessoal está completamente cercada pela área perceptual-motora, de modo que ela não tem nenhum contato direto com a fronteira que separa a pessoa do ambiente. O segundo passo é dividir a região intrapessoal em células (Figura 10.2). As céculas adjacentes à região perceptual-motora são chamadas de célu­las periféricas, p; as que estão no centro do círculo são chamadas de células centrais, c.

Em essência, a pessoa é definida como uma re­gião diferenciada no espaço de vida. Agora vamos examinar o ambiente psicológico. Um ambiente ho­mogêneo ou indiferenciado é aquele em que todos os fatos são igualmente influentes sobre a pessoa. Nesse ambiente, a pessoa teria perfeita liberdade de movi­mento, uma vez que não haveria nenhuma barreira para impedi-la. Essa completa liberdade de movimento obviamente não representa o verdadeiro estado de coisas. Portanto, é necessário subdividir o ambiente em regiões parciais (ver Figura 10.3, p. 322).

Existe uma diferença entre a diferenciação do ambiente e a diferenciação da pessoa. Não é necessá­ rio distinguir tipos diferentes de regiões ambientais. Oambientenãocontémnadacomparávelaumaca­ mada perceptual-motora ou a uma esfera intrapesso­ al. Todas as regiões do ambiente são semelhantes. Mas devemos salientar que, na representação concreta de uma pessoa específica, em uma situação psicológica concreta e em um determinado momento, devem ser conhecidos o número exato e as posições relativas das sub-regiões ambientais, bem como o número exato e as posições relativas da esfera intrapessoal, se quiser­mos compreender o comportamento. Uma análise es­trutural completa e acurada revela a totalidade dos fatos psicológicos possíveis na situação momentânea. Uma análise dinâmica, o tópico da próxima seção deste capítulo, nos diz quais dos fatos possíveis vão real­mente determinar o comportamento.

Conexões entre as Regiões

O espaço de vida está agora representado por uma pessoa diferenciada cercada por um ambiente dife­renciado. Tal diferenciação foi feita desenhando-se li­nhas que servem como fronteiras entre as regiões. Mas não pretendemos que essas fronteiras representem barreiras impenetráveis que dividem a pessoa e o ambiente em regiões independentes e desconectadas.

A permeabilidade, como já salientamos, é uma das propriedades de uma fronteira. Sendo assim, o espa­ço de vida consiste em uma rede de sistemas interconectados.

Figura 10.3O que queremos dizer com regiões conectadas? Para responder a esta pergunta, vamos supor que cada uma das sub-regiões do ambiente contém um fato psicológico, e que o mesmo fato não aparece em mais de uma região ao mesmo tempo. (O uso que Lewin faz da palavra fato neste contexto pode soar estranho para alguns ouvidos. Um fato, para Lewin, não é ape­nas alguma coisa observável como uma cadeira ou um jogo de futebol; é também alguma coisa que tal­vez não seja diretamente observável, mas que pode ser inferida a partir de algo observável. Em outras palavras, existem fatos empíricos e fenomenais e fa­tos hipotéticos ou dinâmicos. Qualquer coisa, quer sentida quer inferida, é um fato aos olhos de Lewin. Um evento, por outro lado, é o resultado da interação de vários fatos. Uma cadeira e uma pessoa são fatos, mas uma pessoa sentando-se em uma cadeira é um evento. Dizemos que duas regiões estão conectadas quando um fato em uma região está em comunicação com um fato em outra região. Por exemplo, dizemos que uma pessoa está conectada com o ambiente por­ que um fato contido nele pode alterar, modificar, des­locar, intensificar ou minimizar os fatos dentro da pes­soa. Em linguagem comum, o ambiente pode mudar a pessoa e vice-versa. Lewin também diz que duas regiões estão conectadas quando os fatos de uma re­gião são acessíveis aos fatos de outra região. A acessibilidade é o equivalente espacial da influência.

O nosso problema imediato, então, é como repre­sentar a extensão da influência ou a acessibilidade entre as regiões. Há várias maneiras de fazer isso. Uma delas é colocar as regiões próximas quando a influên­cia de uma sobre a outra é grande, e colocá-las sepa­radas quando a influência é fraca. A influência dimi­nui à medida que o número de regiões interveniente; diminui. Esse tipo de representação pode ser chama­do de dimensão proximidade-distância.

Duas regiões podem estar muito próximas, inclu­sive compartilhar uma fronteira comum, e, no entan­to, não influenciar ou ser acessível uma à outra. O grau de conexão ou interdependência não é apenas uma questão do número de fronteiras que precisa ser cruzado; mas também depende da força da resistên­cia oferecida pela fronteira. A resistência de uma fron­teira, ou sua permeabilidade, é representada pela lar­gura da linha da fronteira. Uma linha muito fina representa uma fronteira frágil; uma linha grossa re­presenta uma fronteira impermeável. Esse tipo de re­presentação pode ser chamado de dimensão firmeza-fragilidade.

Uma terceira maneira de representar as interconexões entre as regiões é levar em conta a natureza do meio de uma região. O meio de uma região é a qualidade de sua superfície. Lewin distinguiu várias propriedades do meio, a mais importante das quais é a dimensão de fluidez-rigidez.Um meio fluido é aque­le que responde rapidamente a qualquer influência agindo sobre ele. É flexível e maleável. Um meio rígi­do resiste à mudança. É duro e inelástico. Duas [323] regiões que estão separadas uma da outra por uma região cuja qualidade de superfície é extremamente rígida não poderão comunicar-se. É semelhante a uma pessoa tentando cruzar um pântano ou atravessar uma mata cerrada.

Utilizando os conceitos de proximidade-distância, firmeza-fragilidade e fluidez-rigidez, podemos representar a maioria das conexões possíveis no espaço de vida.

Figura 10.4Esses mesmos conceitos se aplicam também à pessoa. Por exemplo, uma pessoa inacessível está firmemente separada do ambiente por uma parede grossa. A Figura 10.4 retrata uma pessoa complexamente estruturada. As células p1 e p2 estão estreitamente conectadas, enquanto p2 e p3 estão separadas uma da outra por uma fronteira impermeável. A região c tem pouca ou nenhuma acessibilidade a qualquer outra região. É como se essa área estivesse dissociada do restante da pessoa. A célula quadriculada é impenetrável à influência devido à qualidade de sua superfície, enquanto a área cinzenta é facilmente influenciada. A região p4 está remotamente conectada com p1, p2 e p3. A Figura 10.5 retrata um ambiente psicológico complexamente estruturado

Devemos lembrar que esses desenhos represen­tam situações momentâneas. Não existe nada de fixo ou estático neles, que mudam constantemente em re­sultado de forças dinâmicas. Não podemos caracteri­zar a pessoa como sendo de uma determinada manei­ra por um longo período de tempo. Uma fronteira firme pode dissolver-se subitamente, uma fronteira frágil pode enrijecer-se. As regiões distantes podem aproximar-se. Um meio rígido se suaviza, enquanto um meio flexível endurece. Mesmo o número de regi­ões pode aumentar ou diminuir de momento a mo­mento. Conseqüentemente, as representações espaci­ais estão continuamente tornando-se obsoletas, porque a realidade psicológica está sempre mudando. Lewin não se interessava muito por traços fixos, hábitos rígi­dos ou outras constantes da personalidade. Os con­ceitos desse tipo são característicos do pensamento aristotélico que Lewin deplorava (1935, Capítulo 1).

O Número de Regiões

Figura 10.5O número de regiões no espaço de vida é determina­ do pelo número de fatos psicológicos separados que existem em um dado momento do tempo. Quando há apenas dois fatos, a pessoa e o ambiente, existem ape­nas duas regiões no espaço de vida. Se o ambiente contém dois fatos, por exemplo, o fato do jogar e o fato do trabalhar, então o ambiente tem de ser dividi­do em uma área de jogar e em uma área de trabalhar. Se existem vários tipos diferentes de fatos de jogar, por exemplo, o fato de jogar futebol, o fato de jogar xadrez e o fato de jogar dardos, então a área de jogar deve ser dividida em tantas sub-regiões quantos são os fatos de jogar. Da mesma forma, pode haver dife­rentes tipos de fatos de trabalho, cada um dos quais deve ter sua região separada. O número de regiões na pessoa também é determinado pelo número de fatos pessoais existentes. Se só existe o fato de sentir fome, a esfera intrapessoal consistirá apenas em uma região. Mas, se, além do fato da fome, também existir a ne­ cessidade de terminar um determinado trabalho, a região intrapessoal tem de ser dividida em duas regiões. Como veremos mais adiante, os principais fatos da região intrapessoal são chamados de necessidades, enquanto os fatos do ambiente psicológico são cha­mados de valências. Cada necessidade ocupa uma célula separada na região intrapessoal e cada valência ocupa uma região separada no ambiente psicológico.

A Pessoa no Ambiente

Anteriormente, quando discutimos a colocação da pessoa no ambiente, dissemos que não fazia diferen­ça onde o círculo era colocado dentro da elipse desde que suas duas fronteiras não se tocassem. Isso vale apenas para um ambiente indiferenciado, homogêneo, onde todos os fatos estão na mesma região, isto é, onde todos os fatos são idênticos. Assim que o ambi­ente se diferencia em regiões separadas por frontei­ras, o lugar onde colocamos o círculo faz uma consi­derável diferença. Em qualquer região que o coloquemos, os fatos dessa região estão mais próximos da pessoa e têm maior influência sobre ela do que os fatos de qualquer outra região. O entendimen­to de uma situação psicológica concreta requer, por­tanto, que saibamos onde a pessoa está em seu ambi­ente psicológico. Fisicamente a pessoa pode estar sentada em uma sala de aula, mas, psicologicamente, estar jogando beisebol no playground. Alguns fatos que existem na sala de aula, como aquilo que a professora esta falando, podem não causar nenhum efeito sobre um garoto, ao passo que um bilhete da menina da mesa ao lado pode facilmente desviar seu pensamento do jogo de beisebol.

A maneira como as regiões que constituem o espaço de vida estão interconectadas representa o grau de influência ou acessibilidade entre as regiões. Exatamente como se expressa essa influência ou acessibilidade? No exemplo anterior do garoto que é acessível ao bilhete da menina, mas é inacessível ao que a professora está dizendo, acessibilidade significa que o menino pode passar mais facilmente para a região da menina do que para a região da professora. Quando a menina realiza a ação de passar um bilhete para o menino, ele pode sair da região do beisebol e entrar na região dela. Ele fez o que Lewin chama de locomoção. As duas regiões estão estreitamente conenectadas, acessíveis uma à outra e mutuamente influentes se locomoções podem ser feitas facilmente entre ela. 

Uma locomoção no ambiente psicológico não significa que a pessoa tenha de fazer um movimento físico através do espaço; de fato, a maioria das locomoções que interessam à psicologia envolve muito pouco movimento físico. Existem locomoções sociais como juntar-se a um clube, locomoções profissionais como ser promovido, locomoções intelectuais como resolver um problema, e muitos outros tipos. Nós vemos agora que uma proprieda de importante do ambiente psicológico é ele ser uma região em que a locomoção é possível. "Podemos tratar todas as coisas como um ambiente no qual, rumo ao qual ou para longe do qual a pessoa, como um todo, pode realizar locomoções” (Lewin, 1936, p. 167). Ao realizar uma locomoção, a pessoa segue por um caminho através do ambiente. A direção do caminho e as regiões através das quais ele passa são determinadas em parte pela força das fronteiras e pela fluidez das regiões, em parte, por fatores dinâmicos que serão discutidos mais adiante.
Vamos examinar agora alguns conceitos dinâmi­cos de Lewin que, tomados juntos, constituem o que ele chama de psicologia de vetor.

A Dinâmica da Personalidade

Uma representação estrutural do espaço de vida é como um mapa de estrada. Um bom mapa de estrada contém todas as informações necessárias para plane­jarmos qualquer tipo de viagem, exatamente como uma boa representação estrutural de pessoas e de seu ambiente contém todos os fatos necessários para ex­plicarmos qualquer tipo possível de comportamento. Mas assim como um mapa de estrada não pode nos dizer que viagem a pessoa vai querer fazer, um qua­dro detalhado do espaço de vida também não nos dira como a pessoa vai-se comportar. Os conceitos estru­turais ou tipológicos sozinhos não conseguem explicar o comportamento concreto em uma situação psi­cológica real. Para esse tipo de entendimento precisamos de conceitos dinâmicos. Os principais con­ceitos dinâmicos de Lewin são energia, tensão, neces­sidade, valência e força ou vetor.

Energia

Lewin, como a maioria dos teóricos da personalidade, supõe que a pessoa é um sistema complexo de energia. O tipo de energia que realiza o trabalho psi­cológico é chamado de energia psíquica. Uma vez que a teoria de Lewin tem um caráter exclusivamente psicológico, não é necessário que ele trate da questão da relação da energia psíquica com outros tipos de energia. A energia psíquica é liberada quando o sistema psíquico (a pessoa) tenta voltar ao equilíbrio depois de ter sido arremessado a um estado de desequilíbrio. O desequilíbrio por um aumento da tensão em uma parte do sistema relativo ao restante do sistema, como resultado de estimulação externa ou de mudança interna. Quando a tensão em todo o sistema fica novamente equilibrada, a saída de energia é interrompida e o sistema total entra em repouso.

Tensão

A tensão é um estado da pessoa ou, falando mais precisamente, é um estado de uma região intrapessoal relativo a outras regiões intrapessoais. Quando Lewin se referiu às propriedades dinâmicas de uma região ou célula da esfera intrapessoal, ele chamou a região de sistema. 

A tensão em um determinado sistema tende a igualar-se à quantidade de tensão em sistemas circundan­tes (cf. o princípio de entropia de Carl Jung). Os meios psicológicos pelos quais a tensão se equaliza sao chamados de processos. Um processo pode ser pensar, lembrar, sentir, perceber, agir ou algo parecido. Por semplo, uma pessoa que se depara com a tarefa de resolver um problema fica tensa em um de seus sistemas. Para resolver o problema e assim reduzir a ten­são, ela se empenha no processo de pensar. O proces­so de pensar continua até ser encontrada uma solução satisfatória, momento em que a pessoa retorna a um estado de equilíbrio. Quando a intenção pode ser lem­brar um nome, o processo de memória entra em ação, lembra o nome e faz com que a tensão desapareça.

Necessidade

O aumento de tensão ou a liberação de energia em uma região intrapessoal é causado pelo surgimento de uma necessidade. Uma necessidade pode ser uma condição fisiológica, como fome, sede ou sexo; pode ser um desejo de alguma coisa, como um emprego ou um cônjuge; ou pode ser uma intenção de fazer algu­ma coisa, como concluir uma tarefa ou cumprir um compromisso. Uma necessidade é, portanto, um con­ceito motivacional e equivale a termos como motivo, desejo, pulsão e impulso. 

Lewin evitou sistematicamente discutir a natureza, a fonte, o número e os tipos de necessidades, por­ que ele não estava nem um pouco satisfeito Ele achava que o termo necessidade acabaria sendo trocado na psicologia por um conceito mais adequado, mais observável e mensurável. Ele também não achava importante fazer uma lista de necessidades, como tantos psicólogos fazem. Em primeiro lugar, a lista seria quase infinitamente longa e, em se­gundo lugar, o único elemento que realmente importa na descrição da realidade psicológica é representar aquelas necessidades que realmente existem na ação momentânea. Elas são as únicas necessidades que estão produzindo efeitos. Em um nível abstrato podemos dizer que todo mundo pode sentir fome, mas só quando a pulsão de fome está realmente perturbando o equilíbrio da pessoa é que ela precisa ser levada em conta.

