Templodeapolo.net

Mitologias de criação egípcias

Mitologia - Mitologia Egípcia

Orfismo, a religião grega inspirada em Orfeu

História - Civilização Grega

Arqueologia Bíblica - O Estudo de Sítios e Artefatos Bíblicos

História - Civilização Hebráica

A simbologia do Fogo na mitologia

Mitologia - Mitologia Grega

A Atlântida mítica

Mitologia - Mitologia Grega

#VazaJato

As razões de Judas
Knowledge & Healthy lifestyle
A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal...
Machado de Assis
Todas as citações
{+} Machado de Assis
Notícias
12 Oct , 2019, 15:10h Atualizado em: 10/12/2019 3:10:35 PM
Descoberto um planeta que não deveria existir
El País
Astronomia - Via Láctea
18 Jun , 2019, 15:43h Atualizado em: 6/18/2019 3:48:21 PM
Telescópio na Espanha descobre um sistema solar próximo que pode ter água líquida
El País
Astronomia - Via Láctea
17 Jun , 2019, 08:47h Atualizado em: 6/17/2019 8:49:20 AM
Nova descoberta da NASA apontaria indícios de vida em Vênus
Sputnik
Astronomia - Astrobiologia
14 Jun , 2019, 14:34h Atualizado em: 6/14/2019 2:34:30 PM
A nova teoria que tenta explicar os mistérios que cercam a morte de Alexandre, o Grande
BBC Brasil
História - Civilização Grega
14 Jun , 2019, 12:16h Atualizado em: 6/14/2019 12:19:15 PM
Misterioso satélite de Júpiter poderia abrigar criaturas marinhas alienígenas, revelam cientistas
Sputnik
Astronomia - Astrobiologia
4 Jun , 2019, 16:34h Atualizado em: 6/4/2019 4:34:37 PM
Estudo destrói um mito popular sobre civilização maia e os sacrifícios humanos
Sputnik
História - Civilização Maia
Todas as notícias
Matérias
3/10/2019 3:44:40 PM
Pedristas X Miguelistas, a guerra civil portuguesa

D. Pedro e D. Miguel são, em Portugal e no Brasil, o exemplo perfeito dos irmãos desavindos. Campeões de causas irreconciliáveis, os filhos de D.João VI combateram-se na guerra civil que ensanguentou Portugal de 1832 a 1834. Ainda hoje se mantêm as sequelas de tão funda divisão.

História - Portugal
8/1/2018 7:52:24 PM
Visões de Marte

O planeta marte exerce tremenda força sobre a imaginação humana. O astro rubro foi visto como sinistro ou violento na Antiguidade. Os gregos o associaram a Ares, o deus da guerra; os babilônios o batizaram com o nome de Nergal, a divindade dos domínios subterrâneos. Para os antigos chineses, Marte era Ying-huo, o planeta de fogo.

Astronomia - Sistema Solar
6/28/2018 6:02:22 PM
Tróia, a guerra de homens e deuses

"Canta ó deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta, que causou inumeráveis dores aos Aqueus, precipitou no Hades almas de heróis sem conta, e os corpos lhes tornou em presa de cães e pássaros carniceiros: cumpria-se a vontade de Zeus, desde a contenda que separou o Átrida, rei de guerreiros, e o divino Aquiles (...)"

Mitologia - Mitologia Grega
Todas as matérias
Textos
2/2/2019 11:27:13 AM | Por Robert Dinwiddie
Livre
O começo e o fim do Universo

A história do Universo pode ser traçada desde seus primeiros instantes, de acordo com a teoria do Big Bang. No modelo do Big Bang, o Universo já foi infinitamente pequeno, denso e quente. O Big Bang deu início a um processo de expansão e resfriamento que continua até hoje. Não foi uma explosão de matéria no espaço, mas uma expansão do próprio espaço, que, no princípio, trouxe o tempo e o espaço à existência. O Big Bang, contudo, não explica todas as características do Universo, e continua a ser refinado. Os cientistas o usam como um quadro para mapear a evolução continuada do Universo, passando por eventos como o desacoplamento de matéria e radiação (quando os primeiros átomos se formam e o Universo se torna transparente) e a condensação das primeiras galáxias; a formação das primeiras estrelas. O estudo do Big Bang e do balanço da gravidade do Universo e a força da chamada energia escura podem dizer qual será o fim do Universo.

O Big Bang

Espaço, tempo, energia e matéria devem ter vindo à existência 13,7 bilhões de anos atrás, no evento chamado Big Bang. Em seus primeiros momentos, o Universo era infinitamente denso, inimaginavelmente quente e continha energia pura. Mas, dentro de uma ínfima fração de segundo, surgiu um vasto número de partículas fundamentais, criadas a partir de energia, à medida que o Universo resfriava. Em poucas centenas de milhares de anos estas partículas se combinaram para formar os primeiros átomos.

No princípio

O Big Bang não foi uma explosão no espaço, mas uma expansão que ocorreu no primeiro instante depois do Big Bang, a Era de Planck, mas no final deste período, a gravidade havia se separado das outras forças da natureza, seguida pela separação da força forte. Acredita-se que este evento originou a “inflação” – uma expansão curta porém rápida. A inflação ajudaria a explicar como o Universo parece tão homogêneo e plano. Durante a inflação, surgiu uma quantidade fantástica de massa-energia, em contraposição a uma quantidade igual porém negativa de energia gravitacional. No final da inflação, a matéria começou a aparecer.

A emergência da matéria

Cerca de 1 microsegundo (10-6 segundos ou um milionésimo de segundo) depois do Big Bang, o universo jovem continha além de vastas quantidades de energia radiante, ou fótons, uma “sopa” efervescente de quarks, antiquarks, e glúos. Também estava presente uma classe de partículas fundamentais chamadas léptons (principalmente elétrons, neutrinos e suas atipartículas), formando-se a partir de energia e se aniquilando de volta à energia. O palco estava armado para os processos de formação da matéria seguinte que levaram ao presente Universo. Em primeiro lugar, quarks e glúons se uniram para formar partículas mais pesadas – em particular prótons e um menor número de nêutrons. A seguir, os nêutrons se combinaram com alguns dos prótons para formar núcleos atômicos, principalmente de hélio. Os prótons restantes, destinados a formar núcleos de hidrogênio, permaneceram não-combinados. Finalmente, após meio milhão de anos, o Universo se resfriou o suficiente para os elétrons se combinarem com os prótons livres e os núbleos de hélio – assim formando os primeiros átomos.

Saindo das trevas

O período desde o nascimento dos átomos, 300.000 anos depois do Big Bang, até a ignição das primeiras estrelas, centenas de milhões de anos mais tarde, é conhecido como a “Idade das Trevas” do Universo. O que aconteceu durante essa era, e o subsequente “Renascimento” cósmico quando a luz das estrelas preencheu o Universo, é um enigma. Os astrônomos o estão solucionando pela análise da radiação relíquia do Big Bang e do uso dos mais poderosos telescópios para perscrutar os limites do Universo.

As consequências do Big Bang

Aos 350.000 anos de idade, o Universo estava repleto de fótons propagando-se em todas as direções, de átomos de hidrogênio e hélio, de neutrinos e outras formas de matéria escura. Embora o Universo ainda estivesse quente, a 2500ºC, e preenchido de radiação, os astrônomos não veriam nenhuma luz se pudessem olhar anteriormente a esse instante. A razão disso é que o Universo, ao se expandir, distendeu os comprimentos de onda da radiação por um fator 1000. Os fótons, agora, alcançam a Terra não como luz visível, mas como fótons de baixa energia da radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMBR). Estes comprimentos de onda, outrora característicos de um universo incandescente, são típicos de um objeto tão frio que sua temperatura é de cerca de -270ºC, 3K (3 graus Kelvin) acima do zero absoluto.

A Idade das Trevas

A Terra pode nunca receber a luz visível do período antes das primeiras estrelas se formarem, umas poucas centenas de milhões de anos após o Big Bang, mas os cosmólogos podem reconstruir o que ocorreu durante esse período, usando outros dados, como aqueles da CMBR. A CMBR revela minúsculas flutuações da densidade da matéria, quando os primeiros átomos se formaram. Os cosmólogos acreditam que a gravidade, atuando nestas flutuações, levam a matéria a formar aglutinações e cordões. Essas irregularidades na nuvem inical de matéria provavelmente constituíram o arcabouço dos atuais objetos de grande escala, como os superaglomerados de galáxias. A evolução dessas estruturas por bilhões de anos pode ser simulada por computadores. Essas simulações baseiam-se em suposições sobre a densidade e propriedades da matéria no universo jovem, assim como a influência da energia escura. Algumas simulações se assemelham à distribuição da matéria do universo atual.

Galáxias primitivas

Os astrônomos ainda estão tentando localizar quando as primeiras estrelas se formaram e em que tipo de estruturas galácticas isso ocorreu. Estudos recentes no infravermelho, feitos com instrumentos como o Telescópio Espacial Spitzer e o Very Large Telescope [VET], revelarem o que parece ser galáxias extremamente fracas, com redshifts elevados, presentes há apenas 500 milhões de anos depois do Big Bang. Sua existência indica que precursores bem desenvolvidos, nós e massas condensadas de matéria deviam estar presentes entre 100 e 300 milhões de anos depois do Big Bang. São nessas estruturas que as primeiras estrelas devem ter se formado.

As primeiras estrelas

As primeiras estrelas, que podem ter se formado 200 milhões de anos depois do Big Bang, eram feitas quase que inteiramente de hidrogênio e hélio, com virtualmente nenhum outro elemento químico. Os físicos pensam que as nebulosas de formação estelar sem elementos pesados e condensaram em nuvens muito maiores que as de hoje. As estrelas que aí se formaram também devem ter sido muito grandes e quentes, talvez tipicamente de 100 a 1000 massas solares. Muitas podem ter durado poucos milhões de anos ou menos, antes de morrerem como supernovas. A luz ultravioleta dessas estrelas pode ter originado um momento crucial na evolução do Universo – a reionização do seu hidrogênio, transformou de um gás neutro de volta à forma ionizada (prótons e elétrons livres) vista hoje. A radiação dos quasares também pode ter reionizado o Universo.

Enriquecimento químico cósmico

Durante suas vidas e ao final delas, as primeiras estrelas massivas criaram e dispersaram novos elementos químicos no espaço e em massas protogalácticas em colapso. Um zoológico de novos elementos, como carbono, oxigênio, silício e ferro, foi formado a partir da fusão nuclear nas regiões centrais quentes dessas estrelas. Elementos mais pesados que o ferro, como bário e chumbo, formaram-se durante suas mortes violentas. Estrelas de segunda e terceira gerações, menores que as megaestrelas primordiais, formaram-se, a partir do meio interestelar enriquecido. Essas estrelas criaram mais elementos químicos, que retornaram ao meio interestelar através de ventos estelares e supernovas. Interações entre galáxias e varrimento do seu gás levaram a mais enriquecimento e dispersão, no meio intergaláctico. Esses processos de reciclagem e enriquecimento continuam. Na Via Láctea, os novos elementos químicos são essenciais par aa formação de objetos desde planetas rochosos até organismos vivos.

Vida no Universo

A única vida conhecida no Universo está na Terra. A vida aqui, no entanto, é tão ubíqua e o Universo tão enorme que os cientistas vêem chances de o processo vital manifestar-se também em outras regiões do Cosmos. Mas a vida na Terra ter sido fortuita – produto de uma série improvável de eventos – ou, como muitos acreditam, não tão inesperada.

Organismos vivos

O que é um organismo vivo? As ideias a respeito disso dependem do estudo da vida na Terra, pois não temos ideia do alcance da vida fora daqui. Os biólogos concordam sobre algumas características básicas que distinguem o vivo do não-vivo em qualquer parte do Cosmos – no mínimo, uma entidade viva deve ser capaz de se reproduzir e, ao longo do tempo, evoluir. Não estão certos, no entanto, se vírus são vivos. Embora autorrepliquem, falta ao vírus algumas características que a maioria dos biólogos considera essenciais à vida: eles não existem como células e não possuem seu próprio maquinário bioquímico. É também incerto se outras características comuns à vida terrestre, como a química do carbono e o uso da água líquida, devam inevitavelmente ser um traço da vida extraterrestre. Desacordos sobre esses pontos aumentam a complexidade das discussões sore a possibilidade de vida extraterrestre.

Origens da vida

A maioria dos cientistas concorda que o começo da vida terrestre está ligado à acumulação de moléculas orgânicas simples em uma “sopa primordial! Nos oceanos, logo após sua formação. As moléculas teriam resultado de reações químicas na atmosfera, talvez estimuladas pela energia de raios. Na sopa, ao longo de milhões de anos, os compostos orgânicos reagiram, formando moléculas cada vez maiores e mais complexas, até que surgiu uma molécula com a capacidade de auto-replicação. devido sua natureza específica, essa molécula – um gene rudimentar – tornou-se mais comum. Através de mutações, e pelo mecanismo da seleção natural, variantes desse gene desenvolveram adaptações à sobrevivência cada vez mais sofisticadas, evoluindo ara uma céula do tipo bactéria – a precursora de toda vida terrestre. Muitos biólogos evolutivos diriam que o evento decisivo nesse caso foi o aparecimento de um auto-replicador.

A raridade da Vida

Há 30 anos as condiç~eos que se pensava serem essenciais à vida, como aquelas de temperatura e umidade, eram consideradas estreitas. Desde então os cientistas descobriram extremófilos (organismos que prosperam em condições extremas) vivendo em ambientes adversos na Terra. Esses organismos podem viver em profundas camadas de gelo ou nas fumarolas de água fervente no fundo dos oceanos. Alguns vivem em comunidades desprovidas de luz solar e extraem energia de fontes químicas. Pesquisas encontraram bactérias vivendo em profundidades de 3 km da crosta terrestre, com metabolismo baseado em hidrogênio. Extremófilos estimulam a ideia de que a vida pode existir em uma ampla gama de condições. Alguns cientistas ainda têm esperanças de que vida extraterrestre possa ser descoberta no Sistema Solar, embora a exploração do locam mais provável, Marte, tenha produzido resultados negativos até agora. Além do Sistema Solar os cientistas acreditam que a vida possa ser amplamente difundida. Nesses locais mais remotos, o cientistas estão interessados na possiblidade de existência de vida inteligente, contatável. Em 1960, o radioastrônomo estadunidense Frank Drake desenvolveu uma equação para prever o número de civilizações na Galáxia capazes de comunicação interestelar. Pelo fato de apenas poucos fatores da equação poderem ser estimados acuradamente, o resultado pode variar entre menos de um a milhões de plantas, dependendo dos valores supostos.

Buscando a Vida

Há muitas abordagens para as tentativas de identificar formas de vida extraterrestres. No Sistema Solar cientistas analisam imagens de planetas e luas, e enviam sondas para buscas em Marte e a lua Titã, de Saturno. Fora do Sistema Solar o principal foco até agora foi o Busca por Inteligência Extraterrestre [SETI] – conjunto de programas que envolve a varredura do céu em busca de sinais com a aparência de artificial. Também estão em andamento buscas por planetas de tipo terrestre em torno de estrelas próximas. Finalmente, Comunicação com Inteligência Extraterrestre [CETI] envolve mensagens de humanos por transmissão de sinais rumo a estrelas alvos. Em 1974 uma mensagem CETI em código binário foi enviada em direção ao aglomerado estelar M13, a 21000 anos-luz. Em 1999, a mensagem mais elaborada “Encontro 2001) foi enviada por um radiotelescópio ucraniano em direção a algumas estrelas de tipo solar próximas. Mesmo se os alienígenas captarem a mensagem, não esperamos receber respostas antes de um século.

O destino do Universo

Embora seja possível que o Universo possa ser eterno os tipos de estrutura que existem, como planetas, estrelas e galáxias, certamente não durarão para sempre. Em algum ponto, distante no futuro, nossa galáxia e outras serão rasgadas, ou sofrerão um alonga e prolongada morte fria. Ou ainda serão inteiramente esmagadas em um reverso do Big Bang. O destino do universo depende em grande medida da natureza da energia escura – uma força misteriosa oposta à gravidade que, recentemente se descobriu, desempenha um papel fundamental no comportamento do Universo em grande escala.

Big Crunch e Big Chill

Até recentemente os cosmólogos supunham que a taxa de expansão do Universo estava se desacelerando, devido ao efeito de “frenagem” da gravidade. Também se acreditava que um único fator – a densidade de massa-energia do Universo – decidiria qual de dois destinos básicos o aguardaria. Os cosmólogos medem a densidade tanto de massa como energia em conjunto, porque, como Einsteindemonstrou, massa e energia são equivalentes e intercambiáveis. Caso essa densidade, seja acima de um valor crítico a gravidade levará o Universo a deter sua expansão e a colapsar em uma implosão ígnea aniquilando tudo, o “Big Crunch”. Mas se a densidade do Universo for menor ou igual à densidade crítica, o Universo se expandirá para sempre, embora a uma taxa gradualmente desacelerada pela gravidade. Neste caso, o Universo acabará em uma longa morte fria “Big Chill”. Pesquisas com o objetivo de resolver esta questão revelaram que as propriedades do Universo sugerem que ele é extremamente próximo de ser “plano”, com a densidade exatamente igual à densidade crítica. Embora a parte da matéria-energia do Universo necessária para torna-lo plano seja difícil de se determinar, sua densidade deveria ser próxima do valor crítico, e assim seu destino mais provável seria a expansão eterna. Contudo, no final da década de 1990, esses modelos para o destino do Universo foram abalados por novas descobertas indicando que a expansão do Universo não está em desaceleração.

Energia escura

As descobertas vieram do estudo de supernovas em galáxias remotas. O brilho aparente dessas explosões estelares pode ser usado para calcular suas distâncias, e, comparando as distâncias com os redshifts das galáxias hospedeiras, pode-se calcular a taxa de expansão do Universo em diferentes épocas de sua história. Os cálculos mostraram que a expansão estava acelerando-se e que alguma força se opunha à gravidade, a “constante cosmológica” proposta por Einstein, como parte de sua teoria da relatividade geral. E existência dessa energia escura também responde pela massa-energia faltante no Universo para que ele seja plano e modifica o número de possíveis destinos do Universo.

A geometria do espaço

Os cosmólogos baseiam suas ideias sobre o destino do Universo parcialmente em modelos matemáticos. E os modelos indicam que, dependendo de sua densidade de massa-energia, o Universo tem três possíveis geometrias, cada uma com uma diferente curvatura do espaço-tempo, que pode ser representada por uma forma 2-D. Antes da descoberta da energia escura havia uma correspondência entre essas geometrias e o destino cósmico. Considerava-se que um Universo de curvatura positiva ou um universo “fechado” terminaria em um “Big Crunch”, e um universo de curvatura negativa ou “aberto”, em um “Big Chill”. Um univeso plano também terminaria em um “Big Chill”, mas a expansão do Universo acabaria por desacelerar até uma parada virtual. Com a proposição da energia escura essa correspondência não mais existe. Se a energia escura permanecer com intensidade constante o Universo se expandirá para sempre. Se a energia escura for capaz de reversão, qualquer tipo de universo teminaria em um Big Crunch. Atualmente, o modelo mais favorecido é o de um universo plano que sofrerá uma expansão acelerada. O cenário cataclísmico do “Big Rip”, onde a energia escura cada vez mais intensa dilacera o Universo, parece menos provável.

Uma morte fria

Se o Universo se esvaecer em um Big Chill, sua morte levará muito tempo. Nos próximos 1012(1 trilhão) de anos, as galáxias esgotarão seu gás para formar novas estrelas. Em cerca de 1025(10 trilhões) de anos no futuro, a maior parte da matéria do Universo estará em cadáveres estelares como buracos negros e anãs brancas apagadas, orbitando e caindo em buracos negros supermassivos no centro das galáxias (fótons), elétrons, pósitrons e neutrinos. Toda matéria que não esteja em buracos negros será despedaçada. Após 1067anos, os buracos negros começaram a se evaporar pela emissão de partículas e radiação, e em carca de 10100anos, mesmo os buracos negros supermassivos evaporarão. Um universo inteiramente frio e escuro será um mar difuso de fotos e partículas fundamentais.

 

Observadores de um objeto afastando-se, vêem suas linhas espectrais deslocadas para maiores comprimentos de onda (deslocamento para o vermelho, redshift)

 

Einstein exprimiu sua teoria de como a massa distorce o espaço-tempo em suas “equações de campo”. Os físicos, usando essas equações, descobriram que é nos campos gravitacionais mais intensos —onde objetos massivos e densos distorcem fortemente o espaço-tempo — que a realidade mais se desvia das previsões de Newton. 

Astronomia - Universo
7/14/2018 12:54:53 PM | Por Mário Curtis Giordani
Livre
Direito Elamita

Os trabalhos dos arqueólogos atestam o progresso das relações jurídicas em Susa na época dos altos comissários. Encontramos documentos relativos ao direito familiar os quais nos instruem sobre o casamento, a adoção (o adotante faz doação dos seus bens ao adotado dentro dos limites impostos pela lei, mas não adquire direito sobre os bens anteriormente possuídos pelo mesmo), as doações de bens imóveis (existem doações gravadas com encargos especiais como, por exemplo, a filha beneficiada deveria alimentar o pai), partição de bens feita pelos pais ainda vivos entre seus herdeiros, etc. Minuciosas normas de direito privado dizem respeito a venda da propriedade, a locação de terras, ao empréstimo, a sociedades, etc. Com relação ao direito processual, anotemos que o julgamento das causas era feito quer por um juiz e certos auxiliares, quer por uma espécie de juri. O local escolhido para o julgamento era um templo ou, em geral, a porta da cidade.

História - Civilização Elamita
12/12/2018 12:39:54 PM | Por Mary Vincent
Livre
Espanha e Portugal, a terra e a gente

A situação da Península Ibérica - que abriga dois países, a Espanha e Portugal - é, em todos os sentidos, periférica. Ela se acha no ângulo sudoeste da Europa, na borda mesma do continente, tanto em seu lado ocidental como em seu extremo Sul. No entanto, em termos geopolíticos, deveria ser uma potência formidável. Com seus 504.782 quilômetros quadrados, o reino da Espanha é - excluída a Rússia - o segundo maior país da Europa, e só é marginalmente menor que a França, e quase metade da nova Alemanha. Mais ainda, com sua costa atlântica e sua proximidade única do continente africano - o Es­treito de Gibraltar fica a apenas 13 quilômetros em seu ponto mais estreito -, era de esperar que a Península Ibérica atuasse como ponte entre a Europa e as Américas e a Europa e a África. Em vez disso, a grande massa da Península Ibérica demonstrou ser um baluarte que separou Oeste e Leste, Sul e Norte. Durante boa parte de sua história, as nações da península ocuparam uma posição marginal nos assuntos europeus. Frequentemente se dis­se que a Península Ibérica pode ficar no continente euro­peu, mas na verdade não faz parte dele.

Fronteiras

Sete oitavos da península são limitados pelo mar. Embo­ra as águas oceânicas se tenham demonstrado uma defe­sa formidável, também contribuíram para a insularidade da Espanha e de Portugal, particularmente porque a única fronteira terrestre, com a França, é formada pelos grandes picos dos Pireneus, a mais ampla e alta cadeia montanhosa da península. Os Pireneus, que remontam aos períodos terciário e quaternário (há entre 54 e 2 milhões de anos), alçam-se a uma altura de 3.404 metros em seu ponto mais alto (o pico de Aneto) e, menos nos lados costeiros, são difíceis de cruzar, dado que sua complexa estrutura de íngremes e agrestes serras e seus profundos vales fluviais os tornam virtualmente impenetráveis.

A península se acha dividida entre os territórios soberanos da Espanha e de Portugal. As únicas exceções são um vale pirenaico que forma o pequeno país independente de Andorra, e os seis quilômetros quadrados de rocha na extremidade de sua costa sul que é Gibraltar, uma possessão britânica desde 1713. Portugal é, de longe, a nação menor; ocupa aproximadamente 15 por cento da península. Sua fronteira com a Espanha - que não mudou desde o século XIII - é de origem política, mas nem por isso deixa de refletir certos traços geográficos. Emboa parte de seu comprimento, percorre os escassamente povoados limites de Estremadura, enquanto alguns outros trechos são assinalados por cursos d’água. Embora em sua maioria sejam rios menores, o grande Douro, que nasce em Castela e desemboca no mar no Porto, forma a fronteira no ângulo nordeste de Portugal, enquanto no extremo Sul o Guadiana separa o Algarve português da Andaluzia espanhola antes de desembocar no Golfo de Cádis. De fato, 54 por cento da fronteira oriental de Portugal margeia canyons fluviais de encostas íngremes; entre Paradela e Barca d’Alva, o Douro desce 500 metros através de um canyon cujas paredes têm em alguns lugares 20 metros de altura que forma boa parte da fronteira, garantiram desde sempre que Portugal seja a parte mais remota de uma já remota região. Separado do interior pela geo­grafia, se não pela distância, Portugal olhou sempre para a costa. Seu território inclui as ilhas vulcânicas atlânticas de Madeira e dos Açores, a 600 e 1.200 quilômetros da costa do Marrocos e de Portugal respectiva­mente, um legado do passado marítimo da nação.

Montanhas

A Espanha ocupa cerca de 85 por cento da península, além das ilhas Baleares na costa mediterrânea - uma extensão da região montanhosa do Sul da península, conhecida como Cordilheira Bética -, os enclaves norte-africanos de Ceuta e Melilla, e o arquipélago vulcâ­nico das Ilhas Canárias, bem ao sul no Atlântico. Seu desenvolvimento foi profundamente afetado pelo que foi denominado sua “intratável geografia”. Em acentuado contraste com Portugal, que é formado predomi­nantemente por terras baixas, a Espanha é o segundo país mais alto da Europa, depois da Suíça. O pico mais alto da península é o Mulhacén (3.478 metros), na Serra Nevada, parte da Cordilheira Bética. No entanto, embo­ra tanto os altos Pireneus como as encostas alpinas da Serra Nevada proporcionem espetaculares paisagens, a altura da Espanha se deve principalmente ao enorme planalto que forma o interior da península. Este grande planalto se alça acima dos 600 metros; suas altas planuras [12] e seus vastos céus formam uma de suas paisagens mais planas, mais severas e, no entanto, mais distintivas. Embora as terras altas se estendam até as províncias portuguesas de Trás-os-Montes, Beira e Alentejo, o planalto cobre quase a mesma área que o reino histórico de Castela, o núcleo da Espanha moderna. Fisicamente e, desde o final da Idade Média, politicamente dominante, Castela é apesar de tudo um território duro e escassa­mente povoado cujos habitantes são renomados por seu estoicismo. O solo é seco e árido; nas estepes da Man­cha, as rochas surgem na superfície, enquanto outras áreas do planalto são submetidas à erosão do vento.

Salvo no Oeste - onde o planalto desce suavemente para as amplas planícies costeiras de Portugal -, o pla­nalto central de Castela é delimitado por altas cadeias montanhosas. No Norte, a mesozóica cordilheira cantábrica, que alcança 2.642 metros em Pena Cerredo, isola o planalto da costa atlântica; no Sul, as planícies terminam na Serra Morena, cujas ressecadas e onduladas terras altas se contam entre as mais antigas da península. A borda oriental do planalto é marcada pela Cordilheira Ibérica, um de cujos braços se estende em uma série de altas serras - Guadarrama, Gredos, Gata, Pena de Francia - que bissectam o planalto central e terminam na mais alta cadeia montanhosa de Portugal, a Serra da Estrela. Estes “baluartes leste-oeste - nas palavras do escritor inglês Laurie Lee - cruzam a Espanha e dividem seus povos em raças separadas”. Para muitos observadores, a força das lealdades e identidades locais, acima das nacionais, foi um dos traços mais distintivos da moderna Espanha e do moderno Portugal.

Comunicações

Este persistente localismo é, em parte, um reflexo da geografia. O interior castelhano se acha totalmente iso­lado da tradicionalmente próspera faixa costeira por numerosas cadeias montanhosas, ao mesmo tempo que a falta de cursos d’água navegáveis ajudou a impedir os intercâmbios com o interior. Nenhum dos cinco rios principais - Douro, Ebro, Tejo, Guadiana e Guadalquivir - que percorrem o planalto e, com exceção do Ebro, desembocam no Atlântico são por natureza inteiramen­te navegáveis. Os rios ibéricos foram mais frequentemente fronteiras do que vias de comunicação; tanto Portugal como a Espanha têm regiões conhecidas como Estremadura, que significa “para além do Douro”, en­quanto o nome dado às planícies do Alentejo, no Sul de Portugal, significa “para além do Tejo”. De fato, o Tejo, que corre bem ao sul da Serra da Estrela, reforça a bissecção de Portugal.

A Espanha tem 3.144 quilômetros de costas, e Portugal, mais 974 quilômetros. Em consequência, não é surpreendente que as comunicações marítimas tenham tido um papel principal no desenvolvimento de ambos os países. Ao menos até a chegada do transporte a motor, as rotas mais rápidas, baratas e convenientes eram por mar. No entanto, nem sequer em suas longas costas foi amável a geografia. Com exceção de Lisboa - que se conta entre os maiores portos históricos da Europa -, os portos naturais da costa do Atlântico se acham isola­dos do interior. A costa galega da Espanha, que se esten­de ao longo da costa atlântica ao norte de Portugal, é formada por profundos estuários, conhecidos como rias. Embora proporcionem soberbos lugares de anco­ragem naturais para as embarcações de pesca que tra­balharam junto a esta perigosa costa desde muitos séculos atrás, até o século XX só se beneficiaram delas principalmente em âmbito local. Mais ainda, a paisagem, parecido com a dos fiordes do Norte da Europa, [15] dificulta as comunicações internas. A região se acha também isolada do restante do interior pela Cordilheira Cantábrica, o limite do planalto, que em algumas de suas partes é quase inacessível.

 

Clima e cultivos

Em uma terra de contrastes, a diferença entre úmido e seco na Espanha é uma das mais agudas. O Noroeste é a zona mais úmida da península. Em alguns lugares, a precipitação anual excede os 1.650 milímetros e, ao contrário do que acontece em outras partes da península, não existe a seca estival. O áspero e chuvoso terreno se presta à criação de gado, e é a única parte da península com uma exploração do leite digna deste nome.  É po­voada de carvalhos, pinheiros e castanheiras, e a terra agrícola pode ser pobre.

Não pode haver nenhuma dúvida sobre a aspereza das terras secas do Sul. Em seus extremos se transfor­mam em um semideserto, como em partes das províncias de Almeria e Múrcia, no ângulo sudeste da Espanha: a zona, conhecida como “mini-Hollywood”, demonstrou ser o lugar ideal para os spaghetti westerns rodados nas décadas de 1960 e 1970. Sua ressecada paisagem é o lar da única palmeira nativa da península (Chamaerops humilis), mas ela quase não sustenta de forma natural nenhuma outra vegetação. No restante da península, a chuva cai no inverno; há muito pouca ou nenhuma no verão.

Todas as regiões secas da península possuem uma grande abundância de sol, que proporciona brilhantes céus azuis e uma luz clara, intensa e penetrante. [16]

Embora nas costas não haja autêntico inverno, a Catalunha é açoitada pelo frio vento do Norte conhecido localmente como tramontana. Paradoxalmente, a costa atlântica do Sul de Portugal é a única parte da península que goza de um autêntico clima “mediterrâneo” de quentes e secos verões e invernos úmidos e suaves.

São as planícies costeiras, junto com o fértil vale do Rio Guadalquivir, que contêm as mais ricas terras agrícolas da península. Ali se cultivam arroz, algodão e tâmara, bem como as frutas cítricas mais familiares, tomate e melão. Fora desses oásis, o Sul da península - especialmente as terras altas de Andaluzia - é dominado pelo cultivo da azeitona. Com mais de 190 milhões de oliveiras, a Espanha é o maior produtor mundial de azeite de oliva. A árvore é nativa da região e se acha par­ticularmente adaptada ao clima mediterrâneo; tolerará a seca estival, mas não as geadas do inverno.

Por causa de o interior da península sofrer severos invernos, ele possui uma vegetação muito diferente. Em vez dos carvalhos do Norte ou das palmeiras do Sul e do Leste, a árvore mais típica do planalto é a azinheira, enquanto o sobreiro floresce nas zonas limítrofes da Estre­madura espanhola e do Alentejo português.

Tradicionalmente, as terras altas do planalto eram usadas como terras de pasto; no entanto, com o tempo elas demonstraram ser uma das poucas áreas do Oeste da Europa capazes de sustentar o cultivo do trigo ao modo da pradaria, e na atualidade se acham domina­das por enormes campos de cereal. Estes aparentemente intermináveis trigais realçam ainda mais a paisagem, plana por natureza, das planícies setentrionais, e o ondulante grão desorienta os pombos, que o confundem com as ondas do mar, ao menos segundo um dos maio­res poetas espanhóis do século XX, Rafael Alberti (1902-1999). [17]

Povos

Em contraste com a espetacular variedade de paisagens e climas da península, seus povos são etnicamente homogêneos. Predomina a descendência latina: quase todos os habitantes da península possuem a cor olivácea mediterrânea, cabelo escuro e olhos castanhos, embora um a coloração mais leve absolutamente não seja rara, sobretudo no Noroeste céltico. Antes da chegada dos romanos no século II a.e.c., boa parte da península era habitada pelos celtiberos - originários do Centro da Europa, que entraram na península através dos Pireneus aproximadamente entre os séculos VII e VI a.e.c. - e pelos iberos, já assentados ali, os quais se acredita se originaram ou do Norte de Africa ou do Mediterrâneo oriental. Os casamentos mistos com os colonos romanos proporcionaram a base latina tão evidente entre os povos atuais da península. Só os bascos, estabelecidos já fazia muito tempo a oeste dos Pireneus, escaparam dessas assimilações, preservando sua cultura única pré-indo-européia tanto dos romanos como dos posteriores invasores visigodos.

O legado cultural dos celtas é mais forte na Galícia. Frequentemente é comparada com o Oeste da Irlanda, não só por causa de suas paisagens sempre encharcadas de chuva, mas também porque as pessoas escutam a gaita-de-foles, contam histórias de sereias, e em geral lhes é atribuída uma tendência romântica e artística. Tanto a Galícia como a costa oeste da Irlanda são descritas com frequência como “melancólicas”, embora não se considere que os galegos compartilhem o temperamento belicoso irlandês. Todas as regiões celtas do Oeste da Europa demonstraram ser, ao longo dos anos, uma fértil fonte de emigrantes, em particular para o Novo Mundo: na Argentina, todos os espanhóis são comumente considerados galegos.

Ao contrário do Sul, o Norte da península não foi ocupado durante muito tempo pelos árabes, ou mouros, que a invadiram procedentes do Norte da Africa no século VIII e.c. Seu legado pode ser apreciado na cor mais escura e nos traços árabes de muitos meridionais, em especial na Andaluzia. Os próprios nomes da Andaluzia e do Algarve derivam de palavras árabes, e as casas de paredes brancas, os pátios de azulejos e os jardins formais que constituem um dos traços característicos do Sul são também uma herança direta do passado islâmico.

Exceto o basco - que não parece estar relacionado com nenhuma outra língua conhecida todas as línguas faladas na península derivam do latim, embora muitas palavras individuais tenham sido tomadas do árabe. As línguas dominantes são os idiomas oficiais do Estado, o português em Portugal e o castelhano na Espanha. O português é a única língua falada em Portugal, mas, embora os idiomas locais tenham sido desalentados, e muitas vezes ativamente reprimidos, no passado, Espanha possui várias florescentes línguas minoritárias. Sua sobrevivência reflete o contínuo vigor das identidades regionais dentro do moderno Estado espanhol, embora hoje em dia todos os cidadãos falem o castelhano, além de sua língua local. A língua da Galícia, o galego, é um a forma antiga do português, enquanto o muito antigo e difícil basco - o euskera - sobrevive a oeste dos Pireneus. O catalão, um parente próximo do provençal, a língua do Sul de França, é o mais estendido dos idiomas minoritários, e com algumas variações autóctones é falado em Valência e nas Ilhas Baleares, além de na Catalunha.

Urbanização

Até o início do século XX, a população da Península Ibérica era predominantemente rural e agrícola. Historicamente, a situação das cidades - muitas delas fundadas pelos romanos - dependia das rotas comerciais e da necessidade de defesa. A importância de cidades interiores fortificadas como Eivas e Ciudad Rodrigo - ambas protegiam territórios fronteiriços muito disputados - declinou depois de terem sido fixados os limites entre a Espanha e Portugal e a península ter sido reconquistada dos árabes. [21]

Os rigores do planalto empurraram desde há muito tempo a população da península para as costas. Embora Felipe II tenha encolhido Madri, no Centro de Castela, como sua capital política em 1560, ela não se transformou na capital econômica da Espanha senão no século atual. A medida que o comércio e a indústria se desenvolviam, foram concentrando-se nos arredores das cidades costeiras da península, particularmente Barcelona no Mediterrâneo, Bilbao no Norte, e - em menor medida - o Porto e Lisboa- em Portugal. No século XIX, Barcelona se transformou na cidade mais importante da Espanha, com uma prosperidade baseada no comércio e nos produtos têxteis. Por razões similares, o Porto, a segunda cidade de Portugal, cresceu mais rápido que Lisboa, mas a capital portuguesa logo se recuperou; ao contrário de Madri, Lisboa - com seu fértil interior e seu porto natural - é uma localização óbvia para uma capital. Até os trens expressos e os aviões revolucionarem as comunicações na segunda metade do século XX, Madri não emergiu como a principal cidade da Espanha. Em 1950 Madri era só fracionariamente maior que Barcelona, mas em 1990 a havia superado largamente.

Este crescimento é resultado do declínio agrícola e da despovoação rural, que desde o princípio do século XX — e mais rapidamente ainda a partir de 1950 - tiveram o efeito de incrementar a urbanização por toda a península. O desenvolvimento urbano - caracterizado por arranha-céus hoteleiros - cobre as costas desde o Algarve até a Catalunha. Antigas cidades como Faro, Málaga e Alicante desenvolveram extensos subúrbios; alguns povoados de pescadores como Torremolinos e Benidorm foram transformados em enormes complexos turísticos. Portos como Vigo, na Galícia, cresceram rapidamente, em particular quando - como no caso de Cartagena, em Valência - abrigavam uma base naval ou, como em Setúbal, ao sul de Lisboa, uma florescente indústria.

Longe das costas, virtualmente todas as capitais provinciais aumentaram suas populações a partir do final do século XIX. Embora muitas delas sirvam predominantemente a áreas rurais, o desenvolvimento do governo local, o sistema financeiro e as indústrias de serviços ofereceram novas oportunidades de trabalho à medida que declinava o emprego agrícola. A indústria leve em cidades como Valladolid, a capital de Castela, a Velha, ou Saragoça, no vale do Ebro, atraiu também a população. Hoje em dia, Madri está desenvolvendo rapidamente o primeiro cinturão residencial à medida que as jovens famílias ricas rompem com o hábito de gerações e vão viver fora dos limites da cidade. Madri e seus arredores, no entanto, constituem um caso raro em Castela; as modernas comunicações apressaram o deslocamento para longe do interior. [22]

História - Espanha
Todos os textos
Artigos
A Psicologia e o Sistema Único de Saúde, quais as interfaces1
Psicologia - Psicologia da Saúde
A inclusão escolar e as políticas educacionais - possibilidades e novos caminhos
Psicologia - Psicologia Escolar e Educacional
Psicologia forense e psicologia jurídica- aproximações e distinções
Psicologia - Psicologia Jurídica
Violência na escola X violência da escola
Psicologia - Psicologia social
Preconceito de cor e racismo no Brasil
Psicologia - Psicologia social
Preconceito no Brasil contemporâneo: as pequenas diferenças na constituição das subjetividades
Psicologia - Psicologia social
Todos os artigos
Mitologia
SEÇÕES
MITOLOGIAS DA CIVILIZAÇÃO
A descoberta do milho

Depois de ter furtado os ossos no Mictlán, QuetzalcoatI conseguira criar uma nova humanidade com o auxílio dos outros deuses. Havia, porém, um problema: como alimentar essas novas criaturas? A solução foi encontrada no mesmo lugar onde os homens haviam sido recriados: em Tamoanchán, a antiga morada dos deuses, onde estava a Árvore Partida (ela ficara assim depois que os deuses haviam mexido nela sem o consentimento do deus supremo Ometeotl, "O Senhor da Dualidade"). Diz, pois, que os deuses estavam debatendo acaloradamente para ver que espécie de alimento dariam aos homens - ainda não havia carne alguma, nem tampouco a agricultura havia sido inventada - quando, muito distante dali, uma formiga vermelha entrou no interior da montanha Tonacatepetl ("Montanha dos Alimentos"), onde estavam escondidas muitas espigas de milho (centli, na língua asteca, e maíz na espanhola). Após recolher uma espiga e colocá-la nas costas, o pequeno inseto deixou a caverna. Nesse momento, porém, deu de cara com QuetzalcoatI.
- Olá, formiga vermelha. O que traz aí? - disse o deus emplumado.
- Uma espiga de milho.
-" Espiga de milho"? O que é isso?
- Um alimento.
QuetzalcoatI arregalou os olhos de satisfação.
- Alimento, é...? E é saboroso?
- Muito, e altamente nutritivo - respondeu a formiga, dando as costas.
- Espere! Onde a conseguiu?
Num primeiro momento, a formiga tentou desconversar, mas, como formigas não têm um poder de convencimento muito grande -qualquer pé levemente erguido já as torna assustadas -, ela tratou logo de dizer onde ficava o depósito de grãos.
- Fica bem ali - disse ela, apontando uma anteninha para o monte Tonacatepetl.
-"A Montanha dos Alimentos"...? Sim, eu passo todos os dias por ali! Quer dizer, então, que é por isso que ela se chama assim?
A formiga olhou para o céu.
- Vamos, leve-me até lá! - disse o deus, ansioso.
- Lamento, mas você não pode entrar lá.
- Como não?
- Você é muito grande, ora! Mesmo eu, formiga que sou, mal pude passar pela entrada!
- Ah, é? E como fez para sair, então, com uma espiga cem vezes maior?
- Não interessa...! (Mania de perguntar!)
- Bem, não importa. Vou me transformar numa formiga e entraremos juntos.
Quetzalcoatl insistiu tanto que a formiga teve de acompanhá-lo. O deus serpente havia se transformado numa formiga negra - seja lá qual for o motivo para a escolha da cor - e conseguiu penetrar nas profundezas com facilidade, encontrando as espigas de milho empilhadas lá dentro como se fosse num imenso depósito de ouro.
Depois de empilhar um monte de espigas nas costas, as duas formigas deixaram o monte e dirigiram-se até Tamoanchán, onde os deuses ainda queimavam os miolos para elaborar o cardápio humano.
- Pedra moída não dá, ninguém vai aguentar - dizia um deus, desanimado.
De repente, porém, irrompeu na assembleia o deus, já transformado novamente em serpente emplumada, carregado das espigas.
- Esqueçam a pedra! Trouxe um alimento mil vezes melhor!
Todos os deuses calaram-se e trataram de ir correndo ver as espigas.
-Não há alimento melhor, asseguro-lhes! - disse Quetzalcoatl. - Ele se chama milho! Com ele pode-se fazer os mais diversos pratos, comendo-o cosido, assado ou sob a forma de mingau, de papa, de bolos e mil outras maneiras! Uma delícia...!
Os deuses começaram a comer o milho, e depois de tê-lo bem mascado deram a papa na boca dos homens, que ainda estavam muito fraquinhos para mastigar.
- Onde tem mais? - disse Tezcatlipoca, "O Senhor do Espelho Fumegante".
- No monte Tonacatepetl - respondeu Quetzalcoatl.
- Na "Montanha dos Alimentos"...? Claro, como ninguém pensou nisso antes?
"Uma formiga havia pensado", pensou Quetzalcoatl, vexado.
- Muito bem, traga o monte para cá - disse Tezcatlipoca.
- Como é que é?!
- Traga o monte para cá. Não vamos ficar nesse leva e traz de espigas o resto da vida.
Quetzalcoatl achou que o irmão estava de brincadeira, mas era a sério. Então, retornou até a montanha para ver se era possível mesmo realizar a façanha.
- Sou um deus, não é? O que é uma montanhazinha perto de um deus como eu?
Quetzalcoatl tentou arrancar a montanha pela raiz, mas o negócio mostrou-se mais difícil do que ele pensava.
- Melhor pensar noutra coisa...!
Como não ocorreu ao deus repetir o milagre da metamorfose, transformando-se num gigante (ou, ao menos, numa formiga gigante), restou-lhe procurar uma corda bem grande para amarrar a montanha.
- Eu a levarei de arrasto! Desta vez dará certo!
Mas não deu. A montanha não se moveu um milímetro, e Quetzalcoatl retornou a Tamoanchán, novamente vexado. Tezcatlipoca não estava mais por ali, e em vez do deus ele encontrou o casal de sábios Oxomoco e Cipactonal - aqueles que haviam reescrito os livros mágicos astecas após o regresso dos deuses a Tamoanchán.
O casal de velhos estava atirando os grãos de milho no chão e resmungando não se sabe o quê.
- O que estão fazendo aí? - disse a Serpente Emplumada.
- Lendo a sorte nos grãos - disse Oxomoco.
- Por que não os comem, em vez de estarem com brinquedos? Bem se diz que a velhice é uma segunda infância!
- Calado! Não está vendo que não temos mais dentes para estas aventuras mastigatórias? - disse Cipactonal, mostrando as gengivas. -P referimos usar os grãos para predizer o futuro.
- Lancem os grãos, então, e vejam se descobrem a melhor maneira de arrastar uma montanha.
Os dois velhos pararam de chacoalhar os grãos nas mãos encarquilhadas.
- Está brincando...?
- Não, é verdade! - insistiu o deus. - Preciso trazer a Montanha dos Alimentos para cá!
Os velhos, então, lançaram os grãos no chão e encontraram a resposta.
- Só existe um deus capaz de obrar o prodígio - disse Oxomoco.
- Sim, procure Nanahuatzin - completou a esposa.
Nanahuatzin era o deus leproso que se lançara ao fogo para criar o Quinto Sol.
- Diga para ele levar consigo alguns tlaloques - disse Oxomoco (tlaloques eram os deuses auxiliares de Tlaloc).
- Por quê?
- Tlaloc é o deus da chuva e também da abundância - disse Cipactonal.
Quetzalcoatl foi até Nanahuatzin e ambos partiram em direção ao monte Tonacatepetl. O deus-anão solar também estava muito abismado com tudo.
- Quer dizer, então, que os alimentos estavam escondidos o tempo todo na "Montanha dos Alimentos", é? Quem haveria de dizer!
- Uma formiga disse - falou Quetzalcoatl, mal-humorado.
Ao chegar próximo do monte, Nanahuatzin sacou logo dos seus raios e disparou-os na sua direção. Uma brecha enorme se fez e os tlaloques ingressaram nas profundezas, onde recolheram todo o milho que havia. Só que havia um detalhe: por causa do raio e do calor, os milhos haviam adquirido cores diferentes: havia agora o milho amarelo, o vermelho, o preto e o branco.
- Ótimo! - disse Quetzalcoatl. - Havendo de diversas variedades, não haverá como enjoar!
E foi assim que o milho foi descoberto, tornando-se o principal alimento não só dos astecas, como o de todos os povos da América Central pré-colombiana.

Mitologia Asteca
SERES DIVINOS
MITOS E LENDAS
Píramo e Tisbe

- Ah, muro maldito, quem foi o infeliz que empilhou um a um os seus tijolos gelados e intransponíveis? Assim lamentava-se todos os dias Píramo, jovem e belo assírio que o ódio dos pais havia encerrado longe dos olhos de sua amada Tisbe, a mais bela virgem de todo o Oriente. Apesar de morarem um ao lado do outro, isto era para ambos quase o mesmo que estarem em lados opostos do mundo, pois um muro intransponível e indestrutível fora erguido entre as duas casas. - Que um raio o parta em dois, que os deuses o façam evaporar, que meu amor o derreta como um sol dardejante! Assim dizia o infeliz Píramo, de punho erguido, a maldizer o dia inteiro, desta e de muitas outras maneiras, a funesta parede. - Não sejamos tão injustos, meu amor! - balbuciava a bela Tisbe, por sua vez, do outro lado do muro. - Não fosse esta estreita fenda que o construtor desavisado deixou aberta, e jamais poderíamos conversar assim, livremente. Não, não culpe o muro, nem seu construtor, mas apenas nossos pais, que de maneira insensível nos consomem a alma nesta cruel agonia.

Tisbe parou um pouco; o ruído de um longo suspiro chegou até os ouvidos de Píramo apaixonado.

- Píramo, precisamos ter muita paciência...

- Paciência?! - exclamou a voz emparedada. - Minha paciência esgotou-se, minha amada Tisbe. Que mal fizemos nós? Que crime cometemos? Como posso me conformar diante de tanto despotismo? Já não suporto mais viver apenas das doces palavras que me diz, sem poder ver a maravilhosa boca que as pronuncia, nem ler os bilhetes que introduz pela fenda, sem poder ver a alva mão que os escreve.

Píramo tentou, então, pela milésima vez, ver se conseguia enxergar um pedacinho, por mínimo que fosse, de sua adorada Tisbe. Mas a parede era muito espessa, e a fenda, muito estreita.

- Oh, pudesse agora tomá-la em meus braços... - exclamou Píramo, agoniado, afagando as heras que cobriam o muro como se fossem os cabelos de sua amada.

- Píramo amado, não se exalte, podem nos ouvir - sussurrou Tisbe, com a boca grudada no pequeno vão do elevado muro.

