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Fragmentos e principais passagens
Publicado por:
Odsson Ferreira | - | Atualizado em: 1/6/2020 2:32:58 PM
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Texto
Wilhelm Wundt e o estudo da experiência imediata
Psicologia - História da Psicologia - História - Idade Contemporânea - Wilhelm Wundt - Titchener - Psicologia Experimental - Psicologia Estruturalista
ABNT
Araújo, 
Saulo de Freitas. 
Wilhelm Wundt e o estudo da experiência imediata. 
in: 
JACO-VILELA, Ana Maria, FERREIRA, Arthur Arruda. 
(org.) 
História da Psicologia: 
Rumos e Percursos. 
 
 
São Paulo/SP: 
NAU Editora, 
2013. 
Cap. 5. 
p.107-118. 
APA
Araújo, 
S .
 
(2013). 
Wilhelm Wundt e o estudo da experiência imediata. 
in: 
A .
Jacó-Vilela, 
A .
Ferreira,
(Ed.),
História da Psicologia: 
Rumos e Percursos. 
(pp.107-118). 
São Paulo/SP: 
NAU Editora. 
Livre
Por Saulo de Freitas Araújo
Pontos-chave
Uma das principais ideias psicológicas de Wundt é a de que a vida psíquica desenvolve-se gradual e continuamente do simples para o complexo, através de uma série de processos regulares, que constituem nossa experiência psicológica na vida cotidiana. Neste sentido, nossa experiência imediata só nos fornece conteúdos de natureza complexa, que resultam da ligação de vários elementos simples.

 

Wilhelm Wundt (1832-1920) é normalmente considerado, na historiografia da psicologia, como o fundador da psicologia científica, tí­tulo este que está diretamente relacionado ao fato de ter criado, em 1879, o Laboratório de Psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Além disso, é um dos autores mais citados e mencionados nos manuais de história da psicologia. Entretanto, apesar de toda essa fama, Wundt ainda é um autor não só bastante desconhecido, como também aquele, dentre os chamados “fundadores” da psicologia, cujas ideias mais sofreram distorções na literatura psicológica. Não só a extensão e as dificuldades de acesso à sua obra original, mas principalmente a atitude de vários historiadores da psicologia, que têm se detido apenas em partes dela, sem se preocupar com o sentido geral do seu sistema de pensamento, têm contribuído para essa situação desconfortável. Sendo assim, a primeira coisa que o leitor interessado em se aproximar da psicologia de Wundt deve ter em mente é que estamos ainda longe de ter uma clara e adequada compreensão de toda a sua obra e o que aqui nos interessa mais de perto, do lugar que seu projeto psicológico nela ocupa.

É bem verdade que, sobretudo a partir da década de 1980, começa­ram a surgir novos e importantes estudos sobre a obra de Wundt que têm procurado reavaliar o seu pensamento e mostrar as origens de algumas interpretações equivocadas tradicionalmente presentes nos manuais de história da psicologia. Alguns desses estudos, contudo, apesar de terem contribuído significativamente para mostrar a complexidade do projeto wundtiano de psicologia, são ainda superficiais e podem acabar introdu­zindo novos problemas na interpretação do pensamento de Wundt, na medida em que deixam de considerar textos fundamentais de sua obra, como seus escritos psicológicos iniciais, que abrangem o período de 1858 a 1863, quando ele ainda não tinha ido para Leipzig. Muitas questões permanecem mal resolvidas na obra de Wundt. Em primeiro lugar, coloca-se a questão da continuidade ou ruptura de seu projeto de psicologia. Teria ele apresentado vários sistemas teóricos distintos, introduzindo modificações essenciais em cada um deles? Ou haveria um único sistema psicológico, cujas alterações posteriormente introduzidas não afetariam sua unidade fundamental? Isso nos remete a uma outra questão, que diz respeito aos interesses e pressupostos filosófi­cos fundamentais de Wundt, que subjazem ao seu projeto de psicologia. Wundt é, antes de tudo, um filósofo que formulou um sistema de filosofia, incluindo uma lógica, uma teoria do conhecimento, uma ética e uma metafísica. Sem uma adequada compreensão de seus escritos filosóficos, os problemas relativos à interpretação de sua psicologia não poderão ser satisfatoriamente resolvidos.

Como as questões acima referidas aguardam uma solução definitiva, cujas exigências demandam um aprofundamento que extrapola os objetivos do presente texto, vamos privilegiar aqui, em vez de uma apresentação sistemática de todo o percurso wundtiano, alguns dos principais tópicos de seu pensamento psicológico, tomando como base sua fase madura, que se expressa na última grande síntese teórica de seu projeto de psicologia — o livro Compêndio de psicologia, cuja primeira edição é de 1896.

A natureza da psicologia

Talvez a melhor maneira de iniciar uma apresentação introdutória da psicologia wundtiana seja explicitando a própria definição de psicologia pro­ posta por Wundt. Neste sentido, a pergunta “O que é psicologia?" receberia a seguinte resposta: "A psicologia é uma ciência empírica cujo objeto de estudo é a experiência imediata”. No entanto, torna-se ainda necessário esclarecer o conceito de “experiência imediata”.

Wundt entende por experiência em geral um todo unitário e coerente, que pode ser concebido e elaborado cientificamente a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: toda experiência pode ser analisada pelo seu conteúdo objetivo (experiência mediata) ou subjetivo (experiência ime­diata). No primeiro caso, a ênfase recai sobre os objetos da experiência (mundo externo), pensados independentemente do sujeito da experiência, enquanto, no segundo caso, investiga-se o próprio sujeito da experiência (mundo interno) em sua relação com os conteúdos da experiência. Com base nesses dois pontos de vista, surge uma dupla possibilidade de se fazer ciência empírica: a ciência natural (física, química, fisiologia etc.), que cuida dos conteúdos específicos da experiência mediata, uma vez que os objetos fornecidos na experiência são sempre mediados pelos fatores subjetivos; e a psicologia, que tem por objeto a experiência imediata, já que não abstrai o próprio sujeito, como a ciência natural.

Com essa definição de psicologia, Wundt pretende, em primeiro lugar, atacar um tipo de psicologia bastante difundida em sua época, que vinha sendo definida como ciência da alma ou mente. Segundo Wundt, essa psicologia está assentada em hipóteses metafísicas (espiritualismo ou materialismo) que extrapola no domínio da experiência possível. Como sua intenção é inaugurar uma nova psicologia, autônoma e independente de teorias metafísicas, o único caminho possível era recusar essa psicologia e construir uma outra, que se atém somente à experiência psicológica pro­priamente dita. Para a psicologia wundtiana, só há a experiência, vista como um conjunto de processos interligados, e nada mais. É importante enfatizar que, de acordo com essa definição, não há uma diferença essencial de natureza entre o mundo interno e o externo — uma vez que a experiência é um todo organizado que abrange ambos —, mas apenas uma diferença na maneira de se abordá-los. Por isso, a relação entre a psicologia e as ciências da natureza (Naturwissenschaften) é de complementaridade. Elas se complementam, na medida em que fornecem relatos diferentes da mesma experiência, sem que haja a possibilidade de haver uma subordinação ou redução de uma a outra.

Por outro lado, na medida em que a psicologia é a ciência das formas universais da experiência humana imediata, ela pode ser considerada a mais geral de todas as ciências do espírito (Geisteswissexschaftex) e, portanto, o fundamento de cada uma delas em particular (filologia, história, direito etc.).

Há que se considerar ainda a relação entre psicologia e filosofia. De todas as disciplinas empíricas, Wundt considera que a psicologia é aquela cujos resultados mais contribuem para a investigação dos problemas gerais da teoria do conhecimento e da ética, os dois domínios filosóficos fundamen­tais para ele. Se a psicologia, portanto, é complementar às ciências naturais e o fundamento das ciências do espírito, podemos dizer que é preparatória para a filosofia. Em outras palavras, os resultados da investigação psicológica podem guiar a construção de um sistema filosófico.

A questão do método e a subdivisão da psicologia

Como a psicologia não estuda um objeto diferente do objeto das ciências naturais, mas apenas a mesma experiência de um outro ponto de vista, seus métodos de investigação também não podem diferir. A psicologia vai se servir, portanto, dos dois principais métodos utilizados pelas ciências da natureza: o experimento e a observação. O experimento consiste na interferência proposital (manipulação) do pesquisador sobre o início, a duração e o modo de apresentação dos fenômenos investigados (como na física, na química e na fisiologia). A observação propriamente dita refere-se à mera apreensão de fenômenos ou objetos, sem que haja qualquer interferência por parte do observador (como na botânica, na anatomia e na astronomia).

No que diz respeito ao experimento, a psicologia de Wundt utiliza-o diretamen­te em suas investigações, como demonstram os estudos sobre a sensação, a percepção e a representação, ou seja, aquilo que Wundt chama de psicologia individual, fisiológica ou experimental. Nesse caso, pode-se investigar cui­dadosamente tanto o início quanto o curso desses processos, visando sempre à sua relação com seus elementos constituintes.

Há, porém, uma diferença metodológica significativa entre a psi­cologia e as ciências da natureza, decorrente da especificidade da pers­pectiva psicológica. Em primeiro lugar, já que a psicologia é o estudo da experiência imediata, seu conteúdo revela apenas processos, jamais objetos estáveis, como acontece na observação científica da natureza. Em segundo lugar, a psicologia não pode desconsiderar ou colocar entre parênteses, como fazem as ciências naturais, o sujeito da experiência, uma vez que este é precisamente o assunto de seu interesse. Além disso, seria muito difícil que, mesmo em situações frequentemente repetidas, os mesmos elementos objetivos da experiência imediata viessem acompanhados da mesma condição do sujeito. Em outras palavras, a intenção do observador, que deve estar presente nas observações científicas, altera significativa­mente o início e o curso dos processos psíquicos. Levando em conside­ração essa particularidade dos eventos psicológicos, o psicólogo estaria, portanto, impossibilitado, por princípio, de utilizar a observação pura ou auto-observação (Selbstbeobachtung) no domínio da psicologia individual.

É importante estar atento para este ponto, tendo em vista o fato de que Wundt é muitas vezes acusado de ser um dos principais defensores da auto-observação ou introspecção tradicional, que remonta à tradição filosófica. No entanto, o que permanece em grande parte ignorado por seus intérpretes, e que está implícito nas considerações anteriores, é a diferença fundamental que ele estabeleceu entre a auto-observação (Selbstbeobachtung) e a percepção interna (innere Wahrnehmung). Essa última, segundo Wundt, por estar baseada no controle experimental das condições externas da experiência, substituiria a introspecção tradicional e livraria a psicologia das duras críticas feitas por diversos autores ao introspeccionismo.

Isso não significa, porém, que não haja lugar para a pura observação na psicologia. Ao contrário, existem fatos psíquicos que, embora não sejam objetos reais do mundo externo, possuem o caráter de objetos psíquicos, na medida em que sua natureza é relativamente estável e que independem do observador. Além disso, eles têm uma outra característica em comum, que os tornam adequados à observação: eles são inacessíveis pelo méto­do experimental. Mas que objetos psíquicos são esses? São aquilo que Wundt chama de produtos mentais surgidos ao longo da história, como a linguagem, a religião, os mitos e os costumes, que dependem de certas condições psíquicas gerais, as quais podemos inferir com base em suas características objetivas.

Uma característica fundamental desses produtos mentais é que eles pressupõem a existência de uma comunidade de muitos indivíduos que compartilham uma certa mentalidade, embora sua fonte última sejam sempre as características psíquicas do indivíduo em particular. E por estarem ligados a uma comunidade popular que Wundt chamou essa área de investigação psicológica de psicologia dos povos (Völkerpsychologie), que complementa a psicologia individual ou experimental na busca de uma compreensão geral dos princípios fundamentais da vida psíquica. No entanto, há uma curiosa diferença na atitude de Wundt em relação a essas duas áreas de investigação psicológica. Enquanto na psicologia individual ele procurou sempre investigar direta e empiricamente os fenômenos, na psicologia dos povos Wundt o fez apenas indiretamente, baseando-se acima de tudo nos relatos e estudos etnológicos. Os últimos 20 anos de sua vida (1900-1920) foram dedicados principalmente a essa psicologia dos povos, esforço esse que resultou em dez extensos volumes.

Em suma, a psicologia dispõe, assim como a ciência natural, de dois métodos de investigação, que darão origem a duas formas complementares de estudo psicológico: o experimento, que a psicologia individual/fisioló­gica utiliza na análise dos processos psíquicos mais simples; e a observação dos produtos mentais, através da qual a psicologia dos povos investiga os processos psíquicos superiores. É importante termos sempre em mente que essa subdivisão da psicologia é uma necessidade apenas metodológica, que em princípio não compromete a unidade do seu objeto de estudo (os processos psíquicos revelados na experiência).

Principais conceitos e ideias psicológicas

Uma das principais ideias psicológicas de Wundt é a de que a vida psíquica desenvolve-se gradual e continuamente do simples para o complexo, através de uma série de processos regulares, que constituem nossa experiência psicológica na vida cotidiana. Neste sentido, nossa experiência imediata só nos fornece conteúdos de natureza complexa, que resultam da ligação de vários elementos simples.

Esses elementos psíquicos, que são revelados através da análise psicológica e, portanto, de uma abstração - uma vez que em nossa experiência eles nunca aparecem isolados, mas somente ligados a outros conteúdos -, constituem a base de toda nossa vida mental. Como o conteúdo de nossa experiência imediata varia entre dois pólos, um objetivo e outro subjetivo, os elementos podem ser, seguindo essa divisão, de dois tipos: as sensações ligadas ao conteúdo objetivo (som, luz etc.) e os sentimentos simples rela­cionados ao conteúdo subjetivo (prazer, desprazer etc.).

O próximo passo é a formação, a partir das sensações ou dos sentimen­tos simples, daquilo que Wundt chamou de complexos psíquicos (psychische Gebilde), que se diferenciam uns dos outros por certas características próprias, formando uma unidade relativamente autônoma. Eles podem assumir quatro formas diferentes: representações, sentimentos compostos, afetos e processos volitivos. Enquanto as representações têm sua origem nas sensações, todos os outros complexos psíquicos originam-se a partir dos sentimentos simples.

É importante ressaltar aqui que, para Wundt, os complexos psíquicos, embora sejam compostos de elementos psíquicos, possuem características que não pertencem a nenhum de seus elementos em particular. E a ligação dos elementos que produz essas novas características, que pertencem so­mente aos complexos enquanto tais. Aqui entra em cena uma das principais ideias da teoria psicológica de Wundt, que permanece ignorada por muitos comentadores, a saber, o conceito de fusão (Verschmelzung) e o princípio da síntese criadora. 

É a fusão - que tem como resultado a síntese criadora — que liga os elementos e constitui os complexos psíquicos, enquanto que a associação é um processo secundário, que se refere apenas à ligação de elementos já presentes em diversos compostos. O processo fundador da complexidade psíquica é, pois, a fusão, e não a associação. Sendo assim, Wundt está longe do associacionismo britânico, como faz questão de ressaltar inúmeras vezes.

Os complexos psíquicos podem ainda se conectar, formando um todo unitário. Essa conexão dos complexos psíquicos Wundt denomina consciência. E o processo através do qual um conteúdo psíquico é trazido à clareza da consciência é chamado de apercep­ção (Apperception), que vem acompanhado do estado de atenção. Mas é possível também apreender conteúdos sem a presença da atenção, e nisso consiste exatamente a percepção (Perception). Desta forma, fazendo uma analogia com o sistema visual, Wundt chama o conteúdo ao qual a atenção está dirigida de ponto focal (Blickpunkt) da consciência, e o conteúdo restante de campo visual (Blickfeld) da consciência.

 

 

Outra importante ideia psicológica de Wundt é o conceito de “cau­salidade psíquica”, que está diretamente relacionado ao seu paralelismo Psícofísico. Para Wundt, a experiência pode, como já foi dito, ser conhecida a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: objetivo (experiência mediata) e subjetivo (experiencia imediata). 

Certas partes da experiência direta com partes da experiência imediata, sem que uma possa ser reduzida à ou derivada da outra. De acordo com o princípio do parelelismo psicofísico, quando isso acontece há uma relação necessária entre cada processo psíquico elementar e seu processo físico correspondente. No entanto, existem vários conteúdos da nossa experiência que so podem ser conhecidos a partir de um único ponto de vista, seja ele físico ou psicológico. Nesse caso, somos obrigados a reconhecer a autonomia do conhecimento psicológico e estamos justificados a supor uma causalida­de própria para o domínio dos processos mentais, do mesmo modo que supomos a causalidade física na natureza. Os dois tipos de causalidade são complementares e nunca podem entrar em contradição entre si. Assim como a causalidade física está fundamentada nas leis da natureza, a causalidade psíquica vai encontrar sua fundamentação última nas leis fundamentais da vida psíquica.

A institucionalização da psicologia

O título de fundador da psicologia, normalmente consagrado a Wundt em quase todos os manuais de história da psicologia, encontra frequentemente justificativa na fundação, em 1879, do Laboratório de Psicologia da Universidade de Leipzig, onde ele permaneceu até se aposentar em 1917. Entretanto, esse fato seria por si só insuficiente para sustentar tal escolha. Tendo em vista a rápida disseminação de labora­tórios de fisiologia por praticamente toda a Alemanha do século XIX, é sempre possível apontar a existência de laboratórios anteriores ao de Leipzig, onde também eram realizadas investigações de cunho psicoló­gico, o que colocaria em questão o pioneirismo de Wundt.

Ao investigarmos mais detalhadamente a vida acadêmica de Wun­dt. sobretudo o período de Leipzig, podemos perceber mais claramente onde reside a verdadeira justificativa para a eleição de Wundt como o fundador da psicologia científica. Não se trata da fundação do laboratório em si, mas sim daquilo que ele passou a representar a partir de então. Durante todo o úl­timo quarto do século XIX, o Laboratório de Leipzig atraiu estudantes de várias partes do mundo (Estados Unidos, Ca­nadá, Inglaterra, entre outros) e tornou-se o primeiro e maior centro de formação de toda uma geração de psicólogos, que posteriormente regressaram a seus locais de origem e fundaram novos laboratórios nos moldes wundtianos.

Foi também o sucesso do laboratório de Leipzig que impulsionou a institucionalização formal da psicologia, quando, em 1883, o Instituto de Psicologia teve sua existência oficial­mente reconhecida pela Universidade de Leipzig e passou a ser incluído no orçamento universitário. No entanto, essa institu­cionalização não deve ser entendida como uma autonomia e separação institucional da psicologia em relação à filosofia, uma vez que até a metade do século XX a psicologia continuou subordinada à Faculdade de Filosofia nas universidades alemãs. Trata-se, ao contrário, de uma desvinculação programática, na medida em que Wundt pretendia fundar um novo campo de investigação científica, sem a influência deletéria das especulações metafísicas.

Além de tudo isso, é digno de nota o fato de Wundt ter fundado e publicado, em 1883, um dos primeiros periódicos de psicologia, que ini­cialmente se chamava Philosophische Studien (Estudos filosóficos), e, a partir de 1906, passou a se chamar Psychologische Studien (Estudos psicológicos). Esse periódico era o veículo oficial de publicação dos trabalhos realizados no Instituto de Psicologia.

Não podemos nos esquecer também que o próprio Wundt, desde seus primeiros trabalhos psicológicos (1858-1863), que antecedem por mais de dez anos sua chegada a Leipzig (1875), sempre reivindicou para si o ato de fundação de uma nova psicologia, restrita ao campo da experiência possível. Foi Wundt, mais do que qualquer outra pessoa, que lutou para fixar o significado do termo “psicologia” em conformidade com a tradição científica do século XIX na Alemanha.

No que diz respeito ao desenvolvimento e à institucionalização da psicologia no Brasil, é praticamente impossível estabelecer qualquer ligação direta entre esta e a obra de Wundt. Se levarmos em consideração que a penetração da psicologia no Brasil ocorreu principalmente pela via da psicologia aplicada — seja na psiquiatria ou na pedagogia, com ênfase na psicometria — e que Wundt jamais se preocupou seriamente com qualquer aplicação da psicologia, torna-se evidente a distância. O máximo que podemos afirmar é que, caso tenha havido alguma influência, esta ocorreu de maneira muito indireta, com a criação de laboratórios de psicologia e a utilização de alguns instrumentos de medição de fenômenos psicológicos.

Wundt e Titchener

Um dos equívocos cometidos com mais frequência nos manuais de história da psicologia é a afirmação de que Wundt seria, ao lado de Titchener, um dos principais representantes do estruturalismo. Esse equívoco, que por si só já representa uma total falta de compreensão da psicologia wundtiana, está diretamente relacionado a outros ainda mais graves —p. ex., quando ele é apontado como um defensor do elementarismo e do associacionismo britânicos —, na medida em que subvertem os principais fundamentos filosóficos de seu pensamento.

Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que existem diferenças importantes entre Wundt e Titchener, pelo menos enquanto este último se definiu como estruturalista e foi fiel aos seus princípios. Foi Titchener quem fundou o estruturalismo, e não Wundt. Embora tenha sido aluno e colaborador de Wundt no Laboratório de Leipzig, ele construiu sua própria concepção de psicologia, que em muitos aspectos se distanciou do pensamento wundtiano. A divergência fundamental está na própria concepção de objeto e método da psicologia. Para Titchener, a psicologia é fundamentalmente o estudo dos elementos da consciência através da introspecção. E tudo o que não puder ser relacionado com os elementos estruturais da consciência não deve ser considerado assunto da psicologia. Fica evidente, portanto, que o sistema de Titchener é muito mais restrito do que o de Wundt, uma vez que grande parte da análise wundtiana dos conteúdos relativos à psicologia dos povos não teria lugar no sistema titcheneriano. E mesmo considerando apenas a psicologia individual, Titchener parece ter se distanciado metodologicamente de Wundt, ao utilizar amplamente a introspecção criticada por ele.

Há ainda uma outra divergência importante. Titchener foi reconhe­cidamente um defensor do elementarismo e do associacionismo. A análise ou decomposição dos processos psíquicos conscientes em seus elementos mais básicos (estruturas fundamentais) e a descoberta dos seus mecanismos associativos subjacentes eram os objetivos últimos de sua psicologia estruturalista. Para Wundt, a análise era apenas um meio de se alcançar a meta principal da psicologia, que era a descoberta das leis universais da vida psíquica em todas as suas manifestações. Além disso, quando rotulou seu sistema psicológico de voluntarismo, uma de suas maiores preocupa­ções era manifestar sua insatisfação com a psicologia associacionista, que segundo ele era incapaz de explicar a dimensão afetiva (sentimentos) e volitiva (vontade) da vida mental.

Os equívocos acerca de Wundt presentes na historiografia tra­dicional da psicologia só poderão vir a ser definitivamente corrigidos quando os estudos sobre sua obra alcançarem uma maior consistência, permitindo-nos, desta forma, resolver problemas cruciais de interpretação do seu pensamento, como, por exemplo, a questão da relação entre seus textos psicológicos iniciais e seu pensamento maduro. Ainda está por vir uma análise exaustiva do projeto wundtiano de psicologia.

Notas
Referências
Bibliografia
( 13 )
Mais de: História da Psicologia
1/16/2020 1:40:18 PM | Por Francisco Teixeira Portugal
Livre
Comparação e genealogia na psicologia inglesa no século XIX

A obra de Charles Darwin (1809-1882) marcou de maneira incontornável a concepção do vivo no século XIX e os cinquenta anos que sucederam a publicação de Origem das espécies (1859) podem ser chamados de era darwiniana não só na psicologia, mas na biologia e nas ciências sociais (Jacquard, 1986). Ao final de sua obra marco, Darwin “visualiza novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes” e continua sua previsão escrevendo que a "psicologia irá basear-se num fundamento novo, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental". Dessa forma, "nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história” (Darwin, 1859: 351).

À psicologia caberia a importante tarefa de mostrar a aquisição grada­tiva de cada faculdade mental e assim chegar a estender as propostas transtornacionistas ao homem, algo repleto de consequências não apenas para a universidade inglesa, ainda muito clerical, mas também para os grupos governantes ainda muito antiliberais. Um fundamento novo — seguindo as palavras de Darwin – suportou as novas pesquisas sobre o homem, os seres vivos e as organizações sociais, e a história de sua difusão revela o surgimento de uma importante vertente da psicologia inglesa no século XIX.

Constitui um erro comum considerar a biologia como fornecedora de referenciais e modelos para a psicologia, especialmente no que diz respeito às contribuições de Darwin. A suposição é a de que nas relações entre elas, as inovações conceituais e metodológicas da biologia seriam exportadas para a psicologia. Nesta linha de pensamento, e destacando a psicologia – darwiniana inglesa, restaria à psicologia apenas o procedimento maior de recolocação dos problemas a partir de um referencial novo que se mostrou fértil alhures sobre seu objeto privilegiado, as faculdades mentais.

Mas, deveríamos crer, ingenuamente, que a aplicação de um pressuposto ou de um método sobre um objeto faria com que ele se apresentasse aos nossos olhos sem possibilidade de ocultação?

Outros são os termos de Darwin e outra também a história desse saber. Essa psicologia, como qualquer outra, não se fez por depuração metodológica, mas pela constituição de dispositivos de legitimidade e pela emergência de novos temas. O papel desempenhado pela psicologia foi relevante para a constituição da própria teoria da seleção natural, modificando a mão dessa trilha que liga a psicologia à biologia.

O evolucionismo constitui um exemplo do equívoco apontado acima. Embora o conceito de evolução tenha se identificado com a evolução orgânica, ele não se restringe à biologia e pode ser remetido a campos diversos das ciências naturais e das ciências humanas e sociais (por exemplo, cosmologia evolutiva, termodinâmica evolutiva, algumas teorias da linguagem, as ciências sociais, a geologia). Como afirmou Lewontin (1985:249), Darwin representa o ponto culminante da teoria da evolução orgânica, não a matriz do evolucionismo do século XIX.

Podemos dizer que Darwin forneceu, com seu livro inaugural, uma credibilidade, segundo os cânones da ciência de então, à noção de evolução Jacquard (1986) lembra, entretanto, que o termo só apareceu na sexta edição da obra Origem das espécies. Na verdade, um dos grandes organizadores e difusores da tese evolucionista na Inglaterra do século XIX foi Herbert Spencer (1820-1903).

Spencer é atualmente um pensador muito ignorado; todavia, a ressurgência das forças liberalistas tem sido acompanhada da revalorização de parte de sua obra. Assim, há uma simpatia por seu pensamento quer pelos filósofos de mercado, quer pela renovada tentativa de aplicar os princípios evolucionistas à sociedade humana. A ausência de formação universitária e inserção profissional acadêmica de Spencer não impediu que ele fosse indicado a receber, ao longo dos últimos trinta anos de sua vida, uma série de homenagens acadêmicas (tendo recusado quase todas).

Juntamente com Edward Burnett Tylor (1832-1917) e Lewis Henry Mor­gan (1818-1881), Spencer está entre os três mais destacados evolucionistas do século XIX, e embora, segundo Burrow (1968), seu trabalho tenha sido exaltado da Rússia aos EUA, sua importância entre os pensadores do século XIX tem sido exagerada. Sua herança intelectual inclui também, além do evolucionismo, o liberalismo clássico calcado no individualismo, na noção puramente econômica das relações sociais, no Estado mínimo e na negação gradual das instituições com exceção da propriedade. Estas características fizeram dele o grande DARWINISTA SOCIAL, pois foi sobretudo seu evolucionismo e não o de Darwin, que, associado ao  liberalismo individualista, deu suporte às práticas excludentes e perigosas do evolucionismo social. 

O positivismo determinista presente nas ciências sociais na segunda metade do século XIX encontrou em Spencer um de seus mais firmes adeptos. Sua crença na causação natural o levou a adotar a teoria evolucionista. Tendo escrito algu­mas de suas obras onde a concepção de evolução é exposta antes mesmo da publicação do livro Origem das espécies de Darwin, Spencer buscou aplicar o princípio da evolução sistematicamente a todo o universo e es­ pecialmente à sociedade humana. Spencer considerava-se o Newton das ciências morais, a aplicar a lei universal da conservação de energia traduzida em princípio da evolução ao universo. Assim, para além do mundo ao qual os físicos se dirigem, a evolução se aplicaria também ao mundo dos seres vivos, aos homens e suas organizações sociais.

Sua concepção de evolução não vem, pois, de Darwin, nem ele foi um darwiniano. A concepção de evolução relaciona-se à sua crença na causação natural e a uma ciência determinista e, no caso de sua aplicação aos seres vivos, vem muito mais de um conhecimento de segunda mão das concepções de Jean-Baptiste Lamarck do que de uma reflexão a partir da obra de Darwin. Seu credo liberal valorizava, assim como os utilitaristas da primeira metade do século XIX, o indivíduo, mas de uma forma renovada, ao propor o conceito de estrutura social.

É dessa perspectiva individualista que se pode compreender a expressão de Spencer - “sobrevivência do mais apto" - para o conceito darwiniano de seleção natural. A seleção natural, tão importante por ter fornecido um sentido para as transformações e diferenças entre os seres vivos, inexplicáveis na perspectiva lamarquista, se ancora na comunidade, não no indivíduo. Spencer desloca para o indivíduo esse conceito crucial dos trabalhos de Darwin e o aloca na perspectiva do progresso. Além da deformação conceitual que representa a transformação da seleção natural em sobrevivência do mais apto, Spencer manteve até o final de sua vida a crença na concepção lamarquista de herança dos traços adquiridos. O evolucionismo liberalista de Spencer pode então hierarquizar as organizações sociais tomando como cume a organização liberal da Inglaterra colonialista.

Spencer foi muito mais resenhado por autores das ciências sociais que da psicologia. Contudo, considerando o retorno das abordagens evolucionistas ou evolucionárias na psicologia, Spencer tem sido retomado e historicamente revalorizado. Assim é que se indica repetidamente o elogio de Darwin e de William James a Herbert Spencer. 

Nessa vertente do melhoramento biológico, social e psíquico que se elaborou teoricamente na Inglaterra também pode ser incluído o contemporâneo de Spencer, Sir Francis Galton (1822-1911). As contribuições de Galton para a psicologia podem ser divididas em dois campos: a eugenia e a psicologia diferencial. 

A Eugenia significa “bem-nascido e consistia no estudo e no uso da reprodução seletiva com o fito de melhorar as espécies, principalmente dos atributos hereditários, ao longo das gerações. A defini­ção de eugenia foi refinada por Galton ao distinguir a eugenia positiva, que incentivava a reprodução do mais apto à da eugenia negativa, que buscava evitar ou dificultar a proliferação do menos apto. Assim, e nos termos marcadamente conservadores da Inglaterra vitoriana, Galton afirmou da maneira mais desqualificada sua impaciência e objeção em relação à tese da igualdade natural entre os homens (Galton, 1869: 44).

O esforço de Galton foi o de mostrar que as habilidades mentais – o que ele chamava gênio — eram traços hereditários tanto quanto os padrões físicos e estavam, consequentemente, submetidas aos mesmos dispositivos de transmissão. O lorde inglês utilizou para demonstrar tal propósito dois instrumentos de legitimação, um artifício matemático (a teoria das probabilidades) e as palavras de Darwin (a seleção artificial). O problema principal para Galton foi como ter acesso às habilidades mentais e como mostrar que eram traços hereditários. Para tanto, Galton fez uma passagem cheia de consequências ao correlacionar as habilidades mentais superiores à reputação profissional alcançada pelos individuos. O pressuposto era o de que a reputação so pode ser alcançada através das altas habilidades mentais. Em seguida era preciso mostrar como os indivíduos de alta reputação mantinham um padrão here­ditário. Em outras palavras, tratava-se de naturalizar as diferenças sociais. Além disto, observe-se que o termo correlacionar aqui é importante porque os instrumentos matemáticos permitem “limpar” as escolhas morais de Galton, uma vez que a sofisticação introduzida pelas matemáticas obstruem frequentemente a percepção dos interesses e consequências político-sociais envolvidos nessas analises.

O primeiro passo foi dado sem maiores dificuldades —“Estou con­vencido... – , o segundo foi dado ao indicar a similaridade entre a forma de distribuição das habilidades mentais e dos traços físicos herdados (ambos eram distribuídos segundo a curva normal). Embora tal similaridade não permitisse indicar a hereditariedade das habilidades mentais, o que importa notar é que o instrumental matemático ajudou a sustentar uma fraude cien­tífica muito mais por suas consequências sociais que por qualquer má-fé de seu criador e de seus divulgadores.

O argumento era circular; sem ter como medir a hereditariedade das habilidades mentais, Galton mediu as frequências com que a eminência ou reputação aparecia em famílias de grande notabilidade segundo o grau de parentesco. Comparando-as com as frequências de eminência esperada da população mais ampla, descobriu que as relações de homens eminentes exibiam uma frequência muito maior de eminência que a esperada na base e que ela declinava conforme o grau de parentesco dessas relações. Então, aí está a circularidade do argumento, Galton concluiu que esse padrão só poderia resultar da herança das habilidades mentais.

Independentemente das falhas do procedimento de Galton, estaría­mos enganados ao diminuir as consequências das propostas eugênicas. Elas tiveram uma ampla aplicação ao longo do século XX e estão presentes em nossos dias. O infame programa eugênico levado a cabo na Alemanha nazista em nome da pureza da raça ariana foi realizado pela esterilização forçada de centenas de milhares de pessoas consideradas mentalmente desadaptadas e pelos programas de eutanásia compulsória que mais tarde desembocaram no assassinato de milhões de “indesejáveis”, incluindo judeus, ciganos e ho­mossexuais, durante o Holocausto perpetrado na Segunda Grande Guerra.

O segundo maior movimento eugênico ocorreu nos EUA que, desde o final do século XIX, implantou leis sob a égide da eugenia proibindo o casamento dos epilépticos, imbecis e débeis mentais. As teses eugenistas também estiveram presentes em 1924 nas decisões do Congresso estadunidense de dificultar a imigração, ao serem aconselhados sobre os riscos de espalhar entre os estadunidenses um “estoque inferior” proveniente da Europa Oriental e do sul. Assim, também sob inspiração eugênica, foram adotadas, ainda nos EUA, leis contra o incesto e de antimiscigenação, bem como levados a cabo programas de esterilização que atingiram milhares de estadunidenses considerados desadaptados. Um relatório favorável desse programa de esterilização foi apontado pelo governo nazista como evi­dência de que a esterilização era praticável e humana e, durante o Tribunal de Nuremberg dos Crimes de Guerra, os administradores nazistas de programas de esterilização em massa apontaram os programas estadunidenses como sua inspiração. Contudo, observe-se que, com exceção do Reino Unido, quase todos os países não católicos da Europa Ocidental implan­taram ao longo do século XX uma legislação eugênica.

Após a Segunda Grande Guerra, os programas perdem força, mas muitos eugenistas nos EUA criam o termo criptoeugenia com a intenção de manter as propostas eugênicas disfarçadas. Assim, diversas argumentações sobre raça, imigração, pobreza, criminalidade e saúde mental são categorizadas como criptoeugênicas, ou seja, publicações e práticas eugênicas ganham novos nomes. Atualmente, um dos programas de inspiração eugênica de maior alcance está ligado ao projeto genoma de mapeamento do código genético.

Uma importante modificação nos procedimentos classificatórios praticados pelos pesquisadores do mundo natural no final do século XVIII e início do século XIX consistiu no abandono da descrição do que era observado diretamente na superfície das coisas e na eleição de princípios ordenadores invisíveis que pudessem fornecer sentido à classificação dos seres. A história natural própria ao século XVIII ordenava seu mundo pela comparação das características visíveis das plantas e dos animais em um sistema fechado, refratário às transformações. As novas noções de vida, de função e de órgãos que emergem no século XIX deslocam o procedi­mento descritivo da história natural e se impõem na formação de novas práticas que constituem a biologia (Foucault, 1987). Também o tempo passa a constituir uma dimensão invisível que ordena as relações entre os seres vivos. A genealogia se impõe à comparação.

Darwin, representante dessas modificações, também se perguntou so­bre o sentido da classificação. As aproximações e as diferenças que emergem da pura comparação entre os seres vivos geravam uma infinidade de categorias, tornando a classificação pouco operacional. Essas categorias poderiam ser drasticamente reduzidas se fosse eleito um princípio norteador que fornecesse uma inteligibilidade manuseável. Enquanto biólogos mais ligados à Igreja —os teólogos naturalistas —se esforçavam em agrupar os seres vivos em círculos simbólicos que revelariam a escrita de Deus própria ao criacionismo, Darwin, na esteira transformacionista, elege a genealogia como critério que fornece sentido às aproximações e diferenciações que permitem agrupar os tipos animais e vegetais. Entende, pois, que as enormes diferenças existentes entre os seres vivos remontariam a um longo passado reple­to de pequenas bifurcações. Se todos os seres existentes e que existiram pudessem ser coletados, então seria possível estabelecer suas séries, relacionando-os em um grande e indivisível grupo.

Ainda que esse princípio tenha sido altamente difundido a par­tir de então na biologia, não devemos esquecer sua artificialidade. As “ordens, famílias e gêneros são termos meramente artificiais extrema­mente úteis para mostrar o parentesco daqueles membros da série que não se tornaram extintos” (Darwin, 1859). Darwin ainda comenta que os natu­ralistas sabem que seus critérios são artificiais, mas têm a estranha tendência a esquecer essa característica e conceber suas propostas como o simples reflexo do mundo natural.

A psicologia entra em cena nos trabalhos de Darwin a partir de sua tentativa de saber como o homem descende de alguma forma preexistente. Se no livro Origem das espécies (1859) não houve menção à genealogia humana, com o sucesso de suas propostas, a pergunta encontra seu encaminhamento vinte e poucos anos depois em A ascendência do homem (1871) e em A ex­pressão das emoções em homens e animais (1872).

As conexões do homem com alguma forma preexistente foram procuradas nas variações da estrutura corporal e nas faculdades mentais. A assimetria dos critérios que garantem a conexão genealógica entre os seres vivos quando referidos às estruturas corporais e às faculdades mentais marca uma diferenciação presente entre biologia e psicologia. Darwin tem muito mais dificuldade em estabelecer critérios de ordenação das faculda­des mentais e seus elos com formas anteriores, em franco contraste com os critérios utilizados para as estruturas corporais.

Ainda que Darwin não tenha desenvolvido uma teoria sofisticada da relação mente-corpo, ele concebe as faculdades mentais como produtos do funcionamento cerebral. Seu argumento era bastante simples: assim com o não se sabe por que a gravitação é um efeito da matéria e ninguém fica perplexo por isso, também não sabemos por que a mente é um efeito do cérebro. Com essa definição naturalista, as faculdades mentais, tanto quanto os atri­butos estruturais dos organismos, poderiam ser utilizadas para classificá-los, legitimando a comparação entre homens e animais no campo da psicologia.

Entretanto, a tentativa de classificar um tipo animal por seus hábitos ou instintos havia se mostrado muito insatisfatória. Devemos lembrar sem­pre que as tentativas de classificação centradas em apenas um critério eram concebidas pelo naturalista com inadequadas e insuficientes, mas de uma forma geral o comportamento e as faculdades mentais não serviram ou não tiveram o mesm o respaldo que os critérios atinentes às estruturas corporais para o sistema classificatório.

Se fica claro que a base de sustentação da teoria biológica diferen­ciou-se da psicológica, por outro lado estaríamos equivocados ao afirmar que não houve interação entre elas, ou mesmo que a primeira tenha sido imposta à segunda. As faculdades mentais e o comportamento não são determinados passivamente pela evolução, tendo sido concebidos pelos transformacionistas como desempenhando um papel relevante na trajetória dos seres vivos. Jean-Baptiste Lamarck concebia o comportamento como simultaneamente produto e instrumento das transformações das espécies. Sua obra teve importante influência no pensamento de Darwin que a conheceu durante seus estudos em Edimburgo (onde tentou sem sucesso formar-se em medicina como seu pai e seu avo) e que manteve por longo tempo no eixo de suas reflexões. O pensamento do naturalista francês atua sobre o jovem Darwin da seguinte forma: algumas modificações no ambiente constrangem os animais a novos hábitos, em decorrência de novas exigencias. Novos habitos alteiam as estruturas cerebrais bem como outros órgãos, se praticados ao longo de muitas gerações. Para Darwin, a memória ou o pensamento, quando tornados habituais e involuntários, afetam a estrutura física do cérebro, podendo tais transformações ser transmitidas à prole. Dessa forma, os instintos ganhavam uma explicação materialista, mas grandes brechas ficaram abertas, a mais conhecida e mais grave sendo a pergunta: como conectar a modificação estrutural produzida pelo hábito com a transmissão para a prole das estruturas adquiridas?

Os instintos maravilhosos eram, para Darwin, extremamente difíceis de explicar pelo hábito. Sua dificuldade principal estava na acentuação do caráter não intencional e não consciente de comportamentos complexos. Como poderia a solitária vespa aprender a cavar um buraco, paralisar uma aranha e colocar seus ovos, se suas crias nascerão depois de sua morte.

Que benefício futuro ela poderá tirar? Que tipo de ajuste do comportamento pode ser evocado para dar sentido a este tipo de instinto? Em um formigueiro pode haver formigas divididas em duas ou mais castas, sendo algumas estéreis. Como esses insetos sexualmente neutros poderiam deixar prole?

Darwin encontrou respostas a estas perguntas na transposição do foco de análise do indivíduo para a população. A solução encontrada que permitiu a aplicação da teoria da seleção natural a estes casos foi o reconhecimento da diferença entre o animal que seleciona um comportamento por sua utilidade (o animal é o centro decisório) e o animal que é selecionado por seu comportamento útil (o animal é parte de um processo). A unidade de medida passa a ser a população ou a comunidade.

Um problema considerado psicológico como o do instinto ocupou, portanto, um lugar destacado no estabelecimento da teoria da seleção natural, envolvendo-a numa longa reflexão sobre a moral e as faculdades mentais.

Como dito anteriormente, foi principalmente nas obras A ascendência do homem (1871) e A expressão das emoções em homens e animais (1872) que Darwin buscou explicitar o parentesco comum entre homens e animais através das expressões e das faculdades mentais.

Ao longo desses livros foram desfiados extensos comentários sobre as semelhanças psicológicas entre homens e animais calcados em “fatos” colhidos por mais de quarenta anos através de observações, de questionários e de experimentações. A liberdade com que foram aplicados atributos mentais aos animais a partir das observações de viajantes e missionários salienta uma opção pela continuidade mental entre eles, já que esses “fatos” eram tremendamente antropomórficos e antropocêntricos. Muito mais do que uma fonte intelectual e documental para a construção de uma psico­logia comparada ou uma etologia, a psicologia de Darwin se apresenta como uma crítica aos argumentos que isolam qualitativamente homens e animais. Assim é que a observação dos cachor­ros pode fornecer uma evidência anticartesiana, uma vez constatado que eles constroem “uma ideia geral dos gatos e das ovelhas, e conhece[m] as palavras correspondentes tão bem quanto as pode conhecer um filósofo” (Fontenay, 1998: 566). Ou mesmo que os animais se espantem; aqui, lembramos ser o espanto uma característica-chave para a atividade filosófica na concepção de Platão e Aristóteles. Ficamos também cons­trangidos ao sermos comparados pelo naturalista em relação aos nobres sentimentos de um cão que, no momento mesmo de sua vivisseção, lambe a mão de seu dono: sinal não só de aceitação de seu martírio em nome da nobre causa da ciência, como de seu perdão por uma ação tão cruel.

O esforço de Darwin se justificava pela barreira imposta à teoria da seleção natural diante da descontinuidade das capacidades mentais do homem e dos animais. A genealogia simiesca do homem, apesar de ge­rar intensas discussões, foi aceita por um público amplo. Se o clero e algumas camadas dominantes a rejeitaram com fervor, o livro Darwin alcançou várias tiragens, as palestras de Huxley atraíam multi­dões e houve também a produção de uma literatura popular, divul­gando valores evolucionistas, avida­mente consumida por um grande público.

Mas, no plano das argumentações acadêmicas, muito havia ainda a ser feito para garantir a continuidade homem-animal no plano mental. Os esforços de George John Romanes (1848-1894) e Conwy Lloyd Morgan (1852-1936) foram os mais relevantes em continuidade com os do mais conhecido naturalista inglês.

Encarregado por Darwin de realizar a extensão das teses evolucionistas à mente e ao comportamento, Romanes realizou um estudo de psicologia comparada centrado na experiência humana consciente. Para ele, a força de uma teoria estava na possibilidade de fornecer inteligibilidade a campos novos que não tinham sido seu foco inicial e este era o caso da teoria da seleção na explicação de temas psicológicos como o instinto, a razão e o senso moral.

Seu projeto consistiu principalmente na elaboração de princípios explicativos da gênese da mente, mas ele também realizou estudos sobre o intelecto, a emoção, a vontade, a moral e a religião. Há um claro esforço em atestar a continuidade homem-animal, o que o levou a uma seleção bastante tendenciosa do material a ser analisado. Explicando: como seu material continuava provindo, em grande parte, de viajantes e missionários nas colônias europeias, Romanes o selecionava conforme a fama do autor do relato. Se o autor não fosse reconhecido, fazia a verificação da qualidade da observação através da confrontação das informações. Como a maioria dos relatos utilizados era proveniente de eminentes ingleses trabalhando nas longínquas terras daquele então vasto império colonial, não questionava seus dados nem sua interpretação, já que, segundo seus critérios, estes eram válidos e confiáveis. Dessa forma, o antropomorfismo das observações ganhava uma teorização academicamente legitimadora na obra de Romanes. 

Contudo, também contou com observação mais controlada e chegou mesmo a cuidar de um MACACO CEBUS COULO parte de suas pesquisas. A mente, em sua concepção, é imediatamente dada a nós, não podemos duvidar de que temos conhecimento de um certo fluxo de Pensamentos e sentimentos. Com esta perspectiva, a observação de outras mentes torna-se possível por inferência, a partir das atividades dos organismos que parecem exibi-las. Solipsismo e antropomorfismo regem a reflexão. Primeiro passo: os humanos têm acesso introspectiva e diretamente às suas mentes (é por analogia que podemos afirmar que todos partilhamos esta característica). Segundo passo: como só podemos inferir as mentes em animais a partir das atividades dos or­ ganismos, devemos compará-las às dos homens para, na medida de sua semelhança, vislumbrá-las.

Romanes justifica seu procedimento lançando mão de um argumento teológico. Assim como os teólogos mostraram que a mente divina só pode ser concebida por analogia com a nossa, ainda que imperfeita, também em reação à mente animal devemos impor tal entendimento e aplicar o “antropomorfismo invertido” (invertido aqui em comparação ao alvo teológico que, na primeira comparação, se dirige a Deus),

A consciência e a escolha são os traços distintivos que indicam a existência da mente entre os animais. Assim como os comportamentos humanos que não se restringem  ao conjunto de hábitos herdados podem ser explicados pela consciência e pela escolha, também as atividades dos animais que escapam ao hábito podem indicar decisão e consciência. Mas a mente só pode ser inferida a partir de atividades que se sobrepõem às determinações inatas. Atividade consciente e aprendizagem se aproximam e a distinção inato-aprendido passa ao primeiro plano.

Coube a Conwy Lloyd Morgan indicar um caminho para que a psicologia comparada pudesse se livrar das pesadas lentes do antropomor­fismo. Seu monismo metafísico o fez adotar a concepção de consciência de William James evitando o “forte preconceito de que temos estados mentais e de que o cérebro os condiciona” (1977a [1894]). Seu monismo fornece três ve­tores ao trabalho do pesquisador: uma teoria monista do conhecimento, uma interpretação monista da natureza e um monismo analítico. O primeiro evita tanto o idealismo quanto os dualismos que segmentam sujeito e objeto como entidades separadas e independentes. Nesta direção, os aspectos subjetivos e objetivos são uma divisão que se faz sobre o fluxo unitário da experiência pela atividade da razão. A concepção monista da natureza, por sua vez, o leva a conceber a análise psicológica e a biológica como aspectos de um mesmo processo, a mente consistindo em um dos aspectos da existência natural. Finalmente, o monismo analítico indica que a divisão mente-corpo resulta do trabalho do conhecimento. A atividade do conhecimento cria um objeto a ser conhecido para além dos sentidos, uma vez que o acesso a ele ocorre somente pela reflexão. O homem é concebido como objeto natural, sendo seus aspectos corporais e mentais estabelecidos pelo mesmo movimento e sem que um determine o outro.

Evocando a experiência subjetiva do leitor, Lloyd Morgan escreve “que ele sabe o que quero afirmar quando digo que ele é consciente” (1977a [1894]: 11). O termo mente é utilizado como o conjunto das atividades psí­quicas que, não tendo uma realidade independente do corpo, correspondem a diferentes modos de olhar o mesmo conjunto de ocorrências naturais.

Lloyd Morgan transformou a divisão entre a mente e o corpo em diferença de superfície, isto é, evitou sua duplicação ontológica. Entretanto, manteve a introspecção como via de acesso à mente: só podemos ter um conhecimento direto e imediato dos próprios processos psíquicos, o que faz da introspecção o ponto de partida de toda a psicologia comparada.

Mas seu monismo falha justamente na tentativa de conhecer as mentes animais. Podemos colocar sua questão da seguinte forma: se só temos conhecimento direto de nossa própria mente e derivamos sua existência nos outros homens por analogia, dada a semelhança interna à nossa espécie, como conhecer as mentes animais? E o aspecto corporal que sustenta a comparação porque permite estabelecer uma ponte en­tre as mentes humanas e as animais. Se a observação direta das mentes animais nos é vedada, as semelhanças corporais sustentam a hipótese das semelhanças psíquicas. O trajeto da comparação tem como ponto de partida o aspecto mental dos homens, passando em seguida a seu aspecto corporal, de onde, dadas as semelhanças, passa-se ao aspecto corporal de alguns animais para, finalmente, alcançarmos seu aspecto mental. A teoria da evolução constitui o solo desse trajeto, já que tanto o aspecto mental quanto o corporal são o resultado de exigências ambientais.

O dualismo de aspecto apresentado por Lloyd Morgan — que, em sua argumentação filosófica, seria secundário em relação ao monismo metafísico —, levou-o a uma valorização anômala (como compatibilizar a hierarquia dos aspectos com o monismo?) do aspecto corporal sobre o mental. A comparação entre os psíquismos segundo Lloyd M organ é legí­tima quando realizada, no máximo, em relação aos vertebrados superiores, porque seus estados psíquicos podem ser inferidos a partir da semelhança de seus hemisférios cerebrais com os dos homens. A dificuldade em atribuir esse privilégio ao aspecto físico, incoerente com o monismo, deixa em aberto o conhecimento dos estados psíquicos de animais cujas estruturas cerebrais são muito diferenciadas da dos homens.

Lloyd Morgan também introduziu o “princípio da simplicidade” na atividade comparativa. Este princípio diz que não se deve interpretar uma ação de um animal através de uma faculdade psíquica superior se ela puder ser explicada por uma outra mais simples. Tal princípio atuará no estabelecimento das diferenças entre as funções psíquicas de homens e animais, introduzindo uma continuidade imprevista ao legitimar a busca e a generalização de explicações “objetivas” das características mentais — os animais. É conhecido como cânon de Lloyd Morgan, organizando
pesquisas comparadas a partir da teoria da evolução. O parâmetro para inferir as habilidades mentais dos animais tem necessariamente que resultar de seu comportamento nos ambientes, já que a seleção natural não poderia explicar uma faculdade mental superior às exigidas por essa interação.

A acentuação do experimentalismo nos estudos psicológicos no iní­cio do século XX introduziu definitivamente uma desconfiança quanto à validade da observação. Se essa validade já havia sido notada por Romanes, os novos pesquisadores se ampararam sobretudo na observação planejada, não casual, e a tornaram dispositivo de legitimação indispensável.

A aproximação entre homens e animais levada a cabo por Darwm foi o solo de onde emergiu a psicologia comparada. Canguilhem (1970) mos­tra, entretanto, com o a metodologia desta se desenvolveu, em parte, contra a perspectiva darwiniana. A psicologia que compara homens e animais se tornou possível transformando o difundido paralelismo homem-ammal, com sua intransponível barreira, numa genealogia de muitas e pequenas
diferenças. Assim, noções como retorno, luta pela vida, adaptação por seleção natural forneceram instrumentos para a comparação na psicologia, mas sua aplicação teve que esperar até os trabalhos de Lloyd-Morgan.

A noção de meio específico da vida desenvolvida por Jacob von Uexküll (1864-1944) – considerado por alguns etólogos como figura cen­tral para emergência de seu campo – e, mais tarde, pela etologia permitiu o abandono dessa homogeneização promovida por Darwin na medida em que dissociou estrutura e comportamento. As características psicológicas do animal, se não anularmos as diferenças, devem ser tomadas pelas relações entre o organismo do animal e o meio que ele determina por sua estrutura: “A atenção de um animal é inseparável de seu modo de capturar suas presas. A rã aguarda e o sapo procura” (Canguilhem. 1970:125).

A psicologia elaborou essa relação entre homens e animais de três modos, primeiramente, tomando a conduta dos animais como referenciada a experiencia humana conscientemente vivida. Em seguida, a psicologia abordou as condutas animais como tema da fisiologia, compreendida como parte da biologia que aborda as relações entre o organismo e o meio. Uma terceira via foi o estudo do comportamento animal isolado de seu meio, isto é, inserido no laboratório e abordado analiticamente. Foi necessário que a psicologia se liberasse dessas formas de pesquisa para considerar o animal como sujeito de sua experiência, ou seja, foi necessário que esse caminho fosse percorrido para que a psicologia se despojasse de seu antropomorfismo.

Psicologia - História da Psicologia
1/12/2020 1:25:14 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Funcionalismo: as influências anteriores

Jenny estava vestida como qualquer criança típica de 2 anos, e certamente se comportava como uma criança de 2 anos. Milhares de pessoas afluíam para vê-la. Elas a encaravam maravilhados, encantados, pois Jenny - tão inocente, tão humana, na realidade era um orangotango, um macaco, como a maioria das pessoas a chamava. Jenny estava em exibição em uma gaiola de girafa no zoológico de Londres. O ano era 1838.

Poucas pessoas na Inglaterra, ou em qualquer lugar da Europa jamais tinham visto tal criatura, e aqueles que foram vê-la estavam surpresos, até mesmo desconcertados pelos maneirismos a que estavam tão familiarizados. Vestida em um vestido de babado, ela se sentava à mesa, usava uma colher para comer de um prato, tomava chá em uma xícara e parecia entender o que seu cuidador lhe dizia. Também parecia saber o que era e o que não era permitido fazer.

Um visitante escreveu:

O cuidador mostrou-lhe uma maçã, mas não a dava, o que fez com que se atirasse de costas, chutando e cho­rando, precisamente como uma criança malcriada... O cuidador disse: "Jenny, se parar de berrar e se comportar como uma menina boazinha, eu lhe dou a maçã." Ela certamente entendeu cada palavra e, embora como criança que custa a parar de choramingar, conseguiu a maçã (apud Aydon, 2002, p. 128).

Aparentemente, Jenny fazia com que aquele visitante se lembrasse de seus dois filhos pequenos, pois ele voltou ao zoológico alguns meses mais tarde, levando um instrumento de boca (gaita) e um espelho. Ele tocou o instrumento na frente da gaiola e depois o deu a ela pelas grades. Imediatamente ela o colocou nos lábios, como ele havia feito. Quando ele deu o espelho, ela ficou se olhando continuadamente como se estivesse surpresa com sua imagem, assim como os filhos daquele homem haviam ficado a primeira vez que se viram em um espelho.

Ele a observou aceitando pão de outro visitante, olhando primeiro para o seu cuida­dor para ver se podia comer. Mas Jenny também exibia comportamento voluntarioso e desobediente. Com frequência ela fazia algo que haviam dito que não deveria fazer. Quando ela acha que o cuidador não vai ver, mas que sabe que fez algo errado, ela se esconde. (...) Quando acha que vai ser chicoteada, ela se cobre com palha ou um cobertor (.apud Keynes, 2002, p. 50).

Observar o comportamento de Jenny teve um profundo efeito no nosso visitante. Ele escreveu o seguinte comentário em seu caderno: "Deixe o homem ver o orangotango domesticado e sua inteligência.... e depois deixe que se vanglorie de sua superioridade orgulhosa. (...) O homem, na sua arrogância, pensa que é o resultado de um grande tra­balho, digno da intervenção de uma divindade. Mais humilde e, creio verdadeiro, seria considerá-lo descendente dos animais" (apud Ridley, 2003, p. 9).

Quem era esse distinto visitante que ficou tão impressionado com Jenny? Seu nome era Charles Darwin.

O Protesto Funcionalista

Charles Darwin, com sua noção de evolução, mudou o foco da nova psicologia da estrutura da consciência para as suas funções. Era inevitável que a escola de pensamento funcionalista se desenvolvesse.

O funcionalismo se preocupa com as funções da mente, em como ela é usada por um organismo para se adaptar ao seu ambiente. O movimento da psicologia funcional focou em uma questão prática: O que os processos mentais conseguem realizar? Os funcionalistas estudaram a mente não do ponto de vista de sua composição - seus elementos mentais ou sua estrutura - mas sim como um conglomerado ou acúmulo de funções e processos que levam a consequências práticas no mundo real. As pesquisas realizadas por Wundt e Titchener nada revelaram sobre os resultados ou realizações da atividade mental humana, mas este não era o objetivo. Tais preocupações utilitárias eram incompatíveis com a sua abordagem puramente científica da psicologia.

Como um primeiro sistema de psicologia, puramente estadunidense, o funcionalismo foi um protesto deliberado contra a psicologia experimental de Wundt e a psicologia estrutural de Titchener, ambas vistas como restritivas demais. Essas primeiras escolas de pensamento não podiam responder às perguntas que os funcionalistas estavam fazendo: O que a mente faz? E como age?

Como resultado dessa ênfase nas funções mentais, os funcionalistas passaram a se in­teressar pelas aplicações em potencial da psicologia aos problemas da vida diária, de como as pessoas funcionam e se adaptam a diferentes ambientes. O rápido desenvolvimento da psicologia aplicada nos Estados Unidos pode ser considerado o legado mais importante do movimento funcionalista.

Este capítulo trata das raízes do movimento da psicologia funcional, incluindo os trabalhos de Darwin, Galton e os primeiros estudiosos do comportamento animal. É importante observar a época em que esses precursores do funcionalismo estavam desen­volvendo suas ideias: o período anterior e durante os anos em que a nova psicologia estava começando a evoluir.

A obra pioneira de Darwin sobre a evolução, On the origin of species (1859), foi publicada um ano antes do livro de Fechner, Elements of psychophysics (1860), e 20 anos antes de Wun­dt instalar o laboratório na University of Leipzig. Galton começou a trabalhar no problema das diferenças individuais em 1869, antes de Wundt escrever a obra Principies of physiological psychology (1873-1874). As experiências com psicologia animal já eram realizadas na década de 1880, antes de Titchener seguir da Inglaterra para a Alemanha para estudar com Wundt.
Portanto, a maior parte dos trabalhos a respeito das funções da consciência, das diferen­ças individuais e do comportamento animal estava sendo realizada ao mesmo tempo em que Wundt e Titchener optaram por excluir essas áreas das suas definições de psicologia. Somente com a chegada da nova psicologia aos Estados Unidos é que as funções mentais, as diferenças pessoais e os ratos de laboratório ganharam destaque na psicologia.

 

A Revolução da Teoria da Evolução de Charles Darwin (1809-1882)

A ideia da evolução não começou com Darwin. Na época em que ele publicou sua teoria em 1859, não havia nada realmente novo a esse respeito (ver Gribbin, 2002). A hipótese de que os seres vivos mudam com o tempo, noção fundamental da evolução, pode ser já encontrada no século V a.C., embora só fosse investigada de forma sistemática a partir do final do século XVIII. O fisiologista inglês Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin e de Francis Galton) afirmava que todo animal de sangue quente havia evoluído de um único filamento vivo e animado por Deus.

Erasmus Darwin acreditava que havia um Deus que originalmente havia estabelecido vida na Terra em movimento, mas que não interveio depois disso para alterar a flora ou fauna ou para criar espécies. As mudanças nas formas animais, dizia, ocorriam de acordo com as leis naturais que fazem com que as espécies continuamente se adaptem às mu­danças em seu ambiente.

Em 1809, o naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck formulou a teoria comportamentalista da evolução, que enfatizava a modificação das características físicas do animal mediante o esforço de adaptação ao ambiente. Lamarck sugeria que essas modificações eram herdadas por gerações sucessivas. Por exemplo, a girafa desenvolveu o seu longo pescoço por várias gerações devido à necessidade de alcançar os galhos cada vez mais altos para obter comida.

Em meados da década de 1800, o geólogo britânico Charles Lyell introduziu a noção da evolução na teoria geológica, argumentando que a Terra havia passado por vários está­gios de desenvolvimento até chegar à estrutura atual. No Capítulo 13, veremos que a ideia de evolução também influenciou o trabalho de Freud.

Passados tantos séculos aceitando-se a doutrina bíblica da criação, por que os inte­lectuais buscavam uma explicação alternativa? Uma das razões era a de que os cientistas estavam adquirindo cada vez mais conhecimento sobre as outras espécies que habitaram a Terra. Os exploradores estavam descobrindo formas de vida animal antes desconheci­das. Portanto, era inevitável que alguém questionasse como Noé fora capaz de colocar um casal de cada espécie animal na arca. Tantas foram as espécies descobertas que não havia como os pesquisadores continuarem a acreditar nessa história.

O navegador italiano Américo Vespúcio escrevera, já em 1501, após a terceira viagem em torno da costa da América do Sul: "Não há como descrever a enorme variedade de animais selvagens, a abundância de pumas, panteras, gatos selvagens, diferentes dos que vemos na Espanha, mas parecidos com os das ilhas Antípodas; tantos lobos, veados ver­melhos, macacos e felinos, saguis de diversas espécies e várias cobras enormes. (...) Tantas espécies não caberiam na arca de Noé" (apud Boorstin, 1983, p. 250).

Na década de 1830, os ingleses e europeus viram pela primeira vez espécies animais constrangedoramente semelhantes aos seres humanos. Antes disso, somente alguns explo­radores corajosos haviam visto animais como os orangotangos e chimpanzés. Em 1835, um ano antes de Darwin retornar de uma viagem de exploração que durou cinco anos, um chim­panzé chamado Tommy foi exibido no zoológico de Londres. Em 1837, uma orangotango foi exibida e outra, dois anos depois; ambas se chamavam Jenny. Na década de 1850, um orangotango macho foi exibido em várias cidades da Inglaterra e da Escócia e a propaganda dizia que ele exibia comportamentos inteligentes quase no mesmo nível dos humanos.

Em 1853, o Museu Britânico exibiu o esqueleto de um gorila ao lado de um esqueleto humano. Tamanha era a semelhança que muitos observadores alegavam sentir-se emba­raçados. Era possível continuar insistindo que os seres humanos eram as únicas criaturas totalmente diferentes das outras espécies? Talvez não.

Exploradores também descobriram fósseis e ossadas de criaturas que não correspon­diam aos das espécies existentes, esqueletos aparentemente pertencentes a animais que em algum momento perambularam pela Terra mas que haviam desaparecido. Essas des­ cobertas fascinaram os cientistas e leigos interessados, e muitas pessoas começaram a colecionar fósseis.

A Grã-Bretanha do século XVIII foi um marco de requinte e impecável bom gosto na propriedade e exibição de coleções de fósseis. Os próprios objetos não apenas eram raros e bonitos (...) como a sua simples posse era uma indicação de sede de conhecimento, de consciência da filosofia natural, de compreensão solidária dos processos misteriosos da Terra. (Winchester, 2001, p. 106)

As pessoas desejavam saber o que aqueles fósseis e ossadas poderiam revelar sobre a origem do homem. Para os cientistas, o crescente acúmulo desses artefatos dava indicações de que as formas vivas não podiam mais ser consideradas constantes, imutáveis desde o início dos tempos e deviam ser vistas como sujeitas a mudanças e modificações. As espé­cies antigas evidentemente tornaram-se extintas, dando lugar a novas, sendo algumas delas versões alteradas das formas existentes. Talvez tudo na natureza fosse resultado de mudanças e ainda continuasse no processo de evolução.

O impacto da mudança contínua foi observado não apenas nos círculos científicos e intelectuais, como também na vida cotidiana. O Zeitgeist social estava se transformando por causa da Revolução Industrial. Os valores, as relações e as normas culturais, mantidos constantes por várias gerações, de repente foram rompidos quando a migração em massa da zona rural para as pequenas cidades promoveu o rápido desenvolvimento dos centros industriais urbanos.

A crescente dominação da ciência contaminava as atitudes populares. As pessoas esta­vam cada vez menos convencidas das ideias a respeito da natureza humana e da sociedade baseadas nos dogmas das antigas autoridades religiosas. Ao contrário, estavam dispostas e ávidas para transferir essa crença para a fé científica.

Mudança era a ordem do dia. Afetava o fazendeiro, cuja vida agora pulsava no ritmo de uma máquina e não das estações do ano, assim como afetava o cientista, cujo tempo era gasto tentando desvendar uma ossada desenterrada. A atmosfera intelectual produziu a noção de evolução não apenas respeitável cientificamente, como também necessária. Entretanto, durante muito tempo os estudiosos analisaram, especularam e levantaram hipóteses, mas ofereceram poucas provas concretas. Então, Darwin, em seu livro On the origin of species, apresentou informações tão bem organizadas que a teoria da evolução não pôde mais ser ignorada. O Zeitgeist demandava essa teoria e Charles Darwin tornou-se o seu agente.

A Biografia de Darwin

Ele foi um dos homens mais felizes que já viveu. Seus dois avôs foram dois dos homens mais famosos na Inglaterra. Graças a eles, acostumou-se desde pequeno à companhia de pessoas inteligentes e artísticas. Cresceu em uma casa confortável, cheia de afeto, onde sua imaginação era livre para vagar. Seu pai era muito rico, e no final da sua adolescência percebeu que não teria que fazer nada na vida que não quisesse. Para o resto de sua vida, ele fez exatamente o que lhe agradava. E, até o final de sua vida, foi sempre rodeado pelo mesmo ambiente de amor e proteção de sua infância. (Aydon, 2002, p. xxiii)

Quando criança, Charles Darwin dava poucas indicações de que se tornaria o cientista tão dedicado e entusiasmado que o mundo viria a conhecer. Era rude e maldoso, aprontando travessuras, mentindo e roubando para chamar a atenção. Os biógrafos relatam, sobre a infância de Darwin, um episódio em que ele tentou quebrar a janela de uma sala em que fora trancado como castigo por mau comportamento (veja Desmond e Moore, 1991). Ele parecia tão pouco promissor que seu pai, um rico médico, acreditava que o jovem Charles acabaria desgraçando o nome da família.

Embora seu desempenho escolar fosse fraco, demonstrava interesse por história natu­ral e em colecionar moedas, minérios e conchas. Seu pai o mandou para a University of Edinburgh para estudar medicina, mas logo o jovem se mostrou entediado. Como resposta, o pai disse-lhe que deveria tornar-se clérigo. Ele passou três anos na Cambridge University e achou a experiência uma perda de tempo, pelo menos do ponto de vista aca­dêmico. No âmbito social, no entanto, achou fantástico, tendo sido esse o período mais feliz da sua vida. Passava os dias e as noites bebendo, cantando, jogando cartas, fazendo parte de um grupo que descrevia como esbanjador e de baixo nível intelectual. Também colecionava besouros.

O botânico John Stevens Henslow, um de seus professores, conseguiu uma indicação para Darwin como naturalista para fazer parte da excursão do HMS Beagle, um navio que o governo britânico estava preparando para uma viagem científica ao redor do mundo.

A famosa excursão, que durou de 1831 a 1836, explorou as águas da América do Sul, seguin­do para o Taiti e Nova Zelândia, e retornou à Inglaterra, passando pela Ilha Ascensão e pelos Açores. Todavia, Darwin quase fora recusado para trabalhar a bordo do navio por causa do formato do seu nariz. O capitão, Robert Fitzroy, orgulhoso de sua capacidade de julgar o caráter pelas feições do rosto, tinha certeza de que o nariz de Darwin indicava um homem preguiçoso, mas ele conseguiu convencê-lo do contrário. Fitzroy, um homem extremamente religioso, desejava a presença de um naturalista a bordo para encontrar provas concretas sobre a teoria bíblica da criação. Escolhera o homem errado.

A viagem rendeu a Darwin a oportunidade ímpar de observar uma variedade de vida animal e vegetal e de coletar diversas espécies, além de enorme quantidade de dados. A viagem também parece ter mudado sua personalidade. Não mais um diletante e amante do prazer, Darwin retornou à Inglaterra como um cientista dedicado e com uma única paixão: desenvolver a teoria da evolução.

Casou-se em 1839 e três anos depois mudou-se com a esposa para o vilarejo de Down, a 26 quilômetros de Londres, onde pôde concentrar-se no trabalho sem as agitações da vida urbana. Sempre teve a saúde frágil e agora começava a sofrer de perturbações físicas como vômitos, gases, furúnculos, erupções cutâneas, tonturas, tremores e depressão. Sua casa se transformou em uma “enfermaria onde ninguém era saudável; a doença era regra e a saúde uma exceção" (Desmond, 1997, p. 291).

Os sintomas de Darwin eram aparentemente de fundo neurótico, provocados por qualquer interrupção na sua rotina diária. Sempre que alguma interferência externa o impedia de trabalhar, sofria outro ataque. A doença tornara-se um mecanismo convenien­te, protegendo-o dos afazeres mundanos e proporcionando a solidão e a concentração, necessárias para ele criar e desenvolver sua teoria. Um escritor batizou a condição de Darwin de "maldição criativa" (Pickering, 1974).

Ele se isolava, evitava festas e declinava de compromissos; chegou a instalar um espelho do lado de fora da janela da sua sala de estudos para espiar os visitantes que vinham procurá-lo. Dia após dia, semana após semana, o estômago o incomodava. (...) Era um homem preocupado. (Desmond e Moore, 1991, p. xviii-xix)

Darwin tinha motivos de sobra para se preocupar. A ideia de evolução vinha sendo condenada pelas autoridades religiosas conservadoras e até em alguns meios acadêmicos. O clero, entendendo-a como moralmente degenerativa e subversiva, pregava que, se as pessoas fossem retratadas como animais, igualmente se comportariam. O resultado de tal selvageria certamente causaria o colapso da civilização.

Darwin se autodenominava o "capelão do demônio", dizendo a um amigo que traba­lhar na teoria da evolução era como confessar um assassinato (Desmond e Moore, 1991). Ele sabia que, quando publicasse o livro, seria condenado por heresia. Percebeu que essas preocupações com o trabalho eram a causa dos seus persistentes males físicos, "a maior parte dos males de que a minha carne é herdeira” (apud Desmond, 1997, p. 254). Esperou 22 anos para apresentar publicamente as suas ideias, pois desejava ter a certeza de que, ao fazê-lo, a teoria estaria perfeitamente apoiada em provas científicas irrefutáveis. Assim, Darwin prosseguiu no trabalho com calma e com cuidado extremamente rigoroso.

Em 1842, Darwin redigiu um esquema de 35 páginas da sua teoria da evolução. Dois anos mais tarde, expandiu as ideias em um ensaio de 200 páginas, mas ainda não estava satisfeito. Continuou a manter segredo da maior parte do seu trabalho, compartilhando as ideias ape­nas com os amigos mais íntimos, como o geólogo Charles Lyell e o botânico Joseph Hooker.

Por mais 15 anos Darwin elaborou e trabalhou seus dados, conferindo, aperfeiçoando, revi­sando, insistindo para que todos os aspectos da sua posição fossem inquestionáveis.

Ninguém sabe ao certo quanto tempo mais ele se estenderia no trabalho se não houves­ se recebido uma carta chocante, em junho de 1858, de uma pessoa chamada Alfred Russel Wallace, um naturalista 14 anos mais jovem que ele. Morando nas índias Orientais para se recuperar de uma doença, Wallace esboçara uma teoria da evolução nitidamente semelhante à de Darwin, embora não estivesse baseada em dados tão ricos como os coletados por ele. E o pior é que Wallace afirmava ter desenvolvido a sua teoria completa em apenas três dias! Pedia a opinião e a ajuda de Darwin para publicá-la. O biógrafo de Wallace escreveu:

No intervalo de duas horas, desde os primeiros arrepios da febre até ficar banhado em um mar de suor [sintomas da malária], Wallace disse que havia desenvolvido toda a teoria da seleção natural, e a esboçou naquela mesma noite, apesar de sua exaustão física. Foi uma luz de inspiração que uniu anos de experiência e contemplação. Nas duas noites seguintes ele escreveu toda a sua teoria. (Slotten, 2004, p. 144)

Em sua carta a Darwin, Wallace pediu sua opinião sobre suas ideias e ajuda para que seu trabalho fosse publicado. Wallace escreveu anos mais tarde que o efeito desse curto trabalho sobre Darwin foi "praticamente paralisante", como se Darwin estivesse lendo sua própria teoria. "Qualquer noção da sua importância desaparecera, sua originalidade fora massacrada" (apud Raby, 2001, p. 137).

Assim como vários cientistas, Darwin era muito ambicioso. Escreveu em seu diário: "Gostaria de conseguir não valorizar tanto essa tal de fama. (...) E ainda abomino a ideia de escrever porque é importante criar; todavia certamente ficaria contrariado se outra pessoa publicasse essas doutrinas antes de mim" (apud Merton, 1957, p. 647-648). Darwin disse ao amigo Lyell que, se ajudasse Wallace a publicar sua teoria, todos os seus anos de
trabalho árduo e, o mais importante, o crédito pela criação da teoria da evolução estariam perdidos (Benjamin, 1993).

Enquanto ficava em dúvida se devia ajudar Wallace ou apressar a publicação do seu trabalho, seu filho de 18 meses morreu de febre escarlatina. Desesperado, Darwin remoía a respeito das implicações da carta de Wallace e as opções que surgiam para si próprio. Finalmente, munido de enorme sentido de justiça e de bom senso, decidiu: "Parece difícil para mim perder a prioridade de vários anos de dedicação, mas não tenho certeza absolu­ta de que isso altere a justiça do caso. (...) Seria desonesto de minha parte publicar agora" (apud Merton, 1957, p. 648).

Lyell e Hooker sugeriram que tanto o trabalho de Wallace como partes do livro de Darwin que estava para ser publicado fossem lidos em um encontro na Sociedade Linneana (uma sociedade científica cujo nome homenageia o naturalista sueco Linnaeus), em 10 de julho de 1858, no mesmo dia em que o filho de Darwin fora enterrado. O resto está registrado na história. Todas as 1.250 cópias da primeira edição do livro de Darwin, On the origin ofspecies, foram vendidas no dia da publicação. A obra provocou reações e discussões imediatas, e Darwin, embora fosse objeto de consideráveis críticas, ganhou a "tal da fama".

Quando o livro foi publicado, Darwin foi acometido de novas enfermidades. Ele des­creveu uma terrível e longa ânsia de vômito", "furúnculos que ardiam", além de se sentir “extremamente mal e em cacos" (apud Desmond, 1997, p. 257). Fugiu para uma estância hidromineral no norte da Inglaterra, onde se escondeu do mundo por dois meses. Wallace nunca expressou ressentimento por não receber o reconhecimento proporcional pelo desenvolvimento de uma teoria tão semelhante à de Darwin. Na verdade, sua reação foi pratica­mente contrária. Quando soube que o seu trabalho e o de Darwin seriam lidos na Sociedade Linneana, Wallace declarou haver recebido "mais reconhecimento e crédito do que mere­cia". Mostrou-se satisfeito quando soube que, ao mandar seus papéis para Darwin, ele fora o "meio inconsciente que fez com que [Darwin] se concentrasse na tarefa" para completar um dos livros mais importantes da história (Wallace, apud Raby, 2001, p. 141-142).

Depois de ler o livro de Darwin, Wallace escreveu a um amigo que "Jamais teria me igualado à totalidade desse livro, seu enorme acúmulo de evidência, sua impressionante argumentação, e seu admirável tom e espírito. (...) Sr. Darwin criou uma nova ciência." Em uma nota pessoal a Darwin fez elogios semelhantes e guardou a resposta que lhe foi enviada. Darwin respondeu "Com quanta nobreza você trata dessa falha da humanidade. Mas você fala com modéstia demasiada de si mesmo; se tivesse tido as mesmas vantagens, teria feito o trabalho tão bem, ou talvez ainda melhor do que eu." (Slotten, 2004, p. 172-173).

A Origem das Espécies por meio da Seleção Natural

A teoria da evolução darwiniana é tão conhecida que neste tópico abordaremos apenas alguns pontos básicos. A partir do fato evidente da variação entre os membros individuais de uma espécie, Darwin deduziu ser essa variabilidade espontânea transmitida de uma geração à outra. Na natureza, o processo de seleção natural resulta na sobrevivência dos organismos mais bem adaptados ao seu ambiente e na eliminação dos demais. A batalha pela sobrevivência é constante e as formas de vida sobreviventes são as que se adaptam ou se ajustam com êxito às circunstâncias ambientais a que forem expostas. Resumindo, as espécies que não se adaptam não sobrevivem.

Darwin formulou as ideias sobre a luta pela sobrevivência e a “sobrevivência do mais apto" após a leitura de Essay on the principie of population (1789), de autoria do economista Thomas Malthus, no qual observou que o suprimento de alimentos tende a crescer em proporção aritmética, enquanto a população humana, em progressão geométrica. O resul­tado inevitável seria, como Malthus descreveu em tom melancólico, muitos seres huma­nos vivendo praticamente em condições de inanição. Somente os mais fortes, espertos e adaptáveis sobreviveriam.

Darwin aplicou o princípio malthusiano a todos os organismos humanos para desenvol­ver a sua teoria da seleção natural. Esses seres vivos que sobrevivem à batalha e atingem a maturidade tendem a transmitir aos seus descendentes as mesmas habilidades e vantagens que lhes permitiram prosperar. Além disso, como a variação é uma das leis gerais da here­ditariedade, a prole também apresenta variações; alguns descendentes acabam tendo suas boas qualidades mais desenvolvidas que as dos pais. As qualidades tendem a sobreviver e, ao longo de várias gerações, ocorrem mudanças que podem ser bastante significativas a ponto de produzirem as diferenças observadas hoje entre as espécies.

A seleção natural não foi o único mecanismo de evolução reconhecido por Darwin. Ele também concordava com a doutrina de Lamarck de que as modificações na forma, derivadas da experiência durante o ciclo de vida do animal, podem ser transferidas às gerações subsequentes.

Thomas Henry Huxley e a polêmica sobre a evolução.

À medida que os estudiosos de diversas áreas aderiam à teoria da evolução ou a execravam, o próprio Darwin permanecia à parte e não se interessava em participar das crescentes discussões. Thomas Henry Huxley (1825-1895), ambicioso biólogo que foi a força diretriz no estabelicimento da ciência inglesa, estava disposto a se envolver nas polêmicas e foi um dos defensores mais ávidos da teoria.

Darwin chamava Huxley de seu "bom e gentil agente propagador do evangelho [da evolução]". Huxley era um orador eloquente e carismático e tinha prazer em debater com os inimigos da ciência, agora inimigos da evolução. Era dotado de enorme apelo popular, principalmente entre os operários. Para eles, Huxley promovia a ciência como uma nova religião, um novo caminho para a salvação. O biógrafo de Huxley disse: "Operários barbudos com as mãos calejadas acotovelavam-se para ouvir seus discursos. (...) Ele arrebanhava multidões semelhantes às que vemos hoje em encontros cristãos protestantes ou apresentações de rock" (Desmond, 1997, p. xvii). As pessoas paravam-no na rua para pedir autógrafo e os taxistas não lhe cobravam a corrida.

No período de um ano após a publicação de On the origin of species, a British Association for the Advencement of Science promoveu um debate a respeito do evolucionismo na Oxford University. Os amigos e defensores de Darwin pressionavam-no a participar do debate, no entanto ele não suportava a ideia de ter de se defender em público. Seus amigos insistiam e a situação tornava-se insustentável. Finalmente, escreveu um biógrafo, "seu estômago o salvou. Dois dias antes da reunião sua saúde deteriorou-se completamente Uma crise como essa nunca fora tão bem-vinda (Browne, 2002, p. 118).

No encontro, os oradores foram Huxley, defendendo Darwin e a evolução, e o bispo Samuel Willberforce (apelidado de Soapy [Sam, o Chato] por causa dos seus intermináveis discursos), que defendia a bíblia.

Com relação às ideias de Darwin, [Wilberforce] se felicitava (...) por não descender de um macaco. Veio a resposta de Huxley "Se tivesse de escolher, preferiria ser descendente de um simples macaco do que de um homem que emprega seu conhecimento e sua eloquencia para deturpar a imagem daqueles que dedicam a vida em busca da verdade". (White, 1896/1965, p. 92)

Outro orador no debate em Oxford foi Robert Fitzroy, o capitão do navio Beagle durante a viagem de Darwin. Fitzroy declarava-se culpado por ajudar na pesquisa de Darwin, aprovando a sua seleção para fazer parte da excursão como naturalista (apesar do formato do seu nariz). Fitzroy agitava a bíblia, enquanto conclamava o público a acreditar na palavra de Deus, expressando seu profundo pesar e arrependimento por ter proporcionado a Darwin a oportunidade de coletar dados para o desenvolvimento de sua teoria. Ninguém estava interessado em ouvir as lamentações de Fitzroy. "A sala permanecia em silêncio", declarou o biógrafo de Darwin, e, por fim, Fitzroy "afundou-se em seu assento sem praticamente ser ouvido" (Browne, 2002, p. 123).

