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Vida após a morte
11/2/2017 8:12:43 PM | Por Julliette Wood
Mitologia Celta
Texto
A Sabedoria da eternidade

Os celtas eram fascinados pela imagem do nó sem fim - um modo de expressar o infinito em um padrão tangível. As linhas do nó, presente em monumentos e manuscritos, são torcidas e entrelaçadas, mas sempre voltam ao ponto de partida. Nas narrativas das jornadas ao Outro Mundo, os viajantes também têm experiências valiosas, mas que acabam terminando no mesmo ponto em que começaram. Desse ponto de vista extramundano, a morte não é um fim, mas uma porta para a vida eterna. [123]

As criaturas em padrões

A representação de animais na arte celta - em armas, esculturas de pedra e, de modo mais espetacular, em manuscritos ilustrados com iluminuras - baseiam-se, em sua maior parte, na sabedoria do mundo cristão como também nas tradições ancestrais. Os animais nos lembram a vitalidade da natureza, o dom divino da diversidade que existe neste mundo e, embora por associações simbólicas, a realidade do eterno.

O Livro de Kells, merecidamente o mais conhecido de todos os manuscritos celtas com iluminuras, é um texto ricamente ilustrado dos evangelhos, produzido entre os séculos VII e IX e.c. Alguns dos animais retratados com mais frequência nesse manuscrito são associados a Jesus Cristo. A cobra é um símbolo da Ressurreição, pois ela se renova com a troca de pele, enquanto o motivo do peixe é uma lembrança dos novos convertidos ao Cristianismo, que nadam no batismo (em grego, a palavra "peixe" também é um acrônimo de Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador). Todos os evangelistas, exceto São Mateus, que era retratado como um homem ou um anjo, foram simbolizados como animais: São Marcos, como um leão, São Lucas como um boi e São João como uma águia. Entre os pássaros retratados no Livro de Kells estão o pavão, que simboliza a natureza incorruptível de Cristo, e a pomba, ligada ao Espírito Santo.

Nem todas as criaturas da arte celta, porém, têm associações positivas. Nas ilustrações dos manuscritos e nas esculturas de pedra, existem muitos monstros, como dragões cuspidores de fogo, estranhas criaturas que devoram a própria calda e animais semelhantes a répteis retratados engolindo vítimas humanas (até mesmo um bispo, num dos casos). Por mais terríveis que essas criaturas possam parecer, sua fúria é abrandada pelo poder dos santos celtas. Dizia-se que São Sansão de Dol, reverenciado na Cornualha e na Britânia, era capaz de transformar um dragão em pedra; e que São Ronan cavalgou um monstro gigante até uma ilha, para fazer com que seus habitantes venenosos fugissem para o mar e ele pudesse construir ali um mosteiro. [124]

A videira trancada

Muitos dos padrões desenhados nos manuscritos e esculpidos nas cruzes celtas retratam plantas semelhantes à videira em formatos intrincados e retorcidos. Essas videiras muitas vezes estão enraizadas num cálice de ouro, e entre suas folhas e galhos trançados crescem cachos de uva do qual se alimentam pavões com caldas iridescentes e onduladas. O simbolismo cristão da videira é uma fusão das tradições de sabedoria celta e bizantina. A videira carregada de uvas e irrompendo de um cálice representa a promessa de redenção de Cristo; e os pavões, retratados com suas caudas coloridas abertas, simbolizam a Ressurreição.

Mesmo antes do simbolismo cristão se tornar popular, as plantas já representavam uma parte importante do imaginário celta. Um dia, três fadas de Cruachan, um portal que liga o mundo humano ao Outro Mundo trevoso, sentaram-se para fiar lã no sentido anti-horário, em fusos feitos com galhos retorcidos de azevinho. Qualquer coisa feita no sentido contrário ao movimento do Sol - isto é, no sentido anti-horário - é considerada magia negra. As ações das mulheres, combinadas com as propriedades mágicas do azevinho retorcido, permitiram que as anciãs envolvessem dois grandes heróis, Finn e Conan, em seus fios e os cegassem, sem lhes dar possibilidade de fuga. Os companheiros de Finn tentaram deter a malévola fiação, mas todos, com exceção de Goll mac Morna, ficaram enredados nos fios enfeitiçados. Goll por fim conseguiu matar as bruxas e resgatar os companheiros.

As qualidades mágicas do azevinho são mencionadas também na história de Taliesin. Quando o Príncipe Elphin, senhor do bardo Taliesin, gabou-se de que seus cavalos eram melhores do que os do Rei Maelgwn, o rei, muito zangado, insistiu para que fizessem uma corrida de cavalos. Taliesin deu uma vara de azevinho para o cavaleiro de Elphin e instruiu-o a golpear com ela as ancas de cada cavalo de Maelgwn durante a corrida. O cavaleiro obedeceu e os cavalos do rival logo não tinham mais condições de correr. No final da corrida, Taliesin diz a Elphin para cavar um buraco onde o cavaleiro deveria enterrar seu chapéu e sua vara. Nesse momento, ele descobre um caldeirão cheio de ouro. Assim, Elphin, sem caber em si de felicidade, ganha a corrida e também um tesouro. [126]

Muitos poemas celtas baseiam-se na beleza natural e na fragilidade das plantas e usam essa imagem como metáforas do amor. São frequentes nos versos imagens como a de rosas cheias de espinhos e do azevinho crescendo das sepulturas de amantes, entrelaçados por toda a eternidade. Aqueles que viajaram ao Outro Mundo voltam muitas vezes com estórias sobre uma terra onde é sempre verão e existem belas árvores que produzem frutos o ano todo. Quando seres humanos comem as maçãs prateadas que crescem nessas árvores, eles anseiam pelos seus amantes do Outro Mundo. [127]

O nó sem fim

Os celtas gostavam de padrões entrelaçados de grande complexidade, com cores e desenhos vibrantes. Nós elaborados, com linhas e curvas, adornavam armas, espelhos, cerâmicas e monumentos. Padrões semelhantes também apareciam nos manuscritos celtas, com agrupamentos de desenhos curvilíneos e geométricos decorando cada letra, palavra, frase e até páginas inteiras. Ali, encontrávamos figuras humanas, pássaros e animais aparentemente emaranhados num padrão de linhas entrelaçadas, com cabeças, mãos e pés emergindo de arabescos espiralados. Vemos homens lutando e puxando a barba trançada uns dos outros, e cães de caça perseguindo presas através de florestas de padrões abstratos.

Os celtas cristianizados usavam desenhos entrelaçados em seus manuscritos para refletir as “verdades” eternas da mensagem bíblica. O símbolo do nó sem fim, que expressa o infinito por meio de uma linha que se pode seguir até o ponto de partida, está ligado à lenda medieval do selo de Salomão, um anel mágico decorado com misteriosos símbolos que permitiam ao Rei Salomão controlar os espíritos. O escudo que Gawain carrega em sua busca pelo Cavaleiro Verde, no famoso poema do século XIV, é ornamentado com um nó sem fim de cinco pontas, descrito com detalhes; sua ligação com Salomão é destacada: "então ele lhe mostrou o escudo, que era de goles brilhante [vermelho]/ Com um pentagrama pintado de um ouro muito puro (...)/ É um sinal que um dia concebeu Salomão / Como um símbolo de fidelidade, em virtude do seu formato/ pois trata-se de uma figura de cinco pontas/ e cada linha cruza e se liga as outras/ E é interminável em uma e outra direção; e na Inglaterra é chamado/ Em toda parte, como eu ouvi, de nó sem fim".

Muitos nós entrelaçados são formados de folhas e vegetação. A ligação entre o mundo natural e esses padrões estilizados é ilustrada na lenda associada à capela de Locronan, em Finistère, dedicada a São Ronan. Depois da morte do santo, várias paróquias reivindicaram a custódia do corpo do santo e a honra de construir sua tumba. [128]

Colocaram o corpo de São Ronan num carro de boi sem condutor, na esperança de que o poder de Deus decidisse o lugar da tumba, guiando os bois até lá. Os paroquianos seguiam atrás. Ao cair da noite, os animais pararam num pequeno bosque no alto de uma colina e os seguidores do santo foram para casa. Na manhã seguinte, quando o povo voltou, ficaram surpresos ao descobrir que uma capela já havia sido construída ali. O carro de boi tinha se transformado milagrosamente numa tumba de pedra e os galhos das árvores do bosque tinham se petrificado, formando a intrincada estrutura de pedra da capela, que abriga o corpo do santo. [129]

Como viver e como morrer

De acordo com Diógenes Laércio, a máxima dos druidas era que todos os celtas vivessem de acordo com três condições: venerassem os deuses, não fizessem nenhum mal e fossem valentes. Como em muitas tríades celtas, o preceito mais importante - ser valente - vem por último. Como diz um provérbio celta, "A memória de um homem não envelhece". Ser lembrado, depois da morte, como um homem de boa reputação e lembrado pelos bardos, que louvam os vivos e homenageiam os mortos, é a aspiração de todo homem celta.

O poeta romano Lucano resume a atitude celta diante da morte quando afirma, "A morte é o meio de uma longa vida". Oferendas funerárias eram enterradas junto com o corpo para facilitar a passagem do espírito pelo reino dos mortos, até o Outro Mundo. Armas, muitos objetos pessoais, como taças, trompas de caça e até carruagens, acompanhavam os guerreiros, ao passo que peças de joalheria e cerâmica eram os principais bens sepultados com as mulheres. Alimentos e bebidas eram providenciados para sustentar a alma em sua jornada. Além dos objetos mais práticos, algumas sepulturas continham os ossos de animais domésticos, como cavalos e cães, e modelos de rodas, que simbolizavam o ciclo eterno de vida e morte. [132]

   Mitologia celta, Mitologia judaico-cristã, O Livro de Kells, infinito, simbolismo dos animais, nó sem fim, memória póstuma
11/1/2017 7:31:58 PM | Por Julliette Wood
Mitologia Celta
Texto
Viagens entre os reinos - O outro mundo celta

O avanço que fizemos, da inocência para o conhecimento ou da vingança para o perdão, se reflete nas jornadas dos heróis, que entre outras tarefas empreendem missões de resgate ou revanche e acabam por descobrir profundas verdades nas terras do Outro Mundo. Essas jornadas são odisséias da imaginação e também mergulhos no mundo interior. Neste capítulo, acompanhamos várias buscas épicas e viagens entre os mundos material e espiritual. [61]

O limiar do outro mundo

Os espíritos muitas vezes invadem a terra dos vivos e, para manter o equilíbrio entre os dois mundos, os seres humanos precisam às vezes viajar para o Outro Mundo. Existem muitas maneiras pelas quais os vivos podem entrar nos reinos do espírito e uma das mais diretas é cruzar o limiar entre a terra dos mortais e os reinos do sobrenatural, o local onde esses mundos se encontram ou se cruzam. Esses portais são encontrados tanto no centro quanto nos limites externos do mundo celta.

O cosmo celta irradia de um ponto em que os domínios humano e sobrenatural convergem. Júlio César conta que, numa certa época do ano, os druidas se encontravam num ponto central da Gália onde seria esse ponto de convergência. A localização podia ser um bosque sagrado - um dos lugares em que os druidas realizavam suas cerimônias e sacrifícios para aplacar a ira dos deuses e prever o futuro. Ou podia ser uma área aberta, como a Planície de Tara, em cujo centro fica a mágica Pedra de Fal, que grita quando o verdadeiro rei deve assumir o trono.

A visão da ordem cósmica altamente centralizada repercute na maneira pela qual as quatro províncias externas da antiga Irlanda - Connacht, Leinster, Munster e Ulster - se estendem do ponto mediano de Tara, na província central de Meath (que correspondem aproximadamente aos condados modernos de Meath e Westmeath). Como que ecoando esse padrão, no Festival de Tara, os reis das quatro províncias sentavam- se diante do Grande Rei, à direita, à esquerda e atrás dele, cercando-o assim com a segurança oferecida pela Irlanda e seus formidáveis guerreiros.

A tensão entre o cosmos e o caos assemelha-se a uma antiga forma de xadrez. No centro da Planície de Tara, ficam o rei e seus homens, como peças comandando o meio do tabuleiro. Ao redor deles estão as forças hostis. Assim como um jogador experiente pode ganhar o jogo por meio de uma combinação de sorte e perspicácia, os seres humanos [62] também podem sobreviver aos seus encontros com o sobrenatural confiando tanto nas próprias capacidades quanto no destino.

Os locais naturais onde o reino dos seres humanos e o do Outro Mundo se encontram têm características topográficas bem definidas. Fronteiras como rios os dividem, enquanto lagos e poços servem como uma passagem entre eles. Estruturas feitas pelo homem, como as muralhas de uma fortaleza, podem ser atacadas por forças sobrenaturais e também por mortais. Conn, Grande Rei de Tara, vigia as trincheiras da sua fortaleza diariamente, para evitar que o povo dos sidh ("colinas dos encantados") tome o forte de assalto. [63] Barreiras e passagens entre os mundos, tanto naturais quanto artificiais, são mais vulneráveis em certas épocas do ano. As festividades de Tara ocorriam durante o Samhain, que também era a época em que Aillen Mac Midna, inimigo dos Tuatha De Danann, vinha do Outro Mundo para incendiar o trono real. Todo ano, durante nove anos, ele aterrorizou Tara, induzindo ao sono todos da corte com uma música mágica e, então, destruindo o palácio até os alicerces com seu sopro abrasador. Por fim, o Grande Rei de Tara pediu a voluntários para desafiarem Aillen, e o herói Finn Mac Cumhaill se prontificou a cumprir a tarefa. Finn ofereceu-se para montar guarda a noite toda em troca da satisfação de um desejo. O Grande Rei aceitou a oferta e deu a Finn uma lança mágica que o faria capaz de resistir à melodia entorpecente e matar o inimigo. Quando Aillen chegou, Finn derrotou-o facilmente com a lança, e seu desejo - tornar-se o líder dos Fianna, a elite dos exércitos da Irlanda - foi realizado.

Nas noites em que os espíritos estão à solta, os mais cautelosos ficam em casa com portas e janelas trancadas, com receio de qualquer contato com o sobrenatural e temerosos de que os encantados possam raptá-los. Mas os mais aventureiros, como Nera, um servo de Ailill de Connacht (...) pôde aproveitar a oportunidade para entrar no Outro Mundo e aprender a sabedoria dos mortos. Outros viajantes humanos empreendem viagens por mar com a intenção de chegar às lendárias ilhas do Outro Mundo, que ficam a oeste. [64]

O arquipélago encantado

O oceano Atlântico era um desafio formidável até para os intrépidos viajantes celtas. Os marinheiros celtas, no entanto, se aventuravam em mar aberto em seus curraghs (barcos de estrutura de madeira, cobertos de couro à prova d'água e próprios para o alto-mar. No gênero narrativo conhecido como imram, que significa literalmente "remação", detalhes verossímeis de jornadas reais de exploração são intercalados com as crendices e estórias fantásticas dos viajantes sobre o pós-morte, dando origem a fábulas intrincadas, características dos celtas irlandeses.

Todas as estórias imrama seguem um padrão semelhante. Um grupo de homens se lança numa viagem por mar, normalmente por uma das três razões a seguir. Podem ter a intenção de encontrar as místicas ilhas dos Abençoados - um grupo de ilhas do Outro Mundo que fica "a oeste". Ou a sua viagem pode ser uma penitência por violarem um geas - uma maldição que requer que os homens cumpram uma série de tarefas para quebrar o encantamento. Ou seu motivo para a viagem pode ser o desejo de buscar revanche por uma injustiça que sofreram - como na estória de Mael Duin. Compondo seu próprio Livro Celta dos Vivos e dos Mortos, as estórias imrama levam os viajantes a uma série de aventuras, cada qual representando uma oportunidade de aprendizado. Cada ilha tem uma característica peculiar. Em algumas delas, o ato de comer determinado fruto ou beber a água de algumas fontes pode matar, curar ou causar estranhas transformações. Em outras, os habitantes realizam uma única atividade obsessivamente. As leis da natureza nem sempre vigoram - por exemplo, monstros podem aparecer das profundezas do mar, o mar congela ou ganha vida, ou peixes saem de rios e lagos para falar com os viajantes humanos.

Esses encontros fantásticos são freqüentes na estória de Mael Duin. O herói parte da Irlanda por mar com guerreiros e seus três irmãos de criação, para procurar os homens perversos que tinham assassinado seu pai. Desviados do seu curso por um vento [66] forte, os viajantes descobrem que estão nos arredores das ilhas do Outro Mundo. Navegando de ilha em ilha, eles aos poucos aprendem as artes da temperança, da humildade e do perdão (e Duin acaba perdendo todos os três irmãos no percurso). Depois de muitos anos no mar, os viajantes que sobrevivem decidem voltar para casa, e na viagem de volta para a Irlanda acabam encontrando a ilha onde moram os assassinos. Sem a mesma disposição de se vingar, Mael Duin demonstra sua recém-descoberta magnanimidade e oferece a sua amizade aos malfeitores, chegando até mesmo a se sentar à mesa com eles e contar as estórias de suas viagens.

Como outras imrama, essa narrativa épica é, para usar a terminologia moderna, uma alegoria sobre o crescimento pessoal - para o leitor, assim como para os viajantes. Diante de inumeráveis oportunidades, os viajantes tomam decisões de cunho moral a [68] todo instante. Se suas escolhas violam qualquer uma das regras rígidas (embora ocultas), ocorrem desastres, inclusive a perda de companheiros de viagem. Desse modo, os membros da tripulação que se desgarraram do grupo e foram para a Ilha da Risada ou para a Ilha do Choro, são forçados a permanecer ali para sempre, tornando-se tão obsessivos quanto os outros habitantes - um aviso contra a despreocupação e o pesar excessivos. Viajantes que cometeram um crime em segredo são levados por pássaros gigantes - no labirinto da moral é impossível escapar das conseqüências dos próprios atos. Aqueles que tentam roubar tesouros das ilhas do Outro Mundo também são roubados por felinos monstruosos - uma ironia cósmica (até kármica) ajusta a punição ao crime. Aqueles, porém, que vencem as armadilhas têm permissão para chegar às mais complexas e belas ilhas do Outro Mundo, as Ilhas dos Abençoados e a Ilha das Mulheres, onde o tempo parece ter parado numa primavera eterna e os habitantes são imortais.

Navegar pelo oceano desconhecido é lançar-se nas mãos do destino. O destino, contudo, nunca é meramente neutro - sempre existe uma dimensão moral. A própria vida é uma busca, e o buscador dedicado e consciente da verdade e do bem é recompensado da maneira apropriada no devido tempo. [69]

A sabedoria da água

A água, na qual existem tantos reinos misteriosos, é um símbolo apropriado da verdade que existe sob a superfície das coisas - um tipo de véu translúcido, às vezes transparente às vezes opaco, entre este mundo e os mundos do pós-morte. Por meio do poder mágico da água, podemos entrar em contato com a sabedoria do Outro Mundo. Isso pode ser matéria de profundas reflexões na vida, mas também de revelações muito simples. O poeta Neidne mac Adhna, caminhando um dia pela praia, ouve o som de um lamento e se detém para ouvir. As ondas então lhe revelam a morte iminente de seu pai.

Oceanos, rios, fontes e lagos, todos revelam a sabedoria da água, mas os poços ou nascentes têm um lugar especial no folclore celta. A água surge da terra como se, por magia, fosse imbuída de poderes reveladores de especial intensidade. Numa estória, o herói irlandês Cormac se perde nas brumas e, quando elas se dissipam, ele descobre que está ao lado de um poço. Logo descobre que cinco salmões vivem no poço, alimentando-se das avelãs que caem de nove avelãzeiras que crescem nas imediações. Cinco rios também fluem dessa fonte. Cormac percebe que esse é o Poço do Conhecimento: os rios correm para as cinco províncias da Irlanda e representam os cinco sentidos, dos quais derivam todo o conhecimento humano. [74]

Em outro conto, uma nascente tem o poder de devolver a vida aos mortos, caso o indivíduo tenha recebido amor, respeito e verdade de seus entes queridos em vida. Quando o servo mágico de Finn mac Cumhaill, Gilla na Grakin, é assassinado, a mulher de Gilla navega pelo oceano com seu corpo, em busca de uma maneira de trazer o marido de volta à vida. Por fim, ela desembarca numa ilha onde vê um pássaro morto recobrar a vida e sair voando. A devoção da mulher é recompensada. Nessa ilha, ela descobre uma fonte mágica; e, quando molha os lábios do marido com algumas gotas de água da fonte, ele ressuscita diante dos olhos dela. [75]

Receptáculos da verdade

Por ser a água, a essência da vida e também uma poderosa fonte de sabedoria e verdade, acessível a poetas, druidas, reis e heróis, o caldeirão e a taça, receptáculos desse fluido mágico, têm, eles próprios, poder espiritual. Esse simbolismo é complementado na lenda do Santo Graal por uma associação com o sangue. Às vezes, o graal é um recipiente que contém uma cabeça sangrenta, um símbolo celta primitivo, ou, numa versão mais cristã, é o cálice no qual se recolheu o sangue do Cristo na cruz. O caldeirão também está ligado ao renascimento e à abundância inesgotável: o deus irlandês Dagda possui, além da sua clava letal, um caldeirão com o qual ele distribuía um suprimento inesgotável de comida.

Durante a Idade Média, um monge irlandês compôs um poema sobre uma excursão ao Outro Mundo, no qual ele assumiu a voz de um dos mais famosos profetas - Taliesin, o líder dos bardos. O autor, fundindo os simbolismos ancestral e cristão do cálice, descreve Taliesin navegando com o Rei Arthur e os heróis antigos de Gales no navio Pridwen, à procura de um caldeirão mágico do Outro Mundo, decorado com jóias e pérolas. Eles penetram num mundo estranho, quase surreal, em que imagens de torres e fortalezas de vidro aparecem de modo fugidio [76] nas  ilhas do Outro Mundo. Acabam levando o caldeirão, mas por um preço alto - só sete dos companheiros de viagem voltam para casa.

Em outra estória, o Grande Rei Cormac adquire sabedoria de um caldeirão fervilhante e ganha dois preciosos presentes do Outro Mundo, exemplificando a maneira pela qual um caldeirão pode servir como uma imagem profunda da verdade.

Numa manhã de maio, um esplêndido guerreiro se aproxima das muralhas de Tara, carregando um ramo de prata de onde pendem maçãs de ouro. Ao bater umas contra as outras, as maçãs emitiam uma música suave, com o poder de confortar as pessoas e induzi-las a um sonho repousante. O visitante revela que veio da terra da verdade, onde não existe doença, nem decadência, nem tristeza, inveja ou ódio. Como prova da sua amizade, ele oferece ao Grande Rei Cormac o ramo de prata em troca de três favores.

O rei aceita a proposta, e um ano depois o guerreiro volta para cumprir sua promessa. Primeiro, ele exige a filha de Cormac; depois o filho. Cormac concede esses favores e usa os poderes do ramo de prata para amenizar a tristeza da corte pela perda dos filhos do rei. Quando o guerreiro exige, em seguida, a esposa de Cormac, o rei consente com relutância, mas depois sai, com seus homens, em perseguição ao visitante.

De repente, uma névoa desce sobre os companheiros e Cormac se vê sozinho ao lado de uma fortaleza murada, que é também onde fica o Poço do Conhecimento. Um belo estranho e sua linda companheira oferecem a Cormac a hospitalidade da fortaleza.

Logo um homem entra carregando um porco. Ele corta o animal em quatro partes e põe a carne num "caldeirão da verdade". O homem conta a Cormac que a carne só cozinhará se contarem quatro estórias verdadeiras, uma para cada porção. O dono do porco, o anfitrião e seus companheiros contam, cada um deles, uma estória verdadeira e as porções cozinham como deveriam. Então Cormac conta a estória do desaparecimento da sua família e sua porção de porco também cozinha. Mas, por ser um homem de muita honra e integridade, recusa-se a comer a carne sem os seus exércitos. O anfitrião canta uma canção para fazer o rei dormir e, quando Cormac acorda, ele está cercado pela família e pelos seus homens. [77]

Mais tarde, nessa mesma noite, o rei admira o trabalho artesanal do cálice de ouro de seu anfitrião. Este conta a Cormac que o cálice se quebra quando três mentiras são contadas, mas se recompõe depois que três verdades são proferidas. Ele então conta três mentiras e o lindo objeto se parte em pedaços. Depois, assegura a Cormac que, enquanto a mulher e a filha dele estiveram fora, nenhum homem as tocou, tampouco o filho dele dormiu com uma mulher. Para a surpresa de Cormac, o cálice se recompôs. Por fim, o anfitrião revela ser Manannan mac Lir  o misterioso visitante que havia presenteado Cormac com o ramo de prata. Nesse mesmo instante, Cormac se vê de volta à Planície de Tara com a mulher, os filhos e seu exército, segurando na mão o "cálice da verdade". Um grande rei, portanto, se torna muito mais grandioso quando é merecedor de dois presentes preciosos do Outro Mundo: o "ramo de prata do bem-estar" e o "cálice da verdade". [79]

Disfarçado de cisne

A graça e a beleza do cisne, com sua elegância, seu pescoço longo e penas brancas e macias, fazem dessa ave um símbolo natural de tudo o que é bom, sagrado e puro. Capaz de deslizar sobre rios e lagos, bambolear por terra ou cruzar os ares com suas asas poderosas, o cisne também liga as águas do Outro Mundo com os reinos da terra e do céu. Os cisnes do Outro Mundo são metamorfos, capazes de mudar de forma quando querem, e é possível identificá-los pelas correntes de ouro ou prata penduradas em volta do pescoço.

Como muitos habitantes do Outro Mundo, o cisne é uma criatura ambígua, com um aspecto obscuro que contrabalança suas qualidades positivas. Na estória dos filhos de Lir - um conto tão triste que é considerado um dos "Três Maiores Pesares da Contação de Estórias" - o viúvo rei Lir casa-se novamente para que sua filha Fionuala e seus três filhos possam voltar a ter mãe. Mas a nova rainha tem ciúmes da afeição do rei pelos filhos e por isso lança mão de feitiçaria para transformá-los em cisnes. As crianças-cisne, porém, conseguem manter sua capacidade de falar e seu dom para a música, e as pessoas vêm de longe para ouvi-las cantar no lago e se sentem reconfortadas com a sua música.

Depois de muitas aventuras tristes, as infelizes crianças encontram um ermitão que consegue consolá-las da sua dor por meio da fé cristã. Mas o sofrimento delas ainda não tem fim, pois um rei malvado as captura e as leva embora com ele, depois do que suas penas caem para revelar quatro criaturas velhas e trêmulas. Percebendo que morreriam, as crianças-cisne pedem apenas para serem enterradas juntas na mesma sepultura e o ermitão bondosamente atende ao pedido delas. Então os filhos de Lir encontram paz finalmente e conseguem entrar no reino do céu.

No conto arthuriano de Lohengrin, filho de sir Percival, o menino aparece primeiro dentro de um barco que vai para o Outro Mundo, atraído por um lindo cisne branco. Lohengrin é muitas vezes retratado usando branco (uma alusão às penas do cisne), em reconhecimento às suas origens sobrenaturais. [80]

   Mitologia celta, o outro mundo
8/17/2017 10:37:28 PM | Por Mirella Faur
Mitologia Nórdica
Texto
Similaridades e diferenças entre a mitologia nórdica e greco-romana

O surgimento das crenças e práticas escandinavas e germânicas, são originárias do passado comum indo-europeu, ampliadas com as tradições e os elementos nativos das tribos que já moravam no norte e nordeste europeu, lá existindo desde a pré-história. Foi comprovado, através de pesquisas de mitologia comparada e filologia, que os dialetos germânicos e escandinavos do continente, junto com as línguas de origem latina, eslava, celta, hindu e persa, pertenciam à mesma família linguística indo-europeia.

As várias tribos que saíram das suas pátrias da Ásia Central para conquistar novos territórios — no norte da Europa e no leste, chegando até a índia — levaram consigo nas suas migrações não apenas uma base linguística comum, mas uma mesma fé e mitologia, partilhadas por todos. Da mescla dos seus mitos e práticas surgiu o complexo panteão nórdico e os grupos das divindades Aesir e Vanir, além dos vários arquétipos de seres sobrenaturais, guardiões da natureza e os amplos e duradouros cultos aos ancestrais.

Do mesmo tronco indo-europeu, outras tribos arianas vindas da Ásia Central se deslocaram para o sul da Europa e, com o passar do tempo, lá floresceram duas relevantes culturas: a grega e a romana. Separadas por condições geográficas diferentes e com outro tipo de desenvolvimento histórico, social e cultural, à primeira vista a mitologia nórdica e a greco-romana têm pouco em comum. Mas, analisando com atenção e cuidado, observamos uma analogia dos conceitos fundamentais, com mitos e divindades semelhantes, as diferenças sendo devidas às influências recebidas pela diversidade das tribos conquistadas e integradas ao Império Romano, além do clima e da natureza específica às regiões temperadas e à bacia do Mediterrâneo. Percebem-se assim as sementes indo-europeias, que deram origem a ambas as tradições, mas com um colorido e descrições diferentes.

Oferecemos neste pequeno capítulo conhecimentos, comparações e analogias para aqueles leitores que desejam se aprofundar e compreender melhor o fascinante legado cultural e mitológico do norte e do sul da Europa.

O início dos tempos

Os povos nórdicos acreditavam que o mundo surgiu do caos, pois no princípio não existia nem céu, nem terra, apenas um abismo sem fundo, com uma extremidade de fogo e outra de gelo; espelhando o seu habitat, a criação do mundo na cosmologia nórdica era representada como um encontro dramático entre as forças primordiais do fogo e do gelo. Essa imagem é um traço característico da natureza islandesa, onde é visível o contraste entre o solo vulcânico, os gêiseres borbulhantes e os grandes icebergs ao redor. Desses elementos opostos — fogo e gelo, calor e frio, expansão e contração — nasceram os Jotnar (os gigantes nórdicos), que, semelhantes aos Titãs, os precursores dos deuses gregos, tinham uma impressionante força e resistência física, mas diferentes deles, suas feições eram rudes e a inteligência primitiva, prevalecendo os instintos.

Os gigantes representavam os poderes naturais dos elementos e do ambiente em que viviam, alguns deles se tornaram progenitores das divindades que os seguiram na regência do mundo. Do vazio primordial surgiram dois seres, personificações primevas da energia e da matéria, o gigante Ymir (equiparado com os Titãs, que também personificavam o fogo subterrâneo) e a vaca AucLhumbla, tornando-se cocriadores no processo de formação da vida.

Ymir, como ser hermafrodita e sendo ao mesmo tempo gigante e deus, gerou vários descendentes; seus netos — a tríade divina Odin, Vili e Vé — gerados por uma força tripla (a mescla do fogo, do gelo e do princípio feminino — a vaca Audhumbla) mataram Ymir e, da sua matéria cósmica bruta, remodelaram o cosmo estático e o transformaram em um sistema vivo e dinâmico.

No mito grego, no começo dos tempos prevalecia o caos, em que todos os elementos estavam misturados formando uma massa informe, mas que continha em si as sementes da criação. O primeiro ser que surgiu foi Gaia, a mais antiga deusa e a Grande Mãe primordial, a própria terra, que soprou a vida no vazio e criou montanhas (seus seios), rios (seu sangue), grutas (seu ventre), planícies, florestas e desertos (seu corpo). Apesar de Gaia representar o planeta inteiro, para os gregos ela personificava o seu país e a fertilidade e abundância da terra.

Ao unir-se ao seu primogênito, Urano, o céu, ela gerou os Titãs (entre os quais se sobressaíam Cronos, Oceano, Hipérion, Eurinome, Têmis e Mnemosine) e depois os Ciclopes, seres gigantes e imbuídos de força irracional, que foram aprisionados por Urano (que temia seu poder primal), no mundo ctônico, o Tártaro. Revoltada com a sorte dos seus filhos e preocupada com a crueldade do seu marido, Gaia persuadiu seu filho Cronos, o mais jovem dos Titãs, a castrar e matar Urano; do seu sangue, que fertilizou novamente Gaia, surgiram as Fúrias, vários seres gigantes e as ninfas das árvores.

Cronos regeu a Idade de Ouro, um período de paz e prosperidade, mas devorava seus filhos à medida que nasciam, com medo de ser por eles destronado, assim como ele tinha feito com seu pai. Como o Senhor do Tempo, Cronos na realidade representava o fim de todas as coisas. Seu filho Zeus escapou a esse cruel destino por ter sido escondido pela sua mãe em uma gruta no monte Ida, em Creta, onde foi amamentado pela cabra Amaltea e cuidado pelas ninfas. Com a ajuda da deusa Métis, Zeus administrou um veneno ao seu pai, que o fez vomitar e devolver todos os seus filhos. Zeus — ou o seu equivalente romano Júpiter — libertou alguns dos Titãs presos no Tártaro e entregou aos seus irmãos Posêidon e Hades, os reinos do oceano e do mundo subterrâneo. Zeus se declarou o governante supremo, dos deuses e dos homens e foi morar no palácio do Monte Olimpo, de onde supervisionava todos os recantos do mundo e seguia a sua própria jornada, a busca do poder e prazer.

Tanto os gigantes do fogo e do gelo, quanto os Titãs, foram vencidos após batalhas ferozes, em busca da supremacia e do poder e foram banidos pelos seus descendentes, após sua derrota, uns para jötunheim, os outros para Tártaro, sendo obrigados a ceder seu poder primevo para um novo panteão, mais refinado. Engrandecidos pela sua vitória, os vencedores — que eram aparentados entre si —se instalaram em palácios dourados, seja os do reino nórdico de Asgard (as moradas das divindades Aesir), situados num dos níveis sutis da Arvore do Mundo, Yggdrasil, seja os dos seus equivalentes gregos do Monte Olimpo.

Os deuses representam o poder de manipulação e transmutação das forças naturais; a interação entre deuses e gigantes pode se manifestar como conflito ou domínio das forças naturais, levando à preservação ou à destruição da terra e de todos os seres vivos.

Os mitos nórdicos e os gregos, bem como as estórias e relatos das peripécias e conquistas das divindades são parecidos com os dramas humanos, descrevendo os conflitos inerentes e existentes entre gerações, famílias e indivíduos. As divindades eram dotadas com as mesmas virtudes e defeitos comuns aos seres humanos, sendo descritas como seres orgulhosos, vaidosos, violentos, belicosos, ciumentos, vingativos, sensoriais e passionais, interessados em observar, ajudar ou desafiar a humanidade, mas sem muita complacência, tolerância ou compaixão com suas ações negativas, seus erros, objetivos ou necessidades. Por outro lado, certos humanos tornados imortais — os heróis — possuíam poderes físicos e sabedoria semelhantes aos deuses, como se vê na descrição dos 12 trabalhos de Hércules ou nas proezas dos personagens históricos citados nas sagas islandesas.

A criação do homem

A tríade nórdica divina, Odin, Vili, Vé —os  descendentes de Ymir —, é semelhante aos deuses Zeus (Júpiter), Posêidon (Netuno) e Hades (Plutão), que, por terem maior poder e astúcia, venceram os gigantes (ou osTitãs) e assumiram o controle do mundo.

Os gregos modelaram as suas primeiras imagens de argila, por isso imaginaram que Prometeu tivesse usado o mesmo material quando foi chamado para confeccionar uma criatura inferior aos deuses, mas acima dos animais. Como as estátuas nórdicas eram feitas de madeira, os nórdicos atribuíram a criação do primeiro casal humano ao uso de troncos de árvores.

Os deuses nórdicos criaram o primeiro casal humano a partir de troncos de árvores, ou seja, de matéria orgânica preexistente, aos quais deram o espírito, os sentidos, o movimento, as funções da mente, o dom da palavra, a energia vital e a consciência.

Na mitologia grega, quem criou o homem foi Prometeu, um dos Titãs, que misturou terra e água e modelou um ser à semelhança dos deuses, que, diferente dos animais, ficava em pé e olhava para os céus, podendo assim invocar os deuses e agradecê-los. Para torná-lo especial e diferente dos seus irmãos menores, Prometeu entregou-lhe depois o fogo tirado do sol, que lhe assegurou a superioridade ao usá-lo para cozinhar, se aquecer ou defender e modelar metais em ferramentas e armas.

A primeira mulher foi Pandora, criada no céu, onde cada deus contribuiu com alguma coisa para aperfeiçoá-la: Afrodite lhe deu beleza; Hermes, a persuasão; Apolo, a arte. Ela recebeu também uma caixa que não devia abrir, porém, movida pela curiosidade, destampou-a e espalhou para a humanidade o conteúdo de pragas, maldades, males e doenças, permanecendo na caixa apenas a esperança. Assim, sejam quais forem os males que nos ameaçarem, a esperança nos permite sobreviver e vencer.