"Se pudesse ao menos escalá-lo... ", pensou o jovem assírio, enterrando os dedos nas poucas saliências e reentrâncias do sólido anteparo. Oh, mas o perverso construtor fora sábio o bastante para fazê-lo de pedras suficientemente lisas e escorregadias. O jovem não conseguiu enterrar mais do que a ponta de suas unhas entre as saliências, sempre estrategicamente afastadas umas das outras.

- É um maldito deboche! - disse ele, retirando as unhas escalavradas, ao descobrir finalmente, após detida inspeção, que eram todas fendas falsas.

"Será que até isto o perverso construtor arquitetara?", pensou Píramo.

O jovem ergueu, então, os olhos para o alto, mas por mais que elevasse as vistas não conseguia divisar o fim do muro: as pedras lisas e inconsúteis perdiam-se nas nuvens, tornando impossível ver-lhes o fim, ao mesmo tempo em que do alto descia a água das nuvens, escorrendo sempre pelo muro, como uma parede que na estação das chuvas verte a umidade sem cessar, tornando impossível até mesmo às lagartixas escalarem-no.

E que fera monstruosa haveria lá no topo? Que medonho obstáculo estaria à espera do audaz que enfim o alcançasse?

- Oh, minha paixão e meu tormento! - exclamou o jovem, por fim, com seus lábios ardentes colados à pedra molhada, como se beijasse os lábios úmidos da própria Tisbe. Mas sabe Zeus quantas pedras sobrepostas ainda separavam seus ardentes lábios! Oh, se ao menos fossem feitas de blocos de gelo duro, para que o calor de seus lábios acabasse, cedo ou tarde, por dissolvê-los...

- Quando poderei beijá-la de verdade, tocar seus lábios, sua pele macia, envolver seu corpo lindo e encantador num abraço infinito? Teremos de esperar, então, até que estejamos velhos, ao ponto de meus olhos não poderem mais distinguir a sua beleza? - exclamava Píramo em seu estado febril.

Neste momento foi abruptamente interrompido por Tisbe.

- Ambos velhos...? Eu e você...? - repetia ela, como se não conseguisse acreditar que isto um dia aconteceria. - Mas você é tão belo, não há jovem de maior beleza em toda a Babilônia!

- Por enquanto, minha bela e fascinante Tisbe... O tempo, porém, é veloz e desapiedado para com os mortais.

- Realmente, você está ficando diferente. Está mais maduro e sua voz mais grave, embora mais desanimada, também... Ah, tem razão, meu belo Príamo... Basta! Isto não pode continuar assim - disse Tisbe, revoltando-se, afinal, com aquela situação.

- Isto mesmo! - repetiu ele, entusiasmando-se. - Ah, minha doce Tisbe, enfim me ouve... Tenho pensado muito nisto e já tenho um plano concertado para nós. É muito simples.

Amanhã à noite, quando todos estiverem dormindo, fugiremos.

- Oh, Píramo, mas será muito perigoso...

- Não, basta que tenhamos um pouco de cautela e outro tanto de audácia - disse Píramo, colando a boca ao muro. - Vamos nos encontrar junto ao túmulo de Nino, fora dos limites da cidade. Você logo o reconhecerá, pois ele é protegido por uma imensa amoreira, com frutos brancos como a neve, bem ao lado da fonte. Aquele que chegar primeiro aguardará o outro, sob os galhos daquela bela e frondosa árvore.

- Por Afrodite! - exclamou Tisbe, estupefata. - Então você já tinha tudo planejado?

- Sim, foram os fervores da bela deusa, protetora dos amantes, que me inspiraram a arquitetar este desesperado plano - respondeu Píramo, mais aliviado.

Os dois aguardaram, então, que Apolo terminasse de recolher no horizonte o seu flamejante carro e a Noite estendesse sobre o céu o seu negro e estrelado véu.

Tão logo escureceu, Tisbe levantou-se da cama, cautelosamente, e, após certificar-se de que todos na casa dormiam, deslizou furtivamente pela janela até alcançar o portão de saída.

Antes de cruzá-lo, deu uma última olhada no muro maldito, cujo topo nem as aves altaneiras podiam divisar.

- Maldito muro, maldito construtor - ela praguejava, colocando a capa e dando-lhe as costas para sempre.

Depois de ter atravessado o campo, sob o sopro úmido e frio de Bóreas incansável, avistou finalmente a gruta; com um pouco de dificuldade subiu pela encosta até alcançar, enfim, o famoso túmulo. Sentou-se, pronta para esperar o amado, que não deveria tardar.

Tisbe assim permaneceu, encostada sob a amoreira, durante um bom tempo, até que de repente viu surgir, à luz difusa da noite, uma leoa - sim, uma terrível leoa que avançava a largos passos em sua direção. Suas mandíbulas estavam ensangüentadas, pois havia recém abatido uma presa, e buscava agora aliviar a sede junto à água da fonte. A moça, assustada, esgueirou-se por trás da árvore e, antes que o animal percebesse sua presença, já havia se misturado à noite escura.

Na pressa, entretanto, deixara a capa para trás, caída junto à amoreira de alvos frutos.

A leoa, depois de saciar a sede com a água fresca da fonte, virou seus passos, agora lentos e pesados, em direção ao bosque, em busca de repouso. Entretanto, ao avistar a capa caída ao chão, começou a brincar com ela, enterrando nas dobras as unhas ainda tintas de sangue, e a rasgar-lhe as franjas com seus dentes amarelos e afiados, até reduzi-la a um monte de tiras ensangüentadas.

Píramo chegou bem depois, após a leoa haver partido. As coisas para ele não haviam corrido tão fáceis como para Tisbe, pois os cães haviam começado a latir assim que ele pusera os pés no jardim. Trepado nos galhos de uma árvores, tivera de aguardar que o cão e o vigia se afastassem outra vez para poder reencetar a sua fuga.

Assim que chegou ao túmulo, viu, sob o clarão ofuscante da lua, as fundas pegadas da leoa impressas na areia.

- Tisbe, Tisbe! - gritou ele, com os olhos atônitos pousados sobre os farrapos ensangüentados da capa da amada. - Oh deuses, o que significam estas tiras ensopadas pelo sangue? - bradava Píramo, cobrindo de lágrimas o que restara da malsinada capa. - Oh, Tisbe infeliz, a que funesta desgraça a arrastei? Como pude deixá-la aqui sozinha, à mercê de feras cruéis e selvagens?

Píramo ergueu-se, então, e relanceando o olhar por tudo gritou, aos prantos: - Vamos, venham, leões malditos! Venham completar sua negra tarefa! Abandonem os rochedos e venham terminar de saciar seus estômagos, despedaçando com seus dentes afiados este corpo que já não tem mais vida!

Píramo urrava, batendo no peito em desespero. Então, sacando da bainha o seu punhal, fez com que o bronze afiado se enterrasse em seu próprio coração.

O sangue que espirrou da ferida esguichou com uma profusão tal que acabou por tingir de vermelho as amoras brancas que pendiam da árvore, penetrando terra adentro pelo caule até atingir suas raízes.

Enquanto isso, Tisbe, abraçada aos joelhos trêmulos, aguçava os ouvidos, com a sensação de ter ouvido Píramo chamá-la. Imaginou-o sozinho, esperando-a sob a amoreira, com a leoa a lhe rondar os passos. Encheu-se enfim de coragem e resolveu arriscar-se a voltar, mas estacou surpresa ao se deparar com a amoreira de frutos vermelhos, em vez dos frutos brancos e reluzentes.

- Que milagre os deuses preparam aqui? - disse, impressionada.

Seus passos vacilaram, pois achava que havia se enganado de local, até que, ao fixar melhor a vista, avistou o corpo de Píramo caído ao chão, lutando contra a morte. Correu até ele com o coração aos saltos e apertou-o nos braços trêmulos:

- Píramo, amado, sou eu, a sua terna Tisbe! - gritava ela, beijando sem parar aqueles lábios já lívidos e frios. - Vamos, beije-me também e deixe que eu lhe comunique meu alento!

Ao ouvir a voz de Tisbe, Píramo abriu pela última vez os seus exaustos olhos; um sorriso efêmero iluminou seus lábios, e logo em seguida sua alma renunciou à vida. Ela avistou, então, sua capa toda esfarrapada e a bainha vazia do punhal.

- Matou-se por minha causa - exclamou, alterada. - Oh, funesto engano! Oh, Moiras fatais! Perdemos um ao outro antes mesmo de nos possuirmos.

Assim esteve lamentando a desdita sua e de seu amado, até que, erguendo a cabeça, pareceu tomada por uma irredutível decisão.

- Já que a vida foi implacável em seu propósito sinistro de nos manter afastados, que seja a morte agora a nos unir para sempre! - disse, apanhando o punhal que caíra da mão de Píramo e enterrando-o em seu próprio peito.

E assim ficaram os dois corpos juntos, unidos como um só, até que Éos divina retornou, tingindo o céu com seus rosados véus. Algum tempo depois surgiram os pais dos fugitivos, mergulhados em aflição. As mães abraçaram-se, soluçando agoniadamente o seu desconsolo, ao descobrirem os corpos dos dois amantes, abraçados ao pé da árvore fatal. Cada mãe jogou-se, em desespero, sobre seu próprio filho, mas eles estavam tão unidos que, ao fazê-lo, cada qual se viu obrigada também a abraçar o outro. E ao erguerem, finalmente, seus olhos nublados de lágrimas, perceberam ao alto, sob os galhos balouçantes, os frutos, antes brancos como a neve, agora tingidos de um vermelho intensamente vítreo e brilhante.

Píramo e Tisbe, separados em vida, foram finalmente unidos pela morte e. desde então, repousam no mesmo túmulo, sob a sombra das amoras escarlates.

Mitologia Grega
Atena, Zeus e Métis

Alguns helenos dizem que Atena teve um pai chamado Palas, um gigante alado libidinoso que mais tarde tentou viola-la, cujo nome ela adicionou ao seu, depois de arrancar-lhe a pele (para fazer a égide) e as asas (para coloca-las em seus próprios ombros). Isso se a égide não foi feita da pele da górgona Medusa, que, depois de decapitada por Perseu, foi esfolada por Atena.

Há quem diga que seu pai foi Itono, rei de Iron, em Ftiótide, cuja filha Iodâmia ela matara acidentalmente, ao deixa-la ver a cabeça da gorgona, transformando-a, assim, em um bloco de pedra ao adentrar seu santuário inadvertidamente a noite.

Contam ainda que Posídon era seu pai, mas que ela o teria renegado, pedindo a Zeus que a adotasse, o que ele fez com prazer.

Mas os próprios sacerdotes de Atena contam a seguinte historia sobre o seu nascimento: Zeus desejava com ardor a titânida Metis, que, para escapar de seu. assedio, se transfigurou em variadas formas, até que, finalmente, ele a agarrou e a engravidou. Um oraculo da Mãe Terra declarou, então, que o nascituro seria uma menina e que, se Metis engravidasse mais uma vez, daria à luz um filho fadado a depor Zeus, assim como Zeus depusera Cronos e como este havia deposto Urano. Portanto, apos seduzir Metis, atraindo-a para o seu leito com palavras melífluas, Zeus, de repente, abriu a boca e a engoliu, e esse foi o fim de Metis, embora ele, depois, alegasse que ela lhe dava conselhos de dentro do seu ventre. No devido tempo, Zeus foi tomado por uma intensa dor de cabeça enquanto caminhava às margens do lago Tritão, tão intensa que seu crânio parecia prestes a explodir. Ele berrou furiosamente, até que seu grito ressoou por todo o firmamento. Logo veio Hermes, que adivinhou imediatamente a causa do desconforto de Zeus e persuadiu Hefesto - ou Prometeu, segundo outra versão - a trazer sua cunha e seu malho e fazer uma brecha no crânio de Zeus, através da qual saiu Atena, toda armada, com um ressonante grito de guerra.

---------------

 

J. E. Harrison descreveu corretamente a história do nascimento de Atena a partir da cabeça de Zeus como um desesperado expediente teológico para livrá-la de suas condições matriarcais. É também uma insistência dogmática sobre a sabedoria como uma prerrogativa masculina; até agora, só a deusa havia sido sábia. Hesíodo conseguiu, de fato, reconciliar três visões conflituosas em sua historia:

I. Atena, a deusa-cidade dos atenienses, era a filha partenogenica da imortal Metis, titânida do quarto dia e do planeta Mercúrio, que governava toda a sabedoria e todo o conhecimento;

II. Zeus engoliu Metis, mas sem perder com isso sua sabedoria (ou seja, os aqueus suprimiram o culto aos titãs e atribuíram toda a sabedoria a seu deus Zeus);

III. Atena era a filha de Zeus (ou seja, os aqueus insistiram para que os atenienses reconhecessem a supremacia patriarcal de Zeus).

Harrison tomou emprestado o mecanismo de seu mito de exemplos análogos: Zeus perseguindo Nemesis; Cronos engolindo seus filhos e filhos; o renascimento de Dionísio a partir da coxa de Zeus; e a abertura da cabeça da Mãe Terra feita por dois homens com machados, aparentemente para libertar Core - como a que está retratada, por exemplo, num jarro de azeite na Biblioteca Nacional de Paris. Depois, Atena torna-se a porta-voz obediente de Zeus, suprimindo deliberadamente seus próprios antecedentes. Ela emprega sacerdotes, e não sacerdotisas.

Palas, que significa "virgem", é um nome inadequado ao gigante alado, cujo atentado contra a castidade de Atena e provavelmente deduzido de uma imagem de uma cena de seu casamento ritual, em que ela aparece como Atena Láfria ao lado de um rei-bode, depois de um duelo armado com sua rival. Esse costume líbio do casamento com o bode alastrou-se pelo norte da Europa como parte das festividades do Dia de Maio. Os akans, um povo líbio, costumavam esfolar seus reis.

O repúdio à paternidade de Posídon por parte de Atena refere-se a uma mudança precoce na supremacia da cidade de Atenas.

O mito de Itono ("homem-salgueiro") representa a alegação, por parte dos itonianos, de que eles veneravam Atena antes mesmo dos atenienses. O nome de Itono demonstra que Atena teve um culto ao salgueiro em Friótide - assim como teve sua contraparte, a deusa Anata, em Jerusalém, até ser expulsa pelos sacerdotes de Jeová, a quem designaram o salgueiro fazedor de chuva como sua árvore, durante a Festa dos Tabernáculos.

Estaria condenado a morte o homem que removesse uma égide - a túnica de castidade feita de pele de cabra e usada pelas meninas líbias - sem o consentimento de sua proprietária: daí a existência da máscara gorgônea profilática colocada por cima dela, bem como da serpente escondida no saco, ou bolsa, de couro. Mas, tendo em vista que a égide de Atena é descrita como um escudo, sugiro em The White Goddess (p. 279) que ela seja um invólucro de saco para um disco sagrado, como aquele que continha o segredo alfabético de Palamedes, e do qual ele seria o inventor. Estatuetas cirenaicas segurando discos de tamanho proporcional ao do famoso disco de Festo, que tem marcada sobre ele, em forma de espiral, uma lenda sagrada, antecipam, segundo o professor Richter, Atena e sua égide. Os escudos heróicos, tão bem descritos por Homero e Hesíodo, parecem ter gerado pictogramas gravados numa faixa em espiral.

lodamia, que provavelmente significa "novilha de lo", teria sido uma antiga imagem de pedra da deusa-Lua, e a história de sua petrificação constitui uma advertência, a meninas curiosas, contra violar os Mistérios.

Seria um equívoco pensar que Atena fosse apenas ou predominantemente a deusa de Atenas. Numerosas acrópoles antigas lhe foram consagradas, inclusive Argos (Pausanias:11. 24. 3), Esparta (ibid.: 3. 17. 1), Tróia (Iliada vi. 88), Esmir (Estrabão: IV 1. 4), Epidauro (Pausanias: II. 32. S), Trezena (Pausanias: III. Z3. 10) e Feneus (Pausanias: X. 38. 5). Todos esses lugares são pré-helênicos.

Mitologia Grega
A profecia do cordeiro

A desgraça é grande no Egito, está em Heliopolis, no Ocidente (...) está em Hermópolis (...) está em Tebas (...). Mas o Cordeiro porá fim à desgraça (...). Disse Pasen-hor ao Cordeiro: «Que coisa (...)?» E disse o Cordeiro: «(...) passados novecentos anos libertarei o Egito. Um deus voltará a sua face para o Egito e afastará dele os guerreiros estrangeiros. Os que disseram mentiras, violaram o direito e a lei do Egito (...) serão presos. Quanto às capelas dos deuses do Egito que foram levadas para Nínive, no território da Assíria, fará com que os homens do Egito possam ir ao país da Assíria para conquistar os seus territórios e encontrar as capelas dos deuses do Egito.»

Pasen-hor levou o Cordeiro para uma barca nova e logo se dirigiu para o sítio onde estava o rei Bakenrenef. Colocou o rolo de papiro (contendo a profecia) perante o rei, que ficou a conhecer toda a infelicidade que iria cair sobre o Egito a partir do final do seu reinado.

Disse o rei: «Pasen-hor, que seja dada uma capela ao Cordeiro, para que este seja sepultado como um deus, que possa ele permanecer sobre a terra, como é justo para com um nobre.»

Mitologia Egípcia
Documentários - Mitologia
Confronto dos Deuses
The History Channel
Conspiração contra Jesus
Discovery Channel
Planeta Egito
The History Channel
O poder de Jesus
National Geographic
A ciência do pecado
Discovery Channel
O messias
O poder de Jesus  
1 Temporada  Ep. 01  47m32s
National Geographic
O túmulo de Jesus
  
    46m05s
National Geographic
Egito antigo, deuses e demônios
  
    47m42s
Discovery Channel
Bruxas
  
    43m16s
The History Channel
Coatlicue
Confronto dos Deuses  
2 Temporada  Ep. 02  44m 49s
The History Channel
Thor
Confronto dos Deuses  
1 Temporada  Ep. 10  45m01s
The History Channel
Todos os vídeos
História
SEÇÕES
CIVILIZAÇÕES
LINHA DO TEMPO
A era de Catarina, a Grande

chegaram à cidade depois de uma marcha forçada desesperada e esmagaram o Exército rebelde. Pugachev voltou-se para o sul em direção ao Don, e para chegar até lá ele passou por áreas de agricultura servil. Ali a região explodiu; com ajuda dos rebeldes, os servos exterminaram a nobreza local, incluindo mulheres e crianças. Infelizmente para Pugachev, os cossacos do Don não se mobilizaram, e ele cruzou o Volga mais uma vez, fugindo para a sua base entre os basquírios. Ali as tropas finalmente alcançaram os rebeldes e esmagaram-nos. Alguns basquírios permaneceram leais a Pugachev até o fim, mas os cossacos acabaram por traí-lo. A revolta tinha acabado e, em 1775, Pugachev foi executado em Moscou. Finalmente havia chegado a paz, dentro e fora do país.

As leituras de Catarina deram-lhe não apenas uma série de ideias sobre justiça e administração, mas também sobre desenvolvimento econômico e condição social. Os escritores iluministas acreditavam que a sociedade exigia uma população civilizada para florescer, e isso era feito por meio da educação e cultura. A nova imperatriz ascendera ao trono num momento propício, dado que os esforços do Corpo de Cadetes, da Academia e da Universidade de Moscou estavam começando a dar resultados. A geração que chegou à maturidade junto com Catarina foi a primeira a ter absorvido plenamente a cultura europeia e a primeira a incluir muitos homens e até mulheres que também havia estado no exterior o suficiente para começar a entender a sociedade europeia.

Catarina estava decidida a acelerar esse processo. Embora fosse alemã de nascimento e cultura, durante a maior parte do seu reinado ela esteve no centro da cultura russa, mais que qualquer monarca depois dela e até mais do que o próprio Pedro. Ela não era meramente uma leitora, mas uma participante ativa da vida cultural europeia. Ela correspondeu-se com Voltaire de 1763 até a morte dele em 1778. Ela também teve correspondentes entre os enciclopedistas franceses, Denis Diderot e Jean d’Alembert, além do barão alemão Friedrich Melchior Grimm. Grimm era uma espécie de jornalista literário baseado em Paris, e depois de uma visita a São Petersburgo em 1773-1774 ele tornou-se o principal correspondente de Catarina e seu confidente epistolar até a morte dela. Catarina não fazia apenas corresponder-se com os grandes homens do Iluminismo. Quando ela ouviu falar dos problemas financeiros de Diderot, ela comprou a biblioteca dele, concedeu-lhe o uso perpétuo da mesma e pagou-lhe um salário como seu bibliotecário.

Os projetos culturais de Catarina eram numerosos. Nos bastidores ela foi a instigadora da Sociedade Econômica Livre, um grupo de nobres inspirados pela leitura da literatura iluminista a formar uma sociedade para a discussão de temas econômicos (especialmente agrícolas). Era uma associação independente das instituições estatais, embora gozasse do favor da imperatriz. A sociedade patrocinou um concurso de ensaios sobre a questão da propriedade da terra pelos camponeses que levantou inevitavelmente a questão da servidão, e conferiu o prêmio ao ensaio de um francês que declarava sem ambiguidade que a prosperidade só poderia vir da propriedade plena da terra pelo camponês. Por implicação, a servidão não podia criar prosperidade. O ensaio foi publicado em russo e francês para todos lerem. Ela continuou a apoiar a universidade, as academias e as escolas com dinheiro e incentivo. A primeira escola russa de meninas, o Instituto Smolnyi para meninas nobres em São Petersburgo, fora planejado pela imperatriz Elizabete e criado em 1764, e a imperatriz reorganizou e expandiu o Corpo de Cadetes. Eram escolas de elite, mas a reforma provincial de 1775 trouxe um sistema de escolas nas províncias, que foi expandido novamente em 1786 por um decreto que criava escolas secundárias em todas as capitais provinciais e uma rede de escolas primárias. O progresso era lento, mas em 1800 já havia mais de 300 escolas, o dobro do que havia em 1786. As escolas secundárias russas posteriores tiveram origem nessas leis.

Até a Igreja teve seu papel no progresso do Iluminismo. No momento da ascensão de Catarina, a maioria dos bispos ainda era ucraniana, dotada de um sentido forte, quase católico, da importância do clero. A imperatriz Elizabete havia iniciado o processo de substituí-los por russos e, sob Catarina, toda uma nova geração chegou ao poder na Igreja. Catarina também inscreveu em lei a secularização das terras monásticas formulada por Elizabete contrariamente à posição dos bispos ucranianos mais velhos. A nova geração, como Platon Levshin, metropolita de Moscou de 1775 a 1812, havia recebido formação religiosa luterana com uma forte orientação para a pregação. Seu objetivo era levar as "verdades" do cristianismo ortodoxo ao  povo, em vez de cultivar um ascetismo ideal. Essa ênfase coincidiu com a de Catarina, pois ela via a religião como o fundamento da boa cidadania, o que era outro preceito iluminista.

A corte de Catarina manteve os teatros fundados pelos seus predecessores, e os teatros permaneceram no centro das artes do palco na Rússia. Ela persuadiu Araya a aposentar-se e substituiu-o por uma série de músicos renomados, a começar pelo veneziano Baldassare Galuppi. Sumarokov continuou a dirigir o teatro e escrever peças, e Catarina e a corte costumavam frequentá-lo várias vezes por semana. Em 1768, ela fundou uma sociedade para a tradução de livros estrangeiros que patrocinou toda uma série de importantes traduções, obras eruditas e de entretenimento para o público russo. Ela também editou sua própria revista, Vsiakaia vsiachina {Todo Tipo de Coisas), em 1769. A ideia era imitar a Spectator de Addison e Steele, algo que Sumarokov havia tentado alguns anos antes com sucesso duvidoso. A revista, como seu protótipo, deveria combinar entretenimento com edificação sem moralismo opressivo - um tipo de publicação altamente popular na Alemanha nativa de Catarina e noutros lugares da Europa. Catarina manteve seu papel em segredo, embora ele fosse amplamente conhecido em São Petersburgo. A reação mais vigorosa à sua revista veio de Nikolai Novikov (1744-1818), que lançou uma série de revistas suas, estabelecendo a primeira empresa privada de edição importante da Rússia. Mais bem escritas e mais ousadas que a revista da imperatriz, as publicações de Novikov alcançaram popularidade considerável, mas não suficiente para proporcionar uma boa renda, e ele logo se dedicou à publicação de livros para a Universidade de Moscou, o que lhe garantia um subsídio indireto do Estado. Em Moscou, Novikov também se aproximou cada vez mais dos maçons, um grupo com uma ampla rede de contatos e impacto considerável sobre a cultura russa da época. Os maçons não eram apenas um clube social, mas um movimento de ideias com metas definidas, ainda que nebulosas. A maioria deles havia lido a literatura mística europeia que estava se tornando cada vez mais popular no final do século XVIII e considerava-se comprometida com o autoaperfeiçoamento, a contemplação de Deus e suas obras e, acima de tudo, a filantropia ativa e o incentivo ao progresso do mundo. Infelizmente para eles, os maçons levantavam toda espécie de suspeitas. Clérigos conservadores viam-nos como os propagadores de uma religião alternativa e perniciosa, enquanto muitos nobres esclarecidos os tomavam por obscurantistas. A própria Catarina via-os dessa maneira e escreveu várias comédias curtas, satirizando-os. Os maçons também constituíam uma sociedade internacional ligada às dinastias estrangeiras da Prússia e da Suécia, que eram hostis à Rússia, e, o que era ainda mais grave, os maçons haviam recrutado o herdeiro, o tsarévitche Paulo, como patrono. Este último elemento tornou-os profundamente suspeitos na mente de Catarina, haja vista que Paulo estava descontente com seu papel marginal na corte e no governo e cada vez mais hostil para com sua mãe conforme os anos passavam.

Apesar de contratempos, Catarina não desistiu de patrocinar a literatura russa e, em 1782-1783, ela nomeou sua velha amiga, a princesa Dashkova, para chefiar a Academia de Ciências e a nova Academia de Letras. Dashkova, que havia encontrado Benjamin Franklin em Paris, foi a primeira mulher membro da Sociedade Filosófica Americana de Filadélfia. Nesses cargos, Dashkova pôde publicar mais uma série de revistas literárias e outras publicações e organizar um comitê para produzir o primeiro dicionário russo. Um decreto de 1783 autorizava explicitamente a edição e publicação privada, sujeita à censura dos chefes de polícia das capitais.

O principal problema para os editores privados não era a censura ou a atitude do Estado, mas a falta de público amplo. Somente a aristocracia e um pequeno corpo de professores e eruditos tinham instrução para interessar-se por livros e revistas, e grande parte da aristocracia morava em propriedades remotas ou cidades provinciais e preferia a literatura francesa à russa. Os escritores eram menos afetados por essa situação que os editores, pois a maior parte dos escritores importantes eram nobres empregados no serviço público de uma forma ou de outra, e portanto não dependiam das vendas de suas obras para ter renda. Muitos nobres até desprezavam Novikov por tentar viver dos lucros da literatura. O serviço público, no entanto, envolvia os escritores nas facções da corte e numa relação complexa com a imperatriz.

Assim, os dois escritores mais importantes da época, o dramaturgo Denis Fonvizin (1744-1792) e o poeta Gavriil Derzhavin (1743-1816) envolveram-se numa rede de lealdades pessoais e políticas na corte. Fonvizin passou o início de sua carreira como cliente do conde Panin, o que o levou a fazer, próximo ao fim da sua vida, parte da rede de apadrinhamento centrada em Paulo, o herdeiro do trono. Essa afiliação tornava-o impopular junto a Catarina, mas foi ela que encomendou a primeira apresentação da sua melhor peça, O Adolescente, no teatro da corte, em 1782. Não obstante, a renúncia final de Panin a todos os cargos em 1781 contribuiu para o fracasso de Fonvizin em conseguir autorização para uma revista alguns anos mais tarde.

Fonvizin e Novikov eram formados pela Universidade de Moscou, enquanto o poeta Derzhavin vinha de uma família da aristocracia provincial e havia apenas terminado o ginásio em Kazan. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, ele nunca aprendeu bem o francês e sua única língua estrangeira era o alemão, que ele aprendeu em Kazan. Ele começou sua carreira no Exército e desempenhou um papel menor e um tanto inglório na luta contra os rebeldes de Pugachev. Nessa época, ele chamou a atenção de Potemkin e continuou a ser cliente do favorito enquanto fazia carreira na administração pública, em São Petersburgo e nas províncias, e viveu o bastante para ocupar brevemente o cargo de ministro da Justiça sob Alexandre I. A poesia de Derzhavin tornou-o famoso nos anos 1780, quando ele produziu odes em homenagem a Catarina e suas vitórias, além de sátiras de cortesãos e suas fraquezas, seguindo o modelo de Horácio e do classicismo europeu. Como Fonvizin, ele tinha um domínio da língua que permitiu que sua obra sobrevivesse para os leitores russos apesar do ocaso dos gêneros setecentistas que ele empregou.

No final do reinado de Catarina, estava começando a formar-se timidamente um público independente da corte para a literatura, o teatro, a poesia e a prosa em russo. Outras formas de arte continuavam estreitamente ligadas ao mecenato da corte e da nobreza. O teatro musical e a orquestra da corte eram dominados em grande parte por músicos importados, e a centralidade da corte na vida cultural significava que a nobreza ouvia uma vasta gama de música europeia. As tradições nativas subsistiam na música sacra, uma especialidade particular dos ucranianos associados aos coros das capelas imperiais. O mais bem-sucedido desses ucranianos era Dmitri Bortnyanskii (1751-1825), o primeiro compositor da Rússia, que abordava com a mesma facilidade os concertos europeus e o canto coral russo. Nenhum dos músicos era nobre, fato que impedia sua aceitação como artistas sérios. Uma situação semelhante ocorria nas artes visuais, nas quais a Academia de Arte dominava a cena. Catarina reorganizou a Academia para dar-lhe mais autonomia e melhor financiamento, mantendo ao mesmo tempo seus instrutores majoritariamente franceses, e garantiu aos artistas plásticos uma condição social mais privilegiada que correspondia à sua profissão. Os estudantes russos, todos de origem não nobre e por vezes até servil, destinavam-se a fornecer arte para os palácios da imperatriz, da nobreza e da Igreja. A Academia também oferecia bolsas aos estudantes para passarem temporadas em Paris e Roma, ampliando enormemente a sua formação e experiência. Em retrospecto, seu pior defeito, além do seu caráter muito “oficial”, era sua cópia precisa de modelos europeus que se coadunavam mal com as possibilidades e tradições russas. Como nas academias de arte europeias, o gênero de maior prestígio era a pintura histórica  no estilo do classicismo. Tentativas de retratar a história russa nesse estilo foram elogiadas na época, mas produziram quadros que, para o gosto mais recente, eram inexpressivos no melhor dos casos, e muitas vezes cómicos. Os antigos russos apareciam em armaduras fantásticas que lembravam mais os romanos que a Rússia medieval. Mais atraentes para a preferência mais atual eram os retratistas, que, por ironia, tinham pouca ou nenhuma ligação com a Academia. O primeiro a ficar conhecido foi Ivan Argunov (1727-1802), servo da riquíssima família Sheremetev. Seus sucessores incluíam Fyodor Rokotov, servo dos Repnins, e dois ucranianos, Dmitri Levitskii (pupilo de Argunov) e Vladimir Borovikovskii, o único nobre entre eles. Seus retratos encantadores de homens e mulheres nobres, bem como da própria Catarina, enchiam os palácios e casas de campo russos e eram de qualidade comparável a muitos retratos franceses e ingleses da época, ainda que menos inventivos que estes últimos.

A época de Catarina marcou o início da arquitetura classicista russa, que transformou São Petersburgo na cidade que hoje conhecemos. Ela era firmemente contrária à exuberância barroca do arquiteto-chefe Rastrelli, da sua predecessora Elizabete. Catarina e seus contemporâneos construíram, com alusões romanas inconfundíveis, uma arquitetura apropriada para uma grande capital imperial e suas elites. Simetria estrita, colunas romanas e arcos triunfais estavam na ordem do dia. A realização suprema da era foi o monumento a Pedro, o Grande, o “Cavaleiro de Bronze” na expressão imortal de Púchkin. Obra do escultor francês Étienne-Maurice Falconet e de sua nora, ele mostra Pedro na indumentária de um imperador romano a cavalo sobre uma rocha gigante com a simples inscrição “De Catarina II para Pedro I” em latim e russo. Inaugurada em 1782 numa cerimônia solene, a estátua continua sendo a contribuição mais impactante de Catarina para a cidade de São Petersburgo.

Os anos posteriores a Pugachev não foram preenchidos apenas com projetos artísticos e entretenimentos da corte, pois foram anos de extensa reforma do governo e sociedade russa. A Comissão Legislativa finalmente deu frutos, embora indiretamente: Catarina sabia qual era o pensamento da nobreza a respeito das questões e o que poderia ser útil enquanto não os contrariasse. A primeira tarefa foi reordenar a administração das províncias e cidades, o que implicava criar um novo sistema de corte. Os decretos de Catarina de 1775 fragmentaram as grandes unidades administrativas em cerca de 40 novas províncias, que por sua vez dividiam-se em 5 ou 6 unidades menores. O governo detinha-se essencialmente no nível dessas unidades menores, deixando o campo à nobreza e às comunidades camponesas. A figura local mais poderosa era o governador provincial, nomeado pela imperatriz. Tratava-se invariavelmente de um nobre, que podia ser um grande aristocrata, mas no mais das vezes era um militar. No mesmo decreto, Catarina estabeleceu tribunais para a nobreza que deveriam combinar juízes nomeados com nobres locais eleitos para auxiliá-los. Eram tribunais somente para a nobreza. Nas regiões onde os camponeses livres predominavam, haveria igualmente tribunais com camponeses eleitos, além dos oficiais para ministrar a justiça. Como sempre, o nível das aldeias era o mais fraco e era ali que o poder estatal existia muitas vezes apenas no papel. Nas cidades, Catarina também criou tribunais unicamente para os citadinos, que consistiam em juízes nomeados e assessores eleitos. Assim, a justiça era dividida em tribunais especiais para cada grupo social e combinava juízes nomeados pelo governo com assessores eleitos.

A nova legislação implicava uma maior responsabilidade por parte da nobreza e da elite dos citadinos, porém muitos aspectos básicos da sua condição e relação com o Estado permaneceram indefinidos. As respostas para esse problema foram as Cartas de 1785 para a nobreza e os citadinos. A Carta da Nobreza confirmou e ampliou os direitos já existentes na prática desde a época de Pedro e acrescentou outros, incluindo o decreto de 1762 sobre a isenção do serviço público obrigatório. Os nobres não podiam ser privados de vida e propriedade sem julgamento por um tribunal composto de pares. A nobreza era hereditária e não podia ser anulada sem condenação judiciária por crimes específicos, como homicídio ou traição. Eles não eram sujeitos a castigos corporais e o direito de possuir terra e servos era reservado unicamente a eles. Os nobres em cada província deviam reunir-se para formar uma Assembleia da Nobreza provincial, que elegia seu próprio presidente e determinava as condições de admissão. O presidente atuava como líder da aristocracia local, transmitindo os desejos desta à capital e as ordens do governo à nobreza. Os presidentes tinham pouco poder formal mas, na posição de representantes principais da nobreza local, muitas vezes com conexões poderosas em São Petersburgo, eles eram figuras imponentes. Os governadores provinciais, apesar do seu poder formal, julgavam mais sábio cortejar os presidentes da nobreza. Nas cidades, os decretos de Catarina dividiram a população urbana por níveis de riqueza e puseram a maior parte da administração, como os tribunais, nas mãos das elites urbanas. A população elegia um órgão de governo dentre os cidadãos mais ricos para administrar a parte comercial da vida urbana, deixando os tribunais e a polícia como especificados na reforma provincial de 1775. Os citadinos também não podiam ser privados de vida e propriedade sem condenação por um tribunal de pares. Os citadinos de condição inferior estavam sujeitos a castigos corporais. Também havia uma elaborada legislação suntuária que especificava limites para a ostentação de luxo das ordens mais baixas. Embora restritas às classes alta e média, as Cartas foram o primeiro fruto do pensamento iluminista acerca dos direitos e deveres do cidadão a ser promulgado no Direito russo.

Enquanto Catarina e seus ministros estavam reordenando o governo russo, eles não perderam de vista a situação na fronteira meridional. Os otomanos relutavam em ignorar os ganhos russos, e a “autonomia” da Crimeia sob administração russa revelou-se um arranjo instável. Em 1783, Catarina anexou o território à Rússia, adicionando-o às vastas áreas da Nova Rússia sob a mão firme de Potemkin. Catarina e Potemkin começaram a elaborar planos mais ambiciosos de conquista no Sul, tentando a Áustria unir-se a eles no “projeto grego”, uma proposta para a partição dos Bálcãs e a restauração de uma monarquia grega com príncipes russos sobre as ruínas do Império Otomano. Finalmente, em 1787 a Turquia declarou guerra. As tropas russas começaram a avançar nos Bálcãs, mas em outros lugares a situação deteriorou-se. O imperador austríaco José II honrou seu tratado com a Rússia, e seu Exército começou a avançar também para o Sul, mas ele foi logo derrotado pelos turcos. O rei Gustavo III da Suécia atacou a Rússia igualmente, na esperança de vingar-se das perdas anteriores e fortalecer sua posição doméstica. Catarina esperava que tropas polonesas apoiassem o esforço russo, mas quando Stanislaw Poniatowski convocou a dieta para discutir a questão, ela transformou-se rapidamente numa assembleia revolucionária que passou a rejeitar a dominação russa e elaborar uma constituição reformada. Para piorar as coisas, a Prússia apoiou cinicamente o esforço polonês com vistas à sua própria expansão futura na Polônia. Catarina não podia contar com ninguém além de Potemkin e seu Exército e Marinha.

Catarina mostrou os nervos de aço que a haviam levado ao trono 30 anos antes. Ao ouvir os canhões da esquadra sueca das janelas do seu palácio, ela continuou a trabalhar sem se importar com eles. O progresso no Sul era lento, especialmente de início, mas a nova esquadra do mar Negro (com alguma ajuda do herói naval estadunidense John Paul Jones) foi vitoriosa, e o Exército empurrou incansavelmente os turcos em direção aos principados romenos. Gustavo III fez pouco progresso e viu-se alvo de uma conspiração de oficiais finlandeses descontentes com o absolutismo sueco. Com seus recursos exauridos, apesar do modesto sucesso no mar, Gustavo negociou a paz em 1790. A Turquia permaneceu na guerra.

Para complicar ainda mais a situação da Rússia, a Grã-Bretanha, cujas próprias ambições imperiais cresciam rapidamente, começou a preocupar-se com a movimentação russa em direção ao Mediterrâneo e adotou uma postura hostil. Catarina precisava ter sucesso e, no final de dezembro de 1790, o general Alexandre Suvorov deu-o a ela, tomando a fortaleza de Izmail, perto da foz do Danúbio. Ele tomou o forte num assalto frontal com muitas baixas, mas o tomou. Na primavera seguinte, os russos avançaram para o sul em direção à Bulgária e, no final do verão, os turcos capitularam. As fronteiras da Rússia estendiam-se agora até o rio Dniestre, incluindo a localização da futura cidade de Odessa. Catarina havia jogado suas cartas com grande habilidade e tinha vencido. Foi então que Potemkin morreu. Catarina continuou a ter amantes e favoritos, mas nenhum deles jamais recebeu o amor e a confiança que Potemkin havia inspirado.

As guerras com a Turquia e a Suécia haviam exigido toda a atenção e recursos do governo russo, mas eles estavam conscientes de que a Europa estava cada vez mais em crise. A Revolução Francesa estava transformando a política europeia cotidianamente e, mais perto de casa, a constituição reformada da dieta polonesa de 3 de maio de 1791 significava que a Rússia teria em breve um vizinho hostil e mais poderoso. Não havia muito que Catarina pudesse fazer com relação à França, mas a Polónia era diferente. Ela conspirou com os adversários aristocráticos da nova constituição e, assim que terminou a guerra com a Turquia, ela e seus aliados poloneses avançaram contra Poniatowski e o novo governo. O pequeno Exército polonês foi desbaratado com facilidade e Catarina combinou com a Prússia uma nova partição. Essa não era sua opção preferida, pois ela sempre quis uma Polônia unida e obediente, mas Catarina percebeu que a nova ordem era demasiado popular entre os nobres poloneses para ser revertida e que ela tinha de conciliar a Prússia e a Áustria.

Assim, uma Polônia muito reduzida ganhou uma constituição conservadora sustentada por baionetas russas, mas ela não durou. Em 1794, Tadeusz Kosciuszko liderou uma rebelião no Sul da Polônia que logo atingiu Varsóvia e obteve alguns sucessos modestos. Catarina estava convencida de que o jacobinismo francês estava por trás disso e mandou Suvorov à frente de um Exército russo. Suvorov tomou Varsóvia num grande massacre e as  potências agressoras concordaram em encerrar a existência da Polônia. A Prússia e a Áustria recortaram as áreas com populações predominantemente polonesas, enquanto a Rússia tomou a Ucrânia Ocidental, o restante da Bielorrússia e a Lituânia.

Agora a Rússia havia se tornado um verdadeiro império multinacional. Os 5,5 milhões de novos súditos levaram a proporção de russos no Estado de cerca de 85% para talvez 70%. Catarina não travara a guerra para reunir os eslavos orientais, mas havia de fato incluído no seu império praticamente todo o território do Rus de Kiev medieval.

Se Catarina não podia fazer muita coisa para afetar o progresso da Revolução Francesa, nem por isso estava menos assustada com seu radicalismo crescente, e a nobreza russa compartilhava seus temores. A política de tolerância e Iluminismo aos poucos chegou ao fim. Especialmente após a proclamação da República e execução de Luís XVI, a importação e circulação de novos livros franceses e até de escritores iluministas familiares há tempos enfrentava agora sérias restrições. Em 1792, Novikov foi preso depois de uma investigação, mas não houve julgamento e ordenou-se que ele fosse confinado à prisão indefinidamente. Os maçons foram banidos e sofreram suspeitas crescentes como partidários potenciais dos revolucionários franceses. Em 1796, poucas semanas apenas antes da sua morte, Catarina estabeleceu o primeiro sistema russo de censura estatal, que já não dependia mais da Academia de Ciências ou da polícia local para trabalhar.

Porém, o caso mais espetacular de dissensão e repressão acontecera em 1790. Nesse ano, Alexander Radishchev, um nobre e funcionário público de baixo escalão, publicou um livro chamado Uma Viagem de São Petersburgo a Moscou. Ao usar o gênero então popular da viagem fictícia, ele descrevia as aldeias e cidades da Rússia e intercalava suas próprias reflexões sobre sociedade e política. Seu retrato da servidão era extremamente desfavorável - na sua visão, um sistema que corrompia tanto o senhor como o servo era moralmente indefensável e economicamente ruinoso. Suas elucubrações políticas eram mais vagas, mas sugeriam claramente que a autocracia não era a melhor forma de governar a Rússia. Catarina leu o livro e fez muitas anotações marginais, e acabou por pedir a prisão de Radishchev. Interrogado no Departamento Secreto do Senado, Radishchev foi condenado por sedição e lesa-majestade no tribunal penal de São Petersburgo e condenado à morte. Catarina comutou a pena para o exílio num forte remoto da Sibéria e Radishchev partiu, mas com um estipêndio substancial de um dos figurões de Catarina, que intercedeu em seu favor junto à imperatriz.

A Revolução Francesa e a morte de Catarina em 1796 foram o fim do século XVIII na Rússia. Durante um século, o Estado, ou mais precisamente os monarcas e suas cortes, haviam se esforçado para transformar o país em moldes europeus e trazer a cultura europeia para a Rússia. Nessa tarefa eles tiveram amplo sucesso. A Rússia tinha instituições e leis copiadas de modelos europeus, e diplomatas, mercadores e viajantes ocidentais sentiam-se em casa em São Petersburgo, ou até em qualquer lugar da Rússia. A estrutura do novo Estado proporcionara a base para a ascensão da Rússia ao posto de grande potência e incentivara o crescimento do comércio e indústria, da educação e ciência. A colonização de novas áreas no Sul contribuíra para a explosão demográfica em curso que estava rapidamente fazendo da Rússia o maior país da Europa, mesmo sem contar os territórios recém-anexados.

A transformação cultural foi profunda. No final do século, os russos cultos, a maioria deles ainda composta de nobres, haviam absorvido grande parte das principais ideias e realizações artísticas da Europa moderna e estavam começando a oferecer suas próprias contribuições, ainda modestas. O pensamento político russo tinha os mesmos elementos e baseava-se nos mesmos escritos que no Ocidente. Se os nobres russos não admiravam as especulações democráticas de Rousseau, eles absorveram os ensinamentos de Pufendorf e Montesquieu, assim como de uma série de escritores menores. A monarquia da Rússia era entendida de maneira bastante semelhante à da França ou Prússia, Áustria ou Suécia.

A realidade russa impunha limites tanto à construção do Estado quanto ao progresso cultural. A Rússia ainda era pobre demais para financiar um sistema educacional extensivo e todo o governo local sofria de falta crônica de fundos e pessoal. Fora das capitais, grandes cidades e propriedades rurais aristocráticas, a vida continuava como antes, um ciclo de trabalho rural pontuado pela liturgia ortodoxa. Áreas de progresso econômico existiam nos Urais e nas aldeias e cidades comerciantes da Rússia central, mas ainda era uma sociedade esmagadoramente agrária.

Além disso, era uma sociedade agrária da qual metade dos agricultores eram servos. Esse foi um problema que Catarina e seus amigos esclarecidos não conseguiram mudar, nem mesmo enfrentar. Ela não gostava do sistema e sabia que era pernicioso, não só para o progresso agrícola, mas estava consciente de que praticamente todos os nobres, dos quais seu trono dependia, viam-no como a base da sua riqueza e posição na sociedade, como de fato era. A Rússia não era a única a manter o sistema servil no final do século. Ele subsistia na Polônia e na Prússia, e José II mal havia começado a desmanchá-lo na Áustria.

Exatamente no momento em que a Rússia parecia ter alcançado uma ordem estável e europeia, a Revolução Francesa mudou todas as regras do jogo. Agora ela teria de tentar responder a toda uma série de novos desafios, internacionais e domésticos, culturais e políticos. Sua própria sobrevivência acabaria por ser posta em jogo. Abria-se uma nova e perigosa era.

A batalha de Kadesh

Na primavera de 1274 a.e.c., Ramsés II, no comando de quatro divisões de cavaleiros e de soldados de infantaria, dirige-se da fronteira oriental do delta do Nilo para a costa de Canaã. No ano anterior, interveio militarmente em Amurru para retomar dos hititas os territórios dos quais se haviam apoderado. A segunda campanha tem por objetivo a tomada da fortaleza de Kadesh, situada nas margens do rio Oronte e que ocupa uma posição estratégica entre a Palestina e a Síria, entre o Mediterrâneo e o Eufrates. Um mês após sua partida, o faraó e suas quatro divisões chegam perto de Kadesh. Ramsés veste então seus trajes de guerra, os do deus Montu, seu protetor. Com o capacete, kheprech, cujas fitas flutuam ao vento, munido de seu arco e de sua aljava, avança a frente da primeira divisão dedicada ao deus Amon.

As outras divisões, as de Rá, Ptah e Seth, estão longe, atrás dele. Ramsés e seus homens chegam perto do Oronte e prendem dois beduínos escondidos nesse local. Interrogados, os dois homens garantem que as divisões hititas estão longe ainda, ao norte, em terras de Alepo. Sem procurar verificar essas informações, Ramsés atravessa o rio por um vau com sua divisão e avança pela planície próxima de Kadesh para estabelecer seu acampamento. Sem dúvida pensa em sitiar a cidade a partir do dia seguinte. Mas batedores egípcios enviados para reconhecimento do terreno surpreendem dois espiões hititas, capturam-nos e os interrogam com brutalidade. Confessam que o rei hitita, Muwatalli, já está de prontidão com suas tropas e seus carros bem ao lado de Kadesh, a 3 ou 4 quilômetros do acampamento egípcio.

Ramsés, ciente do perigo, envia o vizir Paser, com uma escolta, ao encontro da divisão de Ptah para fazer acelerar sua marcha. O faraó e sua tropa perscrutam com angústia a  linha do horizonte. Infelizmente, as primeiras nuvens de poeira anunciam o ataque das tropas hititas, duas vezes

mais numerosas que o conjunto das divisões egípcias. Os carros inimigos aparecem na desembocadura do rio e descem a colina em direção a planície. Os gritos e o barulho de armas se acrescentam a confusão geral. Os carros hititas são impressionantes, largos, pesados, puxados por três cavalos e conduzidos por um cocheiro e dois combatentes.

Os carros egípcios, muito mais leves e menos sólidos, são puxados por dois cavalos e dirigidos por um cocheiro e um só combatente. Os relinchos dos animais feridos se juntam aos gritos de terror. Cercadas, as fileiras egípcias se desfazem. Uma parte dos carros titias avança para o oeste para devastar o acampamento egípcio, a outra se dirige contra Ramsés e seus poucos fiéis, que não fugiram.

Quando tudo parece perdido, tropas de vigilância compostas de aliados da costa de Amurru, que estão acampadas a alguma distância, chegam como reforço e entram sem hesitar na confusão. Os hititas, surpreendidos, devem doravante combater em duas frentes, o que permite ao faraó. retomar a ofensiva com seus fiéis. Aos poucos, os carros hititas recuam em direção do Oronte.

