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Publicado por:
Odsson Ferreira | - | Atualizado em: 1/2/2020 12:22:29 PM
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Texto
As influências fisiológicas na Psicologia
Psicologia - História da Psicologia - História - Idade Moderna - Idade Contemporânea - Hermann von Helmholtz, Ernst Weber, Gustav Theodor Fechner e Wilhelm Wundt - Santiago Ramón y Cajal - Fisiologia - David Kinnebrook - Nevil Maskelyne - Johannes Müller
ABNT
Schultz, 
Duane P., 
Schultz,
Sydney Ellen.
As influências fisiológicas na Psicologia. 
in: 
__________. 
 
História da Psicologia Moderna. 
 
9ª Ed. 
 
São Paulo/SP: 
Cengage, 
2009. 
Cap. 3. 
p.55-76. 
APA
Schultz, 
D .
Schultz,
S .
 
(2009). 
As influências fisiológicas na Psicologia. 
in: 
D .
Schultz, 
S .
Schultz,
(Ed.),
História da Psicologia Moderna. 
 
(pp.55-76). 
São Paulo/SP: 
Cengage. 
Livre
Por Duane P. Schultz
Pontos-chave
Filósofos empiristas, como Locke e Berkeley, debateram a natureza subjetiva da per­cepção humana, usando como argumento a afirmação de que nem sempre há - ou que muitas vezes não há - correspondência exata entre a natureza de um objeto e a nossa per­cepção sobre esse objeto
Os empiristas britânicos argumentavam que a sensação era a única fonte de conhe­cimento. O astrônomo Bessel demonstrou o impacto da observação das diferenças indi­viduais na sensação e na percepção. Os fisiologistas estavam definindo a estrutura e a função dos sentidos. Era chegada a hora de estudar e quantificar esse portão de entrada para a mente: a experiência mentalística e subjetiva da sensação. As técnicas disponíveis para a investigação do corpo passaram a ser aperfeiçoadas para a exploração da mente. A psicologia experimental estava pronta para começar.
No começo do século XIX, o filósofo alemão Immanuel Kant insistia em afirmar que a psicologia nunca poderia ser considerada ciência porque era impossível medir - ou realizar experiências com - os processos psicológicos. Em virtude do trabalho de Fechner, que ao contrário, tornou possível a medição do fenômeno mental, a alegação de Kant não era mais levada a sério. E foi principalmente com base na pesquisa psicofísica de Fechner jje Wilhelm Wundt concebeu sua teoria da psicologia experimental. Os métodos usados por Fechner mostraram-se aplicáveis a uma ampla variedade de problemas psicológicos nunca imaginados. E o mais importante de tudo: Fechner deu à psicologia aquilo que toda disciplina deve possuir para ser chamada de ciência: técnicas de medição coerentes e precisas.

 

Os sapatos de David Kinnebrook eram engraxados todas as noites, mas esse era o único benefício que tinha no seu emprego. Seu trabalho era solitário, maçante e muito estressante. Era forçado a morar no mesmo prédio em que trabalhava e tinha que estar disponível das 7h da manhã às 10h da noite, sete dias da semana. Além disso, muitas vezes um alarme tocava no meio da noite, chamando-o de volta ao trabalho. Ele recebia um salário muito peque­no para tudo isso, e três refeições por dia, e, lógico, seus sapatos eram engraxados.

Quais eram as qualificações para esse emprego mara­vilhoso? Um dos cientistas que supervisionava esse serviço escreveu: "Quero homens incansáveis, que trabalhem muito, e acima de tudo, escravos obedientes do trabalho, que ficarão satisfeitos por passarem seu dia usando suas mãos e olhos no ato mecânico de observar, e o resto do tempo, no processo maçante de calcular" (apud Croarken, 2003, p. 286).

Quando Kinnebrook finalmente saiu, seu substituto descreveu seu trabalho da seguinte maneira:

"Nada pode exceder o enfado e tédio da vida que o assistente leva nesse lugar, excluído da sociedade, com exceção de um pobre rato que ocasionalmente sai de seu buraco na parede... Abandonado nesse lugar, o assistente passa seus dias, semanas e meses no mesmo longo e cansativo cômputo, e sem um amigo para encurtar as horas entediantes, ou uma alma com quem possa conversar” (apud Croarken, 2003, p. 285).

O local era o Observatório Real em Greenwich, Inglaterra; o ano era 1795. Kinnebrook trabalhava como assistente do reverendo Nevil Maskelyne (1732-1811), um astrônomo da realeza. Trabalhou para o reverendo durante 1 ano, 8 meses e 22 dias antes de ser des­pedido, e nunca soube que seu trabalho teve papel impactante para a fundação da nova ciência da psicologia.

Tudo começou com a diferença de cinco décimos de segundo. Isso não é muito, pode-se dizer, mas foi demais para o astrônomo. Quando Maskelyne percebeu que as observações de Kinnebrook sobre o tempo decorrido na passagem de uma estrela de um ponto a outro era inferior ao seu, repreendeu-o pelo engano, e alertou-o para que fosse mais cuidadoso. Kinnebrook tentou, mas as diferenças aumentaram. Maskelyne relata:

Devo mencionar que meu assistente, sr. David Kinnebrook, que observava criteriosamente o movimento das estrelas e dos planetas por todo o ano de 1794 e parte do presente ano, obedecendo aos mesmos procedimentos por mim utilizados, passou a registrar a partir do início de agosto passado meio segundo de atraso em relação às minhas observações, e, em janeiro do ano seguinte, ou seja, em 1796, ele aumentou seu erro em oito décimos de segundo.

Infelizmente, suas observações prosseguiram por um período considerável, antes que eu notasse o erro e não me parecia possível resolver esse problema e retornar ao método correto de observação, portanto, embora relutante, visto ser ele um ótimo e cuidadoso assistente em diversos aspectos, acabei dispensando-o (apud Howse, 1989, p. 169).

E assim, Kinnebrook foi demitido e caiu no esquecimento sem tomar conhecimento de que, realmente, não havia cometido erro algum.

O incidente de Kinnebrook foi ignorado por 20 anos, até o fenômeno tornar-se objeto de investigação do astrônomo alemão Friedrich Wilhelm Bessel (1784-1846), que estava interessado em estudar os erros de medição. Ele suspeitava que aqueles, "erros" do assistente de Maskelyne deveriam ser atribuídos às diferenças individuais - distinções pessoais sobre as quais as próprias pessoas não têm controle. Assim, raciocinou Bessel, as diferenças podem ser encontradas entre os tempos observados por todos os astrônomos, fenômeno que passou a ser chamado de "equação pessoal”. Bessel continuou investigando essa hipótese e constatou que estava correto. Mesmo entre vários astrônomos experientes, as divergências eram comuns.

Bessel chegou a duas conclusões com sua descoberta: (1) os astrônomos devem levar em consideração a natureza humana do observador, já que as características e as percep­ções pessoais necessariamente influenciam as observações; (2) se a astronomia deve levar em conta o papel do observador humano, certamente ele é importante também nas outras ciências que dependem dos métodos de observação.

Filósofos empiristas, como Locke e Berkeley, debateram a natureza subjetiva da per­cepção humana, usando como argumento a afirmação de que nem sempre há - ou que muitas vezes não há - correspondência exata entre a natureza de um objeto e a nossa per­cepção sobre esse objeto. O trabalho de Bessel ilustrou e corroborou a teoria com os dados de uma ciência pura: a astronomia. Assim, os cientistas foram forçados a concentrar-se no papel do observador humano como responsável pelos resultados das experiências.

Consequentemente, eles começaram a estudar os órgãos dos sentidos humanos - os meca­nismos fisiológicos por meio dos quais recebemos informações a respeito do universo, como forma de investigação dos processos psicológicos da sensação e da percepção. Desse modo, os fisiologistas começaram a aplicar essa metodologia no estudo da sensação e a psicologia estava a um passo de seguir o mesmo caminho.

Os Avanços Iniciais da Fisiologia

A pesquisa fisiológica que estimulou e orientou a nova psicologia era produto do trabalho científico do final do século XIX. Assim como todos os demais esforços, esse também teve predecessores, trabalhos iniciais que lhe serviram de base. A Fisiologia tornou-se uma disciplina voltada aos experimentos, durante a década de 1830, principalmente sob a influência do fisiologista alemão Johannes Müller (1801-1858), defensor do (método experimental) Müller ocupava posição de prestígio como professor de anatomia e fisiologia da University of Berlin. Era um fenômeno na produção de trabalhos, publicando em média um trabalho acadêmico a cada sete semanas. Manteve esse ritmo por 38 anos e suicidou-se durante uma crise depressiva.

Uma de suas obras de maior influência, Handbook of the physiology of mankind, foi publi­cada entre 1833 e 1840. Seus volumes contêm o resumo das pesquisas fisiológicas desse período e sistematizam um vasto conhecimento a respeito da área. Eles apresentam muitos estudos novos, sinalizando o rápido crescimento do trabalho experimental. O primeiro volume foi traduzido para o inglês em 1838, e o segundo em 1842, confirmando o interes­se de vários outros países além da Alemanha na pesquisa fisiológica.

Sua teoria sobre a energia específica dos nervos também foi muito importante para a fisiologia e a psicologia. Müller afirmava que a estimulação de determinado nervo sem­pre provocava uma sensação característica, porque cada nervo sensorial possuía energia específica própria. Essa noção estimulou a realização de muitas pesquisas para localizar as funções dentro do sistema nervoso e apontar os mecanismos sensoriais receptores nas regiões periféricas do organismo.

O Mapeamento Interno das Funções Cerebrais

Muitos dos primeiros fisiologistas realizaram suas pesquisas diretamente nos tecidos cere­brais e essas contribuições foram substanciais para o estudo das funções do cérebro. Esses esforços foram as primeiras tentativas de mapeamento das funções cerebrais, ou seja, de determinar as partes específicas do cérebro responsáveis pelo controle das diferentes funções cognitivas. A importância desse trabalho para a psicologia não se restringe à delimitação das áreas especializadas do cérebro, como reside também no refinamento dos métodos de pesquisa que mais tarde viriam a ser amplamente usados na psicologia fisiológica.

O médico escocês Marshall Hall (1790-1857), na época trabalhando em Londres, foi o pioneiro na investigação do comportamento por reflexo. Hall observou que os animais decapitados continuavam a se mover por algum tempo mediante o estímulo de várias terminações nervosas. Chegou à conclusão de que os diversos níveis de comportamento têm origem nas diferentes partes do cérebro e do sistema nervoso. Mais especificamente, Hall postulava que o movimento voluntário dependia do cérebro; o movimento de refle­xo, da medula espinhal; o movimento involuntário, da estimulação direta dos músculos, e o movimento respiratório, da medula.

A pesquisa do professor de história natural da College de France, de Paris, Pierre Flourens (1794-1867), envolvia a destruição sistemática de partes do cérebro e da medula espinhal dos pombos, bem como a observação das consequências. Flourens concluiu que o cérebro controlava os processos mentais mais elevados; partes do cérebro médio contro­lavam os reflexos visuais e auditivos; o cerebelo, a coordenação, e a medula, o batimento cardíaco, a respiração e outras funções vitais.

As descobertas de Hall e Flourens, embora consideradas válidas no aspecto geral, são secundárias para os nossos propósitos em relação ao uso do método de extirpação, no qual o pesquisador tenta determinar a função de uma parte específica do cérebro, removendo-a ou destruindo-a e observando as consequentes mudanças no comportamento do animal.

A segunda metade do século XIX presenciou a introdução de duas abordagens expe­rimentais complementares à pesquisa sobre o cérebro: o método clínico e a técnica do estímulo elétrico. O método clínico foi desenvolvido em 1861 por Paul Broca (1824-1880), cirurgião de um hospital próximo a Paris para doentes mentais. Broca realizou a autópsia de um homem que, por muitos anos, apresentara uma fala incompreensível. O exame clínico revelou uma lesão na terceira convolução frontal do hemisfério esquerdo do córtex cerebral. Broca denominou essa seção do cérebro de centro da fala, que mais tarde ficou conhecida como a área de Broca. O método clínico servia como complemento da técnica de extirpação, já que era difícil obter o consentimento das pessoas para remover partes do seu cérebro. Como uma espécie de "extirpação pós-morte", o método clínico possibilita o exame da área danificada do cérebro, considerada responsável pelo comportamento do paciente quando ainda vivo.

A técnica dos estímulos elétricos para o estudo do cérebro foi aplicada pela primeira vez em 1870, por Gustav Fritsch e Eduard Hitzig. A técnica consiste na aplicação de fracas entes elétricas para a exploração do córtex cerebral. Fritsch e Hitzig descobriram que a estimulação de certas áreas corticais de coelhos e cães provocava algumas reações motoras, como a movimentação das patas. Com o desenvolvimento de equipamentos eletrônicos cada vez mais sofisticados, a técnica dos estímulos elétricos tornou-se extremamente produtiva para o estudo das funções cerebrais.

O Mapeamento Externo das Funções Cerebrais

Dentre os cientistas que tentavam realizar o mapeamento interno do cérebro estava o médico alemão Franz Josef Gall (1758-1828), que dissecava cérebros de animais e de pes­soas mortas. Seu trabalho constatou a existência de substâncias cerebrais, branca e acin­zentada, a conexão de cada lado do cérebro ao lado oposto da medula espinhal por meio de fibras nervosas e a ligação por fibras entre as metades do cérebro.

Após completar esse minucioso programa de pesquisa, Gall voltou sua atenção para a parte externa do cérebro. Ele desejava descobrir se era possível obter informações sobre as propriedades cerebrais analisando o tamanho e o formato do cérebro. Com relação ao seu tamanho, os estudos realizados com animais demonstraram tendência de comportamen­to mais inteligente em animais com cérebros maiores do que nas espécies com cérebros menores. No entanto, quando começou a investigar o formato do cérebro, Gall aventu­rou-se por um território controverso. Ele fundou um movimento chamado cranioscopia, mais tarde conhecido como frenologia, cuja proposta afirmava que o formato do crânio de uma pessoa revelava suas características intelectuais e emocionais. Sua reputação caiu rapidamente quando promoveu essa ideia e ele não era mais visto pelos colegas como um respeitável cientista, mas como um charlatão e uma fraude.

Gall acreditava que, quando uma habilidade mental, como a consciência, a benevolên­cia ou a autoestima, fosse particularmente bem desenvolvida, devia existir uma protusão ou uma saliência correspondente na superfície do cérebro, na região controladora dessa característica. Se a capacidade fosse inferior, haveria um afundamento no crânio. Depois de examinar as saliências e os afundamentos de muitas pessoas. Gall mapeou a localiza­ção de 35 atributos humanos.

Um aluno de Gall, Johann Spurzheim, e um frenologista escocês. George Combe, contri­buíram muito para a popularização do movimento. Viajaram por toda a Europa e pelos Estados Unidos, dando aulas e demonstrações a respeito da frenologia. Seu sucesso foi rapidamente obscurecido pelos dois irmãos, Orson e Lorenzo Fowler, filhos com boa escolaridade de um fazendeiro no norte de Nova York. Os irmãos Fowler interessaram-se pela frenologia depois de lerem os trabalhos de Spurzheim e Combe e resolveram desenvolver um empreendimento extremamente bem-sucedido. Como descrito pelos psicólogos Ludy Benjamin e David Baker, milhões de americanos tiveram suas cabeças examinadas e as saliências dos seus cérebros lidos pelos Fowlers e seus associados. Os irmãos abriram clínicas em Nova York, Boston, e Filadélfia no final da década de 1830. Venderam o direito de abrir clínicas em outras cidades, principalmente através do treinamento de frenologistas, e fornecendo suprimentos frenológicos como bustos para exibição e ensino, compassos de calibre e tamanhos diversos para medições, painéis, manuais para venda e, para o frenologista itinerante, caixas para transportar os instrumentos e suprimentos. (Benjamin e Baker, 2004, p. 4-5).

Seus negócios foram incrivelmente lucrativos e continuaram sendo bem-sucedidos no século XX. Iniciaram uma revista, a American Phrenological Journal, em 1838, que foi publicada por mais de 70 anos. Os clientes chegavam em quantidade tão grande que os consultórios frequentemente pareciam um show. Os frenologistas iam de cidade em cidade, "fazendo visitas nos dias marcados, estabelecendo-se por um curto período, e oferecendo seus servi­ços mediante uma taxa (...) vendiam livros e painéis, assim como os grupos de rock atuais vendem camisetas e pôsteres em seus shows" (Sokal, 2001, p. 25)

Sociedades frenológicas foram formadas, e a leitura de cabeças tornou-se tão difundi­da que muitas empresas americanas usaram a técnica para selecionar seus funcionários. Praticantes da frenologia afirmavam que podiam usá-la para avaliar o nível de inteligência de uma criança e para aconselhar casais em dificuldades matrimoniais. Assim, a crença de que a frenologia podia ser aplicada a problemas práticos foi a principal razão de seu sucesso nos Estados Unidos.

A crítica mais veemente em relação à cranioscopia de Gall teve como base a pesquisa conduzida por Pierre Flourens. Ao destruir sistematicamente as partes de um cérebro (usando o método da extirpação), Flourens descobriu que o formato do crânio não correspondia aos contornos do tecido cerebral subjacente. Além disso, o tecido cerebral era delicado demais para produzir alterações, tais como protuberâncias ou afundamentos, na superfície óssea do crânio. Flourens e outros fisiologistas também demonstraram erros nas áreas designadas por Gall para as funções mentais específicas. Portanto, se você estiver procurando alguma saliência ou afundamento no seu crânio, pode ficar certo de que eles não revelam qualquer característica sobre o funcionamento intelectual ou emocional do seu cérebro.

Gall fracassou na tentativa de mapear a parte externa do cérebro, no entanto suas ideias reforçaram a crença, cada vez mais forte entre os cientistas, na possibilidade de se localizar as funções específicas do cérebro com a aplicação do método clínico, da extirpa­ção e dos estímulos elétricos.

Há uma lição a ser aprendida com o sucesso, e depois fracasso, da frenologia, que pode ser aplicada a todos os movimentos de todos os tempos. Não há necessariamente uma relação entre a popularidade de uma ideia, tendência ou escola de pensamento e sua validade. Daniel Robinson, um famoso historiador da psicanalítica, observou que a “frenologia de Gall floresceu tanto tempo quanto a teoria da psicanálise [e] seus achados e dizeres encheram muitos periódicos ... Cidadãos educados de todos os pólos culturais apalpavam as cabeças uns dos outros com muita seriedade. Assim, uma outra lição moral se faz presente: o impacto em si nada estabelece em relação à validade ou adequação dos trabalhos" (Robinson, 2003, p. 200). Em outras palavras, só porque algo é popular não significa que seja verdadeiro.

O Estudo do Sistema Nervoso

Durante esse período, também foi realizada uma quantidade considerável de pesquisas sobre a estrutura do sistema nervoso. Até aqui, vimos duas descrições da atividade neural: a teoria do tubo de Descartes e a teoria das vibrações de Hartley.

Quase ao final do século XVIII, o pesquisador italiano Luigi Galvani (1737-1798) sugeriu que os impulsos nervosos seriam elétricos. O sobrinho de Galvani, Giovanni Aldini, deu continuidade ao seu trabalho e um historiador relatou que ele "misturou pesquisa séria com um pouco de espetáculo. Em uma das exibições mais horrendas, destinadas  a enfatizar a eficácia dos estímulos elétricos na obtenção dos movimentos espasmódicos dos músculos, Aldini exibiu as cabeças decapitadas de dois criminosos" (Boakes, 1984, p. 96).

O trabalho experimental prosseguiu com tamanha rapidez que, em meados do século XIX, os cientistas aceitaram como fato comprovado a natureza elétrica dos impulsos nervo­sos. Passaram a crer que o sistema nervoso constituía-se essencialmente de um condutor de impulsos elétricos e que o sistema nervoso central funcionava como uma estação de transferência, desviando os impulsos para as fibras nervosas sensoriais ou motoras.

Embora essa posição representasse grande avanço na teoria sobre o tubo nervoso de Descartes e na teoria das vibrações de Hartley, em termos de conceito era semelhante. Ambas as teorias, a antiga e a mais recente, tinham como base o reflexo: um elemento do mundo exterior (o estímulo) provoca impacto no órgão do sentido e, assim, excita o impulso nervoso, que segue até o local adequado do cérebro ou do sistema nervoso cen­tral e ali reage, criando outro impulso, que é transmitido através dos nervos motores para acionar a resposta do organismo.

A direção seguida pelos impulsos nervosos no cérebro e na medula espinhal foi desco­berta pelo médico espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), professor de anatomia da escola de medicina da University of Zaragoza e diretor do Museu de Zaragoza. Pelas descobertas, recebeu a medalha Helmholtz da Academia Real de Ciências de Berlim em 1905 e o Prêmio Nobel em 1906. Ramón y Cajal teve dificuldades para divulgar suas descobertas à comunidade acadêmica, já que a língua espanhola não era utilizada nas publicações especializadas da época. Frustrado, ele "muitas vezes ficou decepcionado ao ler sobre as 'novas' descobertas, nas revistas inglesas, alemãs ou francesas, que na realidade eram redescobertas do seu trabalho publicado muito antes em espanhol" (Padilla, 1980, p. 116). Sua situação é outro exemplo das barreiras enfrentadas pelos cientistas que trabalham fora do círculo da cultura dominante.

Os pesquisadores também estavam estudando a estrutura anatômica do sistema ner­voso. Descobriram que as fibras nervosas eram compostas de estruturas separadas (neu­rônios) e de alguma forma eram conectadas a pontos específicos (sinapses). Essas desco­bertas coincidiam com a imagem mecanicista do funcionamento humano. Os cientistas acreditavam que o sistema nervoso, assim como a mente, era constituído de estruturas de átomos, partículas de matéria combinadas para produzir um produto mais complexo.

O Espírito do Mecanicismo

O espírito do mecanicismo era predominante na fisiologia do século XIX, assim como a filosofia da época. Não havia outro lugar em que esse espírito se destacasse tanto como na Alemanha. Na década de 1840, um grupo de cientistas, muitos dos quais ex-alunos de Johannes Müller, fundou a Sociedade de Física de Berlim. Esses cientistas, todos na faixa dos 20 anos, estavam comprometidos com uma única proposta: a explicação de todos os fenômenos pelos princípios da física.

O grupo desejava relacionar a fisiologia com a física, ou seja, desenvolver a fisiologia com base no quadro de referência do mecanicismo. Em um gesto mais dramático, quatro dos cientistas prestaram um juramento solene e o selaram, como reza a lenda, com o próprio sangue. Essa declaração estabelecia que as únicas forças ativas dentro do organismo eram as forças psicoquímicas comuns. E assim as linhas se entrelaçaram na fisiologia do século XIX: o materialismo, o mecanicismo, o empirismo, o experimentalismo e a medição.

A evolução inicial da fisiologia indica os tipos de técnicas de pesquisa e as descober­tas que fundamentaram a abordagem científica da investigação psicológica da mente. Enquanto os filósofos abriam o caminho para o ataque experimental da mente, os fisiologistas realizavam experiências para investigar os mecanismos que estão por trás dos fenômenos mentais. O passo seguinte era a aplicação do método experimental na mente propriamente dita.

Os empiristas britânicos argumentavam que a sensação era a única fonte de conhe­cimento. O astrônomo Bessel demonstrou o impacto da observação das diferenças indi­viduais na sensação e na percepção. Os fisiologistas estavam definindo a estrutura e a função dos sentidos. Era chegada a hora de estudar e quantificar esse portão de entrada para a mente: a experiência mentalística e subjetiva da sensação. As técnicas disponíveis para a investigação do corpo passaram a ser aperfeiçoadas para a exploração da mente. A psicologia experimental estava pronta para começar.

Os Primórdios da Psicologia Experimental

As primeiras aplicações do método experimental à mente, ou seja, ao que consistia no objeto de estudo da nova psicologia, são creditadas a quatro cientistas: Hermann von Helmholtz, Ernst Weber, Gustav Theodor Fechner e Wilhelm Wundt. Todos eram cientis­tas alemães especializados em fisiologia e cientes da impressionante evolução da ciência moderna.

Por que a Alemanha?

A ciência estava em franco desenvolvimento na maior parte da Europa ocidental no sécu­lo XIX, principalmente na Inglaterra, França e Alemanha. O entusiasmo, a consciência e o otimismo na aplicação das ferramentas científicas aos diversos temas de pesquisa não estavam concentrados em nenhuma nação específica. Então, por que a psicologia experi­mental teve início na Alemanha e não na Inglaterra, França ou em outro local? A resposta parece estar em algumas características exclusivas da ciência alemã que a tornou o solo mais fértil para o crescimento da nova psicologia.

A abordagem científica alemã. 

Durante um século, a história intelectual da Alemanha preparou o caminho para a ciência experimental da psicologia. A fisiologia experimental estava bem estabelecida e era reconhecida por um estágio ainda não atingido pela França e pela Inglaterra. O famoso temperamento alemão adaptava-se bem ao trabalho preciso de classificação e de descrição exigido em biologia, zoologia e fisiologia. Enquanto cientistas franceses e ingleses favoreciam o tratamento matemático dedutivo, os alemães, com ênfase na coleta minuciosa e completa dos fatos observáveis, adotavam a abordagem indutiva.

As ciências biológicas e fisiológicas não dão muita margem a generalizações que permitam a dedução dos fatos, por isso, a aceitação da biologia foi lenta na comunida­de científica inglesa e francesa. Entretanto, a Alemanha, munida de sua fé na descrição e classificação taxonômica, recebeu de braços abertos a biologia como um membro da família das ciências.

Mais tarde, os alemães acabaram por definir integralmente a ciência, que na França e na Inglaterra limitava-se à física e à química, duas áreas passíveis de serem abordadas quantitativamente. A ciência alemã incluía áreas como a fonética, a linguística, a história, a arqueologia, a estética, a lógica e até mesmo a crítica literária. Os estudiosos franceses e ingleses eram céticos em relação à aplicação da ciência à complexa mente humana. Os alemães, não, e por isso deram um salto à frente, usando as ferramentas da ciência para explorar e medir todas as facetas da atividade mental.

O movimento reformista nas universidades alemãs.

No início do século XIX, uma onda de reforma educacional voltada aos princípios da liberdade acadêmica invadiu as universidades da Alemanha. Os professores foram encorajados a ensinar o que desejas­sem, sem interferência externa, e a escolher os temas das próprias pesquisas. Os alunos tinham liberdade para escolher as matérias que desejassem cursar, sem a imposição de um currículo fixo e obrigatório. Essa liberdade, desconhecida nas universidades da In­glaterra e da França, também se estendeu para as novas áreas da pesquisa científica, por exemplo, a psicologia.

O estilo universitário alemão criou o ambiente ideal para o surgimento da investiga­ção científica. Os professores escolhiam os próprios temas das aulas, além de contarem com laboratórios bem equipados para orientar os alunos nas pesquisas experimentais. Não houve outro país que promovesse a ciência de forma tão ativa.

A Alemanha também proporcionou grandes oportunidades para aprendizagem e prática de novas técnicas científicas; temos aqui um exemplo do impacto das condições econômicas prevalecentes na época (um fator contextual). Havia muitas universidades na Alemanha. Antes de 1870, ano em que fora unificada e dotada de um governo central, a Alemanha era uma confederação dispersa de reinados, ducados e cidades-estado autônomos. Cada um desses distritos era provido de universidades bem financiadas, com um corpo docente bem-remunerado e equipamentos de laboratório com tecnologia de ponta.

Naquela época, a Inglaterra possuía apenas duas universidades, a Oxford e a Cambridge, e em nenhuma delas havia incentivo, auxílio nem financiamento para pesquisas científicas de qualquer disciplina. Além disso, a política acadêmica era contrária à implementação de novas áreas de estudo no currículo. Em 1877, a Cambridge vetou o pedido de inserção de aulas de psicologia experimental porque poderia "ser um insulto à religião colocar a alma humana em uma balança de medição" (Hearnshaw, 1987, p. 125). A psicologia expe­rimental ficou fora do currículo da Cambridge por 20 anos e foi ministrada somente em 1936 na Oxford. A única maneira de praticar ciência na Inglaterra era à maneira de um nobre cientista, vivendo com independência econômica, como fizeram Charles Darwin e Francis Galton. A situação na França era semelhante.

Nos Estados Unidos, a primeira universidade dedicada à pesquisa surgiu apenas em 1876, com a fundação da Johns Hopkins University, em Baltimore, Maryland. Essa nova universidade baseava-se fortemente no modelo alemão. Seu objetivo principal era fazer da pesquisa científica o centro e o foco no treinamento dos alunos de pós-graduação. Na realidade, Baltimore em si, foi considerada "um pedacinho da Alemanha que havia se restabelecido no lado leste da região costeira". De acordo com o psicólogo e filósofo John Dewey, "os alunos e professores se reuniam [na sala do clube da Hopkins] para beber cerveja alemã e cantar canções alemãs" (apud Martin, 2002, p. 56).

No entanto, havia mais oportunidades para pesquisas científicas na Alemanha do que em outros países. Praticamente, pode-se afirmar que era possível ganhar a vida como pesquisador científico na Alemanha, mas não na França, na Inglaterra ou nos Estados Unidos.

Assim, as chances de alguém se tornar um professor respeitado e bem-remunerado eram maiores na Alemanha do que em qualquer parte do mundo, embora não fosse fácil alcan­çar as posições mais elevadas. O promissor cientista universitário era obrigado a produzir uma pesquisa que fosse considerada pelos colegas uma grande contribuição, para que o trabalho fosse visto como algo mais que apenas uma tese de doutorado. Consequentemente, a maioria das pessoas selecionadas para as carreiras universitárias era do mais alto calibre e, assim que elas passavam a fazer parte do corpo docente, recebiam ainda mais pressão para a publicação de trabalhos.

Embora a competição fosse intensa e as exigências elevadas, a recompensa valia todo o esforço. Somente o melhor obtinha êxito na ciência alemã do século XIX e o resultado foi uma série de feitos alcançados em todas as ciências, inclusive na nova psicologia. Por­ tanto, o fato de terem sido os professores universitários alemães as pessoas diretamente responsáveis pelo crescimento da psicologia científica não é simples coincidência.

Hermann vonHelmholtz (1821-1894)

Um dos maiores cientistas do século XIX, foi um pesquisador produtivo na física e na fisiologia. A psicologia vinha em terceiro lugar nas suas áreas de contribuição científica, embora seu trabalho, juntamente com o de Fechner e o de Wundt, fosse fundamental para o início da nova psicologia. Ele dava ênfase ao tratamento mecanicista e determinista, partindo do princípio de que os órgãos sensoriais humanos funcionavam como máquinas. Apreciava também as analogias técnicas, como, por exemplo, comparar a transmissão dos impulsos nervosos com a operação do telégrafo (veja Ash, 1995).

A Biografia de Helmholtz

Nasceu em Potsdam, na Alemanha, onde seu pai era professor do Gymnasium (no sistema educacional europeu, curso de nível médio preparatório para a universidade). Helmholtz recebia aulas particulares em casa, por causa da fragilidade da sua saúde. Aos 17 anos, matriculou-se no instituto médico de Berlim, que isentava das mensalidades os alunos que se comprometessem a servir como cirurgiões do exército após a graduação. Helmholtz serviu durante sete anos, período em que prosseguiu com os estudos de matemática e físi­ca e que publicou diversos artigos. Em um trabalho cujo tema era a indestrutibilidade da energia, utilizou-se de-fórmulas- matemáticas para criar a lei da conservação da energia. Depois de deixar o exército, Helmholtz aceitou a posição de professor-assistente de fisio­logia da University of Königsberg. Nos 30 anos seguintes, recebeu nomeações acadêmicas em fisiologia nas universidades de Bonn e Heidelberg e em física, em Berlim. Extremamente entusiasta, Helmholtz dedicou-se a diversas áreas acadêmicas. Ao rea­lizar uma pesquisa de fisiologia óptica, inventou o oftalmoscópio, utilizado até hoje para examinar a retina. Esse instrumento revolucionário possibilitou a realização de diagnós­ticos e tratamentos de doenças da retina. Como consequência, seu nome "espalhou-se rapidamente por todo o público e universo acadêmico. Em um piscar de olhos progrediu na carreira e tornou-se reconhecido mundialmente" (Cahan, 1993, p. 574). Tudo isso aos 30 anos.

Seu trabalho em três volumes sobre a óptica fisiológica, Handbook of physiological optics (Manual de óptica fisiológica, 1856-1866), exerceu uma influência tão intensa e duradoura que foi traduzido para o inglês 60 anos depois. Em On the sensations of tone, 1863, publicou uma pesquisa a respeito dos problemas acústicos, resumindo as próprias descobertas e juntando o restante da literatura disponível. Também escreveu trabalhos referentes a vários assuntos, como a imagem persistente, o daltonismo, a escala musical árabe-persa, o movimento dos olhos humanos, a formação das geleiras, os axiomas geo­ métricos e a febre do feno. Anos mais tarde, contribuiu indiretamente para a invenção do telégrafo sem fio e do rádio.

No outono de 1893, voltando de uma viagem aos Estados Unidos que incluiu uma visita à feira mundial de Chicago, Helmholtz sofreu uma queda a bordo do navio. Menos de um ano depois, sofreu um ataque que o deixou semiconsciente e em estado de delírio. Sua esposa relatou: “Seu pensamento oscilava confusamente entre a vida real e o sonho, o tempo e o lugar, tudo misturado em sua mente. (...) Era como se sua alma estivesse distante, bem longe, em um mundo ideal muito bonito, embalado apenas pela ciência e pelas leis eternas" (apud Koenigsberger, 1965, p. 429).

Contribuições de Helmholtz: o Impulso Neural, a Visão e a Audição

As pesquisas de Helmholtz de interesse para a psicologia são as referentes à velocidade do impulso neural e sobre a visão e a audição. Os cientistas aceitaram a teoria de que o impul­so nervoso era instantâneo, ou pelo menos que viajava rápido demais para ser medido. Helmholtz forneceu a primeira medição empírica da velocidade de condução, estimulando um nervo motor e o músculo anexo da perna de um sapo. Ele preparou a demonstração de forma que registrasse o momento exato do estímulo e do movimento resultante. Tra­balhando com nervos de diversos comprimentos, observou o tempo entre a aplicação do estimulo no nervo próximo ao músculo e a reação muscular e fez o mesmo estimulando um nervo mais distante. As medições resultaram no tempo necessário para a rápida con­dução do impulso neural: aproximadamente 27 metros por segundo.

Helmholtz também pesquisou os tempos de reação dos nervos sensoriais em seres humanos, estudando o circuito completo desde a estimulação do órgão do sentido até a reação motora resultante. As descobertas mostraram enormes diferenças individuais, além de divergências entre um experimento e outro com a mesma pessoa, de modo que ele acabou abandonando a pesquisa.

A demonstração de Helmholtz de que a velocidade de condução não era instantânea levantou a hipótese de que o pensamento e o movimento seguem um ao outro em interva­lo mensurável e não ocorrem simultaneamente, como se pensava. No entanto, Helmholtz estava interessado na medição propriamente dita, e não no significado psicológico. Mais tarde, as implicações da pesquisa na nova psicologia foram reconhecidas por outros cien­tistas que realizaram experiências bem-sucedidas, relacionadas com o tempo de reação. O trabalho de Helmholtz foi um dos primeiros passos na experimentação e na medição de um processo psicofisiológico.

Os estudos sobre a visão provocaram impacto na nova psicologia. Helmholtz pesqui­sou os músculos externos do olho e o mecanismo por meio do qual os músculos internos focalizam o cristalino. Ele estudou e aprofundou a teoria da visão cromática publicada em 1802 por Thomas Young. Esse trabalho ficou conhecido como a teoria de Young-Helmholtz.

A pesquisa a respeito da audição também é muito importante, mais especificamente, da percepção dos tons, da natureza da harmonia e desarmonia e o problema da ressonância. A influência permanente das suas ideias e experiências é evidente pelo fato de ainda serem mencionadas nos livros didáticos de psicologia moderna.

Ele também se concentrou nos benefícios práticos ou aplicados da pesquisa científi­ca. Não concordava com a ideia da condução de experiências apenas para o acúmulo de informações. Para ele, a missão do cientista era coletar a informação e estender ou aplicar aquela enorme quantidade de conhecimento aos problemas práticos. 

Helmholtz não era psicólogo, nem a psicologia foi o seu principal interesse; no entan­to, sua contribuição tornou-se uma vasta e importante fonte de referência para o estudo dos sentidos humanos, além de haver fortalecido a abordagem experimental para a aná­ lise das questões psicológicas.

ErnstWeber (1795-1878)

Filho de um professor de teologia, Ernst Weber nasceu em Wittenberg, Alemanha. Obteve o doutorado na University of Leipzig, em 1815, onde lecionou anatomia e fisiologia até aposentar-se, em 1871. Sua principal área de interesse em pesquisa, e da qual foram extraí­das suas maiores contribuições, eram os órgãos dos sentidos. Assim, aplicou os métodos experimentais da psicologia aos problemas de natureza psicológica. As pesquisas anterio­res com os órgãos dos sentidos foram realizadas quase exclusivamente sobre os sentidos superiores, da visão e da audição. Weber explorou novos campos, mais especificamente as sensações cutâneas e as musculares.

O Limiar de Dois Pontos

Uma contribuição muito importante para a nova psicologia refere-se à determinação expe­rimental exata da distinção entre dois pontos da pele, ou seja, o intervalo de tempo da distância entre dois pontos antes de o indivíduo experimentar duas sensações distintas. Encostando nas pessoas um aparelho semelhante a um compasso, sem que elas vissem, Weber pedia que descrevessem se sentiam um ou dois pontos tocando a pele. Quando os dois pontos de estímulo estavam praticamente juntos, as pessoas afirmavam sentir apenas um. À medida que aumentava a distância entre as duas origens do estímulo, as pessoas mostravam-se hesitantes quanto à experiência de sentir um ou dois pontos na pele. Finalmente, atingia a distância em que os indivíduos relatavam sentir dois pontos distintos tocando a pele.

Esse procedimento demonstra o limiar de dois pontos, o ponto em que é possível distinguir duas origens separadas de estímulo. A pesquisa de Weber marca a primeira demonstração sistemática experimental do conceito de limiar (o ponto em que começa a se produzir o efeito psicológico), noção amplamente usada na psicologia desde o seu início até os dias atuais

As Diferenças Mínimas Perceptíveis

A pesquisa de Weber resultou na formulação da primeira lei quantitativa da psicologia. Ele desejava determinar a diferença mínima perceptível (dmp), ou seja, a menor diferen­ça detectável entre dois pesos. Pediu aos participantes da pesquisa para levantarem dois pesos, um padrão e um de comparação, e relatarem se algum deles pensava ser um mais pesado que o outro. As diferenças menores entre os pesos resultaram no julgamento de igualdade e as maiores na avaliação de disparidade.

Conforme prosseguia com o programa de pesquisa, Weber descobriu que a diferen­ça mínima perceptível entre dois pesos consistia em uma proporção constante, 1:40, do peso padrão. Em outras palavras, um peso de 41 gramas possuía uma "diferença mínima perceptível" do peso padrão de 40 gramas, e um peso de 82 gramas, uma diferença míni­ ma perceptível de 80 gramas.

Weber, então, desejava saber como as sensações musculares contribuíam para a capaci­dade de o indivíduo distinguir entre dois pesos. Ele pensava que as pessoas seriam capazes de fazer essa diferenciação com maior precisão se elas mesmas levantassem o peso (rece­bendo nas mãos e nos braços as sensações musculares), e não com o peso sendo colocado em suas mãos pelo pesquisador. Na verdade, o levantamento dos pesos envolve a sensação tátil (toque) e a muscular, ao passo que, se os pesos forem colocados nas palmas das mãos, apenas a sensação tátil estará envolvida.

As pessoas conseguiam sentir diferenças menores entre os pesos quando os levantavam (uma proporção de 1:40) do que quando eles eram colocados em suas mãos (uma propor­ ção de 1:30). Assim, Weber chegou à conclusão de que as sensações musculares internas do primeiro exemplo exercem influência sobre a capacidade distintiva do indivíduo.

A partir dessas experiências, Weber sugeriu que a distinção entre as sensações não depende da diferença absoluta entre dois pesos, mas da diferença relativa ou da proporcio­nalidade. Nas experiências com as diferenças visuais, descobriu que a proporção era menor do que nas sensações musculares. Assim, propôs uma razão constante para a diferença mínima perceptível entre dois estímulos, consistente para cada sentido humano.

A pesquisa de Weber demonstrou que não há correspondência direta entre um estímu­lo físico e a nossa percepção desse estímulo. Entretanto, assim como Helmholtz, Weber estava interessado apenas nos processos fisiológicos e não dava importância ao significado do seu trabalho para a psicologia. Sua pesquisa proporcionou a criação de um método de investigação da relação entre o corpo e a mente - entre o estímulo e a sensação resultan­te. Esse foi um feito muito significativo e que passou a exigir uma atitude mais séria em relação à sua importância.

As experiências de Weber estimularam outras pesquisas e concentraram a atenção dos fisiologistas posteriores na utilidade do método experimental no estudo do fenômeno psicológico. O trabalho de Weber sobre os limiares e a medição da sensação foi da maior importância para a nova psicologia e influenciou virtualmente cada aspecto da psicologia até os dias atuais.

Gustav Theodor Fechner (1801-1887)

Gustav Theodor Fechner foi um estudioso que buscou diversas conquistas intelectuais ao longo de uma vida extremamente ativa. Foi fisiologista durante sete anos, físico por 15, psicofísico por 14, estético experimental por 11, filósofo por 40 e ficou inválido por 12 anos. Entre todas essas atividades, o trabalho com a psicofísica foi o que lhe trouxe maior fama, embora não desejasse ser tão lembrado pela posteridade.

A Biografia de Fechner

Fechner nasceu em uma vila no sudeste da Alemanha, onde o seu pai era clérigo. Começou a estudar medicina na University of Leipzig em 1817 e nesse período assistiu às aulas de Weber sobre fisiologia. Fechner passou o resto da vida em Leipzig.

Mesmo antes de se formar em medicina, sua visão humanista era contrária ao meca­nicismo dominante no estudo científico. Com o pseudônimo de "dr. Mises", escreveu sátiras ridicularizando a medicina e a ciência. Esse conflito entre os dois lados da sua per­sonalidade perdurou por toda a vida: o interesse na ciência e na metafísica. Visivelmente incomodado com a abordagem da corrente atomística da ciência, criou um conceito ao qual chamou "visão diurna", em que o universo era analisado do ponto de vista da cons­ciência. Essa definição opunha-se à ideia predominante da "visão noturna", em que o universo, inclusive a consciência, consistia em nada além de matéria inerte.

Depois de concluir o curso de medicina, Fechner iniciou a carreira na física e na mate­mática, em Leipzig, além de traduzir manuais de física e química do francês para o alemão. Por volta de 1830, já havia traduzido dezenas de volumes, e essa atividade rendeu-lhe o reconhecimento como físico. Em 1824, começou a lecionar física na universidade e a con­duzir a própria pesquisa. Em torno do final da década de 1830, interessou-se pelo problema da sensação e, durante uma pesquisa com imagens persistentes, feriu gravemente os olhos ao olhar diretamente para o sol pelas lentes coloridas.

Em 1833, Fechner obteve uma prestigiosa nomeação para lecionar em Leipzig, quando caiu em profunda depressão, que se prolongou por vários anos. Queixava-se de cansaço e tinha dificuldade para dormir. Tinha uma digestão difícil e não sentia fome mesmo quan­do seu corpo estava à beira da inanição. Sua sensibilidade à luz era extrema e passava a maior parte do tempo em um quarto escuro com as paredes pintadas de preto, ouvindo a leitura que sua mãe lhe fazia através de uma abertura estreita da porta.

Na esperança de amenizar o tédio e a melancolia, tentava fazer longas caminhadas, inicialmente apenas à noite ou quando já houvesse escurecido e, mais tarde, durante o dia, com os olhos cobertos com bandagens. Em uma espécie de catarse, escrevia poemas e criava adivinhações. Apelou para várias terapias alternativas, entre as quais o uso de laxantes, choques elétricos, tratamentos com vapor e a aplicação de substâncias escaldan­tes sobre a pele; mas nenhuma delas lhe trouxe a cura.

A doença de Fechner pode ter sido de natureza neurótica. Essa ideia surgiu devido à forma bizarra de sua recuperação. Uma amiga contou-lhe um sonho em que ela prepara­va-lhe uma refeição com um presunto cru temperado e marinado em vinho do Reno e suco de limão. No dia seguinte, arrumou o prato e o serviu a Fechner. Ele experimentou, embora relutante, mas a cada dia comia mais presunto, afirmando que, de alguma forma, sentia-se melhor. A melhora do seu estado não durou muito e, depois de seis meses, os sintomas pioraram, chegando a ponto de ele temer pela sua sanidade - Fechner decla­rou: “Tinha a sensação clara de ter perdido para sempre a minha mente, a menos que eu conseguisse refrear o fluxo de pensamentos perturbadores. Muitas vezes as mínimas preocupações me incomodaram a ponto de levar horas e até dias para me ver livre delas" (Kuntze, 1892, apud Balance e Bringmann, 1987, p. 42).

Fechner obrigou-se a cumprir um regime de tarefas rotineiras, uma espécie de terapia ocupacional, mas limitado a atividades em que não fizesse uso dos olhos nem da mente. “Eu produzia fios e bandagens, fazia velas de cera (...) enrolava fios e ajudava na cozinha, separando [e] lavando lentilhas, fazendo farelos de pão e triturando o pão-doce até deixar apenas o açúcar. Também descascava e cortava cenouras e nabos (...) e milhares de vezes desejei a morte" (Fechner in Kuntze, 1892, apud Balance e Bringmann, 1987, p. 43).

Aos poucos renascia o seu interesse pelo mundo ao redor e ainda mantinha a dieta do presunto cru marinado no vinho. Teve um sonho em que aparecia o número 77, levando-o a crer que em 77 dias estaria curado. E, obviamente, ficou curado. A depressão transformou-se em euforia e em delírios de grandeza e ele afirmava ser o escolhido de Deus para resolver todos os mistérios do mundo. Essa experiência serviu-lhe de inspiração para a definição do princípio do prazer, que vários anos mais tarde influenciou o trabalho de Sigmund Freud.

Embora 40 anos antes a University of Leipzig o tivesse considerado inválido e lhe concedido uma aposentadoria vitalícia, ele viveu até os 86 anos na mais perfeita saúde, contribuindo significativamente para a ciência.

A Relação Quantitativa entre Mente e Corpo

Esta é uma data importante para a história da psicologia: 22 de outubro de 1850. Naquela manhã, Fechner estava deitado na cama, quando lhe ocorreu a ideia sobre a ligação entre a mente e o corpo. Ele afirmou ser possível encontrar essa ligação na relação quantitativa entre a sensação mental e o estímulo material.

Fechner alegava que o aumento na intensidade do estímulo não produzia um incre­mento com a mesma proporção na intensidade da sensação. Ao contrário, a progressão geométrica caracteriza o estímulo, enquanto a progressão aritmética a sensação.

Por exemplo, o acréscimo do som de um sino ao de outro que já esteja tocando produz um aumento maior da sensação sonora do que a adição de um sino a dez outros que já estejam tocando. Portanto, os efeitos da intensidade do estímulo não são absolutos, mas proporcionais à intensidade da sensação já existente.

Essa revelação simples, porém brilhante, significa que a dimensão da sensação (a qualidade mental) depende da quantidade de estímulos (a qualidade física). Para medir mudança na sensação, é necessário medir a alteração no estímulo. Portanto, é possível formular uma relação quantitativa ou numérica entre o corpo e a mente, vinculando-os de forma empírica, possibilitando a realização de experiências com a mente.

Embora o conceito estivesse bem claro para Fechner, como prosseguir com a teoria? O pesquisador deve medir com precisão tanto o que é subjetivo como o que é objetivo - tanto a sensação mental quanto o estímulo físico. Não é difícil medir a intensidade física do estímulo, como a intensidade do brilho da luz ou o peso de um objeto padrão, no entanto como medir a sensação, as experiências conscientes descritas pelas pessoas quando reagem ao estímulo?

Fechner apresentou duas propostas para medir as sensações. Primeiro, determinar se o estímulo está presente ou ausente, se foi sentido ou não. Segundo, medir a intensidade do estímulo na qual as pessoas relatam a primeira sensação, ou seja, o limiar absoluto da sensibilidade, que é o ponto de intensidade abaixo do qual a sensação não é percebida e acima do qual é sentida.

Embora a ideia do limiar absoluto seja útil, ela é limitada, já que apenas o valor do menor nível da sensação pode ser determinado. Para relacionar as duas intensidades é necessário especificar toda a faixa de valores do estímulo e os valores de sensação resultan­tes. Para isso, Fechner apresentou o conceito de limiar diferencial da sensibilidade, que é a quantidade mínima de alteração no estímulo que provoca uma mudança na sensação. Por exemplo, em que medida o peso deve ser aumentado ou diminuído para que a pessoa perceba a mudança? Em quanto o peso deve ser aumentado ou dimunuído antes que ela relate uma mudança na sensação?

Para medir a noção de peso de determinada pessoa (qual a sensação que o peso provoca na pessoa), não podemos usar a medição física do peso do objeto. No entanto, podemos usá-la como base para a medição da intensidade psicológica da sensação.

Primeiro, medimos em que proporção a intensidade deve ser reduzida para que a pes­soa perceba a diferença. Segundo, mudamos o peso do objeto para o seu valor mínimo e medimos novamente o tamanho do diferencial. Como as duas mudanças de peso são apenas levemente perceptíveis, Fechner concluiu que eram subjetivamente iguais.

Esse processo pode ser repetido até que o objeto seja levemente sentido pelo indivíduo. Se cada redução de peso for subjetivamente igual a qualquer outra, então a quantidade de vezes que o peso deve ser reduzido - o número de diferenças mínimas perceptíveis - pode ser considerada a medição objetiva da magnitude subjetiva da sensação. Desse modo, estamos medindo os valores dos estímulos necessários para criar a diferença entre duas sensações.

Fechner sugeriu que, para cada sentido humano, existe determinado aumento relativo na intensidade do estímulo que sempre produz uma mudança observável na intensidade da sensação. Portanto, é possível medir a sensação (a mente ou a qualidade mental) e o estímulo (o corpo ou a qualidade material). A relação entre os dois pode ser expressa na forma de uma equação: S = K log R, em que S é a magnitude da sensação, K é uma cons­tante e R é a magnitude do estímulo. A relação é logarítmica, isto é, uma série aumenta em progressão aritmética e a outra em progressão geométrica.

Nos últimos trabalhos que escreveu, Fechner comentou que essa ideia para a descri­ção da relação mente-corpo não lhe ocorrera por ter lido o trabalho de Weber, embora tivesse assistido às suas aulas na University of Leipzig e Weber tivesse publicado sobre o tema alguns anos antes. Fechner continuou afirmando que desconhecia o trabalho de Weber até começar as experiências para testar a sua hipótese e que somente algum tempo depois percebera que o princípio ao qual aplicara a fórmula matemática era basicamente o trabalho demonstrado por Weber.

Os Métodos Psicofísicos

A constatação de Fechner resultou imediatamente na sua pesquisa a respeito da psicofísica (a palavra em si expressa a sua definição: a relação entre o mundo mental [psico] e o material [físico]). Ao longo desse trabalho, que incluía experiências com o levantamento de pesos, a percepção visual do brilho, a noção de distância visual e de distância tátil, Fechner desenvolveu um método e sistematizou outros dois dos três principais utilizados na pesquisa psicofísica atual.

O método do erro médio, ou o método do ajuste, consiste em o indivíduo ajustar o estímulo variável até sentir que ele é igual a um estímulo padrão constante. Realizadas várias tentativas, o valor médio das diferenças entre o estímulo padrão e o ajuste feito pelo indivíduo para o estímulo variável representa o erro de observação. Essa técnica serve tanto para a medição do tempo de resposta como para a distinção visual e auditiva. Em um sentido mais amplo, é o princípio básico de muitas das pesquisas psicológicas, já que qualquer cálculo de média envolve essencialmente o método do erro médio.

O método do estímulo constante envolve dois estímulos constantes e tem como objetivo medir a diferença de estímulo necessária para produzir uma proporção específica de julga­mentos corretos. Por exemplo, primeiro a pessoa levanta um peso padrão de 100 gramas e, em seguida, um peso comparativo de, digamos, 88, 92, 96, 104 ou 108 gramas. O indivíduo deverá dizer se o segundo peso é maior, menor ou igual ao primeiro.
No método dos limites, dois estímulos (por exemplo, dois pesos) são apresentados à pes­soa. Um estímulo é aumentado ou reduzido até que ela relate ter notado a diferença. Os dados são obtidos por meio de várias tentativas e somente as diferenças mínimas perceptíveis são consideradas para calcular a média e determinar o limiar diferencial.

O programa de pesquisa psicofísica de Fechner durou sete anos. Ele publicou dois trabalhos resumidos, em 1858 e 1859, e em 1860 apresentou o trabalho completo em Elements of psychophysics, um livro didático a respeito da ciência exata das "relações fun­cionalmente dependentes (...) do material e do mental, dos universos físico e psicológico" (Fechner, 1860/1966, p. 7). Essa obra é uma das primeiras contribuições de destaque para o desenvolvimento da psicologia científica. A afirmação de Fechner a respeito da relação quantitativa entre a intensidade do estímulo e a sensação foi considerada, naquela época, de importância comparável à descoberta da lei da gravidade.
O material que se segue foi extraído da obra Elements of psychophysics, em que Fechner debate a questão da diferença entre a matéria e a mente, entre o estímulo e a sensação resultante. Na parte reimpressa neste livro, Fechner também faz a distinção entre o que chamou de psicofísicas "interna" e "externa". A psicofísica interna refere-se à relação entre a sensação e a consequente reação cerebral e nervosa. Na época de Fechner, não foi possível medir com precisão esses processos psicológicos. Desse modo, ele optou por lidar com a psicofísica externa, ou seja, a relação entre o estímulo e a intensidade subjetiva da sensação, medida por meio dos seus métodos psicofísicos.


Texto Original

Trecho sobre a Psicofísica, Extraído de Elements of Psychophysics (1860), de Gustav Fechner

A psicofísica deve ser entendida neste texto como a teoria exata das relações funcionalmente dependentes do corpo e da alma ou, mais genericamente, do material e do mental, dos uni­versos físico e psicológico.

Consideramos como mental, psicológico ou pertencente à alma, tudo o que possa ser captado pela observação introspectiva ou que desse modo sirva de base para abstração; enquanto corporal, corpóreo, físico e material, tudo o que possa ser observado de fora ou que assim sirva de base para abstração. Essas designações referem-se exclusivamente aos aspectos do mundo aparente, com cujas relações os psicofísicos deverão ocupar-se, visto ser senso comum o uso de observações interna e externa para referir-se às atividades por meio dos quais a existência em si torna-se aparente.

De qualquer modo, todas as discussões e as investigações da psicofísica estão relaciona­ das somente com o fenômeno aparente do universo material e mental, para um mundo que se apresenta diretamente por meio da introspecção ou pela observação externa, ou ainda, a partir do que pode ser deduzido da aparência ou percebido como uma relação fenomenológica, uma categoria, uma associação, uma dedução ou uma lei. Em resumo, os psicofísicos referem-se ao físico no sentido da física e da química e ao psíquico no sentido da psicologia experimental, sem se referirem de algum modo à natureza do corpo ou da alma além do sentido metafísico do fenômeno.

Em geral, chamamos de psíquica uma função dependente da função física e vice-versa, por causa da existência entre elas de uma relação constante ou regida por leis e na qual, a partir da presença e das alterações de uma, é possível deduzir o comportamento da outra.

A existência da relação funcional entre corpo e mente geralmente não é negada; todavia existe uma discussão ainda não resolvida a respeito das razões desse fato e sua interpretação e abrangência.

Sem se referirem aos pontos metafísicos desse argumento (aspectos relacionados mais com a essência do que com a aparência), os psicofísicos conseguem determinar a verdadeira relação funcional entre os modos de aparência do corpo e da mente com a maior precisão possível.

Quais os objetos pertencentes ao mesmo grupo no aspecto quantitativo e qualitativo, estando distantes ou próximos, no mundo material e no mental? Quais as leis que regem suas mudanças na mesma direção ou em sentidos opostos? Essas são perguntas que os psicofísicos em geral formulam e tentam respondê-las com a maior exatidão.

Em outras palavras, mas ainda seguindo o mesmo raciocínio: que objetos pertencem aos mesmos modos internos e externos da aparência e quais são as leis relacionadas às respecti­vas mudanças?

Pela existência da relação funcional, unindo mente e corpo, na verdade não há nada que nos possa impedir de olhar para essa relação e buscá-la em uma e não em outra direção. Alguém pode ilustrar essa relação adequadamente, usando uma função matemática, uma equação entre as variáveis x e y, em que cada variável pode ser vista como função da outra e cada uma sendo dependente das mudanças da outra. Entretanto há uma razão por que os psicofísicos preferem a abordagem pela dependência da mente em relação ao corpo em vez do contrário: é porque o físico está imediatamente disponível para medição, enquanto a medição do psíquico é possível somente ao considerá-lo dependente do físico. (...)

Pela sua natureza, a psicofísica pode ser dividida em uma parte externa e uma interna, dependendo do foco da análise, se baseada na relação do físico com os aspectos externos do corpo, ou se nas funções internas, com as quais o psíquico está intimamente relacionado. (...)

A verdadeira prova básica empírica para toda a psicofísica pode ser vista somente na esfe­ ra da psicofísica externa, visto ser ela a única parte disponível para uma experiência imediata. Portanto, nosso ponto de partida deve ser obtido da psicofísica externa. No entanto, sem a referência constante à psicofísica interna, pode não haver o desenvolvimento da psicofísica externa, visto estar o universo externo do corpo funcionalmente relacionado com a mente apenas pela mediação do mundo interno do corpo. (...)

A psicofísica, que já está relacionada com a psicologia e a física pelo nome, deve, por um lado, basear-se na psicologia e, por outro lado, proporcionar à psicologia a fundamentação matemática. A psicofísica externa toma emprestado da física o auxílio e a metodologia; a psico­ física interna inclina-se mais para a fisiologia e a anatomia, especialmente no que diz respeito ao sistema nervoso, com o qual se pressupõe alguma relação. (...)

A sensação depende do estímulo e uma sensação mais forte depende de estímulos mais fortes; no entanto o estímulo provoca a sensação somente mediante a ação intermediária de alguns processos internos do corpo. Na medida em que sejam encontradas relações regidas por lei entre a sensação e o estímulo, elas devem incluir as relações entre o estímulo e essa atividade física interna, que obedecem às mesmas leis gerais da interação dos processos corporais e, assim, fornecer-nos a base para as conclusões gerais sobre a natureza dessa atividade interna. (...)

De algum modo, à parte das implicações resultantes da psicofísica interna, essas relações regi­ das por lei, que podem ser examinadas na área da psicofísica externa, são dotadas de importância própria. Baseada nelas, como devemos ver, a medição física produz uma medição psíquica, na qual podemos levantar argumentos interessantes e importantes.



No começo do século XIX, o filósofo alemão Immanuel Kant insistia em afirmar que a psicologia nunca poderia ser considerada ciência porque era impossível medir - ou realizar experiências com - os processos psicológicos. Em virtude do trabalho de Fechner, que ao contrário, tornou possível a medição do fenômeno mental, a alegação de Kant não era mais levada a sério. E foi principalmente com base na pesquisa psicofísica de Fechner jje Wilhelm Wundt concebeu sua teoria da psicologia experimental. Os métodos usados por Fechner mostraram-se aplicáveis a uma ampla variedade de problemas psicológicos nunca imaginados. E o mais importante de tudo: Fechner deu à psicologia aquilo que toda disciplina deve possuir para ser chamada de ciência: técnicas de medição coerentes e precisas.

A Fundação Oficial da Psicologia

Em meados do século XIX, os métodos das ciências naturais estavam sendo empregados para pesquisar fenômenos puramente mentais. Técnicas foram desenvolvidas, aparelha­gens foram criadas, livros importantes foram escritos e o interesse crescente se espalhava. Os astrônomos e filósofos empiristas britânicos enfatizavam a importância dos sentidos, e os cientistas alemães descreviam o seu funcionamento. O espírito intelectual positivista do período, o Zeitgeist, incentivava a convergência dessas duas linhas de pensamento. No entanto, ainda faltava alguém que pudesse uni-las e "fundar" a nova ciência. Wilhelm Wundt foi quem deu esse toque final.

Notas
Referências
Bibliografia
Glossário
Extirpação: técnica para definir a função de determinada parte do cérebro animal, removendo-a ou destruindo-a para observar as mudanças no comportamento.
Método clínico: exame pós-morte das estruturas do cérebro para detectar as áreas lesionadas, consideradas responsáveis pelo comportamento do indivíduo antes de sua morte.
Estímulos elétricos: técnica de exploração do córtex cerebral que consiste em aplicar peque­nos choques elétricos para observar a resposta motora.
Limiar absoluto: ponto de sensibilidade abaixo do qual as sensações não são detectadas e acima do qual elas são percebidas.
Limiar diferencial: o ponto de sensibilidade em que a menor alteração em um estímulo provoca uma mudança na sensação.
Psicofísica: o estudo científico das relações entre os processos mental e físico.

 

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6/20/2020 2:38:10 PM | Por Duane P. Schultz
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A evolução da Psicologia Contemporânea

Garry Kasparov não era só um grande jogador de xadrez: ele era o mestre dos grão-mestres. No con­senso universal, ele era o maior jogador de xadrez da história. Na primavera de 1997, aos 34 anos de idade, no auge do prolongado reconhecimento, vinha man­tendo o título mundial por 12 anos. Jamais perdera uma única vez em uma competição de várias partidas com um único oponente. Jamais exibira outra coisa que não a absoluta confiança na sua genialidade no xadrez. Sua atitude em relação a qualquer rival che­gava ao limite do desprezo, traço exibido novamente ao vencer, como havia previsto, a primeira das seis partidas da anunciada revanche, naquele mês de maio em Nova York, contra o oponente que arrasara havia um ano.

Ao reinicio da partida, os especialistas em xadrez, reunidos para assistir ao grande campeão esmagar seu adversário, testemunharam algo tão inesperado que ficaram mudos. Milhões de observadores que acompanhavam intensamente a partida pela internet e pela transmissão em cadeia mundial de televisão ficaram atônitos ao testemunhar Kasparov exibir sinais incomuns de perturbação. Primeiro, demonstrando muita dúvida, em seguida, terror, desespero e perda de controle. Finalmente, parecia sofrer de um colapso emocional, demonstrando estar aterrorizado.

O primeiro sinal de que o campeão estava à beira de um colapso nervoso surgiu durante a segunda partida. Foi aí que Kasparov enfrentou algo inusitado na sua experiência. No passado, ele sempre conseguiu explorar a fraqueza do oponente, aprendendo o padrão de pensamento adotado contra ele. Mas, dessa vez, não conseguiu.

Essa segunda partida terminou empatada. Depois, outro empate. Em seguida, o opo­nente venceu uma partida. Quando os enxadristas retomaram o confronto no sábado, a série estava empatada. Kasparov iniciou de forma agressiva, brilhante; sabia que estava vencendo. O oponente respondeu com uma série de movimentos inspirados, até brutais, deixando Kasparov visivelmente abalado.

Os grão-mestres estavam chocados ao verem o campeão, pela primeira vez, parecer insignificante. Ele foi forçado a aceitar outro empate. Depois de um dia de folga na com­petição, o desfecho viria na segunda-feira.

A atenção mundial se intensificou. As redes de televisão enviaram correspondentes para cobrir o evento para transmissão em horário nobre. A imprensa escrita enviou não apenas os analistas de xadrez, mas também os melhores jornalistas, e reservaram a pri­meira página para o resultado do confronto. Eles, bem como milhares de telespectadores, testemunharam pela televisão e pela internet o grande Garry Kasparov, o incontestável campeão cuja suprema confiança comparava-se apenas à sua arrogância, dando lugar a um enxadrista nervoso, encurvado, com olheiras e com o ar taciturno. Parecia derrotado mesmo antes de executar o primeiro movimento.

Kasparov ficava cada vez mais abatido, à medida que os movimentos rápidos e impla­cáveis do oponente o deixavam encurralado. Em um momento captado pelas imagens da televisão e, mais tarde, exibido nas capas dos jornais, depois de perder a rainha e com o rei perigosamente exposto em uma posição de xeque-mate, o campeão curvou-se sobre o tabuleiro. Colocou as mãos sobre o rosto, tapando os olhos, e baixou a cabeça, desanimado. Esse momento consolidou-se como o retrato duradouro da expressão do desespero huma­no. Alguns momentos depois, Kasparov levantou-se de repente. Anunciava a desistência da partida e da competição. Efetuara apenas 19 movimentos.

Os grão-mestres ficaram espantados com o modo abrupto como o campeão desmoro­nou. "Foi como o impacto de uma tragédia grega", disse o presidente do comitê de xadrez, responsável pelo reconhecimento da competição. Kasparov reagiu com mais simplicidade. "Perdi meu espírito de luta", disse. "Não estava mesmo com vontade de jogar."

Minutos depois, em uma tumultuada entrevista coletiva, quando lhe perguntaram sobre o porquê, respondeu: "Sou um ser humano. Quando vejo algo além da minha capacidade de compreensão, sinto medo."

O que Kasparov efetivamente viu que estava além da sua capacidade de compreen­são? O que o espantara tanto a ponto de não conseguir mais jogar o jogo do qual era mestre? O que isso tem a ver com a história da psicologia? Calma! Tudo será revelado mais adiante. Por enquanto, vamos acompanhar a evolução da psicologia cognitiva pelo século XXI.

As Escolas de Pensamento em Perspectiva

Cada escola obteve êxito de modo particular e cada uma contribuiu substancialmente para a evolução da psicologia. Esse fato se aplica até mesmo ao estruturalismo, embora esse movimento tenha publicado pouco material relacionado à psicologia como a conhecemos atualmente. Não existem mais estruturalistas como Titchener na psicologia moderna isso ocorre há décadas. Todavia, o estruturalismo obteve enorme sucesso em promover a empreitada iniciada por Wundt, estabelecendo uma ciência da psicologia independente e livre das limitações da filosofia. O fato de o estruturalismo haver fracassado em dominar a psicologia, fazendo-o apenas por um curto período, não desvaloriza a sua realização revolucionária como a primeira escola de pensamento da nova ciência e a fonte vital de oposição para os sistemas seguintes.

Analisemos o sucesso do funcionalismo, que não conseguiu persistir como escola separada. Os funcionalistas buscavam apenas impor uma atitude ou um ponto de vista e, nesse aspecto, o funcionalismo obteve êxito em penetrar no pensamento psicológico estadunidense. Na medida em que a psicologia estadunidense atual é vista mais como uma profis­são científica e suas descobertas são aplicadas praticamente em todos os aspectos da vida a atitude funcional e utilitária realmente mudou a natureza da psicologia.

E o que dizer da psicologia da Gestalt? A escola da Gestalt, em uma escala mais modes­ta, também cumpriu sua missão. A oposição ao elementarismo, o apoio à abordagem da "totalidade" e o interesse na consciência influenciaram os psicólogos da psicologia clínica, da aprendizagem, da percepção, da psicologia social e do pensamento. Embora a escola da Gestalt não tenha transformado a psicologia da forma como esperavam os fundadores, ela exerceu considerável impacto e deve ser considerada um sucesso.

Mesmo que as realizações do estruturalismo, do funcionalismo e da psicologia da Gestalt mereçam o devido destaque, esses movimentos ocupam o segundo lugar em com­ paração com o impacto fenomenal do behaviorismo e da psicanálise. Os efeitos desses movimentos foram profundos, mantendo identidades próprias e independentes como escolas únicas de pensamento.

Passada a época dos seus fundadores, Watson e Freud, tanto o behaviorismo como a psicanálise dividiram-se internamente em várias posições. Nenhuma forma de behaviorismo ou de psicanálise obteve adesão total dos membros de qualquer uma dessas escolas. O surgimento de subescolas dividiu os sistemas em facções concorrentes, cada uma com o próprio mapa para o caminho da verdade. Todavia, apesar dessa diversidade interna, tanto os behavioristas como os psicanalistas mantêm-se firmes na oposição, uns contra os outros, em relação às suas visões sobre a psicologia. Por exemplo, os behavioristas skinnerianos têm mais aspectos em comum com os sociobehavioristas seguidores de Bandura e de Rotter do que com os adeptos da psicanálise de Jung e de Horney. A vitalidade das duas escolas de pensamento é evidente na sua contínua evolução.

Assim como a psicologia individual de Adler em relação à psicanálise, a psicologia de Skinner não é o último estágio na evolução do behaviorismo. A psicologia humanista, mesmo não conseguindo provocar impacto como escola de pensamento independente, influenciou a psicologia contemporânea, incentivando o crescimento do movimento da psicologia positiva.

Por volta das décadas de 1960 e 1970, dois outros movimentos surgiram na psicologia estadunidense, cada um na tentativa de moldar uma nova definição para o campo - são eles a psicologia cognitiva e a psicologia evolucionista.

O Movimento Cognitivo no Psicologia

Em 1913, no seu manifesto behaviorista, Watson insistia na eliminação da psicologia de qual­quer referência à mente, à consciência ou aos processos conscientes. E, realmente, os psicólogos seguidores dos mandamentos de Watson eliminaram a menção desses conceitos e baniram toda a terminologia mentalista. Durante décadas, os livros básicos de introdução à psicologia apre­sentavam descrições sobre o funcionamento do cérebro mas não proporcionavam discussões acerca de qualquer conceito relacionado à mente. As pessoas comentavam, em tom de piada, que a psicologia perdeu a consciência" ou "perdeu a cabeça”, aparentemente para sempre.

No entanto, de repente (embora a tendência já estivesse se formando há algum tempo), a psicologia resgatou a consciência. Palavras, antes consideradas politicamente incorretas, estavam sendo pronunciadas em alto e bom tom nos encontros e utilizadas nos trabalhos escritos. Em 1979, a publicação American Psychologist apresentou um artigo intitulado "Behaviorism and the mind: a (limited) call for a return to introspection’’ ("O behaviorismo e a mente: um apelo (limitado) para a retomada da introspecção") (Lieberman, 1979), res­gatando não apenas a mente como também a suspeita técnica de introspecção. Alguns meses antes, a revista publicara um artigo com um título bem simples: "Consciousness’’. Seu autor escreveu: Depois de décadas de descaso proposital, a consciência passa nova­mente a ser alvo da investigação científica, com discussões sobre o tópico surgindo por toda parte na respeitada literatura da psicologia" (Natsoulas, 1978, p. 906).

Em 1976, em seu discurso no encontro anual da APA, o presidente falou ao público presente sobre as mudanças que estavam ocorrendo na psicologia, afirmando que o novo conceito incluía a retomada do enfoque na consciência. A imagem da psicologia a res­peito da natureza humana estava sendo "humanizada e não mecanizada" (McKeachie, 1976, p. 831). Quando um representante da APA e uma publicação científica de prestígio discutem a consciência de forma tão aberta e otimista, parece óbvio estar em andamento uma revolução, outro novo movimento. Em seguida, vieram as revisões dos livros básicos de introdução à psicologia, redefinindo o campo como uma ciência do comportamento e dos processos mentais e não apenas do comportamento, uma disciplina em busca da explicação do comportamento manifesto, bem como das suas relações com os processos mentais. Portanto, estava claro que a psicologia progredira muito além dos desejos e dos planos de Watson e de Skinner. Uma nova escola de pensamento estava surgindo.

As Influências Anteriores na Psicologia Cognitiva

Assim como todos os movimentos revolucionários da psicologia, o movimento cognitivo não surgiu de uma hora para outra. Muitas das características já haviam surgido antes.

O interesse na consciência era claro, no período inicial da psicologia, antes de a discipli­na ser considerada uma ciência formal. As obras dos filósofos gregos, Platão e Aristóteles mencionavam os processos de pensamento, como também o faziam as teorias dos associacionistas e empiristas britânicos.

Quando Wundt instituiu a psicologia como disciplina científica independente, seu trabalho concentrou-se na consciência. Ele pode ser considerado o precursor da psicologia cognitiva contemporânea pela ênfase do seu trabalho na atividade criativa da mente. As escolas de pensamento estruturalista e funcionalista abordavam a consciência, estudando os seus elementos e as suas funções. O behaviorismo, no entanto, alterou radicalmente essa visão, descartando a consciência e ignorando-a por cerca de 50 anos.

A retomada da consciência e o início formal do movimento da psicologia cognitiva remontam à década de 1950, embora já se observassem sinais aparentes na década de 1930. O behaviorista E. R. Guthrie, ao final da sua carreira, criticava o modelo mecanicista e afirmava nem sempre ser possível reduzir os estímulos a termos físicos. Ele sugeria que os psicólogos deviam descrever os estímulos em termos cognitivos ou perceptuais, de modo que os tornassem significativos para o organismo reagente (Guthrie, 1959). Por se tratar de um processo cognitivo ou mentalista, o conceito de significado não pode ser descrito exclusivamente por questões behavioristas.

O behaviorismo intencional de E. C. Tolman foi outro precursor do movimento cog­nitivo. Sua forma de behaviorismo reconhecia a importância das variáveis cognitivas e contribuiu para o declínio da visão de estímulo-resposta. Tolman propôs o mapa cognitivo, atribuiu comportamento intencional aos animais e enfatizou as variáveis intervenientes como uma forma de definir operacionalmente os estados internos não-observáveis.

Rudolf Carnap, filósofo positivista, exigia o retorno da introspecção. Em 1956, Carnap afirmou: "a consciência que o indivíduo tem do próprio estado de imaginação, sentimen­to etc. deve ser reconhecida como um tipo de observação, em princípio, semelhante à observação externa e, portanto, uma fonte legítima de conhecimento" (apud Koch, 1964, p. 22). Até mesmo Bridgman, o físico que proporcionou ao behaviorismo a noção de defi­nições operacionais, criticou o behaviorismo e insistiu em que os relatos introspectivos fossem usados para dar significado às análises operacionais.

A psicologia da Gestalt também influenciou a psicologia cognitiva por causa do enfo­que na organização, na estrutura, nas relações, no papel ativo do objeto e na participação importante da percepção na aprendizagem e na memória" (Hearst, 1979, p. 32). A escola de pensamento da Gestalt ajudou a manter vivo ao menos um pouco do interesse na cons­ciência durante os anos em que o behaviorismo dominava a psicologia estadunidense.

Outro precursor da psicologia cognitiva foi o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), que escreveu seu primeiro trabalho científico com 10 anos e viria, mais tarde, a estudar com Jung. Piaget também trabalhou com Théodore Simon, que, juntamente com Alfred Binet, desenvolveu o primeiro teste psicológico de habilidade mental. Piaget ajudava a aplicar os testes nas crianças. Posteriormente se tornaria importante por seu trabalho sobre o desenvolvimento infantil não com base nos estágios psicossexuais, conforme propunha Freud, mas em função dos estágios cognitivos. O método clínico de Piaget de entrevistar crianças e sua insistência em anotar tudo detalhadamente durante as entrevistas eram vistos como uma inspiração importante para o famoso estudo de Hawthorne sobre os trabalhadores industriais na década de 1920.

As hipóteses iniciais de Piaget, publicadas entre 1920 e 1930, embora altamente influen­tes na Europa, não foram muito bem-aceitas nos Estados Unidos por sua incompatibilidade com a posição behaviorista. Os primeiros teóricos cognitivos, no entanto, receberam bem a ênfase de Piaget nos fatores cognitivos. E, à medida que as ideias da psicologia cogniti­va tomavam conta da psicologia estadunidense, a importância dos conceitos de Piaget ficava ainda mais evidente. Em 1969, ele foi o primeiro psicólogo europeu a receber o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica. O enfoque do seu trabalho na criança ajudou a ampliar o campo de aplicação da psicologia cognitiva.

A Mudança do Zeitgeist na Física

Quando ocorre uma grande mudança na evolução de uma ciência, ela é entendida como um reflexo das modificações já concretizadas no Zeitgeist intelectual. Sabemos que a ciência, como uma espécie viva, adapta-se às condições e exigências do ambiente. Qual foi a atmosfera intelectual que favoreceu o movimento cognitivo e amenizou as ideias behavioristas, readmitindo a consciência? Mais uma vez, observa-se aqui o Zeitgeist da física, modelo para a psicologia há bastante tempo, e que tem influenciado a área desde o seu início como ciência.

No início do século XX, surge uma nova visão desenvolvida pelos trabalhos de Al­bert Einstein, Neils Bohr e Werner Heisenberg. Eles rejeitavam o modelo mecanicista do universo, originário da época de Galileu e Newton e protótipo para a visão mecanicista, reducionista e determinista da natureza humana adotada pelos psicólogos desde Wundt até Skinner. A nova perspectiva da física descartava a necessidade de total objetividade e a completa separação entre o universo externo e o observador.

Os físicos reconheciam a provável interferência de qualquer tipo de observação feita sobre o universo natural. Seria necessário tentar estabelecer uma relação na lacuna artifi­cial entre observador e observado, entre o universo interior e o exterior e entre o mental e o material. Desse modo, a investigação científica passou do universo independente identificável objetivamente para a observação do universo pelo indivíduo. Os cientistas modernos não podem mais permanecer tão distantes do foco da observação. Em certo sentido, devem se tornar "observadores participativos".

Consequentemente, o ideal da realidade totalmente objetiva agora era considerado inatingível. A física passou a se caracterizar pela crença de que o conhecimento objetivo na verdade é subjetivo e dependente do observador. Essa ideia de que todo conhecimento é pessoal parece muito semelhante à proposta por Berkeley há 300 anos: que o conhecimento é subjetivo porque depende da natureza do observador. Um escritor comentou que nossa visão de mundo, "bem longe de ser uma verdadeira reprodução fotográfica da realidade que está 'lá fora', na verdade, [está] mais para uma pintura: uma criação subjetiva da mente que reproduz uma imagem semelhante, jamais uma réplica" (Matson, 1964, p. 137).

A rejeição dos físicos do objeto de estudo mecanicista e objetivo e, ao mesmo tempo, o reconhecimento da subjetividade restabeleceram o papel vital da experiência conscien­te como uma forma de obter informações acerca do mundo real. Essa revolução na física foi um argumento efetivo para tornar novamente a consciência uma parte legítima do objeto de estudo da psicologia. Embora o sistema psicológico científico tenha resisitido à nova física por meio século, atendo-se a um modelo desatualizado e definindo-se insis­tentemente como uma ciência objetiva do comportamento, a disciplina acabou reagindo ao Zeitgeist e modificando-se, de modo que readmita os processos cognitivos.

A Fundação da Psicologia Cognitiva

Uma análise retrospectiva do movimento cognitivo deixa a impressão de uma rápida tran­sição que solapou as bases behavioristas da psicologia em alguns poucos anos. Ao mesmo tempo, é claro, essa transição não foi totalmente evidente. A mudança, agora percebida como drástica, ocorreu gradual e silenciosamente, sem alardes. Um psicólogo afirmou: "O termo revolução talvez não seja adequado. Não houve acontecimentos cataclísmicos; a mudança ocorreu lentamente, nos diferentes subcampos, ao longo de 10 a 15 anos; não houve nenhum momento e nenhum líder de destaque" (Mandler, 2002a, p. 339). ’

Geralmente, o progresso histórico fica evidente somente depois do acontecimento. A fundação da psicologia cognitiva não ocorreu da noite para o dia nem deve ser atribuída ao carisma de uma pessoa que — como Watson – transformou a área praticamente sozinha. Assim como a psicologia funcional, o movimento cognitivo não apresenta um fundador único, talvez porque nenhum dos psicólogos atuantes na área ambicionasse a liderança do novo movimento. Seu interesse era pragmático, apenas dar continuidade ao trabalho de redefinição da psicologia.

Em retrospecto, a história identifica dois pesquisadores que não foram fundadores, no sentido formal da palavra, mas contribuíram com o trabalho inovador e influente na forma de um centro de pesquisa e de livros considerados marcos no desenvolvimento da psicologia cognitiva. São eles George Miller e Ulric Neisser. As suas histórias indicam alguns fatores pessoais envolvidos na formação de novas escolas de pensamento.

George Miller (1920-)

George Miller formou-se em inglês na University of Alabama, onde completou o mestra­do em fala, em 1941. Durante esse período na universidade, demonstrou interesse pela psicologia e ganhou uma bolsa de estudos para, em troca, trabalhar como uma espécie de professor assistente, dando 16 aulas de introdução à psicologia, sem jamais haver fre­quentado um curso na área. Dizia que depois de lecionar sobre a mesma coisa 16 vezes por semana, começou a acreditar no que ensinava.

Miller foi para a Harvard University, onde trabalhou no laboratório de psicoacústica, lidando com problemas de comunicação oral, obtendo o Ph.D. em 1946. Cinco anos depois, publicou um livro sobre psicolinguística, considerado um marco divisório, Language and communication (1951). Miller reconhecia a escola de pensamento behaviorista, afirmando não ter outra alternativa, já que os behavioristas mantinham as posições de liderança nas principais universidades e associações profissionais.

O poder, as honras, a autoridade, os livros, os lucros, tudo relacionado à psicologia estava nas mãos da escola behaviorista (...) aqueles que desejassem ser psicólogos científicos não podiam opor-se ao behaviorismo. Senão, ficariam desempregados. (Miller apud Baars, 1986, p. 203) Em meados da década de 1950, após investigar a teoria estatística da aprendizagem, a teoria da informação e os modelos de mente com base no computador, Miller chegou à conclusão de que o behaviorismo, literalmente, não iria "funcionar". As semelhanças entre os computadores e o funcionamento da mente humana o impressionaram e sua visão voltou-se mais para a orientação cognitiva. Ao mesmo tempo, desenvolveu uma alergia grave a pelos e descamações de animais, não podendo mais fazer pesquisas com ratos de laboratório, e trabalhar apenas com seres humanos era uma desvantagem no universo dos behavioristas.

A mudança de Miller para a psicologia cognitiva também foi motivada por seu tempe­ramento rebelde, típico de muitos da sua geração de psicólogos. Estavam sempre dispostos a se revoltar contra a psicologia ensinada e praticada no momento, prontos para oferecer sua nova abordagem, seu enfoque no fator cognitivo em lugar do comportamental. Mas, como Miller escreveu cerca de 50 anos depois, "Na época em que estava acontecendo, não percebi que eu era, na realidade, um revolucionário" (2003, p. 141).

Em 1956, Miller publicou um artigo que, desde então, tornou-se um clássico, intitu­lado “The magical number seven, plus or minus two: some limits on our capacity for processing information ("O mágico número sete, mais ou menos dois: alguns limites da nossa capa­ cidade de processamento de informação"). Nesse trabalho, Miller demonstrou que a capa­ cidade consciente do indivíduo de lembrar números por um curto prazo (ou, igualmente, palavras ou cores) limita-se a aproximadamente sete "pedaços" de informação. Essa é a capacidade individual de processamento em determinado momento. A importância, o impacto dessa descoberta reside no fato de lidar com a experiência consciente ou cogni­tiva em uma época em que o behaviorismo ainda dominava o pensamento psicológico.

Ademais, o uso que ele fez da frase "processamento de informações" indicava a influência do modelo da mente humana baseado no computador.

O Centro de Estudos Cognitivos

Em parceria com Jerome Bruner (1915-), seu colega da Harvard, Miller criou um centro de pesquisa para investigar a mente humana. Miller e Bruner pediram ao reitor da universi­dade um espaço físico e, em 1960, ofereceram-lhes a casa em que William James morara. Não havia lugar mais apropriado, já que James abordou de modo tão requintado a natureza da vida mental no seu livro Principies. A escolha do nome para o novo centro não foi uma tarefa comum. Em virtude do fato de estar associado a Harvard, o centro tinha potencial para exercer grande influência na psicologia. Optaram pela palavra "cognição", para deno­tar o objeto de estudo, e decidiram chamar o local de Centro de Estudos Cognitivos.

Ao usarmos a palavra "cognição", estávamos nos colocando à parte do behaviorismo. Desejávamos algo relacionado a mental, no entanto, "psicologia mental" parecia extrema­mente redundante. "Psicologia do senso comum" podia dar a entender alguma espécie de investigação antropológica, e "psicologia do povo", a psicologia social de Wundt. Que palavra usar para rotular esse conjunto de conceitos? Optamos por cognição. (Miller apud Baars, 1986, p. 210)

Mais tarde, dois estudantes do centro lembraram-se de que, naquela época, ninguém conseguia lhes explicar o significado do termo cognição ou as ideias supostamente promo­vidas ali. O centro "não havia sido criado com um objetivo em particular; fora criado para se opor a algo. O importante não era saber o que era e sim saber o que não era" (Norman e Levelt, 1988, p. 101).

Não era o behaviorismo, não era a autoridade vigente, o sistema predominante ou a psicologia do presente. Ao definir o centro, os fundadores demonstravam quão diferentes eram dos behavioristas. Todo novo movimento anuncia a sua posição ou atitude como diferente da escola de pensamento corrente; esse é um estágio preliminar necessário para definir o objetivo e as alterações propostas. Miller, no entanto, atribuiu o devido crédito ao Zeitgeist. "Nenhum de nós deve receber muitos créditos pelo sucesso do Centro. Foi apenas uma ideia ocorrida no tempo certo" (Miller, 1989, p. 412).

Miller não considerava a psicologia cognitiva uma verdadeira revolução, apesar das diferenças em relação ao behaviorismo. Chamava-a de "acréscimo", uma mudança mediante um lento crescimento ou acúmulo. Enxergava o movimento como mais evolucionário que revolucionário e acreditava ser um retorno à psicologia do senso comum, que reconhecia e ratificava a preocupação psicológica com a vida mental e com o comportamento.

Os pesquisadores do centro investigavam ampla variedade de temas: linguagem, memória, percepção, formação de conceito, pensamento e psicologia do desenvolvimento. A maioria dessas áreas havia sido eliminada do vocabulário dos behavioristas. Mais tarde, Miller criou um programa de ciências cognitivas na Princeton University.