Ambos os panteões seguiam uma hierarquia familiar e uma evolução progressiva, correspondendo às Idades de Ouro (em que prevalecia a justiça, a paz, a abundância da terra), Prata (quando o ano foi dividido em estações, as moradas se tornaram necessárias, a terra tinha que ser plantada e cuidada), Bronze (o começo da competição e dos combates entre os homens) e por último a de Ferro (quando a humanidade tornou-se vil e violenta, começando a destruição dos recursos da terra), que passou a ser dividida em propriedades cobiçadas e conquistadas à força. Inúmeras guerras irromperam, havia crimes até mesmo entre familiares e a terra ficou manchada de sangue, até que os deuses entristecidos decidiram abandoná-la. Zeus ficou enfurecido com o caos reinante e decidiu destruir todos os seres humanos, jogando sobre eles o seu raio, para propiciar o nascimento de uma nova e melhor geração. Porém, temendo que o fogo afetasse o proprio habitat dos deuses — o céu —, ele escolheu outra forma de punição, provocando um dilúvio. Para isso Zeus desencadeou o movimento dos ventos, o avolumar das ondas, deixou os rios saírem dos seus leitos, sacudiu a terra com terremotos e erupções vulcânicas, até que nada mais restou das moradas, dos animais, árvores, plantas, campos, florestas ou seres humanos.

Apenas um casal sobreviveu, Deucalião e Pirra, que pertencia à mesma raça de Prometeu. Desesperados, eles começaram a orar aos deuses, pedindo-lhes clemência.

Zeus ficou tocado com a sua conduta humilde e a prece fervorosa e ordenou aos elementos que voltassem aos seus lugares, pedindo também aos outros deuses que harmonizassem a desordem reinante. O casal se ajoelhou nos escombros do altar do único templo restante, de Delfos, orou agradecendo pela sua sobrevivência e pedindo um conselho para a sua futura conduta.

O Oráculo, na voz de Gaia, lhes disse que saíssem do templo cobrindo suas cabeças, e que jogassem pedras ao seu redor, para que delas fossem formados seres humanos novos e melhores, repovoando assim a Terra. Assim foi feito e, aos poucos, uma nova raça foi surgindo, cuidando melhor dos recursos da terra e respeitando todos os seres vivos. As descrições e eventos do mito grego são semelhantes ao Ragnarök, o fim dos tempos da mitologia nórdica.

Cosmogonia

Na visão nórdica, a morada da humanidade — Midgard ou Manaheim — era cercada pelo mar, em cujas profundezas habitava a terrível Serpente do Mundo, enrolada ao redor de si mesma e mordendo sua cauda, cujas contorções provocavam ondas gigantes e tempestades marinhas e que iria ser fator preponderante no cataclismo final do Ragnarök. A passagem entre o mundo divino e os outros mundos — incluindo o humano — era feita pela ponte do Arco-Íris, formada de fogo, agua, ar e guardada pelo deus Heimdall. O cosmo multidimensional era representado por Yggdrasil, a Arvore do Mundo, cujas três raizes correspondiam às três dimensões (dos deuses, homens e dos mortos), que interligavam nove mundos, intercalados no espaço e sob cujas raízes brotavam três fontes sagradas, com significados e funções diferentes. A árvore gerava e sustentava a vida e abrigava as almas à espera do renascimento.

Os gregos acreditavam que a Terra fosse redonda e chata e que o seu país ocupava o centro da Terra, sendo seu ponto central o Monte Olimpo a residência dos deuses, ou o templo oracular de Delfos. Na sua visão, o disco terrestre era atravessado de leste para oeste e dividido em duas partes iguais pelo mar (o Mediterrâneo); em torno da Terra corria o rio Oceano, cujo curso era do sul para o norte na parte ocidental da Terra e em direção contrária do lado oriental; era dele que todos os rios e mares da Terra recebiam suas águas. O rio Oceano tinha uma superfície calma e suas correntes eram amenas, assim como era também o mar ensolarado do Sul, o Mediterrâneo.

Na cosmogonia grega existia uma terra mítica dos Hiperbóreos (a contraparte de Niflheim, o reino enevoado e frio do mito nórdico), situada no extremo norte da Terra (possivelmente Escandinávia), inacessível por terra ou por mar, onde “penas brancas” caíam do céu cobrindo a terra (uma bela imagem da neve). Os hiperbóreos eram um povo evoluído, que desfrutava de uma felicidade perene, isentos de doenças, velhice e guerras; eles viviam atrás de gigantescas montanhas, de cujas cavernas saíam as gélidas lufadas do vento norte. Foi lá, numa tempestade de neve, que o herói Hércules realizou um dos seus 12 trabalhos, alcançando e amarrando a corça de Cerínia (que pertencia a Artemis), que tinha chifres de ouro e cascos de bronze e corria com espantosa rapidez, sem jamais ter sido presa. Na sua visão no extremo sul da Terra, próximo ao rio Oceano, vivia um povo tão virtuoso e feliz como os Hiperbóreos, chamado de Etíopes. Na parte ocidental da Terra, banhada pelo Oceano, ficava um lugar abençoado, os “Campos Elíseos” ou “Afortunados”, para onde mortais favorecidos pelos deuses eram levados para desfrutar da imortalidade, uma semelhança com a Valhalla nórdica, onde os espíritos dos guerreiros mortos em batalha, festejavam em cada noite e lutavam durante os dias. Porém, na extremidade oeste, os gregos imaginavam um mar escuro povoado com gigantes, monstros e feiticeiros, descrição que revelava o pouco conhecimento dos gregos sobre seus vizinhos, além daqueles do leste e sul do seu país.

Fenômenos celestes

Assim como os gregos, os povos nórdicos acreditavam que a Terra tinha sido criada em primeiro lugar e a abóbada celeste em seguida, para que lhe servisse de cobertura e proteção. Eles também acreditavam que as carruagens do sol e da lua, puxadas por velozes corcéis, percorriam o céu na sua trajetória diária. A diferença aparecia no gênero das divindades, enquanto Sunna é a deusa solar do norte, seus equivalentes no sul são os deuses Hélios (o predecessor de Apolo), Hipérion (o pai de Hélios) e Apolo. Hélios morava em um palácio dourado no extremo leste do mundo, perto do rio Oceano, de onde emergia em cada amanhecer, coroado com os raios solares e conduzindo sua carruagem dourada, puxada por quatro cavalos alados.

Essa imagem é semelhante à descrição da deusa solar nórdica — Sunna ou Sol; nos seus mitos ambas as divindades se retiravam das suas carruagens solares ao anoitecer, assumindo outros veículos com os quais atravessavam abaixo da terra onde repousavam, até de novo reaparecerem na madrugada do dia seguinte, retomando sua jornada. Os gregos acreditavam que a aurora, o sol e a lua levantavam-se do Oceano na sua parte oriental e após atravessarem o ar, deitavam-se no ocidente. Devido a uma particularidade da língua germânica, o gênero do sol era feminino e o da lua masculino, por isso o deus lunar Mani podia ser equiparado às deusas lunares Artemis, Selene e Hécate (as representações das fases lunares).

Os skalds islandeses e os poetas germânicos comparavam o galope das Valquírias - montadas sobre seus corcéis com crinas brilhantes e portando armaduras cintilantes - às luzes fulgurantes da aurora boreal. Os aregos viam no mesmo espetáculo celeste as manadas brancas de bois e ovelhas, que pertenciam a Apolo e que eram cuidadas pelas suas filhas Lampécia e Faetusa, nas terras de Sicília. O orvalho era atribuído pelos nórdicos ao suor respingando das crinas dos cavalos das Valquírias, enquanto os gregos acreditavam que ele provinha da ninfa Daíne, que, por ter sido perseguida sem cessar pelos raios solares de Apolo, transformou-se na arvore de louro, tornada sacra pelo arrependimento do deus e a ele consagrada.

A Terra era uma divindade feminina, tanto no norte quanto no sul, honrada como a Mãe Geradora e Protetora de todos os seres, mas diferenciada em função das características geográficas e climáticas do norte e do sul. As diferenças apareciam nas descrições da sua manifestação: rígida e congelada como Rinda, que devia ser conquistada com perseverança e abnegação, ou benevolente e fértil como a Deméter grega. Os gregos acreditavam que os ventos frios e o granizo vinham do norte, assim como os proprios nórdicos sabiam, mas atribuíam sua formação ao movimento das asas da grande águia pousada no topo da árvore Yggdrasil.

Segundo os gregos, existiam portas nas nuvens, guardadas pelas deusas das estações, que as abriam para permitir a passagem dos imortais nas suas viagens para a Terra. No mito nórdico a ligação entre o mundo dos humanos e o das divindades era feita pela ponte do Arco íris, Bifrost, protegida pelo deus Heimdall, que negava a entrada para aqueles seres (humanos ou sobrenaturais) que não tinham o direito ou a permissão de entrarem no mundo divino. Além de Bifrost existiam outras pontes, separando ou ligando os outros mundos.

Os deuses gregos tinham moradias distintas, mas quando convocados para os conselhos, se reuniam no palacio de Zeus, onde se regalavam diariamente com ambrosia e néctar, servidos pela linda deusa da juventude Hebe e, quando o sol se punha, se retiravam para seus palácios. As divindades nórdicas também se reuniam para deliberar, criar leis ou administrar assuntos do seu reino ou dos humanos, nos grandes salões de Valhalla, onde festejavam com brindes de hidromel, preparado no caldeirão mágico do deus Aegir. Eram 12 as divindades que se reuniam nos concílios para deliberar e decidir a melhor maneira de governar o mundo e a humanidade, tanto em Asgard, quanto no Monte Olimpo e elas foram associadas com constelações e corpos celestes.

Nornas e Moiras

É evidente a semelhança entre o conceito do orlög nórdico e do destino grego, entre as poderosas Senhoras do Destino — Nornas e Moiras, respectivamente — que presidiam a todos os nascimentos e determinavam o futuro das crianças, bem como o traçado da sorte dos homens.

Os povos nórdicos sabiam, que mesmo reverenciando, invocando e fazendo oferendas às divindades, elas não iriam deles afastar os perigos e as adversidades, por fazerem parte dos testes e provações dos seus destinos, previamente designados e traçados pelas Nornas. As lendas e os mitos nórdicos não descrevem atos de revolta, ou demonstrações de amargura e inconformação dos personagens perante as adversidades e contratempos das suas vidas; pelo contrário, observa-se uma heróica aceitação da inevitabilidade dos problemas e dificuldades, celebrando e agradecendo em troca os prazeres sensoriais e as dádivas materiais da existência.

Os deuses conferiram à humanidade a aceitação da vida como um traçado inalterável do destino, previamente escolhido e determinado pelas Nornas. Orlög representava o presente moldado pelas ações passadas, enquanto Wyrd era o destino individual, predestinação ao qual nem mesmo as divindades podiam escapar. As Nornas podiam aconselhar os deuses que as procuravam, sem jamais atenderem pedidos ou mudarem os seus destinos, como foi descrito no mito do deus Baldur. As Nornas habitavam uma gruta nas raízes de Yggdrasil, a Árvore do Mundo e os seus nomes podiam ser interpretados como atribuições ligadas à passagem do tempo: Urdh, “Aquilo que já aconteceu”, Verdandhi, “Aquilo que está sendo” e Skuld, “Aquilo que poderá vir a ser”, aspectos associados também ao nascimento, vida e morte. Sua função cósmica era estabelecer as leis e modelar os destinos de todos os seres vivos, de todos os mundos, inclusive dos deuses.

As Parcas ou Moiras, conhecidas como as “Fiandeiras” ou “Tecelãs”, eram também um grupo em número de três deusas — como as Nornas —, representando os marcos da passagem do tempo — passado, presente e futuro. A sua missão consistia em tecer o fio do destino humano, medi-lo e com sua tesoura cortá-lo, atividade revelada pelos seus nomes: Cloto, a tecelã; Láquesis, a distribuidora e Atropos, a inevitável. Diferente das Nornas, que tinham surgido antes do início dos tempos sem que fosse conhecida a sua origem ou descendência (portanto sendo imemoriais e eternas), as Moiras eram filhas da deusa Têmis (a guardiã da lei e da justiça) ou, segundo outras fontes, de Nix, a Senhora da Noite.

Em alguns mitos conta-se que o seu poder era mais antigo e anterior ao império de Zeus, tendo dele recebido a permissão para aconselhar os deuses, mas sem influírem no destino deles, somente assim obtendo a aceitação para pertenceram ao novo panteão olímpico. As Moiras viviam em uma caverna ao pé de um lago, cuja água branca é uma imagem do luar, imagem que as associa com as três fases lunares.

A mãe do mundo

Nas estórias gregas, relativas ao começo de tudo, três grandes deusas representam o papel da Mãe do Mundo: Tétis, a deusa do mar, Nix, a regente da noite e Gaia, a Mãe Terra, que juntas formam uma trindade, abrangendo o domínio do céu, do mar e da terra. Mesmo sendo uma trindade, elas não constituem divisões de uma deusa tríplice, atributo que ficou associado apenas com a deusa lunar e seus aspectos de lua crescente (incluindo a nova), cheia e minguante, fases ligadas também aos estágios de nascimento, crescimento e declínio.

Nos mitos nórdicos não existem referências claras ou comprovações assim ditas científicas sobre a existência de uma única Mãe Ancestral, mas encontramse inúmeras das Suas representações como mães tríplices, matronas, mães da natureza. Seus diversos elementos e aspectos eram reverenciados com diversos títulos e nomes, os atributos sendo diferenciados em função da tribo, localização geográfica, estação do ano ou época dos seus cultos.

Mitos das estações

As Horas (Horae) eram três deusas gregas, filhas de Zeus e Têmis, que regiam a estabilidade do tempo e a ordem na sociedade humana, quando assumiam os nomes de: Eunomia (Ordem), Dice (Justa retribuição) e Irene (Paz). Outras representações delas como governantes das três estações (primavera, verão e outono, específicas ao clima ameno do sul da Europa), do tempo e dos ciclos da vegetação (semeadura, brotação, amadurecimento e colheita) eram chamadas como Talo (regente da primavera), Auxo (do verão) e Carpo (do outono) e descritas como lindas moças, segurando flores e espigas. Elas abriam as portas do céu para a passagem das divindades nas suas incursões à Terra, traziam e conferiam oportunidades, iam e vinham de acordo com a lei firme da periodicidade da natureza e da vida, governavam as mudanças do tempo e mantinham a estabilidade no mundo natural.

Na mitologia nórdica, a passagem do tempo era representada pela Roda do Ano, cuja característica básica era o jogo entre as energias de luz e escuridão, calor e frio, expansão e contração. A Roda do Ano era dividida e celebrada pelos festivais solares (que marcavam a mudança das estações de acordo com a marcha do sol no céu, em datas fixas conhecidas como solstícios e equinócios) e pelos festivais do fogo (pautados em datas do calendário agrícola e que diferiam em função da localização geográfica). Cada um desses festivais tinha como ponto focal a reverência de certas divindades, descritas na Roda do Ano.

Os povos nórdicos reconheciam apenas três estações, cada uma delas correspondendo a certas divindades. O inverno era regido pelas Senhoras Brancas (Berchta, Holda), as deusas Rind e Skadhi e o deus Ullr; a primavera era associada com as deusas Freyja, Frigga, Idunna, Ostara, Rana Neidda, Rind e Walburga e o verão com Freyja, Frigga, Gerda, Nerthus, Sif, Sunna e os deuses Frey, Njord e Thor. As mudanças de tempo (chuvas, tempestades, vento, nuvens cinzas ou céu azul) eram provocadas pelas mudanças de humor, os deslocamentos ou atributos das deusas Thrud, das Senhoras Brancas (Berchta e Holda), de Gna, Skadhi, Vaiquírias e dos deuses Odin, Njord, Thor (relâmpagos e trovões) e Ullr (neve e névoa).

Idunna, assim como Perséfone e Eurídice, personificava a primavera e ajuventude, pois ela levava diariamente aos deuses as maçãs da juventude; todas elas tinham sido raptadas por um gigante (Thiazzi e Hades) e foram trazidas de volta pelo sopro do vento (representado por Loki, Hermes e o suave som da flauta de Orfeu).

Frey era o deus regente das chuvas da primavera, do calor do verão e da fartura das colheitas, que se deslocava numa carruagem puxada por javalis dourados, semelhante à carruagem dourada de Apolo. O belo e bondoso Frey tinha características solares comuns com Apolo, mas regia principalmente a fertilidade da terra e a prosperidade das comunidades.

A deusa Gerda era conhecida pela sua beleza que iluminava o céu, a terra e personificava a aurora boreal; mas ao mesmo tempo era a regente da terra congelada pelo frio do inverno, que teve que ser aquecida pelas insistências e o amor solar de Frey, antes de concordar em se tornar sua esposa.

O desaparecimento misterioso de Odin e Odhr durante alguns meses do ano e a decorrente desolação de Frigga e Freyja chorando lágrimas de ouro e âmbar, são estórias nórdicas semelhantes aos “Mistérios de Eleusis”, as famosas celebrações milenares gregas. Nos rituais gregos era encenado o rapto de Perséfone (levada ao mundo subterrâneo por Hades, simbolizando o fim da vegetação no outono e a hibernação das sementes), o desespero e luto de Deméter, chorando a ausência da sua amada filha e se retirando do mundo terrestre (fato que retratava a aridez da terra nos meses de inverno). O tema comum dos mitos é a alternância do inverno e do verão, da colheita e da semeadura, da morte e do renascimento da vegetação.

Os invernos gelados e os ventos cortantes dos países nórdicos eram personificados pelos gigantes de gelo ou Jómar, os seres primordiais das forças destrutivas da natureza, vencidos pelos deuses Aesir e isolados nas grutas escuras e geladas, antes de terem sido criadas as condições favoráveis para a vida humana. Eles representavam as adversidades climáticas do extremo norte, as geleiras e as tempestades de neve. Enquanto os gregos acreditavam que o Monte Atlas tinha sido a metamorfose de um Titã, os picos alemães Riesengebirge, (a montanha dos gigantes) eram considerados a morada dos gigantes de gelo, de onde eles jogavam o excesso de neve acumulado ao seu redor em forma de avalanches.

Mitos sobre o perigo e a beleza do gelo são frequentes nos países nórdicos, os gigantes eram considerados forças maléficas e destrutivas, que, durante os meses de inverno, lutavam contra as forças do verão, enviando os ventos gelados e as tempestades de neve. Porém, as gigantas eram cobiçadas pelos deuses como amantes ou companheiras, devido aos seus dons proféticos e sua beleza radiante; ao se casarem com eles, elas podiam adquirir status de deusas e morarem em Asgard (como Gerda, Gefjon, Jord)

Regentes da natureza

Os povos nórdicos honravam inúmeras regentes e guardiãs das florestas como as mulheres-freixo ou mulheres-arbusto, as Senhoras Verdes, o povo de Huldr, os espíritos da natureza (Land-vaettir), Vittra (a personificação da mulher selvagem), Nanna, a deusa da vegetação e do florescimento. Eles também cultuavam as deusas da terra (Nerthus, Jord, Fjorgyn, Gefjon), dos campos de trigo (Sif, Ziza), da vegetação (Idunna, Nana e o deus Frey) e das ervas curativas (Eir).

Os elfos claros — que eram responsáveis pelas árvores, plantas e rios, assim como os Seres Sobrenaturais e os Guardiões Ancestrais dos reinos e elementos da natureza nórdica — podem ser equiparados às ninfas dos bosques, dríades e hamadríades ligadas a determinadas árvores (carvalho e freixo), as Oréades, ninfas das montanhas e grutas, aos sátiros (meio-homens, meio-bodes), silvanos, silenos e faunos, acompanhantes do deus Pã (o deus fálico dos bosques, dos campos, dos rebanhos e pastores) e moradores das florestas, vales e campos da antiga Grécia.

Os anões e os elfos escuros, criados do corpo de Ymir, eram semelhantes aos servos escuros de Hades, que não podiam sair das profundezas da terra sob risco de ficarem petrificados pelos raios solares. No mundo subterrâneo eles deviam cuidar ou buscar os metais e as pedras preciosas necessárias para os ornamentos e joias dos deuses, auxiliar na confecção das armas inquebráveis (pelo deus Hefesto), ou na criação dos objetos mágicos (como os tesouros de Asgard), que eram presenteados aos deuses e heróis.

O roubo dos cabelos dourados de Sif — a esposa de Thor e regente dos campos de trigo — pelo traiçoeiro Loki pode ser comparado ao rapto de Perséfone por Hades, ambas as deusas representando a riqueza da vegetação. Para a recuperação da cabeleira da deusa Sif — depois de ter sido ameaçado com a morte por Thor — Loki teve que apelar aos elfos ferreiros, se esgueirando pelas frestas da terra até alcançar suas escuras moradas e lhes encomendar uma cabeleira igual, feita com fios de ouro. Hermes, enviado por Zeus para trazer de volta Perséfone raptada por Hades, teve que procurá-la, perambulando no sombrio mundo subterrâneo e depois escoltá-la de volta para a sua mãe, Deméter. A alegria do encontro da mãe com a filha devolveu a fertilidade à terra e os campos de trigo foram cobertos com o brilho dourado das suas espigas.

Divindades aquáticas

Os Titãs gregos — Oceano (o deus-rio) e Tétis (A Senhora ou a Mãe do Mar) —, eram os governantes primordiais das águas, que foram substituídos por Posêidon e Anfitrite, depois da derrota dos Titãs pelos deuses olímpicos. Anfitrite (Rainha das Nereidas, das 3 mil Oceânidas, das ninfas do mar e das Náiades, os espíritos femininos dos rios e fontes, semelhantes às Nixen nórdicas) era filha do deus marinho Nereu, mãe de inúmeros filhos, que se tornaram os rios do mundo e de Tritão, que era meio homem, meio peixe. Ela era descrita como uma linda mulher, que aparecia nua e coroada com algas e pérolas, deslizando pelo mar na sua carruagem prateada, puxada por golfinhos. As Nereidas eram ninfas marinhas, personificando as ondas e as qualidades do mar, que acompanhavam Posêidon e Anfitrite e apareciam como mulheres extremamente bonitas e sedutoras, mas com rabo de peixe.

Diferente da deusa marinha nórdica Ran, que tinha um temperamento imprevisível, agressivo e vingativo, a Mãe do Mar grega era gentil, personificando a superfície calma e ensolarada das ondas. Posêidon, em compensação, tinha uma natureza violenta, cíclica e explosiva: ele podia provocar terremotos (resquícios da sua representação mais antiga, quando regia o relâmpago e as tempestades), usar o tridente para desencadear ou amainar tempestades ou cavalgar tranquilamente as ondas, no meio dos golfinhos, na sua carruagem dourada puxada por cavalos marinhos.

Afrodite, a deusa do amor, da fertilidade e da beleza, apareceu do meio das ondas, assim como sua equivalente nórdica Freyja. Porém, enquanto Freyja era filha do deus marinho Njord, Afrodite surgiu da espuma formada sobre as ondas, quando Urano, após a castração de Cronos, jogou seus testículos no mar, uma metáfora que descrevia o poder fertilizador e a energia vital da água e do esperma.

Os deuses Fórcis, Nereus (pai das Nereidas) e Proteu eram conhecidos como “O velho homem do mar”, tendo sido anteriores a Posêidon e viviam em palácios luxuosos no fundo do mar. Assim como o nórdico Njord, eles descreviam a natureza do mar calmo e eram dotados do dom da metamorfose e da profecia. Njord (associado com o verão, a calmaria das águas e a fertilidade do mar) tem sua contraparte em Posêidon, e, principalmente em Nereus, que personificava o aspecto calmo, misterioso e prazeroso das profundezas marinhas.

Com exceção de Njord, as divindades nórdicas do mar refletiam o clima desafiador e o mar tempestuoso do seu habitat, assim como o grego Posêidon. O casal marinho Aegir e Ran tinha características semelhantes: Aegir regia as profundezas geladas do mar e as tempestades e tinha um palácio faustoso repleto de tesouros recolhidos dos navios. Ran era Rainha das Ondinas e das Sereias e era ela quem recolhia os afogados com sua rede mágica, levando-os para o palácio no fundo do mar, onde tratava bem aqueles que tinham ouro nos seus bolsos. Ambos eram violentos e terríveis, responsáveis pelos naufrágios e afogamentos e por isso cultuados pelos marinheiros e viajantes que lhes faziam oferendas de ouro, antes das suas viagens, para serem protegidos.

Os povos nórdicos cultuavam também outras deusas como Nehalennia, a protetora dos marinheiros, pescadores e viajantes (que propiciava também a abundância); Mere-Ama, a Mãe do Mar finlandesa, protetora das plantas e dos animais marinhos e as Donzelas das Ondas (as nove filhas de Ran e Aegir), protetoras dos marinheiros, guardiãs do Moinho do Mundo, em que moíam as mudanças das estações.

Zeus e Odin

Ambos eram filhos dos deuses mais antigos — respectivamente os gigantes Bestla e Bor e os Titãs, Cronos e Reia. Tanto Odin quanto Zeus eram personificações do “Pai supremo dos deuses” e regentes do universo, cujos tronos - Hlidskjalf e Olimpo - eram igualmente majestosos, permitindo a visão à longa distância. A espada invencível de Odin — Gungnir — era tão temida quanto os raios lançados por Zeus. Nas festas nórdicas as divindades se deliciavam com carne de javali e hidromel, enquanto no Olimpo, a nutrição era compatível com o clima suave, composta de frutas, néctar e ambrosia. Enquanto Apolo e as Musas cuidavam do entretenimento musical e poético dos festejos gregos, nos encontros dos deuses nórdicos era o deus Bragi que contava estórias e declamava poemas, acompanhado pelos sons mágicos da sua harpa.

Para ser orientado nas suas decisões, Odin procurava diariamente a deusa Saga, detentora da sabedoria ancestral, que morava às margens de uma cachoeira. No mito de Zeus, conta-se que uma das suas esposas foi Mnemosine (a guardiã da memória), mãe das Musas, cujas fontes sagradas conferiam inspiração àqueles que delas bebiam.

Quando Zeus soube que o filho gerado com a deusa Métis (filha de Tétis e Oceano) iria sobrepujá-lo no poder, ele o engoliu, mas como passou a sofrer de atrozes dores de cabeça, pediu ao ferreiro Hefesto que abrisse seu crânio com um machado. Da fenda aberta saltou Atena, adulta, vestida com armadura, portando todas as insígnias do seu poder e que se tornou sua filha preferida e conselheira em assuntos de guerra, deusa da sabedoria e protetora dos heróis.

Odin e Zeus são descritos como deuses majestosos e maduros, tendo muitas amantes e aventuras com deusas, gigantas (ou ninfas) e mortais, sendo conhecidos como progenitores de monarcas e detentores de inúmeros nomes, que descreviam seus atributos e funções. Os juramentos eram feitos sobre a lança de Odin e o cetro de Zeus, ambos os deuses peregrinando pela Terra, disfarçados ou metamorfoseados, para observar e julgar o comportamento dos humanos, dando-lhes presentes, avisos ou punições. Odin tinha em comum com Apolo o dom da poesia e da eloquência; assim como Hermes (Mercúrio) trouxe à humanidade o alfabeto, Odin ensinou o uso das runas, símbolos sagrados e mágicos.

Hermes era conhecido também pelo seu manto da invisibilidade, pelos seus talentos de convencer e enganar (era padroeiro dos comerciantes e dos ladrões) e pela sua habilidade de usar as palavras. Odin tinha o dom da metamorfose, podendo assumir diversas formas ou permanecer invisível, sendo imbuído de características ambíguas: deus dos juramentos e das traições, do poder de criar ou soltar amarras, de proteger nas batalhas ou escolher aqueles que iriam morrer, de ajudar ou enganar.

Um dos tesouros dos deuses nórdicos era o elixir mágico Odhroerír, que conferia inspiração aos mortais e imortais, da mesma forma como as águas sagradas do rio Helicon. Odin usou um manto de penas de águia para carregar este precioso elixir, depois de tê-lo furtado da deusa Gunnlod, enquanto Zeus usou um disfarce semelhante, de águia, para raptar Ganimedes, o jovem mortal que substituiu Hebe, a deusa da juventude, que servia o néctar aos deuses. Ela foi substituída após ter caído um dia enquanto servia o néctar ou, segundo outra versão, ter casado com Hércules.

A cabra nórdica Heidrun, que fornecia o hidromel celeste, pode ser assemelhada à cabra Amaltea que alimentou Zeus, os corvos de Odin são contrapartes da águia de Zeus, enquanto o esquilo Ratatosk — que criava discórdia com suas mensagens — é equivalente à gralha branca grega, cujas maledicências lhe causaram o enegrecimento das suas penas.

O conflito entre Aesir e Vanir lembra a disputa entre Zeus e Posêidon pela supremacia do mundo, mas no fim eles tornam-se amigos e aliados. Existe uma semelhança também entre os Vanir, regentes da abundância da terra e da água e as divindades gregas do mar e da terra.

Frigga e Hera

A deusa nórdica Frigga personificava tanto a terra, quanto o céu e detinha o dom da fertilidade e da tecelagem. Assim como a grega Hera, era casada com o deus supremo, vivendo com ele em um belo palácio no céu, mas passando uma boa parte do tempo junto com as suas acompanhantes, na sua morada no meio da névoa.

Ambas as deusas eram padroeiras do casamento, do amor conjugal e familiar, regentes do nascimento e do cuidado com as crianças, elas mesmas tendo tido vários filhos. Eram descritas como mulheres majestosas e lindas, ricamente vestidas, com cintos de ouro, colares de âmbar e muitas joias, reverenciadas pelas mulheres e os heróis, que lhes pediam ajuda e proteção. Como personificações da atmosfera elas controlavam as nuvens: Hera as movimentava com os movimentos das suas mãos e Frigga tecia as nuvens no seu tear celeste, sendo renomada pela sua elaborada tecelagem, dom que a aproximava das Moiras gregas, também Fiandeiras e Senhoras do Destino.

Frigga também era conhecida pelo seu dom de conhecer o futuro, mas que não revelava a ninguém, nem podia mudar o traçado do destino. Frigga e Hera tinham auxiliares para enviar mensagens e sinais aos seres humanos. A acompanhante e mensageira de Frigga, Gna, podia ser equiparada com íris, a deusa grega do arco-íris, regente do vento e da chuva; ambas as deusas agiam como mensageiras dos deuses e se deslocavam ao longo do arco-íris.

Tanto Frigga quanto Hera usaram de subterfúgios e estratagemas para impor seus desejos aos maridos: Hera conseguiu obter de Zeus a vaca Io, a metamorfose da ninfa amada do deus (que tinha se transformado em touro para escapar da vigilância de Hera e seduzir a linda mortal jovem), enquanto Frigga ardilosamente obteve a vitória da tribo dos Winilers por ela protegidos.

A raiva de Odin ao descobrir o furto do ouro da sua estátua por Frigga é equivalente às brigas do casal grego devidas ao ciúme de Hera. Estórias semelhantes descrevem as aventuras extraconjugais de Odin e Zeus e a maneira digna e altiva com que as suas esposas as ignoram ou perdoam. Diferente da deusa grega Hera —cujo arquétipo na adaptação romana como Juno foi distorcido para a figura de uma esposa ciumenta e vingativa — a nórdica Frigga sempre teve mantida nas estórias a sua altivez e comportamento equilibrado, imparcial e condescendente perante as aventuras de Odin com gigantas, deusas e mortais.

Outras divindades

Como regente dos raios e trovões, Thor se assemelha a Zeus, pela sua força física a Hércules, com qual partilha a descrição do seu disfarce como mulher: Thor para recuperar seu martelo roubado pelo gigante Thrym e Hércules fiando para agradar à rainha de Lídia, Ônfale. A força física de Thor é semelhante à de Hércules, que, ainda bebê, estrangulou as serpentes enviadas por Hera para matá-lo no seu berço e ao se tornar adulto, atacava e vencia gigantes e monstros.

Thor tem um martelo mágico, Mjollnir, o emblema nórdico do poder destruidor do relâmpago e, assim como Zeus, o usa livremente contra os gigantes. Porém Mjollnir era usado também para abençoar os casamentos e consagrar as piras funerárias; as estacas firmadas por um martelo, eram consideradas pelos nórdicos tão sagradas, quanto as estátuas de Hermes, cuja remoção era punida com a morte. No seu rápido crescimento, poder físico e coragem, Thor lembra Hermes, que roubou o touro de Apolo quando tinha apenas um dia de vida. A precocidade de Magni, filho de Thor, que, tendo apenas três anos, consegue liberar a perna do seu pai presa sob o corpo morto do gigante, lembra o jovem Hércules e sua força fora do comum. A luta de Thor contra o gigante Hrugnir é um paralelo com os combates de Hércules e seu famoso apetite na festa do gigante Thrym assemelha-se com a primeira refeição de Hermes, quando ele consumiu dois bois inteiros. A travessia do rio Veimer por Thor — para capturar o gigante Thrym —, lembra o heroísmo de Jasão, quando atravessou uma correnteza para desafiar o tirano Pélias, seu tio, e recuperar o trono do seu pai.

O famoso colar de âmbar usado por Frigga e Frevja é semelhante ao cinto mágico de Afrodite, que foi pego emprestado por Hera para encantar Zeus; assim como o cabelo de ouro de Sif e o anel mágico Draupnir, o colar é um emblema da vegetação luxuriante, da beleza feminina e do brilho das estrelas no céu (o planeta Vênus).

O deus Tyr é muito parecido com o deus Ares (Marte) nos atributos, ambos sendo honrados e lembrados no mesmo dia da semana (terça-feira), que tem os seus nomes nas respectivas línguas. Assim como Ares, Tyr era valente e destemido, se regozijando no calor das batalhas. Somente ele teve a coragem para enfrentar o lobo Fenrir que, amarrado por Tyr, personifica o fogo subterrâneo, a mesma equivalência dos Titãs amarrados pelos deuses no Tártaro.

Baldur, o radiante deus solar nórdico, lembra não apenas Apolo e Orfeu, mas os outros heróis dos mitos solares. Sua linda esposa Nanna, deusa da vegetação e parecida com Perséfone (cuja descida para a escuridão em baixo da terra corresponde aos meses áridos do inverno), pois ela também desce para o mundo subterrâneo, onde permanece até o surgimento de um novo mundo. O palácio dourado de Baldur é parecido como o do Apolo, ambos amavam as flores que desabrochavam na sua passagem e todos os seres vivos lhes sorriam. Assim como Aquiles, que tinha apenas um ponto vulnerável no seu calcanhar, Baldur somente podia ser morto com uma flecha feita de visco.

A morte de Baldur foi provocada pelo invejoso Loki, assim como a de Hércules pela vingança de um centauro, por ele ferido. Para se vingar, o centauro convenceu a sua esposa, Dejanira, a preparar uma poção mágica que garantisse a fidelidade do seu marido, mas que provocou a sua morte. A pira funerária de Baldur lembra a morte de Hércules no monte Etna, a cor das chamas e o brilho avermelhado - da fogueira e da erupção vulcânica - sendo típicas do sol poente. Baldur podia ser libertado de Niflheim apenas com o choro de todos os seres e coisas; Persefone poderia sair do Hades se não tivesse ingerido nenhum tipo de comida. O embuste de Loki disfarçado com a velha Tokk, recusando-se a verter sequer uma lágrima por Baldur, assemelha-se com o estratagema de Hades, ao convencer Perséfone a engolir algumas sementes de romã, ato que representava a sua permanência temporária no mundo subterrâneo, enquanto o choro de Frigga e Deméter é o mesmo lamento materno pela perda dos seus filhos.

A Idade de Ouro, de norte a sul, era descrita como uma época de felicidade idílica, com a paz, a abundância, o amor, a beleza e a harmonia reinando sobre a terra, sem que o mal existisse ou fosse conhecido. Através de Loki, de sua inveja, cobiça, maldade e vingança, o mal entrou no mundo nórdico, enquanto a dádiva de fogo trazido por Prometeu para a humanidade, trouxe uma maldição para os gregos.

A punição dos culpados é semelhante, pois enquanto Loki é preso com correntes numa gruta e torturado pelo lento escorrer de veneno da boca de uma serpente (amarrada acima da sua cabeça), Prometeu foi amarrado no monte Cáucaso e um abutre faminto continuamente devorava seu fígado, que crescia novamente no dia seguinte.

Outras punições semelhantes são as de Tito preso no Hades e de Encelado acorrentado em baixo do monte Etna, onde suas convulsões provocavam terremotos e seus gritos e maldições as erupções de lava. Loki tem um ponto em comum com Hefesto, ambos tendo assumido formas equinas e gerado velozes corcéis; com Hermes, Loki partilha a astúcia, as trapaças e os enganos.

Há uma semelhança entre o gentil e inspirado Bragi, tocando sua harpa e Apolo, o deus grego do sol, que tocava lira e era exímio arqueiro e médico. Ambos partilham os mesmos dons: da inspiração, da poesia e da música, porém o sábio Bragi era fiel à sua esposa Idunna, enquanto Apolo teve inúmeras amantes e aventuras. Idunna era a guardiã das maçãs da juventude e quando ela caiu dos galhos de Yggdrasil para as profundezas de Niflheim, Bragi foi buscá-la. Envolvendo-a em uma pele de lobo (metáfora da neve que protege as raízes do extremo frio nórdico) Bragi permaneceu ao lado da sua esposa até a sua recuperação e volta. Nesse tempo, a voz de Bragi silenciou, suas canções não mais eram ouvidas, pois sem a sua amada a vida não tinha mais alegria.