Cavaleiros hititas são rechaçados até a margem do rio; alguns se afogam, os cavalos se dispersam, a confusão aumenta. Ramsés torna-se dono do terreno. Finalmente vê chegar a primeira divisão de Ptah, comandada por seu vizir. Mas o combate terminou. Os egípcios reúnem os feridos, recolhem os despojos e as armas abandonadas pelos hititas. O faraó deixa então explodir seu furor, pois a divisão de Rá o abandonou e a de Amon se dispersou no pânico do início da batalha. Quanto a de Seth, ela só chega no crepúsculo.

Durante a noite, Ramsés, inquieto, teme uma ofensiva das divisões hititas que ainda não participaram do combate. Mas sabe também que o rei Muwatalli perdeu chefes de valor durante o combate.

Muito antes da aurora, o faraó decide tomar a iniciativa do combate. Seu ataque fulminante paralisa a estratégia dos carros e da infantaria hititas.

Muwatalli pressente que não pode entrar em uma batalha de longa duração com forças em parte desorganizadas.

Prefere negociar e envia um emissário ao acampamento egípcio, portando uma carta pedindo paz. Ramsés consulta seus comandantes e acaba por aceitar a cessão dos combates, mas adia a assinatura de um acordo de paz. Na verdade, não quer renunciar nem a terra de Amurru, nem a suas pretensões sobre a fortaleza de Kadesh. O armistício não se conclui com a paz.

O faraó pode em seguida dar ordens de levantar acampamento e retomar a estrada meridional para Gaza e para o delta do Nilo. Muwatalli tem consciência de que isso não passa de uma trégua? Conserva Amurru, mas logo no nordeste o perigo assírio chama-o a intervir sem tardar em Hanigalbat, principado situado no alto Eufrates, perto da fortaleza de Karkemish: a regiâo . ameaçada pelas tropas do rei da Assíria, Salmanasar I.

CIVILIZAÇÃO
Por Mary Vincent
O fim dos despotismos ibéricos

No outono de 1975, tanto a Espanha quanto Portugal pareciam estar à beira do caos. No entanto, exatamente um pouco mais de uma década mais tarde, em janeiro de 1986, os Estados ibéricos entravam formalmente na Comunidade Européia (CE) como democracias liberais em pleno funcionamento com sistemas parlamentares estáveis. A velocidade e o sucesso do processo de democratização - particularmente na Espanha - foi uma surpresa para muitos e um alívio para todos. Mas, embora Espanha e Portugal percorressem uma rota similar ao final da década de 1970, as respectivas transições à democracia foram diferentes.

A transição de Portugal iniciou-se através de uma rebelião militar que serviu como catalisador para a revolução social. Pelo contrário, as forças armadas espanholas mostraram-se amplamente hostis diante da perspectiva de democracia. Ao contrário de muitos elementos da elite política, os militares permaneceram fiéis à herança franquista. Embora o exército se mantivesse inicialmente nos bastidores, com cara de poucos amigos, enquanto os antigos franquistas começavam a desmantelar o regime de dentro, a ameaça de um golpe militar flutuava no ar, e foi uma limitação importante na hora de aperfeiçoar a política. O novo cabeça do Estado espanhol, o rei Juan Carlos (n. 1938), neto de Alfonso XIII, que o general Franco havia nomeado como sucessor em 1969, teve um papel crítico na hora de controlar os militares. As virtudes de hierarquia, disciplina e lealdade ao monarca foram ressaltadas não apenas pelos governos civis, como também pelo próprio rei. Em 23 de fevereiro de 1981, num espetacular desafio à democracia, um grupo de guardas civis sob o comando do tenente-coronel Antônio Tejero (n. 1932) tomaram as Cortes como reféns em Madri, enquanto os tanques do exército troavam pelas ruas de Valência; o rei respondeu imediatamente aparecendo pela televisão para lembrar aos soldados seu juramento de lealdade e para declarar decididamente que a coroa não toleraria a interrupção pela força do processo democrático. Com virtualmente toda a classe política prisioneira nas Cortes, as ações de Juan Carlos foram [167] decisivas. O veterano general Jaime Milans dei Bosch (n. 1915) retirou suas tropas de Valência quando o rei deixou muito claro que os rebeldes somente poderiam silenciá-lo à força. Os deputados foram liberados das Cortes ao meio-dia de 24 de fevereiro e, o seguinte fim de semana, três milhões de pessoas participaram de manifestações a favor da democracia.

Embora o papel de Juan Carlos na hora de frustrar o 23-F (como passou a ser conhecida a tentativa de golpe de Estado de Tejero) fosse crucial, ele não instituiu a democracia sozinho. A transição da Espanha ao governo parlamentar foi produto de uma série de pactos e negociações, na qual o rei foi um de uma série de vários protagonistas cruciais. O processo inicial - uma vez debandada a câmara de deputados do ditador - foi negociado por um antigo funcionário franquista, Adolfo Suárez (n. 1932). No momento da morte de Franco, os pilares do regime já estavam desmoronando. Havia um crescente descontentamento entre as elites econômicas e financeiras diante do imobilismo do regime, e muitos haviam começado a considerar a democracia liberal como uma forma que podia ter mais sucesso tanto na hora de governar um país cada vez mais turbulento quanto na de levar adiante os negócios. Durante 1976, Suárez, com o apoio de vários grupos de elite, legislou a extinção do franquismo da existência e legalizou os partidos políticos como uma preparação para as eleições de 15 de junho de 1977.

Aqueles que determinaram e dirigiram a transição espanhola à democracia prestaram uma atenção especial à acomodação daqueles que se haviam beneficiado da ditadura de Franco e agora haviam ficado vulneráveis. Tomou-se um cuidado particular em evitar enfurecer o exército; a legalização do partido comunista, por exemplo - um tema muito sensível - foi realizada somente algumas semanas antes das eleições de 1977. Mesmo em Portugal - onde havia ocorrido uma revolução social radical -, a velha classe política sobreviveu para realizar a transição, embora alguns latifundiários, financeiros e industriais sofressem perdas consideráveis. Em ambos os casos, depois de 1975, a extensão dos poderes executivos – atribuídos na Espanha ao rei e em Portugal ao presidente - proporcionou certa garantia de estabilidade e limites para os excessos radicais. A composição de centro-direita dos governos de transição espanhóis também mostrou ser tranquilizadora, enquanto em Portugal os militares permaneciam comprometidos com a ordem pública.

Ao contrário de Portugal, a Espanha não viu expurgos do pessoal associado à ditadura. Embora, em termos de continuidade, isto fosse certamente um ponto forte, a incerteza que rodeou a lealdade de alguns dos servidores do novo regime levantou seus próprios problemas. Por exemplo, as táticas conciliadoras da União de Centro Democrático (UCD) de Adolfo Suárez - uma aliança ad hoc de grupos de interesses muito diversos, que se desintegrou entre 1981 e 1982 - demonstraram ter um sucesso considerável na hora de negociar a transição, e conseguiram também escamotear o problema regional. No entanto, não conseguiram aproximar-se ou controlar o exército. Também o ETA não foi pacificado. A violência no País Basco continuou mesmo depois da morte de Franco, a aprovação por referendo de uma constituição democrática em 1978 e da introdução da autonomia regional para a Catalunha e o País Basco em 1980. O contraponto entre o ETA e os militares espanhóis demonstrou ser um dos temas principais da transição; embora inimigos figadais, os dois grupos representavam sérias ameaças, ainda que diferentes, à segurança da democracia na Espanha. De fato, o ETA procurava deliberadamente provocar a intervenção militar, na crença de que um golpe de Estado provocaria um levante revolucionário. De fato, quando as medidas autonômicas regionais começaram a ser sentidas no País Basco, o apoio ao ETA começou a cair, embora os terroristas pudessem seguir contando sempre com a lealdade de uma pequena minoria separatista.

Embora o exército em Portugal nunca permitisse o regresso à desordem insurgente de 1975, a democracia novata também experimentou momentos de extrema fragilidade. A constituição de 1976, que foi aceita por todos menos um dos partidos na assembléia constituinte, não foi submetida ao povo. Fortalecia o executivo e [168] falava da “transição ao socialismo”; as coletivizações de 1975 foram declaradas “irreversíveis”. Como na Espanha, se adotou um método de representação proporcional que normalmente garante uma maioria absoluta ao partido que ganhe acima de 42% dos votos, a fim de aumentar as possibilidades de um governo estável. Ainda assim, entre julho de 1976 e julho de 1987, Portugal teve oito governos diversos; em 1978-1979, a incapacidade de qualquer partido de formar um governo viável obrigou o presidente, o general António Ramalho Eanes (n. 1935; presidente 1976-1986) a nomear três sucessivos governos apartidários. Como o 23-F espanhol, este momento potencialmente perigoso foi negociado com sucesso; as eleições portuguesas de dezembro de 1979 foram as primeiras que deram como resultado uma tomada do poder pacífica pela oposição. Este acontecimento crucial foi igualado na Espanha em outubro de 1982 quando, apesar de outro golpe militar abortado, o partido socialista recebeu 48% dos votos e embarcou no que seria uma década de governo majoritário.

Consolidação democrática

Ao final da década de 1980, a democracia ibérica parecia robusta. O primeiro partido a conseguir uma vitória eleitoral absoluta em Portugal foi o Partido Social Democrata (PSD, anteriormente o PPD) de Aníbal Cavaco Silva (n. 1939), que recebeu justo um pouco acima de 50% dos votos em julho de 1987. No entanto, o sistema parlamentar já se havia estabilizado; entre 1976 e 1985, o poder foi compartilhado por quatro partidos principais: socialistas, socialdemocratas, comunistas e Centro Democrático Social (CDS). Embora o apoio eleitoral para cada um deles permanecesse relativamente constante, suas mudanças de alianças levaram a consideráveis variações no governo.

As eleições presidenciais de fevereiro de 1986 introduziram uma nova fase na democracia portuguesa. Um dos mais notáveis frutos da década de 1980 tanto em Portugal quanto na Espanha foi o regresso dos militares aos quartéis. Em 1982, a constituição revolucionária portuguesa foi emendada para reforçar o poder da legislatura. O Conselho da Revolução - um corpo constitucional que elevava o papel militar ao de guardião da revolução - foi abolido, e o exército renunciou a sua presença institucional sem resistência. Quatro anos mais tarde, o carismático e experimentado Mário Soares, que havia encabeçado o primeiro governo socialista português em 1976, foi eleito o primeiro presidente civil de Portugal desde 1926, com um esmagador apoio popular.

A situação na Espanha parecia mais delicada. Como consequência da tentativa de golpe de Estado de Tejero em fevereiro de 1981, o governo da UCD iniciou apressadas negociações com a OTAN, na crença de que ser membro da organização ajudaria a profissionalizar e democratizar as forças armadas. A Espanha uniu-se à Aliança em 30 de maio de 1982, diante de uma considerável oposição interna, sobretudo a do partido socialista. Em outubro do mesmo ano os socialistas espanhóis - pela primeira vez em sua longa história - formaram um governo. Diante dos problemas que pareciam insuperáveis da subversão militar e do terrorismo do ETA, o novo presidente, Felipe González (n. 1942) anunciou uma inversão da política do governo com relação à OTAN. Quando a questão foi tardiamente submetida a referendo em março de 1986, o governo - que se havia visto submetido a consideráveis pressões tanto por parte dos Estados Unidos quanto dos Estados-membros da CE - fez uma vigorosa campanha a favor de continuar como membro e ganhou. Embora isto desanimasse muitos seguidores socialistas, este brusco mea culpafez muito para melhorar as relações entre militares e civis. Os níveis de gasto em defesa foram incrementados: uma das razões da inversão da política socialista sobre a OTAN era seu desejo de reestruturar a indústria espanhola com um componente de defesa de alta tecnologia. Além disso, o fim do isolamento nacional ao passar a ser membro da OTAN e da Comunidade Européia (CE) (à qual a Espanha se uniu em 1986) teve um profundo efeito sobre as atitudes militares. Ao contrário da UCD, o governo socialista ocupou-se rapidamente dos oficiais sediciosos; também introduziu uma medida significativa de reforma militar.

Uma parte importante da herança franquista do exército era seu compromisso incondicional de defender a integridade territorial da Espanha. O problema [169] regional encontrava-se assim inextricavelmente ligado ao militar; era preciso, portanto, procurar uma solução política. Embora o problema basco nunca fosse totalmente resolvido, a explosão de demandas regionalistas suscitada pela repressão dos últimos anos de Franco foi diluída em grande parte na década de 1980 pelas negociações socialistas com os partidos moderados bascos e catalães. As tensões foram relaxadas, em particular após um acordo de extradição com a França direcionado para uma nova ofensiva contra o ETA, mas o problema regional não desapareceu completamente.

Embora a constituição de 1978 insistisse na integridade do Estado espanhol, sob seus termos a Espanha adotou um sistema quase federal que dividiu o território nacional em 17 nações autônomas, cada uma delas com suas correspondentes transferências de poderes. A Catalunha, a Galícia e o País Basco - as regiões com claras identidades históricas e lingüísticas - foram as que avançaram mais rápido para o estatuto de autônomas; em 1983, este estatuto foi concedido a todas as regiões. Certamente, estes estatutos de autonomia estimularam os sentimentos nacionalistas nas regiões. Cada uma tinha agora sua própria bandeira, hino e instituições locais. A Andaluzia, que não tinha nenhum a tradição nacionalista histórica, adquiriu um enérgico partido regional que ganhou 19 cadeiras no parlamento regional em junho de 1990. Na Catalunha, onde as exigências separatistas eram mais prevalentes, a decomposição da União Soviética (1989-1992), e em particular o reconhecimento das repúblicas independentes do Báltico, em 1991, proporcionaram combustível para as demandas populares de secessão. Essas demandas, no entanto, não tiveram eco nas principais figuras políticas, e os sangrentos conflitos que seguiram à decomposição da Iugoslávia depois de 1990 apagaram em grande parte o entusiasmo nacionalista. Mesmo no País Basco, onde Herri Batasuna - a ala política do ETA - mantinha um grau significativo de apoio popular, somente 17% das pessoas apoiaram em 1987 a exigência de independência do partido. Oito anos antes, 32% haviam se declarado a favor de uma nação basca.

Portugal não tem um problema regional em grande escala, embora a questão da autonomia local figure ainda na agenda política. Em 1976, a constituição declarou que Portugal era um Estado unitário, e os partidos regionais foram proibidos de apresentar-se nas eleições. No entanto, a constituição previa novos acordos regionais do governo (que deveriam ser efetivados no início da década de 1990), enquanto as regiões das ilhas da Madeira e dos Açores obtinham um considerável grau de autonomia, incluídos alguns poderes de arrecadar impostos. Sob os termos da constituição, cada uma dispõe de um parlamento eleito, embora os membros do executivo sejam nomeados centralmente. As ilhas portuguesas têm aspirações históricas de autonomia e, ao final da década de 1970, o separatismo parecia uma força poderosa e crescente, em particular nos Açores. Como consequência imediata da revolução de 1974, a recém-criada Frente de liberação das Açores recebeu um considerável apoio dos Estados Unidos. Falou-se até mesmo que as ilhas podiam tornar-se o 51º estado norte-americano. No entanto, quando se revelou que boa parte dos fundos separatistas norte-americanos provinham dos sindicatos do crime - que haviam posto grandes esperanças num centro de jogatina no meio do Atlântico -, o apoio caiu abruptamente.

Artes e lazer

Sob Salazar, os interesses culturais dos portugueses podiam ser resumidos a “futebol, fado e Fátima”, um reflexo do conservadorismo político do regime mais que das habilidades artísticas do povo. Franco também encorajava os passatempos despolitizados. A diversidade regional ficava reduzida às danças folclóricas, as aspirações nacionalistas eram jogadas nos campos de futebol mais que na arena política. Franco - que nunca perdia o futebol pela televisão - involuntariamente proporcionou ao nacionalismo catalão uma nova saída com seu apoio ao jogo. A liga espanhola chegou a ser dominada por uma intensa rivalidade entre o Barcelona F.C. (universalmente conhecido como o Barça) e o Real Madrid.

Do mesmo modo que todos os espanhóis sentem preferência pelo Barça ou pelo Real Madrid, embora sua principal torcida seja dedicada a outra equipe, cada português torce por uma das três grandes equipes: F.C. Porto, Benfica ou Sporting (o primeiro da cidade do Porto, os dois outros de Lisboa). Normalmente os emigrantes acompanham o desempenho de seus clubes caseiros: centenas de bandeiras portuguesas recebem o Benfica e o Sporting quando jogam na Europa. Dentro do país, a vitória no campo de futebol é uma ocasião de festa patriótica. O domínio do Real Madrid no futebol continental na década de 1950 - quando ganhou a Taça da Europa por cinco anos consecutivos - foi apresentado pelo regime de Franco como uma conquista nacional, apesar de o sucesso da equipe ser edificado em volta de um jogador húngaro, Ferenç Puskas. Mais tarde, em 1982, a Espanha sediar a Copa do Mundo de futebol converteu- se numa festa nacional embora a equipe espanhola fosse eliminada pela Irlanda do Norte na segunda etapa da competição.

No final da década de 1990 e princípio da de 2000, o mercantilismo que assolava a vida cotidiana também chegou ao futebol. Os direitos de transmissão televisiva das partidas de futebol alcançavam uma cifra enorme, e atrás deles correram várias empresas de comunicações. O dinheiro começou a correr pelos clubes de futebol, e a Liga Espanhola se tornou uma das mais poderosas da Europa. Já não eram somente o Barcelona e o Real Madrid que disputavam os troféus. Várias equipes espanholas começaram a participar das competições européias e a obter bons resultados. O Sevilla, o Valência e até o Villareal, um time modesto de uma cidade pequena, conseguiram excelentes classificações na Copa da UEFA e na Champions League.

Na década de 1960 o futebol havia substituído as corridas de touros como o espetáculo mais importante da península. No entanto, os tradicionais rituais da praça de touros não foram eclipsados, como tampouco sobreviveram como um simples espetáculo típico para os turistas. As touradas, que eram realizadas a cavalo em Portugal e a pé na Espanha, foram encorajadas por Franco e Salazar. No entanto, o público espanhol começou a minguar a partir da década de 1940. A Guerra Civil havia feito diminuir enormemente o estoque de touros de toureio; a reputação do touro bravo foi prejudicada ainda mais entre as décadas de 1950 e 1960 quando um pequeno número de empresários adquiriu o virtual monopólio dos touros espanhóis e exigiu touros fisicamente impressionantes, mas menos perigosos para enviar a seus toureiros frequentemente medíocres. Na década de 1970, alguns touros alcançaram o ponto de colapso físico. Foram tomadas medidas para melhorar os padrões de criação, e o desenvolvimento de novas escolas de toureio levou a um renascimento da tauromaquia. Uma crescente e cada vez mais vociferante minoria de espanhóis considera que as touradas não são nem um esporte nem um arte, mas uma expressão de crueldade ritualizada. As touradas portuguesas também têm seus oponentes, porém, como o touro não é morto na arena, atraem menos condenação que sua contrapartida espanhola.

Na busca de uma autêntica cultura nativa, os despotismos não apenas exaltaram a arte das corridas de touros - que na Espanha foi batizada como a festa nacional -, como também a corromperam e comercializaram. O mesmo aconteceu com o fado e o flamenco, que foram promovidos como “típicos” de seus respectivos países. Apesar de suas origens obscuras e possivelmente rurais, o fado português tornou-se a música urbana característica de cafés, cabarés e clubes noturnos. Estas canções de saudade, intimamente associadas ao mar, foram adotadas por cantores profissionais como Amália Rodrigues (1920-1999). As casas de fado de Lisboa e Coimbra tornaram-se atrações turísticas, mas mantiveram seus estilos característicos de canto. Evidentemente, o fado comercializado perdeu boa parte da espontaneidade, mas nunca se tornou uma fonte de imagens baratas para consumo turístico, ao contrário do flamenco.

Desde a década de 1950, os ciganos andaluzes bailarinos de flamenco - bailaores e bailaoras - foram promovidos como representantes da totalidade da Espanha. Este estilo de baile havia desfrutado de uma grande moda ao final do século XIX com o estabelecimento dos cafés [181] cantantes nas cidades andaluzas e o surgimento dos primeiros artistas profissionais. Mais tarde caiu em declínio e somente reviveu em 1956 quando foi restabelecido um festival competitivo em Córdoba. No entanto - embora o incentivo do Estado resgatasse a arte de sua empobrecida obscuridade a promoção de uma versão abastardada do flamenco para uso primeiro de um público nacional e depois turístico correu o risco de substituir um tipo de decadência por outro. Durante um tempo, o flamenco pareceu condenado a uma semivida de apagadas atuações em bares que cobravam preços extorsivos. Mas depois artistas como o cantor Antonio Mairena (1909- 1983) reviveram uma forma mais pura promovendo incansavelmente um flamenco sem adornos nem diluições. Em 1977, o bailarino e coreógrafo Antonio Gades (1936-2004) foi nomeado para dirigir a primeira companhia permanente de baile da Espanha especializada em “balé espanhol”, uma fusão de flamenco e dança clássica. A companhia conseguiu um enorme sucesso de crítica e público na década de 1980, tanto na Espanha quanto no estrangeiro, sobretudo graças à colaboração de Gades com o diretor de cinema Carlos Saura (n. 1932) num trio de excelentes filmes sobre o flamenco, Bodas de sangue (1981), Carmen (1983) e O amor bruxo (1985).

Não foi senão depois da morte de Franco que artistas e intelectuais conseguiram pôr de lado as versões mutiladas das tradições autóctones e redescobrir as raízes folclóricas de boa parte da cultura espanhola. Em meados da década de 1980, também se torna mundialmente famoso o cantor José Monge, mais conhecido como Camarón de la Isla, o qual soube combinar o purismo com a renovação das novas músicas. Na década de 2000, destacam-se os cantores Enrique Morente, Diego el Cigala, José Merce, Miguel Poveda e El Lebrijano. O disfarce da cultura espanhola com exterioridades flamencas foi exposto de forma mordazmente crítica no filme de Luis Garcia Berlanga Bienvenido, Mister Marshall (1952), no qual um pequeno povoado castelhano se disfarça de andaluz para não decepcionar uma visita oficial norte-americana (que no final passará pelo povoado sem parar). Na mesma década, uma jovem geração de compositores espanhóis, todos eles nascidos por volta de 1930, afastaram-se da tradição nacional da música clássica e abandonaram a canção folclórica. Roberto Gerhard (1896-1970), de origem suíça, foi o primeiro compositor espanhol que demonstrou suas simpatias em direção às inovações atonais de Arnold Schoenberg (1874-1951). Seu aluno, Joaquín Homs (1906-2003) introduziu influências mais cosmopolitas na Espanha, embora sua própria música se mantivesse dentro da tradição nacional. Na década de 1950, Luis de Pablo (n. 1930) e Cristóbal Halffter (n. 1930) situavam-se à frente de um grupo de serialistas espanhóis, que procuravam sua inspiração mais na música do alemão Karlheinz Stockhausen (n. 1928) que na de Manuel de Falia. Por inovadores que fossem estes músicos, no entanto, o mais célebre compositor do pós-guerra foi por ampla margem Joaquín Rodrigo (1902-1999), cujo evocativo “Concerto de Aranjuez” (1939) - uma peça de música “espanhola” clássica - tornou-se popular em toda Europa.

Embora Rodrigo se sentisse feliz de permanecer na Espanha de Franco, outros não se sentiam assim. Toda uma geração de escritores, músicos e artistas foram para o exílio em 1939, entre eles Roberto Gerhard e o internacionalmente renomado violoncelista Pau Casais (1876-1973), que morreu antes de Franco e, portanto, nunca regressou a sua pátria natal. Por outro lado, o compatriota catalão de Casais, Joan Miró, pôde regressar: embora nunca se reconciliasse com Franco. As primeiras obras do escultor Eduardo Chillida (1924-2002) continuaram a tradição de ferro forjado de Gargallo e González, embora sua crescente interpretação metafísica da técnica o levasse a instalações mais abstratas. O primeiro passo efetivo para o modernismo deu-se em 1948, quando certo número de artistas localizados em Barcelona criaram o jornal Dau al set (Dado no sete) para proporcionar um enfoque à vanguarda emergente. Originalmente surrealistas, muitos componentes do grupo do Dau alset passaram para o abstracionismo expressivo. Entre eles estava Antoni Tàpies (n. 1923), talvez o mais influente dos pintores espanhóis do pós-guerra, que mais tarde liderou o movimento da artepovera (arte pobre), que utilizava as técnicas de montagem e da colagem com finalidades de crítica social.

As artes visuais floresceram na Espanha a partir da década de 1960 e, com o crescimento econômico e um regime democrático receptivo, o apoio financeiro do estado às artes alcançou níveis inéditos. O museu mais importante aberto em Madri na década de 1990, o Centro Rainha Sofia, é dedicado às artes contemporâneas, enquanto as obras de Picasso e Miró ocupam lugares de honra em Barcelona. A ardente condenação de Picasso à Guerra Civil Espanhola, o quadro Guernica (1937), foi devolvido finalmente à Espanha após a morte de Franco e alojado no Prado até 1993, data em que, no meio de uma grande controvérsia, a obra foi transladada para o Centro Rainha Sofia. Dos últimos anos do século XX e do princípio do XXI, cabe destacar F. Garcia Sevilla, G. Pérez Vilalta, R. Llimós, F. Amat e o mais internacional de todos, Miquel Barceló, autor de uma obra ingente em muitos suportes: aquarelas, óleos ou afrescos. Em Portugal, os limitados recursos do Estado impediram que se fizesse muito para encorajar as artes. O único patrocínio econômico sistemático foi proporcionado pelo milionário do petróleo e filantropo armênio Calouste Gulbenkian (1869-1955), que foi morar em Portugal depois da Segunda Guerra Mundial e dotou seu país de adoção com um museu e uma galeria de arte, uma orquestra, companhias de dança e corais. Muitos dos artistas portugueses que hoje exibem estudaram com bolsas de Gulbenkian. O artista contemporâneo mais influente do país, a pintora abstrata Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) passou a maior parte da vida na França. Em marcante contraste com gerações anteriores, as mulheres estão agora bem representadas entre os artistas contemporâneos; Paula Rego (n. 1935) ergue-se junto à imponente figura de Vieira na primeira linha dos pintores portugueses.

Assim como o erguimento da censura política e moral pelos novos regimes democráticos teve certo impacto nas artes visuais da península, a literatura viu-se transformada. Em 1977, dois anos depois da morte de [183] Franco, o poeta lírico Vicente Aleixandre - que era membro da Geração de 27 e contemporâneo de Garcia Lorca - foi premiado com o Prêmio Nobel de Literatura. A cultura espanhola, durante tanto tempo obscurecida pelas sombras do regime de Franco, atingiu de novo o reconhecimento intelectual. Os artistas e intelectuais que se haviam oposto às ditaduras voltaram agora à península. Embora a maioria deles fosse velha e alguns regressassem para casa simplesmente para morrer, ativistas mais jovens do partido comunista, como Jorge Semprún (n. 1923) e o romancista português e Prêmio Nobel de Literatura em 1998, José Saramago (n. 1922), foram também reabilitados, e chegaram a ser conhecidos como figuras públicas em vez de ativistas clandestinos.

Os escritores que haviam passado suas vidas criativas sob os regimes ditatoriais puderam enfim expressar-se livre e plenamente. O romancista castelhano Miguel Delibes (n. 1920) havia afirmado que “por métodos indiretos” sempre havia conseguido dizer mais ou menos o que desejava, mas suas descrições naturalistas da Castela rural, que mostravam a fome, o atraso e o abandono, sempre despertavam a atenção dos censores. A obra “realista social” de romancistas como Delibes assombrou a Espanha do pós-guerra. O maior impacto foi obtido por Camilo José Cela com A família de Pascual Duarte (1942), a história brutal de um assassino camponês de Extremadura enfrentando a violência e a pobreza da Espanha fratricida. Cela (1916-2002) ganhou em 1989 o Prêmio Nobel de Literatura, essencialmente, como Aleixandre, pela obra realizada na juventude.

Embora os realistas sociais, trabalhando dentro de uma tradição estabelecida, possivelmente conseguiram escapar dos censores, os escritores que desejavam explorar formas não convencionais ou temas explicitamente sexuais tinham pouca margem de manobra. Juan Goytisolo (n. 1931) iniciou sua carreira literária na década de 1950 como realista social, mas desviou-se em direção à exploração da linguagem e do texto em romances que se ocupavam da desintegração das relações humanas. Numa desconexa trilogia publicada entre 1966 e 1975, Goytisolo lançou um ataque contra a língua espanhola como um meio de destruir o passado cultural da Espanha. O parágrafo final da obra estava escrito em árabe. Goytisolo, um dos primeiros escritores a tratar abertamente do tema da homossexualidade, trocou a Espanha por Paris e depois se instalou permanentemente no Marrocos.

A transição para a democracia permitiu finalmente que os escritores abordassem os temas da sexualidade que transformaram a literatura do final do século XX em algo tão diferente em outras partes do mundo ocidental. Entre 1978 e 1980, a escritora catalã Esther Tusquets (n. 1936) publicou uma trilogia que abordava positivamente o tema da sexualidade feminina. As relações heterossexuais, bissexuais e lésbicas formavam uma lírica descrição da opulenta sociedade catalã nas décadas de 1960 e 1970, uma época na qual até mesmo as referências indiretas a esse tipo de temas eram problemáticas.

Entre os numerosos romancistas do final do século XX, também cabe destacar Juan Marsé, Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003), Francisco Umbral e Eduardo Mendoza. Da geração mais jovem, sobressaem Javier Marías, Juan José Millas, Arturo Pérez-Reverter, Enrique Vila-Matas, Javier Cercas e Almudena Grandes. [184]

Espanha | Política
Por Mário Curtis Giordani
Economia hitita

A falta de documentação faz com que pouco possamos escrever sobre a vida econômica dos hititas. A base da economia era a agricultura: a propriedade privada ou coletiva era explorada por camponeses livres e escravos. Os agricultores cultivavam cereais, árvores frutíferas e dedicavam-se também à criação de animais como o cavalo, o asno, o boi, etc. Se o solo do planalto da Ásia Menor não possuía a fertilidade dos vales do Nilo ou do Tigre e do Eufrates, encerrava contudo uma apreciável riqueza mineral. Compreende-se, assim, o papel que a metalurgia desempenhou na indústria dos hititas. Objetos de ferro eram fabricados e difundidos por outras regiões do Oriente. O cobre, o bronze, o ouro e a prata eram também trabalhados pelos artífices hititas. Com esses dois últimos metais fabricavam-se joias e outros objetos de luxo. O ouro era importado do Egito e, em parte, para lá retomava sob forma de trabalhos de ourivesaria.

A espinha dorsal do comércio hitita era a estrada entre Hattusa e Karkemish. Esta cidade representava uma encruzilhada de rotas internacionais. Compreende-se, portanto, a preocupação dos soberanos hititas em manter desimpedida a comunicação com tão importante centro. Com tal fim, os hititas lutaram pela anexação das regiões circunvizinhas.

O estalão de valor corrente era a prata, as vezes substituída pela cevada. As leis hititas regulavam o preço de certas mercadorias como, por exemplo, os alimentos de primeira necessidade e a locação de serviços de homens e de animais.

Civilização Hitita | Economia
Por Mário Curtis Giordani
Direito Persa

No Império persa a grande fonte do direito era a vontade do soberano de direito divino. Transgredir a lei emanada do soberano era ofender a própria divindade. Os crimes de menor importância eram punidos com a chibata que podia ser, em parte, substituída pela multa pecuniária. Os crimes mais graves eram severamente punidos com castigos bárbaros como a marca à fogo, a mutilação, a cegueira e a própria morte. A pena de morte era aplicada em casos como homicídio, estupro, aborto, grave desrespeito à pessoa do rei, e traição. Os rebeldes recebiam uma punição exemplar: Eram levados à corte real onde lhes cortavam o nariz e as orelhas; mostravam-no ao povo e em seguida eram conduzidos à capital da província em que se haviam revoltado e aí eram executados. Ciro, o Jovem, após sua morte, teve a cabeça e a mão decepadas. A família inteira seguia, em geral, a sorte de seu chefe.

Havia diversos processos de executar a pena máxima: o veneno, a empalação, a crucificação, o enforcamento, o apedrejamento, etc. Apesar desses castigos severos, convém notar que a lei não permitia que se punisse com a pena de morte alguém que houvesse cometido um único crime; nem mesmo um escravo deveria ser punido com atrocidade por causa de uma única falta: seus méritos deviam ser levados em consideração.

O rei era o supremo juiz, sobretudo em matéria penal. Em matéria civil encontramos, já sob o reinado de Cambises, juízes nomeados pelo soberano. É conhecido o caso de Sesamnés, juiz real condenado a morte por haver recebido dinheiro a fim de pronunciar uma sentença injusta: após sua morte, arrancaram-lhe a pele e forraram com a mesma a cadeira em que costumava sentar para exercer suas funções. Tal punição praticada por ordem de Cambises foi repetida sob Artaxerxes I, que mandou esfolar vivos juízes que haviam proferido sentenças iniquas.

A prática processual admitia o juramento e aplicava, às vezes, o ordálio. As partes eram assistidas pelos relatores da lei, espécie de advogados que as orientavam no processamento das ações quando as leis se tornavam por demais complexas.

Civilização Persa | Direito
Por Catherine Salles
Um dia em Roma

Século I. Roma desperta às 6 h. Se vpcê mora na cidade, abandone toda e qualquer esperança de dormir até tarde. Assim que o dia amanhece, as ruas se enchem de um movimento infernal.

Os artesãos saem para trabalhar ao ar livre. O martelo do caldeireiro bate em cadência sobre as peças de metal que se transformarão em panelas e caçarolas. Um marceneiro instala sua bancada para serrar e aparar suas tábuas. Um serralheiro lima uma chave. Um vendedor de instrumentos musicais experimenta as flautas e trombetas que oferecerá aos aficionados.

No interior do pátio das padarias, há o ranger dos moinhos de pedra, que produzem a farinha. Fora, o cambista faz moedas tilintarem sobre a mesa, enquanto um cunhador martela pedaços de ouro, para folhear objetos. Diante da banca do barbeiro, os primeiros clientes se encontram e comentam os acontecimentos da véspera.

Os estudantes já estão na escola, instalada sob a lona de uma loja, e soletram o alfabeto. Os comerciantes colocam suas mercadorias na rua. O padeiro põe do lado de fora seus cestos de pãezinhos, enquanto o açougueiro pendura em ganchos uma carcaça de boi e tiras de lingüiça.

A cidade tem cerca de 1 milhão de habitantes no século I e quase nenhum planejamento urbanístico. O centro de Roma é uma rede desordenada de ruelas que sobem ou descem por encostas de colinas. A área da cidade é pequena para tanta gente. Mas apesar das difíceis condições de vida, o romano por nada no mundo deixa sua cidade para se instalar no interior. À exceção dos doentes, todo mundo passa o dia todo na rua.

Os ricos e os nobres vivem em mansões, dispostas no interior de jardins, sem aberturas para a rua, [28] com exceção da porta de entrada. Essas residências se concentram em colinas, como o Palatino e o Aventino. A maior parte dos romanos, porém, mora nas insulae(casas populares) ou em velhos prédios de até seis andares, os primeiros de tijolos, e os últimos, de argila e palha ou madeira. Os desabamentos são freqüentes.

Chega-se aos últimos andares por escadas exteriores. Os cômodos não têm água encanada nem esgoto. As latrinas ficam no andar térreo e são usadas por todos os moradores. Também há dejetos depositados na rua, amontoados. Para se aquecer, as pessoas usam um braseiro de argila rudimentar, causa recorrente de incêndios.

Nesses prédios, de até 30 metros de altura, a luz penetra com dificuldade. Às vezes, plantam-se pequenos jardins suspensos no nível do telhado, e vasos com plantas aromáticas enfeitam os beirais das janelas. O térreo é ocupado por lojas e oficinas. Quase sempre há um zelador, encarregado da ordem e do recebimento dos aluguéis. Os locatários mais necessitados são relegados a dormitórios no sótão ou no subsolo do imóvel.

Há nove aquedutos em Roma, fornecendo um total de 992 mil metros cúbicos de água por dia. Essa água vem de fora e é dividida em reservatórios que a distribuem às fontes e canais públicos. Só as mansões particulares são abastecidas com água corrente. Nas insulae, é preciso recorrer às fontes públicas.

Desde 11 a.e.c., há serviço de água em Roma, administrado por curadores. Uma vasta rede de esgoto despeja a água servida no rio Tibre, com margens e leito mantidos por um serviço particular.

Comer, beber, viver

Agora já são 10h, e o movimento nas ruas só faz aumentar. Os romanos fazem uma refeição completa por dia, noturna. Durante o dia, mastigam alguma coisa. Nas thermopolia, que vendem bebidas e alimentos quentes, ânforas de vinho são encaixadas em buracos num longo balcão. Ali são servidos caldo de ervilhas, linguiças temperadas com cebola ou pinhões, além de placentae, que são discos de massa sobrepostos em camadas, recheados de queijo ou outros ingredientes. Há ainda bolos e bolinhos banhados de mel.

Esse é o horário no qual, na frente da porta das casas mais [30] ricas, começa a se formar a fila de pessoas em busca de sua espórtula, cesto contendo pratos preparados para a refeição da noite. Todos os plebeus cidadãos romanos - 200 mil beneficiários, na época de Augusto - recebem do imperador rações mensais de trigo. Mas isso não basta para alimentar uma família. Assim, cada romano é “cliente” de alguém acima na hierarquia social. O dever do cliente para com seu “patrão” (ou patrões) consiste em ir saudá-lo todos os dias, conferindo-lhe honorabilidade, signo de riqueza. Em troca, recebe a espórtula.

É costume ir buscar sua espórtula vestindo uma toga branca, marca da cidadania. Dentre os que esperam na rua, ocorrem enfrentamentos, apesar de regras de acesso à casa do patrão. De acordo com a posição na sociedade, os senadores antes dos cavaleiros, os cavaleiros antes dos simples cidadãos, os cidadãos antes dos escravos libertos. Mas há fraudadores: um cliente se faz acompanhar da esposa grávida para poder passar na frente, outro vem diante de uma liteira vazia, alegando que sua esposa doente está dormindo em seu interior.

Hora do banho

São 14 h, tempo da higiene. Os romanos não deixam de se lavar nem um único dia. Os de melhor condição social têm termas em casa, mas a maioria dos romanos depende dos banhos públicos.

Nas Termas de Agripa, inspiradas em estabelecimentos da Grécia e do sul da Itália, há um grandesa tão circular com os locais para banhos e, do lado de fora, uma piscina onde se pode nadar. A água trazida por aquedutos é armazenada em reservatórios, antes de ser distribuída pelas salas e canalizações de chumbo ou terracota. Para aquecer os banhos, os romanos utilizam o sistema de hipocausto: uma fornalha exterior aquece, de um lado, a água dos banhos, e de outro o ar que circula em um vão sob os assoalhos e entre as paredes, que são duplas. Todos os romanos, incluindo escravos, freqüentam banhos públicos. São 170 no início do século I, administrados pela iniciativa privada.

O cliente começa a tirar a roupa no apodyteríum (vestiário), deixando as peças sob a vigilância de um escravo - os roubos são frequentes. Ele entra então no tepidarium (estufa com temperatura de 25° a 28°C) e, eventualmente, no sudatorium (estufa úmida) e no laconium (estufa seca) para suar. Em seguida, o banhista [31] se banha no caldanum, com água aquecida a 40°C. A última etapa, o frigidarium (água fria), faz os poros da pele se fecharem novamente. O banhista, por fim, é massageado em um unctorium, onde estão os massagistas, depiladores e perfumistas.

Há também salão de esportes.

Ir aos banhos ocupa uma boa parte da tarde. O local é um ponto de encontro diário dos romanos, mas não o único. Os imperadores e ricos cidadãos presentearam Roma com magníficos espaços verdes abertos ao público, e é nesses espaços que os cidadãos passam o resto da tarde.

Para evitar despesas com iluminação, a cena, principal refeição diária, é feita antes do pôr-do-sol. A alimentação da maioria é frugal: legumes, ovos, escargots, raramente carne ou peixe, além de frutas e alguns doces comprados na rua. Os homens comem deitados, e as mulheres, sentadas. Crianças comem em pé.

Roma adormece

São 21 h. Lojistas fecham com cadeados as portas dos estabelecimentos. Com ruas sem iluminação, os cidadãos ricos, acompanhados de escravos [32] carregando tochas, são os únicos a circular sem perigo. Os mais modestos, como uma simples vela na mão, desafiam o perigo de cruzar com homens mal-encarados ou bêbados violentos. Outro perigo é o conteúdo de penicos atirado pelas janelas.

À noite, reina a escuridão, mas nunca o silêncio. Para lutar contra os incêndios há sete falanges, com mil bombeiros em cada, recrutados entre os escravos libertos. Em suas rondas diurnas e noturnas, eles tentam prevenir incêndios. Para isso dispõem de baldes, esponjas e pedaços de pano embebidos em vinagre, fixados na ponta de longas varas, além de escadas, machados, bomais cheios de vinagre, colchões para amortecer a queda dos que se atiram dos andares superiores, bombas e tubos dos quais jorra água. Têm ainda um serviço de saúde, prestado por médicos que ministram socorros. Há ainda um esquadrão de polícia - três equipes, com mil homens em cada, subordinadas ao prefeito de Roma. Durante o dia, as falanges urbanas zelam pela manutenção da ordem. À noite, uma parte dos policiais fica em um posto, enquanto a outra patrulha as ruas.

Só as tabernas de má fama estão abertas depois do anoitecer. Delas ecoam o canto dos bêbados e o ruído de brigas dos jogadores de dados. Postadas na frente de cubículos imundos, jovens seminuas interpelam os passantes, propondo instantes de amor em troca de uma moeda. Nos cantos das ruas, vãos de escadas e sob as pontes, mal se distinguem as formas dos sem-teto, que dormem embrulhados em suas capas.

Nos cais, alguns doqueiros, em tomo de uma fogueira, passam a noite vigiando os armazéns que guardam o trigo e o azeite trazidos do Egito ou da África por barcos que sobem o Tibre, de Óstia a Roma.

O silêncio é quebrado também por carroças que transportam materiais de construção para edifícios e só têm autorização para circular à noite. Suas rodas fazem o piso tremer, enquanto os condutores gritam ordens às mulas. E há o barulho dos carrinhos que levam o lixo para fora de Roma, de pastores que atravessam a cidade com rebanhos de carneiros e bois para vender aos açougueiros.

Daqui a pouco, começa outra vez o burburinho matinal. [33]

Civilização Romana | Cotidiano
Por Mário Curtis Giordani
As ciências na China antiga

Astronomia - Comecemos com a astronomia, ciência que nasce espontânea da observação constante do céu e que, na Antiguidade, frequentemente degenerava em astrologia. As antigas inscrições em ossos atestam que os chineses controlavam o movimento dos astros anotando eclipses da lua e do sol; o ano fora dividido, já no século XIII a.e.c., em 365 dias e distribuído em 12 ou 13 luas. Para marcar a hora eram empregados o gnomo, a clepsidra e outros instrumentos. Catálogos de estrelas organizados na época dos estados combatentes revelam a precisão com que os astrônomos chineses faziam suas observações na abóbada celeste. É curioso anotar a ideia que os chineses tinham do universo pelo II século a.e.c. consideravam-no semelhante a um ovo esférico cuja casca seria o firmamento e a gema a própria terra.

Matemática - Há milênios que os chineses escrevem os números por meio de uma expressão analítica e decimal. Assim, por exemplo, 547 escrevem-se: cinco centos, quatro dez e sete.

Os dez primeiros números e as primeiras potências de dez são expressos por meio de palavras monossilábicas.

Uma obra de autor desconhecido da época dos Han, intitulada «A arte do cálculo em nove capítulos», fornece-nos um resumo dos conhecimentos matemáticos da China antiga: problemas de aritmética, álgebra e geometria eram resolvidos com facilidade.

O matemático Lieu Huei, do III século de nossa era, achou o valor do pi: 3,14159.

Medicina. — O estudo das teorias e práticas dos esculápios chineses dá-nos curiosas informações sobre a arte de diagnosticar e curar as doenças na China antiga. Sem preocupação de ordem cronológica, vamos enumerar alguns preceitos e algumas práticas dessa velha medicina. O diagnóstico devia ser o produto da observação, auscultação, interrogação, e tomada de pulso. Conforme a doença diagnosticada, eram receitados purgativos, vermífugos, hidroterapia e um grande número de ervas. O cirurgião Hua Tuo preconizou o emprego de anestésicos por ocasião das operações. “Outro médico indicou a respiração artificial para os casos de suicídio por enforcamento, e lavagens estomacais para os envenenamentos.

Huang-Fu Mi, no III século de nossa era, versa sobre um dos mais curiosos tratamentos da medicina chinesa: a acupuntura. «Os missionários falam com admiração da arte dos médicos chineses de curar enfermidades que são consideradas entre nós como incuráveis, e como as curam com meios muito simples. Entre suas próprias e antiquíssimas invenções está a acupuntura aplicada em grande número de enfermidades, e muitas vezes com êxito, que maravilha os europeus. Picam o corpo com grandes agulhas de metal e toda a arte do médico consiste em escolher o lugar e conhecer exatamente a direção e profundidade da picada. Os chineses chamam o homem microcosmos, Siaotienty. A saúde consiste, para eles, na harmonia ou equilíbrio entre o forte e o fraco, o seco e o úmido, o quente e o frio. O excesso de um ou de outro produz a enfermidade e a morte».

Civilização Chinesa | Ciências
Por Mário Curtis Giordani
O Direito na Suméria

Estudando a justiça entre os sumérios, Kramer escreve: “A lei e a justiça foram conceitos fundamentais na antiga Suméria, que impregnavam a vida social e econômica sumeriana tanto na teoria como na prática. No decurso do século passado, os arqueólogos revelaram, à luz do dia, milhares do tabuinhas de argila representando toda espécie de documentos de ordem jurídica: centradas, atas, testamentos, notas promissórias, recibos, acordos de tribunais. Entre os sumérios, o estudante mais adiantado consagrava uma grande parte do seu tempo ao estudo das leis e exercitava-se regularmente na prática de uma terminologia altamente especializada, bem como na transcrição dos códigos legais e dos julgamentos que tinham formado jurisprudência”.1

Nos últimos anos foram encentrados alguns códigos de leis promulgadas na Mesopotâmia em épocas anteriores ao famoso código do Hamurabi.

Em 1952 foi identificado o Código do Ur-Nammu, fundador da III dinastia de Ur (2050? a.e.c.), escrito em sumério. Kramer escrevo a propósito: “Tive, com efeito, a honra, neste ano, de copiar e de traduzir, em circunstâncias que precisarei, uma tabuinha cujo texto reproduzia, em parte, aquele de um código promulgado pelo rei sumeriano Ur-Nammu... A tabuinha de Ur-Nammu pertence à importante coleção do museu de antiguidades orientais de Istambul.”2

Em 1948 o conhecido assiriólogo Abbrocht Geotze estudou e identificou uma nova coleção de leis encontradas em Tebl-Harmal. Trata-se do Código de Eshnunna escrito em babilônico e atribuído ao rei Bilalama. O preâmbulo do código permitiu a A. Goetzo precisar a data das Leis do Eshnunna. Com efeito, a tabuinha A contém, segundo o citado autor, o nome de Bilalama, rei do Eshnunna. Há razão bastante para se acreditar que este rei tenha sido o autor do código”.3 Bilalama teria vivido pelo fim da dinastia III de Ur e inicio da dinastia do Thin. É interessante notar que as leis do Eshnunna (cidade situada a margem do rio Diyala, afluente do Tigre) contém elementos que se encontram tanto no direito sumeriano (Códigos do Ur-Nammu e do Lipit-Ishtar) como no direito babilônico (Código de Hamurabi) e direito assírio. Em 1947 foi identificado o Código do Lipit-Ishtar escrito em caracteres cuneiformes e em língua sumeriana. “Graças a Francis Steolo, então conservador adjunto da University Museum de Pensilvânia, foi restabelecida (a tabuinha) e traduzida em 1947-1948. Compõe de um prólogo, de um epílogo e de um número indeterminável de leis, das quais estão inteira ou parcialmente conservadas trinta e sete”.4 Lipit-Ishtar (1690 a.e.c.!) foi o quinto rei da dinastia do Isin.

