Templo de reflexão!

DICIONÁRIOS DE PSICOLOGIA - PESQUISA POR VERBETE
8/24/2020 4:22:49 PM | Por Gregory J. Feist
Conceito de Jung de humanidade

Jung via os seres humanos com muitos polos opostos. Sua vi­são da humanidade não era pessimista ou otimista, nem deter­minista ou propositiva. Para ele, as pessoas são motivadas em parte pelos pensamentos, conscientes, por imagens de seu inconsciente pessoal e em parte pelos traços de memó­ria latentes herdados de seu passado ancestral. Sua motivação provém de fatores causais e teleológicos. A constituição complexa dos humanos invalida qual­quer descrição simples ou unilateral. De acordo com Jung, cada pessoa é uma composição de forças opostas. Ninguém é completamente introvertido ou extrovertido, masculino ou feminino, uma pessoa em que predomina o pensamento, o sentimento, a sensação ou a intuição, e ninguém avança de modo invariável na direção da progressão ou da regressão.

A persona não é mais do que uma fração de um indiví­duo. O que se deseja mostrar aos outros é, em geral, apenas o lado socialmente aceitável da personalidade. Cada pessoa possui um lado sombrio, uma sombra, e a maioria tenta ocultá-lo tanto da sociedade quanto de si mesma. Além disso, cada homem possui uma anima; e cada mulher um animus. 

Os vários complexos e arquétipos lançam seu feitiço so­bre as pessoas e são responsáveis por muitas de suas palavras e ações e pela maior parte de seus sonhos e fantasias. Ainda que as pessoas não sejam mestres de suas próprias casas, elas também não são completamente dominadas por forças além de seu controle. Possuem uma capacidade limitada de deter­minar sua vida. Por meio da força de vontade e com grande coragem, elas podem explorar os recessos escondidos de sua psique. Elas podem reconhecer a sombra desses recessos como delas, tornar-se parcialmente conscientes de seu lado femini­no ou masculino e cultivar mais de uma única função. Esse processo, que Jung denominava individuação ou autorrealização, não é fácil e demanda maior coragem do que a maioria das pessoas consegue reunir. Em geral, uma pessoa que atin­giu a autorrealização já chegou à metade da vida e atravessou com sucesso os estágios da infância e da juventude. Durante a meia-idade, elas devem estar dispostas a deixar de lado os ob­jetivos e os comportamentos da juventude e adotar um novo estilo, apropriado a seu estágio do desenvolvimento psíquico.

Mesmo depois que as pessoas alcançaram a individua­ção, tomaram conhecimento de seu mundo interno e criaram um equilíbrio entre as várias forças opostas, elas permane­cem sob influência de um inconsciente coletivo impessoal que controla muitos de seus preconceitos, interesses, medos, sonhos e atividades criativas.

Na dimensão dos aspectos biológicos versus sociais da personalidade, a teoria de Jung inclina-se fortemente na direção da biologia. O inconsciente coletivo, que é responsável por tantas ações, faz parte de nossa herança biológica. Exceto pelo potencial terapêutico da relação médico-paciente, Jung tinha pouco a dizer acerca dos efeitos diferenciais de práticas sociais específicas. De fato, em seus estudos de várias culturas, ele encontrou diferenças superficiais e semelhanças profun­das. Assim, a psicologia analítica também pode ser classifica­ da como alta em semelhanças entre as pessoas e baixa nas diferenças individuais.

Psicologia - Psicologia Analítica
8/19/2020 4:37:35 PM | Por Charles Richard Snyder
Desenvolvendo as qualidades humanas e vivendo bem em um contexto cultural

David Satcher, o 16“ diretor de saúde dos Estados Unidos (cargo mais alto no sis­tema de saúde pública do país), que de­sempenhou a função entre 1998 e 2002, estava sentado em um palco pouco ilumi­nado em uma sala de convenções lotada. Junto ao corpo, trazia o calhamaço do relatório intitulado “Saúde mental: cultura, raça e etnicidade” (Mental health: culture, race, ethnicity, U.S. Department of Health and Human Services [DHHS], 2001), que estava sendo lançado oficialmente naque­le mesmo dia. Os psicólogos começavam a encher a sala de reuniões para ouvir a sínte­se do Dr. Satcher sobre o relatório, que vi­nha sendo elaborado há anos. Quando che­gou sua hora de falar, Satcher discorreu sobre as influências fundamentais da cul­tura na saúde mental. Este trecho do rela­tório resume alguns de seus comentários:

A cultura [grifos nossos] é definida, em termos gerais, como um legado ou con­junto de visões, normas e valores comuns (U.S. DHHS, 1999). Ela se refere aos atri­butos compartilhados de um grupo... A cultura influencia inclusive se as pessoas chegam a procurar ajuda para sua saúde, que tipo de ajuda elas procuram, de que estilos de enfrentamento e apoios sociais dispõem, bem como quanto estigma elas atribuem às doença mentais. Todas as cul­turas também têm qualidades, como a resiliência e formas adaptativas de en­frentamento, que podem proteger algu­mas pessoas de determinados transtornos. Os consumidores de serviços de saúde mental trazem naturalmente essa diver­sidade cultural para o setting terapêutico... A cultura do clínico e o sistema de aten­ção à saúde como um todo comandam a resposta dada a um paciente com uma doença mental. Eles influenciam muitos aspectos da prestação de cuidados, in­cluindo o diagnóstico, o tratamento e a organização e o reembolso dos serviços. Os clínicos e os sistemas de prestação dos serviços têm estado mal equipados para atender às necessidades de pacientes com diferentes origens e, em alguns casos, têm demonstrado preconceito na prestação de atendimento (U.S. DHHS, 2001).

Havia duas mensagens-síntese no re­sumo de Satcher. Em primeiro lugar, “a cultura é importante” na consideração da etiologia (a causa de algo, como uma doença), efeitos e tratamento de proble­mas educacionais e psicológicos. Em segun­do, os psicólogos necessitam incorporar questões culturais a suas conceituações dos problemas e tratamentos psicológicos.

A necessidade de reconhecer influên­cias culturais amplas também se aplica aos nossos esforços para entender eventos educacionais, qualidades psicológicas e a [85] própria natureza do bem-viver. Essa ne­cessidade, contudo, não tem sido atendi­da, segundo críticos da iniciativa da psicologia positiva. Esses críticos observaram que a maioria dos estudos voltados às qua­lidades não trata das influências culturais em nossos planos de pesquisa, prestação de serviços e avaliações de programas (Ahuvia, 2001; Leong e Wong, 2003; Sue e Constantine, 2003). Mais além, os crí­ticos demandam mais discussão sobre como a “cultura é importante” nas ativi­dades de pesquisa e na prática da psicolo­gia positiva.

Exortamos quaisquer futuros psicólo­gos positivos que estejam lendo este capí­tulo a levar em conta a cultura como uma importante influência sobre o desenvolvimen­to e a manifestação das qualidades e do bem-viver humanos. Esse objetivo é desafiador porque a psicologia, como disciplina, tem sido ineficaz para incluir as variáveis cul­turais no estudo da saúde e das doenças mentais. Da mesma forma, os psicólogos positivos parecem estar divididos sobre a questão de se a ciência e a prática são isen­tas da influência cultural (ou seja, têm uma postura neutra e objetiva no exame dos tra­ços e comportamentos humanos “univer­sais”) ou são carregadas de cultura (ou seja, reconhecem as influências dos valores cul­turais no exame das qualidades e do funcio­namento positivo).

Neste capítulo, descrevemos:

  1. as posturas históricas dos psicólogos com relação aos papéis da cultura so­bre os comportamentos positivos e ne­gativos;
  2. os enfoques dos psicólogos positivos à incorporação das perspectivas culturais em seu trabalho e
  3. o papel das influências culturais em nossas futuras explorações das qualida­des e do funcionamento positivo.

Inicialmente, tratamos das tentativas históricas (e, muitas vezes, fracassadas) do campo em entender os papéis das forças culturais na determinação de nossas [87] formações culturais. Em segundo, examina­mos as afirmações de que a psicologia po­sitiva é isenta de influências culturais ou de que é carregada de cultura. Em terceiro e último lugar, discutimos os passos neces­sários para posicionar a psicologia positi­va no contexto cultural. Ao final deste ca­pítulo, pode ser que tenhamos levantado mais perguntas do que respostas. Obvia­mente, consideramos essas perguntas como fundamentais para o futuro da psicologia positiva, e muitos dos leitores deste texto podem ser chamados a tratar dessas ques­tões em suas carreiras.

Entendendo a cultura: uma questão de perspectiva

A psicologia, no século XX, viveu um corpo-a-corpo com o tópico de diferenças individuais. Muitas das discussões sobre esse tema estavam relacionadas à cultura. Nos últimos 100 anos, por exemplo, a psi­cologia avançou, passando da identifica­ção das diferenças associadas à cultura para a identificação e apreciação da singulari­dade individual.

No final do século XIX e início do XX, antropólogos e psicólogos costumavam se referir à raça e à cultura como determi­nantes das características e comportamen­tos pessoais, positivos e negativos. Os paradigmas de pesquisa, influenciados pe­las forças sociopolíticas da época, produ­ziram conclusões que, em termos gerais, estavam em sintonia com a visão de que a raça ou a cultura dominante era superior a todos os outros grupos étnicos ou minori­tários dos Estados Unidos. Essas aborda­gens que destacavam a inferioridade de determinados grupos raciais ou culturais foram chamadas de perspectivas genética e culturalmente deficientes sobre a diversida­ de humana, ao passo que a perspectiva ge­neticamente diferente reconhece o potencial de cada cultura para engendrar qualida­des únicas (Sue e Sue, 2003).

A hipótese dos psicólogos que apoia­ram o modelo geneticamente deficiente era de que as diferenças biológicas expli­cavam lacunas percebidas nas capacidades intelectuais entre grupos raciais. Mais além, os proponentes desse modelo afirmavam que as pessoas que possuem inteligência in­ferior não poderiam se beneficiar das opor­tunidades de crescimento e, como tal, não contribuíam para o avanço da sociedade.

Usou-se a pseudociência para de­monstrar a suposta base genética da inte­ligência e destacar a “descoberta” da supe­rioridade intelectual de europeus e euro-americanos. Por exemplo, a craniometria, que é o estudo da relação entre as caracte­rísticas do crânio e a inteligência (às ve­zes, medindo-se a quantidade de semen­tes de pimenta necessárias para encher crâ­nios secos), era uma abordagem pseudo-científica para demonstrar a relativa supe­rioridade de um grupo sobre outro.

Tais noções de inferioridade genética constituíram um foco importante da pes­quisa em eugenia (o estudo dos métodos de redução da “inferioridade genética” por meio de procriação seletiva) liderada por psicólogos norte-americanos como G. Stanley Hall e Henry Goddard. Hall “acre­ditava firmemente em raças humanas ‘su­periores’ e ‘inferiores’” (Hothersall, 1995, p. 360). Goddard tinha visões semelhan­tes com relação à raça e inteligência, e no início do século XX, estabeleceu procedi­mentos de triagem (usando testes formais de inteligência semelhantes aos que se usam hoje em dia) na Ilha de Ellis, para aumentar os níveis de deportação de pes­soas “pouco inteligentes” (Hothersall, 1995). Assim, pessoas de todo o mundo recebiam testes de inteligência complexos, geralmente em uma língua que não a sua, no mesmo dia em que chegavam de uma longa viagem pelo oceano. Não surpreen­de que os resultados desses testes fossem uma estimativa ruim do funcionamento intelectual dos imigrantes.

Em meados do século XX, a maioria dos psicólogos havia abandonado a visão [88] de que a raça predeterminava as capacida­des cognitivas e os resultados que a pessoa obteria na vida. Na verdade, o foco foi redirecionado, passando da raça à cultura ou, mais especificamente, às “deficiências culturais” evidenciadas nas vidas cotidia­nas de algumas pessoas. Na abordagem culturalmente deficiente ao entendimen­to das diferenças entre as pessoas, os psi­cólogos (como Kardiner e Ovesey, 1951) identificavam uma série de fatores ambien­tais, nutricionais, lingüísticos e interpes­soais que supostamente explicariam o ra­quítico crescimento físico e psicológico de membros de determinados grupos. A hipótese era de que as pessoas careciam de determinados recursos psicológicos porque sua exposição aos valores e costumes pre­dominantes na época, ou seja, os dos euro-americanos, era limitada (vide a discussão de privação cultural em Parham, White e Ajamu, 1999). Muitos pesquisadores e pro­fissionais tentaram explicar os problemas e esforços das pessoas examinando cuida­dosamente a justaposição de culturas, es­pecificamente aquelas que eram conside­radas como marginais de alguma forma, quando comparadas às consideradas pre­dominantes (de classe média, suburbanas, socialmente conservadoras). Os desvios da cultura normativa eram considerados “de­ficientes” e motivo de preocupação. Em­bora desse mais atenção aos efeitos das variáveis externas do que ao modelo gene­ricamente deficiente anterior, esse modelo continuava aplicando uma-estrutura precon­ceituosa, negativa e simplista para avaliar es capacidades cognitivas dos membros de grupos minoritários (Kaplan e Sue, 1997).

Após décadas em que alguns psicólo­gos afirmavam que certas raças e culturas eram melhores do que outras (ou seja, que os euro-americanos eram superiores às minorias), muitos profissionais começaram a apoiar a perspectiva culturalmente di­ferente, na qual se reconheciam a singularidade e as qualidades de todas as cultu­ras. Recentemente, pesquisadores e profissionais começaram a considerar explica­ções da diversidade inerente em compor­tamentos humanos positivos e negativos que são culturalmente pluralistas (que re­conhecem entidades culturais distintas e adotam alguns valores norte-americanos tradicionais) e culturalmente relativistas (que interpretam os comportamentos den­tro do contexto da cultura). Muito embora as explicações pluralistas e relativistas se­jam amplamente aceitas, debate-se se a pesquisa e a prática em psicologia positiva são isentas da influência da cultura ou es­tão carregadas dela. Esse debate é situado e discutido na próxima seção.

Psicologia positiva: isenta ou carregada de influências culturais?

Os cientistas e os profissionais da psi­cologia positiva estão comprometidos com o estudo e a promoção do bom funciona­mento humano. Embora tenhamos esse ob­jetivo comum, vamos em busca dele por muitos caminhos diferentes. Observadores externos podem concluir que todos os pesquisadores do campo da psicologia positiva fazem perguntas semelhantes e usam mé­todos semelhantes. Tais observadores tam­bém podem observar que todos os profissio­nais da psicologia positiva se concentram nas qualidades dos clientes e ajudam as pes­soas a avançar em direção a resultados po­sitivos em suas vidas. Nossas especialidades educacionais (como a psicologia social, de saúde, da personalidade, do desenvolvimen­to, terapêutica e clínica), contudo, podem determinar aspectos específicos das ques­tões examinadas e das ferramentas de pesquisa utilizadas. Da mesma forma, nossas orientações teóricas para a terapia (como a humanista, a cognitivo-comportamental, focada em resultados) podem influenciar nossos esforços para ajudar as pessoas a fun­cionar melhor. Até que ponto consideramos a pesquisa e a prática da psicologia positiva como isentas ou carregada de influências [89] da cultura também pode ser um fator a moldar nossos focos e métodos.

Desde 1998, o debate sobre as in­fluências culturais na pesquisa e na práti­ca da psicologia positiva tem sido realiza­do formalmente em convenções e informal­mente em listas de discussões pela internet e em salas de aula. A maioria dos profis­sionais provavelmente tem confiança na objetividade de seus métodos. Eles também provavelmente reconhecem a necessidade de entender a impressionante diversidade da existência humana. Alguns deles ado­tam posições extremas (como “a psicolo­gia positiva é isenta de influências da cul­tura e NÃO ESTÁ carregada de cultura”, ou “a psicologia positiva ESTÁ carregada de cultura e NÃO ESTÁ isenta de influên­cias da cultura”) e defendem suas visões com muito vigor. Tendo testemunhado es­ses debates e participado de alguns deles, as três questões recorrentes parecem estar relacionadas:

  1. aos efeitos dos valores culturais dos profissionais em suas pesquisas e prá­ticas;
  2. à universalidade das qualidades hu­manas e
  3. à universalidade da busca da felicidade.

O Quadro 5.1 apresenta os extremos de cada uma dessas três posições. Nas se­ções que seguem, detalhamos as perspec­tivas dos proponentes de cada posição. Além disso, apresentamos miniexperimentos para provocar o leitor a pensar sobre a aplicação dessas perspectivas.

Quadro 5.1

Pesquisa e prática isentas de influências culturais na psicologia positiva

Os que defendem a abordagem “isen­ta de influências culturais” sustentam que a ciência social positiva é descritiva e objeti­va e que seus resultados “transcendem cul­turas e políticas específicas e abordam a universalidade” (Seligman e Csikszentmi- halyi, 2000, p. 5). Esses profissionais afir­mam que os valores culturais dos pesqui­sadores e dos profissionais não influenciam seu trabalho. A lógica subjacente é de que os cientistas rigorosos usam métodos bem-desenvolvidos e ferramentas validadas. Da mesma forma, os terapeutas consciencio­sos e eficientes utilizam avaliações e inter­venções validadas.

Com relação à universalidade de nu­merosas qualidades humanas, Peterson e Seligman (2004) detalham sua ampla bus­ca por virtudes e qualidades que são valo­rizadas por todas as pessoas em diferentes culturas (vide o Capítulo 4 para uma [90] discussão da Classificação de Qualidades VIA). As 24 características pessoais identificadas por Peterson e Seligman estariam presen­tes em todas as sociedades e seriam consi­deradas positivas em todos os grupos cul­turais. De fato, pesquisadores que foram aos quatro cantos do mundo para entre­vistar membros de tribos (como os Inuit, da Groenlândia, e os Maasai, no Quênia) informam evidências descritivas e quanti­tativas que sustentam a existência e a desejabilidade dessas Qualidades VIA em cul­turas específicas (Biswas-Diener e Diener, no prelo).

A ideia de que todo mundo quer ser feliz é o pressuposto orientador do livro de David Myers, A busca dafelicidade (The pursuit of happiness, 1993), e muitos psi­cólogos positivos concordam com essa vi­são. Sobre isso, pesquisadores do bem-es­ ar subjetivo (como Kahneman, Diener e Schwartz, 1999) fizeram levantamentos com pessoas de todo o mundo e concluí­ram que a felicidade define as experiên­cias emocionais das pessoas na maioria dos países.

Pesquisa e prática carregadas de cultura na psicologia positiva

A perspectiva culturalmente carrega­ da sobre a psicologia positiva está intima­mente associada a esforços para contextualizar todas as iniciativas de pesquisa e prática. Especificamente, as [91] recomendações sensíveis à cultura com relação à prá­tica, à pesquisa e à formulação de políticas (APA, 2003) estimulam os profissionais a desenvolver competências específicas para ajudar a levar em conta as influências cul­turais sobre a psicologia. Nessa linha, os apoiadores da posição culturalmente car­regada concordariam que a pesquisa e a prática são realizadas na intersecção entre as culturas dos profissionais e as dos parti­cipantes ou clientes. Sendo assim, afirma-se que os valores culturais do pesquisador e do profissional influenciam a psicologia positiva.

Embora reconheçam que pode existir um grupo principal de traços e processos positivos em todas as culturas, os profissi­onais que acreditam que todas as qualida­des são carregadas de cultura sustentam que a maioria deles se manifesta de for­mas muito diferentes, com propósitos dis­tintos, em culturas diferenciadas. Sandage, Hill e Vang (2003) apresentam um bom exemplo de como o perdão (uma das 24 qualidades VIA) é valorizado em diferen­tes culturas e, ainda assim, opera de forma muito distinta dentro de cada uma delas. Em sua análise do processo de perdão en­tre norte-americanos descendentes dos Hmong, na Ásia, Sandage e colaboradores descobriram que ele se concentra na res­tauração do respeito e na recuperação da relação, enfatiza um componente espiritual e é facilitado por um terceiro. Embora ou­tras conceituações do perdão enfatizem a recuperação da relação, os componentes espirituais e a necessidade da facilitação de um terceiro parecem ser raros.

Sobre a noção de felicidade como um estado humano desejado universalmente, os psicólogos (por exemplo, Constantine e Sue, 2006; Leong e Wong, 2003; Sue e Constantine, 2003) observaram que o so­frimento e a transcendência são os objeti­vos de alguns indivíduos que adotam uma perspectiva oriental sobre a psicologia po­sitiva (vide o Capítulo 3). Dessa forma, a felicidade pode ser simplesmente um sub­ produto do processo da vida. Ahuvia (2001, p. 77) narrou sua experiência com pessoas que não compartilhavam do dese­jo “universal” de ser felizes:

Há alguns anos, um indiano, meu aluno de doutorado, viu a contracapa do livro de Myers (1993), que dizia “Todos que­remos ser felizes...”. O aluno sim­plesmente disse: “Eu não”. Eu me lembro de outra conversa, com um jovem de Cingapura, que me contou que ia se ca­sar com sua noiva porque isso era espera­do dele socialmente, e não porque ele seria feliz no casamento... Da mesma for­ma, troquei longos e-mails com um aluno coreano que era muito explícito em rela­ção a escolher uma carreira para ficar rico, não para ser feliz, de forma que pudesse agradecer seus pais, comprando-lhes um Mercedes novo.

Os resultados de inventários subjeti­vos em nível nacional sobre bem-estar (Kahneman, Diener e Schwartz, 1999) tam­bém sugerem que há diferenças, com o passar das décadas, em relação aos níveis de felicidade entre países.

Isenta de cultura versus carregada de cultura: um debate em andamento?