Miller tornou-se presidente da APA em 1969 e recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica e a Medalha de Ouro da Fundação Americana de Psicologia pelas Realizações na Aplicação da Psicologia. Em 1991, recebeu a Medalha Nacional da Ciência. Em 2003, recebeu da APA o Prêmio pela Extraordinária Contribuição à Psicologia. Outro reconhecimento do significado do seu trabalho é a quantidade de laboratórios de psicolo­gia cognitiva criados tendo o seu centro como modelo, além do rápido desenvolvimento e a formalização da abordagem à qual ele se dedicara com afinco para definir.

Ulric Neisser (1928-)

Nascido em Kiel, na Alemanha, Ulric Neisser foi para os Estados Unidos, com os pais, aos 3 anos. Iniciou os estudos universitários na Harvard, formando-se em física. Impressio­nado com um jovem professor de psicologia chamado George Miller, Neisser chegou à conclusão de que física não era assim tão interessante. Mudou para a psicologia e frequen­tou, com menção honrosa, o curso de Miller sobre a psicologia da comunicação e teoria da informação. Ele conta também que foi influenciado pelo livro de Koffka, Principies of Gestalt psychology. Depois de obter a graduação como bacharel em Harvard, em 1950, Neisser recebeu o título de mestrado na Swarthmore College, estudando sob a orientação do psicólogo da Gestalt, Wolfgang Köhler. Retornou a Harvard para obter o Ph.D., que completou em 1956.

Apesar do crescente interesse pela abordagem cognitiva da psicologia, Neisser não via como escapar do behaviorismo, já que desejava seguir a carreira acadêmica. "Não havia outra opção. Estávamos em uma era em que o fenômeno psicologia seria considerado real somente se demonstrado em um rato de laboratório" (apud Baars, 1986, p. 275). No entanto, Neisser teve sorte, pois sua primeira posição acadêmica foi na Brandeis University, onde o diretor do departamento de psicologia era Abraham Maslow. Naquela época, Maslow estava se afas­tando da sua formação behaviorista para desenvolver a abordagem humanista ao campo.

Maslow não conseguiu convencer Neisser a se tornar psicólogo humanista, ou em transfor­mar a psicologia humanista na terceira força da disciplina, mas proporcionou a Neisser a oportunidade de perseguir seu interesse nas questões cognitivas (mais tarde, Neisser afir­mou ser a psicologia cognitiva e não a humanista a terceira força da psicologia).

Em 1967, Neisser publicou a obra Cognitive psychology e alegou ser esse um livro pessoal, uma tentativa de definir a si próprio e o tipo de psicólogo que almejava ser. O trabalho também foi um marco divisório na história da psicologia, uma tentativa de definir um novo tratamento para a disciplina. A obra tornou-se extremamente conhecida, e Neisser sentia-se constrangido por ser identificado como o "pai" da psicologia cognitiva. Embora não desejasse fundar nenhuma escola de pensamento, seus trabalhos ajudaram a afastar a psicologia do behaviorismo, empurrando-a em direção ao cognitivismo. Mesmo assim, Neisser enfatizava que o estudo das questões cognitivas devia constituir apenas parte da psicologia e não caracterizar a disciplina toda.

Neisser definia a cognição como os processos pelos quais "a informação sensorial recebida é transformada, reduzida, elaborada, armazenada, recuperada e usada. (...) cognição está envol­vida em tudo que o ser humano é capaz de realizar" (Neisser, 1967, p. 4). Assim, a psicologia cognitiva está relacionada com a sensação, a percepção, a formação de imagens, a memória, a solução de problemas, o pensamento e as demais atividades mentais relacionadas.

Apenas nove anos depois, Neisser publicou Cognition and reality (1976), expressando a insatisfação com a restrição da posição cognitiva e a dependência da coleta de dados em laboratório e não no mundo real. Insistia em afirmar que os resultados da pesquisa psico­lógica deviam ter validade em termos ecológicos. Com isso, quis dizer que os resultados deviam ser generalizados para as situações além dos limites do laboratório. Além disso, alegava que a psicologia cognitiva devia permitir a aplicação das descobertas aos proble­mas práticos, ajudando as pessoas a lidarem com as questões cotidianas particulares e profissionais. Assim, Neisser mostrava-se decepcionado, concluindo que o movimento da psicologia cognitiva tinha pouco a contribuir com a psicologia, no sentido de compreender como as pessoas lidam com as situações. Desse modo, a principal figura na fundação da psicologia cognitiva tornara-se seu crítico audaz, desafiando o movimento, como fizera anteriormente com o behaviorismo.

Depois de 17 anos na Cornell University, onde seu escritório ficava perto do local em que foi guardado o cérebro conservado de Titchener, Neisser mudou-se para a Emory University, em Atlanta, retornando a Cornell em 1996.

A Metáfora do Computador

Os relógios e os robôs foram as metáforas do século XVII para a visão mecânica do uni­verso e, por analogia, para a mente humana. Essas máquinas bem conhecidas eram mode­los fáceis de entender daquilo que se acreditava ser o funcionamento da mente. Hoje, o modelo do universo mecânico e a psicologia behaviorista baseados nessas máquinas foram superados por outras visões - como a aceitação da subjetividade na física e o movimento cognitivo da psicologia.

Como resultado, o relógio não é mais um exemplo útil para a visão moderna da mente. Uma máquina do século XX, o computador, surgiu para servir de modelo, como uma nova metáfora para o funcionamento da mente. Um historiador da ciência comentou: "O veículo responsável pela reintrodução da mente e um agente vital da derrocada do behaviorismo foi a noção da mente comparada ao computador. Essa afirmação transformou-se em senso comum na literatura histórica da 'revolução cognitiva"' (Crowther-Heyck, 1999, p. 37). Os psicólogos tomam como base as operações do computador para explicar o fenômeno cognitivo. Dizem que os computadores exibem uma inteligência artificial e normalmente são descritos "de forma humana". A capacidade de armazenagem chama-se memória; os códigos de programação, linguagem, e as novas gerações de computadores, evoluções.

O funcionamento dos programas de computador, basicamente formados de conjuntos de instruções para o tratamento de símbolos, é semelhante ao da mente humana. Tanto o computador como a mente recebem do ambiente e processam grande quantidade de infor­mações (estímulos sensoriais ou dados). Ambos compilam essas informações, manipulando, armazenando e recuperando os dados, atuando de várias maneiras. Desse modo, a programa­ ção do computador foi sugerida como base para a visão cognitiva humana do processamento de informações, do raciocínio e da solução de problemas. É o programa (software) e não o computador em si (hardware) que serve como explicação para as operações da mente.

Os psicólogos cognitivos estão interessados na sequência de manipulação dos símbolos envolvida nos processos de pensamento humano. Em outras palavras, estão preocupados em descobrir como a mente processa a informação. Eles têm como objetivo descobrir o programa que cada indivíduo tem armazenado na memória, os padrões de pensamento que lhe permitem compreender e articular as ideias, lembrar e resgatar os acontecimentos e os conceitos, e assimilar e resolver um problema novo. Em quase 125 anos de história, a psicologia partiu do simples relógio até chegar aos sofisticados computadores como mode­los de objeto de estudo, mas é importante observar que ambos são máquinas. Esse aspecto demonstra a continuidade histórica na evolução da psicologia, desde as mais antigas esco­las de pensamento, até as mais recentes. É possível observar também uma continuidade histórica na própria evolução dos computadores.

O Desenvolvimento do Computador Moderno

Os trabalhos de Charles Babbage e Henry Hollerith visavam ao desenvolvimento de uma máquina capaz de "pensar" como o homem. No entanto, um problema prático surgido durante os primeiros dias da Segunda Guerra Mundial provocou o início da moderna era dos computadores. Em 1942, o exército estadunidense precisava desesperadamente encontrar uma forma de realizar com mais rapidez os cálculos necessários para disparar as peças de artilharia. A mira perfeita do canhão para o projétil atingir o alvo envolvia (e até hoje envolve) um processo muito complicado, bem mais complexo que o procedimento de o soldado mirar um rifle e apertar o gatilho. Por exemplo, "Para mirar um canhão, o atirador tinha de efetuar diversos ajustes. Esse procedimento exigia o uso de uma série de tabelas [matemáticas] para calcular todas as variáveis que afetam a trajetória do projétil, como a direção e a velocidade do vento, a umidade do ar, a temperatura, a elevação e até mesmo a temperatura da pólvora" (Keiger, 1999, p. 40).

O manual de ajustes para cada tipo de artilharia continha centenas, até milhares de tabelas de cálculos. Esse trabalho era realizado pelas mulheres, recém-contratadas durante o período da guerra, que usavam calculadores manuais (essas mulheres eram chamadas de "computadoras"). Todavia, um ano depois, elas foram superadas, pois não conseguiam acompanhar a demanda. A situação era tão crítica que alguns canhões chegaram a ser abandonados em combate por falta de tabelas com os cálculos para atirar.

Essa necessidade incentivou o desenvolvimento do primeiro computador de grande porte, o Eniac - Electronic Numerical Integrator and Calculator. Concluída em 1943, a máquina em formato de ferradura ocupava três paredes de uma sala enorme, com "braços de 24 metros de comprimento e altura aproximada de 2,4 metros, pesando em torno de 30 toneladas. Continha cerca de 17.468 válvulas eletrônicas (...) além de 10 mil capacitores, 70 mil resistores, 1.500 relés e 6 mil chaves manuais, uma quantidade tão grande de peças eletrônicas que exigia enormes ventiladores para dissipar o calor produzido" (Waldrop, 2001, p. 45).

As máquinas com capacidade para realizar operações mentais percorreram um longo caminho desde a época da calculadora de Babbage. Basta comparar o tamanho e a capaci­dade de um laptop ou palm top para perceber o quão primitivo era o Eniac. A evolução das máquinas para a realização de funções mentais prossegue em um ritmo tão rápido que nos leva, inevitavelmente, a questionar se elas realmente demonstram inteligência.

A Inteligência Artificial

Os psicólogos cognitivos aceitavam computadores como modelo para o funcionamento cognitivo humano, afirmando que as máquinas exibiam inteligência artificial e proces­samento de informação semelhantes aos do homem. É possível supor, então, que a inteli­gência do computador seja igual à do homem? Será que o computador é capaz de pensar? No século XVII, os robôs simulavam a fala e o movimento humanos. No século XXI, será que as novas gerações de computadores simularão o pensamento humano?

No início, os cientistas da computação e os psicólogos cognitivos acolheram com grande entusiasmo a noção da inteligência artificial. Já em 1949, quando os computadores ainda eram relativamente primitivos, o autor de um livro intitulado Giant brains afirmou: "...a máquina manipula informações; realiza cálculos, chega a conclusões e faz opções; a máquina faz uma quantidade razoável de operações com os dados. A máquina, portanto, pensa” {apud Dyson, 1997, p. 108).

Em 1950, o gênio da computação Alan Turing (1912-1954) propôs uma maneira de veri­ficar a hipótese de que o computador seria capaz de pensar. Chamado de Teste de Turing, o processo consistia em convencer um indivíduo de que o computador com o qual estava se comunicando era realmente uma pessoa, e não uma máquina. Se o indivíduo não conseguis­ se distinguir entre as respostas do computador e as humanas, a máquina estaria exibindo inteligência semelhante à do homem. O Teste de Turing funciona da seguinte forma.

O entrevistador [um indivíduo] estabelece duas formas diferentes de "conversação" com o programa interativo do computador. O entrevistador deve tentar descobrir qual das duas partes seria uma pessoa usando o computador para se comunicar e qual seria a própria máquina respondendo. O entrevistador formula qualquer tipo de pergunta. Entretanto, o computador tenta enganar o entrevistador, ou seja, tenta fazê-lo acreditar ser uma pessoa, enquanto a pessoa de verdade tenta mostrar que ela é humana. O computador é aprovado no Teste de Turing se o entrevistador não conseguir fazer a distinção entre a máquina e o indivíduo. (Sternberg, 1996, p. 481-482)

Nem todos concordavam com a premissa do Teste de Turing. John Searle (1932-), um filósofo que elaborou o problema da sala chinesa, foi quem apresentou as mais veementes objeções (Searle, 1980). Imagine-se sentado em uma cadeira, de frente para uma parede com duas aberturas. Pedaços de papel contendo um conjunto de ideogramas chineses ap­arecem um de cada vez na abertura da esquerda. A sua tarefa é combinar, de acordo com o formato, o conjunto de símbolos com os de um livro. Quando você consegue encontrar o conjunto correto, deve copiar outro conjunto de símbolos do livro em um pedaço.  O que está acontecendo aqui? Você está sendo alimentado com as informações pela abertura da esquerda e transmitindo dados pela da direita, obedecendo às instruções programadas recebidas. Assim como a maioria dos ocidentais, não se espera que você leia ou compreenda chinês. Você está apenas seguindo as instruções de forma mecânica.

No entanto, se um psicólogo chinês estivesse observando a uma distância bem razoá­vel da parede com as aberturas, não conseguiria perceber que você não sabe chinês. As comunicações chegam a você em chinês e, por sua vez, você responde corretamente em chinês, copiando-as do livro. Não importa quantas mensagens você receba ou a quantas responda, ainda continua não sabendo chinês. Você não está pensando, está apenas seguin­do instruções. Não está demonstrando inteligência, apenas obedecendo a ordens.

Searle afirmava que os programas de computador que parecem compreender os diferen­tes tipos de dados recebidos e responder a essas informações de forma inteligente estariam funcionando como a pessoa do problema da sala chinesa. O computador não entende as mensagens, tanto como você não sabe chinês. Nesses exemplos, tanto você como o compu­tador estão funcionando exatamente de acordo com o conjunto de regras programadas.

Vários psicólogos cognitivos chegaram a concordar que o computador passa no Teste de Turing e simula a inteligência sem realmente ser inteligente. Conclusão, o computador ainda não é capaz de pensar. Mas seu desempenho parece simular o pensamento, e isso nos remete às partidas de xadrez de 1997 que devastaram o campeão mundial Garry Kasparov. O que o deixara tão abatido, levando-o a abandonar o jogo? O seu oponente era um computador.

Fabricado pela IBM, o computador se chamava Deep Blue. Pesava cerca de 3 toneladas, e cada uma das suas duas torres media mais de 1,80m de altura. Tinha uma capacidade de processamento de 200 milhões de posições por segundo; em três minutos conseguia processar 50 bilhões de movimento. Não foi à toa que até o maior mestre do xadrez rendeu-se, desespe­rado. Todavia, com toda essa capacidade, o Deep Blue estava realmente pensando?

A conclusão geral foi de que a máquina não pensava, embora se “comportasse" como se estivesse pensando. Um escritor científico britânico, interessado em máquinas de jogos de xadrez, concluiu: "Apesar do incansável aperfeiçoamento do desempenho do computa­dor, houve pouco progresso na busca pela inteligência da máquina para aplicação geral. (...) O Deep Blue mostrou que a criação de um computador capaz de jogar xadrez como qualquer ser humano revela muito pouco sobre a inteligência em geral" (Standage, 2002, p. 241). O computador, apesar do fantástico desempenho exibido, ainda precisa ser progra­mado por um ser humano pensante. Em 2003, Kasparov voltou a jogar, dessa vez contra o Deep Junior, uma nova geração de computador enxadrista. Antes da partida ele disse: "Estou aqui representando a raça humana. Prometo fazer o melhor".

Mas Kasparov teve dificuldades para isso. Um observador para a revista Wired es­creveu: enquanto Kasparov está praticamente exausto, Deep Junior simplesmente continua jogando. Como um robô assassino, o computador com certeza não vai parar, jamais. Garry ficou cada vez mais exausto. Ele está tentando ficar calmo e concentrado para ver se consegue deixar a máquina aborrecida fazer com que ela erre; [mas] ficar aborrecida não é uma opção. A máquina não se irrita, (wired.com/news.7/6/2006) E quando Kasparov cedeu a um empate de 3 a 3, foi vaiado pela multidão. No entanto, seu desempenho mostrou que a inteligência artificial não atingiu o nível de complexidade da inteligência humana - pelo menos por enquanto.

A Natureza da Psicologia Cognitiva

No Capítulo 11, vimos como a inclusão dos fatores cognitivos nas teorias da aprendiza­gem social de Albert Bandura e de Julian Rotter alterou o behaviorismo estadunidense. Hoje, o impacto do movimento cognitivo é observado não apenas na psicologia behaviorista. Os fatores cognitivos são observados por pesquisadores em diversas áreas da disciplina: a teoria da atribuição da psicologia social, a teoria da dissonância cognitiva, a motivação e a emoção, a personalidade, a aprendizagem, a memória, a percepção e o processamen­to da informação na tomada de decisões ou solução de problemas. Nas áreas aplicadas, como a psicologia clínica, comunitária, educacional e industrial-organizacional, também se observam a ênfase nos fatores cognitivos.

A psicologia cognitiva é diferente do behaviorismo em vários aspectos. Primeiro, os psicólogos cognitivos dedicam-se a estudar o processo de aquisição do conhecimento e não apenas a mera resposta ao estímulo. Os principais fatores são os fatos e os processos mentais e não as conexões estímulo-resposta; a ênfase é dada à mente e não ao compor­tamento, o que não quer dizer que os psicólogos cognitivos ignorem o comportamento, mas que as reações comportamentais não consistem no único enfoque da pesquisa. As respostas comportamentais constituem fontes de dedução para se chegar à conclusão sobre os processos mentais associados a essas reações.

Segundo, os psicólogos cognitivos estão interessados em saber como a mente estrutura ou organiza as experiências. Os psicólogos da Gestalt, assim como Piaget, argumentavam em favor da tendência inata de organizar a experiência consciente (as sensações e as percepções) em unidades e padrões de significado. A mente dá forma e coerência à experiência mental; esse processo é o objeto de estudo da psicologia cognitiva. Os empiristas e associacionistas britânicos e a psicologia do século XX derivada dessas teorias, o behaviorismo skinneriano, insistiam em que a mente não é dotada de capacidade organizacional inata.

Terceiro, os psicólogos cognitivos acreditam na atuação ativa e criativa do indivíduo em organizar estímulos recebidos do ambiente. O indivíduo é capaz de participar da aquisição e aplicação do conhecimento, participando intencionalmente de alguns fatos e optando por associá-los à memória. O indivíduo não é, como afirmavam os behavioristas, respondente passivo às forças externas ou folhas em branco para o registro da experiência sensorial.

A Neurociência Cognitiva

As pesquisas sobre o mapeamento das funções cerebrais datam dos séculos XVIII e XIX e estão nos trabalhos de Hall, Flourens e Broca (veja no Capítulo 3). Empregando métodos como a extirpação e os choques elétricos, os primeiros psicólogos tentaram determinar as partes específicas do cérebro controladoras das várias funções cognitivas.

Essa investigação continua até hoje na disciplina chamada neurociência cognitiva, um híbrido da psicologia cognitiva e da neurociência. Os objetivos desse campo são determinar "como as funções cerebrais originam a atividade mental" e "correlacionar aspectos específicos do processamento de informação com as regiões específicas do cérebro" (Sarter Bernston e Cacioppo, 1996, p. 13).

Os pesquisadores da neurociência cognitiva obtiveram avanços extraordinários no mapeamento cerebral, principalmente em virtude do desenvolvimento e da aplicação das sofisticadas técnicas de utilização de imagens. Por exemplo, o eletroencefalograma (EEG - Electroencephalogram) registra as variações na atividade elétrica de partes selecionadas do cérebro. A leitura da tomografia axial computadorizada (CAT - Computerized Axial Tomography) revela perfis detalhados do cérebro. O exame de ressonância magnética (MRI - Magnetic Resonance Imagery) produz imagens tridimensionais do cérebro. Enquanto essas técnicas produzem imagens estáticas, a varredura da tomografia por emissão de pósitron (PET - Positron Emission Tomography) produz imagens ao vivo de várias atividades cogniti­vas. Essas e outras técnicas de uso de imagens vêm oferecendo aos cientistas um grau de precisão e de detalhes impossível de ser obtido até então.
Em 2006, os neurocientistas cognitivos demonstraram que o cérebro humano podia controlar um computador. O pensamento podia ser traduzido em movimento só por impulsos elétricos. O objeto de estudo era um homem de 25 anos de idade que estava totalmente paralisado havia três anos. Censores eletrônicos, implantados no córtex motor de seu cérebro, interagindo com um computador, permitindo controlar não somente o computador, mas também um aparelho de televisão e um robô - tudo isso usando somente seus pensamentos. Em poucos minutos ele havia aprendido a movimentar o cursor do computador, e abrir e-mails, movimentar objetos usando um braço robótico, jogar video-game simples, e desenhar um círculo na tela. Ele praticou esse controle pensando em tais movimentos, isto é, ao ter a intenção ou desejo de fazê-los. Naturalmente, ele não conseguia mover o controle com suas mãos.

Essa aplicação da neurociência cognitiva, chamada de neuroprostética, dá esperança a pessoas com esses tipos de deficiências, de que um dia serão capazes de interagir com objetos em seu ambiente, e controlá-los (Hochberg ET AL., 2006; Pollack, 2006).

O PapeI da Introspecção

A aceitação das experiências conscientes fez os psicólogos cognitivos reconsiderarem a primeira abordagem de pesquisa da psicologia científica, o método introspectivo introdu­zido por Wundt há mais de um século. Em uma declaração que podia ser de Wundt ou Titchener, um psicólogo fez uma afirmação óbvia, no final do século XX, de que "... se vamos estudar a consciência, devemos adotar a introspecção juntamente com os relatos introspectivos" (Farthing, 1992, p. 61).

Os psicólogos tentaram quantificar os relatos introspectivos a fim de permitir análises estatísticas mais objetivas e manipuláveis. Uma das abordagens, a avaliação fenomenológica retrospectiva, consiste em pedir ao indivíduo que avalie a intensidade das experiências subjetivas durante a resposta a uma situação de estímulo anterior. Em outras palavras, o indivíduo avalia retrospectivamente as experiências subjetivas ocorridas durante um período anterior, quando lhe pediram para responder a um dado estímulo.

Um psicólogo cognitivo notou que não somente a introspecção podia ser amplamente utilizada, como também que os estados conscientes revelados pela introspecção são "fre­quentemente bons preditivos do comportamento da pessoa" (Wilson, 2003, p. 131).

Embora alguma forma de introspecção constitua o método de pesquisa mais fre­quentemente usado na psicologia contemporânea, até mesmo os mais fervorosos adeptos reconhecem as limitações para a sua validação. Por exemplo, alguns sujeitos podem fazer relatos introspectivos socialmente desejáveis, falando aos pesquisadores aquilo que eles querem ouvir em um esforço para agradá-los. Outro problema com a introspecção é que os sujeitos podem não ser capazes de avaliar alguns de seus pensamentos ou sentimen­tos, pois eles residem muito profundamente no seu inconsciente, um tópico ao qual os psicólogos estão dedicando atenção crescente.

A Cognição Inconsciente

O estudo do processo mental consciente motivou um renovado interesse nas atividades cognitivas inconscientes. "Depois de cem anos de descaso, desconfiança e frustração, o processo inconsciente voltou com firmeza na mente coletiva dos psicólogos" (Kihlstrom, Barnhardt e Tataryn, 1992, p. 788). Cada vez mais, os psicólogos cognitivos concordam que o inconsciente é capaz de realizar muitas funções que antes se acreditava precisarem de deliberação, intenção e conscientização deliberada. As pesquisas sugerem que a maior parte de nosso pensamento e processamento de informações ocorre no inconsciente, que pode operar mais rápida e eficientemente do que a mente consciente (veja Hassin, Uleman e Margh, 2005; Wilson, 2002).

Entretanto, essa não é a mente inconsciente de que falava Freud, transbordando de lembranças e desejos reprimidos trazidos ao consciente somente por meio da psicanálise. Esse novo inconsciente é mais racional do que emocional, e está envolvido no primeiro estágio da cognição de resposta a um estímulo. Desse modo, o processo inconsciente forma uma parte integrante da aprendizagem e é passível de estudo experimental.

Para distinguir a versão moderna de inconsciente cognitivo da versão psicanalítica (e dos estados físicos de inconsciência, sonolência ou comatoso), alguns psicólogos cognitivos preferem empregar o termo "não-consciente". Em geral, os pesquisadores cognitivos con­cordam que a maioria dos processos mentais do homem ocorre no nível não-consciente. "Hoje, acredita-se ser o estado inconsciente mais 'alerta' do que se pensava, sendo capaz de processar informações visuais e verbais complexas e até prever (e planejar) acontecimen­tos futuros. (...) Não mais um simples depositário do ímpeto e do impulso, o inconsciente parece desempenhar importante papel na solução de problemas, no teste de hipóteses e na criatividade" (Bornstein e Masling, 1998, p. xx).

Tanto nos experimentos laboratoriais quanto nos estudos baseados na observação do comportamento do consumidor ao fazer compras, os pesquisadores verificaram que o pensamento inconsciente (chamado aqui de "atenção sem deliberação") era mais cria­tivo e diversificado e levava a compras mais satisfatórias do que quando as respostas no laboratório e comportamento de compra eram dirigidos pelo pensamento consciente (Kijksterhuis, Bos, Nordgren, e van Baaren, 2006; Dijksterhuis e Meurs, 2006).

Uma abordagem conhecida no estudo do processamento não-consciente envolve a percepção subliminar (ou ativação subliminar), na qual estímulos são apresentados abaixo do nível de consciência do indivíduo. Apesar da incapacidade do indivíduo de percebê-los, a estimulação ativa o processo consciente e o comportamento da pessoa. Desse modo, esse tipo de pesquisa demonstra que o indivíduo pode ser influenciado por um estímulo que não vê ou não ouve. Essas e outras descobertas semelhantes convenceram os psicólogos cognitivos de que o processo de aquisição do conhecimento (dentro ou fora do ambiente laboratorial) ocorre tanto no nível consciente como no não-consciente, mas a maior parte do trabalho mental envolvido na aprendizagem ocorre no nível não-consciente. A pesquisa também indica que o processamento da informação não-consciente pode ser mais rápido, mais eficiente e mais sofisticado do que as atividades semelhantes do nível consciente.

A Cognição Animal

O movimento cognitivo resgatou a consciência não apenas dos seres humanos, como também dos animais. Realmente, a psicologia comparativa e a animal fecharam o círculo completo, desde as observações da vida mental do animal relatadas por Romanes e Mor­gan nas décadas de 1880 e 1890, passando pelo estudo do condicionamento mecânico por estímulo-resposta dos behavioristas skinnerianos nas décadas de 1950 e 1960, até a restauração contemporânea da consciência pelos psicólogos cognitivos.

Desde a década de 1970, os estudiosos da psicologia animal tentam demonstrar como o animal codifica, transforma, computa e manipula as representações simbólicas das texturas espacial, temporal e causal do mundo real para adaptar e organizar o próprio comportamento" (Cook, 1993, p. 174). Em outras palavras, o sistema de processamento de informações semelhante ao do computador que se acredita operar nos humanos também está sendo estudado nos animais. As primeiras pesquisas de cognição animal utilizavam estímulos simples como luzes coloridas, sons e cliques. Esses estímulos talvez tenham sido básicos demais para permitir uma compreensão do processo cognitivo animal, pois não permitiam aos animais exibirem a gama completa de capacidades de processamento de informação. Pesquisas posteriores utilizavam estímulos mais realistas e complexos, tais como fotos coloridas de objetos conhecidos. Esses estímulos fotográficos revelaram capacidades conceituais até então não atribuídas aos animais.

Observou-se ainda uma memória animal complexa e flexível e pelo menos alguns processos cognitivos operando de modo semelhante no animal e nos seres humanos. Os animais de laboratório são capazes de aprender conceitos variados e sofisticados. Eles exi­bem processos mentais tais como a codificação e organização de símbolos, a capacidade de formar abstrações espaciais, temporais e numéricas e perceber as relações de causa e efeito. Além disso, o uso que fazem de ferramentas e outros acessórios implica um sentido básico de raciocínio (Wynne, 2001). 

Estudos feitos com animais, desde insetos até mamíferos (incluindo ratos, pombas, chimpanzés, papagaios, golfinhos e corvos), sugerem que os animais conseguem desempe­nhar uma série de funções cognitivas. Entre estas estão a formação de mapas cognitivos, percepção de motivos, planejamento levando em consideração experiências passadas, compreensão de conceitos de números e resolução de problemas pelo uso da razão (veja por exemplo, Emery e Clayton, 2005; Pennisi, 2006).

No entanto, alguns estudiosos da psicologia animal afirmam que as pesquisas rea­lizadas até hoje não oferecem comprovações suficientes para generalizar a afirmação de que a cognição animal funcione de modo semelhante à humana. A lacuna entre o fun­cionamento da mente animal e o da mente humana proposta por Descartes no século XVII mantém o seu apelo.

Os psicólogos comportamentais ainda rejeitam a noção de consciência, tanto em ani­mais como nos seres humanos. Um behaviorista afirmou sobre os psicólogos cognitivos animais: "Eles são os George Romaneses de hoje. Especular sobre memória, raciocínio e consciência dos animais não é menos ridículo do que era há 100 anos" (Baum, 1994, p. 138). Um historiador famoso apresentou uma opinião contraditória:
Será que os animais demonstram todos os aspectos observáveis da consciência? As evi­dências biológicas apontam para uma clara resposta positiva. Teriam, então, também, o lado subjetivo? Dada a longa e crescente lista de semelhanças, parece-me que o peso da evidência está inexoravelmente tendendo para uma resposta afirmativa. (...) Sinto que a comunidade científica agora inclinou-se a seu favor. Os fatos básicos acabaram retornando à origem. Não somos os únicos seres conscientes do planeta. (Baars, 1997, p. 33)

Se os animais são seres conscientes e podem desempenhar funções cognitivas se­melhantes às dos seres humanos, é possível perguntar se também exibem características comuns de personalidade? Um número crescente de psicólogos acredita que a resposta é afirmativa.

A Psicologia Animal

No início da década de 1990 dois psicólogos decidiram estudar 44 polvos vermelhos no aquário de Seattle, Washington, onde cientistas e cuidadores haviam notado que os polvos tinham personalidades diferentes entre si. De fato, eles haviam dado nomes que corres­pondiam às suas naturezas. Uma fêmea mais tímida foi chamada de Emily Dickinson, em homenagem à poetisa. Uma outra era tão agressiva e destrutiva que foi chamada de Lucrécia McEvil (Siebert, 2006).

Os psicólogos observaram o comportamento dos polvos em três situações experi­mentais e verificaram que diferiam em três fatores: atividade, reação e fuga. A resposta à pergunta: "Os polvos têm personalidade?" foi inexoravelmente afirmativa (Mather e Anderson, 1993).

Desde essa pesquisa, os estudos têm documentado características de personalidade em uma variedade de animais, incluindo peixes, aranhas, animais de grande porte, hienas, chimpanzés e cachorros. Por exemplo, algumas hienas foram observadas em um zoológi­co por seus cuidadores que relataram que apresentam características semelhantes às dos humanos, como excitabilidade, sociabilidade, curiosidade e positividade. Ratos exibiram um certo grau de empatia por outros ratos com dor, assim como os chimpanzés, elefantes e golfinhos. Os orangotangos com grau elevado de extroversão e amabilidade, e baixo grau de comportamento neurótico, também apresentam um alto grau de bem-estar subjetivo. Além disso, os traços de personalidade exibidos por cachorros têm sido medidos com a mesma exatidão que nos seres humanos (veja Gosling, Kwan e John, 2003; Miller, 2006; Siebert, 2006; Weiss, King e Perkins, 2006).

"Com os estudos da personalidade animal estamos obtendo uma apreciação ainda maior não só da distinção dos pássaros e animais e seus comportamentos, mas também de suas semelhanças profundas com nós mesmos e nossos comportamentos" (Siebert, 2006, p. 51). Se os animais são tão semelhantes aos seres humanos em termos de processamento cognitivo, temperamento e personalidade, isso significa confirmação adicional da impor­tância da evolução em todas as criaturas vivas? Como veremos, o campo relativamente novo da psicologia evolucionista dedica-se a investigar justamente essa questão.

O Estágio Atual da Psicologia Cognitiva

Com o movimento cognitivo na psicologia experimental e a ênfase na consciência den­tro da psicologia humanista e da psicanálise pós-freudiana, é possível observar que a consciência estava exigindo a posição central que ocupou quando do início formal da disciplina. Uma análise de 95 discursos presidenciais da APA mostra que a visão predo­minante do objeto de estudo da psicologia oscilou dos fatos subjetivos para os objetivos, retornando aos subjetivos (Gibson, 1993). A retomada da consciência ocorreu de forma vigorosa e substancial.

Como escola de pensamento, a psicologia cognitiva vangloria-se das aparências externas do sucesso. Na década de 1970, o movimento obteve tantos adeptos que conseguiu susten­tar as próprias revistas especializadas: Cognitive Psychology (publicada primeiro em 1970), Cognition (1971), Cognitive Science (1977), Cognitive Therapy and Research (1977), Journal of Mental Imagery (1977) e Memory and Cognition (1983). A revista Consciousness and Cognition começou a ser publicada em 1992, e a Journal of Consciousness Studies, em 1994.

Em uma ocasião, Jerome Bruner descreveu a psicologia cognitiva como "uma revolu­ção cujos limites ainda não podem ser previstos" (Bruner, 1983, p. 274). O cientista Roger Sperry, ganhador do prêmio Nobel, comentou que a revolução da consciência ou cognitiva, comparada às revoluções psicanalítica e behaviorista na psicologia, é "a reviravolta mais radical; a mais revisionista e mais transformadora" (Sperry, 1995, p. 35)

O impacto da psicologia cognitiva é sentido na maioria das áreas de interesse das comunidades de psicologia estadunidense e europeia. Ademais, os psicólogos cognitivos têm tentado aprofundar e consolidar o trabalho de diversas grandes disciplinas em um estudo unificado de aquisição do conhecimento. Essa perspectiva, intitulada ciência cognitiva, é uma fusão de psicologia cognitiva, linguística, antropologia, filosofia, ciência da compu­tação, inteligência artificial e neurociência. Embora George Miller questionasse em que se transformaria a união de campos de estudo tão distintos (ciências cognitivas, ele sugeriu, em vez de ciência cognitiva), não há como negar o crescimento da abordagem multidisci- plinar. Vários laboratórios e institutos de ciência cognitiva foram criados nas universidades dos Estados Unidos; alguns departamentos de psicologia passaram a se chamar departa­mentos de ciência cognitiva. Qualquer que seja o nome, a abordagem cognitiva para o estudo do fenômeno mental e dos processos mentais passou a dominar a psicologia e as disciplinas aliadas.

Todavia, nenhuma revolução, mesmo bem-sucedida, escapa das críticas. Por exemplo, a maioria dos psicólogos behavioristas posiciona-se contrária ao movimento cognitivo. Mesmo os que apoiam o movimento apontam suas limitações e seus pontos fracos, obser­vando que existem poucos conceitos com os quais a maioria dos psicólogos cognitivos concorda, ou que considera importantes, e ainda há muita confusão em torno da termi­nologia e das definições.

Outra crítica está relacionada à ênfase excessiva na cognição em detrimento das outras influências sobre o pensamento e o comportamento, tais como a motivação e a emoção. A literatura especializada em motivação e emoção diminuiu ao longo das últimas décadas, enquanto as publicações relacionadas à cognição aumentaram. Ulric Neisser afirmou ser o resultado uma abordagem limitada e improdutiva do campo. "O pensamento humano envolve paixão e emoção, as pessoas atuam sob motivações complexas. O programa de computador, ao contrário, (...) não trabalha por emoção e é monomaníaco na sua ingenui­dade” (Neisser apud Goleman, 1983, p. 57). Ele percebeu o risco da fixação excessiva da psicologia cognitiva nos processos de pensamento do mesmo modo que o behaviorismo se concentrou excessivamente no comportamento manifesto. Jerome Bruner alertou estar a ciência cognitiva restringindo-se a questões cada vez mais limitadas, até mesmo triviais (Bruner, 1990). Uma crítica mais agressiva aponta o fracasso em unificar os diversos campos de estudo relacionados ao funcionamento cognitivo. Um crítico observou que, até agora, "não existe uma visão comum sobre a mente" (Erneling, 1997, p. 381).

Apesar dessas críticas, a primazia da posição cognitiva é amplamente aceita na psicologia. Esse domínio foi confirmado em uma análise empírica englobando 19 anos de dissertações de doutorado e artigos publicados e citados nas quatro publicações da psi­cologia geral: American Psychologist, Annual Review of Psychology, Psychological BulletinPsychological Review (Robins, Gosling e Craik, 1999).
A psicologia cognitiva não está terminada. Está ainda em evolução, marcando o lugar na história em andamento, portanto ainda é cedo demais para avaliar suas contribuições definitivas. A disciplina é dotada de características de uma escola de pensamento: publi­cações próprias especializadas, laboratórios, encontros, jargões e convicções, bem como o zelo dos adeptos. Podemos falar de cognitivismo, assim como falamos do funcionalis­mo e do behaviorismo. A psicologia cognitiva já atingiu o estágio alcançado pelas outras escolas de pensamento em cada época, ou seja, tornar-se parte da psicologia geral. E essa situação, como já vimos, é o progresso natural das revoluções bem-sucedidas.

A Psicologia Evolucionista

A abordagem mais recente da psicologia, a psicologia evolucionista, afirma que os indivíduos são criaturas ligadas ou programadas pela evolução para se comportarem, pensarem e aprenderem segundo as formas que favoreceram a sobrevivência ao longo de várias gerações passadas. Essa abordagem é baseada na afirmação de que as pessoas com certas tendências comportamentais e cognitivas têm mais chances de sobreviver, perdurar e criar proles.

Conforme comentou um psicólogo evolucionista, "Os seres humanos que defende­ram territórios, alimentaram os filhos e lutaram pela dominação foram mais propensos a se reproduzir com êxito do que os que não o fizeram; resultando que seus últimos des­cendentes - membros da atual geração - normalmente demonstram todas as tendências comportamentais semelhantes" (Funder, 2001, p. 209). Os genes relacionados a esses comportamentos facilitadores da sobrevivência "passam de geração a geração porque se adaptam, aperfeiçoando a forma de sobrevivência e o sucesso reprodutivo, e acabam dis­seminados, tornando-se instrumento-padrão" (Goode, 2000, p. D9).

Assim o ser humano é moldado em grande parte, se não na maioria, pelo meio biológico e não pela aprendizagem. Sem negar que as forças sociais e culturais influenciam o compor­tamento humano pela aprendizagem, os psicólogos evolucionistas afirmam que o indivíduo é predisposto, ao nascer, a certas formas de comportamento moldadas pela evolução.

  1. Todos os mecanismos psicológicos, em algum nível básico, originam-se de pro­ cessos evolucionistas e devem sua existência a eles.
  2. As teorias de Darwin sobre a seleção natural e sexual são as mais importantes para os processos evolucionistas responsáveis por criarem mecanismos psicológicos desenvolvidos.
  3. Mecanismos psicológicos desenvolvidos podem ser descritos como instrumentos de processamento de informações.
  4. Mecanismos psicológicos desenvolvidos são funcionais; funcionam para resol­ver problemas recorrentes de adaptação que confrontaram nossos antepassados, (entrevista de David Buss em Barker, 2006, p. 69-70).

Psicologia evolucionista é uma ampla área que faz uso de resultados de pesquisas de outras disciplinas, incluindo a de comportamento animal, biologia, genética, neuropsicologia e teoria evolucionista. Ela aplica esses resultados em todas as áreas da psicologia. No capítulo 1 observamos que a psicologia atual está fragmentada em abordagens diversas para seus problemas, e que não há um único tema que reúna todas essas propostas em uma única psicologia. Os defensores da psicologia evolucionista afirmam que sua definição pode unir essas áreas discrepantes.

Um dos fundadores da psicologia evolucionista, David Buss, escreveu que "ela repre­senta uma revolução verdadeiramente científica, uma mudança padrão profunda na área de psicologia" (2005, p. xxiv). Em uma entrevista, no ano seguinte, ele chamou a psico­logia evolucionista de "uma das revoluções científicas mais importantes que já tivemos na história da psicologia" (apud Barker, 2006, p. 73).

As Influências Anteriores na Psicologia Evolucionista

Claramente, qualquer movimento que se denomina psicologia evolucionista deve ofere­cer os créditos a Charles Darwin, bem como a Herbert Spencer e sua noção a respeito da sobrevivência do mais apto. A ideia de que somente aqueles dotados de algumas caraterísticas sobrevivem e reproduzem uma espécie com as mesmas qualidades parece ser a base da psicologia evolucionista, assim como fora para Darwin e Spencer.
Em 1890, 31 anos depois da publicação do monumental trabalho de Darwin a respei­to da evolução, William James utilizou o termo "psicologia evolucionista" em seu livro, The principies o psychology. James previu que um dia a psicologia se basearia na teoria da evolução. Também propôs que a maior parte do comportamento humano é programada no nascimento por predisposições genéticas chamadas instinto. Esses comportamentos instintivos seriam passíveis de modificação por meio da experiência ou da aprendizagem, mas são inicialmente formados independentemente das experiências.

James acreditava ser instintiva uma ampla variedade de comportamentos, incluindo o medo de objetos específicos como cobras, animais estranhos e de altura, todos envol­vendo claramente o valor de sobrevivência. Outros comportamentos instintivos, afirmava James, seriam moldados pelos pais - o amor, a sociabilidade e a pugnacidade (a propensão à luta e à disputa). Afirmava que os comportamentos instintivos eram uma evolução mediante a seleção natural e adaptações destinadas a lidar com os problemas específicos de sobrevivência e de reprodução.

Durante o reinado do behaviorismo, de 1913 a cerca de 1960, a noção de determinação genética do comportamento era vista como uma espécie de maldição. Todo comportamen­to era aprendido, afirmavam os behavioristas, mas mesmo assim, durante esse período de supremacia e efetiva dominação do behaviorismo na psicologia, surgiam trabalhos a respeito da precedência das influências genéticas e das tendências herdadas sobre as res­postas condicionadas.

Por exemplo, no Capítulo 11, vimos o trabalho dos alunos de Skinner, os Brelands, que treinavam animais para apresentações em circos, propagandas de televisão e feiras comerciais.

Alguns desses animais demonstravam propensão à transferência instintiva. Os animais, às vezes, substituíam o comportamento instintivo por outros, reforçados por alimento, mesmo quando o instintivo interferia na obtenção de comida, uma violação clara do princípio básico behaviorista de que o reforço seria predominante.

Há um trabalho conhecido do psicólogo Harry Harlow, que realizou uma pesquisa sobre o amor materno dos macacos (Harlow, 1971). Harlow criou filhotes de macacos com mães artificiais de dois tipos. Ambas eram construídas de armações de arame, mas uma era coberta de tecido de pelúcia macio e aconchegante, enquanto a outra era descoberta e dura, mas com mamilos para fornecer leite. Para os skinnerianos, era óbvia a associação do reforço apenas com a mãe que fornecia a recompensa do leite. Entretanto, quando os macacos ficavam assustados, agarravam-se na mãe coberta de pelúcia e não na que sempre lhes fornecera o reforço. Parecia haver outra força atuando, impossível de ser explicada pelo condicionamento operante e pelo reforço.

Uma pesquisa realizada por Martin Seligman, o iniciador da psicologia positiva (discutida no Capítulo 14), demonstrou a facilidade de condicionamento do indivíduo a temer cobras, insetos, cães, altura e túneis. No entanto, percebeu-se que é mais difícil condicionar o indivíduo a temer objetos menos ameaçadores e mais neutros como um automóvel ou uma chave de fendas (Seligman, 1971).

O medo de cobras sempre serviu para a sobrevivência e, consequentemente, para a evolução, e assim, presume-se que o indivíduo já nasça com essa predisposição. Entre­tanto, o medo de objetos neutros não teve valor para a sobrevivência ao longo de várias gerações, não sendo, portanto, transmitido. Seligman chamou esse fenômeno de preparo biológico. Esse conceito sugere que "as fobias realmente são aprendidas por meios clássicos de condicionamento, mas que certos medos, que podem ter servido a algum propósito adaptador nos ambientes ancestrais, são mais facilmente condicionáveis" (Siegert e Ward, 2002, p. 244).

Portanto, a psicologia evolucionista, além de se valer da revolução cognitiva, também expande sua importância ao considerá-lo uma estrutura necessária para se compreender a natureza humana e a animal. Concentra-se na importância do consciente que se desenvolveu com o tempo, e dá uma grande ênfase à noção do computador como uma metáfora para todos os processos conscientes. Dois psicólogos evolucionistas famosos escreveram:

Os programas que abrangem a mente humana foram desenvolvidos por seleção natural para resolver problemas de adaptação regularmente encontrados por nossos ancestrais na caça e coleta - problemas como encontrar um companheiro, cooperar com outros, caçar, coletar, proteger as crianças, navegar, evitar predadores, evitar exploração, e assim por diante. A função desenvolvida do cérebro é a de extrair informações do ambiente e usá-la para gerar comportamentos e regular a fisiologia. Portanto, o cérebro não é só parecido com um computador. Ele é um computador - isto é, um sistema físico planejado para processar informações. (Tooby e Cosmides, 2005, p. 5)

A Influência da Sociobiologia

Surgiu outro ímpeto mais contemporâneo da psicologia evolucionista, em 1975, quando o biólogo Edward O. Wilson publicou um livro totalmente inovador, intitulado Sociobiology: a new synthesis (Wilson, 1975), o qual tanto foi aclamado como veementemente criticado.

Dois anos depois, era capa da revista Time. Nesse mesmo ano, Wilson ganhou a Medalha Nacional da Ciência e, durante a reunião anual da Associação Americana para o Progres­so da Ciência, sociedade não caracterizada pela violência física, ele recebeu um balde de água gelada na cabeça.

A tese simples e corajosa de Wilson era uma afronta para muitas pessoas porque o trabalho desafiava a crença nutrida pela igualdade da criação humana, e da atuação das forças sociais e ambientais motivando ou limitando o desenvolvimento humano. Wilson motivou a ira das pessoas por parecer dar maior ênfase às influências genéticas que às culturais. Se todo comportamento for geneticamente determinado, então, não há espe­ranças na mudança de atitude, mediante as práticas de criação e educação da criança ou por outro método. No entanto, não era esse o ponto central de Wilson, embora adotasse uma visão hereditária muito forte em uma época na qual esse tipo de perspectiva era malvisto. Wilson escreveu:

O ser humano herda a propensão a adquirir estruturas sociais e comportamentais, tendência compartilhada por uma quantidade suficiente de indivíduos para ser chamada de natureza humana. Os traços determinantes incluem a divisão de tarefas entre os sexos, a ligação entre pais e filhos, o grande altruísmo entre os semelhantes mais próximos, a rejeição do incesto, outras formas de comportamento ético, a suspeita de estranhos, o tribalismo, as ordens dominantes entre os grupos, o total domínio masculino e as agressões territoriais diante da limitação de recursos. Embora o indivíduo seja dotado de livre-arbítrio e de escolha das decisões, os canais do desenvolvimento psicológico são - embora muitos de nós desejássemos o contrário - mais determinados pelos genes em algumas direções do que em outras. (Wilson, 1994, p. 332-333)

Como resultado do enorme protesto contra o livro de Wilson, a palavra sociobiologia acabou criando uma conotação tão negativa que caiu em desuso. Em 1989, quando um grupo de cientistas estadunidenses decidiu criar uma associação profissional para estudar o campo iniciado por Wilson, deram o nome de Human Behavior and Evolution Society [Sociedade de Evolução e Comportamento Humano] e procuravam evitar a palavra socio­biologia nos encontros.

O campo de estudo iniciado por Wilson foi incorporado às visões modificadas de vários psicólogos estadunidenses que chamavam seus trabalhos de psicologia evolucionista. Com esse nome aparentemente mais aceitável, o campo tornou-se imensamente popular.

O Estágio Atual da Psicologia Evolucionista

Apesar da sua popularidade, a psicologia evolucionista vem gerando muitas críticas. Como mencionamos anteriormente, as pessoas que acreditam no ser humano exclusivamente, ou pelo menos principalmente, como produto da aprendizagem que se opõem a qualquer discussão a respeito de determinantes biológicas do comportamento. Se a natureza huma­na é determinada apenas pelo dom natural genético, não há possibilidade de as forças culturais e sociais positivas alterarem o comportamento para melhor, ou de as pessoas tentarem exercer o livre-arbítrio.

A resposta dos psicólogos evolucionistas para essa crítica é observar, como fez Wilson, que eles não afirmam ser todo tipo de comportamento imutável e determinado pelos genes.

O comportamento humano é modificável; nós continuamos livres para escolher. As forças sociais e culturais são influentes e, algumas vezes, superam ou alteram a programação herdada para responder de determinada forma.

Os opositores argumentam que a amplitude do campo "dificulta a testagem convin­cente da teoria. A capacidade da psicologia evolucionista de explicar praticamente tudo não é nenhuma virtude" (Funder, 2001, p. 210). Os críticos também questionam como é possível identificar com clareza uma história de adaptação em um comportamento especí­fico, por várias gerações, até chegar aos povos primitivos, quando o valor de sobrevivência possivelmente teria iniciado.

Comentários

Observamos em todo o livro que todas as abordagens da psicologia e as tentativas de defi­nir o campo receberam críticas e apresentaram pontos de aparente vulnerabilidade. Como no caso da psicologia cognitiva, ainda é cedo demais para julgar se a psicologia evolucio­nista terá seu valor legitimado. Também esse campo faz parte da história em andamento. Um defensor do movimento da psicologia evolucionista resumiu o estágio atual da área nos seguintes termos: "Penso que ainda não sabemos realmente como trabalhar com a psicologia evolucionista. Enfrentamos muitas dificuldades para formular as hipóteses, e ainda mais obstáculos para descobrir como testar as afirmações. No momento, temos um princípio poderoso que acabará fornecendo a base para uma psicologia mais profunda e mais enriquecida. No entanto, ainda temos de trabalhar muito” (Randolph Nesse apud Goode, 2000, p. D9).

Assim, a busca pela abordagem verdadeiramente final da psicologia, pela escola de pensamento definitiva que venha a caracterizar o campo por mais de algumas décadas, continua. Será que a psicologia evolucionista ou a psicologia cognitiva se tornará o juiz final e definirá a psicologia e o seu objeto de estudo? Com base no que foi visto até aqui, provavelmente não.

A única afirmação possível fundamentada na história da psicologia estudada até aqui é que, quando um movimento se formaliza em uma escola, ficará em evidência até que um novo movimento apresente ideias que a superem com êxito. Quando isso ocorre, as artérias desobstruídas do até então jovem e vigoroso movimento começam a endurecer. A flexibilidade transforma-se em rigidez, a paixão revolucionária começa a ser protetora da sua posição e os olhos e a mente se fecham para as novas ideias. É dessa maneira que nasce um novo sistema. Assim acontece no progresso de qualquer ciência, uma construção evolucionista para níveis mais elevados de desenvolvimento. Não há complementação nem final, apenas um processo interminável de crescimento, como as novas espécies evoluem das antigas e tentam se adaptar a um ambiente eterno de mudanças.
 

Psicologia - História da Psicologia
3/20/2020 3:32:24 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
A Psicologia da Gestalt

Tenerife, localizada a 200 milhas da costa da África, é a ilha mais famosa na história da psicologia; talvez seja a única ilha na história da psicologia. No entanto, o trabalho de um psicólogo alemão que vivia ali na segunda década do século XX é, sem sombra de dúvida, uma parte significativa da história dessa disciplina.

Wolfgang Köhler estudou macacos no Tenerife. Esses animais tinham sido trei­nados ou condicionados a se comportar de determinada maneira. Mas até Köhler ir para Tenerife, acreditava-se que a única maneira de animais aprenderem era por meio de tentativa e erro, isto é, tropeçando acidentalmente na resposta correta - aquela que levava comida como recompensa. A maioria das pesquisas sobre animais já realizadas até aqui envolve animais ensina­dos a se comportar da maneira como o experimentador ou treinador queira.

Köhler não tinha interesse em treinar os macacos que encontrou na ilha. Seu objetivo era observá-los para ver como solucionavam problemas. Ele acreditava que eram mais inteligentes do que pessoas ensinadas e que eram capazes de resolver problemas de maneira muito semelhante aos humanos. E assim colocou seus macacos em gaiolas grandes e deu-lhes instrumentos que usariam para obter comida, enquanto se sentava para observar o que faziam.

Uma macaca, Nueva, pegou uma vara que Köhler havia colocado em sua gaiola. Esfregou-a no chão por um período curto e em seguida perdeu interesse e a deixou de lado. Dez minutos depois, algumas frutas foram colocadas do lado de fora. Ela esticou um dos braços pelas grades da gaiola em direção à fruta, mas não conseguiu alcançá-la. Começou a choramingar e a gemer, e em seguida jogou-se no chão num gesto muito eloquente de desespero", Köhler escreveu. Após diversos minutos ela olhou a vara, parou de cho­ramingar, e repentinamente a agarrou. Ela esticou a vara pelas grades da gaiola e arrastou a fruta até que estivesse perto o suficiente para que pudesse alcançá-la com sua mão. Uma hora depois Köhler repetiu o experimento. Dessa vez Nueva mostrou certa hesitação. Pegou a vara e a usou como instrumento mais habilmente do que da primeira vez, e assim conseguiu obter a fruta mais rapidamente. Na terceira vez, ela pegou a vara de imediato, reagindo ainda mais rapidamente.

Ficou evidente para Köhler que Nueva não havia hesitado, usando a técnica de tentativa e erro para sua aprendizagem, e que esta havia acontecido no decorrer dos movimentos realizados ao acaso, até que ela tocou a comida com a vara.

Ao contrário, seus movimentos tinham um objetivo em mente, eram propositados e deliberados. Isso era diferente do comportamento dos gatos na caixa quebra-cabeça, ou dos ratos no labirinto de Thorndike.

Nueva e os outros chimpanzés estudados no Tenerife exibiram uma maneira diferente de aprender, e suas ações levaram a uma outra revolução na psicologia, a outra maneira de abordar o estudo da mente e do comportamento.

A Revolta da Gestalt

Até aqui a evolução da psicologia desde as ideias iniciais de Wundt e a elaboração dessas noções por Titchener, passou pela escola de pensamento funcionalista, bem como pelas áreas aplicadas da psicologia, até chegar ao behaviorismo de Watson e Skinner e ao desafio cognitivo nesse movimento. Mais ou menos na mesma época em que a revolução behaviorista aglutinava forças nos Estados Unidos, a revolução da Gestalt tomava conta da psicologia na Alemanha. Essa revolução consistia em mais um pro­testo contra a psicologia wundtiana, e viria mais tarde a se tornar um testemunho das ideias de Wundt, como fonte de inspiração para o surgimento de novas visões, e como base para o lançamento de novos sistemas de psicologia.

Nesse ataque contra a psicologia dominante, a psicologia da Gestalt concentrava-se principalmente na natureza elementar do trabalho de Wundt. Apenas para relembrar, os elementos sensoriais formavam a base da psicologia wundtiana; e os psicólogos da Gestalt fizeram desse enfoque o alvo do seu ataque. Wolfgang Köhler, fundador da psicologia da Gestalt, afirmou: "Ficamos chocados com a tese de que todo fato psicológico (...) consti­tui-se de átomos inertes não-relacionados e que as associações consistem praticamente nos únicos fatores que combinam esses átomos, introduzindo, assim, a ação" (Köhler, 1959, p. 728)..

Para compreender o protesto da Gestalt, retornemos ao ano de 1912. O behaviorismo de Watson começava a atacar Wundt e Titchener e também o funcionalismo. A pesquisa sobre animais realizada nos laboratórios de Thorndike e de Pavlov exercia grande impacto. A psicanálise de Freud já completava uma década. Embora o movi­mento dos psicólogos da Gestalt contra a posição de Wundt ocorresse concomitantemente ao surgimento do behaviorismo nos Estados Unidos, os dois movimentos foram totalmente independentes. E ainda que ambas as escolas de pensamento tenham iniciado como uma oposição às mesmas ideias, ou seja, contra o enfoque de Wundt nos elementos sensoriais, as duas acabaram opondo-se entre si.

As diferenças entre a psicologia da Gestalt e o behaviorismo logo ficaram evidentes. Os psicólogos da Gestalt admitiam o valor da consciência embora criticassem a tentativa de reduzi-la a elementos ou átomos. Os psicólogos behavioristas recusavam-se a reconhecer o valor do conceito de consciência na psicologia científica.

Os psicólogos da Gestalt comparavam a abordagem da psicologia de Wundt (do modo como a interpretavam) com a construção de uma casa, em que os elementos (os tijolos) seriam unidos pela argamassa mediante o processo de associação. Afirmavam que, ao olharmos pela janela, enxergamos efetivamente as árvores e o céu, e não os denomina­dos elementos sensoriais, como o brilho e as tonalidades, os quais, de alguma forma, se conectariam para formar a nossa percepção de árvore e de céu.

Além disso, os psicólogos da Gestalt acusavam Wundt de afirmar que a percepção dos objetos era meramente a soma ou a junção dos elementos, formando-se uma espécie de pacote. Insistiam em alegar que, ao se combinarem, os elementos sensoriais formariam um novo padrão ou uma nova configuração. Por exemplo, se juntarmos um grupo de notas musicais, surge uma melodia ou um tom por essa combinação, algo novo que não existia em nenhuma das notas elementares individuais. Essa ideia se encontra na expressão conhecida: o todo é diferente da soma das partes. Para fazer justiça a Wundt, devemos observar que ele reconheceu essa questão, formulando a doutrina da síntese criativa.

A Percepção: o que os Olhos Não Veem

Para ilustrar a diferença entre a abordagem de Wundt e a da Gestalt acerca da percepção, suponha que você seja aluno de um laboratório de psicologia alemão do estilo de Wundt no início do século XX.

O psicólogo responsável pede-lhe para descrever um objeto sobre a mesa, e você responde:

"Um livro."

"Sim, é claro que é um livro", ele concorda, "mas o que você está realmente vendo?"

Intrigado, você pergunta: "Mas o que você quer dizer com 'o que eu realmente estou vendo?' Eu disse que estou vendo um livro. Um livro pequeno, de capa vermelha." O psicólogo insiste. "Qual a sua real percepção do objeto? Descreva-o com a maior precisão possível."

"Você está dizendo que não é um livro? Isso é alguma piada?"

Ele demonstra certa impaciência. "Sim, isso é realmente um livro. Não se trata de nenhuma brincadeira. Eu apenas gostaria que você descrevesse exatamente o que está vendo, nem mais, nem menos."

Você vai ficando cada vez mais desconfiado e diz: "Bem, olhando deste ângulo, a capa do livro parece um paralelogramo vermelho-escuro".

"Isso!" ele diz, satisfeito. "Ótimo, você está vendo uma espécie de tira vermelho-escuro com o formato de um paralelogramo. E o que mais?"

"Há uma borda branca meio acinzentada abaixo dela e mais para baixo outra linha fina, do mesmo tom vermelho-escuro. Debaixo de tudo, vejo a mesa." Ele se retrai. "Em volta do objeto vejo umas manchas marrons com algumas listras paralelas, meio ondu­ladas, em marrom-claro."

"Ótimo, ótimo!" E ele agradece a sua colaboração.

Você fica parado ali, olhando para o livro sobre a mesa, e sente-se um pouco cons­trangido por ter-se deixado induzir pelo insistente psicólogo a uma análise desse tipo. Ele o deixou muito desconfiado, a ponto de não ter mais certeza do que realmente estava vendo ou pensava que estava vendo... Essa cautela o fez descrever o que percebia com as sensações, quando apenas um momento antes tinha certeza de observar um livro sobre a mesa.

Os seus devaneios são interrompidos de repente pela presença de um psicólogo que se parece vagamente com Wilhelm Wundt. "Obrigado por ajudar a comprovar mais uma vez a minha teoria da percepção. Você comprovou", ele diz, "que o livro que via nada mais é do que um composto de sensações elementares. Quando tentava precisar e dizer exatamente o que realmente via, teve de se expressar em padrões de cor, e não do objeto em si. As sensações de cor é que são as características primárias, e todo objeto visual pode ser reduzido a essas sensações. A sua percepção do livro é construída com base nas sensações, assim como a molécula é constituída a partir dos átomos."

Ao que parece, esse breve discurso é um sinal para o início da batalha. "É um absur­do!", grita uma pessoa do outro lado do salão. "Bobagem! Qualquer idiota sabe que o livro é o fato perceptual primário, imediato, direto e incontestável." O psicólogo que agora olha para você possui certa semelhança com William James, mas parece ter sotaque alemão, e o seu rosto está tão vermelho de raiva que não há como ter certeza. "Essa redução da percepção em sensações de que você está falando não passa de um jogo intelectual. Um objeto não é um pacote de sensações. Qualquer homem que vê manchas vermelhas-escuras quando devia enxergar um livro deve estar doente!"

Quando a briga começa a esquentar, você fecha a porta devagarinho e desaparece. Você acaba de ter o que queria: uma ilustração de que há duas atitudes diferentes, duas formas distintas de falar sobre as informações que os nossos sentidos nos proporcionam. (Miller, 1962, p. 103-105)

Os psicólogos da Gestalt acreditam que há mais na percepção do que os olhos veem. Em outras palavras, a percepção vai muito além dos elementos sensoriais, dos dados físi­cos básicos proporcionados aos órgãos dos sentidos.

As Influências Anteriores sobre a Psicologia da Gestalt

Assim como em todo movimento, as ideias contestadoras da Gestalt tiveram origem em con­ceitos anteriores. A base da posição da Gestalt, ou seja, o enfoque na unidade da percepção, encontra-se no trabalho do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) que, curiosamente, escrevia os seus livros confortavelmente vestido de roupão e calçando chinelos. Kant alegava que, quando percebemos o que chamamos de objeto, encontramos os estados mentais que parecem compostos de partes e pedaços. Essa ideia é semelhante à proposta dos elementos sensoriais defendida pelos empiristas ingleses e associacionistas. No entanto, para Kant, esses elementos são organizados de forma que tenham algum sentido, e não por meio de processos de associação. Durante o processo de percepção, a mente forma ou cria uma experiência completa. Desse modo, a percepção não é uma impressão passiva e uma combinação de elementos sensoriais, como afirmavam os empiristas e associa­cionistas, mas uma organização ativa dos elementos, de modo que forme uma experiência coerente. Assim, a mente molda e forma os dados originais da percepção.

Franz Brentano, da University of Vienna, opôs-se ao enfoque de Wundt acerca dos elementos da experiência consciente e propôs à psicologia o estudo do ato da experiência. Ele considerava artificial a introspeccão utilizada por Wundt e defendia uma observação menos rígida e mais direta da experiência na forma como ela ocorre. A visão de Brentano estava mais próxima dos métodos mais recentes dos psicólo­gos da Gestalt.

Ernst Mach (1838-1916), professor de física da University of Prague, exerceu influência mais direta sobre o pensamento da Gestalt com a obra The analysis of sensations (1885). Nesse livro, Mach discutia os padrões espaciais, como as figuras geométricas, bem como os padrões temporais, como as melodias, e os considerava sensações. Essas sensações de forma do espaço e de forma do tempo independem dos elementos individuais. Por exem­plo, a forma do espaço de um círculo pode ser branca ou preta, grande ou pequena e ainda manter a qualidade elementar circular.

Mach alegava que a percepção de um objeto não muda, ainda que modifiquemos nossa orientação em relação a ele. Uma mesa continua a ser uma mesa se a olharmos de lado, de cima ou de algum ângulo. Do mesmo modo, o tom continua o mesmo em nossa percepção inclusive quando a forma do tempo é modificada, ou seja, quando é executado mais lenta ou rapidamente.

Christian von Ehrenfels (1859-1932) estudou as ideias de Mach e propôs qualidades de experiência que não podem ser explicadas como combinações de elementos sensoriais. Chamou essas qualidades de Gestalt Qualitäten (qualidades de forma), que são percepções baseadas em algo além da aglutinação de sensações individuais. A melodia é uma qualidade de forma porque parece a mesma até quando transposta para outra nota. Ela independe das sensações de que é composta. Para Ehrenfels e os seus seguidores, a forma em si era um elemento criado pela mente em operação sobre os elementos sensoriais. Desse modo, a mente seria dotada de capacidade para criar formas a partir de sensações elementares.

Max Wertheimer, um dos três principais fundadores da psicologia da Gestalt, percebeu que, do trabalho de Ehrenfels, com quem estudara em Praga, vinha o maior incentivo para o movimento da Gestalt.

William James, que se opôs à tendência do elementarismo na psicologia, também foi precursor da escola de psicologia da Gestalt. James considerava os elementos da cons­ciência como abstrações artificiais. Afirmava que as pessoas veem os objetos como uma unidade; Como Pacotes Armados de sensações. Outros principais fundadores da psicologia da Gestalt, Kurt Koffka e Wolfgang Kõhler, tomaram contato com o trabalho de James quando foram alunos de Stumpf.

Outra influência anterior foi o movimento ocorrido na filosofia e na psicologia alemã; conhecido como fenomenologia, doutrina baseada na descrição imparcial da experiência imediata na forma como ela ocorre. A experiência não é analisada nem reduzida em ele­mentos ou abstraída de alguma forma artificial. Ela envolve uma experiência praticamente ingênua de senso comum, e não uma experiência relatada por um observador treinado dotado de orientação ou tendência sistemática.

Um grupo de psicólogos fenomenologistas trabalhou na Universidade de Gõttingen de 1909 a 1915, isto é, no período em que o movimento da Gestalt esta­va começando a se desenvolver. O trabalho desses psicólogos precedeu a escola formal da Gestalt, que mais tarde acabou adotando a visão desse estudo.

As Mudanças do Zeitgeist na Física

O Zeitgeist - mais especificamente, a atmosfera intelectual predominante na física - exerceu grande influência no desenvolvimento da Psicologia da Gestalt. Nas últimas décadas do século XIX, as noções da física tornavam-se cada vez menos atomísticas com o reconhecimento e a aceitação dos campos de força - regiões ou espaços atravessados por linhas de força, por exemplo, por corrente elétrica.

O exemplo clássico desse conceito é o magnetismo, propriedade difícil de explicar com base na visão tradicional de Galileu ou Newton. Por exemplo, quando limalhas de ferro são sacudidas em uma folha de papel colocada sobre um ímã, os pedacinhos formam um padrão característico. Embora as limalhas não toquem no ímã, são obviamente afetadas pelo campo de força existente em torno do magneto. Acreditava-se que a luz e a eletrici­dade funcionavam da mesma forma. Esses campos de força eram considerados entidades novas, e não apenas a soma dos efeitos dos elementos ou das partículas individuais.

Desse modo, a noção do atomismo ou elementarismo, tão influente no estabelecimento de grande parte mais recente ciência da psicologia, estava sendo reconsiderada na física. Os físicos descreviam campos e entidades orgânicas completas, proporcionando assim munição e apoio para a visão revolucionária dos psicólogos da Gestalt a respeito da percepção. As noções oferecidas pelos psicólogos da Gestalt refletiam a nova física. Mais uma vez, os psicólogos esforçavam-se para imitar as ciências naturais já estabelecidas.

Houve uma conexão pessoal no impacto da nova física sobre a psicologia da Gestalt. Köhler havia estudado com Max Planck, um dos criadores da física moderna, e afirmou que, por influência de Planck, percebera haver uma conexão entre a aula de física e o conceito de unidade da Gestalt. Köhler testemunhou diretamente na física a crescente relutância em lidar com os átomos e a substituição dessa ideia pelo enfoque no conceito mais amplo dos campos, e afirmou: "A partir de então, a psicologia da Gestalt transformou-se em uma espécie de aplicação da física de campo nas áreas essenciais da psicologia" (1969, p. 77).

Entretanto, Watson aparentemente não tomou conhecimento da nova física. Sua escola de pensamento behaviorista manteve a abordagem reducionista, enfatizando os elementos - os do comportamento. Essa visão é compatível com a antiga perspectiva atomística da física.

Fenômeno Phi um desafio à Psicologia Wundtiana

A psicologia da Gestalt desenvolveu-se por um estudo de pesquisa conduzido, em 1910, por Max Wertheimer. Enquanto viajava de trem pela Alemanha durante as férias, ocor­reu-lhe a ideia de realizar uma experiência para visualizar um movimento quando ele não estivesse efetivamente acontecendo. Abandonou seus planos de viagem, desceu do trem em Frankfurt, comprou um estroboscópio de brinquedo e analisou suas sensações internas em um estudo preliminar que realizou no quarto de um hotel. Mais tarde, con­duziu um programa de pesquisa mais abrangente na Universidade de Frankfurt, com dois psicólogos, Koffka e Köhler.

O problema de pesquisa de Wertheimer, para a qual Koffka e Köhler serviram como sujeitos, envolvia a percepção do movimento aparente, ou seja, do movimento quando não há efetivamente o movimento físico. Wertheimer referia-se a essa percepção como "impressão" do movimento. Usando o taquistoscópio, projetava a luz através de duas fen­das, uma vertical e a outra com ângulo de 20 ou 30 graus da vertical. Se a luz era projetada primeiro por uma fenda e depois através da outra, com um intervalo relativamente longo entre elas (mais de 200 milissegundos), os sujeitos enxergavam algo como duas luzes sucessivas, primeiro em uma fenda e depois na outra. Quando o intervalo entre as luzes era menor, os observadores percebiam duas luzes que pareciam contínuas. Com um bom intervalo entre as luzes, cerca de 60 milissegundos, eles enxergavam um único feixe de luz que parecia se mover de uma fenda a outra, voltando novamente ao lugar.

Essas descobertas podem parecer pouco importantes. Os cientistas conhecem o fenô­meno há anos, e ele parece fazer parte do senso comum. No entanto, de acordo com a posição predominante na psicologia, que era dominada pela visão de Wundt, toda expe­riência consciente era passível de análise em elementos sensoriais. Portanto, como explicar a percepção do movimento aparente como uma soma de elementos individuais, quando os elementos eram simplesmente duas fendas fixas de luz? Seria possível adicionar um estímulo fixo a outro para produzir uma sensação de movimento? Não, não era possível, e foi exatamente esse o ponto demonstrado de modo simples e brilhante por Wertheimer, o qual confrontou a explicação baseada no sistema de Wundt.

Wertheimer acreditava que o fenômeno na forma verificada no laboratório era tão elementar quanto uma sensação, mas era diferente de uma sensação ou de uma série delas. Denominou essa noção de fenômeno phi. E como Wertheimer explicava o fenômeno phi quando a psicologia da época não conseguia encontrar nenhuma explicação? Sua resposta era tão simples quanto sua pesquisa. O movimento aparente dispensa qualquer explicação. Ele existe assim como é percebido e não pode ser reduzido em um elemento mais simples.

Para Wundt, a introspecção do estímulo produzia apenas duas linhas de luz e nada mais, no entanto não importa quão rigorosamente um observador realizasse a introspec­ção dos dois feixes de luz, a experiência de uma única linha em movimento persistia. Qualquer tentativa de análise fracassava. Toda a experiência, que consistia no movimento aparente do feixe de uma fenda a outra, era distinta da soma das partes (as duas linhas fixas). Desse modo, a psicologia associacionista e elementarista, rebatida, não fora capaz de sustentar o seu ponto de vista.

Wertheimer publicou os resultados da pesquisa, em 1912, no artigo intitulado “Expe­rimental studies of perception of moviment" ("Estudos experimentais de percepção do movi­mento"), considerado o marco formal da escola de pensamento da psicologia da Gestalt.

Max Wertheimer (1880-1943)

Max Wertheimer frequentou as escolas locais até completar 18 anos. Estudou direito na University of Prague, mudou sua graduação para filosofia, participou das aulas de Ehrenfels e então seguiu para a Univerdadide of Berlin para prosseguir o estu­do de filosofia e psicologia. Obteve o doutorado, em 1904, da University of Würzburg, sob a orientação de Oswald Külpe. Seguiu para a University of Frankfurt para lecionar e realizar pesquisas, obtendo uma posição acadêmica em 1929. Durante a Primeira Guerra Mundial, realizou pesquisas militares com os aparelhos de escuta dos submarinos e dos fortes localizados nas regiões portuárias.

Na década de 1920, na Universidade de Berlin, Wertheimer desempenhou alguns de seus trabalhos mais produtivos para o desenvolvimento da psicologia da Gestalt. Um discípulo seu lembra-se de que as paredes do escritório de Wertheimer eram pintadas de vermelho vivo. Aparentemente ele achava que cores fortes eram estimulantes, e que, se as paredes fossem pintadas de cinza, ou verde-claro, ou outra cor maçante, as pessoas não trabalhariam tão bem como se fossem pintadas de cores excitantes como o vermelho" (King e Wetheimer, 2005, p. 188).

O estilo das aulas de Wertheimer era estimulante e sua imaginação também era muito viva; alguns alunos achavam que isso facilitava o entendimento, mas outros achavam confuso e obscuro. Uma aluna, entusiasmada pela paixão, zelo e convicções do professor, acreditava, a princípio, que poucos sabiam sobre o que Wertheimer estava falando. "De­morou praticamente um ano para que eu, particularmente, indo a duas ou três aulas por semana, entendesse o que ele dizia. Quando entendíamos, ficávamos muito satisfeitos! Nossa vida mudava, toda nossa visão sobre ela modificava. De repente, tudo ficava colorido e cheio de vida e começava a fazer sentido" (King e Wertheimer, 2004, p. 171).

A vida daquela aluna mudou significativamente. Aos 22 anos de idade ela se casou com seu professor de 43 anos, apesar de ter lhe avisado sobre sua obsessão pelo trabalho. "Deve sempre se lembrar", ele lhe disse, "que estarei sempre à minha mesa trabalhando. Preciso criar a teoria da Gestalt" (King e Wetheimer, 2005, p. 172). Ele não estava exagerando.

Em 1921 Wertheimer, Koffka, e Kõhler assistidos por Kurt Goldstein e Hans Gruhle, fundaram o periódico Psychological Research, que se tornou a publicação oficial da escola de pensamento da Gestalt. O governo nazista suspendeu sua publicação em 1938, mas ela foi retomada após a guerra, em 1949.

Wertheimer fazia parte do primeiro grupo de estudiosos a fugir da Alemanha nazista para os Estados Unidos, chegando em Nova York em 1933. Associou-se à New School for Social Research, onde permaneceu até sua morte, 10 anos mais tarde. Embora seus anos nos Estados Unidos tivessem sido produtivos, teve dificuldade em se adaptar a uma nova língua e cultura.

Wertheimer impressionou muito o jovem psicólogo Abraham Maslow, que aparente­mente ficou tão admirado que começou a estudar as características pessoais de Wethei­mer. Por essas observações sobre Weitheimer e outros, Maslow desenvolveu o conceito de autorrealização e posteriormente promoveu a escola de pensamento da psicologia humanística.

Kurt Koffka (1886-1941)

Kurt Koffka, nascido em Berlim, foi o mais criativo dentre os fundadores da psicologia da Gestalt. Interessado em ciência e filosofia, frequentou a Universidade de Berlin. Estudou psi­cologia com Carl Stumpf, obtendo o Ph.D. em 1909. No ano seguinte, começou a longa e frutífera relação com Wertheimer e Köhler, na Universidade Frankfurt. Koffka afirmou:

Pessoalmente, a simpatia era recíproca, tínhamos o mesmo entusiasmo, o mesmo tipo de formação e nos encontrávamos diariamente para discutir todas as questões, sob o sol (...) ainda [posso] sentir a emoção da experiência quando começou a me ocorrer o verdadeiro significado do fenômeno phi. (...) e que agora, no formato final, tornara-se objeto mani­pulável, finalmente ingressou no sistema da psicologia. (apud Ash, 1995, p. 120, 131)

Em 1911, Koffka aceitou uma posição na Universidade de Giessen, a 64 quilômetros de Frankfurt, onde permaneceu até 1924. Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou em uma clínica psiquiátrica, tratando de pacientes afásicos e com danos cerebrais.

Depois da guerra, percebendo que os psicólogos estadunidenses estavam tomando conhe­cimento dos desenvolvimentos da psicologia da Gestalt, na Alemanha, Koffka escreveu um artigo para a revista estadunidense Psychological Bulletin intitulado "Perception: an introduction to the Gestalt-Theorie" ("Percepção: uma introdução à teoria da Gestalt") (Koffka, 1922). Apresentou os conceitos básicos da psicologia da Gestalt, acompanhados dos resultados e das consequências de várias pesquisas.

Apesar da importância do artigo como a primeira explicação completa do movimen­to da Gestalt para psicólogos estadunidenses, ele parece ter provocado mais danos do que benefícios. A palavra percepção, usada no título, criou um enorme equívoco, dando a impressão de que os psicólogos da Gestalt lidavam exclusivamente com percepção e de que movimento não era importante para as outras áreas da psicologia. A psicologia da Gestalt, na verdade, preocupava-se mais amplamente com os processos cognitivos, as questões relacionadas ao pensamento, a aprendizagem e outros aspectos da experiência consciente. O psicólogo Michael Wertheimer, filho de Max Wertheimer, deu a seguinte explicação para o enfoque inicial da Gestalt em relação à percepção:

A principal razão para que os primeiros psicólogos da Gestalt se concentrassem em suas publicações sistemáticas sobre a percepção deve-se ao Zeitgeist: a psicologia de Wundt, contra a qual os gestálticos se rebelaram, recebia muito apoio das pesquisas sobre sensa­ção e percepção, então os psicólogos da Gestalt escolheram a percepção como arena para atacar Wundt no próprio reduto. (Michael Wertheimer, 1979, p. 134)

Em 1921, Koffka publicou "The growth of the mind", um livro a respeito da psicologia do desenvolvimento infantil, que teve sucesso na Alemanha e nos Estados Unidos. Koffka lecionou como professor visitante na Cornell University e na University of Wisconsin, e, em 1927, foi indicado para lecionar na Smith College, em Northampton, Massachusetts, onde permaneceu até a morte, em 1941. Em 1935, publicou Principies of Gestalt psychology, obra de difícil leitura que, portanto, não se tornou a abordagem definitiva da psicologia da Gestalt, contrariando as expectativas do autor.

Wolfgang Köhler (1887-1967)

Wolfgang Köhler foi o porta-voz do movimento da Gestalt. Seus livros, escritos com cui­dado e precisão, tornaram-se trabalhos-padrão na psicologia da Gestalt. Os estudos de física realizados com Max Planck convenceram Köhler de que a psicologia devia aliar-se à física e que as Gestalten (formas ou padrões) ocorriam não apenas na física, mas também na psicologia.

Nascido na Estônia, Köhler estava com 5 anos quando a família se mudou para o norte da Alemanha. Estudou em universidades em Tübingen, Bonn e Berlim, e doutorou-se orien­tado por Stumpf, na Universidade de Berlin, em 1909. Seguiu para a Universidade de Frankfurt, chegando pouco tempo antes de Wertheimer e seu estroboscópio de brinquedo.

Em 1913, a convite da Academia de Ciência da Prússia, viajou para o Tenerife, nas ilhas Canárias, próximo à costa noroeste da África, para estudar os chimpanzés. Seis meses depois da sua chegada, começou a Primeira Guerra Mundial, e Köhler informou à Alemanha não ter condições de retornar (outros cidadãos alemães conseguiram voltar ao país durante a guerra). Um psicólogo chegou a insinuar, baseado na sua interpretação idiossincrática dos dados históricos, que Köhler talvez fosse um espião alemão e que o seu local de pesquisa não passava de um disfarce para as atividades de espionagem (Ley, 1990). Acusaram-no também de transmitir informações sobre os movimentos das frotas aliadas por meio de um potente radiotransmissor escondido no alto da sua casa. No entan­to, as provas que sustentam essas acusações são circunstanciais e foram contestadas pelos seguidores de Köhler e por outros historiadores (in Lück, 1990).

Seja como espião ou como um cientista desamparado por causa da guerra, Köhler passou os sete anos seguintes estudando o comportamento dos chimpanzés. Registrou o trabalho no clássico volume The mentality of the apes (1917), lançado em segunda edição em 1924 e traduzido para o inglês e o francês. Embora no começo considerasse interessante a pesquisa com os chimpanzés, logo se cansou de trabalhar com os animais, e declarou:

Dois anos observando macacos todos os dias; qualquer um acaba se transformando em um 'chimpanzoide' (...) e não consegue mais perceber facilmente qualquer característica do animal" (apud Ash, 1995, p. 167).

Em 1920, Köhler retornou à Alemanha. Vendeu os chimpanzés para o zoológico de Berlim, que, entretanto, por não suportarem a mudança climática, não sobreviveram muito tempo. Dois anos depois, Köhler substituiu Stumpf como professor de psicologia da Universidade de Berlin. A razão mais provável para essa honrosa indicação teria sido a publi­cação de Static and stationary physical Gestalts (1920), livro bastante elogiado em virtude do seu elevado grau de erudição. Nele, Köhler sugere que a teoria da Gestalt consistia em uma lei geral da natureza que pode ser amplamente aplicada em todas as ciências.

Na metade da década de 1920, Köhler se divorciou da esposa e casou com uma jovem aluna sueca rica, e depois disso, cortou contato com os quatro filhos do primeiro casa­mento. Cerca de 60 anos depois, sua segunda esposa disse em uma entrevista que Köhler se opunha ao casamento por princípio, vendo-o como uma "imposição à sua liberdade," e que não gostava da vida familiar. Ele achava que "todos deveriam ser livres" (apud Ley, 1990, p. 201). Não muito tempo depois disso Köhler desenvolveu um tremor nas mãos, que era mais notado quando estava aborrecido. Seus assistentes de laboratório observavam todas as manhãs o tremor das mãos dele para avaliar o grau do seu humor.

No ano letivo de 1925-1926, Köhler lecionou na Harvard University e na Clark Uni­versity, onde também ensinou os estudantes de pós-graduação a dançarem o tango. Em 1929, publicou Gestalt psychology, uma descrição completa do movimento da Gestalt. Deixou a Alemanha nazista em 1935 por causa de divergências com o governo. Depois de criticar o regime em suas aulas, uma gangue de nazistas invadiu a classe. As ameaças não o impediram de correr riscos que facilmente levariam à sentença de morte. Motivado pela demissão dos professores judeus das universidades alemãs, escreveu uma carta corajosa criticando o nazismo, e enviou-a para um jornal de Berlim. À tarde, a carta foi publicada, e ele e alguns amigos permaneceram em casa, aguardando a Gestapo para prendê-lo; mas a temida batida na porta jamais ocorreu.

Um historiador contemporâneo comentou que Köhler foi o único psicólogo não ju­deu na Alemanha a protestar publicamente contra as demissões dos intelectuais judeus (Geuter, 1987). A maioria dos professores e dos alunos apoiou com entusiasmo o governo nazista desde o princípio. Um professor chamou Adolf Hitler de "grande psicó­logo" e outro elogiou-o, dizendo ser um homem de "visão, corajoso e emocionalmente profundo" (apud Ash, 1995, p. 342). Os líderes da German Psychological Society [Socie­dade Alemã de Psicologia] apoiaram imediatamente o regime nazista, demitiram editores judeus, mesmo antes das leis que determinariam tais demissões, e rendiam homenagens públicas a Hitler. Nas reuniões da sociedade, proclamavam a "influência demoníaca" dos judeus (Mandler, 2002b, p. 197).

Depois de emigrar para os Estados Unidos, Köhler lecionou na Swarthmore College, Pensilvânia, publicou diversos livros e editou a revista gestáltica Psychological Research. Em 1956, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica da APA, órgão que em 1959, elegeu-o seu presidente.

A Natureza da Revolta da Gestalt

As ideias dos psicólogos da Gestalt contradiziam grande parte da tradição acadêmica da psicologia alemã. Nos Estados Unidos, o behaviorismo não se constituiu em uma revolta tão imediata contra a psicologia wundtiana e contra o estruturalismo de Titchener, por­ que o funcionalismo já provocara mudanças básicas na psicologia estadunidense. O caminho para a revolução da Gestalt, na Alemanha, não contou com efeitos assim moderados. - declarações dos psicólogos da Gestalt eram consideradas total heresia.

Como a maioria dos revolucionários intelectuais, os líderes da Gestalt exigiam com­pleta revisão da antiga ordem. Köhler declarou:

Estamos entusiasmados com o que descobrimos, e ainda mais com a perspectiva de constatar mais fatos reveladores. (...) a inspiração não veio apenas da novidade do nosso trabalho. Ocorreu também uma grande onda de alívio - como se estivéssemos fugindo de uma prisão. A prisão era a psicologia tal como era ensinada nas universidades, quando ainda éramos estudantes. (Köhler, 1959, p. 728)

Depois que Wertheimer passou a estudar a percepção do movimento aparente, os psicólogos da Gestalt começaram a se dedicar a outro fenômeno perceptual. A experiên­cia da constância perceptual produziu apoio adicional para as suas visões. Por exemplo quando paramos em frente a uma janela, uma imagem retangular é projetada na nossa retina, mas, quando paramos de lado, a imagem da retina transforma-se em um trapezoide, embora, é claro, continuemos a perceber a janela no formato retangular. A percepção sobre a janela permanece constante, embora a informação sensorial (a imagem projetada na retina) mude.

O mesmo ocorre com a constância do tamanho e do brilho em que os elementos sensoriais mudam, mas não a percepção. Nesses casos, assim como no movimento apa­rente, a experiência perceptual é dotada da qualidade da totalidade ou da integridade não encontrada em nenhuma parte componente. Assim, existe uma diferença entre o caráter da estimulação sensorial e da percepção em si. A percepção não pode ser explicada simplesmente como um conjunto de elementos ou a soma das partes.

A percepção é um todo, uma Gestalt, e qualquer tentativa de analisá-la ou reduzi-la em elementos a destruirá.

Começar com os elementos é começar de forma errada, já que eles são produtos da refle­xão e da abstração, derivados remotamente a partir da experiência imediata e utilizados para explicá-la. A psicologia da Gestalt tenta retornar à percepção simples, à experiência imediata (...) e insiste em afirmar que não encontra ali conjuntos de elementos, mas uni­dades completas; não massas de sensações, mas árvores, nuvens e céu. E essa afirmação convida todos à verificação, simplesmente abrindo os olhos e olhando apenas para o mundo de forma simples e cotidiana. (Heidbreder, 1933, p. 331)

A própria palavra Gestalt criou dificuldades. Diferentemente do termo funcionalismo ou behaviorismo, ela não expressa a ideia principal do movimento. Além disso, não exis­te equivalente exato na língua inglesa, embora hoje o termo já faça parte da linguagem cotidiana da psicologia. Os termos equivalentes mais comuns seriam "forma", "formato" e "configuração".

