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Fragmentos e principais passagens
Publicado por:
Odsson Ferreira | 23 Jan , 2020 - 17:16 | Atualizado em: 1/29/2020 3:31:30 PM
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Texto
O Legado do Funcionalismo - A Psicologia Aplicada
Psicologia, funcionalismo, psicologia aplicada, Testes mentais, James McKeen Cattel, Lightner Witmer, Walter Dill Scott, Psicologia clínica, psicologia organizacional, psicologia forense
ABNT
Schultz, 
Duane P., 
Schultz,
Sydney Ellen.
O Legado do Funcionalismo: A Psicologia Aplicada. 
in: 
__________. 
 
História da Psicologia Moderna. 
 
9ª Ed. 
 
São Paulo/SP: 
Cengage, 
2009. 
 
p.174-208. 
APA
Schultz, 
D .
Schultz,
S .
 
(2009). 
O Legado do Funcionalismo: A Psicologia Aplicada. 
in: 
D .
Schultz, 
S .
Schultz,
(Ed.),
História da Psicologia Moderna. 
 
(pp.174-208). 
São Paulo/SP: 
Cengage. 
Livre
Por Duane P. Schultz
Pontos-chave
A psicologia de Wundt e o estruturalismo de Titchener não puderam sobreviver por muito tempo no clima intelectual estadunidense, no Zeitgeist dos EUA, em sua forma original; por isso, transformaram-se no funcionalismo. Eles não eram tipos práticos de psicologia, não tratavam da mente em uso e não podiam ser aplicados às exigências cotidianas e aos problemas da vida. A cultura estadunidense tinha uma orientação prática, pragmática; as pessoas valorizavam o que funcionava.

 

O Desenvolvimento da Psicologia nos Estados Unidos - Vimos que a doutrina da evolução e a psicologia funcional dela derivada rapidamente dominaram os Estados Unidos, perto do final do século passado, e que a psicologia estadunidense foi orientada muito mais pelas idéias de Darwin e Galton do que pelo trabalho de Wundt. Foi um curioso e até paradoxal fenômeno histórico. Wundt treinou boa parte dos membros da primeira geração de psicólogos estadunidenses em sua forma de psicologia, incluindo-se ai Hall, Cattell, Witiner, Scott e Miinsterberg. Contudo, “poucos elementos do sistema de psicologia de Wundt sobreviveram à passagem de retorno pelo Atlântico com os jovens estadunidenses que tinham ido para o exterior” (Blumenthal, 1977, p. 13). Quando voltaram aos Estados Unidos, esse alunos de Wundt, esses novos psicólogos, se puseram a estabelecer uma psicologia que pouco se assemelhava ao que Wundt lhes tinha ensinado. A nova ciência, mais ou menos como uma espécie viva, adaptava-se ao seu novo ambiente.

A psicologia de Wundt e o estruturalismo de Titchener não puderam sobreviver por muito tempo no clima intelectual estadunidense, no Zeitgeist dos EUA, em sua forma original; por isso, transformaram-se no funcionalismo. Eles não eram tipos práticos de psicologia, não tratavam da mente em uso e não podiam ser aplicados às exigências cotidianas e aos problemas da vida. A cultura estadunidense tinha uma orientação prática, pragmática; as pessoas valorizavam o que funcionava. Era necessária uma forma de psicologia utilitária, que arregaçasse as mangas. “Precisamos de uma psicologia usável”, escreveu G. Stanley Hall, o decano da psicologia aplicada estadunidense. “Os pensamentos wundtianos nunca poderão se aclimatar aqui, pois são antipáticos ao espírito e ao temperamento estadunideses” (Hall, 1912, p. 414).

Os psicólogos estadunideses recém-treinados retomaram da Alemanha e, à maneira tipicamente direta e agressiva dos EUA, transformaram a espécie peculiarmente germânica de psicologia. Começaram a estudar não o que a mente é, mas o que faz. Enquanto alguns psicólogos estadunideses — James, Angell e Carr em especial — desenvolviam a abordagem funcionalista em laboratórios acadêmicos, outros a aplicavam em ambientes extra-universitários. Assim, a guinada para um tipo prático de psicologia ocorria ao mesmo tempo que o funcionalismo era fundado como escola distinta de pensamento formal.

Os psicólogos aplicados levaram sua psicologia para o mundo real, para as escolas, fábricas, agências de publicidade, tribunais, clínicas de orientação infantil e centros de saúde mental, e fizeram dela algo funcional em termos de objeto de estudo e de uso. Com isso, modificaram a natureza da psicologia estadunidense tão radicalmente quanto os fundadores acadêmicos do funcionalismo. A literatura profissional da época reflete o seu impacto. Na virada do século, 25% das comunicações de pesquisa publicadas nas revistas psicológicas estadunidenses eram a respeito de psicologia aplicada, e menos de 3% envolviam introspecção (O’Donnell, 1985). As abordagens de Wundt e Titchener, que há tão pouco tempo constituíam a nova psicologia, iam sendo superadas com rapidez por uma psicologia mais nova ainda.

A disciplina desenvolveu-se e prosperou nos Estados Unidos enquanto o país como um todo também passava por esse processo. O vibrante e dinâmico crescimento da psicologia estadunidense no período 1880-1900 é um evento marcante na história da ciência. Em 1880, não havia laboratórios nos EUA; perto de 1895, havia vinte e seis, e eles estavam melhor equipados do que os da Alemanha. Em 1880, não havia revistas estadunidenses de psicologia; em 1895, havia três. Em 1880, os estadunidenses tinham de ir à Alemanha para estudar psicologia; em 1900, eles tinham programas de graduação em casa. Por volta de 1903, o número de Ph.D.s em psicologia nas universidades estadunidenses só perdia para os conferidos em química, zoologia e física. A publicação britânica Who‘s Who in Science (1913) afirmou que os Estados Unidos lideravam na psicologia, havendo no país um número maior de psicólogos notáveis — oitenta e quatro — do que na Alemanha, na Inglaterra e na França juntas (Jonçich, 1968).

Passados pouco mais de vinte anos do início da psicologia na Europa, os psicólogos estadunidenses assumiram a liderança incontestável do campo. James McKeen Cattell afirmou, em seu discurso de posse na presidência da Associação Psicológica Americana, em 1895, que “o crescimento acadêmico da psicologia na América nos últimos cinco anos é quase sem precedentes... A psicologia é matéria obrigatória do currículo de graduação... e, entre os cursos universitários, a psicologia hoje rivaliza com as outras ciências principais em número de alunos e na quantidade de trabalhos originais realizados” (Cattell, 1896, p. 134).

A psicologia fez sua estréia americana, diante de um público ávido, na Feira Mundial de Chicago de 1893. Num programa que lembrava o Laboratório Antropométrico de Francis Galton na Inglaterra, os psicólogos organizaram exibições de aparelhos de pesquisa e um laboratório de testes em que, mediante uma taxa, os visitantes podiam ter suas capacidades medidas. Uma exibição mais ampla foi feita na Exposição de Compras da Louisiana, em St. Louís, Missouri, em 1904. Esse “evento povoado de astros” apresentou conferências dos 175 principais psicólogos da época — E. B. Titchener, de Cornel!; C. Lloyd Morgan, Pierre Janet, G. Stanley Hall e um novo Ph.D. chamado John B. Watson (Benjamin, 1986). Wundt não teria aprovado essa popularização da psicologia, e nada parecido com isso ocorreu na Alemanha. Popularizar a psicologia refletia o temperamento estadunidense, que tinha modificado tão substancialmente a psicologia wundtiana, tornando-a psicologia funcional e estendendo-a bem além do laboratório.

Portanto, os EUA acolheram a psicologia com entusiasmo, e essa disciplina logo se firmou nas aulas das faculdades e na vida cotidiana das pessoas. O seu alcance é hoje bem mais amplo do que os seus fundadores podiam imaginar — ou desejar.

Influências Contextuais sobre a Psicologia Aplicada

O Zeitgeist estadunidense, o espírito intelectual e o temperamento da época, ajudou a promover o surgimento da psicologia aplicada. Mas forças contextuais mais práticas também foram responsáveis pelo seu desenvolvimento. No Capítulo 1, vimos como fatores econômicos afastaram o foco da psicologia estadunidense, da pesquisa pura, para a aplicação. Vimos que, enquanto o número de laboratórios de psicologia crescia perto do final do século XIX, o número de doutores estadunidenses em psícologia crescia numa velocidade três vezes maior. Muitos desses Ph.D.s, em especial os que não dispunham de uma fonte independente de renda, tinham de olhar para além da universidade para sobreviver economicamente.
O psicólogo Harry Hollingworth (1880-1956), por exemplo, não conseguia viver com o salário anual de 1.000 dólares que recebia por suas aulas no Barnard Coilege da cidade de Nova York para complementá-lo, dava aulas em outras universidades e era inspetor de exames por meio dólar a hora. Fazia palestras de psicologia para executivos da área de publicidade e fazia tudo o que considerava capaz de lhe dar condições de ter uma vida dedicada à pesquisa e às atividades acadêmicas. Contudo, descobriu que sua única opção para viver era dedicar-se à psicologia aplicada (Benjamin, Rogers e Roseubaum, 1991).

Hollingworth não foi um caso isolado. Outros pioneiros da psicologia aplicada também foram motivados pela necessidade econômica. Isso não quer dizer que eles não considerassem esse trabalho prático, estimulante e desafiador. A maioria o considerava, além de reconhecer que o comportamento humano e a vida mental podiam ser estudados, em ambientes do mundo real, com a mesma eficácia com que eram estudados nos laboratórios acadêmicos. Deve-se observar que alguns desses psicólogos se empenharam em campos aplicados a partir de um interesse genuíno e de um desejo de trabalhar na área. Permanece contudo o fato de muitos membros da primeira geração de psicólogos aplicados estadunidenses terem sido compelidos a abandonar seus sonhos de pesquisa experimental pura como única alternativa a uma vida de pobreza.

A situação era ainda pior para os que davam aulas nas universidades estaduais, menos dotadas de recursos, do Meio-Oeste e do Oeste, na virada do século. Perto de 1910, um terço dos psicólogos estadunidenses trabalhavam nelas e, com o aumento do número de profissionais nessas condições, cresceram as pressões para que eles se voltassem para problemas práticos e, assim, provassem o valor financeiro da psicologia.
Em 1912, Christian A. Ruckmick fez um levantamento entre os colegas psicólogos e concluiu que a psicologia, apesar de sua popularidade junto aos alunos, não tinha uma boa imagem nas instituições de ensino estadunidenses. Os fundos a ela dedicados e os equipamentos que lhe eram fornecidos eram deficientes, havendo apenas uma pequena esperança de melhoria no futuro (Leary, 1987). A melhor maneira possível de remediar a situação — a fim de aumentar os orçamentos e salários departamentais — era demonstrar aos administradores universitários e legisladores estaduais que a ciência psicológica podia ajudar a curar muitos males sociais. [176]

G. Stanley Hall aconselhou um colega do Meio-Oeste a fazer a influência da psicologia ser sentida ‘fora da universidade, evitando que algum homem ou partido irresponsável, dado ao sensacionalismo, a criticasse no legislativo”. Cattell incitou seus colegas a “fazer aplicações práticas e desenvolveruma profissão de psicologia aplicada” (O’Donnell, 1985, pp. 215,221).

A solução, portanto, era evidente: tomar a psicologia mais valiosa mediante sua aplicação. Mas aplicá-la a quê? Felizmente, a resposta logo se tomou clara: as matrículas nas escolas públicas sofriam um crescimento dramático; entre 1870 e 1915, o número de alunos matriculados elevou-se de sete para vinte milhões. A quantidade de dinheiro gasta na educação pública no período passou de 63 para 605 milhões (Siegel e White, 1982). A educação de repente se tornava um grande negócio e chamou a atenção dos psicólogos.

Hall proclamou em 1894 que “o campo principal e imediato de aplicação da [era a educação” (Leary, 1987, p. 323). Mesmo William James, que não podia ser considerado um psicólogo aplicado, escreveu um livro sobre o uso da psicologia em situações de sala de aula (James, 1899). Perto de 1910, mais de um terço dos psicólogos estadunidenses se mostravam interessados pela aplicação da disciplina a problemas educacionais. Três quartos dos que se intitulavam psicólogos aplicados já trabalhavam na área. A psicologia encontrara o seu lugar no mundo real.

Discutiremos neste capitulo as carreiras e as contribuições de cinco pioneiros no campo da psicologia aplicada; eles estenderam a nova ciência não apenas à educação, mas também aos negócios e à indústria, aos centros de testes, aos tribunais e às clínicas de saúde mental. Esses cinco homens tinham sido treinados em Leipzig por Wilhelm Wundt para se tomarem psicólogos acadêmicos puros; todos, contudo, se afastaram dos ensinamentos do mestre quando iniciaram a carreira em universidades estadunidenses. São exemplos notáveis de como a psicologia estadunidense veio a ser influenciada mais por Darwin e Galton do que por Wundt, e de como a abordagem wundtiana foi reformulada quando do seu transplante para o solo estadunidense.

Depois de examinar a obra desses destacados profissionais, descreveremos os primórdios de três áreas importantes da psicologia aplicada: os testes psicológicos, a psicologia industrial/organizacional e a psicologia clínica.

Granville Stanley Hall (1844-1924)

Embora William James tenha sido o primeiro grande psicólogo estadunidense, o explosivo desenvolvimento da psicologia nos Estados Unidos entre 1880 e 1900 não resultou apenas do seu trabalho. Outra figura notável na história da psicologia estadunidense foi Granville Stanley Hall.
A carreira psicológica de Hall foi uma das mais interessantes e variadas. Hall trabalhava com arroubos de energia e entusiasmo em várias áreas, que logo deixava, entregando os detalhes à investigação de outros. Não foi um fundador do funcionalismo, mas as suas contribuições aos novos campos e atividades da psicologia aplicada tinham um pronunciado sabor funcional.

A psicologia estadunidense tem uma dívida com Hall em virtude da sua notável coleção de primeiros lugares. Foi ele quem recebeu o primeiro grau de doutor em psicologia dos EUA e afirmava ter sido o primeiro aluno estadunidense do primeiro ano do primeiro laboratório de psicologia. (Novos dados da história revelam que ele foi, na verdade, o segundo; ver Benjamin, Acord, Durkin, Link e Vestal, 1992.) Hall deu inicio ao que muitos consideram o primeiro laboratório de psicologia dos Estados Unidos e fundou a primeira revista estadunidense de psicologia. Foi o primeiro presidente da Universidade Clark, o organizador e primeiro presidente da Associação Psicológica Americana e um dos primeiros psicólogos aplicados. [177]

A Vida de Hall

G. Stanley Hall nasceu numa fazenda de Massachusetts e desde cedo desenvolveu urna sucessão de interesses que mais tarde caracterizariam a sua vida. Também era característica sua grande ambição. Aos catorze anos, jurou deixar a fazenda e ‘fazer e ser algo no mundo’... Seu mais intenso medo na adolescência era o da mediocridade” (Ross, 1972, p. 12). Em 1863, ingressou no Williams College. Ao graduar-se, Hall já acumulara várias honrarias e tinha desenvolvido um entusiasmo pela filosofia, pela teoria evolutiva em especial, o que iria influenciar sua carreira na psicologia.

Em 1867, inscreveu-se no Seminário Teológico União, de Nova York, embora não tivesse grande vocação para ministro. Seu interesse pela evolução em nada ajudava, além de ele não se fazer notar por uma ortodoxia religiosa. Diz a história que, quando Hall fez seu sermão de prova diante de professores e alunos, o presidente do Seminário ajoelhou-se e rezou pela sua alma.

A conselho do pregador Heniy Ward Beecher, Hall foi para a Universidade de Bonn, Alemanha, estudar filosofia e teologia. Dali, foi a Berlim, onde fez estudos no campo da fisiologia e da fisica. Essa fase da sua educação foi complementada por interlúdios românticos e pela frequência assídua a cervejarias e teatros, experiências essas que, para um jovem de formação puritana, exigiam coragem. Ele se referiu a sua surpresa e alegria ao ver um dos seus professores de teologia tomando cerveja num domingo. O tempo que Hall permaneceu na Europa foi para ele urna época de liberação.

Voltou para casa em 1871, com vinte e sete anos, nenhum grau e uma grande dívida. Obteve o diploma em teologia e pregou numa igreja rural de Cowdersport, Pensilvânia, por... dez semanas. Depois de ser preceptor por mais de um ano, Hall conseguiu um cargo de professor no Antioch College, de Ohio. Ensinava literatura inglesa, língua e literatura francesa e alemã, e filosofia; servia como bibliotecário, dirigia o coro e pregava na capela. Em 1874, depois de ler Psicologia Fisiológica, de Wundt, teve despertado seu interesse pela nova ciência, o que o deixou meio indeciso sobre sua carreira. Tirou uma licença do Antioch, instalou-se em Cambridge, Massachusetts, e tornou-se instrutor de inglês em Harvard.

Além de dedicar-se ao trabalho monótono e cansativo de ensinar inglês a calouros, Hall estudava e fazia pesquisas na escola médica. Em 1878, apresentou sua dissertação sobre a percepção muscular do espaço e recebeu o primeiro grau em psicologia dos Estados Unidos. Ele chegou a conhecer muito bem William James, mas os dois homens, embora próximos em idade, eram muito distantes em formação e temperamento.
Tão logo se doutorou, Hall foi para a Europa; lá, estudou fisiologia em Berlim e foi aluno de Wundt em Leipzig. A expectativa de trabalhar com Wundt foi, ao que parece, melhor do que a realidade. Embora Hall fosse às palestras do mestre e cumprisse suas obrigações de sujeito do laboratório, suas pesquisas seguiam linhas mais fisiológicas, e sua carreira ulterior demonstra que Wundt, em última análise, teve pouca influência sobre ele. Quando voltou aos EUA em 1880, Hall não tinha perspectiva de emprego; contudo, num espaço de dez anos, tornou-se uma figura de renome nacional.

Hall reconheceu, ao retomar da Alemanha, que a melhor oportunidade de satisfazer a sua ambição estava em aplicar a psicologia à educação. Em 1882, fez uma palestra numa reunião da National Education Association (Associação Nacional de Educação — NEA), em que insistia para que se fizesse do estudo psicológico da criança um componente nuclear da profissão de docente. Ele repetia essa mensagem em todas as oportunidades, e isso logo levou ao primeiro passo de sua rápida saída da obscuridade. O presidente de Harvard o convidou a fazer uma série de palestras sobre educação nas manhãs de sábado. Essas conferências bem [179] recebidas deram a Hall muita publicidade favorável, e um convite para lecionar em tempo parcial na Universidade Johns Hopkins, estabelecida há seis anos como a primeira escola de graduação dos Estados Unidos.

As palestras de Hall foram um grande sucesso e lhe valeram o cargo de professor efetivo da Hopkins em 1884. No tempo que ali passou, Hall deu início ao que costuma ser considerado o primeiro laboratório de psicologia dos EUA (formalmente estabelecido em 1883), que ele chamou do seu “laboratório de psícofisiologia” (Pauly, 1986, p. 30). Foi professor de alguns alunos que se tornariam psicólogos proeminentes, incluindo John Dewey e James McKeen Cattell. Em 1887, Hall fundou a American Journal of Psychology, a primeira revista de psicologia dos Estados Unidos, ainda hoje uma publicação importante. Essa revista servia de plataforma de idéias teóricas e experimentais, e funcionava como eixo de solidariedade e independência para os psicólogos estadunidenses. Numa explosão de entusiasmo, Hall imprimiu uma quantidade excessiva de exemplares do primeiro número; ele e a revista precisaram de cinco anos para cobrir esses custos iniciais.

Em 1888, Hall tomou-se o primeiro presidente da Universidade Clark em Worcester, Massachusetts. Antes de assumir o cargo, fez uma longa viagem para estudar em universidades européias e contratar professores para a sua nova escola. A viagem serviu também a outro propósito. ‘Hall parece ter considerado a viagem uma combinação de Grand Tour e férias remuneradas por trabalhos ainda não começados... ela incluiu algumas paradas totalmente irrelevantes do ponto de vista da tarefa que ele iria realizar, tais como academias militares russas, antigos sítios históricos gregos e o roteiro-padrão de bordéis, circos e curiosidades” (Koelsch,, 1987, p. 21).

Hall desejava fazer de Clark uma universidade nos moldes da Johns Hopkins e das universidades alemãs, com ênfase primordial na pesquisa, e não no ensino. Infelizmente, o fundador — o abastado comerciante Jonas (Bilman Clark — tinha idéias diferentes e não forneceu tanto dinheiro quanto Hall esperava. Com a morte de Clark em 1900, a dotação foi dedicada à fundação de urna faculdade tradicional, a que Hall se opunha, mas que Clark há muito tempo defendia.

Hall tornou a Universidade Clark mais receptiva a mulheres e a grupos minoritários do que a maioria das escolas dos Estados Unidos na época. Embora partilhassem da oposição nacional à co-educação para graduandos, admitia mulheres à graduação. Também teve a incomum iniciativa de encorajar estudantes asiáticos (japoneses em especial) a se inscrever em Clark, e teve o gesto inédito de estimular os afro-americanos a entrar no programa de graduação, O primeiro estadunidense negro a obter um Ph.D. em psicologia, Francis Sumner, estudou com Hall. Hall se recusou a impor restrições à contratação de judeus como professores, numa época em que a maioria das instituições não os contratava (Guthrie, 1976; Sokal, 1990).

Além de presidente, ele era professor de psicologia e deu aulas na graduação por vários anos. Hall ainda encontrou tempo para fundar, às suas próprias custas, em 1891, a revista Pedagogical Seminary (hoje Joumal of Genetíc Psychology), para servir de veículo a pesquisas sobre o estudo das crianças e de psicologia educacional. Em 1915, fundou a Journal of Applied Psychology, elevando o número de revistas psicológicas estadunidenses a dezesseis.

A Associação Psicológica Americana (APA) foi fundada em 1892, principalmente graças aos esforços de Hall. A convite seu, cerca de urna dúzia de psicólogos se reuniram em seu gabinete para planejar a organização e o elegeram o primeiro presidente. Por volta de 1900, o grupo tinha 127 membros. O interesse de Hall pela religião persistiu. Fundou a Journal of Religious Psychology (1904), que só durou uma década. Em 1917, publicou um livro intitulado Jesus, the Christ, at the Light of Psychology (Jesus, o Cristo, à Luz da Psicologia). Sua descrição de Jesus como [180] uma espécie de “super-homem adolescente” não foi bem recebida pela religião oficial (Ross, 1972, p. 418).

A psicologia prosperou em Clark sob a direção de Hall. Durante seus trinta e seis anos ali, foram conferidos oitenta e um doutorados em psicologia. Seus alunos se lembram dos seminários noturnos cansativos, mas estimulantes, realizados às segundas-feiras em sua casa; neles, os doutorandos eram questionados pelos docentes e pelos colegas. No final das reuniões, que duravam até quatro horas, um criado trazia uma gigantesca porção de sorvete.

Os comentários de Hall sobre os textos dos alunos costumavam ser devastadores. ‘Hall resumia as coisas”, lembra-se Lewis Terman, “com uma erudição e uma imaginação fértil que sempre nos espantavam e nos faziam sentir que sua percepção imediata do problema ia imensuravelmente além da do aluno que lhe dedicara vários meses de trabalho intenso.” E quando as sessões terminavam, Terman “sempre ia para casa atordoado e intoxicado, tomava um banho quente para acalmar os nervos e ficava acordado durante horas rememorando a cena e formulando as coisas inteligentes que deveria ter dito e não dissera” (Sokal, 1990, p. 119).

Os graduandos de certo modo adoravam Hall. Um deles se lembrou recentemente da impressão que tinha de Hall há setenta anos. “Hall era um homem de compleição forte, com O laboratório de psicologia de Hall na Universidade Johns Hopkins é considerado o primeiro laboratório dos Estados Unidos. [181] 

Hall foi um dos primeiros estadunidenses a se interessar pela psicanálise, sendo bastante responsável pela atenção que ela logo recebeu nos Estados Unidos. Em 1909, para celebrar o vigésimo aniversário de fundação da Clark, ele convidou Sigmund Freud e Carl Jung para uma série de conferências, um convite corajoso devido à suspeita com que a psicanálise era recebida. Hall também convidou seu ex-professor Wilhelm Wundt, que recusou por causa da idade — e porque ia ser o principal orador no aniversário de 500 anos de sua própria universidade.

Hall continuou a escrever depois da sua aposentadoria em 1920. Faleceu quatro anos mais tarde, poucos meses depois de ser eleito para um segundo mandato como presidente da APA. Depois da sua morte, foi feita uma pesquisa entre os membros da APA para avaliar as contribuições de Hall à psicologia. Dentre as 120 pessoas que responderam, 99 colocaram Hall entre os dez maiores psicólogos do mundo. Muitos louvaram sua capacidade didática, seus esforços para promoção da psicologia e seu desafio à ortodoxia, mas, assim como outros que o conheceram, criticaram suas qualidades pessoais. Ele foi descrito como de difícil trato, não confiável, inescrupuloso, cheio de rodeios e agressivamente voltado para sua autopromoção. William James disse um dia que Hall era a “mais estranha mistura de grandeza e pequenez que eu já vi” (Myers, 1986, p. 18). Mesmo seus críticos, contudo, concordariam com o julgamento da pesquisa da APA: “ levou à produção de mais textos e à realização de mais pesquisas do que quaisquer outros três profissionais da área juntos” (Koelsch, 1987, p. 52).

A Evolução como Estrutura para o Desenvolvimento Humano

Embora Hall tivesse interesse por muitas áreas, seus devaneios intelectuais tinham um único tema orientador: a teoria da evolução. Seu trabalho acerca de uma variedade de tópicos psicológicos era norteado pela convicção de que o desenvolvimento normal da mente envolve uma série de estágios evolutivos. Assim, Hall empregou a teoria da evolução como estrutura para amplas especulações teóricas e aplicadas. Ele contribuiu mais para a psicologia educacional do que para a psicologia experimental, na qual se concentrou somente nas primeiras fases de sua carreira.

Concordando com a importância do método experimental para a psicologia, ele, no entanto, ficava impaciente com suas limitações. Para os objetivos e esforços mais gerais de Hall, o trabalho de laboratório no âmbito da nova psicologia parecia muito restrito.

Chamam-no frequentemente de psicólogo genético, por causa do seu interesse pelo desenvolvimento humano e animal, e pelos problemas correlatos da adaptação. Em Clark, o geneticismo de Hall levou-o ao estudo psicológico da infância, que ele transformou no cerne de sua psicologia. Numa palestra feita na Feira Mundial de Chicago de 1893, ele disse: “Até agora, fomos à Europa buscar a nossa psicologia. A partir deste momento, tomemos uma [182] criança, coloquemo-la em nosso meio e deixemos que os EUA façam sua própria psicologia” (Siegel e White, 1982, p. 253). Hall pretendia aplicar sua psicologia ao funcionamento da criança no mundo real. Como bem observou um ex-aluno seu, “A criança se tornou, por assim dizer, seu laboratório” (Averili, 1990, p. 127).

Em seus estudos sobre a criança, Hall fez amplo uso de questionários, técnica aprendida na Alemanha. Por volta de 1915, ele e seus alunos tinham desenvolvido e usado 194 questionários cobrindo muitos tópicos (White, 1990). Era tão amplo o seu uso de questionários que, por algum tempo, o método esteve associado, nos Estados Unidos, com o nome de Hall, embora a técnica tivesse sido desenvolvida antes por Francis Galton.

Esses primeiros estudos sobre as crianças geraram um grande entusiasmo público, levan do à criação do chamado movimento de estudo da criança. Embora tenha desaparecido em uns poucos anos por causa de pesquisas malfeitas, o movimento serviu para deixar estabelecida a importância, tanto do estudo empírico da criança, como do conceito de desenvolvimento psicológico.

A mais influente obra de Hall é o extenso (cerca de mil e trezentas páginas) livro em dois volumes Adolescence: Its Psychology, and Its Relations to Physiology, Ahthropology, Sociology, Sex, Crime, Religion, and Education (A Adolescência Sua Psicologia e Suas Relações com a Fisiologia, a Antropologia, a Sociologia, o Sexo, o Crime, a Religião e a Educação), publicado em 1904. Essa enciclopédia contém a mais completa sistematização da teoria de recapitulação de Hall, sobre o desenvolvimento psicológico. Ele acreditava que as crianças repetem, em seu desenvolvimento pessoal, a história de vida da raça humana. Quando brincam de índios e caubóis, por exemplo, as crianças repetem ou resumem a história dos seres primitivos. O livro incluía muito material de interesse para psicólogos infantis e educadores, tendo passado por várias reedições, uma delas vinte anos depois de sua publicação inicial.

Adolescence também causou controvérsia porque alguns consideravam haver nele uma excessiva concentração no sexo. Hall foi acusado de lascívia. Numa resenha do livro, o psicólogo E. L. Thorndike escreveu que “os atos e sentimentos, normais e mórbidos, resultantes do sexo são discutidos de um modo sem precedentes na ciência inglesa”. Thorndike foi muito mais critico numa carta a um colega, onde disse que o livro de Hall era “um choque cheio de erros, de masturbação e de Jesus. O homem é um louco” (Ross, 1972, p. 385). Na época, Hall fazia uma série de palestras semanais sobre sexo em Clark. Era um ato escandaloso, embora ele não tivesse permitido a presença de mulheres. Ele acabou por desistir das palestras porque “muita gente de fora se havia infiltrado e alguns até ouviam sub-repticiamente à porta” (Koelsch, 1970, p. 119).
Muitos psicólogos se sentiam incomodados com o entusiasmo de Hall pelo sexo. “Não há como afastar Hall desse maldito sexo?”, escreveu Angell a Titchener. “Eu na verdade acho que é ruim, moral e intelectualmente, tocar tanto a tecla sexual” (Boakes, 1984, p. 163). Eles não precisavam se preocupar; o produtivo e enérgico Hall logo se interessou por outra coisa.

Ao envelhecer, Hall naturalmente se interessou por um estágio ulterior do desenvolvimento: a velhice. Aos setenta e oito anos, publicou o livro em dois volumes Senescence (Senescência), em 1922. Foi a primeira pesquisa de natureza psicológica em larga escala sobre questões geriátricas. Nos últimos anos de vida, ele também escreveu duas autobiografias. Recreations of a Psychologist (Recreações de um Psicólogo), em 1920, e The Life and Confessions of a Psychologist (Vida e Confissões de um Psicólogo), em 1923.

G. Stanley Hall foi um dia apresentado a um auditório como "o Darwin da mente”, uma caracterização que com certeza o agradou e exprimia vividamente suas aspirações e a atitude básica que permeava sua obra. A outro auditório foi apresentado como “a maior autoridade mundial no estudo da criança”. Dizem que ele afirmou que o elogio estava correto (Koelsch, 1987, p. 58). Ao longo de sua vida, manteve-se versátil e ágil. Seu entusiasmo aparentemente [183] ilimitado era ousado, diversificado e não-técnico, e talvez seja essa característica que fez dele uma personalidade tão estimulante e influente.

Em sua segunda autobiografia, Hall escreveu: ‘Toda a minha vida consciente ativa foi formada por uma série de manias ou excessos, alguns fortes, alguns fracos; alguns duradouros... e outros efêmeros” (Hall, 1923, pp. 367-368). Perspicaz observação. Hall era vivaz, agressivo, quixotesco, sempre às turras com os colegas, mas nunca enfadonho. Ele uma vez observou que Wilhelm Wundt preferia ser banal a estar brilhantemente errado. Talvez Hall preferisse estar brilhantemente errado a ser banal.

James McKeen Cattell (1860-1944)

O espírito funcionalista da psicologia estadunidense também foi bem representado na vida e na obra de James McKeen Cattell, que influenciou o movimento em prol de uma abordagem prática e orientada para os testes no estudo dos processos mentais. A psicologia de Cattell voltou-se mais para as capacidades humanas do que para o conteúdo consciente e, nesse aspecto, ele se aproxima muito de um funcionalista. Tal como Hall e William James, ele nunca se associou formalmente com o movimento, mas tipificou o espírito funcionalista estadunidense em sua ênfase nos processos mentais em termos de sua utilidade para o organismo, bem como em seu desenvolvimento de testes mentais, hoje uma área importante da psicologia aplicada.

A Vida de Cattell

Cattell nasceu em Easton, Pensilvânia. Bacharelou-se em 1880 no Lafayette Coliege, presidido pelo pai. Seguindo o costume de ir à Europa fazer estudos de pós-graduação, Cattell passou primeiro pela Universidade de Gõttingen, indo mais tarde para Leipzig estudar com Wilhelm Wundt. Um ensaio filosófico lhe valeu uma bolsa de estudos na Universidade Johns Hopkins em 1882. Na época, seu principal interesse era a filosofia e, no primeiro semestre que passou em Hopkins, não foram oferecidos cursos de psicologia. Ao que parece, Cattell se interessou pela psicologia por causa de suas próprias experiências com drogas. Ele experimentou várias substâncias: haxixe, morfina, ópio, cafeína, tabaco e chocolate. Considerou os resultados interessantes em termos pessoais e profissionais. Algumas drogas, principalmente o haxixe, o deixavam consideravelmente eufórico, reduzindo a depressão que vinha sentindo. Ele também observou os efeitos das drogas no seu funcionamento mental.
“Vi-me fazendo brilhantes descobertas científicas e filosóficas”, confidenciou ele ao seu diário; “meu único medo era não conseguir me lembrar delas pela manhã.” Um mês depois, ele escreveu: “A leitura ficou desinteressante. Continuei a ler sem prestar muita atenção. É preciso um longo tempo para escrever uma palavra. Estou bem confuso” (Sokal, 198 la, pp. 51-52). Mas não estava tão confuso a ponto de deixar de reconhecer a importância psicológica das drogas. Observava o seu próprio comportamento e estado mental com crescente fascínio. “Eu parecia ser duas pessoas”, escreveu, “uma das quais podia observar a outra e até fazer experimentos com ela” (Sokal, 1987, p. 25).

No segundo semestre de Cattell na Johns Hopkins, G. Stanley Hall começou a dar aulas de psicologia, e ele (assim como John Dewey) se inscreveu no curso de laboratório de Hall. Pouco depois, Cattell começou a fazer pesquisas sobre o tempo de reação, que é o tempo necessário para diferentes atividades mentais; esse trabalho reforçou seu desejo de ser psicólogo.

A volta de Cattell a Wundt na Alemanha, em 1883, é objeto de algumas anedotas bem conhecidas na história da psicologia, e servem de exemplos adicionais de como os dados históricos podem ser distorcidos. Supostamente, Cattell apareceu no laboratório da Universidade [184] de Leipzig e anunciou a Wundt, pura e simplesmente: “Herr Professor, o senhor precisa de um assistente; e eu vou ser o seu assistente” (Cattell, 1928, p. 545). Cattell deixou claro para Wundt que escolheria o seu próprio projeto de pesquisa, sobre a psicologia das diferenças individuais, tópico que não era relevante para a psicologia wundtiana. Diz-se que Wundt teria caracterizado Cattell e seu projeto como ganz Amerikanisch (‘tipicamente americanos”), uma observação profética. O interesse pelas diferenças individuais, um corolário natural do ponto de vista evolutivo, foi desde então uma característica da psicologia estadunidense, e não da alemã. [185]

Os métodos de James McKeen Cattell, práticos e voltados para os testes, refletiam o espírito da psicologia funcional estadunidense. Cattell teria dado a Wundt sua primeira máquina de escrever, na qual a maioria dos livros do mestre foram escritos. Por causa desse presente, Cattell foi criticado, jocosamente, por ter “prestado um sério desserviço... ter permitido que Wundt escrevesse duas vezes mais livros do que lhe teria sido possível de outro modo” (Cattell, 1928, p. 545).

Uma cuidadosa e exaustiva pesquisa em arquivos feita pelo historiador Michael M. Sokal, do Instituto Politécnico de Worcester, a respeito das cartas e diários de Catteil, indica que essas histórias são duvidosas. O relato desses eventos por Cattell, escrito muitos anos depois, não é corroborado pela sua correspondência nem por suas anotações no diário à época em que ocorreram. Por exemplo, Sokal (198 la) assinala que Wundt tinha Cattell em alta conta e o nomeou seu assistente de laboratório em 1886. Além disso, não há provas de que Cattell quisesse estudar as diferenças individuais na época. Por último, Cattell fez com que Wundt usasse a máquina de escrever, mas não lhe teria dado uma.

Cattell descobriu que não conseguia praticar satisfatoriamente a introspecção wundtiana. Ele era incapaz de fracionar o tempo de reação em várias atividades, como a da percepção ou da escolha, e questionava a possibilidade de alguém conseguir fazê-lo. Essa atitude não agradava a Wundt; em conseqüência, Cattell fez algumas pesquisas em sua própria sala.

Apesar de suas divergências, Wundt e Cattell concordavam sobre o valor do estudo do tempo de reação. Cattell acreditava que isso tinha utilidade para o estudo das várias operações mentais e para as pesquisas sobre as diferenças individuais. Muitos estudos hoje clássicos sobre o tempo de reação foram realizados por Cattell nos seus três anos em Leipzig, e ele publicou vários artigos sobre o assunto antes de partir.

Tendo obtido o doutorado em 1886, Cattell voltou aos Estados Unidos e foi dar aulas de psicologia no Bryn Mawr Coliege e na Universidade da Pensilvânia. Depois foi trabalhar em Cambridge, Inglaterra, onde conheceu Francis Galton. Os dois tinham interesses e concepções semelhantes acerca das diferenças individuais, e Galton, então no auge da fama, ampliou os horizontes de Cattell. “Galton forneceu a Cattell um objetivo científico — a medida das diferenças psicológicas entre as pessoas” (Sokal, 1987, p. 27). Cattell admirava a versatilidade de Galton e sua ênfase na medição e na estatística. Por isso, Cattell foi mais tarde um dos primeiros psicólogos estadunidenses a acentuar a quantificação, a hierarquização e a atribuição de graus, embora fosse pessoalmente “analfabeto em matemática — somava e subtraía, muitas vezes, com imprecisão” (Sokal, 1987, p. 37). Desenvolveu o método da ordem de mérito (também chamado método de classificação), que é muito usado em psicologia, e foi o primeiro psicólogo a ensinar a análise estatística de resultados experimentais.

Wundt não era favorável ao uso de técnicas estatísticas. Logo, foi a influência de Galton sobre Cattell que levou a nova psicologia estadunidense a se parecer mais com o trabalho de Galton do que com o de Wundt. Isso também explica por que os psicólogos estadunidenses começaram a se concentrar em estudos de grandes grupos de sujeitos, que permitiam comparações estatísticas, e não de sujeitos individuais (a abordagem favorecida por Wundt). O impacto inicial dessa mudança se fez sentir na psicologia educacional, a maioria dos resultados de pesquisas publicada nesse campo, entre 1900 e 1910, envolvia dados estatísticos coletados entre grandes amostragens (Danziger, 1987).

Cattell também foi influenciado pela obra de Galton no campo da eugenia. Cattell defendia a esterilização de delinquentes e de “pessoas imperfeitas”, bem como a concessão de incentivos às pessoas mais inteligentes e saudáveis para que elas se casassem entre si. Ele ofereceu a cada um dos seus sete filhos mil dólares se eles se casassem com filhos ou filhas de professores universitários (Sokal, 1971).

Em 1888, Cattell tornou-se professor de psicologia da Universidade da Pensilvânia, nomeação conseguida pelo seu pai. Sabendo que uma cadeira de filosofia bem-remunerada [186] seria criada na universidade, o velho Cattell agiu junto ao reitor da escola, um velho amigo seu, para garantir o posto para o filho. Ele insistiu para que este publicasse mais artigos a fim de aumentar sua reputação profissional e foi pessoalmente a Leipzig conseguir uma carta de recomendação de Wundt. Disse ao reitor que, como sua família tinha recursos, o salário não importava, o que fez Cattell ser contratado com uma remuneração bem baixa (O’Donnell, 1985). Mais tarde Cattell diria, incorretamente, que foi o primeiro professor de psicologia do mundo, quando sua nomeação na realidade foi para filosofia. Ele ficou na Pensilvânia por apenas três anos, deixando-a para ser professor de psicologia e chefe do departamento na Universidade Colúmbia, onde passou vinte e seis anos.

Motivado pela sua insatisfação com a American Journal of Psychology, fundou com J. Mark Baldwin, em 1894, a Psychological Review. No mesmo ano, Cattell adquiriu de Alexander Graham Bell o semanário Science, que estava prestes a deixar de ser publicado por falta de fundos. Cinco anos mais tarde, Science tornou-se a revista oficial da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS). Em 1906, Cattell iniciou uma série de obras de referência, incluindo American Men of Science e Leaders of Education. Comprou o Popular Science Monthly em 1900; depois de vender o nome em 1915, continuou a publicá-lo como Scientific Monthly. Outro semanário, School and Society, foi fundado em 1915. O fenomenal trabalho de organização e edição tomava muito tempo de Catteil, não sendo surpreendente que declinasse sua produtividade como pesquisador de psicologia.

Durante sua carreira em Colúmbia, esta foi a faculdade estadunidense que conferiu mais doutorados em psicologia. Cattell enfatizava a importância do trabalho independente e concedia aos alunos considerável liberdade em suas pesquisas. Ele acreditava que um professor devia ser independente, tanto da universidade como dos alunos, e, para ilustrar sua afirmação, vivia a sessenta quilômetros do campus, perto da academia militar de West Point. Montou um laboratório e um escritório editorial em casa e só ia à universidade em dias certos da semana. Assim, conseguia evitar as frequentes distrações, comuns à vida acadêmica.

Esse distanciamento foi apenas um dos vários fatores que tornaram tensas suas relações com a administração universitária. Ele exigia uma crescente participação docente nos assuntos universitários, dizendo que muitas decisões cabiam aos professores e não aos administradores. Com esse objetivo, ajudou a fundar a Associação Americana de Professores Universitários (AAUP).

Cattell não era diplomático nos contatos com a administração da Colúmbia. Foi descrito como uma pessoa difícil de conviver, “grosseiro, irrecuperavelmente detestável e carente de decência” (Gruber, 1972, p. 300). Cattell não se pautava pelas regras aceitas da conduta social, preferindo a sátira cortante à persuasão polida em seus ataques à administração.

Em três ocasiões, entre 1910 e 1917, os curadores pensaram em aposentá-lo. O golpe decisivo veio durante a Primeira Guerra Mundial, quando Cattell escreveu duas cartas ao Congresso norte-americano protestando contra a prática de enviar soldados recrutados à frente de batalha. Essa era uma posição impopular para ser adotada mas, caracteristicamente, Cattell não voltou atrás. Foi demitido da Colúmbia em 1917, acusado de deslealdade ao país. Ele processou a universidade por difamação e, embora indenizado em quarenta mil dólares, não recuperou o cargo. Isolou-se dos colegas e passou a escrever panfletos cáusticos sobre a administração universitária. Fez muitas inimizades e viveu amargurado por essa experiência o resto da vida.

Cattell nunca mais voltou à vida acadêmica. Dedicou-se às publicações, à AAAS e a outras sociedades científicas. Seus esforços promocionais como porta-voz da psicologia diante das outras ciências conquistaram para a disciplina uma posição mais importante perante a comunidade científica.

Em 1921, realizou uma de suas maiores ambições: a promoção da psicologia aplicada [187] como negócio. Organizou a Psychological Corporation, cujas ações foram compradas por membros da APA, para prestar serviços psicológicos à indústria, à comunidade psicológica e ao público. Essa organização registrou um considerável crescimento e hoje é um empreendimerito de vulto internacional.

Cattell manteve-se ativo como editor e defensor da psicologia até morrer, em 1944. Sua ascensão extremamente rápida no cenário da psicologia estadunidense merece menção. Aos vinte e oito anos, era professor na Universidade da Pensilvânia; aos trinta e um, chefe de departamento em Colúmbia; aos trinta e cinco, presidente da Associação Psicológica Americana; e, aos quarenta, o primeiro psicólogo eleito para a Academia Nacional de Ciências (NAS).

Os Testes Mentais

Mencionamos os primeiros trabalhos de Cattell sobre o tempo de reação e o seu interesse pelo estudo das diferenças individuais. O alcance dos seus outros trabalhos foi ilustrado em 1914, quando um grupo de alunos seus, que coligia seus artigos originais de pesquisa, descobriu que, além do tempo de reação e das diferenças individuais, havia estudado a leitura e a percepção, a associação, a psicofísica e o método da ordem do mérito. Embora a importância dessas áreas não possa ser negada, Cattell influenciou a psicologia principalmente com seu trabalho aplicado sobre as diferenças individuais e com o desenvolvimento e uso de testes mentais para medir essas diferenças.

Num artigo publicado em 1890, ele cunhou o termo testes mentais, e, em seu período na Universidade da Pensilvânia, administrou uma série desses testes a seus alunos. ‘A psicologia”, escreveu Cattell, “não pode atingir a certeza e a exatidão das ciências físicas se não se apoiar nos alicerces da experimentação e da mensuração. Um passo nessa direção poderia ser dado com a aplicação de uma série de testes mentais e medidas, a um grande número de pessoas” (Cattell, 1890, p. 373). É precisamente isso que ele tentou fazer. Continuou com o programa de testes em Colúmbia e reuniu dados de várias turmas de calouros.

Os tipos de testes usados por Cattell ao tentar medir o alcance e a variabilidade das capacidades humanas diferiam dos testes de inteligência ou de capacidade cognitiva, desenvolvidos mais tarde. Estes últimos usaram tarefas mais complexas de aptidão mental. Os de Cattell eram semelhantes aos de Galton, estando primordialmente voltados para medidas corporais ou sensório-motoras elementares, como a pressão dinamométrica, a taxa de movimento (a rapidez com que a mão pode se mover cinquenta centímetros), a sensação (usando o limiar de dois pontos), a pressão que causa dor (quantidade de pressão na testa necessária para provocar dor), as diferenças apenas perceptiveis para a avaliação de pesos, o tempo de reação a sons, o tempo para denominar cores, a bissecção de uma linha de cinquenta centímetros, a avaliação de um período de tempo de dez segundos, e o número de letras lembradas depois de uma única apresentação.

Por volta de 1901, ele tinha reunido dados suficientes para correlacionar os escores dos testes com medidas do desempenho acadêmico dos alunos. As correlações se mostraram desapontadoramente baixas, o mesmo ocorrendo com as intercorrelações dos testes individuais. Como resultados semelhantes tinham sido obtidos no laboratório de E. B. Titchener, Cattell concluiu que testes desse tipo não serviam para prever o desempenho acadêmico ou, por pressuposição, a capacidade intelectual.

Em 1905, o psicólogo francês Alfred Binet, em colaboração com Victor Henri e Théo dore Simon, desenvolveu um teste de inteligência usando medidas mais complexas de capacidades mentais superiores. Essa abordagem ofereceu o que foi considerado uma medida eficiente de inteligência e marcou o começo do fenomenal desenvolvimento dos testes de inteligência.

Apesar do seu fracasso em medir as aptidões mentais, a influência de Cattell no movimento [188] dos testes mentais foi grande. Seu aluno E. L. Thorndike tornou-se líder da psicologia dos testes mentais e, durante anos, a Universidade Columbia foi o centro do movimento. A partir da obra de Galton, Cattell empreendeu uma série de estudos para investigar a natureza e a origem da aptidão científica, usando sua técnica da ordem do mérito. Estímulos classificados por alguns juizes eram colocados numa ordem hierárquica final mediante o cálculo da média atribuida a cada item de estímulo, O método foi aplicado a eminentes cientistas estadunidenses, pedindo-se a pessoas competentes em cada campo científico que classificassem hierarquicamente alguns dos seus colegas mais notáveis. O importante livro de referência American Men of Science veio desse trabalho. A edição de 1910 inclui dezenove psicólogas, cerca de 10% do total geral de psicólogos (O’Donnell, 1985).

O impacto de Cattell sobre a psicologia estadunidense não veio do desenvolvimento de um sistema de psicologia — ele tinha pouca paciência com teorias — nem de uma impressionante lista de publicações. Sua influência veio principalmente do seu trabalho como organizador, executivo e administrador da ciência e da prática psicológicas, e como elo de ligação entre a psicologia e a comunidade científica mais ampla. Cattell tornou-se um embaixador da psicologia, fazendo palestras, editando publicações e promovendo as aplicações práticas do campo.

Ele também contribuiu para o desenvolvimento da psicologia através dos seus discípulos. Durante os seus anos em Colúmbia, treinou, como observamos, mais alunos de psicologia do que qualquer outro nos Estados Unidos, e vários deles, incluindo Robert Woodworth e E. L. Thorndike, alcançaram grande destaque no campo. Mediante seu trabalho com os testes mentais, a medição de diferenças individuais e a promoção da psicologia aplicada, Cattell revigorou energicamente o movimento funcionalista na psicologia estadunidense. Quando ele morreu, o historiador E. G. Boring escreveu a um de seus filhos: ‘Na minha opinião, seu pai fez mais até mesmo que William James para dar à psicologia estadunidense sua fisionomia peculiar, para torná-la distinta da psicologia alemã da qual decorreu” (Bjork, 1983, p. 105).

Lightner Witmer (1867-1956)

Enquanto Hall modificava para sempre a natureza da psicologia estadunidense ao aplicá-la à criança e à sala de aula, e enquanto Cattell aplicava a psicologia à medição de aptidões mentais, um aluno seu e de Wundt a aplicava à avaliação e ao tratamento de certos tipos de comportamento anormal. Apenas dezessete anos depois de Wundt ter fundado a nova ciência da psicologia, outro dos seus ex-alunos a estava usando de uma maneira prática, incompatível com as intenções do mestre. Em 1896, Lightner Witmer, que substituira Cattell na Universidade da Pensilvânia e insistia que sua sala de aula fosse mantida na temperatura de vinte graus, abriu a primeira clínica psicológica, fundando o campo por ele denominado psicologia clínica.

Witmer ofereceu o primeiro curso universitário na nova área e fundou a primeira revista, Psychological Clinic, que editou durante vinte e nove anos. Foi um dos pioneiros da abordagem funcionalista que acreditava dever a nova ciência ser usada para ajudar as pessoas a resolver problemas, e não para estudar o conteúdo de sua mente.

É importante observar que o que Witmer praticava em sua clínica psicológica não era a psicologia clínica que hoje conhecemos. Veremos que o seu trabalho estava voltado para a avaliação e o tratamento de problemas comportamentais e de aprendizagem de crianças em idade escolar, uma área aplicada hoje chamada de psicologia escolar. A moderna psicologia clínica cuida de uma gama mais ampla de desordens psicológicas, das brandas às graves, em pessoas de todas as idades. Embora Witmer tenha sido fundamental para o desenvolvimento da psicologia clínica, e tenha usado esse rótulo livremente, o campo ampliou-se bem além do que ele imaginara. [189]

A Vida de Witmer

Lightner Witmer nasceu em 1867 em Filadélfia, Pensivânica. Era filho de um próspero farmacêutico que inculcou nos três filhos a importância da educação. O irmão e a irmã de Witmer se formaram em medicina, e ele doutorou-se com Wilhelm Wundt em Leipzig. Sempre um aluno excelente, Witmer primeiro freqüentou uma escola particular e, em 1884, ingressou na Universidade da Pensilvânia. Depois da graduação, ensinou história e inglês numa escola particular de Filadélfia antes de matricular-se em cursos de direito na Universidade da Pensilvânia.

Aparentemente sem intenção de fazer carreira em psicologia, ele freqüentava as aulas de psicologia experimental de Cattell, por razões que permanecem obscuras, e tornou-se assistente de ensino do departamento de psicologia. Witmer começou a fazer pesquisas sobre as diferenças individuais quanto ao tempo de reação sob a orientação de Cattell, esperando conseguir seu Ph.D. na Pensilvânia. Cattell tinha outros planos. Ele tinha Witmer em tão alta conta que o escolheu como sucessor quando foi para a Universidade Colúmbia. Era uma oportunidade ímpar para o jovem, mas Cattell impôs uma condição: Witmer teria de ir para Leipzig doutorar-se com Wundt. O prestígio de um Ph.D. alemão ainda era fundamental, e Witmer concordou.

Ele estudou com Wundt e com Oswald Külpe; um dos seus colegas, recém-chegado da Inglaterra, foi E. B. Titchener. Witmer não se impressionou com a abordagem wundtiana de pesquisa, tendo mais tarde comentado que a única coisa que conseguiu com a experiência de Leipzig foi o grau. Wundt se recusou a permitir que Witmer prosseguisse com o trabalho sobre o tempo de reação que ele iniciara com Cattell, e o obrigou a fazer pesquisas introspectivas tradicionais sobre conteúdos conscientes.

Witmer criticava o que chamava de “métodos displicentes de pesquisa” usados por Wundt, descrevendo como este fizera Titchener repetir uma pesquisa... porque os resultados obtidos por ele não eram os que Wundt tinha esperado. Do mesmo modo, ele me excluiu como sujeito... porque, em sua opinião, minha reação sensorial ao som e ao toque era breve demais para ser uma verdadeira reação sensorial” (O’Donnell, 1985, p. 35).
Mesmo assim, Witmer recebeu seu grau e voltou para ocupar seu novo cargo na Universidade da Pensilvânia no verão de 1892, o mesmo ano em que Titchener obteve o seu e foi para Cornell, e em que outro aluno de Wundt, Hugo Münsterberg, era levado para Harvard por William James. Também nesse ano, Hall deu inicio à Associação Psicológica Americana, tendo Witmer como um dos seus membros fundadores. Foi a época em que os espíritos funcionalista e aplicado começaram a tomar conta da psicologia estadunidense.

Nos dois anos seguintes, Witmer trabalhou como psicólogo experimental, fazendo pesquisas e apresentando artigos sobre as diferenças individuais e a psicologia da dor. Enquanto isso, no entanto, ele buscava meios de aplicar a psicologia ao comportamento anormal. O impulso para fazê-lo veio num certo dia de março de 1896, como resultado de um incidente que se originou nas circunstâncias econômicas antes mencionadas — a verba disponível para o campo da educação pública, que estava em franca expansão.

Muitos conselhos estaduais de educação estavam estabelecendo departamentos de pedagogia (instrução nos princípios e métodos de ensino) em seus colégios e universidades, e os psicólogos estavam sendo chamados a dar cursos para um número crescente de profissionais que se especializavam em educação, bem como para professores públicos em busca de títulos mais elevados de graduação. Também se pedia aos psicólogos que deixassem a pesquisa em laboratório e descobrissem maneiras de treinar alunos para se tornarem psicólogos educacionais. Os departamentos de psicologia se beneficiaram muito desse súbito influxo de alunos, já que, então como agora, os orçamentos departamentais dependiam do número de matrículas. [190]

A Universidade da Pensilvânia estabeleceu cursos para professores públicos em 1894, ficando Witmer responsável por alguns deles. Dois anos mais tarde, uma aluna, Margaret Maguire, consultou Witmer sobre os problemas que tinha com um dos seus alunos, um garoto de catorze anos que estava encontrando dificuldades para aprender a soletrar, embora estivesse indo bem em algumas outras matérias. Poderiam os psicólogos ajudar a resolver esse problema? “Pareceu-me”, escreveu Witmer, “que se a psicologia valesse alguma coisa para mim ou para os outros, ela teria de ser capaz de servir a um caso de retardamento dessa espécie” (McReynolds, 1987, p. 853). Montou uma clínica incipiente e assim começou o trabalho de sua vida.

Dentro de poucos meses, Witmer estava preparando cursos sobre métodos de tratamento de crianças com distúrbios mentais, cegas e com outros problemas, e publicou um artigo sobre o assunto, intitulado “O Trabalho Prático em Psicologia”, na revista Pediatrics. Apresentou uma comunicação sobre o tópico na reunião anual da APA, e foi ali que usou o termo psicologia clínica pela primeira vez. Em 1907, fundou a revista Psychological Clinic, que foi a primeira, e por muitos anos a única, no campo. No seu primeiro número, Witmer propôs uma nova aplicaçâo da psicologia — na verdade, uma nova profissão — a ser chamada psicologia clínica. No ano seguinte, fundou um internato para crianças retardadas e perturbadas, e, em 1909, sua clínica universitária expandiu-se e tornou-se uma unidade administrativa independente.

Witmer ficou na Universidade da Pensilvânia durante toda sua vida profissional, lecionando, promovendo e praticando sua psicologia clínica. Aposentou-se em 1937, vindo a morrer em 1956, aos 89 anos — o último do pequeno grupo de psicólogos que se reunira em 1892 no gabinete de G. Stanley Hall para fundar a Associação Psicológica Americana.

A Clínica Psicológica

Na qualidade de primeiro psicólogo clínico do mundo, Witmer não tinha exemplos, nem precedentes, em que basear suas ações, e desenvolveu seus próprios métodos de diagnóstico e tratamento no transcorrer do próprio trabalho. Com seu primeiro caso, o garoto que tinha problemas de soletração, Witmer examinou o nível de inteligância, o raciocínio e a capacidade de leitura do menino e concluiu que esta última era deficiente. Depois de análises exaustivas que duraram muitas horas, Witmer concluiu que o menino sofria daquilo que ele denominou amnésia visual verbal. Embora pudesse lembrar-se de figuras geométricas, ele tinha problemas para se lembrar de palavras. Witmer desenvolveu um programa paliativo intensivo que produziu alguma melhoria, mas o garoto nunca conseguiu dominar a leitura ou a ortografia.

Os professores enviaram à nova clínica de Witmer muitas outras crianças portadoras de um amplo espectro de deficiâncias e problemas, entre os quais hiperatividade, várias deficiências de aprendizagem e desenvolvimento motor ou verbal inadequado. Conforme se tornava cada vez mais experiente, Witmer pôde desenvolver programas-padrão de avaliação e tratamento, e, além de admitir médicos e assistentes sociais para a clínica, contratou mais psicólogos.

Witmer reconhecia que problemas médicos podem interferir no funcionamento psicológico, razão por que submetia as crianças a um exame clínico para determinar se a subnutrição ou defeitos visuais e auditivos contribuíam para as suas dificuldades. Os pacientes eram testados e entrevistados amplamente por psicólogos; ao mesmo tempo, os assistentes sociais preparavam históricos de caso acerca de sua situação familiar.

A princípio, Witmer acreditava que os fatores genéticos eram amplamente responsáveis por muitos dos distúrbios de comportamento e déficits cognitivos que via; mais tarde, porém, com o aumento da sua experiância clínica, percebeu que os fatores ambientais eram mais importantes. Ele enfatizou a necessidade de oferecer, ainda em tenra infância, uma variedade [191] de experiências sensoriais à criança, antecipando os programas de enriquecimento Head Start de tempos mais recentes. Ele também acreditava na intervenção direta na vida dos pacientes e da sua família, alegando que, se as condições em casa e na escola fossem melhoradas, o comportamento da criança também melhoraria.

O desenvolvimento na educação pública ofereceu à nova psicologia amplas oportunidades - e generosas recompensas — a quem tirasse seus métodos e descobertas do laboratório acadêmico. O exemplo de Witmer foi seguido e ampliado por muitos outros psicólogos. Por volta de 1914, havia quase vinte clínicas psicológicas em operação nos Estados Unidos, a maioria das quais inspirada na de Witmer. Além disso, os alunos que ele treinara divulgaram a sua abordagem, ensinando à geração seguinte de estudantes o trabalho clínico.