Fitzroy tinha tida uma vida difícil desde a viage do Beagle Após servir o Parlamento e um período curto e não bem-sucedido como governador da Nova Zelândia, retornou à Inglaterra para se dedicar ao estudo da meteorologia. "Desenvolveu as técnicas fundamentais de previsão do tempo [e] inventou o sistema de avisos e sinais anunciando tempestades que salvaram inúmeras vidas nas décadas que se seguiram, e foi o responsável pela publicação de previsões diárias de tempo. Na verdade, ele inventou o termo 'previsão do tempo'" (Gribbin e Gribbin, 2004, p. 5). Mas sua obsessão lhe custou a fortuna da família.

Ficou também bastante atormentado com o papel que teve em habilitar Darwin a produzir a teoria da evolução. Ele estava convicto que se não tivesse escolhido Darwin para acompanhá-lo na viagem no Beagle, a teoria não teria surgido. Quando Darwin lhe enviou uma cópia do On the origin of species, ele respondeu que "não conseguia achar nada enobrecedor ser descendente do mais antigo dos macacos" (apud Nichols, 2003, p. 311).

Cinco anos depois do debate em Oxford, em um domingo de manhã no meio de sua preparação para ir à igreja, o pensativo capitão suicidou-se cortando sua garganta com uma lâmina. A Sra. Darwin escreveu que seu marido "havia sentido muito o acontecido com Fitzroy, mas que não estava nada surpreso. Lembrou-se de uma ocasião em que ele [Fitzroy] quase enlouqueceu na viagem no Beagle" (apud Browne, 2002, p. 264).

Posterior­mente Darwin enviou uma considerável quantia de dinheiro à viúva desamparada.

Outros trabalhos de Darwin.

O segundo importante trabalho sobre a evolução, The descent of man (1871), reunia as provas da evolução humana a partir das formas de vida mais simples, enfatizando a semelhança entre os processos mentais humanos e animais. O livro rapidamente ganhou popularidade, e um famoso escritor de revista ressaltou: "Na sala de estar, o livro compete com o mais recente romance; na sala de estudos, incomoda como o homem da ciência, o moralista e o teólogo. De todos os lados escorrem enxurra­das mistas de ódio, admiração e encantamento" (apud Richards, 1987, p. 219).

Darwin realizou um estudo intensivo sobre as expressões emocionais nos humanos e nos animais. Sugeriu que as mudanças dos gestos e das posturas típicas de vários estados emocionais podiam ser interpretadas com base no evolucionismo. Na obra The expression of the emotions in man and animals (1872), explicou as expressões emocionais como vestí­gios dos movimentos que em dado momento tiveram alguma função prática.

Darwin alegava que as expressões faciais e a chamada linguagem corporal eram "manifestações inatas e incontroláveis" dos estados emocionais internos. Por exemplo, a dor era acompanhada de trejeitos e o prazer, de um sorriso. Darwin afirmava que esses tipos de expressões humanas e de outras espécies animais surgiam por meio da evolução. Seu biógrafo relatou: "As expressões que surgem nos rostos humanos eram, para ele, uma prova viva e diária da ancestralidade animal" (Browne, 2002, p. 369).

Darwin também deu uma pequena contribuição para a literatura psicológica infantil com o diário sobre seu filho. Ele registrou cuidadosamente o desenvolvimento da criança e publicou o material intitulado “A biographical sketch on an infant” (1877) na revista Mind. O diário é um importante precursor da psicologia do desenvolvimento, um exemplo da tese de Darwin de que as crianças passam por uma série de estágios do desenvolvimento paralelos aos estágios da evolução humana.

A Evolução em Andamento: o Bico dos Tentilhões

Darwin realizou várias de suas observações a respeito da variação entre as espécies quan­ do esteve nas Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico, próximo à costa da América do Sul. Observou como os animais da mesma espécie haviam evoluído de formas diferentes em resposta às diversas condições ambientais.

Seguindo os passos de Darwin, os biólogos Peter e Rosemary Grant, da Princeton University, acompanhados de um grupo dedicado de estudantes de pós-graduação, visi­taram as ilhas para monitorar as modificações encontradas nas gerações subsequentes de 13 espécies de tentilhões, decorrentes da adaptação dos pássaros às drásticas mudanças ambientais. O programa da pesquisa começou em 1973 e durou mais de 30 anos. Os pesquisadores testemunharam a evolução em andamento, observando as diferenças nas pequenas aves cantoras de uma geração a outra. Os Grants chegaram à conclusão de que Darwin havia subestimado a força da seleção natural. No caso dos tentilhões, a evolução era mais rápida do que se imaginava.

As variações observadas em uma espécie de tentilhão iniciaram durante um rigoroso período de seca que afetara o suprimento alimentar das aves, reduzindo-o a pequenas sementes duras e pontiagudas. Somente os tentilhões de bicos mais grossos, cerca de 15% da população, eram capazes de quebrar para abrir as sementes. Muitas aves de bicos finos não conseguiam abrir as sementes e logo morriam. Portanto, sob essas condições de seca, os bicos mais grossos eram ferramentas necessárias para a adaptação.

Quando essas aves de bicos mais espessos se reproduziam, sua ninhada também herdava essa característica, com bicos de 4% a 5% maiores do que os dos seus ancestrais antes da seca. Em apenas uma geração, a seleção natural produzira uma espécie mais bem adaptada e forte.
Logo vieram as chuvas, com enormes tempestades e enchentes que varreram da ilha as sementes graúdas, deixando apenas as miúdas como fonte de alimentação dos pássaros. Agora as aves de bicos mais grossos estavam em desvantagem, pois não conseguiam pegar a quantidade adequada de comida. Era nítida a necessidade de bicos mais finos para a sobrevivência. A partir daí, é fácil deduzir o que aconteceu. Peter Grant escreveu: “A sele­ção provocou uma verdadeira revolução na vida dos pássaros. As aves maiores, com bicos grandes, estavam morrendo enquanto as aves pequenas, com bicos menores, estavam se desenvolvendo. A seleção mudou rapidamente de lado" (apud Weiner, 1994, p. 104).

Na geração seguinte, o tamanho médio do bico era menor. Uma década mais tarde, como consequência da seca entre 2003-2004, observou-se outra evolução no tamanho do bico, em resposta àquele ambiente modificado (Grant e Grant, 2006). Mais uma vez a espécie havia evoluído, adaptando-se às mudanças do seu ambiente. Assim como Darwin previra, apenas os mais aptos sobreviveram.

O elo perdido? Em 2006, cerca de 147 anos depois da publicação de On the origin of the species, um grupo de cientistas dos Estados Unidos descobriu diversos fósseis em uma ilha remota do Canadá, ao norte do Círculo Ártico. Acredita-se que os fósseis encontrados eram os restos do esqueleto de um peixe enorme, medindo quase três metros de comprimento, e foi considerado o tão procurado elo perdido - isto é, um peixe no processo de evolução para se tornar um animal terrestre (Daeschler, Shubin e Jenkins, 2006; Shubin, Daeschler e Jenkins, 2006).

Os fósseis, que se acreditava ter 275 mil anos, tinham todas as características de peixe, como barbatanas e escama, e também mostravam evidência de membros em formação. Tinham ossos que correspondiam ao ombro, parte superior dos braços, cotovelo e traços semelhan­tes ao punho, desconhecidos em outras espécies de animais. Essas descobertas forneceram suporte adicional às ideias de Darwin sobre a transição de uma espécie para outra.

A Influência de Darwin na Psicologia

O trabalho de Darwin, bem no final do século XIX, influenciou a psicologia contempo­rânea, mediante:

  • o enfoque na psicologia animal, que formou a base da psicologia comparativa;
  • a ênfase nas funções e não na estrutura da consciência;
  • a aceitação da metodologia e dos dados de diversas áreas;
  • o enfoque na descrição e mensuração das diferenças individuais.

A teoria da evolução suscitou a intrigante possibilidade da continuidade do funcio­namento mental entre os humanos e os animais inferiores. Se a mente humana fosse uma evolução das mentes mais primitivas, então será que haveria semelhanças entre o funcionamento mental dos animais e dos homens? Dois séculos antes, Descartes insis­tira haver uma diferença entre o funcionamento humano e o animal. Agora a questão voltava à tona.

Os psicólogos perceberam a importância do estudo do comportamento animal para a compreensão do comportamento humano e concentraram a pesquisa no funcionamentomental dos animais, introduzindo um novo tópico no laboratório de psicologia. A investi­gação da psicologia animal viria exercer grande impacto no desenvolvimento da área.

A teoria da evolução provocou também uma mudança no objeto de estudo e na meta da psicologia. O enfoque da escola de pensamento estruturalista era a análise do conteúdo da consciência. O trabalho de Darwin inspirou alguns psicólogos que trabalhavam nos Estados Unidos a analisarem as funções da consciência. Para alguns pesquisadores, esse enfoque pareceu mais importante do que a descoberta de qualquer elemento estrutural da consciência. E assim, gradualmente, à medida que a psicologia se dedicava mais ao estudo do funcionamento do ser humano e dos animais na adaptação ao seu ambiente, a investigação detalhada dos elementos mentais, iniciada por Wundt e Titchener, perdia
o seu apelo.

As ideias de Darwin influenciaram a psicologia, ampliando os métodos que essa nova ciência passara a usar com legitimidade. Os métodos empregados no laboratório de Wundt, em Leipzig, foram derivados principalmente da fisiologia, mais especificamente dos métodos psicofísicos de Fechner. Os métodos de Darwin, que produziam resultados aplicáveis tanto nos seres humanos como nos animais, não tinham qualquer semelhança com as técnicas baseadas na fisiologia. Os dados de Darwin foram obtidos de diversas fon­tes, incluindo a geologia, a arqueologia, a demografia, as observações de animais selvagens e domésticos e a pesquisa com reprodução. Foram as informações obtidas de todos esses campos que deram suporte à sua teoria.

Essa foi uma prova tangível e impressionante da possibilidade de os cientistas estuda­rem a natureza humana adotando técnicas que não a introspecção experimental. Seguindo o exemplo de Darwin, os psicólogos que aceitavam a teoria evolucionista e sua ênfase nas funções da consciência tornaram-se mais ecléticos em relação aos seus métodos de pesquisa, expandindo, assim, os tipos de informações obtidos.
Outro efeito da evolução na psicologia foi o crescente enfoque nas diferenças indivi­duais. Durante a viagem do Beagle, Darwin observou várias espécies e formas, de modo que, para ele, era evidente a variação entre os membros da mesma espécie. Se cada geração fosse idêntica aos seus ancestrais, não haveria evolução. Portanto essas variações, ou seja, essas diferenças individuais, consistiam em um princípio importante do evolucionismo.

Enquanto os psicólogos estruturalistas continuavam a buscar as leis gerais que abranges­sem toda a mente, os psicólogos influenciados pelas ideias de Darwin procuravam as dife­renças mentais individuais e logo apresentaram técnicas para medir essas diferenças.
O material a seguir foi extraído da autobiografia de Darwin. Essa passagem não se refere à sua pesquisa ou à sua teoria, mas trata-se da imagem que ele tinha de si próprio e sua opinião sobre as qualidades pessoais que o levaram ao sucesso.


Texto original

Trecho Extraído de The Autobiography of Charles Darwin (1876)

Meus livros tiveram boa vendagem na Inglaterra, foram traduzidos para vários idiomas e passaram por várias edições em outros países. Ouvi dizer que o sucesso de um trabalho no exterior é o melhor teste para verificar seu valor perene. Tenho dúvidas se, afinal, essa afir­mação é digna de confiança; todavia, a julgar por esse padrão, o meu nome deve perdurar por alguns anos. Portanto, talvez seja de valia tentar analisar as qualidades mentais e as con­dições das quais dependeu o meu sucesso, embora ciente de não haver homem capaz de fazê-lo corretamente.
Não sou dotado de grande rapidez de apreensão ou sagacidade, que é notável em alguns homens inteligentes como, por exemplo, Huxley. Considero-me, assim, um mau crítico: quando leio pela primeira vez um trabalho ou um livro, normalmente ele suscita a minha admiração e somente depois de muita reflexão é que percebo os pontos fracos. Minha capacidade de seguir uma linha de pensamento extensa e puramente abstrata é bastante limitada e, portan­to, nunca teria êxito na metafísica ou na matemática. Minha memória é boa, porém vaga: suficiente para me alertar, indicando-me morosamente já ter eu observado ou lido algo que contradiga a conclusão a que estou chegando ou, de modo contrário, a favoreça; e depois de algum tempo, geralmente sou capaz de lembrar-me onde buscar o embasamento necessário. Em certo sentido minha memória é tão fraca, que jamais fui capaz de memorizar por alguns dias uma única data ou um verso de um poema. (...)

O lado favorável da balança, creio ser superior aos homens comuns no aspecto de obser­var algo que facilmente escapa da atenção, analisando-o cuidadosamente. Minha dedicação ao trabalho de observação e à coleta dos fatos chega praticamente ao extremo, O meu amor firme e ardente pela ciência natural é o mais importante.

Esse amor puro, no entanto, tem sido alimentado pela ambição de ser estimado por meus colegas naturalistas. Desde a juventude, sinto o profundo desejo de compreender ou explicar tudo que observo, ou seja, de agrupar todos os fatos sob algumas leis gerais. Essas causas combinadas proporcionaram-me paciência para refletir ou ponderar por quanto tempo fosse necessário a respeito de qualquer problema inexplicável. No que me concerne julgar, não tenho capacidade para seguir cegamente outros homens. Tenho me dedicado com fir­meza para manter minha mente livre de modo a renunciar a qualquer hipótese, mesmo que muito querida (e não resisto a criar uma sobre qualquer assunto), assim que se apresentem fatos que a desmintam. De fato, não possuo outra alternativa senão agir dessa forma, pois, - exceção dos Corais de Reefs, não tenho lembrança de uma única primeira hipótese que não tenha sido, deoois de algum tempo, renunciada ou bastante modificada. Isso me conduziu, naturalmente a rejeitar totalmente o raciocínio dedutivo nas ciências mistas. Por outro lado, não sou tão cético, uma característica da mente que creio ser um insulto para o progresso da ciência. Uma boa dose de ceticismo ao cientista é aconselhável para evitar muita perda de tempo, [mas] conheci não poucos homens que, sinto com certeza, várias vezes foram assim dissuadidos da experiência ou das observações que poderiam provar-se direta ou indireta­mente válidas (...)

Meus hábitos são metódicos e essa qualidade vem se mostrando bastante eficaz para a minha linha particular de trabalho. Ultimamente, venho tendo amplo lazer por não ter de obter meu próprio sustento. Até mesmo o meu estado de enfermidade, embora aniquilando vários anos da minha vida, salvou-me das distrações e divertimentos sociais.

Portanto, o meu sucesso como um homem da ciência, aonde quer que ele tenha me levado, foi determinado, de acordo com o meu julgamento, por condições e qualidades mentais diver­sificadas e complexas. Dentre essas características, as mais importantes são o amor à ciência, a paciência irrestrita para longas reflexões sobre qualquer assunto, o trabalho dedicado na obser­vação e coleta dos fatos e uma fatia razoável de criatividade, além do senso comum. Com essas modestas habilidades que possuo, é realmente surpreendente que eu houvesse influenciado tão extensamente a crença dos homens da ciência em alguns pontos importantes.


Diferenças Individuais: Francis Galton (1822-1911)

O trabalho de Galton a respeito da herança mental e das diferenças individuais da capacidade humana incorporou efetivamente o espírito da evolução na nova psicologia. Antes dele, o fenô­meno das diferenças individuais quase não era considerado um tema adequado para estudo.
Um dos poucos cientistas pioneiros a reconhecer as diferenças individuais nas habi­lidades e nas atitudes foi o médico espanhol Juan Huarte (1530-1592). Trezentos anos antes dos estudos de Galton nessa área, Huarte havia publicado um livro intitulado The examination of talented individuals (O exame dos indivíduos talentosos), em que apresentava uma grande variedade de diferenças individuais da capacidade humana (apud Diamond, 1974). Huarte sugeria que as crianças começassem a estudar desde cedo para que a educa­ção pudesse ser planejada individualmente de acordo com as suas habilidades. Por exem­plo, mediante uma avaliação adequada, seria oferecida ao aluno com aptidão musical a oportunidade de estudar música e as disciplinas afins.

O livro de Huarte teve alguma repercussão, no entanto suas ideias não eram formalmen­te seguidas antes de Galton. Embora Weber, Fechner e Helmholtz houvessem observado as diferenças individuais nas pesquisas experimentais, não investigaram sistematicamen­te essas descobertas.

Além disso, Wundt e Titchener sequer consideravam as diferenças individuais como parte legítima do estudo da psicologia.

A Biografia de Galton

Francis Galton era dotado de extraordinária inteligência (um QI estimado de 200) e riqueza de ideias originais. Entre alguns dos tópicos da sua pesquisa estão as impressões digitais que a polícia acabou adotando para a identificação criminal), a moda, a distribuição geo­gráfica da beleza, o levantamento de peso e a eficácia da oração religiosa. Ele inventou uma versão inicial da impressora de teletipo, um dispositivo para abrir cadeados e um periscópio que o permitia olhar por sobre as cabeças das pessoas durante um desfile de rua.

Galton era o caçula de nove filhos e nasceu em 1822, nas proximidades de Birmingham Inglaterra. Seu pai era um banqueiro próspero cuja família abastada e socialmente desta­cada incluia pessoas de esferas de grande influência como o governo, a Igreja e o exército. Francis era uma criança precoce que aprendia rapidamente. Um biógrafo escreveu que, aos 12 meses Galton conseguia reconhecer todas as letras maiúsculas; aos 18 meses conhecia bem o alfabeto inglês e o grego e chorava se fossem retirados de sua vista- aos 2 anos e meio leu seu primeiro livro... Aos 5 já estava bem familiarizado com os trabalhos de Homero. (Brooks, 2004, p. 18)

Aos 16 anos, pela insistência de seu pai, Galton começou a aprender medicina no Birmingham General Hospital, como assistente de médico. Distribuía medicamentos lia ívros de medicina, tratava de fraturas, amputava dedos, extraía dentes, aplicava vacina nas crianças e divertia-se lendo os clássicos da literatura. No geral, entretanto, não achava uma experiencia prazerosa e continuava somente por pressão do pai.

Um incidente ocorrido durante o aprendizado médico de Galton é um exemplo da sua curiosidade. Desejando conhecer os efeitos dos diversos medicamentos da farmácia ele passou a tomar pequenas doses de cada um e a anotar a sua reação, iniciando, de forma sistematica, com os que começavam com a letra "A". Essa aventura científica teve fim na etra C, quando tomou uma dose de óleo de cróton, um forte laxante.

Depois de um ano no hospital, continuou seus estudos de medicina no King's College em Londres. No ano seguinte mudou os planos e matriculou-se no Trinity College da Cambridge University. Ali, diante do olhar do busto de sir Isaac Newton, procurou seguir seu interesse pela matemática. Embora seu trabalho houvesse sido interrompido por um profundo surto mental, conseguiu formar-se. Retomou o odioso estudo da medicina, até que a morte do seu pai finalmente o libertou daquela profissão.

Nesse momento, a viagem e a exploração chamavam a atenção de Galton. Viajou por toda a Africa fazendo viagens difíceis e perigosas para áreas onde homens brancos jamais tinham visitado. Ele achou tudo muito empolgante e animador, exceto talvez por um incidente contado por seu biógrafo:

Só e longe de casa, parece que Galton possa ter superado sua timidez e procurou os serviços de uma prostituta. Sua coragem foi retribuída com uma grande dose de doença venérea que o perseguiu intermitentemente por muitos anos. Quer seja verdade ou não, a sua atitude em relação às mulheres esfriou notadamente apartir de 1846. o ano em questão. (Brookes, 2004, p. 60)

Quando voltou para a Inglaterra publicou histórias sobre suas viagens, que lhe renderam uma medalha da Royal Geographic Society [Sociedade Real de Geografia], Na década e 1850, parou de viajar, alegando como causas o casamento e a saúde frágil, mas manteve o interesse pela exploraçao e escreveu um famoso guia intitulado The art of travel. O livro fez tanto sucesso que publicado em oito edições, em oito anos, e reimpresso em 2001. Galton tambem organizava expedições para exploradores e dava orientações sobre a vida do campo a soldados em treinamento para servirem em país estrangeiro.

Sua inquietação mental o conduziu em seguida à meteorologia e à criação de instru­mentos para coletar informações meteorológicas. Seu trabalho nesse campo resultou no desenvolvimento do tipo de mapa meteorológico utilizado até hoje. Galton resumiu suas descobertas em um livro considerado a primeira tentativa de cartografar em grande esca­la os padrões de meteoros.

Quando seu primo Charles Darwin publicou On the origin of species, Galton ficou fas­cinado pela nova teoria. Escreveu, dizendo que o livro "marcou época no meu próprio desenvolvimento mental, assim como no pensamento humano em geral (apud Gillham, 2001, p. 155). O primeiro ponto a chamar sua atenção foi o aspecto biológico da evolução, e assim ele realizou uma pesquisa sobre os efeitos das transfusões de sangue entre os coe­lhos para descobrir se as características adquiridas seriam herdadas. Embora seu interesse pelo lado genético do evolucionismo não houvesse durado muito tempo, as implicações sociais da teoria direcionaram seu trabalho subsequente e determinaram sua influência na psicologia moderna.

A Herança Mental

O primeiro livro importante de Galton para a psicologia foi Hereditary genius (1869). Quando Darwin o leu, escreveu a Galton, dizendo nunca ter lido algo tão interessante e original. Galton procurou demonstrar que a grandeza ou a genialidade individuais ocorriam com tanta frequência dentro das famílias que a mera explicação da influência ambiental não era suficiente. Resumindo, sua tese afirmava que um homem notável teria filhos homens notáveis (naquele tempo, as filhas tinham poucas oportunidades de se destacarem, a não ser por meio de um casamento com algum homem importante).

A maioria dos estudos biográficos descritos por Galton em Hereditary genius era pes­quisas sobre os ancestrais de influentes cientistas e médicos contemporâneos. Os dados demonstravam que uma pessoa famosa herdava não apenas a genialidade, como também sua forma específica. Por exemplo, um grande cientista nascia em uma família que já se houvesse destacado na ciência.

O objetivo de Galton era incentivar o nascimento de indivíduos mais notáveis ou mais aptos na sociedade e desencorajar o nascimento dos inaptos. Para essa finalidade, fundou a ciência da "eugenia", palavra por ele cunhada. Eugenia, ele afirmou, lida com as "questões relacionadas com o termo grego, Eugenes, isto é, de boa estirpe, hereditariamente dotado de qualidades nobres" (apud Gillham, 2001, p. 207). Galton desejava impulsionar o aperfeiçoamento das qualidades herdadas da raça humana. Argumentava que os seres humanos, assim como os animais de criação, podiam ter as características melhoradas mediante a seleção artificial. Se as pessoas de muito talento fossem selecionadas e acasa­ladas geração após geração, o resultado seria uma raça humana extremamente talentosa. Propôs o desenvolvimento de testes de inteligência para selecionar homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução seletiva, e recomendou que os melhores recebessem incentivos financeiros para se casarem e procriarem.

Na tentativa de verificar sua teoria da eugenia, Galton estudou problemas de mensuração e de estatística. Para o livro Hereditary genius, aplicou conceitos estatísticos a problemas de hereditariedade, classificando os homens extraordinários de sua amostragem em categorias, conforme a frequência com que seus níveis de capacidade ocorriam na população. Os dados comprovaram que os homens notáveis apresentavam maior probabilidade de terem filhos extraordinários do que os homens comuns. A amostragem consistia em 977 homens famosos, cada um tão notável que a proporção era de 1 para cada 4.000 homens. Aleatoriamente, a expectativa seria de haver no grupo apenas um parente importante; no entanto havia 332.

A probabilidade de superioridade em algumas famílias não era alta o suficiente para Galton aceitar seriamente qualquer possibilidade de influência de um ambiente superior, como melhores oportunidades educacionais ou vantagens sociais. Seu argumento era de que a eminência ou a sua ausência deviam-se exclusivamente a uma função hereditária, e não à oportunidade.

Galton escreveu também English men of science (1874), Natural inheritance (1889) e mais 30 trabalhos a respeito da hereditariedade. Publicou a revista Biometrika, fundou o labo­ratório de eugenia na University College, de Londres, e uma organização para promover suas ideias acerca do aperfeiçoamento das qualidades mentais da raça humana.

No trecho a seguir, extraído de Hereditary genius, Galton discute os limites do desen­volvimento tanto físico como mental impostos pela hereditariedade. Ele observa que nenhum tipo de esforço, mental ou físico, possibilita que uma pessoa avance além de suas características genéticas.


Texto original

Trecho Extraído de Hereditary Genius: an Inquiry into Its Laws and Consequences (1869), de Franeis Galton

Não tenho como admitir a hipótese ocasionalmente expressa, e muitas vezes implícita, prin­cipalmente nas histórias escritas a fim de ensinar as crianças a serem boas, de que os bebês recém-nascidos são muito parecidos e que os únicos agentes a criarem as diferenças entre dois garotos e entre dois homens sejam a rígida aplicação e o esforço moral. É da maneira mais incondicional que faço objeção contra as pretensões da igualdade natural. As experiên­cias do berçário, da escola, da universidade e das carreiras profissionais formam uma cadeia de provas contrárias. Admito francamente o enorme efeito da educação e das influências sociais no desenvolvimento dos poderes ativos da mente, assim como reconheço o efeito do uso no desenvolvimento dos músculos do braço de um ferreiro e nada mais. Deixe o ferreiro simplesmente trabalhar, e ele descobrirá que existem algumas proezas acima do seu poder que são convenientes para a força de um homem de feitio hercúleo, embora possa ter tido uma vida sedentária. (...)

Todo aquele que se exercita fisicamente descobre a magnitude da sua força muscular para o refinamento. Quando começa a caminhar, a remar, a utilizar halteres ou a correr, descobre, para seu deleite, que seus [músculos] se fortalecem e a sua resistência à fadiga aumenta dia após dia. Enquanto é um novato, talvez se vanglorie da inexistência de um limite designável ao treinamento dos seus músculos; todavia logo notará que o ganho diário diminui e que, por fim, acaba desaparecendo. Seu desempenho máximo torna-se uma quantidade rigidamen­te determinada. Aprende a medir milimetricamente a sua capacidade de salto em altura ou sua ausência quando atinge o mais alto grau de treinamento. Aprende a dosar a força que pode aplicar no dinamômetro, comprimindo-o. É capaz de aplicar um golpe na máquina utilizada para medição de impacto e obter certo grau de índice, mas nada mais. É assim na corrida, no remo, na caminhada e em qualquer outra forma de exercício. A força muscular humana possui um limite definido que não pode ser ultrapassado por nenhum exercício ou treinamento.

Esse argumento é precisamente similar à experiência vivida por cada aluno que trabalha com a sua capacidade mental. O garoto ansioso no primeiro dia de aula, ao confrontar-se com as dificuldades intelectuais, fica maravilhado com seu progresso. Vangloria-se do desenvolvi­mento mental recém-conquistado e da sua capacidade crescente de aplicação e, talvez, cari­nhosamente acredite estar a seu alcance tornar-se um dos heróis que deixaram a sua marca ao longo da história mundial. Os anos passam, ele compete repetidas vezes com os seus colegas nos exames da escola e da faculdade e logo conquista o seu lugar entre eles. Sabe que pode vencer este ou aquele concorrente; que existem alguns com quem compete em igualdade de condições e outros com feitos intelectuais dos quais ele nen se aproxima. (...)

Dessa maneira, com esperanças recém-renovadas e com toda a ambição de um jovem de 22 anos, sai da universidade e ingressa em um campo de competição ainda maior. Ali, o mesmo tipo de experiência pelo qual já passou o aguarda. Surgem as oportunidades - e as surgem para todo homem - e ele se sente incapaz de agarrá-las. Ele tenta e é tentado de diversas maneiras. Em mais alguns anos, a menos que definitivamente cegado pela própria vaidade, aprende exatamente quais são os desempenhos de que é capaz e quais são os que estão além da sua capacidade. Quando atinge a maturidade, é confiante apenas dentro de determinados limites e se conhece, ou deveria conhecer-se, assim como é provavelmente julgado pelo mundo, com todas as suas inconfundíveis fraquezas e todas as suas inegáveis forças. Não se tortura mais em realizar esforços inúteis pelos discursos falaciosos da presunçosa vaidade, todavia limita as suas realizações às matérias abaixo do nível de seu alcance e descobre o verdadeiro repouso moral na convicção honesta de que está enga­jado na melhor empreitada de que é capaz de desempenhar, proporcionada pela sua natureza.


Métodos Estatísticos

Galton nunca ficava totalmente satisfeito com um problema até encontrar alguma maneira de quantificar os dados e analisá-los estatisticamente. Quando precisava, até desenvolvia os próprios métodos. 

Adolph Quetelet (1796-1874), um matemático belga que também era pintor, poeta e escritor, acreditava fortemente na utilidade da estatística, "convencido de que a estatística fornecia um insight ao comportamento humano e à compreensão da sociedade (Cohen, 2005, p. 126). Quetelet foi o primeiro a usar métodos estatísticos e a curva normal de distribuição em dados biológicos e sociais. A curva normal fora empregada em trabalhos acerca da distribuição de medidas e erros na observação científica, mas não havia sido aplicada à variabilidade humana até Quetelet demonstrar que as medidas de altura de 10 mil indivíduos ficavam próximas da curva normal. A sua expressão l homme moyen (o homem médio) explicava a descoberta de que a maioria das medidas físicas ficavam distribuídas em torno da média ou do centro da distribuição e poucas se encontravam
próximas de qualquer extremo.

Galton ficou impressionado com os dados de Quetelet e presumiu que resultados simi­lares seriam obtidos para as características mentais. Por exemplo, Galton descobriu que as notas atribuídas nos exames das universidades seguiam a curva normal. Devido à simplicidade da curva normal e à sua consistência em vários traços, ele sugeriu que qualquer conjunto grande de medidas ou de valores das características humanas podia ser descrito satisfatoriamente por dois números: o valor médio da distribuição (a média aritmética) e a dispersão ou a faixa de variação em torno desse valor médio (o desvio-padrão).

O trabalho estatístico de Galton produziu uma das medidas científicas mais importan­tes: a correlação. O primeiro relatório, utilizando o que ele chamou de "correlação" foi elaborado em 1888. As modernas técnicas estatísticas para a determinação da validade e confiabilidade dos testes, bem como dos métodos analítico-fatoriais, são resultado direto da sua pesquisa de correlação, os quais foram baseados na observação da tendência das características herdadas de regressarem na direção da média. Por exemplo, ele observou que, na média, os homens de estatura alta não são tão altos quanto seus pais; por outro lado, os filhos de homens de estatura bem baixa são mais altos do que os pais. Ele represen­tou graficamente as propriedades básicas do coeficiente de correlação e criou uma fórmula para o cálculo, embora não seja mais usada.

Incentivado por Galton, seu aluno Karl Pearson (1857-1936) desenvolveu a fórmula usada atualmente para calcular o coeficiente de correlação (o coeficiente de correlação produto-momento de Pearson), cujo símbolo é a letra "r" inicial da palavra "regressão", como homenagem à descoberta da tendência dos traços humanos herdados de regressão para a média feita por Galton. Durante muitos anos Pearson se preocupou com a ideia de que sua reputação científica não passaria de uma simples "nota de rodapé em uma fórmula (...) Esse medo tornou-se uma grande verdade" (E. Baumgartner, 2005, p. 84).

A correlação é uma ferramenta fundamental para as ciências sociais e comportamentais, bem como para a engenharia e as ciências naturais. Além disso, outras técnicas de estatística foram desenvolvidas graças ao trabalho pioneiro de Galton.

Testes Mentais

A expressão testes mentais foi cunhada por James McKeen Cattell, discípulo estadunidense de Galton e aluno de Wundt. Entretanto foi Galton quem deu origem ao conceito de testes mentais. Ele imaginava que a inteligência podia ser medida com base na capacidade sensorial individual e que, quanto mais inteligente, mais alto seria o nível de funcionamento sensorial do indivíduo. Galton extraiu essa ideia da visão empirista de John Locke de que todo conhecimento é adquirido por meio dos sentidos. Se Locke esti­vesse correto, as pessoas mais inteligentes teriam os sentidos mais aguçados.

A fim de atingir seus objetivos, Galton precisava inventar um aparelho que realizasse medidas sensoriais em um grande número de pessoas com rapidez e precisão. Por exemplo para determinar a frequência sonora mais alta, passível de detecção, inventou um apito que testou em animais e em seres humanos. Caminhava pelo zoológico de Londres com uma bengala que tinha o apito afixado em uma ponta e na outra uma espécie de bexiga de bor­racha que ele apertava para tocar o apito, enquanto observava a reação dos animais. O apito de Galton tornou-se uma peça-padrão entre os equipamentos do laboratório de psicologia até ser substituído, na década de 1930, por um dispositivo eletrônico mais sofisticado.

Entre outros instrumentos usados por Galton estão o fotômetro, para medir a precisão com que uma pessoa consegue encontrar dois pontos da mesma cor, um pêndulo calibra­do, para medir a velocidade de reação à luz e ao som, e uma série de pesos ordenados para medir a sinestesia ou a sensibilidade muscular. Criou ainda uma barra com várias medidas de distância para testar a estimativa de extensão visual e conjuntos de recipientes contendo diversas substâncias para testar a distinção olfativa. Em sua maioria, os testes de Galton serviram como protótipos para equipamentos que se tornaram padrão de laboratório.

Munido de seus novos testes, Galton prosseguiu coletando uma enorme quantidade de dados. Fundou o Laboratório Antropométrico na International Health Exhibition [Ex­posição Internacional de Saúde], em 1884, e mais tarde transferiu-o para o museu South Kensington de Londres. O laboratório funcionou durante seis anos e, nesse período, Galton coletou dados de mais de 9 mil pessoas. Ele arrumava os instrumentos para as medidas psicométricas e antropométricas sobre uma mesa comprida, no fundo de uma sala estrei­ta, de mais ou menos 2m de largura por 11m de comprimento. Mediante o pagamento de uma pequena taxa, o visitante entrava, passava por todo o comprimento da mesa e um atendente realizava a avaliação e registrava os dados em um cartão.

Além dessas medidas mencionadas, os funcionários do laboratório registravam a altu­ra, o peso, a capacidade respiratória, a força de impulsão e compressão, a rapidez de sopro, a audição, a visão e a percepção cromática. Cada pessoa passava por um total de 17 testes. O objetivo do programa de testes em larga escala de Galton era nada menos que a defini­ção da variedade da capacidade humana de toda a população britânica para determinar seus recursos mentais coletivos.

Um século mais tarde, um grupo de psicólogos estadunidenses analisou esses dados (Johnson et al, 1985) e descobriu muitas correlações teste-reteste, indicando a consistência estatística dos dados. Esses psicólogos constataram também que os dados forneciam informações acerca das tendências do desenvolvimento infantil, juvenil e adulto, dentro da população testada. As medidas como o peso, o alcance do braço, a capacidade respiratória e a força de compressão mostraram-se similares às descritas na literatura psicológica mais recente, exceto em reiação à velocidade de desenvolvimento que, na época de Galton, parece ter sido um pouco mais lenta. Os psicólogos chegaram à conclusão de que esses dados continuam instrutivos.

A Associação de Ideias

Galton trabalhou em dois problemas relacionados com a área da associação:

  1. a diversidade de associações de ideias;
  2. o tempo de reação (o tempo necessário para a produção de associações).

Um dos métodos usados por Galton para estudar a diversidade de associações era cami­nhar cerca de 400m pela rua Pall Mall (em Londres, entre a Trafalgar Square e o palácio de St. James), concentrando sua atenção em um objeto até que ele lhe incitasse uma ou duas associações de ideias.

A primeira vez em que realizou essa experiência, surpreendeu-se com o número de associações provocadas por cerca de 300 objetos que vira. Muitas dessas associações eram lembranças de experiências do passado, inclusive de incidentes que pensava ter se esque­cido havia muito tempo. Ao repetir a caminhada alguns dias depois, constatou uma considerável repetição das associações ocorridas na primeira experiência, o que pôs fim ao seu interesse na questão. Voltou-se para as experiências sobre o tempo de reação, que produziam resultados mais satisfatórios.
Preparou uma lista de 75 palavras e escreveu cada qual em uma tira de papel separada. Depois de uma semana, leu uma palavra de cada vez e, com o cronômetro, registrou o tempo que levou para produzir duas associações para cada palavra. Muitas delas consistiam em apenas uma palavra, mas algumas eram imagens e figuras mentais que exigiam diversas palavras para descrevê-las. A tarefa seguinte era determinar a origem dessas associações. Identificou cerca de 40% dos acontecimentos da infância e da adolescência, demonstração inicial da influência das experiências da infância na personalidade adulta.

Galton também ficou bastante impressionado com a influência dos processos de pensamento do seu inconsciente, que trouxeram para o nível consciente incidentes que acreditava haver esquecido muito tempo atrás. Disse que chegou a acreditar "que o meu melhor trabalho cerebral era totalmente independente da [consciência]" (apud Gillham, 2001, p. 221). Escreveu sobre a importância do inconsciente em um artigo publicado na revista Brain (1879). Em Viena, Sigmund Freud, que tinha ideias próprias a respeito da importância do inconsciente, era assinante da revista e foi nitidamente influenciado pelo trabalho de Galton.

Mais importante que os resultados foi o método experimental que Galton desenvol­veu para estudar as associações, hoje conhecido como o teste de associação de palavras. Wilhelm Wundt adaptou a técnica no laboratório de Leipzig, como mencionamos no Capítulo 4, limitando as respostas dos indivíduos a apenas uma palavra. O analista Cari Jung aprimorou a técnica para aplicá-la na sua pesquisa de associação de palavras relativas à personalidade.

Imagens Mentais

As pesquisas de Galton a respeito das imagens mentais marcaram a primeira aplicação ampla do questionário psicológico. Pedia-se às pessoas que se lembrassem de alguma cena, como, por exemplo, a mesa do café-da-manhã daquele dia, e tentassem inferir imagens. Elas eram instruídas a relatar se as imagens eram obscuras ou nítidas, claras ou escuras, coloridas ou não, e assim por diante. Para sua surpresa, o primeiro grupo de pessoas, cien­tistas conhecidos, não relatou nenhuma imagem nítida. Alguns não entenderam muito bem do que Galton estava falando. Tomando uma amostragem mais ampla da população, Galton obteve relatos de imagens nítidas e bem distintas, cheias de detalhes e de cores. As imagens descritas pelas mulheres e crianças eram mais concretas e detalhadas. Utilizando-se da análise estatística, Galton descobriu que as imagens mentais, assim como muitas outras características humanas, estavam distribuídas na população conforme a curva normal.

O trabalho de Galton sobre as imagens estava baseado na sua contínua tentativa de demonstrar as semelhanças hereditárias. Descobriu que a probabilidade de ocorrência de imagens semelhantes era maior entre parentes do que entre pessoas desconhecidas.

Aritmética Olfativa e Outros Tópicos

A riqueza do talento de Galton fica evidente na variedade dos seus estudos de pesquisa. Ele chegou a se colocar no estado mental de uma pessoa que sofre de paranóia, imaginando que todos ou tudo que via estavam o espionando. Um historiador relata que, quando ele fazia isso durante a sua caminhada matutina, "sentia como se todo cavalo olhasse direta­mente para ele ou, desconfiadamente, dissimulasse a espionagem, simplesmente fazendo de conta que não lhe prestava atenção" (Watson, 1978, p. 328-329).

No auge da controvérsia entre o evolucionismo de Darwin e a teologia fundamentalista, Galton estudou a questão com a objetividade necessária e concluiu que, embora muitas pessoas tivessem fortes crenças religiosas, não havia provas suficientes da sua validade. Realizou uma pesquisa sobre o poder da oração na produção de resultados e verificou não ter ela eficácia para os médicos curarem pacientes ou para os meteorologistas tentarem mudar as condições do tempo, nem para os religiosos aplicarem-na na vida cotidiana. Acreditava haver pouca diferença entre as pessoas possuidoras de fortes crenças religiosas e as que não possuíam, em termos de expectativa de vida, de relacionamento interpessoal ou de enfrentamento dos próprios problemas. Galton esperava que um conjunto de cren­ças mais efetivo pudesse ser estruturado em termos científicos. Pensava que o desenvol­vimento de uma raça humana superior por meio da evolução, mediante a eugenia, devia ser a meta da sociedade e não um lugar no céu.

Seu interesse na quantificação e na análise estatística muitas vezes se expressava no seu apego aos números. Passava o tempo entre palestras e peças teatrais contando os boce­jos e as tossidas do público. Descrevia os resultados como uma medida do tédio. Em uma ocasião, quando um artista pintava o seu retrato, contou o número de pinceladas: cerca de 20 mil. Um dia decidiu contar pelo cheiro e não por números, e praticou bastante para poder esquecer o significado deles. Mas, em vez de esquecer os números, atribuiu valores numéricos aos odores, como o cheiro de menta, e aprendeu a adicionar e subtrair pensan­do no cheiro. Esse exercício intelectual deu origem a um trabalho intitulado “Arithmetic by smell" ("Aritmética olfativa"), publicado na primeira edição da revista especializada estadunidense Psychological Review.

Comentários

Galton passou 15 anos pesquisando problemas psicológicos e seus esforços tiveram um impacto significativo na direção da nova psicologia, embora não fosse realmente um psicólo­go. Era uma pessoa extremamente bem dotada, cujos talento e temperamento não ficaram restritos a uma única disciplina. Basta verificar os métodos e o escopo do seu interesse: adaptação, hereditariedade versus ambiente, comparação das espécies, desenvolvimento infantil e testes mentais. Seu trabalho exerceu maior influência na evolução da psicologia estadunidense do que o trabalho do fundador da disciplina, Wilhelm Wundt.

A Psicologia Animal e a Evolução do Funcionalismo

A teoria da evolução de Darwin foi comprovadamente um estímulo para o desenvolvimento da psicologia animal. Antes da publicação de On the origin ofspecies, não havia razão para os cientistas se preocuparem com a mente animal, já que os animais eram apenas robôs sem mente e sem alma. Afinal, Descartes afirmou que os animais não tinham qualquer semelhança com os homens.

O trabalho de Darwin alterou essa visão conformista, pois suas conclusões apontaram para a inexistencia de qualquer distinção evidente entre a mente humana e a animal. Assim os cientistas propuseram a continuidade entre todo aspecto mental e físico dos seres humanos e dos animais, com base na teoria de que o homem descende do animal por meio do continuo processo de desenvolvimento evolutivo. Darwin afirmou: "Não existe diferença fundamental entre o homem e os mamíferos superiores em relação às faculdades mentais" (1871, p. 66). E ainda, acreditava que os animais inferiores sentiam prazer e dor, alegria e tristeza; tinham sonhos e até certo grau de imaginação. Mesmo as minhocas, afirmou Darwin, demonstram prazer ao comer, além de paixão sexual e senti­mento social, sendo tudo uma prova da existência de alguma forma de mente animal.

Se fosse possível provar a existência da habilidade mental nos animais, além de compro­var a continuidade entre a mente animal e a mente humana, essas evidências colocariam por terra a dicotomia humano/animal defendida por Descartes. Desse modo, estava lança­do o desafio para os cientistas buscarem as provas da existência da inteligência animal.

Darwin defendeu suas ideias sobre a inteligência animal no livro The expression of the emotions in man and animais (1872), em que argumentava que o comportamento emo­cional humano deriva do comportamento herdado que um dia fora útil aos animais mas que não é mais relevante para o homem. Um exemplo é a expressão nos lábios de uma pessoa quando ela quer demonstrar escárnio. Darwin alegava ser esse gesto remanescente da forma como os animais enfurecidos mostravam os dentes caninos.

Nos anos que se seguiram à publicação de On the origin of species, o tema da inteligencia animal ganhou popularidade, não apenas entre a comunidade científica como tambem entre o publico em geral. Nas décadas de 1860 e 1870, muitas pessoas escreviam para as revistas populares e científicas pedindo exemplos de comportamento animal que comprovassem habilidades mentais antes ignoradas. Histórias circulavam dando conta de feitos marcantes da inteligência de gatos e cães domésticos, cavalos e porcos e até de lesmas e pássaros.
Nem o grande experimentalista Wilhelm Wundt escapou dessa tendência. Em 1863 antes de tornar-se o primeiro psicólogo da história, Wundt escreveu a respeito das habili­dades intelectuais de vários seres vivos, desde besouros até castores. Ele presumia que os animais que exibissem qualquer capacidade mínima sensorial também deviam ser dotados de poder de julgamento e de inferência consciente. Na verdade, os animais simples não deviam ser considerados inferiores ou menos inteligentes, pois diferiam dos seres huma­nos não tanto pela habilidade como por terem recebido menos educação e treinamento! Trinta anos depois, a sua generosidade em relação à inteligência animal havia diminuído mas durante algum tempo sua afirmação juntou-se às várias que sugeriam serem os animais tão bem dotados quanto os seres humanos.

George John Romanes (1848-1894)

O fisiologista britânico George Romanes formalizou e sistematizou o estudo da inteligên­cia animal. Ainda criança, foi considerado pelos pais "um perfeito idiota" (Richards, 1987, p. 334). Quando jovem, ficou impressionado com os trabalhos de Darwin. Tornaram-se amigos, e Darwin deu a Romanes seu caderno de anotações sobre o comportamento ani­mal. Desse modo, Darwin escolheu Romanes para dar continuidade àquele aspecto do seu trabalho, aplicando a teoria da evolução à mente assim como ele havia aplicado ao corpo, e Romanes mostrou-se um sucessor de valor. Por ser rico, Romanes não precisava se preocupar em ganhar a vida. O único emprego que teve foi como professor de meio período na University of Edinburgh, que exigia a sua presença no total de duas semanas no ano. Passava o inverno em Londres e Oxford e o verão na praia, onde construiu um laboratório tão bem equipado quanto o de uma universidade.

Romanes publicou Animal intelligence (Inteligência animal) (1883), geralmente consi­derado o primeiro livro de psicologia comparativa. Coletou dados do comportamento de protozoários, formigas, aranhas, répteis, peixes, pássaros, elefantes, macacos e animais domésticos. Seu objetivo era demonstrar o alto nível da inteligência animal e a sua seme­lhança com o funcionamento intelectual humano, mostrando assim a continuidade do desenvolvimento mental. Com suas palavras, Romanes desejava demonstrar que "não há diferença de modalidade entre os atos racionais executados pelo caranguejo e qualquer ato racional humano" (apud Richards, 1987, p. 347).

Romanes desenvolveu o que chamou de "escada mental", em que ordenava as várias espécies animais por grau de funcionamento mental (Tabela 6.1). Observa-se na tabela que ele creditava até às formas de vida inferior (como a água-viva, o ouriço e a lesma) um alto grau de funcionamento mental. Ele formou essas opiniões, de algum modo surpreenden­tes, coletando dados por meio do método anedótico, definido como o uso de relatos ou narrativas de observações, muitas vezes casuais, sobre o comportamento animal. Muitos dos relatos foram de observadores não-treinados e acríticos, cujas observações poderiam ser parciais e negligentes.

Tabela 6.1

Romanes desenvolveu essas definições a respeito da inteligência animal com base nas observações anedóticas obtidas por meio de uma técnica curiosa chamada introspecção por analogia, que acabou sendo descartada. Nessa abordagem, os pesquisadores partem do princípio de que os mesmos processos mentais que ocorrem em suas mentes ocorrem na mente dos animais observados. Assim, presume-se a existência de uma função men­tal específica, observando-se o comportamento do animal e criando-se uma analogia, seja por alguma correspondência seja por relação, entre os processos mentais humanos conhecidos e os processos que, deduz-se, estejam ocorrendo na mente do animal.

Para começar, com base no conhecimento subjetivo das operações da minha mente e das atividades que essas operações parecem indicar em meu organismo, sigo por analogia para deduzir, a partir das atividades observáveis demonstradas por outros organismos, o fato de que certas operações mentais sustentam ou acompanham essas atividades, (Romanes apud Mackenzie, 1977, p. 56-57)

Com a técnica da introspecção por analogia, Romanes sugeria que os animais eram capazes de realizar os mesmos tipos de racionalização, ideação, raciocínio complexo, processamento de informação e solução de problemas que os humanos. Alguns de seus seguidores credi­tavam aos animais níveis de inteligência muito superiores ao do ser humano médio.

Romanes acreditava que, excluindo o macaco e o elefante, o gato era o animal mais inteligente. Escreveu muito sobre o comportamento do gato que pertencia ao seu motorista. Realizando vanos movimentos intrigantes, o gato era capaz de abrir as portas fechadas que conduziam ao estábulo. Empregando a introspecção por analogia, Romanes concluiu que:

Nos casos como esse, os gatos têm uma ideia perfeitamente definida das propriedades mecâ­nicas de uma porta; sabem que, para abri-la, mesmo quando destrancada, têm de empur­ra-la. (...) Primeiro, o animal deve ter observado que a porta é aberta pela mão que segura a maçaneta e move o trinco. Em seguida, deve raciocinar, pela "lógica dos sentimentos", que, se a mão é capaz de fazer isso, por que não a pata? (...) O ato de empurrar com a pata traseira após baixar o trinco deve-se a razões de adaptação. (Romanes, 1883, p. 421-422)

O trabalho de Romanes empregava métodos muito aquém do rigor científico moder­ no e, muitas vezes, a divisão entre a interpretação factual e a subjetiva de seus dados não era clara. Todavia, embora os cientistas reconhecessem a deficiência dos seus dados e métodos, ele era respeitado pelos esforços pioneiros, incentivando o desenvolvimento da psicologia comparativa e abrindo caminho para o estudo do comportamento animal.

Em diversas areas da ciência, a utilização de dados observacionais antecede o desenvolvimento de uma metodologia experimental mais refinada. E foi Romanes quem deu início ao estágio observacional da psicologia comparativa.

C. Lloyd Morgan (1852-1936)

O ponto fraco inerente aos métodos anedótico e da introspecção por analogia foi indicado formalmente por Conwy Lloyd Morgan (1852-1936), a quem Romanes designou como seu sucessor. Morgan foi aluno de Thomas Henry Huxley e tornou-se professor de psicologia e de educação da University of Bristol, na Inglaterra, além de ter sido uma das primeiras pessoas a pedalar uma bicicleta dentro dos limites da cidade. Também se interessava por geologia e zoologia e propôs a lei da parcimônia (também denominada Cânone de Lloyd Morgan) para neutralizar a tendência predominante de atribuir excessiva inteligência aos animais.

A lei da parcimônia afirma que o comportamento animal não deve ser interpretado como o resultado de um processo mental superior, quando pode ser explicado por um processo mental inferior. Morgan desenvolveu essa ideia em 1894 e pode tê-la criado com base na lei da parcimônia similar, descrita por Wundt dois anos antes. Wundt havia observado que "os princípios explicativos complexos devem ser empregados somente quando os [princípios] mais simples forem insuficientes" (Richards, 1980, p. 57).

A intenção de Morgan não era a exclusão completa do antropomorfismo dos traba­lhos sobre o comportamento animal, mas a redução do seu uso e aplicação, de modo mais científico, dos métodos da psicologia comparativa. Morgan concordava com Romanes em que os relatos subjetivos eram inevitáveis, no entanto tentou manter ao mínimo as infe­rências anedóticas no seu trabalho. Morgan disse:

Com relação às várias observações anedóticas de Romanes (...) noto, e sem dúvida ele também notou, que a ciência da psicologia comparativa não deve ser construída com tais fundamentos anedóticos. A maioria das histórias são meros registros casuais, complemen­tados por opiniões amadorísticas de observações passageiras, cujo treinamento psicológico é praticamente desprezível. Então, levanto dúvidas se alguém é capaz de extrair da mente do animal (...) os dados exigidos para uma ciência. (1930/1961, p. 247-248)

No geral, Morgan seguiu a abordagem de Romanes na observação do comportamen­to de um animal e na sua explicação por meio de uma análise introspectiva dos próprios processos mentais. No entanto, ao aplicar a lei da parcimônia, evitou atribuir processos mentais de nível mais elevado aos animais, quando o comportamento podia ser explicado em termos de processos de nível inferior.

Ele acreditava que a maioria dos comportamentos animais resultava da aprendizagem ou da associação com basea na experiência sensorial; esse tipo de aprendizagem consistia em um processo de nível inferior, e não em um pensamento racional ou em uma ideação.

Com a aceitação do cânon de Morgan, o método da introspecção por analogia foi aperfei­çoado e proporcionou dados mais úteis, mas acabou sendo superado por outros métodos mais objetivos.

Morgan foi o primeiro cientista a conduzir estudos experimentais em larga escala na psicologia animal. Embora suas experiências não fossem realizadas sob as condições cien­tíficas rígidas exigidas hoje, elas constituíram observações cuidadosas do comportamento animal, a maioria em ambientes naturais, mas com algumas modificações artificiais. Apesar de esses estudos não comportarem o mesmo grau de controle das experiências realizadas em laboratórios, foram um avanço importante do método anedótico de Romanes.

Comentários

O trabalho inicial na psicologia comparativa foi conduzido na Inglaterra, mas a liderança no campo passou rapidamente para os Estados Unidos. Romanes faleceu mais ou menos aos 40 anos, vitimado por tumor cerebral, e Morgan trocou sua pesquisa por uma carreira administrativa na universidade.

A psicologia comparativa surgiu da excitação e da polêmica provocadas pela sugestão de Darwin a respeito da continuidade entre as espécies humana e animal. As ideias bási­cas da teoria darwiniana são a noção de função e a afirmação de que as espécies evoluem e que as estruturas físicas são determinadas pela luta pela sobrevivência. Essa premissa levou os biólogos a considerarem cada estrutura anatômica um elemento utilitário ou funcional em um sistema total de vida e adaptação. Quando os psicólogos começaram a examinar os processos mentais da mesma maneira, estabeleceram o trabalho de base para um novo movimento: a psicologia funcional.

Psicologia - História da Psicologia
1/7/2020 1:46:13 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
O estruturalismo

Você seria voluntário para engolir um tubo de borracha que vai até o seu estômago? Para em seguida despejarem água quente por ele? E depois água gelada, tudo pela glória da pesquisa psicológica? Precisa de mais tempo para decidir?

Se fosse um aluno de pós-graduação em psicologia na Cornell University ao norte de Nova York, no início do século XX, teriam lhe feito essa pergunta, ou até mes­mo lhe incentivado para que aceitasse participar disso. E o professor Edward Bradford Titchener, o psicólogo que conduziu o experimento, era um ser humano tão admi­rável que quase todos os seus alunos concordavam com as coisas muitas vezes absurdas que lhes pedia, tudo em nome da ciência. Os alunos estavam fornecendo dados para o sistema psicológico que estava desenvolvendo. Mas como? Eles executavam uma forma de introspecção.

Introspecção era um sério empreendimento na Cor­nell daqueles tempos, e os alunos de pós-graduação de Titchener eram dedicados ao seu trabalho. Considere o tubo de borracha, por exemplo, pedia-se que engolissem o tubo para estudar a sensibilidade de seus órgãos inter­nos. Os alunos engoliam os tubos pela manhã e perma­neciam com ele ao longo do dia. Pode-se imaginar que não era fácil desempenhar suas atividades normais com um tubo enfiado na garganta. Muitos vomitavam, mas depois acabavam se acostumando. Durante o dia, em horários determinados, os alunos se apresentavam ao laboratório para que se despejasse água quente pelos tubos. Depois os alunos relatavam as sensações.

Posteriormente, eles repetiam o processo com água fria. Em outro experimento, os alunos carregavam cadernos até o banheiro para que relatassem seus sentimentos e sensações quando urinassem ou evacuassem. E também houve o estudo sobre sexo, outro exemplo de dados que estavam perdidos por muitos anos antes de terem sido recuperados.

Pedia-se a alunos casados que anotassem suas sensações e sentimentos elementares du­rante a relação sexual e que amarrassem dispositivos de medição aos seus corpos para registrar respostas fisiológicas. Esta pesquisa não foi muito anunciada na época. Foi revelada em 1960 por Cora Friedline, uma das alunas de Titchener, em palestra proferida no Randolph-Macon College, em Lynchburg, Virgina. O estudo tornou-se muito conhecido no campus da Cornell daquela época, mas atribuiu ao laboratório de psicologia a reputação de um local imoral. As responsáveis pelos dormitórios femininos não permitiam que suas alunas visitassem o laboratório depois de escurecer. E quando se espalhou a notícia de que estavam colocando preservativos nos tubos que os alunos engoliam, o que se falava nos dormitórios, segundo Friedline, era que o laboratório "não era um lugar seguro para ninguém".

Edward Bradford Titchener (1867-1927)

Embora professasse ser um fiel seguidor de Wilhelm Wundt, E. B. Titchener alterou dras­ticamente o sistema de psicologia ao levá-lo da Alemanha para os Estados Unidos. Ele apresentou uma abordagem própria, à qual denominou estruturalismo, embora alegasse tratar do mesmo sistema estabelecido por Wundt. Na realidade, os dois eram comple­tamente distintos e a denominação "estruturalismo" é adequada para definir apenas a psicologia de Titchener. O estruturalismo permaneceu em evidência por cerca de 20 anos nos Estados Unidos até ser superado por outros movimentos mais novos.

Wundt havia identificado elementos ou conteúdos da consciência, mas a questão que mais chamava sua atenção era a organização desses elementos, ou seja, a sua síntese em processos cognitivos superiores por meio da apercepção. Na opinião de Wundt, a mente era dotada do poder de organização voluntária dos elementos mentais, posição divergente da explicação mecanicista da passividade mental sustentada pela maioria dos empiristas e associacionistas britânicos.

Titchener se concentrava nos elementos ou conteúdos mentais, assim como na conexão mecânica mediante o processo da associação, mas descartava a doutrina da apercepção de Wundt. O seu enfoque estava nos elementos propriamente ditos e, na sua opinião, a principal tarefa da psicologia consistia na descoberta da natureza das experiências cons­cientes elementares - a determinação da estrutura da consciência mediante a análise das suas partes componentes.

Os anos mais produtivos de Titchener foram os que passou na Cornell University, em Nova York. Vestia sua toga de Oxford University para dar aulas e fazia delas uma produção grandiosa. O cenário era cuidadosamente preparado por seus assistentes sob sua rigorosa supervisão. Os docentes mais novos, obrigados a assistirem às suas aulas, faziam fila à porta  para tomarem os primeiros assentos, enquanto Titchener entrava diretamente por outra porta dirigindo-se ao tablado. Embora tivesse estudado apenas dois anos com Wundt, seus modos eram muito parecidos com os do seu mentor, copiando seu estilo autocrático, sua maneira formal de dar aulas e até mesmo o uso da barba. Embora Titchener fosse inglês por nascimento, “aqueles que o conheciam pouco, ou que só tinham ouvido falar sobre ele, achavam que fosse alemão" (Boring, 1927, p. 493). Um de seus alunos, E.G. Boring, que mais tarde tornou-se um eminente historiador de psicologia, comentou que Wundt e Titchener tinham personalidades semelhantes, pois ambos eram autocráticos e dominadores.

A Biografia de Titchener

Nasceu em Chichester, na Inglaterra, em uma família tradicional, mas de poucos recur­sos. Graças à sua considerável capacidade intelectual, Titchener obteve bolsas de estudos para cursar a faculdade. Frequentou a Malvern College e mais tarde a Oxford University, onde estudou filosofia e os clássicos, além de trabalhar como assistente de pesquisa em fisiologia. Ganhou muitos prêmios acadêmicos e foi visto como um aluno brilhante, com um gosto por línguas, incluindo latim, grego, alemão, francês e italiano. Um professor de Oxford certa vez deu a Titchener um artigo em holandês e pediu um relatório no prazo de uma semana. Titchener protestou, pois não sabia holandês. O professor lhe disse que aprendesse - e ele o fez.

Titchener interessou-se pela psicologia wundtiana enquanto estudava em Oxford, entu­siasmo não compartilhado e tampouco incentivado pela universidade. Por isso, naturalmen­te, teve de partir para Leipzig, a meca dos cientistas pioneiros, para estudar com o próprio Wundt, lá obtendo o doutorado em 1892. Durante a vida estudantil, criou uma relação muito estreita com Wundt e sua família, a cuja casa muitas vezes era convidado, e passou pelo menos um Natal na residência dos Wundt, nas montanhas (Leys e Evans, 1990).

Ao receber o doutorado, Titchener esperava tornar-se o inglês pioneiro da nova psicolo­gia, experimental de Wundt, mas, quando retornou a Oxford, seus colegas ainda estavam céticos em relação à chamada abordagem científica sobre os seus temas filosóficos favoritos. Ali permaneceu alguns meses até perceber que as melhores oportunidades estavam em outro lugar. Deixou a Inglaterra e partiu para a Cornell University, nos Estados Unidos, para lecionar psicologia e dirigir um laboratório. Estava então com 25 anos, e ali passou o resto da vida até falecer de tumor cerebral, aos 60 anos.

De 1893 a 1900, Titchener implementou seu laboratório, conduziu pesquisas e escre­veu artigos acadêmicos, publicando, por fim, mais de 60 trabalhos. Devido ao grande número de alunos atraídos a Cornell por causa da sua psicologia, teve de abrir mão da tarefa de participar pessoalmente dos estudos de pesquisa, deixando a cargo dos estudan­tes a condução das experiências. Desse modo, a sua posição sistemática atingiu o auge do desenvolvimento por meio da sua orientação das pesquisas realizadas pelos alunos. Em 35 anos na Cornell, Titchener orientou mais de 50 doutorandos em psicologia, cujas dissertações, na maioria, contêm a marca das suas ideias. Exerceu nítida autoridade na seleção dos temas de pesquisa dos orientandos, atribuindo-lhes as questões de seu maior interesse. Dessa forma, criou o sistema do estruturalismo, que mais tarde alegou ser a "única psicologia científica digna do nome" (apud Roback. 1952. p. 184).

Titchener traduziu os livros de Wundt do alemão para o inglês. Quando concluiu a tradução da terceira edição de Principies of physiological psychology, Wundt já havia terminado a quarta edição. E, ao traduzir a quarta, constatou que o incansável Wundt havia acabado de publicar a quinta edição.

Entre as obras de sua autoria estão An outline of psychology (1896), Primer of pshychology (1898) e, em quatros volumes, Experimental pshychology:  manual of Laboratory practice (1901-1905). Esses últimos mais conhecidos como Manuals (manuais), incentivaram o trabalho ode laboratório da psicoligia nos Estados Unidos e influenciaram a geração dos psicólogos experimentalistas. Seus livros foram traduzidos para diversos idiomas, como russo, italiano, alemão, espanhol e francês.

Como Wundt, Titchener era elogiado como um excelente professor cuias aulas ninguém queria perder; frequentemente os corredores ficavam superlotados. Quando Boring foi a sua primeira aula com Titchener, encontrou alunos "espalhados por todas as salas adjacentes. Não exagero quanto ao seu magnetismo como professor... Lembro-me aula sobre ritmo de sons como sendo especialmente empolgante; imagine fazer com que ritmo de sons seja estimulante! Era aluno de engenharia na época, e no entanto foi a lembrança dessas aulas que fez com que mudasse para a psicologia cinco anos mais tarde" (Boring 1927, p. 494).

À medida que Titchener envelheceu, seus hobbies passaram a ocupar seu tempo e energia afastando-o do trabalho em psicologia. Titchener dividia sua energia entre o trabalho com a psicologia e diversos passatempos. Regia um pequeno grupo musical que se reunia todos
os domingos à tarde na sua casa e, mesmo antes da criação do departamento de música em Cornell, por vários anos foi o "Professor responsável por essa disciplina". Colecionava moedas e graças a esse hobby, aprendeu chinês e árabe para decifrar os caracteres gravados nos metais. Correspondia frequentemente com vários colegas, na maioria das vezes por meio de cartas datilografadas, porem com muitas observações manuscritas.

Com o passar dos anos, Titchener afastou-se do convívio social e acadêmico adquirindo o status de lenda viva de Cornell, embora muitos docentes sequer o houvessem conhecido ou visto. Preferia trabalhar em casa e, a partir de 1909, lecionava apenas nas tardes de segunda-fara, durante a primavera. Sua esposa selecionava as pessoas que o procuravam, protegendo-o de estranhos e os alunos eram orientados a procura-lo apenas em caso de urgência.

Embora sustentasse o modo autocrático como um estereótipo do professor alemão, era gentil e solicito com colegas e estudantes, desde que fosse tratado com a deferência e o respeito de que acreditava ser merecedor. Histórias dão conta de docentes mais jovens e estudantes de pós-graduação que lavavam o seu carro e instalavam telas de proteção na janela da sua residência no verão, não por obrigação, mas por admiração.
O ex-aluno Karl Dallenbach cita uma afirmação de Titchener segundo a qual "um homem não pode ter esperança de tornar-se um psicólogo enquanto não aprender a fumar" (Dallenbach, 1967. p. 85). E, realmente vários alunos começaram a fumar charutos, pelo menos na presença do mestre. (O próprio Dallenbach conta ter ficado enjoado quando fiou seu primeiro charuto).

A doutoranda Cora Friedline lembrou de um dia em que ela

estava na sala de Titchener discutindo com ele e sua pesquisa quando o inseparável charuto encostou na barba, que começo a queimar. Ele falava de forma tão imponente naquele momento  que a ela faltou coragem para interrompê-lo. Finalmente, dirigiu-lhe a palavra, dizendo: "Queira me perdoar, Dr. Titchener, mas suas suíças estão em chamas." Quando Titchener conseguiu finalmente extinguir o fogo, as chamas já estavam atingindo a camisa e a camiseta que vestia por baixo.

Nem a preocupação pelos alunos e muito menos a influência sobre suas vidas ter­minavam quando eles se formavam e deixavam a Cornell. Depois de receber o título de Ph.D., Dallenbach planejava cursar a escola de medicina, mas Titchener arranjou-lhe uma posição acadêmica na University of Oregon. Dallenbach pensou que Titchener aprovaria a sua intenção de seguir medicina, mas estava enganado. "Tive de ir para Oregon, já que [Titchener] não estava disposto a ver todo o seu trabalho e toda a sua orientação perdidos" (Dallenbach, 1967, p. 91).

Outro ex-aluno, E. G. Boring, lembrou-se de que nem todos aceitavam a ingerência de Titchener sobre suas vidas. "Diversos de seus alunos mais brilhantes ressentiram-se da interferência e do controle e acabaram rebelando-se, vendo-se, então, excluídos, excomun­gados, magoados, em uma relação sem retorno" (Boring, 1952, p. 32-33).

Às vezes as relações de Titchener com os psicólogos fora do seu grupo também eram tensas. Eleito pelos fundadores como membro da APA em 1892, renunciou logo em seguida porque a associação negou-se a expulsar um membro que ele acusava de plagiário. Conta-se que um amigo pagou as taxas de Titchener durante vários anos para que o nome dele conti­nuasse sempre aparecendo na lista de membros.

Os Experimentalistas de Titchener: Proibido para as Mulheres

Em 1904, um grupo de psicólogos autodenominados "os experimentalistas de Titchener" começou a se reunir regularmente para comparar as observações obtidas nas pesquisas. Além de selecionar os temas e os participantes, Titchener geralmente conduzia as reu­niões. Uma das regras era a proibição de participação das mulheres. E. G. Boring conta que Titchener desejava "ouvir relatos com liberdade para interromper, debater e criticar, em um ambiente encoberto pela fumaça dos charutos e sem a presença das mulheres (...) elas são delicadas demais para fumar" (Boring, 1967, p. 315).

Algumas alunas da Bryn Mawr College, na Pensilvânia, tentaram frequentar essas reuniões, no entanto foram prontamente convidadas a se retirar. Em uma das reuniões elas se esconderam sob a mesa, enquanto a noiva de Boring e outra amiga aguardavam na sala ao lado "com a porta entreaberta para descobrirem como era a psicologia masculina sem censuras". Boring lembrou-se de que elas saíram "ilesas" (Boring, 1967, p. 322).

Em 1912, com o intuito de participar da reunião dos experimentalistas, Christine Ladd-Franklin (1847-1930) escreveu para Titchener, solicitando-lhe uma oportunidade para ler o relatório da sua pesquisa relativa à psicologia experimental. Havia trabalhado no problema da visão das cores no laboratório de G. E. Müller na University of Gõttingen, na Alemanha, e no laboratório de Helmholtz, em Berlim. Antes disso, havia completado as exigências para o obtenção do Ph.D. em matemática na Johns Hopkins University mas teve o título negado por ser mulher. A direção da universidade acabou redimindo-se e concedeu-lhe o título de doutorado somente 44 anos mais tarde.

Quando Titchener recusou seu pedido, ela escreveu para ele, dizendo-se "chocada em saber que ainda hoje, em 1912, vocês não permitem a participação das mulheres nas reuniões dos psicólogos experimentalistas. Como podem ser tão retrógrados?" (apud Furumoto, 1988, p. 107). Sem desistir da sua posição, continuou a protestar durante vários anos, chamando a política de Titchener de imoral e anticientífica.

Titchener escreveu a um amigo, dizendo: "A Sra. Ladd-Franklin acusou-me de injúria por não permitir a participação das mulheres nas reuniões e ameaça fazer um escândalo pessoalmente e por escrito. Possivelmente ela conseguirá dissolver o grupo e nos obrigará a realizar reuniões escondidas em tocas escuras, como os coelhos" (apud Scarborough e Furumoto, 1987, p. 126).

Embora Titchener continuasse a excluir as mulheres das reuniões dos experimenta­listas, encorajava e apoiava seu progresso na psicologia. Ele aceitava mulheres nos progra­mas de pós-graduação em Cornell, mas as universidades de Harvard e Columbia não as admitiam. Mais de um terço dos 56 doutorados concedidos por Titchener foi para mulhe­res. Nenhum psicólogo daquela época concedeu tantos títulos de doutorados a mulheres como Titchener. Ele também apoiava a contratação de professoras, ideia que muitos cole­gas consideravam avançada demais. Em uma ocasião, ele insistiu na contratação de uma professora, mesmo diante da recusa do diretor.

A primeira mulher a obter o doutorado em psicologia foi Margaret Floy Washburn, que também fora a primeira orientanda de doutorado de Titchener. Ela lembrou que: "Ele não sabia muito bem o que fazer comigo" (Washburn, 1932, p. 340). Depois do doutora­do, ela escreveu um importante livro sobre a psicologia comparativa (The animal mind, 1908) e foi a primeira psicóloga eleita para a Academia Nacional de Ciências. Além disso chegou a ser presidente da APA.

Essa breve menção ao sucesso de Washburn tem o intuito de salientar o constante apoio de Titchener à mulher na psicologia. Embora ele não abrisse mão da proibição de mulheres nas reuniões dos experimentalistas, envidou esforços para abrir as portas total­mente fechadas, pela maioria dos psicólogos, às mulheres.

Em 1929, dois anos após a morte de Titchener, os experimentalistas renasceram como Sociedade de Psicólogos Experimentais, ainda ativa hoje. A nova sociedade admitia mulheres (Washburn foi uma das duas mulheres titulares) e tinha reuniões anuais para discutir a pesquisa de seus convidados (ver Goodwin, 2005). Em 2004, a Sociedade de Psicólogos Experimentais organizou uma reunião por ocasião de seu centenário, no campus da Cornell University. Um dos professores da Cornell trouxe um convidado para a reunião (...) o cérebro de Titchener que já levado à sessão de abertura e agora, conforme seu desejo, faz parte da coleção de cérebros de Cornell (Beniamin 2006a, p. 137).

O Conteúdo da Experiência Consciente

Deacordo com Titchener, o objeto de estudo da psicologia é a experiência consciente como dependente do indivíduo que a vivência. Esse tipo de experiência difere da estudada por cientistas outras áreas. Por exemplo, tanto a física como a psicologia podem estudar a luz e o som. Enquanto os físicos examinam os fenômenos do ponto de vista dos proces­sos físicos envolvidos, os psicólogos analisam a luz e o som com base na experiência e na observação humanas desses fenômenos.

As outras ciências não dependem da experiência pessoal. Titchener citou, como exem­plo da física, a temperatura de uma sala que pode ser, digamos, de 30°C, haja ou não uma pessoa presente para senti-la. Todavia, quando há observadores que relatem sentir um calor desconfortável, essa sensação - a experiência da temperatura elevada - depende das experiên­cias individuais dos presentes. Para Titchener, esse tipo de experiência consciente é o único enfoque adequado para a pesquisa psicológica. Ele descreveu a diferença entre a experiência dependente e a independente no livro A text book of psychology, publicado em 1909.

No estudo da experiência consciente, Titchener fez um alerta a respeito de se cometer o que chamou de erro de estímulo, que gera uma confusão entre o processo mental e o objeto da observação. Por exemplo, o observador que vê uma maçã e a descreve apenas como a fruta maçã em vez de descrever elementos como a cor, o brilho e a forma que está observado, comete o erro de estímulo. O objeto da observação não deve ser descrito na lin­guagem cotidiana, mas em termos do conteúdo consciente elementar da experiência.

Quando o observador concentra-se no objeto de estímulo e não no conteúdo conscien­te, não faz distinção entre o conhecimento adquirido no passado em relação ao objeto (por exemplo, que o nome do objeto é maçã) e a própria experiência imediata e direta. Todo observador sabe que a maçã é vermelha, redonda e tem certo brilho. Ao descrever outras características que não sejam a cor, o brilho e o formato, em vez de observar o objeto, o obser­vador o está interpretando. Trata-se, assim, da experiência mediata, e não da imediata.

Titchener definia a consciência como a soma das experiências existentes em deter­minado momento. A mente é a soma das experiências acumuladas ao longo do tempo. A consciência e a mente sâo semelhantes, apenas com a diferença de que a consciência envolve os processos mentais que ocorrem em determinado momento, e a mente, o total desses processos.

A psicologia experimental, na visão de Titchener, era uma ciência pura. Ele não se preocupava com a aplicação do conhecimento psicológico. A psicologia, afirmava, não se propõe a curar mentes doentias nem a reformar a sociedade. O único propósito legítimo da psicologia é descobrir os fatos estruturais da mente. Ele acreditava que os psicólogos deviam manter-se distantes das especulações sobre o valor prático do seu trabalho. Por isso posicionou-se contra o desenvolvimento da psicologia infantil, animal e outras áreas incompatíveis com a psicologia introspectiva experimental do conteúdo da experiência consciente.

Introspecção

Titchener empregava a introspecção, ou auto-observação, com base em observadores rigoro­samente treinados para descrever os elementos no seu estado consciente, em vez de relatar o estímulo observado ou percebido, utilizando apenas nomes conhecidos. Percebeu que todos aprendemos a descrever a experiência em termos do estímulo, por exemplo, chamar o objeto vermelho, redondo e brilhante de maçã, o que é suficiente e útil para o cotidiano. Todavia, no seu laboratório de psicologia, essa prática teve de ser desaprendida.

Titchener adotou a mesma definição de Kúlpe para descrever o seu método, introspec­ção experimental sistemática. Como Kúlpe, ele utilizava relatos detalhados, subjetivos e qualitativos das atividades mentais dos indivíduos durante o ato, de jntrospecção. Ele se opunha à abordagem de Wundt, cujo foco eram as mensurações quantitativas e objetivas, porque acredilava não serem úteis na análise das sensações e imagens elementares da consciência, ponto central da sua psicologia.

Em outras palavras, Titchener divergia de Wundt porque estava interessado em analisar a experiencia consciente complexa a partir das partes componentes, e não a síntese dos elementos mediante a apercepção. Titchener dava ênfase às partes, enquanto Wundt, ao todo. Alinhado com a maioria dos empiristas e associacionistas britânicos o objetivo de Titchener era descobrir os chamados átomos da mente.

Seu conceito de introspecção aparentemente já se havia formado antes de ele estudar com Wundt, em Leipzig. Um historiador disse que, quando ele ainda frequentava a Oxford, fora influenciado pelos trabalhos de James Mill (Danziger 1980).

O espirito da filosofia mecanicista também o influenciou, como se pode observar na imagem que ele tinha dos observadores que lhe forneciam dados. Nos seus relatos de pesquisa publicados, eram chamados de reagentes, termo usado por químicos para se referirem as substancias que, por causa de sua capacidade para certas reações para detectar, examinar ou medir outras substâncias. O reagente normalmente é passivo ou seja, e usado para provocar reações nas outras substâncias.

Percebe-se que, ao aplicar esse conceito aos observadores humanos Titchener os enxergava como instrumentos mecânicos de registro, que reagiam e respondiam de forma objetiva as observações das características do estímulo observado. Os indivíduos seriam meramente maquinas neutras e imparciais. Seguindo a ideia de Wundt as observações treinadas se tornariam tão mecanizadas e habituais que os observadores não perceberiam mais se estavam realizando um processo consciente, Titchener dizia:

"Ao prestar atenção no fenômeno, o observador da psicologia, assim como o observador da física, esquece completamente de atribuir atenção subjetiva ao estado de observação (...) os observadores, como é do nosso conhecimento, são treinados; seu estado de observação já está mecanizado." (Titchener, 1912a, p. 443)

Se esses observadores eram considerados máquinas, então não faltava muito para generalizar esse conceito a todo ser humano. Esse pensamento mostra a contínua influência da visão mecânica do universo de Galileu e Newton, conceito que não desaparece com a extinção do estruturalismo. Com os desdobramentos da história da psicologia observa-se que a imagem do homem como máquina continuou a caracterizar a psicologia experimental até a primeira metade do século XX.

A proposta de Titchener consistia na abordagem experimental para a observação introspectiva na psicologia. Ele obedecia às normas da experimentação, afirmando que 

um experimento é uma observação que pode ser repetida, isolada e variada. Quanto maior a quantidade de repetições das observações, maior a probabilidade de clareza na percepção e de precisão na descrição do objeto observado. Quanto mais isolada a observação, mais fácil será a execução da tarefa e menor o risco de confusão proveniente de circunstâncias irrelevantes ou de ênfase no ponto errado. Quanto mais amplamente se puder variar a observação, mais clara será a percepção da uniformidade da experiência e maior a chance de descoberta de leis (Titchener, 1909, p. 20).

A introspeção realizada pelos reagentes ou observadores do laboratório de titchener era baseada em vários estímulos, proporcionando observações extensas e detalhadas dos elementos de suas experiências. Por exemplo, um acorde com três notas seria tocado no piano. Os observadores tinha que relatar quantos sons separados eles conseguiam distinguir,  as características mentais dos sons, e quaisquer outros átomos básicos ou elementos cons­cientes que pudessem detectar.

Outro experimento envolvia uma determinada palavra falada em voz alta. Como Titchener descreveu, pedia-se ao reagente que “observasse o efeito que esse estímulo produz sobre a consciência: como a palavra afeta a pessoa, que ideias veem à mente, e assim por diante" (Titchener, 1910, apud Benjamin. 1997, p. 174). Pode-se ver por esses exemplos por que os observadores no laboratório de Titchener tinham que ser rigorosamente treinados, e como suas observações eram necessariamente subjetivas, ou qualitativas.

Os Elementos da Consciência

Titchener apresentou três propostas básicas para a psicologia:

  1. reduzir os processos conscientes aos seus componentes mais simples;
  2. determinar as leis de associação desses elementos da consciência;
  3. conectar os elementos às suas condições fisiológicas.

Assim, as metas da psicologia estrutural de Titchener coincidem com as das ciências naturais. Depois de decidir a parte do universo natural que desejam estudar, os cientistas tentaram descobrir seus elementos para demonstrar como eles compõem um fenômeno complexo e para formular as leis que os governam. A parte principal da pesquisa de Ti­tchener dedicava-se ao primeiro problema: descobrir os elementos da consciência.

Titchener definiu três estados elementares da consciência: o estado da sensação, o da imagem e os estados afetivos. As sensações são elementos básicos da percepção e estão presentes nos sons, nas visões, nos cheiros e nas outras experiências provocadas pelos objetos físicos do ambiente. As imagens são elementos das ideias e estão no processo que reflete as experiências não realmente presentes no momento, como a lembrança de uma experiência do passado. Os estados afetivos, ou as afeições, são elementos da emoção e encontram-se nas experiências como o amor, o ódio e a tristeza.

Em An outline of psychology (1896), Titchener apresentou a lista dos elementos da sensação descobertos nas suas pesquisas. São cerca de 44.500 qualidades sensoriais individuais, sendo 32.820 visuais e 11.600 auditivas. Cada elemento é considerado consciente e distinto dos demais, podendo haver a combinação entre eles para a formação das percepções e das ideias.

Embora básicos e irredutíveis, os elementos mentais podem ser categorizados, do mesmo modo que os elementos químicos são agrupados em classes. Apesar da simplicidade, os elementos mentais são dotados de atributos distintivos. Aos atributos de qualidade e intensidade definidos por Wundt, Titchener adicionou a duração e a nitidez. Essas quatro características eram consideradas fundamentais, já que estão, em certo grau, em toda experiência.

  • Qualidade é a característica, como "frio" ou "vermelho”, que distingue claramente um elemento de todos os demais;
  • Intensidade refere-se a força, fraqueza, sonoridade ou brilho de uma sensação;
  • Duração é o curso da sensação ao longo do tempo;
  • Nitidez refere-se à função da atenção na experiência consciente; uma experiência no foco da nossa atenção é mais nítida do que a que não seja alvo da nossa atenção.

As sensações e as imagens possuem todos esses quatro atributos, todavia os estados afe­tivos são dotados apenas de três: a qualidade, a intensidade e a duração, não possuindo a nitidez. Por quê? Titchener acreditava ser impossível concentrar a atenção diretamente em um elemento de emoção ou sentimento. Quando tentamos fazê-lo, a qualidade afetiva, como a tristeza ou a satisfação, desaparece. Alguns processos sensoriais, especialmente a visão e o tato, são dotados de outro atributo, a extensão, já que envolvem a noção espacial.