A discussão dessa questão pode não ser necessariamente o melhor uso dos re­cursos profissionais. John Chambers Chris­ topher (2005), da Universidade de Mon­tana, nos Estados Unidos, argumenta que “a psicologia positiva requer uma filosofia das ciências sociais que seja consistente o suficiente para dar conta de questões ontológicas, epistemológicas e éticas/morais, indo além do objetivismo e do relativismo” (p. 3-4). O texto completo do artigo de Christopher, reimpresso aqui, detalha suas sugestões para dar à psicologia positiva uma estrutura conceitual mais forte. [92]  

Situando a psicologia positiva em um contexto cultural

As perspectivas passadas da psicolo­gia sobre a cultura, junto com o debate "isenta de cultura-carregada de cultura”, narram as ciladas e o avanço associados às tentativas profissionais de entender as in­fluências da cultura sobre a pesquisa e a prática da psicologia positiva. Apresenta­mos aqui recomendações para ajudar a entender o papel da cultura na psicologia positiva.

Examinando a equivalência dos "positivos" para determinar o que funciona

Estabelecer a aplicabilidade intercultural de constructos e processos vai além de se determinar se as qualidades e os me­canismos de enfrentamento existem e são valorizados por membros de diferentes grupos culturais. Além disso, demanda um conhecimento da psicologia específica do grupo (Sandage et al., 2003) que conte a história de como e quando a qualidade ou o processo passou a ser valorizado dentro da cultura e como ele funciona atualmen­te de forma positiva.

O estudo qualitativo do uso que uma pessoa faz de uma determinada qualidade em sua vida cotidiana poderia melhorar nosso conhecimento de como a cultura é importante no desenvolvimento e na ma­nifestação dessa qualidade; e estudos rigo­rosos, quantitativos e interculturais pode­riam revelar mais informações sobre como uma qualidade leva a um determinado re­sultado voltado na vida ou está associada a ele em uma cultura, mas a outro, em outra.

Outra forma de desvelar as nuanças culturais associadas a um constructo ou processo positivo é perguntar às pessoas como uma determinada qualidade ganhou força em suas vidas cotidianas. Por exem­plo, o “Teste de esperança: cabeça, coração, sagrado” se mostrou uma maneira eficaz de começar discussões (dentro e fora de sessões de terapia) e exposições sobre a es­perança possibilita que as pessoas reflitam sobre a história de como a esperança veio a ser importante em suas vidas e a fazer parte de sua cultura. Introduzimos esse tes­te da seguinte forma (Lopez, 2005, p. 1):

Hoje falaremos do poder da esperança em nossa vida. Antes de começar, preciso sa­ber como vocês entendem essa coisa cha­mada esperança. O que faremos é o se­guinte: levantem as duas mãos (o monitor levanta as mãos). Quando eu contar até três, quero que apontem de onde vem a SUA esperança. Em função da origem e de todas as experiências de vida de vocês, onde vocês acham que sua experiência se origina... em sua cabeça (o monitor apon­ta para a cabeça), essa parte pensante de vocês, em seu coração (o monitor aponta para o coração), do amor que vocês têm por outras pessoas e elas por vocês, ou do sagrado (o monitor aponta para cima e para tudo ao redor), sua vida espiritual? Agora, podem usar as duas mãos para apontar para um lugar se acharem que sua esperança vem daquele lugar, ou po­dem usar uma mão para apontar para um lugar e a outras para apontar para outro (o monitor demonstra). Alguma pergun­ta? Então, quando eu contar até três, apontem para o lugar de onde vem sua esperança... 1, 2, 3.

Inevitavelmente, há uma diversidade de gestos que captam as visões das pesso­as acerca de sua esperança. À medida que olham ao redor da sala, os participantes começam a fazer perguntas uns aos outros e, às vezes, iniciam histórias. Algumas des­sas histórias sobre a esperança são conta­das ao grupo mais amplo, e a base cultural da esperança de cada pessoa fica mais evi­dente. A esperança, como a entendem as pessoas leigas, está claramente baseada em visões, valores e experiências.

Chang (1996a, 1996b), em uma sé­rie de estudos quantitativos sobre [95] otimismo em asiático-americanos e caucasianos, destacou a importância de se entender a equivalência dos constructos entre grupos culturais. Em um estudo, Chang (1996a) examinou a utilidade do otimismo e do pessimismo para predizer comportamentos em relação a solução de problemas, sintomas depressivos, sintomas psicológicos gerais e sintomas físicos. Em geral, os resultados desse estudo revelam que os asiático-ame­ricanos foram muito mais pessimistas do que os caucasianos (segundo o Extended life orientation test; Chang, Maydeu-Olivares e D’Zurilla,1997), mas não muito diferentes dos caucasianos em seu nível de otimismo. Essas conclusões foram corrobo­radas quando se examinaram dados de uma mostra independente (Chang, 1996b). Chang aponta para o fato de que suas con­clusões podem sugerir que os asiático-ame­ricanos são geralmente mais negativos em sua afetividade do que os cáucaso-americanos, exceto pelo fato de que o autor não encontrou diferenças significativas nos sin­tomas depressivos informados entre os dois grupos. Na verdade, o otimismo teve corre­lação negativa com os sintomas psicológicos e físicos gerais para os ásio-americanos, mas não para os cáucaso-americanos. Além dis­so, a solução de problemas apresentou correlação negativa com sintomas depressivos para ásio-americanos, mas nenhuma rela­ção para os caucasianos. Por fim, foi reve­lado que, enquanto o pessimismo apresen­tou correlação negativa com os comporta­mentos de solução de problemas para os caucasianos, a correlação para os ásio-ame­ricanos foi positiva.

Até mesmo em casos em que pessoas de diferentes origens usam estratégias co­muns de formas semelhantes, os benefícios dessas estratégias muitas vezes não são os mesmos. Sendo assim, devemos ter caute­la ao prescrever determinadas estratégias de coping que, na superfície, parecem ser de beneficio universal. Consideremos ou­tro exemplo: Shaw e colaboradores (1997) concluíram que o uso de quatro estraté­gias de coping parecia transcender a cultu­ra (ou eram valorizadas da mesma forma nas culturas) para parentes que eram cuidadores (os participantes de Xangai, na China, e de San Diego, nos Estados Uni­dos) que cuidavam de um ente querido que enfrentava a doença de Alzheimer. Essas quatro estratégias envolviam:

  1. agir;
  2. usar o apoio social;
  3. reavaliar cognitivamente situações da vida; e
  4. negar os problemas de saúde e suas de­mandas ou evitar pensar a respeito.

Contudo, os benefícios dessas quatro estratégias não eram comuns entre dife­rentes grupos culturais. Os resultados eram coerentes com outras pesquisas que indi­cavam que as mesmas estratégias de coping têm efeitos específicos em cada cultura (Liu, 1986).

As discussões com clientes, junto com estudos quantitativos e qualitativos bem-delineados com participantes, podem ofe­recer bons dados sobre a equivalência dos constructos e processos positivos em dis­tintas culturas. Com esses dados na mão, seremos mais capazes de avaliar quais qualidades beneficiam a quem (em quais si­tuações) e quais intervenções positivas po­dem ajudar as pessoas a criar vidas melho­res para si.

A medida que os profissionais tentam aprimorar as qualidades em grupos cultu­ralmente diversificados de pessoas (vide o Capítulo 15, junto com Linley e Joseph [2004] para discussões sobre psicologia po­sitiva na prática), devemos nos fazer e res­ponder a seguinte pergunta: “O que funciona para quem?”.

Determinando as bases do bem-viver

Como foi sugerido na seção anterior, as visões culturais das pessoas em relação a perdão, esperança, otimismo, enfrentamento, independência, coletivismo, [96] espiritualidade, religião e muitos outros tópicos podem ter influência sobre como determi­nadas qualidades funcionam em suas vidas, como elas respondem a esforços para aprimorar qualidades pessoais e quais re­sultados na vida elas valorizam. Nossa ver­são de uma história comum, que chama­mos de “O sábio do golfo”, corporifica al­gumas dessas questões. 

As visões sobre o bem-viver são cons­truídas pessoalmente ao longo de nossa vida. No início, temos demandas naturais que persistem, como comer e dormir, e, à medida que nos tomamos mais cônscios de nosso entorno, vinculamos nossas deman­das naturais a outras, culturais, como co­mer determinados alimentos e adotar ri­tuais para dormir. Esse vínculo de nossas necessidades naturais com as influências culturais define os contornos de nosso dia a dia (Baumeister e Vohs, 2002). A partir das experiências de nosso cotidiano, cons­truímos nossas visões pessoais sobre o que é a vida e formamos visões de mundo (Koltko-Rivera, 2004), ou “forma[s] de des­crever o universo e a vida nele, tanto em termos do que é quanto do que deveria ser” (p. 4). Teoricamente, nossa visão pessoal do mundo define quais motivações e com­portamentos são desejáveis e quais são in­desejáveis e, em última análise, quais ob jetivos de vida deveriam ser buscados (Koltko-Rivera). Dado que nossas experiên­cias culturais podem estar intrinsecamente ligadas ao que consideramos como as bases do bem-viver, seria razoável crer que todas as pessoas (no mundo) desejam a fe­licidade (como a definem os psicólogos positivos norte-americanos; vide o Capítu­lo 7)? Ou há resultados na vida que são tão valorizados e valorizáveis quanto a fe­licidade? Essas são perguntas que podem ser exploradas em uma discussão casual entre amigos (recomendamos que você a faça), mas também devem ser examinadas empiricamente. Uma pesquisa mundial rea­lizada com rigor científico, como a que está atualmente sendo promovida pela Organi­zação Gallup, pode esclarecer as grandes esperanças das pessoas. O futuro trabalho e a pesquisa em psicologia positiva tam­bém devem levar em consideração a possi­bilidade de que as forças culturais influen­ciem aquilo que os indivíduos consideram como as bases do bem-viver.

Reflexões finais sobre a complexidade das influências culturais

A psicologia e os futuros psicólogos positivos continuarão a lutar para enten­der a complexidade das influências cultu­rais sobre o desenvolvimento e a manifes­ tação das características pessoais positivas e os resultados desejáveis na vida. A di­versidade cultural cada vez maior dos Estados Unidos, junto com rápidos avan­ços tecnológicos que facilitam nossa interação com pessoas de todo o mundo (Friedman, 2005), irá ultrapassar o ritmo de nossas descobertas sobre os papéis es­pecíficos que as culturas cumprem na psi­cologia. Dado que não se pode ter certeza em relação a questões como a universali­dade de determinadas qualidades ou ate onde a cultura modifica a forma como uma qualidade se manifesta, devemos fazer o melhor que pudermos para determinar se e como “a cultura é importante” em cada interação com um cliente ou participantes de pesquisa.

Os avanços em direção ao objetivo de levar em conta a cultura como influência básica no desenvolvimento e na manifes­tação das qualidades e do bem-viver hu­manos em nossas pesquisas e em nossa prática podem ser mais facilitados quando se tem consciência daquilo em que se acre­dita em termos da interação entre fenôme­nos culturais e psicológicos. Por meio de nossas experiências pessoais e profissionais, temos feito alguns progressos no sentide de situar o positivo em um contexto cultu­ral. Nossas atuais visões ou pressupostos se baseiam no que se sabe e no que não se sabe sobre qualidades e cultura humanas... e estão definitivamente abertas à análise crítica e ao debate. Em primeiro lugar, a qualidade psicológica é universal. Em di­versas épocas, lugares e culturas, a maio­ria das pessoas desenvolveu e refinou qua­lidades extraordinárias que promovem a adaptação e a busca de uma vida melhor. Em segundo, não há qualidades universais. Embora a maioria das pessoas as manifes­te, a natureza da manifestação difere sutilmente e nem tanto em diferentes épo­cas, lugares e culturas. Em terceiro lugar, os contextos afetam a forma como as qua­lidades são desenvolvidas, definidas, ma­nifestadas e aprimoradas, e nosso enten­dimento desses contextos contribui para uma apresentação diversificada da [98] capacidade humana. A história, a passagem do tempo, a cultura, as situações e os am­bientes, as perspectivas profissionais e as potencialidades humanas são determina­das reciprocamente. Quarto, a cultura é reflexo e determinante dos objetivos de vida que valorizamos e buscamos. O bem-viver está na mente de quem o vivência, e a visão daquilo que é importante será a força motriz de nossos objetivos na vida.

8/7/2020 6:17:55 PM | Por Gregory J. Feist
Conceito psicanalítico de humanidade

A primeira delas [dimensões do conceito de humanidade] é determinismo versus livre-arbítrio. Se­gundo essa dimensão, a visão de Freud da natureza humana recairia facilmente no determinismo. Freud acreditava que a maior parte de nosso comportamento é determinada por eventos passados, em vez de moldada por objetivos presentes. Os humanos possuem pouco controle sobre suas ações pre­sentes, porque muitos de seus comportamentos estão enrai­zados nos esforços inconscientes que se encontram subjacen­tes à consciência presente. Mesmo que as pessoas, em geral, acreditem que estão no controle das próprias vidas, Freud insistia em que tais crenças eram ilusões.

A personalidade adulta é em grande parte determinada pelas experiências da infância - especialmente o complexo de Édipo -, que deixaram seus resíduos na mente inconsciente. Freud (1917/1955a) sustentava que a humanidade, ao longo de sua história, sofreu três grandes golpes em seu ego narcisista. O primeiro foi a redescoberta por Copérnico de que a Terra não é o centro do universo; o segundo foi a descoberta de Darwin de que os humanos são muito semelhantes a outros animais; o ter­ceiro golpe, e com maiores danos, foi a descoberta de Freud de que não estamos no controle de nossas próprias ações ou, como ele dizia, “o ego não é o mestre de sua própria casa" (p. 143).

Uma segunda questão relacionada é pessimismo versus otimismo. De acordo com Freud, ingressamos no mundo em um estado básico de conflito, com as forças de vida e morte operando em nós de lados opostos. O desejo inato de morte incessantemente nos impulsiona para a autodestruição ou a agressão, enquanto o impulso sexual nos faz buscar de modo cego o prazer. O ego experimenta um estado mais ou menos permanente de conflito, tentando equilibrar as demandas contraditórias do id e do superego, enquanto, ao mesmo tempo, faz concessões ao mundo externo. Sob o fino verniz da civilização, somos bestas selvagens com a tendência natu­ral a explorar os outros para a satisfação sexual e destrutiva. O comportamento antissocial se encontra logo abaixo da su­perfície mesmo da pessoa mais pacífica, acreditava Freud. Pior ainda, não estamos normalmente conscientes das ra­zões para nosso comportamento, nem estamos conscientes do ódio que sentimos por nossos amigos, família e aman­tes. Por essas razões, a teoria psicanalítica é essencialmente pessimista.

Uma terceira abordagem para referir a humanidade é a dimensão causalidade versus teleologia. Freud acreditava que o comportamento presente é, sobretudo, moldado por causas passadas, em vez de pelos objetivos para o futuro. As pessoas não avançam em direção a um objetivo autodeterminado; em vez disso, elas estão, de forma indefesa, presas na luta entre Eros e Tanatos. Esses dois impulsos poderosos forçam as pessoas a repetirem compulsivamente padrões primitivos de comportamento. Quando adultas, seu compor­tamento é uma longa série de reações. As pessoas tentam constantemente reduzir a tensão; aliviar as ansiedades; re­primir experiências desagradáveis; regressar a estágios do desenvolvimento anteriores mais seguros; e repetir de modo compulsivo comportamentos que são familiares e seguros. Portanto, classificamos a teoria de Freud como muito alta em causalidade.

Na dimensão consciente versus inconsciente, a teoria psi­canalítica, é óbvio, tende fortemente na direção da motivação inconsciente. Freud acreditava que tudo, desde os lapsos de linguagem até as experiências religiosas, é resultado de um desejo profundamente enraizado de satisfazer os impulsos sexuais ou agressivos. Esses motivos nos tornam escravos do nosso inconsciente. Ainda que tenhamos consciência de nossas ações, Freud acreditava que as motivações subjacentes a essas ações estavam profundamente incorporadas em nosso inconsciente, sendo, com frequência, muito diferentes do que acreditamos que sejam.

Uma quinta dimensão são as influências sociais versus biológicas. Como médico, o treinamento de Freud o predispôs a ver a personalidade humana a partir de um ponto de vista biológico. No entanto, Freud (1913/1953, 1985) frequente­mente especulava acerca das conseqüências das unidades so­ciais pré-históricas e sobre as conseqüências das experiências sociais precoces de um indivíduo. Como Freud acreditava que muitas fantasias e ansiedades infantis estavam enraizadas na biologia, nós o classificamos como baixo em influências sociais.

A sexta é a questão da singularidade versus semelhanças. Nessa dimensão, a teoria psicanalítica assume uma posição intermediária. O passado evolutivo da humanidade dá origem a muitas semelhanças entre as pessoas. No entanto, as expe­riências individuais, em especial aquelas do início da infância, moldam as pessoas de uma maneira única e explicam muitas das diferenças entre as personalidades.

7/26/2020 4:21:00 PM | Por Shane J. Lopez
Os princípios do prazer

Parado diante de um pequeno auditório, Ed Diener, psicólogo da Universidade de Illinois e pesquisador do tema da felicida­de, com renome mundial, segurava um cérebro de verdade em um frasco conten­do um líquido azul, que ele chamava de “suco da alegria” e que gotejava de um sa­quinho plástico segurado de cima. Ele pe­dia ao público que fingisse que seu cére­bro poderia ser tratado com um hormônio (ou seja, o suco da alegria) que deixaria as pessoas em um êxtase de felicidade, e elas poderiam se sentir felizes todo o tempo. Aí, ele fazia a pergunta fundamental: “Quantas pessoas nesta sala gostariam de fazer isso?”. Dos 60 presentes, só duas levanta­ram a mão para indicar seu desejo de feli­cidade perpétua.

Como eu (S.J.L.) tive pouco acesso a textos filosóficos e como minha formação de graduação e pós-graduação em psico­logia não me propiciou conhecer a ciência da felicidade, não havia pensado muito so­bre o tema em suas muitas formas. A per­gunta do Dr. Diener me deixou intrigado, e, desde que assisti à sua palestra em 1999, tenho tentado desenvolver uma com­preensão melhor do lado positivo da expe­riência emocional, o que me levou à pes­quisa sólida da qual apresento aqui um resumo.

Neste capítulo, tento acrescentar al­go ao que você sabe sobre prazer, indo muito além do prin­cípio do prazer de Freud (1936) (a de­manda pela satisfa­ção de uma neces­sidade instintiva, in­dependentemente das conseqüências) e estimulando a com­preensão dos muitos princípios de prazer que têm sido relacionados ao bem-viver. Nesse processo, apresentamos o que já se sabe sobre aquilo que torna a vida moderna prazerosa. Também resumimos pesqui­sas que examinam as distinções entre afeto positivo e negativo. Da mesma forma, des­tacamos as emoções positivas e seus bene­fícios para a expansão do prazer, e explora­mos as muitas definições de felicidade e bem-estar, qualidades do viver prazeroso. Para começar, esclarecemos os diversos ter­mos e conceitos que usamos neste capítulo. [123]

Definindo termos emocionais

Os termos afeto e emoção costumam ser usados de forma intercambiável em li­teraturas acadêmicas e populares, e bem-estar e felicidade parecem ser sinônimos em artigos de psicologia. Infelizmente, contu­do, o uso intercambiável desses termos causa muita confusão. Embora tentemos esclarecer as distinções entre essas idéias intimamente relacionadas, reconhecemos que há coincidências. Começamos sugerin­do que o afeto é um componente da emo­ção e que a emoção é uma versão mais es­pecífica do humor.

Afeto

O afeto é a resposta fisiológica ime­diata de uma pessoa a um estímulo e ge­ralmente se baseia em uma sensação subjacente de excitação. Especificamente, o professor Nico Frijda (1999) argumen­tou que o afeto envolve a avaliação de um evento como prazeroso ou doloroso - ou seja, sua Valencia - e a experiência da exci­tação autonômica.

Emoção

E difícil encontrar definições parcimoniosas de emoção, mas esta parece des­crever o fenômeno de forma sucinta: “As emoções, devo dizer, envolvem julgamen­to em relação a coisas importantes, julga­mentos esses nos quais, avaliando um ob­jeto externo como sendo importante para nosso próprio bem-estar, reconhecemos nossa própria carência e imperfeição dian­te de partes do mundo que não controla­mos por inteiro” (Nussbaum, 2001, p.19). Essas respostas emocionais ocorrem ao nos tornarmos cientes de experiências doloro­sas ou prazerosas e com a excitação autonô­mica associada a elas (ou seja, afeto; Frijda, 1999), e avaliamos a situação. Uma emo­ção tem uma qualidade específica e “moldada”, dado que sempre tem um objeto (Fredrickson, 2002) e está associada ao avanço na busca de objetivos (Snyder et al., 1991; Snyder, 1994). Por outra pers­pectiva, um humor não tem objeto, é livre e duradouro.

Felicidade

A felicidade é um estado emocional positivo, subjetivamente definido por um pessoa. O termo raramente é usado em estudos científicos, pois há pouco consen­so em relação a seu significado. Neste capítulo, o termo somente será utilizado quando for esclarecido por meio de informações complementares.

Bem-estar subjetivo

O bem-estar subjetivo é a avaliação subjetiva da própria situação atual no mun­do. Mais especificamente, Diener (198- 2000; Diener, Lucas e Oishi, 2002) define o bem-estar subjetivo como uma combi­nação de afeto positivo (na ausência de afeto negativo) e satisfação geral com a vida (isto é, a apreciação subjetiva das gra­tificações da vida). A expressão bem-estar subjetivo é muito usada como sinônimo de felicidade na literatura de psicologia. Qua­se sem exceção, a palavra felicidade, mais acessível, é usada na imprensa popular no lugar da expressão bem-estar subjetivo.

Diferenciando o positivo do negativo

Hans Selye (1936) é conhecido por sua pesquisa sobre os efeitos da exposição prolongada ao medo e à raiva. Repetida­mente, ele concluiu que o estresse fisioló­gico prejudicava o corpo, ainda que tenha valor de sobrevivência para os seres huma­nos. De fato, as funções evolutivas do medo têm intrigado pesquisadores e leigos. [124] Considerando-se a tradição histórica e as des­cobertas científicas relativas aos efeitos negativos, sua importância em nossas vi­das não foi questionada no decorrer do úl­timo século.

