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A percepção da música na antiguidade era muito mais abrangente no uso dos sentidos e na proposta de harmonização entre homem e universo.

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O que opõe o Norte industrial ao Sul agrícola é uma divergência mais de ordem econômica: o primeiro é protecionista, o segundo quer a liberdade de comércio. Não é, portanto, a questão do escravismo que pode explicar a origem das hostilidades e de um conflito que causará a morte de mais de 600 mil estadunidenses

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A vida cotidiana na Roma do tempo de Messalina é infernal. Reinam a desordem, o barulho, os desmoronamentos, os incêndios. Mas por nada no mundo os romanos deixam sua cidade.

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1/22/2018 3:21:39 PM | Por Catherine Salles
Civilização Micênica
Texto
Os túmulos dos Átridas

Sob um céu de um azul intenso ao centro de uma coroa de montanhas áridas, a acrópole de Micenas ergue suas maciças fortificações. Em um espaço circular, situado ao longo da rampa que leva à porta do palácio, dezenas de operários escavam o solo sob o calo acabrunhante do sol. Ao redor deles, varias estelas de pedra gravadas com motivos em espiral, enquadrando cenas de caça, indicam que o local já abriga vários túmulos. Trata-se nesse momento de realizar o enterro de um dos reis de Micenas, cuja ultima morada ficara perto do palácio onde viveu. Os operários escavam na rocha um grande fosso retangular de 4 metros per 6,40 metros, porque sabem que será utilizado em seguida para outros enterros. Os dignitários e a família escoltam os despojos reais carregados por escravos e vestidos com seus mais belos trajes. Os despojos são depositados no fundo do fosso. Os criados devem agora realizar o ornamento funerário do cadáver. Tudo o que vai ser levado ao fosso é destinado a celebrar por toda a eternidade a potencia e a superioridade do rei que acaba de morrer, a provar que foi o mais corajoso, o mais rico e o mais influente de sua geração. Seu corpo vai desaparecer sob placas de ouro, porque essa exposição de riquezas confere sua legitimidade ao poder que deteve. Sobre o rosto do morto, um escravo põe uma lamina de ouro que reproduz com realismo sua fisionomia: olhos fechados pela morte, bigode e barba representados por delicadas incisões. Não se trata, propriamente falando; de uma mascara funerária modelada diretamente sobre o rosto do morto, visto que há um espaço entre o rosto e a máscara. Escravos envolvem em seguida os membros com faixas de ouro. Costuram finalmente sobre os trajes placas de ouro trabalhadas, representando folhas e rosáceas. O corpo já á comparável a um ídolo precioso que brilha na penumbra do fosso.

É o momento agora de colocar em torno do defunto os diferentes objetos que o acompanharão no além. Tudo o que contribuiu para sua glória foi reunido para ser enterrado com ele. São, em primeiro lugar, os símbolos do poder real que exerceu em vida: varias coroas e diademas de ouro, anéis que levam seu selo, sinetes de pedra dura gravadas com personagens, com animais, com cenas religiosas. Colares de ametista e perolas de ouro, braceletes, anéis, milhares de perolas de âmbar espalhadas sobre o solo relembram sua grande fortuna. Para comprovar a bravura na guerra do rei desaparecido, um arsenal de armas é disposto sobre o solo: espadas maciças de bronze com empunhadura de ouro ou encrustado de lápis-lazúli e cristal de rocha, punhais com as lâminas marchetadas de ouro e de electro (liga natural de ouro e prata), objetos ornados com cenas de caça, de animais marinhos e de espirais decorativas, cinturões e boldriés. Esse instrumental funerário é completado por vasos de metais preciosos ou de alabastro, louça de ouro e prata, pequenas esculturas de marfim de feitura delicada, modelos de terracota de carros de guerra, de navios e de tronos.

Os escravos depositam com precaução as peças principais desse tesouro real, dois rhytons (vasos sagrados para as libações), um em forma de cabeça de leão, feito de ouro martelado de forma geométrica, e outro de prata com aparência de uma cabeça de touro com chifres e com uma rosácea frontal de ouro. Um recipiente de cristal de rocha, representando um pato virando a cabeça, surpreende por sua leveza e sua fragilidade no meio dessas oferendas brilhantes que cobrem o espaço que cerca o corpo.

Todas as riquezas de um luxo inaudito vão desaparecer aos olhos dos vivos, pois, agora, é necessário abandonar a morte a sua ultima morada. Em torno de todo o largo fosso cercado de muros de pedras secas, os operários colocam vigas horizontais a uma altura de cerca de 75 centímetros acima do solo. A seguir, constroem sobre essa estrutura um teto de juncos e de palha, que é recoberto com uma camada de argila. Espalham terra sobre o tumulo assim fechado e erguem uma estela de pedra. Todos os assistentes fazem libações sobre o tumulo e compartilham uma refeição funerária cujos restos são recobertos de terra.

Quando for necessário enterrar outro membro da família, os operários destruirão o teto do tumulo, depositarão o novo corpo, e se necessário, afastando o primeiro para um canto. Em seguida, tudo será reposto de maneira idêntica, a espera de um próximo enterro. Mais tarde um pequeno muro circular de pedras secas cercará o conjunto dos tumulo escavados nesse local para protegê-los das degradações.

 

O esplendor da Idade do Bronze

A descoberta do esplendor da civilização micênica Instalada no mundo egeu, entre os séculos XVII e XII a.e.c., é tão surpreendente como aquela do mundo minoico descoberta per Arthur Evans. Os gregos da época clássica podem ver ainda as ruínas de Micenas, de Tirinto ou Pilos, principais cidades dessa época antiga. Esses nomes evocam para eles episódios marcantes da mitologia.

Sobre Micenas, "rica em ouro", segundo Homero, reinou a funesta dinastia dos Atridas, cujos crimes monstruosos ainda provocam horror: o fundador, Atreu, para vingar-se de seu irmão Tieste, que tinha seduzido sua mulher, serviu-lhe, durante uma refeição, a carne de seus próprios filhos. A descendência de Atreu é maldita: seu filho Agamenon, designado como o grande rei da expedição grega contra Troia, aceita imolar sua filha Ifigênia para obter ventos favoráveis. Ao regressar de Troia, e assassinado per sua mulher Clitemnestra, e esta veio a ser degolada per seu filho Orestes. Perto de Micenas, Argos e Tirinto também foram palco de crimes lendários. Somente Pilos, a sudoeste do Peloponeso, evoca o velho Nestor, o mais sábio dos reis gregos.

Quando esses ricos reinos desmoronam entre os séculos XIII e XII a.e.c., muitos palácios são queimados e pilhadores se apoderam dos tesouros que eles contém. Assim, poucos elementos subsistem para permitir as gerações posteriores conhecer a potência dos micênicos.

Em 1841, o novo Estado grego manda escavar a acrópole de Micenas e a espetacular Porta das Leoas, enterrada ate o lintel, é descoberta inteiramente. Em 1876, o alemão Heinrich Schliemann traz à tona no interior da a acrópole de Micenas, um circulo de 6 túmulos reais (circulo  A) comendo 19 corpos, homens, mulheres e crianças, e um móvel funerário de um luxo inaudito: máscaras de ouro cobrindo o rosto dos homens, colares e diademas adornando as mulheres, joias, armas, num total de mais de 14 quilogramas de ouro. É realmente a Micenas, "rica em ouro", de Homero que acaba de ressuscitar. Schliemann se convence de ter descoberto os túmulos dos Atridas e julga reconhecer Em uma das mascaras funerárias o rosto de Agamenon. Em 1953, a exumação de um novo circulo de túmulos (circulo B), fora dos muros de Micenas, pouco mais antigo que o circulo A, permite dar uma explicação a certas obscuridades que subsistiam depois da descoberta principal de Schliemann.

Existente também, perto da acrópole de Micenas, túmulos coletivos em tholos (cúpulas), apresentados como os de Egisto, de Clitemnestra e de Agamenon. O deste ultimo, chamado também de "tesouro de Atreu", constitui o mais belo exemplo da arquitetura monumental micênica. Um longo corredor cortado na rocha leva a uma porta de 5 metros de altura, encimada de um lintel de dois blocos enormes, um dos quais pesa 120 toneladas. No interior, a câmara funerária circular é dominada por uma abóbada em cúpula de 13 metros de altura. É provável que esses túmulos em tholos contivessem tesouros comparáveis aos dos túmulos dos círculos A e B, mas foram pilhados desde a Antiguidade.

Durante todo o século XX, os arqueólogos descobrem no Peloponeso e na Grécia continental outras provas desse período histórico ate então desconhecido. Micenas se torna a cidade epônima dessa civilização grega do 2° milênio a.e.c., e o qualificativo "micênico" é conferido a todos os vestígios da Idade do Bronze exumados em quase 400 sítios arqueológicos da Grécia.

Numerosas hipóteses foram aventadas para explicar a presença dos micênicos na Grécia durante o 2° milênio. Hoje a prudência se impõe em relação às origens da civilização micênica, e parece que não é necessário procura-las fora da Grécia. Do mesmo modo, para justificar a importância do material funerário de Micenas, o mais rico de todos os túmulos conhecidos hoje na Grécia, não é necessário fazer intervir elementos externos. Parece muito mais provável que uma classe social dominante lentamente emergiu na Argólida, de cujas terras férteis, fonte de seu poder, progressivamente se apoderou.

Ao contrário dos minoicos, os micênicos são guerreiros, o que a robustez dos corpos descobertos nos túmulos e as numerosas armas defensivas e ofensivas em seu poder confirmam. As maciças fortalezas de Micenas, de Tirinto e de Pilos comprovam essa impressão. Os gregos atribuíam dos lendários ciclopes (gigantes de um só olho) essas construções "sobre-humanas": os blocos irregulares e mal desbastados dos muros de Tirinto podem pesar ate 13 toneladas cada um, o lintel da Porta das Leoas tem um peso de mais de 20 toneladas. Além do aparato ciclópico dos muros micênicos, os tuneis, as passagens subterrâneas, as casamatas escavadas na espessura das muralhas confirmam também a elevada técnica dos engenheiros.

O palácio micênico se situa geralmente fora da cidade e suas fortificações lhe permitem sustentar um assedio. Três deles são conhecidos, os de Micenas, Tirinto e Pilos. Seu projeto é muito simples, bem distante da complexidade do palácio minoico. Um pórtico anterior e um vestíbulo conduzem a uma grande sala, o megaron, cujo teto é sustentado por quatro colunas e possui em seu centro uma lareira. Em torno do megaron, estão distribuídos os apartamentos reais e as salas cultuais. Depósitos e celeiros são construídos no entorno do palácio.

No palácio de Nestor em Pilos, os arqueólogos descobriram, precisamente antes da Primeira Guerra Mundial, 1.200 placas gravadas em linear B. Em 1952, dois ingleses, Michael Ventris e John Chadwick, tem a ideia, para decifrar esses textos, de aplicar-lhes os métodos utilizados durante a guerra de 1939 a 1945 para a decodificação das mensagens secretas alemãs. Chegam assim a decifrar essas placas e se dão conta de que sua língua silábica é uma forma arcaica do grego clássico.

Os documentos de Pilos, como os de Creta, contem inventários e listas de empregados. Essas placas dão preciosas informações sobre a sociedade micênica, que é extremamente hierarquizada. Cada reino é colocado sob a autoridade do wanax (chefe ou rei), o maior proprietário de terras. O wanax comanda o exercito, recolhe impostos e controla a administração do palácio. Ao lado dele está um personagem muito importante, o lawagetas, este também proprietário de numerosas terras, mas cujas funções são mal conhecidas. O séquito do rei se compõe de equetai, provavelmente oficiais, e telestai, encarregados da administração. O resto da população constitui o damos, ou povo. As placas mencionam também os escravos, essencialmente mulheres e crianças, que trabalham como empregados ou criados no palácio.

As placas de Pilos trazem também informações sobre a religião dos micênicos. Contém os nomes da maioria dos deuses que constituirão mais tarde o panteão grego clássico. Como os minoicos, os micênicos praticam frequentemente seu culto ao ar livre, perto de uma fonte ou caverna. Existem também locais de culto nas aglomerações. Subsistem ainda muitas incertezas sobre as cerimonias religiosas micênicas e sobre a função precisa de cada divindade. O estatuto das terras que constituem um reino micênico e sua distribuição entre grandes proprietários e camponeses livres são pouco evidentes. A produção agrícola é abundante e deve ser suficiente para a alimentação da população. A administração real recolhe impostos sobre as colheitas e taxas in natura.

O artesanato é florescente nas sociedades micênicas, como provam os vestígios arqueológicos. Centenas de operários trabalham nos palácios e nas cidades para fabricar tecidos, forjar armas, confeccionar peças de cerâmica. Os micênicos comerciam com países remotos, especialmente no Mediterrâneo ocidental, para obter os materiais de que necessitam, em particular marfim, cobre, necessário para a fabricação do bronze, ouro, pedras preciosas, massa de vidro. Eles exportam objetos manufaturados.

A potência refinada das obras de arte micênicas é surpreendente. A influencia minoica é sensível e operários cretenses vieram, indubitavelmente trabalhar na Grécia. Os afrescos que ornam as paredes dos palácios tem como temas procissões solenes, cenas de caça e de guerra. A decoração das cerâmicas, muito sóbria, se define por uma estilização um tanto rude. Os ourives sabem realizar obras-primas, como as figuras fortemente individualizadas das mascaras funerárias, a decoração marchetada dos punhais ou as minúsculas cabeças de alfinete trabalhadas. Duas canecas de ouro batido, provenientes de um tumulo de Vaphio, perto de Esparta, apresentam cenas de um realismo muito expressivo. O trabalho das pedras preciosas e do marfim é também marcante.

A civilização micênica desaparece por volta do século XII a.e.c. Os palácios são destruídos ou perdem sua importância. A escrita linear B é abandonada na Grécia. Atribuído durante muito tempo a invasores vindos do norte, esse desaparecimento deve, de fato, ter sido provocado por perturbações internas nos reinos. Esquecida ou mal conhecida durante séculos, a civilização micênica, graças às descobertas arqueológicas, tornou-se o elo indispensável para melhor compreender o remoto passado da Grécia clássica.

História - Idade Antiga - Antiguidade Clássica - Civilização Grega - Mitologia Grega - Aqueus - Micenas - Civilização Micênica - Átridas - Heinrich Schliemann - Agamenon
1/21/2018 9:05:52 AM | Por
Rússia
Texto
Khalkhin Gol: A batalha mais decisiva da qual ninguém ouviu falar

Em 2009, o presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, foi à capital da Mongólia, Ulan Bator, celebrar os 70 anos de um evento militar. Medvedev disparou flechas junto com o presidente mongol, Tsakhiagiin Elbegdorj, provou da bebida local, o airag (ou kumis, fermentado de leite), visitou monumentos do período comunista e fez um discurso: "A vitória em Khalkhin Gol, como sabemos, mudou a paisagem política internacional, convencendo o Japão a não entrar em guerra contra a União Soviética ao lado da Alemanha nazista, e tornou possível movimentar um grande número de tropas do Extremo Oriente para Moscou em 1941".

O que eles sabem - e não muita gente além deles - é que entre 11 de maio e 16 de setembro de 1939, 57 mil soviéticos enfrentaram 75 mil japoneses na fronteira da Mongólia com a China. É uma região desértica, sem recursos naturais importantes e infestada de mosquitos. Mas essa disputa por uma faixa minúscula de terra seca teve imenso impacto no destino da Segunda Guerra.

Três momentos costumam ser apresentados como definidores da derrota do Eixo. Um deles é o ataque a Pearl Harbor pelo Japão, em 7 de dezembro de 1941, tirando os Estados Unidos da neutralidade no conflito. Outro é a vitória soviética em Stalingrado, em 2 de fevereiro 1943, que pôs os nazistas para correr e os fez começar uma guerra defensiva, na qual de nada servia a estratégia, até então vitoriosa, de blitzkrieg ("guerra-relâmpago"). O terceiro foi a invasão da Normandia, o Dia D, em 6 de junho de 1944, orquestrada pelos Estados Unidos. Ela fez Hitler lutar em dois fronts, comprometendo ainda mais sua capacidade bélica.

Khalkhin Gol não foi menos fundamental. Sem essa derrota na Mongólia, o Japão poderia ter decidido invadir a União Soviética por terra, em vez de atacar Pearl Harbor - e isso seria capaz de inviabilizar a vitória russa sobre os alemães em Stalingrado, além de manter os Estados Unidos fora do conflito. Sem os Estados Unidos, o desfecho da guerra poderia ser muito diferente.

O local

A batalha de Khalkhin Gol aconteceu ao lado do rio Khalkhin, ou Halha (gol em mongol quer dizer "rio"; o gol do futebol é gool). Os japoneses preferem chamá-la de Incidente em Nomonhan por causa da vila mongol que delimita o outro lado do campo de batalha. De 11 de maio a 16 de setembro de 1939, soviéticos e japoneses se digladiaram no maior conflito entre tanques já visto até então. O historiador militar Edward Drea, autor do livro Nomonhan: Japanese-Soviet Tactical Combat (sem tradução), escreve sobre o tema desde os anos 1980. Segundo ele, um fator que dificultou a divulgação e a análise da importância do episódio foi a barreira linguística - os documentos estavam em russo e japonês. Outro é que, antes do fim do confronto, em 1º de setembro, a Alemanha invadiu a Polônia, o que é considerado o inicio oficial da Segunda Guerra. Drea e o historiador Alvin Coox (morto em 1999), da Universidade da Califórnia, foram os primeiros a destacar a importância de Khalkhin Gol.

"Foi uma das batalhas mais importantes da guerra. Ela sangrou os japoneses. Eles ficaram com medo da União Soviética e decidiram que os americanos seriam um alvo mais fácil", afirmou ao New York Times o especialista Chalmers Johnson, aluno de Coox. "Foi tão importante quanto Stalingrado."

O pretexto

O confronto aconteceu no meio do nada. Entre Nomonhan e o rio Khalkhin, são 25 km de deserto, ocasionalmente pontuados por arbustos e grama baixa. O rio chega a 150 m de largura, e o terreno é pantanoso em uma faixa de até 2 km em suas margens. A temperatura no verão bate nos 40 ºC.

Em 11 de maio de 1939, cerca de 80 membros da cavalaria mongol atravessaram o rio para que seus cavalos pastassem do outro lado - os cavalos ainda eram usados para transportar tropas, que lutavam desmontadas com metralhadoras, fuzis e morteiros. Em Nomonhan, estava uma patrulha de novatos japoneses, deixados lá justamente para não enfrentarem a guerra de verdade, que acontecia com a China, ao sul. Esses soldados, que também andavam a cavalo, expulsaram os mongóis a tiros, matando sete deles. 

Os japoneses sabiam no que estavam se metendo. Desde uma revolução em 1924, a Mongólia era uma república comunista fortemente próxima à União Soviética. Segundo Drea, os japoneses simplesmente estavam dispostos a "castigar os violadores de suas fronteiras", custasse o que custasse. A patrulha em Nomonhan não era parte do Exército Imperial Japonês, mas do Exército de Kwangtung, uma força especial para administrar as possessões japonesas em terra. A força havia sido criada após a vitória na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), que deu ao Japão uma faixa de terra ao norte da Coreia. Em 1910, o Japão anexou a Coreia por meio de um tratado. Em 1931, os radicais do exército de Kwangtung armaram um falso atentado chinês, desobedeceram ordens do comando geral em Tóquio e conquistaram por conta própria a Manchúria, território ao norte da China, instalando um governo marionete. 

Apesar da insubordinação, a riqueza da região fez os oficiais japoneses considerarem a conquista um fato consumado e aceitarem suas consequências. A partir daí, o Japão tinha 3 mil km de fronteira com a URSS para administrar. No ano anterior, os japoneses haviam tentado conquistar um pedaço de terra próximo ao lago Khazan, 130 km ao sul de Vladivostok, a cidade mais importante do Extremo Oriente russo. Os japoneses foram repelidos, mas lutaram em menor número, 7 mil contra 22950, e tiveram menos baixas que os russos: 526 mortos e 913 feridos, contra 717 e 2752. Não ficaram impressionados.

Segundo Drea, o Japão acreditava que os russos eram ferozes em combate, mas um tanto sem imaginação. Os expurgos no Exército feitos por Stalin a partir de 1935 teriam deixado o Exército Vermelho descerebrado, e os soldados, submissos e atemorizados, ficariam sem iniciativa se atingidos pela tenacidade japonesa. Os japoneses sabiam que suas armas eram inferiores às dos soviéticos, mas esperavam vencer com seu "espírito de guerra" superior, isto é, sendo corajosos de forma suicida. A tática favorita da infantaria japonesa era atacar à noite, chegar o mais próximo possível do inimigo, de preferência pelos flancos, e executar uma carga com baionetas e espadas - a famosa carga banzai, que os americanos veriam na Segunda Guerra.

Os mongóis voltaram com seus amigos russos dois dias depois do primeiro incidente. Os japoneses em Nomonhan pediram ajuda, e ela veio com as tropas do 64º regimento, com carros leves e tropas de infantaria. Inicialmente, conseguiram expulsar os russos e mongóis com as táticas dos manuais japoneses. Mas os russos voltaram mais uma vez, liquidando o 64º em 28 de maio.

No mês de junho, japoneses e russos se enfrentaram esporadicamente, enquanto traziam mais tropas. O número de combatentes, que se mediam antes em dezenas (foram 97 mortos na destruição do 64º regimento), logo chegou a milhares. Em 1º de julho, os japoneses lançaram um assalto noturno em larga escala, com 75 tanques. Apesar de sérios problemas de comunicação (os tanques chegaram muito antes da infantaria), os japoneses expulsaram os russos para o outro lado do rio. Mas isso durou pouco. Os russos contra-atacaram com 186 tanques e 233 carros blindados, dominando novamente as duas bordas do rio no dia 3. Os tanques japoneses, com blindagem e armas inferiores, foram trucidados pelos tanques soviéticos. ➽

A derrota japonesa

Pouco antes do início oficial da Segunda Guerra, o Japão, já aliado da Alemanha nazista, planejava usar a Mongólia como plataforma para chegar à União Soviética, abrindo um front no sul do país. Para isso, enviou à região de Nomonhan, na Mongólia, perto do rio Khalkhin, 75 mil homens, tanques e aviões. Depois de quase quatro meses de luta, no fim de agosto, os soviéticos começaram a cercá-los, movendo seus 498 tanques pelos flancos, principalmente pelo sul do campo de batalha. A infantaria atacou os japoneses de frente e pelo norte. Atordoados pelo barulho dos 577 aviões inimigos que propositalmente voavam baixo, os japoneses não ouviram a aproximação dos tanques. E foram inapelavelmente massacrados.

➽ Após mais duas semanas de impasse, no dia 23 de julho, os japoneses montaram outro grande ataque, com mais tanques, aviões e artilharia. Dessa vez, sua inferioridade tecnológica, logística e tática tornou-se gritante: a artilharia japonesa não conseguiu alcançar a russa para silenciá-la - os soldados japoneses marcharam sob tiros de artilharia e canhões e, por mais corajosos que fossem, morriam antes de alcançar os russos. Os aviões japoneses venciam os soviéticos no ar, mas o simples fato de terem de enfrentá-los, em vez de dar suporte à infantaria, diminuiu sua utilidade. Cinco mil soldados morreram antes que os japoneses desistissem do ataque.

Os japoneses fortificaram-se na retaguarda, enquanto tentavam preparar uma nova investida. O comandante soviético Georgy Zhukov, que mais tarde se tornaria o grande herói da defesa de Stalingrado, tinha uma carta na manga: contrariando tudo o que os japoneses esperavam, ele seria criativo. Em 20 de agosto, simulou um ataque frontal de infantaria, com 57 mil homens contra os cerca de 30 mil japoneses que resistiam. Era o tipo de coisa que os japoneses esperavam dos russos: força bruta, mas previsibilidade. Enquanto isso, 577 caças e bombardeiros os sobrevoavam constantemente, mesmo sem atirar. O objetivo era fazer barulho: sem que os japoneses percebessem, 498 tanques russos os cercavam pelo sul, enquanto parte da infantaria se movia silenciosamente pelo norte. Os japoneses acabaram totalmente cercados, mas, seguindo os preceitos da honra militar nipônica, recusaram-se a se render. Em 31 de agosto, passaram para o outro lado da fronteira estabelecida pelos soviéticos, e Zhukov considerou sua missão cumprida.

A frustração

O general Michitaru Matsubara planejava mais um contra-ataque quando, no dia 16 de setembro, recebeu a notícia de que sua guerra estava encerrada. Tóquio havia feito um acordo de paz com os soviéticos. Além do fracasso na batalha, pesou na decisão do comando japonês o fato de que a Alemanha também havia acabado de assinar um armistício com os soviéticos. O tratado de Molotov-Ribbentrop, firmado em 23 de agosto de 1939, garantiu a paz entre os dois países e fez com que a Polônia fosse dividida em duas partes após a invasão pelos alemães, em 1º de setembro. O governo japonês considerou o pacto uma traição de seus aliados nazistas, mas qualquer plano de enfrentar a União Soviética ia por água abaixo com ele.

Segundo Edward Drea, os japoneses consideravam os soviéticos seus "inimigos naturais" desde a vitória em 1905. A questão não era se atacariam a União Soviética, mas quando. A ideologia japonesa tinha o característico socialismo de direita de Hitler e Mussolini, isto é, grandes programas sociais, mas também grandes corporações nacionais apoiadas e controladas pelo governo - nada de livre mercado. Como o fascismo à europeia, era radicalmente anticomunista.

Havia duas doutrinas sobre como abordar a questão soviética. A chamada nanshin-hon ("atacar ao sul"), defendida pelos líderes da Marinha e do Exército em Tóquio, consistia em conquistar colônias e recursos no oceano Pacífico e depois focar a Ásia continental e a União Soviética. E havia a doutrina hokushin-hon, ("atacar ao norte"), defendida principalmente por oficiais do Exército de Kwangtung e por anticomunistas mais radicais, como o ex-ministro da guerra Sadao Araki (1877-1966). Essa corrente previa cortar as linhas de suprimentos soviéticos ao norte da Mongólia e conquistar o leste da Rússia, principalmente a cidade de Vladivostok.

A derrota japonesa em Khalkhin Gol tornou claras suas deficiências em terra e na produção de tanques - e enterrou a ala hokushin-hon. Além disso, depois do episódio, o general Matsubara foi levado a Tóquio e aposentado - uma imensa desonra.

Do outro lado do mundo, o acordo Molotov-Ribbentrop se provaria uma farsa. Em 22 de junho de 1941, Hitler invadiu a União Soviética, a começar pelos territórios que a própria URSS havia ganho com o acordo, como o nordeste da Polônia. O Japão, no entanto, preferiu não intervir. Tinha outros planos: em 7 de dezembro de 1941, a partir de seis porta-aviões, decolaram 373 caças, bombardeiros e torpedeiros. Dirigiam-se a Pearl Harbor, no Havaí, e sua missão era aniquilar a maior parte das tropas americanas no oceano Pacífico. Os EUA perderam quatro encouraçados e dois destróieres, além de 188 aviões e 2402 soldados. Vários navios, danificados, levariam meses para sair novamente do estaleiro.

Os americanos não estavam em guerra com o Japão e a Alemanha, e a opinião pública era maciçamente contra o envolvimento numa guerra que era vista como assunto interno europeu. No dia seguinte, no entanto, eles declararam guerra ao Japão e, em 11 de dezembro, Itália e Alemanha declararam guerra aos EUA.

"Se o Japão tivesse atacado a União Soviética no verão de 1941, o choque de uma guerra de dois fronts poderia ter feito os soviéticos desabarem (o outro front era o efetivo enfrentamento contra os alemães). Sem os Estados Unidos na guerra, os parceiros do Eixo seriam capazes de garantir um acordo de paz, criando uma União Soviética enfraquecida e fragmentada", diz Drea. Esse cenário facilitaria a vitória final de Hitler. Sem Khalkhin Gol, o mundo poderia ser outro. Provavelmente, pior.

História, Idade contemporânea, Século XX, União Soviética, URSS, Japão, Segunda guerra mundial, Khalkhin Gol
12/28/2017 6:23:19 PM | Por Pierre Grimal
Civilização Romana
Texto
As mulheres, o casamento e o poder na Roma imperial

No fim da República romana, o casamento tinha-se transformado em um instrumento político: o poder, que algumas famílias partilhavam entre si, ciosas dos seus privilégios e fortemente decididas a protegê-los contra os intrusos, pertencia àqueles a quem o nascimento ou as alianças das suas gens destinavam às magistraturas. Aliás, as uniões eram reali­zadas apenas com conhecimento de causa e os caprichos do coração não eram de modo nenhum tidos em conta. Por estas mesmas razões, não hesitavam no divórcio quando os interesses o exigiam. No entanto, en­volvendo uma contradição de graves consequências, não se deixava de considerar que estes mesmos casamentos, tão frágeis, eram essenciais à sobrevivência de uma sociedade que não chegava a esquecer totalmente as suas origens patriarcais. Uma das primeiras preocupações de Augusto quando começou a reorganizar o Estado foi forçar os principais cida­dãos a assumir este dever, de que pretendiam dispensar-se1. Durante o Império, os senadores foram obrigados, a bem ou a mal, a tomar mulher - não uma esposa qualquer, mas uma mulher com o seu estatuto, a fim de ser mantida esta aristocracia que César tinha, de fato, enfraquecido, mas à qual Augusto e os seus sucessores se propunham confiar uma parte das responsabilidades tradicionais. 

No entanto, o casamento era insuficiente só por si para garantir a intimidade dos cônjuges. Muitos foram, decerto, os homens e as mulhe­res que procuraram fora do casal a felicidade ou o prazer que nele não encontravam. Sêneca podia escrever à mãe: “O maior mal deste século, a imoralidade, não te levou a juntares-te à maioria”2. Parece realmente que, a acreditarmos nos autores romanos, entre os quais sobressai a voz de Juvenal, muitas esposas não foram fiéis ao seu juramento. Por seu lado, como sabemos, os maridos podiam exibir sem escândalo ligações que não os desonravam. Apesar de tudo, o casamento em si mesmo con­tinuava a ser uma instituição a que até os mais dissolutos prestavam homenagem. Era no casamento, fosse ou não respeitado, que se afirma­va o orgulho de uma casta: à medida que as mulheres conquistavam uma maior liberdade, tornavam-se conscientes do seu papel na cidade. As melhores delas aspiravam a compartilhar plenamente as preocupações do marido, a mostrarem-se dignas dos seus antepassados e, mais em geral, do nome romano. O amor ganhava, então, para elas, um outro aspecto. Já não era, como nos tempos antigos, obediência, respeito, apagamento, mas tornava-se estima, devoção, por vezes, camaradagem, ou mesmo cumplicidade. A perspectiva da vida conjugal transformava-se: as relações carnais e a procriação perdiam a sua tirânica importância e, em seu lugar, nascia a amizade. 

Nesta evolução, é possível detectar a influência da filosofia grega. Já nos parecera que a aventura de Catão e Márcia evidenciava uma atitude comandada por imperativos e até por paradoxos estoicos, pois quer Crisipo quer Zenão advogaram, por vezes, a comunidade das mulheres3, pelo menos entre os sábios. Catão, na verdade, é o único homem do seu tempo a ter levado os princípios da seita até ao sublime e ao absurdo, mas houve à sua volta, bem como nas gerações que se seguiram, muitos espíritos seduzidos pelo pensamento estoico e cuja conduta nele se ins­pirou. Se é verdade que o estoicismo em muito contribuiu para formar a doutrina do Império, é certo também que dominou as almas e tanto mais quanto há longo tempo estavam preparadas para ouvir os seus ensinamentos. Durante todo o Império, os nobres romanos foram, na sua grande maioria, estoicos ou, pelo menos, iniciados nos princípios da moral estoica. 

Ora, enquanto os epicuristas consideravam o amor como a satisfação de um mero prazer carnal, os estoicos atribuíam-lhe um lugar de eleição na vida interior. Independentemente da sua desconfiança em re­lação a todas as paixões, não se resignavam a condenar esta, de que diziam ser “uma tentativa para criar a amizade graças à beleza”4. Cícero, que retoma a fórmula, sublinha com justiça o seu carácter platônico5. Naturalmente, a beleza que desperta o amor é, por princípio, a beleza moral, a da alma, mas esta beleza ideal transparece na beleza do corpo, que se torna, de algum modo, mediadora entre o amante e amado. Em teoria, há uma grande distância entre esta “amizade” filosófica e o amor carnal e, na prática, os filósofos desviavam os seus discípulos dos ata­lhos demasiado fáceis e demasiado tentadores. A perfeição do amor “estóico” não pode ser realizada senão na alma do sábio. Só este é capaz de suplantar os perigos que o sentimento amoroso envolve. Crisipo e os seus sucessores estavam bem conscientes das dificuldades que uma alma insuficientemente firme encontraria para distinguir o amor verdadeiro da sua caricatura carnal. Não se consideravam, no entanto, no direito de formular uma condenação de princípio contra uma forma de relação hu­mana que lhes parecia ser a única capaz de realizar plenamente a com­ preensão e a comunhão das consciências. 

Quando falavam do amor, os primeiros estoicos, como também o próprio Platão, pensavam sobretudo nas relações do sábio com os seus discípulos, nos “amores filosóficos”, cujo objeto eram os jovens. Mas logo a sua doutrina foi aplicada aos amores mais normais, vindo a defi­nir, de maneira muito geral, um “uso filosófico” do sentimento amoroso. Era costume citar a propósito um estoico chamado Trasônides, que res­peitara a jovem que amava e que tinha em seu poder, com receio de fazer nascer nela um sentimento de aversão6

Um amor baseado na estima e na participação nos mesmos valores morais, tal era o ideal que o estoicismo propunha aos seus adeptos roma­nos. Em uma sociedade onde a mulher gostava de afirmar a sua indepen­dência, o amor “estoico" oferecia-lhe a possibilidade de realizar plena­mente esta liberdade, salvaguardando ao mesmo tempo as exigências do seu coração. Por isso, não surpreende que os meios estoicos, durante o Império, nos facultem vários exemplos de mulheres que praticaram esta moral. 

A mais célebre dentre elas é, sem dúvida, Arria, mulher de Cecina Peto. Plínio, Em uma carta que lhe dedicou integralmente, preservou al­guns traços heróicos de que a sua família guardava devotadamente a lembrança7. Durante uma doença que atingira o marido e o filho, este último acabou por falecer. Arria fez por esconder a verdade a Peto. En­carregou-se ela mesma do funeral, resolveu tudo e, quando estava na presença do marido, fingia que o seu filho ainda estava vivo. E mais, diz Plínio, inventava mil detalhes consoladores: “Dormiu bem - dizia ela -, comeu com bastante apetite.” Depois, saía do quarto e dava livre curso às suas lágrimas e só reentrava depois de ter os olhos secos e o rosto sereno, como se, diz ainda Plínio, “tivesse deixado o seu luto à porta”. Só revelou a verdade ao marido quando este ficou suficientemente forte para a suportar. 

Cecina Peto tinha participado, na Ilíria, em uma revolta contra Cláudio e foi preso após o malogro dos insurrectos. Quando os soldados o em­barcavam em um navio para o conduzir a Roma. Arria suplicou aos guardas que a levassem com eles. “Vejamos - dizia-lhes ela vão ter que destinar ao cônsul alguns escravos para o alimentar, vestir e calçar. To­dos estes serviços, seria apenas eu a prestá-los.” Os soldados afastaram-na. Então, alugou um barco de pesca e, nesta frágil embarcação, seguiu o navio. Durante o processo, deu provas da mesma alma indomável. Como Víbia, a mulher de Escriboniano, o principal instigador da revol­ta, aceitava fazer revelações na sua presença, Arria gritou-lhe: “Que oiço eu? Escriboniano foi morto nos teus braços e tu estás viva?” Quando o marido foi condenado, foi a primeira a agarrar o punhal, espetou-o no peito e, em seguida, retirando a arma ensanguentada, estendeu-lha di­zendo: “Peto, não é doloroso!” 

Os seus filhos, no decurso do processo, tinham querido dissuadi-la de morrer. Ao seu genro, Trásea, que lhe perguntara: “Quererias, portan­to, que a tua filha morresse comigo, se eu tivesse de morrer?”, respon­deu: “Sim, se ela tivesse vivido contigo tanto tempo e em uma concórdia tão total como Peto viveu comigo.” Contudo, Arria teria podido viver feliz muitos anos. Era íntima amiga de Messalina e ninguém teria pensa­ do em incomodá-la, se não tivesse procurado ela mesma a morte8

Seria ofender estas mulheres explicar a sua conduta por um acesso de paixão. Elas não são levadas pelo desespero, mas pelo sentimento da honra: seria desonroso para elas, inhonestum, sobreviver ao naufrágio daquilo que fora toda a sua vida. Colocam acima de qualquer outro valor esta “fidelidade” a um compromisso que livremente celebraram e que nem sequer a morte do seu companheiro poderá dissolver. A sua atitude, por um lado, está próxima da das matronas de outrora, cuja honra obri­gava a permanecer univirae, a não contrair um segundo casamento, se o seu primeiro marido viesse a desaparecer, e, por outro lado, é totalmente diferente dela quanto ao espírito: sacrificando o resto da sua vida, não obedecem à opinião comum, aos imperativos de uma moral que é sobre­tudo negativa, mas têm a consciência de realizar elas mesmas uma esco­lha livre. A amizade que as une ao marido leva-as a compartilhar, total e espontaneamente, um ideal que não poderiam negar em face da morte. Este é, sem dúvida, o sentido da palavra “concórdia”, com que Arria explicava ao genro a sua vontade de morrer. Não pensava certamente no acordo burguês que poupa aos cônjuges as pequenas contrariedades da vida quotidiana, mas, pelo contrário, na identidade de espírito que é a própria definição da amizade estoica. 

Acontece que o maior filósofo deste tempo, o estoico Sêneca, também teve a experiência de um tal amor, pelo menos na última fase da sua vida. Tendo casado, depois de regressar do exílio, com uma mulher muito jovem, Paulina, quando ele mesmo já tinha atingido os cinquenta anos, viveu em uma grande intimidade com ela. Paulina velava cuidadosamente pela sua saúde, que foi sempre delicada, e Sêneca até se lamentava de ser amado com demasiada complacência. Todavia, acrescentava: “Como não posso fazer com que ela me ame com menos indulgência, é ela que faz com que eu me ame com maior atenção.”9 São afirmações suspeitas, dir-se-á, e ditadas pela vaidade de um velho que o amor de uma jovem lisonjeia. No entanto, alguns meses mais tarde, um acontecimento iria provar de maneira dramática a sua verdade. 

Foi Tácito que nos relatou os últimos momentos de Sêneca. Implica­do na conspiração de Pisão e já totalmente caído em desgraça, Sêneca recebe de Nero a ordem de se matar. Então, Paulina declara que não lhe sobreviverá de modo nenhum e pede “uma mão que a fira”. Ao ouvir isto, Sêneca, para não se opor à sua glória e, para além disso, motivado pelo afeto, para não a deixar sem defesa perante a injustiça, disse-lhe - a ela que ele amara com tanta ternura: 

“Mostrei-te o que podia tornar doce a tua vida, mas preferes a honra de morrer. Não recusarei de modo nenhum o direito de te tomares um exem­plo. Ainda que a nossa morte revele neste momento que a coragem de ambos tem igual firmeza, será o teu fim o mais sublime”. 

Após estas palavras, com um mesmo golpe, abrem as veias dos bra­ços. Sêneca, cujo o corpo estava velho e emagrecido por um regime ascético, só lentamente deixava escoar o sangue, pelo que abre igual­ mente as veias das pernas e dos jarretes. Então, esgotado por dores vio­lentas, temendo que o seu próprio sofrimento abalasse a vontade da sua mulher e que o espectáculo do suplício dela o enfraquecesse a si mesmo a ponto de não lhe permitir suportá-lo mais, persuade-a a que se retire para outra sala. 

Mas Nero, que não tinha em relação a Paulina nenhuma animosidade pessoal e também desejando evitar chocar a opinião pública, passan­do por cruel, ordena que tragam a jovem de volta à vida. Por ordem dos soldados, os escravos e os libertos fazem um ligadura nos braços e estan­cam a hemorragia sem que se saiba se a paciente tem consciência do que lhe estão a fazer. Como a multidão está sempre pronta a dar uma inter­pretação maldosa, não foram poucas as pessoas que julgaram que, en­quanto temera enfrentar um Nero implacável, quisera obter a glória de morrer com o seu marido, mas, depois, quando lhe surgiu uma esperan­ça mais favorável, rendeu-se à atração pela vida10

O estoicismo gostava de reconhecer às mulheres a possibilidade de atingir a “virtude” e pensava mesmo que isso era nelas um mérito maior do que nos homens, porque tinham de superar uma natureza mais domi­nada pela paixão e pelo instinto. Em um tratado sobre o casamento, de que só nos restam uns fragmentos mínimos, Sêneca afirmava que a primeira virtude de uma mulher era a sua pureza, virtude cardeal cuja perda arrui­nava todas as outras. Dava para isso várias razões, pertencendo algumas à moral tradicional (garantir a genuinidade da sua descendência e conti­nuar digna dos seus antepassados e da sua gens), mas uma delas, pelo menos, a que era mais importante, exprime o imperativo absoluto da seita: o respeito por si mesma, o cuidado pela sua própria liberdade. Uma mulher que não respeite a sua honra torna-se escrava da paixão do seu amante, já não é livre. 

Foi o respeito pela sua honra, escreve Sêneca, que elevou Lucrécia ao mesmo plano que Brutus e talvez a tenha colocado acima dele, porque foi com uma mulher que Brutus aprendeu que não podia ser escravo.11 

Mas não era apenas o carácter ilegítimo do amor adúltero que o tor­nava imoral. Há casamentos, diz ainda Sêneca, que são verdadeiros adul­térios: “É ser adúltero para com a sua própria mulher amá-la com um amor demasiado ardente.” A fórmula é retirada de um dos seus mestres, o estoico Sêxtio, e Sêneca retoma-a por sua conta, acrescentando: “O sábio deve amar a sua mulher por um ato de vontade deliberada, e não por um impulso de paixão”12

Esta teoria coerente do casamento estoico, elaborada pelos moralis­tas na própria Roma. redescobre, justificando-os, os velhos preceitos da tradição ancestral: agora como antes, deparamos com a mesma descon­fiança em relação à paixão e às forças cegas do instinto, com o mesmo ideal de castidade para os dois cônjuges. Mas os filósofos acrescentam uma nova exigência: é necessário que também o marido respeite a sua mulher e lhe seja fiel. Apenas assim será realizada aquela “amizade” que eleva o casamento acima das preocupações vulgares e lhe confere o seu verdadeiro valor. Que esta concepção do casamento não tenha sido pura teoria, mas que se tenha realizado pelo menos em alguns casais de elite, é o que os exemplos que citamos, aqueles que podemos apresentar, nos obrigam a acreditar. Por si só, a espiritualidade ancestral eleva-se a um ideal que anuncia, por certo, o do casamento cristão, mas permanece fiel à antiga moral, pelo menos na forma, com a diferença de que aquilo que era até então uma simples norma de conduta se tornar agora em uma atitude espiritual que encontra a sua justificação e a sua recompensa em si mesma. 

Uma vez aceita esta exigência moral, compreenderemos melhor as críticas, por vezes muito acerbas, que Sêneca dirige às mulheres do seu tempo, quando as acusa de “contar os seus anos, não pelos cônsules, mas segundo os sucessivos maridos”13. Não é mais condescendente com os homens que se deixam arrastar por outras paixões igualmente perigosas para o seu aperfeiçoamento interior: a cupidez, a ambição e o gosto do luxo. Todos estes arrebatamentos são igualmente culpados, mas, para uma mulher, as faltas contra a castidade são o principal perigo. A pri­meira condição da “vida feliz” deve ser, para ela, aprender a dominar o que temos de designar como a maldição feminina, este apelo dos senti­dos que a encontra geralmente sem defesa. Não falemos aqui de “des­prezo” em relação à mulher14. Sêneca não despreza Márcia, nem Hélvia, nem Paulina, mas sabe que o ideal que lhes propõe é elevado, difícil de atingir e que necessitarão de uma força de alma pouco comum para su­perar nelas o irracional e, ultrapassando o amor, chegar ao mais alto da amizade. 

 

*** 

 

Ao mesmo tempo que a aristocracia estoica elaborava assim, com a ajuda dos filósofos, uma moral do amor legítimo singularmente elevada e “moderna” nas suas ressonâncias, outras tendências viam a luz do dia, reforçadas pelas novas condições que o advento do poder monárquico criava. Do mesmo modo que o conjunto da civilização romana, a histó­ria do sentimento amoroso revela influências simultâneas e contraditóri­as, procedendo umas da mais autêntica tradição nacional e outras de um Oriente onde o helenismo realizou uma síntese de morais e místicas he­terogêneas. Em Roma, estas influências ombreiam umas com as outras. Talvez nos surpreenda saber que uma mulher como Arria foi amiga e parente de Messalina. Todavia, é necessário pôr de parte as nossas indig­nações virtuosas e renunciar a aplicar, sem os devidos matizes, juízos tradicionais, mas anacrônicos. Por fim, a moral do Ocidente “inclinou-se” para o lado de Arria. Mas é necessário admitir, no entanto, que esta escolha só se pôde efetuar porque existia outra coisa pela qual se podia optar. 

Ouvindo os poetas, nomeadamente Propércio, pareceu-nos que o amor carnal nem sempre foi objeto de uma condenação implícita, mas pôde ser considerado como uma exaltação quase divina do ser, ou mesmo um mediador entre o humano e sobre-humano. No próprio pensamento reli­gioso romano existiu esta tendência, apesar dos esforços do “puritanismo” senatorial para o mascarar e para lhe reduzir as consequências15. Era natural que, após a derrota do Senado no campo de batalha de Farsália, se produzisse uma violenta reação e que alguns romanos acreditassem que chegara o momento de reabilitar formas de vida que a moral tradi­cional reprovava, reação tanto mais compreensível por ocorrer depois das angústias da guerra civil e que às grandes tensões nacionais sempre se seguiu um abrandamento geral dos costumes. 

O herói desta moral (ou, se se preferir, desta imoralidade) nova foi Marco Antônio. Foi conduzido a ela pelo seu temperamento, que predis­punha a todos os excessos, e também por uma tradição familiar que pre­tendia que a gens Antônia descendia de Hércules, o Hércules das proe­zas heroicas e grandiosas, “monstro sagrado” que escapa às normas da moral vulgar, capaz de estrangular um leão com as suas mãos e de dar, em uma noite, cinquenta filhos às filhas de Téspio. Plutarco conta-nos como, na sua maneira de vestir, no seu modo de andar, Antônio se esforçou sempre por imitar Hércules16. Enquanto César lutava ainda na Espanha para aniquilar os últimos restos do partido senatorial, Antônio percorria a Itália com mimos e dançarinas17, parando à beira das estradas para dar banquetes em que bebia mais do que era razoável e que degeneravam em orgias. Durante algum tempo, a influência de Fúlvia e talvez também as repreensões de César colocaram um travão a este exaltado desejo de gozo, que chocava profundamente a opinião pública, pelo menos a dos aristocratas, porque parece que a plebe se apaixonou por ele como sendo um herói. 