Lewin também distinguiu as necessicades das quase-necessidades. Uma necessidade se deve a um estado interno, como a fome, enquanto uma quase necessidade é equivalente a uma intenção específica como satisfazer a fome, comendo em um determinado restaurante. Lewin achava que as necessidades de uma pessoa são determinadas em grande estensa pelos fatores sociais (1951, p. 289).

Tensão e Ação Motora

Até o momento, nos preocupamos principalmente com a dinâmica interna dos sistemas de tensão, isto é, com a interdependência e a comunicação dinâmica entre sistemas. Qual é a relação da tensão com a ação? Po­deríamos conjecturar que a energia fluindo de uma região intrapessoal para a motora resultaria direta­mente em uma locomoção psicológica. Mas Lewin re­jeitou essa idéia. A tensão, pressionando sobre a fron­teira exterior da pessoa, não pode causar uma loco­moção. Portanto, em vez de ligar a necessidade ou a tensão diretamente à ação por meio da ação motora, ele ligou a necessidade a certas propriedades do am­biente que então determinam o tipo de locomoção que vai ocorrer. Essa é uma maneira muito engenhosa de conectar a motivação ao comportamento. Dois conceitos adicionais são necessários para tal propósito: valência e força.

Valência

A valência é a propriedade conceitual de uma região do ambiente psicológico. É o valor daquela região para a pessoa. Existem dois tipos de valor: positivo e nega­tivo. Uma região de valor positivo é aquela que con­tém um objeto-meta que reduzirá a tensão quando a pessoa entrar na região. Por exemplo, uma região que contenha comida terá uma valência positiva para uma pessoa que está com fome. Uma região de valor nega­tivo é aquela que vai aumentar a tensão. Para uma pessoa que tem medo de cachorros, qualquer região que contenha um cachorro terá uma valência negati­va. As valências positivas atraem, as valências negati­vas repelem.

Uma valência está coordenada com uma necessi­dade. Isso significa que o fato de uma determinada região do ambiente ter um valor positivo ou negativo depende diretamente de um sistema em um estado de tensão. As necessidades conferem valores ao am­biente. Elas organizam o ambiente em uma rede de regiões convidativas e repelentes. Mas a rede de va­lências também depende de fatores exteriores que fo­gem do escopo das leis psicológicas. A presença ou a ausência dos objetos dos quais precisamos obviamen­te desempenha um papel importante na estruturação do ambiente psicológico. O fato de a comida estar pre­sente e ser reconhecível, que tipo de comida ela é e em que quantidade, sua disponibilidade, e sua proxi­midade em relação a objetos que possuem valência negativa, todos esses são fatores não-psicológicos que influenciam a valência de uma região para uma pes­soa que está com fome.

Uma valência é uma quantidade variável: ela pode ser fraca, média ou forte. A força de uma valência depende da força da necessidade mais todos os fato­res não-psicológicos mencionados antes.

Uma valência não é uma força. Ela dirige a pes­soa através de seu ambiente psicológico, mas não pro­porciona a força motivadora para a locomoção. Como já vimos, um sistema em um estado de tensão tam­bém não produz uma locomoção. Precisamos de um outro conceito, que é o conceito de força ou vetor.

Força ou Vetor

Ocorre uma locomoção sempre que uma força de po­tência suficiente age sobre a pessoa. Uma força está coordenada com uma necessidade, mas não é uma tensão. A força existe no ambiente psicológico, en­quanto a tensão é uma propriedade de um sistema intrapessoal. As propriedades conceituais da força são direção, potência e ponto de aplicação. Essas três proprieda­des são representadas matematicamente por um ve­tor. A direção para a qual esse vetor aponta represen­ta a direção da força, o comprimento do vetor representa a potência da força, e o lugar onde a ponta da flecha se insere na fronteira externa da pessoa re­presenta o ponto de aplicação. Um vetor é sempre desenhado no lado de fora da pessoa e nunca dentro, porque as forças psicológicas são propriedades do ambiente, e não da pessoa.

Figura 10.6Se existe apenas um vetor (força) agindo sobre uma pessoa, haverá uma locomoção ou uma tendên­cia a mover-se na direção do vetor. Se dois ou mais vetores estão empurrando a pessoa em várias dire­ções diferentes, a locomoção conseqüente será o re­sultante de todas as forças.
Agora podemos ver a relação da valência com o vetor. Uma região que possui uma valência positiva é uma região em que as forças que agem sobre a pessoa estão dirigidas para essa região. Uma região de valên­cia negativa é aquela em que os vetores estão apon­tando na direção oposta. Em outras palavras, a dire­ção de um vetor é diretamente determinada pela  realização de uma região com valência positiva ou jatíva. A potência de um vetor está relacionada à pccència de uma valência, à distância psicológica entre a pessoa e a valência, e à potência relativa de outras valências.

Podemos observar, entre parênteses, que o conceito de necessidade é o único conceito com o qual todos os outros constructos dinâmicos estão coordenados. Uma necessidade libera energia, aumenta a tensão, confere valor e cria força. E o conceito central central ou nuclear de Lewin, em torno do qual se agrupam todos os outros conceitos.

Locomoção

Agora estamos em posição de representar o caminho específico que uma pessoa fará ao mover-se através ae seu ambiente psicológico. Por exemplo, uma criança passa diante de uma confeitaria, olha a vitrine e fica com vontade de comer um doce. A visão do doce desperta uma necessidade, e essa necessidade dá início a três estados. Ela libera energia e, então, desperta tensão em uma região intrapessoal (o sistema que
quer o doce). Ela confere uma valência positiva à re­gião em que o doce está localizado. Ela cria uma força que empurra a criança na direção do doce.

Figura 10.7Digamos que a criança tem de entrar na confeita­ria e comprar o doce. Essa situação está representada na Figura 10.6 (ver acima). Mas suponhamos que a criança não tem dinheiro; então a fronteira entre ela e o doce será uma barreira intransponível. Ela vai-se aproximar o máximo possível do doce, talvez encos­tando o nariz no vidro, sem conseguir alcançá-lo (Fi­gura 10.7).

Ela pode dizer a si mesma: “Se eu tivesse dinhei­ro, poderia comprar um doce. Talvez a mamãe me dê algum dinheiro.” Em outras palavras, é criada uma nova necessidade ou quase-necessidade, a intenção de conseguir algum dinheiro com a mãe. Essa inten­ção, por sua vez, desperta uma tensão, um vetor, e uma valência que estão representados na Figura 10.8. Foi desenhada uma estreita fronteira en­tre a criança e a mãe, a partir da suposição de que ela precisa ir para casa, encontrar a mãe e pedir-lhe di­nheiro. Uma outra fronteira foi desenhada entre a mãe e o doce para representar o esforço necessário para voltar à confeitaria e fazer a compra. A criança vai ao doce por intermédio da mãe.

Se a mãe se recusar a dar dinheiro à criança, ela pode pensar em pedir emprestado a uma amiga. Nes­se caso, a região que contém a mãe fica cercada por uma barreira impenetrável, e é feito um novo cami­nho, ligando a região que contém a amiga e a região em que se encontra o doce (Figura 10.9).

Figura 10.8Essa representação topológica poderia ser com­plicada interminavelmente pela introdução de novas regiões ambientais, de fronteiras com graus variados de firmeza e de necessidades adicionais com seus sis­temas de tensão, valências e vetores coordenados.

Embora Lewin não rejeitasse a idéia de que a heredi­tariedade e a maturação desempenham um papel no desenvolvimento, em nenhum momento ele discutiu com detalhes sua possível influência, e também não lhes atribuiu um lugar em suas representações con­ ceituais. Isso está de acordo com a preferência de Lewin por uma teoria puramente psicológica. Uma vez que a hereditariedade e a maturação situam-se no domínio dos fatos biológicos e, portanto, existem fora do espaço de vida juntamente com os fenômenos físi­cos e sociais, Lewin as ignorou. O desenvolvimento, para ele, é um processo contínuo em que é difícil re­conhecer estágios separados. Lewin também acredi­tava que uma escala de idade para descrever o desen­volvimento não é realmente adequada para se compreender o crescimento psicológico. A escala de idade terá eventualmente de ser abandonada em fa­vor de graus de diferenciação, organização, integra­ção e assim por diante. Além disso, a psicologia preci­sa dedicar-se à tarefa de descobrir os fatos coexistentes e dinamicamente relacionados que representam as condições para a mudança no momento em que ela ocorre. Não basta dizer que a criança de seis anos de idade pratica ações que a de três não. Precisamos ex­plicar a mudança, usando os conceitos da teoria de campo.

Figura 10.9

Geroge Kelly

A essência da abordagem da Gestalt, incluindo a abor­dagem gestáltica de Lewin à personalidade, é a suposição de que o comportamento é uma função do cam­po no qual ocorre o comportamento. O espaço de vida, ou a realidade psicológica do indivíduo, é o que de­termina seu comportamento. De maneira muito se­melhante, a abordagem de George Kelly à personali­dade baseia-se na suposição de que os indivíduos constroem a realidade à qual respondem, e a resposta está baseada no uso que o indivíduo faz de sua expe­riência em contextos prévios similares para antecipar as conseqüências do comportamento. Apesar da se­ melhança óbvia entre as abordagens de Lewin e de Kelly, logo se tornam aparentes as diferenças básicas. Por exemplo, Kelly fez uma suposição crítica crucial de que os seres humanos tentam antecipar acurada­mente as conseqüências de suas ações; na verdade, essa busca torna-se a marca registrada do funciona­mento sadio. Além disso, o comportamento é quase uma reflexão posterior para Kelly, ao passo que Lewin descreve detalhadamente as forças e os vetores. Da resma forma, Kelly não achava importante discutir as necessidades específicas ou os outros motivos. A construção da realidade, ou “interpretação” nos ter­mos de Kelly, baseia-se no sistema de constructos pessoais bipolares desenvolvido pelo indivíduo. A personalidade, por sua vez, deve ser compreendida em termos dos sistemas de constructos distintivos dos indivíduos; isto é, a personalidade reflete diferenças individuais nas tendências de interpretação e não nas tendências de comportamento. Essa abordagem singular requer uma redefinição de vários conceitos psicológicos familiares. A linguagem de Kelly pode ser difícil de compreender, mas o valor heurístico de seu rodeio merece o esforço do aluno.

História Pessoal

Maher (1969) oferece uma breve biografia da vida de Kelly, e o leitor também pode procurar Sechrest (1977) e o obituário escrito por Thompson (1968). O que se segue está baseado nessas três fontes. George Kelly nasceu em 28 de abril de 1905, em uma fazenda próxima de Perth, Kansas. Seu pai fora educado para ser ministro, mas mudou-se para essa fazenda logo de­pois de seu casamento. A escolarização inicial de Ke­lly foi irregular, mas seus pais supriam a educação dos filhos em casa. Eles finalmente decidiram mandá-lo para Wichita para cursar o ensino médio, e ele morou longe de casa a maior parte do tempo depois dos 13 anos. Kelly passou três anos na Friends University, uma escola Quaker, e formou-se com um B. A. em física e em matemática no Park College, em 1926. Ele preten­dia estudar engenharia mecânica, mas seu crescente interesse pelos problemas sociais, estimulado por sua participação em debates entre escolas, levou-o a estu­ dar sociologia educacional na Universidade de Kan­sas. Recebeu seu M.A. em 1928, com uma tese de mestrado sobre a distribuição das atividades no tem­po de lazer entre os trabalhadores de Kansas City. Após um período de tempo em que ensinou matérias varia­das e experimentou ser um engenheiro aeronáutico, Kelly recebeu uma bolsa de estudo de intercâmbio, em 1929. Ele viajou para a Universidade de Edinburgo, onde recebeu o grau de bacharel em educação em 1930. Kelly então voltou aos Estados Unidos, onde se matriculou em um programa de graduação em psico­logia na Universidade Estadual de Iowa. Ele recebeu seu Ph.D. depois de apenas um ano, e casou-se com Gladys Thompson dois dias depois da formatura. [329]

No outono de 1931, Kelly foi para o Fort Hays Kansas State College, onde ficou por treze anos. Foi durante esse período que ele se voltou para a psicolo­gia clínica e conseguiu apoio legislativo para estabe­lecer um programa de clínicas itinerantes, que lhe permitiu atender estudantes perturbados nas escolas de todo o estado e desenvolver novas abordagens de problemas clínicos. Kelly publicou uma série de seis artigos sobre questões clínicas práticas entre 1935 e 1940. Em The Autobiography of a Theory Kelly (1963) descreveu como chegou a uma “psicologia do próprio homem”, com um foco na escolha e na iniciação pes­soal de ações. No processo, ele voltou a uma perspec­tiva freudiana, que tinha ridicularizado durante o curso de graduação. Mas, gradualmente, ele passou a sentir-se desconfortável com seus “insights” freudianos, decidindo, em vez disso, que seus clientes precisavam de uma nova abordagem à vida e às futuras contin­gências. Ele também se desencantou com a importân­cia do “self”, acreditando que a questão central era ajudar os clientes a “imaginar novas hipóteses sobre outras maneiras de viver” (1963, p. 55).

A ênfase em novos comprometimentos e redefini­ções de si mesmo, em tornar-se diferente do que se é atualmente, montou o cenário para a teoria de Kelly da personalidade. Também foi durante esse período que Kelly chegou à conclusão de que as queixas que os professores e os pais faziam sobre seus alunos e filhos tinham pouco valor descritivo para se entender o mundo da pessoa que estava sendo diagnosticada. Kelly também começou a oferecer aos clientes esbo­ços de pessoas diferentes e pedir-lhes que experimen­tassem, fingindo ser essa outra pessoa. Isso tornou-se a base da terapia de papel fixo de Kelly e também levou-o a estabelecer sua analogia do homem-cientista. Em resumo, esta foi uma época fértil, durante a qual Kelly desenvolveu os fundamentos dos insights clínicos e de personalidade que publicou posteriormente.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Kelly recebeu um posto no Aviation Psychology Branch do Bureau of Medicine and Surgery da Marinha. Depois da guerra, ele trabalhou como professor-associado na Universidade de Maryland. Em 1946, tornou-se pro­fessor e diretor de psicologia clínica na Universidade Estadual de Ohio. Juntamente com Julian Rotter, Kelly levou o programa de psicologia clínica dessa uni­versidade a uma posição de proeminência nacional. Foi aí, em 1955, que Kelly publicou sua obra mais importante, The Psychology of Personal Constructs. Ele deixou essa universidade em 1965 para assumir a Ridus Chair of Behavioral Science na Universidade de Grandels, onde morreu prematuramente em 1967. Durante sua carreira, Kelly foi presidente das Divi­sões Clínica e Consultiva da Associação Psicológica Americana e do American Board of Examiners in Professional Pshychology. Ele também proferiu palestras por todos os Estados Unidos e pelo mundo afora.

Suposições Básicas

Kelly fundamentou sua teoria em uma série de suposições, e elas constituem um bom ponto de partida para a nossa discussão da teoria.