Historicamente, os afetos positivos têm recebido pouca atenção, de um século para cá, porque poucos estudiosos traba­lharam com a hipótese de que as gratifica­ções de alegria e contentamento iam além dos valores hedonistas [baseados no pra­zer), podendo ter alguma importância evolutiva. As potencialidades do afeto posi­tivo ficaram mais evidentes nos últimos 20 anos (Fredrickson, 2002) à medida que a pesquisa traçou distinções com o negativo.

David Watson (1988), da Universida­ de de Iowa, realizou pesquisas sobre as motivações do afeto prazeroso voltado à aproximação - incluindo estudos rigorosos de afetos negativos e positivos. Para facili­tar sua pesquisa sobre as duas dimensões da experiência emocional, Watson e sua colaboradora Lee Anna Clark (1994) desen­volveram e validaram a Forma Ampliada da Escala de Afeto Positivo e Negativo (Positive and Negative Affect Scale - PANAS-X), que se tornou uma medida muito utilizada nessa área. Essa escala de 20 itens já foi usada em centenas de estu­dos para quantificar duas dimensões do afeto: Valencia e conteúdo. Mais especifi­camente, a PANAS-X trata da valência “ne­gativa” (desagradável) e “positiva” (agra­dável). O conteúdo dos estados de afeto negativo pode ser mais bem descrito como desconforto geral, ao passo que o afeto positivo inclui jovialidade, autoconfiança e uma postura atenciosa. (Vide a PANAS, predecessora da PANAS-X, que é curta e válida para a maioria dos propósitos clíni­cos e de pesquisa.)

Usando a PANAS e outras medidas de "afeto, os pesquisadores têm tratado siste­maticamente de uma questão básica: “Po­demos vivenciar afetos negativos e positi­vos ao mesmo tempo?” (vide Diener e Emmons, 1984; Green, Salovey e Truax, 1999.) Por exemplo, pode-se ir assistir a um filme envolvente e sair sentindo prazer e medo? Embora os afetos positivos e ne­gativos fossem con­siderados, anterior­mente, como polos opostos, Bradburn (1969) demonstrou que ambos são in­dependentes e têm correlates diferentes. Psicólogos como Wat­son (2002) continuam
a examinar essa ques­tão da independência em suas pesquisas. Em um estudo recente, ele concluiu que existe correlação do afeto negativo com a jovialidade, a autoconfiança e a postura atenciosa em apenas -0,21, -0,14 e -0,17, respectivamente. As baixas magnitudes dessas correlações negativas sugerem que, embora o afeto negativo e positivo este­jam inversamente correlacionados, como era de se esperar, as relações são bastante frágeis e indicam independência dos dois tipos de afeto. O tamanho dessas relações, contudo, pode aumentar quando as pes­soas são submetidas aos fatores de estresse diários (Keyes e Ryff, 2000; Zautra, Potter e Reich, 1997).

Emoções positivas: expandindo o repertório do prazer

À medida que alguns psicólogos refi­nam a distinção entre os lados positivo e negativo da experiência emocional por meio de pesquisa básica e medição, outros estudiosos (por exemplo, Isen, Fredrick­ son) começaram a explorar questões so­bre a potência e as potencialidades das emoções positivas. (Nesse caso, usamos o termo emoção em lugar de afeto porque estamos nos referindo às tendências de res­posta específicas que fluem da experiência do afeto.) A psicóloga da Universidade de [125] Cornell, Alice Isen, é pioneira no exame das emoções positivas. A Dra. Isen concluiu que, ao vivenciar experiências positivas moderadas, temos mais probabilidades de:

  1. ajudar outras pessoas (Isen, 1987);
  2. ser flexíveis em nosso pensamento (Ashby, Isen e Turken, 1999) e
  3. produzir soluções para nossos proble­mas (Isen, Daubman e Nowicki,1987).

Em pesquisas clássicas relacionadas a esses aspectos, Isen (1970; Isen e Levin, 1972) realizou uma manipulação experi­mental na qual os participantes encontra­ram ou não moedas (colocadas ali pelos pesquisadores) na abertura para devolu­ção de um telefone público. Comparados aos que não encontraram a moeda, os que encontraram tiveram mais probabilidades de ajudar uma pessoa a carregar uma pi­lha de livros ou juntar papéis que caíram no chão. Sendo assim, encontrar uma moe­da e sentir a emoção positiva associada a isso fizeram que as pessoas se comportas­ sem de maneira mais altruísta.

Sentir emoções positivas também po­de ajudar a enxergar opções para solucio­nar problemas e descobrir pistas para to­mar boas decisões (Estrada, Isen e Young, 1997). Em um estudo relacionado a esses aspectos, os pesquisadores designaram aleatoriamente médicos a uma condição experimental na qual receberam ou não um saquinho contendo seis balas e quatro cho­colates (eles não podiam comer os doces durante o experimento). Os médicos que receberam o presente apresentaram raciocínio e tomada de decisões superiores em relação aos que não o receberam. Especifi­camente, os médicos na condição de emo­ção positiva não tiraram conclusões preci­pitadas, e sim foram cautelosos, ainda que tenham chegado ao diagnóstico mais rapi­damente do que os que estavam na outra condição (Alice Isen, comunicação pessoal, 13 de dezembro de 2005). Talvez devêsse­mos levar uns doces ao nosso médico na próxima vez que formos consultar!

Aqui, uma descrição mais detalhada do estudo que nos levou a essa sugestão descontraída. (Embora a Dra. Isen use o termo afeto, acreditamos que emoção seria o termo mais adequado nesse caso.) 

Quarenta e qua­tro médicos fo­ram designados aleatoriamente a um entre três grupos: um gru­po de controle, um grupo com indução de afe­tos (esses parti­cipantes rece­beram um sa­quinho com do­ces) ou um gru­po cujos participantes deveriam ler declarações humanistas com relação à prática da medicina. Pediu-se que os [127] médicos em todos os três grupos “pensassem em voz alta” enquanto chegavam a uma solução para um paciente com problemas no fígado. As transcrições dos comentá­ rios dos médicos foram digitadas, e dois avaliadores analisaram as transcrições para determinar com que rapidez o diag­ nóstico de doença do fígado foi cogitado e definido, bem como até onde o pensa­ mento foi distorcido e inflexível. O grupo do afeto, inicialmente, cogitou o diagnós­ tico de doença do fígado em um momen­ to bastante precoce do experimento e de­ monstrou pensamento muito menos in­ flexível do que os controles. Os grupos de afeto e de controle definiram o diagnósti­ co em momentos semelhantes do experi­ mento. Dessa forma, o afeto positivo le­ vou a uma integração anterior da infor­ mação (cogitar a doença do fígado antes) e resultou em pouca definição prematura do diagnóstico.

Partindo do trabalho de Isen, Fre­drickson (2000) desenvolveu uma nova es­trutura teórica, o modelo potencia­lizar e construir, que pode oferecer algumas explicações para os robustos efei­tos sociais e cogni­tivos das experiên­cias emocionais po­sitivas. Na revisão que fez de modelos de emoções (Smith, 1991), Fredrickson concluiu que as res­postas às emoções positivas não haviam sido muito estuda­das e que, quando isso aconteceu, elas ha­viam sido examinadas de forma vaga e pou­co especificada. Além disso, as tendências à ação geralmente estiveram associadas a reações físicas às emoções negativas (mais uma vez, imagine “fugir ou lutar”), ao pas­so que as emoções humanas às emoções positivas costumam ser mais cognitivas do que físicas. Por essas razões, a autora pro­pôs descartar o conceito de tendência à ação específica (que sugere uma faixa res­trita de possíveis opções comportamentais) em favor do termo mais novo e mais includente repertórios de pensamentos- ações momentâneos (que sugere uma ampla gama de opções comportamentais: imagine “tirar a venda” e ver as oportuni­dades disponíveis).
Para ilustrar as diferenças naquilo que segue às emoções positivas e negativas, veja a experiência de infância de um dos autores (S.J.L.). Observe como as emoções po­sitivas (por exemplo, excitação e alegria) levaram à flexibilidade cognitiva e à cria­tividade, ao passo que as emoções negativas (como o medo e a ansiedade) estão li­gadas a uma resposta de fuga e à finali­zação das atividades.

Em uma visita à casa de minha avó, em um sábado à noite, diverti-me muito jo­gando videogames e brincando de escon­der com meu irmão e quatro primos. As horas de brincadeiras levavam a excita­ção e muitas risadas..., e à criação de no­vas regras e obstáculos para o jogo. A ale­gria desmedida que sentimos naquela tar­de nos fez sentir livres, parecia que aque­le dia duraria para sempre. Infelizmente, a diversão foi interrompida. O final súbi­to chegou quando meu primo Bubby me viu escondido atrás do capim alto, nos fundos da propriedade de minha avó. Saí como uma bala de meu esconderijo para escapar dele. Ao correr pela casa, acabei entrando no terreno baldio do vizinho. Rindo com alegria, corri o máximo que pude. De repente, um obstáculo estava no meu caminho. Pulei sobre ele enquanto Bub gritava descontrolado. Quando me virei, vi que havia pulado sobre um trigonocéfalo de mais de um metro, uma cobra altamente venenosa. O meu primo continuava a gritar, e eu ia ficando cada vez mais nervoso. Sem pensar, afastamo-nos da cobra... e corremos para salvar nossas vidas. Quando finalmente paramos de correr, não conseguíamos recuperar o fôlego. Ninguém estava machucado, mas nosso medo e nossa ansiedade haviam aca­bado com a diversão do dia. [128]

Ao testar seu modelo de emoções po­sitivas, Fredrickson (2000) demonstrou que a experiência da alegria amplia os domínios daquilo que uma pessoa tem vontade de fazer no momento, o que se chama de ampliação do repertório momentâneo de pensamentos-ações de um indivíduo. De­ pois de um filme curto com emoção (os curtas induziam uma entre cinco emoções: alegria, contentamento, raiva, medo ou uma condição neutra), pediu-se que os par­ticipantes da pesquisa listassem tudo o que gostariam de fazer no momento (vide os resultados na Figura 7.1).

Os participantes que vivenciaram ale­gria ou contentamento listaram bem mais possibilidades desejadas do que as pessoas nas condições neutra ou negativa. Essas possibilidades ampliadas para atividades futuras, por sua vez, deveriam levar os in­divíduos alegres a iniciar ações subsequentes. Os que expressaram emoções mais ne­gativas, por outro lado, tenderam a encer­rar seu pensamento sobre possíveis ativi­dades subsequentes. Dito de forma simples, a alegria parece nos abrir para muitos pen­samentos e comportamentos, ao passo que as emoções negativas desanimam nossas idéias e ações.

A alegria também aumenta nossa pro­babilidade de nos comportarmos positiva­mente em relação a outras pessoas, assim como desenvolver mais relacionamentos positivos. Além disso, a alegria induz à ati­vidade lúdica (Frijda, 1994), que é muito importante porque esses comportamentos são evolutivamente adaptativos na aquisi­ção dos recursos necessários. A atividade lúdica juvenil forma:

  1. recursos sociais e intelectuais duradou­ros ao estimular o vínculo;
  2. níveis mais elevados de criatividade e
  3. desenvolvimento cerebral(Fredrickson, 2002).

Parece que, por intermédio dos efei­tos dos processos de ampliação, as emo­ções positivas também podem ajudar a construir recursos. Em 2002, Fredrickson e seu colega Thomas Joiner demonstraram esses fenômenos de fortalecimento ao ava­liar as emoções positivas e negativas das pessoas e seu enfrentamento com uma mente aberta (resolver problemas por meios criativos) em duas ocasiões, com cin­co semanas de distância. Os pesquisado­res concluíram que os níveis iniciais de emoções positivas indicavam aumentos gerais na solução criativa de problemas. Tais mudanças de enfrentamento também indicavam mais aumentos nas emoções po­sitivas (vide a Figura 7.2).

Da mesma for­ma, controlando os níveis iniciais de emo­ção positiva, os níveis iniciais de enfrentamento indicavam aumento nas emoções positivas, o que, por sua vez, indicava aumentos no enfrentamento. Esses resulta­dos confirmaram ser verdadeiros apenas para emoções positivas, e não para as [130] ne gativas. Assim, as emoções positivas, como a alegria, podem ajudar a gerar recursos e manter uma sensação de energia vital (ou seja, mais emoções positivas).

Fredrickson (2002) se referiu a essa seqüência positiva como a “espiral ascen­dente” das emoções positivas (vide a Figu­ra 7.3). [131]

Ampliando seu modelo de emoções positivas, Fredrickson e colaboradores exa­minaram o potencial para “desfazer” que as emoções positivas têm (Fredrickson, Mancuso, Branigan e Tugade, 2000) e a re­lação entre experiências emocionais posi­tivas e negativas que está associada à prosperidade humana (Fredrickson e Losada, 2005). Fredrickson e colaboradores (2000) levantaram a hipótese de que, dados a am­pliação e os efeitos de fortalecimento das emoções positivas, a alegria e o contenta­mento podem funcionar como antídotos às negativas.

Para testar essa hipótese, os pesqui­sadores expuseram todos os participantes de seu estudo a uma situação que gerava emoção negativa e, imediatamente após, designaram as pessoas, aleatoriamente, a condições de emoção (desencadeadas por vídeos evocativos) que iam da alegria mo­derada à tristeza. A recuperação cardio­ vascular representou o processo de desfa­zer e foi operacionalizada como o tempo que passou desde o início do vídeo a que as pessoas foram aleatoriamente designa­das até que as reações psicológicas indu­zidas pela emoção negativa inicial retor­nassem ao ponto inicial. A hipótese do des­fazer foi sustentada, dado que os partici­pantes das condições de alegria e conten­tamento conseguiram desfazer os efeitos das emoções negativas mais rapidamente do que as pessoas nas outras condições. Essas descobertas sugerem que há uma in­compatibilidade entre emoções positivas e negativas e que os efeitos potenciais das experiências negativas podem ser compensados por emoções positivas, como alegria e contentamento.

Considerando-se que as emoções po­sitivas ajudam as pessoas a construir re­cursos duradouros e a se recuperar de ex­periências negativas, Fredrickson e Losada (2005) formularam a hipótese de que as emoções positivas estejam associadas a uma saúde mental ideal ou à prosperidade*' (bem-estar psicológico e social; vide o modelo de saúde mental completo - pá­gina 220). Ao submeter à análise matemá­tica os dados sobre a saúde mental de par­ticipantes que eram estudantes de gradua­ção (relativos a uma medida de prosperi­dade) e sua experiência emocional (os es­tudantes classificaram o nível em que vivenciaram 20 emoções a cada dia, por 28 dias), os pesquisadores concluíram que uma razão média de 2:9 entre emoções positivas e negativas é um fator de predição de prosperidade humana. Essa conclu­são oferece informações de diagnóstico sobre os efeitos das experiências emocio­nais cotidianas sobre nossa saúde mental.

Felicidade e bem-estar subjetivos: vivendo uma vida prazerosa

Definições muito antigas de felicidade

Buda saiu de casa em busca de uma existência com mais sentido e acabou en­contrando a iluminação, uma sensação de paz e felicidade. Aristóteles acreditava que a eudaimonia (a prosperidade humana as­sociada a uma vida de virtudes) ou a felici­dade baseada em toda uma vida em busca de objetivos de desenvolvimento que se­jam plenos de sentido (ou seja, fazer o que vale a pena fazer) era a chave para o bem-viver (Waterman, 1993). Os fundadores da nação estadunidense argumentaram que a bus­ca da felicidade era tão importante quanto nossos direitos inalienáveis à vida e à li­berdade. Essas definições muito antigas de felicidade, junto com muitas outras conceituações de bem-estar emocional, têm [132] influências claras sobre as visões de estudio­sos dos séculos XX e XXI, mas as teorias psicológicas e as pesquisas genéticas mais recentes nos ajudaram a esclarecer a feli­cidade e seus correlatos.

As teorias da felicidade foram dividi­das em três grupos:

  1. teorias da satisfação de necessidades e objetivos;
  2. teorias de processo/atividade; e
  3. predisposição genética/personalidade (Diener et al., 2002). 

Em relação às teorias de satisfação de necessidades/objetivos, os líderes de determinadas escolas de psicoterapia pro­feriram essas idéias em relação à felicida­de. Por exemplo, teóricos da psicanálise e humanistas (Sigmund Freud e Abraham Maslow, respectivamente) sugeriram que a redução da tensão ou a satisfação das necessidades levaria à felicidade. Resumin­do, teorizou-se que somos felizes porque atingimos nossos objetivos. Essa “felicida­de da satisfação” faz da felicidade uma meta de nossas buscas psicológicas.

No campo dos processos/atividades, as teorias postulam que se envolver em de­terminadas atividades na vida gera felici­dade. Por exemplo, Mike Csikszentmihalyi, que foi um dos primeiros teóricos do sé­culo XX a examinar as conceituações de felicidade baseadas em processos/atividades, propôs que as pessoas que experi­mentam sensações de flow (envolvimento em atividades interessantes que correspondem ou desafiam suas habilidades relacio­nadas a tarefas) na vida cotidiana tendiam a ser muito felizes. Na verdade, o trabalho
de Csikszentmihalyi (Csikszentmihalyi, 1975/2000, 1990) sugere que o engaja­mento em uma atividade produz felicida­de. Outros teóricos dos processos/ativida­des (como Emmons, 1986; Snyder, 1994) enfatizaram como o processo de ir em bus­ca de objetivos gera energia e felicidade. Essa perspectiva de busca pela felicidade reflete a promessa dos fundadores da na­ ção americana, de “vida, liberdade e busca da felicidade”.
Os que defendem as teorias da feli­cidade baseadas em predisposições ge­néticas e da personalidade (Diener e Larsen, 1984; Watson, 2000) tendem a ver a felicidade como estável, ao passo que os teóricos dos campos da “felicidade como satisfação” e de processos/atividades a consideram como algo que muda com as con­dições de vida. Sobre essa questão, Costa e McCrae (1988) concluíram que a felicida­de mudou pouco em um período de 6 anos, dando credibilidade a teorias de felicidade como algo baseado na personalidade ou na biologia. Demonstrando esse vínculo entre felicidade e personalidade, Lucas e Fujita (2000) apontaram que a extroversão e o neuroticismo, dois dos cinco grandes fatores de personalidade (abertura, conscienciosidade, extroversão, agradabilidade, neuroticismo), estavam intimamente rela­cionados às características da felicidade.

Estudos dos determinantes biológicos ou genéticos da felicidade concluíram que até 40% da emocionalidade positiva e 55% da negativa são de base genética (Tellegen et al., 1988). Obviamente, isso deixa cerca de 50% da discordância na felicidade que não é explicada por componentes biológicos. Por­ tanto, em termos gerais, uma compreensão minuciosa da felicidade necessita de um exa­me dos fatores genéticos e das variáveis su­geridas pelos teóricos da satisfação de neces­sidades/objetivos e de atividades/processos.

Bem-estar subjetivo como sinônimo de felicidade

Partindo de uma tradição utilitária e dos preceitos da psicologia hedonista (que [133] enfatiza o estudo do prazer e da satisfação na vida), Diener (1984; 2000; Diener et al., 2002) considera o bem-estar como a avaliação subjetiva da própria situação no mundo. Mais especificamente, o bem-es­tar envolve nossa experiência de prazer e nossa apreciação das recompensas da vida. A partir dessa visão, Diener define o bem-estar subjetivo como uma combinação de afeto positivo (na ausência de afeto nega­tivo) e satisfação geral com a vida. Mais além, o autor usa a expressão bem-estar subjetivo como sinônimo de felicidade. (O componente de satisfação costuma ser me­dido com a Escala de satisfação com a vida, a Satisfaction with life scale; Diener, Emmons, Larsen e Griffin, 1985).

O bem-estar subjetivo enfatiza os re­latos das pessoas acerca de suas experiên­cias de vida. Nessa linha, o relato subjeti­vo é aceito como valor nominal. Esse en­foque subjetivo parte do pressuposto de que as pessoas de muitas culturas estão confortáveis ao tratar de avaliações individualistas de seu afeto e sua satisfação, e de que as pessoas serão francas nessas aná­lises pessoais (Diener et al., 2002). Essas premissas orientam as tentativas dos pes­quisadores de entender as experiências subjetivas à luz de suas circunstâncias ob­ jetivas.

Determinantes do bem-estar subjetivo

Ao examinar a satisfação de estudan­tes universitários (de 31 países) em vários domínios da vida, os estudantes de países pobres apresentaram uma correlação mais alta entre situação financeira e satisfação do que os de países ricos (Diener e Diener, 1995). Além disso, as pessoas de países ri­cos geralmente estavam mais felizes do que as dos países empobrecidos. O exame en­tre nações desse vínculo entre renda e bem-estar revela que, uma vez que a renda sobe acima da linha de pobreza, mais crescimen­to na renda não está necessariamente as­sociado a aumento do bem-estar. Quando se dividem mais ainda os dados sobre bem-estar, por categorias de situação financei­ra (muito pobres e muito ricos), parece ha­ver uma forte relação entre renda e bem-estar entre os empobrecidos, mas uma re­lação insignificante entre as duas variáveis entre os prósperos (Diener, Diener e Diener, 1995).

Dados específicos de amostras ociden­tais indicam que tanto homens quanto mulheres casados informam ser mais feli­zes do que os que não são casados (que nunca o foram, divorciados ou separados; Lee, Seccombe e Shehan, 1991). A relação entre bem-estar subjetivo e ser casado se [134]  aplica a pessoas de todas as idades, níveis de renda e graus de instrução, bem como origens racial-étnicas (Argyle, 1987). Não surpreende que a qualidade conjugal tam­bém esteja associada positivamente ao bem-estar pessoal (Sternberg e Hojjat, 1997).