Todo processo consciente pode ser reduzido a um desses atributos. As descobertas feitas no laboratório de Külpe, em Würzburg, sobre o problema do pensamento sem ima­gens, não fizeram Titchener mudar de opinião. Ele reconhecia que algumas qualidades mal definidas podem ocorrer durante o pensamento, no entanto afirmava que, ainda assim, consistiam em sensações ou imagens. Para Titchener estava claro que os observadores de Külpe sucumbiram ao erro de estímulo por concentrarem mais atenção nos estímulos do objeto do que nos próprios processos conscientes.

Os alunos da pós-graduação de Cornell realizaram muitas pesquisas relacionadas com os estados afetivos e suas constatações levaram Titchener a rejeitar a teoria tridimen­sional dos sentimentos de Wundt. Titchener alegava estar o afeto presente em apenas uma dimensão - no prazer/desprazer - e rejeitava as dimensões de tensão/relaxamento e excitação/depressão definidas por Wundt.

No final da vida, Titchener alterou de forma significativa a sua psicologia estrutural. Começou a trabalhar no que imaginava ser a exposição completa do seu sistema. Por volta de 1918, não abordava mais o conceito de elementos mentais nas aulas e afirmava que a psicologia devia dedicar-se ao estudo das dimensões ou dos processos mentais mais amplos —qualidade, intensidade, duração, nitidez e extensão - e não dos elementos bási­cos. Alguns anos mais tarde, escreveu a um aluno de pós-graduação: "Desista de pensar em termos de sensações ou afetos. Esses conceitos eram válidos há 10 anos, mas hoje (...) estão completamente desatualizados. (...) Pense em termos de dimensões e não de constructos sistemáticos como a sensação" (Evans, 1972, p. 174).

Na década de 1920, Titchener colocou em dúvida o uso do termo "psicologia estru­tural" e passou a chamar sua abordagem de psicologia existencial. Reavaliou seu método de introspecção e adotou o tratamento fenomenológico, examinando a experiência como um todo e não dividida em elementos.

Essa mudança de perspectiva foi drástica e, se Titchener tivesse vivido tempo suficien­te para implementá-la, ele teria alterado radicalmente o destino e a visão da psicologia estrutural. Essas ideias supõem flexibilidade e abertura para mudanças que os cientistas acreditam possuir, mas que nem sempre são capazes de demonstrar. As provas dessas mudanças foram reunidas pelos historiadores mediante a análise cuidadosa de cartas e aulas de Titchener (veja Evans, 1972; Henle, 1974). Embora não tenham sido incorporadas formalmente ao seu sistema, essas ideias indicam a direção para a qual ele seguia, mas a morte o impediu de atingir esse objetivo.

Críticas ao Estruturalismo

Muitas vezes, as pessoas ganham notoriedade na história porque se opõem a um ponto de vista mais antigo, mas no caso de Titchener não foi bem assim, pois ele se manteve firme, mesmo quando todos haviam mudado de opinião. Na segunda década do século XX, o pensamento intelectual estadunidense e europeu havia mudado, mas o sistema formal de Titchener permanecia o mesmo. Consequentementé váriós psicólogos chegaram a considerar a psicologia estrutural uma tentativa fútil de ater-se a princípios e métodos antiquados. O psicólogo James Gibson, que conheceu Titchener já quase no final da vida, observou que, embora ele "inspirasse verdadeira admiração (...) a minha geração prescindia da sua teoria ou do seu método. Sua influência estava em declínio" (Gibson, 1967, p. 130).

Titchener acreditava que estava estabelecendo uma base para a psicologia, no entanto seus esforços fizeram parte apenas de uma fase da história da disciplina. O estruturalis­mo morreu juntamente com Titchener. O fato de se ter mantido por tanto tempo deve-se exclusivamente à admiração por sua personalidade dominadora.

Críticas à Introspecção

As críticas mais relevantes em relação ao método de introspecção estavam voltadas ao tipo de observação praticada nos laboratórios de Titchener e Külpe, que lidava com relatos sub­jetivos de elementos da consciência, diferentemente do método de percepção de Wundt, o qual lidava com as reações mais objetivas e quantitativas ao estímulo externo.

A introspecção, no sentido mais amplo, foi empregada por décadas, e as críticas ao método não eram novidade. Um século antes do trabalho de Titchener, o filósofo alemão Immanuel Kant declarou que qualquer tentativa de introspecção alterava necessariamen­te a experiência consciente observada, porque introduzia uma variável de observação no conteúdo da experiência consciente.

O filósofo positivista Auguste Comte criticou o método introspectivo, alegando que, se a mente fosse capaz de observar as próprias atividades, teria de se dividir em duas partes: uma observadora e outra observada e, para ele, obviamente, isso era impossível (Wilson, 1991).

A mente é capaz de observar todos os fenômenos, exceto os próprios. (...) O órgão observador e observado neste caso é o mesmo e a sua ação não pode ser pura e natural. Para realizar uma observação, o intelecto deve fazer uma pausa em sua atividade; no entanto essa é exatamente a atividade que se deseja observar. Se essa pausa não for possível, será impossível realizar a observação; e, se for possível, não haverá objeto a ser observado. Os resultados desse método são igualmente proporcionais ao seu absurdo. (Comte, 1830/1896, v. 1, p. 9)

O médico inglês Henry Maudsley também fez críticas à introspecção e falou sobre a psicopatologia: 

Não existe consenso entre os observadores da introspeção. Se houver concordância, deve-se ao fato de eles estarem rigorosamente treinados e, assim, produzirem observações parciais. (...) Devido à extensão patológica da mente, o autorrelato é dotado de pouca credibilidade. (Maudsley, 1867, apuei Tmnex, 1967, p. 11)

Desse modo, muito antes de Titchener modificar e aprimorar o método, tornando-o mais preciso para adequá-lo aos métodos científicos, havia dúvidas substanciais a respeito da introspecção e as críticas continuaram. Um dos alvos das críticas era a definição, já que Titchener aparentemente tinha difi­culdades em definir exatamente o significado do método introspectivo. Ele tentava explicá-lo, relacionando-o com condições experimentais específicas.

A direção seguida pelo observador varia nos detalhes em relação à natureza da consciên­ cia observada, ao objetivo do experimento, [e] à instrução dada pelo pesquisador. Assim, introspecção é um termo genérico e abrange um grupo indefinido enorme de procedi­mentos metodológicos específicos. (Titchener, 1912b, p. 485)

O segundo alvo das críticas à metodologia de Titchener estava relacionado com a tarefa exata que os observadores estruturalistas eram treinados para executar. Os alunos de pós-graduação de Titchener, que serviam de observadores, eram instruídos a ignorar algumas classes de palavras (as denominadas palavras com significado) que faziam parte do seu vocabulário. Por exemplo, a frase "Vejo uma mesa" não era dotada de significado científico para o estruturalista; a palavra "mesa" possui significado, com base no conhe­cimento estabelecido e geralmente aceito, relacionado com a combinação específica de sensações que aprendemos para identificar e chamar o objeto de mesa. Portanto, a obser­vação "Vejo uma mesa" não expressava, para o psicólogo estruturalista, nada a respeito dos elementos da experiência consciente do observador. O interesse do estruturalista não se concentrava no conjunto das sensações resumido na palavra com significado, mas nas formas básicas específicas da experiência. Os observadores que respondiam "mesa" esta­vam cometendo o que Titchener chamava de erro de estímulo.

Mas, se as palavras comuns eram ignoradas do vocabulário, como os observadores treinados descreveriam as experiências? Seria necessário desenvolver uma linguagem introspectiva. Titchener (e Wundt) enfatizava que as condições experimentais externas deviam ser cuidadosamente controladas, de forma a permitir a determinação precisa da experiência consciente. Assim, dois observadores teriam de vivenciar experiências idên­ticas e produzir resultados que se corroborassem mutuamente. E com a realização dessas experiências, praticamente idênticas sob condições controladas, teoricamente seria possível desenvolver para os observadores um vocabulário de trabalho com palavras sem signifi­ cado. Afinal, é em virtude das experiências compartilhadas no dia-a-dia que as palavras familiares adquirem significados comuns a todos.

A ideia da criação da linguagem introspectiva nunca se concretizou. Havia muita discordância entre os observadores, mesmo quando as condições eram extremamente controladas. Os observadores de laboratórios diferentes apresentavam resultados distintos. Mesmo os indivíduos do mesmo laboratório, observando o mesmo material de estímulo, muitas vezes, não conseguiam obter a mesma observação. Ainda assim, Titchener insistia que a concordância acabaria ocorrendo. Se houvesse uniformidade suficiente nas desco­ bertas introspectivas, talvez a escola do estruturalismo tivesse durado mais tempo.

Os críticos também alegavam ser a introspecção, na verdade, uma forma de retrospecção, porque havia um intervalo entre a experiência e o seu relato. Ebbinghaus já demonstrara que a taxa de esquecimento é mais elevada imediatamente após a experiência, portanto provavel­mente parte dela se perdia antes da introspecção e do relato. Os estruturalistas respondiam a essa crítica de duas formas: primeiro, alegando que os observadores trabalhavam com o míni­mo intervalo e, segundo, propondo a existência de uma imagem mental primária que supos­ tamente mantinha a experiência na mente dos observadores até que pudessem relatá-la.

Observamos anteriormente que o próprio ato de examinar a experiência de forma introspectiva pode, de algum modo, alterá-la. Analisemos, por exemplo, a dificuldade de introspecção de um estado consciente de ira. No processo racional de prestar atenção e tentar dividir a experiência em suas partes componentes, a ira provavelmente diminui­ria ou desapareceria. No entanto, Titchener continuava firme na sua crença de que seus observadores treinados continuariam a realizar automaticamente a observação, sem alterar conscientemente a experiência.

A noção da mente inconsciente, proposta por Sigmund Freud no início do século XX (veja no Capítulo 13), fomentou outra crítica ao método introspectivo. Se, como afirmava Freud, parte da nossa função mental era inconsciente, obviamente a introspecção não servia para explorá-la. Um historiador afirmou:

A base da análise introspectiva estava na crença de que todo o funcionamento da mente era passível de observação consciente e, se fosse possível observar cada aspecto do pen­samento humano e da emoção, a introspecção proporcionaria, na melhor das hipóteses, apenas um retrato fragmentado e incompleto do funcionamento mental. Se a consciên­cia representava apenas a ponta visível do iceberg, com a maior parte da área da mente permanentemente encoberta pelas poderosas barreiras defensivas, a introspecção estava realmente condenada. (Lieberman, 1979, p. 320)

Mais Críticas ao Sistema de Titchener

A introspecção não era o único alvo das críticas. O movimento estruturalista foi acusado de artificial e estéril na tentativa de analisar os processos conscientes a partir dos elementos básicos. Os críticos afirmavam não ser possível resgatar a totalidade da experiência partindo posteriormente de qualquer associação ou combinação das partes elementares. Argumentavam que a experiência não ocorria na forma de sensações, imagens ou estados afetivos individuais, mas em uma totalidade unificada. Parte da experiência consciente perde-se inevitavelmen­ te em qualquer esforço artificial de análise. A escola de psicologia da Gestalt (Capítulo 12) partiu desse princípio para lançar sua revolta efetiva contra o estruturalismo.
A definição estruturalista da psicologia tornara-se alvo dos ataques. Nos anos finais da vida de Titchener, os estruturalistas haviam excluído várias especialidades do escopo da psicologia, porque elas não estavam de acordo com a sua visão de psicologia. Titchener não considerava a psicologia infantil e a animal como psicologia. O seu conceito era tão restrito que não permitia incluir os novos trabalhos feitos e as novas direções que estavam sendo exploradas. A psicologia ultrapassava a fronteira de Titchener, e com muita rapidez.

Contribuições do Estruturalismo

Apesar de todas essas críticas, os historiadores dão o devido crédito às contribuições de Titchener e dos estruturalistas. Seu objeto de estudo - a experiência consciente - era cla­ramente definido. Seus métodos de pesquisa, baseados na observação, experimentação e medição, eram cientificamente os mais tradicionais. O método mais adequado para o estudo da experiência consciente consistia na auto-observação, já que a consciência é mais bem percebida pela pessoa que a vivência.

Embora o objeto de estudo e os propósitos dos estruturalistas não sejam mais funda­mentais, o método de introspecção, mais amplamente definido como relato oral baseado na experiência, ainda é empregado em diversas áreas da psicologia. Há pesquisadores da psicofísica que pedem aos observadores para relatarem se o segundo tom é mais alto ou mais baixo que o anterior. Há relatos de pessoas expostas a ambientes incomuns, como a falta de gravidade nos voos espaciais. Os relatórios clínicos de pacientes, bem como as respostas dos testes de personalidade e a análise do comportamento, são de natureza introspectiva.

Os relatorios introspectivos que envolvem processos cognitivos como o raciocínio são requentemente usados na psicologia atual. Por exemplo, os psicólogos industriais/orga­nizacionais obtem relatos introspectivos dos funcionários a respeito da interação com os terminais de computador. Essas informações podem ser utilizadas para o desenvolvimento de componentes de computador de mais fácil manuseio e móveis ergonômicos. Os relatos verbais baseados na experiência pessoal são formas legítimas de coleta de dados. Além disso, a psicologia cognitiva, com seu renovado interesse nos processos conscientes, vem conferindo maior legitimidade à introspecção (veja no Capítulo 15). Dessa forma, o méto­do introspectivo, embora diferente daquele visto por Titchener, permanece vivo e ativo.

Outra contribuição importante do estruturalismo foi ter servido de alvo de críticas. O estruturalismo proporcionou o estabelecimento de forte ortodoxia contra a qual os mais recentes movimentos da psicologia puderam concentrar as suas forças. Essas novas escolas de pensamento devem sua existência à reformulação progressiva da posição estruturalista. Os avanços científicos demandam a existência de uma oposição. Com o estruturalismo de Titchener sendo o alvo da oposição, a psicologia superou seus limites iniciais.

Psicologia - História da Psicologia
1/6/2020 2:32:58 PM | Por Saulo de Freitas Araújo
Livre
Wilhelm Wundt e o estudo da experiência imediata

Wilhelm Wundt (1832-1920) é normalmente considerado, na historiografia da psicologia, como o fundador da psicologia científica, tí­tulo este que está diretamente relacionado ao fato de ter criado, em 1879, o Laboratório de Psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Além disso, é um dos autores mais citados e mencionados nos manuais de história da psicologia. Entretanto, apesar de toda essa fama, Wundt ainda é um autor não só bastante desconhecido, como também aquele, dentre os chamados “fundadores” da psicologia, cujas ideias mais sofreram distorções na literatura psicológica. Não só a extensão e as dificuldades de acesso à sua obra original, mas principalmente a atitude de vários historiadores da psicologia, que têm se detido apenas em partes dela, sem se preocupar com o sentido geral do seu sistema de pensamento, têm contribuído para essa situação desconfortável. Sendo assim, a primeira coisa que o leitor interessado em se aproximar da psicologia de Wundt deve ter em mente é que estamos ainda longe de ter uma clara e adequada compreensão de toda a sua obra e o que aqui nos interessa mais de perto, do lugar que seu projeto psicológico nela ocupa.

É bem verdade que, sobretudo a partir da década de 1980, começa­ram a surgir novos e importantes estudos sobre a obra de Wundt que têm procurado reavaliar o seu pensamento e mostrar as origens de algumas interpretações equivocadas tradicionalmente presentes nos manuais de história da psicologia. Alguns desses estudos, contudo, apesar de terem contribuído significativamente para mostrar a complexidade do projeto wundtiano de psicologia, são ainda superficiais e podem acabar introdu­zindo novos problemas na interpretação do pensamento de Wundt, na medida em que deixam de considerar textos fundamentais de sua obra, como seus escritos psicológicos iniciais, que abrangem o período de 1858 a 1863, quando ele ainda não tinha ido para Leipzig. Muitas questões permanecem mal resolvidas na obra de Wundt. Em primeiro lugar, coloca-se a questão da continuidade ou ruptura de seu projeto de psicologia. Teria ele apresentado vários sistemas teóricos distintos, introduzindo modificações essenciais em cada um deles? Ou haveria um único sistema psicológico, cujas alterações posteriormente introduzidas não afetariam sua unidade fundamental? Isso nos remete a uma outra questão, que diz respeito aos interesses e pressupostos filosófi­cos fundamentais de Wundt, que subjazem ao seu projeto de psicologia. Wundt é, antes de tudo, um filósofo que formulou um sistema de filosofia, incluindo uma lógica, uma teoria do conhecimento, uma ética e uma metafísica. Sem uma adequada compreensão de seus escritos filosóficos, os problemas relativos à interpretação de sua psicologia não poderão ser satisfatoriamente resolvidos.

Como as questões acima referidas aguardam uma solução definitiva, cujas exigências demandam um aprofundamento que extrapola os objetivos do presente texto, vamos privilegiar aqui, em vez de uma apresentação sistemática de todo o percurso wundtiano, alguns dos principais tópicos de seu pensamento psicológico, tomando como base sua fase madura, que se expressa na última grande síntese teórica de seu projeto de psicologia — o livro Compêndio de psicologia, cuja primeira edição é de 1896.

A natureza da psicologia

Talvez a melhor maneira de iniciar uma apresentação introdutória da psicologia wundtiana seja explicitando a própria definição de psicologia pro­ posta por Wundt. Neste sentido, a pergunta “O que é psicologia?" receberia a seguinte resposta: "A psicologia é uma ciência empírica cujo objeto de estudo é a experiência imediata”. No entanto, torna-se ainda necessário esclarecer o conceito de “experiência imediata”.

Wundt entende por experiência em geral um todo unitário e coerente, que pode ser concebido e elaborado cientificamente a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: toda experiência pode ser analisada pelo seu conteúdo objetivo (experiência mediata) ou subjetivo (experiência ime­diata). No primeiro caso, a ênfase recai sobre os objetos da experiência (mundo externo), pensados independentemente do sujeito da experiência, enquanto, no segundo caso, investiga-se o próprio sujeito da experiência (mundo interno) em sua relação com os conteúdos da experiência. Com base nesses dois pontos de vista, surge uma dupla possibilidade de se fazer ciência empírica: a ciência natural (física, química, fisiologia etc.), que cuida dos conteúdos específicos da experiência mediata, uma vez que os objetos fornecidos na experiência são sempre mediados pelos fatores subjetivos; e a psicologia, que tem por objeto a experiência imediata, já que não abstrai o próprio sujeito, como a ciência natural.

Com essa definição de psicologia, Wundt pretende, em primeiro lugar, atacar um tipo de psicologia bastante difundida em sua época, que vinha sendo definida como ciência da alma ou mente. Segundo Wundt, essa psicologia está assentada em hipóteses metafísicas (espiritualismo ou materialismo) que extrapola no domínio da experiência possível. Como sua intenção é inaugurar uma nova psicologia, autônoma e independente de teorias metafísicas, o único caminho possível era recusar essa psicologia e construir uma outra, que se atém somente à experiência psicológica pro­priamente dita. Para a psicologia wundtiana, só há a experiência, vista como um conjunto de processos interligados, e nada mais. É importante enfatizar que, de acordo com essa definição, não há uma diferença essencial de natureza entre o mundo interno e o externo — uma vez que a experiência é um todo organizado que abrange ambos —, mas apenas uma diferença na maneira de se abordá-los. Por isso, a relação entre a psicologia e as ciências da natureza (Naturwissenschaften) é de complementaridade. Elas se complementam, na medida em que fornecem relatos diferentes da mesma experiência, sem que haja a possibilidade de haver uma subordinação ou redução de uma a outra.

Por outro lado, na medida em que a psicologia é a ciência das formas universais da experiência humana imediata, ela pode ser considerada a mais geral de todas as ciências do espírito (Geisteswissexschaftex) e, portanto, o fundamento de cada uma delas em particular (filologia, história, direito etc.).

Há que se considerar ainda a relação entre psicologia e filosofia. De todas as disciplinas empíricas, Wundt considera que a psicologia é aquela cujos resultados mais contribuem para a investigação dos problemas gerais da teoria do conhecimento e da ética, os dois domínios filosóficos fundamen­tais para ele. Se a psicologia, portanto, é complementar às ciências naturais e o fundamento das ciências do espírito, podemos dizer que é preparatória para a filosofia. Em outras palavras, os resultados da investigação psicológica podem guiar a construção de um sistema filosófico.

A questão do método e a subdivisão da psicologia

Como a psicologia não estuda um objeto diferente do objeto das ciências naturais, mas apenas a mesma experiência de um outro ponto de vista, seus métodos de investigação também não podem diferir. A psicologia vai se servir, portanto, dos dois principais métodos utilizados pelas ciências da natureza: o experimento e a observação. O experimento consiste na interferência proposital (manipulação) do pesquisador sobre o início, a duração e o modo de apresentação dos fenômenos investigados (como na física, na química e na fisiologia). A observação propriamente dita refere-se à mera apreensão de fenômenos ou objetos, sem que haja qualquer interferência por parte do observador (como na botânica, na anatomia e na astronomia).

No que diz respeito ao experimento, a psicologia de Wundt utiliza-o diretamen­te em suas investigações, como demonstram os estudos sobre a sensação, a percepção e a representação, ou seja, aquilo que Wundt chama de psicologia individual, fisiológica ou experimental. Nesse caso, pode-se investigar cui­dadosamente tanto o início quanto o curso desses processos, visando sempre à sua relação com seus elementos constituintes.

Há, porém, uma diferença metodológica significativa entre a psi­cologia e as ciências da natureza, decorrente da especificidade da pers­pectiva psicológica. Em primeiro lugar, já que a psicologia é o estudo da experiência imediata, seu conteúdo revela apenas processos, jamais objetos estáveis, como acontece na observação científica da natureza. Em segundo lugar, a psicologia não pode desconsiderar ou colocar entre parênteses, como fazem as ciências naturais, o sujeito da experiência, uma vez que este é precisamente o assunto de seu interesse. Além disso, seria muito difícil que, mesmo em situações frequentemente repetidas, os mesmos elementos objetivos da experiência imediata viessem acompanhados da mesma condição do sujeito. Em outras palavras, a intenção do observador, que deve estar presente nas observações científicas, altera significativa­mente o início e o curso dos processos psíquicos. Levando em conside­ração essa particularidade dos eventos psicológicos, o psicólogo estaria, portanto, impossibilitado, por princípio, de utilizar a observação pura ou auto-observação (Selbstbeobachtung) no domínio da psicologia individual.

É importante estar atento para este ponto, tendo em vista o fato de que Wundt é muitas vezes acusado de ser um dos principais defensores da auto-observação ou introspecção tradicional, que remonta à tradição filosófica. No entanto, o que permanece em grande parte ignorado por seus intérpretes, e que está implícito nas considerações anteriores, é a diferença fundamental que ele estabeleceu entre a auto-observação (Selbstbeobachtung) e a percepção interna (innere Wahrnehmung). Essa última, segundo Wundt, por estar baseada no controle experimental das condições externas da experiência, substituiria a introspecção tradicional e livraria a psicologia das duras críticas feitas por diversos autores ao introspeccionismo.

Isso não significa, porém, que não haja lugar para a pura observação na psicologia. Ao contrário, existem fatos psíquicos que, embora não sejam objetos reais do mundo externo, possuem o caráter de objetos psíquicos, na medida em que sua natureza é relativamente estável e que independem do observador. Além disso, eles têm uma outra característica em comum, que os tornam adequados à observação: eles são inacessíveis pelo méto­do experimental. Mas que objetos psíquicos são esses? São aquilo que Wundt chama de produtos mentais surgidos ao longo da história, como a linguagem, a religião, os mitos e os costumes, que dependem de certas condições psíquicas gerais, as quais podemos inferir com base em suas características objetivas.

Uma característica fundamental desses produtos mentais é que eles pressupõem a existência de uma comunidade de muitos indivíduos que compartilham uma certa mentalidade, embora sua fonte última sejam sempre as características psíquicas do indivíduo em particular. E por estarem ligados a uma comunidade popular que Wundt chamou essa área de investigação psicológica de psicologia dos povos (Völkerpsychologie), que complementa a psicologia individual ou experimental na busca de uma compreensão geral dos princípios fundamentais da vida psíquica. No entanto, há uma curiosa diferença na atitude de Wundt em relação a essas duas áreas de investigação psicológica. Enquanto na psicologia individual ele procurou sempre investigar direta e empiricamente os fenômenos, na psicologia dos povos Wundt o fez apenas indiretamente, baseando-se acima de tudo nos relatos e estudos etnológicos. Os últimos 20 anos de sua vida (1900-1920) foram dedicados principalmente a essa psicologia dos povos, esforço esse que resultou em dez extensos volumes.

Em suma, a psicologia dispõe, assim como a ciência natural, de dois métodos de investigação, que darão origem a duas formas complementares de estudo psicológico: o experimento, que a psicologia individual/fisioló­gica utiliza na análise dos processos psíquicos mais simples; e a observação dos produtos mentais, através da qual a psicologia dos povos investiga os processos psíquicos superiores. É importante termos sempre em mente que essa subdivisão da psicologia é uma necessidade apenas metodológica, que em princípio não compromete a unidade do seu objeto de estudo (os processos psíquicos revelados na experiência).

Principais conceitos e ideias psicológicas

Uma das principais ideias psicológicas de Wundt é a de que a vida psíquica desenvolve-se gradual e continuamente do simples para o complexo, através de uma série de processos regulares, que constituem nossa experiência psicológica na vida cotidiana. Neste sentido, nossa experiência imediata só nos fornece conteúdos de natureza complexa, que resultam da ligação de vários elementos simples.

Esses elementos psíquicos, que são revelados através da análise psicológica e, portanto, de uma abstração - uma vez que em nossa experiência eles nunca aparecem isolados, mas somente ligados a outros conteúdos -, constituem a base de toda nossa vida mental. Como o conteúdo de nossa experiência imediata varia entre dois pólos, um objetivo e outro subjetivo, os elementos podem ser, seguindo essa divisão, de dois tipos: as sensações ligadas ao conteúdo objetivo (som, luz etc.) e os sentimentos simples rela­cionados ao conteúdo subjetivo (prazer, desprazer etc.).

O próximo passo é a formação, a partir das sensações ou dos sentimen­tos simples, daquilo que Wundt chamou de complexos psíquicos (psychische Gebilde), que se diferenciam uns dos outros por certas características próprias, formando uma unidade relativamente autônoma. Eles podem assumir quatro formas diferentes: representações, sentimentos compostos, afetos e processos volitivos. Enquanto as representações têm sua origem nas sensações, todos os outros complexos psíquicos originam-se a partir dos sentimentos simples.

É importante ressaltar aqui que, para Wundt, os complexos psíquicos, embora sejam compostos de elementos psíquicos, possuem características que não pertencem a nenhum de seus elementos em particular. E a ligação dos elementos que produz essas novas características, que pertencem so­mente aos complexos enquanto tais. Aqui entra em cena uma das principais ideias da teoria psicológica de Wundt, que permanece ignorada por muitos comentadores, a saber, o conceito de fusão (Verschmelzung) e o princípio da síntese criadora. 

É a fusão - que tem como resultado a síntese criadora — que liga os elementos e constitui os complexos psíquicos, enquanto que a associação é um processo secundário, que se refere apenas à ligação de elementos já presentes em diversos compostos. O processo fundador da complexidade psíquica é, pois, a fusão, e não a associação. Sendo assim, Wundt está longe do associacionismo britânico, como faz questão de ressaltar inúmeras vezes.

Os complexos psíquicos podem ainda se conectar, formando um todo unitário. Essa conexão dos complexos psíquicos Wundt denomina consciência. E o processo através do qual um conteúdo psíquico é trazido à clareza da consciência é chamado de apercep­ção (Apperception), que vem acompanhado do estado de atenção. Mas é possível também apreender conteúdos sem a presença da atenção, e nisso consiste exatamente a percepção (Perception). Desta forma, fazendo uma analogia com o sistema visual, Wundt chama o conteúdo ao qual a atenção está dirigida de ponto focal (Blickpunkt) da consciência, e o conteúdo restante de campo visual (Blickfeld) da consciência.

 

 

Outra importante ideia psicológica de Wundt é o conceito de “cau­salidade psíquica”, que está diretamente relacionado ao seu paralelismo Psícofísico. Para Wundt, a experiência pode, como já foi dito, ser conhecida a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: objetivo (experiência mediata) e subjetivo (experiencia imediata). 

Certas partes da experiência direta com partes da experiência imediata, sem que uma possa ser reduzida à ou derivada da outra. De acordo com o princípio do parelelismo psicofísico, quando isso acontece há uma relação necessária entre cada processo psíquico elementar e seu processo físico correspondente. No entanto, existem vários conteúdos da nossa experiência que so podem ser conhecidos a partir de um único ponto de vista, seja ele físico ou psicológico. Nesse caso, somos obrigados a reconhecer a autonomia do conhecimento psicológico e estamos justificados a supor uma causalida­de própria para o domínio dos processos mentais, do mesmo modo que supomos a causalidade física na natureza. Os dois tipos de causalidade são complementares e nunca podem entrar em contradição entre si. Assim como a causalidade física está fundamentada nas leis da natureza, a causalidade psíquica vai encontrar sua fundamentação última nas leis fundamentais da vida psíquica.

A institucionalização da psicologia

O título de fundador da psicologia, normalmente consagrado a Wundt em quase todos os manuais de história da psicologia, encontra frequentemente justificativa na fundação, em 1879, do Laboratório de Psicologia da Universidade de Leipzig, onde ele permaneceu até se aposentar em 1917. Entretanto, esse fato seria por si só insuficiente para sustentar tal escolha. Tendo em vista a rápida disseminação de labora­tórios de fisiologia por praticamente toda a Alemanha do século XIX, é sempre possível apontar a existência de laboratórios anteriores ao de Leipzig, onde também eram realizadas investigações de cunho psicoló­gico, o que colocaria em questão o pioneirismo de Wundt.

Ao investigarmos mais detalhadamente a vida acadêmica de Wun­dt. sobretudo o período de Leipzig, podemos perceber mais claramente onde reside a verdadeira justificativa para a eleição de Wundt como o fundador da psicologia científica. Não se trata da fundação do laboratório em si, mas sim daquilo que ele passou a representar a partir de então. Durante todo o úl­timo quarto do século XIX, o Laboratório de Leipzig atraiu estudantes de várias partes do mundo (Estados Unidos, Ca­nadá, Inglaterra, entre outros) e tornou-se o primeiro e maior centro de formação de toda uma geração de psicólogos, que posteriormente regressaram a seus locais de origem e fundaram novos laboratórios nos moldes wundtianos.

Foi também o sucesso do laboratório de Leipzig que impulsionou a institucionalização formal da psicologia, quando, em 1883, o Instituto de Psicologia teve sua existência oficial­mente reconhecida pela Universidade de Leipzig e passou a ser incluído no orçamento universitário. No entanto, essa institu­cionalização não deve ser entendida como uma autonomia e separação institucional da psicologia em relação à filosofia, uma vez que até a metade do século XX a psicologia continuou subordinada à Faculdade de Filosofia nas universidades alemãs. Trata-se, ao contrário, de uma desvinculação programática, na medida em que Wundt pretendia fundar um novo campo de investigação científica, sem a influência deletéria das especulações metafísicas.

Além de tudo isso, é digno de nota o fato de Wundt ter fundado e publicado, em 1883, um dos primeiros periódicos de psicologia, que ini­cialmente se chamava Philosophische Studien (Estudos filosóficos), e, a partir de 1906, passou a se chamar Psychologische Studien (Estudos psicológicos). Esse periódico era o veículo oficial de publicação dos trabalhos realizados no Instituto de Psicologia.

Não podemos nos esquecer também que o próprio Wundt, desde seus primeiros trabalhos psicológicos (1858-1863), que antecedem por mais de dez anos sua chegada a Leipzig (1875), sempre reivindicou para si o ato de fundação de uma nova psicologia, restrita ao campo da experiência possível. Foi Wundt, mais do que qualquer outra pessoa, que lutou para fixar o significado do termo “psicologia” em conformidade com a tradição científica do século XIX na Alemanha.

No que diz respeito ao desenvolvimento e à institucionalização da psicologia no Brasil, é praticamente impossível estabelecer qualquer ligação direta entre esta e a obra de Wundt. Se levarmos em consideração que a penetração da psicologia no Brasil ocorreu principalmente pela via da psicologia aplicada — seja na psiquiatria ou na pedagogia, com ênfase na psicometria — e que Wundt jamais se preocupou seriamente com qualquer aplicação da psicologia, torna-se evidente a distância. O máximo que podemos afirmar é que, caso tenha havido alguma influência, esta ocorreu de maneira muito indireta, com a criação de laboratórios de psicologia e a utilização de alguns instrumentos de medição de fenômenos psicológicos.

Wundt e Titchener

Um dos equívocos cometidos com mais frequência nos manuais de história da psicologia é a afirmação de que Wundt seria, ao lado de Titchener, um dos principais representantes do estruturalismo. Esse equívoco, que por si só já representa uma total falta de compreensão da psicologia wundtiana, está diretamente relacionado a outros ainda mais graves —p. ex., quando ele é apontado como um defensor do elementarismo e do associacionismo britânicos —, na medida em que subvertem os principais fundamentos filosóficos de seu pensamento.

Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que existem diferenças importantes entre Wundt e Titchener, pelo menos enquanto este último se definiu como estruturalista e foi fiel aos seus princípios. Foi Titchener quem fundou o estruturalismo, e não Wundt. Embora tenha sido aluno e colaborador de Wundt no Laboratório de Leipzig, ele construiu sua própria concepção de psicologia, que em muitos aspectos se distanciou do pensamento wundtiano. A divergência fundamental está na própria concepção de objeto e método da psicologia. Para Titchener, a psicologia é fundamentalmente o estudo dos elementos da consciência através da introspecção. E tudo o que não puder ser relacionado com os elementos estruturais da consciência não deve ser considerado assunto da psicologia. Fica evidente, portanto, que o sistema de Titchener é muito mais restrito do que o de Wundt, uma vez que grande parte da análise wundtiana dos conteúdos relativos à psicologia dos povos não teria lugar no sistema titcheneriano. E mesmo considerando apenas a psicologia individual, Titchener parece ter se distanciado metodologicamente de Wundt, ao utilizar amplamente a introspecção criticada por ele.

Há ainda uma outra divergência importante. Titchener foi reconhe­cidamente um defensor do elementarismo e do associacionismo. A análise ou decomposição dos processos psíquicos conscientes em seus elementos mais básicos (estruturas fundamentais) e a descoberta dos seus mecanismos associativos subjacentes eram os objetivos últimos de sua psicologia estruturalista. Para Wundt, a análise era apenas um meio de se alcançar a meta principal da psicologia, que era a descoberta das leis universais da vida psíquica em todas as suas manifestações. Além disso, quando rotulou seu sistema psicológico de voluntarismo, uma de suas maiores preocupa­ções era manifestar sua insatisfação com a psicologia associacionista, que segundo ele era incapaz de explicar a dimensão afetiva (sentimentos) e volitiva (vontade) da vida mental.

Os equívocos acerca de Wundt presentes na historiografia tra­dicional da psicologia só poderão vir a ser definitivamente corrigidos quando os estudos sobre sua obra alcançarem uma maior consistência, permitindo-nos, desta forma, resolver problemas cruciais de interpretação do seu pensamento, como, por exemplo, a questão da relação entre seus textos psicológicos iniciais e seu pensamento maduro. Ainda está por vir uma análise exaustiva do projeto wundtiano de psicologia.

Psicologia - História da Psicologia
1/6/2020 1:40:56 PM | Por Arthur Arruda Leal Ferreira
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A psicologia no recurso aos vetos kantianos

Para entender os rumos da psicologia, especialmente na Alemanha do século XIX. é necessário em primeiro lugar entender as críticas a que foi submetida desde o final do século XVIII. E o mais notável de todos os seus críticos foi Imannuel Kant, considerado o inaugurador da filosofia contemporânea. A ele caberá a colocação dos novos parâmetros para o conhecimento ocidental.

Neste aspecto, processa-se uma transformação capital com relação ao século XVIII, uma vez que se passa a distinguir ciência de metafísica, esta entendida como um saber sem fundamento.

É ai que ameaçavam ser alojados os saberes psicológicos do século XVIII, relegados à mera metafísica na impossibilidade de serem ciências legítimas, graças as críticas kantianas. As criticas foram voltadas para um dos pilares da psicologia de língua alemã do século XVIII, Christian Wolff. Mas essas não se voltaram apenas para a psicologia racional de Wolff mas também para a sua psicologia empírica. Segundo Kant, em seus Princípios metafísicos da ciência da natureza (1989 [1786]: 32-33), a psicologia empírica para se provar como ciência propriamente dita deveria:

  1. descobrir o seu elemento de modo similar à química, para com isto efetuar análises e sínteses;
  2. facultar a esse elemento um estudo objetivo, em que sujeito e objeto não se misturem como na introspecção;
  3. produzir uma matematização mais avançada que a geometria da linha reta, apta a dar conta das sucessões temporais da nossa consciência (o sentido interno).

Durante todo o século XIX, a psicologia, para se fundar e ser aceita no restrito clube das ciências, tentou pleitear o recurso a tais vetos e aos de outros filósofos, como o positivista Augusto Comte. Assim, nesse in­tento, esboçaram-se alguns projetos de psicologia como os de Rudolph Lotze (1817-1881), na Alemanha, e Francis Galton (1822-1911), na Inglaterra. 

A superação dos vetos kantianos: fisiologia sensorial e psicofísica

O primeiro problema listado, a falta de um elemento objeti­vo, será resolvido pela teoria das energias nervosas específicas de Johannes Müller, formulada explicitamente em seu Manual de fisiologia de 1826. Para esse fisiólogo, cada via nervosa aferente possuiria uma enema nervosa especifica que se traduziria em um tipo de sensação específica de cada nervo.

Assim, o nervo ótico excitado pela ação da retina, ou por forças mecânicas e químicas, produziria sempre imagens luminosas. O mesmo ocorreria com os demais sentidos.

A posição de Müller conduziu a uma espécie de “kantismo fisioló­gico”, em que o mundo percebido seria uma mera propriedade das nossas energias nervosas específicas (no lugar do sujeito transcendental), estimula­das sempre por um fator físico qualquer, não importando a sua natureza. A sensação, enquanto variação das energias nervosas específicas, representaria um elemento preciso, corporalmente situado como fenômeno, ao contrário das ideias e impressões descritas pelos filósofos empiristas do século XVIII. Foi por tal razão que a sensação veio a ser utilizada como elemento para a construção de uma possível psicologia, pois ela ligaria:

  • o mundo físico que constantemente estimula os sentidos; 
  • o fisiológico, uma vez que as energias nervosas específicas estão ligadas aos nervos e
  • o psicológico, uma vez que a sensação seria a base de nossas representações.

Quanto ao segundo problema kantiano, quem apresenta a solução é um discípulo de Müller. Hermann von Helmholtz. Esse autor elabo­rou em 1860 uma teoria sobre o surgimento das representações psicológicas, ou apercepções, que, no seu reverso, irá fomentar um novo método para o estudo objetivo das sensações. A teoria proposta é a das inferências inconscientes, de claro cunho empirista, e o método, o da introspecção experimental, bem dife­rente do produzido pela psicologia do século XVIII. 

Vejamos primeiro a teoria das inferências inconscientes.

Para esse fisiólogo alemão, as nossas sensações seriam organizadas por experiências passadas, que seriam armazenadas como as premissas maiores de um silogismo, aptas a ordenar de modo inconsciente e rápido as premissas menores informadas pelos sentidos, produzindo como conclusão as nossas representações psi­cológicas. O modo de análise das sensações, a introspecção experimental, se processaria de modo inverso a essas sínteses inconscientes, visando neutralizar os efeitos dessa inferência silogística operada pela experiência passada.

Para neutralizar essa síntese inconsciente, processa-se então uma análise consciente, em que os sujeitos dos experimentos são treinados para reconhecer o aspecto mais bruto e selva­gem de nossa experiência. Fazendo uma analogia, isso ocorreria da mesma maneira que a reeducação de animais selvagens domesticados em seu retorno ao ambiente natural. Essa necessidade de treinamento dos sujeitos faz com que esse estudo não possa ser feito com crianças, primitivos, ou doentes mentais, visando evitar o erro do estímulo, qual seja, a confusão do objeto percebido com os juízos inconscientes acumulados pela experiência passa-da. Por isso, o estudo objetivo das sensações em um sujeito só poderia ser feito se esse mesmo sujeito fosse também um fisiólogo, apto a distinguir o joio da experiência passada do trigo das sensações. Por todos esses cuidados metodológicos, o treinamento e a presença de um estímulo objetivo a ser percebido pelo sujeito (mesmo que a experiência observada ocorra com o próprio sujeito), é que o método introspectivo se distingue da introspecção dos filósofos-psicólogos do século XVIII.

Restava ainda o problema da matematização, o terceiro colocado por Kant. E aqui que entra a psicofísica de Gustav Fechner, delineada no livro Elementos de psicofísica, de 1860. Pode-se dizer que ela também oferece uma resposta experimental ao segundo veto kantiano, referente à impossibilidade de estudos objetivos. Mas a sua principal conquista está em oferecer a qualquer estudo psicológico a possibilidade de desenvolver uma matemática mais avançada que a “geometria de uma linha reta” (nos termos da críticas kantianas). Isso, através do estabelecimento da primeira lei matemática na psicologia, batizada por ele Lei Weber-Fechner, em função do aproveitamento da equação desenvolvida por Ernst Weber sobre a relação de proporcionalidade entre as diferenças apenas percebidas (dap) entre dois estímulos (Ea e Eh) e os valores absolutos destes, gerando a fórmula: dap = Ea —Eb/ Eb. Para entendermos o que Weber quis mostrar com sua fórmula, basta pensarmos na diferença percebida na relação entre um peso de 1 kg e outro de 2 kg, e a compararmos com a diferença percebida entre um peso de 21 kg e outro de 20 kg. A diferença absoluta é a mesma (um quilo), mas a diferença relativa, que é a efetivamente percebida, depende da relação da diferença com os valores absolutos.


Gustav Fechner (1801-1887) foi também um personagem bastante versátil: formado em medicina em 1822, dedicou-se no início de sua carreira às matemáticas e especialmente à física. Até 1839 destacava-se nesse campo, quando renunciou à cátedra em função de um comprometimento ocular, adquirido no exame da luz solar através de lentes coloridas. Essa enfermidade lhe causou uma reclusão de cerca de cinco anos, quando Fechner passou a meditar sobre uma série de postulados metafísicos e religiosos, o panpsiquismo e a sua visão diurna. Sua recuperação, creditada por ele a esse pensamento, conduziu à publicação de uma série de livros, dos quais o mais conhecido é Elementos de psicofísica (1860), em que o autor busca comprovar empiricamente a relação indissociável entre matéria e espírito. Nesse período, ele se dedica ao estudo de fenômenos diversos como a estética experimental (determinação estatística das formas do gosto comum) e fenômenos paranormais, ao acompanhar o médium espírita Henry Slade.

Ernst Weber (1795-1878) foi fisiólogo e anatomista, tendo lecionado na Universidade de Leipzig. Fez parte também da fundação da moderna fisiologia alemã, realizando uma série de estudos sobre sensibilidade tátil e propondo a lei das diferenças apenas percebidas (dap), posteriormente retrabalhada por Fechner em termos loga­rítmicos, gerando a rebatizada Lei Weber-Fechner, em que as daps são assumidas como medidas de sensação.

Este trabalho , proposto em 1860, tem a sua importância não apenas por ser um suposto marco para a psicologia, mas por ter gerado uma linha de pesquisa presente até os dias de hoje. Ainda que a psicofísica atual seja mais inspirada nos trabalhos de Stanley Stevens (1906-1973), a Sociedade Internacional de Psicofísica (ISP —Intenational Society of Psychophysics) ainda hoje promove congressos internacionais. No Brasil destacam-se pesquisadores como José Aparecido da Silva (USP), Nikon Ribeiro Filho (UFRJ) e Elton Matsushima (UFF), organizadores do Congresso da ISP no Brasil em 2002.


Fechner, além de complexificar a equação, irá transformar as diferenças apenas percebidas (daps) em sensações (S), sugerindo a primeira medição psicológica. Mas, antes de se identificar o trabalho de Fechner como o início da psicologia experimental (ao menos na Alemanha), deve-se perguntar por que um físico como ele iria se dedicar a estabelecer uma lei rigorosamente matemática sobre a relação entre o domínio físico e o psicológico (daí o termo da área de conhecimento proposto, psicofísica). Temos então que relacionar esse texto com o conjunto de sua obra, que caracteriza um trabalho mais ou menos sistemático na direção do que o próprio Fechner designou como visão diurna ou panpsiquismo. Por panpsiquismo entendia-se um conjunto de pensamentos e reflexões sobre o mundo enquanto composto por uma hierarquia de seres em que o espírito e o corpo seriam coextensivos, em todas as esteras. O domínio físico e o mental não seriam duas naturezas, mas uma única natureza composta de duas perspectivas, de resto um mistério tão complexo como saber se uma esfera é côncava ou convexa (Fechner, 1850, p. iv). Ficariam assim excluídas as concepções dualistas da natureza (que creem na existência de substâncias), e principalmente as materialistas (que negam a existência de qualquer fator de natureza espiritual), denominadas por Fechner visão noturna. O trabalho psicofísico de Fechner não representa, pois, uma exceção dentro de sua concepção da natureza, mas uma tentativa de estabelecer a prova e o rigor matemático desta.

Por se tratar da possível superação do último veto kantiano é que se pode dizer que o trabalho de Fechner representa o primeiro pilar de uma psicologia a nascer. As fundações desse pilar se encontrariam no sonho de Fechner de 22 de outubro de 1850, em que intuiu matematicamente a relação entre os elementos físicos (estímulos) e espirituais (sensações), data que é reconhecida por alguns historiadores da psicologia como o marco do surgimento da psicologia experimental (Boring, 1950). Mas deve-se lembrar que o valor desse trabalho está correlacionado ao poder de resposta que ele oferece às críticas kantianas. É nesse circuito que se concretiza a importância do trabalho de Fechner, pois ele abriu espaço para a primeira formulação de psicologia reconhecida como científica pelos novos padrões do século XIX, ou seja, superando os impasses da psicologia empírica do século XVIII. 

Assim, quando em 1879 Wilhelm Wundt inaugura a psicologia como formação e Area de investigação acadêmica, todos os elementos possibilitadores desse ato já estarão garantidos, pelas respostas indiretas tanto da fisiologia quanto da psicofísica aos vetos kantianos.

Antes do sonho de Fechner havia o sonho da psicologia de acordar do sono dogmático de todo saber metafísico denunciado por Kant. O sonho de Fechner pode ter brevemente acordado a psicologia (ou ter feito sonhar que acordou) do sono dogmático, apesar de sua intenção ter sido mais nos acordar do sono materialista. Pois correlacionar o físico (estímulo) e o espiritual (sensação), para Fechner, não visava provar uma psicologia matematizável, mas um duplo aspecto de uma mesma natureza extensível a todos os seres, o seu panpsiquismo. Contudo, a história da psicologia prosseguirá na proliferação de escolas e sistemas que se postulam como a quintessência da cientificidade. Em função da proliferação desses mundos científicos possíveis é que se pode perguntar se os vetos kantianos, formulados no final do século XVIII, não continuam a assombrar a psicologia.

Wilhelm Wundt: alguns dados biográficos

Saulo de Freitas Araújo

Wilhelm Maximiliam Wundt, filho de um pastor protestante, nasceu em 16 de agosto de 1832 no vilarejo de Neckarau, nas cercanias de Mannheim (sul da Alemanha). Já aos quatro anos mudou-se com a família para Heidelsheim, onde passou a maior parte de sua infância solitária e deu início aos seus estudos. Aos oito anos, sua educação ficou por conta de um tutor, assistente de seu pai. Em 1845, quando já contava com 13 anos, mudou-se para a casa de sua tia em Heidelberg para frequentar o ginásio. Ao término desse período, Wundt teve que escolher uma carreira profissional. Como tinha interesse em se mudar, ainda que por pouco tempo, de Heidelberg, ele acabou escolhendo o curso de medicina na Universidade de Tübingen, onde seu tio era professor de anatomia e fisiologia. No entanto, ele só permaneceu lá por um ano, após o qual retornou a Heidelberg, acompanhando a transferência de seu tio para aquela universidade.

Foi em Heidelberg que Wundt terminou seu curso de medicina e começou sua brilhante carreira profissional. Além de fisiologia, estudou matemática, física e também química, área em que con­seguiu sua primeira publicação, em 1853, relativa a um experimento sobre a concentração de sal na urina. Em 1855, ele finalmente conseguiu sua habilitação para a prática médica. No entanto, após um curto período em que trabalhou como assistente clínico em um hospital municipal sob a direção de um de seus ex-professores, Wundt começou a ter dúvidas sobre sua capacidade para a prática da medicina, o que o levou de volta à vida acadêmica. Em 1857, após ter anteriormente estudado fisiologia com Johannes Müller e DuBois-Reymond em Berlim, habilitou-se como docente {Privatdozent) e proferiu seu primeiro curso de fisiologia experimental.

Em 1858, Wundt tornou-se assistente de Helmholtz em Heidelberg, posição que ocupou até o início de 1865. Foi durante esse período que realizou seus primeiros estudos em psicologia, que foram posteriormente reunidos no seu primeiro livro propriamente psicológico - Beiträge zur Theorie der Sinneswahmehmung (Contribuições à Teoria da Percepção Sensonal) —, publicado em 1862. Esses estudos vieram precedidos de um ensaio introdutório - o primeiro texto puramente teórico de Wundt —, em que ele propõe uma reforma conceitual e metodológica na psicologia. No ano seguinte, publicou as Vorlesungen über die Menschenund Thierseelc (Conferências sobre a mente humana e animal), obra que representa uma extensão dos princípios fundamentais expostos nas Beiträge.

Um aspecto da vida de Wundt que também merece atenção é o seu envolvimento com a política. Tendo sido convidado para ministrar conferências populares na Associação Educativa dos Operá­rios, ele se engajou não só no movimento para a educação dos operários, mas foi se envolvendo cada vez mais nas discussões políticas, o que o levou a se eleger pelo Partido Progressista, em 1866. como membro do Parlamento de Baden. Dois anos depois, ele abandonou a carreira política para se dedicar exclusivamente à vida acadêmica.

Antes de deixar Heidelberg, Wundt publicou o livro que lhe deu fama e reconhecimento aca­dêmico — Grundziige der physiologischen Psychologie (Elementos de psicologia fisiológica). Este livro, que teve seis edições revistas e ampliadas durante sua vida, influenciou por muito tempo a formação e a direção do trabalho de toda uma geração de novos psicólogos.

Em 1874, Wundt recebeu um convite para assumir a cátedra de filosofia indutiva na Universidade de Zurique, na Suíça. No entanto, ele só permaneceu lá por um ano, pois em 1875 foi chama­do para lecionar na Universidade de Leipzig, onde permaneceu até 1917, quando se aposentou. Sua primeira grande realização foi a fundação, em 1879, do famoso Laboratório de Psicologia, que atraiu estudantes de várias partes do mundo e deu a ele a fama de fundador da psicologia científica. Juntamente com o laboratório, Wundt fundou também, em 1883, um periódico de psicologia, que inicialmente se chamava Philosophische Studien (Estudos filosóficos) e, a partir de 1906, passou a se chamar Psychologische Studien (Estudos psicológicos).

Foi em Leipzig que Wundt escreveu a maior parte de sua obra. Além de suas já tradicionais publicações na área da psicologia fisiológica, ele escreveu longos tratados de filosofia - Logik (1880-1883), Ethik (1886) e System der Philosophie (1889) — e uma síntese teórica do seu projeto de psicologia — o Gmndriss der Psychologie (Compêndio de psicologia) (1896) - entre outros. Apartir de 1900, dedicou-se especialmente à Völkerpsychologie (Psicologia dos Povos) - para muitos, sua maior realização acadêmica - até publicar o décimo volume, em 1919. Neste mesmo ano, terminou sua auto-biografia - Erlebtesund Erkanntes (O que eu vivi e conheci) - e veio a falecer no dia 31 de agosto, pouco depois de completar 88 anos de idade.

Psicologia - História da Psicologia
1/5/2020 7:01:02 PM | Por Duane P. Schultz
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O nascimento da Psicologia

Wilhelm Wundt não tinha ouvido falar de multitarefas. E mesmo que tivesse, não teria acreditado que fosse possível prestar atenção a mais de um estímulo, ou se envolver em mais de uma atividade mental, exatamente ao mesmo tempo. É claro que ninguém tinha ouvido falar de multitarefas na metade do século XIX, antes do telefone, e muito menos mensagens instantâneas, e-mail, videogames, e outros aparelhos eletrônicos, solicitando simultaneamente nosso tempo e nossa atenção.

O ano era 1861. Nos Estados Unidos, a Guerra Civil estava começando. Na Alemanha, um ambicioso Wilhelm Wundt, um pesquisador de 29 anos na área de fisiologia, lecionava meio período na University of Heidelberg. Descrito por amigos como distraído e sonhador, tentava encontrar seu caminho ensinando técnicas básicas de laboratório para alunos universitários. No laboratório improvisado em sua casa, ele tentava conduzir pesquisas para deslanchar o desenvolvimento da nova ciência psicológica.

Ultimamente, Wundt andava pensando a respeito do que Friedrich Bessel, o astrônomo alemão, havia cha­mado de "equação pessoal" - os erros de medição entre os astrônomos que haviam levado à demissão de David Kinnebrook em 1796. Como explicado por um historiador da psicologia, Wundt estava intrigado pelas diferenças entre os astrônomos ao medirem a passagem da grade quadriculada dos telescópios. Essas peque­nas diferenças [simplesmente meio segundo entre Kinnebrook e Maskelyne] ocorriam dependendo do que focalizavam primeiro - a estrela ou o cronômetro. (Blumenthal, 1980, p. 121)

Se o observador olhasse primeiro a estrela, ele obteria uma leitura, mas se olhasse primeiro a grade quadriculada, ele faria uma leitura ligeiramente diferente. Era impossível para o observador focar sua atenção nos dois objetos ao mesmo tempo. O interesse de Wundt por esse problema o levou a modificar um relógio de pêndulo de forma a apresentar dois estímulos - um auditivo e um visual - no caso, um sino e um pêndulo balançando diante de um ponto fixo. Ele chamou o instrumento de Geáankenmesser, o que significa "medidor do pensamento" ou "medida da mente", e ele o usava para medir o processo mental para perceber dois estímulos.

Colocando-se como único sujeito desse experimento, ele concluiu que era impossível perceber essas duas coisas ao mesmo tempo. Ele conseguia prestar atenção ao som do sino, ou ao movimento do pêndulo passando por um ponto específico. Os resultados de suas medidas mostraram que levava um oitavo de segundo para registrar os dois estímu­los sequencialmente. Para o observador casual, os estímulos pareciam ocorrer simultaneamente, mas não para o pesqui­sador treinado.

Wundt escreveu que "a consciência retém só um pen­samento, uma única percepção. Quando parece que temos diversas percepções simultâneas, somos enganados pela sua rápida sucessão" (apud Diamond, 1980b, p. 39). Com essa descoberta, Wilhelm Wundt havia medido a mente. É verdade que Fechner já havia feito isso antes, mas foi Wundt quem usou o experimento como base para uma nova ciência (e David Kinnebrook jamais soube do seu papel nisso).

O Pai da Psicologia Moderna

Wilhelm Wundt foi o fundador da psicologia como disciplina acadêmica formal. Instalou o primeiro laboratório, lançou a primeira revista especializada e deu início à psicologia experimental como ciência. Os temas de suas pesquisas, como sensação e percepção, atenção, sentimento, reação e associação, tornaram-se capítulos básicos de livros didáti­cos e são até hoje fontes inesgotáveis de estudo. Tanto que  a maior parte da história da psicologia pós-wundtiana é caracterizada pela contestação ao seu ponto de vista da psicologia, fato que não desvaloriza sua importância nem seus feitos como seu fundador.

Por que foi Wundt e não Fechner a receber os méritos pela fundação da nova psicologia? A obra Elements of psychophysics, de Fechner, foi publicada em 1860, cerca de 15 anos antes de Wundt iniciar os estudos de psicologia. O próprio Wundt declarou que o trabalho de Fech­ner representava a "primeira conquista" da psicologia experimental (Wundt, 1888, p. 471). Quando Fechner faleceu, seus papéis foram doados a Wundt, que proferiu palavras honrosas em sua memória durante o funeral. Além disso, E. B. Titchener, discípulo de Wundt, referia-se a Fechner como pai da psicologia experimental (Benjamin, Bryant, Campbell, Luttrell e Holtz, 1997). Os historiadores são unânimes em relação à importância de Fechner, e alguns até questionam se a psicologia teria começado naquele momento sem a sua contribuição. Então, por que eles não creditam a Fechner os méritos pela fundação da psicologia?

A resposta encontra-se na natureza do processo de fundação de uma escola de pensa­mento. A fundação consiste em um ato deliberado e intencional que envolve características e habilidades pessoais diferentes das exigidas na produção de contribuições científicas extraordinárias. Um historiador da psicologia disse:

Quando as ideias básicas estão todas elaboradas, algum promotor toma essas ideias e as organiza, adicionando informações que pareçam ser (...) essenciais, publica-as, divulga-as e as promove e, em resumo, "funda" uma escola. (Boring, 1950, p. 194)

O comentário mais recente sobre a natureza do fundador fala sobre a necessidade de se vender uma ideia à comunidade científica: "Para que uma importante contribuição ao conhecimento seja completa, assegurar o impacto de uma ideia é tão importante quanto a originalidade dessa ideia. Vender a ideia com sucesso talvez seja ainda mais importante" (Berscheid, 2003, p. 110).

A contribuição de Wundt para a fundação da psicologia moderna é devida não tanto a uma única descoberta científica quanto à promoção vigorosa da experimentação sistemática realizada por ele. Portanto, fundação não é sinônimo de criação, embora essa distinção não tenha intenção de ser depreciativa. Tanto os fundadores como os criadores são essenciais para a formação de uma ciência, assim como os arquitetos e os construtores são indispen­sáveis na construção de um edifício.

Com essa distinção em mente é possível compreender por que Fechner não foi iden­tificado como o fundador da psicologia. Na verdade, ele simplesmente não estava tentan­do fundar uma nova ciência. Seu objetivo era compreender a relação entre os universos mental e material. Ele buscava descrever com base científica um conceito unificado de mente e corpo.

Wundt, no entanto, estava determinado a fundar uma nova ciência. No prefácio da primeira edição da sua obra Principles of physiological psychology (Princípios da psicologia fisiológica) (1873-1874), ele escreveu: "O trabalho que ora apresento ao público consiste em uma tentativa de demarcar um novo domínio da ciência". Seu objetivo era promover a psicologia como uma ciência independente. Todavia é preciso reafirmar que, embora Wundt seja considerado o fundador da psicologia, ele não foi o seu criador. A psicologia é o resultado de uma longa sequência de esforços criativos.

Na segunda metade do século XIX, o Zeitgeist estava propício para a aplicação da metodologia experimental aos problemas da mente. Wundt foi um agente poderoso do que já estava em andamento, um promotor talentoso do inevitável.

Wilhelm Wundt (1832-1920)

A Biografia de Wundt

Wilhelm Wundt passou os anos iniciais de sua vida nas pequenas vilas das proximidades de Mannheim, na Alemanha. Teve uma infância solitária (seu irmão mais velho ficava em um internato) e a sua única diversão era ficar sonhando em um dia se tornar um escritor famoso. Seu rendimento escolar foi baixo nos anos iniciais. Seu pai era pastor, mas Wundt não tinha boas recordações dele, embora tanto o pai como a mãe fossem descritos como pessoas sociáveis. Lembrava-se de um dia em que o pai fora visitar a escola e dera-lhe uma bofetada no rosto por não prestar atenção ao professor. No início do segundo ano, a responsabilidade pela sua educação ficou a cargo de um assistente do pai, um jovem vigário por quem o garoto acabou criando uma forte afeição. Quando o pároco foi trans­ferido para uma cidade vizinha, Wundt ficou tão aborrecido que foi autorizado a viver com ele até os 13 anos.

A família Wundt era dotada de forte tradição acadêmica, com ancestrais renomados intelectualmente em praticamente todas as áreas. Entretanto parecia que essa extensa linhagem seria interrompida com o jovem Wundt. Ele passava a maior parte do tempo sonhando em vez de estudar, e fora reprovado no primeiro ano do Gymnasium. Sua relação com os colegas de classe não era muito amistosa e ele era ridicularizado pelos professores. Aos poucos, no entanto, aprendeu a controlar seus devaneios, tornando-se relativamente popular. Embora nunca houvesse apreciado a escola, esforçou-se para desenvolver seus interesses e sua capacidade intelectual. Quando se formou, com 19 anos, estava preparado para prosseguir os estudos universitários.

Decidiu tornar-se médico por duas razões: desejava trabalhar com a ciência e ganhar a vida. Frequentou a escola de medicina das universidades de Tübingen e de Heidelberg, nesta tendo cursado anatomia, fisiologia, física, medicina e química. No decorrer do curso, per­cebeu não ter tanta inclinação para a medicina e decidiu especializar-se em fisiologia.

Depois de estudar um semestre na University of Berlin, com o importante fisiologista Johannes Müller, retornou à University of Heidelberg e completou o doutorado em 1855. Lecionou fisiologia em Heidelberg, de 1857 a 1864, e foi indicado para ser assistente de laboratório de Helmholtz. Wundt detestou a tarefa de dar orientações básicas aos estu­dantes no laboratório e deixou a função. Em 1864, foi promovido a professor adjunto e permaneceu em Heidelberg por mais 10 anos.

Estando envolvido na pesquisa em fisiologia, Wundt começou a conceber o estudo da psicologia como uma disciplina científica experimental independente. Primeiramente, sintetizou as ideias no livro intitulado Contributions to the theory of sensoryperception, publi­cado em partes, entre 1858 e 1862. Descreveu suas experiências originais, realizadas em um laboratório improvisado em sua casa, e os métodos que considerava adequados para a nova psicologia, usando pela primeira vez o termo "psicologia experimental". Esse livro, juntamente com o Elements of psychophysics (1860), de Fechner, é considerado marco lite­rário do surgimento da nova ciência.

No ano seguinte, Wundt publicou Lectures on the minds of men and animais (1863). Sua revisão cerca de 30 anos mais tarde, a tradução para o inglês e as seguidas reimpressões da obra após a morte de Wundt são indicadores da importância do livro, no qual Wundt abordou vários temas, como o tempo de reação e a psicofísica, que ocupariam a atenção dos psicólogos experimentais durante vários anos.

Em 1867, Wundt começou a ministrar um curso de psicologia fisiológica na Heidelberg, o primeiro curso formal dessa área no mundo. Suas aulas também produziram material para outro importante livro, Principles of physiological psychology (Princípios da psicologia fisiológica), publicado em duas partes, em 1873 e 1874. Em 37 anos, Wundt revisou o livro em seis edições, sendo a última publicada em 1911. Principles é, indubitavelmente, sua obra-prima, na qual Wundt estabeleceu a psicologia como uma ciência laboratorial inde­pendente, com problemas e métodos de experimentação próprios.

Por vários anos, as sucessivas edições de Principles of physiological psychology serviram como base de informações para os psicólogos experimentais e de registro do progresso da psicologia. O termo "psicologia fisiológica" pode dar margem a interpretações equi­vocadas, já que naquela época o vocábulo "fisiológica" era sinônimo da palavra alemã que queria dizer "experimental”. Na realidade, Wundt estava lecionando e escrevendo a respeito de psicologia experimental e não sobre a psicologia fisiológica no sentido atual da palavra (Blumenthal, 1998).

Os Anos em Leipzig

Wundt começou a mais longa e importante fase da sua carreira em 1875, ao tornar-se professor de filosofia da University of Leipzig, onde trabalhou durante incríveis 45 anos. Logo depois de chegar a Leipzig, instalou um laboratório e, em 1881, lançou a revista Philosophical Studies, publicação oficial do novo laboratório e da nova ciência. Havia pen­sado em chamar a revista de Psychological Studies (Estudos Psicológicos), mas mudou de ideia aparentemente porque já existia outra com o mesmo nome (embora abordasse temas relacionados com ocultismo e espiritismo).

Em 1906, renomeou a revista de Psychological Studies. Agora tendo nas mãos um manual, um laboratório e uma revista acadêmica especializada, a psicologia estava em um bom caminho.

O laboratório de Wundt e também a sua crescente fama atraíram a Leipzig muitos estudantes que desejavam trabalhar com ele, dos quais vários se tornaram pioneiros, difun­dindo versões próprias de psicologia para as gerações seguintes. Entre eles estavam diversos estadunidenses que retornaram aos Estados Unidos para implementar laboratórios próprios. Assim, o laboratório de Leipzig exerceu enorme influência no desenvolvimento da psico­logia moderna, servindo como modelo para novos laboratórios e constantes pesquisas.

Além dos laboratórios instalados nos Estados Unidos, outros foram implementados por alunos de Wundt na Itália, na Rússia e no Japão. Nenhum outro idioma teve mais livros traduzidos de Wundt do que o russo e a admiração por ele chegou ao ponto de os psicólogos de Moscou construírem uma réplica do seu laboratório. Outra réplica foi cons­truída por estudantes japoneses na Tokyo University, em 1920, ano da morte de Wundt, mas foi destruída durante um conflito estudantil nos anos 1960.

Wundt foi um professor bastante popular e, em um dos cursos por ele ministrado em Leipzig, o número de estudantes matriculados ultrapassou a 600. Sua maneira de lecionar foi descrita da seguinte forma pelo estudante E. B. Titchener, em uma carta que escreveu em 1890, depois de assistir pela primeira vez a uma aula de Wundt:

O [funcionário] abriu a porta e Wundt entrou, todo vestido de preto, é claro, dos sapatos à gravata: uma figura magra, de ombros estreitos, com a coluna um pouco curvada a partir da cintura, dava a impressão de ser alto, no entanto, duvido que tivesse efetivamente mais de 1,75m de altura.
Ele caminhava ruidosamente - não há outra palavra para aquilo - subindo pelo corredor lateral os degraus da plataforma; batia com os pés e fazia barulho, como se as solas dos sapatos fossem de madeira. Realmente fiquei com má impressão daquele modo ruidoso de caminhar, todavia parece que ninguém se deu conta.

Alcançou a plataforma e pude ter uma boa visão da figura. Cabelos grisalhos, em quantidade razoável, exceto no topo da cabeça, cuidadosamente coberto por alguns fios longos puxados da lateral...

Wundt, pude perceber, não consultou qualquer tipo de anotação para dar a aula nem olhou em algum momento para o suporte de livros, embora tivesse alguns papéis misturados entre os cotovelos...

Wundt não deixava os braços sobre o descanso: mantinha os cotovelos fixos, mas movia constantemente os braços e as mãos, apontando e acenando... os movimentos eram controlados e pareciam, de alguma forma, misteriosamente ilustrativos...

Ele parou pontualmente ao soar do relógio e saiu pisando e fazendo barulho, um pouco curvado, assim como havia entrado. Se não fosse pelo ruído absurdo do seu cami­nhar, não teria outro sentimento a expressar senão o de admiração pelo seu procedimento. (Baldwin, 1980, p. 287-289)

Sua vida pessoal foi tranquila e modesta e seus dias eram cuidadosamente planejados. Pela manhãs trabalhava em um livro ou algum artigo, lia os trabalhos dos alunos e edita­va a revista. Às tardes realizava exames ou encaminhava-se para o laboratório, cuja visita, conforme lembrou um estudante estadunidense, não durava mais de cinco ou dez minutos. Aparentemente, apesar de acreditar na pesquisa de laboratório, "o próprio Wundt não era um pesquisador de laboratório" (Cattell, 1928, p. 545).

Mais ao final do dia, Wundt fazia uma caminhada e mentalmente preparava a aula da tarde que ministrava habitualmente às quatro horas. À noite dedicava-se à música, à política e, quando mais jovem, às atividades relacionadas com os direitos do trabalhador e do estudante. Levava uma vida confortável e a família dispunha de empregados domés­ticos e usufruía de lazer.

A Psicologia Cultural

Com a implementação do laboratório e a criação da revista especializada, além da gran­de quantidade de pesquisas em andamento, Wundt voltou a atenção para a filosofia. De 1880 a 1891, escreveu a respeito da ética, da lógica e da filosofia sistemática. Publicou a segunda edição de Principies of physiological psychology em 1880 e a terceira em 1887; ainda contribuía com artigos para a revista. Outra área em que Wundt concentrou seu grande talento fora esquematizada em seu primeiro livro: a criação da psicologia social. Ao retomar esse projeto, Wundt produziu um trabalho em 10 volumes, intitulado Cultural psychology (Psicologia cultural), que publi­cou entre 1900 e 1920 (muitas vezes, o título é traduzido equivocadamente como Folk psychology [Psicologia do povo]).

A psicologia cultural tratou de várias etapas do desenvolvimento mental humano mani­festado pela linguagem, nas artes, nos mitos, nos costumes sociais, na lei e na moral. O impacto dessa publicação na psicologia foi mais significativo do que o conteúdo em si, já que serviu para dividir a nova ciência em duas partes principais: a experimental e a social.

Wundt acreditava que as funções mentais mais simples, como a sensação e a percepção, deviam ser estudadas por meio de métodos de laboratório. Todavia os processos mentais superiores, como a aprendizagem e a memória, não podiam ser investigados pela experi­mentação científica por serem condicionados pela língua e por outros aspectos culturais. Wundt somente acreditava no estudo dos processos de pensamento superiores com o emprego de meios não-experimentais como os usados na sociologia, na antropologia e na psicologia social. A noção do significativo papel das forças sociais no desenvolvimen­to dos processos cognitivos ainda é considerada importante; no entanto, a conclusão de
Wundt de que tais processos não são passíveis de estudo por meio de experimentos foi logo contestada e invalidada.

Wundt dedicou 10 anos ao desenvolvimento da psicologia cultural; entretanto o campo, na forma como havia previsto, exerceu pouco impacto sobre a psicologia estadunidense. Uma pesquisa abrangendo os artigos publicados em 90 anos na American Journal of Psychology mostrou que, de todas as citações referentes às publicações de Wundt, menos de 4% estavam relacionadas com a obra Cultural psychology. Entretanto, Principies of physiological psychology era responsável por 61% das referências aos seus trabalhos (Brozek, 1980).

Uma razão provável para a falta de interesse dos psicólogos estadunidenses na psicologia cultural de Wundt seria a época da publicação: entre 1900 e 1920. Nesse período uma nova psicologia estava surgindo nos Estados Unidos, com uma abordagem um pouco distinta da de Wundt. Os psicólogos estadunidenses passaram a confiar nas próprias ideias e nas instituições educacionais e não sentiam mais tanta necessidade de voltar a atenção para os acontecimentos da Europa. Um destacado pesquisador observou que a psicologia cultural não atraía tanto interesse porque ela "surgiu em um estágio de maturidade da psicologia estadunidense em que os pesquisadores estadunidenses estavam bem menos suscetíveis às impressões estrangeiras do que nas décadas de 1880 e 1890" (Judd, 1961, p. 219).

Wundt prosseguiu na pesquisa sistemática e no trabalho teórico até a morte, em 1920. Graças ao seu estilo de vida organizado, conseguiu completar as memórias dos seus regis­tros psicológicos pouco antes de morrer. Análises acerca da sua produção constataram que ele escreveu 54 mil páginas entre 1853 e 1920, em uma média de 2,2 páginas por dia (Boring, 1950; Bringmann e Balk, 1992). Ele havia concretizado o sonho da infância de tornar-se um escritor famoso.

O Estudo da Experiência Consciente

A psicologia de Wundt utilizava os métodos experimentais das ciências naturais, princi­palmente as técnicas empregadas pelos fisiologistas. Wundt adaptou esses métodos cientí­ficos de investigação para a nova psicologia e prosseguiu na sua pesquisa do mesmo modo como os cientistas físicos se dedicavam ao objeto de estudo de sua própria área. Dessa forma, o Zeitgeist na fisiologia e na filosofia contribuiu para moldar tanto os métodos de investigação como o objeto de estudo.

O objeto de estudo de Wundt consistia, para definir em uma única palavra, na cons­ciência. No sentido mais amplo, o impacto do empirismo e do associacionismo do século XIX refletia-se ao menos parcialmente, no sistema de Wundt. Na sua perspectiva, a cons­ciência incluia varias partes diferentes e podia ser estudada pelo método da análise ou da redução. Ele declarou: "A primeira etapa da investigação de um fato deve ser uma descrição dos elementos individuais (...) dos quais consiste" (apuá Diamond, 1980, p. 85).

Todavia, a semelhança entre a abordagem de Wundt e a da maioria dos empiristas e dos associacionistas concentrava-se apenas nesse ponto de vista. Wundt não aceitava a ideia de os elementos da consciência serem estáticos (assim denominados átomos da mente) e se conectarem de forma passiva mediante algum processo mecânico de associação. Ao contrário, ele acreditava no papel ativo da consciência em organizar o próprio conteúdo.

Portanto, o estudo separado dos elementos, do conteúdo ou da estrutura da consciência proporcionaria apenas o ponto inicial para a compreensão dos processos psicológicos.

Voluntarismo.

Wundt concentrou-se no estudo da capacidade própria de organização da mente, dando o nome de voluntarismo ao seu sistema, em referência à palavra volição, que significa o ato ou a força de vontade. O voluntarismo refere-se à força de vontade pró­pria de organizar o conteúdo da mente em processos de pensamento superiores. Wundt enfatizava não os elementos em si, como os empiristas e associacionistas britânicos (assim como Titchener mais tarde enfatizara como aluno de Wundt), mas o processo ativo de organizaçao e síntese desses elementos. No entanto é importante lembrar que Wundt embora alegasse que a mente consciente era dotada do poder de sintetizar os elementos em processos cognitivos de nível superior, nunca deixou de reconhecer serem básicos os elementos da consciência. Na ausência desses elementos, não havia nada a ser organizado na mente.

Experiencia mediata e imediata.

Na opinião de Wundt, os psicólogos deveriam dedi­car-se ao estudo da experiência imediata e não da experiência mediata. A experiência mediata proporciona ao indivíduo as informações ou o conhecimento relacionado com algo além dos elementos de uma experiência. É a forma usual de empregar a experiência para adquirir o conhecimento do nosso mundo. Por exemplo, quando olhamos uma rosa e dizemos "A rosa e vermelha", subentende-se que nosso interesse principal concentra-se na flor e não no fato de percebermos algo denominado "[cor] vermelha". Todavia a experiência imediata de visualizar a flor não está no objeto propriamente dito, e sim na experiência de perceber que alguma coisa é vermelha. Para Wundt, a expe­riencia imediata não sofre nenhum tipo de influência de interpretações pessoais, como a descrição da experiência de visualizar a cor vermelha da rosa em termos do obieto ou seja, da flor em si.

Do mesmo modo, ao descrevermos a sensação de desconforto provocada por uma dor de dente relatamos a nossa experiência imediata. No entanto, se apenas dissermos: "Estou com dor de dente", referimo-nos somente à experiência mediata.

Na perspectiva de Wundt, as experiências básicas humanas, como a percepção da cor vermelha ou a sensação de desconforto provocada pela dor, formam os estados da consciência (os elementos mentais) organizados de forma ativa pela mente. A proposta de Wundt consistia em analisar a mente com base nos seus elementos, nas partes componen­tes, exatamente do mesmo modo que os cientistas naturalistas trabalhavam para dividir o seu objeto de estudo, ou seja, o universo físico. A ideia da tabela periódica desenvolvi­da pelo químico russo Dimitri Mendeleev serviu de apoio para o objetivo de Wundt. Os historiadores sugeriram que talvez Wundt estivesse tentando desenvolver uma espécie de "tabela periódica" da mente (Marx e Cronan-Hillix, 1987).

O Método de Introspecção

Wundt descrevia a sua psicologia como a ciência da experiência consciente. Assim, o método da psicologia científica deve abranger as observações da experiência consciente. No entanto, somente o indivíduo que passa pela experiência é capaz de observá-la. Wundt estabeleceu que o método de observação devia necessariamente utilizar-se da introspec­ção, ou seja, do autoexame do estado mental. Ele se referia a esse método como percepção interna. Wundt não foi o criador do método da introspecção, que já existia no tempo de Sócrates. A inovação introduzida por ele consistia na aplicação do controle experimental preciso sobre as condições de execução da introspecção.

Na física, a introspecção foi utilizada para estudar a luz e o som; na fisiologia, foi apli­cada na pesquisa dos órgãos dos sentidos. Por exemplo, para obter informações sobre os sentidos, o pesquisador aplicava um estímulo e pedia ao indivíduo para descrever a sensação produzida. Esse procedimento é semelhante aos métodos de pesquisa psicofísicos emprega­ dos por Fechner. Quando as pessoas comparavam dois pesos e apontavam se algum era mais pesado, mais leve ou se ambos possuíam o mesmo peso, estavam passando pela experiência da introspecção, ou seja, estavam descrevendo as suas experiências conscientes.

A introspecção, ou percepção interna, praticada no laboratório de Wundt, na Univer­sity of Leipzig, obedecia a regras e condições estabelecidas por ele:

  • Os observadores devem ser capazes de determinar quando o processo será intro­duzido;
  • Os observadores devem estar em estado de prontidão e alerta;
  • Deve haver condições adequadas para se repetir várias vezes a observação;
  • Deve haver condições adequadas para se variar as situações experimentais em termos de manipulação controlada do estímulo.

A última condição remete à essência do método experimental: a variação das condi­ções das situações de estímulo e a observação das mudanças resultantes nas experiências descritas pelos indivíduos. Wundt acreditava que sua forma de introspecção, a percepção interna, permitia fornecer todos os dados básicos necessários para o estudo dos problemas de interesse da psicologia, assim como a percepção externa proporcionava os dados para as ciências como a astronomia e a química. Na percepção externa, o foco de observação encontra-se fora do observador, por exemplo, uma estrela ou a reação da mistura química no tubo de ensaio. Na percepção interna, o foco encontra-se dentro do observador, na sua experiência consciente.

O objetivo de realizar a percepção interna sob rígidas condições experimentais con­siste em produzir observações precisas, passíveis de repetição, da mesma forma que a percepção externa produz para as ciências naturais observações que podem ser repetidas separadamente por outros pesquisadores. A fim de atingir essa meta, Wundt insistia em treinar cuidadosa e rigorosamente os seus observadores para realizar corretamente as percepções internas. Exigia que eles completassem até 10 mil observações introspectivas individuais antes de considerá-los preparados para fornecerem dados significativos para o seu laboratório de pesquisa.

Submetidos a esse treinamento repetitivo e persistente, os indivíduos estariam aptos a realizar mecanicamente as observações e se tornariam rápidos e alertas em relação à expe­riência consciente sendo observada. Na teoria, os observadores treinados por Wundt não precisariam de pausa para pensar ou refletir sobre o processo (e possivelmente introduzir alguma interpretação pessoal) e seriam capazes de descrever a experiência consciente quase imediata e automaticamente. Assim, o intervalo entre os atos de observar e de relatar a experiência imediata seria mínimo.

Wundt praticamente não aceitava o tipo de introspecção qualitativa em que as pes­soas simplesmente descreviam suas experiências íntimas. A descrição introspectiva que buscava estava relacionada principalmente aos julgamentos conscientes sobre o tamanho, a intensidade, a duração de vários estímulos físicos, ou seja, o tipo de análise quantitativa da pesquisa psicofísica. Poucos estudos do laboratório de Wundt usaram relatos de natu­reza subjetiva ou qualitativa, como a percepção de prazer provocada por um estímulo, a intensidade de uma imagem ou a qualidade de uma sensação. A maioria das pesquisas de Wundt consistia em medições objetivas proporcionadas por equipamentos sofisticados de laboratório, muitas delas referentes a tempos de reação registrados quantitativamente. Depois de acumular os dados objetivos suficientes, Wundt extraía as deduções a respeito dos elementos e dos processos de experiência consciente.

Um historiador pesquisou o uso que Wundt fez de dados qualitativos e quantitativos. Ele verificou que "praticamente em quase todos os 180 estudos experimentais publicados entre 1883 e 1903, nos 20 volumes do Philosophische Studien [o primeiro periódico de Wundt, Philosophical Studies], só foram encontrados quatro que usam dados introspectivos qualitativos" (Danziger, 1980, p. 248).

Elementos da Experiência Consciente

Definidos o objeto de estudo e a metodologia para a nova ciência da psicologia, Wundt traçou suas metas:

  • analisar os processos conscientes, utilizando os seus elementos básicos;
  • descobrir como esses elementos eram sintetizados e organizados;
  • determinar as leis da conexão que regiam a organização dos elementos.

Sensações.

Wundt alegava ser a sensação uma das duas formas básicas de experiên­cia. A sensação surge sempre que um órgão do sentido é estimulado e os impulsos resul­tantes atingem o cérebro. Pode ser classificada pela intensidade, duração e modalidade do sentido.
Wundt não reconhecia nenhuma diferença fundamental entre a sensação e a imagem porque esta também está associada com a estimulação do córtex cerebral.

Sentimentos.