Alternativismo Construtivo

Esse é o título do primeiro capítulo da apresentação mais importante de Kelly (1955) de sua teoria. Kelly supôs que nós poderíamos compreender de várias maneiras o mundo que nos cerca; isto é, sempre exis­tem perspectivas alternativas que podemos escolher quando lidamos com o mundo. Conforme Kelly colo­ca: “Nós supomos que todas as nossas presentes inter­pretações do universo estão sujeitas à revisão ou à recolocação... sempre existem algumas construções alternativas entre as quais podemos escolher ao lidar com o mundo. Ninguém precisa pintar a si mesmo como em uma situação sem saída; ninguém precisa ser completamente encurralado pelas circunstâncias; ninguém precisa ser a vítima da sua biografia. Nós chamamos essa posição filosófica de alternativismo construtivo”(1955, p. 15). Observem como tal posi­ção é otimista, e como é extraordinariamente dife­rente da posição freudiana de determinismo da infân­cia ou da posição de Skinner da história de reforço e controle de estímulos. Em muitos aspectos, a suposi­ção de Kelly lembra a posição de Alfred Adler de que as falhas do homem “se devem a uma concepção er­rônea da vida. Ele não precisa ser oprimido por elas. Ele pode mudar. O passado está morto. Ele está livre para ser feliz. Na verdade, Kelly (1964) citou aprovadoramente a "filosofia do 'como se'" de Hans Vaihinger, e observou no mesmo artigo o paralelo com Adler, Kelly estava propondo que as pessoas são livres para escolher como querem ver o mundo, e seu comportamento decorre dessas escolhas.

Existem muitas implicações importantes nessa posição. Por exemplo, ela representa uma combinação do que geralmente é chamado de livre arbítrio e determinismo: e qualquer momento dado do tempo, o nosso comportamento é determinado pela nossa construção da realidade, mas somos livres para mudar tal construção ao longo do tempo. Kelly não estava sugerindo que as construções ou as interpretações alternativas estão certas ou erradas, e sim que elas têm implicações diferentes para o comportamento. As pessoas diferem, e diferem também através do tempo, porque são guiadas por construções ou interpretações alternativas do mundo. O aluno pode notar como essa suposição é semelhante à descrição de Henry Murray (ver Capítulo 6) da pressão beta. Observe também como passa a ser crítico que o clínico com­preenda a construção que o cliente faz da realidade.

Homem-Cientista

Os teóricos freqüentemente adotam metáforas em sua tentativa de compreender o comportamento. Por exemplo, Freud empregou a metáfora da vida mental como um campo de batalha entre impulsos e proibi­ções. Kelly adotou a metáfora do homem-cientista. Ele achava que devemos pensar nas pessoas vivendo suas vidas de uma maneira análoga a cientistas formulan­do e testando teorias. Isto é, assim como os cientistas, os indivíduos desenvolvem hipóteses sobre as conse­qüências de seu comportamento e avaliam a validade dessas hipóteses em termos da exatidão de suas pre­dições: o que eu esperava que acontecesse quando agi daquela maneira de fato aconteceu? Exatamente como um cientista, o indivíduo está tentando predi­zer e controlar as conseqüências do comportamento, saber o que vai acontecer. Os cientistas tentam cons­truir teorias que levem a predições cada vez melho­res, e os indivíduos tentam construir sistemas antecipatórios que lhes permitam compreender cada vez melhor o que vai acontecer se eles agirem de certa maneira. O bom cientista muda as hipóteses que são refutadas pelos dados, e a pessoa sadia muda constructos pessoais que se originam de predições refuta­das pela experiência. A pessoa não-sadia, pelo con­trário, é um “mau cientista”: ela tem uma teoria sobre conseqüências (principalmente conseqüências inter­pessoais) que não funciona, mas não consegue mudá-la. Conforme Kelly colocou: "A pessoa vive sua vida tentando alcançar o que vem a seguir e os únicos ca­nais que ela tem para conseguir aquilo são as suas construções pessoais daquilo que pode realmente es­tar acontecendo” (1955, p. 228).

Kelly (1963, p. 60-61) descreveu como ele che­gou a essa conclusão na seguinte passagem:

“Uma das minhas tarefas na década de 30 era ori­entar alunos que estavam fazendo mestrado. Uma tarde típica poderia me encontrar conversando com um aluno às 13 horas, fazendo todas aquelas coisas que os orientadores têm de fazer - estimu­lar o aluno a identificar as questões, a observar, a familiarizar-se com o problema, a criar hipóteses indutivamente ou dedutivamente, a fazer alguns testes preliminares, a relacionar os dados às suas predições, a controlar seus experimentos de modo a saber o que levou a que, a generalizar cautelo­samente e a revisar seu pensamento à luz da ex­periência.

“As 14 horas, eu poderia ter uma sessão com um cliente. Nessa entrevista eu não estaria assumin­do o papel do cientista, mas ajudando a pessoa perturbada a encontrar algumas soluções para seus problemas de vida. Então o que eu faria? Bem, eu tentaria fazer com que ele identificasse as ques­tões, observasse, se familiarizasse com o proble­ma, criasse hipóteses, fizesse alguns testes, rela­cionasse resultados a antecipações, controíass; suas aventuras de modo a saber o que levou a que, generalizasse cautelosamente, e revisasse seus dogmas à luz da experiência.

“As 15 horas eu atenderia um outro aluno. Prova­velmente ele estaria desinteressado e relutante; esperando planejar um experimento que sacudiria o mundo antes sequer de olhar para seu pri­meiro sujeito para ver em primeira mão com o que estava lidando; atirando-se a uma expedição irrefletida e grandiosa de busca de dados. Então eu tentaria novamente fazer com que ele identifi­casse as questões, observasse objetivamente, se familiarizasse com o problema, criasse hipóteses - tudo o que eu tivera de fazer às 13 horas.

“As 16 horas outro cliente! Adivinhem! Ele esta­ria desinteressado e relutante; esperando proje­tar uma personalidade completamente nova an­tes de se aventurar em sua primeira mudança de comportamento; atirando-se a uma atuação irre­fletida para escapar ao problema, etc, etc. Mas essa, é claro, não era a minha hora de ciência; era a minha hora de psicoterapia. E o que eu fizera com aquele aluno da hora anterior obviamente não fora psicoterapia - fora ciência!

Devo dizer que esse tipo de coisa aconteceu por um longo tempo antes de me ocorrer que na ver­dade eu fazia a mesma coisa a tarde inteira.”  A chave para se compreender o comportamento humano é reconhecer que as pessoas estão tentando antecipar as conseqüências de suas ações, e a chave para a personalidade é identificar os constructos pes­soais que as pessoas usam para gerar suas predições.

Foco no Constructor

Como vimos, a ênfase de Kelly foi em como o indiví­duo constrói, interpreta, ou compreende o mundo. No processo de chegar a esse entendimento, todavia, ele precisa cuidar para não confundir a nossa maneira de interpretar a realidade com como a realidade realmente é ou deveria ser vista. Quando uma pessoa faz alguma declaração sobre o mundo, nós devemos compreender essa declaração como revelando mais sobre a pessoa que a emitiu do que sobre a realidade. Kelly argumentou que as declarações sobre as pessoas ou outros aspectos do mundo devem ser considerados como proposições ou hipóteses, mas tanto os psicólolos como as pessoas leigas cometem o erro de tratá-las como afirmações factuais a serem endossadas ou ajeitadas. Kelly estava argumentando que nós acabamos prisioneiros da nossa linguagem e explica isso na sequinte passagem:

"Ocasionalmente posso dizer sobre mim mesmo ... ‘Eu sou introvertido’. ‘Eu’, o sujeito, ‘sou intro­vertido’, o predicado. A forma de linguagem da declaração coloca claramente o ônus de ser um introvertido sobre o sujeito - eu. O que eu real­mente sou, dizem as palavras, é introvertido ... Mas a interpretação adequada da minha declara­ção é que eu me vejo ou interpreto como intro­vertido, ou, se estou apenas sendo recatado ou desonesto, estou levando meu interlocutor a ver­ me ou interpretar em termos de introversão. O ponto que se perde nessa confusão de palavras é o fato psicológico de que me identifiquei em ter­mos de um constructo pessoal - ‘introversão’. Se meu interlocutor é suficientemente sem crítica para ser enganado por essa sutileza de palavras, ele pode perder muito tempo acreditando que precisa me ver como introvertido ou discordando
disso ... Mas, além disso, se eu digo a meu res­peito que sou introvertido, posso ficar preso na minha própria armadilha sujeito-predicado. Até o self interior - eu mesmo - fica sobrecarregado pelo ônus de realmente ser um introvertido ou de encontrar alguma maneira de livrar-se da introversão que pesa sobre minhas costas ... Eu me deparo com o dilema de ter de continuar a decla­rar que sou introvertido ou que não sou - ou um ou outro. Mas será que isso necessariamente é assim? a introversão não poderia se revelar um constructo totalmente irrelevante? ... Quando eu digo que o sapato do pé esquer­do do professor Lindzey é ‘introvertido’, todo mundo olha para o seu sapato, como se ele fosse responsável por essa afirmação. Ou se eu digo que a cabeça do professor Cattell é ‘discursiva’, todo mundo olha para ele, como se a proposição tives­se saído da cabeça dele, e não da minha. Não olhem para a cabeça dele! Não olhem para aque­le sapato! Olhem para mim: eu sou o responsável pela declaração. Depois de entender o que eu que­ro dizer, vocês podem olhar para ver se compre­endem sapatos e cabeças, interpretando-os como eu faço. Não será fácil fazer isso, pois significa abandonar uma das maneiras mais antigas de pen­sar e de falar consigo mesmo.” (1958, p. 70-72)

Motivação

Os componentes motivacionais das teorias da perso­nalidade destinam-se a explicar as forças que compe­lem as pessoas a agir de certas maneiras. Entretanto, de modo parecido com Carl Rogers (ver Capítulo 11) e B. F. Skinner (ver Capítulo 12), Kelly propôs que “motivação” é um constructo desnecessário e redun­dante. Ele tinha duas objeções fundamentais. Primei­ro, os modelos motivacionais são usados para expli­car por que uma pessoa é ativa ao invés de inerte. Mas, segundo Kelly, as pessoas são ativas por defini­ção, de modo que não precisamos explicar o “porquê” delas serem ativas: elas são ativas porque estão vivas! A motivação também é usada para explicar por que as pessoas agem de uma maneira e não de outra. Kelly argumentou que as pessoas agem como agem não devido a forças que atuam sobre elas ou dentro delas, mas devido às alternativas que percebem em função de sua interpretação do mundo. Em conseqüência, devemos dirigir a nossa atenção para o entendimento de como a interpretação individual da realidade canaliza o comportamento, e não para as forças motiva­doras que compelem esse comportamento. Segundo, coerente com a ênfase no constructor, Kelly rejeitava os motivos como rótulos que impomos aos outros. Esses rotulos têm mais utilidade para compreender­mos a visão de mundo da pessoa que os oferece do que o comportamento da pessoa que está sendo rotulada.

Kelly (1958, p.81) resumiu sua posição acerca da motivação conforme segue: “As teorias motivacionais podem ser divididas em dois tipos: teorias do ‘empur­rão’ e teorias do ‘puxão’. Nas teorias do empurrão, nos encontramos termos como pulsão, motivo, ou até estímulos. As teorias do puxão usam constructos como propósito, valor ou necessidade. Em termos de uma metáfora bem-conhecida, essas são as teorias do for­cado, por um lado, e as teorias da cenoura, por outro. Mas a nossa teoria não é nenhuma delas. Já que pre­ ferimos examinar a natureza do próprio animal, provavelmente é melhor chamar a nossa teoria de teoria do jumento.”

Ser Si Mesmo

De uma forma ou outra, o autoconceito do indivíduo ocupa um papel central na maioria das teorias da per­sonalidade. Não existe nenhum “agente” interno na teoria de Kelly análogo ao ego nas abordagens de Freud ou de Murray, mas ele falou sobre os construc­tos de papel nuclear que usamos para compreender nosso comportamento. Além disso, Kelly ergueu duas objeções a formulações sobre o self. Primeiro, elas geralmente funcionam como máscaras atrás das quais nos escondemos de nós mesmos e dos outros. Pensar em si mesmo como “introvertido” é impor um rótulo de self que cria expectativas de comportamento. Em muitos aspectos, isso é semelhante à idéia de Jung da “inflação da persona”. Segundo, Kelly via a auto-imagem como fluida, não como uma realidade predeter­minada ou uma verdade que de alguma forma deve­mos revelar. Se a interpretação da pessoa de quem ela é se mostrar problemática ou ineficaz, a pessoa deve mudá-la. Mais uma vez, deixemos que Kelly (1964, p. 157-158) fale por si mesmo:

"Muito se fala atualmente sobre ser si mesmo. Imaginamos que é saudável ser si mesmo. Embo­ra seja um pouco difícil para mim entender como alguém poderia ser qualquer outra coisa, suponho que o que se quer dizer é que a pessoa não deveria tentar ser aquilo que ela não é. Isso me parece uma maneira muito sem graça de viver de fato, eu estaria inclinado a argumentar se todos nós estaríamos bem melhor se tentássemos.
O que estou dizendo é que o que conta não é tanto o que o homem é, e sim o que se aventura a tornar-se. Para dar o salto, ele precisa fazer mais do que se revelar, ele precisa arriscar-se a certa confusão. Então, assim que consegue vislumbrar uma maneira diferente de vida, ele precisa encontrar uma maneira de superar o momento paralisante de ameaça, pois é nesse instante que ele se pergunta qual é a realidade - se ele é o que era um pouco antes ou o que está prestes a ser.”

Constructos pessoais 

Vimos que a teoria de Kelly depende da compreensão de como os indivíduos interpretam seu mundo. A uni­dade fundamental empregada por Kelly para esse pro­pósito é o constructo pessoal: “Um constructo é a ma­neira pela qual algumas coisas são interpretadas como sendo parecidas e no entanto diferentes de outras" (Kelly, 1955, p. 105). Como veremos adiante neste capítulo, os constructos são definidos por identificar uma distinção em que dois objetos são semelhantes e diferentes de um terceiro objeto. Por exemplo, uma pessoa poderia pensar em seu pai e em sua mãe como inteligentes, mas em seu melhor amigo como não-inteligente. Dizer que uma pessoa é inteligente implica que pelo menos uma outra pessoa também é inteli­gente e no mínimo outra não é inteligente.

Esse exemplo ilustra o aspecto distintivo dos cons­tructos: eles são bipolares. Assim, o constructo do úl­timo parágrafo é inteligente versus não-inteligente. A nossa interpretação basica do mundo é em termos dicotômicos, alternativas ou-ou, não em termos de escalas ou contínuos; o nosso julgamento fundamen­tal é se um objeto é bom ou mau, não quão bom ele é. Além disso, cada constructo tem um intervalo muito limitado de aplicação, ou intervalo de conveniência. O  constructo inteligente versus não-inteligente, por exem­plo, é útil para fazer predições sobre pessoas, sobre cães e gatos e sobre ratos de laboratório, mas não so­bre árvores; as árvores estão fora do intervalo de con­veniência deste constructo. Da mesma forma, o foco de conveniência de um constructo se refere à classe de objetos para a qual ele é mais relevante (as pessoas, presumivelmente, no nosso exemplo de inteligente vs. não-inteligente). Os constructos diferem em permea­bilidade, ou na facilidade com que podem ser estendi­dos a novos objetos ou eventos. Os constructos tam­bém podem ser preemptivos, constelatórios ou preposicionais. No caso de um constructo preemptivo, nada mais sobre o objeto importa. Em época de guerra, por exemplo, a distinção essencial que um solda­do precisa fazer é inimigo vs. amigo. Se alguém é in­terpretado como inimigo, não importa se essa pessoa é homem ou mulher, simpática ou antipática. O uso de um constructo constelatório desencadeia outros constructos, sem informações adicionais. Uma pessoa que chamamos de sexista, por exemplo, poderia, além de interpretar uma pessoa como mulher e não como homem, vê-la como passiva em vez de ativa, como emotiva em vez de não-emotiva e como caprichosa em vez de lógica. As outras poderiam usar homem versus mulher como um constructo proposicional; neste caso, designar uma pessoa como mulher não levaria a nenhum outro julgamento. Uma distinção final é entre constructo nuclear e periférico. Os construtos nucleares são centrais para o senso da pessoa de quem ela é, e como tal, são relativamentes resistentes à mudanças. Os constructos periféricos são menos fundamentais, e como tais, são mais suscetíveis à mudança.