Um paralelo pode ser estabelecido com a estória de Orfeu e Eurídice, quando ela foi levada para o reino de Hades. Orfeu foi resgatá-la da escuridão, tocando a sua flauta. Idunna personifica a primavera e a juventude (semelhante a Adônis e Eurídice) e foi raptada por Thiazzi,o gigante de gelo, que representa o javali que matou Adônis, ou a serpente que envenenou Eurídice. Idunna foi retida pelo gigante no mundo de gelo de Jötunheim (equivalente ao reino de Hades, para onde Perséfone foi levada após o seu rapto) e, sem poder retornar sozinha para Asgard, se tornou pálida, enfraquecida e triste. Apenas quando Loki, representando o sopro do vento do Sul, vem resgatá-la transformado em pássaro, é que ela consegue escapar, metamorfoseada em uma noz. Essa imagem lembra a volta de Perséfone, conduzida pela tocha de Hécate e escoltada por Hermes, de Adônis acompanhado por Hermes, ou de Eurídice, atraída pelo som doce da flauta de Orfeu, que lembrava o sussurro do vento.

A deusa arqueira Skadhi se assemelha com a caçadora Ártemis, ambas usam arco, flechas e túnicas curtas para se movimentarem livremente, são acompanhadas por cães ou outros animais, amam o seu habitat selvagem que defendem dos invasores, demonstram independência, altivez e segurança nas suas escolhas.

Frey, o regente nordico do calor do verão e das chuvas fortes e repentinas, tem características comuns com Apolo, ambos são belos e bondosos, o primeiro cavalga um javali com pelos dourados, equivalentes aos raios solares, enquanto a carruagem solar de Apolo brilha no seu traslado pelo céu. Frey tem também algumas características de Zéfiro, pois ele espalha flores no seu caminho e rege principalmente a fertilidade da terra. Frey, assim como Odin e Zeus, foi considerado como sendo um rei humano; acredita-se que o seu túmulo está perto do de Odin eThor em Uppsala. O reino de Frey como monarca foi tão feliz e próspero, que foi denominado de Idade de Ouro, fato que lembra Cronos, que tendo sido exilado para a Terra, governou o povo da Itália, garantindo uma prosperidade semelhante.

Freyja, a linda deusa nórdica, filha do deus marinho Njord é semelhante a Afrodite, que também nasce do mar no seu aspecto de Anadiômena. Ambas regiam a juventude, o amor e a beleza, tiveram vários amantes, recebiam oferendas de frutas e flores e podiam atender os pedidos dos namorados e fiéis. Mas Freyja se assemelha tambem com Atena, tendo os mesmos olhos azuis, usando elmo e armadura e intervindo nos combates dos guerreiros como condutora das Valquírias, enquanto Afrodite entregou sua afeição a Ares, o deus da guerra e a outros heróis. As lágrimas vertidas por Freyja durante a ausência do seu amado Odh se transformaram em ambar e ouro, as de Afrodite em anémonas, pela ausência do seu amado Adônis,

Odh, o marido enigmático de Freyja, se assemelha a Adônis e, assim como Afrodite se alegra com a volta do seu amado Adônis, fazendo toda a natureza brotar e florescer, Freyja festeja o encontro com Odh em baixo das árvores floridas das terras do Sul. Freyja ama a beleza e se recusa a se casar com o feio gigante Thrym, enquanto Afrodite teve que aceitar como marido o aleijado Hefesto, mas o abandona ou trai por ter sido obrigada a se casar com ele. Enquanto a carruagem de Afrodite é puxada por pombas brancas, a de Freyja é por gatos, as pombas sendo símbolos do amor terno e os gatos do amor sexual.

Gerda se assemelha a Atalanta, difícil de conquistar, mas ambas acabam cedendo a perseguição e a pressão dos seus pretendentes e se tornam esposas felizes. As maçãs douradas, com as quais o mensageiro de Frey, Skirnir, tentou convencer Gerda a aceitar Frey como marido, lembram o fruto dourado que Hipômenes jogou no caminho de Atalanta, a linda donzela avessa ao casamento, fazendo-a assim perder a corrida. Atalanta tinha sido avisada que se casasse, seria infeliz e por isso fugia dos homens, dedicando-se a caça e aos esportes. Ela impunha como condição para se casar que o pretendente a vencesse numa corrida, caso contrário fosse morto. Esse feito corajoso foi conseguido por Hipômenes, mas com a ajuda de Afrodite, que lhe entregou os frutos de ouro. Por não ter agradecido a Afrodite pela graça alcançada, o casal foi transformado em leões atrelados ao carro da deusa Cibele, conforme visto nas estátuas e imagens dessa deusa.

A deusa Saga, cuja morada era ao lado do “rio dos tempos e dos eventos” era a guardiã das memórias e dos acontecimentos, conselheira do deus Odin, que a ela recorria diariamente. Saga assemelha-se com a grega Clio, a musa da estória, que ficava perto da fonte Helicon e que o deus Apolo procurava, para dela receber inspiração.

A forma ardilosa em que a deusa Gefjon obteve a terra do rei Gylfi para formar o seu reino de Zeeland (na Dinamarca) reproduz a estória da rainha Dido, que obteve por um estratagema a terra sobre a qual fundou a sua cidade de Cartago.

Os gregos representavam a Justiça como uma deusa vendada, segurando em uma mão a balança e na outra a espada, para indicar a imparcialidade nos julgamentos. O seu equivalente nórdico era Forsetti, que ouvia pacientemente as queixas e questões humanas, promulgando sentenças com imparcialidade e justiça.

A mosca varejeira que impediu Zeus de recuperar a sua amada Io, reaparece no mito nórdico para atormentar o anão ferreiro Brokk e perturbar a confecção do anel mágico Draupnir, do javali dourado de Frey e do martelo Mjollnir, que ficou com um cabo encurtado. O navio mágico de Frey — em que podiam entrar todos os deuses, mas que depois de minimizado cabia no bolso dele —, também confeccionado pelos anões, é semelhante ao navio grego Argo, que personificava o movimento rápido das nuvens e podia levar todos os herois gregos para as distantes terras de Cólquida.

O deus arqueiro Ullr parece com Apolo e também com Orion, pelo amor à caça, atividade que segue permanentemente. O deus Heimdall, assim como Argo, era dotado de uma visão apurada que lhe permitia enxergar de dia e de noite à longa distância. O seu trompete Gjallarhorn podia ser ouvido nos novos mundos, anunciando a passagem das divindades pela ponte Bifrost. Por ser ligado à água pelo lado materno (como filho das Donzelas das Ondas), Heimdall tinha, assim como o deus marinho Proteus, o dom da metamorfose, que ele usou quando impediu o roubo do colar mágico de Freyja por Loki (transformado em lontra), assumindo a mesma forma animal e lutando com ele ate vencer.

A transformação dos olhos do gigante Thiazi em estrelas que brilhavam no firmamento, lembra muitos mitos estelares gregos, principalmente da vigilância permanente dos olhos de Argo, do cinto brilhante de Orion e seu cão Sirius, todos transformados em estrelas por deuses ou deusas enfurecidas.

Hermod era um veloz mensageiro dos deuses nórdicos, que se deslocava com rapidez assim como Hermes, usando, em lugar de sandálias aladas, Sleipnir, o cavalo mágico de Odin (o único autorizado a cavalgá-lo) e em lugar do caduceu, um bastão imbuído de poderes mágicos (Gambãntein). Ele foi perguntar a um mago, depois às próprias Nornas, sobre a sorte do seu irmão Baldur, sabendo assim que outro irmão, Vali, ia suceder a Odin apos o Ragnarök.

Zeus queria se casar com a deusa Métis, mas desistiu depois que as Moiras lhe avisaram que o filho que ele teria com ela ia superá-lo em glória e poder, motivo que o fez engoli-la, grávida de uma filha, a deusa Atena.

Vidar parece com Hércules, que usou apenas um cajado para se defender do leão de Nemeia, enquanto Vidar consegue vencer o lobo Fenris usando seu sapato de ferro.

Odin teve que se empenhar bastante para conquistar Rinda, até “descongelar a frieza dela, assim como Zeus teve que se transformar em chuva de ouro para seduzir Dânae, que também simbolizava a terra. Em ambos os casos, a simbologia é ligada ao degelo da terra pelos raios solares, os filhos desta união - Vali e Perseu - sendo vingadores dos inimigos dos pais. Vali vinga a morte de Baldur matando Hodur, e Perseu mata os inimigos da sua mãe.

Tanto Hebe, quanto as Valquírias, personificavam a juventude e ofereciam a bebida sagrada - néctar, ambrosia e hidromel - aos deuses do Olimpo e Asgard. Hebe foi liberada do seu serviço de “copeira” após o seu casamento com Hércules, e as Valquírias, quando se casavam com heróis como Helgi, Hakon, Völund ou Sigurd,

Völund se parece com Hefesto pelo seu dom de trabalhar com os metais; ele os usa para se vingar do seu captor escapando da prisão após matar os filhos do rei, transformar seus olhos em joias, que envia para a mãe deles, e fabricar para ele mesmo um par de asas de metal, com cuja ajuda escapa da prisão e voa sobre mar e terra. Hefesto, aleijado por uma queda do Olimpo e abandonado por Hera, lhe envia como vinganca um trono dourado contendo garras metálicas para segura-la, sem que ela possa se soltar. Ele também cria uma rede metálica para nela prender Afrodite e seu amante Ares e expo-los depois se debatendo na rede para que todas as divindades de Olimpo caçoassem deles.

O deus Jano era o porteiro romano do céu, tendo duas cabeças para poder olhar para todos os lados e era ele quem abria as portas de cada ano, sendo lembrado até hoje no nome do primeiro mês. O deus nórdico Heimdall era o guardião da ponte do Arco-Íris, controlando a passagem de deuses e humanos, semelhante as Horas, que abriam as portas do ceu para a passagem dos deuses.

A missão de vigilância eterna de Heimdall era favorecida pelo seu olhar apurado (que o aproximava de Argo) e sua audição sobrenatural.

Os Penates eram os deuses romanos que cuidavam do bem-estar e da prosperidade das famílias e a despensa (penus) era a eles consagrada. Encontramos uma semelhança com os protetores nórdicos das moradias e com a deusa Fulla. Os Lares eram também protetores das famílias, mas diferiam dos Penates por serem espíritos deificados de mortais, as almas dos antepassados, uma característica que os aproxima dos espíritos ancestrais nórdicos, das Matronas, Disir e Dokkalfar.

Os nórdicos acreditavam que as tempestades eram provocadas pelos movimentos da Serpente do Mundo ou pela ira de Aegir, que, coroado com algas assim como Posêidon, enviava suas filhas — as Nereidas ou as Oceânides — para brincarem com as ondas. Posêidon tinha sua morada nas ilhas de coral do mar Mediterrâneo, e Aegir, nas grutas forradas de musgo do mar nórdico, onde era cercado pelas Nixies, ondinas, sereias e pelos deuses dos rios Reno, Elba e Neckar (seus equivalentes gregos sendo Alfeu e Peneu).

As sereias gregas têm seu paralelo com Lorelei, a ninfa do rio Reno, cujo canto melodioso atraía os marinheiros para o naufrágio entre os rochedos. Os naufrágios dos navios gregos deviam-se ao temperamento furioso de Posêidon, que era cercado pelas ondinas e sereias, semelhantes às Donzelas das Ondas e às Nixies nórdicas.

O reino subterrâneo de Niflheim reproduz as características do Hades grego; Mordgud, a guardiã da ponte dos mortos Gjallarbru, exigia um tributo para permitir a passagem, da mesma forma como o barqueiro Caronte pedia um pagamento para todos os espíritos que ele transportava para o outro lado do rio da morte, Aqueronte. O feroz cão Garm que vigiava o portão de Hel é muito parecido com Cérbero, o cão tricéfalo grego. Os nove mundos de Niflheim se assemelham as divisões de Hades, Naströnd sendo um adequado substituto para o Tártaro, onde os criminosos eram punidos pelos seus crimes e atos vis com a mesma severidade.

O costume de cremar os heróis mortos junto com as suas armas e acompanhados de sacrifícios de animais (cavalos, cães) era o mesmo no norte e sul da Europa. A representação grega da morte — Tánatos ou Mors — era como um esqueleto carregando uma foice, enquanto a nórdica Hel aparecia meio-morta, meio-viva e usando um ancinho, ou uma vassoura, para recolher as almas. Ragnarök era considerado uma versão do dilúvio e seus sobreviventes em ambas as tradições eram destinados para repovoar o mundo.

O longo inverno Fimbul anunciando o Ragnarök foi comparado às demoradas lutas preliminares sob as paredes da fortaleza Troia e o proprio Ragnarök, com a queima final da famosa cidadela, Thor sendo equiparado com Heitor e Vidar com Eneias. A destruição do palácio do rei Príamo representa o ruir dos palacios dourados dos deuses; os lobos nórdicos que devoraram o sol e a lua são protótipos de Paris e outros seres sombrios, que raptaram a donzela solar Helena. De acordo com outra interpretação, Ragnarök é a submersão posterior do mundo nas ondas do mar, são semelhantes à estória grega do dilúvio; os sobreviventes Lif e Lifthrasir — da mesma maneira como Deucalião e Pirra — foram destinados a repovoar o mundo. Assim como o altar do templo de Delfos permaneceu ileso no meio dos escombros do cataclismo, o palácio dourado Gimli, em Asgard, permaneceu radiante à espera dos filhos dos deuses, que iriam recriar um novo e melhor mundo.

Enquanto os gregos imaginavam que os pesadelos eram os sonhos maléficos que tinham escapado da gruta de Somnos, os nórdicos os atribuíam aos trolls ou gnomos malvados, que tinham saído do seu escuro esconderijo para atormentar os seres humanos.Todos os objetos e armas mágicas dos deuses nórdicos tinham sido obra dos anões ferreiros, enquanto os dos gregos tinham sido confeccionados por Hefesto e os Ciclopes, na sua oficina em baixo do Monte Etna.

Essas semelhanças são as mais relevantes, entre muitas outras, que comprovam as analogias existentes entre a mitologia nórdica e grega, formadas a partir da mesma base indo-europeia, diversificadas no tempo e no espaço pelas características raciais, geográficas, climáticas, sociais e culturais, modificadas ou adaptadas ao longo dos tempos por historiadores, tradutores e escritores.

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MITOS
Mayahuel (Goddess of Agave) | Rock Cyfi Martinez
10/25/2017 3:26:48 PM | Por A. S. Franchini
Mitologia Asteca
Mayahuel e a origem do maguey

Mayahuel era a deusa do maguey, a planta da qual se fabricava o pulque (em nahuatl se diz octli), bebida ainda hoje muito apreciada no México e adjacências. Como a maioria dos deuses, ela possuía a pele colorida - às vezes azul com manchas amarelas, outras vezes com a face tingida de vermelho e negro, [141] simbolizando sua condição de deusa do pulque. Normalmente, seja nos códices ou nas ilustrações modernas, a deusa surge por entre as folhas do maguey vestida de branco, pois branca é a cor da bebida, trazendo na mão o octecomatl, a "jarra do pulque”, ou simplesmente uma taça espumante.

Os astecas possuem uma lenda para contar como surgiu o maguey, e ela começa dizendo que Mayahuel vivia, num tempo muito antigo, junto com sua avó - uma das estrelas tzitzimime, também tidas como os monstros que, no fim do mundo, devorarão os homens -, submetida a uma severa vigilância.

Um dia, o deus Quetzalcoatl, apaixonando-se pela neta desta avó tirana, lhe pediu que descesse dos céus junto com ele, para que fossem divertir-se um bocado pela Terra.

- Mas minha avó não vai gostar... - balbuciou Mayahuel.

- Ora, esqueça a vovó! - exclamou a Serpente Emplumada. - Vamos namorar um pouco lá embaixo, já que aqui em cima, com essa vigilância toda, é simplesmente impossível.

Mayahuel relutou mais um pouco, mas o desejo acabou prevalecendo sobre o medo.

- Está bem, mas tomemos cuidado para que ela não nos veja.

- Eu tenho um jeito perfeito! - disse o deus. - Vamos nos transformar nos ramos de uma árvore.

Quetzalcoatl e Mayahuel assim fizeram, mas, quando a avó acordou e viu que a neta fugira, desceu à terra, junto com as suas irmãs tzitzimime, e não tardou a descobrir os dois amantes disfarçados de ramas.

- Maldita! - bradou a avó. - Agora verá o preço de me desobedecer!

A velha fez em pedaços a rama na qual Mayahuel se metamorfoseara, e deixou espalhados pelo chão os seus pobres pedaços. Quando Quetzalcoatl viu que a velha desaparecera, lamentou-se muito do fim que tivera a amante, enterrando em seguida os seus pedaços.

Mas, para sua felicidade, viu brotar do solo as ramas de uma nova planta - a planta do maguey -, e, junto com ela, a própria amante, agora transformada numa bela e colorida deusa.

E foi assim que surgiu uma das plantas mais típicas da América Central. [142]

Mas a própria deusa Mayahuel, como terá surgido?

Diz uma lenda antiga que foi da seguinte maneira: antes de ser a deusa que se tornou, Mayahuel era a modesta esposa de um lavrador. A pobrezinha passava os dias correndo atrás dos ratos que devastavam a plantação do marido. Certa feita, ela estava empreendendo mais uma de suas caçadas quando o rato por ela perseguido pôs-se a dar voltas ao seu redor. O bichinho parecia muito estranho, como se não estivesse no seu estado normal. Mayahuel ficou com pena do rato e deixou-o partir.

Ao retornar para casa, ela passou por uma planta e viu que o seu caule estava roído.

- Deve ter sido por aqui que aquele danadinho andou afiando seus dentes! - disse ela.

Ao observar melhor, ela viu que uma seiva leitosa escorria do caule da planta, e decidiu recolhê-la numa cabaça e levá-la para casa. Talvez fosse possível utilizá-la como remédio ou uma beberagem.

Ao chegar em casa, a jovem resolveu experimentar para ver que gosto tinha aquilo.

"Nada mal!” pensou ela, tomando logo em seguida outro gole ainda maior.

Dali a pouco o marido chegou.

- O que está bebendo aí? - disse ele. - Dê-me um gole, estou morto de sede!

Mayahuel estendeu-lhe a cabaça, que já estava quase vazia. Ela estava bastante alegrinha e, depois de encher a boca, verteu ela mesma a bebida na boca do esposo, dando uma gostosa gargalhada.

Nem bem ingerira a bebida, o esposo também começou a sentir-se alegre.

- Isso é bom! Dê-me mais! - disse ele.

Como não havia mais na cabaça, ambos retornaram ao pé da planta desconhecida e, depois de aplicarem novos talhes no seu caule, encheram a cabaça do líquido.

Foi uma festa! Beberam tudo ali mesmo e dançaram e cantaram à luz da lua até perderem os sentidos. Depois, ao acordarem, descobriram estar na presença dos deuses.

- Que bebida é essa que tanto vos alegrou? - quis saber um dos deuses.

Mayahuel tomou a cabaça e estendeu-a ao ente divino.

- Não sabemos seu nome, mas é muito saborosa. Prove! [143]

O deus provou e aprovou, e a partir dali a bebida, batizada de "pulque", passou a ser adotada pelos deuses em seus cerimoniais. Por ter feito a descoberta, Mayahuel foi transformada em deusa, o mesmo acontecendo com seu esposo, transformado no deus Xochipilli ("Príncipe Flor"), deus das flores, da poesia e das festas. [144]

Mayahuel, Quetzalcoatl, Xochipilli  tzitzimime 
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12/9/2017 3:59:09 PM | Por Pierre Grimal
Civilização Romana
Família
O casamento romano no período arcáico

Historiadores e poetas afirmam que o casamento foi, durante muitos séculos, uma das instituições mais sólidas e respeitadas da cidade roma­na. Rivalizam no elogio da pureza dos costumes antigos, do tempo em que uma mulher que tivesse ficado viúva não mais consentiria em voltar a casar, em que, por maioria de razão, nunca se levantava a questão do divórcio. Pelo contrário, lamentam o relaxamento progressivo de uma relação que, durante o Império, se tornara de uma extrema fragilidade, enquanto nos bons velhos tempos o seu respeito era considerado a garantia mais firme da grandeza romana e a marca mais incontroversa de uma saúde moral a toda prova. Hoje ainda, muitos historiadores fazem-se eco destas queixas, considerando que uma das razões profundas da decadência de Roma reside no abandono deste velho ideal por onde se orientaram anteriormente os severos camponeses do Lácio.

Antes de nos interrogarmos por que razão o casamento romano per­deu a sua solidez ao longo do tempo, convém, decerto, examinar a pró­pria instituição. A instituição do casamento é uma daquelas a que os juristas romanos não só dispensaram maior cuidado, mas também a que se dedicaram a definir e fixar com a mais extraordinária minúcia as consequências legais. O conjunto dos textos que a ela se referem ocupa um lugar considerável nas compilações jurídicas, o que prova a impor­tância atribuída a um ato de que esperavam, em primeiro lugar, a sobre­vivência, mas também, e talvez mais ainda, a estabilidade do Estado.

Todavia, é necessário conceder que, apesar dos elogios dos moralis­tas e da nostalgia dos historiadores, a concepção romana do casamento (mesmo nos “bons tempos” de Roma) tem má reputação. Ela é acusada, naturalmente, de ter sobretudo legitimado a dependência das mulheres, que os maridos teriam tentado manter em uma completa escravatura, ne­gando-lhes qualquer autonomia, privando-as de toda a vida fora de casa, proibindo-as de gerir, e até de possuir, fortuna pessoal e limitando-as, desdenhosamente, aos cuidados domésticos. Contudo, se não nos con­tentarmos com estas descrições sumárias, percebemos que a realidade foi bem diferente e que o casamento romano se apresenta, afinal, com cores menos sombrias, a ponto de se revelar como uma das instituições mais flexíveis, mais matizadas, mais humanas, jamais imaginadas pelos juristas.

A condição jurídica in manu - ou seja, o estado de dependência legal, a incapacidade de possuir uma personalidade civil autônoma - não é de modo nenhum específica da mulher casada. O “filho de família” está, a esse respeito, na mesma situação. Dificilmente poderíamos imaginar que as coisas se pudessem passar de outro modo na mais antiga cidade patrícia, cujos costumes dominaram as instituições da Roma “clássica”, uma vez que a autoridade pertencia exclusivamente a alguns chefes de casa, verdadeiros senhores de todo o clã, que eles representavam no “Con­selho dos Pais”: a cidade não reconhecia então senão estes “Pais”, nin­guém, senão eles, possuía, verdadeiramente, personalidade jurídica. O direito não podia tomar conhecimento da situação criada à esposa na família. Esse era um domínio onde as regras legais não tinham, em prin­cípio, de intervir e o milagre foi, precisamente, que, de modo gradual, o direito conseguiu penetrar no interior do clã e, finalmente, limitar de maneira efetiva as consequências do estatuto antes reservado à esposa. É bem certo que esta evolução nunca se teria produzido se os costumes e as opiniões não a tivessem imposto.

As lendas de Roma já nos tinham avisado. A ideia que elas tendem a sugerir-nos sobre a condição e o papel da mulher é muito menos sombria do que a que se pretende retirar do direito. Vimos que, neste mundo ideal da lenda, a mulher pelo menos era respeitada, venerada mesmo, eram-lhe poupados os trabalhos servis e reinava como senhora quase absoluta no seu lar. Por outro lado, o exame, ainda que rápido, das crenças e dos ritos relativos à vida amorosa e sexual mostra que os Romanos sempre se preocuparam em pôr as suas companheiras ao abrigo das paixões, em protegê-las dos maus demônios que podem comprometer a estabilidade da união conjugal. Prudência dos maridos, poder-se-á talvez dizer, mas também, talvez, respeito vigilante por um ideal e aversão em reduzir esta união apenas à satisfação do desejo. Tudo se passa como se a religião romana, sensível à lei universal da vida, tivesse querido assegurar aos cônjuges as bênçãos das divindades que presidem à fecundidade da na­tureza, mas, ao mesmo tempo, poupar-lhes também os caprichos anár­quicos que lhes são usuais.

Existia em Roma uma divindade protetora do casamento legítimo, das “justas núpcias”, na expressão dos juristas. Esta proteção era apanágio de Juno, que se invocava então com o nome de Juno Juga, sendo notável que se pedisse a proteção do casamento a uma deusa e não a um deus. Se pensarmos no caráter sagrado, inviolável, do casa­mento romano na cidade arcaica, poderíamos imaginar que a piedade dos filhos de Rômulo teria preferido dirigir-se a outros patronos, aqueles que, em geral, tinham por missão velar pelo respeito dos juramentos, como Dius Fidius, ou o próprio Júpiter. No entanto, preterindo estes deuses severos, foi Juno a escolhida, porque, na união dos cônjuges, considerava-se, provavelmente, que o papel principal pertencia à mu­lher, que era ela que, no contrato celebrado com o homem, empenhava mais de si e que o sucesso ou o malogro dependiam, sobretudo, daquilo que soubesse dar.

Esta predominância da mulher transparece ainda no próprio nome do casamento, no termo matrimonium, derivado do termo que designava a mãe, mater, casar com uma mulher era convidá-la a tomar-se "mãe”. Este título era seu antes mesmo de ter filhos. Analogamente, o marido recebia o nome de “pai”, pater, a partir do momento em que ficava unido por “justas núpcias”. Pater e mater eram palavras que se usavam tam­bém para honrar as divindades poderosas, de que a lenda não conhecia nem progenitura nem mesmo, por vezes, companheiro ou companheira. A nova esposa compartilhava o título de “mãe” com Minerva, Diana e Vesta, as deusas virgens. Ter-lho-iam atribuído, se, no lar, não fosse se­ não uma escrava submissa?

Obrigados a definir o casamento, os juristas imaginaram uma bela fórmula que coloca a instituição no seu verdadeiro lugar. Encontramo-la no Digesto, que honra Modestino, que viveu no início do século III d.e.c.

O casamento” - diz-nos ele - “é a comunhão do direito divino e do direito humano” e, um pouco mais adiante, acrescenta: “O casamento é a união total de toda a vida”. De fato, a primeira definição parece mais exata do que a segunda, porque o casamento subsistia ainda que, por uma causa externa, os cônjuges se encontrassem materialmente separa­dos. Ulpiano, que foi o mestre de Modestino, tinha pensado neste caso:

Se uma mulher e o seu marido habitam muito tempo longe um do outro, mas conservaram o respeito mútuo do casamento - como sabemos que aconteceu, por vezes, entre pessoas de estatuto consular -, penso que as doações não são válidas, porque o casamento não foi interrompido. Não é a relação carnal que faz o casamento, mas sim o sentimento conjugal.

Assim, a crer nos juristas, que parecem, de fato, ter sido intérpretes fiéis do sentimento geral, o casamento é uma associação total constituída entre dois seres na sua realidade divina e humana. Para que haja casa­mento, é necessário que esposo e esposa possuam, em relação aos deu­ses e em relação aos homens, o mesmo estatuto, o mesmo valor. As relações carnais que a cidade exige deles - dado que o casamento é cele­brado “para que sejam gerados filhos”, como recordam os censores em cada recenseamento do povo - não são suficientes, por si só, para constituir o casamento. A procriação é apenas o corolário desta comunhão total dos cônjuges: a essência profunda do casamento reside em outro lado.

Uma frase célebre, pronunciada pela noiva aquando da celebração do casamento, parece tê-lo expresso bem: “Onde fores Gaius, dizia a jo­vem, eu serei Gaia”. Trata-se uma frase ritual, cujo sentido primitivo nos escapa e já se perdera para os Romanos da época clássica, mas as que a repetiam tinham consciência de se unir ao marido, que iria ser, não o seu senhor, mas o seu duplo, o seu equivalente: ambos formariam as duas metades de um mesmo ser. Esta síntese de uma entidade nova não era, como no mito estranho do Banquete de Platão, um símbolo da união carnal, nem mesmo da comunhão dos corações, mas uma verdadeira criação: com o casamento começava uma societas, uma associação que transcendia cada um dos cônjuges, não só devido às suas consequências, mas à sua própria natureza. Assim como a cidade é uma realidade de ordem diferente dos cidadãos que a compõem, também o casal é, por si só, um ser novo.

Este caráter do casamento romano, que considera o casal de cônjuges uma realidade em si e, de algum modo, transcendente, surge clara­mente na condição exigida a um casal sacerdotal, o do flamen e o da flaminica. O flaminato era um sacerdócio muito antigo que não podia ser exercido senão por um patrício casado. Qualquer que seja a origem da instituição, que remonta, talvez, à componente “ariana” da cidade romana, é evidente que ela conservava caracteres extremamente arcai­cos. Envolvido por um grande número de proibições, o flâmine devia permanecer em uma pureza ritual perfeita. Não podia, por exemplo, ajuramentar nem ter nenhuma espécie de laço que pudesse “contrariar” a força mágica que nele habitava. A sua mulher devia conservar também a mesma pureza. Se morresse, o seu marido devia imediatamente demi­tir-se das suas funções. Plutarco, que relata o fato, interroga-se pelas razões desta lei. Seria demasiado simples pensar que a passagem da morte sobre essa casa consagrada tivesse sido suficiente para causar uma man­cha indelével. Na realidade, é a própria permanência do casamento que é exigida para exercer o sacerdócio, pois o flâmine não tinha o direito de divorciar-se. A primeira exceção aconteceu apenas no tempo de Domiciano. O imperador autorizou o divórcio do flâmine, mas foi ne­cessário “expiar” esta dissolução da união santa com ritos exumados de uma idade remota, “ritos horríveis, estranhos e sombrios”, diz Plutarco. que se tornaram necessários pelo escândalo religioso constituído pela mutilação voluntária deste casal, mediador entre a cidade e o seu deus.

O casamento do flamen e da flaminica era, para os Romanos, um casamento exemplar, “feliz”. Ele tinha, para a cidade, o valor de um "presságio” e a partir dele eram modelados, magicamente, os outros ca­sais. É significativo que o flamen de Júpiter tenha presidido à celebração da confarreatio, que é, segundo parece, a forma mais antiga e, segura­mente, a mais solene do casamento patrício. É significativo também que se abstivessem de celebrar casamentos no mês de Maio, durante o qual, precisamente, a flaminica, com os cabelos soltos e em trajo de luto, par­ticipava na procissão das Argées e na imersão, nas águas do Tibre, das pequenas bonecas que eram designadas com este nome obscuro.

Durante os três primeiros séculos de Roma, as alianças entre as famílias patrícias e as famílias plebeias permaneceram interditas. A razão para isso é bastante clara. Não há dúvida de que não consistia no orgulho de casta, mas sim no carácter do próprio casamento e na consciência de que patrícios e plebeus não eram religiosamente equivalentes. Dois seres pertencentes a estas duas ordens não podiam formar um casal harmonioso aos olhos da divindade nem partilhar estatutos que a sua desigualdade tornava inconci­liáveis, uma vez que a mulher não adquiria automaticamente, pelo casamento a condição jurídica do marido. Este princípio permaneceu no direito clás­sico. Ela conservava totalmente o seu estatuto pessoal, a sua personalidade não era de modo algum “absorvida” pela do homem que se tornava o seu companheiro, o que ficava assinalado pelo fato de ela não tomar o nome gentílico da sua nova família, mas, de maneira mais independente do que as esposas modernas, manter o de nascimento.

É singular verificar que não existia uma cerimônia religiosa que, como no caso da adoção no interior de uma família, tivesse por efeito criar esta comunidade de direito de que falam os juristas, e esse é um dos paradoxos do casamento romano. Nada podemos afirmar em relação aos tempos mais remotos - os nossos conhecimentos são, para isso, demasiado imperfeitos e fragmentários mas, na época clássica, o casamento, se tinha os deuses por “testemunhas”, não era criado por eles. Tem o seu princípio na vontade comum, livremente afir­mada pelos cônjuges, de associar os seus destinos e parece que, efetiva­mente, assim foi desde as origens de Roma.

O casamento é, sem dúvida, um ato religioso. Não poderia ser de outro modo em um povo que gosta de agir de acordo com a divindade e preludia até os atos mais insignificantes da vida interrogando a vontade dos deuses. Mas a consulta de presságios antes de um casamento não difere da que precedia qualquer decisão, qualquer “início”, quer na vida pública quer na vida privada. Ainda durante o Império, os “observadores de auspícios”, seguindo a tradição, figuravam entre os celebrantes do casamento, mas isso não era mais do que um vestígio dos tempos anti­gos. Já não se lhes pedia uma consulta em forma.

Este fato não impedia as jovens e os seus parentes mais próximos de tentar por todos os meios penetrar o segredo do futuro. A piedade pessoal, ou, se preferirmos, a superstição das noivas, era mais exigente, ou talvez mais prudente, do que os ritos oficiais, pelo que, na véspera do casamento, as cenas de adivinhação em privado não eram por certo ra­ras. Naturalmente, estamos bastante mal informados sobre o que se pas­saria em tais circunstâncias. No entanto, conservaram-se alguns teste­munhos. Conta-se, por exemplo, que Cecília, a mulher de Metelo (no fim do século II a.e.c.), interrogava em uma noite a vontade dos deuses, no interesse da sua sobrinha, uma moça muito nova que a tia pensava casar. Tinham ficado velando no santuário, mas os deuses permaneciam mudos. Esperaram tanto tempo que a jovem, cansada de estar de pé, pediu à tia que lhe concedesse um pouco de espaço de modo a poder sentar-se junto dela. Cecília respondeu-lhe cortesmente: “Claro, minha querida, cedo-te o meu lugar." E eis que estas inocentes palavras se reve­laram proféticas. Pouco tempo depois, Cecília morreu de repente e Metelo casou com a jovem'. Tais eram as estórias que se contavam entre as mulheres quando se falava de casamento.

 

***

A cerimônia do casamento foi descrita com frequência. Tinha muitos ritos pitorescos. Alguns conservavam um valor mágico evidente, mas outros eram apenas a herança incompreensível de um passado muito remoto. A maior parte destinava-se a “proteger” a noiva em um momento particularmente importante da sua existência.

Tudo começava na véspera do grande dia. À noite, a jovem abandonava definitivamente as suas vestes de adolescente, a toga pretexta, cujo bordo era ornamentado com uma banda de púrpura, enquanto os rapazes as deixavam no decurso de uma cerimônia solene, geralmente muito antes do tempo de casar, quando estavam prestes a iniciar a vida pública. Mas a jovem, que nunca participaria nesta, deixava de ser criança apenas no dia em que se tornasse esposa. Cobriam-na, na véspera do casamento, com uma túnica branca, que tinha a designação, bastante obscura, de túnica reta, túnica “direita”. Tratava-se, sem dúvida, de uma túnica fei­ta de um tecido elaborado em um tear antigo por um tecelão trabalhando de pé. Para um ato tão importante como o casamento, era necessário respeitar os velhos costumes: qualquer inovação podia ser perigosa.

O cinto que, como era habitual, cingia esta túnica ao corpo era atado de um modo particular, com um “nó de Hércules”, que o jovem marido, no dia seguinte, seria o primeiro a desfazer. Os cabelos da noiva eram penteados de acordo com um ritual bem determinado. Uma mulher se­parava-os com um instrumento invulgar chamado hasta caelibaris, que era uma arma, uma lança de hasta curta, mas com o ferro acerado. Já os antigos se interrogavam sobre esta prática estranha. Plutarco questionava-se se tal não se explicaria, de algum modo, pelo fato de Juno, protetora do casamento, ser considerada, por vezes, uma deusa guerreira. O penteado da noiva era imutável: os cabelos formavam seis tranças fixa­das com faixas em redor da testa. Durante a cerimônia, o penteado era dissimulado sob um véu de cor alaranjada que caía sobre os ombros, emoldurando o rosto. Esta cor, que é a cor da aurora, passava por ser benéfica.

De manhã, todos os convidados se reuniam na casa da noiva e era oferecido um sacrifício aos deuses. Os adivinhos (auspices) interrogavam as entranhas da vítima, pelo menos faziam-no nos tempos antigos, mas., como dissemos, tendia-se a prescindir cada vez mais do seu ministério. Realizado o sacrifício, tinha lugar o casamento, isto é, a declara­ção, diante de testemunhas, do consentimento dos cônjuges, aos quais uma mulher juntava solenemente as mãos. Era esta que conduzia o cortejo e era também, se se pode dizer assim, o modelo e a garante da jo­vem. Chamavam-lhe a pronuba. Este ato, a dextrarum junctio, era o momento culminante: expressava e simbolizava a união dos esposos, o seu compromisso recíproco, que os tornava, daí em diante, em um único ser.

Pedia-se depois às divindades que abençoassem os cônjuges. É provável que fosse pedida a proteção de cinco delas, quatro deusas e ape­nas um deus. A fazer fé em Plutarco, eram Júpiter, Juno, Vênus, Fides e Diana, mas Plutarco pensava talvez menos nos deuses que protegiam o casamento em Roma do que nos seus homólogos gregos. É contudo no­tável que predominassem as deusas e que fosse a mulher que aparecia rodeada de toda a solicitude das potências divinas.