Witmer também foi influente na área da educação especial, treinando muitos dos primeiros profissionais desse campo. Um dos seus alunos, Morris Viteles, ampliou o trabalho de Witmer ao fundar, em 1920, uma clínica dedicada à orientação vocacional, a primeira dos Estados Unidos. Outros incluíram adultos no trabalho clínico. Além disso, abordagens mais novas de psicoterapia, desenvolvidas por Sigmund Freud e seus seguidores, fizeram com que o campo crescesse consideraveimente além de suas origens. Esse desenvolvimento, que ocorre naturalmente em todos os campos, de forma alguma reduz a importância de Lightner Witmer em termos da elaboração e evolução da psicologia clínica.

Waiter Dill Scott (1869-1955)

Outro aluno de Wundt, Walter Dill Scott, deixou o mundo da psicologia introspectiva pura que aprendera em Leipzig para aplicar a nova ciência à publicidade e aos negócios. Jogador universitário de rúgbi e quase missionário, Scott dedicou boa parte da sua vida adulta a tornar o mercado e o ambiente de trabalho mais eficientes e a determinar como os lideres empresariais poderiam motivar os empregados e consumidores.
A obra de Scott reflete a crescente preocupação da psicologia funcional com o lado prático das coisas. “Ao retornar da Leipzig de Wundt para a Chicago da virada do século, Scott fez suas publicações passarem da teorização germânica à utilidade prática estadunidense. Em vez de explicar as motivações e impulsos em geral, Scott descrevia como influenciar pessoas, incluindo consumidores, públicos de palestras e trabalhadores” (Von Mayrhauser, 1989, p. 61).
Scott reuniu um impressionante número de primeiros lugares. Foi o primeiro a aplicar a psicologia à publicidade e à seleção e administração de pessoal, o primeiro a ostentar o título de professor de psicologia aplicada, o fundador da primeira empresa de consultoria psicológica e o primeiro psicólogo a receber a Distinguished Service Medal, uma condecoração do Exército dos Estados Unidos.

A Vida de Scott

Walter Dill Scott nasceu numa fazenda em Illinois, no ano de 1869. Ele começou a se dedicar à idéia do aumento da eficiência aos doze anos quando atava o campo. Como seu pai ficava doente com freqüência, o garoto basicamente dirigia a pequena fazenda familiar. Um dia, ele fez uma pausa no final de um sulco para deixar os dois cavalos descansar. Contemplando os edifícios da Universidade Normal Estadual de Illinois, a distância, ele percebeu de repente que, se quisesse conseguir alguma coisa, tinha de parar de perder tempo. E ali estava ele, perdendo dez minutos de cada hora para deixar os cavalos descansar! Isso equivalia a mais ou menos uma hora e meia por dia, tempo que ele podia usar lendo e estudando. A partir daquele dia, Scott sempre levava ao menos um livro consigo e lia em todos os momentos de folga.

Para pagar os estudos, ele colhia e enlatava amoras, vendia ferro-velho e aceitava [192] empregos estranhos. Guardava parte do dinheiro e, com o resto, comprava livros. Aos dezenove anos, inscreveu-se na universidade e iniciou sua longa jornada para longe da fazenda. Dois anos depois, conseguiu uma bolsa para a Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois, onde aceitou empregos de preceptor para ganhar um dinheiro extra, jogou rúgbi, conheceu a mulher com quem iria se casar e decidiu ser missionário na China.

Essa carreira, contudo, significaria mais três anos de estudo e, quando se graduou num seminário teológico de Chicago e estava pronto para ir para a China, Scott descobriu que não havia vagas; a China estava cheia. Foi então que pensou numa carreira em psicologia. Havia feito um curso na área e gostara. E já tinha lido artigos em revistas sobre a nova ciência e o laboratório que Wundt instalara em Leipzig. Graças às suas bolsas, atividades de preceptor e vida frugal, Scott economizara vários milhares de dólares, o suficiente não apenas para ir à Alemanha como para casar-se.

Em 21 de julho de 1898, Scott e sua noiva partiram. Enquanto ele estudava com Wundt em Leipzig, a senhora Scott fazia seu Ph.D. em literatura na Universidade de Halie, a trinta quilômetros de distância. Eles só se viam nos fins de semana. Os dois se doutoraram dois anos depois e voltaram para casa, onde Scott foi dar aulas na Universidade Northwestern na área de psicologia e pedagogia. Ele já estava sob a influência da tendência de aplicar psicologia a problemas da educação.

Sua passagem para um campo novo e distinto de aplicação ocorreu em 1902, quando um líder na área da publicidade procurou Scott, que fora recomendado por um ex-professor, e lhe pediu para aplicar princípios psicológicos à publicidade a fim de torná-la mais eficaz.

Ele ficou muito interessado na idéia. Na melhor tradição do espírito do funcionalismo estadunidense, ele já se afastara da psicologia wundtiana e buscava um modo de tornar a psicologia mais aplicável a preocupações do mundo real. E tinha agora a sua chance.

Scott escreveu The Theory and Practice of Advertising (Teoria e Prática da Publicidade), o primeiro livro sobre o tópico, seguido por uma torrente de artigos em revistas e livros, publicados à medida que sua experiência, sua reputação e seus contatos com a comunidade empresarial se ampliavam. Depois, voltou sua atenção para os problemas de seleção e administração de pessoal. Em 1905, passou de instrutor a professor na Northwestern e, em 1909, assumiu o cargo de professor de publicidade na escola de comércio da universidade. Em 1916, foi nomeado professor de psicologia aplicada e diretor da divisão de pesquisa de vendas na Universidade Técnica Carnegie, de Pittsburgh.

Em 1917, quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra, Scott ofereceu seus préstimos ao exército para ajudar na seleção de pessoal militar. No início, ele e suas propostas não foram bem recebidos; nem todos estavam convencidos do valor prático da psicologia. Além disso, o general com quem Scott falou desconfiava de professores, tendo quase explodido de raiva. "Ele disse que sua função era fazer com que os professores universitários não se pusessem no caminho do progresso, que estávamos em guerra com a Alemanha e que ele não tinha tempo para brincar com experiências; disse ainda que muitas pessoas achavam que o exército era um grande cachorro no qual aplicar experimentos, e que ele faria o que fosse preciso para nenhum professor universitário consegui-lo” (Von Mayrhauser, 1989, p. 65). Scott acalmou o irado oficial, levou-o para almoçar e o persuadiu do valor de suas técnicas de seleção. Perto do final da guerra, ele provou que tinha razão e terminou por receber do exército a mais importante medalha concedida a civis.

Em 1919, fundou sua própria empresa (chamada, imaginativamente, The Scott Company), que fornecia serviços de consultoria a mais de quarenta empresas importantes nos setores de seleção de pessoal e métodos de aumento da eficiência do trabalhador. No ano seguinte, ele se tomou presidente da Northwestern, tendo se aposentado em 1939. [193]

Publicidade e Seleção de Pessoal

As marcas deixadas pelo treinamento em psicologia experimental wundtiana e sua tentativa de estendê-la ao domínio prático são dois traços evidentes nos primeiros escritos de Scott sobre a publicidade. Ele escreveu, por exemplo, que os órgãos dos sentidos eram as janelas da alma. Quanto maior o número de sensações que recebemos de um objeto, tanto melhor o conhecemos. A função do sistema nervoso é nos tornar conscientes das visões, sons, sensações, sabores, etc. dos objetos do nosso ambiente. O sistema nervoso que não responde ao som ou a qualquer outra qualidade sensível é deficiente. Consideram-se os anúncios, por vezes, o sistema nervoso do mundo dos negócios. O anúncio de instrumentos musicais que não contenha nada que desperte imagens de som é um anúncio deficiente... Assim como o nosso sistema nervoso é organizado para nos fornecer todas as sensações possíveis de qualquer objeto, assim também o anúncio, que é comparável ao sistema nervoso, deve despertar no leitor tantos tipos distintos de imagens quantos sejam os que o próprio objeto pode suscitar (Jacobson, 1951, p. 75).

Scott afirmava que os consumidores são não-racionais e facilmente influenciáveis, e concentrou-se na emoção e na simpatia como fatores importantes para o despertar dessa sugestionabilidade. Ele também acreditava, como era comum na época, que as mulheres eram mais facilmente influenciadas do que os homens por anúncios que jogavam com as emoções e os sentimentos. Aplicando o que denominou a lei da sugestionabilidade à publicidade, ele recomendava que as empresas usassem ordens diretas — tais como “Use o Sabão X” — para vender seus produtos. Scott também promoveu o uso de cupom porque estes exigiam uma ação específica e direta dos consumidores, que tinham de destacar o cupom da revista ou jornal, preenchê-lo e enviá-lo para receber uma amostra grátis. Essas duas técnicas — as ordem diretas e o envio de cupom — foram rapidamente adotadas pelos publicitários e, por volta de 1910, já eram uma estratégia generalizada (Kuna, 1976).

Para o seu trabalho em seleção de pessoal, com vendedores, executivos e militares em particular, Scott desenvolveu escalas de avaliação e testes de grupo para medir as características de pessoas já bem-sucedidas nessas ocupações. Assim como fora com Witmer na psicologia clínica, não havia trabalhos precedentes nos quais Scott pudesse basear sua abordagem, tendo ele mesmo de desenvolvê-la. Ele pedia a oficiais superiores e a supervisores que fizessem listas dos seus subordinados e os classificassem segundo categorias de aparência, comportamento, sinceridade, produtividade, caráter e valor para a instituição/organização. Os candidatos eram hierarquizados com base nas qualidades consideradas necessárias ao bom desempenho do trabalho em questão, um procedimento não muito diferente do empregado hoje.

Scott concebeu testes psicológicos para avaliar a inteligência e outras capacidades, mas, em vez de julgar cada candidato individualmente, como era prática corrente, elaborou testes passíveis de aplicação a grupos. O mundo dos negócios e a corporação militar exigiam a rápida avaliação de grande número de candidatos, e era mais eficaz e barato testá-los em grupo.

Os testes de Scott diferiam dos desenvolvidos por Cattell e outros por mais razões ainda. Ele não tentava avaliar a natureza da inteligência geral da pessoa como um conteúdo ou faculdade; o que lhe interessava era o modo como a pessoa usava sua inteligência. Em outras palavras, ele queria medir o funcionamento da inteligência num ambiente real. Para ele, a inteligência não se defenia em termos de capacidades cognitivas específicas, mas em termos práticos como julgamento, rapidez e precisão — as características necessárias à boa realização de um trabalho. O seu interesse se restringia à comparação entre os índices alcançados pelos candidatos e os índices de funcionários já bem-sucedidos no trabalho; não era sua intenção [194] determinar o que esses índices poderiam representar em termos de conteúdo mental. Essa abordagem prática dos testes tipificou o homem e toda a sua obra.

Tal como Witmer, Scott só tem recebido uma atenção passageira por parte da história da psicologia. Várias razões explicam esse relativo desdém. Como a maioria dos psicólogos aplicados, Scott não formulou teorias, não fundou uma escola de pensamento, não treinou um grupo leal de alunos para dar prosseguimento ao seu trabalho, fez poucas pesquisas acadêmicas e raramente publicava nas revistas dominantes da época. Seu trabalho para corporações privadas e para os militares era estritamente prático, voltado para atender as necessidades do cliente. Além disso, muitos psicólogos acadêmicos, particularmente aqueles detentores de posições de destaque em universidades importantes e que contavam com generosas verbas para seus laboratórios, tendiam a menosprezar o trabalho dos psicólogos aplicados, acreditando que ele não contribuiria para o progresso da psicologia como ciência.

Scott e outros psicólogos aplicados contestavam essa posição. Para eles, não havia conflito entre as aplicações utilitárias e o progresso da ciência. Na verdade, eles acreditavam que “o progresso empírico da psicologia dependia muito dos resultados da experiência extra acadêmica” (Von Mayrhauser, 1989, p. 63). Os psicólogos aplicados alegavam que a divulgação da psicologia para um público maior demonstrava o seu valor, o que, por sua vez, aumentava o reconhecimento da importáncia da pesquisa psicológica nas universidades. Logo, os primeiros psicólogos aplicados estavam refletindo o legado e o impacto do espírito funcionalista na psicologia estadunidense, tentando torná-la uma ciência útil.

Hugo Münsterberg (1863-1916)

Hugo Münsterberg, o professor alemão típico, foi por algum tempo um sucesso fenomenal na psicologia estadunidense e o psicólogo mais conhecido do público. Escreveu centenas de artigos para revistas populares e mais de vinte livros. Era um visitante freqüente da Casa Branca, convidado de dois presidentes, Theodore Roosevelt e William Howard Taft. Münsterberg era procurado como consultor por empresas e líderes governamentais, tendo entre suas amizades os ricos, famosos e poderosos, incluindo o kaiser Frederico, da Alemanha, o magnata do aço Andrew Carnegie, o filósofo Bertrand Russell, bem como astros de cinema e intelectuais.

Foi — por algum tempo — um honrado professor da Universidade Harvard, eleito para a presidência da Associação Psicológica Americana e da Associação Filosófica Americana. Considerado o fundador da psicologia aplicada, foi também um dos dois psicólogos acusados de ser espiões. Foi descrito como “o mais prolífico propagandista da psicologia aplicada”, uma pessoa que “publicava volumes sobre psicologia educacional, legal, industrial, médica e cultural” (O’Donnell, 1985, p. 225). E, segundo o seu biógrafo, Münsterberg foi também um escritor popular bem-sucedido, “abençoado por um peculiar pendor pelo sensacional; sua vida pode ser interpretada como uma série de promoções — de si mesmo, de sua ciência e de sua pátria [ (Hale, 1980, p. 3).

Perto do fmal da vida, tornou-se objeto de escárnio e ridículo, tema de cartuns e caricaturas em jornais, e um embaraço para a universidade a que servira por tantos anos. Quando ele morreu, em 1916, não houve elogios fúnebres para o homem que um dia fora considerado um gigante da psicologia estadunidense.

A Vida de Münsterberg

Em 1882, aos dezenove anos, Münsterberg deixou sua cidade natal, Danzig, na Alemanha, e foi para Leipzig, pretendendo estudar medicina. Mas, ao fazer um curso com Wilhehn [195] Wundt, mudou abruptamente seus planos de carreira. A nova psicologia o deixara animado e oferecia oportunidades que a pesquisa e a prática médicas não poderiam oferecer. Conseguiu o Ph.D. com Wundt em 1885 e formou-se médico na Universidade de Heidelberg dois anos depois. [196]

Hugo Münsterberg foi muito influente na promoção de várias especialidades da psicologia aplicada, incluindo a psicologia forense, a psicologia clínica e a psicologia industrial, depois, tendo estudado nesta última com o objetivo de se preparar melhor para uma carreira de pesquisador acadêmico. Foi lecionar na Universidade de Freiburg e, como não havia instalações na universidade, montou um laboratório em casa às suas custas.

Münsterberg publicou um livro e vários artigos sobre sua pesquisa experimental em psicofísica, que Wundt criticou por lidarem com os conteúdos cognitivos da mente, não com os sentimentos. Ao mesmo tempo, sua obra atraiu um grupo leal de seguidores, e alunos vindos da Alemanha e de outros lugares acorreram em bando para o seu laboratório. Ele parecia bem encaminhado para conseguir um emprego de professor numa universidade importante e a reputação de pesquisador respeitado.

William James fê-lo sair dessa trilha em 1892 ao lhe dar a oportunidade de ser o bem pago diretor do laboratório de psicologia da Universidade Harvard. James foi lisonjeiro em seu apelo, escrevendo para Münsterberg que Harvard era a maior universidade dos Estados Unidos e precisava de um gênio para dirigir o laboratório de modo a manter sua primazia na psicologia. Münsterberg teria preferido ficar na Alemanha, mas a ambição o levou a aceitar a oferta de James.

Não foi rápida nem fácil sua transição da Alemanha para os Estados Unidos, e da psicologia experimental pura para a psicologia aplicada. No início, ele desaprovava a disseminação da psicologia aplicada e atacava os administradores universitários por pagarem tão pouco aos pesquisadores que os forçavam a ganhar a vida dedicando-se a ocupações mais práticas. Criticava os psicólogos estadunidenses que escreviam livros populares para o público leigo, faziam palestras para líderes empresariais e ofereciam, mediante pagamento, seus serviços de especialistas. Dentro de pouco tempo, contudo, ele estaria fazendo tudo isso.

Depois de dez anos nos Estados Unidos, e talvez percebendo que nenhuma universidade alemã lhe ofereceria um cargo de professor, escreveu seu primeiro livro em inglês. Intitulado American Traits (Características Americanas), o livro, de 1902, era uma análise psicológica, social e cultural da sociedade estadunidense. Escritor rápido e talentoso, ele era capaz de ditar para uma secretária um livro acessível de quatrocentas páginas, em no máximo um mês. William James comentou que o cérebro de Münsterberg era incansável. E. B. Titchener observou que ele tinha “o dom fatal de escrever com facilidade — fatal especialmente para a ciência, e sobretudo para uma ciência jovem, em que a precisão é, de todos, o aspecto mais necessário” (Hale, 1980, p. 23).

A reação entusiástica ao livro de Münsterberg o encorajou a escrever mais para o público em geral do que para os colegas, e ele logo estava publicando em revistas populares, e não em periódicos profissionais. Afastou-se da pesquisa psicofísica e dos conteúdos da mente e passou a escrever sobre as atividades cotidianas para as quais os psicólogos poderiam contribuir. Seus livros e artigos tratavam de julgamentos nas cortes e do sistema de justiça criminal, da propaganda de produtos de consumo, do aconselhamento vocacional, da saúde mental e da psicoterapia, da psicologia educacional e industrial e da psicologia do cinema. Münsterberg produzia cursos por correspondência sobre aprendizagem e negócios, e chegou a fazer uma série de filmes sobre testes mentais para exibição nos cinemas.

Münsterberg nunca hesitou em se envolver em questões controversas. Durante um sensacional julgamento por assassinato, administrou quase cem testes mentais ao assassino confesso de dezoito pessoas, o qual tinha acusado um líder sindical de pagar pelos crimes. Com base nos resultados desses testes, que incluíram um teste de associação de palavras (apelidado pela imprensa de “máquina da mentira”), Münsterberg anunciou publicamente — antes de ter chegado a um veredito no julgamento do líder sindical — que a alegação do assassino implicando o líder era verdadeira, O júri, no entanto, absolveu este último, o que foi desastroso para Münsterberg; um jornal passou a referir-se a ele como ‘Professor Monsterwork”. [197]

Em 1908, ele se envolveu na luta nacional contra o movimento de proibição da venda de bebidas alcoólicas. Ele se opôs à proibição, recorrendo à sua experiência como psicólogo e afirmando que o álcool, tomado com moderação, é benéfico. Os fabricantes de cerveja germano-estadunidenses, incluindo Adolphus Busch e Gustave Pabst, se deliciaram com o apoio de Münsterberg e deram grandes contribuições financeiras ao seu esforço de promoção da imagem da Alemanha nos Estados Unidos. Numa infeliz e suspeita coincidência, Busch doou cinqüenta mil dólares ao Museu Germânico proposto por Münsterberg poucas semanas antes de este publicar um artigo na McCure‘s Magazine denunciando a idéia da proibição. Isso causou furor nos jornais e revistas populares.

As idéias de Münsterberg sobre as mulheres também eram difíceis de ignorar. Embora apoiasse a presença de várias mulheres que eram estudantes graduadas em Harvard, incluindo Mary Whiton Calkins, ele acreditava que esse trabalho era muito rigoroso para a maioria delas. Sua concepção era de que as mulheres não deviam ser treinadas para carreiras acadêmicas, porque isso as afastaria de casa. Ele também afirmava que elas não deviam lecionar em escolas públicas, porque não tinham capacidade de ensinar tão bem quanto os homens e não eram bons modelos para meninos. E acreditava que não se devia permitir a presença de mulheres no júri por elas serem incapazes de deliberação racional; esta observação produziu manchetes internacionais.

O presidente de Harvard e a maioria dos colegas de Münsterberg não gostaram desse sensacionalismo — nem aprovaram o seu interesse em aplicar a psicologia a problemas práticos. As relações estremecidas alcançaram o ponto da ruptura com a contínua e ardente defesa de sua Alemanha natal feita por Münsterberg durante a Primeira Guerra. Esta eclodira na Europa em 1914, embora os Estados Unidos só tivessem se envolvido diretamente no conflito em 1917 sob a tutela da Inglaterra. Mas a opinião pública estadunidense era definitivamente antialemã. Aquele país era o agressor numa guerra que já custara milhões de vidas, e Münsterberg estava assumindo uma posição cada vez mais impopular.
Ele escreveu inúmeros artigos defendendo a Alemanha, e mantinha um contato aberto com o embaixador alemão em Washington, D.C., e com o escritório alemão de assuntos estrangeiros em Berlim. Os jornais diziam que Münsterberg era um agente secreto, um espião e um oficial militar de alta patente. Os jornais de Boston pediam que ele se demitisse de Harvard. Seus vizinhos suspeitavam que os pombos que a sua filha alimentava no quintal dos fundos estavam sendo usados para levar mensagens a outros espiões. Um aluno de Harvard que vivia em Londres ofereceu à universidade dez milhões de dólares se ela demitisse Münsterberg.

Münsterberg recebia ameaças de morte pelo correio e era alvo do desprezo dos colegas. O ostracismo e os ataques cada vez mais virulentos lhe abateram o espírito. Mas, em 16 de dezembro de 1916, os jornais matutinos traziam especulações sobre conversações de paz na Europa. "Até a primavera teremos paz”, ele anunciou à esposa (Münsterberg, 1922, p. 302). Ele foi a pé, pela neve espessa daquele dia frio, para dar sua aula da manhã. Ao chegar à escola, sentia-se exausto. Münsterberg entrou na classe e foi ao chão sem dizer uma palavra. Morreu instantaneamente de uma síncope.

A Psicologia Forense e Outras Aplicações

Os extremos do comportamento e das crenças de Münsterberg não diminuem a importância do seu trabalho em psicologia aplicada. Ninguém mais contribuiu tanto para o progresso da psicologia aplicada em geral e para o seu avanço nas áreas da psicologia forense, clínica e industrial. Apesar de todos os seus defeitos, Münsterberg permanece como uma das figuras mais influentes no desenvolvimento da abordagem funcional e tipicamente estadunidense da psicologia. [198]

A primeira área de aplicação em que ele trabalhou, a psicologia forense, trata da relação entre a psicologia e a lei. Münsterberg escreveu uma série de artigos sobre tópicos como o uso da hipnose no interrogatório dos suspeitos, formas de evitar o crime, detecção de pessoas culpadas por meio do uso de testes mentais e o caráter inconfiável das testemunhas oculares. Ele tinha particular interesse por este último assunto, isto é, pelo caráter falível da percepção humana diante de um evento como um crime e da lembrança subseqüente do evento. Ele descreveu pesquisas sobre crimes simulados em que se pedia às testemunhas, imediatamente depois de terem visto o crime, que descrevessem o que tinha ocorrido. Os sujeitos não concordavam quanto aos detalhes do que tinham testemunhado, embora a cena ainda estivesse viva em sua memória. Quão preciso poderia ser tal testemunho numa corte, perguntou Münsterberg, já que o evento em discussão teria ocorrido muitos meses antes?

Em 1908, ele publicou On the Witness Stand (No Banco das Testemunhas), que descrevia os problemas das testemunhas oculares. A obra também considerava outros fatores psicológicos que podem afetar o resultado de um julgamento, tais como as falsas confissões, o poder de sugestão no interrogatório de testemunhas e o uso de medidas fisiológicas (a taxa de batimentos cardíacos, a pressão sangüinea, a resistência da pele) para detectar estados emocionais alterados num suspeito ou réu. O livro foi reimpresso muitas vezes, tendo tido uma edição em 1976, quase setenta anos depois de sua publicação.

No final dos anos 70, houve um ressurgimento do interesse pelas questões levantadas por Münsterberg (ver Loftus, 1979; Loftus e Monahan, 1980), e a Sociedade Americana de Psicologia Forense foi fundada, como uma divisão da Associação Psicológica Americana, para promover a pesquisa básica e aplicada na área forense.

Münsterberg publicou um livro intitulado Psychotherapy (Psicoterapia) em 1909, iniciando o trabalho numa área aplicada inteiramente distinta. Ele tratava os pacientes num laboratório, e não numa clínica, e nunca cobrava as consultas. Ele confiava muito na autoridade da sua posição como terapeuta e não hesitava em fazer sugestões diretas aos pacientes sobre como eles podiam se curar. A doença mental, acreditava ele, era antes um problema de desajuste comportamental do que algo atribuível a um conflito inconsciente profundo, como afirmava Sigmund Freud. Münsterberg se opôs às concepções freudianas de saúde mental, particularmente à ênfase nos distúrbios sexuais como causa primária de problemas emocionais. Münsterberg concordava, no entanto, que, em alguns casos, questões de caráter sexual poderiam estar na raiz do problema.
Sua abordagem terapêutica consistia em forçar as idéias perturbadoras do paciente a sair da consciência, em suprimir os comportamentos indesejáveis ou problemáticos e em incitar o paciente a esquecer — deixar de lado — a dificuldade emocional. Tratava uma variedade de problemas, incluindo o alcoolismo, o abuso de drogas, as alucinações, os pensamentos obsessivos, as fobias e as desordens sexuais. Não aceitava pacientes psicóticos ou pessoas com problemas neurológicos, por pensar que essa forma de psicoterapia não funcionava nesses casos.

Por algum tempo, usou a hipnose como método de tratamento, mas interrompeu a prática depois que uma mulher que ele tratava o ameaçou com uma arma. A história deliciou os jornais, e o presidente de Harvard exigiu que ele parasse de hipnotizar mulheres. Seu livro sobre psicoterapia em muito contribuiu para levar o campo da psicologia clínica à atenção do público, mas não foi bem recebido por Lightner Witmer, que abrira sua clínica na Universidade da Pensilvânia vários anos antes. Witmer nunca alcançara — nem procurara — o tipo de aplauso popular que Münsterberg desejava. Num artigo publicado em sua revista, Psychological CIinic, Witmer queixou-se de que Münsterberg tinha barateado” a profissão ao alardear suas curas “na praça do mercado”. Ele considerava Münsterberg pouco mais que um curandeiro, por causa do “modo garboso com que o professor de psicologia de [199] Harvard vai pelo país, alegando ter tratado em seu laboratório psicológico centenas e centenas de casos desta ou daquela forma de disturbio nervoso” (Hale, 1980, p. 110).

Ao mesmo tempo, Münsterberg sistematizava, desenvolvia e promovia mais um campo, o da psicologia industrial. Iniciou este trabalho em 1909, com o artigo “A Psicologia e o Mercado”. O texto cobria várias áreas para as quais ele acreditava que a psicologia poderia contribuir: a orientação vocacional, a publicidade, a administração de pessoal, os testes mentais, a motivação dos empregados e os efeitos da fadiga e da monotonia no desempenho da função. Sua perspectiva era caracteristicamente ampla, tratando de todos os aspectos e problemas dos negócios, desde a seleção dos operários certos para realizar a tarefa com eficiência até a promoção do produto acabado.

Münsterberg foi contratado como consultor por várias empresas, tendo feito para elas inúmeras pesquisas. Ele publicou suas descobertas em Psychology and Industrial Efficiency (Psicologia e Eficiência Industrial), de 1913, outro livro escrito para o público em geral. A obra alcançou tamanho sucesso que foi para as listas dos livros mais vendidos. Ele afirmava que a melhor maneira de aumentar a eficiência no trabalho e assegurar a harmonia no local de trabalho consistia em selecionar trabalhadores para funções adequadas às suas capacidades mentais e emocionais. E como os empregadores fariam isso da melhor forma? Mediante o desenvolvimento de técnicas psicológicas de seleção como testes mentais e simulações em que se podiam avaliar as várias aptidões e capacidades dos candidatos.

Münsterberg fez pesquisas sobre ocupações tão diversas quanto capitão de navio, condutor de bonde, telefonista e vendedor, mostrando como seus métodos de seleção promoviam melhorias no desempenho da função. No tocante a problemas de eficiência, apresentou resultados de estudos que mostravam, por exemplo, que conversar enquanto se trabalha reduz a eficiência. Sua solução não era proibir as conversas entre trabalhadores (isso, admitia ele, geraria hostilidade), mas projetar o local de trabalho de modo a dificultar essas conversas. Esse objetivo poderia ser alcançado pelo aumento da distância entre as máquinas ou pela separação dos espaços com divisórias.

Principalmente graças aos esforços promocionais de Münsterberg, o campo da psicologia industrial exerceu um impacto cada vez mais amplo no mundo do trabalho. Ele propôs ao presidente estadunidense Woodrow Wilson e ao kaiser alemão que seus governos estabelecessem departamentos para patrocinar pesquisas sobre as aplicações da psicologia à indústria. Esses líderes mostraram interesse pela idéia, mas a irrupção da guerra impediu sua implementação.

Tal como outros pioneiros do campo, Münsterberg não formulou teorias, não fundou uma nova escola de pensamento nem — assim que iniciou o trabalho em psicologia aplicada — fez pesquisas acadêmicas puras. Ele insistia para que sua pesquisa servisse a um propósito definido, fosse funcional e orientada para ajudar as pessoas de alguma maneira. Embora tivesse sido treinado por Wilhelm Wundt na técnica da introspecção, criticava os psicólogos que se apegavam à técnica e fustigava colegas não desejosos de empregar as descobertas e métodos da psicologia para a melhoria da humanidade.

Münsterberg nunca aderiu formalmente à definição funcionalista de psicologia e sempre se recusou a definir sua própria abordagem, acreditando que fazê-lo limitaria sua utilidade. Se houve um tema que caracterizou sua diversificada, bombástica e controversa carreira, foi o de que a psicologia tem de ser útil. Nesse sentido, Münsterberg, apesar do temperamento germânico, foi a quintessência do psicólogo estadunidense, refletindo e demonstrando o espírito da sua época. Deve-se a ele o fato de a psicologia aplicada, que ele tanto fez para fundar no inicio do século XX, ter crescido a ponto de tornar-se uma das forças dominantes na psicologia estadunidense agora que o século XXI se aproxima. [200]

Especialidades na Psicologia Aplicada

Vimos como a psicologia, sob a influência do funcionalismo, começou a ser aplicada a problemas do mundo real no início do século. No Capítulo 10, veremos que o comportamentalismo de John B. Watson também contribuiu para o desenvolvimento da tendência aplicada. Depois de deixar o mundo acadêmico, Watson se tornou um popular psicólogo aplicado. Na época, a psicologia já não podia ficar restrita ao mundo da ciência pura do laboratório onde Wundt e Titchener tentaram valorosamente mantê-la. Embora o movimento aplicado em psicologia tenha tido o seu começo nos anos entre a virada do século e a Primeira Guerra, seu progresso inicial foi relativamente lento. Contudo, depois que os EUA entraram na guerra, em 1917, os psicólogos aplicados foram chamados para tratar de problemas práticos e imediatos. A psicologia tornou-se visível aos olhos do público. Psicólogos e não-psicólogos reconheciam que os princípios e métodos do campo podiam ser usados para melhorar o bem-estar humano. Cattell comentou que a guerra pôs a psicologia “no mapa e na primeira página” (O’Donnell, 1985, p. 239). Hall escreveu que a guerra tinha “dado à psicologia aplicada um tremendo impulso. No cômputo geral, isso vai ser bom para a psicologia.., não devemos tentar ser demasiado puros” (Hall, 1919, p. 48). Algumas revistas, como a Journal of Experimental Psychology, interromperam sua publicação nos anos da guerra, mas a Journal of Applied Psychology floresceu.

Nos anos 20, passada a guerra, a psicologia se tornou uma “mania nacional” (Dennis, 1984, p. 23). As pessoas, em todos os Estados Unidos, passaram a acreditar que os psicólogos – eram capazes de curar tudo — da desarmonia conjugal à insatisfação com o trabalho — e vender qualquer produto — de desodorantes a anti-sépticos bucais. Esse crescente clamor por soluções levava cada vez mais psicólogos a deixar a pesquisa pura para se entregar às áreas aplicadas. Na edição de 1921 do American Men of Science de Cattell, mais de 75% dos psicólogos ali citados diziam estar engajados num trabalho de cunho aplicado; em 1910, o número fora 50%. As reuniões da seção de Nova York da APA, no início dos anos 20, mostravam um substancial aumento, com relação aos anos anteriores à guerra, no número de artigos sobre pesquisas aplicadas (Benjamin, 1991).

Contudo, no final da década de 20 e durante os dez anos da depressão econômica mundial dos anos 30, a psicologia aplicada passou a ser atacada por não conseguir ser fiel à sua promessa. Líderes empresariais, por exemplo, queixavam-se de que, embora útil, a psicologia industrial não estava curando todos os seus males. Experiências negativas com testes de seleção malconcebidos os tinham levado a contratar alguns trabalhadores improdutivos.

Talvez as expectativas dos psicólogos e seus clientes fossem exageradas, mas, seja como for, surgiu um desencanto com a psicologia aplicada. Um dos maiores críticos foi Grace Adams, que fora aluna de Titchener. Em “O Declínio da Psicologia na América”, artigo publicado numa revista popular, Adams afirmou que a psicologia “abandonara suas raízes científicas para que psicólogos alcançassem popularidade e prosperidade”. Ela acusou os psicólogos de “se mascararem como cientistas” e fracassarem na resolução dos problemas sociais e econômicos trazidos pela depressão (Benjamin, 1986, p. 944). O New York Times e outros jornais importantes criticavam os psicólogos por prometerem mais do que podiam dar e por não conseguirem aliviar o mal-estar causado pela depressão. O número de artigos populares sobre temas psicológicos declinou a partir de 1929, e a imagem e a promessa da psicologia só seriam restauradas em 1941, depois da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra. Vemos assim outro exemplo da guerra como influência contextual no desenvolvimento da psicologia.

A Segunda Guerra trouxe outro conjunto de problemas urgentes para a psicologia resolver [201], o que reviveu e ampliou sua influência geral. Vinte e cinco por cento dos psicólogos estadunidenses estavam diretamente envolvidos no esforço de guerra, e muitos outros deram contribuições indiretas através da pesquisa e da redação de textos. Ironicamente, a guerra também fez renascer uma psicologia incipiente na Alemanha, onde o campo declinara depois de os nazistas terem expulsado todos os psicólogos judeus de seus empregos. As necessidades dos militares alemães criaram uma nova demanda de psicólogos com vistas à seleção de oficiais, pilotos, tripulação de submarinos e de outros especialistas (Geuter, 1987).

Nos anos posteriores ao fim da guerra, a psicologia estadunidense como um todo passou pelo mais dramático período de crescimento de sua história. Dentro do campo, o desenvolvimento mais significativo ocorreu nas áreas aplicadas. A psicologia aplicada superou a acadêmica e orientada para pesquisas, que predominara por muitos anos. Já não cabia a afirmação de que a maioria dos psicólogos dedicava-se ao ensino ou trabalhava no campo experimental. Antes da Segunda Guerra, quase 70% dos doutorados em psicologia eram concedidos na área da psicologia experimental; perto de 1960, esse número era 25%, tendo caído para 8% por volta de 1984 (Goodstein, 1988).

Em 1940, pouco antes de os Estados Unidos entrarem na guerra, 75% dos psicólogos trabalhavam em ambientes acadêmicos. Eles eram 47% em 1962 e 42% em 1980 (Gilgen, 1982). Disso resultou uma mudança em termos do poder na APA, onde os psicólogos aplicados (particularmente os psicólogos clínicos) assumiram uma posição de comando. Alguns professores e cientistas, orientados para a pesquisa, se ressentiram no domínio dos clínicos e formaram sua própria organização, a Sociedade Psicológica Americana (APS), em 1988. Em 1991, ela tinha mais de 12.000 membros.

Completaremos nossa cobertura do legado do funcionalismo com uma breve discussão de três áreas de psicologia aplicada que têm os mais antigos antecedentes históricos: os testes psicológicos, a psicologia industrial/organizacional e a psicologia clínica. Trataremos dos testes em primeiro lugar porque boa parte do desenvolvimento das duas outras áreas derivou deles.

O Movimento dos Testes Psicológicos

Ao falarmos da obra de Francis Galton e de James McKeen Cattell, discutimos a origem do movimento dos testes mentais. Foi Cattell quem cunhou o termo testes mentais, mas coube a Alfred Binet, um psicólogo francês autodidata, rico e independente, desenvolver o primeiro teste verdadeiramente psicológico da capacidade mental.

Binet discordava da abordagem de Galton e Cattell, que empregava testes de processos sensório-motores para medir a inteligência. Para ele, a avaliação de funções cognitivas como a memória, a atenção, a imaginação e a compreensão forneceria uma melhor medida da inteligência. A oportunidade de prová-lo veio em resposta a uma necessidade prática. Em 1904, o ministro francês da instrução pública nomeou uma comissão para estudar as capacida des de aprendizagem de crianças que estavam tendo dificuldades na escola. Binet e um psiquiatra, Théodore Simon, foram indicados para a comissão, tendo investigado juntos os tipos de tarefas intelectuais que podiam ser dominados pela maioria das crianças em diferentes idades.

A partir do perfil que fizeram dessas tarefas, eles elaboraram o primeiro teste de inteligência. O teste consistia em trinta problemas organizados em ordem ascendente de dificuldade e se concentrava em três funções cognitivas: julgamento, compreensão e raciocínio. Três anos mais tarde, em 1908, o teste foi revisto e ampliado, e o conceito de idade mental, introduzido. A idade mental foi descrita como a idade em que crianças de capacidade média podiam realizar certas tarefas. Por exemplo, se uma criança com idade cronológica de quatro anos passasse em todos os testes em que a amostra de crianças de cinco anos médias tinha [202] passado, atribuía-se à criança de quatro anos uma idade mental de cinco. Uma terceira revisão do teste foi preparada em 1911; mas, depois da morte de Binet, o desenvolvimento do teste, e dos testes de inteligência em geral, passou para os Estados Unidos.

O teste foi introduzido nos Estados Unidos por Henry Goddard, aluno de G. Stanley Hall e psicólogo de uma escola de crianças mentalmente retardadas em Vineland, Nova Jersey. [203] Alfred Binet desenvolveu o primeiro teste verdadeiramente psicológico de capacidade mental, que evoluiu para o amplamente usado Teste de Inteligência Stanford-Bínet.

Goddard denominou sua tradução do teste Escala Binet-Simon de Medida da J (Binet-Simon Measuring Scale for Inteligence). Em 1916, Lewis M. Terman, que também estudara com Hall, desenvolveu uma versão do teste que se tornou padrão. Ele lhe deu o nome de Teste Stanford-Binet, a partir do nome da universidade à qual estava ligado, e adotou o conceito de quociente de inteligência (QI). A medida do QI, definida como a razão entre idade mental e idade cronológica, fora proposta originalmente pelo psicólogo alemão William Stem. O Stanford-Binet passou por várias revisões e continua a ter amplo uso.

No dia em que os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra, realizava-se em Harvard uma reunião da Sociedade de Psicólogos Experimentais, de Titchener. O presidente da APA, Robert Yerkes, estava presente. Yerkes instou os psicólogos presentes a considerar de que maneira a psicologia poderia ajudar na campanha da guerra. Titchener objetou, explicando que era súdito britânico; o mais provável é que não quisesse se envolver com a guerra por não gostar de aplicar a psicologia a problemas práticos. Ele pode ter temido que os esforços dos psicólogos para ajudar a vitória na guerra os fizessem “trocar uma ciência por uma tecnologia” (O’Donnell, 1979, p. 289).

O exército tinha diante de si o problema de avaliar a inteligência de grande número de recrutas a fim de estudá-los e classificá-los, bem como atribuir-lhes tarefas adequadas. O Stanford-Binet é um teste individual de inteligência que requer uma pessoa bem treinada para aplicá-lo de modo adequado. Ele não pode ser usado para nenhum programa de testes em larga escala que envolva a avaliação de muitas pessoas num curto espaço de tempo. Para esse propósito, é necessário um teste para grupo de administração simples.

Yerkes, nomeado major do exército, reuniu um grupo de quarenta psicólogos para realizar essa tarefa. Eles examinaram alguns testes, nenhum dos quais de uso geral, e escolheram como modelo o de Arthur S. Otis, que estudara com Terman. Otis preparou os testes Ariny Alpha e Ariny Beta, com base no de Otis. O Beta era uma versão do Alpha usada especificamente para pessoas que não falavam inglês ou eram analfabetas. Suas instruções eram dadas por meio de demonstração ou mímica, em vez de oralmente ou por escrito.

A implantação do programa seguia lentamente, e a ordem formal para o início dos testes só foi dada três meses antes do fim da guerra. Mais de um milhão de homens foram testados, mas os militares já não precisavam dos resultados. O programa, embora tenha tido pouco efeito no esforço de guerra, teve um enorme impacto sobre a psicologia. A publicidade que recebeu contribuiu em muito para promover o status da psicologia, e esses testes se tornaram protótipos dos muitos que mais tarde foram concebidos.

O desenvolvimento e o uso de testes de personalidade grupais também foram estimulados pelo esforço de guerra. Até aquela época, só se tinham feito tentativas limitadas de avaliação da personalidade. Nos últimos anos do século XIX, o psiquiatra alemão Emil Kraepelin usara o que havia chamado de teste de associação livre; nele, um paciente respondia a uma palavra-estímulo com a primeira palavra que lhe viesse à mente. A técnica fora criada por Galton. Em 1910, CarI Jung desenvolvera uma técnica semelhante, o teste de associação de palavras, que ele empregava na avaliação dos complexos de seus pacientes. Esses dois eram testes de personalidade individuais. Quando o exército manifestou interesse em separar os recrutas altamente neuróticos, Robert Woodworth construiu o Personal Data Sheet, um inventário pessoal em que os pacientes indicavam os sintomas neuróticos que tinham. Tal como o Ariny Alpha e o Ariny Beta, esse teste teve pouco uso real nos anos de guerra, mas também veio a servir de protótipo para o desenvolvimento dos testes de personalidade grupais.

A psicologia aplicada teve sua própria vitória na guerra, a de ter conquistado a aceitação pública. Em pouco tempo, milhares de empregados, escolares e candidatos à faculdade viam-se [204] diante de baterias de testes cujos resultados poderiam determinar o curso de sua vida. Uma epidemia de testes varreu os Estados Unidos; mas, na pressa em dar uma resposta ao apelo dos negócios e da educação, era inevitável que aparecessem alguns testes malconcebidos e impropriamente pesquisados, que levaram a resultados desapontadores. Em conseqüência, muitas empresas abandonaram o uso dos testes psicológicos na metade dos anos 20. Essa foi uma das razões do desencanto geral com a psicologia que se manifestou nesse período. Com o tempo, foram desenvolvidos testes melhores que permitiram ao comércio e à indústria a seleção de melhores pessoas para suas vagas e de melhores trabalhos para os candidatos; hoje, a seleção e colocação de pessoal por meio de testes tornou-se parte essencial do processo de contratação.

Os testes também participaram de uma importante controvérsia social na década de 20. Em 1921, foram tornados públicos os resultados dos testes de recrutas do exército durante a Primeira Guerra. Segundo os dados, a idade mental dos convocados e, por extensão, da população branca em geral era de apenas treze anos. Os resultados também indicavam que quase a metade dos cidadãos estadunidenses brancos podiam ser caracterizados como retardados mentais ou pessoas de mente fraca. Além disso, os dados mostravam que os negros, assim como os imigrantes de países mediterrâneos e latino-americanos, tinham um QI menor. Só os imigrantes do norte da Europa tinham um QI igual ao dos estadunidenses brancos.

Isso levantou muitas questões entre cientistas, políticos e jornalistas. Como podia uma forma democrática de governo sobreviver se o povo era tão estúpido? Deveriam os grupos de QI baixo ter direito de voto? Deveria o governo recusar a entrada de imigrantes dos países de QI baixo? Como podia permanecer significativa a noção de que as pessoas foram criadas iguais?

O conceito de diferenças raciais em termos de inteligência fora apresentado nos Estados Unidos já nos anos 1880, tendo havido muitos clamores para que se impusessem restrições a imigrantes de países mediterrâneos e latino-americanos. Por outro lado, mesmo antes do desenvolvimento dos testes de inteligência, era geralmente aceito o alegado nível inferior de inteligência dos afro-americanos. Um dos mais ativos e coerentes críticos dessa concepção era Horace Mann Bond (1904-1972), um destacado erudito afro-americano, presidente da Universidade Lincoln, da Pensilvânia.

Bond, doutorado em educação pela Universidade de Chicago, publicou alguns livros e artigos em que afirmava que as diferenças de QI entre negros e brancos eram decorrentes de fatores ambientais, e não genéticos. Ele fez pesquisas que demonstraram que os negros dos Estados do norte tinham um QI maior do que os brancos dos Estados do sul, uma descoberta que prejudicou seriamente a acusação de que os negros eram geneticamente inferiores em termos de inteligência (Urban, 1989).

Muitos psicólogos responderam à sugestão de diferenças raciais quanto à inteligência, acusando os testes de serem viciados. Com o tempo, a controvérsia arrefeceu, apenas para ressurgir nos anos 70. Desde então, os psicólogos se esforçam para desenvolver testes isentos de distorções culturais e educacionais que avaliem com mais precisão as capacidades humanas. Permanece uma grande necessidade prática de testes, e sua utilidade na seleção, no aconselhamento e no diagnóstico continua sendo um foco importante da psicologia aplicada.

A Psicologia Iidustrial/Organizacional

Descrevemos a fundação da psicologia industrial por Walter Dill Scott e os primeiros esforços deste e de Hugo Münsterberg para promover a aplicação da psicologia ao mundo do trabalho. Tal como ocorreu com outras áreas da psicologia aplicada, esse campo passou por um monumental aumento de alcance, popularidade e expansão graças à Primeira Guerra. [205]

Scott foi voluntário do Exército norte-americano e desenvolveu uma escala de avaliação para a seleção de capitães baseada nas avaliações que havia concebido para classificar líderes no setor de negócios. Perto do final da guerra, ele tinha avaliado as qualificações profissionais de três milhões de soldados, e o seu trabalho foi um outro exemplo amplamente divulgado do valor prático da psicologia.

Depois da guerra, os negócios, a indústria e o governo solicitaram os serviços de psicólogos industriais para reformular suas políticas de pessoal e introduzir testes psicológicos como meios de seleção de empregados e funcionários. Em 1919, como observamos, Scott fundou sua empresa de consultoria, e, dois anos mais tarde, Cattell fundou sua Psychological Corporation, que também promoveu com sucesso a aplicação da psicologia ao mundo dos negócios.

O foco primordial da psicologia industrial no decorrer dos anos 20 foi a seleção e a colocação de candidatos a empregos — a pessoa certa na função certa. O escopo do campo aumentou em 1927 com os estudos Hawthorne, realizados na fábrica da Westem Electric em Hawthorne, Illinois (Roethlisberger e Dickson, 1939). Essa pesquisa fez com que esse campo passasse da seleção e colocação para problemas mais complexos, envolvendo relações humanas, motivação e o moral.

O estudo começou como uma investigação dos efeitos do ambiente físico do trabalho — iluminação e temperatura, por exemplo — sobre a eficiência do empregado. Os resultados surpreenderam os psicólogos e os gerentes de fábrica. Descobriu-se que as condições sociais e psicológicas do ambiente de trabalho tinham mais importância do que as condições físicas em que as funções eram realizadas. Os estudos Hawthorne abriram novas áreas de exploração de fatores com a qualidade e a natureza da liderança, os grupos informais que os trabalhadores compõem, as atitudes dos empregados com relação ao emprego, a comunicação entre operários e dirigentes, e uma vasta gama de outras forças sociais e psicológicas capazes de influir na motivação, na produtividade e na satisfação.

A Segunda Guerra Mundial levou um grande número de psicólogos a um envolvimento direto com o esforço de guerra. Tal como na Primeira Guerra, sua principal contribuição foram os testes, a avaliação e a classificação de recrutas. Por volta dos anos 40, tinham-se concebido testes bem mais sofisticados. A operação de equipamentos bélicos cada vez mais complexos, tais como aeronaves de alta velocidade, exigia aptidões mais aprimoradas. A necessidade de identificar pessoas dotadas da capacidade de dominar essas aptidões produziu o aperfeiçoamento dos procedimentos de seleção e treinamento. Essas armas criaram na psicologia industrial uma especialidade que recebeu múltiplas denominações: engenharia psicológica, engenharia humana, engenharia dos fatores humanos e ergonomia. Trabalhando em estreito contato com os engenheiros de sistemas, os profissionais da engenharia psicológica forneciam informações sobre as capacidades e as limitações humanas. Seu trabalho tinha influência direta sobre o projeto de equipamentos militares, tornando-os mais compatíveis com as características e aptidões das pessoas que iriam usá-los. Hoje, o campo da engenharia psicológica não se restringe a equipamentos militares, aplicando-se ainda a produtos de consumo como teclados de computador, móveis de escritório e mostradores de painéis nos automóveis.

A partir dos anos 50, os líderes empresariais vêm aceitando a influência da motivação, da liderança e de outros fatores psicológicos no desempenho profissional. Esses aspectos do ambiente de trabalho têm assumido uma importância crescente, o mesmo ocorrendo com o impacto do clima psicológico e social como um todo em que o trabalho é realizado. Atualmente, os psicólogos estudam a natureza de diferentes estruturas organizacionais, seus padrões e estilos de comunicação e as estruturas sociais formais e informais que produzem. Reconhecendo essa ênfase nas variáveis organizacionais, a Divisão de Psicologia Industrial da APA tornou-se a Sociedade de Psicologia Industrial e Organizacional. [206]

Estudos realizados nas décadas de 20 e de 30 na fábrica da Western Electric Company em Hawthorne, illinois, levaram os psicólogos aplicados às complexas áreas das relações humanas, dos estilos de liderança e da motivação e do moral dos empregados.

A Psicologia Clínica

A aplicação da psicologia à avaliação e ao tratamento do comportamento anormal foi feita pela primeira vez por Lightner Witmer em sua clínica da Universidade da Pensilvânia. Além disso, dois livros foram um primeiro impulso no campo. A Mind That Found It self (Uma Mente Que Encontrou A Si Mesma), escrito em 1908 por um ex-paciente, Clifford Beers, alcançou imensa popularidade e atraiu a atenção pública para a necessidade de tratar de maneira mais humana os doentes mentais. Psychotherapy (Psicoterapia), escrito em 1909 por Hugo Münsterberg, que também foi muito lido, detalhava técnicas para tratar uma variedade de distúrbios mentais. Ele promoveu a psicologia clínica ao mostrar formas específicas de ajudar pessoas perturbadas.

A primeira clínica de orientação infantil foi instalada em 1909 por William Healey, psiquiatra de Chicago. Logo surgiram muitas clínicas do gênero, cujo propósito era tratar os distúrbios infantis no início, para que esses problemas não se tornassem enfermidades mais sérias na idade adulta. As clínicas usavam a abordagem de equipe, introduzida por Witmer, em que todos os aspectos das dificuldades de um paciente eram tratados por psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.

As idéias de Sigmund Freud foram, naturalmente, cruciais para o desenvolvimento da [207] psicologia clínica. Sua obra de psicanálise fascinou e enfureceu alguns segmentos da psicologia oficial e do público estadunidense. De suas idéias os psicólogos clínicos extrairam as primeiras técnicas psicológicas de terapia.

Não obstante, o progresso da psicologia clínica era lento e, mesmo em 1940, ela ainda era uma parte pouco significativa da psicologia. Havia poucas instalações para tratamento de adultos perturbados e, por isso, escassas oportunidades de trabalho para os psicólogos clínicos. Não havia programas educacionais para treinar psicólogos clínicos, e o trabalho destes se limitava, em geral, à aplicação de testes.

A situação sofreu uma abrupta mudança quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra, em 1941. Foi esse evento, mais do que qualquer outro, que tornou a psicologia clínica a ampla e dinâmica área aplicada especializada que veio a ser desde então. O exército instalou programas de treinainento para várias centenas de psicólogos clínicos, necessários ao tratamento de distúrbios emocionais dos militares.
Finda a guerra, a necessidade de psicólogos clínicos ficou ainda maior. A Administração dos Veteranos (VA) viu-se responsável por mais de 40.000 veteranos com problemas psiquiátricos. Mais de outros três milhões de veteranos precisavam de aconselhamento vocacional e pessoal para facilitar sua reintegração à vida civil, e cerca de 315.000 necessitavam de aconselhamento para conseguir ajustar-se a incapacidades físicas decorrentes de ferimentos de guerra. A demanda por profissionais de saúde mental estava no auge, excedendo em muito a oferta. Para ajudar no atendimento dessa necessidade cruciante, a VA financiou programas de especialização de nível universitário e pagou as anuidades de alunos em troca de trabalho em seus hospitais e clínicas. Grande número de psicólogos clínicos treinados nos anos 50 recebeu a maior parte dessa instrução sob os auspícios da VA. Os programas também mudaram o tipo de pacientes tratados pelos psicólogos clínicos. Antes da guerra, o trabalho se voltava principalmente para crianças com problemas de delinqüência e de ajustamento; as necessidades dos veteranos porém significavam que a maioria dos pacientes tratados eram adultos com graves problemas emocionais. A VA (hoje Departamento de Assuntos dos Veteranos — Department of Veterans Affairs) continua a ser a maior fonte individual de empregos para psicólogos nos Estados Unidos, e tem tido um enorme impacto sobre o campo da psicologia clínica.

Os psicólogos clínicos também trabalham em centros de saúde mental, escolas, empresas e consultórios particulares. Discutiremos adiante as mudanças ocorridas a partir dos anos 50 nos métodos de tratamento, notadamente as terapias de comportamento, que são uma decorrência da escola comportamentalista. No momento, a psicologia clínica é a maior dentre as áreas aplicadas; mais de um terço de todos os estudantes formados estão em programas de clínica, e cerca de 40% dos membros da APA praticam a psicologia clínica.

Comentário

A natureza da psicologia estadunidense passou por grande alteração desde os anos em que Hall, Cattell, Witmer, Scott e Münsterberg estudaram com Wundt na Alemanha e trouxeram essa psicologia para os Estados Unidos. Como resultado de seus esforços, a psicologia já não está restrita às salas de conferência, bibliotecas e laboratórios, tendo se estendido a muitas áreas da vida cotidiana. Além dos testes, da psicologia escolar e educacional, da psicologia clínica, da psicologia industrial/organizacional e da psicologia forense, os psicólogos atuam hoje no aconselhamento psicológico, na psicologia comunitária, na psicologia do consumidor, na psicologia populacional e ambiental, na psicologia da saúde e da reabilitação, na psicologia dos exercícios físicos e esportes, na psicologia da política pública e militar e na psicologia dos meios de comunicação.

Nenhuma dessas áreas teria sido possível se a psicologia permanecesse [208] voltada para os conteúdos da experiência consciente. As pessoas, idéias e eventos que discutimos nestes capítulos sobre o funcionalismo impeliram a psicologia estadunidense a ir bem além dos limites do laboratório de Leipzig.

Consideremos os seguintes fatores: a noção darwiniana de adaptação e função; a identificação por Galton das diferenças individuais e suas tentativas de medilas; o Zeigeíst estadunidense, com sua ênfase no que é prático e útil; a mudança, nos laboratórios acadêmicos de pesquisa, do conteúdo para a função, promovida por James, Angell, Carr e Woodworth; os fatores sociais e econômicos e as forças da guerra — tudo isso se entrelaçou para dar à luz uma psicologia destinada a modificar a nossa vida, uma ciência ativa, assertiva, atraente e influente. Esse movimento geral da psicologia estadunidense na direção do lado prático foi reforçado pelo comportamentalismo, a próxima escola de pensamento na evolução da psicologia.

Notas
Referências
Bibliografia
( 17 )
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2/13/2020 4:20:16 PM | Por Duane P. Schultz
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O Behaviorismo de Watson

A bonita e jovem aluna do curso de pós-graduação segurava o bebê enquanto o psicólogo segurava o martelo. Vagarosamente ela abanava sua mão no ar para manter a atenção do bebê de modo que ele se ligasse nela e não virasse sua cabeça e olhasse para outro lugar. Assim, a criança distraida, não vê o bastão de metal de 1,2 m de comprimento por 2 cm de largura, pendurado no teto. Ele não viu o homem que levantou o martelo e bateu com força na barra de metal.

O relato da pesquisa afirmava que "A criança alterou violentamente, sua respiração foi verificada e seus braços levantados." Quando o psicólogo bateu no bastão novamente, os lábios da criança "começaram a se dobrar e a tremer" e após bater pela terceira vez no bastão, ele começou a chorar repentina e fortemente" (Watson e Rayner, 1920, p. 2).

Já descobriu quem são essas pessoas e o que estão fazendo? O sujeito desse experimento passou a ser conhecido como O "Pequeno Alberto", o bebê mais famoso da história da psicologia. O psicólogo de 42 anos de idade era John Watson, o fundador da escola de pensamento conhecida como behaviorismo. Sua assistente era Rosalie Rayner, uma aluna de pós-graduação de 21 anos que ia para o campus da Johns Hopkins University dirigindo seu Stutz Bearcat, o carro esportivo mais moderno e caro daquela época. Juntos eles mudaram a psicologia e, no processo, terminaram a brilhante carreira acadêmica de Watson.

Albert (seu sobrenome é ainda desconhecido) tinha 8 meses e 26 dias quando o mar­telo foi batido na barra de metal atrás de sua cabeça. Um bebê saudável e feliz, ele havia sido escolhido por Watson para ser o sujeito de sua pesquisa, precisamente por ser tão estável emocionalmente e não facilmente perturbado.

Dois meses antes de ser assustado pelas batidas do martelo, Albert havia sido exposto a uma variedade de estimulos, incluindo um rato branco, um coelho, um cachorro, um macaco, jornais sendo queimados, e uma série de máscaras. Ainda não havia exibido nenhum medo em resposta a esses objetos. Na realidade, nem a mãe de Albert, nem outra pessoa jamais havia visto a criança exibindo medo em nenhuma situação - até o dia do laboratório.

Quando Watson bateu o martelo pela primeira vez, Albert reagiu amedrontadamente tudo indica que pela primeira vez na sua vida. Isso deu a Watson uma resposta emocional não-condicionada com a qual poderia trabalhar. Ele queria descobrir se conseguiria produzir em Albert uma resposta emocional condicionada, por exemplo, medo do rato branco do qual não tinha anteriormente, combinando a visão do rato com o barulho provocado pelo som que o havia assustado. Não foi preciso mais do que sete combinações do rato branco com o barulho para que a criança mostrasse medo cada vez que visse o rato, mesmo se o bastão não fosse batido com o martelo por trás de sua cabeça.

Assim, Watson e Rayner estabeleceram uma resposta de medo a um objeto anterior­mente neutro e isso foi realizado de uma maneira fácil e eficaz. Em seguida eles demons­traram que a resposta de medo de Albert podia ser generalizada a outros objetos brancos e peludos, como um coelho, cachorro, um casaco de pele e a máscara do Papai Noel!

Watson concluiu que nossos medos, ansiedades e fobias quando adultos, consequen­temente, devem ser simples respostas emocionais condicionadas que foram estabelecidas na infância, e que permanecem durante toda a nossa vida.