O sistema de constructos pessoais do indivíduo é usado para compreender o mundo. Apesar de Kelly referir-se aos constructos como moldes, ou como análogos a grandes óculos que distorcem e estruturam o nundo de certas maneiras, o leitor não deve supor que eles são apenas mecanismos perceptivos. Pelo contrário, eles mal começam a capturar as nuanças envolvidas na percepção do mundo físico. O sistema
de constructos estrutura a realidade para que possamos antecipar eventos: “Criar constructos pode ser visto como amarrar conjuntos de eventos em feixes convenientes, de fácil manejo para a pessoa que tem de carregá-los. Os eventos, quando assim amarrados, tendem a tornar-se predizíveis, manejáveis e controlados” (1955, p. 126). Kelly está sugerindo que um constructo oferece um “caminho de movimento”, no sentido de uma escolha dicotômica entre percepções alternativas ou ações alternativas. Os constructos li­mitam as nossas possibilidades e oferecem-nos “caminhos de liberdade de movimento”.

Escalas

A natureza dicotômica dos constructos parece contrá­ria à experiência, porque todos nós achamos que in­terpretamos o mundo em termos de gradações, não de alternativas exclusivas. Os nossos conhecidos vari­am em inteligência, cordialidade, dominação, etc. (um conjunto de diferenças nas quais se baseiam os mode­los de traço da personalidade), e parece artificial ig­norar essas distinções. Uma analogia com o computa­dor pode ajudar. Um computador baseia-se em distinções exclusivas; um bit tem uma carga positiva ou negativa, e não há gradações envolvidas. No en­tanto, combinando-se bits, podemos construir progra­mas de computador de incrível complexidade. Da mesma forma, Kelly (1955, p. 142-145) descreveu como os constructos dicotômicos podem ser usados para se construir escalas supra-ordenadas, contínuas. Suponha que empregamos o constructo inteligente versus não-inteligente para observar três pessoas em dez ocasiões diferentes. A primeira pessoa pode ter mostrado um comportamento inteligente em oito das ocasiões, a segunda, em cinco das ocasiões, e a tercei­ra, em duas das ocasiões; a combinação das ocasiões nos permite escalar essas três pessoas em termos de seu grau de comportamento inteligente, criando o que Kelly chama de “escala de acumulação”.

Imagine também um tipo mais complicado de es­cala. Suponha que uma pessoa tem um constructo supra-ordenado de bom versus mau que inclui cons­tructos subordinados de jovem versus velho, republi­cano versus democrata, homem versus mulher e psi­cólogo versus não-psicólogo, em que a primeira alternativa sempre é “bom”. Se atribuirmos a cada pessoa um ponto em uma escala de “bondade” para cada característica boa, então um jovem psicólogo re­publicano tem um escore total de 4, uma jovem psi­cóloga democrata recebe um escore de 2, e uma ve­lha não-psicóloga democrata recebe um escore de 0. Dessa maneira, a pessoa converteu um conjunto de constructos bipolares no que Kelly chama de uma “es­cala aditiva”. Kelly ofereceu numerosos exemplos de scalas, mas essa extensão importante e razoável de seu modelo básico é freqüentemente ignorada.

O Postulado fundamental e seus corolários

Kelly (1955, p. 46-104) enunciou sua teoria na forma de um postulado fundamental e 11 corolários (ver Tabela 10.1). Nós anteriormente consideramos temas relativos aos corolários de dicotomia, intervalo e mo­dulação, e trataremos agora das nove declarações res­ tantes.

Postulado Fundamental

Os processos de uma pessoa são psicologicamente canalizados pelas maneiras por meio das quais ela antecipa eventos. 

O postulado fundamental de Kelly e os 11 Corolários

Esse postulado é o núcleo da posição de Kelly. Nele, Kelly propõe que o entendimento que a pessoa tem do mundo e seu comportamento neste mundo (“processos”) são dirigidos (“canalizados”) por uma rede existente de expectativas em relação ao que vai acon­tecer se ela agir de determinada maneira (“antecipa eventos”). Os vários outros aspectos desse postulado são dignos de nota. Primeiro, Kelly não estava suge­rindo que é assim que as pessoas verdadeiramente são: ele estava dizendo “vamos supor” que é assim que as pessoas funcionam e ver quão bem podemos explicar tal comportamento. Segundo, ele levou a sério o foco na pessoa: o postulado focaliza o indivíduo, não “al­guma parte da pessoa, ou algum grupo de pessoas ou algum processo específico manifestado no comporta­mento da pessoa" (1955, p. 47). Nessa atitude, Kelly
é consistente com outros teóricos da personalidade. Finalmente, Kelly referiu-se à antecipação porque acre­dita que os indivíduos, como os protótipos de cientis­ta que são, buscam a predição: “A antecipação é tanto um empurrão quanto o puxão da psicologia dos constructos pessoais” (1955, p. 49).

Corolário de Construção

Uma pessoa antecipa eventos ao interpretar suas reproduções. 

Kelly esclareceu sua posição básica nesse corolário. Os dois termos-chave aqui são “interpretar” e “reproduções”. Por “interpretar” Kelly quer dizer usar o sistema de constructos pessoais para dar uma interpretação a um evento, e tal interpretação dá significado ao evento. Por “reprodução” Kelly que rdizer usar a experiência para identificar temas recorrentes nos significados de eventos. Nós então usamos o nosso entendimento desse evento para fazer predições sobre o que provavelmente acontecerá, com base no que aconteceu em eventos similares no passado. Construir expectativas com base na experiência, não a simples categorização de eventos, está no âmago do modelo de Kelly. Poderíamos pensar nisso como uma versão "cognitiva” da história de reforço de Skinner. Uma analogia ainda melhor é com as antecipações e as expectativas introduzidas pelos teóricos da aprendizagem social (ver Capítulo 14).

Corolário de Organização

Cada pessoa desenvolve caracteristicamente um sistema de interpretação que abrange relacionamentos ordinais entre constructos, para ajudar na antecipa­ ção de eventos. 

Dois tipos de relacionamentos ordinais entre constructos: (a) estendendo a linha de clivagem; (b) ascendendo por meio da linha de clivagem

Cada indivíduo organiza seus constructos em um sistema hierárquico que caracteriza sua personalida­de. Esse sistema muda ou evolui continuamente de acordo com a experiência. O termo-chave nesse coro­lário é “relacionamentos ordinais”, pelo qual Kelly quer dizer que um constructo pode incluir outro como um de seus elementos. Ele usou um constructo de bom versus mau para ilustrar duas maneiras pelas quais isso pode ocorrer (ver Figura 10.10). Primeiro, bom versus mau pode incluir o constructo de inteligente versus burro ao “ampliar sua clivagem”. Nesse exem­plo, “bom” incluiria todas as coisas inteligentes bem como outras características, como moral e bravo. “Mau” incluiria todas as coisas burras bem como imo­rais e covardes. Na terminologia de Kelly, bom versus mau é um constructo superordinal, e inteligente ver­sus burro é um constructo subordinal. Alternativamen­te, um constructo superordinal de avaliativo versus descritivo pode “abstrair por meio da linha de cliva­gem” do constructo subordinai de inteligente versus burro. Nesse caso, todo o constructo de inteligente versus burro está incluído como um tipo “avaliativo” de constructo. Ao contrário, um outro constructo de claro versus escuro poderia ser considerado apenas “descritivo”.

Kelly estava sugerindo que as pessoas sistemati­zam seus constructos, organizando-os em hierarqui­as. Essa organização é fluida, e os relacionamentos ordinais podem inclusive inverter-se com o passar do tempo. A questão para Kelly não era a autoconsistência das estruturas psicológicas, mas o desenvolvimen­to de um sistema que levasse em conta a antecipação acurada de eventos ao identificar temas que se repetem.

Corolário de Fragmentação

Uma pessoa pode empregar sucessivamente uma va­riedade de subsistemas de interpretação inferencialmente incompatíveis entre si. O sistema de interpretação está continuamente em fluxo, e a evolução do sistema de interpretação é tal que os constructos específicos de uma pessoa e os comportamentos específicos resultantes podem não ser completamente consistentes ao longo do tempo. Uma vez que a pessoa busca continuamente um siste­ma de interpretação que produza melhor antecipa­ção, o comportamento em certo momento pode pare­cer incompatível com o comportamento imediata­mente precedente, porque os constructos governan­tes mudaram. Kelly via isso como um corolário im­portante, porque ele deixa claro que a única maneira de se compreender o comportamento é em termos do sistema de interpretação corrente ou “reinante”, não do comportamento imediatamente antecedente. O comportamento nem sempre será consistente ao lon­go do tempo ou das situações, mas ele sempre será consistente com o atual sistema de interpretação ou constructos.

Corolário de Experiência

O sistema de interpretação de uma pessoa varia con­forme ela interpreta sucessivamente as reproduções de eventos. As interpretações que damos aos eventos repre­sentam hipóteses sobre as conseqüências dos compor­tamentos, e nós usamos os resultados reais para “vali­dar” o sistema de constructos, exatamente como o cientista usa os dados para validar uma teoria. Nós revisamos continuamente as nossas antecipações di­ante dos resultados e, nesse processo, o sistema de constructos sofre uma evolução progressiva. Kelly usou “experiência” para referir-se à sucessiva interpretação de eventos, não à seqüência de eventos em si: “Não é o que acontece ao redor dele que torna um homem experiente; é a sucessiva interpretação e reinterpretação daquilo que acontece, à medida que acontece, que enriquece a experiência de sua vida” (1955, p. 73). A reprodução de eventos da qual depende o com­portamento envolve a experiência de abstrair temas recorrentes de uma seqüência de eventos únicos. Os resultados inesperados e a violação das expectativas nos obrigam a modificar os nossos sistemas de cons­tructos. Por fim, o leitor deve notar que a discussão de Kelly da experiência incluiu o tópico usual da apren­dizagem. Como a motivação, a aprendizagem faz parte do processo geral de antecipação e de reinterpretação no sistema de Kelly.

Corolário de Escolha

Uma pessoa escolhe aquela alternativa, em um constructo dicotomizado, pela qual ela antecipa a maior possibilidade de extensão e definição de seu sistema.

Esse é o mais difícil dos corolários de Kelly. O pos­tulado fundamental descreve como o comportamen­to é canalizado pelos constructos, e o corolário de es­colha revela que o comportamento se reduz a uma escolha entre definir melhor o sistema de constructos existente e agir de uma maneira que amplie o inter­valo de conveniência do sistema de constructos. Ima­ginem uma aluna que precisa escolher entre dois cur­sos. Um deles é o seu campo mais importante de estudo, de modo que ela tem uma boa idéia do que esperar. Selecionar esse curso seria a escolha “segura”, porque definiria melhor sua capacidade existente de antecipar os resultados. O outro curso é em um campo no qual ela não tem nenhum conhecimento. Selecionar esse curso seria arriscado ou “temerário”, porque a faria imergir em uma situação na qual ela tem pouca base para antecipar os resultados. Depois de designar os eventos para os pólos dos constructos, nós nos deparamos com a “escolha elaborativa” a ser orientada pelo pólo/comportamento seguro ou arris­cado. Segundo Kelly (1955, p. 65), o indivíduo “colo­ca valores relativos nas extremidades de suas dicoto­mias” e então precisa escolher uma das alternativas. A vida não é apenas interpretação; é escolha baseada nessa interpretação, e a escolha será feita em favor da alternativa que parece no momento oferecer a me­lhor base para melhorar a subseqüente antecipação de eventos. Tal corolário separa Kelly claramente dos outros teóricos: ele afirmava que a busca de uma an­tecipação cada vez melhor dos eventos, não o prazer, o reforço, a autodefesa ou a autoconsistência, é “a essência da vida humana em si” (1955, p. 68). Obser­vem também como a terminologia de Kelly de “exten­são e definição” é semelhante à discussão de Carl Rogers (ver Capítulo 11) da maneira como a tendência de realização serve para “manter e realçar” o organis­mo. Os meios usados pelos indivíduos para fazer a es­colha elaborativa não estão claros, mas Kelly descre­veu um ciclo C-P-C (circunspecção-preempção-controle) que as pessoas tipicamente atravessam ao decidir como agir. Retornemos à aluna que está tentando de­cidir em qual curso vai se matricular. Seu primeiro passo é o da circunspecção, ou identificar todos os constructos disponíveis possíveis. Por exemplo, o cur­so é no nível introdutório ou superior, difícil ou fácil, conhecido ou desconhecido, e assim por diante. O segundo passo é a preempção, ou identificar uma di­mensão como a dimensão crítica. A nossa aluna, por exemplo, poderia decidir que a questão mais impor­tante é se o curso é conhecido ou desconhecido. O passo final é o do controle, em que é feita uma esco­lha entre os pólos opostos do constructo selecionado. A aluna pode decidir que quer ampliar sua perspecti­va e, portanto, fazer o curso que é desconhecido.

Kelly também descreveu um ciclo de criatividade para gerar novos constructos. Essa seqüência começa quando a pessoa “afrouxa” sua atual construção do mundo a fim de experimentar novas e flexíveis interpretações dele. Na terapia, o processo de exploração pode ser facilitado pelo uso de sonhos, fantasias ou associação livre. De alguma forma, a pessoa explora, por ensaio e erro, uma nova abordagem. O truque, escreveu Kelly, “é deixar nascer essas interpretações sem perder de vista o que elas são e sem assustar-se com suas monstruosas implicações” (1965, p. 128). Na outra extremidade do ciclo, a pessoa começa a "apertar” o constructo, testando sua consistência em comparação com constructos existentes e validando as resultantes antecipações comportamentais. Kelly sugeriu que tal processo cíclico está profundamen­te envolvido no empreendimento da pesquisa psicológica.

Corolário de Individualidade

As pessoas diferem umas das outras na sua interpre­tação dos eventos. As diferenças fundamentais entre os indivíduos residem na sua interpretação alternativa dos eventos e na antecipação das conseqüências, conforme con­troladas por seus sistemas de constructos distintos. Em outras palavras, as pessoas diferem não apenas porque foram expostas a eventos diferentes, mas tam­bém porque desenvolveram abordagens diferentes na antecipação dos mesmos eventos.

Corolário de Comunalidade

Na extensão em que uma pessoa emprega uma inter­pretação da experiência que é semelhante à emprega­da por outra pessoa, seus processos psicológicos são semelhantes aos da outra pessoa.

Assim como as interpretações diferentes de even­tos levam a diferenças individuais, uma interpretação similar dos eventos leva as pessoas a se comportarem de maneira semelhante. Observe que Kelly está pro­pondo que as ações semelhantes decorrem não da exposição a eventos idênticos, mas de interpretações semelhantes de eventos. Usando essa abordagem, Kelly explicou semelhanças dentro da cultura em termos de expectativas semelhantes, tanto expectativas em relação ao que os outros farão como expectativas em relação ao que os outros esperam que nós façamos.

Corolário de Sociabilidade

Na extensão em que uma pessoa interpreta os proces­sos de construção de outra, ela pode desempenhar um papel em um processo social, envolvendo a outra pessoa.