O direito privado sumeriano reconhecia à mulher bastante independência em relação ao marido. O divórcio era admitido por decisão judicial que podia ser favorável a qualquer um dos cônjuges. O adultério era considerado delito, porém não tinha conseqüências se havia a perdão do marido. O repúdio da esposa pelo marido acarretava na indenização pecuniária e só era permitido por razões de ordem legal. Os filhos estavam sob a dependência do pai e da mãe. Admitia-se a adoção. O filho que renegasse seu pai seria vendido como escravo. Por motivos de dividas, os pais podiam vender os filhos como escravos; a esposa, apesar de sua independência jurídica, era responsável pelas dividas do marido.5

As leis penais dos sumérios foram as mais clementes da Mesopotâmia antiga. No Código do Ur-Nammu encontramos a substituição da lei do talião por dispositivos mais humanos, que aplicavam multas em vez do penas corporais. Igualmente o Código do Eshnunna apresenta-nos um sistema de penas baseado sobretudo no principio da indenização legal, isto é, o autor de uma infração deveria indenizar a vítima ou seus substitutos legais. A taxa de composição legal é avaliada em função da infração cometida e do estatuto jurídico da vítima; varia entre dez siclos e uma mina (60 siclos) de prata.6 Além da composição legal, o Código admite também a pena de morte para determinados crimes como, por exemplo, o arrombamento noturno praticado contra a propriedade de certa classe de cidadãos, certos raptos, o adultério, o homicídio por negligência, etc. As leis do Eshnunna, para efeito de punição, classificam os delitos em:

  1. Delitos contra os bens;
  2. Delitos contra as pessoas;
  3. Delitos contra bens pessoais.
Civilização Suméria | Direito
BATALHAS
Segunda Guerra Púnica
Civilização Romana - Númidas
Civilização Cartaginesa - Gauleses - Espanhóis - Númidas
Século III a.e.c.
202
Setembro
Guerras Egípcias
Civilização Egípcia
Civilização Hitita
Século XIII a.e.c.
1285
-
Guerras Assírias
Civilização Assíria
Babilônia
Século VII a.e.c.
689
-
PERSONALIDADES
MAPAS / INFOGRÁFICOS
O Egito Moderno
Civilização Egípcia
Síria egípcia
Civilização Egípcia
Egito e o Oriente próximo (630-560 a.e.c.)
Civilização Egípcia
Documentários - História
Segredos Medievais
Discovery Channel
Vietnã em HD
The History Channel
Luta jurássica
The History Channel
Roma, a última fronteira
Discovery Channel
O caos
National Geographic
Batalha de Maratona
Batalhas a.C.  
1 Temporada  Ep. 04  44m42s
The History Channel
A Tumba Perdida de Alexandre
Egito Revelado  
1 Temporada  Ep. 02  43m44s
Discovery Channel
Roma no primeiro século, anos de provação
Impérios  
1 Temporada  Ep. 02  53m
PBS
O início da civilização
A história do mundo  
1 Temporada  Ep. 01  49m57s
Philos
Abaixo de zero
A grande história  
1 Temporada  Ep. 04  21m24s
The History Channel
Os celtas
  
    47m01s
Discovery Channel
Todos os vídeos
Psicologia
SEÇÕES
ESCOLAS PSICOLÓGICAS
Música por todos os sentidos

A percepção da música na antiguidade era muito mais abrangente no uso dos sentidos e na proposta de harmonização entre homem e universo.

Psicologia social
Riso, um instinto vital

A capacidade de rir é uma das características mais prazerosas dos humanos. Sinal de superioridade para Platão, ou a distância mais curta entre dois corações, como consideram os apaixonados, esse instinto primordial e irresistível tem seus mistérios.

Neuropsicologia
TEXTOS
Por Flávio Fortes DAndrea
Desenvolvimento da personalidade, a Fase fálica

A fase fálica corresponde ao período que vai dos três aos cinco ou seis anos de idade. Por volta dos três anos, a zona oral já perdeu sua predominância como área de gratificação erótica e a criança que teve um desenvolvimento normal já aprendeu a controlar os esfincteres e sublimou o interesse pelas excreções. Além disso, está bem mais consciente de si mesma, percebe com mais clareza o mundo que a rodeia, interessa-se pelo ambiente e começa a indagar sobre o significado e as causas dos fatos. Aumenta seu interesse pelo próprio corpo, principalmente pelos genitais, o que se manifesta pela masturbação, pelo exibicionismo e pela tendência ao maior contato físico com o sexo oposto. Também surgem fantasias sexuais, geralmente associadas à masturbação.

O termo fálico, relativo ao pênis, usado para esta fase, provém do fato da libido concentrar-se nos orgãos genitais que passam a ser a zona erógena predominante. O menino sente prazer pela manipulação do pênis e a menina do seu análogo, o clitóris. É como se houvesse, para ambos os sexos, apenas um órgão genital, o masculino. Assim, no início, o menino conhece somente seu órgão sexual o qual supervaloriza e tende a atribuir um pênis a qualquer objeto do mundo externo, seres vivos ou inanimados. Nas meninas esta tendência é menos evidente, mas há dados atestando que elas também atravessam um período fálico, embora de curta duração. Suas sensações eróticas começam na região do clitóris acompanhadas de fantasias sexuais ativas, de penetração, semelhantes às dos meninos. Entretanto, o clitóris é um rudimento de pênis e os “desejos masculinos” nunca [59] atingem grande intensidade. Mais tarde, sensações na vulva competem com as clitorianas, tendendo a inibir “os impulsos masculinos”. Porém, não há ainda uma percepção nítida da abertura vaginal, que é confundida com o orifício anal. De qualquer forma, há um conflito entre ter algo que possa ser introduzido numa cavidade e ter uma cavidade que possa receber algo, isto é, entre uma tendência “masculina” de penetrar e outra “feminina” de ser penetrada. Por sua vez, o menino, durante algum tempo, nada sabe a respeito de uma abertura vaginal nas mulheres, separada do ânus. Além disso, suas sensações genitais confundem-se com as anais e os desejos ativos estão mesclados com os passivos, como ocorre com as meninas. A diferenciação surge pela predominância, no decorrer do desenvolvimento, dos impulsos ativos no sexo masculino, e dos passivos no sexo feminino. Assim, anatomicamente, há uma base para o conceito de bissexualidade como existe, fisiologicamente, pela presença de hormônios masculinos e femininos nos dois sexos. A bissexualidade persiste durante toda a vida, sendo mais pronunciada na infância e na puberdade. Se o desenvolvimento é normal ela torna-se invisível na maturidade, ocultando-se, por vezes, nas grandes amizades, certas atividades sociais, manifestações artísticas etc. Quando há um bloqueio da heterossexualidade, por uma determinada razão, os desejos homossexuais aparecem, como comumente se observa, por exemplo, nos quartéis, nas prisões, colégios internos. Também nos neuróticos, o componente homossexual está quase sempre presente.

O Complexo de Édipo

Na fase fálica, as relações interpessoais da criança caraterizam-se pela seleção de um objeto sexual bem definido. Os impulsos eróticos são acompanhados de fantasias relativas ao objeto, as quais se associam à masturbação, e isto estimula o aparecimento de conflito. A presença de conflitos não é novidade para uma criança nesta fase, pois ela já os experimentou nas fases anteriores. Assim, no primeiro ano de vida, suas exigências orais encontraram oposição nos limites impostos pela mãe e, mais tarde, no treinamento dos esfíncteres, sua rebeldia foi bloqueada pelas barreiras criadas pelo meio. Entretanto, estes conflitos se [60] deram em confronto com a realidade externa enquanto, na fase fálica, o conflito sexual ocorre sem uma suficiente causa exterior. Parece que, no decorrer da evolução da humanidade, ele se transformou de um problema real, externo, em uma condição interna, herdada no passar dos séculos.

O conflito sexual da fase fálica está ligado ao fenômeno conhecido como complexo de Édipo. Os conhecimentos a respeito deste fenômeno surgiram das observações de Freud que descobriu nas manifestações inconscientes de seus pacientes neuróticos frequentes fantasias de incesto com o progenitor do sexo oposto, associadas ao ciúme e a impulsos homicidas contra o progenitor do mesmo sexo. Freud[1]denominou estas ideias carregadas de afetos de complexo de Édipo por analogia á lenda grega na qual Édipo, sem o saber, assassinou o próprio pai e casou-se com a mãe, tendo filhos com ela. Mais tarde, ao se descobrir a verdade, a mãe enforcou-se e Édipo vazou os próprios olhos e foi perseguido pela fúria dos deuses.

Evidenciou-se, posteriormente, que o complexo de Édipo não era um apanágio das mentes doentias mas um evento comum a todas as pessoas. A existência de desejos incestuosos na infância e os conflitos que originam é universal, embora possam aparecer com roupagens diferentes conforme a cultura.

As relações objetais ligadas ao complexo de Édipo são da maior importância no desenvolvimento da personalidade. Freud considerou, mesmo, os eventos do período edipiano como cruciais na formação de uma personalidade normal ou patológica, embora hoje saibamos que problemas de fases anteriores podem ser, em alguns casos, mais importantes.

A forma mais simples do complexo de Édipo consiste no amor do menino pela mãe e no ódio pelo pai. Sentindo, pelo pai, apenas, ódio, o conflito é menos complicado e manifesta-se em hostilidade aberta contra a figura paterna, tornando-se portanto uma luta externa. Na realidade, porém, isto raramente acontece, pois há quase sempre, uma atitude ambivalente do menino para com o pai, isto é, ao mesmo tempo que o odeia, também o quer bem. Estes sentimentos ambivalentes constituem [61] o aspecto mais importante para o desenvolvimento do complexo. No sentido inverso, o mesmo ocorre com a menina. Entretanto, as relações objetais edipianas no sexo feminino são um pouco mais complexas, pois a menina precisa dar um passo maior que o menino para ir de encontro ao seu objeto amoroso. Isto porque, no início da fase fálica, tanto um como outro estão fortemente ligados à mãe. Assim, ao contrário do menino, a menina precisa desligar-se emocionalmente da mãe, ou melhor, trocá-la pelo pai e passar a considerá-la uma rival.

O complexo de Édipo pode assumir uma forma negativa quando o elemento odiado é o progenitor do sexo oposto e o amado e do mesmo sexo. Em alguns casos, o conflito edipiano começa normalmente (forma simples, positiva) mas logo segue um rumo desviado por causa de experiências atuais ou de fases anteriores. Isto se observa, por exemplo, quando o amor do menino pela mãe transforma-se em ódio como consequência de decepções no relacionamento com ela. Então há uma troca de objetos, os impulsos amorosos do menino dirigindo-se ao pai, podendo ser este um dos caminhos para o homossexualismo.

As tentativas de negação da existência do fenômeno edipiano são sempre frustradas frente aos fatos. Uma pessoa isenta de preconceitos perceberá com facilidade o colorido erótico que existe no relacionamento da criança com o progenitor do sexo oposto e a competição com o do mesmo sexo. Nesta fase, é frequente observar-se o menino dizer que vai se casar com a mãe ou que é seu marido ou a menina comentar que está namorando o pai e como ambos procuram afastar os competidores do seu amor. Observa-se, ainda, que os sentimentos são ambivalentes, pois o objeto amoroso também é o disciplinador e o objeto odiado também é o provedor de segurança e proteção.

Uma boa ilustração do conflito edípico aparece no filme japonês O Corvo Amarelo, que conta a história de um menino, filho único, que viveu com a mãe num ambiente cheio de afeição, enquanto o pai se ausentara por um período relativamente longo. Quando voltou, a criança demonstrou-lhe abertamente sua hostilidade não aceitando sua amizade e tentando impedir sua aproximação da mulher. Os conflitos transpareceram em seu comportamento no jardim da infância, a ponto de chamar a atenção da professora que, então, discutiu o assunto com os pais. [62] Felizmente, estes eram compreensivos e, com carinho e paciência, ajudaram o filho a resolver seu problema emocional.

Alguns pais, entretanto, acham difícil suportar a tendência da criança a dominar o ambiente familiar em função de seu amor ao progenitor do sexo oposto. O controle do objeto amado e a hostilidade aos outros membros da família, com os quais a criança não deseja reparti-lo, podem ser sentidos como um ataque à autoridade paterna. Nem todos os pais compreendem que a criança passa por um difícil conflito emocional e que precisa de apoio. Quando os pais são compreensivos, o que geralmente ocorre quando também o foram em relação aos problemas das fases anteriores, a criança facilmente se adapta à realidade. Em casos normais, para evitar a perda de amor, a criança identifica-se com o progenitor do mesmo sexo, encontrando nele, à custa da parte positiva da ambivalência, um objeto ideal a ser imitado. Renuncia ao objeto de amor incestuoso, substituindo-o por outras “figuras permitidas” nas quais encontra os traços desejáveis desse objeto. O menino, por exemplo, dirige-se emocionalmente para outras mulheres do lar ou de fora, vai aos poucos dessexualizando sua ternura para com a mãe e imagina que, no futuro, será tão valoroso como o pai e se casará com uma mulher tão boa quanto a mãe. Esta conduta reforçará também as suas tendências masculinas que encontrarão expressão, mais tarde, em outras atividades, nos estudos, nos jogos etc.

O complexo de Édipo, contudo, nem sempre se resolve satisfatoriamente. Aliás, o mais frequente é sua resolução incompleta levando, mais tarde, a várias dificuldades no relacionamento amoroso e colaborando na formação do núcleo inconsciente das neuroses. Vimos que uma atitude correta dos pais em relação à criança neste período difícil do desenvolvimento é de primordial importância para a solução do problema. Porém, há muitas formas de influir negativamente e impedir uma adequada resolução do conflito edipiano. Assim, por exemplo, se uma mãe comportar-se de modo sedutor, despindo-se perto do filho, acumulando-o de carinhos, permitindo que durma em sua cama, exporá a criança a uma situação de ansiedade. Se, por outro lado, a mãe assumir uma atitude depreciatória em relação ao marido e aos homens em geral, poderá prejudicar o processo de identificação do menino com o pai. Se este for fraco e submisso trará [63] ainda maiores problemas para a criança do que se for severo e punitivo. Embora os impulsos da criança em relação aos pais tenham um aspecto erótico, eles estão longe de equivaler a um impulso sexual adulto. Ela não tem noção exata da anatomia nem das relações sexuais e seus sentimentos são vagos e fantasiosos. Desta forma, a observação de atos sexuais ou de partes genitais adultas podem ser muito traumáticas e interpretadas distorcidamente. Também, conflitos e discussões entre os pais, o nascimento de um irmão que estimula fantasias e ciúme, a ausência de informações sexuais adequadas à idade e à compreensão da criança, são outros dos muitos fatores que podem contribuir para uma inadequada resolução do complexo de Édipo.

Em relação ao triângulo amoroso que se estabelece quando a criança atravessa o período edipiano, pode surgir a questão: “O que ocorre com o complexo de Édipo quando a criança é órfã de um ou dois pais?”. A experiência mostra que em tais casos há uma criação de pais na fantasia e desenvolvimento de atitudes edipianas em relação a estas figuras fantásticas;Se, por exemplo, é o menino que não tem pai, ele cria um pai poderoso na sua imaginação. Mesmo se o pai for vivo, mas fraco ou inexpressivo, um substituto é encontrado na figura de um homem com características ideais, existente dentro ou fora da família[2].

O Complexo de Castração

É importante que se compreenda quão difícil é a prova a que são submetidos o menino e a menina durante a vivência do complexo de Édipo. O menino teme a desaprovação, vingança e castigos de seu pai por causa dos seus sentimentos em relação à mãe, Porque na fase fálica o pênis passou a ser a parte do corpo mais valiosa como fonte de prazer, ele teme que o castigo para seus impulsos proibidos recaiam sobre seus genitais causando sua perda. As ideias e as emoções ligadas com o medo de perder o pênis constituem o que se denomina complexo de castração[3]. Como o complexo de Édipo, o complexo de castração [64] é universal, dando testemunho disto a análise de adultos e crianças, pesquisas antropológicas, mitos religiosos e populares, expressões artísticas, etc. O temor de perder o pênis como castigo, aparece no conjunto de chistes e ameaças referentes à castração que comumente os adultos fazem às crianças. Não é difícil perceber que atemorizar os outros é um excelente meio de acalmar os próprios temores, isto é, se uma pessoa acredita que é suficientemente poderosa para assustar os demais, julgará não haver razão para sentir medo.

O nascimento, o desmame e a evacuação de fezes podem ser considerados como precursores do complexo de castração. A separação da criança do útero materno, ao nascer, constitui o trauma original e isto condiciona uma qualidade traumática a todo o tipo de separação posterior, real ou fantasiada. O desmame implica numa separação do seio da mãe que é experimentado pela criança como perda de parte de si mesma. O mesmo ocorre com o conteúdo dos intestinos, com a diferença que as fezes pertencem mesmo ao indivíduo e o seio faz parte do ego apenas no sentido psicológico. A perda do seio e das fezes, bem como outras eventuais perdas, por exemplo, das amígdalas, de dentes, preparam emocionalmente o terreno para as ideias de perda do pênis. Do mesmo modo, o nascimento pode ser fantasiado, retrospectivamente, como castração. O complexo de castração, no senso estrito, refere-se aos órgãos genitais mas, simbolicamente, representa qualquer tipo de lesão ou separação. Assim, a ameaça de perda de amor de pessoas significativas tem um significado de grave injúria para o ego, como se lhe fosse tirar uma parte.

A criança alivia a tensão dos impulsos relacionados ao complexo de Édipo predominantemente através da masturbação e pelas fantasias que a ela se associam. O interesse pelos genitais representa, nesta época, também a preocupação pela sua integridade, preocupação esta originada dos temores de castração. A masturbação não ocasiona nenhuma lesão genital, não faz mal à saúde nem enfraquece o cérebro. No entanto, afirmações opostas são comumente usadas pelos adultos que lidam com a criança, como meio de impedir a prática socialmente repudiada. Desta forma, o medo da castração é reforçado e transmitido de geração para geração. No início, o menino pode continuar manipulando [65] os genitais negando essas ameaças. Mais tarde, ao observar as meninas e dando-se conta que não possuem pênis, passa a supor que elas o perderam e que o mesmo lhe acontecerá se continuar transgredindo.

O menino, que atribuía a todas as pessoas um pênis, fica muito desapontado quando descobre que mesmo sua mãe não o possui. Entretanto, procura reconciliar-se com o fato, imaginando que ela tenha um pênis oculto. É a imagem da mulher fálica, que comumente aparece em sonhos, mitos ou fantasias. Se esta ideia prevalecer fortemente, na vida adulta, o indivíduo tenderá a rejeitar sexualmente as mulheres. Por outro lado, o conhecimento de que a mulher não tem pênis pode criar no menino sentimentos de desprezo ao sexo feminino e tendência a considerar as mulheres como seres inferiores. Quando, porém, há, pela bissexualidade, uma predominância de tendências femininas no menino, ele aceita a castração e tem, ele próprio, sentimentos de inferioridade. Assim, pode tornar-se feminino, passivo e homossexual ou, por formação reativa, supercompensar o sentimento de inferioridade, com atitudes agressivas e excessivamente “masculinas” . Um dos exemplos encontrados na prática clínica de que a criança de sexo masculino aceitou a castração como um fato consumado é o complexo de pênis pequeno. Ao lado de uma possível base anatômica, o que chama a atenção nestes indivíduos é a atitude crônica de inferioridade sexual e de queixa contra “a injunção do destino”.

Como sabemos, nas fases pré-fálicas, a mãe constitui o primeiro objeto de amor tanto para o menino como para a menina. Esta, na pretensão de ter todo o amor materno para si, sente os outros membros da família, inclusive o pai, como intrusos competidores. Como o menino, ela chega também à fase fálica, onde as sensações sexuais são experimentadas no clitóris. Durante esta fase, o descobrimento do pênis leva-a a considerar-se, pela comparação com o clitóris, injustamente mutilada e a desenvolver fortes sentimentos de inveja ao sexo oposto, aparentemente melhor dotado. Tende a responsabilizar a mãe como causadora do seu “defeito físico” e sua relação afetiva com ela é abalada. Então, o pai passa a ser percebido como uma figura importante, aquele que pode lhe restituir o pênis que ela não tem, o que é depois substituído pelo desejo de ter um filho. Assim, a menina [66] dirige seus impulsos eróticos para o pai desejando substituir a mãe nas suas relações com ele. Enquanto, no menino, o complexo de Édipo é seguido pelo temor da castração, na menina desenvolve-se depois da aceitação da castração. O complexo de castração na menina manifesta-se pela inveja do pênis.

Quando não há uma aceitação da suposta castração, a menina rebela-se e comporta-se em muitos aspectos de maneira masculina. A primitiva inveja do pênis desloca-se para todas as prerrogativas masculinas físicas, mentais e sociais e a mulher passa a competir com os homens desejando ser como eles. Nesta linha pode inclusive ter impulsos inconscientes de desmaculinizar os homens. Estes, em geral, percebem as intenções deste tipo de mulher e vulgarmente o chamam de “mulheres castradoras.” Eventualmente, estas fantasias tornam-se realidade e aparecem em manchetes de jornais descrevendo casos em que uma mulher corta o pênis de um homem.

O Problema da Educação Sexual

Na época atual, a excessiva propaganda, assim como a literatura pseudocientífica sobre sexo, têm se difundido nas várias camadas sociais e as pessoas, inclusive pais e mestres, parece que se uniram, em comum acordo, para derrubar todos os tabus sexuais existentes de longa data. Entretanto, a ignorância sobre o desenvolvimento psicossexual, a má interpretação dos fatos, aliados às formações reativas de quem não resolveu os próprios conflitos, acabam por gerar maiores problemas, em vez de educar.

Na educação sexual, a simplicidade, o recato e a segurança na explicação dos fatos às crianças, são fundamentais. Para tornar-se um adulto sexualmente normal, uma criança não precisa, por exemplo, presenciar os pais nus ou participar de conversas de adultos, “cheias de espontaneidade”, sobre sexo, como querem alguns. Pelo contrário, ela deve ser protegida de cenas e experiências que ainda não possam compreender e dominar, para evitar angústias e frustrações. Nem sempre a criança diz tudo o que sente, mas é pródiga em fantasias. No difícil período que é a fase fálica, ela tem um desenvolvimento acentuado da imaginação, ao lado de uma ausência de crítica ou dúvida na [67] interpretação dos fatos. Assim, qualquer dado da realidade pode ser distorcido e considerado como verdadeiro. Uma criança por exemplo, sob a angústia de castração, ao ver por acaso, uma roupa íntima de sua mãe, manchada de sangue menstrual, pode interpretar como a consequência de ferida ou mutilação.

Nesta fase,entretanto, a curiosidade infantil é grande e os pais deveriam proporcionar informações relativas ao campo sexual na medida das demandas dos filhos. Em outras palavras, suas perguntas simples e sem malícia devem ser respondidas com linguagem adequada, levando em conta o que a criança quer saber e a sua capacidade de compreensão. Por exemplo, se um menino pergunta para a mãe: “De onde vim?” a resposta correta seria: “Você veio da barriga da mamãe” . Por muito tempo, ele ficará com sua curiosidade satisfeita. Mais tarde, fará outras perguntas que deverão ser respondidas com a mesma honestidade e simplicidade. Alguns pais, porém, pensam que precisarão contar tudo sobre as relações sexuais, à primeira pergunta que a criança faça a respeito.

Outro problema é o da masturbação. Embora esta seja um fenômeno normal e universal no desenvolvimento da personalidade, muitas pessoas acreditam que deve haver algum mal nela, em qualquer idade. A maioria dos investigadores do assunto concordam que a masturbação, além de ser universal, é necessária para um desenvolvimento sexual satisfatório. Desde o primeiro ano de vida, a criança sente prazer manipulando a área genital e a manipulará em várias ocasiões. No período fálico e na adolescência, a masturbação é mais intensa, mas nunca se constituirá num problema social ou pessoal, se bem manejado. Entretanto, quando é encarada como algo pernicioso, levará a criança a ter sentimentos de culpa e fantasias de punição ou danos físicos, o que poderá interferir, mais tarde, no sucesso de sua vida sexual adulta. A masturbação, em geral, está associada à necessidade de descarga de tensão, más há casos em que ela se torna excessiva levando a supor dificuldades subjacentes na personalidade.

Quando os pais são positivos na sua tarefa educacional, a criança ultrapassará a fase fálica, tendo resolvido satisfatoriamente seu complexo de Édipo, seu complexo de castração e sem o perigo de se transformar num masturbador crônico.Caso contrário, podem ficar fixados auto-eroticamente, procurando o [68] prazer egocêntrico pela masturbação e permanecer apegados às figuras parentais, em vez de relacionar-se com pessoas fora da família. A impotência e a frigidez sexual podem ser também consequentes a fixações na fase fálica.

Muitos pais pensam que não devem informar seus filhos a respeito de assuntos sexuais, pois temem que eles acabem por transmitir o que souberam a outras crianças e assim escandalizar a vizinhança. Por outro lado, pensam que os filhos aprenderão de qualquer forma, como ocorreu com eles próprios. É claro que as crianças se comunicam umas com as outras, conversam sobre sexo e tem uma observação muito arguta das coisas. Porém, acham difícil acreditar no que ouvem fora de casa se não tiverem a confirmação dos pais. Entretanto, podem ter sido tratadas de tal modo por eles, quando lhes indagaram sobre o assunto, que passaram a considerá-lo inconveniente para tratá-lo com os pais. Assim, gastarão uma boa quantidade de energia em fantasias a respeito de fatos sexuais que não foram suficientemente esclarecidos no período oportuno. Então pergunta-se: “O que é preferível, escandalizar a vizinhança com a verdade simples e ter filhos seguros e tranquilos ou deixar que eles se entreguem às suas fantasias ou aprendam os fatos distorcidamente, prejudicando seu futuro desenvolvimento sexual?” Por outro lado, não é preciso temer que a criança se torne depravada. Permitir que ela satisfaça sua curiosidade e aceite seus impulsos sexuais não é a mesma coisa que permitir que ela não tenha nenhum controle sobre eles. Aliás, esta é a conduta que deveria ser rotina nos pais: não desaprovar os impulsos e as tendências naturais dos filhos mas serem capazes de ajudá-los a exercer sobre os mesmos um adequado controle. Não é preciso dizer que assim muita ansiedade seria evitada, agora ou mais tarde.

Desenvolvimento Psicossocial

Erikson[4]considera que na fase fálica, à qual denomina genital-locomotora, o desenvolvimento da personalidade envolve um equilíbrio entre duas atitudes psicossociais: iniciativa e culpa. [69] A iniciativa está intimamente ligada à busca dos objetos de satisfação dos impulsos. É a iniciativa o que move a criança na direção do progenitor do sexo oposto como objeto sexual, como também é ela que a auxilia depois a renunciar este mesmo objeto, a dirigir-se a objetos substitutos e a buscar no progenitor do mesmo sexo o modelo para identificação. A culpa surge como consequência dos sentimentos de onipotência, rivalidade, competição e ciúmes que acompanham o desejo de obter, a qualquer custo, os fins procurados. Nesta fase, o comportamento infantil apresenta-se repleto de fantasias e atividades caracterizadas pela iniciativa. Assim, são as ideias de penetração em outros corpos, por meio do ataque físico, a intromissão nos ouvidos e na mente dos outros, através de palavras agressivas, a invasão dos espaços, pela locomoção vigorosa, e a exploração do desconhecido, pela curiosidade. Os aspectos afetivos cognitivos e conativos associam-se na formação das atitudes psicossociais neste período. As crianças consideram os atos sexuais dos adultos como agressões mútuas, em que o homem tem um papel intrusivo e a mulher um papel incorporativo, retentivo. Em ambos os sexos, a conduta social básica é a de “tirar vantagens”: ataque frontal, prazer na competição e na conquista, insistência em alcançar uma meta. A criança quer ser grande e identificar-se com pessoas cujo trabalho ou personalidade são respeitados e apreciados. Por exemplo, quando a criança está brincando, ela não está simplesmente usando sua vontade ou habilidade de manipular, mas está também fazendo projetos e planeja uma série de coisas que a levarão à sua independência. Entretanto, o medo inconsciente de retribuição taliônica às fantasias de onipotência cria formas de controlar as iniciativas. Naturalmente, o desenvolvimento da iniciativa, que é uma atitude social desejável, depende da compreensão que os pais tenham dos impulsos naturais da criança e das medidas justas que imponham à sua satisfação. Por exemplo, uma menina pequena no afã de ser grande, de parecer-se com a mãe, deseja pintar-se ou arrumar a casa. Outra, quer guiar o automóvel ou usar um facão de cozinha. Evidentemente as duas últimas situações que implicam em perigo para a criança devem ser proibidas. Seria ideal que os pais pudessem estimular todas as iniciativas que não implicassem em prejuízo para o próprio indivíduo ou para os outros. [70]

Caráter Fálico e Caráter Genital

As pessoas com um caráter fálico são temerárias, resolutas, seguras de si mesmas, mas estes traços são reativos a sentimentos de inferioridade. Estas pessoas são narcísisticamente fixadas na fase fálica, superestimando o pênis e confundindo-o com o corpo. A fixação pode ter duas origens: ou é uma reação ao medo de castração ou uma defesa contra as tendências à passividade anal. Em geral, esses indivíduos, também oralmente dependentes, são muito vaidosos, hipersensíveis e abertamente agressivos, o que evidencia tanto necessidades narcisísticas como reações a temores de castração. Usam o pênis não como instrumento de amor, mas como uma arma, e diante da possibilidade de um ataque, atacam primeiro. São provocativos, não tanto pelo que dizem ou fazem mas pela forma como se expressam. Inclinados a exibir sua masculinidade têm, no entanto, hostilidade e despeito para com as mulheres. Comportam-se como se, sentindo-se inconscientemente castrados, recuperassem o pênis perdido e o exaltassem frente aos demais. Algo semelhante ocorre com as mulheres capazes de proporcionar bem-estar a outros. Demonstram traços de fases precedentes orientados de uma forma socialmente adequada. Isto é, são receptivos, autoconfiantes, responsáveis e possuem um grau adequado de cautela e previsão. Na realidade, porém, como pondera Fenichel[5], caráter genital é um conceito ideal.

Convém lembrar aqui, que a classificação de tipos de caráter que utilizamos está relacionada à evolução psicossexual do indivíduo. Assim, foram considerados cinco tipos de caráter: oral, anal, uretral, fálico e genital. Há outros tipos de classificação, como a que é feita em termos clínicos, incluindo, por exemplo, o caráter depressivo, o histérico, o obsessivo, o esquizóide, o fóbico etc.[6][72]



 

Psicanálise | Texto
Por Gerald Bernard Mailhiot
As minorias psicológicas

Tendo situado Kurt Lewin na evolução da psicologia social, compreenderemos agora melhor a importância de seus diversos trabalhos e de suas descobertas. Ao expor suas hipóteses e suas teorias, respeitaremos a ordem cronológica de sua elaboração e de sua formulação. Assim veremos pouco a pouco precisar-se sua concepção pessoal da gênese e da dinâmica dos grupos.

O primeiro problema social ao qual Lewin dedica sua atenção, após emigrar para os Estados Unidos, é a psicologia de seu próprio grupo étnico. As discriminações, as injustiças, os vexames, o ostracismo aos quais ele e os seus foram submetidos pelos nazistas nos últimos meses vividos na Alemanha traumatizaram-no sob muitos aspectos. Lewin procura compreender e encontrar uma interpretação científica para o que sofreu: seres humanos que, pelo simples fato de pertencerem a um determinado grupo étnico, vivem em uma insegurança permanente e dependem das variações do clima político das comunidades humanas nas quais procuram se integrar.

Depois de tentar elucidar a psicologia das minorias judias, Kurt Lewin se esforça por elaborar uma psicologia dos grupos minoritários. A partir do que descobre como fundamental para a psicologia das minorias, é levado a repensar e a redefinir o que se torna depois o objeto quase exclusivo de sua reflexão e de suas pesquisas: que problemas constituem o centro da ex  ploração e da experimentação da psicologia social? A dinâmica dos grupos, tal qual a conceberá finalmente, será o resultado desta série cada vez mais convergente de recolocação de ques  tões e de proposições sistemáticas.

Demografia e psicologia

Desde o início de seus trabalhos sobre a psicologia das minorias, Kurt Lewin procura clarear e dissipar o que o termo [29] minoria comporta de ambiguidades e de equívocos no plano da semântica.

A demografia utiliza os termos minoria e maioria em sentidos diferentes da psicologia. Em demografia um grupo cons  titui uma maioria desde que a porcentagem de seus membros ultrapasse de um a metade da população em que está inserido. Por outro lado todo grupo constituído de menos de 50% da população dada é considerado como uma minoria.

Em Psicologia minoria e maioria adquirem sentidos mais diversificados. Um grupo é considerado fundamentalmente como maioria psicológica quando dispõe de estruturas, de um estatuto e de direitos que lhe permitam auto-determinar-se no plano do seu destino coletivo, independentemente do número ou da porcentagem de seus membros. Assim, minorias demográficas podem constituir maiorias psicológicas. É considerado como maior pelo psicólogo social todo grupo humano que se percebe na

posse de plenos direitos que dele fazem um grupo autônomo. Por outro lado, um grupo deve ser classificado como uma minoria psicológica desde que seu destino coletivo dependa da boa vontade de um outro grupo. Este grupo, mais ou menos conscientemente, percebe-se como menor, isto é, como não possuindo direitos totais ou um estatuto completo que lhe permitam optar ou orientar-se nos sentidos mais favoráveis a seu futuro. Desde que se trate da sorte de seu grupo, os membros que pertencem a uma minoria psicológica se sentem, se percebem e se conhecem em estado de tutela. E isto independentemente da porcentagem de seus membros em relação à população total onde vivem. Assim maiorias demográficas podem ter, por estas razões, uma psicologia de minorias.

Mas não param aqui as distinções da psicologia social. Como numerosos sociólogos e_psicólogos sociais, antes e depois dele, Kurt Lewin utiliza ainda os termos: minoria discriminada e minoria privilegiada. Vejamos em que sentido. Toda minoria psicológica, tal qual foi definida acima, é sempre considerada como uma minoria discriminada ou susceptível de sê-lo pelo fato de sua sorte e seu destino estarem na dependência do grupo majoritário. Por outro lado, toda maioria psicológica tende a tornar-se, mais ou menos rapidamente, um grupo privilegiado. Freqüentemente as maiorias psicológicas, com o tempo, estratificam-se. No interior destes grupos uma minoria de membros pode constituir-se em oligarquia e atribuir-se ou reservar-se privilégios exclusivos. A minoria privilegiada é portanto uma [30] minoria demográfica no seio de uma maioria psicológica que ela controla e manipula a seu favor.

As minorias judias

Kurt Lewin publicou quatro estudos sobre a psicologia dos judeus. O primeiro aparece em 1935 e tem por título: “Psychosociological problem of aminority group”. (58). O segundo é publicado em 1939 e traz o título: “When facing danger” (68). O terceiro e o quarto aparecem sucessivamente em 1940 e 1941. Os títulos que Lewin lhes dá são os seguintes:  “Bringing up the jewish child” e "Self-hatred among jews” (73), (78).

Estes quatro estudos são de caráter fenotípico ou sintomático. Kurt Lewin aplica-se neste estágio em nos apresentar uma caracteriologia étnica de seu povo e um psico-diagnóstico. À margem de sua reflexão, ele se permite generalizar e destacar constantes que retomará mais tarde, ao elaborar sua psicologia das minorias.

Não nos ocuparemos aqui senão da análise apresentada nos três últimos estudos mencionados acima, sendo que o primeiro estudo nada mais é que um esboço das teorias que os três outros retomarão de modo mais explícito e mais articulado.

  1. O estudo intitulado “When facing danger” trata do futuro ou das possibilidades de sobrevivência das minorias judias no Ocidente.

Lewin inicia com considerações sobre a perseguição em massa aos judeus nos países que sofriam então a dominação nazista. Como, de fato, pergunta Lewin, uma minoria pode sobreviver em um contexto de perseguição como aquele? Estudos sociológicos demonstraram que em todas as guerras européias dos últimos séculos os judeus tiveram que lutar e morrer por seu país de adoção, fossem eles alemães, franceses, espanhóis ou ingleses. No momento dos combates não foram poupados. Ao contrário, em certos países, foram selecionados para sofrer uma série de maus tratos tanto da parte de seus amigos como de seus inimigos. Na maior parte das vezes, acrescenta Lewin, estava-se disposto a lutar até o último judeu. É o caso, especialmente, dos judeus alemães que tiveram, repetidas vezes, de um século para cá, a ocasião de morrer por sua pátria. A partir da tomada do poder pelos nazistas, os jornais editados pelo regime passaram a sugerir com freqüência a formação de [31] bataIhões judeus que seriam mobilizados para serem enviados aos pontos mais perigosos do front. Foi aliás o que de fato ocorreu na Itália, na Hungria, na Polônia e em todos os países conquistados pelos nazistas e aterrorizados pela Gestapo.

Outro traço comum às doutrinas nazista e facista foi a tentativa de justificar a reconstituição dos guetos para os judeus. E Lewin nota que os judeus não foram rcalmente reconhecidos como seres humanos na Europa Ocidental, senão a partir do momento em que as ideias das revoluções francesa e americana fizeram deles seres humanos iguais em direitos e em privilégios. Conclui daí que os direitos judeus são inseparáveis de uma filosofia de igualdade dos homens. Os regimes políticos que perseguiram os judeus nestes últimos tempos tentaram sempre fazer prevalecer a teoria da inferioridade de certas raças e a superioridade da sua.

Lewin está consciente de não inovar ao retomar por sua conta e ao considerar como válidas estas observações já formuladas por sociólogos contemporâneos (68) . As reflexões de Lewin adquirem um caráter pessoal ao se perguntar em que medida o problema judeu é um problema individual ou um problema social. Para decidir sobre o assunto lhe basta lembrar que no momento da anexação da Áustria, os judeus foram me- tralhados pelo simples fato de serem judeus, sem nenhuma consideração por sua conduta passada ou seu status social. Para Lewin o problema judeu é um problema essencialmente social, um caso típico de minoria não privilegiada ou discriminada. O que caracteriza as classes ou os grupos não-privilegiados é que em todos os casos eles têm em comum o seguinte: não existem senão porque são tolerados. Sua sobrevivência coletiva depende da boa vontade das classes privilegiadas. Para ilustrar seu pensamento Lewin evoca o passado do grupo judeu. Segundo ele, a emancipação dos judeus dos guetos não foi conseguida por eles, mas em conseqüência da modificação dos sentimentos e das necessidades da maioria. Ainda hoje pode-se demonstrar que as pressões e as discriminações contra os judeus aumentam ou diminuem, conforme as dificuldades econômicas da minoria crescem ou decrescem. Lewin acrescenta ironicamente: é uma das razões pelas quais os judeus de toda parte estão necessariamente interessados em contribuir para o bem-estar econômico das maiorias no meio das quais vivem.

O problema judeu é um problema social. Mais explicitamente, o anti-semitismo tem por fundamento, cada vez que se [32] manifesta, a necessidade para a maioria de um bode expiatório. É necessário precisar ainda, segundo Lewin, que seria mais exato falar de uma minoria privilegiada que consegue mobilizar e manipular para seus fins uma massa ou uma multidão cuja agressão canaliza contra uma minoria rejeitada. Lewin pretende também que muitos judeus se enganam ao acreditar que, se todos os judeus se conduzissem decentemente, não haveria anti-semitismo. Geralmente é o contrário que acontece. É a capacidade de trabalho dos judeus, seus sucessos profissionais como médicos ou advogados, seus talentos para o comércio que, na maior parte dos casos, provocam periodicamente ondas de anti-semitismo. Na medida em que os judeus se sobressaem arriscam-se a ser perseguidos. Como último argumento de que não há relação entre a incidência do anti-semitismo e a conduta delinqüente de certos judeus, Lewin salienta que as razões invoca  das pelas minorias privilegiadas para justificar junto às massas seu anti-semitismo têm mudado de século para século. Há quatrocentos anos os judeus eram perseguidos por motivos religiosos. Em nossos dias as racionalizações promulgadas como bem-fundadas teorias racistas às quais adere oficialmente o partido nazista, são retiradas de argumentos supostamente baseados na antropologia e na biologia.

  1. O segundo estudo: “Bringing up the jewish child” trata da educação que deveria receber o jovem judeu para evoluir normalmente.

Kurt Lewin compara a educação do jovem judeu à educação de uma criança adotada. Eis as razões que o levam a esta conclusão. Lewin, pela primeira vez, nos revela suas concepções, ainda embrionárias, sobre a psicologia dos grupos. O grupo ao qual um indivíduo pertence pode comparar-se ao terreno sobre o qual ele se mantém e que lhe dá ou nega, segundo o caso, seu status social. Na medida em que o grupo lhe dá um status social, o indivíduo se sente em segurança; ao contrário, se o grupo não lhe concede nenhum status social, torna-se fonte de insegurança para o indivíduo. Esta segurança ou insegurança relaciona-se com a solidez ou fluidez do terreno sobre o qual o indivíduo se matém, uma vez que ele pode ou não identificar-se com seu grupo.

Segundo Lewin, isto é verdadeiro sobretudo quando se trata do meio familiar. Com efeito, parece-lhe amplamente provado pelas descobertas recentes da psicologia da criança (as suas próprias não o tinham esclarecido sobre este problema) [33] que a estabilidade ou instabilidade do meio familiar determina a estabilidade ou instabilidade emotiva da criança. A razão fundamental, Lewin é o primeiro a afirmá-lo, é que o meio familiar no qual a criança cresce e evolui forma um único campo de forças, “one dynamic field”, segundo uma expressão sua. É necessário pois levar em conta que o meio familiar, ou qualquer grupo ao qual pertence um indivíduo, não é para ele somente uma fonte de proteção ou segurança. Todo grupo, inclusive o grupo familiar, desenvolve suas leis, seus tabus, suas proibições coletivas. E segundo os tabus, as proibições, os mitos que prevalecem em um grupo, a criança ou o indivíduo que pertence a este grupo, disporá de um espaço de movimento livre mais ou menos extenso. Em conclusão, conforme seja largo ou restrito o espaço de movimento livre, o indivíduo terá maior ou menor facilidade de se adaptar à vida social, ou no caso da criança, de socializar-se. Para Lewin o problema fundamental em qualquer grupo humano é o seguinte: em que medida um indivíduo, pertencendo a seu grupo, pode satisfazer suas próprias necessidades ou aspirações psíquicas sem comprometer indevidamente a vida e os objetivos do grupo?

Lewin termina este estudo com considerações de ordem pedagógica, deduzidas do que lhe parece fundamental na socialização do ser humano: não é o fato de pertencer a vários grupos que constitui a origem dos conflitos mas a incerteza sobre sua própria participação num grupo determinado. Donde os quatro princípios pedagógicos nos quais deve inspirar-se a educação do jovem minoritário.

Lewin sugere, inicialmente, com muita insistência que, assim como a criança adotada se beneficia ao conhecer o mais cedo possível sua condição, também a criança que pertence a um grupo minoritário deve conhecer o mais cedo possível, desde que possa assimilá-lo emotivamente, o fato de o grupo ser objeto de vexames, discriminações, em uma situação não-privilegiada. Quanto mais os pais e educadores tardarem em revelar-lhe o fato, mais arriscam comprometer sua adaptação social. Este conselho vale sobretudo quando o meio educacional no qual a criança cresce não é confessional e mostra-se tolerante para com as crianças judias.

Além disto, a educação do jovem judeu, como de todo minoritário, deve procurar sensibilizá-lo muito cedo ao fato de que a questão judia é antes de tudo uma questão social. Os pais judeus devem deixar de pressionar as crianças a adotarem [34] uma conduta exemplar em presença dos não-judeus. Devem igualmente abster-se de constranger a criança a ambicionar os altos postos nas diferentes esferas em que se orienta. Em uma palavra, é necessário libertar a criança judia do mito de que será facilmente aceita pelos não-judeus se sobressair. Assim, quando as expressões de anti-semitismo o atingirem, ele estará imunizado contra o jogo dos mecanismos de auto-acusação que, de outro modo, poderiam ser adotados por ele em resposta à discriminação.

Os pais e os educadores no encargo de socializarem o jovem judeu devem lhe transmitir que, o que liga os judeus entre si não são as semelhanças ou as diferenças que existem entre judeus e não-judeus. O que constitui essencialmente um grupo e dele faz um todo dinâmico é a interdependência da sorte de seus membros.

Finalmente é fundamental ensinar muito cedo ao jovem judeu que o verdadeiro perigo para ele é de ser, durante toda a sua vida, um marginal na sociedade em que tenta integrar-se e assim permanecer durante toda a sua existência um eterno adolescente, incapaz como eles, de se identificar ao grupo ao qual pertence ou aos grupos aos quais deseja pertencer.

  1. O terceiro estudo é incontestavelmente o mais importante dos três. Tem por título: “Self-hatred among Jews” e tratados mecanismos de auto-depreciação que Kurt Lewin observara repetidas vezes em seus próprio grupo.

No início deste estudo Kurt Lewin refere-se a dois livros datando da mesma época (1930). O primeiro livro é do pro  fessor Lessing que tenta, do ponto de vista da psicopatologia, descrever o que ele chama “Ó ódio de si entre os Judeus”. O segundo é um romance americano do autor Ludwig Levisohn “Island with in”. Este romance tem como cenário a cosmopolita cidade de Nova York no interior da qual os judeus constituem uma ilha cultural, isolada e cercada de zonas de silêncio no seio da coletividade estadunidense em constante interação.

Para Kurt Lewin o fenômeno do ódio de si entre os judeus pode ser encarado ao mesmo tempo como um fenômeno individual, como um fenômeno de grupo e sobretudo como um fenômeno social, conforme os aspectos estudados.

Como fenômeno de grupo, o ódio de si afeta as relações intragrupais no interior da grande família judia, ou melhor, as relações entre os diversos grupos ou sub-grupos judeus que [35] existem no mundo. E aqui Lewin evoca recordações pessoais que datam do tempo em que vivia na Alemanha, onde por várias vezes foi testemunha de expressões de fortes ressentimentos da parte dos judeus alemães em relação aos judeus dos países eslavos. Os judeus alemães acusavam os judeus eslavos de serem responsáveis pela perseguição nazista de que eram vítimas. Lewin afirma ter observado o mesmo fato nos Estados Unidos: todos os judeus emigrados culpam os judeus alemães considerando-os responsáveis por todas as desgraças que caem sobre os judeus no mundo desde 1933.

Segundo Lewin, o ódio de si pode, também, em certos casos, apresentar-se como um fenômeno individual. Neste caso há uma variedade quase infinita de formas que o ódio de si toma entre os judeus considerados como indivíduos. Certos judeps, por exemplo, culpam o grupo judeu como tal ou se identificam negativamente a uma fração particular de judeus, ou difamam sistematicamente sua própria família. Outros rejeitam a si próprios, recusam aceitar-se como judeus e cedem periodicamente a mecanismos de auto-acusação e de auto-punição. Por outro lado, alguns judeus dirigirão o ódio de si exclusivamente contra as instituições, os costumes, a língua judia ou ainda o sistema de valores próprios da raça ou da cultura judia. Na maior parte das vezes, nota Lewin, este tipo de ódio de si não se manifesta abertamente, mas é camuflado por racionalizações de toda espécie.

O ódio de si é sobretudo um fenômeno social, segundo Lewin. Neste nível sua análise e sua interpretação tornam-se bastante penetrantes. Para ele, Lessing o Levisohn, que se inspiraram em Freud, quiseram explicar o ódio de si pelos instintos primários que seriam inerentes à natureza humana. Em seu apoio recorrem à tese que Freud elaborou para explicar as nevroses de fracasso, postulando a existência em todo ser humano de um instinto de morte que teria primazia sobre o instinto de vida. O que, sempre segundo Freud, explicaria a tendência que aparece com a idade, em todo ser humano, de uma degenerescência progressiva que se conclui pelo retorno ao inorgânico. Kurt Lewin recusa-se a explicar assim o ódio de si entre os judeus. Se assim fosse, argumenta, estaríamos em presença de um dado da natureza e não seria então estranho não se encontrar no mesmo grau o ódio de si entre os ingleses, os italianos, os alemães e os franceses em relação a seus próprios compatriotas? Além disto, se o ódio de si sentido pelos judeus [36] dependesse de algum instinto de base, seria a personalidade de cada indivíduo que nos revelaria sua intensidade. Parece, ao contrário, conclui Lewin, que este ódio de si — não obstante os diversos graus em que se manifesta — depende muito mais das atitudes que cada indivíduo adota em relação ao problema judeu do que das estruturas mentais ou emotivas de sua personalidade.

Aliás, nota Lewin, o ódio de si manifestado pelos judeus é um fenômeno observado em todas as minorias discriminadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, os negros são muito sensíveis às diferentes tonalidades de cor da epiderme humana. Aqueles cuja epiderme é de cor “chocolate com leite” ou “café-creme” menosprezam aqueles que são “café-preto”. Quanto mais a cor da epiderme de um negro se aproxima do branco, mais tendência tem ele a dirigir aos outros negros um olhar de superioridade e, em conseqüência, a identificar-se negativamente com seu grupo étnico. O mesmo fenômeno foi observado e abundantemente descrito pelos sociólogos americanos (2), (141), ao tratarem dos conflitos existentes entre a primeira e a segunda geração de imigrantes nos Estados Unidos. A segunda geração menospreza seus pais que não lhe parecem suficientemente americanizados e permanecem ainda por demais ligados à sua cultura de origem, dificultando assim uma identificação incondicional com seu país de adoção.

Vejamos agora, segundo Lewin, como o ódio de si aparece, tipicamente, em muitos judeus. Um indivíduo judeu tem ambições, alimenta e constrói projetos para logo descobrir que sua participação no grupo judeu constituirá sempre uma barreira intransponível à realização de seus projetos. Começa então a perceber e a considerar seu grupo como fonte de frustrações e passa a odiá-lo. Logo chegará à conclusão de que sua ascenção social como indivíduo está ameaçada e que sua segurança sócio-econômica e seu próprio destino pessoal correm o perigo de ficar comprometidos por causa de sua participação no grupo judeu. Surge então em muitos judeus o sentimento agudo de rejeição da interdependência de seu próprio destino e do destino de uma minoria discriminada.