Na obra Gestalt psychology (1929), Köhler afirmou que a palavra era empregada de duas maneiras na Alemanha. Uma que denota a forma ou o formato como propriedade dos objetos. Nesse sentido, Gestalt refere-se às propriedades gerais expressas em questões como angular ou simétrico e descreve as características como a forma triangular de uma figura geométrica ou o ritmo de uma melodia. A segunda forma denota a unidade ou a entidade concreta que tem como atributo uma forma ou um formato específico. E, nesse sentido, a palavra diz respeito a, digamos, triângulos, e não à noção do formato triangu­lar da figura.

Assim, Gestalt pode ser usada para se referir a objetos ou às suas características formais. Além disso, o termo não se restringe ao campo visual nem mesmo a todo o campo senso­rial. Ele pode abranger a aprendizagem, o pensamento, as emoções e o comportamento (Köhler, 1947). É nesse sentido geral e funcional da palavra que os psicólogos da Gestalt tentaram lidar com toda a área de atuação da psicologia.

Os Princípios da GestoIt sobre a Organização Perceptual

Wertheimer apresentou os princípios de organização perceptual da escola de psicologia da Gestalt em um artigo publicado em 1923. Ele alegava que percebemos os objetos do mesmo modo que observamos o movimento aparente, como unidades completas e não como agrupamentos de sensações individuais. Esses princípios da Gestalt seriam as regras fundamentais por meio das quais organizamos nosso universo perceptual.
Uma premissa subjacente estabelece que a organização perceptual ocorre instantanea­mente, sempre que percebemos diversos padrões ou formatos. As minúsculas partes do campo perceptual unem-se para formar estruturas distintas das originais. A organização perceptual é espontânea e inevitável, sempre que vemos ou ouvimos. Normalmente, não precisamos aprender a formar padrões, como afirmavam os associacionistas, embora algumas percepções de nível superior, como nomear os objetos, dependam da aprendizagem.

De acordo com a teoria da Gestalt, o cérebro é um sistema dinâmico em que todos os elementos ativos interagem em determinado momento. A área visual do cérebro não responde separadamente aos elementos individuais do estímulo visual, conectando-os mediante algum processo mecânico de associação. Ao contrário, os elementos similares, ou bem próximos, tendem a se combinar, e os elementos diferentes ou distantes, a não se combinar.

Listamos a seguir vários princípios de organização perceptual ilustrados na Figura 12.1.

  1. Proximidade. As partes bem próximas umas das outras no tempo e no espaço parecem unidas e tendem a ser percebidas juntas. Na Figura 12 1(a) percebemos círculos nas três colunas duplas e não apenas como um grande conjunto;
  2. Continuidade. Ha uma tendência de a nossa percepcão seguir uma direção para conectar os elementos de modo que eles pareçam contínuos ou fluir, em uma direção especifica. Na Figura 12.1(a), a tendência é seguir as colunas com pequenos círculos de cima para baixo;
  3. Semelhança. As parte similares tendem a ser vistas juntas, formando um grupo. Figura 12.1 (b ), os círculos e os pontos parecem juntos, e a tendência é perceber três quadrados, mesmo que as figuras estejam incompletas;
  4. Preenchimento. Há uma tendência da nossa percepção em completar as figuras incompletas, de preencher as lacunas. Na Figura 12.1(c), é possível perceber três quadrados, mesmo que as figuras estejam incompletas.
  5. Simplicidade. Há uma tendência de vermos a figura como tendo boa qualidade sob as condições de estímulos; a psicologia da Gestalt chama essa característica de Pragnanz ou boa forma. Uma boa Gestalt é simétrica, simples e estável e não pode ser mais simples nem mais organizada. Os quadrados na Figura 12.1(c) são boas Gestalts porque são claramente percebidos como completos e organizados;
  6. Figura/fundo. Ha uma tendencia de organizar as percepções do objeto a figura sendo visto e do fundo (a base) sobre o qual ele aparece. A figura parece mais substancial e também a destacar-se do fundo. Na Figura 12.1(d), ela e a base são reversíveis; e possível ver dois rostos ou um vaso, dependendo de como a percepção é organizada.

Esses princípios de organização não dependem dos processos mentais superiores nem de experiências passadas, pois estão nos próprios estímulos. Wertheimer chamou-os de fatores periféricos, reconhecendo também que os fatores centrais dentro do organismo influenciam a percepção. Por exemplo, sabe-se que os processos mentais superiores de familiaridade e de atitude afetam a percepção. No entanto, em geral, os psicólogos da Gestalt concentram-se mais nos fatores periféricos da organização perceptual do que nos efeitos da aprendizagem ou da experiência.

Os Estudos da Gestalt sobre a Aprendizagem: ínsight e a Mentalidade dos Macacos

Mencionamos anteriormente a longa visita de Köhler ao Tenerife (1913-1920), onde ele investigou a inteligência dos chimpanzés demonstrada por meio das habilidades na solução de problemas. Essas experiências foram realizadas tanto dentro como em volta das jaulas dos animais e envolveram apetrechos muito simples, como as barras das jaulas (usadas para bloquear o acesso), bananas, varas para puxar as frutas para dentro das jaulas e cai­xas que serviam de apoio para os animais tentarem alcançar as frutas penduradas no teto. Com base na visão de percepção da Gestalt, Köhler interpretou os resultados da pesquisa animal analisando toda a situação e as relações entre os estímulos. Acreditava que a reso­lução de problemas estava relacionada com a reestruturação do campo perceptual.

Em um dos estudos, colocou-se uma banana do lado de fora, com um barbante amar­rado chegando até a jaula. O macaco agarrou o barbante e puxou a banana para dentro, quase sem titubear. Köhler concluiu que, nessa situação, o animal percebera facilmente todo o problema. No entanto, se vários fios saíssem da jaula em direção à banana, o maca­co não saberia imediatamente qual deles puxar para obter a fruta. Assim, Köhler observou que, nessa situação, o animal não conseguia visualizar claramente todo o problema.

Em outro estudo, colocou-se um pedaço da fruta do lado de fora, pouco além do alcan­ce do animal. Quando se colocou uma vara perto das grades, em frente à fruta, os dois objetos foram percebidos como parte da mesma situação, e o animal rapidamente usou a vara para puxar a fruta. Mas, se a vara era colocada no fundo da jaula, então os dois objetos (a vara e a banana) não eram prontamente vistos como parte do mesmo problema. Nesse caso, era preciso reestruturar o campo perceptual para o chimpanzé resolver a questão.

Outra experiência consistiu em colocar uma banana fora da jaula e além do alcance do animal e, do lado de dentro, duas varas ocas de bambu que não eram de tamanho sufi­ciente para puxar a fruta. Para isso, o animal tinha de juntar as duas (inserindo a ponta de uma dentro da extremidade da outra) para criar outra do tamanho que precisava.

Assim, para solucionar o problema, o animal tinha de perceber uma nova relação entre as duas varas. 

O trecho a seguir, extraído do livro de Köhler, descreve mais estudos e observações acerca da aprendizagem dos chimpanzés. Köhler discute os esforços dos animais para aprenderem a usar os acessórios a fim de que eles obtenham a comida que, de outro modo, não conseguiriam. Essas experiências mostram como os animais aprendem as usar caixas para alcançar o objeto de estímulo, normalmente uma banana suspensa no teto da jaula. Observe como Köhler empregou uma linguagem não-técnica para descrever o trabalho. Ele se concentrou na personalidade e nas diferenças individuais dos seus sujeitos de pesquisa.

Não adotou nenhuma forma de medição ou experimentação, nenhum tratamento expe­rimental rigoroso, grupos de controle nem análises estatísticas. Köhler descreveu suas observações das reações dos animais às situações criadas.


Texto original 

Trecho sobre a Psicologia da Gestalt, Extraído de The Mentalitv of Apes (1927), de Wolfgang Kõhler

O chimpanzé não recebeu da vida apenas alguma aptidão especial para ajudá-lo a alcançar os objetos colocados no alto, empilhando os materiais de construção; ao contrário ele é capaz de realizar muito por esforço próprio, quando as circunstâncias assim exigirem e quando hou­ver material disponível.

O ser humano adulto tende a não perceber as reais dificuldades do chimpanzé diante dessa construção, por assumir que o fato de acrescentar um segundo material de construção ao pri­meiro é apenas uma repetição do ato de posicionar o primeiro no chão (debaixo do objetivo); que, quando a primeira caixa está no chão, é como se a sua superfície fosse do mesmo nível do solo e, portanto, o único fator novo nesse processo de construção seria o levantamento efetivo do material. Assim, as únicas dúvidas seriam se os animais realizam ordenadamente o seu trabalho, se manipulam as caixas desajeitadamente ou de outra forma. (...)

Todavia, a existência de outra dificuldade específica se tornaria óbvia ao se observar mais detalhadamente a primeira tentativa de Sultão durante a realização dessa tarefa quan­do Sultão [considerado o chimpanzé mais inteligente] apanha e levanta peia primeira vez a segunda caixa, balançando-a estranhamente sobre a primeira, mas não a põe em cima dela. Na segunda vez, coloca-a em cima da que está no chão, com o lado maior virado no sentido vertical aparentemente sem qualquer hesitação, mas a construção ainda fica muito baixa já que o objetivo foi pendurado, sem querer, alto demais.

A experiência continua imediatamente, com o objetivo pendurado agora a aproximada­mente dois metros da lateral, em um ponto mais baixo do teto, e com a construção de Sultão mantida no mesmo lugar. Entretanto, o fracasso de Sultão parece provocar um efeito posterior perturbador, por muito tempo ele ignora as caixas, diferentemente das outras vezes, em que achava uma nova solução, em geral repetindo prontamente a ação. (...)

Mais tarde, durante a experiência, um curioso incidente ocorre: o animal volta a adotar os métodos antigos, tenta puxar o tratador pelas mãos para conduzi-lo até o objetivo, sendo repelido, tenta fazer o mesmo comigo, e novamente é rejeitado. Em seguida, orientamos o tratador para que, caso Sultão tente puxá-lo novamente, ele finja ceder, mas, assim que o animal subir nos seus ombros, deve se ajoelhar e ficar bem baixo.

Logo isso realmente acontece: depois de arrastar o tratador até ficar debaixo do objetivo Sultão sobe nos seus ombros e o homem rapidamente dobra os joelhos. O animal sai de cima dele, resmungando, segura-o com as duas mãos pelos quadris, e tenta com toda a força empurra-lo para cima. Uma forma surpreendente de tentar aprimorar o instrumento humano!

Agora que Sultão não toma mais conhecimento das caixas, já que descobriu a solução sozinho, parece razoável remover o motivo do seu fracasso. Coloquei as caixas uma sobre a outra para Suitão, debaixo do objetivo, exatamente como ele fizera da primeira vez, e deixei-o pegar o objetivo.

Em relação ao esforço de Sultão em empurrar o tratador, tentando endireitá-lo, desejo logo de início refutar a acusação de equívoco na interpretação da "leitura do animal"; trata-se apenas de uma descrição do procedimento, e não há nenhuma possibilidade de equívoco. Todavia, a fim de evitar qualquer suspeita, por se tratar de um caso isolado (suspeita, de qualquer modo, injustificável, considerando que Sultão tenta utilizar tanto o tratador como a mim, não apenas uma, mas várias vezes, como um apoio), devo acrescentar resumidamente a descrição de outros casos semelhantes:

Sultão não consegue resolver o problema quando o objetivo está do lado de fora e além do seu alcance; eu me encontro perto dele, dentro da jaula. Depois de todo tipo de tenta­tiva fracassada, o animal aproxima-se de mim, segura o meu braço, arrasta-me em direção às grades, puxando, ao mesmo tempo, o meu braço com toda a força na sua direção, e, em seguida, empurra o meu braço pelas grades, na direção do objetivo. Como eu não pego o objetivo, vai em direção ao tratador, e tenta fazer o mesmo com ele.

Mais tarde ele repete o procedimento, apenas com uma diferença: primeiro, ele tem de me chamar com lamúrias, como se estivesse suplicando, já que dessa vez estou do lado de fora. Nesse caso, assim como no primeiro, ofereci tanta resistência que o animal quase não conseguiu superá-la e não me largou até que a minha mão efetivamente alcançasse o objetivo; no entanto não lhe fiz o favor (para o bem das futuras experiências) de levá-lo até ele.

Devo mencionar ainda que, em um dia quente, os animais tiveram de esperar mais tempo que o normal pela tigela d'água, de modo que, por fim, eles simplesmente tentaram agarrar as mãos, os pés ou os joelhos do tratador e empurrá-lo com toda força em direção à porta, atrás da qual normalmente ficava guardada a jarra d'água. Durante algum tempo, esse com­ cortamento tornou-se rotineiro; se o homem tentava alimentá-los com as bananas, Chica calmamente as tirava da mão do tratador e as colocava de lado, e o empurrava na direção da porta (Chica estava sempre com sede).

Talvez seja um equívoco pensar que os chimpanzés não tenham noção ou que sejam estúpidos em relação a essas questões. Devo acrescentar que os animais percebem o corpo humano com certa facilidade, quando vestido com roupas comuns, como camisa e calças e sem qualquer tipo de casaco. Se alguma coisa os deixa intrigados, eles investigam imediata­mente, e qualquer grande mudança na maneira de vestir ou na aparência (por exemplo, uma barba) faz com que Grande e Chica realizem prontamente uma investigação minuciosa.

Depois do auxílio encorajador a Sultão, as caixas foram deixadas novamente de lado. Um novo objetivo é pendurado no mesmo ponto no teto da jaula. Sultão imediatamente empilha as duas caixas, mas no mesmo lugar em que o objetivo fora pendurado, bem no início da experiên­cia, e onde ficara a sua primeira construção. Em cerca de 100 casos usando as caixas, essa foi a única ocasião em que esse tipo de estupidez foi cometido. Sultão parece confuso quando está fazendo isso, e provavelmente muito cansado, já que a experiência durou mais de uma hora e em um local quente. Sultão continuou a empurrar as caixas de um lado a outro, praticamente ao acaso, até colocá-las novamente uma sobre a outra e debaixo do objetivo; ele pega a fruta e nós o deixamos sair. Somente em uma ocasião o vi assim tão confuso e perturbado. 

No dia seguinte, fica claro que deve haver uma dificuldade específica contida no problema em si. Sultão carrega uma caixa e coloca-a debaixo do objetivo, mas não traz a segunda caixa; por fim, acabamos empilhando-as e assim ele alcança a meta. o novo problema que se segue imediatamente (a construção novamente foi destruída) não o induz a trabalhar; ele continua tentando usar o observador como apoio; e assim, mais uma vez, montamos a construção para ele. No terceiro problema, debaixo do objetivo, Suitão coloca uma caixa, puxa a outra e a põe ao lado, mas pára no momento crítico: seu comportamento provoca total perplexidade; ele continua olhando para o objetivo e, ao mesmo tempo, tenta desajeitadamente agarrar a segunda caixa. Então, quasa de repente, ele a agarra com firmeza, faz um movimento seguro, colocando-a sobre a primeira. Sua longa indecisão é totalmente contraditória em relação a essa solução repentina.

Dois dias depois, repetimos a experiência; o objetivo é novamente pendurado em outro ponto. Sultão coloca uma caixa um pouco inclinada debaixo do objetivo, traz a segunda - começa a levantá-la, todo o tempo olhando para o objetivo, quando a deixa cair novamente. Depois de diversas ações (tentando subir até o teto, empurrando o observador para cima), ele recomeça a construir; coloca cuidadosamente a primeira caixa com o lado maior no sentido vertical debaixo do objetivo, e agora faz enorme esforço para colocar a segunda em cima a caixa gira e balança de um lado a outro e acaba ficando sobre a outra, mas com o lado menor no sentido vertical e com a parte aberta presa em um dos cantos. Sultão sobe nelas e imediatamente destrói a construção, jogando tudo no chão.

Muito cansado, fica deitado em um canto da sala, dali olhando as duas caixas e o objetivo. Somente depois de passado um tempo razoável, ele retoma o trabalho; coloca uma caixa no sentido vertical e tenta alcançar o objetivo; desce, pega a segunda e finalmente, com muito cuidado, consegue colocá-la no sentido vertical sobre a primeira, mas as duas não estão exatamente uma sobre a outra, por isso, cada vez que ele tenta subir, as caixas começam a desabar. Somente depois de uma longa tentativa, durante a qual o animal nitidamente age quase cegamente, deixando o sucesso ou o fracasso por conta de movimentos aleatórios consegue colocar a caixa de cima em posição mais segura, finalmente atingindo o objetivo.

Depois dessa tentativa, Sultão passou a usar sempre e imediatamente a segunda caixa, e acima de tudo, sem hesitar quanto ao lugar em que deveria colocá-la.


Comentários

Para Köhler, esses estudos e outros similares proporcionavam evidências do insight, a espontânea e aparente apreensão ou compreensão das relações. Sultão finalmente obteve o insight do problema depois de várias tentativas, assimilando as relações entre as caixas e a banana pendurada sobre a sua cabeça. A palavra em alemão que Köhler usou para des­crever esse fenômeno foi Einsicht, traduzida para o inglês como insight ou compreensão.

Não tem nenhum condicionamento acontecendo, ele escreveu; "ao contrário, depois de um determinado ponto, o animal entende o que está ocorrendo, e então, o comporta­mento resultante é, logicamente, perfeito" (apnd Ley, 1990, p. 182). Em outro exemplo de descoberta simultânea e independente, o psicólogo estadunidense de animais Robert Yerkes encontrou evidências, em experiências com orangotangos, para sustentar o conceito de insight, e a denominou "aprendizagem ideacional".

Na decada de 1930, Ivan Pavlov repetiu algumas das pesquisas de Köhler em que o macaco precisava colocar uma caixa sobre a outra para alcançar a comida suspensa no teto. Constatou que os animais levavam diversos meses para resolver o problema. Questionou a hipótese de Köhler de que os macacos obtinham o insight da situação e chamou de "caótico" o comportamento dos animais na solução do problema. Pavlov disse que as respostas por ele obtidas não eram tão diferentes daquelas da aprendizagem por ensaio-e-erro da pesquisa de Thorndike (Windholz, 1997).

Em 1974, o tratador dos chimpanzés de Köhler, Manuel Gonzalez y Garcia, descreveu a pesquisa em uma entrevista. Contou diversas histórias sobre os animais, e principal­mente de Sultão que costumava ajudá-lo a alimentar os outros animais. Gonzalez dava a Sultão cachos de bananas para segurar. "Mediante uma ordem, 'duas para cada', Sultão caminhava recinto e distribuía duas bananas para cada um dos macacos". Um dia, Sultão viu o tratador pintando uma porta. Quando o homem saiu, o animal pegou o pincel e começou a imitar o comportamento que observara. Em outra ocasião, o o caçula de Köhler, Claus, sentou-se em frente da jaula, tentando sem êxito empurrar uma banana entre as grades. Sultão, dentro da gaiola e aparentemente sem fome, girou a banana 90 graus, de modo que a fruta pudesse passar entre as barras, enquanto Köhler dizia a seu filho que Sultão era mais esperto do que ele.

Certa vez, Sultão de algum modo encorajou Claus a subir uma árvore até o topo e o menino se recusava a descer, apesar das ordens severas de seu pai. Quando Claus final­mente desceu, Kohler o agarrou, abaixou seus shorts, e deu uma surra nele. Logo depois disso, Sultão agarrou Kohler, e abaixou suas calças por trás. Cerca de 70 anos depois Claus contou essa história para um entrevistador, com os olhos brilhando de prazer. Köhler acreditava que o insight e as habilidades para resolver problemas demonstrados pelos chimpanzés eram diferentes da aprendizagem por ensaio-e-erro descrita por Thorn­dike. Köhler criticava o trabalho de Thorndike, alegando que as condições experimentais eram artificiais e que permitiam a demonstração apenas de comportamentos aleatórios dos animais. E afirmou que os gatos das caixas-problema de Thorndike não exploravam todo o mecanismo que os libertava (todos os elementos pertencentes a toda a situação) e assim apresentavam apenas respostas de ensaio-e-erro.

Do mesmo modo, um animal dentro do labirinto não pode ver todo o padrão ou o formato, mas apenas o corredor que encontra. Portanto, os animais não têm muita opção a nao ser arriscar um caminho por vez. Na visão da Gestalt, o organismo deve estar apto a perceber as relações entre as várias partes do problema antes que a aprendizagem por insight ocorra. 

Esses estudos a respeito do insight sustentavam o conceito global ou molar dos psicólogos da Gestalt em relação ao comportamento, ao contrário da visão atomística e mole­cular promovida pelos behavioristas. A pesquisa também reforça a ideia da Gestalt de que a aprendizagem envolve a reorganização ou reestruturação do ambiente psicológico do indivíduo.

O Pensamento Humano Produtivo

O livro de Wertheimer a respeito do pensamento produtivo (Wertheimer. 1945), publicado após a sua morte, apresentou os princípios da Gestalt sobre a aprendizagem aplicados a pensamento criativo humano. Sua proposta afirmava que o pensamento forma-se com um todo. O aprendiz assim considera a situação, e o professor deve apresentá-la igualmente É possível notar as diferenças entre esse método e o do ensaio-e-erro, em que a solução do problema, em certo sentido, fica oculta, e o aprendiz pode cometer erros antes de alcançar a resposta correta.

Os casos apresentados no livro de Wertheimer vão de processos de pensamento infan­til na solução de problemas de geometria até processos cognitivos complexos, como o do físico Albert Einstein na elaboração da teoria da relatividade. Em diversas faixas etárias e vários níveis de dificuldade, Wertheimer constatou evidências para sustentar a ideia de que o problema como um todo deve dominar as partes. Acreditava que os detalhes de um problema devessem ser considerados apenas em relação à situação inteira. Ademais, a solução do problema deve seguir do todo para as partes, e não o contrário.

Em um ambiente de sala de aula, por exemplo, se o professor organizar ou arrumar os elementos dos exercícios, como as palavras ou os números, em uma unidade com sen­tido, os alunos obterão mais facilmente o insight e assimilarão os problemas e as soluções. Wertheimer mostrou que, uma vez compreendido, o princípio básico de uma solução pode ser transferido ou aplicado em outras situações.

Ele desafiou as práticas educativas tradicionais, como a repetição mecânica de estru­turas e a aprendizagem dirigida, derivadas da abordagem associacionista. Considerava a repetição pouco produtiva e citava como prova a incapacidade de um aluno resolver a variação de um problema quando a solução fora adquirida por outro método e não assimi­lada por um insight. Concordava, no entanto, que nomes e datas deviam ser aprendidos por memorização, por meio de associação reforçada por repetição. Desse modo, admitia ser a repetição útil em alguns casos, mas insistia em que esse método produzia um desem­penho mecânico e não a compreensão ou um pensamento produtivo ou criativo.

O lsomorfismo

Satisfeitos por estabelecerem que os seres humanos percebem unidades organizadas e não conjuntos de elementos sensoriais, os psicólogos da Gestalt mudaram o enfoque para os mecanismos cerebrais envolvidos na percepção. Tentaram desenvolver uma teoria sobre correlatos neurológicos subjacentes das Gestalts percebidas. Descreviam o córtex cerebral como um sistema dinâmico, em que os elementos ativos interagem em um determinado momento. Essa ideia contradiz o conceito de semelhança entre o homem e a máquina, que compara a atividade neural a uma central telefônica, conectando mecanicamente as ligações sensoriais recebidas de acordo com os princípios da associação. Nessa visão associacionista, o cérebro opera de forma passiva e é incapaz de organizar ou modificar ativamente os elementos sensoriais recebidos. Essa última teoria também implica a cor­respondência direta entre a percepção e o seu equivalente neurológico.

Com base na sua pesquisa sobre o movimento aparente, Wertheimer sugeriu que a atividade cerebral é um processo integral de configuração. Como o movimento aparente e o real são percebidos de forma idêntica, os respectivos processos corticais também devem ser similares, ou seja, devem ocorrer processos cerebrais correspondentes.

Em outras palavras, deve haver uma correspondência entre a experiência consciente ou psicológica e a cerebral subjacente, responsável pelo fenômeno phi. Essa ideia é denomi­nada isomorfismo, princípio já aceito na biologia e na química. Os psicólogos da Gestalt compararam a percepção com um mapa, no sentido de ser idêntica ("iso") na forma ou formato ("morfo") ao que representa, sem ser uma cópia literal. No entanto, a percepção não é um guia confiável para perceber o mundo real.

Kohler aprofundou a posição de Wertheimer no trabalho Static and stationary physical gestalts (1920), em que afirmou comportarem-se os processos corticais de modo semelhan­te aos campos de força. Sugeriu que, tal como o comportamento de um campo de força eletromagnética em volta de um ímã, os campos de atividade neurais são estabelecidos por processos eletromecânicos do cérebro em resposta aos impulsos sensoriais.

A Expansão da Psicologia da Gestalt

Em meados da década de 1920, o movimento da Gestalt era uma escola de pensamento coerente, dominante e poderosa na Alemanha. Centralizado no Psychological Institute da University of Berlin, o movimento atraía muitos alunos de diversos países. O instituto estava instalado em uma das alas do antigo Palácio Imperial e orgulhava-se de possuir um dos maiores laboratórios do mundo, equipado para investigar diversas questões psicológicas do ponto de vista da Gestalt. A revista Psychological Research era muito lida e respeitada.

Depois de os nazistas assumirem o poder na Alemanha, em 1933, suas ações repressoras contra intelectuais e judeus forçaram muitos pesquisadores, inclusive os fundadores da psicologia da Gestalt, a deixarem o país. O núcleo da Gestalt se transferiu para os Estados unidos, disseminando-se por meio de contatos pessoais, bem como pelas publicações dos trabalhos. Mesmo antes da fundação formal da escola, muitos psicólogos estadunidenses haviam estudado com seus futuros líderes, absorvendo suas ideias. Herbert Langfeld, da Princeton University, conheceu Koffka em Berlim e enviou seu aluno E. C. Tolman à Ale­manha, o qual serviu como sujeito de pesquisa no programa de Koffka. Robert Ogden, da Cornell University, também conheceu Koffka. O pesquisador da personalidade, Gordon Allport, da Harvard University, passou um ano na Alemanha e declarou ter ficado muito impressionado com a qualidade da pesquisa experimental da Gestalt.

Alguns livros de Koffka e de Köhler foram traduzidos do alemão para o inglês, e rese­nhas foram publicadas nas revistas estadunidenses de psicologia. Uma série de artigos escritos pelo psicólogo estadunidense Harry Helson e publicados na American Journal of Psychology também ajudou a divulgar a teoria da Gestalt nos Estados Unidos (Helson, 1925, 1926). Koffka e Köhler estiveram nesse país para dar aulas e conferências em universidades. Koffka deu 30 palestras em três anos e, em 1929, Köhler foi um dos conferencistas a apresentar as diretrizes básicas do 9º Congresso Internacional de Psicologia, na Yale University (o outro palestrante foi Ivan Pavlov, que foi cuspido por um dos chimpasses de Robert Yerkes).

Assim, a psicologia da Gestalt vinha chamando a atenção nos Estados Unidos, por por diversas razões, a sua aceitação como escola de pensamento foi lenta. Primeiro que o behaviorismo estava no auge da popularidade. Segundo, porque havia uma barria linguística, isto é, as principais publicações da Gestalt eram em alemão, e a necessidade de tradução atrasava a divulgação completa e precisa daquela visão. Terceiro, com: já mencionamos, porque muitos psicólogos pensavam equivocadamente que a Gestalt se ocupava-se apenas à percepção. Quarto, porque os fundadores Wertheimer, Koffka e Kõhler instalaram-se em faculdades pequenas nos Estados Unidos, que não ofereciam programas de pós-graduação, portanto era difícil atraírem discípulos para transmitir suas ideias. Quinto, e o mais importante, porque a psicologia estadunidense havia avançado muito além das ideias de Wundt e Titchener, às quais os psicólogos da Gestalt estavam se opondo. O behaviorismo já era o segundo estágio da oposição estadunidense. Consequentemente a psicologia estadunidense, muito mais do que a alemã, já superara a posição elementarista de Wundt. Os psicólogos estadunidenses acreditavam que os psicólogos da Gestalt estavam lutando contra um inimigo que já haviam derrotado. Os psicólogos da Gestalt chegaram aos Estados Unidos protestando contra algo que não fazia mais sentido.

Esse cenário era arriscado para a sobrevivência da escola da Gestalt. Temos testemu­nhado por toda a história que o movimento revolucionário depende de uma oposição para sobreviver, algo para combater, se deseja promover suas ideias com êxito. Todavia, quando os psicólogos da Gestalt chegaram aos Estados Unidos, encontraram pouca oposição.

A Batalha contra o Behaviorismo

Quando os psicólogos da Gestalt perceberam quais eram as tendências na psicologia estadunidense, imediatamente estudaram o novo alvo. Se não havia sentido em protestar contra a psicologia wundtiana, que já desaparecera da psicologia estadunidense, então podiam atacar as qualidades reducionistas típicas da escola de pensamento behaviorista. Assim, os psicólo­gos da Gestalt alegavam que o behaviorismo, do mesmo modo que a psicologia de Wundt. também se dedicava a abstrações artificiais. Para eles, não fazia muita diferença se a análise era feita com base na redução introspectiva em elementos mentais ou na redução objetiva em unidades condicionadas de estímulo-resposta (Watson). O resultado era o mesmo: uma abordagem molecular em vez de molar. Os psicólogos da Gestalt também contestavam o fato de os behavioristas não aceitarem a validade da introspecção e descartarem qualquer reconhecimento da consciência. Koffka acusava de insensato o desenvolvimento de uma psicologia sem o conceito de consciência, como faziam os behavioristas, porque significava que a psicologia era pouco mais do que uma coleção de pesquisas com animais.

As batalhas entre psicólogos da Gestalt e behavioristas começaram a inflar emocional e pessoalmente. Uma ocasião, quando Clark Hull, E. C. Tolman, Wolfgang Köhler e vários psicólogos saíram para beber algumas cervejas depois de um encontro científico na Filadélfia, em 1941, Köhler disse a Hull que ouvira falar que ele teria usado uma expressão insultante durante as suas aulas, "aqueles malditos gestaltistas". Hull ficou embaraçado e disse esperar que as divergências científicas não se transformassem em agressões pessoais.

Köhler respondeu que ele estava "ávido por discutir mais assuntos de forma lógica e científica. mas, quando as pessoas tentam transformar o homem em uma espécie de máquina caça-níqueis, então ele se vê obrigado a brigar". Deu um murro sobre a mesa "fazendo um barulho bem alto" para deixar bem clara a sua opinião (apud Amsel e Rashotte, 1984, p.23).

A Psicologia da Gestalt na Alemanha Nazista

Embora os fundadores da escola de pensamento da psicologia da Gestalt tivessem fugido da Alemanha na época da guerra, alguns de seus discípulos permaneceram no país durante o período nazista, que terminou com os alemães derrotados pelos aliados, em 1945, Esses adeptos da Gestalt continuaram a conduzir pesquisas, concentrando-se nos estudos da visão e da percepção de profundidade. O instituto psicológico de Köhler continuou a funcionar na University of Berlin, embora, assim como todas as universidades alemãs daquela época, ela não se caracterizasse mais pela liberdade acadêmica nem pela receptividade às pesquisas! Um estadunidense, em visita ao instituto em 1936, comentou sobre a "absoluta aridez do clima intelectual desse ex-baluarte da escola da Gestalt" (apud Ash, 1995, p. 340). As atividades de pesquisa da maioria dos psicólogos alemães durante a Segunda Guerra Mundial foram direcionadas ao esforço de guerra, principalmente na avaliação do pessoal militar. A pes­quisa prática e aplicada teve precedência sobre a ciência pura e a construção teórica.

A Teoria de Campo: Kurt Lewin (1890-1947)

A psicologia da Gestalt refletia a tendência científica, do final do século XIX, do estudo com base nas relações de campo e não no modelo atomístico e elementarista. A teoria de campo surgiu dentro da psicologia como um conceito equivalente ao dos campos de força da física. Na psicologia atual, o termo teoria de campo geralmente refere-se às ideias de Kurt Lewin. O trabalho de Lewin segue a orientação gestáltica, mas ultrapassa os limites da posição ortodoxa da Gestalt, para incluir as necessidades humanas, a personalidade e as influências sociais no comportamento.

A Biografia de Lewin

Kurt Lewin nasceu em Mogilno, Alemanha, e estudou nas universidades de Friburgo, Munique e Berlim. Recebeu o Ph.D. em psicologia de Carl Stumpf, na University of Berlin em 1914, onde também estudou matemática e física. Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu no exército alemão e foi ferido em combate, recebendo a medalha da Cruz de Ferro, da Alemanha. Retornou à University of Berlin e dedicou-se à pesquisa da Gestalt a respeito da associação e motivação com tanto entusiasmo que várias vezes foi considerado colega dos três fundadores da Gestalt. Apresentou uma versão da teoria de campo aos psicólogos estadunidenses no Congresso Internacional de Psicologia, realizado em 1929, na Yale.

Desse modo, Lewin já era conhecido nos Estados Unidos quando chegou à Stanford em 1932, como professor visitante. No ano seguinte, decidiu deixar a Alemanha por causa da ameaça nazista. Escreveu a Kohler, dizendo: "Agora acredito que não há outra alternativa para mim a não ser emigrar, mesmo que a minha vida seja despedaçada" (1993, p. 158, 160). Passou dois anos na Cornell University e, em seguida, seguiu para a University of Iowa. Sua pesquisa a respeito da psicologia social infantil rendeu-lhe um convite para desenvolver o novo Research Center for Group Dynamics [Centro de Pesquisa para a Dinâmica de Grupo] no Massachusetts Institute of Technology. Embora tenha sido poucos anos após aceitar essa posição, seu programa foi tão eficaz que o centro pesquisa, agora localizado na University of Michigan, permanece ativo até hoje.

O Espaço Vital

Por toda a carreira de 30 anos, Lewin dedicou-se à área amplamente definida da motivação humana, descrevendo o comportamento humano no total contexto social e físico (Lewin 1936, 1939). Seu conceito geral de psicologia era prático, concentrado nas questões sociais que afetam a nossa vida pessoal e profissional. Buscava humanizar as fábricas da época de modo que o trabalho se tornasse mais uma fonte de satisfação pessoal do que apenas uma forma de ganhar a vida.

O conhecimento a respeito da teoria de campo da física fez com que ele imagina-se que as atividades psicológicas de um indivíduo também ocorrem em uma espécie de campo psicológico, chamado espaço vital - que compreende todos os acontecimentos do passado, do presente e do futuro que nos afetam. Do ponto de vista psicológico, cada um desses fatos determina algum tipo de comportamento em uma situação específica.

Dessa forma, o espaço vital consiste na necessidade de as pessoas interagirem com o ambiente psicológico. O espaço vital exibe diversos graus de desenvolvimento em função da quantidade e do tipo de experiência acumulados. Como o bebê tem pouca experiência, possui poucas regiões diferenciadas no seu espaço vital. Um adulto extremamente culto e sofisticado é dotado de um espaço vital complexo e bem diferenciado, exibindo grande variedade de experiências.

Lewin tentou criar um modelo matemático para representar esse conceito teórico de processos psicológicos. Em virtude do interesse em um único indivíduo (um único caso e não em grupos nem no desempenho médio, a análise estatística não tinha muito valor para esse fim. Ele escolheu a topologia, uma forma de geometria, para criar um diagrama do espaço vital, mostrando os objetivos possíveis de uma pessoa e os caminhos que con­duziam a essas metas em qualquer momento determinado.

No mapa topológico, usado para criar o diagrama de todas as formas de comportamen­to e de fenômenos psicológicos, Lewin usava setas (vetores) para representar a direção do movimento do indivíduo em busca da meta. Acrescentou a noção de peso a essas opções (valências) para referir-se ao valor positivo ou negativo dos objetos, dentro do espaço vital. Os objetos atraentes ou que satisfizessem às necessidades humanas recebiam valência posi­tiva, enquanto os ameaçadores recebiam valência negativa. Esses diagramas chegaram a ser chamados de "psicologia do quadro-negro".

No exemplo simples apresentado na Figura 12.2, uma criança deseja ir ao cinema, mas está proibida pelos pais. A elipse representa o espaço vital; C representa a criança. A seta é o vetor indicando que C está motivada a atingir o objetivo de ir ao cinema, portan­to tem valor positivo. A linha vertical é a barreira estabelecida pelos pais, que impedem C de atingir a meta, logo, tem valência negativa.

Figura 12.2

A Motivação e o Efeito de Zeigarnik

Lewin propôs a existência de um estado básico de balanço ou equilíbrio entre o indivíduo e o ambiente. Qualquer perturbação desse equilíbrio provoca uma tensão que, por sua vez, conduz a alguma ação em um esforço de aliviar a tensão e restabelecer o equilíbrio. Assim, para explicar a motivação humana, Lewin acreditava que o comportamento envolve um círculo de estados de tensão ou estados de necessidade seguidos de atividade e alívio.

Em 1927, Bluma Zeigarnik realizou um experimento, sob a supervisão de Lewin, para testar essa proposição. Os indivíduos recebiam uma série de tarefas e lhes era permitido terminar algumas, mas eles eram interrompidos antes de completarem outras. Lewin fez algumas previsões:

  1. Um sistema de tensão será criado quando o indivíduo receber uma tarefa para realizar;
  2. Quando a tarefa for concluída, a tensão desaparecerá;
  3. Se a tarefa não for concluída, a persistência da tensão resultará na maior proba­bilidade de o indivíduo lembrar-se da tarefa.

Os resultados de Zeigarnik confirmaram as previsões. As pessoas lembravam-se das tarefas não concluídas com mais facilidade do que das completadas. Desde então, esse efeito passou a se chamar efeito de Zeigarnik.

A inspiração para essa pesquisa de Lewin a respeito da motivação surgiu da sua obser­vação de um garçom do café situado do outro lado da rua do Psychological Institute em Berlim. Uma tarde, ao reunir-se com alguns alunos da pós-graduação no café, alguém comentou estar surpreso com a habilidade aparente do garçom em lembrar-se do pedido de cada um sem anotar nada. Algum tempo depois de pagar a conta, Lewin chamou o garçom e perguntou-lhe o que eles haviam consumido. O garçom, indignado, respondeu que não se lembrava mais. (Ash, 1995, p. 271).

Uma vez paga a conta, a tarefa do garçom havia terminado e a tensão, desaparecido. Ele não precisava mais se lembrar do que cada um tinha pedido.

A Psicologia Social

O interesse de Lewin na psicologia social começou na década de 1930. Seus esforços pioneiros na área foram suficientes para justificar a sua importância na história da psi­cologia. Sua extraordinária realização na psicologia social foi a criação da dinâmica de grupo, aplicação dos conceitos psicológicos aos comportamentos individual e coletivo. Assim como o indivíduo e o seu ambiente formam um campo psicológico, o grupo e o seu ambiente formam o campo social. Os comportamentos sociais ocorrem em enti­dades sociais coexistentes, tais como subgrupos, membros de grupo, barreiras e canais de comunicação, e delas resultam. O comportamento coletivo em algum determinado momento é uma função da situação de todo o campo. Lewin conduziu pesquisas sobre o comportamento em várias situações sociais. Uma experiência que se tornou clássica reunia tipos de liderança autoritários, democráticos e neutros dentro de um grupo de garotos (Lewin, Lippitt e White, 1939). Os resultados mostraram que os garotos do grupo autoritário tornavam-se bem agressivos. Os do grupo democrático eram gentis uns com os outros e completavam mais tarefas que os dos demais grupos. A pesquisa de Lewin deu início a novas áreas da pesquisa social e impulsionou o crescimento da psicologia social.

Além disso, ele enfatizou a pesquisa da ação social, o estudo de problemas sociais relevantes visando a introdução de mudanças. Refletindo a preocupação pessoal com as questões raciais, conduziu estudos em comunidades acerca da moradia integrada, da igualdade de oportunidade profissional e do desenvolvimento e da prevenção da discri­minação na infância. Seu trabalho transformou essas questões polêmicas em estudos de pesquisa controlados, aplicando o rigor do método experimental sem a artificialidade do laboratório acadêmico.

Lewin promoveu o treinamento da sensibilidade dos educadores e dos empresários para reduzir o conflito entre grupos e desenvolver o potencial individual. Os grupos de treinamento da sensibilidade (grupos-T) foram precursores dos famosos grupos de encon­tros das décadas de 1960 e 1970.

Em geral, os programas experimentais e as descobertas das pesquisas de Lewin são mais aceitos pelos psicólogos do que muitos dos seus conceitos teóricos. Sua influência na psicologia infantil e social foi bastante considerável, e muitos dos seus conceitos e técnicas são usados na personalidade e na motivação.

As Críticas à Psicologia da Gestalt

Os críticos da escola de pensamento da psicologia da Gestalt alegavam que a organização aos processos perceptuais, como no fenômeno phi, não era tratada como um problema científico a ser investigado, mas como um fenômeno cuja existência era simplesmente aceita. Era como se fosse uma negação da existência do problema.

Além disso, os psicólogos experimentais acusavam de vaga a posição da Gestalt e afir­mavam que os conceitos básicos não eram definidos com o rigor suficiente para possuírem algum significado científico. Os psicólogos da Gestalt rebatiam essas acusações, afirmando que, em uma ciência jovem, as tentativas de explicação e definição podem estar incomple­tas, o que não significa que sejam vagas.

Outros psicólogos alegavam que os proponentes da Gestalt estavam ocupados demais com a teoria, em detrimento da pesquisa e dos dados empíricos. Embora a escola da Gestalt assumisse a orientação teórica, também enfatizou a experimentação e produziu conside­rável quantidade de pesquisa.

Ligada a essa visão existe a afirmação de que o trabalho experimental da Gestalt era inferior à pesquisa da psicologia behaviorista porque lhe faltavam controles adequados, e dados não-quantificáveis não eram passíveis de análise estatística. Os psicólogos da Gestalt sustentavam que grande parte da sua pesquisa era propositadamente menos quantitativa do que as outras escolas consideravam necessário, já que, nesse sistema, os resultados qualitativos tinham precedência. A maioria das pesquisas da Gestalt tem caráter exploratório, investigando os problemas psicológicos em um modelo diferente.

A noção de Köhler acerca do insight também foi questionada. As tentativas de repro­duzir a experiência dos chimpanzés e as duas varas proporcionaram pouca comprovação sobre o papel do insight na aprendizagem. Esses últimos estudos sugereriam que a solução do problema não ocorre de repente e pode depender da aprendizagem ou da experiência anterior (veja, por exemplo, Windholz e Lamal, 1985).

Ademais, alguns psicólogos consideravam que os psicólogos da Gestalt adotavam hipóteses fisiológicas pobremente definidas. Os pesquisadores da Gestalt reconheciam a teorização da área apenas como uma tentativa, mas acreditavam que as especulações eram aliadas válidas para o sistema.

As Contribuições da Psicologia da Gestalt

O movimento da Gestalt deixou uma permanente marca na psicologia e influenciou o trabalho a respeito da percepção, da aprendizagem, do pensamento, da personalidade, da psicologia social e da motivação. Ao contrário do seu maior rival na época - o behaviorismo -, a psicologia da Gestalt manteve uma identidade separada. Seus maiores princípios o foram absorvidos pelo principal pensamento psicológico. Ela continuou a promover o  interesse na experiência consciente como um problema legitimo para a psicologia os anos em que o behaviorismo dominava. O enfoque da Gestalt na experiência consciente era diferente da abordagem de e Titchener, pois se concentrava em uma versão moderna da fenomenologia. Os contemporâneos da posição da Gestalt acreditam realmente na ocorrência da experiência consciente, sendo ela, portanto, um objeto de estudo legítimo. Eles reconheciam no entanto, nâo ser possível investigá-la com a mesma precisão e objetividade do - comportamento manifesto. A abordagem fenomenológica da psicologia tem mais manifestaçâo entre os psicólogos europeus do que entre os estadunidenses, mas sua influência pode ser percebida no movimento da psicologia humanista estadunidense. Muitos aspectos da psicologia cognitiva contemporânea também devem sua origem à psicologia da Gestalt.

Psicologia - História da Psicologia
2/25/2020 2:30:59 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Behaviorismo - Período Pós-fundação

Algum dia visitou o Zoológico do Ql em Hot Springs, Arkansas? Não? É uma pena, pois não existe mais. Mas, por 35 anos, milhares de pessoas visitaram e observaram animais desempenhando uma variedade surpreendente de truques. Pelo menos pareciam ser truques, mas, na realidade, cada animal havia sido cuidadosamente treinado. Nada havia sido deixado ao acaso no Ql Animal. Cada animal que via - fosse uma pomba ou uma galinha ou um guaxinim - havia se tornado outro Hans, o Esperto.

Pense na Priscilla, o Porco Metódico. Se algum dia viu porcos em uma fazenda, pode achar que não são capazes de fazer qualquer coisa suficientemente excitante para você olhar. Entretanto, Priscilla era fascinante. Ela tinha uma rotina matinal.

Primeiro ligava o rádio, depois comia sentada à mesa, pegava toda a roupa suja e a guardava na cesta, e limpa­va seu quarto com um aspirador de pó. E quando estava pronta para enfrentar o público, ela respondia perguntas feitas pela plateia, ativando sinais que acendiam indicando "sim" ou "não".

Outro residente do Zoológico do Ql era a Ave Inteli­gente, uma galinha que participava do jogo da velha com pessoas e, invariavelmente, empatava ou ganhava. Jamais perdia nem mesmo quando jogava com o grande psicólogo B. F. Skinner, cuja reação ao perder para a galinha nunca foi registrada. Em uma época, havia centenas de galinhas como a Ave Inteligente, apresentadas em exposições e cas­sinos espalhados pelos Estados Unidos, e nenhuma jamais perdeu o jogo para um oponente humano.

Além da Ave Inteligente, uma “galinha tocava algumas notas melodiosas em um piano pequeno, outra dançava 'sapateado' fantasiada e com sapatos, enquanto uma terceira 'punha ovos de madeira' em um ninho; os ovos rolavam por uma calha até uma cesta. A plateia podia pedir um determinado número de ovos desejado, até oito, e a galinha os punha sem parar" (Breland e Breland, 1951, p. 202).

Tinha galinhas que andavam no trapézio e outras treinadas para jogar beisebol. Coelhos dirigiam caminhões de bombeiro tocando a sirene, patos tocavam piano e bate­ria, papagaios andavam de bicicleta, e guaxinins jogavam basquete. Posteriormente foram acrescentados shows de golfinhos e baleias.

Esse zoológico foi iniciado em 1955, por Keller e Ma­rian Breland, antigas alunas do curso de pós-graduação em psicologia, que abandonaram a universidade para ganhar a vida aplicando técnicas de condicionamento ao comportamento animal. Em 1943, elas haviam formado a Empresa de Comportamento Animal para treinar animais a se apresentarem em feiras estaduais e para servirem de atrações turísticas. Quando abriram o Zoológico do QI seu trabalho já era bastante conhecido, graças a artigos no Wall Street Journal, Time, Life e Reader's Digest. No auge de seu sucesso, as irmãs Breland administravam cerca de 140 shows com animais treinados em lugares turísticos importantes e dez vezes mais esse número em shows pelo país. Também haviam treinado centenas de animais para papéis em filmes, programas de televisão e comerciais. No total treinaram mais de 6 mil animais de cerca de 150 espécies. E tudo isso utilizando técnicas básicas de condicionamento que haviam aprendido com B. F. Skinner, o behaviorista mais importante do século XX.

Os Três Estágios do Behaviorismo

A revolução iniciada por John B. Watson não transformou a pscologia de um dia para o outro. Levou mais tempo do que ele imaginava. Todavia, por volta de 1924, um pouco mais uma década após o lançamento formal do behaviorismo, até mesmo o seu maior opositor, Titchener, admitia que o movimento impregnou a psicologia estadunidense. Mais o menos em 1930, Watson já possuía argumentos suficiente para se declarar completamente vitorioso.

O behaviorismo de Watson constituiu o primeiro estágio da evolução da escola de pen­samento comportamental. O segundo estágio, o neobehaviorismo, compreende o período de 1930 a mais ou menos 1960, e engloba os trabalhos de Tolman, Hull e Skinner. Esses neobehavioristas compartilhavam diversos pontos em comum:

  • O estudo da aprendizagem constitui o tópico central da psicologia;
  • Em sua maioria, os comportamentos, independentemente da sua complexidade, podem ser entendidos pelas leis do condicionamento;
  • A psicologia deve adotar o princípio do operacionismo.

O terceiro estágio da evolução behaviorista, o neo-neobehaviorismo ou o sociobehaviorismo, data de cerca de 1960 a 1990. Essa etapa inclui o trabalho de Bandura e Rotter e destaca-se pelo retorno do estudo dos processos cognitivos, mas mantendo o enfoque na observação do comportamento manifesto.

Operacionismo

O operacionismo, principal característica do neobehaviorismo, tinha por objetivo propor­cionar uma linguagem e uma terminologia mais objetivas e precisas à ciência, livrando-a dos "pseudoproblemas", ou seja, dos problemas não-observáveis fisicamente ou não-demonstráveis. O operacionismo sustenta que o valor de qualquer descoberta científica ou de qualquer constructo teórico depende da validade das operações empregadas para determiná-los.

A visão operacionista foi promovida por Percy W. Bridgman (1882-1961), ganhador do Prêmio Nobel de física e psicólogo da Harvard University. O seu livro, The logic of modern physics (1927), chamou a atenção de muitos psicólogos (Feest, 2005). Bridgman insistia na definição exata dos conceitos da física e no descarte de todos os conceitos que não possuíssem referentes físicos.

Utilizemos como exemplo o conceito de comprimento. O que queremos dizer quando nos referimos ao comprimento de um objeto? Evidentemente, entenderemos o significado de comprimento se soubermos especificar o comprimento de todo e qualquer objeto e, para o físico, isso é o suficiente. A determinação do comprimento de um objeto requer algumas operações físicas. O conceito de comprimento, assim, é definido quando se determinam as operações de mensuração do comprimento, ou seja, o conceito de com­primento envolve tão-somente e apenas um conjunto de operações; o conceito é sinônimo do conjunto correspondente de operações. (Bridgman, 1927, p. 5)

Desse modo, um conceito físico equivale ao conjunto de operações ou de procedimen­tos que o determinam. Muitos psicólogos acreditavam que esse conceito seria muito útil nos seus trabalhos e estavam ansiosos para utilizá-lo.

A insistência de Bridgman em descartar os pseudoproblemas, ou seja, as questões que desafiam a resposta resultante de qualquer teste objetivo conhecido, era muito bem-vista pelos psicólogos behavioristas. As proposições que não podem ser submetidas a um teste experimental, como a existência e a natureza da alma, não têm nenhum valor científi­co. O que é alma? Como observá-la no laboratório? É possível medi-la e manipulá-la sob condições controladas para determinar seus efeitos no comportamento? Se a resposta for negativa, o conceito não é dotado de nenhuma utilidade, significado ou importância para a ciência.

Seguindo esse raciocínio, o conceito de experiência consciente individual ou privada consiste em um pseudoproblema para a ciência da psicologia. Não é possível determinar nem investigar a existência ou as características da consciência por meio de métodos objetivos. Assim, de acordo com a visão operacionista, a consciência não tem lugar na psicologia científica.

Os críticos alegavam que o operacionismo não passava de uma afirmação um pouco mais formal dos princípios já aplicados pelos psicólogos para definir as ideias e os conceitos em relação ao seus referentes físicos. No livro de Bridgman, há muito pouco sobre o operacionismo que não se relacione com os trabalhos dos empiristas britânicos. A tendência do longo prazo da psicologia estadunidense seguia em direção à objetividade da metodologia e do objeto de estudo, portanto pode-se afirmar que a visão operacionista em relação à pesquisa e à teoria já fora aceita por muitos psicólogos.

Entretanto, desde a época de Wilhelm Wundt, na Alemanha, os físicos vinham sendo, para a nova psicologia, exemplos de perfeição da respeitabilidade científica. Quando os físicos anunciaram a aceitação do operacionismo como uma doutrina formal, muitos psicó­logos sentiram-se obrigados a seguir esse modelo de papel. No fim, os psicólogos acabaram empregando mais amplamente o operacionismo do que os físicos. Consequentemente, a geração dos neobehavioristas atuantes entre as décadas de 1920 e 1930 incorporou o operacionismo na sua abordagem de psicologia.

Bridgman viveu tempo suficiente para testemunhar tanto a aceitação como o descarte do operacionismo na psicologia. Com 79 anos, ciente do seu estado terminal, Bridgman terminou o sumário da edição em sete volumes de todos os seus trabalhos, enviou-o para o editor e suicidou-se. Temia esperar mais tempo e ficar incapacitado para tal ação. Na carta deixada antes de suicidar-se, escreveu: "Provavelmente, este é o último dia em que terei condições de fazê-lo" (apud Nuland, 1994, p. 152).

Edward Chace Tolman (1886-1959)

Edward Tolman, um dos primeiros convertidos ao behaviorismo, estudou engenharia no Massachusetts Institute of Technology. Voltou-se para a psicologia, obtendo o Ph.D. da Harvard em 1915. No verão de 1912, Tolman estudou na Alemanha com o psicólogo da Gestalt, Kurt Koffka. No último ano de pós-graduação, Tolman conheceu o novo behavio­rismo de Watson e, embora orientado de acordo com a tradição da psicologia estruturalista de Titchener, Tolman já não estava convicto do valor científico da introspecção. Em sua autobiografia, declarou que o behaviorismo de Watson apareceu como um "enorme estímulo e alívio" (1952, p. 326).

Tolman tornou-se professor da Northwestern University, em Evanston, Illinois, e, em 1918, seguiu para a University of California, em Berkeley, onde lecionou psicologia comparativa e conduziu pesquisas sobre a aprendizagem nos ratos - nessa época tornou-se insatisfeito com a forma de behaviorismo de Watson e começou a desenvolver a sua. Durante a Segunda Guerra Mundial, colaborou com o Office of Strategic Services - OSS [Departamento de Serviços Estratégicos], precursor da Central Intelligence Agency [Agência Central de Inteligência] - CIA. No início da década de 1950, foi um dos líderes do movi­mento de professores contra o juramento de lealdade ao Estado da Califórnia.

O Behaviorismo intencional

A visão de behaviorismo de Tolman está descrita no livro Purposive behavior in animais and men (1932). O termo cunhado por ele, behaviorismo intencional, à primeira vista pode parecer uma aglutinação curiosa de duas ideias contraditórias: a intenção e o comportamento. A atribuição de intenção ao comportamento do organismo parece implicar a consciência, conceito mentalista não aceito na psicologia behaviorista. Tolman deixava claro, no entanto, que a sua visão era muito mais behaviorista no objeto de estudo e na metodologia. Ele não tentava impor o conceito de consciência à psicologia. Assim como Watson, rejeitava a introspecção e não se interessava pelas experiências internas presumi­das, não acessíveis à observação objetiva.

Para ele, a intencionalidade do comportamento pode ser definida em termos comportamentais objetivos sem se recorrer à introspecção ou aos relatos das sensações do indivíduo em relação à experiência. 

Parecia óbvio para Tolman que toda ação visava a um objetivo. Por exemplo, o gato tenta escapar da caixa-problema experimental do psicólogo o rato tenta aprender o caminho do labirinto, a criança tenta aprender a tocar piano ou a chutar a bola de futebol.

Em outras palavras, dizia Tolman, o comportamento está "impregnado" de intenção e visa atingir um objetivo ou aprender a forma de alcançar a meta. O rato persiste em percorrer os caminhos do labirinto, reduzindo os erros a cada tentativa, a fim de atingir mais rapidamente a meta. O que ocorre nesse caso é que o rato está aprendendo, e o fato de aprender, seja em um ser humano seja em um animal, é a prova comportamental objetiva da intenção. Tolman lida com as respostas objetivas do organismo e as medidas são feitas com base nas mudanças nas respostas comportamentais como uma função da aprendizagem. São essas medidas que produzem os dados objetivos.

Os behavioristas watsonianos imediatamente reagiram com críticas contra a atribuição de intenção ao comportamento. Insistiam em afirmar que qualquer referência à intenção implicava o reconhecimento dos processos conscientes. Tolman respondeu que não fazia a menor diferença se o indivíduo ou o animal estivesse ou não consciente. A experiência consciente - se ela existisse - associada com o comportamento intencional não influenciava a resposta do organismo. Ademais, Tolman estava interessado apenas no comportamento manifesto.

As Variáveis intervenientes

Como behaviorista, Tolman acreditava que as causas iniciadoras do comportamento e o comportamento final deviam ser passíveis de observação objetiva e de definição opera­cional. Relacionou cinco variáveis independentes como as causas do comportamento: o estímulo ambiental, os impulsos fisiológicos, a hereditariedade, o treinamento prévio e a idade. O comportamento é uma função dessas cinco variáveis, uma ideia que Tolman expressou por meio de uma equação matemática.

Entre essas variáveis independentes observáveis e o comportamento de resposta resul­tante (a variável dependente observável), Tolman presumia a existência de um conjunto de fatores não-observáveis, as variáveis intervenientes, que são as verdadeiras determi­nantes do comportamento. Esses fatores consistem em processos internos que estabelecem a ligação entre a situação de estímulo e a resposta observada. A proposição E-R (estímulo-resposta) dos behavioristas deve ser lida, então, E-O-R. A variável interveniente refere-se a tudo que ocorre dentro do organismo (O) e que provoca a resposta comportamental a determinada situação de estímulo. No entanto, como a variável interveniente não pode ser observada objetivamente, ela somente tem validade para a psicologia quando pode ser relacionada diretamente com as variáveis experimentais (independentes) e com a variável do comportamento (dependente).

A fome é um exemplo clássico de variável interveniente. Não se pode observar a fome em um indivíduo ou em um animal no laboratório, no entanto ela pode ser precisa e obje­tivamente relacionada com uma variável experimental como, por exemplo, o intervalo de tempo transcorrido desde a última vez em que o organismo recebeu comida. A fome tam­bém pode ser relacionada a uma resposta objetiva ou a uma variável de comportamento, como a quantidade de comida consumida ou a velocidade com a qual foi ingerida. Assim, é possível descrever precisamente a variável não-observável da fome em relação a variáveis empiristas e torná-la passível de quantificação e de manipulação experimental.

A especificação das variáveis independentes e dependentes, que são fatos observáveis, possibilitou a Tolman estabelecer definições operacionais de estados internos não-obser­váveis. No princípio, ele se referia à sua abordagem, no geral, como behaviorismo opera­cional, antes de optar pelo termo mais preciso "variável interveniente".

A Teoria da Aprendizagem

O principal enfoque do behaviorismo intencional de Tolman estava no problema da apren­dizagem. Tolman rejeitou a lei do efeito de Thorndike, afirmando que a recompensa ou o reforço exerciam pouca influência sobre a aprendizagem. Em seu lugar, propunha uma explicação cognitiva para a aprendizagem, sugerindo que a repetição do desempenho de uma tarefa reforça a relação aprendida entre as dicas ambientais e as expectativas do organismo. Dessa forma, o organismo acaba conhecendo o seu ambiente. Tolman chama­va essas relações aprendidas de “sign Gestalts", e afirmava serem elas estabelecidas pela repetição da realização de uma tarefa.

Imaginemos um rato faminto dentro de um labirinto. Ele o percorre, explorando todos os caminhos corretos como os sem saída e, finalmente, acaba alcançando a comida. X tentativas subsequentes dentro do labirinto, o objetivo (encontrar a comida) proporciona ao rato a intenção e a direção. A cada ponto de intersecção em que o animal tem de fazer uma opção de seguir para um lado ou outro, cria-se uma expectativa de que certas dicas associadas ao ponto de intersecção vão ou não levar à comida.

Quando a expectativa do rato é confirmada e ele obtém a comida, a sign Gestalt, a expectativa de sinalização associada com determinada opção) é reforçada. Assim, para todas as tentativas realizadas no labirinto, o animal estabelece um mapa cognitivo, que consiste em um padrão de sign Gestalts. Esse padrão é o que o animal aprende, ou seja, um mapa do labirinto, e não apenas um conjunto de hábitos motores. O cérebro do rato cria uma visão completa do labirinto ou de qualquer ambiente familiar, que lhe permite tran­sitar de um lugar a outro sem se restringir a uma série de movimentos físicos fixos.

A clássica experiência para testar a teoria de aprendizagem de Tolman investigava se o rato que percorria os caminhos do labirinto aprendia um mapa cognitivo ou uma série de respostas motoras. Em um labirinto com formato de cruz, um grupo de ratos sempre encontrava a comida no mesmo lugar, ainda que, usando pontos iniciais diferentes, às vezes tivessem de virar à direita e outras vezes à esquerda para chegarem até o alimento. As respostas motoras eram diferentes, mas a comida estava sempre no mesmo lugar.

O segundo grupo de ratos apresentava as mesmas respostas independentemente do ponto inicial, mas com a comida em lugares diferentes. Iniciando de uma saída do labirin­to, o ratos achavam a comida somente quando viravam à direita no ponto de intersecção: começando da outra saída, também encontravam a comida virando à direita.

Os resultados demonstraram que os ratos que aprendiam o caminho (o primeiro grupo apresentavam um desempenho bem melhor do que os que aprendiam o movimento (o segundo grupo). Tolman concluiu que o mesmo fenômeno ocorre com o indivíduo fami­liarizado com a cidade ou com a vizinhança. Ele é capaz de locomover-se de um ponto a outro utilizando diversos caminhos por causa do mapa cognitivo que desenvolveu de toda a área.

Comentários

Tolman é considerado o precursor da psicologia cognitiva contemporânea, tendo seu trabalho exercido grande impacto na disciplina, principalmente a pesquisa acerca dos problemas de aprendizagem e o conceito da variável interveniente. Por ser uma forma de definir operacionalmente os estados internos não-observáveis, as variáveis inter­venientes fizeram desses estados temas válidos para o estudo científico. As variáveis intervenientes foram empregadas pelos neobehavioristas, como Hull e Skinner.

Outra contribuição significativa de Tolman foi a sua defesa veemente para conside­rar o rato como sujeito apropriado para pesquisa em psicologia. No entanto, no início da carreira, ele não pensava assim e afirmava: "Não gosto de ratos. Eles me dão arrepios" (Tolman, 1919, apuã Innis, 1992, p. 191).

Em torno de 1945, sua atitude havia mudado:

Observe-se que os ratos vivem em gaiolas; não caem na farra na noite anterior a um expe­rimento; não provocam guerras matando uns aos outros; não inventam máquinas de des­truição e, se inventassem, não seriam tão inaptos para controlar esses equipamentos; não se envolvem em conflitos de classe ou raciais; ficam distantes da política, da economia e dos trabalhos de psicologia. Eles são maravilhosos, puros e agradáveis. (Tolman, 1945, p. 166)

Graças aos trabalhos de Tolman e de outros psicólogos, o rato branco tornou-se o princi­pal sujeito utilizado na pesquisa dos neobehavioristas e dos teóricos da aprendizagem, desde 1930 até a década de 1960. Acreditava-se que as pesquisas com os ratos brancos produziriam observações sobre os processos básicos subjacentes do comportamento não apenas dos ratos, como também de outros animais e dos seres humanos. Como observou um pesquisador contemporâneo, "o rato era um modelo simples mas acessível de animal, que possibilitava ao psicólogo investigar os fundamentos do cérebro, do comportamento, da emoção e da aprendizagem com precisão sem precedentes" (Logan, 1999, p. 3). Quem precisa de seres humanos para as pesquisas, perguntavam, com tantos ratos brancos disponíveis?

Clark Leonard Hull (1884-1952)

Clark Hull e seus seguidores dominaram a psicologia estadunidense entre as décadas de 1940 e 1960. Talvez nenhum psicólogo tenha se dedicado tanto aos problemas do método científico. Hull era dotado de espantoso domínio da matemática e da lógica formal, e as aplicava à teoria psicológica de maneira nunca vista antes. A forma de behaviorismo de Hull era mais sofisticada e mais complexa do que a de Watson. Hull dizia a seus alunos de pós-graduação que "Watson era ingênuo demais. Seu behaviorismo é excessivamente simples e imaturo" (apuei Gengerelli, 1976, p. 686).

Biografia de Hull

Por toda a vida, Hull foi incomodado pela saúde frágil e pela dificuldade visual. Quando ainda menino, quase morreu de tifo, deixando-o com a memória deficitária. Aos 24 anos contraiu poliomielite, que o deixou paralítico de uma perna, sendo forçado a usar muleta de metal construída por ele mesmo. Era de família pobre e por diversas vezes vira-se forçado a interromper os estudos para lecionar e ganhar dinheiro. Sua maior qualidade era a intensa motivação para atingir o sucesso e a perseverança diante dos muitos obstáculos.

Em 1918, com 34 anos, idade já relativamente adiantada, recebeu o título de Ph.D. - a University of Wisconsin, onde estudou engenharia de minas antes de passar para a psicologia. Fez parte do corpo docente da Wisconsin por 10 anos. Os interesses iniciais em pesquisa já davam indicações da sua eterna ênfase nos métodos objetivos e nas leis rancionais. Hull estudou a formação de conceitos e os efeitos do fumo na eficácia do comportamento, além de analisar os testes e as medidas e com isso publicar um livro a respeito dos testes de aptidão (Hull, 1928). Ele desenvolveu métodos de análise estatística e inventou uma máquina calculadora de correlações, que foi exibida no museu do Smithsonian institution em Washington, DC. Dedicou 10 anos ao estudo da hipnose e da sugestionabilidade, publicando 32 trabalhos e um livro resumindo as pesquisas (Hull, 1933).

Em 1929, Hull aceitou a posição de professor de pesquisa na Yale University, com o objetivo de formular uma teoria sobre o comportamento com base nas leis de condicio­namento de Pavlov. Lera o trabalho de Pavlov havia alguns anos e ficara impressionado com os estudos do reflexo condicionado e da aprendizagem. Hull considerava a obra Conáitioned reflexes, de Pavlov, um "grande livro” e decidiu realizar pesquisas usando ani­mais. Ele nunca utilizara animais porque abominava o cheiro dos ratos de laboratório, no entanto, ao chegar a Yale, conheceu uma colônia de ratos mantida por E. R. Hilgard sob totais condições de higiene. Viu os animais, "cheirou-os e disse que talvez pudesse afinal usar ratos" (Hilgard, 1987, p. 201).

Na década de 1930, Hull publicou artigos a respeito do condicionamento, afirmando ser possível explicar os comportamentos complexos de ordem superior com base nos prin­cípios básicos do condicionamento. A sua obra Principies of behavior (1943) apresentava o esboço de uma estrutura teórica completa, abrangendo todo comportamento. Logo Hull tornou-se o psicólogo mais frequentemente citado da área; na década de 1940, até 40% de todos artigos sobre psicologia experimental e 70% dos artigos sobre a aprendizagem e motivação publicados nas duas principais revistas de psicologia estadunidense citavam o traba­lho de Hull (Spence, 1952). Hull revisava constantemente o seu sistema, incorporando os resultados de sua prolongada pesquisa, e submetia suas proposições ao teste experimental. A forma final do trabalho foi publicada em 1952 na obra A behavior system.

O Espírito do Mecanicismo

Hull descrevia seu behaviorismo e sua visão da natureza humana empregando termos mecanicistas e considerava o comportamento humano automático e possível de ser redu­zido e explicado na linguagem da física. De acordo com Hull, os behavioristas deviam considerar seus sujeitos como máquinas, e ele apoiava a ideia de que um dia se construiria uma máquina para pensar e exibir outras funções cognitivas humanas. Em 1926, Hull afirmou: "Ocorreu-me várias vezes que o organismo humano é uma das máquinas mais extraordinárias - mas, ainda assim, uma máquina. E pensei mais de uma vez que, assim como ocorrem os processos de pensamento, se poderia construir uma máquina capaz de executar todas as funções essenciais que o corpo realiza" (cipud Amsel e Rashotte, 1984, p. 2-3). Nota-se, assim, que o espírito mecanicista do século XVII, representado pelas figuras mecânicas, pelos relógios e robôs vistos na Europa, incorporou-se perfeitamente no trabalho de Hull.

A Metodologia Objetiva e a Quantificação

O behaviorismo objetivo, reducionista e mecanicista de Hull proporciona uma clara visão de como era o seu método de estudo. Primeiro, tinha de ser objetivo, além de quantitati­vo, ou seja, com as leis fundamentais do comportamento expressas na linguagem precisa da matemática.

Em Principies of behavior (1943), Hull explicou como desenvolver uma psicologia mate­maticamente definida. Evidentemente, qualquer adepto do sistema de Hull tinha de ser disciplinado, comprometido e paciente.

O progresso consistirá no extenso trabalho de registrar, uma por uma, das centenas de equações; na determinação experimental, uma por uma, das centenas de constantes empíricas contidas nas equações; no planejamento das unidades utilizáveis na prática com as quais medir as quantidades expressas pelas equações; na definição objetiva de centenas de símbolos que aparecem nas equações; na rigorosa dedução, um por um, dos milhares de teoremas e corolários decorrentes das primeiras definições e equações; na meticulosa realização de milhares de experimentos quantitativos críticos. (Hull, 1943, p. 400-401)

Hull seguia quatro métodos que considerava úteis na pesquisa científica. Três já eram amplamente empregados: a observação simples, a observação sistemática controlada e o teste experimental das hipóteses. O quarto método proposto por Hull foi o método hipotetico-dedutivo, que utiliza a dedução baseada em um conjunto de formulações deter­minadas a priori. Consiste em estabelecer postulados a partir dos quais são deduzidas as conclusões testáveis por meio da experimentação. Essas conclusões são submetidas a um teste experimental: se não forem comprovadas com evidências experimentais, devem ser revistas e, se comprovadas e verificadas, podem ser incorporadas ao corpo da ciência. Hull acreditava que, se a psicologia desejasse se tornar verdadeiramente objetiva assim como as demais ciências naturais, princípio básico do programa behaviorista, o único método apropriado seria o hipotético-dedutivo.

Os Impulsos

Para Hull, a base da motivação era um estado de necessidade corporal provocada por um desvio nas condições biológicas ideais. Em vez de introduzir o conceito de necessidade biológica diretamente no seu sistema, Hull postulou a variável interveniente do "impulso", termo já empregado na psicologia. O impulso era definido como o estímulo provocado por um estado de necessidade do organismo que impulsiona ou ativa um comportamento. Na opinião de Hull, a redução ou a satisfação de um impulso era a única base para o reforço. A força do impulso pode ser determinada na prática pelo tempo de privação ou pela inten­sidade, força e gasto de energia do comportamento resultante. Ele considerava o tempo de privação uma medida imperfeita e colocava maior ênfase na intensidade da resposta. Hull postulou dois tipos de impulso. O primário, associado aos estados de necessidades biológicas inatas e vitais para a sobrevivência do organismo, entre as quais o alimento, a água, o ar, a temperatura, a defecação, a micção, o sono, a atividade, a relação sexual e o alívio da dor. Reconhecia, no entanto, outras forças, que não os impulsos primários, capazes de moti­var o organismo. Propôs, assim, os impulsos adquiridos ou secundários, relacionados com os estímulos situacionais ou ambientais associados à redução dos impulsos primários e que também podem se transformar em impulsos. Desse modo, o estímulo anteriormente neutro pode adquirir características de um impulso por ser capaz de provocar respostas semelhantes às instigadas pelo impulso primário ou pelo estado de necessidade original.

Um exemplo simples é queimar-se ao tocar um fogão quente. A dor da queimadura, provocada por um dano físico real nos tecidos do corpo, produz um impulso primário, ou seja, o desejo de alívio da dor. Outro estímulo ambiental associado com esse impulso pri­mário - como a visualização de um fogão - pode, no futuro, provocar o rápido afastamento da mão diante da percepção visual do estímulo. Desse modo, a visão do fogão torna-se um estímulo para o impulso adquirido de medo. Esse impulso adquirido ou secundário motivador do comportamento é resultante de um impulso primário.

A Aprendizagem

A teoria da aprendizagem de Hull concentra-se no princípio do reforço, o qual é essen­cialmente a lei do efeito de Thorndike. A lei do reforço primário de Hull estabelece que quando a relação estímulo-resposta é seguida de uma redução na necessidade, aumenta a probabilidade de ocorrência da mesma resposta nas apresentações subsequentes do mesmo estímulo. A recompensa e o reforço não são definidos em termos da noção de satisfação de Thorndike, mas em termos de redução da necessidade primária. Assim, o reforço primário (a redução de um impulso primário) é fundamental para a teoria de aprendizagem de Hull.

Uma vez que seu sistema contém o impulso adquirido ou secundário, ele também trata do reforço secundário. Se a intensidade do estímulo é reduzida em virtude de um impulso secundário, este atuará como reforço secundário.

Ocorre que qualquer estímulo coerentemente associado com uma situação de reforço adquire, mediante essa associação, o poder de provocar a inibição condicionada, ou seja, a redução na intensidade do estímulo e, assim, de si mesmo produzir o reforço resultante. Como essa força indireta de reforço é adquirida por meio de aprendizagem, denomina-se reforço secundário. (Hull, 1951, p. 27-28).

As relações estímulo-resposta são fortalecidas pelo número de reforços ocorridos. Hull chamava a força da conexão estímulo-resposta de força do hábito, e afirmava ser ela uma função do reforço referente à persistência do condicionamento.

A aprendizagem não ocorre na ausência do reforço necessário para provocar a redução do impulso. Essa ênfase no reforço caracteriza o sistema de Hull como a teoria da neces­sidade de redução, em oposição à teoria cognitiva de Tolman.

Comentários

Sendo um importante expoente do neobehaviorismo, Hull também era alvo dos mesmos ataques direcionados a Watson e a outros behavioristas. Os psicólogos contrários a qual­quer abordagem behaviorista da psicologia colocavam Hull no campo dos inimigos.

Uma falha observada no seu sistema era a falta de generalização. Na tentativa de defi­nir com precisão as variáveis, em termos quantitativos, Hull operava necessariamente em um plano limitado. Frequentemente formulava postulados a partir de resultados obtidos em um único experimento. Os opositores argumentavam ser imprudente a generalização a todo comportamento com base em demonstrações experimentais específicas, tais como “o intervalo mais favorável para o condicionamento do piscar dos olhos (Postulado 2)" ou "o peso em gramas necessário de comida para condicionar um rato (Postulado 7)" (apud Hilgard, 1956, p. 181). Embora a quantificação fosse louvável, a abordagem extrema de Hull reduzia a faixa de aplicabilidade das suas descobertas de pesquisa.

Mesmo assim, a influência de Hull na psicologia foi substancial. A quantidade abso­luta de pesquisas inspiradas por seu trabalho assim como o grande número de psicólogos influenciados por ele, garantem a sua importância na história da psicologia. Hull defen­deu, ampliou e explicou a abordagem behaviorista objetiva da psicologia como não o fez nenhum psicólogo. Um historiador declarou: "Não é comum o surgimento de um verda­deiro gênio teórico em qualquer área; dentre os poucos da psicologia assim considerados, Hull certamente se classificaria entre os principais" (Lowry, 1982, p. 211).

B. F. Skinner (1904-1990)

Durante décadas, B. F. Skinner foi o psicólogo mais influente do mundo. Quando morreu, em 1990, o editor da revista American Psychologist elogiou-o, dizendo que ele foi "um dos gigantes da nossa disciplina", alguém que "marcou a psicologia para sempre" (Fowler, 1990, p. 1.203). O obituário de Skinner, na publicação Journal of the History of the Behavioral Sciences, descreveu-o como a "principal figura da ciência do comportamento deste século" (Keller, 1991, p. 3).

Começando na década de 1950, Skinner foi a grande personificação da psicologia behaviorista estadunidense. Ele atraía enorme grupo de seguidores leais e entusiasmados. Desenvolveu um programa para o controle comportamental da sociedade, promoveu técnicas de modificação de comportamento e inventou um berço automático para emba­lar bebês. O seu romance, Walden two, ainda se mantém com grande popularidade após décadas de publicação. O livro Beyond freedom and dignity, lançado em 1971, foi um dos mais vendidos no país, proporcionando a Skinner a oportunidade de participar de muitos programas de entrevista na televisão. Tornou-se uma celebridade, tendo seu nome reco­nhecido tanto pelo público em geral como por outros psicólogos. Em 1972, o editorial da revista Psychology Today afirmou que "Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um professor de psicologia alcançou a celebridade comparável à dos astros de cinema e da televisão" (,apud Rutherford, 2000, p. 372).

A Biografia de Skinner

Skinner, nascido em Susquehanna, na Pensilvânia, cresceu em ambiente estável e de muito afeto. Frequentou a mesma pequena escola de ensino médio em que se formaram os seus pais; na cerimônia de formatura, havia apenas ele e mais sete outros colegas. Quando criança, gostava de construir vagões, jangadas, aeromodelos, chegando a montar uma espécie de canhão a vapor para atirar pedaços de cenoura e batata sobre o telhado. Passou anos tentando desenvolver uma máquina de movimento perpétuo. Gostava de ler sobre os animais e mantinha diversas espécies de tartarugas, cobras, lagartos, sapos e esquilos. Em uma feira local, viu alguns pombos realizando performances; e, anos mais tarde, treinou algumas dessas aves para realizar alguns truques.

O sistema de psicologia de Skinner reflete as próprias experiências de infância. De acordo com o seu ponto de vista, a vida é produto da história de reforços. Afirmava que sua vida foi predeterminada e organizada exatamente do modo que o seu sistema ditava como devia ser a vida de todo ser humano. Acreditava que as suas experiências estavam relacionadas exclusiva e diretamente aos estímulos do próprio ambiente.

Skinner matriculou-se na Hamilton College de Nova York, mas não se sentia feliz. Escreveu:

Nunca me adaptei à vida estudantil. Entrei para a fraternidade sem saber bem o que era. Não possuía habilidade nos esportes e sofria demais quando batia a minha canela durante um jogo de hóquei sobre o gelo ou quando no jogo de basquete usavam a minha cabeça como tabela para acertar na cesta. (...) Reclamava que a faculdade me exigia demais em requisitos inúteis (um deles era a oração diária na capela) e que ela quase não demonstra­va o interesse intelectual pela maioria dos alunos. (Skinner, 1967, p. 392)

Skinner preparava trotes que perturbavam a comunidade da faculdade e criticava abertamente os professores e a administração. Formou-se em Letras - Inglês, com distinção Phi Beta Kappa, e desejava tornar-se escritor. Em um seminário de redação de que participou no verão, o poeta Robert Frost elogiou seus poemas e contos. Por dois anos, depois de se formar, trabalhou escrevendo, mas chegou à conclusão de que não tinha nada a dizer. Deprimido pelo fiasco como escri­tor, pensou em consultar um psiquiatra. Considerava-se um fracasso, e a sua autoestima estava despedaçada. Além disso, estava desiludido no amor; mais ou menos meia dúzia de mulheres rejeitaram-no.

Leu sobre as experiências de condicionamento de Watson e Pavlov, os quais lhe des­pertaram um interesse mais científico que literário acerca da natureza humana. Em 1928, matriculou-se no curso de pós-graduação em psicologia na Harvard University, embora nunca houvesse frequentado qualquer curso da área. Obteve o Ph.D. em três anos, completou com bolsa de estudo o pós-doutorado e lecionou na University of Minnesota (1936-1945) e na Indiana University (1945-1947), retornando depois para Harvard.

O tópico da sua dissertação dá uma indicação da posição que adotaria por toda a car­reira. Propôs ser o reflexo simplesmente uma correlação entre um estímulo e uma resposta, nada mais. Destacava a utilidade do conceito de reflexo na descrição do comportamento e dava amplo crédito a Descartes.

O seu livro lançado em 1938, The behavior of organisms, descreve os pontos principais do seu sistema. A obra vendeu apenas 80 cópias em quatro anos, perfazendo um total de 500 cópias nos oito primeiros anos, e recebeu críticas muito negativas. Cinquenta anos depois, foi considerado "um dentre alguns livros que mudaram a face da psicologia moderna" (Thompson, 1988, p. 397). O que levou esse livro do fracasso inicial para o estrondoso sucesso foi a sua utilidade nas áreas aplicadas, como na psicologia educacio­nal e clínica. Essa ampla aplicação prática das ideias de Skinner era bastante adequada, já que ele estava profundamente interessado em resolver os problemas da vida real. Um trabalho posterior, Science and human behavior (1953), tornou-se o livro básico da psicolo­gia behaviorista de Skinner.

Skinner continuou produzindo até à morte, com 86 anos. No porão da sua casa, cons­truiu a própria "caixa de Skinner", um ambiente controlado para proporcionar reforço positivo. Dormia em um tanque de plástico amarelo suficientemente grande para colocar um colchão, algumas prateleiras de livros e um pequeno aparelho de televisão. Deitava-se às 10 horas, dormia três horas, trabalhava uma hora, dormia mais três horas e levanta-se às cinco da manhã para trabalhar mais três horas. Depois, seguia para o escritório para trabalhar mais e toda tarde aplicava-se um autorreforço ouvindo música.

Gostava de escrever e dizia que essa atividade proporcionava-lhe bastante reforço positivo. Com 78 anos, escreveu um trabalho intitulado “Intellectual self-management in old age ("Autogerenciamento intelectual na velhice"), descrevendo suas experiências como um estudo de caso (Skinner, 1983). Descreveu a necessidade de o cérebro trabalhar menos horas por dia, com períodos de descanso entre os esforços exaustivos, para lidar com a perda de memória e a redução da capacidade intelectual. Ficou feliz ao saber que fora citado na literatura psicológica mais vezes do que Sigmund Freud. Quando pergunta­do por um amigo se tinha atingido a meta como escritor, apenas comentou: "Pensei que conseguiria" (apud Bjork, 1993, p. 214).

Em 1989, Skinner foi diagnosticado com leucemia, tendo expectativa de dois meses de vida. Durante uma entrevista no rádio, descreveu como se sentia:

Não sou religioso, portanto não me preocupo com o que acontecerá comigo depois da morte. Quando soube da doença e que morreria em alguns meses, não senti nenhum tipo de emoção. Não entrei em pânico, nem senti medo ou ansiedade. (...) O único sentimento de comoção que realmente encheu os meus olhos de lágrimas eu tive quando pensei em como contaria à minha esposa e às minhas filhas. (...) A minha vida foi realmente muito boa. Seria muito tolo de minha parte queixar-me, de alguma forma, sobre essa situação. Então estou aproveitando esses últimos meses assim como fiz a minha vida inteira. (apud Catania, 1992, p. 1.527)

Oito dias antes de morrer, mesmo fraco, Skinner apresentou um trabalho na convenção da APA de 1990, em Boston. Atacou veementemente o crescimento da psicologia cogniti­va, que desafiava a sua forma de behaviorismo. Na tarde anterior à sua morte, trabalhava no seu último artigo, “Can psychology be a Science of mind?" ("A psicologia pode ser uma ciência da mente?") (Skinner, 1990), outra acusação contra o movimento cognitivo que ameaçava suplantar a sua visão de psicologia.

O Behaviorismo de Skinner

Em diversos aspectos, a posição de Skinner representa uma renovação do behaviorismo de Watson. Um historiador afirmou: "O espírito de Watson é indestrutível. Límpido e purificado, ele respira por meio dos trabalhos de B. F. Skinner" (MacLeod, 1959, p. 34). Embora Hull também fosse considerado um rigoroso behaviorista, há diferenças entre suas visões e as de Skinner. Enquanto Hull enfatizava a importância da teoria, Skinner defendia um sistema empírico sem estrutura teórica para a condução de uma pesquisa.

Skinner resumia sua visão da seguinte forma: "Nunca ataquei um problema construindo uma hipótese. Jamais deduzi teoremas, nem os submeti a verificação experimental. Até onde consigo enxergar, não tenho nenhum modelo preconcebido de comportamento e, certamente, nem fisiológico nem mentalista e, creio, nem conceitual" (Skinner, 1956, p. 227).

O behaviorismo de Skinner dedica-se ao estudo das respostas. Ele se preocupava em descrever e não em explicar o comportamento. A sua pesquisa tratava apenas do compor­tamento observável, e ele acreditava que a tarefa da investigação científica era estabelecer as relações funcionais entre as condições de estímulo controladas pelo pesquisador e as respostas subsequentes do organismo.

Skinner não se preocupava em especular sobre o que ocorria dentro do organismo. Seu programa não apresentava suposições a respeito das entidades internas, fossem as variá­veis intervenientes, os impulsos ou os processos fisiológicos. O que acontecia na relação entre estímulo e resposta não era o tipo de dado objetivo com o qual o behaviorista skinneriano lidava. Assim, o behaviorismo puramente descritivo de Skinner foi denominado adequadamente de abordagem do "organismo vazio". Nessa visão, o organismo humano seria controlado e operado pelas forças do ambiente, pelo mundo exterior, e não pelas forças internas. Skinner não duvidava da existência das condições mentais ou fisiológicas internas, apenas não aceitava a sua validade no estudo científico do comportamento. Um biógrafo reiterou que a posição de Skinner "não era uma negação dos eventos mentais, mas uma recusa em classificá-los como entidades explicativas" (Richelle, 1993, p. 10).

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Skinner não considerava necessá­rio usar grande quantidade de indivíduos nas experiências ou realizar comparações esta­tísticas entre as respostas médias dos grupos de pesquisados, o seu método consistia na investigação compreensiva de um único indivíduo.

Uma previsão do que o indivíduo médio realizará é, muitas vezes, de pouco ou nenhum valor ao lidar com um indivíduo em particular. (...) Uma ciência é válida ao lidar com um indivíduo somente se as leis forem referentes aos indivíduos. Uma ciência do com­portamento que considera apenas o comportamento coletivo não parece válida para compreender um caso particular. (Skinner, 1953, p. 19)

Em 1958, os behavioristas skinnerianos criaram a revista Journal of the Experimental Analysis of Behavior, principalmente como resposta às exigências para publicação, não mencionadas nas principais revistas de psicologia, a respeito da análise estatística e da dimensão da amostragem de indivíduos observados. A revista Journal of Applied Behavior Analysis foi lançada para promover a pesquisa sobre a modificação do comportamento, um produto aplicado da psicologia de Skinner.