A apresentação mais importante de Kelly (1955) de sua posição enfatizou, em uma grande extensão, os relacionamentos interpessoais e terapêuticos, e o corolário de sociabilidade é crítico para o entendimen­to desses relacionamentos. Ao contrário do corolário da comunalidade, esse corolário discute o entendimen­to e não a semelhança real. Kelly acreditava que as pessoas só podem se envolver em relacionamentos significativos se compreendem os processos de interpre­tação umas das outras. A ausência do entendimento impede a comunicação e a interação efetivas. O cha­mado conflito de gerações entre pais e adolescentes pode ser maravilhosamente explicado nesses termos.

Kelly (1955, p. 97) definiu um papel como “um processo psicológico baseado na interpretação que o ator faz de aspectos dos sistemas de interpretação das pessoas às quais ele tenta reunir-se em um empreen­dimento social”. Em outras palavras, um papel é um padrão de comportamento que reflete o entendimen­to da pessoa de como os outros do grupo pensam. Uma elaboração do conceito de Kelly de papel está além do escopo deste texto, mas ele proporciona a base de sua terapia de papel fixo e do Role Construct Repertory Test, discutido mais adiante neste capítulo.

O Contínuo da consciência cognitiva

Kelly deixou claro que nem todos os constructos exis­tem em uma forma verbal, e eles podem não estar facilmente acessíveis à consciência. Entretanto, em vez de reverter a uma noção do inconsciente, ele introdu­ziu o que chamou de contínuo da “consciência cogni­tiva”. Os constructos pré-verbais, os constructos sub­mersos e os elementos suspensos caracterizam-se por uma baixa consciência cognitiva e poderiam, sob ou­tros aspectos, ser descritos como “inconscientes”.

Os constructos são tipicamente representados e modificados como palavras. Mas assim como Henry Murray descreveu complexos pré-verbais, Kelly indi­cou que é possível que constructos pessoais se estabe­leçam antes que a pessoa tenha a capacidade de re­presentá-los. Já que os constructos pré-verbais não estão codificados em uma forma lingüística, eles não podem ser articulados, mas continuam exercendo in­fluência sobre o comportamento. Dado o período de tempo em que foram estabelecidos, esses constructos tendem a centrar-se em dependência, confiança e outras preocupações infantis.

Cada constructo é definido em termos de dois pólos, mas ocasionalmente as pessoas agem como se um pólo do constructo não estivesse disponível. Por exemplo, uma pessoa pode interpretar o mundo em termos de infelicidade, sem o aparente reconhecimen­to de que logicamente deve existir também um pólo de felicidade. Quando um pólo está consideravelmente menos disponível do que o outro, Kelly disse que ele foi submerso. Uma vez que esse pólo está indisponí­vel, podemos considerá-lo inconsciente.

Um pólo de um constructo fica submerso por al­guma razão, e isso lembra muito o conceito freudiano de repressão como esquecimento motivado, mas Ke­lly preferiu conceitualizar a repressão em termos de elementos suspensos. No sistema de Kelly, as idéias e as memórias só estarão disponíveis se existirem cons­tructos para representá-las. À medida que o sistema de constructos se modifica, alguns elementos podem ficar indisponíveis para a consciência, porque a pes­soa não tem como recuperá-los e representá-los. O elemento continuará existindo em uma forma suspensa e poderá ser recuperado se mudanças posteriores no sistema de constructos proporcionarem acesso a ele. Por exemplo, um homem pode empregar um cons­tructo de bom versus mau para interpretar a memória de seu pai gritando com ele. Se esse constructo mu­dar, a memória pode ficar indisponível, mas pode re-emergir quando o homem mais tarde desenvolver um constructo de abusivo versus apoiador. Mais uma vez, todavia, não é o afeto que orienta o processo de sus­pensão, como acontece no modelo freudiano: “A nos­sa teoria não coloca a ênfase no lembrar o que é agra­dável ou esquecer o que é desagradável; ela enfatiza que nós lembramos o que está estruturado e esquece­mos o que não está estruturado. Em contraposição com algumas noções de repressão, a suspensão impli­ca que a idéia ou o elemento da experiência é esque­cido simplesmente porque a pessoa não consegue, no momento, tolerar nenhuma estrutura em que a idéia tenha significado” (1955, p. 473). Em resumo, Kelly propôs que os constructos diferem no nível de consci­ência cognitiva, variando dos claramente articulados, com dois pólos salientes, àqueles cuja estrutura os torna relativamente inacessíveis.

Constructos sobre mudança

Kelly também propôs redefinições de várias palavras conhecidas referentes ao afeto, em termos da inade­quação do sistema de constructos existente e da mudança subseqüente. Por exemplo, ele definiu ansiedade como “o reconhecimento de que os eventos com os quais nos deparamos estão fora do intervalo de con­veniência do nosso sistema de constructos” (Kelly, 1955, p. 495). A ansiedade resulta de depararmo-nos não com um evento aversivo, mas com um evento incognoscível. Além disso, a ansiedade pode proporcio­nar o ímpeto para a reorganização e o desenvolvimento sadio do sistema de constructos ou pode levar a pessoa a manobras defensivas que resultam em pólos submersos ou elementos suspensos, conforme discutido na seção anterior. A apreensão que os universitários freqüentemente sentem quando se deparam com a nova realidade da vida universitária se ajusta bem à concepção de ansiedade de Kelly. Um exemplo menos óbvio de ansiedade seria quando um aluno acostumado a receber notas medíocres recebe um A em um exame; isso certamente não é um evento ruim, mas é suficientemente inesperado para produzir um estado de ansiedade. Da mesma forma, a hostilidade reflete não assertividade em um sentido violento, mas assertividade em um sentido cognitivo: “o continuado esforço de extorquir evidência validacional em favor de um tipo de predição social que já provou ser um fracasso” (1955, p. 510). A ameaça se refere à “consciência de uma mudança iminente de grande alcance nas nossas estruturas nucleares” (1955, p. 489). Tal­vez o mais interessante em tudo isso é que Kelly definiu culpa como a “percepção do aparente desalojamento da pessoa de sua estrutura de papel nuclear” 1955, p. 502). As estruturas de papel nuclear se referem a como a pessoa compreende seu relacionamento com as outras pessoas significativas; portanto, existe culpa quando a pessoa percebe que violou uma expectativa ou um relacionamento de papel importan­te. Uma mãe recente que percebe que não tratou o filho de maneira aceitável ou o filho que percebe que abandonou os pais idosos sentirão a culpa que Kelly descreve. O leitor deve notar como a dinâmica da culpa é semelhante aos processos que Freud descreve em termos do superego (ver Capítulo 2), que Rogers descreve em termos de ansiedade (ver Capítulo 11) e que Sandura descreve em termos de auto-sistema (ver lapítulo 14). Essas são redefinições provocativas, e demonstram convincentemente o valor heurístico da aborbagem de Kelly.

Pesquisa característica e métodos de pesquisa

Kelly produziu poucos trabalhos empíricos, mas des­creveu um instrumento de avaliação notável para iden­tificar constructos pessoais. Este instrumento, o Role Construct Repertory Test, ou Rep Test (a Figura 10.11 ilustra a forma em grade do teste), provocou uma quantidade substancial de pesquisas.

O Rep Test foi planejado para revelar os construc­tos de papel que a pessoa emprega para estruturar suas expectativas de interação social. Em outras pala­vras, que constructos empregamos para interpretar outros sociais significativos? O primeiro passo para realizar o Rep Test é o sujeito identificar outras pesso­as que assumem vários papéis. Os papéis que poderi­am ser empregados no teste, em número de 20, estão listados na Figura 10.11. A primeira tarefa do sujeito é identificar uma pessoa separada que assuma cada papel. Segundo, a pessoa que está administrando o teste seleciona três das pessoas e pede aos sujeitos que pensem de que maneiras importantes duas das pessoas são semelhantes e diferentes da terceira. As colunas na Figura 10.11 ilustram alguns desses tri­plos. O triplo na coluna adjacente aos papéis pede ao sujeito que compare self, pai e mãe. Por exemplo, um respondente poderia dizer que seu pai e sua mãe são ambos assertivos (o pólo “emergente”), mas que ele é passivo. Nesse caso, assertivo versus passivo é escrito na base da coluna como o primeiro constructo de pa­pel do respondente. A segunda comparação é entre o self, uma pessoa atraente e uma pessoa bem-sucedi­da. O respondente poderia identificar ele mesmo e a pessoa bem-sucedida como ponderados e a pessoa atraente como avoada, produzindo assim um segun­do constructo. Tal processo continua até que a pessoa que está administrando o teste acredite ter provoca­do um número suficiente de constructos. A esta altu­ra, o testando já identificou um conjunto relevante de constructos de papel. Ele é então solicitado a conside­rar todos os ocupantes de papel em cada constructo, colocando um X na célula da pessoa a quem se aplica o pólo emergente do constructo. Assim, todas as pes­soas consideradas assertivas receberiam um X na pri­meira coluna.

O Rep Test proporciona muitas informações. Os constructos revelam os mecanismos de interpretação que o respondente utiliza para compreender as ou­tras pessoas, e as colunas da grade indicam como cada constructo é aplicado a um conjunto representativo de indivíduos-alvo. As linhas, por sua vez, demons­tram como o testando conceitualiza esses indivíduos-alvo. O leitor talvez queira experienciar o Rep Test, completando a grade em branco na Figura 10.11.

Existem diversas versões alternativas e sistemas de pontuação mais complicados do Rep Test (p. ex., Bannister & Mair, 1968; Landfield & Epting, 1987). Por exemplo, uma pessoa pode identificar dois cons­tructos distintos, mas empregá-los de maneira reduntante. Se o nosso respondente do exemplo indicasse que praticamente todas as pessoas-alvo que eram as­sertivas eram também ponderadas, e que todas as ressoas passivas eram também avoadas, então os dois constructos seriam funcionalmente redundantes. Tanto mais constructos únicos a pessoa empregar, maior a sua complexidade cognitiva (p. ex., Bieri, 1955).

Status atual e avaliação

Há muito a recomendar na teoria de Lewin. Existe, antes de tudo, a imensa atividade investigativa esti­mulada pelas idéias de Lewin. Ele abriu muitas portas novas para o psicólogo, portas que levaram a regiões da personalidade e do comportamento social previa­mente fechadas para o experimentador. O trabalho sobre substituição, nível de aspiração, efeitos da in­terrupção sobre a memória, regressão, conflito e di­nâmica de grupo foi iniciado por Lewin. A importân­cia de muitos desses fenômenos psicológicos foi estabelecida pelas observações dos psicanalistas, mas foi Lewin quem criou uma atmosfera teórica adequa­ da e planejou métodos para-investigá-los.

Lewin possuía o valioso talento de ser capaz de tornar explícitas e concretas algumas das mais implí­citas e elusivas suposições sobre a personalidade. Ele viu, por exemplo, a necessidade de explicar detalha­damente as suposições básicas dos teóricos psicanalíticos sobre a substituição de uma atividade por outra. Quando isso foi feito em termos de uma organização de sistemas de tensão separados cujas fronteiras pos­suíam a propriedade de permeabilidade, foi aberto o caminho para o ataque experimental. A sua capacida­de de pensar de forma rigorosa e esclarecedora sobre conceitos era um dos pontos fortes de Lewin, e ele iluminou muitos problemas que jaziam à sombra de conceitualizações incompletas e de teorizações con­fusas. Ele estava convencido de que a ciência da psi­cologia, para ser útil aos seres humanos, teria de pe­netrar na dimensão significativa da conduta humana e explorá-la experimentalmente. Embora Lewin pu­desse ser incompreensível em sua teorização, ele ra­ramente deixava de lado os casos concretos e as pres­crições práticas para a pesquisa.

Além disso, ele reconheceu claramente que uma teoria que abrange os aspectos vitais do comporta­mento humano tem de ter um alcance multidimen­sional. Em outras palavras, tem de ser uma teoria de campo, que abarque uma rede de variáveis interliga­das em vez de pares de variáveis. Essa ênfase no cam­po era necessária nas décadas de 20 e 30, para con­trabalançar a influência e o prestígio de uma psicologia supersimplificada e ingênua de estímulo-resposta. Enquanto a psicologia da Gestalt estava atacando e esmagando os baluartes da psicologia estrutural que defendiam a análise mental em elementos, a psicolo­gia topológica e vetorial de Lewin competia com uma forma de comportamentalismo bastante estéril, que reduzia a conduta humana a simples conexões de es­ tímulo-resposta. A teoria de Lewin ajudou a criar uma estrutura de referência subjetiva cientificamente res­peitável em um momento no qual o objetivismo era a voz dominante na psicologia. Os assim chamados de­terminantes internos da conduta, como aspirações, valores e intenções, tinham sido sumariamente descar­tados por uma psicologia “objetiva” em favor de reflexos condicionados, da aprendizagem por repetição e do provocar e eliminar automáticos dos vínculos de estímulo-resposta. O comportamentalismo ti­nha quase conseguido reduzir o ser humano a um autômato, um marionete mecânico que dançava de acordo com a melodia dos estímulos externos ou pu­lava ao ser aguilhoado pelos impulsos fisiológicos in­ternos, um robô destituído de espontaneidade e de criatividade, uma pessoa vazia.

A teoria de Lewin foi uma das que ajudaram a reviver a concepção do indivíduo como um campo ce energia complexo, motivado por forças psicológicas e comportando-se seletiva e criativamente. O homem vazio foi reabastecido com necessidades psicológicas, intenções, esperanças e aspirações. O robô foi trans­formado em um ser humano vivo. O crasso e árido materialismo do comportamentalismo foi substituído por um quadro mais humanístico das pessoas. Enquanto a psicologia “objetiva” talhava muitas de suas pro­posições empíricas para serem testadas em cães, gatos e ratos, a teoria de Lewin levou à pesquisa sobre o comportamento humano conforme expresso em am­bientes mais ou menos naturais. As crianças brincan­do, os adolescentes em atividades grupais, os traba­lhadores em fábricas, as pessoas planejando refeições essas foram algumas das situações naturais de vida em que hipóteses derivadas da teoria de campo de Lewin foram testadas empiricamente. Com essa pes­quisa vital sendo feita sob a égide persuasiva da teo­ria de campo, não surpreende que o ponto de vista de Lewin se tenha tornado tão popular. O poder heurísti­co da teoria, independentemente de sua adequação formal ou de suas pretensões de ser um modelo mate­mático, justifica a grande estima que a teoria de cam­po de Lewin tem recebido.

Um tanto paradoxalmente, Lewin tem sido am­plamente ignorado pela atual geração de psicólogos, em parte provavelmente porque sua abordagem to­pológica parece tão estranha. Apesar disso, suas idéi­as e seus insights permanecem vigorosos e apropriados. As evidências dessa fertilidade foram oferecidas pelos três simpósios que constituíram a Pré-conferência realizada pela Society of Personality and Social Psychology na convenção anual de 1996 pela Socieda­ de Psicológica Americana. A Pré-conferência intitulou-se: “Up to the roots: The role of Lewian thought in contemporary personality and social psychology” Con­forme ilustrado nesses artigos (p. ex., Funder, 1996; McAdams, 1996; Steele, 1996), a abordagem de Lewin permanece relevante.

A abordagem de constructo pessoal de George Kelly à personalidade teve uma espécie de renasci­mento nos últimos anos. Em parte, isso pode ser atri­buído ao Zeitgeist cognitivo que domina a psicologia atualmente. Além do fato de nós agora termos uma orientação com a qual recuperar essa teoria previa­mente “suspensa”, existe muito que atrai na aborda­ gem de Kelly. Sua premissa básica de que os indivídu­os diferem fundamentalmente na sua maneira de interpretar a realidade e nos resultados que anteci­pam como conseqüência soa verdadeira. Parece inegável que nós realmente impomos as nossas expecta­tivas ao mundo, e que essas expectativas servem para tcanalizar o nosso comportamento. Kelly nos prestou um serviço ao dirigir a nossa atenção para a maneira como criamos o mundo ao qual respondemos. Entre­tanto, existem vários pontos que podemos objetar em sua teoria.