O sentimento é a outra forma elementar da experiência. A sensação e o sentimento são aspectos simultâneos da experiência imediata. O sentimento é o com­plemento subjetivo da sensação, embora não se origine diretamente de órgão do sentido. Sensações são acompanhadas de certas qualidades de sentimento; quando se combinam para formar um estado mais complexo, resultam na qualidade de sentimento.
Wundt propôs a teoria tridimensional do sentimento com base nas próprias observa­ções introspectivas. Trabalhando com um metrônomo (aparelho que pode ser programado para produzir cliques audíveis em intervalos regulares), notou que, após ouvir uma série de cliques, alguns padrões rítmicos eram mais prazerosos ou agradáveis do que outros. Concluiu que parte da experiência de qualquer padrão sonoro requer o sentimento subje­tivo do prazer ou desprazer (observe que o sentimento subjetivo ocorria ao mesmo tempo que as sensações físicas associadas com os cliques). Wundt sugeriu então que esse estado de sentimento poderia ser alocado em uma variação contínua desde o extremamente agradável até o extremamente desagradável.

Dando continuidade aos experimentos, Wundt observou um segundo tipo de senti­mento ouvindo os cliques do metrônomo: uma leve tensão ao antecipar cada som suces­sivo, seguida do alívio após o clique. Concluiu assim que, além do contínuo prazer/des­prazer, o sentimento possuía uma dimensão de tensão/relaxamento. Posteriormente, ao aumentar o intervalo dos cliques, sentiu-se suavemente excitado e, ao reduzi-lo, sentiu-se calmo e até um pouco deprimido.

Dessa forma, variando o intervalo do metrônomo e praticando a introspecção, des­crevendo as suas experiências conscientes imediatas (as próprias sensações e os próprios sentimentos), Wundt definiu as três dimensões independentes do sentimento: prazer/des­prazer, tensão/relaxamento e excitação/depressão. Cada sentimento básico era efetivamente descrito de acordo com a sua localização dentro do espaço tridimensional, ou seja, a sua posição em cada uma das dimensões.

Wundt considerava as emoções um composto complexo de sentimentos elementares e, se fosse possível destacá-los na grade tridimensional, as emoções poderiam ser reduzi­das a esses elementos mentais. Embora a teoria tridimensional do sentimento houvesse despertado o interesse para várias pesquisas em Leipzig e em outros laboratórios europeus da época, não resistiu ao teste do tempo.

A Organização dos Elementos da Experiência Consciente

Apesar da sua ênfase nos elementos da experiência consciente, Wundt reconheceu que, ao olharmos para os objetos do mundo real, nossa percepção é dotada de unidade ou de totalidade. Por exemplo, ao olharmos por uma janela, vemos uma árvore e não sensações individuais ou experiências conscientes de brilho, cor ou formato que os observadores treinados do laboratório descrevem como resultado de suas introspecções. Nossa experiên­cia visual do mundo real abrange a árvore inteira e não como sensações e sentimentos básicos constituintes da árvore.

Como as partes elementares compõem essa experiência consciente unificada? Wundt explicou o fenômeno por meio da sua doutrina da apercepção. O processo de organização dos elementos mentais formando uma unidade é uma síntese criativa (também conhecida como a lei das resultantes psíquicas) que cria novas propriedades mediante a mistura ou a combinação dos elementos. Wundt declarou: "Todo composto psíquico é dotado de carac­terísticas que de modo algum consistem na mera soma das características dos elementos" (Wundt, 1896, p. 375). Todos já ouvimos esta afirmação: a totalidade não é igual à soma das partes. Essa noção é disseminada pelos psicólogos da Gestalt (veja no Capítulo 12). A noção da síntese criativa possui a correspondente na química. A combinação dos elemen­tos químicos produz compostos ou resultantes com propriedades não encontradas nos elementos originais.

Para Wundt, a apercepção consiste em um processo ativo. Nossa consciência não atua apenas sobre sensações e sentimentos básicos que experimentamos. Ao contrário, a men­te atua nesses elementos de forma criativa para compor a unidade. Desse modo, Wundt não acreditava no processo da associação mecânica e passiva, defendido pela maioria dos empiristas e associacionistas britânicos.


Trecho sobre a Lei das Resultantes Psíquicas e o Princípio da Síntese Criativa, Extraído de Outline of Psychology (1896), de WIlhelm Wundt

A lei das resultantes psíquicas encontra sua expressão no fato de todo componente psíquico exibir atributos que são conhecidos, na verdade, por meio dos próprios atributos dos elemen­tos que o compõem após serem identificados; entretanto esses elementos não podem, de maneira alguma, ser considerados mera soma dos atributos. Na melodia composta, há mais atributos afetivos e ideacionais do que na mera soma dos tons. A organização temporal e espacial das ideias temporais e espaciais é certamente condicionada de forma perfeitamente regular por meio da cooperação dos elementos componentes da ideia, no entanto, ainda ass!m, o arranjo em si não pode, de forma alguma, ser considerado propriedade pertencente aos próprios elementos da sensação. As teorias nativistas afirmam ser essa noção contraditória  e insolúvel; e, além disso, na hipótese de admitirem a ocorrência de mudanças subsequentes nas percepções espaciais e temporais originais, estão definitivamente partindo para a aceita­ ção do surgimento, pelo menos parcial, de novos atributos.

Por fim, essa lei encontra a expressão de forma evidentemente reconhecível nas funções aperceptivas e nas atividades da imaginação e da compreensão. Os elementos unidos pela sín­tese aperceptiva não só ganham, na ideia agregada resultante das suas combinações, um novo significado antes inexistente no seu estado isolado, como também - e o que é mais importante - a própria ideia agregada consiste em novo conteúdo psíquico derivado certamente desses elementos e que de modo algum encontrava-se neles contido. Essa característica apresenta-se de forma mais evidente nas produções com maior complexidade da síntese aperceptiva, por exemplo, em uma produção artística ou em um exercício de lógica.

A lei das resultantes psíquicas expressa, assim, um princípio que podemos designar, em vista dos resultados, como princípio da síntese criativa. Esse princípio, há muito reconhecido nos casos de criações mentais superiores, em geral não é aplicado a outros processos psíqui­cos. Na verdade, por uma confusão injustificável com as leis da causalidade psíquica, ele tem sido interpretado até erroneamente.

Equívoco semelhante é responsável pela ideia de contradição existente entre o princípio da síntese criativa no universo mental e as leis gerais do mundo natural, especialmente em relação à conservação da energia. Essa contradição é injustificada porque as perspectivas para o julgamento e, consequentemente, para todas as mensurações nos dois casos são diferentes e devem sê-lo, já que a ciência natural e a psicologia não lidam com os conteúdos distintos da experiência, mas com um único e mesmo conteúdo observado de ângulos diferentes...

As mensurações físicas referem-se a massas, forças e energias objetivas, conceitos adicionais obrigatórios no julgamento da experiência objetiva, e, como as suas leis gerais são derivadas da experiência, não devem ser contraditas por nenhum caso de experiência. As mensurações físicas, que se referem à comparação dos componentes físicos e de suas resultantes, estão relacionadas com valores e resultados subjetivos. O valor subjetivo de uma unidade poce aumentar em compa­ração com seus componentes; o propósito da unidade pode ser diferente e superior ao dos seus componentes sem qualquer alteração nas massas, forças e energias envolvidas. Os movimentos
musculares de um ato de vontade externa, os processos físicos que acompanham a sensação-percepção, associação e apercepção obedecem invariavelmente ao princípio da conservação da energia. Todavia, os valores e as finalizações que essas energias representam podem ser muito diferentes em quantidade, até mesmo quando a quantidade dessas energias permanece a mesma.


O Destino da Psicologia de Wundt na Alemanha

Embora a psicologia wundtiana tenha se espalhado rapidamente, não transformou de ime­diato nem completamente a natureza da psicologia acadêmica na Alemanha. No período de Wundt - na realidade, já em 1941, duas décadas após a sua morte —a psicologia nas universidades alemãs ainda consistia em uma área de especialização da filosofia. Esse fato, em parte, dava-se em virtude da resistência de alguns psicólogos e filósofos em separar a psicologia da filosofia e também a um fator contextual importante: os órgãos governamen­tais responsáveis pela criação das universidades não enxergavam nenhum valor prático na psicologia para garantir a alocação de recursos para o estabelecimento de departamentos acadêmicos e laboratórios independentes.

Em 1912, quando a Sociedade de Psicologia Experimental realizou um encontro em Berlim, os psicólogos pressionaram formalmente o governo para obter mais verba. Em res­posta, o prefeito de Berlim declarou que, primeiro, precisava ver os resultados práticos das pesquisas psicológicas. A mensagem foi clara: "Se a psicologia deseja obter mais verba, seus representantes devem provar a sua aplicabilidade para a sociedade" (Ash, 1995, p. 45).

A dificuldade estava no fato de a psicologia de Wundt concentrar-se na descrição e na organização dos elementos da consciência, não sendo, assim, apropriada para a solução dos problemas do mundo real. Talvez seja essa uma das razões de ela não ter criado raízes na atmosfera pragmática dos Estados Unidos. Wundt considerava a psicologia uma ciência puramente acadêmica e não se interessava em aplicá-la às questões práticas.

Desse modo, apesar da sua aceitação nas universidades de vários países, a evolução da psicologia wundtiana, como ciência distinta, foi relativamente lenta na própria Alemanha. Por volta de 1910, 10 anos antes da morte de Wundt, existiam três publicações especializadas em psicologia na Alemanha, além de diversos livros e laboratórios de pesquisa. No entanto, apenas quatro estudiosos constavam nas listas oficiais como psicólogos e não como filósofos. Por volta de 1925, apenas 25 pessoas na Alemanha intitulavam-se psicólogos e somente em 14 das 23 universidades havia departamentos de psicologia independentes (Turner, 1982).

Nesse mesmo período nos Estados Unidos, havia muito mais psicólogos e departamen­tos de psicologia. O conhecimento e as técnicas de psicologia estavam sendo aplicados aos problemas práticos, na economia e na educação. Ainda assim, deveríamos reconhe­cer que a origem para pensar o campo da psicologia nos Estados Unidos era derivada do pensamento de Wundt.

As Críticas à Psicologia de Wundt

A posição de Wundt, assim como a de qualquer outro inovador, estava sujeita a críticas. Especialmente vulnerável era o método da percepção interna ou da introspecção. Os crí­ticos questionavam: quando a introspecção realizada por diferentes observadores produz resultados distintos, como saber qual é o resultado correto? As experiências realizadas com o uso da técnica de introspecção nem sempre produzem o mesmo resultado, já que se trata de uma auto-observação - é definitivamente uma experiência particular. Assim, as divergências não podem ser dirimidas mediante a repetição das observações. Wundt reconhecia essa falha mas acreditava na possibilidade de aprimorar o método, submeten­do os observadores a mais treinamento e experiência.

As opiniões políticas de Wundt também eram alvo de críticas e podem ser a explica­ção para a afirmação de um historiador ao descrever "o declínio precipitado da psicologia wundtiana entre as duas grandes guerras [1918-1939], (...) A maior parte do conteúdo das pesquisas e dos trabalhos de Wundt simplesmente desapareceu nos ambientes de língua inglesa" (Blumenthal, 1985, p. 44). Os estudiosos creditavam o seu declínio às declarações francas de Wundt a respeito da Primeira Guerra Mundial. Ele considerava a Inglaterra culpada por iniciar a guerra e defendia a invasão da Bélgica pela Alemanha como uma forma de autodefesa. Essas declarações ... fizeram com que os psicólogos estadunidenses se voltassem contra Wundt e sua psicologia (in Benjamin, Dcrkín. Link, Vestal, Acord, 1992; Sanua, 1993).

Sua posição política também pode ter lhe custado o Prêmio Nobel. Wundt havia sido indicado duas vezes antes, em 1907 e 1909, e em 1915 foi um dos seis finalistas. Embora fosse  "o psicólogo mais conhecido do mundo na época, e uma pessoa de consideráveis realizações" ele não ganhou (Benjamin, 2003, p. 735). A Primeira Guerra Mundial estava no seu segundo ano sangrento, e o sentimento contra os alemães era forte.

A defesa algumas vezes cáustica da sua terra natal pode muito bem ter contribuído para que fosse rejeitado ao prêmio.

O sistema de Wundt também enfrentou a concorrência crescente nos países de língua alemã após a Primeira Guerra Mundial. Nos anos finais da sua vida, duas outras escolas de pensamento surgiram na Europa, obscurecendo a sua visão: a psicologia da Gestalt, na Alemanha, e a psicanálise, na Áustria. Nos Estados Unidos, o funcionalismo e o behaviorismo encobriram a abordagem wundtiana.

Além disso, as forças contextuais econômicas e políticas vigentes contribuíram para o desaparecimento do sistema wundtiano na Alemanha. Com o colapso econômico após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, as universidades ficaram falidas. A University of Leipzig não possuía verbas nem para a aquisição dos livros mais recentes de Wundt para a biblioteca. O laboratório de Wundt, onde ele orientou a primeira geração de psicólogos, foi destruído durante um bombardeio de estadunidenses e ingleses em 4 de dezembro de 1943. Assim, a natureza, o conteúdo, a forma e até mesmo o lar da psicologia wundtiana se perderam.

A Herança de Wundt

O ato de instalação do primeiro laboratório de psicologia exigia uma pessoa com vasto conhe­cimento da fisiologia e da filosofia contemporâneas e com capacidade para sintetizar efetiva­mente as ideias e os métodos dessas disciplinas. Para Wundt cumprir a meta de fundar uma nova ciência, teve de rejeitar o pensamento não-científico do passado e eliminar as relações intelectuais entre a nova psicologia científica e a antiga filosofia mental. Ao restringir o obje­to de estudo da psicologia à experiência consciente e definir a disciplina como uma ciência baseada na experiência, Wundt conseguiu evitar discussões sobre a imortalidade da alma e as suas relações com a mortalidade do corpo. Ele apenas alegava enfaticamente que a psicologia não lidava com essas questões e essa afirmação foi um grande passo adiante.

Wundt, conforme anunciou que o faria, deu início a um novo domínio da ciência e conduziu pesquisas no laboratório que instalara exclusivamente para esse fim. Publicou os resultados na sua própria revista e tentou desenvolver uma teoria sistemática da natureza da mente humana. Alguns de seus alunos deram continuidade ao trabalho, criando labo­ratórios para prosseguir com as experiências relacionadas com as questões estabelecidas por ele e empregando as suas técnicas. Desse modo, Wundt proporcionou à psicologia todos os acessórios de uma ciência moderna.

Notadamente, a época estava preparada para o movimento wundtiano em consequên­cia do amadurecimento natural do desenvolvimento das ciências psicológicas, especial­mente nas universidades alemãs. Todavia, o fato de o trabalho de Wundt não consistir na origem desse movimento, e sim no seu ponto culminante, não reduz a sua importância. A fundação da psicologia exigiu extrema dedicação e coragem para a concretização do movimento. Os resultados de seus esforços representam uma conquista tão extraordiná­ria que Wundt merece ocupar uma posição de destaque entre os psicólogos do período moderno. Uma pesquisa conduzida por 49 historiadores estadunidenses de psicologia, 70 anos após a sua morte, relevou que ele ainda era considerado o psicólogo mais importante de todos os tempos, uma constatação honrosa para um estudioso cujo sistema já havia sido esquecido há muito tempo (Korn, Davis, e Davis, 1991).

O fato de a maior parte da história da psicologia pós-Wundt consistir de posições contrárias às limitações por ele impostas para a área não desvaloriza as suas brilhantes contribuições. Ao contrário, enaltece ainda mais a sua grandeza. As contestações devem ter algum alvo, algo a ser rebatido, e o trabalho de Wundt, sendo esse alvo, proporcionou um início magnífico e convincente para a moderna psicologia experimental.

Outros Tendências da Psicologia Alemã

Wundt deteve o monopólio da nova psicologia por pouco tempo. A ciência também começava a florescer em outros laboratórios alemães. Embora Wundt fosse obviamente o mais importante organizador e sistematizador dos primeiros passos da psicologia, outras figuras também exerceram influência na evolução inicial da área. Os pesquisadores que não concordavam com o ponto de vista de Wundt propunham ideias diferentes, embora todos estivessem comprometidos com uma empreitada comum: a expansão da psicologia como ciência. O trabalho desses psicólogos, aliado ao de Wundt, transformou a Alemanha indiscutivelmente no centro do movimento.

Os acontecimentos na Inglaterra dariam à psicologia uma temática e uma direção radicalmente diferentes. Charles Darwin apresentava a teoria da evolução e Francis Galton começava a trabalhar com a psicologia das diferenças individuais. Ao chegarem aos Esta­dos Unidos, essas ideias exerceram um impacto ainda maior sobre o rumo da psicologia do que o trabalho pioneiro de Wilhelm Wundt.

Além disso, os primeiros psicólogos estadunidenses, muitos dos quais formados sob a orientação de Wundt, em Leipzig, retornaram aos Estados Unidos e transformaram a psicologia wundtiana em algo tipicamente estadunidense. Esse assunto será abordado mais adiante, mas a questão principal neste momento é que, logo depois da sua fundação, a psicologia se dividiu em facções, e rapidamente a abordagem de Wundt tornou-se apenas mais uma delas.

Hermann Ebbinghaus (1850-1909)

Apenas alguns anos após Wundt afirmar ser impossível conduzir experiências com os processos mentais superiores, um psicólogo alemão que trabalhava sozinho, isolado de qualquer centro acadêmico de psicologia, começou a obter êxito nas experiências com esses processos. Hermann Ebbinghaus tornou-se o primeiro psicólogo a pesquisar expe­rimentalmente a aprendizagem e a memória. Desse modo, não apenas demonstrou que Wundt estava errado a respeito daquela questão, como também mudou a forma de estudo da associação e do aprendizado.

A Biografia de Ebbinghaus

Ebbinghaus nasceu nas proximidades de Bonn, na Alemanha, em 1850, realizou os estudos universitários inicialmente na University of Bonn e depois em Halle e Berlim. Durante a  formação acadêmica, seus interesses dividiam-se entre história, literatura e filosofia, tendo se formado nesta em 1873 e, em seguida, servido o exército na guerra Franco-Prussiana. Dedicou sete anos a estudos independentes na Inglaterra e na França, onde os seus inte­resses mudaram novamente, dessa vez voltando-se para a ciência.

Três anos antes de Wundt estabelecer o laboratório de Leipzig, Ebbinghaus havia adquirido, em uma livraria de Londres, uma cópia usada da importante obra de Fechner, Elements of psychophysics. Esse acontecimento casual afetou profundamente o seu pensa­mento e acabou influenciando também a direção da nova psicologia.

O tratamento matemático dado por Fechner ao fenômeno psicológico foi uma revelação instigante para Ebbinghaus, que resolveu aplicar na psicologia a metodologia empregada por Fechner na psicofísica: as medições sistemáticas e rígidas. Seu objetivo era simplesmen­te aplicar o método experimental aos processos mentais superiores. Muito provavelmente influenciado pela popularidade do trabalho dos associacionistas britânicos, Ebbinghaus optou por realizar essa importante pesquisa na área da aprendizagem humana.

Pesquisa sobre Aprendizagem

Antes do trabalho de Ebbinghaus, a maneira mais comum de estudar a aprendizagem era examinando as associações já formadas. Essa era a abordagem dos associacionistas britânicos. De certo modo, os pesquisadores trabalhavam no sentido inverso, tentando determinar como as ligações haviam sido estabelecidas.

O enfoque de Ebbinghaus era diferente: ele começava a análise com a formação inicial das associações. Dessa forma era possível controlar as condições sob as quais a cadeia de ideias se formava, o que tornava o estudo da aprendizagem mais objetivo.

O trabalho de Ebbinghaus a respeito da aprendizagem e do esquecimento acabou sendo considerado um exemplo de genialidade e originalidade da psicologia experimental. Foi o primeiro trabalho a tratar de um problema que fosse verdadeiramente psicológico e não fisiológico, como eram muitos dos tópicos da pesquisa de Wundt. Dessa forma, a pesquisa revolucionária de Ebbinghaus ampliou consideravelmente o escopo da psicologia expe­rimental. Como vimos anteriormente, a aprendizagem e a memória nunca haviam sido alvos de estudo experimental. Wundt afirmava categoricamente não ser possível estudá-las experimentalmente. Ebbinghaus começou a fazê-lo, embora não ocupasse nenhuma posição acadêmica, não estivesse em um ambiente universitário para conduzir o trabalho e não contasse com o auxílio de professores e alunos, nem de um laboratório. Entretanto, em um período de cinco anos, realizou por conta própria uma série de estudos bastante abrangentes e cuidadosamente controlados, sendo ele mesmo a fonte de sua pesquisa.

Para a medição básica da aprendizagem, Ebbinghaus adaptou uma técnica adota­da pelos associacionistas, cuja proposta afirmava ser a frequência de associações uma condição necessária para a lembrança. Ebbinghaus acreditava ser possível medir, por meio da frequência, a dificuldade de assimilação de um conteúdo - pela contagem do número de repetições necessárias para a perfeita reprodução do material. Percebemos aqui a influência de Fechner, que realizava a medição das sensações de forma indireta, mensurando a intensidade de estímulo necessária para produzir uma diferença míni­ma perceptível na sensação. Ebbinghaus tratou do problema da medição da memória de forma similar, contando o número de tentativas ou de repetições necessárias para a aprendizagem do material.

Como material para a aprendizagem, Ebbinghaus preparou uma lista de sílabas seme­lhantes, mas não idênticas. Ele repetia a tarefa quantas vezes fossem necessárias até se sentir seguro da exatidão do resultado. Assim, cancelava os erros variáveis de cada tentativa e obtinha uma medição média. Era tão sistemático em relação à experiência que mantinha com rigidez a regularidade dos seus hábitos pessoais, obedecendo a uma rotina invariável, estudando o material todos os dias, sempre no mesmo horário.

Pesquisa com Sílabas sem Sentido

Para utilizar como objeto de estudo da sua pesquisa - o material a ser aprendido -, Ebbinghaus inventou o que ficou conhecido como as sílabas sem sentido, revolucionando o estudo da aprendizagem. E. B. Titchener vaja o (Capítulo 5), aluno de Wíndut, observou que o uso das sílabas sem sentido marcou o primeiro avanço importante na área desde a época de Aristóteles.

Ebbinghaus buscava palavras diferentes das do dia-a-dia como objeto de estudo, porque percebera a dificuldade da utilização de estórias ou poesias como material de estímulo. As pessoas familiarizadas com a língua já carregam consigo os significados e as associações das palavras, e essas ligações podem facilitar a aprendizagem do material. Como essas conexões já estão presentes no momento da experiência, não podem ser controladas pelo pesquisador. Ebbinghaus desejava utilizar material uniforme que não contivesse associações e que fosse totalmente homogêneo e igualmente não familiar - material que tivesse poucas associações já estabelecidas. As sílabas sem sentido que ele criou, tipicamente formadas por duas consoantes intercaladas com uma vogal (como lef, bok ou yat), satisfaziam esses critérios. Escreveu em cartões todas as combinações possí­veis de consoantes e vogais, produzindo 2.300 sílabas, das quais extraía aleatoriamente o material de estímulo a ser aprendido.

Informações históricas fornecidas posteriormente por um psicólogo alemão - que leu todas as notas de rodapé das publicações e dos trabalhos de Ebbinghaus referentes às suas experiências, comparando as traduções em inglês com os originais em alemão - apresen­tam-nos uma nova interpretação para as sílabas sem sentido (Gundlach, 1986). Elas nem sempre eram limitadas a apenas três letras e não eram necessariamente sem sentido.

Essa análise meticulosa dos dados históricos, nesse caso usando os próprios escritos de Ebbinghaus, revelou que algumas sílabas compreendiam quatro, cinco ou seis letras. E, o que é mais importante, o objeto de pesquisa que Ebbinghaus denominava “série sem sentido de sílabas" foi traduzido incorretamente para o inglês como uma "série de sílabas sem sentido". Para Ebbinghaus, não eram as sílabas individuais que não deveriam ter sen­tido (embora muitas não tivessem), mas toda a lista de palavras, formada deliberadamente para não conter conexões nem associações anteriores.

Essa reinterpretação dos escritos de Ebbinghaus também revelou que ele era tão fluente em inglês e francês quanto em alemão, além de ter estudado latim e grego, o que mostra a dificuldade enfrentada na criação de sílabas que não tivessem absolutamente nenhum sentido para ele. O pesquisador concluiu: "O inútil esforço em obter a sílaba totalmente sem sentido e completamente livre de associações é uma tarefa para alguns dos seguidores [de Ebbinghaus]" (Gundlach, 1986, p. 469-470).

Ebbinghaus planejou diversos experimentos usando a sua série sem sentido de sílabas para determinar a influência das várias condições experimentais sobre a aprendizagem e a retenção humanas. Uma das pesquisas investigou a diferença entre a velocidade de memo­rização das listas de sílabas e a de memorização daquelas com significados mais aparentes. Para determinar a diferença, Ebbinghaus memorizou estrofes do poema "Dom Juan”, de Byron. Cada estrofe compreendia 80 sílabas, e Ebbinghaus acreditava serem necessárias aproximadamente nove leituras para a memorização de cada uma. Em seguida, memori­zou uma sequência sem sentido de 80 sílabas e constatou que essa tarefa exigia cerca de 80 repetições. Concluiu que a aprendizagem de material sem sentido e sem associações é aproximadamente nave-vezes mais difícil que a de conteúdo conhecido.

Ele tainbém estudou o efeito do tamanho do material a ser aprendido sobre o número de repetições necessário para obter uma reprodução perfeita. Constatou que, quanto mais longo o material a ser estudado, mais repetições eram necessárias e, consequentemente, mais tempo para a aprendizagem. Quando aumentou o número de sílabas a serem apren­didas, o tempo médio de memorização de uma sílaba também foi maior. É claro que, esses resultados eram previsíveis: quanto maior a quantidade de material a ser estudado, mais tempo se levava para aprender. A importância do trabalho de Ebbinghaus consiste no controle meticuloso das condições experimentais, na análise quantitativa dos dados e na conclusão de que o tempo de aprendizagem de uma sílaba - assim como o tempo total da aprendizagem - aumenta quanto mais extensa a lista de sílabas.

Ebbinghaus estudou ainda outras variáveis que acreditava influenciarem a aprendiza­gem e a memória, por exemplo,  o efeito da superaprendizagem (a repetição das listas por mais-tempo do que o necessário para obter a reprodução perfeita), as associações existentes nas listas, a revisão do material e o intervalo decorrido entre a aprendizagem e a lembrança. Com a pesquisa sobre o efeito do tempo, produziu a famosa curva do esquecimento de Ebbinghaus, que demonstra que o material é esquecido rapidamente nas primeiras horas após a aprendizagem e mais lentamente depois disso (veja a Figura 4.1).

Curva do esquecimento de Ebbinghaus

Em 1880, Ebbinghaus foi indicado para ocupar uma posição acadêmica na University of Berlin, onde prosseguiu com a sua pesquisa, repetindo e verificando seus estudos ante­riores. Publicou os resultados das pesquisas no livro intitulado On memory: a contribution to experimental psychology (1885), que pode ser considerada a pesquisa mais brilhante rea­lizada por um único estudioso na história da psicologia experimental. Além de inaugurar um novo campo de estudo, importante até hoje, seu programa de pesquisas é um exemplo de habilidade técnica, perseverança e engenhosidade. Não se tem notícia, na história da psicologia, de qualquer outro pesquisador que tenha trabalhado sozinho e se submetido
a um regime de experimentação tão rigoroso. Sua pesquisa foi tão precisa, completa e sis­temática que continua a ser mencionada nos livros atuais de psicologia, depois de mais de um século.

Outras Contribuições de Ebbinghaus à Psicologia

Em 1890, Ebbinghaus e o físico Arthur König lançaram a revista intitulada Journal of Psychology and Physiology of the Sense Organs. A nova revista foi bem recebida na Alemanha, pois a publicação de Wundt, o primeiro meio de divulgação dos trabalhos de pesquisa do laboratório de Leipzig, não dava mais conta de todo o trabalho produzido. A necessidade de uma nova publicação, apenas nove anos após o lançamento da revista de Wundt, é um testemunho importante do fenômeno do crescimento tanto da dimensão como da diversificação da psicologia.
Em sua primeira edição, Ebbinghaus e König deram destaque às duas disciplinas que emprestaram o nome ao título da publicação: psicologia e fisiologia. Essas áreas "têm con­ sequentemente crescido juntas (...) para formar um todo; elas promovem e pressupõem uma a outra, assim, constituem dois membros de igual importância de uma grande dupla ciência" (apud Turner, 1982, p. 151). Essa declaração, apenas 11 anos após Wundt instalar o seu laboratório experimental, também demonstra quão longe a ideia de Wundt sobre psicologia como uma ciência havia chegado.

Ebbinghaus não obteve qualquer outra promoção na University of Berlin, aparentemen­te porque não publicou mais nenhum trabalho. Em 1894, aceitou um cargo na University of Breslau, onde permaneceu até 1905, quando se transferiu para a University of Halle. Desenvolveu um exercício de completar sentenças, sempre considerado o primeiro teste bem-sucedido sobre os processos mentais superiores. Uma forma modificada dessa tarefa é utilizada em testes modernos de habilidade cognitiva.

Em 1902, Ebbinghaus lançou um livro de sucesso, The principles of psychology, dedicado à memória de Fechner, e em 1908 publicou A summary of psychology, voltado ao público mais leigo. Os dois livros tiveram várias edições e, após sua morte por pneumonia, em 1909, foram revisados por outros escritores.

Entre as contribuições de Ebbinghaus não consta nenhuma teoria, sistema formal ou disciplina. Ele não fundou nenhuma escola, nem parecia ser essa a sua intenção. No entanto, ele é importante não apenas no estudo da aprendizagem e da memória, ao qual deu início, como também na psicologia experimental como um todo.

Uma medida do valor histórico geral do cientista é dada pelo tempo durante o qual resiste a sua contribuição. Seguindo esse parâmetro, Ebbinghaus pode ser considerado um cientista de maior importância do que Wundt. Sua pesquisa proporcionou objetividade, quantificação e experimentação para o estudo da aprendizagem, tópico que continuou  central na psicologia do século XX. Graças à visão e à dedicação de Ebbinghaus, as pes­quisas relacionadas com a associação deixaram de basear-se em mera especulação sobre os seus atributos e passaram à investigação científica formal. Mais de um século depois, muitas das suas conclusões a respeito da natureza da aprendizagem e da memória ainda permanecem válidas.

Franz Brentano (1838-1917)

Com cerca de 16 anos, Franz Brentano iniciou os estudos para o sacerdócio. Frequentou as universidades de Berlim, Munique e Tübingen, na Alemanha, e formou-se em filosofia em Tübingen, em 1864. Foi ordenado nesse ano e dois anos mais tarde começou a lecionar filosofia na University of Würzburg, onde também escrevia e ministrava aulas a respeito do trabalho de Aristóteles. Em 1870, o Concílio do Vaticano, reunido em Roma, aceitou a doutrina da infalibilidade papal, ideia à qual Brentano se opôs. Renunciou ao cargo de professor a que havia sido indicado como padre e deixou a igreja.

O livro mais famoso de Brentano, Psychology from an empirical standpoint, foi publicado em 1874, ano do lançamento da segunda parte da obra de Wundt, Principies of physiological psychology. A publicação de Brentano contradizia diretamente as visões de Wundt, confirmando a divergencia já aparente na nova psicologia. Naquele mesmo ano, Brentano foi indicado para ser professor de filosofia da University de Vienna. Permaneceu na Áustria por 20 anos e sua influência aumentou consideravelmente. Professor popular, muitos de seus alunos acabaram destacando-se na psicologia e entre os mais brilhantes estão Christian von Ehrenfels e Sigmund Freud. Freud fez cinco cursos com Brentano e posteriormente se referiu a ele como um "gênio" e "uma pessoa incrivelmente esperta" (Gay, 1988, p. 29). Em 1894, Brentano aposentou-se como professor, mas continuou estudando e escrevendo, dividindo o tempo entre a Suíça e a Itália.

Brentano é considerado um dos mais importantes psicólogos do início da disciplina por causa da diversificação de seus interesses. Foi precursor intelectual das escolas da psicologia da Gestalt e da psicologia humanista, além de ter compartilhado com Wundt a ideia de transformar a psicologia em ciência. Enquanto a psicoIopia de Wundt era experimental, a de Brentano era empirista. Embora não rejeitasse totalmente o experimenta­lismo, Brentano considerava a observação, e não a experimentação, o principal método da psicologia. Acreditava que a abordagem empirista caracterizava-se por um escopo geralmente mais amplo, já que aceitava, além dos dados da observação e da experiência individual, os da experimentação.

O Estudo dos Atos Mentais

Brentano, se opunha à ideia de Wundt de que a psicologia devia estudar o conteúdo da experiência consciente. Seu argumento era que o próprio objeto de estudo da psicologia é a atividade mental, por exemplo, o ato mental de ver, e não o conteúdo mental do que é visto. Desse modo, a psicologia do ato de Brentano contestava a noção wundtiana de que os processos mentais envolvem conteúdo ou elementos.

Ele afirmava que uma distinção devia ser feita entre a experiência como uma estrutu­ra e a experiência como uma atividade. Por exemplo, ao olhar para uma flor vermelha, o conteúdo sensorial do objeto vermelho é diferente do ato de perceber ou sentir a vermelhi­dão. Para Brentano, o ato de perceber a cor vermelha é um exemplo do verdadeiro objeto de estudo da psicologia. Declarou que a cor consiste em uma qualidade física, mas o ato de ver a cor é uma qualidade ou atividade mental. É evidente que o ato envolve necessa­riamente um objeto; sempre deve haver algum conteúdo sensorial, pois o ato de ver não tem o menor sentido sem a presença do elemento a ser visualizado.

A redefinição de Brentano acerca do objeto de estudo da psicologia exigiu um método de análise diferente, já que o ato, ao contrário do conteúdo sensorial, não é acessível por meio da introspecção, método de percepção interna que Wundt e seus alunos estavam utilizando no laboratório de Leipzig. O estudo dos atos mentais exigia uma observação em larga escala. Essa é a razão da preferência de Brentano pelos métodos mais empiristas do que experimentais para a psicologia do ato. Sua proposta não era o retorno à filosofia especulativa. É importante lembrarmos que, apesar de não ser experimental, o método de Brentano dependia da observação sistemática.

Brentano aperfeiçoou duas formas de estudo dos atos mentais:

  1. por meio do uso da memória (a lembrança dos processos mentais envolvidos em um determinado estado mental);
  2. por meio do uso da imaginação (imaginando um estado mental e observando os processos mentais que ocorrem).

Embora a posição de Brentano atraísse um grupo de seguidores, a psicologia wundtiana continuava a ter destaque. Por lançar mais publicações do que Brentano, a posição de Wundt era mais conhecida. Além disso, os psicólogos admitiam ser mais fácil estudar as sensações ou o conteúdo consciente com os métodos da psicofísica do que usando a observação para analisar os atos mais evasivos.

Carl Stumpf (1848-1936)

Nascido em uma família de médicos na Bavária, Carl Stumpf tomou contato com a ciência muito cedo, mas desenvolveu grande interesse pela música. Aos 7 anos, começou a estudar violino e acabou aprendendo a tocar perfeitamente outros cinco instrumentos e, aos 10 anos, já compunha. Quando frequentou a University of Würzburg, interessou-se pelo trabalho de Brentano e concentrou a atenção na filosofia e na ciência. Por recomendação de Brentano, Stumpf cursou a University of Gõttingen, onde obteve o doutorado em 1868. Ocupou várias posições acadêmicas nos anos seguintes enquanto realizava seu trabalho na nova psicologia.

Em 1894, foi indicado para ocupar a mais alta e honrosa posição como professor de psicologia da Alemanha, na University of Berlin. Os anos nessa universidade foram extremamente produtivos. Conseguiu transformar seu laboratório original, composto de três pequenas salas, em um grande e importante instituto. Embora seus trabalhos não abrangessem o mesmo escopo dos de Wundt, foi considerado seu maior rival. Stumpf foi professor de dois psicólogos que viriam a fundar a psicologia da Gestalt (Capítulo 12) uma escola de pensamento que se opôs às visões de Wundt.

Os primeiros trabalhos produzidos por Stumpf eram a respeito da percepção espacial, no entanto seu trabalho de maior impacto, resultado do seu eterno interesse pela musica, foi Psychology of tone, publicado em dois volumes (1883 e 1890). Esse trabalho e os posteriores, relacionados, com a música, renderam-lhe a segunda posição no campo da acústica, perdendo apenas para Helmholtz, e ambos foram considerados pioneiros no estudo psicológico da música.

A Fenomenologia

A influencia de Brentano explica por que Stumpf aceitava o tratamento não tão rigoroso da Psicologia quanto Wundt acreditava ser necessário. Stumpf alegava serem os fenômenos mentais mais importantes para apsicologia. A fenomenologia, tipo de introspecção defendida por Stumpf, refere-se ao exame da experiência imparcial, ou seja, a experiência tal qual ela ocorre. Ele discordava da posição de Wundt de dividir a experiência em elementos. A creditava que analisar a experiência mediante a redução em conteúdo ou elementos mentais acabava tornando-a artificial e abstrata e a levava a deixar de ser natural.

Em uma série de publicações, Stumpf e Wundt travaram uma balalha dura a respeito da introspecção dos tons. Stumpf iniciou o debate no nível teórico, mas Wundt levou-o para o lado pessoal, apimentando as polêmicas com "denúncias contundentes" (Stumpf, 1930/1961, p. 441). As discussões giravam em torno de algumas questões básicas de quem eram os relatos introspectivos de maior credibilidade? Nos relatos das experiências musi­cais, devemos aceitar os resultados dos observadores altamente treinados do laboratório de Wundt ou dos músicos especializados de Stumpf? Stumpf simplesmente se recusou a aceitar os resultados do laboratório de Wundt.

Stumpf continuou a escrever sobre música e acústica e, nesse período, estabeleceu um centro para a coleta de gravações de músicas originárias de vários países do mundo. Fundou a Berlin Association for Child Psychology (Associação de Psicologia Infantil de Berlim) e publicou a teoria da emoção, que tentava reduzir os sentimentos a sensações, ideia importante para as teorias cognitivas contemporâneas da emoção. Assim, Stumpf foi um dos vários psicólogos alemães a trabalhar independentemente de Wundt para expandir as fronteiras da psicologia.

Oswald Külpe (1862-1915)

Inicialmente, Oswald Külpe foi seguidor de Wundt, mas acabou liderando um protesto estudantil contra o que chamou de limitações da psicologia wundtiana. Külpe dedicou toda a sua carreira a trabalhar com os problemas ignorados pela psicologia de Wundt.

Em 1881Külpe iniciou os estudos na University of Leipzig. Planejava estudar história, mas, por influência de Wundt, passou para a filosofia e para a psicologia experimental, a qual ainda estava dando os passos iniciais. Depois de se formar, tornou-se professor adjunto e assistente de Wundt, realizando pesquisas no laboratório de psicologia. Um aluno chamou-o de uma "espécie de mãe" do laboratório porque estava sempre disposto a ajudar os estudantes a resolverem os problemas (Kiesow, 1930/1961, p. 167).

Külpe escreveu um manual introdutório, Outline of psychology (1893) e dedicou-o a Wundt. No livro, definia a psicologia como a ciência dos fatos da experiência dependen­tes do indivíduo que a vivência.

Em 1894, Külpe aceitou o cargo de professor da University of Würzburg e dois anos mais tarde implementou um laboratório de psicologia que logo rivalizaria em importância com o de Wundt. Entre os estudantes atraídos a Würzburg estavam diversos estadunidenses, incluindo James Rowland Angell, que se tornou o pivô do desenvolvimento da escola de pensamento funcionalista (veja Capítulo 7). Külpe dedicou-se a vida toda aos alunos e às pesquisas. Nunca se casou e tinha orgulho de dizer que "a minha noiva é a ciência" (apud Ogden, 1951, p. 4).

Divergências entre Külpe e Wundt

Em Outline of psychology, Külpe não questionou o processo de pensamento, pois concordava com a visão de Wundt sobre a impossibilidade da análise experimental dos processos mentais superiores. Entretanto, apenas alguns anos depois, Külpe convenceu-se do contrário. Afinal, Ebbinghaus estava estudando a memória, outro processo mental superior. Se a memória era passível de análise em laboratório, por que não o pensamento? Ao formular essa pergunta, obviamente Külpe estava desafiando a definição de Wundt acerca do escopo da psicologia.

A Introspecção Experimental Sistemática

Outra diferença entre a psicologia praticada em Würzburg e em Leipzig refere-se à intros­pecção. Külpe desenvolveu um método que chamou de introspecção experimental sis­temática, que envolvia, primeiro, a execução de uma tarefa complexa (como estabelecer conexões lógicas entre conceitos) e, em seguida, a coleta dos relatos individuais sobre os processos cognitivos ocorridos durante a realização da tarefa. Em outras palavras, as pes­soas realizavam alguns processos mentais, como o pensamento ou o julgamento, e depois examinavam como haviam pensado e julgado. Wundt não permitia em seu laboratório o  uso dessa descrição retrospectiva ou após o fato. Ele analisava a experiência consciente à medida que ela ocorria e não a lembrança do fato ocorrido. Decepcionado com a meto­dologia de Külpe, chamou-a de "falsa" introspecção.

A abordagem-de Külpe era sistemática porque a experiência total podia ser descrita precisamente pela sua divisão em períodos de tempo. As tarefas semelhantes eram repeti­das diversas vezes, de modo que permitissem a correção, a confirmação e a ampliação dos relatos introspectivos, os quais eram normalmente complementados com mais perguntas, dirigindo a atenção do indivíduo a pontos específicos.

Outras diferenças existiam entre as abordagens introspectivas de Külpe e de Wundt, o qual não concordava com o método de os indivíduos descreverem em detalhes suas experiências conscientes subjetivas. A maior parte da sua pesquisa concentrava-se nas medições objetivas e quantitativas, como o tempo de reação ou a percepção do peso na pesquisa psicofísica. Entretanto, a introspecção experimental sistemática de Külpe dava ênfase aos relatos individuais detalhados, qualitativos e subjetivos acerca da natureza dos processos de pensamento. Külpe desejava dos participantes da sua pesquisa mais do que um simples julgamento da intensidade do estímulo. Ele lhes pedia para descreverem as operações mentais complexas realizadas durante a execução da tarefa.

É possível perceber que, na introspecção experimental sistemática de Külpe, o pesqui­sador assumia um papel mais, ativo no processo de pesquisa. No laboratório de Wundt, o envolvimento do pesquisador limitava-se à apresentação do material de estímulo e ao registro dos resultados das observações. Portanto, os pesquisadores de Wundt não interfe­riam nas observações em si. No entanto, na abordagem de Külpe, os pesquisadores faziam perguntas diretas aos observadores, tentando explicitar os detalhes das suas reações aos estímulos experimentais.

Esse tipo de questionamento exigia dos observadores um trabalho árduo para des­creverem cuidadosamente e com precisão os fatos mentais complexos que vivenciavam. Külpe desejava obter mais informações do que somente as referentes ao tempo de reação, à percepção de peso ou outras medições quantitativas. Um historiador chegou a afirmar que, na verdade, Külpe estava expandindo os limites estreitos da forma de introspecção de Wundt (Danziger, 1980).

Em resumo, a abordagem de Külpe objetivava diretamente a investigação sobre o que acontecia na mente do indivíduo durante a experiência consciente. Suas metas eram expandir o conceito de Wundt sobre o objeto de estudo da psicologia para englobar os processos mentais superiores e aprimorar o método de introspecção.

Pensamentos sem Imagens

Qual o resultado da campanha de Külpe para expandir e aperfeiçoar o objeto e o método de estudo da psicologia? Wundt afirmava que toda experiência é composta de sensações e imagens, e tentava reduzir a experiêricia consciente a essas partes componentes. Todavia os resultados da introspecção direta de Külpe nos processos de pensamento revelaram o contrário: que o pensamento pode ocorrer sem qualquer conteúdo sensorial ou imagístico. Essa descoberta foi definida como pensamento sem imagens, para representar a ideia de que os significados, no pensamento, não requerem necessariamente imagens específicas e, assim, a pesquisa de Külpe identificou o aspecto não-sensorial da consciência.

Tópicos de Pesquiso do Laboratório de Würzburg

Külpe e seus alunos realizaram pesquisas sobre diversos tópicos. O estudo de Karl Marbe sobre o julgamento comparativo de pesos foi uma contribuição importante, pois constatou que, apesar de as sensações e imagens estarem presentes durante a tarefa, elas parecem não tomar parte do processo de julgamento. Os indivíduos não foram capazes de descrever como os julgamentos de pesado ou leve ocorriam à mente. Essa descoberta contradizia a noção aceita de que, ao realizar esses julgamentos, os indivíduos retinham a imagem mental do primeiro peso e a comparavam com a impressão sensorial do segundo.

O estudo de Henry Watt demonstrou que, em uma tarefa de associação de palavras (em que se pedia às pessoas para responderem a uma palavra de estímulo), os indivíduos ofereceram poucas informações relevantes sobre o processo consciente de julgamento. Essa descoberta reforçou a alegação de Külpe de que a experiência consciente não pode ser redu­zida exclusivamente a sensações e imagens. Os participantes da pesquisa de Watt foram capazes de responder corretamente, sem nenhuma intenção de assim proceder no momento de formular a resposta. Watt concluiu que o trabalho consciente fora realizado antes de a tarefa ser executada - quando as pessoas receberam e entenderam as instruções.
As pessoas envolvidas no trabalho de Watt aparentemente estabeleceram um ambien­te inconsciente ou uma tendência determinante para responder da forma desejada, no momento em que compreenderam as instruções. Quando as regras da tarefa foram com­preendidas e a tendência determinante adotada, a tarefa em si foi realizada com pouco esforço consciente. Essa pesquisa indicou que as predisposições externas à consciência eram capazes, de alguma forma, de controlar as atividades conscientes. Dessa maneira, a experiência foi considerada dependente não apenas dos elementos conscientes, como também das tendências determinantes inconscientes, supondo que a mente inconsciente pode influenciar o comportamento humano. Essa noção foi adotada posteriormente por Sigmund Freud na sua escola de pensamento psicanalítica.

Comentários

Observamos que, logo após a fundação formal da psicologia, surgiram muitas divisões e controvérsias. Entretanto, apesar de todas as divergências, os primeiros psicólogos estiveram unidos em torno de um único objetivo: o desenvolvimento de uma ciência da psicologia independente. Mesmo com as diversas visões quanto ao objeto e ao método de estudo da psicologia, Wundt, Ebbinghaus, Brentano, Stumpf e outros mudaram definitivamente a perspectiva do estudo da natureza humana. Um escritor observou que, em virtude dos esforços desses intelectuais, a psicologia não era mais um estudo da alma [mas] um estudo, por meio da observação e da experiência, de certas reações do organismo humano não incluídas como objeto de estudo de qualquer outra ciência. Os psicólogos alemães, apesar de todas as suas diferenças, estavam totalmente comprometidos com um objetivo comum; e a capacidade, o empenho e a direção comum de seus trabalhos contribuíram para o desenvolvimento das universidades alemãs, trans­formando-as no centro do novo movimento na psicologia. (Heidbreder, 1933, p. 105)

A Alemanha logo deixou de ser o centro do movimento. E. B. Titchener, aluno de Wundt, levou aos Estados Unidos uma nova versão da psicologia do seu fundador.

Psicologia - História da Psicologia
1/4/2020 8:03:03 PM | Por Marina Massimi
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Ideias Psicológicas na cultura Luso-brasileira, do séc. XVI ao XVIII

As instituições superiores de ensino são criadas no Brasil somente no século XIX, o que faz com que a psicologia percorra outros caminhos em sua história entre nós. Indica-se a reconstrução de conhecimentos e práticas psicológicas presentes no contexto de culturas e sociedades específicas, expressivos das diversas “visões de mundo” que as caracterizam. Entende-se por visão de mundo aquele conjunto de aspirações, de sentimentos e de ideias que reúne os membros de um mesmo grupo e os diferencia de outros grupos sociais. Evidenciaremos a seguir alguns tópicos da produção cultural brasileira do período entre o século XVI e o início do século XIX que podemos reconhecer como significativos para a história dos conhecimentos psicológicos na cultura ocidental.

Os jesuítas como portadores e transmissores de ideias psicológicas

Ordem religiosa recém-surgida quando da vinda de seus padres mis­sionários ao Brasil junto à armada do governador geral português Tomé de Souza em 1549, a Companhia de Jesus originara-se num contexto cultural muito fecundo da Europa da época. Seus inícios aconteceram no âmbito de um pequeno grupo de docentes e alunos da Universidade de Paris, local de convergência da tradição medieval e dos novos fermentos do Huma­nismo e do Renascimento. Inclusive alguns dos membros da Companhia foram ilustres representantes dessa corrente de pensamento. Além disso, a identidade hispânica de seu fundador, Inácio de Loyola (1491-1556), e de vários entre os primeiros adeptos, proporcionava a colocação da Companhia no âmago de um dos mais importantes movimentos culturais da Europa da época: a Segunda Escolástica ibérica, escola filosófica que tencionava abarcar e discutir as novas teorias dos filósofos renascentistas e ao mesmo tempo manter uma ligação estreita com a tradição filosófica cristã.

A educação é tida pelos religiosos - imbuídos do espírito da pedagogia humanista - como instrumento privilegiado para criar um homem novo e uma nova sociedade na Terra de Santa Cruz, sendo que a criação de escolas constituíra-se um dos objetivos prioritários do plano missionário da Companhia. Tal empreendimento acarretava a necessidade de formular conhecimentos e práticas que, na nossa linguagem atual, designaríamos como pedagógicos e psicológicos.

Outro motivo que justifica o interesse pelo estudo do saber dos jesuítas do ponto de vista da historiografia das ideias psicológicas no Brasil é que a ênfase no conhecimento de si mesmo (através do discer­nimento dos espíritos) e no diálogo interpessoal visando à compreensão da dinâmica interior (através da direção espiritual) é uma das dimensões principais da espiritualidade da Companhia e de sua formação. Revela uma atenção toda moderna para com o cuidado de si mesmo. Esses recursos, aplicados à vida do indivíduo, são, porém , funcionais ao bem - estar do grupo e visam favorecer a adaptação aos diversos contextos de atuação missionária. Neles canalizam-se conceitos teóricos e receitas práticas próprios de toda a tradição clássica e medieval.

Apresentamos a seguir as principais ideias psicológicas que surgiram no âmbito da produção jesuítica, no meio sociocultural do Brasil colo­nial.

O estudo da alma e a cura das enfermidades do ânimo

Uma importante fonte para o conhecimento da teoria psicológica di­fundida no ambiente cultural da Companhia de Jesus em Portugal e no Brasil ao longo do período colonial são alguns comentários às obras de Aristóteles elaborados por jesuítas portugueses docentes junto ao Colégio de Coimbra, os tratados assim chamados Conimbricences, baseados nos textos gregos daquele filósofo. Nesses compêndios didáticos, assumia-se uma posição cultural explícita a favor de Aristóteles (384-322 a.e.c.) e de Santo Tomás (1225-1274), mas ao mesmo tempo acolhedora dos fermentos culturais novos do Humanismo e da Renascença. A teoria psicológica dos mestres de Coimbra pode ser apreendida pela leitura dos comentários às obras psicológicas de Aristóteles, a saber: De Anima, Anima Separata, Parva Naturalia, Ética a Nicomaco, De Generatione et Corniptione.

A concepção psicológica proposta pelos Comentários é inspirada na tradição aristotélico-tomista. Nesta, a alma é definida como o ato primeiro e substancial do corpo, forma do corpo e princípio de toda atividade. Inovadora, porém, é a ênfase quanto à utilidade concreta da ciência da alma — o que justifica a posição prioritária que ela ocupa entre as outras disciplinas filosóficas.

As cegas paixões do coração humano

A descrição e a definição conceptual de emoções tais como o medo, o amor, a tristeza, na época chamadas paixões, são temas recor­rentes na literatura jesuítica produzida no Brasil ao longo dos séculos XVI e XVII. A elaboração de uma teoria completa acerca de tais fe­nômenos e de seu controle pelo saber da Companhia é documentada pela literatura moral e pela oratória sagrada.

No século XVII, nos Sermões de Antônio Vieira (1608-1697), encontram-se várias referência às “paixões”, sendo estas reconhecidas como motores do comportamento humano individual e social. O saber de Vieira acerca da psicologia das paixões fundamenta-se numa longa tradição teológica, médica e filosófica, em muitos casos explicitamente documentada e citada e que, de qualquer forma, já encontramos nos tratados filosóficos dos mestres de Coimbra (cf. Massimi e Silva, 2001).

O conhecimento de si mesmo: força poderosa sobre as próprias ações

Para Vieira e para os outros pregadores do período colonial, o estudo dos fenômenos psicológicos situa-se no plano de um conhecimento de si mesmo instrumental à conversão religiosa e ao comportamento virtuoso. Para tanto, o sermão é considerado meio privilegiado e eficaz, conforme assinala num famoso conjunto de sermões (As cinco pedras da funda de Davi em cinco discursos morais, 1676): “ O conhecimento de si mesmo, é o conceito que cada um faz de si, é uma força poderosa sobre as próprias ações” (1993,vol.V:612).

Na visão dos pregadores, o verdadeiro conhecimento psicológico brota não de uma autonomização do campo do psicológico, mas, pelo contrário, de uma consideração deste do ponto de vista de uma ordem superior da experiência humana, que é a ordem do espiritual. Para atingir tal perspectiva é preciso “sair”, distanciar-se do que de imediato aparece como o ser do homem. Quando a subjetividade se espelha numa alteridade, e o eu se depara com o Outro, então começa-se a adquirir o verdadeiro conhecimento de si mesmo. E por isso que “a boca do pregador”, semelhante à “boca de Deus”, é o instrumento com que a graça “forma” os homens. Por isso, inclusive em vários de seus Sermões Vieira define os pregadores como “médicos das almas”.

O conhecimento do índio como pessoa

Numa ótica já voltada para a atuação no campo social da Colônia, a correspondência epistolar e a literatura de viagem elaboradas pelos jesuítas ao longo de sua presença missionária no Brasil do século XVI ao século XVIII constituem-se numa fonte importantíssima de transmissão de ideias psicológicas acerca de si mesmo e do outro. O conhecimento dos índios, adquirido pelos missionários jesuítas através da convivência quotidiana com eles, norteada pelo objetivo da evangelização, transmitido e difun­dido através da correspondência epistolar, é, sucessivamente, organizado em tratados e informes. Nesses documentos, é elaborado um saber que, adquirido pela experiência direta, é filtrado pelo crivo da visão antropo­lógica da teologia católica da época, especialmente a doutrina elaborada pelos teólogos da Companhia de Coimbra e em Roma.

Um exemplo da modalidade pela qual o conhecimento do índio vem sendo construído pelos missionários é o Diálogo do Padre Nóbrega sobre a conversão do gentio (in Nóbrega, 1988). Nesse texto, a “criação” de uma “psicologia” do índio é esboçada para corroborar a tese da humanidade do mesmo, tese que, por sua vez, justifica a ação evangelizadora dos religio­sos junto a ele. Para comprovar que os índios também têm alma, Nóbrega (1517-1570) baseia-se no dado de observação de que eles possuem todas as “potências” atribuídas pelos filósofos à alma, a saber “entendimento, memória e vontade”(idem, p. 237). Desse modo, a demonstração da “humanidade” do índio é feita a partir do conhecimento de suas características psicológicas. Outros autores jesuítas —tais como José de Anchieta (1534-1597) e Fernão Cardim (1549-1625) - em seus escritos constroem ideias psicológicas acerca dos índios brasileiros (f. Massimi, 1990; Massimi, Mahfoud et al., 1997).

“A criança disposta para se formarem nela quaisquer imagens”

A crença na possibilidade de o homem “fazer-se a si mesmo”, caracte­rística do Humanismo e do Renascimento, colocando ênfase na possibilidade de o ser humano ser plasmado através da educação, encontra nos Novos Mundos recém descobertos o grande laboratório de sua realização. O trabalho desenvolvido pelos missionários da Companhia de Jesus, visando à criação de escolas para a formação de crianças indígenas e mestiças no Brasil colonial, enquadra-se nesse contexto: a realização do projeto missionário da Com­panhia, através da educação, tornará viável a transformação do homem, da cultura e da sociedade. O homem em sua origem é considerado uma tabula rasa, e o seu desenvolvimento é um processo em que esta tabula poderá ser preenchida conforme for a primeira doutrina, conforme a primeira educação, que deres a vossos filhos, podereis conhecer, o que hão de vir a ser” (Gusmão, 1685: 2). Esta afirmação encontra-se no tratado Arte de crear bem os filhos na idade da puerícia (1685), de outro jesuíta brasileiro, Padre Alexandre de Gusmão (1629-1725), pedagogo e literato, fundador do Colégio de Belém, em Salvador da Bahia, e autor, entre outros, da novela História de Predestinado Peregrino e de seu irmão Precito (1685).

Ideias psicológicas de pensadores brasileiros no Brasil nos séculos XVII e XVIII

Entre o século XVII e o início do século XIX, a proibição da criação da Universidade no território nacional imposta pela política cultural da Metrópole levara os jovens brasileiros membros de famílias mais abas­tadas a realizar seus estudos no exterior, sobretudo nas Universidades de Coimbra, Paris e Montpellier. Uma das consequências mais graves desse êxodo foi a impossibilidade de se conseguirem modalidades de formação do intelectual que fossem integradas às condições e peculiaridades da reali­dade nacional; incentivou-se também uma tendência ao individualismo no mundo intelectual autóctone. A formação cultural como autodidatas foi o caminho encontrado por vários brasileiros que não lograram sair do país para realizar seus estudos. Esses pensadores afirmavam a dignidade cultural de sua posição e ao mesmo tempo tinham uma consciência crítica da condição de desterro do intelectual brasileiro, consciência esta evidente nos seus escritos.

O tema barroco da existência humana como transformação, mudança, movimento caracteriza suas concepções. A vida é concebida como fluxo cons­tante de partes às vezes antagônicas: a beleza faz pressentir a decadência, a alegria contém em si o germe da tristeza, há “firmeza na inconstância”, parafraseando um poema de Gregório de Matos (1633-1696) (Moscheta, Massimi, 2000). A ênfase na variabilidade da experiência humana - comum nesse período -, por sua vez, remete-nos à imagem do homo viator formulada pela tradição medieval. A metáfora do peregrino, já proposta numa novela pelo jesuíta Gus­mão, é retomada por um escritor atuante no Brasil no século XVIII: Nuno Marques Pereira (1652-1728), autor do Compêndio Narrativo do Peregrino de América, editado em 1728 em Coimbra e sucessivamente reeditado em 1731, 1760 e 1765 (Assis, Massimi, 1995):

“Se bem reparamos que cousa é a vida de um homem neste mundo, acharemos que não é mais que uma mera peregrinação: já andando, já navegando, já apetecendo glórias até possuí-las, e na mesma posse temendo perdê-las” (Pereira, 1939, vol. 1: 22).

Posição semelhante encontra-se no texto manuscrito do carioca Feliciano Joaquim de Souza Nunes, Política Brazilica (1781), encontrado na Biblioteca Pública do Porto, conjunto de instruções sobre vários tópicos de natureza moral ou religiosa. A perspectiva proposta por Nunes é marcada por uma ética pessimista, onde a visão aristotélica e contrarreformista é in­terpretada numa tônica estóica e fatalista. Trata-se de submeter-se à imutável ordem hierárquica das coisas, sendo que a prudência - virtude por exce­lência, no enfoque aristotélico-tomista - não garante a felicidade: “não está na tua mão evitar as desgraças” (fl. 83), mas “a conformidade tem mais poder; para fazer ditoso o desgraçado, do que a prudência, para o constituir venturoso” (idem).

Da mesma forma, a noção da estreita correspondência entre higiene moral e higiene física, própria da teoria aristotélica e da teoria dos tempe­ramentos, é rejeitada:

Persuade o discurso, que a conservação da saúde pende da boa regulação dos costumes: porém vê como acaba aquele paralítico, ainda que bem morigerado: vê como vive este robusto, não obstante a sua intemperança, (fl. 85-86).

Análoga percepção da existência humana é formulado pelo autor paulista Matias Aires Ramos da Silva de Eça (1705-1763), em sua obra Reflexão sobre a vaidade dos homens (1752). A vaidade nasce quando o homem fixa sua atenção numa das “cenas” do “teatro do mundo”, como se fosse a definitiva e como se possuísse uma realidade última. A imagem do “teatro” é característica da cultura do Barroco que tende a transformar a existência em espetáculo e representação. Contrariamente ao que acon­tece no caso dos outros afetos (“paixões”), a vaidade não é uma paixão do corpo e portanto independe da composição humoral somática, mas deriva do “discurso” e do “entendimento” (idem: 15). Ela é uma espécie de “delírio”, pois “nos finge mil objetos imortais” (idem: 34-35), produzindo um conflito no eu do homem: ao mesmo tempo em que o juízo reconhece e denuncia os seus delírios, a vontade segue-os. Na perspectiva de Matias Aires, o discurso sobre a vaidade é motivado também por razões políticas: a constatação da decadência do Império português, apesar das ostentações de luxo e de riqueza.

O tema da vaidade encontra-se também na produção poética de Gregório de Matos, de Tomáz Antônio Gonzaga (1744-1810), de Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), bem como nos sermões já citados de Antônio Vieira (cf. Massimi, 1990). Todavia, nos autores que aqui analisamos, a mutabilidade, a antinomia entre a essência e a aparência, o sentido de incerteza e de instabilidade tornam-se dimensões salientes e interiores de todo ser humano, sendo ao mesmo tempo sinais da consciência que os intelectuais brasileiros tinham acerca da dissolução do mundo cultural e político da tradição.

Psicologia - História da Psicologia
1/4/2020 2:37:18 PM | Por Fernando Vidal
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A Psicologia do Séc. XVIII

Em torno de 1770, o autor de um artigo sobre psicologia numa enciclopédia suiça termina seu texto com a seguinte pergunta: “Qual é a ciência que mereça nossa atenção e que não tenha a psicologia por base, princípio e guia?” Ele acrescenta ainda que sem o conhecimento da natureza, das faculdades, qualidades, estados, relações e destinação da alma humana, nós não podemos julgar nem decidir sobre nada, nem determinar nada, nem escolher, nem preferir nada, nem fazer nada com segurança e sem erro. Assim a psicologia é a primeira, a mais útil de todas as ciências, a fonte, a fundação de todas e o guia que conduz a cada uma delas. (Mingard, 1770-1775: 511-513)

Esta passagem é interessante sob vários aspectos. Primeiro, pela relação que o autor estabelece entre a psicologia e o que ele considera serem as ciências e as questões que mais merecem nossa atenção, principalmente (tal como especificadas no artigo) a teologia e a imaterialidade e a imortalidade da alma, a ética e a identificação de ações morais, a política e o modo de governar os seres humanos, e finalmente a lógica e o modo de adquirir o conhecimento e de distinguir o falso do verdadeiro, o certo do provável. Em segundo lugar, porque o autor relaciona o conhecimento empírico da alma, adquirido através da observação e da experiência, com princípios religiosos ou metafísicos sobre a natureza e a destinação da alma. Em terceiro lugar, porque atribui à psicologia um estatuto didático e prático preeminente em relação às ciências. Além disso, fica implícito que a psicologia era também epistemologicamente singular: tal como explica o artigo, “uma vez que a psicologia não pode extrair seus princípios nem os fatos que sustentam seus argumentos de uma ciência que se poderia supor anterior a ela, ela não busca nem deve buscá-los em nenhum outro lugar fora do próprio objeto de suas investigações (Mingard, 1770-1775: 513). Assim sendo, a psicologia revela-se como a única ciência cuja metodologia deriva do estudo de seu próprio objeto. Tais juízos sobre a ciência empírica da alma indicam seu lugar no pa­norama intelectual do Iluminismo e legitimam a descrição do século XVIII como o século da psicologia (Gilson e Langan, 1964: 225). A psicologia conquistou essa posição através dos mecanismos intelectuais e sociais que fizeram dela uma disciplina genuína. No século XVIII, a psicologia não pôde se tornar uma profissão acadêmica; na época, tais profissões eram apenas o direito, a medicina e a teologia. Os outros ramos do conhecimento ensinados nas universidades - as “artes” da gramática e da retórica e as “ciências” da lógica, da ética, da física’ (o estudo da natureza) e da metafísica —eram subordi­nados àquelas três faculdades “superiores” e serviam como preparação para elas. Enquanto tratava de fenômenos empíricos relacionados à alma em sua ligação com o corpo, a psicologia era ensinada no curso de física; enquan­to tratava da natureza e da essência da alma, como separada do corpo, ela pertencia à metafísica.

A psicologia no século XVIII não era, portanto, uma profissão institucionalizada. No entanto, ela era uma disciplina - se considerarmos o termo disciplina como uma estrutura social e intelectual caracterizada pela existência de indivíduos que reconhecem a si próprios como seus praticantes; por um conjunto de saberes, problemas, regras, métodos, divergências e debates considerados relevantes; por uma terminologia comum; por publicações, incluindo jornais, além de pessoas identificadas como pertencentes ao domínio em questão ou dotadas de uma autoridade intelectual especial; por sua presença nos currículos acadêmicos e nos materiais de ensino (em manuais ou capítulos de livros didáticos, por exemplo). 

Tudo isso pode existir na ausência de instituições específicas tais como departamentos de universidades, cátedras ou sociedades. É neste sentido de disciplina, que combina o sentido tradicional da palavra com os significados que ela tem na sociologia da ciência, que a psicologia no século XVIII alcançou a consistência e a magnitude que, como veremos abaixo, levaram Immanuel Kant a declarar que ela deveria ganhar o esta­tuto de disciplina universitária autônoma.

O limbo historiográfico contra a autoconsciência metodológica

Em geral, os livros de história da psicologia não consideram a psico­logia do século XVIII uma disciplina e situam-na no limbo de uma “pré-história” ou de uma história “pré-científica”, resumindo as ideias psicológicas dos filósofos iluministas mais importantes. A psicologia, escreveu o eminente experimentalista Herman Ebbinghaus (1850-1909),“tem um passado longo, mas uma história breve” (Ebbinghaus, 1910: 9). Essa frase, tão frequentemente citada, é normalmente interpretada da seguinte maneira: a psicologia empírica e naturalista só teve início nos laboratórios da Alemanha no final do século XIX. Desse modo, acredita-se que a psicologia do século XVIII pertença ao seu passado científico, mas não à sua história. Mas, mesmo que ela não fosse experimental, seria inexato negar a existência de uma psicologia empírica no século XVIII. A psicologia podia não ter laboratórios, mas era concebida como uma disciplina de pesquisa empírica comprometida com a perspectiva naturalista que excluía a alma como um princípio explicativo; por exemplo, ela analisava o pensamento em sua relação com a sensação em lugar de remetê-lo à natureza da substância imaterial e imortal. 

A razão pela qual a psicologia do século XVIII foi julgada “pré-científica”, “filosófica”, ou “especulativa” parece derivar da suposição de que a psicologia natural-científica deveria ser necessariamente quantita­tiva, experimental e independente de propósitos metafísicos ou religiosos. Contudo, a partir de seus próprios termos, a psicologia do século XVIII pode ser considerada uma ciência natural (Hatfield, 1994). Os psicólogos incluíam sua disciplina no estudo da natureza, davam relevo ao estudo dos fenómenos, recusavam-se a discutir a alma como conceito metafísico e apelavam à observação, à experiência, ao método de “análise”, e mesmo à experimentação. Além disso, seguindo o modelo das ciências físicas, eles formulavam hipóteses e esperavam chegar a algum cálculo psicológico.Tudo isso, devemos reconhecer, era fundamentalmente programático e muitas supostas observações não eram mais que ficções conceituais e experimentos intelectuais. Porém, mesmo isso não escapava aos autores do século XVIII.

Já a partir da década de 1750, havia na Alemanha animadas discus­sões metodológicas. Em 1770, o filósofo de Viena Christian Gottfried Shütz (1747-1832), um dos primeiros kantianos, discutiu a questão relativa às dificuldades que resultavam do fato de que a alma é ao mesmo tempo o observador e o observado, o sujeito e o objeto da investigação. Ele assinalou, por exemplo, que mesmo a mais atenta introspecção não consegue atingir muitos fenômenos, tais como os afetos, as percepções obscuras ou rapida­mente concatenadas, os processos graduais de mudança psicológica, ou as primeiras fases do desenvolvimento. Ele examinou rigorosamente os métodos empírico e sintético e era particularmente crítico do método analítico. Este método, cujo teórico mais importante era o filósofo francês Etienne Bonnot de Condillac (1715-1780), visava à “composição” e à “decomposição” de ideias de modo a reduzi-las às mais simples, que podiam ser remetidas às sensações. Schütz caracterizava-o como “o método de conexão arbitrária” (in Bonnet, 1770: 205). O exemplo principal era a estátua imaginada por Condillac no Tratado das sensações (1754) e pelo naturalista e filósofo suíço Charles Bonnet (1720-1793) no Ensaio analítico sobre as faculdades da alma (1760), estátua que, a partir da exposição de estímulos sensoriais separados,

Gradualmente tornava-se um ser pensante. No entanto, Shütz acabou favorecendo uma integração dos três métodos: o método empírico, para esta­belecer os fenômenos; o analítico, para desenvolver hipóteses com base nas observações feitas; e o sintético, para derivar dedutivamente os fenômenos das hipóteses formuladas.

Uma década depois Jean Trembley (1749-1811), um discípulo de Bon­net, autor de alguns dos mais conhecidos trabalhos de psicologia publicados no século XVIII, advogava em favor da tese de que a psicologia deveria seguir a física. Bonnet defendia o papel construtivo da hipótese. Trembley, que estava de acordo com ele quanto a isso, explicava que a física “progrediu apenas depois que se tornou experimental, e que passou a calcular efeitos sem se preocupar com as causas” (Trembley, 1781: 274).

A psicologia deveria imitá-la não somente em seus princípios ontoló­gicos, epistemológicos e metodológicos, mas também em sua estrutura como disciplina. O problema com a psicologia é que, como cada autor tenta construir “todo um sistema”, não se consegue examinar nada com profundidade. A física, por sua vez, avançou na medida em que os físicos enfocaram ramos específicos dessa ciência. A psicologia deveria seguir seu exemplo:

Por que razão alguns autores não se fixam na investigação psicológica dos sentidos, na maneira pela qual conhecemos e julgamos os objetos; e outros na história das crianças e mesmo dos animais que, uma vez que são seres dotados de sensibilidade, são em muitos aspectos semelhantes a nós; outros na história das paixões ou nos diferentes tipos de ações dos homens na sociedade; outros na filosofia da história, etc. A psicologia tornar-se-ia assim uma ciência igualmente vasta e luminosa; cada dia lhe traria novas riquezas e talvez um dia nós pudéssemos reunir todas essas riquezas e ousar empreender uma teoria do homem. Sem dúvida essa é a maneira mais importante de fazer progredir esta ciência (...). (Trembley, 1781; 292-293)

O progresso da psicologia dependia do uso de métodos empíricos em combinação com a especialização. A tendência a elaborar sistemas psicológicos tais como os que Trembley criticava continuou por todo o século XVIII. Apesar disso, a crítica de Trembley era um reflexo da atitude naturalista daquela época, reforçada pelas tentativas de aplicar o raciocínio matemático ou os modelos físicos aos fenômenos e mecanismos mentais, de combinar observações médicas e psicológicas, de discutir a base anatômica da alma ou de conceituar a fisiologia das interações mente-corpo.

Tal como ilustrado pela obra de Wilhelm Wundt (1832-1920), con­siderado o próprio “pai” da psicologia científica, mesmo a ciência que se institucionalizou nas décadas finais do século XIX estava longe de ser ex­clusivamente experimental. A ênfase na ciência de laboratório correspondia aos interesses de uma consolidação institucional. Nos Estados Unidos ela era aclamada como “a nova psicologia”. O livro publicado em 1897 por Edward Wheeler Scripture (1864-1945), um especialista em psicologia da fala e da fonética experimental, recebeu este nome. Esta denominação foi também adotada depois por outros autores. Na França,Théodule Ribot (1839-1916) deu ao seu livro de 1879 A psicologia alemã contemporânea,o subtítulo “escola experimental”; desse modo ele chamava atenção para o que deveria ser uma psicologia positiva e científica. Ao final do século XIX, a psicologia acadêmica do Iluminismo já havia sido relegada para o “passado” da disciplina, de tal modo que poderíamos bem pensar que “o século da psicologia” não tinha mais nenhuma relação com ela. No entanto, agora é preciso reconfigurá-la como objeto legítimo da história da disciplina.

Psicologia: A palavra e o conceito

A palavra psychologia popularizou-se inicialmente nos textos sobre a Alma usados nas universidades protestantes da Alemanha. Ela apareceu na década de 1570 e foi impressa como título pela primeira vez (em caracteres gregos) em 1590 em uma coletânea de discussões sobre a origem e a transmissão da alma racional (Goclenius, 1590). Psychologia era um neologismo conveniente para introduzir os estudantes no sistema geral das ciências, na medida em que ajudava a localizar a scientia de anima e indicar suas rela­ções com as outras disciplinas. Enraizava-se intelectualmente no retorno do aristotelismo e na adoção, dentro das novas universidades protestantes, do método “escolástico” de raciocínio, caracterizado pela sistematização dedutiva, o formalismo lógico e o rigor conceitual no tratamento da controvérsia filosófica, doutrinal e religiosa (Vidal, 2006).

De acordo com Aristóteles, a alma era definida como a “forma” do corpo natural que potencialmente tem vida (De anima, 412-420). Um cor­po “animado” — empsuchos é a palavra grega original —é, portanto, um tipo de matéria dotada de alma (psuchè, anima), e, portanto, capaz de realizar as funções que definem os organismos vivos. A alma era dotada de diferentes poderes ou faculdades (às vezes também apresentados como diferentes tipos de alma): vegetativa (incluindo nutrição, crescimento e reprodução); sensível (incluindo os sentidos externo e interno, movimento físico, as paixões e ou­tros apetites sensíveis); e racional ou intelectual (incluindo o entendimento, o juízo e a vontade) (Michel, 2000). Os seres dotados de alma eram hierarquizados de acordo com as faculdades que eles possuíam: as plantas tinham apenas uma faculdade vegetativa; os animais não humanos tinham a vegetativa e a sensível; e os humanos tinham as três faculdades (vegetativa, sensível e ra­cional). 

Psychologia era, portanto, o nome da ciência geral dos seres vivos e servia como introdução à investigação naturalista das plantas, dos animais e dos humanos. E por esta razão que o estudo do homem ou antropologia (tal como foi chamado nos séculos XVI e XVII) era um ramo da psicologia e não o contrário; é por isso também que ela era frequentemente entendida como uma descrição anatómica do corpo humano.

Ainda que a psicologia fizesse parte do conjunto das ciências naturais, a compreensão de que os humanos eram dotados de um intelecto imaterial e a alma supostamente persistia depois da morte fazia com que os discursos sobre a alma fossem por vezes situados no campo da metafísica. A acepção metafísica do conceito ficou ainda mais evidente quando, depois de des­feito o quadro do pensamento aristotélico, a alma deixou de ser entendida como princípio da vida, responsável pelas funções não intelectuais, passando a ser idêntica à mente, à razão, à consciência. O livro de John Broughton intitulado Psychologia: or An Account of the Nature of the Rational Soul, uma descrição da natureza da alma racional), publicado em 1703, é um exemplo interessante (Broughton, 1703). O autor, um clérigo protestante, tentou demonstrar com o maior rigor que os seres humanos são compostos de duas substâncias heterogêneas. Sua argumentação metafísica se desdobrava, de modo puramente apriori, numa defesa da noção de substância (na época, bastante criticada) como constituindo o substrato, a essência e a condição da existência das coisas (como um princípio explicativo). Seu tratado é um exemplo do tipo de trabalho que fazia com que o termo psicologia fosse difícil de aceitar por aqueles que pretendiam fazer uma ciência empírica da mente. Mas também revela as mudanças no cenário intelectual que abriram espaço para a disciplina da psicologia tal como ela se desenvolveu no século XVIII, a saber, a “mecanização” das funções vegetativa e sensível e a identificação da alma com a mente.

Psicologia e psicologização

Em suas aulas de 1770, Immanuel Kant (1724-1804) explicava que a psicologia empírica tinha permanecido no campo da metafísica não apenas porque os limites da metafísica haviam sido mal estabelecidos, mas também porque a psicologia não era suficientemente ampla e sistemática. Mas chegara o momento de a psicologia se tornar uma disciplina acadêmica:

A razão pela qual a psicologia foi situada no interior da metafísica é evidentemente a seguinte: ninguém nunca soube realmente o que é a metafísica, apesar de ter sido por tanto tempo objeto de muita explanação. Não se sabia como determinar as fronteiras de seu território e por isso muito do que nele foi posto não era cabível (...). A segunda razão era evidentemente esta: a doutrina empírica dos fenômenos da alma não tinha chegado a qualquer sistema que pudesse constituir uma disciplina acadêmica separada. Se ela fosse tão extensa quanto a física empírica, então ela teria sido separada da metafísica. Mas sendo muito pouco extensa e como não se quis descartá-la inteiramente, empurraram-na para a metafísica (...). Mas ela já se tornou muito ampla e logo atingirá uma magnitude quase tão grande quanto a da física empírica. (Kant, 1968: 223-224)

A previsão de Kant para a psicologia empírica como uma disciplina científico-natural começou a se confirmar na segunda metade do século XVIII, nas universidades da Alemanha. Nessa época, a psicologia empírica não tinha cátedras ou departamentos, mas entrou no ensino acadêmico, tornou-se um capítulo nos manuais de filosofia e começou a se disseminar  em periódicos e manuais. Esse processo foi acompanhado do que poderíamos descrever como a psicologização da cultura ilustrada.

Ainda no século XVIII, o filósofo inglês John Locke (1632-1704) foi identificado como o pioneiro indiscutível da tendência psicologizante; seu Essay on Human Understanding (Ensaio sobre o entendimento humano), de 1690, foi devidamente descrito como o “evangelho psicológico” do Iluminismo (Becker, 1955: 64). O historiador da filosofia Gary Hatfield observa justamente que “o empirismo de Locke é bem distinto da tese psi­cológica de que as habilidades perceptivas humanas são adquiridas através da experiência”. Ele nos alerta para o equívoco de interpretar de modo psicologizante os primeiros autores modernos e do Iluminismo, porque para muitos desses autores “estudar o intelecto humano não era um esforço em fazer com a que a psicologia explicasse a lógica ou a epistemologia, e muito menos praticar a psicologia tal como nós a entendemos hoje, mas investigar a própria faculdade lógica e epistêmica” (Hatfield, 1990: 11-12). De fato, o Ensaio de Locke era considerado como uma lógica e não como uma protopsicologia. Contudo, a interpretação psicologizante de Locke se impôs já no século XVIII e foi crucial para o estabelecimento das tarefas e dos contornos da psicologia empírica.

O empirismo, uma corrente filosófica dominante nesse século, de­fine os elementos básicos da psicologização do século XVIII: rejeição das ideias inatas; crítica dos “sistemas” e da metafísica abstrata e substancialista; apelo à observação e à experiência; e, finalmente a convicção de que todo o conhecimento começa com as impressões sensíveis, de que as ideias correspondem a essas impressões e que as ideias complexas podem ser “de­compostas” em elementos mais simples. O sensacionalismo, uma forma de empirismo estreitamente ligado, nesse contexto, a Condillac e seu Essai sur Vorigine des connaissances humaines (Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos) (1754), vai mais adiante e tende a compreender o conhecimento como coextensivo à sensação.

Em razão da projeção que o empirismo e o sensacionalismo alcança­ram no cenário intelectual do Iluminismo, os historiadores observaram que, no século XVIII, a psicologia (no sentido do discurso psicológico) tornou-se a disciplina básica e estratégica dentro do conjunto das ciências humanas e filosóficas. Segundo Isaiah Berlin, transformar a filosofia “em uma espécie de psicologia empírica” (Berlin, 1984:19) era um projeto da maior importância nessa época. A reforma deveria começar com a primeira ciência, a metafísica. Condillac proclamava a primazia epistêmica e cognitiva da análise e essa abordagem promoveu a psicologização da maneira de pensar. Os princípios empiristas foram sistematicamente aplicados em inúmeras áreas da atividade humana, da lógica à educação, da teoria do conhecimento à ética, da religião à estética. No final do século XVIII, o pedagogo rousseauniano suíço Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) já não tinha nenhuma originalidade ao declarar que seu objetivo era psicologizar a educação humana. A lógica e a filosofia moral são exemplos importantes desse processo.

Voltaire (1694-1778), em suas Lettres philosophiques (Cartas filosóficas) de 1734, declarava que nunca existira “um lógico mais exato” do que Locke e o elogiava por ter escrito uma “história” da alma em oposição aos “ro­mances” que haviam sido produzidos até então. Do mesmo modo, o Discours préliminaire à Encyclopédie explicava que Locke tinha reduzido a metafísica ao que ela deveria ser, “uma física experimental da alma”. O escocês David Hume (1711-1776), no Tratado da natureza humana, afirmava que “a única finalidade da lógica é explicar os princípios e as operações de nossa faculdade de raciocinar, e a natureza das ideias” (Hume, 1739-40: xv). Ao unir a lógica ao estudo empírico da mente, os philosophes adotaram não apenas a terminologia contemporânea, mas também a noção de que a análise das faculdades cognitivas constituía a base de uma lógica nova e antiformalista. 

Tal como foi explicado por James Buickerood, no século XVIII entende-se que a finalidade da lógica é expor a “história natural” do enten­dimento. A lógica da época, portanto, supõe que seu sucesso como uma dis­ciplina normativa depende de descrições precisas e completas das operações cognitivas sobre as quais suas prescrições deveriam se apoiar (Buickerood, 1985:187). Do mesmo modo que Hatfield, Buickerood recomenda cautela ao interpretar as alusões às faculdades cognitivas, cujo contexto de referência original não era necessariamente psicológico. A lógica não era psicologia; mas a tarefa da psicologia era fornecer o conhecimento das operações mentais que a lógica deveria comandar.