No trecho a seguir da obra Science and human behavior, Skinner descreve como o tra­balho de Descartes e as figuras mecânicas da Europa do século XVII (veja no Capítulo 2) influenciaram a sua abordagem de psicologia. Esse é um bom exemplo do uso da história, ou seja, de um psicólogo do século XX que se baseou em um trabalho realizado 300 anos antes. O texto também demonstra a evolução contínua das máquinas, tornando-se cada vez mais próximas da vida real.


Texto Original

Trecho Extraído de Science and Human Behavior (1953), de B. F. Skinner

O comportamento é uma característica primária das espécies vivas. Quase o identificamos com a própria vida. Qualquer objeto que se mova é praticamente chamado de ser vivo, princi­palmente quando o movimento é dotado de direção ou atua mudando o ambiente. O movi­mento acrescenta verossimilhança a qualquer modelo de organismo. A marionete adquire vida quando é movida, e os ídolos que se requebram ou exalam fumaça de cigarro são alvos de grande admiração. Robôs e criaturas mecânicas nos divertem apenas por se moverem. E há um significado na etimologia do termo desenho animado.

As máquinas parecem ter vida apenas porque estão em movimento. O fascínio da pá a vapor para neve é lendário. As máquinas menos conhecidas talvez possam realmente ser temi­das. Hoje, percebemos que somente as pessoas mais simples confundem-nas com as criaturas vivas; no entanto, em algum momento, todos as desconheciam. Um dia, quando [os poetas do século XIX William] Wordsworth e [Samuel Taylor] Coleridge passaram pela locomotiva a vapor, Wordsworth observou que era praticamente impossível apagar a impressão de vida e vontade que ela transmitia. "Sim", afirmou, "é um gigante dotado de pensamento".

Um brinquedo mecânico que imitava o comportamento humano conduziu à teoria da chamada ação reflexa. Na primeira parte do século XVII, certas figuras movidas por força hidráulica foram instaladas nos jardins públicos e particulares como objetos de diversão. Uma jovem passeando pelo jardim pisava sem querer em uma pequena plataforma escondida. Assim, uma válvula se abria, a água fluía para um pistão, e uma figura assustadora saltava por entre os galhos das árvores, assustando-a. René Descartes sabia como essas figuras funciona­vam e também o quanto elas se pareciam com as criaturas vivas. Pensava na possibilidade de aplicar a explicação do sistema hidráulico das figuras mecânicas também nas criaturas vivas. O músculo que se dilata quando move um membro talvez seja inflado por um fluido vindo pelos nervos cerebrais. Os nervos que se estendem da superfície do corpo até o cérebro talvez sejam os fios que abrem as válvulas.

Descartes não afirmava que o organismo humano sempre operava dessa forma. Aceitava essa explicação no caso dos animais e reservava uma esfera de ação para a "alma racional", talvez por causa da pressão religiosa. Todavia, não levou muito tempo para que um passo adiante produzisse a doutrina totalmente amadurecida do "homem como máquina". A dou­trina não deveu sua popularidade à plausibilidade - não havia provas confiáveis para a teoria de Descartes -, mas às chocantes implicações teóricas e metafísicas.

Desde aquela época, dois fatos se destacam: as máquinas parecem cada vez mais dotadas de vida, e os organismos vivos estão cada vez mais parecidos com as máquinas. As máquinas contem­porâneas não são apenas mais complexas: elas são propositadamente projetadas para operarem de forma a imitar o comportamento humano. As maquinações "quase humanas" fazem parte da experiência cotidiana. As portas nos veem chegando e se abrem para nos receber. Os elevadores memorizam os comandos e param no andar correto. As mãos mecânicas retiram os itens defei­tuosos da linha de produção. Outras escrevem mensagens até certo grau legíveis. As calculadoras mecânicas ou elétricas resolvem as equações mais difíceis ou as que tomam muito tempo dos matemáticos. O homem criou, assim, a máquina à sua imagem e semelhança —consequentemente, o organismo vivo perdeu uma parte da sua exclusividade. Ficamos menos espantados com as máquinas do que nossos ancestrais e menos propensos a dotar a máquina com autonomia de pensamento. Ao mesmo tempo, descobrimos mais a respeito do funcionamento do organismo vivo e estamos mais aptos a enxergar nele propriedades semelhantes às das máquinas


O Condicionamento Operante

Várias gerações de estudantes de psicologia estudaram os experimentos de Skinner sobre condicionamento operante e como diferem do comportamento respondente investigado por Pavlov. Na situação de condicionamento pavloviano, um estímulo conhecido é pareado com outro estímulo sob condições de reforço. A resposta comportamental é eliciada por um estímulo observável e Skinner chamou-a de comportamento respondente.

O comportamento operante ocorre sem qualquer estímulo antecedente externo observá­vel. A resposta do organismo parece ser espontânea, ou seja, não relacionada com qualquer estímulo observável conhecido. Isso não significa que não haja um estímulo que elicite a resposta, mas que ele não é detectado quando ocorre a resposta. No entanto, na visão do observador, não existe estímulo porque ele não o aplicou e não consegue vê-lo.

Outra diferença entre o comportamento respondente e o operante é que este opera no ambiente do organismo, enquanto o outro, não. O cão treinado do laboratório de Pavlov não fazia outra coisa senão reagir (nesse caso, salivar) quando o pesquisador apre­sentava-lhe o estímulo (a comida). O cão não era capaz de atuar por si só para assegurar o estímulo. No entanto, o comportamento operante do rato na caixa de Skinner é ins­trumental em assegurar o estímulo (a comida). Quando o rato pressiona a barra, recebe comida, e somente a recebe se pressionar a barra, portanto ele opera sobre o ambiente.

Skinner acreditava no comportamento operante como o melhor representante da situa­ção típica de aprendizagem. Na maioria das vezes, o comportamento é do tipo operante, por isso, a melhor abordagem científica para seu estudo são os processos de condiciona­mento e extinção.
A demonstração da clássica experiência da caixa de Skinner envolvia o ato de pressio­nar a barra, que fora construída de modo que controlasse as variáveis externas. Colocava-se um rato privado de comida dentro da caixa, ficando livre para explorar o ambiente. No curso dessa exploração, o rato pressionava uma alavanca ou uma barra, ativando um meca­nismo que liberava uma bolinha de ração em uma bandeja. Depois de conseguir algumas bolinhas (os reforços), o condicionamento geralmente se estabelecia com rapidez. Observe que o comportamento do rato (pressionando a alavanca) atuou sobre o ambiente e assim serviu como instrumento para a obtenção do alimento. A variável dependente é simples e direta: a taxa de respostas.

Com base nessa experiência básica, Skinner derivou sua lei da aquisição, que afirma que a força de um comportamento operante aumenta quando ele é seguido pela apresenta­ção de um estímulo reforçador. Embora a prática seja importante para se estabelecer uma alta taxa de pressão à barra, a variável-chave é o reforço. A prática em si não aumenta a taxa de respostas; ela apenas proporciona a oportunidade de ocorrência do reforço adicional.

A lei da aquisição de Skinner é diferente das visões de Thorndike e Hull sobre a aprendizagem. Skinner não lidava com as consequências do reforço, como as sensações de prazer/dor ou satisfação/insatisfação, como fazia Thorndike, nem tentava interpretar o reforço com base na redução dos impulsos, como Hull. Enquanto os sistemas de Thorndike e Hull eram explicativos, o de Skinner era descritivo.

Esquemas de Reforço

A pesquisa inicial com o rato pressionando a barra da caixa de Skinner demonstrou o papel do reforço no comportamento operante. O comportamento do rato era reforçado cada vez que ele pressionava a barra. Em outras palavras, o rato recebia alimento sempre que executava a resposta correta. No mundo real, no entanto, o reforço nem sempre é assim consistente ou contínuo, muito embora a aprendizagem ocorra e o comportamento persista, mesmo quando o reforço seja intermitente. Skinner afirmou:

Nem sempre encontramos uma boa camada de gelo ou uma boa neve quando vamos pati­nar ou esquiar. (...) Nem sempre temos uma ótima refeição nos restaurantes, porque os cozinheiros não são muito previsíveis. Nem sempre que telefonamos a um amigo consegui­mos falar com ele, porque nem sempre ele está em casa. (...) Os reforços característicos do trabalho e do estudo são quase sempre intermitentes porque não é viável controlar o comportamento reforçando toda resposta. (Skinner, 1953, p. 99)

Pense na sua experiência. Mesmo que você estude sem parar, não conseguirá obter a nota máxima em todas as provas. No emprego, mesmo que trabalhe com a máxima eficiência, nem sempre você recebe elogios ou aumentos salariais. Assim, Skinner dese­java saber de que forma o reforço variável influenciava o comportamento. Será que um esquema de reforço ou um determinado padrão é melhor que outro para determinar as respostas do organismo?

A motivação para a realização da pesquisa não surgiu da curiosidade intelectual mas da conveniência, o que mostra que a ciência às vezes funciona diferentemente da imagem idealizada descrita em muitos livros. Em um sábado à tarde, Skinner percebeu que as bolinhas de ração do rato estavam acabando. Naquela época, ou seja, na década de 1930, a ração animal não era adquirida pronta nas lojas de animais ou diretamente dos fabricantes. O pesquisador (ou o aluno de pós-graduação) tinha de prepará-las manual­mente, um processo trabalhoso que consumia muito tempo. Em vez de passar o fim de semana preparando as bolinhas, Skinner perguntou-se o que aconteceria se reforçasse os ratos apenas uma vez a cada minuto, independentemente do número de respostas que apresentassem. Desse modo, gastaria muito menos ração naquele fim de semana. Elabo­rou, assim, uma série de experiências para testar diferentes taxas e intervalos de reforço (Ferster e Skinner, 1957; Skinner, 1969).

Em uma série de estudos, comparou as taxas de resposta dos animais que recebiam um reforço por resposta sendo apresentado após um intervalo específico. A segunda condição era um programa de reforço com intervalo fixo. O novo reforço era dado uma vez a cada minuto ou uma vez a cada quatro minutos. O aspecto importante era a apresentação do reforço ao animal depois de um período fixo. Um emprego com sistema de pagamento semanal ou mensal proporciona o reforço em um intervalo fixo. A remuneração dos fun­cionários não é baseada no número de peças produzidas (o número de respostas), mas nos dias trabalhados. A pesquisa de Skinner demonstrou que, quanto menor o intervalo entre os reforços, mais rápida a resposta do animal. Quando o intervalo aumentava, a taxa de respostas diminuía.

A frequência dos reforços também contribui para a extinção de uma resposta. Elimi­na-se um comportamento com mais rapidez quando o reforço é contínuo e interrompido de repente, do que quando é intermitente. Alguns pombos apresentaram respostas até 10 mil vezes, mesmo sem reforço, quando foram originalmente condicionados com reforços intermitentes.

Em um esquema de razão fixa, o reforço não é apresentado depois de certo intervalo, mas depois de um número predeterminado de respostas. O comportamento do animal é que determina a frequência com que receberá o reforço. Talvez seja necessário respon­der 10 ou 20 vezes depois do reforço inicial antes de receber outro. Os animais em um esquema de razão fixa respondem com muito mais rapidez que os de intervalo fixo. Responder rapidamente em um esquema de intervalo fixo não proporciona nenhum reforço adicional; nesse esquema, mesmo que o animal pressione a barra 5 ou 50 vezes, receberá o reforço somente depois de passado o intervalo estabelecido. A alta taxa de resposta em um esquema de razão fixa funciona com ratos, pombos e seres humanos. Em um progra­ma salarial de razão fixa aplicado no ambiente de trabalho, o pagamento ou a comissão do empregado depende do número de itens produzidos ou vendidos. Esse esquema de reforço é válido somente se a razão não for elevada demais, ou seja, se foi requerida uma carga de trabalho exequível para se receber uma unidade de pagamento, e se o reforço específico recompensar o esforço.

Aproximação Sucessiva: a Formação do Comportamento

No experimento original de Skinner do condicionamento operante, esse (apertar uma alavanca) era um comportamento simples, esperado de um rato de laboratório, que po­deria possivelmente exibir ao explorar seu ambiente. Assim, a possibilidade de que tal comportamento ocorrerá é grande, supondo-se que o experimentador tenha paciência suficiente. Entretanto, é óbvio que os animais e humanos demonstrem comportamentos operantes muito mais complexos com pequena probabilidade de ocorrência no curso normal dos eventos. Lembre-se da sequência complicada de comportamentos exibida por Priscilla, o Porco Metálico, ou os surpreendentes feitos da Ave Inteligente que estavam sendo exibidos no Zoológico do QI. Como esses comportamentos complexos são aprendi­dos? Como pode um treinador ou um experimentador ou um pai reforçar e condicionar um animal ou uma criança a desempenhar comportamentos que provavelmente não ocorrem espontaneamente?

Skinner respondeu a essas perguntas com o método de aproximação sucessiva, ou modelagem (Skinner, 1953). Ele treinou uma pomba em um período muito curto a bicar um determinado lugar na sua gaiola. A probabilidade de que a pomba bicasse aquele lu­gar preciso era baixa. Primeiro a pomba foi reforçada com comida quando simplesmente se virava para a direção do lugar designado. Em seguida, o reforço foi retirado até que a pomba fizesse qualquer movimento, mesmo mínimo, em direção àquele local. Depois, o reforço era dado somente quando a pomba se aproximasse de lá. E, finalmente, reforço era dado somente quando seu bico tocasse o local. Embora isso tudo pareça tomar bastante tempo, Skinner condicionou pombos em menos de três minutos.

O procedimento experimental em si explica o termo "aproximação sucessiva". O organismo é reforçado à medida que seu comportamento ocorra em fases sucessivas ou consecutivas para se aproximar do comportamento final desejado. Skinner propôs a ideia de que é assim que as crianças aprendem o complexo comportamento da fala. Crianças pequenas espontaneamente emitem sons sem sentido, o que é reforçado pelos pais com sorrisos, risadas e conversas. Depois de um tempo os pais recompensam esses balbucios infantis de modos diferentes, oferecendo recompensas mais fortes para aqueles sons que se aproximam de palavras. À medida que o processo continua, o reforço paterno torna-se mais restrito, dado somente quando usado e pronunciado adequadamente. Assim, o com­ portamento complexo de se adquirir habilidades de linguagem é moldado ao se oferecer reforço diferenciado por fases.

Os Aparelhos de Condicionamento Operante de Skinner

Os aparelhos condicionantes de Skinner trouxeram-lhe fama entre os psicólogos, mas foi o "berço automático", aparelho para automatizar as tarefas de cuidar dos bebês, que lhe rendeu a notoriedade pública (Benjamin e Nielsen-Gammon, 1999). Quando Skinner e a esposa resolveram ter um segundo filho, ela disse que os dois primeiros anos do bebê requeriam muito trabalho; assim, Skinner inventou um ambiente mecanizado para ali­viar as tarefas rotineiras dos pais. Embora fosse comercialmente, o berço automático não obteve êxito. A filha de Skinner, criada nesse berço, aparentemente não apresentou efeitos negativos da experiência.

Skinner descreveu o aparelho pela primeira vez na revista Ladies Home Journal em 1945 e, mais tarde, na autobiografia. Era um espaço para viver do tamanho de um berço ao qual chamamos de "bebê-conforto". As paredes eram à prova de som e havia uma grande janela pintada. O ar entrava por filtros instalados na base e, depois de aquecido e umidificado, circulava por todos os lados e todas as bordas de uma lona bem esticada que servia de colchão. Uma espécie de tira de lençol com cerca de nove metros de comprimento passava sobre a lona, e uma parte limpa sua podia ser encaixada no lugar em alguns segundos. (Skinner, 1979, p. 275)

Outro equipamento apresentado por Skinner foi a máquina de ensinar, inventada na década de 1920 por Sidney Pressey. Infelizmente para ele, o aparelho era moderno demais para a sua época, e não houve interesse em continuar a sua comercialização (Pressey, 19671. Talvez as forças contextuais tenham sido responsáveis tanto pela falta de interesse, na épo­ca, como pelo ressurgimento entusiástico do mecanismo, mais ou menos 30 anos depois (Benjamin, 1988). Pressey introduziu a máquina, prometendo que ela ensinaria os alunos em um ritmo mais rápido, exigindo, assim, menos professores nas salas de aula. Na época, no entanto, havia excesso de professores e não existia pressão pública para a melhoria do processo de aprendizagem. Na década de 1950, quando Skinner promoveu um equipamento semelhante, havia falta de professores, excesso de estudantes e pressão pública para a melho­ria da educação, para que os Estados Unidos pudessem competir com a União Soviética na corrida espacial. Skinner resumiu o seu trabalho nessa área no livro The technology of teaching (1968). As máquinas de ensinar foram amplamente empregadas nas décadas de 1950 e 1960, até serem substituídas pelos métodos de ensino por computador.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Skinner, juntamente com as irmãs Breland, de­senvolveu um sistema de orientação para guiar as bombas lançadas dos aviões de guerra sobre alvos específicos em terra. Na ponta dos mísseis, ficavam pombos condicionados a dar bicadas ao avistarem o alvo. As bicadas afetavam o ângulo das alhetas dos mísseis, permitindo, assim, mirar corretamente o alvo. No entanto, o exército estadunidense pareceu não se impressionar quando abriram as alhetas dos mísseis e viram três pombos ao invés do sofisticado instrumento eletrônico que esperavam. Eles recusaram incorporar pombos ao arsenal de artilharia (Skinner, 1960).

Nas décadas de 1960 e 1970, Keller e Marian Breland trabalharam para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Elas 

condicionaram arenques e gaivotas a pesquisarem áreas a uma distância de 360 graus sobre lagos e oceanos, ensinaram pombos a voar ao longo de uma estrada para encontrar atiradores e condicionaram corvos a desempenharem tarefas complexas de longa distância, como fotografar, segurando pequenas câmeras nos seus bicos. Era impressionante que embora tivessem a chance de escapar do cativeiro, esses animais constantemente voltavam depois de desempenharem suas tarefas. (Gillaspy e Bihm, 2002, p. 293)

Walden Two - uma Sociedade do Futuro

Skinner planejou minuciosamente uma tecnologia do comportamento, na tentativa de aplicar as descobertas feitas no laboratório à sociedade. Enquanto Watson falava, em geral sobre a construção de uma base para uma vida mais saudável por meio do condicionamento, Skinner descrevia em detalhes o funcionamento dessa sociedade. No seu romance, Walden two (1948), descreve a vida de uma comunidade rural de mil habitantes, cujo comporta­mento é controlado por reforços positivos. O livro resultou da crise pessoal de meia-idade de Skinner, depressão que sofrera aos 41 anos. A fim de sair da crise, retomou a sua iden­tidade pós-universitária de escritor, expressando os conflitos e desesperos por meio da personagem principal da história, T. E. Frazier. Skinner afirmou: "Grande parte da vida em Walden two retratava a minha vida daquela época. Deixei Frazier dizer coisas que eu mesmo ainda não estava preparado para contar a ninguém" (1979, p. 297-298).

Skinner retratou no romance uma sociedade com base nas suposições a respeito da semelhança entre o homem e a máquina. Essa ideia reflete a linha de pensamento traçada desde Galileu e Newton, passando pelos empiristas britânicos até chegar a Watson e Skin­ner. A visão da ciência natural determinista, analítica e mecanicista de Skinner, reforçada pelos resultados de seus experimentos sobre condicionamento, convenceu vários psicólogos behavioristas de que o comportamento humano pode ser guiado, modificado e modelado com o conhecimento das condições ambientais e a aplicação do reforço positivo.

Modificação de Comportamento

A sociedade de Skinner baseada no reforço positivo existe apenas na ficção. No entanto, o controle ou a modificação do comportamento humano, de forma individual ou em pequenos grupos, são amplamente aceitos. A modificação de comportamento mediante - reforço positivo é aplicada clinicamente com frequência em hospitais de saúde mental, fabricas, prisões e escolas para alterar os comportamentos indesejáveis, transformando-os em mais aceitáveis. A modificação de comportamento funciona com as pessoas da mesma forma que o condicionamento operante o faz para alterar o comportamento de ratos e pombos, ou seja, reforçando o comportamento desejado e não reforçando o indesejado.

Pense em uma criança que vive fazendo cenas para obter comida ou chamar a atenção. Quando os pais acabam cedendo, estão reforçando o comportamento inadequado. Na situação de modificação de comportamento, chutes ou gritos jamais devem ser reforçados, somente os comportamentos aceitáveis socialmente o devem ser. Depois de algum tempo, o comportamento da criança acaba mudando, porque os ataques de teimosia não surtem mais efeito na obtenção de recompensas, enquanto o comportamento adequado é recompensado.

O condicionamento operante e o reforço vêm sendo aplicados em ambientes de trabalho, em que os programas de modificação de comportamento visam reduzir as faltas, melhorar o desempenho do trabalho e as práticas de segurança, além de aperfeiçoamento de habilidades na função. A modificação de comportamento também serve para alterar o comportamento dos pacientes em hospitais de saúde mental. Pode-se induzir a modificação para um comportamento positivo, recompensando o paciente com fichas que podem se trocadas por mercadorias ou privilégios, e não reforçando o comportamento negativo ou agressivo. Ao contrário das técnicas clínicas tradicionais, o psicólogo behaviorista, nessa situação, não se preocupa em saber o que se passa na mente do paciente, assim como o experimentador não se importa com as atividades mentais do rato na caixa de Skinner. O enfoque concentra-se exclusivamente no comportamento aberto e no reforço positivo.

As pesquisas têm mostrado que os programas de modificação de comportamento normalmente têm êxito somente dentro das organizações ou instituições em que são apli­cados. Os efeitos raramente são transferidos para situações externas porque o programa de reforço teria de ser continuado, mesmo de modo intermitente, para que as mudança desejadas persistissem. No caso de pacientes, por exemplo, isso pode ser feito em casa com acompanhantes treinados para reforçar o comportamento desejável com sorrisos, elogios ou outros sinais de afeto e aprovação.
A punição não faz parte do programa de modificação de comportamento. De acordo com Skinner, as pessoas não devem ser punidas por não se comportarem da forma dese­jada. Ao contrário, devem ser reforçadas ou recompensadas quando mudarem o compor­tamento na direção positiva. A posição de Skinner de que o reforço positivo é mais eficaz do que a punição para alterar o comportamento é comprovada por várias pesquisas com animais e seres humanos.

As Críticas ao Behaviorismo de Skinner

As críticas ao behaviorismo de Skinner tinham como alvo o seu extremo positivismo e a oposição à teoria, a qual seus oponentes alegavam ser impossível eliminar completamen­te. O planejamento prévio dos detalhes de um experimento é uma evidência da teoriza­ção, mesmo sendo uma teoria simples. Além disso, a aplicação dos princípios básicos de condicionamento como quadro de referência para a sua pesquisa também constitui um grau de teorização.

Skinner emitia afirmações ousadas a respeito das questões econômicas, sociais, polí­ticas e religiosas derivadas do seu sistema. Em 1986, escreveu um artigo com título bem abrangente "What is wrong with life in the western world?" (“O que há de errado com a vida no mundo ocidental?"). Afirmava que o "comportamento humano ocidental se enfraquecera, mas pode ser fortalecido com a aplicação dos princípios derivados da análi­se experimental do comportamento" (Skinner, 1986, p. 568). Essa disposição de extrapo­lar os dados, especialmente para propor soluções aos problemas humanos complexos, é inconsistente com a posição antiteórica e mostra que Skinner rompeu os limites dos dados observáveis ao apresentar seu esquema de reestruturação da sociedade.

A afirmação de Skinner de que todo comportamento é aprendido foi rebatida pelo trabalho de treinamento animal dos Brelands. Eles constataram que o porco, a galinha, o hamster, o boto, a baleia, a vaca e outros animais demonstraram uma propensão à 'transferência instintiva", ou seja, que tendiam a substituir o comportamento instintivo pelo comportamento reforçado, mesmo que o comportamento instintivo interferisse na
obtenção de comida.

Utilizando a comida como reforço, o porco e o guaxinim rapidamente se condiciona­vam a apanhar uma moeda, carregá-la por uma certa distância e colocá-la em um banco de brinquedo. Depois de certo tempo, no entanto, os animais começavam a apresentar comportamentos indesejados.

O porco parava pelo caminho, enterrava a moeda na areia e a retirava com o focinho; o guaxinim ficava bastante tempo mexendo na moeda e fazendo movimentos como se estivesse se lavando. No começo, pareceu interessante, mas acabava consumindo tempo demais e fazia o show parecer cheio de falhas para o espectador. Comercialmente, foi desastroso. (Richelle, 1993, p. 68)

O que estava acontecendo era uma transferência instintiva. O animal revertia o com­portamento inato que tinha precedência sobre o comportamento aprendido, mesmo que atrapalhasse na obtenção do alimento. Nesse caso, o reforço evidentemente não era tão eficaz quanto afirmava Skinner.

As visões de Skinner sobre o comportamento verbal e a explicação sobre como a criança aprendia a falar também foram contestadas. Os críticos insistiam em afirmar que alguns comportamentos seriam inatos. Os bebês não aprendem a língua, palavra por palavra, porque recebem reforço por seu uso ou sua pronúncia corretos. Ao contrário, eles dominam as regras gramaticais necessárias para produzir frases. O potencial para cons­truir essas regras, de acordo com essa argumentação, é inato e não adquirido (Chomsky, 1959, 1972).

As Contribuições do Behaviorismo de Skinner

Apesar dessas críticas, Skinner foi o campeão inconteste da psicologia behaviorista entre as décadas de 1950 e 1980. Durante esse período, a psicologia estadunidense foi moldada muito mais pelo seu trabalho do que pelas ideias de qualquer outro psicólogo. Em 1958, a APA outorgou a Skinner o Distinguished Scientific Contribution Award [Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica], observando que "poucos psicólogos estadunidenses exerceram tamanho impacto no desenvolvimento da psicologia e nos jovens promissores psicólogos".

Em 1968, Skinner recebeu a National Medal of Science [Medalha Nacional da Ciên­cia] , a mais alta honraria concedida pelo governo estadunidense, por causa das contribuições à ciência. A American Psychological Foundation [Fundação Americana de Psicologia] concedeu a Skinner o Gold Medal Award [Prêmio da Medalha de Ouro], e ele foi capa da revista Time. Em 1990, foi homenageado com a citação presidencial da APA por uma vida de contribuições à psicologia.

O objetivo geral de Skinner era a melhoria da vida humana e da sociedade. Apesar da natureza mecanicista do seu sistema, ele era humanista, qualidade expressa nos seus esforços para modificar o comportamento nos ambientes do mundo real - como nos lares, escolas, empresas e instituições. Esperava que a sua tecnologia do comportamento ajudasse a aliviar o sofrimento humano e sentia-se muito frustrado ao ver que as suas ideias, embo­ra populares e influentes, não eram aplicadas de forma mais sábia e mais ampla.

Embora o tipo de behaviorismo de Skinner continue a ser aplicado em laboratórios, clínicas, empresas e outros ambientes do mundo real, foi contestado pelo trabalho do neo-neobehavioristas, incluindo Albert Bandura e Julian Rotter, entre outros, que adotam uma abordagem mais sociobehaviorista.

Behaviorismo Social: o Desafio Cognitivo

Bandura, Rotter e outros seguidores da abordagem sociobehaviorista eram, em princípio, behavioristas, mas adotavam uma forma de behaviorismo bem distinta da de Skinner. Eles questionavam a sua total negação aos processos mentais ou cognitivos e propunham em seu lugar uma aprendizagem social ou uma abordagem sociobehaviorista, uma reflexão sobre um movimento cognitivo mais amplo na psicologia como um todo. As teorias de aprendizagem social marcam o terceiro estágio (o estágio neo-neobehaviorista) no desen­ volvimento da escola de pensamento behaviorista. A origem e o impacto do movimento cognitivo serão abordados integralmente no Capítulo 15. 

Albert Bandura (1925-)

Albert Bandura nasceu no Canadá, em uma cidade tão pequena que a escola secundária tiha somente 20 alunos e 2 professores. Seus pais eram imigrantes da Europa Oriental, com pouca educaçao formal, mas que a valorizaram muito para seu filho. Depois de terminar o colegial, Albert trabalhou na construção civil no território Yukon, tapando buracos em uma estrada do Alasca. "Vendo-se no meio de diversas personalidades curiosas, muitas das quais fugindo dos credores, de pensões e de funcionários da justiça, [Bandura] desenvolveu rapidamente uma profunda admiração pela psicopatologia da vida cotidiana, que parecia brotar da rigorosa tundra" (Distinguished Scientific Contribution Award, 1981, p 28)

Bandura se matriculou na University of British Columbia, em Vancouver, onde fez um curso de psicologia, mas só porque estava sendo oferecido em um horário conveniente e não porque tivesse qualquer interesse no assunto. No entanto, verificou que gostava da área e decidiu continuar nela. Obteve o diploma de Ph.D. pela University of Iowa em 1952 e daí para a frente teve uma carreira brilhante e altamente produtiva em Stanford University.

A Teoria Social Cognitiva

A teoria social cognitiva de Bandura é uma forma de behaviorismo menos radical que a de Skinner e reflete o espírito dos tempos, o impacto do renovado interesse da psicologia nos fatores cognitivos. Mesmo assim, a visão de Bandura ainda era behaviorista. Sua pes­quisa tmha como meta observar o comportamento dos indivíduos durante a interação não usava a introspecção nem enfatizava a importância da recompensa ou do reforço na aquisição ou modificação do comportamento.

Além de ser uma teoria behaviorista, o sistema de Bandura era cognitivo. Ele enfa­tizava a influência dos esquemas de reforço externo dos processos de pensamento, tais como crenças, expectativas e instrução. Para Bandura, respostas comportamentais não são disparadas automaticamente por um estímulo externo, como em uma máquina ou em um robô. Ao contrário, as reações aos estímulos são autoativadas, iniciadas pela pró­pria pessoa. Quando um reforço externo altera o comportamento, é porque a pessoa tem consciência da resposta que está sendo reforçada e antecipa a recepção do mesmo reforço ao repetir o comportamento da próxima vez em que a situação ocorrer.

Embora Bandura concordasse com Skinner a respeito da possibilidade de mudar o compor­tamento humano por meio do reforço, também sugeriu e demonstrou, na prática, a capacidade de as pessoas aprenderem quase todos os tipos de comportamento sem receberem diretamente qualquer reforço. Para ele, não é necessário receber sempre um reforço para se aprender algo. A aprendizagem também ocorre por meio do reforço vicário, ou seja, mediante a observação tanto do comportamento das outras pessoas como das suas consequências. 

A capacidade de aprender por meio de exemplos e de reforço vicário parte do prin­cípio de que somos capazes de antecipar e avaliar as consequências que observamos nas outras pessoas, mesmo não passando pela mesma experiência. É possível controlar o pró­prio comportamento, observando as consequências, ainda que não experimentadas, de determinado comportamento e fazendo uma opção consciente de agir ou não da mesma forma. Bandura acredita não existir uma ligação direta entre estímulo e resposta, ou entre comportamento e reforço, como afirmava Skinner. Para ele, há um mecanismo interposto entre o estímulo e a resposta, que nada mais é do que o processo cognitivo do indivíduo.

Desse modo, o processo cognitivo exerceu um papel importante na teoria social cog­nitiva de Bandura, diferenciando a sua visão da de Skinner. Na opinião de Bandura, não é o esquema de reforço em si que produz efeito na mudança do comportamento de uma pessoa, mas o que ela pensa desse esquema. A aprendizagem ocorre não pelo reforço dire­to, mas por meio de "modelos", observando o comportamento de outras pessoas e nele fundamentando os próprios padrões. Para Skinner, o controlador do reforço regula o com­portamento. Para Bandura, o controlador do modelo social regula o comportamento.

Bandura conduziu pesquisas completas sobre as características dos modelos que influenciam o comportamento humano. A tendência do indivíduo é modelar o próprio compor­tamento com base nas pessoas do mesmo sexo e idade, ou seja, nos nossos semelhantes que conseguiram resolver os problemas similares aos nossos. Há uma propensão também de se deixar impressionar por modelos de prestígio e status superiores ao nosso. O tipo de comportamento envolvido afeta a amplitude da imitação. A tendência é de imitar mais os comportamentos simples do que os extremamente complexos. A hostilidade e a agressividade tendem a ser muito imitadas, principalmente pelas crianças (Bandura, 1986). Assim, o que se vê na vida real ou na mídia, muitas vezes, determina o nosso comportamento.

A abordagem de Bandura consiste em uma teoria de aprendizagem "social", porque estuda iformação e a modificação do comportamento nas situações sociais. Bandura criticou Skinner por usar apenas um único sujeito na observação (na maioria das vezes, ratos e pombos) em vez de pessoas interagindo umas com as outras. Poucas pessoas vivem isoladas socialmente. Bandura afirmava que os psicólogos não devem considerar relevantes para o mundo moderno as descobertas de pesquisas que ignorem as interações sociais.

A Autoeficácia

Bandura realizou muitas pesquisas sobre a autoeficácia, descrita como o senso de autoestima ou valor próprio, o sentimento de adequação, eficácia e competência para enfrentar os problemas (Bandura, 1982). Seu trabalho demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia acreditam ser capazes de lidar com os diversos acontecimentos da vida. Um pesquisador a descreveu simplesmente como "o poder de acreditar que se consegue fazer coisas", acrescentando que "acreditar que consegue realizar o que quer é um dos ingredientes mais importantes na receita para o sucesso" (Maddux, 2002, p. 277).

As pessoas com baixo grau de autoeficácia sentem-se inúteis, sem esperança, acredi­tam que não conseguem lidar com as situações que enfrentam e que têm poucas chances de mudá-las. Diante de um problema, tendem a desistir na primeira tentativa frustrada. Não acreditam que a sua atitude faça alguma diferença nem que controlam e podem mudar o próprio destino.

A pesquisa de Bandura mostrou que a crença no nível de autoeficácia influencia vários aspectos da vida. Por exemplo, pessoas com elevado grau de autoeficácia tendem a obter notas altas, a analisar mais opções de carreira, a obter maior sucesso profissional, a esta­belecer metas pessoais mais altas e a apreciar mais a saúde mental e física do que as com baixa autoeficácia. No geral, constatou-se que o homem tem a autoeficácia mais elevada do que a mulher. Tanto no homem como na mulher, o pico da autoeficácia ocorre na meia-idade e diminui depois dos 60 anos.
Parece óbvio que o alto grau de autoeficácia produz efeitos positivos em praticamen­te todos os aspectos da vida. O estudo demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia sentem-se melhor e mais saudáveis, menos estressadas, suportam mais a dor física e tendem a recuperar-se mais rapidamente de uma doença ou de uma cirurgia do que as de baixa autoeficácia. Esta afeta também o desempenho escolar e profissional. Por exemplo, constatou-se que empregados com elevado grau de autoeficácia sentem-se mais realizados profissionalmente, são mais comprometidos com a empresa e mais motivados para realizar bem as tarefas e os programas de treinamento do que os funcionários de baixa autoeficácia (Salas e Cannon-Bowers, 2001).

Bandura descobriu também que os grupos desenvolvem níveis coletivos de eficácia que influenciam no desempenho de diversas tarefas. A pesquisa com grupos como equi­pes de esportes, departamentos corporativos, unidades militares, comunidades de bairro e grupos de ação política mostrou que "quanto mais intensamente percebida a eficácia coletiva, mais elevadas são as aspirações do grupo e maior é a motivação para as realizações; quanto mais intensa a persistência diante de impedimentos e obstáculos mais ele­vados são o moral e a capacidade de recuperação diante do estresse, e maior a realização de proezas" (Bandura, 2001, p. 14).

A Modificação de Comportamento

A proposta de Bandura para o desenvolvimento de uma abordagem social cognitiva para o behaviorismo consistia em alterar ou modificar comportamentos considerados social­mente anormais ou indesejáveis. Ele pensou que, se todo comportamento é aprendido observando outras pessoas e modelando o nosso comportamento de acordo com o delas, então é possível alterar ou reaprender o comportamento indesejável também por meio da observação. Assim como Skinner, Bandura concentrava-se nos fatores externos, ou seja, no comportamento em si e não em alguma consciência interna presumida ou em algum conflito inconsciente. Para Bandura, o tratamento do sintoma significa tratar o distúrbio porque sintoma e distúrbio são a mesma coisa.

As técnicas de modelação são usadas para modificar o comportamento, fazendo com que o indivíduo observe um modelo em uma situação que normalmente provoque certo grau de ansiedade. Por exemplo, uma criança que tem medo de cachorro observa outra da mesma idade - o modelo - aproximar-se do animal e acariciá-lo. Observando de uma distancia segura, a criança vê o modelo realizar movimentos progressivos, aproximando-se aos poucos do cachorro. O modelo acaricia o cão pelas barras do cercadinho e, em seguida, entra e brinca com o animal. Como resultado dessa situação de aprendizagem por observação, o medo da criança pode ser reduzido. Em uma variação dessa técnica, pessoas assistem a modelos brincarem com objetos temidos, como uma cobra, e então os próprios indivíduos realizam movimentos progressivos de aproximação em direção ao objeto, até se sentirem realmente capazes de tocá-lo.

A forma de terapia do comportamento de Bandura é amplamente empregada em clínicas, empresas e salas de aula e tem sido comprovada por centenas de estudos experimentais. Esse método tem sido eficaz na cura da fobia de cobras, espaços fechados, espaços abertos e altu­ras. Também é válido no tratamento dos distúrbios obsessivo-compulsivos, das disfunções sexuais e de algumas formas de ansiedade, além de ser eficaz no aumento da autoeficácia

O trabalho de Bandura vem sendo adaptado para programas de rádio e televisão com o objetivo de apresentar modelos de comportamento adequados para tratar de problemas sociais e nacionais, como a prevenção de gravidez indesejada, controle da disseminação da AIDS e redução do analfabetismo. Esses programas baseiam-se em personagens fictícias atuando como modelos para que os ouvintes e telespectadores simulem a mudança do comportamento. Pesquisas realizadas com tais simulações em rádios e televisões compro­vam o aumento significativo do comportamento adequado, tais como a prática de sexo seguro, o planejamento familiar e a melhoria do status da mulher (Smith, 2002a).

Comentários

Como era de se esperar, os behavioristas tradicionais criticaram o behaviorismo social cog­nitivo de Bandura, alegando que os processos cognitivos, como a crença e a antecipação, não causam efeito no comportamento. A resposta de Bandura foi a seguinte: "É interessan­te observar os behavioristas radicais afirmarem que o pensamento não exerce influência, enquanto dedicam um tempo razoável com palestras, artigos e livros em um esforço para convencer as pessoas a adotarem a sua forma de pensamento" (apud Evans, 1989, p. 83)

A teoria social cognitiva tem sido amplamente aceita na psicologia como uma forma eficaz para o estudo do comportamento em laboratórios e para modificá-lo nos ambien­tes clínicos. Além disso, as contribuições de Bandura foram amplamente reconhecidas pelos colegas. Ele presidiu a APA em 1974 e, em 1980, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Cientifica da APA. Em 2004 recebeu o prêmio Outstanding Contribution to
Psychology Award
, da APA, e em 2006 recebeu o American Psychological Foundation's Gold Medal Award for Life Achievement in the Science of Psychology.

Sua teoria e a terapia de modelos dela derivada ajustam-se à forma prática e funcional da psicologia estadunidense contemporânea. A sua abordagem é objetiva e adaptável aos métodos precisos de laboratório. Atende aos anseios do clima intelectual corrente que se concentra nas variáveis cognitivas internas, além de ser aplicável às questões da vida real.

Julian Rotter (1916-2014)

Julian Rotter cresceu no bairro do Brooklyn, em Nova York. A família levou uma vida confortável até seu pai perder os negócios no início da Grande Depressão de 1929. Essa desastrosa mudança no cenário econômico marcou a guinada na vida de Rotter, na época com 13 anos. Ele declarou que "essa experiência despertou a minha eterna preocupação com a injustiça social e proporcionou-me uma grande lição de como a personalidade e o comportamento são influenciados pelas condições situacionais" (Rotter, 1993, p. 274)

Durante o ensino médio, Rotter descobriu os livros de psicanálise de Sigmund Freud e de Alfred Adler. Como brincadeira, começou a interpretar os sonhos dos colegas e resolveu que desejava se tornar psicólogo. Decepcionado ao descobrir a pouca disponibilidade de empregos para psicólogos, decidiu formar-se em química na Brooklyn College. No entan­to, ao ingressar na faculdade, conheceu, por acaso, Adler e resolveu afinal mudar para a psicologia, mesmo sabendo ser ela impraticável. Desejava seguir a carreira acadêmica, mas a discriminação contra os judeus frustrou suas expectativas. "Tanto na Brooklyn College como no curso de pós-graduação, fui alertado de que os judeus simplesmente não
conseguiam obter posições acadêmicas, independentemente das credenciais. Os alertas se confirmaram" (Rotter, 1982, p. 346). Depois de obter o Ph.D. na Indiana University, em 1941, aceitou um emprego em um hospital de saúde mental em Connecticut. Serviu o exército estadunidense como psicólogo durante a Segunda Guerra Mundial, lecionou na Ohio State University até 1963 e foi para a University of Connecticut. Em 1988, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica da APA.

Os Processos Cognitivos

Rotter foi o primeiro psicólogo a utilizar o termo "teoria da aprendizagem social" (Rotter 1947). Ele desenvolveu uma forma de behaviorismo que, como a de Bandura, inclui referências às experiências subjetivas internas. Desse modo, o seu behaviorismo é menos radical do que o de Skinner.
Criticado por Rotter por estudar os indivíduos isoladamente, afirmando que a aprendi­zagem do comportamento ocorre principalmente mediante experiências sociais. A pesquisa de laboratório de Rotter era rigorosa e bem controlada, típica do movimento behaviorista. Ele realizou pesquisas somente com pessoas em situações de interação social.

Rotter enfatizava mais amplamente os processos cognitivos do que Bandura. Acredi­tava que os indivíduos se percebem como seres conscientes capazes de mudar as próprias vidas, e que o comportamento é determinado pelo estímulo externo e pelo esforço que oferece - no entanto, a influência relativa desses dois fatores é intermediada pelos proces­sos cognitivos. Rotter esboçou quatro princípios regentes dos resultados comportamentais (Rotter, 1982).

  • O indivíduo cria expectativas subjetivas em relação às consequências ou aos resultados do seu comportamento com base na quantidade e no tipo de reforço que recebe;
  • Ele calcula a probabilidade de determinado comportamento conduzir a um refor­ço específico e o ajusta apropriadamente;
  • Atribui valores diferentes para os diversos reforços e avalia o seu valor relativo nas variadas situações;
  • Como cada indivíduo apresenta um comportamento exclusivo e único no ambien­te psicológico, o mesmo reforço pode adquirir diferentes valores para diversas pessoas.

Desse modo, para Rotter, os valores e as expectativas subjetivas, que consistem em estados cognitivos internos, determinam os efeitos das diferentes experiências externas (estímulos e reforços externos diferentes) sobre o indivíduo.

Locus de Controle

Rotter concentrou razoável pesquisa nas crenças a respeito da origem do reforço. Algumas pessoas consideram o reforço dependente do próprio comportamento e alegam a existên­cia de um locus de controle interno. Outras pessoas acreditam no reforço dependente das forças externas - como o destino, a sorte ou as atitudes de outros indivíduos; alegam a existência do locus de controle externo (Rotter, 1966).

Obviamente, tais percepções acerca da origem do controle exercem variadas influências sobre o comportamento. Para as pessoas que percebem a existência do locus de controle exter­no, as próprias habilidades e ações não exercem muita influência nos reforços que recebem.

Convencidas da falta de poder em relação às forças externas, não se esforçam em tentar mudar ou melhorar a situação. As pessoas que percebem a existência do locus de controle interno acreditam ser responsáveis pela própria vida e por isso atuam apropriadamente. A pesquisa de Rotter demonstrou que as pessoas com locus de controle interno tendem a ser física e mentalmente mais saudáveis do que as outras. Em geral, sua pressão sanguí­nea é mais baixa, apresentam menos infartos, ansiedade e depressão e são mais hábeis ao lidarem com o estresse. Obtêm as melhores notas na escola e acreditam ter maior liberdade de escolha. São mais populares e sociáveis e apresentam elevado grau de autoestima. Além disso, o trabalho de Rotter sugere que o locus de controle é adquirido na infância por meio do comportamento dos pais e dos responsáveis pela criação. Pais de adultos com locus de controle interno tendem a ser solidários, generosos ao elogiarem as realizações (reforço positivo), coerentes na disciplina e a demonstrarem atitudes não autoritárias.

Rotter desenvolveu um teste para medir o locus de controle, que consiste em 23 ques­tões com alternativas obrigatórias; a pessoa deve escolher uma das duas opções que melhor descreva as suas crenças (veja na Tabela 11.1).

Exemplos da Escala l-E (Locus de Controle Interno-Externo)

Uma descoberta ao acaso. Relembremos o caso da descoberta acidental de Skinner do esquema de reforço, resultado do acaso, por ele não desejar passar o fim de semana no laboratório preparando as bolinhas de ração para os ratos. Percebemos que a ciência nem sempre avança na forma sistemática e racional descrita na maioria dos livros. Os fatores casuais ocorrem para moldar o desenvolvimento de um campo de estudo. A conceituação de Rotter sobre o locus de controle, que ele considerava a sua descoberta mais importante, ocorreu por acaso, em virtude de um comentário eventual de um colega.

Rotter conduzia um experimento em que as pessoas trabalhavam com um conjunto de cartões, tentando adivinhar se no reverso de cada um havia a figura de um quadrado ou de um círculo. Elas foram informadas de que estavam sendo testadas a respeito da per­cepção extrassensorial (PES). Depois de terminar uma série de cartões, elas deviam tentar calcular quantos acertos obteriam na segunda série.

Alguns indivíduos afirmavam que acertariam menos, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram apenas questão de sorte. Outros alegavam que se desempenha­riam melhor, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram por causa de sua capacidade de percepção extrassensorial, a qual esperavam aperfeiçoar com a prática.

Ao mesmo tempo que estava envolvido com essa pesquisa, Rotter supervisionava o trei­namento clínico de E. Jerry Phares. Phares contou a Rotter sobre um paciente insatisfeito com a sua falta de vida social. Pressionado por Phares, o rapaz foi a uma festa e dançou com várias mulheres, mas, mesmo com o aparente sucesso social, sua visão não mudou. Ele afirmou a Phares que fora apenas uma questão de sorte. "Jamais vai se repetir."

Quando Rotter ouviu a história, ocorreu-lhe uma ideia. Ele observou que nas experiências há sempre algumas pessoas cujas expectativas, assim como a desse paciente, nunca melhoram mesmo ante o êxito.

Eu e meu aluno de pós-graduação reali­zamos várias experiências em que manipulávamos o êxito ou o fracasso dos voluntários. (...) Alguns voluntários, mesmo quando informados de que estavam corretos ou errados a maioria das vezes, não mudavam suas expectativas de que cometeriam mais erros na próxima tentativa. Outros, independentemente do que lhes era dito, acreditavam que se desempenhariam melhor na vez seguinte. Nesse momento, juntei os dois lados do meu trabalho - o cientista e o empirista - e formulei a hipótese de que algumas pessoas acreditam em forças externas que, de uma forma ou outra, regem os acontecimentos da vida, enquanto outras creem na capacidade própria e no esforço individual como determinantes dos próprios destinos. (Rotter apud Hunt, 1993, p. 334)

Deixamos as dúvidas quanto a se Rotter teria desenvolvido a ideia do locus de controle caso o paciente de Phares houvesse mudado de posição sobre a sua popularidade depois do baile.

Comentários

A teoria da aprendizagem social de Rotter atraiu muitos seguidores que, a princípio, seguiam a orientação experimentalista, mas concordavam com a importância das variáveis cogni­tivas no impacto do comportamento. O rigor e o controle da sua pesquisa obedecem aos padrões permitidos de acordo com o assunto, e ele define os seus conceitos com a precisão que os torne passíveis de testes experimentais. Vários estudos de pesquisa, principalmente a respeito do locus de controle interno e externo, sustentam a sua abordagem. Rotter afir­ma que o centro de controle tornou-se "uma das variáveis mais estudadas na psicologia e nas demais ciências sociais" (Rotter, 1990, p. 489).

O Destino do Behaviorismo

Apesar de o debate interno a respeito da questão cognitiva no behaviorismo ter provoca­do mudanças no movimento behaviorista, que se seguiram desde Watson até Skinner, é importante lembrar que Bandura, Rotter e outros neo-neobehavioristas defensores da abor­dagem cognitiva ainda se consideram behavioristas. Podemos chamá-los de behavioristas metodológicos, porque se referem aos processos cognitivos internos como parte do objeto de estudo da psicologia, enquanto os behavioristas radicais acreditam que a disciplina deva se dedicar ao estudo do comportamento público e do estímulo ambiental, e não dos estados internos presumidos. Watson e Skinner eram behavioristas radicais. Hull, Tolman, Bandura e Rotter podem ser classificados como behavioristas metodológicos.

O domínio do tipo de behaviorismo de Skinner chegou ao auge na década de 1980 e diminuiu depois da sua morte, em 1990. Até o laboratório de pombos da Harvard, criado por Skinner em 1948, foi fechado em 1998 (Azar, 2002). Skinner admitia que a sua forma de behaviorismo estava perdendo terreno e que o impacto da abordagem cognitiva aumentava. Outros pesquisadores concordam, observando que "menos especialistas das principais univer­sidades hoje se denominam behavioristas no sentido tradicional. Na verdade, 'behaviorismo' é geralmente mencionado como algo pertencente ao passado" (Baars, 1986, p. 1).

O behaviorismo que permanece vivo na psicologia contemporânea, principalmente na psicologia aplicada, é diferente daquele que surgiu nas décadas entre o manifesto de Watson, de 1913, e a morte de Skinner. Assim como ocorre com todo movimento evolutivo na ciência e na natureza, as espécies continuam a evoluir. Nesse sentido, o behaviorismo sobrevive no espírito e não na realidade da intenção do seu fundador.
 

Psicologia - História da Psicologia
2/13/2020 4:20:16 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
O Behaviorismo de Watson

A bonita e jovem aluna do curso de pós-graduação segurava o bebê enquanto o psicólogo segurava o martelo. Vagarosamente ela abanava sua mão no ar para manter a atenção do bebê de modo que ele se ligasse nela e não virasse sua cabeça e olhasse para outro lugar. Assim, a criança distraida, não vê o bastão de metal de 1,2 m de comprimento por 2 cm de largura, pendurado no teto. Ele não viu o homem que levantou o martelo e bateu com força na barra de metal.

O relato da pesquisa afirmava que "A criança alterou violentamente, sua respiração foi verificada e seus braços levantados." Quando o psicólogo bateu no bastão novamente, os lábios da criança "começaram a se dobrar e a tremer" e após bater pela terceira vez no bastão, ele começou a chorar repentina e fortemente" (Watson e Rayner, 1920, p. 2).

Já descobriu quem são essas pessoas e o que estão fazendo? O sujeito desse experimento passou a ser conhecido como O "Pequeno Alberto", o bebê mais famoso da história da psicologia. O psicólogo de 42 anos de idade era John Watson, o fundador da escola de pensamento conhecida como behaviorismo. Sua assistente era Rosalie Rayner, uma aluna de pós-graduação de 21 anos que ia para o campus da Johns Hopkins University dirigindo seu Stutz Bearcat, o carro esportivo mais moderno e caro daquela época. Juntos eles mudaram a psicologia e, no processo, terminaram a brilhante carreira acadêmica de Watson.

Albert (seu sobrenome é ainda desconhecido) tinha 8 meses e 26 dias quando o mar­telo foi batido na barra de metal atrás de sua cabeça. Um bebê saudável e feliz, ele havia sido escolhido por Watson para ser o sujeito de sua pesquisa, precisamente por ser tão estável emocionalmente e não facilmente perturbado.

Dois meses antes de ser assustado pelas batidas do martelo, Albert havia sido exposto a uma variedade de estimulos, incluindo um rato branco, um coelho, um cachorro, um macaco, jornais sendo queimados, e uma série de máscaras. Ainda não havia exibido nenhum medo em resposta a esses objetos. Na realidade, nem a mãe de Albert, nem outra pessoa jamais havia visto a criança exibindo medo em nenhuma situação - até o dia do laboratório.

Quando Watson bateu o martelo pela primeira vez, Albert reagiu amedrontadamente tudo indica que pela primeira vez na sua vida. Isso deu a Watson uma resposta emocional não-condicionada com a qual poderia trabalhar. Ele queria descobrir se conseguiria produzir em Albert uma resposta emocional condicionada, por exemplo, medo do rato branco do qual não tinha anteriormente, combinando a visão do rato com o barulho provocado pelo som que o havia assustado. Não foi preciso mais do que sete combinações do rato branco com o barulho para que a criança mostrasse medo cada vez que visse o rato, mesmo se o bastão não fosse batido com o martelo por trás de sua cabeça.

Assim, Watson e Rayner estabeleceram uma resposta de medo a um objeto anterior­mente neutro e isso foi realizado de uma maneira fácil e eficaz. Em seguida eles demons­traram que a resposta de medo de Albert podia ser generalizada a outros objetos brancos e peludos, como um coelho, cachorro, um casaco de pele e a máscara do Papai Noel!

Watson concluiu que nossos medos, ansiedades e fobias quando adultos, consequen­temente, devem ser simples respostas emocionais condicionadas que foram estabelecidas na infância, e que permanecem durante toda a nossa vida.

E quanto ao pequeno Alberto? Ele ainda se esconde de pequenos animais brancos e peludos? Teve que fazer psicoterapia? Ninguém sabe o que aconteceu a ele. Talvez tenha se tornado um psicólogo, mas não há como negar sua contribuição para a história da psicologia e seu papel no desenvolvimento do behaviorismo de John B. Watson.

John B. Watson (1878-1958)

Foram várias as tendências que influenciaram John B. Watson na tentativa de construir a escola de pensamento behaviorista da psicologia. Watson reconhecia não ser o ato de fun­dar o mesmo que originar e descrevia os seus esforços como uma cristalização das ideias ja emergentes dentro da psicologia. Assim como Wilhelm Wundt, o primeiro promotor-fundador da psicologia, Watson deixou clara a sua intenção de fundar uma escola. Essa intenção deliberada é o que estabelece a nítida distinção entre Watson e os demais, hoje denominados pela história como precursores do behaviorismo.

A Biografia de Watson

John B. Watson nasceu em um  sítio próximo a Greenville, na Carolina do Sul, onde fre­quentou os primeiros anos de estudo em uma escola que possuia apenas uma sala. Sua mãe era extremamente religiosa, ao contrário do pai. O velho Watson bebia muito, era violento e mantinha muitas relações extraconjugais. Ele raramente conseguia manter um emprego fixo, por isso a família vivia à beira da pobreza, subsistindo à custa da produção do sitio. Alguns vizinhos os desprezavam, enquanto outros sentiam pena deles. Quando Watson estava com 13 anos, seu pai fugiu com outra mulher e nunca mais voltou. Watson jamais o perdoou por isso, e anos mais tarde, quando se tornou rico e famoso, seu pai foi procurá-lo em Nova York, mas Watson não quis vê-lo.

Quando pequeno e na adolescência, Watson era considerado delinquente. Ele mesmo se dizia preguiçoso e desobediente e suas notas na escola eram apenas suficientes para passar de ano. Os professores consideravam-no indolente, sempre propenso a discussões e, às vezes, incontrolável. Duas vezes envolveu-se em brigas e foi preso, em uma das ocasioes, por atirar dentro dos limites urbanos. Contudo, aos 16 anos matriculou-se na Furman University, em Greenville, afiliada à igreja Batista, disposto a tornar-se pastor, como prometera à mãe. Estudou filosofia, matemática, latim e grego, planejando entrar no seminário teológico depois de se formar em Furman.

Um fato curioso ocorreu durante o último ano de Watson na Furman University. Um professor advertiu os alunos de que se alguém entregasse o exame final com as páginas na ordem inversa seria reprovado. Watson resolveu desafiá-lo, entregando a prova dessa forma e foi reprovado - pelo menos essa é a sua versão. Um estudo posterior dos dados históricos a respeito do episódio - nesse caso, das notas de Watson - mostra que ele não foi reprovado nessa matéria. Seu biógrafo acredita que a versão da história escolhida pelo proprio Watson revela algo da sua personalidade, ou seja, "a sua ambivalência em relação ao sucesso. Muitas vezes, seus contínuos esforços para atingir as metas e ser aceito eram boicotados pelos próprios atos, totalmente obstinados e impulsivos, que o afastavam ainda mais da respeitabilidade” (Buckley, 1989, p. 11). Outro professor de Watson disse que ele era inconformista, "um aluno brilhante, mas de algum modo preguiçoso e indolente; um pouquinho pesado, mas de boa aparência; valoriza-se demasiadamente e preocupa-se mais com as próprias ideias do que com as pessoas" (Brewer, 1991, p. 174).

Watson ficou mais um ano em Furman, completando o mestrado em 1899, mas nessa data sua mãe faleceu, ficando ele, assim, livre da promessa de tornar-se pastor. Em vez de ir para o seminário teológico, foi para a University of Chicago. Seu biógrafo observou que naquela época ele era ambicioso, um homem extremamente consciente da importâcia do status social, ansioso por deixar sua marca no mundo, mas totalmente indeciso em relaçao à escolha da profissão e inseguro por causa da falta de recursos e de sofisticação social. Chegou ao campus com apenas 50 dólares no bolso (Buckley, 1989, p. 39).

Escolheu a University of Chicago para realizar o trabalho de pós-graduação em filo­sofia com o ilustre John Dewev, mas sentia dificuldade para entender as aulas. "Jamais compreendia o que ele estava falando", relembrou Watson, "e, infelizmente para mim, até hoje não entendo" (Watson, 1936, p. 274). Como era de se esperar, o entusiasmo pela filosofia diminuiu. Atraido para a psicologia em função do trabalho do psicólogo funcionalista James Rowland Angell, Watson estudou também biologia e fisiologia com Jacques Loeb, que lhe introduziu o conceito de mecanismo.

Teve vários empregos de meio período, trabalhando como garçom em uma república, tratador de ratos e zelador encarregado de tirar o pó da escrivaninha de Angell. Perto de terminar os estudos de pós-graduação, começou a sofrer ataques profundos de ansiedade e durante certo período só conseguia dormir com uma luz acesa no quarto.

Em 1903, com 25 anos, completou o doutorado, sendo o mais jovem na história da University of Chicago a obter a título de Ph.D. Embora aprovado com louvor (magna cum laude e Phi Beta Kappa), sentiu-se profundamente inferiorizado quando Angell e Dewey Ihe disseram que seu exame de doutorado não fora tão bom quanto o de Helen Bradford Thompson Woolley, que completara a graduação três anos antes. Watson comentou: "Fiquei imaginando, então, quem seria capaz de igualar-se a ela. Esse ciúme persistiu por vários anos" (Watson, 1936, p. 274).

Naquele ano, Watson casou-se com uma de suas alunas, Mary Ickes, de 19 anos, per­tencente a uma importante família do meio político e social. Contam que ela escreveu um longo poema de amor para Watson em um de seus exames. Não se sabe a nota que ela obteve, mas sabe-se que obtivera Watson.

A carreira acadêmica de Watson

Watson permaneceu na University of Chicago como professor até 1908. Publicou a dissertação sobre a maturação psicológica e neuroló­gica do rato branco, pesquisa que revelava a sua preferência inicial pelo uso de animais nas pesquisas.

Nunca quis usar seres humanos nas minhas pesquisas. Detestava servir de cobaia. Não gostava daquela parafernália de instruções artificiais dadas às pessoas. Sempre me sentia incomodado e não agia com naturalidade. Com os animais, no entanto, sentia-me em casa. Percebia que, observando-os, conseguia me manter próximo da biologia e com os pés no chão. Aos poucos, a ideia se concretizava: será que minhas descobertas observan­do o comportamento dos animais não são iguais às dos demais alunos que observam os [seres humanos]? (Watson, 1936, p. 276)

Os colegas de Watson lembram-se de que ele não conseguia obter exito com a intros­pecção. Qualquer que fosse o talento ou o temperamento necessários para utilizar adequa­damente essa técnica, Watson não os possuia. Essa deficiência talvez o tenha direcionado para a psicologia behaviorista objetiva. Afinal, se ele era uma negação na utilização da introspecção, técnica de pesquisa fundamental na sua área, então suas perspectivas pro­fissionais certamente estavam prejudicadas. Ele teria de buscar outra abordagem. Além disso, caso seguisse sua tendência de enxergar a psicologia como uma ciência que estudava apenas o comportamento - o que evidentemente era possível de ser feito mediante expe­riências com animais e com seres humanos -, ajudaria a atrair os interesses profissionais dos psicólogos que estudavam animais para a psicologia geral.

Em 1908, recebeu uma proposta para lecionar na Johns Hopkins University, em Baltimore. Embora relutasse em deixar Chicago, a promessa de promoção, o aumento substancial no salário e a chance de dirigir o laboratório não lhe deixaram outra opção. E, assim, os 12 anos de Watson na Hopkins acabaram sendo os mais produtivos para a psicologia.

James Mark Baldwin (1861-1934), o psicólogo que lhe havia oferecido o emprego, era um dos fundadores (juntamente com James McKeen Cattell) da revista Psychological Review. Um ano depois da chegada de Watson à Hopkins, Baldwin foi obrigado a pedir demissão por causa de um escândalo. Em uma batida policial, fora flagrado em uma casa de prostituição. O reitor da universidade não aceitou as explicações de Baldwin. Ele ale­gou ter aceitado ingenuamente uma sugestão, feita depois de um jantar, para conhecer [o bordel]. Antes de chegar ao local, não sabia que ali trabalhavam mulheres indecentes" (apud Evans e Scott, 1978, p. 713). Mas deu um nome falso para a policia. Baldwin foi totalmente banido da psicologia estadunidense, passando o resto dos seus anos na Inglaterra e no México, morrendo em Paris em 1934 (Horley, 2001). Onze anos depois da demissão de Baldwin, a história se repetiu. O mesmo reitor da universidade exigiu a demissão de Watson por causa de um escândalo.

Quando Baldwin pediu demissão, Watson tornou-se o responsável pelo departamen­to de psicologia e editor da importante Psychological Review. Assim, aos 31 anos havia se tornado uma figura importante na psicologia estadunidense, no momento e local certos. "Todo o teor da minha vida havia mudado", ele escreveu. Experimentei a liberdade no trabalho sem supervisão. Estava perdido no meu trabalho, mas feliz.” Em casa, no entanto, Watson não estava feliz: "Dois filhos é suficiente" escreveu depois que seu segundo filho nasceu {apud Hulbert, 2003, p. 131). Começou a levar uma vida social ativa, desenvolvendo uma reputação de mulherengo, não diferente de seu pai.

Era extremamente querido pelos alunos da Johns Hopkins University, que costuma­vam lhe dedicar o anuário estudantil e elegê-lo como melhor professor, certamente uma honraria ímpar na história da psicologia. Ele continuava ambicioso e dedicado. Muitas vezes, com medo de perder o controle, chegava à exaustão.

No inicio da carreira na Hopkins, Watson propos estudar os efeitos, tanto positivos como negativos, do álcool e dos filmes de educação sexual nos adolescentes (Simpson, 2000). A administração da universidade não acolheu muito bem essa ideia. Consideraram a pesquisa arriscada e insistiram para que ele parasse. Felizmente, Watson possuia outras válvulas de escape para sua energia e ambição.

Ele começou a pensar seriamente a respeito do tratamento mais objetivo da psicologia por volta de 1903, e expressou essa opinião publicamente em 1908, em palestra na Yale University e em um trabalho apresentado na reunião anual em Baltimore, da Southern Society for Philosophy and Psychology [Sociedade Sulista de Filosofia e Psicologia]. Watson argumentava que os conceitos psiquicos e mentais não serviam de nada para uma ciência como a psicologia. Em 1912, a convite de Cattell, apresentou uma série de palestras na Columbia University. No ano seguinte, publicou um artigo, que mais tarde ficou famoso, na revista Psychological Review (Watson, 1913], assim lançando oficialmente o behaviorismo.

O livro de Watson, Behavior: an introduction to comparative psychology, foi lançado em 1914. Defendia a aceitação da psicologia animal e descrevia as vantagens do uso de ani­mais na pesquisa psicológica. Muitos psicólogos mais jovens e estudantes de pós-graduação consideraram interessantes as propostas de uma psicologia comportamental, afirmando que Watson estava limpando a atmosfera poluida da psicologia, expulsando os mistérios de longa data herdados da filosofia.

Mary Cover Jones (1896-1987), na época aluna de pós-graduação e, mais tarde, presi­dente da Divisão de Psicologia do Desenvolvimento da APA, lembrou-se do entusiasmo com que era recebida a publicação de cada um dos seus livros. "[O behaviorismo de Watson] abalou as estruturas da psicologia tradicional nascida na Europa, e nós o recebemos de bra­ços abertos. (...) Esse behavorismo indicou o caminho da psicologia teórica para a ação e para a reforma e foi, por essa razão, saudado como uma panaceia" (Jones, 1974, p. 582). O programa de Watson normalmente não seduzia os psicólogos mais antigos. Ao contrário, a maioria rejeitava a sua abordagem.

Somente dois anos após a publicação do artigo na Psychological Review, Watson foi eleito presidente da APA. Sua eleição talvez não fosse um sinal de aprovação oficial da sua posição, mas servia como reconhecimento da sua notoriedade e da rede pessoal de relações estabelecidas com diversos psicólogos renomados.

Watson desejava que o novo behaviorismo tivesse valor prático; suas ideias não ser­viam apenas para serem aplicadas nos laboratórios, como também na vida real. Promoveu as especializações aplicadas da psicologia e tornou-se consultor pessoal de uma grande companhia seguradora. Além disso, oferecia cursos de psicologia aplicada à publicidade aos alunos de administração da Hopkins e deu início a um programa de treinamento de estudantes de pos-graduação para trabalharem na área da psicologia industrial.

Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu no exército estadunidense, com a patente de major, desenvolvendo testes de habilidade perceptiva e motora para usar como esquema de seleção para pilotos. Também pesquisou o efeito da redução de oxigênio em atitudes elevadas. Depois da guerra, Watson e um médico criaram a industrial Service Corporation para oferecer serviços de seleção de pessoal e consultoria de admimstração no mundo empresarial (DiClemente e Hantula, 2000).

Embora suas atividades estivessem relacionadas com as áreas da psicologia aplicada a visão de Watson concentrava-se no desenvolvimento da abordagem behaviorista do pensamento psicologico. Em 1919, publicou o livro Psychology from the standpoint of a behavirors, dedicando-o a Cattell. O livro apresentava uma abordagem mais completa da sua psicologia behaviorista, alem do argumento de que os métodos e principios recomendados para a psicologia animal também eram adequados para o estudo do ser humano.

Enquanto isso, seu casamento se deteriorava; sua infidelidade deixava a esposa furio­sa. Watson escreveu a Angell, dizendo que Mary não ligava mais para ele. "Ela instintivamente abomina o meu toque. Será que arruinamos as nossas vidas?" (Watson, apud isucKiey, 1994, p. 27). Ele estava prestes a arruinar a sua ainda mais.

Watson apaixonara-se por Rosalie Rayner, uma assistente da pós-graduação com metade da sua idade, e pertencente a uma rica família de Baltimore que fizera generosa doação para a universidade. Watson escrevia cartas, cientificamente falando ardentes de paixão, 15 das quais encontradas pela esposa. Durante o escandaloso processo de divórcio trechos das cartas eram publicados no jornal Baltimore Sun.

Cada célula do meu corpo a ti pertence, individual e coletivamente. Todas as minhas reações são positivas e todas são para ti. Assim como cada uma e todas as reações do coração. Não posso ser mais teu do que sou, mesmo que uma cirurgia nos transformasse em um unico ser. (Watson, apud Pauly, 1979, p. 40) 

Assim chegava ao fim a carreira acadêmica de Watson, sendo forçado a demitir-se da Hopkins. Seu biografo disse: "Watson ficou chocado. Até o final, recusava-se a acre­ditar que realmente seria demitido. (...) Acreditava piamente que sua estatura profissional lhe proporcionaria imunidade a qualquer censura a respeito da sua vida pessoal" (Buckley 1 9 9 4 , p. 31). Embora tenha se casado com Rosalie Rayner, nunca mais pôde assumir integralmente outra posição acadêmica. Nenhuma universidade o aceitava por causa da má reputaçao, e ele logo percebeu que teria de começar uma nova vida. "Posso arrumar um emprego na area comercial", disse a um amigo. "Mas, sinceramente, amo o meu trabalho. Sei da sua importancia para a psicologia e que a pequena chama que tentei manter acesa para o futuro da psicologia se extinguirá, caso eu a abandone" (apud Pauly, 1986, p 39)

Muitos colegas acadêmicos, inclusive o seu mentor Angell, da University of Chicago criticaram publicamente Watson, que se ressentiu da falta de apoio, chegando a acusá-los de deslealdade. Ironicamente, considerando as diferenças radicais de temperamento e de posições teóricas, foi E. B. Titchener, da Cornell University, quem lhe deu apoio emocional durante sua crise Pessoal. Tltchener escreveu a Robert Yerkes, comentando: "Sinto muita pena dos filhos de Watson", "Também sinto pena dele, pois terá de desaparecer por cinco ou 10 anos; temo se algum dia desejar voltar para a psicologia" (apud Leys e Evans, 1990, p. 105).

A carreira empresarial de Watson

Desempregado e tendo de pagar a quantia equi­valente a dois terços do último salário como pensão para os filhos, Watson iniciou uma segunda carreira profissional como psicólogo aplicado no campo da publicidade. Começou a trabalhar na agência publicitária J. Walter Thompson em 1921, ganhando um salário anual de 25 mil dólares, quatro vezes mais que seu salário acadêmico. Realizou pesquisas de porta em porta, vendeu café e trabalhou como atendente da Macy's para conhecer melhor o mundo dos negócios. Atuando com a sua criatividade e energia características, em três anos tornou-se vice-presidente da agência. Em 1936, foi para outra agência de publicidade, permanecendo ali até se aposentar, em 1945.

Watson acreditava ser o comportamento humano igual ao da máquina. Portanto, era possível prever e controlar o comportamento das pessoas como consumidoras, assim como se previa o funcionamento de qualquer máquina. Afirmava que, para controlar o consumidor, basta apresentar-lhe um estímulo emocional, condicional ou fundamental. (...) dizer-lhe algo que se relacione com o medo, que provoque uma leve ira, que incentive uma reação apaixonada e afetiva, ou que capte uma profunda necessidade psicológica ou de hábito. (apud Buckley, 1982, p. 212)

Propôs pesquisas de laboratório a respeito do comportamento do consumidor. Res­saltava que as mensagens publicitárias deviam enfocar o estilo e não a substância, além de transmitirem a impressão de uma imagem nova e melhorada. O objetivo era deixar o consumidor insatisfeito com os produtos que estava consumindo e estimular o desejo de novas mercadorias.

Durante vários anos, Watson foi considerado o pioneiro no uso de celebridades para a promoção de produtos e serviços e na criação de técnicas para manipular a motivação e a emoção. Mais tarde, pesquisas revelaram que, embora ele promovesse bem essas técni­cas, elas já vinham sendo aplicadas antes do seu ingresso no universo da publicidade. Mesmo assim, as contribuições de Watson para a publicidade foram extremamente eficazes e logo lhe renderam notoriedade e riqueza.

Depois de 1920, Watson mantinha contato apenas indireto com a psicologia acadêmica. Apresentava suas ideias a respeito da psicologia comportamental para o público em geral por meio de palestras, discursos em rádios e artigos em revistas populares, aumen­tando, assim, sua visibilidade e, alguns diriam, sua notoriedade. Por exemplo, em um artigo escrito para o leitor comum, ele previa o fim da instituição do casamento. "Creio ser a monogamia uma coisa do passado. O mecanismo social descarrilou. Estamos livres das algemas e rompendo e aproveitando a nossa liberdade" (apud Simpson, 2000, p. 64). Se seu objetivo era chocar, estava conseguindo.

Nos artigos de revistas, ele também transmitia mensagens mais sérias acerca do beha­viorismo para um público mais amplo. Seu estilo de redação era claro, de fácil leitura e, de algum modo, simples. Na autobiografia, comentou que, embora o seu trabalho não fosse mais viável para publicação nas revistas especializadas de psicologia profissional, não havia razões para não "vender os seus artigos" para o público (Watson, 1936). Essa atitude o afastou ainda mais da comunidade acadêmica. "Aqueles que não aceitavam de modo algum a aplicação mais genérica dos principios da psicologia, ou a visão behaviorista em si, rejeitavam mais ainda as 'campanhas' de Watson para a divulgação da doutrina" (Kreshel, 1990, p. 56).

Um raro contato formal com a psicologia acadêmica ocorreu quando Watson minis­trou uma serie de palestras na New School for Social Research [Nova Escola para Pesquisas Sociais] em Nova York. Essas palestras serviram de base para o livro Behaviorism, em que ele escrevia o seu programa para a melhoria da sociedade. O livro foi publicado pela primeira vez em 1925 e mais tarde Watson confessou que havia sido preparado apressadamente.

Minhas palestras eram datilografadas; depois eu as olhava rapidamente e as levava para o editor (apud Carpentero, 2004, p. 185). Uma versão revisada foi lançada em 1930 As duas edições tiveram muito sucesso. As ideias de Watson atingiram e influenciaram um grande numero de pessoas que nao pertenciam ao mundo da psicologia.

Prática da Educação Infantil

Em 1928, publicou Psychological care of the infant and child, onde critica severamente o modo de se educar crianças naquela época. Ele acusou os "pais de incompetenaa A maioria deveria ser processada por assassinato psicológico" (apud Hulbert,2003, p. 123). Ele propos um sistema de educacão infantil regulador e não-permissivo dentro da sua visão estritamente ambientalista. O livro estava repleto de conselhos rígidos, baseados na forma behaviorista de educar crianças. De acordo com Watson, os pais nunca devem abraçar e beijar, jamais as deixem sentar no colo. Quando estritamente necessário bei­jem mas apenas uma vez na testa ao lhes dar boa-noite. Pela manhã, cumprimentem-nas com um aperto de mão. Afaguem-lhes a cabeça, caso realizem muito bem uma tarefa extremamente difícil. (...) vocês perceberão como é fácil serem perfeitamente objetivos com os filhos e ao mesmo tempo gentis. Vocês se sentirão totalmente envergonhados da forma sentimental e insipida de como os estavam tratando. (Watson, 1928, p. 81-82)

O livro era bastante popular e transformou as práticas estadunidenses de educação infantil. Uma geraçao de crianças, inclusive as suas, foi educada seguindo essas orientações.

Seu filho James empresário na Califórnia, recorda-se do pai como um homem incapaz de demonstrar afeto para com ele e com o seu irmão. Descreveu Watson como insensivel, emocionalmente reservado, incapaz de expressar - e lidar com - qualquer sentimento ou emoção própria e, creio, determinado inadvertidamente a privar-me bem como ao meu irmão, de qualquer tipo de estrutura emocional. Realmente acreditava que qualquer expressão de ternura ou afeto nos traria efeitos danosos. Era extremamente rigido na aplcação das suas filosofias fundamentais como behaviorista. Nunca fomos beijados ou carregados no colo quando crianças; nunca nos foi demonstrado qualquer tipo de proximidade emocional, era totalmente proibido na família. À noite, quando ia para a cama, lembro-me de apertar as mãos dos meus pais. (...) Nunca tentei (e nem o meu irmao Billy) me aproximar fisicamente dos meus pais, pois sabíamos que era um tabu. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 137-138)

Rosalie, esposa de Watson escreveu um artigo para a revista Parents Magazine inti­tulado I am the mother of a behaviorist's sons" ("Sou mãe dos filhos de um behaviorista") discordando publicamente das práticas de educação infantil definidas por ele "Em alguns aspectos, ela afirmou, "reverencio a grande sabedoria da ciência do behaviorismo e em outros me rebelo. Desejo secretamente que em razões de afeto [das crianças] demonstrem certa fraqueza quando crescerem, que sejam capazes de ter lágrimas nos olhos diante de uma poesia ou de um drama da vida e sintam palpitações de paixão. (...) Gosto de ser ale­gre e jovial e de rir bastante. Os behavioristas consideram as risadas um sinal de desajuste” (apud Simpson, 2000, p. 65). Rosalie também afirmou ser difícil refrear completamente a sua afeição pelos filhos, tendo desejado, algumas vezes, quebrar as regras do behavioris­mo. Mas seu filho James não se recorda de isso haver ocorrido.

Seus dois filhos sofreram de depressão séria na adolescência e vida adulta. Um dos filhos se suicidou e o outro teve um colapso nervoso, lutando contra seus próprios impulsos suicidas. Embora tenha sobrevivido, sua filha suicidou-se alguns anos mais tarde.

Os últimos anos de Watson

Ele era inteligente, articulado, bonito e charmoso, quali­dades que o tornavam uma celebridade. Frequentemente aparecia em público, cortejando e saboreando a atenção recebida. Vestia-se com elegância, participava de competições de lancha e circulava facilmente no meio da sociedade nova-iorquina. Considerava-se um grande amante e aventureiro romântico, e gostava de participar de rodadas de bebidas. Mandou construir uma mansão em Connecticut e contratou vários empregados, embora gostasse de vestir roupas velhas e fazer jardinagem.

[Watson] se preocupava bastante com as atividades masculinas, como caçar, pescar e outras formas de adultos e crianças demonstrarem coragem e habilidades pessoais. Dessa forma, ele possuia um "quê" de Hemingway, já que valorvalorizava a competência, a bravura e a masculinidade. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 138)

Em 1935 Rosalie faleceu, aos 37 anos. James Watson lembra-se de ter sido essa a única ocasião em que viu o pai chorar. Por um breve momento, Watson abraçou os seus filhos, pelo menos a única vez que se lembravam. Depois disso ele os mandou para o colégio interno e jamais voltou a falar sobre Rosalie com eles.

Quando Myrtle McGraw, uma psicóloga de Nova York, conheceu W atson pouco depois da morte da esposa, ele lhe confessou que não estava preparado para lidar com a morte de Rosalie. Por ele ser 20 anos mais velho do que ela, sempre pensou que morreria primeiro. Conversou com alguma profundidade com McGraw, perguntando-lhe como devia lidar com a dor (McGraw, 1990). Depois de algum tempo tornou-se recluso, desligando-se do contato social e mergulhando no trabalho. Vendeu a enorme casa e mudou-se para uma de madeira, parecida com aquela em que passara a sua infância.

Em 1957, quando Watson estava com 79 anos, a APA prestou-lhe uma homenagem, elogiando seu trabalho como "uma das determinantes vitais da forma e substância da psicologia moderna (...) o ponto de partida das linhas contínuas da pesquisa proveitosa". Um amigo levou-o para o hotel em Nova York onde aconteceria a apresentação, mas no último minuto Watson recusou-se a entrar e insistiu para que o filho mais velho fosse em seu lugar. (...) Watson ficara com medo de que naquele momento as suas emoções o dominassem e que o apóstolo do controle do comportamento fraquejasse e desabasse em lágrimas. (Buckley, 1989, p. 182)
Antes de morrer, um ano depois, Watson queimou todas as cartas, manuscritos e ano­ tações, jogando-as, uma por uma, na lareira, recusando-se a deixá-las para a história.

A melhor forma de começar a estudar a escola de pensamento behaviorista de Watson é lendo um trecho do artigo que inaugurou o movimento. Na passagem a seguir, ele dis­ cute a definição e o objetivo da sua nova psicologia, bem como as suas críticas contra o estruturalismo e o funcionalismo. Ele também explica a sua visão ao considerar as áreas
da psicologia aplicada como científicas por buscarem leis gerais para o controle e a previ­ são do comportamento.

A Reação ao Programa de Watson

Para muitos psicólogos, a crítica de Watson à antiga psicologia e o seu clamor por uma nova abordagem constituíam apelos comoventes. Vamos reconsiderar os fundamentos principais. A psicologia deve ser uma ciência do comportamento - não o estudo introspec­tivo da consciência puramente objetiva, uma ciência natural experimental. Ela teria de investigar tanto o comportamento humano como o animal. Os psicólogos precisariam deixar de lado todas as ideias mentalistas e empregar apenas os conceitos do comporta­mento tais como o estímulo e a resposta. As metas da psicologia deviam ser a previsão e o controle do comportamento.

Embora os argumentos fossem convincentes para alguns, o programa de Watson não foi imediatamente aceito por todos. No início, as publicações especializadas não deram muito destaque ao behaviorísmo. O movimento começou a exercer maior impacto somente após a publicação, em 1919, do livro Psychology from the standpoint of a behavioríst.

Mary Whiton Calkins discordava de Watson e, questionando a sua visão, disse a muitos colegas psicólogos acreditar na introspecção como único método que permitia o estudo de certos processos psicológicos. Esse debate a respeito da introspecção perdurou por vários anos, e Margaret Washburn chegou ao extremo de chamar Watson de inimigo da psicologia.

Era inevitável o crescimento do movimento de apoio a Watson, especialmente entre os psicólogos mais jovens; por volta da década de 1920, as universidades já ofereciam cursos sobre o behaviorísmo, e o termo passou a ser adotado nas revistas especializadas. William McDougall, entre os psicólogos mais antigos, fez uma advertência pública con­tra a popularidade do behaviorísmo, e E. B. Titchener acusou o behaviorísmo de tragar o país como uma onda gigantesca. Entretanto, por volta de 1930, Watson anunciou, com orgulho, que o behaviorismo era tão importante que nenhuma universidade podia deixar de ministrar essa disciplina.

Evidentemente, o movimento behaviorista foi muito bem-sucedido; no entanto, as mudanças exigidas por Watson em 1913 foram lentas. E, quando finalmente se concretiza­ram, a psicologia watsoniana não era a única forma de behaviorismo sendo difundida.

Os Métodos do Behaviorismo

Quando a psicologia teve início formalmente, estava ávida por se aliar à antiga, bem esta­belecida e mais respeitável ciência natural da física. A nova psicologia tentou adaptar os métodos naturais científicos às próprias necessidades. Essa tendência foi ainda mais clara no caso do behaviorismo.

Watson insistia em que a psicologia se limitasse aos dados das ciência naturais, ao que fosse passível de observação. Em poucas palavras: a psicologia devia limitar-se ao estudo objetivo do comportamento. Somente os métodos objetivos rígidos de investigação deviam ser adotados nos laboratórios dos behavioristas. Para Watson, esses métodos incluíam:

  • a observação, com e sem o uso de instrumentos;
  • métodos de teste;
  • o método de relato verbal; e
  • o método do reflexo condicionado.

A observação constitui a base fundamental para os outros métodos. Métodos de teste objetivo já eram adotados, mas Watson propôs tratar os resultados dos testes como amos­tragens do comportamento, e não como indicadores das qualidades mentais. Para ele, o teste não media a inteligência nem a personalidade, ao contrário, simplesmente media as respostas do indivíduo à situação do estímulo de ser submetido ao teste.
A questão do relato verbal foi ainda mais controversa. Como Watson rejeitava tão claramente a introspecção, o uso do relato verbal no laboratório deixava uma abertura às críticas. Alguns psicólogos consideraram o ato comprometedor, afirmando ter Watson intro­duzido a introspecção pela porta dos fundos, depois de tê-la enxotado pela da frente.

Por que ele aceitara o relato verbal? Apesar da aversão pela introspecção, não pôde ignorar os trabalhos realizados pelos psicofísicos com o uso da introspecção. Portanto, sugeriu que as reações orais, por serem observáveis objetivamente, seriam significativas para o behaviorismo, assim como qualquer tipo de resposta motora. "Falar é fazer - ou seja, comportar-se. Falar abertamente ou para nós mesmos (pensar) é um comportamento tão objetivo quanto jogar beisebol" (Watson, 1930, p. 6).

Todavia, a adoção do método do relato verbal no behaviorismo foi uma concessão muito questionada. Os adversários de Watson acusavam-no de fazer um jogo de palavras, de oferecer apenas uma mudança semântica. Ele rebatia, concordando que os relatos verbais talvez não fossem precisos e, portanto, não seriam os substitutos adequados da observação objetiva. Por isso restringia o seu uso para as situações em que pudessem ser verificados, como na descrição das diferenças tonais. Os relatos verbais não-verificáveis, como o pen­samento sem imagens e os relatos dos estados de sentimento, seriam descartados.

O método do reflexo condicionado foi adotado em 1915, dois anos depois da funda­ção formal do behaviorismo. Os métodos de condicionamento eram pouco usados, no entanto, Watson foi bastante responsável pela sua ampla aplicação na pesquisa psicoló­gica estadunidense. Ele contou ao psicólogo Ernest Hilgard haver se interessado muito pelos reflexos condicionados ao estudar o trabalho de Bekhterev, embora mais tarde também
creditasse a Pavlov esse interesse (Hilgard, 1994).

Watson descrevia o condicionamento em termos de substituição de estímulo. A respos­ta torna-se condicionada quando associada ou conectada a um estímulo diferente daquele que a originou (no caso dos cães de Pavlov, a resposta condicionada consistia na salivação mediante o som da campainha e não pela visualização da comida). Ele escolheu esse tra­tamento por oferecer um método objetivo de análise do comportamento, de redução em unidades básicas, ou seja, em ligações de estímulo-resposta (E-R). Todo comportamento podia ser reduzido a esses elementos, portanto o método de reflexo condicionado permi­tia aos psicólogos conduzirem investigações acerca da complexidade do comportamento humano em laboratórios.

Desse modo, Watson mantinha a tradição atomística e mecanicista estabelecida pelos empiristas britânicos e adotada pelos psicólogos estruturalistas. Sua intenção era estudar o comportamento humano da mesma maneira que os físicos estudavam o universo, separando-o em partes componentes, entre elas átomos e elementos.

Para a psicologia, esse enfoque exclusivo nos métodos objetivos e a eliminação da introspecção significaram uma mudança na natureza e no papel do sujeito humano no laboratorio de psicologia. Para Wundt e Titchener, o indivíduo desempenhava o papel tanto do observador como do observado, já que observavam a própria experiência cons­ciente. O seu papel era muito mais importante do que o do pesquisador.