E quanto ao pequeno Alberto? Ele ainda se esconde de pequenos animais brancos e peludos? Teve que fazer psicoterapia? Ninguém sabe o que aconteceu a ele. Talvez tenha se tornado um psicólogo, mas não há como negar sua contribuição para a história da psicologia e seu papel no desenvolvimento do behaviorismo de John B. Watson.

John B. Watson (1878-1958)

Foram várias as tendências que influenciaram John B. Watson na tentativa de construir a escola de pensamento behaviorista da psicologia. Watson reconhecia não ser o ato de fun­dar o mesmo que originar e descrevia os seus esforços como uma cristalização das ideias ja emergentes dentro da psicologia. Assim como Wilhelm Wundt, o primeiro promotor-fundador da psicologia, Watson deixou clara a sua intenção de fundar uma escola. Essa intenção deliberada é o que estabelece a nítida distinção entre Watson e os demais, hoje denominados pela história como precursores do behaviorismo.

A Biografia de Watson

John B. Watson nasceu em um  sítio próximo a Greenville, na Carolina do Sul, onde fre­quentou os primeiros anos de estudo em uma escola que possuia apenas uma sala. Sua mãe era extremamente religiosa, ao contrário do pai. O velho Watson bebia muito, era violento e mantinha muitas relações extraconjugais. Ele raramente conseguia manter um emprego fixo, por isso a família vivia à beira da pobreza, subsistindo à custa da produção do sitio. Alguns vizinhos os desprezavam, enquanto outros sentiam pena deles. Quando Watson estava com 13 anos, seu pai fugiu com outra mulher e nunca mais voltou. Watson jamais o perdoou por isso, e anos mais tarde, quando se tornou rico e famoso, seu pai foi procurá-lo em Nova York, mas Watson não quis vê-lo.

Quando pequeno e na adolescência, Watson era considerado delinquente. Ele mesmo se dizia preguiçoso e desobediente e suas notas na escola eram apenas suficientes para passar de ano. Os professores consideravam-no indolente, sempre propenso a discussões e, às vezes, incontrolável. Duas vezes envolveu-se em brigas e foi preso, em uma das ocasioes, por atirar dentro dos limites urbanos. Contudo, aos 16 anos matriculou-se na Furman University, em Greenville, afiliada à igreja Batista, disposto a tornar-se pastor, como prometera à mãe. Estudou filosofia, matemática, latim e grego, planejando entrar no seminário teológico depois de se formar em Furman.

Um fato curioso ocorreu durante o último ano de Watson na Furman University. Um professor advertiu os alunos de que se alguém entregasse o exame final com as páginas na ordem inversa seria reprovado. Watson resolveu desafiá-lo, entregando a prova dessa forma e foi reprovado - pelo menos essa é a sua versão. Um estudo posterior dos dados históricos a respeito do episódio - nesse caso, das notas de Watson - mostra que ele não foi reprovado nessa matéria. Seu biógrafo acredita que a versão da história escolhida pelo proprio Watson revela algo da sua personalidade, ou seja, "a sua ambivalência em relação ao sucesso. Muitas vezes, seus contínuos esforços para atingir as metas e ser aceito eram boicotados pelos próprios atos, totalmente obstinados e impulsivos, que o afastavam ainda mais da respeitabilidade” (Buckley, 1989, p. 11). Outro professor de Watson disse que ele era inconformista, "um aluno brilhante, mas de algum modo preguiçoso e indolente; um pouquinho pesado, mas de boa aparência; valoriza-se demasiadamente e preocupa-se mais com as próprias ideias do que com as pessoas" (Brewer, 1991, p. 174).

Watson ficou mais um ano em Furman, completando o mestrado em 1899, mas nessa data sua mãe faleceu, ficando ele, assim, livre da promessa de tornar-se pastor. Em vez de ir para o seminário teológico, foi para a University of Chicago. Seu biógrafo observou que naquela época ele era ambicioso, um homem extremamente consciente da importâcia do status social, ansioso por deixar sua marca no mundo, mas totalmente indeciso em relaçao à escolha da profissão e inseguro por causa da falta de recursos e de sofisticação social. Chegou ao campus com apenas 50 dólares no bolso (Buckley, 1989, p. 39).

Escolheu a University of Chicago para realizar o trabalho de pós-graduação em filo­sofia com o ilustre John Dewev, mas sentia dificuldade para entender as aulas. "Jamais compreendia o que ele estava falando", relembrou Watson, "e, infelizmente para mim, até hoje não entendo" (Watson, 1936, p. 274). Como era de se esperar, o entusiasmo pela filosofia diminuiu. Atraido para a psicologia em função do trabalho do psicólogo funcionalista James Rowland Angell, Watson estudou também biologia e fisiologia com Jacques Loeb, que lhe introduziu o conceito de mecanismo.

Teve vários empregos de meio período, trabalhando como garçom em uma república, tratador de ratos e zelador encarregado de tirar o pó da escrivaninha de Angell. Perto de terminar os estudos de pós-graduação, começou a sofrer ataques profundos de ansiedade e durante certo período só conseguia dormir com uma luz acesa no quarto.

Em 1903, com 25 anos, completou o doutorado, sendo o mais jovem na história da University of Chicago a obter a título de Ph.D. Embora aprovado com louvor (magna cum laude e Phi Beta Kappa), sentiu-se profundamente inferiorizado quando Angell e Dewey Ihe disseram que seu exame de doutorado não fora tão bom quanto o de Helen Bradford Thompson Woolley, que completara a graduação três anos antes. Watson comentou: "Fiquei imaginando, então, quem seria capaz de igualar-se a ela. Esse ciúme persistiu por vários anos" (Watson, 1936, p. 274).

Naquele ano, Watson casou-se com uma de suas alunas, Mary Ickes, de 19 anos, per­tencente a uma importante família do meio político e social. Contam que ela escreveu um longo poema de amor para Watson em um de seus exames. Não se sabe a nota que ela obteve, mas sabe-se que obtivera Watson.

A carreira acadêmica de Watson

Watson permaneceu na University of Chicago como professor até 1908. Publicou a dissertação sobre a maturação psicológica e neuroló­gica do rato branco, pesquisa que revelava a sua preferência inicial pelo uso de animais nas pesquisas.

Nunca quis usar seres humanos nas minhas pesquisas. Detestava servir de cobaia. Não gostava daquela parafernália de instruções artificiais dadas às pessoas. Sempre me sentia incomodado e não agia com naturalidade. Com os animais, no entanto, sentia-me em casa. Percebia que, observando-os, conseguia me manter próximo da biologia e com os pés no chão. Aos poucos, a ideia se concretizava: será que minhas descobertas observan­do o comportamento dos animais não são iguais às dos demais alunos que observam os [seres humanos]? (Watson, 1936, p. 276)

Os colegas de Watson lembram-se de que ele não conseguia obter exito com a intros­pecção. Qualquer que fosse o talento ou o temperamento necessários para utilizar adequa­damente essa técnica, Watson não os possuia. Essa deficiência talvez o tenha direcionado para a psicologia behaviorista objetiva. Afinal, se ele era uma negação na utilização da introspecção, técnica de pesquisa fundamental na sua área, então suas perspectivas pro­fissionais certamente estavam prejudicadas. Ele teria de buscar outra abordagem. Além disso, caso seguisse sua tendência de enxergar a psicologia como uma ciência que estudava apenas o comportamento - o que evidentemente era possível de ser feito mediante expe­riências com animais e com seres humanos -, ajudaria a atrair os interesses profissionais dos psicólogos que estudavam animais para a psicologia geral.

Em 1908, recebeu uma proposta para lecionar na Johns Hopkins University, em Baltimore. Embora relutasse em deixar Chicago, a promessa de promoção, o aumento substancial no salário e a chance de dirigir o laboratório não lhe deixaram outra opção. E, assim, os 12 anos de Watson na Hopkins acabaram sendo os mais produtivos para a psicologia.

James Mark Baldwin (1861-1934), o psicólogo que lhe havia oferecido o emprego, era um dos fundadores (juntamente com James McKeen Cattell) da revista Psychological Review. Um ano depois da chegada de Watson à Hopkins, Baldwin foi obrigado a pedir demissão por causa de um escândalo. Em uma batida policial, fora flagrado em uma casa de prostituição. O reitor da universidade não aceitou as explicações de Baldwin. Ele ale­gou ter aceitado ingenuamente uma sugestão, feita depois de um jantar, para conhecer [o bordel]. Antes de chegar ao local, não sabia que ali trabalhavam mulheres indecentes" (apud Evans e Scott, 1978, p. 713). Mas deu um nome falso para a policia. Baldwin foi totalmente banido da psicologia estadunidense, passando o resto dos seus anos na Inglaterra e no México, morrendo em Paris em 1934 (Horley, 2001). Onze anos depois da demissão de Baldwin, a história se repetiu. O mesmo reitor da universidade exigiu a demissão de Watson por causa de um escândalo.

Quando Baldwin pediu demissão, Watson tornou-se o responsável pelo departamen­to de psicologia e editor da importante Psychological Review. Assim, aos 31 anos havia se tornado uma figura importante na psicologia estadunidense, no momento e local certos. "Todo o teor da minha vida havia mudado", ele escreveu. Experimentei a liberdade no trabalho sem supervisão. Estava perdido no meu trabalho, mas feliz.” Em casa, no entanto, Watson não estava feliz: "Dois filhos é suficiente" escreveu depois que seu segundo filho nasceu {apud Hulbert, 2003, p. 131). Começou a levar uma vida social ativa, desenvolvendo uma reputação de mulherengo, não diferente de seu pai.

Era extremamente querido pelos alunos da Johns Hopkins University, que costuma­vam lhe dedicar o anuário estudantil e elegê-lo como melhor professor, certamente uma honraria ímpar na história da psicologia. Ele continuava ambicioso e dedicado. Muitas vezes, com medo de perder o controle, chegava à exaustão.

No inicio da carreira na Hopkins, Watson propos estudar os efeitos, tanto positivos como negativos, do álcool e dos filmes de educação sexual nos adolescentes (Simpson, 2000). A administração da universidade não acolheu muito bem essa ideia. Consideraram a pesquisa arriscada e insistiram para que ele parasse. Felizmente, Watson possuia outras válvulas de escape para sua energia e ambição.

Ele começou a pensar seriamente a respeito do tratamento mais objetivo da psicologia por volta de 1903, e expressou essa opinião publicamente em 1908, em palestra na Yale University e em um trabalho apresentado na reunião anual em Baltimore, da Southern Society for Philosophy and Psychology [Sociedade Sulista de Filosofia e Psicologia]. Watson argumentava que os conceitos psiquicos e mentais não serviam de nada para uma ciência como a psicologia. Em 1912, a convite de Cattell, apresentou uma série de palestras na Columbia University. No ano seguinte, publicou um artigo, que mais tarde ficou famoso, na revista Psychological Review (Watson, 1913], assim lançando oficialmente o behaviorismo.

O livro de Watson, Behavior: an introduction to comparative psychology, foi lançado em 1914. Defendia a aceitação da psicologia animal e descrevia as vantagens do uso de ani­mais na pesquisa psicológica. Muitos psicólogos mais jovens e estudantes de pós-graduação consideraram interessantes as propostas de uma psicologia comportamental, afirmando que Watson estava limpando a atmosfera poluida da psicologia, expulsando os mistérios de longa data herdados da filosofia.

Mary Cover Jones (1896-1987), na época aluna de pós-graduação e, mais tarde, presi­dente da Divisão de Psicologia do Desenvolvimento da APA, lembrou-se do entusiasmo com que era recebida a publicação de cada um dos seus livros. "[O behaviorismo de Watson] abalou as estruturas da psicologia tradicional nascida na Europa, e nós o recebemos de bra­ços abertos. (...) Esse behavorismo indicou o caminho da psicologia teórica para a ação e para a reforma e foi, por essa razão, saudado como uma panaceia" (Jones, 1974, p. 582). O programa de Watson normalmente não seduzia os psicólogos mais antigos. Ao contrário, a maioria rejeitava a sua abordagem.

Somente dois anos após a publicação do artigo na Psychological Review, Watson foi eleito presidente da APA. Sua eleição talvez não fosse um sinal de aprovação oficial da sua posição, mas servia como reconhecimento da sua notoriedade e da rede pessoal de relações estabelecidas com diversos psicólogos renomados.

Watson desejava que o novo behaviorismo tivesse valor prático; suas ideias não ser­viam apenas para serem aplicadas nos laboratórios, como também na vida real. Promoveu as especializações aplicadas da psicologia e tornou-se consultor pessoal de uma grande companhia seguradora. Além disso, oferecia cursos de psicologia aplicada à publicidade aos alunos de administração da Hopkins e deu início a um programa de treinamento de estudantes de pos-graduação para trabalharem na área da psicologia industrial.

Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu no exército estadunidense, com a patente de major, desenvolvendo testes de habilidade perceptiva e motora para usar como esquema de seleção para pilotos. Também pesquisou o efeito da redução de oxigênio em atitudes elevadas. Depois da guerra, Watson e um médico criaram a industrial Service Corporation para oferecer serviços de seleção de pessoal e consultoria de admimstração no mundo empresarial (DiClemente e Hantula, 2000).

Embora suas atividades estivessem relacionadas com as áreas da psicologia aplicada a visão de Watson concentrava-se no desenvolvimento da abordagem behaviorista do pensamento psicologico. Em 1919, publicou o livro Psychology from the standpoint of a behavirors, dedicando-o a Cattell. O livro apresentava uma abordagem mais completa da sua psicologia behaviorista, alem do argumento de que os métodos e principios recomendados para a psicologia animal também eram adequados para o estudo do ser humano.

Enquanto isso, seu casamento se deteriorava; sua infidelidade deixava a esposa furio­sa. Watson escreveu a Angell, dizendo que Mary não ligava mais para ele. "Ela instintivamente abomina o meu toque. Será que arruinamos as nossas vidas?" (Watson, apud isucKiey, 1994, p. 27). Ele estava prestes a arruinar a sua ainda mais.

Watson apaixonara-se por Rosalie Rayner, uma assistente da pós-graduação com metade da sua idade, e pertencente a uma rica família de Baltimore que fizera generosa doação para a universidade. Watson escrevia cartas, cientificamente falando ardentes de paixão, 15 das quais encontradas pela esposa. Durante o escandaloso processo de divórcio trechos das cartas eram publicados no jornal Baltimore Sun.

Cada célula do meu corpo a ti pertence, individual e coletivamente. Todas as minhas reações são positivas e todas são para ti. Assim como cada uma e todas as reações do coração. Não posso ser mais teu do que sou, mesmo que uma cirurgia nos transformasse em um unico ser. (Watson, apud Pauly, 1979, p. 40) 

Assim chegava ao fim a carreira acadêmica de Watson, sendo forçado a demitir-se da Hopkins. Seu biografo disse: "Watson ficou chocado. Até o final, recusava-se a acre­ditar que realmente seria demitido. (...) Acreditava piamente que sua estatura profissional lhe proporcionaria imunidade a qualquer censura a respeito da sua vida pessoal" (Buckley 1 9 9 4 , p. 31). Embora tenha se casado com Rosalie Rayner, nunca mais pôde assumir integralmente outra posição acadêmica. Nenhuma universidade o aceitava por causa da má reputaçao, e ele logo percebeu que teria de começar uma nova vida. "Posso arrumar um emprego na area comercial", disse a um amigo. "Mas, sinceramente, amo o meu trabalho. Sei da sua importancia para a psicologia e que a pequena chama que tentei manter acesa para o futuro da psicologia se extinguirá, caso eu a abandone" (apud Pauly, 1986, p 39)

Muitos colegas acadêmicos, inclusive o seu mentor Angell, da University of Chicago criticaram publicamente Watson, que se ressentiu da falta de apoio, chegando a acusá-los de deslealdade. Ironicamente, considerando as diferenças radicais de temperamento e de posições teóricas, foi E. B. Titchener, da Cornell University, quem lhe deu apoio emocional durante sua crise Pessoal. Tltchener escreveu a Robert Yerkes, comentando: "Sinto muita pena dos filhos de Watson", "Também sinto pena dele, pois terá de desaparecer por cinco ou 10 anos; temo se algum dia desejar voltar para a psicologia" (apud Leys e Evans, 1990, p. 105).

A carreira empresarial de Watson

Desempregado e tendo de pagar a quantia equi­valente a dois terços do último salário como pensão para os filhos, Watson iniciou uma segunda carreira profissional como psicólogo aplicado no campo da publicidade. Começou a trabalhar na agência publicitária J. Walter Thompson em 1921, ganhando um salário anual de 25 mil dólares, quatro vezes mais que seu salário acadêmico. Realizou pesquisas de porta em porta, vendeu café e trabalhou como atendente da Macy's para conhecer melhor o mundo dos negócios. Atuando com a sua criatividade e energia características, em três anos tornou-se vice-presidente da agência. Em 1936, foi para outra agência de publicidade, permanecendo ali até se aposentar, em 1945.

Watson acreditava ser o comportamento humano igual ao da máquina. Portanto, era possível prever e controlar o comportamento das pessoas como consumidoras, assim como se previa o funcionamento de qualquer máquina. Afirmava que, para controlar o consumidor, basta apresentar-lhe um estímulo emocional, condicional ou fundamental. (...) dizer-lhe algo que se relacione com o medo, que provoque uma leve ira, que incentive uma reação apaixonada e afetiva, ou que capte uma profunda necessidade psicológica ou de hábito. (apud Buckley, 1982, p. 212)

Propôs pesquisas de laboratório a respeito do comportamento do consumidor. Res­saltava que as mensagens publicitárias deviam enfocar o estilo e não a substância, além de transmitirem a impressão de uma imagem nova e melhorada. O objetivo era deixar o consumidor insatisfeito com os produtos que estava consumindo e estimular o desejo de novas mercadorias.

Durante vários anos, Watson foi considerado o pioneiro no uso de celebridades para a promoção de produtos e serviços e na criação de técnicas para manipular a motivação e a emoção. Mais tarde, pesquisas revelaram que, embora ele promovesse bem essas técni­cas, elas já vinham sendo aplicadas antes do seu ingresso no universo da publicidade. Mesmo assim, as contribuições de Watson para a publicidade foram extremamente eficazes e logo lhe renderam notoriedade e riqueza.

Depois de 1920, Watson mantinha contato apenas indireto com a psicologia acadêmica. Apresentava suas ideias a respeito da psicologia comportamental para o público em geral por meio de palestras, discursos em rádios e artigos em revistas populares, aumen­tando, assim, sua visibilidade e, alguns diriam, sua notoriedade. Por exemplo, em um artigo escrito para o leitor comum, ele previa o fim da instituição do casamento. "Creio ser a monogamia uma coisa do passado. O mecanismo social descarrilou. Estamos livres das algemas e rompendo e aproveitando a nossa liberdade" (apud Simpson, 2000, p. 64). Se seu objetivo era chocar, estava conseguindo.

Nos artigos de revistas, ele também transmitia mensagens mais sérias acerca do beha­viorismo para um público mais amplo. Seu estilo de redação era claro, de fácil leitura e, de algum modo, simples. Na autobiografia, comentou que, embora o seu trabalho não fosse mais viável para publicação nas revistas especializadas de psicologia profissional, não havia razões para não "vender os seus artigos" para o público (Watson, 1936). Essa atitude o afastou ainda mais da comunidade acadêmica. "Aqueles que não aceitavam de modo algum a aplicação mais genérica dos principios da psicologia, ou a visão behaviorista em si, rejeitavam mais ainda as 'campanhas' de Watson para a divulgação da doutrina" (Kreshel, 1990, p. 56).

Um raro contato formal com a psicologia acadêmica ocorreu quando Watson minis­trou uma serie de palestras na New School for Social Research [Nova Escola para Pesquisas Sociais] em Nova York. Essas palestras serviram de base para o livro Behaviorism, em que ele escrevia o seu programa para a melhoria da sociedade. O livro foi publicado pela primeira vez em 1925 e mais tarde Watson confessou que havia sido preparado apressadamente.

Minhas palestras eram datilografadas; depois eu as olhava rapidamente e as levava para o editor (apud Carpentero, 2004, p. 185). Uma versão revisada foi lançada em 1930 As duas edições tiveram muito sucesso. As ideias de Watson atingiram e influenciaram um grande numero de pessoas que nao pertenciam ao mundo da psicologia.

Prática da Educação Infantil

Em 1928, publicou Psychological care of the infant and child, onde critica severamente o modo de se educar crianças naquela época. Ele acusou os "pais de incompetenaa A maioria deveria ser processada por assassinato psicológico" (apud Hulbert,2003, p. 123). Ele propos um sistema de educacão infantil regulador e não-permissivo dentro da sua visão estritamente ambientalista. O livro estava repleto de conselhos rígidos, baseados na forma behaviorista de educar crianças. De acordo com Watson, os pais nunca devem abraçar e beijar, jamais as deixem sentar no colo. Quando estritamente necessário bei­jem mas apenas uma vez na testa ao lhes dar boa-noite. Pela manhã, cumprimentem-nas com um aperto de mão. Afaguem-lhes a cabeça, caso realizem muito bem uma tarefa extremamente difícil. (...) vocês perceberão como é fácil serem perfeitamente objetivos com os filhos e ao mesmo tempo gentis. Vocês se sentirão totalmente envergonhados da forma sentimental e insipida de como os estavam tratando. (Watson, 1928, p. 81-82)

O livro era bastante popular e transformou as práticas estadunidenses de educação infantil. Uma geraçao de crianças, inclusive as suas, foi educada seguindo essas orientações.

Seu filho James empresário na Califórnia, recorda-se do pai como um homem incapaz de demonstrar afeto para com ele e com o seu irmão. Descreveu Watson como insensivel, emocionalmente reservado, incapaz de expressar - e lidar com - qualquer sentimento ou emoção própria e, creio, determinado inadvertidamente a privar-me bem como ao meu irmão, de qualquer tipo de estrutura emocional. Realmente acreditava que qualquer expressão de ternura ou afeto nos traria efeitos danosos. Era extremamente rigido na aplcação das suas filosofias fundamentais como behaviorista. Nunca fomos beijados ou carregados no colo quando crianças; nunca nos foi demonstrado qualquer tipo de proximidade emocional, era totalmente proibido na família. À noite, quando ia para a cama, lembro-me de apertar as mãos dos meus pais. (...) Nunca tentei (e nem o meu irmao Billy) me aproximar fisicamente dos meus pais, pois sabíamos que era um tabu. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 137-138)

Rosalie, esposa de Watson escreveu um artigo para a revista Parents Magazine inti­tulado I am the mother of a behaviorist's sons" ("Sou mãe dos filhos de um behaviorista") discordando publicamente das práticas de educação infantil definidas por ele "Em alguns aspectos, ela afirmou, "reverencio a grande sabedoria da ciência do behaviorismo e em outros me rebelo. Desejo secretamente que em razões de afeto [das crianças] demonstrem certa fraqueza quando crescerem, que sejam capazes de ter lágrimas nos olhos diante de uma poesia ou de um drama da vida e sintam palpitações de paixão. (...) Gosto de ser ale­gre e jovial e de rir bastante. Os behavioristas consideram as risadas um sinal de desajuste” (apud Simpson, 2000, p. 65). Rosalie também afirmou ser difícil refrear completamente a sua afeição pelos filhos, tendo desejado, algumas vezes, quebrar as regras do behavioris­mo. Mas seu filho James não se recorda de isso haver ocorrido.

Seus dois filhos sofreram de depressão séria na adolescência e vida adulta. Um dos filhos se suicidou e o outro teve um colapso nervoso, lutando contra seus próprios impulsos suicidas. Embora tenha sobrevivido, sua filha suicidou-se alguns anos mais tarde.

Os últimos anos de Watson

Ele era inteligente, articulado, bonito e charmoso, quali­dades que o tornavam uma celebridade. Frequentemente aparecia em público, cortejando e saboreando a atenção recebida. Vestia-se com elegância, participava de competições de lancha e circulava facilmente no meio da sociedade nova-iorquina. Considerava-se um grande amante e aventureiro romântico, e gostava de participar de rodadas de bebidas. Mandou construir uma mansão em Connecticut e contratou vários empregados, embora gostasse de vestir roupas velhas e fazer jardinagem.

[Watson] se preocupava bastante com as atividades masculinas, como caçar, pescar e outras formas de adultos e crianças demonstrarem coragem e habilidades pessoais. Dessa forma, ele possuia um "quê" de Hemingway, já que valorvalorizava a competência, a bravura e a masculinidade. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 138)

Em 1935 Rosalie faleceu, aos 37 anos. James Watson lembra-se de ter sido essa a única ocasião em que viu o pai chorar. Por um breve momento, Watson abraçou os seus filhos, pelo menos a única vez que se lembravam. Depois disso ele os mandou para o colégio interno e jamais voltou a falar sobre Rosalie com eles.

Quando Myrtle McGraw, uma psicóloga de Nova York, conheceu W atson pouco depois da morte da esposa, ele lhe confessou que não estava preparado para lidar com a morte de Rosalie. Por ele ser 20 anos mais velho do que ela, sempre pensou que morreria primeiro. Conversou com alguma profundidade com McGraw, perguntando-lhe como devia lidar com a dor (McGraw, 1990). Depois de algum tempo tornou-se recluso, desligando-se do contato social e mergulhando no trabalho. Vendeu a enorme casa e mudou-se para uma de madeira, parecida com aquela em que passara a sua infância.

Em 1957, quando Watson estava com 79 anos, a APA prestou-lhe uma homenagem, elogiando seu trabalho como "uma das determinantes vitais da forma e substância da psicologia moderna (...) o ponto de partida das linhas contínuas da pesquisa proveitosa". Um amigo levou-o para o hotel em Nova York onde aconteceria a apresentação, mas no último minuto Watson recusou-se a entrar e insistiu para que o filho mais velho fosse em seu lugar. (...) Watson ficara com medo de que naquele momento as suas emoções o dominassem e que o apóstolo do controle do comportamento fraquejasse e desabasse em lágrimas. (Buckley, 1989, p. 182)
Antes de morrer, um ano depois, Watson queimou todas as cartas, manuscritos e ano­ tações, jogando-as, uma por uma, na lareira, recusando-se a deixá-las para a história.

A melhor forma de começar a estudar a escola de pensamento behaviorista de Watson é lendo um trecho do artigo que inaugurou o movimento. Na passagem a seguir, ele dis­ cute a definição e o objetivo da sua nova psicologia, bem como as suas críticas contra o estruturalismo e o funcionalismo. Ele também explica a sua visão ao considerar as áreas
da psicologia aplicada como científicas por buscarem leis gerais para o controle e a previ­ são do comportamento.

A Reação ao Programa de Watson

Para muitos psicólogos, a crítica de Watson à antiga psicologia e o seu clamor por uma nova abordagem constituíam apelos comoventes. Vamos reconsiderar os fundamentos principais. A psicologia deve ser uma ciência do comportamento - não o estudo introspec­tivo da consciência puramente objetiva, uma ciência natural experimental. Ela teria de investigar tanto o comportamento humano como o animal. Os psicólogos precisariam deixar de lado todas as ideias mentalistas e empregar apenas os conceitos do comporta­mento tais como o estímulo e a resposta. As metas da psicologia deviam ser a previsão e o controle do comportamento.

Embora os argumentos fossem convincentes para alguns, o programa de Watson não foi imediatamente aceito por todos. No início, as publicações especializadas não deram muito destaque ao behaviorísmo. O movimento começou a exercer maior impacto somente após a publicação, em 1919, do livro Psychology from the standpoint of a behavioríst.

Mary Whiton Calkins discordava de Watson e, questionando a sua visão, disse a muitos colegas psicólogos acreditar na introspecção como único método que permitia o estudo de certos processos psicológicos. Esse debate a respeito da introspecção perdurou por vários anos, e Margaret Washburn chegou ao extremo de chamar Watson de inimigo da psicologia.

Era inevitável o crescimento do movimento de apoio a Watson, especialmente entre os psicólogos mais jovens; por volta da década de 1920, as universidades já ofereciam cursos sobre o behaviorísmo, e o termo passou a ser adotado nas revistas especializadas. William McDougall, entre os psicólogos mais antigos, fez uma advertência pública con­tra a popularidade do behaviorísmo, e E. B. Titchener acusou o behaviorísmo de tragar o país como uma onda gigantesca. Entretanto, por volta de 1930, Watson anunciou, com orgulho, que o behaviorismo era tão importante que nenhuma universidade podia deixar de ministrar essa disciplina.

Evidentemente, o movimento behaviorista foi muito bem-sucedido; no entanto, as mudanças exigidas por Watson em 1913 foram lentas. E, quando finalmente se concretiza­ram, a psicologia watsoniana não era a única forma de behaviorismo sendo difundida.

Os Métodos do Behaviorismo

Quando a psicologia teve início formalmente, estava ávida por se aliar à antiga, bem esta­belecida e mais respeitável ciência natural da física. A nova psicologia tentou adaptar os métodos naturais científicos às próprias necessidades. Essa tendência foi ainda mais clara no caso do behaviorismo.

Watson insistia em que a psicologia se limitasse aos dados das ciência naturais, ao que fosse passível de observação. Em poucas palavras: a psicologia devia limitar-se ao estudo objetivo do comportamento. Somente os métodos objetivos rígidos de investigação deviam ser adotados nos laboratórios dos behavioristas. Para Watson, esses métodos incluíam:

  • a observação, com e sem o uso de instrumentos;
  • métodos de teste;
  • o método de relato verbal; e
  • o método do reflexo condicionado.

A observação constitui a base fundamental para os outros métodos. Métodos de teste objetivo já eram adotados, mas Watson propôs tratar os resultados dos testes como amos­tragens do comportamento, e não como indicadores das qualidades mentais. Para ele, o teste não media a inteligência nem a personalidade, ao contrário, simplesmente media as respostas do indivíduo à situação do estímulo de ser submetido ao teste.
A questão do relato verbal foi ainda mais controversa. Como Watson rejeitava tão claramente a introspecção, o uso do relato verbal no laboratório deixava uma abertura às críticas. Alguns psicólogos consideraram o ato comprometedor, afirmando ter Watson intro­duzido a introspecção pela porta dos fundos, depois de tê-la enxotado pela da frente.

Por que ele aceitara o relato verbal? Apesar da aversão pela introspecção, não pôde ignorar os trabalhos realizados pelos psicofísicos com o uso da introspecção. Portanto, sugeriu que as reações orais, por serem observáveis objetivamente, seriam significativas para o behaviorismo, assim como qualquer tipo de resposta motora. "Falar é fazer - ou seja, comportar-se. Falar abertamente ou para nós mesmos (pensar) é um comportamento tão objetivo quanto jogar beisebol" (Watson, 1930, p. 6).

Todavia, a adoção do método do relato verbal no behaviorismo foi uma concessão muito questionada. Os adversários de Watson acusavam-no de fazer um jogo de palavras, de oferecer apenas uma mudança semântica. Ele rebatia, concordando que os relatos verbais talvez não fossem precisos e, portanto, não seriam os substitutos adequados da observação objetiva. Por isso restringia o seu uso para as situações em que pudessem ser verificados, como na descrição das diferenças tonais. Os relatos verbais não-verificáveis, como o pen­samento sem imagens e os relatos dos estados de sentimento, seriam descartados.

O método do reflexo condicionado foi adotado em 1915, dois anos depois da funda­ção formal do behaviorismo. Os métodos de condicionamento eram pouco usados, no entanto, Watson foi bastante responsável pela sua ampla aplicação na pesquisa psicoló­gica estadunidense. Ele contou ao psicólogo Ernest Hilgard haver se interessado muito pelos reflexos condicionados ao estudar o trabalho de Bekhterev, embora mais tarde também
creditasse a Pavlov esse interesse (Hilgard, 1994).

Watson descrevia o condicionamento em termos de substituição de estímulo. A respos­ta torna-se condicionada quando associada ou conectada a um estímulo diferente daquele que a originou (no caso dos cães de Pavlov, a resposta condicionada consistia na salivação mediante o som da campainha e não pela visualização da comida). Ele escolheu esse tra­tamento por oferecer um método objetivo de análise do comportamento, de redução em unidades básicas, ou seja, em ligações de estímulo-resposta (E-R). Todo comportamento podia ser reduzido a esses elementos, portanto o método de reflexo condicionado permi­tia aos psicólogos conduzirem investigações acerca da complexidade do comportamento humano em laboratórios.

Desse modo, Watson mantinha a tradição atomística e mecanicista estabelecida pelos empiristas britânicos e adotada pelos psicólogos estruturalistas. Sua intenção era estudar o comportamento humano da mesma maneira que os físicos estudavam o universo, separando-o em partes componentes, entre elas átomos e elementos.

Para a psicologia, esse enfoque exclusivo nos métodos objetivos e a eliminação da introspecção significaram uma mudança na natureza e no papel do sujeito humano no laboratorio de psicologia. Para Wundt e Titchener, o indivíduo desempenhava o papel tanto do observador como do observado, já que observavam a própria experiência cons­ciente. O seu papel era muito mais importante do que o do pesquisador.

No behaviorismo, os indivíduos em si tornaram-se menos importantes. Eles não mais observaram; em vez disso, eram observados pelo pesquisador. Com essa mudança de enfo­que, o sujeito humano do laboratório, normalmente chamado de observador, passou a ser
conhecido como sujeito. Os verdadeiros observadores eram os pesquisadores, psicólogos responsáveis pela pesquisa que estabeleciam as condições experimentais e registravam as respostas dos sujeitos.

Desse modo, o indivíduo foi rebaixado de posto. Não mais observava as próprias carac­terísticas, apenas exibia os comportamentos. E praticamente todos exibem comportamen­tos. bebês, crianças, pessoas portadoras de distúrbios mentais e emocionais, pombos ou ratos. Esse ponto de vista reforçou a imagem da psicologia de semelhança entre o homem e a maquina. Como notou um historiador, "Insere-se um estímulo em uma das pequenas aberturas para, em seguida, sair um pacote de reações” (Burt, 1962, p. 232).

O Objeto de Estudo do Behaviorismo

Os principais objetos de estudo da psicologia behaviorista de Watson eram os elementos do comportamento, ou seja, os movimentos musculares do corpo e as secrecões glandula­res. Sendo uma ciência do comportamento, a psicologia tratava exclusivamente dos atos passíveis de descrição objetiva, sem o emprego de terminologia subjetiva ou mentalista.

Apesar de a meta estabelecida reduzir todo comportamento em unidades de estímulo-resposta (E-R), o behaviorista basicamente devia envidar esforços para compreender o comportamento do organismo na totalidade. Por exemplo, embora a resposta fosse apenas um espasmo do joelho, ela também podia ser mais complexa. Watson chamava essas res­postas mais complexas de "atos". Considerava atos de resposta inclusive os fatos de comer escrever, dançar ou construir uma casa. Em outras palavras, o ato envolve o movimento do organismo no espaço. Aparentemente, Watson concebia os atos de resposta em função  da realização de alguma meta que afetasse o ambiente de algum indivíduo, e não como uma simples conexão dos elementos musculares. Entretanto, os atos do comportamento, independentemente da sua complexidade, podiam ser reduzidos em respostas glandula­res ou motoras inferiores.

As respostas podem ser explícitas ou implícitas. São explícitas notórias e diretamente observáveis. As respostas implícitas são as que ocorrem dentro do organismo -, por exem­plo, o movimento das vísceras, as secreções glandulares e os impulsos nervosos. Embora as respostas implícitas não sejam patentes, ainda são consideradas comportamentos e, ao incluí-las, Watson estava modificando seu ponto de vista de que todos os dados eram observáveis em psicologia. Ele aceitou que alguns itens do comportamento eram poten­cialmente observáveis. A observação dos movimentos ou das respostas ocorridas dentro do organismo era feita por meio de instrumentos.

Assim como as respostas com as quais o behaviorismo lida, o estímulo também pode ser simples ou complexo. Os feixes de luz que incidem sobre a retina dos olhos são estí­mulos relativamente simples, porém há outros mais complexos. Do mesmo modo que o conjunto de reações envolvido em uma ação pode ser reduzido em respostas componentes, é possível analisar a situação de estímulo reduzindo-a em estímulos componentes espe­cíficos. Assim, a psicologia behaviorista de Watson investiga o comportamento de todo organismo em relação ao seu ambiente. Para propor leis específicas do comportamento, primeiramente é necessário analisar os complexos de estímulo-resposta, reduzindo-os em estímulos elementares e nas unidades de resposta.

No que tange aos métodos e ao objeto de estudo, o behaviorismo de Watson foi uma tentativa de construir uma ciência livre de noções e métodos subjetivos, ou seja, uma ciência tão objetiva quanto a física. A seguir, analisaremos a forma de tratamento dispen­sada por Watson a três temas principais: o instinto, a emoção e o pensamento. Como qualquer teórico sistemático, ele desenvolveu a sua psicologia de acordo com a crença básica de que todas as áreas do comportamento devem ser consideradas no que se refere aos objetivos de estímulo-resposta.

Os Instintos

No início, Watson aceitava o papel dos instintos no comportamento. No livro Behavior: an introduction to comparative psychology (1914), ele descreveu 11 instintos, inclusive um relacionado com o comportamento aleatório. Estudou o comportamento instintivo das andorinhas-do-mar, uma espécie de pássaro aquático das ilhas Dry Tortugas, na região costeira da Flórida. Acompanhou-o nessa experiência Karl Lashley, um estudante da Johns Hopkins University, que afirmou haver sido a expedição prematuramente interrompida ao término do estoque de cigarros e de uísque.
Mais ou menos em 1925, Watson reavaliou sua posição e eliminou o conceito de instinto. Alegou que os comportamentos aparentemente instintivos são, na verdade, respostas con­dicionadas socialmente. Ao adotar a visão de que a aprendizagem - ou o condicionamento - seria a chave para a compreensão do desenvolvimento humano, tornou-se um ambientalista radical, indo ainda mais longe: não apenas negava os instintos como também se recusava a admitir no seu sistema qualquer tipo de talento, temperamento ou capacidade herdado.

Os comportamentos aparentemente herdados estavam relacionados com o treinamen­to adquirido logo nos primeiros anos de infância. Por exemplo, as crianças não nasciam com a habilidade para se tornarem grandes atletas ou músicos, mas eram conduzidas nessa direção pelos pais ou pelos responsáveis pela sua criação, mediante o incentivo e o reforço dos comportamentos adequados. Essa ênfase no efeito imperativo dos pais e do ambiente social na criação infantil foi um dos motivos da popularidade de Watson. Ele concluiu, de forma simples e otimista, ser possível treinar uma criança para se tornar o que se desejasse que ela fosse, pois não havia fatores genéticos limitadores.

Watson não estava sozinho ao sugerir que as influências ambientais seriam mais impor­tantes do que qualquer traço ou potencial inatos. Tornava-se cada vez mais popular, na psi­cologia, a noção de minimizar o papel do instinto como um determinante comportamental. Assim, a posição de Watson refletia uma mudança de perspectiva já em andamento. Além disso, ele pode ter sido influenciado pela orientação aplicada da psicologia estadunidense do iní­cio do século XX. A psicologia não podia ser aplicada para alterar o comportamento, a menos que ele fosse passível de modificação. Não era possível alterar o comportamento regido por forças como o instinto, no entanto o comportamento dependente da aprendizagem ou do treinamento podia ser mudado.

As Emoções

Para Watson, as emoções não passavam de simples respostas fisiológicas a estímulos especí­ficos. Um estímulo (como a ameaça de uma agressão física) produz mudanças físicas inter­nas, tais como o aumento do batimento cardíaco, acompanhado das respostas explícitas apropriadas e adquiridas. Essa explicação para as emoções nega a existência de qualquer percepção consciente da emoção ou as sensações dos órgãos internos.

Cada emoção envolve um padrão particular de mudanças fisiológicas. Embora Watson tenha observado que respostas emocionais têm envolvimento no movimento explícito, acreditava nas reações internas como predominantes. Assim, a emoção constitui uma forma de comportamento implícito no qual as reações internas são expressas por meio de manifestações físicas como o rubor das faces, a transpiração ou o aumento do bati­mento cardíaco.

A teoria das emoções de Watson é menos complexa do que a de William James, cuja teoria afirmava ser a percepção do estímulo imediatamente seguida de mudanças físicas, e definia os sentimentos resultantes como emoção. Watson criticava a posição de James. Descartando o processo consciente de percepção da situação e do estado do sentimento, Watson garantia ser possível descrever as emoções totalmente em função da situação de estimulação objetiva, da resposta física visível e das modificações fisiológicas internas.

Em um estudo hoje considerado clássico, Watson investigou os estímulos que pro­duziam respostas emocionais nos bebês. Sugeria que eles demonstravam três padrões fundamentais de resposta emocional não aprendida: o medo, a raiva e o afeto. O medo seria provocado por ruídos altos e súbita perda de apoio; a raiva, pela restrição dos movi­mentos do corpo, e o afeto, pelo toque carinhoso na pele, pelo embalo e pelas carícias. Watson também descobriu padrões típicos de resposta para esses estímulos. Essas três emoções básicas compõem outras respostas emocionais mediante o processo de condi­cionamento. Elas podem se associar a estímulos que originalmente não eram capazes de provocá-las.

Albert, Peter e os Coelhos

Watson demonstrou sua teoria das respostas emocionais condicionadas nos estudos experi­mentais realizados com o bebê Albert, de 11 meses, condicionando-o a ter medo de um rato branco, que ele não temia antes de ser submetido ao condicionamento (Watson e Ravner, 1920). Para estabelecer a relação de medo, provocava-se um enorme barulho (batendo em uma barra de aço com um martelo) atrás da cabeça de Albert, sempre que o rato lhe era mostrado. Em pouco tempo, a mera visualização do rato produzia sinais de medo na criança. Esse medo condicionado generalizava-se a outros estímulos similares como um coelho, uma pele branca de animal ou a barba branca do Papai Noel. Watson sugeriu que todos os medos, todas as aversões e ansiedades do adulto eram, do mesmo modo, condicionados no início da infância. Eles não surgem, assim como afirmava Freud, de conflitos inconscientes. Watson rejeitava totalmente a noção do inconsciente porque, assim como o consciente, não era possível observá-lo objetivamente. No início, ficara fascinado com vários conceitos de Freud, mas acabou descartando a psicanálise, chamando-a de "macumba" (apiul Rilling, 2000, p. 302).

Watson descreveu a pesquisa com Albert como apenas um estudo-piloto preliminar. Todavia ele jamais foi reproduzido com êxito. Apesar de os psicólogos notarem algumas sérias falhas metodológicas na pesquisa, seus resultados foram aceitos como uma prova científica e são mencionados em praticamente qualquer livro básico de psicologia.

Embora Albert fosse condicionado a ter medo de ratos brancos, coelhos e Papai Noel, ele não estava mais disponível como sujeito da pesquisa quando Watson tentou eliminar esses temores. Pouco tempo depois de começar esse programa de pesquisa, Watson abandonou a vida acadêmica. Mais tarde, quando trabalhava com publicidade em Nova York, apresentou uma palestra sobre a pesquisa. Estava presente no público Mary Cover Jones (uma colega de faculdade da sua esposa, Rosalie). As observações de Watson despertaram seu interesse e ela se questionou se a técnica de condicionamento podia ser utilizada para eliminar o medo das crianças. Pediu a Rosalie que lhe apresentasse Watson e então começou a realizar um estudo que, desde então, tornou-se outro clássico da história da psicologia (Jones, 1924).

Sua pesquisa foi realizada com Peter, de 3 anos, que já demonstrava medo de coelhos, embora esse temor não tenha sido condicionado em laboratório. Enquanto Peter comia, um coelho era colocado na sala, mas a uma distância razoável, de modo que não provocasse uma resposta de medo. Depois de uma série de tentativas, que duraram várias semanas, o coelho era progressivamente trazido para mais perto, sempre quando a criança estava comendo. Finalmente, Peter acabou se acostumando com o coelho e conseguiu tocá-lo sem sentir medo. As respostas generalizadas de medo de objetos similares também foram eliminadas por meio desse procedimento.

O estudo de Jones foi considerado um precursor da terapia do comportamento (a aplicação dos princípios de aprendizagem para alterar o comportamento desajustado), quase 50 anos antes de a técnica se tornar conhecida. Jones, há muito tempo associada ao Institute of Child Walfare da University of Califórnia, em Berkeley, recebeu de G. Stanley Hall um prêmio, em 1968, pelas extraordinárias contribuições para a psicologia do desenvolvimento.

Os Processos de Pensamento

A visão tradicional dos processos de pensamento afirmava que eles ocorriam no cérebro "tão indistintamente que nenhum impulso nervoso passa pelo nervo motor até o músculo, portanto nenhuma reação ocorre nos músculos e nas glândulas" (Watson, 1930, p. 239). De acordo com essa teoria, os processos de pensamento não são passíveis de observação e de experimentação, já que ocorrem na ausência de movimentos musculares. O pensa­mento era considerado intangível, algo exclusivamente mental e, portanto, desprovido de pontos de referência físicos.
O sistema behaviorista de Watson tentou reduzir o pensamento a comportamento motor implícito. Ele alegava ser o pensamento, como todos os demais aspectos do funcio­namento humano, uma espécie de comportamento sensório-motor. Partia do princípio de que o comportamento do pensamento envolvia movimentos ou reações de fala implí­citas. Desse modo, reduzia o pensamento para a fala subvocal que dependia dos mesmos hábitos musculares aprendidos para a expressão da fala explícita. À medida que nos tor­namos adultos, esses hábitos musculares tornam-se inaudíveis e invisíveis porque pais e professores nos reprimem para pararmos de conversar alto com nós mesmos. Assim, o pensamento transforma-se em uma forma de conversação silenciosa.

Watson achava que grande parte desse comportamento implícito se concentrava nos músculos da língua e da laringe (chamadas de caixa da voz). Também expressamos o pen­samento por gestos, como o franzir da testa e o movimento dos ombros, que são reações explícitas a um estímulo.
Uma das fontes mais claras de comprovação da teoria de Watson está no fato de mui­tos admitirem conversar consigo mesmos enquanto estão pensando. Um estudo realizado com relatos introspectivos de estudantes da faculdade constatou que 73% das amostras de pensamento envolviam o ato de conversar consigo mesmo enquanto estavam pen­sando (Farthing, 1992). Todavia, esse tipo de evidência não é aceito pelos behavioristas exatamente por ser introspectivo, e Watson raramente lançava mão da introspecção para sustentar a sua teoria. O behaviorismo exigia provas objetivas de movimentos implícitos da fala, portanto Watson realizou tentativas experimentais para registrar os movimentos da língua e da laringe durante o pensamento.

Essas mensurações revelaram alguns leves movimentos quando os indivíduos estavam pensando. As mensurações dos gestos dos dedos e das mãos dos portadores de deficiência auditiva usando a linguagem dos sinais também revelaram alguns movimentos durante o pensamento. Apesar da sua incapacidade de assegurar resultados mais confiáveis, Watson conti­nuou convicto da existência dos movimentos implícitos de fala. Insistia em que a comprovação dependia apenas do desenvolvimento de equipamentos de laboratório mais sofisticados.

O Apelo Popular do Behaviorismo

Por que as declarações ousadas de Watson lhe renderam tanta adesão do público? Na verdade, a maioria das pessoas pouco se importava se alguns psicólogos fingiam estar conscientes enquanto outros afirmavam ter a psicologia perdido a cabeça ou se o pensa­mento ocorria na cabeça ou no pescoço. Essas questões provocavam muitos debates entre os psicólogos, mas quase não despertavam o interesse das pessoas comuns.
O que sensibilizou o público foi o clamor de Watson por uma sociedade baseada no comportamento controlado e moldado cientificamente, livre dos mitos, dos costumes e dos comportamentos convencionais. Esses conceitos trouxeram esperança às pessoas desencantadas com as antigas ideias. Na fé e na devoção, o behaviorismo adquiriu as características de uma religião. Entre as centenas de artigos e livros escritos sobre o behaviorismo de Watson estava The religion called behaviorism (Berman, 1927), que logo foi lido por um jovem de 23 anos, B. F. Skinner, que escreveu um artigo, enviando-o para uma revista literária popular. "Eles não publicaram o [meu artigo], mas o fato de tê-lo escrito foi como se eu tivesse me definido pela primeira vez como um behaviorista" (Skinner, 1976, p. 299). Skinner prosseguiu aprimorando e ampliando o trabalho de Watson (veja no Capítulo 11).

O entusiasmo gerado pelas ideias de Watson pode ser observado nos comentários dos jornais a respeito do seu livro Behaviorism (1925). O The New York Times declarou: Trata-se de um marco da época na história intelectual do homem" (2 ago. 1925). O The New York Herald Tribune afirmou ser "o livro mais importante escrito até hoje. Saímos em um instante da escuridão para uma grande esperança" (21 jun. 1925).

A esperança vinha da ênfase de Watson no efeito da criação e do ambiente infantil, na determinação do comportamento e na minimização do impacto das tendências inatas. 

O trecho a seguir, extraído do livro Behaviorism, frequentemente é citado para sustentar essa visão:

Deixe sob a minha responsabilidade uns 10 bebês saudáveis e bem-formados, e a um mundo especificado por mim para criá-los, e garanto escolher algum aleatoriamente e treiná-lo para tornar-se especialista de qualquer área, seja um médico, um advogado, um empresário e até mesmo um mendigo ou um bandido, independentemente do talen­to, da propensão, da tendência, da habilidade, da vocação e da raça de seus ancestrais. (Watson, 1930, p. 104)

As experiências de Watson acerca do reflexo condicionado, tais como o estudo com Albert, convenceram-no de que os distúrbios emocionais do adulto são provocados pelas respostas condicionadas estabelecidas na infância e na adolescência. E, se o desequilíbrio do adulto é resultante do condicionamento deficiente na infância, então um programa de condicionamento infantil adequado evitaria o surgimento de adultos desequilibrados. Watson acreditava que esse tipo de controle prático sobre o comportamento infantil (e, consequentemente, sobre o comportamento adulto posterior) não era apenas possível, como também absolutamente necessário. Ele desenvolveu um plano para a melhoria da socieda­de, um programa de ética experimental, baseado nos princípios do behaviorismo.

Ninguém jamais lhe ofereceu uma dezena de bebês saudáveis para ele testar sua afirmação e, mais tarde, Watson reconheceu que, se houvesse feito isso, estaria ultrapas­sando os limites dos fatos. No entanto, comentou que as pessoas que discordavam dele e acreditavam no maior impacto da hereditariedade do que do ambiente vinham fazendo essa afirmação por milhares de anos e ainda não haviam conseguido alguma prova real para a sua visão.

O seguinte trecho do livro Behaviorism mostra a vitalidade com que Watson descrevia o seu programa de sobrevivência nos termos do sistema behaviorista. E talvez ajude a esclarecer por que tantas pessoas adotaram o behaviorismo como uma nova fé.

O behaviorismo deve ser uma ciência que prepare homens e mulheres para compreender os princípios dos próprios comportamentos. Deve formar homens e mulheres dispostos a reorganizar as próprias vidas, e principalmente com disposição para se prepararem para educar seus filhos de maneira saudável. Gostaria de conseguir retratar a vocês o indivíduo rico e maravilhoso que podemos produzir de cada criança saudável se pudermos moldá-la de forma adequada e oferecer-lhe um universo em que possa exercer essa organização, um universo não influenciado pelas lendas folclóricas dos acontecimentos de milhares de anos passados, não tolhido pela história política desonrosa, livre de costumes e conven­ções tolas, desprovidas de significados próprios, mas que submetem os indivíduos como rígidas algemas de aço.

Não clamo aqui por uma revolução; não peço às pessoas que se dirijam a algum local esquecido por Deus, formem uma colônia, andem nuas e vivam em uma comunidade; nem peço para mudarem para uma dieta à base de raízes ou ervas. Não clamo pelo "amor livre". Estou tentando lhes apresentar um estímulo verbal que, se produzir algum efeito, gradualmente transformará o universo. Porque o universo se transformará se vocês edu­carem seus filhos, não com libertinagem, mas com a liberdade behaviorista, uma liber­dade que não pode ser descrita em palavras, já que pouco sabemos dela. E será que essas crianças, com a sua melhor forma de vida e de pensamento, não nos substituirão como sociedade e educarão seus filhos de uma forma mais científica até que o mundo finalmen­te se torne um lugar adequado para o homem viver? (Watson, 1930, p. 303-304)

O plano de Watson de substituir a ética baseada na religião pela experimental, fun­damentada no behaviorismo, ficou na esperança e não se concretizou. Ele esboçou esse programa e o deixou como base para outros. Anos mais tarde, B. F. Skinner (veja no Capí­tulo 11) concebeu mais detalhadamente uma utopia moldada cientificamente no espírito das ideias de Watson.

A Popularização da Psicologia

Por volta da década de 1920, o campo da psicologia já havia conquistado e cativado a atenção do público. Em virtude do carisma, do charme pessoal, do poder de persuasão e da mensagem de esperança de Watson, os estadunidenses estavam enfeitiçados por algo cha­mado "surto" de psicologia. Grande parte do público estava convencida da capacidade da psicologia de mostrar o caminho para a saúde, a felicidade e a prosperidade. As colunas com conselhos psicológicos brotavam nas páginas dos jornais diários.

O psicólogo Joseph Jastrow (1863-1944) era descrito como um propagandista hiperativo da psicologia, comparado aos modernos colunistas famosos, como Ann Landers ou Dear Abby (Rabkin, 1994). Jastrow obteve o Ph.D. em 1886, na Johns Hopkins e construiu uma longa carreira acadêmica na University of Wisconsin. Também escrevia artigos para as revis­tas sobre psicologia, trabalhando com a crença de que a "popularização da psicologia era essencial para o seu reconhecimento público e apoio oficial" (Jastrow, 1930/1961, p. 150). Entre os assuntos abordados estavam a cura da melancolia, a psicologia dos delinquentes, os medos e as preocupações, o significado dos testes de QI, o complexo de inferioridade, os conflitos familiares e o motivo do consumo de café. Obviamente, a psicologia já se encontrava bem distante do trabalho de laboratório da época de Wundt e Titchener.

Jastrow era autor de uma coluna, Keeping Mentally Fit (Como Manter o Equilíbrio Mental), publicada em 150 jornais, e também participava de um programa de rádio semanal da rede NBC. Chegou a escrever um manual popular de psicologia, Piloting your life: the psychologist as helmsman, bem diferente dos livros de autoajuda mais vendidos atualmente. Albert Wiggam foi outro grande divulgador da psicologia. Embora não fosse psicólogo, escrevia uma coluna chamada Exploring Your Mind (Explorando sua Mente). Esse trecho ilustra as suas opiniões:

Os homens e as mulheres nunca precisaram tanto da psicologia como nos dias de hoje. Os rapazes e as moças necessitam da psicologia para avaliar seus traços mentais e suas habilidades, a fim de fazer uma opção precoce e correta da carreira. (...) os empresários a utilizam na seleção de funcionários; os pais e educadores, para ajudar na criação e educa­ção dos filhos; enfim, todos necessitam da psicologia para garantir a mais elevada eficácia e a felicidade. Não se pode atingir plenamente esses objetivos sem o novo conhecimento da própria mente e personalidade que os psicólogos nos oferecem. (Wiggam, 1928 apud Benjamin, 1986, p. 943)

O humorista canadense Stephen Butler Leacock comentou que a psicologia, enquanto confinada nos campi universitários, não estabelecia relações com a realidade nem provocava nenhum dano a quem a estudasse. No entanto, por volta de 1924, ela estava disseminada por toda parte. Leacock disse: "Hoje, para qualquer momento crítico da vida, procuramos os serviços de um psicólogo com a mesma naturalidade com que contratamos o serviço de um encanador. Em todas as metrópoles há ou haverá cartazes em que se lê 'Psicólogo - 24 horas por dia"' (apud Benjamin, 1986, p. 944).

Dessa maneira, a psicologia foi acolhida em todo o território estadunidense, e John B. Watson, mais do que qualquer outra figura, foi responsável por ajudar a divulgá-la.

As Críticas ao Behaviorismo de Watson

Qualquer sistema que apresente propostas radicais de revisão, que desafie violentamente a ordem existente e sugira a exclusão da versão anterior da verdade certamente deve ser alvo de críticas. É sabido que a psicologia estadunidense já rumava em direção à maior obje­tividade quando Watson fundou o behaviorismo, no entanto nem todo psicólogo estava disposto a aceitar a radical objetividade por ele apresentada. Muitos psicólogos, inclusive alguns defensores do princípio da objetividade, acreditavam que o programa de Watson omitia componentes importantes - como os processos perceptuais e sensoriais.

Edwin B.Holt (1873-1946)

Holt recebeu seu diploma de Ph.D. das mãos de William James, pela Harvard University, em 1901 e passou sua carreira acadêmica na Princeton University. Ele discordava do senti­mento de rejeição e dos fenômenos mentais de Watson, e achava que é possível relacionar experiências conscientes a situações físicas. Entretanto, como Watson, Holt acreditava na influência determinante das forças ambientais sobre as forças instintivas.

Também acreditava que a aprendizagem podia ocorrer como resposta a motivações interiores (nossas necessidades e impulsos internos, como fome e sede) bem como moti­vações externas (estímulos). Holt foi um dos primeiros teóricos a identificar os impulsos internos, antecipando-se ao trabalho posterior na área de motivação.

Holt não tentou reduzir o comportamento à unidade estímulo-resposta. Preferiu lidar com comportamentos maiores que tinham algum propósito para o organismo, compor­tamentos que ajudavam a atingir algum objetivo. O termo e conceito de "propósito" não eram permitidos no sistema de Watson. A ênfase que Holt deu a esse conceito serviu de estímulo para o trabalho do neo-behaviorista E.C. Tolman (veja no Capítulo 11).

Karl Lashley (1890-1958)

Lashley fora aluno de Watson na Johns Hopkins, onde completou o Ph.D. Sua carreira na psicofisiologia abriu-lhe as portas das universidades de Minnesota e de Chicago, além da Harvard, conduzindo-o finalmente ao laboratório de Yerkes, dedicado ao estudo biológi­co dos primatas. Ele preservou a tradição mecanicista característica da psicologia desde a sua fundação.

Lashley revelou que, quando criança, ficava muito intrigado com as pessoas e era habili­doso com os objetos mecânicos [como os brinquedos de montar, para construir prédios e pontes]. Afirmou que a psicologia foi uma verdadeira revelação para ele, quando ele reconheceu que o ser humano e a máquina tinham muitos aspectos em comum. (Murray apud Robinson, 1992, p. 213)

Karl Lashley defendia o behaviorismo de Watson, embora sua pesquisa acerca do mecanismo cerebral dos ratos contrariasse um dos pontos básicos de Watson.

Ele resumiu suas descobertas no trabalho Brain mechanisms and intelligence (1929), e apresentou dois princípios hoje famosos: a lei da ação da massa, que estabelece ser a eficácia da aprendizagem uma fun­ção da massa intacta do córtex (quanto mais tecido cortical estiver disponível, melhor a aprendizagem); e o princípio da equipotencialidade, que estabelece ser uma parte do córtex essen­cialmente igual à outra na contribuição para a aprendizagem.

Lashley esperava que a pesquisa lhe revelasse os centros motor e sensorial específicos do córtex cerebral, bem como as conexões correspondentes entre o aparelho motor e o sensorial. Essas descobertas teriam sustentado a primazia e a simplicidade do arco reflexo como uma unidade de comportamento elementar. No entanto, ocorreu que os resultados contradiziam a ideia de Watson da conexão simples, ponto a ponto, dos reflexos, de acor­do com a qual o cérebro serve apenas para transformar os impulsos nervosos sensoriais de origem em impulsos motores de resposta. As descobertas de Lashley sugeriam que o cérebro desempenha uma função muito mais ativa na aprendizagem do que Watson admi­tia. Desse modo, Lashley contestava a afirmação de Watson de que o comportamento era composto parte por parte exclusivamente dos reflexos condicionados.