Em um estudo sobre os 10% mais fe­lizes entre os estudantes universitários nos Estados Unidos, Diener e Seligman (2003) concluíram que as qualidades de boa saú­de mental e bons relacionamentos sociais surgiam constantemente na vida dos jovens adultos mais felizes da amostra. Olhando seus dados mais de perto, as análises reve­laram que um bom funcionamento social entre o subconjunto de estudantes mais felizes era uma causa de felicidade neces­sária, mas não suficiente.

Felicidade + significado = bem-estar

Os psicólogos que sustentam a pers­pectiva hedonista consideram o bem-estar subjetivo e a felicidade como sinônimos. Por outro lado, os estudiosos cujas idéias sobre bem-estar são mais coerentes com as visões de Aristóteles em relação à eudaimonia acreditam que a felicidade e o bem-estar não são sinônimos. Formulado de maneira simples: bem-estar = felicidade + significado. Para concordar com essa úl­tima visão de bem-estar, deve-se entender a virtude e as implicações do comporta­mento diário. Mais além, essa visão requer que os que buscam o bem-estar sejam au­tênticos e vivam segundo suas reais neces­sidades e objetivos (W aterman, 1993). Dessa forma, levar uma vida eudaimônica vai além de vivenciar as “coisas prazero­sas”, cobrindo a prosperidade como obje­tivo de todas as nossas ações. As versões hedonista e eudaimônica da íelicidade têm influenciado as definições do século XXI.

Definições de felicidade do século XXI

A moderna psicologia ocidental tem se concentrado fundamentalmente em uma visão pós-materialista da felicidade (Diener et al., 2002) que enfatiza prazer, satisfação e significado na vida. Na verdade, o tipo de [137] felicidade tratada em grande parte da lite­ratura popular de hoje enfatiza hedonismo, significado e autenticidade. Por exemplo, Seligman (2002) sugere que, a partir da fe­licidade que resulta do uso de nossas quali­dades psicológicas, se pode construir uma vida prazerosa e dotada de sentido.

Ao descrever um novo modelo de fe­licidade, Lyubomirsky, Sheldon e Schkade (2005) propuseram que “o nível de felici­dade crônica de uma pessoa é comandado por três principais fatores: um ponto de partida geneticamente determinado, fa­tores circunstanciais relevantes e ativida­des e práticas relevantes para a felicidade” (p. 111). A “arquitetura da felicidade sus­tentável” de Lyubomirsky e colaboradores (p. 114) incorpora aquilo que se sabe sobre os componentes genéticos da felicidade, os seus determinantes circunstanciais/demográficos e o processo complexo de mudan­ça humana intencional. Com base em pes­quisas passadas, as quais resumem, Lyubo­mirsky e colaboradores propõem que a ge­nética responde por 50% da variância na população em termos de felecidade, ao pas­so que as circunstâncias de vida (sejam boas ou más) e a atividade intencional (tentati­vas de viver de forma saudável e de fazer mudanças positivas) respondem por cerca de 10% e 40% da variância na população em termos de felicidade, respectivamente. Esse modelo reconhece os componentes da felicidade que não podem ser mudados, mas também deixa espaço para volição e os objetivos autogerados que levam à ob­tenção de prazer, sentido e boa saúde.

Sem dúvida, os estudiosos do século XXI produzirão muitas outras visões mais refinadas acerca da felicidade. Nossa previ­são é que a busca de felicidade por meio da ciência da psicologia e da prática positi­vas acabarão por desenvolver um melhor entendimento dos correlatos e das bases genéticas (resumidos em Lyubomirsky et al., 2005), neurológicas (Urry et al., 2004) e neurobiológicas da felicidade, e assumi­rão o contentamento, a paz e a felicidade da filosofia oriental, junto com a sabedoria popular do mundo ocidental. Dessa forma, imagine uma ciência que seja baseada no que se conhece sobre as bases genéticas e biológicas da felicidade, e que examine o rigor e a relevância dos ensinamentos de Buda e, ao mesmo tempo, as recomenda­ções de Benjamin Franklin para um viver virtuoso (vide a Figura 7.4). Por intermédio de uma boa ciência biológica e psicológica, e uma apreciação universal das visões filo­sóficas da felicidade, pode-se elevar a rele­vância internacional de nossos estudos acadêmicos no campo da psicologia positiva.

A saúde mental completa: bem-estar emocional, social e psicológico

Ryff e Keyes (1995; Keyes e Lopez, 2002; Keyes e Magyar-Moe, 2003) combi­nam muitos princípios de prazer para defi­nir a saúde mental completa. Especifica­mente, os autores consideram o funciona­mento ideal como sendo a combinação de bem-estar emocional (que é como se referem ao bem-estar subjetivo, definido como a presença de afeto positivo e satis­fação com a vida e a ausência de afeto ne­gativo), bem-estar social (incorporando a aceitação, realização, contribuição, coe­rência e integração) e o bem-estar psico­lógico (combinando autoaceitação, crescimento pessoal, propósito na vida, domínio do ambiente, autonomia, relações positi­vas com outras pessoas). Levando-se em consideração os sintomas da doença men­tal, eles definem “saúde mental completa” como a combinação de “altos níveis de sin­tomas de bem-estar emocional, bem-estar psicológico e bem-estar social, bem como a ausência de doença mental recente” (Keyes e Lopez, 2002, p. 49).

Essa visão de doença mental combi­na todas as facetas do bem-estar em um modelo que é, a um só tempo, dimensional (porque reflete extremos de saúde mental e sintomatologia da doença) e categórico (porque é possível a atribuição a distintas categorias de diagnóstico). Esse modelo de estado completo (Keyes e Lopez, p. 49; vide a Figura 7.5) sugere que a saúde men­tal e os sintomas de doença mental combi­nados podem estar em permanente mudan­ça, resultando em flutuações do bem-estar geral, que vão desde a doença mental com­pleta até a saúde mental completa.

Aumentando a felicidade em sua vida

Embora haja diversas teorias da feli­cidade e incontáveis definições acerca dela (por exemplo, Sheldon e Lyubomirsky. 2004), os pesquisadores começaram a usar trabalhos anteriores (Fordyce, 1977,1983) em suas tentativas de responder à pergun­ta que nos fazem muitos de nossos clientes: “Posso aprender a ser mais feliz?”. David Myers (1993), especialista no [138] assunto e autor de The pursuit of happiness, apre­senta estratégias gerais para aumentar a felicidade em sua vida (vide a Figura 7.6). Apresentamos Estratégias para melhorar a vida, com vistas a elevar a felicidade em esferas específicas.

Avançando em direção ao positivo

É muito fácil encontrar os aspectos desagradáveis e negativos das emoções e disfunções na vida (Baumeister, Bratslavsky, Finkenhaur e Vohs, 2001). Tudo o que você precisa fazer é ler o jornal matinal ou assis­tir ao telejomal da noite. Nossa necessida­de humana de entender o negativo é gran­de, por causa do sofrimento e da perda as­sociados à raiva e ao medo, bem como das funções evolucionárias das estratégias de evitação. Embora os aspectos positivos das experiências emocionais raramente captem a atenção da mídia ou da ciência, isso está começando a mudar.

Apenas três décadas atrás, por exemplo, alguns bravos cientis­tas sociais (como Braàbum, 1969-, Meéhl, 1975) expuseram suas idéias sobre o lado mais leve da vida. Hoje em dia, sabemos que a circulação do “fluido da alegria” (o termo irreverente de Paul Meehl para aqui­lo que induz experiências emocionais pra­zerosas) e fatores biológicos são importan­tes, mas não definem toda a nossa experiên­cia emocional. Nas palavras de Diener e colaboradores (2002, p. 68), “parece que a forma como as pessoas percebem o mundo é muito mais importante para a felicidade do que as circunstâncias objetivas”. [139]

A visão de envelhecimento de um homem

Ao contrário de todas as expectativas, parece que fico mais feliz à medida que envelhe­ço. A imagem que os Estados Unidos venderam ao mundo é a de que a juventude é maravi­lhosa, mas a velhice é um horror. Ao contrário, levei 60 anos para aprender como viver razoavelmente bem, fazer meu trabalho e enfrentar minhas inadequações. Para mim, a juventude foi uma época difícil - pais doentes, guerra, uma relativa pobre­za, as dificuldades de aprender uma profissão, um casamento equivocado, dúvidas sobre mim mesmo e falta de rumo. A velhice se caracteriza por saber o que estou fazendo, respei­to pelos outros, uma base financeira relativamente segura, uma esposa amorosa e o enten­dimento de que aquilo que não posso vencer, posso aguentar.

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6/21/2018 9:20:16 PM | MenteCérebro n.141
Música por todos os sentidos

A percepção da música na antiguidade era muito mais abrangente no uso dos sentidos e na proposta de harmonização entre homem e universo.

Psicologia - Psicologia social
12/31/2019 3:55:18 PM | MenteCérebro, n.141
Imagens de um cérebro apaixonado

Com ajuda da ressonância magnética funcional, pesquisadores descobriram como o amor subverte nossa vida emocional. 

7/10/2020 7:16:58 PM | MenteCérebro, n.141
Mentira, um componente da inteligência social

Psicólogos, antropólogos e neurobiólogos confirmam: mentir não é apenas um processo cognitivo complexo, mas também um componente decisivo de nossa competência social.

5/1/2018 1:06:13 PM | MenteCérebro n.141
Riso, um instinto vital

A capacidade de rir é uma das características mais prazerosas dos humanos. Sinal de superioridade para Platão, ou a distância mais curta entre dois corações, como consideram os apaixonados, esse instinto primordial e irresistível tem seus mistérios.

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Em busca das melhores experiências

Perder a concentração, experimentar apatia ou tédio e nos sentir como se faltas­se direção em nossa vida são sinais de que não estamos nos envolvendo ativamente em nossas experiências cotidianas. E se usássemos esses sinais de falta de envolvi­mento como estímulos para dar início a buscas pela novidade, absorção e o sagra­do? Por exemplo, na próxima vez que você estiver dirigindo e perder a noção do cami­nho, tome isso como uma oportunidade de buscar a novidade nos próximos quilôme­tros de estrada. Quando você se pega pen­sando: “Estou entediado”, deixe-se perder na atividade que lhe traz mais flow. Por fim, quando se sentir sem metas, direcione sua atenção à busca pelo sagrado.

A prática do mindfulness, do flow e da espiritualidade pode ter benefícios para sua saúde psicológica e física, para seu de­sempenho acadêmico e profissional e para seu bem-estar social. Essas práticas podem ter um efeito mais profundo em nós. De fato, essas buscas podem nos levar a uma existência mais profunda, que seja cheia de sentido.

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Textos com indicação livre
9/19/2020 3:06:49 PM | Por
Espiritualidade, em busca do sagrado

Observar alguém envolvido em um comportamento cotidiano pode evocar [235] pensamentos sobre espiritualidade. Por exemplo, imagine uma imagem de uma mulher mais velha se ajoelhando com um olhar de total con­centração em seu rosto. Sua busca pe­lo sagrado (aquilo que é separado do comum e merecedor de veneração) pode ser deduzida a par­tir de seu comportamento; esse é o caso se, por trás da imagem da mulher, apare­cer um interior de igreja... ou se um jar­dim servir como pano de fundo. Essa bus­ca do sagrado pode acontecer em qualquer parte, em qualquer momento, porque, as­sim como o flow e o mindfulness, a espiri­tualidade é um estado mental, e é univer­salmente acessível.

A expressão busca do sagrado é uma descrição amplamente aceita de espiritua­lidade. (A religião e os comportamentos religiosos representam as muitas formas nas quais essa busca é organizada e [236] aprovada pela sociedade; por exemplo, pela participação em cultos religiosos e pela fre­quência e duração das orações.) Em 2000, Hill e colaboradores definiram a espiritua­lidade como sendo “os sentimentos, pen­samentos e comportamentos que surgem da busca do sagrado” Cp. 66). Pargament e Mahoney (2002) também definiram espiri­ tualidade como “uma busca do sagrado...” e aprofundaram, “as pessoas podem seguir um número praticamente ilimitado de ca­minhos em suas tentativas de descobrir e conservar o sagrado... os caminhos envol­vem sistemas de crenças que incluem os das religiões organizadas tradicionalmen­te (como a protestante, a católica romana, a judaica, a hindu, a budista, a muçulma­na), e os mais novos movimentos de espiri­tualidade (como o feminista, da deusa, eco­lógico, espiritualidades) e visões de mun­do mais individualizadas” (p. 647). Esses caminhos para o sagrado também podem ser descritos como lutas espirituais, que in­cluíam objetivos pessoais associados aos conceitos maiores de propósito, ética e reconhecimento do transcendente (Emmons, Cheung e Tehrani, 1998).

Os pesquisadores da psicologia con­cordam com a definição de espiritualidade a seguir, e há sustentação geral para a vi­são de que a espiritualidade é um estado mental positivo vivenciado pela maioria das pessoas. Peterson e Seligman (2004) afir­mam que a espiritualidade é uma qualida­de universal da transcendência, declaran­do que “embora o conteúdo específico das crenças espirituais varie, todas as culturas têm o conceito de uma força maior, trans­cendente, sagrada e divina” (p. 601). Da mesma forma, Pargament e Mahoney (2002) afirmam que a espiritualidade é uma parte vital da sociedade e da psicolo­gia dos Estados Unidos:

Em primeiro lugar, a espiritualidade é um “fato cultural” (cf. Shafranske e Malony, 1990): a ampla maioria dos norte-ameri­canos acredita em Deus (95%), acredita que Deus pode ser alcançado por meio da oração (86%) e acha que a religião lhe é importante ou muito importante (86%) (Gallup Organization, 1995; Hoge, 1996). Em segundo, em um corpo empírico de literatura que está aumentando, as impor­tantes implicações da espiritualidade para uma série de aspectos do funcionamento humano estão sendo observadas. Essa lis­ta inclui a saúde mental (Koenig, 1998), o uso de drogas e álcool (Benson, 1992), o funcionamento conjugal (Mahoney et al., 1999), a paternidade e a maternida­ de (Ellison e Sherkat, 1993), os resulta­dos de experiências estressantes na vida (Pargament, 1997) e a morbidade e a mor­talidade (Ellison e Levin, 1998; Hummer et al., 1999)... Resumindo, há razões mui­to boas pelas quais os psicólogos devem prestar mais atenção às dimensões espi­rituais da vida das pessoas (p. 646).

Apesar de sua natureza ubíqua e da concordância acadêmica sobre sua defini­ção, os pesquisadores da psicologia e o público em geral continuam a turvar as águas quando discutem espiritualidade. Por exemplo, a Classificação de Qualidades Valores em Ação, de Peterson e Seligman (2004), empilhou a espiritualidade junto com conceitos parecidos, mas diferentes, como religião e fé. E, em um grande grupo de participantes de pesquisa, quase 75% se identificaram como sendo espirituais e religiosos (Zinnbauer et al., 1997). A indefinição do constructo prejudica os es­forços para entender os efeitos reais da busca pelo sagrado sobre o funcionamen­to de uma pessoa.

Os verdadeiros benefícios da espiritualidade?

Muitos psicólogos positivos (como Peterson e Seligman, 2004; Snyder e Lopez, 2002) levantaram a hipótese de que nossa busca pelo sagrado aprimora um entendi­mento profundo de nós mesmos e de nos­sa vida. De fato, como observado anterior­mente, a espiritualidade é associada à saú­de mental, à administração do uso [237] excessivo de drogas, ao funcionamento conju­gal, à maternidade e à paternidade, ao enfrentamento e à mortalidade (resumido em Pargament e Mahoney, 2002; Thoresen, Harris e Oman, 2001). Um exame dos es­forços espirituais revela que esses caminhos em direção ao sagrado podem levar ao bem-estar (ou, pelo menos, estar associa­dos a ele) (Emmons et al., 1998). Outro exame dos esforços espirituais revela que a busca pelo sagrado pode levar ao que consideramos ser os verdadeiros benefícios da espiritualidade em nossa vida: pro­pósito e sentido (Mahoney et al., 2005). Apesar das conclusões que demonstram os benefícios de buscar o sagrado, os mecanis­mos pelos quais a espiritualidade leva a resultados positivos na vida não estão claros.

Psicologia - Psicologia positiva
9/10/2020 3:38:58 PM | Por Gregory J. Feist
Conceito de Erikson de humanidade

Em contraste com Freud, que acreditava que anatomia era destino, Erikson sugeriu que outros fatores poderiam ser res­ponsáveis pelas diferenças entre mulheres e homens. Citando algumas de suas próprias pesquisas, Erikson (1977) sugeriu que, embora meninas e meninos tenham métodos diferen­tes de jogar, essas diferenças são, pelo menos em parte, re­sultado de práticas de socialização distintas. Essa conclusão significa que Erikson concordava com Freud que anatomia é destino? A resposta de Erikson era sim, anatomia é destino, mas ele rapidamente qualificava essa máxima para dizer: "Anatomia, história e personalidade são nosso destino combi­nado" (Erikson, 1968, p. 285). Em outras palavras, a anatomia, isoladamente, não determina o destino, mas ela se combina com eventos passados, incluindo dimensões sociais e várias dimensões da personalidade, como temperamento e inteli­gência, para determinar quem a pessoa se tornará.

Como a teoria de Erikson conceitualiza a humanidade em termos das seis dimensões que apresentamos no Capí­tulo 1? Primeiro, o ciclo da vida é determinado por forças externas ou as pessoas têm alguma escolha para moldar suas personalidades e vidas? Erikson não era tão determinista quanto Freud, mas também não acreditava fortemente em livre-arbítrio. Sua posição era mais intermediária. Ainda que a personalidade seja moldada, em parte, pela cultura e pela história, é possível manter um controle limitado so­bre o próprio destino. As pessoas podem procurar suas pró­prias identidades e não estão completamente restringidas pela cultura e pela história. Os indivíduos, de fato, podem mudar a história e alterar seu ambiente. Os dois sujeitos das psico-histórias mais extensas de Erikson, Martin Luther e Mahatma Gandhi, possibilitaram um profundo efeito na história mundial e em seu ambiente imediato. Do mesmo modo, cada um de nós tem o poder de determinar o próprio ciclo de vida, mesmo que nosso impacto global possa ser em uma escala menor.

Na dimensão pessimismo vesus otimismo, Erikson tendia a ser mais otimista. Mesmo que patologias centrais possam predominar em estágios iniciais do desenvolvimento, os hu­manos não estão inevitavelmente condenados a continuar uma existência patológica em estágios posteriores. Apesar de fraquezas no início da vida tornarem mais difícil adquirir for­ças básicas mais tarde, as pessoas permanecem capazes de mudar em qualquer estágio da vida. Cada conflito psicossocial consiste em uma qualidade sintônica e distônica. Cada crise pode ser resolvida em favor do elemento sintônico, ou harmo­nioso, sejam quais forem as resoluções passadas.

Erikson não tratou especificamente da questão da causalidade versus teleologia, mas sua visão da humanidade sugere que as pessoas são mais influenciadas por forças biológicas e sociais do que pela visão do futuro. As pessoas são produto de um momento histórico particular e de um contexto social específico. Mesmo que possamos estabelecer objetivos e lutar ativamente para atingi-los, não podemos escapar por completo das forças causais poderosas da anatomia, da história e da cultura. Por essa razão, classificamos Erikson como alto em causalidade.

Na quarta dimensão, determinantes conscientes versus inconscientes, a posição de Erikson é mista. Antes da adoles­cência, a personalidade é, em grande parte, moldada pela motivação inconsciente. Os conflitos psicossexuais e psicosociais durante os quatro primeiros estágios do desenvolvi­mento ocorrem antes que as crianças tenham estabelecido sua identidade com firmeza. Raras vezes, estamos claramente conscientes dessas crises e das formas como elas moldam nossas personalidades. Da adolescência em diante, no entanto, as pessoas tendem a ter consciência de suas ações e da maioria das razões subjacentes a elas.

A teoria de Erikson, é claro, é mais social do que bioló­gica, embora não negligencie a anatomia e outros fatores fi­siológicos no desenvolvimento da personalidade. Cada modo psicossexual possui um componente biológico específico. En­tretanto, conforme as pessoas avançam pelos oito estágios, as influências sociais se tornam cada vez mais poderosas. Além disso, o raio das relações sociais se expande da pessoa mater­na para uma identificação global com toda a humanidade.

A sexta dimensão para um conceito de humanidade é singularidade versus semelhanças. Erikson tendia a colocar ênfase nas diferenças individuais, não tanto nas característi­cas universais. Ainda que as pessoas em diferentes culturas avancem ao longo dos oito estágios do desenvolvimento na mesma ordem, uma miríade de diferenças é encontrada na marcha dessa jornada. Cada pessoa resolve as crises psicossociais de maneira única, e cada uma usa as forças básicas de forma peculiar.

Psicologia - Teoria pós-freudiana
9/10/2020 3:31:04 PM | Por Gregory J. Feist
Crítica à Teoria pós-freudiana

Erikson construiu sua teoria em grande parte sobre princí­pios éticos, e não necessariamente sobre dados científicos. Ele chegou à psicologia pela arte e reconheceu que via o mundo mais pelos olhos de um artista do que pelos olhos de um cientista. Certa vez, escreveu que nada tinha a ofere­cer exceto “uma maneira de olhar para as coisas” (Erikson, 1963, p. 403). Seus livros são reconhecidamente subjetivos e pessoais, o que certamente os torna mais atraentes. No entanto, a teoria de Erikson deve ser julgada pelos padrões da ciência, não pela ética ou pela arte.
O primeiro critério de uma teoria útil é a capacidade de gerar pesquisa, e, por esse padrão, classificamos a teoria de Erikson como um pouco acima da média. Por exemplo, somente o tópico da identidade do ego gerou várias cen­tenas de estudos; outros aspectos dos estágios de desen­volvimento de Erikson, como intimidade versus isolamen­to (Gold & Rogers, 1995) e generatividade (Arnett, 2000; Pratt, Norris, Arnold, & Filyer, 1999) e todo o ciclo de vida (Whitbourne, Zuschlag, Elliot, & Waterman, 1992), esti­mularam investigações empíricas ativas. Apesar dessa pesquisa ativa, classificamos a teoria de Erikson como somente na média quanto ao critério de [163] refutação. Muitos achados desse corpo de pesquisa podem ser explicados por outras teorias além da teoria dos estágios de desenvolvimento de Erikson. 