Os cônjuges ofereciam depois um novo sacrifício e todos se reuniam para uma refeição, à espera da noite. Até então, a noiva não tinha deixa­do a casa da sua infância. O aparecimento no céu da estrela Vésper ia definitivamente tirá-la de lá. A noiva aparentava temer esta separação como uma ruptura, tentava encontrar abrigo nos braços da mãe, mas os assistentes apartavam-na, apesar da sua resistência, e levavam-na em cortejo em direção à casa do marido. Era um cortejo alegre, em que se cantavam refrães tradicionais, com muitas piadas grosseiras, como os versos que o povo dizia aquando das procissões triunfais. A sua finalida­de era, provavelmente, afastar o "mau olhado” e, por outro lado, estimu­lar a fecundidade futura do casal, graças ao valor apotropaico das pala­vras obscenas. Lançavam-se nozes aos assistentes, o que constituía, sem dúvida, outro símbolo de fecundidade. A noiva era acompanhada por três rapazes que tinham ainda pai e mãe. Um destes “rapazes de honra” empunhava uma tocha de espinheiro. Outras pessoas, também com tochas, iluminavam a cena e eram interpretados presságios na luz que as chamas difundiam. Uma luz viva era de bom augúrio, uma luz fumegante e in­certa era interpretada como sinistra. A jovem era acompanhada também por duas servas que tinham nas suas mãos uma roca e um fuso. É eviden­te que a nova senhora da casa não iria ela mesma utilizá-los, se perten­cesse à poderosa aristocracia romana, que dispunha de inúmeros escra­vos para a servir, mas o trabalho da lã era o símbolo da virtude domésti­ca. Era o único que se podia exigir a uma mulher de nascimento livre. Nunca teria, por exemplo, de moer o grão ou manipular a massa. No entanto, na casa do imperador Augusto, as princesas ainda faziam com as suas próprias mãos as túnicas que o imperador vestia, o que era uma concessão aos costumes dos antepassados.

Finalmente, chegavam à porta da casa nupcial. A noiva parava para oferecer algumas orações às divindades da entrada, untava com óleo as ombreiras e neles atava faixas de lã. Em seguida, levantada pelas mãos vigorosas dos jovens do cortejo, cruzava o limiar sem correr o risco de nele tropeçar, o que teria constituído um péssimo presságio. Ia ser apre­sentada às divindades da sua nova casa. O noivo esperava-a no atrium e oferecia-lhe fogo e água, dois elementos vitais e indispensáveis quer à existência quer aos ritos sagrados. A jovem, após ter pronunciado a fór­mula que já mencionámos - “Ubi tu Gaius, ego Gaia” começava a sua nova vida oferecendo três moedas, uma ao marido, outra aos deuses do lar e a terceira ao Lares da encruzilhada mais próxima.

Havia várias formas de casamento. Os textos literários e jurídicos referem a confarreatio, a coemptio e a usucapio. Na verdade, trata-se não tanto de três “casamentos” diferentes, mas mais de três ritos juridi­camente equivalentes destinados a fazer passar a jovem esposa in maem um mariti, a fazer dela, poderíamos nós dizer, a “pupila” do marido. A sua diversidade induz-nos a pensar que o casamento nunca esteve relaciona­do, de fato, com nenhum rito específico, mas que existiu por si mesmo, livremente realizado tão-só pelo consentimento de duas vontades iguais. As diferentes formas jurídicas limitavam-se a verificar este consenti­mento, a dar dele certificação aos cônjuges. Naturalmente, esta verifica­ção oficial variou com as épocas e a classe a que pertenciam os jovens. A confarreatio era característica da velha sociedade patrícia. Celebrava-se na presença do grande pontífice, chefe da religião nacional, e do flâmine de Júpiter. Para além disso, eram necessárias dez testemunhas, em repre­sentação, por certo, das dez cúrias da tribo. As oferendas feitas aos deu­ses, após a dextrarum junctio, tinham um carácter particularmente arcai­co, pois eram compostas por bolacha de espelta, ofar, trigo primitivo e grosseiro, que foi durante muito tempo o único cereal cultivado no Lácio. Oferecia-se também um sacrifício a Tellus, a Terra Fértil, e a Ceres.

Os especialistas interrogam-se sobre o significado deste duplo sacri­fício e recordam a afirmação de Sérvio: “Entre os antigos, era impossível casar com uma mulher ou trabalhar um campo sem antes ter realiza­do sacrifícios”. É natural que Ceres, “a criadora do homem”, tenha presidido a estas sementeiras humanas. A confarreatio conduz-nos a um mundo profundamente marcado pela vida rústica, no qual parece que os atos humanos eram realizados em simpatia com as potências misterio­sas do solo, do céu e da natureza.

A semelhança do casamento do flâmine e da flaminica, a união pela confarreatio parece ter sido indissolúvel, pelo menos de início. Mas, mais tarde, por pressão dos costumes, foi necessário tornar a regra mais flexível. Imaginou-se, para dissolvê-lo, uma cerimônia oposta à primei­ra, que se chamou diffarreatio, destinada a destruir o efeito da confarreatio. Mas isso era apenas um expediente. Há muito tempo, a maior parte dos romanos tinha preferido outras formas de casamento que existiam conjuntamente com a confarreatio. Apenas algumas raras famílias mantinham o antigo uso e era entre elas que se recrutavam os flâmines, dado que, para ser flâmine, era necessário ser filho de um casamento por confarreatio. No tempo de Tibério, não era fácil encontrar candidatos que preenchessem esta condição.

Há muito tempo que existiam duas outras formas do casamento, pra­ticadas, por certo, em alternativa: uma baseia-se em um rito de compra, o coemptio, o outro em um estado de fato, o usus. Na verdade, estes dois casamentos não são formas “menores” relativamente à confarreatio, mas dois modos de legalizar a união dos cônjuges, de dar um fundamento jurídico a esta “sociedade” que é o casal. Coemptio e usus existem em um outro domínio que não o do casamento. São, essencialmente, dois mo­dos de aquisição legal, dois meios de criar uma propriedade total. Pode­mos pensar que, aplicados ao casamento, nunca tiveram senão valor de ficções jurídicas, inventadas pela fértil imaginação dos técnicos do di­reito civil.

A coemptio realizava-se na presença de cinco testemunhas, todas cidadãos de pleno direito, sob a presidência de um “pesador”, o libripens, também ele um cidadão. Como em uma venda, o comprador (aqui, o mari­do) pronunciava uma fórmula ritual em que afirmava “adquirir” a noiva “para o casamento”, e não para a escravizar, precaução necessária, dado que, quanto à forma, era idêntico ao rito de compra pura e simples. Con­forme os casos, o vendedor poderia ser o pai, o tutor da noiva ou mesmo esta, se fosse “emancipada”. A transação era materializada pela entrega de uma moeda em pagamento, que não tinha, é evidente, senão um valor simbólico. Os historiadores modernos afirmaram durante muito tempo que esta “compra” da noiva pelo seu futuro marido era um vestígio de um passado muito remoto, tendo substituído um costume ainda mais rude, o rapto puro e simples. Mas esta tese já não encontra defensores. Afirmou-se também que o coemptio era uma forma de casamento carac­terística de um grupo social determinado, mas isso também não é certo, porque a coemptio não é um rito nupcial, mas um modo de cessão jurídi­ca. Aliás, no fim da República, tinha caído em desuso e Cícero garante-nos que, no seu tempo, os advogados já nem sabiam, de maneira preci­sa, como eram as cerimônias.

O casamento “de fato” (per usum) é bastante semelhante, na sua natureza, à coemptio. Também se explica por analogia com um modo de transmissão de propriedade. De fato, era considerado proprietário de um bem quem tivesse tido o seu gozo incontestado e notório, por um período de duração variável, segundo a natureza do bem em questão. Analogamente, a união de um homem e de uma mulher, se tivesse conti­nuado durante um ano, tornava-se em um casamento legítimo e o marido adquiria a manus, com todos os seus efeitos, como se tivesse havido confarreatio ou coemptio. No entanto, se a mulher tivesse passado, du­rante o ano, três noites consecutivas fora do domicílio do marido, esca­pava à manus do companheiro.

Levantou-se frequentemente a questão da origem desta prescrição singular. Talvez seja, ainda neste caso, uma fição legal imaginada para criar um casamento sem manus, em que a mulher não se tornava "pupi­la” do marido, mas conservaria o seu estatuto jurídico pessoal. O perío­do de três dias e de três noites, imposto como condição, terá sido retira­do de uma velha prescrição, de que se encontram vestígios em um dos tabus do casamento do flamen e da flaminica. Na verdade, esta não po­dia dormir mais de duas noites consecutivas longe do marido, como se o casamento “ideal” e exemplar que este casal sacerdotal simbolizava exi­gisse, para existir, uma continuidade praticamente absoluta. Os juris­tas, com este singular artifício, conseguiram transformar profundamente a realidade social do casamento romano.

Esta criação de um casamento sem manus, tão importante na evolu­ção dos costumes romanos, é atribuída pela tradição aos decênviros que, em meados do século V a.e.c., redigiram as leis das Doze Tábuas Tal­vez seja até mais antiga e os decênviros se tivessem limitado a incluir no seu código uma prática efetiva. É bem provável que este regime tives­se sido imaginado para dar resposta a situações práticas em que se torna­va difícil manter a autoridade do marido em todo o seu rigor. Pensa-se que a autorização de realizar casamentos legítimos entre patrícios e plebeus, oficialmente concedida pela Lex Canuleia, em 445 a.e.c., se relacio­ne com a flexibilização do velho casamento patriarcal. Podemos pensar que o pai de uma jovem patrícia teria aversão a transmitir a sua autorida­de a um marido plebeu com quem ela podia ser levada a casar e que não seria da sua condição, pelo menos aos olhos dos deuses. Uma esposa que escapasse à manus do marido continuava, de fato, submetida à do seu pai e continuava a participar na religião da casa onde nascera. Toda­via, isso implicava também outra consequência: em virtude da sua autoridade tradicional, o pai da jovem conservava a faculdade de romper o casamento da filha por sua própria conveniência e sem o consentimento dos cônjuges. Este direito, que nos parece exorbitante, persistiu até ao século II d.e.c., tendo sido definitivamente abolido apenas no tempo dos Antoninos. Há muito tempo que ninguém pensava colocá-lo em prática, permanecendo apenas como um vestígio arcaico, mas o fato de ter exis­tido é suficiente para que possamos entrever as verdadeiras razões que suscitaram a criação de um casamento sem manus: longe de ser inspira­da por intenções liberais e pela vontade de dar à mulher a independência jurídica, esta inovação dos juristas do século V reflete, sobretudo, a relutância que tinham em diminuir as prerrogativas do pai de família e o seu engenho na salvaguarda da integridade da “casa” patrícia.

Desta inovação resultou, contudo, uma verdadeira revolução, que, a longo prazo, conduziu, na prática, à emancipação da mulher casada. Podemos ver, por exemplo, no período da Segunda Guerra Púnica, um pouco mais de dois séculos depois da Lei das Doze Tábuas, que a grande maioria das mulheres escapava não apenas à tutela dos maridos, mas também à dos pais. A mulher, que era considerada uma “perpétua me­nor”, estava sujeita, teoricamente, à autoridade de um tutor. Mas, em geral, este tutor já não era o pai. Frequentemente, este, ainda em vida, designava um parente ou um amigo para substituí-lo nesta função. A “pupila”, se estivesse descontente com o tutor, podia pedir ao pretor que lhe atribuísse outro e o pretor mostrava-se complacente. Na realidade, a tutela estava em vias de desaparecer no fim da República. Já não era considerada senão uma formalidade que não podia restringir realmente a independência financeira das mulheres. Até mesmo Augusto, no seu desejo de incentivar os Romanos a ter filhos, dispensou totalmente de tutor as mães de três crianças, privilégio que foi depois frequentemente alargado, por vontade dos imperadores, a esposas menos férteis.

O casamento “livre”, ou seja, aquele em que a esposa não ficava juridicamente submetida ao marido, mas dependia de um tutor cuja au­toridade era apenas uma ficção, tornou-se muito rapidamente habitual e, no fim da República, era esse o regime ordinário, se ignorarmos algu­mas grandes famílias patrícias em que se praticava ainda a confarreatio. A coemptio, como dissemos, tinha desaparecido completamente desde então e o casamento per usum era apenas uma curiosidade jurídica. A união não era mais do que uma convenção privada que tinha apenas consequências legais muito específicas e limitadas. Por exemplo, não podia haver doações entre marido e mulher, mas, em contrapartida, esta podia possuir bens que ficavam automaticamente excluídos da administração do marido. Na prática, as mulheres preferiam, frequentemente, deixar aos maridos o encargo de gerir as suas próprias fortunas, mas isso era apenas uma concessão por afeto. O dote efetivamente estipulado aquando do casamento devia ser administrado pelo marido, todavia, em princípio, apenas o seu rendimento devia ser utilizado nas necessidades da comunidade familiar. Embora não houvesse dispositivo legal que pu­desse impedir um marido pouco escrupuloso de o dilapidar, não era menos verdade que, se o casamento viesse a ser dissolvido, este dote, na maio­ria dos casos, devia ser restituído à mulher, que recuperava a sua liberda­de. Mulher e marido redigiam testamentos separados e não eram auto­maticamente “herdeiros naturais” um do outro. É difícil imaginar um regime jurídico que possa garantir uma maior dignidade à mulher e assegurar-lhe uma maior independência material e moral. Esta situação não é, de fato, a inicial, na cidade romana. Ela formou-se lentamente. Ten­tamos mostrar o mecanismo desta evolução. Parece que tudo se caminhou para humanizar o casamento romano, para integrar nas leis o que, de início, era apenas uma tendência dos costumes simbolizada na lenda. Erraríamos se pensássemos, dando crédito aos oradores, sobretudo a Juvenal, que esta transformação teve origem no relaxamento moral, na degradação progressiva da pureza original. Bem pelo contrário, parece que os romanos reconheceram a nobreza moral das suas companheiras e que tiveram nelas uma confiança cada vez maior ao longo das gerações. Se as quiseram cada vez mais livres, a razão para tal reside no fato de terem aprendido a respeitá-las cada vez mais.

 

***

 

Não obstante, aos olhos dos modernos, os Romanos são o povo que autorizou o divórcio e, em certos momentos, fez uso dele até ao excesso. Na verdade, esta liberdade do divórcio é a consequência necessária da concep­ção romana do casamento: dado que este é essencialmente uma “associa­ção”, apenas pode subsistir por livre vontade dos cônjuges. Quando esta vontade se altera, em nome de que princípio se poderia constrangê-la?

O primeiro divórcio mencionado pela tradição remonta apenas ao ano 231 a.e.c., quando Espúrio Carvílio Ruga repudiou a mulher, porque era estéril. No entanto, conforme é relatado, amava-a de fato e ela merecia esse amor, mas ele tinha jurado perante os censores, como exi­gia o costume, que se tinha casado “para ter filhos” e não queria que o seu amor por uma mulher, que sabia não poder dar-lhe descendência, o levasse a violar tal juramento. O motivo era honroso, mas isso não impe­diu Carvílio de ser criticado severamente pela opinião pública. A fides, isto é, a lealdade para com a esposa, devia primar sobre o respeito pelo juramento cívico. O casamento era como todos os contratos: a menos que houvesse fortes razões, designadamente coação, era necessário observá-lo custasse o que custasse.

Atribuída ao próprio Rômulo, havia uma “lei régia” relativa ao casamento que estipulava as condições da sua dissolução. No entanto, como acontece em geral com as leis ditas “régias”, a autenticidade desta é extremamente duvidosa e, para além disso, a sua interpretação é incerta. Eis como Plutarco a formula:

"Rômulo publicou também algumas leis, entre as quais é realmente severa a que não permite à mulher deixar o marido, mas permite ao marido repudiar a esposa por envenenamento de filhos, por subtração de chaves e por adul­tério. Ela ordena que, se algum rejeitar a sua mulher por outro motivo, metade da sua fortuna pertence à mulher e a outra metade será consagrada a Deméter, mas aquele que repudiar a mulher deve oferecer um sacrifício aos deuses infernais."

Este texto, bastante obscuro, reflete indubitavelmente um estado antigo da sociedade e, sem dúvida, ainda próximo das suas origens pa­triarcais. As prescrições que contém só se podem explicar pela influên­cia do poder do “pai de família”, poder absoluto, em princípio, nessas origens, pelo menos no plano do puro direito. Todavia, por paradoxal que possa parecer, constituem restrições ao exercício deste poder, limi­tando o direito de repúdio a certos casos muito precisos quando a esposa se tornava culpada de atos particularmente graves. Se não fosse culpa­da, o seu repúdio era ainda teoricamente possível, mas custaria caro ao marido caprichoso! Privado da totalidade dos seus bens, recuperaria certamente a sua liberdade, mas a que preço!

As razões que, segundo esta lei, legitimam o divórcio intrigaram durante muito tempo os historiadores do direito, que não se coibiram de corrigir arbitrariamente o texto para eliminar o que os chocava. Julgan­do absurdo que a “subtração das chaves” pudesse ter tão graves consequências, pensaram que Plutarco deveria ter querido falar das “subs­tituições de filhos”. Na verdade, não é conveniente alterar o texto. P. Noailles mostrou que cada uma das eventualidades consideradas consti­tui, de fato, a violação de um dos “tabus” mais característicos do casa­mento romano primitivo. Os “envenenamentos de filhos” são, na reali­dade, uma forma de aborto provocada pelo emprego de drogas mágicas. O adultério, crime contra a pureza do sangue, é, evidentemente, a falta essencial e inexpiável e continuará a sê-lo enquanto durar a cidade ro­mana. Resta o caso do uso das “falsas chaves”. Mas o sentido da proibi­ção é claro, também aí, se recordarmos que as mulheres romanas não puderam, durante muito tempo, beber vinho sem incorrer nas mais gra­ves penas. Embora pudessem ter na sua posse todas as chaves da casa, as da adega estavam-lhes interditas. Uma estória contada pelo historiador Fábio Pictor, que escrevia no fim século III a.e.c., e conservada por Plínio, o Velho, diz-nos que um dia uma senhora romana desselou os armários em que se encontravam as chaves da adega. Acusada deste crime, foi condenada por um conselho de família a morrer à fome. Ignoramos, in­felizmente, em que época se desenrolou o drama. Podemos supor que já ao tempo de Fábio Pictor remontava a um passado muito longínquo. No início do século II a.e.c., uma mulher que bebesse vinho incorria ainda na pena de repúdio, mas não na de morte.

Na família patriarcal primitiva, parece efetivamente que a única dissolução possível do casamento era em resultado da condenação da espo­sa à morte pelo pai de família, agindo na sua qualidade de juiz, e as faltas que provocavam esta terrível decisão eram crimes religiosos. Surgiu, muitas vezes, a questão de saber qual o verdadeiro significado do inter­dito do vinho. P. Noailles considera que o vinho, líquido sacrificial e substituto do sangue, passava por “conter o princípio misterioso da vida... bebendo-o, a mulher submetia-se a um princípio de vida que lhe era estranho e, por conseguinte, hostil. Introduzindo este elemento externo nela - no sangue da família -, destrói a sua integridade. É uma mancha através do sangue”. Uma hipótese recentemente apresentada recorda que, na medicina antiga, considerava-se que o vinho era dotado de virtu­des anticoncepcionais e abortivas e, por conseguinte, o seu uso podia ser assimilado a uma tentativa de aborto semelhante às previstas pela lei de Rômulo. Por nossa parte, dissemos que o vinho era consagrado à deusa Vênus e que o seu uso podia ser considerado, de fato, perigoso para as “mães”, o que não contradiz em nada as duas hipóteses precedentes, perfeitamente compatíveis entre si, em planos diferentes de causalidade. Mas é também necessário não esquecer que apenas as "matronas", ou seja, as senhoras “de família honrosa”, parecem ter estado sujeitas a esta proibição. É pelo menos o que transparece de um outro costume, muito curioso e muito mais surpreendente em uma sociedade tão puritana, em certos aspectos, como é a da Roma arcaica. De fato, durante muito tem­po, as senhoras “de boa família" recebiam dos pais de sangue ou por aliança um beijo na boca. Era o chamado jus osculi, o direito de beijar. Era um direito singular, que as mulheres comuns não podiam reivindi­car, e que apenas se explica, de acordo com o modo como os próprios antigos o entendiam, pelo tabu do vinho. Os pais da senhora nobre verificavam desta maneira se o seu hálito cheirava a vinho. Não seriam eles que, em caso de infração à regra, se sentariam como conselheiros do tribunal de família e decidiriam o destino reservado à delinquente?

É necessário distinguir cuidadosamente entre a condenação de uma matrona pelo tribunal familiar e a dissolução pura e simples do casamento. É necessário também interrogarmo-nos, face aos testemunhos dos historiadores antigos, se se referem a uniões patrícias, em que as considerações religiosas e as tradições “do clã” continuaram a desempe­nhar, durante muito tempo, um papel importante, ou a “pessoas comuns”, para as quais a estabilidade da família tinha menos consequências. Po­deremos verificar, então, que a maior parte das estórias e dos fatos mais diversos que nos foram transmitidos se refere, precisamente, a ca­sas aristocráticas. É muito provável que o quadro fosse muito diferente, se dispuséssemos de documentos relativos às outras classes da socieda­de, aquelas para as quais o casamento não se destinava, em primeiro lugar, a perpetuar um culto gentílico e era muito mais um assunto pesso­al. Para além disso, havia também todos aqueles que não gozavam do “direito de casamento”, esse jus connubii que era uma das prerrogativas dos cidadãos de pleno direito, ou seja, durante muito tempo, a totalidade dos plebeus e também, mesmo depois da lex Canuleia de 445 a.e.c., a massa dos libertos, que não podia unir-se legalmente com pessoas de nascimento livre, pelo menos, segundo parece, até ao último século da República. Todas estas uniões, não sendo casamentos legítimos e não tendo consequências jurídicas, eram certamente menos estáveis que os casamentos contratados entre pessoas de nascimento livre. À medida que se dissipava o sentimento das distinções sociais, como poderiam os casamentos legítimos ter escapado ao contágio?

Se é verdade que a manus do marido, herança da sociedade patriar­cal, constituía a única garantia jurídica de um casamento estável, retiran­do à mulher a possibilidade de deixar o marido de acordo com a sua vontade, uma vez admitido o princípio do casamento sem manus, nada mais, exceto o sentimento das conveniências, podia assegurar a estabi­lidade da união. Por isso, é extraordinário que o divórcio só tenha feito o seu aparecimento, nas famílias da aristocracia (as únicas para que pos­suímos informações), mais de dois séculos depois da instituição e generalização do casamento per usum. Isso prova o poder da tradição. Vemos com que dificuldade as aspirações à liberdade individual puderam final­mente aparecer à luz do dia. Para além disso, a coação da sociedade exercia-se de uma maneira extremamente eficaz através da censura, essa magistratura que confiava a dois verdadeiros “inquisidores dos costu­mes”, durante cinco anos, o encargo de examinar se cada cidadão era digno do estatuto que tinha na cidade. Os censores não hesitavam em infligir uma repreensão, ou mesmo riscar da lista de senadores, quem repudiasse a mulher por um motivo fútil. Evidentemente, a ameaça era progressivamente menos grave à medida que se dirigia às classes infe­riores e, indubitavelmente, também, a severidade dos censores estava reservada, sobretudo, às personalidades mais em evidência.

No entanto, mesmo na ausência de qualquer sanção oficial, subsistiu nos costumes, durante muito tempo, uma certa aversão ao divórcio. Quan­do uma esposa entrava em conflito com o marido, chegava a convocá-lo para uma conciliação perante um órgão jurisdicional bastante singular, uma divindade chamada Viriplaca, ou seja. “a que apazigua os mari­dos”, cuja capela se erguia no Palatino. Antes de tomar uma decisão extrema, maridos e mulheres dirigiam-se aí, onde, sob a proteção da deusa, descarregavam livremente o coração. Falando, recuperavam a calma, a tempestade acalmava-se e, por graça de Viriplaca, regressavam a casa mais unidos que nunca.

Porém, no fim da República, Viriplaca perdeu muito do seu poder e os divórcios tornaram-se extremamente frequentes. Já não eram apenas os homens os únicos a repudiar as mulheres, usando a fórmula consagra­da “pega nas tuas coisas e vai-te", que tinha o poder de quebrar a união, eram as próprias mulheres que deixavam o domicilio conjugal e regres­savam à casa de infância. Se o casamento não tivesse manus, era apenas essa a cerimônia; se tivesse manus, esta era revogada com um rito jurídi­co apropriado, a que o cônjuge repudiado tinha de se sujeitar. A própria facilidade do divórcio contribuiu muito, certamente, para generalizar a sua prática. Mas esta facilidade foi menos uma causa do que o resultado de uma situação complexa: os divórcios eram fáceis, porque pareciam necessários, porque o casamento já não era um “valor em si”, a que se devesse subordinar a vida pessoal, como se aquele fosse um absoluto incondicionado. O estatuto jurídico das uniões legítimas evoluiu, como evoluíram todas as outras instituições da cidade romana. Seria estranho e quase monstruoso que, com a transformação prodigiosa que fez de Roma a capital do mundo, apenas permanecesse imutável uma concep­ção de família que correspondia, no seu princípio, a uma sociedade pa­triarcal do tipo mais arcaico. Os moralistas podiam lamentá-lo; o histo­riador pode falar de decadência, desde que não se esqueça que tudo o que vive, pelo simples fato de existir, encaminha-se para a morte. O casamento romano não escapou a esta lei. Não pensemos que vontades perversas ou uma corrupção generalizada sejam responsáveis do que se diz ser a sua degradação. Interroguemo-nos, antes, sobre o que foi, de fato, esta instituição jurídica de que acabamos de esboçar a fisionomia, como existiu nas diversas épocas, o lugar efetivo que ocupou na exis­ tência dos indivíduos. Chegaremos, talvez, a compreendê-la tanto me­ lhor quanto mais renunciarmos a julgá-la.

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11/1/2017 7:33:05 PM | Por Julliette Wood
Civilização Celta
Texto
O voo da águia celta

A infância é um período mágico para os celtas. Existem leis que regulamentam os deveres dos pais biológicos e adotivos com respeito aos cuidados e à educação dos filhos pequenos. Uma das primeiras responsabilidades é escolher cuidadosamente o nome da criança, pois o significado do nome determina o papel que a pessoa desempenhará na vida adulta. Também é importante que a criança receba um nome antes que seja afetada por forças adversas que possam influenciar o seu destino. Contudo, muitas crianças especiais - aquelas que possuem uma sabedoria extraordinária e estão destinadas a transmiti-la aos outros - recebem o nome de episódios aparentemente acidentais, mas também simbólicos, ocorridos na sua infância. Essas "crianças sábias" são associadas com a água ao nascer ou logo depois do nascimento, e passam por um "segundo nascimento", do qual emergem precocemente instruídas e dotadas de poderes sobrenaturais.

A água é um ambiente natural para as crianças sábias, como também é fonte de vitalidade para todos os seres vivos e um símbolo de inspiração poética. O motivo da água - como o da luz emergindo das sombras e o do dom psíquico da "visão" - está presente em muitas histórias. O jovem herói Finn, cujo nome significa "brilhante", mergulha na água tão logo nasce para fugir das tentativas do rei de assassiná-lo. A criança emerge da água segurando um peixe e cresce em segredo até ter idade suficiente para reivindicar sua herança. O bebê Morfhind, cujo nome significa "brilho imenso", nasce com uma membrana em torno da cabeça e por isso [8] é jogado ao mar para se afogar; no entanto, em vez disso ele vem à tona na nona onda e começa a falar.

Embora as crianças sábias comecem sua vida na escuridão física - Morfhind com a membrana lhe cobrindo a cabeça, o bardo Taliesin num saco preto, elas logo recebem nomes associados à luz, que revelam a sua visão especial de poeta e vidente. A ideia de que as crianças possuem uma sabedoria inata (ou a adquirem pouco tempo depois) está presente no Livro de Taliesin: "Velho é o homem quando nasce, e jovem, jovem para sempre depois disso" - um paradoxo coerente com a crença celta no ciclo de vida, morte e pós-morte.

O caminho do guerreiro

Para os celtas, a guerra não era uma carnificina mecânica e impensada, mas uma arte complexa, que exigia dedicação e destreza. Em batalha, o povo exprimia sua voz. De acordo com Júlio César, os guerreiros montados, conhecidos como équites, eram os homens mais refinados da Gália. Quando o herói irlandês Cuchulainn aprendeu a lutar, ele também aprendeu 27 estratégias de combate que receberam nomes como "Façanha da Maçã", "Salto sobre o Veneno" e "Façanha Ruidosa dos Nove", o que sugere um mundo de artes marciais onde a disciplina e a concentração são tão importantes quanto a força bruta. A ideia da guerra como uma arte se reflete nas cenas detalhadas de luta e nas imagens realistas, que adornam escudos, adagas, espadas e lanças, de guerreiros praticando exercícios marciais.

As armas belamente decoradas, o bem mais precioso de um guerreiro, seguiam com eles até o túmulo para servi-los no pós-morte. As imagens bélicas das armas se refletem nos epítetos a elas aplicados pelos guerreiros: "Centenas de Batalhas", "Grande Cão", "Serpente de Terrível Peçonha", "Javali Orgulhoso" e "Baluarte de Batalha", para citar alguns. "Chega mais rápido a um campo de sangue do que a uma festa de casamento", canta o poeta Aneirin sobre um desses guerreiros.

Lealdade e bravura são as qualidades mais valorizadas, e um rei sábio sabe o valor que têm seus soldados. Em Y Gododdin, um antigo poema galés, Aneirin conta sobre trezentos jovens que lutam pelo rei de Gododdin. Durante um ano eles aceitam sua hospitalidade - comem, bebem hidromel e recebem presentes caros. Esses trezentos homens são não apenas corajosos, mas astutos também; cortejam as mulheres e dominam todas as artes, sendo a arte da guerra apenas uma delas. Depois de um ano de farra na corte, os guerreiros partem para a batalha - segundo o verso do poema, "Em pagamento pelo hidromel" -, montados em seus cavalos brancos ofertados pelo rei, com a moral elevada e cheios de expectativa pela batalha que têm pela frente. Embora tenham sido todos mortos, morreram cheios de glória e suas bravas façanhas foram eternizadas nas canções - uma imortalidade terrena comparável à recompensa do pós-morte. [10]

Mesmo depois da morte dos soldados, o comandante continua protegendo seus homens. Por exemplo, Mac Con erige um cairn (monte de pedras erigido como um túmulo) para cada um dos seus companheiros e eles são enterrados na vertical, com o escudo diante deles, como se os seus espíritos estivessem prontos para a batalha. As sepulturas dos guerreiros são muitas vezes feitas às margens de rios ou de outros tipos de fronteira, para que os soldados mortos formem uma barreira sagrada contra os inimigos. Quando Taliesin e seu companheiro percorrem um território cheio de sepulturas de guerreiros, pedem ao poeta que diga o nome do soldado enterrado em cada sepultura e informe a sua linhagem. O fato de se esperar que um poderoso vidente se lembre dos detalhes acerca dos guerreiros mortos mostra a grande admiração e respeito que os celtas tinham pelos guerreiros. [12]

A vida militar está longe de ser um reduto exclusivamente masculino. As guerreiras lutam lado a lado com os homens ou lançam maldições nos inimigos. Deusas guerreiras lançam mão da magia para se transformar em ferozes criaturas de batalha - e ai de quem as ofende! Antes da batalha, quando Cuchulainn rejeita os avanços amorosos de uma bela mulher, ela revela ser Morrigan (uma apavorante deusa guerreira metamorfa) e o avisa de que ela dificultará sua luta. Durante a batalha, ela o ataca três vezes, primeiro na forma de uma enguia, depois na forma de um lobo e, finalmente, como uma novilha mocho. A cada vez, o herói a fere. Depois da batalha, ela se aproxima de Cuchulainn novamente e oferece ao sedento guerreiro três goles de leite - cada vez que ele bebe, uma das feridas dela cicatriza.

Coragem implica a realidade e intensidade do medo - uma emoção que o guerreiro busca deliberadamente instilar em todos os seus inimigos. Um escritor grego descreve um carynx, uma trompa de guerra no formato de cabeça de animal. Os guerreiros celtas sopravam essa trompa antes da batalha para produzir um som arrepiante com a intenção de apavorar as tropas inimigas. Canções, cânticos e trompas de batalha causavam uma espécie de êxtase marcial. [13]

A honradez das mulheres

Segundo um conhecido preceito da lei irlandesa, a mulher pertence ao pai enquanto é solteira, ao marido depois de casada e aos filhos quando fica viúva. As mulheres celtas, porém, não são tão passivas quanto essa fórmula pode sugerir. Tanto a literatura clássica quanto a celta celebram as mulheres fiéis ao seu senso de honra. Boudicca, rainha dos icenos (tribo que habitava o território que hoje corresponde ao condado de Norfolk, na Inglaterra), liderou rebeldes britânicos, em sua carruagem de guerra, numa revolta contra os romanos em 60 e.c, na qual buscava vingança por uma causa justa. O historiador romano Tácito retrata Boudicca como uma megera de cabelos vermelhos, mas ele mesmo aprecia a lealdade dela à tribo e sua bravura ao impor resistência contra os ultrajes que ela e a família tinham sofrido nas mãos de soldados romanos saqueadores.

Na literatura gaélica irlandesa, Deirdre luta entre o amor que sente pelo atraente Naoise e um casamento forçado com o velho e cruel rei Conchobar de Ulster. Furioso com a fuga da futura esposa com Naoise e seus irmãos, Conchobar usa de artimanhas para matar o amante de Deirdre e ameaça escravizá-la. Em vez disso, ela prefere se suicidar, atirando-se da carruagem e chocando-se contra uma rocha, em vez de se submeter à brutalidade de um rei perverso. Desde então ela tem sido muitas vezes conhecida como "Deirdre dos Infortúnios". [14]

O folclore irlandês louva as mulheres que têm "uma língua estável, um lar estável e uma virtude estável". Essas três qualidades são exploradas na "história galesa de Rhiannon, filha de um rei do Outro Mundo. Um dia, Pwyll, rei de Dyfed, segue uma bela mulher montada num cavalo branco nos arredores da sua corte, em Arberth. Por mais rápido que galope, não consegue alcançá-la; por isso, ele se aproxima dela por intermédio de uma cortesã. A mulher revela a Pwyll que ela é Rhiannon e ela quer que ele a tome como esposa para libertá-la do noivado com um pretendente indesejado. Pwyll aceita de bom grado o compromisso, mas no dia do casamento ele é enganado e [15] acaba sendo forçado a prometer a noiva justamente ao homem que ela pretendia evitar. A astuta Rhiannon intervém, mostra a Pwyll como humilhar o rival e, um ano depois, o casal passa a viver junto.

Depois que o casal volta para Dyfed, Rhiannon logo ganha a reputação de ser uma rainha pródiga entre os súditos. Ninguém deixa a corte sem ganhar dela um presente, como símbolo da sua generosa hospitalidade. No entanto, ela não tem filhos e os irmãos de criação do marido começam a espalhar boatos maldosos a respeito dela.

Quando o casal finalmente tem um filho, todos ficam muito felizes, mas o bebê desaparece misteriosamente e a rainha é acusada de matar o próprio filho. Ela é encontrada com o rosto cheio de sangue - na verdade, um ardil engendrado pelas amas da criança. Estas, com receio de que sua suposta negligência lhes custasse a vida, matam um cão e usam seu sangue para acusar a rainha de devorar o próprio filho e evitar que a punição recaia sobre elas. Rhiannon mantém um silêncio cheio de dignidade diante das incriminações e, durante a penitência pelo seu crime, nenhuma vez culpa outra pessoa ou alega inocência. Sua resistência é recompensada quando a criança é encontrada viva e bem; a mãe então reconquista sua reputação de boa rainha e mãe - e uma mulher cheia de dignidade. [16]

O bebê de Rhiannon foi seqüestrado por um espírito malévolo (embora tenha sido resgatado posteriormente por um senhor chamado Teyrnon e adotado pela esposa dele) - um risco que todas as mães correm e que exige delas vigilância constante sobre a prole. A magia protetora pode ajudar. Para proteger filhos pequenos das bruxas, basta fixar na roupa da criança uma fita vermelha cheia de nós. Os bebês, no entanto, precisam de proteção terrena também, para que não sejam raptados pelos encantados. Um ótimo exemplo de cuidados maternais é dado pela mãe do pequeno Dinogad, que velava por ele enquanto o menino dormia e cantava canções que falavam da boa carne e das peles quentes que seu pai trazia quando ia caçar. [17]

Morte, céu e inferno

Numa ilha ao sudoeste da Irlanda, vive o deus Donn, Senhor dos Mortos, a quem todos os seres humanos um dia acabam prestando homenagens. Ele é o deus ancestral que dorme numa caverna, assistido por nove donzelas, cujo sopro alimenta o fogo sob o seu caldeirão mágico. O reino de Donn se estende até as sepulturas em que guerreiros e reis celtas estão enterrados com suas armas, jóias e trajes cerimoniais - e também as carruagens em que eles viajam para o Outro Mundo, onde viverão pela eternidade. [18]

Segundo a tradição celta, as formas mais sagradas de sabedoria provêm do reino dos ancestrais - o mundo dos mortos. Isso explica por que até o Sol brilhante faz seu trajeto descendente, à noite, até o reino sombrio de Donn. O Sol é a fonte de toda a vida, e seu movimento entre o mundo dos vivos, durante o dia, e o mundo dos mortos, durante a noite, determina o ritmo do tempo.