No behaviorismo, os indivíduos em si tornaram-se menos importantes. Eles não mais observaram; em vez disso, eram observados pelo pesquisador. Com essa mudança de enfo­que, o sujeito humano do laboratório, normalmente chamado de observador, passou a ser
conhecido como sujeito. Os verdadeiros observadores eram os pesquisadores, psicólogos responsáveis pela pesquisa que estabeleciam as condições experimentais e registravam as respostas dos sujeitos.

Desse modo, o indivíduo foi rebaixado de posto. Não mais observava as próprias carac­terísticas, apenas exibia os comportamentos. E praticamente todos exibem comportamen­tos. bebês, crianças, pessoas portadoras de distúrbios mentais e emocionais, pombos ou ratos. Esse ponto de vista reforçou a imagem da psicologia de semelhança entre o homem e a maquina. Como notou um historiador, "Insere-se um estímulo em uma das pequenas aberturas para, em seguida, sair um pacote de reações” (Burt, 1962, p. 232).

O Objeto de Estudo do Behaviorismo

Os principais objetos de estudo da psicologia behaviorista de Watson eram os elementos do comportamento, ou seja, os movimentos musculares do corpo e as secrecões glandula­res. Sendo uma ciência do comportamento, a psicologia tratava exclusivamente dos atos passíveis de descrição objetiva, sem o emprego de terminologia subjetiva ou mentalista.

Apesar de a meta estabelecida reduzir todo comportamento em unidades de estímulo-resposta (E-R), o behaviorista basicamente devia envidar esforços para compreender o comportamento do organismo na totalidade. Por exemplo, embora a resposta fosse apenas um espasmo do joelho, ela também podia ser mais complexa. Watson chamava essas res­postas mais complexas de "atos". Considerava atos de resposta inclusive os fatos de comer escrever, dançar ou construir uma casa. Em outras palavras, o ato envolve o movimento do organismo no espaço. Aparentemente, Watson concebia os atos de resposta em função  da realização de alguma meta que afetasse o ambiente de algum indivíduo, e não como uma simples conexão dos elementos musculares. Entretanto, os atos do comportamento, independentemente da sua complexidade, podiam ser reduzidos em respostas glandula­res ou motoras inferiores.

As respostas podem ser explícitas ou implícitas. São explícitas notórias e diretamente observáveis. As respostas implícitas são as que ocorrem dentro do organismo -, por exem­plo, o movimento das vísceras, as secreções glandulares e os impulsos nervosos. Embora as respostas implícitas não sejam patentes, ainda são consideradas comportamentos e, ao incluí-las, Watson estava modificando seu ponto de vista de que todos os dados eram observáveis em psicologia. Ele aceitou que alguns itens do comportamento eram poten­cialmente observáveis. A observação dos movimentos ou das respostas ocorridas dentro do organismo era feita por meio de instrumentos.

Assim como as respostas com as quais o behaviorismo lida, o estímulo também pode ser simples ou complexo. Os feixes de luz que incidem sobre a retina dos olhos são estí­mulos relativamente simples, porém há outros mais complexos. Do mesmo modo que o conjunto de reações envolvido em uma ação pode ser reduzido em respostas componentes, é possível analisar a situação de estímulo reduzindo-a em estímulos componentes espe­cíficos. Assim, a psicologia behaviorista de Watson investiga o comportamento de todo organismo em relação ao seu ambiente. Para propor leis específicas do comportamento, primeiramente é necessário analisar os complexos de estímulo-resposta, reduzindo-os em estímulos elementares e nas unidades de resposta.

No que tange aos métodos e ao objeto de estudo, o behaviorismo de Watson foi uma tentativa de construir uma ciência livre de noções e métodos subjetivos, ou seja, uma ciência tão objetiva quanto a física. A seguir, analisaremos a forma de tratamento dispen­sada por Watson a três temas principais: o instinto, a emoção e o pensamento. Como qualquer teórico sistemático, ele desenvolveu a sua psicologia de acordo com a crença básica de que todas as áreas do comportamento devem ser consideradas no que se refere aos objetivos de estímulo-resposta.

Os Instintos

No início, Watson aceitava o papel dos instintos no comportamento. No livro Behavior: an introduction to comparative psychology (1914), ele descreveu 11 instintos, inclusive um relacionado com o comportamento aleatório. Estudou o comportamento instintivo das andorinhas-do-mar, uma espécie de pássaro aquático das ilhas Dry Tortugas, na região costeira da Flórida. Acompanhou-o nessa experiência Karl Lashley, um estudante da Johns Hopkins University, que afirmou haver sido a expedição prematuramente interrompida ao término do estoque de cigarros e de uísque.
Mais ou menos em 1925, Watson reavaliou sua posição e eliminou o conceito de instinto. Alegou que os comportamentos aparentemente instintivos são, na verdade, respostas con­dicionadas socialmente. Ao adotar a visão de que a aprendizagem - ou o condicionamento - seria a chave para a compreensão do desenvolvimento humano, tornou-se um ambientalista radical, indo ainda mais longe: não apenas negava os instintos como também se recusava a admitir no seu sistema qualquer tipo de talento, temperamento ou capacidade herdado.

Os comportamentos aparentemente herdados estavam relacionados com o treinamen­to adquirido logo nos primeiros anos de infância. Por exemplo, as crianças não nasciam com a habilidade para se tornarem grandes atletas ou músicos, mas eram conduzidas nessa direção pelos pais ou pelos responsáveis pela sua criação, mediante o incentivo e o reforço dos comportamentos adequados. Essa ênfase no efeito imperativo dos pais e do ambiente social na criação infantil foi um dos motivos da popularidade de Watson. Ele concluiu, de forma simples e otimista, ser possível treinar uma criança para se tornar o que se desejasse que ela fosse, pois não havia fatores genéticos limitadores.

Watson não estava sozinho ao sugerir que as influências ambientais seriam mais impor­tantes do que qualquer traço ou potencial inatos. Tornava-se cada vez mais popular, na psi­cologia, a noção de minimizar o papel do instinto como um determinante comportamental. Assim, a posição de Watson refletia uma mudança de perspectiva já em andamento. Além disso, ele pode ter sido influenciado pela orientação aplicada da psicologia estadunidense do iní­cio do século XX. A psicologia não podia ser aplicada para alterar o comportamento, a menos que ele fosse passível de modificação. Não era possível alterar o comportamento regido por forças como o instinto, no entanto o comportamento dependente da aprendizagem ou do treinamento podia ser mudado.

As Emoções

Para Watson, as emoções não passavam de simples respostas fisiológicas a estímulos especí­ficos. Um estímulo (como a ameaça de uma agressão física) produz mudanças físicas inter­nas, tais como o aumento do batimento cardíaco, acompanhado das respostas explícitas apropriadas e adquiridas. Essa explicação para as emoções nega a existência de qualquer percepção consciente da emoção ou as sensações dos órgãos internos.

Cada emoção envolve um padrão particular de mudanças fisiológicas. Embora Watson tenha observado que respostas emocionais têm envolvimento no movimento explícito, acreditava nas reações internas como predominantes. Assim, a emoção constitui uma forma de comportamento implícito no qual as reações internas são expressas por meio de manifestações físicas como o rubor das faces, a transpiração ou o aumento do bati­mento cardíaco.

A teoria das emoções de Watson é menos complexa do que a de William James, cuja teoria afirmava ser a percepção do estímulo imediatamente seguida de mudanças físicas, e definia os sentimentos resultantes como emoção. Watson criticava a posição de James. Descartando o processo consciente de percepção da situação e do estado do sentimento, Watson garantia ser possível descrever as emoções totalmente em função da situação de estimulação objetiva, da resposta física visível e das modificações fisiológicas internas.

Em um estudo hoje considerado clássico, Watson investigou os estímulos que pro­duziam respostas emocionais nos bebês. Sugeria que eles demonstravam três padrões fundamentais de resposta emocional não aprendida: o medo, a raiva e o afeto. O medo seria provocado por ruídos altos e súbita perda de apoio; a raiva, pela restrição dos movi­mentos do corpo, e o afeto, pelo toque carinhoso na pele, pelo embalo e pelas carícias. Watson também descobriu padrões típicos de resposta para esses estímulos. Essas três emoções básicas compõem outras respostas emocionais mediante o processo de condi­cionamento. Elas podem se associar a estímulos que originalmente não eram capazes de provocá-las.

Albert, Peter e os Coelhos

Watson demonstrou sua teoria das respostas emocionais condicionadas nos estudos experi­mentais realizados com o bebê Albert, de 11 meses, condicionando-o a ter medo de um rato branco, que ele não temia antes de ser submetido ao condicionamento (Watson e Ravner, 1920). Para estabelecer a relação de medo, provocava-se um enorme barulho (batendo em uma barra de aço com um martelo) atrás da cabeça de Albert, sempre que o rato lhe era mostrado. Em pouco tempo, a mera visualização do rato produzia sinais de medo na criança. Esse medo condicionado generalizava-se a outros estímulos similares como um coelho, uma pele branca de animal ou a barba branca do Papai Noel. Watson sugeriu que todos os medos, todas as aversões e ansiedades do adulto eram, do mesmo modo, condicionados no início da infância. Eles não surgem, assim como afirmava Freud, de conflitos inconscientes. Watson rejeitava totalmente a noção do inconsciente porque, assim como o consciente, não era possível observá-lo objetivamente. No início, ficara fascinado com vários conceitos de Freud, mas acabou descartando a psicanálise, chamando-a de "macumba" (apiul Rilling, 2000, p. 302).

Watson descreveu a pesquisa com Albert como apenas um estudo-piloto preliminar. Todavia ele jamais foi reproduzido com êxito. Apesar de os psicólogos notarem algumas sérias falhas metodológicas na pesquisa, seus resultados foram aceitos como uma prova científica e são mencionados em praticamente qualquer livro básico de psicologia.

Embora Albert fosse condicionado a ter medo de ratos brancos, coelhos e Papai Noel, ele não estava mais disponível como sujeito da pesquisa quando Watson tentou eliminar esses temores. Pouco tempo depois de começar esse programa de pesquisa, Watson abandonou a vida acadêmica. Mais tarde, quando trabalhava com publicidade em Nova York, apresentou uma palestra sobre a pesquisa. Estava presente no público Mary Cover Jones (uma colega de faculdade da sua esposa, Rosalie). As observações de Watson despertaram seu interesse e ela se questionou se a técnica de condicionamento podia ser utilizada para eliminar o medo das crianças. Pediu a Rosalie que lhe apresentasse Watson e então começou a realizar um estudo que, desde então, tornou-se outro clássico da história da psicologia (Jones, 1924).

Sua pesquisa foi realizada com Peter, de 3 anos, que já demonstrava medo de coelhos, embora esse temor não tenha sido condicionado em laboratório. Enquanto Peter comia, um coelho era colocado na sala, mas a uma distância razoável, de modo que não provocasse uma resposta de medo. Depois de uma série de tentativas, que duraram várias semanas, o coelho era progressivamente trazido para mais perto, sempre quando a criança estava comendo. Finalmente, Peter acabou se acostumando com o coelho e conseguiu tocá-lo sem sentir medo. As respostas generalizadas de medo de objetos similares também foram eliminadas por meio desse procedimento.

O estudo de Jones foi considerado um precursor da terapia do comportamento (a aplicação dos princípios de aprendizagem para alterar o comportamento desajustado), quase 50 anos antes de a técnica se tornar conhecida. Jones, há muito tempo associada ao Institute of Child Walfare da University of Califórnia, em Berkeley, recebeu de G. Stanley Hall um prêmio, em 1968, pelas extraordinárias contribuições para a psicologia do desenvolvimento.

Os Processos de Pensamento

A visão tradicional dos processos de pensamento afirmava que eles ocorriam no cérebro "tão indistintamente que nenhum impulso nervoso passa pelo nervo motor até o músculo, portanto nenhuma reação ocorre nos músculos e nas glândulas" (Watson, 1930, p. 239). De acordo com essa teoria, os processos de pensamento não são passíveis de observação e de experimentação, já que ocorrem na ausência de movimentos musculares. O pensa­mento era considerado intangível, algo exclusivamente mental e, portanto, desprovido de pontos de referência físicos.
O sistema behaviorista de Watson tentou reduzir o pensamento a comportamento motor implícito. Ele alegava ser o pensamento, como todos os demais aspectos do funcio­namento humano, uma espécie de comportamento sensório-motor. Partia do princípio de que o comportamento do pensamento envolvia movimentos ou reações de fala implí­citas. Desse modo, reduzia o pensamento para a fala subvocal que dependia dos mesmos hábitos musculares aprendidos para a expressão da fala explícita. À medida que nos tor­namos adultos, esses hábitos musculares tornam-se inaudíveis e invisíveis porque pais e professores nos reprimem para pararmos de conversar alto com nós mesmos. Assim, o pensamento transforma-se em uma forma de conversação silenciosa.

Watson achava que grande parte desse comportamento implícito se concentrava nos músculos da língua e da laringe (chamadas de caixa da voz). Também expressamos o pen­samento por gestos, como o franzir da testa e o movimento dos ombros, que são reações explícitas a um estímulo.
Uma das fontes mais claras de comprovação da teoria de Watson está no fato de mui­tos admitirem conversar consigo mesmos enquanto estão pensando. Um estudo realizado com relatos introspectivos de estudantes da faculdade constatou que 73% das amostras de pensamento envolviam o ato de conversar consigo mesmo enquanto estavam pen­sando (Farthing, 1992). Todavia, esse tipo de evidência não é aceito pelos behavioristas exatamente por ser introspectivo, e Watson raramente lançava mão da introspecção para sustentar a sua teoria. O behaviorismo exigia provas objetivas de movimentos implícitos da fala, portanto Watson realizou tentativas experimentais para registrar os movimentos da língua e da laringe durante o pensamento.

Essas mensurações revelaram alguns leves movimentos quando os indivíduos estavam pensando. As mensurações dos gestos dos dedos e das mãos dos portadores de deficiência auditiva usando a linguagem dos sinais também revelaram alguns movimentos durante o pensamento. Apesar da sua incapacidade de assegurar resultados mais confiáveis, Watson conti­nuou convicto da existência dos movimentos implícitos de fala. Insistia em que a comprovação dependia apenas do desenvolvimento de equipamentos de laboratório mais sofisticados.

O Apelo Popular do Behaviorismo

Por que as declarações ousadas de Watson lhe renderam tanta adesão do público? Na verdade, a maioria das pessoas pouco se importava se alguns psicólogos fingiam estar conscientes enquanto outros afirmavam ter a psicologia perdido a cabeça ou se o pensa­mento ocorria na cabeça ou no pescoço. Essas questões provocavam muitos debates entre os psicólogos, mas quase não despertavam o interesse das pessoas comuns.
O que sensibilizou o público foi o clamor de Watson por uma sociedade baseada no comportamento controlado e moldado cientificamente, livre dos mitos, dos costumes e dos comportamentos convencionais. Esses conceitos trouxeram esperança às pessoas desencantadas com as antigas ideias. Na fé e na devoção, o behaviorismo adquiriu as características de uma religião. Entre as centenas de artigos e livros escritos sobre o behaviorismo de Watson estava The religion called behaviorism (Berman, 1927), que logo foi lido por um jovem de 23 anos, B. F. Skinner, que escreveu um artigo, enviando-o para uma revista literária popular. "Eles não publicaram o [meu artigo], mas o fato de tê-lo escrito foi como se eu tivesse me definido pela primeira vez como um behaviorista" (Skinner, 1976, p. 299). Skinner prosseguiu aprimorando e ampliando o trabalho de Watson (veja no Capítulo 11).

O entusiasmo gerado pelas ideias de Watson pode ser observado nos comentários dos jornais a respeito do seu livro Behaviorism (1925). O The New York Times declarou: Trata-se de um marco da época na história intelectual do homem" (2 ago. 1925). O The New York Herald Tribune afirmou ser "o livro mais importante escrito até hoje. Saímos em um instante da escuridão para uma grande esperança" (21 jun. 1925).

A esperança vinha da ênfase de Watson no efeito da criação e do ambiente infantil, na determinação do comportamento e na minimização do impacto das tendências inatas. 

O trecho a seguir, extraído do livro Behaviorism, frequentemente é citado para sustentar essa visão:

Deixe sob a minha responsabilidade uns 10 bebês saudáveis e bem-formados, e a um mundo especificado por mim para criá-los, e garanto escolher algum aleatoriamente e treiná-lo para tornar-se especialista de qualquer área, seja um médico, um advogado, um empresário e até mesmo um mendigo ou um bandido, independentemente do talen­to, da propensão, da tendência, da habilidade, da vocação e da raça de seus ancestrais. (Watson, 1930, p. 104)

As experiências de Watson acerca do reflexo condicionado, tais como o estudo com Albert, convenceram-no de que os distúrbios emocionais do adulto são provocados pelas respostas condicionadas estabelecidas na infância e na adolescência. E, se o desequilíbrio do adulto é resultante do condicionamento deficiente na infância, então um programa de condicionamento infantil adequado evitaria o surgimento de adultos desequilibrados. Watson acreditava que esse tipo de controle prático sobre o comportamento infantil (e, consequentemente, sobre o comportamento adulto posterior) não era apenas possível, como também absolutamente necessário. Ele desenvolveu um plano para a melhoria da socieda­de, um programa de ética experimental, baseado nos princípios do behaviorismo.

Ninguém jamais lhe ofereceu uma dezena de bebês saudáveis para ele testar sua afirmação e, mais tarde, Watson reconheceu que, se houvesse feito isso, estaria ultrapas­sando os limites dos fatos. No entanto, comentou que as pessoas que discordavam dele e acreditavam no maior impacto da hereditariedade do que do ambiente vinham fazendo essa afirmação por milhares de anos e ainda não haviam conseguido alguma prova real para a sua visão.

O seguinte trecho do livro Behaviorism mostra a vitalidade com que Watson descrevia o seu programa de sobrevivência nos termos do sistema behaviorista. E talvez ajude a esclarecer por que tantas pessoas adotaram o behaviorismo como uma nova fé.

O behaviorismo deve ser uma ciência que prepare homens e mulheres para compreender os princípios dos próprios comportamentos. Deve formar homens e mulheres dispostos a reorganizar as próprias vidas, e principalmente com disposição para se prepararem para educar seus filhos de maneira saudável. Gostaria de conseguir retratar a vocês o indivíduo rico e maravilhoso que podemos produzir de cada criança saudável se pudermos moldá-la de forma adequada e oferecer-lhe um universo em que possa exercer essa organização, um universo não influenciado pelas lendas folclóricas dos acontecimentos de milhares de anos passados, não tolhido pela história política desonrosa, livre de costumes e conven­ções tolas, desprovidas de significados próprios, mas que submetem os indivíduos como rígidas algemas de aço.

Não clamo aqui por uma revolução; não peço às pessoas que se dirijam a algum local esquecido por Deus, formem uma colônia, andem nuas e vivam em uma comunidade; nem peço para mudarem para uma dieta à base de raízes ou ervas. Não clamo pelo "amor livre". Estou tentando lhes apresentar um estímulo verbal que, se produzir algum efeito, gradualmente transformará o universo. Porque o universo se transformará se vocês edu­carem seus filhos, não com libertinagem, mas com a liberdade behaviorista, uma liber­dade que não pode ser descrita em palavras, já que pouco sabemos dela. E será que essas crianças, com a sua melhor forma de vida e de pensamento, não nos substituirão como sociedade e educarão seus filhos de uma forma mais científica até que o mundo finalmen­te se torne um lugar adequado para o homem viver? (Watson, 1930, p. 303-304)

O plano de Watson de substituir a ética baseada na religião pela experimental, fun­damentada no behaviorismo, ficou na esperança e não se concretizou. Ele esboçou esse programa e o deixou como base para outros. Anos mais tarde, B. F. Skinner (veja no Capí­tulo 11) concebeu mais detalhadamente uma utopia moldada cientificamente no espírito das ideias de Watson.

A Popularização da Psicologia

Por volta da década de 1920, o campo da psicologia já havia conquistado e cativado a atenção do público. Em virtude do carisma, do charme pessoal, do poder de persuasão e da mensagem de esperança de Watson, os estadunidenses estavam enfeitiçados por algo cha­mado "surto" de psicologia. Grande parte do público estava convencida da capacidade da psicologia de mostrar o caminho para a saúde, a felicidade e a prosperidade. As colunas com conselhos psicológicos brotavam nas páginas dos jornais diários.

O psicólogo Joseph Jastrow (1863-1944) era descrito como um propagandista hiperativo da psicologia, comparado aos modernos colunistas famosos, como Ann Landers ou Dear Abby (Rabkin, 1994). Jastrow obteve o Ph.D. em 1886, na Johns Hopkins e construiu uma longa carreira acadêmica na University of Wisconsin. Também escrevia artigos para as revis­tas sobre psicologia, trabalhando com a crença de que a "popularização da psicologia era essencial para o seu reconhecimento público e apoio oficial" (Jastrow, 1930/1961, p. 150). Entre os assuntos abordados estavam a cura da melancolia, a psicologia dos delinquentes, os medos e as preocupações, o significado dos testes de QI, o complexo de inferioridade, os conflitos familiares e o motivo do consumo de café. Obviamente, a psicologia já se encontrava bem distante do trabalho de laboratório da época de Wundt e Titchener.

Jastrow era autor de uma coluna, Keeping Mentally Fit (Como Manter o Equilíbrio Mental), publicada em 150 jornais, e também participava de um programa de rádio semanal da rede NBC. Chegou a escrever um manual popular de psicologia, Piloting your life: the psychologist as helmsman, bem diferente dos livros de autoajuda mais vendidos atualmente. Albert Wiggam foi outro grande divulgador da psicologia. Embora não fosse psicólogo, escrevia uma coluna chamada Exploring Your Mind (Explorando sua Mente). Esse trecho ilustra as suas opiniões:

Os homens e as mulheres nunca precisaram tanto da psicologia como nos dias de hoje. Os rapazes e as moças necessitam da psicologia para avaliar seus traços mentais e suas habilidades, a fim de fazer uma opção precoce e correta da carreira. (...) os empresários a utilizam na seleção de funcionários; os pais e educadores, para ajudar na criação e educa­ção dos filhos; enfim, todos necessitam da psicologia para garantir a mais elevada eficácia e a felicidade. Não se pode atingir plenamente esses objetivos sem o novo conhecimento da própria mente e personalidade que os psicólogos nos oferecem. (Wiggam, 1928 apud Benjamin, 1986, p. 943)

O humorista canadense Stephen Butler Leacock comentou que a psicologia, enquanto confinada nos campi universitários, não estabelecia relações com a realidade nem provocava nenhum dano a quem a estudasse. No entanto, por volta de 1924, ela estava disseminada por toda parte. Leacock disse: "Hoje, para qualquer momento crítico da vida, procuramos os serviços de um psicólogo com a mesma naturalidade com que contratamos o serviço de um encanador. Em todas as metrópoles há ou haverá cartazes em que se lê 'Psicólogo - 24 horas por dia"' (apud Benjamin, 1986, p. 944).

Dessa maneira, a psicologia foi acolhida em todo o território estadunidense, e John B. Watson, mais do que qualquer outra figura, foi responsável por ajudar a divulgá-la.

As Críticas ao Behaviorismo de Watson

Qualquer sistema que apresente propostas radicais de revisão, que desafie violentamente a ordem existente e sugira a exclusão da versão anterior da verdade certamente deve ser alvo de críticas. É sabido que a psicologia estadunidense já rumava em direção à maior obje­tividade quando Watson fundou o behaviorismo, no entanto nem todo psicólogo estava disposto a aceitar a radical objetividade por ele apresentada. Muitos psicólogos, inclusive alguns defensores do princípio da objetividade, acreditavam que o programa de Watson omitia componentes importantes - como os processos perceptuais e sensoriais.

Edwin B.Holt (1873-1946)

Holt recebeu seu diploma de Ph.D. das mãos de William James, pela Harvard University, em 1901 e passou sua carreira acadêmica na Princeton University. Ele discordava do senti­mento de rejeição e dos fenômenos mentais de Watson, e achava que é possível relacionar experiências conscientes a situações físicas. Entretanto, como Watson, Holt acreditava na influência determinante das forças ambientais sobre as forças instintivas.

Também acreditava que a aprendizagem podia ocorrer como resposta a motivações interiores (nossas necessidades e impulsos internos, como fome e sede) bem como moti­vações externas (estímulos). Holt foi um dos primeiros teóricos a identificar os impulsos internos, antecipando-se ao trabalho posterior na área de motivação.

Holt não tentou reduzir o comportamento à unidade estímulo-resposta. Preferiu lidar com comportamentos maiores que tinham algum propósito para o organismo, compor­tamentos que ajudavam a atingir algum objetivo. O termo e conceito de "propósito" não eram permitidos no sistema de Watson. A ênfase que Holt deu a esse conceito serviu de estímulo para o trabalho do neo-behaviorista E.C. Tolman (veja no Capítulo 11).

Karl Lashley (1890-1958)

Lashley fora aluno de Watson na Johns Hopkins, onde completou o Ph.D. Sua carreira na psicofisiologia abriu-lhe as portas das universidades de Minnesota e de Chicago, além da Harvard, conduzindo-o finalmente ao laboratório de Yerkes, dedicado ao estudo biológi­co dos primatas. Ele preservou a tradição mecanicista característica da psicologia desde a sua fundação.

Lashley revelou que, quando criança, ficava muito intrigado com as pessoas e era habili­doso com os objetos mecânicos [como os brinquedos de montar, para construir prédios e pontes]. Afirmou que a psicologia foi uma verdadeira revelação para ele, quando ele reconheceu que o ser humano e a máquina tinham muitos aspectos em comum. (Murray apud Robinson, 1992, p. 213)

Karl Lashley defendia o behaviorismo de Watson, embora sua pesquisa acerca do mecanismo cerebral dos ratos contrariasse um dos pontos básicos de Watson.

Ele resumiu suas descobertas no trabalho Brain mechanisms and intelligence (1929), e apresentou dois princípios hoje famosos: a lei da ação da massa, que estabelece ser a eficácia da aprendizagem uma fun­ção da massa intacta do córtex (quanto mais tecido cortical estiver disponível, melhor a aprendizagem); e o princípio da equipotencialidade, que estabelece ser uma parte do córtex essen­cialmente igual à outra na contribuição para a aprendizagem.

Lashley esperava que a pesquisa lhe revelasse os centros motor e sensorial específicos do córtex cerebral, bem como as conexões correspondentes entre o aparelho motor e o sensorial. Essas descobertas teriam sustentado a primazia e a simplicidade do arco reflexo como uma unidade de comportamento elementar. No entanto, ocorreu que os resultados contradiziam a ideia de Watson da conexão simples, ponto a ponto, dos reflexos, de acor­do com a qual o cérebro serve apenas para transformar os impulsos nervosos sensoriais de origem em impulsos motores de resposta. As descobertas de Lashley sugeriam que o cérebro desempenha uma função muito mais ativa na aprendizagem do que Watson admi­tia. Desse modo, Lashley contestava a afirmação de Watson de que o comportamento era composto parte por parte exclusivamente dos reflexos condicionados.

Embora o trabalho de Lashley contrariasse uma parte fundamental do sistema de Watson, ele não enfraqueceu a insistência behaviorista na utilização dos métodos obje­tivos de pesquisa. Ao contrário, seu trabalho confirmou o valor da objetividade na pes­quisa psicológica.

William McDougall (1871-1938)

Um dos mais vigorosos opositores de Watson era William McDougall, psicólogo inglês que foi para os Estados Unidos em 1920, primeiro para a Harvard e depois para a Duke University. McDougall ficou conhecido por sua teoria do comportamento instintivo e pelo ímpeto do seu livro acerca da psicologia social (McDougall, 1908).

Embora houvesse contribuído muito para a psicologia social, pessoalmente McDougall não era muito sociável. Ele dizia:

Nunca me adaptei adequadamente a nenhum grupo social, jamais fui capaz de me encon­trar completamente como indivíduo na presença de alguma pessoa ou de algum sistema; e, embora não ignorando os interesses da vida, do sentimento e do pensamento coletivo, sempre me mantive isolado, crítico e insatisfeito. (McDougall, 1930, p. 192)

Costumava apoiar causas impopulares, como o livre-arbítrio, a superioridade nórdica e a pesquisa psíquica, e muitas vezes foi criticado pela imprensa por causa das suas posi­ções. McDougall também foi difamado pela comunidade psicológica por haver criticado o behaviorismo na década de 1920, período em que a maioria dos psicólogos aceitava a influência behaviorista.

MacDougall escreveu que "sofreu muito com a perda da reputação, impopularidade, informações difamadoras e hostilidade desdenhosa" (apud Innis, 2003, p. 102). Um psicólogo estadunidense chegou a ponto de dizer publicamente, quando McDougall estava muito doente, que a psicologia lucraria mais se ele morresse. Robert Yerkes, mais compreensivo, observou que a vida de McDougall tinha sido uma "grande tragédia" (Innis, 2003, p. 91).

A teoria do instinto de McDougall afirmava ser o comportamento humano derivado das tendências inatas ao pensamento e à ação. Embora a sua ideia fosse bem recebida no início, perdera terreno para o behaviorismo. Watson não aceitava a noção de instinto, e nessa questão e em várias outras os dois colidiam.

O debate entre Watson e McDougall.

Watson e McDougall encontraram-se para debater suas divergências em 5 de fevereiro de 1924, no Clube de Psicologia, localizado em Washington, DC. O fato de haver em Washington um clube de psicologia não-filiado a nenhuma universidade comprova a ampla popularidade da disciplina. Cerca de mil pes­soas compareceram ao debate. Havia poucos psicólogos: somente 464 membros da APA de todo o país. Assim, o tamanho do público também refletia a popularidade do behavioris­mo de Watson. Os julgadores do debate, no entanto, declaram McDougall o vencedor. Os argumentos de ambas as partes foram publicados em The battle of behaviorism (1929).

McDougall começou com otimismo, dizendo: "Começo com boa vantagem sobre o Dr. Watson, uma superioridade tão grande que se torna até injusto; isto é, todas as pes­soas dotadas de bom senso ficarão necessariamente a meu lado desde o início" (Watson e McDougall, 1929, p. 40). Ele concordava com a visão de Watson de serem os dados do comportamento o enfoque adequado do estudo psicológico, no entanto, afirmava serem igualmente indispensáveis os dados da consciência (essa posição foi sustentada posterior­mente pelos psicólogos humanistas e pelos teóricos da aprendizagem social).

Se os psicólogos não adotassem a introspecção, perguntava McDougall, como deter­minariam o significado da reação de um indivíduo ou a precisão do ato da fala (que Watson chamava de relato verbal)? Sem o autorrelato, como descobrir algo a respeito das fantasias e dos sonhos das pessoas? Como compreender ou analisar as experiências estéticas? McDougall desafiava Watson a explicar como seria o relato do behaviorista acerca da expenencia de apreciar um concerto de violino. McDougall disse:

Entro neste salão e vejo um homem no palco raspando as tripas de um gato com os pelos do rabo de um cavalo, e, sentados silenciosamente em uma atitude de total atenção mil pessoas que de repente irrompem em aplausos. Qual a explicação behaviorista para estra­nhos incidentes como esse? Como explicar o fato de as vibrações emitidas pelos categutes motivarem mil pessoas a permanecerem em total e absoluto silêncio e quietude e o fato seguinte, no qual a interrupção desse estímulo parece transformar-se em outro estímulo provocador de uma atividade tão frenética?

O senso comum e a psicologia concordam em aceitar a explicação de que o público ouviu a musica com extremado prazer e deu vazão à admiração e gratidão ao artista com gritos e aplausos. No entanto, o behaviorista não conhece nada a respeito do prazer e da dor, nem da admiraçao e da gratidão. Ele relegou todas essas "entidades metafísicas" a um amontoado de poeira, e tem de buscar outra explicação. Deixemo-lo procurando, já que a busca o manterá inofensivamente ocupado por vários séculos. (Watson e McDougall, 1929, p. 62-63)

Assim, McDougall questionava a afirmação de Watson de que o comportamento humano é totalmente determinado, de que tudo que realizamos é resultado direto da experiência passada e pode ser previsto assim que conhecemos esses fatos passados. Esse tipo de Pslcologia não dá espaço para o livre-arbítrio ou a liberdade de escolha. Se essa posição determinista fosse verdadeira, ou seja, se os humanos não fossem dotados
e vontade livre nem responsáveis pelas próprias ações, então não existiria a iniciativa humana, o esforço criativo, o desejo de melhoria individual e social. Ninguém tentaria evitar a guerra, minimizar a injustiça ou lutar por algum ideal pessoal ou social Por que continuar tentando achar uma resposta, se todo pensamento e comportamento é deter­minado pela experiência passada?

O método do relato verbal de Watson entrou no fogo cruzado. Watson foi acusado e inconsistência por aceita-lo quando conseguia comprová-lo e rejeitá-lo quando não. Evidentemente, esse era o enfoque principal de Watson e de todo o movimento behaviorista: usar somente dados verificáveis.

O debate entre os dois ocorreu 11 anos depois de Watson fundar a escola de pensa­mento behaviorista. McDougall previu que em mais alguns anos a posição de Watson desapareceria sem deixar rastros. Em um pós-escrito à publicação do debate, cinco anos depois McDougall disse que sua previsão foi excessivamente otimista, "baseada em uma ideia generosa demais da inteligência do público americano. (...) Dr. Watson continua
como um profeta muito honrado no próprio país, a emitir suas opiniões" (Watson é McDougall, 1929, p. 86-87).

As Contribuições do Behaviorismo de Watson

A carreira produtiva de Watson na psicologia durou pouco menos de 20 anos; mesmo assim, afetou profundamente o curso do desenvolvimento da psicologia por muito tempo.

Watson foi um eficaz agente do Zeitgeist, em uma época de mudanças não apenas na psicologia, como também nas atitudes científicas em geral. O século XIX testemunhou os magníficos avanços em todos os ramos da ciência. O século XX prometia feitos ainda mais extraordinários. Na época, acreditava-se que, se aos cientistas fosse dado tempo sufi­ciente, eles descobririam as soluções para todos os problemas e as respostas para todas as perguntas.

Watson tornou a metodologia e a terminologia da psicologia mais objetivas. Embo­ra suas posições a respeito de determinados tópicos estimulassem muita pesquisa, suas formulações iniciais não são mais válidas. Como uma escola de pensamento distinta, o behaviorismo de Watson foi substituído por outras formas de objetivismo psicológico nele baseado, como veremos no Capítulo 11. O historiador E. G. Boring afirmou que, em 1929, o behaviorismo já ultrapassara a etapa inicial. Como os movimentos revolucionários dependem das polêmicas para se fortalecerem, é um verdadeiro tributo ao behaviorismo de Watson que apenas 16 anos após a sua introdução ele não precisasse mais protestar. Na verdade, não sobrou nada para protestar.

O behaviorismo de Watson efetivamente superou as posições iniciais mais gerais da psicologia. Em 1926, um estudante de pós-graduação da University of Wisconsin relatou que, naquela época, poucos estudantes tinham ouvido falar de Wundt e Titchener (Gengerelli, 1976). Os métodos objetivos e a linguagem acabaram se incorporando à psicologia estadunidense e, desse modo, morria o sistema de Watson, assim como outros movimentos bem-sucedidos, ou seja, sendo absorvidos por um corpo principal de pensamento, a fim de proporcionar uma base conceituai mais firme para a psicologia moderna.

Embora o programa de Watson não lhe permitisse atingir seus ambiciosos objetivos, ele foi amplamente reconhecido pelo seu papel de fundador. O seu 100° aniversário de nascimento foi comemorado em abril de 1979, o mesmo ano do centenário da psicologia como ciência. Um simpósio realizado na Furman University, para o qual o laboratório de psicologia levou o nome de Watson em sua homenagem, reuniu psicólogos vindos de todos os Estados Unidos. Um dos oradores foi B. F. Skinner, cujo discurso se intitulava “What J. B. Watson meant to me” ("O que J. B. Watson significou para mim"). Seus conterrâneos não guardavam boas lembranças de Watson. Muitos recordavam-se dele como "arrogante e ateu que voltara as costas para a sua herança sulista e a criação batista" (Greenville News, 5 abr. 1979). Em 1984, foi inaugurado um marco comemorativo em uma estrada próxima ao local de seu nascimento.

Até certo ponto, a aceitação do behaviorismo watsoniano deveu-se à personalidade de Watson, figura carismática que projetava suas ideias com entusiasmo, otimismo e autocon­fiança. Orador muito eloquente e persuasivo, desprezava a tradição e rejeitava a psicologia corrente. Essas características pessoais, aliadas ao espírito dos tempos que ele manipulava com tanta maestria, definiram John B. Watson como um dos pioneiros da psicologia.
 

Psicologia - História da Psicologia
2/4/2020 1:30:02 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Behaviorismo, as influências anteriores

Hans, o Esperto, foi o cavalo mais famoso de toda a história da psicologia. Naturalmente, ele foi o único cavalo na história da psicologia, mas isso não diminui suas realizações extraordina­riamente brilhantes. No início da década de 1900, praticamente toda pessoa culta da Europa e dos Estados Unidos já ouvira falar a respeito de Hans, o cavalo prodígio. Ele foi o cavalo mais esperto do mundo e conhecido até como a criatura de
quatro patas mais inteligente de que se ouvira falar.

O esperto Hans, que vivia em Berlim, Alemanha, era uma celebridade. As propagandas usavam seu nome para vender seus produtos. Suas realizações serviram de inspi­ração para canções, artigos de revistas e livros. Seu conhe­cimento fenomenal foi testado por matemáticos famosos e considerado como tendo capacidade de raciocínio numérico equivalente ao de um menino de 14 anos de idade.

Ele conseguia somar e subtrair, usar frações e decimais, ler, identificar moedas, jogar baralho, soletrar, reconhecer uma variedade de objetos e resolver problemas incríveis de memória. O cavalo respondia a perguntas feitas a ele batendo a pata um determinado número de vezes ou balançando a cabeça em direção ao objeto apropriado. "Quantos cavalheiros presentes estão usando chapéu de palha?" perguntava-se. [228] Hans, o Esperto, batia a resposta com sua pata direita, tomando cuidado para não incluir os chapéus de palha usados pelas damas. "O que aquela senhora está segurando?" O cavalo respondia ‘‘schirm’’, que significa sombrinha, indicando cada letra em um cartaz especial. E ele ainda era capaz de distinguir entre uma bengala e uma sombrinha, ou um chapéu de palha e um de feltro.

O mais importante é que Hans podia pensar por si mesmo. Quando lhe faziam uma pergunta estranha, por exemplo, quantos lados tem um círculo, ele sacudia a cabeça de um lado para o outro querendo dizer que nenhum. (Fernald, 1984, p. 19)

Não era para menos que as pessoas ficassem surpresas e que seu dono, Wilhelm von Osten, um professor aposentado de matemática, ficasse orgulhoso. Ele levara vários anos ensinando a Hans os princípios da inteligência humana (já havia tentado antes, em vão, ensinar um gato e um urso). Von Osten não lucrou financeiramente com o desempenho de Hans. Quando deu demonstrações da inteligência do cavalo, no pátio do edifício onde morava, nunca cobrou nenhuma taxa, tampouco aproveitou-se do resultado para fazer publicidade. A motivação para esse enorme esforço foi puramente científica. Seu objetivo era provar que Darwin estava correto ao sugerir a semelhança entre o processo mental animal e o humano.

Von Osten também acreditava que educação insuficiente era a única justificativa para a aparente falta de inteligência dos cavalos e dos demais animais. Estava convencido de que, com o método adequado de treinamento, o cavalo provaria sua inteligência.  Devido aos seus esforços, a maior parte do mundo ocidental se convenceu!

Mas havia alguns céticos que duvidavam e questionavam se Hans ou qualquer outro animal podia realmente ser tão inteligente. Devia ter algum truque envolvido. Alguns achavam que era o escândalo do século.

Você acredita que seja possível ensinar um animal a responder perguntas correta­mente? Aquela exibição da inteligência do animal era legítima? E o que tudo isso tem a ver com a história da psicologia? Vamos ver posteriormente que foi um psicólogo que finalmente resolveu o mistério.

Rumo à Ciência do Behaviorismo

Em torno da segunda década do século XX, pouco menos de 40 anos após Wilhelm Wundt dar início à psicologia, a ciência passava por uma profunda reavaliação. Não havia mais consenso entre os psicólogos acerca do valor da introspecção, da existência dos elemen­tos mentais ou da necessidade de a psicologia continuar a manter o status de uma ciência pura. Os psicólogos funcionalistas reescreviam as diretrizes, usando a psicologia de uma forma que seria inadmissível em Leipzig e em Cornell.

O movimento na direção do funcionalismo era mais evolucionário do que revolucioná­rio. A intenção inicial dos funcionalistas não consistia em acabar com a ordem estabelecida por Wundt e E. B. Titchener. Eles apenas acrescentaram e modificaram alguns aspectos, dando origem, com o passar dos anos, a uma nova forma de psicologia, que era mais um movimento emergente interno do que uma consequência de um ataque externo. [229]

Os líderes do movimento funcionalista não estavam ávidos por formalizar a sua posi­ção. Eles viam a sua tarefa não como uma ruptura com o passado, mas como uma evolução a partir dele. Por isso, a mudança do estruturalismo para o funcionalismo não estava tão evidente no momento em que ocorria. Dessa forma, o cenário da psicologia estadunidense na segunda década do século XX exibia o amadurecimento do funcionalismo concomitantemente à consolidação, embora em uma posição não mais exclusiva, do estruturalismo.

O ano de 1913 foi marcado por uma espécie de declaração de guerra, com o surgimento de um movimento de protesto cuja intenção era dilacerar as visões antigas, buscando uma ruptura com ambas as posições. Seus líderes não desejavam modificar o passado, muito menos manter alguma relação com ele. Esse movimento revolucionário chamava-se beha- viorismo e foi promovido pelo psicólogo John B. Watson, de 35 anos. Apenas 10 anos antes, Watson recebera o Ph.D. de James Rowland Angell na University of Chicago, na época em que a universidade era o centro da psicologia funcionalista, um dos dois movimentos que Watson decidiu destruir.

As premissas básicas do behaviorismo de Watson eram simples, diretas e ousadas. Ele buscava uma psicologia científica que lidasse exclusivamente com os atos comportamentais observáveis e passíveis de descrição objetiva, por exemplo, em termos de "estímulo" e "resposta". Além disso, a psicologia de Watson rejeitava qualquer termo ou conceito mentalista. Na sua visão, palavras como "imagem", "sensação", "mente" e "consciência" - adotadas desde a época da filosofia mentalista - não significavam absolutamente nada para a ciência do comportamento.

Watson afirmava que a consciência não tinha o menor valor para a psicologia do comportamento, rejeitando veementemente esse conceito. Além disso, alegava que nin­ guém jamais "havia visto, tocado, cheirado, experimentado ou transferido de um lugar a outro a consciência. Asua definição não passa de mera suposição tão improvável quanto o conceito de alma" (Watson e McDougall, 1929, p. 14). Desse modo, a introspecção, que pressupunha a existência do processo consciente, era irrelevante e sem valor para a ciên­ cia do comportamento.

Watson afirmava que a consciência não tinha o menor valor para a psicologia do comportamento, rejeitando veementemente esse conceito. Além disso, alegava que nin­ guém jamais "havia visto, tocado, cheirado, experimentado ou transferido de um lugar a outro a consciência. Asua definição não passa de mera suposição tão improvável quanto o conceito de alma'' (Watson e McDougall, 1929, p. 14). Desse modo, a introspecção, que pressupunha a existência do processo consciente, era irrelevante e sem valor para a ciên­ cia do comportamento.

Não foi Watson quem deu origem a essas idéias básicas do movimento behaviorista; elas já vinham sendo desenvolvidas há algum tempo, tanto na psicologia como na biolo­ gia. Como qualquer outro fundador, Watson organizou e promoveu as idéias e as questões já aceitáveis para o Zeitgeist intelectual. Assim, são estes alguns dos principais conceitos reunidos por Watson para formar seu sistema de psicologia behaviorista: a tradição filosó­fica objetivista e mecanicista; a psicologia animal; e a psicologia funcional.

O reconhecimento da necessidade de uma psicologia mais objetiva envolve uma longa história que nos remete a Descartes, cujas explicações mecanicistas para o funcionamento do corpo humano constituíram uma das primeiras iniciativas rumo a uma ciência objetiva. Outra figura ainda mais importante na história do objetivismo foi o filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), fundador do positivismo, movimento com ênfase no conhecimento positivo (fatos), o quél constituiria uma verdade inquestionável (veja no Capítulo 2). De acordo com Comte, o único conhecimento válido é o de natureza social e observável de forma objetiva. Esses critérios eliminavam a introspecção, já que ela depende da consciên­cia individual particular e não é passível de estudo objetivo.

Por volta dos primeiros anos do século XX, o positivismo incorporava-se ao Zeitgeist científico. Mesmo assim, Watson e outros psicólogos estadunidenses da sua época raramente abordavam o positivismo em seus trabalhos. No entanto, de acordo com um historiador, "agiam como positivistas, mesmo não se assumindo como tais (Logue, 1985. p. 149). Dessa forma, quando Watson começou a trabalhar com o behaviorismo as suas idéias já tão impregnadas pelas influências objetivistas, mecanicistas e materialistas, deram origem a um novo tipo de psicologia - disciplina que excluía a consciência, a mente ou a alma -, com enfoque apenas em algo visível, audível ou palpável. O resultado foi uma ciência do comportamento que enxergava o ser humano como uma máquina.

A Influencio da Psicologia Animal no Behaviorismo

A posição de Watson a respeito da relação entre a psicologia animal e o behaviorismo era clara: "O behaviorismo é o resultado direto dos estudos do comportamento animal realiza­dos durante a primeira década do século XX" (Watson, 1929, p. 327). Desse modo, podemos afirmar que o principal antecessor do programa de Watson foi a psicologia animal, resultante da teoria evolucionista e que levou à tentativa de se demonstrar (1) a existência da mente nos organismos inferiores e (2) a continuidade entre a mente animal e a humana.

No Capítulo 6, apresentamos os trabalhos de dois pioneiros da psicologia animal, George John Romanes e Conwy Lloyd Morgan. A lei da parcimônia de Morgan e o maior emprego das técnicas experimentais em vez das anedóticas tornaram a psicologia animal mais objetiva, embora a consciência continuasse a ser o enfoque central. A metodologia tornava-se mais objetiva, mesmo o objeto de estudo sendo subjetivo.

Por exemplo, em 1899, Alfred Binet publicou The psychic life of micro-organisms, em que apresentava uma proposta afirmando que até mesmo um organismo unicelular como o protozoário era capaz de perceber e distinguir os objetos e de exibir um comportamento dotado de intenção. Em 1908, Francis Darwin (filho de Charles Darwin) questionava sobre o papel da consciência nas plantas. Nos primeiros anos da psicologia animal nos Estados Unidos, houve grande interesse pelos processos conscientes dos animais, e a influência de Romanes e Morgan perdurou por algum tempo.

Jacques Loeb (1859-1924)

Outra personalidade que contribuiu significativamente para incrementar a objetividade na psicologia animal foi o fisiologista e zoólogo alemão Jacques Loeb (1859-1924), que gostava de regar seu jardim mesmo quando chovia. Loeb trabalhou em diversas institui­ções nos Estados Unidos, inclusive na University of Chicago.

Em reação à tradição antropomórfica e ao método de introspecção por analogia, desenvolveu uma teoria do comportamento animal com base no conceito de tropismo, o movimento forçado involuntário. Ele acreditava na reação direta e automática do animal a um estímulo. Desse modo, afirmava ser a reação comportamental forçada pelo estímulo, não cabendo qualquer explicação em termos de definição consciente do animal.[231]

Embora seu trabalho representasse o tratamento mais objetivo e mecânico da psico­logia animal daquela época, Loeb não conseguiu abdicar totalmente do passado. Ele não rejeitava a existência da consciência nos animais (por exemplo, nos seres humanos) que se encontravam na escala mais elevada da evolução (Loeb, 1918). Argumentava que a cons­ciência animal revelava-se por meio da memória associativa, ou seja, que os animais já haviam aprendido a reagir a determinados estímulos de um modo esperado. Por exemplo a reação do animal ao ser chamado pelo nome ou ao ouvir um som específico para dirigir-se repetidas vezes a determinado local a fim de receber alimento são evidências de alguma conexão mental, da existência da memória associativa. Portanto, mesmo a abordagem de algum modo mecanicista de Loeb ainda continha certo conceito de consciência.

Watson frequentou alguns cursos de Loeb na University of Chicago e desejava reali­zar pesquisas sob sua orientação, demonstrando curiosidade a respeito das visões mecanicistas de Loeb. Angell e o neurologista H. H. Donaldson demoveram Watson da sua intenção, afirmando ser uma ideia "arriscada", termo com várias conotações, mas talvez com o intuito de expressar o repúdio ao objetivismo de Loeb.

Ratos, Formigas e a Mente Animal

Mais ou menos no início do século XX, os psicólogos da psicologia animal experimental trabalhavam com muita seriedade. Robert Yerkes iniciou esses estudos em 1900 usando diversos animais, e suas pesquisas consolidaram a posição e a influência da psicologia comparativa.

Também em 1900, Willard S. Small, da Clark University, introduziu o labirinto para ratos (veja na Figura 9.1); assim, o camundongo branco e o labirinto transformaram-se em método padrao no estudo da aprendizagem. A noção de consciência ainda invadia a psicologia animal, mesmo com a adoção do método do rato branco e o labirinto. Ao inter­ pretar o comportamento do rato, Small usava a terminologia mentalista, descrevendo as imagens e as ideias do animal.

Embora as conclusoes de Small fossem mais objetivas do que as produzidas pelo tipo de antropomorfização de Romanes, elas também refletiam uma preocupação em relação aos elementos e processos mentais. No início da carreira, até mesmo Watson sofrera essa influencia. O titulo da sua dissertação de doutorado, concluída em 1903, era Animal education: the psychical development of the white rat (grifo em negrito acrescentado) (A educação animal: o desenvolvimento psíquico do rato branco). Até 1907, ele discutia a experiência consciente da sensação dos ratos.

Em 1906, ainda como aluno de pós-graduação da University of Chicago, Charles Henry Turner (1867-1923) publicou um artigo intitulado “A preliminary note on ant behavior” Observações preliminares sobre o comportamento da formiga"). Watson publicou uma critica muito elogiosa sobre o trabalho na renomada revista Psychological Bulletin. Nesse artigo, empregou a palavra comportamento, que aparece no título do trabalho de Turner, e talvez essa tenha sldo a Primeira vez que ele usou a palavra por escrito, embora já a houvesse empregado anteriormente em uma solicitação de recursos (Cadwallader, 1984, 1987). [232]

Turner era afro-americano e recebeu o Ph.D. magna cum laude, em 1907, da University of Chicago. Embora sua graduação fosse em zoologia, ele publicou tantas pesquisas relacionadas com os estudos comparativos e de animais em revistas especializadas de psicologia que alguns psicólogos o consideravam um colega da área. Porém, lembre-se de quão raros eram os empregos para os psicólogos pertencentes a grupos de minoria, e por isso as oportunidades acadêmicas de Turner se limitavam a posições em faculdades do Missouri e da Geórgia.

Por volta de 1910, foram instalados oito laboratórios de psicologia comparativa; os primeiros estavam nas universidades Clark, Harvard e Chicago. Diversas universidades ofereciam cursos na área. Margaret Floy Washburn, a primeira orientanda de doutorado de Titchener (veja no Capítulo 5), lecionava psicologia animal na Cornell. Seu livro, The animal mind (1908), foi o primeiro trabalho de psicologia comparativa publicado nos Estados Unidos.

Observe-se o título do livro de Washburn: The animal mind. No seu trabalho, persistia a noção de consciência animal, bem como o método de introspecção comparativa entre a mente animal e a mente humana. Washburn afirmava: [233]

Somos obrigados a reconhecer que toda interpretação psíquica do comportamento animal deve ser por analogia com a experiência humana (...) Devemos adotar a posição antropomorfica ao formarmos ideias sobre o que ocorre na mente de um animal. (Washburn, 1908; p. 88)

Embora o livro de Washburn fosse o mais completo em termos de pesquisa sobre a psicologia animal naquela epoca, ele também marcou o fim de uma era. Depois dele nenhum outro texto usou a abordagem da inferência dos estados mentais a partir do comportamento. Os temas que chamaram a atenção de [Herbert] Spencer, Lloyd Morgan e Yerkes não esta­vam mais em voga e praticamente desapareceram da literatura.

Quase todo livro didático que veio a seguir adotava a visão behaviorista e envolvia principalmente as questões e os problemas da aprendizagem. (Demarest, 1987, p. 144)

Seja lidando com a mente, seja com o comportamento, não era fácil ser um profissio­nal da psicologia animal. Tanto os governantes como os administradores das universida­des sempre atentos às questões orçamentárias, não enxergavam na área nenhum valor prático. O heitor de Harvard dizia não ver "futuro no tipo de psicologia comparativa de Yerkes. Alem de malcheirosa e cara, parece não oferecer nenhuma aplicacão prática para o serviço publico (Reed, 1987a, p. 94). Yerkes disse ter sido 

discreta e gentilmente alertado (...) de que a psicologia educacional oferecia, além da minha area especifica de psicologia comparativa, outros caminhos, mais amplos e dire­tos, para uma carreira na docência e para melhor aproveitamento acadêmico; assim eu devia pensar seriamente em mudar. (Yerkes, 1930/1961, p. 390-391)

Os alunos orientados por Yerkes em seu laboratório procuravam empregos na área da aplicação por não conseguirem colocação na psicologia comparativa. Aqueles que conse­guiam garantir uma posição universitária estavam cientes de que eram os membros mais custosos dos respectivos departamentos de psicologia. Nos momentos de dificuldades financeiras, os que fossem vinculados à psicologia animal geralmente eram os primeiros a ser demitidos.

O próprio Watson enfrentou esse tipo de dificuldade no início da carreira. Ele escre­veu para Yerkes, dizendo: "No momento, a minha pesquisa está parada. (...) Não temos espaço físico para manter os animais e, mesmo que o tivéssemos, não teríamos fundos para mante-lo (Watson, 1904, apud O'Donnell, 1985, p. 190). Em 1908, apenas seis traba­lhos relacionados com animais foram publicados nas revistas de psicologia, cerca de 4% de toda a pesquisa psicológica daquele ano. No ano seguinte, quando Watson sugeriu a Yerkes um jantar, reunindo os psicólogos que estudavam o comportamento dos animais durante o encontro da APA, sabia que caberiam todos em uma única mesa: compareceram apenas nove. Na edição de 1910 da American Men of Science, de Cattell, apenas seis, entre os 218 psicologos relacionados, admitiam realizar pesquisas com animais. As perspectivas profissionais não eram promissoras, mas, mesmo assim, o campo se expandia em virtude da dedicaçao de alguns, poucos, que permaneciam na área.

A publicação Journal of Animal Behavior (mais tarde intitulada Journal of Comparative Psychology) foi lançada em 1911. Em 1906, o texto de uma palestra do fisiologista russo Ivan Pavlov foi publlcado na revista Science, introduzindo para o público estadunidense o seu [234] trabalho a respeito da psicologia animal. Yerkes e Sergius Morgulis, um estudante russo, publicaram um relato mais detalhado da metodologia utilizada por Pavlov, bem como dos resultados da sua pesquisa, na publicação Psychological Bulletin (1909).

A pesquisa de Pavlov sustentava a psicologia objetiva e, em especial, o behaviorismo de Watson. Desse modo, estabeleceu-se uma psicologia animal dotada de um método e um objeto de estudo muito mais objetivos. Aquela tendência em direção a uma maior objeti­vidade no estudo do comportamento animal foi fortemente apoiada pelos acontecimentos na Alemanha, em 1904. Esse foi o ano em que o governo estabeleceu uma comissão para examinar os poderes de Hans, o Esperto, e determinar se havia algum mecanismo ou truque envolvido. O grupo incluía um administrador de circo, um veterinário, treinadores de cavalo, um aristocrata, o diretor do Zoológico de Berlim e o psicólogo Carl Stumpf, da University of Berlin.

Em setembro de 1904, depois de uma minuciosa investigação, a comissão concluiu que Hans não recebia nenhum tipo de sinalização intencional nem indicações do proprietário. Não havia fraude nem truques. No entanto, Stumpf não se encontrava totalmente con­vencido e estava curioso para saber como o cavalo conseguia responder corretamente a tantas perguntas. Ele atribuiu essa missão a um aluno de pós-graduação, Oskar Pfungst, que realizou o estudo com o cuidado exigido de um psicólogo experimental.

O cavalo demonstrou capacidade para responder às perguntas mesmo quando o trei­nador não estava presente; assim, Pfungst decidiu elaborar uma experiência para testar esse fenômeno. Formou dois grupos de pessoas para formular as perguntas: um, com indivíduos que sabiam as respostas corretas, e outro, com indivíduos que não sabiam res­ ponder às questões formuladas ao cavalo. Os resultados mostraram que o cavalo respondia corretamente somente às perguntas feitas pelos indivíduos que sabiam a resposta. Assim, ficou claro que Hans recebia as informações de quem quer que estivesse formulando a pergunta, mesmo que fosse um estranho.

Depois de uma série de experiências rigorosamente controladas, Pfungst concluiu que Hans fora condicionado sem querer pelo proprietário, von Osten. O cavalo começava a bater a pata ao menor movimento para baixo da cabeça de von Osten. Quando ele executava o número correto de batidas, a cabeça de von Osten automaticamente fazia um leve movimento para cima, e o cavalo parava de bater. Pfungst demonstrou que qualquer indivíduo, mesmo uma pessoa que nunca estivera perto de um cavalo, realizava o mesmo gesto imperceptível com a cabeça quando falava com o animal.

Assim, o psicólogo provou que Hans não tinha um depósito de conhecimento. Ele apenas fora treinado para começar a bater com a pata ou a inclinar a cabeça em direção ao objeto sempre que a pessoa fizesse determinado movimento, e condicionado a parar ao mínimo movimento contrário. Von Osten motivara Hans durante o período de treina­mento, dando-lhe cenouras e torrões de açúcar, sempre que respondia corretamente. Com o passar do tempo, von Osten pensou que não precisava mais incentivar cada resposta correta, por isso passou a premiá-lo apenas de vez em quando. O psicólogo behaviorista B. F. Skinner demonstrou mais tarde a enorme eficácia desse tipo de reforço intermitente ou parcial no processo de condicionamento.

O que von Osten pensou da conclusão de Pfungst? Ficou arrasado e sentiu-se ofendido, explorado e fisicamente doente. Entretanto direcionou sua fúria não a Pfungst, mas a Hans, que, acreditava von Osten, de algum modo o enganara. Von Osten afirmava que o comportamento fraudulento do cavalo o deixara enfermo. E realmente ele acabou ficando doente e foi diagnosticado com câncer do fígado. (Candland, 1993, p. 135) [235]

Von Osten jamais perdoou Hans pela traição e rogou-lhe uma praga, dizendo que pas­saria o resto dos seus dias puxando uma carruagem fúnebre. Von Osten morreu dois anos depois da constatação de Pfungst, creditando ao comportamento ingrato do cavalo o fato de ter ficado enfermo. Era evidente que ele ainda acreditava na inteligência de Hans.

O novo dono de Hans, o Esperto, Hans Krall, um joalheiro milionário, colocou Hans e dois outros cavalos em exibição para performances populares em que os cavalos batiam com as patas em resposta às perguntas. E suas respostas estavam sempre corretas. Krall os chamava de Cavalos Mágicos. Eles surpreendiam as plateias com seus poderes; conseguiam até calcular a raiz quadrada de números, entre outros truques (veja Kressley-Mba, 2006). Aparentemente a maior parte do público não tinha ouvido falar, ou prestado atenção às pesquisas de Pfungst mostrando que os denominados poderes não tinham nenhum mistério, mas eram simplesmente respostas aprendidas.

O caso de Hans, o Esperto, é um exemplo do valor e da necessidade de uma abordagem experimental no estudo do comportamento animal. Os psicólogos passaram a enxergar com mais ceticismo os grandes feitos de "animais inteligentes". Entretanto, esse estudo também mostrou a capacidade de o animal aprender e ser condicionado a modificar seu comportamento. O estudo experimental da aprendizagem animal passou a ser mais impor­tante no tratamento desse tipo de questão do que a hipótese anterior sobre a existência de uma consciência operando na mente animal. John B. Watson redigiu um artigo para a Journal of Comparative Neurology and Psychology a respeito do relato experimental de
Pfungst sobre Hans, o Esperto. As conclusões do trabalho influenciaram a crescente ten­dência de Watson em promover uma psicologia que abordasse apenas o comportamento e não a consciência (Watson, 1908).

Edward Lee Thorndike (1874-1949)

Thorndike, um dos principais pesquisadores para o desenvolvimento da psicologia animal, elaborou uma teoria de aprendizagem objetiva e mecanicista com enfoque no comporta­mento manifesto. Thorndike acreditava que o psicólogo devia estudar o comportamento, não os elementos mentais ou a experiência consciente, e assim reforçava a tendência rumo à maior objetividade iniciada pelos funcionalistas. Não interpretava a aprendizagem do ponto de vista subjetivo, mas em termos de conexões concretas entre o estímulo e a res­posta, embora não admitisse qualquer referência à consciência e aos processos mentais.

Os trabalhos de Thorndike e de Ivan Pavlov são outro exemplo de descobertas simultâ­neas independentes. Thorndike desenvolveu a lei do efeito em 1898, e Pavlov apresentou uma proposta semelhante, a lei do reforço, em 1902.

A Biografia de Thorndike

Edward Lee Thorndike foi um dos primeiros psicólogos estadunidenses a receber toda a formação educacional nos Estados Unidos. Um fato importante foi ele ter realizado os estudos de pós-graduação nos Estados Unidos e não na Alemanha, apenas duas décadas depois da fundação formal da psicologia. O seu interesse na psicologia foi despertado, assim como o de vários outros colegas, pela leitura da obra The principles of psychology de [236] William James, quando ainda era estudante de graduação na Wesleyan University, em Middletown, Connecticut. Mais tarde, Thorndike estudou sob a orientação de James, em Harvard, e começou a pesquisar sobre a aprendizagem.

Ele planejava conduzir suas pesquisas utilizando crianças como sujeitos, o que estava proibido. A administração da universidade ainda sofria as consequências de um escânda­ lo envolvendo um antropólogo acusado de afrouxar as roupas das crianças para tomar as medidas do corpo. Ao constatar que não poderia realizar experiências com as crianças, resolveu usar pintinhos, talvez inspirado nas aulas em que Morgan descrevia a sua pes­quisa com esses animais.

Thorndike improvisou labirintos usando alguns livros e ensinou os pintinhos a percor­rerem os caminhos. Com dificuldades para achar um lugar para guardar os pintinhos, já que a proprietária do imóvel em que morava não permitia que mantivesse os animais no seu quarto, ele pediu ajuda a William James, o qual, não conseguindo arrumar um lugar no laboratório nem no museu da universidade, resolveu acolher Thorndike e os pintinhos no porão da sua casa, para alegria de seus filhos.

Thorndike não chegou a completar os estudos em Harvard. Desiludido por não ser correspondido por uma jovem, resolveu afastar-se da região de Boston e matriculou-se no curso de James McKeen Cattell, na Columbia University. Quando Cattell lhe ofereceu uma bolsa de estudos, Thorndike seguiu para Nova York, levando consigo os dois pintinhos mais bem treinados. Prosseguiu nas pesquisas com animais na Columbia, trabalhando com gatos e cachorros, usando caixas-problema que ele mesmo havia projetado. Em 1898, recebeu o título de Ph.D., apresentando a dissertação Animal intelligence: an experimental study of the associative processes in animais (Inteligência animal: um estudo experimental dos processos associativos nos animais), publicada com destaque na Psychological Review por ser a primeira tese de doutorado a utilizar animais como sujeito de pesquisa (Galef, 1998). Posteriormente, Thorndike publicou várias pesquisas a respeito da aprendizagem associativa, envolvendo pintinhos, peixes, gatos e macacos.

Extremamente ambicioso e competitivo, Thorndike escreveu à sua noiva, dizendo: "Decidi chegar ao topo da psicologia em cinco anos, lecionar durante mais dez e, então, abandonar a área" (apuá Boakes, 1984, p. 72). Ele não permaneceu na psicologia animal por muito tempo. Reconhecia não ser essa a área de seu principal interesse, mas manteve-se nela exclusivamente para completar a graduação e criar certa reputação. A psicologia animal não era o melhor campo para uma pessoa com tamanha vontade de alcançar o sucesso. Além disso, como já verificamos anteriormente, as áreas aplicadas ofereciam muito mais oportunidades de emprego do que a pesquisa com animais.

Thorndike tornou-se orientador de psicologia na Teachers College da Columbia Uni­versity. Ali estudou os problemas de aprendizagem nos seres humanos, adaptando as téc­nicas de pesquisa com animais para crianças e jovens (Beatty, 1998). Passou a dedicar-se a outras duas áreas: a psicologia educacional e os testes mentais e ainda escreveu diversos livros didáticos, fundando, em 1910, a Journal of Educational Psychology. Atingiu o topo da psicologia em 1912, quando foi eleito presidente da APA. Os direitos autorais dos testes e dos livros didáticos lhe renderam uma fortuna; por volta de 1924 ele perfazia uma receita anual aproximada de 70 mil dólares, soma substancial para a época (Boakes, 1984).

Os 50 anos em que permaneceu na Columbia estão entre os mais produtivos registra­dos na história da psicologia. Na relação da sua bibliografia constam 507 itens. Apesar de aposentar-se em 1939, trabalhou até morrer, 10 anos depois. [237]

O Conexionismo

Thorndike chamou de conexionismo ao tratamento experimental no estudo da associação. Afirmou que, para analisar a mente humana, ele deveria localizar:

as conexões de forças variáveis entre (a) as situações e os seus respectivos elementos e componentes e (b) as respostas e os seus respectivos facilitadores e inibidores, a pron­tidão às respostas e as direções das respostas. Se conseguir identificar todos esses ele­mentos, definindo o que pensa ou faz o homem e o que o satisfaz ou aborrece em cada situação imaginável, parece-me que nada será deixado de lado. (...) Aprendizagem é o estabelecimento de conexões, e a mente é o sistema de conexões do homem (Thorndike 1931, p. 122)

Essa posição era uma extensão direta da antiga noção filosófica de associação (veja no Capítulo 2), mas com uma diferença significativa: em vez de abordar associações e conexões entre as ideias, Thorndike trabalhava com as conexões entre as situações verifi­cáveis objetivamente e as respostas.

Embora houvesse desenvolvido sua teoria seguindo um referencial mais objetivo, Thorndike continuou a referir-se aos processos mentais. Falava de satisfação, irritação e desconforto quando discutia o comportamento dos animais em seus experimentos, usando termos mais mentalistas do que comportamentalistas. Assim, Thorndike manti­nha a influência recebida de Romanes e Morgan. Muitas vezes, a sua análise objetiva do comportamento animal incorporava julgamentos subjetivos das alegadas experiências conscientes dos animais. Observe que Thorndike, assim como Jacques Loeb, não atribuía gratuitamente alto grau de consciência e inteligência aos animais da forma absurda como fazia Romanes. É possível notar uma redução uniforme na importância da consciência na psicologia animal desde o início até a época de Thorndike, proporcionalmente ao uso mais frequente do método experimental no estudo do comportamento.

Apesar do tom mentalista do trabalho de Thorndike, a sua abordagem ainda se baseava na tradição mecanicista. Ele alegava que o comportamento deveria ser reduzido aos elementos mais simples, ou seja, a unidades de estímulo e resposta. Concordava com a visão atomística, analítica e mecanicista dos empiristas britânicos e dos estruturalistas. Para ele, as unidades de estímulo-resposta consistem em elementos do comportamento (e não da consciência) e são os blocos de construção que compõem os comportamentos mais complexos.

A Caixa-problema

Aproveitando alguns caixotes e pedaços de madeiras, Thorndike projetou e construiu caixas-problema para utilizar nas pesquisas com os animais (veja na Figura 9.2). Para conse­guir escapar da caixa, o animal tinha de aprender a mexer no trinco. Thorndike extraiu a ideia de utilizar a caixa-problema como um aparato para estudar a aprendizagem dos [238] relatos anedóticos de Romanes e Morgan, que descreviam o modo como cães e gatos con­seguiam abrir os trincos das portas.

Figura 9.2 - A caixa problema de Thorndike

Em uma série de experimentos, Thorndike colocava um gato faminto na caixa feita de ripas de madeira. Deixava a comida do lado de fora da caixa como um prêmio por ele conseguir escapar. O gato tinha de puxar uma alavanca ou uma corrente e, às vezes, repetir muito a manobra para afrouxar o trinco e conseguir abrir a porta. No início, o gato exibia comportamentos aleatórios, como empurrar, farejar e arranhar com as patas, tentando alcançar a comida. Por fim, acabava executando o comportamento correto, des­trancando a porta. Na primeira tentativa, esse comportamento ocorria sem querer. Nas tentativas subsequentes, os comportamentos aleatórios mostravam-se menos frequentes, até que a aprendizagem fosse completa. Então, o gato passava a demonstrar o comporta­mento apropriado assim que era colocado dentro da caixa.
A fim de registrar os dados, Thorndike adotava medições quantitativas da aprendiza­gem. Uma das técnicas consistia em registrar o número de comportamentos incorretos, ou seja, das ações que não resultavam na abertura da caixa. Depois de uma série de tentativas esse número diminuía. Outra técnica adotada consistia em registrar o tempo decorrido do instante em que o gato era colocado na caixa até o momento em que ele conseguia sair. Assim que a aprendizagem se concretizava, esse intervalo diminuía. [239]

Thorndike escreveu sobre uma tendência de resposta em que "gravar" ou "apagar" acontecia de acordo com o êxito ou o fracasso das consequências. A tendência a respostas fracassadas que não resultavam na abertura da porta para o gato sair da caixa tendia a desaparecer, ou seja, a ser apagada depois de várias tentativas. A tendência a respostas que conduziam ao êxito era gravada depois de algumas tentativas. Esse tipo de aprendizagem passou a ser conhecido como aprendizagem por tentativa-e-erro, embora Thorndike preferisse chamá-lo de tentativa e sucesso acidental.

As Leis da Aprendizagem

Thorndike apresentou formalmente essa ideia sobre o "gravar" ou o "apagar" de uma ten­dência de resposta, definindo-a como a lei do efeito:
[240]

Qualquer ato que, executado em determinada situação, produza satisfação fica associado a ela de tal modo que, quando ela se repete, a probabilidade de o ato também se repetir é maior do que antes. Inversamente, qualquer ato que produza desconforto em uma situa- çao específica vai dela se dissociar de maneira que, quando ela se repetir, a probabilidade de o ato se repetir também é menor do que antes. (Thorndike, 1905, p. 203)

Uma lei associada - a lei do exercício ou a lei do uso e desuso - afirma que qualquer resposta a uma determinada situação a ela se associa. Quanto mais usada a resposta na situação, mais sólida será a associação, assim como ocorre o contrário: o desuso prolonga­do da resposta tende a enfraquecer a associação.

Em outras palavras, a simples repetição da resposta em uma determinada situação tende a fortalecer a resposta. Pesquisas complementares convenceram Thorndike de que as consequências da recompensa a uma resposta (situação que produz satisfação) são mais eficazes do que a mera repetição da resposta.

Posteriormente, mediante um programa completo de pesquisa com seres humanos, Thorndike reavaliou a lei do efeito. Os resultados revelaram que a recompensa realmente fortalecia a resposta adequada, porém a punição a uma resposta não produzia um efeito negativo comparável. Ele reviu seu ponto de vista, dando mais ênfase à recompensa do que à punição.

Comentários

Os estudos de Thorndike a respeito da aprendizagem humana e animal estão entre os programas de pesquisa mais importantes mencionados na história da psicologia.

O novo método de Thorndike para a análise da mente animal foi o marco de um século de produções em pesquisas para determinar com exatidão o processo de aprendizagem animal. Ele também serviu de contrapeso para o tipo de valorização não-específica do mentalismo animal observado nos trabalhos - como os de Romanes - escritos imediata­mente após a era darwiniana. (Candland, 1993, p. 242)

O trabalho de Thorndike anunciava o surgimento e a consolidação da teoria de apren­dizagem na psicologia estadunidense, e o espírito objetivo da sua pesquisa constituiu impor­tante contribuição para o behaviorismo. Watson declarou que a pesquisa de Thorndike foi o alicerce para a fundação do behaviorismo. Ivan Pavlov elogiou Thorndike, dizendo:

Alguns anos depois de iniciar os trabalhos com o nosso novo método, tomei conhecimen­to das experiências - de algum modo similares - realizadas nos Estados Unidos, não por fisiologistas, mas por psicólogos. (...) Devo admitir que os méritos pelos passos iniciais dados nessa direção pertencem a E. L. Thorndike. Suas experiências nos antecederam em mais ou menos dois ou três anos, e seu livro deve ser considerado um clássico, tanto pela magnitude do panorama da sua tarefa, como pela precisão dos resultados apresentados. (Pavlov, 1928, apud Jonçich, 1968, p. 415-416)

A revista American Psychologist publicou uma seção especial comemorativa, em 1998, do 100° aniversário da dissertação de Thorndike a respeito da inteligência animal. Ele foi descrito como uma das figuras mais influentes e produtivas da psicologia, e o seu traba­lho, como um "marco na passagem da especulação para a experimentação" (Dewsbury, 1998, p. 1.122).

Ivan Petrovitch Pavlov (1849-1936)

O trabalho de Ivan Pavlov sobre a aprendizagem ajudou a transferir a ênfase da visão tradicional do associacionismo - das ideias subjetivas para os eventos psicológicos quan­tificáveis e objetivos, tais como a secreção glandular e o movimento muscular. Como con­sequência, o trabalho de Pavlov proporcionou a Watson o método para estudar e tentar controlar e modificar o comportamento.

A Biografia de Pavlov

Ivan Pavlov nasceu na cidade de Ryazan, região central da Rússia, e era o mais velho dos 11 filhos de um pastor. Sendo o irmão mais velho de uma família tão numerosa, teve de desenvolver bem prematuramente o senso de responsabilidade e a disposição para tra­balhar muito, mantendo essas características por toda a vida. Por um bom tempo, não pôde frequentar a escola por causa de um ferimento na cabeça em consequência de um acidente sofrido aos 7 anos, e, assim, seu pai lhe ministrava aulas em casa. Matriculou-se no seminário com a intenção de se tornar pastor, mas, depois de ler a teoria de Darwin, mudou de ideia. Disposto a frequentar a universidade em São Petersburgo para estudar a fisiologia animal, Pavlov viajou centenas de quilômetros a pé. [241]

Com a formação universitária, Pavlov passou a fazer parte de um grupo de intelectuais, a intelligentsia, uma classe emergente na sociedade russa, diferente das outras classes, ou seja, distinta da aristocracia e do campesinato. Um historiador comentou que Pavlov possuía uma formação de extremo alto nível e era inteligente demais para pertencer ao campesinato do qual se originara, mas pobre e comum demais para fazer parte da aris­tocracia, nível ao qual jamais ascenderia. Frequentemente, esse tipo de condição social produzia um intelectual extremamente dedicado, que concentrava a vida nas realizações intelectuais para justificar a sua existência. Esse era o caso de Pavlov, que lançava mão da firmeza e da simplicidade do camponês russo para dedicar-se a fundo à ciência pura e à pesquisa experimental. (Miller, 1962, p. 177)

Pavlov formou-se em 1875 e começou a estudar medicina, não para se tornar médico, mas na esperança de seguir a carreira na pesquisa fisiológica. Estudou dois anos na Ale­manha e retornou a São Petersburgo para trabalhar durante vários anos como assistente do laboratório de pesquisas.

A dedicação de Pavlov à pesquisa era total. Recusava-se a desviar a atenção com questões práticas como o salário, as roupas ou as condições de vida. Sua esposa, Sara, com quem se casara em 1881, dedicava-se a protegê-lo dos assuntos mundanos. Logo no início do casamento, eles fizeram um pacto, e Sara concordou em cuidar dos problemas cotidianos para que nada interferisse no trabalho do marido. Em contrapartida, Pavlov prometeu jamais beber ou jogar e sair apenas nos sábados e domingos à noite. Assim, ele adotou uma rotina rígida, trabalhando sete dias por semana, de setembro a maio, e pas­sando os verões no campo.

Sua indiferença em relação às questões práticas é ilustrada pela história de que fre­quentemente Sara era obrigada a lembrá-lo de ir receber o salário. Ela dizia que ele não era confiável para comprar as próprias roupas. Um dia, mais ou menos com 70 anos, Pa­vlov estava em um bonde, indo para o seu laboratório. Impulsivamente, saltou antes de o bonde parar e acabou quebrando a perna. "Uma senhora que estava perto dele disse: 'Meu Deus! Eis aqui um gênio, mas que não sabe sequer saltar do bonde sem quebrar a perna'." (Gantt, 1979, p. 28).

A família Pavlov viveu na pobreza até 1890, quando, aos 41 anos, Pavlov foi indicado para lecionar farmacologia na Academia Médica Militar de São Petersburgo. Alguns anos antes, quando preparava a dissertação de doutorado, nascera seu primeiro filho. O médi­co havia alertado de que o frágil bebê não sobreviveria, a menos que mãe e filho fossem repousar no campo. Pavlov finalmente conseguiu dinheiro emprestado para a viagem, mas era tarde demais, e o bebê faleceu. Na época em que seu outro filho nasceu, a família vivia com parentes enquanto Pavlov dormia em uma maca em seu laboratório, já que não tinha como sustentar um apartamento.

Um grupo de alunos de Pavlov, sabendo das suas dificuldades financeiras, ofereceu-lhe dinheiro sob o pretexto de pagar pelas aulas que pediram para ele ministrar. No entanto, Pavlov não guardou nada para ele, gastando o dinheiro com os cachorros para o seu laborató­rio. Ele parecia nunca se abalar por essas dificuldades, elas realmente não o preocupavam.

Embora a pesquisa de laboratório fosse o seu principal interesse, raramente ele mesmo conduzia experimentos. Ao contrário, geralmente supervisionava os esforços dos outros. De 1897 a 1936, cerca de 150 pesquisadores trabalharam sob a supervisão de Pavlov, pro­duzindo mais de 500 trabalhos científicos. Um aluno escreveu que "todo o laboratório funcionava como o mecanismo de um relógio" (Todes, 2002, p. 107). [242]

Pavlov incorporava [os pesquisadores] em um sistema semelhante ao de uma fábrica empregando-os como se fossem seus próprios olhos e mãos, ou seja, atribuindo-lhes um tema especifico, oferecendo-lhes a tecnologia "canina" adequada para realizar as experiências, supervisionando (...) as pesquisas, interpretando os resultados e editando pessoalmente o trabalho produzido. (Todes, 1997, p. 948)

O temperamento de Pavlov era famoso, principalmente as suas explosões, direcionadas, em geral, aos assistentes de pesquisa. Durante a Revolução Bolchevique de 1917, repreendeu um assistente por chegar 10 minutos atrasado. Tiroteios nas ruas não eram justificativas para interferências no trabalho do laboratório. Com frequência ele esquecia rapidamente essas explosões emocionais. Seus pesquisadores sabiam muito bem o que esperar, já que Pavlov jamais hesitava em dizer o que pensava - era franco e direto ao lidar com as pessoas, nem sempre ponderado, mas tinha perfeita consciência dessa natureza volúvel. Um trabalhador do laboratório, não aguentando mais os insultos, acabou pedindo demissão. "Pavlov afirmou que o seu comportamento agressivo era apenas um hábito (...) e não devia ser uma razão suficiente para deixar o laboratório" (apud Windholz, 1990, p. 68). O menor fracasso de uma experiência deixava Pavlov deprimido, mas o sucesso proporcionava-lhe tamanha alegria que ele cumprimentava não apenas os, como também os cães. 

Ele tentou ser tão humano quanto possível com os cachorros e acreditava que os procedimentos cirúrgicos aos quais eram submetidos eram desastrosos, mas inevitáveis na pesquisa científica. 

Precisamos reconhecer que justamente devido ao grande desenvolvimento intelectual o melhor amigo dos homens - o cachorro - muito frequentemente se torna a vítima os experimentos fisiologicos.... o cachorro é insubstituível, além de ser extremamente emocionante. É quase um participante do experimento conduzido sobre ele próprio facilitando em grande parte o sucesso da pesquisa, devido à compreensão e submissão
(Pavlov, apud Todes, 2002, p. 123)

Posteriormente, Pavlov mandou erguer uma estátua de um cachorro, sentado em um pedestal, nas proximidades do prédio onde a pesquisa era realizada. Jersy Konorski, psicólogo polonês que trabalhou no laboratório, lembrava-se do trata­mento dispensado pelos alunos a Pavlov, como se ele fosse um membro da família real. Observou que era claro o

ciúme existente entre os alunos na disputa para determinar quem era o mais próximo e Pavlov. As pessoas gabavam-se quando eram alvos por mais tempo da sua atenção (...) a atitude de Pavlov em relação a qualquer um deles era fator determinante na hierarquia dentro do grupo. (Konorski, 1974, p. 193)

Pavlov foi um dos poucos cientistas russos a admitir mulheres e judeus em seu labo­ratorio. Qualquer insinuação de antissemitismo o deixava furioso. Era dotado de ótimo senso de humor e sabia apreciar boas piadas, mesmo que fossem a seu respeito. Durante a cerimonia em que recebeu um título honorário da Cambridge University, alguns alunos que estavam sentados na galeria desceram um cachorro de brinquedo amarrado em uma corda, deixando-o cair no colo de Pavlov. Ele guardou o cachorro sobre a escrivaninha do seu apartamento. [243]

E. R. Hilgard, na época doutorando na Yale University, assistiu a uma palestra de Pavlov no 9º Congresso Internacional de Psicologia, realizado em New Haven, Connecticut. Pavlov dirigia-se ao público em russo, fazendo uma pausa de vez em quando para que o intérprete apresentasse as observações em inglês. Mais tarde, o intérprete contou a Hilgard que "Pavlov parava e dizia: 'você já conhece esse assunto. Diga a eles o que sabe. Vou continuar e falar outras coisas'" (apud Fowler, 1994, p. 3).

Pavlov foi um cientista até o fim da vida. Acostumado à prática da auto-observação sempre que estava doente, no dia da sua morte não foi diferente. Fraco, por causa da pneu­monia, chamou um médico e descreveu seus sintomas: "Meu cérebro não está funcionando muito bem, e tenho sentimentos obsessivos e movimentos involuntários; a morte deve estar se instalando. Discutiu suas condições com o médico por alguns instantes e adormeceu. Quando acordou, sentou-se na cama e começou a procurar suas roupas com a mesma energia irrequieta que o acompanhara por toda a vida. "É hora de levantar", ele disse. "Me ajude! Tenho de me vestir!" E, assim, caiu sobre os travesseiros e morreu (Gantt, 1941, p. 35).

Os Reflexos Condicionados

Durante a sua brilhante carreira, Pavlov trabalhou com três questões principais. A primeira era referente à função dos nervos cardíacos, e a segunda envolvia as glândulas digestivas primárias. Essa importante pesquisa a respeito da digestão rendeu-lhe o reconhecimento mundial e o Prêmio Nobel, em 1904. A terceira área de pesquisa, que lhe proporcionou um lugar de destaque na história da psicologia, foi o estudo dos reflexos condicionados. A noção de reflexo condicionado teve origem, assim como vários feitos científicos, em uma descoberta acidental. Durante o trabalho com as glândulas digestivas dos cães, Pavlov usou o método de exposição cirúrgica para realizar a coleta externa das secreções digestivas, o que permitia a observação, a medição e o registro do material (Pavlov, 1927/1960). Um dos aspectos desse trabalho lidava com a função da saliva, que os cachorros secretavam involuntariamente, sempre que recebiam a comida na boca. Pavlov percebeu que, às vezes, a saliva era secretada mesmo antes de o animal receber a comida. Os cães salivavam ao ver a comida ou ao som dos passos do homem que geralmente os alimentava. A reação não aprendida de salivação de algum modo se associou ou se condicionou ao estímulo anteriormente associado ao recebimento da comida. [244]

Os reflexos psíquicos. Esses reflexos psíquicos, como Pavlov os denominou inicialmente, foram provocados nos cães do laboratório por estímulos diferentes do original (ou seja, da comida). Pavlov raciocinou e concluiu que essa reação ocorria porque os outros estímulos (tais como a visão e o barulho do tratador) frequentemente eram associados com a alimentação.

De acordo com o Zeitgeist dominante na psicologia animal, e assim como Thorndike, Loeb e outros predecessores, Pavlov concentrou-se inicialmente nas experiências mentalistas dos animais do seu laboratório. É possível observar esse ponto de vista na expressão "reflexos psíquicos", originalmente empregada para se referir aos reflexos condicionados. Ele escreveu sobre os desejos, os julgamentos e a vontade dos animais, interpretando os eventos mentais dos animais em termos subjetivos e humanos. Em tempo hábil, Pavlov deixou de lado as referências mentalistas em prol de uma abordagem descritiva mais objetiva.

No início das nossas experiências psíquicas (...) dedicamo-nos conscientemente a explicar os resultados imaginando o estado subjetivo do animal. No entanto, nenhum resultado válido foi obtido, senão polêmicas inúteis e opiniões individuais que não podiam ser leva­das em consideração. Portanto, não tivemos outra alternativa senão conduzir a pesquisa com base puramente objetiva. (Pavlov apud Cuny, 1965, p. 65)

Na tradução para o inglês do seu livro clássico, Conditioned reflexes (1927), Pavlov ofereceu o devido crédito a René Descartes por haver desenvolvido a ideia de reflexo 300 anos antes. Observou que o que Descartes chamou de reflexo nervoso constituiu o ponto inicial do seu programa de pesquisa.