Era difícil, em uma Itália instintivamente “burguesa”, dar à sua própria personagem dimensões míticas. César, que o tentava de modo mais sutil do que Antônio, não o conseguiu, tendo pago o seu fracasso com a vida. Mas este permanecia no Oriente e é aí que o Heraclida vai tentar viver o seu próprio mito. 

Na partilha do mundo que se seguiu ao fim do segundo triunvirato, Antônio obteve o Oriente e com uma facilidade tanto maior quanto Otávio ficava bastante satisfeito por afastar este aliado incerto de uma Itália onde, realmente, se disputava o futuro do mundo. A partir de 41, eis Antônio na Ásia Menor. Apresenta-se não como Hércules, como se­ ria de esperar, mas como Dioniso. Com efeito, expressas na mística des­te tempo, são várias as analogias entre Hércules e o deus das Ménades18: ambos são heróis triunfantes, desceram aos Infernos e penetraram nos segredos do além. Por outro lado, sabemos que os Ptolomeus atribuíram a si mesmos uma dupla ascendência que os relacionava com os dois. Estamos em um tempo em que os velhos mitos são objeto de uma exegese que umas vezes é sutil e outras complacente, prestando-se a todas as políticas. Ora, os reinos de Oriente tinham visto nascer e desenvolver-se confrarias de admiradores de Dioniso, que exerciam um grande poder sobre os espíritos. Estas confrarias recrutavam os seus elementos sobre­ tudo entre os “dionisiastas” - músicos, cantores, dançarinos -, cujo ofí­cio era precisamente colaborar, nas cidades, nas festas do deus. Logo que chega à Ásia Menor, vemos Antônio rodeado de artistas desta espé­cie, impondo-se junto dele, o que indigna fortemente Plutarco19: Quan­do fez a sua entrada em Éfeso, foi como um triunfador dionisíaco. Mu­lheres disfarçadas de bacantes, homens e jovens vestidos de sátiros e deuses Pã precediam o seu cortejo. A cidade estava cheia de hera e tirsos, liras, siringes e flautas, enquanto o povo o aclamava, chamando-lhe Dioniso, o benevolente, e Dioniso, o jubiloso20

Por trás desta aparente loucura ocultava-se uma intenção política. Pretendia atrair a si a simpatia popular e nada podia servir melhor as intenções de Antônio do que o apoio dos sectários do deus que pretendia encarnar. Herdeiro dos projetos de César, Antônio esperava empreen­der uma expedição à índia, para além do reino dos Partos. Quem não se recordava do triunfal passeio “militar” até às margens Ganges de que Dioniso fora o herói? Em Roma, tudo isto seria uma loucura, uma mas­carada sem dignidade. Em Éfeso, ao som de flautas e tamborins, era talvez sabedoria. 

Este foi o momento escolhido por Cleópatra para se apresentar ao futuro conquistador do mundo. Durante a guerra contra os assassinos de César, Cleópatra tinha apoiado o partido de Cássio, e Antônio, após a sua vitória, pretendia pedir-lhe contas. Enviou-lhe um mensageiro ordenando-lhe que se apresentasse na Cilicia para apresentar desculpas, se o pudesse fazer. Cleópatra, que conhecia bem Antônio, por tê-lo encontra­do em Roma - talvez por já ter sido aí sua amante21-, decidiu ir a Tarso e ter com ele uma conversa decisiva. Estava informada pelos seus agen­tes sobre a sua conduta desde a chegada à Ásia. Sabia quais eram as suas esperanças e os meios que usava e julgou que podia batê-lo no seu pró­prio terreno. Quando subiu o Cidno, fê-lo em uma embarcação real de popa dourada e com velas de púrpura. Os ramos estavam incrustados de di­nheiro. O ritmo era marcado aos remadores por flautas acompanhadas de liras e siringes. Ela mesma permanecia sob um dossel bordado a ouro, semelhante à deusa Afrodite, enquanto alguns Amores, como se via nas pinturas, estavam de pé, de ambos os lados da sua cama, refrescando-a com os seus leques. Dispersas entre a tripulação, servas jovens e belas representavam as Graças e as Nereides. Defumadores espalhavam os seus fumos aromáticos pelas margens22. A multidão acorreu de todo lado para gozar o espectáculo, pelo que, em pouco tempo, Antônio ficou só, no seu tribunal, no meio da ágora! Por toda a parte se espalhou o rumor de que a deusa Afrodite em pessoa viera alegrar-se com Dioniso para bene­fício da Ásia. 

Nessa mesma noite, no rio, houve uma festa extraordinária. Antônio, esquecendo que era ele o senhor e que a rainha vinha por sua ordem, aceitou a hospitalidade de Cleópatra na seu galera divina. Nesse mo­mento, começou uma aventura “inimitável” (foi essa a designação que os dois amantes deram à vida que levaram a partir daí) entre o novo Dioniso e a nova ísis. Voltaram ambos para Alexandria e, enquanto Fúlvia desencadeava a guerra civil na Itália, o marido entregava-se a mil facécias indignas de um romano, mas que encantavam a populaça egíp­cia. Ele e Cleópatra, à noite, corriam disfarçados pelas ruas, molestando os transeuntes, que lhes retribuíam as ofensas e, por vezes, lhes ganha­vam. No resto do tempo, Cleópatra jogava aos dados ou bebia com ele, caçava ou olhava-o a fazer armas. Foi uma época magnífica. Cleópatra sabia maravilhosamente importuná-lo e adulá-lo, ao mesmo tempo. Antônio fora um dia à pesca e a sorte não o estava a favorecer nada, deixando-o extremamente irritado, porque, como Cleópatra estava pre­sente, sentia-se humilhado. Pediu então, secretamente, a alguns pesca­dores que lá se encontravam para mergulharem e prenderem na sua linha peixes que já tinham. Antônio pensava ter salvo a sua honra e Cleópatra, aparentando acreditar, não lhe regateou elogios. Mas, para consigo, pen­sava na vingança. Organizou para o dia seguinte outra pescaria para a qual convidou um grande número de cortesãos. Depois, chegando antes de Antônio, encarregou um nadador de prender à linha deste um arenque salgado. Quando Antônio levantou a linha, todos se puseram a rir e Cleópatra gritou-lhe: “Imperator, deixa-nos a nós, gente de Faros e de Canopo, a preocupação com a pesca. A tua caça são as cidades, os reinos e os continentes”21

Enganar-nos-íamos, no entanto, se acreditássemos que Antônio estava completamente subjugado pela rainha. Não se tinha tomado, nas suas mãos, o instrumento dócil com que ela sonhava. Quando as notícias da Itália tornaram conhecidas as dificuldades em que Fúlvia o compro­metera sem o seu conhecimento, não hesitou em abandonar Alexandria e regressar à Grécia, indo depois a Brindes, onde acordou a paz com Otávio. Como a situação exigia um acordo duradouro e Fúlvia morrera entretanto, aceitou realizar um novo casamento, desta vez com Otávia, a irmã de Otávio. Provavelmente, não sentia realmente que era o “mari­do” da rainha: não era para ele senão uma concubina e apenas um pouco mais do que uma cortesã. Talvez a considerasse mesmo um instrumento para conseguir a anexação total do Oriente: afinal, os reis do Egito eram frequentemente feitos por casamento com a soberana do país. Con­tudo, de momento, era necessário esperar. O sonho de ser o soberano do Oriente não estava abandonado. Para realizá-lo, convinha, em primeiro lugar, ter as mãos livres na Itália, garantia que obteve com o casamento com Otávia. Durante três anos, sem mais se preocupar com Cleópatra, Antônio vai ser para a sua nova mulher um marido fiel. Mesmo quando tem de ir à Síria para chefiar as operações contra os Partas, na Primavera de 38, não aproveita a ocasião para se reencontrar com a rainha. Como é evidente, o seu amor por ela e a recordação do Inverno maravilhoso e da vida inimitável não ocupam de modo nenhum o seu espírito, o que não deixa de embaraçar um tanto os historiadores que querem explicar toda a história desta época com os encantos de Cleópatra. 

Há outros autores que, pelo contrário, reduzem o papel desempenhado pela rainha e asseguram que a política de Antônio a seu respeito, as concessões de territórios que lhe fez, não excedem, de maneira ne­nhuma, os limites das honras concedidas a reis vassalos que se desejava vincular à causa de Roma. Antônio não ignorava que estas transferên­cias de soberania não podiam ser senão temporárias e que mais cedo ou mais tarde Roma recuperaria as suas províncias. Além disso, os mesmos historiadores fazem notar, de acordo com testemunhos antigos, que Cleópatra, nesta altura, já não seria muito jovem e que Otávia era infi­nitamente mais sedutora do que ela. De fato, a questão não é talvez assim tão simples nem se situa apenas no plano da paixão. Otávia e Cleópatra simbolizam duas “tentações” de Antônio, tentações políticas ainda mais do que carnais, duas vias entre as quais era necessário esco­lher. Ora, se nos recordarmos de Pródico, é aplicar uma moral algo limi­tada pensar, que, destas duas vias, uma era a da virtude e outra a da indolência. Do lado de Otávia, estava Roma, com a tradição dos casa­mentos políticos e das alianças sabiamente doseadas, e a partilha do po­der com Otávio, uma partilha que, como Antônio bem sabe, só podia ser provisória. Do outro lado, estava Cleópatra, cujo apoio podia trans­formar o general romano em um soberano helenístico, velha tentação a que os imperatores que tinham tido a experiência do Oriente vinham resis­tindo com cada vez maior dificuldade. Junto da rainha, já mais de metade do caminho fora percorrido: em 40, nasceram os dois gêmeos que são fruto dos seus amores, Alexandre-Hélio e Cleópatra-Selênia, cujos no­mes astrais (o Sol e a Lua) dizem bem em que ambiente religioso eram educados. Antônio, em 37, encontrava-se realmente em uma encruzilhada. É necessário confessar, de fato, que a situação política na Itália, onde Otávio se esforçava, notoriamente, por eliminar os seus colegas do triunvirato, associados e cúmplices nos dias difíceis e agora rivais odia­dos, não o encorajava a permanecer inativo. A única possibilidade de Marco Antônio residia em uma vitória total no Oriente, no sucesso de uma aventura grandiosa que reduzisse a nada os cálculos ardilosos de Otávio. Ora, este prestígio acrescido, de que tinha uma tão grande necessidade e na ausência do qual seria infalivelmente eliminado da cena política, só o estreitamento da aliança com Cleópatra poderia dar-lhe. 

Cleópatra, por seu lado, também não estava inativa, e não era apenas, nem sobretudo, o amor que podia sentir em relação a Antônio que a motivava. Durante a ausência de Antônio, envolve-se em inúmeras intri­gas no Oriente. O seu objetivo é evidente: recuperar o “Grande Egito”, que englobava, anteriormente, sob a coroa dos Ptolomeus, uma par­te da Síria. Para o atingir, tem necessidade de se sentir segura perante Roma. O seu jogo consiste, em primeiro lugar, em manter o melhor que pode a divisão deste império, que, no tempo César, fracassou em devorar o seu reino, mas, melhor ainda, não perde a esperança de, graças a Antônio, fazer com que a potência romana sirva os seus desígnios. Nesta diplomacia, o amor é apenas um elemento, um meio entre outros, não é tudo. A propaganda otaviana popularizou a figura, tomada lendária, de um Antônio escravo dos sentidos e traidor da pátria, por complacência com a rainha, ou seja, um novo Hércules fiando aos pés de Ônfale. Era um excelente pretexto para justificar a ruptura definitiva com o senhor do Oriente, à volta do qual se reunia cada vez mais a oposição “republi­cana” que renascia. A propaganda otaviana não era decerto verdadeira, pelo menos, não era toda a verdade. 

Após o encontro de Tarento, na Primavera de 37, entre Otávio e Antônio, este regressou ao Oriente: a sua escolha estava feita. Retorna­va, após um interregno de três anos, os seus projetos de guerra contra o reino parto e a sua primeira decisão foi juntar-se a Cleópatra. Otávia continuava no Ocidente, confiada ao seu irmão. O Inverno de 37-36 pas­sou-o na Síria. Enquanto os preparativos de guerra prosseguiam, renas­ceu a intimidade entre Antônio e a rainha. As duas crianças de 40, Ale­xandre e Selênia, foram reconhecidas oficialmente, o que fazia de Antônio, do ponto de vista moral, o protetor do reino do Egito e o ligava mais estreitamente à dinastia legítima. Era uma solução muito hábil para o problema político colocado pelo Egito, cujo governo não era fácil. Antônio e Cleópatra opunham-se radicalmente um ao outro, devido a tudo o que representavam. A rainha tentava desesperadamente manter um reino anacrônico no mundo romano. Antônio esforçava-se por ligar mais estreitamente do que nunca este mesmo reino à sorte de Roma e por mobilizar as suas forças sem correr os riscos de uma anexa­ção declarada. Para realizar as suas intenções estes dois rivais, estas duas políticas, não tinham outro meio senão amar-se. Ora, e aí reside o mila­gre, nem a um nem ao outro isso desagradava. 

Parece que Antônio tinha perfeita consciência desta situação. Julgava-se chamado a um destino quase sobrenatural e gostava repetir que não confiava a sua linhagem a um ventre feminino apenas, que não era condicionado pelas leis de Sólon sobre a legitimidade da sua descendên­cia, mas deixava à natureza o cuidado de começar e fundar muitas dinas­tias.24 

O deus que tinha em si e o que o levava a amar, a prodigalizar-se em abraços sempre renovados, era o seu guia e a sua força. Não tinha sido Dioniso tanto o conquistador como o deus da orgia, da sexualidade de­senfreada? Quanto a Cleópatra, era a Ísis-Mãe, personificação da femi­nilidade e da fecundidade, de que são prova as suas sucessivas materni­dades, figura mística da esposa, que, com as suas carícias, devolvia a vida ao marido, que as potências do mal se obstinavam, em vão, por arrancar. No Egito, os Ptolomeus tinham inventado um deus novo, Serápis, em que se fundiam o antigo Osíris e o Dioniso grego, e este deus tinha-se tornado rapidamente popular em todo o mundo mediterrânico, a ponto de, na própria Roma, os poetas fazerem o seu elogio '’. Tudo estava pronto para a aventura “inimitável” dos dois aman­tes, unidos, quisessem-no ou não, por uma situação política que não tinha outra saída senão o seu amor e também pelos mitos que se tinham formado antes deles e os envolviam como a rede mágica em que Hefestos, em tempos muito antigos, tinha surpreendido os amores de Afrodite e Ares. 

Esta extraordinária situação prolongou-se durante seis anos. Otávia, que tinha compreendido Antônio e lhe era tão fiel como o tinha sido anteriormente Fúlvia, esforçou-se por dar-lhe o que ele pretendia de Cleópatra: armas e dinheiro. Veio até ao Oriente com estes presentes arrancados ao irmão. Ele teve a coragem de não sucumbir a esta tentação e de prosseguir no seu desígnio. O que eram dois ou três mil homens ao lado dos recursos de um reino? E depois, Cleópatra, face ao perigo, tornou-se insistente e entrou mais do que nunca na comédia do amor. Em breve, a ruptura estava consumada e Antônio, que se tornara de fato, como tencionara, rei helenístico, encontrou-se na obrigação de aceitar a guerra contra Roma. Assim terminou, nas águas de Áccio, este drama, que, se a fortuna tivesse dado a vitória à frota antoniana, teria alterado certamente a face do mundo. Porém, os encantos envelhecidos de Cleópatra não teriam tido nisso nenhuma responsabilidade. 

No entanto, a derrota de Antônio e o fim da “vida inimitável”, que se tornou em uma união na morte, não aboliram a experiência nem suprimi­ram a mística da realeza "dionisíaca”, que encontrará outros meios para sobreviver na própria Roma. 

Na noite que precedeu a morte de Antônio, cerca da meia-noite, en­quanto a cidade de Alexandria permanecia silenciosa, dominada pela angústia, eis que o ar se enche de uma música sobrenatural. Dir-se-ia os sons de uma infinidade de instrumentos diversos, acompanhando os cantos e os gritos de uma multidão de bacantes. Este tumulto encheu as ruas em um instante sem que ninguém fosse visto. Em seguida, deslocou-se e chegou à porta que se abria em direção ao inimigo. Aí, redobrou de intensidade e, abruptamente, terminou, como se a multidão invisível ti­vesse deixado a cidade. Todos os Alexandrinos entenderam e compreenderam: era Dioniso que abandonava Antônio26

De fato, era também o fim de uma era: a lei de Roma ia substituir a mística orgiástica de que Antônio e Cleópatra foram os últimos adeptos no trono dos Ptolomeus. Otávio, o novo senhor, era um conquistador triste. Arrastava atrás de si o puritanismo romano, cuja austeridade imi­tava sem dele ter as virtudes. Durante muito tempo, tinha tentado revol­tar a opinião romana contra Antônio, revelando o que chamava as suas “torpezas”, e Antônio, em cartas destinadas ao público, respondia-lhe com desenvoltura e sem qualquer pudor: 

"Por que te modificaste a meu respeito? É porque durmo com a rainha? Ela é a minha mulher. É por ter começado agora, ou porque dura há nove anos? E tu, será que dormes apenas com Drusila? Desejo-te uma imensa felicidade, se, quando tiveres lido esta carta, não te tiveres deitado já com Tertula ou Terentila ou Rufila ou Sálvia Titisénia ou qualquer uma das outras! Julgas que me incomodo em saber onde e com que mulher fazes amor?"27 

É certo que a conduta privada de Otávio não estava isenta de crítica: as que dirigia a Antônio soavam a falso na sua boca. 

A história dos seus amores assemelha-se bastante, aliás, à dos jovens nobres. Para começar, ficou noivo da filha de P. Servílio Isáurico, que pertencia ao clã de Servília, pois era neta desta28. A união, evidentemen­te, tinha sido projetada por César, entrando nos seus planos para refor­çar o regime. Todavia, quando terminou o segundo triunvirato, depois da guerra de Módena, os soldados de Antônio e os de Otávio exigiram que a aliança dos seus generais fosse selada por um casamento. Por conse­guinte, Otávio pôs termo ao seu noivado com Servília, a Jovem, e acei­tou a mão de Cláudia, uma filha de Fúlvia e P. Clódio, ou seja, nessa época, a enteada de Antônio, Cláudia era ainda uma criança: “mal tinha entrado na idade núbil”, diz Suetônio29. O casamento não foi consuma­do. Otávio usou o pretextou do seu diferendo com Fúlvia para repudiar a jovem aquando da guerra de Perúsia. 

No mesmo ano, no decurso da crise gravíssima que parecia poder abalar definitivamente a sorte de Otávio, este tentou uma aproximação com Sexto Pompeu, que parecia ser o árbitro da situação, e, como prova dos seus bons sentimentos, ofereceu-se para casar com Escribônia, que era tia de Sexto por afinidade. O assunto foi negociado por intermédio de Mecenas e a família de Escribônia apressou-se de aceitar o acordo. Mas não foi um casamento feliz. Escribônia já tinha sido casada duas vezes. Tinha filhos de pelo menos um destes casamentos (nomeadamen­te a jovem Cornélia, a quem Propércio, em 16 a.e.c., iria cantar as virtu­des e lamentar o fim prematuro31) e tomou rapidamente uma atitude au­toritária em relação ao marido, mais jovem do que ela (Otávio tinha então 23 anos), o que desagradou fortemente a este. No entanto, a sua união talvez tivesse durado, se, de súbito, Otávio não se tivesse apaixo­nado por outra mulher e não tivesse resolvido, apesar das dificuldades, efetuar, por fim, um casamento de amor. 

Escribônia, tendo casado com Otávio nos últimos meses de 40, tal­ vez mesmo no início de 3932, esperava um filho. Será Júlia, tão amada pelo pai e a quem ela recompensou bem mal um tal afeto. Após a paz de Miseno, celebrada no fim do Verão, acabaram as hostilidades entre os triúnviros e Sexto Pompeu. Escribônia já não era politicamente “útil”. Mas a paz teve ainda outra consequência que iria precipitar o seu repú­dio: os exilados foram amnistiados e entre eles encontravam-se Lívia Drusila e o seu marido Tibério Cláudio Nero. Ambos tinham tomado o partido de Lúcio Antônio, em Perúsia, e, após a derrota, tinham-se refu­giado junto de Sexto Pompeu, com quem, de resto, se entenderam bas­tante mal. Lívia tinha já um filho, que será, mais tarde, o imperador Tibério, mas era extremamente jovem: nascida a 30 de Janeiro de 58, não tinha ainda 19 anos no Outono de 39. Os seus retratos mostram-nos uma beleza calma, o rosto arredondado, a boca voluntariosa. Por isso, despertou no coração de Otávio uma viva paixão. Mas, à primeira vista, dois obstáculos opunham-se a este amor: Lívia era casada e esperava um segundo filho e, na sua família, havia razões sérias para odiar Otávio, dado que M. Lívio Druso Claudiano, o próprio pai de Lívia, tinha sido proscrito e havia-se suicidado depois da batalha de Filipos, onde tinha combatido ao lado de Brutus e de Cássio. Mas Otávio era o senhor e tudo vergou à sua frente. Logo que Escribônia deu à luz a sua filha, Otávio repudiou-a. Depois, conseguiu, não sabemos bem com que argumentos ou pressões, que Lívia lhe fosse entregue pelo próprio ma­rido, um pouco como, anteriormente, Catão, pela sua própria mão, ti­nha dado Márcia a Hortênsio33. Mas as circunstâncias eram bem dife­rentes! Antônio, em uma das cartas insultuosas que escreveu de Alexandria ao seu rival, assegura que Nero teve de ser testemunha da sua própria desonra, no dia em que, durante um banquete a que assistia com Lívia e Otávio, este, incapaz de resistir à paixão, deixou abruptamente a sala de jantar, levando Lívia para um quarto vizinho e trazendo-a de­pois com as orelhas vermelhas e o cabelo em desalinho.34 Nero, nestas condições, tinha que renunciar à mulher que o senhor desejava e Lívia, por seu lado, não podia fazer mais do que obedecer. Fê-lo com bastan­te relutância, parece jovem esposa, prestes a ser mãe segunda vez, repugnava-lhe abandonar o marido com quem partilhara os perigos da guerra e as dificuldades do exílio. Teve, no entanto, de deixar a casa do marido e instalou-se na de Otávio, onde, a 14 de Janeiro de 38, dava ao mundo um segundo filho, Druso. Três dias mais tarde, casava solenemente com Otávio, não sem que, antes, os sacerdotes tivessem as­segurado que os deuses não levantavam qualquer obstáculo a este ca­samento35. É claro que Antônio, por seu lado, não se comportava me­lhor, mas, a seus olhos, pelo menos, tinha a justificação de sentir-se um deus e comportar-se como tal. Quanto a Otávio, deixava-se arrastar simplesmente para uma imoralidade burguesa. 

Se, para casar com Lívia, Otávio não tivesse, então, de afrontar a opinião pública (que não se coibiu da maledicência), poderíamos pensar que não era apenas o amor que estava em causa nesta história: uma ali­ança com os Claudii, a gens muito aristocrática a que Lívia pertencia, consagrava, de alguma forma, a reconciliação entre o herdeiro de César e os proscritos de 43. Mas por que teriam de ser necessariamente insen­satos todos os casamentos de amor? O de Otávio, em todo o caso, foi-lhe extremamente vantajoso. 

No fim da vida, Augusto manifestava ainda a Lívia a sua ternura. No último momento, disse-lhe: “Lívia, recorda a nossa união, enquanto vi­veres. Adeus!” Foram as suas últimas palavras36. Não há dúvida de que, segundo o testemunho do próprio Augusto, este casamento, celebrado à pressa, com violência e escândalo, foi uma união feliz. No entanto, se não quisermos julgar apenas pelas aparências, como podemos chamar feliz um casamento que ficou estéril, ou quase (só nasceu um filho, mas não sobreviveu), e quando a ausência de herdeiro direto constituiu para Augusto um drama que carregou a vida inteira? Seria feliz, ainda, um casamento durante o qual Lívia permaneceu fiel, mas que teve muitas aventuras conduzidas por Augusto com toda a liberdade, às vezes mes­mo com a cumplicidade da mulher? Se Augusto o avalia diferentemente de como somos tentados a fazê-lo, é porque não se sentia sujeito aos imperativos comuns e porque, à semelhança dos Romanos do seu tem­po, punha acima dos “acidentes” da carne esta concordia, esta identida­de de vontades, que nos pareceu ser a grande conquista do amor romano. 

Os próprios amigos de Augusto não negavam os seus adultérios, como nos diz Suetônio. Desculpavam-no, assegurando que não os cometia por gostar do deboche, mas por cálculo, a fim de melhor se informar sobre os segredos dos maridos a que seduzia as mulheres37, um argumento que não é talvez muito convincente e que, a ser verdadeiro, não é lá muito abonatório do príncipe. Pouco faltou, aliás, para que uma destas aventu­ras se virasse contra ele. Teve uma longa ligação com Terência, a mulher do seu mais antigo partidário, Mecenas. Seria para vigiar este, em geral silencioso e secreto? Tal não é, por certo, impossível, pois dizia-se que Terência era caprichosa, altiva e, seguramente, não tratava melhor o seu amante “habitual” do que o marido. Ora, esta mesma Terência não soube guardar um segredo de Estado e revelou ao seu irmão. Terêncio Murena, que a conjura formada por este tinha sido descoberta38, o que impediu Augusto de desvendar, como desejava, todas as ramificações da conspi­ração. 

Lívia, por seu lado, nunca traía um segredo e o marido pedia-lhe frequentemente conselhos. À medida que passavam os anos. parece que a sua influência cresceu. É-nos difícil saber hoje com rigor o papel que desempenhou na formação e no estabelecimento do regime imperial. Os indícios que se invocam nem sempre permitem uma interpretação segu­ra, mas é certo que sem Lívia o Império não se teria tornado naquilo que vemos quando Augusto morre. 

Como as “matronas” da geração precedente, Lívia trabalha para ele­ para sua gens. Pertence à tradição de uma Servília e de uma Clódia e a sua gens, a dos Claudii, não tem sempre os mesmos interesses que os Julii. Toda a habilidade de Lívia vai consistir em pôr ao serviço dos primeiros o poder que César e depois Augusto deram aos segundos, e esta habilidade era grande. Conhecemos o juízo do seu bisneto Caligula (Caio César) acerca dela: “um Ulisses de saias”39. Caligula conheceu-a apenas na velhice, mas começa-se a detectar a sua influência muitos anos mais cedo. O grande problema de Augusto não era o de governar, mas o de assegurar a sua sucessão, fazer com que o sistema político que construíra e que se fundava na sua pessoa pudesse um dia funcionar sem ele. O seu poder pessoal dependia, em parte, do carácter semidivino que a opinião dos Romanos lhe reconhecia: era divifilius, filho do deus César. A quem transmitir este carisma senão a um filho? Ora, Lívia, de fato, não se revelava uma esposa fértil. Mas tinha dois filhos do seu primeiro casamento. Tibério e Druso. Não poderia conseguir que Augusto os adotasse, como ele mesmo tinha sido adotado por César e de quem não era realmente filho? 

Lívia levou longos anos para arrancar o Império das mãos dos Julii e dá-lo a um Cláudio, a este Tibério por quem Augusto não sentia nenhu­ma simpatia e que, no seu íntimo, era mesmo republicano. É possível que o acaso tenha favorecido as intenções de Lívia, fazendo desaparecer um a um todos os herdeiros que o príncipe sucessivamente escolheu: o jovem Marcelo, a partir de 23 a.e.c., e depois os dois netos de Augusto, Caio e Lúcio, os “príncipes da juventude”, que morreram respectivamente em 4 e 2 d.e.c. Não se tem hoje coragem de supor que Lívia ajudou a sua sorte, mas estas mortes sucessivas serviram-lhe tão bem que todas as suspeitas permanecem legítimas. Por fim, triunfou e foi a sua vontade que impôs Tibério, que Augusto se resignou a adotar, porque não dispunha de mais escolhas. 

Para além destes dramas secretos, a casa de Augusto conheceu outro, que teve também por origem as intrigas de uma mulher. Antes do seu repúdio, Escribônia tinha dado ao príncipe uma filha, Júlia, que este conservou junto de si e que criou na tradição de austeridade das antigas casas nobres. Júlia, na sua juventude, fiava a lã e tecia as túnicas do pai, o que não impedia que recebesse a educação refinada e a cultura das mulheres do seu tempo. Augusto sentia, certamente, pela filha uma grande afeição, mas esperava sobretudo, graças a ela, resolver o difícil proble­ma da sua sucessão. Como Lívia não era capaz de lhe dar um filho, Júlia podia trazer para a casa imperial um genro capaz de assumir um dia o encargo do poder. Sabia-se que, muitos séculos antes, os reis de Roma transmitiam assim a sua dignidade. Não foi por acaso que Propércio e Virgílio recordaram, cada um a seu modo, este antigo costume40. No tempo de Virgílio, contava-se como o velho Latino, o rei dos Laurentes, tinha concedido a Eneias a mão de Lavínia e o seu próprio reino. Augusto escolheu para genro o jovem Marcelo, ele mesmo filho de Otávia, a irmã do príncipe. Menos de um ano mais tarde, Marcelo morria. Júlia tinha apenas 16 anos. Augusto apressou-se a casá-la uma segunda vez. O novo marido de Júlia foi Agripa, fiel companheiro de Augusto. Agripa teve de dissolver o seu casamento, que, no entanto, era feliz, com a filha mais velha de Otávia, Marcela. Tinha quarenta e um anos. Esta escolha, bastante surpreendente, foi, sem dúvida, ditada a Augusto pela lembran­ça da crise que, em 23, quase conduziu o regime à destruição. Estando muito doente, teve de pensar, em determinada altura, em assegurar a sua sucessão em um futuro que podia estar muito próximo. O homem que de­signou foi precisamente Agripa. É natural que tenha querido tornar defi­nitiva a solução que, em 23, fora apenas uma improvisação arriscada. 

O casamento de Júlia e Agripa revelou-se imediatamente fecundo: Caio César e depois Lúcio nasceram em 21 e 17, separados por uma moça, Júlia, a Jovem. A partir de agora, podia pensar-se que a suces­são estava assegurada. Augusto apressa-se, em 17, a celebrar os jogos seculares, que simbolizam o início de uma era de prosperidade e de paz, a época que os filhos de Júlia auguram para Roma. Mas, cinco anos depois, Agripa morre subitamente e eis Augusto à procura de um tercei­ro marido para a sua filha. Desta vez, não pode furtar-se às instâncias de Lívia e escolhe Tibério. Durante alguns anos, os dois esposos entendem-se bem, mas, mais tarde, o desentendimento surge no casal. Recente­mente, foram evidenciadas as suas razões profundas41: Tibério foi esco­lhido apenas como "protetor" dos jovens príncipes. Augusto apenas o destinava a um papel secundário e temporário e isso Júlia não podia aceitar, embora a modéstia de Tibério se acomodasse muito bem a esse papel. Júlia, depois de ter esperado ser um dia a companheira do senhor, abomina regressar ao segundo lugar. Diz isso a Tibério e acusa-o de covardia. Tibério, por fim, decide deixar Roma e retirar-se para Rodes para viver como simples cidadão. 

Este exílio de Tibério, esta partida a que Augusto tentou por todos os meios opor-se, continua ainda hoje bastante envolto em mistério. Tibério, provavelmente, sentia-se em uma posição falsa. Já se começava a murmu­rar em Roma que conspirava para afastar Caio e Lúcio. Era uma calúnia, mas esta tinha tudo para que nela se acreditasse. Não é natural desejar o poder, sobretudo quando se tem junto de si uma mulher cuja ambição insaciável é conhecida de todos? Tibério não desejava, com certeza, o poder. É, pelo menos, o que sabemos, ou julgamos saber. Mas Tibério era considerado, no seu tempo, um mestre na arte de dissimular, uma arte que lhe vinha da mãe, e as suas recusas e a atitude apagada não convenciam ninguém. 

Tibério, ao retirar-se para Rodes, fugiria apenas dos riscos de uma situação ambígua? Uma tradição persistente sustenta que Júlia não lhe foi fiel e que ele fugiu também à desonra. Os historiadores antigos con­tam muitas histórias escandalosas acerca da filha de Augusto, repetidas à saciedade ao longo dos tempos. Falam-nos da sua coquetaria, que a levava a vestir-se, por vezes, com muito pouca decência, a ponto de pro­vocar os comentários irritados do pai. Falam-nos também das palavras que lhe são atribuídas em resposta à surpresa de alguns amigos ao veri­ficarem a que ponto as crianças que dera a Agripa se assemelhavam ao seu pai: "Só aceito passageiro quando o porão está cheio”42. Em suma, Júlia tornou-se o símbolo das torpezas que as pessoas gostam de imaginar nas sombras do palácio imperial e como que uma Messalina avant la lettre. Em tais assuntos, é tão difícil aceitar como contradizer os juízos da tradição, e podem ser alegados argumentos equivalentes tanto a favor da acusação como da defesa. Podemos dizer que é pouco verosímil que Júlia pudesse levar, durante muito tempo, uma vida de deboche, em uma cidade tão ávida de escândalos como Roma, quando todos os olhos estavam voltados para ela e quando a polícia imperial e, talvez, a clarividên­cia de Lívia tornavam tal licenciosidade impossível. Mas também pode­mos salientar que Júlia, esposa dissimulada enquanto esperou chegar ao poder, se entregou abertamente ao deboche, para o qual a sua verdadeira natureza a dotou, uma vez perdidas as esperanças depositadas em Tibério, e que talvez tenha começado as suas traições antes da partida do marido para Rodes. É possível, também, que se tenha feito, durante anos, como que uma conspiração de silêncio sobre os seus desregramentos, ninguém se incomodando em informar o imperador, e com Lívia a esperar, paci­entemente, a sua hora. Aliás, Júlia não foi a única grande dama a aceitar, por vezes, encontros clandestinos. O próprio Augusto, já o recordámos, não respeitava a honra das “matronas” e houve quem assegurasse que as leis sobre o adultério não lhe foram impostas senão por senadores que pretendiam embaraçá-lo43

Não se pode negar, contudo, que Júlia, depois da partida de Tibério para Rodes, teve várias ligações. Tinha trinta e três anos, estava no auge da sua beleza e a sua natureza violenta levava-a a exceder todos os limi­tes nos seus prazeres. No entanto, não era apenas a busca do prazer que a levava a rodear-se de amantes. A lista dos seus “amigos” foi feita pelo historiador Veleio Patérculo. Um nome sobretudo chama a atenção, o de Julo Antônio, filho de Antônio e de Fúlvia e um dos genros de Otávia. Julo parece ter sido o preferido, mas partilhava os favores de Júlia com um certo Apio Cláudio Pulcro e talvez, embora isso não seja uma certe­za, com um dos filhos de P. Clódio. Havia também um Semprônio Graco e um Cornélio Cipião. Em suma, encontramos em redor desta mulher os nomes mais famosos da aristocracia e não deveríamos surpreender-nos se se admitisse, como tudo convida a fazer, que Júlia, atraindo a si estes jovens, procurava menos satisfazer os seus sentidos do que formar uma conspiração contra o seu próprio pai44. Ela queria reinar. Ora, Augusto destinava o poder a Caio e a Lúcio César, que adotara, retirando-os assim à sua mãe, que não podia sequer exercer a mais pequena influên­cia sobre eles. Aliás, Júlia não tinha nenhuma apetência para a posição de imperatriz-mãe. Queria ser a companheira de um príncipe, a “primei­ra dama de Roma”, e substituir Lívia. Para isso, não via outro meio se­ não destronar Augusto, ou seja, assassiná-lo. Para o fazer, iria servir-se do seu ascendente sobre os jovens nobres a que dispensava os seus favo­res. Compreendemos, assim, por que tinha feito de Antônio seu favorito. Pensava, com ou sem razão, que a lembrança dos dias anteriores a Áccio não desaparecera e que podia existir um “partido antoniano” disposto a empunhar armas pelo filho do vencido. Era uma opinião compartilhada, evidentemente, pelo próprio Antônio, que, além disso, desejava vingar o pai. 

Podemos facilmente imaginar a cólera, quase o desespero, de Augusto quando soube que a sua própria filha planejava um parricídio e que re­nascia contra si, e do seu próprio sangue, a velha coligação de uma mu­lher e de um Antônio! Os outros amigos de Júlia também tinham muitas acusações contra o novo regime. Estavam saudosos do tempo da “liber­dade”, quando os nobres detinham o poder sem o partilhar. Era uma nova conspiração, formada por um círculo de jovens irresponsáveis, pro­vavelmente sem grande influência real, mas perigosos devido à sua pró­pria loucura, em que se pensava recomeçar os idos de Março. 

Sêneca deixou desta conspiração um quadro que se suspeita ser exa­gerado, mas que se baseia, certamente, em alguma verdade, porque outros testemunhos confirmam vários dos seus detalhes: 

"Amantes introduzidos aos bandos em casa dela, passeios vagabundos du­rante a noite, em turbas alegres e avinhadas, através da cidade. O próprio fórum e o rostro onde seu pai tinha promulgado as leis sobre o adultério, escolhidos pela filha para os seus excessos. Reuniões diárias no Mársias, ao mesmo tempo que, passando de adultera a prostituta profissional, se arrogava o direito de tudo experimentar no abraço de um amante desconhecido".45 

Júlia tinha cúmplices na sua própria casa, designadamente uma liberta chamada Febe, que se suicidou logo que Augusto foi informado destas escapadelas noturnas46

Não deixa de ser um pouco surpreendente que os conjurados tenham escolhido o fórum, ainda que em plena noite, para seus conciliábulos. Tal­ vez julgassem que a sua melhor salvaguarda era precisamente a publicida­de. Mas, sobretudo, estavam a desafiar a opinião pública. Júlia, tendo de­cidido cortar com a austeridade e mesmo com a decência, quis afirmar o seu direito soberano, que o seu estatuto parecia garantir-lhe, quis afrontar todas as conveniências. É possível também que tenha sido impelida para estas loucuras por Antônio, que se recordava das insolências do seu pai. Mas Antônio podia permitir-se transformar em lugar de deboche a casa de Pompeu e escandalizar a aristocracia no início da sua convalescência da guerra civil. Ele era Antônio, o vencedor, o companheiro do ditador. Antônio, o seu filho, era apenas o herdeiro de um nome perigoso. Só po­deria sobreviver aderindo ao novo regime. Não tinha sido em vão que Roma vivera durante vinte e cinco anos sob a autoridade moralizadora de Augusto. O tempo da “vida inimitável” tinha passado. 

Augusto acaba por saber tudo. Foi, diz-nos Dião Cássio, o último a ser informado. Só o alertaram quando as intenções reais dos conjurados foram descobertas e a sua cólera não poupou ninguém. O escândalo ti­nha durado uns três anos. Foi em 2 a.e.c. que se deu a punição. Julo Antônio foi condenado à morte. Júlia foi enviada para o exílio na ilha de Pandatária (atual Ventotene), ao largo da costa da Campânia, e viveu aí como prisioneira, não tendo por companhia senão a sua mãe, Escribônia, que pediu e obteve o direito de compartilhar a sua pena. Depois da morte de Augusto, o primeiro cuidado de Tibério foi agravar ainda mais o seu destino (entretanto, tinha sido transferida para Reggio di Calabria), a ponto de morrer de privações e de miséria, ao fim de alguns meses. Os outros amantes de Júlia foram apenas afastados: menos culpados, talvez simples comparsas que os dois protagonistas não julgaram conveniente introduzir no seu segredo, tiveram a vida poupada e puderam viver à sua vontade na residência que lhes foi designada. 

Alguns anos mais tarde, em 8 d. C., um novo drama, aparentemente bastante semelhante ao primeiro, veio ainda perturbar a casa imperial. Desta vez, a culpada era Júlia, a Jovem, a filha de Júlia e Agripa. As circunstâncias em que se deu o escândalo são ainda mais obscuras do que as que envolveram a condenação da primeira Júlia. Oficialmente, as acusações eram as mesmas: seguindo o exemplo da mãe, a segunda Júlia, que era mulher de um certo Emílio Paulo, teria tido uma ligação ilícita com um jovem nobre, D. Júnio Silano47. Mas certos indícios permitem pensar que isso foi apenas um pretexto: o seu marido (como sabemos por Suetônio) foi executado por ter conspirado contra Augusto48. Por outro lado, o exílio de Júlia, a Jovem, parece ter coincidido com o afas­tamento do seu irmão Agripa Póstumo, que foi acusado de ser um Brutus vigoroso e cruel49. É bastante inquietante ver assim deportar, um após outro, os dois últimos filhos de Júlia e Agripa, os únicos em que ainda corria o sangue de Augusto e que não se encontravam ligados aos Claudii. A outra filha, Agripina, a mais velha, ficou provavelmente a dever a sua salvação ao casamento com Germânico, o neto de Lívia. Finalmente, no mesmo ano, o poeta Ovídio foi exilado, o que pode bem ter acontecido em relação com alguma tentativa para retirar a herança de Augusto à “ninhada” de Lívia. Tibério fora, por fim, adotado por Augusto, ao mesmo tempo que Agripa Póstumo. O velho príncipe hesitava em deserdar completamente os que descendiam do seu sangue: nesta data, em 6 d.e.c., Agripa Póstumo tinha atingido os 18 anos e o que se designou mais tarde como sendo a sua “loucura”50 não seria, por certo, ainda evidente. É duvidoso que esta se tenha declarado abertamente em poucos meses, a ponto de impor o seu afastamento. Não podemos, na verdade, impedir-nos de suspeitar que o drama que atingiu sucessivamente os últimos descendentes de Augusto e de Escribônia pode ser o epílogo da política pacientemente conduzida por Lívia. Tibério, apesar do desagrado de Augusto, devia ficar como o único herdeiro. Era necessário evitar a todo o custo que, quando chegasse o momento, emergisse um partido “legitimista”, capaz de arrancar aos Claudii a herança tão cobiçada do senhor defunto. Por isso, Tácito, ao relatar a morte de Júlia, a Jovem, um dos acontecimentos de 28 d.e.c., podia escrever: 

"Nessa mesma época morreu Júlia, acusada de adultério e condenada por Augusto, embora fosse sua neta, e exilada para as ilhas Tremiti, não distantes das costas da Apúlia. Aí viveu exilada durante vinte anos, graças aos recursos que Lívia lhe enviava, a qual, depois de ter derrubado, com as suas intrigas secretas, os filhos do primeiro casamento quando estavam no cume da sua ventura, aparentava piedade para com eles na sua ruína".51 

Eis como decorreu o bom e frutuoso casamento com que Augusto se enternecia no seu leito de morte. 

Os dramas que dilaceraram a casa de Augusto e colocaram o Império nas mãos do “republicano” Tibério têm a sua origem na paixão de Otávio, ao tirar Lívia ao seu primeiro marido. Foi uma união que, justamente, se poderia dizer maldita, porque foi estéril e porque teve por efeito fazer passar o principado para as mãos dos Claudii, privando dele os represen­tantes legítimos da gens Julia. O desejo de prazer e, se assim o pensarmos, a própria imoralidade desempenharam o seu papel nesta série de tragédi­as, mas este papel foi menor do que o da ambição. Uma mulher, Lívia, recorria a tudo para garantir o seu poder sobre o homem que tinha nas suas mãos o destino de Roma. Para isso, estava disposta a suportar - e, mesmo, a favorecer as infidelidades e, depois, os gostos senis de Augusto52

Pagando este preço, foi um “boa esposa” e conseguiu que Augusto, definitivamente subjugado, renegasse o seu próprio sangue. Não foi por se ter passado na casa imperial que este drama é diferente daqueles a que os romancistas de todos os tempos nos habituaram, esteja em causa a posse de um campo, de uma quinta ou do Império Romano. Um homem que se opõe durante muito tempo às intrigas insidiosas da mulher que ama, mas de quem desconfia, e depois, à medida que vai envelhecendo, a quem cede gradualmente e por quem se deixa manipular, abdica de ser ele mesmo e consente todas as traições e todos as abdicações, alimentan­do-se da ilusão de que a sua companheira, já idosa, partilha sentimentos e intenções que, na realidade, foi ela a ditar. Esta foi, sem dúvida algu­ma, a história deste casamento, que algumas cortesãs e alguns poetas celebravam como a própria imagem da perfeição conjugal. 

A história das duas Júlia, a mãe e a filha, não é menos cruel nem menos dica de ensinamentos. A primeira Júlia não hesitou em organizar uma conspiração criminosa para retomar uma situação que lhe escapava e, com esse fim, concedeu os seus favores aos homens de quem esperava algum apoio. A sua filha, seguindo-lhe o exemplo (e apesar do terrível malogro de uma aventura que terminou em sangue), também acreditou poder contrariar as intrigas da toda-poderosa Lívia, recorrendo aos mes­mos meios. Que ideia do amor teriam estas duas mulheres? Somos ten­tados a pensar que, para elas, era apenas um instrumento. A pior das censuras que se poderia fazer-lhes seria, talvez, terem reduzido o amor a ser apenas isso. Se tivessem procurado, clandestinamente, apenas o pra­zer do deboche, como tantas outras do seu tempo ou em outros séculos, teriam envelhecido calmamente, honradas e, sem dúvida, felizes. Mas a tradição das mulheres romanas dizia-lhes que o amor em si mesmo é uma fraqueza, que só a grandeza e o poder merecem ser tentados. Era natural que, depois de terem chegado até ao despeito, inerente a todas as mulheres da sua raça e da sua classe, pela ligações carnais e sentimen­tais, tivessem terminado nesta mutilação do seu ser, que fora já realiza­da, em espírito, pelas matronas mais virtuosas do passado, em cuja feminidade se tinha tomado costume ver apenas o meio para assegurar a sobrevivência da cidade e a grandeza da sua gens. Reside aí, talvez, a origem profunda desta “imoralidade” de que é acusada a sociedade im­perial, uma perversão puritana dos valores naturais, que priva o amor do seu verdadeiro significado, que lhe retira o carácter essencial, que é o compromisso total de dois seres, e tenta sujeitá-lo a disciplinas arbitrári­as. Os poetas, como vimos, tinham sabido, sem dúvida, reencontrar o sentido do amor, mas ninguém os escutava, ou, como aconteceu ao infe­liz Ovídio, acusavam-nos de imoralidade e enviavam-nos para o exílio. E, no entanto, existiu marido mais terno que Ovídio e casal mais fundamentalmente pervertido do que Augusto e Lívia? 