Kurt Lewin termina este estudo concluindo que o ódio de si entre os judeus não poderia, na maior parte dos casos, ser diagnosticado como do domínio da psicopatologia. Como muitos outros fenômenos psíquicos com componentes nevróticos, o ódio de si não é geralmente senão a expressão de um conflito [37] criado pela situação social na qual um indivíduo é forçado a viver. Este fenômeno apresenta-se sob traços nevróticos, mas na realidade não se trata de nevrose. Tanto assim que o ódio de si entre os judeus é encontrado tanto entre os nevróticos como entre as pessoas normais. De fato, trata-se de um fenômeno sócio-psicológico. A tal ponto que, cada vez que os judeus, dentro de uma coletividade, são aceitos em clima de igualdade de direitos e de privilégios, desaparecem então os traços nevróticos que certos autores afirmam como típico do grupo judeu. Por outro lado, quando os judeus tornam-se o objeto sistemático de discriminação, seu único meio de não ceder ao ódio de si é intensificar entre eles as tendências de atração e de coesão pela causa judia. Daí a importância vital que os educadores e pais judeus devem dar à criação de climas de crescimento propícios a que os jovens judeus, desde seus primeiros anos de formação, possam identificar-se positivamente com seu grupo étnico.

Minorias e minoritários

Kurt Lewin publica, em seguida, um estudo onde, a partir de suas interpretações e de suas considerações sobre a minoria judia, tenta formular uma teoria suficientemente coerente para explicar a psicologia de todo grupo minoritário. Será sua última pesquisa ligada aos macro-fenômenos de grupo. Ela o convencerá definitivamente da certeza de sua opção ao escolher como centro da experimentação em psicologia social o estudo dos micro-grupos. Estas teorias tiveram uma influência determinante nos meios universitários, sobretudo no que se refere à psicologia das relações inter-raciais e revelaram-se fundamentais à compreensão das concepções definitivas sobre a gênese e a dinâmica dos grupos, que Kurt Lewin defenderá nos anos se  guintes. Parece-nos também importante destacar aqui as teses essenciais.

O estudo de que trataremos inicialmente tem por título: “Cultural Reconstruction” e foi publicado em 1943 (88). Depois disto Lewin refere-se à psicologia das minorias duas outras vezes (103), (104), durante o ano que precede sua morte.

Suas preocupações serão então exclusivamente de ordem metodológica. Partindo das suas próprias pesquisas sobre o problema, tentará destacar aquilo que elas lhe ensinaram sobre as exigências da experimentação em psicologia social. Retornaremos [38] ao assunto em um capítulo próximo para constatar e salientar a que ponto em três anos, de 1943 a 1946, os interesses, as concepções e as aproximações de Lewin evoluíram. Estes três anos lhe provaram que a inteligência científica dos macro-grupos não se tornará acessível senão após longas e sistemáticas pes  quisas sobre a psicologia dos grupos restritos. No momento não nos deteremos senão no seu estudo “Cultural Reconstruction”. Nele encontramos uma tese fundamental e três outras, dela deduzidas: sobre a origem das minorias, sua natureza psicológica e seu futuro.

A tese fundamental é formulada de modo que transcende o caso judeu para tornar inteligível o que Kurt Lewin considera como as constantes psicológicas de todo grupo minoritário. Para Lewin toda minoria psicológica tem suas dimensões antes de tudo sociais. Com isto não opõe social a psíquico, mas dissocia o social do individual. As minorias psicológicas são sociais em sua origem, em suas estruturas e em sua evolução. Sua dinâmica é essencialmente social. Do mesmo modo, a sobrevi  vência dos grupos minoritários não pode ser assegurada senão a partir do momento em que eles tomam consciência deste dado fundamental e o aceitam.

1. Origem das minorias.

Para Kurt Lewin a própria existência de toda minoria só é possível, em última análise, graças à tolerância da maioria no meio da qual ela se insere. Não é em consideração aos comportamentos aceitáveis ou em reação aos comportamentos re preensíveis de alguns indivíduos (se bem que isto seja, de fato, alegado como pretexto oficial), mas por motivos extrínsecos aos comportamentos dos membros das minorias, que as maiorias edificam, fortificam, multiplicam ou deixam cair as barreiras psicológicas com que cercam as minorias. Lewin acrescenta que* a maioria tem sempre interesse em privar as minorias de todo direito e de todo privilégio. Mas é sobretudo em período de tensão e de perigo coletivo que a maioria tende a exercer represálias contra as minorias, cedendo à necessidade de descar  regar sobre um bode expiatório as ondas de agressividade, de  sencadeadas pelas frustrações e privações que lhe são impostas durante estes períodos críticos. Por mecanismos de deslocamento sua agressividade torna-se extrapunitiva com relação às mino  rias sem defesa. [39]

2. Constituintes, constituídos e constitutivos das minorias.

Com esta terminologia tentaremos sistematizar o essencial do pensamento de Lewin sabre a existência das minorias. Esta sistematização nos parece necessária para evitar que o leitor tenha que seguir os caminhos tortuosos da argumentação de Lewin. Faremos todos os esforços para não trair em nada seu pensamento.

A . Os constituintes das minorias.

Os constituintes das minorias podem ser definidos diferentemente, conforme se faça referência às estruturas ou à dinâmica dos grupos minoritários.

  1. a) Em relação às suas estruturas, as minorias aparecem constituídas de várias camadas. No centro encontram-se as ca madas mais solidificadas. Elas compõem-se de membros que aderem com a maior boa vontade às instituições, aos costumes, às tradições e aos sistemas de valores, que distinguem seu grupo dos outros grupos. Estes membros identificam-se positivamente com tudo aquilo que é tipicamente próprio ao seu grupo. Já as camadas periféricas, longe de serem solidificadas como as primeiras, são móveis e fluidas. São compostas de membros que experimentam uma ambivalência marcante em. relação a tudo que distingue e por isto mesmo isola seu grupo da maioria.

São os membros marginais das minorias. Eler suportam de má vontade ter que viver em um espaço vital onde são mantidos à força por uma maioria que constrói barreiras psicológicas intransponíveis à sua migração para a maioria que invejam.

Lewin acrescenta que é sobretudo nas zonas periféricas que se situam os minoritários dê maior sucesso, aqueles que conseguiram sobressair-se em seu trabalho ou profissão e em conseqüência sentem maior atração pela maioria. Sua ilusão, segundo Lewin, consiste em esperar que seus sucessos pessoais facilitem sua aceitação por parte da maioria que lhe perdoará assim sua origem e sua identidade étnica.

Enfim, é nas camadas periféricas que as minorias têm tendência a recrutar seus dirigentes ou a agrupar-se em torno de dirigentes que pertençam a estas camadas. Estes indivíduos são geralmente designados para este posto em razão de seus suces  sos pessoais. Aceitam o posto com a esperança de poder, graças [40] à sua função de líder oficial, multiplicar seus contatos com a maioria e encontrar assim algum substitutivo de prestígio do qual estão privados em virtude de sua ligação com a minoria. Por outro lado, numerosos são os grupos minoritários que es  peram que este líder seja melhor aceito e pareça mais maleável à maioria e conseqüentemente possa melhorar magicamente as relações entre minoria e maioria.

  1. b) Em relação à sua dinâmica de grupo, as minorias se revelam ao observador como constituindo um equilíbrio mais ou menos estável entre dois campos de força. De um lado, um campo de forças que exerce sobre os membros uma influência integrante de coesão. Estas forças são constituídas pela atração que exercem sobre as minorias os traços culturais próprios a este grupo e irredutíveis às culturas vizinhas. Estas forças centrípedas desempenham o papel de núcleo dinâmico no seio das minorias. Elas engendram entre os minoritários atitudes de lealdade para com seu grupo ou aquilo que Lewin gosta de chamar de o chauvinismo positivo. Fazem nascer neles, paralelamente, um desejo cada vez mais intenso de se emancipar da maioria.

No extremo oposto situa-se um campo de forças centrífugas que exerce uma influência dissolvente sobre os membros da minoria. Estas forças são constituídas pela atração, algumas vezes irresistível, exercida pela maioria, com seus privilégios, incluindo as promessas de prestígio e de satisfação dos instintos frustrados ou limitados pelas discriminações impostas pela*maioria às minorias. As atitudes coletivas provocadas pelas forças centrífugas são (isto em oposição à lealdade do grupo) de uma parte, o desamor em relação a seu próprio grupo ou o chauvi  nismo negativo e, de outra parte, o desejo de assimilação à maioria.

  1. A minoria como constituída.

Se concebemos a minoria como uma totalidade dinâmica, torna-se necessário assinalar o fator de integração deste grupo que faz destes indivíduos múltiplos um só grupo coerente. Este fator de unificação é o constitutivo do grupo. Tentaremos destacá-lo mais adiante. Mas se tentamos, agora, definir as mino  rias como constituídas, Kurt Lewin nos fornece os conceitos que explicam o grau maior ou menor de integração que atingem nos diferentes momentos de seu desenvolvimento. [41]

Deste ponto de vista, Lewin distingue dois tipos de mino  rias. Algumas constituem unidades articuladas de modo orgânico. É o caso das minorias cujas camadas centrais englobam a maioria dos membros em ligações muito estreitas e em uma forte adesão à sua sorte e destino. Para a maioria dos membros, seu grupo étnico é percebido em termos de valência positiva .

Por outro lado, existem minorias mal ou não integradas que se revelam ao observador não mais como uma unidade orgânica, mas como uma unidade aparente, artificial, resultante de pressões e de coerções exteriores. Estas minorias não constituem um grupo no sentido restrito. Trata-se, antes, de um agregado de indivíduos, mais ou menos submetidos às mesmas restrições, às mesmas privações, às mesmas frustrações. Neste tipo de minorias o núcleo dinâmico não compreende senão alguns indivíduos que não perderam a fé no destino do seu grupo, a quase totalidade dos membros não vive senão da esperança de poder um dia pertencer à maioria. As ligações entre os membros são portanto muito frágeis. O equilíbrio entre os diferentes estratos é muito instável e quase inteiramente polarizado por valências negativas.

  1. O fator constitutivo das minorias.

Como explicar, pergunta Lewin, que em certos casos as minorias constituam unidades orgânicas e, em outros, não tenham senão a aparência de integração?

O fator constitutivo de todo grupo, segundo Lewin, é a interdependência da sorte de seus membros. No caso das minorias integradas, sua condição de minoritários é aceita, o que permite aos membros se unirem na luta pela emancipação. Por outro lado, no caso das .minorias não integradas ou mal integradas, sua condição de minoritários é suportada. Não existe inter-dependência entre os membros. O único fator negativo que os une é sua disposição a consentir em todos os compromissos, em todas as servidões ou em todas as baixezas que lhes facilitem a assimilação à maioria.

3 . O futuro das minorias.

Segundo Lewin, o futuro das minorias, assim como sua origem e existência, é antes de tudo social. [42]

O futuro das minorias não se coloca nos mesmos termos de superação em que se coloca o futuro de um grupo normal que não sofre nenhuma pressão, nem encontra nenhum obstáculo no processo de seu desenvolvimento. O futuro das minorias não pode se definir senão em termos de sobrevivência. A este respeito, três opções são possíveis, segundo Lewin. Há, inicialmente, o caso das minorias que perdem a crença em sua sobrevivência e estão prontas a tudo que possa apressar ou favorecer sua assimilação à maioria. Quanto às minorias que optam por sua sobrevivência, duas atitudes são possíveis. Elas têm em comum o seguinte: ambas concebem sua sobrevivência como uma emancipação do jugo arbitrário da maioria. Eis o que as distingue: certas minorias querem assegurar sua sobrevivência através da integração com a maioria, pela igualdade dos direitos e dos privilégios. Para conseguir seu intento estes grupos minoritários têm tendência de sublinhar e de destacar, em suas relações intergrupais com a maioria, muito mais o que os aparenta ou os une à maioria do que aquilo que os distingue ou os opõe a ela. Enfim, existem minorias que não acreditam poder assegurar sua sobrevivência, senão separando-se ou emancipando-se totalmente da maioria. Elas aspiram à independência total e definitiva em relação à maioria. Estão convencidas de que só assim poderão conservar a integridade de sua cultura, prosseguir na conquista de sua plena identidade e realização do seu destino coletivo. Lewin conclui que só estas últimas minorias têm alguma possibilidade de assegurarem sua sobrevivência. Enganam-se aquelas que acreditam poder integrar-se à maioria e nela con  servar sua identidade étnica. Cedo ou tarde elas serão assi  miladas.

Kurt Lewin termina este ensaio teórico sobre a psicologia das minorias, tentando caracterizar entre os minoritários as di  ferenças de atitudes coletivas que implicam estas três opções a respeito do futuro de suas relações inter-raciais com a maioria que as oprime e as discrimina.

Lewin afirma que as minorias que renunciam à sua sobre  vivência e aquelas que optam pela integração em um contexto de relações cordiais e um pouco servis em relação à maioria têm tendência, ambas, a adotarem as mesmas atitudes coletivas. Ele considera, com efeito, que no plano inter-racial as atitudes coletivas destas minorias são tipicamente adolescentes. Suas es  tratégias têm em comum o seguinte: elas se baseiam na hipótese de que a situação presente de discriminação desaparecerá [43] quando sua participação na minoria for desconhecida, ignorada ou anulada. Assim como o adolescente espera ser aceito pelo mundo dos adultos quando conseguir convencer os adultos de que não é mais uma criança. Também como os adolescentes, o comportamento social destes dois tipos de minorias caracteriza-se pela intra-agressão, pela auto-acusação, pelo exagero em suas ambições, pelas recusas, pelos protestos e pelo mimetismo. Sua identificação com a maioria é equivalente e nos dois casos apoia- -se no temor. Há ambivalência a respeito de seu próprio grupo tanto quanto a respeito do grupo majoritário.

Quanto às minorias que tentam assegurar sua sobrevivência pela independência em relação à maioria, suas atitudes coletivas são de um nível mais adulto. Elas ganharão em maturidade se à identificação positiva com o grupo na qual inspiram-se seus comportamentos, vierem acrescentar-se, ao mesmo tempo, a capacidade de proceder periodicamente a autocríticas e a vontade de conseguir eventualmente sua independência pela inter  dependência com os outros grupos étnicos. [44]

Psicologia social | Texto
Por Marie Claire Sekkel
Elementos para uma história sobre o professor de Psicologia e a licenciatura

Atualmente, dois tópicos aparecem em destaque nas discussões sobre a formação em Psicologia, no Brasil. Por um lado, as comemorações dos 50 anos da Lei n. 4.119, de 27 de agosto de 1962[1], que dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo no país. Por outro, as mudanças ocasionadas pelas novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para os cursos de graduação em Psicologia, de 15 de março de 2011. Na Lei n. 4.119 há o indicativo de que a formação em Psicologia implicava, necessariamente, a formação do professor de Psicologia. Para as três habilitações propostas (Bacharel, Psicólogo e Licenciado), havia a prerrogativa da docência como atividade de cada uma delas. Concebia-se que o professor de Psicologia era um profissional no exercício da Psicologia. Em 2011, a discussão sobre a formação do professor de Psicologia voltou à tona, graças à Resolução n. 5, que instituiu as novas DCNs para os cursos de graduação em Psicologia. Essas mudanças impactaram, sobretudo, a formação do professor [43] de Psicologia. Em outras palavras, as novas DCNs para os cursos de graduação em Psicologia salientaram a formação do licenciado. Com essa Resolução, retornou o destaque de que o fazer do professor de Psicologia se constitui como exercício profissional do psicólogo.

O presente capítulo tem por objetivo descrever e analisar elementos concernentes ao professor de Psicologia em uma perspectiva historiográfica. O foco especial recai sobre a licenciatura em Psicologia. As principais fontes pesquisadas foram legislações referentes à regulamentação e à formação de psicólogos no Brasil. Considera-se que as legislações não são fontes a-históricas, que atestam fatos do passado (SOUZA, 2002). Ao contrário, as legislações devem ser historicizadas e observadas no seu contexto de produção. Essas fontes podem ser compreendidas como práticas que contribuem na organização de relações sociais entre agentes de um determinado tempo histórico. As legislações auxiliam, assim, a compreender sujeitos produzindo artifícios legais para suas interações.

Para atingir o objetivo proposto, serão abordados três eixos de discussão. Primeiramente, a produção da psicologia no ensino público primário e na formação das normalistas. Em seguida, a construção da psicologia no campo do ensino superior, principalmente na formação de outros profissionais. Por fim, a formação em Psicologia e a presença do professor de Psicologia em discursos legais. Espera-se, com isso, apresentar a profissão "professor de Psicologia" como parte importante dos fazeres dos "especialistas" em Psicologia no Brasil, ao longo de sua história. Em especial, estima-se observara licenciatura em Psicologia como um produto de práticas sociais de "professores de Psicologia", que contribuiu para a institucionalização da Psicologia quando das discussões sobre a sua legalização no Brasil.

Formando normalistas: a Psicologia, o ensino público primário e a Escola Normal

Nas primeiras décadas do século XX, aconteceu uma acentuação de discursos sobre a modernização do Brasil. Esses discursos pautavam propostas e práticas de construção do Brasil e de sua identidade como República. Por um lado, houve a criação de estruturas de Estado. Por outro, ocorreu a construção de uma infraestrutura física, em diversas cidades do país. Entre 1900 e 1930, a industrialização, o desenvolvimento científico e a renovação educacional alavancaram o discurso republicano para o progresso brasileiro. A urbanização e o crescimento populacional das cidades aceleraram-se, bem [44] como a industrialização (NAGLE, 1974/2009[2]). Tanto a urbanização, quanto a industrialização contribuíram para uma mudança na estrutura socioeconômica do país. Com esses dois processos, as classes médias urbanas, os operários e a burguesia industrial passaram a dividir espaço com as elites agrárias. No campo da construção do conhecimento, a formação científica se transformava em um poderoso ideário para a alteração social do Brasil. Seu impacto foi idealizado como favorável ao progresso do país e, com isso, os intelectuais e os cientistas produziram espaços sociais para sua participação na República. Gradativamente eles foram se tornando os porta-vozes do processo de modernização nacional, responsáveis pela reorganização social.

Com a participação dos intelectuais e cientistas, os aspectos educacionais se destacaram como um importante vetor para a consolidação do projeto republicano vinculado ao ideário de modernidade. Os discursos desses intelectuais e cientistas colocavam o investimento na escolarização como necessidade para o progresso social do Brasil. Para esse grupo, a escolarização agia em prol da solução dos problemas do atraso econômico e social brasileiro. O ensino público primário foi salientado nas discussões dos intelectuais e cientistas acerca da importância da escolarização para o desenvolvimento do país, e considerado indispensável para o estabelecimento de uma cultura nacional. A escola primária pública, vinculada ao Estado, foi um dos principais focos das políticas educacionais do período, sobretudo para a expansão do número de instituições e de alunos matriculados. Essas características estiveram presentes sobretudo no meio urbano. Nesse contexto, produziram-se diversas reformas de ensino. Tais reformas incidiram, particularmente, sobre o ensino público primário. Como conseqüência, houve a reformulação da escola normal. O sucesso do ensino primário era creditado aos professores e, por isso mesmo, recaía enorme importância sobre sua formação. De acordo com um político do período: "O ensino primário vale o que valerem os seus professores e o valor destes estará, necessariamente, em função do ensino normal" (CAMPOS, 1928/1930, p.4-0). Assim, ao lado do ato de atender ao grande número de crianças dos centros urbanos, colocava-se em questão o atendimento ao crescente número de professores, tornando-os cientificamente preparados para o exercício de sua profissão.

Várias áreas do conhecimento contribuíram para a formação de professores "cientificamente preparados", bem como participaram da criação de uma compreensão científica da dinâmica escolar. A Psicologia foi uma dessas áreas, ao lado de disciplinas como a Biologia, a Sociologia e a Estatística. De acordo [45] com Oscar Thompson[3], diretor da Escola Normal de São Paulo: "Os processos pedagógicos subordinam-se ao método psicológico e os princípios da primeira são corolários dos princípios da segunda (grifos no original)" (THOMPSON, 1914, p. 12). As apropriações da psicologia pela educação pareciam ser de duas ordens: a primeira, qualificar a formação dos professores nos aspectos teóricos e práticos, no que se referia às características psicológicas dos educandos e a segunda, legitimar as novas práticas pedagógicas como científicas.

Exemplos da psicologia contribuindo na formação de professores podem ser encontrados nas diversas reformas do ensino público primário e das escolas normais, nas primeiras décadas do século XX. Nas escolas normais, o ensino de Psicologia compunha parte importante da formação do professorado. Na Escola Normal Modelo de Belo Horizonte, circulavam saberes da Psicologia por meio do médico lago Pimentel[4], responsável pela cadeira de Psicologia. No currículo da Escola, havia a matéria de Psicologia (Psicologia Infantil), que era composta pela aplicação de testes de psicomotricidade e de inteligência. Outro exemplo pode ser encontrado nos diversos gabinetes e laboratórios de psicologia instalados nas Escolas Normais brasileiras, durante esse período, como os da Escola de Aperfeiçoamento de Professores de Belo Horizonte e da Escola Normal de São Paulo, dentre outras. Esses gabinetes e laboratórios funcionaram, em grande medida, como lugares para o ensino de Psicologia. Especificamente na Escola Normal de São Paulo, Thompson (1914) fornece indícios da importância creditada à psicologia, nas primeiras décadas do século XX, pelos envolvidos com a educação no Brasil: 'Todo o progresso do meio educativo é como a repercussão de um estudo melhor da psicologia infantil, das necessidades que o educador deve conhecer para dirigir a primeira formação do espírito..." (p.7). A partir dessas fontes, observa-se que a psicologia figurava em destaque no ideário de uma formação científica do professorado brasileiro, no início do século XX. Esse destaque se fazia sentir, especialmente, a partir do ensino de Psicologia em escolas normais. Aqueles envolvidos com a Psicologia, no Brasil apareciam como "especialistas" em Psicologia, pelo fato de serem professores dessa matéria. Sendo assim, uma das atividades em evidência, dessas pessoas, era a docência em Psicologia e ministrar aulas de Psicologia foi se constituindo como uma profissão para o "especialista" em Psicologia, no Brasil. [46]

Formando especialistas: a Psicologia, o ensino superior e outros campos do saber

Ao lado das mudanças no ensino público primário, desenvolvidas pelos Estados, ficou a cargo da União pautar as discussões sobre o ensino secundário e superior. O quadro social urbano-industrial, com o surgimento das "massas urbanas" ao lado das oligarquias agrárias, também impactou o ensino superior. Esse contexto condicionou o aparecimento de diferentes projetos de educação das elites que se apresentavam como encarregadas de dirigir a transformação social brasileira (MENDONÇA, 2000). O ensino superior atendia à participação das elites na esfera pública, haja vista a necessidade de [47] formação de profissionais para atender às crescentes demandas sociais. Para implementar os projetos de modernização republicana, havia a necessidade de profissionais especializados para atuar no controle da criminalidade, na higiene das pessoas, no saneamento dos espaços, etc. Além disso, o ensino superior contribuiria para o desenvolvimento científico do Brasil. Assim, profissões como Medicina, Direito, Engenharia e Enfermagem foram construindo novos espaços sociais para a atuação de seus profissionais.

As discussões sobre o ensino superior no Brasil se fortaleceram, justamente, durante a República. Um exemplo disso foi o Decreto n. 11.530, de 1915, que reorganizava o ensino secundário e superior. Outro exemplo foi a criação de diversas escolas superiores por todo o Brasil. Na década de 1920, mas, principalmente, na de 1930, as discussões e propostas para o ensino superior se avolumaram (CUNHA, 2000/2007). Essas discussões se fortaleceram com a criação de universidades. Em 11 de abril de 1931 foi publicado o Decreto n. 19.851, que estipulava padrões de organização para o estabelecimento de instituições de ensino superior no Brasil. O fortalecimento do ensino superior no país influenciou o desenvolvimento da psicologia no Brasil. Isso se deveu, entre outros fatos, pelo ensino de disciplinas de Psicologia e de disciplinas com conteúdos de psicologia em cursos superiores. Grande parte desse ensino ocorreu na formação de outras profissões.

Bandeira-Melo (2010) demonstra a presença do ensino de Psicologia na formação de enfermeiras, a partir do caso da Escola de Enfermagem Carlos Chagas, em Belo Horizonte, na década de 1930. De acordo com a autora, diversas personagens importantes dessa Escola tiveram estreito contato com a Psicologia, o que ocorreu a partir de sua atuação como professoras de Psicologia, como o caso de Waleska Paixão[5]. O ensino de Psicologia, na Enfermagem, compunha o quadro de uma formação científica e moderna para a enfermeira. A Psicologia e seu ensino também estiveram presentes no campo do Direito e da Medicina. Júlio Pires Porto-Carrero[6](1928/2004) apresentava a psicologia diluída na formação e na atuação tanto no campo médico, como no campo legal. Em um discurso sobre os conceitos legais de "culpa" e "pena", ele articulava saberes médicos, jurídicos e psicanalíticos: "É pela psicologia, pois, que se deve abrir caminho à solução do problema [da criminalidade]..." (PORTO-CARRERO, 1928/2004, p.114). Assim, também é como "professor de [48] Psicologia" que Porto-Carrero atua e difunde saberes psicológicos, no Brasil. Por exemplo, o discurso supra-aludido foi proferido na lI Conferência Nacional de Educação, promovida pela Associação Brasileira de Educação (ABE), em 1928.

A Psicologia ainda esteve presente na formação em Filosofia, como o caso da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Minas Gerais (UMG)[7]. Na USP, em 1934, houve a inserção da cadeira de Psicologia, no curso de Filosofia[8]. Na UMG, desde o início da década de 1940, havia o ensino de Psicologia no curso de Filosofia, com a participação de Helena Antipoff. Em meados da década de 1940, com a sua transferência para o Rio de Janeiro, Pedro Parafita de Bessa[9]assumiu a cadeira de Psicologia do curso de Filosofia da UMG. Dessa maneira, também nos cursos superiores, evidenciava-se o ensino de Psicologia. Aqueles "especialistas" em psicologia figuravam como professores de Psicologia, em diferentes campos do saber. O ensino de Psicologia e o professor de Psicologia foram figuras de destaque nesse processo. A atuação desses profissionais permitiu a produção e a difusão de conhecimentos da psicologia em diferentes áreas do conhecimento.

A circulação da psicologia, a partir da atuação do "professor de Psicologia", contribuiu para a produção de leis sobre sua profissionalização e formação, no país. Em 19 de março de 1932 foi publicado o Decreto n. 21.173[10]. Nele, o laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho Dentro era convertido em Instituto de Psicologia. Apesar de o Instituto ter funcionado por apenas alguns meses, a sua criação foi justificada pela ausência "...no país, [de] núcleos incentivadores destes estudos, para sua maior divulgação e desenvolvimento”(BRASIL, 1932) sendo que"... as técnicas psicológicas [vinham] apresentando, dia a dia, novas e importantes aplicações..." (idem ibidem). Portanto, desde a década de 1930, existiam discursos legais favoráveis à criação de centros de formação em Psicologia. Um dos fazeres que influenciaram fortemente a ocorrência desses discursos legais foi a atuação dos "professores de Psicologia" em áreas como a Pedagogia, Medicina e Direito. [49]

Entre as décadas de 1940 e 1950, acentuaram-se os discursos que ligavam a universidade ao campo da pesquisa e da produção da ciência. Paralelamente, diversas instituições associadas à ciência foram criadas no Brasil. Exemplos são: a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1948; em 1951, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Essas iniciativas e proposições se fortaleceram na década de 1960. Nesse período, no seio dos movimentos estudantis, surgiram projetos de democratização do ensino superior. Os professores universitários se organizavam mais claramente, a fim de compor reformas no ensino superior. Variadas modalidades de publicação foram feitas, desde cartas advindas dos Seminários Nacionais de Reforma Universitária (p. ex., Carta do Paraná em 1962 e Carta de Minas Gerais em 1963) a livros, como A questão da Universidade, de Álvaro Vieira Pinto[11]. Sendo assim, embora o governo ditatorial tenha afetado profundamente a academia no Brasil, a década de 1960 foi um período de impulsão do ensino superior (CUNHA, 2000/2007).

Junto às discussões específicas sobre o ensino superior, foi publicada a Lei n. 4.024, que fixava as normas que embasariam a educação nacional, conhecida como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1961. A LDB de 1961 impactou a formação de professores no Brasil e, consequentemente, a formação dos licenciados. Isso, por sua vez, influenciou a formação e o exercício profissional do "professor de Psicologia" (CIRINO, KNUPP, LEMOS e DOMINGUES, 2007). No artigo 592 dessa Lei, lê-se: “a formação de professores para o ensino médio será feita nas faculdades de Filosofia, Ciências e Letras..." (BRASIL, 1961). Ainda no corpo do texto da LDB observa-se, em seu artigo 622: "nas faculdades de filosofia será criado, para a formação de orientadores de educação de ensino médio, curso especial a que terão acesso os licenciados em Pedagogia, Filosofia, Psicologia e Ciências Sociais..." (idem). Dessa forma, pode-se notar que era necessário ser licenciado para ocupar o lugar de professor, no ensino médio e, no que se refere à área de atuação da psicologia, também cabia a possibilidade de ser orientador escolar. A educação e a formação de profissionais qualificados se acentuaram nos discursos legais, no Brasil, na década de 1960. No seio dessas discussões estava o "professor de Psicologia" e a licenciatura.

O início da década de 1960 compreendeu, também, a aprovação da Lei n. 4.119, em 27 de agosto de 1962. Essa Lei dispõe sobre os cursos de formação [50] em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo, no Brasil. Ela contribuiu fortemente na definição dos campos de atuação, das funções privativas do psicólogo e na adoção de um código de ética. A Lei n. 4.119 auxiliou na orientação e no controle da atuação profissional do psicólogo, no Brasil. A articulação de profissionais da Psicologia e políticos brasileiros, durante a primeira metade do século XX, culminou em uma lei que regulamentava a formação e a profissão de psicólogo. Desde as décadas de 1920 e 1930, a docência de Psicologia era um campo de atuação do "especialista" em Psicologia. Ser "professor de Psicologia" se constituía em uma área de atuação profissional. Por um lado, a prática docente dos "especialistas" em psicologia foi uma das atividades que permitiu as articulações para a promulgação da Lei n. 4.119. Por outro, com essa lei foram regulamentadas a formação e a atuação do professor de Psicologia. A docência em Fsicologia se consolidou como um campo de atuação do psicólogo legalmente reconhecido. Assim, a Lei n. 4.119 institucionalizou esse exercício profissional e sua formação, principalmente a partir da licenciatura em Psicologia.

Formando psicólogos: o professor de Psicologia, a licenciatura e os discursos legais

Desde as primeiras décadas do século XX observa-se a presença de professores de Psicologia no campo dos "especialistas" em Psicologia. Isso fez com que esses "especialistas" fossem denominados, contemporaneamente, de pioneiros da Psicologia (ver CAMPOS, 2001). Assim, na atuação de professores de Psicologia, como Annita Marcondes Cabral[12], Eliezer Schneider[13], Helena Antipoff, Lourenço Filho e tantos outros, a Psicologia construída no Brasil foi produzindo documentos legais para legitimar sua atuação. A promulgação da Lei n. 4.119 pode ser compreendida pela atuação de profissionais como esses, bem como pela articulação de vários atores, nos anos precedentes a 1962. Um exemplo paradigmático é a proposta curricular para a formação em Psicologia, de Eliezer Schneider (SCHNEIDER, 1949 citado por [51] CABRAL, 1953[14]). Essa proposta representa um grupo de iniciativas e discussões em torno da formação e atuação do psicólogo no Brasil, em especial pela preocupação com um treinamento prático e científico do futuro psicólogo. A proposta compreende quatro anos de curso, em que são apresentadas três horas semanais de formação em Psicologia Experimental, nos dois primeiros anos de curso, além de doze horas semanais de Psicologia Educacional, no último ano.

Na década de 1950, vários atores se articularam para legalizar a formação e a atuação da Psicologia no país. Sua participação se deu, principalmente, a partir de associações, tais como a Sociedade de Psicologia de São Paulo, a Associação Brasileira de Psicotécnica e a Sociedade Mineira de Psicologia, dentre outras. Nesse período, também houve a criação de cursos de graduação em Psicologia, mesmo sem definições legais sobre a formação e o campo de atuação do psicólogo. Como exemplos, podem ser citados os cursos de graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), em 1953, da Universidade de São Paulo (USP), em 1958 e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), em 1959. Por meio da participação desses cursos e de associações de Psicologia, bem como da atuação daqueles "especialistas" em Psicologia, foram produzidos projetos de regulamentação da formação e da profissão de psicólogo, no Brasil.

De acordo com Baptista (2010), a década de 1950 foi marcada por intensos debates dos "especialistas" em Psicologia sobre a legalização da formação e da profissão de psicólogo, no Brasil. Em 1953, um projeto foi submetido ao Ministério da Educação e Cultura, no qual era indicada a necessidade de formação teórica e prática do profissional. A parcela teórica era o curso de bacharel, cuja duração era de três anos. A parte prática formava o licenciado em Psicologia. Aqui, parece que o significado do termo "licenciado" não é, necessariamente, "professor de Psicologia". O termo "licenciado", nesse documento de 1953, parece se referir àquele que poderia aplicar a psicologia com finalidades práticas. Os termos "licença" e “licenciado" parecem se referir a obter um documento - um diploma - que habilitava o psicólogo a praticar psicologia. Isso implicava ter uma "licença" para o exercício profissional. Essa nomenclatura era partilhada, com significação similar, por países da América do Sui, como a Argentina. Todavia, o ensino de Psicologia compunha as atividades práticas daqueles envolvidos com a Psicologia, no Brasil. Dessa maneira, embora "licenciado" não fosse sinônimo de professor, o termo parecia abranger esse exercício profissional. Isso porque a docência de Psicologia [52] compunha os fazeres típicos dos "especialistas" em Psicologia, no Brasil, desde o início do século XX.

Ainda em 1953 foi promovido um debate no "I Congresso Brasileiro de Psicologia", ocorrido em Curitiba. Nesse debate, profissionais como Annita Marcondes Cabral, Carolina Bori[15]e Pedro Parafita de Bessa articularam novas propostas para a regulamentação da profissão e apresentou-se a proposta curricular de Annita Cabral para a formação do psicólogo (CABRAL, 1953). No documento, ao lado das matérias consideradas básicas, tais como Psicologia Experimental e Psicologia Diferencial, apareciam disciplinas optativas que guardavam relação direta com a formação do professor de Psicologia. No corpo do texto lê-se: "Duas matérias optativas. (a Psicologia Educacional entra necessariamente no currículo do Curso de Didática, necessário à Licenciatura, entrando consequentemente no currículo dos licenciados em Psicologia)[16]" (idem). As matérias necessárias à formação do licenciado eram concebidas como complementares à formação do Psicólogo. A partir do contato com essa fonte, observam-se elementos que auxiliam a compreender o "professor de Psicologia": (a) na formação optativa, havia disciplinas próprias que caracterizavam a formação do professor; (b) os termos "licenciado" e "licenciatura" começavam a figurar mais próximos do sentido de "professor" e (c) havia uma preocupação em delimitar que uma das atribuições profissionais do psicólogo era a docência. Assim, as discussões sobre a regulamentação da profissão de psicólogo, no Brasil, indicavam a importância e o lugar do professor de Psicologia nas atribuições da área.

O fim da década de 1950 também possui marcas do processo de legalização da Psicologia como formação e profissão, no país. Mais uma vez, pode-se observar o professor e o ensino de Psicologia, em evidência, nas preocupações legais. Entre 1957 e 1958 foram produzidos, pelo Ministério da Educação e Cultura, outros documentos referentes à regulamentação da Psicologia (p. ex., BRASIL, 1958a[17]; BRASIL, 1958b[18]). Em tais documentos, propõe-se que a [53] formação em Psicologia continuaria ocorrendo em dois níveis: o primeiro, por meio de um curso de bacharelado, com duração de três anos, e o segundo seria de licença, a ser desenvolvido em dois anos. Esse segundo curso subdividia-se em dois segmentos de um ano cada. No segundo ano, havia duas mo dalidades de "licença", sendo que uma delas era a de professor de Psicologia. No texto do Projeto de Lei n. 3.825-A:

Art. 2. O curso de bacharelado, em três séries anuais, constituir-se-á de disciplinas fundamentais, idênticas em todas as faculdades, e de outras nelas variáveis.

Art. 3. O curso de licença terá duas séries anuais, a primeira de estudos co  muns e a segunda com duas modalidades, a saber: 1. Pesquisa e ensino; 2. Aplicação. (BRASIL, 1958a)

No campo destinado à licença em "pesquisa e ensino", pode-se notar a presença de aspectos ligados à formação do "professor de Psicologia", ou seja, do licenciado como docente de Psicologia. O documento apresentava como disciplina indispensável "Fundamento e técnicas da orientação educacional". Esse aspecto vai ao encontro das especificações contidas na LDB para o licenciado que, além de ser professor de Psicologia, poderia exercer a função de orientador educacional. Portanto, o licenciado em Psicologia possuía uma formação própria para garantir sua atuação profissional. Aiém disso, exigia- se, em sua formação, o curso de "didática", que implicava no desenvolvimento de habilidades necessárias ao exercício docente. Uma vez mais, a formação do "professor de Psicologia", agora como "licenciado", estava presente nas discussões legais sobre a formação e a atuação profissional do psicólogo.

O Art. 185 do Projeto de Lei n. 3.825-A também auxilia a compreender o lugar do professor de Psicologia, agora como licenciado:

Art. 18. Até que se diplomem licenciados em psicologia, em número suficien  te aos serviços de orientação educacional nos estabelecimentos de ensino médio, será permitido, nas faculdades de Filosofia, que obtenham autoriza  ção para o curso de bacharelado em psicologia, o funcionamento de cursos de emergência para habilitação de orientadores educacionais de ensino mé dio. (BRASIL, 1958a)

Este trecho do Projeto de Lei evidencia a atuação do psicólogo como orientador educacional. Todavia, a orientação educacional era uma prerrogativa do licenciado em Psicologia. O documento sugere que parecia haver uma demanda profissional para o licenciado, tanto que havia a possibilidade de uma formação rápida para atender a tal urgência. Ressalte-se que essa fonte [54] nos sugere que havia um campo de atuação a ser preenchido pelo licencia  do em Psicologia, não apenas como "professor de Psicologia", mas também como orientador educacional.

Entre 1958 e 1959, foi proposto um documento substitutivo ao Projeto n. 3.825-A. Nele, o professor de Psicologia aparece com acentuado destaque. A formação do Psicólogo era composta, no documento, por dois níveis: bacharelado (três anos) e licença (três anos). Portanto, ampliava-se em um ano a formação do licenciado em Psicologia. No parecer do Ministério de Educação e Cultura ao substitutivo do Projeto n. 3.825-A observa-se uma preocupação específica com a formação do licenciado (BRASIL, 1959), relacionada ao exer  cício profissional do "professor de Psicologia". No texto do parecer:

Também discordamos do substitutivo de São Paulo quanto à formação menor dos professores de psicologia. Consideramos que ao psicologista licenciado é que compete ensinar ou exercer psicologia, tarefas igualmente importantes e, a nosso ver, inseparáveis da experiência do campo exigida no 2º e 3º anos de licença (idem).

No final do primeiro ano de licença, caso o estudante tivesse sido aprova do em Didática Gera! e Especial, a ele seria conferido o diploma de licenciado, que o habilitava a ministrar aulas de Psicologia (BAPTISTA, 2010). Uma vez mais, as discussões legais sobre a regulamentação da profissão de psicólogo, no Brasil, consideravam o ensino de Psicologia como sua atribuição. Para tanto, atribuíam-lhe uma licença para ensinar Psicologia. Esse aspecto sugere que, se antes a licença habilitava a prática geral de Psicologia, gradativamente ela vai se tornando uma habilitação específica para o professor de Psicologia. Portanto, vai se constituindo o licenciado em Psicologia como sinônimo do professor de Psicologia.

Em 1962, então, a Lei n. 4.119 apresenta três habilitações para a formação em Psicologia: Bacharel, Psicólogo e Licenciado. Há a prerrogativa da docência para as três habilitações propostas. No texto legal, existe o indicativo de que a formação em Psicologia implicava, necessariamente, a formação do professor de Psicologia. No capítulo III da referida Lei, existe uma menção às atribuições e aos campos de atuação das três habilitações possíveis para o psicólogo. No texto da Lei:

Art. 11. Ao portador do diploma de Bacharel em Psicologia é conferido o direito de ensinar Psicologia em cursos de grau médio nos termos da legislação em vigor.

Art. 12. Ao portador de diploma de Licenciado em Psicologia é conferido o direito de lecionar Psicologia, atendidas as exigências legais devidas. [55]

Art.13. Ao portador do diploma de psicólogo é conferido o direito de ensinar Psicologia nos vários cursos de que trata esta lei, observadas as exigências legais específicas, e a exercer a profissão de Psicólogo (grífos nossos) (BRASIL, 1962a).

Vale ressaltar que, nos artigos citados, a função de "ensinar" é uma atribuição das três modalidades e o que as diferencia é a delimitação do nível de ensino para cada uma delas: superior, médio ou fundamental. Dessa forma, ao Bacharel, ao Licenciado e ao Psicólogo é conferido o direito de lecionar Psicologia. Segundo Lemos (2010), pode-se notar que o estabelecimento do campo de atuação do licenciado em Psicologia não foi bem delimitado na Lei n. 4.119. O fato tem relação com o delineamento de diferentes níveis de ensino para cada modalidade de formação em psicologia. Para o "psicólogo", o nível de ensino estabelecido acontece "nos vários cursos de que trata esta lei", ou seja, o objeto dessa Lei é, portanto, a psicologia. Em seu Art. 13a, a Lei n. 4.119 sugere, com isso, que o "psicólogo" é o responsável pelo ensino de Psicologia nos cursos superiores de Psicologia (LEMOS, 2010). A delimitação para a atuação do "bacharel" é o ensino médio e, para o "licenciado", não há menção de um nível de ensino específico. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que a Lei n. 4.119 foi influenciada pela atuação do professor de Psicologia, ela deixou pouco clara a delimitação para a habilitação específica para a docência, o licenciado em Psicologia. Associando esse aspecto ao Projeto n. 3.825-A, especialmente em seu Art. 18a, pode-se interpretar que o fazer do licenciado estava disperso nas atividades regulares dos "especialistas" em Psicologia. Portanto, não havia necessidade clara de delimitação de um campo específico.

O Parecer n. 403, do Conselho Federal de Educação (CFE), aprovado em 19 de dezembro de 1962, auxilia a compor o destaque do professor de Psicologia no cenário da Psicologia brasileira, à época. Esse documento fixava um currículo mínimo de formação em Psicologia. De acordo com os relatores do parecer, sua escrita e proposição estavam amparadas por reuniões com diversos "especialistas" em Psicologia, no Brasil. Esses "especialistas" eram os

[...] professores M. B. Lourenço Filho e Nilton Campos[19], da Universidade do Brasil, Carolina Martuscelli Bori, da Universidade de São Paulo; Padre Antonius [56] Benkõ[20], da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e Pedro Parafita [de] Bessa, da Universidade de Minas Gerais (grifos nossos). (BRASIL, 1962b)

Como o texto do próprio parecer indica, os "especialistas" procurados para contribuir na proposição de um currículo de formação em Psicologia eram professores de Psicologia. Uma das atividades de todos os atores citados foi a atuação no ensino de Psicologia, não apenas para psicólogos, como também para outras profissões. Outro documento legai que auxilia a compreender a evidência do professor de Psicologia, nas primeiras décadas do século XX, é o Decreto n. 53.464, de 21 de janeiro de 1964, que regulamenta a Lei n. 4.119. Nele, o exercício da profissão de professor de Psicologia também figura como atividade facultada àqueie graduado em Psicologia. No referido Decreto, lê-se que, dentre as funções possíveis para o psicólogo, está: "Ensinar as cadeiras ou disciplinas de Psicologia nos vários níveis de ensino, observadas as demais exigências da legislação em vigor" (BRASIL, 1964). Ainda nes  se documento, em seu Art. 62, podem ser observadas menções específicas à oferta da licenciatura em Psicologia como habilitação: "Art. 6a- As Faculdades de Filosofia poderão instituir Cursos de Graduação de Bacharelado e Licenciado em Psicologia e de Psicólogo" (idem ibidem). O ensino de Psicologia aparecia, em diversos momentos, no campo legal. A docência em Psicologia surgia como experiência prévia daqueles envolvidos com a Psicologia, no país. Dessa forma, o professor de Psicologia era um profissional à serviço da psicologia, quando de sua atuação, e tinha seu fazer legitimado pelo discurso legal. Esse fato é observado pela presença de vários professores de Psicologia na composição de um currículo para essa profissão. O professor de Psicologia surgia no corpo da Lei que regulamenta o exercício profissional do psicólogo. O ensino de Psicologia aparecia como facultado a qualquer habilitação da graduação em Psicologia, especialmente para o licenciado.

Considerações finais

A narrativa aqui apresentada reconstruiu alguns aspectos concernentes ao professor de Psicologia em uma perspectiva historiográfica, sendo que o foco principal foi a sua licenciatura. A profissão do "professor de Psicologia" e, portanto, o ensino de Psicologia, puderam ser observados como importantes vetores de articulação desse campo, na primeira metade do século XX. [57]

Essa afirmação foi subsidiada por três eixos: (a) a participação dos professo  res de psicologia na formação de normalistas, durante as décadas de 1920 e 1930; (b) a presença dos "especialistas" em Psicologia, ensinando-a na formação de outras profissões do ensino superior, até meados da década de 1960 e (c) entre as décadas de 1940 e 1960, o destaque do ensino de Psicologia como atribuição legal do exercício profissional do diplomado no Brasil.

Durante a primeira metade do século XX, os atores vinculados à Psicologia produziram espaços para sua atuação profissional. Na delimitação desses espaços de atuação, esses "especialistas" em Psicologia se envolveram com o ensino de Psicologia e com o embate legal para estabelecer seu campo profissional. Esse embate legal produziu diversos documentos, tais como decretos, pareceres e leis. Por um lado, tais documentos são produto das práticas que os antecederam e, assim, foram influenciados pela docência dos "especialistas" em Psicologia. A atuação daqueles envolvidos com a psicologia compreendia, sobremaneira, o fazer do professor de Psicologia. Por outro, os textos legais regulamentaram e legitimaram práticas psicológicas, dentre elas o ensino de Psicologia vinculado à licenciatura. As práticas cotidianas dos "especialistas" em Psicologia, então, eram delimitadas pelo campo de atuação do psicólogo legalmente reconhecido. Isso implicou no reconhecimento e na legitimação da docência em Psicologia como atribuição do diplomado em psicologia. Dessa forma, as legislações contribuíam para a organização de relações sociais entre agentes de um determinado tempo histórico.

Este capítulo apresentou a profissão "professor de Psicologia" como parte importante das atribuições práticas e legais daqueles envolvidos com a psicologia, no Brasil, ao longo da primeira metade do século XX. Essa profissão impactou fortemente o desenvolvimento e o estabelecimento da psicologia no país. O impacto foi sentido, principalmente, pela delimitação da Licenciatura como habilitação para o graduado em Psicologia, constante na Lei n° 4.119, que continua dispondo sobre a formação e a atuação profissional do psicólogo brasileiro na atualidade. Discussões historiográficas, como a aqui produzida, auxiliam a compor um quadro ampliado da contemporaneidade. Assim, remata-se com um convite a novas reflexões sobre o passado, o presente e o futuro do professor de Psicologia, no país. [58]

 

Licenciatura em Psicologia | Texto
ARTIGOS
Preconceito de cor e racismo no Brasil
Antonio Sérgio Alfredo Guimarães

O autor analisa a formação do campo temático dos estudos de relações raciais, no Brasil dos anos 1940, e sua posterior superação pelos estudos de identidade racial e racismo, nos anos 1970, buscando precisar a história dos significados teóricos de dois conceitos: preconceito de cor e racismo. Retroagindo ao final do século XIX, o autor argumenta que o racialismo dogmático de então foi desbancado pelo culturalismo do começo do século XX, apenas para ceder lugar à imprecisão entre a expressão nativa "preconceito de cor" e "preconceito racial", esta última introduzida pelo paradigma das relações raciais, gerado pela Escola de Chicago. Com a superação deste, nos anos 1970, e sua substituição por paradigmas que utilizam quase exclusivamente a análise estrutural e institucional, o conceito de racismo passou a denominar de maneira imprecisa todas as dimensões da vida social e da interação entre "brancos" e "negros". O autor sugere que apenas um retorno à separação analítica das diversas formas de interação e dimensões da vida social pode restituir a esse campo disciplinar a riqueza que teve nos primórdios das ciências sociais.

Psicologia social
Evolução do comportamento humano: Psicologia evolucionista
Maria Emília Yamamoto

O estudo do comportamento humano tem sido feito há séculos, mas com o advento da Teoria da Evolução, uma nova perspectiva se abriu para a compreensão da natureza humana. O objetivo deste ensaio é apresentar uma abordagem evo- lucionista. A psicologia evolucionista (PE) é uma área emergente da ciência da mente e do comportamento. Destacamos aspectos interessantes do surgimento da PE, além de apresentar seus principais conceitos no que diz respeito, por exemplo, a mecanismos psicológicos evoluídos, ambiente de adaptação evolutiva e modularidade. A im de clarear alguns mal- -entendidos, discutimos o que a PE não é. Seguimos apresentando a integração da PE com outras disciplinas e as possíveis aplicações da PE. Finalmente, apresentamos o surgimento da PE brasileira.