As primeiras experiências de Pavlov com os cachorros foram simples. Ele segurava um pedaço de pão e o mostrava ao cachorro antes de dá-lo para comer. Com o tempo, o cachorro começava a salivar assim que via o pão. A resposta de salivação do cachorro quando a comida era colocada na sua boca era uma reação natural de reflexo do sistema digestivo e não envolvia a aprendizagem. Pavlov denominou essa reação de reflexo inato ou não-condicionado.

Figura 9.3 - O aparelho de Pavlov para estudar a resposta de salivação condicionada dos cães.

Entretanto a salivação provocada pela visão da comida não era reflexiva, mas devia ser aprendida. Dessa vez, ele chamou a reação de reflexo condicionado (em lugar do termo mentalista anterior "reflexo psíquico") por ser condicional ou dependente da conexão feita pelo cachorro entre a visão da comida e o subsequente ato de comer.

Na tradução do trabalho de Pavlov do russo para o inglês, W. H. Gantt, um discípu­lo estadunidense, usou a palavra "condicionado" em vez de "condicional". Posteriormente, Gantt admitiu arrepender-se da troca. No entanto, reflexo condicionado continua a ser o termo aceito.

Pavlov e os seus auxiliares descobriram que diversos estímulos poderiam produzir a resposta de salivação condicionada nos animais do laboratório, desde que o estímulo fosse capaz de atrair a atenção do animal sem provocar medo ou fúria. Testaram buzinas luzes, apitos, sons, bolhas d'água e o tique-taque dos metrônomos com cães e obtiveram resultados similares.

A meticulosidade e a precisão do programa de pesquisa eram evidenciadas pelo equi­pamento sofisticado criado para coletar a saliva, a qual fluía por um tubo de borracha fixado a um orifício cirúrgico na bochecha do cachorro. Quando cada gota de saliva caía na plataforma instalada em cima de uma mola sensível, esta acionava um marcador sobre uma especie de tambor giratório (veja na Figura 9.3). Esse aparato, que permitia registrar com precisão o número de gotas de saliva e o momento exato em que cada uma caía, é apenas um dos exemplos dos imensos esforços de Pavlov para seguir à risca o método cientifico - em outras palavras, para padronizar as condições experimentais, aplicar con­troles rigorosos e eliminar qualquer fonte de erro.

A Torre do Silêncio. A preocupação de Pavlov em impedir que as influências externas afetassem a confiabilidade da pesquisa era tão grande que ele construiu cubículos espe­ciais, um para o animal e outro para o observador. O pesquisador conseguia manipular os diversos estímulos a serem condicionados, coletar a saliva e mostrar a comida sem ser visto pelo animal.

Mesmo com essas precauções, Pavlov não se sentia totalmente satisfeito. Temia que os estímulos ambientais externos pudessem contaminar os resultados. Com os fundos recebidos de um empresário russo, projetou um prédio de três andares para as pesquisas que ficou conhecido como a "Torre do Silêncio". As janelas possuíam vidros extremamente espessos e as portas das salas eram de chapas de aço duplas que, quando fechadas, impe­diam totalmente a entrada do ar. Vigas de aço reforçadas de areia sustentavam o piso e o predio era circundado por uma vala cheia de palha. Desse modo, qualquer vibração ruído, temperatura extrema, odor e correnteza eram eliminados. Pavlov queria que o único elemento a exercer influência sobre o animal fosse o estímulo a ser condicionado.

O experimento de condicionamento. Vejamos em que consistia o típico experimento de condicionamento de Pavlov. Primeiro, apresentava-se o estímulo condicionado (diga­mos, a luz); nesse exemplo, acendia-se a luz. Imediatamente, o pesquisador apresentava o estimulo incondicionado: a comida. Após certo número de pareamentos da luz acesa e da comida, o animal passava a salivar com a simples visão da luz. Nesse caso, formava-se uma associaçao ou uma ligação entre a luz e a comida, e o animal era condicionado a responder mediante a apresentação do estímulo condicionado. Esse condicionamento ou aprendiza­gem não ocorre, a menos que a luz seja seguida da apresentação de comida um número de
vezes suficiente. Desse modo, o reforço (nesse caso, receber a comida) é necessário para que a aprendizagem ocorra. [246]

Além de estudar a formação das respostas condicionadas, Pavlov e seus assistentes pesquisavam fenômenos relacionados, tais como o reforço, a extinção da resposta, a re­cuperação espontânea, a generalização, a discriminação e o condicionamento de ordem superior. Todos esses tópicos são áreas de pesquisas nos dias de hoje. No todo, o programa experimental de Pavlov consistiu de um trabalho de longa duração e que envolveu mais pessoas do que qualquer outro esforço de pesquisa realizado desde Wundt.

Um Comentário a Respeito de E. B. Twitmyer

Uma curiosa informação histórica envolve outro exemplo de descoberta simultânea indepen­dente. Em 1904, um jovem estadunidense chamado Edwin Burket Twitmyer (1873-1943) ex-aluno de Lightner Witmer, na University of Pennsylvania, apresentou na convenção anual da APA um trabalho baseado na sua dissertação de doutorado, o qual ele havia completado dois anos antes. Esse trabalho abordava o famoso reflexo do joelho. Twitmyer observou que os partici­pantes da sua pesquisa começaram a reagir a estímulos diferentes do estímulo original que era a leve batida com o martelo logo abaixo do joelho. Ele descreveu a reação das pessoas como um tipo de reflexo novo e incomum e sugeriu que esse fosse alvo de mais estudo.

No encontro, ninguém se interessou pelo relatório de Twitmyer. Depois da apresentação, o publico não formulou nenhuma pergunta, e suas descobertas científicas foram ignoradas. Desmotivado, ele não prosseguiu com a pesquisa.

Os historiadores apresentam várias hipóteses para a permanente omissão quanto a Twitmyer. É provável que o Zeitgeist da psicologia estadunidense não estivesse preparado para aceitar a noção reflexo condicionado. Talvez Twitmyer fosse jovem e inexperiente demais, ou não contasse com a habilidade nem com os recursos econômicos necessários para persistir e divulgar as suas ideias. Ou quem sabe fosse apenas questão de inadequação quanto ao momento da apresentação. Twitmyer apresentou o seu trabalho sobre os reflexos um pouco antes do horário do almoço, como parte de uma série de trabalhos em uma sessão presidida por William James. A conferencia já estava atrasada, e James (talvez com fome ou entediado) suspendeu a sessão sem deixar muito tempo para os comentários depois da apresentação de Twitmyer.

De tempos em tempos, os historiadores ressuscitam essa trágica história do cientista que poderia ter ficado famoso por conta de uma das descobertas mais importantes de toda a psicologia. "Certamente Twitmyer deve ter remoído durante boa parte da sua vida essa constatação, a consciência do que esse seu legado teria representado para a psicologia (Benjamin, 1987, p. 1.119)

Outro precursor relativamente desconhecido do trabalho de Pavlov foi Alois Kreidl biologista austríaco que demonstrou os princípios básicos do condicionamento em 1896, antecedendo o relatorio de Twitmyer em cerca de oito anos. Kreidl constatou que o peixe ornamental aprendia  a atencipar o momento de receber a comida com base no estímulo associado ao caminhar do assistente do laboratório em direção ao aquário. E concluiu que [248] os peixes avistavam o tratador se aproximando "e ficavam alertas por causa das vibrações provocadas na água pelos seus [passos]" {apudlogan, 2002, p. 397). No entanto, o principal interesse de Kreidl estava no processo da sensação e não no condicionamento ou na apren­dizagem, por isso essas descobertas não tiveram repercussão na comunidade científica.

Comentários

Pavlov demonstrou que os processos mentais superiores dos animais observados eram passíveis de descrição em termos fisiológicos, sem qualquer referência à consciência. Seus métodos de condicionamento tiveram ampla aplicação prática em áreas como a terapia do comportamento. Joseph Wolpe (1915-1997), fundador da terapia comportamental, decla­rou que os princípios do condicionamento elaborados por Pavlov foram fundamentais para o desenvolvimento dos seus métodos (Wolpe e Plaud, 1997). A pesquisa de Pavlov também influenciou na mudança do enfoque da psicologia em direção a uma maior obje­tividade tanto do objeto de estudo como dos métodos empregados, além de ter reforçado a propensão às aplicações práticas e funcionais.

Pavlov deu continuidade à tradição do mecanicismo e do atomismo, visões que moldaram a nova psicologia desde o início. Para ele, todos os animais, fossem cães de laboratório, ou seres humanos, não passavam de máquinas – complicadas, reconhecia, —mas, como relatou um historiador, acreditava serem "tão submissos e obedientes como qualquer máquina" (Mazlish, 1993, p. 124).

As técnicas de condicionamento de Pavlov proporcionaram à psicologia um elemento básico do comportamento, possibilitando a redução do comportamento humano complexo a unidades concretas passíveis de estudo para, assim, submetê-las a experiências em con­dições laboratoriais. John B. Watson reconheceu essa unidade de comportamento, a qual passou a ser o ponto fundamental do seu programa de estudo. Pavlov reconheceu que fica­ra satisfeito com o trabalho de Watson e que o crescimento do behaviorismo nos Estados Unidos representava uma confirmação das suas ideias, bem como de seus métodos.

É irônico constatar que a maior influência de Pavlov tenha sido sobre a psicologia, campo que ele não enxergava totalmente com bons olhos. Estava familiarizado com as escolas de pensamento do estruturalismo e do funcionalismo. Também conhecia o traba­lho de William James e concordava com ele em que a psicologia devia envidar esforços para tornar-se uma ciência, mas que ainda não havia atingido esse estágio. Assim, Pavlov excluía a psicologia do seu trabalho científico e chegava a reclamar dos assistentes de labo­ratório que usavam a terminologia da psicologia e não a da fisiologia. Mais tarde, Pavlov reavaliou a sua posição em relação à área e ocasionalmente referia-se a si próprio como um psicólogo experimental. De qualquer modo, a sua visão negativa inicial não impediu os psicólogos de fazerem uso efetivo do seu trabalho.

Em 1997, para comemorar o 100° aniversário da publicação do trabalho Lectures on the work of the principal digestive glands, as revistas American Psychologist e European Psychologist lançaram edições especiais como homenagem a Pavlov pelas suas contribuições. [249]

Vladimir M. Bekhterev (1857 - 1927)

Outra figura importante no desenvolvimento da psicologia animal foi Vladimir Bekhte­rev. Ele ajudou a desviar a área para a observação objetiva do comportamento manifesto, em detrimento das ideias subjetivas. Embora menos conhecido do que Ivan Pavlov, este psiquiatra, neurologista e fisiologista russo foi pioneiro em diversas áreas de pesquisa. Era crítico radical e declarado do governo russo e do czar. Admitiu mulheres e judeus como alunos e colegas em uma época na qual foram excluídos das universidades russas.

Bekhterev recebeu a graduação da St. Peterburg's Military Medical Academy em 1881. Estudou na University of Leipzig, com Wilhelm Wundt, frequentou outros cursos comple­mentares em Berlim e Paris e retornou à Rússia para assumir o cargo de professor de distúr­bios mentais na University of Kazan. Em 1893, foi nomeado titular da cadeira de distúrbios nervosos e mentais da Military Medical Academy onde organizou um hospital para doentes mentais. Em 1907, fundou o Psychoneurological Institute, que hoje leva o seu nome.

Bekhterev e Pavlov tornaram-se inimigos depois que Pavlov publicou uma crítica negativa a respeito dos livros de Bekhterev. A inimizade entre Bekhterev e Pavlov era tão patente que eles chegavam a trocar insultos na rua. Se um cruzasse com o outro em algum congresso, logo iniciavam uma discussão. Formando grupinhos e trocando ofensas entre si, constantemente estavam envolvidos em disputas para ver qual conseguia apontar mais falhas ou fraquezas do outro. Bastava algum aluno de Bekhterev fazer uma apresentação em público para imediatamente ser retaliado por Pavlov, como se fosse um reflexo condicionado. (Ljunggren, 1990, p. 60)

Em 1927, 10 anos depois de a Revolução Bolchevique derrubar o czar, Bekhterev foi convocado a ir a Moscou para tratar de Joseph Stalin, que diziam sofrer de depressão. Bekhterev o examinou e informou-lhe o diagnóstico sendo uma paranoia pro­funda. Misteriosamente, Bekhterev morreu naquela mesma tarde. Não foi permitida a realização de autópsia, e o corpo foi rapidamente cremado. Especula-se que Stalin tenha mandado envenenar Bekhterev como vingança por causa do diagnóstico psiquiátrico. Depois, Stalin proibiu a divulgação dos trabalhos de Bekhterev e mandou executar o seu filho (Ljunggren, 1990). Em 1952, um ano depois da morte de Stalin, o governo da União Soviética mandou criar um selo em homenagem a Bekhterev.

Os Reflexos Associados

Enquanto a pesquisa de Pavlov sobre o condicionamento concentrava-se quase exclusiva­mente nas secreções glandulares, o interesse de Bekhterev estava na resposta motora con­dicionada. Em outras palavras, Bekhterev aplicava os princípios de Pavlov nos músculos. Bekhterev basicamente descobriu os reflexos associados, constatados mediante a análise das respostas motoras. Verificou que os movimentos de reflexo, quando uma pessoa afasta o dedo de um objeto ao receber um choque elétrico, por exemplo, eram provocados não apenas pelo estímulo não-condicionado (o choque elétrico), como também pelo estímulo que se associara ao estímulo original. Outro exemplo: o som de uma buzina no momento do choque logo produziria por si só o afastamento do dedo. [250] 

Os associacionistas explicavam essas conexões com base nos processos mentais; no entanto, Bekhterev considerava as reações como reflexas. Acreditava na mesma explicação para o comportamento de nível superior e de grande complexidade como um acúmulo ou composto de reflexos motores de nível inferior. Os processos de pensamento eram semelhantes, já que dependiam das ações internas da musculatura envolvida na fala, ideia adotada mais tarde por Watson. Bekhterev defendia a abordagem totalmente objetiva do fenômeno psicológico e repudiava o uso de termos e conceitos mentalistas.

Descreveu suas ideias no livro Objective psychology, publicado em 1907. A obra foi tra­duzida para o alemão e para o francês em 1913, e a terceira edição, publicada em inglês em 1912, foi intitulada General principles of human reflexology. Desde os primeiros trabalhos da psicologia animal, com Romanes e Morgan, observou-se o movimento constante na busca por maior objetividade na metodologia e no objeto de estudo. As primeiras pesquisas da área referiam-se à consciência e aos processos mentais e dependiam de métodos subjetivos de pesquisa. Todavia, mais ou menos no início do sécu­lo XX, a psicologia animal já adotava objetos de estudo e métodos totalmente objetivos. Termos como secreção glandular, respostas condicionadas, atos ou comportamento não deixavam dúvidas de que a psicologia animal havia deixado a subjetividade para trás.

A psicologia animal rapidamente transformara-se em modelo para o behaviorismo, cujo líder, Watson, dava preferência ao uso de animais em vez de seres humanos nas pesquisas psicológicas. Watson fez das descobertas e das técnicas da psicologia animal a base para uma ciência do comportamento aplicável igualmente aos animais e aos seres humanos.

A Influência da Psicologia Funcional no Behaviorismo

Outro antecedente direto do behaviorismo foi o funcionalismo. Embora não fosse uma escola de pensamento totalmente objetiva, a psicologia funcional na época de Watson apresentava mais objetividade do que suas predecessoras. Cattell e outros funcionalistas enfatizavam o comportamento e a objetividade e mostravam-se insatisfeitos em relação à introspecção (veja no Capítulo 8). Mark Arthur May (1891-1977), um estudante de pós-graduação da Columbia University em 1915, lembrou-se da visita de Cattell ao seu laboratório:

May mostrou os equipamentos a Cattell, que ficou impressionado. Entretanto, quando tentou lhe mostrar os relatórios introspectivos obtidos das pessoas envolvidas na pesqui­sa a Cattell, resmungou: Isto não vale nada!" e saiu enfurecido do laboratório. (apud May, 1978, p. 655)

Os psicólogos aplicados não viam muita utilidade na introspecção e na consciên­cia, e suas diversas áreas de especialização constituíam essencialmente uma psicologia funcional objetiva. Mesmo antes de Watson surgir no cenário, os psicólogos funcionais haviam se distanciado da pura psicologia da experiência consciente adotada por Wundt [251] e Titchener. Nos trabalhos escritos e nas palestras, alguns psicólogos funcionalistas eram bastante específicos ao exigir uma psicologia objetiva, ou seja, queriam uma psicologia com enfoque no comportamento, e não na consciência.

Em 1904, na feira mundial realizada em St. Louis, no Missouri, Cattell disse em seu discurso:

Não estou convencido de que a psicologia deva se limitar ao estudo da consciência. (...) A noção amplamente aceita de que não há psicologia sem introspecção é refutada pelo argumento material do fato consumado. Parece-me que a maior parte dos trabalhos de pesquisa realizados por mim ou em meu laboratório é praticamente tão independente da introspecção quanto os estudos realizados na física ou na zoologia. (...) Não vejo razão para que a aplicação do conhecimento sistematizado no controle da natureza humana não possa, no curso do presente século, alcançar resultados proporcionais às aplicações, no século XIX, da ciência física ao mundo material. (Cattell, 1904, p. 179-180, 186)

Watson estava na plateia assistindo ao discurso de Cattell. A semelhança entre a fala de Cattell e a posterior posição pública de Watson é gritante. Um historiador sugeriu que, se Watson era considerado o pai do behaviorismo, Cattell devia ser chamado de avó (Burnham, 1968).

Na década anterior à fundação formal do behaviorismo por Watson, a atmosfera intelectual estadunidense favorecia a ideia de uma psicologia objetiva. Assim, o movimento geral da psicologia estadunidense seguia a direção behaviorista. Robert Woodworth, na Columbia University, disse que os psicólogos estadunidenses estavam "aos poucos introduzindo o behaviorismo (...) já que, a partir de 1904, um percentual cada vez maior de psicólogos expressava a preferência em definir a psicologia como a ciência do comportamento e não como uma tentativa de descrição da consciência" (Woodworth, 1943, p. 28).

Em 1911, Walter Pillsbury, ex-aluno de Titchener, definiu em seu livro a psicologia como a ciência do comportamento. Alegava ser possível dispensar um tratamento objetivo aos seres humanos do mesmo modo que se tratava qualquer outro aspecto do universo físico. Max Meyer publicou um livro intitulado The fundamental laws of human behavior; William McDougall escreveu Psychology: the study of behavior (1912), e Knight Dunlap, psicólogo da Johns Hopkins University, onde Watson estava lecionando, sugeriu que a introspecção fosse eliminada da psicologia.
Naquele mesmo ano, William Montague apresentou um trabalho intitulado “Has psychology lost its mind?" ("A psicologia perdeu a cabeça?") à filial da APA, em Nova York. Montague falava sobre o movimento para descartar o "conceito de mente ou de consciên­cia e substituí-lo pelo conceito de comportamento como o único objeto de estudo da psicologia" (apud Benjamin, 1993, p. 77).

J. R. Angell, da University of Chicago, talvez o psicólogo funcionalista mais progres­sista, anunciava que a psicologia estadunidense estava pronta para tornar-se mais objetiva. Em 1910, comentou que parecia possível o termo "consciência" desaparecer da psicologia da mesma forma que o termo "alma" desaparecera. Três anos mais tarde, um pouco antes da publicação do manifesto behaviorista de Watson, Angell (1913) sugeriu que seria inte­ressante esquecer a consciência e passar a descrever objetivamente os comportamentos humano e animal.

Assim, a ideia de psicologia vista como uma ciência do comportamento começava a ganhar adeptos. A importância de Watson não está em ter sido o primeiro a propor essa ideia, mas em enxergar, talvez mais claramente do que qualquer pessoa, o que a época [252] estava exigindo. Watson foi o principal articulador e agente responsável pela revolução cujos sucesso e inevitabilidade estavam garantidos, pois ela já estava em andamento.

Psicologia - História da Psicologia
1/29/2020 3:31:30 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
O Legado do Funcionalismo - A Psicologia Aplicada

O Desenvolvimento da Psicologia nos Estados Unidos - Vimos que a doutrina da evolução e a psicologia funcional dela derivada rapidamente dominaram os Estados Unidos, perto do final do século passado, e que a psicologia estadunidense foi orientada muito mais pelas idéias de Darwin e Galton do que pelo trabalho de Wundt. Foi um curioso e até paradoxal fenômeno histórico. Wundt treinou boa parte dos membros da primeira geração de psicólogos estadunidenses em sua forma de psicologia, incluindo-se ai Hall, Cattell, Witiner, Scott e Miinsterberg. Contudo, “poucos elementos do sistema de psicologia de Wundt sobreviveram à passagem de retorno pelo Atlântico com os jovens estadunidenses que tinham ido para o exterior” (Blumenthal, 1977, p. 13). Quando voltaram aos Estados Unidos, esse alunos de Wundt, esses novos psicólogos, se puseram a estabelecer uma psicologia que pouco se assemelhava ao que Wundt lhes tinha ensinado. A nova ciência, mais ou menos como uma espécie viva, adaptava-se ao seu novo ambiente.

A psicologia de Wundt e o estruturalismo de Titchener não puderam sobreviver por muito tempo no clima intelectual estadunidense, no Zeitgeist dos EUA, em sua forma original; por isso, transformaram-se no funcionalismo. Eles não eram tipos práticos de psicologia, não tratavam da mente em uso e não podiam ser aplicados às exigências cotidianas e aos problemas da vida. A cultura estadunidense tinha uma orientação prática, pragmática; as pessoas valorizavam o que funcionava. Era necessária uma forma de psicologia utilitária, que arregaçasse as mangas. “Precisamos de uma psicologia usável”, escreveu G. Stanley Hall, o decano da psicologia aplicada estadunidense. “Os pensamentos wundtianos nunca poderão se aclimatar aqui, pois são antipáticos ao espírito e ao temperamento estadunideses” (Hall, 1912, p. 414).

Os psicólogos estadunideses recém-treinados retomaram da Alemanha e, à maneira tipicamente direta e agressiva dos EUA, transformaram a espécie peculiarmente germânica de psicologia. Começaram a estudar não o que a mente é, mas o que faz. Enquanto alguns psicólogos estadunideses — James, Angell e Carr em especial — desenvolviam a abordagem funcionalista em laboratórios acadêmicos, outros a aplicavam em ambientes extra-universitários. Assim, a guinada para um tipo prático de psicologia ocorria ao mesmo tempo que o funcionalismo era fundado como escola distinta de pensamento formal.

Os psicólogos aplicados levaram sua psicologia para o mundo real, para as escolas, fábricas, agências de publicidade, tribunais, clínicas de orientação infantil e centros de saúde mental, e fizeram dela algo funcional em termos de objeto de estudo e de uso. Com isso, modificaram a natureza da psicologia estadunidense tão radicalmente quanto os fundadores acadêmicos do funcionalismo. A literatura profissional da época reflete o seu impacto. Na virada do século, 25% das comunicações de pesquisa publicadas nas revistas psicológicas estadunidenses eram a respeito de psicologia aplicada, e menos de 3% envolviam introspecção (O’Donnell, 1985). As abordagens de Wundt e Titchener, que há tão pouco tempo constituíam a nova psicologia, iam sendo superadas com rapidez por uma psicologia mais nova ainda.

A disciplina desenvolveu-se e prosperou nos Estados Unidos enquanto o país como um todo também passava por esse processo. O vibrante e dinâmico crescimento da psicologia estadunidense no período 1880-1900 é um evento marcante na história da ciência. Em 1880, não havia laboratórios nos EUA; perto de 1895, havia vinte e seis, e eles estavam melhor equipados do que os da Alemanha. Em 1880, não havia revistas estadunidenses de psicologia; em 1895, havia três. Em 1880, os estadunidenses tinham de ir à Alemanha para estudar psicologia; em 1900, eles tinham programas de graduação em casa. Por volta de 1903, o número de Ph.D.s em psicologia nas universidades estadunidenses só perdia para os conferidos em química, zoologia e física. A publicação britânica Who‘s Who in Science (1913) afirmou que os Estados Unidos lideravam na psicologia, havendo no país um número maior de psicólogos notáveis — oitenta e quatro — do que na Alemanha, na Inglaterra e na França juntas (Jonçich, 1968).

Passados pouco mais de vinte anos do início da psicologia na Europa, os psicólogos estadunidenses assumiram a liderança incontestável do campo. James McKeen Cattell afirmou, em seu discurso de posse na presidência da Associação Psicológica Americana, em 1895, que “o crescimento acadêmico da psicologia na América nos últimos cinco anos é quase sem precedentes... A psicologia é matéria obrigatória do currículo de graduação... e, entre os cursos universitários, a psicologia hoje rivaliza com as outras ciências principais em número de alunos e na quantidade de trabalhos originais realizados” (Cattell, 1896, p. 134).

A psicologia fez sua estréia americana, diante de um público ávido, na Feira Mundial de Chicago de 1893. Num programa que lembrava o Laboratório Antropométrico de Francis Galton na Inglaterra, os psicólogos organizaram exibições de aparelhos de pesquisa e um laboratório de testes em que, mediante uma taxa, os visitantes podiam ter suas capacidades medidas. Uma exibição mais ampla foi feita na Exposição de Compras da Louisiana, em St. Louís, Missouri, em 1904. Esse “evento povoado de astros” apresentou conferências dos 175 principais psicólogos da época — E. B. Titchener, de Cornel!; C. Lloyd Morgan, Pierre Janet, G. Stanley Hall e um novo Ph.D. chamado John B. Watson (Benjamin, 1986). Wundt não teria aprovado essa popularização da psicologia, e nada parecido com isso ocorreu na Alemanha. Popularizar a psicologia refletia o temperamento estadunidense, que tinha modificado tão substancialmente a psicologia wundtiana, tornando-a psicologia funcional e estendendo-a bem além do laboratório.

Portanto, os EUA acolheram a psicologia com entusiasmo, e essa disciplina logo se firmou nas aulas das faculdades e na vida cotidiana das pessoas. O seu alcance é hoje bem mais amplo do que os seus fundadores podiam imaginar — ou desejar.

Influências Contextuais sobre a Psicologia Aplicada

O Zeitgeist estadunidense, o espírito intelectual e o temperamento da época, ajudou a promover o surgimento da psicologia aplicada. Mas forças contextuais mais práticas também foram responsáveis pelo seu desenvolvimento. No Capítulo 1, vimos como fatores econômicos afastaram o foco da psicologia estadunidense, da pesquisa pura, para a aplicação. Vimos que, enquanto o número de laboratórios de psicologia crescia perto do final do século XIX, o número de doutores estadunidenses em psícologia crescia numa velocidade três vezes maior. Muitos desses Ph.D.s, em especial os que não dispunham de uma fonte independente de renda, tinham de olhar para além da universidade para sobreviver economicamente.
O psicólogo Harry Hollingworth (1880-1956), por exemplo, não conseguia viver com o salário anual de 1.000 dólares que recebia por suas aulas no Barnard Coilege da cidade de Nova York para complementá-lo, dava aulas em outras universidades e era inspetor de exames por meio dólar a hora. Fazia palestras de psicologia para executivos da área de publicidade e fazia tudo o que considerava capaz de lhe dar condições de ter uma vida dedicada à pesquisa e às atividades acadêmicas. Contudo, descobriu que sua única opção para viver era dedicar-se à psicologia aplicada (Benjamin, Rogers e Roseubaum, 1991).

Hollingworth não foi um caso isolado. Outros pioneiros da psicologia aplicada também foram motivados pela necessidade econômica. Isso não quer dizer que eles não considerassem esse trabalho prático, estimulante e desafiador. A maioria o considerava, além de reconhecer que o comportamento humano e a vida mental podiam ser estudados, em ambientes do mundo real, com a mesma eficácia com que eram estudados nos laboratórios acadêmicos. Deve-se observar que alguns desses psicólogos se empenharam em campos aplicados a partir de um interesse genuíno e de um desejo de trabalhar na área. Permanece contudo o fato de muitos membros da primeira geração de psicólogos aplicados estadunidenses terem sido compelidos a abandonar seus sonhos de pesquisa experimental pura como única alternativa a uma vida de pobreza.

A situação era ainda pior para os que davam aulas nas universidades estaduais, menos dotadas de recursos, do Meio-Oeste e do Oeste, na virada do século. Perto de 1910, um terço dos psicólogos estadunidenses trabalhavam nelas e, com o aumento do número de profissionais nessas condições, cresceram as pressões para que eles se voltassem para problemas práticos e, assim, provassem o valor financeiro da psicologia.
Em 1912, Christian A. Ruckmick fez um levantamento entre os colegas psicólogos e concluiu que a psicologia, apesar de sua popularidade junto aos alunos, não tinha uma boa imagem nas instituições de ensino estadunidenses. Os fundos a ela dedicados e os equipamentos que lhe eram fornecidos eram deficientes, havendo apenas uma pequena esperança de melhoria no futuro (Leary, 1987). A melhor maneira possível de remediar a situação — a fim de aumentar os orçamentos e salários departamentais — era demonstrar aos administradores universitários e legisladores estaduais que a ciência psicológica podia ajudar a curar muitos males sociais. [176]

G. Stanley Hall aconselhou um colega do Meio-Oeste a fazer a influência da psicologia ser sentida ‘fora da universidade, evitando que algum homem ou partido irresponsável, dado ao sensacionalismo, a criticasse no legislativo”. Cattell incitou seus colegas a “fazer aplicações práticas e desenvolveruma profissão de psicologia aplicada” (O’Donnell, 1985, pp. 215,221).

A solução, portanto, era evidente: tomar a psicologia mais valiosa mediante sua aplicação. Mas aplicá-la a quê? Felizmente, a resposta logo se tomou clara: as matrículas nas escolas públicas sofriam um crescimento dramático; entre 1870 e 1915, o número de alunos matriculados elevou-se de sete para vinte milhões. A quantidade de dinheiro gasta na educação pública no período passou de 63 para 605 milhões (Siegel e White, 1982). A educação de repente se tornava um grande negócio e chamou a atenção dos psicólogos.

Hall proclamou em 1894 que “o campo principal e imediato de aplicação da [era a educação” (Leary, 1987, p. 323). Mesmo William James, que não podia ser considerado um psicólogo aplicado, escreveu um livro sobre o uso da psicologia em situações de sala de aula (James, 1899). Perto de 1910, mais de um terço dos psicólogos estadunidenses se mostravam interessados pela aplicação da disciplina a problemas educacionais. Três quartos dos que se intitulavam psicólogos aplicados já trabalhavam na área. A psicologia encontrara o seu lugar no mundo real.

Discutiremos neste capitulo as carreiras e as contribuições de cinco pioneiros no campo da psicologia aplicada; eles estenderam a nova ciência não apenas à educação, mas também aos negócios e à indústria, aos centros de testes, aos tribunais e às clínicas de saúde mental. Esses cinco homens tinham sido treinados em Leipzig por Wilhelm Wundt para se tomarem psicólogos acadêmicos puros; todos, contudo, se afastaram dos ensinamentos do mestre quando iniciaram a carreira em universidades estadunidenses. São exemplos notáveis de como a psicologia estadunidense veio a ser influenciada mais por Darwin e Galton do que por Wundt, e de como a abordagem wundtiana foi reformulada quando do seu transplante para o solo estadunidense.

Depois de examinar a obra desses destacados profissionais, descreveremos os primórdios de três áreas importantes da psicologia aplicada: os testes psicológicos, a psicologia industrial/organizacional e a psicologia clínica.

Granville Stanley Hall (1844-1924)

Embora William James tenha sido o primeiro grande psicólogo estadunidense, o explosivo desenvolvimento da psicologia nos Estados Unidos entre 1880 e 1900 não resultou apenas do seu trabalho. Outra figura notável na história da psicologia estadunidense foi Granville Stanley Hall.
A carreira psicológica de Hall foi uma das mais interessantes e variadas. Hall trabalhava com arroubos de energia e entusiasmo em várias áreas, que logo deixava, entregando os detalhes à investigação de outros. Não foi um fundador do funcionalismo, mas as suas contribuições aos novos campos e atividades da psicologia aplicada tinham um pronunciado sabor funcional.

A psicologia estadunidense tem uma dívida com Hall em virtude da sua notável coleção de primeiros lugares. Foi ele quem recebeu o primeiro grau de doutor em psicologia dos EUA e afirmava ter sido o primeiro aluno estadunidense do primeiro ano do primeiro laboratório de psicologia. (Novos dados da história revelam que ele foi, na verdade, o segundo; ver Benjamin, Acord, Durkin, Link e Vestal, 1992.) Hall deu inicio ao que muitos consideram o primeiro laboratório de psicologia dos Estados Unidos e fundou a primeira revista estadunidense de psicologia. Foi o primeiro presidente da Universidade Clark, o organizador e primeiro presidente da Associação Psicológica Americana e um dos primeiros psicólogos aplicados. [177]

A Vida de Hall

G. Stanley Hall nasceu numa fazenda de Massachusetts e desde cedo desenvolveu urna sucessão de interesses que mais tarde caracterizariam a sua vida. Também era característica sua grande ambição. Aos catorze anos, jurou deixar a fazenda e ‘fazer e ser algo no mundo’... Seu mais intenso medo na adolescência era o da mediocridade” (Ross, 1972, p. 12). Em 1863, ingressou no Williams College. Ao graduar-se, Hall já acumulara várias honrarias e tinha desenvolvido um entusiasmo pela filosofia, pela teoria evolutiva em especial, o que iria influenciar sua carreira na psicologia.

Em 1867, inscreveu-se no Seminário Teológico União, de Nova York, embora não tivesse grande vocação para ministro. Seu interesse pela evolução em nada ajudava, além de ele não se fazer notar por uma ortodoxia religiosa. Diz a história que, quando Hall fez seu sermão de prova diante de professores e alunos, o presidente do Seminário ajoelhou-se e rezou pela sua alma.

A conselho do pregador Heniy Ward Beecher, Hall foi para a Universidade de Bonn, Alemanha, estudar filosofia e teologia. Dali, foi a Berlim, onde fez estudos no campo da fisiologia e da fisica. Essa fase da sua educação foi complementada por interlúdios românticos e pela frequência assídua a cervejarias e teatros, experiências essas que, para um jovem de formação puritana, exigiam coragem. Ele se referiu a sua surpresa e alegria ao ver um dos seus professores de teologia tomando cerveja num domingo. O tempo que Hall permaneceu na Europa foi para ele urna época de liberação.

Voltou para casa em 1871, com vinte e sete anos, nenhum grau e uma grande dívida. Obteve o diploma em teologia e pregou numa igreja rural de Cowdersport, Pensilvânia, por... dez semanas. Depois de ser preceptor por mais de um ano, Hall conseguiu um cargo de professor no Antioch College, de Ohio. Ensinava literatura inglesa, língua e literatura francesa e alemã, e filosofia; servia como bibliotecário, dirigia o coro e pregava na capela. Em 1874, depois de ler Psicologia Fisiológica, de Wundt, teve despertado seu interesse pela nova ciência, o que o deixou meio indeciso sobre sua carreira. Tirou uma licença do Antioch, instalou-se em Cambridge, Massachusetts, e tornou-se instrutor de inglês em Harvard.

Além de dedicar-se ao trabalho monótono e cansativo de ensinar inglês a calouros, Hall estudava e fazia pesquisas na escola médica. Em 1878, apresentou sua dissertação sobre a percepção muscular do espaço e recebeu o primeiro grau em psicologia dos Estados Unidos. Ele chegou a conhecer muito bem William James, mas os dois homens, embora próximos em idade, eram muito distantes em formação e temperamento.
Tão logo se doutorou, Hall foi para a Europa; lá, estudou fisiologia em Berlim e foi aluno de Wundt em Leipzig. A expectativa de trabalhar com Wundt foi, ao que parece, melhor do que a realidade. Embora Hall fosse às palestras do mestre e cumprisse suas obrigações de sujeito do laboratório, suas pesquisas seguiam linhas mais fisiológicas, e sua carreira ulterior demonstra que Wundt, em última análise, teve pouca influência sobre ele. Quando voltou aos EUA em 1880, Hall não tinha perspectiva de emprego; contudo, num espaço de dez anos, tornou-se uma figura de renome nacional.

Hall reconheceu, ao retomar da Alemanha, que a melhor oportunidade de satisfazer a sua ambição estava em aplicar a psicologia à educação. Em 1882, fez uma palestra numa reunião da National Education Association (Associação Nacional de Educação — NEA), em que insistia para que se fizesse do estudo psicológico da criança um componente nuclear da profissão de docente. Ele repetia essa mensagem em todas as oportunidades, e isso logo levou ao primeiro passo de sua rápida saída da obscuridade. O presidente de Harvard o convidou a fazer uma série de palestras sobre educação nas manhãs de sábado. Essas conferências bem [179] recebidas deram a Hall muita publicidade favorável, e um convite para lecionar em tempo parcial na Universidade Johns Hopkins, estabelecida há seis anos como a primeira escola de graduação dos Estados Unidos.

As palestras de Hall foram um grande sucesso e lhe valeram o cargo de professor efetivo da Hopkins em 1884. No tempo que ali passou, Hall deu início ao que costuma ser considerado o primeiro laboratório de psicologia dos EUA (formalmente estabelecido em 1883), que ele chamou do seu “laboratório de psícofisiologia” (Pauly, 1986, p. 30). Foi professor de alguns alunos que se tornariam psicólogos proeminentes, incluindo John Dewey e James McKeen Cattell. Em 1887, Hall fundou a American Journal of Psychology, a primeira revista de psicologia dos Estados Unidos, ainda hoje uma publicação importante. Essa revista servia de plataforma de idéias teóricas e experimentais, e funcionava como eixo de solidariedade e independência para os psicólogos estadunidenses. Numa explosão de entusiasmo, Hall imprimiu uma quantidade excessiva de exemplares do primeiro número; ele e a revista precisaram de cinco anos para cobrir esses custos iniciais.

Em 1888, Hall tomou-se o primeiro presidente da Universidade Clark em Worcester, Massachusetts. Antes de assumir o cargo, fez uma longa viagem para estudar em universidades européias e contratar professores para a sua nova escola. A viagem serviu também a outro propósito. ‘Hall parece ter considerado a viagem uma combinação de Grand Tour e férias remuneradas por trabalhos ainda não começados... ela incluiu algumas paradas totalmente irrelevantes do ponto de vista da tarefa que ele iria realizar, tais como academias militares russas, antigos sítios históricos gregos e o roteiro-padrão de bordéis, circos e curiosidades” (Koelsch,, 1987, p. 21).

Hall desejava fazer de Clark uma universidade nos moldes da Johns Hopkins e das universidades alemãs, com ênfase primordial na pesquisa, e não no ensino. Infelizmente, o fundador — o abastado comerciante Jonas (Bilman Clark — tinha idéias diferentes e não forneceu tanto dinheiro quanto Hall esperava. Com a morte de Clark em 1900, a dotação foi dedicada à fundação de urna faculdade tradicional, a que Hall se opunha, mas que Clark há muito tempo defendia.

Hall tornou a Universidade Clark mais receptiva a mulheres e a grupos minoritários do que a maioria das escolas dos Estados Unidos na época. Embora partilhassem da oposição nacional à co-educação para graduandos, admitia mulheres à graduação. Também teve a incomum iniciativa de encorajar estudantes asiáticos (japoneses em especial) a se inscrever em Clark, e teve o gesto inédito de estimular os afro-americanos a entrar no programa de graduação, O primeiro estadunidense negro a obter um Ph.D. em psicologia, Francis Sumner, estudou com Hall. Hall se recusou a impor restrições à contratação de judeus como professores, numa época em que a maioria das instituições não os contratava (Guthrie, 1976; Sokal, 1990).

Além de presidente, ele era professor de psicologia e deu aulas na graduação por vários anos. Hall ainda encontrou tempo para fundar, às suas próprias custas, em 1891, a revista Pedagogical Seminary (hoje Joumal of Genetíc Psychology), para servir de veículo a pesquisas sobre o estudo das crianças e de psicologia educacional. Em 1915, fundou a Journal of Applied Psychology, elevando o número de revistas psicológicas estadunidenses a dezesseis.

A Associação Psicológica Americana (APA) foi fundada em 1892, principalmente graças aos esforços de Hall. A convite seu, cerca de urna dúzia de psicólogos se reuniram em seu gabinete para planejar a organização e o elegeram o primeiro presidente. Por volta de 1900, o grupo tinha 127 membros. O interesse de Hall pela religião persistiu. Fundou a Journal of Religious Psychology (1904), que só durou uma década. Em 1917, publicou um livro intitulado Jesus, the Christ, at the Light of Psychology (Jesus, o Cristo, à Luz da Psicologia). Sua descrição de Jesus como [180] uma espécie de “super-homem adolescente” não foi bem recebida pela religião oficial (Ross, 1972, p. 418).

A psicologia prosperou em Clark sob a direção de Hall. Durante seus trinta e seis anos ali, foram conferidos oitenta e um doutorados em psicologia. Seus alunos se lembram dos seminários noturnos cansativos, mas estimulantes, realizados às segundas-feiras em sua casa; neles, os doutorandos eram questionados pelos docentes e pelos colegas. No final das reuniões, que duravam até quatro horas, um criado trazia uma gigantesca porção de sorvete.

Os comentários de Hall sobre os textos dos alunos costumavam ser devastadores. ‘Hall resumia as coisas”, lembra-se Lewis Terman, “com uma erudição e uma imaginação fértil que sempre nos espantavam e nos faziam sentir que sua percepção imediata do problema ia imensuravelmente além da do aluno que lhe dedicara vários meses de trabalho intenso.” E quando as sessões terminavam, Terman “sempre ia para casa atordoado e intoxicado, tomava um banho quente para acalmar os nervos e ficava acordado durante horas rememorando a cena e formulando as coisas inteligentes que deveria ter dito e não dissera” (Sokal, 1990, p. 119).

Os graduandos de certo modo adoravam Hall. Um deles se lembrou recentemente da impressão que tinha de Hall há setenta anos. “Hall era um homem de compleição forte, com O laboratório de psicologia de Hall na Universidade Johns Hopkins é considerado o primeiro laboratório dos Estados Unidos. [181] 

Hall foi um dos primeiros estadunidenses a se interessar pela psicanálise, sendo bastante responsável pela atenção que ela logo recebeu nos Estados Unidos. Em 1909, para celebrar o vigésimo aniversário de fundação da Clark, ele convidou Sigmund Freud e Carl Jung para uma série de conferências, um convite corajoso devido à suspeita com que a psicanálise era recebida. Hall também convidou seu ex-professor Wilhelm Wundt, que recusou por causa da idade — e porque ia ser o principal orador no aniversário de 500 anos de sua própria universidade.

Hall continuou a escrever depois da sua aposentadoria em 1920. Faleceu quatro anos mais tarde, poucos meses depois de ser eleito para um segundo mandato como presidente da APA. Depois da sua morte, foi feita uma pesquisa entre os membros da APA para avaliar as contribuições de Hall à psicologia. Dentre as 120 pessoas que responderam, 99 colocaram Hall entre os dez maiores psicólogos do mundo. Muitos louvaram sua capacidade didática, seus esforços para promoção da psicologia e seu desafio à ortodoxia, mas, assim como outros que o conheceram, criticaram suas qualidades pessoais. Ele foi descrito como de difícil trato, não confiável, inescrupuloso, cheio de rodeios e agressivamente voltado para sua autopromoção. William James disse um dia que Hall era a “mais estranha mistura de grandeza e pequenez que eu já vi” (Myers, 1986, p. 18). Mesmo seus críticos, contudo, concordariam com o julgamento da pesquisa da APA: “ levou à produção de mais textos e à realização de mais pesquisas do que quaisquer outros três profissionais da área juntos” (Koelsch, 1987, p. 52).

A Evolução como Estrutura para o Desenvolvimento Humano

Embora Hall tivesse interesse por muitas áreas, seus devaneios intelectuais tinham um único tema orientador: a teoria da evolução. Seu trabalho acerca de uma variedade de tópicos psicológicos era norteado pela convicção de que o desenvolvimento normal da mente envolve uma série de estágios evolutivos. Assim, Hall empregou a teoria da evolução como estrutura para amplas especulações teóricas e aplicadas. Ele contribuiu mais para a psicologia educacional do que para a psicologia experimental, na qual se concentrou somente nas primeiras fases de sua carreira.

Concordando com a importância do método experimental para a psicologia, ele, no entanto, ficava impaciente com suas limitações. Para os objetivos e esforços mais gerais de Hall, o trabalho de laboratório no âmbito da nova psicologia parecia muito restrito.

Chamam-no frequentemente de psicólogo genético, por causa do seu interesse pelo desenvolvimento humano e animal, e pelos problemas correlatos da adaptação. Em Clark, o geneticismo de Hall levou-o ao estudo psicológico da infância, que ele transformou no cerne de sua psicologia. Numa palestra feita na Feira Mundial de Chicago de 1893, ele disse: “Até agora, fomos à Europa buscar a nossa psicologia. A partir deste momento, tomemos uma [182] criança, coloquemo-la em nosso meio e deixemos que os EUA façam sua própria psicologia” (Siegel e White, 1982, p. 253). Hall pretendia aplicar sua psicologia ao funcionamento da criança no mundo real. Como bem observou um ex-aluno seu, “A criança se tornou, por assim dizer, seu laboratório” (Averili, 1990, p. 127).

Em seus estudos sobre a criança, Hall fez amplo uso de questionários, técnica aprendida na Alemanha. Por volta de 1915, ele e seus alunos tinham desenvolvido e usado 194 questionários cobrindo muitos tópicos (White, 1990). Era tão amplo o seu uso de questionários que, por algum tempo, o método esteve associado, nos Estados Unidos, com o nome de Hall, embora a técnica tivesse sido desenvolvida antes por Francis Galton.

Esses primeiros estudos sobre as crianças geraram um grande entusiasmo público, levan do à criação do chamado movimento de estudo da criança. Embora tenha desaparecido em uns poucos anos por causa de pesquisas malfeitas, o movimento serviu para deixar estabelecida a importância, tanto do estudo empírico da criança, como do conceito de desenvolvimento psicológico.

A mais influente obra de Hall é o extenso (cerca de mil e trezentas páginas) livro em dois volumes Adolescence: Its Psychology, and Its Relations to Physiology, Ahthropology, Sociology, Sex, Crime, Religion, and Education (A Adolescência Sua Psicologia e Suas Relações com a Fisiologia, a Antropologia, a Sociologia, o Sexo, o Crime, a Religião e a Educação), publicado em 1904. Essa enciclopédia contém a mais completa sistematização da teoria de recapitulação de Hall, sobre o desenvolvimento psicológico. Ele acreditava que as crianças repetem, em seu desenvolvimento pessoal, a história de vida da raça humana. Quando brincam de índios e caubóis, por exemplo, as crianças repetem ou resumem a história dos seres primitivos. O livro incluía muito material de interesse para psicólogos infantis e educadores, tendo passado por várias reedições, uma delas vinte anos depois de sua publicação inicial.

Adolescence também causou controvérsia porque alguns consideravam haver nele uma excessiva concentração no sexo. Hall foi acusado de lascívia. Numa resenha do livro, o psicólogo E. L. Thorndike escreveu que “os atos e sentimentos, normais e mórbidos, resultantes do sexo são discutidos de um modo sem precedentes na ciência inglesa”. Thorndike foi muito mais critico numa carta a um colega, onde disse que o livro de Hall era “um choque cheio de erros, de masturbação e de Jesus. O homem é um louco” (Ross, 1972, p. 385). Na época, Hall fazia uma série de palestras semanais sobre sexo em Clark. Era um ato escandaloso, embora ele não tivesse permitido a presença de mulheres. Ele acabou por desistir das palestras porque “muita gente de fora se havia infiltrado e alguns até ouviam sub-repticiamente à porta” (Koelsch, 1970, p. 119).
Muitos psicólogos se sentiam incomodados com o entusiasmo de Hall pelo sexo. “Não há como afastar Hall desse maldito sexo?”, escreveu Angell a Titchener. “Eu na verdade acho que é ruim, moral e intelectualmente, tocar tanto a tecla sexual” (Boakes, 1984, p. 163). Eles não precisavam se preocupar; o produtivo e enérgico Hall logo se interessou por outra coisa.

Ao envelhecer, Hall naturalmente se interessou por um estágio ulterior do desenvolvimento: a velhice. Aos setenta e oito anos, publicou o livro em dois volumes Senescence (Senescência), em 1922. Foi a primeira pesquisa de natureza psicológica em larga escala sobre questões geriátricas. Nos últimos anos de vida, ele também escreveu duas autobiografias. Recreations of a Psychologist (Recreações de um Psicólogo), em 1920, e The Life and Confessions of a Psychologist (Vida e Confissões de um Psicólogo), em 1923.

G. Stanley Hall foi um dia apresentado a um auditório como "o Darwin da mente”, uma caracterização que com certeza o agradou e exprimia vividamente suas aspirações e a atitude básica que permeava sua obra. A outro auditório foi apresentado como “a maior autoridade mundial no estudo da criança”. Dizem que ele afirmou que o elogio estava correto (Koelsch, 1987, p. 58). Ao longo de sua vida, manteve-se versátil e ágil. Seu entusiasmo aparentemente [183] ilimitado era ousado, diversificado e não-técnico, e talvez seja essa característica que fez dele uma personalidade tão estimulante e influente.

Em sua segunda autobiografia, Hall escreveu: ‘Toda a minha vida consciente ativa foi formada por uma série de manias ou excessos, alguns fortes, alguns fracos; alguns duradouros... e outros efêmeros” (Hall, 1923, pp. 367-368). Perspicaz observação. Hall era vivaz, agressivo, quixotesco, sempre às turras com os colegas, mas nunca enfadonho. Ele uma vez observou que Wilhelm Wundt preferia ser banal a estar brilhantemente errado. Talvez Hall preferisse estar brilhantemente errado a ser banal.

James McKeen Cattell (1860-1944)

O espírito funcionalista da psicologia estadunidense também foi bem representado na vida e na obra de James McKeen Cattell, que influenciou o movimento em prol de uma abordagem prática e orientada para os testes no estudo dos processos mentais. A psicologia de Cattell voltou-se mais para as capacidades humanas do que para o conteúdo consciente e, nesse aspecto, ele se aproxima muito de um funcionalista. Tal como Hall e William James, ele nunca se associou formalmente com o movimento, mas tipificou o espírito funcionalista estadunidense em sua ênfase nos processos mentais em termos de sua utilidade para o organismo, bem como em seu desenvolvimento de testes mentais, hoje uma área importante da psicologia aplicada.

A Vida de Cattell

Cattell nasceu em Easton, Pensilvânia. Bacharelou-se em 1880 no Lafayette Coliege, presidido pelo pai. Seguindo o costume de ir à Europa fazer estudos de pós-graduação, Cattell passou primeiro pela Universidade de Gõttingen, indo mais tarde para Leipzig estudar com Wilhelm Wundt. Um ensaio filosófico lhe valeu uma bolsa de estudos na Universidade Johns Hopkins em 1882. Na época, seu principal interesse era a filosofia e, no primeiro semestre que passou em Hopkins, não foram oferecidos cursos de psicologia. Ao que parece, Cattell se interessou pela psicologia por causa de suas próprias experiências com drogas. Ele experimentou várias substâncias: haxixe, morfina, ópio, cafeína, tabaco e chocolate. Considerou os resultados interessantes em termos pessoais e profissionais. Algumas drogas, principalmente o haxixe, o deixavam consideravelmente eufórico, reduzindo a depressão que vinha sentindo. Ele também observou os efeitos das drogas no seu funcionamento mental.
“Vi-me fazendo brilhantes descobertas científicas e filosóficas”, confidenciou ele ao seu diário; “meu único medo era não conseguir me lembrar delas pela manhã.” Um mês depois, ele escreveu: “A leitura ficou desinteressante. Continuei a ler sem prestar muita atenção. É preciso um longo tempo para escrever uma palavra. Estou bem confuso” (Sokal, 198 la, pp. 51-52). Mas não estava tão confuso a ponto de deixar de reconhecer a importância psicológica das drogas. Observava o seu próprio comportamento e estado mental com crescente fascínio. “Eu parecia ser duas pessoas”, escreveu, “uma das quais podia observar a outra e até fazer experimentos com ela” (Sokal, 1987, p. 25).

No segundo semestre de Cattell na Johns Hopkins, G. Stanley Hall começou a dar aulas de psicologia, e ele (assim como John Dewey) se inscreveu no curso de laboratório de Hall. Pouco depois, Cattell começou a fazer pesquisas sobre o tempo de reação, que é o tempo necessário para diferentes atividades mentais; esse trabalho reforçou seu desejo de ser psicólogo.

A volta de Cattell a Wundt na Alemanha, em 1883, é objeto de algumas anedotas bem conhecidas na história da psicologia, e servem de exemplos adicionais de como os dados históricos podem ser distorcidos. Supostamente, Cattell apareceu no laboratório da Universidade [184] de Leipzig e anunciou a Wundt, pura e simplesmente: “Herr Professor, o senhor precisa de um assistente; e eu vou ser o seu assistente” (Cattell, 1928, p. 545). Cattell deixou claro para Wundt que escolheria o seu próprio projeto de pesquisa, sobre a psicologia das diferenças individuais, tópico que não era relevante para a psicologia wundtiana. Diz-se que Wundt teria caracterizado Cattell e seu projeto como ganz Amerikanisch (‘tipicamente americanos”), uma observação profética. O interesse pelas diferenças individuais, um corolário natural do ponto de vista evolutivo, foi desde então uma característica da psicologia estadunidense, e não da alemã. [185]

Os métodos de James McKeen Cattell, práticos e voltados para os testes, refletiam o espírito da psicologia funcional estadunidense. Cattell teria dado a Wundt sua primeira máquina de escrever, na qual a maioria dos livros do mestre foram escritos. Por causa desse presente, Cattell foi criticado, jocosamente, por ter “prestado um sério desserviço... ter permitido que Wundt escrevesse duas vezes mais livros do que lhe teria sido possível de outro modo” (Cattell, 1928, p. 545).

Uma cuidadosa e exaustiva pesquisa em arquivos feita pelo historiador Michael M. Sokal, do Instituto Politécnico de Worcester, a respeito das cartas e diários de Catteil, indica que essas histórias são duvidosas. O relato desses eventos por Cattell, escrito muitos anos depois, não é corroborado pela sua correspondência nem por suas anotações no diário à época em que ocorreram. Por exemplo, Sokal (198 la) assinala que Wundt tinha Cattell em alta conta e o nomeou seu assistente de laboratório em 1886. Além disso, não há provas de que Cattell quisesse estudar as diferenças individuais na época. Por último, Cattell fez com que Wundt usasse a máquina de escrever, mas não lhe teria dado uma.

Cattell descobriu que não conseguia praticar satisfatoriamente a introspecção wundtiana. Ele era incapaz de fracionar o tempo de reação em várias atividades, como a da percepção ou da escolha, e questionava a possibilidade de alguém conseguir fazê-lo. Essa atitude não agradava a Wundt; em conseqüência, Cattell fez algumas pesquisas em sua própria sala.

Apesar de suas divergências, Wundt e Cattell concordavam sobre o valor do estudo do tempo de reação. Cattell acreditava que isso tinha utilidade para o estudo das várias operações mentais e para as pesquisas sobre as diferenças individuais. Muitos estudos hoje clássicos sobre o tempo de reação foram realizados por Cattell nos seus três anos em Leipzig, e ele publicou vários artigos sobre o assunto antes de partir.

Tendo obtido o doutorado em 1886, Cattell voltou aos Estados Unidos e foi dar aulas de psicologia no Bryn Mawr Coliege e na Universidade da Pensilvânia. Depois foi trabalhar em Cambridge, Inglaterra, onde conheceu Francis Galton. Os dois tinham interesses e concepções semelhantes acerca das diferenças individuais, e Galton, então no auge da fama, ampliou os horizontes de Cattell. “Galton forneceu a Cattell um objetivo científico — a medida das diferenças psicológicas entre as pessoas” (Sokal, 1987, p. 27). Cattell admirava a versatilidade de Galton e sua ênfase na medição e na estatística. Por isso, Cattell foi mais tarde um dos primeiros psicólogos estadunidenses a acentuar a quantificação, a hierarquização e a atribuição de graus, embora fosse pessoalmente “analfabeto em matemática — somava e subtraía, muitas vezes, com imprecisão” (Sokal, 1987, p. 37). Desenvolveu o método da ordem de mérito (também chamado método de classificação), que é muito usado em psicologia, e foi o primeiro psicólogo a ensinar a análise estatística de resultados experimentais.

Wundt não era favorável ao uso de técnicas estatísticas. Logo, foi a influência de Galton sobre Cattell que levou a nova psicologia estadunidense a se parecer mais com o trabalho de Galton do que com o de Wundt. Isso também explica por que os psicólogos estadunidenses começaram a se concentrar em estudos de grandes grupos de sujeitos, que permitiam comparações estatísticas, e não de sujeitos individuais (a abordagem favorecida por Wundt). O impacto inicial dessa mudança se fez sentir na psicologia educacional, a maioria dos resultados de pesquisas publicada nesse campo, entre 1900 e 1910, envolvia dados estatísticos coletados entre grandes amostragens (Danziger, 1987).

Cattell também foi influenciado pela obra de Galton no campo da eugenia. Cattell defendia a esterilização de delinquentes e de “pessoas imperfeitas”, bem como a concessão de incentivos às pessoas mais inteligentes e saudáveis para que elas se casassem entre si. Ele ofereceu a cada um dos seus sete filhos mil dólares se eles se casassem com filhos ou filhas de professores universitários (Sokal, 1971).

Em 1888, Cattell tornou-se professor de psicologia da Universidade da Pensilvânia, nomeação conseguida pelo seu pai. Sabendo que uma cadeira de filosofia bem-remunerada [186] seria criada na universidade, o velho Cattell agiu junto ao reitor da escola, um velho amigo seu, para garantir o posto para o filho. Ele insistiu para que este publicasse mais artigos a fim de aumentar sua reputação profissional e foi pessoalmente a Leipzig conseguir uma carta de recomendação de Wundt. Disse ao reitor que, como sua família tinha recursos, o salário não importava, o que fez Cattell ser contratado com uma remuneração bem baixa (O’Donnell, 1985). Mais tarde Cattell diria, incorretamente, que foi o primeiro professor de psicologia do mundo, quando sua nomeação na realidade foi para filosofia. Ele ficou na Pensilvânia por apenas três anos, deixando-a para ser professor de psicologia e chefe do departamento na Universidade Colúmbia, onde passou vinte e seis anos.

Motivado pela sua insatisfação com a American Journal of Psychology, fundou com J. Mark Baldwin, em 1894, a Psychological Review. No mesmo ano, Cattell adquiriu de Alexander Graham Bell o semanário Science, que estava prestes a deixar de ser publicado por falta de fundos. Cinco anos mais tarde, Science tornou-se a revista oficial da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS). Em 1906, Cattell iniciou uma série de obras de referência, incluindo American Men of Science e Leaders of Education. Comprou o Popular Science Monthly em 1900; depois de vender o nome em 1915, continuou a publicá-lo como Scientific Monthly. Outro semanário, School and Society, foi fundado em 1915. O fenomenal trabalho de organização e edição tomava muito tempo de Catteil, não sendo surpreendente que declinasse sua produtividade como pesquisador de psicologia.

Durante sua carreira em Colúmbia, esta foi a faculdade estadunidense que conferiu mais doutorados em psicologia. Cattell enfatizava a importância do trabalho independente e concedia aos alunos considerável liberdade em suas pesquisas. Ele acreditava que um professor devia ser independente, tanto da universidade como dos alunos, e, para ilustrar sua afirmação, vivia a sessenta quilômetros do campus, perto da academia militar de West Point. Montou um laboratório e um escritório editorial em casa e só ia à universidade em dias certos da semana. Assim, conseguia evitar as frequentes distrações, comuns à vida acadêmica.

Esse distanciamento foi apenas um dos vários fatores que tornaram tensas suas relações com a administração universitária. Ele exigia uma crescente participação docente nos assuntos universitários, dizendo que muitas decisões cabiam aos professores e não aos administradores. Com esse objetivo, ajudou a fundar a Associação Americana de Professores Universitários (AAUP).

Cattell não era diplomático nos contatos com a administração da Colúmbia. Foi descrito como uma pessoa difícil de conviver, “grosseiro, irrecuperavelmente detestável e carente de decência” (Gruber, 1972, p. 300). Cattell não se pautava pelas regras aceitas da conduta social, preferindo a sátira cortante à persuasão polida em seus ataques à administração.

Em três ocasiões, entre 1910 e 1917, os curadores pensaram em aposentá-lo. O golpe decisivo veio durante a Primeira Guerra Mundial, quando Cattell escreveu duas cartas ao Congresso norte-americano protestando contra a prática de enviar soldados recrutados à frente de batalha. Essa era uma posição impopular para ser adotada mas, caracteristicamente, Cattell não voltou atrás. Foi demitido da Colúmbia em 1917, acusado de deslealdade ao país. Ele processou a universidade por difamação e, embora indenizado em quarenta mil dólares, não recuperou o cargo. Isolou-se dos colegas e passou a escrever panfletos cáusticos sobre a administração universitária. Fez muitas inimizades e viveu amargurado por essa experiência o resto da vida.

Cattell nunca mais voltou à vida acadêmica. Dedicou-se às publicações, à AAAS e a outras sociedades científicas. Seus esforços promocionais como porta-voz da psicologia diante das outras ciências conquistaram para a disciplina uma posição mais importante perante a comunidade científica.

Em 1921, realizou uma de suas maiores ambições: a promoção da psicologia aplicada [187] como negócio. Organizou a Psychological Corporation, cujas ações foram compradas por membros da APA, para prestar serviços psicológicos à indústria, à comunidade psicológica e ao público. Essa organização registrou um considerável crescimento e hoje é um empreendimerito de vulto internacional.

Cattell manteve-se ativo como editor e defensor da psicologia até morrer, em 1944. Sua ascensão extremamente rápida no cenário da psicologia estadunidense merece menção. Aos vinte e oito anos, era professor na Universidade da Pensilvânia; aos trinta e um, chefe de departamento em Colúmbia; aos trinta e cinco, presidente da Associação Psicológica Americana; e, aos quarenta, o primeiro psicólogo eleito para a Academia Nacional de Ciências (NAS).

Os Testes Mentais

Mencionamos os primeiros trabalhos de Cattell sobre o tempo de reação e o seu interesse pelo estudo das diferenças individuais. O alcance dos seus outros trabalhos foi ilustrado em 1914, quando um grupo de alunos seus, que coligia seus artigos originais de pesquisa, descobriu que, além do tempo de reação e das diferenças individuais, havia estudado a leitura e a percepção, a associação, a psicofísica e o método da ordem do mérito. Embora a importância dessas áreas não possa ser negada, Cattell influenciou a psicologia principalmente com seu trabalho aplicado sobre as diferenças individuais e com o desenvolvimento e uso de testes mentais para medir essas diferenças.

Num artigo publicado em 1890, ele cunhou o termo testes mentais, e, em seu período na Universidade da Pensilvânia, administrou uma série desses testes a seus alunos. ‘A psicologia”, escreveu Cattell, “não pode atingir a certeza e a exatidão das ciências físicas se não se apoiar nos alicerces da experimentação e da mensuração. Um passo nessa direção poderia ser dado com a aplicação de uma série de testes mentais e medidas, a um grande número de pessoas” (Cattell, 1890, p. 373). É precisamente isso que ele tentou fazer. Continuou com o programa de testes em Colúmbia e reuniu dados de várias turmas de calouros.

Os tipos de testes usados por Cattell ao tentar medir o alcance e a variabilidade das capacidades humanas diferiam dos testes de inteligência ou de capacidade cognitiva, desenvolvidos mais tarde. Estes últimos usaram tarefas mais complexas de aptidão mental. Os de Cattell eram semelhantes aos de Galton, estando primordialmente voltados para medidas corporais ou sensório-motoras elementares, como a pressão dinamométrica, a taxa de movimento (a rapidez com que a mão pode se mover cinquenta centímetros), a sensação (usando o limiar de dois pontos), a pressão que causa dor (quantidade de pressão na testa necessária para provocar dor), as diferenças apenas perceptiveis para a avaliação de pesos, o tempo de reação a sons, o tempo para denominar cores, a bissecção de uma linha de cinquenta centímetros, a avaliação de um período de tempo de dez segundos, e o número de letras lembradas depois de uma única apresentação.

Por volta de 1901, ele tinha reunido dados suficientes para correlacionar os escores dos testes com medidas do desempenho acadêmico dos alunos. As correlações se mostraram desapontadoramente baixas, o mesmo ocorrendo com as intercorrelações dos testes individuais. Como resultados semelhantes tinham sido obtidos no laboratório de E. B. Titchener, Cattell concluiu que testes desse tipo não serviam para prever o desempenho acadêmico ou, por pressuposição, a capacidade intelectual.

Em 1905, o psicólogo francês Alfred Binet, em colaboração com Victor Henri e Théo dore Simon, desenvolveu um teste de inteligência usando medidas mais complexas de capacidades mentais superiores. Essa abordagem ofereceu o que foi considerado uma medida eficiente de inteligência e marcou o começo do fenomenal desenvolvimento dos testes de inteligência.

Apesar do seu fracasso em medir as aptidões mentais, a influência de Cattell no movimento [188] dos testes mentais foi grande. Seu aluno E. L. Thorndike tornou-se líder da psicologia dos testes mentais e, durante anos, a Universidade Columbia foi o centro do movimento. A partir da obra de Galton, Cattell empreendeu uma série de estudos para investigar a natureza e a origem da aptidão científica, usando sua técnica da ordem do mérito. Estímulos classificados por alguns juizes eram colocados numa ordem hierárquica final mediante o cálculo da média atribuida a cada item de estímulo, O método foi aplicado a eminentes cientistas estadunidenses, pedindo-se a pessoas competentes em cada campo científico que classificassem hierarquicamente alguns dos seus colegas mais notáveis. O importante livro de referência American Men of Science veio desse trabalho. A edição de 1910 inclui dezenove psicólogas, cerca de 10% do total geral de psicólogos (O’Donnell, 1985).

O impacto de Cattell sobre a psicologia estadunidense não veio do desenvolvimento de um sistema de psicologia — ele tinha pouca paciência com teorias — nem de uma impressionante lista de publicações. Sua influência veio principalmente do seu trabalho como organizador, executivo e administrador da ciência e da prática psicológicas, e como elo de ligação entre a psicologia e a comunidade científica mais ampla. Cattell tornou-se um embaixador da psicologia, fazendo palestras, editando publicações e promovendo as aplicações práticas do campo.

Ele também contribuiu para o desenvolvimento da psicologia através dos seus discípulos. Durante os seus anos em Colúmbia, treinou, como observamos, mais alunos de psicologia do que qualquer outro nos Estados Unidos, e vários deles, incluindo Robert Woodworth e E. L. Thorndike, alcançaram grande destaque no campo. Mediante seu trabalho com os testes mentais, a medição de diferenças individuais e a promoção da psicologia aplicada, Cattell revigorou energicamente o movimento funcionalista na psicologia estadunidense. Quando ele morreu, o historiador E. G. Boring escreveu a um de seus filhos: ‘Na minha opinião, seu pai fez mais até mesmo que William James para dar à psicologia estadunidense sua fisionomia peculiar, para torná-la distinta da psicologia alemã da qual decorreu” (Bjork, 1983, p. 105).

Lightner Witmer (1867-1956)

Enquanto Hall modificava para sempre a natureza da psicologia estadunidense ao aplicá-la à criança e à sala de aula, e enquanto Cattell aplicava a psicologia à medição de aptidões mentais, um aluno seu e de Wundt a aplicava à avaliação e ao tratamento de certos tipos de comportamento anormal. Apenas dezessete anos depois de Wundt ter fundado a nova ciência da psicologia, outro dos seus ex-alunos a estava usando de uma maneira prática, incompatível com as intenções do mestre. Em 1896, Lightner Witmer, que substituira Cattell na Universidade da Pensilvânia e insistia que sua sala de aula fosse mantida na temperatura de vinte graus, abriu a primeira clínica psicológica, fundando o campo por ele denominado psicologia clínica.

Witmer ofereceu o primeiro curso universitário na nova área e fundou a primeira revista, Psychological Clinic, que editou durante vinte e nove anos. Foi um dos pioneiros da abordagem funcionalista que acreditava dever a nova ciência ser usada para ajudar as pessoas a resolver problemas, e não para estudar o conteúdo de sua mente.

É importante observar que o que Witmer praticava em sua clínica psicológica não era a psicologia clínica que hoje conhecemos. Veremos que o seu trabalho estava voltado para a avaliação e o tratamento de problemas comportamentais e de aprendizagem de crianças em idade escolar, uma área aplicada hoje chamada de psicologia escolar. A moderna psicologia clínica cuida de uma gama mais ampla de desordens psicológicas, das brandas às graves, em pessoas de todas as idades. Embora Witmer tenha sido fundamental para o desenvolvimento da psicologia clínica, e tenha usado esse rótulo livremente, o campo ampliou-se bem além do que ele imaginara. [189]

A Vida de Witmer

Lightner Witmer nasceu em 1867 em Filadélfia, Pensivânica. Era filho de um próspero farmacêutico que inculcou nos três filhos a importância da educação. O irmão e a irmã de Witmer se formaram em medicina, e ele doutorou-se com Wilhelm Wundt em Leipzig. Sempre um aluno excelente, Witmer primeiro freqüentou uma escola particular e, em 1884, ingressou na Universidade da Pensilvânia. Depois da graduação, ensinou história e inglês numa escola particular de Filadélfia antes de matricular-se em cursos de direito na Universidade da Pensilvânia.

Aparentemente sem intenção de fazer carreira em psicologia, ele freqüentava as aulas de psicologia experimental de Cattell, por razões que permanecem obscuras, e tornou-se assistente de ensino do departamento de psicologia. Witmer começou a fazer pesquisas sobre as diferenças individuais quanto ao tempo de reação sob a orientação de Cattell, esperando conseguir seu Ph.D. na Pensilvânia. Cattell tinha outros planos. Ele tinha Witmer em tão alta conta que o escolheu como sucessor quando foi para a Universidade Colúmbia. Era uma oportunidade ímpar para o jovem, mas Cattell impôs uma condição: Witmer teria de ir para Leipzig doutorar-se com Wundt. O prestígio de um Ph.D. alemão ainda era fundamental, e Witmer concordou.

Ele estudou com Wundt e com Oswald Külpe; um dos seus colegas, recém-chegado da Inglaterra, foi E. B. Titchener. Witmer não se impressionou com a abordagem wundtiana de pesquisa, tendo mais tarde comentado que a única coisa que conseguiu com a experiência de Leipzig foi o grau. Wundt se recusou a permitir que Witmer prosseguisse com o trabalho sobre o tempo de reação que ele iniciara com Cattell, e o obrigou a fazer pesquisas introspectivas tradicionais sobre conteúdos conscientes.

Witmer criticava o que chamava de “métodos displicentes de pesquisa” usados por Wundt, descrevendo como este fizera Titchener repetir uma pesquisa... porque os resultados obtidos por ele não eram os que Wundt tinha esperado. Do mesmo modo, ele me excluiu como sujeito... porque, em sua opinião, minha reação sensorial ao som e ao toque era breve demais para ser uma verdadeira reação sensorial” (O’Donnell, 1985, p. 35).
Mesmo assim, Witmer recebeu seu grau e voltou para ocupar seu novo cargo na Universidade da Pensilvânia no verão de 1892, o mesmo ano em que Titchener obteve o seu e foi para Cornell, e em que outro aluno de Wundt, Hugo Münsterberg, era levado para Harvard por William James. Também nesse ano, Hall deu inicio à Associação Psicológica Americana, tendo Witmer como um dos seus membros fundadores. Foi a época em que os espíritos funcionalista e aplicado começaram a tomar conta da psicologia estadunidense.

Nos dois anos seguintes, Witmer trabalhou como psicólogo experimental, fazendo pesquisas e apresentando artigos sobre as diferenças individuais e a psicologia da dor. Enquanto isso, no entanto, ele buscava meios de aplicar a psicologia ao comportamento anormal. O impulso para fazê-lo veio num certo dia de março de 1896, como resultado de um incidente que se originou nas circunstâncias econômicas antes mencionadas — a verba disponível para o campo da educação pública, que estava em franca expansão.

Muitos conselhos estaduais de educação estavam estabelecendo departamentos de pedagogia (instrução nos princípios e métodos de ensino) em seus colégios e universidades, e os psicólogos estavam sendo chamados a dar cursos para um número crescente de profissionais que se especializavam em educação, bem como para professores públicos em busca de títulos mais elevados de graduação. Também se pedia aos psicólogos que deixassem a pesquisa em laboratório e descobrissem maneiras de treinar alunos para se tornarem psicólogos educacionais. Os departamentos de psicologia se beneficiaram muito desse súbito influxo de alunos, já que, então como agora, os orçamentos departamentais dependiam do número de matrículas. [190]

A Universidade da Pensilvânia estabeleceu cursos para professores públicos em 1894, ficando Witmer responsável por alguns deles. Dois anos mais tarde, uma aluna, Margaret Maguire, consultou Witmer sobre os problemas que tinha com um dos seus alunos, um garoto de catorze anos que estava encontrando dificuldades para aprender a soletrar, embora estivesse indo bem em algumas outras matérias. Poderiam os psicólogos ajudar a resolver esse problema? “Pareceu-me”, escreveu Witmer, “que se a psicologia valesse alguma coisa para mim ou para os outros, ela teria de ser capaz de servir a um caso de retardamento dessa espécie” (McReynolds, 1987, p. 853). Montou uma clínica incipiente e assim começou o trabalho de sua vida.

Dentro de poucos meses, Witmer estava preparando cursos sobre métodos de tratamento de crianças com distúrbios mentais, cegas e com outros problemas, e publicou um artigo sobre o assunto, intitulado “O Trabalho Prático em Psicologia”, na revista Pediatrics. Apresentou uma comunicação sobre o tópico na reunião anual da APA, e foi ali que usou o termo psicologia clínica pela primeira vez. Em 1907, fundou a revista Psychological Clinic, que foi a primeira, e por muitos anos a única, no campo. No seu primeiro número, Witmer propôs uma nova aplicaçâo da psicologia — na verdade, uma nova profissão — a ser chamada psicologia clínica. No ano seguinte, fundou um internato para crianças retardadas e perturbadas, e, em 1909, sua clínica universitária expandiu-se e tornou-se uma unidade administrativa independente.

Witmer ficou na Universidade da Pensilvânia durante toda sua vida profissional, lecionando, promovendo e praticando sua psicologia clínica. Aposentou-se em 1937, vindo a morrer em 1956, aos 89 anos — o último do pequeno grupo de psicólogos que se reunira em 1892 no gabinete de G. Stanley Hall para fundar a Associação Psicológica Americana.

A Clínica Psicológica

Na qualidade de primeiro psicólogo clínico do mundo, Witmer não tinha exemplos, nem precedentes, em que basear suas ações, e desenvolveu seus próprios métodos de diagnóstico e tratamento no transcorrer do próprio trabalho. Com seu primeiro caso, o garoto que tinha problemas de soletração, Witmer examinou o nível de inteligância, o raciocínio e a capacidade de leitura do menino e concluiu que esta última era deficiente. Depois de análises exaustivas que duraram muitas horas, Witmer concluiu que o menino sofria daquilo que ele denominou amnésia visual verbal. Embora pudesse lembrar-se de figuras geométricas, ele tinha problemas para se lembrar de palavras. Witmer desenvolveu um programa paliativo intensivo que produziu alguma melhoria, mas o garoto nunca conseguiu dominar a leitura ou a ortografia.

Os professores enviaram à nova clínica de Witmer muitas outras crianças portadoras de um amplo espectro de deficiâncias e problemas, entre os quais hiperatividade, várias deficiências de aprendizagem e desenvolvimento motor ou verbal inadequado. Conforme se tornava cada vez mais experiente, Witmer pôde desenvolver programas-padrão de avaliação e tratamento, e, além de admitir médicos e assistentes sociais para a clínica, contratou mais psicólogos.

Witmer reconhecia que problemas médicos podem interferir no funcionamento psicológico, razão por que submetia as crianças a um exame clínico para determinar se a subnutrição ou defeitos visuais e auditivos contribuíam para as suas dificuldades. Os pacientes eram testados e entrevistados amplamente por psicólogos; ao mesmo tempo, os assistentes sociais preparavam históricos de caso acerca de sua situação familiar.

A princípio, Witmer acreditava que os fatores genéticos eram amplamente responsáveis por muitos dos distúrbios de comportamento e déficits cognitivos que via; mais tarde, porém, com o aumento da sua experiância clínica, percebeu que os fatores ambientais eram mais importantes. Ele enfatizou a necessidade de oferecer, ainda em tenra infância, uma variedade [191] de experiências sensoriais à criança, antecipando os programas de enriquecimento Head Start de tempos mais recentes. Ele também acreditava na intervenção direta na vida dos pacientes e da sua família, alegando que, se as condições em casa e na escola fossem melhoradas, o comportamento da criança também melhoraria.

O desenvolvimento na educação pública ofereceu à nova psicologia amplas oportunidades - e generosas recompensas — a quem tirasse seus métodos e descobertas do laboratório acadêmico. O exemplo de Witmer foi seguido e ampliado por muitos outros psicólogos. Por volta de 1914, havia quase vinte clínicas psicológicas em operação nos Estados Unidos, a maioria das quais inspirada na de Witmer. Além disso, os alunos que ele treinara divulgaram a sua abordagem, ensinando à geração seguinte de estudantes o trabalho clínico.

Witmer também foi influente na área da educação especial, treinando muitos dos primeiros profissionais desse campo. Um dos seus alunos, Morris Viteles, ampliou o trabalho de Witmer ao fundar, em 1920, uma clínica dedicada à orientação vocacional, a primeira dos Estados Unidos. Outros incluíram adultos no trabalho clínico. Além disso, abordagens mais novas de psicoterapia, desenvolvidas por Sigmund Freud e seus seguidores, fizeram com que o campo crescesse consideraveimente além de suas origens. Esse desenvolvimento, que ocorre naturalmente em todos os campos, de forma alguma reduz a importância de Lightner Witmer em termos da elaboração e evolução da psicologia clínica.

Waiter Dill Scott (1869-1955)

Outro aluno de Wundt, Walter Dill Scott, deixou o mundo da psicologia introspectiva pura que aprendera em Leipzig para aplicar a nova ciência à publicidade e aos negócios. Jogador universitário de rúgbi e quase missionário, Scott dedicou boa parte da sua vida adulta a tornar o mercado e o ambiente de trabalho mais eficientes e a determinar como os lideres empresariais poderiam motivar os empregados e consumidores.
A obra de Scott reflete a crescente preocupação da psicologia funcional com o lado prático das coisas. “Ao retornar da Leipzig de Wundt para a Chicago da virada do século, Scott fez suas publicações passarem da teorização germânica à utilidade prática estadunidense. Em vez de explicar as motivações e impulsos em geral, Scott descrevia como influenciar pessoas, incluindo consumidores, públicos de palestras e trabalhadores” (Von Mayrhauser, 1989, p. 61).
Scott reuniu um impressionante número de primeiros lugares. Foi o primeiro a aplicar a psicologia à publicidade e à seleção e administração de pessoal, o primeiro a ostentar o título de professor de psicologia aplicada, o fundador da primeira empresa de consultoria psicológica e o primeiro psicólogo a receber a Distinguished Service Medal, uma condecoração do Exército dos Estados Unidos.

A Vida de Scott

Walter Dill Scott nasceu numa fazenda em Illinois, no ano de 1869. Ele começou a se dedicar à idéia do aumento da eficiência aos doze anos quando atava o campo. Como seu pai ficava doente com freqüência, o garoto basicamente dirigia a pequena fazenda familiar. Um dia, ele fez uma pausa no final de um sulco para deixar os dois cavalos descansar. Contemplando os edifícios da Universidade Normal Estadual de Illinois, a distância, ele percebeu de repente que, se quisesse conseguir alguma coisa, tinha de parar de perder tempo. E ali estava ele, perdendo dez minutos de cada hora para deixar os cavalos descansar! Isso equivalia a mais ou menos uma hora e meia por dia, tempo que ele podia usar lendo e estudando. A partir daquele dia, Scott sempre levava ao menos um livro consigo e lia em todos os momentos de folga.

Para pagar os estudos, ele colhia e enlatava amoras, vendia ferro-velho e aceitava [192] empregos estranhos. Guardava parte do dinheiro e, com o resto, comprava livros. Aos dezenove anos, inscreveu-se na universidade e iniciou sua longa jornada para longe da fazenda. Dois anos depois, conseguiu uma bolsa para a Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois, onde aceitou empregos de preceptor para ganhar um dinheiro extra, jogou rúgbi, conheceu a mulher com quem iria se casar e decidiu ser missionário na China.

Essa carreira, contudo, significaria mais três anos de estudo e, quando se graduou num seminário teológico de Chicago e estava pronto para ir para a China, Scott descobriu que não havia vagas; a China estava cheia. Foi então que pensou numa carreira em psicologia. Havia feito um curso na área e gostara. E já tinha lido artigos em revistas sobre a nova ciência e o laboratório que Wundt instalara em Leipzig. Graças às suas bolsas, atividades de preceptor e vida frugal, Scott economizara vários milhares de dólares, o suficiente não apenas para ir à Alemanha como para casar-se.

Em 21 de julho de 1898, Scott e sua noiva partiram. Enquanto ele estudava com Wundt em Leipzig, a senhora Scott fazia seu Ph.D. em literatura na Universidade de Halie, a trinta quilômetros de distância. Eles só se viam nos fins de semana. Os dois se doutoraram dois anos depois e voltaram para casa, onde Scott foi dar aulas na Universidade Northwestern na área de psicologia e pedagogia. Ele já estava sob a influência da tendência de aplicar psicologia a problemas da educação.

Sua passagem para um campo novo e distinto de aplicação ocorreu em 1902, quando um líder na área da publicidade procurou Scott, que fora recomendado por um ex-professor, e lhe pediu para aplicar princípios psicológicos à publicidade a fim de torná-la mais eficaz.

Ele ficou muito interessado na idéia. Na melhor tradição do espírito do funcionalismo estadunidense, ele já se afastara da psicologia wundtiana e buscava um modo de tornar a psicologia mais aplicável a preocupações do mundo real. E tinha agora a sua chance.

Scott escreveu The Theory and Practice of Advertising (Teoria e Prática da Publicidade), o primeiro livro sobre o tópico, seguido por uma torrente de artigos em revistas e livros, publicados à medida que sua experiência, sua reputação e seus contatos com a comunidade empresarial se ampliavam. Depois, voltou sua atenção para os problemas de seleção e administração de pessoal. Em 1905, passou de instrutor a professor na Northwestern e, em 1909, assumiu o cargo de professor de publicidade na escola de comércio da universidade. Em 1916, foi nomeado professor de psicologia aplicada e diretor da divisão de pesquisa de vendas na Universidade Técnica Carnegie, de Pittsburgh.

Em 1917, quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra, Scott ofereceu seus préstimos ao exército para ajudar na seleção de pessoal militar. No início, ele e suas propostas não foram bem recebidos; nem todos estavam convencidos do valor prático da psicologia. Além disso, o general com quem Scott falou desconfiava de professores, tendo quase explodido de raiva. "Ele disse que sua função era fazer com que os professores universitários não se pusessem no caminho do progresso, que estávamos em guerra com a Alemanha e que ele não tinha tempo para brincar com experiências; disse ainda que muitas pessoas achavam que o exército era um grande cachorro no qual aplicar experimentos, e que ele faria o que fosse preciso para nenhum professor universitário consegui-lo” (Von Mayrhauser, 1989, p. 65). Scott acalmou o irado oficial, levou-o para almoçar e o persuadiu do valor de suas técnicas de seleção. Perto do final da guerra, ele provou que tinha razão e terminou por receber do exército a mais importante medalha concedida a civis.

Em 1919, fundou sua própria empresa (chamada, imaginativamente, The Scott Company), que fornecia serviços de consultoria a mais de quarenta empresas importantes nos setores de seleção de pessoal e métodos de aumento da eficiência do trabalhador. No ano seguinte, ele se tomou presidente da Northwestern, tendo se aposentado em 1939. [193]

Publicidade e Seleção de Pessoal

As marcas deixadas pelo treinamento em psicologia experimental wundtiana e sua tentativa de estendê-la ao domínio prático são dois traços evidentes nos primeiros escritos de Scott sobre a publicidade. Ele escreveu, por exemplo, que os órgãos dos sentidos eram as janelas da alma. Quanto maior o número de sensações que recebemos de um objeto, tanto melhor o conhecemos. A função do sistema nervoso é nos tornar conscientes das visões, sons, sensações, sabores, etc. dos objetos do nosso ambiente. O sistema nervoso que não responde ao som ou a qualquer outra qualidade sensível é deficiente. Consideram-se os anúncios, por vezes, o sistema nervoso do mundo dos negócios. O anúncio de instrumentos musicais que não contenha nada que desperte imagens de som é um anúncio deficiente... Assim como o nosso sistema nervoso é organizado para nos fornecer todas as sensações possíveis de qualquer objeto, assim também o anúncio, que é comparável ao sistema nervoso, deve despertar no leitor tantos tipos distintos de imagens quantos sejam os que o próprio objeto pode suscitar (Jacobson, 1951, p. 75).

Scott afirmava que os consumidores são não-racionais e facilmente influenciáveis, e concentrou-se na emoção e na simpatia como fatores importantes para o despertar dessa sugestionabilidade. Ele também acreditava, como era comum na época, que as mulheres eram mais facilmente influenciadas do que os homens por anúncios que jogavam com as emoções e os sentimentos. Aplicando o que denominou a lei da sugestionabilidade à publicidade, ele recomendava que as empresas usassem ordens diretas — tais como “Use o Sabão X” — para vender seus produtos. Scott também promoveu o uso de cupom porque estes exigiam uma ação específica e direta dos consumidores, que tinham de destacar o cupom da revista ou jornal, preenchê-lo e enviá-lo para receber uma amostra grátis. Essas duas técnicas — as ordem diretas e o envio de cupom — foram rapidamente adotadas pelos publicitários e, por volta de 1910, já eram uma estratégia generalizada (Kuna, 1976).