Na filosofia moral, enquanto alguns autores insistiam na sensação e na associação como a única fonte das ideias morais, outros argumentavam em favor da existência de um “sentido moral”. Ambos os lados, entretanto, compartilhavam a mesma confiança e o mesmo otimismo na capacidade de aperfeiçoamento da espécie humana, e acreditavam na existência de mecanismos inatos que tornavam possível o avanço moral. Locke enfatizava o papel do hábito, e o encycopédiste materialista francês Claude-Adrien Helvétius (1715-1771), em seu De Vhomme, de sesfacultes intelectuelles et de son éducation (Do homem, suas faculdades intelectuais e sua educação) (1752), sustentava que a educação tinha total poder de moldar o indivíduo. Já em seu Inquiry into the Origin of Our Ideas of Beauty and Virtue (Investigação sobre a origem de nossas ideias de beleza e virtude) (1752) e em outras obras, Francis Hutcheson (1694-1746), professor de filosofia moral em Glasgow e um dos primeiros utilitaristas, expunha sua tese de que Deus havia dotado o homem com um sentido moral universal, uma capacida­de de produzir ideias de ações “agradáveis ou desagradáveis”. Segundo Hutcheson, as ações benevolentes são virtuosas porque elas nos agradam e é por isso que as procuramos. Como todas as outras faculdades psicológicas, o sentido moral pode às vezes falhar, mas isso não o torna menos universal. Alguns anos depois da publicação do Inquiry de Hutcheson, seu discípulo Adam Smith (1723-1790), e também professor de filosofia moral em Glasgow, publicou uma Theory of Moral Sentiments (Teoria dos sentimentos morais) (1759) onde são expostas as bases psicológicas de seu The Wealth of Nations (A riqueza das nações) (1776).

Evidentemente, muito mais poderia ser dito sobre a lógica e a filosofia moral, além de outros campos. Neste esboço, ilustro apenas resumidamente as áreas onde as fontes dos fundamentos do juízo e da prática não eram buscadas em regras formais ou tradições consolidadas, mas antes no conhecimento empírico da natureza e da mente humana. Embora geralmente se desconheça a maioria das publicações que portavam o nome psicologia, as pesquisas acerca dos diferentes domínios da psicologização levaram a descrições muito diferentes da psicologia do século XVIII, justificando a visão do Iluminismo como o “século da psicologia”.

A psicologia no contexto nacional

Do mesmo modo que a psicologização de diferentes domínios se deu sob condições de grande diversidade metodológica e doutrinária, o desenvolvimento da psicologia como disciplina e como corpus de um pensamento psicológico apresentou variações significativas através de fronteiras geográficas e linguísticas.

A “ciência do homem” - da psicologia e da “economia animal” à moral e à economia política - era par excellence a “investigação escocesa” do Iluminismo. A abordagem escocesa da mente era marcada pela “ten­tativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais”, tal como proclamado no subtítulo do Tratado da natureza humana de David Hume (Bryson, 1945).  O que se fazia em psicologia não portava inicialmente esse nome. Por exemplo, a Encyclopcedia Britannica (1768— 1771), totalmente lockeana em sua interpretação, definia a psicologia como o “conhecimento da alma em geral e da alma do homem em particular” (3: 175). Ao associar a psicologia às discussões anteriores sobre as origens e a essência da alma ou aos debates sobre a imaterialidade e imortalidade, a Encyclopedia declara implicitamente que, apesar das “mais profundas, das mais sutis e abstratas pesquisas (...), é extremamente difícil afirmar qualquer coisa [a respeito da alma] que seja racional, e ainda mais difícil, que seja positivo e bem fundado” (3: 175). Um tal juízo implicava uma rejeição da “psicolo­gia” como uma legítima ciência empírica da mente: esta era a lógica, uma ciência que visava à explicação “da natureza da mente humana e da própria maneira de exercer seus vários poderes” (2: 984-1003).

A “filosofia da mente humana” dos escoceses —tal era o objeto dos Elements publicados em 1792-1827 pelo professor de filosofia moral de Edimburgo Dugald Stewart (1753-1828) - não era normalmente chamada “psicologia”. A própria palavra, contudo, não era desconhecida. Em suas
Observações sobre o homem, o médico e filósofo David Hartley (1705-1757) situava a “psicologia, ou teoria da mente humana, junto com os princípios intelectuais dos animais brutos” dentro da filosofia natural, ao lado da mecâ­nica, da hidrostática, da pneumática, ótica, astronomia, química, medicina e outras teorias das artes e ocupações manuais (Hartley, 1749:223). No início da década de 1760, na Universidade de Aberdeen, o professor de filosofia moral James Beattie (1735-1803) lecionava “psicologia ou ciência da natu­reza dos vários poderes ou faculdades da mente humana” (Beattie, 1790:1); embora ele considerasse a psicologia parte da pneumatologia (doutrina das substâncias espirituais), ele a separava completamente das discussões sobre a imortalidade e a imaterialidade da alma. Uma abordagem empírica e na­turalista dos poderes da mente - lockeana e sensualista inicialmente e em seguida dominada pela filosofia anticética do “senso comum”- disseminou-se por todo o Iluminismo escocês, sendo tomada como a base da lógica, da estética, da filosofia moral e política, e constituindo os fundamentos do ensino acadêmico dessas disciplinas.

A primeira coisa a se notar na França é que a palavra psicologia, embora conhecida, era ausente do vocabulário filosófico corrente. É evidente que a agenda anticlerical e antirreligiosa dos philosophes - aqui não no sentido geral de “filósofo”, mas referindo-se especificamente aos franceses assim conhecidos na época (e desde o século XVIII) - contribuiu para estigmatizar uma disciplina cujo nome incluía o termo alma e que, portanto, parecia estar associada aos ensinos obscuros da “escolástica” e ao uso de conceitos que eram considerados sem sentido. O próprio Condillac recusou-se explicitamente a usar esse nome. A ciência que aplica o método de análise para descobrir a “origem e a geração” das ideias seria a primeira ciência; mas uma tal ciência, escrevia ele, é tão nova que não tem ainda um nome: “eu a chamaria psicologia, se conhecesse qualquer trabalho de boa qualidade com esse título” (Condillac, 1947-51:29). Os descendentes intelectuais de Condillac reproduziram a atitude de seu mestre. Destutt deTracy (1754- 1836) inventou a palavra “ideologia” (idéologie) para designar a “análise do pensamento” no lugar de “psicologia”, que, segundo ele, significava “a ciência da alma” e evocava “a vaga busca de causas primeiras” (Tracy, 1992: 71). No início do século XIX, em suas aulas nas Escolas Normais (Ecoles Normales) criadas pela Revolução Francesa, o escritor e político Dominique-Joseph Garat (1749-1833) rejeitou a palavra em favor da expressão lockeana “análise do entendimento” (Garat, 1800: 149-150).

Esses são os autores que nos vêm à mente quando pensamos na psicologia do século XVIII na França. Os philosophes, contudo, debatiam constantemente com católicos tais como o abade Joseph Adrien Lelarge de Lignac (1710-1762), cujas respostas ao sensacionalismo radical, embora quase inteiramente esquecidas, eram notáveis e mereceriam hoje ser nova­mente situadas no contexto do Iluminismo francês (Fignac, 1753, 1760). Geralmente, no quadro de uma defesa do cristianismo contra o que era percebido como materialismo e fatalismo, os críticos dos philosophes enfa­tizavam a atividade da mente e a unidade do eu (self) e da consciência em oposição ao trabalho mecânico de uma máquina orgânica que passivamente responderia à estimulação externa.

A narrativa histórica usual acerca da evolução do pensamento psicológico no Iluminismo francês começa com os esforços de superar o dualismo cartesiano e com a tese de que os homens são seres inteiramente naturais cujas funções psicológicas podem ser empiricamente estudadas. A crítica à noção de uma alma substancial indivisível que formaria o eu e se manteria subjacente ao comportamento humano levou a diferentes estratégias. Uma delas era a descrição dos efeitos externos dos “movimentos” da alma, tais como a fisionomia ou a expressão das paixões. Numa segunda estratégia, os conceitos metafísicos foram reformulados como noções em­píricas. A alma foi assim substituída por mente (esprit) e depois por moral. A terceira estratégia era a anexação materialista desses conceitos. Do “Sistema da natureza” (Système de la nature, 1770) do philosophe determinista Paul-Thiry d’Holbach (1723-1789) ao “Relatório sobre o físico e o moral do homem” (Rapports du physique et du moral de l’homme, 1802) do médecin-philosophe Pierre-Jean-Georges Cabanis (1757-1808), a alma tende a desaparecer do discurso da ciência do homem.
Do mesmo modo que em outros países da Europa, o empirismo en­trou nos tratados de educação e inspirou a reforma pedagógica e também as filosofias que enfatizavam a sensibilidade e o “coração”. Na virada do século XVIII, a psicologia francesa viveu um breve período de existência institucional. Depois da revolução, os idéologues contribuíram para a criação de diversas instituições públicas de ensino e pesquisa e assim tiveram ocasião de realizar e disseminar suas ideias psicológicas, pedagógicas e políticas. A psicologia, portando seu próprio nome, entretanto, só entrou no ensino aca­dêmico depois de Napoleão proscrever os idéologues e principalmente depois da Restauração monárquica que sucedeu a queda do regime napoleônico.

Mas ela era então espiritualista mais do que sensacionalista e forte­mente influenciada pela filosofia escocesa do senso comum. 

A Alemanha, que não era ainda um país unificado no século XVIII, era a principal produtora de psicologias, e onde a psicologia foi mais longe na institucionalização e conquista de um status de disciplina (Dessoir, 1902). A palavra psicologia, que (como vimos) apareceu no fmal do século XVI nas universidades protestantes, era usada com frequên­cia no Aufklärung ou Iluminismo alemão. Seu destino no século XVIII estava vinculado inicialmente ao sistema filosófico de Christian Wolff (1679-1754), que dominava o ensino da disciplina até o surgimento da filosofia crítica de Kant. A obra monumental de Wolff tratava pratica­mente de todas as áreas do conhecimento; seu objetivo era unificar a razão e a experiência e garantir à filosofia a certeza que era reservada à matemática, mas que era característica da scientia como a disposição ou capacidade de demonstrar suas afirmações a partir de princípios estabe­lecidos (habitus asserta demonstrandi) (Wolff, 1728: § 30). Wolff definiu os objetos da filosofia como Deus, a alma humana e os corpos materiais e dividiu seu reino em lógica, metafísica, filosofia prática, física, filosofia das artes (tecnologia e a filosofia das artes liberais e da medicina) e a filosofia da jurisprudência. Ele organizou as disciplinas de acordo com sua dependência de princípios fornecidos por outras disciplinas. A me­tafísica ou “ciência do ser, do mundo em geral e dos espíritos” (Wolff, 1728: § 79) incluía, em ordem de dependência, a ontologia, a cosmologia geral, a psicologia empírica, a psicologia racional e a teologia natural. Os manuais acadêmicos de Wolff seguiam essa estrutura, e foi através deles que a psicologia entrou no currículo de filosofia com seu próprio nome.

Uma vez que a filosofia era a “ciência dos possíveis à medida que eles podem ser”, a psicologia era a ciência das coisas que são possíveis através da alma humana (scientia eorum quae per animas humanas possíbilia sunt) (Wolff, 1728: § 58). Como todas as outras ciências no sistema de Wolff, a psicologia podia ser abordada de duas maneiras: empiricamente e racionalmente, a primeira dava origem a um conhecimento a posteriori dos seres e das coisas materiais e imateriais, e a segunda a um conhecimento a priori de sua essên­cia, de sua razão ou possibilidade. Do mesmo modo, cada psicologia tinha seu método próprio. A psicologia racional (daqui em diante, PR) procedia por dedução a partir de “definições, experiências indubitáveis, axiomas e proposições já demonstradas” (PR, § 3). A psicologia empírica (daqui em diante, PE) usava a observação e podia usar a experimentação (PE, §§ 458, 459). A observação é a experiência que nós temos dos fatos da natureza sem nossa intervenção (PE, § 456) e a experiência é a “cognição do que é evidente apenas mediante nossas percepções” (Wolff, 1728: § 664). Na psicologia empírica, o conhecimento era possível “através das ocorrências em nossas almas das quais nós temos consciência” (PE, § 2), o que Leibniz chamava de “apercepção”.

A Psychologia empirica de Wolff enfocava a vida interior da alma, ex­cluindo as relações fisiológicas e corporais. A primeira parte do tratado lida com a alma em geral (sua existência provada por um argumento semelhante ao cogito cartesiano) e suas faculdades cognitivas: percepção, sentidos, ima­ginação, facultas ingendi (imaginação criativa), memória, atenção e refexão, e intelecto. A segunda parte analisa a passagem do conhecimento para o “apetite” e a aversão. Ela examina o prazer e o desprazer como intuições da perfeição e da imperfeição (e propõe a“psicometria” como uma ferramenta para o estudo de seus vários graus); o bem e o mal em termos de inclinações da alma; as paixões e outros estados mentais, o apetite e a aversão racional, todos em relação ao prazer/desprazer e ao problema da liberdade. Uma seção final descreve a interação da alma e do corpo. A psicologia empírica fornecia os princípios para a lei natural, a teologia natural e a lógica (PE, §§ 6-10).
A Psychologia rationalis, por sua vez, visava à explicação a priori dos fatos apresentados na psicologia empírica através da dedução de axiomas e proposições provadas. A primeira delas é a definição da alma como um poder ou faculdade de representação do universo (vis representativa universi), cuja primeira atividade é a sensação (PR, §§ 66, 67). Ela começa com o conceito ou a essência da alma: um ser consciente de si e das coisas externas, capaz portanto não apenas de percepção, mas também de representação e apercepção. Com base nessa definição, a psicologia racional dedutivamente explicava as faculdades e as operações da alma; ela avaliava as diferentes explicações para a correspondência entre elas e os movimentos do cor­po; tratava da natureza dos espíritos (substâncias dotadas de intelecto e livre-arbítrio) e da espiritualidade da alma, sua origem, sua união com o corpo e a imortalidade; e concluía com uma seção sobre a alma dos animais. A psicologia racional, explicava Wolff, não era capaz de produzir conhecimentos empíricos novos, mas ela “aumenta nosso discernimento na observação do que acontece em nossa alma” e “revela aspectos da alma que não são acessíveis apenas pela observação” (PR, §§ B, 9).

Enquanto os manuais de Wolff foram usados nas universidades alemãs, até a metade do século XVIII, a psicologia era abordada fundamentalmente como uma ciência empírica. A ênfase no empírico era também demonstrada pelo fato de que duas das três popularizações da psicologia de Wolff que apareceram na década de 1750 em língua francesa continham somente sua psicologia empírica. Isto refletia ou, pelo menos, estava em acordo com um crescente interesse na antropologia. Tal como já foi mencionado, os usos iniciais da antropologia enfatizavam a anatomia e a fisiologia humanas. No século XVIII, a antropologia ganha autonomia e, concedendo mais ou menos peso à psicologia, à medicina, à fisiologia ou à filosofia, ela veio a encarnar o projeto de uma “ciência do homem ” (Linden, 1976). Ao oferecer um objetivo e um ideal unificado de um conhecimento total e coerente sobre a “história da humanidade”, tal projeto desempenhou um papel heurístico importante no desenvolvimento inicial das ciências humanas em sua pluralidade. E isso se aplicou inteiramente à psicologia, como veremos abaixo.

Enfim, a invenção de uma tradição psicológica foi crucial para o desenvolvimento da psicologia como disciplina (Vidal, 2000). Foi o que aconteceu na seleção de autores e trabalhos “psicológicos e na emergência da história da psicologia como um gênero historiográfico. Com isso, foi re­forçada a autonomia nascente da psicologia e o domínio da psicologização foi ampliado para a história da humanidade de um modo geral. O capítulo mais longo do que, provavelmente, é a primeira bibliografia a considerar a psicologia empírica como um assunto distinto é dedicado à literatura da “psicologia ou lógica” (Elibmann, 1778: §§ 71-107). Trata-se de uma bibliografia com notas explicativas sobre a psicologia em geral; sobre a lógica; a sensação e os sentidos; a história da teoria das ideias, vários fenôme­nos e faculdades psicológicas; e inúmeros tópicos “lógicos” e metodológicos. A própria classificação reflete a psicologização da lógica. Como explica o autor, à medida que define as regras para o melhor uso dos poderes da alma humana, a lógica pertence à psicologia (Elibmann, 1778: § 8). E mais ainda:

Uma vez que a psicologia, como teoria do entendimento humano, cons­titui metade da filosofia, e uma vez que as considerações da outra metade referem-se a ela, os conteúdos dos escritos que lidam com o entendimento humano intervêm de várias maneiras nas áreas da psicologia que têm a vontade humana como seu objeto próprio. Essa é a razão pela qual esses escritos podem ser empregados proveitosamente em assuntos práticos. Por outro lado, há escritos em psicologia que, de fato, desenvolvem um assunto [relevante para] a filosofia prática geral, através dos quais fazem-se muitas considerações importantes para a filosofia teórica. (...) (Elibmann, 1778: § 71)

A organização bibliográfica dos tópicos filosóficos concentra-se na defesa de uma reforma das disciplinas filosóficas, especialmente através da assimilação da lógica à psicologia, bem como por uma diferenciação clara das investigações empíricas e metafísicas da alma. A bibliografia, portanto, ao mesmo tempo refletia e contribuía para estabelecer as fronteiras do crescente domínio da psicologia.

A ampliação do cânone psicológico abrangia o passado. O apareci­mento do tratamento historiográfico da psicologia foi simultâneo ao desenvolvimento da psicologia empírica. Ele surgiu num momento de expansão da historiografia da física e das ciências naturais, mas estava enraizado na história da filosofia. Durante o século XVIII, na Alemanha, a história da filosofia deslocou-se da erudição para o criticismo kantiano através de uma perspectiva eclética e de uma ênfase na história como progresso. No final desse século, a história da filosofia enfatizava a relevância das obras filosóficas como manifestações de uma cultura e tornou-se uma maneira de fazer filo­sofia. De modo semelhante, a história da psicologia passou a ser vista como uma contribuição para a história psicológica e espiritual da humanidade. As primeiras formas desse gênero novo reconstruíam a “psicologia empírica” de filósofos anteriores tais como Aristóteles, ou incluíam a psicologia como um domínio autônomo dentro da história das ideias filosóficas. Em 1808 surgiu, postumamente, uma História da psicologia de 770 páginas, a primeira em seu gênero. Seu autor, o professor Friedrich August Carus (1770-1807), de Leipzig, descreveu um progresso que ia das ideias míticas sobre a alma e a ausência de um sentido do eu, até a psicologia empírica e a disciplina autônoma de sua própria época. Para Carus, portanto, a história da psicologia —tanto como processo histórico como um gênero historiográfico —tinha uma participação no progresso da consciência e reflexividade humanas (Carus, 1808; Vidal, 2006).

Enfim, ilustrando um movimento característico do Aujklàrung, os au­tores psicológicos às vezes adotavam formas “populares” (ensaios, romances, jornalismo) ou (como o próprio Carus) abandonavam quase inteiramente a linguagem intelectualizada e abstrata das faculdades mentais da psicologia de Wolff em favor de narrativas mais “psicológicas” (no nosso sentido) e existenciais, que frequentemente recorriam ao termo “sentimento de si” (Selbstgefühl) como fonte principal de dados psicológicos. Um exemplo im­portante desse desenvolvimento é a Revista de Psicologia Empírica (Magazin zur Erfahrungs-Seelenkunde) (Moritz, 1783-93), sendo que aqui se poderia dizer também “experiencial”, editada pelo escritor Karl Philipp Moritz (1756- 1793), que se tornou conhecido por seu “romance psicológico” de 1785-90, Anton Reiser. Convencido de que o autoconhecimento era o caminho tanto para a saúde espiritual individual quanto para o aperfeiçoamento da humanidade, Moritz publicou inúmeros estudos de casos normais e pato­lógicos, auto-observações e relatos de sonhos de diversos colaboradores da revista (Kaufmann, 2000).

Na Crítica da razão pura (1781), Immanuel Kant negou a validade de qualquer psicologia racional (Hatfield, 1992; Mischel, 1967). Ele argumen­tava que as afirmações a respeito da essência, da natureza e da relação da alma com o mundo material derivavam da proposição “Eu penso”, que é baseada num a experiência a posteriori. A psicologia, portanto, só pode ser empírica, e, consequentemente, não uma “ciência” no sentido de ser capaz de produzir evidência demonstrativa. Ela poderia proporcionar, no máxi­mo, relatos “históricos” (descritivos, a posteriori) da alma. Além disso, ela não poderia ser submetida à análise matemática e, dada a não-confiabilidade da introspecção, ela deveria se apoiar na história, na biografia, na literatura e nos relatos de viagem. A crítica kantiana definiu alguns problemas fundamentais da psicologia alemã do início do século XIX (Leary, 1978,1982). Contudo, o que Kant escreveu e lecionou sobre a psicologia ajustava-se ao contexto do desenvolvimento da psicologia empírica e da antropologia na Alemanha do final do século XVIII, correspondia às suas próprias ideias em relação à psicologia como uma disciplina universitária e estava intimamente ligado ao que ele chamou de “antropologia do ponto de vista pragmático”, isto é, o estudo (de um modo geral, psicológico) “do que o homem, como um ser que age livremente, faz ou poderia e deveria fazer de si próprio” (Kant, 1798: 119).

Psicologia, os ciências humanas e o destino do homem

A psicologia no século XVIII precisa ser considerada, no quadro ge­ral da “antropologia”, de duas maneiras: como uma “ciência do homem ”, que incluía os temas principais das “ciências humanas”, e como uma visão geralmente cristã da constituição e do destino da humanidade. Em 1966, Michel Foucault declarava que nos séculos XVII e XVIII “o homem não existia” (Foucault, 1966: 355-356).

Contra essa declaração tão afirmativa, é inevitável que sustentemos que o entendimento do“homem” como um indivíduo e um ser social estava no centro de quase todos os domínios do pensamento.Todo trabalho clássico sobre o Iluminismo reconhece a importância da ciência do homem. A his­toriografia pós-foucaultiana considera mais cuidadosamente seus detalhes e seu contexto e retoma as questões sobre as continuidades e descontinuidades entre as ciências humanas e sociais institucionalizadas no final do século XIX e no século XX e as várias formas da ciência do homem do século XVIII (Fox et ah, 1994; Olson, 1993, 2003). No caso da psicologia, enfatizam-se seu enraizamento na ciência do homem e suas conexões com os múltiplos projetos que a compunham (Smith, 1997).

Um bom exemplo de como a psicologia foi entendida como per­tencendo à ciência do homem é dado na revisão protestante da Encyclopédie de Diderot e d’Alembert. Publicada na cidade suíça de Yverdon em 1770-1775, ela examinou as noções de psicologia e antropologia muito mais amplamente do que a famosa enciclopédia francesa modernizando seu vocabulário, harmonizando a ciência do homem com a visão de mundo cristã e incorporando ideias que estavam sendo desenvolvidas na Alemanha e na Suíça. O artigo sobre antropologia poderia ser considerado como um sumário programático. A antropologia, explicava ele,

nos ensinaria a conhecer, 1. as origens do homem; 2. os diferentes estágios pelos quais ele passa; 3. suas qualidades ou afeições; 4. suas faculdades ou ações das quais podem ser deduzidas; 5. um conhecimento de sua natureza; 6. de suas relações; 7. de sua destinação; e 8. das regras que ele deve seguir para conformar-se adequadamente a isso. A Antropologia dependeria assim de todas as ciências e delas ela tiraria ou daria seus princípios e reportaria ao homem todas as consequências para sua utilidade, isto é, para sua conservação, sua perfeição e felicidade. (Mingard, 1770-1775: 22)

O autor associa a antropologia principalmente à filosofia, à história natural, à fisiologia, à metafísica e à psicologia. São elas as disciplinas antropológicas fundamentais; juntas elas formam a ciência do homem e só têm valor à medida que possam contribuir para atualizar a “perfectibilidade” da humanidade.

A perfectibilidade, uma palavra-chave do Iluminismo, tornou-se frequente depois que Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) a usou em seu Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité (Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade) (1775). De acordo com o filósofo genebrês, ao retirar o homem de sua “condição originária”, a perfectibilidade era a fonte da miséria humana.Voltaire questionava o pessimismo de Rousseau e defendia a tese de que a humanidade se aperfeiçoa dentro dos limites impostos pela natureza. Mais tarde, em seu Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain (Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano) (1795), o Marquês de Condorcet (1743-1794) veio a afirmar que a perfectibilidade não tinha limites. De qualquer modo, a per­fectibilidade era em geral considerada um dos aspectos mais importantes da espécie humana. Ela consistia na aquisição de novos poderes e principalmente no desenvolvimento em direção à felicidade e à perfeição das capacidades que os homens já têm em conformidade com as leis da natureza (como na Enciclopédia Yverdon) e a vontade de Deus.

A ciência do homem que Hume e os philosophes franceses promoviam estava estreitamente ligada a uma crítica da religião. Mas esse não era o caso da maioria dos autores engajados na psicologia e na antropologia. Como vi­mos, a ciência do homem e as disciplinas que ela envolvia eram mutuamente dependentes. A psicologia era a disciplina antropológica crucial por duas razões. A primeira era didática e epistemológica e consistia no método e no objeto de estudo: a “análise” era proposta como paradigma do conhecimento legítimo e o esclarecimento dos mecanismos envolvidos no conhecer era a condição da aquisição e da crítica do próprio conhecimento. De acordo com Hume, por exemplo, os princípios de associação (semelhança, contiguidade no tempo ou no espaço e relação de causa e efeito) eram equivalentes ao princípio de atração universal de Newton. Mas nem todos os Newtons da mente aceitavam que a mente era redutível à matéria em movimento. Ao contrário, a maioria dos psicólogos do século XVIII concordava com a definição cristã do homem como composto de corpo e alma.

Nos séculos XVII e XVIII, três posições davam as coordenadas das discussões sobre a união da alma com o corpo. De acordo com o sistema da influência física, as duas substâncias afetavam uma a outra materialmente. No “ocasionalismo” do cartesiano Nicolas Malebranche (1638-1715), Deus é o agente causal de sua união. Por exemplo, quando a alma desejava mover o corpo, era Deus que o fazia mover-se. Finalmente, Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) via a relação entre a alma e o corpo como regulada por uma harmonia preestabelecida, como dois relógios sincronizados. Os escritos psicológicos diferenciavam sistematicamente a união e a interação da alma e do corpo. Enquanto a união era aceita como um fato confirmado pela fé, pela razão e pelo sentido interno, ainda que em si mesmo misterioso, sua interação era considerada um tópico da pesquisa empírica que poderia ser estudado através do exame de fenômenos que pareciam manifestar a dependência mútua entre a alma e o corpo (Vidai, 2003).

Já nas primeiras linhas de seu Essai depsychologie (Ensaio de psicologia), Charles Bonnet formulou a premissa da psicologia empírica do Iluminismo: “Nós só conhecemos a alma através de suas faculdades; nós só conhecemos tais faculdades através de seus efeitos. Estes efeitos tornam-se aparentes so­mente através da intervenção do corpo” (Bonnet, 1755: 1). E no prefácio do Essai sur les facultés de l’âme (Ensaio sobre as faculdades da aima):

A alma age em seu corpo e através de seu corpo. Portanto, devemos sempre nos voltar ao corpóreo como primeira origem de tudo que a alma experimenta. Não sabemos melhor o que é uma ideia na alma do que é a própria alma. Sabemos, porém, que as ideias estão ligadas à atividade de certas fibras e nós podemos, portanto, raciocinar sobre essas fibras porque nós vemos essas fibras; podemos estudar um pouco seus movimentos, os resultados desses movimentos e as conexões entre as fibras. (Bonnnet, 1760: xxi-xxii)

Admitidos tais princípios, fazia sentido investigar empiricamente as operações de uma substância imaterial tal como elas se davam no interior de si própria e tal como elas se manifestavam nos outros. O postulado da existência dessa substância não era de modo algum obstáculo à psicologia empírica. E mais ainda, esta crença dava alento às psicologias que se baseavam em especulações neurológicas e atribuía um importante papel ao cérebro, como sede da interação entre a alma e o corpo, e aos nervos, como os órgãos responsáveis por essa interação.

Daí então a segunda razão para a preeminência da psicologia: entre as disciplinas que, da economia animal à economia política, compunham a ciência do homem, a psicologia era aquela cujo objeto próprio vir­tualmente coincidia com a definição de ser humano. Isto poderia ter a consequência aparentemente paradoxal de manter o estudo psicológico inseparável do estudo do corpo e principalmente do sistema nervoso, ao mesmo tempo em que fornecia sustentação à antropologia cristã que ela pressupunha. Hartley, que concluiu suas Observations on Man (Observações sobre o homem) vinculando a psicologia à doutrina da ressurreição do corpo, entendia que as “sensações surgem na alma a partir dos efeitos excitados na substância medular do cérebro”, mas ele se recusava a explicar como isso acontecia.“E suficiente para mim”, dizia ele,“ que haja uma certa conexão, de algum tipo, entre as sensações da alma e os efeitos excitados na substância medular do cérebro; que é tudo o que concedem os médicos e filósofos” (Hartley, 1749: 320-321). Bonnet também teve que se defender da suspeita de materialismo, enfatizando sua conformidade com a doutrina cristã:

Se alguns de meus leitores achassem que eu faço a alma depender ex­cessivamente do corpo, eu pediria que considerassem que o homem é, em razão de sua própria natureza, um ser composto, necessariamente constituído por duas substâncias: uma espiritual e outra corporal. Eu mostraria que tal princípio é por isso mesmo o próprio princípio da REVELAÇÃO, que a doutrina da ressurreição do corpo é sua consequência imediata. Longe de opor-se ao philosophe deísta, um dogma tão claramen­te revelado deveria, ao contrário, mostrar-se a ele com o um pressuposto favorável à verdade da RELIGIÃO, já que é tão perfeitamente consistente com o que nós conhecem os com mais certeza sobre a natureza de nosso ser. (Bonnet, 1755: 3-4)

A fazer depender tão intimamente a alma do corpo, a psicologia em pírica ao mesmo tempo aceitava e validava o princípio de união da alma e do corpo. Na visão de Bonnet, a natureza “mista” dos seres humanos era a chave para os dogmas cristãos da encarnação e da ressurreição; por sua vez, a chave para nossa natureza mista estava nos nervos, como intermediários entre a alma e o corpo, e no cérebro, como sede da alma (Vidal, 2002). Em suma, Hartley e Bonnet, os dois psicólogos iluministas mais neurofisiológicos, integravam as promessas cristãs de ressurreição e vida eterna em seus traba­lhos especulando sobre os mecanismos psicofisiológicos e não afirmando uma crença religiosa.

Observações finais

O século XVIII foi, de várias maneiras,“o século da psicologia”, tanto para o historiador que se dedica ao Iluminismo de um modo geral, quanto para os historiadores da lógica, da estética, da filosofia ou da educação, e isso em razão da psicologização que ocorreu nesses e em outros domínios. Esta afirmação também é válida para o historiador das ciências humanas, porque a psicologia empírica se transformou durante o século XVIII num campo de investigação protoprofissional autônomo e, como tal, tornou-se um suporte teórico para a psicologização de outros saberes. Além disso, a psicologia se impôs como disciplina antropológica crucial e mesmo como a primeira ciência de todo o sistema do conhecimento por duas razões. Primeiramente, ela mostrava como os seres humanos naturalmente adquiriam conhecimento (das sensações aos conceitos), e assim indicava os melhores métodos de investigação empírica para todas as outras ciências. Embora os métodos de observação e a expe­riência já tivessem sido proclamados como os mais apropriados para as ciências empíricas, o método psicológico de “análise” confirmava seu valor e demonstrava que eles eram de fato os meios naturais pelos quais se dava a aprendizagem humana. Em segundo lugar, na medida em que o objeto da psicologia era a alma unida ao corpo e interagindo com ele, a psicologia era o fundamento” e o “guia” de todas as ciências, fornecendo conhecimentos sem os quais, tal como escreveu o pastor Mingard, citado no início deste capítulo, “nós não podemos julgar nada, decidir sobre nada, determinar nada, escolher nada, preferir nada, fazer nada com segurança e sem erro”. Certamente, nem todo intelectual do Iluminismo compartilhava essa opinião; mas ela desempenhou um papel essencial e inspirou a própria constituição da psicologia.

Enfim, a psicologização e o desenvolvimento da psicologia em­pírica como disciplina estavam ligados organicamente. A tendência a psicologização funcionava com o um a condição de possibilidade da constituição da disciplina; reciprocamente, a disciplina que emergia justificava e estruturava a psicologização fornecendo coordenadas comuns para suas diversas manifestações. As consequências sociais desse processo foram muitas. No século XX, a psicologia profissional tornou-se o que ela ainda é hoje — um mecanismo maior de definição das normas para o ser humano e sua conduta, e para o controle de seu funcionamento (Rose, 1996). O caminho em direção a esse posto de controle foi pavi­mentado no século XVIII. O Iluminismo deveria supostamente trazer ao homem sua liberdade. De acordo com Kant, tratava-se de abandonar a imaturidade em que a própria pessoa se mantinha” e ganhar coragem para usar seu próprio entendimento (Kant, 1784). Kant não foi o único a propor uma definição para o Iluminismo, e nem todos os autores a compartilhavam (Schmidt, 1996). Os psicólogos, porém, concordavam que a psicologia era parte de um projeto que ajudaria a humanidade a avançar no caminho de sua perfectibilidade. A psicologia empirica, entretanto, logo veio a apoiar formas de autoridade que, à medida que resultavam supostamente de um conhecimento da natureza humana, mostravam-se mais inexoráveis do que aquelas que haviam sido forjadas por tradições seculares e religiosas, contra as quais os homens podiam finalmente se rebelar. Neste sentido, também, a psicologia acabou sendo a “mais útil de todas as ciências".

Psicologia - História da Psicologia
1/3/2020 12:20:02 PM | Por Arthur Arruda Leal Ferreira
Livre
O Múltiplo surgimento da Psicologia

No começo de qualquer trabalho histórico, impõe-se uma questão inicial: seriam as transformações do objeto estudado produto da evolução gradual e contínua de uma experiência original, ou seriam o resultado de múltiplas combinações casuais e inesperadas? É desta forma que o filósofo e historiador Michel Foucault (1982) nos coloca perante uma escolha de que nenhum historiador pode se omitir. Perguntamos então: como esta questão se configura na história da psicologia? É quase um consenso entre os historiadores da psicologia o estabelecimento do século XIX como marco institucional do surgimento dessa disciplina. Mas o historiador não se satisfaz com inaugurações oficiais, sempre se perguntando sobre que experiências, práticas e saberes estariam condicionando essa fundação.

Uma boa parte dos textos sobre história da psicologia aponta para uma origem remota, como se a psicologia pudesse encontrar nessa sua fundação no século XIX ecos de uma experiência e de uma curiosidade bem anteriores. É desta forma que podemos encontrar em trabalhos clássicos, como os de Otto Klemm (1933), Gardner Murphy (1960) e George Brett (1963) ou, principalmente, Edwin Boring (1979 [1950]), as trilhas da história da psicologia se cruzando com os caminhos de uma busca ancestral de conhe­cimento de si, confundindo-se com a própria história do saber ocidental. Como se, por um sutil insight, tivesse havido no século XIX a decisão de apropriar tais intuições ancestrais por um saber regulado e cientificamente disciplinado. Daí a clássica frase de Hermann Ebbinghaus: “A Psicologia tem um longo passado, mas uma curta história” (Vidal, 2000).

Contudo, uma outra forma de pensamento histórico aponta para o surgimento da psicologia a partir da irrupção de condições bem peculiares que teriam surgido de forma singular a partir do século XVI, e que confluiriam para a necessidade do conhecimento de si, da busca de uma natureza na individualidade e na interioridade humanas. Muito mais do que uma tomada de consciência, teria se produzido uma nova experiência da relação consigo e com os demais, em que um conhecimento disciplinado e naturalizado teria se imposto como uma necessidade.

Dentro desta perspectiva, a hipótese adotada neste texto é que em nossa modernidade (a partir do século XVI) teriam irrompido diversas experiências e práticas que, em seu emaranhado, conduziram a uma multiplicidade de orientações no campo atual da psicologia. Uma segunda hipótese derivada deste ponto é que a multiplicidade da psicologia não é o produto de um descuido científico ou de uma imaturidade do saber psicológico, mas o eco dessa profusão de experiências e práticas, e do modo como elas se articulam na construção de um solo psicológico. Portanto, deve-se perguntar: que experiências são essas que surgem na modernidade e constituem o solo fragmentado da psicologia?

De modo corrente, se faz a história da psicologia (e das ciências) de duas formas: 

  • ou se busca demarcar as condições da psicologia através de uma série de transformações intelectuais, conceituais ou metodológicas (a chamada abordagem internalista);
  • ou se busca estabelecer as condições da psicologia a partir de uma série de transformações culturais, sociais, econômicas e políticas (a chamada abordagem externalista).

Compreendemos que, para se fazer a história da psicologia, as duas for­mas são necessárias, pois, por um lado, a psicologia, ainda que calcada em conceitos e práticas científicas, faz parte de uma rede de interesses (dos próprios pesquisadores, do público e das agências de fomento) e de práticas sociais. E, por outro lado, a forma pela qual os interesses e práticas sociais se ordenam nas ciências (e na psicologia em particular) é bem específica, sendo articula­dos a projetos científicos. Portanto, as transformações nos planos interno e externo de um saber não podem ser vistas de forma isolada. Consideremos então a rede conceituai e de práticas sociais que possibilita a constituição da psicologia como um saber e uma prática singulares.

As práticas sociais modernas

O conjunto do saber e das práticas psicológicas contemporâneas apresenta algumas experiências constitutivas fundamentais, uma vez que presentes em todas as psicologias. Tais experiências referem-se respectiva­mente à constituição de um domínio de interioridade reflexiva (a nossa subjetividade), a separação desta do corpo, e a produção de um campo de singularizaçâo valorativa num espaço coletivo (a nossa individualidade). Contudo, a constituição e o adensamento destas experiências ocorrem por meio de algumas práticas específicas. No caso da experiência de individu­alidade, concorrem práticas, notadamente as que produzem a identificação da loucura a uma doença de ordem mental, além da distinção entre infância e idade adulta enquanto períodos da vida.

A constituição de um plano de subjetividade

Por subjetividade entende-se a constituição de um plano de interioridade reflexiva, em que cada vivência se encontra centrada e ancorada em uma expe­riência de primeira pessoa, de um “eu”. A história de um plano de interioridade não visa à busca de uma experiência universal no homem, mas à compreensão da constituição dessa experiência, considerada por nós, na atualidade, uma das mais fundamentais. Essa história pode ser contada como um capítulo dentro do domínio do que Foucault (1995) chamou de história das técnicas de si, procu­rando, pois, desvendar as formas como os indivíduos estabeleciam relações de trato e cuidado consigo desde a Antiguidade antes do fanatismo cristão. Apresentaremos, então, uma história desse processo, apontando de início alguns momentos em que essa experiência de interioridade não fazia parte da existência dos indivíduos, seguindo na constituição dessa experiência por meio de um conjunto de práticas e nas transformações em sua configuração.   

A consideração da história das técnicas de si na Antiguidade anterior ao cristianismo, operaria aqui como uma contraprova da universalidade de nosso modo de subjetivação atual, baseado em uma reflexividade sobre si mesmo em que buscamos desbastar, na densa floresta da nossa vida interior, a cidadela do verdadeiro eu, “o eu de todos os eus”. Contudo, essa busca não fazia o me­nor sentido na Antiguidade greco-romana. Ainda que possamos nos deparar com a máxima do oráculo de Delfos — “Conhece-te a ti mesmo” —, esta não visa ao conhecimento de nossa intimidade, mas aponta para um respeito à sofrosine, a medida, o controle: o homem deveria saber de seus limites, que não é deus nem animal. Assim, o que impera nesse período é a busca de constituição de uma vida calcada no autogoverno e na justa medida. Nas palavras de Foucault (1995), não há na Antiguidade clássica uma busca de conhecimento de si mesmo (uma hermenêutica de si), mas da constituição de uma vida tão bela quanto uma obra de arte (uma estética da existência).

As técnicas de relação consigo não estão calcadas na busca da revelação de um eu, mas na construção de si a partir da verdade e do ensinamento dos grandes mestres. Para Jean-Pierre Vernant (1990), os gregos não possuíam uma experiência generalizada do eu enquanto interioridade individualiza­da ou personalidade, apesar de esta se manifestar no discurso em primeira pessoa da poesia lírica, e nos feitos de indivíduos como magos e guerreiros. Há, enfim, entre os gregos uma interioridade, mas esta não é individuali­zada, reflexiva, ancorada em um eu. Para Vernant, esse “eu” da Antiguidade clássica teria a impessoalidade de um ele. Por exemplo, quando se fala da alma humana, especialmente nos círculos pitagóricos e platônicos, esta não é a alma de alguém, como aprendemos na tradição cristã, mas uma alma universal. Mais uma alma em mim do que a minha alma. Mesmo quando se fala do conhecimento que essa alma tem das coisas, não há a nossa clássica oposição entre mundo externo e interno, pois conhecer é incorporar os próprios objetos ou a essência destes.  

A invenção da interioridade individualizada e da hermenêutica como instrumento de verdade só será processada a partir de uma ética cristã, gestada a partir do século II e.c. Aqui começam a ser formados os termos básicos para a constituição do cuidado de si atual, ao menos quanto ao seu objeto e ao seu processo. Segundo Foucault (1995), nesse momento surge a figura do homem santo que se destaca da comunidade a fim de buscar Deus no interior de seu verdadeiro eu, tendo para tal que estar atento às armadilhas do demônio. Trata-se, nesse mergulho na própria alma, de distinguir os pensamentos de origem divina dos infundidos pelo mal. Esse modo de vida, lentamente produzido no seio da vida religiosa, nos monastérios do Oriente próximo (atuais Síria e Egito), irá se propagar ao longo de todo o tecido social progressivamente até a nossa modernidade no interior das práticas culturais, instituições e hábitos individuais. E com algumas inversões de signos: o próprio eu, impedido de ser cultuado na ética dos primeiros cristãos, tendo em vista a purificação do indivíduo, passará a se tornar uma finalidade em si na modernidade, configurando-se como a nossa riqueza mais íntima e preciosa.

Na passagem para o cuidado de si moderno há, pois, uma mudança de finalidade: não se busca mais uma purificação da alma para atingir Deus, mas uma pura afirmação de si. É também, o exame de si, outrora exercido através de instrumentos religiosos e jurídicos (como a confissão), cede aos aparatos científicos modernos (a anamnese, a entrevista clínica, os testes mentais). Portanto, mudam igualmente as técnicas desse novo cuidado de si.

O que permite a passagem desse cuidado da Antiguidade alienada ao pensamento cristão até as suas formas modernas? Podemos dizer que, a partir da modernidade, passaram a existir diversas formas de relação consigo, além da religio­sa, que nos convidam a um exame da nossa vida interior. Uma delas é a constituição do tema da sexualidade, tão caro a nós nos dias de hoje, como bem mostra Foucault em A vontade de saber, 1977. Outra prática relevante para o adensamento de uma região de subjetividade em nossa existência é a separação entre os plano público e privado, enquanto produto da constitui­ção dos Estados modernos. Ela pode ser acompanhada no surgimento das sociedades de corte e dos seus rituais de etiqueta, como relata Norbert Elias (1990), e mesmo no pensamento dos principais pensadores do Estado moderno, como demonstra Figueiredo (1992).

Para entendermos como essa experiência que cinde a nossa existência entre o plano do foro íntimo privado e o das representações públicas, tão natural às nossas vidas atuais, pôde ter sido diferente, basta considerarmos que muitos dos nossos pensamentos e gestos mais íntimos reservados se desenrolavam na naturalidade da vida cotidiana de perídos como a Baixa Idade Média. Para Elias (1990), um processo de expurgo e ritualização desses nossos atos e gestos começa a se configurar na formação das sociedades de corte, que passam a ser configuradas dentro do processo de centralização do poder estatal. E no bojo das sociedades de corte que todo um conjunto de etiquetas e de representações públicas vai se constituindo, relegando ao plano íntimo uma série de atos e pensamentos. Esse processo vai se dissemi­nando paulatinamente para diversos setores sociais, inicialmente estranhos à sociedade de corte, como os próprios grupos burgueses e urbanos.

Paralela à constituição desse conjunto de dispositivos comportamentais, surge a questão filosófica da relação do poder central com as liberdades individuais. Isto conduziria à partilha entre uma intimidade livre a ser cultivada em contraposição a uma obediência pública ao poder monárquico. Em todas essas formas de pensamento político —as absolutistas, as liberais ou as iluministas —, a função primordial do Estado seria a preservação das leis e dos direitos naturais, garantidos pela ordem pública. A única distinção que se pode fazer, segundo Figueiredo (1992), é que no pensamento liberal, bem como no iluminista, há um investimento maior do plano privado e íntimo contra os excessos do poder central e de suas representações públicas.

Contudo, a instalação do poder central nos Estados modernos se fez de forma diversa nas diferentes nações europeias, consagrando diversos dispositivos de exercício da vida privada. 

Para Descartes, no interior do espírito é possível estabelecer uma distinção entre uma razão de origem divina enquanto cerne de toda inteligibilidade e consciência, onde o eu faz a sua morada, e uma região fronteiriça desse espírito, situada na interseção com o corpo: as paixões. Se na primeira região encontramos a fonte do conhecimento, na segunda encontra-se a raiz de todos os nossos equívocos, de todas as nossas ilusões produzidas por nossos sentidos. Nesse mesmo movimento constitui-se, portanto, uma cisão fundamental entre alma e corpo (este, a causa de nossos enganos), distinção que, ao contrário do que se pensa, não remonta a uma cristandade medieval. Nesse momento, espírito e corpo são compreendidos como portando duas substâncias de naturezas diversas: a extensa (o corpo) e a inextensa (a alma). A princípio, o corpo se constitui como objeto de exame, retificação e controle por parte do espírito. Mais tarde, no século XIX, o próprio espírito irá se constituir em objeto de exame, conhecimento e disciplina. 

A essa solução racionalista sobre a questão do conhecimento se opõe a alternativa empirista de John Locke (1624-1704), George Berkeley (1685- 1753) e David Hume (1711-1776), para os quais o saber não viria de outra fonte senão de nossas paixões, dos nossos sentidos. Nada haveria no espírito que não fosse proveniente destes, sendo os nossos pensamentos complexos meras conjunções de impressões sensoriais (e, neste ponto, responsáveis pelas nossas ilusões). 

Razão ou sensibilidade: nos séculos XVII e XVIII debate-se sobre que região do espírito é responsável pela verdade, qual é a culpável pelo erro. No século XIX as epistemologias serão herdeiras do trato com essa primeira região, responsável pelo conhecimento verdadeiro, ao mesmo tempo em que as psicologias ocuparão a região da incerteza devotando-se ao sujeito das paixões e das ilusões. 

Empiristas e racionalistas concordam, contudo, em um aspecto: a evidência imediata, a transparência no conhecimento do espírito, em opo­sição à opacidade do corpo. Seria mais fácil conhecer a nossa subjetividade do que esta estranha parte de nós que nos foi tornada alheia: o corpo. Esta formulação sofrerá, contudo, uma reversão a partir do final do século XVIII, quando essa análise do espírito cindido entre razão e sensibilidade será superada por uma nova formulação da nossa subjetividade. 

A chave para essa mudança pode ser encontrada no pensamento de Imannuel Kant (1781) que, ao analisar a questão do conhecimento em novas bases, supõe-no como uma síntese a priori entre as formas e categorias do sujeito transcendental (nossa razão) e do diverso sensível (nossa experiência). Separados e colocados isoladamente, a razão pura e o puro sensível apenas nos equivocariam: a primeira nos conduziria às conclusões mais disparatadas (como faz a metafísica) e o segundo não produziria sem a razão nenhum conhecimento. Dentro deste quadro, nosso espírito passa a ser visto como composto por um sujeito transcendental (condição a priori do nosso conhecimento dos objetos, mas ao mesmo tempo incognoscível e opaco em si) e um sujeito empírico (cognoscível e composto pelas experiências que temos de nós mesmos). Não há mais uma simples divisão entre razão e paixões, nem a transparência no conhecimento de si que os primeiros modernos atribuíam ao espírito. 

Com essa nova divisão, impõe-se uma nova instância, o sujeito transcendental, que legitima o conhecimento dos objetos (uma vez que situados no tempo e no espaço), mas é completamente limitado quanto ao conhecimento de si.

Dentro desse esquema, criticam-se todas as tentativas de fundar uma psicologia no século XVIII, como a de Christian Wolff (1679-1754), pois o sujeito transcendetal seria uma condição a priori para o conhecimento e jamais um objeto a ser esquadrinhado no tempo e no espaço. 

Para ser possível uma psicologia empírica para Kant, seria necessário o exame do conjunto das nossa experiências conscientes, o sujeito empírico (e não o transcendental, mera condição lógica para o conhecimento) a partir de um elemento discreto de análise, da matematização e de um mínimo de objetividade. Esses novos parâmetros exigem que a psicologia, para ser reconhecida como científica, seja mais do que a descrição do sujeito empírico, ou das vivências imersas em um mundo de ilusões: ela deve ter, no trato com a experiência imediata, todo o rigor de uma experiência cientificamente mediada e matematizada. 

Surge, então, no final do século XIX, na Alemanha, o projeto da psicologia enquanto ciência da experiência, tomando como base a fisiologia, calcado no conceito de sensação como elemento objetivo e matematizável. Esse conceito de sensação ocupou na psicologia o lugar do sujeito transcendental de Kant, permitindo que Wilhelm Wundt propusesse a psicologia como ciência independente. É através de sua análise que se pode avaliar as ilusões presentes em nossa experiência comum (imediata), de resto distinta da experiência física (mediata).

Contudo, a herança desse esquema kantiano sobre a nossa subjetivi­dade não se resume apenas ao projeto da psicologia como ciência rigorosa da experiência (respondendo às críticas de Kant à psicologia empírica), mas a toda a psicologia, ao instituir sempre um modo de relação entre o sujeito empírico (as nossas experiências conscientes) e um sujeito transcen­dental (que é em geral assimilado a um conceito de uma ciência natural, como o de sensação fisiológica, equilíbrio físico e adaptação biológica). Isto ocorre mesmo em psicologias que tomam a nossa consciência como objeto privilegiado, como faz o gestaltismo, que apela para princípios não conscientes, como o da boa-forma. 

É deste modo que a psicologia tenta unir aquilo que a modernidade tentou cindir: o sujeito transcendental ou epistêmico e o sujeito empírico, impuro. A questão então é: como estudar sob os rigores do método científi­co aquilo que foi excluído por definição de suas possibilidades de ação (a nossa experiência comum)? Como fazer uma ciência precisa daquilo que. em nossa experiência, é impreciso? Toda a psicologia teria que realizar o trânsito do plano transfenomenal (opaco) ao da consciência (o vivido). 

Daí as alternativas propostas por Luís Cláudio Figueiredo (1986): ou se faz uma psicologia partindo do vivido em direção aos mecanismos transfenomenais, como realizariam a psicologia da Gestalt, a epistemologia genética e a psi­canálise, caracterizando-se uma direção metapsicológica (conforme conceito do autor), ou se parte do cientificamente estabelecido, para se abordar em seguida o âmbito fenomenal consciencial, como procede o behaviorismo, numa linha parapsicológica (conforme conceito do autor).

Qual é o método com que trabalha o psicólogo: ele segue os contornos da experiência na busca de algo transfenomenal (posição metapsicológica)? Ou parte de um método ou de um modelo de ciência natural, limitando parte (ou mesmo a totalidade) de nossa experiência subjetiva (posição parapsicológica)? Como diria Pierre Gréco (1972: 19), esta é a desgraça do psicólogo com relação ao seu método: “nunca está seguro de fazer ciência.  E quando a faz, nunca está seguro de que faça psicologia”. 

A distinção entre corpo e mente na definição da identidade do indivíduo

Essa experiência é de certo modo derivada da constituição de um espaço privado e de um campo de subjetividade, aqui depurado de nosso corpo. Segundo Fernando Vidal (2002), essa distinção não é tão longínqua quanto nós pensamos; ela teria surgido a partir do século XVII. A par da episódica distinção platônica e pitagórica entre alma e corpo, até o início da modernidade, a definição da pessoa era operada na relação indistinta entre estes termos. Uma comprovação disto é a concepção hilemórfica, desenvolvida por Aristóteles na antiguidade e que perdurou até o fim da Idade Média. Nessa concepção, alma e corpo se unem indissociavelmente como forma e matéria uma não existindo sem o outro. 

O cristianismo medieval, além de maciçamente influenciado por Aristóteles, desenvolveu uma gama de conceitos e praticas que atuam na contramao da divisão entre alma e corpo. Por exemplo, a noção de carne, longe de implicar apenas o nosso corpo, aponta para umaregião indistinta entre este e a alma onde os nossos desejos são foijados.          

Contudo, para Vidal, a prova mais decisiva da ausência de distinção entre esses dois domínios pode ser encontrada no debate sobre o tema da ressurreição, que pontuou o cristianismo de Santo Agostinho (354-430) até Samuel Buttler (1612-1680), passando por pensadores como São Tomás de Aquino (1225-1274). Ao contrário do que supomos, para esses teólogos, o momento do Juízo Final não seria marcado apenas pela presença de nossas almas, mas também do nosso corpo. E neste ponto surgiriam discussões muito curiosas, a saber: se os nossos cabelos e unhas cortados, bem como membros mutilados, corpos canibalizados e fetos abortados compareceriam também perante Deus no Juízo Final. Aqui vê-se claramente que a pessoa é definida por sua associação indistinta entre alma e corpo.

Como visto, este quadro se altera no início do século XVII, quando Descartes propõe a separação entre esses domínios, entendidos agora como duas substâncias distintas. Mas será apenas com John Locke que a nossa identidade pessoal será claramente vinculada a uma atividade da alma, no caso, a memória. Na sua esteira, os demais pensadores só vinculavam a alma ao cérebro, permanecendo as demais partes do nosso corpo irrelevantes na definição da nossa identidade. Essa ideia “desencorporificadora da nossa identidade (somos o que é determinado em nossa mente e nosso cérebro) persevera até hoje não apenas na psicologia e nas ciências cognitivas, mas em Práticas como a criogenia. Nossa mente e cérebro se identificam pois ao sujeito, restando ao corpo o papel de mero objeto, de mera máquina opaca ao nosso conhecimento imediato.

Essa dualidade marcou o início da psicologia no século XVIII, e ainda está presente nas discussões sobre a relação entre alma e corpo, que acompanham a psicologia até os dias de hoje. Mesmo que essa discussão não seja feita mais em torno da existência de substâncias, mas de experiências objetivas e subjetivas. Ainda que aparentemente sepultada para alguns, esta é a questão mais perseverante no campo psicológico (e filosófico), onde encontramos posições dualistas e monistas. As primeiras tentam resolver o problema determinando uma forma de comunicação entre as duas realidades. As segundas tentam resolver o problema negando-o, afirmando que só há uma natureza. 

É assim que dentre os dualismos, teríamos posturas como as interacionistas e paralelistas. A primeira posição, de mais difícil aceitação nos dias de hoje graças à tese física da conserva­ção de energia, supõe uma verdadeira relação de causa e efeito entre as substâncias. O paralelismo, aceito por algumas escolas psicológicas como a gestaltista e a construtivista, acolhe a existência das duas substâncias, mas defende uma não-interação entre elas, operando estas como duas séries independentes, porém sincronizadas, como dois relógios acordados para funcionar no mesmo horário.

O campo das teses monistas, por sua vez, vai tentar esgotar o pro­blema pela redução de toda a natureza a um determinado aspecto, como a matéria (materialismo), o espírito (idealismo), ou a experiência (monismo neutro).

Na psicologia, teríamos o materialismo de alguns autores da escola behaviorista como John Watson, e uma forma branda de monismo da experiência, como o do fundador da psicologia como área acadêmica, Wilhelm Wundt. 

Haveria ainda uma posição muito especial de monismo, a tese da substância única, na qual matéria e espírito seriam apenas dois modos, dois atributos do mesmo ser. Esta posição mais rara marcou contudo o pensamento de um dos maiores responsáveis pelo reconhecimento da psicologia como um saber potencialmente científico: o psicofísico Gustav Fechner.

A constituição de individualidades

Ao propormos fazer uma história do indivíduo, não nos encontramos mais na história da subjetividade ou da interioridade reflexiva, seja na relação com os objetos a serem conhecidos, com um domínio público ou ainda com o nosso próprio corpo.Trata-se aqui do processo da constituição dos indivíduos enquanto unidades políticas a serem destacadas e diferenciadas no conjunto da sociedade. Quando se fala de história da individualização, não se nega, é claro, a percepção das diferenças entre os indivíduos concretos, mas a experiência de que os indivíduos são ao mesmo tempo fonte e alvo dos poderes. Tal processo, que conduz à existência dos indivíduos ao mesmo tempo na sua singularidade e na sua igualdade, é crucial, não apenas para a compreensão do individualismo como valor social, mas para o lugar especial que a psicologia ocupa entre os saberes e práticas modernos. Destaque não apenas na medida em que a psicologia singularizaria os indivíduos de acordo com suas capacidades, mas operaria no duplo sentido de incrementar a sua autonomia e seu controle.

A nossa história desse processo de individualização poderia se fiar na observação de Norbert Elias (1994), para o qual até o século XIII não existia sequer a palavra indivíduo. Nas cidades-estado (polis) gregas, a autonomia, o autocontrole e governo de si se colocam como valores norteadores. Haveria aqui uma certa valoração do indivíduo? Como esclarece Foucault (1995), essa busca de autonomia visa garantir que o governo da polis não seja dominado por um tirano (como bárbaros). Ela não se refere, contudo, ao indivíduo: busca-se a autonomia da polis, não para si, mas através de si. A vida comum na Antiguidade clássica, longe de ser facilmente comparável à nossa, parece-nos bastante paradoxal, mantendo distanciadas algumas experiências que para nós estão necessaria­mente acopladas, como a de uma interioridade individualizada. Pois há na antiga Grécia uma interioridade, porém não reflexiva e não individualizada. Ao mesmo tempo em que há uma experiência de singularidade, comple­tamente destituída, porém, de interioridade e valor social.  

Dada a inexistência do indivíduo como valor universal até o fim da Antiguidade, iniciaremos por essa época a história da constituição da individualidade como um dos nortes da nossa existência. Essa história pode ser contada em dois tempos, conforme a constituição de dois tipos de indivíduos. O primeiro, o indivíduo enquanto entidade universal, autônoma e livre, pode ser descrito de acordo com a reflexão de alguns pensadores políticos mo­dernos (como Thomas Hobbes e jean-jacques Rousseau), consagrando uma série de práticas políticas herdadas dos Estados modernos da Igreja católica sediada em Roma. O segundo, um indivíduo tomado como um objeto a ser descrito e classificado de acordo com certos determinantes, é constitu­ído como produto das relações políticas de poder a partir do século XVIII, notadamente as práticas disciplinares, descritas por Michel Foucault (1977).

Com a cristandade, surge a experiência de um foro intimo, mas a busca de autonomia e controle de si não se colocam mais como metas da vida política e social. Na vida monástica, o que se busca, tão-somente, são a "purificação" e a "salvação" individual. Nessas comunidades religiosas dos primeiros séculos da era cristã esse esforço de salvação iguala todos os fiéis enquanto membros de uma fraternidade divina. Contudo, essa forma de individualização gestada nos mosteiros, referida a um domínio de interioridade e marcada por uma igualdade (perante Deus) e livre-arbítrio (na busca de "salvação"), vai se mostrar limitada em relação a outras formas sociais desse período. Durante quase toda a Idade Média as relações sociais estão prioritariamente baseadas nas relações de linhagem, na relação contratual entre as famílias de diferentes graus hierárquicos. Nesse espaço social hierarquizado, a posição dos indivíduos é determinada estrita­mente por sua posição social. São raras as experiências de individualização no campo social. Figueiredo (1995) cita alguns desses raros exemplos, como as figuras dos cavaleiros andantes e a dos foliões. Norbert Elias (1994), como vimos, é mais radical neste aspecto: para esse autor, até o século XIII não existia sequer a noção de indivíduo, nem  mesmo uma palavra que designasse essa experiência. Quando esta passa a ser Utilizada pelos ESCOLÁSTICOS, remete à natureza de qualquer ente singular não classificável em um grupo maior, como um animal ou uma planta singular.

Dos acontecimentos que ancorariam uma experiência de individualização no campo social e político, tal como começa a despontar no fim da Idade Média, remontam à criação dos Estados modernos. Segundo Louis Dumont (1993), a criação correlata dos Estados modernos e de uma experiência de individualização decorre dessa matriz cristã mais arcaica. 

É nos Estados modernos que a fraternidade dos homens em torno de Deus se laiciza: todos são irmãos perante a lei não mais divina, mas do Estado. Por detrás dos Estados modernos teríamos o modelo de Roma (como sede da estrutura eclesial), e por detrás desta, as antigas fraternidades monásticas, individualizadas pela igualdade perante a lei divina. Teríamos assim no início da Idade Moderna uma primeira expe­riência mais universal de individualização: a constituição do indivíduo no século XVI enquanto um sujeito autônomo, singular, igual aos demais e dotado de uma interioridade (foro íntimo) que seria a base contratual dos Estados modernos e fonte do poder destes.

Essa ideia foi fartamente explorada pelo pensamento político desde a defesa do absolutismo esclarecido por Thomas Hobbes (1588-1679) até o pensamento liberal (John Locke, David Hume e outros) e iluminista (Voltaire, Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau) do século XVIII. Em outras palavras, teríamos o surgimento de um indivíduo abstrato, fonte da lei, ao mesmo tempo que regulado por ela. Ele só aparece concretamente no momento do delito.

Neste momento o Estado não tem ainda como meta o bem-estar e a qualidade de vida dos seus cidadãos. Suas únicas funções nesse momento são as declarações de guerra e de paz e a gerência do comércio.Trata-se de um Estado que, em nome da lei contratada entre os seus cidadãos, pode tirar a vida destes e submetê-los a toda espécie de suplícios toda vez que houver uma infração. Nas palavras de Foucault (1977:
128) “trata-se de um Estado que faz morrer e deixa viver”.

Esse indivíduo soberano, tal como surge no raiar da modernidade, também não é objeto de qualquer saber. Até então perseverava o veto do filósofo grego Aristóteles contra uma ciência do particular: só existe ciência de entes universais. De mais a mais, o indivíduo soberano jamais poderia se tornar objeto de um saber, uma vez que era a fonte da legalidade e identificado a um sujeito autônomo. Contudo, se o indivíduo como alvo do conhecimento não existia, ele já se fazia presente, como fonte jurídica, nas manifestações iluministas e liberais, próprias do poder soberano. Daí que Figueiredo (1985) sustente que esse sujeito soberano não é alvo e nem condição suficiente da psicologia, enquanto saber sobre o indivíduo; é ne­cessária a invenção de outra forma de individualização, que se manifestará a partir do século XVIII.

Fatores como o aumento da população, a proliferação dos pobres nas cidades. a invenção de novas técnicas, como o fuzil e os artefatos industriais, e suas relações de produção baseadas no trabalho contratual impõem a constituição de novas tecnologias de poder, baseadas não mais na lei, mas no esquadrinhamento e na vigilância constantes dos indivíduos e das pupulações ao longo do tempo e do espaço. Este exame constante se produz em espaços privilegiados que surgem ou são reapropriados nesse período como fábricas, casernas e prisões (primeiro caso), e hospitais, asilos e escolas segundo caso). Surge o que Foucault chama de biopoder, composto de biopolítica (atuando sobre as populações) e de poder disciplinar (sobre os indivíduos). Na esteira deste, desponta todo um conjunto de saberes que buscam descrever a natureza de cada indivíduo, singularizando-o.

A partir de então impõe-se uma duplicidade no que entendemos por indivíduo: para além do indivíduo soberano, que não gera um saber sobre si, emerge o indivíduo disciplinado, que é produzido através do exame, su­perando o veto aristotélico. Se no poder soberano o indivíduo é avaliado a partir da lei contratuada, o indivíduo disciplinado é ordenado a partir de uma norma, que determina a sua filiação ou não à normalidade. Aqui se destaca a importância de todos os saberes sobre a vida. Esse novo indivíduo desponta não mais como um sujeito, mas um objeto determinado, singular, diferenciado e dotado de uma interioridade (identificada agora a uma natureza biológica), que será o alvo do cuidado dos Estados contemporâneos e de uma série de agências privadas. Muda-se a meta; se a forma soberana indicava o “fazer morrer e deixar viver”, a fórmula disciplinar agora é “fazer viver e deixar morrer”. E partindo dessa forma de zelo pelos indivíduos, cuja qualidade de vida e o bem-estar são metas últimas, é que vão se constituir os saberes psicológicos, médicos e psiquiátricos.

Essa experiência de individualização marca de forma decisiva diversas escolas psicológicas fundadas no século XIX em países de língua inglesa, uma vez que ancoradas em saberes sobre a vida, como a biologia evolucionista. E o caso das psicologias funcional, evolutiva, comparativa e diferencial (capítulos 6, 7 e 16). Mas deve-se considerar que essas formas da nossa individualização também estão presentes em todas as práticas psicológicas, oscilando entre a busca de autonomia (soberania) e o controle dos seus sujeitos (disciplina). Pode-se, a partir daqui, de igual modo estabelecer uma das tensões que operam como bússola no campo psicológico: como colocar como objeto de controle o mesmo indivíduo que se configura como essencialmente autônomo e livre em termos jurídicos?

Deste modo, ou uma determinada teoria, prática ou sistema psico­lógico valorizará mais o indivíduo em sua suposta autonomia soberana, ou tomará mais como referência a disciplina, seja em nome da sociedade, do Estado, ou do bem comum, sempre, contudo, se dirigindo à direção complementar à sua posição. Assim, ou se parte do indivíduo autôno­mo em direção a uma suposta determinação última, como procedem os funcionalistas, construtivistas e gestaltistas (capítulos 15 e 18), ou se parte das disciplinas para a constituição de um indivíduo autônomo e autocontrolado, como realiza o behaviorismo (capítulo 11). Algumas psicologias, pois, mesmo que privilegiem a autonomia do ser humano, remetem-no a uma norma natural; outras, ainda que tentem disciplinar os sujeitos, fazem-no de modo a favorecer o seu autocontrole autônomo.
A psicologia se situa, assim, em um espaço político entre o indivíduo autônomo e soberano (fonte do poder) e o indivíduo sob controle das disciplinas (alvo dos poderes), realizando o trânsito entre estes. Poderíamos dizer que, sem esta ambiguidade moderna, não haveria nem mesmo a psicologia, pois, se só houvesse a individualidade autônoma, não haveria a suposição do indivíduo como objeto de conhecimento. Por outro lado, se só hou­vesse a determinação, cairíamos em um fatalismo em que toda intervenção psicológica seria desnecessária. Daí a suposição de Nikolas Rose (1998) de que a psicologia só é possível em sociedades liberais, tendo como função favorecer o “bom uso” da liberdade pelos indivíduos.

Como visto, o impacto das novas tecnologias disciplinares incide so­bre algumas instituições como casernas, hospitais, asilos, presídios, escolas e fábricas. Nelas vemos surgir a constituição de tipos como doentes mentais, crianças-problema, delinquentes e trabalhadores desajustados. Todos serão objeto de exame necessário para a constituição de psicologias específicas (psicopatologias, psicologias da infância e do desenvolvimento, psicologias do trabalho). Examinemos na sequência os dois primeiros exemplos enquanto tipos privilegiados de tecnologias individualizantes.

A constituição da infância como uma etapa da vida

Um capítulo especial nessa história dos processos de individualização diz respeito à demarcação da infância como um estágio da vida e prepara­ ório da vida adulta. Tal história é fundamental para a constituição do tema da evolução das nossas faculdades mentais, crucial para um bom número de psicologias (capítulos 7, 11, 15, 16, 17, 21 e  22). Para tal, teria sido necessária a distinção entre a infância e a idade adulta, que, segundo Philippe Ariès (1979), teria se desenvolvido a partir do século XVI através da constituição da escola e da família nuclear modernas. Não se propõe aqui uma história calcada na descoberta de um objeto atemporal, a infância, descoberta que a teria conduzido até o seu lugar natural, a escola. Pode-se, a partir do trabalho de Ariès, propor uma nova formulação histórica: da invenção da escola no século XVII produz-se uma experiência evolutiva do desenvolvimento que, por sua vez, cria um certo modo de infância. Essa história da infância tem o seu grau zero na quase ausência desta, tal como ocorre no final da Idade Média. Pode-se observar a ausência da infância não apenas nas representações pictóricas, como também em qualquer esforço de segregar o seu modo de vida da dos adultos, seja na vida sexual (esta não consistia em algo a ser ocul­to dos infantes), no espaço da casa (não havia o “quarto das crianças” como espaço preservado), no dormitório (a maior parte das vezes elas dormiam com os adultos), na literatura (as fábulas não eram tão infantis , bem como as crianças podiam ser alfabetizadas com clássicos como os diálogos platôni­cos), na pedagogia (as poucas escolas que existiam não segregavas os alunos por turmas de idades, nem favoreciam o esquema de internato), no trabalho (era muito comum a alternativa pedagógica se mandar um jovem realizar o seu aprendizado servindo em casas alheias; daí a origem do termo garçon nos restaurantes), nas guerras (os exércitos não possuíam limite de idade, característica presente até o século XIX, e ainda presente em certas milícias guerrilheiras). Ainda que muitas destas características firam a nossa sensibilidade atual, elas são marcas de muitos grupos sociais ainda existentes (mesmo os meninos de rua, como uma rede social no interior da nossa) e provas da possibilidade de um mundo sem infância, sem escola e sem psicologia.

A infância começa a se segregar como personagem e sentimento (a “paparicação”) a partir do século XVII, e graças a um duplo aconteci­mento: 1) a diminuição da mortalidade infantil e a possibilidade de apego, restrita até então por causa das altas taxas de mortalidade na Idade Média; 2) o surgimento dos padres reformadores, portadores de uma nova moral baseada na necessidade de preservação da inocência e da racionalidade supostas nessa fase da vida. Daí o surgimento da escola em forma de inter­nato, enquanto aparato disciplinar de quarentena destinada à prevenção da poluição suscitada pelo convívio com o mundo adulto. Supondo a inversa razão entre idade, por um lado, e inocência e racionalidade moral, por outro, se instituem classes diferenciadas por idade, instalando-se o castigo como correção de qualquer desvio da suposta pureza infantil. Inicia-se nesse período o firme laço entre instituições religiosas e pedagogia (vínculo ainda muito presente aqui no Brasil), visando à assepsia moral.

Paralelamente a esse movimento, a família começa a se nuclearizar, se diferenciar de uma massa social uniforme. Ela se transforma de instituição condutora de linhagens de parentesco em espaço de gestação de sentimentos ternos entre seus membros; nasce o que Ariés designa por “família senti­mento”. A divisão do espaço interno da casa passa a acompanhar a divisão do espaço social. De um espaço uniforme, em que os cômodos não eram diferenciados e os móveis realmente móveis, deslocando-se conforme a atividade dos seus habitantes, a casa começa a ganhar compartimentos bem determinados. De igual modo, a mescla indistinta de vida privada - lazer - trabalho - ensino, presente na casa medieval, começa igualmente a se segregar, restando somente a primeira função em seu interior. No século XVIII esse movimento se reforça graças às transformações nas funções dos Estados; estes passam a se encaminhar mais para a gestão de populações do que territórios: impera o biopoder e a infância também se torna um capital estatal. Um exemplo disto é a campanha antimasturbatória, capitaneada pelos médicos, em que se via esta prática como a causa dos mais diversos males, podendo levar até à morte. Para prevenir este mal, exortava-se aos pais que mantivessem estrita vigilância e contato com os filhos. Entre os séculos XVII e XVIII surgem em conjunto uma primeira forma de infância, a família burguesa, a escola, mas ainda não uma psicologia devotada às crianças.

Novos acontecimentos pontuam o século XIX: por um lado, o ad­vento da revolução industrial e o ajustamento a novas demandas impõem um ensino de cunho mais técnico que moral. De igual modo, o ensino laico se instaura como tarefa do Estado. Ainda que o modelo de ensino religioso perseverasse, outros modelos mais atinentes à ciência laica se impunham. Mudanças sutis com relação à imagem da infância e às metas do ensino são a partir daí engendradas: a pureza como essência original da criança e alvo da educação desaparece do horizonte. Desponta uma nova infância preconizada por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778); sem o racionalismo moral suposto pelos religiosos reformadores, mas marca­da pelo primitivismo e por uma evolução a se concluir na idade adulta. Evolução natural, mas que supõe a constante correção de seu trajeto na direção do adulto cidadão e trabalhador. A nova escola pública, no esforço de constituição da cidadania conforme os princípios do evolucionismo, irá sancionar um novo interesse na psicologia na virada para o século XX.

De início, a psicologia mantém-se alheia a esse processo; em meados do século XIX ela se interessa apenas pelo exame da nossa experiência subjetiva, detendo-se em tempos de reação e classificação de sensações; a infância não lhe diz respeito (capítulos 4 e 5). De mais a mais, como os sujeitos, para se submeterem a esses exames, precisam de treinamento, este tipo de investigação jamais se dirige a animais, doentes mentais e mesmo crianças. A grande transformação ocorre na virada para o século XX, quando o Ministério da Educação francês demanda ao psicólogo Alfred Binet um teste que ordene as turmas conforme as suas capacidades intelectuais, e não mais quanto a suas idades (capítulo 16). Habilidades e não mais a pureza moral como critério de classificação. Quociente intelectual, idade lógica e não mais cronológica. E a psicologia se verá capturada nessa imagem laica da infância: o evolucionismo solapa o império do homem adulto normal e civilizado. Mark Baldwin nos Estados Unidos, Alfred Binet na França, Eduard Claparède na Suíça, Karl Gross na Alemanha, são alguns dos pio­neiros da psicologia no atendimento dessa demanda. Não é de modo algum coincidência que alguns defensores da Escola Nova (movimento em prol da escola laica) fossem igualmente psicólogos funcionalistas (que tomam o modelo darwinista de adaptação como paradigma da psicologia), como John Dewey (capítulo 7) e o próprio Eduard Claparède (capítulo 15). Busca-se na psicologia prioritariamente estudar e promover na escola a adaptação da criança a seu meio, observando-se seus interesses e instigando a sua inteli­gência através da proposição de situações-problema.

A constituição da loucura como doença mental

Essa prática é fundamental para a constituição de uma forma de experiência psicológica, pois como nos mostra Foucault em A historia da loucura (1972 [1961]), antes do século XIX não existe o conceito de doença mental, e se recuarmos para antes do século XVII, não encontraremos uma divisão radical entre razão e loucura. Nesse texto clássico, Foucault mos­tra que o percurso do Renascimento até os nossos dias tem o sentido da progressiva separação e exclusão da loucura no seio das nossas experiências sociais, recolhendo-se esta ao interior dos asilos e de nossas experiências psicológicas. Para tal análise, são destacadas, do século XV até o século XIX, tanto as diferentes manifestações sobre o conhecimento teórico da loucura (médicas e filosóficas) quanto a percepção social dos loucos, presente nos relatórios administrativos e burocráticos, e mesmo em manifestações artísticas.

Deste modo é que no Renascimento (séculos XV e XVI), especialmente nas representações pictóricas, a loucura é expressa como uma espécie de saber esotérico sobre o nosso destino trágico, como se o louco pudesse decifrar os sentidos confusos que o mundo apresentaria em sua aproximação do Juízo Final. Estes temas estão presentes não apenas nas pinturas de Bruegel e Bosch, como no tema recorrente da Stultifera Navis (a Nau dos Loucos). Um outro exemplo dessa tradição pode ser encontrado no Arcano 0 (zero) do Tarô, representado pelo Louco. Mais do que a depreciação do louco, essa carta se refere à loucura como uma busca errante da verdade. Nesse período encontramos também em algumas cidades europeias grandes feiras e festivais de loucos. Irmanada à razão, em cujo grau mais alto se encontraria a loucura (é a forma como o filósofo Michel de Montaigne (1533-1592) avalia seu amigo Tarso), a esta caberia no máximo uma condenação de cunho moral (enquanto presunção, desregramento, irregularidade da conduta, defeito, falta e fraqueza), tal como encaminhada por alguns pensadores humanistas, como Erasmo de Roterdã (1435-1536), curiosamente o escritor do Elogio à loucura.

Nos séculos XVII e XVIII, a loucura definitivamente é excluída da ordem da razão e do seio da experiência social. No primeiro caso, encontramos a suposição de Descartes de que podemos encontrar a ver­dade até no sonho, mas jamais na loucura. No segundo caso, os loucos, especialmente nas grandes cidades, passam a ser enclausurados junto a uma população heterogênea, considerada excedente moral e econômico da sociedade: sodomitas, prostitutas, libertinos, sifilíticos, mendigos, blasfemadores, suicidas, magos, feiticeiros, alquimistas etc. A todos estes cabe a acusação de uma desrazão moral, em que o trabalho forçado se impõe como imperativo ético para sua correção. Outra marca desse período clássico é a dissociação entre essa percepção social dos loucos, governada pela experiência do internamento, e o conhecimento médico da loucu­ra, regido por um paradigma taxinômico, em que as diversas formas de loucura constituíam espécies, famílias e gêneros em continuidade com as demais doenças. Daí a ausência de qualquer especificidade que conferisse à loucura um domínio à parte entre as doenças; nos séculos XVII e XVIII não existe uma doença mental a par das demais. Elas são antes de tudo doenças dos nervos, que impedem que representemos o mundo como ele realmente é. E neste sentido que a demência é a forma por excelência da loucura nesse período, e o delírio o seu sintoma-chave. Tratava-se de uma desrazão cognitiva, que nada tinha a ver com a desrazão moral, que conduzia ao enclausuramento administrativo.

A linha divisória entre razão e desrazão, que surge no período clássico, cava sulcos mais profundos do século XIX em diante, quando os loucos se vêm libertos das correntes por Philippe Pinei (1745-1826) e Samuel Tuke (1784-1857) e separados de seus antigos parceiros de internamento, ainda que circunscritos agora ao espaço asilar. A loucura não é mais entendida como um problema dos nervos, mas como uma alienação da natureza humana, um fenômeno de natureza espiritual ou mental. E o asilo não é mais visto como um local de punição, mas o espaço no qual o louco (agora doente mental), uma vez recluso, pode expressar livremente a sua loucura. Neste aspecto pode-se dizer que a atual psiquiatria seria mais herdeira do antigo processo de enclausuramento administrativo do que da antiga medicina classificatória. Assim a loucura é liberta no confinamento ao saber médico na solidão dos asilos, sem mais as suas parcerias do período clássico. Nas palavras de Foucault, liberta-se o louco das correntes, mas ele é atrelado a um domínio de interioridade da natureza humana. Essa experiência, fundamental na gestação da psicologia na França e na Europa Central, será básica para a área psicopatológica (capítulo 8). Nesse campo as psicologias se distinguirão quanto ao modo como essa cisão entre razão e desrazão (ou normalidade e patologia) é vista: se há uma continuidade entre elas (como supõe a psicanálise - capítulo 22) ou se há uma descontinuidade clara (como parece insinuar a atual psiquiatria biológica).

O surgimento das ciências humanas

Resta ainda uma questão na constituição da psicologia: como se cons­trói uma ciência psicológica a partir dessas experiências históricas? Para isso foi necessária uma série de transformações na estrutura do conhecimento que levaram à possibilidade de uma peculiar ciência do homem no século XIX. Por que esta não teria sido possível antes? Por que não havia uma ciência humana na Antiguidade e na Idade Média? Poderíamos dizer que ela só foi possível a partir de duas transformações: 1) a tentativa moderna de separação entre um domínio de seres naturais e outro de seres humanos a partir do final do século XVI, tal como especificada por Bruno Fatour (1994); 2) a distinção contemporânea entre os domínios científico e filosófico no final do século XVIII, tal como descrito por Michel Foucault (1966) e patriocinada por certos filósofos como Imannuel Kant e Augusto Comte. Examinemos de modo destacado essas separações, contrastando-as com os estados anteriores do conhecimento.

A cisão entre o domínio humano e natural

Latour (1994) destaca que antes do século XVI não há nenhuma distinção essencial entre seres humanos e seres naturais. No máximo existe a distinção aristotélica entre um mundo sublunar e outro supralunar, sendo este marcado pela constância e regularidade. A natureza (physis) é marcada pelo mesmo conjunto de princípios, independente da natureza dos seres. Para esse autor, a modernidade se constitui no século XVII na tentativa de clivagem e purificação de entes humanos e naturais. Os entes humanos tornaram-se a partir de então assunto da política, tendo a sua representação nos parlamentos, enquanto que os seres naturais passaram a ser tema das ciências, sendo representados nos laboratórios; distinguem-se claramente questões de valor e questões de fato. Um exemplo disto é a distinção feita por Galileu entre as qualidades primárias e secundárias da nossa experiên­cia. As primeiras seriam correspondentes a aspectos do mundo real, como a extensão; as segundas diriam respeito a aspectos unicamente subjetivos da nossa experiência os quais projetaríamos no mundo. Firma-se a separação entre uma natureza governada por princípios universais e a diversidade das culturas e experiências humanas. Estes aspectos, ainda que não explicita­mente tematizados, fariam parte do que Latour chamou de Constituição Moderna, ou seja, um conjunto de princípios implícitos que governariam o trato com os diferentes seres.