Primeiro, a maior força de Kelly é sua ajuda para empreendermos como os indivíduos interpretam ou constroem a realidade. Ele disse muito pouco sobre como os indivíduos adquirem seus constructos e como esses constructos originam o comportamento. O co­rolário de experiência fala sobre a aquisição de constructos, mas de uma maneira muito geral. Ficamos sabendo que as pessoas desenvolvem constructos que lhe permitem antecipar resultados, mas não temos como saber que direção seguirá esse processo de aqui­sição. Os que apóiam a teoria de Kelly podem argumentar que isso é análogo a queixar-se de que a teoria da aprendizagem não especifica o que é aprendido, mas o fato é que Kelly nos diz muito pouco sobre o que governa a natureza dos constructos que forma­mos, a maneira como designamos objetos e eventos para pólos, ou a probabilidade de a pessoa responder apredições inexatas e à ansiedade com mudança cons­trutiva, em oposição à suspensão, submersão ou hostilidade. É como se nos dissessem que os bons cientis­tas “nascem prontos, não se fazem”. Igualmente, fica­mos sabendo que baseamos o nosso comportamento em conseqüências antecipadas, seguindo o corolário de escolha e o ciclo C-P-C, mas não nos dizem o que governa essas escolhas ou o movimento através do ciclo. Isso nos lembra a objeção de que os modelos cognitivos da aprendizagem deixam o rato “perdido em pensamentos”.

Segundo, existe uma pobreza emocional no mo­delo de Kelly da personalidade. Talvez em função dos clientes com os quais trabalhava, Kelly enfatizou a lógica e a racionalidade. No processo de articular essa faceta do comportamento humano, ele ignorou as paixões, que também desempenham um papel cen­tral na vida humana. Grande parte do apelo persis­tente da teoria freudiana é o destaque que ela dá à paixão humana, e não existe nada disso em Kelly. Essa falta de atenção à emocionalidade e aos mecanismos de excitação deixa uma imagem fraca e desbotada do comportamento humano. Da mesma forma, Kelly su­geriu que as pessoas sadias sempre agem em seus melhores interesses, mas grande parte da intriga no comportamento humano origina-se de casos em que tal suposição parece não se sustentar.

Finalmente, a plasticidade que Kelly atribuiu à personalidade é problemática. Os constructos de pa­pel nuclear existem para dar estrutura à personalida­de, mas não podemos contar com muito mais que per­maneça. Não existem metas, valores, unidades estruturais ou tendências comportamentais. Em resu­mo, não existe nenhum alicerce para a personalida­de. Que enfatizem as predisposições fisiológicas ou o condicionamento social, outros teóricos pintam um quadro bem mais claro de uma pessoa sólida e per­manente; o retrato de Kelly é vago. A fluidez que Ke­lly atribui às pessoas é um aspecto provocativo e oti­mista de sua teoria, mas isso também nos deixa sem saber bem onde estamos.
Mas todas as teorias têm limitações, e Kelly arti­culou uma perspectiva provocante e característica da personalidade. Ninguém nos fez compreender melhor o processo pelo qual os indivíduos constroem o mun­do ao qual respondem. A teoria pode ter um intervalo de conveniência limitado, mas esse intervalo é consi­deravelmente útil: os indivíduos são distintivos por­ que sua maneira particular de compreender a reali­dade social e física os leva a expectativas distintivas em relação às conseqüências de suas ações.

Gestalt
Relações entre a teoria de campo de Kurt Lewin e a Gestalt-terapia

Frederick S. Perls citou algumas vezes que seria necessária uma teoria de campo para fundamentar a compreensão da atmosfera que se cria no encontro entre o psicoterapeuta e a pessoa que o procura. Ele diz: "Minha ambição tem sido criar uma teoria de campo unificada na psicologia" (Perls apud Stevens, 1977, p. 99).

Com a expressão "teoria de campo unificada", Perls (1981, p. 26) nos mostra uma correlação entre pensar e agir, afirmando que, quando o ser humano pensa, ele está agindo em imagem. Está fazendo simbolicamente o que poderia fazer fisicamente". Ele pondera que "pensamento" pode ser substituído por um termo mais amplo, que englobe as várias atividades mentais do ser humano, como imaginar, sonhar etc., e propõe usar o termo "fantasia" para isso. Daí, quando fantasiamos, estamos agindo simbolicamente, com menos gasto de energia do que quando agimos fisicamente. Podemos então ir de um nível (fantasia) para outro (ação) e vice-versa, dependendo da intensidade energética que empregamos.
Dessa maneira, Perls valida a inclusão, durante o encontro terapêutico, não apenas do que a pessoa pensa ou fala, mas também do que e como ela faz. Entre o fantasiar e o agir, ele dirá que existe uma zona intermediária — o "fazer de conta na terapia" (Perls, 1981, p. 30) — que, por meio do experimento vivido na situação presente do atendimento, colaborará para o próprio indivíduo compreender-se melhor. A pessoa poderá experimentar, na segurança do ambiente terapêutico, aquilo que suas fantasias ou ações não se arriscam a experimentar e, uma vez fazendo-o, conhecerá mais profundamente a si mesma por intermédio daquilo que viveu. Esses argumentos fundamentam o uso do experimento como técnica terapêutica na Gestalt-terapia.

A intenção dessa contribuição de Perls é louvável, e sua ideia de utilizar uma teoria de campo unificada poderia ser ampliada com o emprego da teoria de campo de Kurt Lewin (1890-1947), em virtude de sua ampla aplicação em experimentos psicológicos e de tantas contribuições metodológicas para a psicologia em geral e para a psicologia social em particular. No final da década de 1970, Festinger (apud Rodrigues, 1979) afirmou que a teoria de campo de Kurt Lewin foi utilizada em mais de 95% de todo o trabalho teórico na psicologia social.

A teoria de campo de Kurt Lewin se propõe a fundamentar nossa compreensão sobre como o sentido das ações de uma pessoa é algo que se coaduna à relação dela com seu meio. Segundo essa teoria, "meio" ou "campo" referem-se a "quando" e onde" algo pode produzir uma diferença na percepção da pessoa. Além disso, a noção de tempo se apresenta como unidade situacional, com foco no presente, que se articula com os dados a ele anteriores e aponta para possibilidades futuras.

Lewin critica a visão da psicologia da época, influenciada pelo paradigma aristotélico que impregna nossa cultura (não apenas a ciência), paradigma esse baseado em um pensamento classificatório, estatístico-histórico e abstrato. De acordo com Lewin, a psicologia até então não enxergava o ser humano de forma integrada.

Para ilustrar a influência desse tipo de pensamento em nosso cotidiano, notemos o exemplo a seguir, de uma conversa entre mãe e filha:
— Poxa, mãe, o João, meu namorado, aquele infeliz, me traiu!
— Ah, filha... Mas o que você esperava? Homem é assim mesmo!

A ênfase aqui é sobre o que subsiste ontologicamente, ou o que fundamenta a lógica da frase "Homem é assim mesmo". O que torna possível que uma comunicação dessa natureza seja feita?

Na frase "Homem é assim mesmo", João desapareceu, tendo sido substituído por uma classe, homens. Em outros termos, quando a mãe responde, não importa quem é João, quem é sua namorada, o que aconteceu ou ainda acontece na relação entre ambos. O que importa é que aquele homem agiu da mesma forma como, supostamente, todos os homens agem.

O pensamento classificatório exigirá a certeza de que sempre, ou na maior parte das vezes, um elemento daquela classe agirá conforme as características inerentes a ela. Tal certeza é amparada pelo pensamento estatístico-histórico, em que algo que muitas vezes aconteceu tende a ser visto como algo que se repetirá no futuro. Muitos homens, de fato, já traíram, e tal comportamento passa a ser algo esperado. Porém, acontecer algo com frequência, ainda que alta, não é critério suficiente para assegurar que volte a acontecer no futuro. Logo, mesmo que muitos homens já tenham traído, não necessariamente todo homem trairá.

Dessa forma, a experiência concreta entre João e sua namorada é substituída por uma generalização. Na frase "Homem é assim mesmo", encontramos o pensamento classificatório (classe dos homens traidores), estatístico-histórico (a frequência ocorrida que funda a tal classe) e abstrato (que generaliza e retira a implicação de cada pessoa na situação), elementos criticados por Lewin.

Para compreender a crítica lewiniana e sua proposta de pensar uma metodologia alternativa, será necessário destacar alguns dados históricos.
Lewin atribui o paradigma criticado ao filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.). Este dizia que, para que algo fosse considerado objeto da ciência, deveria estar sempre presente — ou com muita frequência — na natureza. Fenômenos fortuitos não seriam objeto da atenção científica. Uma vez constatado o fato, por exemplo, de que todo objeto pesado cai, Aristóteles passaria a estudar abstratamente a classe "objetos pesados", ignorando a concretude de cada objeto e seu peso. Com a base estatístico-histórica, cada objeto pesado que eu segure nas mãos — como uma pedra ao ser largado, necessariamente cairá. Não preciso testar isso com cada pedra, o que me permite otimizar a possibilidade de estudo focando apenas nas características inerentes à classe "objetos pesados". Por que a pedra cai? Ela cai porque é pesada, resposta coerente com esse pensamento. Por analogia, por que João trai? Ele trai porque é homem.

Mas tomemos esse mesmo exemplo da pedra para, inspirados na crítica de Lewin, começarmos a nos aproximar de outra forma de pensamento...
Suponhamos uma situação em que tal pedra, segurada pela mão, não caia quando largada. O que contrariaria esse histórico? Caso a pedra esteja no espaço sideral, longe de um campo gravitacional, ela simplesmente não cairá, porque nada a empurra para baixo. O que importa aqui é perceber que a característica "peso" não é algo inerente ao objeto "pedra", representante da classe "objetos pesados". É, sim, algo inerente à relação do objeto com um campo gravitacional. "Peso" é fruto de uma relação entre dois corpos dotados de massa, em que se leva em conta a distância entre eles, de modo que aqui, na Terra, a pedra cai, mas na Lua cairia seis vezes mais lentamente e, no espaço sideral, longe de outro corpo dotado de massa, simplesmente não cairia.

No exemplo original, do ponto de vista lewiniano, diríamos que João trai não "porque ele é homem". É necessário perceber a relação entre ele e sua namorada, na qual a traição (um aspecto circunstancial) surge como um comportamento que tem algum sentido em existir. Em outros termos, há de se inquirir o que estruturalmente na relação a torna propensa à traição.

Desse modo, em vez de um pensamento estatístico-histórico, buscamos uma ação descritiva que focaliza o que está acontecendo, presentemente, na relação entre João, sua namorada e o contexto de vida da relação deles.

Em vez de lidarmos com uma classe e com um pensamento abstrato generalizante, apontaremos o caso único que está aqui e agora à nossa frente: foi este João que traiu esta namorada, segundo o que ela conta à mãe.

Lewin procurou, ao criticar o paradigma aristotélico, preparar as pessoas para assimilar sua metodologia, não a enquadrando nos moldes do paradigma vigente. Com uma metodologia que visa compreender descritivamente as situações únicas vividas, sempre tendo como ponto central o contexto no qual a situação emerge, e o foco no presente, Lewin ergueu as bases de sua teoria de campo.

As bases da Teoria de Campo de Kurt Lewin

Sobre o conceito de "teoria" e de "campo"

Lewin nos dirá que seu trabalho estaria mais próximo do conceito de "método" do que propriamente de uma "teoria" conforme definido na citação. Segundo ele, "a teoria de campo provavelmente se caracteriza melhor como um método, isto é, um método de analisar relações causais e de criar construções científicas" (Lewin, 1965, p. 51). Consequentemente, poderíamos dizer que o conceito de "teoria" de Lewin seria mais próximo da "teoria executiva", pela forma de lidar primeiro com os fatos para depreender, a partir deles e gradativamente, suposições teóricas.

Sobre o conceito de "campo", que Lewin (1973, p. 29) também chamará de "espaço vital psicológico", temos uma sintética definição: "O espaço vital psicológico indica a totalidade de fatos que determinam o comportamento do indivíduo num certo momento", sendo dotado de duas regiões: a pessoa e o ambiente.

Lewin buscou um método mais próximo da descrição dos fatos do que um que se baseasse em hipóteses prévias sobre eles, tendo como foco de seu trabalho o campo psicológico e a totalidade de forças que podem interferir no comportamento de uma pessoa ou de várias pessoas em determinado tempo e lugar.

As principais características da teoria de campo

Segundo Lewin (1965, p. 69), pode-se compreender o método de construção contrapondo-o ao classificatório. Este se preocupa com uma forma comparativa de analisar os problemas, organizando os dados conforme suas semelhanças. Já "a representação de um caso individual com o auxílio de alguns 'elementos de construção' constitui a essência do método de construção" (Lewin, 1965, p. 70). Lewin dirá que, com base em elementos de construção como posição psicológica e forças psicológicas, é possível estabelecer afirmações sobre relações entre tais elementos ou entre algumas de suas propriedades empiricamente comprovadas. O método de construção será, portanto, uma representação simbólica, em uma situação (posição psicológica), de uma pessoa (ou várias pessoas) sobre a qual (sobre as quais) incidem forças do campo vivencial naquele momento. O método de construção será mais comentado adiante.

Quanto aos aspectos dinâmicos, estes se referem especificamente ao estudo das forças presentes na relação da pessoa com seu meio, conforme observamos na etimologia da própria palavra "dinâmica", proveniente do termo grego dynamis, que significa "força". Lewin terá interesse em descrever as forças presentes em dado momento de vida da pessoa, ou das pessoas, para que determinado comportamento ocorra. Porém, uma vez que as forças são inerentes aos momentos de vida, podem variar, neutralizando-se, aumentando ou diminuindo de intensidade. Em outros termos, a dinâmica também estabelece que, com o fluir das forças do campo, o próprio processo estudado se altera: "Em todo e qualquer processo, as forças no meio interno e externo são modificadas pelo próprio processo" (Lewin, 1975, p. 55).

Quanto à perspectiva psicológica e não física, Lewin alude ao fato de que sua teoria procura descrever o que acontece não apenas no que se refere a uma objetividade fiscalista, mas levando em conta que o importante é como o indivíduo experiência o que acontece no momento considerado: Um professor nunca será capaz de dar orientação apropriada a uma criança se não aprende a compreender o mundo psicológico no qual aquela criança vive" (Lewin, 1965, p. 71).

Uma vez que é o aspecto psicológico que deve ser considerado, é preciso aceitá-lo conforme a pessoa o percebe, ou seja, fenomenologicamente. Assim, qualquer aspecto particular focalizado deverá levar em conta a relação com a totalidade — aquilo que em psicologia da Gestalt e em Gestalt-terapia se chama relação figura/fundo.

Quanto à distinção entre problemas sistemáticos e históricos, Lewin ressalta a importância de considerar o que está acontecendo num campo vivencial no momento em que o comportamento analisado ocorre, ou seja, o comportamento passado só pode influenciar o comportamento presente por aspectos que tornam, no presente, tal influência possível. Dessa forma, o comportamento é resultante de um conjunto de fatores presentes no campo, como várias forças que atuam, compondo um sistema a ser descrito e analisável. Já os problemas históricos dependem de um conhecimento do passado que nem sempre está disponível. Lewin nos dá um exemplo utilizando a metáfora do "piano sobre o piso de madeira": caso tentássemos confirmar se um piso antigo suporta ou não o peso de um piano, poderíamos analisar historicamente esse piso, observando dados como o tempo em que ele está lá, o tipo de madeira utilizado em sua confecção e sua expectativa de durabilidade. Porém, mesmo de posse desses dados, poderemos ter absoluta certeza de que o piso aguentará o peso do piano?