 

*** 

 

Durante os reinados que se seguiram ao de Augusto, numerosas intrigas se urdiram muito semelhantes às conduzidas por Lívia e pelas mulheres da casa imperial, intrigas fatais, motivadas pela conquista do poder e, naturalmente, utilizando os mesmos meios. Nem todas as que os historiadores nos relatam serão, talvez, verdadeiras, mas algumas, pelo menos, comprovadas com segurança, provam que a corte do Palatino não ficava nada atrás das monarquias helenísticas, continuando, ao mes­mo tempo, as tradições da vida política do fim da República. Não temos a certeza absoluta de que Caligula, para obter os serviços de Macrão, prefeito do pretório, tenha procurado os favores de Énia, a mulher des­te53, e é menos verosímil ainda que se tenha comprometido por escrito a casar-se com ela quando se tornasse imperador. Apareceram demasiado lendas sobre os imperadores júlio-claudianos para que possamos acredi­tar inteiramente em todas as histórias que se contam. Mas podemos sali­entar, apesar de tudo, o papel desempenhado por certas mulheres da “casa divina” (domus divina), que tendem a ter uma importância crescente, como disso dão testemunho as honras com que as cumulam. 

Augusto sempre se recusou a unir oficialmente Lívia ao seu carácter divino e foi apenas por sua morte que recebeu o título de Augusta, mas Tibério opôs-se sempre a que recebesse outras honras e aparentava evi­tar todas as conversas com ela que pudessem levar a supor que exercia sobre ele alguma influência política54. Mas Caligula, desde o começo do seu reinado, está longe de observar tão cuidadosa reserva. Aceita (e sem dúvida sugere) que as suas três irmãs sejam incluídas nos votos oficiais pronunciados pelo Senado em sua honra e, ao mesmo tempo, faz cunhar moedas que as identificam com três divindades simbólicas com os nomes de Securitas, Concordia e Fortuna55. Quando morreu a mais amada de todas, Júlia Drusila, ordenou que fosse considerada uma deusa, com o nome de Panthea, o que era tornar oficial o culto que algumas cidades orientais lhe dedicaram, ainda em vida, e para as quais ela era a “Nova Afrodite”56. Assim, as mulheres da casa imperial foram incluídas nesta lenta ascensão para a divindade, que transforma progressivamente o prin­cipado em monarquia de direito divino. Mas não deixam também de ser “matronas”, movidas pelas mesmas paixões, prontas, para satisfazer a sua sede de honras e poder, aos mesmos comprometimentos que as suas mães, talvez ainda mais infimamente persuadidas do que elas de estarem acima das leis e da moral humanas, por pertencerem à família do deus reinante. 

Dois nomes simbolizam, hoje, para nós, estas “mulheres dos Césares”, o de Messalina e o de Agripina. São dois nomes carregados de vergonha e que parecem por si só justificar a reprovação dos “amores romanos” pela história. 

O editor da Galeria Universal, no momento de inserir na sua recolha uma nota sobre Messalina, julga dever tomar as suas precauções numa advertência: 

"Que os nossos leitores, escreve ele, não se alarmem de modo nenhum com o nome de Messalina. O nosso respeito pelos costumes e a sábia vigilância do censor que preside à publicação dos números da Galeria Universal devem ser garantes de que o quadro assustador que apresentamos dos excessos vergonhosos desta infame imperatriz, vergonha do trono e do seu sexo, não tem por objetivo senão inspirar o horror pelo vício e fazer admirar com mais esplendor a virtude, onde quer que ela brilhe".57 

Estes virtuosos protestos dissimulam mal o verdadeiro fascínio exer­cido por Messalina, em quem encarna o que se pode considerar um “amoralismo” total, uma liberdade com que se sonha secretamente, mas sem o querer confessar. Os versos de Juvenal que descrevem as proezas amorosas da imperatriz maldita estavam, há um século ou dois, na me­mória de todos - eram ditos em voz baixa nos bancos do colégio: 

"Olha então para os rivais dos deuses, ouve o que Cláudio suportou. Logo que a sua mulher pressentisse que dormia, a imperatriz cortesã, ousando preferir uma esteira à cama do Palatino, pegava uma capa para a noite e escapava-se, apenas com uma serva por companheira. Depois, com uma peruca ruiva, que lhe ocultava os seus cabelos pretos, muitas vezes passou pela velha cortina, entrando em um tépido bordel e em um compartimento vazio, que era o seu. Então, nua, com os seios apoiados em uma rede de ouro, oferecia- -se, sob o nome falso de Licisca, dando como visão o ventre que te transportou, nobre Britânico. Acolhia, sedutora, os visitantes e solicitava umas moedas. Depois, à hora em que já o dono mandava sair as suas pensionistas, ia-se embora triste e tão tarde quanto podia, sendo a última a fechar o quarto, ardendo ainda em um espasmo que feria os seus sentidos. Esgotada com o homem, mas não cansada, saía e, com a tez pálida e baça, manchada pelo fumo da lâmpada, trazia para a cama sagrada o fedor do bordel".58 

Os historiadores Dião Cássio e Plínio (que, por certo, se refere a si mesmo na sua História Natural) estão de acordo quando nos mostram uma Messalina freneticamente ávida de prazer carnal59. Juvenal não quis traçar, seguramente, senão um quadro simbólico, uma variação “brilhante” sobre o tema da imperatriz cortesã, em que se encontram e opõem a majestade divina do principado e as realidades sórdidas dos lupanares romanos. Não acreditemos de forma alguma que a imperatriz ocupou realmente um quarto cheio de fumo, por cima do qual uma inscrição a designava com o nome de Licisca (ou seja, com o equivalente grego do termo lupa, que, na linguagem do povo, não significava outra coisa se­ não cortesã). Que atraiu a sua casa, no próprio Palatino, amantes capazes de satisfazê-la, não podemos de modo nenhum duvidar. Que também organizou orgias no palácio para as quais convidava mulheres nobres acompanhadas dos maridos60, também é possível. Ninguém se teria in­comodado, se Messalina não fosse a imperatriz. O que pode haver de patológico na sua conduta não deveria suscitar um juízo de condenação sobre o conjunto de uma sociedade e mesmo de uma civilização que não são certamente as únicas a ter conhecido excessos deste gênero. Mas o que todos os censores esqueceram é que no momento em que Messalina se abandonava assim aos demônios da sua carne não tinha ainda vinte anos e talvez tivesse mesmo muito menos. 

Messalina casou com Cláudio um ou dois anos antes deste se tornar imperador. O seu casamento data provavelmente de 39 ou 4061, altura em que Cláudio, tio do imperador reinante (Caligula), era considerado, na corte, um palhaço de quem todos podiam troçar. Ninguém pensava que, em breve, iria ser senhor do Império. Cláudio já tinha sido casado duas vezes. Divorciara-se a primeira vez por acusações que se dizem bastante leves e a segunda porque a mulher se desonrara com o seu mau comportamento e houve mesmo suspeitas de ter morto um homem62. Já não era jovem, porque, nascido em 10 a.e.c., aproximava-se então dos 50. Para Messalina, era o seu primeiro marido, e sabe-se que o costume era casar as mulheres muito jovens. Não nos enganaremos se pensarmos que em 39 Messalina mal tinha entrado na adolescência. No mês de Fevereiro de 41, dava ao mundo um rapaz, o pequeno Britânico. Talvez Britânico tivesse sido precedido por uma filha, Otávia, ou, talvez, pelo contrário, esta fosse mais nova do que ele. Os primeiros tempos deste casamento foram felizes. Cláudio gostava muito da sua mulher-criança e estava feliz por ter sido pai. Parece que tudo começou a deteriorar-se depois da morte de Caligula e da ascensão de Cláudio a imperador. 

O novo imperador era extremamente influenciável e os libertos da sua casa não demoraram a exercer o poder em seu nome. Um deles, sobretudo, o famoso Narciso, parece ter feito da jovem imperatriz o ins­trumento da sua ambição. Messalina, treinada nas intermináveis intrigas da corte e cansada de um marido libidinoso, que perseguia as servas, e tão novas quanto era possível descobrir63, encontrando, para todas as fantasias, cumplicidades interesseiras e servis, teria tido o grande mérito de não abusar da sua total liberdade. Faltou-lhe uma alma de uma força excepcional e, na infância, não leve exemplos melhores do que os que lhe deu sua mãe, Domícia Lépida. 

Os historiadores antigos acusam-na, não apenas de se ter entregue ao prazer de inúmeros vícios, mas também de ter provocado a morte de vários grandes personagens, de que queria vingar-se ou, simplesmente, cujos bens desejava. Debochada, cruel e cúpida, descrevem-na como um monstro quando tinha a idade em que muitas jovens pensam ainda em bonecas. Mas é muito provável que, após a sua queda, lhe tenham atri­buído todos os crimes cometidos por outros em seu redor. Narciso, no­meadamente, que após ter sido o seu aliado foi responsável pela sua morte, tinha todo o interesse em inverter os papéis, pretendendo que apenas obedecera a Messalina, quando era ele mesmo que dirigia o jogo. No tempo de Nero, o delator Suílio, que foi um dos seu familiares, teve de prestar contas. Uma das vítimas de Cláudio, Sêneca, detinha então algum poder e abriu-se o processo. Suílio quis, em primeiro lugar, proteger-se com a memória de Cláudio, pretendendo que não fizera mais do que obedecer ao imperador, defesa que Nero reduziu a nada, afirmando que nunca Cláudio provocara a menor acusação contra quem quer que fosse e que as suas memórias eram disso a prova. Então Suílio alegou que, se Cláudio estava inocente, a responsabilidade de todos os crimes era de Messalina, sabendo que ninguém tomaria a defesa da imperatriz maldita64. Devemos aceitar cegamente as afirmações de Suílio? 

De fato, em redor de Messalina entrevemos como que um círculo, que não está ligado a ela apenas devido ao gosto comum pelo deboche, mas que se serve, para fins políticos, do inegável ascendente que ela exer­ce sobre o príncipe. Neste grupo figura, nomeadamente, Vitélio, o pai do futuro imperador, que finge um grande amor respeitoso65, mas, por outro lado, coloca no seu lararium estátuas de ouro dos libertos imperiais. Este círculo vinga-se de todos os que se opõem às suas manobras. Messalina está “do lado de Antônio”, a quem a ligam as suas duas linhas de ascendentes, a materna e a paterna. Desde o reinado de Augusto, uma surda rivalidade opõe este ramo da família aos “herdeiros legítimos”, represen­tados pelos descendentes de Germânico. Não é nada surpreendente, por conseguinte, que uma das primeiras vítimas tenha sido Júlia Livila, uma das filhas de Germânico, que, no reinado de Caligula, conspirara com Agripina contra o seu próprio irmão. Enquanto esta, que se tornara cuida­dosa, devido ao seu precedente malogro, permanecia na sombra e espera­va a sua hora, Júlia tentava seduzir Cláudio e eliminar Messalina. Entrava em longas conversas a sós com o velho imperador, que nunca não soubera resistir à atração de uma mulher. Por outro lado. Messalina acusou-a de se ter deixado seduzir por Sêneca e ter sido sua amante. Júlia foi enviada para o exílio e, dentro de pouco tempo, assassinada. Sêneca, contra quem não havia acusações demasiado graves, que, no partido das filhas de Germânico, era apenas um comparsa e de quem a eloquência e influência no Senado eram apreciadas, foi objeto de uma medida de clemência. Contentaram-se em relegá-lo para a Córsega, sem o privar dos seus bens. 

O processo e a morte de Valério Asiático incluem-se no número dos crimes mais terríveis de que Messalina é acusada. É por este relato que começa, hoje, para nós, o livro XI dos Anais de Tácito: 

"Vemos aí como a imperatriz, com ciúmes de Popeia Sabina, se irrita com Asiático, do qual esperava, sem dúvida, tornar-se a amante. Como se este motivo não bas­tasse, ao despeito amoroso acrescentou a cupidez. Não se contenta em desejar o homem, deseja também os seus jardins, o maravilhoso parque anteriormente desenhado por Lúculo e que se tornara uma das proprie­dades mais magníficas de Roma. Vitélio, Suílio e alguns outros encarre­garam-se de apresentar a acusação. Cláudio, segundo é relatado, ter-se-ia inclinado para a absolvição, mas Vitélio soube manobrá-lo, fingiu defender o acusado e, por fim, pediu, como medida de clemência, que se lhe permitisse escolher o tipo de morte. Cláudio concordou, estupidamente, e Messalina, que não pudera reter as lágrimas quando Asiático apresentava a sua defesa, obteve finalmente o que desejava, a morte do acusado".66

Este é o relato de Tácito, que não deixa de ser algo improvável. Asiático não era, com certeza, o personagem inofensivo que nos tenta apresentar. Tinha tomado parte ativa no assassinato de Caligula e era o chefe dos conjurados que tinham por objetivo confesso restaurar a Re­pública. Cláudio, longe de ser indulgente, persegue-o com ódio e, muito tempo após a condenação, explode em insultos à sua memória no discur­so que as tábuas claudianas nos deixaram67. Deveremos nós pensar que, deste modo, o imperador não faz mais do que seguir, cega e ridiculamen­te, uma atitude que é ditada por Messalina? A desgraça de Asiático não pode ter tido causas mais graves do que o despeito e a avidez de uma mulher impudica? Não será antes um episódio da luta constante em que se envolveram, nos reinados de todos os imperadores da dinastia júlio-claudiana, o “partido” dos libertos, as “gentes” do príncipe e os cam­peões do Senado, que desejavam arrancar o poder à influência dos “ga­binetes”? Asiático, muito bem na corte, no início do império de Cláudio, companheiro do imperador durante a expedição na Britânia, investido segunda vez como cônsul, em 46, podia passar pelo representante mais autorizado dos que, no fundo de si mesmos, estavam saudosos do bom tempo da oligarquia “republicana” e agiam para restaurar os privilégios da sua ordem. Asiático foi vítima deste duelo de morte, começado antes dele e que continuará, com peripécias diversas, no reinado de Nero e ainda depois dele. É provável que haja responsabilidade de Messalina. Confessemos, pelo menos, que ela partilha tal responsabilidade com os que, considerando que é um instrumento demasiado pouco dócil nas suas mãos, dentro em breve vão maquinar a sua perda. 

Durante o Verão do ano 48, provavelmente a 15 de Agosto68, Cláu­dio, que estava a terminar o “lustro” como censor, teve no Senado este discurso genial e revolucionário, conservado pelas tábuas claudianas, tratava-se de abrir mais amplamente o Senado aos originários das pro­víncias e, muito especialmente, aos notáveis da Gália “cabeluda”. Ao mesmo tempo, Cláudio mostrava-se de uma particular benevolência em relação aos senadores: em vez de usar brutalmente os seus poderes de censor para excluir da ordem os membros do Senado que o tivessem desmerecido, deixou-lhes o cuidado de pedirem eles mesmos o direito de se retirar66. Podia parecer que se estava em um momento decisivo do Império, que o equilíbrio entre a influência dos “gabinetes” e a do Sena­do estivesse prestes a ser rompida. Esta consciência inspirou uma moção lisonjeira do cônsul Vipstano, que propôs que se nomeasse Cláudio “pai do Senado”70. Cláudio recusou esta honra, o que confirmou a opi­nião que se podia ter da sua moderação e dos seus sentimentos “republicanos”, ou, em todo o caso, favoráveis ao Senado. Tal é também a im­pressão que se retira da leitura das próprias tábuas claudianas, pela bonomia do seu estilo, sem dúvida propositada. Havia em tudo isto com que preocupar os “libertos” do palácio, que ripostaram de imediato com uma audácia inacreditável, conseguindo reverter a situação. 

Os libertos aproveitaram uma nova imprudência de Messalina e, com uma hábil manobra, conseguiram tornar suspeita ao olhos do príncipe pelo menos uma parte dos senadores, eliminando ao mesmo tempo a imperatriz, que se tornava uma ameaça para eles. 

Há já algum tempo, Messalina estava apaixonada por um jovem, “o mais belo dos Romanos”71, diz Tácito. Era um senador chamado C. Sílio, que concordou, para a comprazer, em quebrar o seu casamento com uma grande senhora. Júnia Silana, porque Messalina, com a intransigência da sua juventude e o seu orgulho de princesa mimada, não tolerava nenhu­ma partilha. Entregou-se a este amor sem qualquer prudência. Cláudio fechava os olhos. Talvez ignorasse a aventura, ou, o que é mais provável, tenha decidido deixar a Messalina uma liberdade de que queria ignorar até onde poderia ir. O escândalo, de qualquer forma, tinha-se tornado público: Messalina vinha a casa de Sílio com um séquito numeroso e sem se ocultar. Os seus escravos e os seus libertos estavam à vontade na casa do amante e utilizavam a louça e os tesouros do mobiliário imperial para as festas e as reuniões que ela aí dava. Sílio pressentia, de fato, o perigo, mas que podia ele fazer? Como contrariar uma amante imperio­sa, feliz com a sua existência e por satisfazer aquele que amava? Era, para a descendente de Antônio, o recomeço da “vida inimitável”, que ela revivia fazendo ao mesmo tempo de Cleópatra e de Antônio. Aliás, Sílio pensou que o próprio excesso de perigo da situação e a temeridade de Messalina tornavam possível uma solução audaciosa: uma vez que se apoderara da mulher do imperador, por que não se assenhorear também do poder? E foi ele que começou a pressionar Messalina: Cláudio estava velho, porquê esperar o fim natural dos seus dias? Não era Sílio o cônsul designado e, durante algum tempo, pelo menos, um dos principais per­sonagens do Estado? Tinha partidários que ficariam felizes se apoiassem a sua investidura quando Cláudio desaparecesse. Desde a morte de Caligula que se sabia como se faziam os imperadores. Já ninguém acre­ditava no seu direito divino. Aliás, indo mais longe, Sílio fez notar a Messalina que não tinham nenhuma relação familiar e que nada o impedia de casar com ela, logo que ficasse livre pela morte de Cláudio. Pro­metia-lhe adotar os seus filhos. A linhagem de Britânico garantiria aos olhos dos Romanos (daqueles, pelo menos, que se preocupavam com isso) que o poder não excluía completamente a descendência de Augusto. 

Messalina não tinha pensado neste projeto e acolheu-o com frieza. Tácito assegura-nos que pensava apenas em satisfazer a sua paixão e também (o que não deixa de ser surpreendente, se aceitarmos o retrato tradicional de uma Messalina debochada, voando de prazer em prazer, incapaz de se prender a alguém e escrava apenas dos seus sentidos) que estes propósitos de Sílio lhe causaram preocupação quanto ao futuro da sua ligação: teve medo, diz-nos ele, que, uma vez chegado ao poder, Sílio a rejeitasse como um instrumento que se tornara inútil e acabasse, talvez, por a acusar do seu crime comum. Podemos também pensar, e Tácito não nos oferece aqui senão conjecturas, que Messalina ficou cho­cada com o espírito prático de Sílio e que não foi sem resistência que aceitou a ideia de mandar assassinar o marido. Era natural também que estivesse inquieta quanto ao amor dele, ao descobrir que Sílio podia considerá-la como o meio de satisfazer a sua ambição, em vez de sim­plesmente a amar. Do que o amante lhe disse, só quis saber de uma coisa: que desejava casar com ela. Decidiram celebrar o seu casamento na ausência de Cláudio, que tinha de se deslocar a Óstia para uma cerimônia oficial. E o casamento teve lugar. Foram cumpridos todos os ritos: observaram-se os auspícios, ofereceram-se os sacrifícios, testemu­nhas assistiram à assinatura do contrato e os esposos retiraram-se em seguida para passar a noite juntos. Tudo isto nos parece incrível. Os historiadores antigos hostis a Cláudio e a Messalina sublinharam o ca­rácter escandaloso deste casamento para evidenciar o que chamam de imbecilidade do imperador e perversidade da sua mulher. Mas alguns testemunhos dispersos permitem-nos compreender o significado da aven­tura e explicar-nos, mais ou menos, como foi ela possível. Em primeiro lugar, é Suetônio quem nos diz que Cláudio não ignorava a celebração do casamento com Sílio. Teria mesmo aposto a sua assinatura no contra­to. Mas tinham-lhe feito crer que se tratava apenas de um “casamento a fingir”, que havia presságios que ameaçavam o marido de Messalina e que, para desviar a cólera dos deuses, Sílio oferecia-se para desempe­nhar este papel72. Cláudio tinha aceito e partira para Óstia de espírito tranquilo. 

Todavia, as suas ilusões não duraram muito. Narciso, um dos seus libertos, encarregou-se de as dissipar e fazer-lhe compreender a verda­deira situação. Nos nossos dias, o casamento com Sílio pode parecer uma comédia escandalosa sem alcance real. Não acontecia o mesmo no tempo de Cláudio: a mulher possuía então o direito absoluto de repudiar o marido73. Cláudio devia considerar-se “repudiado”, ainda que nem to­das as formas legais tivessem sido estritamente observadas, e foi real­mente assim que Narciso apresentou a coisa. “Mas estarás, porventura - disse ele a Cláudio -, a par do teu divórcio? O casamento de Sílio teve por testemunhas o povo, o Senado e o exército. Se não ages prontamen­te, o marido de Messalina será senhor de Roma.”74 Teria falado assim, se o casamento não tivesse nenhum valor legal? O próprio Cláudio com­preende o perigo. A imperatriz não terá entregado ao seu novo marido o Império como dote? Ela pode fazê-lo. Também ela pertence à família de Augusto. Basta que os pretorianos, o povo ou o Senado pronunciem a queda de Cláudio para que a revolução se torne um fato consumado. Teria, sem dúvida, acontecido assim se Messalina o tivesse desejado e tivesse consentido em tomar as medidas necessárias, ou deixado que Sílio as tomasse. Sílio, cônsul designado, tinha-se distinguido no ano transacto ao atacar violentamente Suílio e fazendo-se porta-voz dos “con­servadores”: os senadores tê-lo-iam apoiado, se tivesse recorrido a eles, e Narciso sabia-o, com certeza, pois, sem perder tempo, trouxe Cláudio ao acampamento dos pretorianos, estes mesmos pretorianos que tinham impedido os senadores de restabelecer a “República” e que respeitavam no príncipe o irmão de Germânico, cuja memória lhes era cara. Messalina, enquanto Narciso conspirava contra ela, preocupava-se pouco com a política: feliz por ter casado com Sílio e sem querer preocupar-se com o dia seguinte, celebrava uma bacanal, porque era 23 de Agosto, dia em que começavam as festas das vindimas75. Na casa impe­rial, preparara-se uma encenação sagrada. Viam-se prensas cheias de uva, o mosto enchia as cubas e, um pouco por toda a parte, mulheres disfarçadas de bacantes, mal cobertas com peles de pantera, entrega­vam-se às danças desenfreadas que prazem a Dioniso. A própria Messalina, com os cabelos soltos, brandia um tirso. Ela era Ariadne, ao lado de Sílio disfarçado de Baco, com as suas grinaldas de hera e os seus coturnos. Quando Vétio Valente, um dos seus amigos, subiu a uma árvo­re e fingia perscrutar o horizonte, ao perguntarem-lhe o que via lá de cima, respondeu que via “uma trovoada violenta para os lados de Óstia”76. Não se enganava nada, porque, nesse mesmo momento, Cláudio, oculto por Narciso, estava instalado em uma liteira, onde ninguém o podia abor­dar, e regressava, mais inquieto e infeliz do que furioso, para enfrentar, contra a sua vontade, o golpe de Estado que, segundo a lógica, Sílio teria devido pelo menos tentar e que tinha algumas possibilidades de sucesso. 

Enquanto Messalina fora um instrumento nas mãos dos libertos, poderia ter-se criado a ilusão de que a imperatriz sabia conduzir uma intriga com habilidade e assegurar o seu sucesso. De fato, logo que, cedendo à sua paixão por Sílio, já não pôde contar com os conselhos de Narciso e dos outros, reduzida apenas às suas forças, entrou em derroca­da. Demasiado segura de si mesma, acreditou durante tempo de mais no seu poder sobre Cláudio, no que não se enganava nada, mas não imagi­nou a habilidade diabólica de Narciso, que a impediu de chegar junto daquele que não teria resistido a alguns momentos a sós com ela. Nem por um momento pensou que o liberto, arriscando tudo por tudo, daria ordem de a executar sem sequer consultar Cláudio. 

Tinha-se retirado para os jardins de que tanto gostava, os que perten­ceram antes a Valério Asiático, e dispunha-se a redigir uma suplica quando chegou um grupo de soldados, conduzidos por um empregado de Narci­so. Junto dela, estava sua mãe, Lépida, durante muito tempo zangada com ela, mas que acorrera ao saber da desgraça da filha. Compreenden­do melhor do que esta que a situação era desesperada, aconselhava-lhe a que não esperasse os carrascos. Messalina, contudo, não tinha coragem para morrer: afinal, tinha apenas vinte anos e, algumas horas mais cedo, estava ainda no momento mais sublime de um amor feliz, possuída por aquele espírito dionisíaco que anteriormente, em circunstâncias seme­lhantes, tinha arrebatado Antônio e que era para si a justificação dos seus arroubos carnais. O severo Tácito condena-a em poucas palavras: “A sua alma, corrompida pelas paixões, já não conservava nenhum sen­tido da honra.” No entanto, esboçou o gesto de se matar quando se aper­cebeu dos soldados, mas estes anteciparam-se-lhe e o tribuno trespas­sou-a com a espada77

O que se considerou ser a conspiração de Messalina, e que havia sido, sobretudo, a conspiração de Sílio, foi reprimida, como era hábito, com uma série de execuções. A severidade das condenações mostra que se pretendeu destruir os representantes mais ativos do “partido senato­rial”. Narciso levava a melhor. Já não estava em questão a aproximação entre o imperador e os senadores. Por uma última vez, os libertos tinham-se servido de Messalina para conduzir o seu jogo e os senadores rebaixaram-se até ao ponto de oferecer a Narciso as insígnias de questor, consagrando assim a sua própria derrota. 

É nestas condições que Agripina chega ao poder. Era necessário subs­tituir Messalina a qualquer preço. Cláudio não podia passar sem mulher e, oferecendo-lhe uma a seu jeito, cada grupo procurava assegurar este modo de o influenciar. Acerca do quarto do príncipe, houve inúmeras intrigas, cujos ecos enfraquecidos Tácito registrou. Finalmente, chegou-se a acordo sobre o nome de Agripina, que dava garantias a todos. Agripina foi escolhida porque tinha sangue de Augusto: era filha de Germânico. Os libertos sabiam que era permeável à corrupção. Em suma, cada um esperava ser recompensado por este casamento, casamento escandaloso, pois Cláudio era o tio de Agripina, mas que se conseguiu impor à opinião pública com uma lei especialmente promulgada para autorizar estas uniões até então consideradas incestuosas. 

No entanto, os que esperavam que Agripina fosse tão dócil como ha­via sido Messalina cedo se desenganaram. De fato, foi uma segunda Lívia que chegou ao poder e não tinha, para se lhe opor, a vontade de um homem semelhante a Augusto. Muito rapidamente, dispôs-se a seguir uma políti­ca pessoal. Abandonando os libertos, começa a seduzir o partido senato­rial. Chama Sêneca, confia-lhe o encargo de criar o jovem Nero e deixa entender que, quando chegasse o dia, saberia dar ao Império um príncipe mais respeitoso dos privilégios do Senado. Levou cinco anos para arruinar completamente a autoridade de Cláudio e ter do seu lado um partido. De qualquer modo, não teve, no fim de contas, nenhuma dificuldade em im­por Nero quando a morte de Cláudio - de que, não sem plausibilidade, a acusam de ter provocado - abriu as portas à sucessão. A sua previdência e a sua habilidade tinham afastado todas as dificuldades: pretorianos, sena­dores e plebe, todos aprovaram a ascensão de Nero à chefia do Império. Tinha sabido realizar o que os três reinados precedentes não tinham conse­guido senão muito raramente: a unanimidade política em Roma. 

Após o sucesso obtido contra o marido, tem de manter a sua influên­cia, desta vez sobre o filho e, antes de mais, sobre o próprio círculo que a ajudara na primeira parte da sua tarefa. Os homens com que rodeou o jovem Nero vão, pela primeira vez, pô-la em xeque. Tinha querido apoiar-se nos “conservadores” e Sêneca fora-lhe para isso muito útil. Mas ti­nha suscitado assim, sem o saber, um obstáculo insuperável. Nunca um “velho romano” permitiria a uma mulher exercer uma influência osten­siva sobre a vida política e os negócios do Estado. Ora, ela recusa per­manecer na sombra. Tem a ambição de todas as mulheres da sua estirpe, o sangue de Lívia corre-lhe nas veias, mas já não tem a sua prudência. Sabe que é capaz de levar a bom termo os mais importantes assuntos tão bem ou melhor do que um homem. Quer ser mais do que a mãe do príncipe, quer ser uma verdadeira rainha. Ora, se a tradição romana permite às mulheres, há muito tempo, ter peso nas decisões dos homens, esta tradição, que os homens em que Agripina se apoia representam, proíbe-lhes que apareçam em cena. 

O drama desencadeia-se desde os primeiros tempos do reinado de Nero: um dia em que embaixadores vindos da Armênia eram recebidos em audi­ência oficiai pelo imperador, Agripina dispunha-se a subir para o estrado e a sentar-se junto dele. Todos os presentes ficaram estupefados. Agripina aproximava-se da tribuna e ninguém ousava fazer um gesto para a impe­dir. Eis que Sêneca teve a presença de espírito de sugerir a Nero que o seu dever lhe impunha que fosse à frente da sua mãe. A sessão foi suspensa, o escândalo evitado, mas o incidente foi o prelúdio de uma longa crise78. Agripina compreendeu que estava longe de ter definitivamente ganho e que tinha de continuar a luta. Agora, era um filho que era necessário domi­nar, não um velho que se vence com uma carícia. 

Agripina vai continuar, durante quatro anos, este combate desigual, onde se usam, de ambos os lados, todas as armas. Nero ousa apaixonar-se por uma liberta de nome Acte. É, em si mesmo, um assunto sem consequências, mas Sêneca vê nele um meio para afastar da sua mãe o jovem príncipe. Favorece esta ligação. Um dos seus amigos, Sereno, o prefeito dos vigias noturnos, esforça-se, desde logo, por dissimular o escândalo, tomando a seu cargo os presentes que o jovem oferece à sua amante e exibindo-se com ela. Mas Agripina não é tola e enfurece-se. Então, privam-na de um dos seus aliados, o liberto Palas, um dos “gran­des funcionários” sobreviventes do reinado precedente, que favorecera a sua fortuna. Então ameaça. Britânico, o filho de Cláudio e Messalina, continua ali, como um remorso. Agripina sabe que pode sublevar os pretorianos a seu favor, diz ela. Britânico morre tão a propósito que nin­guém duvida de que Nero o mandara assassinar (o que de modo algum é certo). Em seguida, a própria Agripina é afastada do Palatino. Mas nem assim ela desarma. Há mesmo quem assegure que ela pensa tornar-se amante do seu próprio filho, crime que foi evitado, diz-se, por interven­ção de Sêneca79. Nero foi protegido também pelo seu amor por Popeia, que arrebatara a um dos seus amigos, Sálvio Otão, e com quem acabou por casar. Por fim, foi a influência de Popeia que o levou a cometer outro crime: o assassinato da sua própria mãe. 

Com Agripina e Nero termina uma linhagem. A família imperial procedente de Augusto tinha levado ao paroxismo estes dramas da pai­xão e da política, que não eram, certamente, novos em Roma, mas não tinham conhecido ainda uma tal intensidade nem uma tal continuidade. 

Os historiadores transmitiram-nos muitos detalhes sobre a perversidade sexual do último dos júlio-claudianos, que nos permitem supor que ce­dia com demasiada boa vontade aos arrebatamentos da sua imaginação e às curiosidades dos seus sentidos. Os mesmos historiadores relatam-nos também com que ternura gostou de Popeia, com que alegria acolheu o nascimento da sua filha, o único descendente que teve. Acrescentam que Popeia morreu por culpa do imperador, que ele lhe deu um dia um tal pontapé no ventre que a jovem, que estava grávida, não demorou a mor­rer. O que retira muito peso a esta versão é o rumor que correu entre o povo que Popeia morreu envenenada por Nero. O que é certo é que este continuou a amar a memória da sua mulher, a ponto de a “substituir” por um rapaz cujos traços recordavam os da morta. Também não devemos esquecer, para concluir o esboço do que foi, talvez, o verdadeiro perfil de Nero, o imperador que começou reinar aos dezessete anos, que a sua primeira amante, Acte, lhe permaneceu sempre fiel e que foi ela que o enterrou, quando todos o tinham abandonado, tendo morrido proscrito, declarado inimigo público pelo Senado, arrastando consigo a sorte de toda uma dinastia.

História - Idade Antiga - Antiguidade Clássica - Civilização Romana - República romana - Império romano - Casamento romano - casamentos arranjados - Otávio Augusto - César Augusto - Arria - Cecina Peto - amor estóico - Paulina - Sêneca - Marco Antônio - C
Textos de História ( 31 )
Todos os textos ( 154 )
Da jarra à placa
Tábua de argila Suméria | Salles, 2008, p. 25

Até o fim do 4° milênio a.e.c., os sumérios conservam os elementos de contabilidade (rebanhos, colheitas] graças aos calculi, fichas de argila que correspondem a números. Os calculi são guardados em "jarras" de argila. O proprietário "da jarra" a fecha com um "selo cilíndrico", que possui um desenho identificador. Esse procedimento lhe permite transmitir informações controladas. Pouco a pouco, surge o hábito de traçar sobre a "jarra” entalhes que representam os calculi colocados dentro dela. A partir de então, nota-se que não é mais necessário recorrer aos calculi, bastando enviar a "jarra” com os entalhes na parte externa. A "jarra" se achata e se torna uma placa.

JOANNÈS, Francis. Da jarra à placa. IN.: SALLES Catherine (org.). Larousse das civilizações antigas. São Paulo/SP: Larousse, 2008. p. 25
GOVERNANTES
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BATALHAS
Batalha de Zama
Segunda Guerra Púnica
Civilização Romana - Númidas
Civilização Cartaginesa - Gauleses - Espanhóis - Númidas
Século III a.e.c.
202
Setembro
A destruição da Babilônia
Guerras Assírias
Civilização Assíria
Babilônia
Século VII a.e.c.
689
-
Todas as batalhas
MAPAS
1811 - Apogeu do império napoleônico
A marcha de Aníbal
Deserto de al Wusta Arábia saudita
Todos os mapas ( 64 )
PERSONALIDADES
Vercingetorix
'o chefe supremo dos guerreiros', ou 'o chefe dos grandes guerreiros' ou 'vencedor de cem batalhas'
General, aristocrata, líder tribal
Civilização Celta, Século I a.e.c.
Todas as personalidades ( 23 )
cidades
Novgorod
Rússia
Fundada em 882,  Século IX e.c.
Vinland
América do norte
Fundada em 1000,  Século XI e.c.
Todas as cidades ( 15 )
A era de Catarina, a Grande

chegaram à cidade depois de uma marcha forçada desesperada e esmagaram o Exército rebelde. Pugachev voltou-se para o sul em direção ao Don, e para chegar até lá ele passou por áreas de agricultura servil. Ali a região explodiu; com ajuda dos rebeldes, os servos exterminaram a nobreza local, incluindo mulheres e crianças. Infelizmente para Pugachev, os cossacos do Don não se mobilizaram, e ele cruzou o Volga mais uma vez, fugindo para a sua base entre os basquírios. Ali as tropas finalmente alcançaram os rebeldes e esmagaram-nos. Alguns basquírios permaneceram leais a Pugachev até o fim, mas os cossacos acabaram por traí-lo. A revolta tinha acabado e, em 1775, Pugachev foi executado em Moscou. Finalmente havia chegado a paz, dentro e fora do país.

As leituras de Catarina deram-lhe não apenas uma série de ideias sobre justiça e administração, mas também sobre desenvolvimento econômico e condição social. Os escritores iluministas acreditavam que a sociedade exigia uma população civilizada para florescer, e isso era feito por meio da educação e cultura. A nova imperatriz ascendera ao trono num momento propício, dado que os esforços do Corpo de Cadetes, da Academia e da Universidade de Moscou estavam começando a dar resultados. A geração que chegou à maturidade junto com Catarina foi a primeira a ter absorvido plenamente a cultura europeia e a primeira a incluir muitos homens e até mulheres que também havia estado no exterior o suficiente para começar a entender a sociedade europeia.

Catarina estava decidida a acelerar esse processo. Embora fosse alemã de nascimento e cultura, durante a maior parte do seu reinado ela esteve no centro da cultura russa, mais que qualquer monarca depois dela e até mais do que o próprio Pedro. Ela não era meramente uma leitora, mas uma participante ativa da vida cultural europeia. Ela correspondeu-se com Voltaire de 1763 até a morte dele em 1778. Ela também teve correspondentes entre os enciclopedistas franceses, Denis Diderot e Jean d’Alembert, além do barão alemão Friedrich Melchior Grimm. Grimm era uma espécie de jornalista literário baseado em Paris, e depois de uma visita a São Petersburgo em 1773-1774 ele tornou-se o principal correspondente de Catarina e seu confidente epistolar até a morte dela. Catarina não fazia apenas corresponder-se com os grandes homens do Iluminismo. Quando ela ouviu falar dos problemas financeiros de Diderot, ela comprou a biblioteca dele, concedeu-lhe o uso perpétuo da mesma e pagou-lhe um salário como seu bibliotecário.

Os projetos culturais de Catarina eram numerosos. Nos bastidores ela foi a instigadora da Sociedade Econômica Livre, um grupo de nobres inspirados pela leitura da literatura iluminista a formar uma sociedade para a discussão de temas econômicos (especialmente agrícolas). Era uma associação independente das instituições estatais, embora gozasse do favor da imperatriz. A sociedade patrocinou um concurso de ensaios sobre a questão da propriedade da terra pelos camponeses que levantou inevitavelmente a questão da servidão, e conferiu o prêmio ao ensaio de um francês que declarava sem ambiguidade que a prosperidade só poderia vir da propriedade plena da terra pelo camponês. Por implicação, a servidão não podia criar prosperidade. O ensaio foi publicado em russo e francês para todos lerem. Ela continuou a apoiar a universidade, as academias e as escolas com dinheiro e incentivo. A primeira escola russa de meninas, o Instituto Smolnyi para meninas nobres em São Petersburgo, fora planejado pela imperatriz Elizabete e criado em 1764, e a imperatriz reorganizou e expandiu o Corpo de Cadetes. Eram escolas de elite, mas a reforma provincial de 1775 trouxe um sistema de escolas nas províncias, que foi expandido novamente em 1786 por um decreto que criava escolas secundárias em todas as capitais provinciais e uma rede de escolas primárias. O progresso era lento, mas em 1800 já havia mais de 300 escolas, o dobro do que havia em 1786. As escolas secundárias russas posteriores tiveram origem nessas leis.

Até a Igreja teve seu papel no progresso do Iluminismo. No momento da ascensão de Catarina, a maioria dos bispos ainda era ucraniana, dotada de um sentido forte, quase católico, da importância do clero. A imperatriz Elizabete havia iniciado o processo de substituí-los por russos e, sob Catarina, toda uma nova geração chegou ao poder na Igreja. Catarina também inscreveu em lei a secularização das terras monásticas formulada por Elizabete contrariamente à posição dos bispos ucranianos mais velhos. A nova geração, como Platon Levshin, metropolita de Moscou de 1775 a 1812, havia recebido formação religiosa luterana com uma forte orientação para a pregação. Seu objetivo era levar as "verdades" do cristianismo ortodoxo ao  povo, em vez de cultivar um ascetismo ideal. Essa ênfase coincidiu com a de Catarina, pois ela via a religião como o fundamento da boa cidadania, o que era outro preceito iluminista.

A corte de Catarina manteve os teatros fundados pelos seus predecessores, e os teatros permaneceram no centro das artes do palco na Rússia. Ela persuadiu Araya a aposentar-se e substituiu-o por uma série de músicos renomados, a começar pelo veneziano Baldassare Galuppi. Sumarokov continuou a dirigir o teatro e escrever peças, e Catarina e a corte costumavam frequentá-lo várias vezes por semana. Em 1768, ela fundou uma sociedade para a tradução de livros estrangeiros que patrocinou toda uma série de importantes traduções, obras eruditas e de entretenimento para o público russo. Ela também editou sua própria revista, Vsiakaia vsiachina {Todo Tipo de Coisas), em 1769. A ideia era imitar a Spectator de Addison e Steele, algo que Sumarokov havia tentado alguns anos antes com sucesso duvidoso. A revista, como seu protótipo, deveria combinar entretenimento com edificação sem moralismo opressivo - um tipo de publicação altamente popular na Alemanha nativa de Catarina e noutros lugares da Europa. Catarina manteve seu papel em segredo, embora ele fosse amplamente conhecido em São Petersburgo. A reação mais vigorosa à sua revista veio de Nikolai Novikov (1744-1818), que lançou uma série de revistas suas, estabelecendo a primeira empresa privada de edição importante da Rússia. Mais bem escritas e mais ousadas que a revista da imperatriz, as publicações de Novikov alcançaram popularidade considerável, mas não suficiente para proporcionar uma boa renda, e ele logo se dedicou à publicação de livros para a Universidade de Moscou, o que lhe garantia um subsídio indireto do Estado. Em Moscou, Novikov também se aproximou cada vez mais dos maçons, um grupo com uma ampla rede de contatos e impacto considerável sobre a cultura russa da época. Os maçons não eram apenas um clube social, mas um movimento de ideias com metas definidas, ainda que nebulosas. A maioria deles havia lido a literatura mística europeia que estava se tornando cada vez mais popular no final do século XVIII e considerava-se comprometida com o autoaperfeiçoamento, a contemplação de Deus e suas obras e, acima de tudo, a filantropia ativa e o incentivo ao progresso do mundo. Infelizmente para eles, os maçons levantavam toda espécie de suspeitas. Clérigos conservadores viam-nos como os propagadores de uma religião alternativa e perniciosa, enquanto muitos nobres esclarecidos os tomavam por obscurantistas. A própria Catarina via-os dessa maneira e escreveu várias comédias curtas, satirizando-os. Os maçons também constituíam uma sociedade internacional ligada às dinastias estrangeiras da Prússia e da Suécia, que eram hostis à Rússia, e, o que era ainda mais grave, os maçons haviam recrutado o herdeiro, o tsarévitche Paulo, como patrono. Este último elemento tornou-os profundamente suspeitos na mente de Catarina, haja vista que Paulo estava descontente com seu papel marginal na corte e no governo e cada vez mais hostil para com sua mãe conforme os anos passavam.

Apesar de contratempos, Catarina não desistiu de patrocinar a literatura russa e, em 1782-1783, ela nomeou sua velha amiga, a princesa Dashkova, para chefiar a Academia de Ciências e a nova Academia de Letras. Dashkova, que havia encontrado Benjamin Franklin em Paris, foi a primeira mulher membro da Sociedade Filosófica Americana de Filadélfia. Nesses cargos, Dashkova pôde publicar mais uma série de revistas literárias e outras publicações e organizar um comitê para produzir o primeiro dicionário russo. Um decreto de 1783 autorizava explicitamente a edição e publicação privada, sujeita à censura dos chefes de polícia das capitais.

O principal problema para os editores privados não era a censura ou a atitude do Estado, mas a falta de público amplo. Somente a aristocracia e um pequeno corpo de professores e eruditos tinham instrução para interessar-se por livros e revistas, e grande parte da aristocracia morava em propriedades remotas ou cidades provinciais e preferia a literatura francesa à russa. Os escritores eram menos afetados por essa situação que os editores, pois a maior parte dos escritores importantes eram nobres empregados no serviço público de uma forma ou de outra, e portanto não dependiam das vendas de suas obras para ter renda. Muitos nobres até desprezavam Novikov por tentar viver dos lucros da literatura. O serviço público, no entanto, envolvia os escritores nas facções da corte e numa relação complexa com a imperatriz.

Assim, os dois escritores mais importantes da época, o dramaturgo Denis Fonvizin (1744-1792) e o poeta Gavriil Derzhavin (1743-1816) envolveram-se numa rede de lealdades pessoais e políticas na corte. Fonvizin passou o início de sua carreira como cliente do conde Panin, o que o levou a fazer, próximo ao fim da sua vida, parte da rede de apadrinhamento centrada em Paulo, o herdeiro do trono. Essa afiliação tornava-o impopular junto a Catarina, mas foi ela que encomendou a primeira apresentação da sua melhor peça, O Adolescente, no teatro da corte, em 1782. Não obstante, a renúncia final de Panin a todos os cargos em 1781 contribuiu para o fracasso de Fonvizin em conseguir autorização para uma revista alguns anos mais tarde.

Fonvizin e Novikov eram formados pela Universidade de Moscou, enquanto o poeta Derzhavin vinha de uma família da aristocracia provincial e havia apenas terminado o ginásio em Kazan. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, ele nunca aprendeu bem o francês e sua única língua estrangeira era o alemão, que ele aprendeu em Kazan. Ele começou sua carreira no Exército e desempenhou um papel menor e um tanto inglório na luta contra os rebeldes de Pugachev. Nessa época, ele chamou a atenção de Potemkin e continuou a ser cliente do favorito enquanto fazia carreira na administração pública, em São Petersburgo e nas províncias, e viveu o bastante para ocupar brevemente o cargo de ministro da Justiça sob Alexandre I. A poesia de Derzhavin tornou-o famoso nos anos 1780, quando ele produziu odes em homenagem a Catarina e suas vitórias, além de sátiras de cortesãos e suas fraquezas, seguindo o modelo de Horácio e do classicismo europeu. Como Fonvizin, ele tinha um domínio da língua que permitiu que sua obra sobrevivesse para os leitores russos apesar do ocaso dos gêneros setecentistas que ele empregou.