Embora o trabalho de Lashley contrariasse uma parte fundamental do sistema de Watson, ele não enfraqueceu a insistência behaviorista na utilização dos métodos obje­tivos de pesquisa. Ao contrário, seu trabalho confirmou o valor da objetividade na pes­quisa psicológica.

William McDougall (1871-1938)

Um dos mais vigorosos opositores de Watson era William McDougall, psicólogo inglês que foi para os Estados Unidos em 1920, primeiro para a Harvard e depois para a Duke University. McDougall ficou conhecido por sua teoria do comportamento instintivo e pelo ímpeto do seu livro acerca da psicologia social (McDougall, 1908).

Embora houvesse contribuído muito para a psicologia social, pessoalmente McDougall não era muito sociável. Ele dizia:

Nunca me adaptei adequadamente a nenhum grupo social, jamais fui capaz de me encon­trar completamente como indivíduo na presença de alguma pessoa ou de algum sistema; e, embora não ignorando os interesses da vida, do sentimento e do pensamento coletivo, sempre me mantive isolado, crítico e insatisfeito. (McDougall, 1930, p. 192)

Costumava apoiar causas impopulares, como o livre-arbítrio, a superioridade nórdica e a pesquisa psíquica, e muitas vezes foi criticado pela imprensa por causa das suas posi­ções. McDougall também foi difamado pela comunidade psicológica por haver criticado o behaviorismo na década de 1920, período em que a maioria dos psicólogos aceitava a influência behaviorista.

MacDougall escreveu que "sofreu muito com a perda da reputação, impopularidade, informações difamadoras e hostilidade desdenhosa" (apud Innis, 2003, p. 102). Um psicólogo estadunidense chegou a ponto de dizer publicamente, quando McDougall estava muito doente, que a psicologia lucraria mais se ele morresse. Robert Yerkes, mais compreensivo, observou que a vida de McDougall tinha sido uma "grande tragédia" (Innis, 2003, p. 91).

A teoria do instinto de McDougall afirmava ser o comportamento humano derivado das tendências inatas ao pensamento e à ação. Embora a sua ideia fosse bem recebida no início, perdera terreno para o behaviorismo. Watson não aceitava a noção de instinto, e nessa questão e em várias outras os dois colidiam.

O debate entre Watson e McDougall.

Watson e McDougall encontraram-se para debater suas divergências em 5 de fevereiro de 1924, no Clube de Psicologia, localizado em Washington, DC. O fato de haver em Washington um clube de psicologia não-filiado a nenhuma universidade comprova a ampla popularidade da disciplina. Cerca de mil pes­soas compareceram ao debate. Havia poucos psicólogos: somente 464 membros da APA de todo o país. Assim, o tamanho do público também refletia a popularidade do behavioris­mo de Watson. Os julgadores do debate, no entanto, declaram McDougall o vencedor. Os argumentos de ambas as partes foram publicados em The battle of behaviorism (1929).

McDougall começou com otimismo, dizendo: "Começo com boa vantagem sobre o Dr. Watson, uma superioridade tão grande que se torna até injusto; isto é, todas as pes­soas dotadas de bom senso ficarão necessariamente a meu lado desde o início" (Watson e McDougall, 1929, p. 40). Ele concordava com a visão de Watson de serem os dados do comportamento o enfoque adequado do estudo psicológico, no entanto, afirmava serem igualmente indispensáveis os dados da consciência (essa posição foi sustentada posterior­mente pelos psicólogos humanistas e pelos teóricos da aprendizagem social).

Se os psicólogos não adotassem a introspecção, perguntava McDougall, como deter­minariam o significado da reação de um indivíduo ou a precisão do ato da fala (que Watson chamava de relato verbal)? Sem o autorrelato, como descobrir algo a respeito das fantasias e dos sonhos das pessoas? Como compreender ou analisar as experiências estéticas? McDougall desafiava Watson a explicar como seria o relato do behaviorista acerca da expenencia de apreciar um concerto de violino. McDougall disse:

Entro neste salão e vejo um homem no palco raspando as tripas de um gato com os pelos do rabo de um cavalo, e, sentados silenciosamente em uma atitude de total atenção mil pessoas que de repente irrompem em aplausos. Qual a explicação behaviorista para estra­nhos incidentes como esse? Como explicar o fato de as vibrações emitidas pelos categutes motivarem mil pessoas a permanecerem em total e absoluto silêncio e quietude e o fato seguinte, no qual a interrupção desse estímulo parece transformar-se em outro estímulo provocador de uma atividade tão frenética?

O senso comum e a psicologia concordam em aceitar a explicação de que o público ouviu a musica com extremado prazer e deu vazão à admiração e gratidão ao artista com gritos e aplausos. No entanto, o behaviorista não conhece nada a respeito do prazer e da dor, nem da admiraçao e da gratidão. Ele relegou todas essas "entidades metafísicas" a um amontoado de poeira, e tem de buscar outra explicação. Deixemo-lo procurando, já que a busca o manterá inofensivamente ocupado por vários séculos. (Watson e McDougall, 1929, p. 62-63)

Assim, McDougall questionava a afirmação de Watson de que o comportamento humano é totalmente determinado, de que tudo que realizamos é resultado direto da experiência passada e pode ser previsto assim que conhecemos esses fatos passados. Esse tipo de Pslcologia não dá espaço para o livre-arbítrio ou a liberdade de escolha. Se essa posição determinista fosse verdadeira, ou seja, se os humanos não fossem dotados
e vontade livre nem responsáveis pelas próprias ações, então não existiria a iniciativa humana, o esforço criativo, o desejo de melhoria individual e social. Ninguém tentaria evitar a guerra, minimizar a injustiça ou lutar por algum ideal pessoal ou social Por que continuar tentando achar uma resposta, se todo pensamento e comportamento é deter­minado pela experiência passada?

O método do relato verbal de Watson entrou no fogo cruzado. Watson foi acusado e inconsistência por aceita-lo quando conseguia comprová-lo e rejeitá-lo quando não. Evidentemente, esse era o enfoque principal de Watson e de todo o movimento behaviorista: usar somente dados verificáveis.

O debate entre os dois ocorreu 11 anos depois de Watson fundar a escola de pensa­mento behaviorista. McDougall previu que em mais alguns anos a posição de Watson desapareceria sem deixar rastros. Em um pós-escrito à publicação do debate, cinco anos depois McDougall disse que sua previsão foi excessivamente otimista, "baseada em uma ideia generosa demais da inteligência do público americano. (...) Dr. Watson continua
como um profeta muito honrado no próprio país, a emitir suas opiniões" (Watson é McDougall, 1929, p. 86-87).

As Contribuições do Behaviorismo de Watson

A carreira produtiva de Watson na psicologia durou pouco menos de 20 anos; mesmo assim, afetou profundamente o curso do desenvolvimento da psicologia por muito tempo.

Watson foi um eficaz agente do Zeitgeist, em uma época de mudanças não apenas na psicologia, como também nas atitudes científicas em geral. O século XIX testemunhou os magníficos avanços em todos os ramos da ciência. O século XX prometia feitos ainda mais extraordinários. Na época, acreditava-se que, se aos cientistas fosse dado tempo sufi­ciente, eles descobririam as soluções para todos os problemas e as respostas para todas as perguntas.

Watson tornou a metodologia e a terminologia da psicologia mais objetivas. Embo­ra suas posições a respeito de determinados tópicos estimulassem muita pesquisa, suas formulações iniciais não são mais válidas. Como uma escola de pensamento distinta, o behaviorismo de Watson foi substituído por outras formas de objetivismo psicológico nele baseado, como veremos no Capítulo 11. O historiador E. G. Boring afirmou que, em 1929, o behaviorismo já ultrapassara a etapa inicial. Como os movimentos revolucionários dependem das polêmicas para se fortalecerem, é um verdadeiro tributo ao behaviorismo de Watson que apenas 16 anos após a sua introdução ele não precisasse mais protestar. Na verdade, não sobrou nada para protestar.

O behaviorismo de Watson efetivamente superou as posições iniciais mais gerais da psicologia. Em 1926, um estudante de pós-graduação da University of Wisconsin relatou que, naquela época, poucos estudantes tinham ouvido falar de Wundt e Titchener (Gengerelli, 1976). Os métodos objetivos e a linguagem acabaram se incorporando à psicologia estadunidense e, desse modo, morria o sistema de Watson, assim como outros movimentos bem-sucedidos, ou seja, sendo absorvidos por um corpo principal de pensamento, a fim de proporcionar uma base conceituai mais firme para a psicologia moderna.

Embora o programa de Watson não lhe permitisse atingir seus ambiciosos objetivos, ele foi amplamente reconhecido pelo seu papel de fundador. O seu 100° aniversário de nascimento foi comemorado em abril de 1979, o mesmo ano do centenário da psicologia como ciência. Um simpósio realizado na Furman University, para o qual o laboratório de psicologia levou o nome de Watson em sua homenagem, reuniu psicólogos vindos de todos os Estados Unidos. Um dos oradores foi B. F. Skinner, cujo discurso se intitulava “What J. B. Watson meant to me” ("O que J. B. Watson significou para mim"). Seus conterrâneos não guardavam boas lembranças de Watson. Muitos recordavam-se dele como "arrogante e ateu que voltara as costas para a sua herança sulista e a criação batista" (Greenville News, 5 abr. 1979). Em 1984, foi inaugurado um marco comemorativo em uma estrada próxima ao local de seu nascimento.

Até certo ponto, a aceitação do behaviorismo watsoniano deveu-se à personalidade de Watson, figura carismática que projetava suas ideias com entusiasmo, otimismo e autocon­fiança. Orador muito eloquente e persuasivo, desprezava a tradição e rejeitava a psicologia corrente. Essas características pessoais, aliadas ao espírito dos tempos que ele manipulava com tanta maestria, definiram John B. Watson como um dos pioneiros da psicologia.
 

Psicologia - História da Psicologia
2/4/2020 1:30:02 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Behaviorismo, as influências anteriores

Hans, o Esperto, foi o cavalo mais famoso de toda a história da psicologia. Naturalmente, ele foi o único cavalo na história da psicologia, mas isso não diminui suas realizações extraordina­riamente brilhantes. No início da década de 1900, praticamente toda pessoa culta da Europa e dos Estados Unidos já ouvira falar a respeito de Hans, o cavalo prodígio. Ele foi o cavalo mais esperto do mundo e conhecido até como a criatura de
quatro patas mais inteligente de que se ouvira falar.

O esperto Hans, que vivia em Berlim, Alemanha, era uma celebridade. As propagandas usavam seu nome para vender seus produtos. Suas realizações serviram de inspi­ração para canções, artigos de revistas e livros. Seu conhe­cimento fenomenal foi testado por matemáticos famosos e considerado como tendo capacidade de raciocínio numérico equivalente ao de um menino de 14 anos de idade.

Ele conseguia somar e subtrair, usar frações e decimais, ler, identificar moedas, jogar baralho, soletrar, reconhecer uma variedade de objetos e resolver problemas incríveis de memória. O cavalo respondia a perguntas feitas a ele batendo a pata um determinado número de vezes ou balançando a cabeça em direção ao objeto apropriado. "Quantos cavalheiros presentes estão usando chapéu de palha?" perguntava-se. [228] Hans, o Esperto, batia a resposta com sua pata direita, tomando cuidado para não incluir os chapéus de palha usados pelas damas. "O que aquela senhora está segurando?" O cavalo respondia ‘‘schirm’’, que significa sombrinha, indicando cada letra em um cartaz especial. E ele ainda era capaz de distinguir entre uma bengala e uma sombrinha, ou um chapéu de palha e um de feltro.

O mais importante é que Hans podia pensar por si mesmo. Quando lhe faziam uma pergunta estranha, por exemplo, quantos lados tem um círculo, ele sacudia a cabeça de um lado para o outro querendo dizer que nenhum. (Fernald, 1984, p. 19)

Não era para menos que as pessoas ficassem surpresas e que seu dono, Wilhelm von Osten, um professor aposentado de matemática, ficasse orgulhoso. Ele levara vários anos ensinando a Hans os princípios da inteligência humana (já havia tentado antes, em vão, ensinar um gato e um urso). Von Osten não lucrou financeiramente com o desempenho de Hans. Quando deu demonstrações da inteligência do cavalo, no pátio do edifício onde morava, nunca cobrou nenhuma taxa, tampouco aproveitou-se do resultado para fazer publicidade. A motivação para esse enorme esforço foi puramente científica. Seu objetivo era provar que Darwin estava correto ao sugerir a semelhança entre o processo mental animal e o humano.

Von Osten também acreditava que educação insuficiente era a única justificativa para a aparente falta de inteligência dos cavalos e dos demais animais. Estava convencido de que, com o método adequado de treinamento, o cavalo provaria sua inteligência.  Devido aos seus esforços, a maior parte do mundo ocidental se convenceu!

Mas havia alguns céticos que duvidavam e questionavam se Hans ou qualquer outro animal podia realmente ser tão inteligente. Devia ter algum truque envolvido. Alguns achavam que era o escândalo do século.

Você acredita que seja possível ensinar um animal a responder perguntas correta­mente? Aquela exibição da inteligência do animal era legítima? E o que tudo isso tem a ver com a história da psicologia? Vamos ver posteriormente que foi um psicólogo que finalmente resolveu o mistério.

Rumo à Ciência do Behaviorismo

Em torno da segunda década do século XX, pouco menos de 40 anos após Wilhelm Wundt dar início à psicologia, a ciência passava por uma profunda reavaliação. Não havia mais consenso entre os psicólogos acerca do valor da introspecção, da existência dos elemen­tos mentais ou da necessidade de a psicologia continuar a manter o status de uma ciência pura. Os psicólogos funcionalistas reescreviam as diretrizes, usando a psicologia de uma forma que seria inadmissível em Leipzig e em Cornell.

O movimento na direção do funcionalismo era mais evolucionário do que revolucioná­rio. A intenção inicial dos funcionalistas não consistia em acabar com a ordem estabelecida por Wundt e E. B. Titchener. Eles apenas acrescentaram e modificaram alguns aspectos, dando origem, com o passar dos anos, a uma nova forma de psicologia, que era mais um movimento emergente interno do que uma consequência de um ataque externo. [229]

Os líderes do movimento funcionalista não estavam ávidos por formalizar a sua posi­ção. Eles viam a sua tarefa não como uma ruptura com o passado, mas como uma evolução a partir dele. Por isso, a mudança do estruturalismo para o funcionalismo não estava tão evidente no momento em que ocorria. Dessa forma, o cenário da psicologia estadunidense na segunda década do século XX exibia o amadurecimento do funcionalismo concomitantemente à consolidação, embora em uma posição não mais exclusiva, do estruturalismo.

O ano de 1913 foi marcado por uma espécie de declaração de guerra, com o surgimento de um movimento de protesto cuja intenção era dilacerar as visões antigas, buscando uma ruptura com ambas as posições. Seus líderes não desejavam modificar o passado, muito menos manter alguma relação com ele. Esse movimento revolucionário chamava-se beha- viorismo e foi promovido pelo psicólogo John B. Watson, de 35 anos. Apenas 10 anos antes, Watson recebera o Ph.D. de James Rowland Angell na University of Chicago, na época em que a universidade era o centro da psicologia funcionalista, um dos dois movimentos que Watson decidiu destruir.

As premissas básicas do behaviorismo de Watson eram simples, diretas e ousadas. Ele buscava uma psicologia científica que lidasse exclusivamente com os atos comportamentais observáveis e passíveis de descrição objetiva, por exemplo, em termos de "estímulo" e "resposta". Além disso, a psicologia de Watson rejeitava qualquer termo ou conceito mentalista. Na sua visão, palavras como "imagem", "sensação", "mente" e "consciência" - adotadas desde a época da filosofia mentalista - não significavam absolutamente nada para a ciência do comportamento.

Watson afirmava que a consciência não tinha o menor valor para a psicologia do comportamento, rejeitando veementemente esse conceito. Além disso, alegava que nin­ guém jamais "havia visto, tocado, cheirado, experimentado ou transferido de um lugar a outro a consciência. Asua definição não passa de mera suposição tão improvável quanto o conceito de alma" (Watson e McDougall, 1929, p. 14). Desse modo, a introspecção, que pressupunha a existência do processo consciente, era irrelevante e sem valor para a ciên­ cia do comportamento.

Watson afirmava que a consciência não tinha o menor valor para a psicologia do comportamento, rejeitando veementemente esse conceito. Além disso, alegava que nin­ guém jamais "havia visto, tocado, cheirado, experimentado ou transferido de um lugar a outro a consciência. Asua definição não passa de mera suposição tão improvável quanto o conceito de alma'' (Watson e McDougall, 1929, p. 14). Desse modo, a introspecção, que pressupunha a existência do processo consciente, era irrelevante e sem valor para a ciên­ cia do comportamento.

Não foi Watson quem deu origem a essas idéias básicas do movimento behaviorista; elas já vinham sendo desenvolvidas há algum tempo, tanto na psicologia como na biolo­ gia. Como qualquer outro fundador, Watson organizou e promoveu as idéias e as questões já aceitáveis para o Zeitgeist intelectual. Assim, são estes alguns dos principais conceitos reunidos por Watson para formar seu sistema de psicologia behaviorista: a tradição filosó­fica objetivista e mecanicista; a psicologia animal; e a psicologia funcional.

O reconhecimento da necessidade de uma psicologia mais objetiva envolve uma longa história que nos remete a Descartes, cujas explicações mecanicistas para o funcionamento do corpo humano constituíram uma das primeiras iniciativas rumo a uma ciência objetiva. Outra figura ainda mais importante na história do objetivismo foi o filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), fundador do positivismo, movimento com ênfase no conhecimento positivo (fatos), o quél constituiria uma verdade inquestionável (veja no Capítulo 2). De acordo com Comte, o único conhecimento válido é o de natureza social e observável de forma objetiva. Esses critérios eliminavam a introspecção, já que ela depende da consciên­cia individual particular e não é passível de estudo objetivo.

Por volta dos primeiros anos do século XX, o positivismo incorporava-se ao Zeitgeist científico. Mesmo assim, Watson e outros psicólogos estadunidenses da sua época raramente abordavam o positivismo em seus trabalhos. No entanto, de acordo com um historiador, "agiam como positivistas, mesmo não se assumindo como tais (Logue, 1985. p. 149). Dessa forma, quando Watson começou a trabalhar com o behaviorismo as suas idéias já tão impregnadas pelas influências objetivistas, mecanicistas e materialistas, deram origem a um novo tipo de psicologia - disciplina que excluía a consciência, a mente ou a alma -, com enfoque apenas em algo visível, audível ou palpável. O resultado foi uma ciência do comportamento que enxergava o ser humano como uma máquina.

A Influencio da Psicologia Animal no Behaviorismo

A posição de Watson a respeito da relação entre a psicologia animal e o behaviorismo era clara: "O behaviorismo é o resultado direto dos estudos do comportamento animal realiza­dos durante a primeira década do século XX" (Watson, 1929, p. 327). Desse modo, podemos afirmar que o principal antecessor do programa de Watson foi a psicologia animal, resultante da teoria evolucionista e que levou à tentativa de se demonstrar (1) a existência da mente nos organismos inferiores e (2) a continuidade entre a mente animal e a humana.

No Capítulo 6, apresentamos os trabalhos de dois pioneiros da psicologia animal, George John Romanes e Conwy Lloyd Morgan. A lei da parcimônia de Morgan e o maior emprego das técnicas experimentais em vez das anedóticas tornaram a psicologia animal mais objetiva, embora a consciência continuasse a ser o enfoque central. A metodologia tornava-se mais objetiva, mesmo o objeto de estudo sendo subjetivo.

Por exemplo, em 1899, Alfred Binet publicou The psychic life of micro-organisms, em que apresentava uma proposta afirmando que até mesmo um organismo unicelular como o protozoário era capaz de perceber e distinguir os objetos e de exibir um comportamento dotado de intenção. Em 1908, Francis Darwin (filho de Charles Darwin) questionava sobre o papel da consciência nas plantas. Nos primeiros anos da psicologia animal nos Estados Unidos, houve grande interesse pelos processos conscientes dos animais, e a influência de Romanes e Morgan perdurou por algum tempo.

Jacques Loeb (1859-1924)

Outra personalidade que contribuiu significativamente para incrementar a objetividade na psicologia animal foi o fisiologista e zoólogo alemão Jacques Loeb (1859-1924), que gostava de regar seu jardim mesmo quando chovia. Loeb trabalhou em diversas institui­ções nos Estados Unidos, inclusive na University of Chicago.

Em reação à tradição antropomórfica e ao método de introspecção por analogia, desenvolveu uma teoria do comportamento animal com base no conceito de tropismo, o movimento forçado involuntário. Ele acreditava na reação direta e automática do animal a um estímulo. Desse modo, afirmava ser a reação comportamental forçada pelo estímulo, não cabendo qualquer explicação em termos de definição consciente do animal.[231]

Embora seu trabalho representasse o tratamento mais objetivo e mecânico da psico­logia animal daquela época, Loeb não conseguiu abdicar totalmente do passado. Ele não rejeitava a existência da consciência nos animais (por exemplo, nos seres humanos) que se encontravam na escala mais elevada da evolução (Loeb, 1918). Argumentava que a cons­ciência animal revelava-se por meio da memória associativa, ou seja, que os animais já haviam aprendido a reagir a determinados estímulos de um modo esperado. Por exemplo a reação do animal ao ser chamado pelo nome ou ao ouvir um som específico para dirigir-se repetidas vezes a determinado local a fim de receber alimento são evidências de alguma conexão mental, da existência da memória associativa. Portanto, mesmo a abordagem de algum modo mecanicista de Loeb ainda continha certo conceito de consciência.

Watson frequentou alguns cursos de Loeb na University of Chicago e desejava reali­zar pesquisas sob sua orientação, demonstrando curiosidade a respeito das visões mecanicistas de Loeb. Angell e o neurologista H. H. Donaldson demoveram Watson da sua intenção, afirmando ser uma ideia "arriscada", termo com várias conotações, mas talvez com o intuito de expressar o repúdio ao objetivismo de Loeb.

Ratos, Formigas e a Mente Animal

Mais ou menos no início do século XX, os psicólogos da psicologia animal experimental trabalhavam com muita seriedade. Robert Yerkes iniciou esses estudos em 1900 usando diversos animais, e suas pesquisas consolidaram a posição e a influência da psicologia comparativa.

Também em 1900, Willard S. Small, da Clark University, introduziu o labirinto para ratos (veja na Figura 9.1); assim, o camundongo branco e o labirinto transformaram-se em método padrao no estudo da aprendizagem. A noção de consciência ainda invadia a psicologia animal, mesmo com a adoção do método do rato branco e o labirinto. Ao inter­ pretar o comportamento do rato, Small usava a terminologia mentalista, descrevendo as imagens e as ideias do animal.

Embora as conclusoes de Small fossem mais objetivas do que as produzidas pelo tipo de antropomorfização de Romanes, elas também refletiam uma preocupação em relação aos elementos e processos mentais. No início da carreira, até mesmo Watson sofrera essa influencia. O titulo da sua dissertação de doutorado, concluída em 1903, era Animal education: the psychical development of the white rat (grifo em negrito acrescentado) (A educação animal: o desenvolvimento psíquico do rato branco). Até 1907, ele discutia a experiência consciente da sensação dos ratos.

Em 1906, ainda como aluno de pós-graduação da University of Chicago, Charles Henry Turner (1867-1923) publicou um artigo intitulado “A preliminary note on ant behavior” Observações preliminares sobre o comportamento da formiga"). Watson publicou uma critica muito elogiosa sobre o trabalho na renomada revista Psychological Bulletin. Nesse artigo, empregou a palavra comportamento, que aparece no título do trabalho de Turner, e talvez essa tenha sldo a Primeira vez que ele usou a palavra por escrito, embora já a houvesse empregado anteriormente em uma solicitação de recursos (Cadwallader, 1984, 1987). [232]

Turner era afro-americano e recebeu o Ph.D. magna cum laude, em 1907, da University of Chicago. Embora sua graduação fosse em zoologia, ele publicou tantas pesquisas relacionadas com os estudos comparativos e de animais em revistas especializadas de psicologia que alguns psicólogos o consideravam um colega da área. Porém, lembre-se de quão raros eram os empregos para os psicólogos pertencentes a grupos de minoria, e por isso as oportunidades acadêmicas de Turner se limitavam a posições em faculdades do Missouri e da Geórgia.

Por volta de 1910, foram instalados oito laboratórios de psicologia comparativa; os primeiros estavam nas universidades Clark, Harvard e Chicago. Diversas universidades ofereciam cursos na área. Margaret Floy Washburn, a primeira orientanda de doutorado de Titchener (veja no Capítulo 5), lecionava psicologia animal na Cornell. Seu livro, The animal mind (1908), foi o primeiro trabalho de psicologia comparativa publicado nos Estados Unidos.

Observe-se o título do livro de Washburn: The animal mind. No seu trabalho, persistia a noção de consciência animal, bem como o método de introspecção comparativa entre a mente animal e a mente humana. Washburn afirmava: [233]

Somos obrigados a reconhecer que toda interpretação psíquica do comportamento animal deve ser por analogia com a experiência humana (...) Devemos adotar a posição antropomorfica ao formarmos ideias sobre o que ocorre na mente de um animal. (Washburn, 1908; p. 88)

Embora o livro de Washburn fosse o mais completo em termos de pesquisa sobre a psicologia animal naquela epoca, ele também marcou o fim de uma era. Depois dele nenhum outro texto usou a abordagem da inferência dos estados mentais a partir do comportamento. Os temas que chamaram a atenção de [Herbert] Spencer, Lloyd Morgan e Yerkes não esta­vam mais em voga e praticamente desapareceram da literatura.

Quase todo livro didático que veio a seguir adotava a visão behaviorista e envolvia principalmente as questões e os problemas da aprendizagem. (Demarest, 1987, p. 144)

Seja lidando com a mente, seja com o comportamento, não era fácil ser um profissio­nal da psicologia animal. Tanto os governantes como os administradores das universida­des sempre atentos às questões orçamentárias, não enxergavam na área nenhum valor prático. O heitor de Harvard dizia não ver "futuro no tipo de psicologia comparativa de Yerkes. Alem de malcheirosa e cara, parece não oferecer nenhuma aplicacão prática para o serviço publico (Reed, 1987a, p. 94). Yerkes disse ter sido 

discreta e gentilmente alertado (...) de que a psicologia educacional oferecia, além da minha area especifica de psicologia comparativa, outros caminhos, mais amplos e dire­tos, para uma carreira na docência e para melhor aproveitamento acadêmico; assim eu devia pensar seriamente em mudar. (Yerkes, 1930/1961, p. 390-391)

Os alunos orientados por Yerkes em seu laboratório procuravam empregos na área da aplicação por não conseguirem colocação na psicologia comparativa. Aqueles que conse­guiam garantir uma posição universitária estavam cientes de que eram os membros mais custosos dos respectivos departamentos de psicologia. Nos momentos de dificuldades financeiras, os que fossem vinculados à psicologia animal geralmente eram os primeiros a ser demitidos.

O próprio Watson enfrentou esse tipo de dificuldade no início da carreira. Ele escre­veu para Yerkes, dizendo: "No momento, a minha pesquisa está parada. (...) Não temos espaço físico para manter os animais e, mesmo que o tivéssemos, não teríamos fundos para mante-lo (Watson, 1904, apud O'Donnell, 1985, p. 190). Em 1908, apenas seis traba­lhos relacionados com animais foram publicados nas revistas de psicologia, cerca de 4% de toda a pesquisa psicológica daquele ano. No ano seguinte, quando Watson sugeriu a Yerkes um jantar, reunindo os psicólogos que estudavam o comportamento dos animais durante o encontro da APA, sabia que caberiam todos em uma única mesa: compareceram apenas nove. Na edição de 1910 da American Men of Science, de Cattell, apenas seis, entre os 218 psicologos relacionados, admitiam realizar pesquisas com animais. As perspectivas profissionais não eram promissoras, mas, mesmo assim, o campo se expandia em virtude da dedicaçao de alguns, poucos, que permaneciam na área.

A publicação Journal of Animal Behavior (mais tarde intitulada Journal of Comparative Psychology) foi lançada em 1911. Em 1906, o texto de uma palestra do fisiologista russo Ivan Pavlov foi publlcado na revista Science, introduzindo para o público estadunidense o seu [234] trabalho a respeito da psicologia animal. Yerkes e Sergius Morgulis, um estudante russo, publicaram um relato mais detalhado da metodologia utilizada por Pavlov, bem como dos resultados da sua pesquisa, na publicação Psychological Bulletin (1909).

A pesquisa de Pavlov sustentava a psicologia objetiva e, em especial, o behaviorismo de Watson. Desse modo, estabeleceu-se uma psicologia animal dotada de um método e um objeto de estudo muito mais objetivos. Aquela tendência em direção a uma maior objeti­vidade no estudo do comportamento animal foi fortemente apoiada pelos acontecimentos na Alemanha, em 1904. Esse foi o ano em que o governo estabeleceu uma comissão para examinar os poderes de Hans, o Esperto, e determinar se havia algum mecanismo ou truque envolvido. O grupo incluía um administrador de circo, um veterinário, treinadores de cavalo, um aristocrata, o diretor do Zoológico de Berlim e o psicólogo Carl Stumpf, da University of Berlin.

Em setembro de 1904, depois de uma minuciosa investigação, a comissão concluiu que Hans não recebia nenhum tipo de sinalização intencional nem indicações do proprietário. Não havia fraude nem truques. No entanto, Stumpf não se encontrava totalmente con­vencido e estava curioso para saber como o cavalo conseguia responder corretamente a tantas perguntas. Ele atribuiu essa missão a um aluno de pós-graduação, Oskar Pfungst, que realizou o estudo com o cuidado exigido de um psicólogo experimental.

O cavalo demonstrou capacidade para responder às perguntas mesmo quando o trei­nador não estava presente; assim, Pfungst decidiu elaborar uma experiência para testar esse fenômeno. Formou dois grupos de pessoas para formular as perguntas: um, com indivíduos que sabiam as respostas corretas, e outro, com indivíduos que não sabiam res­ ponder às questões formuladas ao cavalo. Os resultados mostraram que o cavalo respondia corretamente somente às perguntas feitas pelos indivíduos que sabiam a resposta. Assim, ficou claro que Hans recebia as informações de quem quer que estivesse formulando a pergunta, mesmo que fosse um estranho.

Depois de uma série de experiências rigorosamente controladas, Pfungst concluiu que Hans fora condicionado sem querer pelo proprietário, von Osten. O cavalo começava a bater a pata ao menor movimento para baixo da cabeça de von Osten. Quando ele executava o número correto de batidas, a cabeça de von Osten automaticamente fazia um leve movimento para cima, e o cavalo parava de bater. Pfungst demonstrou que qualquer indivíduo, mesmo uma pessoa que nunca estivera perto de um cavalo, realizava o mesmo gesto imperceptível com a cabeça quando falava com o animal.

Assim, o psicólogo provou que Hans não tinha um depósito de conhecimento. Ele apenas fora treinado para começar a bater com a pata ou a inclinar a cabeça em direção ao objeto sempre que a pessoa fizesse determinado movimento, e condicionado a parar ao mínimo movimento contrário. Von Osten motivara Hans durante o período de treina­mento, dando-lhe cenouras e torrões de açúcar, sempre que respondia corretamente. Com o passar do tempo, von Osten pensou que não precisava mais incentivar cada resposta correta, por isso passou a premiá-lo apenas de vez em quando. O psicólogo behaviorista B. F. Skinner demonstrou mais tarde a enorme eficácia desse tipo de reforço intermitente ou parcial no processo de condicionamento.

O que von Osten pensou da conclusão de Pfungst? Ficou arrasado e sentiu-se ofendido, explorado e fisicamente doente. Entretanto direcionou sua fúria não a Pfungst, mas a Hans, que, acreditava von Osten, de algum modo o enganara. Von Osten afirmava que o comportamento fraudulento do cavalo o deixara enfermo. E realmente ele acabou ficando doente e foi diagnosticado com câncer do fígado. (Candland, 1993, p. 135) [235]

Von Osten jamais perdoou Hans pela traição e rogou-lhe uma praga, dizendo que pas­saria o resto dos seus dias puxando uma carruagem fúnebre. Von Osten morreu dois anos depois da constatação de Pfungst, creditando ao comportamento ingrato do cavalo o fato de ter ficado enfermo. Era evidente que ele ainda acreditava na inteligência de Hans.

O novo dono de Hans, o Esperto, Hans Krall, um joalheiro milionário, colocou Hans e dois outros cavalos em exibição para performances populares em que os cavalos batiam com as patas em resposta às perguntas. E suas respostas estavam sempre corretas. Krall os chamava de Cavalos Mágicos. Eles surpreendiam as plateias com seus poderes; conseguiam até calcular a raiz quadrada de números, entre outros truques (veja Kressley-Mba, 2006). Aparentemente a maior parte do público não tinha ouvido falar, ou prestado atenção às pesquisas de Pfungst mostrando que os denominados poderes não tinham nenhum mistério, mas eram simplesmente respostas aprendidas.

O caso de Hans, o Esperto, é um exemplo do valor e da necessidade de uma abordagem experimental no estudo do comportamento animal. Os psicólogos passaram a enxergar com mais ceticismo os grandes feitos de "animais inteligentes". Entretanto, esse estudo também mostrou a capacidade de o animal aprender e ser condicionado a modificar seu comportamento. O estudo experimental da aprendizagem animal passou a ser mais impor­tante no tratamento desse tipo de questão do que a hipótese anterior sobre a existência de uma consciência operando na mente animal. John B. Watson redigiu um artigo para a Journal of Comparative Neurology and Psychology a respeito do relato experimental de
Pfungst sobre Hans, o Esperto. As conclusões do trabalho influenciaram a crescente ten­dência de Watson em promover uma psicologia que abordasse apenas o comportamento e não a consciência (Watson, 1908).

Edward Lee Thorndike (1874-1949)

Thorndike, um dos principais pesquisadores para o desenvolvimento da psicologia animal, elaborou uma teoria de aprendizagem objetiva e mecanicista com enfoque no comporta­mento manifesto. Thorndike acreditava que o psicólogo devia estudar o comportamento, não os elementos mentais ou a experiência consciente, e assim reforçava a tendência rumo à maior objetividade iniciada pelos funcionalistas. Não interpretava a aprendizagem do ponto de vista subjetivo, mas em termos de conexões concretas entre o estímulo e a res­posta, embora não admitisse qualquer referência à consciência e aos processos mentais.

Os trabalhos de Thorndike e de Ivan Pavlov são outro exemplo de descobertas simultâ­neas independentes. Thorndike desenvolveu a lei do efeito em 1898, e Pavlov apresentou uma proposta semelhante, a lei do reforço, em 1902.

A Biografia de Thorndike

Edward Lee Thorndike foi um dos primeiros psicólogos estadunidenses a receber toda a formação educacional nos Estados Unidos. Um fato importante foi ele ter realizado os estudos de pós-graduação nos Estados Unidos e não na Alemanha, apenas duas décadas depois da fundação formal da psicologia. O seu interesse na psicologia foi despertado, assim como o de vários outros colegas, pela leitura da obra The principles of psychology de [236] William James, quando ainda era estudante de graduação na Wesleyan University, em Middletown, Connecticut. Mais tarde, Thorndike estudou sob a orientação de James, em Harvard, e começou a pesquisar sobre a aprendizagem.

Ele planejava conduzir suas pesquisas utilizando crianças como sujeitos, o que estava proibido. A administração da universidade ainda sofria as consequências de um escânda­ lo envolvendo um antropólogo acusado de afrouxar as roupas das crianças para tomar as medidas do corpo. Ao constatar que não poderia realizar experiências com as crianças, resolveu usar pintinhos, talvez inspirado nas aulas em que Morgan descrevia a sua pes­quisa com esses animais.

Thorndike improvisou labirintos usando alguns livros e ensinou os pintinhos a percor­rerem os caminhos. Com dificuldades para achar um lugar para guardar os pintinhos, já que a proprietária do imóvel em que morava não permitia que mantivesse os animais no seu quarto, ele pediu ajuda a William James, o qual, não conseguindo arrumar um lugar no laboratório nem no museu da universidade, resolveu acolher Thorndike e os pintinhos no porão da sua casa, para alegria de seus filhos.

Thorndike não chegou a completar os estudos em Harvard. Desiludido por não ser correspondido por uma jovem, resolveu afastar-se da região de Boston e matriculou-se no curso de James McKeen Cattell, na Columbia University. Quando Cattell lhe ofereceu uma bolsa de estudos, Thorndike seguiu para Nova York, levando consigo os dois pintinhos mais bem treinados. Prosseguiu nas pesquisas com animais na Columbia, trabalhando com gatos e cachorros, usando caixas-problema que ele mesmo havia projetado. Em 1898, recebeu o título de Ph.D., apresentando a dissertação Animal intelligence: an experimental study of the associative processes in animais (Inteligência animal: um estudo experimental dos processos associativos nos animais), publicada com destaque na Psychological Review por ser a primeira tese de doutorado a utilizar animais como sujeito de pesquisa (Galef, 1998). Posteriormente, Thorndike publicou várias pesquisas a respeito da aprendizagem associativa, envolvendo pintinhos, peixes, gatos e macacos.

Extremamente ambicioso e competitivo, Thorndike escreveu à sua noiva, dizendo: "Decidi chegar ao topo da psicologia em cinco anos, lecionar durante mais dez e, então, abandonar a área" (apuá Boakes, 1984, p. 72). Ele não permaneceu na psicologia animal por muito tempo. Reconhecia não ser essa a área de seu principal interesse, mas manteve-se nela exclusivamente para completar a graduação e criar certa reputação. A psicologia animal não era o melhor campo para uma pessoa com tamanha vontade de alcançar o sucesso. Além disso, como já verificamos anteriormente, as áreas aplicadas ofereciam muito mais oportunidades de emprego do que a pesquisa com animais.

Thorndike tornou-se orientador de psicologia na Teachers College da Columbia Uni­versity. Ali estudou os problemas de aprendizagem nos seres humanos, adaptando as téc­nicas de pesquisa com animais para crianças e jovens (Beatty, 1998). Passou a dedicar-se a outras duas áreas: a psicologia educacional e os testes mentais e ainda escreveu diversos livros didáticos, fundando, em 1910, a Journal of Educational Psychology. Atingiu o topo da psicologia em 1912, quando foi eleito presidente da APA. Os direitos autorais dos testes e dos livros didáticos lhe renderam uma fortuna; por volta de 1924 ele perfazia uma receita anual aproximada de 70 mil dólares, soma substancial para a época (Boakes, 1984).

Os 50 anos em que permaneceu na Columbia estão entre os mais produtivos registra­dos na história da psicologia. Na relação da sua bibliografia constam 507 itens. Apesar de aposentar-se em 1939, trabalhou até morrer, 10 anos depois. [237]

O Conexionismo

Thorndike chamou de conexionismo ao tratamento experimental no estudo da associação. Afirmou que, para analisar a mente humana, ele deveria localizar:

as conexões de forças variáveis entre (a) as situações e os seus respectivos elementos e componentes e (b) as respostas e os seus respectivos facilitadores e inibidores, a pron­tidão às respostas e as direções das respostas. Se conseguir identificar todos esses ele­mentos, definindo o que pensa ou faz o homem e o que o satisfaz ou aborrece em cada situação imaginável, parece-me que nada será deixado de lado. (...) Aprendizagem é o estabelecimento de conexões, e a mente é o sistema de conexões do homem (Thorndike 1931, p. 122)

Essa posição era uma extensão direta da antiga noção filosófica de associação (veja no Capítulo 2), mas com uma diferença significativa: em vez de abordar associações e conexões entre as ideias, Thorndike trabalhava com as conexões entre as situações verifi­cáveis objetivamente e as respostas.

Embora houvesse desenvolvido sua teoria seguindo um referencial mais objetivo, Thorndike continuou a referir-se aos processos mentais. Falava de satisfação, irritação e desconforto quando discutia o comportamento dos animais em seus experimentos, usando termos mais mentalistas do que comportamentalistas. Assim, Thorndike manti­nha a influência recebida de Romanes e Morgan. Muitas vezes, a sua análise objetiva do comportamento animal incorporava julgamentos subjetivos das alegadas experiências conscientes dos animais. Observe que Thorndike, assim como Jacques Loeb, não atribuía gratuitamente alto grau de consciência e inteligência aos animais da forma absurda como fazia Romanes. É possível notar uma redução uniforme na importância da consciência na psicologia animal desde o início até a época de Thorndike, proporcionalmente ao uso mais frequente do método experimental no estudo do comportamento.

Apesar do tom mentalista do trabalho de Thorndike, a sua abordagem ainda se baseava na tradição mecanicista. Ele alegava que o comportamento deveria ser reduzido aos elementos mais simples, ou seja, a unidades de estímulo e resposta. Concordava com a visão atomística, analítica e mecanicista dos empiristas britânicos e dos estruturalistas. Para ele, as unidades de estímulo-resposta consistem em elementos do comportamento (e não da consciência) e são os blocos de construção que compõem os comportamentos mais complexos.

A Caixa-problema

Aproveitando alguns caixotes e pedaços de madeiras, Thorndike projetou e construiu caixas-problema para utilizar nas pesquisas com os animais (veja na Figura 9.2). Para conse­guir escapar da caixa, o animal tinha de aprender a mexer no trinco. Thorndike extraiu a ideia de utilizar a caixa-problema como um aparato para estudar a aprendizagem dos [238] relatos anedóticos de Romanes e Morgan, que descreviam o modo como cães e gatos con­seguiam abrir os trincos das portas.

Figura 9.2 - A caixa problema de Thorndike

Em uma série de experimentos, Thorndike colocava um gato faminto na caixa feita de ripas de madeira. Deixava a comida do lado de fora da caixa como um prêmio por ele conseguir escapar. O gato tinha de puxar uma alavanca ou uma corrente e, às vezes, repetir muito a manobra para afrouxar o trinco e conseguir abrir a porta. No início, o gato exibia comportamentos aleatórios, como empurrar, farejar e arranhar com as patas, tentando alcançar a comida. Por fim, acabava executando o comportamento correto, des­trancando a porta. Na primeira tentativa, esse comportamento ocorria sem querer. Nas tentativas subsequentes, os comportamentos aleatórios mostravam-se menos frequentes, até que a aprendizagem fosse completa. Então, o gato passava a demonstrar o comporta­mento apropriado assim que era colocado dentro da caixa.
A fim de registrar os dados, Thorndike adotava medições quantitativas da aprendiza­gem. Uma das técnicas consistia em registrar o número de comportamentos incorretos, ou seja, das ações que não resultavam na abertura da caixa. Depois de uma série de tentativas esse número diminuía. Outra técnica adotada consistia em registrar o tempo decorrido do instante em que o gato era colocado na caixa até o momento em que ele conseguia sair. Assim que a aprendizagem se concretizava, esse intervalo diminuía. [239]

Thorndike escreveu sobre uma tendência de resposta em que "gravar" ou "apagar" acontecia de acordo com o êxito ou o fracasso das consequências. A tendência a respostas fracassadas que não resultavam na abertura da porta para o gato sair da caixa tendia a desaparecer, ou seja, a ser apagada depois de várias tentativas. A tendência a respostas que conduziam ao êxito era gravada depois de algumas tentativas. Esse tipo de aprendizagem passou a ser conhecido como aprendizagem por tentativa-e-erro, embora Thorndike preferisse chamá-lo de tentativa e sucesso acidental.

As Leis da Aprendizagem

Thorndike apresentou formalmente essa ideia sobre o "gravar" ou o "apagar" de uma ten­dência de resposta, definindo-a como a lei do efeito:
[240]

Qualquer ato que, executado em determinada situação, produza satisfação fica associado a ela de tal modo que, quando ela se repete, a probabilidade de o ato também se repetir é maior do que antes. Inversamente, qualquer ato que produza desconforto em uma situa- çao específica vai dela se dissociar de maneira que, quando ela se repetir, a probabilidade de o ato se repetir também é menor do que antes. (Thorndike, 1905, p. 203)

Uma lei associada - a lei do exercício ou a lei do uso e desuso - afirma que qualquer resposta a uma determinada situação a ela se associa. Quanto mais usada a resposta na situação, mais sólida será a associação, assim como ocorre o contrário: o desuso prolonga­do da resposta tende a enfraquecer a associação.

Em outras palavras, a simples repetição da resposta em uma determinada situação tende a fortalecer a resposta. Pesquisas complementares convenceram Thorndike de que as consequências da recompensa a uma resposta (situação que produz satisfação) são mais eficazes do que a mera repetição da resposta.

Posteriormente, mediante um programa completo de pesquisa com seres humanos, Thorndike reavaliou a lei do efeito. Os resultados revelaram que a recompensa realmente fortalecia a resposta adequada, porém a punição a uma resposta não produzia um efeito negativo comparável. Ele reviu seu ponto de vista, dando mais ênfase à recompensa do que à punição.

Comentários

Os estudos de Thorndike a respeito da aprendizagem humana e animal estão entre os programas de pesquisa mais importantes mencionados na história da psicologia.

O novo método de Thorndike para a análise da mente animal foi o marco de um século de produções em pesquisas para determinar com exatidão o processo de aprendizagem animal. Ele também serviu de contrapeso para o tipo de valorização não-específica do mentalismo animal observado nos trabalhos - como os de Romanes - escritos imediata­mente após a era darwiniana. (Candland, 1993, p. 242)

O trabalho de Thorndike anunciava o surgimento e a consolidação da teoria de apren­dizagem na psicologia estadunidense, e o espírito objetivo da sua pesquisa constituiu impor­tante contribuição para o behaviorismo. Watson declarou que a pesquisa de Thorndike foi o alicerce para a fundação do behaviorismo. Ivan Pavlov elogiou Thorndike, dizendo:

Alguns anos depois de iniciar os trabalhos com o nosso novo método, tomei conhecimen­to das experiências - de algum modo similares - realizadas nos Estados Unidos, não por fisiologistas, mas por psicólogos. (...) Devo admitir que os méritos pelos passos iniciais dados nessa direção pertencem a E. L. Thorndike. Suas experiências nos antecederam em mais ou menos dois ou três anos, e seu livro deve ser considerado um clássico, tanto pela magnitude do panorama da sua tarefa, como pela precisão dos resultados apresentados. (Pavlov, 1928, apud Jonçich, 1968, p. 415-416)

A revista American Psychologist publicou uma seção especial comemorativa, em 1998, do 100° aniversário da dissertação de Thorndike a respeito da inteligência animal. Ele foi descrito como uma das figuras mais influentes e produtivas da psicologia, e o seu traba­lho, como um "marco na passagem da especulação para a experimentação" (Dewsbury, 1998, p. 1.122).

Ivan Petrovitch Pavlov (1849-1936)

O trabalho de Ivan Pavlov sobre a aprendizagem ajudou a transferir a ênfase da visão tradicional do associacionismo - das ideias subjetivas para os eventos psicológicos quan­tificáveis e objetivos, tais como a secreção glandular e o movimento muscular. Como con­sequência, o trabalho de Pavlov proporcionou a Watson o método para estudar e tentar controlar e modificar o comportamento.

A Biografia de Pavlov

Ivan Pavlov nasceu na cidade de Ryazan, região central da Rússia, e era o mais velho dos 11 filhos de um pastor. Sendo o irmão mais velho de uma família tão numerosa, teve de desenvolver bem prematuramente o senso de responsabilidade e a disposição para tra­balhar muito, mantendo essas características por toda a vida. Por um bom tempo, não pôde frequentar a escola por causa de um ferimento na cabeça em consequência de um acidente sofrido aos 7 anos, e, assim, seu pai lhe ministrava aulas em casa. Matriculou-se no seminário com a intenção de se tornar pastor, mas, depois de ler a teoria de Darwin, mudou de ideia. Disposto a frequentar a universidade em São Petersburgo para estudar a fisiologia animal, Pavlov viajou centenas de quilômetros a pé. [241]

Com a formação universitária, Pavlov passou a fazer parte de um grupo de intelectuais, a intelligentsia, uma classe emergente na sociedade russa, diferente das outras classes, ou seja, distinta da aristocracia e do campesinato. Um historiador comentou que Pavlov possuía uma formação de extremo alto nível e era inteligente demais para pertencer ao campesinato do qual se originara, mas pobre e comum demais para fazer parte da aris­tocracia, nível ao qual jamais ascenderia. Frequentemente, esse tipo de condição social produzia um intelectual extremamente dedicado, que concentrava a vida nas realizações intelectuais para justificar a sua existência. Esse era o caso de Pavlov, que lançava mão da firmeza e da simplicidade do camponês russo para dedicar-se a fundo à ciência pura e à pesquisa experimental. (Miller, 1962, p. 177)

Pavlov formou-se em 1875 e começou a estudar medicina, não para se tornar médico, mas na esperança de seguir a carreira na pesquisa fisiológica. Estudou dois anos na Ale­manha e retornou a São Petersburgo para trabalhar durante vários anos como assistente do laboratório de pesquisas.

A dedicação de Pavlov à pesquisa era total. Recusava-se a desviar a atenção com questões práticas como o salário, as roupas ou as condições de vida. Sua esposa, Sara, com quem se casara em 1881, dedicava-se a protegê-lo dos assuntos mundanos. Logo no início do casamento, eles fizeram um pacto, e Sara concordou em cuidar dos problemas cotidianos para que nada interferisse no trabalho do marido. Em contrapartida, Pavlov prometeu jamais beber ou jogar e sair apenas nos sábados e domingos à noite. Assim, ele adotou uma rotina rígida, trabalhando sete dias por semana, de setembro a maio, e pas­sando os verões no campo.

Sua indiferença em relação às questões práticas é ilustrada pela história de que fre­quentemente Sara era obrigada a lembrá-lo de ir receber o salário. Ela dizia que ele não era confiável para comprar as próprias roupas. Um dia, mais ou menos com 70 anos, Pa­vlov estava em um bonde, indo para o seu laboratório. Impulsivamente, saltou antes de o bonde parar e acabou quebrando a perna. "Uma senhora que estava perto dele disse: 'Meu Deus! Eis aqui um gênio, mas que não sabe sequer saltar do bonde sem quebrar a perna'." (Gantt, 1979, p. 28).

A família Pavlov viveu na pobreza até 1890, quando, aos 41 anos, Pavlov foi indicado para lecionar farmacologia na Academia Médica Militar de São Petersburgo. Alguns anos antes, quando preparava a dissertação de doutorado, nascera seu primeiro filho. O médi­co havia alertado de que o frágil bebê não sobreviveria, a menos que mãe e filho fossem repousar no campo. Pavlov finalmente conseguiu dinheiro emprestado para a viagem, mas era tarde demais, e o bebê faleceu. Na época em que seu outro filho nasceu, a família vivia com parentes enquanto Pavlov dormia em uma maca em seu laboratório, já que não tinha como sustentar um apartamento.

Um grupo de alunos de Pavlov, sabendo das suas dificuldades financeiras, ofereceu-lhe dinheiro sob o pretexto de pagar pelas aulas que pediram para ele ministrar. No entanto, Pavlov não guardou nada para ele, gastando o dinheiro com os cachorros para o seu laborató­rio. Ele parecia nunca se abalar por essas dificuldades, elas realmente não o preocupavam.

Embora a pesquisa de laboratório fosse o seu principal interesse, raramente ele mesmo conduzia experimentos. Ao contrário, geralmente supervisionava os esforços dos outros. De 1897 a 1936, cerca de 150 pesquisadores trabalharam sob a supervisão de Pavlov, pro­duzindo mais de 500 trabalhos científicos. Um aluno escreveu que "todo o laboratório funcionava como o mecanismo de um relógio" (Todes, 2002, p. 107). [242]

Pavlov incorporava [os pesquisadores] em um sistema semelhante ao de uma fábrica empregando-os como se fossem seus próprios olhos e mãos, ou seja, atribuindo-lhes um tema especifico, oferecendo-lhes a tecnologia "canina" adequada para realizar as experiências, supervisionando (...) as pesquisas, interpretando os resultados e editando pessoalmente o trabalho produzido. (Todes, 1997, p. 948)

O temperamento de Pavlov era famoso, principalmente as suas explosões, direcionadas, em geral, aos assistentes de pesquisa. Durante a Revolução Bolchevique de 1917, repreendeu um assistente por chegar 10 minutos atrasado. Tiroteios nas ruas não eram justificativas para interferências no trabalho do laboratório. Com frequência ele esquecia rapidamente essas explosões emocionais. Seus pesquisadores sabiam muito bem o que esperar, já que Pavlov jamais hesitava em dizer o que pensava - era franco e direto ao lidar com as pessoas, nem sempre ponderado, mas tinha perfeita consciência dessa natureza volúvel. Um trabalhador do laboratório, não aguentando mais os insultos, acabou pedindo demissão. "Pavlov afirmou que o seu comportamento agressivo era apenas um hábito (...) e não devia ser uma razão suficiente para deixar o laboratório" (apud Windholz, 1990, p. 68). O menor fracasso de uma experiência deixava Pavlov deprimido, mas o sucesso proporcionava-lhe tamanha alegria que ele cumprimentava não apenas os, como também os cães. 

Ele tentou ser tão humano quanto possível com os cachorros e acreditava que os procedimentos cirúrgicos aos quais eram submetidos eram desastrosos, mas inevitáveis na pesquisa científica. 

Precisamos reconhecer que justamente devido ao grande desenvolvimento intelectual o melhor amigo dos homens - o cachorro - muito frequentemente se torna a vítima os experimentos fisiologicos.... o cachorro é insubstituível, além de ser extremamente emocionante. É quase um participante do experimento conduzido sobre ele próprio facilitando em grande parte o sucesso da pesquisa, devido à compreensão e submissão
(Pavlov, apud Todes, 2002, p. 123)

Posteriormente, Pavlov mandou erguer uma estátua de um cachorro, sentado em um pedestal, nas proximidades do prédio onde a pesquisa era realizada. Jersy Konorski, psicólogo polonês que trabalhou no laboratório, lembrava-se do trata­mento dispensado pelos alunos a Pavlov, como se ele fosse um membro da família real. Observou que era claro o

ciúme existente entre os alunos na disputa para determinar quem era o mais próximo e Pavlov. As pessoas gabavam-se quando eram alvos por mais tempo da sua atenção (...) a atitude de Pavlov em relação a qualquer um deles era fator determinante na hierarquia dentro do grupo. (Konorski, 1974, p. 193)

Pavlov foi um dos poucos cientistas russos a admitir mulheres e judeus em seu labo­ratorio. Qualquer insinuação de antissemitismo o deixava furioso. Era dotado de ótimo senso de humor e sabia apreciar boas piadas, mesmo que fossem a seu respeito. Durante a cerimonia em que recebeu um título honorário da Cambridge University, alguns alunos que estavam sentados na galeria desceram um cachorro de brinquedo amarrado em uma corda, deixando-o cair no colo de Pavlov. Ele guardou o cachorro sobre a escrivaninha do seu apartamento. [243]

E. R. Hilgard, na época doutorando na Yale University, assistiu a uma palestra de Pavlov no 9º Congresso Internacional de Psicologia, realizado em New Haven, Connecticut. Pavlov dirigia-se ao público em russo, fazendo uma pausa de vez em quando para que o intérprete apresentasse as observações em inglês. Mais tarde, o intérprete contou a Hilgard que "Pavlov parava e dizia: 'você já conhece esse assunto. Diga a eles o que sabe. Vou continuar e falar outras coisas'" (apud Fowler, 1994, p. 3).

Pavlov foi um cientista até o fim da vida. Acostumado à prática da auto-observação sempre que estava doente, no dia da sua morte não foi diferente. Fraco, por causa da pneu­monia, chamou um médico e descreveu seus sintomas: "Meu cérebro não está funcionando muito bem, e tenho sentimentos obsessivos e movimentos involuntários; a morte deve estar se instalando. Discutiu suas condições com o médico por alguns instantes e adormeceu. Quando acordou, sentou-se na cama e começou a procurar suas roupas com a mesma energia irrequieta que o acompanhara por toda a vida. "É hora de levantar", ele disse. "Me ajude! Tenho de me vestir!" E, assim, caiu sobre os travesseiros e morreu (Gantt, 1941, p. 35).

Os Reflexos Condicionados

Durante a sua brilhante carreira, Pavlov trabalhou com três questões principais. A primeira era referente à função dos nervos cardíacos, e a segunda envolvia as glândulas digestivas primárias. Essa importante pesquisa a respeito da digestão rendeu-lhe o reconhecimento mundial e o Prêmio Nobel, em 1904. A terceira área de pesquisa, que lhe proporcionou um lugar de destaque na história da psicologia, foi o estudo dos reflexos condicionados. A noção de reflexo condicionado teve origem, assim como vários feitos científicos, em uma descoberta acidental. Durante o trabalho com as glândulas digestivas dos cães, Pavlov usou o método de exposição cirúrgica para realizar a coleta externa das secreções digestivas, o que permitia a observação, a medição e o registro do material (Pavlov, 1927/1960). Um dos aspectos desse trabalho lidava com a função da saliva, que os cachorros secretavam involuntariamente, sempre que recebiam a comida na boca. Pavlov percebeu que, às vezes, a saliva era secretada mesmo antes de o animal receber a comida. Os cães salivavam ao ver a comida ou ao som dos passos do homem que geralmente os alimentava. A reação não aprendida de salivação de algum modo se associou ou se condicionou ao estímulo anteriormente associado ao recebimento da comida. [244]

Os reflexos psíquicos. Esses reflexos psíquicos, como Pavlov os denominou inicialmente, foram provocados nos cães do laboratório por estímulos diferentes do original (ou seja, da comida). Pavlov raciocinou e concluiu que essa reação ocorria porque os outros estímulos (tais como a visão e o barulho do tratador) frequentemente eram associados com a alimentação.

De acordo com o Zeitgeist dominante na psicologia animal, e assim como Thorndike, Loeb e outros predecessores, Pavlov concentrou-se inicialmente nas experiências mentalistas dos animais do seu laboratório. É possível observar esse ponto de vista na expressão "reflexos psíquicos", originalmente empregada para se referir aos reflexos condicionados. Ele escreveu sobre os desejos, os julgamentos e a vontade dos animais, interpretando os eventos mentais dos animais em termos subjetivos e humanos. Em tempo hábil, Pavlov deixou de lado as referências mentalistas em prol de uma abordagem descritiva mais objetiva.

No início das nossas experiências psíquicas (...) dedicamo-nos conscientemente a explicar os resultados imaginando o estado subjetivo do animal. No entanto, nenhum resultado válido foi obtido, senão polêmicas inúteis e opiniões individuais que não podiam ser leva­das em consideração. Portanto, não tivemos outra alternativa senão conduzir a pesquisa com base puramente objetiva. (Pavlov apud Cuny, 1965, p. 65)

Na tradução para o inglês do seu livro clássico, Conditioned reflexes (1927), Pavlov ofereceu o devido crédito a René Descartes por haver desenvolvido a ideia de reflexo 300 anos antes. Observou que o que Descartes chamou de reflexo nervoso constituiu o ponto inicial do seu programa de pesquisa.