Contudo, essa modernidade produziria como efeito colateral dessa tentativa de purificação a proliferação dos híbridos, seres com marcas ao mesmo tempo humanas e naturais. O caso mais clássico abordado por La­ tour é o da representação nos fóruns humanos (parlamentos e tribunais) de seres vivos ameaçados de extinção, da biosfera e de substâncias (como o cloro flúor carboneto) carentes de controle. Apesar de não ser abordada por esse autor, a psicologia, como ciência humana, pode ser vista como um outro tipo de híbrido colateral, onde os seres humanos passariam a ser representados em laboratórios. Seria um saber híbrido, uma vez que ciência e humana ao mesmo tempo, multiplicado em sua diversidade graças a esse esforço de purificação moderna: são muitas formas de se fazer ciência aco­pladas a muitas práticas sociais. E desta forma que a psicologia é recusada pelos cientistas e epistemólogos por ser por demais plural em suas vertentes e escolas, ao mesmo tempo em que é desdenhada pelos humanistas por seu pretenso naturalismo, desagradando a todos os puristas de nossa modernidade.

A cisão entre os saberes filosóficos e científicos

Para dar conta dessa história, de como os seres humanos são consi­derados como os demais seres naturais, um bom guia pode ser encontrado em As palavras e as coisas de Foucault (1966). Este autor entende que a abordagem do homem como ser empírico (objeto natural) só foi possível na modernidade (a partir do século XIX), graças à superação do modelo de conhecimento clássico, o da representação, vigente nos séculos XVII e XVIII. Esse modelo buscava ordenar os seres em ordens ideais, e ope­rava do mesmo modo no que designaríamos hoje como saberes naturais e como filosofia. Assim, por exemplo, na história natural, a taxinomia de Lineu classificava os seres vivos em grupos, famílias, gêneros e espécies, e a filosofia de Descartes buscava determinar de forma gradativa a ordem das razões. Neste quadro, a natureza física e a natureza humana, sujeito e objeto seriam claramente cindidos em dois domínios, cumprindo-se o que Latour chama de Constituição Moderna. Para Foucault, nesse perí­odo clássico, o homem é sempre sujeito, jamais objeto de conhecimento. Contudo, Vidal (2000), em seu texto The Eighteenth Century as “Century of Psychology” nos mostra uma situação um pouco diversa. Esse trabalho demonstra claramente que existe todo um conjunto de saberes psicológicos no século XVIIII (cf. capítulo 2) que são reconhecidos na época de forma tão legítima como a física de então. Tematizam basicamente a relação entre o plano do conhecimento (representações) com o mundo físico (a relação mente e corpo), e tentam classificar as faculdades do espírito humano. Mesmo quando a mente humana é tomada como objeto de conhecimento, utiliza-se um modelo classificatório, ou taxinômico.

Para Foucault, no século XIX há uma mudança na epsitemè, ou no modelo ou estrutura que rege o conhecimento em uma época. Os seres naturais não são mais relacionados a uma ordem ideal, mas abordados em sua profundidade empírica e histórica. Um exemplo disto é o surgimento da biologia evolucionista, que não considera mais os seres vivos enquan­to entes estáticos pertencentes a uma ordem ideal: suas características e funções são determinadas por sua história de relações com o meio am­biente. E nesse contexto que o homem passaria a ser considerado como ser empírico (objeto natural) por algumas ciências do homem (biologia, economia e filologia). Em outras palavras, ele é visto não mais como um ser que idealmente representa o mundo, mas um ente vivo, que trabalha, modifica o mundo e possui uma história peculiar.

Contudo, esse conhecimento moderno, possuiria segundo Foucault, uma outra marca: a clara separação entre o domínio das ciências empíricas e o domínio filosófico. Assim, este mesmo homem tematizado como Ser Empírico (objeto) pelas ciências naturais é duplicado em ser transcendental (sujeito fundamentante) por uma série de filosofias antropológicas como as dialéticas, o positivismo e a fenomenologia. Aqui o homem, mesmo com suas características limitadas, seria o fundamento do conhecimento. Neste quadro, qual é o lugar da psicologia? Para Foucault, é do cruzamento dessas ciências empíricas do homem com as filosofias antropológicas que nasceriam as ciências humanas como a psicologia. Essas ciências humanas terminariam por restituir o jogo de representações pré-modernas e clássicas, estudando como a vida, o trabalho e a linguagem são representados em uma consciência.

Contudo, algumas questões sobre esse esquema de Foucault em As palavras e as coisas (1966) se impõem. Em primeiro lugar, será que apenas economia, biologia e filologia forneceriam modelos e conceitos para a psicologia e as ciências humanas? O que dizer da fisiologia, presente em toda a psicologia clássica como modelo (capítulos 4 e 5), a física, exportadora de conceitos para o gestaltismo (capítulo 18) e a psicanálise (capítulo 22), além da inteligência artificial, base do cognitivismo (capítulo 13)?

Outro problema dessa análise de Foucault é que esse autor afirma que só há uma ciência positiva do homem a partir do século XIX. Como vimos, para Vidal (2000) existe uma psicologia positiva no século XVIII. Neste aspecto, o que se dá na virada para o século XIX? Mudam os crité­rios de conhecimento, ou a própria epsitemè. O conhecimento classificatório (representacional) da psicologia do século XVIII cede a um modelo empírico em que nossas faculdades psicológicas passam a ser vistas como processos naturais. De igual modo, a necessidade de classificar o saber como científico ou filosófico se impõe; é neste aspecto que se processa uma transformação capital, conduzida por autores como Kant (1781), em que a metafísica passa a ser entendida como um saber sem fundamento. E aí que são inicialmente alojados os saberes psicológicos do século XVIII, relegados à mera metafísica na impossibilidade de serem ciências legítimas.

Durante todo o século XIX, a psicologia para se fundar e ser aceita no restrito clube das ciências irá tentar cumprir o novo decálogo do saber, buscando objetividade, embasamento matemático e a determinação de um elemento básico de investigação (conforme as sugestões produzidas por Kant em Fundamentos metafísicos das ciências da natureza, 1786). E esse apoio a psicologia buscará nos conceitos e métodos das ciências naturais (de início, na fisiologia e, depois, na biologia, na química e mesmo na inteligência artificial). Contudo, como lembra Foucault (1966), esses conceitos naturais passarão a ter funções transcendentais, operando como fundamento para a determinação da natureza humana e condição de todo o saber. Nas palavras de Isabelle Stengers (1989), procede-se a um a captura conceitual em que os conceitos das ciências naturais são apropriados e retirados do seu contexto científico, sendo em seguida inflados à categoria de entes transcendentais, que serviriam para embasar o nosso conhecimento de si e as nossas práticas. Essa história específica nos mostra como a psicologia opera com os seus conceitos, como ela duplica conceitos empíricos (extraídos das ciências naturais) em uma função transcendental; metáforas científicas transmutadas agora em imagens fundamentais de homem.

Assim, poderíamos ver os conceitos de energia e equilíbrio, funda­mentais na termodinâmica serem transformados na noção de boa forma no gestaltismo (capítulo 18) e no princípio do prazer na psicanálise (capítulo 22). O primeiro conduz esses conceitos termodinâmicos a uma visão fundamentante do homem enquanto um ser ativo e passível de compreensão imediata dos fenômenos mundanos. O segundo, a uma concepção desejante do homem embasada nos circuitos energéticos do aparelho psíquico. Da mesma maneira operaria a psicologia behaviorista (capítulo 11), ao ampliar o conceito de adaptação (sobrevivência de uma espécie em meio natural) para o de ajustamento (uma melhor vivência de um indivíduo em seu meio social) coroado pelo de condicionamento, conduzindo a uma visão ambientalista do homem e do próprio pesquisador das condutas humanas. É desta forma ainda que o cognitivismo (capítulo 13), ao ampliar o conceito de informação e importar o conceito de computação, funda o homem em um quadrante racionalista, como um ser racional. Aqui, deve-se registrar apenas uma curiosa inversão processada pelas psicologias existencialistas e humanistas (capítulos 19 e 20), que partem de um conceito de homem da filosofia (como um ser marcado por uma liberdade fundamental) e transformam-no em um conceito natural, a ser perturbado por forças constringentes (a sociedade e suas normas enrigecedoras) dessa sua essência universal. A psicologia se desenvolve, portanto, no espaço de cruzamento entre estas regiões cindidas na modernidade, conjugando conceitos científicos, com modelos filosóficos e práticas sociais.

O curto-circuito de saberes e práticas

Poderíamos agora fechar o nosso sistema circulatório entre, por um lado, experiências e práticas sociais e, por outro lado, conceitos científicos, que permitem a proliferação das psicologias. Essa duplicação dos concei­tos científicos apropriados pela psicologia em conceitos transcendentais (fundamentais) completa as partições das experiências e práticas sociais modernas, uma vez que nesses transcendentais se ancoram os aspectos transfenomenais em que gravita a nossa subjetividade e os determinantes últimos de nossa liberdade individual. Por consequência determina também a natureza humana a ser alienada pela loucura e as forças que nos conduzem da infância até a idade adulta. É assim que os conceitos capturados das ciências naturais favorecem um transcendental para nosso conhecimento de si e nossas práticas. Deste modo, a noção de equilíbrio termodinâmico da física se codifica no princípio do prazer para a psicanálise, e no concei­to de boa forma gestaltista; a noção biológica de adaptação ampara a de condicionamento no behaviorismo, e a de computação está na base dos supostos módulos informacionais para o cognitivismo.Todas estas noções se alçam em transcendentais (fundamentos) para a nossa subjetividade e
determinantes para a nossa individualidade, além de potencialmente es­clarecer a nossa relação entre corpo e mente, patologia e normalidade, e infância e idade adulta.

Opera-se, pois, aqui no campo psicológico um curto-circuito entre conceitos científicos, modelos filosóficos e práticas sociais (das mais gerais às mais específicas), ou entre o que Latour denominou o domínio huma­no e o domínio natural, cindidos na modernidade. Assim, as práticas de confissão e o esforço de desvelar as fontes dos nossos desejos e nossas mais íntimas verdades se cruzam com os modelos da física termodinâmica e da química analítica do século XIX na gestação da psicanálise (capítulos 22, 23 e 24); a tentativa de disciplina das atividades humanas na educação e no trabalho se cruza com o conceito de adaptação, ensejando o behaviorismo (capítulos 11 e 12); as novas práticas pós-industriais acopladas ao problema do conhecimento e aos conceitos de informação e de cibernética geram o cognitivismo (capítulos 13 e 14); o exame da experiência ingênua (visando ao controle dos erros) associado ao conceito de sensação gera a chamada psicologia clássica (capítulos 4 e 5). É no conjunto dessas experiências e práticas sociais em conluio com as transformações no conhecimento que se conduz a constituição do campo psicológico em sua multiplicidade, ao cruzar as mais distintas experiências históricas com problemas filosóficos e conceitos, modelos e métodos das ciências naturais, tornados agora entes transcendentais que explicam todos os aspectos da natureza humana. São essas múltiplas hibridações que constituem enfim o nosso campo psico­lógico fragmentado, dando ensejo à múltiplas psicologias gestadas através dessas diversas irrupções.

Mapa das psicologias do século XIX

Que psicologias serão essas que irão surgir a partir de tais condições? Independentemente da discussão sobre a cientificidade, as psicologias que surgirão em meados do século XIX serão muito distintas das que se confi­guram no século XVIII (cf. capítulo 2). Não por serem mais científicas. Mas por possuírem condições históricas muito distintas. No século XVIII vamos ter uma psicologia que é uma pura descoberta de uma subjetividade, de um campo de experiências, em que nada se oculta ao observador, seja no exame da sua privacidade, seja no exame da natureza do espírito em sua relação com o corpo. Nessa época, fazer psicologia não gera problema, no duplo sentido em que todos podem exercê-la (a nossa interioridade é límpida e cristalina) e de que não há nenhuma crítica à cientificidade (como a que irá surgir no final do século XVIII).

Com isso, podemos ver que nem todas as questões listadas neste ca­pítulo para que surja a psicologia afloram ao mesmo tempo, e produzem o mesmo tipo de psicologia. Por que as mudanças em torno da individualidade e das configurações da loucura não produzem efeitos na psicologia do século XVIII? Porque a sua derradeira mutação se dá apenas no século XIX. Até o século XVIII, todas essas experiências (sobre a individualidade, infância e loucura) estão calcadas ainda no parâmetro da razão. Razão que ainda está pressuposta no foro íntimo dos indivíduos, ou na pureza de uma infância a ser preservada contra os vícios do mundo adulto. Razão moral que falta aos loucos e indisciplinados, e que inspira toda uma série de tratamentos e punições com base nos trabalhos forçados durante o enclausuramento pro­movido nos séculos XVII e XVIII. Razão de entendimento do mundo que falharia quando os nossos nervos, por serem muito moles ou muito duros, turvam a visão cristalina que o nosso espírito tem do mundo.

Somente na virada para o século XIX a autonomia proporcionada pela razão cederá à norma de uma natureza humana e sua possível descrição científica. Aqui terá enorme importância, por exemplo, o pensamento evolucionista (especialmente a teoria da evolução de Charles Darwin). A evolução das espécies, a seleção dos mais aptos e a adaptação ao meio am­biente servirão na psicologia e nas ciências sociais para escalonar os grupos humanos e as demais formas de vida, separar os normais dos anormais e promover o constante ajuste dos desajustados aos meio social. É neste sentido que a psicologia, nos rastros de Darwin, se funda na Inglaterra como psicologia comparada (cf. capítulo 6) e como psicologia diferencial (.cf. capítulo 16). Nos Estados Unidos essa fundação será mais calcada ain­da neste modelo ao estudar a nossa consciência em torno de sua função adaptativa e sua evolução da infância até a idade adulta (cf. capítulo 7). Especialmente aqui trata-se de disciplinar indivíduos, buscar o seu ajuste e o seu bom desenvolvimento.

Contudo, na Europa Central, o que irá surgir é uma psicologia, no entorno entre a psiquiatria e neurologia, tentando especificar a loucura como uma patologia da mente e não mais dos nervos. Aqui deve se registrar o trabalho de Jean-Martin Charcot (1825-1893), por circunscrever a histeria como doença (e não simulação) de cunho próximo ao da neurologia. Essa experiência está na base da experiência psicanalítica (cf capítulo 22). A loucura não se define mais como falta de razão, mas como desvio da natureza humana. Se no espectro evolucionista trata-se de uma natureza humana a ser desenvolvida, aqui trata-se de uma natureza humana a ser retirada de seu estado de alienação. 

E o que ocorre com a velha psicologia do século XVIII? Especial­mente na Alemanha, ela será torpedeada pelos avatares das novas concepções de conhecimento como Imannuel Kant (cf. capítulo 2). Que vai enxergar um limite no acesso ao sujeito transcendental, tornando o espírito não mais inteiramente acessível à introspecção. É com Kant que a psicologia mais estruturada da época, a de Christian Wolff (f. capítulo 2), sofrerá um golpe mortal. A psicologia racional será vista como impossível, e a empí­rica como ciência imprópria. Como veremos, com base na fisiologia e na psicofísica, a psicologia empírica poderá responder às questões de Kant e se tornar psicologia experimental na Alemanha em 1879 (cf. capítulo 4), possuindo pela primeira vez um laboratório e uma formação universitária. Buscando, no caso, estudar na nossa subjetividade a fonte de nossos erros.

As outras experiências ocorridas nos Estados Unidos, Inglaterra e Europa Central também serão decisivas para produzir psicologias diferentes. Mas, até quase o final do século XIX, não havia a possibilidade de alguém se tornar psicólogo - profissionalmente falando - sem viajar a Leipzig, na Alemanha (sede do primeiro curso reconhecido). Somente na virada para o século XX novas formações irão se estabelecer, fazendo frente à psicologia da experiência alemã. E daí em diante ocorrerá uma enorme proliferação dos modos de se fazer psicologia.

Contudo, resta uma pergunta: como essas experiências modernas se configuram na psicologia brasileira? Até meados do século XIX, não há ne­nhum sinal de psicologia propriamente dita; apenas o que Marina Massimi (cf. capítulo 3) chama de ideias psicológicas, ou discursos que, mesmo não se intitulando como psicológicos, respondem a questões deste campo.Tais ideias seriam oriundas de algumas fontes específicas, como a aristotélico-tomista, difundida pelos jesuítas. A penetração da psicologia sempre foi tardia em relação a outros países, mesmo considerando países americanos, como os EUA ou Argentina.

Isso talvez ocorra porque as experiências modernas (especialmente as da constituição da individualidade, subjetividade e privacidade) e as condições para a transformação do conhecimento (lembremos que as nossas primeiras faculdades só surgem em meados do século XIX) são bastante tardias entre nós. E, como sugere Figueiredo (1995b), tais forças modernas entram de forma inapropriada, mais para inglês ver”, compondo com formas pré-modernas. E o caso da experiência de individualidade moderna, em que esta conviveria com diversas formas pré-modernas e hierárquicas ainda presentes em frases como “sabe com quem está falando?”, ou ainda a importância do sobrenome em nossa identidade (a célebre máxima em Pernambuco de que se é um Cavalcanti ou um cavalgado). Parafraseando Georges Politzer {cf. capítulo 21), “nós somos tão modernos quanto os selvagens evangelizados são cristãos. A nossa modernidade é tributaria de uma absorção bem peculiar (antropofágica, nas palavras de Oswald de Andrade), em que esta se instala na negociação com regimes de identidade arcaicos, mesmo pré-modernos. A penetração da psicologia em território brasileiro é, pois, expressão da modernidade tardia. Daí o “boom da psicanálise” nos anos 1970 (e diríamos também da psicologia), destacado por Sérvulo Figueira (1991). Para esse autor, é na passagem da família arcaica e patriarcal, para a família moderna e igualitária, que a expansão da psicanálise se impõe; não apenas expressando o conflito entre essas duas formas familiares através da sua demanda, mas se instituindo como instrumento de negociação nesse conflito.

É neste sentido que veremos a cada capítulo a penetração tardia e mimética da psicologia em solo brasileiro. Pois, se há a desvantagem de a psicologia brasileira ser ainda mais um centro consumidor do que criador de formas de psicologia, há a vantagem de se poder configurar em toda a sua diversidade as psicologias produzidas pelos centros mais tradicionais. Da mesma forma que a população brasileira reproduz etnicamente uma diver­sidade quase mundial, a psicologia aqui produzida também assimila toda a sua pluralidade. Num possível trunfo para o nosso caráter antropofágico.

Psicologia - História da Psicologia
1/2/2020 12:22:29 PM | Por Duane P. Schultz
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As influências fisiológicas na Psicologia

Os sapatos de David Kinnebrook eram engraxados todas as noites, mas esse era o único benefício que tinha no seu emprego. Seu trabalho era solitário, maçante e muito estressante. Era forçado a morar no mesmo prédio em que trabalhava e tinha que estar disponível das 7h da manhã às 10h da noite, sete dias da semana. Além disso, muitas vezes um alarme tocava no meio da noite, chamando-o de volta ao trabalho. Ele recebia um salário muito peque­no para tudo isso, e três refeições por dia, e, lógico, seus sapatos eram engraxados.

Quais eram as qualificações para esse emprego mara­vilhoso? Um dos cientistas que supervisionava esse serviço escreveu: "Quero homens incansáveis, que trabalhem muito, e acima de tudo, escravos obedientes do trabalho, que ficarão satisfeitos por passarem seu dia usando suas mãos e olhos no ato mecânico de observar, e o resto do tempo, no processo maçante de calcular" (apud Croarken, 2003, p. 286).

Quando Kinnebrook finalmente saiu, seu substituto descreveu seu trabalho da seguinte maneira:

"Nada pode exceder o enfado e tédio da vida que o assistente leva nesse lugar, excluído da sociedade, com exceção de um pobre rato que ocasionalmente sai de seu buraco na parede... Abandonado nesse lugar, o assistente passa seus dias, semanas e meses no mesmo longo e cansativo cômputo, e sem um amigo para encurtar as horas entediantes, ou uma alma com quem possa conversar” (apud Croarken, 2003, p. 285).

O local era o Observatório Real em Greenwich, Inglaterra; o ano era 1795. Kinnebrook trabalhava como assistente do reverendo Nevil Maskelyne (1732-1811), um astrônomo da realeza. Trabalhou para o reverendo durante 1 ano, 8 meses e 22 dias antes de ser des­pedido, e nunca soube que seu trabalho teve papel impactante para a fundação da nova ciência da psicologia.

Tudo começou com a diferença de cinco décimos de segundo. Isso não é muito, pode-se dizer, mas foi demais para o astrônomo. Quando Maskelyne percebeu que as observações de Kinnebrook sobre o tempo decorrido na passagem de uma estrela de um ponto a outro era inferior ao seu, repreendeu-o pelo engano, e alertou-o para que fosse mais cuidadoso. Kinnebrook tentou, mas as diferenças aumentaram. Maskelyne relata:

Devo mencionar que meu assistente, sr. David Kinnebrook, que observava criteriosamente o movimento das estrelas e dos planetas por todo o ano de 1794 e parte do presente ano, obedecendo aos mesmos procedimentos por mim utilizados, passou a registrar a partir do início de agosto passado meio segundo de atraso em relação às minhas observações, e, em janeiro do ano seguinte, ou seja, em 1796, ele aumentou seu erro em oito décimos de segundo.

Infelizmente, suas observações prosseguiram por um período considerável, antes que eu notasse o erro e não me parecia possível resolver esse problema e retornar ao método correto de observação, portanto, embora relutante, visto ser ele um ótimo e cuidadoso assistente em diversos aspectos, acabei dispensando-o (apud Howse, 1989, p. 169).

E assim, Kinnebrook foi demitido e caiu no esquecimento sem tomar conhecimento de que, realmente, não havia cometido erro algum.

O incidente de Kinnebrook foi ignorado por 20 anos, até o fenômeno tornar-se objeto de investigação do astrônomo alemão Friedrich Wilhelm Bessel (1784-1846), que estava interessado em estudar os erros de medição. Ele suspeitava que aqueles, "erros" do assistente de Maskelyne deveriam ser atribuídos às diferenças individuais - distinções pessoais sobre as quais as próprias pessoas não têm controle. Assim, raciocinou Bessel, as diferenças podem ser encontradas entre os tempos observados por todos os astrônomos, fenômeno que passou a ser chamado de "equação pessoal”. Bessel continuou investigando essa hipótese e constatou que estava correto. Mesmo entre vários astrônomos experientes, as divergências eram comuns.

Bessel chegou a duas conclusões com sua descoberta: (1) os astrônomos devem levar em consideração a natureza humana do observador, já que as características e as percep­ções pessoais necessariamente influenciam as observações; (2) se a astronomia deve levar em conta o papel do observador humano, certamente ele é importante também nas outras ciências que dependem dos métodos de observação.

Filósofos empiristas, como Locke e Berkeley, debateram a natureza subjetiva da per­cepção humana, usando como argumento a afirmação de que nem sempre há - ou que muitas vezes não há - correspondência exata entre a natureza de um objeto e a nossa per­cepção sobre esse objeto. O trabalho de Bessel ilustrou e corroborou a teoria com os dados de uma ciência pura: a astronomia. Assim, os cientistas foram forçados a concentrar-se no papel do observador humano como responsável pelos resultados das experiências.

Consequentemente, eles começaram a estudar os órgãos dos sentidos humanos - os meca­nismos fisiológicos por meio dos quais recebemos informações a respeito do universo, como forma de investigação dos processos psicológicos da sensação e da percepção. Desse modo, os fisiologistas começaram a aplicar essa metodologia no estudo da sensação e a psicologia estava a um passo de seguir o mesmo caminho.

Os Avanços Iniciais da Fisiologia

A pesquisa fisiológica que estimulou e orientou a nova psicologia era produto do trabalho científico do final do século XIX. Assim como todos os demais esforços, esse também teve predecessores, trabalhos iniciais que lhe serviram de base. A Fisiologia tornou-se uma disciplina voltada aos experimentos, durante a década de 1830, principalmente sob a influência do fisiologista alemão Johannes Müller (1801-1858), defensor do (método experimental) Müller ocupava posição de prestígio como professor de anatomia e fisiologia da University of Berlin. Era um fenômeno na produção de trabalhos, publicando em média um trabalho acadêmico a cada sete semanas. Manteve esse ritmo por 38 anos e suicidou-se durante uma crise depressiva.

Uma de suas obras de maior influência, Handbook of the physiology of mankind, foi publi­cada entre 1833 e 1840. Seus volumes contêm o resumo das pesquisas fisiológicas desse período e sistematizam um vasto conhecimento a respeito da área. Eles apresentam muitos estudos novos, sinalizando o rápido crescimento do trabalho experimental. O primeiro volume foi traduzido para o inglês em 1838, e o segundo em 1842, confirmando o interes­se de vários outros países além da Alemanha na pesquisa fisiológica.

Sua teoria sobre a energia específica dos nervos também foi muito importante para a fisiologia e a psicologia. Müller afirmava que a estimulação de determinado nervo sem­pre provocava uma sensação característica, porque cada nervo sensorial possuía energia específica própria. Essa noção estimulou a realização de muitas pesquisas para localizar as funções dentro do sistema nervoso e apontar os mecanismos sensoriais receptores nas regiões periféricas do organismo.

O Mapeamento Interno das Funções Cerebrais

Muitos dos primeiros fisiologistas realizaram suas pesquisas diretamente nos tecidos cere­brais e essas contribuições foram substanciais para o estudo das funções do cérebro. Esses esforços foram as primeiras tentativas de mapeamento das funções cerebrais, ou seja, de determinar as partes específicas do cérebro responsáveis pelo controle das diferentes funções cognitivas. A importância desse trabalho para a psicologia não se restringe à delimitação das áreas especializadas do cérebro, como reside também no refinamento dos métodos de pesquisa que mais tarde viriam a ser amplamente usados na psicologia fisiológica.

O médico escocês Marshall Hall (1790-1857), na época trabalhando em Londres, foi o pioneiro na investigação do comportamento por reflexo. Hall observou que os animais decapitados continuavam a se mover por algum tempo mediante o estímulo de várias terminações nervosas. Chegou à conclusão de que os diversos níveis de comportamento têm origem nas diferentes partes do cérebro e do sistema nervoso. Mais especificamente, Hall postulava que o movimento voluntário dependia do cérebro; o movimento de refle­xo, da medula espinhal; o movimento involuntário, da estimulação direta dos músculos, e o movimento respiratório, da medula.

A pesquisa do professor de história natural da College de France, de Paris, Pierre Flourens (1794-1867), envolvia a destruição sistemática de partes do cérebro e da medula espinhal dos pombos, bem como a observação das consequências. Flourens concluiu que o cérebro controlava os processos mentais mais elevados; partes do cérebro médio contro­lavam os reflexos visuais e auditivos; o cerebelo, a coordenação, e a medula, o batimento cardíaco, a respiração e outras funções vitais.

As descobertas de Hall e Flourens, embora consideradas válidas no aspecto geral, são secundárias para os nossos propósitos em relação ao uso do método de extirpação, no qual o pesquisador tenta determinar a função de uma parte específica do cérebro, removendo-a ou destruindo-a e observando as consequentes mudanças no comportamento do animal.

A segunda metade do século XIX presenciou a introdução de duas abordagens expe­rimentais complementares à pesquisa sobre o cérebro: o método clínico e a técnica do estímulo elétrico. O método clínico foi desenvolvido em 1861 por Paul Broca (1824-1880), cirurgião de um hospital próximo a Paris para doentes mentais. Broca realizou a autópsia de um homem que, por muitos anos, apresentara uma fala incompreensível. O exame clínico revelou uma lesão na terceira convolução frontal do hemisfério esquerdo do córtex cerebral. Broca denominou essa seção do cérebro de centro da fala, que mais tarde ficou conhecida como a área de Broca. O método clínico servia como complemento da técnica de extirpação, já que era difícil obter o consentimento das pessoas para remover partes do seu cérebro. Como uma espécie de "extirpação pós-morte", o método clínico possibilita o exame da área danificada do cérebro, considerada responsável pelo comportamento do paciente quando ainda vivo.

A técnica dos estímulos elétricos para o estudo do cérebro foi aplicada pela primeira vez em 1870, por Gustav Fritsch e Eduard Hitzig. A técnica consiste na aplicação de fracas entes elétricas para a exploração do córtex cerebral. Fritsch e Hitzig descobriram que a estimulação de certas áreas corticais de coelhos e cães provocava algumas reações motoras, como a movimentação das patas. Com o desenvolvimento de equipamentos eletrônicos cada vez mais sofisticados, a técnica dos estímulos elétricos tornou-se extremamente produtiva para o estudo das funções cerebrais.

O Mapeamento Externo das Funções Cerebrais

Dentre os cientistas que tentavam realizar o mapeamento interno do cérebro estava o médico alemão Franz Josef Gall (1758-1828), que dissecava cérebros de animais e de pes­soas mortas. Seu trabalho constatou a existência de substâncias cerebrais, branca e acin­zentada, a conexão de cada lado do cérebro ao lado oposto da medula espinhal por meio de fibras nervosas e a ligação por fibras entre as metades do cérebro.

Após completar esse minucioso programa de pesquisa, Gall voltou sua atenção para a parte externa do cérebro. Ele desejava descobrir se era possível obter informações sobre as propriedades cerebrais analisando o tamanho e o formato do cérebro. Com relação ao seu tamanho, os estudos realizados com animais demonstraram tendência de comportamen­to mais inteligente em animais com cérebros maiores do que nas espécies com cérebros menores. No entanto, quando começou a investigar o formato do cérebro, Gall aventu­rou-se por um território controverso. Ele fundou um movimento chamado cranioscopia, mais tarde conhecido como frenologia, cuja proposta afirmava que o formato do crânio de uma pessoa revelava suas características intelectuais e emocionais. Sua reputação caiu rapidamente quando promoveu essa ideia e ele não era mais visto pelos colegas como um respeitável cientista, mas como um charlatão e uma fraude.

Gall acreditava que, quando uma habilidade mental, como a consciência, a benevolên­cia ou a autoestima, fosse particularmente bem desenvolvida, devia existir uma protusão ou uma saliência correspondente na superfície do cérebro, na região controladora dessa característica. Se a capacidade fosse inferior, haveria um afundamento no crânio. Depois de examinar as saliências e os afundamentos de muitas pessoas. Gall mapeou a localiza­ção de 35 atributos humanos.

Um aluno de Gall, Johann Spurzheim, e um frenologista escocês. George Combe, contri­buíram muito para a popularização do movimento. Viajaram por toda a Europa e pelos Estados Unidos, dando aulas e demonstrações a respeito da frenologia. Seu sucesso foi rapidamente obscurecido pelos dois irmãos, Orson e Lorenzo Fowler, filhos com boa escolaridade de um fazendeiro no norte de Nova York. Os irmãos Fowler interessaram-se pela frenologia depois de lerem os trabalhos de Spurzheim e Combe e resolveram desenvolver um empreendimento extremamente bem-sucedido. Como descrito pelos psicólogos Ludy Benjamin e David Baker, milhões de americanos tiveram suas cabeças examinadas e as saliências dos seus cérebros lidos pelos Fowlers e seus associados. Os irmãos abriram clínicas em Nova York, Boston, e Filadélfia no final da década de 1830. Venderam o direito de abrir clínicas em outras cidades, principalmente através do treinamento de frenologistas, e fornecendo suprimentos frenológicos como bustos para exibição e ensino, compassos de calibre e tamanhos diversos para medições, painéis, manuais para venda e, para o frenologista itinerante, caixas para transportar os instrumentos e suprimentos. (Benjamin e Baker, 2004, p. 4-5).

Seus negócios foram incrivelmente lucrativos e continuaram sendo bem-sucedidos no século XX. Iniciaram uma revista, a American Phrenological Journal, em 1838, que foi publicada por mais de 70 anos. Os clientes chegavam em quantidade tão grande que os consultórios frequentemente pareciam um show. Os frenologistas iam de cidade em cidade, "fazendo visitas nos dias marcados, estabelecendo-se por um curto período, e oferecendo seus servi­ços mediante uma taxa (...) vendiam livros e painéis, assim como os grupos de rock atuais vendem camisetas e pôsteres em seus shows" (Sokal, 2001, p. 25)

Sociedades frenológicas foram formadas, e a leitura de cabeças tornou-se tão difundi­da que muitas empresas americanas usaram a técnica para selecionar seus funcionários. Praticantes da frenologia afirmavam que podiam usá-la para avaliar o nível de inteligência de uma criança e para aconselhar casais em dificuldades matrimoniais. Assim, a crença de que a frenologia podia ser aplicada a problemas práticos foi a principal razão de seu sucesso nos Estados Unidos.

A crítica mais veemente em relação à cranioscopia de Gall teve como base a pesquisa conduzida por Pierre Flourens. Ao destruir sistematicamente as partes de um cérebro (usando o método da extirpação), Flourens descobriu que o formato do crânio não correspondia aos contornos do tecido cerebral subjacente. Além disso, o tecido cerebral era delicado demais para produzir alterações, tais como protuberâncias ou afundamentos, na superfície óssea do crânio. Flourens e outros fisiologistas também demonstraram erros nas áreas designadas por Gall para as funções mentais específicas. Portanto, se você estiver procurando alguma saliência ou afundamento no seu crânio, pode ficar certo de que eles não revelam qualquer característica sobre o funcionamento intelectual ou emocional do seu cérebro.

Gall fracassou na tentativa de mapear a parte externa do cérebro, no entanto suas ideias reforçaram a crença, cada vez mais forte entre os cientistas, na possibilidade de se localizar as funções específicas do cérebro com a aplicação do método clínico, da extirpa­ção e dos estímulos elétricos.

Há uma lição a ser aprendida com o sucesso, e depois fracasso, da frenologia, que pode ser aplicada a todos os movimentos de todos os tempos. Não há necessariamente uma relação entre a popularidade de uma ideia, tendência ou escola de pensamento e sua validade. Daniel Robinson, um famoso historiador da psicanalítica, observou que a “frenologia de Gall floresceu tanto tempo quanto a teoria da psicanálise [e] seus achados e dizeres encheram muitos periódicos ... Cidadãos educados de todos os pólos culturais apalpavam as cabeças uns dos outros com muita seriedade. Assim, uma outra lição moral se faz presente: o impacto em si nada estabelece em relação à validade ou adequação dos trabalhos" (Robinson, 2003, p. 200). Em outras palavras, só porque algo é popular não significa que seja verdadeiro.

O Estudo do Sistema Nervoso

Durante esse período, também foi realizada uma quantidade considerável de pesquisas sobre a estrutura do sistema nervoso. Até aqui, vimos duas descrições da atividade neural: a teoria do tubo de Descartes e a teoria das vibrações de Hartley.

Quase ao final do século XVIII, o pesquisador italiano Luigi Galvani (1737-1798) sugeriu que os impulsos nervosos seriam elétricos. O sobrinho de Galvani, Giovanni Aldini, deu continuidade ao seu trabalho e um historiador relatou que ele "misturou pesquisa séria com um pouco de espetáculo. Em uma das exibições mais horrendas, destinadas  a enfatizar a eficácia dos estímulos elétricos na obtenção dos movimentos espasmódicos dos músculos, Aldini exibiu as cabeças decapitadas de dois criminosos" (Boakes, 1984, p. 96).

O trabalho experimental prosseguiu com tamanha rapidez que, em meados do século XIX, os cientistas aceitaram como fato comprovado a natureza elétrica dos impulsos nervo­sos. Passaram a crer que o sistema nervoso constituía-se essencialmente de um condutor de impulsos elétricos e que o sistema nervoso central funcionava como uma estação de transferência, desviando os impulsos para as fibras nervosas sensoriais ou motoras.

Embora essa posição representasse grande avanço na teoria sobre o tubo nervoso de Descartes e na teoria das vibrações de Hartley, em termos de conceito era semelhante. Ambas as teorias, a antiga e a mais recente, tinham como base o reflexo: um elemento do mundo exterior (o estímulo) provoca impacto no órgão do sentido e, assim, excita o impulso nervoso, que segue até o local adequado do cérebro ou do sistema nervoso cen­tral e ali reage, criando outro impulso, que é transmitido através dos nervos motores para acionar a resposta do organismo.

A direção seguida pelos impulsos nervosos no cérebro e na medula espinhal foi desco­berta pelo médico espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), professor de anatomia da escola de medicina da University of Zaragoza e diretor do Museu de Zaragoza. Pelas descobertas, recebeu a medalha Helmholtz da Academia Real de Ciências de Berlim em 1905 e o Prêmio Nobel em 1906. Ramón y Cajal teve dificuldades para divulgar suas descobertas à comunidade acadêmica, já que a língua espanhola não era utilizada nas publicações especializadas da época. Frustrado, ele "muitas vezes ficou decepcionado ao ler sobre as 'novas' descobertas, nas revistas inglesas, alemãs ou francesas, que na realidade eram redescobertas do seu trabalho publicado muito antes em espanhol" (Padilla, 1980, p. 116). Sua situação é outro exemplo das barreiras enfrentadas pelos cientistas que trabalham fora do círculo da cultura dominante.

Os pesquisadores também estavam estudando a estrutura anatômica do sistema ner­voso. Descobriram que as fibras nervosas eram compostas de estruturas separadas (neu­rônios) e de alguma forma eram conectadas a pontos específicos (sinapses). Essas desco­bertas coincidiam com a imagem mecanicista do funcionamento humano. Os cientistas acreditavam que o sistema nervoso, assim como a mente, era constituído de estruturas de átomos, partículas de matéria combinadas para produzir um produto mais complexo.

O Espírito do Mecanicismo

O espírito do mecanicismo era predominante na fisiologia do século XIX, assim como a filosofia da época. Não havia outro lugar em que esse espírito se destacasse tanto como na Alemanha. Na década de 1840, um grupo de cientistas, muitos dos quais ex-alunos de Johannes Müller, fundou a Sociedade de Física de Berlim. Esses cientistas, todos na faixa dos 20 anos, estavam comprometidos com uma única proposta: a explicação de todos os fenômenos pelos princípios da física.

O grupo desejava relacionar a fisiologia com a física, ou seja, desenvolver a fisiologia com base no quadro de referência do mecanicismo. Em um gesto mais dramático, quatro dos cientistas prestaram um juramento solene e o selaram, como reza a lenda, com o próprio sangue. Essa declaração estabelecia que as únicas forças ativas dentro do organismo eram as forças psicoquímicas comuns. E assim as linhas se entrelaçaram na fisiologia do século XIX: o materialismo, o mecanicismo, o empirismo, o experimentalismo e a medição.

A evolução inicial da fisiologia indica os tipos de técnicas de pesquisa e as descober­tas que fundamentaram a abordagem científica da investigação psicológica da mente. Enquanto os filósofos abriam o caminho para o ataque experimental da mente, os fisiologistas realizavam experiências para investigar os mecanismos que estão por trás dos fenômenos mentais. O passo seguinte era a aplicação do método experimental na mente propriamente dita.

Os empiristas britânicos argumentavam que a sensação era a única fonte de conhe­cimento. O astrônomo Bessel demonstrou o impacto da observação das diferenças indi­viduais na sensação e na percepção. Os fisiologistas estavam definindo a estrutura e a função dos sentidos. Era chegada a hora de estudar e quantificar esse portão de entrada para a mente: a experiência mentalística e subjetiva da sensação. As técnicas disponíveis para a investigação do corpo passaram a ser aperfeiçoadas para a exploração da mente. A psicologia experimental estava pronta para começar.

Os Primórdios da Psicologia Experimental

As primeiras aplicações do método experimental à mente, ou seja, ao que consistia no objeto de estudo da nova psicologia, são creditadas a quatro cientistas: Hermann von Helmholtz, Ernst Weber, Gustav Theodor Fechner e Wilhelm Wundt. Todos eram cientis­tas alemães especializados em fisiologia e cientes da impressionante evolução da ciência moderna.

Por que a Alemanha?

A ciência estava em franco desenvolvimento na maior parte da Europa ocidental no sécu­lo XIX, principalmente na Inglaterra, França e Alemanha. O entusiasmo, a consciência e o otimismo na aplicação das ferramentas científicas aos diversos temas de pesquisa não estavam concentrados em nenhuma nação específica. Então, por que a psicologia experi­mental teve início na Alemanha e não na Inglaterra, França ou em outro local? A resposta parece estar em algumas características exclusivas da ciência alemã que a tornou o solo mais fértil para o crescimento da nova psicologia.

A abordagem científica alemã. 

Durante um século, a história intelectual da Alemanha preparou o caminho para a ciência experimental da psicologia. A fisiologia experimental estava bem estabelecida e era reconhecida por um estágio ainda não atingido pela França e pela Inglaterra. O famoso temperamento alemão adaptava-se bem ao trabalho preciso de classificação e de descrição exigido em biologia, zoologia e fisiologia. Enquanto cientistas franceses e ingleses favoreciam o tratamento matemático dedutivo, os alemães, com ênfase na coleta minuciosa e completa dos fatos observáveis, adotavam a abordagem indutiva.

As ciências biológicas e fisiológicas não dão muita margem a generalizações que permitam a dedução dos fatos, por isso, a aceitação da biologia foi lenta na comunida­de científica inglesa e francesa. Entretanto, a Alemanha, munida de sua fé na descrição e classificação taxonômica, recebeu de braços abertos a biologia como um membro da família das ciências.

Mais tarde, os alemães acabaram por definir integralmente a ciência, que na França e na Inglaterra limitava-se à física e à química, duas áreas passíveis de serem abordadas quantitativamente. A ciência alemã incluía áreas como a fonética, a linguística, a história, a arqueologia, a estética, a lógica e até mesmo a crítica literária. Os estudiosos franceses e ingleses eram céticos em relação à aplicação da ciência à complexa mente humana. Os alemães, não, e por isso deram um salto à frente, usando as ferramentas da ciência para explorar e medir todas as facetas da atividade mental.

O movimento reformista nas universidades alemãs.

No início do século XIX, uma onda de reforma educacional voltada aos princípios da liberdade acadêmica invadiu as universidades da Alemanha. Os professores foram encorajados a ensinar o que desejas­sem, sem interferência externa, e a escolher os temas das próprias pesquisas. Os alunos tinham liberdade para escolher as matérias que desejassem cursar, sem a imposição de um currículo fixo e obrigatório. Essa liberdade, desconhecida nas universidades da In­glaterra e da França, também se estendeu para as novas áreas da pesquisa científica, por exemplo, a psicologia.

O estilo universitário alemão criou o ambiente ideal para o surgimento da investiga­ção científica. Os professores escolhiam os próprios temas das aulas, além de contarem com laboratórios bem equipados para orientar os alunos nas pesquisas experimentais. Não houve outro país que promovesse a ciência de forma tão ativa.

A Alemanha também proporcionou grandes oportunidades para aprendizagem e prática de novas técnicas científicas; temos aqui um exemplo do impacto das condições econômicas prevalecentes na época (um fator contextual). Havia muitas universidades na Alemanha. Antes de 1870, ano em que fora unificada e dotada de um governo central, a Alemanha era uma confederação dispersa de reinados, ducados e cidades-estado autônomos. Cada um desses distritos era provido de universidades bem financiadas, com um corpo docente bem-remunerado e equipamentos de laboratório com tecnologia de ponta.

Naquela época, a Inglaterra possuía apenas duas universidades, a Oxford e a Cambridge, e em nenhuma delas havia incentivo, auxílio nem financiamento para pesquisas científicas de qualquer disciplina. Além disso, a política acadêmica era contrária à implementação de novas áreas de estudo no currículo. Em 1877, a Cambridge vetou o pedido de inserção de aulas de psicologia experimental porque poderia "ser um insulto à religião colocar a alma humana em uma balança de medição" (Hearnshaw, 1987, p. 125). A psicologia expe­rimental ficou fora do currículo da Cambridge por 20 anos e foi ministrada somente em 1936 na Oxford. A única maneira de praticar ciência na Inglaterra era à maneira de um nobre cientista, vivendo com independência econômica, como fizeram Charles Darwin e Francis Galton. A situação na França era semelhante.

Nos Estados Unidos, a primeira universidade dedicada à pesquisa surgiu apenas em 1876, com a fundação da Johns Hopkins University, em Baltimore, Maryland. Essa nova universidade baseava-se fortemente no modelo alemão. Seu objetivo principal era fazer da pesquisa científica o centro e o foco no treinamento dos alunos de pós-graduação. Na realidade, Baltimore em si, foi considerada "um pedacinho da Alemanha que havia se restabelecido no lado leste da região costeira". De acordo com o psicólogo e filósofo John Dewey, "os alunos e professores se reuniam [na sala do clube da Hopkins] para beber cerveja alemã e cantar canções alemãs" (apud Martin, 2002, p. 56).

No entanto, havia mais oportunidades para pesquisas científicas na Alemanha do que em outros países. Praticamente, pode-se afirmar que era possível ganhar a vida como pesquisador científico na Alemanha, mas não na França, na Inglaterra ou nos Estados Unidos.

Assim, as chances de alguém se tornar um professor respeitado e bem-remunerado eram maiores na Alemanha do que em qualquer parte do mundo, embora não fosse fácil alcan­çar as posições mais elevadas. O promissor cientista universitário era obrigado a produzir uma pesquisa que fosse considerada pelos colegas uma grande contribuição, para que o trabalho fosse visto como algo mais que apenas uma tese de doutorado. Consequentemente, a maioria das pessoas selecionadas para as carreiras universitárias era do mais alto calibre e, assim que elas passavam a fazer parte do corpo docente, recebiam ainda mais pressão para a publicação de trabalhos.

Embora a competição fosse intensa e as exigências elevadas, a recompensa valia todo o esforço. Somente o melhor obtinha êxito na ciência alemã do século XIX e o resultado foi uma série de feitos alcançados em todas as ciências, inclusive na nova psicologia. Por­ tanto, o fato de terem sido os professores universitários alemães as pessoas diretamente responsáveis pelo crescimento da psicologia científica não é simples coincidência.

Hermann vonHelmholtz (1821-1894)

Um dos maiores cientistas do século XIX, foi um pesquisador produtivo na física e na fisiologia. A psicologia vinha em terceiro lugar nas suas áreas de contribuição científica, embora seu trabalho, juntamente com o de Fechner e o de Wundt, fosse fundamental para o início da nova psicologia. Ele dava ênfase ao tratamento mecanicista e determinista, partindo do princípio de que os órgãos sensoriais humanos funcionavam como máquinas. Apreciava também as analogias técnicas, como, por exemplo, comparar a transmissão dos impulsos nervosos com a operação do telégrafo (veja Ash, 1995).

A Biografia de Helmholtz

Nasceu em Potsdam, na Alemanha, onde seu pai era professor do Gymnasium (no sistema educacional europeu, curso de nível médio preparatório para a universidade). Helmholtz recebia aulas particulares em casa, por causa da fragilidade da sua saúde. Aos 17 anos, matriculou-se no instituto médico de Berlim, que isentava das mensalidades os alunos que se comprometessem a servir como cirurgiões do exército após a graduação. Helmholtz serviu durante sete anos, período em que prosseguiu com os estudos de matemática e físi­ca e que publicou diversos artigos. Em um trabalho cujo tema era a indestrutibilidade da energia, utilizou-se de-fórmulas- matemáticas para criar a lei da conservação da energia. Depois de deixar o exército, Helmholtz aceitou a posição de professor-assistente de fisio­logia da University of Königsberg. Nos 30 anos seguintes, recebeu nomeações acadêmicas em fisiologia nas universidades de Bonn e Heidelberg e em física, em Berlim. Extremamente entusiasta, Helmholtz dedicou-se a diversas áreas acadêmicas. Ao rea­lizar uma pesquisa de fisiologia óptica, inventou o oftalmoscópio, utilizado até hoje para examinar a retina. Esse instrumento revolucionário possibilitou a realização de diagnós­ticos e tratamentos de doenças da retina. Como consequência, seu nome "espalhou-se rapidamente por todo o público e universo acadêmico. Em um piscar de olhos progrediu na carreira e tornou-se reconhecido mundialmente" (Cahan, 1993, p. 574). Tudo isso aos 30 anos.

Seu trabalho em três volumes sobre a óptica fisiológica, Handbook of physiological optics (Manual de óptica fisiológica, 1856-1866), exerceu uma influência tão intensa e duradoura que foi traduzido para o inglês 60 anos depois. Em On the sensations of tone, 1863, publicou uma pesquisa a respeito dos problemas acústicos, resumindo as próprias descobertas e juntando o restante da literatura disponível. Também escreveu trabalhos referentes a vários assuntos, como a imagem persistente, o daltonismo, a escala musical árabe-persa, o movimento dos olhos humanos, a formação das geleiras, os axiomas geo­ métricos e a febre do feno. Anos mais tarde, contribuiu indiretamente para a invenção do telégrafo sem fio e do rádio.

No outono de 1893, voltando de uma viagem aos Estados Unidos que incluiu uma visita à feira mundial de Chicago, Helmholtz sofreu uma queda a bordo do navio. Menos de um ano depois, sofreu um ataque que o deixou semiconsciente e em estado de delírio. Sua esposa relatou: “Seu pensamento oscilava confusamente entre a vida real e o sonho, o tempo e o lugar, tudo misturado em sua mente. (...) Era como se sua alma estivesse distante, bem longe, em um mundo ideal muito bonito, embalado apenas pela ciência e pelas leis eternas" (apud Koenigsberger, 1965, p. 429).

Contribuições de Helmholtz: o Impulso Neural, a Visão e a Audição

As pesquisas de Helmholtz de interesse para a psicologia são as referentes à velocidade do impulso neural e sobre a visão e a audição. Os cientistas aceitaram a teoria de que o impul­so nervoso era instantâneo, ou pelo menos que viajava rápido demais para ser medido. Helmholtz forneceu a primeira medição empírica da velocidade de condução, estimulando um nervo motor e o músculo anexo da perna de um sapo. Ele preparou a demonstração de forma que registrasse o momento exato do estímulo e do movimento resultante. Tra­balhando com nervos de diversos comprimentos, observou o tempo entre a aplicação do estimulo no nervo próximo ao músculo e a reação muscular e fez o mesmo estimulando um nervo mais distante. As medições resultaram no tempo necessário para a rápida con­dução do impulso neural: aproximadamente 27 metros por segundo.

Helmholtz também pesquisou os tempos de reação dos nervos sensoriais em seres humanos, estudando o circuito completo desde a estimulação do órgão do sentido até a reação motora resultante. As descobertas mostraram enormes diferenças individuais, além de divergências entre um experimento e outro com a mesma pessoa, de modo que ele acabou abandonando a pesquisa.

A demonstração de Helmholtz de que a velocidade de condução não era instantânea levantou a hipótese de que o pensamento e o movimento seguem um ao outro em interva­lo mensurável e não ocorrem simultaneamente, como se pensava. No entanto, Helmholtz estava interessado na medição propriamente dita, e não no significado psicológico. Mais tarde, as implicações da pesquisa na nova psicologia foram reconhecidas por outros cien­tistas que realizaram experiências bem-sucedidas, relacionadas com o tempo de reação. O trabalho de Helmholtz foi um dos primeiros passos na experimentação e na medição de um processo psicofisiológico.

Os estudos sobre a visão provocaram impacto na nova psicologia. Helmholtz pesqui­sou os músculos externos do olho e o mecanismo por meio do qual os músculos internos focalizam o cristalino. Ele estudou e aprofundou a teoria da visão cromática publicada em 1802 por Thomas Young. Esse trabalho ficou conhecido como a teoria de Young-Helmholtz.

A pesquisa a respeito da audição também é muito importante, mais especificamente, da percepção dos tons, da natureza da harmonia e desarmonia e o problema da ressonância. A influência permanente das suas ideias e experiências é evidente pelo fato de ainda serem mencionadas nos livros didáticos de psicologia moderna.

Ele também se concentrou nos benefícios práticos ou aplicados da pesquisa científi­ca. Não concordava com a ideia da condução de experiências apenas para o acúmulo de informações. Para ele, a missão do cientista era coletar a informação e estender ou aplicar aquela enorme quantidade de conhecimento aos problemas práticos. 

Helmholtz não era psicólogo, nem a psicologia foi o seu principal interesse; no entan­to, sua contribuição tornou-se uma vasta e importante fonte de referência para o estudo dos sentidos humanos, além de haver fortalecido a abordagem experimental para a aná­ lise das questões psicológicas.

ErnstWeber (1795-1878)

Filho de um professor de teologia, Ernst Weber nasceu em Wittenberg, Alemanha. Obteve o doutorado na University of Leipzig, em 1815, onde lecionou anatomia e fisiologia até aposentar-se, em 1871. Sua principal área de interesse em pesquisa, e da qual foram extraí­das suas maiores contribuições, eram os órgãos dos sentidos. Assim, aplicou os métodos experimentais da psicologia aos problemas de natureza psicológica. As pesquisas anterio­res com os órgãos dos sentidos foram realizadas quase exclusivamente sobre os sentidos superiores, da visão e da audição. Weber explorou novos campos, mais especificamente as sensações cutâneas e as musculares.

O Limiar de Dois Pontos

Uma contribuição muito importante para a nova psicologia refere-se à determinação expe­rimental exata da distinção entre dois pontos da pele, ou seja, o intervalo de tempo da distância entre dois pontos antes de o indivíduo experimentar duas sensações distintas. Encostando nas pessoas um aparelho semelhante a um compasso, sem que elas vissem, Weber pedia que descrevessem se sentiam um ou dois pontos tocando a pele. Quando os dois pontos de estímulo estavam praticamente juntos, as pessoas afirmavam sentir apenas um. À medida que aumentava a distância entre as duas origens do estímulo, as pessoas mostravam-se hesitantes quanto à experiência de sentir um ou dois pontos na pele. Finalmente, atingia a distância em que os indivíduos relatavam sentir dois pontos distintos tocando a pele.

Esse procedimento demonstra o limiar de dois pontos, o ponto em que é possível distinguir duas origens separadas de estímulo. A pesquisa de Weber marca a primeira demonstração sistemática experimental do conceito de limiar (o ponto em que começa a se produzir o efeito psicológico), noção amplamente usada na psicologia desde o seu início até os dias atuais

As Diferenças Mínimas Perceptíveis

A pesquisa de Weber resultou na formulação da primeira lei quantitativa da psicologia. Ele desejava determinar a diferença mínima perceptível (dmp), ou seja, a menor diferen­ça detectável entre dois pesos. Pediu aos participantes da pesquisa para levantarem dois pesos, um padrão e um de comparação, e relatarem se algum deles pensava ser um mais pesado que o outro. As diferenças menores entre os pesos resultaram no julgamento de igualdade e as maiores na avaliação de disparidade.

Conforme prosseguia com o programa de pesquisa, Weber descobriu que a diferen­ça mínima perceptível entre dois pesos consistia em uma proporção constante, 1:40, do peso padrão. Em outras palavras, um peso de 41 gramas possuía uma "diferença mínima perceptível" do peso padrão de 40 gramas, e um peso de 82 gramas, uma diferença míni­ ma perceptível de 80 gramas.

Weber, então, desejava saber como as sensações musculares contribuíam para a capaci­dade de o indivíduo distinguir entre dois pesos. Ele pensava que as pessoas seriam capazes de fazer essa diferenciação com maior precisão se elas mesmas levantassem o peso (rece­bendo nas mãos e nos braços as sensações musculares), e não com o peso sendo colocado em suas mãos pelo pesquisador. Na verdade, o levantamento dos pesos envolve a sensação tátil (toque) e a muscular, ao passo que, se os pesos forem colocados nas palmas das mãos, apenas a sensação tátil estará envolvida.

As pessoas conseguiam sentir diferenças menores entre os pesos quando os levantavam (uma proporção de 1:40) do que quando eles eram colocados em suas mãos (uma propor­ ção de 1:30). Assim, Weber chegou à conclusão de que as sensações musculares internas do primeiro exemplo exercem influência sobre a capacidade distintiva do indivíduo.

A partir dessas experiências, Weber sugeriu que a distinção entre as sensações não depende da diferença absoluta entre dois pesos, mas da diferença relativa ou da proporcio­nalidade. Nas experiências com as diferenças visuais, descobriu que a proporção era menor do que nas sensações musculares. Assim, propôs uma razão constante para a diferença mínima perceptível entre dois estímulos, consistente para cada sentido humano.

A pesquisa de Weber demonstrou que não há correspondência direta entre um estímu­lo físico e a nossa percepção desse estímulo. Entretanto, assim como Helmholtz, Weber estava interessado apenas nos processos fisiológicos e não dava importância ao significado do seu trabalho para a psicologia. Sua pesquisa proporcionou a criação de um método de investigação da relação entre o corpo e a mente - entre o estímulo e a sensação resultan­te. Esse foi um feito muito significativo e que passou a exigir uma atitude mais séria em relação à sua importância.

As experiências de Weber estimularam outras pesquisas e concentraram a atenção dos fisiologistas posteriores na utilidade do método experimental no estudo do fenômeno psicológico. O trabalho de Weber sobre os limiares e a medição da sensação foi da maior importância para a nova psicologia e influenciou virtualmente cada aspecto da psicologia até os dias atuais.

Gustav Theodor Fechner (1801-1887)

Gustav Theodor Fechner foi um estudioso que buscou diversas conquistas intelectuais ao longo de uma vida extremamente ativa. Foi fisiologista durante sete anos, físico por 15, psicofísico por 14, estético experimental por 11, filósofo por 40 e ficou inválido por 12 anos. Entre todas essas atividades, o trabalho com a psicofísica foi o que lhe trouxe maior fama, embora não desejasse ser tão lembrado pela posteridade.

A Biografia de Fechner

Fechner nasceu em uma vila no sudeste da Alemanha, onde o seu pai era clérigo. Começou a estudar medicina na University of Leipzig em 1817 e nesse período assistiu às aulas de Weber sobre fisiologia. Fechner passou o resto da vida em Leipzig.

Mesmo antes de se formar em medicina, sua visão humanista era contrária ao meca­nicismo dominante no estudo científico. Com o pseudônimo de "dr. Mises", escreveu sátiras ridicularizando a medicina e a ciência. Esse conflito entre os dois lados da sua per­sonalidade perdurou por toda a vida: o interesse na ciência e na metafísica. Visivelmente incomodado com a abordagem da corrente atomística da ciência, criou um conceito ao qual chamou "visão diurna", em que o universo era analisado do ponto de vista da cons­ciência. Essa definição opunha-se à ideia predominante da "visão noturna", em que o universo, inclusive a consciência, consistia em nada além de matéria inerte.

Depois de concluir o curso de medicina, Fechner iniciou a carreira na física e na mate­mática, em Leipzig, além de traduzir manuais de física e química do francês para o alemão. Por volta de 1830, já havia traduzido dezenas de volumes, e essa atividade rendeu-lhe o reconhecimento como físico. Em 1824, começou a lecionar física na universidade e a con­duzir a própria pesquisa. Em torno do final da década de 1830, interessou-se pelo problema da sensação e, durante uma pesquisa com imagens persistentes, feriu gravemente os olhos ao olhar diretamente para o sol pelas lentes coloridas.

Em 1833, Fechner obteve uma prestigiosa nomeação para lecionar em Leipzig, quando caiu em profunda depressão, que se prolongou por vários anos. Queixava-se de cansaço e tinha dificuldade para dormir. Tinha uma digestão difícil e não sentia fome mesmo quan­do seu corpo estava à beira da inanição. Sua sensibilidade à luz era extrema e passava a maior parte do tempo em um quarto escuro com as paredes pintadas de preto, ouvindo a leitura que sua mãe lhe fazia através de uma abertura estreita da porta.

Na esperança de amenizar o tédio e a melancolia, tentava fazer longas caminhadas, inicialmente apenas à noite ou quando já houvesse escurecido e, mais tarde, durante o dia, com os olhos cobertos com bandagens. Em uma espécie de catarse, escrevia poemas e criava adivinhações. Apelou para várias terapias alternativas, entre as quais o uso de laxantes, choques elétricos, tratamentos com vapor e a aplicação de substâncias escaldan­tes sobre a pele; mas nenhuma delas lhe trouxe a cura.

A doença de Fechner pode ter sido de natureza neurótica. Essa ideia surgiu devido à forma bizarra de sua recuperação. Uma amiga contou-lhe um sonho em que ela prepara­va-lhe uma refeição com um presunto cru temperado e marinado em vinho do Reno e suco de limão. No dia seguinte, arrumou o prato e o serviu a Fechner. Ele experimentou, embora relutante, mas a cada dia comia mais presunto, afirmando que, de alguma forma, sentia-se melhor. A melhora do seu estado não durou muito e, depois de seis meses, os sintomas pioraram, chegando a ponto de ele temer pela sua sanidade - Fechner decla­rou: “Tinha a sensação clara de ter perdido para sempre a minha mente, a menos que eu conseguisse refrear o fluxo de pensamentos perturbadores. Muitas vezes as mínimas preocupações me incomodaram a ponto de levar horas e até dias para me ver livre delas" (Kuntze, 1892, apud Balance e Bringmann, 1987, p. 42).

Fechner obrigou-se a cumprir um regime de tarefas rotineiras, uma espécie de terapia ocupacional, mas limitado a atividades em que não fizesse uso dos olhos nem da mente. “Eu produzia fios e bandagens, fazia velas de cera (...) enrolava fios e ajudava na cozinha, separando [e] lavando lentilhas, fazendo farelos de pão e triturando o pão-doce até deixar apenas o açúcar. Também descascava e cortava cenouras e nabos (...) e milhares de vezes desejei a morte" (Fechner in Kuntze, 1892, apud Balance e Bringmann, 1987, p. 43).

Aos poucos renascia o seu interesse pelo mundo ao redor e ainda mantinha a dieta do presunto cru marinado no vinho. Teve um sonho em que aparecia o número 77, levando-o a crer que em 77 dias estaria curado. E, obviamente, ficou curado. A depressão transformou-se em euforia e em delírios de grandeza e ele afirmava ser o escolhido de Deus para resolver todos os mistérios do mundo. Essa experiência serviu-lhe de inspiração para a definição do princípio do prazer, que vários anos mais tarde influenciou o trabalho de Sigmund Freud.

Embora 40 anos antes a University of Leipzig o tivesse considerado inválido e lhe concedido uma aposentadoria vitalícia, ele viveu até os 86 anos na mais perfeita saúde, contribuindo significativamente para a ciência.

A Relação Quantitativa entre Mente e Corpo

Esta é uma data importante para a história da psicologia: 22 de outubro de 1850. Naquela manhã, Fechner estava deitado na cama, quando lhe ocorreu a ideia sobre a ligação entre a mente e o corpo. Ele afirmou ser possível encontrar essa ligação na relação quantitativa entre a sensação mental e o estímulo material.

Fechner alegava que o aumento na intensidade do estímulo não produzia um incre­mento com a mesma proporção na intensidade da sensação. Ao contrário, a progressão geométrica caracteriza o estímulo, enquanto a progressão aritmética a sensação.

Por exemplo, o acréscimo do som de um sino ao de outro que já esteja tocando produz um aumento maior da sensação sonora do que a adição de um sino a dez outros que já estejam tocando. Portanto, os efeitos da intensidade do estímulo não são absolutos, mas proporcionais à intensidade da sensação já existente.

Essa revelação simples, porém brilhante, significa que a dimensão da sensação (a qualidade mental) depende da quantidade de estímulos (a qualidade física). Para medir mudança na sensação, é necessário medir a alteração no estímulo. Portanto, é possível formular uma relação quantitativa ou numérica entre o corpo e a mente, vinculando-os de forma empírica, possibilitando a realização de experiências com a mente.

Embora o conceito estivesse bem claro para Fechner, como prosseguir com a teoria? O pesquisador deve medir com precisão tanto o que é subjetivo como o que é objetivo - tanto a sensação mental quanto o estímulo físico. Não é difícil medir a intensidade física do estímulo, como a intensidade do brilho da luz ou o peso de um objeto padrão, no entanto como medir a sensação, as experiências conscientes descritas pelas pessoas quando reagem ao estímulo?

Fechner apresentou duas propostas para medir as sensações. Primeiro, determinar se o estímulo está presente ou ausente, se foi sentido ou não. Segundo, medir a intensidade do estímulo na qual as pessoas relatam a primeira sensação, ou seja, o limiar absoluto da sensibilidade, que é o ponto de intensidade abaixo do qual a sensação não é percebida e acima do qual é sentida.

Embora a ideia do limiar absoluto seja útil, ela é limitada, já que apenas o valor do menor nível da sensação pode ser determinado. Para relacionar as duas intensidades é necessário especificar toda a faixa de valores do estímulo e os valores de sensação resultan­tes. Para isso, Fechner apresentou o conceito de limiar diferencial da sensibilidade, que é a quantidade mínima de alteração no estímulo que provoca uma mudança na sensação. Por exemplo, em que medida o peso deve ser aumentado ou diminuído para que a pessoa perceba a mudança? Em quanto o peso deve ser aumentado ou dimunuído antes que ela relate uma mudança na sensação?

Para medir a noção de peso de determinada pessoa (qual a sensação que o peso provoca na pessoa), não podemos usar a medição física do peso do objeto. No entanto, podemos usá-la como base para a medição da intensidade psicológica da sensação.

Primeiro, medimos em que proporção a intensidade deve ser reduzida para que a pes­soa perceba a diferença. Segundo, mudamos o peso do objeto para o seu valor mínimo e medimos novamente o tamanho do diferencial. Como as duas mudanças de peso são apenas levemente perceptíveis, Fechner concluiu que eram subjetivamente iguais.

Esse processo pode ser repetido até que o objeto seja levemente sentido pelo indivíduo. Se cada redução de peso for subjetivamente igual a qualquer outra, então a quantidade de vezes que o peso deve ser reduzido - o número de diferenças mínimas perceptíveis - pode ser considerada a medição objetiva da magnitude subjetiva da sensação. Desse modo, estamos medindo os valores dos estímulos necessários para criar a diferença entre duas sensações.

Fechner sugeriu que, para cada sentido humano, existe determinado aumento relativo na intensidade do estímulo que sempre produz uma mudança observável na intensidade da sensação. Portanto, é possível medir a sensação (a mente ou a qualidade mental) e o estímulo (o corpo ou a qualidade material). A relação entre os dois pode ser expressa na forma de uma equação: S = K log R, em que S é a magnitude da sensação, K é uma cons­tante e R é a magnitude do estímulo. A relação é logarítmica, isto é, uma série aumenta em progressão aritmética e a outra em progressão geométrica.

Nos últimos trabalhos que escreveu, Fechner comentou que essa ideia para a descri­ção da relação mente-corpo não lhe ocorrera por ter lido o trabalho de Weber, embora tivesse assistido às suas aulas na University of Leipzig e Weber tivesse publicado sobre o tema alguns anos antes. Fechner continuou afirmando que desconhecia o trabalho de Weber até começar as experiências para testar a sua hipótese e que somente algum tempo depois percebera que o princípio ao qual aplicara a fórmula matemática era basicamente o trabalho demonstrado por Weber.

Os Métodos Psicofísicos

A constatação de Fechner resultou imediatamente na sua pesquisa a respeito da psicofísica (a palavra em si expressa a sua definição: a relação entre o mundo mental [psico] e o material [físico]). Ao longo desse trabalho, que incluía experiências com o levantamento de pesos, a percepção visual do brilho, a noção de distância visual e de distância tátil, Fechner desenvolveu um método e sistematizou outros dois dos três principais utilizados na pesquisa psicofísica atual.

O método do erro médio, ou o método do ajuste, consiste em o indivíduo ajustar o estímulo variável até sentir que ele é igual a um estímulo padrão constante. Realizadas várias tentativas, o valor médio das diferenças entre o estímulo padrão e o ajuste feito pelo indivíduo para o estímulo variável representa o erro de observação. Essa técnica serve tanto para a medição do tempo de resposta como para a distinção visual e auditiva. Em um sentido mais amplo, é o princípio básico de muitas das pesquisas psicológicas, já que qualquer cálculo de média envolve essencialmente o método do erro médio.

O método do estímulo constante envolve dois estímulos constantes e tem como objetivo medir a diferença de estímulo necessária para produzir uma proporção específica de julga­mentos corretos. Por exemplo, primeiro a pessoa levanta um peso padrão de 100 gramas e, em seguida, um peso comparativo de, digamos, 88, 92, 96, 104 ou 108 gramas. O indivíduo deverá dizer se o segundo peso é maior, menor ou igual ao primeiro.
No método dos limites, dois estímulos (por exemplo, dois pesos) são apresentados à pes­soa. Um estímulo é aumentado ou reduzido até que ela relate ter notado a diferença. Os dados são obtidos por meio de várias tentativas e somente as diferenças mínimas perceptíveis são consideradas para calcular a média e determinar o limiar diferencial.

O programa de pesquisa psicofísica de Fechner durou sete anos. Ele publicou dois trabalhos resumidos, em 1858 e 1859, e em 1860 apresentou o trabalho completo em Elements of psychophysics, um livro didático a respeito da ciência exata das "relações fun­cionalmente dependentes (...) do material e do mental, dos universos físico e psicológico" (Fechner, 1860/1966, p. 7). Essa obra é uma das primeiras contribuições de destaque para o desenvolvimento da psicologia científica. A afirmação de Fechner a respeito da relação quantitativa entre a intensidade do estímulo e a sensação foi considerada, naquela época, de importância comparável à descoberta da lei da gravidade.
O material que se segue foi extraído da obra Elements of psychophysics, em que Fechner debate a questão da diferença entre a matéria e a mente, entre o estímulo e a sensação resultante. Na parte reimpressa neste livro, Fechner também faz a distinção entre o que chamou de psicofísicas "interna" e "externa". A psicofísica interna refere-se à relação entre a sensação e a consequente reação cerebral e nervosa. Na época de Fechner, não foi possível medir com precisão esses processos psicológicos. Desse modo, ele optou por lidar com a psicofísica externa, ou seja, a relação entre o estímulo e a intensidade subjetiva da sensação, medida por meio dos seus métodos psicofísicos.


Texto Original

Trecho sobre a Psicofísica, Extraído de Elements of Psychophysics (1860), de Gustav Fechner

A psicofísica deve ser entendida neste texto como a teoria exata das relações funcionalmente dependentes do corpo e da alma ou, mais genericamente, do material e do mental, dos uni­versos físico e psicológico.

Consideramos como mental, psicológico ou pertencente à alma, tudo o que possa ser captado pela observação introspectiva ou que desse modo sirva de base para abstração; enquanto corporal, corpóreo, físico e material, tudo o que possa ser observado de fora ou que assim sirva de base para abstração. Essas designações referem-se exclusivamente aos aspectos do mundo aparente, com cujas relações os psicofísicos deverão ocupar-se, visto ser senso comum o uso de observações interna e externa para referir-se às atividades por meio dos quais a existência em si torna-se aparente.

De qualquer modo, todas as discussões e as investigações da psicofísica estão relaciona­ das somente com o fenômeno aparente do universo material e mental, para um mundo que se apresenta diretamente por meio da introspecção ou pela observação externa, ou ainda, a partir do que pode ser deduzido da aparência ou percebido como uma relação fenomenológica, uma categoria, uma associação, uma dedução ou uma lei. Em resumo, os psicofísicos referem-se ao físico no sentido da física e da química e ao psíquico no sentido da psicologia experimental, sem se referirem de algum modo à natureza do corpo ou da alma além do sentido metafísico do fenômeno.

Em geral, chamamos de psíquica uma função dependente da função física e vice-versa, por causa da existência entre elas de uma relação constante ou regida por leis e na qual, a partir da presença e das alterações de uma, é possível deduzir o comportamento da outra.

A existência da relação funcional entre corpo e mente geralmente não é negada; todavia existe uma discussão ainda não resolvida a respeito das razões desse fato e sua interpretação e abrangência.

Sem se referirem aos pontos metafísicos desse argumento (aspectos relacionados mais com a essência do que com a aparência), os psicofísicos conseguem determinar a verdadeira relação funcional entre os modos de aparência do corpo e da mente com a maior precisão possível.

Quais os objetos pertencentes ao mesmo grupo no aspecto quantitativo e qualitativo, estando distantes ou próximos, no mundo material e no mental? Quais as leis que regem suas mudanças na mesma direção ou em sentidos opostos? Essas são perguntas que os psicofísicos em geral formulam e tentam respondê-las com a maior exatidão.

Em outras palavras, mas ainda seguindo o mesmo raciocínio: que objetos pertencem aos mesmos modos internos e externos da aparência e quais são as leis relacionadas às respecti­vas mudanças?

Pela existência da relação funcional, unindo mente e corpo, na verdade não há nada que nos possa impedir de olhar para essa relação e buscá-la em uma e não em outra direção. Alguém pode ilustrar essa relação adequadamente, usando uma função matemática, uma equação entre as variáveis x e y, em que cada variável pode ser vista como função da outra e cada uma sendo dependente das mudanças da outra. Entretanto há uma razão por que os psicofísicos preferem a abordagem pela dependência da mente em relação ao corpo em vez do contrário: é porque o físico está imediatamente disponível para medição, enquanto a medição do psíquico é possível somente ao considerá-lo dependente do físico. (...)

Pela sua natureza, a psicofísica pode ser dividida em uma parte externa e uma interna, dependendo do foco da análise, se baseada na relação do físico com os aspectos externos do corpo, ou se nas funções internas, com as quais o psíquico está intimamente relacionado. (...)

A verdadeira prova básica empírica para toda a psicofísica pode ser vista somente na esfe­ ra da psicofísica externa, visto ser ela a única parte disponível para uma experiência imediata. Portanto, nosso ponto de partida deve ser obtido da psicofísica externa. No entanto, sem a referência constante à psicofísica interna, pode não haver o desenvolvimento da psicofísica externa, visto estar o universo externo do corpo funcionalmente relacionado com a mente apenas pela mediação do mundo interno do corpo. (...)

A psicofísica, que já está relacionada com a psicologia e a física pelo nome, deve, por um lado, basear-se na psicologia e, por outro lado, proporcionar à psicologia a fundamentação matemática. A psicofísica externa toma emprestado da física o auxílio e a metodologia; a psico­ física interna inclina-se mais para a fisiologia e a anatomia, especialmente no que diz respeito ao sistema nervoso, com o qual se pressupõe alguma relação. (...)

A sensação depende do estímulo e uma sensação mais forte depende de estímulos mais fortes; no entanto o estímulo provoca a sensação somente mediante a ação intermediária de alguns processos internos do corpo. Na medida em que sejam encontradas relações regidas por lei entre a sensação e o estímulo, elas devem incluir as relações entre o estímulo e essa atividade física interna, que obedecem às mesmas leis gerais da interação dos processos corporais e, assim, fornecer-nos a base para as conclusões gerais sobre a natureza dessa atividade interna. (...)

De algum modo, à parte das implicações resultantes da psicofísica interna, essas relações regi­ das por lei, que podem ser examinadas na área da psicofísica externa, são dotadas de importância própria. Baseada nelas, como devemos ver, a medição física produz uma medição psíquica, na qual podemos levantar argumentos interessantes e importantes.



No começo do século XIX, o filósofo alemão Immanuel Kant insistia em afirmar que a psicologia nunca poderia ser considerada ciência porque era impossível medir - ou realizar experiências com - os processos psicológicos. Em virtude do trabalho de Fechner, que ao contrário, tornou possível a medição do fenômeno mental, a alegação de Kant não era mais levada a sério. E foi principalmente com base na pesquisa psicofísica de Fechner jje Wilhelm Wundt concebeu sua teoria da psicologia experimental. Os métodos usados por Fechner mostraram-se aplicáveis a uma ampla variedade de problemas psicológicos nunca imaginados. E o mais importante de tudo: Fechner deu à psicologia aquilo que toda disciplina deve possuir para ser chamada de ciência: técnicas de medição coerentes e precisas.

A Fundação Oficial da Psicologia

Em meados do século XIX, os métodos das ciências naturais estavam sendo empregados para pesquisar fenômenos puramente mentais. Técnicas foram desenvolvidas, aparelha­gens foram criadas, livros importantes foram escritos e o interesse crescente se espalhava. Os astrônomos e filósofos empiristas britânicos enfatizavam a importância dos sentidos, e os cientistas alemães descreviam o seu funcionamento. O espírito intelectual positivista do período, o Zeitgeist, incentivava a convergência dessas duas linhas de pensamento. No entanto, ainda faltava alguém que pudesse uni-las e "fundar" a nova ciência. Wilhelm Wundt foi quem deu esse toque final.

Psicologia - História da Psicologia
12/31/2019 12:45:41 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
As influências filosóficas na Psicologia

Parecia um pato, grasnava como um pato, esticava as pernas para se levantar quando seu cuidador estendia as mãos oferecendo grãos de milho, esticava o pescoço para pegar o milho com seu bico, e o engolia, como faz um pato. E depois, excretava numa travessa de prata - como um pato. Só que não era um pato, pelo menos não de verdade. Era um pato mecânico, uma máquina cheia de alavancas e dentes de engrenagem e molas que faziam com que se movimentasse, imitando o comportamento de um pato. Só uma das asas continha mais de 400 partes. Foi considerado uma das grandes maravilhas da época.

O ano era 1739, e o lugar, Paris, França. O pato me­cânico levou a Paris um grande número de pessoas de muitos países europeus. As pessoas se admiravam com o fato de que os inventores pudessem fabricar coisas como se fosse uma criação natural. Elas o observavam movendo-se, alimentando-se e engolindo os grãos e defecando, maravilhados de que uma máquina gloriosa, miraculosa havia tornado isso possível. Até o grande filósofo Voltaire notou o pato e escreveu: "Sem o pato cagão, não haveria nada para nos lembrar da glória da França" (Voltaire, apud Wood, 2002, p. 27).

Bem, você pode perguntar, e daí? Por que esse brinque­do mecânico foi considerado uma maravilha? Atualmente podemos ver coisas muito mais complicadas e semelhantes à realidade em qualquer parque de diversão. Mas lembre-se de que isso foi no século XVIII, e tal aparelho havia raramente sido visto. O interesse do público em geral pelo fantástico pato francês fazia parte de uma nova fascinação por todos os tipos de máquinas que esta­vam sendo inventadas e aperfeiçoadas para uso na ciência, indústria e entretenimento.

O Espírito do Mecanicismo

Em toda a Inglaterra e na Europa ocidental, uma grande quantidade de máquinas era empregada nas tarefas diárias para complementar a força muscular do homem. Bombas, alavancas, guindastes, rodas e engrenagens moviam os moinhos de água e de vento para moer grãos, serrar toras de madeira, tecer fios e executar outros trabalhos manuais, liber­tando a sociedade da dependência da força humana. As máquinas tornaram-se familiares às pessoas de todos os níveis sociais, desde o mais humilde até o aristocrata, e logo foram aceitas como parte natural da vida cotidiana.

Nos jardins reais, instrumentos mecânicos estavam sendo construídos para oferecer formas extravagantes de entretenimento. A água que percorria uma tubulação subterrânea acionava as figuras mecânicas, fazendo-as realizar vários movimentos inusitados, tocar instrumentos musicais e produzir sons que imitavam a fala humana. À medida que as pessoas passeavam pelos jardins, elas acidentalmente pisavam em placas de pressão es­condidas, ativando os mecanismos, enviando água por meio da tubulação para ativar as figuras. Entretanto, dentre todas as invenções, o relógio mecânico foi a de maior impacto no pensamento científico.

Mas qual a relação existente entre o desenvolvimento maciço da tecnologia e a história da psicologia moderna? Afinal, referimo-nos a um período 200 anos anterior à fundação formal da psicologia como ciência, bem como à física e à mecânica, disciplinas há muito excluídas do estudo da natureza humana. No entanto, a relação é inevitável e direta, já que os princípios incorporados nas movimentadas e ruidosas máquinas, nas figuras e nos relógios mecânicos do século XVII exerceram grande influência na direção tomada pela nova psicologia.

O Zeitgeist dos séculos XVII ao XIX consistiu na base que nutriu a nova psicologia. O espírito do mecanicismo, que enxerga o universo como uma grande máquina, foi o fun­damento filosófico do século XVII, ou seja, a sua força contextuai básica. Essa doutrina afirmava serem os processos naturais mecânicos e passíveis de explicação por meio das leis da física e da química.  

A ideia do mecanicismo originou-se na física, chamada na época de filosofia naturalista, como resultado do trabalho do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642) e do matemático e físico inglês Isaac Newton (1642-1727), que possuía alguma experiência como relojoeiro. A teoria afirmava que qualquer objeto existente no universo era composto de partículas de matéria em movimento. De acordo com Galileu, a matéria formava-se de discretos corpúscu­los ou átomos que afetavam uns aos outros mediante o contato direto. Mais tarde, Newton aperfeiçoou a visão mecanicista de Galileu, postulando que o movimento não resultava do contato físico direto, mas das forças de atração e repulsão que atuavam sobre os átomos. A ideia de Newton, embora importante para a física, não mudou radicalmente o conceito básico mecanicista nem a forma como fora aplicado nos problemas de origem psicológica. Se o uni­verso é constituído de átomos em movimento, então qualquer efeito físico (movimento de cada átomo) resulta de uma causa direta (movimento do átomo que o atinge). Como o efeito está sujeito às leis da medição, deveria ser previsível. O funcionamento do universo físico era comparado ao do relógio ou ao de qualquer boa máquina, ou seja, era organizado e preciso. No século XVII, os cientistas atribuíam a "causa" e a "perfeição" a Deus - que projetou o uni­verso com perfeição - e acreditavam que, se conseguissem dominar as leis de funcionamento do universo, seriam capazes de prever seu comportamento futuro.