No final do reinado de Catarina, estava começando a formar-se timidamente um público independente da corte para a literatura, o teatro, a poesia e a prosa em russo. Outras formas de arte continuavam estreitamente ligadas ao mecenato da corte e da nobreza. O teatro musical e a orquestra da corte eram dominados em grande parte por músicos importados, e a centralidade da corte na vida cultural significava que a nobreza ouvia uma vasta gama de música europeia. As tradições nativas subsistiam na música sacra, uma especialidade particular dos ucranianos associados aos coros das capelas imperiais. O mais bem-sucedido desses ucranianos era Dmitri Bortnyanskii (1751-1825), o primeiro compositor da Rússia, que abordava com a mesma facilidade os concertos europeus e o canto coral russo. Nenhum dos músicos era nobre, fato que impedia sua aceitação como artistas sérios. Uma situação semelhante ocorria nas artes visuais, nas quais a Academia de Arte dominava a cena. Catarina reorganizou a Academia para dar-lhe mais autonomia e melhor financiamento, mantendo ao mesmo tempo seus instrutores majoritariamente franceses, e garantiu aos artistas plásticos uma condição social mais privilegiada que correspondia à sua profissão. Os estudantes russos, todos de origem não nobre e por vezes até servil, destinavam-se a fornecer arte para os palácios da imperatriz, da nobreza e da Igreja. A Academia também oferecia bolsas aos estudantes para passarem temporadas em Paris e Roma, ampliando enormemente a sua formação e experiência. Em retrospecto, seu pior defeito, além do seu caráter muito “oficial”, era sua cópia precisa de modelos europeus que se coadunavam mal com as possibilidades e tradições russas. Como nas academias de arte europeias, o gênero de maior prestígio era a pintura histórica  no estilo do classicismo. Tentativas de retratar a história russa nesse estilo foram elogiadas na época, mas produziram quadros que, para o gosto mais recente, eram inexpressivos no melhor dos casos, e muitas vezes cómicos. Os antigos russos apareciam em armaduras fantásticas que lembravam mais os romanos que a Rússia medieval. Mais atraentes para a preferência mais atual eram os retratistas, que, por ironia, tinham pouca ou nenhuma ligação com a Academia. O primeiro a ficar conhecido foi Ivan Argunov (1727-1802), servo da riquíssima família Sheremetev. Seus sucessores incluíam Fyodor Rokotov, servo dos Repnins, e dois ucranianos, Dmitri Levitskii (pupilo de Argunov) e Vladimir Borovikovskii, o único nobre entre eles. Seus retratos encantadores de homens e mulheres nobres, bem como da própria Catarina, enchiam os palácios e casas de campo russos e eram de qualidade comparável a muitos retratos franceses e ingleses da época, ainda que menos inventivos que estes últimos.

A época de Catarina marcou o início da arquitetura classicista russa, que transformou São Petersburgo na cidade que hoje conhecemos. Ela era firmemente contrária à exuberância barroca do arquiteto-chefe Rastrelli, da sua predecessora Elizabete. Catarina e seus contemporâneos construíram, com alusões romanas inconfundíveis, uma arquitetura apropriada para uma grande capital imperial e suas elites. Simetria estrita, colunas romanas e arcos triunfais estavam na ordem do dia. A realização suprema da era foi o monumento a Pedro, o Grande, o “Cavaleiro de Bronze” na expressão imortal de Púchkin. Obra do escultor francês Étienne-Maurice Falconet e de sua nora, ele mostra Pedro na indumentária de um imperador romano a cavalo sobre uma rocha gigante com a simples inscrição “De Catarina II para Pedro I” em latim e russo. Inaugurada em 1782 numa cerimônia solene, a estátua continua sendo a contribuição mais impactante de Catarina para a cidade de São Petersburgo.

Os anos posteriores a Pugachev não foram preenchidos apenas com projetos artísticos e entretenimentos da corte, pois foram anos de extensa reforma do governo e sociedade russa. A Comissão Legislativa finalmente deu frutos, embora indiretamente: Catarina sabia qual era o pensamento da nobreza a respeito das questões e o que poderia ser útil enquanto não os contrariasse. A primeira tarefa foi reordenar a administração das províncias e cidades, o que implicava criar um novo sistema de corte. Os decretos de Catarina de 1775 fragmentaram as grandes unidades administrativas em cerca de 40 novas províncias, que por sua vez dividiam-se em 5 ou 6 unidades menores. O governo detinha-se essencialmente no nível dessas unidades menores, deixando o campo à nobreza e às comunidades camponesas. A figura local mais poderosa era o governador provincial, nomeado pela imperatriz. Tratava-se invariavelmente de um nobre, que podia ser um grande aristocrata, mas no mais das vezes era um militar. No mesmo decreto, Catarina estabeleceu tribunais para a nobreza que deveriam combinar juízes nomeados com nobres locais eleitos para auxiliá-los. Eram tribunais somente para a nobreza. Nas regiões onde os camponeses livres predominavam, haveria igualmente tribunais com camponeses eleitos, além dos oficiais para ministrar a justiça. Como sempre, o nível das aldeias era o mais fraco e era ali que o poder estatal existia muitas vezes apenas no papel. Nas cidades, Catarina também criou tribunais unicamente para os citadinos, que consistiam em juízes nomeados e assessores eleitos. Assim, a justiça era dividida em tribunais especiais para cada grupo social e combinava juízes nomeados pelo governo com assessores eleitos.

A nova legislação implicava uma maior responsabilidade por parte da nobreza e da elite dos citadinos, porém muitos aspectos básicos da sua condição e relação com o Estado permaneceram indefinidos. As respostas para esse problema foram as Cartas de 1785 para a nobreza e os citadinos. A Carta da Nobreza confirmou e ampliou os direitos já existentes na prática desde a época de Pedro e acrescentou outros, incluindo o decreto de 1762 sobre a isenção do serviço público obrigatório. Os nobres não podiam ser privados de vida e propriedade sem julgamento por um tribunal composto de pares. A nobreza era hereditária e não podia ser anulada sem condenação judiciária por crimes específicos, como homicídio ou traição. Eles não eram sujeitos a castigos corporais e o direito de possuir terra e servos era reservado unicamente a eles. Os nobres em cada província deviam reunir-se para formar uma Assembleia da Nobreza provincial, que elegia seu próprio presidente e determinava as condições de admissão. O presidente atuava como líder da aristocracia local, transmitindo os desejos desta à capital e as ordens do governo à nobreza. Os presidentes tinham pouco poder formal mas, na posição de representantes principais da nobreza local, muitas vezes com conexões poderosas em São Petersburgo, eles eram figuras imponentes. Os governadores provinciais, apesar do seu poder formal, julgavam mais sábio cortejar os presidentes da nobreza. Nas cidades, os decretos de Catarina dividiram a população urbana por níveis de riqueza e puseram a maior parte da administração, como os tribunais, nas mãos das elites urbanas. A população elegia um órgão de governo dentre os cidadãos mais ricos para administrar a parte comercial da vida urbana, deixando os tribunais e a polícia como especificados na reforma provincial de 1775. Os citadinos também não podiam ser privados de vida e propriedade sem condenação por um tribunal de pares. Os citadinos de condição inferior estavam sujeitos a castigos corporais. Também havia uma elaborada legislação suntuária que especificava limites para a ostentação de luxo das ordens mais baixas. Embora restritas às classes alta e média, as Cartas foram o primeiro fruto do pensamento iluminista acerca dos direitos e deveres do cidadão a ser promulgado no Direito russo.

Enquanto Catarina e seus ministros estavam reordenando o governo russo, eles não perderam de vista a situação na fronteira meridional. Os otomanos relutavam em ignorar os ganhos russos, e a “autonomia” da Crimeia sob administração russa revelou-se um arranjo instável. Em 1783, Catarina anexou o território à Rússia, adicionando-o às vastas áreas da Nova Rússia sob a mão firme de Potemkin. Catarina e Potemkin começaram a elaborar planos mais ambiciosos de conquista no Sul, tentando a Áustria unir-se a eles no “projeto grego”, uma proposta para a partição dos Bálcãs e a restauração de uma monarquia grega com príncipes russos sobre as ruínas do Império Otomano. Finalmente, em 1787 a Turquia declarou guerra. As tropas russas começaram a avançar nos Bálcãs, mas em outros lugares a situação deteriorou-se. O imperador austríaco José II honrou seu tratado com a Rússia, e seu Exército começou a avançar também para o Sul, mas ele foi logo derrotado pelos turcos. O rei Gustavo III da Suécia atacou a Rússia igualmente, na esperança de vingar-se das perdas anteriores e fortalecer sua posição doméstica. Catarina esperava que tropas polonesas apoiassem o esforço russo, mas quando Stanislaw Poniatowski convocou a dieta para discutir a questão, ela transformou-se rapidamente numa assembleia revolucionária que passou a rejeitar a dominação russa e elaborar uma constituição reformada. Para piorar as coisas, a Prússia apoiou cinicamente o esforço polonês com vistas à sua própria expansão futura na Polônia. Catarina não podia contar com ninguém além de Potemkin e seu Exército e Marinha.

Catarina mostrou os nervos de aço que a haviam levado ao trono 30 anos antes. Ao ouvir os canhões da esquadra sueca das janelas do seu palácio, ela continuou a trabalhar sem se importar com eles. O progresso no Sul era lento, especialmente de início, mas a nova esquadra do mar Negro (com alguma ajuda do herói naval estadunidense John Paul Jones) foi vitoriosa, e o Exército empurrou incansavelmente os turcos em direção aos principados romenos. Gustavo III fez pouco progresso e viu-se alvo de uma conspiração de oficiais finlandeses descontentes com o absolutismo sueco. Com seus recursos exauridos, apesar do modesto sucesso no mar, Gustavo negociou a paz em 1790. A Turquia permaneceu na guerra.

Para complicar ainda mais a situação da Rússia, a Grã-Bretanha, cujas próprias ambições imperiais cresciam rapidamente, começou a preocupar-se com a movimentação russa em direção ao Mediterrâneo e adotou uma postura hostil. Catarina precisava ter sucesso e, no final de dezembro de 1790, o general Alexandre Suvorov deu-o a ela, tomando a fortaleza de Izmail, perto da foz do Danúbio. Ele tomou o forte num assalto frontal com muitas baixas, mas o tomou. Na primavera seguinte, os russos avançaram para o sul em direção à Bulgária e, no final do verão, os turcos capitularam. As fronteiras da Rússia estendiam-se agora até o rio Dniestre, incluindo a localização da futura cidade de Odessa. Catarina havia jogado suas cartas com grande habilidade e tinha vencido. Foi então que Potemkin morreu. Catarina continuou a ter amantes e favoritos, mas nenhum deles jamais recebeu o amor e a confiança que Potemkin havia inspirado.

As guerras com a Turquia e a Suécia haviam exigido toda a atenção e recursos do governo russo, mas eles estavam conscientes de que a Europa estava cada vez mais em crise. A Revolução Francesa estava transformando a política europeia cotidianamente e, mais perto de casa, a constituição reformada da dieta polonesa de 3 de maio de 1791 significava que a Rússia teria em breve um vizinho hostil e mais poderoso. Não havia muito que Catarina pudesse fazer com relação à França, mas a Polónia era diferente. Ela conspirou com os adversários aristocráticos da nova constituição e, assim que terminou a guerra com a Turquia, ela e seus aliados poloneses avançaram contra Poniatowski e o novo governo. O pequeno Exército polonês foi desbaratado com facilidade e Catarina combinou com a Prússia uma nova partição. Essa não era sua opção preferida, pois ela sempre quis uma Polônia unida e obediente, mas Catarina percebeu que a nova ordem era demasiado popular entre os nobres poloneses para ser revertida e que ela tinha de conciliar a Prússia e a Áustria.

Assim, uma Polônia muito reduzida ganhou uma constituição conservadora sustentada por baionetas russas, mas ela não durou. Em 1794, Tadeusz Kosciuszko liderou uma rebelião no Sul da Polônia que logo atingiu Varsóvia e obteve alguns sucessos modestos. Catarina estava convencida de que o jacobinismo francês estava por trás disso e mandou Suvorov à frente de um Exército russo. Suvorov tomou Varsóvia num grande massacre e as  potências agressoras concordaram em encerrar a existência da Polônia. A Prússia e a Áustria recortaram as áreas com populações predominantemente polonesas, enquanto a Rússia tomou a Ucrânia Ocidental, o restante da Bielorrússia e a Lituânia.

Agora a Rússia havia se tornado um verdadeiro império multinacional. Os 5,5 milhões de novos súditos levaram a proporção de russos no Estado de cerca de 85% para talvez 70%. Catarina não travara a guerra para reunir os eslavos orientais, mas havia de fato incluído no seu império praticamente todo o território do Rus de Kiev medieval.

Se Catarina não podia fazer muita coisa para afetar o progresso da Revolução Francesa, nem por isso estava menos assustada com seu radicalismo crescente, e a nobreza russa compartilhava seus temores. A política de tolerância e Iluminismo aos poucos chegou ao fim. Especialmente após a proclamação da República e execução de Luís XVI, a importação e circulação de novos livros franceses e até de escritores iluministas familiares há tempos enfrentava agora sérias restrições. Em 1792, Novikov foi preso depois de uma investigação, mas não houve julgamento e ordenou-se que ele fosse confinado à prisão indefinidamente. Os maçons foram banidos e sofreram suspeitas crescentes como partidários potenciais dos revolucionários franceses. Em 1796, poucas semanas apenas antes da sua morte, Catarina estabeleceu o primeiro sistema russo de censura estatal, que já não dependia mais da Academia de Ciências ou da polícia local para trabalhar.

Porém, o caso mais espetacular de dissensão e repressão acontecera em 1790. Nesse ano, Alexander Radishchev, um nobre e funcionário público de baixo escalão, publicou um livro chamado Uma Viagem de São Petersburgo a Moscou. Ao usar o gênero então popular da viagem fictícia, ele descrevia as aldeias e cidades da Rússia e intercalava suas próprias reflexões sobre sociedade e política. Seu retrato da servidão era extremamente desfavorável - na sua visão, um sistema que corrompia tanto o senhor como o servo era moralmente indefensável e economicamente ruinoso. Suas elucubrações políticas eram mais vagas, mas sugeriam claramente que a autocracia não era a melhor forma de governar a Rússia. Catarina leu o livro e fez muitas anotações marginais, e acabou por pedir a prisão de Radishchev. Interrogado no Departamento Secreto do Senado, Radishchev foi condenado por sedição e lesa-majestade no tribunal penal de São Petersburgo e condenado à morte. Catarina comutou a pena para o exílio num forte remoto da Sibéria e Radishchev partiu, mas com um estipêndio substancial de um dos figurões de Catarina, que intercedeu em seu favor junto à imperatriz.

A Revolução Francesa e a morte de Catarina em 1796 foram o fim do século XVIII na Rússia. Durante um século, o Estado, ou mais precisamente os monarcas e suas cortes, haviam se esforçado para transformar o país em moldes europeus e trazer a cultura europeia para a Rússia. Nessa tarefa eles tiveram amplo sucesso. A Rússia tinha instituições e leis copiadas de modelos europeus, e diplomatas, mercadores e viajantes ocidentais sentiam-se em casa em São Petersburgo, ou até em qualquer lugar da Rússia. A estrutura do novo Estado proporcionara a base para a ascensão da Rússia ao posto de grande potência e incentivara o crescimento do comércio e indústria, da educação e ciência. A colonização de novas áreas no Sul contribuíra para a explosão demográfica em curso que estava rapidamente fazendo da Rússia o maior país da Europa, mesmo sem contar os territórios recém-anexados.

A transformação cultural foi profunda. No final do século, os russos cultos, a maioria deles ainda composta de nobres, haviam absorvido grande parte das principais ideias e realizações artísticas da Europa moderna e estavam começando a oferecer suas próprias contribuições, ainda modestas. O pensamento político russo tinha os mesmos elementos e baseava-se nos mesmos escritos que no Ocidente. Se os nobres russos não admiravam as especulações democráticas de Rousseau, eles absorveram os ensinamentos de Pufendorf e Montesquieu, assim como de uma série de escritores menores. A monarquia da Rússia era entendida de maneira bastante semelhante à da França ou Prússia, Áustria ou Suécia.

A realidade russa impunha limites tanto à construção do Estado quanto ao progresso cultural. A Rússia ainda era pobre demais para financiar um sistema educacional extensivo e todo o governo local sofria de falta crônica de fundos e pessoal. Fora das capitais, grandes cidades e propriedades rurais aristocráticas, a vida continuava como antes, um ciclo de trabalho rural pontuado pela liturgia ortodoxa. Áreas de progresso econômico existiam nos Urais e nas aldeias e cidades comerciantes da Rússia central, mas ainda era uma sociedade esmagadoramente agrária.

Além disso, era uma sociedade agrária da qual metade dos agricultores eram servos. Esse foi um problema que Catarina e seus amigos esclarecidos não conseguiram mudar, nem mesmo enfrentar. Ela não gostava do sistema e sabia que era pernicioso, não só para o progresso agrícola, mas estava consciente de que praticamente todos os nobres, dos quais seu trono dependia, viam-no como a base da sua riqueza e posição na sociedade, como de fato era. A Rússia não era a única a manter o sistema servil no final do século. Ele subsistia na Polônia e na Prússia, e José II mal havia começado a desmanchá-lo na Áustria.

Exatamente no momento em que a Rússia parecia ter alcançado uma ordem estável e europeia, a Revolução Francesa mudou todas as regras do jogo. Agora ela teria de tentar responder a toda uma série de novos desafios, internacionais e domésticos, culturais e políticos. Sua própria sobrevivência acabaria por ser posta em jogo. Abria-se uma nova e perigosa era.

Revolução Russa de 1917

A Revolução Russa de 1917 foi uma das muitas consequências da Primeira Guerra Mundial. A guerra submeteu o Estado e a sociedade russa a tensões que nenhum dos dois podia suportar. O resultado foram seis anos de guerra e tumulto que criaram a União Soviética. A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial não foi um acidente. Depois da Guerra Russo-Japonesa, a política externa da Rússia voltou-se para o oeste. Em 1907, a Rússia concluiu um tratado com sua rival de longa data, a Grã-Bretanha, para estabelecer um domínio conjunto sobre o Irã. Os russos tomaram controle da parte setentrional do país até Teerã, e os britânicos do Sul. Esse compromisso pôs fim à competição imperial anglo-russa na Ásia e fez que a Rússia se tornasse um aliado efetivo da Grã-Bretanha, bem como da França. Os únicos inimigos imagináveis eram a Alemanha e a Áustria. O acordo sobre a Pérsia armou o palco para os eventos de 1914, mas foram as rivalidades imperiais nos Bálcãs que proporcionaram a fagulha para a explosão. Ali, a Rússia enfrentava um Império Otomano ressurgente, aliado com a Alemanha e a Áustria, seguidas pela Bulgária. Nesse ponto, o único aliado da Rússia era a diminuta Sérvia, que estava exatamente no caminho da expansão austro-alemã no Sul. Uma série de crises nos Bálcãs nesses anos mostrou repetidamente a fraqueza da Rússia na região: ela não tinha aliados formais além da Sérvia, nem o poder informal derivado dos laços comerciais estabelecidos pelos alemães e austríacos, bem como os franceses e britânicos. Quando Gavrilo Princip assassinou o arquiduque austríaco em Sarajevo em 1914, Viena lançou um ultimato à Sérvia e a Rússia teve de apoiar a resistência sérvia. A credibilidade básica da Rússia estava em jogo, e o resultado foi a guerra. Ela não havia buscado a guerra, mas desviado em direção à crise, tal como estava fazendo em muitas outras áreas.

Se o governo do Império Russo depois da morte de Stolypin meramente vagava no fluxo dos acontecimentos, nem a sociedade russa nem o movimento revolucionário demonstravam a mesma passividade. Os anos imediatamente anteriores à Primeira Guerra Mundial foram anos de crescimento econômico dinâmico para as ilhas de indústria moderna no mar de atraso rural. O desenvolvimento industrial significava crescimento no tamanho e, em certa medida, na sofisticação da classe operária, e os partidos revolucionários estavam prontos para fazer uso dele. Em alguns lugares, os trabalhadores recorreram novamente à greve. Em 1912, no rio Lena, na Sibéria, várias centenas de trabalhadores pereceram quando os soldados e a polícia reprimiram uma greve nas minas de ouro de propriedade inglesa. Por volta dessa época, os partidos revolucionários haviam se recuperado da derrota de 1905-1907. Os bolcheviques, mencheviques e SRs estavam razoavelmente bem organizados e o movimento trabalhista recuperou-se. Na primavera de 1914, uma onda de greves varreu São Petersburgo, e nela os bolcheviques pareciam pela primeira vez ser a liderança, e não os mencheviques ou SRs. Todavia, o restante do país estava relativamente sossegado, e as notícias da guerra atingiram a Rússia como um raio. Na verdade, a Rússia havia dedicado muito esforço à reconstrução do Exército e da Marinha desde a guerra com o Japão, e um dos numerosos fatores que aguilhoavam o Estado-Maior alemão e o Kaiser a forçar uma guerra imediata era o temor de que a Rússia seria muito mais difícil de derrotar dentro de poucos anos. Na verdade, tanto o planejamento quanto o equipamento ainda eram deficientes. Por insistência do tsar, enormes somas haviam sido gastas para reconstruir a esquadra do Báltico, que no fim era pequena demais para desafiar a Marinha alemã e nunca deixou o porto. A indústria de armamentos da Rússia ainda era inadequada para abastecer um Exército moderno e sua rede de transporte, adequada em tempos de paz, era pequena demais para a mobilização e abastecimento velozes do Exército na fronteira ocidental. Para piorar as coisas, o avanço rápido do Exército alemão pela Bélgica e pela França gerou uma crise no fronte. Sob intensa pressão da França, os russos lidaram com a crise enviando um Exército despreparado para a Prússia Oriental, uma expedição que terminou em derrota em Tannenberg em agosto de 1914. Assim, a Rússia iniciou a guerra com uma derrota.

Em casa, a guerra produziu de início uma orgia de patriotismo. Sob aclamação universal, o governo mudou o nome alemão São Petersburgo para Petrogrado, uma tradução russa, mais ou menos, do mesmo. Liberais e reacionários na Duma uniram-se numa plataforma de guerra e a intelligentsia, como seus pares a oeste, despejou uma enxurrada de propaganda anti-inimigo e delírios nacionalistas. Os trabalhadores também foram arrastados pela febre e o movimento de greve na capital evaporou-se. A polícia reprimiu fortemente os partidos revolucionários, particularmente os bolcheviques, e dentro de poucos dias seus líderes que estavam na Rússia desapareceram na prisão e no exílio na Sibéria. Stalin estava entre eles. Os bolcheviques foram objeto de ira particular do governo por causa da sua posição acerca da guerra, uma posição que transformou um obscuro grupo marxista num movimento mundial que reordenou fundamentalmente o século XX. Afinal, foi da reação de Lenin à guerra, e não como resposta à Revolução Russa posterior, que o comunismo nasceu.

Antes de 1914, os partidos socialistas europeus haviam prometido reiteradamente, nas suas reuniões internacionais, opor-se a todas as guerras entre os Estados europeus por serem nocivas aos interesses da classe operária. Tratava-se de grandes e poderosos partidos de massa, que controlavam sindicatos trabalhistas importantes e ofereciam serviços sociais e culturais elaborados, no que eram totalmente diversos do pequeno bando de combatentes clandestinos de Lenin. Quando os governos pronunciaram declarações bombásticas de guerra em julho e agosto de 1914, a expectativa era a de que os socialistas se opusessem à guerra e até fizessem greve, como haviam ameaçado antes, no intuito de pôr fim a ela. Nada disso aconteceu. Ao contrário, os líderes socialistas pronunciaram-se quase unanimemente a favor da guerra e juntaram-se ao coro de patriotismo e ódio nos seus respectivos países. Os poucos que discordaram sentiram-se obrigados pela disciplina do partido a ficarem quietos e seguir a liderança. Entre os russos, o ancião fundador do marxismo russo, Plekhanov, pronunciou-se a favor da guerra, e os mencheviques adotaram uma posição de compromisso, não conclamando a uma vitória russa, mas não se opondo à guerra. Entre os socialistas europeus, somente os bolcheviques de Lenin e um punhado de dissidentes mencheviques como Trotsky opuseram-se à guerra desde o primeiro dia.

Lenin não era um pacifista, e seu programa para a guerra não consistia apenas em opor-se a ela. Ele proclamou que a derrota do Império Russo seria o melhor resultado para a Rússia e conclamou todos os socialistas, na Rússia e alhures, a transformar a guerra internacional numa guerra civil.

Em outras palavras, ele estava lançando um apelo à insurreição armada em tempo de guerra. Essa posição parecia-lhe a única atitude marxista correta, mas por que tão poucos socialistas europeus concordaram? Segundo ele, eles haviam traído a classe operária que deveriam liderar, mas por quê? Desesperado com o futuro, Lenin voltou-se para a teoria marxista para tentar entender o que tinha acontecido. Ele releu a Metafísica de Aristóteles (em grego; ele era produto do ginásio russo) e a Ciência da Lógica de Hegel para tentar recapturar o sentido original da dialética como Hegel e Marx a compreendiam. Ele também realizou um longo estudo dos eventos económicos recentes. Seu objetivo era entender o apoio dado à guerra pelos socialistas europeus. Sua conclusão foi que a resposta estava no imperialismo, na riqueza excessiva gerada pelos impérios europeus na África e na Ásia, alimentada pela concentração crescente do capital. O império era o verdadeiro objetivo das potências beligerantes, ocultado sob um jargão enganador de liberdade ou honra nacional. A riqueza do império também produzira uma aristocracia trabalhista, contente com o status quo e portanto relutante em causar problemas em tempo de guerra. A curto prazo, ela se beneficiaria com o imperialismo. Ambas as conclusões viriam a ter efeitos decisivos após a Revolução Russa, mas por enquanto a leitura fez pouco mais que manter Lenin ocupado enquanto o mundo afundava cada vez mais no lodaçal sangrento da guerra.

À medida que as baixas acumulavam-se aos milhões, a oposição à guerra começou a surgir entre os socialistas na Europa Ocidental. Os primeiros a abandonar as fileiras foram os pertencentes à ala esquerda dos social-democratas alemães, Rosa Luxemburg, Karl Liebknecht e seus seguidores, que votaram contra os créditos de guerra no Reichstag em dezembro de 1914. Dentro de pouco tempo, os socialistas antiguerra estavam realizando pequenas reuniões na Suíça para exigir o fim da guerra e discutir táticas, e mesmo ali Lenin, com seu apelo intransigente à revolução, era minoria. Pela primeira vez, os bolcheviques russos chamaram a atenção do mundo como um bando diminuto de revolucionários que se aferravam à sua posição mesmo quando ela parecia condená-los ao isolamento e à derrota. Sua posição começou a angariar apoio entre socialistas ocidentais e, dessas pequenas reuniões de grupos na Suíça, surgiu um movimento mundial com consequências decisivas para a Rússia, bem como para a China, o Vietnã e outros países.

As consequências dessas reuniões obscuras estavam num futuro distante. Enquanto isso, na Rússia, a situação deteriorava-se gradualmente e não oferecia consolo nem ao tsar e seu governo, nem aos bolcheviques. No começo da guerra, Nicolau suspendeu a Duma, na esperança de governar sozinho. A derrota inicial na Prússia Oriental foi seguida, na primavera de 1915, por uma retirada geral russa da Polónia, o que acabou levando a uma crise no governo. A Duma foi convocada novamente no verão e os Kadets e conservadores moderados conseguiram formar um “Bloco Progressista”, que ofereceu cooperar com o governo no esforço de guerra. Por fim, o governo teve de apelar aos zemstvos e diversos comités de empresários para resolver as crises de abastecimento, mas só o fez com relutância e tarde demais. Surgiram novas agências para regular a economia para a guerra, como na Alemanha e outras potências beligerantes, mas a Rússia carecia da infra-estrutura para fazê-las funcionar. O governo regulou os preços dos cereais para abastecer o Exército e as cidades com comida barata, mas o resultado foi que os camponeses passaram a semear menos e a produção de alimentos começou a cair, piorando a situação.

No final de 1915, o próprio Nicolau assumiu o comando do Exército e mudou-se de Petrogrado para Stavka, o quartel-general do Exército perto de Mogilev. Sua mudança não ajudou o Exército e só desorganizou ainda mais o governo na capital, pois o tsar continuava a ser a única autoridade e agora era ainda mais difícil conseguir sua atenção. Suas consultas reiteradas à imperatriz Alexandra e a Rasputin provavelmente não tiveram muito impacto sobre a política, mas acabaram por indispor ainda mais o público. O Exército russo teve êxitos mitigados, já que pouco podia fazer contra os alemães, mas obteve uma vitória importante contra a Áustria em 1916 (a “Ofensiva Brusilov”, comandada pelo general Aleksei Brusilov) e contra os turcos. Erzurum, na Anatólia Oriental, caiu nas mãos do general Nikolai Yudenich no mesmo ano. Esses sucessos não puderam mudar a estagnação geral da guerra nem interromper a carnificina. As baixas russas aproximavam-se de cerca de 2 milhões de mortos, 2,5 milhões de feridos e 5 milhões de prisioneiros de guerra. Na Duma, o líder dos Kadets, Pavel Miliukov, falou de traição em altas esferas (uma referência à imperatriz Alexandra, entre outros) e, em dezembro de 1916, um grupo de jovens aristocratas temerosos quanto ao destino da monarquia assassinou Rasputin. Primeiro convidaram-no para jantar e serviram-lhe comida e vinho com altas doses de veneno. Depois, ao notarem que isso não surtia efeito na sua constituição corpulenta, eles atiraram nele e puseram-no sob o gelo dos canais de São Petersburgo. Rasputin se fora, e logo foi a vez da monarquia.

 

Sob muitos aspectos, a queda da dinastia Romanov foi quase um anticlímax. No final de fevereiro de 1917, o agravamento da situação alimentar em São Petersburgo levou a longas filas em padarias e outras lojas de produtos alimentícios nos bairros operários da cidade. No Dia Internacional da Mulher (23 de fevereiro/8 de março, um feriado socialista), muitas mulheres trabalhadoras, exaustas de ficar nas filas de comida depois das longas jornadas de trabalho, entraram em greve. Em poucas horas, os homens nas fábricas ouviram a notícia e também entraram em greve, fechando rapidamente a cidade inteira. Os estudantes e as classes médias aderiram a eles. O governo mobilizou soldados, que atiraram nos manifestantes, matando várias dúzias deles. Contudo, no dia seguinte, os mesmos soldados que haviam atirado recusaram-se a lutar e amotinaram-se, levando outros regimentos com eles, até os cossacos. Os ministros e a Duma enviaram telegramas cada vez mais desesperados ao tsar, e Nicolau retornou às pressas de Stavka. Antes que ele chegasse à capital, representantes do governo vieram ao seu encontro e convenceram-no a abdicar. Foi o que ele fez, em 2/15 de março, e a monarquia chegou abruptamente ao fim.

 

REVOLUÇÃO

Mesmo antes da abdicação do tsar, dois novos governos estavam sendo formados em Petrogrado. Quando o governo do tsar ruiu, os líderes da Duma formaram um Governo Provisório liderado pelo príncipe Georgii Lvov, o chefe da União dos Zemstvos, um fidalgo rural liberal diplomado em Direito e com folha de serviço nos conselhos locais e na Duma. Seu ministro das Relações Exteriores era o líder do partido Kadet, o historiador Pavel Miliukov. A única voz mais ou menos radical era a de Aleksandr Kerenskii, um advogado conhecido pelo trabalho de defesa em julgamentos políticos e membro do “Grupo Trabalhista” da Duma, socialistas agrários próximos da ala direita dos SRs. Seu pai fora diretor do colégio de Simbirsk quando Lenin era aluno lá. Esses homens eram a fina flor da Rússia liberal em termos amplos, mas como grupo não faziam ideia de como liderar as massas e passavam grande parte do seu tempo preocupando-se com as reações dos aliados da Rússia na guerra, a Grã-Bretanha, a França e logo mais os Estados Unidos. Sua solução preferida para todos os problemas que a Rússia enfrentava era convocar uma Assembleia Constituinte a fim de escrever uma constituição para uma república democrática que satisfizesse o desejo dos camponeses por terra e as queixas dos trabalhadores. Entrementes, eles dariam prosseguimento à guerra, na esperança de uma vitória aliada sobre a Alemanha. 

 

O outro “governo” era o soviete de Petrogrado. Respondendo à instigação dos mencheviques, os trabalhadores de quase todas as fábricas da cidade elegeram delegados para um soviete municipal que contava quase mil membros. Sua primeira medida foi a “Ordem n° 1”, na qual especificava que o Exército devia ser gerido por sovietes de soldados eleitos e que os oficiais só exerceriam o comando durante as operações. Nesse momento em que os partidos revolucionários passaram a agir abertamente pela primeira vez na história russa, os mencheviques e os SRs, não os bolcheviques, impuseram rapidamente seu domínio sobre o soviete de Petrogrado e na maioria das outras cidades. A tática menchevique era recusar apoio ao Governo Provisório e ao mesmo tempo empurrá-lo numa direção mais radical, uma posição de compromisso insustentável. Logo de início, o problema da guerra teve de ser abordado. Se os mencheviques russos diferiam da maioria dos socialistas europeus por argumentarem que a guerra devia ser encerrada sem vitória para nenhum lado, eles não tinham nenhum plano factível para interrompê-la, nem defendiam uma revolução socialista imediata. Sua posição refletia, de fato, uma genuína hostilidade popular à guerra, e em maio Miliukov e outros tiveram de deixar o Governo Provisório, pois queriam levar a guerra a um final vitorioso e o soviete não aceitava isso. Lvov organizou um novo governo com vários socialistas moderados, incluindo Kerenskii, que ficou encarregado do Exército e da Marinha e lançou uma nova ofensiva no fronte. Sovietes também foram formados em Moscou e outras cidades, no Exército e até em algumas regiões rurais. Eles representavam apenas trabalhadores, soldados e camponeses, não as classes médias ou altas. Reeleitos em intervalos de poucas semanas, os sovietes locais refletiam o humor popular muito de perto.

Em todas essas deliberações durante os primeiros meses da revolução, os bolcheviques continuaram minoria nos sovietes. Lenin ouviu falar da queda do tsar na Suíça e conseguiu retornar à Rússia através da Alemanha, tendo convencido o governo alemão de que ele era mais uma ameaça ao esforço de guerra da Rússia que ao da Alemanha. Ele viajou num trem cujas portas foram lacradas até que ele chegasse à Suécia neutra, e atravessou a Finlândia para chegar a Petrogrado em 3/16 de abril de 1917, onde recebeu as boas-vindas tumultuadas dos seus seguidores. Ele descobriu que os líderes bolcheviques, incluindo Stalin, haviam retornado do exílio e estavam começando a organizar-se. No entanto, todos eles careciam de uma ideia clara do que deveria ser sua plataforma. A de Lenin era absolutamente clara, tal como expressa nas “Teses de Abril”. A queda do tsar, ele escreveu, significava que a revolução burguesa, a qual o partido havia almejado em 1905, havia terminado. Naquele momento havia no país um poder dual, os sovietes junto com o Governo Provisório. O objetivo era agora a tomada do poder pelo proletariado com a meta de transformar a Rússia numa sociedade socialista. O instrumento dessa tomada seriam os sovietes, principalmente os de soldados e trabalhadores. A meta imediata dos bolcheviques era, portanto, obter uma maioria no soviete de Petrogrado e outros.

A história dos poucos meses seguintes é a da realização desse objetivo. Foi a situação da Rússia que a tornou possível, dado que o país inteiro entrou numa crise profunda. O colapso do antigo governo deixou pouca autoridade efetiva em seu lugar e grande parte dela estava acuada pela multidão revolucionária. Nas aldeias, os camponeses simplesmente tomaram as terras durante o verão. Em muitos lugares houve violência, mas no mais das vezes eles simplesmente ignoraram os proprietários nobres e começaram a arar os campos deles para uso próprio. Às vezes eles entravam nas mansões dos aristocratas e pediam-lhes educadamente que saíssem. Seja como for que tenha ocorrido, a tomada das terras pelos camponeses foi uma mudança cataclísmica na sociedade russa, que pôs fim em poucos meses a uma ordem social que durara séculos. A maioria dos nobres não eram mais senhores da terra, mas refugiados pobres nas grandes cidades. Nas cidades, os trabalhadores usaram sua liberdade recém-conquistada para exigir uma jornada de oito horas e salários mais altos, e para formar comités de fábrica que tentavam tomar o controle dos locais de trabalho.

Os partidos de esquerda saíram todos da clandestinidade e tentaram tornar-se organizações de massa. A época da clandestinidade revolucionária havia terminado. De início, os mais bem-sucedidos foram os SRs, com suas tradições de ação direta e apelo ao campesinato. Pela primeira vez, eles conseguiram realmente organizar números significativos de camponeses no seu partido, e seus seguidores oriundos da classe operária eram muito numerosos. Mas eles tinham um problema grave - a guerra. Mesmo antes de 1917, alguns SRs haviam se pronunciado contra a guerra, com uma posição muito próxima da de Lenin, mas continuavam a fazer parte do partido maior. À medida que a crise aprofundou-se no verão de 1917, a cisão ampliou-se. Os mencheviques, que sempre tiveram a esperança de formar um partido de massas em condições mais livres, beneficiaram-se enormemente com a nova liberdade. Quando os sovietes realizaram seu primeiro congresso de delegados de toda a Rússia em junho, os SRs e os mencheviques tinham quase 300 deputados cada, e os bolcheviques apenas pouco mais de 100. A moderação parecia triunfar, mas o clima mudou muito rápido.

 

Pela primeira vez, os bolcheviques estavam tornando-se também um partido de massas. Em vez de poucos milhares de revolucionários profissionais, o partido cresceu rapidamente até incluir 200 mil filiados, com concentração maior nas grandes cidades e especialmente em Petrogrado. A maioria esmagadora desses novos membros era composta de jovens operários, a maior parte deles com menos de 25 anos. À medida que mais e mais revolucionários retornavam do exterior, os bolcheviques também começaram a atrair dissidentes dos mencheviques, dos quais o mais importante foi Trotsky, cuja oposição à guerra levou-o a aderir a Lenin pela primeira vez. Trotsky era um orador poderoso e seus discursos eram uma arma capital para arregimentar as massas para o bolchevismo. Os novos membros transformaram o partido bolchevique, especialmente no nível das bases, cujo radicalismo veio à tona no início de julho. Os bolcheviques de Petrogrado organizaram uma manifestação armada que parecia estar assumindo ares de reivindicação do poder. O Governo Provisório, com apoio do soviete municipal, conseguiu reprimi-la e prender muitos líderes bolcheviques. Lenin fugiu para a Finlândia e Trotsky acabou preso. Em reação a esses eventos, Kerenskii sucedeu o príncipe Lvov no cargo de primeiro-ministro. Durante algumas semanas a onda revolucionária pareceu recuar, mas isso não durou. A guerra prosseguia, o descontentamento no Exército desdobrava-se num colapso gradual da disciplina e Kerenskii substituiu Brusilov pelo general Lavr Kornilov como comandante em chefe, esperando que Kornilov pudesse restaurar a ordem no Exército. A tarefa estava além dos seus poderes. A rede de transportes do país, já enfraquecida pela guerra, começou a ruir, assim como muitas indústrias e serviços essenciais. Nas cidades, os sovietes organizaram os Guardas Vermelhos, que contribuíam tanto para a desordem quanto para a ordem. As organizações e grupos revolucionários “expropriaram” prédios para uso próprio, dos quais o exemplo mais famoso foi a tomada pelo soviete de Petrogrado dos edifícios do Instituto Smolnyi em Petrogrado, a escola aristocrática de meninas fundada pela imperatriz Elizabete. Ela passou a servir de quartel-general bolchevique. Para as classes média e alta, foi o começo da anarquia; para os trabalhadores, era a aurora de um novo mundo, caótico, mas que lhes pertencia. Discussões e reuniões intermináveis tumultuavam ainda mais o trabalho das fábricas, mas também formavam um eleitorado para reivindicações cada vez mais radicais. A vida em Petrogrado era febril, e nas províncias só um pouco mais calma. Moscou e todas as cidades e povoados com algum tipo de indústria fervilhavam com reuniões, discursos e manifestações. Nos extremos do país,  surgiram movimentos nacionalistas com exigências de autonomia. Em Kiev, grupos de intelectuais nacionalistas e ativistas partidários proclamaram-se a Rada ucraniana (conselho) junto com o Governo Provisório e os sovietes locais. Outros grupos foram formados no Báltico e no Cáucaso, embora nenhum deles ainda defendesse uma independência efetiva.

Os dias de julho haviam posto um entrave na organização bolchevique e sua ascensão à primazia entre os trabalhadores. Então, no final de agosto, o general Kornilov avançou sobre a capital com o Corpo de Cavalaria de Montanha, composto de povos muçulmanos do Cáucaso setentrional (chechenos e circassianos), a fim de restaurar a disciplina e a ordem no país. Diante desse desafio, Kerenskii teve de recorrer ao soviete de Petrogrado, que armou os trabalhadores. Os bolcheviques haviam ganhado força desde os dias de julho. Agora eles eram cruciais para derrotar Kornilov, e seus líderes saíram da cadeia novamente para a liberdade. A incapacidade de Kerenskii de defender a revolução por si mesmo foi o último golpe contra o seu poder e, a partir da derrota de Kornilov em 1/14 de setembro, o Governo Provisório só fez derivar. O foco da ação havia sido transferido para os sovietes. Durante o episódio de Kornilov e logo depois dele, os bolcheviques finalmente obtiveram a maioria nos sovietes de Petrogrado e Moscou. Conforme as semanas avançavam e a crise económica e militar continuava a piorar, outro Congresso dos Sovietes foi organizado, mais uma vez com delegados do país todo. Nele as divisões do partido SR desempenhariam um papel decisivo, dado que os bolcheviques haviam ganhado claramente a maioria dos trabalhadores da cidade, mas nas aldeias eles não tinham nenhuma organização. A ala esquerda do partido SR, cada vez mais radicalizada pela revolução, exigia um fim imediato para a guerra e estava pronta para aderir aos bolcheviques. Em 10/23 de outubro, Lenin retornou de seu esconderijo na Finlândia e reuniu os líderes bolcheviques. Com o apoio de Trotsky e Stalin, ele superou os pessimistas na liderança, Zinoviev e Kamenev, e o Comité Central bolchevique votou a tomada do poder. Com os votos dos SRs de esquerda, os bolcheviques capturaram a liderança do Congresso dos Sovietes e, em 25 de outubro/7 de novembro de 1917, os Guardas Vermelhos avançaram sobre o Palácio de Inverno para desalojar o Governo Provisório. Restavam somente poucas centenas de defensores no palácio, oficiais cadetes e o “Batalhão da Morte Feminino”, uma unidade formada principalmente de mulheres de classe média para lutar na guerra. A um sinal do cruzador naval Aurora, ancorado no rio Neva, vários milhares de Guardas Vermelhos andaram rapidamente através do frio outonal e tomaram o palácio com um mínimo de tiros e feridos. As tentativas de saquear a adega e os numerosos tesouros do palácio foram logo reprimidas e os ministros do Governo Provisório foram escoltados para a prisão na Fortaleza de São Pedro e São Paulo. Kerenskii escapou para o sul num carro da embaixada dos Estados Unidos numa vã tentativa de angariar apoio no fronte.

Ao contar com a maioria no Congresso dos Sovietes, os bolcheviques e os SRs de esquerda tomaram o poder e proclamaram a Rússia uma república socialista e soviética. Os mencheviques e os SRs de direita deixaram o Congresso em protesto enquanto Trotsky relegou-os ao “monturo da história”. A primeira ação dos Vermelhos foi organizar o novo governo. O Congresso dos Sovietes elegeu um governo de Comissários do Povo com Lenin à sua frente e Trotsky como comissário do povo para Relações Exteriores. As outras posições ficaram com bolcheviques e SRs de esquerda de destaque. Entre estes últimos, o mais significativo era Joseph Stalin como comissário das nacionalidades. Trotsky foi para o Ministério das Relações Exteriores, na Ponte dos Cantores perto do Palácio de Inverno, apagou as luzes e mandou todo mundo ir para casa. Pelos próximos poucos meses, ele geriu a política externa de um pequeno escritório no Instituto Smolnyi.

O novo governo soviético chegou ao poder com amplo apoio dos trabalhadores e intensa oposição das velhas classes altas, das classes médias e da intelligentsia. Essas divisões refletiam-se na Assembleia Constituinte que se reuniu em 5/18 de janeiro de 1918. Convocadas pelo Governo Provisório, as eleições para a Assembleia haviam ocorrido no outono, antes e depois da tomada do poder pelos bolcheviques. Nas cidades, os bolcheviques desbarataram os socialistas moderados (SRs e mencheviques), deixando os Kadets, cada vez mais conservadores e nacionalistas, como o segundo partido urbano. No campo, porém, os SRs obtiveram o maior número de votos, embora a maioria dos candidatos não tivesse declarado se apoiava a esquerda ou a direita, o que confundia o resultado. A Assembleia reuniu-se por cerca de 13 horas, depois do que a guarda bolchevique de marinheiros Vermelhos simplesmente mandou os deputados irem para casa. Eles obedeceram. Poucos dias depois, um outro Congresso de Deputados Soviéticos proclamou o novo Estado, a República Socialista Federativa Soviética da Rússia, com declarações altissonantes dos direitos dos trabalhadores, camponeses e minorias nacionais.

 

Guerra civil e poder dos sovietes

A essa altura, a guerra civil já havia começado, pois grupos de oficiais militares na Rússia meridional reuniram-se para organizar a resistência ao novo governo, e o descontentamento crescia entre os cossacos do Don. O líder cossaco Kaledin formou um governo cossaco improvisado no Don e os Vermelhos logo avançaram contra ele. Ao longo de toda a guerra civil, os cossacos seriam a fundação da resistência ao poder soviético. Eles viviam nas bordas meridional e oriental da Rússia, e já não eram mais os rebeldes do século XVIII. Eles combinavam a agricultura camponesa com o serviço militar e, com a posse garantida de suas terras, representavam os servidores mais leais do tsar desde os anos 1790. As hostes maiores e mais prósperas dos cossacos ficavam no Don, e ali ocorria a resistência mais feroz à nova ordem. Ao mesmo tempo, os intelectuais nacionalistas na Rada de Kiev declararam-se o poder supremo da Ucrânia. Um fronte cossaco-ucraniano parecia estar se formando contra os Vermelhos no Sul. Um ajuntamento disparatado de Guardas Vermelhos e marinheiros foi suficiente para derrotar os cossacos do Don e a Rada em janeiro de 1918. Enquanto isso, o caos espalhava-se pelo país, junto com episódios de resistência em outros lugares. No final de dezembro de 1917, para conter essas ameaças, as autoridades soviéticas formaram a Cheka, a Comissão Extraordinária para a Luta contra o Banditismo e a Contrarrevolução, uma organização que combinava funções de polícia de segurança com uma espécie de Exército político. Seu primeiro chefe foi um comunista polonês, Felix Dzerzhinskii, incorruptível e implacável.