As primeiras experiências de Pavlov com os cachorros foram simples. Ele segurava um pedaço de pão e o mostrava ao cachorro antes de dá-lo para comer. Com o tempo, o cachorro começava a salivar assim que via o pão. A resposta de salivação do cachorro quando a comida era colocada na sua boca era uma reação natural de reflexo do sistema digestivo e não envolvia a aprendizagem. Pavlov denominou essa reação de reflexo inato ou não-condicionado.

Figura 9.3 - O aparelho de Pavlov para estudar a resposta de salivação condicionada dos cães.

Entretanto a salivação provocada pela visão da comida não era reflexiva, mas devia ser aprendida. Dessa vez, ele chamou a reação de reflexo condicionado (em lugar do termo mentalista anterior "reflexo psíquico") por ser condicional ou dependente da conexão feita pelo cachorro entre a visão da comida e o subsequente ato de comer.

Na tradução do trabalho de Pavlov do russo para o inglês, W. H. Gantt, um discípu­lo estadunidense, usou a palavra "condicionado" em vez de "condicional". Posteriormente, Gantt admitiu arrepender-se da troca. No entanto, reflexo condicionado continua a ser o termo aceito.

Pavlov e os seus auxiliares descobriram que diversos estímulos poderiam produzir a resposta de salivação condicionada nos animais do laboratório, desde que o estímulo fosse capaz de atrair a atenção do animal sem provocar medo ou fúria. Testaram buzinas luzes, apitos, sons, bolhas d'água e o tique-taque dos metrônomos com cães e obtiveram resultados similares.

A meticulosidade e a precisão do programa de pesquisa eram evidenciadas pelo equi­pamento sofisticado criado para coletar a saliva, a qual fluía por um tubo de borracha fixado a um orifício cirúrgico na bochecha do cachorro. Quando cada gota de saliva caía na plataforma instalada em cima de uma mola sensível, esta acionava um marcador sobre uma especie de tambor giratório (veja na Figura 9.3). Esse aparato, que permitia registrar com precisão o número de gotas de saliva e o momento exato em que cada uma caía, é apenas um dos exemplos dos imensos esforços de Pavlov para seguir à risca o método cientifico - em outras palavras, para padronizar as condições experimentais, aplicar con­troles rigorosos e eliminar qualquer fonte de erro.

A Torre do Silêncio. A preocupação de Pavlov em impedir que as influências externas afetassem a confiabilidade da pesquisa era tão grande que ele construiu cubículos espe­ciais, um para o animal e outro para o observador. O pesquisador conseguia manipular os diversos estímulos a serem condicionados, coletar a saliva e mostrar a comida sem ser visto pelo animal.

Mesmo com essas precauções, Pavlov não se sentia totalmente satisfeito. Temia que os estímulos ambientais externos pudessem contaminar os resultados. Com os fundos recebidos de um empresário russo, projetou um prédio de três andares para as pesquisas que ficou conhecido como a "Torre do Silêncio". As janelas possuíam vidros extremamente espessos e as portas das salas eram de chapas de aço duplas que, quando fechadas, impe­diam totalmente a entrada do ar. Vigas de aço reforçadas de areia sustentavam o piso e o predio era circundado por uma vala cheia de palha. Desse modo, qualquer vibração ruído, temperatura extrema, odor e correnteza eram eliminados. Pavlov queria que o único elemento a exercer influência sobre o animal fosse o estímulo a ser condicionado.

O experimento de condicionamento. Vejamos em que consistia o típico experimento de condicionamento de Pavlov. Primeiro, apresentava-se o estímulo condicionado (diga­mos, a luz); nesse exemplo, acendia-se a luz. Imediatamente, o pesquisador apresentava o estimulo incondicionado: a comida. Após certo número de pareamentos da luz acesa e da comida, o animal passava a salivar com a simples visão da luz. Nesse caso, formava-se uma associaçao ou uma ligação entre a luz e a comida, e o animal era condicionado a responder mediante a apresentação do estímulo condicionado. Esse condicionamento ou aprendiza­gem não ocorre, a menos que a luz seja seguida da apresentação de comida um número de
vezes suficiente. Desse modo, o reforço (nesse caso, receber a comida) é necessário para que a aprendizagem ocorra. [246]

Além de estudar a formação das respostas condicionadas, Pavlov e seus assistentes pesquisavam fenômenos relacionados, tais como o reforço, a extinção da resposta, a re­cuperação espontânea, a generalização, a discriminação e o condicionamento de ordem superior. Todos esses tópicos são áreas de pesquisas nos dias de hoje. No todo, o programa experimental de Pavlov consistiu de um trabalho de longa duração e que envolveu mais pessoas do que qualquer outro esforço de pesquisa realizado desde Wundt.

Um Comentário a Respeito de E. B. Twitmyer

Uma curiosa informação histórica envolve outro exemplo de descoberta simultânea indepen­dente. Em 1904, um jovem estadunidense chamado Edwin Burket Twitmyer (1873-1943) ex-aluno de Lightner Witmer, na University of Pennsylvania, apresentou na convenção anual da APA um trabalho baseado na sua dissertação de doutorado, o qual ele havia completado dois anos antes. Esse trabalho abordava o famoso reflexo do joelho. Twitmyer observou que os partici­pantes da sua pesquisa começaram a reagir a estímulos diferentes do estímulo original que era a leve batida com o martelo logo abaixo do joelho. Ele descreveu a reação das pessoas como um tipo de reflexo novo e incomum e sugeriu que esse fosse alvo de mais estudo.

No encontro, ninguém se interessou pelo relatório de Twitmyer. Depois da apresentação, o publico não formulou nenhuma pergunta, e suas descobertas científicas foram ignoradas. Desmotivado, ele não prosseguiu com a pesquisa.

Os historiadores apresentam várias hipóteses para a permanente omissão quanto a Twitmyer. É provável que o Zeitgeist da psicologia estadunidense não estivesse preparado para aceitar a noção reflexo condicionado. Talvez Twitmyer fosse jovem e inexperiente demais, ou não contasse com a habilidade nem com os recursos econômicos necessários para persistir e divulgar as suas ideias. Ou quem sabe fosse apenas questão de inadequação quanto ao momento da apresentação. Twitmyer apresentou o seu trabalho sobre os reflexos um pouco antes do horário do almoço, como parte de uma série de trabalhos em uma sessão presidida por William James. A conferencia já estava atrasada, e James (talvez com fome ou entediado) suspendeu a sessão sem deixar muito tempo para os comentários depois da apresentação de Twitmyer.

De tempos em tempos, os historiadores ressuscitam essa trágica história do cientista que poderia ter ficado famoso por conta de uma das descobertas mais importantes de toda a psicologia. "Certamente Twitmyer deve ter remoído durante boa parte da sua vida essa constatação, a consciência do que esse seu legado teria representado para a psicologia (Benjamin, 1987, p. 1.119)

Outro precursor relativamente desconhecido do trabalho de Pavlov foi Alois Kreidl biologista austríaco que demonstrou os princípios básicos do condicionamento em 1896, antecedendo o relatorio de Twitmyer em cerca de oito anos. Kreidl constatou que o peixe ornamental aprendia  a atencipar o momento de receber a comida com base no estímulo associado ao caminhar do assistente do laboratório em direção ao aquário. E concluiu que [248] os peixes avistavam o tratador se aproximando "e ficavam alertas por causa das vibrações provocadas na água pelos seus [passos]" {apudlogan, 2002, p. 397). No entanto, o principal interesse de Kreidl estava no processo da sensação e não no condicionamento ou na apren­dizagem, por isso essas descobertas não tiveram repercussão na comunidade científica.

Comentários

Pavlov demonstrou que os processos mentais superiores dos animais observados eram passíveis de descrição em termos fisiológicos, sem qualquer referência à consciência. Seus métodos de condicionamento tiveram ampla aplicação prática em áreas como a terapia do comportamento. Joseph Wolpe (1915-1997), fundador da terapia comportamental, decla­rou que os princípios do condicionamento elaborados por Pavlov foram fundamentais para o desenvolvimento dos seus métodos (Wolpe e Plaud, 1997). A pesquisa de Pavlov também influenciou na mudança do enfoque da psicologia em direção a uma maior obje­tividade tanto do objeto de estudo como dos métodos empregados, além de ter reforçado a propensão às aplicações práticas e funcionais.

Pavlov deu continuidade à tradição do mecanicismo e do atomismo, visões que moldaram a nova psicologia desde o início. Para ele, todos os animais, fossem cães de laboratório, ou seres humanos, não passavam de máquinas – complicadas, reconhecia, —mas, como relatou um historiador, acreditava serem "tão submissos e obedientes como qualquer máquina" (Mazlish, 1993, p. 124).

As técnicas de condicionamento de Pavlov proporcionaram à psicologia um elemento básico do comportamento, possibilitando a redução do comportamento humano complexo a unidades concretas passíveis de estudo para, assim, submetê-las a experiências em con­dições laboratoriais. John B. Watson reconheceu essa unidade de comportamento, a qual passou a ser o ponto fundamental do seu programa de estudo. Pavlov reconheceu que fica­ra satisfeito com o trabalho de Watson e que o crescimento do behaviorismo nos Estados Unidos representava uma confirmação das suas ideias, bem como de seus métodos.

É irônico constatar que a maior influência de Pavlov tenha sido sobre a psicologia, campo que ele não enxergava totalmente com bons olhos. Estava familiarizado com as escolas de pensamento do estruturalismo e do funcionalismo. Também conhecia o traba­lho de William James e concordava com ele em que a psicologia devia envidar esforços para tornar-se uma ciência, mas que ainda não havia atingido esse estágio. Assim, Pavlov excluía a psicologia do seu trabalho científico e chegava a reclamar dos assistentes de labo­ratório que usavam a terminologia da psicologia e não a da fisiologia. Mais tarde, Pavlov reavaliou a sua posição em relação à área e ocasionalmente referia-se a si próprio como um psicólogo experimental. De qualquer modo, a sua visão negativa inicial não impediu os psicólogos de fazerem uso efetivo do seu trabalho.

Em 1997, para comemorar o 100° aniversário da publicação do trabalho Lectures on the work of the principal digestive glands, as revistas American Psychologist e European Psychologist lançaram edições especiais como homenagem a Pavlov pelas suas contribuições. [249]

Vladimir M. Bekhterev (1857 - 1927)

Outra figura importante no desenvolvimento da psicologia animal foi Vladimir Bekhte­rev. Ele ajudou a desviar a área para a observação objetiva do comportamento manifesto, em detrimento das ideias subjetivas. Embora menos conhecido do que Ivan Pavlov, este psiquiatra, neurologista e fisiologista russo foi pioneiro em diversas áreas de pesquisa. Era crítico radical e declarado do governo russo e do czar. Admitiu mulheres e judeus como alunos e colegas em uma época na qual foram excluídos das universidades russas.

Bekhterev recebeu a graduação da St. Peterburg's Military Medical Academy em 1881. Estudou na University of Leipzig, com Wilhelm Wundt, frequentou outros cursos comple­mentares em Berlim e Paris e retornou à Rússia para assumir o cargo de professor de distúr­bios mentais na University of Kazan. Em 1893, foi nomeado titular da cadeira de distúrbios nervosos e mentais da Military Medical Academy onde organizou um hospital para doentes mentais. Em 1907, fundou o Psychoneurological Institute, que hoje leva o seu nome.

Bekhterev e Pavlov tornaram-se inimigos depois que Pavlov publicou uma crítica negativa a respeito dos livros de Bekhterev. A inimizade entre Bekhterev e Pavlov era tão patente que eles chegavam a trocar insultos na rua. Se um cruzasse com o outro em algum congresso, logo iniciavam uma discussão. Formando grupinhos e trocando ofensas entre si, constantemente estavam envolvidos em disputas para ver qual conseguia apontar mais falhas ou fraquezas do outro. Bastava algum aluno de Bekhterev fazer uma apresentação em público para imediatamente ser retaliado por Pavlov, como se fosse um reflexo condicionado. (Ljunggren, 1990, p. 60)

Em 1927, 10 anos depois de a Revolução Bolchevique derrubar o czar, Bekhterev foi convocado a ir a Moscou para tratar de Joseph Stalin, que diziam sofrer de depressão. Bekhterev o examinou e informou-lhe o diagnóstico sendo uma paranoia pro­funda. Misteriosamente, Bekhterev morreu naquela mesma tarde. Não foi permitida a realização de autópsia, e o corpo foi rapidamente cremado. Especula-se que Stalin tenha mandado envenenar Bekhterev como vingança por causa do diagnóstico psiquiátrico. Depois, Stalin proibiu a divulgação dos trabalhos de Bekhterev e mandou executar o seu filho (Ljunggren, 1990). Em 1952, um ano depois da morte de Stalin, o governo da União Soviética mandou criar um selo em homenagem a Bekhterev.

Os Reflexos Associados

Enquanto a pesquisa de Pavlov sobre o condicionamento concentrava-se quase exclusiva­mente nas secreções glandulares, o interesse de Bekhterev estava na resposta motora con­dicionada. Em outras palavras, Bekhterev aplicava os princípios de Pavlov nos músculos. Bekhterev basicamente descobriu os reflexos associados, constatados mediante a análise das respostas motoras. Verificou que os movimentos de reflexo, quando uma pessoa afasta o dedo de um objeto ao receber um choque elétrico, por exemplo, eram provocados não apenas pelo estímulo não-condicionado (o choque elétrico), como também pelo estímulo que se associara ao estímulo original. Outro exemplo: o som de uma buzina no momento do choque logo produziria por si só o afastamento do dedo. [250] 

Os associacionistas explicavam essas conexões com base nos processos mentais; no entanto, Bekhterev considerava as reações como reflexas. Acreditava na mesma explicação para o comportamento de nível superior e de grande complexidade como um acúmulo ou composto de reflexos motores de nível inferior. Os processos de pensamento eram semelhantes, já que dependiam das ações internas da musculatura envolvida na fala, ideia adotada mais tarde por Watson. Bekhterev defendia a abordagem totalmente objetiva do fenômeno psicológico e repudiava o uso de termos e conceitos mentalistas.

Descreveu suas ideias no livro Objective psychology, publicado em 1907. A obra foi tra­duzida para o alemão e para o francês em 1913, e a terceira edição, publicada em inglês em 1912, foi intitulada General principles of human reflexology. Desde os primeiros trabalhos da psicologia animal, com Romanes e Morgan, observou-se o movimento constante na busca por maior objetividade na metodologia e no objeto de estudo. As primeiras pesquisas da área referiam-se à consciência e aos processos mentais e dependiam de métodos subjetivos de pesquisa. Todavia, mais ou menos no início do sécu­lo XX, a psicologia animal já adotava objetos de estudo e métodos totalmente objetivos. Termos como secreção glandular, respostas condicionadas, atos ou comportamento não deixavam dúvidas de que a psicologia animal havia deixado a subjetividade para trás.

A psicologia animal rapidamente transformara-se em modelo para o behaviorismo, cujo líder, Watson, dava preferência ao uso de animais em vez de seres humanos nas pesquisas psicológicas. Watson fez das descobertas e das técnicas da psicologia animal a base para uma ciência do comportamento aplicável igualmente aos animais e aos seres humanos.

A Influência da Psicologia Funcional no Behaviorismo

Outro antecedente direto do behaviorismo foi o funcionalismo. Embora não fosse uma escola de pensamento totalmente objetiva, a psicologia funcional na época de Watson apresentava mais objetividade do que suas predecessoras. Cattell e outros funcionalistas enfatizavam o comportamento e a objetividade e mostravam-se insatisfeitos em relação à introspecção (veja no Capítulo 8). Mark Arthur May (1891-1977), um estudante de pós-graduação da Columbia University em 1915, lembrou-se da visita de Cattell ao seu laboratório:

May mostrou os equipamentos a Cattell, que ficou impressionado. Entretanto, quando tentou lhe mostrar os relatórios introspectivos obtidos das pessoas envolvidas na pesqui­sa a Cattell, resmungou: Isto não vale nada!" e saiu enfurecido do laboratório. (apud May, 1978, p. 655)

Os psicólogos aplicados não viam muita utilidade na introspecção e na consciên­cia, e suas diversas áreas de especialização constituíam essencialmente uma psicologia funcional objetiva. Mesmo antes de Watson surgir no cenário, os psicólogos funcionais haviam se distanciado da pura psicologia da experiência consciente adotada por Wundt [251] e Titchener. Nos trabalhos escritos e nas palestras, alguns psicólogos funcionalistas eram bastante específicos ao exigir uma psicologia objetiva, ou seja, queriam uma psicologia com enfoque no comportamento, e não na consciência.

Em 1904, na feira mundial realizada em St. Louis, no Missouri, Cattell disse em seu discurso:

Não estou convencido de que a psicologia deva se limitar ao estudo da consciência. (...) A noção amplamente aceita de que não há psicologia sem introspecção é refutada pelo argumento material do fato consumado. Parece-me que a maior parte dos trabalhos de pesquisa realizados por mim ou em meu laboratório é praticamente tão independente da introspecção quanto os estudos realizados na física ou na zoologia. (...) Não vejo razão para que a aplicação do conhecimento sistematizado no controle da natureza humana não possa, no curso do presente século, alcançar resultados proporcionais às aplicações, no século XIX, da ciência física ao mundo material. (Cattell, 1904, p. 179-180, 186)

Watson estava na plateia assistindo ao discurso de Cattell. A semelhança entre a fala de Cattell e a posterior posição pública de Watson é gritante. Um historiador sugeriu que, se Watson era considerado o pai do behaviorismo, Cattell devia ser chamado de avó (Burnham, 1968).

Na década anterior à fundação formal do behaviorismo por Watson, a atmosfera intelectual estadunidense favorecia a ideia de uma psicologia objetiva. Assim, o movimento geral da psicologia estadunidense seguia a direção behaviorista. Robert Woodworth, na Columbia University, disse que os psicólogos estadunidenses estavam "aos poucos introduzindo o behaviorismo (...) já que, a partir de 1904, um percentual cada vez maior de psicólogos expressava a preferência em definir a psicologia como a ciência do comportamento e não como uma tentativa de descrição da consciência" (Woodworth, 1943, p. 28).

Em 1911, Walter Pillsbury, ex-aluno de Titchener, definiu em seu livro a psicologia como a ciência do comportamento. Alegava ser possível dispensar um tratamento objetivo aos seres humanos do mesmo modo que se tratava qualquer outro aspecto do universo físico. Max Meyer publicou um livro intitulado The fundamental laws of human behavior; William McDougall escreveu Psychology: the study of behavior (1912), e Knight Dunlap, psicólogo da Johns Hopkins University, onde Watson estava lecionando, sugeriu que a introspecção fosse eliminada da psicologia.
Naquele mesmo ano, William Montague apresentou um trabalho intitulado “Has psychology lost its mind?" ("A psicologia perdeu a cabeça?") à filial da APA, em Nova York. Montague falava sobre o movimento para descartar o "conceito de mente ou de consciên­cia e substituí-lo pelo conceito de comportamento como o único objeto de estudo da psicologia" (apud Benjamin, 1993, p. 77).

J. R. Angell, da University of Chicago, talvez o psicólogo funcionalista mais progres­sista, anunciava que a psicologia estadunidense estava pronta para tornar-se mais objetiva. Em 1910, comentou que parecia possível o termo "consciência" desaparecer da psicologia da mesma forma que o termo "alma" desaparecera. Três anos mais tarde, um pouco antes da publicação do manifesto behaviorista de Watson, Angell (1913) sugeriu que seria inte­ressante esquecer a consciência e passar a descrever objetivamente os comportamentos humano e animal.

Assim, a ideia de psicologia vista como uma ciência do comportamento começava a ganhar adeptos. A importância de Watson não está em ter sido o primeiro a propor essa ideia, mas em enxergar, talvez mais claramente do que qualquer pessoa, o que a época [252] estava exigindo. Watson foi o principal articulador e agente responsável pela revolução cujos sucesso e inevitabilidade estavam garantidos, pois ela já estava em andamento.

Psicologia - História da Psicologia
1/29/2020 3:31:30 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
O Legado do Funcionalismo - A Psicologia Aplicada

O Desenvolvimento da Psicologia nos Estados Unidos - Vimos que a doutrina da evolução e a psicologia funcional dela derivada rapidamente dominaram os Estados Unidos, perto do final do século passado, e que a psicologia estadunidense foi orientada muito mais pelas idéias de Darwin e Galton do que pelo trabalho de Wundt. Foi um curioso e até paradoxal fenômeno histórico. Wundt treinou boa parte dos membros da primeira geração de psicólogos estadunidenses em sua forma de psicologia, incluindo-se ai Hall, Cattell, Witiner, Scott e Miinsterberg. Contudo, “poucos elementos do sistema de psicologia de Wundt sobreviveram à passagem de retorno pelo Atlântico com os jovens estadunidenses que tinham ido para o exterior” (Blumenthal, 1977, p. 13). Quando voltaram aos Estados Unidos, esse alunos de Wundt, esses novos psicólogos, se puseram a estabelecer uma psicologia que pouco se assemelhava ao que Wundt lhes tinha ensinado. A nova ciência, mais ou menos como uma espécie viva, adaptava-se ao seu novo ambiente.

A psicologia de Wundt e o estruturalismo de Titchener não puderam sobreviver por muito tempo no clima intelectual estadunidense, no Zeitgeist dos EUA, em sua forma original; por isso, transformaram-se no funcionalismo. Eles não eram tipos práticos de psicologia, não tratavam da mente em uso e não podiam ser aplicados às exigências cotidianas e aos problemas da vida. A cultura estadunidense tinha uma orientação prática, pragmática; as pessoas valorizavam o que funcionava. Era necessária uma forma de psicologia utilitária, que arregaçasse as mangas. “Precisamos de uma psicologia usável”, escreveu G. Stanley Hall, o decano da psicologia aplicada estadunidense. “Os pensamentos wundtianos nunca poderão se aclimatar aqui, pois são antipáticos ao espírito e ao temperamento estadunideses” (Hall, 1912, p. 414).

Os psicólogos estadunideses recém-treinados retomaram da Alemanha e, à maneira tipicamente direta e agressiva dos EUA, transformaram a espécie peculiarmente germânica de psicologia. Começaram a estudar não o que a mente é, mas o que faz. Enquanto alguns psicólogos estadunideses — James, Angell e Carr em especial — desenvolviam a abordagem funcionalista em laboratórios acadêmicos, outros a aplicavam em ambientes extra-universitários. Assim, a guinada para um tipo prático de psicologia ocorria ao mesmo tempo que o funcionalismo era fundado como escola distinta de pensamento formal.

Os psicólogos aplicados levaram sua psicologia para o mundo real, para as escolas, fábricas, agências de publicidade, tribunais, clínicas de orientação infantil e centros de saúde mental, e fizeram dela algo funcional em termos de objeto de estudo e de uso. Com isso, modificaram a natureza da psicologia estadunidense tão radicalmente quanto os fundadores acadêmicos do funcionalismo. A literatura profissional da época reflete o seu impacto. Na virada do século, 25% das comunicações de pesquisa publicadas nas revistas psicológicas estadunidenses eram a respeito de psicologia aplicada, e menos de 3% envolviam introspecção (O’Donnell, 1985). As abordagens de Wundt e Titchener, que há tão pouco tempo constituíam a nova psicologia, iam sendo superadas com rapidez por uma psicologia mais nova ainda.

A disciplina desenvolveu-se e prosperou nos Estados Unidos enquanto o país como um todo também passava por esse processo. O vibrante e dinâmico crescimento da psicologia estadunidense no período 1880-1900 é um evento marcante na história da ciência. Em 1880, não havia laboratórios nos EUA; perto de 1895, havia vinte e seis, e eles estavam melhor equipados do que os da Alemanha. Em 1880, não havia revistas estadunidenses de psicologia; em 1895, havia três. Em 1880, os estadunidenses tinham de ir à Alemanha para estudar psicologia; em 1900, eles tinham programas de graduação em casa. Por volta de 1903, o número de Ph.D.s em psicologia nas universidades estadunidenses só perdia para os conferidos em química, zoologia e física. A publicação britânica Who‘s Who in Science (1913) afirmou que os Estados Unidos lideravam na psicologia, havendo no país um número maior de psicólogos notáveis — oitenta e quatro — do que na Alemanha, na Inglaterra e na França juntas (Jonçich, 1968).

Passados pouco mais de vinte anos do início da psicologia na Europa, os psicólogos estadunidenses assumiram a liderança incontestável do campo. James McKeen Cattell afirmou, em seu discurso de posse na presidência da Associação Psicológica Americana, em 1895, que “o crescimento acadêmico da psicologia na América nos últimos cinco anos é quase sem precedentes... A psicologia é matéria obrigatória do currículo de graduação... e, entre os cursos universitários, a psicologia hoje rivaliza com as outras ciências principais em número de alunos e na quantidade de trabalhos originais realizados” (Cattell, 1896, p. 134).

A psicologia fez sua estréia americana, diante de um público ávido, na Feira Mundial de Chicago de 1893. Num programa que lembrava o Laboratório Antropométrico de Francis Galton na Inglaterra, os psicólogos organizaram exibições de aparelhos de pesquisa e um laboratório de testes em que, mediante uma taxa, os visitantes podiam ter suas capacidades medidas. Uma exibição mais ampla foi feita na Exposição de Compras da Louisiana, em St. Louís, Missouri, em 1904. Esse “evento povoado de astros” apresentou conferências dos 175 principais psicólogos da época — E. B. Titchener, de Cornel!; C. Lloyd Morgan, Pierre Janet, G. Stanley Hall e um novo Ph.D. chamado John B. Watson (Benjamin, 1986). Wundt não teria aprovado essa popularização da psicologia, e nada parecido com isso ocorreu na Alemanha. Popularizar a psicologia refletia o temperamento estadunidense, que tinha modificado tão substancialmente a psicologia wundtiana, tornando-a psicologia funcional e estendendo-a bem além do laboratório.

Portanto, os EUA acolheram a psicologia com entusiasmo, e essa disciplina logo se firmou nas aulas das faculdades e na vida cotidiana das pessoas. O seu alcance é hoje bem mais amplo do que os seus fundadores podiam imaginar — ou desejar.

Influências Contextuais sobre a Psicologia Aplicada

O Zeitgeist estadunidense, o espírito intelectual e o temperamento da época, ajudou a promover o surgimento da psicologia aplicada. Mas forças contextuais mais práticas também foram responsáveis pelo seu desenvolvimento. No Capítulo 1, vimos como fatores econômicos afastaram o foco da psicologia estadunidense, da pesquisa pura, para a aplicação. Vimos que, enquanto o número de laboratórios de psicologia crescia perto do final do século XIX, o número de doutores estadunidenses em psícologia crescia numa velocidade três vezes maior. Muitos desses Ph.D.s, em especial os que não dispunham de uma fonte independente de renda, tinham de olhar para além da universidade para sobreviver economicamente.
O psicólogo Harry Hollingworth (1880-1956), por exemplo, não conseguia viver com o salário anual de 1.000 dólares que recebia por suas aulas no Barnard Coilege da cidade de Nova York para complementá-lo, dava aulas em outras universidades e era inspetor de exames por meio dólar a hora. Fazia palestras de psicologia para executivos da área de publicidade e fazia tudo o que considerava capaz de lhe dar condições de ter uma vida dedicada à pesquisa e às atividades acadêmicas. Contudo, descobriu que sua única opção para viver era dedicar-se à psicologia aplicada (Benjamin, Rogers e Roseubaum, 1991).

Hollingworth não foi um caso isolado. Outros pioneiros da psicologia aplicada também foram motivados pela necessidade econômica. Isso não quer dizer que eles não considerassem esse trabalho prático, estimulante e desafiador. A maioria o considerava, além de reconhecer que o comportamento humano e a vida mental podiam ser estudados, em ambientes do mundo real, com a mesma eficácia com que eram estudados nos laboratórios acadêmicos. Deve-se observar que alguns desses psicólogos se empenharam em campos aplicados a partir de um interesse genuíno e de um desejo de trabalhar na área. Permanece contudo o fato de muitos membros da primeira geração de psicólogos aplicados estadunidenses terem sido compelidos a abandonar seus sonhos de pesquisa experimental pura como única alternativa a uma vida de pobreza.

A situação era ainda pior para os que davam aulas nas universidades estaduais, menos dotadas de recursos, do Meio-Oeste e do Oeste, na virada do século. Perto de 1910, um terço dos psicólogos estadunidenses trabalhavam nelas e, com o aumento do número de profissionais nessas condições, cresceram as pressões para que eles se voltassem para problemas práticos e, assim, provassem o valor financeiro da psicologia.
Em 1912, Christian A. Ruckmick fez um levantamento entre os colegas psicólogos e concluiu que a psicologia, apesar de sua popularidade junto aos alunos, não tinha uma boa imagem nas instituições de ensino estadunidenses. Os fundos a ela dedicados e os equipamentos que lhe eram fornecidos eram deficientes, havendo apenas uma pequena esperança de melhoria no futuro (Leary, 1987). A melhor maneira possível de remediar a situação — a fim de aumentar os orçamentos e salários departamentais — era demonstrar aos administradores universitários e legisladores estaduais que a ciência psicológica podia ajudar a curar muitos males sociais. [176]

G. Stanley Hall aconselhou um colega do Meio-Oeste a fazer a influência da psicologia ser sentida ‘fora da universidade, evitando que algum homem ou partido irresponsável, dado ao sensacionalismo, a criticasse no legislativo”. Cattell incitou seus colegas a “fazer aplicações práticas e desenvolveruma profissão de psicologia aplicada” (O’Donnell, 1985, pp. 215,221).

A solução, portanto, era evidente: tomar a psicologia mais valiosa mediante sua aplicação. Mas aplicá-la a quê? Felizmente, a resposta logo se tomou clara: as matrículas nas escolas públicas sofriam um crescimento dramático; entre 1870 e 1915, o número de alunos matriculados elevou-se de sete para vinte milhões. A quantidade de dinheiro gasta na educação pública no período passou de 63 para 605 milhões (Siegel e White, 1982). A educação de repente se tornava um grande negócio e chamou a atenção dos psicólogos.

Hall proclamou em 1894 que “o campo principal e imediato de aplicação da [era a educação” (Leary, 1987, p. 323). Mesmo William James, que não podia ser considerado um psicólogo aplicado, escreveu um livro sobre o uso da psicologia em situações de sala de aula (James, 1899). Perto de 1910, mais de um terço dos psicólogos estadunidenses se mostravam interessados pela aplicação da disciplina a problemas educacionais. Três quartos dos que se intitulavam psicólogos aplicados já trabalhavam na área. A psicologia encontrara o seu lugar no mundo real.

Discutiremos neste capitulo as carreiras e as contribuições de cinco pioneiros no campo da psicologia aplicada; eles estenderam a nova ciência não apenas à educação, mas também aos negócios e à indústria, aos centros de testes, aos tribunais e às clínicas de saúde mental. Esses cinco homens tinham sido treinados em Leipzig por Wilhelm Wundt para se tomarem psicólogos acadêmicos puros; todos, contudo, se afastaram dos ensinamentos do mestre quando iniciaram a carreira em universidades estadunidenses. São exemplos notáveis de como a psicologia estadunidense veio a ser influenciada mais por Darwin e Galton do que por Wundt, e de como a abordagem wundtiana foi reformulada quando do seu transplante para o solo estadunidense.

Depois de examinar a obra desses destacados profissionais, descreveremos os primórdios de três áreas importantes da psicologia aplicada: os testes psicológicos, a psicologia industrial/organizacional e a psicologia clínica.

Granville Stanley Hall (1844-1924)

Embora William James tenha sido o primeiro grande psicólogo estadunidense, o explosivo desenvolvimento da psicologia nos Estados Unidos entre 1880 e 1900 não resultou apenas do seu trabalho. Outra figura notável na história da psicologia estadunidense foi Granville Stanley Hall.
A carreira psicológica de Hall foi uma das mais interessantes e variadas. Hall trabalhava com arroubos de energia e entusiasmo em várias áreas, que logo deixava, entregando os detalhes à investigação de outros. Não foi um fundador do funcionalismo, mas as suas contribuições aos novos campos e atividades da psicologia aplicada tinham um pronunciado sabor funcional.

A psicologia estadunidense tem uma dívida com Hall em virtude da sua notável coleção de primeiros lugares. Foi ele quem recebeu o primeiro grau de doutor em psicologia dos EUA e afirmava ter sido o primeiro aluno estadunidense do primeiro ano do primeiro laboratório de psicologia. (Novos dados da história revelam que ele foi, na verdade, o segundo; ver Benjamin, Acord, Durkin, Link e Vestal, 1992.) Hall deu inicio ao que muitos consideram o primeiro laboratório de psicologia dos Estados Unidos e fundou a primeira revista estadunidense de psicologia. Foi o primeiro presidente da Universidade Clark, o organizador e primeiro presidente da Associação Psicológica Americana e um dos primeiros psicólogos aplicados. [177]

A Vida de Hall

G. Stanley Hall nasceu numa fazenda de Massachusetts e desde cedo desenvolveu urna sucessão de interesses que mais tarde caracterizariam a sua vida. Também era característica sua grande ambição. Aos catorze anos, jurou deixar a fazenda e ‘fazer e ser algo no mundo’... Seu mais intenso medo na adolescência era o da mediocridade” (Ross, 1972, p. 12). Em 1863, ingressou no Williams College. Ao graduar-se, Hall já acumulara várias honrarias e tinha desenvolvido um entusiasmo pela filosofia, pela teoria evolutiva em especial, o que iria influenciar sua carreira na psicologia.

Em 1867, inscreveu-se no Seminário Teológico União, de Nova York, embora não tivesse grande vocação para ministro. Seu interesse pela evolução em nada ajudava, além de ele não se fazer notar por uma ortodoxia religiosa. Diz a história que, quando Hall fez seu sermão de prova diante de professores e alunos, o presidente do Seminário ajoelhou-se e rezou pela sua alma.

A conselho do pregador Heniy Ward Beecher, Hall foi para a Universidade de Bonn, Alemanha, estudar filosofia e teologia. Dali, foi a Berlim, onde fez estudos no campo da fisiologia e da fisica. Essa fase da sua educação foi complementada por interlúdios românticos e pela frequência assídua a cervejarias e teatros, experiências essas que, para um jovem de formação puritana, exigiam coragem. Ele se referiu a sua surpresa e alegria ao ver um dos seus professores de teologia tomando cerveja num domingo. O tempo que Hall permaneceu na Europa foi para ele urna época de liberação.

Voltou para casa em 1871, com vinte e sete anos, nenhum grau e uma grande dívida. Obteve o diploma em teologia e pregou numa igreja rural de Cowdersport, Pensilvânia, por... dez semanas. Depois de ser preceptor por mais de um ano, Hall conseguiu um cargo de professor no Antioch College, de Ohio. Ensinava literatura inglesa, língua e literatura francesa e alemã, e filosofia; servia como bibliotecário, dirigia o coro e pregava na capela. Em 1874, depois de ler Psicologia Fisiológica, de Wundt, teve despertado seu interesse pela nova ciência, o que o deixou meio indeciso sobre sua carreira. Tirou uma licença do Antioch, instalou-se em Cambridge, Massachusetts, e tornou-se instrutor de inglês em Harvard.

Além de dedicar-se ao trabalho monótono e cansativo de ensinar inglês a calouros, Hall estudava e fazia pesquisas na escola médica. Em 1878, apresentou sua dissertação sobre a percepção muscular do espaço e recebeu o primeiro grau em psicologia dos Estados Unidos. Ele chegou a conhecer muito bem William James, mas os dois homens, embora próximos em idade, eram muito distantes em formação e temperamento.
Tão logo se doutorou, Hall foi para a Europa; lá, estudou fisiologia em Berlim e foi aluno de Wundt em Leipzig. A expectativa de trabalhar com Wundt foi, ao que parece, melhor do que a realidade. Embora Hall fosse às palestras do mestre e cumprisse suas obrigações de sujeito do laboratório, suas pesquisas seguiam linhas mais fisiológicas, e sua carreira ulterior demonstra que Wundt, em última análise, teve pouca influência sobre ele. Quando voltou aos EUA em 1880, Hall não tinha perspectiva de emprego; contudo, num espaço de dez anos, tornou-se uma figura de renome nacional.

Hall reconheceu, ao retomar da Alemanha, que a melhor oportunidade de satisfazer a sua ambição estava em aplicar a psicologia à educação. Em 1882, fez uma palestra numa reunião da National Education Association (Associação Nacional de Educação — NEA), em que insistia para que se fizesse do estudo psicológico da criança um componente nuclear da profissão de docente. Ele repetia essa mensagem em todas as oportunidades, e isso logo levou ao primeiro passo de sua rápida saída da obscuridade. O presidente de Harvard o convidou a fazer uma série de palestras sobre educação nas manhãs de sábado. Essas conferências bem [179] recebidas deram a Hall muita publicidade favorável, e um convite para lecionar em tempo parcial na Universidade Johns Hopkins, estabelecida há seis anos como a primeira escola de graduação dos Estados Unidos.

As palestras de Hall foram um grande sucesso e lhe valeram o cargo de professor efetivo da Hopkins em 1884. No tempo que ali passou, Hall deu início ao que costuma ser considerado o primeiro laboratório de psicologia dos EUA (formalmente estabelecido em 1883), que ele chamou do seu “laboratório de psícofisiologia” (Pauly, 1986, p. 30). Foi professor de alguns alunos que se tornariam psicólogos proeminentes, incluindo John Dewey e James McKeen Cattell. Em 1887, Hall fundou a American Journal of Psychology, a primeira revista de psicologia dos Estados Unidos, ainda hoje uma publicação importante. Essa revista servia de plataforma de idéias teóricas e experimentais, e funcionava como eixo de solidariedade e independência para os psicólogos estadunidenses. Numa explosão de entusiasmo, Hall imprimiu uma quantidade excessiva de exemplares do primeiro número; ele e a revista precisaram de cinco anos para cobrir esses custos iniciais.

Em 1888, Hall tomou-se o primeiro presidente da Universidade Clark em Worcester, Massachusetts. Antes de assumir o cargo, fez uma longa viagem para estudar em universidades européias e contratar professores para a sua nova escola. A viagem serviu também a outro propósito. ‘Hall parece ter considerado a viagem uma combinação de Grand Tour e férias remuneradas por trabalhos ainda não começados... ela incluiu algumas paradas totalmente irrelevantes do ponto de vista da tarefa que ele iria realizar, tais como academias militares russas, antigos sítios históricos gregos e o roteiro-padrão de bordéis, circos e curiosidades” (Koelsch,, 1987, p. 21).

Hall desejava fazer de Clark uma universidade nos moldes da Johns Hopkins e das universidades alemãs, com ênfase primordial na pesquisa, e não no ensino. Infelizmente, o fundador — o abastado comerciante Jonas (Bilman Clark — tinha idéias diferentes e não forneceu tanto dinheiro quanto Hall esperava. Com a morte de Clark em 1900, a dotação foi dedicada à fundação de urna faculdade tradicional, a que Hall se opunha, mas que Clark há muito tempo defendia.

Hall tornou a Universidade Clark mais receptiva a mulheres e a grupos minoritários do que a maioria das escolas dos Estados Unidos na época. Embora partilhassem da oposição nacional à co-educação para graduandos, admitia mulheres à graduação. Também teve a incomum iniciativa de encorajar estudantes asiáticos (japoneses em especial) a se inscrever em Clark, e teve o gesto inédito de estimular os afro-americanos a entrar no programa de graduação, O primeiro estadunidense negro a obter um Ph.D. em psicologia, Francis Sumner, estudou com Hall. Hall se recusou a impor restrições à contratação de judeus como professores, numa época em que a maioria das instituições não os contratava (Guthrie, 1976; Sokal, 1990).

Além de presidente, ele era professor de psicologia e deu aulas na graduação por vários anos. Hall ainda encontrou tempo para fundar, às suas próprias custas, em 1891, a revista Pedagogical Seminary (hoje Joumal of Genetíc Psychology), para servir de veículo a pesquisas sobre o estudo das crianças e de psicologia educacional. Em 1915, fundou a Journal of Applied Psychology, elevando o número de revistas psicológicas estadunidenses a dezesseis.

A Associação Psicológica Americana (APA) foi fundada em 1892, principalmente graças aos esforços de Hall. A convite seu, cerca de urna dúzia de psicólogos se reuniram em seu gabinete para planejar a organização e o elegeram o primeiro presidente. Por volta de 1900, o grupo tinha 127 membros. O interesse de Hall pela religião persistiu. Fundou a Journal of Religious Psychology (1904), que só durou uma década. Em 1917, publicou um livro intitulado Jesus, the Christ, at the Light of Psychology (Jesus, o Cristo, à Luz da Psicologia). Sua descrição de Jesus como [180] uma espécie de “super-homem adolescente” não foi bem recebida pela religião oficial (Ross, 1972, p. 418).

A psicologia prosperou em Clark sob a direção de Hall. Durante seus trinta e seis anos ali, foram conferidos oitenta e um doutorados em psicologia. Seus alunos se lembram dos seminários noturnos cansativos, mas estimulantes, realizados às segundas-feiras em sua casa; neles, os doutorandos eram questionados pelos docentes e pelos colegas. No final das reuniões, que duravam até quatro horas, um criado trazia uma gigantesca porção de sorvete.

Os comentários de Hall sobre os textos dos alunos costumavam ser devastadores. ‘Hall resumia as coisas”, lembra-se Lewis Terman, “com uma erudição e uma imaginação fértil que sempre nos espantavam e nos faziam sentir que sua percepção imediata do problema ia imensuravelmente além da do aluno que lhe dedicara vários meses de trabalho intenso.” E quando as sessões terminavam, Terman “sempre ia para casa atordoado e intoxicado, tomava um banho quente para acalmar os nervos e ficava acordado durante horas rememorando a cena e formulando as coisas inteligentes que deveria ter dito e não dissera” (Sokal, 1990, p. 119).

Os graduandos de certo modo adoravam Hall. Um deles se lembrou recentemente da impressão que tinha de Hall há setenta anos. “Hall era um homem de compleição forte, com O laboratório de psicologia de Hall na Universidade Johns Hopkins é considerado o primeiro laboratório dos Estados Unidos. [181] 

Hall foi um dos primeiros estadunidenses a se interessar pela psicanálise, sendo bastante responsável pela atenção que ela logo recebeu nos Estados Unidos. Em 1909, para celebrar o vigésimo aniversário de fundação da Clark, ele convidou Sigmund Freud e Carl Jung para uma série de conferências, um convite corajoso devido à suspeita com que a psicanálise era recebida. Hall também convidou seu ex-professor Wilhelm Wundt, que recusou por causa da idade — e porque ia ser o principal orador no aniversário de 500 anos de sua própria universidade.

Hall continuou a escrever depois da sua aposentadoria em 1920. Faleceu quatro anos mais tarde, poucos meses depois de ser eleito para um segundo mandato como presidente da APA. Depois da sua morte, foi feita uma pesquisa entre os membros da APA para avaliar as contribuições de Hall à psicologia. Dentre as 120 pessoas que responderam, 99 colocaram Hall entre os dez maiores psicólogos do mundo. Muitos louvaram sua capacidade didática, seus esforços para promoção da psicologia e seu desafio à ortodoxia, mas, assim como outros que o conheceram, criticaram suas qualidades pessoais. Ele foi descrito como de difícil trato, não confiável, inescrupuloso, cheio de rodeios e agressivamente voltado para sua autopromoção. William James disse um dia que Hall era a “mais estranha mistura de grandeza e pequenez que eu já vi” (Myers, 1986, p. 18). Mesmo seus críticos, contudo, concordariam com o julgamento da pesquisa da APA: “ levou à produção de mais textos e à realização de mais pesquisas do que quaisquer outros três profissionais da área juntos” (Koelsch, 1987, p. 52).

A Evolução como Estrutura para o Desenvolvimento Humano

Embora Hall tivesse interesse por muitas áreas, seus devaneios intelectuais tinham um único tema orientador: a teoria da evolução. Seu trabalho acerca de uma variedade de tópicos psicológicos era norteado pela convicção de que o desenvolvimento normal da mente envolve uma série de estágios evolutivos. Assim, Hall empregou a teoria da evolução como estrutura para amplas especulações teóricas e aplicadas. Ele contribuiu mais para a psicologia educacional do que para a psicologia experimental, na qual se concentrou somente nas primeiras fases de sua carreira.

Concordando com a importância do método experimental para a psicologia, ele, no entanto, ficava impaciente com suas limitações. Para os objetivos e esforços mais gerais de Hall, o trabalho de laboratório no âmbito da nova psicologia parecia muito restrito.

Chamam-no frequentemente de psicólogo genético, por causa do seu interesse pelo desenvolvimento humano e animal, e pelos problemas correlatos da adaptação. Em Clark, o geneticismo de Hall levou-o ao estudo psicológico da infância, que ele transformou no cerne de sua psicologia. Numa palestra feita na Feira Mundial de Chicago de 1893, ele disse: “Até agora, fomos à Europa buscar a nossa psicologia. A partir deste momento, tomemos uma [182] criança, coloquemo-la em nosso meio e deixemos que os EUA façam sua própria psicologia” (Siegel e White, 1982, p. 253). Hall pretendia aplicar sua psicologia ao funcionamento da criança no mundo real. Como bem observou um ex-aluno seu, “A criança se tornou, por assim dizer, seu laboratório” (Averili, 1990, p. 127).

Em seus estudos sobre a criança, Hall fez amplo uso de questionários, técnica aprendida na Alemanha. Por volta de 1915, ele e seus alunos tinham desenvolvido e usado 194 questionários cobrindo muitos tópicos (White, 1990). Era tão amplo o seu uso de questionários que, por algum tempo, o método esteve associado, nos Estados Unidos, com o nome de Hall, embora a técnica tivesse sido desenvolvida antes por Francis Galton.

Esses primeiros estudos sobre as crianças geraram um grande entusiasmo público, levan do à criação do chamado movimento de estudo da criança. Embora tenha desaparecido em uns poucos anos por causa de pesquisas malfeitas, o movimento serviu para deixar estabelecida a importância, tanto do estudo empírico da criança, como do conceito de desenvolvimento psicológico.

A mais influente obra de Hall é o extenso (cerca de mil e trezentas páginas) livro em dois volumes Adolescence: Its Psychology, and Its Relations to Physiology, Ahthropology, Sociology, Sex, Crime, Religion, and Education (A Adolescência Sua Psicologia e Suas Relações com a Fisiologia, a Antropologia, a Sociologia, o Sexo, o Crime, a Religião e a Educação), publicado em 1904. Essa enciclopédia contém a mais completa sistematização da teoria de recapitulação de Hall, sobre o desenvolvimento psicológico. Ele acreditava que as crianças repetem, em seu desenvolvimento pessoal, a história de vida da raça humana. Quando brincam de índios e caubóis, por exemplo, as crianças repetem ou resumem a história dos seres primitivos. O livro incluía muito material de interesse para psicólogos infantis e educadores, tendo passado por várias reedições, uma delas vinte anos depois de sua publicação inicial.

Adolescence também causou controvérsia porque alguns consideravam haver nele uma excessiva concentração no sexo. Hall foi acusado de lascívia. Numa resenha do livro, o psicólogo E. L. Thorndike escreveu que “os atos e sentimentos, normais e mórbidos, resultantes do sexo são discutidos de um modo sem precedentes na ciência inglesa”. Thorndike foi muito mais critico numa carta a um colega, onde disse que o livro de Hall era “um choque cheio de erros, de masturbação e de Jesus. O homem é um louco” (Ross, 1972, p. 385). Na época, Hall fazia uma série de palestras semanais sobre sexo em Clark. Era um ato escandaloso, embora ele não tivesse permitido a presença de mulheres. Ele acabou por desistir das palestras porque “muita gente de fora se havia infiltrado e alguns até ouviam sub-repticiamente à porta” (Koelsch, 1970, p. 119).
Muitos psicólogos se sentiam incomodados com o entusiasmo de Hall pelo sexo. “Não há como afastar Hall desse maldito sexo?”, escreveu Angell a Titchener. “Eu na verdade acho que é ruim, moral e intelectualmente, tocar tanto a tecla sexual” (Boakes, 1984, p. 163). Eles não precisavam se preocupar; o produtivo e enérgico Hall logo se interessou por outra coisa.

Ao envelhecer, Hall naturalmente se interessou por um estágio ulterior do desenvolvimento: a velhice. Aos setenta e oito anos, publicou o livro em dois volumes Senescence (Senescência), em 1922. Foi a primeira pesquisa de natureza psicológica em larga escala sobre questões geriátricas. Nos últimos anos de vida, ele também escreveu duas autobiografias. Recreations of a Psychologist (Recreações de um Psicólogo), em 1920, e The Life and Confessions of a Psychologist (Vida e Confissões de um Psicólogo), em 1923.

G. Stanley Hall foi um dia apresentado a um auditório como "o Darwin da mente”, uma caracterização que com certeza o agradou e exprimia vividamente suas aspirações e a atitude básica que permeava sua obra. A outro auditório foi apresentado como “a maior autoridade mundial no estudo da criança”. Dizem que ele afirmou que o elogio estava correto (Koelsch, 1987, p. 58). Ao longo de sua vida, manteve-se versátil e ágil. Seu entusiasmo aparentemente [183] ilimitado era ousado, diversificado e não-técnico, e talvez seja essa característica que fez dele uma personalidade tão estimulante e influente.

Em sua segunda autobiografia, Hall escreveu: ‘Toda a minha vida consciente ativa foi formada por uma série de manias ou excessos, alguns fortes, alguns fracos; alguns duradouros... e outros efêmeros” (Hall, 1923, pp. 367-368). Perspicaz observação. Hall era vivaz, agressivo, quixotesco, sempre às turras com os colegas, mas nunca enfadonho. Ele uma vez observou que Wilhelm Wundt preferia ser banal a estar brilhantemente errado. Talvez Hall preferisse estar brilhantemente errado a ser banal.

James McKeen Cattell (1860-1944)

O espírito funcionalista da psicologia estadunidense também foi bem representado na vida e na obra de James McKeen Cattell, que influenciou o movimento em prol de uma abordagem prática e orientada para os testes no estudo dos processos mentais. A psicologia de Cattell voltou-se mais para as capacidades humanas do que para o conteúdo consciente e, nesse aspecto, ele se aproxima muito de um funcionalista. Tal como Hall e William James, ele nunca se associou formalmente com o movimento, mas tipificou o espírito funcionalista estadunidense em sua ênfase nos processos mentais em termos de sua utilidade para o organismo, bem como em seu desenvolvimento de testes mentais, hoje uma área importante da psicologia aplicada.

A Vida de Cattell

Cattell nasceu em Easton, Pensilvânia. Bacharelou-se em 1880 no Lafayette Coliege, presidido pelo pai. Seguindo o costume de ir à Europa fazer estudos de pós-graduação, Cattell passou primeiro pela Universidade de Gõttingen, indo mais tarde para Leipzig estudar com Wilhelm Wundt. Um ensaio filosófico lhe valeu uma bolsa de estudos na Universidade Johns Hopkins em 1882. Na época, seu principal interesse era a filosofia e, no primeiro semestre que passou em Hopkins, não foram oferecidos cursos de psicologia. Ao que parece, Cattell se interessou pela psicologia por causa de suas próprias experiências com drogas. Ele experimentou várias substâncias: haxixe, morfina, ópio, cafeína, tabaco e chocolate. Considerou os resultados interessantes em termos pessoais e profissionais. Algumas drogas, principalmente o haxixe, o deixavam consideravelmente eufórico, reduzindo a depressão que vinha sentindo. Ele também observou os efeitos das drogas no seu funcionamento mental.
“Vi-me fazendo brilhantes descobertas científicas e filosóficas”, confidenciou ele ao seu diário; “meu único medo era não conseguir me lembrar delas pela manhã.” Um mês depois, ele escreveu: “A leitura ficou desinteressante. Continuei a ler sem prestar muita atenção. É preciso um longo tempo para escrever uma palavra. Estou bem confuso” (Sokal, 198 la, pp. 51-52). Mas não estava tão confuso a ponto de deixar de reconhecer a importância psicológica das drogas. Observava o seu próprio comportamento e estado mental com crescente fascínio. “Eu parecia ser duas pessoas”, escreveu, “uma das quais podia observar a outra e até fazer experimentos com ela” (Sokal, 1987, p. 25).

No segundo semestre de Cattell na Johns Hopkins, G. Stanley Hall começou a dar aulas de psicologia, e ele (assim como John Dewey) se inscreveu no curso de laboratório de Hall. Pouco depois, Cattell começou a fazer pesquisas sobre o tempo de reação, que é o tempo necessário para diferentes atividades mentais; esse trabalho reforçou seu desejo de ser psicólogo.

A volta de Cattell a Wundt na Alemanha, em 1883, é objeto de algumas anedotas bem conhecidas na história da psicologia, e servem de exemplos adicionais de como os dados históricos podem ser distorcidos. Supostamente, Cattell apareceu no laboratório da Universidade [184] de Leipzig e anunciou a Wundt, pura e simplesmente: “Herr Professor, o senhor precisa de um assistente; e eu vou ser o seu assistente” (Cattell, 1928, p. 545). Cattell deixou claro para Wundt que escolheria o seu próprio projeto de pesquisa, sobre a psicologia das diferenças individuais, tópico que não era relevante para a psicologia wundtiana. Diz-se que Wundt teria caracterizado Cattell e seu projeto como ganz Amerikanisch (‘tipicamente americanos”), uma observação profética. O interesse pelas diferenças individuais, um corolário natural do ponto de vista evolutivo, foi desde então uma característica da psicologia estadunidense, e não da alemã. [185]

Os métodos de James McKeen Cattell, práticos e voltados para os testes, refletiam o espírito da psicologia funcional estadunidense. Cattell teria dado a Wundt sua primeira máquina de escrever, na qual a maioria dos livros do mestre foram escritos. Por causa desse presente, Cattell foi criticado, jocosamente, por ter “prestado um sério desserviço... ter permitido que Wundt escrevesse duas vezes mais livros do que lhe teria sido possível de outro modo” (Cattell, 1928, p. 545).

Uma cuidadosa e exaustiva pesquisa em arquivos feita pelo historiador Michael M. Sokal, do Instituto Politécnico de Worcester, a respeito das cartas e diários de Catteil, indica que essas histórias são duvidosas. O relato desses eventos por Cattell, escrito muitos anos depois, não é corroborado pela sua correspondência nem por suas anotações no diário à época em que ocorreram. Por exemplo, Sokal (198 la) assinala que Wundt tinha Cattell em alta conta e o nomeou seu assistente de laboratório em 1886. Além disso, não há provas de que Cattell quisesse estudar as diferenças individuais na época. Por último, Cattell fez com que Wundt usasse a máquina de escrever, mas não lhe teria dado uma.

Cattell descobriu que não conseguia praticar satisfatoriamente a introspecção wundtiana. Ele era incapaz de fracionar o tempo de reação em várias atividades, como a da percepção ou da escolha, e questionava a possibilidade de alguém conseguir fazê-lo. Essa atitude não agradava a Wundt; em conseqüência, Cattell fez algumas pesquisas em sua própria sala.

Apesar de suas divergências, Wundt e Cattell concordavam sobre o valor do estudo do tempo de reação. Cattell acreditava que isso tinha utilidade para o estudo das várias operações mentais e para as pesquisas sobre as diferenças individuais. Muitos estudos hoje clássicos sobre o tempo de reação foram realizados por Cattell nos seus três anos em Leipzig, e ele publicou vários artigos sobre o assunto antes de partir.

Tendo obtido o doutorado em 1886, Cattell voltou aos Estados Unidos e foi dar aulas de psicologia no Bryn Mawr Coliege e na Universidade da Pensilvânia. Depois foi trabalhar em Cambridge, Inglaterra, onde conheceu Francis Galton. Os dois tinham interesses e concepções semelhantes acerca das diferenças individuais, e Galton, então no auge da fama, ampliou os horizontes de Cattell. “Galton forneceu a Cattell um objetivo científico — a medida das diferenças psicológicas entre as pessoas” (Sokal, 1987, p. 27). Cattell admirava a versatilidade de Galton e sua ênfase na medição e na estatística. Por isso, Cattell foi mais tarde um dos primeiros psicólogos estadunidenses a acentuar a quantificação, a hierarquização e a atribuição de graus, embora fosse pessoalmente “analfabeto em matemática — somava e subtraía, muitas vezes, com imprecisão” (Sokal, 1987, p. 37). Desenvolveu o método da ordem de mérito (também chamado método de classificação), que é muito usado em psicologia, e foi o primeiro psicólogo a ensinar a análise estatística de resultados experimentais.

Wundt não era favorável ao uso de técnicas estatísticas. Logo, foi a influência de Galton sobre Cattell que levou a nova psicologia estadunidense a se parecer mais com o trabalho de Galton do que com o de Wundt. Isso também explica por que os psicólogos estadunidenses começaram a se concentrar em estudos de grandes grupos de sujeitos, que permitiam comparações estatísticas, e não de sujeitos individuais (a abordagem favorecida por Wundt). O impacto inicial dessa mudança se fez sentir na psicologia educacional, a maioria dos resultados de pesquisas publicada nesse campo, entre 1900 e 1910, envolvia dados estatísticos coletados entre grandes amostragens (Danziger, 1987).

Cattell também foi influenciado pela obra de Galton no campo da eugenia. Cattell defendia a esterilização de delinquentes e de “pessoas imperfeitas”, bem como a concessão de incentivos às pessoas mais inteligentes e saudáveis para que elas se casassem entre si. Ele ofereceu a cada um dos seus sete filhos mil dólares se eles se casassem com filhos ou filhas de professores universitários (Sokal, 1971).

Em 1888, Cattell tornou-se professor de psicologia da Universidade da Pensilvânia, nomeação conseguida pelo seu pai. Sabendo que uma cadeira de filosofia bem-remunerada [186] seria criada na universidade, o velho Cattell agiu junto ao reitor da escola, um velho amigo seu, para garantir o posto para o filho. Ele insistiu para que este publicasse mais artigos a fim de aumentar sua reputação profissional e foi pessoalmente a Leipzig conseguir uma carta de recomendação de Wundt. Disse ao reitor que, como sua família tinha recursos, o salário não importava, o que fez Cattell ser contratado com uma remuneração bem baixa (O’Donnell, 1985). Mais tarde Cattell diria, incorretamente, que foi o primeiro professor de psicologia do mundo, quando sua nomeação na realidade foi para filosofia. Ele ficou na Pensilvânia por apenas três anos, deixando-a para ser professor de psicologia e chefe do departamento na Universidade Colúmbia, onde passou vinte e seis anos.

Motivado pela sua insatisfação com a American Journal of Psychology, fundou com J. Mark Baldwin, em 1894, a Psychological Review. No mesmo ano, Cattell adquiriu de Alexander Graham Bell o semanário Science, que estava prestes a deixar de ser publicado por falta de fundos. Cinco anos mais tarde, Science tornou-se a revista oficial da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS). Em 1906, Cattell iniciou uma série de obras de referência, incluindo American Men of Science e Leaders of Education. Comprou o Popular Science Monthly em 1900; depois de vender o nome em 1915, continuou a publicá-lo como Scientific Monthly. Outro semanário, School and Society, foi fundado em 1915. O fenomenal trabalho de organização e edição tomava muito tempo de Catteil, não sendo surpreendente que declinasse sua produtividade como pesquisador de psicologia.