Nesse período, os métodos e as descobertas da ciência avançavam a passos largos com a tecnologia, e a combinação entre eles foi perfeita. A observação e a experimentação tornaram-se os diferenciais da ciência, seguidas de perto pela medição. Os especialistas tentavam definir e descrever os fenômenos, atribuindo-lhes um valor numérico, processo vital para o estudo do funcionamento do universo como uma máquina. Os termômetros, os barômetros, as réguas de cálculo, os micrômetros, os relógios de pêndulo e outros dispo­sitivos de medição eram aperfeiçoados e reforçavam a ideia da possibilidade de se medir qualquer aspecto do universo natural. Até mesmo o tempo, considerado impossível de ser reduzido em unidades menores, já podia ser medido com precisão.

A medição exata do tempo teve consequências tanto práticas como científicas. "Sem os instrumentos precisos para o acompanhamento do tempo não seria possível medir os pequenos incrementos no intervalo decorrido entre as observações e, portanto, a conso­lidação dos avanços no conhecimento científico não começou apenas com a ajuda do telescópio ou do microscópio" (Jardine, 1999, p. 133-134). Além disso, os astrônomos e os navegadores necessitavam de aparelhos precisos de medição do tempo para registrar com exatidão os movimentos dos astros. Essas informações eram vitais para a localização dos navios em alto-mar

O Universo Mecânico

O relógio mecânico foi a metáfora perfeita para o espírito do mecanicismo do século XVII. O historiador Daniel Boorstin referia-se ao relógio como a "mãe das máquinas" (Boorstin,' 1983, p. 71). O relógio foi a sensação tecnológica do século XVII, assim como o computa­dor no século XX. Nenhum dispositivo mecânico provocou tanto impacto no pensamento humano e em todos os níveis da sociedade. Na Europa, os relógios eram produzidos em grande quantidade e variedade.

Alguns eram suficientemente pequenos, podendo ser colocados em cima da mesa, ou até mesmo carregados por uma pessoa. Com o avanço tecnológico, foram desenvolvidos relógios portáteis, pequenos o suficiente para serem carregados por toda a parte. No início, eles eram colocados em uma corrente em volta do pescoço, como símbolo de riqueza! 

Eles tornaram-se tal símbolo de status que membros das seitas calvinistas e puritanos, "opondo-se a tal ostentação, começaram a carregá-los em seus bolsos. Assim, nasceu o relógio de bolso, popular até mesmo no século XX" (Newton, 2004, p. 62).

Os relógios maiores, instalados nas torres das igrejas e nos edifícios públicos, podiam ser vistos e ouvidos a quilômetros de distância. Desse modo, relógios tornaram-se acessíveis a todos, independente da classe social ou situação econômica.

Em virtude da regularidade, previsibilidade e exatidão dos relógios, os cientistas e filósofos começaram a enxergá-los como modelos para o universo físico. Talvez o próprio universo fosse um imenso relógio fabricado e colocado em operação pelo Criador. Os cientistas, como o físico britânico Robert Boyle, o astrônomo alemão Johannes Kepler e o filósofo francês René Descartes, acreditavam nessa ideia e aceitavam a explicação da har­monia e da ordem do universo baseada na regularidade do relógio, ou seja, o mecanismo é fabricado cuidadosamente pelo relojoeiro, assim como o universo foi arquitetado por Deus para funcionar com regularidade.

O filósofo alemão Christian von Wolff declarou: "O comportamento do universo não é diferente do funcionamento do mecanismo do relógio”. Seu aluno Johann Cristoph Gottsched ainda acrescentou: "Como o universo é uma máquina, ele é semelhante ao relógio; e, assim, o relógio permite-nos compreender em pequena escala o funcionamento em grande escala do universo" (Gottsched, apud Maurice e Mayr, 1980, p. 290 ).

Determinismo e Reducionismo

Comparado com o mecanismo do relógio, o universo funcionava perfeitamente sem qual­quer interferência externa, já que fora criado e colocado em funcionamento por Deus. Desse modo, a comparação do universo com o relógio abrange a ideia do determinismo, mais especificamente, a crença de que qualquer ação é determinada pelos eventos do passado. Em outras palavras, é possível prever as mudanças que ocorrem na operação do relógio, assim como no universo, com base na sequência e na regularidade do funciona­mento das peças.

Não era difícil perceber a estrutura e o funcionamento do relógio. Era fácil desmon­tá-lo e verificar exatamente a operação das engrenagens. Essa ideia levou os cientistas a popularizarem o conceito de reducionismo. Para compreender o mecanismo operacional das máquinas como o relógio, bastava reduzi-las aos componentes básicos.

Do mesmo modo, para entender o universo físico (que, afinal, nada mais era do que uma máquina), bastava analisá-lo ou reduzi-lo às partes mais simples, ou seja, às molécu­las e aos átomos. Assim, o reducionismo acabou caracterizando toda a ciência, inclusive a nova psicologia.

Algumas questões óbvias foram levantadas: se a metáfora do relógio e os métodos científicos podiam ser usados para explicar o funcionamento do universo físico, seriam adequados também para estudar a natureza humana? Se o universo era uma máquina organizada, previsível, observável e mensurável, o ser humano igualmente o seria? Seriam as pessoas e até mesmo os animais também alguma espécie de máquina?

O Robô

As figuras movidas pela força da água nos jardins já serviam de modelo para os intelectuais e aristocratas do século XVII, assim como os relógios para as pessoas comuns. À medida que a tecnologia era aprimorada, aparelhagens mais sofisticadas, desenvolvidas para imitar as atitudes e os movimentos humanos, eram disponibilizadas para o entretenimento da população em geral. Esses aparelhos foram chamados de robôs e eram dotados de capaci­dade para realizar movimentos incríveis e inusitados com precisão e regularidade.

O robô já fora desenvolvido muito antes do século XVII, pois foram encontradas descrições de figuras mecanizadas nos antigos manuscritos gregos e árabes. Os chineses também se destacaram na construção dos robôs, já que sua literatura relata a existência de animais e peixes mecânicos, além de figuras humanas criadas para servir vinho, carregar xícaras de chá, cantar, dançar e tocar instrumentos musicais. No século VI, um enorme relógio foi construído na atual região da Palestina e, de hora em hora, a cada badalada, um conjunto sofisticado de figuras mecânicas entrava em movimento. Assim, a arte da criação de robôs espalhou-se por todo o mundo islâmico (Rossum, 1996). No entanto, mais de mil anos depois, no século XVII, os robôs desenvolvidos pelos cientistas, intelec­tuais e artesãos do oeste europeu foram considerados novidade. O importante trabalho das antigas civilizações havia se perdido.

Os dois robôs mais complexos e sofisticados desenvolvidos na Europa foram um pato e um flautista. O flautista não apenas emitia o som típico dos brinquedos musicais, como efetivamente tocava o instrumento. Com mais ou menos l,67m em pé, altura média do homem da época, o robô compreendia uma peça mecanizada que reproduzia cada mús­culo. cada ligamento ou outra parte do corpo necessária para tocar a flauta.

Nove foles bombeavam no peito do robô a quantidade necessária de ar, de acordo com o tom a ser executado dentre os 12 programados. O ar era empurrado por um tubo correspondente à traqueia humana e entrava na boca, onde era controlado pela língua e pelos lábios mecânicos antes de chegar à flauta dando assim a impressão de que o boneco estava assim respirando os dedos abriam-se e fechavam-se sobre os orifícios do instrumento para produzirem os sons exatos. Ambos os robôs "obscureceram a linha divisória entre o homem e a máquina e entre o ser animado e o inanimado.

Hoje os robôs podem ser vistos nós principais parques de várias cidades europeias nas quais figuras mecânicas dos relógios das torres dos edifícios públicos marcha, em círculo tocam tambores e batem nos sinos com os martelos a cada quarto de hora. Na catedral de Estrasburgo, na França, representações de figuras bíblicas reverenciam a Virgem Maria a cada hora enquanto um galo abre o bico, põe a língua para fora, bate as asas e canta. Na catedral de Wells, na Inglaterra, partes de cavaleiros vestidos de armaduras simulam uma batalha. Quando um relógio toca, a cada hora, um cavaleiro derruba o outro do cavalo. No Museu Nacional de Munique, na Alemanha, há um papagaio de cerca de 40 cm de altura e, quando o relógio toca, de hora em hora, ele assobia, bate as asas mecânicas, vira os olhos e deixa cair uma bolinha de aço do seu rabo.

No Museu Nacional de História Americana, em Washington, DC, há um monge de mais ou menos 40 cm de altura programado para se mover dentro de um espaço de mais ou menos 60 cm. Seus pés parecem movimentar-se sob o hábito, mas na verdade a estátua se move sobre rodas. E ele ainda bate com um braço no peito e com o outro acena, mexe a cabeça de um lado para outro, além de abrir e fechar a boca.

Os filósofos e cientistas da época acreditavam na tecnologia mecânica como uma forma de realizar o sonho da criação do ser artificial e, nitidamente, muitos dos primeiros robôs davam essa impressão. Podemos pensar neles como os bonecos Disney da época e é fácil entender por que as pessoas chegaram à conclusão de que os seres vivos eram sim­plesmente outro tipo de máquina.

As Pessoas como Máquinas

O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) escreveu "para que serve o coração, senão uma mola; os nervos, senão outras tantas cordas; as juntas senão outras tantas rodas, imprimindo movimento ao corpo todo" (Hobbes, apud Zimmer, 2004, p. 97).

Descartes e outros filósofos adotaram os robôs como modelos para os seres humanos. Para eles, o ser humano funcionava assim como o universo, ou seja. igual ao mecanismo do relógio. Descartes declarou não ser essa ideia “tão estranha assim àqueles acostumados com diferentes robôs ou máquinas que se movem, fabricados pela indústria dos homens (...) essas pessoas consideram o corpo humano uma máquina criada pelas mãos de Deus, e incomparavelmente mais bem organizada e perfeita para realizar os movimentos mais admiráveis do que qualquer outro mecanismo inventado pelo homem" (Descartes, 1637/1912, p. 44). As pessoas podem até ser melhores e mais eficientes do que os meca­nismos produzidos pelos relojoeiros, mas continuam sendo máquinas.

Um fisiologista e físico italiano, Giovanni Borelli (1608-1679) escreveu um livro de dois volumes intitulado On the movement of animais (publicados após sua morte em 1680-1681), para explicar o movimento animal de acordo com os princípios mecanicistas.

Borelli tratava o corpo como um sistema de alavancas acionado por forças exercidas pelos mús­culos, e analisou geometricamente como os músculos no corpo humano agiam ao andar e correr. Também descreveu em termos matemáticos o voo dos pássaros e o movimento dos peixes ao nadar. Mas o ponto mais importante é que ele não estabeleceu um lugar especial para a humanidade, distinto dos outros animais. O corpo humano era semelhante a uma máquina formada por uma série de alavancas (Gribbin, 2002, p. 145).

Desse modo, os relógios e os robôs abriram o caminho para a noção de que o fun­cionamento e o comportamento humanos obedeciam às leis mecânicas e os métodos experimentais e quantitativos, tão eficazes na descoberta dos segredos do universo físico, seriam igualmente aplicáveis ao estudo da natureza humana. Em 1748, o médico fran­cês Julien de La Mettrie (que morreu de ingestão excessiva de faisão e trufas) relatou a alucinação que tivera durante uma crise de febre alta. O sonho convenceu-o de que as pessoas eram máquinas, porém mais sofisticadas, assim como um relógio automático (Mazlish, 1993).

Essa ideia tornou-se a força motriz do Zeitgeist na ciência e na filosofia e durante muito tempo alterou a imagem predominante da natureza humana, mesmo entre a população em geral. Por exemplo: durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), um oficial do exército do norte, comentando sobre a morte de um amigo, disse não haver restado nada "além da máquina destruída que um dia a alma havia colocado em movimento" (Lyman, apud Agassiz, 1922, p. 332).

A figura do ser humano robotizado permeou os romances e as histórias infantis do sécu­lo XIX e início do século XX. A ideia da criação de máquinas à imagem e semelhança das figuras humanas exercia grande fascínio. O escritor dinamarquês Hans Christian Andersen escreveu The nightingale, que tinha como personagem um pássaro mecânico. A principal personagem do livro eternamente popular da romancista inglesa Mary Wollstonecraft Shelley, Frankenstein, é um ser metade monstro metade máquina que acaba destruindo o seu criador. Os famosos livros infantis Oz, do escritor americano L. Frank Baum, que inspiraram o clássico filme O mágico de Oz, estão repletos de seres mecânicos.

E assim, o legado dos séculos XVII ao XIX inclui o conceito do funcionamento do homem como uma máquina e a aplicação do método científico na investigação do compor­tamento humano. O homem era comparado às máquinas, predominava a visão científica e a vida era regida pelas leis da mecânica. Em linhas gerais, o mecanicismo também se aplicava ao funcionamento mental humano e o produto final foi uma máquina suposta­ mente capaz de pensar.

A Máquina Calculadora

Charles Babbage (1791-1871) era fascinado por relógios e robôs quando garoto. O objeto de desejo pelo qual tinha enorme atração era uma bailarina mecânica, que acabou adqui­rindo muitos anos depois. Babbage era muito inteligente e tinha talento especial para matemática, que estudou por conta própria na adolescência. Quando se matriculou na Cambridge University, ficou decepcionado ao descobrir que sabia mais matemática do que os próprios professores. Mais tarde tornou-se professor de matemática da Cambridge e membro da Royal Society, tendo sido um dos intelectuais mais conhecidos da sua época. O trabalho a que se dedicou a vida inteira foi o desenvolvimento de uma máquina calcu­ladora capaz de realizar as operações matemáticas mais rapidamente que o homem e que permitisse imprimir os resultados. Em busca desse objetivo, Babbage acabou formulando os princípios básicos do computador moderno.

Enquanto os robôs imitavam os atos físicos humanos, a calculadora de Babbage simu­lava as ações mentais. Além de tabular os valores das funções matemáticas, a máquina dispunha de recursos para jogar xadrez, damas e outros jogos. Era até mesmo dotada de memória para armazenar os resultados parciais usados posteriormente para completar o cálculo. Babbage batizou a calculadora de "a máquina da diferença” e referia-se a si mesmo como "o programador”. A máquina compreendia cerca de 2 mil peças de aço e de bronze, como hastes, engrenagens e discos, montadas com perfeição e movidas ou colocadas em funcionamento por uma manivela manual. A calculadora de Babbage, que funciona até hoje, marcou o início do desenvolvimento dos modernos e sofisticados computadores. Ela representou um grande marco na tentativa de simular o pensamento humano para fabricar um mecanismo que demonstrasse uma inteligência "artificial".

Um dos biógrafos mais recentes de Babbage fez a seguinte observação: "A importância da automatização da máquina não deve ser superdimensionada. No entanto, a utilização da manivela manual, ou seja, a aplicação da força física, permitiu, pela primeira vez na história, a obtenção de resultados possíveis até então apenas pelo esforço mental, isto é, pelo pensamento. Foi a primeira tentativa de êxito em exteriorizar a faculdade do pensa­mento em uma máquina inanimada" (Swade, 2000, p. 83).

Babbage resolveu promover a nova máquina junto às pessoas mais influentes da época, a fim de obter apoio para construir um dispositivo ainda mais aperfeiçoado. Organizou grandes festas na sua residência de Londres, com até 300 convidados pertencentes à elite social, intelectual e política. Charles Darwin e o escritor Charles Dickens foram alguns dos convidados. Personalidades importantes faziam questão de serem vistas na casa do brilhante contador de anedotas, inventor e celebridade, e de estarem na presença de Bab­bage, ao lado da extraordinária máquina. Entretanto, a máquina completa era volumosa demais para ser exibida na casa. Assim, Babbage construiu um modelo de parte dela e colocava-o em funcionamento para entreter os visitantes. Tinha aproximadamente 76 cm de altura, 61 cm de largura e 61 cm de profundidade.

Depois de 10 anos, Babbage foi forçado a abandonar seu trabalho com a máquina da diferença, pois o governo retirou seu apoio por causa dos altos custos. Um funcionário do governo britânico disse que se a máquina algum dia fosse terminada, deveria "pri­meiramente calcular quanto dinheiro havia sido gasto para construí-la!" (apuei Green, 2001, p. 136).

Babbage passou a se dedicar ao planejamento de um aparelho maior, que chamou de "máquina analítica", que podia ser programada com o uso de cartões perfurados e era dotada de uma memória separada, além da capacidade de processamento de dados. Também possuía uma saída para a impressão dos resultados das tabulações. A máquina analítica foi comparada ao "computador digital para fins gerais" (Swade, 2000, p. 115). Infelizmente a máquina jamais foi construída por falta de fundos. O governo recusou envolver-se com os projetos de Babbage novamente.

Uma das leais patrocinadoras de Babbage e das raras pessoas que conheceram a ope­ração da máquina era a jovem e prodigiosa matemática de 18 anos, Ada, a Condessa de Lovelace (1815-1852). Babbage a chamava de minha "muito admirada intérprete" (Babbage apuá Campbell-Kelly; Aspray, 1996, p. 57). Era muito raro na época uma mulher estudar matemática. As mulheres eram consideradas frágeis demais para lidarem com um objeto de estudo tão complexo. Ada Lovelace completou os estudos com professores particulares, já que as mulheres eram proibidas de frequentar os cursos universitários.

Ela publicou uma clara explicação a respeito do funcionamento da máquina calcu­ladora e também sobre as possíveis aplicações e implicações filosóficas. Além disso, foi a primeira a reconhecer a principal limitação de uma máquina "pensante”: ela não é capaz, por iniciativa própria, de criar ou desenvolver nada novo - executa apenas o que está programada para fazer.

É importante saber que Babbage jamais afirmou explicitamente que sua máquina podia pensar, mas também não dissuadia os outros de fazerem tal afirmação. Um historiador escreveu que Babbage invariavelmente referia-se às ações de sua máquina como capazes de refazer" ou "substituir" determinados tipos de atividades mentais, por exemplo, desem­penhar cálculos matemáticos mais rapidamente do que humanos (veja Green, 2005).

Babbage perdeu a motivação quando não conseguiu mais obter financiamento para o seu trabalho. E após a morte prematura de Ada, com pouco mais de 30 anos, tornou-se amargurado e ressentido. Repetidamente dizia que jamais havia vivido um dia feliz em toda a sua vida. Ele odiava a humanidade de um modo geral, os ingleses em especial, e o governo inglês e os tocadores de órgãos de rua ainda mais" (Morrison e Morrison, 1961, p. 13). Sua luta contra os tocadores de órgão e outros músicos de rua lhe deram notorie­dade considerável entre os moradores de Londres, muitos dos quais o consideravam um "louco". Frequentemente ele escrevia cartas de protesto aos jornais, queixando-se de que o barulho vindo da rua reprimia seus poderes mentais e interferia no seu trabalho.

De modo geral, acreditava que os esforços para desenvolver a máquina calculadora haviam sido em vão e que nunca seria reconhecido pela sua contribuição. No entanto, Babbage recebeu amplo reconhecimento pelo seu trabalho. Em 1946, quando o primeiro computador totalmente automático foi desenvolvido na Harvard University, um pioneiro do computador referiu-se ao acontecimento como a concretização do sonho de Babbage.

Em 1991, para comemorar o bicentenário de seu nascimento, um grupo de cientistas britânicos construiu a réplica de uma das sonhadas máquinas de Babbage, com base nos seus desenhos originais. O aparelho consiste de 4 mil peças, pesa 3 toneladas e realiza cálculos com perfeição (Dyson, 1997).

Charles Babbage, que personificou no século XIX a noção do funcionamento do homem como uma máquina, estava evidentemente muito à frente da sua época. Sua calculadora, precursora dos modernos computadores, representou a primeira tentativa de sucesso na reprodução do processo cognitivo humano e no desenvolvimento de uma forma de inteligência artificial. Os cientistas e os inventores da sua época previram que os usos das máquinas seriam ilimitados, assim como as funções humanas que seriam capazes de executar.

Os Primórdios da Ciência Moderna

Observamos que o século XVII testemunhou uma evolução extremamente abrangente e diversificada na ciência. Até então, os filósofos buscavam as respostas no passado, nos trabalhos de Aristóteles e de outros pensadores da Antiguidade, e na Bíblia. As forças que regiam a investigação consistiam no dogma (na doutrina imposta pela igreja estabelecida) e na autoridade. No século XVII, nova força ganhava importância: o empirismo, a busca do conhecimento por meio da observação e da experimentação. O conhecimento extraído do passado tornara-se suspeito, dando lugar aos anos dourados iluminados pelas descobertas e percepções científicas que refletiam a mudança na natureza da investigação científica. Entre os vários estudiosos que marcaram o período, destaca-se o matemático francês René Descartes, que contribuiu diretamente para a história da psicologia moderna. Seu trabalho ajudou a libertar a investigação científica do controle rígido das crenças intelec­tuais e teológicas dos séculos passados. Descartes simbolizou a transição científica para a era moderna e aplicou a noção do mecanismo do relógio ao corpo humano. Por esse motivo, muitos afirmam ter ele inaugurado a era da psicologia moderna.

René Descartes (1596-1650)

Descartes nasceu na França, em 31 de março de 1596, e herdou do pai recursos suficientes para manter uma vida confortável, com busca no conhecimento intelectual e viagens. De 1604 a 1612, frequentou uma escola jesuíta, onde estudou matemática e ciências humanas. Demonstrava também grande talento para a filosofia, física e fisiologia. Em virtude da fragilidade da sua saúde, Descartes era dispensado das missas matutinas e lhe era permi­tido dormir até a hora do almoço, hábito que manteve por toda a vida. Foi durante essas tranquilas manhãs que desenvolveu suas ideias mais criativas.

Ao completar a educação formal, decidiu experimentar os prazeres da vida parisiense. Com o tempo, acabou entediado e decidiu levar uma vida mais calma, dedicando-se ao estudo da matemática. Aos 21 anos, serviu como voluntário nos exércitos da Holanda, da Bavária e da Hungria e ficou conhecido como um espadachim ousado e habilidoso. Adorava dançar e jogar e provou ser um talentoso jogador por causa de sua habilidade matemática.

Descartes tinha atração por mulheres estrábicas e, com base nisso, ele oferecia a seguinte explicação às pessoas que se apaixonam. Ele escreveu: "Quando era menino, eu me apaixonei por uma garota um pouco estrábica, e por muito tempo depois disso, sempre que via alguém com estrabismo, eu me apaixonava por ela.... Assim, se amamos alguém sem saber por que, podemos assumir que essa pessoa, de algum modo, é seme­ lhante àquela pessoa que amamos anteriormente, mesmo que não saibamos exatamente o motivo" (Descartes, apud Buckley, 2004, p. 107-108).

Sua única ligação amorosa duradoura foi um romance de três anos com uma mulher holandesa, Helene Jans, que lhe deu uma filha, Francine. Descartes adorava essa criança e ficou com o coração partido quando ela morreu em seus braços aos 5 anos de idade. Um biógrafo escreveu que Descartes ficou desconsolado, passando pelos "mais profundos sentimentos de arrependimento que jamais sentiu em sua vida" (apud Rodis-Lewis, 1998, p. 141). Descartes continuou solteiro até o final de sua vida.

Descartes tinha profundo interesse em aplicar o conhecimento científico às questões prá­ticas. Pesquisava meios para evitar o embranquecimento dos cabelos e tentou aperfeiçoar as manobras de uma cadeira de rodas para deficientes físicos. Ele também antecipou a noção de condicionamento em cachorros, cerca de 200 anos antes de Pavlov ter refinado seu conceito (veja no Capítulo 9). De acordo com um biógrafo, Descartes, em 1630, contou a um amigo que "depois de chicotear um cachorro seis ou oito vezes ao som de um violino, seu simples som já faz o cachorro chorar e tremer de medo" (apud Watson, 2002, p. 168).

Durante o período em que serviu o exército, Descartes teve vários sonhos que muda­ram sua vida. Conforme seu relato, passou o dia 10 de novembro sozinho em um quarto com aquecedor, mergulhado em pensamentos sobre a matemática e a ciência. Acabou adormecendo e, no sonho, que mais tarde ele mesmo interpretou, foi repreendido pela sua ociosidade. O "espírito da verdade" invadiu a sua mente e convenceu-o a dedicar o trabalho da sua vida à proposta de aplicação dos princípios matemáticos a todas as ciências, produzindo, assim, o conhecimento inquestionável. Resolveu duvidar de tudo, principalmente dos dogmas e das doutrinas do passado e aceitar como verdade apenas o que tivesse absoluta certeza.

De volta a Paris, mais uma vez achou a vida dispersiva demais, resolveu vender as pro­priedades herdadas do pai e mudou-se para uma casa de campo na Holanda. Sua necessidade de isolamento era tamanha que, em 20 anos, morou em 13 cidades e em 24 casas diferentes, mantendo em segredo o endereço, revelando-o apenas para os amigos mais íntimos, com quem mantinha correspondência frequente. Parece que sua única exigência era ficar próximo de uma igreja católica romana e de uma universidade. De acordo com um biógrafo, o lema de Descartes era: "Vive bem aquele que vive bem escondido" (Gaukroger, 1995, p. 16).

Um biógrafo mais recente descreveu Descarte nessa fase de sua vida como: 

uma pessoa de grande autoestima e de enorme ambição... um homenzinho orgulhoso, nervoso, egoísta. Dogmático a respeito de seus pontos de vista, considerava todos os que discordavam dele como equivocados ou simplórios. Era desconfiado, facilmente ofendia-se e ficava enraivecido e demorava para se acalmar. Insistia que não se deixava afetar pelos ataques pessoais, mas jamais esquecia um insulto, um menosprezo ou uma ofensa. (Watson, 2002, p. 165-188)

Descartes escreveu muitos trabalhos relacionados com a matemática e a filosofia, e sua crescente fama chamou a atenção da jovem princesa Cristina, da Suécia, na época com 20 anos, que lhe pediu para ministrar aulas de filosofia. Embora relutasse muito em abrir mão da liberdade e da privacidade, e temesse acabar falecendo na Suécia, sempre teve grande respeito pelas prerrogativas reais.

Em 7 de setembro de 1649, Descartes subiu a bordo de um navio, "vestido com seu terno verde e novo, com colarinho branco, luvas enfeitadas de renda, peruca encaracolada, e botas com bico virado para cima," preparado para a viagem de um mês para Estocolmo (Watson, 2002, p. 290). Sua aparência, no entanto, não agradou à corte real. A rainha insistia em ter suas aulas às 5 da manhã, em uma biblioteca pobremente aquecida, du­rante um inverno extremamente rigoroso. Descartes escreveu a um amigo, dizendo: "Não me sinto feliz aqui e a única coisa que desejo é paz e tranquilidade" (apud Rodis-Lewis, 1998, p. 196). Para outro amigo ele escreveu: "Acho que no inverno os pensamentos das pessoas daqui congelam, como a água" (apud Watson, 2002, p. 304). Cada vez mais frágil Descartes suportou as madrugadas e o frio intenso por quase quatro meses até contrair pneumonia. Faleceu em 11 de fevereiro de 1650.

Um interessante relato pós-morte de um homem que, como veremos mais adiante, dedicou boa parte do tempo a estudar o problema da relação entre a mente e o corpo diz respeito ao ocorrido com o próprio corpo. Após 16 anos da morte de Descartes, seus amigos decidiram que os despojos deveriam retornar à França. Enviaram à Suécia um caixão que, no entanto, era pequeno demais para conter os restos mortais. Assim, as autoridades suecas decidiram cortar a cabeça e enterrá-la até que outras providências fossem tomadas.

Enquanto os restos mortais de Descartes eram preparados para a viagem de retorno a casa, o embaixador francês na Suécia resolveu guardar um souvenir e cortou-lhe o dedo indicador direito. O corpo, agora sem a cabeça e sem um dedo, foi sepultado em Paris em meio a muita pompa e cerimônia. Algum tempo depois, um oficial do exército sueco desenterrou o crânio de Descartes e guardou-o de lembrança. Durante 150 anos, ele pas­sou de um colecionador sueco para outro até ser finalmente enterrado em Paris. Os cadernos e os manuscritos de Descartes foram enviados para Paris depois da sua morte. Mas o navio afundou pouco antes de atracar e os papéis ficaram submersos por três dias. O trabalho de restauração levou 17 anos para tornar possível a publicação des­ses documentos.

As Contribuições de Descartes: o Mecanicismo e o Problema Mente-corpo

O trabalho mais importante de Descartes para o desenvolvimento da psicologia moderna foi a tentativa de resolver o problema mente-corpo, uma questão controversa durante séculos. Ao longo de vários períodos, os intelectuais discutiam como a mente - ou as qua­ lidades mentais - podia ser diferenciada do corpo e de todas as demais qualidades físicas. A questão básica, simples, porém enganosa, é esta: a mente e o corpo, isto é, o universo mental e o mundo material são de naturezas distintas? Por milhares de anos os intelectuais adotaram posturas dualistas, com o argumento de que a mente (a alma ou o espírito) e o corpo são de naturezas diferentes. Entretanto, a aceitação da posição dualista levanta outras questões: se a mente e o corpo são de naturezas diferentes, qual é a relação existente entre eles? Como interagem? São independentes ou influenciam-se mutuamente?

Antes de Descartes, a teoria predominante afirmava ser a interação entre a mente e o corpo essencialmente unilateral. A mente era capaz de exercer grande influência sobre o corpo, enquanto este exercia pouco efeito sobre a mente. Um historiador sugeriu a seguinte analogia para a explicação dessa visão: a relação entre o corpo e a mente é semelhante àquela entre a marionete e seu manejador. A mente é como o manipulador puxando as cordas do corpo.

Descartes aceitava essa posição; na sua visão, a mente e o corpo eram realmente com­postos de diferentes essências. Todavia, ele se desviou da tradição ao redefinir essa rela­ção. Na teoria da interação mente-corpo de Descartes, a mente influencia o corpo, mas a influência deste sobre a mente era maior do que se acreditava. A relação não era apenas unilateral, mas mútua. Essa proposta, considerada radical no século XVII, teve grande repercussão na psicologia.

Depois da publicação da teoria de Descartes, vários estudiosos contemporâneos che­garam à conclusão de que não podiam mais sustentar a noção convencional da mente como o mestre das duas entidades, isto é, como o manejador puxando as cordas, e fun­cionando quase independentemente do corpo. Desse modo, os cientistas e os filósofos passaram a atribuir maior importância ao corpo físico ou material. As funções atribuídas anteriormente à mente começavam a ser consideradas funções do corpo.

Por exemplo: acreditava-se na mente como responsável não apenas pelo pensamento e pela razão, como também pela reprodução, pela percepção e pelo movimento. Descartes rebatia essa crença com o argumento de que a mente exercia uma única função, a do pen­samento. Para ele, todos os demais processos eram funções do corpo.

Dessa forma, Descartes introduziu uma abordagem para a questão que perdurava havia tanto tempo, ou seja, o problema mente-corpo, e concentrou a atenção na duali­dade físico-psicológica. Assim, redirecionou a atenção dos pesquisadores, que passaram do conceito teológico abstrato da alma para o estudo científico da mente e dos processos mentais. Como consequência, houve a transferência dos métodos de investigação da aná­lise metafísica subjetiva para a observação e a experimentação objetiva. As pessoas faziam apenas conjeturas a respeito da natureza e da existência da alma, mas podiam realmente observar as operações e os processos da mente.

Desse modo, os cientistas acabaram aceitando a mente e o corpo como duas entidades separadas. É possível afirmar que a matéria - a substância material do corpo - é dotada de extensão (ou seja, ocupa espaço) e opera de acordo com os princípios mecânicos. A mente, no entanto, é livre, isto é, não possui extensão nem substância física. A ideia revo­lucionária de Descartes afirma que a mente e o corpo, embora distintos, são capazes de interagir dentro do organismo humano. A mente é capaz de exercer influência sobre o corpo do mesmo modo que este pode influenciar a mente.

A natureza do corpo

Na visão de Descartes, o corpo é composto de matéria física, portanto tem características comuns a qualquer matéria, ou seja, possui tamanho e capacidade motora. Sendo uma matéria, as leis da física e da mecânica que regem o movimento e a ação do universo físico aplicam-se também a ele. Logo, o corpo é semelhante auma máquina cuja operação pode ser explicada pelas leis da mecânica que governam o movimento dos objetos no espaço. Seguindo esse raciocínio, Descartes prosseguiu com a explicação do funcionamento fisio­lógico do corpo com base na física.

Descartes foi claramente influenciado pelo espírito mecanicista da época, refletido nos relógios mecânicos e nos robôs. Quando morou em Paris, ficou encantado com as maravilhas mecânicas instaladas nos jardins reais. Passava horas pisando nas placas de pressão para acionar o fluxo de água e ativar as figuras, colocando-as em movimento e fazendo-as emitir sons.

Quando descrevia o corpo humano, fazia referência direta às figuras mecânicas que vira. Comparava os nervos do corpo aos canos dentro dos quais corria a água e os múscu­ los e tendões às engrenagens e molas. Os movimentos do robô não resultavam da ação voluntária da máquina, mas de ações externas, por exemplo, a pressão da água. A natureza involuntária desse movimento refletia-se na observação de Descartes de que os movimen­tos corporais, muitas vezes, ocorrem sem a intenção consciente do indivíduo.

Seguindo essa linha de raciocínio, ele chegou à ideia do undulatio reflexa, um movi­mento não comandado ou não determinado pela vontade consciente de se mover. Com esse conceito, muitas vezes Descartes é definido como o autor da teoria do ato de reflexo. Essa teoria é precursora da moderna psicologia behaviorista de estímulo-resposta (E-R), cuja ideia consiste na possibilidade de um objeto externo (estímulo) provocar uma resposta involuntária, como a perna que salta quando o médico bate no joelho com um pequeno martelo. O comportamento reflexo não envolve pensamento nem processo cognitivo: parece ser completamente mecânico ou automático.

O trabalho de Descartes também serviu de subsídio para a crescente tendência à hipó­tese científica da previsibilidade do comportamento humano. O modo de operação do corpo mecânico pode ser previsto e calculado, desde que os estímulos sejam conhecidos. Em outro exemplo, Descartes comparou o controle do movimento muscular ao funciona­mento mecânico do órgão de um coro que havia visto em uma igreja.

Se tivermos a curiosidade de examinar os órgãos dos coros de igrejas, será possível des­cobrir como os foles empurram o ar para dentro dos receptáculos denominados (prova­velmente por essa razão) câmaras de ar. E saberemos como o ar passa das câmaras para um ou outro tubo, dependendo do movimento dos dedos do organista sobre o teclado. Podemos comparar o coração e as artérias da nossa máquina, que empurram o espírito animal para dentro das cavidades do cérebro, como os foles, que empurram o ar para dentro das câmaras de ar; e os objetos externos, que estimulam certos nervos e fazem com que o espírito contido nas cavidades chegue a determinados poros, com os dedos do organista, que pressionam determinadas teclas e fazem com que o ar passe das câmaras de ar para os tubos específicos, (apud Gaukroger, 1995, p. 279)

Descartes encontrou na fisiologia contemporânea a confirmação para a sua interpre­tação mecânica sobre o funcionamento do corpo humano. Em 1628, o médico inglês William Harvey descobriu os fatores básicos relacionados com a circulação sanguínea no corpo humano. Outros fisiologistas dedicavam-se ao estudo dos processos digestivos; alguns cientistas descobriram que os músculos do corpo trabalhavam em pares opostos e que a sensação e o movimento dependiam, de alguma forma, dos nervos.

Apesar dos grandes avanços dos pesquisadores na descrição das funções e dos proces­sos do corpo humano, muitas vezes as descobertas eram imprecisas ou incompletas. Por exemplo: presumia-se que os nervos consistiam em tubos ocos pelos quais fluía o espírito animal, assim como o fluxo de água percorria os canos para ativar as figuras mecânicas. Todavia nossa preocupação nesse caso não recai sobre a precisão ou perfeição da fisiologia do século XVII, mas no fato de ela servir como base de sustentação para a interpretação mecânica do corpo.

O dogma religioso estabelecido afirmava que os animais eram desprovidos de alma, sendo assim eram comparados aos robôs. Essa teoria preservava a distinção entre os seres humanos e os animais, conceito fundamental para o pensamento cristão. E, se os animais eram robôs e não tinham alma, também não eram dotados de sentimentos. Desse modo, os pesquisadores da época de Descartes conduziam pesquisas com animais vivos, mesmo antes de surgir a anestesia. Um escritor declarou que se entretinha "com os gritos e choros [dos animais], que nada mais eram do que assobios hidráulicos e vibrações das máquinas" (Jaynes, 1970, p. 224). Assim, os animais pertenciam totalmente à categoria dos fenôme­nos físicos. Eram desprovidos de imortalidade, de processos de pensamento e de vontade própria, e seu comportamento era explicado totalmente em termos mecânicos.

A interação Mente-Corpo

De acordo com a teoria de Descartes, a mente é imaterial, ou seja, não tem substância física, mas é provida de capacidade de pensamento e de outros processos cognitivos. Consequen­temente, proporciona aos seres humanos informações a respeito do mundo exterior. Em outras palavras, não apresenta nenhuma das propriedades da matéria, no entanto possui a capacidade do pensamento, característica que a separa do mundo material ou físico.

Como a mente possui a capacidade do pensamento, da percepção e da vontade, de algum modo influencia o corpo e é por ele influenciada. Por exemplo: quando a mente decide realizar um movimento de um lado para o outro, essa decisão é executada pelos músculos, tendões e nervos do corpo. Do mesmo modo, quando o corpo recebe um estí­mulo como a luz ou o calor, a mente reconhece, interpreta esses dados sensoriais e deter­mina a resposta adequada.

Antes de Descartes completar essa teoria sobre a interação mente-corpo, precisou localizar o ponto físico exato do corpo em que ele e a mente interagiam mutuamente. Ele a considerava uma unidade, o que significava que ela deveria interagir com o corpo em apenas um único ponto. Também acreditava que a interação ocorria em alguma parte dentro do cérebro, porque a pesquisa lhe havia demonstrado que as sensações viajavam até ele, onde também se originava o movimento. Estava claro para Descartes que o cérebro era o ponto central das funções da mente e a única estrutura cerebral unitária (ou seja, não era dividida nem duplicada em cada hemisfério) seria o corpo pineal ou conarium. E Descartes considerou lógico ser esse o centro da interação.

Descartes usou os conceitos do mecanicismo para descrever como ocorre a interação mente-corpo. Propôs que o movimento do espírito animal nos tubos nervosos provoca uma impressão no conarium e a partir daí a mente produz a sensação. Em outras palavras, a quantidade de movimentos físicos (o fluxo do espírito animal' produz uma qualidade mental (uma sensação). O contrário também ocorre: a mente cria uma impressão no cona­rium (de algum modo, Descartes nunca forneceu uma explicação clara) e, inclinando-se para uma direção ou outra, a impressão pode provocar o fluxo do espírito animal até os músculos, resultando, assim, no movimento corporal ou físico.

A Doutrina das Ideias

A doutrina das ideias de Descartes também exerceu profunda influência no desenvolvi­mento da psicologia moderna. Ele afirmava ser a mente produtora de dois tipos de ideias: derivadas e inatas. As ideias derivadas surgem da aplicação direta de estímulos externos, tais como o som do sino ou a imagem de uma árvore. Assim, as ideias derivadas (a do sino ou da árvore) são produtos das experiências dos sentidos. As ideias inatas não são produzidas por objetos do mundo externo que invadem os sentidos, mas desenvolvidas pela mente ou pelo consciente. Embora elas possam existir independentemente das sen­sações, é possível que sejam percebidas na presença das experiências adequadas. Entre as ideias inatas identificadas por Descartes estão Deus, o eu, a perfeição e o infinito.

Mais adiante veremos como o conceito das ideias inatas conduziu a teoria nativista da recepção (a ideia de a capacidade de percepção ser inata e não aprendida) e como influenciou a escola de psicologia da Gestalt. Além disso, a doutrina delas é importante por ter inspirado o surgimento da oposição entre os primeiros empiristas e associacionistas, como John Locke, e entre os empiristas posteriores, como Hermann von Helmholtz e Wilhelm Wundt.

O trabalho de Descartes serviu como catalisador das diversas tendências convergentes da nova psicologia. Dentre as contribuições sistemáticas mais importantes, destacam-se:

  • a concepção mecanicista do corpo; a teoria do ato reflexo;
  • a interação mente-corpo;
  • a localização das funções mentais no cérebro; a doutrina das ideias inatas.

Graças a Descartes foi possível compreender a ideia do mecanicismo aplicada ao corpo humano. Tão disseminada estava a filosofia do mecanicismo na definição do Zeitgeist da época, que era inevitável alguém se decidir a aplicá-la à mente humana. Passaremos agora ao estudo desse importante acontecimento: a redução da mente a uma máquina.

As Bases Filosóficas da Nova Psicologia: Positivismo, Materialismo e Empirismo

Auguste Comte (1798-1857)

Em meados do século XIX, 200 anos após a morte de Descartes, terminava o longo período da psicologia pré-científica. Nessa época, o pensamento filosófico europeu foi impregnado por um novo espírito: o positivismo. O conceito e o termo formam a base do trabalho do filósofo francês Auguste Comte que, ao saber da sua morte iminente, declarou que isso seria uma perda irreparável para a humanidade.

Comte empreendeu uma pesquisa sistemática de todo o conhecimento humano. A fim de controlar melhor essa tarefa ambiciosa, decidiu limitar o trabalho a fatos inques­tionáveis, ou seja, aqueles determinados exclusivamente por meio de métodos científicos. Dessa maneira, a visão positivista referia-se a um sistema baseado exclusivamente nos fatos observáveis objetivamente e indiscutíveis. Qualquer objeto de estudo de natureza especulativa, dedutível ou metafísica era considerado ilusório e, assim, rejeitado.

Comte acreditava terem as ciências físicas atingido o estágio positivista, não depen­dendo mais das forças não-observáveis e das crenças religiosas para explicar os fenômenos naturais. Entretanto, para as ciências sociais alcançarem um estágio de desenvolvimento mais avançado, deveriam abandonar as questões e explicações metafísicas e trabalhar exclusivamente com os fatos observáveis. As ideias de Comte eram tão respeitadas que o positivismo tornou-se uma força popular e dominante no Zeitgeist europeu do final dos anos 1800. “Todos eram positivistas ou, pelo menos, alegavam ser" (Reed, 1997, p. 156).

É interessante observar como Comte conseguiu exercer uma influência tão forte e duradoura sobre o pensamento europeu, apesar de seus problemas financeiros e emocio­nais, por exemplo, Comte nunca exerceu uma posição acadêmica formal. Seus escritos não lhe renderam mais do que o suficiente para a sua sobrevivência, complementado com os honorários das palestras e com o que ocasionalmente recebia como presente dos admira­dores. Era brilhante, mas problemático e sofria frequentemente de períodos de demência. Seu biógrafo descreveu estes episódios:

Muitas vezes [ele] ficava agachado atrás das portas e agia mais como um animal do que como um homem (...) Em todo almoço e jantar, declarava-se um soldado do regimento escocês como um daqueles do romance de Walter Scott, e fincava a faca na mesa, exigia um pedaço de lombo de porco cheio de molho e recitava versos de Homero (...) Um dia, quando sua mãe juntou-se [a Comte e sua esposa] para uma refeição, surgiu uma discus­são à mesa e Comte pegou a faca e cortou a garganta. As cicatrizes ficaram para o resto da vida. (Pickering, 1993, p. 392)

Logo cedo em sua carreira, Comte apoiou a noção da igualdade para as mulheres, bem como outras causas feministas, mas mudou de ideia quando casou com uma mulher cheia de vontades e extremamente inteligente. Descreveu seu casamento como o maior erro de sua vida (suas ideias sobre o positivismo foram mais bem-sucedidas do que a sua vida pessoal).

A ampla aceitação do positivismo significava que os intelectuais estudavam dois tipos de proposição, descritos por um historiador da seguinte forma: "Um refere-se aos objetos da razão e consiste na afirmação científica. O outro não tem sentido, ou seja, é irracio­nal!" (Robinson, 1981, p. 333). O conhecimento resultante da metafísica e da teologia era irracional, isto é, "não tinha sentido". Somente o conhecimento derivado da ciência era considerado válido.

Outras ideias filosóficas também sustentavam o positivismo antimetafísico. A doutrina do materialismo assegurava a possibilidade de descrição dos fatos do universo em termos físicos e da sua explicação por meio das propriedades da matéria e da energia. A proposta dos materialistas afirmava ser possível compreender até mesmo a consciência humana com base nos princípios da física e da química. O trabalho dos materialistas relacionado com os processos mentais concentrava-se nas propriedades físicas, mais especificamente nas estruturas anatômicas e fisiológicas do cérebro.

Um terceiro grupo de filósofos, os defensores do empirismo, preocupava-se em descobrir como a mente adquiria o conhecimento. Afirmava ser todo o conhecimento resultante da experiência sensorial. O positivismo, o materialismo e o empirismo vieram a se tornar as bases filosóficas da nova ciência da psicologia. Dentre essas três orientações filosóficas, foi empirismo que desempenhou o papel principal. O empirismo estava relacionado com o desenvolvimento da mente, ou seja, com a forma como ela adquiria o conhecimento.

De acordo com a visão empirista, a mente evolui com o acúmulo progressivo das expe­riências sensoriais. Essa ideia contradiz a visão nativista, exemplificada por Descartes, da existência das ideias inatas. São considerados os principais empiristas britânicos: John Locke, George Berkeley, David Hume, David Hartley, James Mill e John Stuart Mill.

John Locke

John Locke era filho de um advogado e estudou em universidades, em Londres e Oxford, obtendo o título de bacharel em 1656 e o de mestre algum tempo depois. No início ele era um aluno indiferente, divertindo-se com “leituras, romances e escrevendo cartas amorosas para mulheres que, na verdade, nunca procurou. Desenvolveu uma curiosidade amadora a respeito da medicina, enchendo cadernos com receitas que pediam gordura de ouriço e cachorrinhos trinchados. Uma vez tirou o coração de um sapo e olhou o animal ficar pulando até morrer. Locke fazia essas coisas para passar o tempo e não por ter pretensões de praticar a nova ciência" (Zimmer, 2004, p. 241).

Depois de vários anos como aluno, finalmente mostrou um interesse sério em uma área: filosofia natural. Permaneceu em Oxford ainda por mais alguns anos, dando aulas de grego, redação e filosofia, interessando-se mais tarde pela prática da medicina. Desen­volveu interesse pela política e, em 1667, foi a Londres para ser secretário do Conde de Shaftesbury, tornando-se amigo e confidente desse controverso homem de Estado.

O poder de Shaftesbury no governo declinava e, em 1681, depois de participar de uma conspiração contra o rei Carlos II, ele fugiu para a Holanda. Embora Locke não estivesse envolvido na conspiração, sua relação com o conde colocou-o sob suspeita, de modo que também acabou fugindo para a Holanda. Muitos anos depois, Locke voltou para a Ingla­terra, tornou-se membro do comitê de apelação e escreveu livros sobre educação, religião e economia. Preocupava-se com a liberdade religiosa e o direito do povo em ter um governo popular. Seus escritos trouxeram-lhe muita fama e influência, ficando conhecido por toda a Europa como defensor de um governo liberal. Alguns dos seus trabalhos influenciaram os autores da Declaração de Independência dos Estados Unidos.

O trabalho mais importante de Locke para a psicologia foi An essay concerning human understanding (1690), o ponto mais alto de um estudo de 20 anos. Esse livro, publicado em quatro edições por volta de 1700 e traduzido para o francês e para o latim, marca o início formal do empirismo britânico.

Como a mente adquire o conhecimento.

O interesse principal de Locke estava vol­tado ao funcionamento cognitivo, isto é, à forma como a mente adquire o conhecimento. Ao lidar com essa questão, Locke rejeitou a proposta de Descartes sobre a existência das ideias inatas, apresentando o argumento de que o ser humano nascia sem qualquer conhe­cimento prévio. Séculos antes, Aristóteles defendia uma posição semelhante, ou seja, a mente do homem ao nascimento era uma tábula rasa, uma lousa vazia, em branco, em que se registravam as experiências. Locke admitia que alguns conceitos, como a concepção de Deus, pareciam inatos para nós adultos, mas somente porque nos eram ensinados na infância e não nos lembrávamos do tempo em que não tínhamos consciência deles. Assim, Locke explicava a aparente natureza inata de algumas ideias fundamentado no conceito da aprendizagem e do hábito. Então, como a mente adquire o conhecimento? Para Locke, assim como para Aristóteles, a mente adquiria o conhecimento por meio da experiência.

A sensação e a reflexão.

Locke admitia dois tipos de experiências: um derivado da sensação e outro da reflexão. As ideias resultantes da sensação, ou seja, as derivadas da experiência sensorial direta com os objetos físicos presentes no ambiente, são simples impressões do sentido. Essas impressões sensoriais operam na mente, que também opera nas sensações, fazendo uma reflexão para formar as ideias. Essa função cognitiva ou men­tal da reflexão como fonte de conceitos depende da experiência sensorial, já que as ideias produzidas pela reflexão da mente têm como base as impressões anteriormente percebidas por meio dos sentidos. No curso da evolução humana, as sensações aparecem primeiro. Elas são necessariamente precursoras das reflexões porque, sem a existência de um reservatório das impressões do sentido, não há como a mente refletir sobre elas. Durante a reflexão, resgatamos as impressões sensoriais passadas, combinando-as para formar abstrações e outras ideias de nível superior. Desse modo, todas são frutos da sensação e da reflexão, mas a fonte final continua sendo nossas experiências sensoriais.


Suponhamos, então, que a mente seja, como afirmamos, um papel em branco, desprovido de quaisquer caracteres, sem qualquer conteúdo de ideias. Como virá a ser preenchida? De onde ge esse vasto colorido, que a fantasia humana, ativa e ilimitada, nela pintou com uma multiplicidade quase infinita? Onde buscará todo o recurso da razão e do conhecimento? Como resposta, basta uma palavra: na experiência. Nela se fundamenta todo o nosso conhecimento e dela basicamente se deriva o próprio conhecimento. O uso da nossa observação acerca dos órgãos sensoriais externos, ou acerca das operações internas da mente, que percebemos e sobre as quais refletimos, é que nos proporciona a compreensão de todo o conteúdo do pensamento. São essas as duas fontes do conhecimento de todas as ideias que naturalmente possuímos, ou que a partir das quais possamos vir a adquirir.

Em primeiro lugar, os nossos sentidos, possuidores de relações íntimas com determinados objetos sensoriais, transportam para a mente diversas percepções distintas dos elementos, de acordo com as várias maneiras pelas quais são afetados pelos objetos. E assim, concebemos as ideias de amarelo, branco, quente, frio, macio, duro, amargo, doce e de todas as demais qualidades deno­minadas sensoriais as quais, ao afirmar serem transportadas pelos sentidos para a mente, quero dizer que a partir dos objetos externos são transferidas para a mente, produzem as percepções. Essa imensa fonte de, praticamente, todas as ideias que possuímos, totalmente dependente dos nossos sentidos, e deles derivada para o entendimento, é o que chamamos de sensação. 

Em segundo lugar, a outra fonte pela qual a experiência proporciona ideias para o entendi­mento é a percepção das operações da nossa própria mente interior, de como ela emprega as ideias adquiridas: operações que, quando passam a ser objeto de reflexão e de análise da alma, produzem no entendimento outro conjunto de ideias, que não seria possível conceber a partir dos elementos sem: a percepção, o pensamento, a dúvida, a crença, a razão, o conhecimento, a vontade e todas as diferentes ações das nossas mentes e das quais, se tivéssemos consciência e as observássemos em nossas almas, obteríamos nossos entendimentos como ideias distintas, assim como agimos com nossos corpos que afetam nossos sentidos. Dessa fonte de ideias todo homem em si é integralmente dotado: e, embora não possa ser sentido, como tendo qualquer relação com os objetos externos, ainda assim, assemelha-se muito e pode ser corretamente chamado de sentido interno. Todavia, como chamei o outro de sensação, a esse chamo de reflexão, sendo as ideias por ele sustentadas apenas as que a mente obtémjriediante a reflexão sobre as próprias operações internas. Então, por reflexão quero expressar a observação que a mente realiza das próprias operações e do seu modo, a razão pela qual a observação transforma-se em ideias no entendimento dessas operações. Esses dois elementos, ou seja, os externos ou materiais como os objetos da sensação e as operações internas das nossas mentes como os objetos da reflexão, são, na minha opinião, os únicos elementos originais pelos quais surgem todas as nossas ideias. ( Rock, An Essay Concerning Human Understanding, 1690)


Ideias simples e ideias complexas.

Locke fazia uma distinção entre ideias simples e ideias complexas. Ideias simples podem surgir tanto da sensação como da reflexão e são recebidas passivamente pela mente. Elas são elementares, ou seja, não podem ser analisa­ das nem reduzidas a concepções ainda mais simples. Entretanto, mediante o processo de reflexão, a mente cria ativamente novas ideias, combinando as simples. Estas são chamadas por Locke de ideias complexas, pois são compostas das simples e podem ser analisadas e estudadas com base nelas.

A teoria da associação.

O conceito da combinação ou da composição de ideias e a noção contrária de análise marcam o início da abordagem mental-química do problema da associação. Desse ponto de vista, ideias simples podem ser conectadas ou associadas para formar as complexas. Associação é o nome inicial dado ao processo chamado atual­mente pelos psicólogos de aprendizagem. A redução ou a análise da vida mental na forma de ideias ou de elementos simples tornou-se fundamental para a nova psicologia científica. Assim como é possível desmontar o relógio e outros mecanismos, reduzindo-os até separar todos os componentes e remontá-los para produzir uma máquina complexa, podemos desmontar as ideias humanas.

Locke tratava o funcionamento da mente conforme as leis do universo natural. As partículas básicas ou os átomos do universo mental são as ideias simples, conceito análo­go ao dos átomos da matéria do universo mecânico de Galileu e Newton. Esses elementos da mente não podem ser divididos em outros mais simples, no entanto, assim como seus semelhantes do mundo material, podem ser combinados ou associados para formarem estruturas mais complexas. Desse modo, a teoria da associação foi um passo significativo no sentido de considerar a mente, tal como o corpo, uma máquina.

Qualidades primárias e secundárias.

Outra importante proposta de Locke para a fase inicial da psicologia foi o conceito de qualidades primárias e secundárias aplicadas às ideias sensoriais simples. As qualidades primárias existem em um objeto, sejam ou não perce­bidas por nós. O tamanho e a forma de um edifício são qualidades primárias, enquanto a cor é uma qualidade secundária. A cor não é inerente ao objeto em si, mas é dependente da experiência do indivíduo, já que nem todos percebem determinada cor da mesma maneira. As qualidades secundárias, como cor, odor, som e sabor, existem não no objeto em si, mas na percepção individual do objeto. A sensação do toque de uma pena não se encontra nela, mas na reação ao toque da pena. A dor provocada pelo corte de uma faca não se encontra na faca propriamente dita, mas na experiência individual como reação ao ferimento.

Uma experiência popular descrita por Locke ilustra bem esses conceitos. Prepare três recipientes, sendo um com água fria, outro com morna, e o terceiro com água quente. Mergulhe a mão esquerda na água fria, a direita na quente e. em seguida, as duas na água morna. Uma das mãos terá a sensação de estar na água quente e a outra na fria. A tempe­ratura da água para as duas mãos é a mesma, não pode ser quente e fria ao mesmo tempo. As qualidades secundárias ou as experiências de calor e frio existem na nossa percepção e não no objeto propriamente dito (nesse caso. na água).

Analisemos outro exemplo: se não mordêssemos uma maçã, seu sabor não existiria. As qualidades primárias, como o tamanho e a forma da maçã, existem independentemente de as percebermos ou não. As qualidades secundárias, como o sabor, ocorreram apenas no nosso ato de percepção.

Locke não foi o primeiro estudioso a fazer distinção entre as qualidades primária e secundária. Galileu apresentou basicamente a mesma noção:

Creio que, se removêssemos os ouvidos, a língua e o nariz, permaneceriam as formas, as quantidades e os movimentos [qualidades primárias], mas não o odor, o sabor e o som [qualidades secundárias]. Esses últimos, acredito, nada mais são do que nomes quando os separamos dos seres vivos, (apud Boas, 1961, p. 262)

Descartes também apresentou visão semelhante. Afirmou que os objetos físicos...

...podem não existir de modo correspondente à forma como aparecem na percepção do sentido, já que em vários casos a percepção sensorial [de um objeto] é obscura e confusa. (...) por meio dos nossos sentidos apreendemos apenas a forma, o tamanho e o movimen­ to [qualidades primárias] dos objetos externos. (...) [A]s propriedades dos objetos exter­nos aos quais aplicamos os termos "luz", "cor", "odor", "sabor", "som", "calor" e "frio" (...) são simplesmente várias disposições desses objetos [qualidades secundárias] que os tornam capazes de criar vários tipos de reações nos nossos nervos. (apud Graukroger, 1995, p. 345)

A distinção entre as qualidades primária e secundária está de acordo com a posição mecanicista, que afirma ser a matéria em movimento a única realidade objetiva. Se a matéria consiste em toda existência objetiva, a percepção de todo o resto, como da cor, do odor e do sabor, deve ser subjetiva. Somente as qualidades primárias podem existir independentemente de serem percebidas ou não.

Ao fazer a distinção entre as qualidades objetiva e subjetiva, Locke reconhecia a sub­jetividade da maior parte da percepção humana, ideia que o intrigava e estimulava seu desejo de investigar a mente e a experiência consciente. Locke sugeriu ser secundária uma tentativa de explicar a ausência do correspondente preciso entre o universo físico e a nossa percepção desse universo.

Uma vez aceita pelos pesquisadores, a teoria da distinção entre as qualidades primária e secundária, ou seja, da existência real de umas e de outras somente na nossa percepção, era inevitável que alguém perguntasse se havia realmente uma diferença entre elas. Talvez a percepção exista apenas nas questões das qualidades secundárias, subjetivas e dependentes do observador. O filósofo a formular e responder a essa pergunta foi George Berkeley.

George Berkeley (1685-1753)

George Berkeley nasceu e recebeu toda sua educação formal na Irlanda. Bastante religio­so, foi ordenado diácono da igreja anglicana aos 24 anos. Pouco tempo depois, publicou dois ensaios filosóficos que exerceram grande influência na psicologia: An essay towards a new theory o fvision (1709) e A treatise concerning the principies of human knowledge (1710). Esses livros encerraram as suas contribuições para a psicologia.

Berkeley viajava com frequência por toda a Europa e teve vários empregos na Irlanda, inclusive lecionando no Trinity College, em Dublin. Obteve independência financeira ao receber de presente uma quantia considerável de uma mulher que conhecera em um jantar. Depois de passar três anos em Newport, Rhode Island, Berkeley doou sua casa e sua biblioteca à Yale University. Nos últimos anos de vida, serviu como bispo de Cloyne. Quando morreu, atendendo a um pedido seu, seu corpo foi deixado em uma cama até começar a se decompor. Ele acreditava ser a putrefação o único sinal de morte e temia ser enterrado prematuramente.

A fama de Berkeley - ou, pelo menos, o seu nome - é conhecida até hoje nos Estados Unidos. Em 1855, o reverendo Henry Durant, da Yale University, fundou uma escola na Califórnia, dando-lhe o nome de "Berkeley", em homenagem ao bom bispo, ou talvez em reconhecimento ao seu poema On the prospect of planting arts and learning in America, em que se lê esta frase muito conhecida: “Westward the course of empire takes its way" ("O império toma o rumo na direção oeste").

A percepção é a única realidade.

Berkeley concordava com o conceito de Locke de que todo o conhecimento do mundo exterior tem origem na experiência, mas divergia da distinção entre as qualidades primária e secundária. Berkeley alegava não existirem qualidades primárias, mas somente as qualidades que Locke chamava de secundárias Para Berkeley, todo o conhecimento era uma função ou dependia da experiência ou da
percepção do indivíduo. Alguns anos mais tarde, essa teoria recebeu o nome de mentalismo, como expressão da ênfase no fenômeno exclusivamente mental.

Berkeley afirmava ser a percepção a única realidade da qual se tem certeza. Não se pode conhecer com precisão a natureza dos objetos físicos no universo experimental - o universo derivado da própria experiência ou tendo ela como base. Tudo que sabemos é como percebemos ou sentimos esses objetos. Então, sendo a percepção interna e subjetiva nada reflete o mundo exterior. O objeto físico nada mais é do que o acúmulo das sensações experimentadas simultaneamente, de forma que se associem à mente pelo hábito. De acordo com Berkeley, portanto, o universo das nossas experiências é o somatório das sensações.

Nao há substância material da qual possamos ter certeza, porque, se excluirmos a percepção, a qualidade desaparecerá. Desse modo, não existe cor sem a nossa percepção de cor, a forma ou o movimento sem notar a forma ou o movimento.

A afirmação de Berkeley não era de que os objetos reais apenas existem no universo físico quando são por nós percebidos. Sua teoria considerava que toda nossa experiência acumulada decorre da nossa percepção e que nunca conhecemos precisamente a natureza física do objeto. Contamos apenas com a própria percepção desses objetos.

Ele reconhecia, no entanto, que havia estabilidade e consistência nos objetos do mundo material e que eles existiam independentemente de serem percebidos e, então tinha de achar alguma forma de comprovar essa teoria. O argumento utilizado foi Deus, - afinal, Berkeley era bispo. Deus funcionava como uma espécie de observador permanente de todos os objetos do universo. Se a árvore caía na floresta (assim como dizia um antigo enigma), a queda produzia um som, mesmo que não houvesse ninguém para ouvi-lo porque Deus estava sempre presente para percebê-lo.

A associação das sensações.

Berkeley aplicou o princípio da associação para explicar como passamos a conhecer os objetos do mundo real. Esse conhecimento é basicamente a construção ou a composição de ideias simples (elementos mentais) unidas pelo funda­mento da associação. As ideias complexas são formadas pela união das simples recebidas por meio dos sentidos, como explicou em An essay towards a new theory of vision:

Sentado na minha sala de leitura, ouço uma carruagem se aproximando pela rua; olho pela [janela] e avisto-a; saio de casa e entro nela. Assim, uma narrativa comum pode con­duzir qualquer um a pensar que eu ouvi, vi e toquei o mesmo objeto (...) a carruagem. No entanto, apesar de afirmar serem as ideias [concebidas] por cada sentido amplamente diferentes e distintas umas das outras, quando observadas constantemente juntas, acabam descritas como sendo um único e igual objeto. (Berkeley, 1709/1957a)

A complexa ideia da carruagem pode ser ornamentada com o som do ranger das rodas nas ruas de paralelepípedos, com a robustez da estrutura, com o frescor do cheiro do couro dos assentos e com a imagem visual do seu formato quadrado. A mente constrói ideias complexas juntando esses blocos básicos de construção mental - as ideias simples. A analogia mecânica no uso das palavras "construir" e "blocos de construção" não é uma coincidência.

Berkeley também usava a associação para explicar a percepção de profundidade visual. Ele estudava como o ser humano percebe a terceira dimensão da profundidade, já que a retina humana possui apenas duas dimensões. Sua resposta foi que a percepção de profundidade é resultado da nossa experiência. Associamos as impressões visuais com as sensações de ajuste dos olhos para enxergarmos os objetos de distâncias diferentes e com movimentos de aproximação ou afastamento dos objetos visualizados. Em outras palavras, as contínuas experiências sensoriais de caminhar em direção aos objetos ou de alcançá-los, aliadas às sensações dos músculos oculares, unem-se para produzir a percepção da profun­didade. Quando aproximamos o objeto dos olhos, as pupilas se convergem e, quando o afastamos, a convergência diminui. Desse modo, a percepção de profundidade não é uma simples experiência sensorial, mas uma associação de ideias a ser aprendida.

Berkeley prosseguiu na crescente teoria da associação na filosofia empirista, tentando explicar o processo puramente psicológico ou cognitivo com base na associação das sensações. Sua explicação antecipou com precisão a visão moderna da percepção de profundidade no que tange à consideração das diretrizes psicológicas da acomodação e da convergência.

David Hume (1711-1776)

David Hume foi um filósofo e historiador, matriculado na University of Edinburgh, Es­cócia, aos 11 anos de idade. Permaneceu lá por quatro anos, mas saiu antes de se formar para estudar sozinho por um tempo. Embarcou no mundo dos negócios, porém não era a sua vocação, por isso mudou-se para a França a fim de estudar filosofia. Depois, seguiu para a Inglaterra, onde obteve fama considerável como escritor. Sua contribuição mais importante para a psicologia foi A treatise of human nature (1739). Trabalhou, ainda, como funcionário público, bibliotecário, comissário das forças armadas de uma expedição mili­tar e professor particular de um lunático de berço nobre.

Hume apoiava a noção de Locke sobre a composição de ideias simples para formar ideias complexas e analisou e esclareceu a teoria da associação. Concordava com a afirma­ ção de Berkeley de que a existência do mundo material para o indivíduo ocorria somente por meio da própria percepção e conduziu esse conceito um passo adiante. Berkeley afir­mava ser Deus o observador permanente, como forma de garantir a persistência e a esta­bilidade do objeto físico. Hume questionava o que aconteceria se a noção de Deus fosse omitida. Nesse caso, Hume afirmava, não haveria como confirmar a existência de "algo fora da nossa mente. Se todo conhecimento do 'mundo exterior' é adquirido mediante nossas ideias e (...) portanto, 'indiretamente', então, não é possível realmente afirmar, em princípio, se existe ou não um mundo exterior (...) Talvez exista um universo externo, talvez não, mas não temos como confirmar” (Wilcox, 1992, p. 38).

As impressões e as ideias.

Hume traçava uma diferenciação entre dois tipos de con­teúdo mental: impressões e ideias. Impressões são os elementos básicos da vida mental; na terminologia atual, equivalem às sensações e percepções. Ideias são experiências mentais que vivenciamos na ausência de qualquer objeto de estímulo, o equivalente ao que hoje é considerado "imagem" pela psicologia.

Hume não definia impressões e ideias em termos psicológicos ou referindo-se a estímu­los externos. Ele mantinha o cuidado de não atribuir qualquer causa definitiva às impres­sões. A diferença entre impressões e ideias não estava na origem, mas na sua força relativa. Impressões são fortes e vívidas, enquanto ideias são cópias fracas das impressões.

Esses dois conteúdos mentais podem ser simples ou complexos. A ideia simples é semelhante à sua impressão simples. As ideias complexas não são necessariamente simila­res às ideias simples porque são uma combinação sua que evolui e forma novos padrões, compostos pelas ideias simples mediante o processo da associação.

Hume descreveu três leis de associação: a lei da semelhança ou similaridade, a lei da contiguidade no tempo ou no espaço e a lei da causa e do efeito. Quanto maior a seme­lhança e a contiguidade entre duas ideias (quanto mais próximas no tempo estiverem as experiências), mais rapidamente elas se associam. Quanto mais frequentemente dois eventos ou objetos forem experimentados (ou ocorrerem) na mesma sequência - por exemplo, o som do trovão que é repetidamente seguido pela aparição do relâmpago - mais tendemos a inferir qué um causou o outro, e fortemente os dois eventos estarão associados.

O trabalho de Hume segue a linha do mecanicismo e desenvolve o empirismo e o associacionismo. Hume alegava que, assim como os astrônomos foram capazes de definir as leis e as forças da física para explicar o funcionamento dos planetas, era possível deter­minar as leis do universo mental. Acreditava nos princípios regentes da associação de ideias, que definiu serem universais para a operação da mente, como uma versão mental da lei da gravidade na física. Desse modo, o trabalho de Hume oferece apoio adicional à noção de construção das ideias complexas na mente por meio da combinação mecânica das simples.

David Hartley (1705-1757)

David Hartley foi preparado para seguir a carreira do pai e tornar-se um sacerdote, mas, derido às desavenças constantes com a doutrina religiosa estabelecida, sabiamente resolveu dedicar-se à medicina. Teve uma vida tranquila e rotineira como médico, embora não tivesse completado o curso de medicina; e, por conta própria, estudou filosofia. Publicou Obsenvations on man, his frame, his duty, and his expectations, considerado por muitos estudiosos o primeiro tratado sistemático a respeito da associação.

A associação por contiguidade e por repetição.

Para Hartley, a lei fundamental da associação é a contiguidade, que usou como base para explicar os processos da memori­zação, do raciocínio, da emoção e da ação voluntária e involuntária. Ideias ou sensações que ocorrem juntas, simultânea ou sucessivamente, tornam-se associadas, de modo que a ocorrência de uma resulta na ocorrência da outra. Hartley ainda afirmava que a repetição das sensações e das ideias é necessária para a formação das associações.

Hartley concordava com Locke que todas as ideias e o conhecimento são resultantes das experiências que recebemos por meio dos sentidos e que não existem associações inatas nem conhecimento ao nascermos. À medida que a criança cresce e acumula uma variedade de experiências sensoriais, são estabelecidas as conexões mentais de crescente complexidade. Dessa forma, ao chegarmos à vida adulta, os sistemas mais elevados de pensamentos já estão desenvolvidos. Essa vida mental de nível mais elevado, como o pensamento, o julgamento e o raciocínio, pode ser analisada ou reduzida aos elementos mentais ou às sensações simples que lhe deram origem. Hartley foi o primeiro a aplicar a teoria da associação para explicar todos os tipos de atividades mentais.

A influência do mecanicismo.

Assim como outros filósofos que o antecederam, Hartley enxergava o mundo mental com base no mecanicismo. Em um aspecto ele ultrapassou os objetivos de outros empiristas e associacionistas: Hartley tentou não apenas explicar os processos psicológicos com base nos princípios mecânicos, como também tentou explicar da mesma forma os processos fisiológicos subjacentes.

Isaac Newton afirmava ser a vibração uma das características do impulso no mundo físico. Hartley aplicou essa ideia ao funcionamento do cérebro humano e do sistema ner­voso. Alegava que os nervos consistiam-se em estruturas sólidas (e não tubos ocos como acreditava Descartes) e que as vibrações dos nervos transmitiam impulsos de uma parte a outra do corpo. Essas vibrações davam início a outras, menores, no cérebro, que consis­tiam nas duplicações psicológicas das ideias. A importância da doutrina de Hartley para a psicologia reside no fato de ainda ser uma tentativa de usar as ideias científicas do uni­verso mecânico como modelo para a compreensão da natureza humana.

James Mill (1773-1836)

James Mill nasceu na Escócia, filho de um sapateiro, o que normalmente teria limitado consideravelmente as perspectivas de carreira. No entanto, sua mãe se recusou a permitir isso. Ela tinha "grandes ambições para ele, e desde o começo James foi forçado a acreditar que era superior aos outros e o centro das atenções" (Capaldi, 2004, p. 1). Insistia que se mantivesse afastado de outras crianças e que se dedicasse totalmente aos estudos. Esse foi de­finitivamente um regime espartano, adotado mais tarde também por ele com seu filho.

Mill estudou na University of Edinburgh, na Escócia, e serviu durante algum tempo como clérigo. Quando percebeu que ninguém na sua congregação entendia seus sermões, abandonou a igreja escocesa para ganhar a vida como escritor. Seu trabalho literário mais famoso é History of British índia, que levou 11 anos para terminar. Sua contribuição mais importante para a psicologia é Analysis of the phenomena of the human mind (1829).

A mente como uma máquina.

James Mill aplicou a doutrina do mecanicismo à mente humana com rara objetividade e clareza. Seu objetivo era destruir a ilusão a respeito da subjetividade ou das atividades psíquicas e demonstrar que a mente não passava de uma máquina. Mill não se convencia com a argumentação dos empiristas de que a mente era semelhante à máquina apenas no seu funcionamento. A mente era uma máquina - fun­cionava da mesma forma previsível e mecânica de um relógio. Era colocada em funciona­mento por forças físicas externas e operada por forças físicas internas.
De acordo com essa perspectiva, a mente é uma entidade completamente passiva e acionada totalmente por estímulos externos. A reação a esses estímulos é automática; a atitude não é espontânea. A teoria de Mill não comportava o conceito de livre-arbítrio, ideia persistente nos sistemas de psicologia derivados diretamente da tradição mecanicista, entre os quais o mais famoso é o behaviorismo de B. F. Skinner.

Conforme sugere o título do principal trabalho de Mill, ele propunha o estudo da mente pelo método da análise, ou seja, reduzindo a mente em componentes básicos. É possível reconhecer nessa afirmação a doutrina mecanicista. Por exemplo: para compreen­der um fenômeno complexo, seja no mundo físico ou mental, sejam ideias ou relógios, é necessário dividi-los em partes, componentes menores. Mill afirmou "ser indispensável o conhecimento distinto dos elementos para apurar a formação resultante da sua compo­sição" (Mill, 1829, v. 1, p. 1).

Para Mill, sensações e ideias são as únicas espécies de elementos mentais. Na linha tradicional empirismo-associacionismo, todo conhecimento tem início com as sensações, das quais são derivadas as ideias complexas de nível mais elevado mediante o processo da associação, que é uma questão de contiguidade ou apenas de simultaneidade e pode ser sucessiva ou concomitante.

Mill não acreditava que a mente tivesse uma função criativa, já que a associação consis­tia em um processo passivo e automático. As sensações simultâneas que ocorrem em certa ordem são reproduzidas mecanicamente em forma de ideias, as quais ocorrem na mesma ordem das sensações a que correspondem. Em outras palavras, a associação é mecânica e as ideias resultantes são apenas o acúmulo ou a soma dos elementos mentais individuais.

John Stuart Mill (1806- 7873)

James Mill concordava com a visão de Locke a respeito da mente humana como uma folha em branco para o registro das experiências. Quando nasceu seu filho, John, Mill prome­teu estabelecer quais experiências preencheriam a mente do garoto e empreendeu um rigoroso programa de aulas particulares. Todos os dias, durante um período de até cinco horas, ensinava grego, latim, álgebra, geometria, lógica, história e política econômica ao menino, formulando perguntas até receber a resposta correta.

Ele era mantido afastado da distração de outras crianças, era frequentemente repreendido e corrigido por cometer erros, e jamais era elogiado por suas realizações. Descreveu seu pai uma vez como "excessivamente severo. Nenhum erro escapava, mesmo que pequeno; não
passa nada sem ser repreendido ou punido de algum modo" (apud Capaldi, 2004, p. 10).

Em sua autobiografia, John Stuart Mill escreveu que seu pai "exigia de mim não somente o máximo, mas também o que era impossível de ser feito... não havia feriados, o hábito do trabalho jamais podia ser interrompido assim como o gosto pela preguiça jamais podia ser adquirido" (Mill, 1873/1909, p. 10, 27). Embora tivesse tido uma educação severa, ele foi bem-sucedido, aprendendo tudo que seu pai acreditou que devesse saber.

Aos 3 anos, John Stuart Mill lia Platão no original em grego. Aos 11, escreveu o primei­ro trabalho acadêmico e aos 12 dominava com perfeição o currículo universitário padrão. Com 18 anos, descreveu a si mesmo como uma "máquina lógica" e, aos 21, sofreu uma depressão profunda. Sobre seu distúrbio mental, disse: "Meus nervos ficaram em estado de entorpecimento (...) toda a base sobre a qual a minha vida fora construída havia ruído (...) Não havia sobrado nada por que valesse a pena continuar a viver" (Mill, 1873/1909, p. 83). Ele levou muitos anos para recuperar a autoestima.

Mill trabalhou na Companhia das índias Orientais, lidando com a correspondência rotineira referente à atuação do governo inglês na índia. Aos 25 anos, apaixonou-se por Harriet Taylor, uma mulher linda e inteligente, porém casada, que veio a exercer grande influência no trabalho e em sua vida. Os dois desenvolveram uma íntima amizade e afei­ção que se transformou em um romance muito conhecido. Era um relacionamento pouco comum até mesmo para os padrões atuais. Mesmo depois de seu marido repetidamente pedir que ela parasse de passar tanto tempo com ele, Harriet ainda negociou um acordo. Ela e Mill continuariam a se encontrar, mas ela viveria com seu marido, prometendo leal­dade e fidelidade aos dois homens, mas abstendo-se de atividades sexuais com eles. Essa situação continuou por 20 anos, até que seu marido faleceu.

Depois dos dois anos de luto socialmente aceitos, Harriet e John Stuart Mill puderam se casar.

Ela o ajudava tanto com seu trabalho, que se referia a ela como "dádiva-mor da minha existência" (Mill, 1873/1909, p. 111). Ele ficou inconsolável quando ela morreu, sete anos depois, e mandou construir um chalé de onde pudesse ver o seu túmulo. Escreveu: "Duvido que algum dia possa estar preparado para algo público ou pessoal novamente... a primavera de minha vida terminou" (apuâ Capaldi, 2004, p. 246). Essa citação é importante por causa da imagem mecânica que Mill usou: a mola era um motor, a força motivadora da máquina, como relógios e robôs, e por extensão, também os humanos.

Mill ficou horrorizado com o fato de as mulheres serem privadas dos direitos financei­ros ou das propriedades e comparou a saga feminina à de outros grupos de desprovidos. Condenava a ideia da submissão sexual da esposa ao desejo do marido, contra a própria vontade, e a proibição do divórcio com base na incompatibilidade de gênios. Sua concep­ção de casamento era baseada na parceria entre pessoas com os mesmos direitos, e não na relação mestre-escravo (Rose, 1983). Mais tarde, Sigmund Freud traduziu para o alemão o ensaio de Mill sobre a mulher e, em uma carta para sua noiva, zombou do conceito de Mill a respeito da igualdade dos sexos. Freud escreveu: "A posição da mulher não pode ser outra senão esta: ser uma namorada adorada na juventude e uma esposa querida na maturidade" (Freud, 1883/1964, p. 76).

A química mental.

Por causa dos seus trabalhos abordando diversos tópicos, John Stuart Mill tornou-se contribuinte influente no que logo se transformou formalmente na nova ciência da psicologia. Ele combatia a posição mecanicista de seu pai, James Mill, ou seja, a visão da mente passiva que reage mediante o estímulo externo. Para John Stuart Mill, a mente exercia um papel ativo na associação de ideias.

Em sua proposta, afirma que ideias complexas não são apenas o somatório de ideias simples por meio do processo de associação. Ideias complexas são mais que a simples soma das partes individuais (as ideias simples). Por quê? Porque acabam adquirindo no­vas qualidades antes não encontradas nos elementos simples. Por exemplo: a mistura de azul, vermelho e verde nas proporções corretas resulta na cor branca, uma qualidade com­pletamente nova. De acordo com essa perspectiva, conhecida como a síntese criativa, a combinação correta de elementos mentais sempre produz alguma qualidade distinta que não estava presente nos próprios elementos.

Desse modo, o pensamento de John Stuart Mill foi influenciado pelas pesquisas em andamento na química, que lhe proporcionaram modelos diferentes das suas ideias da física e da mecânica, que formavam o contexto de ideias do seu pai e dos precursores empiristas e associacionistas. Os químicos demonstravam o conceito da síntese, que busca componentes químicos para mostrar atributos e qualidades não presentes nas partes ou nos elementos que os compõem. Por exemplo: a mistura correta dos elementos do hidrogênio e do oxigênio produz a água, a qual possui propriedades não encontradas em nenhum desses componentes. Do mesmo modo, as ideias complexas formadas pela combinação de ideias simples adquirem características inexistentes em seus elementos. Mill chamou essa teoria da associação de ideias de "química mental".

John Stuart Mill também contribuiu significativamente para a psicologia, alegando ser possível a realização de um estudo científico da mente. Fez essa afirmação quando outros filósofos, principalmente Auguste Comte, negavam a possibilidade de examiná-la por meio de métodos científicos. Além disso, Mill recomendou um novo campo de estudos que chamou de "etologia", dedicado aos fatores que influenciam o desenvolvimento da personalidade humana.

Contribuições do Empirismo à Psicologia

Com o surgimento do empirismo, muitos filósofos desviaram-se das abordagens iniciais do conhecimento. Embora tratassem de algumas questões em comum, seus métodos para analisá-las baseavam-se nas teorias do atomismo, do mecanicismo e do positivismo.

Vejamos os princípios do empirismo:

  • o papel principal do processo da sensação;
  • a análise da experiência consciente nos elementos;
  • a síntese dos elementos em experiências mentais complexas mediante o processo da associação;
  • o enfoque nos processos conscientes.

O papel principal do empirismo na formação da nova psicologia científica tornara-se evidente e foi possível perceber que as preocupações dos empiristas formavam o objeto de estudo básico da psicologia.

Em meados do século XIX, os filósofos estabeleceram a justificativa teórica para uma ciência dedicada à natureza humana. O passo seguinte seria a transformação da teoria em realidade - o tratamento experimental do mesmo objeto de estudo -, o que ocorreria logo, graças aos psicólogos, que proporcionaram o tipo de experimentação que viria a completar a fundação da nova psicologia.

Psicologia - História da Psicologia
12/29/2019 10:14:11 AM | Por Duane P. Schultz
Livre
O Estudo da História da Psicologia

Alguns psicólogos dedicam-se às funções cognitivas, enquanto outros lidam com as forças inconscientes; e há ainda os que trabalham somente com o comportamento observável ou os processos fisiológicos e bioquímicos. A psicologia moderna compreende várias áreas de estudo que pouco parecem ter em comum, exceto o grande interesse na natureza e no comportamento humanos, e uma abordagem que tenta, de algum modo. ser científica. A única linha de trabalho que une essas áreas e esses tratamentos distintos para formar um contexto coerente é a história, ou seja, a evolução da psicologia ao longo do tempo como uma disciplina independente. Somente a exploração das origens da psicologia e o estudo do seu desenvolvimento é que proporcionam uma visão clara da natureza da psico­logia atual. O conhecimento histórico organiza a desordem e estabelece um significado ao que parece ser um caos. colocando o passado em perspectiva para explicar o presente.

Muitos psicólogos aplicam uma técnica semelhante e concordam que a influência do passado ajuda a moldar o presente. Por exemplo: alguns psicólogos clínicos tentam compreender os pacientes adultos explorando a infância, examinando as forças e os even­tos que provocam no paciente determinado tipo de comportamento ou pensamento.