Psicologia Evolucionista
Psicologia forense e psicologia jurídica- aproximações e distinções
Marcel de Almeida Freitas

O propósito deste texto é, em primeiro lugar, apresentar resumidamente como a Psicologia foi sendo utilizada na prática e na produçâo de conhecimento jurídico e, em seguhdo lugar, elucidar quais as especlflcidades e as semelhanças de cada um dos campos oriundos da Psicologia que hoje Incrementam o campo jurídico, mas que dele também recebem insumos teóricos importantes para seu próprio desenvolvimento, a Psicologia jurídica e a Psicologia forense. Ao final, o artigo mostra como o Direito não pode prescindir dos aspectos culturais, lógicos, morais e subjetivos em sua lida.

Psicologia Jurídica
PSICÓLOGOS E PERSONALIDADES
Documentários - Psicologia
Jogos Mentais
  
    45m47s
National Geographic
As origens da linguagem
  
    52m09s
PBS
Por que falamos?
  
    51m11s
BBC
Freud, análise de uma mente
  
    44m10s
The Biography Channel
Jack, o Estripador
Arquivos Confidenciais  
1 Temporada  Ep. 02  23m27s
National Geographic
Cérebro
Nossas Origens  
1 Temporada  Ep. 03  58m16s
BBC
Todos os vídeos
Astronomia
TEXTOS
Por José Roberto V. Costa
Zoológico espacial

Estrelas, planetas rochosos e gasosos, planetas anões, satélites, cometas e asteróides... Quais as diferenças entre todos eles? Chegou a hora de tirar todas as suas dúvidas e saber quem é quem neste verdadeiro zoológico espacial. Então, sem mais demora, vamos logo a classificação desses "bichos"! O Sol é uma estrela - uma estrela anã. Existem estrelas de volumes, massas e cores variadas. Mas há algo em comum a todas elas. As estrelas são constituídas, em sua maior parte, de hidrogênio e o hélio. Esses gases estão na forma de plasma, o quarto estado da matéria. Toda estrela é um corpo celeste feito de plasma que se mantém coeso devido a força gravitacional de sua enorme massa.

Mais uma coisa: em qualquer estrela ocorrem reações termonucleares. Reações no núcleo do átomo, convertendo hidrogênio em hélio (e hélio em outros elementos) com enorme liberação de energia. Estrelas geram radiação eletromagnética (luz visível, radiação e calor) em quantidades extraordinárias.

Estrelas não são habitáveis, mas somente graças a elas a vida pode surgir em algum planeta ao redor. Planetas não emitem luz e radiação como as estrelas. Mas além disso, para que um corpo celeste ser chamado de planeta ele deve:1) estar em órbita ao redor do Sol, 2) ter uma forma arredondada e3) ser um objeto de dimensão predominante entre os demais que estiverem em órbitas vizinhas.

O resultado prático dessa definição é que o Sistema Solar fica com oito planetas: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Uranoe Netuno.

Plutão, que foi descoberto em 1930, possui características físicas e orbitais que só recentemente foram melhor compreendidas pelos astrônomos. Por isso ele passa a integrar uma nova classe de objetos, os planetas anões. Pela definição, o Sistema Solar tem hoje cinco planetas anões: Plutão, Ceres, Éris, Haumea e Makemake. Esses astros não se encaixam no item 3 da definição de planeta apresentada acima.

Planetas extrasolares
A DEFINIÇÃO DE PLANETA, porém, foi pensada para o Sistema Solar. Para os planetas fora do domínio do Sol - os chamados extrasolares ou exoplanetas - as peculiaridades de cada sistema devem ser levadas em conta. Em comum a todos os planetas está o fato desses astros não produzirem energia por meio de reações termonucleares (como fazem as estrelas).

No final, contexto e localização definem quem é planeta e quem não é. E no reino das outras estrelas os astrônomos já identificaram tipos curiosos, como a Superterra - nada mais que um planeta rochoso maior que o nosso; o Júpiter quente - um gigante gasoso cuja órbita situa-se muito próxima de sua estrela-mãe, o que torna sua atmosfera turbulenta e aquecida; e também os planetas livres ou flutuantes - como são chamados aqueles que não giram em torno de nenhuma estrela e simplesmente vagam livres pelo espaço.

Os satélites naturais (também chamados luas) são corpos celestes que circulam em torno de um planeta. Satélites não estão em órbita de uma estrela, mas podem ser arredondados ou não. As luas de Marte, por exemplo, são irregulares.

A Lua é um satélite da Terra. O centro de gravidade do sistema Terra-Lua fica abaixo da superfície terrestre (embora distante do centro da Terra). No caso dos satélites de Júpiter, o centro de gravidade fica bem mais perto do centro desse planeta.

Se as massas de dois astros forem tais que o centro de gravidade fique a meio caminho entre eles, com num haltere, teremos um sistema planetário duplo - e nenhum satélite.

Os satélites são sempre menos maciços (e menores) que os planetas em torno dos quais orbitam. Porém, isoladamente, um satélite pode ser maior que um planeta. É o caso, por exemplo, de uma das luas de Saturno, Titã - maior que o planeta Mercúrio.

Asteróides são corpos rochosos que estão em órbita do Sol, mas são pequenos e têm formas irregulares. Às vezes são chamados de planetóides. Os asteróides são feitos do material remanescente da formação do Sistema Solar.

Os que estão situados logo após a órbita de Marte, no chamado Cinturão Principal, são provavelmente restos de matéria que nunca conseguiu se agregar para formar um planeta, devido a influência gravitacional de Júpiter.

Asteróide vem do grego aster, estrela, e oide, sufixo que indica semelhança. Isso se deveu as primeiras observações desses objetos, no século XIX. Na prática não existe tal similaridade.

Estima-se que existam mais de 400 mil asteróides com diâmetro superior a 1 km. Foram catalogados pouco mais de 3 mil. Há um segundo cinturão de Asteróides depois da órbita de Netuno, chamado Cinturão de Kuiper, mas esses objetos devem ter algumas características distintas daqueles do Cinturão Principal.

Cometas são ainda menores que asteróides e também são lembranças da época da formação do Sistema Solar. Verdadeiros fósseis espaciais, os cometas, no entanto, se desgastam a cada passagem, ao exibir suas caudas que nada mais são que material de seu próprio núcleo, uma "bola de gelo suja" de dióxido de carbono, metano, amônia, água e alguns minerais.

Nunca confunda cometas com meteoros, que são as populares "estrelas cadentes". Embora também venham do espaço, meteoros são um fenômeno atmosférico. Eles riscam um céu com velocidade, todas as noites, sendo visíveis no máximo por alguns segundos.

Cometas são corpos celestes que giram em torno do Sol como os planetas e asteróides, exibindo uma ou mais caudas quando se aproximam do astro-rei. Cometas são visíveis no céu por semanas ou meses. Eles não "passam voando".

Sistema Solar | Texto
Por Robert Dinwiddie
O começo e o fim do Universo

A história do Universo pode ser traçada desde seus primeiros instantes, de acordo com a teoria do Big Bang. No modelo do Big Bang, o Universo já foi infinitamente pequeno, denso e quente. O Big Bang deu início a um processo de expansão e resfriamento que continua até hoje. Não foi uma explosão de matéria no espaço, mas uma expansão do próprio espaço, que, no princípio, trouxe o tempo e o espaço à existência. O Big Bang, contudo, não explica todas as características do Universo, e continua a ser refinado. Os cientistas o usam como um quadro para mapear a evolução continuada do Universo, passando por eventos como o desacoplamento de matéria e radiação (quando os primeiros átomos se formam e o Universo se torna transparente) e a condensação das primeiras galáxias; a formação das primeiras estrelas. O estudo do Big Bang e do balanço da gravidade do Universo e a força da chamada energia escura podem dizer qual será o fim do Universo.

O Big Bang

Espaço, tempo, energia e matéria devem ter vindo à existência 13,7 bilhões de anos atrás, no evento chamado Big Bang. Em seus primeiros momentos, o Universo era infinitamente denso, inimaginavelmente quente e continha energia pura. Mas, dentro de uma ínfima fração de segundo, surgiu um vasto número de partículas fundamentais, criadas a partir de energia, à medida que o Universo resfriava. Em poucas centenas de milhares de anos estas partículas se combinaram para formar os primeiros átomos.

No princípio

O Big Bang não foi uma explosão no espaço, mas uma expansão que ocorreu no primeiro instante depois do Big Bang, a Era de Planck, mas no final deste período, a gravidade havia se separado das outras forças da natureza, seguida pela separação da força forte. Acredita-se que este evento originou a “inflação” – uma expansão curta porém rápida. A inflação ajudaria a explicar como o Universo parece tão homogêneo e plano. Durante a inflação, surgiu uma quantidade fantástica de massa-energia, em contraposição a uma quantidade igual porém negativa de energia gravitacional. No final da inflação, a matéria começou a aparecer.

A emergência da matéria

Cerca de 1 microsegundo (10-6 segundos ou um milionésimo de segundo) depois do Big Bang, o universo jovem continha além de vastas quantidades de energia radiante, ou fótons, uma “sopa” efervescente de quarks, antiquarks, e glúos. Também estava presente uma classe de partículas fundamentais chamadas léptons (principalmente elétrons, neutrinos e suas atipartículas), formando-se a partir de energia e se aniquilando de volta à energia. O palco estava armado para os processos de formação da matéria seguinte que levaram ao presente Universo. Em primeiro lugar, quarks e glúons se uniram para formar partículas mais pesadas – em particular prótons e um menor número de nêutrons. A seguir, os nêutrons se combinaram com alguns dos prótons para formar núcleos atômicos, principalmente de hélio. Os prótons restantes, destinados a formar núcleos de hidrogênio, permaneceram não-combinados. Finalmente, após meio milhão de anos, o Universo se resfriou o suficiente para os elétrons se combinarem com os prótons livres e os núbleos de hélio – assim formando os primeiros átomos.

Saindo das trevas

O período desde o nascimento dos átomos, 300.000 anos depois do Big Bang, até a ignição das primeiras estrelas, centenas de milhões de anos mais tarde, é conhecido como a “Idade das Trevas” do Universo. O que aconteceu durante essa era, e o subsequente “Renascimento” cósmico quando a luz das estrelas preencheu o Universo, é um enigma. Os astrônomos o estão solucionando pela análise da radiação relíquia do Big Bang e do uso dos mais poderosos telescópios para perscrutar os limites do Universo.

As consequências do Big Bang

Aos 350.000 anos de idade, o Universo estava repleto de fótons propagando-se em todas as direções, de átomos de hidrogênio e hélio, de neutrinos e outras formas de matéria escura. Embora o Universo ainda estivesse quente, a 2500ºC, e preenchido de radiação, os astrônomos não veriam nenhuma luz se pudessem olhar anteriormente a esse instante. A razão disso é que o Universo, ao se expandir, distendeu os comprimentos de onda da radiação por um fator 1000. Os fótons, agora, alcançam a Terra não como luz visível, mas como fótons de baixa energia da radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMBR). Estes comprimentos de onda, outrora característicos de um universo incandescente, são típicos de um objeto tão frio que sua temperatura é de cerca de -270ºC, 3K (3 graus Kelvin) acima do zero absoluto.

A Idade das Trevas

A Terra pode nunca receber a luz visível do período antes das primeiras estrelas se formarem, umas poucas centenas de milhões de anos após o Big Bang, mas os cosmólogos podem reconstruir o que ocorreu durante esse período, usando outros dados, como aqueles da CMBR. A CMBR revela minúsculas flutuações da densidade da matéria, quando os primeiros átomos se formaram. Os cosmólogos acreditam que a gravidade, atuando nestas flutuações, levam a matéria a formar aglutinações e cordões. Essas irregularidades na nuvem inical de matéria provavelmente constituíram o arcabouço dos atuais objetos de grande escala, como os superaglomerados de galáxias. A evolução dessas estruturas por bilhões de anos pode ser simulada por computadores. Essas simulações baseiam-se em suposições sobre a densidade e propriedades da matéria no universo jovem, assim como a influência da energia escura. Algumas simulações se assemelham à distribuição da matéria do universo atual.

Galáxias primitivas

Os astrônomos ainda estão tentando localizar quando as primeiras estrelas se formaram e em que tipo de estruturas galácticas isso ocorreu. Estudos recentes no infravermelho, feitos com instrumentos como o Telescópio Espacial Spitzer e o Very Large Telescope [VET], revelarem o que parece ser galáxias extremamente fracas, com redshifts elevados, presentes há apenas 500 milhões de anos depois do Big Bang. Sua existência indica que precursores bem desenvolvidos, nós e massas condensadas de matéria deviam estar presentes entre 100 e 300 milhões de anos depois do Big Bang. São nessas estruturas que as primeiras estrelas devem ter se formado.

As primeiras estrelas

As primeiras estrelas, que podem ter se formado 200 milhões de anos depois do Big Bang, eram feitas quase que inteiramente de hidrogênio e hélio, com virtualmente nenhum outro elemento químico. Os físicos pensam que as nebulosas de formação estelar sem elementos pesados e condensaram em nuvens muito maiores que as de hoje. As estrelas que aí se formaram também devem ter sido muito grandes e quentes, talvez tipicamente de 100 a 1000 massas solares. Muitas podem ter durado poucos milhões de anos ou menos, antes de morrerem como supernovas. A luz ultravioleta dessas estrelas pode ter originado um momento crucial na evolução do Universo – a reionização do seu hidrogênio, transformou de um gás neutro de volta à forma ionizada (prótons e elétrons livres) vista hoje. A radiação dos quasares também pode ter reionizado o Universo.

Enriquecimento químico cósmico

Durante suas vidas e ao final delas, as primeiras estrelas massivas criaram e dispersaram novos elementos químicos no espaço e em massas protogalácticas em colapso. Um zoológico de novos elementos, como carbono, oxigênio, silício e ferro, foi formado a partir da fusão nuclear nas regiões centrais quentes dessas estrelas. Elementos mais pesados que o ferro, como bário e chumbo, formaram-se durante suas mortes violentas. Estrelas de segunda e terceira gerações, menores que as megaestrelas primordiais, formaram-se, a partir do meio interestelar enriquecido. Essas estrelas criaram mais elementos químicos, que retornaram ao meio interestelar através de ventos estelares e supernovas. Interações entre galáxias e varrimento do seu gás levaram a mais enriquecimento e dispersão, no meio intergaláctico. Esses processos de reciclagem e enriquecimento continuam. Na Via Láctea, os novos elementos químicos são essenciais par aa formação de objetos desde planetas rochosos até organismos vivos.

Vida no Universo

A única vida conhecida no Universo está na Terra. A vida aqui, no entanto, é tão ubíqua e o Universo tão enorme que os cientistas vêem chances de o processo vital manifestar-se também em outras regiões do Cosmos. Mas a vida na Terra ter sido fortuita – produto de uma série improvável de eventos – ou, como muitos acreditam, não tão inesperada.

Organismos vivos

O que é um organismo vivo? As ideias a respeito disso dependem do estudo da vida na Terra, pois não temos ideia do alcance da vida fora daqui. Os biólogos concordam sobre algumas características básicas que distinguem o vivo do não-vivo em qualquer parte do Cosmos – no mínimo, uma entidade viva deve ser capaz de se reproduzir e, ao longo do tempo, evoluir. Não estão certos, no entanto, se vírus são vivos. Embora autorrepliquem, falta ao vírus algumas características que a maioria dos biólogos considera essenciais à vida: eles não existem como células e não possuem seu próprio maquinário bioquímico. É também incerto se outras características comuns à vida terrestre, como a química do carbono e o uso da água líquida, devam inevitavelmente ser um traço da vida extraterrestre. Desacordos sobre esses pontos aumentam a complexidade das discussões sore a possibilidade de vida extraterrestre.

Origens da vida

A maioria dos cientistas concorda que o começo da vida terrestre está ligado à acumulação de moléculas orgânicas simples em uma “sopa primordial! Nos oceanos, logo após sua formação. As moléculas teriam resultado de reações químicas na atmosfera, talvez estimuladas pela energia de raios. Na sopa, ao longo de milhões de anos, os compostos orgânicos reagiram, formando moléculas cada vez maiores e mais complexas, até que surgiu uma molécula com a capacidade de auto-replicação. devido sua natureza específica, essa molécula – um gene rudimentar – tornou-se mais comum. Através de mutações, e pelo mecanismo da seleção natural, variantes desse gene desenvolveram adaptações à sobrevivência cada vez mais sofisticadas, evoluindo ara uma céula do tipo bactéria – a precursora de toda vida terrestre. Muitos biólogos evolutivos diriam que o evento decisivo nesse caso foi o aparecimento de um auto-replicador.

A raridade da Vida

Há 30 anos as condiç~eos que se pensava serem essenciais à vida, como aquelas de temperatura e umidade, eram consideradas estreitas. Desde então os cientistas descobriram extremófilos (organismos que prosperam em condições extremas) vivendo em ambientes adversos na Terra. Esses organismos podem viver em profundas camadas de gelo ou nas fumarolas de água fervente no fundo dos oceanos. Alguns vivem em comunidades desprovidas de luz solar e extraem energia de fontes químicas. Pesquisas encontraram bactérias vivendo em profundidades de 3 km da crosta terrestre, com metabolismo baseado em hidrogênio. Extremófilos estimulam a ideia de que a vida pode existir em uma ampla gama de condições. Alguns cientistas ainda têm esperanças de que vida extraterrestre possa ser descoberta no Sistema Solar, embora a exploração do locam mais provável, Marte, tenha produzido resultados negativos até agora. Além do Sistema Solar os cientistas acreditam que a vida possa ser amplamente difundida. Nesses locais mais remotos, o cientistas estão interessados na possiblidade de existência de vida inteligente, contatável. Em 1960, o radioastrônomo estadunidense Frank Drake desenvolveu uma equação para prever o número de civilizações na Galáxia capazes de comunicação interestelar. Pelo fato de apenas poucos fatores da equação poderem ser estimados acuradamente, o resultado pode variar entre menos de um a milhões de plantas, dependendo dos valores supostos.

Buscando a Vida

Há muitas abordagens para as tentativas de identificar formas de vida extraterrestres. No Sistema Solar cientistas analisam imagens de planetas e luas, e enviam sondas para buscas em Marte e a lua Titã, de Saturno. Fora do Sistema Solar o principal foco até agora foi o Busca por Inteligência Extraterrestre [SETI] – conjunto de programas que envolve a varredura do céu em busca de sinais com a aparência de artificial. Também estão em andamento buscas por planetas de tipo terrestre em torno de estrelas próximas. Finalmente, Comunicação com Inteligência Extraterrestre [CETI] envolve mensagens de humanos por transmissão de sinais rumo a estrelas alvos. Em 1974 uma mensagem CETI em código binário foi enviada em direção ao aglomerado estelar M13, a 21000 anos-luz. Em 1999, a mensagem mais elaborada “Encontro 2001) foi enviada por um radiotelescópio ucraniano em direção a algumas estrelas de tipo solar próximas. Mesmo se os alienígenas captarem a mensagem, não esperamos receber respostas antes de um século.

O destino do Universo

Embora seja possível que o Universo possa ser eterno os tipos de estrutura que existem, como planetas, estrelas e galáxias, certamente não durarão para sempre. Em algum ponto, distante no futuro, nossa galáxia e outras serão rasgadas, ou sofrerão um alonga e prolongada morte fria. Ou ainda serão inteiramente esmagadas em um reverso do Big Bang. O destino do universo depende em grande medida da natureza da energia escura – uma força misteriosa oposta à gravidade que, recentemente se descobriu, desempenha um papel fundamental no comportamento do Universo em grande escala.

Big Crunch e Big Chill

Até recentemente os cosmólogos supunham que a taxa de expansão do Universo estava se desacelerando, devido ao efeito de “frenagem” da gravidade. Também se acreditava que um único fator – a densidade de massa-energia do Universo – decidiria qual de dois destinos básicos o aguardaria. Os cosmólogos medem a densidade tanto de massa como energia em conjunto, porque, como Einsteindemonstrou, massa e energia são equivalentes e intercambiáveis. Caso essa densidade, seja acima de um valor crítico a gravidade levará o Universo a deter sua expansão e a colapsar em uma implosão ígnea aniquilando tudo, o “Big Crunch”. Mas se a densidade do Universo for menor ou igual à densidade crítica, o Universo se expandirá para sempre, embora a uma taxa gradualmente desacelerada pela gravidade. Neste caso, o Universo acabará em uma longa morte fria “Big Chill”. Pesquisas com o objetivo de resolver esta questão revelaram que as propriedades do Universo sugerem que ele é extremamente próximo de ser “plano”, com a densidade exatamente igual à densidade crítica. Embora a parte da matéria-energia do Universo necessária para torna-lo plano seja difícil de se determinar, sua densidade deveria ser próxima do valor crítico, e assim seu destino mais provável seria a expansão eterna. Contudo, no final da década de 1990, esses modelos para o destino do Universo foram abalados por novas descobertas indicando que a expansão do Universo não está em desaceleração.

Energia escura

As descobertas vieram do estudo de supernovas em galáxias remotas. O brilho aparente dessas explosões estelares pode ser usado para calcular suas distâncias, e, comparando as distâncias com os redshifts das galáxias hospedeiras, pode-se calcular a taxa de expansão do Universo em diferentes épocas de sua história. Os cálculos mostraram que a expansão estava acelerando-se e que alguma força se opunha à gravidade, a “constante cosmológica” proposta por Einstein, como parte de sua teoria da relatividade geral. E existência dessa energia escura também responde pela massa-energia faltante no Universo para que ele seja plano e modifica o número de possíveis destinos do Universo.

A geometria do espaço

Os cosmólogos baseiam suas ideias sobre o destino do Universo parcialmente em modelos matemáticos. E os modelos indicam que, dependendo de sua densidade de massa-energia, o Universo tem três possíveis geometrias, cada uma com uma diferente curvatura do espaço-tempo, que pode ser representada por uma forma 2-D. Antes da descoberta da energia escura havia uma correspondência entre essas geometrias e o destino cósmico. Considerava-se que um Universo de curvatura positiva ou um universo “fechado” terminaria em um “Big Crunch”, e um universo de curvatura negativa ou “aberto”, em um “Big Chill”. Um univeso plano também terminaria em um “Big Chill”, mas a expansão do Universo acabaria por desacelerar até uma parada virtual. Com a proposição da energia escura essa correspondência não mais existe. Se a energia escura permanecer com intensidade constante o Universo se expandirá para sempre. Se a energia escura for capaz de reversão, qualquer tipo de universo teminaria em um Big Crunch. Atualmente, o modelo mais favorecido é o de um universo plano que sofrerá uma expansão acelerada. O cenário cataclísmico do “Big Rip”, onde a energia escura cada vez mais intensa dilacera o Universo, parece menos provável.

Uma morte fria

Se o Universo se esvaecer em um Big Chill, sua morte levará muito tempo. Nos próximos 1012(1 trilhão) de anos, as galáxias esgotarão seu gás para formar novas estrelas. Em cerca de 1025(10 trilhões) de anos no futuro, a maior parte da matéria do Universo estará em cadáveres estelares como buracos negros e anãs brancas apagadas, orbitando e caindo em buracos negros supermassivos no centro das galáxias (fótons), elétrons, pósitrons e neutrinos. Toda matéria que não esteja em buracos negros será despedaçada. Após 1067anos, os buracos negros começaram a se evaporar pela emissão de partículas e radiação, e em carca de 10100anos, mesmo os buracos negros supermassivos evaporarão. Um universo inteiramente frio e escuro será um mar difuso de fotos e partículas fundamentais.

 

Observadores de um objeto afastando-se, vêem suas linhas espectrais deslocadas para maiores comprimentos de onda (deslocamento para o vermelho, redshift)

 

Einstein exprimiu sua teoria de como a massa distorce o espaço-tempo em suas “equações de campo”. Os físicos, usando essas equações, descobriram que é nos campos gravitacionais mais intensos —onde objetos massivos e densos distorcem fortemente o espaço-tempo — que a realidade mais se desvia das previsões de Newton. 

Universo | Texto
Por David Hughes
Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

Sistema Solar | Texto
Por John Updike
Visões de Marte

Mesmo depois de Copérnico ter proposto, em 1543, que o Sol, e não a Terra, ocupava o centro do nosso cosmo, a excentricidade dos movimentos celestes de Marte continuou a ser um enigma, até que, em 1609, Johannes Kepler mostrou que todas as órbitas planetárias eram elípticas (e não circulares), com o Sol situado em um dos focos da elipse. Nesse mesmo ano, pela primeira vez, Galileu observou o planeta com um telescópio. Até meados do século 17, esse equipamento foi de tal maneira aperfeiçoado que permitiu ver as calotas de gelo polares que cresciam e encolhiam segundo as estações, assim como acidentes geográficos, caso de Syrtis Major, um trecho escuro que era considerado um mar raso. O italiano Giovanni Cassini foi capaz de observar certas estruturas com a exatidão adequada para calcular a rotação do planeta. O dia marciano, concluiu, era 40 minutos mais longo que as nossas 24 horas (ele equivocou-se em apenas três minutos). Enquanto Vênus, um planeta vizinho maior e mais próximo, estava oculto por insondável cobertura de nuvens, Marte exibia uma superfície tão parecida com a terrestre que logo surgiram especulaçõe sobre a presença de formas de vida.

Telescópios potentes, ainda que prejudicados pelo efeito anuviador da espessa atmosfera de nosso planeta, tornaram possíveis mapas cada vez mais detalhados de Marte, delineando mares e até pântanos em áreas em que uma cobertura vegetal surgia e sumia ao sabor dos limites das calotas polares. Um dos mais acurados cartógrafos do planeta foi Giovanni Schiaparelli, que empregou o termo italiano canali para se referir às interligações lineares que notou entre supostos corpos dagua. O termo poderia ser traduzido para “conexões”, mas a palavra “canais” cativou a imaginação de todos, sobretudo a de Percival Lowell, um rico erudito de Boston que, em 1893, passou a defender a ideia de que os canais eram artefatos de uma civilização marciana. Como astrônomo, Lowell era amador, mas não maluco.

Ele construiu seu próprio observatório nas cercanias de Flagstaff, no Arizona, a mais de 2 mil metros de altitude e, em suas palavras, “longe da fumaça dos homens”. Seus desenhos da superfície de Marte foram considerados melhores que os de Schiaparelli até mesmo por astrônomos hostis a suas teorias. Lowell sugeriu que Marte era um planeta agonizante, cujos habitantes inteligentes estavam combatendo o ressecamento de seu globo com um sistema de canais de irrigação, os quais distribuíam a água cada vez mais rara armazenada nas calotas polares.

Tal concepção foi dramatizada por H.G. Wells em um clássico da ficção científica, A Guerra dos Mundos (1898). Os marcianos que invadem a Terra, embora de aparência medonha e impiedosos em suas ações, ainda assim são merecedores de uma dose de imparcial simpatia humana. Dotados de equipamentos avançados e inteligência apurada, eles espiam com inveja através do espaço o “nosso planeta mais cálido, esverdeado pela vegetação e acinzentado pela água”. [88]

No meio século subsequente de fantasia marciana, o planeta ocupou a posição de gêmeo espectral da Terra, sobre o qual eram projetadas nossas preocupações e angústias terrenas. Questões contemporâneas, como o colonialismo e o esgotamento dos recursos naturais encontraram espaço em utopias marcianas. Um ramo menor da ficção científica mostrou Marte como o local de uma pós-vida cristã; no livro Out of the Silent Planet (1938), C.S. Lewis inventou um mundo, Malacandra, que não conhecia o pecado original. A série de romances marcianos de Edgar Rice Burroughs apresentava o planeta como uma fronteira agreste e racialmente diversificada. Na esteira de Burroughs, os livretos de ficção acasalavam terrestres e marcianos, estes últimos em geral sob a forma de uma donzela, reunida a um viril agressor ariano originário de nosso violento planeta. Os etéreos e mulatos marcianos de olhos amarelos nas Crônicas Marcianas (1950), de Ray Bradbury, são extintos em meio à brutal pilhagem realizada por invasores humanos.

Contudo, toda a excêntrica megafauna marciana - os coriáceos amálgamas com tentáculos e cabeça desproporcional imaginados por Wells; os indivíduos quase rubros com 5 metros de altura concebidos por Garrett Serviss; os tharks cor de oliva com 3 metros e quatro braços de Burroughs; os hrossa parecidos com castores e os exímios pfiftriggi criados por Lewis; e as “criaturas grandes como ursos-polares” que Carl Sagan imaginou -, tudo isso se viu relegado ao esquecimento após a divulgação das fotos efetuadas pela sonda Mariner 4 em 14 de julho de 1965, desde uma altitude de 10 mil quilômetros. A região de Marte captada em sua primitiva câmera digital não mostrava nenhum canal, nenhuma cidade, nenhuma água e nenhum sinal de erosão. Marte era mais parecido com a Lua que com a Terra. As crateras intocadas indicavam que as condições da superfície não se tinham alterado em mais de 3 bilhões de anos. O planeta estava morto.

Duas outras sondas Mariner, lançadas em 1969, enviaram 57 imagens que, nas palavras da Nasa, “revelavam que Marte era coberto de crateras, estéril, gélido, quase sem atmosfera e inóspito a qualquer tipo de forma de vida similar às terrestres”.Noentanto, a Mariner 9, uma sonda orbital enviada em 1971, transmitiu, ao longo de 146 dias, 7 mil fotos de uma topografia variada e violenta, com imensos vulcões, dos quais o maior, o Olympus Mons, chega a 20 quilômetros de altitude, e um sistema de desfiladeiros, Valles Marineris, que se estende por 4 mil quilômetros, [89] a distância entre Nova York e Los Angeles. Enormes leitos fluviais escavados e ilhas em forma de lágrima atestam a ocorrência de inundações maciças no passado, presumivelmente de água, a condição da vida como a conhecemos aqui. Em 1976, duas sondas Viking pousaram bem na superfície marciana, e ali realizaram engenhosos experimentos químicos cujos resultados, no que tange à existência de vida no planeta, ainda hoje continuam a provocar discussões.

Nesse meio tempo, aumentou nosso conhecimento geográfico e geológico de Marte. O triunfante passeio do pequeno robô Sojourner, em 1997, foi seguido, em 2004, do êxito de dois robôs móveis, o Spirit e o Opportunity. Após quatro anos de movimentação no planeta vermelho, movidos por energia solar, os robôs gêmeos nos enviaram imagens com detalhes jamais vistos. As marcas paralelas das esteiras do Spirit e do Opportunity abrem caminho por entre rochas e poeira que durante eternidades não foram perturbadas sob céus rosados e Sol perolado.

Agora a missão Phoenix, cuja sonda possui braço articulado, coletores, imageadores e analisadores de excepcional complexidade, vai nos revelar o que há nos centímetros abaixo da superfície de pó, areia e gelo na região polar setentrional de Marte. Punhados da matéria de outro planeta terão seus elementos químicos volatilizados, separados e identificados, fornecendo mais dados sobre a história do cosmo. Enquanto isso, a Mars Reconnaissance Orbiter, a mais nova das três sondas em órbita ao largo do planeta, alimenta os computadores da Universidade do Arizona com fotos nítidas dos acidentes da superfície marciana. Algumas dessas imagens colorizadas artificialmente parecem abstratas, mas, para quem sabe ver, trazem incrível quantidade de informações científicas.

No fim das contas, o planeta vermelho não está tão morto assim: avalanches e tempestades de poeira foram registradas pelas câmeras e, nos pólos, a sublimação sazonal de gelo seco produz erosão e deslocamentos do solo. As dunas mudam de lugar; remoinhos de pó inscrevem garatujas na frágil superfície. Descubram-se ou não indícios de vida microbiana ou liquenácea em meio à montanha de dados acumulados pelos cientistas, Marte vem se tornando um vizinho cada vez mais próximo, e uma província do saber humano. Aquelas visões obscuras e fantasiosas do planeta do fogo bruxuleante acabaram nos proporcionando imagens panorâmicas e próximas mais belas que qualquer coisa imaginada. [91]

Sistema Solar | Texto
Por Robert Dinwiddie
A Terra, as constelações e observações celestes

Objetos no Universo – galáxias, estrelas, planetas, nebulosas – estão espalhados ao longo de três dimensões do espaço e uma do tempo. Vistas de locais vastamente separados no Universo, suas posições relativas parecem separados no Universo, suas posições relativas parecem completamente diferentes. Para encontrar objetos no espaço, estudar seus movimentos e fazer mapas celestes os astrônomos necessitam de um referencial comum, e, para a maior parte dos casos, este referencial é a própria Terra. O elemento primário desta vista desde a Terra é a esfera celeste – uma esfera fictícia na qual os astrônomos consideram que as estrelas estão fixas. Os movimentos aparentes dos objetos celestes podem ser relacionados aos movimentos reais da Terra, dos planetas (em orbita em torno do Sol), da Lua (em órbita da Terra), e das estrelas enquanto se movimentam dentro da Via Láctea. A compreensão da esfera celeste e as convenções para denominar e encontrar objetos nela são questões essenciais em astronomia.

A esfera celeste

Durante séculos os seres humanos souberam que estrelas estão a diferentes distâncias da Terra. Mas, para registrar suas posições no céu, imaginavam que estivessem fixas em uma esfera englobando a Terra. A ideia dessa esfera também ajuda os astrônomos a compreender a localização da Terra, as horas do dia e como a época do ano afeta o que veem no céu noturno.

O céu como uma esfera

Para um observador na Terra, as estrelas parecem mover-se lentamente no céu noturno. Seu movimento é causado pela rotação da Terra, embora pareça ser o céu que está girando em torno do planeta. Para o observador, o céu pode ser imaginado como o interior de uma esfera, conhecida como esfera celeste, onde as estrelas estão fixas e que revolve em torno da Terra. Esta esfera tem características relacionadas com a esfera real da Terra. Ela tem polos norte e sul, exatamente acima do Polo Norte e do Polo Sul na superfície terrestre. A esfera celeste é como uma versão celeste de um globo – as posições da estrelas e galáxias podem ser registradas nela, assim como as cidades da Terra têm suas posições de longitude e latitude em um globo.

Efeitos de latitude

Um observador na Terra pode, no máximo, ver somente metade do céu em cada instante (suponde um céu sem nuvens e um horizonte desobstruído). A outra. Metade é oculta pela Terra. De fato, para um observador em um dos polos celetes, uma metade específica da esfera em outras latitudes a rotação da Terra continuamente traz novas partes da esfera celeste para a vista e oculta outras. Isto implica por exemplo, que um observador em uma latitude 60º N ou 60º S, pode ver até três quartos da esfera celeste ao longo do tempo; um observador no equador verá toda a esfera celeste se aguardar o tempo suficiente.

Movimentos celestes diários

À medida que a Terra gira todos os objetos celestes se movem através do céu, embora os movimentos das estrelas e dos planetas se tornem visíveis apenas à noite. Para um observador em latitudes intermediárias as estrelas nas regiões polares da esfera celeste descrevem um círculo diário ao redor do polo celeste norte ou sul. O Sol, a Lua, os planetas e as estrelas se erguem no horizonte leste, descrevem um arco através do céu e se põem no oeste. Esse movimento é inclinado para o sul (para os observadores no hemisfério norte), ou para o norte (hemisfério sul) – quanto maior a latitude do observador, mais acentuada a inclinação. As estrelas têm posições aparentemente fixas na esfera celeste, e desse modo o padrão do seu movimento se repete com precisão a cada dia sideral. Os planetas, o Sol e a Lua sempre estão em movimento em relação à esfera celeste e, assim, o período de repetição deles é diferente do observador em relação às estrelas.

Movimentos celestes anuais

À medida que a Terra orbita o Sol, esta estrela parece mover-se contra o fundo do céu. Quando o Sol está em uma região do céu, seu clarão ofusca a luz dessa porção do céu, e assim torna-se difícil observar de qualquer parte da Terra uma estrela ou objeto aí localizado. A órbita da Terra também implica que a parte da esfera celeste no lado oposto da Terra segundo o Sol – isto é, a parte visível no meio da noite – também mude. A parte visível do céu, por exemplo, à meia noite em junho, setembro, dezembro ou março é significativamente diferente – ao menos para observadores na Terra em latitudes equatoriais ou intermediárias.

Coordenadas celestes

Os astrônomos, usando o conceito da esfera celeste, podem registrar e encontrar as posições das estrelas e outros objetos no céu. Para definir a posição de um objeto os astrônomos usam um sistema de coordenadas semelhante ao de latitude e longitude da Terra. As coordenadas são chamadas declinação e ascensão reta. Declinação é medida em graus e minutos de arco (60 minutos de arco = 1º) ao norte ou sul do equador, e assim é equivalente à latitude. Ascensão reta, a equivalente da longitude, é o ângulo de um objeto à leste do meridiano celeste. O meridiano é um alinha que passa por ambos polos celestes e apor um ponto no equador celeste chamado o primeiro ponto de Áries ou ponto equinocial vernal. A ascensão reta de um objeto pode ser dada em graus e minutos de arco ou em horas e minutos. Uma hora é equivalente a 15º porque 24 horas somam os 360º de um círculo.

Ciclos celestes

Para um observador na Terra os eventos celestes ocorrem dentro de um contexto de ciclos determinados pelos movimentos da Terra, do Sol e da Lua. Esses ciclos fornecem algumas das unidades básicas para medi ro tempo, como dias e anos. Eles incluem os movimentos aparentes diários dos objetos celestes através do céu, o movimento aparente anual do Sol contra a esfera celeste, o ciclo sazonal e o ciclo mensal das fases da Lua. Outros ciclos relacionados produzem eventos, previsíveis, com eclipses lunares e solares.

Caminho celeste do Sol

À medida que a Terra viaja em torno do Sol, para um observador na Terra, o Sol parece traçar uma trilha na esfera celeste chamado eclíptica. Devido ao ofuscamento pelo Sol esse movimento não é óbio, mas o Sol se move uma pequena distância cada dia contra o fundo das estrelas. A faixa do céu estendendo-se por 9 graus de declinação em ambos os lados da eclíptica é chamada zodíaco e incorpora 24 constelações inteiras ou parte delas. O Sol passa por 13 constelações, das quais 12 formam os “signos do zodíaco”. O Sol gasta um número variável de dias em cada uma dessas 13 constelações. Atualmente o Sol atravessa cada constelação em datas muito diferentes das astrológicas. Por exemplo, diz-se que alguém que nasceu entre 21 de março e 19 de abril, é do signo de Áries, embora agora, o Sol passe por Áries entre 19 de abril e 23 de maio. Essa disparidade é parcialmente causada por um fenômeno chamado precessão.

Precessão

O eixo de rotação da Terra é inclinado em relação à eclíptica por 23,5º. Essa inclinação é essencial para causar as estações. Atualmente, o eixo aponta para uma posição na esfera celeste norte (o polo celeste norte) próxima à estrela Polar, mas não foi sempre assim. Como um pião rodopiando, a Terra executa um lento “bamboleio”, que altera a direção deste eixo com um ciclo de 25.800 anos. O bamboleio, chamado precessão, é provocado pela gravidade do Sol e da Lua. A precessão também causa a mudança gradual das localizações do polo osul celeste, do equador celeste, e de dois outros pontos de referência na esfera celeste, chamados pontos equinociais. As coordenadas das estrelas e outros objetos “fixos”, como galáxias, portanto mudam, e assim os astrônomos devem referi-las a uma época “padrão” a cada 50 anos. O padrão autal era exatamente correto em 1º de janeiro de 2000.

As estações

A óbita da Terra ao redor do Sol é de 365,25 dias e fornece uma unidade fundamental de tempo, o ano. As estações da Terra resultam da inclinação do seu eixo em relação a sua órbita. Devido à inclinação da Terra um outro hemisfério está apontado em direção ao Sol. O hemisfério que se inclina em direção ao Sol recebe mais luz solar, e portanto está mais quente. Cada ano, o hemisfério norte atinge a inclinação mínima em direção ao Sol por volta de 21 de junho – solstício de inverno no hemisfério sul e solstício de verão no hemisfério norte. Por algum tempo, em torno dessa data, a região polar norte é iluminada o dia todo enquanto a região polar sul está na escuridão. Ao contrário, em torno de 21 de dezembro, a situação é invertida. Entre os solstícios estão os equinócios, quando o eixo de rotação da Terra se coloca de lado em relação ao Sol e as durações do dia claro e da noite são iguais para todos os pontos da Terra. A inclinação da Terra também define os trópicos. O sol está no zênite ao meio dia no trópico de Câncer (23,5° N) por volta de 21 de junho, e no trópico de Capricórnio (23,5°A) por volta de 21 de dezembro, e diretamente acima do equador ao meio dia durante os equinócios.

Medindo os dias

Cada dia a Terra completa uma rotação em torno de seu eixo, e a maior parte dos locais em sua superfície passam da claridade para a sombra e de volta à claridade, produzindo o ciclo dia-noite. Contudo, há duas definições possíveis para o que seria o dia, e, apenas uma para uma delas, o dia solar, sua duração é exatamente 24 horas. Um dia solar é definido pelo movimento aparente do Sol no céu produzido pela rotação da Terra. É o intervalo de tempo que o Sol leva para retornar ao seu ponto mais alto no céu desde o mesmo ponto onde estava no dia anterior. O outro tipo de dia, o dia sideral, é definido pela rotação da Terra relativa às estrelas. É o intervalo de tempo que uma estrela leva para retornar ao ponto mais alto no céu em dias sucessivos. Um dia sideral é 4 minutos mais curto que um dia solar.

Medindo os meses

O conceito de mês é baseado na órbita da Lua em torno da Terra. Ao longo de cada órbita lunar o ângulo entre Terra, Lua e Sol muda continuamente, dando origem às fases lunares. O ciclo de fases – Lua Nova (quando a Lua está entre a Terra e o Sol), crescente, quarto, convexa, Lua Cheia (quando a terra está entre a Lua e o Sol – e depois, em ordem reversa de volta à Lua Nova, dura 29,5 dias e define o mês lunar. Contudo, o movimento orbital da Terra em torno do Sol torna mais complexa a expressão do mês, do mesmo modo como acontece com a definição do dia. De fato, em relação ao fundo das estrelas,  a Lua leva 27,3 dias para completar sua órbita. É o chamado mês sideral. A disparidade provém da alteração dos ângulos entre Sol, Terra e Lua, pelo movimento orbital da Terra. Após um mês sideral, a Lua deve ainda orbitar um pouco mais para retornar ao alinhamento original com a Terra e o Sol (um mês lunar).

Eclipses lunares

À medida que a Lua órbita a Terra periodicamente atravessa a sombra das Terra – ocorrência chamada eclipse luar – ou bloqueia a luz solar em uma parte da superfície terrestre – um eclipse solar. Eclipses não acontecem todos os meses, por que o plano da Terra não coincide como o plano orbital da Terra em torno do Sol. Contudo um eclipse do mesmo tipo corre várias vezes ao ano. Eclipses lunares ocorrem duas ou três vezes ao ano, sempre durante a Lua cheia. Os astrônomos classificam os eclipses lunares em três diferentes tipos. Em um eclipse penumbral, a Lua passa pela penumbra (sombra parcial) da Terra, provocando ligeira diminuição do brilho da \lua. Em um eclipse parcial, uma parte da Lua atravessa a umbra (sobra total) da Terra enquanto em um eclipse total a Lua toda passa pela umbra.

Eclipses solares

Um eclipse solar ocorre quando a Lua bloqueia a luz solar, impedindo-a de alcançar uma parte da Terra. Durante um eclipse total, observadores dentro de uma faixa na superfície terrestre, chamada faixa de totalidade, testemunham o Sol totalmente obscurecido pela Lua por uns poucos momentos. Fora desta área há uma região maior, onde observadores veem o Sol apenas parcialmente obscurecido. Mais comuns são os eclipses parciais, que não têm faixa de totalidade. Um terceiro tipo de eclipse solar é o anular, que ocorre quando a Lua está mais longe da terra que a média, e assim seu disco é pequeno demais para cobrir o disco do Sol. No máximo de um eclipse anular a Lua se assemelha a um disco escuro dentro de um delgado anel de luz solar. Os eclipses solares acontecem duas ou três vezes por ano, mas eclipses totais ocorrem somente uma vez a cada aproximadamente 18 meses. Durante o período de totalidade, a coroa do Sol (sua atmosfera exterior quente) torna-se visível.

Movimento planetário

Os planetas no sistema solar estão evidentemente muito mais próximos da Terra que as estrelas e, enquanto orbitam o Sol, parecem deslocar-se contra o fundo estrelado. O movimento é influenciado pela translação da Terra em torno do Sol, que muda o ponto de vista de observadores na Terra. Os planetas mais próximos do Sol movem-se mais rapidamente que os mais distantes; isto é parcialmente devido a efeitos de perspectiva mas também porque a velocidade de um planeta é maior quando ela está mais perto do Sol.

Planetas inferiores e superiores

Em termos de seus movimentos no céu como vistos da Terra os planetas são divididos em dois grupos. Os planetas inferiores, Mercúri e Vênus, são aqueles cuja órbita é mais próxima do Sol que a Terra. Eles nunca se afastam do Sol na esfera celeste – o maior ângulo com respeito ao Sol (elongação máxima) é 28° para mercúrio e 45° para Vênus. Porque eles estão próximos da Terra têm velocidade orbital elevada, ambos movem-se rapidamente contra as estrelas de fundo. Eles também apresentam fases, como as da Lua, devido à variação e ângulo entre a Terra, o planeta e o Sol. Todos os demais planetas, de Marte para fora, são chamados planetas superiores. Eles não estão “presos” ao Sol na esfera celeste, desse modo, também podem ser vistos no meio da noite. Com exceção de Marte, os planetas superiores estão muito longe da Terra para mostrarem fases distintas e se movem lentamente na esfera celeste –quanto mais longe do Sol, mais lento seus movimentos.

Movimento retrógrado

Os planetas em geral se movem no céu de oeste para leste contra o fundo sideral, noite após noite. Porém, periodicamente, um planeta move-se de leste para oeste por um breve período –  um fenômeno chamado movimento retrógrado. O movimento retrógrado é um efeito de mudança de perspectiva. Planetas como Marte mostram movimento retrógrado quando a Terra “ultrapassa” os outros planetas em oposição (quando a Terra se posiciona entre o planeta superior e o Sol). Os planetas inferiores Mercúrio e Vênus mostram movimento retrógrado em ambos os lados da conjunção inferior. Eles ultrapassam a Terra quando passam entre a Terra e o Sol.

Alinhamento no céu

Como todos os planetas orbitam o Sol aproximadamente no mesmo plano, eles nunca se afastam muito da faixa no céu chamada zodíaco. Não é incomum que vários planetas esejam na mesma parte do céu, muitas vezes dispostos mais ou menos segundo uma linha. Esses eventos, chamados conjunções planetárias, não têm significado mais profundo, mas podem ser uma visão espetacular. Outro tipo de alinhamento, denominado trânsito, ocorre quando um planeta inferior coloca-se diretamente entre a Terra e o Sol, cruzando o disco solar. Um par de trânsito de Vênus, separados por oito anos, ocorre em períodos maiores que um século, enquanto que os trânsitos de Mercúrio acontecem cerca de 12 vezes por século. Antigamente, esses trânsitos possibilitavam aos astrônomos obterem dados mais precisos sobre distâncias no Sistema Solar. Um tipo final de alinhamento é quando um corpo celeste passa à frente de outro ocultando-o. Ocultações de um planeta por outro, como Vênus encobrindo Júpiter, ocorrem umas poucas vezes por século. Em contraste, ocultações de um dos planetas brilhantes pela Lua podem ocorrer 10 ou 11 vezes por ano.

Movimentos e padrões estelares

As estrelas parecem fixas na esfera celeste, mas de fato suas posições estão mudando, ainda que muito lentamente. Há duas contribuições a este movimento: um balanço minúsculo, anual da posição no céu, denominado paralaxe; e um movimento contínuo, chamado movimento próprio. Para o registro dos movimentos das estrelas, e de suas propriedades como brilho e cor, cada estrela precisa de um nome, Os sistemas de denominação e catálogos estelares têm suas raízes nas constelações, que foram criadas para descrever os padrões formados pelas estrelas no céu.

Paralaxe

Paralaxe é uma mudança aparente na posição de um objeto relativamente próximo contra um fundo mais distante quando a posição do observador muda. Quando um observador tira duas fotografias de uma estrela próxima de lados opostos da órbita terrestre em torno do Sol, a posição da estrela contra o fundo de estrelas muda ligeiramente. Quando o observador mede o valor deste deslocamento, sabendo o diâmetro da órbita terrestre, ele pode calcular a distância até a estrela usando trigonometria. Até recentemente esta técnica era limitada a estrela dentro de poucas centenas de anos-luz, porque os deslocamentos de estrelas distantes eram pequenos demais para serem medidos com precisão. Instrumentos mais precisos a bordo de satélites, alcançaram uma precisão muito maior: aqueles a bordo do satélite Hipparchos permitem derivar distâncias estelares até alguns milhares de anos-luz da Terra. Para estrelas ainda mais distantes, o paralaxe é insignificante e outros métodos de estimar distâncias devem ser utilizados.

Movimentos próprios

Todas as estrelas da galáxia estão movendo-se em velocidades diferentes com respeito ao Sistema Solar, ao centro da galáxia, e uma com respeito à outra. Este movimento dá origem a um movimento angular aparente na esfera celeste chamado movimento próprio – medido em segundos de arco por ano. A maior parte das estrelas está tão distante que seus movimentos próprios são desprezíveis. Cerca de 200 têm movimentos próprios maiores que 1 segundo de arco por ano – ou 1 grau em 3.600 anos. A estrela de Barnard tem o maior movimento próprio, 10,3 segundos de arco por ano. Em apenas 180 anos ela percorre o equivalente ao diâmetro da Lua cheia no céu. Se os astrônomos conhecerem tanto o movimento próprio de uma estrela quanto sua distância, poderiam calcular sua velocidade transversa com relação à Terra – isto é, sua velocidade perpendicular à linha de visada desde a Terra. O outro componente da velocidade da estrela relativa à Terra é sua velocidade radial (segundo a linha de visada), derivada a partir do deslocamento Doppler das linhas espectrais da estrela.