Para o seu trabalho em seleção de pessoal, com vendedores, executivos e militares em particular, Scott desenvolveu escalas de avaliação e testes de grupo para medir as características de pessoas já bem-sucedidas nessas ocupações. Assim como fora com Witmer na psicologia clínica, não havia trabalhos precedentes nos quais Scott pudesse basear sua abordagem, tendo ele mesmo de desenvolvê-la. Ele pedia a oficiais superiores e a supervisores que fizessem listas dos seus subordinados e os classificassem segundo categorias de aparência, comportamento, sinceridade, produtividade, caráter e valor para a instituição/organização. Os candidatos eram hierarquizados com base nas qualidades consideradas necessárias ao bom desempenho do trabalho em questão, um procedimento não muito diferente do empregado hoje.

Scott concebeu testes psicológicos para avaliar a inteligência e outras capacidades, mas, em vez de julgar cada candidato individualmente, como era prática corrente, elaborou testes passíveis de aplicação a grupos. O mundo dos negócios e a corporação militar exigiam a rápida avaliação de grande número de candidatos, e era mais eficaz e barato testá-los em grupo.

Os testes de Scott diferiam dos desenvolvidos por Cattell e outros por mais razões ainda. Ele não tentava avaliar a natureza da inteligência geral da pessoa como um conteúdo ou faculdade; o que lhe interessava era o modo como a pessoa usava sua inteligência. Em outras palavras, ele queria medir o funcionamento da inteligência num ambiente real. Para ele, a inteligência não se defenia em termos de capacidades cognitivas específicas, mas em termos práticos como julgamento, rapidez e precisão — as características necessárias à boa realização de um trabalho. O seu interesse se restringia à comparação entre os índices alcançados pelos candidatos e os índices de funcionários já bem-sucedidos no trabalho; não era sua intenção [194] determinar o que esses índices poderiam representar em termos de conteúdo mental. Essa abordagem prática dos testes tipificou o homem e toda a sua obra.

Tal como Witmer, Scott só tem recebido uma atenção passageira por parte da história da psicologia. Várias razões explicam esse relativo desdém. Como a maioria dos psicólogos aplicados, Scott não formulou teorias, não fundou uma escola de pensamento, não treinou um grupo leal de alunos para dar prosseguimento ao seu trabalho, fez poucas pesquisas acadêmicas e raramente publicava nas revistas dominantes da época. Seu trabalho para corporações privadas e para os militares era estritamente prático, voltado para atender as necessidades do cliente. Além disso, muitos psicólogos acadêmicos, particularmente aqueles detentores de posições de destaque em universidades importantes e que contavam com generosas verbas para seus laboratórios, tendiam a menosprezar o trabalho dos psicólogos aplicados, acreditando que ele não contribuiria para o progresso da psicologia como ciência.

Scott e outros psicólogos aplicados contestavam essa posição. Para eles, não havia conflito entre as aplicações utilitárias e o progresso da ciência. Na verdade, eles acreditavam que “o progresso empírico da psicologia dependia muito dos resultados da experiência extra acadêmica” (Von Mayrhauser, 1989, p. 63). Os psicólogos aplicados alegavam que a divulgação da psicologia para um público maior demonstrava o seu valor, o que, por sua vez, aumentava o reconhecimento da importáncia da pesquisa psicológica nas universidades. Logo, os primeiros psicólogos aplicados estavam refletindo o legado e o impacto do espírito funcionalista na psicologia estadunidense, tentando torná-la uma ciência útil.

Hugo Münsterberg (1863-1916)

Hugo Münsterberg, o professor alemão típico, foi por algum tempo um sucesso fenomenal na psicologia estadunidense e o psicólogo mais conhecido do público. Escreveu centenas de artigos para revistas populares e mais de vinte livros. Era um visitante freqüente da Casa Branca, convidado de dois presidentes, Theodore Roosevelt e William Howard Taft. Münsterberg era procurado como consultor por empresas e líderes governamentais, tendo entre suas amizades os ricos, famosos e poderosos, incluindo o kaiser Frederico, da Alemanha, o magnata do aço Andrew Carnegie, o filósofo Bertrand Russell, bem como astros de cinema e intelectuais.

Foi — por algum tempo — um honrado professor da Universidade Harvard, eleito para a presidência da Associação Psicológica Americana e da Associação Filosófica Americana. Considerado o fundador da psicologia aplicada, foi também um dos dois psicólogos acusados de ser espiões. Foi descrito como “o mais prolífico propagandista da psicologia aplicada”, uma pessoa que “publicava volumes sobre psicologia educacional, legal, industrial, médica e cultural” (O’Donnell, 1985, p. 225). E, segundo o seu biógrafo, Münsterberg foi também um escritor popular bem-sucedido, “abençoado por um peculiar pendor pelo sensacional; sua vida pode ser interpretada como uma série de promoções — de si mesmo, de sua ciência e de sua pátria [ (Hale, 1980, p. 3).

Perto do fmal da vida, tornou-se objeto de escárnio e ridículo, tema de cartuns e caricaturas em jornais, e um embaraço para a universidade a que servira por tantos anos. Quando ele morreu, em 1916, não houve elogios fúnebres para o homem que um dia fora considerado um gigante da psicologia estadunidense.

A Vida de Münsterberg

Em 1882, aos dezenove anos, Münsterberg deixou sua cidade natal, Danzig, na Alemanha, e foi para Leipzig, pretendendo estudar medicina. Mas, ao fazer um curso com Wilhehn [195] Wundt, mudou abruptamente seus planos de carreira. A nova psicologia o deixara animado e oferecia oportunidades que a pesquisa e a prática médicas não poderiam oferecer. Conseguiu o Ph.D. com Wundt em 1885 e formou-se médico na Universidade de Heidelberg dois anos depois. [196]

Hugo Münsterberg foi muito influente na promoção de várias especialidades da psicologia aplicada, incluindo a psicologia forense, a psicologia clínica e a psicologia industrial, depois, tendo estudado nesta última com o objetivo de se preparar melhor para uma carreira de pesquisador acadêmico. Foi lecionar na Universidade de Freiburg e, como não havia instalações na universidade, montou um laboratório em casa às suas custas.

Münsterberg publicou um livro e vários artigos sobre sua pesquisa experimental em psicofísica, que Wundt criticou por lidarem com os conteúdos cognitivos da mente, não com os sentimentos. Ao mesmo tempo, sua obra atraiu um grupo leal de seguidores, e alunos vindos da Alemanha e de outros lugares acorreram em bando para o seu laboratório. Ele parecia bem encaminhado para conseguir um emprego de professor numa universidade importante e a reputação de pesquisador respeitado.

William James fê-lo sair dessa trilha em 1892 ao lhe dar a oportunidade de ser o bem pago diretor do laboratório de psicologia da Universidade Harvard. James foi lisonjeiro em seu apelo, escrevendo para Münsterberg que Harvard era a maior universidade dos Estados Unidos e precisava de um gênio para dirigir o laboratório de modo a manter sua primazia na psicologia. Münsterberg teria preferido ficar na Alemanha, mas a ambição o levou a aceitar a oferta de James.

Não foi rápida nem fácil sua transição da Alemanha para os Estados Unidos, e da psicologia experimental pura para a psicologia aplicada. No início, ele desaprovava a disseminação da psicologia aplicada e atacava os administradores universitários por pagarem tão pouco aos pesquisadores que os forçavam a ganhar a vida dedicando-se a ocupações mais práticas. Criticava os psicólogos estadunidenses que escreviam livros populares para o público leigo, faziam palestras para líderes empresariais e ofereciam, mediante pagamento, seus serviços de especialistas. Dentro de pouco tempo, contudo, ele estaria fazendo tudo isso.

Depois de dez anos nos Estados Unidos, e talvez percebendo que nenhuma universidade alemã lhe ofereceria um cargo de professor, escreveu seu primeiro livro em inglês. Intitulado American Traits (Características Americanas), o livro, de 1902, era uma análise psicológica, social e cultural da sociedade estadunidense. Escritor rápido e talentoso, ele era capaz de ditar para uma secretária um livro acessível de quatrocentas páginas, em no máximo um mês. William James comentou que o cérebro de Münsterberg era incansável. E. B. Titchener observou que ele tinha “o dom fatal de escrever com facilidade — fatal especialmente para a ciência, e sobretudo para uma ciência jovem, em que a precisão é, de todos, o aspecto mais necessário” (Hale, 1980, p. 23).

A reação entusiástica ao livro de Münsterberg o encorajou a escrever mais para o público em geral do que para os colegas, e ele logo estava publicando em revistas populares, e não em periódicos profissionais. Afastou-se da pesquisa psicofísica e dos conteúdos da mente e passou a escrever sobre as atividades cotidianas para as quais os psicólogos poderiam contribuir. Seus livros e artigos tratavam de julgamentos nas cortes e do sistema de justiça criminal, da propaganda de produtos de consumo, do aconselhamento vocacional, da saúde mental e da psicoterapia, da psicologia educacional e industrial e da psicologia do cinema. Münsterberg produzia cursos por correspondência sobre aprendizagem e negócios, e chegou a fazer uma série de filmes sobre testes mentais para exibição nos cinemas.

Münsterberg nunca hesitou em se envolver em questões controversas. Durante um sensacional julgamento por assassinato, administrou quase cem testes mentais ao assassino confesso de dezoito pessoas, o qual tinha acusado um líder sindical de pagar pelos crimes. Com base nos resultados desses testes, que incluíram um teste de associação de palavras (apelidado pela imprensa de “máquina da mentira”), Münsterberg anunciou publicamente — antes de ter chegado a um veredito no julgamento do líder sindical — que a alegação do assassino implicando o líder era verdadeira, O júri, no entanto, absolveu este último, o que foi desastroso para Münsterberg; um jornal passou a referir-se a ele como ‘Professor Monsterwork”. [197]

Em 1908, ele se envolveu na luta nacional contra o movimento de proibição da venda de bebidas alcoólicas. Ele se opôs à proibição, recorrendo à sua experiência como psicólogo e afirmando que o álcool, tomado com moderação, é benéfico. Os fabricantes de cerveja germano-estadunidenses, incluindo Adolphus Busch e Gustave Pabst, se deliciaram com o apoio de Münsterberg e deram grandes contribuições financeiras ao seu esforço de promoção da imagem da Alemanha nos Estados Unidos. Numa infeliz e suspeita coincidência, Busch doou cinqüenta mil dólares ao Museu Germânico proposto por Münsterberg poucas semanas antes de este publicar um artigo na McCure‘s Magazine denunciando a idéia da proibição. Isso causou furor nos jornais e revistas populares.

As idéias de Münsterberg sobre as mulheres também eram difíceis de ignorar. Embora apoiasse a presença de várias mulheres que eram estudantes graduadas em Harvard, incluindo Mary Whiton Calkins, ele acreditava que esse trabalho era muito rigoroso para a maioria delas. Sua concepção era de que as mulheres não deviam ser treinadas para carreiras acadêmicas, porque isso as afastaria de casa. Ele também afirmava que elas não deviam lecionar em escolas públicas, porque não tinham capacidade de ensinar tão bem quanto os homens e não eram bons modelos para meninos. E acreditava que não se devia permitir a presença de mulheres no júri por elas serem incapazes de deliberação racional; esta observação produziu manchetes internacionais.

O presidente de Harvard e a maioria dos colegas de Münsterberg não gostaram desse sensacionalismo — nem aprovaram o seu interesse em aplicar a psicologia a problemas práticos. As relações estremecidas alcançaram o ponto da ruptura com a contínua e ardente defesa de sua Alemanha natal feita por Münsterberg durante a Primeira Guerra. Esta eclodira na Europa em 1914, embora os Estados Unidos só tivessem se envolvido diretamente no conflito em 1917 sob a tutela da Inglaterra. Mas a opinião pública estadunidense era definitivamente antialemã. Aquele país era o agressor numa guerra que já custara milhões de vidas, e Münsterberg estava assumindo uma posição cada vez mais impopular.
Ele escreveu inúmeros artigos defendendo a Alemanha, e mantinha um contato aberto com o embaixador alemão em Washington, D.C., e com o escritório alemão de assuntos estrangeiros em Berlim. Os jornais diziam que Münsterberg era um agente secreto, um espião e um oficial militar de alta patente. Os jornais de Boston pediam que ele se demitisse de Harvard. Seus vizinhos suspeitavam que os pombos que a sua filha alimentava no quintal dos fundos estavam sendo usados para levar mensagens a outros espiões. Um aluno de Harvard que vivia em Londres ofereceu à universidade dez milhões de dólares se ela demitisse Münsterberg.

Münsterberg recebia ameaças de morte pelo correio e era alvo do desprezo dos colegas. O ostracismo e os ataques cada vez mais virulentos lhe abateram o espírito. Mas, em 16 de dezembro de 1916, os jornais matutinos traziam especulações sobre conversações de paz na Europa. "Até a primavera teremos paz”, ele anunciou à esposa (Münsterberg, 1922, p. 302). Ele foi a pé, pela neve espessa daquele dia frio, para dar sua aula da manhã. Ao chegar à escola, sentia-se exausto. Münsterberg entrou na classe e foi ao chão sem dizer uma palavra. Morreu instantaneamente de uma síncope.

A Psicologia Forense e Outras Aplicações

Os extremos do comportamento e das crenças de Münsterberg não diminuem a importância do seu trabalho em psicologia aplicada. Ninguém mais contribuiu tanto para o progresso da psicologia aplicada em geral e para o seu avanço nas áreas da psicologia forense, clínica e industrial. Apesar de todos os seus defeitos, Münsterberg permanece como uma das figuras mais influentes no desenvolvimento da abordagem funcional e tipicamente estadunidense da psicologia. [198]

A primeira área de aplicação em que ele trabalhou, a psicologia forense, trata da relação entre a psicologia e a lei. Münsterberg escreveu uma série de artigos sobre tópicos como o uso da hipnose no interrogatório dos suspeitos, formas de evitar o crime, detecção de pessoas culpadas por meio do uso de testes mentais e o caráter inconfiável das testemunhas oculares. Ele tinha particular interesse por este último assunto, isto é, pelo caráter falível da percepção humana diante de um evento como um crime e da lembrança subseqüente do evento. Ele descreveu pesquisas sobre crimes simulados em que se pedia às testemunhas, imediatamente depois de terem visto o crime, que descrevessem o que tinha ocorrido. Os sujeitos não concordavam quanto aos detalhes do que tinham testemunhado, embora a cena ainda estivesse viva em sua memória. Quão preciso poderia ser tal testemunho numa corte, perguntou Münsterberg, já que o evento em discussão teria ocorrido muitos meses antes?

Em 1908, ele publicou On the Witness Stand (No Banco das Testemunhas), que descrevia os problemas das testemunhas oculares. A obra também considerava outros fatores psicológicos que podem afetar o resultado de um julgamento, tais como as falsas confissões, o poder de sugestão no interrogatório de testemunhas e o uso de medidas fisiológicas (a taxa de batimentos cardíacos, a pressão sangüinea, a resistência da pele) para detectar estados emocionais alterados num suspeito ou réu. O livro foi reimpresso muitas vezes, tendo tido uma edição em 1976, quase setenta anos depois de sua publicação.

No final dos anos 70, houve um ressurgimento do interesse pelas questões levantadas por Münsterberg (ver Loftus, 1979; Loftus e Monahan, 1980), e a Sociedade Americana de Psicologia Forense foi fundada, como uma divisão da Associação Psicológica Americana, para promover a pesquisa básica e aplicada na área forense.

Münsterberg publicou um livro intitulado Psychotherapy (Psicoterapia) em 1909, iniciando o trabalho numa área aplicada inteiramente distinta. Ele tratava os pacientes num laboratório, e não numa clínica, e nunca cobrava as consultas. Ele confiava muito na autoridade da sua posição como terapeuta e não hesitava em fazer sugestões diretas aos pacientes sobre como eles podiam se curar. A doença mental, acreditava ele, era antes um problema de desajuste comportamental do que algo atribuível a um conflito inconsciente profundo, como afirmava Sigmund Freud. Münsterberg se opôs às concepções freudianas de saúde mental, particularmente à ênfase nos distúrbios sexuais como causa primária de problemas emocionais. Münsterberg concordava, no entanto, que, em alguns casos, questões de caráter sexual poderiam estar na raiz do problema.
Sua abordagem terapêutica consistia em forçar as idéias perturbadoras do paciente a sair da consciência, em suprimir os comportamentos indesejáveis ou problemáticos e em incitar o paciente a esquecer — deixar de lado — a dificuldade emocional. Tratava uma variedade de problemas, incluindo o alcoolismo, o abuso de drogas, as alucinações, os pensamentos obsessivos, as fobias e as desordens sexuais. Não aceitava pacientes psicóticos ou pessoas com problemas neurológicos, por pensar que essa forma de psicoterapia não funcionava nesses casos.

Por algum tempo, usou a hipnose como método de tratamento, mas interrompeu a prática depois que uma mulher que ele tratava o ameaçou com uma arma. A história deliciou os jornais, e o presidente de Harvard exigiu que ele parasse de hipnotizar mulheres. Seu livro sobre psicoterapia em muito contribuiu para levar o campo da psicologia clínica à atenção do público, mas não foi bem recebido por Lightner Witmer, que abrira sua clínica na Universidade da Pensilvânia vários anos antes. Witmer nunca alcançara — nem procurara — o tipo de aplauso popular que Münsterberg desejava. Num artigo publicado em sua revista, Psychological CIinic, Witmer queixou-se de que Münsterberg tinha barateado” a profissão ao alardear suas curas “na praça do mercado”. Ele considerava Münsterberg pouco mais que um curandeiro, por causa do “modo garboso com que o professor de psicologia de [199] Harvard vai pelo país, alegando ter tratado em seu laboratório psicológico centenas e centenas de casos desta ou daquela forma de disturbio nervoso” (Hale, 1980, p. 110).

Ao mesmo tempo, Münsterberg sistematizava, desenvolvia e promovia mais um campo, o da psicologia industrial. Iniciou este trabalho em 1909, com o artigo “A Psicologia e o Mercado”. O texto cobria várias áreas para as quais ele acreditava que a psicologia poderia contribuir: a orientação vocacional, a publicidade, a administração de pessoal, os testes mentais, a motivação dos empregados e os efeitos da fadiga e da monotonia no desempenho da função. Sua perspectiva era caracteristicamente ampla, tratando de todos os aspectos e problemas dos negócios, desde a seleção dos operários certos para realizar a tarefa com eficiência até a promoção do produto acabado.

Münsterberg foi contratado como consultor por várias empresas, tendo feito para elas inúmeras pesquisas. Ele publicou suas descobertas em Psychology and Industrial Efficiency (Psicologia e Eficiência Industrial), de 1913, outro livro escrito para o público em geral. A obra alcançou tamanho sucesso que foi para as listas dos livros mais vendidos. Ele afirmava que a melhor maneira de aumentar a eficiência no trabalho e assegurar a harmonia no local de trabalho consistia em selecionar trabalhadores para funções adequadas às suas capacidades mentais e emocionais. E como os empregadores fariam isso da melhor forma? Mediante o desenvolvimento de técnicas psicológicas de seleção como testes mentais e simulações em que se podiam avaliar as várias aptidões e capacidades dos candidatos.

Münsterberg fez pesquisas sobre ocupações tão diversas quanto capitão de navio, condutor de bonde, telefonista e vendedor, mostrando como seus métodos de seleção promoviam melhorias no desempenho da função. No tocante a problemas de eficiência, apresentou resultados de estudos que mostravam, por exemplo, que conversar enquanto se trabalha reduz a eficiência. Sua solução não era proibir as conversas entre trabalhadores (isso, admitia ele, geraria hostilidade), mas projetar o local de trabalho de modo a dificultar essas conversas. Esse objetivo poderia ser alcançado pelo aumento da distância entre as máquinas ou pela separação dos espaços com divisórias.

Principalmente graças aos esforços promocionais de Münsterberg, o campo da psicologia industrial exerceu um impacto cada vez mais amplo no mundo do trabalho. Ele propôs ao presidente estadunidense Woodrow Wilson e ao kaiser alemão que seus governos estabelecessem departamentos para patrocinar pesquisas sobre as aplicações da psicologia à indústria. Esses líderes mostraram interesse pela idéia, mas a irrupção da guerra impediu sua implementação.

Tal como outros pioneiros do campo, Münsterberg não formulou teorias, não fundou uma nova escola de pensamento nem — assim que iniciou o trabalho em psicologia aplicada — fez pesquisas acadêmicas puras. Ele insistia para que sua pesquisa servisse a um propósito definido, fosse funcional e orientada para ajudar as pessoas de alguma maneira. Embora tivesse sido treinado por Wilhelm Wundt na técnica da introspecção, criticava os psicólogos que se apegavam à técnica e fustigava colegas não desejosos de empregar as descobertas e métodos da psicologia para a melhoria da humanidade.

Münsterberg nunca aderiu formalmente à definição funcionalista de psicologia e sempre se recusou a definir sua própria abordagem, acreditando que fazê-lo limitaria sua utilidade. Se houve um tema que caracterizou sua diversificada, bombástica e controversa carreira, foi o de que a psicologia tem de ser útil. Nesse sentido, Münsterberg, apesar do temperamento germânico, foi a quintessência do psicólogo estadunidense, refletindo e demonstrando o espírito da sua época. Deve-se a ele o fato de a psicologia aplicada, que ele tanto fez para fundar no inicio do século XX, ter crescido a ponto de tornar-se uma das forças dominantes na psicologia estadunidense agora que o século XXI se aproxima. [200]

Especialidades na Psicologia Aplicada

Vimos como a psicologia, sob a influência do funcionalismo, começou a ser aplicada a problemas do mundo real no início do século. No Capítulo 10, veremos que o comportamentalismo de John B. Watson também contribuiu para o desenvolvimento da tendência aplicada. Depois de deixar o mundo acadêmico, Watson se tornou um popular psicólogo aplicado. Na época, a psicologia já não podia ficar restrita ao mundo da ciência pura do laboratório onde Wundt e Titchener tentaram valorosamente mantê-la. Embora o movimento aplicado em psicologia tenha tido o seu começo nos anos entre a virada do século e a Primeira Guerra, seu progresso inicial foi relativamente lento. Contudo, depois que os EUA entraram na guerra, em 1917, os psicólogos aplicados foram chamados para tratar de problemas práticos e imediatos. A psicologia tornou-se visível aos olhos do público. Psicólogos e não-psicólogos reconheciam que os princípios e métodos do campo podiam ser usados para melhorar o bem-estar humano. Cattell comentou que a guerra pôs a psicologia “no mapa e na primeira página” (O’Donnell, 1985, p. 239). Hall escreveu que a guerra tinha “dado à psicologia aplicada um tremendo impulso. No cômputo geral, isso vai ser bom para a psicologia.., não devemos tentar ser demasiado puros” (Hall, 1919, p. 48). Algumas revistas, como a Journal of Experimental Psychology, interromperam sua publicação nos anos da guerra, mas a Journal of Applied Psychology floresceu.

Nos anos 20, passada a guerra, a psicologia se tornou uma “mania nacional” (Dennis, 1984, p. 23). As pessoas, em todos os Estados Unidos, passaram a acreditar que os psicólogos – eram capazes de curar tudo — da desarmonia conjugal à insatisfação com o trabalho — e vender qualquer produto — de desodorantes a anti-sépticos bucais. Esse crescente clamor por soluções levava cada vez mais psicólogos a deixar a pesquisa pura para se entregar às áreas aplicadas. Na edição de 1921 do American Men of Science de Cattell, mais de 75% dos psicólogos ali citados diziam estar engajados num trabalho de cunho aplicado; em 1910, o número fora 50%. As reuniões da seção de Nova York da APA, no início dos anos 20, mostravam um substancial aumento, com relação aos anos anteriores à guerra, no número de artigos sobre pesquisas aplicadas (Benjamin, 1991).

Contudo, no final da década de 20 e durante os dez anos da depressão econômica mundial dos anos 30, a psicologia aplicada passou a ser atacada por não conseguir ser fiel à sua promessa. Líderes empresariais, por exemplo, queixavam-se de que, embora útil, a psicologia industrial não estava curando todos os seus males. Experiências negativas com testes de seleção malconcebidos os tinham levado a contratar alguns trabalhadores improdutivos.

Talvez as expectativas dos psicólogos e seus clientes fossem exageradas, mas, seja como for, surgiu um desencanto com a psicologia aplicada. Um dos maiores críticos foi Grace Adams, que fora aluna de Titchener. Em “O Declínio da Psicologia na América”, artigo publicado numa revista popular, Adams afirmou que a psicologia “abandonara suas raízes científicas para que psicólogos alcançassem popularidade e prosperidade”. Ela acusou os psicólogos de “se mascararem como cientistas” e fracassarem na resolução dos problemas sociais e econômicos trazidos pela depressão (Benjamin, 1986, p. 944). O New York Times e outros jornais importantes criticavam os psicólogos por prometerem mais do que podiam dar e por não conseguirem aliviar o mal-estar causado pela depressão. O número de artigos populares sobre temas psicológicos declinou a partir de 1929, e a imagem e a promessa da psicologia só seriam restauradas em 1941, depois da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra. Vemos assim outro exemplo da guerra como influência contextual no desenvolvimento da psicologia.

A Segunda Guerra trouxe outro conjunto de problemas urgentes para a psicologia resolver [201], o que reviveu e ampliou sua influência geral. Vinte e cinco por cento dos psicólogos estadunidenses estavam diretamente envolvidos no esforço de guerra, e muitos outros deram contribuições indiretas através da pesquisa e da redação de textos. Ironicamente, a guerra também fez renascer uma psicologia incipiente na Alemanha, onde o campo declinara depois de os nazistas terem expulsado todos os psicólogos judeus de seus empregos. As necessidades dos militares alemães criaram uma nova demanda de psicólogos com vistas à seleção de oficiais, pilotos, tripulação de submarinos e de outros especialistas (Geuter, 1987).

Nos anos posteriores ao fim da guerra, a psicologia estadunidense como um todo passou pelo mais dramático período de crescimento de sua história. Dentro do campo, o desenvolvimento mais significativo ocorreu nas áreas aplicadas. A psicologia aplicada superou a acadêmica e orientada para pesquisas, que predominara por muitos anos. Já não cabia a afirmação de que a maioria dos psicólogos dedicava-se ao ensino ou trabalhava no campo experimental. Antes da Segunda Guerra, quase 70% dos doutorados em psicologia eram concedidos na área da psicologia experimental; perto de 1960, esse número era 25%, tendo caído para 8% por volta de 1984 (Goodstein, 1988).

Em 1940, pouco antes de os Estados Unidos entrarem na guerra, 75% dos psicólogos trabalhavam em ambientes acadêmicos. Eles eram 47% em 1962 e 42% em 1980 (Gilgen, 1982). Disso resultou uma mudança em termos do poder na APA, onde os psicólogos aplicados (particularmente os psicólogos clínicos) assumiram uma posição de comando. Alguns professores e cientistas, orientados para a pesquisa, se ressentiram no domínio dos clínicos e formaram sua própria organização, a Sociedade Psicológica Americana (APS), em 1988. Em 1991, ela tinha mais de 12.000 membros.

Completaremos nossa cobertura do legado do funcionalismo com uma breve discussão de três áreas de psicologia aplicada que têm os mais antigos antecedentes históricos: os testes psicológicos, a psicologia industrial/organizacional e a psicologia clínica. Trataremos dos testes em primeiro lugar porque boa parte do desenvolvimento das duas outras áreas derivou deles.

O Movimento dos Testes Psicológicos

Ao falarmos da obra de Francis Galton e de James McKeen Cattell, discutimos a origem do movimento dos testes mentais. Foi Cattell quem cunhou o termo testes mentais, mas coube a Alfred Binet, um psicólogo francês autodidata, rico e independente, desenvolver o primeiro teste verdadeiramente psicológico da capacidade mental.

Binet discordava da abordagem de Galton e Cattell, que empregava testes de processos sensório-motores para medir a inteligência. Para ele, a avaliação de funções cognitivas como a memória, a atenção, a imaginação e a compreensão forneceria uma melhor medida da inteligência. A oportunidade de prová-lo veio em resposta a uma necessidade prática. Em 1904, o ministro francês da instrução pública nomeou uma comissão para estudar as capacida des de aprendizagem de crianças que estavam tendo dificuldades na escola. Binet e um psiquiatra, Théodore Simon, foram indicados para a comissão, tendo investigado juntos os tipos de tarefas intelectuais que podiam ser dominados pela maioria das crianças em diferentes idades.

A partir do perfil que fizeram dessas tarefas, eles elaboraram o primeiro teste de inteligência. O teste consistia em trinta problemas organizados em ordem ascendente de dificuldade e se concentrava em três funções cognitivas: julgamento, compreensão e raciocínio. Três anos mais tarde, em 1908, o teste foi revisto e ampliado, e o conceito de idade mental, introduzido. A idade mental foi descrita como a idade em que crianças de capacidade média podiam realizar certas tarefas. Por exemplo, se uma criança com idade cronológica de quatro anos passasse em todos os testes em que a amostra de crianças de cinco anos médias tinha [202] passado, atribuía-se à criança de quatro anos uma idade mental de cinco. Uma terceira revisão do teste foi preparada em 1911; mas, depois da morte de Binet, o desenvolvimento do teste, e dos testes de inteligência em geral, passou para os Estados Unidos.

O teste foi introduzido nos Estados Unidos por Henry Goddard, aluno de G. Stanley Hall e psicólogo de uma escola de crianças mentalmente retardadas em Vineland, Nova Jersey. [203] Alfred Binet desenvolveu o primeiro teste verdadeiramente psicológico de capacidade mental, que evoluiu para o amplamente usado Teste de Inteligência Stanford-Bínet.

Goddard denominou sua tradução do teste Escala Binet-Simon de Medida da J (Binet-Simon Measuring Scale for Inteligence). Em 1916, Lewis M. Terman, que também estudara com Hall, desenvolveu uma versão do teste que se tornou padrão. Ele lhe deu o nome de Teste Stanford-Binet, a partir do nome da universidade à qual estava ligado, e adotou o conceito de quociente de inteligência (QI). A medida do QI, definida como a razão entre idade mental e idade cronológica, fora proposta originalmente pelo psicólogo alemão William Stem. O Stanford-Binet passou por várias revisões e continua a ter amplo uso.

No dia em que os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra, realizava-se em Harvard uma reunião da Sociedade de Psicólogos Experimentais, de Titchener. O presidente da APA, Robert Yerkes, estava presente. Yerkes instou os psicólogos presentes a considerar de que maneira a psicologia poderia ajudar na campanha da guerra. Titchener objetou, explicando que era súdito britânico; o mais provável é que não quisesse se envolver com a guerra por não gostar de aplicar a psicologia a problemas práticos. Ele pode ter temido que os esforços dos psicólogos para ajudar a vitória na guerra os fizessem “trocar uma ciência por uma tecnologia” (O’Donnell, 1979, p. 289).

O exército tinha diante de si o problema de avaliar a inteligência de grande número de recrutas a fim de estudá-los e classificá-los, bem como atribuir-lhes tarefas adequadas. O Stanford-Binet é um teste individual de inteligência que requer uma pessoa bem treinada para aplicá-lo de modo adequado. Ele não pode ser usado para nenhum programa de testes em larga escala que envolva a avaliação de muitas pessoas num curto espaço de tempo. Para esse propósito, é necessário um teste para grupo de administração simples.

Yerkes, nomeado major do exército, reuniu um grupo de quarenta psicólogos para realizar essa tarefa. Eles examinaram alguns testes, nenhum dos quais de uso geral, e escolheram como modelo o de Arthur S. Otis, que estudara com Terman. Otis preparou os testes Ariny Alpha e Ariny Beta, com base no de Otis. O Beta era uma versão do Alpha usada especificamente para pessoas que não falavam inglês ou eram analfabetas. Suas instruções eram dadas por meio de demonstração ou mímica, em vez de oralmente ou por escrito.

A implantação do programa seguia lentamente, e a ordem formal para o início dos testes só foi dada três meses antes do fim da guerra. Mais de um milhão de homens foram testados, mas os militares já não precisavam dos resultados. O programa, embora tenha tido pouco efeito no esforço de guerra, teve um enorme impacto sobre a psicologia. A publicidade que recebeu contribuiu em muito para promover o status da psicologia, e esses testes se tornaram protótipos dos muitos que mais tarde foram concebidos.

O desenvolvimento e o uso de testes de personalidade grupais também foram estimulados pelo esforço de guerra. Até aquela época, só se tinham feito tentativas limitadas de avaliação da personalidade. Nos últimos anos do século XIX, o psiquiatra alemão Emil Kraepelin usara o que havia chamado de teste de associação livre; nele, um paciente respondia a uma palavra-estímulo com a primeira palavra que lhe viesse à mente. A técnica fora criada por Galton. Em 1910, CarI Jung desenvolvera uma técnica semelhante, o teste de associação de palavras, que ele empregava na avaliação dos complexos de seus pacientes. Esses dois eram testes de personalidade individuais. Quando o exército manifestou interesse em separar os recrutas altamente neuróticos, Robert Woodworth construiu o Personal Data Sheet, um inventário pessoal em que os pacientes indicavam os sintomas neuróticos que tinham. Tal como o Ariny Alpha e o Ariny Beta, esse teste teve pouco uso real nos anos de guerra, mas também veio a servir de protótipo para o desenvolvimento dos testes de personalidade grupais.

A psicologia aplicada teve sua própria vitória na guerra, a de ter conquistado a aceitação pública. Em pouco tempo, milhares de empregados, escolares e candidatos à faculdade viam-se [204] diante de baterias de testes cujos resultados poderiam determinar o curso de sua vida. Uma epidemia de testes varreu os Estados Unidos; mas, na pressa em dar uma resposta ao apelo dos negócios e da educação, era inevitável que aparecessem alguns testes malconcebidos e impropriamente pesquisados, que levaram a resultados desapontadores. Em conseqüência, muitas empresas abandonaram o uso dos testes psicológicos na metade dos anos 20. Essa foi uma das razões do desencanto geral com a psicologia que se manifestou nesse período. Com o tempo, foram desenvolvidos testes melhores que permitiram ao comércio e à indústria a seleção de melhores pessoas para suas vagas e de melhores trabalhos para os candidatos; hoje, a seleção e colocação de pessoal por meio de testes tornou-se parte essencial do processo de contratação.

Os testes também participaram de uma importante controvérsia social na década de 20. Em 1921, foram tornados públicos os resultados dos testes de recrutas do exército durante a Primeira Guerra. Segundo os dados, a idade mental dos convocados e, por extensão, da população branca em geral era de apenas treze anos. Os resultados também indicavam que quase a metade dos cidadãos estadunidenses brancos podiam ser caracterizados como retardados mentais ou pessoas de mente fraca. Além disso, os dados mostravam que os negros, assim como os imigrantes de países mediterrâneos e latino-americanos, tinham um QI menor. Só os imigrantes do norte da Europa tinham um QI igual ao dos estadunidenses brancos.

Isso levantou muitas questões entre cientistas, políticos e jornalistas. Como podia uma forma democrática de governo sobreviver se o povo era tão estúpido? Deveriam os grupos de QI baixo ter direito de voto? Deveria o governo recusar a entrada de imigrantes dos países de QI baixo? Como podia permanecer significativa a noção de que as pessoas foram criadas iguais?

O conceito de diferenças raciais em termos de inteligência fora apresentado nos Estados Unidos já nos anos 1880, tendo havido muitos clamores para que se impusessem restrições a imigrantes de países mediterrâneos e latino-americanos. Por outro lado, mesmo antes do desenvolvimento dos testes de inteligência, era geralmente aceito o alegado nível inferior de inteligência dos afro-americanos. Um dos mais ativos e coerentes críticos dessa concepção era Horace Mann Bond (1904-1972), um destacado erudito afro-americano, presidente da Universidade Lincoln, da Pensilvânia.

Bond, doutorado em educação pela Universidade de Chicago, publicou alguns livros e artigos em que afirmava que as diferenças de QI entre negros e brancos eram decorrentes de fatores ambientais, e não genéticos. Ele fez pesquisas que demonstraram que os negros dos Estados do norte tinham um QI maior do que os brancos dos Estados do sul, uma descoberta que prejudicou seriamente a acusação de que os negros eram geneticamente inferiores em termos de inteligência (Urban, 1989).

Muitos psicólogos responderam à sugestão de diferenças raciais quanto à inteligência, acusando os testes de serem viciados. Com o tempo, a controvérsia arrefeceu, apenas para ressurgir nos anos 70. Desde então, os psicólogos se esforçam para desenvolver testes isentos de distorções culturais e educacionais que avaliem com mais precisão as capacidades humanas. Permanece uma grande necessidade prática de testes, e sua utilidade na seleção, no aconselhamento e no diagnóstico continua sendo um foco importante da psicologia aplicada.

A Psicologia Iidustrial/Organizacional

Descrevemos a fundação da psicologia industrial por Walter Dill Scott e os primeiros esforços deste e de Hugo Münsterberg para promover a aplicação da psicologia ao mundo do trabalho. Tal como ocorreu com outras áreas da psicologia aplicada, esse campo passou por um monumental aumento de alcance, popularidade e expansão graças à Primeira Guerra. [205]

Scott foi voluntário do Exército norte-americano e desenvolveu uma escala de avaliação para a seleção de capitães baseada nas avaliações que havia concebido para classificar líderes no setor de negócios. Perto do final da guerra, ele tinha avaliado as qualificações profissionais de três milhões de soldados, e o seu trabalho foi um outro exemplo amplamente divulgado do valor prático da psicologia.

Depois da guerra, os negócios, a indústria e o governo solicitaram os serviços de psicólogos industriais para reformular suas políticas de pessoal e introduzir testes psicológicos como meios de seleção de empregados e funcionários. Em 1919, como observamos, Scott fundou sua empresa de consultoria, e, dois anos mais tarde, Cattell fundou sua Psychological Corporation, que também promoveu com sucesso a aplicação da psicologia ao mundo dos negócios.

O foco primordial da psicologia industrial no decorrer dos anos 20 foi a seleção e a colocação de candidatos a empregos — a pessoa certa na função certa. O escopo do campo aumentou em 1927 com os estudos Hawthorne, realizados na fábrica da Westem Electric em Hawthorne, Illinois (Roethlisberger e Dickson, 1939). Essa pesquisa fez com que esse campo passasse da seleção e colocação para problemas mais complexos, envolvendo relações humanas, motivação e o moral.

O estudo começou como uma investigação dos efeitos do ambiente físico do trabalho — iluminação e temperatura, por exemplo — sobre a eficiência do empregado. Os resultados surpreenderam os psicólogos e os gerentes de fábrica. Descobriu-se que as condições sociais e psicológicas do ambiente de trabalho tinham mais importância do que as condições físicas em que as funções eram realizadas. Os estudos Hawthorne abriram novas áreas de exploração de fatores com a qualidade e a natureza da liderança, os grupos informais que os trabalhadores compõem, as atitudes dos empregados com relação ao emprego, a comunicação entre operários e dirigentes, e uma vasta gama de outras forças sociais e psicológicas capazes de influir na motivação, na produtividade e na satisfação.

A Segunda Guerra Mundial levou um grande número de psicólogos a um envolvimento direto com o esforço de guerra. Tal como na Primeira Guerra, sua principal contribuição foram os testes, a avaliação e a classificação de recrutas. Por volta dos anos 40, tinham-se concebido testes bem mais sofisticados. A operação de equipamentos bélicos cada vez mais complexos, tais como aeronaves de alta velocidade, exigia aptidões mais aprimoradas. A necessidade de identificar pessoas dotadas da capacidade de dominar essas aptidões produziu o aperfeiçoamento dos procedimentos de seleção e treinamento. Essas armas criaram na psicologia industrial uma especialidade que recebeu múltiplas denominações: engenharia psicológica, engenharia humana, engenharia dos fatores humanos e ergonomia. Trabalhando em estreito contato com os engenheiros de sistemas, os profissionais da engenharia psicológica forneciam informações sobre as capacidades e as limitações humanas. Seu trabalho tinha influência direta sobre o projeto de equipamentos militares, tornando-os mais compatíveis com as características e aptidões das pessoas que iriam usá-los. Hoje, o campo da engenharia psicológica não se restringe a equipamentos militares, aplicando-se ainda a produtos de consumo como teclados de computador, móveis de escritório e mostradores de painéis nos automóveis.

A partir dos anos 50, os líderes empresariais vêm aceitando a influência da motivação, da liderança e de outros fatores psicológicos no desempenho profissional. Esses aspectos do ambiente de trabalho têm assumido uma importância crescente, o mesmo ocorrendo com o impacto do clima psicológico e social como um todo em que o trabalho é realizado. Atualmente, os psicólogos estudam a natureza de diferentes estruturas organizacionais, seus padrões e estilos de comunicação e as estruturas sociais formais e informais que produzem. Reconhecendo essa ênfase nas variáveis organizacionais, a Divisão de Psicologia Industrial da APA tornou-se a Sociedade de Psicologia Industrial e Organizacional. [206]

Estudos realizados nas décadas de 20 e de 30 na fábrica da Western Electric Company em Hawthorne, illinois, levaram os psicólogos aplicados às complexas áreas das relações humanas, dos estilos de liderança e da motivação e do moral dos empregados.

A Psicologia Clínica

A aplicação da psicologia à avaliação e ao tratamento do comportamento anormal foi feita pela primeira vez por Lightner Witmer em sua clínica da Universidade da Pensilvânia. Além disso, dois livros foram um primeiro impulso no campo. A Mind That Found It self (Uma Mente Que Encontrou A Si Mesma), escrito em 1908 por um ex-paciente, Clifford Beers, alcançou imensa popularidade e atraiu a atenção pública para a necessidade de tratar de maneira mais humana os doentes mentais. Psychotherapy (Psicoterapia), escrito em 1909 por Hugo Münsterberg, que também foi muito lido, detalhava técnicas para tratar uma variedade de distúrbios mentais. Ele promoveu a psicologia clínica ao mostrar formas específicas de ajudar pessoas perturbadas.

A primeira clínica de orientação infantil foi instalada em 1909 por William Healey, psiquiatra de Chicago. Logo surgiram muitas clínicas do gênero, cujo propósito era tratar os distúrbios infantis no início, para que esses problemas não se tornassem enfermidades mais sérias na idade adulta. As clínicas usavam a abordagem de equipe, introduzida por Witmer, em que todos os aspectos das dificuldades de um paciente eram tratados por psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.

As idéias de Sigmund Freud foram, naturalmente, cruciais para o desenvolvimento da [207] psicologia clínica. Sua obra de psicanálise fascinou e enfureceu alguns segmentos da psicologia oficial e do público estadunidense. De suas idéias os psicólogos clínicos extrairam as primeiras técnicas psicológicas de terapia.

Não obstante, o progresso da psicologia clínica era lento e, mesmo em 1940, ela ainda era uma parte pouco significativa da psicologia. Havia poucas instalações para tratamento de adultos perturbados e, por isso, escassas oportunidades de trabalho para os psicólogos clínicos. Não havia programas educacionais para treinar psicólogos clínicos, e o trabalho destes se limitava, em geral, à aplicação de testes.

A situação sofreu uma abrupta mudança quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra, em 1941. Foi esse evento, mais do que qualquer outro, que tornou a psicologia clínica a ampla e dinâmica área aplicada especializada que veio a ser desde então. O exército instalou programas de treinainento para várias centenas de psicólogos clínicos, necessários ao tratamento de distúrbios emocionais dos militares.
Finda a guerra, a necessidade de psicólogos clínicos ficou ainda maior. A Administração dos Veteranos (VA) viu-se responsável por mais de 40.000 veteranos com problemas psiquiátricos. Mais de outros três milhões de veteranos precisavam de aconselhamento vocacional e pessoal para facilitar sua reintegração à vida civil, e cerca de 315.000 necessitavam de aconselhamento para conseguir ajustar-se a incapacidades físicas decorrentes de ferimentos de guerra. A demanda por profissionais de saúde mental estava no auge, excedendo em muito a oferta. Para ajudar no atendimento dessa necessidade cruciante, a VA financiou programas de especialização de nível universitário e pagou as anuidades de alunos em troca de trabalho em seus hospitais e clínicas. Grande número de psicólogos clínicos treinados nos anos 50 recebeu a maior parte dessa instrução sob os auspícios da VA. Os programas também mudaram o tipo de pacientes tratados pelos psicólogos clínicos. Antes da guerra, o trabalho se voltava principalmente para crianças com problemas de delinqüência e de ajustamento; as necessidades dos veteranos porém significavam que a maioria dos pacientes tratados eram adultos com graves problemas emocionais. A VA (hoje Departamento de Assuntos dos Veteranos — Department of Veterans Affairs) continua a ser a maior fonte individual de empregos para psicólogos nos Estados Unidos, e tem tido um enorme impacto sobre o campo da psicologia clínica.

Os psicólogos clínicos também trabalham em centros de saúde mental, escolas, empresas e consultórios particulares. Discutiremos adiante as mudanças ocorridas a partir dos anos 50 nos métodos de tratamento, notadamente as terapias de comportamento, que são uma decorrência da escola comportamentalista. No momento, a psicologia clínica é a maior dentre as áreas aplicadas; mais de um terço de todos os estudantes formados estão em programas de clínica, e cerca de 40% dos membros da APA praticam a psicologia clínica.

Comentário

A natureza da psicologia estadunidense passou por grande alteração desde os anos em que Hall, Cattell, Witmer, Scott e Münsterberg estudaram com Wundt na Alemanha e trouxeram essa psicologia para os Estados Unidos. Como resultado de seus esforços, a psicologia já não está restrita às salas de conferência, bibliotecas e laboratórios, tendo se estendido a muitas áreas da vida cotidiana. Além dos testes, da psicologia escolar e educacional, da psicologia clínica, da psicologia industrial/organizacional e da psicologia forense, os psicólogos atuam hoje no aconselhamento psicológico, na psicologia comunitária, na psicologia do consumidor, na psicologia populacional e ambiental, na psicologia da saúde e da reabilitação, na psicologia dos exercícios físicos e esportes, na psicologia da política pública e militar e na psicologia dos meios de comunicação.

Nenhuma dessas áreas teria sido possível se a psicologia permanecesse [208] voltada para os conteúdos da experiência consciente. As pessoas, idéias e eventos que discutimos nestes capítulos sobre o funcionalismo impeliram a psicologia estadunidense a ir bem além dos limites do laboratório de Leipzig.

Consideremos os seguintes fatores: a noção darwiniana de adaptação e função; a identificação por Galton das diferenças individuais e suas tentativas de medilas; o Zeigeíst estadunidense, com sua ênfase no que é prático e útil; a mudança, nos laboratórios acadêmicos de pesquisa, do conteúdo para a função, promovida por James, Angell, Carr e Woodworth; os fatores sociais e econômicos e as forças da guerra — tudo isso se entrelaçou para dar à luz uma psicologia destinada a modificar a nossa vida, uma ciência ativa, assertiva, atraente e influente. Esse movimento geral da psicologia estadunidense na direção do lado prático foi reforçado pelo comportamentalismo, a próxima escola de pensamento na evolução da psicologia.

Psicologia - História da Psicologia
1/24/2020 2:17:56 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Funcionalismo Fundação e Evolução

Evolução do Filósofo Neurótico - Ele foi um dos homens mais famosos do mundo; contudo, frequentemente andava pelas ruas de Londres usando protetores de orelha para proteger seus pensamentos de interferências externas. Sempre que sons o perturbavam, seu dia estava arruinado. Charles Darwin o chamava de "nosso filósofo", e, frequentemente, era possível vê-lo va­gando sem rumo "sem conseguir se concentrar, escrever ou mesmo ler” (Coser, 1977, p. 104-105).

No verão de 1882 ele chegou aos Estados Unidos, onde foi recebido e homenageado como celebridade internacio­nal. Foi recebido em Nova York por Andrew Carnegie, o multimilionário patriarca da indústria siderúrgica, que o considerou como um messias. E, aos olhos de vários líderes da economia, ciência, política e religião, esse estranho filó­sofo inglês realmente era um salvador. Diversos jantares e festas foram promovidos em sua homenagem. Ainda assim, ele continuou sendo um "semi-inválido e psicótico durante todo o resto de sua vida. Sofria de insônia aguda, que às vezes tentava superar com uma dose bastante pesada de ópium; portanto, nunca conseguia trabalhar mais do que algumas horas por dia. Trabalhar mais horas o levava a um nervosismo inadequado e, portanto, à insônia (Coser, 1977, p . 104-105).

Entretanto, antes de se tornar tão incapacitado, ele havia sido um dos escritores mais prolíficos do século XIX. Havia produzido um grande número de livros, muitos dos quais haviam sido ditados a uma secretária tão rapidamente quanto ela conseguia registrar as palavras, às vezes enquanto ele estava entre sets de tênis ou passeando em um barco a remo. Seus trabalhos foram publicados em revistas popu­lares, milhares de cópias de seus livros foram vendidas e seu sistema de filosofia foi adotado como parte do currículo padrão em praticamente todas as universidades.

Sem dúvida ele teria publicado ainda mais livros e artigos se não tivesse desenvolvido sintomas intensos de neurose que limitaram seu trabalho a algumas horas ao dia. Aos 35 anos, em uma situação que nos lembra a de Darwin, nosso filósofo desenvolveu palpitações no coração, insônia e problemas digestivos sempre que o mundo lhe importunava. Assim como Darwin, seus males físicos coin­cidiram com o desenvolvimento do sistema de pensamento ao qual devotou sua vida, o sistema que exerceria profunda influência em direção da nova psicologia estadunidense. Seu nome era Herbert Spencer.

A Evolução Chega aos Estados Unidos: Herbert Spencer (1820-1903)

A filosofia que rendeu a Herbert Spencer o reconhecimento e a aclamação foi o darwinismo - a noção da evolução e da sobrevivência do mais apto. Spencer estendeu a teoria para muito além do próprio trabalho de Darwin. Nos Estados Unidos, o interesse pela teoria da evolução de Darwin era muito grande, e suas ideias haviam sido muito bem-aceitas. O evolucionismo foi abarcado não apenas pelas universidades e sociedades científicas, mas também por revistas populares e até mesmo algumas publicações religiosas.

O Darwinismo Social

Spencer alegava que o desenvolvimento de todos os aspectos do universo é evolucionário, incluindo o caráter humano e as instituições sociais, em conformidade com o princípio da "sobrevivência do mais apto" (expressão cunhada por ele). Essa ênfase no chamado darwinismo social - aplicação da teoria da evolução da natureza humana e da sociedade - foi recebida com muito entusiasmo nos Estados Unidos.

Na visão utópica de Spencer, se o princípio da sobre­vivência do mais apto operasse com liberdade, apenas os melhores sobreviveriam. Portanto, a perfeição humana seria inevitável, desde que nenhuma ação interferisse na ordem natural das coisas. O individualismo e o sistema econômico do laissez-faire eram vitais, enquanto os aspectos governamentais para regulamentar negócios e indústria e a assistência social (por meio de subsídios a educação, moradia e pobreza) eram opostos.

A população e as organizações deveriam ter liberdade para se desenvolver por conta própria, utilizando-se de meios próprios, do mesmo modo que as demais espécies vivas se desenvolviam e adaptavam-se livremente ao ambiente natural. Qualquer auxílio do Estado interfere no processo evolutivo natural.

As pessoas, os programas, a economia ou as instituições que não se adaptassem eram considerados inaptos para sobreviver e deviam perecer (tornarem-se "extintos") para a melhoria de toda a sociedade. Se o Estado continuasse a sustentar empresas que não fun­cionassem bem, elas conseguiriam sobreviver, mas acabariam enfraquecendo a socieda­de, violando a lei básica natural de que apenas o mais forte e mais apto deve sobreviver. Mais uma vez, a ideia de Spencer era que somente com a sobrevivência dos melhores a sociedade atingiria a perfeição.

Essa mensagem era compatível com o espírito individualista estadunidense e as expressões "sobrevivência do mais apto" e "a luta pela existência" rapidamente passaram a fazer parte da consciência nacional. James J. Hill, o magnata da indústria ferroviária, reiterou a mensagem de Spencer: "O êxito das companhias ferroviárias é determinado pela lei da sobrevivência do mais apto". E John D. Rockfeller declarou: "O crescimento das grandes empresas é apenas o resultado da sobrevivência do mais apto" (Hill e Rockefeller apud Hofstadter, 1992, p. 45). As frases refletiam claramente a sociedade norte-estadunidense do final do século XIX, ou seja, os Estados Unidos consistiam um exemplo vivo das ideias de Spencer.

Essa nação pioneira estava sendo formada por sérios trabalhadores que acreditavam na livre iniciativa, na autossuficiência e na independência da interferência do Estado. E eles conheciam bem de perto a lei da sobrevivência do mais apto no seu dia-a-dia. A terra estava disponível para os dotados de coragem, sagacidade e habilidade para tomá-la e transformá-la no seu meio de vida. Os princípios da seleção natural eram claramente demons­trados nas experiências diárias, principalmente na fronteira oeste dos Estados Unidos, onde a sobrevivência e o sucesso dependiam da capacidade de adaptação do homem às difíceis condições e exigências do ambiente; quem não se adaptou não sobreviveu.

O historiador estadunidense Frederick Jackson Turner descreveu assim os sobreviventes:

Aquela rudeza e força combinadas com a agudeza e curiosidade; aquela mentalidade práti­ca engenhosa e astuta para encontrar recursos; aquele hábil domínio das coisas materiais (...) poderoso para realizar grandes feitos; aquela energia incansável e agitada; aquele individualismo dominante. (Turner, 1947, p. 235)

Os estadunidenses eram voltados ao prático, útil e funcional. Os estágios iniciais da psicologia estadunidense refletiram essas qualidades. Por essa razão, a teoria evolucionista foi mais bem-aceita nos Estados Unidos do que em outras nações. A psicologia estadunidense transformou-se em uma psicologia funcional porque a evolução e o espírito funcional eram compatíveis com esse temperamento básico, assim como a compatibilidade entre a visão de Spencer e o ethos estadunidense permitiu que seu sistema filosófico influenciasse todos os campos do conhecimento. O famoso líder religioso protestante Henry Ward Beecher escreveu a Spencer, dizendo: “As condições peculiares da sociedade estadunidense permitiram que seus escritos produzissem efeitos mais rápidos aqui do que na Europa" (Beecher, apud Hofstadter, 1992, p. 31).

A Filosofia Sintética

Spencer formulou um sistema denominado filosofia sintética (ele usou a palavra "sintéti­ca no sentido de sintetização ou combinação e não com o significado de algo artificial ou não natural). Ele baseou esse sistema amplamente abrangente na aplicacão dos princípios evolucionistas ao conhecimento e à experiência humana. Suas ideias foram publicadas em uma serie de 10 livros, entre 1860 e 1897. Os volumes foram considerados pelos prin­cipais intelectuais da época um trabalho de gênio. 

Conwy Lloyd Morgan escreveu a ele: "A nenhum outro mestre lntelectual devo tanta gratidão quanto ao senhor" Alfred Russel Wallace batizou seu primeiro filho com o nome de Spencer. Darwin disse: Após ler um dos livros de Spencer, que ele "era uma dúzia de vezes superior a mim".

Dois volumes da filosofia sintética constituíram a obra The principies of psychology publicada inicialmente em 1855, mais tarde adotada por William James como livro-base para o primeiro curso de psicologia que lecionou em Harvard. Nesse livro, Spencer discute a noção de que a forma atual da mente é resultado dos esforços passados e contínuos na adaptação a diversos ambientes. Ele enfatizava a natureza adaptável dos processos nervosos e mentais e afirmava que uma complexidade crescente de experiência - e assim de com­portamento - faz parte do processo normal de evolução. O organismo precisa se adaptar ao ambiente se desejar sobreviver.

Evolução Contínua das Máquinas

As máquinas (chamadas de robôs), haviam sido criadas para duplicar o movimento humano bem como o pensamento humano (como as máquinas de calcular de Babbage). Seria possível que as máquinas evoluíssem para formas mais avançadas tal como era dito a respeito dos homens e animais? Na época em que o darwinismo foi publicado em 1859, a metáfora mecânica para a vida humana havia se tornado tão aceita nos círculos intelectuais e sociais que a questão parecia inevitável.

A pessoa que fez a pergunta e expandiu o evolucionismo para as máquinas foi Sa­muel Butler (1835-1902), um escritor, pintor e músico que em 1859 emigrou para a Nova Zelândia para criar ovelhas. Butler e Darwin se corresponderam longamente.

Em um ensaio intitulado "Darwin entre as Máquinas", Butler escreveu que a evolução das maquinas já havia ocorrido. Só tínhamos que comparar os itens primordiais, rudimentares como as alavancas, cunhas e roldanas com o complexo maquinário das fábricas e as grandes locomotivas e navios a vapor.

Butler propôs que a evolução mecânica estava ocorrendo por meio dos mesmos processos que guiaram a evolução humana: seleção natural e luta pela existência. Os inventores estão constantemente criando máquinas novas para obter alguma vantagem competitiva. Essas novas máquinas eliminam as antigas, que, inferiores, não conseguem mais se adaptar ou competir na luta pela sobrevivência - um lugar no mercado. Como resultado, as máquinas obsoletas desaparecem, assim como os dinossauros.

Com o rápido desenvolvimento tecnológico ficou claro a Butler que as máquinas haviam evoluído muito mais do que os animais, e previu que as máquinas um dia se tornariam capazes de simular processos mentais humanos - um tipo de inteligência. Isso se tornou realidade enquanto Butler vivia, pelo menos no que diz respeito ao processo mental para cálculos.

Por volta do final do século XIX, o tipo de máquina calculadora de Babbage não era mais adequado. Os cálculos realizados por dispositivos mecânicos ou por meios humanos exigiam máquinas cada vez mais adequadas. Um fato que exemplificou essa necessidade foi o censo populacional norte-estadunidense de 1890.

O censo realizado 10 anos antes fora tão complexo que levou sete anos para ser con­cluído. Cerca de 1.500 funcionários computaram a mão dados referentes a idade, sexo, etnia, residência e outras características (que esperavam obter) de cada cidadão estadunidense. Os resultados foram compilados em um relatório de mais de 21 mil páginas. Nesse inter­valo, a população cresceu tão rapidamente que era óbvia a necessidade de uma mudança nos procedimentos ou, do contrário, o censo de 1890 não seria concluído antes de 1900, já no início do censo seguinte. Havia a necessidade de uma nova e avançada máquina processadora de informações.

Henry Hollerith e os Cartões Perfurados

Henry Hollerith (1859-1929) foi o engenheiro que desenvolveu a nova e avançada forma de processar as informações. Dois historiadores, sobre a origem dos computadores, des­creveram a inovadora criação de Hollerith dizendo que seu método registrava as respostas dos questionários de cada cidadão em uma fita de papel com um padrão de perfuração ou em um conjunto de cartões perfurados, parecidos com os utilizados para a gravação de músicas dos pequenos órgãos de exposição [como os pianos] daquela época. Desse modo, era possível utilizar uma máquina para contar automaticamente os orifícios e tabular os resultados. (Campbell-Kelly e Aspray, 1996. p. 22)

Hollerith utilizou 56 milhões de cartões para computar os resultados obtidos de 62 milhões de pessoas. Cada cartão tinha capacidade para armazenar o equivalente a até 36 bytes de 8 bits de informações. Assim, o censo norte-estadunidense de 1890 produziu mais informações do que se havia acumulado até então e, em apenas dois anos, rendeu uma economia de 5 milhões de dólares em comparação com o método de tabulação manual. O sistema de cartão perfurado de Hollerith alterou radicalmente o processamento desse tipo de informação e renovou as esperanças (e os temores) de que as máquinas, com o tempo, seriam capazes de reproduzir o funcionamento cognitivo humano. Um artigo na revista Scientific American foi publicado com o seguinte título “How strips of paper canendow inanimate machines with brains of their own" ("Como tiras de papel podem dotar as máquinas inanimadas de mentes próprias") (Dyson, 1997).

Em 1896, Hollerith estabeleceu a própria empresa, a Tabulating Machine Company, que foi vendida em 1911. A nova corporação, a Computing-Tabulating-Recording Com­pany, foi rebatizada em 1924, sendo hoje a famosa IBM.

William James (1842-1910): o Precursor da Psicologia Funcional

Tanto o próprio William James como o seu papel na psicologia estadunidense são muito para­doxais. Seu trabalho foi o principal precursor estadunidense da psicologia funcional e ele foi o pioneiro da nova psicologia científica desenvolvida nos Estados Unidos. Uma pesquisa realizada pelos historiadores da psicologia, 80 anos após a morte de James, revelou que ele era considerado a segunda figura mais importante da psicologia, perdendo apenas para Wilhelm Wundt, além de ser apontado como o principal psicólogo estadunidense (Korn etal., 1991). O eminente filósofo e psicólogo John Dewey considerou James como "de longe, o maior dos psicólogos dos Estados Unidos(...) de qualquer país(...) talvez de todos os tem­pos." John B. Watson, o fundador do behaviorismo, referiu-se a James como "o psicólogo mais brilhante que o mundo já conheceu" (ambos citados em Leary, 2003, p. 19-20).

No entanto, alguns colegas de James o consideravam uma força contrária ao desenvol­vimento da psicologia científica. Ele mantinha um notório interesse em assuntos como telepatia, clarividência, espiritismo, comunicação com os mortos em sessões espíritas e outros fatos místicos. Os psicólogos estadunidenses, como Titchener e Cattell, criticavam a sua entusiástica exposição a esses fenômenos psíquicos e mentalísticos que eles, como psicólogos experimentais, estavam tentando banir do campo.

James não fundou nenhum sistema formal de psicologia ou sequer teve algum discípulo; não houve uma escola de pensamento "jamesiana". Embora a forma de psicologia a ele associada fosse uma tentativa de ser científica e experimental, a própria atitude e as realizações de James não eram experimentalistas. A psicologia, que um dia ele chama­ra de "pequena ciência detestável", não era a sua paixão eterna, como era para Wundt e Titchener. James trabalhou com a psicologia durante algum tempo e depois mudou sua área de interesse.

Nos últimos anos da vida, esse homem complexo e fascinante, que tanto contribuíra para a psicologia, acabou deixando-a de lado (em uma ocasião, quando ia realizar uma palestra na Princeton University, pediu para que não fosse apresentado como psicólogo). Ele até insistia em afirmar que a psicologia não passava de "uma elaboração do óbvio". Mesmo que com a sua ausência a psicologia não deixasse de seguir adiante, e às vezes cambaleante, James ocupou o seu lugar e teve a sua importância garantida na história da psicologia.

James não fundou a psicologia funcional, mas apresentou de forma clara e eficaz as suas ideias dentro da atmosfera funcionalista impregnada na psicologia estadunidense.

Dessa forma, influenciou o movimento funcionalista, inspirando as gerações posteriores de psicólogos.

A Biografia de James

William James nasceu no Astor House, um hotel da cidade de Nova York, em uma família destacada e rica. Seu pai (naquela época, o segundo homem mais rico dos Estados Unidos) dedicou-se com entusiasmo, embora de forma inconsistente, à educação dos filhos, que alternava entre a Europa e os Estados Unidos. Assim, os anos escolares iniciais de James foram passados na Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Suíça e nos Estados Unidos. Essas experiências estimulantes expuseram James às vantagens culturais e intelectuais da In­glaterra e do restante da Europa.

Durante toda a sua vida, James viajou muitas vezes para o exterior. O método favorito do pai para tratar das pessoas doentes da família era mandá-las para a Europa, e não para o hospital. E a sua mãe dispensava atenção e carinho aos filhos somente quando estavam doentes. Talvez não fosse surpresa o fato de James dificilmente apresentar boa saúde.

Embora o velho James não esperasse que nenhum dos filhos se preocupasse em ganhar a vida, incentivou o interesse precoce de William pela ciência. Deu-lhe um jogo de química contendo um "bico de Bunsen e pequenas amostras de líquidos estranhos que, para desgosto do pai, misturava, aquecia e transfundia, manchando os dedos e as roupas, chegando até a provocar perigosas explosões" (Allen, 1967, p. 47).

Com 18 anos, James decidiu tornar-se artista, e seis meses no ateliê do pintor William Hunt em Newport, Rhode Island, convenceram-no de que, apesar da boa técnica, não era dotado de talento suficiente para tornar-se um grande artista. Desistiu da carreira e acabou matriculando-se na Lawrence Scientific School, em Harvard. Nessa época estoura­va a guerra civil estadunidense e, mais tarde, James confessou que desejara servir o exército, mas o pai o proibira, alegando não existir nenhum governo ou qualquer outra causa que valesse a vida como sacrifício.

Pouco tempo depois de chegar a Harvard, começou a perder a autoconfiança e a saúde, transformando-se em uma pessoa extremamente neurótica para o resto da vida. Abandonou o interesse pela química, aparentemente em função da precisão exigida no trabalho laboratorial, e tentou prosseguir com a medicina que, no entanto, não lhe des­pertava muito interesse, tal como comentou:

Há muito farsante nesse meio (...) Exceto nas cirurgias, em que às vezes é possível obter algum resultado positivo, o médico faz mais pelo efeito moral da sua presença diante do paciente e da sua família do que por qualquer outro motivo, além de poder extrair-lhe o dinheiro. (James apud Allen, 1967, p. 98)

James abandonou a medicina para auxiliar o zoólogo Louis Agassiz em uma expedição à bacia do rio Amazonas, para colher espécies de animais marinhos. A viagem deu-lhe a oportunidade de ter uma amostra da carreira na biologia, mas logo percebeu que não conseguiria suportar a precisão das coletas e da classificação das espécies, bem como as exigências físicas do trabalho de campo. Em uma carta que escreveu para a família, disse: “Minha vinda foi um erro. Estou definitivamente convencido de que sou talhado para a elaboração teórica e não para o trabalho de campo" (apud Simon, 1998, p. 93). Essa reação ao trabalho científico na química e na biologia professava a sua posterior aversão pela experimentação no campo da psicologia.

Embora a viagem ao Brasil, em 1865, não conseguisse tornar a medicina de alguma forma atraente para James, ele relutou mas acabou retomando os estudos médicos por não haver nenhuma outra área que lhe despertasse o interesse. Estava frequentemente doente, queixando-se de depressão, problemas digestivos, insônia, dificuldades visuais e dores nas costas. "Era óbvio que ele estava sofrendo de América; a Europa era a única cura" (Miller e Buckhout, 1973, p. 84).

James recuperou-se em um balneário na Alemanha, dedicando-se à literatura e escre­vendo longas cartas aos amigos, mas a depressão persistia. Frequentou aulas de psicologia na Universidade de Berlim que o levaram a refletir que talvez fosse chegada a hora de a "psi­cologia começar a se tornar ciência" (apud Allen, 1967, p. 140). Também afirmou que se sobrevivesse a doença e conseguisse suportar o inverno, desejava aprofundar os estudos de Psicologia com o grande Helmholtz e, usando exatamente estas palavras, com um homem chamado Wundt. Sobreviveu ao inverno, mas não conheceu Wundt naquela época. No entanto, o fato de ter ouvido falar de Wundt mostra a consciência que ele tinha das tendên­cias cientificas e intelectuais, mesmo 10 anos antes de Wundt fundar seu laboratório.

James conseguiu formar-se em medicina em Harvard em 1869, mas sua insegurança e depressão pioravam. Acometido de males indeterminados e medos terríveis chegou a pensar em suicídio. Seu pavor era tão imenso que não conseguia sair de casa sozinho à noite.

Internou-se em uma clínica de repouso em Somerville, Massachusetts, mas nenhum tratamento era capaz de aliviar seu sofrimento (Townsend, 1996). James não era a única pessoa a sofrer desse mal naquela época.

Uma epidemia de neurastenia. O neurologista estadunidense George Beard cunhou o termo neurastenia para referir-se a um estado nervoso peculiar do estadunidense. Listou uma variedade de sintomas como insônia, hipocondria, dor de cabeça, erupções cutâneas cansaço nervoso e um estado que chamou de colapso cerebral (Lutz, 1991). James chamou a sindrome de "americanite" (Ross, 1991).

Durante a segunda metade do século XIX, aquilo que muitos observadores chamaram de epidemia de neurastenia" varria as classes mais altas. (...) Neurastenia era, literalmente falta de força nervosa, ou seja, depressão paralisante e perda de ânimo. Os mais educa­dos e conscientes eram os que tinham mais chances de sucumbirem. O adiamento na escolha da carreira tornou-se uma experiência comum entre esses filhos problemáticos da burguesia. (Lears, 1987, p. 87).

Muitos amigos, parentes e colegas de James sofriam desses sintomas debilitantes. Um amigo escreveu-lhe, dizendo: 'Fico imaginando se alguém na Nova Inglaterra tênha conseguido chegar aos 35 anos sem pensar em suicídio”, E James respondem  "creio não haver nenhum intelectual que não tenha flertado com a ideia de suicídio" (apud Townsend, 1996). A condição estava tão disseminada entre o segmento mais rico e intelectual Estadunidense que uma revista foi lançada com o título de Anybody Who Was Anybody Was Neurasthenic (Miller, 1991). Obviamente, William James estava bem acompanhado. A indústria  farmaceutica Rexall tirou Proveito da oportunidade criada por essa doença, introduzindo um remedio patenteado com o nome de Americanitis Elixir (Elixir para Americanitis), recomendado para distúrbios nervosos, fadiga e todos os problemas causados pela americanite (Marcus, 1998). As mulheres que sofriam desse mal, claramente intelectuais e feministas, eram aconselhadas a "passar seis semanas ou mais de cama sem executarem qualquer trabalho, leitura ou atividade social e ganhar muito peso por meio de uma dieta a base de muita gordura". Os homens não precisavam se submeter a um tratamento tão rígido assim. O conselho para eles incluía "viagens, aventuras [e muito exercício físico" (Showalter, 1997, p. 50, 66). 

Descobrindo a psicologia. No período de depressão em 1869, James começou a desenvolver uma filosofia de vida incentivado não tanto pela curiosidade intelectual mas pelo desespero. Leu muita filosofia, inclusive os ensaios de Charles Renouvier sobre o livre-arbitrio, o que o convenceu da sua existência. 

Decidiu que seu primeiro ato da vontade própria seria a crença no livre-arbítrio. Em seguida, passou a crer que conseguiria curar a depressão apenas acreditando na força de vontade. Aparentemente obteve certo êxito, pois, em 1872, aceitou lecionar fisiologia em Harvard, comentando ser "nobre para o espírito de uma pessoa ter um trabalho responsável para realizar" (James, 1902, p. 167). No entanto, apenas um ano depois, teve de tirar licença para visitar a Itália, mas retornou pouco tempo depois e continuou lecionando.

Mais ou menos nessa mesma época, James interessou-se pelos efeitos de alguns ele­mentos químicos na alteração da mente. Leu a respeito das experiências por que passaram pessoas sob a influência do óxido nitroso (o "gás hilariante") e do nitrato de amila, que afetam a oxigenação do cérebro, causando assim movimentos bruscos. Decidiu experimen­tar essas substâncias. Como escreveu um biógrafo, essa fora "a primeira entre as várias experiências [de James] com estados conscientes alterados, que o fascinaram devido à forma como as alterações físicas influenciavam a consciência" (Croce, 1999, p. 7).

No ano letivo de 1875-76, James lecionou seu primeiro curso de psicologia, que cha­mou de The relations between physiology and psychology [As relações entre a fisiologia e a psicologia]. Por isso, Harvard foi a primeira universidade dos Estados Unidos a oferecer o curso de psicologia experimental. James nunca frequentara cursos formais de psicologia - o primeiro foi o seu. Pediu dinheiro à faculdade para adquirir um laboratório e equipa­mentos de demonstração para suas aulas e recebeu 300 dólares.

Em 1878, dois acontecimentos importantes marcaram a vida de James: o casamento com Alice Howe Gibbens, a mulher escolhida por seu pai, e a assinatura de um contrato com o editor Henry Holt, que resultou em um dos livros clássicos da psicologia. Ele levou 12 anos para escrever o livro, que começara durante a lua-de-mel.

Uma das razões de tanta demora para James escrevê-lo é que ele era um viajante com­pulsivo. Quando não estava na Europa, podia ser facilmente encontrado nas montanhas de Nova York ou New Hampshire.

Suas cartas dão a entender que suas relações familiares eram muito desgastantes e que frequentemente sentia necessidade de ficar sozinho. As viagens eram a única forma de conseguir lidar com essa situação. Ele arranjava uma viagem após o nascimento de cada um dos seus filhos e, obviamente, sentia-se culpado. Frequentemente se ausentava das comemorações de Natal, Ano Novo e aniversários, mesmo não estando muito distante, como, por exemplo, em Newport. (...) As viagens de James eram fugas das confusões fami­liares para a natureza, a solidão e o alívio místico. (Myers, 1986. p. 36-37)

Os nascimentos dos filhos foram muito perturbadores para o temperamento sensível de James. Não conseguia trabalhar direito e ressentia-se da atenção dispensada pela esposa aos recém-nascidos. Depois do nascimento do segundo filho, passou um ano no exterior, viajando de uma cidade a outra. Escreveu de Veneza para sua esposa, dizendo-se apaixonado por uma italiana. Ele disse: "Você vai acabar se acostumando com esses meus entusiasmos e acabará gostando" (apud Lewis, 1991, p. 344). Mas Alice ficava contrariada com o que ela mesma descrevia como a "tendência [do meu marido] de flertar casualmen­te com conhecidas e até mesmo com as empregadas da família". Ficara furiosa quando ele lhe contara haver beijado uma delas. James, no entanto, achava que essa sua natureza afetiva devia deixá-la feliz. Conforme explicava, muitas vezes tinha o "desejo de beijar as pessoas" (apud Simon, 1998, p. 215-216).

James continuava a lecionar em Harvard quando se encontrava na cidade e, em 1885, foi promovido a professor de filosofia. Quatro anos mais tarde, passou a ter o título de professor de psicologia. Nessa época já havia conhecido vários psicólogos europeus, dentre eles Wundt, que "causou-me uma agradável impressão pessoal, com a sua voz agradável e o eterno sorriso franco nos lábios". No entanto, alguns anos depois, James percebeu que Wundt ''não é um gênio, ele é um professor, um ser cuja tarefa é conhecer tudo e ter opi­nião própria sobre qualquer assunto" (James apud Allen, 1967, p. 251, 304).

O livro de James, The principles of psychology, foi finalmente publicado em 1890 em dois volumes. Foi um tremendo sucesso e uma importante contribuição para a área. Quase 80 anos após a sua publicação, um psicólogo declarou: "O livro Principles de James é sem sombra de dúvida a obra mais culta e provocante e, ao mesmo tempo, o livro de psicologia mais compreensível escrito até hoje em inglês e em qualquer outro idioma" (MacLeod, 1969, p. iii). Essa obra foi o livro de referência mais importante para várias gerações de estudantes de psicologia e até hoje é lida por várias pessoas que não têm a obrigatoriedade de lê-la.

A reação favorável ao livro não foi unânime. Wundt e Titchener, criticados na obra, não reagiram bem. Wundt declarou: “Trata-se de uma literatura dotada de beleza, mas não é psicologia" (Wundt, apud Bjork, 1983, p. 12). Wundt continuou criticando severamente o trabalho de James na psicologia. De acordo com C. H. Judd, um estudante estadunidense do laboratório de Wundt em Leipzig, havia tido muito pouco respeito pelos líderes da psicologia estadunidense que houvessem estuda­do em outro lugar que não em Leipzig. Havia especial antipatia por James. Ele fez algo
considerado totalmente insensato, não somente criticou Wundt (...) como o fez de forma sarcástica. Isso era demais. (...) James não era considerado um pensador de primeira linha (1930/1961, p. 215).

O próprio James não reagiu favoravelmente ao seu livro. Escreveu uma carta ao editor e descreveu o manuscrito como uma "massa repugnante, distendida, intumescida, inflada e hidrópica que certifica nada além de dois fatos: primeiro, não existe uma ciência da psico­logia, segundo, que [William James] é um incapaz" (James apud Allen, 1967, p. 314-315).

Com a publicação do livro The principles, James decidiu que não tinha nada mais a dizer a respeito da psicologia. Além disso, não se interessava mais na supervisão do labo­ratório de psicologia em Harvard. Conseguiu que Hugo Münsterberg, naquela época na University of Freiburg, Alemanha, se tornasse diretor do laboratório e lecionasse os cursos de psicologia, ficando livre para trabalhar com a filosofia. Münsterberg nunca chegou a desempenhar o papel que James esperava dele: tornar-se uma liderança na pesquisa expe­rimental em Harvard. Ao contrário, Münsterberg procurava estudar uma variedade de problemas do mundo real e dedicava pouca atenção ao laboratório. Ele foi importante por
ter ajudado a popularizar a psicologia e transformá-la em uma disciplina mais aplicada.

Embora James houvesse instalado e equipado o laboratório de psicologia de Harvard, ele não era experimentalista. Nunca se convencera do valor do trabalho laboratorial e pessoalmente não gostava de realizar essa tarefa. Dizia que as universidades estadunidenses tinham laboratórios demais e, no livro The principles, destacou que os resultados do tra­balho de laboratório não eram proporcionais aos enormes esforços exigidos. Portanto
não causa estranheza o fato de sua contribuição à psicologia constituir-se de tão pouco trabalho experimental.

James passou os últimos 20 anos da vida refinando seu sistema filosófico e, por volta da década de 1890, foi reconhecido como o principal filósofo estadunidense. Entre os principais trabalhos de filosofia publicados está The varieties of religious experience (1902). A sua obra Talks to teachers (1899) marcou o início da psicologia educacional e divulgou as ideias de James sobre a aplicação da psicologia na sala de aula em situações de aprendizagem.

Os Princípios da Psicologia

Por que tantos estudiosos consideram James o maior psicólogo estadunidense? Três hipóteses são levantadas para explicar tamanha importância e influência creditadas a ele. Primeiro, James escrevia com uma clareza rara na ciência. Sua escrita era dotada de magnetismo! espontaneidade e charme. Segundo, ele se posicionou contra o objetivo de Wundt na psicologia - a análise da consciência a partir dos seus elementos. E terceiro, James ofere­ceu uma forma alternativa de analisar a mente, uma visão congruente com a abordagem funcional da psicologia. Em resumo, a era da psicologia estadunidense estava preparada para ouvir o que James tinha a dizer.

No livro The principies of psychology, James apresentou a visão que acabou tornando-se a doutrina central do funcionalismo estadunidense - a psicologia não tem como meta a des­coberta dos elementos da experiência, mas o estudo sobre a adaptação dos seres humanos ao seu meio ambiente. A função da nossa consciência é guiar-nos aos fins necessários para a sobrevivência. A consciência é vital para as necessidades dos seres complexos em um ambiente complexo; de outra forma, a evolução humana não ocorreria.

James também enfatizava os aspectos não-racionais da natureza humana. As pessoas eram criaturas dotadas de emoção e paixão, assim como de pensamento e razão. Mesmo quando discutia os processos puramente intelectuais, James destacava o não-racional. Alegava que a condição física afetava o intelecto, que os fatores emocionais determinavam as crenças e que as necessidades e os desejos humanos influenciavam a formação da razão e dos conceitos. Assim, James não considerava as pessoas seres totalmente racionais. Em The principies, James escreveu sobre as mais variadas áreas.

O Objeto de Estudo da Psicologia: a Nova Visão sobre a Consciência

James afirmava logo no início da obra que “A psicologia é a ciência da vida mental, abran­gendo tanto os seus fenômenos como as suas condições” (James, 1890, v. 1, p. 1). No que tange ao objeto de estudo, as palavras-chave são fenômenos e condições. Com fenômenos,
ele queria dizer que o objeto de estudo da psicologia devia ser buscado na experiência imediata; com condições, referia-se à importância do corpo, principalmente do cérebro, na vida mental.

De acordo com James, as subestruturas físicas da consciência formam uma parte básica da psicologia. A consciência deve ser analisada no seu ambiente natural, que é o físico do ser humano. Essa noção biológica da ação do cérebro sobre a consciência é uma característica exclusiva da abordagem de psicologia de James.

Ele rebelava-se contra a artificialidade e a estreiteza da posição de Wundt. Acreditava serem as experiências conscientes simplesmente experiências conscientes e não grupos ou conjuntos de elementos. A descoberta de elementos mínimos da consciência, por meio da análise introspectiva, não demonstra que eles existam independentemente de um obser­vador treinado. Os psicólogos realizam leituras da experiência com base na sua posição sistemática e com o seu ponto de vista.

Um degustador treinado é capaz de distinguir os elementos individuais do sabor de um alimento que não são percebidos por uma pessoa não-treinada, a qual percebe um misto de sabores, uma mistura total de ingredientes impossível de distinguir. Do mesmo modo, o fato de algumas pessoas treinadas serem capazes de analisar suas experiências conscientes em um laboratório de psicologia não quer dizer que os elementos por elas relatados estejam presentes na consciência de qualquer outra pessoa exposta à mesma experiência. James considerava essa afirmação uma "falácia dos psicólogos".

Atingindo o ponto central da abordagem de Wundt, James declarou que as sensa­ções simples não existem na experiência consciente, existindo apenas como resultado de algum processo retorcido de inferência ou abstração. Em uma declaração grosseira e eloquente, disse:

Ninguém jamais experimentou uma sensação simples por si próprio. A consciência, desde o dia do nosso nascimento, gera uma imensa multiplicidade de objetos e relações e o que denominamos sensações simples é resultado da atenção discriminativa, levada a um grau muito alto. (James, 1890, v. 1, p. 224)

No lugar da análise artificial e da redução da experiência consciente aos ditos elemen­tos componentes, James criou um programa de psicologia. A vida mental consiste em uma unidade, em uma experiência total que se modifica. A consciência é um fluxo constante e qualquer tentativa de dividi-la em fases temporariamente distintas pode distorcê-la. Para expressar essa ideia, James cunhou a expressão fluxo de consciência.

Como a consciência está em constante modificação, não é possível experimentar o mesmo pensamento ou a mesma sensação mais de uma vez. Pode-se pensar em um objeto ou um estímulo em mais de uma ocasião, mas os pensamentos não são idênticos em cada situação. São diferentes devido às experiências intervenientes. Desse modo, a consciência é definida como cumulativa e não recorrente.

A mente é igualmente contínua. Não há interrupção abrupta no fluxo de consciência. É possível notar lapsos de tempo, por exemplo, quando estamos sonolentos, mas, quando estamos despertos, não temos dificuldade de estabelecer relações com nosso fluxo de cons­ciência em andamento. Além disso, a mente é seletiva: como somos capazes de prestar atenção em apenas uma pequena parte do universo das nossas experiências, ela escolhe entre os vários estímulos aos quais é exposta. A mente filtra algumas experiências, combina ou separa outras, seleciona e rejeita outras mais. O principal critério de seleção é a relevância - a mente seleciona os estímulos relevantes de modo que permita que a consciência opere de modo lógico, criando assim uma série de ideias que possam resultar em uma conclusão racional.

Por fim, James destacou a função ou o propósito da consciência. Acreditava que ela desempenhava alguma função biológica, de outro modo não teria sobrevivido ao tempo.

A função da consciência é proporcionar a capacidade de adaptação ao ambiente, permi­tindo-nos escolher. Para desenvolver essa ideia, James fazia a distinção entre a escolha e o hábito; acreditava que os hábitos eram involuntários e não conscientes. Quando estamos diante de um novo problema e temos de escolher uma forma de enfrentá-lo, a consciência entra em cena. Essa ênfase da intencionalidade reflete o impacto da teoria da evolução.


Texto original

Trecho sobre a Consciência, Extraído de Psychology (Briefer Course) (1892), de William James

A consciência encontra-se em constante mudança. Não quero dizer com essa afirmação que o estado mental seja dotado de alguma duração - e mesmo que fosse verdade, seria difícil estabelecer essa duração. O que desejo destacar com essa afirmação é a impossibilidade de um estado do passado recorrer e ser idêntico ao que fora anteriormente. Neste momen­to sentimos, ouvimos, pensamos, desejamos, lembramos, esperamos, amamos, odiamos e vivenciamos outras centenas de estados que sabemos estarem relacionados alternadamente em nossas mentes. Todavia, todos esses estados são complexos, podendo-se assim dizer, produzidos pela combinação dos estados mais simples; mas os estados simples não seriam regidos por uma lei distinta? Não seriam, por exemplo, as sensações extraídas do mesmo objeto sempre as mesmas? A tecla do piano pressionada com a mesma intensidade não pro­vocaria a sensação de ouvirmos e o mesmo som? Não provocaria a mesma grama a idêntica sensação de verde, o mesmo firmamento, a igual sensação de azul, e não teríamos a mesma sensação olfativa independentemente do número de vezes que encostamos o nosso nariz no mesmo frasco do perfume? Pode soar como um sofisma metafísico a sugestão de que não percebemos as sensações dessa forma; e uma atenção mais cuidadosa do assunto demonstra que não há provas de que a sensação de receber um choque elétrico provoque duas vezes percepções corporais idênticas.

O que está presente duas vezes é o mesmo objeto. Ouvimos a mesma nota executada diversas vezes, enxergamos a mesma tonalidade da cor verde, a fragrância do mesmo perfume ou a experiência da mesma espécie de dor. As realidades, concretas e abstratas, físicas e ideo­lógicas, em cuja permanente existência acreditamos, parecem surgir constantemente no nosso pensamento e conduzir-nos, devido à nossa falta de cautela, a supor que as nossas "ideias" a respeito dessas realidades consistem nas mesmas ideias. (...) A grama que vislumbro pela janela parece ter o mesmo tom de verde tanto sob o sol como sob a sombra, e, no entanto, o pintor pode pintar uma parte dela de marrom escuro, outra parte de amarelo claro, tentan­do criar o efeito sensorial da realidade. Normalmente, não prestamos atenção nas diferentes formas de aparência, som e odor que os mesmos objetos assumem quando observados de distâncias distintas e sob diversas circunstâncias. A igualdade dos objetos é que consiste no alvo de nossa investigação; e qualquer sensação que nos garanta essa igualdade será prova­velmente considerada, de um modo geral, como a mesma para todos.