Com a compilação desses históricos, os clínicos reconstituem a evolução da vida do paciente e esse processo, muitas vezes, explica os seus padrões atuais de comportamento e pensamento. Os psicólogos behavioristas também acreditam na influência do passado na formação do presente. Acreditam que o condicionamento prévio e as experiências de reforço determinam o comportamento. Em outras palavras, a própria história do indivíduo pode explicar o seu estado atual, ou seja, o que fomos no passado pode mostrar o que somos no presente. 

O campo da psicologia funciona do mesmo jeito. O estudo formal da história da psicologia é a maneira mais sistemática de integrar as áreas e as questões que constituem a psicologia moderna, e permitirá ao aluno reconhecer as relações entre as ideias, as teorias e os esforços de pesquisa, bem como compreender de que forma as diferentes peças do quebra-cabeça da psicologia se encaixam para criar uma figura coerente.

Acrescentamos ainda que a história da psicologia por si só é fascinante, já que envolve drama, tragédia, heroísmo e revolução, além de um pouco de sexo, drogas e comporta­mentos totalmente extravagantes. Apesar do início hesitante, dos erros e dos conceitos equivocados, no geral, houve uma nítida evolução na formação da psicologia contemporânea, justificável por sua riqueza.

O Desenvolvimento da Psicologia Moderna

As origens da área que chamamos de psicologia podem ser determinadas em dois períodos distintos, com cerca de 2 mil anos de distância um do outro. Portanto, a psicologia está entre as disciplinas mais antigas, bem como uma das mais novas.

Podemos inicialmente traçar ideias e fazer especulações a respeito da natureza e do comportamento humano já no século V a.e.c., quando Platão, Aristóteles e outros filósofos gregos já trabalhavam com muitas das questões que preocupam os psicólogos de hoje. Entre essas questões estão alguns dos tópicos básicos abordados no curso de introdução à psicologia: memória, aprendizagem, motivação, pensamento, percepção e comporta­mento anormal. Desse modo, um início possível para o estudo da história da psicologia nos levaria aos antigos textos filosóficos sobre esses problemas, os quais mais tarde foram incluídos na disciplina formalmente conhecida como psicologia.

Ou podemos optar por estudar psicologia como uma das áreas mais novas de estudo e começar 200 anos atrás, quando a psicologia moderna surgiu da filosofia e de outras aborda­gens científicas para proclamar sua própria identidade como uma área formal de estudo.

Como podemos distinguir entre psicologia moderna e suas raízes, ou seja, os séculos que antecederam seus precursores intelectuais? A distinção não se relacio­natanto com os tipos de perguntas feitas a respeito da natureza humana, mas, sim, com os métodos usados para procurar respostas às perguntas. São a abordagem e as técnicas empregadas que distinguem a antiga filosofia da psicologia moderna e que marcam o surgimento da psicologia como uma área de estudo separada, fundamentalmente científica.

Até o ultimo quarto do século XIX, os filósofos estudavam a natureza humana es­peculando, intuindo e generalizando, com base em suas próprias experiências. Mas uma transformação importante ocorreu quando os filósofos começaram a aplicar as ferramen­tas e os métodos já utilizados com sucesso nas ciências biológicas e físicas para explorar questões relacionadas à natureza humana. Somente quando os pesquisadores passaram a confiar na observação e na experimentação cuidadosamente controladas para estudar a mente humana é que a psicologia começou a adquirir uma identidade distinta das suas raízes filosóficas.

A nova disciplina da psicologia precisava de métodos precisos e objetivos para lidar com o assunto. A maior parte da história da psicologia, depois de sua separação das raízes filosóficas, é a do desenvolvimento contínuo de ferramentas, técnicas e métodos para atingir precisão e objetividade crescentes, refinando não só as perguntas que os psicólogos faziam mas também as respostas que obtinham.

Se procurarmos entender as questões complexas que definem e dividem a psicologia atual, então do ponto de partida mais adequado seria o século XIX, período em que a psicologia tornou-se uma disciplina independente, com métodos de pesquisa distintos e fundamentação teórica. Embora seja verdade, como já observamos, que os filósofos como Platão e Aristóteles se preocupavam com problemas que ainda hoje são de interesse geral, eles abordavam esses problemas de modo muito diferente do que o utilizado pelos psi­cólogos atualmente. Aqueles estudiosos não eram psicólogos no mesmo sentido utilizado hoje em dia.

Um grande estudioso da história da psicologia, Kurt Danziger, faz referência às abor­dagens filosóficas antigas para questões da natureza humana como a "pré-história" da psicologia moderna. Ele acredita que a "história da psicologia se limita ao período em que ela reconhecidamente surge como disciplina, e que é extremamente problemático falar em uma história da psicologia antes disso" (Danziger apuã Brock, 2006, p. 12).

A ideia de que os métodos das ciências físicas e biológicas podiam ser aplicados ao estudo dos fenômenos mentais originou-se tanto do pensamento filosófico quanto das pesquisas fisiológicas realizadas entre os séculos XVII e XIX. Essa época apaixonante forma o pano de fundo de onde surgiu a psicologia moderna. Veremos que enquanto os filósofos do século XIX estavam abrindo caminho para uma investida experimental ao funcionamento da mente, os fisiologistas estavam, independentemente, abordando alguns dos mesmos problemas de um ponto de vista diferente. Os fisiólogos do século XIX estavam fazendo grandes progressos para a compreensão dos mecanismos corporais subjacentes aos processos mentais. Seus métodos de estudo diferem daqueles usados pelos filósofos, mas a possível união dessas disciplinas tão discrepantes - filosofia e fisiologia - formou uma nova área de estudo que rapidamente ganhou sua própria identidade e status. A nova área cresceu rapidamente, tornando-se uma das disciplinas mais populares entre estudantes universitários atualmente.

Dados históricos: a reconstrução do passado da Psicologia 

Historiografia a Metodologia de Estudo da História

Os historiadores têm um problema que não ocorre com os psicólogos. Os dados históricos, isto é, os materiais usados pelos historiadores para reconstituir vidas, fatos e épocas, são claramente diferentes dos dados científicos. A característica mais distintiva é a metodologia para coleta dos dados científicos. Por exemplo: quando os psicólogos dese­jam investigar alguma questão específica - como a identificação das circunstâncias que levam uma pessoa a ajudar outra que esteja em situação difícil; o impacto dos programas variáveis de reforço no comportamento dos ratos de laboratório; ou se a criança imita o comportamento agressivo exibido na televisão - logo eles criam situações ou estabelecem condições que permitam a geração dos dados.

Os psicólogos podem realizar uma experiência em laboratório, observar o comporta­mento do mundo real sob condições controladas, fazer um levantamento ou calcular a correlação estatística entre duas variáveis. Esses métodos permitem aos cientistas obter uma medida de controle sobre as situações ou eventos que optam por estudar. Por sua vez, os eventos podem ser reconstruídos ou repetidos por outros cientistas em épocas e lugares diferentes. Desse modo, é possível verificar os dados posteriormente, estabelecendo condições similares àquelas do estudo original e repetindo as observações.

Entretanto, os dados históricos não podem ser reconstruídos nem repetidos. Uma situação ocorrida em algum momento do passado, às vezes há séculos, talvez não tenha recebido o cuidado devido dos historiadores ao registrarem as particularidades do evento na época, principalmente no que se diz respeito a detalhes precisos.

Hoje, os pesquisadores não têm condições de controlar nem de reconstruir os eventos do passado para examiná-los à luz do conhecimento do presente. Fica a pergunta: se não há registro de um incidente histórico, logo, como o historiador deve lidar com ele? Quais dados pode utilizar? E como saber com certeza o que ocorreu?

Embora não possam repetir a situação para gerar os dados corretos, os historiadores ainda possuem informações significativas para análise. Os dados sobre os acontecimentos do passado estão disponíveis em fragmentos, descrições escritas por participantes ou teste­munhas, cartas e diários, fotografias e peças de equipamentos de laboratório, entrevistas, além de outros relatos oficiais. E é com base nessas fontes, nesses pedaços de informação, que os historiadores tentam recriar os eventos e as experiências do passado.

Essa forma de trabalho é semelhante à usada pelos arqueólogos que analisam os fragmentos das civilizações passadas - tais como pontas de flechas, pedaços de potes de argila ou de ossadas humanas - para tentar descrever as características destas. Algu­mas escavações arqueológicas produzem fragmentos de informações mais detalhadas do que outras, permitindo uma reconstrução mais precisa. Do mesmo modo, as esca­vações da história podem produzir fragmentos de dados extremamente substanciais, a ponto de deixar poucas dúvidas em relação à precisão do registro. No entanto, há outras circunstâncias em que os dados podem estar perdidos, distorcidos ou, de algu­ma forma, comprometidos.

Dados Perdidos ou Omitidos

Em alguns casos, o registro histórico está incompleto porque os dados foram perdidos algumas vezes deliberadamente. Considere o caso de John B. Watson, o fundador da escola de pensamento behaviorista. Antes de morrer, em 1958, aos 80 anos de idade ele sistematicamente queimou suas cartas, manuscritos e notas de pesquisa, destruindo todo o registro não-publicado de sua vida e carreira. Logo, esses dados estão para sempre perdidos para a história.

Alguns dados foram extraviados. Em 2006, mais de 500 páginas manuscritas foram descobertas nos armários de uma casa na Inglaterra; tratava-se de atas de reuniões da Royal Society nos anos de 1661 a 1682, registradas por Robert Hooke, um dos cientistas mais brilhantes dessa época. Esses documentos revelaram o trabalho anterior feito com um novo instrumento científico, o microfone, e detalhou a descoberta da bactéria e do espermatozóide. Também foi encontrada a correspondência entre Hooke e Isaac Newton a respeito da gravidade e do movimento dos planetas (veja Gelder, 2006; Sample, 2006).

Em 1984, os trabalhos de Hermann Ebbinghaus, que se destacou no estudo da apren­dizagem e da memória, foram encontrados - cerca de 75 anos após a sua morte. Em 1983, foram descobertas dez caixas enormes contendo diários manuscritos de Gustav Fechner, que desenvolveu a psicofísica. Esses diários registravam o período de 1828 a 1879, época importante dos primórdios da história da psicologia. No entanto, por mais de 100 anos, os psicólogos desconheceram a sua existência. Vários livros foram escritos sobre os trabalhos de Ebbinghaus e Fechner sem o acesso a essas importantes coleções de documentos pessoais.

Examinemos o caso de Charles Darwin, de quem foram escritas cerca de 200 biogra­fias. Certamente podemos afirmar que o registro escrito da sua vida e do seu trabalho hoje está completo e bem apurado. Mas, recentemente, em 1990, mais de 100 anos depois da sua morte, muito material novo foi colocado à disposição, inclusive os cadernos e as cartas pessoais que não estavam acessíveis para a análise dos biógrafos anteriores. Um pesquisador disse acreditar que esses dados promoverão nova perspectiva sobre o trabalho de Darwin, no contexto das tradições científicas e da sociedade vitoriana da sua época (Masterton, 1998). Portanto, com a descoberta desses novos fragmentos de história, mais peças do quebra-cabeça podem se encaixar.

Outras informações podem ter sido ocultadas propositadamente do público, ou alteradas a fim de proteger a reputação das pessoas envolvidas. Ernest Jones, o primeiro biógrafo de Sigmund Freud, minimizou de propósito a menção sobre o uso que Freud fazia da cocaína, comentando em uma carta: "Acho que Freud usava mais cocaína do que deveria, no entanto, não cito esse fato [na minha biografia]'' (Isbister, 1985, p. 35). Informações descobertas mais recentemente confirmam o uso de cocaína por mais tempo do que Jones estava disposto a mencionar em seu livro.

Quando a correspondência do psicanalista Carl Jung foi publicada, as cartas foram selecionadas e editadas de forma que apresentassem uma impressão positiva de Jung e do seu trabalho. Além disso, descobriu-se que a chamada autobiografia de Jung não foi escri­ta por ele, mas por um leal assistente. As palavras de Jung foram "alteradas ou excluídas para a sua imagem ficar de acordo com a desejada pelos familiares e por seus discípulos (...) Obviamente, o material desabonador foi omitido" (Noll, 1997, p. xiii).

Em um exemplo semelhante, um estudioso que catalogou os escritos de Wolfgang Köhler, o fundador da escola de pensamento conhecida como psicologia Gestalt, talvez tenha sido um admirador devoto demais. Quando ele revisou o material selecionado para publicação, ele omitiu determinadas informações com o objetivo de melhorar a imagem de Köhler. Os trabalhos haviam sido "cuidadosamente selecionados para apresentar um perfil favorável de Köhler". Posteriormente, um historiador, ao rever os trabalhos, confirmou o problema básico com os dados da história, "a saber, a dificuldade para se determinar se os trabalhos são uma verdadeira ou falsa representação de uma pessoa, favorável ou desfavorável, influenciada pela pessoa que selecionou os trabalhos que seriam publicados" (Eey, 1990, p. 197).

Esses são alguns exemplos que ilustram uma das dificuldades enfrentadas pelos pes­quisadores para avaliar o material histórico. Será que os documentos ou outros fragmentos de informação são representações realmente precisas da vida e do trabalho da pessoa ou foram escolhidos apenas para causar certa impressão, seja positiva, negativa ou neutra? Um biógrafo contemporâneo colocou o problema da seguinte forma: "Quanto mais estudo o caráter humano, mais me convenço de que todos os registros, todas as lembranças são em maior ou menor escala baseadas em ilusões. Quer queira ou não, a visão é distorcida pela parcialidade, pela vaidade, pelo sentimentalismo ou simplesmente pela imprecisão, assim, não existe verdade absoluta." (Morris, apnd Adelman, 1996, p. 28.)

Oferecemos mais um exemplo de pedaços de informações omitidos. Sigmund Freud morreu em 1939 e, nos anos seguintes à sua morte, vários documentos e cartas foram publi­cados ou divulgados aos pesquisadores. Grande quantidade de documentos é mantida pela Biblioteca do Congresso, em Washington, DC, e, embora alguns tenham sido divulgados em 1998, outros ainda serão colocados à disposição para pesquisa, conforme o espólio de Freud. A alegação dada para essa restrição é a de proteger a privacidade dos pacientes de Freud e suas famílias e talvez a reputação do próprio Freud e dos familiares dele.

Um famoso pesquisador sobre a vida de Freud encontrou variações consideráveis nas datas de divulgação desse material. Por exemplo: uma carta para Freud de seu filho mais velho está selada até 2013, outra até 2032. Uma carta de um dos orientadores de Freud será divulgada somente em 2102, 177 anos após a morte do autor da correspondência, despertando a curiosidade acerca da importância do seu conteúdo a ponto de exigir tanto segredo e por tão longo tempo. Os psicólogos não têm ideia do impacto desses documen­tos e manuscritos na compreensão de Freud e dos seus trabalhos. Entretanto, até que esses fragmentos de dados estejam disponíveis para estudo, o conhecimento a respeito de uma das figuras mais importantes da psicologia permanecerá incompleto e talvez impreciso.

Informações Distorcidas na Tradução

Outro problema referente aos dados históricos são as informações transmitidas de forma distorcida aos historiadores. Nesse caso, os dados estão disponíveis, mas de algum modo foram alterados, talvez por causa de erro de tradução de uma língua para outra ou pelas distorções introduzidas, de propósito ou por descuido, pelo participante ou observador que registrou o importante evento.

Referimo-nos novamente a Freud como exemplo do impacto desorientador das tradu­ções. Não são muitos os psicólogos com fluência suficiente para a leitura do trabalho de Freud no idioma original, ou seja, em alemão. A maioria depende da opção mais adequada feita pelo tradutor para a tradução de uma palavra ou frase. No entanto, a tradução nem sempre transpõe a intenção original do autor.

Os três conceitos fundamentais da teoria da personalidade de Freud são o id, o ego e o superego, termos normalmente já estudados na introdução à psicologia. No entanto, essas palavras não representam com precisão as ideias de Freud. Elas são o equivalente em latim das palavras de Freud em alemão: id para Es (que literalmente se traduz como 'isso"), ego para Ich (“eu") e superego para Über-Ich ("sobre-eu").

Com o uso de Ich (“eu”), Freud desejava descrever algo íntimo e pessoal, diferencian-o de Es ("isso"), sendo esse último algo externo ou distinto do "eu". A opção do tradutor pelo uso das palavras ego e id em vez de "eu" e "isso", transformou estes conceitos pessoais em termos técnicos frios, que não denotam as associações pessoais" (Bettelheim, 1982. Desse modo, a distinção entre "eu” e "isso" (ego e id) não expressa com a mesma força a intenção de Freud.

Analisemos a expressão livre associação cunhada por Freud. Nela, a palavra associação implica a conexão entre duas ideias ou dois pensamentos, como se cada um atuasse como um estímulo para provocar o seguinte em uma cadeia de estímulos. Essa não era a proposta de Freud. O seu termo em alemão era Einfall, que literalmente significa intrusão ou invasão, e não associação. A intenção de Freud não era descrever uma simples conexão de ideias, mas expressar algo da mente inconsciente que incontrolavelmente invade ou penetra à força o pensamento consciente. Assim, os dados históricos - ou seja, as palavras literais de Freud - foram mal interpretados no ato da tradução. Um provérbio italiano expressa bem essa ideia: Traditore-Tradutore (O tradutor é um traidor).

Informações Obtidas mediante Relatos Tendenciosos

As atitudes dos participantes da história, na narração de eventos importantes, também podem afetar os dados históricos. As pessoas produzem, consciente ou inconscientemen­te, relatos tendenciosos para se protegerem ou para melhorarem a sua imagem pública. Por exemplo: o psicólogo behaviorista B. F. Skinner descreveu em sua biografia a rigorosa disciplina a que se impunha como estudante de pós-graduação da Harvard University, no final da década de 1920.

Eu acordava às 6, estudava até a hora do café-da-manhã, assistia às aulas, seguia para os laboratórios e as bibliotecas e não tinha mais que 15 minutos livres durante o dia. Estudava até exatamente 9 horas da noite e dormia. Não frequentava cinema ou teatro, raramente assistia a concertos e poucas vezes saía para namorar, e os únicos livros que lia eram de psicologia e fisiologia. (Skinner, 1967, p. 398)

Essa descrição parece um fragmento de informação útil, dando uma indicação acerca da personalidade de Skinner. No entanto, 12 anos após a publicação desse material, e 51 anos depois dos eventos descritos, Skinner negou que seus dias no curso de pós-graduação tenham sido tão rigorosos assim. Ele disse: "Eu estava me valorizando em vez de descrever a vida que realmente levava" (Skinner, 1979, p. 5).

Embora a vida acadêmica de Skinner não seja tão relevante para a história da psicolo­gia, essas divergências nos relatos ilustram as dificuldades enfrentadas pelos historiadores. Quais são as informações ou versões mais precisas sobre o incidente? Qual a descrição que se aproxima mais da realidade? Quais são os dados influenciados por lembranças vagas ou por relatos próprios? E como descobrir a verdade?

Em alguns casos é possível buscar entre os colegas ou observadores provas que confir­mem as informações. Se o regime do curso de pós-graduação de Skinner fosse tão impor­tante para os historiadores da psicologia, eles deveriam tentar localizar os colegas de classe ou as agendas pessoais e cartas e compará-las com os próprios relatos de Skinner sobre seus dias em Harvard. Um biógrafo, seguindo esse caminho, descobriu com um ex-colega que Skinner terminava os trabalhos no laboratório antes dos demais alunos e passava o restante das tardes jogando pingue-pongue (Bjork, 1993).

Portanto, algumas distorções da história podem ser investigadas e as divergências po­dem ser resolvidas consultando outras fontes. Esse método foi aplicado no relato de Freud referente a alguns eventos da sua vida. Ele gostava de se fazer mártir da causa psicanalítica, um visionário desprezado, rejeitado e caluniado pela comunidade médica e psiquiátrica.

Ernest Jones, o primeiro biógrafo de Freud, reforça essas queixas em seus livros (Jones, 1953, 1955, 1957).

Todavia, as informações descobertas posteriormente revelaram uma situação diferente. O trabalho de Freud não foi ignorado em vida. Quando estava na meia-idade, suas ideias exerciam enorme influência na geração mais jovem de intelectuais. Sua prática clínica pros­perava e ele era descrito como uma celebridade. Ele próprio foi responsável por tornar esses registros obscuros. A falsa impressão que promoveu foi perpetuada por diversos biógrafos, e por várias décadas nossa compreensão sobre a influência de Freud foi imprecisa.

O que esses problemas com os dados históricos significam para o estudo da história da psicologia? Eles mostram principalmente que a compreensão da história é dinâmica. Ela se modifica e evolui continuamente, além de ser refinada, aprimorada e corrigida sempre que novos dados são revelados ou reinterpretados. Portanto, a história não pode ser considerada terminada ou completa. Ela está sempre em progresso, ou seja, é uma história sem fim. A narrativa do historiador pode apenas aproximar ou discutir a verda­de; no entanto, o registro é complementado a cada nova descoberta ou análise sobre os fragmentos dos dados históricos.

Forças contextuais na Psicologia

Uma ciência como a psicologia não se desenvolve no vazio, sujeita apenas às influências internas. Por fazer parte de uma cultura mais ampla, a psicologia também sofre influência das forças externas, que dão forma à sua natureza e direção. Para entender a história da psicologia, é necessário analisar o contexto em que a disciplina evoluiu, as ideias predomi­nantes na ciência e cultura da época, ou seja, o Zeitgeist ou ambiente cultural do período, além de examinar as forças sociais, econômicas e políticas existentes.

Descreveremos diversos exemplos, neste livro, sobre como essas forças contextuais influenciaram o passado da psicologia e continuam a moldar o presente e o futuro. Vejamos a seguir alguns exemplos de forças contextuais, incluindo as oportunidades resultantes da economia, guerras mundiais e preconceito.

Oportunidades Advindas da Economia

Os primeiros anos do século XX testemunharam mudanças drásticas na natureza da psico­logia nos Estados Unidos e no tipo de trabalho que os psicólogos estavam desenvolvendo. Principalmente em função do cenário econômico, muitas oportunidades surgiam para que os psicólogos aplicassem seus conhecimentos e técnicas em busca das soluções para os problemas do mundo real. A primeira explicação para essa situação tinha um sentido prático, assim como declarou um psicólogo: "Passei a adotar a psicologia aplicada para ganhar a vida” (H. Hollingworth, apuá O'Donnell, 1985, p. 225).

No final do século XIX, o número de laboratórios de psicologia nos Estados Unidos crescia bastante, e aumentava a quantidade de psicólogos em busca de oportunidades [10] de trabalho. Por volta de 1900, havia três vezes mais psicólogos com doutorado do que laboratórios onde pudessem trabalhar. Felizmente, o número de vagas para professores aumentava à medida que os Estados do meio-oeste e oeste criavam as universidades. Entretanto, sendo uma ciência muito recente na maioria das universidades, a psicologia recebia a menor verba orçamentária. Comparado aos demais departamentos, como os de física e química, o de psicologia, muitas vezes, era o que apresentava o menor orçamento anual, isto é, recebia a menor verba para os projetos de pesquisa, equipamentos de labo­ratório e salários do corpo docente.

Os psicólogos logo perceberam que, se havia a necessidade constante de melhorar depar­tamentos acadêmicos, verbas e receitas, eles deveriam provar à direção das universidades e autoridades governamentais que a psicologia podia ser útil na solução dos problemas sociais, educacionais e industriais. E assim, com o passar do tempo, os departamentos de psicologia começaram a ser avaliados com base no seu valor prático.

Ao mesmo tempo, as mudanças sociais observadas na população estadunidense criaram uma ótima oportunidade para os psicólogos aplicarem as suas habilidades. O fluxo de entrada de imigrantes nos Estados Unidos, aliado à alta taxa de natalidade, transformou a educação pública em uma indústria crescente. Entre 1890 e 1918, as matrículas nas escolas públicas aumentaram em 700% e as escolas de ensino médio eram construídas na proporção de uma por dia. Alocava-se mais verba para a educação do que para os pro­gramas sociais ou de defesa juntos.
Muitos psicólogos tiraram proveito dessa situação e rapidamente buscaram formas de apli­car o conhecimento e métodos de pesquisa à educação. Essa atividade estabeleceu a mudança fundamental na ênfase da psicologia estadunidense, que passou dos experimentos nos laboratórios acadêmicos para a aplicação da psicologia nas questões do ensino e da aprendizagem.

As Guerras Mundiais

As guerras foram outra força contextuai que ajudou a estruturar a psicologia moderna, criando oportunidades de trabalho para os psicólogos. Veremos no Capítulo 8 que as experiências dos psicólogos estadunidenses, colaborando com o esforço de guerra nas duas Guerras Mundiais, aceleraram o desenvolvimento da psicologia aplicada e estenderam a sua influência para áreas como seleção de pessoal, testes psicológicos e psicologia aplicada à engenharia. Esse trabalho demonstrou à grande parte da comunidade psicológica e ao público em geral a importante ajuda que a psicologia tinha a oferecer.

A Segunda Guerra Mundial também alterou a constituição e o destino da psicologia europeia, principalmente na Alemanha (onde surgiu a psicologia experimental) e na Áustria (o berço da psicanálise). Muitos pesquisadores e teóricos renomados fugiram da ameaça nazista na década de 1930, e a maioria passou a viver nos Estados Unidos. Esse exílio força­do marcou a fase final de transferência da psicologia, da Europa para os Estados Unidos.

As guerras provocaram grande impacto pessoal nas ideias de vários teóricos importan­tes. Por exemplo: após testemunhar a carnificina da Primeira Guerra Mundial, Sigmund Freud apresentou a tese de que a agressão é uma força motivadora significativa para a personalidade humana. Erich Fromm, teórico da personalidade e ativista da paz, atribuiu seu interesse pelo comportamento anormal à sua exposição ao fanatismo que varreu a Alemanha, sua terra natal, durante a guerra. [11]

Preconceito e Discriminação

Outro fator contextuai é a discriminação por raça, religião e sexo. Durante vários anos, esses preconceitos influenciaram algumas questões básicas como: "Quem está apto a ser um psicólogo?" ou "Onde ele ou ela pode trabalhar?"

Discriminação contra as mulheres.

A discriminação disseminada contra as mulhe­res existiu por toda a história da psicologia. Há inúmeros exemplos em que as mulheres não eram admitidas no programa de pós-graduação ou eram excluídas do corpo docente. Mesmo quando estavam capacitadas a ocupar essas posições, recebiam salários inferiores aos dos homens e encontravam barreiras para obter uma promoção ou uma titularidade. Por muitos anos, a única posição acadêmica tipicamente acessível às mulheres encontra­ va-se nas faculdades exclusivamente femininas e, mesmo assim, muitas dessas entidades cometiam uma forma própria de discriminação, recusando a contratação de mulheres casadas. A justificativa dada era de que a mulher não estava capacitada a administrar ao mesmo tempo a vida doméstica e a carreira como docente.

Eleanor Gibson, por exemplo, recebeu prêmios da APA, bem como diversos títulos honorários de doutora e a Medalha Nacional da Ciência por seu trabalho sobre o desen­volvimento perceptual e a aprendizagem. Quando se candidatou ao programa de pós-gra­duação na Yale University, na década de 1930, disseram-lhe que o diretor do laboratório de primatas não permitia a presença de mulheres em suas instalações. Ela também foi impedida de participar de seminários sobre a psicologia freudiana. E, ainda, as mulheres eram proibidas de usar a biblioteca dos estudantes de pós-graduação ou a lanchonete, que eram de uso exclusivo dos homens.

Trinta anos depois, a situação não havia mudado muito. Sandra Scarr, que trabalha­va a psicologia do desenvolvimento, lembrou-se da entrevista de admissão no programa de pós-graduação da Harvard University, em 1960. Gordon Allport, importante nome na psicologia da personalidade, disse-lhe que a Harvard não gostava de admitir mulheres. Ele disse: "Setenta e cinco por cento de vocês se casam, têm filhos e nunca terminam a graduação; enquanto o restante nunca chega a lugar algum!”, e Scarr acrescentou:

E, então, eu me casei, tive um filho no terceiro ano da pós-graduação e fui imediatamente excluída. Ninguém me respeitaria como cientista, nem faria algo por mim, como escre­ver uma carta de recomendação ou ajudar a conseguir um emprego. Ninguém acreditava que uma mulher com filhos pequenos pudesse realizar algo. Então, comecei a bater de porta em porta, expondo-me até conseguir um emprego. Finalmente, depois de 10 anos e de publicar vários artigos, os colegas começaram a me respeitar como psicóloga. (Scarr, 1987, p. 26)

Apesar desses exemplos óbvios de discriminação, os registros da psicologia relativos à igualdade de tratamento entre homens e mulheres são muito mais explícitos do que os de outras disciplinas e profissões acadêmicas. Mais ou menos no início do século XX, 20 mulheres receberam o título de doutorado em psicologia. Na edição de 1906 do trabalho de referência American Men of Science, 12% dos psicólogos relacionados eram mulheres, um número elevado, considerando as barreiras para o acesso aos cursos de pós-graduação. Essas psicólogas pioneiras foram amplamente incentivadas a associarem-se à APA.

James McKeen Cattell, pioneiro no movimento dos testes mentais, liderou o movimento para a aceitação das mulheres na psicologia, lembrando aos colegas que eles não deveriam "traçar uma fronteira do sexo" (carta não publicada, apud Sokal, 1992, p. 115). No segundo encontro anual da APA, em 1893, Cattell nomeou duas mulheres como membros. Principalmente por causa de seus esforços, a APA foi a primeira sociedade científica a admitir mulheres. Entre 1893 e 1921, a APA elegeu 79 mulheres como membros, representando 15% do total de novos associados desse período. Por volta de 1938, 20% dos psicólogos listados na American Men of Science eram mulheres, as quais representavam quase um terço de todos os membros da APA. Em torno de 1941, mais de mil mulheres completaram a pós-graduação em psicologia e um quarto de todos os psicólogos com Ph.D. eram mulheres (Capshaw, 1999).

Somente em 1905, Mary Whiton Calkins tornou-se a primeira mulher a presidir a APA. Em 1994, Dorothy Cantor foi a oitava mulher eleita presidente da APA e, em 2001, Norine Johnson foi a nona. Outras associações de profissionais negaram totalmente a participação das mulheres durante muitos anos. As médicas foram aceitas na Associação Médica Americana somente em 1915 (Walsh, 1977). As advogadas não eram admitidas na American Bar Association - ABA [Ordem dos Advogados dos Estados Unidos] até 1918; e somente em 1995 a ABA elegeu a primeira presidente (Furumoto, 1987; Scarbo- rough, 1992).

Discriminação com base em origem étnica.

Na década de 1960, homens e mulheres judeus enfrentaram quotas de admissão em faculdades e cursos de pós-graduação. Um estudo sobre a discriminação contra judeus, na época, em três universidades de elite - Harvard, Yale e Princeton - verificou que essas práticas de exclusão eram bastante di­fundidas. As pessoas que trabalhavam nos departamentos de Admissão e os presidentes de universidades falavam rotineiramente a respeito de se manter a "invasão dos judeus" sob controle. Os judeus aceitos eram geralmente segregados e não tinham permissão para participar de fraternidades ou jantares prestigiosos e clubes sociais. Uma porcentagem muito alta de alunos judeus era vista como uma ameaça; "Se judeus fossem admitidos," foi dito a um pesquisador, "eles iriam arruinar Princeton" (Karabel, 2005, p. 75).

Esses alunos judeus que conseguiram ser admitidos e chegaram a receber um diplo­ma de doutorado em psicologia ainda sofreram com antissemitismo. A Johns Hopkins University, em Baltimore, Maryland, e a Clark University, em Worcester, Massachusetts, duas instituições importantes na história da psicologia, foram fundadas no final dos anos 1800. Essas entidades tinham como regra não contratar professores judeus. Em outras faculdades, eram raras as posições acadêmicas abertas a psicólogos judeus. Julian Rotter, um dos grandes teóricos da psicologia do desenvolvimento, que obteve seu doutorado em 1941, lembrou-se de "ter sido alertado de que os judeus simplesmente não podiam ocupar posições acadêmicas, independentemente de suas credenciais" (Rotter, 1982, p. 346). Em vez de iniciar a carreira profissional lecionando em uma universidade, começou trabalhando em um hospital público para doentes mentais.

Quando Isadore Krechevsky não conseguia encontrar um emprego de professor após obter o Ph.D., resolveu mudar seu nome para David Krech. Quase no final da sua brilhan­te carreira na psicologia social, lembrou-se: "Eu sofri humilhações demais por causa do nome 'Krechevsky'" (Krech, 1974, p. 242).

Foi dito a David Bakanovsky, um aluno do pós-graduação da University of Iowa na década de 1940, que ele jamais conseguiria obter uma posição acadêmica. "Seu progresso foi bloqueado por diversas pessoas do corpo docente da faculdade que acreditavam que Iowa havia formado alunos judeus demais" (Weizmann e Weiss, 2005, p. 317). Ele mudou seu nome para Bakan e teve uma carreira brilhante. [13]

Harry Israel era protestante, mas seu nome fez com que se tornasse um alvo óbvio de discriminação. Dois professores seus do curso de pós-graduação sugeriram que o mudasse. Quando posteriormente eles o recomendaram para uma posição como docente em uma universidade de grande porte, o presidente da faculdade respondeu: "As suas qualificações não fazem nenhuma diferença. Simplesmente não posso aceitar um homem com esse nome" (Leroy e Kimble, 2003, p. 280). Harry Israel adotou o nome do meio de seu pai e teve uma carreira bem-sucedida em psicologia como Harry Harlow.

O biógrafo de Abraham Maslow conta que ele foi pressionado pelos professores da University of Wisconsin a alterar seu nome para "outro que não fosse tão judeu"; assim, teria melhores chances de obter um emprego acadêmico (Hoffman, 1996, p. 5). Maslow recusou-se a fazê-lo.
Robert Woodworth, famoso por sua teoria dinâmica da motivação humana, disse a Daniel Harris, após este obter o doutorado da Columbia University, em 1931, que ele não seria seu assistente no ano seguinte porque era judeu. Woodworth disse que Harris "não deveria criar muitas expectativas em relação à carreira acadêmica" (Harris, apud Winston, 1996, p. 33).

O psicólogo E. G. Boring, da Harvard, ao mencionar um dos alunos de pós-graduação, observou. Ele é judeu, e por causa disso até agora não lhe conseguimos uma colocação como professor universitário de psicologia, em virtude do preconceito existente contra os judeus em vários círculos acadêmicos e, talvez, mais ainda na psicologia" (apud Winston, 1996, p. 27-28). Esses e outros incidentes semelhantes levaram vários psicólogos judeus a trabalhar com a psicologia clínica, que oferecia mais oportunidades de emprego, em vez de tentar inutilmente seguir a carreira acadêmica.

Os afro-americanos enfrentaram fortes preconceitos da psicologia em geral. Em 1940, somente quatro faculdades para negros nos Estados Unidos ofereceram os cursos de gra­duação em psicologia. Quando o negro era aceito em uma universidade para brancos, enfrentava uma série de barreiras para conseguir frequentar os cursos. Nas décadas de 1930 e 1940, diversas faculdades nem permitiam que os negros morassem no campus. Francis Sumner, o primeiro negro a obter o título de doutorado em psicologia, recebeu, em 1917, uma carta de recomendação considerada excelente, para um estudante de pós-graduação! O seu orientador o descreveu como "um homem de cor (...) relativamente livre das caracte­rísticas físicas e mentais que muitas pessoas de outras raças consideram tão condenáveis" (Sawyer, 2000, p. 128). Quando Sumner matriculou-se para o curso de pós-graduação na Clark University, a direção da faculdade providenciou uma mesa separada no refeitório para ele e para os poucos colegas que se dispunham a acompanhá-lo nas refeições.

A principal universidade a dar formação em psicologia para estudantes negros era a Howard University, em Washington, DC. Na década de 1930, a escola era conhecida como a "Harvard dos Negros" (Phillips, 2000, p. 150). Entre 1930 e 1938, somente 36 negros estavam matriculados nos cursos de pós-graduação de psicologia em universida­ des fora da região sul dos Estados Unidos, e a maioria frequentava a Howard. Entre 1920 e 1950, 32 negros obtiveram o título de doutorado em psicologia. De 1920 a 1966, os 10 departamentos de psicologia de maior prestígio nos Estados Unidos concederam oito doutorados a negros, entre o total de mais de 3.700 concedidos (Guthrie, 1976- Russo e Denmark, 1987).

Kenneth Clark, conhecido por sua pesquisa sobre os efeitos da segregação racial nas crianças, formou-se na Howard University com o título de bacharel em psicologia, em 1935. Muitas vezes, não conseguia frequentar os restaurantes na região de Washington, DC, por causa da sua raça. Em 1934, organizou um protesto estudantil contra a segregação, sendo preso e acusado de provocar a desordem. Disse ter sido esse o início da sua carreira como [14] ativista em defesa da integração (Phillips, 2000). Sua inscrição para o curso de pós-gradua­ção na Cornell University foi recusada por questão racial. A justificativa dada foi de que os candidatos a Ph.D. trabalhavam "próximos demais" (Clark, 1978, p. 82). Em 1940, ele se tornou o primeiro afro-americano a conseguir um diploma de doutorado da Columbia University e o primeiro a se tornar professor catedrático vitalício na City College of New York (Philogene, 2004).

Mamie Phipps Clark também obteve o doutorado na Columbia University, mas além de discriminação racial, enfrentou discriminação sexual. Ela escreveu que "após a conclusão do curso, logo se tornou evidente para mim que uma mulher negra, com um Ph.D. em psicologia, era uma anomalia indesejada na cidade de Nova York no início da década de 1940" (M. P. Clark, citada em Cherry, 2004, p. 22). Embora Kenneth Clark, seu marido, fizesse parte do corpo docente do City College, Mamie Phipps Clark foi efetivamente barrada das posições acadêmicas. Conseguiu um emprego como analista de dados de pesquisa, posição inferior e que ela considerava "humilhante" para uma psicóloga com Ph.D. (M. P. Clark, apud Guthrie, 1990, p. 69).

Trabalhando com o marido, Mamie Clark montou um pequeno consultório na entrada de uma loja, oferecendo atendimento psicológico para crianças, inclusive aplicando testes. Seus esforços renderam-lhes frutos e a iniciativa transformou-se no famoso Northside Center for Child Development. Em 1939 e 1940, Mamie e Kenneth Clark conduziram um importan­ te programa de pesquisa sobre a identidade racial e as questões de autoconhecimento das crianças negras. Os resultados desse trabalho foram citados em 1954, na Suprema Corte dos Estados Unidos, em uma decisão que se tornou um marco para o fim da segregação racial nas escolas públicas. Essa decisão é considerada por muitos historiadores e proeminentes juristas o mais importante parecer da Suprema Corte no século XX. Em 1971, Kenneth Clark presidiu a APA, sendo o primeiro afro-americano eleito a ocupar essa posição.

Apesar de suas grandes realizações, Clark considerou sua vida como uma série de "fracassos magníficos". Aos 78 anos de idade ele disse que era "mais pessimista agora do que duas décadas atrás" (K. Clark, apud Severo, 2005, p. 23).

O título de Ph.D. era o primeiro obstáculo a ser vencido pelos negros e o próximo era encontrar um emprego digno. Poucas universidades empregavam professores negros, e a maioria das empresas que contratava os profissionais da psicologia aplicada (a principal fonte de trabalho para as mulheres psicólogas) não aceitava os afro-americanos. As facul­dades tradicionalmente para negros eram as principais fontes de trabalho. No entanto, suas condições raramente ofereciam oportunidade para o tipo de pesquisa acadêmica que promovesse notoriedade e reconhecimento profissional. Em 1936, o professor de uma faculdade para negros descreveu a seguinte situação:

"A falta de dinheiro, o excesso de trabalho e outros fatores desagradáveis tornam praticamente impossível para ele realizar algo de destaque no campo da cultura puramente acadêmica. Ele não tem condições de comprar muitos livros nem consegue obtê-los na biblioteca da faculdade, já que não exis­tem bibliotecas adequadas nas escolas de negros. Provavelmente a pior carência de todas é a ausência da atmosfera cultural. Não há incentivo e, evidentemente, não há verba para pesquisas na maioria das escolas" (A. P. Davis, apud Guthrie, 1976, p. 123).

Desde a década de 1960, a APA tem feito grandes esforços para trazer maior diversidade à área, expandindo oportunidades para que minorias étnicas possam frequentar cursos de pós-graduação e para aumentar sua presença entre o corpo docente das faculdades. Apesar dessas iniciativas, a representação de minorias entre professores com Ph.D. nos campi universitários não tem crescido na mesma proporção dos afro-americanos ou hispânicos na população em geral. Por exemplo, os brancos constituem aproximadamente 65% da [15] população dos Estados Unidos e recebem 80% dos diplomas em doutorado em psicologia, enquanto as minorias étnicas recebem aproximadamente 16% desses diplomas. Os negros representam 4,6% dos que recebem Ph.D.; os hispânicos 5%. Os dois grupos estão sub-representados entre os membros da APA, bem como entre os docentes nas universidades. Uma exceção entre os grupos minoritários está o dos asiáticos americanos que representam menos do que 5% da população americana e conseguem 4,6% dos diplomas de doutorado em psicologia. Eles têm obtido mais vantagens acadêmicas nos últimos anos do que outros grupos minoritários (dados obtidos em Bailey, 2006; Dingíelder, 2006; Maton, Kohout,
Wicherski, Leary e Vinokurov, 2006; Pickren, 2004).

Quando consideramos os efeitos do preconceito como fator contextual que restringe o acesso das mulheres e das minorias à educação e às oportunidades de trabalho na psicologia, é importante observar o seguinte: sim, é verdade que a história da psicologia descrita neste livro e em outros menciona as contribuições de poucos acadêmicos do sexo feminino e de minorias em virtude da discriminação. No entanto, também é verdade que a proporção de homens brancos que se destacaram é pouca, quando comparada à quantidade total de traba­lhos produzidos por psicólogos do sexo masculino. Esse fato não resulta da discriminação deliberada; ao contrário, deve-se à metodologia de registro da história de qualquer área.

A história de uma disciplina como a psicologia envolve a descrição das principais des­cobertas, o esclarecimento das questões prioritárias e a identificação das "personagens importantes" no contexto de um Zeitgeist nacional ou internacional. Quem executa o trabalho rotineiro de uma disciplina provavelmente não terá destaque (...). Os psicólo­gos com muito talento que, no entanto, atuem com discrição, lecionando, atendendo a pacientes, realizando experiências, compartilhando as informações com os companheiros de profissão (...) poucas vezes serão reconhecidos publicamente, a não ser por um grupo restrito de colegas. (Pate e Wertheimer, 1993, p. xv)

Assim, a história ignora o trabalho cotidiano da maioria dos psicólogos, independen­temente da raça, do sexo ou da etnia. [16]

Visões da História Científica

Existem duas perspectivas de análise da evolução histórica da psicologia científica: a abor­ dagem personalista e a naturalista.

A Teoria Personalista

A teoria personalista da história científica concentra-se nas realizações e contribuições de pessoas específicas. De acordo com essa perspectiva, o progresso e a mudança resultam diretamente da vontade e do carisma do indivíduo, que, sozinho, redireciona o curso da história. Napoleão, Hitler ou Darwin foram, assim como afirma a teoria, os principais condutores e formadores dos grandes acontecimentos. A visão personalista parte do pressuposto que os eventos nunca teriam ocorrido sem o surgimento dessas impressionantes figuras. Na verdade a teoria afirma que o indivíduo é responsável por edificar a era. [16]

À primeira vista, parece claro que a ciência consiste no trabalho de homens e mulheres inteligentes, criativos e dinâmicos, que, sozinhos, determinam sua direção. Frequentemente damos a um período o nome da pessoa cuja descoberta, teoria ou outra contribuição o tenha marcado. Quando nos referimos à física, dizemos "pós-Einstein", ou à escultura, "pós-Michelângelo". Estão presentes na ciência, nas artes e na cultura popular indivíduos que produziram mudanças dramáticas e, às vezes, traumáticas, que alteraram o curso da história.

Assim, a teoria personalista tem o seu mérito, mas fica a dúvida: ela é suficiente para explicar toda a evolução da ciência ou da sociedade? Não. Muitas vezes, as contribuições dos cientistas, artistas e pesquisadores foram ignoradas ou omitidas em vida, sendo reconhe­cidas somente muito tempo depois. Esses exemplos indicam que a atmosfera intelectual, cultural ou espiritual da época pode determinar se a ideia será aceita ou rejeitada, elogiada ou desprezada. A história da ciência é também a história das descobertas e observações que foram inicialmente rejeitadas.

Mesmo os grandes pensadores e inventores foram repri­midos pelo Zeitgeist, pelo espírito ou ambiente da época. Portanto, a aceitação e a aplicação da descoberta ou da ideia de uma grande personalida­de podem ser restringidas pelo pensamento predominante. Todavia, uma ideia heterodoxa demais para uma época e um determinado lugar pode prontamente ser recebida e apoiada uma geração ou um século mais tarde. O progresso científico tem como regra a mudança lenta.

A Teoria Naturalista

Vimos, então, que o conceito de o indivíduo ser o responsável por determinar uma época não está totalmente correto. Talvez, assim como propõe a teoria naturalista da história, a época é que molda o indivíduo, ou, pelo menos, torna possível reconhecer a proposta de um indivíduo. A menos que o Zeitgeist e outras forças contextuais sejam receptivas ao novo trabalho, o proponente pode ser ignorado, isolado ou massacrado. A reação da sociedade também depende do Zeitgeist. [17] Analisemos o exemplo de Charles Darwin. A teoria naturalista sugere que, se Darwin tivesse morrido jovem, outra pessoa teria desenvolvido a teoria da evolução em meados do século XIX, porque a atmosfera intelectual era satisfatória para aceitar essa explicação sobre a origem da espécie humana (e, realmente, outra pessoa desenvolveu a mesma teo­ria na mesma época, como veremos no Capítulo 6).

O efeito inibidor ou protelador do Zeitgeist não opera apenas no amplo nível cultural, como também na ciência propriamente dita, em que pode ser ainda mais acentuado. O conceito de resposta condicionada sugerido pelo cientista escocês Robert Whytt, em 1763, não despertou nenhum interesse na época. Mais de um século depois, quando os pesquisa­dores adotavam métodos de pesquisa mais objetivos, o psicólogo russo Ivan Pavlov aprimo­rou as observações de Whytt, expandindo-as e transformando-as em base para um novo sistema de psicologia. Portanto, uma descoberta, muitas vezes, deve aguardar o momento mais adequado. Um psicólogo emitiu esta sábia observação: "Não há muita novidade neste mundo. O que se apresenta como uma descoberta hoje, costuma ser uma redescoberta científica individual de algum fenômeno bem definido" (Gazzaniga, 1988, p. 231).

Os exemplos de descobertas simultâneas também apoiam a definição naturalista da história científica. Descobertas semelhantes resultaram de trabalhos individuais realiza­dos a uma distância geográfica considerável e, muitas vezes, sem o conhecimento um do outro. Em 1900, três pesquisadores que não se conheciam, coincidentemente, redescobriram o trabalho do botânico austríaco. Gregor Mendel, cujos estudos de genética foram amplamente ignorados por 35 anos.

A posição teórica dominante no campo científico pode inibir ou impedir a observação de novos pontos de vista. Uma teoria às vezes é tão plenamente apoiada pela maioria dos cientistas a ponto de reprimir qualquer busca por novos assuntos ou métodos. A teoria estabelecida pode determinar a forma de organização e de análise dos dados, assim como a autorização da publicação dos resultados de pesquisas nas revistas científi­cas em geral. Descobertas contraditórias ou opostas ao pensamento corrente podem ser rejeitadas pelos editores das publicações especializadas, que funcionam como "porteiros" ou censores, impondo a adequação à ideia dominante, descartando ou banalizando ideias revolucionárias ou interpretações inusitadas.

Em uma análise dos artigos que apareceram em dois periódicos de psicologia (um pu­blicado nos Estados Unidos e o outro na Alemanha) em um lapso de 30 anos, entre 1890 e 1920, foi examinado quanto um artigo era considerado importante na época da publicação e posteriormente. O nível de importância foi medido pelo número de citações do artigo em publicações subsequentes. Os resultados mostraram claramente que, de acordo com essa medida, o nível da importância científica dos artigos dependia de "os tópicos de pesquisa estarem de acordo com a atenção científica da época" (Lange, 2005, p. 209). As questões que não se mantinham em dia com as ideias aceitas eram julgadas como menos importantes.

Na década de 1970, o psicólogo John Garcia tentou publicar os resultados da pesqui­sa que desafiava a teoria de aprendizagem por estímulo-resposta (E-R) predominante na época. Embora o trabalho fosse considerado sério e reconhecido profissionalmente, as principais publicações recusaram-se a aceitar os seus artigos. Garcia, que era hispano-ame­ricano, foi eleito para a Society of Experimental Psychologists [Sociedade dos Psicólogos Experimentalistas] e recebeu o prêmio de destaque da APA pela contribuição científica da sua pesquisa. O seu trabalho finalmente foi publicado, mas em revistas especializadas de menor destaque e circulação, e essa situação atrasou a disseminação das suas ideias.

O Zeitgeist na ciência pode provocar efeito inibidor sobre os métodos de investigação, sobre as formulações teóricas e sobre a definição do objeto de estudo. Descreveremos nos capítulos seguintes a tendência inicial da psicologia científica em concentrar-se na cons­ciência e nos aspectos subjetivos da natureza humana. Somente após a década de 1920 foi possível dizer, como se fosse uma piada, que a psicologia finalmente "perdera a cabeça" junto, a consciência. No entanto, meio século depois, sob o impacto de um Zeitgeist diferente e em reação ao clima intelectual da época, a psicologia adquiriu novamente a consciência, considerando-a um problema passível de investigação.

Talvez seja mais fácil entender essa situação se a compararmos com a evolução das espiévies vivas. Tanto a ciência como as espécies se adaptam ou mudam em resposta às [18] exigências do seu ambiente. O que acontece com as espécies ao longo do tempo? Muito pouco, se o ambiente permanecer constante por bastante tempo. No entanto, quando as condições mudam, as espécies acabam extintas, se não reagirem.
Do mesmo modo, a ciência existe no contexto de um ambiente, o Zeitgeist, ao qual deve reagir com rapidez. O Zeitgeist é mais intelectual do que físico, mas, assim como o ambiente físico, está sujeito a mudanças. Existem provas desse processo de evolução em toda a história da psicologia. Quando o Zeitgeist favorecia a investigação, a reflexão e a intuição como caminhos em busca da verdade, a psicologia também apoiava esses métodos. Mais tarde, quando o espírito intelectual dos tempos impunha uma abordagem empírica, os métodos da psicologia orientaram-se nessa direção. No início do século XX, quando uma forma de psicologia foi transplantada para um solo intelectual diferente, ela se transformou em duas espécies distintas (esse fato ocorreu quando os psicólogos trouxeram para os Estados Unidos a psicologia original alemã, que foi modificada para se transformar em psicologia exclusivamente americana).

A ênfase dada ao Zeitgeist não nega a importância da visão personalista da história científica, ou seja, as importantes contribuições dos grandes homens e das grandes mulhe­ res, mas é necessário analisar as ideias no contexto. Charles Darwin e Marie Curie não alteraram sozinhos o curso da história apenas pela força da genialidade. Eles o fizeram porque o clima era favorável.

Assim, neste livro abordaremos a evolução histórica da psicologia tanto com base na visão naturalista como na visão personalista, embora o Zeitgeist desempenhe o papel principal. Quando os cientistas propõem ideias distantes demais do contexto da época, formado de pensamentos culturais e intelectuais aceitos, seus conceitos provavelmente cairão na obscuridade. O trabalho de criação individual é como um prisma que propaga, elabora e amplia o pensamento corrente, e não como um foco de luz concentrado. Entre­ tanto, lembre-se de que ambas as visões iluminam o caminho a seguir.

Escolas de Pensamento na Evolução da Psicologia Moderna

Durante o último quartel do século XIX, ou seja, nos anos iniciais da evolução da psico­logia como uma disciplina científica distinta, o rumo da nova área foi influenciado por Wilhelm Wundt. Psicólogo alemão, Wundt tinha ideias precisas em relação à forma da nova ciência (a sua nova ciência). Ele estabeleceu as metas, o objeto de estudo, os méto­dos e os tópicos de pesquisa. Nesse aspecto, Wundt foi influenciado pelo espírito da sua época, isto é, pelos pensamentos filosófico e fisiológico vigentes. Todavia Wundt assumiu o papel de agente do Zeitgeist e uniu as linhas do pensamento filosófico e científico. Por ser um promotor tão determinado do inevitável, sua visão foi responsável pela moldagem da psicologia durante algum tempo.

No entanto, não demorou muito para aparecerem divergências entre os muitos psicó­logos que surgiam. Novas ideias sociais e científicas se desenvolviam. Alguns psicólogos, refletindo mais as correntes de pensamento modernas, discordavam da versão da psicologia de Wundt e apresentavam visões próprias. Por volta de 1900, diversas posições sistemáti­cas e escolas de pensamento conviveram, com alguma divergência. Podemos considerar diferentes definições sobre a natureza da psicologia.[19]

A expressão escola de pensamento refere-se a um grupo de psicólogos que se associam ecologicamente e, algumas vezes, geograficamente com o líder de um movimento geralmente, os membros de uma escola de pensamento compartilham da mesma orientação sistematica e teonca e investigam problemas semelhantes. O surgimento de várias escolas de pensamento, seu posterior declínio e a consequente substituição por outras são carac­terísticas marcantes da história da psicologia.

O estágio do desenvolvimento da ciência, quando ainda se encontra dividida em escolas de pensamento foi denominado "pré-paradigmático" (um paradigma, ou seja, um modelo ou padrão, e a forma de pensamento aceita na disciplina científica e provedora das perguntas e respostas fundamentais). A noção de paradigma na evolução científica foi elaborada por Thomas Kuhn, historiador da ciência e autor do livro The structure of scientific revolution (Estrutura das revoluções científicas), lançado em 1970 e com milhões de cópias vendidas.

O desenvolvimento de uma ciência atinge estágio mais maduro e avançado quando ela não apresenta mais características de escolas de pensamento concorrentes ou seja quando a maioria dos cientistas concorda com as mesmas colocacões teóricas e métodológicas. Nesse estagio, um paradigma ou um modelo comum define todo o campo. Os paradigmas podem ser observados, por exemplo, na história da física. O conceito de mecanismo de Galileu e Newton foi aceito pelos físicos por 300 anos e durante esse período virtualmente todas as pesquisas foram realizadas de acordo com os seus parâmetros. Entao a maioria dos físicos passou a aceitar o modelo de Einstein, uma nova maneira de
ver o objeto de estudo, e a abordagem de Galileu e Newton perdeu lugar. Essa substituição de um paradigma por outro é o que Kuhn define como revolução científica.

A psicologia ainda nao atingiu o estágio paradigmático. Ao longo de toda a história da psicologia os cientistas e profissionais vêm buscando, adotando e rejeitando diversas definições relacionadas com a área. Não houve uma única escola ou uma única vislo capaz de unificar as diversas posições. O psicólogo cognitivo George Miller comentou que nenhum metodo e nenhuma técnica padrão integra a psicologia. E parece não haver qualquer principio cientifico fundamental comparável às leis da inércia de Newton e à teoria evolucionista de Darwin" (Miller, 1985, p. 42).

Assim, a psicologia parece estar mais fragmentada hoje do que em qualquer outro período em sua história, com cada facção apegando-se à sua orientação teórica e metodologica, estudando a natureza humana com diferentes técnicas e se autopromovendo com jargão especializado, jornais e as pompas de cada escola de pensamento.

Cada uma das primeiras escolas de pensamento na psicologia foi um movimento de protesto, ou seja, uma revolta contra a posição sistemática dominante. Cada escola [20] chamava a atenção para os pontos fracos observados no sistema antigo e oferecia novas definições, conceitos e estratégias de pesquisa a fim de corrigir falhas. Quando uma nova escola de pensamento despertava a atenção de um segmento da comunidade científica, os especialistas rejeitavam a visão anterior. Esses conflitos intelectuais entre as posições antiga e nova costumavam provocar discussões acaloradas.

Nem sempre os líderes da antiga escola de pensamento acabavam convencidos do valor do novo sistema. Geralmente com idades mais avançadas, esses psicólogos eram tão apega­dos intelectual e emocionalmente às suas posições que dificilmente aceitavam as mudanças. Entretanto, os mais jovens e, assim, menos comprometidos com a escola antiga eram mais facilmente atraídos pelas novas ideias e tornavam-se defensores da nova posição, isolando as demais com as suas tradições e os seus trabalhos. O físico alemão Max Planck declarou: "A nova verdade científica não triunfa por convencer os opositores mostrando-lhes a luz, mas sim porque os adversários acabam morrendo, e a nova geração acaba crescendo fami­liarizada com essa verdade" (Planck, 1949, p. 33). Charles Darwin disse, quando jovem: "Que bom seria se todo cientista morresse aos 60 anos, já que depois disso certamente se oporia a todas as novas doutrinas" (Darwin, apud Boorstin, 1983, p. 468).

As diferentes escolas de pensamento desenvolveram-se durante o curso da história da psicologia, tendo sido cada uma um protesto eficaz contra a anterior. Cada nova escola usava o seu antigo oponente como alvo das investidas para ganhar destaque. Cada uma manifestava claramente a posição contrária e a característica que a distinguia do sistema teórico estabelecido. À medida que o novo sistema se desenvolvia e atraía novos adeptos e novas influências, fomentava a oposição e todo o processo combativo era renovado. O que fora uma revolução pioneira e agressiva tornava-se, à custa do próprio sucesso, a tradição estabelecida e, inevitavelmente, acabava sucumbindo ao entusiasmo do mais novo movimento de oposição que vinha a seguir. O sucesso esgota o entusiasmo, e um moyimento alimenta-se da oposição. A derrota da oposição acaba destruindo a paixão e o ardor daquilo que um dia fora um novo movimento. [21]

Psicologia - História da Psicologia
6/19/2018 6:06:00 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Contexto evolutivo da Psicologia estadunidense

Uma ciência como a psicologia não se desenvolve no vazio, sujeita apenas às influências internas. Por fazer parte de uma cultura mais ampla, a psicologia também sofre influência das forças externas, que dão forma à sua natureza e direção. Para entender a história da psicologia, é necessário analisar o contexto em que a disciplina evoluiu, as ideias predominantes na ciência e cultura da época, ou seja, o Zeitgeistou ambiente cultural do período, além de examinar as forças sociais, econômicas e políticas existentes.

Descreveremos diversos exemplos, neste livro, sobre como essas forças contextuais influenciaram o passado da psicologia e continuam a moldar o presente e o futuro. Vejamos a seguir alguns exemplos de forças contextuais, incluindo as oportunidades resultantes da economia, guerras mundiais e preconceito.

O portunidades Advindas da Economia

Os primeiros anos do século XX testemunharam mudanças drásticas na natureza da psicologia nos Estados Unidos e no tipo de trabalho que os psicólogos estavam desenvolvendo. Principalmente em função do cenário econômico, muitas oportunidades surgiam para que os psicólogos aplicassem seus conhecimentos e técnicas em busca das soluções para os problemas do mundo real. A primeira explicação para essa situação tinha um sentido prático, assim como declarou um psicólogo: "Passei a adotar a psicologia aplicada para ganhar a vida” (H. Hollingworth, apud O'Donnell, 1985, p. 225).

No final do século XIX, o número de laboratórios de psicologia nos Estados Unidos crescia bastante, e aumentava a quantidade de psicólogos em busca de oportunidades [10] de trabalho. Por volta de 1900, havia três vezes mais psicólogos com doutorado do que laboratórios onde pudessem trabalhar. Felizmente, o número de vagas para professores aumentava à medida que os Estados do meio-oeste e oeste criavam as universidades. Entretanto, sendo uma ciência muito recente na maioria das universidades, a psicologia recebia a menor verba orçamentária. Comparado aos demais departamentos, como os de física e química, o de psicologia, muitas vezes, era o que apresentava o menor orçamento anual, isto é, recebia a menor verba para os projetos de pesquisa, equipamentos de laboratório e salários do corpo docente.

Os psicólogos logo perceberam que, se havia a necessidade constante de melhorar departamentos acadêmicos, verbas e receitas, eles deveriam provar à direção das universidades e autoridades governamentais que a psicologia podia ser útil na solução dos problemas sociais, educacionais e industriais. E assim, com o passar do tempo, os departamentos de psicologia começaram a ser avaliados com base no seu valor prático.

Ao mesmo tempo, as mudanças sociais observadas na população estadunidense criaram uma ótima oportunidade para os psicólogos aplicarem as suas habilidades. O fluxo de entrada de imigrantes nos Estados Unidos, aliado à alta taxa de natalidade, transformou a educação pública em uma indústria crescente. Entre 1890 e 1918, as matrículas nas escolas públicas aumentaram em 700% e as escolas de ensino médio eram construídas na proporção de uma por dia. Alocava-se mais verba para a educação do que para os programas sociais ou de defesa juntos.

Muitos psicólogos tiraram proveito dessa situação e rapidamente buscaram formas de aplicar o conhecimento e métodos de pesquisa à educação. Essa atividade estabeleceu a mudança fundamental na ênfase da psicologia estadunidense, que passou dos experimentos nos laboratórios acadêmicos para a aplicação da psicologia nas questões do ensino e da aprendizagem.

As Guerras Mundiais

As guerras foram outra força contextual que ajudou a estruturar a psicologia moderna, criando oportunidades de trabalho para os psicólogos. [...] as experiências dos psicólogos estadunidenses, colaborando com o esforço de guerra nas duas Guerras Mundiais, aceleraram o desenvolvimento da psicologia aplicada e estenderam a sua influência para áreas como seleção de pessoal, testes psicológicos e psicologia aplicada à engenharia. Esse trabalho demonstrou à grande parte da comunidade psicológica e ao público em geral a importante ajuda que a psicologia tinha a oferecer.

A Segunda Guerra Mundial também alterou a constituição e o destino da psicologia europeia, principalmente na Alemanha (onde surgiu a psicologia experimental) e na Áustria (o berço da psicanálise). Muitos pesquisadores e teóricos renomados fugiram da ameaça nazista na década de 1930, e a maioria passou a viver nos Estados Unidos. Esse exílio forçado marcou a fase final de transferência da psicologia, da Europa para os Estados Unidos.

As guerras provocaram grande impacto pessoal nas ideias de vários teóricos importantes. Por exemplo: após testemunhar a carnificina da Primeira Guerra Mundial, Sigmund Freud apresentou a tese de que a agressão é uma força motivadora significativa para a personalidade humana. Erich Fromm, teórico da personalidade e ativista da paz, atribuiu seu interesse pelo comportamento anormal à sua exposição ao fanatismo que varreu a Alemanha, sua terra natal, durante a guerra. [11]

Preconceito e Discriminação

Outro fator contextuai é a discriminação por raça, religião e sexo. Durante vários anos, esses preconceitos influenciaram algumas questões básicas como: "Quem está apto a ser um psicólogo?" ou "Onde ele ou ela pode trabalhar?"

Discriminação contra as mulheres. A discriminação disseminada contra as mulheres existiu por toda a história da psicologia. Há inúmeros exemplos em que as mulheres não eram admitidas no programa de pós-graduação ou eram excluídas do corpo docente. Mesmo quando estavam capacitadas a ocupar essas posições, recebiam salários inferiores aos dos homens e encontravam barreiras para obter uma promoção ou uma titularidade. Por muitos anos, a única posição acadêmica tipicamente acessível às mulheres encontrava-se nas faculdades exclusivamente femininas e, mesmo assim, muitas dessas entidades cometiam uma forma própria de discriminação, recusando a contratação de mulheres casadas. A justificativa dada era de que a mulher não estava capacitada a administrar ao mesmo tempo a vida doméstica e a carreira como docente.

Eleanor Gibson, por exemplo, recebeu prêmios da APA, bem como diversos títulos honorários de doutora e a Medalha Nacional da Ciência por seu trabalho sobre o desenvolvimento perceptual e a aprendizagem. Quando se candidatou ao programa de pós-graduação na Yale University, na década de 1930, disseram-lhe que o diretor do laboratório de primatas não permitia a presença de mulheres em suas instalações. Ela também foi impedida de participar de seminários sobre a psicologia freudiana. E, ainda, as mulheres eram proibidas de usar a biblioteca dos estudantes de pós-graduação ou a lanchonete, que eram de uso exclusivo dos homens.

Trinta anos depois, a situação não havia mudado muito. Sandra Scarr, que trabalhava a psicologia do desenvolvimento, lembrou-se da entrevista de admissão no programa de pós-graduação da Harvard University, em 1960. Gordon Allport, importante nome na psicologia da personalidade, disse-lhe que a Harvard não gostava de admitir mulheres. Ele disse: "Setenta e cinco por cento de vocês se casam, têm filhos e nunca terminam a graduação; enquanto o restante nunca chega a lugar algum!”, e Scarr acrescentou:

E, então, eu me casei, tive um filho no terceiro ano da pós-graduação e fui imediatamente excluída. Ninguém me respeitaria como cientista, nem faria algo por mim, como escrever uma carta de recomendação ou ajudar a conseguir um emprego. Ninguém acreditava que uma mulher com filhos pequenos pudesse realizar algo. Então, comecei a bater de porta em porta, expondo-me até conseguir um emprego. Finalmente, depois de 10 anos e de publicar vários artigos, os colegas começaram a me respeitar como psicóloga. (Scarr, 1987, p. 26)

Apesar desses exemplos óbvios de discriminação, os registros da psicologia relativos à igualdade de tratamento entre homens e mulheres são muito mais explícitos do que os de outras disciplinas e profissões acadêmicas. Mais ou menos no início do século XX, 20 mulheres receberam o título de doutorado em psicologia. Na edição de 1906 do trabalho de referência American Men of Science, 12% dos psicólogos relacionados eram mulheres, um número elevado, considerando as barreiras para o acesso aos cursos de pós-graduação. Essas psicólogas pioneiras foram amplamente incentivadas a associarem-se à APA.

James McKeen Cattell, pioneiro no movimento dos testes mentais [...] liderou o movimento para a aceitação das mulheres na psicologia, lembrando aos colegas [12] que eles não deveriam "traçar uma fronteira do sexo" (carta não publicada, apud Sokal, 1992, p. 115). No segundo encontro anual da APA, em 1893, Cattell nomeou duas mulheres como membros. Principalmente por causa de seus esforços, a APA foi a primeira sociedade científica a admitir mulheres. Entre 1893 e 1921, a APA elegeu 79 mulheres como membros,

representando 15% do total de novos associados desse período. Por volta de 1938, 20% dos psicólogos listados na American Men of Science eram mulheres, as quais representavam quase um terço de todos os membros da APA. Em torno de 1941, mais de mil mulheres completaram a pós-graduação em psicologia e um quarto de todos os psicólogos com Ph.D. eram mulheres (Capshaw, 1999).

Somente em 1905, Mary Whiton Calkins tornou-se a primeira mulher a presidir a APA. Em 1994, Dorothy Cantor foi a oitava mulher eleita presidente da APA e, em 2001, Norine Johnson foi a nona. Outras associações de profissionais negaram totalmente a participação das mulheres durante muitos anos. As médicas foram aceitas na Associação Médica Americana somente em 1915 (Walsh, 1977). As advogadas não eram admitidas na American Bar Association - ABA [Ordem dos Advogados dos Estados Unidos] até 1918; e somente em 1995 a ABA elegeu a primeira presidente (Furumoto, 1987; Scarborough, 1992).

Discriminação com base em origem étnica. Na década de 1960, homens e mulheres judeus enfrentaram quotas de admissão em faculdades e cursos de pós-graduação. Um estudo sobre a discriminação contra judeus, na época, em três universidades de elite - Harvard, Yale e Princeton - verificou que essas práticas de exclusão eram bastante difundidas. As pessoas que trabalhavam nos departamentos de Admissão e os presidentes de universidades falavam rotineiramente a respeito de se manter a "invasão dos judeus" sob controle. Os judeus aceitos eram geralmente segregados e não tinham permissão para participar de fraternidades ou jantares prestigiosos e clubes sociais. Uma porcentagem muito alta de alunos judeus era vista como uma ameaça; "Se judeus fossem admitidos," foi dito a um pesquisador, "eles iriam arruinar Princeton" (Karabel, 2005, p. 75).

Esses alunos judeus que conseguiram ser admitidos e chegaram a receber um diploma de doutorado em psicologia ainda sofreram com antissemitismo. A Johns Hopkins University, em Baltimore, Maryland, e a Clark University, em Worcester, Massachusetts, duas instituições importantes na história da psicologia, foram fundadas no final dos anos 1800. Essas entidades tinham como regra não contratar professores judeus. Em outras faculdades, eram raras as posições acadêmicas abertas a psicólogos judeus. Julian Rotter, um dos grandes teóricos da psicologia do desenvolvimento, que obteve seu doutorado em 1941, lembrou-se de "ter sido alertado de que os judeus simplesmente não podiam ocupar posições acadêmicas, independentemente de suas credenciais" (Rotter, 1982, p. 346). Em vez de iniciar a carreira profissional lecionando em uma universidade, começou trabalhando em um hospital público para doentes mentais.

Quando Isadore Krechevsky não conseguia encontrar um emprego de professor após obter o Ph.D., resolveu mudar seu nome para David Krech. Quase no final da sua brilhate carreira na psicologia social, lembrou-se: "Eu sofri humilhações demais por causa do nome 'Krechevsky'" (Krech, 1974, p. 242).

Foi dito a David Bakanovsky, um aluno do pós-graduação da University of Iowa na década de 1940, que ele jamais conseguiria obter uma posição acadêmica. "Seu progresso foi bloqueado por diversas pessoas do corpo docente da faculdade que acreditavam que Iowa havia formado alunos judeus demais" (Weizmann e Weiss, 2005, p. 317). Ele mudou seu nome para Bakan e teve uma carreira brilhante. [13]

Harry Israel era protestante, mas seu nome fez com que se tornasse um alvo óbvio de discriminação. Dois professores seus do curso de pós-graduação sugeriram que o mudasse. Quando posteriormente eles o recomendaram para uma posição como docente em uma universidade de grande porte, o presidente da faculdade respondeu: "As suas qualificações não fazem nenhuma diferença. Simplesmente não posso aceitar um homem com esse nome" (Leroy e Kimble, 2003, p. 280). Harry Israel adotou o nome do meio de seu pai e teve uma carreira bem-sucedida em psicologia como Harry Harlow.

O biógrafo de Abraham Maslow conta que ele foi pressionado pelos professores da University of Wisconsin a alterar seu nome para "outro que não fosse tão judeu"; assim, teria melhores chances de obter um emprego acadêmico (Hoffman, 1996, p. 5). Maslow recusou-se a fazê-lo.

Robert Woodworth, famoso por sua teoria dinâmica da motivação humana, disse a Daniel Harris, após este obter o doutorado da Columbia University, em 1931, que ele não seria seu assistente no ano seguinte porque era judeu. Woodworth disse que Harris "não deveria criar muitas expectativas em relação à carreira acadêmica" (Harris, apud Winston, 1996, p. 33).

O psicólogo E. G. Boring, da Harvard, ao mencionar um dos alunos de pós-graduação, observou. Ele é judeu, e por causa disso até agora não lhe conseguimos uma colocação como professor universitário de psicologia, em virtude do preconceito existente contra os judeus em vários círculos acadêmicos e, talvez, mais ainda na psicologia" (apud Winston, 1996, p. 27-28). Esses e outros incidentes semelhantes levaram vários psicólogos judeus a trabalhar com a psicologia clínica, que oferecia mais oportunidades de emprego, em vez de tentar inutilmente seguir a carreira acadêmica.

Os afro-americanos enfrentaram fortes preconceitos da psicologia em geral. Em 1940, somente quatro faculdades para negros nos Estados Unidos ofereceram os cursos de graduação em psicologia. Quando o negro era aceito em uma universidade para brancos, enfrentava uma série de barreiras para conseguir frequentar os cursos. Nas décadas de 1930 e 1940, diversas faculdades nem permitiam que os negros morassem no campus. Francis Sumner, o primeiro negro a obter o título de doutorado em psicologia, recebeu, em 1917, uma carta de recomendação considerada excelente, para um estudante de pós-graduação! O seu orientador o descreveu como "um homem de cor (...) relativamente livre das características físicas e mentais que muitas pessoas de outras raças consideram tão condenáveis" (Sawyer, 2000, p. 128). Quando Sumner matriculou-se para o curso de pós-graduação na Clark University, a direção da faculdade providenciou uma mesa separada no refeitório para ele e para os poucos colegas que se dispunham a acompanhá-lo nas refeições.

A principal universidade a dar formação em psicologia para estudantes negros era a Howard University, em Washington, DC. Na década de 1930, a escola era conhecida como a "Harvard dos Negros" (Phillips, 2000, p. 150). Entre 1930 e 1938, somente 36 negros estavam matriculados nos cursos de pós-graduação de psicologia em universidades fora da região sul dos Estados Unidos, e a maioria frequentava a Howard. Entre 1920 e 1950, 32 negros obtiveram o título de doutorado em psicologia. De 1920 a 1966, os 10 departamentos de psicologia de maior prestígio nos Estados Unidos concederam oito doutorados a negros, entre o total de mais de 3.700 concedidos (Guthrie, 1976- Russo e Denmark, 1987).

Kenneth Clark, conhecido por sua pesquisa sobre os efeitos da segregação racial nas crianças, formou-se na Howard University com o título de bacharel em psicologia, em 1935. Muitas vezes, não conseguia frequentar os restaurantes na região de Washington, DC, por causa da sua raça. Em 1934, organizou um protesto estudantil contra a segregação, sendo preso e acusado de provocar a desordem. Disse ter sido esse o início da sua carreira como [14] ativista em defesa da integração (Phillips, 2000). Sua inscrição para o curso de pós-graduação na Cornell University foi recusada por questão racial. A justificativa dada foi de que os candidatos a Ph.D. trabalhavam "próximos demais" (Clark, 1978, p. 82). Em 1940, ele se tornou o primeiro afro-americano a conseguir um diploma de doutorado da Columbia University e o primeiro a se tornar professor catedrático vitalício na City College of New York (Philogene, 2004).

Mamie Phipps Clark também obteve o doutorado na Columbia University, mas além de discriminação racial, enfrentou discriminação sexual. Ela escreveu que "após a conclusão do curso, logo se tornou evidente para mim que uma mulher negra, com um Ph.D. em psicologia, era uma anomalia indesejada na cidade de Nova York no início da década de 1940" (M. P. Clark, citada em Cherry, 2004, p. 22). Embora Kenneth Clark, seu marido, fizesse parte do corpo docente do City College, Mamie Phipps Clark foi efetivamente barrada das posições acadêmicas. Conseguiu um emprego como analista de dados de pesquisa, posição inferior e que ela considerava "humilhante" para uma psicóloga com Ph.D. (M. P. Clark, apud Guthrie, 1990, p. 69).

Trabalhando com o marido, Mamie Clark montou um pequeno consultório na entrada de uma loja, oferecendo atendimento psicológico para crianças, inclusive aplicando testes. Seus esforços renderam-lhes frutos e a iniciativa transformou-se no famoso Northside Center for Child Development. Em 1939 e 1940, Mamie e Kenneth Clark conduziram um importante programa de pesquisa sobre a identidade racial e as questões de autoconhecimento das crianças negras. Os resultados desse trabalho foram citados em 1954, na Suprema Corte dos Estados Unidos, em uma decisão que se tornou um marco para o fim da segregação racial nas escolas públicas. Essa decisão é considerada por muitos historiadores e proeminentes juristas o mais importante parecer da Suprema Corte no século XX. Em 1971, Kenneth Clark presidiu a APA, sendo o primeiro afro-americano eleito a ocupar essa posição.

Apesar de suas grandes realizações, Clark considerou sua vida como uma série de "fracassos magníficos". Aos 78 anos de idade ele disse que era "mais pessimista agora do que duas décadas atrás" (K. Clark, apud Severo, 2005, p. 23).

O título de Ph.D. era o primeiro obstáculo a ser vencido pelos negros e o próximo era encontrar um emprego digno. Poucas universidades empregavam professores negros, e a maioria das empresas que contratava os profissionais da psicologia aplicada (a principal fonte de trabalho para as mulheres psicólogas) não aceitava os afro-americanos. As faculdades tradicionalmente para negros eram as principais fontes de trabalho. No entanto, suas condições raramente ofereciam oportunidade para o tipo de pesquisa acadêmica que promovesse notoriedade e reconhecimento profissional. Em 1936, o professor de uma faculdade para negros descreveu a seguinte situação: "A falta de dinheiro, o excesso de trabalho e outros fatores desagradáveis tornam praticamente impossível para ele realizar algo de destaque no campo da cultura puramente acadêmica. Ele não tem condições de comprar muitos livros nem consegue obtê-los na biblioteca da faculdade, já que não existem bibliotecas adequadas nas escolas de negros. Provavelmente a pior carência de todas é a ausência da atmosfera cultural. Não há incentivo e, evidentemente, não há verba para pesquisas na maioria das escolas" (A. P. Davis, apud Guthrie, 1976, p. 123).

Desde a década de 1960, a APA tem feito grandes esforços para trazer maior diversidade à área, expandindo oportunidades para que minorias étnicas possam frequentar cursos de pós-graduação e para aumentar sua presença entre o corpo docente das faculdades. Apesar dessas iniciativas, a representação de minorias entre professores com Ph.D. nos campi universitários não tem crescido na mesma proporção dos afro-americanos ou hispânicos na população em geral. Por exemplo, os brancos constituem aproximadamente 65% da [16] população dos Estados Unidos e recebem 80% dos diplomas em doutorado em psicologia, enquanto as minorias étnicas recebem aproximadamente 16% desses diplomas. Os negros representam 4,6% dos que recebem Ph.D.; os hispânicos 5%. Os dois grupos estão subrepresentados entre os membros da APA, bem como entre os docentes nas universidades. Uma exceção entre os grupos minoritários está o dos asiáticos estadunidenses que representam menos do que 5% da população estadunidense e conseguem 4,6% dos diplomas de doutorado em psicologia. Eles têm obtido mais vantagens acadêmicas nos últimos anos do que outros grupos minoritários (dados obtidos em Bailey, 2006; Dingíelder, 2006; Maton, Kohout, Wicherski, Leary e Vinokurov, 2006; Pickren, 2004).

Quando consideramos os efeitos do preconceito como fator contextuai que restringe o acesso das mulheres e das minorias à educação e às oportunidades de trabalho na psicologia, é importante observar o seguinte: sim, é verdade que a história da psicologia descrita neste livro e em outros menciona as contribuições de poucos acadêmicos do sexo feminino e de minorias em virtude da discriminação. No entanto, também é verdade que a proporção de homens brancos que se destacaram é pouca, quando comparada à quantidade total de trabalhos produzidos por psicólogos do sexo masculino. Esse fato não resulta da discriminação deliberada; ao contrário, deve-se à metodologia de registro da história de qualquer área.

A história de uma disciplina como a psicologia envolve a descrição das principais descobertas, o esclarecimento das questões prioritárias e a identificação das "personagens importantes" no contexto de um Zeitgeist nacional ou internacional. Quem executa o trabalho rotineiro de uma disciplina provavelmente não terá destaque (...). Os psicólogos com muito talento que, no entanto, atuem com discrição, lecionando, atendendo a pacientes, realizando experiências, compartilhando as informações com os companheiros de profissão (...) poucas vezes serão reconhecidos publicamente, a não ser por um grupo restrito de colegas. (Pate e Wertheimer, 1993, p. xv)

Assim, a história ignora o trabalho cotidiano da maioria dos psicólogos, independentemente da raça, do sexo ou da etnia.

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Wundt entende por experiência em geral um todo unitário e coerente, que pode ser concebido e elaborado cientificamente a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: toda experiência pode ser analisada pelo seu conteúdo objetivo (experiência mediata) ou subjetivo (experiência ime­diata)
Com essa definição de psicologia, Wundt pretende, em primeiro lugar, atacar um tipo de psicologia bastante difundida em sua época, que vinha sendo definida como ciência da alma ou mente. Segundo Wundt, essa psicologia está assentada em hipóteses metafísicas (espiritualismo ou materialismo) que extrapola no domínio da experiência possível
Como a psicologia não estuda um objeto diferente do objeto das ciências naturais, mas apenas a mesma experiência de um outro ponto de vista, seus métodos de investigação também não podem diferir. A psicologia vai se servir, portanto, dos dois principais métodos utilizados pelas ciências da natureza: o experimento e a observação
Em suma, a psicologia dispõe, assim como a ciência natural, de dois métodos de investigação, que darão origem a duas formas complementares de estudo psicológico: o experimento, que a psicologia individual/fisioló­gica utiliza na análise dos processos psíquicos mais simples; e a observação dos produtos mentais, através da qual a psicologia dos povos investiga os processos psíquicos superiores
No que diz respeito ao desenvolvimento e à institucionalização da psicologia no Brasil, é praticamente impossível estabelecer qualquer ligação direta entre esta e a obra de Wundt. Se levarmos em consideração que a penetração da psicologia no Brasil ocorreu principalmente pela via da psicologia aplicada — seja na psiquiatria ou na pedagogia, com ênfase na psicometria — e que Wundt jamais se preocupou seriamente com qualquer aplicação da psicologia, torna-se evidente a distância
Um dos equívocos cometidos com mais frequência nos manuais de história da psicologia é a afirmação de que Wundt seria, ao lado de Titchener, um dos principais representantes do estruturalismo. Esse equívoco, que por si só já representa uma total falta de compreensão da psicologia wundtiana, está dire