Durante sua carreira em Colúmbia, esta foi a faculdade estadunidense que conferiu mais doutorados em psicologia. Cattell enfatizava a importância do trabalho independente e concedia aos alunos considerável liberdade em suas pesquisas. Ele acreditava que um professor devia ser independente, tanto da universidade como dos alunos, e, para ilustrar sua afirmação, vivia a sessenta quilômetros do campus, perto da academia militar de West Point. Montou um laboratório e um escritório editorial em casa e só ia à universidade em dias certos da semana. Assim, conseguia evitar as frequentes distrações, comuns à vida acadêmica.

Esse distanciamento foi apenas um dos vários fatores que tornaram tensas suas relações com a administração universitária. Ele exigia uma crescente participação docente nos assuntos universitários, dizendo que muitas decisões cabiam aos professores e não aos administradores. Com esse objetivo, ajudou a fundar a Associação Americana de Professores Universitários (AAUP).

Cattell não era diplomático nos contatos com a administração da Colúmbia. Foi descrito como uma pessoa difícil de conviver, “grosseiro, irrecuperavelmente detestável e carente de decência” (Gruber, 1972, p. 300). Cattell não se pautava pelas regras aceitas da conduta social, preferindo a sátira cortante à persuasão polida em seus ataques à administração.

Em três ocasiões, entre 1910 e 1917, os curadores pensaram em aposentá-lo. O golpe decisivo veio durante a Primeira Guerra Mundial, quando Cattell escreveu duas cartas ao Congresso norte-americano protestando contra a prática de enviar soldados recrutados à frente de batalha. Essa era uma posição impopular para ser adotada mas, caracteristicamente, Cattell não voltou atrás. Foi demitido da Colúmbia em 1917, acusado de deslealdade ao país. Ele processou a universidade por difamação e, embora indenizado em quarenta mil dólares, não recuperou o cargo. Isolou-se dos colegas e passou a escrever panfletos cáusticos sobre a administração universitária. Fez muitas inimizades e viveu amargurado por essa experiência o resto da vida.

Cattell nunca mais voltou à vida acadêmica. Dedicou-se às publicações, à AAAS e a outras sociedades científicas. Seus esforços promocionais como porta-voz da psicologia diante das outras ciências conquistaram para a disciplina uma posição mais importante perante a comunidade científica.

Em 1921, realizou uma de suas maiores ambições: a promoção da psicologia aplicada [187] como negócio. Organizou a Psychological Corporation, cujas ações foram compradas por membros da APA, para prestar serviços psicológicos à indústria, à comunidade psicológica e ao público. Essa organização registrou um considerável crescimento e hoje é um empreendimerito de vulto internacional.

Cattell manteve-se ativo como editor e defensor da psicologia até morrer, em 1944. Sua ascensão extremamente rápida no cenário da psicologia estadunidense merece menção. Aos vinte e oito anos, era professor na Universidade da Pensilvânia; aos trinta e um, chefe de departamento em Colúmbia; aos trinta e cinco, presidente da Associação Psicológica Americana; e, aos quarenta, o primeiro psicólogo eleito para a Academia Nacional de Ciências (NAS).

Os Testes Mentais

Mencionamos os primeiros trabalhos de Cattell sobre o tempo de reação e o seu interesse pelo estudo das diferenças individuais. O alcance dos seus outros trabalhos foi ilustrado em 1914, quando um grupo de alunos seus, que coligia seus artigos originais de pesquisa, descobriu que, além do tempo de reação e das diferenças individuais, havia estudado a leitura e a percepção, a associação, a psicofísica e o método da ordem do mérito. Embora a importância dessas áreas não possa ser negada, Cattell influenciou a psicologia principalmente com seu trabalho aplicado sobre as diferenças individuais e com o desenvolvimento e uso de testes mentais para medir essas diferenças.

Num artigo publicado em 1890, ele cunhou o termo testes mentais, e, em seu período na Universidade da Pensilvânia, administrou uma série desses testes a seus alunos. ‘A psicologia”, escreveu Cattell, “não pode atingir a certeza e a exatidão das ciências físicas se não se apoiar nos alicerces da experimentação e da mensuração. Um passo nessa direção poderia ser dado com a aplicação de uma série de testes mentais e medidas, a um grande número de pessoas” (Cattell, 1890, p. 373). É precisamente isso que ele tentou fazer. Continuou com o programa de testes em Colúmbia e reuniu dados de várias turmas de calouros.

Os tipos de testes usados por Cattell ao tentar medir o alcance e a variabilidade das capacidades humanas diferiam dos testes de inteligência ou de capacidade cognitiva, desenvolvidos mais tarde. Estes últimos usaram tarefas mais complexas de aptidão mental. Os de Cattell eram semelhantes aos de Galton, estando primordialmente voltados para medidas corporais ou sensório-motoras elementares, como a pressão dinamométrica, a taxa de movimento (a rapidez com que a mão pode se mover cinquenta centímetros), a sensação (usando o limiar de dois pontos), a pressão que causa dor (quantidade de pressão na testa necessária para provocar dor), as diferenças apenas perceptiveis para a avaliação de pesos, o tempo de reação a sons, o tempo para denominar cores, a bissecção de uma linha de cinquenta centímetros, a avaliação de um período de tempo de dez segundos, e o número de letras lembradas depois de uma única apresentação.

Por volta de 1901, ele tinha reunido dados suficientes para correlacionar os escores dos testes com medidas do desempenho acadêmico dos alunos. As correlações se mostraram desapontadoramente baixas, o mesmo ocorrendo com as intercorrelações dos testes individuais. Como resultados semelhantes tinham sido obtidos no laboratório de E. B. Titchener, Cattell concluiu que testes desse tipo não serviam para prever o desempenho acadêmico ou, por pressuposição, a capacidade intelectual.

Em 1905, o psicólogo francês Alfred Binet, em colaboração com Victor Henri e Théo dore Simon, desenvolveu um teste de inteligência usando medidas mais complexas de capacidades mentais superiores. Essa abordagem ofereceu o que foi considerado uma medida eficiente de inteligência e marcou o começo do fenomenal desenvolvimento dos testes de inteligência.

Apesar do seu fracasso em medir as aptidões mentais, a influência de Cattell no movimento [188] dos testes mentais foi grande. Seu aluno E. L. Thorndike tornou-se líder da psicologia dos testes mentais e, durante anos, a Universidade Columbia foi o centro do movimento. A partir da obra de Galton, Cattell empreendeu uma série de estudos para investigar a natureza e a origem da aptidão científica, usando sua técnica da ordem do mérito. Estímulos classificados por alguns juizes eram colocados numa ordem hierárquica final mediante o cálculo da média atribuida a cada item de estímulo, O método foi aplicado a eminentes cientistas estadunidenses, pedindo-se a pessoas competentes em cada campo científico que classificassem hierarquicamente alguns dos seus colegas mais notáveis. O importante livro de referência American Men of Science veio desse trabalho. A edição de 1910 inclui dezenove psicólogas, cerca de 10% do total geral de psicólogos (O’Donnell, 1985).

O impacto de Cattell sobre a psicologia estadunidense não veio do desenvolvimento de um sistema de psicologia — ele tinha pouca paciência com teorias — nem de uma impressionante lista de publicações. Sua influência veio principalmente do seu trabalho como organizador, executivo e administrador da ciência e da prática psicológicas, e como elo de ligação entre a psicologia e a comunidade científica mais ampla. Cattell tornou-se um embaixador da psicologia, fazendo palestras, editando publicações e promovendo as aplicações práticas do campo.

Ele também contribuiu para o desenvolvimento da psicologia através dos seus discípulos. Durante os seus anos em Colúmbia, treinou, como observamos, mais alunos de psicologia do que qualquer outro nos Estados Unidos, e vários deles, incluindo Robert Woodworth e E. L. Thorndike, alcançaram grande destaque no campo. Mediante seu trabalho com os testes mentais, a medição de diferenças individuais e a promoção da psicologia aplicada, Cattell revigorou energicamente o movimento funcionalista na psicologia estadunidense. Quando ele morreu, o historiador E. G. Boring escreveu a um de seus filhos: ‘Na minha opinião, seu pai fez mais até mesmo que William James para dar à psicologia estadunidense sua fisionomia peculiar, para torná-la distinta da psicologia alemã da qual decorreu” (Bjork, 1983, p. 105).

Lightner Witmer (1867-1956)

Enquanto Hall modificava para sempre a natureza da psicologia estadunidense ao aplicá-la à criança e à sala de aula, e enquanto Cattell aplicava a psicologia à medição de aptidões mentais, um aluno seu e de Wundt a aplicava à avaliação e ao tratamento de certos tipos de comportamento anormal. Apenas dezessete anos depois de Wundt ter fundado a nova ciência da psicologia, outro dos seus ex-alunos a estava usando de uma maneira prática, incompatível com as intenções do mestre. Em 1896, Lightner Witmer, que substituira Cattell na Universidade da Pensilvânia e insistia que sua sala de aula fosse mantida na temperatura de vinte graus, abriu a primeira clínica psicológica, fundando o campo por ele denominado psicologia clínica.

Witmer ofereceu o primeiro curso universitário na nova área e fundou a primeira revista, Psychological Clinic, que editou durante vinte e nove anos. Foi um dos pioneiros da abordagem funcionalista que acreditava dever a nova ciência ser usada para ajudar as pessoas a resolver problemas, e não para estudar o conteúdo de sua mente.

É importante observar que o que Witmer praticava em sua clínica psicológica não era a psicologia clínica que hoje conhecemos. Veremos que o seu trabalho estava voltado para a avaliação e o tratamento de problemas comportamentais e de aprendizagem de crianças em idade escolar, uma área aplicada hoje chamada de psicologia escolar. A moderna psicologia clínica cuida de uma gama mais ampla de desordens psicológicas, das brandas às graves, em pessoas de todas as idades. Embora Witmer tenha sido fundamental para o desenvolvimento da psicologia clínica, e tenha usado esse rótulo livremente, o campo ampliou-se bem além do que ele imaginara. [189]

A Vida de Witmer

Lightner Witmer nasceu em 1867 em Filadélfia, Pensivânica. Era filho de um próspero farmacêutico que inculcou nos três filhos a importância da educação. O irmão e a irmã de Witmer se formaram em medicina, e ele doutorou-se com Wilhelm Wundt em Leipzig. Sempre um aluno excelente, Witmer primeiro freqüentou uma escola particular e, em 1884, ingressou na Universidade da Pensilvânia. Depois da graduação, ensinou história e inglês numa escola particular de Filadélfia antes de matricular-se em cursos de direito na Universidade da Pensilvânia.

Aparentemente sem intenção de fazer carreira em psicologia, ele freqüentava as aulas de psicologia experimental de Cattell, por razões que permanecem obscuras, e tornou-se assistente de ensino do departamento de psicologia. Witmer começou a fazer pesquisas sobre as diferenças individuais quanto ao tempo de reação sob a orientação de Cattell, esperando conseguir seu Ph.D. na Pensilvânia. Cattell tinha outros planos. Ele tinha Witmer em tão alta conta que o escolheu como sucessor quando foi para a Universidade Colúmbia. Era uma oportunidade ímpar para o jovem, mas Cattell impôs uma condição: Witmer teria de ir para Leipzig doutorar-se com Wundt. O prestígio de um Ph.D. alemão ainda era fundamental, e Witmer concordou.

Ele estudou com Wundt e com Oswald Külpe; um dos seus colegas, recém-chegado da Inglaterra, foi E. B. Titchener. Witmer não se impressionou com a abordagem wundtiana de pesquisa, tendo mais tarde comentado que a única coisa que conseguiu com a experiência de Leipzig foi o grau. Wundt se recusou a permitir que Witmer prosseguisse com o trabalho sobre o tempo de reação que ele iniciara com Cattell, e o obrigou a fazer pesquisas introspectivas tradicionais sobre conteúdos conscientes.

Witmer criticava o que chamava de “métodos displicentes de pesquisa” usados por Wundt, descrevendo como este fizera Titchener repetir uma pesquisa... porque os resultados obtidos por ele não eram os que Wundt tinha esperado. Do mesmo modo, ele me excluiu como sujeito... porque, em sua opinião, minha reação sensorial ao som e ao toque era breve demais para ser uma verdadeira reação sensorial” (O’Donnell, 1985, p. 35).
Mesmo assim, Witmer recebeu seu grau e voltou para ocupar seu novo cargo na Universidade da Pensilvânia no verão de 1892, o mesmo ano em que Titchener obteve o seu e foi para Cornell, e em que outro aluno de Wundt, Hugo Münsterberg, era levado para Harvard por William James. Também nesse ano, Hall deu inicio à Associação Psicológica Americana, tendo Witmer como um dos seus membros fundadores. Foi a época em que os espíritos funcionalista e aplicado começaram a tomar conta da psicologia estadunidense.

Nos dois anos seguintes, Witmer trabalhou como psicólogo experimental, fazendo pesquisas e apresentando artigos sobre as diferenças individuais e a psicologia da dor. Enquanto isso, no entanto, ele buscava meios de aplicar a psicologia ao comportamento anormal. O impulso para fazê-lo veio num certo dia de março de 1896, como resultado de um incidente que se originou nas circunstâncias econômicas antes mencionadas — a verba disponível para o campo da educação pública, que estava em franca expansão.

Muitos conselhos estaduais de educação estavam estabelecendo departamentos de pedagogia (instrução nos princípios e métodos de ensino) em seus colégios e universidades, e os psicólogos estavam sendo chamados a dar cursos para um número crescente de profissionais que se especializavam em educação, bem como para professores públicos em busca de títulos mais elevados de graduação. Também se pedia aos psicólogos que deixassem a pesquisa em laboratório e descobrissem maneiras de treinar alunos para se tornarem psicólogos educacionais. Os departamentos de psicologia se beneficiaram muito desse súbito influxo de alunos, já que, então como agora, os orçamentos departamentais dependiam do número de matrículas. [190]

A Universidade da Pensilvânia estabeleceu cursos para professores públicos em 1894, ficando Witmer responsável por alguns deles. Dois anos mais tarde, uma aluna, Margaret Maguire, consultou Witmer sobre os problemas que tinha com um dos seus alunos, um garoto de catorze anos que estava encontrando dificuldades para aprender a soletrar, embora estivesse indo bem em algumas outras matérias. Poderiam os psicólogos ajudar a resolver esse problema? “Pareceu-me”, escreveu Witmer, “que se a psicologia valesse alguma coisa para mim ou para os outros, ela teria de ser capaz de servir a um caso de retardamento dessa espécie” (McReynolds, 1987, p. 853). Montou uma clínica incipiente e assim começou o trabalho de sua vida.

Dentro de poucos meses, Witmer estava preparando cursos sobre métodos de tratamento de crianças com distúrbios mentais, cegas e com outros problemas, e publicou um artigo sobre o assunto, intitulado “O Trabalho Prático em Psicologia”, na revista Pediatrics. Apresentou uma comunicação sobre o tópico na reunião anual da APA, e foi ali que usou o termo psicologia clínica pela primeira vez. Em 1907, fundou a revista Psychological Clinic, que foi a primeira, e por muitos anos a única, no campo. No seu primeiro número, Witmer propôs uma nova aplicaçâo da psicologia — na verdade, uma nova profissão — a ser chamada psicologia clínica. No ano seguinte, fundou um internato para crianças retardadas e perturbadas, e, em 1909, sua clínica universitária expandiu-se e tornou-se uma unidade administrativa independente.

Witmer ficou na Universidade da Pensilvânia durante toda sua vida profissional, lecionando, promovendo e praticando sua psicologia clínica. Aposentou-se em 1937, vindo a morrer em 1956, aos 89 anos — o último do pequeno grupo de psicólogos que se reunira em 1892 no gabinete de G. Stanley Hall para fundar a Associação Psicológica Americana.

A Clínica Psicológica

Na qualidade de primeiro psicólogo clínico do mundo, Witmer não tinha exemplos, nem precedentes, em que basear suas ações, e desenvolveu seus próprios métodos de diagnóstico e tratamento no transcorrer do próprio trabalho. Com seu primeiro caso, o garoto que tinha problemas de soletração, Witmer examinou o nível de inteligância, o raciocínio e a capacidade de leitura do menino e concluiu que esta última era deficiente. Depois de análises exaustivas que duraram muitas horas, Witmer concluiu que o menino sofria daquilo que ele denominou amnésia visual verbal. Embora pudesse lembrar-se de figuras geométricas, ele tinha problemas para se lembrar de palavras. Witmer desenvolveu um programa paliativo intensivo que produziu alguma melhoria, mas o garoto nunca conseguiu dominar a leitura ou a ortografia.

Os professores enviaram à nova clínica de Witmer muitas outras crianças portadoras de um amplo espectro de deficiâncias e problemas, entre os quais hiperatividade, várias deficiências de aprendizagem e desenvolvimento motor ou verbal inadequado. Conforme se tornava cada vez mais experiente, Witmer pôde desenvolver programas-padrão de avaliação e tratamento, e, além de admitir médicos e assistentes sociais para a clínica, contratou mais psicólogos.

Witmer reconhecia que problemas médicos podem interferir no funcionamento psicológico, razão por que submetia as crianças a um exame clínico para determinar se a subnutrição ou defeitos visuais e auditivos contribuíam para as suas dificuldades. Os pacientes eram testados e entrevistados amplamente por psicólogos; ao mesmo tempo, os assistentes sociais preparavam históricos de caso acerca de sua situação familiar.

A princípio, Witmer acreditava que os fatores genéticos eram amplamente responsáveis por muitos dos distúrbios de comportamento e déficits cognitivos que via; mais tarde, porém, com o aumento da sua experiância clínica, percebeu que os fatores ambientais eram mais importantes. Ele enfatizou a necessidade de oferecer, ainda em tenra infância, uma variedade [191] de experiências sensoriais à criança, antecipando os programas de enriquecimento Head Start de tempos mais recentes. Ele também acreditava na intervenção direta na vida dos pacientes e da sua família, alegando que, se as condições em casa e na escola fossem melhoradas, o comportamento da criança também melhoraria.

O desenvolvimento na educação pública ofereceu à nova psicologia amplas oportunidades - e generosas recompensas — a quem tirasse seus métodos e descobertas do laboratório acadêmico. O exemplo de Witmer foi seguido e ampliado por muitos outros psicólogos. Por volta de 1914, havia quase vinte clínicas psicológicas em operação nos Estados Unidos, a maioria das quais inspirada na de Witmer. Além disso, os alunos que ele treinara divulgaram a sua abordagem, ensinando à geração seguinte de estudantes o trabalho clínico.

Witmer também foi influente na área da educação especial, treinando muitos dos primeiros profissionais desse campo. Um dos seus alunos, Morris Viteles, ampliou o trabalho de Witmer ao fundar, em 1920, uma clínica dedicada à orientação vocacional, a primeira dos Estados Unidos. Outros incluíram adultos no trabalho clínico. Além disso, abordagens mais novas de psicoterapia, desenvolvidas por Sigmund Freud e seus seguidores, fizeram com que o campo crescesse consideraveimente além de suas origens. Esse desenvolvimento, que ocorre naturalmente em todos os campos, de forma alguma reduz a importância de Lightner Witmer em termos da elaboração e evolução da psicologia clínica.

Waiter Dill Scott (1869-1955)

Outro aluno de Wundt, Walter Dill Scott, deixou o mundo da psicologia introspectiva pura que aprendera em Leipzig para aplicar a nova ciência à publicidade e aos negócios. Jogador universitário de rúgbi e quase missionário, Scott dedicou boa parte da sua vida adulta a tornar o mercado e o ambiente de trabalho mais eficientes e a determinar como os lideres empresariais poderiam motivar os empregados e consumidores.
A obra de Scott reflete a crescente preocupação da psicologia funcional com o lado prático das coisas. “Ao retornar da Leipzig de Wundt para a Chicago da virada do século, Scott fez suas publicações passarem da teorização germânica à utilidade prática estadunidense. Em vez de explicar as motivações e impulsos em geral, Scott descrevia como influenciar pessoas, incluindo consumidores, públicos de palestras e trabalhadores” (Von Mayrhauser, 1989, p. 61).
Scott reuniu um impressionante número de primeiros lugares. Foi o primeiro a aplicar a psicologia à publicidade e à seleção e administração de pessoal, o primeiro a ostentar o título de professor de psicologia aplicada, o fundador da primeira empresa de consultoria psicológica e o primeiro psicólogo a receber a Distinguished Service Medal, uma condecoração do Exército dos Estados Unidos.

A Vida de Scott

Walter Dill Scott nasceu numa fazenda em Illinois, no ano de 1869. Ele começou a se dedicar à idéia do aumento da eficiência aos doze anos quando atava o campo. Como seu pai ficava doente com freqüência, o garoto basicamente dirigia a pequena fazenda familiar. Um dia, ele fez uma pausa no final de um sulco para deixar os dois cavalos descansar. Contemplando os edifícios da Universidade Normal Estadual de Illinois, a distância, ele percebeu de repente que, se quisesse conseguir alguma coisa, tinha de parar de perder tempo. E ali estava ele, perdendo dez minutos de cada hora para deixar os cavalos descansar! Isso equivalia a mais ou menos uma hora e meia por dia, tempo que ele podia usar lendo e estudando. A partir daquele dia, Scott sempre levava ao menos um livro consigo e lia em todos os momentos de folga.

Para pagar os estudos, ele colhia e enlatava amoras, vendia ferro-velho e aceitava [192] empregos estranhos. Guardava parte do dinheiro e, com o resto, comprava livros. Aos dezenove anos, inscreveu-se na universidade e iniciou sua longa jornada para longe da fazenda. Dois anos depois, conseguiu uma bolsa para a Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois, onde aceitou empregos de preceptor para ganhar um dinheiro extra, jogou rúgbi, conheceu a mulher com quem iria se casar e decidiu ser missionário na China.

Essa carreira, contudo, significaria mais três anos de estudo e, quando se graduou num seminário teológico de Chicago e estava pronto para ir para a China, Scott descobriu que não havia vagas; a China estava cheia. Foi então que pensou numa carreira em psicologia. Havia feito um curso na área e gostara. E já tinha lido artigos em revistas sobre a nova ciência e o laboratório que Wundt instalara em Leipzig. Graças às suas bolsas, atividades de preceptor e vida frugal, Scott economizara vários milhares de dólares, o suficiente não apenas para ir à Alemanha como para casar-se.

Em 21 de julho de 1898, Scott e sua noiva partiram. Enquanto ele estudava com Wundt em Leipzig, a senhora Scott fazia seu Ph.D. em literatura na Universidade de Halie, a trinta quilômetros de distância. Eles só se viam nos fins de semana. Os dois se doutoraram dois anos depois e voltaram para casa, onde Scott foi dar aulas na Universidade Northwestern na área de psicologia e pedagogia. Ele já estava sob a influência da tendência de aplicar psicologia a problemas da educação.

Sua passagem para um campo novo e distinto de aplicação ocorreu em 1902, quando um líder na área da publicidade procurou Scott, que fora recomendado por um ex-professor, e lhe pediu para aplicar princípios psicológicos à publicidade a fim de torná-la mais eficaz.

Ele ficou muito interessado na idéia. Na melhor tradição do espírito do funcionalismo estadunidense, ele já se afastara da psicologia wundtiana e buscava um modo de tornar a psicologia mais aplicável a preocupações do mundo real. E tinha agora a sua chance.

Scott escreveu The Theory and Practice of Advertising (Teoria e Prática da Publicidade), o primeiro livro sobre o tópico, seguido por uma torrente de artigos em revistas e livros, publicados à medida que sua experiência, sua reputação e seus contatos com a comunidade empresarial se ampliavam. Depois, voltou sua atenção para os problemas de seleção e administração de pessoal. Em 1905, passou de instrutor a professor na Northwestern e, em 1909, assumiu o cargo de professor de publicidade na escola de comércio da universidade. Em 1916, foi nomeado professor de psicologia aplicada e diretor da divisão de pesquisa de vendas na Universidade Técnica Carnegie, de Pittsburgh.

Em 1917, quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra, Scott ofereceu seus préstimos ao exército para ajudar na seleção de pessoal militar. No início, ele e suas propostas não foram bem recebidos; nem todos estavam convencidos do valor prático da psicologia. Além disso, o general com quem Scott falou desconfiava de professores, tendo quase explodido de raiva. "Ele disse que sua função era fazer com que os professores universitários não se pusessem no caminho do progresso, que estávamos em guerra com a Alemanha e que ele não tinha tempo para brincar com experiências; disse ainda que muitas pessoas achavam que o exército era um grande cachorro no qual aplicar experimentos, e que ele faria o que fosse preciso para nenhum professor universitário consegui-lo” (Von Mayrhauser, 1989, p. 65). Scott acalmou o irado oficial, levou-o para almoçar e o persuadiu do valor de suas técnicas de seleção. Perto do final da guerra, ele provou que tinha razão e terminou por receber do exército a mais importante medalha concedida a civis.

Em 1919, fundou sua própria empresa (chamada, imaginativamente, The Scott Company), que fornecia serviços de consultoria a mais de quarenta empresas importantes nos setores de seleção de pessoal e métodos de aumento da eficiência do trabalhador. No ano seguinte, ele se tomou presidente da Northwestern, tendo se aposentado em 1939. [193]

Publicidade e Seleção de Pessoal

As marcas deixadas pelo treinamento em psicologia experimental wundtiana e sua tentativa de estendê-la ao domínio prático são dois traços evidentes nos primeiros escritos de Scott sobre a publicidade. Ele escreveu, por exemplo, que os órgãos dos sentidos eram as janelas da alma. Quanto maior o número de sensações que recebemos de um objeto, tanto melhor o conhecemos. A função do sistema nervoso é nos tornar conscientes das visões, sons, sensações, sabores, etc. dos objetos do nosso ambiente. O sistema nervoso que não responde ao som ou a qualquer outra qualidade sensível é deficiente. Consideram-se os anúncios, por vezes, o sistema nervoso do mundo dos negócios. O anúncio de instrumentos musicais que não contenha nada que desperte imagens de som é um anúncio deficiente... Assim como o nosso sistema nervoso é organizado para nos fornecer todas as sensações possíveis de qualquer objeto, assim também o anúncio, que é comparável ao sistema nervoso, deve despertar no leitor tantos tipos distintos de imagens quantos sejam os que o próprio objeto pode suscitar (Jacobson, 1951, p. 75).

Scott afirmava que os consumidores são não-racionais e facilmente influenciáveis, e concentrou-se na emoção e na simpatia como fatores importantes para o despertar dessa sugestionabilidade. Ele também acreditava, como era comum na época, que as mulheres eram mais facilmente influenciadas do que os homens por anúncios que jogavam com as emoções e os sentimentos. Aplicando o que denominou a lei da sugestionabilidade à publicidade, ele recomendava que as empresas usassem ordens diretas — tais como “Use o Sabão X” — para vender seus produtos. Scott também promoveu o uso de cupom porque estes exigiam uma ação específica e direta dos consumidores, que tinham de destacar o cupom da revista ou jornal, preenchê-lo e enviá-lo para receber uma amostra grátis. Essas duas técnicas — as ordem diretas e o envio de cupom — foram rapidamente adotadas pelos publicitários e, por volta de 1910, já eram uma estratégia generalizada (Kuna, 1976).

Para o seu trabalho em seleção de pessoal, com vendedores, executivos e militares em particular, Scott desenvolveu escalas de avaliação e testes de grupo para medir as características de pessoas já bem-sucedidas nessas ocupações. Assim como fora com Witmer na psicologia clínica, não havia trabalhos precedentes nos quais Scott pudesse basear sua abordagem, tendo ele mesmo de desenvolvê-la. Ele pedia a oficiais superiores e a supervisores que fizessem listas dos seus subordinados e os classificassem segundo categorias de aparência, comportamento, sinceridade, produtividade, caráter e valor para a instituição/organização. Os candidatos eram hierarquizados com base nas qualidades consideradas necessárias ao bom desempenho do trabalho em questão, um procedimento não muito diferente do empregado hoje.

Scott concebeu testes psicológicos para avaliar a inteligência e outras capacidades, mas, em vez de julgar cada candidato individualmente, como era prática corrente, elaborou testes passíveis de aplicação a grupos. O mundo dos negócios e a corporação militar exigiam a rápida avaliação de grande número de candidatos, e era mais eficaz e barato testá-los em grupo.

Os testes de Scott diferiam dos desenvolvidos por Cattell e outros por mais razões ainda. Ele não tentava avaliar a natureza da inteligência geral da pessoa como um conteúdo ou faculdade; o que lhe interessava era o modo como a pessoa usava sua inteligência. Em outras palavras, ele queria medir o funcionamento da inteligência num ambiente real. Para ele, a inteligência não se defenia em termos de capacidades cognitivas específicas, mas em termos práticos como julgamento, rapidez e precisão — as características necessárias à boa realização de um trabalho. O seu interesse se restringia à comparação entre os índices alcançados pelos candidatos e os índices de funcionários já bem-sucedidos no trabalho; não era sua intenção [194] determinar o que esses índices poderiam representar em termos de conteúdo mental. Essa abordagem prática dos testes tipificou o homem e toda a sua obra.

Tal como Witmer, Scott só tem recebido uma atenção passageira por parte da história da psicologia. Várias razões explicam esse relativo desdém. Como a maioria dos psicólogos aplicados, Scott não formulou teorias, não fundou uma escola de pensamento, não treinou um grupo leal de alunos para dar prosseguimento ao seu trabalho, fez poucas pesquisas acadêmicas e raramente publicava nas revistas dominantes da época. Seu trabalho para corporações privadas e para os militares era estritamente prático, voltado para atender as necessidades do cliente. Além disso, muitos psicólogos acadêmicos, particularmente aqueles detentores de posições de destaque em universidades importantes e que contavam com generosas verbas para seus laboratórios, tendiam a menosprezar o trabalho dos psicólogos aplicados, acreditando que ele não contribuiria para o progresso da psicologia como ciência.

Scott e outros psicólogos aplicados contestavam essa posição. Para eles, não havia conflito entre as aplicações utilitárias e o progresso da ciência. Na verdade, eles acreditavam que “o progresso empírico da psicologia dependia muito dos resultados da experiência extra acadêmica” (Von Mayrhauser, 1989, p. 63). Os psicólogos aplicados alegavam que a divulgação da psicologia para um público maior demonstrava o seu valor, o que, por sua vez, aumentava o reconhecimento da importáncia da pesquisa psicológica nas universidades. Logo, os primeiros psicólogos aplicados estavam refletindo o legado e o impacto do espírito funcionalista na psicologia estadunidense, tentando torná-la uma ciência útil.

Hugo Münsterberg (1863-1916)

Hugo Münsterberg, o professor alemão típico, foi por algum tempo um sucesso fenomenal na psicologia estadunidense e o psicólogo mais conhecido do público. Escreveu centenas de artigos para revistas populares e mais de vinte livros. Era um visitante freqüente da Casa Branca, convidado de dois presidentes, Theodore Roosevelt e William Howard Taft. Münsterberg era procurado como consultor por empresas e líderes governamentais, tendo entre suas amizades os ricos, famosos e poderosos, incluindo o kaiser Frederico, da Alemanha, o magnata do aço Andrew Carnegie, o filósofo Bertrand Russell, bem como astros de cinema e intelectuais.

Foi — por algum tempo — um honrado professor da Universidade Harvard, eleito para a presidência da Associação Psicológica Americana e da Associação Filosófica Americana. Considerado o fundador da psicologia aplicada, foi também um dos dois psicólogos acusados de ser espiões. Foi descrito como “o mais prolífico propagandista da psicologia aplicada”, uma pessoa que “publicava volumes sobre psicologia educacional, legal, industrial, médica e cultural” (O’Donnell, 1985, p. 225). E, segundo o seu biógrafo, Münsterberg foi também um escritor popular bem-sucedido, “abençoado por um peculiar pendor pelo sensacional; sua vida pode ser interpretada como uma série de promoções — de si mesmo, de sua ciência e de sua pátria [ (Hale, 1980, p. 3).

Perto do fmal da vida, tornou-se objeto de escárnio e ridículo, tema de cartuns e caricaturas em jornais, e um embaraço para a universidade a que servira por tantos anos. Quando ele morreu, em 1916, não houve elogios fúnebres para o homem que um dia fora considerado um gigante da psicologia estadunidense.

A Vida de Münsterberg

Em 1882, aos dezenove anos, Münsterberg deixou sua cidade natal, Danzig, na Alemanha, e foi para Leipzig, pretendendo estudar medicina. Mas, ao fazer um curso com Wilhehn [195] Wundt, mudou abruptamente seus planos de carreira. A nova psicologia o deixara animado e oferecia oportunidades que a pesquisa e a prática médicas não poderiam oferecer. Conseguiu o Ph.D. com Wundt em 1885 e formou-se médico na Universidade de Heidelberg dois anos depois. [196]

Hugo Münsterberg foi muito influente na promoção de várias especialidades da psicologia aplicada, incluindo a psicologia forense, a psicologia clínica e a psicologia industrial, depois, tendo estudado nesta última com o objetivo de se preparar melhor para uma carreira de pesquisador acadêmico. Foi lecionar na Universidade de Freiburg e, como não havia instalações na universidade, montou um laboratório em casa às suas custas.

Münsterberg publicou um livro e vários artigos sobre sua pesquisa experimental em psicofísica, que Wundt criticou por lidarem com os conteúdos cognitivos da mente, não com os sentimentos. Ao mesmo tempo, sua obra atraiu um grupo leal de seguidores, e alunos vindos da Alemanha e de outros lugares acorreram em bando para o seu laboratório. Ele parecia bem encaminhado para conseguir um emprego de professor numa universidade importante e a reputação de pesquisador respeitado.

William James fê-lo sair dessa trilha em 1892 ao lhe dar a oportunidade de ser o bem pago diretor do laboratório de psicologia da Universidade Harvard. James foi lisonjeiro em seu apelo, escrevendo para Münsterberg que Harvard era a maior universidade dos Estados Unidos e precisava de um gênio para dirigir o laboratório de modo a manter sua primazia na psicologia. Münsterberg teria preferido ficar na Alemanha, mas a ambição o levou a aceitar a oferta de James.

Não foi rápida nem fácil sua transição da Alemanha para os Estados Unidos, e da psicologia experimental pura para a psicologia aplicada. No início, ele desaprovava a disseminação da psicologia aplicada e atacava os administradores universitários por pagarem tão pouco aos pesquisadores que os forçavam a ganhar a vida dedicando-se a ocupações mais práticas. Criticava os psicólogos estadunidenses que escreviam livros populares para o público leigo, faziam palestras para líderes empresariais e ofereciam, mediante pagamento, seus serviços de especialistas. Dentro de pouco tempo, contudo, ele estaria fazendo tudo isso.

Depois de dez anos nos Estados Unidos, e talvez percebendo que nenhuma universidade alemã lhe ofereceria um cargo de professor, escreveu seu primeiro livro em inglês. Intitulado American Traits (Características Americanas), o livro, de 1902, era uma análise psicológica, social e cultural da sociedade estadunidense. Escritor rápido e talentoso, ele era capaz de ditar para uma secretária um livro acessível de quatrocentas páginas, em no máximo um mês. William James comentou que o cérebro de Münsterberg era incansável. E. B. Titchener observou que ele tinha “o dom fatal de escrever com facilidade — fatal especialmente para a ciência, e sobretudo para uma ciência jovem, em que a precisão é, de todos, o aspecto mais necessário” (Hale, 1980, p. 23).

A reação entusiástica ao livro de Münsterberg o encorajou a escrever mais para o público em geral do que para os colegas, e ele logo estava publicando em revistas populares, e não em periódicos profissionais. Afastou-se da pesquisa psicofísica e dos conteúdos da mente e passou a escrever sobre as atividades cotidianas para as quais os psicólogos poderiam contribuir. Seus livros e artigos tratavam de julgamentos nas cortes e do sistema de justiça criminal, da propaganda de produtos de consumo, do aconselhamento vocacional, da saúde mental e da psicoterapia, da psicologia educacional e industrial e da psicologia do cinema. Münsterberg produzia cursos por correspondência sobre aprendizagem e negócios, e chegou a fazer uma série de filmes sobre testes mentais para exibição nos cinemas.

Münsterberg nunca hesitou em se envolver em questões controversas. Durante um sensacional julgamento por assassinato, administrou quase cem testes mentais ao assassino confesso de dezoito pessoas, o qual tinha acusado um líder sindical de pagar pelos crimes. Com base nos resultados desses testes, que incluíram um teste de associação de palavras (apelidado pela imprensa de “máquina da mentira”), Münsterberg anunciou publicamente — antes de ter chegado a um veredito no julgamento do líder sindical — que a alegação do assassino implicando o líder era verdadeira, O júri, no entanto, absolveu este último, o que foi desastroso para Münsterberg; um jornal passou a referir-se a ele como ‘Professor Monsterwork”. [197]

Em 1908, ele se envolveu na luta nacional contra o movimento de proibição da venda de bebidas alcoólicas. Ele se opôs à proibição, recorrendo à sua experiência como psicólogo e afirmando que o álcool, tomado com moderação, é benéfico. Os fabricantes de cerveja germano-estadunidenses, incluindo Adolphus Busch e Gustave Pabst, se deliciaram com o apoio de Münsterberg e deram grandes contribuições financeiras ao seu esforço de promoção da imagem da Alemanha nos Estados Unidos. Numa infeliz e suspeita coincidência, Busch doou cinqüenta mil dólares ao Museu Germânico proposto por Münsterberg poucas semanas antes de este publicar um artigo na McCure‘s Magazine denunciando a idéia da proibição. Isso causou furor nos jornais e revistas populares.

As idéias de Münsterberg sobre as mulheres também eram difíceis de ignorar. Embora apoiasse a presença de várias mulheres que eram estudantes graduadas em Harvard, incluindo Mary Whiton Calkins, ele acreditava que esse trabalho era muito rigoroso para a maioria delas. Sua concepção era de que as mulheres não deviam ser treinadas para carreiras acadêmicas, porque isso as afastaria de casa. Ele também afirmava que elas não deviam lecionar em escolas públicas, porque não tinham capacidade de ensinar tão bem quanto os homens e não eram bons modelos para meninos. E acreditava que não se devia permitir a presença de mulheres no júri por elas serem incapazes de deliberação racional; esta observação produziu manchetes internacionais.

O presidente de Harvard e a maioria dos colegas de Münsterberg não gostaram desse sensacionalismo — nem aprovaram o seu interesse em aplicar a psicologia a problemas práticos. As relações estremecidas alcançaram o ponto da ruptura com a contínua e ardente defesa de sua Alemanha natal feita por Münsterberg durante a Primeira Guerra. Esta eclodira na Europa em 1914, embora os Estados Unidos só tivessem se envolvido diretamente no conflito em 1917 sob a tutela da Inglaterra. Mas a opinião pública estadunidense era definitivamente antialemã. Aquele país era o agressor numa guerra que já custara milhões de vidas, e Münsterberg estava assumindo uma posição cada vez mais impopular.
Ele escreveu inúmeros artigos defendendo a Alemanha, e mantinha um contato aberto com o embaixador alemão em Washington, D.C., e com o escritório alemão de assuntos estrangeiros em Berlim. Os jornais diziam que Münsterberg era um agente secreto, um espião e um oficial militar de alta patente. Os jornais de Boston pediam que ele se demitisse de Harvard. Seus vizinhos suspeitavam que os pombos que a sua filha alimentava no quintal dos fundos estavam sendo usados para levar mensagens a outros espiões. Um aluno de Harvard que vivia em Londres ofereceu à universidade dez milhões de dólares se ela demitisse Münsterberg.

Münsterberg recebia ameaças de morte pelo correio e era alvo do desprezo dos colegas. O ostracismo e os ataques cada vez mais virulentos lhe abateram o espírito. Mas, em 16 de dezembro de 1916, os jornais matutinos traziam especulações sobre conversações de paz na Europa. "Até a primavera teremos paz”, ele anunciou à esposa (Münsterberg, 1922, p. 302). Ele foi a pé, pela neve espessa daquele dia frio, para dar sua aula da manhã. Ao chegar à escola, sentia-se exausto. Münsterberg entrou na classe e foi ao chão sem dizer uma palavra. Morreu instantaneamente de uma síncope.

A Psicologia Forense e Outras Aplicações

Os extremos do comportamento e das crenças de Münsterberg não diminuem a importância do seu trabalho em psicologia aplicada. Ninguém mais contribuiu tanto para o progresso da psicologia aplicada em geral e para o seu avanço nas áreas da psicologia forense, clínica e industrial. Apesar de todos os seus defeitos, Münsterberg permanece como uma das figuras mais influentes no desenvolvimento da abordagem funcional e tipicamente estadunidense da psicologia. [198]

A primeira área de aplicação em que ele trabalhou, a psicologia forense, trata da relação entre a psicologia e a lei. Münsterberg escreveu uma série de artigos sobre tópicos como o uso da hipnose no interrogatório dos suspeitos, formas de evitar o crime, detecção de pessoas culpadas por meio do uso de testes mentais e o caráter inconfiável das testemunhas oculares. Ele tinha particular interesse por este último assunto, isto é, pelo caráter falível da percepção humana diante de um evento como um crime e da lembrança subseqüente do evento. Ele descreveu pesquisas sobre crimes simulados em que se pedia às testemunhas, imediatamente depois de terem visto o crime, que descrevessem o que tinha ocorrido. Os sujeitos não concordavam quanto aos detalhes do que tinham testemunhado, embora a cena ainda estivesse viva em sua memória. Quão preciso poderia ser tal testemunho numa corte, perguntou Münsterberg, já que o evento em discussão teria ocorrido muitos meses antes?

Em 1908, ele publicou On the Witness Stand (No Banco das Testemunhas), que descrevia os problemas das testemunhas oculares. A obra também considerava outros fatores psicológicos que podem afetar o resultado de um julgamento, tais como as falsas confissões, o poder de sugestão no interrogatório de testemunhas e o uso de medidas fisiológicas (a taxa de batimentos cardíacos, a pressão sangüinea, a resistência da pele) para detectar estados emocionais alterados num suspeito ou réu. O livro foi reimpresso muitas vezes, tendo tido uma edição em 1976, quase setenta anos depois de sua publicação.

No final dos anos 70, houve um ressurgimento do interesse pelas questões levantadas por Münsterberg (ver Loftus, 1979; Loftus e Monahan, 1980), e a Sociedade Americana de Psicologia Forense foi fundada, como uma divisão da Associação Psicológica Americana, para promover a pesquisa básica e aplicada na área forense.

Münsterberg publicou um livro intitulado Psychotherapy (Psicoterapia) em 1909, iniciando o trabalho numa área aplicada inteiramente distinta. Ele tratava os pacientes num laboratório, e não numa clínica, e nunca cobrava as consultas. Ele confiava muito na autoridade da sua posição como terapeuta e não hesitava em fazer sugestões diretas aos pacientes sobre como eles podiam se curar. A doença mental, acreditava ele, era antes um problema de desajuste comportamental do que algo atribuível a um conflito inconsciente profundo, como afirmava Sigmund Freud. Münsterberg se opôs às concepções freudianas de saúde mental, particularmente à ênfase nos distúrbios sexuais como causa primária de problemas emocionais. Münsterberg concordava, no entanto, que, em alguns casos, questões de caráter sexual poderiam estar na raiz do problema.
Sua abordagem terapêutica consistia em forçar as idéias perturbadoras do paciente a sair da consciência, em suprimir os comportamentos indesejáveis ou problemáticos e em incitar o paciente a esquecer — deixar de lado — a dificuldade emocional. Tratava uma variedade de problemas, incluindo o alcoolismo, o abuso de drogas, as alucinações, os pensamentos obsessivos, as fobias e as desordens sexuais. Não aceitava pacientes psicóticos ou pessoas com problemas neurológicos, por pensar que essa forma de psicoterapia não funcionava nesses casos.

Por algum tempo, usou a hipnose como método de tratamento, mas interrompeu a prática depois que uma mulher que ele tratava o ameaçou com uma arma. A história deliciou os jornais, e o presidente de Harvard exigiu que ele parasse de hipnotizar mulheres. Seu livro sobre psicoterapia em muito contribuiu para levar o campo da psicologia clínica à atenção do público, mas não foi bem recebido por Lightner Witmer, que abrira sua clínica na Universidade da Pensilvânia vários anos antes. Witmer nunca alcançara — nem procurara — o tipo de aplauso popular que Münsterberg desejava. Num artigo publicado em sua revista, Psychological CIinic, Witmer queixou-se de que Münsterberg tinha barateado” a profissão ao alardear suas curas “na praça do mercado”. Ele considerava Münsterberg pouco mais que um curandeiro, por causa do “modo garboso com que o professor de psicologia de [199] Harvard vai pelo país, alegando ter tratado em seu laboratório psicológico centenas e centenas de casos desta ou daquela forma de disturbio nervoso” (Hale, 1980, p. 110).

Ao mesmo tempo, Münsterberg sistematizava, desenvolvia e promovia mais um campo, o da psicologia industrial. Iniciou este trabalho em 1909, com o artigo “A Psicologia e o Mercado”. O texto cobria várias áreas para as quais ele acreditava que a psicologia poderia contribuir: a orientação vocacional, a publicidade, a administração de pessoal, os testes mentais, a motivação dos empregados e os efeitos da fadiga e da monotonia no desempenho da função. Sua perspectiva era caracteristicamente ampla, tratando de todos os aspectos e problemas dos negócios, desde a seleção dos operários certos para realizar a tarefa com eficiência até a promoção do produto acabado.

Münsterberg foi contratado como consultor por várias empresas, tendo feito para elas inúmeras pesquisas. Ele publicou suas descobertas em Psychology and Industrial Efficiency (Psicologia e Eficiência Industrial), de 1913, outro livro escrito para o público em geral. A obra alcançou tamanho sucesso que foi para as listas dos livros mais vendidos. Ele afirmava que a melhor maneira de aumentar a eficiência no trabalho e assegurar a harmonia no local de trabalho consistia em selecionar trabalhadores para funções adequadas às suas capacidades mentais e emocionais. E como os empregadores fariam isso da melhor forma? Mediante o desenvolvimento de técnicas psicológicas de seleção como testes mentais e simulações em que se podiam avaliar as várias aptidões e capacidades dos candidatos.

Münsterberg fez pesquisas sobre ocupações tão diversas quanto capitão de navio, condutor de bonde, telefonista e vendedor, mostrando como seus métodos de seleção promoviam melhorias no desempenho da função. No tocante a problemas de eficiência, apresentou resultados de estudos que mostravam, por exemplo, que conversar enquanto se trabalha reduz a eficiência. Sua solução não era proibir as conversas entre trabalhadores (isso, admitia ele, geraria hostilidade), mas projetar o local de trabalho de modo a dificultar essas conversas. Esse objetivo poderia ser alcançado pelo aumento da distância entre as máquinas ou pela separação dos espaços com divisórias.

Principalmente graças aos esforços promocionais de Münsterberg, o campo da psicologia industrial exerceu um impacto cada vez mais amplo no mundo do trabalho. Ele propôs ao presidente estadunidense Woodrow Wilson e ao kaiser alemão que seus governos estabelecessem departamentos para patrocinar pesquisas sobre as aplicações da psicologia à indústria. Esses líderes mostraram interesse pela idéia, mas a irrupção da guerra impediu sua implementação.

Tal como outros pioneiros do campo, Münsterberg não formulou teorias, não fundou uma nova escola de pensamento nem — assim que iniciou o trabalho em psicologia aplicada — fez pesquisas acadêmicas puras. Ele insistia para que sua pesquisa servisse a um propósito definido, fosse funcional e orientada para ajudar as pessoas de alguma maneira. Embora tivesse sido treinado por Wilhelm Wundt na técnica da introspecção, criticava os psicólogos que se apegavam à técnica e fustigava colegas não desejosos de empregar as descobertas e métodos da psicologia para a melhoria da humanidade.

Münsterberg nunca aderiu formalmente à definição funcionalista de psicologia e sempre se recusou a definir sua própria abordagem, acreditando que fazê-lo limitaria sua utilidade. Se houve um tema que caracterizou sua diversificada, bombástica e controversa carreira, foi o de que a psicologia tem de ser útil. Nesse sentido, Münsterberg, apesar do temperamento germânico, foi a quintessência do psicólogo estadunidense, refletindo e demonstrando o espírito da sua época. Deve-se a ele o fato de a psicologia aplicada, que ele tanto fez para fundar no inicio do século XX, ter crescido a ponto de tornar-se uma das forças dominantes na psicologia estadunidense agora que o século XXI se aproxima. [200]

Especialidades na Psicologia Aplicada

Vimos como a psicologia, sob a influência do funcionalismo, começou a ser aplicada a problemas do mundo real no início do século. No Capítulo 10, veremos que o comportamentalismo de John B. Watson também contribuiu para o desenvolvimento da tendência aplicada. Depois de deixar o mundo acadêmico, Watson se tornou um popular psicólogo aplicado. Na época, a psicologia já não podia ficar restrita ao mundo da ciência pura do laboratório onde Wundt e Titchener tentaram valorosamente mantê-la. Embora o movimento aplicado em psicologia tenha tido o seu começo nos anos entre a virada do século e a Primeira Guerra, seu progresso inicial foi relativamente lento. Contudo, depois que os EUA entraram na guerra, em 1917, os psicólogos aplicados foram chamados para tratar de problemas práticos e imediatos. A psicologia tornou-se visível aos olhos do público. Psicólogos e não-psicólogos reconheciam que os princípios e métodos do campo podiam ser usados para melhorar o bem-estar humano. Cattell comentou que a guerra pôs a psicologia “no mapa e na primeira página” (O’Donnell, 1985, p. 239). Hall escreveu que a guerra tinha “dado à psicologia aplicada um tremendo impulso. No cômputo geral, isso vai ser bom para a psicologia.., não devemos tentar ser demasiado puros” (Hall, 1919, p. 48). Algumas revistas, como a Journal of Experimental Psychology, interromperam sua publicação nos anos da guerra, mas a Journal of Applied Psychology floresceu.

Nos anos 20, passada a guerra, a psicologia se tornou uma “mania nacional” (Dennis, 1984, p. 23). As pessoas, em todos os Estados Unidos, passaram a acreditar que os psicólogos – eram capazes de curar tudo — da desarmonia conjugal à insatisfação com o trabalho — e vender qualquer produto — de desodorantes a anti-sépticos bucais. Esse crescente clamor por soluções levava cada vez mais psicólogos a deixar a pesquisa pura para se entregar às áreas aplicadas. Na edição de 1921 do American Men of Science de Cattell, mais de 75% dos psicólogos ali citados diziam estar engajados num trabalho de cunho aplicado; em 1910, o número fora 50%. As reuniões da seção de Nova York da APA, no início dos anos 20, mostravam um substancial aumento, com relação aos anos anteriores à guerra, no número de artigos sobre pesquisas aplicadas (Benjamin, 1991).

Contudo, no final da década de 20 e durante os dez anos da depressão econômica mundial dos anos 30, a psicologia aplicada passou a ser atacada por não conseguir ser fiel à sua promessa. Líderes empresariais, por exemplo, queixavam-se de que, embora útil, a psicologia industrial não estava curando todos os seus males. Experiências negativas com testes de seleção malconcebidos os tinham levado a contratar alguns trabalhadores improdutivos.

Talvez as expectativas dos psicólogos e seus clientes fossem exageradas, mas, seja como for, surgiu um desencanto com a psicologia aplicada. Um dos maiores críticos foi Grace Adams, que fora aluna de Titchener. Em “O Declínio da Psicologia na América”, artigo publicado numa revista popular, Adams afirmou que a psicologia “abandonara suas raízes científicas para que psicólogos alcançassem popularidade e prosperidade”. Ela acusou os psicólogos de “se mascararem como cientistas” e fracassarem na resolução dos problemas sociais e econômicos trazidos pela depressão (Benjamin, 1986, p. 944). O New York Times e outros jornais importantes criticavam os psicólogos por prometerem mais do que podiam dar e por não conseguirem aliviar o mal-estar causado pela depressão. O número de artigos populares sobre temas psicológicos declinou a partir de 1929, e a imagem e a promessa da psicologia só seriam restauradas em 1941, depois da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra. Vemos assim outro exemplo da guerra como influência contextual no desenvolvimento da psicologia.

A Segunda Guerra trouxe outro conjunto de problemas urgentes para a psicologia resolver [201], o que reviveu e ampliou sua influência geral. Vinte e cinco por cento dos psicólogos estadunidenses estavam diretamente envolvidos no esforço de guerra, e muitos outros deram contribuições indiretas através da pesquisa e da redação de textos. Ironicamente, a guerra também fez renascer uma psicologia incipiente na Alemanha, onde o campo declinara depois de os nazistas terem expulsado todos os psicólogos judeus de seus empregos. As necessidades dos militares alemães criaram uma nova demanda de psicólogos com vistas à seleção de oficiais, pilotos, tripulação de submarinos e de outros especialistas (Geuter, 1987).

Nos anos posteriores ao fim da guerra, a psicologia estadunidense como um todo passou pelo mais dramático período de crescimento de sua história. Dentro do campo, o desenvolvimento mais significativo ocorreu nas áreas aplicadas. A psicologia aplicada superou a acadêmica e orientada para pesquisas, que predominara por muitos anos. Já não cabia a afirmação de que a maioria dos psicólogos dedicava-se ao ensino ou trabalhava no campo experimental. Antes da Segunda Guerra, quase 70% dos doutorados em psicologia eram concedidos na área da psicologia experimental; perto de 1960, esse número era 25%, tendo caído para 8% por volta de 1984 (Goodstein, 1988).

Em 1940, pouco antes de os Estados Unidos entrarem na guerra, 75% dos psicólogos trabalhavam em ambientes acadêmicos. Eles eram 47% em 1962 e 42% em 1980 (Gilgen, 1982). Disso resultou uma mudança em termos do poder na APA, onde os psicólogos aplicados (particularmente os psicólogos clínicos) assumiram uma posição de comando. Alguns professores e cientistas, orientados para a pesquisa, se ressentiram no domínio dos clínicos e formaram sua própria organização, a Sociedade Psicológica Americana (APS), em 1988. Em 1991, ela tinha mais de 12.000 membros.

Completaremos nossa cobertura do legado do funcionalismo com uma breve discussão de três áreas de psicologia aplicada que têm os mais antigos antecedentes históricos: os testes psicológicos, a psicologia industrial/organizacional e a psicologia clínica. Trataremos dos testes em primeiro lugar porque boa parte do desenvolvimento das duas outras áreas derivou deles.

O Movimento dos Testes Psicológicos

Ao falarmos da obra de Francis Galton e de James McKeen Cattell, discutimos a origem do movimento dos testes mentais. Foi Cattell quem cunhou o termo testes mentais, mas coube a Alfred Binet, um psicólogo francês autodidata, rico e independente, desenvolver o primeiro teste verdadeiramente psicológico da capacidade mental.

Binet discordava da abordagem de Galton e Cattell, que empregava testes de processos sensório-motores para medir a inteligência. Para ele, a avaliação de funções cognitivas como a memória, a atenção, a imaginação e a compreensão forneceria uma melhor medida da inteligência. A oportunidade de prová-lo veio em resposta a uma necessidade prática. Em 1904, o ministro francês da instrução pública nomeou uma comissão para estudar as capacida des de aprendizagem de crianças que estavam tendo dificuldades na escola. Binet e um psiquiatra, Théodore Simon, foram indicados para a comissão, tendo investigado juntos os tipos de tarefas intelectuais que podiam ser dominados pela maioria das crianças em diferentes idades.

A partir do perfil que fizeram dessas tarefas, eles elaboraram o primeiro teste de inteligência. O teste consistia em trinta problemas organizados em ordem ascendente de dificuldade e se concentrava em três funções cognitivas: julgamento, compreensão e raciocínio. Três anos mais tarde, em 1908, o teste foi revisto e ampliado, e o conceito de idade mental, introduzido. A idade mental foi descrita como a idade em que crianças de capacidade média podiam realizar certas tarefas. Por exemplo, se uma criança com idade cronológica de quatro anos passasse em todos os testes em que a amostra de crianças de cinco anos médias tinha [202] passado, atribuía-se à criança de quatro anos uma idade mental de cinco. Uma terceira revisão do teste foi preparada em 1911; mas, depois da morte de Binet, o desenvolvimento do teste, e dos testes de inteligência em geral, passou para os Estados Unidos.

O teste foi introduzido nos Estados Unidos por Henry Goddard, aluno de G. Stanley Hall e psicólogo de uma escola de crianças mentalmente retardadas em Vineland, Nova Jersey. [203] Alfred Binet desenvolveu o primeiro teste verdadeiramente psicológico de capacidade mental, que evoluiu para o amplamente usado Teste de Inteligência Stanford-Bínet.

Goddard denominou sua tradução do teste Escala Binet-Simon de Medida da J (Binet-Simon Measuring Scale for Inteligence). Em 1916, Lewis M. Terman, que também estudara com Hall, desenvolveu uma versão do teste que se tornou padrão. Ele lhe deu o nome de Teste Stanford-Binet, a partir do nome da universidade à qual estava ligado, e adotou o conceito de quociente de inteligência (QI). A medida do QI, definida como a razão entre idade mental e idade cronológica, fora proposta originalmente pelo psicólogo alemão William Stem. O Stanford-Binet passou por várias revisões e continua a ter amplo uso.

No dia em que os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra, realizava-se em Harvard uma reunião da Sociedade de Psicólogos Experimentais, de Titchener. O presidente da APA, Robert Yerkes, estava presente. Yerkes instou os psicólogos presentes a considerar de que maneira a psicologia poderia ajudar na campanha da guerra. Titchener objetou, explicando que era súdito britânico; o mais provável é que não quisesse se envolver com a guerra por não gostar de aplicar a psicologia a problemas práticos. Ele pode ter temido que os esforços dos psicólogos para ajudar a vitória na guerra os fizessem “trocar uma ciência por uma tecnologia” (O’Donnell, 1979, p. 289).

O exército tinha diante de si o problema de avaliar a inteligência de grande número de recrutas a fim de estudá-los e classificá-los, bem como atribuir-lhes tarefas adequadas. O Stanford-Binet é um teste individual de inteligência que requer uma pessoa bem treinada para aplicá-lo de modo adequado. Ele não pode ser usado para nenhum programa de testes em larga escala que envolva a avaliação de muitas pessoas num curto espaço de tempo. Para esse propósito, é necessário um teste para grupo de administração simples.

Yerkes, nomeado major do exército, reuniu um grupo de quarenta psicólogos para realizar essa tarefa. Eles examinaram alguns testes, nenhum dos quais de uso geral, e escolheram como modelo o de Arthur S. Otis, que estudara com Terman. Otis preparou os testes Ariny Alpha e Ariny Beta, com base no de Otis. O Beta era uma versão do Alpha usada especificamente para pessoas que não falavam inglês ou eram analfabetas. Suas instruções eram dadas por meio de demonstração ou mímica, em vez de oralmente ou por escrito.

A implantação do programa seguia lentamente, e a ordem formal para o início dos testes só foi dada três meses antes do fim da guerra. Mais de um milhão de homens foram testados, mas os militares já não precisavam dos resultados. O programa, embora tenha tido pouco efeito no esforço de guerra, teve um enorme impacto sobre a psicologia. A publicidade que recebeu contribuiu em muito para promover o status da psicologia, e esses testes se tornaram protótipos dos muitos que mais tarde foram concebidos.