A rápida derrota da oposição aos bolcheviques não significava que a ordem havia retornado. A guerra havia arruinado a economia russa. A inflação estava fora de controle, as redes de transporte e a distribuição de alimentos vinham entrando em colapso. O aquecimento e a energia elétrica desapareceram em Petrogrado e noutras grandes cidades e os trabalhadores começaram a retornar às suas aldeias nativas quando podiam. Na antiga capital do Império Russo, as luzes apagavam-se nos grandes palácios, a nobreza fugiu para o sul em busca de calor e comida, junto com grande parte da intelligentsia e das classes médias. À medida que o Exército se desintegrava, milhões de soldados atulhavam os trens ao ir para casa, levando consigo rifles e granadas de mão. Gangues criminosas aterrorizavam muitas cidades. As primeiras medidas dos bolcheviques só aceleraram a desintegração, pois o novo governo começou a construir o novo Estado socialista em meio ao caos. Os trabalhadores interpretavam amiúde que o socialismo significava que eles deviam expulsar fisicamente os proprietários e gerentes das fábricas, bem como eleger comités de trabalhadores para administrar as usinas. Esses comités não tinham meios para obter suprimentos ou distribuir os produtos e, no caos social geral, a disciplina do trabalho ruiu. Era um círculo vicioso. Os bolcheviques toleraram isso por vários meses, como parte da necessidade de dissolver a velha ordem, mas na primavera de 1918 a economia em frangalhos e as necessidades da guerra civil forçaram-nos a voltar atrás e começar a nomear administradores únicos, antigos trabalhadores ou ativistas do partido, para gerir as fábricas. Em tese, esses gerentes Vermelhos eram responsáveis perante o recém-criado Conselho Supremo da Economia e os diversos Comissariados do Povo (Indústria, Comércio, Agricultura, Trabalho, Abastecimento). Esse foi o embrião do Estado soviético.

Por enquanto, a prioridade dos bolcheviques era a mera sobrevivência. O primeiro ponto da ordem do dia em novembro de 1917 era a guerra e, imediatamente após a revolução bolchevique, o novo governo proclamou uma trégua com a Alemanha e seus aliados e abriu as negociações. Trotsky foi para Brest-Litovsk na fronteira polonesa, agora sob ocupação alemã, para tentar conclamar a paz. As exigências alemãs eram exorbitantes e Trotsky vacilava, proclamando que a política correta era “nem a guerra nem a paz”. Os alemães responderam com uma ofensiva maciça que ocupou toda a Ucrânia, a Bielorrússia e as províncias bálticas. Os nacionalistas locais proclamaram sua independência da Petrogrado vermelha, mas os Exércitos do Kaiser não lhes deram atenção. Os alemães instalaram um regime fantoche em Kiev com o general russo Pavel Skoropadskii, um ex-adido do tsar que havia repentinamente descoberto suas raízes ucranianas, como seu instrumento. Os Guardas Vermelhos eram uma força demasiado amadora e, por conseguinte, os bolcheviques formaram um Exército de verdade, o Exército Vermelho dos Operários e Camponeses, mas o novo exército não conseguiu frear os alemães. O governo mudou-se para Moscou, mais longe das linhas alemãs. Mesmo assim, alguns líderes comunistas, especialmente Nikolai Bukharin, e os SRs de esquerda queriam continuar a travar uma “guerra revolucionária”. Lenin percebeu que era loucura e convenceu a liderança a acatar as condições alemãs. A paz veio em março, com a perda de todos os territórios ocidentais para a Alemanha e a Áustria, mas era a paz e o Kaiser reconheceu a República vermelha. Os SRs de esquerda renunciaram em protesto, deixando os bolcheviques inteiramente encarregados do novo Estado.

O fiasco de Brest-Litovsk incentivou a oposição aos Vermelhos no Sul. As áreas cossacas meridionais ergueram-se novamente em revolta, dessa vez aliadas ao Exército de Voluntários do general Mikhail Alekseev, formado por oficiais do antigo Exército. No Don, o novo Exército Vermelho conseguiu repelir os Brancos, que fugiram para o Sul em direção ao rio Kuban, mas logo surgiram outros problemas. Combates acirrados começaram em maio de 1918, numa região totalmente diferente do país, após as ações da Legião Tcheco-Eslovaca. A Legião Tcheco-Eslovaca tinha sido formada sob o tsar e era composta de prisioneiros de guerra, ex-soldados austro-húngaros de nacionalidade tcheca e eslovaca, para auxiliar os Aliados contra a Áustria e a Alemanha. Depois da paz soviética com a Alemanha, eles queriam continuar a lutar, e o novo governo permitiu que eles deixassem o país através da Sibéria até o Japão e os Estados Unidos para poderem continuar a guerra na França. Uma série de choques com autoridades soviéticas locais fez com que eles tomassem o controle das linhas férreas da Rússia europeia até o oceano Pacífico. Em Samara, em junho, protegidos pelos tchecos, alguns deputados SR da Assembleia Constituinte dispersada formaram um governo que tentou dar seguimento às práticas da democracia parlamentar. Ele também conseguiu arregimentar um “Exército do Povo” que avançou em direção a Moscou contra os Vermelhos.

Para Lenin e os bolcheviques, era uma verdadeira crise, agravada pela revolta dos seus aliados recentes, os SRs de esquerda. Fora do poder e enfurecidos pela paz com a Alemanha, os SRs de esquerda tentaram uma revolta em Moscou, assassinando nesse ínterim o embaixador alemão. Revoltas semelhantes aconteceram em outras cidades russas, todas reprimidas com rapidez, mas indicativas de oposição séria ao novo governo. No entanto, a principal ameaça era a Legião Tcheco-Eslovaca e seus aliados russos, que vinham do leste, e o periclitante Exército Vermelho, formado de milícias mal treinadas com oficiais inexperientes, bateu em retirada. Foi o momento em que Trotsky mostrou pela primeira vez sua têmpera de comandante militar, assim como seu caráter impiedoso ao impor ordem e disciplina. Ele recorreu intensamente aos oficiais do antigo Exército do tsar e manteve suas famílias como reféns para garantir sua lealdade. Além disso, os comissários políticos nomeados para cada unidade militar deviam manter e inspirar credibilidade. Oficiais que fracassaram, comissários e simples soldados foram fuzilados às centenas a mando de Trotsky. Com essa nova organização, o Exército Vermelho recapturou as cidades do Volga e repeliu de volta para os Urais o Exército do Povo, que se desintegrava rapidamente.

Essas crises selaram o destino do ex-tsar Nicolau e sua família. Sua presença em Tobolsk, na Sibéria, para onde o Governo Provisório havia-os enviado, era próxima demais dos centros emergentes de resistência, e por isso os Vermelhos levaram-nos para Ekaterinburg, nos Urais. Em julho  de 1918, diante da aproximação dos Brancos, os soviéticos ordenaram que a família imperial fosse executada, o fim derradeiro da dinastia Romanov, que havia governado a Rússia por três séculos. A casa onde eles viveram e foram mortos permaneceu despercebida durante décadas até 1977, quando um chefe excessivamente zeloso do Partido Comunista, Boris Yeltsin, mandou deitá-la por terra. Enquanto isso, em Moscou, Lenin foi alvo dos tiros de um assassino no final de agosto. A reação da Cheka foi declarar o Terror Vermelho, prendendo milhares de pessoas das classes média e alta. Algumas foram executadas imediatamente, outras mantidas como reféns contra futuras tentativas.

No outono de 1918, o novo Exército Vermelho retomou a maior parte do Volga e dos Urais e o Exército do Povo esfacelou-se. Mais para leste, em Omsk, na Sibéria, outro Exército Branco havia surgido, composto de cossacos siberianos e unidades formadas por ex-oficiais imperiais determinados a combater os Vermelhos. Em novembro, o almirante Alexander Kolchak tomou o poder como governante supremo da Rússia e dissolveu os resquícios da liderança SR da Assembleia Constituinte. Kolchak também fuzilou muitos SRs, bem como quaisquer outros bolcheviques ou ativistas de esquerda que conseguiu encontrar. Kolchak era um ditador militar e não haveria mais brincadeiras com democracia. Ademais, um novo elemento estava entrando em jogo, pois a Primeira Guerra Mundial terminou em 11 de novembro e delegados aliados, britânicos, franceses, norte-americanos e japoneses, chegaram em Omsk. Os aliados também eram favoráveis à ditadura, e logo mobilizaram-se para apoiar Kolchak como líder da oposição ao bolchevismo.

Se Kolchak era o líder supremo titular, seu Exército Branco não era o único em campo. Depois que os Vermelhos retomaram o Don no início de 1918, o Exército de Voluntários havia se deslocado para o sul durante o inverno para estabelecer-se no Kuban. A morte de Alekseev e do seu substituto Kornilov (da tentativa de putsch de 1917) numa rápida sucessão levou à ascensão do general Anton Denikin como comandante supremo do Exército de Voluntários no Sul. Enquanto Trotsky estava ocupado no Volga, Denikin resistiu, e no Don os cossacos ergueram-se novamente mais para o final de 1918. Com apoio secreto dos alemães, eles tentaram avançar para o norte e leste. Eles ainda eram fracos demais para vencer a resistência Vermelha, mas mesmo assim conseguiram isolar grande parte das áreas cruciais de produção de cereais e, se cruzassem o Volga, eles teriam uma chance remota de unir-se a Kolchak. Em Tsaritsyn, no Volga, os cossacos e os Brancos estavam diante de Joseph Stalin, enviado de início apenas para organizar as entregas de cereais, mas que logo assumiu o controle do aparato militar e revigorou a resistência. Seu aliado entre os soldados era Kliment Voroshilov, que havia fugido para leste com uma milícia disparatada de trabalhadores do Donbas escapando do avanço alemão. Stalin e Voroshilov também estavam descontentes com a política de Trotsky de uso intensivo de oficiais profissionais do Exército do tsar, mas Lenin apoiava Trotsky nesse ponto e eles tiveram de recuar. Unidades Vermelhas comandadas por oficiais profissionais foram decisivas para defender a linha, mas em Tsaritsyn o Comissário das Nacionalidades teve sua primeira experiência bélica. Os cossacos não cruzaram o rio e Kolchak estava milhares de quilómetros a leste, impossibilitado de juntar-se a eles.

Atrás de todas essas linhas de frente, os Vermelhos começaram a construir uma utopia. Enquanto o marxismo oferecia uma análise detalhada do capitalismo e do caminho projetado para a revolução proletária, esse não oferecia quase nada além de generalidades sobre o socialismo. O agravamento da crise de abastecimento causado pelo caos crescente e pela tomada da Ucrânia pelos alemães levara à proclamação da “ditadura da comida” em maio de 1918. Sob o Comissariado do Povo para o Abastecimento, destacamentos armados foram para o campo arrebanhar o “excedente” de cereais a preços fixos pré-revolucionários, ou simplesmente o confiscavam. A ideia era desencavar os estoques supostamente retidos pelos kulaks e comerciantes com a ajuda dos camponeses pobres organizados em comités, mas na realidade era difícil fazer a distinção entre os camponeses, e as medidas afetavam toda a sociedade rural. A hiperinflação contínua e o desaparecimento do dinheiro agravaram o colapso económico em curso, e os Vermelhos instituíram o racionamento e um sistema de cooperativas para distribuir alimentos e bens de consumo.

No início de 1919, as autoridades soviéticas formalizaram o sistema de entregas obrigatórias de cereais, a ser complementado por uma alocação centralizada de bens de consumo aos camponeses. Cerca de 60 mil homens foram mobilizados num “exército alimentar” para arrancar cereais dos agricultores. Os camponeses reagiram reduzindo o tamanho de suas culturas, o que mergulhou as cidades numa crise ainda mais profunda. Essas novas medidas, que eram em parte produto da ideologia e em parte da necessidade de guerra, duraram toda a guerra civil. Os bolcheviques sempre foram hostis aos mercados, e o colapso dos transportes e o caos geral romperam os laços normais de mercado. Essa situação deu-lhes a oportunidade de instituir esquemas utópicos de distribuição por meio da alocação central de produtos. Praticamente todas as fábricas e todo o comércio foram nacionalizados. Pequenas lojas de varejo desapareceram, enquanto os municípios soviéticos tentavam criar grandes fábricas municipais de pão em vez de pequenas padarias de bairro, o que agravava a situação alimentar. Foi esse sistema que ficou conhecido como “comunismo de guerra”. A realidade logo interveio, pois as autoridades soviéticas locais violavam regularmente as regras, e a impossibilidade de um controle central pleno levou as maiores fábricas e até o Exército Vermelho a criar seus próprios sistemas de aquisição de alimentos, incluindo uma quantidade substancial de fazendas operadas pelas fábricas e pelo Exército. Os únicos mercados remanescentes eram os mercados de pulgas e o mercado negro, que tornavam a simples sobrevivência mais fácil para grande parte da população urbana. As novas instituições económicas centrais eram incapazes de implementar seus esquemas, pois não se tratava de estruturas burocráticas sofisticadas, mas sim de pequenos escritórios onde trabalhavam antigos ativistas revolucionários sem nenhuma   experiência relevante, assistidos por alguns engenheiros ou economistas e dos trabalhadores mais qualificados.

O Estado soviético emergente era também um partido-Estado, visto que o partido bolchevique aumentou de tamanho para mais de 300 mil membros no início de 1919. Esses homens e mulheres eram o quadro do novo Estado. Os mencheviques e SRs remanescentes foram eliminados da vida política até o final de 1918, e as novas instituições exigiam funcionários leais para administrá-las. O próprio partido tornou-se mais centralizado, especialmente com o estabelecimento do Politburo (Escritório Político) acima do Comité Central em 1919. O novo Politburo incluía somente Lenin, Kamenev, Trotsky, Stalin e Nikolai Krestinskii como membros plenos; Zinoviev, Bukharin e Mikhail Kalinin foram incluídos como candidatos. Esse era o núcleo da liderança bolchevique. Zinoviev era filho de fazendeiros leiteiros judeus da Ucrânia e fora próximo de Lenin nos anos de exílio europeu. Depois que o governo mudou-se para Moscou em 1918, Zinoviev chefiou a organização do partido em Petrogrado, administrando de fato a cidade até 1926 e, ao mesmo tempo, liderando a nova Internacional Comunista. Lev Kamenev era filho de um trabalhador ferroviário judeu, mas tinha tido alguma educação universitária e era casado com a irmã de Trotsky. Após 1917, ele atuou como suplente de Lenin e administrou a organização do partido em Moscou. Bukharin, o melhor educado dos bolcheviques depois de Lenin, tinha algo de teórico marxista e havia passado algum tempo na Europa Ocidental e brevemente nos Estados Unidos. Ele era um pouco mais jovem que os outros e pessoalmente popular no partido. Como Lenin, ele também era um russo genuíno, tal como Krestinskii e Kalinin, que eram figuras menores. Krestinskii serviu como comissário de Finanças, enquanto Kalinin, o único operário do grupo e até nascido numa família camponesa, chefiava o Comité Executivo Central dos Sovietes - em outras palavras, ele era tecnicamente o chefe de governo. Todos eles compartilhavam, incluindo Stalin, sólidas credenciais de bolchevismo inabalável. Trotsky, em contrapartida, era um ex-menchevique exuberante que mal se encaixava no grupo.

A pessoa crucial na totalidade do partido e do governo era Lenin. Até 1917 ele havia passado sua vida como organizador e jornalista revolucionário, produzindo montanhas de artigos para explicar sua posição e denunciar seus adversários. Ele também era mais intelectual que os outros, como mostram seus escritos sobre filosofia e a economia do imperialismo. Nessas questões, somente Bukharin se aproximava dele. Como orador ele era claro e capaz de comover uma plateia, mas não no nível de Trotsky ou Zinoviev.

 

Ao tomar o poder em 1917, ele provou ter capacidades políticas e administrativas muito superiores às da maioria dos seus camaradas, assim como uma vontade poderosa e a capacidade de tomar decisões. Ele absorveu-se rapidamente nos detalhes do governo, incluindo a miríade de problemas económicos que surgiram quando os bolcheviques nacionalizaram a economia. Ele tentou e, em grande parte, conseguiu impor à liderança do partido um espírito de trabalho de equipe, fazendo que camaradas belicosos e muitas vezes arrogantes trabalhassem juntos. Quando ele defendia sua posição pessoalmente, conseguia convencer seus adversários sem menosprezá-los (o que já não acontecia com suas polêmicas escritas). Ainda que todos os outros líderes por vezes discordassem dele, ele continuava a ser o líder incontestado do partido, e portanto do Estado.

Essa liderança altamente eficaz controlava um aparato estatal muito imperfeito, mas tinha, além do partido, outros instrumentos de poder. O Exército Vermelho possuía um contingente de 5 milhões ao final da guerra civil, mas os “exércitos trabalhistas” representavam grande parte da sua força teórica e ele assumia muitas funções económicas, fornecendo cavalos para a lavoura e restaurando o serviço ferroviário. A Cheka garantia a segurança interna, eliminava adversários ativos e potenciais e tentava reprimir o número crescente de bandos criminosos nas cidades. Havia cerca de 25 mil pessoas na Cheka ao final da guerra civil, mas ela também controlava mais de 100 mil soldados de segurança interna, infantaria e cavalaria. O partido, o Exército e a Cheka tornaram possível a vitória vermelha, mas não podiam conter a crise económica que se agravava e a anarquia que se alastrava. O quase colapso do transporte ferroviário implicava que as cidades setentrionais só podiam ser abastecidas com grande dificuldade. Petrogrado sofreu particularmente, pois perdeu cerca de três quartos da sua população em 1920. Com a mudança do governo para Moscou, os Vermelhos evacuaram uma série de fábricas estratégicas junto com seus trabalhadores e equipamentos, e centenas de milhares de trabalhadores foram trabalhar em Moscou e aderiram ao aparato do partido, à Cheka ou ao Exército Vermelho. Muitos simplesmente foram para seus lares em suas aldeias nativas à procura de comida, ambiente aquecido e trabalho. À medida que a ordem desmoronava, as doenças começavam a espalhar-se. Tifo, gripe e outras moléstias tornaram-se epidêmicas.

A primavera de 1919 trouxe vida nova para os movimentos Brancos. O fim da guerra na Europa em novembro de 1918 implicou a retirada das tropas alemãs dos territórios ocidentais. Nas províncias bálticas e na Ucrânia, os nacionalistas locais declararam independência dos bolcheviques, mas o Exército Vermelho logo devolveu o poder aos soviéticos. Os Vermelhos expulsaram o Diretório nacionalista ucraniano de Kiev. Diante da aproximação das Forças Vermelhas, o exército de camponeses do Diretório simplesmente evaporou-se. Guiados pelo seu líder militar Semyon Petliura, os nacionalistas ucranianos deslocaram-se para oeste, executando um massacre feroz dos judeus em Proskurov em seu caminho. Kolchak manteve a Sibéria e os Urais e Denikin avançou para o norte durante a primavera, tomando o Donbas, grande parte da Ucrânia e a Rússia meridional. Denikin conseguiu chegar até Orei, avançando muito atrás das linhas Vermelhas com grupos substanciais de cavalaria. A mobilidade da guerra civil valorizava a cavalaria, e os cossacos e oficiais de cavalaria do antigo Exército eram um desafio formidável. Os Vermelhos reagiram com o Primeiro Exército de Cavalaria de Semen Budennyi, formado em meio às batalhas contra Denikin, que era inicialmente um bando disparatado de homens mal disciplinados adestrados na marra pelo carisma de Budennyi. Em julho, a mobilização em massa dos Vermelhos permitiu-lhes enviar Exércitos substanciais contra Denikin e freá-lo. Atrás de suas linhas na Ucrânia meridional, um novo Exército surgiu aparentemente do nada, o Exército anarquista de Nestor Makhno, um ex-sargento do Exército Imperial russo e um líder de guerrilha nato. Makhno destroçou as comunicações de Denikin e, com os Vermelhos empurrando-o do norte, ele teve de bater em retirada.

Denikin era um general consumado, mas essa era uma guerra política. Os governos Brancos eram ditaduras militares com ministros civis recrutados entre antigos liberais para dar-lhes um mínimo de credibilidade. Sua política social estava fadada a desagradar as massas, pois eles opunham-se não somente aos Vermelhos, mas também a qualquer coisa que os trabalhadores vissem como conquistas da revolução. Nas cidades, somente as classes média e alta os apoiavam. Os massacres de judeus eram frequentes. No campo, sua política favorecia inevitavelmente os proprietários nobres contra os camponeses e não podia explorar o antagonismo rural às medidas bolcheviques. Para piorar as coisas, os governos Brancos financiavam suas operações imprimindo dinheiro, e os camponeses relutavam em vender cereais em troca de uma moeda sem valor. Tal como os Vermelhos, os Brancos recorreram ao confisco de cereais. Como nas áreas sob controle Vermelho, os camponeses reduziram sua agricultura à subsistência, o que gerou escassez de alimentos nas regiões agrícolas mais ricas no campo, na Sibéria Ocidental e no Sul. Conforme a resistência a eles aumentou, os Brancos só podiam reagir com repressão, e as cidades que os Brancos ocuparam presenciaram execuções em massa. Atrás das linhas Brancas na Sibéria e na Ucrânia, os camponeses formaram bandos armados para confrontar os Brancos. Não somente Makhno, mas também centenas de bandos camponeses focados apenas em preservar seu próprio território impediram que os Brancos tivessem controle efetivo do campo.

Nem a intervenção estrangeira pôde salvar os Brancos. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, os Aliados tinham livre acesso à Rússia pelo mar Negro e por outros lugares, mas a exaustão da guerra implicava que, na prática, eles podiam oferecer pouca coisa em termos de soldados. O Japão enviou cerca de 60 mil para a Sibéria como parte de um plano para tomar controle do território russo (indispondo assim os Estados Unidos), mas as outras potências enviaram menos tropas. Uma breve intervenção em Odessa e outras cidades meridionais em 1919 terminou após alguns meses apenas, apesar de a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos continuarem a enviar armas. Elas não serviram para muita coisa, pois os gargalos de transporte (especialmente na Sibéria) seguravam os suprimentos nos portos e a corrupção generalizada fazia que armas e munição terminassem muitas vezes nas mãos dos Vermelhos. Para piorar as coisas, os oficiais que formavam o núcleo do movimento Branco eram intensamente patrióticos e muitos ficaram ofendidos com a necessidade de recorrer a Exércitos estrangeiros. A intervenção enfraquecia o moral tanto quanto o reforçava.

No outono de 1919, os Vermelhos empurraram as tropas de Kolchak de volta para a Sibéria, as primeiras vitórias do futuro marechal soviético M. N. Tukhachevskii, um oficial da guarda aristocrático que se tornara adepto da revolução. O Exército Vermelho finalmente derrotou Kolchak, capturou-o e executou-o em Irkutsk, na Sibéria. Houve outra tentativa de vitória Branca: o general Yudenich, o vencedor de Erzurum em 1916, liderou uma expedição que partiu da Estónia em direção a Petrogrado. Zinoviev pensou que a cidade era indefensável, opinião com a qual Lenin concordou. Trotsky e Stalin objetaram veementemente e convenceram Lenin a deixá-los defender a cidade. Eles correram para o norte em direção a Petrogrado, e Trotsky montou pessoalmente a cavalo para incentivar as tropas. Em outubro de 1919, Yudenich começou a retirada de volta para a Estónia. No Sul, Denikin abandonou o comando no início de 1920 e partiu para o exílio. O restante do Exército Branco retirou-se para a Crimeia e formou um novo Exército e governo sob o comando do barão Peter Wrangel. Nessa altura, o novo Estado polonês invadiu a Ucrânia. O objetivo dos poloneses era conquistar as terras detidas pela Polónia antes das partições do século XVIII e, para tanto, eles aliaram-se  a Petliura, que assim desacreditou-se mais ainda junto ao campesinato ucraniano, para quem os poloneses eram apenas proprietários rurais nobres e, portanto, seus inimigos. O Exército Vermelho reposicionou-se para oeste para conter a nova ameaça, mobilizando cerca de meio milhão de soldados. Lenin estava convencido de que os Vermelhos deviam ir até Varsóvia, na tentativa de ajudar a espalhar a revolução na Europa, bem como de derrotar os poloneses. Trotsky tinha dúvidas. O Exército Vermelho, levado até diante de Varsóvia pelo brilhante mas errático Tukhachevskii, avançou longe demais para oeste numa tentativa de cercar a cidade. Abriu-se um imenso buraco nas linhas Vermelhas, mas os soldados Vermelhos mais ao sul liderados por Budennyi, com Stalin como comandante político, retardaram o avanço em direção ao norte para ajudar a tapar o buraco. Os poloneses, com aconselhamento e armas francesas, acorreram para o norte numa manobra de simplicidade brilhante a fim de cercar as tropas de Tukhachevskii. Os Vermelhos retiraram-se bem para leste, no que foi sua maior derrota na guerra civil, e celebraram a paz com a Polónia. O tratado estabeleceu uma fronteira que deu à Polónia vastas áreas da Bielorrússia Ocidental e da Ucrânia, mas não as principais cidades, Kiev, Odessa e Minsk.

No momento crítico da guerra contra a Polónia, o barão Wrangel havia avançado sobre a retaguarda Vermelha vindo da Crimeia. Agora ele era a única força hostil que sobrava em campo contra os bolcheviques. No final de 1920, o Exército Vermelho atravessou o istmo e penetrou na Crimeia com a ajuda dos irregulares de Makhno, e a causa Branca estava acabada. Os últimos refugiados, soldados e civis evacuaram as cidades meridionais sob os canhões da Marinha britânica, numa cena caótica que marcou o final derradeiro da velha Rússia.

A revolução e a guerra civil foram sobretudo um acontecimento russo, mas que teve efeitos profundos para as várias nacionalidades que compunham a periferia deste Império. Na Polónia, o nacionalismo superou as distinções de classe e o socialismo, e a transição para um governo independente foi (internamente) bastante suave. Na Finlândia, uma cruenta guerra civil em 1918 entre os social-democratas locais e os Brancos levou à vitória Branca depois que o Kaiser enviou uma força expedicionária para auxiliar o barão Gustav Mannerheim, um antigo general imperial russo. Nas províncias bálticas, o colapso da ocupação alemã também levou à guerra civil, pois Riga, em particular, possuía uma classe operária grande e muito radical. A Grã-Bretanha, contudo, via o Báltico como esfera de influência sua e transportou soldados Freikorps, paramilitares nacionalistas alemães de direita, em 1919 para expulsar os Vermelhos. Depois os britânicos instalaram um governo nacionalista no seu lugar e expulsaram os Freikorps também. Os Vermelhos do Báltico foram para o exílio na Rússia soviética, proporcionando em especial um componente capital para a Cheka e o Exército Vermelho. Na Ucrânia, a tarefa dos Vermelhos foi facilitada pelo fato de que todas as cidades eram de língua russa. A maior minoria urbana era judaica, não ucraniana, e o movimento nacionalista local era uma pequena camada de intelectuais que tentavam liderar o campesinato. Seus exércitos eram totalmente desorganizados e, além disso, eles hesitavam em ser claros sobre a questão da terra, crucial para os camponeses. Os Vermelhos liquidaram-nos com facilidade.

No Cáucaso, os Vermelhos também foram vitoriosos. O tratado de Brest-Litovsk levara à ocupação turco-alemã do Cáucaso, e o fim da guerra acarretou sua retirada. Os Vermelhos tentaram fazer uma revolução na sequência, mas os partidos nacionalistas locais tomaram o poder com auxílio dos britânicos. Como a Grã-Bretanha estava atarefada ocupando o Oriente Médio próximo, ela tinha poucos recursos sobrando, e os governos locais foram deixados à própria sorte. Em 1920, o Exército Vermelho avançou para o sul sob o comando do conterrâneo georgiano e amigo próximo de Stalin, Sergo Ordjonikidze, e tomou Baku. O pequeno Exército azeri era liderado principalmente por oficiais turcos, que agora eram adeptos da resistência de Kemal Ataturk às potências ocidentais na Anatólia e saudaram os Vermelhos como aliados. Ademais, Baku era uma cidade de maioria não azeri, mas russa, georgiana e arménia, uma população atraída pelo petróleo para uma cidade que era em grande parte europeia. Os Vermelhos tinham muitos aliados. Eles agiram rapidamente para afastar os nacionalistas arménios e, poucos meses depois, foi a vez dos mencheviques georgianos. Surgiu uma nova república soviética, a Federação Transcaucasiana, que congregava toda a região sob um mesmo governo. Na Ásia Central, a resistência aos Vermelhos terminou em 1922, e os japoneses acabaram sendo persuadidos a retirar-se da Sibéria Oriental, de forma que em todo lugar, menos a oeste, as antigas fronteiras foram restabelecidas.

A nova Rússia soviética que se formou fora devastada por anos de guerra e revolução, e sua economia estava em frangalhos. Talvez 1 milhão de homens haviam morrido nos numerosos frontes da guerra civil e (as estimativas variam) 5 ou 6 milhões de civis - a maior parte deles de tifo e outras doenças epidêmicas, seguidas pela fome. Execuções e represálias em massa por todos os lados foram responsáveis pelo restante da mortandade. Cerca  de 1 ou 2 milhões de russos, incluindo grande parte das velhas classes altas e da intelligentsia, deixou o país para nunca mais voltar. Os transportes e a produção estavam paralisados. Por enquanto, os soviéticos mantinham a política de comunismo de guerra e mobilizavam os Exércitos de Trabalho sob Trotsky para reparar os danos. Essa política não era viável e a resistência à nova ordem cresceu por todo o país. Lenin percebeu que algum tipo de compromisso era necessário, uma política económica que proporcionasse espaço suficiente para que a população, particularmente o campesinato, trabalhasse sem direção do Estado. Esse compromisso viria a ser chamado de Nova Política Económica e inaugurou uma era inteiramente nova na história da Rússia soviética e dos outros Estados soviéticos sob o domínio do Partido Comunista.

 

Aperfeiçoamento da escrita na Suméria

O país de Sumer, na Baixa Mesopotâmia. é constituído durante o 3º milênio a.e.c. de um conjunto de principados urbanos ou cidades-Estado, fortemente unidas por uma língua, uma escrita e uma religião comuns. A organização política, social e econômica é muito semelhante entre as cidades, mas rivalidades políticas ou econômicas constantes opõem-nas umas às outras. Um dos principais fatores de conflito é o controle dos recursos da água, determinantes para a prática da agricultura irrigada. O mais conhecido desses confrontos é o das cidades-Estado de Lagash e de Umma, que se opõem durante mais de um século, entre 2500 e 2400 a.e.c. Apesar de uma longa série de vitórias de Lagash, essa guerra terminou com sua derrota e a destruição de suas principais cidades: a própria Lagash, mas tamhém a cidade de Girsu, mais ao norte.

O último rei de Lagash, Urukagina, decide, no início de seu reinado, proceder a certo número de reformas, que julga indispensáveis para manter a supremacia do Estado de Lagash sobre o sudeste do país de Sumer. Urukagina começa por abrandar as taxas, muitas vezes abusivas, pesadas para a população. Aparece assim como o primeiro soberano da história mesopotâmica a integrar uma preocupação de justiça e de equidade no exercício do poder. O rei alterará também as relações entre a autoridade real e os templos. Algumas gerações antes, Enentarzid, ao mesmo tempo rei e sumo sacerdote de Ningirsu, o deus principal de Lagash, acumulava poder real e poder religioso, misturando os interesses econômicos do palácio com os templos, o que provocava confusão e desperdício. Urukagina confere autonomia aos templos: as terras do templo da grande deusa Bawa, constituindo anteriormente “a casa da rainha”, voltam a tornar-se “domínio de Bawa”. Mas essa reforma é ilusória, porque os responsáveis administrativos não mudam e a família real conserva seu poder sobre a gestão dos principais templos e a responsabilidade pelo bom funcionamento do culto: Urukagina controla o templo do deus Ningirsu, a rainha Sasag controla o de Bawa, seus filhos, o de Shulshagana. Essa gestão é conduzida naturalmente para resguardar da melhor maneira possível o interesse dos santuários. Mas, quando as necessidades do Estado os exigem, os recursos dos templos, em homens e nos produtos mais diversos, podem ser mobilizados a seu serviço.

Após ter rechaçado vitoriosamente as tropas de Uruk, Urukagina é atacado e vencido pelo rei de Umma, Lugalzaggesi. Este dirige suas forças para o centro do principado de Lagash, onde pilha e queima vários santuários. Pouco depois, triunfa sobre Uruk e unifica sob sua autoridade todo o sul sumério, antes de cair, por sua vez, sob os golpes de Sargão da Acádia.

No fim do século XIX. o arqueólogo francês Ernest de Sarzec descobriu no sítio de Girsu os primeiros vestígios dos sumérios. Nos níveis mais antigos do sítio, foram descobertos grande número de estátuas, objetos votivos e vários milhares de placas de escrita cuneiforme, que, uma vez decifradas, permitiram reconstituir o funcionamento de uma cidade-Estado suméria.

Os aproximadamente 1.200 documentos escritos, encontrados no templo de Bawa em Girsu, constituem os primeiros arquivos administrativos da Mesopotâmia e fornecem uma base sólida para reconstruir o que era a gestão de um grande organismo religioso sumério na época de Urukagina. Pesquisas recentes permitiram mostrar que, por meio das simples listas de nomes próprios, de distribuições de rações alimentares, de recenseamentos de rebanhos, surge não somente um sistema econômico, mas também a consequência direta dos acontecimentos militares do reinado de Urukagina.

Desde o início de seu reinado, Urukagina envolve-se em guerras com as outras cidades-Estado. A situação econômica torna-se mais difícil e a contabilidade do templo reflete essa realidade. Os registros de entrega de cevada e de espelta mostram uma diminuição da ordem de mais de 30%. Certos setores de despesas, como a “preparação da cerveja do rei”, desaparecem. A cerveja das rações correntes é diminuída numa proporção de 30% a 50%. Um pastor vê seu rebanho passar de 38 a 22 carneiros.

O estado de guerra acarreta também o estabelecimento de listas de recrutamento, nas quais são contados homens pertencentes aos grupos de trabalhadores do templo. A mais antiga lista registra 43 pessoas: pescadores de água doce, oleiros, arboricultores, dos juncais. Três anos mais tarde, quando do segundo assalto de Uruk contra Girsu, uma nova lista conta cerca de cem homens fornecidos pelo templo sob as ordens de quatro oficiais. No ano seguinte, uma tijoleta registra 167 soldados, tomados entre os agricultores, os pescadores e os pastores. Reunindo todos os dados, constata-se que o templo de Bawa dispõe de uma mão-de-obra de 400 trabalhadores, da qual 40% foram integrados no exército. O templo participa também no esforço de guerra pela fabricação, em seus próprios ateliês, de machados duplos e de pontas de lança.

Por volta de 3300 a.e.c. aparecem em Uruk os primeiros verdadeiros textos escritos. Os princípios básicos dessa escrita são simples: reproduzem elementos reais representados de maneira estilizada sobre a argila. São pictogramas (desenhos figurativos). Nesse sistema, um desenho representa um animal, um vegetal ou um objeto útil. Pouco a pouco, “codifica-se" a representação de certas noções: por exemplo, um pássaro e um ovo desenhados lado a lado permitem evocar a ideia de dar à luz. São introduzidos também elementos puramente abstratos como as anotações de quantidades.

Os pictogramas dão lugar então a ideogramas: um sinal re-presenta uma palavra da língua. A partir de então, a escrita funciona com sinais e não mais com desenhos, e a noção de “representaçâo explícita” desaparece progressivamente. Os sinais se simplificam em combinações de “cunhas”, mais fáceis de imprimir na argila mole que linhas curvas.

À medida que as vastas potencialidades desse sistema aparecem, os sumérios compõem lentamente um processo de escrita no qual, para cada palavra, é necessário um desenho correspondente. Recorrem então a agrupamentos de sentidos em torno de um único sinal. Por exemplo, um só e mesmo sinal designa a “boca", o “dente”, o “ato de comer”, a “palavra” etc. Depois, ao lado do valor de evocação de uma palavra inteira (ideograma) por meio de um sinal, atribui-se a este um ou vários valores fonéticos elementares (do tipo: “ba”, “bí”, mas também “ab” ou “ib”). No final desse processo, os sumérios dispõem, por volta de 2600 a.e.c., de uma escrita com cerca de um milhar de sinais, constituídos de agrupamentos de “cunhas” inscritas na argila e que só possuem uma remota relação com o desenho-pictograma original. Esses sinais devem ser lidos ora como palavras inteiras (valor ideogramático), ora como fonogramas (sinais-som), que combinados com os sinais vizinhos, permitem escrever uma palavra para a qual não existe ideograma adequado, por exemplo, uma forma verbal conjugada ou um nome próprio.

Essa escrita não é concebida como um simples “instrumento”, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo.

Esse sistema pode parecer muito complicado, visto que cada sinal pode ter ao mesmo tempo vários valores fonéticos e vários valores ideogramáticos, e que nada indica, a príori, qual ser escolhido. Entretanto, pode-se constatar que o sistema de escrita cunéiforme dos sumérios foi construído de maneira muito pragmática. Representa, na época de Urukagina, uma espécie de ponto de equilíbrio entre o número total de sinais razoavelmente memorizáveis e a quantidade dos valores que possui cada um desses sinais. Deve-se também ter em mente que essa escrita não é concebida como um simples “instrumento”, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo, a maneira de representá-lo e, com isso, de dominá-lo. De modo significativo, constata-se que, a partir dos primeiros corpos importantes de textos cunéiformes, por volta de 2600 a.e.c., se encontram listas nas quais são registradas, de maneira ordenada, todas as espécies de realidades: nomes de cidades, nomes de ofícios, nomes de divindades, nomes de animais, se colocar por escrito a realidade do mundo permitisse compreender melhor os mecanismos de seu funcionamento íntimo.

Mesmo simplificado desse modo, o sistema da escrita cuneiforme não está ao alcance de todos. Permanece privilégio de especialistas, os técnicos da escrita. Os escribas possuem ao mesmo tempo a arte de escrever, a de contar, o conhecimento das fórmulas jurídicas, espistolares, administrativas. Aprenderam a estabelecer listas de pessoal, a registrar movimentos de produtos ou de animais, a elaborar balanços, a reunir dados estatísticos. Sabem também redigir as inscrições oficiais pelas quais o rei celebra sua bravura ou sua piedade, ou as fórmulas religiosas pelas quais se pode enternecer o coração dos deuses.

Mas o aspecto mais importante dessa prática da escrita reside realmente na possibilidade conferida doravante aos grandes organismos econômicos das diversas cidades-Estado sumérias, palácios e templos, de praticar uma gestão escrita de seus recursos, de controlá-la e, por fim, de otimizá-la.

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11/2/2017 8:12:43 PM | Por Julliette Wood
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Os celtas eram fascinados pela imagem do nó sem fim - um modo de expressar o infinito em um padrão tangível. As linhas do nó, presente em monumentos e manuscritos, são torcidas e entrelaçadas, mas sempre voltam ao ponto de partida. Nas narrativas das jornadas ao Outro Mundo, os viajantes também têm experiências valiosas, mas que acabam terminando no mesmo ponto em que começaram. Desse ponto de vista extramundano, a morte não é um fim, mas uma porta para a vida eterna. [123]

As criaturas em padrões

A representação de animais na arte celta - em armas, esculturas de pedra e, de modo mais espetacular, em manuscritos ilustrados com iluminuras - baseiam-se, em sua maior parte, na sabedoria do mundo cristão como também nas tradições ancestrais. Os animais nos lembram a vitalidade da natureza, o dom divino da diversidade que existe neste mundo e, embora por associações simbólicas, a realidade do eterno.

O Livro de Kells, merecidamente o mais conhecido de todos os manuscritos celtas com iluminuras, é um texto ricamente ilustrado dos evangelhos, produzido entre os séculos VII e IX e.c. Alguns dos animais retratados com mais frequência nesse manuscrito são associados a Jesus Cristo. A cobra é um símbolo da Ressurreição, pois ela se renova com a troca de pele, enquanto o motivo do peixe é uma lembrança dos novos convertidos ao Cristianismo, que nadam no batismo (em grego, a palavra "peixe" também é um acrônimo de Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador). Todos os evangelistas, exceto São Mateus, que era retratado como um homem ou um anjo, foram simbolizados como animais: São Marcos, como um leão, São Lucas como um boi e São João como uma águia. Entre os pássaros retratados no Livro de Kells estão o pavão, que simboliza a natureza incorruptível de Cristo, e a pomba, ligada ao Espírito Santo.

Nem todas as criaturas da arte celta, porém, têm associações positivas. Nas ilustrações dos manuscritos e nas esculturas de pedra, existem muitos monstros, como dragões cuspidores de fogo, estranhas criaturas que devoram a própria calda e animais semelhantes a répteis retratados engolindo vítimas humanas (até mesmo um bispo, num dos casos). Por mais terríveis que essas criaturas possam parecer, sua fúria é abrandada pelo poder dos santos celtas. Dizia-se que São Sansão de Dol, reverenciado na Cornualha e na Britânia, era capaz de transformar um dragão em pedra; e que São Ronan cavalgou um monstro gigante até uma ilha, para fazer com que seus habitantes venenosos fugissem para o mar e ele pudesse construir ali um mosteiro. [124]

A videira trancada

Muitos dos padrões desenhados nos manuscritos e esculpidos nas cruzes celtas retratam plantas semelhantes à videira em formatos intrincados e retorcidos. Essas videiras muitas vezes estão enraizadas num cálice de ouro, e entre suas folhas e galhos trançados crescem cachos de uva do qual se alimentam pavões com caldas iridescentes e onduladas. O simbolismo cristão da videira é uma fusão das tradições de sabedoria celta e bizantina. A videira carregada de uvas e irrompendo de um cálice representa a promessa de redenção de Cristo; e os pavões, retratados com suas caudas coloridas abertas, simbolizam a Ressurreição.

Mesmo antes do simbolismo cristão se tornar popular, as plantas já representavam uma parte importante do imaginário celta. Um dia, três fadas de Cruachan, um portal que liga o mundo humano ao Outro Mundo trevoso, sentaram-se para fiar lã no sentido anti-horário, em fusos feitos com galhos retorcidos de azevinho. Qualquer coisa feita no sentido contrário ao movimento do Sol - isto é, no sentido anti-horário - é considerada magia negra. As ações das mulheres, combinadas com as propriedades mágicas do azevinho retorcido, permitiram que as anciãs envolvessem dois grandes heróis, Finn e Conan, em seus fios e os cegassem, sem lhes dar possibilidade de fuga. Os companheiros de Finn tentaram deter a malévola fiação, mas todos, com exceção de Goll mac Morna, ficaram enredados nos fios enfeitiçados. Goll por fim conseguiu matar as bruxas e resgatar os companheiros.

As qualidades mágicas do azevinho são mencionadas também na história de Taliesin. Quando o Príncipe Elphin, senhor do bardo Taliesin, gabou-se de que seus cavalos eram melhores do que os do Rei Maelgwn, o rei, muito zangado, insistiu para que fizessem uma corrida de cavalos. Taliesin deu uma vara de azevinho para o cavaleiro de Elphin e instruiu-o a golpear com ela as ancas de cada cavalo de Maelgwn durante a corrida. O cavaleiro obedeceu e os cavalos do rival logo não tinham mais condições de correr. No final da corrida, Taliesin diz a Elphin para cavar um buraco onde o cavaleiro deveria enterrar seu chapéu e sua vara. Nesse momento, ele descobre um caldeirão cheio de ouro. Assim, Elphin, sem caber em si de felicidade, ganha a corrida e também um tesouro. [126]

Muitos poemas celtas baseiam-se na beleza natural e na fragilidade das plantas e usam essa imagem como metáforas do amor. São frequentes nos versos imagens como a de rosas cheias de espinhos e do azevinho crescendo das sepulturas de amantes, entrelaçados por toda a eternidade. Aqueles que viajaram ao Outro Mundo voltam muitas vezes com estórias sobre uma terra onde é sempre verão e existem belas árvores que produzem frutos o ano todo. Quando seres humanos comem as maçãs prateadas que crescem nessas árvores, eles anseiam pelos seus amantes do Outro Mundo. [127]

O nó sem fim

Os celtas gostavam de padrões entrelaçados de grande complexidade, com cores e desenhos vibrantes. Nós elaborados, com linhas e curvas, adornavam armas, espelhos, cerâmicas e monumentos. Padrões semelhantes também apareciam nos manuscritos celtas, com agrupamentos de desenhos curvilíneos e geométricos decorando cada letra, palavra, frase e até páginas inteiras. Ali, encontrávamos figuras humanas, pássaros e animais aparentemente emaranhados num padrão de linhas entrelaçadas, com cabeças, mãos e pés emergindo de arabescos espiralados. Vemos homens lutando e puxando a barba trançada uns dos outros, e cães de caça perseguindo presas através de florestas de padrões abstratos.

Os celtas cristianizados usavam desenhos entrelaçados em seus manuscritos para refletir as “verdades” eternas da mensagem bíblica. O símbolo do nó sem fim, que expressa o infinito por meio de uma linha que se pode seguir até o ponto de partida, está ligado à lenda medieval do selo de Salomão, um anel mágico decorado com misteriosos símbolos que permitiam ao Rei Salomão controlar os espíritos. O escudo que Gawain carrega em sua busca pelo Cavaleiro Verde, no famoso poema do século XIV, é ornamentado com um nó sem fim de cinco pontas, descrito com detalhes; sua ligação com Salomão é destacada: "então ele lhe mostrou o escudo, que era de goles brilhante [vermelho]/ Com um pentagrama pintado de um ouro muito puro (...)/ É um sinal que um dia concebeu Salomão / Como um símbolo de fidelidade, em virtude do seu formato/ pois trata-se de uma figura de cinco pontas/ e cada linha cruza e se liga as outras/ E é interminável em uma e outra direção; e na Inglaterra é chamado/ Em toda parte, como eu ouvi, de nó sem fim".

Muitos nós entrelaçados são formados de folhas e vegetação. A ligação entre o mundo natural e esses padrões estilizados é ilustrada na lenda associada à capela de Locronan, em Finistère, dedicada a São Ronan. Depois da morte do santo, várias paróquias reivindicaram a custódia do corpo do santo e a honra de construir sua tumba. [128]

Colocaram o corpo de São Ronan num carro de boi sem condutor, na esperança de que o poder de Deus decidisse o lugar da tumba, guiando os bois até lá. Os paroquianos seguiam atrás. Ao cair da noite, os animais pararam num pequeno bosque no alto de uma colina e os seguidores do santo foram para casa. Na manhã seguinte, quando o povo voltou, ficaram surpresos ao descobrir que uma capela já havia sido construída ali. O carro de boi tinha se transformado milagrosamente numa tumba de pedra e os galhos das árvores do bosque tinham se petrificado, formando a intrincada estrutura de pedra da capela, que abriga o corpo do santo. [129]

Como viver e como morrer

De acordo com Diógenes Laércio, a máxima dos druidas era que todos os celtas vivessem de acordo com três condições: venerassem os deuses, não fizessem nenhum mal e fossem valentes. Como em muitas tríades celtas, o preceito mais importante - ser valente - vem por último. Como diz um provérbio celta, "A memória de um homem não envelhece". Ser lembrado, depois da morte, como um homem de boa reputação e lembrado pelos bardos, que louvam os vivos e homenageiam os mortos, é a aspiração de todo homem celta.