Em sua capacidade de organizar conhecimento, a teoria de Erikson está limitada, principalmente, aos estágios do desenvolvimento. Ela não aborda de modo adequado ques­tões como traços pessoais ou motivação, uma limitação que reduz a capacidade da teoria de dar significado a muito do que é hoje conhecido sobre a personalidade humana. Os oito estágios do desenvolvimento permanecem sendo uma afirmação eloqüente do que deve ser o ciclo da vida, e os achados de pesquisa nessas áreas em geral podem ser en­caixados em um modelo eriksoniano. No entanto, a teoria carece de alcance suficiente para ser classificada como alta em tal critério.

Como um guia para a ação, a teoria de Erikson fornece muitas diretrizes gerais, mas poucas informações específi­cas. Comparada a outras teorias ... ela se classifica próxima ao topo na sugestão de abordagens para lidar com adultos de meia-idade e mais velhos. A visão de Erikson sobre o envelhecimento foi útil para as pessoas no campo da gerontologia, e suas idéias sobre a identida­de do ego são quase sempre citadas em livros de psicologia adolescente. Além disso, seus conceitos de intimidade ver­sus isolamento e generatividade versus estagnação têm muito a oferecer a terapeutas de casais e a outros profissionais preocupados com relações íntimas entre jovens adultos.

Classificamos a teoria de Erikson como alta em coerên­cia interna, principalmente porque os termos usados para rotular as diferentes crises psicossociais, forças básicas e patologias centrais são escolhidos com muito cuidado. O inglês não era a língua materna de Erikson, e seu extenso uso de um dicionário enquanto escrevia aumentou a pre­cisão de sua terminologia. No entanto, conceitos como es­perança, vontade, propósito, amor, cuidado, entre outros, não são definidos de modo operacional. Eles têm pouca utilidade científica, embora se classifiquem como altos em valor literário e emocional. Todavia, o princípio epigenético de Erikson e a eloqüência da descrição dos outros estágios do desenvolvimento marcam sua teoria com coerência in­terna visível.

No critério de simplicidade, ou parcimônia, atribuí­mos à teoria a classificação moderada. A precisão de seus termos é um ponto forte, mas as descrições dos estágios psicossexuais e das crises psicossociais, em especial nas fases posteriores, nem sempre são claramente diferenciadas. Além disso, Erikson usou termos diferentes e até conceitos distintos para preencher os 64 quadros que es­ tão vagos na Figura 8.2. Tal inconsistência subtrai simpli­cidade da teoria. [164]

Psicologia - Teoria pós-freudiana
9/10/2020 3:05:23 PM | Por Gregory J. Feist
Pesquisas relacionadas à Teoria pós-freudiana

Uma das principais contribuições de Erikson foi ampliar o desenvolvimento da personalidade até a idade adulta. Ao expandir a noção de Freud do desenvolvimento até a velhice, Erikson desafiou a ideia de que o desenvolvi­mento psicológico termina com a infância. O legado mais influente de Erikson foi sua teoria do desenvolvimento e, em particular, os estágios desde a adolescência até a velhi­ce. Ele foi um dos primeiros teóricos a enfatizar o período crítico da adolescência e os conflitos associados à busca por uma identidade. Adolescentes e jovens adultos com frequência perguntam: Quem sou eu? Para onde estou indo? E o que quero fazer com o resto da minha vida? A forma como eles respondem a essas perguntas desempe­nha um papel importante nos tipos de relações que de­senvolvem, em com quem se casam e nos caminhos profissionais que seguem.

Em contraste com a maioria dos outros teóricos psicodinâmicos, Erikson estimulou bastante a pesquisa empíri­ca, boa parte sobre a adolescência, o início da idade adulta e idade adulta. Discutimos aqui as pesquisas recentes sobre o desenvolvimento no início e na metade da vida adulta, de forma mais específicas os estágios da identidade, da inti­midade e da generatividade.

A identidade precede a intimidade?

Os pesquisadores Wim Beyers e Inge Seiffge-Krenke (2010) fizeram exatamente a mesma pergunta, como uma forma de testar o princípio epigenético de Erikson. A aquisição, na adolescência, de um senso de identidade seguro forne­ce uma base para o desenvolvimento de relações íntimas sadias na idade adulta emergente? Seu estudo longitudi­nal testou o pressuposto de Erikson em relação a esse or­denamento fixo do desenvolvimento para preencher duas lacunas na literatura de pesquisa: a) apenas estudos trans­versais e de curto prazo foram realizados até o momento sobre esses dois estágios eriksonianos; portanto, ainda não foi possível chegar a uma conclusão de fato referente ao desenvolvimento; e b) vários modelos mais recentes sobre o desenvolvimento adolescente questionaram se a identi­dade realmente precede a intimidade, conforme postula a teoria de Erikson.

Existem indicações de um contexto de desenvolvimen­to bastante alterado em décadas recentes, que coloca em questão a adequação do ordenamento de Erikson em es­tágios na adolescência e na idade adulta. Por exemplo, os adolescentes hoje podem adiar os compromissos adultos e explorar um amplo leque de opções na faculdade e além (Luyckx, Goossens, Soenens, & Beyers, 2006), sugerindo que a solidificação da identidade é estendida. Além do mais, alguns sugeriram que as relações sexuais íntimas se desenvolvem cada vez mais durante a adolescência, talvez precedendo e até mesmo interrompendo o desenvolvimen­to da identidade (considere-se a taxa de gravidez na adolescência) (p. ex., Brown, 1999).

Beyers e Seiffge-Krenke (2010) examinaram dados de 52 mulheres e 41 homens em um estudo longitudinal de 10 anos na Alemanha para avaliar, primeiro, se o ordena­mento do desenvolvimento de Erikson da identidade e, segundo, a intimidade ainda se mantêm verdadeiros. Seus participantes foram entrevistados quando tinham 15 anos e novamente aos 25 anos. Eles encontraram evidências de uma marcante progressão do desenvolvimento da identi­dade para a intimidade, com um crescente desenvolvimen­to do ego dos 15 aos 25 anos, mais conformado aos 15 anos e mais autoconsciente aos 25 anos. Além disso, não houve indicação de adiamento da identidade, conforme su­gerido por outros, nos jovens adultos. Por fim, a maioria da amostra tinha parcerias íntimas aos 25 anos e seus níveis de intimidade podiam ser previstos a partir do desenvol­vimento da identidade do ego, aos 15 anos. Portanto, os pesquisadores concluíram que, mesmo no novo milênio, o desenvolvimento do ego na adolescência é um forte preditor de intimidade no jovem adulto. [162]

Psicologia - Teoria pós-freudiana
9/6/2020 2:48:15 PM | Por Gregory J. Feist
O conceito de humanidade para Erich Fromm

Mais do que qualquer outro teórico da personalidade, Erich Fromm enfatizou as diferenças entre os humanos e os ou­tros animais. A natureza essencial dos humanos reside na experiência única de “estarem na natureza e sujeitos a todas as suas leis e, ao mesmo tempo, transcenderem a natureza” (Fromm, 1992, p. 24). Ele acreditava que apenas os humanos têm consciência de si e de sua existência. De forma mais específica, a visão de Fromm da huma­nidade é resumida em sua definição da espécie: “A espécie humana pode ser definida como o primata que surgiu naque­le ponto da evolução em que o determinismo instintivo ha­via atingido um mínimo e o desenvolvimento do cérebro um máximo" (Fromm, 1976, p. 137). Os seres humanos, então, são aberrações da natureza, a única espécie a se desenvolver nessa combinação de poderes instintivos mínimos e desenvolvimento cerebral máximo.

“Não tendo a capacidade de agir pelo comando dos instintos, enquanto possui a capacidade de autoconsciência, pensamento e imaginação... a espécie humana precisava de uma estrutura de orientação e um objeto de devoção para sobreviver” (p. 137).

No entanto, a sobrevivência humana pagou o preço da an­siedade básica, da solidão e da impotência. Em todas as épocas e culturas, os indivíduos se defrontam com o mesmo proble­ma fundamental: como fugir dos sentimentos de isolamento e encontrara unidade com a natureza e com as outras pessoas.

De forma geral, Fromm era pessimista e otimista. Por um lado, ele acreditava que a maioria das pessoas não alcança uma reunião com a natureza ou com os outros seres huma­nos e que poucos indivíduos atingem a liberdade positiva. Ele também tinha uma atitude um tanto negativa em [143] relação ao capitalismo moderno, que ele insistia ser responsável pelo sentimento de isolamento e solidão de muitas pessoas, enquanto se apegam desesperadamente à ilusão de indepen­dência e liberdade. Por outro lado, Fromm era esperançoso o suficiente para acreditar que algumas pessoas alcançarão a reunião e, portanto, realizarão seu potencial humano. Ele também acreditava que os humanos podem alcançar um sen­timento de identidade, liberdade positiva e individualidade crescente dentro dos limites de uma sociedade capitalista. Em Análise do homem (1947), ele escreveu: “Estou cada vez mais impressionado pela... força dos esforços por felicidade e saúde que fazem parte do equipamento natural das [pessoas]” (p. x).

Na dimensão de Livre-arbftrio versus determinismo, Fromm assumiu uma posição intermediária, insistindo que essa questão não pode ser aplicada a toda a espécie. Em vez disso, ele acreditava que os indivíduos possuem graus de incli­nações para a ação livremente escolhida, muito embora raras vezes estejam conscientes de todas as alternativas possíveis. No entanto, sua capacidade de raciocinar possibilita que as pessoas tomem parte ativa no próprio destino.

Na dimensão da causalidade versus teleologia, Fromm tendia a favorecer a teleologia. Ele acreditava que as pessoas lutam constantemente por uma estrutura de orientação, um mapa, por meio do qual planejam suas vidas para o futuro. [144]

Psicologia - Psicanálise humanista
9/6/2020 2:41:28 PM | Por Gregory J. Feist
Crítica à Psicanálise humanista

Erich Fromm foi talvez o ensaísta mais brilhante de todos os teóricos da personalidade. Ele escreveu belos ensaios sobre política internacional (Fromm, 1961); sobre a rele­vância dos profetas bíblicos para as pessoas hoje (Fromm, 1986); sobre os problemas psicológicos do envelhecimento (Fromm, 1981); sobre Marx, Hitler, Freud e Cristo; e so­bre uma miríade de outros temas. Seja qual for o tema, no cerne de toda a obra de Fromm pode ser encontrada uma revelação da essência da natureza humana. Assim como outros teóricos psicodinâmicos, Fromm tendeu a assumir uma abordagem global para a cons­trução da teoria, engendrando um modelo grandioso e altamente abstrato que era mais filosófico do que cien­tífico. Sua visão da natureza humana toca um ponto sensível, conforme evidenciado pela popularidade de seus livros.

Infelizmente, seus ensaios e argumentos não são tão conhecidos hoje como eram 50 anos atrás. Paul Roazen (1996) afirmou que, durante a metade da década de 1950, uma pessoa não podia ser considerada educa­da sem ter lido o livro de Fromm escrito com tanta elo­qüência, Medo à liberdade. Hoje, no entanto, os livros de Fromm raramente são uma leitura requisitada nos campi universitários.

Eloqüência, é claro, não é igual a ciência. A partir de uma perspectiva científica, precisamos perguntar como as idéias de Fromm se classificam dentro dos seis critérios de uma teoria útil. Primeiro, os termos imprecisos e vagos de Fromm tornaram suas idéias quase estéreis como um
gerador de pesquisa empírica. Na verdade, nossa busca dos últimos 45 anos de literatura de psicologia resultou em menos de uma dúzia de estudos empíricos que testaram diretamente os pressupostos teóricos de Fromm. Essa es­cassez de investigações científicas o coloca entre os menos validados de forma empírica de todos os teóricos aborda­dos neste livro.

Segundo, a teoria de Fromm é muito filosófica para ser refutável ou verificável. Quase todos os achados empíricos gerados pela teoria de Fromm (se existissem) poderiam ser explicados por teorias alternativas.

Terceiro, a amplitude da teoria de Fromm possibilita organizar e explicar muito do que é sabido sobre a persona­lidade humana. Sua perspectiva social, política e histórica proporciona tanto amplitude quanto profundidade para a compreensão da condição humana; porém, a falta de precisão de sua teoria dificulta a previsão e torna a refutação impossível.

Quarto, como um guia para a ação, o valor principal da obra de Fromm é estimular os leitores a pensarem de modo produtivo. Infelizmente, no entanto, nem o pesquisador nem o terapeuta recebem muita informação prática dos ensaios de Fromm.

Quinto, as visões de Fromm são internamente coeren­tes, na medida em que um único tema permeia toda a sua obra. No entanto, a teoria carece de uma taxonomia estru­turada, um conjunto de termos definidos de forma ope­racional e uma limitação clara do escopo. Portanto, ela se classifica como baixa em coerência interna.

Por fim, como Fromm relutou em abandonar concei­tos mais iniciais ou relacioná-los com suas idéias posterio­res, sua teoria carece de simplicidade e unidade. Por essas razões, classificamos a teoria de Fromm como baixa no cri­tério de parcimônia. [143]

Psicologia - Psicanálise humanista
9/6/2020 2:16:53 PM | Por Gregory J. Feist
Pesquisas relacionadas à Psicanálise humanista

Apesar de a obra de Erich Fromm ser estimulante e escla­recedora, sua idéias produziram pouca pesquisa empíri­ca no campo da psicologia da personalidade. Uma razão para isso pode ser a abordagem ampla que Fromm adota. Em muitos aspectos, suas idéias são mais sociológicas do que psicológicas, uma vez que sua teoria trata da alie­nação da cultura e da natureza em geral, dois temas que costumam ser abordados mais em aulas de sociologia do que de psicologia. Isso não significa, no entanto, que tais temas amplos não sejam importantes para a psicologia da personalidade. Muito ao contrário, ainda que amplo e sociológico, o estranhamento da própria cultura é um tema que pode ser examinado no nível individual em es­tudos psicológicos e pode ter implicações para o bem-es­tar. Além disso, as idéias de Fromm sobre autoritarismo levaram a investigações empíricas recentes, em particular à associação entre medo e crenças autoritárias.

Estranhamento da cultura e bem-estar

É importante lembrar que o tema central da teoria da per­ sonalidade de Erich Fromm envolve estranhamento e alie­nação: os humanos foram apartados do ambiente natural ao qual foram projetados para habitar e se distanciaram uns dos outros. Além do mais, de acordo com Fromm, a riqueza material criada pelo capitalismo forneceu tanta li­berdade que muito honestamente não sabemos o que fazer com nós mesmos. Ironicamente, ansiedade e isolamento resultam de muita liberdade. Mark Bernard e colaborado­res (2006) procuraram testar esses componentes centrais da teoria de Fromm pelo uso de medidas de autorrelato em uma amostra de universitários na Grã-Bretanha. De forma específica, os pesquisadores queriam testar se as discrepâncias entre as crenças de uma pessoa e a maneira como ela percebia as crenças de sua sociedade levavam ou não a sentimentos de estranhamento.

Setenta e dois participantes responderam um ques­tionário, que consistia de diversos valores que tinham sido identificados por pesquisas prévias como presentes em muitas culturas diferentes (como a importância da liberdade, os bens materiais, a espiritualidade, entre ou­tros). Em primeiro lugar, os participantes classificaram cada valor para o quanto ele era um princípio orientador em suas vidas e, então, classificaram os mesmos valores para o quanto cada um era um princípio orientador para sua sociedade. Administrar o questionário dessa manei­ra permitiu que os pesquisadores computassem até que ponto cada participante mantinha valores que eram dife­rentes de sua sociedade em geral. Em segundo, o estra­nhamento foi avaliado por meio do preenchimento de um questionário com itens que indagavam o quanto os participantes se sentiam diferentes de sua sociedade e até que ponto eles sentiam que não eram “normais” em sua cultura.

Os achados do estudo foram conforme o previsto. Quanto mais uma pessoa relatava que seus valores eram discrepantes da sociedade em geral, mais provável era que ela tivesse um forte sentimento de estranhamento (Bernard, Gebauer, & Maio, 2006). Isso não é de causar surpresa. Basicamente, se seus valores são diferentes dos de sua sociedade ou cultura, você se sente diferente e não normal. Isto também é precisamente o que prevê a teoria de Fromm. Quanto mais distante as pessoas se sentem daqueles que estão à sua volta em sua comunidade, mais provável é se sentirem isoladas.

Para testar melhor as idéias de Fromm, Bernard e co­laboradores (2006) examinaram se o fato de ter um sen­timento de estranhamento da própria cultura estava rela­cionado a sentimentos mais pronunciados de ansiedade [141] e depressão. Os mesmos participantes que preencheram as medidas de autorrelato das discrepâncias dos valores e do estranhamento também completaram uma medida de ansiedade e depressão. Como os pesquisadores previram, e como discute a teoria de Fromm, quanto mais estranha­mento da sociedade as pessoas sentiam em geral, mais ansiosas e deprimidas elas eram. Apesar de o estranha­mento da sociedade em geral ser prejudicial ao bem-estar, havia um tipo específico de estranhamento que era ruim para as pessoas. Aqueles que apresentavam um sentimen­to de estranhamento de seus amigos relatavam sentimen­tos pronunciados de ansiedade e depressão. Esse achado sugere que sentir estranhamento da sociedade em geral pode tornar as pessoas mais suscetíveis a sentimentos de depressão, mas tais sentimentos podem ser diminuídos se o indivíduo puder encontrar um grupo de pessoas que compartilham suas crenças, mesmo que elas não sejam as crenças da sociedade em geral. É particularmente preju­dicial, no entanto, se as pessoas sentem estranhamento não só da sociedade em geral, como também daqueles que estão mais próximos delas.

Tomados em conjunto, esses achados apoiam clara­mente as idéias de Erich Fromm. A sociedade moderna nos proporciona inumeráveis conveniências e benefícios. Po­rém, essas conveniências têm um preço. Liberdade pessoal e um sentimento de individualidade são importantes, mas, quando essas forças levam as pessoas a estranharem sua comunidade, isso pode ser prejudicial a seu bem-estar.

Autoritarismo e medo

Fundamental para a teoria de Fromm (1941) é que a li­berdade é, ironicamente, assustadora. Os indivíduos pro­curam fugir da liberdade por meio de mecanismos como o autoritarismo, a destruição ou a conformidade para ate­nuar o medo do isolamento. Logo depois da publicação de Fromm Medo à liberdade, os estudiosos interessaram-se particularmente pelo mecanismo de fuga autoritário. A ideia central por trás de Medo à liberdade é que as pes­soas são atraídas por respostas absolutas e pela certeza, mesmo que associadas a ditadores autoritários, quando elas se sentem com medo e inseguras. Depois de Fromm, Adorno e colaboradores publicaram um livro intitulado A personalidade autoritária, em 1950, e esse trabalho es­timulou uma grande quantidade de pesquisas, que con­tinuam até hoje, sobre a questão do autoritarismo como uma orientação da personalidade. Entretanto, muito desse trabalho se desviou da conceitualização original de Fromm e focou os resultados do autoritarismo, incluindo preconceito e hostilidade.

Recentemente, no entanto, J. Corey Butler (no prelo, 2009) procurou reabrir a questão da relação entre medo e autoritarismo. Adorno (1950) postulou que o autorita­rismo é a conseqüência de parentalidade excessivamente severa durante a infância, levando a um sentimento generalizado de medo em relação ao mundo interpessoal. O tra­balho de Butler, entretanto, é um esforço para confirmar a ideia de Fromm de que os sentimentos de impotência ge­rados pelo isolamento da sociedade “livre" moderna levam à submissão autoritária. Estudos sociológicos mostram, na verdade, que os grupos se voltam para o autoritarismo durante tempos de tensão econômica ou social (p. ex., Ri- ckert, 1998), preferindo ordem e estabilidade. Coerente com a tese original de Fromm, Butler previu que, como os autoritários abandonam a autonomia e a liberdade pessoal em prol das normas culturais estabelecidas, aqueles com tendências de personalidade autoritária devem ter medo não de todas as situações interpessoais, mas particular­mente do desvio e da desordem social. Ou seja, aqueles que desafiam as normas da ordem devem ser especialmente problemáticos para os autoritários.

Butler conduziu vários estudos para testar sua previ­são. Em cada um, ele deu a universitários a Escala de Auto­ritarismo de Extrema Direita (RWA, Right Wing Authori­tarianism Scale; Altemeyer, 1981), um instrumento de 22 itens com afirmações como: “Nosso país precisa desesperadamente de um líder forte que fará o que tem que ser feito para destruir as novas formas radicais e a licenciosidade que está nos arruinando”, que os participantes classificam em termos de grau de sua concordância. No primeiro con­junto de estudos (2009), os universitários também classifi­caram o quanto temiam uma variedade de itens, situações ou circunstâncias. No segundo estudo (no prelo), foi feita aos universitários uma apresentação de slides com vários itens, incluindo animais, situações perigosas, pessoas di­versas ou cenas de desordem social. Butler encontrou apoio para sua previsão em todos os casos. As diferenças sociais e a desordem social eram desproporcionalmente temidas em relação a outros medos por aqueles com alto escore em autoritarismo.