O desenvolvimento e o uso de testes de personalidade grupais também foram estimulados pelo esforço de guerra. Até aquela época, só se tinham feito tentativas limitadas de avaliação da personalidade. Nos últimos anos do século XIX, o psiquiatra alemão Emil Kraepelin usara o que havia chamado de teste de associação livre; nele, um paciente respondia a uma palavra-estímulo com a primeira palavra que lhe viesse à mente. A técnica fora criada por Galton. Em 1910, CarI Jung desenvolvera uma técnica semelhante, o teste de associação de palavras, que ele empregava na avaliação dos complexos de seus pacientes. Esses dois eram testes de personalidade individuais. Quando o exército manifestou interesse em separar os recrutas altamente neuróticos, Robert Woodworth construiu o Personal Data Sheet, um inventário pessoal em que os pacientes indicavam os sintomas neuróticos que tinham. Tal como o Ariny Alpha e o Ariny Beta, esse teste teve pouco uso real nos anos de guerra, mas também veio a servir de protótipo para o desenvolvimento dos testes de personalidade grupais.

A psicologia aplicada teve sua própria vitória na guerra, a de ter conquistado a aceitação pública. Em pouco tempo, milhares de empregados, escolares e candidatos à faculdade viam-se [204] diante de baterias de testes cujos resultados poderiam determinar o curso de sua vida. Uma epidemia de testes varreu os Estados Unidos; mas, na pressa em dar uma resposta ao apelo dos negócios e da educação, era inevitável que aparecessem alguns testes malconcebidos e impropriamente pesquisados, que levaram a resultados desapontadores. Em conseqüência, muitas empresas abandonaram o uso dos testes psicológicos na metade dos anos 20. Essa foi uma das razões do desencanto geral com a psicologia que se manifestou nesse período. Com o tempo, foram desenvolvidos testes melhores que permitiram ao comércio e à indústria a seleção de melhores pessoas para suas vagas e de melhores trabalhos para os candidatos; hoje, a seleção e colocação de pessoal por meio de testes tornou-se parte essencial do processo de contratação.

Os testes também participaram de uma importante controvérsia social na década de 20. Em 1921, foram tornados públicos os resultados dos testes de recrutas do exército durante a Primeira Guerra. Segundo os dados, a idade mental dos convocados e, por extensão, da população branca em geral era de apenas treze anos. Os resultados também indicavam que quase a metade dos cidadãos estadunidenses brancos podiam ser caracterizados como retardados mentais ou pessoas de mente fraca. Além disso, os dados mostravam que os negros, assim como os imigrantes de países mediterrâneos e latino-americanos, tinham um QI menor. Só os imigrantes do norte da Europa tinham um QI igual ao dos estadunidenses brancos.

Isso levantou muitas questões entre cientistas, políticos e jornalistas. Como podia uma forma democrática de governo sobreviver se o povo era tão estúpido? Deveriam os grupos de QI baixo ter direito de voto? Deveria o governo recusar a entrada de imigrantes dos países de QI baixo? Como podia permanecer significativa a noção de que as pessoas foram criadas iguais?

O conceito de diferenças raciais em termos de inteligência fora apresentado nos Estados Unidos já nos anos 1880, tendo havido muitos clamores para que se impusessem restrições a imigrantes de países mediterrâneos e latino-americanos. Por outro lado, mesmo antes do desenvolvimento dos testes de inteligência, era geralmente aceito o alegado nível inferior de inteligência dos afro-americanos. Um dos mais ativos e coerentes críticos dessa concepção era Horace Mann Bond (1904-1972), um destacado erudito afro-americano, presidente da Universidade Lincoln, da Pensilvânia.

Bond, doutorado em educação pela Universidade de Chicago, publicou alguns livros e artigos em que afirmava que as diferenças de QI entre negros e brancos eram decorrentes de fatores ambientais, e não genéticos. Ele fez pesquisas que demonstraram que os negros dos Estados do norte tinham um QI maior do que os brancos dos Estados do sul, uma descoberta que prejudicou seriamente a acusação de que os negros eram geneticamente inferiores em termos de inteligência (Urban, 1989).

Muitos psicólogos responderam à sugestão de diferenças raciais quanto à inteligência, acusando os testes de serem viciados. Com o tempo, a controvérsia arrefeceu, apenas para ressurgir nos anos 70. Desde então, os psicólogos se esforçam para desenvolver testes isentos de distorções culturais e educacionais que avaliem com mais precisão as capacidades humanas. Permanece uma grande necessidade prática de testes, e sua utilidade na seleção, no aconselhamento e no diagnóstico continua sendo um foco importante da psicologia aplicada.

A Psicologia Iidustrial/Organizacional

Descrevemos a fundação da psicologia industrial por Walter Dill Scott e os primeiros esforços deste e de Hugo Münsterberg para promover a aplicação da psicologia ao mundo do trabalho. Tal como ocorreu com outras áreas da psicologia aplicada, esse campo passou por um monumental aumento de alcance, popularidade e expansão graças à Primeira Guerra. [205]

Scott foi voluntário do Exército norte-americano e desenvolveu uma escala de avaliação para a seleção de capitães baseada nas avaliações que havia concebido para classificar líderes no setor de negócios. Perto do final da guerra, ele tinha avaliado as qualificações profissionais de três milhões de soldados, e o seu trabalho foi um outro exemplo amplamente divulgado do valor prático da psicologia.

Depois da guerra, os negócios, a indústria e o governo solicitaram os serviços de psicólogos industriais para reformular suas políticas de pessoal e introduzir testes psicológicos como meios de seleção de empregados e funcionários. Em 1919, como observamos, Scott fundou sua empresa de consultoria, e, dois anos mais tarde, Cattell fundou sua Psychological Corporation, que também promoveu com sucesso a aplicação da psicologia ao mundo dos negócios.

O foco primordial da psicologia industrial no decorrer dos anos 20 foi a seleção e a colocação de candidatos a empregos — a pessoa certa na função certa. O escopo do campo aumentou em 1927 com os estudos Hawthorne, realizados na fábrica da Westem Electric em Hawthorne, Illinois (Roethlisberger e Dickson, 1939). Essa pesquisa fez com que esse campo passasse da seleção e colocação para problemas mais complexos, envolvendo relações humanas, motivação e o moral.

O estudo começou como uma investigação dos efeitos do ambiente físico do trabalho — iluminação e temperatura, por exemplo — sobre a eficiência do empregado. Os resultados surpreenderam os psicólogos e os gerentes de fábrica. Descobriu-se que as condições sociais e psicológicas do ambiente de trabalho tinham mais importância do que as condições físicas em que as funções eram realizadas. Os estudos Hawthorne abriram novas áreas de exploração de fatores com a qualidade e a natureza da liderança, os grupos informais que os trabalhadores compõem, as atitudes dos empregados com relação ao emprego, a comunicação entre operários e dirigentes, e uma vasta gama de outras forças sociais e psicológicas capazes de influir na motivação, na produtividade e na satisfação.

A Segunda Guerra Mundial levou um grande número de psicólogos a um envolvimento direto com o esforço de guerra. Tal como na Primeira Guerra, sua principal contribuição foram os testes, a avaliação e a classificação de recrutas. Por volta dos anos 40, tinham-se concebido testes bem mais sofisticados. A operação de equipamentos bélicos cada vez mais complexos, tais como aeronaves de alta velocidade, exigia aptidões mais aprimoradas. A necessidade de identificar pessoas dotadas da capacidade de dominar essas aptidões produziu o aperfeiçoamento dos procedimentos de seleção e treinamento. Essas armas criaram na psicologia industrial uma especialidade que recebeu múltiplas denominações: engenharia psicológica, engenharia humana, engenharia dos fatores humanos e ergonomia. Trabalhando em estreito contato com os engenheiros de sistemas, os profissionais da engenharia psicológica forneciam informações sobre as capacidades e as limitações humanas. Seu trabalho tinha influência direta sobre o projeto de equipamentos militares, tornando-os mais compatíveis com as características e aptidões das pessoas que iriam usá-los. Hoje, o campo da engenharia psicológica não se restringe a equipamentos militares, aplicando-se ainda a produtos de consumo como teclados de computador, móveis de escritório e mostradores de painéis nos automóveis.

A partir dos anos 50, os líderes empresariais vêm aceitando a influência da motivação, da liderança e de outros fatores psicológicos no desempenho profissional. Esses aspectos do ambiente de trabalho têm assumido uma importância crescente, o mesmo ocorrendo com o impacto do clima psicológico e social como um todo em que o trabalho é realizado. Atualmente, os psicólogos estudam a natureza de diferentes estruturas organizacionais, seus padrões e estilos de comunicação e as estruturas sociais formais e informais que produzem. Reconhecendo essa ênfase nas variáveis organizacionais, a Divisão de Psicologia Industrial da APA tornou-se a Sociedade de Psicologia Industrial e Organizacional. [206]

Estudos realizados nas décadas de 20 e de 30 na fábrica da Western Electric Company em Hawthorne, illinois, levaram os psicólogos aplicados às complexas áreas das relações humanas, dos estilos de liderança e da motivação e do moral dos empregados.

A Psicologia Clínica

A aplicação da psicologia à avaliação e ao tratamento do comportamento anormal foi feita pela primeira vez por Lightner Witmer em sua clínica da Universidade da Pensilvânia. Além disso, dois livros foram um primeiro impulso no campo. A Mind That Found It self (Uma Mente Que Encontrou A Si Mesma), escrito em 1908 por um ex-paciente, Clifford Beers, alcançou imensa popularidade e atraiu a atenção pública para a necessidade de tratar de maneira mais humana os doentes mentais. Psychotherapy (Psicoterapia), escrito em 1909 por Hugo Münsterberg, que também foi muito lido, detalhava técnicas para tratar uma variedade de distúrbios mentais. Ele promoveu a psicologia clínica ao mostrar formas específicas de ajudar pessoas perturbadas.

A primeira clínica de orientação infantil foi instalada em 1909 por William Healey, psiquiatra de Chicago. Logo surgiram muitas clínicas do gênero, cujo propósito era tratar os distúrbios infantis no início, para que esses problemas não se tornassem enfermidades mais sérias na idade adulta. As clínicas usavam a abordagem de equipe, introduzida por Witmer, em que todos os aspectos das dificuldades de um paciente eram tratados por psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.

As idéias de Sigmund Freud foram, naturalmente, cruciais para o desenvolvimento da [207] psicologia clínica. Sua obra de psicanálise fascinou e enfureceu alguns segmentos da psicologia oficial e do público estadunidense. De suas idéias os psicólogos clínicos extrairam as primeiras técnicas psicológicas de terapia.

Não obstante, o progresso da psicologia clínica era lento e, mesmo em 1940, ela ainda era uma parte pouco significativa da psicologia. Havia poucas instalações para tratamento de adultos perturbados e, por isso, escassas oportunidades de trabalho para os psicólogos clínicos. Não havia programas educacionais para treinar psicólogos clínicos, e o trabalho destes se limitava, em geral, à aplicação de testes.

A situação sofreu uma abrupta mudança quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra, em 1941. Foi esse evento, mais do que qualquer outro, que tornou a psicologia clínica a ampla e dinâmica área aplicada especializada que veio a ser desde então. O exército instalou programas de treinainento para várias centenas de psicólogos clínicos, necessários ao tratamento de distúrbios emocionais dos militares.
Finda a guerra, a necessidade de psicólogos clínicos ficou ainda maior. A Administração dos Veteranos (VA) viu-se responsável por mais de 40.000 veteranos com problemas psiquiátricos. Mais de outros três milhões de veteranos precisavam de aconselhamento vocacional e pessoal para facilitar sua reintegração à vida civil, e cerca de 315.000 necessitavam de aconselhamento para conseguir ajustar-se a incapacidades físicas decorrentes de ferimentos de guerra. A demanda por profissionais de saúde mental estava no auge, excedendo em muito a oferta. Para ajudar no atendimento dessa necessidade cruciante, a VA financiou programas de especialização de nível universitário e pagou as anuidades de alunos em troca de trabalho em seus hospitais e clínicas. Grande número de psicólogos clínicos treinados nos anos 50 recebeu a maior parte dessa instrução sob os auspícios da VA. Os programas também mudaram o tipo de pacientes tratados pelos psicólogos clínicos. Antes da guerra, o trabalho se voltava principalmente para crianças com problemas de delinqüência e de ajustamento; as necessidades dos veteranos porém significavam que a maioria dos pacientes tratados eram adultos com graves problemas emocionais. A VA (hoje Departamento de Assuntos dos Veteranos — Department of Veterans Affairs) continua a ser a maior fonte individual de empregos para psicólogos nos Estados Unidos, e tem tido um enorme impacto sobre o campo da psicologia clínica.

Os psicólogos clínicos também trabalham em centros de saúde mental, escolas, empresas e consultórios particulares. Discutiremos adiante as mudanças ocorridas a partir dos anos 50 nos métodos de tratamento, notadamente as terapias de comportamento, que são uma decorrência da escola comportamentalista. No momento, a psicologia clínica é a maior dentre as áreas aplicadas; mais de um terço de todos os estudantes formados estão em programas de clínica, e cerca de 40% dos membros da APA praticam a psicologia clínica.

Comentário

A natureza da psicologia estadunidense passou por grande alteração desde os anos em que Hall, Cattell, Witmer, Scott e Münsterberg estudaram com Wundt na Alemanha e trouxeram essa psicologia para os Estados Unidos. Como resultado de seus esforços, a psicologia já não está restrita às salas de conferência, bibliotecas e laboratórios, tendo se estendido a muitas áreas da vida cotidiana. Além dos testes, da psicologia escolar e educacional, da psicologia clínica, da psicologia industrial/organizacional e da psicologia forense, os psicólogos atuam hoje no aconselhamento psicológico, na psicologia comunitária, na psicologia do consumidor, na psicologia populacional e ambiental, na psicologia da saúde e da reabilitação, na psicologia dos exercícios físicos e esportes, na psicologia da política pública e militar e na psicologia dos meios de comunicação.

Nenhuma dessas áreas teria sido possível se a psicologia permanecesse [208] voltada para os conteúdos da experiência consciente. As pessoas, idéias e eventos que discutimos nestes capítulos sobre o funcionalismo impeliram a psicologia estadunidense a ir bem além dos limites do laboratório de Leipzig.

Consideremos os seguintes fatores: a noção darwiniana de adaptação e função; a identificação por Galton das diferenças individuais e suas tentativas de medilas; o Zeigeíst estadunidense, com sua ênfase no que é prático e útil; a mudança, nos laboratórios acadêmicos de pesquisa, do conteúdo para a função, promovida por James, Angell, Carr e Woodworth; os fatores sociais e econômicos e as forças da guerra — tudo isso se entrelaçou para dar à luz uma psicologia destinada a modificar a nossa vida, uma ciência ativa, assertiva, atraente e influente. Esse movimento geral da psicologia estadunidense na direção do lado prático foi reforçado pelo comportamentalismo, a próxima escola de pensamento na evolução da psicologia.

Psicologia - História da Psicologia
1/24/2020 2:17:56 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Funcionalismo Fundação e Evolução

Evolução do Filósofo Neurótico - Ele foi um dos homens mais famosos do mundo; contudo, frequentemente andava pelas ruas de Londres usando protetores de orelha para proteger seus pensamentos de interferências externas. Sempre que sons o perturbavam, seu dia estava arruinado. Charles Darwin o chamava de "nosso filósofo", e, frequentemente, era possível vê-lo va­gando sem rumo "sem conseguir se concentrar, escrever ou mesmo ler” (Coser, 1977, p. 104-105).

No verão de 1882 ele chegou aos Estados Unidos, onde foi recebido e homenageado como celebridade internacio­nal. Foi recebido em Nova York por Andrew Carnegie, o multimilionário patriarca da indústria siderúrgica, que o considerou como um messias. E, aos olhos de vários líderes da economia, ciência, política e religião, esse estranho filó­sofo inglês realmente era um salvador. Diversos jantares e festas foram promovidos em sua homenagem. Ainda assim, ele continuou sendo um "semi-inválido e psicótico durante todo o resto de sua vida. Sofria de insônia aguda, que às vezes tentava superar com uma dose bastante pesada de ópium; portanto, nunca conseguia trabalhar mais do que algumas horas por dia. Trabalhar mais horas o levava a um nervosismo inadequado e, portanto, à insônia (Coser, 1977, p . 104-105).

Entretanto, antes de se tornar tão incapacitado, ele havia sido um dos escritores mais prolíficos do século XIX. Havia produzido um grande número de livros, muitos dos quais haviam sido ditados a uma secretária tão rapidamente quanto ela conseguia registrar as palavras, às vezes enquanto ele estava entre sets de tênis ou passeando em um barco a remo. Seus trabalhos foram publicados em revistas popu­lares, milhares de cópias de seus livros foram vendidas e seu sistema de filosofia foi adotado como parte do currículo padrão em praticamente todas as universidades.

Sem dúvida ele teria publicado ainda mais livros e artigos se não tivesse desenvolvido sintomas intensos de neurose que limitaram seu trabalho a algumas horas ao dia. Aos 35 anos, em uma situação que nos lembra a de Darwin, nosso filósofo desenvolveu palpitações no coração, insônia e problemas digestivos sempre que o mundo lhe importunava. Assim como Darwin, seus males físicos coin­cidiram com o desenvolvimento do sistema de pensamento ao qual devotou sua vida, o sistema que exerceria profunda influência em direção da nova psicologia estadunidense. Seu nome era Herbert Spencer.

A Evolução Chega aos Estados Unidos: Herbert Spencer (1820-1903)

A filosofia que rendeu a Herbert Spencer o reconhecimento e a aclamação foi o darwinismo - a noção da evolução e da sobrevivência do mais apto. Spencer estendeu a teoria para muito além do próprio trabalho de Darwin. Nos Estados Unidos, o interesse pela teoria da evolução de Darwin era muito grande, e suas ideias haviam sido muito bem-aceitas. O evolucionismo foi abarcado não apenas pelas universidades e sociedades científicas, mas também por revistas populares e até mesmo algumas publicações religiosas.

O Darwinismo Social

Spencer alegava que o desenvolvimento de todos os aspectos do universo é evolucionário, incluindo o caráter humano e as instituições sociais, em conformidade com o princípio da "sobrevivência do mais apto" (expressão cunhada por ele). Essa ênfase no chamado darwinismo social - aplicação da teoria da evolução da natureza humana e da sociedade - foi recebida com muito entusiasmo nos Estados Unidos.

Na visão utópica de Spencer, se o princípio da sobre­vivência do mais apto operasse com liberdade, apenas os melhores sobreviveriam. Portanto, a perfeição humana seria inevitável, desde que nenhuma ação interferisse na ordem natural das coisas. O individualismo e o sistema econômico do laissez-faire eram vitais, enquanto os aspectos governamentais para regulamentar negócios e indústria e a assistência social (por meio de subsídios a educação, moradia e pobreza) eram opostos.

A população e as organizações deveriam ter liberdade para se desenvolver por conta própria, utilizando-se de meios próprios, do mesmo modo que as demais espécies vivas se desenvolviam e adaptavam-se livremente ao ambiente natural. Qualquer auxílio do Estado interfere no processo evolutivo natural.

As pessoas, os programas, a economia ou as instituições que não se adaptassem eram considerados inaptos para sobreviver e deviam perecer (tornarem-se "extintos") para a melhoria de toda a sociedade. Se o Estado continuasse a sustentar empresas que não fun­cionassem bem, elas conseguiriam sobreviver, mas acabariam enfraquecendo a socieda­de, violando a lei básica natural de que apenas o mais forte e mais apto deve sobreviver. Mais uma vez, a ideia de Spencer era que somente com a sobrevivência dos melhores a sociedade atingiria a perfeição.

Essa mensagem era compatível com o espírito individualista estadunidense e as expressões "sobrevivência do mais apto" e "a luta pela existência" rapidamente passaram a fazer parte da consciência nacional. James J. Hill, o magnata da indústria ferroviária, reiterou a mensagem de Spencer: "O êxito das companhias ferroviárias é determinado pela lei da sobrevivência do mais apto". E John D. Rockfeller declarou: "O crescimento das grandes empresas é apenas o resultado da sobrevivência do mais apto" (Hill e Rockefeller apud Hofstadter, 1992, p. 45). As frases refletiam claramente a sociedade norte-estadunidense do final do século XIX, ou seja, os Estados Unidos consistiam um exemplo vivo das ideias de Spencer.

Essa nação pioneira estava sendo formada por sérios trabalhadores que acreditavam na livre iniciativa, na autossuficiência e na independência da interferência do Estado. E eles conheciam bem de perto a lei da sobrevivência do mais apto no seu dia-a-dia. A terra estava disponível para os dotados de coragem, sagacidade e habilidade para tomá-la e transformá-la no seu meio de vida. Os princípios da seleção natural eram claramente demons­trados nas experiências diárias, principalmente na fronteira oeste dos Estados Unidos, onde a sobrevivência e o sucesso dependiam da capacidade de adaptação do homem às difíceis condições e exigências do ambiente; quem não se adaptou não sobreviveu.

O historiador estadunidense Frederick Jackson Turner descreveu assim os sobreviventes:

Aquela rudeza e força combinadas com a agudeza e curiosidade; aquela mentalidade práti­ca engenhosa e astuta para encontrar recursos; aquele hábil domínio das coisas materiais (...) poderoso para realizar grandes feitos; aquela energia incansável e agitada; aquele individualismo dominante. (Turner, 1947, p. 235)

Os estadunidenses eram voltados ao prático, útil e funcional. Os estágios iniciais da psicologia estadunidense refletiram essas qualidades. Por essa razão, a teoria evolucionista foi mais bem-aceita nos Estados Unidos do que em outras nações. A psicologia estadunidense transformou-se em uma psicologia funcional porque a evolução e o espírito funcional eram compatíveis com esse temperamento básico, assim como a compatibilidade entre a visão de Spencer e o ethos estadunidense permitiu que seu sistema filosófico influenciasse todos os campos do conhecimento. O famoso líder religioso protestante Henry Ward Beecher escreveu a Spencer, dizendo: “As condições peculiares da sociedade estadunidense permitiram que seus escritos produzissem efeitos mais rápidos aqui do que na Europa" (Beecher, apud Hofstadter, 1992, p. 31).

A Filosofia Sintética

Spencer formulou um sistema denominado filosofia sintética (ele usou a palavra "sintéti­ca no sentido de sintetização ou combinação e não com o significado de algo artificial ou não natural). Ele baseou esse sistema amplamente abrangente na aplicacão dos princípios evolucionistas ao conhecimento e à experiência humana. Suas ideias foram publicadas em uma serie de 10 livros, entre 1860 e 1897. Os volumes foram considerados pelos prin­cipais intelectuais da época um trabalho de gênio. 

Conwy Lloyd Morgan escreveu a ele: "A nenhum outro mestre lntelectual devo tanta gratidão quanto ao senhor" Alfred Russel Wallace batizou seu primeiro filho com o nome de Spencer. Darwin disse: Após ler um dos livros de Spencer, que ele "era uma dúzia de vezes superior a mim".

Dois volumes da filosofia sintética constituíram a obra The principies of psychology publicada inicialmente em 1855, mais tarde adotada por William James como livro-base para o primeiro curso de psicologia que lecionou em Harvard. Nesse livro, Spencer discute a noção de que a forma atual da mente é resultado dos esforços passados e contínuos na adaptação a diversos ambientes. Ele enfatizava a natureza adaptável dos processos nervosos e mentais e afirmava que uma complexidade crescente de experiência - e assim de com­portamento - faz parte do processo normal de evolução. O organismo precisa se adaptar ao ambiente se desejar sobreviver.

Evolução Contínua das Máquinas

As máquinas (chamadas de robôs), haviam sido criadas para duplicar o movimento humano bem como o pensamento humano (como as máquinas de calcular de Babbage). Seria possível que as máquinas evoluíssem para formas mais avançadas tal como era dito a respeito dos homens e animais? Na época em que o darwinismo foi publicado em 1859, a metáfora mecânica para a vida humana havia se tornado tão aceita nos círculos intelectuais e sociais que a questão parecia inevitável.

A pessoa que fez a pergunta e expandiu o evolucionismo para as máquinas foi Sa­muel Butler (1835-1902), um escritor, pintor e músico que em 1859 emigrou para a Nova Zelândia para criar ovelhas. Butler e Darwin se corresponderam longamente.

Em um ensaio intitulado "Darwin entre as Máquinas", Butler escreveu que a evolução das maquinas já havia ocorrido. Só tínhamos que comparar os itens primordiais, rudimentares como as alavancas, cunhas e roldanas com o complexo maquinário das fábricas e as grandes locomotivas e navios a vapor.

Butler propôs que a evolução mecânica estava ocorrendo por meio dos mesmos processos que guiaram a evolução humana: seleção natural e luta pela existência. Os inventores estão constantemente criando máquinas novas para obter alguma vantagem competitiva. Essas novas máquinas eliminam as antigas, que, inferiores, não conseguem mais se adaptar ou competir na luta pela sobrevivência - um lugar no mercado. Como resultado, as máquinas obsoletas desaparecem, assim como os dinossauros.

Com o rápido desenvolvimento tecnológico ficou claro a Butler que as máquinas haviam evoluído muito mais do que os animais, e previu que as máquinas um dia se tornariam capazes de simular processos mentais humanos - um tipo de inteligência. Isso se tornou realidade enquanto Butler vivia, pelo menos no que diz respeito ao processo mental para cálculos.

Por volta do final do século XIX, o tipo de máquina calculadora de Babbage não era mais adequado. Os cálculos realizados por dispositivos mecânicos ou por meios humanos exigiam máquinas cada vez mais adequadas. Um fato que exemplificou essa necessidade foi o censo populacional norte-estadunidense de 1890.

O censo realizado 10 anos antes fora tão complexo que levou sete anos para ser con­cluído. Cerca de 1.500 funcionários computaram a mão dados referentes a idade, sexo, etnia, residência e outras características (que esperavam obter) de cada cidadão estadunidense. Os resultados foram compilados em um relatório de mais de 21 mil páginas. Nesse inter­valo, a população cresceu tão rapidamente que era óbvia a necessidade de uma mudança nos procedimentos ou, do contrário, o censo de 1890 não seria concluído antes de 1900, já no início do censo seguinte. Havia a necessidade de uma nova e avançada máquina processadora de informações.

Henry Hollerith e os Cartões Perfurados

Henry Hollerith (1859-1929) foi o engenheiro que desenvolveu a nova e avançada forma de processar as informações. Dois historiadores, sobre a origem dos computadores, des­creveram a inovadora criação de Hollerith dizendo que seu método registrava as respostas dos questionários de cada cidadão em uma fita de papel com um padrão de perfuração ou em um conjunto de cartões perfurados, parecidos com os utilizados para a gravação de músicas dos pequenos órgãos de exposição [como os pianos] daquela época. Desse modo, era possível utilizar uma máquina para contar automaticamente os orifícios e tabular os resultados. (Campbell-Kelly e Aspray, 1996. p. 22)

Hollerith utilizou 56 milhões de cartões para computar os resultados obtidos de 62 milhões de pessoas. Cada cartão tinha capacidade para armazenar o equivalente a até 36 bytes de 8 bits de informações. Assim, o censo norte-estadunidense de 1890 produziu mais informações do que se havia acumulado até então e, em apenas dois anos, rendeu uma economia de 5 milhões de dólares em comparação com o método de tabulação manual. O sistema de cartão perfurado de Hollerith alterou radicalmente o processamento desse tipo de informação e renovou as esperanças (e os temores) de que as máquinas, com o tempo, seriam capazes de reproduzir o funcionamento cognitivo humano. Um artigo na revista Scientific American foi publicado com o seguinte título “How strips of paper canendow inanimate machines with brains of their own" ("Como tiras de papel podem dotar as máquinas inanimadas de mentes próprias") (Dyson, 1997).

Em 1896, Hollerith estabeleceu a própria empresa, a Tabulating Machine Company, que foi vendida em 1911. A nova corporação, a Computing-Tabulating-Recording Com­pany, foi rebatizada em 1924, sendo hoje a famosa IBM.

William James (1842-1910): o Precursor da Psicologia Funcional

Tanto o próprio William James como o seu papel na psicologia estadunidense são muito para­doxais. Seu trabalho foi o principal precursor estadunidense da psicologia funcional e ele foi o pioneiro da nova psicologia científica desenvolvida nos Estados Unidos. Uma pesquisa realizada pelos historiadores da psicologia, 80 anos após a morte de James, revelou que ele era considerado a segunda figura mais importante da psicologia, perdendo apenas para Wilhelm Wundt, além de ser apontado como o principal psicólogo estadunidense (Korn etal., 1991). O eminente filósofo e psicólogo John Dewey considerou James como "de longe, o maior dos psicólogos dos Estados Unidos(...) de qualquer país(...) talvez de todos os tem­pos." John B. Watson, o fundador do behaviorismo, referiu-se a James como "o psicólogo mais brilhante que o mundo já conheceu" (ambos citados em Leary, 2003, p. 19-20).

No entanto, alguns colegas de James o consideravam uma força contrária ao desenvol­vimento da psicologia científica. Ele mantinha um notório interesse em assuntos como telepatia, clarividência, espiritismo, comunicação com os mortos em sessões espíritas e outros fatos místicos. Os psicólogos estadunidenses, como Titchener e Cattell, criticavam a sua entusiástica exposição a esses fenômenos psíquicos e mentalísticos que eles, como psicólogos experimentais, estavam tentando banir do campo.

James não fundou nenhum sistema formal de psicologia ou sequer teve algum discípulo; não houve uma escola de pensamento "jamesiana". Embora a forma de psicologia a ele associada fosse uma tentativa de ser científica e experimental, a própria atitude e as realizações de James não eram experimentalistas. A psicologia, que um dia ele chama­ra de "pequena ciência detestável", não era a sua paixão eterna, como era para Wundt e Titchener. James trabalhou com a psicologia durante algum tempo e depois mudou sua área de interesse.

Nos últimos anos da vida, esse homem complexo e fascinante, que tanto contribuíra para a psicologia, acabou deixando-a de lado (em uma ocasião, quando ia realizar uma palestra na Princeton University, pediu para que não fosse apresentado como psicólogo). Ele até insistia em afirmar que a psicologia não passava de "uma elaboração do óbvio". Mesmo que com a sua ausência a psicologia não deixasse de seguir adiante, e às vezes cambaleante, James ocupou o seu lugar e teve a sua importância garantida na história da psicologia.

James não fundou a psicologia funcional, mas apresentou de forma clara e eficaz as suas ideias dentro da atmosfera funcionalista impregnada na psicologia estadunidense.

Dessa forma, influenciou o movimento funcionalista, inspirando as gerações posteriores de psicólogos.

A Biografia de James

William James nasceu no Astor House, um hotel da cidade de Nova York, em uma família destacada e rica. Seu pai (naquela época, o segundo homem mais rico dos Estados Unidos) dedicou-se com entusiasmo, embora de forma inconsistente, à educação dos filhos, que alternava entre a Europa e os Estados Unidos. Assim, os anos escolares iniciais de James foram passados na Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Suíça e nos Estados Unidos. Essas experiências estimulantes expuseram James às vantagens culturais e intelectuais da In­glaterra e do restante da Europa.

Durante toda a sua vida, James viajou muitas vezes para o exterior. O método favorito do pai para tratar das pessoas doentes da família era mandá-las para a Europa, e não para o hospital. E a sua mãe dispensava atenção e carinho aos filhos somente quando estavam doentes. Talvez não fosse surpresa o fato de James dificilmente apresentar boa saúde.

Embora o velho James não esperasse que nenhum dos filhos se preocupasse em ganhar a vida, incentivou o interesse precoce de William pela ciência. Deu-lhe um jogo de química contendo um "bico de Bunsen e pequenas amostras de líquidos estranhos que, para desgosto do pai, misturava, aquecia e transfundia, manchando os dedos e as roupas, chegando até a provocar perigosas explosões" (Allen, 1967, p. 47).

Com 18 anos, James decidiu tornar-se artista, e seis meses no ateliê do pintor William Hunt em Newport, Rhode Island, convenceram-no de que, apesar da boa técnica, não era dotado de talento suficiente para tornar-se um grande artista. Desistiu da carreira e acabou matriculando-se na Lawrence Scientific School, em Harvard. Nessa época estoura­va a guerra civil estadunidense e, mais tarde, James confessou que desejara servir o exército, mas o pai o proibira, alegando não existir nenhum governo ou qualquer outra causa que valesse a vida como sacrifício.

Pouco tempo depois de chegar a Harvard, começou a perder a autoconfiança e a saúde, transformando-se em uma pessoa extremamente neurótica para o resto da vida. Abandonou o interesse pela química, aparentemente em função da precisão exigida no trabalho laboratorial, e tentou prosseguir com a medicina que, no entanto, não lhe des­pertava muito interesse, tal como comentou:

Há muito farsante nesse meio (...) Exceto nas cirurgias, em que às vezes é possível obter algum resultado positivo, o médico faz mais pelo efeito moral da sua presença diante do paciente e da sua família do que por qualquer outro motivo, além de poder extrair-lhe o dinheiro. (James apud Allen, 1967, p. 98)

James abandonou a medicina para auxiliar o zoólogo Louis Agassiz em uma expedição à bacia do rio Amazonas, para colher espécies de animais marinhos. A viagem deu-lhe a oportunidade de ter uma amostra da carreira na biologia, mas logo percebeu que não conseguiria suportar a precisão das coletas e da classificação das espécies, bem como as exigências físicas do trabalho de campo. Em uma carta que escreveu para a família, disse: “Minha vinda foi um erro. Estou definitivamente convencido de que sou talhado para a elaboração teórica e não para o trabalho de campo" (apud Simon, 1998, p. 93). Essa reação ao trabalho científico na química e na biologia professava a sua posterior aversão pela experimentação no campo da psicologia.

Embora a viagem ao Brasil, em 1865, não conseguisse tornar a medicina de alguma forma atraente para James, ele relutou mas acabou retomando os estudos médicos por não haver nenhuma outra área que lhe despertasse o interesse. Estava frequentemente doente, queixando-se de depressão, problemas digestivos, insônia, dificuldades visuais e dores nas costas. "Era óbvio que ele estava sofrendo de América; a Europa era a única cura" (Miller e Buckhout, 1973, p. 84).

James recuperou-se em um balneário na Alemanha, dedicando-se à literatura e escre­vendo longas cartas aos amigos, mas a depressão persistia. Frequentou aulas de psicologia na Universidade de Berlim que o levaram a refletir que talvez fosse chegada a hora de a "psi­cologia começar a se tornar ciência" (apud Allen, 1967, p. 140). Também afirmou que se sobrevivesse a doença e conseguisse suportar o inverno, desejava aprofundar os estudos de Psicologia com o grande Helmholtz e, usando exatamente estas palavras, com um homem chamado Wundt. Sobreviveu ao inverno, mas não conheceu Wundt naquela época. No entanto, o fato de ter ouvido falar de Wundt mostra a consciência que ele tinha das tendên­cias cientificas e intelectuais, mesmo 10 anos antes de Wundt fundar seu laboratório.

James conseguiu formar-se em medicina em Harvard em 1869, mas sua insegurança e depressão pioravam. Acometido de males indeterminados e medos terríveis chegou a pensar em suicídio. Seu pavor era tão imenso que não conseguia sair de casa sozinho à noite.

Internou-se em uma clínica de repouso em Somerville, Massachusetts, mas nenhum tratamento era capaz de aliviar seu sofrimento (Townsend, 1996). James não era a única pessoa a sofrer desse mal naquela época.

Uma epidemia de neurastenia. O neurologista estadunidense George Beard cunhou o termo neurastenia para referir-se a um estado nervoso peculiar do estadunidense. Listou uma variedade de sintomas como insônia, hipocondria, dor de cabeça, erupções cutâneas cansaço nervoso e um estado que chamou de colapso cerebral (Lutz, 1991). James chamou a sindrome de "americanite" (Ross, 1991).

Durante a segunda metade do século XIX, aquilo que muitos observadores chamaram de epidemia de neurastenia" varria as classes mais altas. (...) Neurastenia era, literalmente falta de força nervosa, ou seja, depressão paralisante e perda de ânimo. Os mais educa­dos e conscientes eram os que tinham mais chances de sucumbirem. O adiamento na escolha da carreira tornou-se uma experiência comum entre esses filhos problemáticos da burguesia. (Lears, 1987, p. 87).

Muitos amigos, parentes e colegas de James sofriam desses sintomas debilitantes. Um amigo escreveu-lhe, dizendo: 'Fico imaginando se alguém na Nova Inglaterra tênha conseguido chegar aos 35 anos sem pensar em suicídio”, E James respondem  "creio não haver nenhum intelectual que não tenha flertado com a ideia de suicídio" (apud Townsend, 1996). A condição estava tão disseminada entre o segmento mais rico e intelectual Estadunidense que uma revista foi lançada com o título de Anybody Who Was Anybody Was Neurasthenic (Miller, 1991). Obviamente, William James estava bem acompanhado. A indústria  farmaceutica Rexall tirou Proveito da oportunidade criada por essa doença, introduzindo um remedio patenteado com o nome de Americanitis Elixir (Elixir para Americanitis), recomendado para distúrbios nervosos, fadiga e todos os problemas causados pela americanite (Marcus, 1998). As mulheres que sofriam desse mal, claramente intelectuais e feministas, eram aconselhadas a "passar seis semanas ou mais de cama sem executarem qualquer trabalho, leitura ou atividade social e ganhar muito peso por meio de uma dieta a base de muita gordura". Os homens não precisavam se submeter a um tratamento tão rígido assim. O conselho para eles incluía "viagens, aventuras [e muito exercício físico" (Showalter, 1997, p. 50, 66). 

Descobrindo a psicologia. No período de depressão em 1869, James começou a desenvolver uma filosofia de vida incentivado não tanto pela curiosidade intelectual mas pelo desespero. Leu muita filosofia, inclusive os ensaios de Charles Renouvier sobre o livre-arbitrio, o que o convenceu da sua existência. 

Decidiu que seu primeiro ato da vontade própria seria a crença no livre-arbítrio. Em seguida, passou a crer que conseguiria curar a depressão apenas acreditando na força de vontade. Aparentemente obteve certo êxito, pois, em 1872, aceitou lecionar fisiologia em Harvard, comentando ser "nobre para o espírito de uma pessoa ter um trabalho responsável para realizar" (James, 1902, p. 167). No entanto, apenas um ano depois, teve de tirar licença para visitar a Itália, mas retornou pouco tempo depois e continuou lecionando.

Mais ou menos nessa mesma época, James interessou-se pelos efeitos de alguns ele­mentos químicos na alteração da mente. Leu a respeito das experiências por que passaram pessoas sob a influência do óxido nitroso (o "gás hilariante") e do nitrato de amila, que afetam a oxigenação do cérebro, causando assim movimentos bruscos. Decidiu experimen­tar essas substâncias. Como escreveu um biógrafo, essa fora "a primeira entre as várias experiências [de James] com estados conscientes alterados, que o fascinaram devido à forma como as alterações físicas influenciavam a consciência" (Croce, 1999, p. 7).

No ano letivo de 1875-76, James lecionou seu primeiro curso de psicologia, que cha­mou de The relations between physiology and psychology [As relações entre a fisiologia e a psicologia]. Por isso, Harvard foi a primeira universidade dos Estados Unidos a oferecer o curso de psicologia experimental. James nunca frequentara cursos formais de psicologia - o primeiro foi o seu. Pediu dinheiro à faculdade para adquirir um laboratório e equipa­mentos de demonstração para suas aulas e recebeu 300 dólares.

Em 1878, dois acontecimentos importantes marcaram a vida de James: o casamento com Alice Howe Gibbens, a mulher escolhida por seu pai, e a assinatura de um contrato com o editor Henry Holt, que resultou em um dos livros clássicos da psicologia. Ele levou 12 anos para escrever o livro, que começara durante a lua-de-mel.

Uma das razões de tanta demora para James escrevê-lo é que ele era um viajante com­pulsivo. Quando não estava na Europa, podia ser facilmente encontrado nas montanhas de Nova York ou New Hampshire.

Suas cartas dão a entender que suas relações familiares eram muito desgastantes e que frequentemente sentia necessidade de ficar sozinho. As viagens eram a única forma de conseguir lidar com essa situação. Ele arranjava uma viagem após o nascimento de cada um dos seus filhos e, obviamente, sentia-se culpado. Frequentemente se ausentava das comemorações de Natal, Ano Novo e aniversários, mesmo não estando muito distante, como, por exemplo, em Newport. (...) As viagens de James eram fugas das confusões fami­liares para a natureza, a solidão e o alívio místico. (Myers, 1986. p. 36-37)

Os nascimentos dos filhos foram muito perturbadores para o temperamento sensível de James. Não conseguia trabalhar direito e ressentia-se da atenção dispensada pela esposa aos recém-nascidos. Depois do nascimento do segundo filho, passou um ano no exterior, viajando de uma cidade a outra. Escreveu de Veneza para sua esposa, dizendo-se apaixonado por uma italiana. Ele disse: "Você vai acabar se acostumando com esses meus entusiasmos e acabará gostando" (apud Lewis, 1991, p. 344). Mas Alice ficava contrariada com o que ela mesma descrevia como a "tendência [do meu marido] de flertar casualmen­te com conhecidas e até mesmo com as empregadas da família". Ficara furiosa quando ele lhe contara haver beijado uma delas. James, no entanto, achava que essa sua natureza afetiva devia deixá-la feliz. Conforme explicava, muitas vezes tinha o "desejo de beijar as pessoas" (apud Simon, 1998, p. 215-216).

James continuava a lecionar em Harvard quando se encontrava na cidade e, em 1885, foi promovido a professor de filosofia. Quatro anos mais tarde, passou a ter o título de professor de psicologia. Nessa época já havia conhecido vários psicólogos europeus, dentre eles Wundt, que "causou-me uma agradável impressão pessoal, com a sua voz agradável e o eterno sorriso franco nos lábios". No entanto, alguns anos depois, James percebeu que Wundt ''não é um gênio, ele é um professor, um ser cuja tarefa é conhecer tudo e ter opi­nião própria sobre qualquer assunto" (James apud Allen, 1967, p. 251, 304).

O livro de James, The principles of psychology, foi finalmente publicado em 1890 em dois volumes. Foi um tremendo sucesso e uma importante contribuição para a área. Quase 80 anos após a sua publicação, um psicólogo declarou: "O livro Principles de James é sem sombra de dúvida a obra mais culta e provocante e, ao mesmo tempo, o livro de psicologia mais compreensível escrito até hoje em inglês e em qualquer outro idioma" (MacLeod, 1969, p. iii). Essa obra foi o livro de referência mais importante para várias gerações de estudantes de psicologia e até hoje é lida por várias pessoas que não têm a obrigatoriedade de lê-la.

A reação favorável ao livro não foi unânime. Wundt e Titchener, criticados na obra, não reagiram bem. Wundt declarou: “Trata-se de uma literatura dotada de beleza, mas não é psicologia" (Wundt, apud Bjork, 1983, p. 12). Wundt continuou criticando severamente o trabalho de James na psicologia. De acordo com C. H. Judd, um estudante estadunidense do laboratório de Wundt em Leipzig, havia tido muito pouco respeito pelos líderes da psicologia estadunidense que houvessem estuda­do em outro lugar que não em Leipzig. Havia especial antipatia por James. Ele fez algo
considerado totalmente insensato, não somente criticou Wundt (...) como o fez de forma sarcástica. Isso era demais. (...) James não era considerado um pensador de primeira linha (1930/1961, p. 215).

O próprio James não reagiu favoravelmente ao seu livro. Escreveu uma carta ao editor e descreveu o manuscrito como uma "massa repugnante, distendida, intumescida, inflada e hidrópica que certifica nada além de dois fatos: primeiro, não existe uma ciência da psico­logia, segundo, que [William James] é um incapaz" (James apud Allen, 1967, p. 314-315).

Com a publicação do livro The principles, James decidiu que não tinha nada mais a dizer a respeito da psicologia. Além disso, não se interessava mais na supervisão do labo­ratório de psicologia em Harvard. Conseguiu que Hugo Münsterberg, naquela época na University of Freiburg, Alemanha, se tornasse diretor do laboratório e lecionasse os cursos de psicologia, ficando livre para trabalhar com a filosofia. Münsterberg nunca chegou a desempenhar o papel que James esperava dele: tornar-se uma liderança na pesquisa expe­rimental em Harvard. Ao contrário, Münsterberg procurava estudar uma variedade de problemas do mundo real e dedicava pouca atenção ao laboratório. Ele foi importante por
ter ajudado a popularizar a psicologia e transformá-la em uma disciplina mais aplicada.

Embora James houvesse instalado e equipado o laboratório de psicologia de Harvard, ele não era experimentalista. Nunca se convencera do valor do trabalho laboratorial e pessoalmente não gostava de realizar essa tarefa. Dizia que as universidades estadunidenses tinham laboratórios demais e, no livro The principles, destacou que os resultados do tra­balho de laboratório não eram proporcionais aos enormes esforços exigidos. Portanto
não causa estranheza o fato de sua contribuição à psicologia constituir-se de tão pouco trabalho experimental.

James passou os últimos 20 anos da vida refinando seu sistema filosófico e, por volta da década de 1890, foi reconhecido como o principal filósofo estadunidense. Entre os principais trabalhos de filosofia publicados está The varieties of religious experience (1902). A sua obra Talks to teachers (1899) marcou o início da psicologia educacional e divulgou as ideias de James sobre a aplicação da psicologia na sala de aula em situações de aprendizagem.

Os Princípios da Psicologia

Por que tantos estudiosos consideram James o maior psicólogo estadunidense? Três hipóteses são levantadas para explicar tamanha importância e influência creditadas a ele. Primeiro, James escrevia com uma clareza rara na ciência. Sua escrita era dotada de magnetismo! espontaneidade e charme. Segundo, ele se posicionou contra o objetivo de Wundt na psicologia - a análise da consciência a partir dos seus elementos. E terceiro, James ofere­ceu uma forma alternativa de analisar a mente, uma visão congruente com a abordagem funcional da psicologia. Em resumo, a era da psicologia estadunidense estava preparada para ouvir o que James tinha a dizer.

No livro The principies of psychology, James apresentou a visão que acabou tornando-se a doutrina central do funcionalismo estadunidense - a psicologia não tem como meta a des­coberta dos elementos da experiência, mas o estudo sobre a adaptação dos seres humanos ao seu meio ambiente. A função da nossa consciência é guiar-nos aos fins necessários para a sobrevivência. A consciência é vital para as necessidades dos seres complexos em um ambiente complexo; de outra forma, a evolução humana não ocorreria.

James também enfatizava os aspectos não-racionais da natureza humana. As pessoas eram criaturas dotadas de emoção e paixão, assim como de pensamento e razão. Mesmo quando discutia os processos puramente intelectuais, James destacava o não-racional. Alegava que a condição física afetava o intelecto, que os fatores emocionais determinavam as crenças e que as necessidades e os desejos humanos influenciavam a formação da razão e dos conceitos. Assim, James não considerava as pessoas seres totalmente racionais. Em The principies, James escreveu sobre as mais variadas áreas.

O Objeto de Estudo da Psicologia: a Nova Visão sobre a Consciência

James afirmava logo no início da obra que “A psicologia é a ciência da vida mental, abran­gendo tanto os seus fenômenos como as suas condições” (James, 1890, v. 1, p. 1). No que tange ao objeto de estudo, as palavras-chave são fenômenos e condições. Com fenômenos,
ele queria dizer que o objeto de estudo da psicologia devia ser buscado na experiência imediata; com condições, referia-se à importância do corpo, principalmente do cérebro, na vida mental.

De acordo com James, as subestruturas físicas da consciência formam uma parte básica da psicologia. A consciência deve ser analisada no seu ambiente natural, que é o físico do ser humano. Essa noção biológica da ação do cérebro sobre a consciência é uma característica exclusiva da abordagem de psicologia de James.

Ele rebelava-se contra a artificialidade e a estreiteza da posição de Wundt. Acreditava serem as experiências conscientes simplesmente experiências conscientes e não grupos ou conjuntos de elementos. A descoberta de elementos mínimos da consciência, por meio da análise introspectiva, não demonstra que eles existam independentemente de um obser­vador treinado. Os psicólogos realizam leituras da experiência com base na sua posição sistemática e com o seu ponto de vista.

Um degustador treinado é capaz de distinguir os elementos individuais do sabor de um alimento que não são percebidos por uma pessoa não-treinada, a qual percebe um misto de sabores, uma mistura total de ingredientes impossível de distinguir. Do mesmo modo, o fato de algumas pessoas treinadas serem capazes de analisar suas experiências conscientes em um laboratório de psicologia não quer dizer que os elementos por elas relatados estejam presentes na consciência de qualquer outra pessoa exposta à mesma experiência. James considerava essa afirmação uma "falácia dos psicólogos".

Atingindo o ponto central da abordagem de Wundt, James declarou que as sensa­ções simples não existem na experiência consciente, existindo apenas como resultado de algum processo retorcido de inferência ou abstração. Em uma declaração grosseira e eloquente, disse:

Ninguém jamais experimentou uma sensação simples por si próprio. A consciência, desde o dia do nosso nascimento, gera uma imensa multiplicidade de objetos e relações e o que denominamos sensações simples é resultado da atenção discriminativa, levada a um grau muito alto. (James, 1890, v. 1, p. 224)

No lugar da análise artificial e da redução da experiência consciente aos ditos elemen­tos componentes, James criou um programa de psicologia. A vida mental consiste em uma unidade, em uma experiência total que se modifica. A consciência é um fluxo constante e qualquer tentativa de dividi-la em fases temporariamente distintas pode distorcê-la. Para expressar essa ideia, James cunhou a expressão fluxo de consciência.

Como a consciência está em constante modificação, não é possível experimentar o mesmo pensamento ou a mesma sensação mais de uma vez. Pode-se pensar em um objeto ou um estímulo em mais de uma ocasião, mas os pensamentos não são idênticos em cada situação. São diferentes devido às experiências intervenientes. Desse modo, a consciência é definida como cumulativa e não recorrente.

A mente é igualmente contínua. Não há interrupção abrupta no fluxo de consciência. É possível notar lapsos de tempo, por exemplo, quando estamos sonolentos, mas, quando estamos despertos, não temos dificuldade de estabelecer relações com nosso fluxo de cons­ciência em andamento. Além disso, a mente é seletiva: como somos capazes de prestar atenção em apenas uma pequena parte do universo das nossas experiências, ela escolhe entre os vários estímulos aos quais é exposta. A mente filtra algumas experiências, combina ou separa outras, seleciona e rejeita outras mais. O principal critério de seleção é a relevância - a mente seleciona os estímulos relevantes de modo que permita que a consciência opere de modo lógico, criando assim uma série de ideias que possam resultar em uma conclusão racional.

Por fim, James destacou a função ou o propósito da consciência. Acreditava que ela desempenhava alguma função biológica, de outro modo não teria sobrevivido ao tempo.

A função da consciência é proporcionar a capacidade de adaptação ao ambiente, permi­tindo-nos escolher. Para desenvolver essa ideia, James fazia a distinção entre a escolha e o hábito; acreditava que os hábitos eram involuntários e não conscientes. Quando estamos diante de um novo problema e temos de escolher uma forma de enfrentá-lo, a consciência entra em cena. Essa ênfase da intencionalidade reflete o impacto da teoria da evolução.


Texto original

Trecho sobre a Consciência, Extraído de Psychology (Briefer Course) (1892), de William James

A consciência encontra-se em constante mudança. Não quero dizer com essa afirmação que o estado mental seja dotado de alguma duração - e mesmo que fosse verdade, seria difícil estabelecer essa duração. O que desejo destacar com essa afirmação é a impossibilidade de um estado do passado recorrer e ser idêntico ao que fora anteriormente. Neste momen­to sentimos, ouvimos, pensamos, desejamos, lembramos, esperamos, amamos, odiamos e vivenciamos outras centenas de estados que sabemos estarem relacionados alternadamente em nossas mentes. Todavia, todos esses estados são complexos, podendo-se assim dizer, produzidos pela combinação dos estados mais simples; mas os estados simples não seriam regidos por uma lei distinta? Não seriam, por exemplo, as sensações extraídas do mesmo objeto sempre as mesmas? A tecla do piano pressionada com a mesma intensidade não pro­vocaria a sensação de ouvirmos e o mesmo som? Não provocaria a mesma grama a idêntica sensação de verde, o mesmo firmamento, a igual sensação de azul, e não teríamos a mesma sensação olfativa independentemente do número de vezes que encostamos o nosso nariz no mesmo frasco do perfume? Pode soar como um sofisma metafísico a sugestão de que não percebemos as sensações dessa forma; e uma atenção mais cuidadosa do assunto demonstra que não há provas de que a sensação de receber um choque elétrico provoque duas vezes percepções corporais idênticas.

O que está presente duas vezes é o mesmo objeto. Ouvimos a mesma nota executada diversas vezes, enxergamos a mesma tonalidade da cor verde, a fragrância do mesmo perfume ou a experiência da mesma espécie de dor. As realidades, concretas e abstratas, físicas e ideo­lógicas, em cuja permanente existência acreditamos, parecem surgir constantemente no nosso pensamento e conduzir-nos, devido à nossa falta de cautela, a supor que as nossas "ideias" a respeito dessas realidades consistem nas mesmas ideias. (...) A grama que vislumbro pela janela parece ter o mesmo tom de verde tanto sob o sol como sob a sombra, e, no entanto, o pintor pode pintar uma parte dela de marrom escuro, outra parte de amarelo claro, tentan­do criar o efeito sensorial da realidade. Normalmente, não prestamos atenção nas diferentes formas de aparência, som e odor que os mesmos objetos assumem quando observados de distâncias distintas e sob diversas circunstâncias. A igualdade dos objetos é que consiste no alvo de nossa investigação; e qualquer sensação que nos garanta essa igualdade será prova­velmente considerada, de um modo geral, como a mesma para todos.

Essa característica é que traz o julgamento precipitado sobre a identidade subjetiva das diferentes sensações bem próximo da invalidade como uma evidência do fato. Toda a descri­ção daquilo que se chama sensação consiste em um comentário sobre a nossa incapacidade  de afirmar se duas qualidades sensoriais recebidas separadamente são exatamente idênticas. O que chama a nossa atenção muito mais do que a qualidade absoluta de uma impressão é a sua proporção em relação a qualquer outra impressão que possamos vivenciar ao mesmo tempo. Quando a escuridão é total, a mínima sensação de claridade nos faz enxergar um branco – Helmholtz calcula que o mármore branco pintado em uma tela representando uma paisagem arquitetônica sob o luar, quando visto à luz do dia, é de 10 a 20 vezes mais claro do que seria o mármore visto sob o luar verdadeiro.

Uma diferença como essa nunca poderia ser aprendida por meio da sensação, teria de ser deduzida com base em uma série de considerações indiretas. Isso tudo nos faz crer que a nossa sensibilidade vai se alterando com o tempo, de modo que o mesmo objeto não nos proporciona facilmente a mesma sensação novamente. Sentimos os objetos de modo dife­rente, de acordo com o nosso estado, se estamos sonolentos ou despertos, com fome ou satisfeitos, dispostos ou cansados; de forma distinta à noite e pela manhã, no verão e no inverno, e, acima de tudo, na infância, na vida adulta e na velhice. No entanto, nunca duvida­mos de que os nossos sentimentos revelam o mesmo universo, com as mesmas características sensoriais e com os mesmos objetos sensoriais o ocupando. A diferenciação da sensibilidade é mais bem demonstrada por meio da distinção da nossa emoção a respeito dos objetos de uma idade a outra, ou quando nos encontramos em estados orgânicos distintos. O que era
alegre e excitante torna-se tedioso, simples e inútil. O canto do pássaro é entediante a brisa e melancólica e o céu é triste. (...)

É óbvio e palpável que nosso estado mental jamais é exatamente o mesmo. Cada pensamen­to produzido por meio de um determinado fato é, falando rigorosamente, exclusivo e possui apenas certa semelhança com os demais pensamentos provenientes do mesmo fato. Quando o fato idêntico for recorrente, devemos pensar nele de forma independente, analisá-lo de um angulo distinto e compreendê-lo dentro das diferentes relações nas quais surgiu anteriormente e o pensamento por meio do qual o percebemos é aquele que surge dentro das diferentes reações, que se espalhou com a consciência de todo aquele contexto indistinto. Muitas vezes nos vemos atingidos por estranhas diferenças nas nossas visões sucessivas do mesmo objeto. Pensamos como pudemos opinar desse modo no mês passado sobre o mesmo assunto.

Acabamos de desenvolver a possibilidade daquele estado mental e nem sabemos como de um ano para o outro visualizamos os objetos sob uma nova luz. O que era irreal torna-se real e o que era excitante torna-se insípido. Os amigos mais importantes do mundo passaram para a obscuridade; a mulher antes divina, as estrelas, as florestas, as águas, como podem ser agora tão estúpidas e banais!


Os Métodos da Psicologia

Como a psicologia lida com a consciência pessoal e imediata, a introspecção deve ser o seu metodo básico. James dizia: 'A observação introspectiva é o método em que devemos nos basear primeiramente e sempre (...) a visão da nossa mente e a descrição do que observa­mos. Todos concordam que é na nossa mente que descobrimos os estados da consciência" (James, 1890, v. 1, p. 185). James tinha ciência das dificuldades da introspecção e a aceita­va mesmo considerando-a um método imperfeito de observação. No entanto, acreditava
possibilidade de uma verificação mais apurada dos resultados produzidos mediante a comparação das constatações obtidas por diversos observadores.

Embora não utilizasse amplamente o método experimental, considerava-o um cami­nho importante para o conhecimento psicológico, especialmente nas pesquisas psicofísicas, como na análise da percepção espacial e no estudo da memória.

Como complementação dos métodos introspectivo e experimental, James recomen­dava o método comparativo. A averiguação do funcionamento psicológico de populações distintas, como de animais, crianças e pessoas não-alfabetizadas ou indivíduos emocional­mente desequilibrados, permitiria descobrir variações significativas na vida mental.

Os métodos citados na sua obra The principies salientam a principal diferença entre a psicologia estrutural e a funcional: o movimento funcionalista não se restringia a um único método como as formas de introspecção de Wundt ou Titchener. Ele também acei­tava e adotava outras metodologias. Esse tratamento eclético ampliou consideravelmente a área de estudo da psicologia estadunidense.

O Pragmatismo

James enfatizava a importância do pragmatismo na psicologia, cuja doutrina baseia-se na comprovação da validade de uma ideia ou de um conceito mediante a análise das con­ sequências práticas. A conhecida expressão do ponto de vista pragmático afirma que "se funcionar, é verdadeiro".

O pragmatismo foi desenvolvido na década de 1870 por Charles Sanders Peirce, mate­mático, filósofo e amigo de longa data de James. Seu trabalho somente foi reconhecido após a publicação da obra escrita por James, Pragmatism (1907), que formalizou a doutri­na como um movimento filosófico (Peirce foi o primeiro a escrever a respeito da nova psicologia de Fechner e Wundt para os intelectuais estadunidenses, em um artigo publicado em 1869).

A Teoria das Emoções

A teoria das emoções de James, publicada em um artigo em 1884 e posteriormente no livro The principies, contradizia o pensamento corrente sobre a natureza dos estados emocionais. Os psicólogos partiam do princípio de que a experiência mental subjetiva da emoção antecedia a expressão ou a ação corporal. O exemplo clássico de avistar um animal selvagem, sentir medo e fugir correndo, ilustra a ideia de que a emoção (o medo) ocorre antes da reação do corpo (a fuga).