O brilho das estrelas

O brilho de uma estrela no céu depende de sua distância até nós e de sua luminosidade intrínseca (a quantidade de enrgia que irradia no espaço por segundo). Para comparar a aparência que as estrelas teriam se estivessem à mesma distância, os astrônomos usam uma escala de brilho intrínseco, a magnitude absoluta. Nessa escala, grandes números positivos assinalam objetos fracos e números negativos, objetos luminosos. O brilho de uma estrela, como visto da Terra, é dado pela magnitude aparente. Assim, quanto menor o valor da magnitude aparente de uma estrela, mais brilhante ela é. Estrelas com magnitude aparente de +6 estão no limiar de detecção a olho nu, enquanto as magnitudes aparentes das 50 estrelas mais brilhantes estão entre +2 e 0. As quatro estrelas mais brilhantes (Sirius é a campeã) têm magnitudes aparentes negativas.

Constelações

Desde a antiguidade as pessoas veem formas imaginárias nos grupos de estrelas no céu. Usado linhas, conectaram as estrelas nesses grupos para formar figuras chamadas constelações e as denominaram conforma as formas que representavam. |cada constelação tem um nome latino, que, na maioria dos casos, é o de um animal, um objeto, como Crater (a taça), ou um personagem mitológico, como Hércules. Algumas constelações são fáceis de se reconhecer, como Órion (o Caçador); outras, como Piscis (Peixes) são menos distinguíveis. Desde 1930 um sistema acordado internacionalmente divide a esfera celeste em 88 áreas desiguais, contendo essas figuras. De fato, do ponto de vista astronômico, o termo “constelação” agora é aplicado à área contendo a figura em vez de a própria figura. Todas as estrelas dentro das fronteiras de uma constelação pertencem àquela constelação, embora elas não estejam conectadas às estrelas que produzem a figura da constelação. Dentro de algumas constelações há, às vezes, grupos distintivos de estrelas chamados asterismos; incluem o cinturão de Órion (As Três Marias) e o Arado ou “Big Dipper” (um grupo de sete estrelas na constelação da Ursa Maior). Uns poucos asterismos vão além dos limites de uma constelação. Por exemplo, a maior parte do asterismo “Quadrado de Pégaso” está em Pégaso, mas um de seus cantos está em Andrômeda.

Nomeando as estrelas

A maioria das estrelas têm antigos nomes de origem babilônica, grega ou árabe. O nome Sirius, por exemplo, vem da palavra grega significando “ardente”. A primeira nomeação sistemática das estrelas foi introduzida por Johann Bayer em 1603. Bayer distingui até 24 estrelas em uma constelação, rotulando-as com letras gregas, e em seguida recorreu a letras latinas minúsculas de aa z. Em 1712, o astrônomo inglês John Flamsteed introduziu um outro sistema, no qual as estrelas eram numeradas na ordem de sua ascensão reta de oeste para leste através de sua constelação. Estrelas usualmente são nomeadas combinando-se sua letra de Bayer ou número de Flamsteed com o nome latino da constelação (no caso genitivo) – assim 56 Cygni indica a estrela que está na posição 56 com respeito ao limite ocidental da constelação do Cisne. Desde o século 18, numerosos outros catálogos de estrelas identificaram e numeraram muito mais estrelas fracas, e sistemas especializados foram elaborados para catalogar estrelas variáveis, binárias e múltiplas.

Catálogos de objetos nebulosos

Além de estrelas individuais, vários outros tipos de objetos, como aglomerados estelares, nebulosas e galáxias, têm posições praticamente fixas na esfera celeste. A maioria desses objetos sugere borrões enevoados no céu, mesmo através de um telescópio. A primeira pessoa a catalogar esses objetos foi o astrônomo francês Charles Messier no século XVIII. Ele compilou uma lista de 110 objetos difusos, embora nenhum dos céus da região polar sul – isto porque Messier realizou suas observações em Paris, e qualquer coisa com declinação abaixo de 40° S estaria abaixo do horizonte. Em 1888, um catálogo muito maior, o chamado New General Catalogue of Nebulae e Star Clusters(NGC) foi publicado, em ais tarde expandido pelo chamado Index Catalogue(IC). Atualmente, o NGC e o IC são importantes catálogos de nebulosas, aglomerados estelares e galáxias. Sua versão atual cobre todo o céu e fornece dados de mais de 13000 objetos, todos identificados por números NGC ou IC. Além disso, centenas de catálogos especializados são utilizados, cobrindo diferentes tipos de objetos, regiões do céu e porções do espectro eletromagnético. Muitos catálogos são agora mantidos como bases de dados disponíveis na internet.

Luzes no céu

Do mesmo modo que estrelas, galáxias nebulosas, luminosas e objetos do Sistema Solarr, outros fenômenos levam à aparição de luzes no céu. Em geral estas luzes se originam de fontes ou partículas de matéria lançadas na Terra pelo Sol por vários meios indiretos, mas em alguns casos, são geradas por processos terrestres. Observadores amadores devem estar atentos a estas fontes de luz noturna para evitar confusão com fenômenos astronômicos.

Auroras

As auroras boreais (Norte) e as auroras austrais (Sul) aparecem quando as partículas carregadas do Sol, transportadas para a Terra pelo vento solar, são aprisionadas pelo campo magnético terrestre. Elas são então aceleradas para regiões acima dos polos magnéticos Norte e Sul, onde excitam partículas do gás da atmosfera superior, 100-400 km acima da superfície terrestre. A aparência e localização das auroras mudam em resposta ao vento solar. Elas são mais frequentemente visíveis a altas latitudes, próximas aos polos magnéticos da Terra, mas podem ser vistas durante perturbações no vento solar, como ocorre após ejeções de massa do Sol.

Halos de gelo

Halos atmosféricos são causados por cristais de gelo na alta atmosfera refratando luz. A luz tanto do Sol como da lua (no fundo, luz solar refletida) pode causar halos. O halo mais comum é um círculo de luz com raio de 22° em torno do Sol ou da Lua. Também podem estar presentes chapiscos de luz chamados parasselênios (ao lado da Lua) ou parélios (ao lado do Sol), arcos ou círculos de luz que parecem passar pela Lua ou pelo Sol. Todos estes fenômenos resultam dos ângulos idênticos entre as faces dos cristais de gelo atmosféricos. Mesmo que os sinais não estejam alinhados, tendem a defletir a luz em algumas direções preferenciais.

Luz zodiacal

Uma luminescência débil às vezes é vista no céu oriental antes do nascer-do-sol ou ocasionalmente no oeste depois do pôr-do-sol. Chamada luz zodiacal, é causada pela luz solar espalhada por partículas de poeira interplanetária no plano do Sistema Solar – no plano da eclíptica. A mistura de comprimento de onda é a mesma do espectro solar. Um fenômeno correlato é o gegenschein (“contra-brilho”) em alemão, que é algumas vezes perceptível em uma noite escura, longe de qualquer poluição luminosa, como uma mancha na esfera celeste diretamente oposta à posição do Sol no céu. Acredita-se que as partículas de poeira no espaço responsáveis tanto pela luz zodiacal como pelo gegenschein provem de colisões de asteroides e cometas e tem diâmetro de cerca de 1mm.

Nuvens noctilucentes

Nuvens a alturas elevadas (por volta de 80km) podem brilhar á noite por refletirem a luz solar, bem depois do pôr-do-sol. Essas nuvens noctilucentes (“brilhando a noite”), podem ser vistas depois do poente ou antes do nascer-do-sol. Acredita-se que consistem de partículas cobertas de gelo que refletem a luz solar. Nuvens noctilucentes são mais frequentemente vistas entre latitudes 50° e 65° note ou sul, de maio a agosto no Hemisfério Norte, e de novembro a fevereiro no Hemisfério Sul. Elas também podem formar-se em outras latitudes e épocas do ano.

Luzes móveis e flashes

Muitos fenômenos provocam luzes móveis e flashes no céu. Rápidos riscos de luz são provavelmente meteoros ou estrelas cadentes – partículas de poeira penetrando a atmosfera e queimando-se. Uma variante maior e muito rara é um “fireball” – simplesmente um rápido meteoro em combustão. Luzes movendo-se lentamente, com brilho constante ou intermitente são provavelmente aeronaves, satélites ou espaçonaves em órbita. Grandes flashes de luz são em geral descargas elétricas conectadas a tempestades de raios. Recentemente, os meteorologistas identificaram novos tipos de relâmpagos, entre elas os “red sprites” (duendes vermelhos) e os “blue jets” (jatos azuis). Ambos são descargas elétricas entre os todos de nuvens de tempestades e a ionosfera acima.

Astronomia a olho nu

Instrumentos ópticos não são necessários para se adquirir uma base em astronomia – nossos ancestrais observaram o céu sem eles por milhares de anos. O observador a olho nu, com algum conhecimento prévio e alguns equipamentos básicos, pode apreciar as constelações, observar os objetos mais brilhantes de céu profundo e acompanhar as trajetórias da Lua e dos planetas no céu noturno.

Observando a olho nu

Há alguns preparativos para se obter o máximo da observação a olho nu. O olho humano leva uns 20 minutos para se ajustar à escuridão e, quanto mais a pupila se abre, objetos mais fracos e mais detalhes tornam-se visíveis. Olhe um planisfério ou um guia celeste mensal para ver o que é visível no céu agora. Uma boa localização deve ser protegida das luzes da cidade, e idealmente, longe de seu brilho indireto. Tente eviar qualquer luz artificial – se necessário, use uma lanterna com um filtro vermelho. Mantenha um diário ou folhas de relatório preparadas para registrar as observações, principalmente se estiver buscando fenômenos particulares, como meteoros. Para ver estrelas fracas e objetos de céu profundo, evite noites quando a Lua ofusca o céu. Mesmo em uma noite escura, sem nuvens, a turbulência do ar pode afetar a qualidade da observação – as melhores noites são frequentemente aquelas que não ficam subitamente frias no pôr-do-sol.

Medidas no céu

Distâncias entre objetos celestes são frequentemente expressas em ângulos. O horizonte todo mede 360°, enquanto o ângulo do horizonte ao zênite (o ponto exatamente acima da cabeça) mede 90°. O Sol e a Lua têm ambos um diâmetro angular de 0,5/, enquanto uma mão esticada pode ser usada para estimar outros ângulos. Ao se estudar as cartas celestes, deve-se lembrar que uma hora de ascensão reta (R.A.) ao longo do equador celeste é equivalente a 15° de declinação, mas que os círculos de ascensão reta se estreitam em direção aos polos celestes, assim à 60°N, uma hora de diferença em R.A. é equivalente a somente 7,5° de declinação.

Saltando entre as estrelas

Um eficiente método de se orientar no céu é o “star-hopping”, que consiste em primeiro localizar umas poucas estrelas brilhantes de referência e depois saltar “hop” de estrela em estrela até áreas obscuras. Por exemplo, no Hemisfério Norte, pode-se usar como referências o Arado (na Ursa Maior) para a região próxima ao polo norte celeste e, no equador celeste, a ária em torno da constelação de Órion, incluindo o Triângulo de Inverno. “Saltando-se” pelas linhas entre certas estrelas brilhantes destas constelações pode-se encontrar outras estrelas e começar a entender o layout geral do céu. O arado é útil porque duas de suas estrelas se orientam com Polares, a estrela podar atual. Como o céu parece girar em torno dos polos celestes. Polaris é um ponto fixo no céu boreal. Já no Hemisfério Sul, não há estrela polar brilhante. Outras referências são, no Norte, o Triângulo de verão, compreendo as estrelas Veja. Deneb e Altair, e no Sul, o Cruzeiro do Sul e o Falso Cruzeiro.

Astronomia com binóculos

Para a maior parte dos principiantes em astronomia o equipamento mais útil é um binóculo. Além de ter uso fácil e confortável, o binóculo (diferentemente do telescópio) fornece imagens não-invertidas. Numerosos objetos astronômicos fascinantes podem ser observados com ele.

Características dos binóculos

Binóculos são como uma combinação de dois telescópios de baixa potência. As duas concepções principais do binóculo, chamados de prisma porro e de prisma roof, têm ópticas diferentes, mas ambos são úteis para astronomia. O mais importante ao escolher binóculos são os números principais descrevendo suas qualidades ópticas por exemplo7x50 ou 12x70. O primeiro algarismo é a magnificação. Para a maior parte dos principiantes uma magnificação 7x ou 10 é em geral adequada – com uma magnificação maior, torna-se mais difícil localizar objetos no céu. O segundo algarismo é a abertura, ou diâmetro das lentas objetivas, medida em milímetros. Este número exprime o poder coletor de luz do binóculo, que é importante para ver objetos mais fracos. Para observações do céu noturno, é preferível uma abertura de ao menos 50mm.

Usando binóculos

Não importa o tamanho do binóculo que o astrônomo escolha, pode ser difícil mantê-lo parado. Apoiar os cotovelos em algo sólido, como um muro, ou sentar-se em uma espreguiçadeira, podem ajudar a evitar que o binóculo vibre. Binóculos gigantes são pesados demais para se segurar com as mães, e assim, devem ser apoiados em um tripé. Outro problema comum é encontrar o objeto alvo no campo de visão, mesmo quando o objeto é visível a olho nu. Um método é estabelecer a posição do alvo com respeito a um objeto fácil de se localizar, e então navegar até o objeto alvo. Alternadamente, pode-se partir de uma referência reconhecível no horizonte.

Campo de visão do binóculo

O tamanho da área do céu vista por binóculos é o campo de visão, em geral, expresso como um ângulo. O campo de visão é intimamente relacionado à magnificação – maior a magnificação, menor o campo de visão. Um binóculo de média potência (10x) tem tipicamente um campo de visão de 6-8°. Isto oferece uma boa relação entre uma magnificação adequada e um campo de visão largo o suficiente para se ver a maior parte de um grande objeto como a galáxia de Andrômeda. Para se observar áreas ainda maiores, binóculos de baixa potência (5-7x), com um campo de visão de ao menos 9°, são mais adequados. Ao contrário, para olhar objetos compactos, como Júpiter e suas luas, é melhor se usar binóculos com maior magnificação e campo de visão de 3° ou mesmo menores.

Objetos para binóculos

Um primeiro objeto impressionante para um usuário de binóculo novato é a Nebulosa de Órion. Outras escolhas poderiam ser a galáxia de Andrômeda e as fabulosas nuvens de estrelas e nebulosas nas regiões de Sagitário e Escorpião na Via Láctea, incluindo a Nebulosa da Lagoa. Para observadores ao sul de 50°N, um excelente objeto para binóculos é o aglomerado estelar Omega Centauri. Para encontra-los, tudo o que é necessário são algumas cartas celestes ou software astronômico. Tente também observar a Lua, Júpiter e as suas luas, e as fases de Vênus.

Astronomia com telescópio

Telescópios são os instrumentos astronômicos por excelência – olhos artificiais que capturam e focalizam muito maior quantidade de luz que o olho humano captaria, trazendo os objetos débeis para dentro dos limites da visão humana. Eles assumem uma variedade de formas – os mais simples pouco evoluíram com respeito àqueles em uso quatro séculos atrás, enquanto que os mais avançados oferecem óptica de alta performance e controles computadorizados que eram exclusividade dos profissionais até recentemente.

Design de telescópios

A função de um telescópio é coletar luz de objetos distantes, focalizá-la e magnificá-la. Há dois meios básicos de se conseguir isto: ou usando um alente ou um espelho côncavo. Uma lente refrata a luz passando por ela, quebrando sua direção e convergindo-a para um ponto focal atrás dela. Um espelho curvado reflete os raios luminosos em trilhas convergentes para um foco na sua frente. Tanto lentes como espelhos focalizam somente raios luminosos que entram no telescópio mais ou menos paralelos, o que felizmente é o caso para objetos astronômicos, em vista de uma grande distância. Uma vez que os raios de luz ultrapassem o foco, eles passam a divergir, e é onde eles são capturados pr uma ocular que retorna os raios para caminhos paralelos, resultando em magnificação da imagem. Como os raios luminosos que entram na ocular cruzaram entre si ao passar pelo foco a imagem é, em geral, invertida. Os diferentes princípios dos telescópios baseados em lentes (refratores) e daqueles baseados em espelhos (refletores) ditam designs distintos.

Montagens

O modo como um telescópio é montado afeta seu desempenho. Os tipos mais comuns de montagem são a alto-azimutal – que permite ao instrumento mover-0se em altitude (para cima e para baixo) e em azimure (paralelo ao horizonte) – e a equatorial, que alinha os movimentos do telescópio com as linhas de declinação e ascensão reta no céu. Montantes alto-azimutais são fáceis de se executar, mas porque os objetos no céu estão constantemente mudando de altitude e azimute, acompanha-los exige um ajuste continuado de ambos. As montagens equatoriais são mais pesadas e se leva mais tempo para ajustá-las, porém, uma vez alinhadas com o polo, permitem acompanhar os objetos no céu com movimentos em torno de um único eixo.

Abertura e magnificação

Dois fatores principais afetam a imagem na ocular de um telescópio – abertura e magnificação. A abertura é o diâmetro do espelho próprio do telescópio ou da lente objetiva. A abertura está ligada ao seu “poder coletor” – o total de luz capaz de coletar. Dobrando a abertura quadruplica-se a área coletora, permitindo ao telescópio detectar objetos mais débeis. A magnificação é limitada pela abertura do telescópio, mas é controlada pelas propriedades da ocular. A potência de um ocular é identificada pela distância focal – a distância na qual ela focaliza um feito paralelo de raios luminosos. Oculares com foco mais curto produzem magnificação maior. Lentes objetivas e espelhos primários também têm distâncias focais, e dividindo esta distância focal pela distância focal da ocular obtém-se a magnificação total do conjunto. O projeto de uma ocular também afeta a porção de céu visível – o campo de visão.

Dispositivos de busca

Outro elemento vital de um telescópio é uma buscadora. Mesmo com as magnificações mais baixas o campo de visão de um telescópio é estreito demais para a navegação e, pelo simples apontamento do telescópio na direção do objeto, é improvável acha-lo. Buscadores são presas do lado de um telescópio e alinhadas precisamente na mesma direção. As buscadoras mais populares são simplesmente telescópios e baixa potência com dispositivo localizador chamado retículo, constituído por fios cruzados. Outros tipos projetam um retículo alvo preciso em uma visão do céu não-magnificada, indicando precisamente para onde o telescópio está apontando.

Telescópio computadorizado

Computadores simplificam o árduo trabalho de rastrear e observar débeis objetos de céu profundo ou cometas e asteroides obscuros. Um conhecimento básico de astronomia ainda é necessário, mas uma vez que o instrumento esteja propriamente ajustado, bases de dados computadorizadas e motores automáticos podem tornar simples a localização e acompanhamento de objetos. A maior parte dos telescópios amadores de qualidade vem com controles manuais e podem formar interfaces com computadores de mesa ou notebooks. Bases de dados de localizações e órbitas podem ser atualizadas via internet. Muitos são equipados com sistemas de navegação por satélite GPS. Com o GPS um telescópio pode identificar sua localização na superfície terrestre e usar seus motores para compensar os movimentos do céu sem que o usuário tenha que alinhar sua montagem equatorial precisamente.

Software astronômico

Telescópios computadorizados estão equipados com softwares para controlar o instrumento a partir de um computador, mas outros pacotes também estão disponíveis. Softwares de planejamento permitem que o observador organize suas observações oferecem recursos para registrar notas e armazenar imagens. Softwares de planetário de mesa recriam o céu noturno da tela de um computador em qualquer localização ou tempo desde um passo distante até um futuro remoto. Alguns programas, como o livre Celestia, podem simular a visão em qualquer lugar no Sistema Solar ou na galáxia.

Usando filtros

Os filtros fazem uma enorme diferença quando observamos com um telescópio. Eles são discos coloridos que se acoplam à ocular e filtram ceras cores da luz. Eles podem eliminar a poluição luminosa, acentuar o contraste na superfície de planetas e objetos, ou enfatizar comprimentos de onda particulares emitidos por certos fenômenos. Contudo os chamados “filtros solares”, que são presos a uma ocular são perigosos, pois trincam facilmente a nunca são confiáveis para se olhar o Sol.

Astrofotografia

Enquanto muitos astrônomos amadores gostam de desenhar os objetos que eles vêem através de seu telescópio a fotografia é o meio definitivo de se registrar o céu. Câmaras fotográficas tipo SLR (single-lens-reflex) ou refles de lente única são as mais versáteis para astrofotografia – a principal exigência é que a câmara tenha uma função que mantenha o obturador aberto e o filme exposto por tanto tempo quanto necessário. Um disparador de cabo para abrir o obturador e sem tocar na câmera também auxiliará a evitar tremores e borrões na imagem. A câmara pode ser usada independentemente, em piggybackcom um telescópio para guiagem, ou a presa ao foco principal do telescópio no luar de uma ocular. Os melhores resultados exigem filmes rápidos, especializados que reagem prontamente mesmo a níveis muito baixos de luz. Contudo, deve-se sempre fazer um teste, porque filmes rápidos têm grãos fotossensíveis maiores que resultam em uma imgem mais grosseira. Alguns astrofotógrafos vão até extremos para obter os melhores resultados resfriando seu filme a câmara toda para torna-los mais responsivos.

Astrofotografia digital

A maioria das câmaras digitais são limitadas a exposições curtas demais para capturar estrelas. Contudo, equipamentos digitais especializados, como detectores CCD (charge-coupled device), abrem possibilidades além do alcance do filme. CCDs podem ser mais sensíveis que filmes porque eles “contam” o número de fótons atingido cada parte  do chip, e o usuário pode combinar os dados de diversas exposições. Softwares de processamento de imagem podem então acentuar as imagens e extrair dados. Mesmo simples “webcams” podem registrar o céu noturno – com o software correto. Contudo mesmo o CCS com a resolução mais alta ainda não pode capturar a mesma resolução do filme.

Via Láctea | Texto
Por Robert Dinwiddie
O que é o Universo?

O Universo é tudo que existe, todo espaço e tempo e toda a matéria e energia no seu interior. O universo é inimaginavelmente vasto, e, desde sua formação, tem-se expandido, carregando e separando regiões, até a velocidade da luz, e, em alguns casos, superando-a. O Universo engloba tudo, desde o menor átomo até o maior aglomerado de galáxias, e, contudo, parece governado pelas mesmas leis básicas. Toda matéria visível (que é apenas uma pequena porcentagem da matéria total) é constituída das mesmas unidades subatômicas, e as mesmas forças fundamentais governam todas as interações entre esses elementos. O conhecimento desses princípios cósmicos operantes – desde a relatividade geral até a física quântica – fundamenta a cosmologia, o estudo do Universo como uma entidade. Os cosmólogos esperam responder questões como “Qual o tamanho do Universo?”, “Qual a sua idade?”, “Como ele opera nas maiores escalas?”.

A escala do Universo

Tudo no Universo faz parte de algo maior. A mente humana apreende com relativa facilidade a escala d terra e da Lua, mas a estrela mais próxima é remota e as galáxias mais distantes estão bilhões de vezes mais longe. Os cosmólogos, que estudam o tamanho e estrutura do Universo, usam modelos matemáticos para construir um quadro de vasta escala do Cosmos.

O tamanho do Universo

Cosmólogos podem jamais determinar exatamente o tamanho do Universo. Ele pode ser infinito. Alternativamente, poderia ter um volume finito, mas mesmo um universo finito não teria centro ou fronteira, e se curvaria sobre ele mesmo. Assim, paradoxalmente, um objeto viajando numa direção acabaria reaparecendo na direção oposta. O que é certo é que o Universo está em expansão desde sua origem no Big Bang, 13,7 bilhões de anos atrás. Estudando os padrões da radiação remanescente do Big Bang os cosmólogos podem estimar o tamanho mínimo do Universo, caso ele seja finito. Algumas partes devem estar separadas por ao menos dezenas de bilhões de anos-luz. Como um ano-luz é a distância que a luz viaja em um ano (9,46 trilhões de km), o Universo é incrivelmente grande.

O universo observável

Embora o Universo não tenha bordas e possa ser infinito, a parte dele à qual os cientistas têm acesso, é delimitada e finita. Denominada universo observável, é a região esférica em torno da Terra na qual a luz teve tempo de nos alcançar desde o início do Universo. A fronteira que separa esta região do restante do Universo é chamada horizonte de luz cósmico. A luz que chega à Terra proveniente de um objeto muito próximo deste horizonte viajou durante a maior parte da idade do Universo, isto é, 13,7 bilhões de anos. Pode-se dizer que esta luz percorreu cerca de 13,7 bilhões de anos-luz até nos alcançar. Essa distância de viagem da luz pode ser definida como distância “lookback” entre nós e o objeto remoto (já que, ao observá-lo, olhamos para trás no tempo).

Contudo, a verdadeira distância é muito maior, pois, desde quando a luz detectada na Terra deixou o objeto, ele foi arrastado para mais longe pela expansão do Universo.

Objetos celestes

O universo consiste de energia, espaço e matéria. Uma parte da matéria vagueia pelo espaço como átomos isolados ou moléculas gasosas simples. Outra se agrega em escalas diversas, desde ciscos de poeira a sóis gigantes, ou implode para formar buracos negros.

A gravidade liga todos estes objetos nas grandes nuvens e discos de matéria, as galáxias. Estas por sua vez, se ajuntam em aglomerados e formam os maiores de todos os objetos, os superaglomerados.

Gás poeira e partículas

Grande parte da matéria convencional do Universo existe como um gás tênue dentro e ao redor das galáxias, e mesmo mais diluído entre elas. O gás é constituído principalmente de átomos de hidrogênio e hélio, mas nuvens no interior das galáxias contêm átomos de elementos químicos mais pesados e moléculas simples. O gás das nuvens galácticas, está misturado com poeira —na forma de minúsculas partículas de carbono ou substâncias como silicatos (compostos de silício e oxigênio). Dentro das galáxias, gás e poeira constituem o chamado meio interestelar. Porções visíveis deste meio, muitas delas abrigando formação estelar, são as chamadas nebulosas. Algumas delas, nebulosas de emissão, produzem um brilho intenso devido a seus átomos constituintes absorverem radiação das estrelas e re-irradiarem como luz. Outras, as chamadas nebulosas escuras, são visíveis apenas como manchas que bloqueiam a luz estelar. No espaço existem também partículas de matéria na forma de raios cósmicos - partículas subatômicas de alta energia viajando a velocidades elevadíssimas através do Cosmos.

Estrelas e anãs marrons

A maior parte da luz do Universo vem das estrelas - bolas quentes de gás que geram energia a partir de fusão nuclear em seu centro. As estrelas se formam da condensação de adensamentos de gás e poeira em nebulosas, e muitas vezes, ocorrem em pares ou aglomerados. Dependendo da massa inicial as estrelas variam em cor, temperatura superficial, brilho e tempo de vida.  As estrelas mais massivas, conhecidas como gigantes e supergigantes, são as mais quentes e luminosas, mas duram apenas uns poucos milhões de anos. As estrelas de baixa massa (as mais numerosas) são pequenas, fracas, e vermelhas e podem viver bilhões de anos. Ainda menores são as anãs marrons. Estas são estrelas que falharam, com a massa e temperatura insuficientes para sustentar a fusão nuclear estelar, e emitem apenas uma débil luminosidade. Anãs marrons podem dar conta de boa parte da matéria convencional do Universo.

Remanescentes estelares

Estrelas não duram para sempre. Mesmo as menores, as anãs vermelhas, de vida mais longa, no fim se apagam. As de massa intermediária, como o Sol, expandem em grandes estrelas de baixa densidade, as chamadas gigantes vermelhas, de expelirem a maior parte de suas camadas exteriores. Elas então colapsam para formar anãs brancas que gradualmente se resfriam e se apagam. As camadas do material expulso, em expansão em volta dessas estrelas, constituem as nebulosas planetárias (embora não tenham nada a ver com planetas). Estrelas com maior massa têm fim ainda espetacular, desintegrando-se em explosões chamadas supernovas. A camada em expansão de matéria ejetada pode ser vista por milhares de anos; é o resto de supernova. Porém, nem todo material da estrela é expelido. Parte da região central colapsa em um objeto compacto extremamente denso chamado estrela de nêutrons. Estrelas de ainda maior massa colapsam em buracos negros.

Planetas e corpos menores

Acredita-se que o Sistema Solar (nossa própria estrela, o Sol, e tudo que gira em torno dele) foi formado de uma nuvem de gás e poeira que se condensou em um disco em rotação, o chamado disco protoplanetário. O material central se tornou o Sol, enquanto o material exterior formou os planetas e outros objetos menores, frios. Um planeta é uma esfera orbitando uma estrela e, diferentemente de anãs marrons, sem produzir fusão nuclear. Como há planetas e discos protoplanetários em torno de outras estrelas na nossa galáxia, é provável que planetas sejam comuns no Universo. No Sistema Solar, os planetas ou são gigantes gasosos, como Júpiter, ou corpos rochosos, menores, como a Terra e Marte. Já os corpos menores encaixam-se em diversas categorias. Luas são objetos que orbitam planetas e asteróides. Asteróides são corpos rochosos com diâmetro entre 50 m e 1.000 km. Cometas são blocos de gelo e rocha, com poucos quilômetros de diâmetro, cuja órbita chega aos confins do Sistema Solar. Planetas anões são similares a planetas, mas que, ao contrário desses, não limparam sua orbita. Meteoroides sao restos de cometas ou de asteróides destroçados.

Galáxias

O Sistema Solar ocupa apenas uma parte mínima da enorme estrutura discoidal de estrelas, gás e poeira, que é a Via Láctea. Há cerca de 100 anos, pensava-se que nossa galáxia constituía todo o Universo; poucos imaginavam a existência de qualquer coisa fora da Via Láctea. Hoje sabemos que apenas a parte observável do Universo contém mais que 100 bilhões de galáxias separadas. Elas variam de galáxias anãs, com poucas centenas de anos-luz de diâmetro e poucos milhões de estrelas a gigantes com vários trilhões de estrelas, estendendo-se por centenas de milhares de anos- luz. Além de estrelas, galáxias contêm gás, poeira e matéria escura, tudo mantido coeso pela gravidade. Há cinco formas de galáxias: espirais, espirais barradas, elípticas (desde esféricas até achatadas), lenticulares (em forma de lente), e irregulares. Astrônomos identificam as galáxias por números de um dos diversos catálogos de objetos celestes. Por exemplo, N G C 1530 indica a galáxia que é o objeto 1530 no New General Catalogue (NGC).

Buracos negros

Um buraco negro é uma região do espaço contendo no seu centro matéria comprimida até um ponto de densidade infinita, a chamada singularidade. Dentro de uma região esférica em torno da singularidade, a atração gravitacional é tão forte que nada consegue escapar, nem mesmo a luz. Buracos negros podem ser detectados, portanto, somente a partir do comportamento do material ao seu redor; aqueles
até agora descobertos tipicamente têm um disco de matéria e poeira em rotação em torno do buraco, lançando jatos de material a alta velocidade, ou emitindo radiação (como raios-X) a medida que matéria cai no buraco. Há dois tipos principais de buracos negros: os supermassivos e os estelares. Os buracos negros supermassivos, que podem ter bilhões de massas solares, habitam nos centros da maioria das galáxias, incluindo a nossa. Sua origem ainda não é bem compreendida, mas parecem ser subproduto do processo de formação de galáxias. Buracos negros estelares formam-se dos restos da explosão de estrelas supergigantes.

Aglomerados de galáxias

A gravidade agrega galáxias em aglomerados de dezenas a vários milhares de galáxias. Os diâmetros dos aglomerados variam de 3 a 30 milhões de anos-luz. Alguns têm uma região central concentrada e uma estrutura esférica bem definida; outros têm forma e estrutura irregulares. O grupo de galáxias contendo nossa própria galáxia é chamado Grupo Local. O vizinho Aglomerado de Virgo é um aglomerado irregular, com várias centenas de galáxias, situado a 50 milhões de anos-luz de nós. Cadeias de uma dúzia ou mais de aglomerados são ligadas frouxamente pela gravidade e constituem os superaglomerados, que podem ter até 200 milhões de anos-luz de extensão. Superaglomerados, por sua vez, formam espessas membranas e filamentos, entremeados com vazios de 100 milhões de anos-luz de diâmetro. As paredes e os vazios formam um rendilhado que permeia todo o universo observável.

Matéria escura e energia escura

Há muito mais matéria no Universo que aquela contida em estrelas e outros objetos visíveis. A matéria invisível é chamada “matéria escura”. Sua composição é incerta. Algumas formas dela seriam os MACHOs (objetos compactos massivos do halo) - corpos escuros planetoidais — e os WIMPs (partículas massivas fracamente interagentes) — partículas exóticas que interagem pouquíssimo com a matéria convencional. Os movimentos de galáxias em agjomerados constituem uma evidência da matéria escura. Elas se movem mais rápido que a gravidade apenas da matéria visível possa explicar; deve portanto haver uma massa adicional.

Porém, mesmo incluindo a matéria escura deduzida das observações, ela ainda é insuficiente para satisfazer as teorias de evolução do Universo. Para encontrar uma solução os cosmólogos propuseram a existência da “energia escura”, uma força que se opõe à gravidade e provoca expansão acelerada do Universo. A natureza exata da energia escura é ainda especulativa.

Matéria

Examinada na menor das escalas a matéria é composta de partículas fundamentais, algumas delas, governadas por várias forças, agrupam-se para formar átomos e íons. Mas há outras formas de matéria. A maior parte da massa do Universo consiste de “matéria escura”, cuja natureza exata é ainda desconhecida.

O que é matéria?

Matéria é tudo que possui massa – isto é, tudo que é afetado pela gravidade. A maior parte da massa da Terra é constituída por átomos e íons. Em outras partes do Universo, contudo, a matéria existe sob uma vasta gama de condições e assume uma variedade de formas. Desde o meio interestelar tênue até a matéria em buracos negros infinitamente densa. Nem toda a matéria é feita de átomos, mas toda matéria é feita de algum tipo de partícula. Certos tipos de partículas são fundamentais – isto é, elas não são compostas de subunidades menores. As partículas mais comuns da matéria convencional são os quarks e os elétrons, que constitituem os átomos e íons e formam toda matéria visível. Porém a maior parte da matéria do Universo não é convencional, mas matéria escura, constituída parcialmente de neutrinos, e talvez dos teóricos WIMPs (partículas massivas fracamente interagentes).

Átomos e íons

Átomos são compostos de dois tipos de partículas, os quarks e os elétrons. Os quarks são ligados pelos glúons, partículas sem massa mediadoras de força, em grupos de três. Estes grupos de quarks formam as partículas chamadas prótons e nêutrons. Estes se juntam nos núcleos, regiões compactas no centro dos átomos. A maior parte do átomo é espaço vazio, onde se movem os elétrons. Têm carga negativa e massa muito pequena — quase toda a massa do átomo está nos prótons e nêutrons. Átomos contêm um número igual de prótons (positivamente carregados) e elétrons (negativamente carregados), assim são eletricamente neutros. Se eles ganham ou perdem elétrons, tornam-se partículas carregadas chamadas íons.

Elementos químicos

Nem todos os átomos são iguais – eles têm diferentes números de prótons, neutros e elétrons. Uma substância constituída de átomos de uma só espécie é chamada elementos químicos, que recebe um número atômico igual ao se número de prótons, e assim de elétrons, em seus átomos. Exemplos são o hidrogênio com número atômico 1 (os átomos de hidrogênio contêm um próton e um elétron), hélio (número atômico 2) e carbono (número atômico 6). Os átomos de um dado elemento têm todos o mesmo número de prótons, e, contém a mesma configuração eletrônica, única deste elemento, e responsável por suas propriedades químicas específicas. O universo primitivo consistia quase que inteiramente de elementos mais leves, hidrogênio e hélio. A maioria dos demais, incluindo elementos comuns como oxigênio, carbono e ferro, foram criados em estrelas e explosões estelares.

Compostos químicos

A maior parte da matéria no Universo consiste de átomos não-ligados ou íons de uns poucos elementos químicos, mas uma parte significativa existe como compostos, contendo átomos de mais de um elemento, unidos por ligações químicas. Compostos aparecem em corpos como planetas e asteróides, em organismos vivos e no meio interestelar. Em compostos iônicos, como os sais, os átomos permutam elétrons, e os resultantes íons carregados são ligados por forças elétricas, e arranjados em uma rede cristalina rígida. Em compostos covalentes, como a água, os átomos formam estruturas chamadas moléculas pela partilha de elétrons entre si. Dois ou mais átomos idênticos podem combinar-se para formar moléculas de certos elementos.

Estados da matéria

A matéria convencional existe em quatro estados: sólido, líquido, gasoso, e plasma. Eles diferem com respeito à energia das partículas da matéria (moléculas, átomos, ions) e à liberdade de movimento das partículas. Substancias podem sofrer transições de um estado a outro, por exemplo, ao perder e ganhar energia. Os constituintes de um sólido estão presos por fortes ligações e mal podem se mover, enquanto em líquido, estão conectados apenas por ligações fracas e têm liberdade de movimento. Em um gás, as partículas são ligadas muito fracamente e se movem com grande liberdade, ocasionalmente colidindo. Um gás se toma um plasma quando é tão quente que colisões começam a remover elétrons dos átomos. Um plasma, portanto, consiste de íons e elétrons movendo-se com extrema energia. Como as estrelas são feitas de plasma, ele é o estado da matéria convencional mais comum no Universo seguido pelo estado gasoso.

Forças no interior da matéria

As ligações que unem os constituintes dos sólidos, líquidos, gases e plasmas são baseadas na força eletromagnética (EM). Essa força atrai as partículas de carga elétrica de sinal oposto e repele as de mesmo sinal. Essa é uma das três forças que controlam a estrutura de pequena escala da matéria. As outras são a força nuclear forte, composta de parte fundamental e residual, e a força nuclear de interação fraca. Em conjunto com a força da gravidade formam as quatro forças fundamentais da natureza. As forças EM, fraca e forte são mediadas por partículas portadoras de forças, que pertencem a um grupo de partículas chamadas bósons. A força EM, além de ligar átomos em sólidos e líquidos, prende os elétrons aos átomos. A força forte mantém coesos os prótons, os nêutrons, e os núcleos atômicos. A força fraca causa o decaimento radioativo e outras interações nucleares.

Física de partículas

Por décadas, físicos contribuíram para uma melhor compreensão da matéria e das quatro forças fundamentais. Parte da motivação foi esclarecer o que ocorreu no universo primitivo, logo após o Big Bang. A pesquisa concentrou-se em destroçar partículas em dispositivos chamados aceleradores de partículas. Estes experimentos identificaram centenas de partículas (a maior parte delas altamente instáveis), que diferiam em suas massas, cargas elétricas, outras propriedades como “spin”, e nas forças fundamentais às quais estão sujeitas. As partículas conhecidas e suas interações são comumente explicadas pela teoria de modelo padrão da física de partículas, que explica as propriedades da maioria das partículas. Uma exceção é o gráviton, partícula hipotética que se crê ser a portadora da força da gravidade. A gravidade não se ajusta ao esquema, porque a melhor teoria da gravidade (relatividade geral) é incompatível com aspectos do modelo padrão. Novas teorias, como a teoria de cordas tentam unificar gravidade com física de partículas.

Fissão e fusão nuclear

Os físicos do século 20 descobriram que os núcleos atômicos não são imutáveis mas podem ser quebrados ou fundidos. Na natureza, núcleos atômicos instáveis se partem espontaneamente, produzindo partículas e energia, sob a forma de radioatividade. De um modo similar, no processo artificial de fissão nuclear, grandes núcleos são intencionalmente cindidos em partes menores, com imensa liberação de energia. Numa escala cósmica, um fenômeno mais importante é a fusão nuclear. Neste processo núcleos atômicos se fundem, formando um núcleo maior e liberando energia. A fusão alimenta as estrelas e cria os átomos dos elementos químicos mais pesados que o berílio. A reação de fusão nuclear mais comum em estrelas é a que funde quatro núcleos de hidrogênio (prótons) num de hélio. Nesta e em outras reações de fusão, os produtos da reação têm massa ligeiramente menor que a massa combinada dos reagentes. A massa faltante se converte em imensas quantidades de energia, de acordo com a famosa equação de Einstein E=mc2, relacionando energia (E), massa (m) e a velocidade da luz (c).

Radiação

A radiação é energia na forma de ondas ou partículas emitidas por uma fonte e pode viajar através do espaço e de alguns tipos de matéria. A radiação eletromagnética (EM) inclui luz, raios-X e radiação infravermelha. A radiação de partículas consiste de partículas carregadas com altas velocidades, como raios cósmicos e partículas emitidas no decaimento radioativo. A radiação EM é de longe a mais importante na astronomia.

Radiação eletromagnética

Energia na forma de radiação EM é um dos dois principais componentes do Universo; o outro é a matéria. Este tipo de radiação é produzido pelo movimento de partículas eletricamente carregadas, como os elétrons. Uma carga em movimento produz um campo magnético. Se o movimento não é constante, então o campo magnético varia e produz um campo elétrico. Interagindo, os dois campos se sustentam mutuamente e se propagam no espaço, transferindo energia. Além da luz visível, a radiação EM inclui ondas de rádio, microondas, radiação infravermelha (calor), radiação ultravioleta, raios-X, e raios gama. Todos estes fenômenos viajam pelo espaço vazio à velocidade da luz, que é de aproximadamente 300.000 km por segundo, ou cerca de 1 bilhão de km/h.

Comportamento ondulatório

Na maior parte dos casos a radiação EM age como uma onda – uma perturbação transportando energia de um local para o outro. Ela tem propriedades como comprimento de onda (distância entre duas cristas sucessivas da onda), e frequência (número de ondas passando por um dado ponto por segundo). Sua natureza ondulatória é demonstrada por experimentos como o da fenda dupla, no qual ondas de luz se difratam (se espalham) depois de passar por fendas, e interferem uma na outra pela superposição de suas cristas e depressões. As formas de radiação EM diferem somente no comprimento de onda, mas isso afeta outras propriedades, como o poder penetrante e a capacidade de ionizar átomos.

Comportamento corpuscular

Radiação EM tem um comportamento ondulatório, mas também consiste de pequenas porções ou “quanta” de energia chamadas fótons. Eles não têm massa mas transportam uma quantia fixa de energia. A energia de um fóton depende de seu comprimento de onda – quanto mais curto, mais energético. Por exemplo, fótons de luz azul (onda curta) são mais energéticos que fotos de luz vermelha (onda longa). Uma demonstração clássica das propriedades de partículas da luz é fornecida por um fenômeno chamado efeito fotoelétrico. Se uma luz aul ilumina uma superfície de metal, ela faz com que os elétrons sejam ejetados do metal, enquanto um luz vermelha mesmo brilhante não produz esse efeito.

Analisando a luz

A radiação de um corpo celeste é uma mistura de comprimentos de onda. Quando passa através de um prisma a luz é separada nos comprimentos de onda que a compõem, formando um registro chamado espectro. O espectro de uma estrela em geral contém linhas escuras, as linhas de absorção, causadas pelos fótons de determinados comprimentos de onda absorvidos por átomos da atmosfera estelar. As linhas são usadas para identificar elementos químicos. O espectro de uma nebulosa também pode revelar sua composição. Quando lluminada por uma estrela próxima, os átomos da nebulosa emitem sua própria luz. O espectro resultante, neste caso um espectro de emissão, consiste de séries de linhas brilhantes, características de diferentes elementos.

Redshift e Blueshift

O espectro da radiação recebida por um observador se desloca em comprimentos de onda, se a fonte da radiação se move em relação ao observador — e objetos celestes estão sempre em movimento. Os astronômos podem medir os deslocamentos nos comprimentos de onda de linhas características com respeito a seus valores em laboratório, que são de fontes em repouso. Observadores de um objeto afastando-se, vêem suas linhas espectrais deslocadas para maiores comprimentos de onda (deslocamento para o vermelho, redshift). Já objetos em aproximação apresentam deslocamento das linhas para menores comprimentos de onda (deslocamento para o azul, blueshift). Galáxias distantes têm grandes redshifts, indicando que estão se afastando a enormes velocidades.

Ao longo do espectro

Objetos celestes podem emitir ao longo de todo e espectro EM, desde as ondas de rádio, passando pelo visível, até os raios gama. Alguns objetos complexos como galáxias e restos de supernovas, brilham em quase todos os comprimentos de onda. Objetos frios tendem a irradiar fótons com menor energia e portanto somente são visíveis em comprimentos de onda mais longos. Em direção ao extremo de raios gama do espectro, os fótons são cada vez mais energéticos. Raios-X de alta energia e raios gama originam-se apenas de fontes extremamente quentes, como o gás de aglomerados de galáxias ou de eventos violentos, como buracos negros engolindo matéria. Para detectar todos estes tipos de radiação e obter imagens, os astrônomos usam uma variedade de instrumentos — cada tipo de radiação tem propriedades diferentes e deve ser coletada e focalizada de um modo particular. A radiação em muitos comprimentos de onda não pode chegar até a superfície terrestre, e é detectável apenas por observatórios orbitando acima da atmosfera.

Gravidade, movimento e órbitas

Gravidade é a força atrativa que existe entre todo objeto no Universo, que tanto mantém coesas estrelas e galáxias, como faz com que um alfinete caia. A gravidade é mais fraca que outras forças fundamentais da natureza, mas, por agir a grandes distâncias, e entre todos os corpos com massa, desempenha o papel de moldar o Universo. Gravidade também é essencial para determinar órbitas e criar fenômenos como anéis planetários e buracos negros.

Gravitação newtoniana

O estudo científico da gravidade começou por volta de 1590, quando Galileu Galilei demonstrou que objetos de diferentes pesos caem com exatamente a mesma taxa de aceleração. Em 1665 ou 1666, Isaac Newton percebeu que a mesma força que causa a queda dos corpos deveria estender-se ao espaço e ser responsável por manter a Lua em sua órbita. Analisando os movimentos de diversos corpos celestes, Newton formulou sua lei da gravitação universal, segundo a qual todo corpo no universo exerce uma força atrativa (gravidade) em todo outro corpo. A lei também descreve como essa força varia com as massas dos corpos e sua separação. Até hoje permanece aplicável para a compreensão e previsão dos movimentos da maioria dos objetos astronômicos.

Leis do movimento de Newton

A partir dos seus estudos da gravitação e dos movimentos dos corpos celestes, e estendendo conceitos desenvolvidos por Galileu, Newton formulou suas três leis do movimento. Antes de Galileu e Newton pensava-se que um objeto em movimento continuaria a se mover somente se uma força agisse sobre ele. Em sua primeira lei do movimento Newton contradiz essa ideia: um objeto permanece em movimento uniforme ou em repouso a menos que uma força resultante agisse sobre ele (uma força resultante é a soma de todas as forças agindo sobre o objeto). A segunda lei de Newton afirma que a força resultante no objeto causa sua aceleração (altera sua velocidade) numa taxa diretamente proporcional à magnitude da força. Ela também sustenta que, dada uma força, quanto menor a massa do objeto maior sua aceleração. A terceira lei afirma que cada ação corresponde a uma reação igual e oposta — por exemplo, a atração gravitacional da Terra na Lua é a mesma que a atração da Lua na Terra.

Peso e queda livre

A magnitude da força gravitacional agindo sobre um objeto é chamada peso. A massa de um objeto (medida em quilogramas) é constante, enquanto que seu peso (medido em newtons) varia de acordo com a força da gravidade local. Uma massa de 1kg pesa 9,8 newtons na Terra, mas somente 1,65 newtons na Lua. O peso pode ser mensurado, e só se pode sentir a sensação de peso quando a força da gravidade encontra a reação de uma segunda força oposta a ela. Uma pessoa de pé sobre a Terra sente o peso nem tanto pela atração gravitacional, mas pela resistência do chão empurrando seus pés. Uma pessoa orbitando em torno da Terra está de fato caindo em direção à Terra sob a ação da gravidade. Tal pessoa em “queda livre” experimenta uma aparente imponderabilidade. Isto ocorre não pela falta da gravidade, mas pela ausência de uma força opondo-se à ela.

Formato da órbitas

Quando um objeto orbita outro de massa maior, ele está em queda livre em direção ao corpo maior. Ele experimenta uma aceleração gravitacional em direção ao objeto maior que curva uma trajetória, que seria retilínea, para uma trajetória curvada. Tanto a direçãodo movimento como a da aceleração mudam constantemente, produzindo um trajeto curvo. Todas as órbitas fechadas na natureza têm a forma de uma elipse. O rau de desvio de uma elipse de um círculo perfeito é chamdo excentricidade. Muitas órbitas no Sistema Solar têm baixa excentricidade – isto é, são quase circulares. Outras, como a órbita de Plutão em torno do Sol, têm uma excentricidade elevada, sendo bem alongadas. Alguns objetos celestes seguem órbitas abertas, sem retorno; as curvas destas órbitas são de dois tipos: as parábolas e as hipérboles.

Corpos compactos em rotação

Estrelas, pulsares, galáxias e planetas todos têm rotação, governada pela lei de conservação do momento angular. O momento angular de um objeto é relacionado a sua energia rotacional, que depende da distribuição de massa do objeto e da rapidez de seu giro. O momento angular de qualquer objeto em rotação permanece constante. Assim se a gravidade provocar sua contração, sua taxa de giro aumentará para compensar a redistribuição de massa. Portanto, objetos compactos em rápida rotação tendem a formar corpos difusos em lenta rotação.