Parece, então, conforme Erich Fromm teorizou, que as ameaças políticas e sociais, e não as ameaças pessoais, estão mais fortemente relacionadas ao autoritarismo, isso implica que a ideologia associada ao autoritarismo é um tipo de cognição social motivada. Butler (2009) levanta a hipótese de que certos estímulos culturais conduzem ao medo, que, por sua vez, cria a motivação para um sistema de crenças autoritário. O desvio e a desordem social, en­tão, tornam-se particularmente ameaçadores para essas pessoas, que agora desenvolveram um estilo de vida mais convencional e restrito. Uma vez que o assim denominado comportamento desviante sugere que existem outras ma­neiras de viver, os autoritários se sentirão especialmente ameaçados por ele. E, de fato, como cultura, devemos ser vigilantes em tempos de intranqüilidade social ou econô­mica, como Fromm alertou, contra a fuga que o autorita­rismo proporciona. [142]

Psicologia - Psicanálise humanista
9/4/2020 2:03:15 PM | Por Gregory J. Feist
As necessidades humanas segundo Fromm

Como animais, os humanos são motivados por necessida­des fisiológicas, tais como fome, sexo e segurança; porém, eles nunca conseguem resolver seu dilema humano satisfa­zendo essas necessidades animais. Somente as necessidades humanas distintivas podem mover as pessoas em direção à reunião com o mundo natural. Tais necessidades existen­ciais emergiram durante a evolução da cultura humana, provenientes das tentativas do homem de encontrar uma resposta para sua existência e evitar a loucura. Na verdade, Fromm (1955) defendia que uma diferença importante en­tre os indivíduos de mentalidade sadia e aqueles neuróticos ou insanos é que as pessoas saudáveis encontram respos­tas para sua existência - respostas que correspondem mais completamente a suas necessidades humanas totais. Em outras palavras, os indivíduos saudáveis são mais capazes de encontrar formas de se reunirem ao mundo resolvendo produtivamente as necessidades humanas de trans­cendência, enraizamento, sentimento de identidade e estrutura de orientação.

Ligação

A primeira necessidade humana, ou existencial, é a ligação, o impulso para a união com outras pessoas. Fromm postu­lou três formas básicas por meio das quais uma pessoa pode se relacionar com o mundo: (1) submissão, (2) poder e (3) amor. Uma pessoa pode se submeter a outra, a um grupo ou a uma instituição para se tornar única com o mundo. “Dessa maneira, ela transcende a separação de sua existência indi­vidual, tomando-se parte de alguém ou algo maior do que ela mesma, e experimenta sua identidade em conexão com a força à qual se submeteu” (Fromm, 1981, p. 2).

Enquanto as pessoas submissas procuram um relacio­namento com indivíduos dominadores, aquelas que bus­cam o poder acolhem os parceiros submissos. Quando uma pessoa submissa e um indivíduo dominador se encontram, com frequência estabelecem uma relação simbiótica, a qual é satisfatória para ambos. Ainda que essa simbiose possa ser gratificante, ela bloqueia o crescimento em direção à integridade e à saúde psicológica. Os dois parceiros “vivem um no outro e um para o outro, satisfazendo sua ânsia de intimidade, embora sofrendo de falta de força interna e autoconfiança, que exigem liberdade e independência" (Fromm, 1981, p. 2).

As pessoas em relações simbióticas são atraídas uma para a outra não pelo amor, mas por uma necessidade de­sesperada de ligação, uma necessidade que nunca pode ser completamente satisfeita por essa parceria. Subjacentes à união, encontram-se sentimentos inconscientes de hos­tilidade. As pessoas em relações simbióticas acusam seus parceiros de não serem capazes de satisfazer plenamente suas necessidades.

Elas acabam procurando submissão ou poder adicional e, em conseqüência, tornam-se cada vez mais dependentes dos parceiros e cada vez menos um in­divíduo.

Fromm acreditava que o amor é o único caminho pelo qual uma pessoa pode se unir ao mundo e, ao mesmo tem­po, atingir individualidade e integridade. Ele definiu amor como uma “união com alguém ou algo externo a si com a condição de manter a separação e a integridade do próprio self" (Fromm, 1981, p. 3). Amor envolve compartilhamento e comunhão com o outro, embora permita à pessoa a li­berdade de ser única e separada. Ele possibilita que uma pessoa satisfaça a necessidade de ligação sem abdicar da integridade e da independência. No amor, duas pessoas se tornam uma enquanto continuam a ser duas.

Em A arte de amar, Fromm (1956) identificou cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento como os qua­tro elementos básicos comuns a todas as formas de amor genuíno. Alguém que ama outra pessoa precisa cuidar e estar disposto a tomar conta dela. Amor também significa responsabilidade, ou seja, uma disposição e capacidade para responder. Uma pessoa que ama as outras responde às ne­cessidades físicas e psicológicas delas, respeita-as pelo que são e evita a tentação de tentar mudá-las. Contudo, as pes­soas só podem respeitar as outras se tiverem conhecimento delas. Conhecer os outros significa vê-los a partir do ponto de vista deles. Assim, cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento estão todos interligados em uma relação de amor.

Transcendência

Tal como outros animais, os humanos são jogados no mundo sem seu consentimento ou desejo e, depois, são removidos dele - novamente sem seu consentimento ou sua vontade. Mas, ao contrário de outros animais, os seres humanos são impulsionados pela necessidade de transcendência, definida como a ânsia de se colo­car acima de uma existência passiva e acidental e entrar no “reino da intencionalidade e da liberdade" (Fromm, 1981, p. 4). Assim como a ligação pode ser perseguida por meio de métodos produtivos ou não produtivos, a transcendência pode ser buscada mediante abordagens positivas ou negativas. As pessoas podem transcender sua natureza passiva criando vida ou destruindo-a. Mes­mo que outros animais possam criar vida por meio da reprodução, somente os humanos estão conscientes de si como criadores. Além disso, os humanos podem ser cria­tivos de outras maneiras. Eles podem criar arte, religiões, idéias, leis, bens materiais e amor.

Criar significa sermos ativos e nos importarmos com o que criamos. Mas também podemos transcender a vida destruindo-a e, assim, nos colocando acima de nossas ví­timas mortas. Em Anatomia da destrutividade humana, Fromm (1973) argumentou que os humanos são a única [132]  espécie a usar a agressividade maligna, ou seja, matar por outras razões além da sobrevivência. Apesar de a agressi­vidade maligna ser uma paixão dominante e poderosa em alguns indivíduos e culturas, ela não é comum a todos os humanos. Ao que parece, ela era desconhecida para mui­tas sociedades pré-históricas, além de algumas sociedades "primitivas” contemporâneas.

Enraizamento

Uma terceira necessidade existencial é o enraizamento, ou a necessidade de estabelecer raízes ou se sentir em casa novamente no mundo. Quando os humanos evoluíram como uma espécie separada, eles perderam seu lar no mun­do natural. Ao mesmo tempo, sua capacidade para o pensa­mento possibilitou aos humanos perceberem que estavam sem um lar, sem raízes. Os sentimentos conseqüentes de isolamento e desamparo se tornaram insuportáveis.

O enraizamento também pode ser procurado por meio de estratégias produtivas ou não produtivas. Com a estraté­gia produtiva, as pessoas se desprendem da órbita da mãe para nascerem integralmente; isto é, elas se relacionam de modo ativo e criativo com o mundo e se tornam inteiras ou integradas. Esse novo vínculo com o mundo natural confere segurança e restabelece um sentimento de pertencimento e enraizamento. No entanto, as pessoas também podem procurar enraizamento por meio da estratégia não produtiva de fixação - uma relutância tenaz em avançar para além da segurança protetora proporcionada pela mãe. As pessoas que buscam o enraizamento por meio da fixa­ção têm “medo de dar o passo seguinte ao nascimento, de serem desmamadas do seio da mãe. [Elas]... possuem uma ânsia profunda de serem atendidas, cuidadas, protegidas por uma figura maternal; elas são as que aparentam ser in­dependentes, mas que ficam com medo e inseguras quan­do a proteção materna é retirada” (Fromm, 1955, p. 40).

O enraizamento também pode ser observado filogeneticamente na evolução da espécie humana. Fromm concor­dava com Freud no sentido de que os desejos incestuosos são universais, mas discordava da crença freudiana de que eles fossem essencialmente sexuais. De acordo com Fromm (1955, p. 40-41), os sentimentos incestuosos estão funda­mentados na “ânsia arraigada de permanecer no, ou retor­nar ao, útero, que tudo envolve, ou no seio, que tudo nutre”. Fromm foi influenciado pelas idéias de Johann Jakob Bachofen (1861/1967) sobre as primeiras sociedades matriar­cais. Ao contrário de Freud, que acreditava que as sociedades primitivas eram patriarcais, Bachofen sustentava que a mãe era a figura central nesses grupos sociais antigos. Era ela quem provia o enraizamento para seus filhos e os motiva­va a desenvolverem sua individualidade e pensamento ou a ficarem fixados e incapazes de um crescimento psicológico.

A forte predileção de Fromm (1997) pela teoria de Bachofen da situação edípica centrada na mãe comparada com a concepção de Freud centrada no pai é coerente com sua preferência por mulheres mais velhas. A primeira espo­sa de Fromm, Frieda Fromm-Reichmann, era 10 anos mais velha do que ele, e a sua amante por um longo tempo, Ka­ren Homey, tinha 15 anos mais. A concepção de Fromm do complexo de Édipo como um desejo de retornar ao útero ou ao seio materno ou a uma pessoa com uma função de maternagem deve ser entendida à luz de sua atração por mulheres mais velhas.

Sentimento de identidade

A quarta necessidade humana é por um sentimento de identidade, ou a capacidade de termos consciência de nós mesmos como uma entidade separada. Como fomos afastados da natureza, precisamos formar um conceito de nosso self, sermos capazes de dizer: “Sou eu” ou “Sou o sujeito de minhas ações”. Fromm (1981) acreditava que as pessoas primitivas se identificavam mais intimamente com seu clã e não se viam como indivíduos que existis­sem à parte de seu grupo. Mesmo durante a época medie­val, as pessoas eram identificadas, em grande parte, por seu papel social na hierarquia feudal. Em concordância com Marx, Fromm defendia que a ascensão do capitalis­mo deu às pessoas mais liberdade econômica e política. No entanto, essa liberdade só forneceu a uma minoria de pessoas um verdadeiro sentimento de “eu". A identidade da maioria das pessoas ainda reside na vinculação aos ou­tros ou a instituições como nação, religião, ocupação ou grupo social.

Em vez da identidade pré-individualista do clã, desen­volve-se uma nova identidade gregária, em que o sen­timento de identidade repousa sobre o sentimento de um inquestionável pertencimento ao grupo. O fato de essa uniformidade e conformidade frequentemente não serem reconhecidas como tais e de serem cobertas pela ilusão da individualidade não altera os fatos. (p. 9)

Sem um sentimento de identidade, as pessoas não pode­riam manter sua sanidade, e essa ameaça constitui uma moti­vação poderosa para fazer quase tudo para adquirir um senti­mento de identidade. Os neuróticos tentam se ligar a pessoas poderosas ou a instituições sociais ou políticas. As pessoas sadias, no entanto, têm menos necessidade de se adequar ao rebanho, menos necessidade de abandonar seu sentimento de self. Elas não precisam abrir mão de sua liberdade e indi­vidualidade para se enquadrarem na sociedade, porque elas possuem um sentimento de identidade autêntico.

Estrutura de orientação

A necessidade humana final é por uma estrutura de orientação. Sendo dissociados da natureza, os huma­nos precisam de um mapa, uma estrutura de orientação, para trilhar seu caminho pelo mundo. Sem esse mapa, os humanos seriam "confusos e incapazes de agir de modo [133] proposital e coerente” (Fromm, 1973, p. 230). Uma estru­tura de orientação possibilita que as pessoas organizem os vários estímulos que lhes são impingidos. As pessoas que possuem uma estrutura de orientação sólida conseguem compreender esses eventos e fenômenos, mas aquelas que não possuem uma estrutura de orientação confiável se es­forçam para colocar tais eventos dentro de algum tipo de estrutura para poder compreendê-los. Por exemplo, um norte-americano com uma estrutura de orientação frágil e pouca compreensão da história pode tentar entender os eventos de 11 de setembro de 2001 atribuindo-os a pessoas más ou crueis.

Cada pessoa possui uma filosofia, uma forma coerente de olhar para as coisas. Muitas pessoas tomam por certa essa filosofia ou estrutura de referência, de modo que tudo que entra em conflito com a sua visão é julgado como “lou­co" ou “absurdo”. Tudo o que for coerente com ela é visto simplesmente como “bom senso”. As pessoas farão quase tudo para adquirir e manter uma estrutura de orientação, mesmo indo ao extremo de seguir filosofias irracionais ou bizarras, como as defendidas por líderes políticos ou reli­giosos fanáticos.

Um mapa sem um objetivo ou destino não possui valor. Os humanos têm a capacidade mental de imaginar muitos caminhos alternativos a seguir. Para impedir que fiquem insanos, no entanto, eles precisam de um objetivo final ou “objeto de devoção” (Fromm, 1976, p. 137). De acordo com Fromm, esse objetivo ou objeto de devoção canaliza as energias da pessoa em uma única direção, capacita o indi­víduo a transcender sua existência isolada e confere signi­ficado a sua vida.

Resumo das necessidades humanas

Além das necessidades fisiológicas ou animais, as pessoas são motivadas por cinco necessidades distintivamente hu­manas - ligação, transcendência, enraizamento, um senti­mento de identidade e uma estrutura de orientação. Essas necessidades evoluíram da existência humana como uma espécie separada e têm como objetivo mover as pessoas em direção a uma vinculação com o mundo natural. Fromm acreditava que a falta de satisfação em alguma dessas ne­ cessidades era intolerável e resultava em loucura. Assim, as pessoas são fortemente impulsionadas a satisfazê-las de uma forma ou outra, de forma positiva ou negativa.

Tabela 7.1

A Tabela 7.1 mostra que a ligação pode ser satisfeita por submissão, dominação ou amor, mas somente o amor produz a satisfação autêntica; a transcendência pode ser satisfeita pela destrutividade ou pela criatividade, mas apenas esta última permite a alegria; o enraizamento pode ser satisfeito pela fixação à mãe ou avançando para o nasci­ mento completo e a totalidade; o sentimento de identidade pode ser fundamentado na adaptação ao grupo ou pode ser satisfeito por meio do movimento criativo em direção à individualidade; e uma estrutura de orientação pode ser irracional ou racional, mas somente uma filosofia racional pode servir como base para o crescimento da personalida­ de total (Fromm, 1981). [134]

Psicologia - Psicanálise humanista
9/4/2020 1:42:32 PM | Por
Pressupostos básicos de Fromm

O pressuposto mais básico de Fromm é que a personali­dade individual pode ser compreendida somente à luz de história humana. "A discussão da situação humana deve preceder a da personalidade [e a psicologia deve estar ba­seada em um conceito antropológico da existência humana” (Fromm, 1947, p. 45). Fromm (1947) acreditava que os humanos, ao contrá­rio dos outros animais, tinham sido “arrancados” de sua união pré-histórica com a natureza. Eles não possuem ins­tintos poderosos para se adaptarem a um mundo em mu­dança; em vez disso, eles adquiriram a faculdade de pensar: uma condição chamada por Fromm de dilema humano.

As pessoas experimentam esse dilema básico porque se separa­ram da natureza e, no entanto, apresentam a capacidade de ter consciência de si mesmas como seres isolados. Portanto, a capacidade humana de pensar é tanto uma bênção quan­to uma maldição. Por um lado, ela permite que as pessoas sobrevivam, mas, por outro, ela as força a tentar resolver dicotomias básicas insolúveis. Fromm se referiu a essas forças opostas como “dicotomias existenciais”, porque elas estão enraizadas na própria existência das pessoas. Os humanos não podem eliminar essas dicotomias existenciais; eles po­dem somente reagir a elas, tendo em vista sua cultura e suas personalidades individuais.

A primeira e mais fundamental dicotomia é aquela en­tre a vida e a morte. A autoconsciência e a razão nos dizem que iremos morrer, mas tentamos negar essa dicotomia postulando a vida após a morte, uma tentativa que não altera o fato de que nossas vidas terminam com a morte.
Uma segunda dicotomia existencial é que os humanos são capazes de conceitualizar o objetivo da autorrealização completa, mas, ao mesmo tempo, têm a consciência de que a vida é muito curta para se atingir esse objetivo. "Somente se o tempo de vida de um indivíduo fosse idêntico ao da hu­manidade é que ele poderia participar do desenvolvimento humano que ocorre no processo histórico” (Fromm, 1947, p. 42). Algumas pessoas tentam resolver essa dicotomia as­sumindo que seu próprio período histórico é a conquista suprema da humanidade, enquanto outras postulam uma continuação do desenvolvimento após a morte.

A terceira dicotomia existencial é que as pessoas estão, em última análise, sozinhas, embora não consigam tolerar o isolamento. Elas têm consciência de si como indivíduos separados e, ao mesmo tempo, acreditam que sua felicidade depende de se unirem a outros humanos, seus semelhan­tes. Mesmo que as pessoas não possam resolver completa­mente o problema da solidão versus união, elas precisam fazer uma tentativa ou correr o risco de enlouquecer. [131]

Psicologia - Psicanálise humanista
9/2/2020 8:11:13 PM | Por Tomi-Ann Roberts
O conceito de humanidade para Karen Horney

O conceito de humanidade de Horney foi fundamentado qua­se inteiramente em suas experiências clínicas com pacientes neuróticos; assim, sua visão da personalidade humana é bas­tante influenciada pelo seu conceito de neurose. De acordo com Horney, a diferença principal entre uma pessoa sadia e um indivíduo neurótico é o grau de compulsividade com o qual cada um se movimenta em direção, contra ou para longe das pessoas. A natureza compulsiva das tendências neuróticas suge­re que o conceito de humanidade de Horney é determinista. Contudo, uma pessoa sadia tem uma grande parcela de livre escolha. Mesmo um indivíduo neurótico, por meio da psicoterapia e do trabalho árduo, pode obter algum controle sobre esses conflitos intrapsíquicos. Por essa razão, a teoria social psicanalítica de Horney é classificada como um pouco mais alta em livre-arbítrio do que em determinismo.

Segundo os mesmos princípios, a teoria de Horney é um pouco mais otimista do que pessimista. Horney acreditava que as pessoas possuem poderes curativos inerentes que as conduzem na direção da autorrealização. Se a ansiedade bási­ca (o sentimento de se sentir sozinho e desamparado em um mundo potencialmente hostil) puder ser evitada, as pessoas se sentirão seguras em suas relações pessoais e, como conse­qüência, desenvolverão personalidades sadias.

Minha crença é de que o homem possui a capacidade, bem como o desejo, de desenvolver suas potencialidades e se tor­nar um ser humano decente, e que isso se deteriora se sua relação com os outros e, portanto, consigo mesmo, conti­nuar sendo perturbada. Acredito que o homem pode mudar e continuar mudando enquanto viver. (Horney, 1945, p. 19)

Na dimensão da causalidade versus teleologia, Horney adotou uma posição intermediária. Ela afirmou que o obje­tivo natural para as pessoas é a autorrealização, mas também acreditava que as experiências da infância podem bloquear esse movimento. “O passado, de uma maneira ou de outra, está sempre contido no presente” (Horney, 1939, p. 153). No entanto, incluída nas experiências passadas das pessoas, estão a formação de uma filosofia de vida e um conjunto de valores que dão alguma direção a seu presente e a seu futuro.

Ainda que Horney tenha adotado uma postura interme­diária em relação à motivação consciente versus inconsciente, ela acreditava que a maioria das pessoas tem apenas uma consciência limitada de suas motivações. Os neuróticos, es­pecialmente, têm pouco entendimento de si mesmos e não veem que seus comportamentos garantem a continuação de suas neuroses. Eles rotulam de forma indevida as caracterís­ticas pessoais, formulando-as em termos socialmente aceitá­veis, enquanto permanecem, em grande parte, sem consciên­cia de seu conflito básico, de seu auto-ódio, de seu orgulho neurótico e de suas reivindicações neuróticas, bem como de sua necessidade de um triunfo vingativo.

O conceito de Horney de personalidade enfatizava for­temente as influências sociais mais do que as biológicas. As diferenças psicológicas entre homens e mulheres, por exem­plo, devem-se mais às expectativas culturais e sociais do que à anatomia. Para Horney, o complexo de Édipo e a inveja do pênis não são conseqüências inevitáveis da biologia, mas mol­dados por forças sociais. Horney não ignorou completamente os fatores biológicos, mas sua ênfase recaiu sobre as influên­cias sociais. [126]  Como a teoria de Horney direciona o olhar quase que ex­clusivamente para as neuroses, ela tende a destacar as seme­lhanças entre os pessoas mais do que as singularidades. Nem todos os neuróticos são iguais, é claro, e Horney descreveu três tipos básicos: os desamparados, os hostis e os afastados. No entanto, ela colocou pouca ênfase nas diferenças individuais dentro de cada uma dessas categorias. [127]

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Trauma pode deixar heranças biológicas

É possível que uma grande tragédia cause impactos tão profundos em uma pessoa a ponto de a “memória biológica” do trauma ser transmitida para seus descendentes? Um grupo de pesquisa da Escola Icahn de Medicina Monte Sinai considera que sim. A equipe liderada pela psicóloga Rachel Yehuda estuda epigenética – a influência de fatores ambientais sobre a expressão dos genes –, concentrando-se no efeito intergeracional de experiências traumáticas em famílias de sobreviventes de tragédias em massa, como o Holocausto. Uma das descobertas é que filhos de judeus que escaparam do genocídio têm níveis alterados de hormônios do estresse em seu organismo.

Em um estudo prévio, o grupo de Yehuda mostrou que sobreviventes de campos de concentração apresentam, em comparação a adultos semitas da mesma idade que não tiveram essa vivência, níveis mais baixos de cortisol, um hormônio que ajuda o corpo a voltar ao normal após o trauma. Aqueles que sofreram de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) têm quantidades ainda mais baixas. 