O poeta romano Lucano resume a atitude celta diante da morte quando afirma, "A morte é o meio de uma longa vida". Oferendas funerárias eram enterradas junto com o corpo para facilitar a passagem do espírito pelo reino dos mortos, até o Outro Mundo. Armas, muitos objetos pessoais, como taças, trompas de caça e até carruagens, acompanhavam os guerreiros, ao passo que peças de joalheria e cerâmica eram os principais bens sepultados com as mulheres. Alimentos e bebidas eram providenciados para sustentar a alma em sua jornada. Além dos objetos mais práticos, algumas sepulturas continham os ossos de animais domésticos, como cavalos e cães, e modelos de rodas, que simbolizavam o ciclo eterno de vida e morte. [132]

   Mitologia celta, Mitologia judaico-cristã, O Livro de Kells, infinito, simbolismo dos animais, nó sem fim, memória póstuma
11/1/2017 7:31:58 PM | Por Julliette Wood
Mitologia Celta
Texto
Viagens entre os reinos - O outro mundo celta

O avanço que fizemos, da inocência para o conhecimento ou da vingança para o perdão, se reflete nas jornadas dos heróis, que entre outras tarefas empreendem missões de resgate ou revanche e acabam por descobrir profundas verdades nas terras do Outro Mundo. Essas jornadas são odisséias da imaginação e também mergulhos no mundo interior. Neste capítulo, acompanhamos várias buscas épicas e viagens entre os mundos material e espiritual. [61]

O limiar do outro mundo

Os espíritos muitas vezes invadem a terra dos vivos e, para manter o equilíbrio entre os dois mundos, os seres humanos precisam às vezes viajar para o Outro Mundo. Existem muitas maneiras pelas quais os vivos podem entrar nos reinos do espírito e uma das mais diretas é cruzar o limiar entre a terra dos mortais e os reinos do sobrenatural, o local onde esses mundos se encontram ou se cruzam. Esses portais são encontrados tanto no centro quanto nos limites externos do mundo celta.

O cosmo celta irradia de um ponto em que os domínios humano e sobrenatural convergem. Júlio César conta que, numa certa época do ano, os druidas se encontravam num ponto central da Gália onde seria esse ponto de convergência. A localização podia ser um bosque sagrado - um dos lugares em que os druidas realizavam suas cerimônias e sacrifícios para aplacar a ira dos deuses e prever o futuro. Ou podia ser uma área aberta, como a Planície de Tara, em cujo centro fica a mágica Pedra de Fal, que grita quando o verdadeiro rei deve assumir o trono.

A visão da ordem cósmica altamente centralizada repercute na maneira pela qual as quatro províncias externas da antiga Irlanda - Connacht, Leinster, Munster e Ulster - se estendem do ponto mediano de Tara, na província central de Meath (que correspondem aproximadamente aos condados modernos de Meath e Westmeath). Como que ecoando esse padrão, no Festival de Tara, os reis das quatro províncias sentavam- se diante do Grande Rei, à direita, à esquerda e atrás dele, cercando-o assim com a segurança oferecida pela Irlanda e seus formidáveis guerreiros.

A tensão entre o cosmos e o caos assemelha-se a uma antiga forma de xadrez. No centro da Planície de Tara, ficam o rei e seus homens, como peças comandando o meio do tabuleiro. Ao redor deles estão as forças hostis. Assim como um jogador experiente pode ganhar o jogo por meio de uma combinação de sorte e perspicácia, os seres humanos [62] também podem sobreviver aos seus encontros com o sobrenatural confiando tanto nas próprias capacidades quanto no destino.

Os locais naturais onde o reino dos seres humanos e o do Outro Mundo se encontram têm características topográficas bem definidas. Fronteiras como rios os dividem, enquanto lagos e poços servem como uma passagem entre eles. Estruturas feitas pelo homem, como as muralhas de uma fortaleza, podem ser atacadas por forças sobrenaturais e também por mortais. Conn, Grande Rei de Tara, vigia as trincheiras da sua fortaleza diariamente, para evitar que o povo dos sidh ("colinas dos encantados") tome o forte de assalto. [63] Barreiras e passagens entre os mundos, tanto naturais quanto artificiais, são mais vulneráveis em certas épocas do ano. As festividades de Tara ocorriam durante o Samhain, que também era a época em que Aillen Mac Midna, inimigo dos Tuatha De Danann, vinha do Outro Mundo para incendiar o trono real. Todo ano, durante nove anos, ele aterrorizou Tara, induzindo ao sono todos da corte com uma música mágica e, então, destruindo o palácio até os alicerces com seu sopro abrasador. Por fim, o Grande Rei de Tara pediu a voluntários para desafiarem Aillen, e o herói Finn Mac Cumhaill se prontificou a cumprir a tarefa. Finn ofereceu-se para montar guarda a noite toda em troca da satisfação de um desejo. O Grande Rei aceitou a oferta e deu a Finn uma lança mágica que o faria capaz de resistir à melodia entorpecente e matar o inimigo. Quando Aillen chegou, Finn derrotou-o facilmente com a lança, e seu desejo - tornar-se o líder dos Fianna, a elite dos exércitos da Irlanda - foi realizado.

Nas noites em que os espíritos estão à solta, os mais cautelosos ficam em casa com portas e janelas trancadas, com receio de qualquer contato com o sobrenatural e temerosos de que os encantados possam raptá-los. Mas os mais aventureiros, como Nera, um servo de Ailill de Connacht (...) pôde aproveitar a oportunidade para entrar no Outro Mundo e aprender a sabedoria dos mortos. Outros viajantes humanos empreendem viagens por mar com a intenção de chegar às lendárias ilhas do Outro Mundo, que ficam a oeste. [64]

O arquipélago encantado

O oceano Atlântico era um desafio formidável até para os intrépidos viajantes celtas. Os marinheiros celtas, no entanto, se aventuravam em mar aberto em seus curraghs (barcos de estrutura de madeira, cobertos de couro à prova d'água e próprios para o alto-mar. No gênero narrativo conhecido como imram, que significa literalmente "remação", detalhes verossímeis de jornadas reais de exploração são intercalados com as crendices e estórias fantásticas dos viajantes sobre o pós-morte, dando origem a fábulas intrincadas, características dos celtas irlandeses.

Todas as estórias imrama seguem um padrão semelhante. Um grupo de homens se lança numa viagem por mar, normalmente por uma das três razões a seguir. Podem ter a intenção de encontrar as místicas ilhas dos Abençoados - um grupo de ilhas do Outro Mundo que fica "a oeste". Ou a sua viagem pode ser uma penitência por violarem um geas - uma maldição que requer que os homens cumpram uma série de tarefas para quebrar o encantamento. Ou seu motivo para a viagem pode ser o desejo de buscar revanche por uma injustiça que sofreram - como na estória de Mael Duin. Compondo seu próprio Livro Celta dos Vivos e dos Mortos, as estórias imrama levam os viajantes a uma série de aventuras, cada qual representando uma oportunidade de aprendizado. Cada ilha tem uma característica peculiar. Em algumas delas, o ato de comer determinado fruto ou beber a água de algumas fontes pode matar, curar ou causar estranhas transformações. Em outras, os habitantes realizam uma única atividade obsessivamente. As leis da natureza nem sempre vigoram - por exemplo, monstros podem aparecer das profundezas do mar, o mar congela ou ganha vida, ou peixes saem de rios e lagos para falar com os viajantes humanos.

Esses encontros fantásticos são freqüentes na estória de Mael Duin. O herói parte da Irlanda por mar com guerreiros e seus três irmãos de criação, para procurar os homens perversos que tinham assassinado seu pai. Desviados do seu curso por um vento [66] forte, os viajantes descobrem que estão nos arredores das ilhas do Outro Mundo. Navegando de ilha em ilha, eles aos poucos aprendem as artes da temperança, da humildade e do perdão (e Duin acaba perdendo todos os três irmãos no percurso). Depois de muitos anos no mar, os viajantes que sobrevivem decidem voltar para casa, e na viagem de volta para a Irlanda acabam encontrando a ilha onde moram os assassinos. Sem a mesma disposição de se vingar, Mael Duin demonstra sua recém-descoberta magnanimidade e oferece a sua amizade aos malfeitores, chegando até mesmo a se sentar à mesa com eles e contar as estórias de suas viagens.

Como outras imrama, essa narrativa épica é, para usar a terminologia moderna, uma alegoria sobre o crescimento pessoal - para o leitor, assim como para os viajantes. Diante de inumeráveis oportunidades, os viajantes tomam decisões de cunho moral a [68] todo instante. Se suas escolhas violam qualquer uma das regras rígidas (embora ocultas), ocorrem desastres, inclusive a perda de companheiros de viagem. Desse modo, os membros da tripulação que se desgarraram do grupo e foram para a Ilha da Risada ou para a Ilha do Choro, são forçados a permanecer ali para sempre, tornando-se tão obsessivos quanto os outros habitantes - um aviso contra a despreocupação e o pesar excessivos. Viajantes que cometeram um crime em segredo são levados por pássaros gigantes - no labirinto da moral é impossível escapar das conseqüências dos próprios atos. Aqueles que tentam roubar tesouros das ilhas do Outro Mundo também são roubados por felinos monstruosos - uma ironia cósmica (até kármica) ajusta a punição ao crime. Aqueles, porém, que vencem as armadilhas têm permissão para chegar às mais complexas e belas ilhas do Outro Mundo, as Ilhas dos Abençoados e a Ilha das Mulheres, onde o tempo parece ter parado numa primavera eterna e os habitantes são imortais.

Navegar pelo oceano desconhecido é lançar-se nas mãos do destino. O destino, contudo, nunca é meramente neutro - sempre existe uma dimensão moral. A própria vida é uma busca, e o buscador dedicado e consciente da verdade e do bem é recompensado da maneira apropriada no devido tempo. [69]

A sabedoria da água

A água, na qual existem tantos reinos misteriosos, é um símbolo apropriado da verdade que existe sob a superfície das coisas - um tipo de véu translúcido, às vezes transparente às vezes opaco, entre este mundo e os mundos do pós-morte. Por meio do poder mágico da água, podemos entrar em contato com a sabedoria do Outro Mundo. Isso pode ser matéria de profundas reflexões na vida, mas também de revelações muito simples. O poeta Neidne mac Adhna, caminhando um dia pela praia, ouve o som de um lamento e se detém para ouvir. As ondas então lhe revelam a morte iminente de seu pai.

Oceanos, rios, fontes e lagos, todos revelam a sabedoria da água, mas os poços ou nascentes têm um lugar especial no folclore celta. A água surge da terra como se, por magia, fosse imbuída de poderes reveladores de especial intensidade. Numa estória, o herói irlandês Cormac se perde nas brumas e, quando elas se dissipam, ele descobre que está ao lado de um poço. Logo descobre que cinco salmões vivem no poço, alimentando-se das avelãs que caem de nove avelãzeiras que crescem nas imediações. Cinco rios também fluem dessa fonte. Cormac percebe que esse é o Poço do Conhecimento: os rios correm para as cinco províncias da Irlanda e representam os cinco sentidos, dos quais derivam todo o conhecimento humano. [74]

Em outro conto, uma nascente tem o poder de devolver a vida aos mortos, caso o indivíduo tenha recebido amor, respeito e verdade de seus entes queridos em vida. Quando o servo mágico de Finn mac Cumhaill, Gilla na Grakin, é assassinado, a mulher de Gilla navega pelo oceano com seu corpo, em busca de uma maneira de trazer o marido de volta à vida. Por fim, ela desembarca numa ilha onde vê um pássaro morto recobrar a vida e sair voando. A devoção da mulher é recompensada. Nessa ilha, ela descobre uma fonte mágica; e, quando molha os lábios do marido com algumas gotas de água da fonte, ele ressuscita diante dos olhos dela. [75]

Receptáculos da verdade

Por ser a água, a essência da vida e também uma poderosa fonte de sabedoria e verdade, acessível a poetas, druidas, reis e heróis, o caldeirão e a taça, receptáculos desse fluido mágico, têm, eles próprios, poder espiritual. Esse simbolismo é complementado na lenda do Santo Graal por uma associação com o sangue. Às vezes, o graal é um recipiente que contém uma cabeça sangrenta, um símbolo celta primitivo, ou, numa versão mais cristã, é o cálice no qual se recolheu o sangue do Cristo na cruz. O caldeirão também está ligado ao renascimento e à abundância inesgotável: o deus irlandês Dagda possui, além da sua clava letal, um caldeirão com o qual ele distribuía um suprimento inesgotável de comida.

Durante a Idade Média, um monge irlandês compôs um poema sobre uma excursão ao Outro Mundo, no qual ele assumiu a voz de um dos mais famosos profetas - Taliesin, o líder dos bardos. O autor, fundindo os simbolismos ancestral e cristão do cálice, descreve Taliesin navegando com o Rei Arthur e os heróis antigos de Gales no navio Pridwen, à procura de um caldeirão mágico do Outro Mundo, decorado com jóias e pérolas. Eles penetram num mundo estranho, quase surreal, em que imagens de torres e fortalezas de vidro aparecem de modo fugidio [76] nas  ilhas do Outro Mundo. Acabam levando o caldeirão, mas por um preço alto - só sete dos companheiros de viagem voltam para casa.

Em outra estória, o Grande Rei Cormac adquire sabedoria de um caldeirão fervilhante e ganha dois preciosos presentes do Outro Mundo, exemplificando a maneira pela qual um caldeirão pode servir como uma imagem profunda da verdade.

Numa manhã de maio, um esplêndido guerreiro se aproxima das muralhas de Tara, carregando um ramo de prata de onde pendem maçãs de ouro. Ao bater umas contra as outras, as maçãs emitiam uma música suave, com o poder de confortar as pessoas e induzi-las a um sonho repousante. O visitante revela que veio da terra da verdade, onde não existe doença, nem decadência, nem tristeza, inveja ou ódio. Como prova da sua amizade, ele oferece ao Grande Rei Cormac o ramo de prata em troca de três favores.

O rei aceita a proposta, e um ano depois o guerreiro volta para cumprir sua promessa. Primeiro, ele exige a filha de Cormac; depois o filho. Cormac concede esses favores e usa os poderes do ramo de prata para amenizar a tristeza da corte pela perda dos filhos do rei. Quando o guerreiro exige, em seguida, a esposa de Cormac, o rei consente com relutância, mas depois sai, com seus homens, em perseguição ao visitante.

De repente, uma névoa desce sobre os companheiros e Cormac se vê sozinho ao lado de uma fortaleza murada, que é também onde fica o Poço do Conhecimento. Um belo estranho e sua linda companheira oferecem a Cormac a hospitalidade da fortaleza.

Logo um homem entra carregando um porco. Ele corta o animal em quatro partes e põe a carne num "caldeirão da verdade". O homem conta a Cormac que a carne só cozinhará se contarem quatro estórias verdadeiras, uma para cada porção. O dono do porco, o anfitrião e seus companheiros contam, cada um deles, uma estória verdadeira e as porções cozinham como deveriam. Então Cormac conta a estória do desaparecimento da sua família e sua porção de porco também cozinha. Mas, por ser um homem de muita honra e integridade, recusa-se a comer a carne sem os seus exércitos. O anfitrião canta uma canção para fazer o rei dormir e, quando Cormac acorda, ele está cercado pela família e pelos seus homens. [77]

Mais tarde, nessa mesma noite, o rei admira o trabalho artesanal do cálice de ouro de seu anfitrião. Este conta a Cormac que o cálice se quebra quando três mentiras são contadas, mas se recompõe depois que três verdades são proferidas. Ele então conta três mentiras e o lindo objeto se parte em pedaços. Depois, assegura a Cormac que, enquanto a mulher e a filha dele estiveram fora, nenhum homem as tocou, tampouco o filho dele dormiu com uma mulher. Para a surpresa de Cormac, o cálice se recompôs. Por fim, o anfitrião revela ser Manannan mac Lir  o misterioso visitante que havia presenteado Cormac com o ramo de prata. Nesse mesmo instante, Cormac se vê de volta à Planície de Tara com a mulher, os filhos e seu exército, segurando na mão o "cálice da verdade". Um grande rei, portanto, se torna muito mais grandioso quando é merecedor de dois presentes preciosos do Outro Mundo: o "ramo de prata do bem-estar" e o "cálice da verdade". [79]

Disfarçado de cisne

A graça e a beleza do cisne, com sua elegância, seu pescoço longo e penas brancas e macias, fazem dessa ave um símbolo natural de tudo o que é bom, sagrado e puro. Capaz de deslizar sobre rios e lagos, bambolear por terra ou cruzar os ares com suas asas poderosas, o cisne também liga as águas do Outro Mundo com os reinos da terra e do céu. Os cisnes do Outro Mundo são metamorfos, capazes de mudar de forma quando querem, e é possível identificá-los pelas correntes de ouro ou prata penduradas em volta do pescoço.

Como muitos habitantes do Outro Mundo, o cisne é uma criatura ambígua, com um aspecto obscuro que contrabalança suas qualidades positivas. Na estória dos filhos de Lir - um conto tão triste que é considerado um dos "Três Maiores Pesares da Contação de Estórias" - o viúvo rei Lir casa-se novamente para que sua filha Fionuala e seus três filhos possam voltar a ter mãe. Mas a nova rainha tem ciúmes da afeição do rei pelos filhos e por isso lança mão de feitiçaria para transformá-los em cisnes. As crianças-cisne, porém, conseguem manter sua capacidade de falar e seu dom para a música, e as pessoas vêm de longe para ouvi-las cantar no lago e se sentem reconfortadas com a sua música.

Depois de muitas aventuras tristes, as infelizes crianças encontram um ermitão que consegue consolá-las da sua dor por meio da fé cristã. Mas o sofrimento delas ainda não tem fim, pois um rei malvado as captura e as leva embora com ele, depois do que suas penas caem para revelar quatro criaturas velhas e trêmulas. Percebendo que morreriam, as crianças-cisne pedem apenas para serem enterradas juntas na mesma sepultura e o ermitão bondosamente atende ao pedido delas. Então os filhos de Lir encontram paz finalmente e conseguem entrar no reino do céu.

No conto arthuriano de Lohengrin, filho de sir Percival, o menino aparece primeiro dentro de um barco que vai para o Outro Mundo, atraído por um lindo cisne branco. Lohengrin é muitas vezes retratado usando branco (uma alusão às penas do cisne), em reconhecimento às suas origens sobrenaturais. [80]

   Mitologia celta, o outro mundo
8/17/2017 10:37:28 PM | Por Mirella Faur
Mitologia Nórdica
Texto
Similaridades e diferenças entre a mitologia nórdica e greco-romana

O surgimento das crenças e práticas escandinavas e germânicas, são originárias do passado comum indo-europeu, ampliadas com as tradições e os elementos nativos das tribos que já moravam no norte e nordeste europeu, lá existindo desde a pré-história. Foi comprovado, através de pesquisas de mitologia comparada e filologia, que os dialetos germânicos e escandinavos do continente, junto com as línguas de origem latina, eslava, celta, hindu e persa, pertenciam à mesma família linguística indo-europeia.

As várias tribos que saíram das suas pátrias da Ásia Central para conquistar novos territórios — no norte da Europa e no leste, chegando até a índia — levaram consigo nas suas migrações não apenas uma base linguística comum, mas uma mesma fé e mitologia, partilhadas por todos. Da mescla dos seus mitos e práticas surgiu o complexo panteão nórdico e os grupos das divindades Aesir e Vanir, além dos vários arquétipos de seres sobrenaturais, guardiões da natureza e os amplos e duradouros cultos aos ancestrais.

Do mesmo tronco indo-europeu, outras tribos arianas vindas da Ásia Central se deslocaram para o sul da Europa e, com o passar do tempo, lá floresceram duas relevantes culturas: a grega e a romana. Separadas por condições geográficas diferentes e com outro tipo de desenvolvimento histórico, social e cultural, à primeira vista a mitologia nórdica e a greco-romana têm pouco em comum. Mas, analisando com atenção e cuidado, observamos uma analogia dos conceitos fundamentais, com mitos e divindades semelhantes, as diferenças sendo devidas às influências recebidas pela diversidade das tribos conquistadas e integradas ao Império Romano, além do clima e da natureza específica às regiões temperadas e à bacia do Mediterrâneo. Percebem-se assim as sementes indo-europeias, que deram origem a ambas as tradições, mas com um colorido e descrições diferentes.

Oferecemos neste pequeno capítulo conhecimentos, comparações e analogias para aqueles leitores que desejam se aprofundar e compreender melhor o fascinante legado cultural e mitológico do norte e do sul da Europa.

O início dos tempos

Os povos nórdicos acreditavam que o mundo surgiu do caos, pois no princípio não existia nem céu, nem terra, apenas um abismo sem fundo, com uma extremidade de fogo e outra de gelo; espelhando o seu habitat, a criação do mundo na cosmologia nórdica era representada como um encontro dramático entre as forças primordiais do fogo e do gelo. Essa imagem é um traço característico da natureza islandesa, onde é visível o contraste entre o solo vulcânico, os gêiseres borbulhantes e os grandes icebergs ao redor. Desses elementos opostos — fogo e gelo, calor e frio, expansão e contração — nasceram os Jotnar (os gigantes nórdicos), que, semelhantes aos Titãs, os precursores dos deuses gregos, tinham uma impressionante força e resistência física, mas diferentes deles, suas feições eram rudes e a inteligência primitiva, prevalecendo os instintos.

Os gigantes representavam os poderes naturais dos elementos e do ambiente em que viviam, alguns deles se tornaram progenitores das divindades que os seguiram na regência do mundo. Do vazio primordial surgiram dois seres, personificações primevas da energia e da matéria, o gigante Ymir (equiparado com os Titãs, que também personificavam o fogo subterrâneo) e a vaca AucLhumbla, tornando-se cocriadores no processo de formação da vida.

Ymir, como ser hermafrodita e sendo ao mesmo tempo gigante e deus, gerou vários descendentes; seus netos — a tríade divina Odin, Vili e Vé — gerados por uma força tripla (a mescla do fogo, do gelo e do princípio feminino — a vaca Audhumbla) mataram Ymir e, da sua matéria cósmica bruta, remodelaram o cosmo estático e o transformaram em um sistema vivo e dinâmico.

No mito grego, no começo dos tempos prevalecia o caos, em que todos os elementos estavam misturados formando uma massa informe, mas que continha em si as sementes da criação. O primeiro ser que surgiu foi Gaia, a mais antiga deusa e a Grande Mãe primordial, a própria terra, que soprou a vida no vazio e criou montanhas (seus seios), rios (seu sangue), grutas (seu ventre), planícies, florestas e desertos (seu corpo). Apesar de Gaia representar o planeta inteiro, para os gregos ela personificava o seu país e a fertilidade e abundância da terra.

Ao unir-se ao seu primogênito, Urano, o céu, ela gerou os Titãs (entre os quais se sobressaíam Cronos, Oceano, Hipérion, Eurinome, Têmis e Mnemosine) e depois os Ciclopes, seres gigantes e imbuídos de força irracional, que foram aprisionados por Urano (que temia seu poder primal), no mundo ctônico, o Tártaro. Revoltada com a sorte dos seus filhos e preocupada com a crueldade do seu marido, Gaia persuadiu seu filho Cronos, o mais jovem dos Titãs, a castrar e matar Urano; do seu sangue, que fertilizou novamente Gaia, surgiram as Fúrias, vários seres gigantes e as ninfas das árvores.

Cronos regeu a Idade de Ouro, um período de paz e prosperidade, mas devorava seus filhos à medida que nasciam, com medo de ser por eles destronado, assim como ele tinha feito com seu pai. Como o Senhor do Tempo, Cronos na realidade representava o fim de todas as coisas. Seu filho Zeus escapou a esse cruel destino por ter sido escondido pela sua mãe em uma gruta no monte Ida, em Creta, onde foi amamentado pela cabra Amaltea e cuidado pelas ninfas. Com a ajuda da deusa Métis, Zeus administrou um veneno ao seu pai, que o fez vomitar e devolver todos os seus filhos. Zeus — ou o seu equivalente romano Júpiter — libertou alguns dos Titãs presos no Tártaro e entregou aos seus irmãos Posêidon e Hades, os reinos do oceano e do mundo subterrâneo. Zeus se declarou o governante supremo, dos deuses e dos homens e foi morar no palácio do Monte Olimpo, de onde supervisionava todos os recantos do mundo e seguia a sua própria jornada, a busca do poder e prazer.

Tanto os gigantes do fogo e do gelo, quanto os Titãs, foram vencidos após batalhas ferozes, em busca da supremacia e do poder e foram banidos pelos seus descendentes, após sua derrota, uns para jötunheim, os outros para Tártaro, sendo obrigados a ceder seu poder primevo para um novo panteão, mais refinado. Engrandecidos pela sua vitória, os vencedores — que eram aparentados entre si —se instalaram em palácios dourados, seja os do reino nórdico de Asgard (as moradas das divindades Aesir), situados num dos níveis sutis da Arvore do Mundo, Yggdrasil, seja os dos seus equivalentes gregos do Monte Olimpo.

Os deuses representam o poder de manipulação e transmutação das forças naturais; a interação entre deuses e gigantes pode se manifestar como conflito ou domínio das forças naturais, levando à preservação ou à destruição da terra e de todos os seres vivos.

Os mitos nórdicos e os gregos, bem como as estórias e relatos das peripécias e conquistas das divindades são parecidos com os dramas humanos, descrevendo os conflitos inerentes e existentes entre gerações, famílias e indivíduos. As divindades eram dotadas com as mesmas virtudes e defeitos comuns aos seres humanos, sendo descritas como seres orgulhosos, vaidosos, violentos, belicosos, ciumentos, vingativos, sensoriais e passionais, interessados em observar, ajudar ou desafiar a humanidade, mas sem muita complacência, tolerância ou compaixão com suas ações negativas, seus erros, objetivos ou necessidades. Por outro lado, certos humanos tornados imortais — os heróis — possuíam poderes físicos e sabedoria semelhantes aos deuses, como se vê na descrição dos 12 trabalhos de Hércules ou nas proezas dos personagens históricos citados nas sagas islandesas.

A criação do homem

A tríade nórdica divina, Odin, Vili, Vé —os  descendentes de Ymir —, é semelhante aos deuses Zeus (Júpiter), Posêidon (Netuno) e Hades (Plutão), que, por terem maior poder e astúcia, venceram os gigantes (ou osTitãs) e assumiram o controle do mundo.

Os gregos modelaram as suas primeiras imagens de argila, por isso imaginaram que Prometeu tivesse usado o mesmo material quando foi chamado para confeccionar uma criatura inferior aos deuses, mas acima dos animais. Como as estátuas nórdicas eram feitas de madeira, os nórdicos atribuíram a criação do primeiro casal humano ao uso de troncos de árvores.

Os deuses nórdicos criaram o primeiro casal humano a partir de troncos de árvores, ou seja, de matéria orgânica preexistente, aos quais deram o espírito, os sentidos, o movimento, as funções da mente, o dom da palavra, a energia vital e a consciência.

Na mitologia grega, quem criou o homem foi Prometeu, um dos Titãs, que misturou terra e água e modelou um ser à semelhança dos deuses, que, diferente dos animais, ficava em pé e olhava para os céus, podendo assim invocar os deuses e agradecê-los. Para torná-lo especial e diferente dos seus irmãos menores, Prometeu entregou-lhe depois o fogo tirado do sol, que lhe assegurou a superioridade ao usá-lo para cozinhar, se aquecer ou defender e modelar metais em ferramentas e armas.

A primeira mulher foi Pandora, criada no céu, onde cada deus contribuiu com alguma coisa para aperfeiçoá-la: Afrodite lhe deu beleza; Hermes, a persuasão; Apolo, a arte. Ela recebeu também uma caixa que não devia abrir, porém, movida pela curiosidade, destampou-a e espalhou para a humanidade o conteúdo de pragas, maldades, males e doenças, permanecendo na caixa apenas a esperança. Assim, sejam quais forem os males que nos ameaçarem, a esperança nos permite sobreviver e vencer.

Ambos os panteões seguiam uma hierarquia familiar e uma evolução progressiva, correspondendo às Idades de Ouro (em que prevalecia a justiça, a paz, a abundância da terra), Prata (quando o ano foi dividido em estações, as moradas se tornaram necessárias, a terra tinha que ser plantada e cuidada), Bronze (o começo da competição e dos combates entre os homens) e por último a de Ferro (quando a humanidade tornou-se vil e violenta, começando a destruição dos recursos da terra), que passou a ser dividida em propriedades cobiçadas e conquistadas à força. Inúmeras guerras irromperam, havia crimes até mesmo entre familiares e a terra ficou manchada de sangue, até que os deuses entristecidos decidiram abandoná-la. Zeus ficou enfurecido com o caos reinante e decidiu destruir todos os seres humanos, jogando sobre eles o seu raio, para propiciar o nascimento de uma nova e melhor geração. Porém, temendo que o fogo afetasse o proprio habitat dos deuses — o céu —, ele escolheu outra forma de punição, provocando um dilúvio. Para isso Zeus desencadeou o movimento dos ventos, o avolumar das ondas, deixou os rios saírem dos seus leitos, sacudiu a terra com terremotos e erupções vulcânicas, até que nada mais restou das moradas, dos animais, árvores, plantas, campos, florestas ou seres humanos.

Apenas um casal sobreviveu, Deucalião e Pirra, que pertencia à mesma raça de Prometeu. Desesperados, eles começaram a orar aos deuses, pedindo-lhes clemência.

Zeus ficou tocado com a sua conduta humilde e a prece fervorosa e ordenou aos elementos que voltassem aos seus lugares, pedindo também aos outros deuses que harmonizassem a desordem reinante. O casal se ajoelhou nos escombros do altar do único templo restante, de Delfos, orou agradecendo pela sua sobrevivência e pedindo um conselho para a sua futura conduta.

O Oráculo, na voz de Gaia, lhes disse que saíssem do templo cobrindo suas cabeças, e que jogassem pedras ao seu redor, para que delas fossem formados seres humanos novos e melhores, repovoando assim a Terra. Assim foi feito e, aos poucos, uma nova raça foi surgindo, cuidando melhor dos recursos da terra e respeitando todos os seres vivos. As descrições e eventos do mito grego são semelhantes ao Ragnarök, o fim dos tempos da mitologia nórdica.

Cosmogonia

Na visão nórdica, a morada da humanidade — Midgard ou Manaheim — era cercada pelo mar, em cujas profundezas habitava a terrível Serpente do Mundo, enrolada ao redor de si mesma e mordendo sua cauda, cujas contorções provocavam ondas gigantes e tempestades marinhas e que iria ser fator preponderante no cataclismo final do Ragnarök. A passagem entre o mundo divino e os outros mundos — incluindo o humano — era feita pela ponte do Arco-Íris, formada de fogo, agua, ar e guardada pelo deus Heimdall. O cosmo multidimensional era representado por Yggdrasil, a Arvore do Mundo, cujas três raizes correspondiam às três dimensões (dos deuses, homens e dos mortos), que interligavam nove mundos, intercalados no espaço e sob cujas raízes brotavam três fontes sagradas, com significados e funções diferentes. A árvore gerava e sustentava a vida e abrigava as almas à espera do renascimento.

Os gregos acreditavam que a Terra fosse redonda e chata e que o seu país ocupava o centro da Terra, sendo seu ponto central o Monte Olimpo a residência dos deuses, ou o templo oracular de Delfos. Na sua visão, o disco terrestre era atravessado de leste para oeste e dividido em duas partes iguais pelo mar (o Mediterrâneo); em torno da Terra corria o rio Oceano, cujo curso era do sul para o norte na parte ocidental da Terra e em direção contrária do lado oriental; era dele que todos os rios e mares da Terra recebiam suas águas. O rio Oceano tinha uma superfície calma e suas correntes eram amenas, assim como era também o mar ensolarado do Sul, o Mediterrâneo.

Na cosmogonia grega existia uma terra mítica dos Hiperbóreos (a contraparte de Niflheim, o reino enevoado e frio do mito nórdico), situada no extremo norte da Terra (possivelmente Escandinávia), inacessível por terra ou por mar, onde “penas brancas” caíam do céu cobrindo a terra (uma bela imagem da neve). Os hiperbóreos eram um povo evoluído, que desfrutava de uma felicidade perene, isentos de doenças, velhice e guerras; eles viviam atrás de gigantescas montanhas, de cujas cavernas saíam as gélidas lufadas do vento norte. Foi lá, numa tempestade de neve, que o herói Hércules realizou um dos seus 12 trabalhos, alcançando e amarrando a corça de Cerínia (que pertencia a Artemis), que tinha chifres de ouro e cascos de bronze e corria com espantosa rapidez, sem jamais ter sido presa. Na sua visão no extremo sul da Terra, próximo ao rio Oceano, vivia um povo tão virtuoso e feliz como os Hiperbóreos, chamado de Etíopes. Na parte ocidental da Terra, banhada pelo Oceano, ficava um lugar abençoado, os “Campos Elíseos” ou “Afortunados”, para onde mortais favorecidos pelos deuses eram levados para desfrutar da imortalidade, uma semelhança com a Valhalla nórdica, onde os espíritos dos guerreiros mortos em batalha, festejavam em cada noite e lutavam durante os dias. Porém, na extremidade oeste, os gregos imaginavam um mar escuro povoado com gigantes, monstros e feiticeiros, descrição que revelava o pouco conhecimento dos gregos sobre seus vizinhos, além daqueles do leste e sul do seu país.

Fenômenos celestes

Assim como os gregos, os povos nórdicos acreditavam que a Terra tinha sido criada em primeiro lugar e a abóbada celeste em seguida, para que lhe servisse de cobertura e proteção. Eles também acreditavam que as carruagens do sol e da lua, puxadas por velozes corcéis, percorriam o céu na sua trajetória diária. A diferença aparecia no gênero das divindades, enquanto Sunna é a deusa solar do norte, seus equivalentes no sul são os deuses Hélios (o predecessor de Apolo), Hipérion (o pai de Hélios) e Apolo. Hélios morava em um palácio dourado no extremo leste do mundo, perto do rio Oceano, de onde emergia em cada amanhecer, coroado com os raios solares e conduzindo sua carruagem dourada, puxada por quatro cavalos alados.

Essa imagem é semelhante à descrição da deusa solar nórdica — Sunna ou Sol; nos seus mitos ambas as divindades se retiravam das suas carruagens solares ao anoitecer, assumindo outros veículos com os quais atravessavam abaixo da terra onde repousavam, até de novo reaparecerem na madrugada do dia seguinte, retomando sua jornada. Os gregos acreditavam que a aurora, o sol e a lua levantavam-se do Oceano na sua parte oriental e após atravessarem o ar, deitavam-se no ocidente. Devido a uma particularidade da língua germânica, o gênero do sol era feminino e o da lua masculino, por isso o deus lunar Mani podia ser equiparado às deusas lunares Artemis, Selene e Hécate (as representações das fases lunares).

Os skalds islandeses e os poetas germânicos comparavam o galope das Valquírias - montadas sobre seus corcéis com crinas brilhantes e portando armaduras cintilantes - às luzes fulgurantes da aurora boreal. Os aregos viam no mesmo espetáculo celeste as manadas brancas de bois e ovelhas, que pertenciam a Apolo e que eram cuidadas pelas suas filhas Lampécia e Faetusa, nas terras de Sicília. O orvalho era atribuído pelos nórdicos ao suor respingando das crinas dos cavalos das Valquírias, enquanto os gregos acreditavam que ele provinha da ninfa Daíne, que, por ter sido perseguida sem cessar pelos raios solares de Apolo, transformou-se na arvore de louro, tornada sacra pelo arrependimento do deus e a ele consagrada.

A Terra era uma divindade feminina, tanto no norte quanto no sul, honrada como a Mãe Geradora e Protetora de todos os seres, mas diferenciada em função das características geográficas e climáticas do norte e do sul. As diferenças apareciam nas descrições da sua manifestação: rígida e congelada como Rinda, que devia ser conquistada com perseverança e abnegação, ou benevolente e fértil como a Deméter grega. Os gregos acreditavam que os ventos frios e o granizo vinham do norte, assim como os proprios nórdicos sabiam, mas atribuíam sua formação ao movimento das asas da grande águia pousada no topo da árvore Yggdrasil.

Segundo os gregos, existiam portas nas nuvens, guardadas pelas deusas das estações, que as abriam para permitir a passagem dos imortais nas suas viagens para a Terra. No mito nórdico a ligação entre o mundo dos humanos e o das divindades era feita pela ponte do Arco íris, Bifrost, protegida pelo deus Heimdall, que negava a entrada para aqueles seres (humanos ou sobrenaturais) que não tinham o direito ou a permissão de entrarem no mundo divino. Além de Bifrost existiam outras pontes, separando ou ligando os outros mundos.

Os deuses gregos tinham moradias distintas, mas quando convocados para os conselhos, se reuniam no palacio de Zeus, onde se regalavam diariamente com ambrosia e néctar, servidos pela linda deusa da juventude Hebe e, quando o sol se punha, se retiravam para seus palácios. As divindades nórdicas também se reuniam para deliberar, criar leis ou administrar assuntos do seu reino ou dos humanos, nos grandes salões de Valhalla, onde festejavam com brindes de hidromel, preparado no caldeirão mágico do deus Aegir. Eram 12 as divindades que se reuniam nos concílios para deliberar e decidir a melhor maneira de governar o mundo e a humanidade, tanto em Asgard, quanto no Monte Olimpo e elas foram associadas com constelações e corpos celestes.

Nornas e Moiras

É evidente a semelhança entre o conceito do orlög nórdico e do destino grego, entre as poderosas Senhoras do Destino — Nornas e Moiras, respectivamente — que presidiam a todos os nascimentos e determinavam o futuro das crianças, bem como o traçado da sorte dos homens.

Os povos nórdicos sabiam, que mesmo reverenciando, invocando e fazendo oferendas às divindades, elas não iriam deles afastar os perigos e as adversidades, por fazerem parte dos testes e provações dos seus destinos, previamente designados e traçados pelas Nornas. As lendas e os mitos nórdicos não descrevem atos de revolta, ou demonstrações de amargura e inconformação dos personagens perante as adversidades e contratempos das suas vidas; pelo contrário, observa-se uma heróica aceitação da inevitabilidade dos problemas e dificuldades, celebrando e agradecendo em troca os prazeres sensoriais e as dádivas materiais da existência.

Os deuses conferiram à humanidade a aceitação da vida como um traçado inalterável do destino, previamente escolhido e determinado pelas Nornas. Orlög representava o presente moldado pelas ações passadas, enquanto Wyrd era o destino individual, predestinação ao qual nem mesmo as divindades podiam escapar. As Nornas podiam aconselhar os deuses que as procuravam, sem jamais atenderem pedidos ou mudarem os seus destinos, como foi descrito no mito do deus Baldur. As Nornas habitavam uma gruta nas raízes de Yggdrasil, a Árvore do Mundo e os seus nomes podiam ser interpretados como atribuições ligadas à passagem do tempo: Urdh, “Aquilo que já aconteceu”, Verdandhi, “Aquilo que está sendo” e Skuld, “Aquilo que poderá vir a ser”, aspectos associados também ao nascimento, vida e morte. Sua função cósmica era estabelecer as leis e modelar os destinos de todos os seres vivos, de todos os mundos, inclusive dos deuses.

As Parcas ou Moiras, conhecidas como as “Fiandeiras” ou “Tecelãs”, eram também um grupo em número de três deusas — como as Nornas —, representando os marcos da passagem do tempo — passado, presente e futuro. A sua missão consistia em tecer o fio do destino humano, medi-lo e com sua tesoura cortá-lo, atividade revelada pelos seus nomes: Cloto, a tecelã; Láquesis, a distribuidora e Atropos, a inevitável. Diferente das Nornas, que tinham surgido antes do início dos tempos sem que fosse conhecida a sua origem ou descendência (portanto sendo imemoriais e eternas), as Moiras eram filhas da deusa Têmis (a guardiã da lei e da justiça) ou, segundo outras fontes, de Nix, a Senhora da Noite.

Em alguns mitos conta-se que o seu poder era mais antigo e anterior ao império de Zeus, tendo dele recebido a permissão para aconselhar os deuses, mas sem influírem no destino deles, somente assim obtendo a aceitação para pertenceram ao novo panteão olímpico. As Moiras viviam em uma caverna ao pé de um lago, cuja água branca é uma imagem do luar, imagem que as associa com as três fases lunares.

A mãe do mundo

Nas estórias gregas, relativas ao começo de tudo, três grandes deusas representam o papel da Mãe do Mundo: Tétis, a deusa do mar, Nix, a regente da noite e Gaia, a Mãe Terra, que juntas formam uma trindade, abrangendo o domínio do céu, do mar e da terra. Mesmo sendo uma trindade, elas não constituem divisões de uma deusa tríplice, atributo que ficou associado apenas com a deusa lunar e seus aspectos de lua crescente (incluindo a nova), cheia e minguante, fases ligadas também aos estágios de nascimento, crescimento e declínio.

Nos mitos nórdicos não existem referências claras ou comprovações assim ditas científicas sobre a existência de uma única Mãe Ancestral, mas encontramse inúmeras das Suas representações como mães tríplices, matronas, mães da natureza. Seus diversos elementos e aspectos eram reverenciados com diversos títulos e nomes, os atributos sendo diferenciados em função da tribo, localização geográfica, estação do ano ou época dos seus cultos.

Mitos das estações

As Horas (Horae) eram três deusas gregas, filhas de Zeus e Têmis, que regiam a estabilidade do tempo e a ordem na sociedade humana, quando assumiam os nomes de: Eunomia (Ordem), Dice (Justa retribuição) e Irene (Paz). Outras representações delas como governantes das três estações (primavera, verão e outono, específicas ao clima ameno do sul da Europa), do tempo e dos ciclos da vegetação (semeadura, brotação, amadurecimento e colheita) eram chamadas como Talo (regente da primavera), Auxo (do verão) e Carpo (do outono) e descritas como lindas moças, segurando flores e espigas. Elas abriam as portas do céu para a passagem das divindades nas suas incursões à Terra, traziam e conferiam oportunidades, iam e vinham de acordo com a lei firme da periodicidade da natureza e da vida, governavam as mudanças do tempo e mantinham a estabilidade no mundo natural.

Na mitologia nórdica, a passagem do tempo era representada pela Roda do Ano, cuja característica básica era o jogo entre as energias de luz e escuridão, calor e frio, expansão e contração. A Roda do Ano era dividida e celebrada pelos festivais solares (que marcavam a mudança das estações de acordo com a marcha do sol no céu, em datas fixas conhecidas como solstícios e equinócios) e pelos festivais do fogo (pautados em datas do calendário agrícola e que diferiam em função da localização geográfica). Cada um desses festivais tinha como ponto focal a reverência de certas divindades, descritas na Roda do Ano.

Os povos nórdicos reconheciam apenas três estações, cada uma delas correspondendo a certas divindades. O inverno era regido pelas Senhoras Brancas (Berchta, Holda), as deusas Rind e Skadhi e o deus Ullr; a primavera era associada com as deusas Freyja, Frigga, Idunna, Ostara, Rana Neidda, Rind e Walburga e o verão com Freyja, Frigga, Gerda, Nerthus, Sif, Sunna e os deuses Frey, Njord e Thor. As mudanças de tempo (chuvas, tempestades, vento, nuvens cinzas ou céu azul) eram provocadas pelas mudanças de humor, os deslocamentos ou atributos das deusas Thrud, das Senhoras Brancas (Berchta e Holda), de Gna, Skadhi, Vaiquírias e dos deuses Odin, Njord, Thor (relâmpagos e trovões) e Ullr (neve e névoa).

Idunna, assim como Perséfone e Eurídice, personificava a primavera e ajuventude, pois ela levava diariamente aos deuses as maçãs da juventude; todas elas tinham sido raptadas por um gigante (Thiazzi e Hades) e foram trazidas de volta pelo sopro do vento (representado por Loki, Hermes e o suave som da flauta de Orfeu).

Frey era o deus regente das chuvas da primavera, do calor do verão e da fartura das colheitas, que se deslocava numa carruagem puxada por javalis dourados, semelhante à carruagem dourada de Apolo. O belo e bondoso Frey tinha características solares comuns com Apolo, mas regia principalmente a fertilidade da terra e a prosperidade das comunidades.

A deusa Gerda era conhecida pela sua beleza que iluminava o céu, a terra e personificava a aurora boreal; mas ao mesmo tempo era a regente da terra congelada pelo frio do inverno, que teve que ser aquecida pelas insistências e o amor solar de Frey, antes de concordar em se tornar sua esposa.

O desaparecimento misterioso de Odin e Odhr durante alguns meses do ano e a decorrente desolação de Frigga e Freyja chorando lágrimas de ouro e âmbar, são estórias nórdicas semelhantes aos “Mistérios de Eleusis”, as famosas celebrações milenares gregas. Nos rituais gregos era encenado o rapto de Perséfone (levada ao mundo subterrâneo por Hades, simbolizando o fim da vegetação no outono e a hibernação das sementes), o desespero e luto de Deméter, chorando a ausência da sua amada filha e se retirando do mundo terrestre (fato que retratava a aridez da terra nos meses de inverno). O tema comum dos mitos é a alternância do inverno e do verão, da colheita e da semeadura, da morte e do renascimento da vegetação.

Os invernos gelados e os ventos cortantes dos países nórdicos eram personificados pelos gigantes de gelo ou Jómar, os seres primordiais das forças destrutivas da natureza, vencidos pelos deuses Aesir e isolados nas grutas escuras e geladas, antes de terem sido criadas as condições favoráveis para a vida humana. Eles representavam as adversidades climáticas do extremo norte, as geleiras e as tempestades de neve. Enquanto os gregos acreditavam que o Monte Atlas tinha sido a metamorfose de um Titã, os picos alemães Riesengebirge, (a montanha dos gigantes) eram considerados a morada dos gigantes de gelo, de onde eles jogavam o excesso de neve acumulado ao seu redor em forma de avalanches.

Mitos sobre o perigo e a beleza do gelo são frequentes nos países nórdicos, os gigantes eram considerados forças maléficas e destrutivas, que, durante os meses de inverno, lutavam contra as forças do verão, enviando os ventos gelados e as tempestades de neve. Porém, as gigantas eram cobiçadas pelos deuses como amantes ou companheiras, devido aos seus dons proféticos e sua beleza radiante; ao se casarem com eles, elas podiam adquirir status de deusas e morarem em Asgard (como Gerda, Gefjon, Jord)

Regentes da natureza

Os povos nórdicos honravam inúmeras regentes e guardiãs das florestas como as mulheres-freixo ou mulheres-arbusto, as Senhoras Verdes, o povo de Huldr, os espíritos da natureza (Land-vaettir), Vittra (a personificação da mulher selvagem), Nanna, a deusa da vegetação e do florescimento. Eles também cultuavam as deusas da terra (Nerthus, Jord, Fjorgyn, Gefjon), dos campos de trigo (Sif, Ziza), da vegetação (Idunna, Nana e o deus Frey) e das ervas curativas (Eir).