O contato entre os vivos e os mortos é coisa trivial na imaginação celta. O reino dos mortos é uma fonte poderosa de conhecimento arcano para os vivos, embora seja sempre para eles um perigo viajar até lá - estão proibidos de entrar nesse reino incivilizado antes da hora. No entanto, são muitas as tentações para se violar essa regra. De acordo com um escritor clássico, os pescadores da Britânia eram às vezes perturbados pelas almas dos mortos, que os chamavam à noite para levá-los de barco até uma misteriosa ilha - o lar de Donn. Qualquer um que viaje para o Outro Lado antes da morte se mantém eternamente jovem enquanto estiver lá, mas envelhece imediatamente assim que retorna. [19]

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11/1/2017 7:32:27 PM | Por A. S. Franchini
Civilização Asteca
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Pulque, a bebida sagrada dos astecas

O maguey não é cultuado apenas por ser uma planta meramente embriagadora, mas por ser considerada capaz de abrir canais de comunicação espiritual com os deuses e os seres invisíveis. Não só ela, como outras plantas possuíam, segundo acreditavam os astecas, o dom mágico de conectar o homem ao sagrado. Existia, por exemplo, uma semente chamada ololiuqui que era utilizada para preparar uma infusão de propriedades alucinógenas. Do mesmo modo, a planta conhecida como toluah, referida no Códice Badianus, e uma série de cogumelos e cactos capazes de provocar visões nos xamãs, um meio considerado perfeito para essas supostas "comunicações astrais”. Todas essas plantas eram, portanto, consideradas sagradas, não constituindo crime algum utilizar-se delas em seus cerimoniais na condição exclusiva de intoxicante ritual ou licor sacrificial.

Dentre os cactos, o mais apreciado era o nopal (nochtli), símbolo nacional dos astecas (foi pousada sobre ele que os peregrinos avistaram a águia mítica, indicando o local onde deveriam fundar Tenochtitlán). Outro cacto famoso é o peyotl, experimentado por gente famosa como o escritor inglês Aldous Huxley (ele fez um relato acerca dos seus efeitos químicos na obra (As portas da percepção). Outro que se serviu largamente desse cacto durante as suas andanças pelo México foi Jack Kerouac, o mítico autor de On the Road, o clássico supremo da “geração beat”. Seu propósito, porém, não era científico ou místico, mas literário, já que foi sob o seu efeito, conjugado com o de oceanos de garrafas de pulque e de cerveja barata, que escreveu a maioria das [144] páginas da sua literatura lisérgica. Carlos Castaneda, o bruxo que se celebrizou nos best-sellers dos anos 1960, foi outro que se serviu do peyotl em sua tentativa de revalidar, num contexto hippie, as primitivas práticas alucinógenas da América indígena.

Mas, de todas as plantas estupefacientes conhecidas, o maguey foi a que se tornou a mais importante, merecendo, portanto, um estudo mais detalhado. Fenômeno corrente em todas as mitologias é o uso por parte dos deuses ou de uma casta sacerdotal de uma bebida ou alimento mágico capaz de abrir as portas de comunicação do humano com o sagrado. Entre os hindus, por exemplo, havia o soma, obtido após o episódio mítico da “batedura do oceano”. Os gregos saboreavam a ambrosia, popularizada como “O néctar dos deuses". Entre os nórdicos havia o popularíssimo hidromel, sorvido em chifres por Thor, Odin e toda a trupe das divindades vikings. Na Europa, a bebida divina possuía denominações parecidas: os ingleses chamavam-na de mead, os alemães de met, os russos de med. No norte da América, os apaches sorviam o tiswin, enquanto no centro os maias se deleitavam com o balché (versão quiché do octli asteca). Os incas, por sua vez, desfrutavam no sul da América da chicha andina, enquanto os nossos tupinambás sorviam o cauim, fermentado em cubas enormes com o auxílio do cuspe das índias mais belas da taba.

E assim por diante, em toda parte.

Existem várias modos de se designar o licor sagrado dos astecas. O termo mais popular, hoje, é “pulque”, derivado, segundo alguns, do nahuatl poliuhqui, "decomposto”, ou “destilado”. Originalmente, era chamado pelos astecas de octli. “O leite de Mayahuel” e teómetl (“vinho sagrado”) são outras denominações secundárias aplicadas à bebida favorita dos astecas, extraída do maguey.

O maguey era uma planta utilíssima para as populações mesoamericanas. Suas folhas possuíam, tal como aquela moderna esponja de aço, mil e uma utilidades. Delas se podiam fazer folhas de papel e peças de tecido impermeável, além de servirem como cobertura para as choças campesinas. Dos seus espinhos [145] resistentes podia-se confeccionar, ainda, agulhas e alfinetes, e da sua raiz cosida obtinha-se um saudável alimento. Do seu suco extraía-se açúcar, mel, vinho e vinagre, além de medicamentos para várias enfermidades. E, para arrematar, fornecia água para as populações sedentas dos altiplanos mexicanos.

Uma planta realmente abençoada, como vemos, não constituindo surpresa que tenha se convertido, desde a aurora das civilizações mesoamericanas, em objeto de gratidão e mesmo de veneração.

O pulque estava relacionado, em termos de mística, com a deusa Mayahuel e com os centzontotochtin, ou “quatrocentos coelhos”, tidos também como “os inumeráveis deuses do pulque” (como o maguey era colhido nas noites de Lua cheia, a planta passou a estar associada à Lua, que era representada, dentre tantas outras formas, pela figura do coelho, “impressa” em sua face). Tão grande era a associação deles com a bebedeira ritual que foram chamados também de “quatrocientos borrachos”, estando todo aquele nascido no dia consagrado ao coelho (“2 tochtli”, ou “dia de los borrachos”) fadado, segundo a crença calendárica asteca, a ser um beberrão por toda a vida.

O octli era utilizado de diversas maneiras nos rituais. Uma das formas mais dramáticas era a ingestão que os guerreiros faziam antes de irem deitar-se sobre a pedra sacrificial. A ingestão do pulque ajudava-os a enfrentar o último instante com galhardia e destemor, já que era considerado de mau agouro que o candidato ao sacrifício se apresentasse amedrontado diante do deus ao qual devia imolar-se (segundo a crença, ele era o próprio deus, investido dos seus atributos, não podendo, portanto, apresentar-se de maneira indigna, uma vez que os deuses não haviam demonstrado receio algum quando lhes coubera a sorte de também imolarem-se, a fim de garantir a perpetuação da vida). Os sacerdotes dos templos, ou os xamãs das florestas, também se valiam do pulque para entrar em contato com as suas divindades totêmicas, ou naguais, a fim de haurirem delas conselho e ensinamento. Outro pretexto infalível para tomar-se um bom pifão de pulque eram os festejos por [146] ocasião das colheitas. Aqui também eram invocados os “quatrocentos coelhos” para que fizessem verter o saboroso néctar, uma vez que eles estavam associados, como já vimos, à agricultura e, em particular, ao cultivo do maguey.

Na verdade, muito antes dos astecas se estabelecerem no Vale do México eles já consumiam regularmente a sua bebida favorita. Segundo os cronistas, durante os anos árduos da sua peregrinação, eles valeram-se largamente do octli como meio de mitigar a sede e a fome. Bernardino de Sahagún, o maior de todos os cronistas espanhóis, nos descreve assim os astecas, naqueles anos de penúrias e errâncias que os conduziriam, após infinitos trabalhos, ao coração do México: “Estos no pose en casa en parte alguna. Andan, viven como nómades, atraviesan los rios, viven a caminar, caminar. Donde la noche los sorprende, allí buscan uma caverna, uma roca, allí se acuéstan. (...)”. Sobre os otomies, o mesmo frei aduz, em outra deliciosa passagem, o cardápio do qual se serviam nos ermos desérticos, um cardápio que devia ser exatamente o mesmo dos peregrinos astecas: “comen el zorrillo, comen culebra, comen ardilla, ratón del bosque, ratón del campo, ratón doméstico. Todo lo comen ellos”. É uma vida, portanto, de privação contínua a que se abate sobre os astecas errantes, obrigando-os a retirar o sustento de quase tudo que encontram pelo caminho. “Ellos agujerean [perfuram] magueyes y beben pulque”, diz o cronista, confirmando a utilização da bebida pelos astecas, não só na condição de néctar ritual, mas como líquido mitigador da fome e da sede. Aliás, o próprio nome "mexica”- que é a denominação correta quando se pretende fazer menção aos astecas - derivaria, segundo Sahagún, do nome do sacerdote que os conduziu até o Vale do México, um nome ligado estreitamente ao da planta do maguey: “Este nombre mexícatl viene del nombre ‘mecitli’, onde ‘me’ significa maguey, e ‘citli’, el conejo [coelho]”. (Mecitli, segundo a lenda, teria sido posto ao nascer sobre uma folha de maguey, muito debilitado que estava, tendo, em seguida, recobrado milagrosamente as forças.)

Os deuses astecas também saboreavam o octli, embora preferissem, antes de tudo, o chalchiuatl, ou “líquido muito precioso”, eufemismo empregado pela retórica asteca para designar o sangue humano - “o terrível néctar de que se alimentam os deuses”, como diz Alfonso Caso. [147]

História, idade antiga, período pré-colombiano, Civilização asteca, Mitologia asteca, maguey, pulque, nopal (nochtli), peyotl, octli, teómetl, sacrifício humano, quatrocentos coelhos, peregrinação asteca
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10/12/2017 6:27:52 PM | Por Reinaldo Dias
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O setor não estatal e as parcerias estratégicas

Na segunda metade do século XX destacou-se, no cenário global, um tipo de organizações agrupadas no que se convencionou denominar terceiro setor embora não fossem novas, assumiram um papel fundamental na articulação de políticas públicas setoriais em todos os níveis. Seu papel complementar ao do Estado se tornou de tal significado que em muitos âmbitos é inconcebível se desenvolverem políticas sem a parceria com essas organizações não governamentais, sem fins lucrativos. Neste texto, pretende-se discutir o seu papel complementar às políticas oficiais e outras características que as tornam agentes essenciais de uma sociedade mais participativa. Como desdobramento natural do texto, discute-se o papel das parcerias na gestão pública, incluindo as modalidades que envolvem somente o setor privado.

O setor público não estatal e as políticas públicas

Há um aumento crescente das demandas que o Estado deve assumir para atender às necessidades da população. Ocorre que esta ampliação de atendimento de novas necessidades não vem acompanhada por uma ampliação da estrutura estatal, nem por uma crescente capacitação de agentes públicos em temos novos, emergentes, o que poderia levar a uma perda de legitimidade dos governos que gerenciam os negócios do Estado. É nesse contexto que as organizações não governamentais sem fins lucrativos surgem para suprir esta lacuna, apresentando-se como organizações bastante flexíveis do ponto de vista estrutural, e focadas em determinados temas, os que as tornam especializadas, reunindo condições de um melhor atendimento dessas questões pontuais, que podem estar relacionadas ao meio ambiente, ao idoso, ao esporte, à educação, à saúde entre outras áreas.

É nesse sentido que surge uma necessidade crescente do Poder Público de estabelecer parcerias na execução de políticas públicas. Essas parcerias, que ainda são relativas, mas crescentes, permitem a ascensão de atores sociais com poder significativo no enfrentamento de questões pontuais e que dizem respeito a prerrogativas antes exclusivas do Estado. Este é o caso das organizações do terceiro setor (ONGs, fundações, entidades filantrópicas etc.) que se mostram cada vez mais como uma alternativa no processo de reorganização do Estado, intensificando o processo de parceria entre as organizações sem fins lucrativos e o Estado, na execução de políticas públicas antes exclusivas do aparelho estatal.

Essas organizações do terceiro setor estruturam-se de modo geral em torno de um único tema, o que as torna altamente competentes no enfrentamento ou no atendimento de temas públicos. Sua especificidade, sem vínculo com o Estado, e o fato de não visarem lucro em sua atividade permitem que mantenham articulações permanentes a nível internacional, sendo capazes de obter apoio financeiro e moral às suas ações, possibilitando inclusive que façam frente ao poder do Estado quando haja necessidade, embora na maior parte das vezes ocorra um entendimento em questões específicas.

A necessidade de o Estado manter políticas sociais em função dos problemas gerados pela globalização e por uma política neoliberal predominante faz com que haja necessidade de reorganizar o seu papel e se corrigir as distorções ocorridas.

As principais distorções, como, por exemplo, a falta de transparência no manuseio dos recursos e a ausência da participação da sociedade em todo o ciclo em que se processam os benefícios sociais, deverão ser enfrentadas através da progressiva diminuição das atividades no seio do Estado e do fortalecimento dessas estruturas não governamentais sem fins lucrativos, que proliferam na sociedade e buscam melhorar as condições de vida e existência de vários segmentos da sociedade.

Essas organizações não substituem os partidos ou sindicatos, pois não apresentam propostas gerais para a sociedade ou para determinados ramos produtivos. No entanto, devido ao seu alto grau de conhecimento dos temas específicos que enfrentam, tornam-se uma alternativa de reorganização não só do Estado, que compartilhará com estas a execução dos serviços públicos, mas também de uma reorganização da sociedade como um todo, aumentando e propiciando canais de participação do cidadão, que retiram do Estado o monopólio e a responsabilidade exclusiva de execução de serviços públicos.

Por outro lado, a tendência de formação de blocos econômicos regionais com o Estado, abrindo mão de várias prerrogativas, aponta para um futuro de livre circulação de pessoas e produtos. Isto trará para o Estado maiores dificuldades no enfrentamento da questão social, pois haverá aqueles que atrairão mão de obra de outras regiões e que se tornarão caudatários da ação do Estado no território onde se encontram. A intensificação do fluxo turístico, por outro lado, causará inúmeros problemas em regiões e localidades que só poderão ser enfrentados com a parceria entre as organizações da sociedade civil e os órgãos do Estado em todos os níveis (federal, estadual e municipal).

Um mundo globalizado e integrado traz novos problemas e novas realidades em todos os campos - social, econômico, cultural etc. Necessita-se de novas abordagens que não podem ficar restritas aos velhos paradigmas, onde estão concentradas no Estado as responsabilidades de definição e execução das políticas públicas.

O terceiro setor: setor público não estatal

Como tema relativamente novo na análise social, essas organizações da sociedade civil assumiram importância crescente como alternativa de organização social, que apresentam como objetivo a prestação de serviços públicos nas mais diversas áreas - educação, saúde, lazer, turismo, direitos humanos, meio ambiente, cultura, habitação etc. - e que, no entanto, permanecem como organizações privadas sem vínculo com o Estado. Ou, dito de outro modo, podemos afirmar que o terceiro setor é constituído por organizações privadas, sem fins lucrativos, que geram bens e serviços de caráter público.

O espaço ocupado na sociedade por essas organizações constitui-se como um terceiro setor, público não estatal, onde tomam relevância novos valores, particularmente a solidariedade, em contraposição aos valores predominantes no setor privado - o lucro - e no setor público - o poder. Embora não sejam um fenômeno novo, pois sempre existiram entre o Estado e o mercado associações de todo tipo, têm assumido, nos últimos anos, papel relevante, tanto em termos econômicos como sob o ponto de vista social.

Esse terceiro setor compreende as organizações sem fins lucrativos: fundações, institutos, entidades filantrópicas, entidades de serviços sociais, entidades religiosas, as organizações não governamentais (ONGs), organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs), associações comunitárias e as mais diversas organizações de defesa dos direitos civis.

A caracterização mais difundida do terceiro setor foi formulada pela Johns Hopkins University, que identificou cinco aspectos principais para caracterizá-las:[1]

  1. são, em grande parte, organizadas e institucionalizadas;
  2. são privadas, ou seja, institucionalmente separadas do governo;
  3. não são distribuidoras de lucro;
  4. são autogovernadas;
  5. são, em grande parte, voluntárias.

É importante reafirmar que as organizações sem fins lucrativos não representam uma novidade no cenário social. Elas sempre existiram ao longo de todo o processo de consolidação do sistema capitalista. São organizações que não visavam ao lucro e não pertenciam ao Estado. O diferencial é que, ao longo da história, essas organizações nunca chegaram a ter o papel que vêm assumindo atualmente, chegando a se constituir numa alternativa aos dois setores tradicionalmente existentes.

O espaço das organizações do terceiro setor vem se ampliando porque se caracterizam mais como uma manifestação da cidadania em um estágio superior de organização e participação do que como uma alternativa política e social. Na realidade, a imensa maioria dessas organizações não chega a questionar as bases do sistema e caracterizam-se por se ocupar de temas pontuais, não procurando disputar o poder político e tampouco competir com os partidos.

Um aspecto que deve ser considerado na história dessas organizações é a crise de identidade que durante certo tempo impediu-as de se colocarem como uma alternativa de organização da sociedade, constituindo o que estamos chamando de espaço público não estatal.

Nascidas dentro de um processo dialético de “negação da negação”, muitas vezes não compreenderam ou não aceitaram este novo papel que chega a se constituir em um processo de evolução da sociedade como um todo. Negaram primeiro ser governo (não governamentais), e, ao ocuparem o espaço privado, preocuparam-se em marcar sua diferença com o mercado (não visam ao lucro). O que de início poderia parecer um limbo - nem privado, nem público -, hoje, na realidade, desponta como uma alternativa de organização da sociedade.

Devido ao seu crescimento, pode-se considerá-las como um pressuposto de organização social que busca o bem-estar nas suas mais variadas formas. São, de modo geral, monotemáticas: atuam em prol da ecologia, direitos humanos, crianças, paz, e um sem-número de bandeiras sempre pontuais e bastante específicas. Embora não necessitem do Estado para seu desempenho, o consideram um interlocutor [114] importante por este ser um ator que, além de deter muito poder, dispõe de significativo capital retirado do processo de acumulação.

Sua importância crescente pode ser vislumbrada por um estudo divulgado pelo IBGE, em 2008, mostrando que, em 2005, existiam 338 mil fundações privadas e associações sem fins lucrativos, que empregavam 1,7 milhões de pessoas em todo o País. Desse total, 35,2% atuavam na defesa dos direitos e interesses dos cidadãos, 24,8% eram instituições religiosas e 7,2% desenvolviam ações de saúde e educação e pesquisa.[2]

Essas organizações têm como vantagem em relação ao Estado o fato de constituírem, em sua maioria, estruturas flexíveis, de baixo custo, o que lhes permite uma maior agilidade e uma permanente capacidade inovadora na ação.

A globalização, ao colocar em crise o Estado de Bem-estar Social, com todos os aspectos negativos decorrentes, em particular o aumento da miséria e do desemprego considerado em termos globais, coloca, ao mesmo tempo, a questão do retorno ao debate da ação social do Estado e da participação (integração) da sociedade nessa ação.

As organizações do terceiro setor tornam possível a realidade de ampliar a participação da sociedade civil na execução de serviços sociais anteriormente restritos à ação “mecânica” do Estado e se colocam como uma opção para o Estado transferir parte de suas atribuições a essas entidades.

Outro aspecto a ser considerado é que a solidariedade humana, ausente na ação do Estado, é um fator necessário e absolutamente indispensável no combate à pobreza, à desigualdade e às injustiças sociais. Na sociedade globalizada, as organizações do terceiro setor apresentam esse componente fundamental da solidariedade que ocupa o “terreno abandonado pelo mercado e pelo Estado em virtude da baixa rentabilidade ou da falta de recursos financeiros".[3]

As possibilidades de aumento do desempenho das organizações do terceiro setor em um mundo globalizado crescem na medida em que aumenta sua autonomia, propiciada pelas múltiplas articulações globais e pela relativa facilidade de locomoção no cenário internacional. De fato, suas ações específicas, de modo geral, podem apresentar articulações extranacionais que lhes dão suporte e possibilitam o seu desempenho, mesmo contrariando interesses nacionais e internacionais poderosos, sejam estes econômicos ou políticos.

As ações desenvolvidas pelas ONGs, de modo geral, apresentam uma certa semelhança entre si. Induzem a uma ação da comunidade internacional, do Estado ou da sociedade em aspectos pontuais da problemática social — os meninos de [115] rua, menores explorados no trabalho, turismo sexual, discriminação de todos os tipos, direitos humanos. Diferentemente dos movimentos sociais, as ONGs não interrompem sua ação após obtida a atenção do Estado -, acompanham, fiscalizam, especializam-se e capacitam-se cada vez mais.

Uma possível sociedade com foco no bem-estar social poderia ser constituída tendo por base a articulação da sociedade, representada pelas organizações sem fins lucrativos e o Estado, fiscalizado e controlado em aspectos pontuais de sua ação por essas organizações.

Embora o terceiro setor venha assumindo papel cada vez mais relevante nas economias nacionais, muitas organizações sem fins lucrativos ainda não compreenderam ou não dimensionaram as modificações que estão em curso na sociedade, mantendo-se presas a seus objetivos específicos e evitando relacioná-los com a realidade mais geral.

Há necessidade de uma evolução, por parte de suas próprias lideranças, na compreensão do papel a ser desempenhado pelas organizações sociais. A visão particularista que permitiu durante muito tempo que essas organizações realizassem um trabalho efetivo obtendo resultados pontuais significativos deve ser substituída pela visão holística que permita situar cada ação específica da entidade dentro de um todo complexo que inclua a discussão de seu papel perante o Estado e o mercado.

Numa visão bastante crítica do setor, Jeremy Rifkin expressou que:[4]

“o problema é que os participantes do Terceiro Setor estão em um status neocolonial. Pensam como um setor subjugado. Suplicam ao governo, ao mercado e às instituições filantrópicas para obter verbas. Têm de compreender que o governo está começando a desaparecer da vida das comunidades, que seu papel é cada vez menos importante, que está passando a delegar verbas e programas. O mercado está tornando-se cada vez mais globalizado e não interno. Que vai acontecer com as fundações? A responsabilidade da vida cívica passará a ser delas e do setor não governamental. Esse é o processo de libertação”.

Embora Rifkin tenha escolhido um determinado cenário futuro para o papel a ser desempenhado pelas organizações do terceiro setor, o fato é que outras alternativas a esse papel deverão incluir do mesmo modo o terceiro setor numa posição de destaque na sociedade.

Particularidades das organizações do terceiro setor

A importância que vem assumindo o papel das organizações sociais, como já foi visto, em função da crise do Estado do Bem-estar Social, e do surgimento de novos espaços transnacionais, coloca em xeque o papel tradicional do Estado de realocador principal dos recursos escassos. Para essas organizações do terceiro setor assumirem novas responsabilidades há, em particular, a necessidade de uma maior capacidade gerencial na captação e na destinação dos recursos.

Na questão da destinação dos recursos, o que diferencia uma entidade não governamental da governamental é a sua maior eficácia no atendimento das necessidades humanas. Por se estruturar em torno de determinada necessidade social, a entidade do terceiro setor apresenta-se com o domínio do conhecimento e técnica específica no enfrentamento de determinada realidade. Por outro lado, com a crescente complexidade das sociedades humanas, o aparelho de Estado não consegue criar mecanismos eficientes no enfrentamento de todas as questões que despontam neste fim de século. São diferentes realidades - o problema da violência, crianças desamparadas, turismo predatório, grupos sociais portadores de doenças específicas, diversos aspectos do problema ambiental, marginalização de minorias, urbanização, defesa de diferentes culturas, lazer etc. - que só superficialmente o Estado pode enfrentar.

O Estado brasileiro vem tentando formalizar a parceria entre o setor público estatal e o terceiro setor de modo a aumentar a eficiência no atendimento das demandas da população. Tendo em conta essa necessidade, foi criada lei, em 1999, definindo o que são organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIP) e se estabelecendo os termos de parceria dessas organizações com o Estado.[5]

A lei das OSCIPs, de 1999, visa estabelecer parcerias do Estado com a sociedade para a gestão de serviços de natureza social, contemplando o foco no cidadão-cliente, a ênfase no desempenho, a autonomia administrativa e o controle social. O Estado mantém as suas responsabilidades no fomento a estas atividades, transferindo recursos públicos para as organizações, passando a desenvolver controles mais eficazes, com base nos resultados efetivamente alcançados.

A ideia de aumentar o papel a ser desempenhado pelas organizações do terceiro setor traz em seu bojo a visão de que estas entidades sem fins lucrativos poderiam desenvolver uma administração mais eficiente na medida em que estariam submetidas à competição, e haveria maior transparência no uso dos recursos públicos na medida em que existisse uma maior fiscalização por parte da sociedade civil. O poder público realiza contratos de gestão com essas organizações especializadas, [117] que assim prestam serviços por prazo determinado, que só será renovado se forem alcançados certos patamares de produtividade e qualidade.

O grande problema a ser resolvido pelas entidades sem fins lucrativos é a obtenção de recursos para cumprir sua finalidade. A parceria com o Estado é importante, bem como a sua independência organizacional em relação a este, para se conseguir canalizar recursos que possam ser utilizados pelas organizações não governamentais.

Por outro lado, a manutenção de independência do terceiro setor permite a obtenção de recursos, não só do Estado, mas também de organismos internacionais, outros Estados e junto ao mercado. Essa capacidade de captação de recursos nos mais diversos setores torna a organização social cada vez mais autônoma e capaz de realizar parcerias com os setores que mais contribuem para a realização do seu fim específico. Entre as formas de captação de recursos mais comuns estão: obtenção de incentivo fiscal, renúncia fiscal de empresas, resultado da prestação de serviços, acesso a programas governamentais, comercialização de produtos, obtenção de linhas institucionais de financiamento e obtenção de recursos através de parcerias empresariais.

A característica do terceiro setor de ser ‘não governamental’ e ‘não lucrativo’ não o torna imune às influências do Estado e do mercado e dos condicionamentos sociais.[6] As instituições sem fins lucrativos, como toda organização, desenvolvem cultura organizacional em que afloram todos os problemas característicos existentes em qualquer corporação: luta pelo poder, distribuição dos recursos, definição de prioridades, disputa por hegemonia e muitos outros que podem ser encontrados em qualquer compêndio de administração. No entanto, se a referência para o estudo e a gestão da organização pública é a luta e manutenção do poder, e a da organização empresarial tem por base o lucro, as instituições do terceiro setor devem ter sua administração orientadas com base na solidariedade, um valor predominante neste segmento que as distinguem dos outros dois setores.

Deste modo, os diferentes interesses que se manifestam nas organizações sociais devem ter como referência a solidariedade. Este ponto é importante, pois ao se levar os instrumentos de administração científica, próprios da administração das empresas para se aumentar a eficácia ou eficiência das organizações do terceiro setor corre-se o risco de buscar a maximização na utilização dos recursos dentro dos parâmetros próprios do setor privado - aumento do lucro. A perspectiva das organizações do terceiro setor deve ser outra, completamente diferente, como vimos. Seu parâmetro de funcionamento é a solidariedade, o atendimento das necessidades humanas tendo como base um valor subjetivo relacionado com o sentimento humano. Desse modo, a contabilidade das organizações sociais não [118] pode se restringir a uma relação de custo-benefício visando à maximização do uso dos recursos do ponto de vista contábil.

Claro está que as organizações, sociais não podem, por outro lado, cair no subjetivismo próprio das organizações públicas patrimoniais anteriores à racionalidade capitalista e que se mantiveram em muitos Estados contemporâneos, o que as tomariam algo parecido com as organizações estatais, com todos os vícios de gestão próprios do setor público: tráfico de influência, compadrio, corrupção, clientelismo etc.

A administração do terceiro setor tem essa característica nova e difícil de ser articulada. Ser uma administração onde a eficácia e a eficiência da empresa privada estejam à disposição do atendimento das demandas e necessidades humanas tendo por base a solidariedade, não a solidariedade mecânica própria das estruturas do Estado, mas aquela existente em qualquer comunidade e que permitiu diferenciar a espécie humana de outras espécies.

As organizações do terceiro setor devem manter sua identidade dentro dos marcos de seu compromisso social. E, ao mesmo tempo, dar ênfase na necessidade de aumentar a sua eficiência e eficácia e o grau de profissionalização, para cumprir as novas exigências que irão surgindo em função da diminuição do papel do Estado e sua consequente incapacidade de gerenciar todos os aspectos da realidade social.

Algumas linhas de ação são possíveis de serem delineadas de imediato:[7]

  1. Aumentar a eficiência das organizações sociais mediante sua profissionalização. Isto implica evitar a dispersão, aumentando a concentração e especialização em determinadas áreas temáticas. Melhorar continuamente a qualidade dos serviços prestados e, ao mesmo tempo, desenvolver o conhecimento cada vez maior dos custos dessas atividades;
  2. Melhorar a administração interna das organizações sociais. Dispor permanentemente de sistemas de monitoramento e avaliação de suas atividades. Aumentar a transparência de suas ações aumentando a confiança do público-alvo e de possíveis contribuintes. Estabelecer estruturas mais democráticas e eficientes, aumentando sempre a independência política em relação aos órgãos de governo e dos partidos. Isso não significa que não deva ter posicionamento político, o que é bem diferente;
  3. Melhorar a capacidade de sustentação econômica e ampliar a fonte de recursos. Há um grande número de possibilidades de arrecadação, desde a cobrança pelas atividades que realiza e que estejam dentro do campo de sua competência até o recurso ao acesso a financiamento externo, [119] internacional ou mesmo comercial. O importante é adequar a sua ação à sua capacidade de captação de recursos de modo que possam realizar suas atividades sem quebra de continuidade.

Está claro que existem outras medidas que poderão e deverão ser tomadas e que fortalecerão o aspecto de se constituírem cada vez mais como alternativa de organização da sociedade.

Foram apresentadas aqui algumas ideias que poderão contribuir ao desenvolvimento de novos métodos de gestão do terceiro setor. E, ao mesmo tempo, tentamos demonstrar que a gestão deve ser diferenciada em relação àquela existente nos outros setores em virtude das motivações de sua constituição ser diferente: o mercado estrutura-se em torno do lucro, o Estado constitui-se tendo como referência o poder, enquanto o terceiro setor tem como fundamento de sua organização a solidariedade.

Tipologia das organizações do terceiro setor: OSCIPs/ONGs/ fundações etc.

Entre as inúmeras transformações que ocorrem no início do século XXI, a que atinge o Estado, como vimos, é uma das mais importantes. Ao redefinir suas funções, o Estado passa a compartilhar com outros agentes a realização de políticas públicas, que complementam sua ação e estabelecem uma nova forma de relacionamento na sociedade, ampliando a participação do cidadão comum, explicitando uma cidadania ativa que se envolve na realização de atividades em diversas áreas como: saúde, educação, serviço social, cultura, esportes, lazer, turismo, entre outras.

Como visto, esses novos agentes que complementam a ação do Estado, atuando em áreas onde este não pode, ou não consegue, atuar constituem um novo setor, que se contrapõe aos setores privado e público, e tem sido denominado terceiro setor.

Esse fenômeno que inclui um sem-número de organizações sem fins lucrativos, marca, no início do século XXI, a consolidação de um setor alternativo de atendimento a inúmeras demandas da população. Esse setor constitui um espaço público não pertencente ao Estado, embora realize funções anteriormente exclusivas deste.

Desse modo, ao se abordar o fenômeno de reestruturação das funções do Estado, deve-se incluir na discussão a constituição de um espaço público não estatal que se desenvolve e tende a crescer, motivado, por um lado, pelas dificuldades porque passa o poder público, que vê esvaziada sua capacidade de arrecadação. Entre outros motivos, podem ser destacados a volatilidade do capital financeiro e, [120] por outro lado, o aumento da complexidade das demandas da sociedade, que busca maior qualidade de vida e passa a dar maior importância a aspectos de sua realidade antes colocados em plano secundário, como, por exemplo: lazer, turismo, práticas de alguma atividade esportiva, atividades culturais, cuidado com o meio ambiente etc.

O fato é que as relações estruturais tradicionais entre o Estado, o mercado e a sociedade, estão sendo modificadas substancialmente e vêm passando por um processo de reestruturação. Novos atores se fazem presentes no tecido social, além das organizações que formam o terceiro setor, surgiram outras estruturas transnacionais não subordinadas a nenhum Estado em particular e que gozam de autonomia relativa na proposição de políticas comuns a serem seguidas por vários Estados.[8]

O terceiro setor é formado de vários tipos de organizações que, embora tenham características comuns, também apresentam particularidades importantes que as tornam úteis em determinadas circunstâncias e não em outras. São encontradas sob as mais diversas denominações como: fundações, organizações não governamentais, entidades filantrópicas, organizações sociais sem fins lucrativos, organizações sociais entre outras.

As organizações não governamentais (ONGs)

A expressão “ONG” foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) na década de 1940, para designar entidades não oficiais que recebiam ajuda financeira para executar projetos de interesse de grupos ou comunidades. Hoje, ela diz respeito a coisas tão diferentes quanto à Associação Internacional de Uniões de Consumidores, à Anistia Internacional ou aos Amigos da Terra, uma das maiores organizações ecológicas do mundo, com filiais em 47 países.

Os membros de uma ONG participam da solução de problemas coletivos, e suas principais características são: não têm fins lucrativos; são monotemáticas, ou seja, ocupam-se de um tema pontual, especializando-se neste assunto; são formadas por vontade própria de seus associados; respeitam as posições daquele pelas (e com as) quais atuam, mantendo em suas atividades um pleno respeito pelas filiações religiosas, políticas, ou de qualquer outra natureza, dos indivíduos e grupos sociais com os quais têm contato.

As ONGs ganharam maior notoriedade a partir da sua atuação em prol do meio ambiente, principalmente na década de 1970, logo após a Conferência Mundial do Meio Ambiente Humano, organizada pela ONU em 1972 e realizada em Estocolmo [120] movimento ambientalista decorrente tinha como eixo central inúmeras ONGs que foram ganhando notoriedade, e muitas, hoje, são mundialmente conhecidas.

Ampliando o leque de atuação setorial das ONGs, estas se multiplicaram, envolvendo-se em outras questões sociais no período final da ditadura militar, na década de 1980, e definitivamente se incorporando ao cenário político-social no Brasil na década de 1990, quando o termo ONG se popularizou.

O processo de ganho de notoriedade das ONGs se deu também em função da reformulação do Estado, ou do processo da reforma do Estado brasileiro, iniciado na década de 1990. A crise econômica vivida na década de 1980 foi basicamente fiscal, ou seja, os gastos eram extremamente maiores que a receita. Tudo isso levou a uma mudança na percepção do papel do Estado, que não poderia mais continuar a financiar inúmeros programas sociais como anteriormente.[9]

Percebe-se, assim, que o processo é simultâneo: ao mesmo tempo em que as ONGs se fortaleceram, o Estado, diante de tantas crises, foi sendo reformulado e deu mais espaço para a atuação de organizações da sociedade civil. Não houve o enfraquecimento de um em detrimento do outro, mas, sim, uma mudança nas relações e no papel dessas instituições.[10]

Há vários modos de se classificar as ONGs, o mais comum é levando em consideração seus membros e as causas que defendem. Deste modo, podemos ter dois grandes grupos:[11] organizações que defendem a causa de seus membros e aquelas que defendem a causa dos outros.

O primeiro grupo é constituído por organizações que defendem a causa de seus membros sendo formadas por pessoas que lutam por seus direitos, de expressão, de inclusão etc. Por exemplo, organizações formadas por negros que lutam contra o racismo, ou por mulheres contra o sexismo, ou por gays contra o preconceito em relação à escolha sexual.

O segundo grupo é formado por organizações compostas por pessoas que se dedicam a defender o direito dos outros. São exemplos: meninos de rua, pessoas, sem-teto, usuários de drogas, vítimas de abusos contra os direitos humanos, vítimas de abuso sexual, excluídos da cidadania por pobreza ou ignorância etc.

Essa relação com o outro é uma características fundamental destas organizações, pois é segundo as reações que estabelecem com o outro que se podem entender e analisar seu papel e suas funções nas relações sociedade civil-mundo da exclusão e sociedade civil-Estado.[12]

Fundações

Uma fundação tem sua origem em um patrimônio ou conjunto de bens, enquanto uma associação se origina da vontade de um grupo de pessoas unidas por uma causa ou objetivos sociais comuns.

O art. 62. do Código Civil (Lei na 10.406, de 10 de janeiro de 2002) estabelece que, para criar uma fundação, “o seu instituidor fará, por escritura pública ou testamento, dotação especial de bens livres, especificando o fim a que se destina, e declarando, se quiser, a maneira de administrá-la. Parágrafo único. A fundação somente poderá constituir-se para fins religiosos, morais, culturais ou de assistência”.

As associações e/ou fundações de caráter beneficente, que desenvolvem ações no campo de assistência social, educação e saúde gozam de imunidade tributária - e também podem ser isentas das contribuições da cota patronal junto ao INSS.