Essa característica é que traz o julgamento precipitado sobre a identidade subjetiva das diferentes sensações bem próximo da invalidade como uma evidência do fato. Toda a descri­ção daquilo que se chama sensação consiste em um comentário sobre a nossa incapacidade  de afirmar se duas qualidades sensoriais recebidas separadamente são exatamente idênticas. O que chama a nossa atenção muito mais do que a qualidade absoluta de uma impressão é a sua proporção em relação a qualquer outra impressão que possamos vivenciar ao mesmo tempo. Quando a escuridão é total, a mínima sensação de claridade nos faz enxergar um branco – Helmholtz calcula que o mármore branco pintado em uma tela representando uma paisagem arquitetônica sob o luar, quando visto à luz do dia, é de 10 a 20 vezes mais claro do que seria o mármore visto sob o luar verdadeiro.

Uma diferença como essa nunca poderia ser aprendida por meio da sensação, teria de ser deduzida com base em uma série de considerações indiretas. Isso tudo nos faz crer que a nossa sensibilidade vai se alterando com o tempo, de modo que o mesmo objeto não nos proporciona facilmente a mesma sensação novamente. Sentimos os objetos de modo dife­rente, de acordo com o nosso estado, se estamos sonolentos ou despertos, com fome ou satisfeitos, dispostos ou cansados; de forma distinta à noite e pela manhã, no verão e no inverno, e, acima de tudo, na infância, na vida adulta e na velhice. No entanto, nunca duvida­mos de que os nossos sentimentos revelam o mesmo universo, com as mesmas características sensoriais e com os mesmos objetos sensoriais o ocupando. A diferenciação da sensibilidade é mais bem demonstrada por meio da distinção da nossa emoção a respeito dos objetos de uma idade a outra, ou quando nos encontramos em estados orgânicos distintos. O que era
alegre e excitante torna-se tedioso, simples e inútil. O canto do pássaro é entediante a brisa e melancólica e o céu é triste. (...)

É óbvio e palpável que nosso estado mental jamais é exatamente o mesmo. Cada pensamen­to produzido por meio de um determinado fato é, falando rigorosamente, exclusivo e possui apenas certa semelhança com os demais pensamentos provenientes do mesmo fato. Quando o fato idêntico for recorrente, devemos pensar nele de forma independente, analisá-lo de um angulo distinto e compreendê-lo dentro das diferentes relações nas quais surgiu anteriormente e o pensamento por meio do qual o percebemos é aquele que surge dentro das diferentes reações, que se espalhou com a consciência de todo aquele contexto indistinto. Muitas vezes nos vemos atingidos por estranhas diferenças nas nossas visões sucessivas do mesmo objeto. Pensamos como pudemos opinar desse modo no mês passado sobre o mesmo assunto.

Acabamos de desenvolver a possibilidade daquele estado mental e nem sabemos como de um ano para o outro visualizamos os objetos sob uma nova luz. O que era irreal torna-se real e o que era excitante torna-se insípido. Os amigos mais importantes do mundo passaram para a obscuridade; a mulher antes divina, as estrelas, as florestas, as águas, como podem ser agora tão estúpidas e banais!


Os Métodos da Psicologia

Como a psicologia lida com a consciência pessoal e imediata, a introspecção deve ser o seu metodo básico. James dizia: 'A observação introspectiva é o método em que devemos nos basear primeiramente e sempre (...) a visão da nossa mente e a descrição do que observa­mos. Todos concordam que é na nossa mente que descobrimos os estados da consciência" (James, 1890, v. 1, p. 185). James tinha ciência das dificuldades da introspecção e a aceita­va mesmo considerando-a um método imperfeito de observação. No entanto, acreditava
possibilidade de uma verificação mais apurada dos resultados produzidos mediante a comparação das constatações obtidas por diversos observadores.

Embora não utilizasse amplamente o método experimental, considerava-o um cami­nho importante para o conhecimento psicológico, especialmente nas pesquisas psicofísicas, como na análise da percepção espacial e no estudo da memória.

Como complementação dos métodos introspectivo e experimental, James recomen­dava o método comparativo. A averiguação do funcionamento psicológico de populações distintas, como de animais, crianças e pessoas não-alfabetizadas ou indivíduos emocional­mente desequilibrados, permitiria descobrir variações significativas na vida mental.

Os métodos citados na sua obra The principies salientam a principal diferença entre a psicologia estrutural e a funcional: o movimento funcionalista não se restringia a um único método como as formas de introspecção de Wundt ou Titchener. Ele também acei­tava e adotava outras metodologias. Esse tratamento eclético ampliou consideravelmente a área de estudo da psicologia estadunidense.

O Pragmatismo

James enfatizava a importância do pragmatismo na psicologia, cuja doutrina baseia-se na comprovação da validade de uma ideia ou de um conceito mediante a análise das con­ sequências práticas. A conhecida expressão do ponto de vista pragmático afirma que "se funcionar, é verdadeiro".

O pragmatismo foi desenvolvido na década de 1870 por Charles Sanders Peirce, mate­mático, filósofo e amigo de longa data de James. Seu trabalho somente foi reconhecido após a publicação da obra escrita por James, Pragmatism (1907), que formalizou a doutri­na como um movimento filosófico (Peirce foi o primeiro a escrever a respeito da nova psicologia de Fechner e Wundt para os intelectuais estadunidenses, em um artigo publicado em 1869).

A Teoria das Emoções

A teoria das emoções de James, publicada em um artigo em 1884 e posteriormente no livro The principies, contradizia o pensamento corrente sobre a natureza dos estados emocionais. Os psicólogos partiam do princípio de que a experiência mental subjetiva da emoção antecedia a expressão ou a ação corporal. O exemplo clássico de avistar um animal selvagem, sentir medo e fugir correndo, ilustra a ideia de que a emoção (o medo) ocorre antes da reação do corpo (a fuga).

James inverteu essa ordem e afirmou que a reação física ocorre antes do surgimento da emoção, principalmente das emoções que considerava "grosseiras" como o medo, a ira, a dor e a compaixão. Por exemplo, vemos o animal, corremos e, então, vivenciamos a emoção do medo. "Nosso sentimento em relação às reações [físicas] que ocorrem é a emoção" (James, 1890, v. 2, p. 449).

Para defender essa ideia, James analisou, mediante a observação introspectiva, que, quando não ocorrem alterações físicas, como a aceleração do batimento cardíaco, a respira­ção ofegante e a tensão muscular, não há emoção. As visões de James acerca das emoções provocaram muita polêmica e incentivaram a realização de diversas pesquisas.

O Eu de Três Partes

James sugeriu que o sentido do eu de uma pessoa é formado por três aspectos ou com­ponentes. O eu material consiste de tudo que chamamos de pessoal, como nosso corpo, família, lar, ou estilo de se vestir. Ele achava que a nossa escolha de roupa é particularmente importante. Escreveu ele que "o velho ditado que diz que uma pessoa é composta de três partes - alma, corpo e roupas - é mais do que piada. Nós nos apropriamos de nossas roupas e nos identificamos com elas" (James, 1890, v. 1, p. 292). O eu social refere-se ao reconhe­cimento que obtemos por meio de outras pessoas. James salientou que temos muitos eus sociais; apresentamos diferentes lados de nós mesmos a diferentes pessoas. Por exemplo, você provavelmente se comporta de modo diferente com seus pais, com conhecidos ou com amantes. Cada um o verá de modo diferente. O terceiro componente, o eu espiritual, refere-se ao nosso ser interior ou subjetivo.

Os psicólogos têm sugerido que nossa escolha de roupa e modo de se vestir influen­ciam e refletem não só nosso eu material, como James acreditava, mas também o social e o espiritual. Além disso, o modo como somos vistos, reconhecidos e julgados por outras pessoas pode ser influenciado pelo modo como nos vestimos. Assim sendo, as roupas podem ser uma forma de autoexpressão, tal como parece ter sido para James.

Ele tendia a se vestir de uma maneira notadamente diferente da norma para sua posição e classe social. Dava preferência a gravatas-borboleta de bolinha e calças xadrez, com cores bem vivas, definitivamente um "desvio do padrão educado" (Watson, 2004, p. 218). Ele era considerado "bastante conspícuo na sua maneira de se vestir", contrário aos padrões da moda da época. Obviamente ele queria se sobressair na multidão.

Hmmmm. O que você está usando?

O Hábito
O capítulo do livro The principies que trata do hábito reafirma o interesse de James pelas influências psicológicas. Ele descreve todas as criaturas vivas como um "pacote de hábitos" (James, 1890, v. 1, p. 104). As atitudes repetitivas ou habituais envolvem o sistema nervoso e servem para aumentar a plasticidade da matéria neural. Como consequência, os hábitos facilitam a execução das subsequentes repetições e exigem menor atenção consciente.

Os hábitos têm enormes implicações sociais, como exemplifica o trecho a seguir.

O hábito (...) per se é o que nos mantém dentro dos limites da ordem. (...) Ele nos conde­na a lutar a batalha da vida de acordo com as orientações da nossa criação ou da nossa escolha inicial e a fazer o melhor de uma atividade, mesmo que nos desagrade, porque não há outra para a qual estamos aptos e é tarde demais para recomeçar (...)

Já com 25 anos é possível enxergar o tipo profissional de um jovem representante comercial, do jovem médico, ministro ou advogado. É possível enxergar as tênues linhas divisórias do caráter, das elaborações do pensamento, dos preconceitos (...) das quais logo o homem não consegue mais escapar, assim como são inevitáveis as marcas deixadas pelo tempo. No final, é melhor que ele não escape e que, para o bem da humanidade, a maio­ria de nós, aos 30 anos, já tenha o caráter solidificado e que nunca mais volte a amolecer. (James, 1890, v. 1, p. 121)

A obra The principies exerceu grande influência na psicologia estadunidense e, mesmo pas­sado um século, a sua publicação foi alvo de elogios (Donnelly, 1992; Johnson e Henley, 1990). Ela alterou a visão de milhares de alunos e inspirou psicólogos a transferirem o enfoque da nova ciência da psicologia da perspectiva estruturalista para a fundação for­mal da escola de pensamento funcionalista.

A Desigualdade Funcional das Mulheres

Mary Whiton Calkins (1863-1930)

James foi o grande responsável pelos estudos de pós-graduação de Mary Whiton Calkins, ajudando-a a vencer as barreiras do preconceito e da discriminação. Calkins acabou desen­volvendo a técnica da associação de pares usada no estudo da memória, além de haver contribuído de forma significativa e duradoura para a psicologia (Madigan e O'Hara, 1992). Foi a primeira mulher a tornar-se presidente da APA e, em 1906, ocupava a 12ª colocação entre os 50 psicólogos mais importantes dos Estados Unidos, reconhecimento muito sig­nificativo por parte dos colegas a uma pessoa a quem havia sido recusada a concessão do título de Ph.D. (Furumoto, 1990).

A Harvard University nunca aceitou sua matrícula formal, mas William James a recebia de braços abertos nos seus seminários e pressionava a universidade a conceder-lhe a graduação. Quando a direção recusou-se a fazê-lo, James escreveu a ela, dizendo que bastava "produzir explosivos juntando você e todas as mulheres. Tenho esperanças e acredito que a sua dedicação acabará explodindo a barreira" (James, apud Benjamin, 1993, p. 72). Apesar dos esforços de James, Harvard recusava-se a conceder o doutorado a uma mulher, embora o teste de Calkins
(ministrado informalmente por James e outros docentes) fosse considerado "o mais brilhante exame de Ph.D. até então realizado em Harvard” (James, apud Simon, 1998, p. 244).

Sete anos depois, quando Calkins estava lecionando na Wellesley e realizando a sua pesquisa a respeito da memória, Harvard ofereceu-lhe a graduação da Radcliffe College, criada pela Harvard para oferecer cursos de graduação para as mulheres. Ela recusou, pois havia completado as exigências de graduação na Harvard e não na Radcliffe. A Harvard a discriminava apenas por ser mulher e ignorou várias solicitações suas de graduação para a qual havia completado todos os requisitos. Acabou obtendo uma graduação honorária da Columbia University (Denmark e Fernandez, 1992). Harvard não concedeu diplomas de doutorado a mulheres antes de 1963.

A experiência de Calkin é um exemplo da discriminação sofrida pelas mulheres que almejavam a educação superior, condição que persistiu até o século XX. Ainda assim Calkm considerava-se privilegiada, quando se comparava às mulheres das gerações anteriores que jamais foram admitidas nas universidades. As mulheres foram tradicionalmente excluídas da maioria das áreas acadêmicas das faculdades e universidades europeias e estadunidenses. Quando Harvard foi fundada, em 1636, não aceitava alunas. Somente depois da decada de 1830 algumas faculdades estadunidenses relaxaram a sua proibição e admitiam mulheres para o curso de graduação.

A primeira razão alegada para essa restrição era a crença generalizada na chamada superioridade intelectual masculina. Como afirmava esse argumento, embora certas mulheres recebessem as mesmas oportunidades educacionais dadas aos homens, as deficiências intelectuais femininas inatas não permitiam que tirassem proveito dos benefícios. Muitos cientistas importantes do século XIX, como Darwin, e a maioria dos cientistas da época concordavam com essa visão.

Hoje, a maioria dos estudantes formados e que obtiveram Ph.D. em psicologia são mulheres, assim com a maioria dos estudantes de graduação e pós-graduação na área. No entanto, vimos que o homem dominou a história da psicologia. Apenas para relembrar, Margaret Washburn não pode matricular-se na Columbia University porque era mulher. Somente depois de 1892 as universidades de Yale e de Chicago e mais algumas outras instituições aceitaram a matrícula de mulheres nos cursos de graduação. Por cerca de 20 anos após a fundação formal da Psicologia como disciplina científica, as mulheres enfrentaram barreiras para tornarem-se psicólogas e para contribuírem de forma signifi­cativa para o desenvolvimento do campo.

Grande parte do mito da superioridade intelectual do homem surgiu da chamada hipótese da variabilidade, baseada nas ideias de Darwin a respeito da variabilidade masculina. Darwin descobriu que em diversas espécies o macho demonstrava uma variedade mais ampla de desenvolvimento das características físicas e das habilidades do que as fêmeas. As características e habilidades femininas encontravam-se concentradas em torno de um valor médio. Acreditava-se que essa tendência mediana feminina fazia com que a mulher se beneficiasse menos da educação formal e tivesse menos possibilidade de êxito no trabalho intelectual ou de pesquisa. Faltava apenas um passo para supor que o cérebro masculino fosse mais evoluído do que o feminino. Em virtude da grande variedade de talentos demonstrada pelo homem, acreditava-se estar ele mais apto a se adaptar e tirar proveito dos diversos ambientes desafiadores. Dessa forma a mulher era considerada inferior ao homem, tanto nas qualidades mentais como nas físicas necessárias para se obter exito na adaptação às exigências do ambiente. Como consequência a ideia da desigualdade funcional entre os sexos foi amplamente aceita. 

Uma teoria popular a esse respeito afirmava que a mulher exposta à educação superior alem da formação básica sofreria de danos físicos e emocionais. Alguns psicólogos alegavam que a mulher com nível de educação superior colocava em risco as condições biológicas necessárias para a maternidade, interrompendo o ciclo menstrual e enfraquecendo o instinto maternal. Um psicólogo chegou a afirmar que, se a mulher desejasse algum tipo de educação, "que fosse educada para a maternidade" (G. S. Hall, apud Diehl, 1986, p. 872).

Um professor da escola de medicina de Harvard declarou que a educação produzia na mulher "cérebros monstruosos e corpos franzinos; atividade cerebral anormal e diges­tão extremamente deficiente; raciocínios dispersos e mal funcionamento do intestino (E. Clarke, apud Scarborough e Furumoto, 1987, p. 4). O professor também advertiu: "A igualdade da educação entre os sexos é um crime perante Deus e a humanidade" (Clarke,
1873, p. 127).

Nos primeiros anos do século XX, duas psicólogas obtiveram êxito ao desafiarem a ideia da desigualdade funcional entre os sexos. Utilizando as técnicas empiristas da psicologia funcional, Helen Bradford Thompson Woolley e Leta Stetter Hollingworth demonstraram que Darwin e os demais estavam equivocados a respeito da mulher.

Helen Bradford Thompson Woolley ( 7874-1947)

Helen Bradford Thompson Woolley nasceu em Chicago, em 1874. Seus pais apoiavam a ideia da educação das mulheres e as três filhas da família Thompson frequentaram a faculdade. Helen Thompson formou-se na University of Chicago, em 1897, e recebeu o Ph.D. em 1900. Seus principais professores foram James Rowland Angell e John Dewey, o qual a considerava uma de suas alunas mais brilhantes (apud James, 1994). Depois de completar a pós-graduação com bolsa de estudos em Paris e em Berlim, tornou-se diretora do laboratório de psicologia da Mount Holyoke College, em Massachusetts.

Casou-se com o médico Paul Woolley e acompanhou-o às Filipinas, onde ele foi dire­tor de um laboratório. Em 1908, o casal mudou-se para Cincinnati, em Ohio, onde Helen aceitou a direção do departamento vocacional do ensino público, preocupada com as questões do bem-estar das crianças. Suas pesquisas acerca do efeito do trabalho infantil provocaram mudanças nas leis trabalhistas estaduais (em vários estados, crianças de ape­nas 8 anos trabalhavam, cumprindo uma jornada diária de 10 horas de trabalho, 6 dias por semana. Em poucos estados existiam leis de proteção referentes à idade, à jornada de trabalho e ao salário mínimo infantil). Em 1921, Helen atuou como presidente da National Vocacional Guidance Association [Associação Nacional de Orientação Vocacional].

Naquele ano, sua família mudou-se para Detroit, em Michigan, e ela foi trabalhar no Merrill-Palmer Institute [Instituto Merrill-Palmer], onde criou um programa de educação infantil para estudar o desenvolvimento e as habilidades mentais das crianças. Em 1924, tornou-se diretora do novo Institute of Child Welfare Research [Instituto de Pesquisa do Bem-estar Infantil] da Columbia University e prosseguiu no seu trabalho sobre a aprendi­zagem na primeira infância, a educação vocacional e a orientação educacional.

A apresentação da dissertação de doutorado de Helen Woolley na University of Chi­cago foi o primeiro teste experimental do conceito darwiniano da inferioridade biológica da mulher em relação ao homem, ideia considerada, na época, tão óbvia que dispensava qualquer comprovação científica (James, 1994). Ela aplicou um teste em 25 homens e 25 mulheres para medir a habilidade motora, os limiares sensoriais (paladar, olfato, audição, visão e tato), a capacidade intelectual e os traços de personalidade.

Os resultados revelaram não haver diferenças no funcionamento emocional entre homens e mulheres e apenas uma diferença insignificante na capacidade intelectual. Os dados também mostraram pequena superioridade das mulheres em habilidades como a memória e a percepção sensorial. Woolley deu um passo inédito ao atribuir as dife­renças aos fatores ambientais e sociais - às diferentes práticas na criação da criança e às expectativas distintas para os meninos e as meninas - e não às determinantes biológicas (Rossiter, 1982).

Woolley publicou os resultados em The mental traits of sex: an experimental investigation of the normal mind in men and women (Thompson, 1903). Suas conclusões não foram bem recebidas pelos psicólogos masculinos do meio acadêmico. G. Stanley Hall acusou-a de atribuir uma interpretação feminista aos dados (Hall, 1904). O fato de ser uma mulher a autora da pesquisa que demonstra não haver inferioridade biológica da mulher em rela­ção ao homem produz, de alguma forma, resultados distorcidos ou tendenciosos (James, 1994). Mais tarde, ela escreveu mais dois trabalhos a respeito da crescente literatura de pesquisa sobre a psicologia das diferenças entre os sexos para a renomada revista Psychological Bulletin (Woolley, 1910, 1914).

Durante 30 anos, Woolley trabalhou como professora, pesquisadora e orientadora de psicólogas nas áreas do desenvolvimento e da educação infantil. Quando a saúde precária e o traumático divórcio forçaram-na à aposentadoria precoce, o foco da psicologia feminina passou para outras mãos.

Leta Stetter Hollingworth (1886-1939)

Leta Stetter cresceu em Nebraska em uma família de meios financeiros limitados. Sua casa era uma cabana de barro e frequentava uma escola de uma única sala. Aos 3 anos, sua mãe faleceu e seu pai a deixou para ser criada pelos avós. Quando reapareceu, 10 anos mais tarde, ele a tirou daquele lar seguro e a levou para morar com ele e sua esposa, que a tratava mal. Ela jamais o perdoou. Apesar desse início pouco promissor, ela se matriculou e formou-se, com louvor, na University of Nebraska, em 1906. Foi professora do ensino médio por dois anos, enquanto o seu noivo, Harry Hollingworth, completava o doutorado em psicologia, sob a orientação de James McKeen Cattell na Columbia University. Leta e Harry casaram-se em 1908. Ele lecionava na Barnard College, na cidade de Nova York, mas, para sua surpresa e decepção, havia uma lei que proibia a mulher casada de lecionar em escolas públicas.

Ela passou a escrever ficção, mas não conseguiu encontrar uma editora para publicar seus contos. Sem encontrar uma saída para seu talento e energia, ela tornou-se triste e amarga. Harry posteriormente escreveu que Leta "inesperadamente costumava irromper em lágrimas (...) Depois dizia que não conseguia aceitar o fato de ser forte e capaz, com uma boa mente e educação sólida, e ainda assim ser incapaz de contribuir materialmente para seu bem-estar" (apud Klein, 2002, p. 65).

O casal vivia com poucos recursos financeiros, e então Harry aceitou atuar como consultor a fim de guardar dinheiro para que Letta pudesse avançar em seus estudos. Em 1916, ela obteve seu Ph.D. da Teacher's College da Columbia University, onde teve a oportunidade de estudar com Edward L. Thorndike, e trabalhou como psicóloga do governo da cidade de Nova York. Cinco anos depois, ela foi citada na publicação American Men of Science por suas contribuições à psicologia da mulher.

Lreta Hollingworth realizou ampla pesquisa empírica a respeito da hipótese da variabilidade, o conceito de que, em relação ao funcionamento físico, psicológico e emocional, as mulheres constituíam um grupo mais homogêneo e mediano do que os homens, demonstrando, assim, menor variação. A pesquisa de Hollingworth, entre 1913 e 1916, se concentrou no funcionamento físico, sensorial e motor e nas habilidades intelectuais de diversos tipos de pessoas, como crianças, estudantes universitários do sexo masculino e do feminino, mulheres no período menstrual (quando se presume que suas condições emocionais e mentais sejam afetadas pelos processos naturais do corpo). Seus dados desmentiram a hipótese da variabilidade e outras noções de inferioridade feminina. Por exemplo, ela constatou, ao contrário do que se afirmava havia muito tempo, que o ciclo menstrual não estava relacionado com os desempenhos deficientes das habilidades moto­ras e perceptuais ou das capacidades intelectuais (Hollingworth, 1914).

Mais tarde, ela desafiou o conceito de instinto inato da maternidade, questionando a noção de que a mulher atingia a plena satisfação somente sendo mãe e descartou o con­ceito de que o desejo da mulher de obter êxito em outros campos, que não no casamento ou na constituição de família, fosse anormal ou não-saudável. Ela sugeriu não serem os fatores biológicos e sim as atitudes sociais e culturais que exerciam influência, impedin­do as mulheres de se tornarem membros mais ativos na sociedade (Benjamin e Shields, 1990; Shields, 1975). Hollingworth também alertou as orientadoras vocacionais a não conduzirem as mulheres no sentido de restringir suas aspirações apenas às áreas conside­radas socialmente aceitas como a maternidade ou o trabalho doméstico, nas quais não há reconhecimento. E afirmou: “Ninguém conhece a melhor dona de casa estadunidense . Dona de casa famosa não existe e nem pode existir" (apud Benjamin e Shields, 1990, p. 177).

Leta Hollingworth também contribuiu de forma significativa para a psicologia clíni­ca, educacional e acadêmica, principalmente em relação às necessidades emocionais e educacionais das crianças denominadas "talentosas", termo cunhado por ela (Benjamin, 1975). Apesar da quantidade e da qualidade das suas pesquisas, nunca conseguiu apoio para realizar os trabalhos (Hollingworth, 1943). Participou ativamente do movimento pelo sufrágio feminino, realizando campanhas em favor do direito ao voto feminino (finalmente aprovado em 1920) e participando de manifestações e comícios em Nova York. Ela faleceu relativamente jovem, aos 53 anos de idade, de câncer no estômago, "o qual por razões inexplicáveis, suportou sozinha e escondeu de todos por 10 anos" (Stanley e Brody, 2004, p. 4).

Granville Stanley Hall (1844-1924)

Embora William James tenha sido o primeiro psicólogo famoso, verdadeiramente estadunidense, o tremendo desenvolvimento da psicologia nos Estados Unidos entre 1875 e 1900 não se deu unicamente pelo seu trabalho. Outra figura notável na história da psicologia dos Estados Unidos, e um contemporâneo digno e influente de James, foi G. Stanley Hall.

Este colecionou um registro surpreendente das primeiras posições na psicologia estadunidense. Recebeu o primeiro título de doutorado em psicologia, e alegava ter sido o primeiro aluno estadunidense no primeiro ano do primeiro laboratório de psicologia. Hall deu início ao que frequentemente é considerado o primeiro laboratório de psicologia nos Estados Unidos, bem como o primeiro periódico estadunidense de psicologia. Foi o primeiro presidente de Clark University, o organizador e primeiro presidente da APA, e um dos primeiros psicólogos da psicologia aplicada.

A Biografia de Hall

Hall nasceu em uma fazenda em Massachussetts. Sua mãe era uma mulher piedosa, gentil e carinhosa; seu pai era severo e exigente, e às vezes batia no jovem Hall. Aos 14 anos, depois de ter sido esbofeteado com força por ele, "afastei-me com raiva, em parte real e - lembro-me claramente - em parte para obter um efeito, fechei meus punhos e o olhei fixamente como se estivesse fortemente tentado a retribuir o tapa. Jamais esquecerei seu olhar de espanto. Nunca apanhei de novo" (Hall, apud Hulbert, 2003, p. 53 )

Um rapaz intensamente ambicioso, Hall prometeu que "realizaria algo importante e seria reconhecido no mundo todo" (apud Ross, 1972, p. 12). Aos 17 anos de idade, ficou profundamente envergonhado quando, no início da Guerra Civil Americana, seu pai comprou sua dispensa do exército. Hall disse que devia ser punido pelo descumprimento do serviço militar obrigatório (Vande Kemp, 1992).

Em 1863, Hall ingressou no Williams College. Até a época em que se formou, havia recebido um grande número de homenagens e havia sido eleito o homem mais inteligente de sua classe. Desenvolveu um entusiasmo pela teoria evolucionista, o que influenciaria sua carreira em psicologia. Hall escreveu que "assim que ouvi a palavra 'evolução' na minha juventude, fiquei hipnotizado por ela, era como música para meus ouvidos" (Hall, 1923, p. 357). Depois de se formar, ainda não muito certo a respeito de sua vocação, matrículou-se na Union Teological Seminary em Nova York. Não tinha um comprometimento forte com o sacerdócio, e seu interesse pelo evolucionismo não era, certamente, nenhuma vantagem.

Logo se tornou evidente que não ficaria famoso pela sua ortodoxia religiosa. Conta-se que quando fez seu primeiro sermão de ensaio para o corpo docente e discípulos, o diretor do seminário ajoelhou-se e rezou pela sua alma. "Não acredito ter os requisitos para ser pregador," ele escreveu a seus pais (apud Hulbert, 2003, p. 55).

Aconselhado pelo famoso pregador Henry Ward Beecher, Hall foi para a University of Bonn, na Alemanha, para estudar filosofia e teologia. Em Berlim, acrescentou os estudos de fisiologia e física. Complementou essa fase de sua educação com visitas a teatros e cer­vejarias, experiências ousadas para um jovem oriundo de um ambiente religioso. Escreveu sobre a sua surpresa ao ver um professor de teologia bebendo cerveja em um domingo. Hall também escreveu a respeito de seus casos românticos, observando que duas das paixões que viveu revelaram capacidades em si mesmo "até então adormecidas e reprimidas e [que] consequentemente haviam tornado sua vida mais rica e significativa" (apud Lewis, 1991, p. 317). Aparentemente, sua permanência na Europa foi um período de liberação.

Relutantemente, voltou para casa em 1871, porque, como sugeriu por um biógrafo, seus pais não queriam mais financiá-lo (White, 1994). Nessa época ele tinha 27 anos, não tinha diplomas e estava bastante endividado. Terminou seus estudos no seminário (em­bora não tenha sido ordenado) e pregou em uma igreja em Cowdersport no interior da Pensilvania. abandonando o cargo somente após 10 semanas. Depois de trabalhar como tutor particular por mais de um ano, Hall conseguiu um cargo de professor em Antioch College, em Ohio. Deu aulas de literatura inglesa, língua e literatura francesa e alemã e filosofia, trabalhou como bibliotecário, liderou o coro e pregou na capela.

Em 1874, o livro de Wundt, Physiological psychology, despertou o interesse de Hall para a ciência nova, provocando incertezas adicionais a respeito de sua carreira. Pediu um afastamento de Antioch, estabeleceu-se em Cambridge, Massachusetts, e tornou-se tutor de inglês em Harvard. Iniciou estudos de pós-graduação e fez pesquisas na escola de medicina. Em 1878 apresentou sua dissertação sobre a percepção espacial e recebeu o primeiro diploma de doutorado em psicologia nos Estados Unidos.

Logo após receber seu diploma, Hall partiu de novo para a Europa, primeiro para es­tudar fisiologia em Berlim e depois para se tornar aluno de Wundt, em Leipzig, onde era vizinho de Fechner. A urgência de trabalhar com Wundt era maior do que a realidade. Embora Hall obrigatoriamente frequentasse as aulas de Wundt e servisse como sujeito no seu laboratório, ele conduziu sua própria pesquisa em fisiologia. A carreira subsequente de Hall mostra que, no final das contas, Wundt o influenciou muito pouco.

Dois anos mais tarde, quando Hall voltou aos Estados Unidos, ele não tinha nenhuma perspectiva de emprego, mas ainda assim, em 10 anos tornou-se uma figura de importância nacional. Hall identificou que a possibilidade de satisfazer sua ambição estava na aplicação da psicologia à educação. Em 1882 ele proferiu uma palestra em uma reunião da National Education Association (NEA) insistindo sobre a ideia de que o estudo psicológico de crianças fosse o componente importante da pedagogia. Repetia essa mensagem sempre que tinha a oportunidade. O presidente de Harvard o convidou a dar uma série de aulas sobre educação aos sábados de manhã. Essas palestras renderam a Hall uma publicidade muito favorável e um convite para lecionar meio período na Johns Hopkins University, a qual havia se estabelecido em Baltimore cinco anos antes como a primeira escola de pós-graduação nos Estados Unidos.

As aulas de Hall tiveram grande sucesso, e lhe foi oferecido um cargo de professor em Hopkins. Em 1883, ele inaugurou formalmente o primeiro laboratório de psicologia estadunidense, que costumava chamar de seu "laboratório de psicofisiologia" (Pauly, 1986, p. 30). Deu aula a um grupo de alunos que posteriormente se tornaram psicólogos famosos, entre eles John Dewey e James McKeen Cattell.

Em 1887, Hall fundou o American Journal o f Psychology, o primeiro periódico de psico­logia nos Estados Unidos e que até hoje é considerado uma publicação importante. Esse periódico serviu como uma plataforma para ideias teóricas e experimentais e para orientar a psicologia norte-americana ruma à solidariedade e independência. Devido ao grande entusiasmo, Hall imprimiu um número excessivo de cópias do primeiro número; levou cinco anos para pagar esses custos iniciais.

No ano seguinte, Hall tornou-se o primeiro presidente de Clark University, em Worcester, Massachusetts. Antes de iniciar o trabalho, embarcou para uma longa viagem com o objetivo de conhecer as universidades europeias e contratar o corpo docente de sua nova escola. Um escritor, ao escrever sobre os 100 primeiros anos da história de Clark University, observou que a viagem de Hall serviu como "férias remuneradas por serviços ainda não prestados. (...) incluía uma série de paradas totalmente irrelevantes para a tarefa futura, tais como academias militares na Rússia, lugares históricos na Grécia, além de bordéis, circos e outras curiosidades” (Koelsch, 1987, p. 21).

Hall aspirava fazer de Clark uma universidade de pós-graduação como Johns Hopkins e as universidades alemãs, enfatizando mais pesquisa do que o ensino. Além de presidente, foi também professor de psicologia, e deu aulas no curso de pós-graduação. Publicou por conta própria o periódico Pedagogical Seminary (atualmente Journal of Genetic Psychology), para servir de vínculo para as pesquisas sobre psicologia infantil e educacional. Em 1915 ele fundou o Journal of Applied Psychology, elevando o número de periódicos de psicologia norte-americana para 16.

A APA foi organizada em 1892, em grande parte pelos esforços de Hall. Aproximadamente doze psicólogos aceitaram seu convite para reunir em sua casa e planejar a organização, e o elegeram primeiro presidente. Em 1900, o grupo contava com 127 membros.

Hall manteve seu interesse pela religião. Fundou a Clark School of Religious Psychology e deu início ao Journal of Religious Psychology (1904), que foi publicado durante uma década. Escreveu um livro chamado Jesus, the Christ, in the light of psychology, mas sua visão de Jesus como um tipo de "super-homem adolescente" não foi muito bem recebida pela religião organizada (Ross, 1972).

Hall foi um dos primeiros psicólogos estadunidenses a se interessar pela psicanálise freudiana e foi o responsável, em grande parte, pela atenção inicial que o sistema de Sigmund Freud recebeu nos Estados Unidos. Em 1909, para celebrar os vinto anos da Clark University, Hall convidou Freud e Carl Jung para participarem das conferências comemorativas, convite corajoso porque muitos cientistas suspetaivam da psicanálise. Hall havia convidado inicialmente seu antigo professor, Wilhelm Wundt, que recusou por causa da sua idade e porque seria o palestrante principal da comemoração dos 500 anos de sua universidade em Leipzig.

A psicologia na Clark prosperou sob o comando de Hall. Nos 36 anos que passou lá, foram concedidos 81 diplomas de doutorado em psicologia. Seus alunos se lembram de seminários exaustivos, mas divertidos, às segundas-feiras, à noite, na casa de Hall, quando ele, o corpo docente e outros alunos de pós-graduação, examinavam oralmente os candidatos a doutorado. Depois dessas reuniões, que duravam até quatro horas, um empregado trazia uma enorme taça de sorvete.

Os comentários que Hall escrevia nos trabalhos de seus alunos podiam ser devastadores. Lewis Terman se lembra que:

Hall resumia as coisas com uma erudição e fertilidade de imaginação que sempre nos surperendia e fazia com que sentissemos que seu insight improvisado sobre o problema ia muito além do que o do aluno que havia dedicado meses de trabalho escravo. Sempre voltava para casa sentindo-me ofuscado e intoxicado, tomava um banho quente para acalmar meus nervos, e depois me deitava acordado por horas ensaiando o drama e formulando as coisas inteligentes que poderia ter dito, mas não o fiz (Terman, 1930/1961, p. 316).

Hall sempre dava preferência aos alunos inteligentes, desde que fossem adequadamente diferenciados, sendo muitas vezes generoso e encorajador. Pode-se afirmar que a maioria dos psicólogos estadunidenses associou-se a Hall na Clark ou Johns Hopkins, embora ele não tenha sido a fonte principal de inspiração para todos eles. Sua influência pessoal reflete-se melhor no fato de que um terço de seus alunos de doutorado seguiu carreira nas áreas administrativas da faculdade.

Hall tornou a Clark University mais receptiva às mulheres e minorias do que a grande parte das escolas dos Estados Unidos naquela época. Embora compartilhasse da oposição nacional à coeducação para alunos universitários, ele prontamente admitia mulheres como alunas de pós-graduação e como assistente para trabalhos de pesquisa. Tomou uma atitude pouco comum ao encorajar alunos japoneses a se matricularem na Clark e se recusava a restringir a contratação de judeus para o corpo docente como aconteceu na maioria das outras universidades. Também encorajou negros a fazerem o curso de pós-graduação.

O primeiro afro-americano a conseguir um Ph.D. em psicologia, Francis Cecil Sumner, estudou com Hall. Sumner posteriormente tornou-se diretor do departamento de psicologia em Howard University, em Washinghton DC, onde deu início a um programa acadêmico forte para introduzir negros na área de psicologia (Dewsbury e Pickren, 1992). Além disso, Sumner traduziu milhares de artigos de periódicos do alemão, francês e espa­nhol e escrevia resumos sobre eles para os periódicos de psicologia estadunidenses.

Depois que Hall se aposentou da Clark, em 1920, continuou a escrever. Morreu quatro anos mais tarde, alguns meses depois de eleito para o segundo mandato como presidente da APA. Uma pesquisa entre os participantes da APA sobre as contribuições de Hall para a psicologia mostrou que, entre as 120 pessoas que responderam à pesquisa, 99 classificaram Hall entre os 10 melhores psicólogos de todos os tempos. Muitos elogiaram sua capacidade como professor, seus esforços para promover a psicologia e seu desafio à ortodoxia, mas eles, bem como outras pessoas que o conheciam bem, criticavam suas qualidades pessoais. Hall era descrito como difícil, desonesto, inescrupuloso, divergente e que se autopromovia com agressividade. William James o chamou de "uma mistura muito estranha de grandeza e insignificância como jamais conheci" (apud Myers, 1986, p. 18). Mas até seus críticos concordavam com os resultados da pesquisa: "Hall produziu um grande número de trabalhos escritos e pesquisas, mais do que qualquer um dos outros três grandes nomes na área" {apud Koelsch, 1987, p. 52).

Evolução e Recapitulação da Teoria do Desenvolvimento

Embora Hall estivesse interessado em muitas áreas, seu percurso intelectual tinha um tema somente - a teoria evolucionista. Seu trabalho era governado pela convicção de que o crescimento normal da mente envolvia uma série de fases evolucionárias.

Hall frequentemente é chamado de psicólogo genético devido à sua preocupação com o desenvolvimento humano e animal e os problemas relacionados à adaptação. Enquanto esteve na Clark, seus interesses genéticos o levaram ao estudo psicológico da infância, onde baseou sua psicologia. Em um discurso proferido em 1893, na Feira Mundial de Chicago, ele disse: "Até agora temos ido à Europa para a nossa psicologia. Agora, vamos pegar uma criança e colocá-la em nosso meio e vamos fazer nossa própria psicologia nos Estados Unidos" (apud Siegel e White, 1982, p. 253). Hall pretendia aplicar sua psicologia ao funcionamento da criança no mundo real. Um aluno seu habilmente relembrou que "A criança tornou-se o laboratório de Hall" (Averill, 1990, p. 127).

Ao conduzir sua pesquisa, Hall fez uso extensivo de questionários, um procedimento que havia aprendido na Alemanha. Hall e seus alunos desenvolveram e administraram 194 questionários observando diferentes tópicos (White, 1990). Durante um tempo, o método tornou-se associado ao nome de Hall nos Estados Unidos, embora a técnica tivesse sido desenvolvida anteriormente na Inglaterra por Francis Galton.

Os primeiros estudos sobre crianças entusiasmaram o público em geral e levaram à formalização do movimento de estudo da criança. Entretanto, essa abordagem desapare­ceu em poucos anos devido à pesquisa mal executada. As amostragens de sujeitos eram inadequadas, os questionários eram falhos, os coletores de dados não tinham treinamento adequado, e os dados eram mal analisados - um esforço considerado como "psicologia muito pobre, imprecisa, inconsistente e mal orientada" (Thorndike, apud Berliner, 1993, p. 54). Apesar dessa crítica merecida, o movimento do estudo da criança promoveu tanto seu estudo empírico como o conceito de desenvolvimento psicológico.

O trabalho mais influente de Hall é Adolescence: its psychology and its relations to physiology anthropology sociology, sex, crime, religion, and education (1904) com 1.300 páginas, em dois volumes. Essa enciclopédia contém a mais completa declaração de Hall sobre a teoria da recapitulação do desenvolvimento psicológico. Em essência, Hall afirmou que as crianças, no seu desenvolvimento pessoal, repetem a história de vida da raça humana, evoluindo de um estágio próximo ao selvagem quando bebês e durante a infância, até um ser humano racional e civilizado na fase adulta.

O livro Adolescence tornou-se controvertido porque alguns psicólogos consideraram que a obra apresentava um enfoque excessivo e entusiasmado em sexo; Hall foi acusado de ter interesses lascivos. O psicólogo E. L. Thorndike escreveu em um comentário sobre o livro: "Aos sentimentos, normais e mórbidos, que resultam do sexo, são discutidos de um modo sem precedente na ciência inglesa." Thorndike foi ainda mais severo em uma carta que escreveu a um colega, dizendo que o livro de Hall "estava cheio de erros, masturbação e Jesus. Ele é um louco" (apud Ross, 1972, p. 385). Hall havia também programado uma série de palestras sobre sexo na Clark, uma atitude considerada escandalosa, embora não se permitisse a participação de mulheres. Posteriormente ele teve que interromper essas palestras, pois "muitos estranhos entravam e até ouviam por trás da porta" (Koelsch, 1970, p. 119). Não existe uma maneira de desviar a atenção de Hall desse período de cio?" escreveu Angell para Titchener. "Realmente acho que é uma coisa moral e intelectualmente errada harpear tanto na corda sexual" (apud Boakes, 1984, p. 163). Os psicólogos colegas de Hall não precisavam ter se preocupado; o Hall produtivo e cheio de energia logo voltou-se para outros interesses. À medida que envelheceu, naturalmente se tornou curioso a respeito das fases tardias do desenvolvimento humano. Aos 78 anos, ele publicou Senescence (1922), a primeira pesquisa em larga escala sobre assuntos psicológicos da velhice. Nos últimos anos de vida, escreveu duas autobiografias, Recreations of a psychologist (1920) e The life and confessions of a psychologist (1923).

Comentários

Certa vez Hall foi apresentado a uma plateia como o Darwin da mente. A caracterização evidentemente o agradou e expressou suas aspirações e a atitude que permeou seu trabalho. Em outra ocasião foi apresentado como "a maior autoridade no mundo sobre o estudo da criança," e esse elogio foi considerado correto (Koelsch, 1987, p. 58). Em sua segunda au­tobiografia ele escreveu: "Toda minha vida ativa consciente foi formada por uma série de modas ou loucuras, algumas fortes, outras fracas; algumas de longa duração (...) e outras efêmeras" (1923, p. 367-368). Foi uma observação perceptiva. Hall era corajoso, versátil e agressivo, frequentemente entrava em disputa com colegas, mas jamais foi enfadonho.


A Fundação do Funcionalismo

Os estudiosos relacionados com a fundação do funcionalismo não ambicionavam iniciar uma nova escola de pensamento. Eles apenas protestavam contra as restrições e limitações da psicologia de Wundt e do estruturalismo de Titchener e não desejavam substituí-los com outro "ismo" formal. A primeira razão era pessoal e não ideológica, já que nenhum dos principais proponentes do funcionalismo ambicionava estabelecer um movimento, do modo como fizeram Wundt e Titchener. Naquela época, o funcionalismo incorporava diversas características de uma escola de pensamento, mas esse não era o objetivo dos líderes. Eles pareciam satisfazer-se apenas em modificar a ortodoxia existente, sem lutar ativamente para substituí-la.

Desse modo, o funcionalismo jamais se constituiu em uma posição sistemática rígida ou diferenciada formalmente como o estruturalismo de Titchener. Não houve uma psicologia funcional única, assim como houve uma psicologia estrutural única. Várias psicologias fun­cionais coexistiram e, embora apresentassem algumas diferenças, todas compartilhavam o interesse no estudo das funções da consciência. Posteriormente, como resultado dessa ênfase nas funções mentais, os funcionalistas interessaram-se pelas possíveis aplicações da psicolo­gia aos problemas cotidianos em relação ao comportamento e à adaptação do homem nos diferentes ambientes. A rápida evolução da psicologia aplicada nos Estados Unidos pode ser considerada a herança mais importante do movimento funcionalista (veja no Capítulo 8).

Paradoxalmente, a formalização desse movimento de protesto foi imposta pelo funda­dor do estruturalismo: E. B. Titchener. Ele fundou indiretamente a psicologia funcional, ao adotar a palavra "estrutural" em oposição a "funcional" no artigo "The postulates of a structural psychology" ("Os postulados da psicologia estrutural" ) publicado na Philosophical Review em 1898. Nesse artigo, Titchener ressaltou as diferenças entre a psicologia fun­cional e a estrutural e argumentou que o estruturalismo era o único estudo adequado de psicologia.

Ao estabelecer o funcionalismo como oposição, Titchener sem querer ofereceu-lhe uma identidade e um status que talvez nunca viesse a obter. "O que Titchener estava cri­ticando, na verdade, não tinha nome, até ele batizá-lo; a partir de então, ele deu impulso ao movimento, destacando e divulgando o termo funcionalismo, que acabou tornando-se conhecido" (Harrison, 1963, p. 395).

A Escola de Chicago

Nem todo o crédito pela fundação do funcionalismo deve-se a Titchener, mas os psicólo­gos que a história batizou de fundadores da psicologia funcional foram, no máximo, fun­dadores relutantes. Dois psicólogos que contribuíram diretamente na fundação da escola de pensamento funcionalista foram John Dewey e James Rowland Angell. Em 1894, eles chegaram à recém-criada University of Chicago; mais tarde, foram capa da revista Time.

Foi nada menos do que William James a anunciar posteriormente Dewey e Angel como responsáveis pela fundação do novo sistema que ele designou a "escola de Chicago" (in Backe, 2001, p. 328).

John Dewey (1859-1952)

John Dewey teve uma infância comum e não demonstrava grande capacidade intelectual até começar a frequentar a University of Vermont. Depois de se formar, lecionou no ensino médio durante alguns anos e estudou filosofia por conta própria, escrevendo alguns artigos acadêmicos. Iniciou a pós-graduação na Johns Hopkins University, em Baltimore, comple­tando o doutorado em 1884. Lecionou nas universidades de Michigan e Minnesota. Em 1886 publicou o primeiro manual estadunidense com base na nova psicologia (adequada­mente intitulado Psicologia) que teve grande sucesso nos Estados Unidos e Europa. Com isso Dewey adquiriu fama instantânea, pois era o único livro disponível adequado para o ensino nas universidades estadunidenses" (Martin, 2002, p. 105). O livro foi bastante popular até ser ofuscado em 1890 por The principies of psychology de James.

Dewey permaneceu 10 anos na University of Chicago. Criou a escola-laboratório, uma inovação radical na educação que se tornou um marco do movimento educacional progres­sivo. Em 1904, foi para a Columbia University, em Nova York, onde prosseguiu com seu trabalho de aplicação da psicologia aos problemas educacionais e filosóficos, tornando-se, assim, outro exemplo da orientação prática de vários psicólogos funcionalistas.
Apesar de brilhante, Dewey não era bom professor. Um de seus alunos lembrou-se de que ele usava uma boina verde.

Ele entrava [na classe], sentava-se à mesa e colocava a boina à sua frente, falando sempre no mesmo tom de voz, como se estivesse dando aula para a boina. (...) Era inevitável que muitos alunos caíssem no sono. Todavia, se você fosse capaz de prestar atenção ao que ele falava, realmente valia a pena! (May, 1978, p. 655)

Frequentemente sua aula da tarde continuava além do horário, pois ele ficava muito en­volvido no assunto. Sua esposa costumava mandar um de seus filhos até a sala de aula para lembrá-lo que era hora de ir para casa. Geralmente "colocava a criança sentada na mesa enquanto terminava seu pensamento" (Martin, 2002, p. 259).

Arco Reflexo

O artigo de Dewey “The reflex arc concept in psychology" ("O conceito do arco reflexo na psicologia ), publicado na Psychological Review (1896), foi o ponto de partida da psicolo­gia funcional. Realmente, um historiador afirmou ter sido o artigo o "tiro inaugural" do movimento funcionalista (Bergmann, 1956, p. 268). Ele se tornou tão popular que foi votado como o "artigo mais importante publicado nos primeiros 50 volumes da Psychological Review" (Backe, 2001, p. 329).

Nesse importante trabalho, Dewey criticava o aspecto molecular, elementar e reducionista psicológico do arco reflexo, devido à sua distinção entre o estímulo e a respos­ta. Por meio dessa crítica, Dewey alegava não ser possível reduzir o comportamento ou a experiência consciente aos seus elementos componentes, como afirmavam Wundt e Titchener. Assim, Dewey atacava o ponto principal das suas abordagens da psicologia. Os proponentes do arco reflexo argumentavam que qualquer unidade de comportamento extingue a resposta a um estímulo, por exemplo, quando a criança afasta a mão do fogo.

Dewey sugeria que o reflexo formava mais um círculo do que um arco, já que a percepção da criança sobre a chama muda, servindo, assim, a diferentes funções. Inicialmente, a chama atrai a criança, mas, logo em seguida, ao sentir seus efeitos repele o fogo. A resposta altera a percepção da criança sobre o estímulo (a chama). Portanto, a percepção e o movimento (o estímulo e a resposta) devem ser vistos como uma unidade e não como uma composição de sensações e respostas individuais.

Assim, Dewey argumentava não ser possível a redução do comportamento envolvido na resposta reflexiva a elementos sensório-motores básicos, assim como era impossível anali­sar de forma adequada a consciência, dividindo-a em partes componentes elementares. Esse tipo de analise e redução artificiais faz com que o comportamento perca todo o sentido, deixando apenas abstrações na mente do psicólogo que está realizando o exer­cício. Dewey observou que o comportamento não deve ser tratado como um constructo científico artificial, mas em termos de seu significado para o organismo, na adaptação ao ambiente. Ele concluiu que o objeto de estudo mais adequado para a psicologia seria a analise do organismo inteiro e o seu funcionamento no ambiente.

Comentários

O evoluciomsmo exerceu grande influência sobre as ideias de Dewey. Na luta pela sobre­vivência, tanto a consciência como o comportamento trabalham para o organismo - a consciência gera o comportamento adequado que permite ao organismo sobreviver. Como consequencia, a psicologia funcional dedicou-se ao estudo do organismo em fun­cionamento.

É mteressante observar que Dewey jamais chamou a sua psicologia de funcionalismo. Aparentemente, não acreditava que a estrutura e a função tivessem sentido separadamen­te apesar do seu ataque contra a premissa básica do estruturalismo. Angell e outros psicólogos ficaram encarregados de declarar que o funcionalismo e o estruturalismo eram formas contrarias de psicologia.

A importância de Dewey para a psicologia está na sua influência sobre os psicólogos e outros estudiosos e no desenvolvimento da estrutura filosófica da nova escola de pensa­mento. Quando ele deixou a University of Chicago em 1904, Angell passou a ser o líder do movimento funcionalista.

James Rowland Angell (1869-1949)

James Rowland Angell moldou o movimento funcionalista, transformando-o em uma escola de pensamento utilitária. Graças ao seu trabalho, o departamento de psicologia da University ot Chicago foi o mais importante da sua época e a principal base de orientação para os psicologos funcionalistas.

A Biografia de Angell

Angell nasceu em uma família de acadêmicos, em Vermont. Seu avô fora reitor da Brown University, em Providence, Rhode Island, e seu pai, reitor da Vermont University e depois da University of Michigan, onde Angell se formou e teve aulas com Dewey. Leu também The principies of psychology, de James, e afirmou ter sido o livro que mais influenciou seu pensamento. Angell trabalhou um ano com James, em Harvard, e obteve o mestrado em 1892.

Seguiu para a Europa para continuar seus estudos de pós-graduacão nas universi­dades de Halle e Berlim, na Alemanha. Em Berlim, assistiu às aulas de Ebbinghaus e Helmholtz. Desejava seguir para Leipzig, mas Wundt não estava mais aceitando alunos naquele ano. Angell não conseguiu completar seu trabalho de doutorado. Sua tese fora aceita mediante a condição de que a redação em alemão fosse melhorada, mas para isso teria de permanecer em Halle sem qualquer fonte de renda. Decidiu aceitar a indicação para lecionar na University of Minnesota, cujo salário, embora baixo, era razoável para quem desejava casar-se depois de um noivado de quatro anos. Apesar de jamais ter con­cluído o doutorado, orientou diversos doutorandos e, no curso da sua carreira, recebeu 23 títulos honorários.

Depois de um ano em Minnesota, Angell aceitou trabalhar na University of Chicago, onde permaneceu por 25 anos. Seguindo a tradição familiar, foi reitor da Yale University e ajudou a desenvolver o Instituto de Relações Humanas. Em 1906, foi eleito 15° presi­dente da APA e, depois de se aposentar da vida acadêmica, foi conselheiro da National Broadcasting Company (NBC).

A revista Time, e outras pessoas que o conheciam bem, descreveu Angell como "um homem alegre e saltitante" e "a alegria da festa." Seu apelido na University of Chicago era "Jim, o Radiante". Também se comentava que não era aconselhável andar a pé ou de carro com ele, pois "ele tinha o hábito inacreditável de atravessar a rua sem prestar atenção ao trânsito. Sinais de trânsito não significam nada para ele. (...) Com a mesma segurança descuidada e habilidade incrível, ele dirige seu carro" (apuá Dewsbury, 2003, p. 66-69).

A Esfera de Ação da Psicologia Funcional

O livro de Angell, Psychology (1904), incorpora a abordagem funcionalista e obteve tanto sucesso que foram publicadas quatro edições em quatro anos, sinalizando o apelo da posição funcionalista. Nele, Angell afirmava ser função da consciência a melhoria da capacidade de adaptação do organismo. O objetivo da psicologia era estudar de que modo a mente auxilia o organismo a se adaptar ao seu ambiente.

No discurso de posse como presidente da APA, em 1906, publicado na Psychological Review, Angell descreveu o que chamou de "esfera de atuação" da psicologia funcional. Até aqui observamos que os novos movimentos ganharam impulso somente quando se referiram ou se opuseram à posição popular naquele momento. Angell traçou as linhas da batalha com avidez, mas concluiu com modéstia: "Renuncio formalmente a qualquer intenção de traçar novos planos; estou comprometido com o que se propõe ser um sumá­rio imparcial das condições reais" (Angell, 1907, p. 61).

A psicologia funcional, afirmou Angell, não consiste, de todo, em uma novidade e sim em uma parte significativa da psicologia desde o seu início. Foi a psicologia estrutural que se colocou à parte da forma de psicologia funcional mais antiga e verdadeiramente mais difusa. Assim Angell descreveu os três principais temas do movimento funcionalista:

  1. A psicologia funcional é a psicologia da operação mental, ao contrário do estruturalismo, que é a psicologia dos elementos mentais. O aspecto elementar da psicologia de Titchener ainda contava com defensores e Angell promovia o funcionalismo em oposição direta a ele. A tarefa do funcionalismo é descobrir o modus operandi do processo mental, as suas realizações e as condições sob as quais ele ocorre;
  2. 2. A psicologia funcional é a psicologia das utilidades fundamentais da consciên­cia. Desse modo, a consciência é vista como um instrumento utilitário, já que faz a mediação entre as necessidades do organismo e as condições do ambiente. As estruturas e as funções orgânicas existem a fim de permitir que o organismo se adapte ao ambiente para, assim, sobreviver. Angell sugeria que a consciência sobrevivia para executar alguma função essencial para o organismo. Os psicólo­gos funcionalistas precisavam descobrir exatamente qual era essa função, não apenas da consciência como também dos processos mentais mais específicos, como o julgamento e a vontade;
  3. 3. A psicologia funcional é a psicologia das relações psicofísicas (as relações mente-corpo) e dedica-se ao estudo de todas as relações entre o organismo e seu ambien­te. O funcionalismo abrange todas as funções mente-corpo e não faz qualquer distinção entre a mente e o corpo. Ele os considera pertencentes à mesma classe e admite a facilidade de transferência entre eles.

Comentários

O discurso de posse de Angell na APA foi realizado em uma época em que o espírito do funcionalismo já era amplamente aceito. Angell moldou esse espírito em uma empreita­da ativa e destacada, tendo como instrumentos um laboratório, um corpo de dados de pesquisa, um grupo de professores entusiasmados e um núcleo de dedicados estudantes de pós-graduação. Ao dirigir o funcionalismo para ocupar o status de escola formal, atribuiu-lhe o enfoque e a importância para efetivá-lo. Todavia, continuou a afirmar que o fun­cionalismo não constituía na verdade uma escola de pensamento separada nem devia ser relacionado exclusivamente com a University of Chicago. Apesar das objeções de Angell, o funcionalismo prosperou e frequentemente referiam-se a ele como a "escola de Chicago", sendo permanentemente associado com o tipo de psicologia ensinado e praticado ali.

Harvey A. Carr (1873-1954)

Harvey Carr fez especialização em matemática na DePauw University, Indiana, e na Uni­versity of Colorado. Passou a se interessar pela psicologia aparentemente por admirar o professor. "Decidi tornar-me psicólogo", declarou, "embora conheça muito pouco a respeito da natureza da matéria" (Carr, 1930/1961. p. 71). Não existia laboratório de psicologia em Colorado, então, Carr transferiu-se para a University of Chicago, na qual seu primeiro profes­sor de psicologia experimental foi o jovem professor-assistente, James Rowland Angell.

No seu segundo ano em Chicago, Carr trabalhou como assistente de laboratório de John B. Watson que, na época, era instrutor e mais tarde viria a fundar a escola de pensa­mento behaviorista. Watson apresentou a Carr a psicologia animal.

Depois de obter o doutorado em 1905, Carr lecionou em uma escola de ensino médio no Texas e, em Michigan, em uma faculdade para professores estaduais. Em 1908, retor­nou a Chicago para substituir Watson que havia aceitado uma posição na Johns Hopkins University. Por fim, Carr sucedeu Angell como chefe do departamento de psicologia da University of Chicago. Durante o mandato de Carr (1919-1938), o departamento de psico­logia concedeu 150 títulos de doutorado.

Funcionalismo: o Formato Final

Carr aprimorou a posição teórica de Angell e seu trabalho representava o funcionalismo, quando não precisava mais batalhar contra o estruturalismo. O funcionalismo superara a oposição e adquirira direitos legítimos sobre a própria posição. No período de Carr, o funcionalismo em Chicago atingiu o ápice como sistema formal. Carr alegava ser a psi­cologia funcional a psicologia estadunidense. Afirmava que as demais versões de psicologias propostas naquela época, como o behaviorismo, a psicologia da Gestalt e a psicanálise, dedicavam-se apenas a alguns aspectos limitados do campo. Acreditava que essas visões não tinham muito a acrescentar na tão abrangente psicologia funcionalista.

O livro básico de Carr, Psychology (1925), apresenta a forma mais refinada de funcio­nalismo, do qual se destacam dois pontos principais:

  • Carr definiu a atividade mental como objeto de estudo da psicologia - os processos mentais, como a memória, a percepção, o sentimento, a imaginação, o julgamento e a vontade;
  • A função da atividade mental é a aquisição, fixação, retenção, organização e ava­liação das experiências e a sua utilização para determinar a ação de uma pessoa. Carr chamou a forma específica de ação, na qual aparece a atividade mental, de comportamento de "adaptação" ou "ajuste”.

É possível perceber, nas ideias de Carr, a ênfase familiar da psicologia funcional nos pro­cessos mentais e não nos elementos nem no conteúdo da consciência. E, ainda, observa-se uma descrição da atividade mental em termos das realizações que permitem a adaptação do organismo a seu ambiente. É importante ressaltar que, em 1925, essas questões já eram aceitas como fatos e não mais como objeto de debate. Nesse período, o funcionalismo já era considerado psicologia geral.

Como muitos psicólogos se consideravam, de alguma forma, funcionalistas, essa deno­minação começou a perder o significado. Os profissionais da área denominavam-se sim­plesmente psicólogos e não era necessário afirmar que a atitude funcional fazia parte do comportamento do psicólogo. (Wagner e Owens, 1992, p. 10)

Carr aceitava os dados obtidos por meio dos métodos experimental e introspectivo. Assim como Wundt, acreditava que as criações artísticas e literárias de uma cultura dariam indicações sobre as atividades mentais que a produziram. Embora o funcionalismo não adotasse uma metodologia única, como fazia o estruturalismo, na prática, a ênfase estava na objetividade. Quando se empregava a introspecção, ela era limitada ao máximo por controles objetivos. Além disso, é importante observar que o funcionalismo empregava nas pesquisas tanto animais como seres humanos.

A escola funcionalista de Chicago promoveu a transferência do estudo exclusivo da mente e da consciência subjetiva para o estudo do comportamento objetivo e patente. O funcionalismo ajudou a redefinir a psicologia estadunidense, que acabou concentrando o foco no comportamento e eliminando o estudo da mente como um todo. Nesse sentido, os funcionalistas criaram uma ponte entre a psicologia estruturalista e a psicologia comportamental de Watson, que viria a ser a subsequente proposta revolucionária.

Funcionalismo na Columbia University

Como observamos até agora, não existiu uma forma única de psicologia funcional nos mesmos moldes da psicologia estrutural exclusiva de Titchener. Embora a evolução inicial e a fundação da escola de pensamento funcionalista houvessem ocorrido na University of Chicago, outro ponto de vista vinha sendo formado por Robert Woodworth na Columbia University. Essa universidade também foi a base acadêmica de outros dois psicólogos de orientação funcionalis­ ta. Um foi James McKeen Cattell, cujo trabalho sobre os testes mentais incorporou o espírito funcionalista estadunidense, e o outro foi E. L. Thorndike, cuja pesquisa a respeito dos problemas da aprendizagem animal reforçou a tendência funcionalista à maior objetividade.

Robert Sessions Woodworth (1869-1962)

Robert Woodworth não pertencia formalmente à escola de pensamento funcionalista como pertenciam tradicionalmente Carr e Angell. Ele não apreciava as restrições impostas por membros de qualquer escola de pensamento. Entretanto, grande parte do trabalho que escreveu sobre a psicologia seguia o espírito funcionalista da escola de Chicago, além de haver introduzido um importante ponto de vista.

Contribuições do Funcionalismo

A forte oposição do funcionalismo ao estruturalismo teve enorme impacto na evolução da psicologia nos Estados Unidos. A amplitude das consequências da transferência da ênfa­se da estrutura para a função também foi bastante significativa. Um dos resultados foi a incorporação da pesquisa do comportamento animal, que não fazia parte do tratamento estruturalista como área de estudo da psicologia. A ampla base da psicologia funcionalista também incorporava os estudos sobre bebês, crianças e adultos com dificuldades mentais. Os funcionalistas complementavam o método introspectivo com dados obtidos por meio de outros métodos, como a pesquisa fisiológi­ca, os testes mentais, os questionários e as descrições objetivas do comportamento. Essas abordagens, rejeitadas pelos estruturalistas, transformaram-se em fontes respeitáveis de informação para a psicologia.

Na época da morte de Wundt, em 1920, e de Titchener, em 1927, suas abordagens já estavam obscuras nos Estados Unidos. Por volta de 1930, consolidava-se a vitória do fun­cionalismo. Como veremos no Capítulo 8, o funcionalismo deixou a sua marca na psico­logia estadunidense contemporânea mais significativamente devido à ênfase na aplicação dos métodos e das descobertas da psicologia para a solução dos problemas práticos.

Psicologia - História da Psicologia
1/16/2020 1:40:18 PM | Por Francisco Teixeira Portugal
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Comparação e genealogia na psicologia inglesa no século XIX

A obra de Charles Darwin (1809-1882) marcou de maneira incontornável a concepção do vivo no século XIX e os cinquenta anos que sucederam a publicação de Origem das espécies (1859) podem ser chamados de era darwiniana não só na psicologia, mas na biologia e nas ciências sociais (Jacquard, 1986). Ao final de sua obra marco, Darwin “visualiza novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes” e continua sua previsão escrevendo que a "psicologia irá basear-se num fundamento novo, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental". Dessa forma, "nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história” (Darwin, 1859: 351).

À psicologia caberia a importante tarefa de mostrar a aquisição grada­tiva de cada faculdade mental e assim chegar a estender as propostas transtornacionistas ao homem, algo repleto de consequências não apenas para a universidade inglesa, ainda muito clerical, mas também para os grupos governantes ainda muito antiliberais. Um fundamento novo — seguindo as palavras de Darwin – suportou as novas pesquisas sobre o homem, os seres vivos e as organizações sociais, e a história de sua difusão revela o surgimento de uma importante vertente da psicologia inglesa no século XIX.

Constitui um erro comum considerar a biologia como fornecedora de referenciais e modelos para a psicologia, especialmente no que diz respeito às contribuições de Darwin. A suposição é a de que nas relações entre elas, as inovações conceituais e metodológicas da biologia seriam exportadas para a psicologia. Nesta linha de pensamento, e destacando a psicologia – darwiniana inglesa, restaria à psicologia apenas o procedimento maior de recolocação dos problemas a partir de um referencial novo que se mostrou fértil alhures sobre seu objeto privilegiado, as faculdades mentais.

Mas, deveríamos crer, ingenuamente, que a aplicação de um pressuposto ou de um método sobre um objeto faria com que ele se apresentasse aos nossos olhos sem possibilidade de ocultação?

Outros são os termos de Darwin e outra também a história desse saber. Essa psicologia, como qualquer outra, não se fez por depuração metodológica, mas pela constituição de dispositivos de legitimidade e pela emergência de novos temas. O papel desempenhado pela psicologia foi relevante para a constituição da própria teoria da seleção natural, modificando a mão dessa trilha que liga a psicologia à biologia.

O evolucionismo constitui um exemplo do equívoco apontado acima. Embora o conceito de evolução tenha se identificado com a evolução orgânica, ele não se restringe à biologia e pode ser remetido a campos diversos das ciências naturais e das ciências humanas e sociais (por exemplo, cosmologia evolutiva, termodinâmica evolutiva, algumas teorias da linguagem, as ciências sociais, a geologia). Como afirmou Lewontin (1985:249), Darwin representa o ponto culminante da teoria da evolução orgânica, não a matriz do evolucionismo do século XIX.

Podemos dizer que Darwin forneceu, com seu livro inaugural, uma credibilidade, segundo os cânones da ciência de então, à noção de evolução Jacquard (1986) lembra, entretanto, que o termo só apareceu na sexta edição da obra Origem das espécies. Na verdade, um dos grandes organizadores e difusores da tese evolucionista na Inglaterra do século XIX foi Herbert Spencer (1820-1903).

Spencer é atualmente um pensador muito ignorado; todavia, a ressurgência das forças liberalistas tem sido acompanhada da revalorização de parte de sua obra. Assim, há uma simpatia por seu pensamento quer pelos filósofos de mercado, quer pela renovada tentativa de aplicar os princípios evolucionistas à sociedade humana. A ausência de formação universitária e inserção profissional acadêmica de Spencer não impediu que ele fosse indicado a receber, ao longo dos últimos trinta anos de sua vida, uma série de homenagens acadêmicas (tendo recusado quase todas).

Juntamente com Edward Burnett Tylor (1832-1917) e Lewis Henry Mor­gan (1818-1881), Spencer está entre os três mais destacados evolucionistas do século XIX, e embora, segundo Burrow (1968), seu trabalho tenha sido exaltado da Rússia aos EUA, sua importância entre os pensadores do século XIX tem sido exagerada. Sua herança intelectual inclui também, além do evolucionismo, o liberalismo clássico calcado no individualismo, na noção puramente econômica das relações sociais, no Estado mínimo e na negação gradual das instituições com exceção da propriedade. Estas características fizeram dele o grande DARWINISTA SOCIAL, pois foi sobretudo seu evolucionismo e não o de Darwin, que, associado ao  liberalismo individualista, deu suporte às práticas excludentes e perigosas do evolucionismo social. 

O positivismo determinista presente nas ciências sociais na segunda metade do século XIX encontrou em Spencer um de seus mais firmes adeptos. Sua crença na causação natural o levou a adotar a teoria evolucionista. Tendo escrito algu­mas de suas obras onde a concepção de evolução é exposta antes mesmo da publicação do livro Origem das espécies de Darwin, Spencer buscou aplicar o princípio da evolução sistematicamente a todo o universo e es­ pecialmente à sociedade humana. Spencer considerava-se o Newton das ciências morais, a aplicar a lei universal da conservação de energia traduzida em princípio da evolução ao universo. Assim, para além do mundo ao qual os físicos se dirigem, a evolução se aplicaria também ao mundo dos seres vivos, aos homens e suas organizações sociais.

Sua concepção de evolução não vem, pois, de Darwin, nem ele foi um darwiniano. A concepção de evolução relaciona-se à sua crença na causação natural e a uma ciência determinista e, no caso de sua aplicação aos seres vivos, vem muito mais de um conhecimento de segunda mão das concepções de Jean-Baptiste Lamarck do que de uma reflexão a partir da obra de Darwin. Seu credo liberal valorizava, assim como os utilitaristas da primeira metade do século XIX, o indivíduo, mas de uma forma renovada, ao propor o conceito de estrutura social.

É dessa perspectiva individualista que se pode compreender a expressão de Spencer - “sobrevivência do mais apto" - para o conceito darwiniano de seleção natural. A seleção natural, tão importante por ter fornecido um sentido para as transformações e diferenças entre os seres vivos, inexplicáveis na perspectiva lamarquista, se ancora na comunidade, não no indivíduo. Spencer desloca para o indivíduo esse conceito crucial dos trabalhos de Darwin e o aloca na perspectiva do progresso. Além da deformação conceitual que representa a transformação da seleção natural em sobrevivência do mais apto, Spencer manteve até o final de sua vida a crença na concepção lamarquista de herança dos traços adquiridos. O evolucionismo liberalista de Spencer pode então hierarquizar as organizações sociais tomando como cume a organização liberal da Inglaterra colonialista.

Spencer foi muito mais resenhado por autores das ciências sociais que da psicologia. Contudo, considerando o retorno das abordagens evolucionistas ou evolucionárias na psicologia, Spencer tem sido retomado e historicamente revalorizado. Assim é que se indica repetidamente o elogio de Darwin e de William James a Herbert Spencer. 

Nessa vertente do melhoramento biológico, social e psíquico que se elaborou teoricamente na Inglaterra também pode ser incluído o contemporâneo de Spencer, Sir Francis Galton (1822-1911). As contribuições de Galton para a psicologia podem ser divididas em dois campos: a eugenia e a psicologia diferencial. 

A Eugenia significa “bem-nascido e consistia no estudo e no uso da reprodução seletiva com o fito de melhorar as espécies, principalmente dos atributos hereditários, ao longo das gerações. A defini­ção de eugenia foi refinada por Galton ao distinguir a eugenia positiva, que incentivava a reprodução do mais apto à da eugenia negativa, que buscava evitar ou dificultar a proliferação do menos apto. Assim, e nos termos marcadamente conservadores da Inglaterra vitoriana, Galton afirmou da maneira mais desqualificada sua impaciência e objeção em relação à tese da igualdade natural entre os homens (Galton, 1869: 44).

O esforço de Galton foi o de mostrar que as habilidades mentais – o que ele chamava gênio — eram traços hereditários tanto quanto os padrões físicos e estavam, consequentemente, submetidas aos mesmos dispositivos de transmissão. O lorde inglês utilizou para demonstrar tal propósito dois instrumentos de legitimação, um artifício matemático (a teoria das probabilidades) e as palavras de Darwin (a seleção artificial). O problema principal para Galton foi como ter acesso às habilidades mentais e como mostrar que eram traços hereditários. Para tanto, Galton fez uma passagem cheia de consequências ao correlacionar as habilidades mentais superiores à reputação profissional alcançada pelos individuos. O pressuposto era o de que a reputação so pode ser alcançada através das altas habilidades mentais. Em seguida era preciso mostrar como os indivíduos de alta reputação mantinham um padrão here­ditário. Em outras palavras, tratava-se de naturalizar as diferenças sociais. Além disto, observe-se que o termo correlacionar aqui é importante porque os instrumentos matemáticos permitem “limpar” as escolhas morais de Galton, uma vez que a sofisticação introduzida pelas matemáticas obstruem frequentemente a percepção dos interesses e consequências político-sociais envolvidos nessas analises.

O primeiro passo foi dado sem maiores dificuldades —“Estou con­vencido... – , o segundo foi dado ao indicar a similaridade entre a forma de distribuição das habilidades mentais e dos traços físicos herdados (ambos eram distribuídos segundo a curva normal). Embora tal similaridade não permitisse indicar a hereditariedade das habilidades mentais, o que importa notar é que o instrumental matemático ajudou a sustentar uma fraude cien­tífica muito mais por suas consequências sociais que por qualquer má-fé de seu criador e de seus divulgadores.

O argumento era circular; sem ter como medir a hereditariedade das habilidades mentais, Galton mediu as frequências com que a eminência ou reputação aparecia em famílias de grande notabilidade segundo o grau de parentesco. Comparando-as com as frequências de eminência esperada da população mais ampla, descobriu que as relações de homens eminentes exibiam uma frequência muito maior de eminência que a esperada na base e que ela declinava conforme o grau de parentesco dessas relações. Então, aí está a circularidade do argumento, Galton concluiu que esse padrão só poderia resultar da herança das habilidades mentais.

Independentemente das falhas do procedimento de Galton, estaría­mos enganados ao diminuir as consequências das propostas eugênicas. Elas tiveram uma ampla aplicação ao longo do século XX e estão presentes em nossos dias. O infame programa eugênico levado a cabo na Alemanha nazista em nome da pureza da raça ariana foi realizado pela esterilização forçada de centenas de milhares de pessoas consideradas mentalmente desadaptadas e pelos programas de eutanásia compulsória que mais tarde desembocaram no assassinato de milhões de “indesejáveis”, incluindo judeus, ciganos e ho­mossexuais, durante o Holocausto perpetrado na Segunda Grande Guerra.

O segundo maior movimento eugênico ocorreu nos EUA que, desde o final do século XIX, implantou leis sob a égide da eugenia proibindo o casamento dos epilépticos, imbecis e débeis mentais. As teses eugenistas também estiveram presentes em 1924 nas decisões do Congresso estadunidense de dificultar a imigração, ao serem aconselhados sobre os riscos de espalhar entre os estadunidenses um “estoque inferior” proveniente da Europa Oriental e do sul. Assim, também sob inspiração eugênica, foram adotadas, ainda nos EUA, leis contra o incesto e de antimiscigenação, bem como levados a cabo programas de esterilização que atingiram milhares de estadunidenses considerados desadaptados. Um relatório favorável desse programa de esterilização foi apontado pelo governo nazista como evi­dência de que a esterilização era praticável e humana e, durante o Tribunal de Nuremberg dos Crimes de Guerra, os administradores nazistas de programas de esterilização em massa apontaram os programas estadunidenses como sua inspiração. Contudo, observe-se que, com exceção do Reino Unido, quase todos os países não católicos da Europa Ocidental implan­taram ao longo do século XX uma legislação eugênica.

Após a Segunda Grande Guerra, os programas perdem força, mas muitos eugenistas nos EUA criam o termo criptoeugenia com a intenção de manter as propostas eugênicas disfarçadas. Assim, diversas argumentações sobre raça, imigração, pobreza, criminalidade e saúde mental são categorizadas como criptoeugênicas, ou seja, publicações e práticas eugênicas ganham novos nomes. Atualmente, um dos programas de inspiração eugênica de maior alcance está ligado ao projeto genoma de mapeamento do código genético.

Uma importante modificação nos procedimentos classificatórios praticados pelos pesquisadores do mundo natural no final do século XVIII e início do século XIX consistiu no abandono da descrição do que era observado diretamente na superfície das coisas e na eleição de princípios ordenadores invisíveis que pudessem fornecer sentido à classificação dos seres. A história natural própria ao século XVIII ordenava seu mundo pela comparação das características visíveis das plantas e dos animais em um sistema fechado, refratário às transformações. As novas noções de vida, de função e de órgãos que emergem no século XIX deslocam o procedi­mento descritivo da história natural e se impõem na formação de novas práticas que constituem a biologia (Foucault, 1987). Também o tempo passa a constituir uma dimensão invisível que ordena as relações entre os seres vivos. A genealogia se impõe à comparação.

Darwin, representante dessas modificações, também se perguntou so­bre o sentido da classificação. As aproximações e as diferenças que emergem da pura comparação entre os seres vivos geravam uma infinidade de categorias, tornando a classificação pouco operacional. Essas categorias poderiam ser drasticamente reduzidas se fosse eleito um princípio norteador que fornecesse uma inteligibilidade manuseável. Enquanto biólogos mais ligados à Igreja —os teólogos naturalistas —se esforçavam em agrupar os seres vivos em círculos simbólicos que revelariam a escrita de Deus própria ao criacionismo, Darwin, na esteira transformacionista, elege a genealogia como critério que fornece sentido às aproximações e diferenciações que permitem agrupar os tipos animais e vegetais. Entende, pois, que as enormes diferenças existentes entre os seres vivos remontariam a um longo passado reple­to de pequenas bifurcações. Se todos os seres existentes e que existiram pudessem ser coletados, então seria possível estabelecer suas séries, relacionando-os em um grande e indivisível grupo.

Ainda que esse princípio tenha sido altamente difundido a par­tir de então na biologia, não devemos esquecer sua artificialidade. As “ordens, famílias e gêneros são termos meramente artificiais extrema­mente úteis para mostrar o parentesco daqueles membros da série que não se tornaram extintos” (Darwin, 1859). Darwin ainda comenta que os natu­ralistas sabem que seus critérios são artificiais, mas têm a estranha tendência a esquecer essa característica e conceber suas propostas como o simples reflexo do mundo natural.

A psicologia entra em cena nos trabalhos de Darwin a partir de sua tentativa de saber como o homem descende de alguma forma preexistente. Se no livro Origem das espécies (1859) não houve menção à genealogia humana, com o sucesso de suas propostas, a pergunta encontra seu encaminhamento vinte e poucos anos depois em A ascendência do homem (1871) e em A ex­pressão das emoções em homens e animais (1872).

As conexões do homem com alguma forma preexistente foram procuradas nas variações da estrutura corporal e nas faculdades mentais. A assimetria dos critérios que garantem a conexão genealógica entre os seres vivos quando referidos às estruturas corporais e às faculdades mentais marca uma diferenciação presente entre biologia e psicologia. Darwin tem muito mais dificuldade em estabelecer critérios de ordenação das faculda­des mentais e seus elos com formas anteriores, em franco contraste com os critérios utilizados para as estruturas corporais.

Ainda que Darwin não tenha desenvolvido uma teoria sofisticada da relação mente-corpo, ele concebe as faculdades mentais como produtos do funcionamento cerebral. Seu argumento era bastante simples: assim com o não se sabe por que a gravitação é um efeito da matéria e ninguém fica perplexo por isso, também não sabemos por que a mente é um efeito do cérebro. Com essa definição naturalista, as faculdades mentais, tanto quanto os atri­butos estruturais dos organismos, poderiam ser utilizadas para classificá-los, legitimando a comparação entre homens e animais no campo da psicologia.

Entretanto, a tentativa de classificar um tipo animal por seus hábitos ou instintos havia se mostrado muito insatisfatória. Devemos lembrar sem­pre que as tentativas de classificação centradas em apenas um critério eram concebidas pelo naturalista com inadequadas e insuficientes, mas de uma forma geral o comportamento e as faculdades mentais não serviram ou não tiveram o mesm o respaldo que os critérios atinentes às estruturas corporais para o sistema classificatório.

Se fica claro que a base de sustentação da teoria biológica diferen­ciou-se da psicológica, por outro lado estaríamos equivocados ao afirmar que não houve interação entre elas, ou mesmo que a primeira tenha sido imposta à segunda. As faculdades mentais e o comportamento não são determinados passivamente pela evolução, tendo sido concebidos pelos transformacionistas como desempenhando um papel relevante na trajetória dos seres vivos. Jean-Baptiste Lamarck concebia o comportamento como simultaneamente produto e instrumento das transformações das espécies. Sua obra teve importante influência no pensamento de Darwin que a conheceu durante seus estudos em Edimburgo (onde tentou sem sucesso formar-se em medicina como seu pai e seu avo) e que manteve por longo tempo no eixo de suas reflexões. O pensamento do naturalista francês atua sobre o jovem Darwin da seguinte forma: algumas modificações no ambiente constrangem os animais a novos hábitos, em decorrência de novas exigencias. Novos habitos alteiam as estruturas cerebrais bem como outros órgãos, se praticados ao longo de muitas gerações. Para Darwin, a memória ou o pensamento, quando tornados habituais e involuntários, afetam a estrutura física do cérebro, podendo tais transformações ser transmitidas à prole. Dessa forma, os instintos ganhavam uma explicação materialista, mas grandes brechas ficaram abertas, a mais conhecida e mais grave sendo a pergunta: como conectar a modificação estrutural produzida pelo hábito com a transmissão para a prole das estruturas adquiridas?

Os instintos maravilhosos eram, para Darwin, extremamente difíceis de explicar pelo hábito. Sua dificuldade principal estava na acentuação do caráter não intencional e não consciente de comportamentos complexos. Como poderia a solitária vespa aprender a cavar um buraco, paralisar uma aranha e colocar seus ovos, se suas crias nascerão depois de sua morte.

Que benefício futuro ela poderá tirar? Que tipo de ajuste do comportamento pode ser evocado para dar sentido a este tipo de instinto? Em um formigueiro pode haver formigas divididas em duas ou mais castas, sendo algumas estéreis. Como esses insetos sexualmente neutros poderiam deixar prole?

Darwin encontrou respostas a estas perguntas na transposição do foco de análise do indivíduo para a população. A solução encontrada que permitiu a aplicação da teoria da seleção natural a estes casos foi o reconhecimento da diferença entre o animal que seleciona um comportamento por sua utilidade (o animal é o centro decisório) e o animal que é selecionado por seu comportamento útil (o animal é parte de um processo). A unidade de medida passa a ser a população ou a comunidade.

Um problema considerado psicológico como o do instinto ocupou, portanto, um lugar destacado no estabelecimento da teoria da seleção natural, envolvendo-a numa longa reflexão sobre a moral e as faculdades mentais.

Como dito anteriormente, foi principalmente nas obras A ascendência do homem (1871) e A expressão das emoções em homens e animais (1872) que Darwin buscou explicitar o parentesco comum entre homens e animais através das expressões e das faculdades mentais.

Ao longo desses livros foram desfiados extensos comentários sobre as semelhanças psicológicas entre homens e animais calcados em “fatos” colhidos por mais de quarenta anos através de observações, de questionários e de experimentações. A liberdade com que foram aplicados atributos mentais aos animais a partir das observações de viajantes e missionários salienta uma opção pela continuidade mental entre eles, já que esses “fatos” eram tremendamente antropomórficos e antropocêntricos. Muito mais do que uma fonte intelectual e documental para a construção de uma psico­logia comparada ou uma etologia, a psicologia de Darwin se apresenta como uma crítica aos argumentos que isolam qualitativamente homens e animais. Assim é que a observação dos cachor­ros pode fornecer uma evidência anticartesiana, uma vez constatado que eles constroem “uma ideia geral dos gatos e das ovelhas, e conhece[m] as palavras correspondentes tão bem quanto as pode conhecer um filósofo” (Fontenay, 1998: 566). Ou mesmo que os animais se espantem; aqui, lembramos ser o espanto uma característica-chave para a atividade filosófica na concepção de Platão e Aristóteles. Ficamos também cons­trangidos ao sermos comparados pelo naturalista em relação aos nobres sentimentos de um cão que, no momento mesmo de sua vivisseção, lambe a mão de seu dono: sinal não só de aceitação de seu martírio em nome da nobre causa da ciência, como de seu perdão por uma ação tão cruel.

O esforço de Darwin se justificava pela barreira imposta à teoria da seleção natural diante da descontinuidade das capacidades mentais do homem e dos animais. A genealogia simiesca do homem, apesar de ge­rar intensas discussões, foi aceita por um público amplo. Se o clero e algumas camadas dominantes a rejeitaram com fervor, o livro Darwin alcançou várias tiragens, as palestras de Huxley atraíam multi­dões e houve também a produção de uma literatura popular, divul­gando valores evolucionistas, avida­mente consumida por um grande público.

Mas, no plano das argumentações acadêmicas, muito havia ainda a ser feito para garantir a continuidade homem-animal no plano mental. Os esforços de George John Romanes (1848-1894) e Conwy Lloyd Morgan (1852-1936) foram os mais relevantes em continuidade com os do mais conhecido naturalista inglês.

Encarregado por Darwin de realizar a extensão das teses evolucionistas à mente e ao comportamento, Romanes realizou um estudo de psicologia comparada centrado na experiência humana consciente. Para ele, a força de uma teoria estava na possibilidade de fornecer inteligibilidade a campos novos que não tinham sido seu foco inicial e este era o caso da teoria da seleção na explicação de temas psicológicos como o instinto, a razão e o senso moral.

Seu projeto consistiu principalmente na elaboração de princípios explicativos da gênese da mente, mas ele também realizou estudos sobre o intelecto, a emoção, a vontade, a moral e a religião. Há um claro esforço em atestar a continuidade homem-animal, o que o levou a uma seleção bastante tendenciosa do material a ser analisado. Explicando: como seu material continuava provindo, em grande parte, de viajantes e missionários nas colônias europeias, Romanes o selecionava conforme a fama do autor do relato. Se o autor não fosse reconhecido, fazia a verificação da qualidade da observação através da confrontação das informações. Como a maioria dos relatos utilizados era proveniente de eminentes ingleses trabalhando nas longínquas terras daquele então vasto império colonial, não questionava seus dados nem sua interpretação, já que, segundo seus critérios, estes eram válidos e confiáveis. Dessa forma, o antropomorfismo das observações ganhava uma teorização academicamente legitimadora na obra de Romanes. 

Contudo, também contou com observação mais controlada e chegou mesmo a cuidar de um MACACO CEBUS COULO parte de suas pesquisas. A mente, em sua concepção, é imediatamente dada a nós, não podemos duvidar de que temos conhecimento de um certo fluxo de Pensamentos e sentimentos. Com esta perspectiva, a observação de outras mentes torna-se possível por inferência, a partir das atividades dos organismos que parecem exibi-las. Solipsismo e antropomorfismo regem a reflexão. Primeiro passo: os humanos têm acesso introspectiva e diretamente às suas mentes (é por analogia que podemos afirmar que todos partilhamos esta característica). Segundo passo: como só podemos inferir as mentes em animais a partir das atividades dos or­ ganismos, devemos compará-las às dos homens para, na medida de sua semelhança, vislumbrá-las.

Romanes justifica seu procedim