Não está claro por que essas pessoas produzem menos cortisol, mas a equipe descobriu recentemente que os sobreviventes têm também níveis comparativamente mais baixos de uma enzima que decompõe o hormônio. A adaptação faz sentido: a redução da atividade enzimática garante mais cortisol livre no corpo, o que permite a fígado e rins aumentar reservas de glicose e combustíveis metabólicos – uma ótima resposta à fome prolongada e outras ameaças. Quanto mais jovens os sobreviventes eram durante a Segunda Guerra Mundial, menor era a quantidade da enzima apresentada na idade adulta. Os resultados fortalecem outros estudos epigenéticos com seres humanos que mostram que os efeitos de muitos anos e, em alguns casos, por gerações.No estudo mais recente, com descendentes diretos de sobreviventes do Holocausto, o grupo de pesquisa da Monte Sinai observou que, como seus pais, muitos apresentavam baixas quantidades de cortisol, principalmente os que tinham mães com sintomas de TEPT. No entanto, ao contrário dos genitores, mostravam níveis médios mais elevados da substância que decompõe o hormônio. A autora e seus colegas acreditam que essa adaptação ocorre no estágio intrauterino, pois, em geral, a enzima está presente na placenta em níveis elevados para proteger o feto da circulação de cortisol na mãe. Se as sobreviventes grávidas tinham baixa quantidade da enzima nesse órgão, mais hormônio poderia chegar ao embrião, que, em seguida, desenvolveria níveis elevados da enzima para se proteger.

A autora do estudo afirma que as alterações epigenéticas podem servir para preparar biologicamente a prole para um ambiente semelhante ao dos pais. Nesse caso, porém, as necessidades do feto parecem ter superado esse objetivo. Com baixos níveis de cortisol e quantidades elevadas da enzima que o decompõe, muitos descendentes de sobreviventes do Holocausto não seriam bem adaptados para a privação de comida. De fato, esse perfil do hormônio do estresse poderia deixá-los mais suscetíveis ao TEPT. Estudos anteriores sugerem que filhos de vítimas da perseguição aos judeus são mais vulneráveis aos efeitos do estresse e mais propensos a apresentar sintomas de transtorno de ansiedade. Podem apresentar também maior risco de desenvolver síndromes metabólicas relacionadas com a idade, como obesidade, hipertensão e resistência à insulina, particularmente em lugares onde há fartura. 

No entanto, os resultados desse estudo sobre epigenética e sistema de resposta ao estresse são preliminares. Ainda é muito cedo para determinar com certeza se as alterações moleculares de fato indicam riscos ou benefícios. “Os dados ainda não se encaixam completamente, estamos no início da pesquisa”, diz Yehuda. 

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Textos com indicação para psicólogos ou estudantes de psicologia
7/18/2020 2:24:01 PM | Por Maria Ester Garcia Arzeno
O psicodiagnóstico clínico na atualidade

O psicodiagnóstico está recuperando-se de uma época de crise durante a qual poderíamos dizer que havia caído no descrédito da maioria dos profissionais da saúde mental. Considero imprescindível revalorizar a etapa diagnóstica no trabalho clínico e sustento que um bom diagnóstico clínico está na base ea orientação vocacional e profissional, do trabalho como peritos forenses ou trabalhistas, etc. Se somos consultados é porque existe um problema, alguém sofre ou está incomodado e devemos indagar a verdadeira causa disso.

Fazer um diagnóstico psicológico não significa necessariamente o mesmo que fazer um psicodiagnóstico. Este temo implica automaticamente a administração de testes e estes nem sempre são necessários ou convenientes.

Mas um diagnóstico psicológico tão preciso quanto possível é imprescindível por diversas razões:

1.             Para saber o que ocorre e suas causas, de forma a responder ao pedido com o qual foi iniciada a consulta.

2.             Porque iniciar um tratamento sem o questionamento prévio do que realmente ocorre representa um risco muito algo. Significa, para o paciente, a certeza de que poderemos “curá-lo” (usando termos clássicos). E o que ocorre se logo aparecem patologias ou situações complicadas com as quais não sabemos lidar, que vão além daquilo que podemos absorver, através de supervisões e análises? Buscaremos a forma de interromper, através de supervisões e análises? Buscaremos a forma de interromper (consiente ou inconscientemente) o tratamento com a consequinte hostilidade ou decepção do paciente, o qual teá muitas dúvidas antes de tornar a solicitar ajuda.

3.             Para proteger o psicólogo, que ao iniciar um tratamento contrai automaticamente um compromisso em dois sentidos: clínico e ético.Do ponto de vista clínico deve estar certo de poder ser idôneo perante o caso sem cair em posturas ingênuas nem onipotentes. Do ponto de vista ético, deve proteger-se de situações nas quais está implicitamente comprometendo-se a fazer algo que não sabe exatamente o que é. No entanto, as consequências do não cumprimento de um contrato terapêutico são, em alguns países a cassação da carteira profissional.

Por estas razões insisto na importância da etapa diagnóstica, sejam quais forem os instrumentos científicos utilizados na mesma. Na obra “A iniciação do tratamento” Freud fala da importância desta etapa, à qual ele dedicava os primeiros meses do tratamento. Coloque que ela é vantajosa tanto para o paciente quanto para o profissional, que avalia assim se poderá ou não chegar a uma conclusão positiva.

Não sou favorável a ideia de dedicar tanto tempo ao diagnóstico, porque se estabelece assim uma relação transferencial muito difícil de dissolver se a decisão for a de não continuar. Além do mais, dispomos na atualidade de todos os recursos descritos neste livro (e muitos outros) que permitem solucionar as dúvidas em um tempo menor.

Vejamos agora com que finalidades pode ser utilizado o psicodiagnóstico:

1.  Diagnóstico. Conforme o exposto acima é óbvio que a primeira e principal finalidade de um estudo psicodiagnóstico é a de estabelecer um diagnóstico. E cabe esclarecer que isto não equivale a “colocar um rótulo”, mas a explicar o que ocorre além do que o paciente pode descrever conscientemente.

Durante a primeira entrevista elaboramos certas hipóteses presuntivas. Mas a entrevista projetiva, mesmo sendo imprescindível, não é suficiente para um diagnóstico cientificamente fundamentado.

Meninger foi durante muitos anos chefe da Clínica que leva seu nome e apoiou e animou a criação e o desenvolvimento dos testes tanto projetivos como objetivos. Cada paciente que ingressava na clínica era submetido a uma bateria completa de testes (T. A.T., Rorschach, Weschler e outros).

Eu concordo ainda hoje com este modelo de trabalho, porque acredito que a entrevista clínica não é uma ferramente infalível, a não ser quando em mãos de grandes mestres, e às vezes, nem mesmo nesses casos.

Os testes tampouco o são. Mas se utilizarmos ambos os instrumentos de forma complementar há uma margem de segurança maior para chegar a um diagnóstico correto, especialmente se incluirmos testes padronizados.

Além do mais, a utilização de diferentes instrumentos diagnósticos permite estudar o paciente através de todas as vias de comunicação: pode falar livremente, dizer o que vê em uma lâmina, desenhar, imaginar o que gostaria de ser, montar quebra-cabeças, copiar algo, etc. Se por algum motivo o domínio da linguagem verbal não foi alcançado (idade, doença, casos de surdos-mudos, etc.) os testes gráficos e lúdicos facilitam a comunicação. 

A bateria de testes utilizada deve incluir instrumentos que permitam obter ao máximo a projeção de si mesmo.

Por isso, se pedimos ao paciente que desenhe uma figura humana, sabemos que haverá projeção, mas muito mais se lhe pedirmos que desenhe uma casa ou uma árvore, já que ele não pode controlar totalmente o que projeta.

Como disse antes, é importante incluir testes padronizados porque nos dão uma margem de segurança diagnóstica maior.

Lembro o caso de uma jovem que foi consultar devido a fracasso escolar, impossibilidade de concentração nos estudos e dificuldades de compreensão. Considerava-se de baixo nível intelectual. Após ter solicitado a ela o Desenho Livre e o H.T.P., entreguei-lhe o pequeno caderno do Teste de Matrizes Progressivas de Raven. O mesmo dá ao paciente trinta minutos para realiza-lo. Ela o fez em quinze. Eu obsevava as suas anotações e percebi seu excelente resultado. Por isso, quando a tarefa foi concluída, entreguei-lhe a grade de avaliação, para que ela mesma fizesse a correção. Fizemos o cáculo devido e buscamos a cifra na tabela mais apropriada. O resultado final indicava um Q.I. superior à média. Ela ficou surpresa e incrédula, mas os resultados eram irrefutáveis. Voltou à sua casa muito contente. Obviamente, essa não era a solução final do problema. Haviamos desarticulado um mecanismo através do qual ela brincava de “menina boba”. Agora era necessário estudar o porquê. Apareceu então (principalmente pela reinteração de respostas de “uma figura e a outra é o reflexo em um espelho”, no Rorschach) seu enorme narcisismo e seu grau de aspiração de ser a número um em tudo. A ferida narcisistica por não consegui-lo era tão terrível que, inconscientemente, preferia ser “burra” para não se expor.

Outro elemento importante que nos é dado pelo psicodiagnóstico refere-se à relação de transferência-contratransferência.

Ao longo de um processo que se extende entre três e cinco entrevistas aproximadamente, e observando como o paciente se relaciona diante de cada proposta e o que nós sentimos em cada momento, podemos extrair conclusões de grande utilizade para prever como será o vínculo terapêutico (se houver terapia futura), quais serão os momentos mais difíceis do tratamento, os riscos de deserção, etc.

Porém, nem todos os psicólogos, psicanalistas e psicólogos clínicos concordam com este ponto de vista. Alguns reservam a utilização do psicodiagnóstico para casos nos quais surgem dúvidas diagnósticas ou quando querem obter uma informação mais precisa, diante, por exemplo, de uma suspeita de risco de suicídio, dependência de drogas, desestruturação psicótica, etc. Em outras ocasiões o solicitam porque têm dúvidas sobre o tratamento mais aconselhável, se a psicanálise ou uma terapia individual ou vincular. Finalmente, existe outro grupo de profissionais que não concordam em absoluto com este ponto de vista e prescindem totalmente do psicodiagnóstico. Ainda mais, não concedem valor científico algum aos testes projetivos. Alguns vão mais longe, dizendo que de forma alguma é importante fazer um diagnóstico inicial, que isso chega com o tempo, ao longo do tratamento. Ouvi isto de um palestrante estrangeiro durante um congresso internacional, ao que outro especialista replicou: “Então o senhor começaria com antibióticos e transfusões de sangue, mesmo antes de saber qual o problema do paciente?”

Acredito que todas as posições são respeitáveis, porém devem ser fundamentadas cientificamente e, até o momento, não tenho encontrado ninguém que me demonstre, baseado na teoria da projeção e da psicologia da personalidade, que os testes projetivos carecem de validade.

 

2.  Avaliação do tratamento. Outra forma de utilizar o psicodiagnóstico é como meio para avaliar o andamento do tratamento. É o que se denomina “re-testes” e consiste em aplicar novamente a mesma bateria de testes aplicados na primeira ocasião. Havendo suspeita de que o paciente lembre perfeitamente o que fez na primeira vez e se deseje variar, pode-se criar uma bateria paralela selecionando estes equivalentes, como o teste “Z” de Zulliger no lugar do Rorschach.

Algumas vezes isto é feito para apreciar os avanços terapêuticos de forma mais objetiva e também para planejar uma alta. Em outras é para descobrir o motivo de um “impasse” no tratamento e para que tanto o paciente como o terapeuta possam falar sobre isso, estabelecendo, talvez, um novo contrato sobre bases atualizadas. Em outros casos ainda, é porque existe disparidade de opiniões entre eles. Um deles acredita que pode dar fim ao tratamento, enquanto que o outro se opõe.

Estes casos representam um trabalho difícil para o psicólogo, pois passa a ocupar o papel de um árbitro que dará a razão a um dos dois. É então conveniente esclarecer ao paciente que o psicodiagnóstico não será realizado para demonstrar-lhe que estava enganado, mas, como um fotógrafo, ele registrará as situações para depois comentá-las. O mesmo esclarecimento deve ser dado ao terapeuta. Obviamente, é conveniente que a entrevista de devolução seja feita por aquele que realizou o estudo, tendo um cuidado muito especial em mostrar uma atitude imparcial e fundamentando as afirmações no material dado pelo paciente.

Nos tratamentos particulares, o terapeuta é quem decide o momento adequado para um novo psicodiagnóstico (ou talvez para o primeiro). No entanto, nos tratamentos realizados em instituições públicas ou privadas, são elas que fixam os critérios que devem ser levados em consideração. Algumas deixam isto a critério dos terapeutas. Outras decidem pauta-lo, considerando tanto a necessidade de avaliar a eficiência de seus profissionais quanto a de contar com um banco de dados úteis, por exemplo, para fins de pesquisa. Assim é possível que o primeiro psicodiagnóstico seja indicado quando o paciente entra na instituição, e o outro de seis a oito meses após, dependendo isto do período destinado a cada paciente.

3.  Como meio de comunicação.Existem pacientes com dificuldades para conversar espontaneamente sobre sua vida e seus problemas. Outros, como é o caso de crianças muito pequenas, não podem  fazê-lo. Outros emudecem e só dão respostas lacônicas e esporádicas. Com adolescentes e crianças podemos introduzir algumas modificações que muitas vezes despertarão seu entusiasmo. Assim que é sugerido, as crianças começam a desenhar ou a modelar; o jogo do rabisco de Winnicott entusiasma a todos, especialmente porque quebra a assimetria do vínculo.

Favorecer a comunicação é favorecer a tomada de insight, ou seja, contribuir para que aquele que consulta adquira a consciência de sofrimento suficiente para aceitar cooperar na consulta. Também provoca a perda de certas inibições, possibilitando assim um comportamento mais natural.

Não se trata de cair em atitudes condescendentes, mas de realizar a tarefa dentro de um clima ideal de comunicação, na medida do possível. Procura-se também respeitar o timingdo paciente, ou seja, o seu tempo. Alguns estabelecem rapportimediatamente, enquanto que para outros isso pode exigir bastante tempo.

Por isso seria grotesco ficar em silêncio por um longo período, apoiando-se no princípio de que a entrevista é livre e é o consultante quem deve falar, como seria também grotesco interrompê-lo enquanto está relatando algo importante pra impor-lhe a tarefa de desenhar.

O psicodiagnóstico possui um fim em si mesmo, mas é também um meio para outro fim: conhecer esta pessoa que chega porque precisa de nós. A finalidade é conhece-la da forma mais profunda possível. Para isso o bom rapporté imprescindível.

4.  Na investigação. No que se refere à investigação, devemos distinguir dois objetivos: um é a criação de novos instrumentos de exploração da personalidade que podem ser incluídos na tarefa psicodiagnóstica. Outro, o de planejar a investigação para o estudo de uma determinada patologia, algum problema trabalhista, educacional ou forense, etc. Neste caso, usa-se o psicodiagnóstico como uma das ferramentas úteis para chegar a conclusões confiáveis e, portanto, válidas.

Um exemplo do primeiro caso é o que fez o próprio Hermann Rorschach quando criou as manchas e selecionou entre milhares aquelas que demonstravam ser mais estimulantes para os pacientes.

Para dar validade a este teste mostrou as lâminas a um grupo de pacientes selecionados aleatoriamente e, após, a outro grupo já diagsnosticado com o método de entrevista clínica (esquizofrênicos, fóbicos, etc.). Assim pôde estabelecer as respostas populares (próprias da maioria estatística selecionada aleatoriamente) e as diferentes “síndromes” ou perfil de respostas típico de cada quadro patológico.

Da mesma forma procedeu Murray, criador do T.A.T. (Thematic Apperception Test). As respostas estatisticamente mais frequentes foram denominadas “populares”. Os desvios dessas respostas populares eram considerados significativos tanto no aspecto enriquecedor e criativo como no sentido oposto, ou seja, no aspecto patológico, podendo proceder do mesmo modo que Rorschach.

A criação de um teste não é uma tarefa fácil. Não podem ser colhidos alguns registros e deles extraídas conclusões com a pretensão de que sejam válidas para todos. É necessário respeitar aquilo que a psicoestatística indica como modelo de investigação para que as suas conclusões sejam aceitáveis. Também é necessário um conhecimento abrangente e o trabalho em equipe para a correta interpretação dos resultados. Assim, por exemplo, se se pretende criar um teste que avalie a inteligência em crianças surdas-mudas, será imprescindível a presença de um especialista dessa área. Se a intenção é criar um teste para pesquisar determinados conflitos do grupo étnico ao qual pertence o pesquisador, já que, não sendo assim, se a pesquisa tratasse de estudar o mesmo aspecto, mas em crianças suecas ou japonesas, sem a presença de um antropólogo e um psicólogo conhecedores da matéria, como integrantes da equipe pesquisadora, poderiam ser tiradas conclusões incorretas. Em relação ao segundo objetivo, trata-se em primeiro lugar de definir claramente o que se deseja pesquisar. Suponhamos que a finalidade é descobrir se existe um perfil psicológico típico dos homossexuais, dependentes de drogas ou claustrofóbicos. O primeiro passo deve ser selecionar adequadamente os instrumentos a serem utilizados, a ordem que será seguida, as ordens dentro dos quais podemos admitir variações individuais (por exemplo, podemos admitir que desenhe o Bender em mais de uma folha, que queira usar o verso, que acrescente detalhes às figuras, mas não que use borracha, de forma que tudo fique registrado). Isto é o que é chamado de padronizar a forma de administração do psicodiagnóstico. Se cada examinador trabalhasse à sua maneira, seria impossível comparar os registros colhidos e, portanto, não poderíamos pretender tirar deles conclusões cientificamente válidas.

Logo após, administraremos este psicodiagnóstico assim planejado: por um lado, a uma amostra de homossexuais, dependentes de drogas, etc., e por outro lado, o mesmo psicodiagnóstico, à outra amostra chamada de controle, que não registra a mesma patologia do grupo em estudo. Em uma terceira etapa, serão buscadas as recorrências e convergências em ambos os grupos, para poder-se assim chegar a conclusões válidas. Por exemplo, é significativo que os homossexuais desenhem primeiro a figura do sexo oposto, no Teste das Duas Pessoas. Estou usando um exemplo simples com a finalidade de transmitir claramente em que consiste essa tarefa. A utilidade destas pesquisas varia muito. As mais interessantes são aquelas que permitem identificar indicadores que servirão para detectar precocemente problemas clínicos, trabalhistas educacionais, etc., com a consequente economia de sofrimento, problemas e até complicações institucionais.

Método para que o consultante aceite melhor as recomendações

O psicodiagnóstico inclui, além das entrevistas iniciais, os testes, a hora de jogo com crianças, entrevistas familiares, vinculares, etc. As conclusões de todo o material obtido são discutidas com o interessado, com seus pais, ou com a família completa, conforme o caso e o sistema do profissional.

Os testes realizados individualmente são reservados, geralmente, para a entrevista individual com essa pessoa, para a entrega dos resultados. Porém o que tem sido feito e conversado entre todos pode ser mostrado ou assinalado para exemplificar algum conflito que os consultantes minimizam ou negam.

Por exemplo, um rapaz em torno de 25 anos que consultou por se sentir amarrado demais à noiva a à mãe, disse no Questionário Desiderativo que gostaria de ser o vento porque é livre e também um cão porque é uma companhia fiel. Além do restante do registro, estas duas catexias serviram para enfrenta-lo com a própria contradição: querer ser livre como o vento e ao mesmo tempo precisar da companha de alguém que lhe desse afeto. Logo aceitou que isto criava uma situação interna difícil e que não podia pensar que o problema seria solucionado trocando de noiva ou distanciando-se de sua mãe.

Em outra ocasião, com os pais de um menino de doze anos que se recusavam a aceitar a seriedade da doença do mesmo, usei outro recurso. Mostrei-lhes a lâmina III do Rorschach dizendo que o teste não estava sendo feito com eles, mas que a observassem silenciosamente por um instante e logo cada um dissesse o que havia visto. Ambos disseram algo semelhante à resposta popular: “Duas pessoas fazendo algo”. Então disse-lhes que o menino havia respondido: “Dois esqueletos”. Ambos ficaram muito impressionados e começaram a levar mais a sério minhas advertências.

Poderia eu ter tido a surpresa de que eles também dessem respostas muito patológicas. Nesse caso teria comentado de passagem o que o filho tinha visto e desviado a atenção para outro material. Quando as distorções são compartilhadas por pais e filhos, a conclusão inevitável é a de que uma terapia familiar é urgente.

Outro caso é o de uma moça de uns 20 anos que chega a um Serviço de Psicopatologia de um Hospital pedindo um estudo vocacional. Toda a sua conduta na sala de espera e o pedir a entrevista deixava clara uma grave patologia. A ansiedade era enorme, apertava nervosamente as mãos, sentava-se e levantava-se incessantemente, etc. Queria que fosse feito exclusivamente o “teste” vocacional. Com muita relutância, aceitou responder o Desiderativo. Suas respostas foram: 1+, “Gostaria de ser uma pomba”, que é graciosa e alegre”, e no 1- “Não gostaria de ser uma hiena porque vive se alimentando de desperdícios”; 2- Um gladíolo porque me lembra velórios”; 3- “Algo mineral, o carvão. Não me pergunte por quê”.

Entre a aparência alegre e inocente da pomba, inevitavelmente associada à vida e à paz, e a hiena que vive de cadáveres há uma dissociação abismal. As três colocações negativas estão relacionadas com a morte; o gladíolo com velórios, e o carvão é um vegetal sepultado sob a terra durante milênios. Isto facilitou o início da conversa com ela, sobre o quanto a preocupava a ideia da morte e com isso a deixava ansiosa. Ela deixou de insistir com o teste vocacional e começou a relatar fatos da sua vida, especialmente sobre a perda de vários seres queridos. Mesmo assim, recebeu algumas sugestões vocacionais, mas aceitou ir ao Serviço uma vez por semana para continuar falando sobre essas coisas que tanto perturbavam o seu dia-a-dia.