Os elfos claros — que eram responsáveis pelas árvores, plantas e rios, assim como os Seres Sobrenaturais e os Guardiões Ancestrais dos reinos e elementos da natureza nórdica — podem ser equiparados às ninfas dos bosques, dríades e hamadríades ligadas a determinadas árvores (carvalho e freixo), as Oréades, ninfas das montanhas e grutas, aos sátiros (meio-homens, meio-bodes), silvanos, silenos e faunos, acompanhantes do deus Pã (o deus fálico dos bosques, dos campos, dos rebanhos e pastores) e moradores das florestas, vales e campos da antiga Grécia.

Os anões e os elfos escuros, criados do corpo de Ymir, eram semelhantes aos servos escuros de Hades, que não podiam sair das profundezas da terra sob risco de ficarem petrificados pelos raios solares. No mundo subterrâneo eles deviam cuidar ou buscar os metais e as pedras preciosas necessárias para os ornamentos e joias dos deuses, auxiliar na confecção das armas inquebráveis (pelo deus Hefesto), ou na criação dos objetos mágicos (como os tesouros de Asgard), que eram presenteados aos deuses e heróis.

O roubo dos cabelos dourados de Sif — a esposa de Thor e regente dos campos de trigo — pelo traiçoeiro Loki pode ser comparado ao rapto de Perséfone por Hades, ambas as deusas representando a riqueza da vegetação. Para a recuperação da cabeleira da deusa Sif — depois de ter sido ameaçado com a morte por Thor — Loki teve que apelar aos elfos ferreiros, se esgueirando pelas frestas da terra até alcançar suas escuras moradas e lhes encomendar uma cabeleira igual, feita com fios de ouro. Hermes, enviado por Zeus para trazer de volta Perséfone raptada por Hades, teve que procurá-la, perambulando no sombrio mundo subterrâneo e depois escoltá-la de volta para a sua mãe, Deméter. A alegria do encontro da mãe com a filha devolveu a fertilidade à terra e os campos de trigo foram cobertos com o brilho dourado das suas espigas.

Divindades aquáticas

Os Titãs gregos — Oceano (o deus-rio) e Tétis (A Senhora ou a Mãe do Mar) —, eram os governantes primordiais das águas, que foram substituídos por Posêidon e Anfitrite, depois da derrota dos Titãs pelos deuses olímpicos. Anfitrite (Rainha das Nereidas, das 3 mil Oceânidas, das ninfas do mar e das Náiades, os espíritos femininos dos rios e fontes, semelhantes às Nixen nórdicas) era filha do deus marinho Nereu, mãe de inúmeros filhos, que se tornaram os rios do mundo e de Tritão, que era meio homem, meio peixe. Ela era descrita como uma linda mulher, que aparecia nua e coroada com algas e pérolas, deslizando pelo mar na sua carruagem prateada, puxada por golfinhos. As Nereidas eram ninfas marinhas, personificando as ondas e as qualidades do mar, que acompanhavam Posêidon e Anfitrite e apareciam como mulheres extremamente bonitas e sedutoras, mas com rabo de peixe.

Diferente da deusa marinha nórdica Ran, que tinha um temperamento imprevisível, agressivo e vingativo, a Mãe do Mar grega era gentil, personificando a superfície calma e ensolarada das ondas. Posêidon, em compensação, tinha uma natureza violenta, cíclica e explosiva: ele podia provocar terremotos (resquícios da sua representação mais antiga, quando regia o relâmpago e as tempestades), usar o tridente para desencadear ou amainar tempestades ou cavalgar tranquilamente as ondas, no meio dos golfinhos, na sua carruagem dourada puxada por cavalos marinhos.

Afrodite, a deusa do amor, da fertilidade e da beleza, apareceu do meio das ondas, assim como sua equivalente nórdica Freyja. Porém, enquanto Freyja era filha do deus marinho Njord, Afrodite surgiu da espuma formada sobre as ondas, quando Urano, após a castração de Cronos, jogou seus testículos no mar, uma metáfora que descrevia o poder fertilizador e a energia vital da água e do esperma.

Os deuses Fórcis, Nereus (pai das Nereidas) e Proteu eram conhecidos como “O velho homem do mar”, tendo sido anteriores a Posêidon e viviam em palácios luxuosos no fundo do mar. Assim como o nórdico Njord, eles descreviam a natureza do mar calmo e eram dotados do dom da metamorfose e da profecia. Njord (associado com o verão, a calmaria das águas e a fertilidade do mar) tem sua contraparte em Posêidon, e, principalmente em Nereus, que personificava o aspecto calmo, misterioso e prazeroso das profundezas marinhas.

Com exceção de Njord, as divindades nórdicas do mar refletiam o clima desafiador e o mar tempestuoso do seu habitat, assim como o grego Posêidon. O casal marinho Aegir e Ran tinha características semelhantes: Aegir regia as profundezas geladas do mar e as tempestades e tinha um palácio faustoso repleto de tesouros recolhidos dos navios. Ran era Rainha das Ondinas e das Sereias e era ela quem recolhia os afogados com sua rede mágica, levando-os para o palácio no fundo do mar, onde tratava bem aqueles que tinham ouro nos seus bolsos. Ambos eram violentos e terríveis, responsáveis pelos naufrágios e afogamentos e por isso cultuados pelos marinheiros e viajantes que lhes faziam oferendas de ouro, antes das suas viagens, para serem protegidos.

Os povos nórdicos cultuavam também outras deusas como Nehalennia, a protetora dos marinheiros, pescadores e viajantes (que propiciava também a abundância); Mere-Ama, a Mãe do Mar finlandesa, protetora das plantas e dos animais marinhos e as Donzelas das Ondas (as nove filhas de Ran e Aegir), protetoras dos marinheiros, guardiãs do Moinho do Mundo, em que moíam as mudanças das estações.

Zeus e Odin

Ambos eram filhos dos deuses mais antigos — respectivamente os gigantes Bestla e Bor e os Titãs, Cronos e Reia. Tanto Odin quanto Zeus eram personificações do “Pai supremo dos deuses” e regentes do universo, cujos tronos - Hlidskjalf e Olimpo - eram igualmente majestosos, permitindo a visão à longa distância. A espada invencível de Odin — Gungnir — era tão temida quanto os raios lançados por Zeus. Nas festas nórdicas as divindades se deliciavam com carne de javali e hidromel, enquanto no Olimpo, a nutrição era compatível com o clima suave, composta de frutas, néctar e ambrosia. Enquanto Apolo e as Musas cuidavam do entretenimento musical e poético dos festejos gregos, nos encontros dos deuses nórdicos era o deus Bragi que contava estórias e declamava poemas, acompanhado pelos sons mágicos da sua harpa.

Para ser orientado nas suas decisões, Odin procurava diariamente a deusa Saga, detentora da sabedoria ancestral, que morava às margens de uma cachoeira. No mito de Zeus, conta-se que uma das suas esposas foi Mnemosine (a guardiã da memória), mãe das Musas, cujas fontes sagradas conferiam inspiração àqueles que delas bebiam.

Quando Zeus soube que o filho gerado com a deusa Métis (filha de Tétis e Oceano) iria sobrepujá-lo no poder, ele o engoliu, mas como passou a sofrer de atrozes dores de cabeça, pediu ao ferreiro Hefesto que abrisse seu crânio com um machado. Da fenda aberta saltou Atena, adulta, vestida com armadura, portando todas as insígnias do seu poder e que se tornou sua filha preferida e conselheira em assuntos de guerra, deusa da sabedoria e protetora dos heróis.

Odin e Zeus são descritos como deuses majestosos e maduros, tendo muitas amantes e aventuras com deusas, gigantas (ou ninfas) e mortais, sendo conhecidos como progenitores de monarcas e detentores de inúmeros nomes, que descreviam seus atributos e funções. Os juramentos eram feitos sobre a lança de Odin e o cetro de Zeus, ambos os deuses peregrinando pela Terra, disfarçados ou metamorfoseados, para observar e julgar o comportamento dos humanos, dando-lhes presentes, avisos ou punições. Odin tinha em comum com Apolo o dom da poesia e da eloquência; assim como Hermes (Mercúrio) trouxe à humanidade o alfabeto, Odin ensinou o uso das runas, símbolos sagrados e mágicos.

Hermes era conhecido também pelo seu manto da invisibilidade, pelos seus talentos de convencer e enganar (era padroeiro dos comerciantes e dos ladrões) e pela sua habilidade de usar as palavras. Odin tinha o dom da metamorfose, podendo assumir diversas formas ou permanecer invisível, sendo imbuído de características ambíguas: deus dos juramentos e das traições, do poder de criar ou soltar amarras, de proteger nas batalhas ou escolher aqueles que iriam morrer, de ajudar ou enganar.

Um dos tesouros dos deuses nórdicos era o elixir mágico Odhroerír, que conferia inspiração aos mortais e imortais, da mesma forma como as águas sagradas do rio Helicon. Odin usou um manto de penas de águia para carregar este precioso elixir, depois de tê-lo furtado da deusa Gunnlod, enquanto Zeus usou um disfarce semelhante, de águia, para raptar Ganimedes, o jovem mortal que substituiu Hebe, a deusa da juventude, que servia o néctar aos deuses. Ela foi substituída após ter caído um dia enquanto servia o néctar ou, segundo outra versão, ter casado com Hércules.

A cabra nórdica Heidrun, que fornecia o hidromel celeste, pode ser assemelhada à cabra Amaltea que alimentou Zeus, os corvos de Odin são contrapartes da águia de Zeus, enquanto o esquilo Ratatosk — que criava discórdia com suas mensagens — é equivalente à gralha branca grega, cujas maledicências lhe causaram o enegrecimento das suas penas.

O conflito entre Aesir e Vanir lembra a disputa entre Zeus e Posêidon pela supremacia do mundo, mas no fim eles tornam-se amigos e aliados. Existe uma semelhança também entre os Vanir, regentes da abundância da terra e da água e as divindades gregas do mar e da terra.

Frigga e Hera

A deusa nórdica Frigga personificava tanto a terra, quanto o céu e detinha o dom da fertilidade e da tecelagem. Assim como a grega Hera, era casada com o deus supremo, vivendo com ele em um belo palácio no céu, mas passando uma boa parte do tempo junto com as suas acompanhantes, na sua morada no meio da névoa.

Ambas as deusas eram padroeiras do casamento, do amor conjugal e familiar, regentes do nascimento e do cuidado com as crianças, elas mesmas tendo tido vários filhos. Eram descritas como mulheres majestosas e lindas, ricamente vestidas, com cintos de ouro, colares de âmbar e muitas joias, reverenciadas pelas mulheres e os heróis, que lhes pediam ajuda e proteção. Como personificações da atmosfera elas controlavam as nuvens: Hera as movimentava com os movimentos das suas mãos e Frigga tecia as nuvens no seu tear celeste, sendo renomada pela sua elaborada tecelagem, dom que a aproximava das Moiras gregas, também Fiandeiras e Senhoras do Destino.

Frigga também era conhecida pelo seu dom de conhecer o futuro, mas que não revelava a ninguém, nem podia mudar o traçado do destino. Frigga e Hera tinham auxiliares para enviar mensagens e sinais aos seres humanos. A acompanhante e mensageira de Frigga, Gna, podia ser equiparada com íris, a deusa grega do arco-íris, regente do vento e da chuva; ambas as deusas agiam como mensageiras dos deuses e se deslocavam ao longo do arco-íris.

Tanto Frigga quanto Hera usaram de subterfúgios e estratagemas para impor seus desejos aos maridos: Hera conseguiu obter de Zeus a vaca Io, a metamorfose da ninfa amada do deus (que tinha se transformado em touro para escapar da vigilância de Hera e seduzir a linda mortal jovem), enquanto Frigga ardilosamente obteve a vitória da tribo dos Winilers por ela protegidos.

A raiva de Odin ao descobrir o furto do ouro da sua estátua por Frigga é equivalente às brigas do casal grego devidas ao ciúme de Hera. Estórias semelhantes descrevem as aventuras extraconjugais de Odin e Zeus e a maneira digna e altiva com que as suas esposas as ignoram ou perdoam. Diferente da deusa grega Hera —cujo arquétipo na adaptação romana como Juno foi distorcido para a figura de uma esposa ciumenta e vingativa — a nórdica Frigga sempre teve mantida nas estórias a sua altivez e comportamento equilibrado, imparcial e condescendente perante as aventuras de Odin com gigantas, deusas e mortais.

Outras divindades

Como regente dos raios e trovões, Thor se assemelha a Zeus, pela sua força física a Hércules, com qual partilha a descrição do seu disfarce como mulher: Thor para recuperar seu martelo roubado pelo gigante Thrym e Hércules fiando para agradar à rainha de Lídia, Ônfale. A força física de Thor é semelhante à de Hércules, que, ainda bebê, estrangulou as serpentes enviadas por Hera para matá-lo no seu berço e ao se tornar adulto, atacava e vencia gigantes e monstros.

Thor tem um martelo mágico, Mjollnir, o emblema nórdico do poder destruidor do relâmpago e, assim como Zeus, o usa livremente contra os gigantes. Porém Mjollnir era usado também para abençoar os casamentos e consagrar as piras funerárias; as estacas firmadas por um martelo, eram consideradas pelos nórdicos tão sagradas, quanto as estátuas de Hermes, cuja remoção era punida com a morte. No seu rápido crescimento, poder físico e coragem, Thor lembra Hermes, que roubou o touro de Apolo quando tinha apenas um dia de vida. A precocidade de Magni, filho de Thor, que, tendo apenas três anos, consegue liberar a perna do seu pai presa sob o corpo morto do gigante, lembra o jovem Hércules e sua força fora do comum. A luta de Thor contra o gigante Hrugnir é um paralelo com os combates de Hércules e seu famoso apetite na festa do gigante Thrym assemelha-se com a primeira refeição de Hermes, quando ele consumiu dois bois inteiros. A travessia do rio Veimer por Thor — para capturar o gigante Thrym —, lembra o heroísmo de Jasão, quando atravessou uma correnteza para desafiar o tirano Pélias, seu tio, e recuperar o trono do seu pai.

O famoso colar de âmbar usado por Frigga e Frevja é semelhante ao cinto mágico de Afrodite, que foi pego emprestado por Hera para encantar Zeus; assim como o cabelo de ouro de Sif e o anel mágico Draupnir, o colar é um emblema da vegetação luxuriante, da beleza feminina e do brilho das estrelas no céu (o planeta Vênus).

O deus Tyr é muito parecido com o deus Ares (Marte) nos atributos, ambos sendo honrados e lembrados no mesmo dia da semana (terça-feira), que tem os seus nomes nas respectivas línguas. Assim como Ares, Tyr era valente e destemido, se regozijando no calor das batalhas. Somente ele teve a coragem para enfrentar o lobo Fenrir que, amarrado por Tyr, personifica o fogo subterrâneo, a mesma equivalência dos Titãs amarrados pelos deuses no Tártaro.

Baldur, o radiante deus solar nórdico, lembra não apenas Apolo e Orfeu, mas os outros heróis dos mitos solares. Sua linda esposa Nanna, deusa da vegetação e parecida com Perséfone (cuja descida para a escuridão em baixo da terra corresponde aos meses áridos do inverno), pois ela também desce para o mundo subterrâneo, onde permanece até o surgimento de um novo mundo. O palácio dourado de Baldur é parecido como o do Apolo, ambos amavam as flores que desabrochavam na sua passagem e todos os seres vivos lhes sorriam. Assim como Aquiles, que tinha apenas um ponto vulnerável no seu calcanhar, Baldur somente podia ser morto com uma flecha feita de visco.

A morte de Baldur foi provocada pelo invejoso Loki, assim como a de Hércules pela vingança de um centauro, por ele ferido. Para se vingar, o centauro convenceu a sua esposa, Dejanira, a preparar uma poção mágica que garantisse a fidelidade do seu marido, mas que provocou a sua morte. A pira funerária de Baldur lembra a morte de Hércules no monte Etna, a cor das chamas e o brilho avermelhado - da fogueira e da erupção vulcânica - sendo típicas do sol poente. Baldur podia ser libertado de Niflheim apenas com o choro de todos os seres e coisas; Persefone poderia sair do Hades se não tivesse ingerido nenhum tipo de comida. O embuste de Loki disfarçado com a velha Tokk, recusando-se a verter sequer uma lágrima por Baldur, assemelha-se com o estratagema de Hades, ao convencer Perséfone a engolir algumas sementes de romã, ato que representava a sua permanência temporária no mundo subterrâneo, enquanto o choro de Frigga e Deméter é o mesmo lamento materno pela perda dos seus filhos.

A Idade de Ouro, de norte a sul, era descrita como uma época de felicidade idílica, com a paz, a abundância, o amor, a beleza e a harmonia reinando sobre a terra, sem que o mal existisse ou fosse conhecido. Através de Loki, de sua inveja, cobiça, maldade e vingança, o mal entrou no mundo nórdico, enquanto a dádiva de fogo trazido por Prometeu para a humanidade, trouxe uma maldição para os gregos.

A punição dos culpados é semelhante, pois enquanto Loki é preso com correntes numa gruta e torturado pelo lento escorrer de veneno da boca de uma serpente (amarrada acima da sua cabeça), Prometeu foi amarrado no monte Cáucaso e um abutre faminto continuamente devorava seu fígado, que crescia novamente no dia seguinte.

Outras punições semelhantes são as de Tito preso no Hades e de Encelado acorrentado em baixo do monte Etna, onde suas convulsões provocavam terremotos e seus gritos e maldições as erupções de lava. Loki tem um ponto em comum com Hefesto, ambos tendo assumido formas equinas e gerado velozes corcéis; com Hermes, Loki partilha a astúcia, as trapaças e os enganos.

Há uma semelhança entre o gentil e inspirado Bragi, tocando sua harpa e Apolo, o deus grego do sol, que tocava lira e era exímio arqueiro e médico. Ambos partilham os mesmos dons: da inspiração, da poesia e da música, porém o sábio Bragi era fiel à sua esposa Idunna, enquanto Apolo teve inúmeras amantes e aventuras. Idunna era a guardiã das maçãs da juventude e quando ela caiu dos galhos de Yggdrasil para as profundezas de Niflheim, Bragi foi buscá-la. Envolvendo-a em uma pele de lobo (metáfora da neve que protege as raízes do extremo frio nórdico) Bragi permaneceu ao lado da sua esposa até a sua recuperação e volta. Nesse tempo, a voz de Bragi silenciou, suas canções não mais eram ouvidas, pois sem a sua amada a vida não tinha mais alegria.

Um paralelo pode ser estabelecido com a estória de Orfeu e Eurídice, quando ela foi levada para o reino de Hades. Orfeu foi resgatá-la da escuridão, tocando a sua flauta. Idunna personifica a primavera e a juventude (semelhante a Adônis e Eurídice) e foi raptada por Thiazzi,o gigante de gelo, que representa o javali que matou Adônis, ou a serpente que envenenou Eurídice. Idunna foi retida pelo gigante no mundo de gelo de Jötunheim (equivalente ao reino de Hades, para onde Perséfone foi levada após o seu rapto) e, sem poder retornar sozinha para Asgard, se tornou pálida, enfraquecida e triste. Apenas quando Loki, representando o sopro do vento do Sul, vem resgatá-la transformado em pássaro, é que ela consegue escapar, metamorfoseada em uma noz. Essa imagem lembra a volta de Perséfone, conduzida pela tocha de Hécate e escoltada por Hermes, de Adônis acompanhado por Hermes, ou de Eurídice, atraída pelo som doce da flauta de Orfeu, que lembrava o sussurro do vento.

A deusa arqueira Skadhi se assemelha com a caçadora Ártemis, ambas usam arco, flechas e túnicas curtas para se movimentarem livremente, são acompanhadas por cães ou outros animais, amam o seu habitat selvagem que defendem dos invasores, demonstram independência, altivez e segurança nas suas escolhas.

Frey, o regente nordico do calor do verão e das chuvas fortes e repentinas, tem características comuns com Apolo, ambos são belos e bondosos, o primeiro cavalga um javali com pelos dourados, equivalentes aos raios solares, enquanto a carruagem solar de Apolo brilha no seu traslado pelo céu. Frey tem também algumas características de Zéfiro, pois ele espalha flores no seu caminho e rege principalmente a fertilidade da terra. Frey, assim como Odin e Zeus, foi considerado como sendo um rei humano; acredita-se que o seu túmulo está perto do de Odin eThor em Uppsala. O reino de Frey como monarca foi tão feliz e próspero, que foi denominado de Idade de Ouro, fato que lembra Cronos, que tendo sido exilado para a Terra, governou o povo da Itália, garantindo uma prosperidade semelhante.

Freyja, a linda deusa nórdica, filha do deus marinho Njord é semelhante a Afrodite, que também nasce do mar no seu aspecto de Anadiômena. Ambas regiam a juventude, o amor e a beleza, tiveram vários amantes, recebiam oferendas de frutas e flores e podiam atender os pedidos dos namorados e fiéis. Mas Freyja se assemelha tambem com Atena, tendo os mesmos olhos azuis, usando elmo e armadura e intervindo nos combates dos guerreiros como condutora das Valquírias, enquanto Afrodite entregou sua afeição a Ares, o deus da guerra e a outros heróis. As lágrimas vertidas por Freyja durante a ausência do seu amado Odh se transformaram em ambar e ouro, as de Afrodite em anémonas, pela ausência do seu amado Adônis,

Odh, o marido enigmático de Freyja, se assemelha a Adônis e, assim como Afrodite se alegra com a volta do seu amado Adônis, fazendo toda a natureza brotar e florescer, Freyja festeja o encontro com Odh em baixo das árvores floridas das terras do Sul. Freyja ama a beleza e se recusa a se casar com o feio gigante Thrym, enquanto Afrodite teve que aceitar como marido o aleijado Hefesto, mas o abandona ou trai por ter sido obrigada a se casar com ele. Enquanto a carruagem de Afrodite é puxada por pombas brancas, a de Freyja é por gatos, as pombas sendo símbolos do amor terno e os gatos do amor sexual.

Gerda se assemelha a Atalanta, difícil de conquistar, mas ambas acabam cedendo a perseguição e a pressão dos seus pretendentes e se tornam esposas felizes. As maçãs douradas, com as quais o mensageiro de Frey, Skirnir, tentou convencer Gerda a aceitar Frey como marido, lembram o fruto dourado que Hipômenes jogou no caminho de Atalanta, a linda donzela avessa ao casamento, fazendo-a assim perder a corrida. Atalanta tinha sido avisada que se casasse, seria infeliz e por isso fugia dos homens, dedicando-se a caça e aos esportes. Ela impunha como condição para se casar que o pretendente a vencesse numa corrida, caso contrário fosse morto. Esse feito corajoso foi conseguido por Hipômenes, mas com a ajuda de Afrodite, que lhe entregou os frutos de ouro. Por não ter agradecido a Afrodite pela graça alcançada, o casal foi transformado em leões atrelados ao carro da deusa Cibele, conforme visto nas estátuas e imagens dessa deusa.

A deusa Saga, cuja morada era ao lado do “rio dos tempos e dos eventos” era a guardiã das memórias e dos acontecimentos, conselheira do deus Odin, que a ela recorria diariamente. Saga assemelha-se com a grega Clio, a musa da estória, que ficava perto da fonte Helicon e que o deus Apolo procurava, para dela receber inspiração.

A forma ardilosa em que a deusa Gefjon obteve a terra do rei Gylfi para formar o seu reino de Zeeland (na Dinamarca) reproduz a estória da rainha Dido, que obteve por um estratagema a terra sobre a qual fundou a sua cidade de Cartago.

Os gregos representavam a Justiça como uma deusa vendada, segurando em uma mão a balança e na outra a espada, para indicar a imparcialidade nos julgamentos. O seu equivalente nórdico era Forsetti, que ouvia pacientemente as queixas e questões humanas, promulgando sentenças com imparcialidade e justiça.

A mosca varejeira que impediu Zeus de recuperar a sua amada Io, reaparece no mito nórdico para atormentar o anão ferreiro Brokk e perturbar a confecção do anel mágico Draupnir, do javali dourado de Frey e do martelo Mjollnir, que ficou com um cabo encurtado. O navio mágico de Frey — em que podiam entrar todos os deuses, mas que depois de minimizado cabia no bolso dele —, também confeccionado pelos anões, é semelhante ao navio grego Argo, que personificava o movimento rápido das nuvens e podia levar todos os herois gregos para as distantes terras de Cólquida.

O deus arqueiro Ullr parece com Apolo e também com Orion, pelo amor à caça, atividade que segue permanentemente. O deus Heimdall, assim como Argo, era dotado de uma visão apurada que lhe permitia enxergar de dia e de noite à longa distância. O seu trompete Gjallarhorn podia ser ouvido nos novos mundos, anunciando a passagem das divindades pela ponte Bifrost. Por ser ligado à água pelo lado materno (como filho das Donzelas das Ondas), Heimdall tinha, assim como o deus marinho Proteus, o dom da metamorfose, que ele usou quando impediu o roubo do colar mágico de Freyja por Loki (transformado em lontra), assumindo a mesma forma animal e lutando com ele ate vencer.

A transformação dos olhos do gigante Thiazi em estrelas que brilhavam no firmamento, lembra muitos mitos estelares gregos, principalmente da vigilância permanente dos olhos de Argo, do cinto brilhante de Orion e seu cão Sirius, todos transformados em estrelas por deuses ou deusas enfurecidas.

Hermod era um veloz mensageiro dos deuses nórdicos, que se deslocava com rapidez assim como Hermes, usando, em lugar de sandálias aladas, Sleipnir, o cavalo mágico de Odin (o único autorizado a cavalgá-lo) e em lugar do caduceu, um bastão imbuído de poderes mágicos (Gambãntein). Ele foi perguntar a um mago, depois às próprias Nornas, sobre a sorte do seu irmão Baldur, sabendo assim que outro irmão, Vali, ia suceder a Odin apos o Ragnarök.

Zeus queria se casar com a deusa Métis, mas desistiu depois que as Moiras lhe avisaram que o filho que ele teria com ela ia superá-lo em glória e poder, motivo que o fez engoli-la, grávida de uma filha, a deusa Atena.

Vidar parece com Hércules, que usou apenas um cajado para se defender do leão de Nemeia, enquanto Vidar consegue vencer o lobo Fenris usando seu sapato de ferro.

Odin teve que se empenhar bastante para conquistar Rinda, até “descongelar a frieza dela, assim como Zeus teve que se transformar em chuva de ouro para seduzir Dânae, que também simbolizava a terra. Em ambos os casos, a simbologia é ligada ao degelo da terra pelos raios solares, os filhos desta união - Vali e Perseu - sendo vingadores dos inimigos dos pais. Vali vinga a morte de Baldur matando Hodur, e Perseu mata os inimigos da sua mãe.

Tanto Hebe, quanto as Valquírias, personificavam a juventude e ofereciam a bebida sagrada - néctar, ambrosia e hidromel - aos deuses do Olimpo e Asgard. Hebe foi liberada do seu serviço de “copeira” após o seu casamento com Hércules, e as Valquírias, quando se casavam com heróis como Helgi, Hakon, Völund ou Sigurd,

Völund se parece com Hefesto pelo seu dom de trabalhar com os metais; ele os usa para se vingar do seu captor escapando da prisão após matar os filhos do rei, transformar seus olhos em joias, que envia para a mãe deles, e fabricar para ele mesmo um par de asas de metal, com cuja ajuda escapa da prisão e voa sobre mar e terra. Hefesto, aleijado por uma queda do Olimpo e abandonado por Hera, lhe envia como vinganca um trono dourado contendo garras metálicas para segura-la, sem que ela possa se soltar. Ele também cria uma rede metálica para nela prender Afrodite e seu amante Ares e expo-los depois se debatendo na rede para que todas as divindades de Olimpo caçoassem deles.

O deus Jano era o porteiro romano do céu, tendo duas cabeças para poder olhar para todos os lados e era ele quem abria as portas de cada ano, sendo lembrado até hoje no nome do primeiro mês. O deus nórdico Heimdall era o guardião da ponte do Arco-Íris, controlando a passagem de deuses e humanos, semelhante as Horas, que abriam as portas do ceu para a passagem dos deuses.

A missão de vigilância eterna de Heimdall era favorecida pelo seu olhar apurado (que o aproximava de Argo) e sua audição sobrenatural.

Os Penates eram os deuses romanos que cuidavam do bem-estar e da prosperidade das famílias e a despensa (penus) era a eles consagrada. Encontramos uma semelhança com os protetores nórdicos das moradias e com a deusa Fulla. Os Lares eram também protetores das famílias, mas diferiam dos Penates por serem espíritos deificados de mortais, as almas dos antepassados, uma característica que os aproxima dos espíritos ancestrais nórdicos, das Matronas, Disir e Dokkalfar.

Os nórdicos acreditavam que as tempestades eram provocadas pelos movimentos da Serpente do Mundo ou pela ira de Aegir, que, coroado com algas assim como Posêidon, enviava suas filhas — as Nereidas ou as Oceânides — para brincarem com as ondas. Posêidon tinha sua morada nas ilhas de coral do mar Mediterrâneo, e Aegir, nas grutas forradas de musgo do mar nórdico, onde era cercado pelas Nixies, ondinas, sereias e pelos deuses dos rios Reno, Elba e Neckar (seus equivalentes gregos sendo Alfeu e Peneu).

As sereias gregas têm seu paralelo com Lorelei, a ninfa do rio Reno, cujo canto melodioso atraía os marinheiros para o naufrágio entre os rochedos. Os naufrágios dos navios gregos deviam-se ao temperamento furioso de Posêidon, que era cercado pelas ondinas e sereias, semelhantes às Donzelas das Ondas e às Nixies nórdicas.

O reino subterrâneo de Niflheim reproduz as características do Hades grego; Mordgud, a guardiã da ponte dos mortos Gjallarbru, exigia um tributo para permitir a passagem, da mesma forma como o barqueiro Caronte pedia um pagamento para todos os espíritos que ele transportava para o outro lado do rio da morte, Aqueronte. O feroz cão Garm que vigiava o portão de Hel é muito parecido com Cérbero, o cão tricéfalo grego. Os nove mundos de Niflheim se assemelham as divisões de Hades, Naströnd sendo um adequado substituto para o Tártaro, onde os criminosos eram punidos pelos seus crimes e atos vis com a mesma severidade.

O costume de cremar os heróis mortos junto com as suas armas e acompanhados de sacrifícios de animais (cavalos, cães) era o mesmo no norte e sul da Europa. A representação grega da morte — Tánatos ou Mors — era como um esqueleto carregando uma foice, enquanto a nórdica Hel aparecia meio-morta, meio-viva e usando um ancinho, ou uma vassoura, para recolher as almas. Ragnarök era considerado uma versão do dilúvio e seus sobreviventes em ambas as tradições eram destinados para repovoar o mundo.

O longo inverno Fimbul anunciando o Ragnarök foi comparado às demoradas lutas preliminares sob as paredes da fortaleza Troia e o proprio Ragnarök, com a queima final da famosa cidadela, Thor sendo equiparado com Heitor e Vidar com Eneias. A destruição do palácio do rei Príamo representa o ruir dos palacios dourados dos deuses; os lobos nórdicos que devoraram o sol e a lua são protótipos de Paris e outros seres sombrios, que raptaram a donzela solar Helena. De acordo com outra interpretação, Ragnarök é a submersão posterior do mundo nas ondas do mar, são semelhantes à estória grega do dilúvio; os sobreviventes Lif e Lifthrasir — da mesma maneira como Deucalião e Pirra — foram destinados a repovoar o mundo. Assim como o altar do templo de Delfos permaneceu ileso no meio dos escombros do cataclismo, o palácio dourado Gimli, em Asgard, permaneceu radiante à espera dos filhos dos deuses, que iriam recriar um novo e melhor mundo.

Enquanto os gregos imaginavam que os pesadelos eram os sonhos maléficos que tinham escapado da gruta de Somnos, os nórdicos os atribuíam aos trolls ou gnomos malvados, que tinham saído do seu escuro esconderijo para atormentar os seres humanos.Todos os objetos e armas mágicas dos deuses nórdicos tinham sido obra dos anões ferreiros, enquanto os dos gregos tinham sido confeccionados por Hefesto e os Ciclopes, na sua oficina em baixo do Monte Etna.

Essas semelhanças são as mais relevantes, entre muitas outras, que comprovam as analogias existentes entre a mitologia nórdica e grega, formadas a partir da mesma base indo-europeia, diversificadas no tempo e no espaço pelas características raciais, geográficas, climáticas, sociais e culturais, modificadas ou adaptadas ao longo dos tempos por historiadores, tradutores e escritores.

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MITOS
Mayahuel (Goddess of Agave) | Rock Cyfi Martinez
10/25/2017 3:26:48 PM | Por A. S. Franchini
Mitologia Asteca
Mayahuel e a origem do maguey

Mayahuel era a deusa do maguey, a planta da qual se fabricava o pulque (em nahuatl se diz octli), bebida ainda hoje muito apreciada no México e adjacências. Como a maioria dos deuses, ela possuía a pele colorida - às vezes azul com manchas amarelas, outras vezes com a face tingida de vermelho e negro, [141] simbolizando sua condição de deusa do pulque. Normalmente, seja nos códices ou nas ilustrações modernas, a deusa surge por entre as folhas do maguey vestida de branco, pois branca é a cor da bebida, trazendo na mão o octecomatl, a "jarra do pulque”, ou simplesmente uma taça espumante.

Os astecas possuem uma lenda para contar como surgiu o maguey, e ela começa dizendo que Mayahuel vivia, num tempo muito antigo, junto com sua avó - uma das estrelas tzitzimime, também tidas como os monstros que, no fim do mundo, devorarão os homens -, submetida a uma severa vigilância.

Um dia, o deus Quetzalcoatl, apaixonando-se pela neta desta avó tirana, lhe pediu que descesse dos céus junto com ele, para que fossem divertir-se um bocado pela Terra.

- Mas minha avó não vai gostar... - balbuciou Mayahuel.

- Ora, esqueça a vovó! - exclamou a Serpente Emplumada. - Vamos namorar um pouco lá embaixo, já que aqui em cima, com essa vigilância toda, é simplesmente impossível.

Mayahuel relutou mais um pouco, mas o desejo acabou prevalecendo sobre o medo.

- Está bem, mas tomemos cuidado para que ela não nos veja.

- Eu tenho um jeito perfeito! - disse o deus. - Vamos nos transformar nos ramos de uma árvore.

Quetzalcoatl e Mayahuel assim fizeram, mas, quando a avó acordou e viu que a neta fugira, desceu à terra, junto com as suas irmãs tzitzimime, e não tardou a descobrir os dois amantes disfarçados de ramas.

- Maldita! - bradou a avó. - Agora verá o preço de me desobedecer!

A velha fez em pedaços a rama na qual Mayahuel se metamorfoseara, e deixou espalhados pelo chão os seus pobres pedaços. Quando Quetzalcoatl viu que a velha desaparecera, lamentou-se muito do fim que tivera a amante, enterrando em seguida os seus pedaços.

Mas, para sua felicidade, viu brotar do solo as ramas de uma nova planta - a planta do maguey -, e, junto com ela, a própria amante, agora transformada numa bela e colorida deusa.

E foi assim que surgiu uma das plantas mais típicas da América Central. [142]

Mas a própria deusa Mayahuel, como terá surgido?

Diz uma lenda antiga que foi da seguinte maneira: antes de ser a deusa que se tornou, Mayahuel era a modesta esposa de um lavrador. A pobrezinha passava os dias correndo atrás dos ratos que devastavam a plantação do marido. Certa feita, ela estava empreendendo mais uma de suas caçadas quando o rato por ela perseguido pôs-se a dar voltas ao seu redor. O bichinho parecia muito estranho, como se não estivesse no seu estado normal. Mayahuel ficou com pena do rato e deixou-o partir.

Ao retornar para casa, ela passou por uma planta e viu que o seu caule estava roído.

- Deve ter sido por aqui que aquele danadinho andou afiando seus dentes! - disse ela.

Ao observar melhor, ela viu que uma seiva leitosa escorria do caule da planta, e decidiu recolhê-la numa cabaça e levá-la para casa. Talvez fosse possível utilizá-la como remédio ou uma beberagem.

Ao chegar em casa, a jovem resolveu experimentar para ver que gosto tinha aquilo.

"Nada mal!” pensou ela, tomando logo em seguida outro gole ainda maior.

Dali a pouco o marido chegou.

- O que está bebendo aí? - disse ele. - Dê-me um gole, estou morto de sede!

Mayahuel estendeu-lhe a cabaça, que já estava quase vazia. Ela estava bastante alegrinha e, depois de encher a boca, verteu ela mesma a bebida na boca do esposo, dando uma gostosa gargalhada.

Nem bem ingerira a bebida, o esposo também começou a sentir-se alegre.

- Isso é bom! Dê-me mais! - disse ele.

Como não havia mais na cabaça, ambos retornaram ao pé da planta desconhecida e, depois de aplicarem novos talhes no seu caule, encheram a cabaça do líquido.

Foi uma festa! Beberam tudo ali mesmo e dançaram e cantaram à luz da lua até perderem os sentidos. Depois, ao acordarem, descobriram estar na presença dos deuses.

- Que bebida é essa que tanto vos alegrou? - quis saber um dos deuses.

Mayahuel tomou a cabaça e estendeu-a ao ente divino.

- Não sabemos seu nome, mas é muito saborosa. Prove! [143]

O deus provou e aprovou, e a partir dali a bebida, batizada de "pulque", passou a ser adotada pelos deuses em seus cerimoniais. Por ter feito a descoberta, Mayahuel foi transformada em deusa, o mesmo acontecendo com seu esposo, transformado no deus Xochipilli ("Príncipe Flor"), deus das flores, da poesia e das festas. [144]

Mayahuel, Quetzalcoatl, Xochipilli  tzitzimime 
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Educação
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Texto
5/3/2018 1:00:20 PM | Por Priscila Laroca
Licenciatura em Psicologia
Educação
Problematizando os contínuos desafios da Psicologia na formação docente
Laroca,
P .
Problematizando os contínuos desafios da Psicologia na formação docente.
in:
P .
Laroca,
(Ed.),
Psicologia e formação docente:
(pp.31-46).

As problematizações que apresentamos, neste texto, procedem de nosso trabalho com a Psicologia da Educação, o qual temos desenvolvido em função de atuarmos em cursos de formação inicial (licenciaturas), em projetos de formação contínua e ainda porque elegemos o ensino de Psicologia para professores como eixo de nossos esforços para produzir conhecimentos. Ao longo de nosso trabalho, muitas vezes sentimos o desconforto de constatar que há ainda um longo caminho a ser percorrido para a construção efetiva de uma Psicologia da Educação mais correspondente às demandas de nossa realidade sócio-educacional. Paradoxalmente, este mesmo desconforto nos mobiliza para buscar novas formas de pensar e de fazer a Psicologia como ciência e profissão na formação de professores.

Através deste texto, enfrentamos o desafio de partilhar alguns desconfortos acerca de concepções e práticas presentes no ensino [31] de psicologia para professores em nosso contexto, com o propósito de suscitar discussões sobre a Psicologia da Educação que temos, compreendendo que iniciativas coletivas são fundamentais para desencadear rupturas no quadro de individualismo, isolamento e corporativismo de todos os segmentos que se envolvem na formação de professores.

Iniciamos com uma problemadzação que representa a essência de nossas preocupações: - Como a Psicologia da Educação pode estar sintonizada com uma concepção crítica na forrriação de professores. Para refletir sobre a questão, desdobramos o corpo deste trabalho em novas indagações:

- Qual o compromisso da Psicologia na formação de professores?

- Que é uma concepção crítica no contexto da formação de professores em Psicologia da Educação?

- Estamos realmente formando professores-sujeitos como pretendemos?

Com tais questões em vista, passemos às discussões.

1. Qual o compromisso da psicologia na formação de professores?

Segundo Paviani (1986) - Pensar e fazer educação fora das condições sociais e históricas é um grave perigo para o homem e pode significar uma ameaça para os destinos da humanidade(p.22). Sendo assim, não podemos conceber a educação como alguma espécie de exercício isolado, anterior ou posterior a fenômenos econômicos, sociais, culturais etc, como se os processos de ensino, aprendizagem e desenvolvimento que nela se inserem acontecessem de maneira recortada e desintegrada das condições de vida humanaencontradas na sociedade. Daí porque temos que pensar a Educação e a Psicologia ao mesmo tempo em que pensamos a sociedade que temos. [32]

Por causa disso a reflexão sobre compromissos da psicologia na formação de professores é atravessada por relações historicamente constituídas em nossa sociedade. É do cerne destas relações que emergem os interesses que justificam a razão de ser da relação entre Psicologia e Educação.

Em nossa perspectiva, o interesse ocupa lugar central na discussão pois, uma vez que esteja estabelecido, norteará outras definições importantes para a formação inicial e desenvolvimento profissional dos professores, entre as quais estão, com certeza, seu conteúdo e sua forma. Acreditamos, por isso, que aquelas velhas questões insistentemente colocadas pelos filósofos e sociólogos da educação sobre “quem queremos formar?”, “para quê queremos formar?”, “a favor de quem nós formamos?” e “contra quem nós formamos?” - continuam sendo vitais para refletirmos de modo consistente sobre as crenças que nos norteiam na Educação.

Na concretude das relações que estabelecemos com o mundo, com outros homens, com a sociedade e, até mesmo, com o que sabemos a nosso próprio respeito, os interesses apresentam-se como manifestações pessoais ou coletivas, nem sempre fáceis de detectar em virtude do caráter inconsciente de muitas de suas representações, que frequentemente os ocultam e os convertem em máscara ideológica.

Os interesses retratam as concepções que orientam nosso pensamento e ação. Desvelados ou não, mediates ou imediatos, sempre têm a ver com os objetivos finais que perseguimos nas práticas que desenvolvemos.

Acreditamos, por isso, que há grande importância na definição de nossas finalidades educativas pois serão elas que nortearão os questionamentos às contribuições da ciência psicológica. Isto implica um movimento contínuo entre Educação e Psicologia, no qual a Educação, como prática social, aponta-nos para a realidade que temos e para os fins a serem atingidos pela nossa ação profissional, [33] enquanto a Psicologia, mediante os objetos de estudo que seus referenciais disponibilizam, nos proporcionam instrumentos reflexivos para a compreensão e intervenção na realidade. Assim, entendemos a Psicologia, como meio e não como fim no contexto da atuação dos professores, pois é na Educação, que encontramos a responsabilidade humana e social da Psicologia. Desse modo, a movimentação inter e transdisciplinar já é um pressuposto de construção da Psicologia da Educação.

Se assim entendemos, a Psicologia da Educação se eletiva, sobretudo, como movimento dialético entre os dois pólos, uma unidade orgânica e comprometida, concreta e reflexiva que se personificará nas grandes e pequenas decisões que o professor toma para favorecer e direcionar a aprendizagem e o desenvolvimento dos seus alunos. Assim, estará presente no planejamento curricular, na efetivação do trabalho pedagógico nas saias de aula, na avaliação da aprendizagem e da prática educativa e nas interações humanas em nossas escolas.

Vista como unidade dialética de ação e reflexão, a Psicologia da Educação ultrapassa a noção de fundamento teórico na formação de professores, pois se ampliam suas possibilidades de melhor intervir na Educação, já que se traduzirá, sobretudo como atividade concreta e inteligente do professor, permitindo-lhe e impulsionando a interlocução entre teorias e práticas e não a mera execução de propostas pensadas fora de seu contexto pelos especialistas. Essa Psicologia da Educação não se vê como conhecimento pronto, nem como conhecimento a ser dado pelo formador aos professores, ainda que defensores destas ou daquelas teorias psicológicas tenham a pretensão de transformá-las, em relação à Educação, em sistemas teórico-práticos, fechados e auto-nutritivos. [34]

Por mais hem estruturados que sejam esses sistemas, assumimos aqui que estes, sozinhos, nunca poderão responder pela totalidade do real, pois entre realidade e conhecimento não há linearidade. Além disso, não podemos reduzir teoria e prática a entes delimitados e diretamente causais como pensava a ciência moderna que convalidou a racionalidade técnica na educação (Perez Gomez, 1995, 1998).

Hoje, numa etapa pós-moderna da ciência, somos chamados a nos despir de todo tipo de doutrinarismo para encarar de vez a complexidade, a impertinência, a incerteza, a impureza e o erro, não como atributos indesejáveis nas nossas aproximações da realidade, mas como processos inerentes a uma racionalidade aberta, necessária para este terceiro milênio (Morin, 2000a, 2000 b).

E, por isso, que a reflexão sobre a Psicologia da Educação exige mais e mais que nos perguntemos sobre os interesses que orientam nossas práticas e concepções, bem como sobre os meios pelos quais buscamos atingi-los, tornando claras as finalidades educativas que regem o teor e a feição que lhe imprimimos na formação de professores. Afinal, o quê pretendemos alcançar através da Psicologia da Educação? Possíveis respostas a essa pergunta demandam nossa pesição sobre o papel da Educação e dos educadores em nossa sociedade.

Desse modo, ou teremos a definição por uma educação conservadora ou nos decidiremos por fazer da Educação um instrumento de transformação da sociedade. É essa decisão que retrata o compromisso da Psicologia da Educação, e ela não acontece no interior do conhecimento psicológico, mas na consciência política e ética de cada um de nós. Será através dessa posição que o formador conduzirá o conteúdo e a forma de tratamento de suas contribuições, em articulação com as representações dos profissionais que são captadas no cotidiano das relações pedagógicas.

Portanto, a impressão de uma face progressista para a Psicologia da Educação não depende apenas de o formador avaliar e selecionar abordagens teóricas e temas a serem trabalhados. Depende também, e muito, de sua postura perante os futuros professores [35] frente às finalidades da educação, o que, aliás, encontra correspondência no projeto político-pedagógico que defende para a escola e para a sociedade. Nesse sentido, tal como Cunha (1998) acreditamos que:

Sem colocar em plano secundário as informações científicas, deve-se trabalhar no terreno em que se constitui a consciência do futuro professor como cidadão, pois é nesta arena que ele encontrará recursos para escolher dentre as várias alternativas científicas que lhe forem apresentadas. Trata-se de colocar o profissional da educação em condições de compreender que não é a ciência que lhe dará o norte de sua atuação, pois as decisões pertinentes ao campo da educação são da alçada exclusiva dos educadores (p.13).

Tais decisões, como já dissemos, são ética e politicamente orientadas. Entendemos, portanto, que, se nos propomos a levar a efeito um projeto educacional, devemos começar pela definição dos fins a serem alcançados mediante um conhecimento aprofundado e crítico das condições históricas e culturais que caracterizam a sociedade e a educação dentro dela. Pensar e fazer educação sem isso, ou revela uma visão ingênua e alienada das relações sociais, ou retrata outros compromissos, muitas vezes inconfessáveis, que nada têm a ver com transformação social e a efetiva conquista de direitos relativos à dignidade de vida de todos os cidadãos.