Para fazer jus a esta imunidade tributária que significa estar livre de impostos de qualquer natureza, sejam federais, estaduais ou municipais, as organizações precisam atender ao dispositivo do Código Tributário Nacional, que, para classificá-las como entidades beneficentes sem fins lucrativos, exige que seus estatutos tenham os seguintes dispositivos:[13]

  1. não distribuir qualquer parcela de seu patrimônio ou de suas rendas a qualquer título. Isso significa que as entidades beneficentes sem fins lucrativos não distribuem lucros. Elas podem organizar serviços para obter recursos para sua manutenção, mas os resultados devem ser aplicados integralmente no cumprimento de suas finalidades;
  2. aplicar integralmente no país seus recursos na manutenção de seus objetivos institucionais. Portanto, estão proibidas de fazer qualquer remessa de receita para o exterior. Podem importar produtos que serão utilizados no cumprimento de suas finalidades;
  3. manter escrituração de suas receitas e despesas em livros revestidos das formalidades capazes de assegurar sua exatidão. Ou seja, são obrigadas a seguir as normas contábeis relativas aos balanços, escrituração e sua apresentação à fiscalização quando solicitado. Essas entidades também estão obrigadas a cumprir toda a legislação trabalhista, previdenciária e fiscal, pois sua gestão deve ser transparente, ordenada e clara.

Organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP)

A expressão “organização da sociedade civil de interesse público” (OSCIP) se tornou mais conhecida devido a Lei n. 9.790, de 23 de março de 1999 e pelo Decreto n. 3.100 de 30 de junho de 1999, que tratam da qualificação de pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos como OSCIPs, e instituem e disciplinam o termo de parceria.

A qualificação como OSCIP diferencia, no universo do terceiro setor, as organizações que efetivamente têm finalidade pública, que recebem ou podem receber delegação para a gestão de serviço público, enquanto as demais organizações sociais exercem atividade de natureza privada, com a ajuda do Estado.

A Lei das OSCIPs tem como um dos seus principais objetivos imprimir maior agilidade gerencial aos projetos e realizar o controle pelos resultados, com garantias de que os recursos estatais sejam utilizados de acordo com os fins públicos. O termo de parceria possibilita a escolha do parceiro mais adequado do ponto de vista técnico e mais desejável dos pontos de vista social e econômico, além de favorecer a publicidade e a transparência.

Uma condição de OSCIP é mais ampla do que a de uma organização social, possibilitando o acesso a benefícios fiscais, por exemplo. No entanto, toda organização social pode também se equiparar, de certa forma, com uma OSCIP bastando para tanto ter um contrato de gestão com o Estado, que deve acontecer quando são organizações sociais de grande tamanho. Pois nos demais casos, basta um convênio para o Estado lhes transferir recursos.

A grande diferença entre organização social e OSCIP está em que a primeira recebe ou pode receber delegação para a gestão de serviço público, enquanto segunda exerce atividade de natureza privada, com a ajuda do Estado.

7/3/2017 10:47:31 AM | Por Cláudio da Cunha
Evolução das Espécies
Texto
Evolução

O termo ‘evolução’ deriva do latim evolvere, cuja etimologia tem a mesma base da palavra portuguesa revolver (‘remexer’). O conceito de ‘evolução biológica’ deve ser interpretado simplesmente como mudança dos seres vivos através do tempo, não necessariamente para algo maior ou melhor, confusão causada pelo uso incorreto do termo ‘evolução’ como sinônimo de ‘progressão’. A má utilização dos termos produziu uma série de conceitos erróneos e deturpados, utilizados, geralmente, como formas de contestação aos princípios da evolução.

Até o séc. XIX, o mundo ocidental tinha como única explicação para a diversidade de seres vivos o Gênesis bíblico e os animais salvos do dilúvio por Noé. Essa forma de pensamento, denominada fixismo, tinha por teoria a ideia de que os animais estariam imutáveis desde a criação divina.

O primeiro cientista que percebeu que os seres vivos se modificam através do tempo, por meio da observação de animais, foi Jean-Baptist de Lamarck (1744-1829), que apresentou sua Teoria da Evolução em 1809. Embora estivesse correto em relação à evolução, errou em relação à explicação do fenômeno. Em 1959, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace publicaram a proposta intitulada A origem das espécies por seleção natural, em que explicavam os mecanismos que determinam a evolução biológica. Somente no século XX os princípios de hereditariedade e de genética molecular foram associados ao evolucionismo e explicaram satisfatoriamente a grande maioria dos fenômenos evolutivos dos seres vivos.

 

A importância do pensamento evolutivo

Até o início do século XIX, o homem era visto como um ser completamente distinto e separado da natureza, uma concepção denominada antropocentrismo, filosofia baseada no conceito de que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, em um dia diferente dos animais e, portanto, sem correlação com os outros seres vivos.

Até 200 anos atrás, toda a história da humanidade estava pautada pela não separação entre o Estado, a Ciência e a Fé. Durante milênios os conhecimentos humanos foram restritos a uma pequena fração da população que tinha acesso à escrita: os nobres e o clero. Sendo assim, a ciência e o acesso à informação permaneceram ligados, desde suas origens, a dinastias imperiais ou instituições religiosas e suas milenares bibliotecas. O estado laico, isto é, sem uma religião que comanda a conduta de seus povos, é uma instituição bastante recente na história humana.

A descoberta dos mecanismos de evolução biológica abriu um novo caminho de pensamento independente, como, por exemplo, o do estudo comparativo dos mecanismos celulares encontrados nos diversos organismos vivos, o que abre portas inimagináveis para o desenvolvimento humano. Conhecendo os mecanismos evolutivos podemos compreender porque nossos medicamentos e inseticidas perdem seu efeito continuamente e, assim, contornar problemas práticos cotidianos como: as novas variedades de tuberculose incurável, insetos vetores de doenças cada vez mais resistentes ou, ainda, aumentar a produção agropecuária.

A maioria das pessoas não consegue perceber que todos os organismos que utilizamos como alimento, e todos os animais domesticados (como cães e gatos) mudaram continuamente nas últimas décadas ou milênios. A evolução biológica está ocorrendo a cada instante, mas em uma velocidade que nós não percebemos.

Estudar a sequência de eventos que levaram à descoberta dessa evolução é bastante interessante para percebermos a força da dedução lógica e do ceticismo no avanço científico.

Alguns críticos, particularmente ligados ao novo cristianismo do séc. XX, expressam de forma pouco esclarecida que isso é apenas uma “teoria” e isso nada prova e nada acrescenta ao conhecimento humano.

Talvez a maior diferença entre religião e ciência resida nos conceitos de dogma e teoria. Dogmas são fatos irrefutáveis, movidos por conceitos de fé, enquanto teorias não podem ser incontestáveis. Quando uma teoria é vista como irrefutável, passa a ser um dogma, torna-se, portanto, não científica, segundo o princípio da falseabilidade da ciência. Quando as teorias são comprovadas de forma ampla em grandes áreas do conhecimento e aceitas pela comunidade científica, geralmente são difundidas pelos livros didáticos como ‘leis’ (2a lei da termodinâmica, 1a lei de Mendel etc.). No mundo acadêmico, o termo ‘lei’ não é utilizado por fugir do conceito da falseabilidade, base da ciência moderna, em que toda teoria científica pode e deve ser contestada.

A ciência não traz consigo a verdade absoluta, mas sim uma grande probabilidade matemática de certeza, muitas vezes próxima de 100%. Cada ideia científica é baseada em outras ideias que, com o passar do tempo, servirão de alicerce para outras novas que a sucederão, em uma eterna construção. Cientistas não podem temer a mudança de conceitos de ideias, pois a ciência é feita dessa forma.

Quando usamos termos como ‘Teoria da Relatividade’, ou ‘Teoria Psicanalítica’ não estamos falando de algo que não existe de fato, mas sim, empregando, com pudor, o conceito de que a ciência não é proprietária da verdade absoluta, uma forma de pensamento intrinsecamente religiosa.

A evolução biológica é um fato. Fósseis são fatos, o petróleo existe de fato e é um fato que dinossauros dominaram a terra por mais de 200 milhões de anos e se extinguiram por volta de 65 milhões de anos antes de surgirem os primeiros registros de seres humanos sobre a Terra. Nós, humanos, somos apenas uma pequena parte da história evolutiva do planeta.

 

Criacionismo

Podemos encontrar muitas referências à palavra ‘religião’, por exemplo no dicionário da língua portuguesa Michaelis: do latim religione, I Serviço ou culto a Deus, ou a uma divindade qualquer, expresso por meio de ritos, preces e observância do que se considera mandamento divino.

Assim, se estudarmos quaisquer povos, em qualquer lugar do mundo, encontraremos várias religiões que se manifestam de forma particular e, junto delas, uma história característica que descreve a  criação daqueles povos e, muitas vezes, como foi a criação do universo conhecido. Esse conceito da origem do homem e do universo a partir de alguma divindade é conhecido como criacionismo, sendo possível expressar a mesma ideia básica pelo termo cosmogonia.

Estamos inseridos na cultura ocidental, a qual, por ampla maioria, pode ser considerada judaico-cristã, tendo como base a Torá, ou, o Antigo Testamento. Nela, há relatos de um momento específico da criação (Gênesis) e de outro em que toda Criação foi destruída e reiniciada (dilúvio). Assim, todos os animais que hoje vemos seriam derivados do casal original, ou do casal pós-diluviano, sem que tenham sido criados outros seres desde então, mantendo-os semelhantes após a reprodução dos animais originais.

Esse conceito que considera os seres vivos imutáveis através do tempo recebeu o nome de fixismo, um dogma religioso que não enfrentou contestações importantes até o início do século XVIII, com as primeiras ideias sobre evolução biológica descritas por Jean Baptist Lamarck, em 1809.

Apenas um século antes do surgimento da ideia de modificação dos seres vivos através do tempo, Giordano Bruno foi queimado vivo nas fogueiras da Santa Inquisição por defender a ideia de que a Terra gira em torno do Sol, assim como outros pensadores que foram firmemente pressionados a não divulgar “ideias heréticas”.

Nas últimas décadas foram feitas várias tentativas, por parte de legisladores ligados a diferentes religiões, de excluir do ensino escolar formal, os conceitos de evolução biológica ou de implantar, obrigatoriamente, o ensino religioso como contraponto ao evolucionismo. No Brasil, não há parâmetros escolares fixos e, como alternativa, escolas religiosas podem utilizar livros que negam a evolução biológica e pregam o criacionismo. Modernamente, com a impossibilidade de negar a evolução biológica como um fato, criou-se um novo conceito de evolução biológica direcionada pela vontade divina, denominado “design inteligente”, um movimento crescente que busca um equilíbrio entre ciência e fé, mas que, infelizmente, também tem entre seus seguidores algumas opiniões bastante extremistas.

Talvez a maior perda de tempo sobre o assunto seja o infrutífero embate “ciência versus religião”. Não cabe a esse texto tentar discutir ou concluir um assunto que jamais atingiu um consenso e, ainda pior, fomenta ódio, discórdia e guerra. Muitos leitores talvez já tenham se munido de armas para ir contra uma ou outra visão.

Em outros ramos da ciência, como a Física, não há uma imagem representativa que transmita a ideia de que tudo o que vemos e chamamos de matéria seja, na realidade, uma forma de energia. Há apenas uma fórmula: E = mc2. Essa equação virou símbolo de algo “inteligente” e costuma ilustrar apostilas escolares, capas de caderno e lousas em programas de televisão. A fórmula básica da relatividade e a física quântica descrevem a matéria e a energia como duas faces da mesma moeda e destroem todos nossos conceitos criacionistas sobre o tempo, o espaço, a origem e a constituição do universo e da vida. Mas, embora seja essa uma fórmula que mexa com nossos pilares de certeza, não é combatida como inimiga da espiritualidade ou religiosidade, simplesmente por não ser compreendida.

A ciência trabalha com conceitos físicos, palpáveis em nosso cotidiano, enquanto as religiões trabalham, principalmente, com conceitos de conduta moral. Dessa forma, não devem ser necessariamente excludentes pois, cada uma se preocupa com diferentes objetos de estudo, dentro de suas limitações. Os judeus passaram séculos conservando suas escrituras sagradas (Velho Testamento) até nossos dias e, ao mesmo tempo, cerca de metade dos prémios Nobel foram atribuídos a cientistas judeus, revelando, de certa forma, a possibilidade de convivência.

Em nosso país, a liberdade de culto religioso é amplamente garantida pela Constituição, enquanto o direito universal à educação escolar vai além, constituindo-se em um dever do Estado, ou seja, o ensino de ciências é amparado pela constituição do país e não pode ser alterado segundo interesses de fé. Cabe a cada cidadão decidir sobre sua autonomia intelectual, mas as crianças devem ser protegidas contra o extremismo e o fundamentalismo religioso, já demonstrado infinitas vezes na história humana como causador de atrocidades indescritíveis.

 

Para compreender a evolução: tempo geológico e formas de estudo

A compreensão do tempo é talvez a grande barreira limitadora para perceber a evolução biológica. Seres humanos vivem geralmente menos de 100 anos. No Brasil, a mais velha árvore conhecida é um jequitibá rosa que tem sua idade estimada em mais de 3000 anos, situada no Parque Estadual do Vassununga - SP. Supondo que os ancestrais dessa árvore tenham chegado até a mesma idade antes de produzir novos descendentes, sua “avó”, provavelmente, estava viva quando a espécie humana ainda vagava como bandos de caçadores nômades pré-históricos. Ao contrário, uma bactéria pode se dividir a cada 30 minutos, com duas gerações de “filhos e netos”, em apenas uma hora.

Até meados do século XIX, nas sociedades ocidentais, o início dos tempos foi estudado e definido como ocorrido em meados do ano 4004 a.e.c. e, da mesma forma, cada povo do mundo estimava o início dos tempos conforme suas crenças e mitologias (3.114 a.e.c. para os Maias; 34.000 a.e.c. para os Chineses, 39.670 para os Egípcios etc.).

A grande barreira que nos separa da história da vida é o tempo, já que um minuto, uma semana ou uma década podem ser sentidos e compreendidos, mas imaginar o significado temporal de um século ou de um milênio, ultrapassa os limites da nossa capacidade cognitiva. Nosso tempo cotidiano é vivenciado fracionando o dia e a noite em partes iguais que nos permitem ter uma noção de nossas obrigações, mas bloqueando também a percepção de espaços de tempo mais longos. O tempo do planeta Terra é medido em bilhões de anos (b.a.) e em milhões de anos (m.a.) em uma escala de tempo denominada tempo geológico.

Veja um pequeno resumo da história geológica do nosso planeta (aceita até o presente momento), comparada de forma aproximada com um dia de 24 horas:

00:00:00 - Formação do planeta (4,5 ba)

05:00:00 - Primeiras células semelhantes às bactérias (3,5ba)

06:00:00 - Primeiros seres capazes de realizar fotossíntese (3,2 ba)

13:00:00 - O oxigênio livre muda a atmosfera (3,1 ba)

14:00:00 - Surgem células eucarióticas complexas, semelhantes às nossas (2,5 ba)

20:00:00 - Primeiros seres pluricelulares (700ma)

20:20:00 - Surgimento dos neurônios, em animais celenterados parecidos com anêmonas a aproximadamente 650 ma

20:50:00 - Primeiras plantas terrestres (450 ma)

21:10:00 - Era dos peixes (408 ma)

21:30:00 - Era dos anfíbios (380 ma)

22:15:00 - Início da Era dos répteis e dinossauros (248ma)

22:35:00 - Surgimento dos mamíferos (210ma)

22:45:00 - Surgimento das aves (170 ma)

23:00:00 - Fim da Era dos dinossauros (65 ma)

23:59:30 - Primeiros seres humanos Homo Sapiens (200 mil anos)

[ba = bilhões de anos; ma = milhões de anos)

Com base nessa percepção, o tempo geológico foi divido a partir do registro dos fósseis de animais e plantas mais comuns e, dos momentos de grandes extinções em massa ou do surgimento de novos seres. O tempo geológico foi dividido em Eras, que estão subdivididas em Períodos, e estes em Épocas. Por exemplo, a Era Mesozoica é caracterizada pelo domínio dos répteis terrestres, sendo dividida em três períodos: o Triássico, o Jurássico e o Cretáceo, marcados, respectivamente, pelo surgimento dos mamíferos, das aves e pelo fim dos dinossauros. 

O tempo geológico é medido através de estratigrafia dos fósseis, que se sucede através das eras geológicas de forma semelhante em todos os lugares do planeta e através da estimativa do tempo de formação das rochas onde eles são encontrados, utilizando principalmente o decaimento ou meia vida de elementos radioativos (radiometria), como o Potássio 40, que decai para Argônio 40 a cada 1,25 ba e o urânio 238 que decai para chumbo 206 a cada 4,5 ba. A famosa datação por Carbono 14 é utilizada para datações de até 50.000 anos e é utilizada extensamente em arqueologia e estudos sobre tempos menos remotos utilizando diretamente os restos orgânicos estudados.

Para estudar a evolução dos seres vivos utilizamos o conceito de proximidade ou parentesco evolutivo que, por sua vez, reflete modernamente a similaridade genética entre os diferentes organismos. Os gráficos utilizados nesse contexto são denominados cladogramas ou árvores filogenéticas de forma semelhante aos heredogramas utilizados em genética.

Nós somos descendentes de nossos pais e carregamos suas características hereditárias. Mas se voltarmos no tempo, nossos mais remotos ancestrais não eram iguais ao que vemos hoje. Mamíferos são descendentes de répteis e, ainda hoje, há espécies com características tipicamente reptilianas, como botar ovos que saem por cloacas e, após serem chocados, originam filhotes que se alimentam de leite (ornitorrinco e equidnas). Répteis são descendentes de anfíbios e estes são derivados de peixes. Um girino apresenta não só a forma, mas toda sua fisiologia semelhante à dos peixes, passando por uma lenta e gradual mudança durante sua metamorfose até adquirir pernas e a fisiologia de um animal terrestre. Os seres que apresentam características intermediárias entre diferentes grupos de seres vivos dão pistas muito importantes de como ocorreu o processo evolutivo.

Todos os animais vertebrados são aparentados e possuem ancestrais comuns, variando apenas o grau de parentesco. Humanos e peixes ósseos possuem aproximadamente 75% de seus genes em comum, enquanto chimpanzés e humanos possuem aproximadamente 99,2% de genes em comum. É o mesmo raciocínio utilizado para medir a similaridade gênica entre irmãos e primos de terceiro grau.

A gravura mais famosa utilizada em todo o mundo para representar a evolução é talvez, o maior mal entendido desse ramo da ciência. A gravura com um macaco virando homem, apareceu como uma forma simples de explicar a evolução, tendo sido utilizada com diversas modificações para expressar diferentes ideias de forma sintética e de simples compreensão. Uma boa intenção transformada em um monstro conceitual quase incontrolável.

O problema surge quando uma ideia complexa deve ser traduzida em uma ideia simples para um público leigo que jamais lerá um livro sobre o assunto. Essas figuras mostram erroneamente a evolução como uma progressão linear, transmitindo a ideia de que um macaco mudou lentamente até virar um homem. Ao contrário, a evolução ou modificação através do tempo ocorre em infinitas ramificações, mantendo as linhagens mais aptas para sobreviver e deixar descendentes. Humanos são geneticamente mais próximos dos grandes símios antropoides (gorilas, chimpanzés) e mais distantes, sucessivamente, de macacos com cauda, lêmures, cães, jacarés, insetos, árvores, cogumelos, algas e outros seres vivos que também estão ocupando algum lugar na árvore da vida.

A gravura falsa e infeliz da evolução humana causa uma reação imediata. Como é possível acreditar que homens descendem de chimpanzés (o macaco da figura)? Peço ao leitor que ponha seus pré-conceitos um pouco de lado e creia que os cientistas sérios não perdem seu tempo em discussões como essa. Evolução não significa “melhorar” ou ir de um estado inferior para um estado superior.

Nenhum chimpanzé evoluirá até virar gente, ou durante a evolução humana daqui a “milhares de anos” ficaremos sem pelos, sem genitais, sem pálpebras e sem cabelos tornando-nos semelhantes a “ETs”! Esse tipo de divulgação não é “científica”. Particularmente, certos grupos religiosos “declararam guerra” ao evolucionismo e, ao descartarem todas as evidências da natureza, utilizam-se da frase o homem descende do macaco, como um resumo ridículo e jocoso de uma das mais importantes deduções lógicas do conhecimento humano.

Da mesma forma que sabemos que os cães modernos descendem de outras raças preexistentes, sabemos que todos os organismos vivos têm um ancestral comum em um passado que remonta cerca de 3 bilhões de anos. A composição química, a fisiologia celular e o material genético de todos os organismos vivos é intrinsecamente semelhante, destacando esse parentesco. Não se esqueça de que você, brasileiro, alimenta-se de arroz, feijão, bife e salada, ou seja, seres ou partes de seres vivos bioquimicamente semelhantes.

Podemos estudar o processo evolutivo em laboratório, utilizando qualquer organismo de reprodução fácil e rápida. A evolução biológica é diretamente proporcional à velocidade de reprodução das espécies. Microorganismos geram descendentes diferentes em questão de horas, enquanto outros seres vivos apresentam ciclos de vida muito longos. Assim utilizamos como material de estudo de genética e evolução, seres vivos de reprodução rápida, com destaque para as bactérias (Escherichia coli), os ratos (Rattus rattus), as moscas das frutas (Drosophila sp.), os vermes (Caenorhabditis elegans) e os vegetais (Arabidopsis thaliana). Esses seres vivos têm seus genomas completamente decifrados e são utilizados em grande parte dos experimentos laboratoriais modernos.

 

O registro fóssil

As descobertas de fósseis foram as principais provas de que os seres vivos e o mundo como um todo estão em constante modificação. Os seres que conhecemos no presente momento representam uma minúscula parte da história da vida na Terra, incluindo-se nesse perfil, o ser humano.

Ao encontrarem conchas marinhas extintas no alto das montanhas do Himalaia a milhares de metros de altitude, pesquisadores se depararam com a concepção de que toda a crosta terrestre está em constante alteração e que, da mesma forma, estão os seres vivos.

Provavelmente, a principal imagem que vem à cabeça quando se fala em fósseis são esqueletos de dinossauros, fartamente expostos em filmes e na mídia televisiva, sendo o Tyrannosaurus rex seu ícone supremo. Porém, a palavra fóssil deriva do latim fossile, aquilo que está enterrado. E inclui qualquer tipo de evidência da existência de seres vivos em um passado remoto, objetos estudados especificamente pelo ramo da ciência denominado ‘paleontologia’.

O primeiro fóssil de animal vertebrado desenterrado e reconhecido como sendo de uma espécie que viveu em tempos remotos foi exposto ao público na Inglaterra em 1795. Era um Mosasaurus, um réptil marinho gigantesco, circunstância que gerou uma verdadeira corrida pela descoberta de mais fósseis, para estudo ou por dinheiro, que perdura até os dias de hoje. O termo dinossauro (lagarto terrível) surgiu em 1842 para descrever um grupo de répteis muito diferentes dos seres hoje viventes, não só pelo tamanho, mas também por características anatômicas exclusivas.

Durante muito tempo, no mundo ocidental, os fósseis foram associados a dogmas religiosos como produto inacabado da criação divina, ferramentas satânicas para incutir a dúvida e afastar os fiéis do caminho da verdade, seres que não foram escolhidos para entrar na arca do dilúvio, entre outras interpretações peculiares. Enquanto isso, no oriente, relatos e desenhos de fósseis têm sido retratados em manuscritos a mais de 1700 anos, reconhecendo a existência de animais que dominaram o mundo em tempos remotos e cuja diversidade é observada nos vários tipos de “dragões” chineses, associados à grandiosidade e à força, sem a conotação maligna típica do ocidente.

Embora tenhamos muitas vezes a impressão de que fósseis só existem em países desenvolvidos, o Brasil se destaca por sítios paleontológicos espalhados amplamente pelo território nacional, merecendo um particular destaque pela presença dos mais antigos registros de mamíferos no Rio Grande do Sul, dinossauros e outros répteis em Minas Gerais e São Paulo e, a maior diversidade de répteis voadores (Pterossauros) na região nordestina, além de peixes e de pegadas de dinossauro, principalmente no Ceará. Também são encontrados invertebrados e plantas fossilizadas em diversos locais, bem como florestas fossilizadas na forma de carvão, em Santa Catarina.

A megafauna sul-americana representada por tigres dente-de- sabre, mastodontes (elefantes), preguiças, tatus gigantes e inúmeros marsupiais remonta a eras mais recentes, mas também com grande representação. O petróleo, é composto principalmente pelo acúmulo de grandes quantidades de algas microscópicas que dão a tonalidade esverdeada aos mares litorâneos (fitoplâncton).

A diversidade paleontológica do Brasil e da vizinha Argentina é excepcional, mas infelizmente, por descuido educacional, não temos acesso a essa riqueza. 

 

O lamarquismo

A primeira pessoa que descreveu a evolução biológica foi Jean Baptist de Lamarck, em 1809, confrontando pela primeira vez a ideia de imutabilidade dos seres vivos. Embora absolutamente correto ao perceber a evolução das espécies, Lamarck falhou na explicação dos mecanismos que orientam o processo. Lamarquismo é o nome dado ao conceito de evolução biológica proposto por Lamarck e explicado por dois mecanismos básicos que se associam.

Lei do uso e desuso: as características físicas são alteradas conforme a necessidade dos animais. Se uma parte musculosa do corpo é muito utilizada, ela se desenvolverá mais; se for pouco utilizada será reduzida.

Herança dos caracteres adquiridos: as modificações sofridas pelos animais durante a sua existência são passadas para seus descendentes.

O tamanho e as capacidades do cérebro humano seriam explicados de forma lamarquista pela sua grande atividade, maior que a de outros animais. Um órgão muito requisitado cresceria naturalmente.

Um problema crucial do lamarquismo está na crença de que a evolução é uma progressão direcionada que toma os organismos cada vez melhores, a partir de uma força vital impulsionadora que leva irremediavelmente a estágios de maior perfeição.

A ideia é muito simples e pode ser facilmente compreendida. Nos livros didáticos, a ideia foi imortalizada pelo aumento do pescoço da girafa a partir de um ancestral de pescoço curto, quando o esforço de esticar o pescoço para comer as folhas das árvores induziu um aumento que seria passado para os filhos. Embora simples, o lamarquismo não consegue passar pelo crivo do método cientifico: logo depois do lançamento da ideia, várias gerações de ratos cruzados entre si tiveram suas caudas cortadas por August Weissman, mas o fato não ocasionou o surgimento de filhotes sem cauda, contradizendo a herança dos caracteres adquiridos.

Embora Lamarck tenha sido um grande cientista e tenha percebido o fenômeno da evolução biológica de forma brilhante, ele entrou para a história pelo seu erro na explicação, enquanto todos os louros da descoberta recaíram sobre Charles Darwin. 

  

O darwinismo, a seleção natural e a teoria sintética da evolução

Lamarck estava no fim da carreira acadêmica quando Charles Darwin estava iniciando seus estudos que comprovaram a ideia de evolução biológica e explicaram de forma satisfatória o mecanismo evolutivo que impulsiona a mudança. Darwinismo é o nome dado ao conceito de evolução biológica explicada pela seleção natural a partir de ancestrais comuns baseada em alguns pressupostos facilmente observáveis.

Variabilidade: existe uma notável variabilidade entre os indivíduos da mesma espécie, observável por sutis diferenças individuais. Não há dois seres humanos perfeitamente idênticos, fato constatado em outros organismos.

Seleção natural de indivíduos mais aptos: ocorre uma luta constante pela sobrevivência em que os organismos incapazes perecem ou deixam poucos descendentes, enquanto os melhores sobrevivem e deixam descendentes com características semelhantes.

O tamanho e as capacidades do cérebro humano seriam explicados de forma darwinista pela sobrevivência seletiva dos indivíduos com melhores capacidades mentais, ou sobrevivência do mais apto (mais inteligente).

A seleção natural é feita a partir de qualquer forma de desafio que altere as taxas de mortalidade e natalidade, pressionando os seres vivos de tal forma que as variantes genéticas sofrerão alterações através do tempo causando uma lenta substituição de variedades menos aptas por outras mais aptas nas diversas populações de organismos. Quando pensamos de forma estrita, podemos imaginar a “luta pela sobrevivência” ou a “sobrevivência do mais forte”, mas muitas vezes, a seleção natural ocorre de forma discreta. Seres humanos não são mais rápidos ou mais fortes que a maioria dos animais, mas são mais inteligentes, o que lhes dá uma enorme vantagem para sobreviver. Nenhuma outra espécie utiliza a pele de outros animais para se proteger do frio: as habilidades intelectuais suplantam as restrições naturais.

Se em uma ilha, o alimento se tomar escasso, não será o mais forte que irá sobreviver, mas sim o de menor tamanho, aquele capaz de sobreviver com menos alimento. Em um caso hipotético como esse, os menores animais de uma espécie deixariam mais descendentes que os grandes, produzindo um fenômeno de redução geral de tamanho através do tempo. Curiosamente, a Ilha de Flores, no Oceano Pacífico, possui fósseis de animais em miniatura (elefantes, rinocerontes, humanos, entre outros) que, provavelmente, passaram por esse tipo de pressão ambiental.

Ao contrário do lamarquismo, o darwinismo é empírico, passível de testes e análises matemáticas que comprovam a sua veracidade. Comparativamente, o caso da evolução das girafas seria explicado pela maior taxa de mortalidade de indivíduos mais baixos e maior sobrevivência e reprodução de indivíduos mais altos, em momentos de seca extrema quando o pasto não seria suficiente e as folhas das árvores seriam um dos poucos recursos disponíveis.

Ainda jovem, Darwin embarcou como naturalista em uma viagem realizada entre 1831 e 1836, contornando a América do sul e chegando até a Ásia. O arquipélago de Galápagos, no Equador, forneceu a sua principal fonte de argumentos.

O livro de Darwin é um cuidadoso compêndio de provas e relatos coletados em diversas partes do mundo, exaustivamente colocados em contra-argumentação: a cada ideia exposta segue-se uma contestação lógica.

Enquanto escrevia seu livro, processo que durou quase 40 anos, outro pesquisador, Alfred Russel Wallace teve as mesmas ideias durante viagens pela Ásia e descreveu o mesmo mecanismo para a evolução biológica. Wallace expôs sua ideia a Darwin e os dois publicaram em conjunto o trabalho A tendência das espécies em formar variedades; a perpetuação de variedades e espécies por meio da seleção natural em 1858. Wallace foi também um naturalista brilhante e definiu claramente a separação de grandes grupos de fauna espalhados pelo mundo, com coletas feitas inclusive no Brasil, mas infelizmente, seu nome foi apagado dos registros históricos. Logo depois, em 1859, Darwin publicou seu livro Origem das espécies, que acabou sendo considerado como o grande marco na história do pensamento evolutivo.

Uma grande influência para ambos foram as ideias do economista Thomas Malthus, que estudava o equilíbrio das populações humanas em relação à sua capacidade de produzir alimentos. Publicada em 1798, a teoria populacional malthusiana alertava que, se as populações humanas crescessem mais rapidamente que a capacidade de produção de alimentos, ocorreria fome e conflitos, numa espécie de sobrevivência das nações mais fortes ou que fossem capazes de controlar sua natalidade.

Na ausência de evidências seguras sobre a transmissão hereditária, Darwin assumiu como corretas as ideias de herança dos caracteres adquiridos do lamarquismo, descrevendo, inclusive, teorias que explicavam como pequenas cópias dos órgãos do corpo (gêmulas) chegavam aos espermatozóides através do sangue para “montar” os bebés.

Lamarck e Darwin desconheciam completamente os princípios de hereditariedade e suas teorias nunca conseguiram explicar os mecanismos de transmissão das características dos seres vivos de forma satisfatória.

Quando as conclusões de Gregor Mendel foram reconhecidas como corretas, dando início à genética moderna em 1901, o darwinismo ganhou um novo embasamento teórico e pode ser denominado a partir daí como neodarwinismo. Entretanto, a genética mendeliana explicava como as características são passadas através das gerações, mas não explicava como surgem as novas variedades, questão elucidada apenas na década de 1950 após a descoberta da composição do DNA e das diferentes formas de mutação gênica aleatória. Modernamente, o darwinismo associado a essas descobertas da genética clássica e molecular pode ser denominado como ‘Teoria Sintética da Evolução’, um termo pouco utilizado, sendo mais comum o emprego do termo neodarwinismo como um sinónimo.

Enquanto o darwinismo se sustenta em mecanismos e fatos concretos que permitem repetição e previsão de fenômenos, o lamarquismo oferece respostas fáceis, mas que não podem ser experimentadas e repetidas.

A evolução biológica por seleção natural é um processo infinito, que continuará enquanto houver vida na Terra.

 

Resistência a antibióticos e inseticidas

Quanto mais rápida é a reprodução de uma espécie, mais rápida é a sua evolução (mudança).

Seres vivos prolíficos (aqueles que têm muitos filhos), tais como os insetos e as bactérias, apresentam uma enorme velocidade de mudança através do tempo.

Algumas bactérias duplicam-se a cada 30 ou 40 minutos. Supondo que uma espécie de bactéria se duplique hipoteticamente em nosso corpo a cada 1 hora, uma infecção que se inicie a partir de um bilhão de bactérias terá produzido no final de oito horas, 256 bilhões de bactérias! Dessa forma, os antibióticos devem ser tomados em intervalos de tempo regulares para que nossos tecidos sempre estejam com a medicação.

Suponha agora que uma pessoa iniciou um tratamento para uma infecção simples na garganta e deverá tomar a medicação em intervalos de 8 horas durante 7 dias. No terceiro dia, a febre baixou e a região não incomoda mais. O doente para de tomar o antibiótico ou o toma de forma displicente, a cada 24 horas. Todas as bactérias morreram? Provavelmente não, apenas as mais sensíveis ao medicamento, sobrevivendo então as mais resistentes, ou “aptas”, segundo o darwinismo. Se essa pessoa tiver uma recaída, serão justamente as bactérias mais fortes que estarão presentes e o medicamento não surtirá o efeito esperado.

Os tratamentos prolongados com antibióticos para doenças como a tuberculose podem chegar a seis meses e têm uma alta taxa de desistência por parte dos doentes mal-informados, o que acarreta a seleção das bactérias mais resistentes.

Imagine agora que doentes reincidentes farão um tratamento mais avançado no hospital. No ambiente hospitalar, essas bactérias serão transmitidas ao ambiente, a outros pacientes e funcionários. Algumas dessas variedades de bactérias, de espécies comuns e bem conhecidas, apresentam resistência a múltiplos medicamentos, tornando-se um grave problema de saúde pública, causando infecções conhecidas popularmente pelo nome de infecção hospitalar. Cada hospital pode apresentar uma variedade particular de bactérias resistentes, que foram selecionadas independentemente, pelo princípio da seleção darwiniana.

O ambiente hospitalar é particularmente propenso a receber portadores de diversas enfermidades e uma grande variedade de microorganismos, que contaminam o ambiente, os instrumentos, os profissionais de saúde e os pacientes. Quando uma pessoa adquire, por exemplo, uma bactéria causadora de pneumonia presente no ambiente hospitalar, há uma probabilidade maior de que ela já seja uma variação resistente a antibióticos. Após a manifestação da doença, só é possível saber se a bactéria é resistente quando o tratamento não alcança os resultados esperados. Mas a bactéria causadora da infecção é resistente a qual antibiótico? É possível descobrir fazendo uma coleta de amostras, com a subsequente cultura (multiplicação) em laboratório e testes com várias drogas. Mas o tempo necessário para esse procedimento é demasiado longo durante emergências. O antibiótico deverá ser trocado na espera de resultados positivos. Mas, se a bactéria for também resistente ao segundo ou ao terceiro antibiótico, em um corpo já debilitado, a probabilidade de morte é muito grande.

Logo, note a diferença entre a explicação normalmente contada nos meios de comunicação e a explicação técnica:

De tanto entrarem em contato com muitos antibióticos, as bactérias ficaram resistentes.

A frase acima é uma explicação “mais fácil de entender”, porém é falsa, pois transmite a ideia de que as bactérias “criam” a resistência pelo contato com o antibiótico de forma direcionada, uma ideia de evolução lamarquista semelhante à do aumento do pescoço da girafa porque ela precisava esticá-lo cada vez mais. Na prática, essa afirmação não pode ser observada e confirmada.

Quando começamos a tomar o antibiótico, as bactérias mais fracas morrem primeiro e, quando paramos antes da hora ou o tomamos de forma incorreta, sobrevivem as bactérias mais resistentes.

A frase acima está correta e pode ser comprovada experimentalmente quando é administrado um certo tipo de antibiótico em uma cultura de bactérias. Nem todas respondem da mesma forma, pois os seres vivos apresentam variações genéticas em individuais típicas e algumas sobrevivem em condições semelhantes em que outras morrem.

E daí? Qual o problema da primeira frase? Quando a mídia opta pela explicação mais fácil, retira a nossa responsabilidade pelo surgimento de novas e terríveis doenças.

Bactérias não ficam ou tornam-se resistentes por vontade própria, mas nós estamos acelerando o processo evolutivo da resistência aos antibióticos ao ignorarmos o processo evolutivo.