O desgaste da madeira é um dado intangível numa análise histórica, uma vez que talvez não tenhamos acesso a ele. Já a análise do problema, em termos sistemáticos, nos faria, com a ajuda de cordas e roldanas, apoiar o piano gradativamente e ver como o piso reage. O "histórico", sendo conhecido ou não, é presentificado no método sistemático de análise, pois, se o piso estiver velho ou tiver sido indevidamente utilizado, por exemplo, na hora do teste do peso o sistema de forças presentes na situação evidenciará a resposta.

Por último, Lewin fala da importância de obter em psicologia uma linguagem que reduza os problemas dos conceitos que apresentam multiplicidade de sentidos. Para isso, defenderá o uso da linguagem matemática, descrita por ele como uma "linguagem que é logicamente estrita e ao mesmo tempo de acordo com os métodos de construção" (Lewin, 1965, p. 74).

Após a apresentação dessas características, é importante não subsumir que Lewin preocupou-se apenas com a formalização ou com o uso da matemática na psicologia. Vale lembrar que essas características se referem à sua teoria, mas não são suficientes para compreender a fundo suas aplicações — assim como conhecer os movimentos das peças de xadrez não é o bastante para entender a complexidade e a engenhosidade de um jogo em andamento. Lewin (1965, p. 7) ressalta que sua preocupação, assim como a de qualquer psicólogo, é "[...] conhecer melhor e compreender mais profundamente os processos psicológicos. Este é, e sempre foi, o princípio orientador".

Do formal ao prático: a noção de "tensão" e o trabalho de B. Zeigarnik

Vejamos agora como a teoria de campo de Lewin estabelece sua correlação com os fatos focalizados em suas análises. Como estender a teoria para a prática?

Formalmente, Lewin toma como base para sua teoria a análise do comportamento da pessoa, considerada um ponto de atuação de forças que mobiliza, então, uma fonte de energia para novos comportamentos. A essa fonte de energia proveniente das necessidades que a pessoa procurará satisfazer; na relação com o campo — que é, consequentemente, geradora de ações Lewin (1965, p. 14) chamará de "tensão". A tensão será considerada o "estado de um sistema em relação ao estado dos sistemas que o rodeiam". O termo designa o nível de energia com a qual uma região do campo se relaciona com outra região; nada apresenta tensão em si, mas sempre em relação a algo. Em direção a esse algo, a tensão tende a se aproximar (no caso de valência positiva) ou a se afastar (no caso de valência negativa). Segundo Lewin, o conceito de valência refere-se ao que mobiliza a pessoa para um potencial movimento, sempre pensando em uma situação vivida. A valência é uma espécie de "pedido" — ou de "ordem" — para a aproximação ou o distanciamento, sempre com base em um contexto referencial, por isso não deve ser confundida com a ideia de estímulo, como na relação estímulo/resposta.

Lewin fundamenta sua argumentação na premissa de que, em um campo psicológico, uma tensão, como correlato das forças presentes no campo, se concretiza como busca de locomoção psicológica, afastando-se ou aproximando-se de um referencial qualquer.

A fim de comprovar sua premissa, Lewin recorrerá ao trabalho de B. Zeigarnik sobre os experimentos relacionados à incidência de fatores que afetam a rememoração de fatos. Em resumo, a pesquisa de Zeigarnik consistiu nas seguintes etapas iniciais:

  1. Uma pessoa, em um campo psicológico, experimenta sobre si a incidência de forças externas presentes nesse campo.
  2. Eventualmente, tais forças podem provocar uma tensão interna, gerando uma locomoção rumo ao objetivo almejado.
  3. Em paralelo à locomoção, há uma atividade no nível do pensamento, pois a pessoa também pensará naquilo que almeja.

Com base nessas etapas, Zeigarnik elaborou um experimento que, operacionalmente, consistiu em dar várias tarefas a voluntários ao longo de um dia. Algumas dessas tarefas foram intencionalmente interrompidas pelos experimentadores e ficaram incompletas. Outras foram concluídas normalmente (ou seja, chegando ao objetivo).

Considerando as premissas "a" e "b", se há tensão até o cumprimento de um objetivo, podemos depreender que essa tensão não se esgota quando o objetivo não é alcançado, devido às interrupções alheias à vontade da pessoa. Dessa forma, somando a premissa c", podemos concluir que a pessoa tende a lembrar-se mais das tarefas interrompidas (devido à tensão não esgotada) do que das tarefas concluídas (pelo motivo inverso, a tensão esgotou-se).

Para constatar tal conclusão no experimento, ao final do dia, pediu-se aos voluntários que se recordassem de todas as tarefas que receberam, independentemente de estas terem sido concluídas ou não.

Zeigarnik mediu o número de recordações das tarefas incompletas (RI) e o número das recordações das tarefas completas (RC) e obteve o significativo quociente da divisão RI/RC de 1,9. Ou seja, lembramos quase duas vezes mais de algo que foi interrompido do que de algo que conseguimos concluir.

Os setores de propaganda e marketing utilizam esse estudo — que ficou conhecido como "Efeito Zeigarnik" — nos teasers, estilo de comunicação que mobiliza o público com uma informação incompleta, promovendo uma retenção maior da informação na memória das pessoas.

A Gestalt-terapia também considera até que ponto uma situação incompleta provoca uma tensão interna que, eventualmente, pode contribuir para um comportamento neurótico recorrente que busca o fechamento de tal situação.

Com esses dados, Lewin afirmou que a tensão interna provoca uma tendência à locomoção (no sentido psicológico, que é análoga ao "pensar em algo" de acordo com a premissa "c"), visando a um equilíbrio com o meio.

Do conceito de tensão depreende-se o conceito de campo, que se refere ao espaço psicológico no qual tal tensão flui.

Porém, se a relação da pessoa com o meio fosse completamente fluida, a tensão logo escoaria e a pessoa não a experimentaria. Logo, depreende-se que há, no campo, algo que interfere no fluxo das tensões, contribuindo dinamicamente para o seu escoamento ou retenção. É o conceito de "fronteira", que pode ser definido dinamicamente como o que permite fluir ou reter as descargas das tensões entre a pessoa e o meio, e também no sentido inverso.

Há ainda situações em que a tensão busca um comportamento cujo sentido satisfaça às próprias necessidades. Tal comportamento, no entanto, pode ser impedido ou dificultado. Lewin chamará de "barreira" àquilo que produzirá esse efeito. A fronteira demarca uma região, mas não necessariamente é vivida como algo que impede a locomoção, como é o caso da barreira (Lewin, 1973, p. 144).

Retomando ainda o conceito de locomoção, Lewin esclarecerá que esta se dá quando a pessoa pode alcançar ou acessar novos dados que, antes, não podia. Lembrando a definição de "espaço vital psicológico", a locomoção se dá quando novos fatos imediatamente se disponibilizam para gerar novos comportamentos do indivíduo em certo momento. Também não é algo restrito à relação com um espaço material e concreto. Vejamos um exemplo: um coordenador de equipe, sentado à sua mesa, recebe o diretor de seu setor. Este anuncia ao coordenador que, a partir daquele instante, ele passa a ser gerente, recebendo para tanto um salário maior. O coordenador não se mexe, mas seu campo se locomoveu, ampliando-se. Entre outras mudanças imediatas oriundas do novo cargo, ele passa a ter acesso financeiro a bens materiais a que antes não tinha. Novos fatos (sua rápida ascensão financeira) determinam novos comportamentos.

Com isso, temos aqui operacionalmente definidas as bases do pensamento lewiniano. O comportamento ("C") possível, em dado momento, deverá ser uma função ("f") da totalidade dos fatos coexistentes, que emergem da relação entre a pessoa ("p") e seu espaço de vida, ou meio ("m"). Daí, Lewin (1975, p. 75-83) concluirá que: "C= f (p, m)".

Os conceitos de espaço hodológico e de diferenciação do campo

O comportamento depreendido pela correlação C = f (p,m[se dará em um espaço vivencial, e não em um espaço submetido às leis da lógica matemática, que poderia, conforme a geometria euclidiana, dividi-lo infinitamente. Lewin (1985, p. 80-6) explica sua concepção de espaço com um exemplo prático: como uma pessoa reage ao chegar a uma cidade que não conhece para, então, se dirigir ao trabalho?

Numa época sem GPS, mapas virtuais, smartphones etc., a pessoa chegava a um espaço que lhe parecia apenas "um": a cidade onde nada conhece. À medida que perguntava, obtinha informações com a população local e a unidade "cidade que não conhece" passava a se diferenciar, pois agora o local de trabalho fica em uma direção, não interessando o restante da cidade, que passa a ser o "resto". Porém, conforme se dirige para o local do trabalho, o simples "ir naquela direção e não ir na direção contrária", que havia dividido a cidade em duas, gradativamente se diferencia ainda mais. No caminho, surge a visão de um restaurante agradável, próximo do trabalho; aparecem o banco utilizado por ele, o hotel, um bar. Com isso, um campo vivido como uma unidade (a cidade) diferencia-se em regiões que ainda podem se subdividir. O restaurante, por exemplo, pode comportar uma área com vista para a rua e outra com vista para o jardim, e assim por diante.

Temos aqui dois conceitos que se articulam no pensamento de Lewin e ainda podem trazer grande contribuição prática para a Gestalt-terapia. Como Lewin trabalhará topologicamente com áreas, regiões, ambientes etc., ele precisará pensar em um espaço coerente com a maneira como o ser humano percebe tais espaços e em como estes se diferenciam à medida que a pessoa aprende algo sobre eles. 

Como já vimos, a geometria euclidiana, coerente com o uso matemático, permite a divisão de espaços ao infinito. O espaço humano não é visto assim... O ser humano sai do trabalho (uma região), chega à sua casa (outra). Dentro de casa, pode haver os quartos dos filhos (sub-regiões da região "casa"), mas seu quarto é "seu quarto" (uma sub-região que não é mais passível de subdivisão). Ou seja, faz-se necessário um espaço que permita trabalhar com divisões ou subdivisões que fazem sentido, sempre apresentando finitude, limite. "O Espaço hodológico é finitamente estruturado, isto é, suas partes não são infinitamente divisíveis, mas compostas de determinadas unidades ou regiões" (Lewin, 1965, p. 30).

O conceito de espaço hodológico também se refere às regiões que a pessoa percebe diferenciar-se nela mesma, pois ela experiencia regiões mais internas, mais íntimas, que pouco se expõem. Lewin chamará essa região de "central". Outras regiões mais fáceis de expor são chamadas de "periféricas". Quanto às de maior contato com a fronteira do meio externo, ele chamará de região "perceptomotora". Lewin criou uma ilustração para demonstrar esses aspectos:

Figura 1

A Figura i mostra a região perceptomotora (1), que entra em contato com o meio. Há ainda as regiões periféricas (2), que envolvem as camadas mais centrais, mais íntimas do indivíduo (3). (Lewin, 1973, p. 199)

Voltando ao exemplo, no espaço hodológico, a pessoa pode vivenciar a cidade como uma unidade. Com o tempo, porém, aquela unidade vai-se diferenciando em regiões e subregiões, até a pessoa ter familiaridade com a cidade e poder se movimentar com segurança.

Esse processo de diferenciação é dinamicamente o mesmo para toda situação nova que a pessoa quer conhecer. Assim, podemos aplicar essa compreensão dinâmica a vários processos diferentes. Por exemplo:

  1. Como se dá a aprendizagem: o aluno vê primeiro a unidade chamada matemática, que depois se divide em regiões como álgebra, aritmética e geometria, e, com o tempo, aprende que em cada uma delas surgirão novas sub-regiões, como álgebra linear, álgebra booleana etc. Com a diferenciação, o aluno ganha mais familiaridade com a nova região.
  2. Como se dá a intimidade: uma mulher vê primeiro um homem por quem se interessa. Com o tempo, ela o vê se diferenciando em várias regiões, como "gostos" — sobre o que gosta de conversar, onde gosta de ir, o que gosta de comer — e "desgostos" — assuntos em que não gosta de tocar, pessoas de quem não gosta de se aproximar etc.
  3. Como se dá o amadurecimento: a pessoa se percebe tendo sempre o mesmo tipo de reação ruim diante de uma situação recorrente na vida e, com o tempo, nota que tal reação vai-se diferenciando em novas possibilidades mais satisfatórias ou atuais. Assim, o que antes era uma única reação neuroticamente compulsória se diferencia em novas escolhas.

Na Gestalt-terapia, o conceito de diferenciação pode ser aplicado, por exemplo, nas queixas de pessoas em atendimento que se referem às situações de vida muito "abstratas", que podem ser energizadas (conforme o conceito de teoria de campo unificada de Perls, citado no início deste capítulo) e transformadas em ação. É o caso dos experimentos em Gestalt-terapia. Com o processo de diferenciação em mente, o Gestalt-terapeuta pode ampliar o potencial de operacionalização do tema que o cliente precisa trabalhar, obtendo maior grau de convergência entre a proposta do experimento e aquilo de que a pessoa precisa.

Como isso se dá? A pessoa em terapia pode trazer suas questões de forma abstrata e aparentemente inexequível para um experimento (questões como "Minha vida não tem sentido", "Eu não me admiro" ou "Sou um estranho para mim mesmo"). Na frase "Minha vida não tem sentido", a palavra "sentido" tem também relação com direcionamento. O Gestalt-terapeuta pode pedir à pessoa que represente seu campo de vida no momento (seja desenhando ou usando o próprio espaço da sala etc.). Como é estar nesse campo de vida? O que vê? Como se diferenciam as possibilidades do seu campo existencial naquele momento? Talvez a pessoa se confronte com vários sentidos disponíveis e com a própria dificuldade de escolher e de ter de lidar com as conseqüências de acertos e erros...

Já na frase "Eu não me admiro", a palavra "admiração" tem também relação com aproximação, enquanto rejeição vai pelo caminho oposto. Como é estar num campo (ainda apoiado pelo mesmo tipo de desenho, ou usando o espaço da sala) e diferenciar as coisas das quais se aproxima ou se afasta? Como é se ver como alguém que está lá e não quer se aproximar de si mesmo? Pode surgir aqui o contato com o que realmente a pessoa rejeita (diferenciando melhor os espaços hodológicos) em si mesma, ajudando-a a diferenciar sua totalidade da parte rejeitada.

Na frase "Sou um estranho para mim mesmo", a palavra "estranho" tem também relação com não familiaridade, podendo apresentar uma dinâmica psicológica semelhante à do trabalho com a palavra "admiração".

O conceito de temporalidade em Lewin

Lewin esclarece que o comportamento sempre acontece dinamicamente em processos cujo sentido é dado em virtude da relação da pessoa com o meio, sendo o tempo uma dimensão fundamental para essa compreensão. O tempo terá sua extensão limitada ao tema focalizado, porém não se restringirá apenas ao exato segundo presente, sendo o passado e as possibilidades futuras inclusos na situação considerada.

É necessário ainda articular o conceito de "unidade situacional" com a crítica anterior de Lewin ao paradigma aristotélico. Trabalhar com o tempo presente é também não limitar as investigações somente ao que ocorre com frequência ou sempre.

Temos até aqui uma compreensão mais clara daquilo com que a teoria de campo trabalha, de como ela visa às situações temporais e espaciais em que emerge o comportamento, trabalhando descritivamente, sempre em relação aos seus contextos referenciais totais e únicos, vividos no presente -que inclui passado e futuro psicológicos. Discutiremos a seguir como Lewin sugere operacionalizar seus conceitos.