Considerando o exposto, e se nos colocarmos do ponto de vista cia diversidade de alternativas que temos na Psicologia Educacional, certamente chegaremos ao ponto de nos indagarmos a respeito de como efetivar uma abordagem crítica no ensino de Psicologia da Educação. Vemos, portanto, que nossas indagações e reflexões se remetem; uma implicando e dependendo de outra. [36]

2. Que é uma concepção crítica no contexto da formação de professores em psicologia da educação?

A pergunta que ora colocamos, representa para nós um núcleo de reflexões muito importantes, quando temos em vista, como formadores de professores, aproximarmo-nos de um ideal de avanço, qualidade e superação no conhecimento, como também de responsabilidade intelectual e social para o ensino que ministramos. Percebemos que estamos, sobretudo, perante uma questão ética que este texto com certeza não virá a esgotar. Afinal, são muitas as nossas fragilidades. Apesar disso, tentaremos.

O embasamento de grande parte das análises críticas dirigidas à Psicologia da Educação está ancorado em bases filosóficas, epistemológicas, sociológicas e político-ideológicas. No teor destas análises, encontramos frequentemente a denúncia da pseudo-neutralidade dos conhecimentos científicos da Psicologia, demostrando que a sua produção ocorreu (e ainda ocorre) em meio às torças sociais e econômicas, historicamente constituídas, de modo que o olhar dos pesquisadores, por mais neutro que pretendesse ser (como quer o Neo-Positivismo), nunca esteve e nem estará livre de favorecer algum tipo de interesse.

Outro ponto evidenciado nas análises, constata a herança liberal burguesa da Psicologia, a qual, por ignorar a dialética da relação homem/mundo, indivíduo/sociedade e a constituição dos fenômenos psicológicos dentro dessa relação, seria responsável por veicular um modelo de homem, apelidado por Bock (2000) de Barão de Münchhausen, lembrando o conto infantil em que esse personagem, segurando seu cavalo com os próprios joelhos, ainda é capaz de sair de um pântano puxando os próprios cabelos. A esse respeito, nos diz a autora:

A ideia de autonomia individual, do homem descolado das condições sociais e da possibilidade de auto-determinação de [37] cada um de nós, movidos por uma força interior dada pela semente que está dentro de nós e que nos empurra (natureza humana), é algo muito forte em nossas concepções liberais e positivistas (p.18).

É a visão desse homem autodetermínado e abstrato difundido pelo ideário liberal burguês que está por trás das produções científicas e de práticas educacionais que naturalizam e universalizam o fenômeno psicológico e contribuem para justificar o fracasso escolar como fenômeno individual, atribuído exclusivamente ao aluno e/ou sua família, resultando dessa concepção uma grande dicotomia entre vida social e escola, entre sociedade e educação.

Estas análises muito contribuíram para que o mundo valorativo e ideológico da produção da Psicologia fosse desvelado, ajudando-nos a compreender a penetração do interesse no núcleo lógico da pesquisa científica (Habermas: 1982; 1983).

Entretanto, se por um lado nos permitiram romper com muito de nossa ingenuidade e alienação, por outro, tomaram os referenciais da Psicologia da Educação considerando a prática pedagógica como um ente linearmente implicado das teorias psicológicas. É nesse sentido que vemos semelhança de concepção com o modelo racional-técnico que hoje nos propomos a superar. Assim, a própria crítica parece ter contribuído para referendar certo fechamento da Psicologia Educacional em diferentes sistemas [38] teórico-práticos que, tanto passam a ser vistos como desconectados uns dos outros, já que é preciso preservar a coerência epistemológica, quanto de outros saberes e variáveis que intervém na realidade educacional em razão de sua complexidade.

Um dos desconfortos que experimentamos situa-se, portanto, na concepção de relação teoria-prática que temos como formadores de professores, percebendo que um trabalho crítico na Psicologia da Educação está atrelado a essa concepção.

Evocando Morin (1998), acreditamos que a concepção do que seja teoria não pode cair no risco do doutrinarismo, pois, como diz ele: “uma teoria não é o conhecimento, ela permite o conhecimento. Uma teoria não é a chegada; é a possibilidade de uma partida. Uma teoria não é uma solução; é a possibilidade de tratar um problema” (p.335).

Outra advertência importante que nos faz Morin (1996), consiste na admissão de que por trás das teorias não existe apenas o interesse, no sentido que Habermas concedeu ao termo. Há, também, como diz ele: atitudes psicológicas de curiosidade, de perplexidade, de questionamento do real, há a imaginação (p.18).

Assim, os quadros teóricos, que deveriam ser tomados com o caráter de provisoriedade, qualidade inerente a todo conhecimento, correm o risco de converterem-se em verdadeiras doutrinas, e como tal, exigindo modelos de comportamento consequentes para os seus seguidores.

A prática, por sua vez, não pode ser tratada como implicação, colagem ou transposição direta de uma teoria, a não ser para nos situar historicamente nas tendências educacionais de uma maneira didática. A prática de que falamos em Psicologia da Educação é a prática social situada no pólo da Educação e, por isso mesmo, dinâmica, multifacetada e multideterminada em sua essência.

Além disso, estamos convictos de que a prática pedagógica de um professor não é algo que se depreende a partir de atos pedagógicos isolados, remetidos única e exclusivamente à dimensão do processo ensino-aprendizagem. Muitas arestas compõem a prática de [39] um professor: sua postura política na sociedade, seu compromisso e responsabilidade em relação ao trabalho desenvolvido na, e pela escola, sua busca de qualificação profissional, entre outros aspectos que se situam muito além das paredes de uma sala-de-aula.

Sobretudo, precisamos perceber que a prática de um professor é norteada concretamente, pelos fins e valores que estão subentendidos no papel que ele atribui para a sua atuação profissional na sociedade e nas maneiras pelas quais este professor contribui para isso.

Nesse ponto de vista, a relação teoria e prática é muito mais complexa que uma relação de implicação causai. Para nós, é do seu âmago que emergem as possibilidades de o professor conquistar a condição de sujeito de seu pensar e de seu agir, compreendendo também que o alcance e o exercício da condição de sujeito para o professor viabilizarão efetivamente uma visão crítica frente às contribuições da Psicologia da Educação.

Assim entendido, um ensino crítico na Psicologia da Educação passa muito além da simples escolha de referenciais liberais ou sócio-históricos em relação aos conteúdos que serão abordados na formação. Passa, principalmente, pelas possibilidades que nosso ensino oferece aos professores de conquistarem a condição de sujeito, cerne de validade na ação e na reflexão.

3. Estamos realmente formando professores-sujeitos como pretendemos?

Num momento em que as discussões da academia e de muitos projetos educacionais estão voltadas para a afirmação do professor como profissional reflexivo, acreditamos na pertinência de nossa pergunta: Será que estamos, de fato, formando professores-sujeitos como pretendemos?

Certamente, a questão nada tem de simples, ainda mais se considerarmos a precariedade geral que infesta a educação em nosso país e as difíceis, e muitas vezes intransponíveis, condições pessoais e profissionais que afetam nossos professores. [40]

No entanto, como pensar um profissional reflexivo sem pensarmos condições de conquista da condição de sujeito para os professores?

Para além de questionamentos afetos às prioridades estabelecidas nas políticas educacionais, como, por exemplo, a condição salarial dos professores, a infra-estrutura de funcionamento das escolas, entre outros, no caso específico da Psicologia da Educação há uma questão que nos incomoda e diz respeito à escolha de referenciais pelo formador e ao modo como ele os conduz na formação dos professores.

No que toca a esse aspecto, para dimensionar uma abordagem mais crítica no ensino de Psicologia da Educação, muitos formadores têm decidido pela adoção integral de determinados referenciais que são consoantes aos seus anseios e concepções. No entanto, se pretendemos contribuir para a formação de professores sujeitos, é provável que seja muito mais interessante propiciar variados instrumentos teóricos de interpretação da realidade, para que as decisões, quanto à prática pedagógica, sejam respaldadas no conhecimento e na consistência da crítica. Já dizia Freire (1980) a esse respeito que: Ninguém luta contra as forças que não compreende, cuja importância não mede, cujos contornos não discerne... (p. 40).

Nesse sentido, percebemos que a questão da Psicologia da Educação como área de ensino destinada à formação de professores tem sido confundida com a produção do conhecimento psico  lógico-educacional no âmbito da academia. Esta confusão provavelmente advém da ausência de distinção sobre o papel do ensino na formação de professores e o papel da pesquisa/ produção do conhecimento. Contudo, ensino e pesquisa, embora relacionados, são dois casos, em que o objetivo não é exatamente o mesmo pois a produção do pesquisador é circunstanciada no aperfeiçoamento de uma área ou tema específico, enquanto a produção referente ao ensino de Psicologia da Educação tem vistas à atuação de um profissional que possui responsabilidades sociais e com a própria divulgação/ socialização dos conhecimentos. [41]

Um pesquisador pode recortar objetos de investigação, controlar variáveis, delimitar campos que mais lhe interessam para se aprofundar. Já um professor, atua cotidianamente no seio de situações humanas complexas, muitas vezes inusitadas, que lhe exigem desenvolver múltiplas habilidades e competências de gerenciamento. Se o professor, em sua atuação profissional, fizer recortes como faz o pesquisador, é provável que privilegie alguns componentes da situação humano-social que se lhe coloca, deixando de atender a outros.

Diferentemente da atuação de um pesquisador, numa sala de aula aquilo que chamamos de variáveis, têm nomes e estão encarnados em pessoas concretas que possuem também as suas expectativas, os seus sonhos, as suas problemáticas sociais e existenciais que têm tudo a ver com a Educação. O terreno em que trabalha o professor é. pleno de dinamismo, mudança, heterogeneidade. Por causa disso, suas opções metodológicas não são estáveis e precisam criar-se e recriar-se, mesmo na forma de tímidos ou desesperados ensaios ou tentativas diante de realidades que nem sempre o professor consegue apreender com clareza, mas estão à sua frente esperando por decisões e sobre as quais assumiu a responsabilidade profissional de atuar.

Um professor não define aspectos de sua população, como faz o pesquisador; pelo contrário, ali está para servir uma população tenha ela as características que tiver. Portanto, as situações são bem diferenciadas, já que, o pesquisador desenvolve um olhar para a realidade e nele se aprofunda, enquanto o professor precisa conhecer vários olhares para a realidade, reconhecendo-os nela, interpretando-os, e sobretudo interferindo de acordo com os objetivos educacionais que admite.

Mais uma vez, reafirmamos que a prática de um professor se define pela sua responsabilidade social e não pelos referenciais da Psicologia da Educação. Enquanto estes contribuem para aprofundar determinados olhares para a realidade e, ao serem desenvolvi dos, vão agregando discípulos ao longo de sua produção; a responsabilidade social define compromissos do professor frente à Educação e acenam para a possibilidade de conquista da condição de [42] sujeito, perante a teoria e a prática educativa reconhecendo nessa condição, que é primordialmente reflexiva, os requisitos éticos e intelectuais da tomada de decisões na sua ação.

Ao final deste texto, convém salientar que as nossas reflexões sobre as perguntas colocadas não pretenderam apresentar-se como respostas plenas. É sempre muito importante que continuemos perguntando. Por isso, mais que encaminhar respostas, visamos delinear grandes desafios que a Psicologia da Educação ainda tem a enfrentar no contexto da formação de professores. Possíveis caminhos dentro dos tenras de discussão que apresentamos, certamente dependerão do exercício de nossa condição de sujeitos formadores, o qual pressupõe que tomemos consciência de nossa vontade política e que desenvolvamos capacidades como coletivo de formadores para articular novas propostas para o ensino de Psicologia da Educação, assim como para levantar novas perguntas, em permanente postura auto-crítica, interrogante da realidade e sobre tudo reflexiva do fazer e do pensar a Psicologia da Educação. [43]

Psicologia, Licenciatura em psicologia, Epistemologia, Psicologia sócio-hostórica, Psicologia crítica
4/27/2018 4:14:32 PM | Por José Roberto Guido
Licenciatura em Psicologia
Educação
Histórico sobre a formação do professor em Psicologia
Guido,
J .
Histórico sobre a formação do professor em Psicologia.
in:
J .
Guido,
(Ed.),
Psicologia no ensino médio:
(pp.13-14).

Esta discussão sobre a necessidade de termos no currículo da rede pública Psicologia, Sociologia e Filosofia reafirma o posicionamento do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo – APEOESP que institucionalmente, está posto desde 2003. É um posicionamento político do Sindicato, que se consolidou como uma Resolução aprovada no nosso XIX Congresso Estadual daquele ano. Mas para entender um pouco essa discussão, temos que saber o que é a APEOESP. Trata-se do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, o maior sindicato da América Latina, tendo mais de 220 mil professores na base, sendo que cerca de 170 mil são filiados.

Em 1979, quando um grupo de professores atuante venceu as eleições sindicais, a APEOESP era um sindicato pequeno, que cresceu fazendo a clara defesa dos interesses corporativos dos professores, da questão salarial, do emprego. Mas cresceu também lutando por uma sociedade diferente, mais justa. Um sindicato que cresceu em sintonia com o sindicalismo que surgiu a partir do final da década de 1980 e que se preocupava com as questões mais gerais.

É, neste sentido, que um sindicato como a APEOESP se propõe a discutir a questão curricular para além da questão corporativa, da questão salarial, da geração de emprego. Para nós, um projeto de classe, além da defesa da categoria, passa por uma escola pública que garanta para o conjunto da classe trabalhadora - porque são os grandes usuários da escola pública -, o acesso a toda a riqueza que a cultura humana produziu e que deve estar expressa no currículo escolar.

Feitas essas considerações, gostaria de iniciar com uma reflexão que temos feito: que determinadas questões precisam ser recolocadas no Brasil, na medida em que nós não vivemos mais no contexto da década de 1980, nem no da década de 1990, principalmente.

Se pegarmos como exemplo o contexto de aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996, em que se buscou fazer uma lei “enxuta”, com foco no estabelecimento de diretrizes, mas sem garantir as bases necessárias para uma educação de qualidade, constataremos que aí se criaram os marcos legais que aprofundaram o neo-liberalismo na Educação.

A LDB possibilitou um esvaziamento, inclusive, de currículo. Por exemplo, as disciplinas de Sociologia e Filosofia são apenas mencionadas no texto. A exigência legal é de que apenas os conhecimentos de Sociologia e Filosofia devam ser ministrados. A Psicologia também é tratada de uma forma muito lateral.

Essa mesma LDB possibilitou um processo intenso de fragmentação do ensino fundamental brasileiro por meio da municipalização e também permitiu a proliferação da privatização do Ensino Superior, levada a cabo pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. [13]

Isso está intrinsecamente relacionado à resistência que os cursos de Licenciatura têm de formar professores de Psicologia. Por quê? Porque não tem mercado para eles. A lógica dessas universidades é a lógica do lucro, e a base disso está na LDB criada em 1996.

Assistimos agora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva outorgar a lei que garante Sociologia e Filosofia no ensino médio. Mas governos, como o de São Paulo, estão contestando a constitucionalidade da lei, recorrendo inclusive ao Supremo.

Portanto, cremos que a consolidação do ensino de Psicologia no Ensino Médio, como nos demais níveis de ensino, não passa por outro caminho senão o do aprofundamento da reformulação da LDB. Não só por conta da Psicologia. A LDB, em muitos aspectos, impede os avanços que poderíamos ter na Educação. Embora algumas coisas tenham avançado, como a criação do FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvi mento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), a lei do piso nacional dos professores, entre outros, é preciso aprofundar as discussões, radicalizar as mudanças.

A conjuntura atual do Brasil não é a mesma da década de 1990, quando o neoliberalismo se aprofundou em demasia. Hoje, entendo que temos condições de produzir avanços.

Sobre a questão curricular propriamente dita, que é um dos gargalos da Educação, é necessário que atentemos para a proposta do MEC de implantação de um Ensino Médio Inovador. É de fundamental importância esta proposta porque aí teríamos uma escola ofertando alternativas em tempo integral, com uma gama de possibilidades para os alunos montarem o seu currículo. Sem dúvida, numa escola assim organizada, a Psicologia teria um papel fundamental na estruturação curricular.

É necessário fazermos do Ensino Médio Inovador, porque ele está descaracterizado. Isto é uma constatação. Mas o Ensino Médio Inovador resolve a demanda dos jovens brasileiros por uma escola pública de qualidade? Penso que não. Esta discussão estará presente durante a Conferência Nacional de Educação - CONAE.

Penso que a radicalização dos avanços tem que ter como norteador a necessidade de atrairmos um segmento significativo de jovens brasileiros que hoje sequer passam perto das escolas por conta da sua descaracterização completa. Descaracterização que passa, inclusive, pela eliminação de componentes curriculares que são caras às humanidades, entre elas, a Psicologia.

Desta forma, é importante que aqueles que militam mais diretamente na questão da Psicologia no Ensino Médio participem da CONAE com alguns focos: a necessidade de uma revisão da lei maior da Educação brasileira, a necessidade de termos o Ensino Médio Inovador, não apenas na forma de projeto, mas institucionalizado como política de Estado.

Há um debate em andamento, que é o da criação de um sistema público de Educação no Brasil, que objetiva solucionar os problemas derivados da fragmentação do Ensino, criando várias redes - a Municipal, a Estadual e a da União. É fundamental o nosso engajamento neste debate.

Queremos um sistema fragmentado ou podemos ter um sistema único de ensino?

Estas discussões, com certeza, estarão presentes na CONAE. Penso que os psicólogos, com muita propriedade, intervirão na construção de um novo Ensino Médio, porque sabem que esses debates são estratégicos para o avanço da Psicologia nesta modalidade do ensino. [14]

Psicologia, Licenciatura, Educação, LDB, FUNDEB, APEOESP
4/24/2018 1:08:43 PM | Por David Rosenfeld
Psicologia social
Grupos
Teorias de Sartre sobre Grupos
Rosenfeld,
D .
Teorias de Sartre sobre Grupos.
in:
D .
Rosenfeld,
(Ed.),
Sartre y la psicoterapia de los grupos.
(pp.50-85).

Neste capítulo, desejo realizer uma breve introdução as teorias de J. P. Sartre, que permitem compreender, sob um novo enfoque, a origem e a dinâmica dos grupos. Para isso desenvolve suas ideias a respeito do que é um grupo, a dinâmica grupo sobre a base de duas tendências opostas e as diversas modalidades de relação em um grupo. Algumas vezes intercalo, entre as ideais de Sarte, alguns apontamentos pessoais.

O conceito de Grupo segundo Sartre:

Eu desejaria causar impacto ao leitor desde o começo (como ocorreu comigo mesmo) afirmando que, segundo Sartre, “o grupo não é”. Isto significa dizer que não é uma estrutura que se arma por completo e da qual possamos dizer: este é um grupo em sua plenitude total. O grupo não é nada mais que um ato. É um processo em marcha, em uma marque que, como veremos, é dialética.

Na teoria de Sartre, ocorre com o conceito de grupo algo similar com o que acontece com o conceito de liberdade. A liberdade não é uma propriedade que se tem e que uma vez possuída permite ao sujeito dizer: “sou livre”. Para Sartre, aquele que diz: “sou livre”, está morto. A liberdade é uma luta constante, não uma coisa, e o mesmo ocorre com o grupo.

Criticando os autores que pretendem explicar a vida do gruo sobre a base de forças (ou seja, como uma coisa física), Sartre assinala que terminam sendo coisificadores e coisificando os seres humanos que formam o grupo.

Na Crítica da Razão Dialéticapodemos ler que um grupo se constitui como uma tentativa de lutar contra a alienação e a serialidade, unidos os membros diante de um perigo comum[1].Em seu desenvolvimento, o gruo se alimenta das situações que tem que superar.

Também Sartre apresenta outro enfoque do grupo, o do vínculo de cada membro com o grupo e com os outros em uma relação dialética ternária: ou seja, nunca o vínculo é simplesmente binário e sim ternário.

Nesta relação dialética, homem e grupo são recíprocos e simultaneamente significantes e significados um para o outro. O grupo modifica e é modificado por seus integrantes.

Estes conceitos apontam para desenvolvimentos mais específicos do tema. Ao introduzi-los, desde o começo, procuro criar um contraste com outros conceitos, mais ou menos conhecidos, sobre os fenômenos grupais.

Disse que os conceitos de Sartre recém expostos apontam a desenvolvimentos mais específicos do tema. Com efeito, assinalam, por um lado, as polaridades entre as que oscila a luta do grupo para se constituir ou dispersar. Por outro lado, se referem à relação dos integrantes do grupo entre si e com os outros, de caráter dialético.

A Práxis Grupal

Dissemos que para Sartre o grupo está em constante luta contra a serialidade e a alienação. Por isso começarei explicando o que Sartre entende por serialidade e por alienação.

A serialidade é o tipo de relação humana na qual cada membro aparece como substituível por outro, ou seja, como indiferenciado (um número intercambiável). Este tipo de relação tem as caraterísticas do “idêntico”, no sentido de que qualquer um é visto como equivalente a outro. Isto significa conceder ao indivíduo um caráter de coisa e expressa a alienação do homem na serialidade.

A serialidade é o tipo de relação que se estabelece entre os indivíduos que compõem uma série. Por exemplo, um conjunto de pessoas que param diante de um poste esperando um ônibus constituem uma série. Cada um sente, frente ao outro, solidão, como se não tivesse nada em comum com ele (p. 308-309, Critique).

Desse modo, a solidão é vivida como a negação provisória, de cada um, das relações recíprocas com os outros”. Cada um não está isolado do outro somente elo seu corpo enquanto não conta que o outro lhe dê as cosas. Se trata de uma pluralidade de solidões (p. 305). Tal pluralidade de separações expressa a contraparte negativa da integração de indivíduos. Neste caso (solidões recíprocas), cada um vive “como reciprocidade, no centro social, a negação exteriorizada de toda interioridade”. Isto constitue a reciprocidade negativa, relação que caracteriza os cidadãos de uma grande cidade (p. 308, Critique).

Para explicar um pouco mais o conceito de serialidade, voltemos ao exemplo utilizado por Sartre, o de usuários agrupados de um ônibus. São pessoas de sexo, idade e meios diferentes que realizam, na banalidade cotidiana, a relação de solidão, de reciprocidade e de unificação pelo exterior. Se trata de uma série, não de um grupo. O coletivo, um ônibus, um cinema, somente vincula seus membros em uma série onde cada um é um número qualquer de um conjunto, por exemplo, de cem. Cada um pode ser substituído por outro. Além disso, cada um não tem nem ordem nem lugar próprio. Na serialidade há condições que fazem possível a passagem do grupo, o qual luta contra a série para não se dispersar.

Na teoria sartreana, a alienação aparece como algo inscrito no processo, como uma parte da práxis humana. O homem, desde seu nascimento, está em situação de alienado e tem que lutar contra isso, já que desde o começo tem que interiorizar a materialidade. O homem é “mediado” pelas coisas da mesma forma que as coisas são “mediadas” pelo homem. Sartre destaca que a alienação primeira, que se expressa através de outras formas, resida em que a própria práxis humana pode voltar-se contra os homens, convertendo-se em anti-práxis. A matéria, enquanto trabalhada, expressa o homem, o objetiva, mas também o aliena o trabalho envolvido nela. As duas formas primárias de alienação são, portanto, a alteração e a objetivação.

Agora bem, o grupo se constitui em uma luta contra a serialidade e a alienação, pela superação das mesmas. Com a superação da realidade se alcança uma unificação das liberdades e, com ela, a relação de reciprocidade. Para explicar este conceito de reciprocidade podemos recorrer ao mesmo modelo utilizado anteriormente. No ônibus, cada um é um número qualquer dentro de, por exemplo, um conjunto de cem.

A reciprocidade é a relação na qual um é para o outro com oele mesmo. Já não é o idêntico como coisa, mas o mesmo que ele, no sentido humano. Ocorre uma interiorização do outro como vínculo humano.

Para Sartre, as relações recíprocas e ternárias constituem o fundamento de todas as relações entre os homens, qualquer que seja a forma que posteriormente adotem. A reciprocidade consiste em que cada qual seja meio no projeto do outro. De tal modo, a reciprocidade implica:

  1. que o outro seja meio na exata medida em que eu mesmo sou meio, ou seja, que seja meio de um fim transcendente e não o meu meio;
  2. que eu reconheça o outro como práxis, ou seja, como totalização em curso, já que o integro como objeto de meu próprio projeto totalizador;
  3. que eu reconheça no seu movimento em direção aos seus próprios fins;
  4. que eu me descubra como objeto e como instrumento de seus fins da mesma forma que o outro se constitui, para meus fins, como instrumento objetivo.

Sartre distingue esta forma de reciprocidade de tipo positivo e a outra de caráter negativo.

O movimento que se institui na luta contra a serialidade e a alienação é o que Sartre denomina Práxis de grupo. Sartre a define como um atuar com consciência da alienação, como tentativa de transformação ativa.

A práxis, portanto, é o processo mediante o qual constantemente o homem busca dealienar-se (ou seja, realizar-se como homem) modificando-se e modificando o meio. É um “fazer” e um “compreender” em uníssono. Tanto fazer como o compreender são momentos distintos da práxis.

Para Sartre, a práxis é a relação fundamental do homem com o meio, que estrutura o campo prático como unidade de recursos e meios para satisfazer necessidades.

A práxis supões um agente material (o indivíduo orgânico) e a organização material de uma tarefa sobre a matéria. Nunca encontramos homens que não seja mediados pelo material ao mesmo tempo que eles o mediam, através das relações humanas, os setores materiais em si. Isto nos leva a explicar o que Sartre entende por mediação.

Na mediação os homens se relacionam entre si exteriorizando-se através da matéria trabalhada e, por sua vez interioriza a materialidade como algo humano. Isso significa dar um sentido humano. A práxis implica uma dupla mediação:

  1. a matéria como mediação entre os homens;
  2. os homens como mediação entre a matéria.

Na práxis, o homem busca desalienar-se

Mas o grupo não é somente uma tentativa de superar a serialidade. A luta contra a serialidade é um detonador do processo dialético, que é uma atividade totalizadora, cuja regra única é a totalização em curso. Sem dúvida, esta totalização do grupo sempre é buscada e nunca alcançada de maneira definitiva (totalidade perfeita e acabada).

O corre com a totalização o mesmo que ocorre com a liberdade; trata-se de uma práxis, de um processo constante, nunca concluído. É um processo em constante movimento para alcançar a totalidade perfeita que nunca é alcançada pelo grupo. Por isso dizemos que se trata de uma tentativa de totalização; o que se tenta descrever é um acontecer e nunca uma coisa.

É impossível calcular quando uma série se tranformará em grupo. Não se pode realizar cálculos préveios, porque isto supõe considerar que o processo é físico, não dialético, humano e terminaríamos por coisificá-lo. Por outro lado, não é possível préfixar a natureza humana.

Uma vez constituído, o grupo elege o tipo de relação entre seus membros. Nesta eleição, as estruturas grupais são constituídas pelo próprio grupo, o qual é simultaneamente sujeito e suporta essas estruturas as quais modifica.

Sartre afirma que formas de relação que um grupo elege são possibilidade do grupo para manter como tal.

Tipos possíveis de Relação em um Grupo

Existem diferentes possibilidades de relação em um grupo, que constituem momentos ou etapas. Estas se encontram ligadas entre si. Cada uma implica a possibilidade seguinte.

Sartre mostra diversas modalidades de relação, de luta para existir como grupo: ou seja, modalidades distintas na mediação: fusão, juramento, organização, fraternidade terror e institucionalização.

Cada possibilidade não constitui um momento que se dá necessariamente por um alei física que rege o funcionamento de todo o grupo, mas surge como uma decisão dos seres humanos que o compõe. As etapas se dão, se desenvolvem e chegam à seguinte somente se cada integrante e o grupo as assumem e decidem elegê-las. Portanto, as etapas podem não ocorrer.

Anteriormente, assinalei que para Sartre, cada etapa condiciona a seguinte. Assim, se uma pessoa toma consciência de sua alienação e sua solidão alienada, existem nela o embrião para a fusão; se a fusão é eleita, condiciona a aparição do juramento e com isso, da organização; se a organização é aceita, condiciona a aparição da fraternidade-terror e, se esta é assumida, se esboça o surgimento do processo de institucionalização.

Cada uma dessas etapas são momentos mais ou menos estáveis de certo tipo de relações, que marcam e dão sentido de criação em um grupo. Reiterarei porque me parece importante, que não se trata de uma ralação causal direta nem de uma simples implicação formal. Trata-se, pois, de uma ordem necessária, imposta pela práxis humana, mas não causal, posto que se o grupo não segue lutando por criar-se a si mesmo, a etapa seguinte pode não ocorrer. Logo, em um aporte pessoal, mostrarei como no nível da psicoterapia de grupos, várias pessoas em um consultório psicanalítico, podem estar juntas durante anos, sem constituir um grupo.

Fusão é o primeiro momento de saída da serialidade, com ela se supera a inércia petrificante. A fusão se desenvolve em um espaço, em um campo espacial próprio, unificado pelas participantes(a esse respeito, Sartre dá como exemplo o bairro que rodeia a Bastilha; este forma um campo espacial próprio, criado pelos homens em luta, o que possibilita o grupo).

Para que haja a fusão são necessárias certas condições. Por um lado, se requer certa tensão de necessidade: por exemplo, frio, fome, etc. na Revolução Francesa. Nessa ocasião, cada indivíduo isolado (serialidade) era um sofredor passivo. Por outro lado, também é necessário o desejo de rechaçar essa situação, ou seja, fazer aparecer como ameaças os causadores do frio, da fome da opressão. Esses causadores, convertidos em ameaças, lhes dão uma fisionomia humana. Sartre destaca, nesse sentido, que enquanto na clássica versão da história, rígida e estereotipada, se considera que o homem move os grupos humanos a uma revolução, por exemplo, que aparece então como reação diante da fome, em sua própria teoria já não se trataria de uma conduta para encher o estômago e ficar satisfeito, mas de uma conduta que surge na aparição do outro como existência ameaçante a nível de significado humano. Isso significa que somente a necessidade não basta; no exemplo, não basta que falte comida necessária, além disso, tem que haver outro que quite essa necessidade.

Com a passagem da serialidade à fusão, cada homem reage de uma maneira nova: não como um indivíduo isolado, mas como encarnação da pessoa comum ou grupo. Essa nova reação não tem em si nada de ágico: expressa simplesmente a reinteriorização de uma reciprocidade. A série se dissolve no grupo em fusão. Esse grupo ainda não estruturado é o contrário da solidão e da alienação.

Sartre utiliza exemplos históricos para mostrar sua teoria sobre a evolução dos grupos. Muitos deles percentem à Revolução Francesa.

Tomando o exemplo que dá Sartre, poderíamos ver como a unidade está sempre presente no grupo em fusão. Em 1789, em cada lugar de Paris, em cada momento, a partida se joga inteira e o movimento da cidade encontra sua finalidade e sua significação.

Perto da noite, Paris foi uma cidade nova. Tiros de canhão advertiam a população para que estivesse em guarda. As campanhas se uniam para dar o alarme. As sessenta igrejas onde se reuniam os habitantes, transbordavam de gente. Ali, cada um era orador.

Neste caso, o grupo em fusão é a cidade. Cada um era orador diante dos outros e diante de si mesmo e isto é a reinteriorização da reciprocidade em um grupo, dentre de um âmbito geográfico. Em cada momento, em cada lugar da cidade, em cada movimento, se realiza em cada homem a unidade sintética de Paris como gurpo em fusão.

Alguns sociólogos clássicos afirmar que em todo grupo existe uma recriprocidade intersubjetiva de dois. Se trataria, dentro dessas ideias, de uma relação binária eu-tu. Sartre se opõe a essas ideias afirmando que em todo grupo há reciprocidade, mas mediada. Sempre um grupo supõe a reciprocidade mediada por um terceiro. Trataria, portanto, não de uma relação binária, mas ternária.

Compreenderemos melhor isto se considerarmos que, para Sartre, os momentos da mediação são microprocessos de integração, por um lado, do grupo como um terceiro, e, por outro, de cada um dos integrantes como o terceiro grupo em relação aos outros membros. A mediação, portanto, não é linear nem rígida. É uma prática dialética plural, onde um terceiro está incluído. A relação eu-tu está mediada pelo grupo; na relação eu-grupo há um outro que se faz de terceiro.

O grupo não é um continente como coisa, mas cada grupo deve lutar para criá-lo. Por esse processo cada membro se integra a um grupo que ele mesmo faz: é, ao mesmo tempo, continente e conteúdo. O grupo cria seu próprio continente.

Para Sartre, os membros do grupo são terceiros, enquanto cada um totaliza as reciprocidades do outro. A relação de terceiro a terceiro não é já a alteridade mas a reciprocidade mediada. Tal mediação é dupla, enquanto é mediação do grupo entre os terceiros e mediação de cada terceiro entre o grupo e os outros terceiros.

As etapas sartreanas

Segundo Sartre, o grupo passa da fusão ao juramento, daí à organização, desta à fraternidade-terror e desta à institucionalização.

 Passo de uma etapa à outra não se dá por uma lei física imutável; trata-se, pelo contrário, de um processo.

 A origem de uma etapa traz em si o esboço da seguinte: o juramento possui uma implicação significativa que levará à organização (é uma relação dialética de significante e significado). É parte de um sistema de significações que se cria. Não é sucessão somente de etapas mas é criada em um contexto de significações assumidas.

São etapas significativas:

Fusão – Juramento – organização – Fraternidade-Terror – Institucionalização.

Assim como são significativas as etapas descritas na psicanálise:

Oral – Anal – fálica – Genital

Não são etapas somente genéticas, biológicas mas uma etapa surgirá com certo marco e condicionará a seguinte.

Fusão e Dimâmica de Grupo

Ao refererir-se ao nascimento de um grupo, Sartre se pergunta em que momento da Revolução de 14 de julho de 1789, Paris deixa de ser uma série e se transforma em um grupo. Esta pergunta também é validade para a psicoterapia de grupos e o training group (treinamento de grupo). Na psicoterapia grupal, o ponto de fusão é a chave para que o funciona como tal. O treinamento de grupo, a primeira experiência grupal é a luta contra a serialidade dos participantes que se veem pela primeira vez.

O grupo, ao constituir-se, existe uma fusão das distintas serialidades de cada um de seus integrantes. No interior do grupo existe desde então uma tensão permanente entre uma prática totalizante (quando o grupo “se trabalha”) e o traço constante de uma destotalização ou dispersão pela inércia e o retorno à serialidade. Pode-se dizer que isso se constitui o motor da dialética do grupo. A inércia provocaria a dispersão e a explosão do grupo. O primeiro esforço que se propõe um grupo é dissolver neles a serialidade.

O grupo de psicoterapia, a primeira sessão reflete a luta entre a série (a solidão, o narcisismo) e a expressão das antinomias entre as séries e o grupo. Na primeira sessão de um grupo, os integrantes são séries, entes individuais, que mais que dialogar fazem monólogos (segundo Pichon-Rivière, é o monólogo inicial). É importante, pois, descobrir o ponto de fusão.  O mesmo ocorre no treinamento de grupo.

Por exemplo, no treinamento de grupo a saída da serialidade grupal ocorre na sessão de terça feira com a conversa sobre o dinheiro e as gratificações e a conversa noturna. Depois dessa sessão, o grupo tornou-se muito mais solto e comunicativo que o habitual.

No dia seguinte, na quarta-feira, durante o café da manhã, o grupo espera sentado na lanchonete enquanto um dos integrantes que havia chegado mais tarde termina o seu café da manhã. A saída da série fica evidente já que todos o esperam e levantam da mesa unidos como um grupo.

A fusão pode surgir em diversos momentos da espiral evolutiva do grupo, mas em seu marco evolutivo (em uma semana de treinamento do grupo, ou três anos de uma psicoterapia, ou cem anos na história), denota ser exato como ponto de partida descrever um movimento.

O grupo pede uma certa estabilidade nos lugares em que se sentam, inclusive nos temas comuns.

Segundo Sartre, é uma prática reflexiva para a sobrevivência e não uma dissolução do grupo: as relações dos membos deste se estabelecem em uma comunidade que está atuando sobre si.

Sartre diz que esse momento do grupo em fusão, “em que cada um é ele mesmo” representa a livre constituição da práxis individual em práxis comum.

Ao aplicar esse enfoque do movimento grupal à prática psicoterapêutica, eu utilizo o conceito ponto de fusão e o de outro momento que assinala Sartre como um guia que permite marcar em que etapa o grupo está. Alguns que em diversos grupos permitem detectar o pondo de fusão são:

  1. o uso do nós em seu real valor;
  2. em termos de campo analítico-psicológico quando a vivência contratrasferencial do campo é a totalidade grupo-terapeuta, onde nada fica de fora;
  3. quando um dos integrantes pode expressar uma fantasia, um desejo ou uma atitude comum do grupo, ou seja, quando se postula o nós. Em outro tipo de grupo, um grupo de estudos no Seminário da Associação Psicanálitica Argentina; se percebeu também este momento quando um dos integrantes, com muitas qualidades de unir e reparar, se fez de porta-voz, através de uma nota escrita firmada por todos, pediu às autoridades permissão para modificar aspectos de aula;
  4. a aparição de sonhos que representam o grupo com suas fantasias, desejos;
  5. a fantasia ou vivência de que se romepeu a barreira do som, como nos aviões supersônicos, é típica como indício de fusão grupal. Se prestarmos a atenção, muitos observarão esta fato com frequência.
  6. Quando o grupo pode ter uma conduta comum, por exemplo, se reúne na porta do constultório para entrar todos juntos.

No que se refere à história, Sartre dá um exemplo dos ataques ao líder para alcançar uma pseudo-união; é o da fusão pelo temor externo. Sartre descreve o medo, ou o terror e a reação defensiva posterior que ocorreram nas jornadas de ofensiva popular de 14 de julho, de 20 de junho, de 10 de agosto, de 3 de setembro, quando se tomou por assalto as Tullerias porque se temia que saísse dali, de noite, um exército para matas as pessoas de Páris. Em algumas dessas jornadas não havia motivos reais mas somente desejos de pseudo-união por medo.

Os momentos de um grupo que assinala Sartre não aparececeram com oalgo fixo. Estnao em perpétuo movimento. Ocorre o mesmo com o conceito das posições segundo Melanie Klein: a posição esquizo-paranóide e a depressiva são descritas para certa idade pela primeira vez. Mas aparecem e reaparecem em cada movimento da vida em uma ou outra ocasião.

Juramento

 Juramento exige pertecência ao grupo de uma maneira mais intensa que do que ocorreu na fusão primeira, em um movimento dialético.

Segundo Sartre, a violência, o juramento, o terror estão em todas as partes como o primeiro estatudo comum. Ada juramento está condicionado por todos e é o reconhecimento em cada um de seu compromisso e de sua liberdade comprometida (liberdade de livre desenvolvimento prático atrás do compromisso) e que produz uma afirmação de pertencência ao grupo.

Isto não quer dizer que se provoque uma simbiose tal que todos o que pertencem a um grupo sejam iguais. Depois do ato criado do juramento. “somos nós próprios filhos, nosso invento comum”.

 Juramento significa o passo de uma menor diferenciação a outra maior. Sartre ao referir-se à relação prática do juramento em cada um, como “ele” mesmo com a multiplicidade já unificada, coincide com Picho-Rivière quando assinala, ainda que no nível distinto do grupo operativo, que a meta é que cada um leve dentro de a imagem do grupo funcionante.

A noção de juramento não faz mais do que designar o que permite esta passagem da ansiedade inicial à busca de acordo; é necessário decidir-se à fazer um grupo. Às vezes, o indício que permite detectar esta etapa é a necessidade de unanimidade total sobre um problema particular.

Organização

Ao referir-se ao grupo organizado, Sartre afirma que este aceita postular o problema da organização e o reencontro da organização de seu poder interno. Antes de começar a trabalhar, trata de organizar seu poder interno.

Na linguagem da dialética dos grupos, o grupo vai trabalhar-se. Se trabalha. Aqui começa, forçosamente, o problema da soberania, do autoritarismo do grupo.

Na origem do grupo em fusão cada um é soberano. O mesmo não ocorre no grupo organizado, onde a repartição de tarefas e o poder põem em perigo a soberania de todos.

 O grupo tem necessidade de organização e certo papel se chega, por exemplo, nomeando um presidente. Mas apesar disso controlar a ansiedade e o medo ao novo, os membros recusama perder a soberania ao definir um chefe. Esta organização supõe atadures, compromissos, retos do juramento.

Resumindo, o juramento seria uma tomada de decisão, logo o grupo se organiza, fazendo a práxis da organização.

Institucionalização

Na institucionalização se dá uma separação dos membros no espaço, diversidade de tarefas e isso impõe a separação e a especialização. Neste momento em que se consolidam os subgrupos, surge a possibilidade de uma dispersão, porque se dá o poder a alguns que se encarregam das funções, surge a estruturação do grupo pela especialização. O que isso significa? Que já é difícil reconhecer o outro com osenso exatamento o mesmo. A alteridade reaparace. Já não existe uma fusão. Luta-se contra essa alteridade inicial que levou, justamente, à formação do grupo. Trata-se de uma dialética circular. Há o perigo da alienação ao chegar à institucionalização contra este este perigo, não há juramento que os proteja.

O grupo institucionalizado é compreendido em três formas:

  1. Como objeto: visto de fora pelos não agrupados;
  2. Enquanto sujeito: visto de fora pelos ão agrupados para quem os membros do grupo explicam o que é o grupo e quais são seus fins (o outro é um possível sujeito do grupo) e
  3. Enquanto sujeito: visto de dentro, por cada um dos membros do grupo para os quais o grupo é significativo e razão de sua função individual e de sua objetivação possível como ação comum.

Na etapa institucional se postula a luta entre burocracia versus dispersão e crescimento (ou seja, aceitação das separações e mortes). Surgem fantasias de eternidade, de que o grupo nunca deixará de ser assim.

 

Psicologia social, Grupos, Jean Paul Sartre, Serialidade, Alienação, reciprocidade, práxis de grupo, fusão, juramento, institucionalização
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ARTIGOS
Violência na escola X violência da escola
Tognetta,
L .
()

O presente artigo versa sobre a temática da violência que envolve pares e autoridades em instituições escolares sobre dois lados distintos: o primeiro deles refere-se à violência enquanto ações agressivas e muitas vezes criminosas, contra a autoridade ou contra os pares (bullying) apresentadas por alunos, crianças e adolescentes na escola. Já o segundo aponta para a violência da própria escola, que, na tentativa de vencer tais situações utiliza sanções e de intervenções também violentas que ferem o direito de se frequentar espaços que contribuam para o desenvolvimento de pessoas autônomas e equilibradas. Entender, portanto, como as ações da escola podem superar a violência nesta instituição nos impulsiona a, primeiramente, compreender o fenômeno: por que o homem é, ou, está, violento? As explicações, do ponto de vista das teorias que estudam o desenvolvimento moral uma perspectiva interacionista, bem como de pesquisas recentes sobre o que tem indignado adolescentes de 13 a 15 anos em escolas públicas e particulares apontam para uma questão fundamental: é preciso que haja uma mudança profunda nas ações dessa instituição educativa para que crianças e adolescentes possam adequar o sentido que dão às suas vidas a um conteúdo ético. Os resultados encontrados atestam que os adolescentes entrevistados não se reconhecem em um espaço público. Crianças e adolescentes, vítimas e agressores não respeitam ao outro já que não mantém por si, um auto-respeito e nem estão, com as medidas tomadas pela escola, capazes de coordenar diferentes pontos de vista e por reciprocidade, pensar no bem a si e no bem a outro.

Palavras-chave:
Violência; Ética; Escola; Autoridade; Bullying
Preconceito de cor e racismo no Brasil
Guimarães,
A .
(2004)

O autor analisa a formação do campo temático dos estudos de relações raciais, no Brasil dos anos 1940, e sua posterior superação pelos estudos de identidade racial e racismo, nos anos 1970, buscando precisar a história dos significados teóricos de dois conceitos: preconceito de cor e racismo. Retroagindo ao final do século XIX, o autor argumenta que o racialismo dogmático de então foi desbancado pelo culturalismo do começo do século XX, apenas para ceder lugar à imprecisão entre a expressão nativa "preconceito de cor" e "preconceito racial", esta última introduzida pelo paradigma das relações raciais, gerado pela Escola de Chicago. Com a superação deste, nos anos 1970, e sua substituição por paradigmas que utilizam quase exclusivamente a análise estrutural e institucional, o conceito de racismo passou a denominar de maneira imprecisa todas as dimensões da vida social e da interação entre "brancos" e "negros". O autor sugere que apenas um retorno à separação analítica das diversas formas de interação e dimensões da vida social pode restituir a esse campo disciplinar a riqueza que teve nos primórdios das ciências sociais.

Palavras-chave:
Racismo, preconceito de cor, preconceito racial, relações raciais.
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Saber apreciar uma boa música, é como saber diferenciar o vidro do diamante; somente a experiência revela o verdeiro valor da jóia...
Odsson Ferreira
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Osíris e Abidos
Osíris

Acreditava-se que o morto se tornava akh, ou seja, um espírito transfigurado que passava a ter a forma de estrela. Segundo inscrições, nos primeiros tempos Osíris era associado com a constelação Orion, considerada pelos Egípcios meramente como o «cinturão» do caçador que vemos hoje muito antes do Egito ser unificado, o lugar de Abidos tornou-se santo para Osíris. Os primeiros reis do Egito, originários de mais a sul, de Nekhen e que também construíram Mênfis, a capital no norte, escolheram ser sepultados em Abidos por ser um local santo. Aqui, provavelmente por altura da construção das pirâmides - o Reino Antigo (2700-2181 a.e.c.) - foi construído um santuário para Osíris, que mais tarde caiu em desuso. Cerca de 1500 anos mais tarde, Seti I.
o segundo rei da XIX Dinastia, decidiu renová-lo. Os trabalhadores desenterraram o santuário que estava subterrado e gravaram o seu nome nas velhas paredes. Todos os anos, numa série especial de salas secretas, a ressurreição de Osíris era reconstituída, dando a esperança a todos os egípcios de que também eles viveriam depois da morte. Foi assim que Abidos se tornou o primeiro verdadeiro local de peregrinação.

EL-MAHDY, Christine. Mitologia egípcia e africana. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 3 p. 295
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ROYER, Sophie. A civilização do Indo. IN.: SALLES Catherine (org.). Larousse das civilizações antigas. São Paulo/SP: Larousse, 2008. p. 16
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Dalgalarrondo, P. (2011). Algumas noções sobre evolução biológica e evolução do cérebro. in: P . Dalgalarrondo. Evolução do Cérebro: Sob a perspectiva evolucionista. (p.21). Porto Alegre/RS: Artmed
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 ver VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.

Dicionário de Psicologia APA (p. 25)
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