As bactérias resistentes a múltiplos antibióticos apresentam genes que lhes conferem essa vantagem de sobrevivência e estes, por sua vez, localizam-se frequentemente em um cromossomo secundário chamado plasmídeo, cuja função principal é receber e transferir informações de uma bactéria para outra durante os processos de conjugação. Ou seja, além de surgirem variedades resistentes o tempo todo e de forma aleatória, elas ainda são capazes de espalhar essa característica para outras bactérias não resistentes da mesma espécie. Variedades específicas de microorganismos são chamadas de cepas. Em testes laboratoriais já foram observadas cepas com resistência a até sete tipos diferentes de antibióticos ao mesmo tempo e com a capacidade de transferir seus genes por conjugação.

Antes mesmo de descobrirmos e produzirmos um novo antibiótico, provavelmente, as variedades de bactérias resistentes já existam na natureza, pois as mutações gênicas são aleatórias. Pode parecer estranho, mas já há bactérias resistentes a antibióticos que ainda nem foram sintetizados. É, no mínimo, improvável que seja descoberto um “antibiótico perfeito”, pois a evolução biológica das bactérias é mais rápida que a nossa atual capacidade tecnológica de produzir novas drogas. A saída mais lógica é o uso correto e disciplinado de antibióticos, evitando a seleção de novas variedades resistentes. Bactérias resistentes, virtualmente, a todos os antibióticos conhecidos já foram detectadas em diversas partes do mundo, principalmente as bactérias causadoras da tuberculose, dado o longo tempo de tratamento e a grande taxa de desistência do tratamento pelo paciente. 

Os antibióticos são substâncias capazes de matar e/ou de impedir a reprodução de bactérias, agindo então como bactericidas e/ou bacteriostáticos, alterando o metabolismo celular bacteriano de diferentes maneiras: penicilinas e cefalosporinas interferem na síntese da parede celular, cloranfenicol inibe a síntese protéica, entre outras formas de ação. Diferentes tipos de microorganismos como vírus, protozoários e fungos patogênicos precisam ser combatidos com antimicrobianos que não recebem comumente o termo antibiótico. Vírus, protozoários e fungos são controlados por substâncias antivirais, protozoaricidas e antimicóticos (fungicidas), que apresentam, geralmente, atividades específicas sobre essas categorias de seres vivos. Tomar antibióticos para doenças virais como gripes e resfriados, além de não produzir efeito terapêutico, pode induzir à seleção de bactérias resistentes no corpo do doente. 

Note que a variabilidade dos seres vivos é proveniente de mutações genéticas de origem aleatória, associadas com a reprodução sexuada. Nunca existirá um microorganismo que cause uma “doença perfeita”, que mate 100% dos infectados, pois sempre há algum indivíduo naturalmente resistente. Um dos mais mortais e temidos vírus, o Ebola, causa uma taxa de mortalidade entre 70 e 90%, bastante elevada. Nem todos os portadores de HIV manifestam a síndrome de imunodefíciência e nem todas as pessoas que entram em contato com o vírus o adquirem. Um microorganismo excessivamente agressivo, que mate todos os seus hospedeiros, desaparecerá por não ter onde se reproduzir.

Insetos transmissores de doenças como baratas, pulgas e piolhos, foram selecionados da mesma forma que as bactérias. Em milhares de indivíduos, alguns apresentam mutações genéticas que lhes conferem resistência a um certo composto inseticida e serão estes então os mais aptos a sobreviver, tendo filhos que possivelmente herdarão tal característica, iniciando uma nova geração de insetos resistentes. Modernamente, as fórmulas dos inseticidas precisam ser alteradas constantemente.

O primeiro inseticida utilizado em larga escala foi o DDT, para controlar insetos transmissores de doenças durante a II Guerra Mundial. Com o fim da guerra, o DDT passou a ser utilizado por produtores agrícolas no controle de pragas e na “dedetização” de casas para controlar vetores de doenças como a malária. O inseticida apresentava baixíssima toxidade para humanos, com efeito residual de até um ano e seu uso no controle de doenças tropicais foi tão revolucionário que mereceu o prêmio Nobel de medicina de 1948.

Seu uso foi então disseminado em todo o mundo, com grande sucesso. Porém, em poucos anos começaram a surgir variedades de artrópodes resistentes, resultando na necessidade de produzir novos compostos como o BHC, que logo passou pelo mesmo fenômeno de seleção natural e, assim, iniciou-se a necessidade de sintetizar continuamente novos tipos de pesticidas. Modernamente, é difícil afirmar com certeza quantas formulações diferentes podem ser encontradas no mercado, além das muitas dezenas já retiradas de circulação por danos à saúde e ao meio ambiente com atividade persistente de muitos anos. Além de não poderem ser mais utilizados, dezenas de agro defensivos têm sua produção proibida por acordos internacionais e, dentre eles, estão o DDT e o BHC.

 

Seleção artificial

A seleção artificial é um mecanismo de seleção feita e direcionada pelo homem e para suas necessidades, reproduzindo seletivamente as variedades de organismos de maior interesse. Ela é muito mais rápida que a seleção natural, intrinsecamente dependente de fatores aleatórios da natureza. Em grande parte do livro Origem das espécies, Darwin utiliza argumentações relacionadas a descrições bastante acuradas sobre a seleção artificial, particularmente seguindo todas as variedades de pombos domésticos até seus ancestrais selvagens que viviam em rochedos.

O darwinismo está presente até em nossos alimentos. Todas as plantas e animais domesticados são produto da seleção humana a partir de ancestrais selvagens. O porco e o javali são, na realidade, a mesma espécie (Sus scrofa) cabendo ao ser humano apenas a tarefa de escolher as variedades mais dóceis para a criação em cativeiro. Assim, com o passar do tempo, os animais que cresciam mais rápido, os que produziam mais carne ou mais banha, os indivíduos com mais ou menos pelos, e os bons reprodutores foram entrecruzados para fins comerciais e seus descendentes foram modificados através do tempo.

Uma espécie de vegetal pode ser selecionada de diversas formas diferentes, conforme as necessidades humanas. A partir de um ancestral selvagem da espécie Brassica oleracea, foram selecionadas artificialmente muitas variedades conforme o sabor de suas diversas partes. Se queremos folhas retas em unidades, chamamos a variedade de couve ou couve mineira', se queremos os ramos florais, denominamos como brócolis; se desejamos muitas folhas protegidas, como repolho', se nos agrada apenas a flor, a couve-flor ou, ainda, miniaturas como a couve-de-bruxelas ou repolhinho. Novas variedades podem ser produzidas, como os cruzamentos entre as variedades de repolho roxo e repolho branco, para a produção de plantas ornamentais comercializadas em floriculturas.

O mesmo raciocínio se aplica para todas as variedades de feijão, de manga, de galinha ou de gado, não importando o tipo de organismo. Se uma vaca produz muito leite, seu dono redobra a atenção e procura reproduzi-la; do contrário, será abatida e consumida como animal de corte em uma sobrevivência seletiva determinada pelo interesse humano. Praticamente todos os tipos de alimento, cultivado ou domesticado, são produtos de seleção artificial, que pode ter sido iniciada a poucos ou há milhares de anos.

Provavelmente, um dos mais antigos animais que passaram por esse processo, é o cão doméstico, que hoje apresenta uma incontável variedade de raças selecionadas por tamanho, pelagem, beleza e utilidade prática, como guarda, caça e pastoreio a partir de lobos e cães selvagens a cerca de 15.000 anos atrás, quando os seres humanos ainda eram grupos nômades de caçadores-coletores. A domesticação dos gatos é bem mais recente, remontando a necessidade de controle de ratos após o domínio da agricultura, a partir de 10.000 anos atrás, conjuntamente com vacas, porcos e ovelhas. A galinha foi domesticada a aproximadamente 7.000 e os cavalos a cerca de 5.500 anos.

A seleção de variedades para produção comercial é um dos pilares da agricultura moderna: se antes alterávamos o solo para a sobrevivência das plantas, hoje selecionamos as plantas que melhor se adaptam aos variados tipos de solos. Eucalipto para madeira ou para fabricação de celulose; cavalos para tração ou para corridas; galinhas poedeiras ou para corte; tomate para molho ou para salada; nada disso existiria sem a seleção artificial.

 

Seleção sexual

Observa-se na natureza um curioso fenômeno de diferenciação morfológica, fisiológica e comportamental entre machos e fêmeas de diferentes espécies. Os pavões machos apresentam uma espetacular plumagem e as fêmeas apresentam cantos pouco destacados, sinais de que o organismo masculino apresenta características altamente chamativas, enquanto o organismo feminino apresenta características físicas e comportamentais consideradas discretas (crípticas) em relação aos machos. 

A produção de ovos, o choco, a gestação e a criação dos filhotes apresenta, individualmente ou em conjunto, um enorme gasto energético para as fêmeas quando comparado com os machos, cujo sêmem é razoavelmente “barato” do ponto de vista energético.

Dessa forma, as fêmeas escolhem os melhores machos que vão garantir, de alguma forma, o melhor material genético, a melhor defesa de território e, consequentemente, mais alimento e proteção para seus filhotes, direcionando vantagens para a perpetuação da espécie. 

Seguindo esse raciocínio, as fêmeas costumam ser muito seletivas em relação aos machos, e estes, por sua vez, precisam demonstrar de alguma forma que são mais fortes, mais saudáveis ou mais inteligentes, produzindo lentamente a seleção de variedades do sexo masculino com características típicas e diferenciais em relação às fêmeas, culminando em um dimorfismo sexual, ou seja, duas formas para os gêneros masculino e feminino na mesma espécie. Muitas vezes, o dimorfismo sexual não é visível, mas se manifesta como cantos e/ou comportamentos peculiares.

Algumas das mais belas plumagens, adornos, chifres, cantos, danças, tocas e ninhos são produto de machos disputando entre si a atenção de fêmeas muito rigorosas na seleção de pais para seus filhos.

Mas nem sempre o dimorfismo ocorre para chamar a atenção, muito pelo contrário; às vezes existe para não chamar a atenção. Em várias espécies de aranhas de teia, os machos são diminutos em relação às fêmeas, que caçam e matam suas presas baseando-se em vibrações nos fios de seda. Nesses casos, os machos podem ser confundidos com o “almoço”, portanto, serão selecionados os menores machos capazes de chegar até a fêmea sem serem devorados, mas que tenham também habilidades especiais para realizar a fecundação satisfatoriamente. 

 

Espécies e especiação

Uma das ideias mais difíceis de serem definidas é o conceito de espécie. Para evitar conflitos, este texto assumirá uma antiga, mas prática, definição utilizada de forma geral para os animais.

Espécie: conjunto de seres semelhantes que se entrecruzam e produzem descendentes férteis.

Dentre as muitas formas de classificação dos seres vivos, o conceito de espécie é natural, pois embora não saibamos diferenciar minhocas por aparência, elas se separam e se cruzam com os indivíduos da sua espécie, sem que precisemos interferir. Os organismos da mesma espécie se reconhecem de diversas maneiras, evitando o desperdício de energia e matéria ao tentar cruzar com organismos de espécies diferentes que não resultem em filhos férteis.

As espécies recebem nomes científicos por uma nomenclatura binomial em que o primeiro nome (ou nome genérico) identifica um grupo de parentesco (como um sobrenome para nomes humanos) e um segundo nome (ou nome específico) que é restrito à espécie. Por convenção e por comunicação internacional, os nomes científicos são derivados do latim, do grego ou de formas latinizadas; o nome genérico é escrito com inicial maiúscula e o nome específico com inicial minúscula. Os dois nomes em conjunto identificam uma espécie e sua grafia deve estar em destaque do texto. Nossa espécie é identificada em qualquer lugar do mundo pelo nome científico Homo sapiens, os cães por Canis familiaris, o arroz por Oriza sativa e assim por diante. 

Especiação é o processo de formação de novas espécies a partir de um ancestral em comum. 

No Brasil há quatro espécies de mico-leão: o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), que vive na Mata Atlântica do Rio de Janeiro; o mico-leão-preto (Leontopithecus clnysopygus), que vive no interior de São Paulo; o mico-leão-preto-de-cara-dourada (Leontopithecus chiysomelas), que vive no sul da Bahia e o mico-leão-dourado-de-cara-preta (Leontopithecus caissara), que vive na ilha de Superagui, no Paraná. Como se formaram essas espécies? Provavelmente, um ancestral comum de mico-leão tinha uma grande distribuição na Mata Atlântica, cujas populações foram isoladas geograficamente por algum motivo desconhecido. Com o passar de algumas dezenas de milhares de anos, a partir de cruzamentos restritos às áreas das populações isoladas, variedades genéticas peculiares foram fixadas nessas regiões de tal forma que, hoje, as variações são tão grandes que impediriam o reconhecimento e a reprodução entre os grupos, caso eles voltassem a se encontrar.

Logo, a especiação é um processo de acúmulo de diferenças genéticas que culmina com o isolamento reprodutivo entre os grupos aparentados, considerados então como diferentes espécies.

A variabilidade genética ocorre naturalmente em todos os organismos vivos, já os fenômenos de isolamento geográfico dependem de fatores naturais como o surgimento de um rio, a descontinuidade de uma floresta, o surgimento de uma cadeia de montanhas, a movimentação e separação dos continentes (deriva continental), entre outros muitos processos possíveis. Através da deriva continental, surgiram espécies de grandes aves que não voam espalhadas pelos continentes do hemisfério sul, a partir da fragmentação de um antigo continente (Gondwana): avestruzes na África, emas na América do Sul, cazuares e emus na Oceania, todos derivados de um ancestral comum, mas que se diferenciaram seguindo os padrões ecológicos de cada local através do tempo.

  

Homologias, analogias e convergência evolutiva

Darwin e Wallace perceberam, observando os animais e as plantas de várias partes do mundo, que algumas espécies aparentadas ocorrem em locais diferentes, adaptadas aos mais diversos desafios, sendo, claro, derivadas de ancestrais comuns. No interior do pescoço de uma girafa existem sete vértebras cervicais, da mesma forma que no pescoço de qualquer mamífero, incluindo os humanos. A asa de um morcego é apenas a mão do animal, com os dedos ligados entre si por uma fina membrana, ou seja, a mão humana e a asa de um morcego possuem a mesma estrutura atuando em diferentes funções e, por terem a mesma origem embrioária, são denominadas estruturas homólogas. Da mesma forma, a unha dos nossos dedos médios e os cascos dos çavalos são homólogos.

Por outro lado, muitas vezes, estruturas totalmente diferentes do ponto de vista de suas origens embrionárias apresentam funções semelhantes. As asas de um inseto não têm nenhuma ligação evolutiva com as asas de uma ave, mas exercem a mesma função, sendo então chamadas estruturas análogas. 

Também é possível encontrar espécies que não têm nenhum tipo de parentesco claro, mas que apresentam determinadas estruturas corporais ou capacidades fisiológicas semelhantes. O perfil de um peixe, de um golfinho ou de um pinguim na água são semelhantes, pois o formato fisiforme é o mais eficiente para reduzir o atrito com a água, permitindo um deslocamento com o menor gasto de energia possível. Esse fenômeno é chamado de convergência evolutiva ou convergência adaptativa.

Alguns mamíferos de pequeno porte que vivem em diferentes desertos do mundo adquiriram perfis anatômicos e fisiológicos semelhantes e são todos chamados de “ratos do deserto”, embora, muitas vezes, não possuam nenhum parentesco entre si. Da mesma forma, plantas de deserto na América (cactáceas) e na África (euforbiáceas), possuem características semelhantes, como a redução das folhas em espinhos para diminuir a perda de água e são muito parecidas em aspecto, decorrente de convergência evolutiva, mas sem qualquer ligação de parentesco.

 

Neutralismo

Muitas das características encontradas nos diversos tipos de seres vivos não apresentam funções claras. Por uma questão cultural, baseada em um conceito de utilitarismo da natureza e dos seres vivos para uso humano, buscamos constantemente compreender o mundo a partir da questão “pra que serve isso?”.

Para a maioria das pessoas, cada coisa na natureza tem uma função determinada. Do ponto de vista evolutivo, como as características dos organismos vivos são produzidas de forma não direcionada, há três possibilidades de destino para uma mutação gênica aleatória: se ela for negativa para a sobrevivência e reprodução, tende a desaparecer; se é positiva tende a ser ampliada e fixada na população; se não é positiva nem negativa, pode permanecer de forma discreta por um tempo indeterminado, fenômeno chamado de neutralismo.

O conceito de neutralismo foi criado particularmente para descrever fenômenos de diversidade molecular que ocorrem em células e tecidos. Mas como o que acontece nas células se reflete nos organismos, o neutralismo é uma explicação bastante plausível para uma enorme diversidade de características que, aparentemente, são apenas o produto de variabilidade genética aleatória.

Para que serve termos o sangue tipo A ou tipo O? Modernamente, para transfusões de sangue, mas historicamente, os diferentes tipos sanguíneos do sistema ABO, não servem para absolutamente nada, não conferindo qualquer vantagem ou desvantagem extra para seus portadores. Seguindo o mesmo raciocínio, a impressão digital única dos polegares pode ser útil para identificação em documentos, mas na natureza, não teria nenhuma influência sobre a reprodução e sobrevivência de nossos ancestrais.

 

A origem da variabilidade genética

A evolução biológica depende diretamente da variabilidade apresentada pelos indivíduos de uma população. A principal fonte de variações na natureza são as mutações gênicas aleatórias que ocorrem normalmente a cada divisão celular. Quanto mais rápida for a velocidade de reprodução, mais rápida será a seleção natural de variedades aptas a sobreviver durante alterações no ambiente.

Quanto maior a variabilidade genética, maior o número de opções para a sobrevivência seletiva em diferentes hábitats. Assim, espécies que apresentam baixa variabilidade genética possuem menores chances de sobrevivência durante os fenômenos cíclicos de alteração ambiental. Quando os seres se reproduzem sem sexo, os filhos são geneticamente semelhantes aos pais e, assim, caso apareça uma nova doença ou desafio, todos os indivíduos serão afetados.

O surgimento da reprodução sexuada foi um enorme salto qualitativo para os seres vivos, pois, através do sexo, dois seres produzem uma nova geração geneticamente diferente dos ancestrais. Nos animais, o sexo ocorre pela fecundação de gametas originados através da meiose, divisão celular em que ocorre a redução do número de cromossomos pela metade, estimulando a variabilidade genética em três momentos: na permutação gênica, na separação aleatória dos cromossomos e no encontro aleatório dos gametas durante a fecundação. Seres unicelulares como as bactérias não possuem nem fecundação nem meiose, mas um tipo primitivo de reprodução sexuada chamada conjugação, onde duas bactérias da mesma espécie se reconhecem, se emparelham e formam um tubo que as une e por onde são trocados cromossomos secundários com genes que serão compartilhados entre os indivíduos. Protozoários, seres unicelulares de outra categoria, também podem realizar a conjugação, mas já com a meiose presente e por contato direto entre as membranas plasmáticas.

As bactérias, particularmente a espécie Escherichia coli, representam o principal modelo experimental para estudos de mutações gênicas e estimativas de velocidade de evolução biológica, pela sua simplicidade genômica, facilidade de multiplicação em laboratório e pela alta taxa reprodutiva.

Em seres macroscópicos, as taxas de mutação e de seleção são mais difíceis de serem acompanhadas. Para uma pessoa leiga, as girafas são todas iguais: com pescoço longo e manchadas. Para os mais atentos, as manchas são marcas absolutamente individuais, e cada uma das seis espécies de girafa se reconhecem e evitam o cruzamento entre si com a formação de híbridos estéreis. Além disso, cada uma apresenta uma altura particular em torno de uma média.

A grande maioria das características biológicas apresentará uma distribuição na população com uma variação chamada de normal, representada por gráficos com curvas normais de distribuição. Se imaginarmos a altura como referência, há algumas pessoas muito altas, outras muito baixas e uma grande maioria girando em torno de uma média. No Brasil, a altura média é de aproximadamente 1,71 m para homens e mulheres. Apenas para homens é de 1,75 m e para mulheres, 1,65 m, sempre lembrando que os números são sempre aproximações.

Em termos gerais, normal é aquilo que acontece com mais frequência. Estatisticamente é a mesma coisa, só que com maior precisão: normal é o conjunto de ocorrências em tomo de um intervalo de confiança, que pode envolver 68, 95 ou 99,7% do conjunto amostral, dependendo do grau de interesse da pesquisa. Ou seja, em estudos de evolução, a variabilidade será sempre avaliada através de aproximações estatísticas.

Hoje, sabemos muito mais sobre a origem da variabilidade genética e sobre a expressividade diferencial dos genes em cada organismo. As principais fontes de variabilidade são as mutações genéticas aleatórias, a separação independente e a permutação entre os cromossomos na formação dos gametas, entre outros fatores descritos a seguir em mais detalhes.

a) Mutações genicas aleatórias: elas podem ocorrer naturalmente por falhas esperadas durante os processos de duplicação celular, momento em que bases nitrogenadas podem ser trocadas, perdidas ou agregadas à fita de DNA. As mutações gênicas aleatórias podem também ser induzidas por agentes mutagênicos como radiação ultravioleta e outras radiações ionizantes, calor, toxinas, radicais livres produzidos no interior das células dos organismos vivos e uma enorme quantidade de substâncias mutagênicas provenientes do meio ambiente, incluindo poluentes, agrodefensivos, tabaco e substâncias provenientes de alimentos industrializados.

b) Mutações cromossômicas estruturais e numéricas. Os seres humanos destacam-se dos outros grandes primatas por uma alteração citogenética em que dois cromossomos fundiram-se em um só. Humanos possuem 46 cromossomos e os outros grandes primatas possuem 48. Em plantas é comum encontrarmos o fenômeno da poliploidia, em que diferentes organismos da mesma espécie possuem cargas genéticas multiplicadas (4n, 6n, 8n) permanecendo viáveis e férteis. A poliploidia não é comum em animais.

c) A reprodução sexuada representa um dos grandes momentos da evolução dos seres vivos no planeta. Ela envolve a mistura de materiais genéticos de dois organismos da mesma espécie. O sexo surge de forma primitiva em organismos unicelulares, denominado de conjugação. Bactérias podem trocar cromossomos secundários (plasmídios) através de um tubo de conjugação, trocando informações preciosas para a sobrevivência dos indivíduos, como os genes codificadores de enzimas capazes de inativar os antibióticos utilizados por humanos para impedir sua multiplicação. O sexo, como conhecemos, parte do pressuposto da presença de meiose, a divisão celular que divide a carga genética ao meio, formando gametas ou núcleos gaméticos haploides (n) que se fundem na fecundação, restituindo a carga genética dupla (2n) em um novo organismo. Em protozoários ciliados (unicelulares) a conjugação já apresenta meiose e troca de micronúcleos entre duas células, porém, sem formar gametas semelhantes a óvulos e espermatozóides e sem ter “filhos”, apenas uma troca de informações entre dois organismos. A produção de gametas por meiose, a fecundação e os “filhos” surgiram independentemente várias vezes na história geológica da Terra, em diferentes grupos de organismos como algas e fungos, por convergência evolutiva. O sexo permite a formação de organismos diferentes dos pais e assim se tornou uma poderosa ferramenta de sobrevivência e de perpetuação das espécies.

d) Variabilidade genética durante a formação dos gametas por meio da segregação independente dos cromossomos e por permutação cromossômica (crossing-over) entre cromossomos homólogos. Nós possuímos metade dos nossos cromossomos (23) de origem materna e outra metade (23), de origem paterna. Quando fazemos os nossos gametas, dentro dos óvulos e dos espermatozóides será colocado apenas um dos cromossomos de cada um dos 23 pares. Paterno ou materno? Tanto faz, mas deve ser apenas um. Portanto, um espermatozóide pode receber o cromossomo número 1 de origem paterna, o número 2 de origem materna, o número 3 de origem materna e assim, sucessivamente. Note que o termo materno, refere-se à mãe do homem formador do espermatozóide, ou seja, da avó paterna. Nós somos constituídos, na realidade, por quatro fontes de cromossomos derivados de nossos avós matemos e paternos que chegaram de forma absolutamente aleatória até nós pela segregação (separação) independente dos cromossomos. Para aumentar ainda mais a variabilidade, os cromossomos maternos e paternos se organizam aos pares antes de se separarem e trocam pedaços entre si (permutação), formando então cromossomos híbridos, com cargas genéticas misturadas. Os cromossomos do par 1 humano foram observados com até 21 pontos de troca de fragmentos, sendo que cada par cromossômico possui diferentes números de pontos de troca, variando entre os indivíduos e entre as diferentes espécies.

e) A variabilidade genética dos indivíduos pode ser amplificada pela atividade de transposons, ou, “genes saltadores”, que são trechos de DNA capazes de mudar de lugar aleatoriamente com o comportamento semelhante aos dos vírus, que inserem seus genes no nosso DNA. Cada vez que um transposon muda de lugar, ele pode alterar uma sequência gênica funcional, produzindo efeitos semelhantes às das mutações genéticas aleatórias. Eles produzem uma variabilidade na atividade das células e tecidos dos organismos, mas se o transposon alterar os genes das células  germinativas, as modificações poderão ser passadas para a próxima geração através dos gametas.

Outras formas de variação ocorrem de forma individual no nosso organismo, sem necessariamente serem geradas a partir dos genes que herdamos de nossos pais. As células nervosas do nosso cérebro apresentam uma curiosa variação no número de cromossomos, fenômeno que, em outras partes do corpo, está associado com doenças, mas que, aparentemente, auxilia a formação de variações nas redes neurais que, em última instância, nos torna pessoas únicas. A produção de anticorpos (proteínas) que se “encaixam” em todos os antígenos do planeta demanda uma infinita variabilidade, derivada de mecanismos de combinação aleatória dos produtos de regiões do DNA específicas para a síntese de anticorpos, pois cada animal vertebrado apresenta um conjunto único de anticorpos esperando os desafios do mundo.

 

Variabilidade versus estabilidade

Grande parte das mutações gênicas espontâneas é temporária, pois há vários mecanismos celulares de reparo de DNA.

O tempo todo, nosso DNA sofre alterações pelos mais variados agentes mutagênicos como calor, radiação, toxinas, entre outros.

Estima-se que a cada 1000 mutações pontuais que ocorram nas bases do DNA, apenas uma será realmente fixada, produto do constante reparo que ocorre no interior dos núcleos celulares. Esse sistema de reparo depende da atividade de variadas enzimas, que atuam de diferentes maneiras para exercer essa função sobre o material genético. Ao produzimos nossos gametas aos 20 anos de idade, utilizamos um DNA que já tem 20 anos, passou por muitas divisões celulares e, fatalmente, apresenta um acúmulo de erros; mas curiosamente, o material genético que passamos aos nossos filhos é espetacularmente “jovem”, organizado em cromossomos que possuem grandes telômeros, como se tivessem passado por uma “revisão de texto”, cujo efeito é “rejuvenescedor” sobre os genes.

A evolução biológica é totalmente dependente da presença de organismos portadores de diferenças peculiares entre si, mas uma variabilidade descontrolada tomaria o material genético instável e colocaria em risco a sobrevivência e a reprodução dos organismos. Há várias doenças e síndromes hereditárias, dentre elas algumas famosas  como a síndrome do envelhecimento precoce, decorrentes de falhas nos sistemas de correção de DNA (Alberts, 2003). Nessa síndrome, crianças ainda muito pequenas passam por um processo de envelhecimento acelerado, ficando com os aspectos físicos e fisionômicos de pessoas muito idosas, morrendo precocemente.

Assim, todos os seres vivos vivem em uma balança genética que oscila entre a necessidade de variabilidade genética e a necessidade de uma estabilidade gênica que garanta o bom funcionamento celular e a perpetuação das espécies. 

 

Sociobiologia

O termo sociobiologia foi popularizado por Edward Wilson, em 1974, a partir de pesquisa sobre a intrincada complexidade dos insetos sociais como abelhas e formigas e seus comportamentos complexos e muito peculiares, como o altruísmo, ou seja, a capacidade de um organismo se sacrificar de alguma forma pela sobrevivência dos outros indivíduos daquela sociedade. Abelhas operárias passam sua vida coletando néctar para fazer mel e alimentar suas irmãs e, por não serem férteis, não se reproduzem. Porém, para a evolução biológica, o natural e esperado seria a sequência: nascer, crescer, reproduzir e morrer. Quando um animal deixa de cuidar de si mesmo e de sua prole para ajudar na sobrevivência de outros organismos, ele está seguindo um caminho evolutivo aparentemente sem sentido.

Os comportamentos inatos ou “instintos” de sobrevivência, para a obtenção de alimento, água, parceiros reprodutivos e outros comportamentos motivacionais, estão diretamente relacionados com a perpetuação das espécies. Do ponto de vista estritamente darwinista, o altruísmo não parece ser lógico, pois maximizar recursos para a própria sobrevivência e a dos descendentes é uma regra aparentemente universal.

Novas linhas de pesquisa centradas em genética se desenvolveram nas décadas de 1960 e 1970, a partir das ideias de W. D. Hamilton e produziram interessantes respostas para o problema do altruísmo a partir de conceitos matemáticos de proporção genética. Nos insetos sociais não há cromossomos sexuais como nos mamíferos, os organismos do sexo masculino (Ex. zangões de abelhas) são produzidos a partir de um óvulo não fecundado, enquanto as fêmeas (operárias e rainhas) possuem duas cargas genéticas, uma do óvulo e outra do espermatozóide. Assim, as abelhas possuem um parentesco genético maior entre as irmãs (aproximadamente 75% dos genes em comum) que com os próprios filhos (50% dos genes em comum).

 

Teoria do gene egoísta

A ideia de que os genes comandam os padrões reprodutivos mostrou-se muito poderosa, pois se enquadra literalmente a qualquer ser vivo. Sob essa perspectiva, os genes estão no comando de todas as formas de vida do planeta e, em 1974, foi publicado o livro O gene egoísta, de Richard Dawkins popularizando esse conceito entre as diferentes áreas do conhecimento. Quando observamos a natureza munidos dessa ideia percebemos sua força. Um vírus nada mais é do que uma capa de proteínas (capsídeo) envolvendo um filamento de DNA ou RNA, ou seja, de genes. Os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios, muito menores que as células que parasitam e não conseguem se multiplicar fora de um outro organismo, seja ele uma planta, um animal ou uma bactéria. Quando um vírus invade uma célula hospedeira, seus genes tomam o comando celular e utilizam todos os recursos metabólicos, “escravizando” e esgotando os recursos da célula para a produção maciça de mais partículas virais, que, no caso dos vírus animais, geralmente acabam por destruir a célula hospedeira, espalhando-se em busca de novas “vítimas”. Note que quando estamos com doenças virais respiratórias ou de transmissão aérea, espirramos e tossimos. Do nosso ponto de vista, o espirro e a tosse servem para limpar as vias congestionadas. Do ponto de vista dos vírus, o espirro e a tosse são formas de espalhar seus descendentes para outros organismos de forma bastante eficiente.

Todos nós derivamos de uma única célula, o zigoto, derivado da fertilização de um óvulo. Quando ocorre a fecundação, ao contrário do que geralmente se imagina, o espermatozóide não “entra” no óvulo, mas apenas os genes são inseridos. As membranas celulares se fundem, o núcleo espermático é “arremessado” para o interior do óvulo e os restos do espermatozóide (flagelo e pescoço com mitocôndrias) ficam do lado de fora. Da mesma forma que o capsídeo de um vírus é uma espécie de transportador de genes virais e o espirro é uma forma de transmissão, nossas células reprodutivas seriam os transportadores de nossos genes e o comportamento reprodutivo seria uma forma de transmissão.

A ideia do gene egoísta chega a ser assustadora, pois todos os organismos vivos seriam apenas uma engenhosa forma que os genes criaram para se perpetuar, incluindo você e eu. Alguns dos comportamentos humanos mais terríveis e hediondos, como o estupro, seriam uma forma extrema e sem limites de perpetuação dos genes.

Felizmente, nós continuamos a ter controle sobre nossas vidas e o fenótipo continua sendo o produto da interação entre os genes e o meio ambiente. Se os genes comandassem nossas vidas por completo, seríamos apenas uma máquina de perpetuação genética sem livre arbítrio e consciência. Quando utilizamos pílulas anticoncepcionais e preservativos ou definimos as regras de conduta social que definem nossos mecanismos afetivos e reprodutivos, estamos constantemente driblando a atividade egoísta dos nossos genes.

6/27/2017 9:18:33 PM | Por David Linden
Sistema Nervoso
Sistema límbico
O futuro do tratamento ao vício em drogas e comportamentos compulsivos

Ray Kurzweil, renomado inventor e futurista, mal pode esperar para que nanobots sejam injetados em seu cérebro. Ele acredita que esses dispositivos serão equipados com uma variedade de sensores e esti­muladores que se comunicarão sem fio com computadores fora do corpo. Além de proporcionar um insight sem precedentes no funcionamento cere­bral no nível celular, nanobots capazes de penetrar no cérebro proporcionarão a experiência definitiva de realidade virtual: 

Até o final dos anos 2020, nanobots no nosso cérebro (que chegarão ao cérebro de forma não invasiva, pelos vasos capilares) criarão ambien­tes de realidade virtual de imersão total atuando no sistema nervoso. Então, se quiser entrar na realidade virtual, os nanobots bloquearão os sinais provenientes dos seus sentidos reais e os substituirão pelos si­nais que o seu cérebro estaria recebendo se você realmente estivesse no ambiente virtual. Dessa forma, isso proporcionará uma imersão total na realidade virtual incorporando todos os sentidos.

É claro, esses nanobots não precisariam se limitar em suas manipulações às porções sensoriais do cérebro. No cenário projetado por Kurzweil, nanobots no cérebro poderiam com a mesma facilidade manipular funções motoras, pro­cessos cognitivos, memórias, emoções e impulsos básicos. Basicamente, essa ideia se baseia na suposição de que cada neurônio do cérebro humano poderia ter sua atividade elétrica ou química ativada ou desativada com precisão de microssegundos. Cada aspecto do funcionamento cerebral, da cognição social à regulação da temperatura do corpo, poderia ser controlado. A realidade virtual controlada por nanobots não precisa ser uma experiência puramente sensorial. De modo mais pertinente ao tema desta discussão, os nanobots no cérebro poderiam manipular os neurônios do circuito do prazer com extrema precisão. Você deseja um novo tipo de onda de prazer que seja uma experiência metade parecida com a provocada pela heroína e metade gustativa? Sem problema. Quer uma pitada de dor para torná-la supersaliente? Fácil. 

Mas a realidade virtual mediada por nanobots é só o começo. Kurzweil prevê que, até o fim dos anos 2030, seremos capazes de escanear rotineira­mente o cérebro de uma pessoa com tamanha precisão molecular e com uma compreensão tão completa das regras que fundamentam a plasticidade e o funcionamento neuronal que seremos capazes de fazer um “upload’ desses processos mentais em um computador do futuro, extremamente poderoso e espaçoso. De acordo com a descrição de Kurzweil, “esse processo mobiliza toda a personalidade, memória, habilidades e história da pessoa”. Quando chegarmos a esse ponto, as fronteiras entre cérebro, mente e máquina dei­xarão de existir. Quando nosso “eu” mental individual for instanciado na forma de uma máquina, manipulações do funcionamento mental, percepção e ação se transformarão em simples módulos de software. Quer melhorar o seu humor? Quer preservar todas as suas experiências em memórias com uma fidelidade perfeita? Quer ter o maior orgasmo do mundo? Vai haver um aplicativo para isso. 

Por mais que eu respeite Ray Kurzweil e aprecie sua disposição de fazer previsões sobre eventos futuros específicos, não concordo plenamente com a programação prevista por ele, tanto para a introdução de nanobots cerebrais quanto para a capacidade de fazer o upload, do conteúdo de um cérebro. A premissa central que fundamenta as previsões de Kurzweil é que tecnologias facilitadoras, como processadores de computador, memória de computador, microscópios e dispositivos de sequenciamento de DNA têm percorrido uma trajetória exponencial e não linear em termos de capacidade, velocida­de, resolução e custo, e que é razoável imaginar que essa tendência exponen­cial será mantida. Kurzweil também presume que a mente humana resida completamente no cérebro (ou pelo menos no sistema nervoso): não existe uma alma imortal, uma energia coletiva ou outro componente não biológico que codifique nosso “eu” mental individual. Concordo com a argumentação até este ponto. 

No entanto, Kurzweil argumenta que nossa compreensão da biologia - e em particular da neurobiologia - também segue uma trajetória exponencial impulsionada por tecnologias possibilitadoras. O fundamento implícito po­rém crucial do cenário de Kurzweil requer a ocorrência de um milagre em algum momento dos anos 2020: se continuarmos acumulando dados sobre o cérebro em uma taxa exponencial (seus padrões de conexão, seus padrões de atividade etc.), os mistérios da consciência, percepção, decisão e ação necessariamente serão revelados. Em consequência, nossa compreensão do funcionamento do cérebro e nossa capacidade de mensurar os parâmetros relevantes de cérebros individuais (com a ajuda de tecnologias como na­nobots cerebrais) se expandirão de maneira exponencial para permitir fazer o upload do cérebro em computadores já no ano 2039. É nesse ponto que começo a duvidar do argumento. Sustento que nossa compreensão dos pro­cessos biológicos permanece em uma trajetória implacavelmente linear. Do meu ponto de vista, o problema central aqui é que Kurzweil confunde a coleta de dados biológicos com o insight biológico. 