Método geométrico (topológico) da construção

Tendo recebido forte influência da psicologia da Gestalt, Lewin, indiretamente, por meio desta, muito se aproximou da metodologia fenomenológica de Edmund Husserl.

Husserl (2000) nos apresenta, em sua primeira redução, a necessidade de não naturalizarmos nossa relação com a realidade e constatarmos que, na verdade, em vez de lidarmos com a percepção de que "há um mundo lá", lidamos com uma realidade indireta, pois só ouvimos o que escutamos, só olhamos o que vemos, só percebemos nossa percepção. Não percebemos diretamente o mundo. Logo, é vital a atitude descritiva perante o que percebemos perceber, e não uma atitude explicativa do mundo, como se ele estivesse dado, posicionado e "sempre sendo daquele jeito". Van Dusen (apud Stevens, 1977, p. 124) diz que, "na abordagem fenomenológica, simplesmente tenta-se descobrir o mundo do paciente tal como este é para ele, sem reduzi-lo a nenhuma categoria pseudo-científica (obsessiva, anal, etc.)".

Em vez de a teoria explicar o que é o homem, Lewin nos traz uma descrição de como ele vive para, então, nos dizer quem ele está sendo. O método geométrico da construção é uma analogia entre como a pessoa age e uma forma de representar isso. Independentemente de medida e tamanho, a geometria topológica lida com formas geométricas que poderão representar a pessoa, ou grupos de pessoas, nas situações vividas em seus campos psicológicos. Para aquilo que simboliza a intensidade do motivo para a ação ou as forças presentes no campo, Lewin utilizará vetores (setas) que apontam para a direção do objetivo desejado (valência positiva) ou no sentido contrário (valência negativa). As possibilidades de horizontes ou caminhos serão representadas emergindo em um espaço hodológico, diferenciadas por fronteiras, e aquilo que dinamicamente dificulta ou impossibilita a ação será representado como uma barreira.

Digamos, por exemplo, que a pessoa chegue ao consultório com a queixa de ter de lidar com a timidez no trabalho, pois para se destacar precisa mostrar o que faz ao chefe, que poderá futuramente promovê-la ou não. Porém, ao se aproximar do chefe, se sente paralisada, sem conseguir prosseguir.

Poderíamos supor que essa pessoa talvez esteja projetando sobre o chefe uma imagem parental repressora, agindo com ele da mesma forma que agia com o pai (foco no passado).

Poderíamos igualmente supor que a pessoa tenha uma elevada expectativa de si mesma. Diante da possibilidade de se colocar perante alguém que possa avaliá-la, seu temor de um não reconhecimento futuro e a conseqüente não confirmação de sua autoimagem elevada a fazem travar (foco no futuro).

Ambas as suposições são bem plausíveis. Agora, aplicaremos o método geométrico da construção, fazendo a analogia entre a situação da pessoa e a simbolização da geometria topológica. A pessoa que quer se aproximar do chefe no ambiente de trabalho será representada por uma região "P", e o chefe por uma região "C". A seta (vetor) representa a tensão que pressiona "P" em direção a "C", que corresponde à necessidade de ter seu trabalho reconhecido. Essa tensão decorre das forças presentes no campo, onde socialmente se pressiona a pessoa a agir; pois todos esperam que cada um faça seu próprio marketing - adulando o chefe, sendo mais competitivo etc. Nesse espaço, há uma linha que poderia ser traçada perpendicularmente, entre "P" e "C", que simbolizaria o que a pessoa descreve como "timidez" e a paralisa, impedindo-a de atingir "C". Chamaremos essa linha de barreira. A Figura 2 mostra essa situação:

É importante ressaltar que essa descrição é coerente com qualquer um dos dois modelos psicológicos explicativos supramencionados — sobre a projeção parental ou sobre o medo de não confirmação da autoimagem.

Lewin operacionaliza sua metodologia com construções topológicas como a da Figura 2, que representa uma situação (que tanto pode se enquadrar em visões teóricas orientadas temporalmente para o passado ou para o futuro) com ações em movimento (dinamicamente), considerando a totalidade do campo psicológico envolvido (o ambiente de trabalho).

Recursos da Teoria de Campo aplicados à Gestalt-terapia


Técnica de "dar voz" aliada à descrição topológica

Partindo da situação topologicamente descrita no exemplo anterior, no atendimento psicoterapêutico, poderíamos propor à pessoa um experimento baseado na queixa sobre sua timidez para com o chefe. Pediríamos a ela que posicionasse, no espaço do consultório, as partes descritas por ela, simbolizando-as por objetos da sala. Um objeto escolhido e posicionado para simbolizar o chefe, outro para ela mesma, outros para os colegas. No experimento, as pessoas envolvidas — como o chefe, a própria pessoa, os outro colegas etc — são naturalmente mais fáceis de emergir como figuras. A contribuição de Lewin ocorre para o que não é tão visualmente tangível, porém sensivelmente perceptível: os vetores que representam as forças, assim como as barreiras. Nesse caso, a existência de tensão sobre o objeto pode ser simbolizada por um simples barbante ligando o objeto pessoa ao objeto chefe, sendo interrompida por outro barbante, que representaria a barreira da timidez que torna o chefe inatingível.
Temos, então, uma situação de vida representada por elementos que simbolizam a dinâmica do que a pessoa está vivendo. Essa situação se mostra como algo descritível que amplia, para a própria pessoa em atendimento, as possibilidades compreensivas sobre seu processo existencial.
Ao propor um experimento, considero importante, antes de pedir que a pessoa experiências partes representadas na situação, que ela descreva o "clima" da situação, a atmosfera psicológica da totalidade do ambiente. Pergunto: "O que você está sentindo agora quando olha para isso que você representou?"

Segundo Lewin (1965, 1970), a atmosfera psicológica descreve uma propriedade do campo: poder ser visto como uma unidade coesa, a partir de um sentido dado (como um afeto). Pode ser momentânea (por exemplo, a atmosfera que se dá quando alguém entra no elevador com outras pessoas) ou até durar anos (como, após vários anos, uma pessoa volta a visitar a casa dos pais e sente as mesmas emoções de antes).

A atmosfera psicológica nos permite conhecer a noção que a pessoa tem do "todo" que está ali vivendo, como ela compreende o fundo referencial a partir do qual emerge a figura da situação entre ela e o chefe.

A pessoa pode ser convidada a entrar na situação representada e dar voz a cada elemento, ou seja, pode trocar de lugar com cada objeto escolhido e "ser" aquele objeto da situação total. É freqüente, nesse tipo de trabalho, a pessoa expressar grande familiaridade com o ponto de vista das pessoas envolvidas, mas raramente ela teria experimentado dar voz à própria tensão (dar voz ao "Tenho de falar com o chefe") ou à própria timidez (dar voz à barreira), o que poderá trazer pontos de vista ainda não explorados.

Com base nesse exemplo, podemos descrever algumas contribuições dessa metodologia:

Há um nítido ganho em relação ao espaço hodológico simbolizado com as informações que passam a ficar disponíveis. Ao posicionar as partes daquele todo vivido, a pessoa indica, na distância entre tais partes, um dado concreto a ser por ela mesma descrito. Os elementos estão próximos ou distantes demais? Alguns mais próximos e outros não? O que significam tais posicionamentos para a pessoa? A barreira é representada como forte demais ou o oposto? A tensão é representada como fraca demais ou o oposto?

Em conseqüência da possibilidade concreta descritível, decorrente da montagem da situação vivida, a pessoa se torna independente do terapeuta para elucidar os conteúdos do seu vivido. A situação está ali, e a própria pessoa poderá encontrar, dando voz às partes em contraste com o todo do campo psicológico, o sentido existencial do que está acontecendo. O terapeuta está junto, presente, acompanha de forma sensível o processo de ampliação de autodescoberta e de autossuporte.

Esse método é um recurso facilitador no que se refere à sua assimilação pela pessoa que o experimenta, pois esta tem diante de si um referencial descritível para interagir, quando antes, apenas no "pensamento" e no verbal, as palavras poderiam ter tantas significações distorcidas quanto a fixação neurótica pudesse permitir. Apenas falando, a pessoa reduz o acesso às informações presentes no campo e corre o risco de manter-se enredada nas tramas de sua própria história. Na situação vivencial isso não ocorre, pois muitas outras informações aparecem: a expressão corporal (gestos, olhares, jeito de caminhar; tons de voz) diante de cada parte do campo; a presentificação das formas dos objetos escolhidos para a simbolização; a ordem na qual são posicionados; a distância entre eles etc.

A pessoa pode identificar-se com as partes da situação vivida e experimentar, quando no lugar do outro, uma visão ampliada de sua própria percepção projetada no olhar do outro, sentindo as forças presentes no campo, como, por exemplo, presenças imaginárias de outras pessoas. Explorando novos pontos de vista, pode surgir um tipo de gesto que é particularmente importante: os "olhares", como se a pessoa enxergasse alguém. De fato, o campo é o horizonte de sentido de uma situação, e, eventualmente, isso inspira movimentos da pessoa em relação à existência de outras do seu contexto — atual ou não aparecendo olhares em direção aos espaços vazios onde ela via pessoas como a mãe, o pai, o marido, a esposa, o professor, a turma de colegas da escola etc. Isso amplia a abertura mais social ao contexto preponderantemente individualizante da terapia.

Como a situação, como um todo, pode ser representada no campo, os conflitos e suas possíveis soluções também estarão naquela unidade situacional. O campo permite que a pessoa visualize o conflito como uma parte desse campo e uma possível solução ou conclusão em outra parte. E, em vez de só viver um simples "resolvo" ou "não resolvo" (próprio de um pensamento reducionista), a pessoa pode experimentar aproximar-se mais de uma parte, voltar, afastar-se um pouco ou se aproximar. Ela ganha, assim, uma mobilidade com a qual ela pode se permitir gradativamente explorar pontos seguros ou mais ousados, correr riscos, retroceder — tudo isso até perceber-se em contato com a possibilidade de confrontar--se com o antes evitado, dando o encaminhamento que ela quiser ao conflito vivido. Poderá confrontar-se diretamente, desistir do conflito ou ignorá-lo. Lembrando: o que a pessoa entende por "solução" é sempre inerente à sua idiossincrasia, é algo dela, e não algo para atender à expectativa do terapeuta. No caso da timidez para com o chefe, a pessoa, em vez de só experimentar um "falar com o chefe" versus "não falar", pode experimentar gradativamente se aproximar dele, manter-se em contato com a experiência de cada passo mais próximo; pode permitir-se voltar atrás e tentar outro dia, e ir ganhando familiaridade com cada etapa experimentada.

Contribuições da teoria de campo para a Gestalt-terapia, segundo Parlett, Latner e Yontef

Parlett (1991) escreveu um artigo sobre os aspectos cruciais do trabalho de Lewin, que especificou mais detalhadamente em cinco princípios. Esse material também se encontra em português, citado nos livros de Robine (2006) e Silveira e Peixoto (2012).

Inicialmente, Parlett destacou o "princípio de organização": todo campo se organiza em função do que acontece nele e tudo que acontece no campo tem um sentido que precisa ser compreendido nessa interação. Nada deve ser compreendido como um em si; tudo que ocorre no campo está relacionado com seus elementos.

A partir do foco presentificante do princípio da contemporaneidade de Lewin, Parlett destacou que o que afeta o campo sempre é algo presente, pois até o passado é tido como o que está sendo agora lembrado, e o futuro como o que está sendo agora antecipado. Ressalta-se que o aqui e agora, tão caro à Gestalt-terapia, igualmente nunca pode ser tomado de forma simplista, como se a pessoa atendida na clínica só pudesse falar sobre o que está acontecendo durante a terapia.

Mesmo que fale do passado, como recordação, ou do futuro, como antecipação, isso é algo que acontece no presente.

Com base nessa questão temporal focada no presente, Parlett também destacou outro princípio, chamado por ele de "princípio do processo de transformação": o que acontece no campo é sempre algo em andamento, nunca fixo, pela simples impossibilidade de o próprio tempo se fixar. Como já vimos, "presente" se refere a um horizonte temporal, a partir do momento vivido, para as lembranças que são trazidas à tona, em direção a um futuro com um número de possibilidades finitas (limitadas pelo presente). Lewin nos lembra disso quando comenta que, em suas pesquisas, percebeu que o que nos impulsiona é o sentido do campo iluminado pelo presente (o "onde estamos"), a partir do "de onde viemos", em direção às finitas possibilidades (o "para onde iremos").

Retomando, partindo do enfoque lewiniano sobre os casos únicos, Parlett destacou o "princípio de singularidade": cada situação vivida é única e devemos, com isso, tolerar as ambigüidades e incertezas de lidar com situações nas quais nenhuma experiência anterior pode substituir o que está surgindo agora.

Por último, com base na metodologia descritiva de Lewin, que Parlett chamou de "princípio da possível relevância", depreendemos que, ao lidar com o campo vivencial, todos os elementos que estão presentes podem ser relevantes, mesmo aqueles de suposição contrária, ou aqueles que sempre estiveram lá, como tiques ou trejeitos que poderiam não ter relação com o que estava sendo presentemente vivenciado. Caso algo esteja presente em uma situação, mesmo que se repita em várias outras situações, sempre é importante considerar o ensejo desse algo na vivência atual.

Entre os princípios acima, o tema lewiniano da contemporaneidade recebeu um desdobramento teórico de Yontef (1998). Às vezes, um Gestalt-terapeuta recebe perguntas de pessoas que, baseadas em um pensamento causal/linear, não compreendem a ênfase que a Gestait-terapia dá ao presente e se indagam: como pode um acontecimento passado, como um trauma, não ser objeto de conversa na abordagem gestáltica só porque faz "parte do passado"?

A questão é que, em conformidade com o que foi dito antes sobre contemporaneidade, fatos igualmente importantes do passado só existem como passado na medida em que se ligam a algo que está acontecendo, como a uma tristeza ainda sentida. O que faz o passado aparecer é algo no presente, pois não há outro tempo onde ele possa surgir. Logo, é importante perguntar: como a pessoa está vivendo aqui e agora de tal forma que aquele passado retorne como figura para ela?

Segundo Perls, Hefferline e Goodman (1997, p. 42-5), quando pensamos em um organismo, devemos vê-lo inserido em uma situação, pois ele sempre existe em um campo organismo/ambiente, sendo a fronteira de contato um "órgão" específico de awareness da situação nova que se presentifica no campo. Joel Latner (1983) ressalta que Perls, Hefferline e Goodman se referiam à concepção de campo como uma unidade, não algo em cujo centro as coisas aconteciam, mas sendo ele próprio — o campo — o acontecimento. O campo não é algo que comporta o acontecimento, como se este fosse parte do campo. O campo é o que acontece.

Na Gestait-terapia, encontramos uma sintética definição de campo na obra de Yontef (1993, p. 297, tradução nossa), para quem "campo" significa "uma totalidade de forças que se influenciam mutuamente e juntas formam um todo unificado interativo". Esse autor também nos lembra de que um campo pode ser ampliado ou reduzido, dependendo do interesse em foco, de forma que sempre podemos ver o campo como uma teia de relacionamentos, num contexto de teias de relacionamentos ainda maior ou menor.

Concluindo, o trabalho de Kurt Lewin é bem amplo, com inúmeras possibilidades de aplicação e enorme potencial de convergência com a Gestalt-terapia. Esperamos que, com este capítulo, possamos contribuir para que esse trabalho de aproximação gere cada vez mais frutos.

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Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de