Escolha da estratégia terapêutia mais adequada

Um psicodiagnóstico completo e corretamente administrado permite-nos estimar o prognóstico do caso e a estratégia mais adequada para ajudar o consultante: entrevistas de esclarecimento, de apoio, terapia breve, psicanálise, terapia de grupo familiar ou vincular, sistêmica ou estrutural; análise transacional, gestáltica, etc.

Assim, por exemplo, um paciente trabalhará muito bem na psicanálise se aceitar a sua responsabilidade no conflito, se mostrar colaboração para fazer associações, contar lembranças, entrar em sua vida paticular, em seu passado. Diante da tarefa do Desenho Livre, aceita com prazer e responde com um bom nível de simbolização e riqueza em suas associações. As lâminas menos estruturadas como as do Rorschach não lhe causam impacto. A lâmina em branco do Phillipson o estimula favoravelmente. A entrevista final torna-se agradável de se preocupar, chorar, ou ao menos ficar deprimido na medida certa para empreender a tarefa psicanalítica com uma boa motivação.

Muito diferente seria o caso de outra pessoa que não tolera a entrevista aberta e prefere um inquérito pautado, que se bloqueia no Desenho Livre, no Rorschach e na lâmina branca do Phillipson. Pergunta “O que faço, que desenho?” e sente alívio quando nós damos uma ordem mais precisa, por exemplo “Bem, desenhe uma casa, uma árvore e uma pessoa”. A série A do Phillpson o deixa muito ansioso e gosta mais da B que é mais definida e menos difusa. Esta pessoa trabalhará melhor com uma terapia cara a cara, na qual se combinem interpretações cautelosas com sugestões e alguns direcionamentos. A situação de solidão e de regressão do divã seria para ele, por enquanto, insuportável, e só poderia aceita-la após uma primeira etapa com as características descritas.

As entrevistas diagnósticas vinculares e familiares são de grande utilidade para decidir entre a recomendação de um tratamento individual, vincular ou familiar.

Existem algumas técnicas projetivas idealizadas para serem aplicadas simultaneamente a um casal ou a um grupo (filial, familiar, de trabalho, etc.)

Entre elas posso citar o Teste do Casal em Interação (TPI) do psicólogo de Rosario, Luis Juri, o Teste Cinético da Família de Rana Frank de Verthelyi (adaptação) em suas formas atual e prospectiva; também o teste de Rorshchach com a técnica de consenso.

Estes testes são muito úteis para decidir a capacidade de agrupamento ou não de um indivíduo, ou para fazer um diagnóstico sobre como irá funcionar um grupo em formação.Os terapeutas de grupo têm usado muito, para isto, o teste das bolitas do Dr. Usandivaras. Ester Romano apresentou seu MEP (Modelo Experimental Perceptivo) à Associação Argentina de Psicanálise, idealizado sobre a base de estímulos gráficos ao estilo do Wartegg e não estruturados ao estilo do Rorschach.

No psicodiagnóstico individual, o motivo da consulta manifesto e latente dá-nos uma pauta para recomendar ou não a terapia de grupo. Quando as dificuldades situam-se na relação do indivíduo com os demais (pares, superiores ou subalternos) o mais indicado é recomendar a terapia de grupo. Se, no entanto, o conflito está mais centralizado no intrapsíquico, o mais adequado seria terapia individual.

O teste de Phillipson (especialmente as lâminas grupais AG, BG, e CG) nos dá uma informação muito útil a respeito, já que, se nelas a produção for boa, comprovaria a nossa suspeita de que uma terapia em grupo seria adequada, enquanto que se nelas o paciente se desarticula, sofre impactos, as nega ou distorce a produção, haveria que pensar que, longe de ser uma ajuda, a terapia de grupo aumentaria a sua angústia. De forma que, independentemente do motivo da consulta, isto seria um elemento para contra-indica-lá.

 

Em síntese, tentei resumir as diferentes aplicações que pode ter o psicodiagnóstico, e certamente serão abertos outros novos caminhos ainda não explorados.

Psicologia - Psicodiagnóstico
3/5/2020 1:59:49 PM | Por Lillian M. Frazão
Ser ou não ser na contemporaneidade, eis a questão

Joana tem 35 anos. É uma mulher bonita, elegante, bem-sucedi­da profissionalmente, ocupa um bom cargo numa grande empre­sa. Filha de uma doméstica e de um vendedor ambulante, sempre foi uma pessoa esforçada e obstinada, tendo-se sobressaído nos estudos e conseguido cursar faculdade pelos próprios méritos. Atualmente, mora com o namorado, de quem fala pouco.

Marcou o início da terapia duas ou três vezes, mas precisou desmarcar em virtude de necessidades de trabalho. Quando con­seguiu vir, trouxe como principal demanda sua dificuldade de se relacionar com pessoas, o que a prejudicava profissionalmente. Sem amigos, raramente tem algum lazer, não cultiva hobbies e participa de pouca atividade social além do trabalho. Boa parte de suas noites e de seus fins de semana é ocupada com trabalho. Joana focaliza em sua fala basicamente questões profissionais e insiste em me perguntar o que e como deve fazer para se relacionar com pessoas. O universo do humano lhe parece desco­nhecido e surpreendente. Acredita que haja regras que, uma vez
seguidas, proporcionariam bons relacionamentos com outras pessoas.

Joana parece ser uma representante de boa parte dos jovens bem-sucedidos da atualidade que nos procuram na clínica. Pessoas que, desde muito cedo, são levadas a se preparar para um futuro de sucesso profissional. Esforçam-se para se encaixar nos padrões esperados e para tal aprendem inglês, praticam algum esporte, fazem uma faculdade, vestem-se de acordo com os dita­mes da moda, malham em academias, vivem de regime - pois sempre estão um ou dois quilos acima daquilo que os atuais pa­drões de beleza demandam. Conseguem empregos que lhes possibilitam ter um bom carro, usar roupas de marca, comer fora, vestir-se bem, adquirir os mais sofisticados bens de consumo, viajar etc. No entanto, sem que tenham awareness, vivem aprisio­nadas à sociedade de consumo, que as leva à ilusão de que ter coisas, possuir bens significa realizar-se como indivíduo. As con­dições oferecidas ao acontecer humano na pós-modernidade têm se mostrado bastante inóspitas.

A sociedade contemporânea estimula fortemente o ter em lugar do ser, e cada vez mais falta o suporte e o cuidado necessá­rios para que possamos nos constituir como pessoas; são muitas as dificuldades e vicissitudes da vida para a constituição do ser, bem como as formas que estimulam e respaldam o não ser.

Vivemos um dilema cruel e desafiador: ser ou ter? Necessário e difícil coadunar as duas coisas, ter awareness de suas reais ne­cessidades - sobretudo no âmbito do humano manter contato com o ambiente e fazer escolhas que possibilitem estabelecer in­dividual e singularmente uma hierarquia de dominâncias que permita atender às demandas de cada um em relação a uma e outra coisa.

Qualquer escolha implica perda e incerteza, o que nos gera angústia - a qual, além de ser um sentimento pouco confortável, é absolutamente diferente e única em sua apresentação a cada um de nós. Segundo Safra (2004, p. 24):

[...] a angústia revela as dimensões do sofrimento e da fragilidade humana. Não é um conhecimento que vem de uma aprendizagem ou pedagogia, mas sim do próprio fato de o ser humano ser lançado em meio à existência na busca das condições que possibilitem seu alojamento, mesmo que precário, no mundo com os outros.

Mais adiante, o autor (idem) acrescenta: “O homem se encon­tra na fragilidade do entre: entre o dito e o indizível, entre o desvelar e o ocultar, entre o singular e o múltiplo, entre o encon­tro e a solidão, entre o claro e o escuro, entre o finito e o infinito, entre o viver e o morrer”.

Enfrentar essa angústia é terrível; evitá-la também o é. Deparar com ela implica awareness de nossas reais necessida­des, poder hierarquizá-las, fazer escolhas, contatar nosso verda­deiro ser, confrontar nossa verdade, fundar-nos como pessoas e ter a possibilidade de passar da passividade e da introjeção a uma atuação que, por meio da assimilação, pode se tornar res­ponsável e responsiva. Evitá-la, por seu turno, é também uma escolha infeliz, uma vez que aliena, acomoda-nos a um parecer, faz-nos obedecer, sem nos dar conta, às demandas sociais. Dessa forma, deixamos de nos fundar como pessoas reais e ver­dadeiras.

“Ser ou não ser, eis a questão.” Essa frase, que se tornou clás­sica e conhecida de todos, foi dita por Hamlet na peça “A trágica história de Hamlet, príncipe da Dinamarca”, de Shakespeare. Na verdade, na primeira edição da obra, publicada em 1603, a frase aparece ligeiramente diferente - mostrando-se ainda mais suges­tiva e pertinente a este texto: “To be, or not to be I, theres the point” (Ser ou não ser eu, eis a questão). Infelizmente, a palavra “eu” acabou sendo omitida nas edições subsequentes.

Em resumo, a história é a seguinte: Hamlet era um príncipe dinamarquês querido por todos. Depois da morte do pai, a qual lhe causa muito sofrimento, sua mãe se casa com o cunhado Cláudio, irmão do marido falecido, que assim se torna rei da Dinamarca. Certa ocasião, o fantasma do pai aparece para Hamlet e conta-lhe que não morrera de causa natural, mas fora assassinado pelo tio, visando, depois de casar com a rainha viúva, tornar-se rei. O pai pede ao filho Hamlet que vingue sua morte.

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”, diz Hamlet quan­do encontra o fantasma do pai, e passa a questionar se a mãe o manipulava e participara da trama contra o pai e se ele próprio não corria o risco de ser também eliminado. Atormentado por esses pensamentos e angustiado diante da escolha de vingar a morte do pai e tornar-se um assassino ou ser conivente e covarde diante dessa realidade, Hamlet escolhe vin­gar a morte do pai.

Ofélia, seu grande amor, era filha do primeiro-ministro; temeroso de que por essa via seu plano chegasse aos ouvidos do rei, Hamlet decide, com sofrimento e pesar, abrir mão de seu romace com a jovem.

Enquanto espera por ela para lhe dizer que não a ama, Hamlet faz um rico e sugestivo monólogo no qual profere a famosa frase».

HAMLET - Ser ou não ser, eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias

E, combatendo-o, dar-lhe fim?

Morrer; dormir;

Só isso. E com o sono - dizem - extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis uma consumação

Ardentemente desejável.

Morrer, dormir... Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Os sonhos que hão de vir no sono da morte

Quando tivermos escapado ao tumulto vital

Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão

Que dá à desventura uma vida tão longa.

Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,

A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,

As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, 

Entendo que essa fala, na atualidade e metaforicamente, po­deria se referir à vivência da angústia, enfrentá-la... pegar em armas contra o mar de angústias ou simplesmente evitá-la... mor­rer, dormir e, assim, fugir ao “ tumulto vital”.

E com o sono - dizem - extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita.

Isso poderia se aplicar a deparar com a angústia (dores do coração) ou evitá-la.

Preferir e suportar males que já temos,

A fugirmos para outros que desconhecemos?

Trata-se da difícil escolha entre o ter e o ser. Os males do ter nos são, de certa forma, conhecidos, enquanto os do ser são, na atualidade, bastante desconhecidos, por isso mesmo angustiantes.

Preferir e suportar males que já temos,

A fugirmos para outros que desconhecemos?

E assim a reflexão faz todos nós covardes.

Essa fala se aplica muito bem à já mencionada angústia que nos acomete a cada escolha e desvio das normas implícitas e am­plamente estimuladas hoje para enfrentar o desconhecido que o ser de cada um envolve. 

E é com esses conflitos que boa parte de nossos pacientes chega ao consultório. Estes impedem a pessoa de ser o que é e, em alguns casos, se fundem como pessoas. Já em 1947, no livro Ego, fome e agressão (2002, p. 202), Perls referiu-se ao complexo de simulacro (traduzido para o português como “complexo de fantoche”), o qual “representa um impedi­mento sério ao desenvolvimento da personalidade, porque não
satisfaz realmente a agressividade, mas a desvia de sua meta bio­lógica, isto é, a satisfação da fome e a obtenção da restauração da integridade do indivíduo”

O contexto clínico e particularmente a Gestalt-terapia, por sua visão de homem sempre em interação com seu ambiente, ofere­cem-nos um espaço ímpar para esclarecer essas questões e lidar com elas a partir da e na relação terapêutica, na qual nossa huma­nidade pode encontrar e confirmar a humanidade do outro.

A presença e o olhar do outro são essenciais para que nos fundemos. Nosso existir demanda o testemunho do outro. Há aqui questões profundas com as quais temos de lidar no exercício de nosso ofício: a impossibilidade de ser no mundo contemporâneo consumista e tecnicista, no qual encontramos poucas possibilidades para o alojamento do humano. Nossos pacientes não tiveram a possibilidade de se constituir como sujei­tos da própria vida e, desse lugar, relacionar-se com seu ambien­te usando sua singularidade, alteridade e humanidade (Frazão, 1999).

Essas pessoas não são (e talvez jamais tenham sido) vistas por outro em sua humanidade. Levinas (1988) assinala a importân­cia do olhar do outro para que possamos nos fundar como pes­soas, com abertura para o OUTRO (aqui também grafado em maiúsculas).

Esta talvez seja nossa tarefa e nossa função primordial na clí­nica: enxergar o outro. Não se trata simplesmente de vê-lo, nem mesmo de buscar apreendê-lo por meio de uma compreensão fenomenológica, mas, antes disso, de enxergá-lo como humano, acolhê-lo em sua angústia, alteridade e diversidade, bem como em sua singularidade existencial.

Além do olhar é preciso confirmá-lo, como nos mostra Buber (1979). Confirmação, como afirmei em outras ocasiões, não sig­nifica concordância. Ao contrário: se nossa função como psicoterapeutas é possibilitar a emergência da humanidade do paciente, às vezes é necessário discordar.

Confirmar a pessoa não implica confirmar o que ela faz ou o que ela tem. Trata-se de confirmá-la como pessoa que é, com seus recursos e potenciali­dades. Discordar daquilo que o indivíduo faz pode significar, em determinadas situações, confirmar aquilo que ele é.

Dou um exemplo: tive um paciente que estivera em terapia comigo em duas ocasiões diferentes e, em virtude de minha mu­dança de endereço, perdera o contato comigo. Depois de certo esforço, conseguiu meu novo endereço e procurou-me para tera­pia, tendo como principal queixa o fato de não conseguir manter um relacionamento estável com uma mulher.

Esse paciente se encaixaria naquilo que Perls (2002, p. 201), como já vimos, chama de simulacro: “Tentam estabilizar qual­quer relacionamento logo na primeira fase do contato; assim, podem ter centenas de relações, mas nenhuma se desenvolve numa amizade real”.

Voltando ao exemplo: ainda que tenhamos feito inúmeros ajus­tes - no preço, no horário, na forma de pagamento, no dia de pa­gamento etc. - para tornar a terapia viável ao rapaz, ele sistematicamente descumpria o acordado. Realizamos três meses de terapia e, depois de constatar que mais uma vez ele descumpriria o acordo referente ao pagamento, eu lhe disse ao fim da sessão que precisávamos conversar. No encontro seguinte, ele começou informando que pararia a terapia devido à minha rigidez. Então disse: “Você parece um soldado alemão”. Para além do que aquilo, como filha de exilados judeus alemães, provocou, tive a oportuni­dade de discordar veementemente do que ele dizia, baseando-me não só na flexibilidade que tive no nosso contrato inicial e na to­lerância nos dois meses que antecederam nossa conversa, mas também em sua longa busca de contato comigo, o que sinalizava que eu era importante para ele. Porém, como acontecia com seus relacionamentos com mulheres, uma vez conquistada eu poderia ser abandonada e até desqualificada. Essa minha discordância foi extremamente confirmadora para ele e permitiu-lhe não só conti­nuar em terapia comigo, mas também finalmente lidar com suas questões mais profundas ligadas a seu relacionamento com mu­lheres, os quais precisariam implicar algum nível de reciprocidade.

O confirmar é também um olhar e o olhar é também uma confirmação... Para muito além das palavras, confirmação é gesto... um gesto que valida o outro como existente, que o reconhece humano, sujeito a falibilidade e incertezas, com recursos e potencialidades.

Trata-se de uma postura ética a qual, segundo Figueiredo e Coelho Junior (2000, p. 7), precisa ser entendida como “posição e como lugar (morada), como postura fundamental, como modo de escutar e falar ao e do outro na sua alteridade”.

É por meio dessa postura que envolve o olhar fundante do terapeuta e também a confirmação do ser do paciente que cada um pode apossar-se de si, ser belo, único e singular em seu ple­ no existir.

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Estratégias para melhorar a vida

A seguir, uma lista de dicas extras para aumentar as experiências emocionais prazerosas, a felicidade e o bem-estar em sua vida. Embora classifiquemos essas sugestões entre os domínios importantes da vida, como fazemos na maioria dos capítulos, não pretendemos sugerir que todos os aspectos dos sentimentos e emoções positivos e da felicidade estão relacionados a domínios específicos. O que acreditamos, contudo, é que alguns aspectos de uma vida com prazer e com sentido podem ser encontrados em cada um dos domínios da vida.

Amor

  • Cerque-se de pessoas felizes. O afeto e as emoções positivos dessas pessoas o afetam e ajudam nos tempos ruins.
  • Diga aos que estão perto de você que você os ama. Sua expressão sincera de amor irá fortalecer seu relacionamento e induzir sentimentos positivos nos outros.

Trabalho

  • Comece uma reunião com comentários positivos sobre as contribuições dos colegas. Isso pode gerar sentimentos positivos que produzem criatividade e decisões acerta­das.
  • Traga para o trabalho ou para as aulas “presentinhos” feitos em casa. Isso pode gerar interações produtivas.

Atividade lúdica

  • Realize suas atividades lúdicas favoritas do passado - aquelas que lhe trouxeram alegria quando criança ainda podem fazê-lo hoje em dia.
  • Participe de atividades breves de relaxamento para fazer pequenas pausas no seu dia. O relaxamento pode tornar sua mente e seu corpo mais sensíveis aos momentos de prazer do dia-a-dia.
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12/27/2019 8:00:14 PM | MenteCérebro, n.141
Drogas ou divã, não tão distantes assim

Médicos e psicólogos divergem sobre o tratamento adequado para transtornos mentais, os primeiros têm em mira o cérebro enfermo; os últimos os conflitos psíquicos. Mas essa rigorosa separação está ultrapassada, dizem pesquisadores.

Psicologia - Psicanálise
7/20/2020 8:16:52 PM | Psicanálise, n. 25
Chantagem emocional

Você tem medo de ser reprovado ou tem medo do outro? Você sente que deve a alguém uma obrigação, mesmo quando se trata de algo que você não deseja fazer ou que é ruim para você? Você se sente culpado quando não cede às solicitações do outro? Situações deste tipo fazem você se sentir que não é uma pessoa boa? De acordo com a autora Susan Forward, se você respondeu sim a qualquer destas pergun­ tas, existe uma grande chance de que você possa “sucumbir” à chantagem emocional do outro.

Psicologia - Psicanálise
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Estilos de emoções positivas ligados ao resfriado comum

As emoções positivas podem aumentar a resistência ao resfriado comum, segundo um estudo recente publicado em Psychosomatic medicine (vol. 65, n° 1). A pesquisa do Dr. Sheldon Cohen, da Universidade Carnegie-Mellon, nos Estados Unidos, e seus colaborado­res contribui para um corpo de literatura que sugere que os estilos emocionais influenciam a saúde. Os pesquisadores entrevistaram 334 voluntários saudáveis por telefone, durante sete finais de tarde ao longo de três semanas, para avaliar seus estados emocionais. Os participantes descreveram como se sentiam durante o dia em três áreas de emoção positiva - vigor, bem-estar e calma - e três áreas da emoção negativa - depressão, ansiedade e hostilidade - classificando suas emoções em uma escala de 0 a 4.

Após essa avaliação inicial, os pesquisadores administraram uma dose de um rinovírus, o germe que causa resfriado, no nariz de cada participante. Depois disso, os participantes foram observados por cinco dias, para ver se ficavam doentes e de que formas se manifes­tavam os sintomas do resfriado. Os voluntários eram considerados com resfriado clínico se estivessem infectados e correspondessem aos critérios da enfermidade.

“As pessoas com baixo escore para estilo emocional positivo tiveram três vezes mais probabilidades de ficarem doentes do que aquelas com estilos emocionais elevados”, disse Cohen. A seguir, os pesquisadores avaliaram como o estilo emocional afetava o relato de todos os participantes enfermos sobre os sintomas de resfriado. Cada dia da quarentena, os pesquisadores lhes pediam que informassem a gravidade de sintomas como nariz escorren­do, tosse e dores de cabeça, em uma escala de quatro pontos.

Embora o estilo emocional negativo não tenha afetado o fato de as pessoas desenvolve­rem ou não resfriados, o estudo concluiu que as que têm estilo emocional negativo mais elevado relatavam mais sintomas do que o esperado a partir de indicadores objetivos de saúde, afirma Cohen. As que têm mais emoções positivas informam menos sintomas de doença do que o esperado.

O estilo emocional positivo também foi associado a melhores práticas de saúde e níveis mais baixos de epinefrina, norepineffina e cortisol, três hormônios relacionados ao estresse, mas os pesquisadores concluíram que isso não explicava a relação entre estilos emocionais positivos e a doença.

Considerando-se que o adulto médio pega entre dois e cinco resfriados por ano, e as crianças, em média, sete a dez, o desenvolvimento de perfis de risco psicológico e a reflexão sobre formas de aumentar as emoções positivas podem reduzir o risco de se resfriar, diz Cohen.
Cohen acrescenta que a futura pesquisa deveria se concentrar no papel biológico único que as emoções cumprem na saúde.
 

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Vocês não devem construir os muros da prisão que nos retém...

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Teoria do reforço
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