Espaço e tempo

A maioria das pessoas partilha algumas noções do senso comum sobre o mundo. Uma é que o tempo passa na mesma velocidade para todos. Outra é que o comprimento de um objeto não varia. Porém, estas ideias, que já foram base sólida para as leis da física, são uma ilusão: elas se aplicam somente ao campo restrito de situações com as quais as pessoas estão familiarizadas. De fato, espaço e tempo não são absolutos, mas se distendem ou se dobram dependendo do ponto de vista relativo. E mais, a presença da matéria distorce tanto tempo como espaço para produzir gravidade.

Problemas com o universo newtoniano

Os problemas com a visão newtoniana de espaço e tempo começaram a aparecer no final do século XIX. Até então os cientistas supunham que as posições e movimentos dos objetos no espaço pudessem todos ser medidos em relação a um “referencial” absoluto, imóvel, eu imaginavam ser preenchido com um meio invisível chamado “éter”. Contudo, em 1887, um experimento para medir o movimento da Terra através desse éter produziu resultados inesperados. Em primeiro lugar, não detectou o éter. Em segundo, indicou que a luz sempre viaja à mesma velocidade relativamente a um observador, não importando seu movimento. Esta descoberta sugeria que a luz não segue as mesmas regras de movimento relativo que governa objetos do dia-a-dia, como carros e projéteis. Por exemplo, se uma pessoa correr atrás de uma bala à metade da velocidade do projétil, ela verá a bala afastar-se na metade da velocidade que relativa pessoa parada. Porém, se uma pessoa correr atrás de um onda de luz na mesma velocidade da luz, a onda continuaria a se afastar exatamente na mesma velocidade.

Relatividade especial

Em 1905, Albert Einstein rechaçou a ideia de que houvesse qualquer referencial absoluto ou “privilegiado” no Universo. Ele também rejeitou a ideia de que o tempo é absoluto, sugerindo que o tempo não corre na mesma velocidade em todas as situações. Para substituir as antigas ideias ele formulou a teoria especial da relatividade, chamada “especial” porque é restrita a referenciais com movimento retilíneo uniforme (ou seja, sem estar acelerados por uma força). Toda sua teoria baseia-se emdois princípios. O primeiro deles, o chamado princípio da relatividade, estabelece que a forma das leis físicas não muda entre referenciais em movimento uniforme entre si. O segundo afirma que a velocidade da luz é constante, independentemente da velocidade do observador ou da fonte de luz. Einstein reconheceu que esse último princípio conflita com a noção comum sobre como velocidades se somam; além disso, combinado com o primeiro princípio leva a resultados, não-intuitivos.

Efeitos da relatividade especial

Os resultados decorrentes da relatividade especial são surpreendentes. No começo do século XX, Einstein postulou que, para a luz ser a mesma em todos os referenciais, as medidas de spaço e tempo devem sofrer transformações ao se passar de um referencial a outro. Essas transformações fazem com que o comprimento de um objeto a alta velocidade seja manor que em repouso – o chamado contração de Lorentz. Além disso, o tempo de um objeto a alta velocidade parece correr mais devagar – o efeito denominado dilatação dos tempos. Assim medidas de tempo e espaço variam entre referenciais em movimento. Einstein também mostrou que um objeto ganha massa quando sua energia aumenta, e perde quando ela diminui. Isto o levou a perceber que massa e nergia são equivalentes, o que expressou na sua famosa equação E (energia) = m (massa) x e2(velocidade da luz ao quadrado).

Espaço-Tempo

Uma implicação adicional da relatividade especial e que tempo e espaço estão intimamente ligados. Quando dois eventos ocorrem em locais separados, o espaço entre eles é ambíguo, porque observadores viajando a diferentes velocidades e em distâncias diferentes. O tempo decorrido entre os eventos também depende do movimento de cada observador. Contudo, pode-se utilizar métodos matemáticos para medir a separação de eventos, com uma combinação de espaço e tempo, que forneça valores sobre os quais todos os observadores concordem. Isso levou à ideia de que os eventos no Universo não mais podem ser descritos em três dimensões, mas em um mundo quadridimensional, incorporando o tempo, o espaço-tempo. Neste sistema, a separação entre dois eventos é descrita por uma quantidade chamada intervalo espaço-tempo.

Movimento acelerado

Após completar seu estudo da relatividade no caso de referenciais em movimento uniforme (referenciais inerciais), Einstein voltou-se para movimentos não-uniformes, com aceleração. Em particular, ele examinou as relações entre gravidade e aceleração. Isso o levou a formular uma proposição chamada princípio da equivalência, que descreve gravidade e aceleração como diferentes perspectivas da mesma coisa. Especificamente, Einstein afirmou ser impossível qualquer experimento distinguir entre repouso em um campo gravitacional uniforme e aceleração. Ilustrou essa ideia com a imagem de um cientista dentro de uma caixa fechada, sob várias condições de aceleração e gravidade. Partindo do princípio da equivalência, Einstein, em 1915, acabou de desenvolver sua maior e mais complexa obra prima, a teoria da relatividade geral, que fornece uma nova descrição da gravidade.

Luz e gravidade

Visualizando experimentos em referenciais acelerados e usando o princípio da equivalência para transpô-los a situações gravitacionais. Einstein postulou que a luz, apesar de não ter massa, deveria seguir uma trajetória curvada em um campo gravitacional. Embora não tivesse evidência direta de que isso fosse verdade, estava convencido que seria assim (em 1919, observações astronômicas de um eclipse solar provaram este efeito). Prosseguindo em sua ideia, Einstein teorizou que campos gravitacionais poderiam ser produzidos por grandes massas ou concentrações de energia provocando um distorção na forma do espaço-tempo. Desse modo a luz se curva em torno de grandes massas, devido à curvatura do espaço-tempo causada pela massa. Similarmente, um planeta em órbita de uma estrela, com ao Terra em torno do Sol, segue uma trajetória curva porque o espaço-tempo é curvado na vizinhança da estrela e o caminho mais curto do planeta através desta região distorcida é uma curva.

Relatividade geral em ação

Einstein exprimiu sua teoria de como a massa distorce o espaço-tempo em suas “equações de campo”. Os físicos, usando essas equações, descobriram que é nos campos gravitacionais mais intensos —onde objetos massivos e densos distorcem fortemente o espaço-tempo — que a realidade mais se desvia das previsões de Newton. Por exemplo, Mercúrio é tão próximo do Sol que ele se move num campo gravitacional intenso (num espaço-tempo fortemente curvado). Sua órbita revolve de um modo não previsto pela mecânica de Newton, mas que a relatividade geral explica perfeitamente. A relatividade geral também fornece uma base para modelos da estrutura, desenvolvimento e destino final do Universo. Ela prevê que o Universo pode estar em expansão ou contração. Antes da introdução da teoria da relatividade, pensava-se espaço e tempo apenas como palcos onde ocorriam os eventos. Após a relatividade geral, percebeu-se que espaço e tempo são entidades dinâmicas que podem ser afetadas por massa, forças e energia.

Gravidade quântica

Embora a relatividade geral descreva com precisão o Universo em grande escala, tem pouco a dizer sobre o mundo subatômico, no qual muitos cientistas creem que a gravidade tenha sua origem. Este mundo subatômico foi modelado por outra grande teoria física, a mecânica quântica, que, por sua vez, tem pouco a dizer sobre a gravidade. Aparentemente há pouco de comum entre as interações lisas, previsíveis do espaço-tempo e matéria previstas pela relatividade geral, e o mundo subatômico descontínuo descrito pela mecânica quântica, onde mudanças de energia e matéria ocorrem em saltos discretos, os quanta. Um objetivo central da física moderna é encontrar uma teoria unificadora – uma “teoria quântica da gravidade” ou “teoria de tudo” – que unifique relatividade e mecânica quântica, e harmonize a gravidade com as outras forças fundamentais da natureza. Uma das grandes esperanças é a teoria das cordas. A maior parte das teorias de tudo supõe que o Universo tem mais dimensões que as facilmente observáveis, três do espaço e uma do tempo.

Espaço em expansão

Uma propriedade crucial do Universo é que ele está em expansão. Ele deve estar aumentando, porque as galáxias mais distantes estão distanciando-se rapidamente da Terra e as mais distantes se afastam ainda mais rápido. Supondo que o Universo sempre esteve em expansão, ele deve já ter sido menor e mais denso — algo que fundamenta a teoria do Big Bang para a origem cósmica.

Medindo a expansão

A taxa de expansão do Universo pode ser calculada comparando-se as velocidades de recessão das galáxias remotas às suas distâncias até nós. As velocidades são medidas a partir dos redshifts do espectro de sua luz. As distâncias são inferidas indiretamente. Por exemplo: detecta-se nas galáxias estrelas variáveis de uma classe chamada Cefeidas; mede-se o período da variação do seu brilho; a partir dele se deduz a luminosidade real da estrela; compara-se esta com o brilho aparente e se obtém a distância. A taxa de expansão do Universo é conhecida como a constante de Hubble. O valor desta constante é atualmente aceito como sendo cerca de 22 km/s por milhão de anos-luz. Assim, duas galáxias separadas por 1 bilhão de anos-luz afastam-se uma da outra a 22.000 km/s. Na verdade, trata-se de uma expansão bem gradual — um aumento de 1% da separação entre as galáxias leva dezenas de milhões de anos.

A natureza da expansão

A expansão do Universo apresenta várias características notáveis. Primeiro, todas as galáxias distantes se afastam, não importando se a Terra ou outro ponto no espaço esteja no centro do Universo. De fato, todos os pontos se afastam uns dos outros, e não há um centro. Em segundo lugar, numa escala local, a gravidade domina sobre a expansão cosmológica e agrega a matéria. A escala em que isso ocorre é muito grande — os aglomerados de galáxias resistem à expansão e se mantêm ligados. Em terceiro lugar, é incorreto pensar que as galáxias se afastam uma das outras, movendo-se no espaço. É o próprio espaço que se expande e arrasta as galáxias consigo. Finalmente, a taxa de expansão varia. Os cosmólogos se interessam muito em estabelecer a evolução futura da taxa de expansão, cuja forma decidirá o destino final do Universo.

Tempo e espaço em expansão

Sua expansão continuada, junto com a velocidade constante da luz, transforma o Universo em uma verdadeira máquina no tempo. A luz de uma galáxia remota leva bilhões de anos para chegar à Terra e assim os astrônomos veem a galáxia como era há bilhões de anos. De fato, quanto mais fundo os astrônomos olham no espaço, mais eles mergulham no passo da história do Universo. Nas regiões mais remotas, só há galáxias incompletamente formadas com a aparência que tinham logo após o Big Bang. As galáxias mais distantes e fracas afastam-se de nós a velocidades próximas das da luz. Se os astrônomos pudessem observar tais objetos por milhões de anos, eles as veriam evoluir mais lentamente que se estivessem próximas de nos e não tivessem sido arrastadas para tão longe. A distâncias ainda maiores, além do Universo observável, pode haver objetos que se afastaram tão rápido que sua luz nunca alcançou a Terra.

Distância Lookback

A expansão do Universo complica a expressão de distâncias de objetos muito remotos, em particular daqueles que observamos agora como eram há mais de 5 bilhões de anos. De fato, há várias definições de distância (fornecendo números distintos para objetos remotos), entre elas a distância “lookback” ou distância de “tempo de viagem da luz”, pois olhamos para trás no tempo (“lookback”) em observações profundas. Essa distância exprime quanto tempo a luz do objeto percorreu no espaço até nos alcançar. Mas, como o espaço se expandiu nesse ínterim, a distância da galáxia quando a luz começou sua jornada à Terra e menor que a distância lookback. Ao contrário, a distância “real” ao objeto remoto, a chamada distância “comóvel”, é maior que a distância lookback. Deve-se lembrar de tais distinções quando se afirma, por exemplo, que uma galáxia está a 10 bilhões de anos-luz.

Universo | Texto
Documentários - Astronomia
O Universo
The History Channel
Cosmos - a space time odissey
FOX
Marte
National Geographic
Nebulosas 
O Universo  
2 Temporada  Ep. 14  44m05s
The History Channel
Ouro 
A grande história  
1 Temporada  Ep. 02  21m23s
The History Channel
Meteoros mortais 
A grande história  
1 Temporada  Ep. 12  21m23s
The History Channel
Vivendo no espaço 
O Universo  
3 Temporada  Ep. 07  44m15s
The History Channel
Precisamos da Lua? 
  
    49m19s
BBC
Pulsares e quasares 
O Universo  
4 Temporada  Ep. 10  45m01s
The History Channel
Todos os vídeos
Textos
7/2/2018 1:22:49 PM | Por Eva Ontiveros
Livre
Por que quanto menos você dorme, mais curta será sua vida

Você provavelmente está farto de ouvir líderes políticos e empresários falarem o tempo todo que dormem muito pouco. O problema é que isso não é uma característica admirável: a falta de sono é muito prejudicial para nossos corpos e cérebro. Matthew Walker, professor de neurociência e psicologia da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, explica por que você deveria parar de admirar pessoas que dormem pouco. Walker é autor de Por Que Dormimos, um livro com o potencial de mudar (e estender) sua vida. Aqui, ele explica tudo o que você deve saber sobre o sono e como desenvolver hábitos de vida mais saudáveis.

Por que dormir é importante
As descobertas da ciência até agora apontam que quanto menos tempo de sono, mais curta será a sua vida. Então, se você quer chegar à velhice de maneira saudável, deve investir em uma boa noite de sono.

De fato, dormir é tão benéfico que Walker começou a pressionar os médicos a prescreverem isso a seus pacientes.

No entanto, essa indução ao sono tem de acontecer naturalmente. Muitos estudos relacionam remédios para dormir a um aumento do risco de câncer, infecção e mortalidade.

O que acontece com nosso corpo e nossa mente se não dormimos?
Muitas das doenças de que sofremos têm uma ligação significativa com a falta de sono - por exemplo, o mal de Alzheimer, câncer, doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, depressão, ansiedade e até mesmo tendências ao suicídio.

É que, durante o sono, ocorre uma espécie de "revisão" de todos os sistemas fisiológicos importantes do nosso corpo e de cada rede ou operação da mente. Se você não dorme o suficiente, essa revisão é prejudicada e seu corpo será afetado.

Após 50 anos de pesquisa científica, a questão na cabeça dos cientistas não é mais "o que o sono faz pela gente?" e sim "o que não faz o sono pela gente?".

Quantas horas devemos dormir para nos sentir bem?
Você deve dormir pelo menos de sete a nove horas por dia. Se dormir menos de sete horas, seu sistema imunológico e seu desempenho cognitivo começarão a ser afetados.

Depois de estar acordado 20 horas seguidas, você se sentirá tão incapacitado quanto se estivesse bêbado - tanto que um dos problemas com a privação de sono é que você não percebe de imediato o dano que ela causa.

É como um motorista bêbado em um bar que pega as chaves do carro e diz: "Estou bem, posso dirigir". Mas todo mundo ao redor sabe que ele está incapacitado para assumir a direção de um veículo.

Cada vez dormimos menos. Por quê?
Se analisamos os dados das nações industrializadas, notamos uma tendência clara: nos últimos cem anos, o tempo que dormimos diminuiu.

Se dormimos menos, é mais difícil entrar na fase REM (movimento rápido dos olhos, na sigla em inglês), o ciclo em que sonhamos. E qualquer interferência na fase REM é muito prejudicial, pois ela é crucial para a nossa criatividade e saúde mental.

Existem várias razões pelas quais as pessoas dormem cada vez menos, segundo Walker:

1 - Falta de conhecimento: A comunidade científica sabe como é crucial dormir bem, mas, até agora, não foi capaz de comunicar efetivamente isso para o público em geral. A maioria das pessoas não entende por que o sono é importante.

2 - Ritmo de vida: Em geral, estamos trabalhando mais horas e passamos mais tempo indo e vindo do trabalho. Saímos de casa muito cedo e voltamos para casa tarde da noite e, naturalmente, não queremos deixar de passar tempo com a família e com os amigos. Estar com a família, sair com os amigos, assistir TV... no final, sacrificamos horas de sono.

3 - Atitudes e crenças: O sono não é bem visto pela sociedade. Se você disser a alguém que dorme nove horas, pensarão que você é preguiçoso. Então, estigmatizamos o sono, e muitas pessoas se gabam de quão pouco dormem todas as noites. Isso nem sempre foi assim. Ninguém vai chamar de preguiçoso um bebê dormindo, porque sabemos que o sono é essencial para seu desenvolvimento. Mas essa noção muda quando atingimos a idade adulta. Não apenas abandonamos a ideia de que o sono é necessário, mas também punimos as pessoas por dormir quando precisam.

4 - Falta de luz natural: Não gostamos de ficar sem luz quando escurece. Mas a escuridão é necessária para liberar um hormônio essencial que nos ajuda a dormir, chamado melatonina. Infelizmente, um dos efeitos colaterais da modernidade e seus avanços tecnológicos é que estamos constantemente sob luz artificial. Isso piorou com a chegada das telas de LED, que projetam uma poderosa luz azul que bloqueia a produção da melatonina.

5 - Temperatura: Outro efeito colateral inesperado da modernidade é não mais experimentarmos o fluxo natural de frio e calor durante o período de 24 horas. Todos queremos lares quentes, mas também precisamos de um pouco de ar fresco para dormir bem. Nosso cérebro e nosso corpo precisam reduzir essa temperatura central, aproximadamente 1°C mais baixa, para que possamos relaxar de maneira natural. A maioria de nós coloca o aquecimento em nível muito alto: se você quiser dormir bem, programe seu termostato a 18ºC à noite.

Por que não recuperamos as horas de sono perdidas
Identificados os erros, mas será que o dano pode ser revertido?

Uma das grandes mentiras é que, se você não dormiu bem, pode "recuperar o sono". Não pode. O sono não é como um banco, em que você pode acumular uma dívida e depois pagá-la.

Mas é o que muitas pessoas fazem: dormem pouco durante a semana e querem se recuperar durante o final de semana. Isso é chamado de jet lag social ou até mesmo bulimia do sono. O que você pode fazer, na verdade, é mudar seus hábitos.

Estudos mostram que pessoas que antes dormiam mal, mas mudam sua rotina e começam a dormir mais, evitam a deterioração degenerativa e o mal de Alzheimer por mais de dez anos, em comparação com pessoas que mantiveram um padrão de sono insuficiente.

Por que não podemos armazenar o sono?
Imagine quão maravilhoso seria se pudéssemos armazenar horas de sono e usá-las como gostaríamos.

Há um precedente na biologia chamado de célula adiposa. A evolução nos deu essa célula, graças à qual podemos armazenar energia em tempos de abundância que nos permite sobreviver em tempos de fome.

Então, por que não desenvolvemos um sistema semelhante para armazenar o sono?

Porque somos a única espécie que, deliberadamente, se priva do sono sem motivo aparente.

É por isso que mesmo uma única noite de sono ruim pode afetar nosso corpo e nosso cérebro.

Psicologia - Neuropsicologia
7/4/2018 8:18:01 AM | Por Rosana Rios
Livre
Karu-Sakaibê, o primeiro homem

(Mito Munduruku)

Dizem que o primeiro de todos os homens foi Karu-Sakaibê, dono de grande poder e bondade. Quando ele andou pela Terra, fez muitas coisas belas. Tinha um companheiro constante, seu filho Rairu, que não era tão corajoso e poderoso quanto o pai, gostava mais de se divertir. Um dia, Karu-Sakaibê enterrou no chão algumas penas e foi soprando sobre elas: algumas se transformaram em rochas, outras em morros e em enormes montanhas. Criou também os rios para correr na Terra, as aves para voar no céu, os peixes para nadar nos rios. Enquanto o pai criava, Rairu brincava; com pedaços de madeira, cipós e folhas, fez no chão o desenho de um tatu.

Achou o desenho tão bom que passou resina feita de cera de abelhas nas folhas e nos galhos, querendo preservar sua criação. Mas quando a resina secou, a mão de Rairu ficou presa no rabo do tatu! O tatu começou a ter vida e se pôs a cavar um buraco, e como Rairu não conseguia se soltar, teve de segui-lo para dentro da terra.” O tatu cavou tanto que foi parar num mundo debaixo do solo, e só lá Rairu conseguiu soltar sua mão e se livrar dele. O [89] que viu lá embaixo o deixou assombrado! Havia homens e mulheres de todos os tipos, vivendo naquele mundo, e ele passou muito tempo andando por ali e observando toda aquela gente.

Karu-Sakaibê ficou preocupado com o desaparecimento de Rairu; como não encontrava o filho em lugar nenhum, achou que ele estava perdido para sempre e resolveu criar um outro filho. Para isso, ele tomou um tronco de madeira e o esculpiu, formando um rapaz; quando a escultura estava pronta, a madeira adquiriu vida e se tornou um ser humano. Mas, a essa altura, Rairu finalmente conseguiu voltar para cima, escalando o buraco do tatu até sair de novo na superfície.

Foi procurar o pai. Quando viu que Karu-Sakaibê ficara muito zangado com seu sumiço, e percebeu que seria castigado, disse-lhe:

- Não me castigue! Descobri que existe gente no mundo debaixo do solo. Eles são muito bonitos, poderiam vir aqui para fora e trabalhar a terra.

E contou tudo o que vira depois de entrar pelo buraco do tatu.

Karu-Sakaibê resolveu, então, trazer para cima todas aquelas pessoas, que estavam vivas, mas não tinham casas para morar nem terra para cultivar.

Quanto ao filho que fizera de madeira, agora que Rairu voltara já não precisava mais dele: deixou que se transformasse numa anta e que fosse viver na mata.

Não seria, porém, muito fácil trazer os humanos de lá do fundo.

Para começar esse grande trabalho, Karu plantou uma semente e aguardou, enquanto ela, imediatamente, se transformava num belo pé de algodão; o criado [90] colheu o algodão e teceu suas fibras, formando uma corda bem forte. Amarrou a corda na cintura do filho e foi com ele até a boca do buraco cavado pelo tatu.

- Você vai voltar lá e convidar aquela gente para subir ao nosso mundo.

Rairu obedeceu. Foi descendo pela corda e, ao ver-se de novo no subterrâneo, tratou de ir chamando as pessoas e explicando como o mundo da superfície era belo e agradável. Nem todos acreditaram nele, mas algumas pessoas resolveram aceitar o convite e segui-lo para cima. Homens e mulheres, então, começaram a escalar a corda e a sair pelo buraco do tatu. Karu-Sakaibê viu que os primeiros a aparecer eram muito feios e sem jeito. Só depois de algum tempo começaram a aparecer pessoas mais bonitas. Uma multidão de gente veio para o nosso mundo; o problema foi que, com todo aquele peso, a corda de algodão se desgastou e, de repente, arrebentou! Por causa disso, os homens e mulheres mais bonitos ficaram no fundo da terra, e é por esse motivo que a beleza é muito rara, até hoje.

Quando se viu diante de tanta gente, Karu-Sakaibê começou a separá-los em tribos, e a explicar onde deveriam viver. Enquanto ele falava, algumas pessoas nem se importavam em ouvir suas instruções; o criador, então, ficou zangado e os transformou em porcos-do-mato. Outros eram muito preguiçosos e não queriam aprender a trabalhar como ele dizia; acabaram pegando no sono, e ele os transformou em morcegos e borboletas. Por fim, quando já havia dividido toda aquela gente em povos distintos, sobraram algumas criaturas tão feias, mas tão feias, que ele resolveu que não seriam humanos. Com o dedo, Karu lhes [91] traçou uma linha vermelha no nariz, e na mesma hora eles se transformaram em mutuns de bico vermelho - e essas aves, até hoje, soltam pios muito tristes e voam pelas matas lastimando a sua transformação.

Um dos povos criados naquela ocasião foi a nação Munduruku; eles foram levados pelo criador para o território do alto Rio Tapajós.

Karu-Sakaibê ensinou a eles as formas de caçar; depois preparou um campo e semeou ali plantas variadas. Após cair a primeira chuva, todos viram nascer a mandioca, o cará, o milho, o algodão, a batata e todas as coisas boas para comer e fazer remédios. Também fez em cada um deles as primeiras tatuagens, que são iguais às que ele mesmo tinha.

Porém os Munduruku, divididos em dois clãs, viviam brigando e guerreando. Karu-Sakaibê voltou para junto deles e mandou que se unissem em um só povo.

Disse a eles:

- Parem com a guerra. Todos serão irmãos, todos serão alegres.

Desde então, os homens fazem como ele lhes ensinou. E somente quando houve paz e os Munduruku se tornaram uma grande nação, foi que Karu os deixou, prometendo que seus descendentes seriam todos corajosos e fortes.

Dizem alguns que ele foi morar debaixo da terra; mas muitos acreditam que Karu-Sakaibê foi para os céus, e é lá que ele recebe os mortos quando deixam o mundo. [92]

Povo Munduruku

Esse povo recebeu dos Parintintins o nome de Munduruku ou Mundurucu, que significa “formigas vermelhas”; mas o nome pelo qual se autodenominam é Wuyjugu. Sua língua pertence ao tronco Tupi.

É um povo tradicionalmente guerreiro, originário de áreas próximas ao Rio Tapajós, na Amazônia. Hoje vivem nos estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso. Por muito tempo, os Munduruku combateram os portugueses e sempre defenderam suas terras dos invasores, desde os seringueiros, nos tempos do Ciclo da Borracha, até os garimpeiros, em tempos mais recentes.

Infelizmente, ao que parece, o povo Munduruku e seus territórios continuam sendo ameaçados, agora por projetos de construções de estradas e de hidrelétricas. [93]

Mitologia - Mitologia Sul-Americana
11/1/2017 7:31:58 PM | Por Julliette Wood
Livre
Viagens entre os reinos - O outro mundo celta

O avanço que fizemos, da inocência para o conhecimento ou da vingança para o perdão, se reflete nas jornadas dos heróis, que entre outras tarefas empreendem missões de resgate ou revanche e acabam por descobrir profundas verdades nas terras do Outro Mundo. Essas jornadas são odisséias da imaginação e também mergulhos no mundo interior. Neste capítulo, acompanhamos várias buscas épicas e viagens entre os mundos material e espiritual. [61]

O limiar do outro mundo

Os espíritos muitas vezes invadem a terra dos vivos e, para manter o equilíbrio entre os dois mundos, os seres humanos precisam às vezes viajar para o Outro Mundo. Existem muitas maneiras pelas quais os vivos podem entrar nos reinos do espírito e uma das mais diretas é cruzar o limiar entre a terra dos mortais e os reinos do sobrenatural, o local onde esses mundos se encontram ou se cruzam. Esses portais são encontrados tanto no centro quanto nos limites externos do mundo celta.

O cosmo celta irradia de um ponto em que os domínios humano e sobrenatural convergem. Júlio César conta que, numa certa época do ano, os druidas se encontravam num ponto central da Gália onde seria esse ponto de convergência. A localização podia ser um bosque sagrado - um dos lugares em que os druidas realizavam suas cerimônias e sacrifícios para aplacar a ira dos deuses e prever o futuro. Ou podia ser uma área aberta, como a Planície de Tara, em cujo centro fica a mágica Pedra de Fal, que grita quando o verdadeiro rei deve assumir o trono.

A visão da ordem cósmica altamente centralizada repercute na maneira pela qual as quatro províncias externas da antiga Irlanda - Connacht, Leinster, Munster e Ulster - se estendem do ponto mediano de Tara, na província central de Meath (que correspondem aproximadamente aos condados modernos de Meath e Westmeath). Como que ecoando esse padrão, no Festival de Tara, os reis das quatro províncias sentavam- se diante do Grande Rei, à direita, à esquerda e atrás dele, cercando-o assim com a segurança oferecida pela Irlanda e seus formidáveis guerreiros.

A tensão entre o cosmos e o caos assemelha-se a uma antiga forma de xadrez. No centro da Planície de Tara, ficam o rei e seus homens, como peças comandando o meio do tabuleiro. Ao redor deles estão as forças hostis. Assim como um jogador experiente pode ganhar o jogo por meio de uma combinação de sorte e perspicácia, os seres humanos [62] também podem sobreviver aos seus encontros com o sobrenatural confiando tanto nas próprias capacidades quanto no destino.

Os locais naturais onde o reino dos seres humanos e o do Outro Mundo se encontram têm características topográficas bem definidas. Fronteiras como rios os dividem, enquanto lagos e poços servem como uma passagem entre eles. Estruturas feitas pelo homem, como as muralhas de uma fortaleza, podem ser atacadas por forças sobrenaturais e também por mortais. Conn, Grande Rei de Tara, vigia as trincheiras da sua fortaleza diariamente, para evitar que o povo dos sidh ("colinas dos encantados") tome o forte de assalto. [63] Barreiras e passagens entre os mundos, tanto naturais quanto artificiais, são mais vulneráveis em certas épocas do ano. As festividades de Tara ocorriam durante o Samhain, que também era a época em que Aillen Mac Midna, inimigo dos Tuatha De Danann, vinha do Outro Mundo para incendiar o trono real. Todo ano, durante nove anos, ele aterrorizou Tara, induzindo ao sono todos da corte com uma música mágica e, então, destruindo o palácio até os alicerces com seu sopro abrasador. Por fim, o Grande Rei de Tara pediu a voluntários para desafiarem Aillen, e o herói Finn Mac Cumhaill se prontificou a cumprir a tarefa. Finn ofereceu-se para montar guarda a noite toda em troca da satisfação de um desejo. O Grande Rei aceitou a oferta e deu a Finn uma lança mágica que o faria capaz de resistir à melodia entorpecente e matar o inimigo. Quando Aillen chegou, Finn derrotou-o facilmente com a lança, e seu desejo - tornar-se o líder dos Fianna, a elite dos exércitos da Irlanda - foi realizado.

Nas noites em que os espíritos estão à solta, os mais cautelosos ficam em casa com portas e janelas trancadas, com receio de qualquer contato com o sobrenatural e temerosos de que os encantados possam raptá-los. Mas os mais aventureiros, como Nera, um servo de Ailill de Connacht (...) pôde aproveitar a oportunidade para entrar no Outro Mundo e aprender a sabedoria dos mortos. Outros viajantes humanos empreendem viagens por mar com a intenção de chegar às lendárias ilhas do Outro Mundo, que ficam a oeste. [64]

O arquipélago encantado

O oceano Atlântico era um desafio formidável até para os intrépidos viajantes celtas. Os marinheiros celtas, no entanto, se aventuravam em mar aberto em seus curraghs (barcos de estrutura de madeira, cobertos de couro à prova d'água e próprios para o alto-mar. No gênero narrativo conhecido como imram, que significa literalmente "remação", detalhes verossímeis de jornadas reais de exploração são intercalados com as crendices e estórias fantásticas dos viajantes sobre o pós-morte, dando origem a fábulas intrincadas, características dos celtas irlandeses.

Todas as estórias imrama seguem um padrão semelhante. Um grupo de homens se lança numa viagem por mar, normalmente por uma das três razões a seguir. Podem ter a intenção de encontrar as místicas ilhas dos Abençoados - um grupo de ilhas do Outro Mundo que fica "a oeste". Ou a sua viagem pode ser uma penitência por violarem um geas - uma maldição que requer que os homens cumpram uma série de tarefas para quebrar o encantamento. Ou seu motivo para a viagem pode ser o desejo de buscar revanche por uma injustiça que sofreram - como na estória de Mael Duin. Compondo seu próprio Livro Celta dos Vivos e dos Mortos, as estórias imrama levam os viajantes a uma série de aventuras, cada qual representando uma oportunidade de aprendizado. Cada ilha tem uma característica peculiar. Em algumas delas, o ato de comer determinado fruto ou beber a água de algumas fontes pode matar, curar ou causar estranhas transformações. Em outras, os habitantes realizam uma única atividade obsessivamente. As leis da natureza nem sempre vigoram - por exemplo, monstros podem aparecer das profundezas do mar, o mar congela ou ganha vida, ou peixes saem de rios e lagos para falar com os viajantes humanos.

Esses encontros fantásticos são freqüentes na estória de Mael Duin. O herói parte da Irlanda por mar com guerreiros e seus três irmãos de criação, para procurar os homens perversos que tinham assassinado seu pai. Desviados do seu curso por um vento [66] forte, os viajantes descobrem que estão nos arredores das ilhas do Outro Mundo. Navegando de ilha em ilha, eles aos poucos aprendem as artes da temperança, da humildade e do perdão (e Duin acaba perdendo todos os três irmãos no percurso). Depois de muitos anos no mar, os viajantes que sobrevivem decidem voltar para casa, e na viagem de volta para a Irlanda acabam encontrando a ilha onde moram os assassinos. Sem a mesma disposição de se vingar, Mael Duin demonstra sua recém-descoberta magnanimidade e oferece a sua amizade aos malfeitores, chegando até mesmo a se sentar à mesa com eles e contar as estórias de suas viagens.

Como outras imrama, essa narrativa épica é, para usar a terminologia moderna, uma alegoria sobre o crescimento pessoal - para o leitor, assim como para os viajantes. Diante de inumeráveis oportunidades, os viajantes tomam decisões de cunho moral a [68] todo instante. Se suas escolhas violam qualquer uma das regras rígidas (embora ocultas), ocorrem desastres, inclusive a perda de companheiros de viagem. Desse modo, os membros da tripulação que se desgarraram do grupo e foram para a Ilha da Risada ou para a Ilha do Choro, são forçados a permanecer ali para sempre, tornando-se tão obsessivos quanto os outros habitantes - um aviso contra a despreocupação e o pesar excessivos. Viajantes que cometeram um crime em segredo são levados por pássaros gigantes - no labirinto da moral é impossível escapar das conseqüências dos próprios atos. Aqueles que tentam roubar tesouros das ilhas do Outro Mundo também são roubados por felinos monstruosos - uma ironia cósmica (até kármica) ajusta a punição ao crime. Aqueles, porém, que vencem as armadilhas têm permissão para chegar às mais complexas e belas ilhas do Outro Mundo, as Ilhas dos Abençoados e a Ilha das Mulheres, onde o tempo parece ter parado numa primavera eterna e os habitantes são imortais.

Navegar pelo oceano desconhecido é lançar-se nas mãos do destino. O destino, contudo, nunca é meramente neutro - sempre existe uma dimensão moral. A própria vida é uma busca, e o buscador dedicado e consciente da verdade e do bem é recompensado da maneira apropriada no devido tempo. [69]

A sabedoria da água

A água, na qual existem tantos reinos misteriosos, é um símbolo apropriado da verdade que existe sob a superfície das coisas - um tipo de véu translúcido, às vezes transparente às vezes opaco, entre este mundo e os mundos do pós-morte. Por meio do poder mágico da água, podemos entrar em contato com a sabedoria do Outro Mundo. Isso pode ser matéria de profundas reflexões na vida, mas também de revelações muito simples. O poeta Neidne mac Adhna, caminhando um dia pela praia, ouve o som de um lamento e se detém para ouvir. As ondas então lhe revelam a morte iminente de seu pai.

Oceanos, rios, fontes e lagos, todos revelam a sabedoria da água, mas os poços ou nascentes têm um lugar especial no folclore celta. A água surge da terra como se, por magia, fosse imbuída de poderes reveladores de especial intensidade. Numa estória, o herói irlandês Cormac se perde nas brumas e, quando elas se dissipam, ele descobre que está ao lado de um poço. Logo descobre que cinco salmões vivem no poço, alimentando-se das avelãs que caem de nove avelãzeiras que crescem nas imediações. Cinco rios também fluem dessa fonte. Cormac percebe que esse é o Poço do Conhecimento: os rios correm para as cinco províncias da Irlanda e representam os cinco sentidos, dos quais derivam todo o conhecimento humano. [74]

Em outro conto, uma nascente tem o poder de devolver a vida aos mortos, caso o indivíduo tenha recebido amor, respeito e verdade de seus entes queridos em vida. Quando o servo mágico de Finn mac Cumhaill, Gilla na Grakin, é assassinado, a mulher de Gilla navega pelo oceano com seu corpo, em busca de uma maneira de trazer o marido de volta à vida. Por fim, ela desembarca numa ilha onde vê um pássaro morto recobrar a vida e sair voando. A devoção da mulher é recompensada. Nessa ilha, ela descobre uma fonte mágica; e, quando molha os lábios do marido com algumas gotas de água da fonte, ele ressuscita diante dos olhos dela. [75]

Receptáculos da verdade

Por ser a água, a essência da vida e também uma poderosa fonte de sabedoria e verdade, acessível a poetas, druidas, reis e heróis, o caldeirão e a taça, receptáculos desse fluido mágico, têm, eles próprios, poder espiritual. Esse simbolismo é complementado na lenda do Santo Graal por uma associação com o sangue. Às vezes, o graal é um recipiente que contém uma cabeça sangrenta, um símbolo celta primitivo, ou, numa versão mais cristã, é o cálice no qual se recolheu o sangue do Cristo na cruz. O caldeirão também está ligado ao renascimento e à abundância inesgotável: o deus irlandês Dagda possui, além da sua clava letal, um caldeirão com o qual ele distribuía um suprimento inesgotável de comida.

Durante a Idade Média, um monge irlandês compôs um poema sobre uma excursão ao Outro Mundo, no qual ele assumiu a voz de um dos mais famosos profetas - Taliesin, o líder dos bardos. O autor, fundindo os simbolismos ancestral e cristão do cálice, descreve Taliesin navegando com o Rei Arthur e os heróis antigos de Gales no navio Pridwen, à procura de um caldeirão mágico do Outro Mundo, decorado com jóias e pérolas. Eles penetram num mundo estranho, quase surreal, em que imagens de torres e fortalezas de vidro aparecem de modo fugidio [76] nas  ilhas do Outro Mundo. Acabam levando o caldeirão, mas por um preço alto - só sete dos companheiros de viagem voltam para casa.

Em outra estória, o Grande Rei Cormac adquire sabedoria de um caldeirão fervilhante e ganha dois preciosos presentes do Outro Mundo, exemplificando a maneira pela qual um caldeirão pode servir como uma imagem profunda da verdade.

Numa manhã de maio, um esplêndido guerreiro se aproxima das muralhas de Tara, carregando um ramo de prata de onde pendem maçãs de ouro. Ao bater umas contra as outras, as maçãs emitiam uma música suave, com o poder de confortar as pessoas e induzi-las a um sonho repousante. O visitante revela que veio da terra da verdade, onde não existe doença, nem decadência, nem tristeza, inveja ou ódio. Como prova da sua amizade, ele oferece ao Grande Rei Cormac o ramo de prata em troca de três favores.

O rei aceita a proposta, e um ano depois o guerreiro volta para cumprir sua promessa. Primeiro, ele exige a filha de Cormac; depois o filho. Cormac concede esses favores e usa os poderes do ramo de prata para amenizar a tristeza da corte pela perda dos filhos do rei. Quando o guerreiro exige, em seguida, a esposa de Cormac, o rei consente com relutância, mas depois sai, com seus homens, em perseguição ao visitante.

De repente, uma névoa desce sobre os companheiros e Cormac se vê sozinho ao lado de uma fortaleza murada, que é também onde fica o Poço do Conhecimento. Um belo estranho e sua linda companheira oferecem a Cormac a hospitalidade da fortaleza.

Logo um homem entra carregando um porco. Ele corta o animal em quatro partes e põe a carne num "caldeirão da verdade". O homem conta a Cormac que a carne só cozinhará se contarem quatro estórias verdadeiras, uma para cada porção. O dono do porco, o anfitrião e seus companheiros contam, cada um deles, uma estória verdadeira e as porções cozinham como deveriam. Então Cormac conta a estória do desaparecimento da sua família e sua porção de porco também cozinha. Mas, por ser um homem de muita honra e integridade, recusa-se a comer a carne sem os seus exércitos. O anfitrião canta uma canção para fazer o rei dormir e, quando Cormac acorda, ele está cercado pela família e pelos seus homens. [77]

Mais tarde, nessa mesma noite, o rei admira o trabalho artesanal do cálice de ouro de seu anfitrião. Este conta a Cormac que o cálice se quebra quando três mentiras são contadas, mas se recompõe depois que três verdades são proferidas. Ele então conta três mentiras e o lindo objeto se parte em pedaços. Depois, assegura a Cormac que, enquanto a mulher e a filha dele estiveram fora, nenhum homem as tocou, tampouco o filho dele dormiu com uma mulher. Para a surpresa de Cormac, o cálice se recompôs. Por fim, o anfitrião revela ser Manannan mac Lir  o misterioso visitante que havia presenteado Cormac com o ramo de prata. Nesse mesmo instante, Cormac se vê de volta à Planície de Tara com a mulher, os filhos e seu exército, segurando na mão o "cálice da verdade". Um grande rei, portanto, se torna muito mais grandioso quando é merecedor de dois presentes preciosos do Outro Mundo: o "ramo de prata do bem-estar" e o "cálice da verdade". [79]

Disfarçado de cisne

A graça e a beleza do cisne, com sua elegância, seu pescoço longo e penas brancas e macias, fazem dessa ave um símbolo natural de tudo o que é bom, sagrado e puro. Capaz de deslizar sobre rios e lagos, bambolear por terra ou cruzar os ares com suas asas poderosas, o cisne também liga as águas do Outro Mundo com os reinos da terra e do céu. Os cisnes do Outro Mundo são metamorfos, capazes de mudar de forma quando querem, e é possível identificá-los pelas correntes de ouro ou prata penduradas em volta do pescoço.

Como muitos habitantes do Outro Mundo, o cisne é uma criatura ambígua, com um aspecto obscuro que contrabalança suas qualidades positivas. Na estória dos filhos de Lir - um conto tão triste que é considerado um dos "Três Maiores Pesares da Contação de Estórias" - o viúvo rei Lir casa-se novamente para que sua filha Fionuala e seus três filhos possam voltar a ter mãe. Mas a nova rainha tem ciúmes da afeição do rei pelos filhos e por isso lança mão de feitiçaria para transformá-los em cisnes. As crianças-cisne, porém, conseguem manter sua capacidade de falar e seu dom para a música, e as pessoas vêm de longe para ouvi-las cantar no lago e se sentem reconfortadas com a sua música.

Depois de muitas aventuras tristes, as infelizes crianças encontram um ermitão que consegue consolá-las da sua dor por meio da fé cristã. Mas o sofrimento delas ainda não tem fim, pois um rei malvado as captura e as leva embora com ele, depois do que suas penas caem para revelar quatro criaturas velhas e trêmulas. Percebendo que morreriam, as crianças-cisne pedem apenas para serem enterradas juntas na mesma sepultura e o ermitão bondosamente atende ao pedido delas. Então os filhos de Lir encontram paz finalmente e conseguem entrar no reino do céu.

No conto arthuriano de Lohengrin, filho de sir Percival, o menino aparece primeiro dentro de um barco que vai para o Outro Mundo, atraído por um lindo cisne branco. Lohengrin é muitas vezes retratado usando branco (uma alusão às penas do cisne), em reconhecimento às suas origens sobrenaturais. [80]

Mitologia - Mitologia Celta
Todos os textos
Matérias
6/21/2018 9:20:04 PM
Estados Unidos, o nascimento de uma nação

O que opõe o Norte industrial ao Sul agrícola é uma divergência mais de ordem econômica: o primeiro é protecionista, o segundo quer a liberdade de comércio. Não é, portanto, a questão do escravismo que pode explicar a origem das hostilidades e de um conflito que causará a morte de mais de 600 mil estadunidenses

História - Estados Unidos
12/19/2018 7:55:43 PM
Guerra civil espanhola, um campo de provas para Hitler

Nos primeiros dias do conflito espanhol, muitos mantêm a ilusão de “reviver Verdun”, a famosa batalha da Primeira Guerra Mundial. Entretanto, no decorrer dos combates, surgem novas estratégias e novos armamentos, que serão intensamente utilizados a partir de 1939.

História - Espanha
6/22/2018 5:39:35 PM
Atenas, capital artística da Grécia

Mesmo se o desejasse, no terceiro quarto do século V a.e.c., Atenas não poderia pretender ser reconhecida como a capital política do mundo grego. Também não era a capital economica. Há, porém, um domínio no qual da pôde legitimamente ser considerada capital do mundo grego: o do pensamento e das boas-artes.

História - Civilização Grega
12/20/2018 2:42:23 PM
Formas diferentes de vida

Na busca de evidências de que a vida surgiu na Terra mais de uma vez, cientistas estão à procura de microorganismos radicalmente diferentes das formas de vida conhecidas e decifrar a origem da vida é um dos maiores problemas da ciência

Astronomia - Astrobiologia
Todas as matérias
à prova de falhas

adj. 1. diz-se de equipamento ou sistema de trabalho que incorpora uma característica onde a falha de um componente ou subsistema resulta no automático des ligamento ou mudança para um modo mais seguro de operação. O modelo à prova de falhas reduz a chance de que um operador seja exposto a perigos ligados ao mau funcionamento ou de que o equipamento sofra avarias. Contudo, esse tipo de design não reduz a probabilidade de um acidente ou falha. Ver também design de exclusão; modelo de prevenção de recaída. 2. mais genericamente, que possui muitíssimo pouca ou nenhuma chance de falha.

Dicionário de Psicologia APA (p. 19)
Crenças egípcias
Osíris

As primeiras crenças populares criaram um panteão de deuses e qualquer coisa desde um anão (Bes) até um escaravelho (Khepri) podia ser deificada. Havia mi­lhares de divindades, sendo que todas tinham personificações úteis na vida diá­ria. Muitos deuses locais acabaram sendo incluídos na mitologia religiosa mais formal. Havia muito pouca exclusividade na religião egípcia, e tamanhas varie­dade, diversidade e riqueza de crenças resultaram em centenas de estórias e ci­clos míticos numerosos demais para serem abordados aqui. A Enéade - A mitologia religiosa de maior influência que chegou até nós foi o ciclo conhe­cido como a Enéade, relativo a nove deuses. Girava em torno de Rá, em seu as­pecto como o Sol, e seu tema principal era a luz (Osíris) versus a escuridão (Seth). Ele também diz respeito à estória de Rá, enquanto navegava pelo céu de dia e de­saparecia no Mundo Inferior à noite. Essa foi a fonte primária para o primeiro culto da reencarnação. A Ogdóade - Outro importante ciclo mítico, envolvendo oito deuses e conhecido como Og­dóade, surgiu no Alto Egito, mas não era constituído propriamente de seres e sim, de personificações de ideias abstratas. Cada um deles possuía uma forma masculina e feminina. Assim, os deuses das trevas eram Kek e Keket, os da invisibilidade, Amon e Amaunet. Amon mais tarde se tornou o deus supremo de todos os deuses, se fundiu com o Sol e foi adorado como Amon-Rá. 

BARTLETT, Sarah. Cultos de mistério. IN: __________. A bíblia da mitologia. São Paulo/SP: Editora Pensamento, 2011. Cap. 2, p. 77.
Filmes
Ben-Hur
2016 Parte 1
Ben-Hur
2016 Parte 2
Nero
2004 Parte 1
Nero
2004 Parte 2
Germanus
2003 
Rei Arthur
2004 
A lenda de Beowulf
2007 
Tróia
2004 
Fúria de Titãs
2010 
A maldição do anel
2004 
Thor: The dark world
2013 
Thor
2011 
Jasão e os argonautas
2000 
Imortais
2011 
Fúria de Titãs 2
2012 
Jasão e o velo de Ouro
1963 
Documentários
Little BigHorn
The American West
1 Temporada  Ep. 04
Idioma
Legenda
43m57s
2016

Após uma grande batalha em Little Bighorn, o exército busca retaliação. A gangue de James tenta assaltar um banco em Minnesota, desencadeando uma revolta.

Gravidade
O Universo
2 Temporada  Ep. 17
Idioma
Legenda
44m03s
Boudicca
Parte 2
A rebelião dos bárbaros
1 Temporada  Ep. 06
Idioma
Legenda
47m55s
2016
Recentes
A primeira cruzada 
Cruzadas, a cruz e o crescente  
Parte 21 Temporada  Ep. 02  39m28s
The History Channel
O começo 
Segunda Guerra Mundial - 70 Anos  
1 Temporada  Ep. 03  43m48s
Aventuras na História
Abraham Lincoln 
Arquivos Confidenciais  
1 Temporada  Ep. 09  23m23s
National Geographic
Fim da Guerra Civil 
The American West  
1 Temporada  Ep. 01  42m33s
Netflix
Guerreiros 
Humanidade  
1 Temporada  Ep. 04  45m20s
The History Channel
Todos os vídeos
Explore o templodeapolo.net
Templodeapolo
Mitologia
História
Psicologia
Astronomia
Templodeapolo.net desde 2007 - Todos os textos publicados e seus respectivos direitos são de resposabilidade de seus autores e editoras - Textos que não incluam a autoria não são propriedade do editor deste sítio. Para receber as referências nestes casos, clique no link respectivo e solicite autoria e referências. - O Templodeapolo.net não possui nenhuma finalidade comercial. Não há propaganda e esperamos continuar assim. A proposta do sítio é puramente acadêmica, consistindo na publicação de textos com temas variados, classificados e organizados contextualmente para facilitar as pesquisas e navegação. - Caso você seja autor de algum material publicado sem sua devida autorização, por favor entre em contato para remoção imediata. - O editor é formado em Administração de empresas pela Universo/RJ. Fez cursos de extesão de História e Antiguidade Clássica/Oriental. Atualmente (2018) é graduando em Psicologia/Licenciatura pela PUC Goiás. - Templodeapolo.net ® Todos os direitos reservados aos seus respectivos proprietários.