Vamos analisar o exemplo do sequenciamento genético. Sim, sequenciamos alguns genomas humanos, e a velocidade e o custo de fazer isso estão melho­rando exponencialmente. O sequenciamento do genoma humano e do rato, camundongo, mosca e macaco, que também foram concluídos, constituem  ferramentas de valor inestimável para os biólogos. Dito isso, apesar de os insi­ghts fundamentais surgidos até o momento com base na sequência do genoma humano terem sido importantes, eles estão longe de serem revolucionários. Por exemplo, descobrimos que a duplicação genética é mais comum do que originalmente acreditávamos que fosse. E descobrimos que os seres humanos possuem menos genes, mas que esses genes possuem modos mais complexos de regulação e mais formas de splicing do que previmos inicialmente. São in­formações úteis, mas que não representam uma transformação exponencial revolucionária no nosso conhecimento da genética. Quando o sequenciamento do genoma humano foi concluído, ninguém foi capaz de olhar para ele e dizer: “Aha! Agora entendi o que faz de nós distintamente humanos” ou “Aha! Agora entendi como um óvulo fertilizado se transforma em um recém- -nascido no decorrer da gestação”. De fato houve vários autênticos insights transformadores de paradigmas na genética nos últimos anos. Por exemplo, agora sabemos que a modificação química do DNA por meio de um processo chamado de metilação pode alterar sua estrutura e a forma pela qual ele intera­ge com um conjunto de proteínas reguladoras/estruturais chamadas histonas, silenciando a expressão de determinados genes. Também sabemos que um conjunto de sequências codificando “micro-RNAs” têm poderosos papéis na determinação de como outros genes, convencionais, são expressos. Insights como esses explicaram toda uma série de mistérios e representam um grande passo no progresso da nossa compreensão da genética. Mas essas descobertas e a maioria de outros avanços revolucionários conceituais fundamentais na área foram desenvolvidos lentamente, como resultado de uma ciência pequena implacavelmente linear e não dos enormes conjuntos de dados possibilitados pela tecnologia que Kurzweil descreve. 

Esse progresso linear também se aplica à expansão do nosso conheci­mento sobre o funcionamento cerebral. Por exemplo, agora temos um mapa, chamado Allen Brain Atlas, que mostra o padrão de expressão de praticamente todos os genes do cérebro do camundongo, acompanhado de uma série enorme de imagens microscópicas. Esse recurso, disponível a todos na internet, representa uma excelente ferramenta para pesquisadores do cérebro, mas não produziu aumento exponencial de momentos “heureca!”. A resolução temporal e espacial dos nossos aparelhos de escaneamento cerebral também está melhorando, mas essas melhorias, da mesma forma, têm gera­do insights fundamentalmente lineares. 

Não me entenda mal. Eu de fato acredito que os antigos mistérios fun­damentais do cérebro, mais cedo ou mais tarde, serão revelados. Não me coloco ao lado dos pessimistas que alegam que nunca poderemos entender nosso cérebro por meio da utilização do nosso cérebro. Também compar­tilho da crença de Kurzweil de que os avanços tecnológicos serão funda­mentais para revelar os antigos mistérios que cercam o funcionamento do cérebro. Mas, apesar de ver uma trajetória exponencial no volume de dados neurobiológicos coletados até o presente momento, a expansão linear da nossa compreensão do funcionamento neural significa que uma ideia como nanobots penetrando no cérebro para realizar funções úteis já nos anos 2020 me parece excessivamente otimista. 

Os nanobots de Kurzweil medem sete microns - cerca de metade do diâ­metro do corpo celular de um neurônio - e sua função é percorrer o tecido do cérebro e liberar microssensores e estimuladores para analisar o funcionamen­to normal do cérebro. É possível imaginar o nanobot atuando como um Fusca: ele percorre a estrada, encontra um grande veículo utilitário (um neurônio) estacionado no acostamento, para ao lado dele e começa a escanear. Eis o primeiro de muitos problemas no cenário projetado por Kurzweil: o cérebro é composto de neurônios e neuroglias tão comprimidos que quase não há espa­ço entre eles. Ademais, os minúsculos espaços entre essas células são tomados não apenas por solução salina, como também por cabos estrutu­rais feitos de proteínas e açúcares, que têm a importante função de transmitir sinais entre as células adjacentes. Então, vamos imaginar nosso Fusca nano­bot se aproximando do cérebro, onde encontra um estacionamento repleto de grandes utilitários e Hummers, que se estende até onde os olhos podem ver. Os veículos estão estacionados em uma rede, com apenas 2,5 centímetros entre eles, e esse espaço é preenchido com cabos ligados aos seus sistemas me­cânicos. (Para sermos mais precisos, deveríamos imaginar o estacionamento como uma matriz tridimensional, um estacionamento repleto de utilitários com vários andares de altura e se estendendo além do que os olhos conseguem enxergar, mas você entendeu a ideia.) Mesmo se o nosso intrépido nanobot tivesse trânsito ilimitado e fosse equipado com um poderoso laser cortante, como ele poderia percorrer o cérebro sem deixar uma trilha de destruição por onde passasse? Ele também precisará da própria fonte de energia. E precisará escapar de microglias reativas, células cerebrais especializadas que atacam, en­globam e digerem corpos estranhos. E tudo isso deve acontecer de um modo que não comprometa os processos fisiológicos que o nanobot está tentando mensurar. Esses problemas não são fundamentalmente impossíveis, mas são enormes. Os anos 2020 estão logo ali e muita coisa ainda precisa acontecer em muito pouco tempo para cumprir o prazo estabelecido para a concretização do cenário dos nanobots de Kurzweil. 

Deixando de lado nanobots exploradores e uploads cerebrais por enquanto, como podemos esperar que o desenvolvimento da nossa compreensão da neurobiologia do prazer influencie a nossa vida nos próximos 20 anos? Nós, biólogos, somos treinados para evitar esse tipo de especulação, já que é fácil demais errar nas previsões. Dito isto, estou disposto a correr esse risco e apresentar algumas ideias sobre o futuro do prazer tanto no curto prazo quanto em um futuro mais distante. 

Uma área que certamente se desenvolverá no futuro não muito distante é a análise genética para prever o risco de uma pessoa desenvolver vícios. Você deve lembrar que a hereditariedade responde por cerca de 50% da variação do risco de desenvolver vários vícios. Mais especificamente, vimos como a variação genética na codificação do gene do receptor D2 de dopamina se correlaciona com várias formas diferentes de vício: portadores de mutações que reduzem a eficácia do funcionamento do receptor D2 têm em média mais chances de desenvolver vícios tanto em substâncias (como álcool, nico­tina, opiáceos e comida) quanto em comportamentos (como jogo compulsi­vo ou sexo compulsivo). Também há evidências de envolvimento da variação genética em outros componentes moleculares do circuito prosencefálico me­dial do prazer utilizador de dopamina. Esses componentes incluem outros tipos de receptores de dopamina, o transportador de dopamina que medeia a receptação no terminal sináptico da dopamina liberada na fenda sináptica e a enzima COMT (catecol O-metiltransferase), que decom­põe a dopamina e alguns outros neurotransmissores relacionados. Proteínas codificadoras de genes que atuam a um passo da ação direta da dopamina também podem ser significativas. Por exemplo, a ativação de receptores de dopamina resulta na modificação química de uma proteína em neurônios chamados DARPP-32, e a variação do gene do DARPP-32 é preditiva do comportamento exploratório, um correlato do vício. É provável que a deter­minação da sequência genética de um grupo de genes envolvidos na função da dopamina no prosencéfalo medial nos proporcione uma imagem muito mais precisa do risco de desenvolvimento de vícios do que a análise de qual­ quer gene individual.

Apesar de os genes envolvidos na sinalização da dopamina constituírem uma área-chave para procurar indícios da natureza hereditária do vício, a variação genética em alguns dos outros sistemas bioquímicos envolvidos em vários prazeres provavelmente também é relevante. Esses sistemas incluem opioides endógenos e os endocanabinoides. Será interessante ver como es­tudos envolvendo esses sistemas se desenvolverão em termos de vícios es­pecíficos e até vícios em substâncias específicas. Apesar de alguma variação genética poder ser preditiva de predisposição generalizada ao vício, é possí­vel que uma variação particular em receptores opioides possa, por exemplo, se correlacionar com o alcoolismo mas não com o vício em cocaína (trata-se de mera especulação, cujo objetivo é apenas ilustrar o argumento geral). Nessa linha, também vale lembrar que alguns sistemas bioquímicos podem estar envolvidos em uma variedade limitada de comportamentos prazerosos. Não será surpresa se a variação de genes que codificam a oxitocina ou seus receptores for relevante para o vício em sexo, mas não para outros vícios. De forma similar, variações dos genes que codificam o hormônio orexina ou o neurotransmissor NPY (ou seus receptores ou efetores), que constituem componentes fundamentais do circuito de regulação do apetite, podem ser relevantes para o vício em comida mas não para outros comportamentos compulsivos. 

A análise genética é não invasiva — ela envolve um swab (esfregaço) da mucosa oral para coletar algumas células - e seu custo ficará relativamente acessível, uma vez que o exame seja padronizado. A análise genética para a avaliação do risco de vício utilizando o escaneamento cerebral é muito mais invasiva e custosa. Par­ticipantes obesas de um experimento apresentaram significativamente menos ativação do corpo estriado dorsal em resposta a goles de milk-shake em comparação com par­ticipantes magras, o que sustenta a hipótese do prazer enfraquecido levando ao vício em comida. É possível que a amplitude de respostas mediadas pela dopamina em regiões como o corpo estriado dorsal e o núcleo accumbens seja capaz de prever a propensão a ampla variedade de vícios. Apesar de essa abordagem ter a vantagem de poder ser adaptada para analisar vícios parti­culares (jogo, comida, nicotina), na prática trata-se de uma ferramenta in­conveniente e dispendiosa com poucas chances de ser utilizada amplamente fora dos laboratórios de pesquisa. 

Uma área na qual o escaneamento cerebral do circuito do prazer já está começando a ser aplicado é em decisões relativas ao tratamento e à conces­são de liberdade condicional a pedófilos do sexo masculino condenados. Vá­rios estudos têm defendido a utilização de medidas de ereção peniana para orientar essas decisões, argumentando que, se depois da terapia um pedófilo ainda tiver uma ereção em resposta a fotos ou vídeos de crianças nuas, ele ainda corre o risco de cometer outros abusos sexuais.Mais recentemen­te, Elke Gizewski e uma equipe do Swiss Federal Institute of Technolo­gy em Zurique demonstraram que entre pedófilos homossexuais do sexo masculino internos (que ainda não receberam terapia), fotos de garotos nus evocavam significativa ativação do circuito prosencefálico medial do pra­zer. Isso não ocorreu em uma população similar de homens homossexuais que não apresentavam sinais de pedofilia. Naturalmente, há um perigo em tentar interpretar demais tanto medidas de ereção peniana quanto medidas de escaneamento cerebral nesses estudos. Quase todos nós já estivemos em situações nas quais sentimos excitação sexual inapropriada mas nos abstive­mos de agir para concretizar o sentimento. Apesar de ser natural querer fazer o possível para proteger as crianças de predadores sexuais, ainda não está cla­ro se a ativação do circuito cerebral do prazer em resposta a fotos de crianças nuas constitui um preditor útil do comportamento futuro de pedófilos. 

No momento da escrita deste texto, os medicamentos disponíveis para ajudar os dependentes a se recuperarem e se manterem livres da droga ainda são bastante rudimentares. Os tratamentos mais comumente usados substituem uma forma de substância viciante por outra. Adesivos de nicotina podem substituir ou reduzir o tabagismo. Essa abordagem de fato reduz alguns pro­blemas de saúde relacionados com o tabagismo, mas por si só não trata o vício que o fundamenta: o paciente continua sendo dependente de nicotina. De forma similar, o tratamento de dependentes de heroína com os opiáceos semissintéticos metadona e buprenorfina não passa de um substituto tempo­rário, do tipo “tapa-buracos”. Essas substâncias atuam mais lentamente que a heroína e produzem menos euforia. Elas também são tomadas oralmente, eliminando, dessa forma, os riscos associados com a injeção (como trans­missão de infecções pelo sangue). Mesmo assim, como no caso do adesivo de nicotina, o vício subjacente permanece sem tratamento, de forma que as substâncias substitutas não constituem solução de longo prazo viável. 

Outra estratégia tem sido criar substâncias que promovam a abstinência criando uma reação aversiva. O dissulfiram (comercializado como Antabuse), aprovado como tratamento do alcoolismo pela Federal Drug Administration (FDA) desde 1954, funciona inibindo uma enzima-chave na decomposição em vários passos do etanol chamada acetaldeído desidrogenase. Quando essa enzima é bloqueada, o consumo do etanol produz aumento dos níveis de acetaldeído na corrente sanguínea, o que faz a pessoa se sentir muito mal. O dissulfiram, naturalmente, só é útil em contextos cuidadosamente monitorados. Qualquer pessoa que realmente queira consumir álcool parará de tomar o dissulfiram. E, é claro, essa substância não faz nada para impedir o craving por álcool, mas só faz tornar a recaída excepcionalmente dolorosa. 

Uma terceira estratégia tem sido desenvolver terapias que impeçam o acesso de uma droga ao cérebro e, portanto, de exercer seus efeitos psicoativos. Uma das abordagens mais interessantes ao longo dessas linhas envolve produzir uma vacina que mobilizará o sistema imunológico do próprio pa­ciente para se ligar à droga na corrente sanguínea e destruí-la antes de ela entrar no cérebro. Vacinas utilizando nicotina, metanfetamina ou cocaína ligada a proteínas acionadoras da resposta do sistema imunológico estão atu­almente na fase de testes em estudos com animais. Uma proposta carrega­da de questões éticas é oferecer essas vacinas já na infância para pessoas com forte predisposição genética ao vício. 

Só nos últimos anos é que começamos a ver substâncias que de fato ajudam a enfraquecer os cravings de viciados em recuperação. Uma dessas substâncias é a naltrexona (um medicamento genérico, também comercializado como Revia), que parece entorpecer significativamente os cravings de alcoólicos em abstinência. Quando combinada com a terapia comportamental cog­nitiva, ela produz redução adicional significativa do índice de recaídas. A naltrexona é antagonista de receptores opioides do tipo mu e, dessa forma, apresenta tanto uma ação direta sobre a sinalização de opioides endógenos quanto provavelmente também exerce efeitos indiretos sobre a sinalização da dopamina. A tendência dos pacientes de descontinuar o tratamento por naltrexona pode ser reduzida pela utilização de uma formulação mais recente e mais duradora de naltrexona (comercializada como Vivitrol), que pode ser  administrada na forma de injeção mensal. A naltrexona também teve algum sucesso na redução da recaída de viciados em heroína. 

Dois medicamentos diferentes foram aprovados para o tratamento do vício em nicotina. A bupropiona (vendida como Wellbutrin ou Zyban) é um transportador de dopamina, enquanto a vareniclina (vendida como Chantix ou Champix) reduz a ativação de um tipo particular de receptor de nicotina no cérebro. Essas duas substâncias supostamente reduzem os cravings de nicotina de fumantes em abstinência, e as duas reduzem significativamen­te o índice de recaída (apesar de a vareniclina parecer ser um pouco mais eficaz). Infelizmente, os dois medicamentos também apresentam efeitos colaterais arriscados, com destaque para o aumento da incidência de pensa­mentos suicidas, e só devem ser utilizados sob a supervisão de um psiquiatra. A alteração de humor é um problema comum de substâncias que almejam o circuito do prazer: o rimonabanto, o medicamento de redução de apetite recentemente banido na maior parte da Europa por aumentar o risco de suicídio, é um bom exemplo disso. 

Apesar de estarmos começando a ver os primeiros medicamentos úteis para reduzir cravings de nicotina e de drogas sedativas como o álcool e a he­roína, quase nada foi disponibilizado para ajudar as pessoas que estão tentan­do se abster de estimulantes como a cocaína e anfetaminas. É encorajador, portanto, que grande número de novos medicamentos de combate ao vício estejam em vários estágios de desenvolvimento. Apesar de algumas dessas substâncias se direcionarem a aspectos ligeiramente diferentes dos sistemas bioquímicos centrais do prazer, como dopamina, opioides e endocanabinoides, outros se ramificam a empolgantes novas direções. Por exemplo, como sabemos que o estresse é um acionador comum da recaída na maioria dos vícios, inclusive vícios em substâncias como o álcool e vícios comportamentais como o jogo, uma solução óbvia seria tentar reduzir o estresse por meio de métodos comportamentais, como exercícios físicos e meditação. Outra solução seria tentar interferir na ação dos hormônios de estresse no cérebro utilizando substâncias para bloquear receptores de hormônios de estresse como o CRF e a neurocinina-1 na esperança de redução dos cravings. Uma hipótese é que os bloqueadores de receptores de hormônios de estresse po­deriam impedir a LTP induzida pelo estresse das sinapses utilizadoras de  glutamato recebidas pelos neurônios de dopamina da ATV e, dessa forma, reduzir os cravings acionados por sinais comportamentais associados ao pra­zer (a imagem de um cachimbo de crack, o som do caça-níqueis). 

A hipótese de que o desenvolvimento do vício envolve mudanças lentas e persistentes na força e na microestrutura de sinapses utilizadoras de glu­tamato no circuito do prazer sugere que substâncias direcionadas contra os receptores de glutamato ou as proteínas que modulam seu funcionamento podem ser alvos úteis no desenvolvimento de terapias de combate ao vício. O problema aqui é que o glutamato é o neurotransmissor mais amplamente utilizado do cérebro (e da medula espinhal), de forma que substâncias que alteram a neurotransmissão do glutamato podem apresentar potencial excepcionalmente grande de efeitos colaterais. Felizmente, por haver ampla variedade de receptores de glutamato, substâncias direcionadas a um subtipo particular deles têm chances de serem úteis. Isso se aplica particularmen­te a um subconjunto de receptores de glutamato de ação lenta chamados receptores metabotrópicos, que apresentam distribuição mais limitada no sistema nervoso e estão envolvidos em apenas alguns padrões particulares de atividade neural. Um receptor, chamado de receptor metabotrópico de glutamato tipo 5 (mGluR5), tem recebido grande atenção e é fortemente expresso em porções-chave do circuito do prazer, inclusive os neurônios do núcleo accumbens e do corpo estriado dorsal. 

Quando François Conquet e seus colegas da GlaxoSmithKline Laboratories em Lausanne, Suíça, utilizaram truques genéticos para criar um camundongo sem o mGluR5, fizeram uma descoberta surpreendente: os camundongos se mostravam totalmente indiferentes à cocaína. Eles não pressionavam uma alavanca para autoadministrar a droga e não apresenta­vam nenhum interesse especial pela câmara experimental onde a cocaína era administrada. Não era como se a cocaína não tivesse ação: os níveis de dopa­mina no circuito do prazer dos camundongos sem mGluR5 ainda eram ele­vados. Em vez disso, parecia que os camundongos deixavam de desenvolver o vício em cocaína. Naturalmente, esse resultado e outros similares ajuda­ram a instigar um enorme interesse por parte de companhias farmacêuticas para desenvolver compostos que bloqueiem ou modulem especificamente o mGluR5. Atualmente, a maioria dessas substâncias está em estágio pré-clínico: experimentos com ratos e camundongos sugerem que antagonistas de mGluR5 podem ser promissores no tratamento do vício em cocaína, anfetaminas, nicotina e álcool. À medida que esses compostos puderem ser clinicamente testados em humanos, será possível verificar sua eficácia em vícios comportamentais, como jogo compulsivo, para os quais não existem modelos animais viáveis. Pode ser que daqui a alguns anos o tratamen­to ótimo de vícios envolva uma combinação de substâncias para reduzir o craving (por exemplo, a naltrexona com um antagonista de mGluR5) com terapia comportamental. 

Quando neurofisiologistas caem no sono à noite, eles sonham com um fu­turo no qual poderão registrar cada um das aproximadamente centenas de bilhões de neurônios do cérebro humano e individualmente estimulá-los (ou inativá-los) em combinações totalmente ilimitadas. Infelizmente, esse sonho ainda demorará muito para se tornar realidade. No decorrer dos últimos 60 anos, pesquisadores interessados em sistemas cerebrais em geral abordaram problemas da neurofisiologia implantando eletrodos no cérebro de macacos e ratos, e registrando a atividade de spikes de neurônios individuais. Essa abordagem “neurônio a neurônio” gerou, e continua gerando, muitas infor­mações sobre o funcionamento cerebral, mas tem muitas limitações. Uma delas é que certos tipos de informação no cérebro só são revelados quando grande número de neurônios é analisado simultaneamente: eles residem no padrão geral de atividade da população de neurônios (medida como o núme­ro e a identidade de neurônios acionados simultaneamente, as sequências de acionamento distribuídos ao longo da população de neurônios, e assim por diante). Nos últimos 20 anos, arranjos especiais de eletrodos implantados muito próximos uns dos outros foram desenvolvidos para permitir a análise simultânea de cerca de 50 a 200 neurônios em determinada região do cére­bro. Em alguns casos, arranjos de eletrodos foram implantados em duas re­giões cerebrais diferentes simultaneamente. Esses experimentos, conduzidos com ratos, camundongos ou macacos despertos e em ação, revelou alguns princípios básicos importantes do funcionamento cerebral (por exemplo, neurônios no hipocampo criam um mapa espacial do ambiente por meio de padrões de descarga determinados pela trajetória; prestar atenção a um estí­mulo sensorial tende a aumentar a sincronia das descargas dos neurônios no cérebro que são ativados por esse estímulo). Também foi possível utilizar sinais capturados por arranjos de eletrodos no córtex motor para controlar membros robóticos do corpo, uma técnica com grande potencial de ajudar as pessoas que sofrem de paralisia devido a lesões na medula espinhal.

Um grande problema com eletrodos individuais ou em arranjos é a ne­cessidade de perfurar o crânio do participante do experimento para inseri-los no cérebro. Outro problema é que os eletrodos podem acionar respostas de microgliócitos e reações inflamatórias potencialmente danosas no cérebro. Em consequência, essas técnicas são utilizadas em seres humanos apenas em circunstâncias muito limitadas. Os aparelhos atuais de escaneamento cerebral não apresentam essas desvantagens, já que podem ser utilizados repetidamente em seres humanos sem efeitos danosos. Mas as informações que eles proporcionam são bastante rudimentares. A forma mais comum de escaneamento cerebral, chamada ressonância magné­tica funcional (fMRI), não mensura diretamente a atividade neuronal. Em vez disso, ela mensura o aumento regional do fluxo sanguíneo que ocorre (com um atraso de cerca de 1 a 3 segundos) quando uma região do cérebro intensifica sua atividade. No momento da escrita deste texto, até os melhores aparelhos de escaneamento cerebral possuem resolução espacial de cerca de um milímetro e resolução temporal de vários segundos. A estimulação ou inativação cerebral não invasiva, utilizando uma técnica chamada estimula­ção magnética transcraniana (EMT), é ainda menos refinada: ela tem uma resolução espacial típica de 1 a 2 centímetros e não pode agir com eficácia em regiões profundas do cérebro. 

Apesar de ainda estarmos muito longe de atingir o sonho dos neurofisiologistas de analisar e estimular de maneira não invasiva simultaneamente neurônios individuais no cérebro humano, várias tecnologias ópticas atuais para aquisição de imagens e estimulação apontam para novos caminhos no futuro, em termos gerais. O maior desafio nessa área é que, quando se per­fura o crânio para dar uma espiada na superfície do cérebro, ele se parece um pouco com um ovo cozido: é opaco, não transparente. O cérebro não permite a passagem eficaz da luz em comprimentos de onda que nossos olhos sejam capazes de detectar. Felizmente, a luz infravermelha pode penetrar o tecido cerebral relativamente com mais facilidade. Em uma técnica conhe­cida como microscopia multifóton in vivo, um buraco é perfurado no crânio (normalmente de um camundongo) e uma janela de vidro é instalada para cobri-lo. Então, depois de uma ou duas semanas nas quais o camundongo se recupera da cirurgia, sua cabeça é colocada sob a lente de um microscópio que emite pulsos breves e extremamente intensos de luz de um laser infra­ vermelho através do vidro da janela e no cérebro do camundongo. Essa luz é capaz de excitar com eficácia moléculas fluorescentes em um único plano focal, até cerca de meio milímetro de profundidade no cérebro. Essas moléculas, por sua vez, emitem luz de um comprimento de onda mais longo e visível, e essa luz azul, verde ou vermelha é capturada por um sensor insta­ lado no microscópio para formar uma imagem clara de estruturas por trás da superfície opaca do cérebro vivo. A essa altura, imagino que você esteja pensando: “Tudo isso é muito interessante, mas o que tem a ver com o futuro do prazer?” Tenha um pouco mais de paciência e você verá. 

Uma dificuldade com a microscopia multifóton é que relativamente pou­cas moléculas dos neurônios são naturalmente fluorescentes. Para enxergar a estrutura dos neurônios no cérebro vivo, moléculas fluorescentes devem ser artificialmente introduzidas. No entanto, uma vantagem dessa técnica é que sondas fluorescentes podem ser projetadas para mensurar diferentes aspectos da estrutura e funcionamento neuronal. Uma molécula que brilha constantemente e se difunde por toda parte na célula mostrará o contorno geral da célula e pode ser utilizada para mensurar mudanças microestrutu- rais nos neurônios. Outras moléculas podem ser utilizadas para informar a concentração local de íons cálcio (que é um proxy para a atividade de spikes) ou até do potencial elétrico pela superfície da membrana neuronal. Moléculas fluorescentes ligadas a receptores de neurotransmissor podem ser utilizadas para mensurar o número de moléculas receptoras em dada sinapse. 

Essas técnicas de medição óptica foram recentemente complementa­das com outra série de ferramentas para manipular a atividade de neurônios com luz. Vários laboratórios diferentes, com destaque para o de Karl Deisseroth, da Stanford University, têm desenvolvido proteínas capazes de ativar ou inibir neurônios muito rapidamente quando absorvem várias cores de luz. Por exemplo, uma proteína chamada de canal rodopsina-2 proveniente de uma alga absorve a luz azul e abre rapidamente um canal iônico que permite o influxo de íons positivos. Quando essa proteína é expressa em neurônios (utilizando vários truques genéticos), lampejos de luz azul podem acionar potenciais de ação com precisão de milissegundos. Outra proteína microbiana chamada halor-hodopsina tem o efeito opos­to. Quando iluminada com luz amarela, ela inibe a descarga contínua de neurônios. Neurofisiologistas têm se mostrado extremamente interessados nessas ferramentas, e um empenho considerável tem sido direcionado para a sua otimização e aplicação. 

Então, eis um resumo dos últimos avanços: podemos utilizar a microscopia multifóton e moléculas ativadas por luz para registrar a atividade elé­trica e a estrutura de neurônios individuais, e podemos ativar e inibir com precisão esses neurônios de uma forma que requer a perfuração do crânio até uma profundidade de cerca de meio milímetro mas que deixa o cérebro intacto. Isso significa que podemos acessar as camadas externas do neocórtex, bulbos olfatórios e cerebelo, mas não o centro do circuito do prazer, centros emocionais, regiões de controle hormonal, e assim por diante, que se localizam profundamente no cérebro. Se quisermos utilizar técnicas ópticas para mensurar e estimular neurônios nessas estruturas mais profundas, deve­mos inserir uma fibra ótica para emitir e capturar a luz - processo que causa significativos danos ao cérebro. Em qualquer uma das técnicas, é necessário perfurar o crânio e instalar um volumoso equipamento auxiliar (microscó­pio, laser etc.). As técnicas de sondas fluorescentes para a mensuração ou de canais iônicos acionados pela luz para o controle óptico da atividade devem ser aplicadas por meio de truques genéticos, infecção viral ou, em alguns casos, injeção de pequenas sondas moleculares. Há um raio de esperança, contudo, no fato de truques genéticos ou vírus poderem ser construídos para levar sondas direcionadas a subpopulações específicas de neurônios. Classes diferentes de neurônios e neuroglias se posicionam apinhadas no cérebro. Por exemplo, os neurônios de dopamina da ATV se lo­calizam adjacentes às neuroglias e outros neurônios não dopaminérgicos da ATV. Se utilizarmos técnicas ópticas para mensurar ou controlar a atividade dos neurônios de dopamina da ATV, como podemos ter certeza de estarmos analisando a célula certa e não meramente seu vizinho não dopaminérgico? Uma estratégia seria tentar encontrar um gene expresso somente nos neu­rônios de dopamina (talvez o transportador de dopamina) e utilizar seus elementos de controle para forçar a expressão da canal rodopsina-2 apenas nessas células. Então, quando lampejos de luz azul forem emitidos na ATV, só as células de dopamina serão acionadas para descarregar spikes. Atual­mente, esse tipo de estratégia, combinando a genética e a óptica, constitui o maior avanço em termos de controle específico e mensuração de neurônios identificados no cérebro vivo. 

Vamos fingir por um momento que somos escritores de ficção científica e imaginar um futuro distante no qual o sonho do neurofisiologista se concre­tizou. Talvez isso envolva alguma forma das tecnologias que terão evoluído a partir dos atuais microscópios multifóton e controles ópticos do funcionamen­to neuronal. Basta colocar um boné de beisebol equipado com instrumentos capazes de controlar com precisão a atividade de qualquer combinação de neu­rônios identificados no seu cérebro. Quais são as possibilidades disso no que diz respeito ao prazer? Vamos começar com o cenário mais simples e avançar nas nossas especulações a partir daí. Você, sem dúvida, poderia vivenciar uma sensação prazerosa similar à sentida pelos ratos de Olds ou os pacientes de Heath em resposta à estimulação do circuito central do prazer no prosencéfalo medial. Você poderia, por exemplo, simular os prazeres associados a um barato de heroína ou um orgasmo. O mais difícil de imaginar seria como o controle fino dos circuitos neurais poderia levar a prazeres mais sutis com novos matizes e combinações. Por exemplo, sabemos que a heroína ativa os neurônios de dopamina da ATV (e outras regiões). Também sabe­mos que os neurônios de dopamina da ATV se projetam a inúmeras regiões almejadas (o núcleo accumbens, o corpo estriado dorsal, a ínsula, o córtex or- bitofrontal etc.). Qual seria a sensação de estimular apenas um subconjunto dessas projeções neurais ou determinado grupo em determinada sequência? Todo um parâmetro espacial de prazer artificial poderia ser explorado, com um grupo muito mais sutil e variado de experiências que podem ser mobili­zadas por substâncias como a heroína ou a cocaína ou comportamentos como transar, comer ou jogar. Imagine que o seu boné de beisebol abra uma janela no seu campo de visão e essa janela tenha um conjunto de controles deslizantes que você poderá controlar com movimentos oculares. Você pode misturar um pouco de sensação sexual com a emoção da sensação de risco e uma pitada de saciedade alimentar. Você pode manipular as suas emoções em conjun­to com esses prazeres, talvez acrescentando só um pouco de dor à mistura para tornar tudo mais interessante, como comer um bom prato apimentado. As pessoas poderiam trocar as próprias receitas de prazer da mesma manei­ra como hoje divulgam “relatos de viagem” sobre substâncias psicoativas no site www.erowid.org: “Tente 2 segundos de estimulação de alta frequência do núcleo accumbens seguidos de uma onda sustentada de oxitocina.” Como o seu boné também é um dispositivo de registro, você poderia programá-lo para mobilizar sequências específicas de prazer em resposta a determinadas experiências sensoriais no mundo real (ou no mundo virtual). E, é claro, você poderia escolher conectar seu boné de beisebol em rede com outros usuários permitindo todos os tipos de interação. 

E o que dizer do vício? Será que grande parcela da população não se viciará no boné? Talvez, mas, se o seu boné for capaz de controlar os cir­cuitos neurais com tanta precisão, ele provavelmente também será capaz de desvincular prazer e vício. Se o vício é mediado por mudanças como a LTP nas fibras utilizadoras de glutamato recebidas pelos neurônios de dopamina da ATV ou alterações na excitabilidade intrínseca dos neurônios no núcleo accumbens, uma sequência de estimulação no final da sessão poderá reinicia­lizar essas sinapses ou os canais iônicos para combater o desenvolvimento do vício (o boné também poderia apagar parte da memória da experiên­cia). Naturalmente, esse tratamento poderia ser aplicado para reinicializar o funcionamento do circuito do prazer também em vícios convencionais (não provocados pelo boné de beisebol). 

Porque o arco não pode se manter sempre curvado nem a natureza humana ou a fragilidade humana podem subsistir sem uma recreação permitida por lei. 

Miguel de Cervantes Saavedra, Don Quixote de la Mancha, 1605 

Talvez a maior dificuldade de imaginar o futuro distante do prazer não seja a tecnologia envolvida, mas os sistemas sociais, legais e financeiros que a cercam. Quando alguém puder controlar com precisão seus circuitos de pra­zer com um dispositivo de custo acessível montado na cabeça, como essa possibilidade será utilizada, abusada, comercializada e regulamentada? Se a nossa experiência passada com substâncias psicoativas for alguma indicação, estaremos diante de um grande caos. Em vários momentos do nosso passa­do recente, álcool, nicotina, heroína e cocaína foram legalizados, banidos, tributados e regulamentados pelo governo. Nossas políticas relativas às dro­gas refletem uma rede complexa de interesses conflitantes. Da perspectiva capitalista, temos promovido e continuamos a promover a venda e o uso de substâncias psicoativas porque elas geram enormes lucros. Da perspectiva médica e social, buscamos banir ou restringir as substâncias psicoativas que causam danos ou vício. Mas nossas leis nem sempre refletem o verdadeiro risco de várias substâncias à sociedade: o tabaco é altamente viciante e o tabagismo mata milhões de pessoas todos os anos, apesar de ser a substância mais tolerada. É quase impossível se matar com cânabis e, no entanto, ela permanece criminalizada. Não acredito que o desenvolvimento de tecno­logias futuras de prazer será regulamentado ou comercializado de maneira mais racional. Muito provavelmente enfrentaremos um desastre política e comercialmente orientado, como acontece com nossas leis atuais relativas às drogas.
Se o prazer eufórico for desassociado do vício, como nossas normas le­gais, sociais e religiosas para a utilização de substâncias psicoativas muda­rão? Costumamos falar da boca para fora sobre a ideia de que o vício é uma doença fisiológica, mas a maioria de nós continua a cultivar a noção de que, em algum nível, o vício representa uma falta de força de vontade. E, o mais importante, essa noção fundamenta nosso sistema financeiro médico, no qual a maioria das seguradoras não paga pelo tratamento contínuo do vício, e o nosso sistema legal, no qual os viciados são em geral punidos e não tra­tados. Quando o boné do prazer for disponibilizado, precisaremos repensar nossas noções morais sobre o prazer. Se todos os tipos de prazer puderem ser sentidos sem risco de vício, será que ainda veremos a moderação como uma virtude? Será que ainda consideraremos o prazer algo que deve ser con­quistado pelo trabalho duro ou pelo sacrifício? Talvez essas previsões sociais sejam as mais difíceis de elaborar com precisão. 

No fim das contas, contudo, pensar sobre o futuro do prazer diz respeito ao indivíduo. Se o prazer for ubíquo, o que acontecerá com o nosso “super-poder” humano de sermos capazes de associar o prazer a ideias abstratas? Será que ele será varrido em um mar de ruído de fundo? Se o prazer estiver por toda parte, será que as metas exclusivamente humanas continuarão a existir? Quando o prazer for onipresente, o que desejaremos?

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Em qualquer das hipóteses, casa-te: se te couber uma boa esposa, serás feliz. Caso contrário, te tornarás filósofo – o que é excelente, para um homem…

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Tendas da transpiração
Tenda indígena anos 1900 | Vintage Photographers

Encontram-se «Tendas de Transpiração» na maior parte das culturas dos EUA. Peles ou outros materiais são esticados por cima de uma armação simples em madeira e o ar no interior é aquecido por toros de madeira a arder ou pedras quentes e por cima espalha-se água. A tenda de transpiração combina os quatro elementos do Universo: terra, água, ar e fogo, em uma estrutura sagrada que é importante para a cultura nativa estadunidense atual como o foi há séculos. São três os objetivos para tomar parte numa cerimônia que inclua a tenda de transpiração: limpeza do corpo, purificação da mente e ligação aos deuses. A transpiração elimina as toxinas do corpo através dos poros da pele e o soar dos tambores ou dos cânticos durante a cerimônia provoca a concentração da mente. Quando os participantes têm um corpo e uma mente purificados,ficam em condições de entrar em contado com os deuses. No passado,os xamãs (ou curandeiros) usavam as tendas de transpiração para invocar os mais poderosos espíritos do Universo e pedir-lhes ajuda nas épocas de adversidade.

KINGSTON, Deanna Paniataaq. Mitologia norte-americana. in: CHEERS, Gordon (org.). Mitologia: Mitos e lendas de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter Editora, 2011. Cap. 6. p.438
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12/9/2017 3:58:37 PM | Por Pierre Grimal
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WOOD, Julliete. O Voo da Águia. In.: __________. O Livro Celta da Vida e da Morte: Um guia ilustrado. São Paulo/SP: Pensamento, 2011. p.13.
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