James inverteu essa ordem e afirmou que a reação física ocorre antes do surgimento da emoção, principalmente das emoções que considerava "grosseiras" como o medo, a ira, a dor e a compaixão. Por exemplo, vemos o animal, corremos e, então, vivenciamos a emoção do medo. "Nosso sentimento em relação às reações [físicas] que ocorrem é a emoção" (James, 1890, v. 2, p. 449).

Para defender essa ideia, James analisou, mediante a observação introspectiva, que, quando não ocorrem alterações físicas, como a aceleração do batimento cardíaco, a respira­ção ofegante e a tensão muscular, não há emoção. As visões de James acerca das emoções provocaram muita polêmica e incentivaram a realização de diversas pesquisas.

O Eu de Três Partes

James sugeriu que o sentido do eu de uma pessoa é formado por três aspectos ou com­ponentes. O eu material consiste de tudo que chamamos de pessoal, como nosso corpo, família, lar, ou estilo de se vestir. Ele achava que a nossa escolha de roupa é particularmente importante. Escreveu ele que "o velho ditado que diz que uma pessoa é composta de três partes - alma, corpo e roupas - é mais do que piada. Nós nos apropriamos de nossas roupas e nos identificamos com elas" (James, 1890, v. 1, p. 292). O eu social refere-se ao reconhe­cimento que obtemos por meio de outras pessoas. James salientou que temos muitos eus sociais; apresentamos diferentes lados de nós mesmos a diferentes pessoas. Por exemplo, você provavelmente se comporta de modo diferente com seus pais, com conhecidos ou com amantes. Cada um o verá de modo diferente. O terceiro componente, o eu espiritual, refere-se ao nosso ser interior ou subjetivo.

Os psicólogos têm sugerido que nossa escolha de roupa e modo de se vestir influen­ciam e refletem não só nosso eu material, como James acreditava, mas também o social e o espiritual. Além disso, o modo como somos vistos, reconhecidos e julgados por outras pessoas pode ser influenciado pelo modo como nos vestimos. Assim sendo, as roupas podem ser uma forma de autoexpressão, tal como parece ter sido para James.

Ele tendia a se vestir de uma maneira notadamente diferente da norma para sua posição e classe social. Dava preferência a gravatas-borboleta de bolinha e calças xadrez, com cores bem vivas, definitivamente um "desvio do padrão educado" (Watson, 2004, p. 218). Ele era considerado "bastante conspícuo na sua maneira de se vestir", contrário aos padrões da moda da época. Obviamente ele queria se sobressair na multidão.

Hmmmm. O que você está usando?

O Hábito
O capítulo do livro The principies que trata do hábito reafirma o interesse de James pelas influências psicológicas. Ele descreve todas as criaturas vivas como um "pacote de hábitos" (James, 1890, v. 1, p. 104). As atitudes repetitivas ou habituais envolvem o sistema nervoso e servem para aumentar a plasticidade da matéria neural. Como consequência, os hábitos facilitam a execução das subsequentes repetições e exigem menor atenção consciente.

Os hábitos têm enormes implicações sociais, como exemplifica o trecho a seguir.

O hábito (...) per se é o que nos mantém dentro dos limites da ordem. (...) Ele nos conde­na a lutar a batalha da vida de acordo com as orientações da nossa criação ou da nossa escolha inicial e a fazer o melhor de uma atividade, mesmo que nos desagrade, porque não há outra para a qual estamos aptos e é tarde demais para recomeçar (...)

Já com 25 anos é possível enxergar o tipo profissional de um jovem representante comercial, do jovem médico, ministro ou advogado. É possível enxergar as tênues linhas divisórias do caráter, das elaborações do pensamento, dos preconceitos (...) das quais logo o homem não consegue mais escapar, assim como são inevitáveis as marcas deixadas pelo tempo. No final, é melhor que ele não escape e que, para o bem da humanidade, a maio­ria de nós, aos 30 anos, já tenha o caráter solidificado e que nunca mais volte a amolecer. (James, 1890, v. 1, p. 121)

A obra The principies exerceu grande influência na psicologia estadunidense e, mesmo pas­sado um século, a sua publicação foi alvo de elogios (Donnelly, 1992; Johnson e Henley, 1990). Ela alterou a visão de milhares de alunos e inspirou psicólogos a transferirem o enfoque da nova ciência da psicologia da perspectiva estruturalista para a fundação for­mal da escola de pensamento funcionalista.

A Desigualdade Funcional das Mulheres

Mary Whiton Calkins (1863-1930)

James foi o grande responsável pelos estudos de pós-graduação de Mary Whiton Calkins, ajudando-a a vencer as barreiras do preconceito e da discriminação. Calkins acabou desen­volvendo a técnica da associação de pares usada no estudo da memória, além de haver contribuído de forma significativa e duradoura para a psicologia (Madigan e O'Hara, 1992). Foi a primeira mulher a tornar-se presidente da APA e, em 1906, ocupava a 12ª colocação entre os 50 psicólogos mais importantes dos Estados Unidos, reconhecimento muito sig­nificativo por parte dos colegas a uma pessoa a quem havia sido recusada a concessão do título de Ph.D. (Furumoto, 1990).

A Harvard University nunca aceitou sua matrícula formal, mas William James a recebia de braços abertos nos seus seminários e pressionava a universidade a conceder-lhe a graduação. Quando a direção recusou-se a fazê-lo, James escreveu a ela, dizendo que bastava "produzir explosivos juntando você e todas as mulheres. Tenho esperanças e acredito que a sua dedicação acabará explodindo a barreira" (James, apud Benjamin, 1993, p. 72). Apesar dos esforços de James, Harvard recusava-se a conceder o doutorado a uma mulher, embora o teste de Calkins
(ministrado informalmente por James e outros docentes) fosse considerado "o mais brilhante exame de Ph.D. até então realizado em Harvard” (James, apud Simon, 1998, p. 244).

Sete anos depois, quando Calkins estava lecionando na Wellesley e realizando a sua pesquisa a respeito da memória, Harvard ofereceu-lhe a graduação da Radcliffe College, criada pela Harvard para oferecer cursos de graduação para as mulheres. Ela recusou, pois havia completado as exigências de graduação na Harvard e não na Radcliffe. A Harvard a discriminava apenas por ser mulher e ignorou várias solicitações suas de graduação para a qual havia completado todos os requisitos. Acabou obtendo uma graduação honorária da Columbia University (Denmark e Fernandez, 1992). Harvard não concedeu diplomas de doutorado a mulheres antes de 1963.

A experiência de Calkin é um exemplo da discriminação sofrida pelas mulheres que almejavam a educação superior, condição que persistiu até o século XX. Ainda assim Calkm considerava-se privilegiada, quando se comparava às mulheres das gerações anteriores que jamais foram admitidas nas universidades. As mulheres foram tradicionalmente excluídas da maioria das áreas acadêmicas das faculdades e universidades europeias e estadunidenses. Quando Harvard foi fundada, em 1636, não aceitava alunas. Somente depois da decada de 1830 algumas faculdades estadunidenses relaxaram a sua proibição e admitiam mulheres para o curso de graduação.

A primeira razão alegada para essa restrição era a crença generalizada na chamada superioridade intelectual masculina. Como afirmava esse argumento, embora certas mulheres recebessem as mesmas oportunidades educacionais dadas aos homens, as deficiências intelectuais femininas inatas não permitiam que tirassem proveito dos benefícios. Muitos cientistas importantes do século XIX, como Darwin, e a maioria dos cientistas da época concordavam com essa visão.

Hoje, a maioria dos estudantes formados e que obtiveram Ph.D. em psicologia são mulheres, assim com a maioria dos estudantes de graduação e pós-graduação na área. No entanto, vimos que o homem dominou a história da psicologia. Apenas para relembrar, Margaret Washburn não pode matricular-se na Columbia University porque era mulher. Somente depois de 1892 as universidades de Yale e de Chicago e mais algumas outras instituições aceitaram a matrícula de mulheres nos cursos de graduação. Por cerca de 20 anos após a fundação formal da Psicologia como disciplina científica, as mulheres enfrentaram barreiras para tornarem-se psicólogas e para contribuírem de forma signifi­cativa para o desenvolvimento do campo.

Grande parte do mito da superioridade intelectual do homem surgiu da chamada hipótese da variabilidade, baseada nas ideias de Darwin a respeito da variabilidade masculina. Darwin descobriu que em diversas espécies o macho demonstrava uma variedade mais ampla de desenvolvimento das características físicas e das habilidades do que as fêmeas. As características e habilidades femininas encontravam-se concentradas em torno de um valor médio. Acreditava-se que essa tendência mediana feminina fazia com que a mulher se beneficiasse menos da educação formal e tivesse menos possibilidade de êxito no trabalho intelectual ou de pesquisa. Faltava apenas um passo para supor que o cérebro masculino fosse mais evoluído do que o feminino. Em virtude da grande variedade de talentos demonstrada pelo homem, acreditava-se estar ele mais apto a se adaptar e tirar proveito dos diversos ambientes desafiadores. Dessa forma a mulher era considerada inferior ao homem, tanto nas qualidades mentais como nas físicas necessárias para se obter exito na adaptação às exigências do ambiente. Como consequência a ideia da desigualdade funcional entre os sexos foi amplamente aceita. 

Uma teoria popular a esse respeito afirmava que a mulher exposta à educação superior alem da formação básica sofreria de danos físicos e emocionais. Alguns psicólogos alegavam que a mulher com nível de educação superior colocava em risco as condições biológicas necessárias para a maternidade, interrompendo o ciclo menstrual e enfraquecendo o instinto maternal. Um psicólogo chegou a afirmar que, se a mulher desejasse algum tipo de educação, "que fosse educada para a maternidade" (G. S. Hall, apud Diehl, 1986, p. 872).

Um professor da escola de medicina de Harvard declarou que a educação produzia na mulher "cérebros monstruosos e corpos franzinos; atividade cerebral anormal e diges­tão extremamente deficiente; raciocínios dispersos e mal funcionamento do intestino (E. Clarke, apud Scarborough e Furumoto, 1987, p. 4). O professor também advertiu: "A igualdade da educação entre os sexos é um crime perante Deus e a humanidade" (Clarke,
1873, p. 127).

Nos primeiros anos do século XX, duas psicólogas obtiveram êxito ao desafiarem a ideia da desigualdade funcional entre os sexos. Utilizando as técnicas empiristas da psicologia funcional, Helen Bradford Thompson Woolley e Leta Stetter Hollingworth demonstraram que Darwin e os demais estavam equivocados a respeito da mulher.

Helen Bradford Thompson Woolley ( 7874-1947)

Helen Bradford Thompson Woolley nasceu em Chicago, em 1874. Seus pais apoiavam a ideia da educação das mulheres e as três filhas da família Thompson frequentaram a faculdade. Helen Thompson formou-se na University of Chicago, em 1897, e recebeu o Ph.D. em 1900. Seus principais professores foram James Rowland Angell e John Dewey, o qual a considerava uma de suas alunas mais brilhantes (apud James, 1994). Depois de completar a pós-graduação com bolsa de estudos em Paris e em Berlim, tornou-se diretora do laboratório de psicologia da Mount Holyoke College, em Massachusetts.

Casou-se com o médico Paul Woolley e acompanhou-o às Filipinas, onde ele foi dire­tor de um laboratório. Em 1908, o casal mudou-se para Cincinnati, em Ohio, onde Helen aceitou a direção do departamento vocacional do ensino público, preocupada com as questões do bem-estar das crianças. Suas pesquisas acerca do efeito do trabalho infantil provocaram mudanças nas leis trabalhistas estaduais (em vários estados, crianças de ape­nas 8 anos trabalhavam, cumprindo uma jornada diária de 10 horas de trabalho, 6 dias por semana. Em poucos estados existiam leis de proteção referentes à idade, à jornada de trabalho e ao salário mínimo infantil). Em 1921, Helen atuou como presidente da National Vocacional Guidance Association [Associação Nacional de Orientação Vocacional].

Naquele ano, sua família mudou-se para Detroit, em Michigan, e ela foi trabalhar no Merrill-Palmer Institute [Instituto Merrill-Palmer], onde criou um programa de educação infantil para estudar o desenvolvimento e as habilidades mentais das crianças. Em 1924, tornou-se diretora do novo Institute of Child Welfare Research [Instituto de Pesquisa do Bem-estar Infantil] da Columbia University e prosseguiu no seu trabalho sobre a aprendi­zagem na primeira infância, a educação vocacional e a orientação educacional.

A apresentação da dissertação de doutorado de Helen Woolley na University of Chi­cago foi o primeiro teste experimental do conceito darwiniano da inferioridade biológica da mulher em relação ao homem, ideia considerada, na época, tão óbvia que dispensava qualquer comprovação científica (James, 1994). Ela aplicou um teste em 25 homens e 25 mulheres para medir a habilidade motora, os limiares sensoriais (paladar, olfato, audição, visão e tato), a capacidade intelectual e os traços de personalidade.

Os resultados revelaram não haver diferenças no funcionamento emocional entre homens e mulheres e apenas uma diferença insignificante na capacidade intelectual. Os dados também mostraram pequena superioridade das mulheres em habilidades como a memória e a percepção sensorial. Woolley deu um passo inédito ao atribuir as dife­renças aos fatores ambientais e sociais - às diferentes práticas na criação da criança e às expectativas distintas para os meninos e as meninas - e não às determinantes biológicas (Rossiter, 1982).

Woolley publicou os resultados em The mental traits of sex: an experimental investigation of the normal mind in men and women (Thompson, 1903). Suas conclusões não foram bem recebidas pelos psicólogos masculinos do meio acadêmico. G. Stanley Hall acusou-a de atribuir uma interpretação feminista aos dados (Hall, 1904). O fato de ser uma mulher a autora da pesquisa que demonstra não haver inferioridade biológica da mulher em rela­ção ao homem produz, de alguma forma, resultados distorcidos ou tendenciosos (James, 1994). Mais tarde, ela escreveu mais dois trabalhos a respeito da crescente literatura de pesquisa sobre a psicologia das diferenças entre os sexos para a renomada revista Psychological Bulletin (Woolley, 1910, 1914).

Durante 30 anos, Woolley trabalhou como professora, pesquisadora e orientadora de psicólogas nas áreas do desenvolvimento e da educação infantil. Quando a saúde precária e o traumático divórcio forçaram-na à aposentadoria precoce, o foco da psicologia feminina passou para outras mãos.

Leta Stetter Hollingworth (1886-1939)

Leta Stetter cresceu em Nebraska em uma família de meios financeiros limitados. Sua casa era uma cabana de barro e frequentava uma escola de uma única sala. Aos 3 anos, sua mãe faleceu e seu pai a deixou para ser criada pelos avós. Quando reapareceu, 10 anos mais tarde, ele a tirou daquele lar seguro e a levou para morar com ele e sua esposa, que a tratava mal. Ela jamais o perdoou. Apesar desse início pouco promissor, ela se matriculou e formou-se, com louvor, na University of Nebraska, em 1906. Foi professora do ensino médio por dois anos, enquanto o seu noivo, Harry Hollingworth, completava o doutorado em psicologia, sob a orientação de James McKeen Cattell na Columbia University. Leta e Harry casaram-se em 1908. Ele lecionava na Barnard College, na cidade de Nova York, mas, para sua surpresa e decepção, havia uma lei que proibia a mulher casada de lecionar em escolas públicas.

Ela passou a escrever ficção, mas não conseguiu encontrar uma editora para publicar seus contos. Sem encontrar uma saída para seu talento e energia, ela tornou-se triste e amarga. Harry posteriormente escreveu que Leta "inesperadamente costumava irromper em lágrimas (...) Depois dizia que não conseguia aceitar o fato de ser forte e capaz, com uma boa mente e educação sólida, e ainda assim ser incapaz de contribuir materialmente para seu bem-estar" (apud Klein, 2002, p. 65).

O casal vivia com poucos recursos financeiros, e então Harry aceitou atuar como consultor a fim de guardar dinheiro para que Letta pudesse avançar em seus estudos. Em 1916, ela obteve seu Ph.D. da Teacher's College da Columbia University, onde teve a oportunidade de estudar com Edward L. Thorndike, e trabalhou como psicóloga do governo da cidade de Nova York. Cinco anos depois, ela foi citada na publicação American Men of Science por suas contribuições à psicologia da mulher.

Lreta Hollingworth realizou ampla pesquisa empírica a respeito da hipótese da variabilidade, o conceito de que, em relação ao funcionamento físico, psicológico e emocional, as mulheres constituíam um grupo mais homogêneo e mediano do que os homens, demonstrando, assim, menor variação. A pesquisa de Hollingworth, entre 1913 e 1916, se concentrou no funcionamento físico, sensorial e motor e nas habilidades intelectuais de diversos tipos de pessoas, como crianças, estudantes universitários do sexo masculino e do feminino, mulheres no período menstrual (quando se presume que suas condições emocionais e mentais sejam afetadas pelos processos naturais do corpo). Seus dados desmentiram a hipótese da variabilidade e outras noções de inferioridade feminina. Por exemplo, ela constatou, ao contrário do que se afirmava havia muito tempo, que o ciclo menstrual não estava relacionado com os desempenhos deficientes das habilidades moto­ras e perceptuais ou das capacidades intelectuais (Hollingworth, 1914).

Mais tarde, ela desafiou o conceito de instinto inato da maternidade, questionando a noção de que a mulher atingia a plena satisfação somente sendo mãe e descartou o con­ceito de que o desejo da mulher de obter êxito em outros campos, que não no casamento ou na constituição de família, fosse anormal ou não-saudável. Ela sugeriu não serem os fatores biológicos e sim as atitudes sociais e culturais que exerciam influência, impedin­do as mulheres de se tornarem membros mais ativos na sociedade (Benjamin e Shields, 1990; Shields, 1975). Hollingworth também alertou as orientadoras vocacionais a não conduzirem as mulheres no sentido de restringir suas aspirações apenas às áreas conside­radas socialmente aceitas como a maternidade ou o trabalho doméstico, nas quais não há reconhecimento. E afirmou: “Ninguém conhece a melhor dona de casa estadunidense . Dona de casa famosa não existe e nem pode existir" (apud Benjamin e Shields, 1990, p. 177).

Leta Hollingworth também contribuiu de forma significativa para a psicologia clíni­ca, educacional e acadêmica, principalmente em relação às necessidades emocionais e educacionais das crianças denominadas "talentosas", termo cunhado por ela (Benjamin, 1975). Apesar da quantidade e da qualidade das suas pesquisas, nunca conseguiu apoio para realizar os trabalhos (Hollingworth, 1943). Participou ativamente do movimento pelo sufrágio feminino, realizando campanhas em favor do direito ao voto feminino (finalmente aprovado em 1920) e participando de manifestações e comícios em Nova York. Ela faleceu relativamente jovem, aos 53 anos de idade, de câncer no estômago, "o qual por razões inexplicáveis, suportou sozinha e escondeu de todos por 10 anos" (Stanley e Brody, 2004, p. 4).

Granville Stanley Hall (1844-1924)

Embora William James tenha sido o primeiro psicólogo famoso, verdadeiramente estadunidense, o tremendo desenvolvimento da psicologia nos Estados Unidos entre 1875 e 1900 não se deu unicamente pelo seu trabalho. Outra figura notável na história da psicologia dos Estados Unidos, e um contemporâneo digno e influente de James, foi G. Stanley Hall.

Este colecionou um registro surpreendente das primeiras posições na psicologia estadunidense. Recebeu o primeiro título de doutorado em psicologia, e alegava ter sido o primeiro aluno estadunidense no primeiro ano do primeiro laboratório de psicologia. Hall deu início ao que frequentemente é considerado o primeiro laboratório de psicologia nos Estados Unidos, bem como o primeiro periódico estadunidense de psicologia. Foi o primeiro presidente de Clark University, o organizador e primeiro presidente da APA, e um dos primeiros psicólogos da psicologia aplicada.

A Biografia de Hall

Hall nasceu em uma fazenda em Massachussetts. Sua mãe era uma mulher piedosa, gentil e carinhosa; seu pai era severo e exigente, e às vezes batia no jovem Hall. Aos 14 anos, depois de ter sido esbofeteado com força por ele, "afastei-me com raiva, em parte real e - lembro-me claramente - em parte para obter um efeito, fechei meus punhos e o olhei fixamente como se estivesse fortemente tentado a retribuir o tapa. Jamais esquecerei seu olhar de espanto. Nunca apanhei de novo" (Hall, apud Hulbert, 2003, p. 53 )

Um rapaz intensamente ambicioso, Hall prometeu que "realizaria algo importante e seria reconhecido no mundo todo" (apud Ross, 1972, p. 12). Aos 17 anos de idade, ficou profundamente envergonhado quando, no início da Guerra Civil Americana, seu pai comprou sua dispensa do exército. Hall disse que devia ser punido pelo descumprimento do serviço militar obrigatório (Vande Kemp, 1992).

Em 1863, Hall ingressou no Williams College. Até a época em que se formou, havia recebido um grande número de homenagens e havia sido eleito o homem mais inteligente de sua classe. Desenvolveu um entusiasmo pela teoria evolucionista, o que influenciaria sua carreira em psicologia. Hall escreveu que "assim que ouvi a palavra 'evolução' na minha juventude, fiquei hipnotizado por ela, era como música para meus ouvidos" (Hall, 1923, p. 357). Depois de se formar, ainda não muito certo a respeito de sua vocação, matrículou-se na Union Teological Seminary em Nova York. Não tinha um comprometimento forte com o sacerdócio, e seu interesse pelo evolucionismo não era, certamente, nenhuma vantagem.

Logo se tornou evidente que não ficaria famoso pela sua ortodoxia religiosa. Conta-se que quando fez seu primeiro sermão de ensaio para o corpo docente e discípulos, o diretor do seminário ajoelhou-se e rezou pela sua alma. "Não acredito ter os requisitos para ser pregador," ele escreveu a seus pais (apud Hulbert, 2003, p. 55).

Aconselhado pelo famoso pregador Henry Ward Beecher, Hall foi para a University of Bonn, na Alemanha, para estudar filosofia e teologia. Em Berlim, acrescentou os estudos de fisiologia e física. Complementou essa fase de sua educação com visitas a teatros e cer­vejarias, experiências ousadas para um jovem oriundo de um ambiente religioso. Escreveu sobre a sua surpresa ao ver um professor de teologia bebendo cerveja em um domingo. Hall também escreveu a respeito de seus casos românticos, observando que duas das paixões que viveu revelaram capacidades em si mesmo "até então adormecidas e reprimidas e [que] consequentemente haviam tornado sua vida mais rica e significativa" (apud Lewis, 1991, p. 317). Aparentemente, sua permanência na Europa foi um período de liberação.

Relutantemente, voltou para casa em 1871, porque, como sugeriu por um biógrafo, seus pais não queriam mais financiá-lo (White, 1994). Nessa época ele tinha 27 anos, não tinha diplomas e estava bastante endividado. Terminou seus estudos no seminário (em­bora não tenha sido ordenado) e pregou em uma igreja em Cowdersport no interior da Pensilvania. abandonando o cargo somente após 10 semanas. Depois de trabalhar como tutor particular por mais de um ano, Hall conseguiu um cargo de professor em Antioch College, em Ohio. Deu aulas de literatura inglesa, língua e literatura francesa e alemã e filosofia, trabalhou como bibliotecário, liderou o coro e pregou na capela.

Em 1874, o livro de Wundt, Physiological psychology, despertou o interesse de Hall para a ciência nova, provocando incertezas adicionais a respeito de sua carreira. Pediu um afastamento de Antioch, estabeleceu-se em Cambridge, Massachusetts, e tornou-se tutor de inglês em Harvard. Iniciou estudos de pós-graduação e fez pesquisas na escola de medicina. Em 1878 apresentou sua dissertação sobre a percepção espacial e recebeu o primeiro diploma de doutorado em psicologia nos Estados Unidos.

Logo após receber seu diploma, Hall partiu de novo para a Europa, primeiro para es­tudar fisiologia em Berlim e depois para se tornar aluno de Wundt, em Leipzig, onde era vizinho de Fechner. A urgência de trabalhar com Wundt era maior do que a realidade. Embora Hall obrigatoriamente frequentasse as aulas de Wundt e servisse como sujeito no seu laboratório, ele conduziu sua própria pesquisa em fisiologia. A carreira subsequente de Hall mostra que, no final das contas, Wundt o influenciou muito pouco.

Dois anos mais tarde, quando Hall voltou aos Estados Unidos, ele não tinha nenhuma perspectiva de emprego, mas ainda assim, em 10 anos tornou-se uma figura de importância nacional. Hall identificou que a possibilidade de satisfazer sua ambição estava na aplicação da psicologia à educação. Em 1882 ele proferiu uma palestra em uma reunião da National Education Association (NEA) insistindo sobre a ideia de que o estudo psicológico de crianças fosse o componente importante da pedagogia. Repetia essa mensagem sempre que tinha a oportunidade. O presidente de Harvard o convidou a dar uma série de aulas sobre educação aos sábados de manhã. Essas palestras renderam a Hall uma publicidade muito favorável e um convite para lecionar meio período na Johns Hopkins University, a qual havia se estabelecido em Baltimore cinco anos antes como a primeira escola de pós-graduação nos Estados Unidos.

As aulas de Hall tiveram grande sucesso, e lhe foi oferecido um cargo de professor em Hopkins. Em 1883, ele inaugurou formalmente o primeiro laboratório de psicologia estadunidense, que costumava chamar de seu "laboratório de psicofisiologia" (Pauly, 1986, p. 30). Deu aula a um grupo de alunos que posteriormente se tornaram psicólogos famosos, entre eles John Dewey e James McKeen Cattell.

Em 1887, Hall fundou o American Journal o f Psychology, o primeiro periódico de psico­logia nos Estados Unidos e que até hoje é considerado uma publicação importante. Esse periódico serviu como uma plataforma para ideias teóricas e experimentais e para orientar a psicologia norte-americana ruma à solidariedade e independência. Devido ao grande entusiasmo, Hall imprimiu um número excessivo de cópias do primeiro número; levou cinco anos para pagar esses custos iniciais.

No ano seguinte, Hall tornou-se o primeiro presidente de Clark University, em Worcester, Massachusetts. Antes de iniciar o trabalho, embarcou para uma longa viagem com o objetivo de conhecer as universidades europeias e contratar o corpo docente de sua nova escola. Um escritor, ao escrever sobre os 100 primeiros anos da história de Clark University, observou que a viagem de Hall serviu como "férias remuneradas por serviços ainda não prestados. (...) incluía uma série de paradas totalmente irrelevantes para a tarefa futura, tais como academias militares na Rússia, lugares históricos na Grécia, além de bordéis, circos e outras curiosidades” (Koelsch, 1987, p. 21).

Hall aspirava fazer de Clark uma universidade de pós-graduação como Johns Hopkins e as universidades alemãs, enfatizando mais pesquisa do que o ensino. Além de presidente, foi também professor de psicologia, e deu aulas no curso de pós-graduação. Publicou por conta própria o periódico Pedagogical Seminary (atualmente Journal of Genetic Psychology), para servir de vínculo para as pesquisas sobre psicologia infantil e educacional. Em 1915 ele fundou o Journal of Applied Psychology, elevando o número de periódicos de psicologia norte-americana para 16.

A APA foi organizada em 1892, em grande parte pelos esforços de Hall. Aproximadamente doze psicólogos aceitaram seu convite para reunir em sua casa e planejar a organização, e o elegeram primeiro presidente. Em 1900, o grupo contava com 127 membros.

Hall manteve seu interesse pela religião. Fundou a Clark School of Religious Psychology e deu início ao Journal of Religious Psychology (1904), que foi publicado durante uma década. Escreveu um livro chamado Jesus, the Christ, in the light of psychology, mas sua visão de Jesus como um tipo de "super-homem adolescente" não foi muito bem recebida pela religião organizada (Ross, 1972).

Hall foi um dos primeiros psicólogos estadunidenses a se interessar pela psicanálise freudiana e foi o responsável, em grande parte, pela atenção inicial que o sistema de Sigmund Freud recebeu nos Estados Unidos. Em 1909, para celebrar os vinto anos da Clark University, Hall convidou Freud e Carl Jung para participarem das conferências comemorativas, convite corajoso porque muitos cientistas suspetaivam da psicanálise. Hall havia convidado inicialmente seu antigo professor, Wilhelm Wundt, que recusou por causa da sua idade e porque seria o palestrante principal da comemoração dos 500 anos de sua universidade em Leipzig.

A psicologia na Clark prosperou sob o comando de Hall. Nos 36 anos que passou lá, foram concedidos 81 diplomas de doutorado em psicologia. Seus alunos se lembram de seminários exaustivos, mas divertidos, às segundas-feiras, à noite, na casa de Hall, quando ele, o corpo docente e outros alunos de pós-graduação, examinavam oralmente os candidatos a doutorado. Depois dessas reuniões, que duravam até quatro horas, um empregado trazia uma enorme taça de sorvete.

Os comentários que Hall escrevia nos trabalhos de seus alunos podiam ser devastadores. Lewis Terman se lembra que:

Hall resumia as coisas com uma erudição e fertilidade de imaginação que sempre nos surperendia e fazia com que sentissemos que seu insight improvisado sobre o problema ia muito além do que o do aluno que havia dedicado meses de trabalho escravo. Sempre voltava para casa sentindo-me ofuscado e intoxicado, tomava um banho quente para acalmar meus nervos, e depois me deitava acordado por horas ensaiando o drama e formulando as coisas inteligentes que poderia ter dito, mas não o fiz (Terman, 1930/1961, p. 316).

Hall sempre dava preferência aos alunos inteligentes, desde que fossem adequadamente diferenciados, sendo muitas vezes generoso e encorajador. Pode-se afirmar que a maioria dos psicólogos estadunidenses associou-se a Hall na Clark ou Johns Hopkins, embora ele não tenha sido a fonte principal de inspiração para todos eles. Sua influência pessoal reflete-se melhor no fato de que um terço de seus alunos de doutorado seguiu carreira nas áreas administrativas da faculdade.

Hall tornou a Clark University mais receptiva às mulheres e minorias do que a grande parte das escolas dos Estados Unidos naquela época. Embora compartilhasse da oposição nacional à coeducação para alunos universitários, ele prontamente admitia mulheres como alunas de pós-graduação e como assistente para trabalhos de pesquisa. Tomou uma atitude pouco comum ao encorajar alunos japoneses a se matricularem na Clark e se recusava a restringir a contratação de judeus para o corpo docente como aconteceu na maioria das outras universidades. Também encorajou negros a fazerem o curso de pós-graduação.

O primeiro afro-americano a conseguir um Ph.D. em psicologia, Francis Cecil Sumner, estudou com Hall. Sumner posteriormente tornou-se diretor do departamento de psicologia em Howard University, em Washinghton DC, onde deu início a um programa acadêmico forte para introduzir negros na área de psicologia (Dewsbury e Pickren, 1992). Além disso, Sumner traduziu milhares de artigos de periódicos do alemão, francês e espa­nhol e escrevia resumos sobre eles para os periódicos de psicologia estadunidenses.

Depois que Hall se aposentou da Clark, em 1920, continuou a escrever. Morreu quatro anos mais tarde, alguns meses depois de eleito para o segundo mandato como presidente da APA. Uma pesquisa entre os participantes da APA sobre as contribuições de Hall para a psicologia mostrou que, entre as 120 pessoas que responderam à pesquisa, 99 classificaram Hall entre os 10 melhores psicólogos de todos os tempos. Muitos elogiaram sua capacidade como professor, seus esforços para promover a psicologia e seu desafio à ortodoxia, mas eles, bem como outras pessoas que o conheciam bem, criticavam suas qualidades pessoais. Hall era descrito como difícil, desonesto, inescrupuloso, divergente e que se autopromovia com agressividade. William James o chamou de "uma mistura muito estranha de grandeza e insignificância como jamais conheci" (apud Myers, 1986, p. 18). Mas até seus críticos concordavam com os resultados da pesquisa: "Hall produziu um grande número de trabalhos escritos e pesquisas, mais do que qualquer um dos outros três grandes nomes na área" {apud Koelsch, 1987, p. 52).

Evolução e Recapitulação da Teoria do Desenvolvimento

Embora Hall estivesse interessado em muitas áreas, seu percurso intelectual tinha um tema somente - a teoria evolucionista. Seu trabalho era governado pela convicção de que o crescimento normal da mente envolvia uma série de fases evolucionárias.

Hall frequentemente é chamado de psicólogo genético devido à sua preocupação com o desenvolvimento humano e animal e os problemas relacionados à adaptação. Enquanto esteve na Clark, seus interesses genéticos o levaram ao estudo psicológico da infância, onde baseou sua psicologia. Em um discurso proferido em 1893, na Feira Mundial de Chicago, ele disse: "Até agora temos ido à Europa para a nossa psicologia. Agora, vamos pegar uma criança e colocá-la em nosso meio e vamos fazer nossa própria psicologia nos Estados Unidos" (apud Siegel e White, 1982, p. 253). Hall pretendia aplicar sua psicologia ao funcionamento da criança no mundo real. Um aluno seu habilmente relembrou que "A criança tornou-se o laboratório de Hall" (Averill, 1990, p. 127).

Ao conduzir sua pesquisa, Hall fez uso extensivo de questionários, um procedimento que havia aprendido na Alemanha. Hall e seus alunos desenvolveram e administraram 194 questionários observando diferentes tópicos (White, 1990). Durante um tempo, o método tornou-se associado ao nome de Hall nos Estados Unidos, embora a técnica tivesse sido desenvolvida anteriormente na Inglaterra por Francis Galton.

Os primeiros estudos sobre crianças entusiasmaram o público em geral e levaram à formalização do movimento de estudo da criança. Entretanto, essa abordagem desapare­ceu em poucos anos devido à pesquisa mal executada. As amostragens de sujeitos eram inadequadas, os questionários eram falhos, os coletores de dados não tinham treinamento adequado, e os dados eram mal analisados - um esforço considerado como "psicologia muito pobre, imprecisa, inconsistente e mal orientada" (Thorndike, apud Berliner, 1993, p. 54). Apesar dessa crítica merecida, o movimento do estudo da criança promoveu tanto seu estudo empírico como o conceito de desenvolvimento psicológico.

O trabalho mais influente de Hall é Adolescence: its psychology and its relations to physiology anthropology sociology, sex, crime, religion, and education (1904) com 1.300 páginas, em dois volumes. Essa enciclopédia contém a mais completa declaração de Hall sobre a teoria da recapitulação do desenvolvimento psicológico. Em essência, Hall afirmou que as crianças, no seu desenvolvimento pessoal, repetem a história de vida da raça humana, evoluindo de um estágio próximo ao selvagem quando bebês e durante a infância, até um ser humano racional e civilizado na fase adulta.

O livro Adolescence tornou-se controvertido porque alguns psicólogos consideraram que a obra apresentava um enfoque excessivo e entusiasmado em sexo; Hall foi acusado de ter interesses lascivos. O psicólogo E. L. Thorndike escreveu em um comentário sobre o livro: "Aos sentimentos, normais e mórbidos, que resultam do sexo, são discutidos de um modo sem precedente na ciência inglesa." Thorndike foi ainda mais severo em uma carta que escreveu a um colega, dizendo que o livro de Hall "estava cheio de erros, masturbação e Jesus. Ele é um louco" (apud Ross, 1972, p. 385). Hall havia também programado uma série de palestras sobre sexo na Clark, uma atitude considerada escandalosa, embora não se permitisse a participação de mulheres. Posteriormente ele teve que interromper essas palestras, pois "muitos estranhos entravam e até ouviam por trás da porta" (Koelsch, 1970, p. 119). Não existe uma maneira de desviar a atenção de Hall desse período de cio?" escreveu Angell para Titchener. "Realmente acho que é uma coisa moral e intelectualmente errada harpear tanto na corda sexual" (apud Boakes, 1984, p. 163). Os psicólogos colegas de Hall não precisavam ter se preocupado; o Hall produtivo e cheio de energia logo voltou-se para outros interesses. À medida que envelheceu, naturalmente se tornou curioso a respeito das fases tardias do desenvolvimento humano. Aos 78 anos, ele publicou Senescence (1922), a primeira pesquisa em larga escala sobre assuntos psicológicos da velhice. Nos últimos anos de vida, escreveu duas autobiografias, Recreations of a psychologist (1920) e The life and confessions of a psychologist (1923).

Comentários

Certa vez Hall foi apresentado a uma plateia como o Darwin da mente. A caracterização evidentemente o agradou e expressou suas aspirações e a atitude que permeou seu trabalho. Em outra ocasião foi apresentado como "a maior autoridade no mundo sobre o estudo da criança," e esse elogio foi considerado correto (Koelsch, 1987, p. 58). Em sua segunda au­tobiografia ele escreveu: "Toda minha vida ativa consciente foi formada por uma série de modas ou loucuras, algumas fortes, outras fracas; algumas de longa duração (...) e outras efêmeras" (1923, p. 367-368). Foi uma observação perceptiva. Hall era corajoso, versátil e agressivo, frequentemente entrava em disputa com colegas, mas jamais foi enfadonho.


A Fundação do Funcionalismo

Os estudiosos relacionados com a fundação do funcionalismo não ambicionavam iniciar uma nova escola de pensamento. Eles apenas protestavam contra as restrições e limitações da psicologia de Wundt e do estruturalismo de Titchener e não desejavam substituí-los com outro "ismo" formal. A primeira razão era pessoal e não ideológica, já que nenhum dos principais proponentes do funcionalismo ambicionava estabelecer um movimento, do modo como fizeram Wundt e Titchener. Naquela época, o funcionalismo incorporava diversas características de uma escola de pensamento, mas esse não era o objetivo dos líderes. Eles pareciam satisfazer-se apenas em modificar a ortodoxia existente, sem lutar ativamente para substituí-la.

Desse modo, o funcionalismo jamais se constituiu em uma posição sistemática rígida ou diferenciada formalmente como o estruturalismo de Titchener. Não houve uma psicologia funcional única, assim como houve uma psicologia estrutural única. Várias psicologias fun­cionais coexistiram e, embora apresentassem algumas diferenças, todas compartilhavam o interesse no estudo das funções da consciência. Posteriormente, como resultado dessa ênfase nas funções mentais, os funcionalistas interessaram-se pelas possíveis aplicações da psicolo­gia aos problemas cotidianos em relação ao comportamento e à adaptação do homem nos diferentes ambientes. A rápida evolução da psicologia aplicada nos Estados Unidos pode ser considerada a herança mais importante do movimento funcionalista (veja no Capítulo 8).

Paradoxalmente, a formalização desse movimento de protesto foi imposta pelo funda­dor do estruturalismo: E. B. Titchener. Ele fundou indiretamente a psicologia funcional, ao adotar a palavra "estrutural" em oposição a "funcional" no artigo "The postulates of a structural psychology" ("Os postulados da psicologia estrutural" ) publicado na Philosophical Review em 1898. Nesse artigo, Titchener ressaltou as diferenças entre a psicologia fun­cional e a estrutural e argumentou que o estruturalismo era o único estudo adequado de psicologia.

Ao estabelecer o funcionalismo como oposição, Titchener sem querer ofereceu-lhe uma identidade e um status que talvez nunca viesse a obter. "O que Titchener estava cri­ticando, na verdade, não tinha nome, até ele batizá-lo; a partir de então, ele deu impulso ao movimento, destacando e divulgando o termo funcionalismo, que acabou tornando-se conhecido" (Harrison, 1963, p. 395).

A Escola de Chicago

Nem todo o crédito pela fundação do funcionalismo deve-se a Titchener, mas os psicólo­gos que a história batizou de fundadores da psicologia funcional foram, no máximo, fun­dadores relutantes. Dois psicólogos que contribuíram diretamente na fundação da escola de pensamento funcionalista foram John Dewey e James Rowland Angell. Em 1894, eles chegaram à recém-criada University of Chicago; mais tarde, foram capa da revista Time.

Foi nada menos do que William James a anunciar posteriormente Dewey e Angel como responsáveis pela fundação do novo sistema que ele designou a "escola de Chicago" (in Backe, 2001, p. 328).

John Dewey (1859-1952)

John Dewey teve uma infância comum e não demonstrava grande capacidade intelectual até começar a frequentar a University of Vermont. Depois de se formar, lecionou no ensino médio durante alguns anos e estudou filosofia por conta própria, escrevendo alguns artigos acadêmicos. Iniciou a pós-graduação na Johns Hopkins University, em Baltimore, comple­tando o doutorado em 1884. Lecionou nas universidades de Michigan e Minnesota. Em 1886 publicou o primeiro manual estadunidense com base na nova psicologia (adequada­mente intitulado Psicologia) que teve grande sucesso nos Estados Unidos e Europa. Com isso Dewey adquiriu fama instantânea, pois era o único livro disponível adequado para o ensino nas universidades estadunidenses" (Martin, 2002, p. 105). O livro foi bastante popular até ser ofuscado em 1890 por The principies of psychology de James.

Dewey permaneceu 10 anos na University of Chicago. Criou a escola-laboratório, uma inovação radical na educação que se tornou um marco do movimento educacional progres­sivo. Em 1904, foi para a Columbia University, em Nova York, onde prosseguiu com seu trabalho de aplicação da psicologia aos problemas educacionais e filosóficos, tornando-se, assim, outro exemplo da orientação prática de vários psicólogos funcionalistas.
Apesar de brilhante, Dewey não era bom professor. Um de seus alunos lembrou-se de que ele usava uma boina verde.

Ele entrava [na classe], sentava-se à mesa e colocava a boina à sua frente, falando sempre no mesmo tom de voz, como se estivesse dando aula para a boina. (...) Era inevitável que muitos alunos caíssem no sono. Todavia, se você fosse capaz de prestar atenção ao que ele falava, realmente valia a pena! (May, 1978, p. 655)

Frequentemente sua aula da tarde continuava além do horário, pois ele ficava muito en­volvido no assunto. Sua esposa costumava mandar um de seus filhos até a sala de aula para lembrá-lo que era hora de ir para casa. Geralmente "colocava a criança sentada na mesa enquanto terminava seu pensamento" (Martin, 2002, p. 259).

Arco Reflexo

O artigo de Dewey “The reflex arc concept in psychology" ("O conceito do arco reflexo na psicologia ), publicado na Psychological Review (1896), foi o ponto de partida da psicolo­gia funcional. Realmente, um historiador afirmou ter sido o artigo o "tiro inaugural" do movimento funcionalista (Bergmann, 1956, p. 268). Ele se tornou tão popular que foi votado como o "artigo mais importante publicado nos primeiros 50 volumes da Psychological Review" (Backe, 2001, p. 329).

Nesse importante trabalho, Dewey criticava o aspecto molecular, elementar e reducionista psicológico do arco reflexo, devido à sua distinção entre o estímulo e a respos­ta. Por meio dessa crítica, Dewey alegava não ser possível reduzir o comportamento ou a experiência consciente aos seus elementos componentes, como afirmavam Wundt e Titchener. Assim, Dewey atacava o ponto principal das suas abordagens da psicologia. Os proponentes do arco reflexo argumentavam que qualquer unidade de comportamento extingue a resposta a um estímulo, por exemplo, quando a criança afasta a mão do fogo.

Dewey sugeria que o reflexo formava mais um círculo do que um arco, já que a percepção da criança sobre a chama muda, servindo, assim, a diferentes funções. Inicialmente, a chama atrai a criança, mas, logo em seguida, ao sentir seus efeitos repele o fogo. A resposta altera a percepção da criança sobre o estímulo (a chama). Portanto, a percepção e o movimento (o estímulo e a resposta) devem ser vistos como uma unidade e não como uma composição de sensações e respostas individuais.

Assim, Dewey argumentava não ser possível a redução do comportamento envolvido na resposta reflexiva a elementos sensório-motores básicos, assim como era impossível anali­sar de forma adequada a consciência, dividindo-a em partes componentes elementares. Esse tipo de analise e redução artificiais faz com que o comportamento perca todo o sentido, deixando apenas abstrações na mente do psicólogo que está realizando o exer­cício. Dewey observou que o comportamento não deve ser tratado como um constructo científico artificial, mas em termos de seu significado para o organismo, na adaptação ao ambiente. Ele concluiu que o objeto de estudo mais adequado para a psicologia seria a analise do organismo inteiro e o seu funcionamento no ambiente.

Comentários

O evoluciomsmo exerceu grande influência sobre as ideias de Dewey. Na luta pela sobre­vivência, tanto a consciência como o comportamento trabalham para o organismo - a consciência gera o comportamento adequado que permite ao organismo sobreviver. Como consequencia, a psicologia funcional dedicou-se ao estudo do organismo em fun­cionamento.

É mteressante observar que Dewey jamais chamou a sua psicologia de funcionalismo. Aparentemente, não acreditava que a estrutura e a função tivessem sentido separadamen­te apesar do seu ataque contra a premissa básica do estruturalismo. Angell e outros psicólogos ficaram encarregados de declarar que o funcionalismo e o estruturalismo eram formas contrarias de psicologia.

A importância de Dewey para a psicologia está na sua influência sobre os psicólogos e outros estudiosos e no desenvolvimento da estrutura filosófica da nova escola de pensa­mento. Quando ele deixou a University of Chicago em 1904, Angell passou a ser o líder do movimento funcionalista.

James Rowland Angell (1869-1949)

James Rowland Angell moldou o movimento funcionalista, transformando-o em uma escola de pensamento utilitária. Graças ao seu trabalho, o departamento de psicologia da University ot Chicago foi o mais importante da sua época e a principal base de orientação para os psicologos funcionalistas.

A Biografia de Angell

Angell nasceu em uma família de acadêmicos, em Vermont. Seu avô fora reitor da Brown University, em Providence, Rhode Island, e seu pai, reitor da Vermont University e depois da University of Michigan, onde Angell se formou e teve aulas com Dewey. Leu também The principies of psychology, de James, e afirmou ter sido o livro que mais influenciou seu pensamento. Angell trabalhou um ano com James, em Harvard, e obteve o mestrado em 1892.

Seguiu para a Europa para continuar seus estudos de pós-graduacão nas universi­dades de Halle e Berlim, na Alemanha. Em Berlim, assistiu às aulas de Ebbinghaus e Helmholtz. Desejava seguir para Leipzig, mas Wundt não estava mais aceitando alunos naquele ano. Angell não conseguiu completar seu trabalho de doutorado. Sua tese fora aceita mediante a condição de que a redação em alemão fosse melhorada, mas para isso teria de permanecer em Halle sem qualquer fonte de renda. Decidiu aceitar a indicação para lecionar na University of Minnesota, cujo salário, embora baixo, era razoável para quem desejava casar-se depois de um noivado de quatro anos. Apesar de jamais ter con­cluído o doutorado, orientou diversos doutorandos e, no curso da sua carreira, recebeu 23 títulos honorários.

Depois de um ano em Minnesota, Angell aceitou trabalhar na University of Chicago, onde permaneceu por 25 anos. Seguindo a tradição familiar, foi reitor da Yale University e ajudou a desenvolver o Instituto de Relações Humanas. Em 1906, foi eleito 15° presi­dente da APA e, depois de se aposentar da vida acadêmica, foi conselheiro da National Broadcasting Company (NBC).

A revista Time, e outras pessoas que o conheciam bem, descreveu Angell como "um homem alegre e saltitante" e "a alegria da festa." Seu apelido na University of Chicago era "Jim, o Radiante". Também se comentava que não era aconselhável andar a pé ou de carro com ele, pois "ele tinha o hábito inacreditável de atravessar a rua sem prestar atenção ao trânsito. Sinais de trânsito não significam nada para ele. (...) Com a mesma segurança descuidada e habilidade incrível, ele dirige seu carro" (apuá Dewsbury, 2003, p. 66-69).

A Esfera de Ação da Psicologia Funcional

O livro de Angell, Psychology (1904), incorpora a abordagem funcionalista e obteve tanto sucesso que foram publicadas quatro edições em quatro anos, sinalizando o apelo da posição funcionalista. Nele, Angell afirmava ser função da consciência a melhoria da capacidade de adaptação do organismo. O objetivo da psicologia era estudar de que modo a mente auxilia o organismo a se adaptar ao seu ambiente.

No discurso de posse como presidente da APA, em 1906, publicado na Psychological Review, Angell descreveu o que chamou de "esfera de atuação" da psicologia funcional. Até aqui observamos que os novos movimentos ganharam impulso somente quando se referiram ou se opuseram à posição popular naquele momento. Angell traçou as linhas da batalha com avidez, mas concluiu com modéstia: "Renuncio formalmente a qualquer intenção de traçar novos planos; estou comprometido com o que se propõe ser um sumá­rio imparcial das condições reais" (Angell, 1907, p. 61).

A psicologia funcional, afirmou Angell, não consiste, de todo, em uma novidade e sim em uma parte significativa da psicologia desde o seu início. Foi a psicologia estrutural que se colocou à parte da forma de psicologia funcional mais antiga e verdadeiramente mais difusa. Assim Angell descreveu os três principais temas do movimento funcionalista:

  1. A psicologia funcional é a psicologia da operação mental, ao contrário do estruturalismo, que é a psicologia dos elementos mentais. O aspecto elementar da psicologia de Titchener ainda contava com defensores e Angell promovia o funcionalismo em oposição direta a ele. A tarefa do funcionalismo é descobrir o modus operandi do processo mental, as suas realizações e as condições sob as quais ele ocorre;
  2. 2. A psicologia funcional é a psicologia das utilidades fundamentais da consciên­cia. Desse modo, a consciência é vista como um instrumento utilitário, já que faz a mediação entre as necessidades do organismo e as condições do ambiente. As estruturas e as funções orgânicas existem a fim de permitir que o organismo se adapte ao ambiente para, assim, sobreviver. Angell sugeria que a consciência sobrevivia para executar alguma função essencial para o organismo. Os psicólo­gos funcionalistas precisavam descobrir exatamente qual era essa função, não apenas da consciência como também dos processos mentais mais específicos, como o julgamento e a vontade;
  3. 3. A psicologia funcional é a psicologia das relações psicofísicas (as relações mente-corpo) e dedica-se ao estudo de todas as relações entre o organismo e seu ambien­te. O funcionalismo abrange todas as funções mente-corpo e não faz qualquer distinção entre a mente e o corpo. Ele os considera pertencentes à mesma classe e admite a facilidade de transferência entre eles.

Comentários

O discurso de posse de Angell na APA foi realizado em uma época em que o espírito do funcionalismo já era amplamente aceito. Angell moldou esse espírito em uma empreita­da ativa e destacada, tendo como instrumentos um laboratório, um corpo de dados de pesquisa, um grupo de professores entusiasmados e um núcleo de dedicados estudantes de pós-graduação. Ao dirigir o funcionalismo para ocupar o status de escola formal, atribuiu-lhe o enfoque e a importância para efetivá-lo. Todavia, continuou a afirmar que o fun­cionalismo não constituía na verdade uma escola de pensamento separada nem devia ser relacionado exclusivamente com a University of Chicago. Apesar das objeções de Angell, o funcionalismo prosperou e frequentemente referiam-se a ele como a "escola de Chicago", sendo permanentemente associado com o tipo de psicologia ensinado e praticado ali.

Harvey A. Carr (1873-1954)

Harvey Carr fez especialização em matemática na DePauw University, Indiana, e na Uni­versity of Colorado. Passou a se interessar pela psicologia aparentemente por admirar o professor. "Decidi tornar-me psicólogo", declarou, "embora conheça muito pouco a respeito da natureza da matéria" (Carr, 1930/1961. p. 71). Não existia laboratório de psicologia em Colorado, então, Carr transferiu-se para a University of Chicago, na qual seu primeiro profes­sor de psicologia experimental foi o jovem professor-assistente, James Rowland Angell.

No seu segundo ano em Chicago, Carr trabalhou como assistente de laboratório de John B. Watson que, na época, era instrutor e mais tarde viria a fundar a escola de pensa­mento behaviorista. Watson apresentou a Carr a psicologia animal.

Depois de obter o doutorado em 1905, Carr lecionou em uma escola de ensino médio no Texas e, em Michigan, em uma faculdade para professores estaduais. Em 1908, retor­nou a Chicago para substituir Watson que havia aceitado uma posição na Johns Hopkins University. Por fim, Carr sucedeu Angell como chefe do departamento de psicologia da University of Chicago. Durante o mandato de Carr (1919-1938), o departamento de psico­logia concedeu 150 títulos de doutorado.

Funcionalismo: o Formato Final

Carr aprimorou a posição teórica de Angell e seu trabalho representava o funcionalismo, quando não precisava mais batalhar contra o estruturalismo. O funcionalismo superara a oposição e adquirira direitos legítimos sobre a própria posição. No período de Carr, o funcionalismo em Chicago atingiu o ápice como sistema formal. Carr alegava ser a psi­cologia funcional a psicologia estadunidense. Afirmava que as demais versões de psicologias propostas naquela época, como o behaviorismo, a psicologia da Gestalt e a psicanálise, dedicavam-se apenas a alguns aspectos limitados do campo. Acreditava que essas visões não tinham muito a acrescentar na tão abrangente psicologia funcionalista.

O livro básico de Carr, Psychology (1925), apresenta a forma mais refinada de funcio­nalismo, do qual se destacam dois pontos principais:

  • Carr definiu a atividade mental como objeto de estudo da psicologia - os processos mentais, como a memória, a percepção, o sentimento, a imaginação, o julgamento e a vontade;
  • A função da atividade mental é a aquisição, fixação, retenção, organização e ava­liação das experiências e a sua utilização para determinar a ação de uma pessoa. Carr chamou a forma específica de ação, na qual aparece a atividade mental, de comportamento de "adaptação" ou "ajuste”.

É possível perceber, nas ideias de Carr, a ênfase familiar da psicologia funcional nos pro­cessos mentais e não nos elementos nem no conteúdo da consciência. E, ainda, observa-se uma descrição da atividade mental em termos das realizações que permitem a adaptação do organismo a seu ambiente. É importante ressaltar que, em 1925, essas questões já eram aceitas como fatos e não mais como objeto de debate. Nesse período, o funcionalismo já era considerado psicologia geral.

Como muitos psicólogos se consideravam, de alguma forma, funcionalistas, essa deno­minação começou a perder o significado. Os profissionais da área denominavam-se sim­plesmente psicólogos e não era necessário afirmar que a atitude funcional fazia parte do comportamento do psicólogo. (Wagner e Owens, 1992, p. 10)

Carr aceitava os dados obtidos por meio dos métodos experimental e introspectivo. Assim como Wundt, acreditava que as criações artísticas e literárias de uma cultura dariam indicações sobre as atividades mentais que a produziram. Embora o funcionalismo não adotasse uma metodologia única, como fazia o estruturalismo, na prática, a ênfase estava na objetividade. Quando se empregava a introspecção, ela era limitada ao máximo por controles objetivos. Além disso, é importante observar que o funcionalismo empregava nas pesquisas tanto animais como seres humanos.

A escola funcionalista de Chicago promoveu a transferência do estudo exclusivo da mente e da consciência subjetiva para o estudo do comportamento objetivo e patente. O funcionalismo ajudou a redefinir a psicologia estadunidense, que acabou concentrando o foco no comportamento e eliminando o estudo da mente como um todo. Nesse sentido, os funcionalistas criaram uma ponte entre a psicologia estruturalista e a psicologia comportamental de Watson, que viria a ser a subsequente proposta revolucionária.

Funcionalismo na Columbia University

Como observamos até agora, não existiu uma forma única de psicologia funcional nos mesmos moldes da psicologia estrutural exclusiva de Titchener. Embora a evolução inicial e a fundação da escola de pensamento funcionalista houvessem ocorrido na University of Chicago, outro ponto de vista vinha sendo formado por Robert Woodworth na Columbia University. Essa universidade também foi a base acadêmica de outros dois psicólogos de orientação funcionalis­ ta. Um foi James McKeen Cattell, cujo trabalho sobre os testes mentais incorporou o espírito funcionalista estadunidense, e o outro foi E. L. Thorndike, cuja pesquisa a respeito dos problemas da aprendizagem animal reforçou a tendência funcionalista à maior objetividade.

Robert Sessions Woodworth (1869-1962)

Robert Woodworth não pertencia formalmente à escola de pensamento funcionalista como pertenciam tradicionalmente Carr e Angell. Ele não apreciava as restrições impostas por membros de qualquer escola de pensamento. Entretanto, grande parte do trabalho que escreveu sobre a psicologia seguia o espírito funcionalista da escola de Chicago, além de haver introduzido um importante ponto de vista.

Contribuições do Funcionalismo

A forte oposição do funcionalismo ao estruturalismo teve enorme impacto na evolução da psicologia nos Estados Unidos. A amplitude das consequências da transferência da ênfa­se da estrutura para a função também foi bastante significativa. Um dos resultados foi a incorporação da pesquisa do comportamento animal, que não fazia parte do tratamento estruturalista como área de estudo da psicologia. A ampla base da psicologia funcionalista também incorporava os estudos sobre bebês, crianças e adultos com dificuldades mentais. Os funcionalistas complementavam o método introspectivo com dados obtidos por meio de outros métodos, como a pesquisa fisiológi­ca, os testes mentais, os questionários e as descrições objetivas do comportamento. Essas abordagens, rejeitadas pelos estruturalistas, transformaram-se em fontes respeitáveis de informação para a psicologia.

Na época da morte de Wundt, em 1920, e de Titchener, em 1927, suas abordagens já estavam obscuras nos Estados Unidos. Por volta de 1930, consolidava-se a vitória do fun­cionalismo. Como veremos no Capítulo 8, o funcionalismo deixou a sua marca na psico­logia estadunidense contemporânea mais significativamente devido à ênfase na aplicação dos métodos e das descobertas da psicologia para a solução dos problemas práticos.

Psicologia - História da Psicologia
1/16/2020 1:40:18 PM | Por Francisco Teixeira Portugal
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Comparação e genealogia na psicologia inglesa no século XIX

A obra de Charles Darwin (1809-1882) marcou de maneira incontornável a concepção do vivo no século XIX e os cinquenta anos que sucederam a publicação de Origem das espécies (1859) podem ser chamados de era darwiniana não só na psicologia, mas na biologia e nas ciências sociais (Jacquard, 1986). Ao final de sua obra marco, Darwin “visualiza novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes” e continua sua previsão escrevendo que a "psicologia irá basear-se num fundamento novo, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental". Dessa forma, "nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história” (Darwin, 1859: 351).

À psicologia caberia a importante tarefa de mostrar a aquisição grada­tiva de cada faculdade mental e assim chegar a estender as propostas transtornacionistas ao homem, algo repleto de consequências não apenas para a universidade inglesa, ainda muito clerical, mas também para os grupos governantes ainda muito antiliberais. Um fundamento novo — seguindo as palavras de Darwin – suportou as novas pesquisas sobre o homem, os seres vivos e as organizações sociais, e a história de sua difusão revela o surgimento de uma importante vertente da psicologia inglesa no século XIX.

Constitui um erro comum considerar a biologia como fornecedora de referenciais e modelos para a psicologia, especialmente no que diz respeito às contribuições de Darwin. A suposição é a de que nas relações entre elas, as inovações conceituais e metodológicas da biologia seriam exportadas para a psicologia. Nesta linha de pensamento, e destacando a psicologia – darwiniana inglesa, restaria à psicologia apenas o procedimento maior de recolocação dos problemas a partir de um referencial novo que se mostrou fértil alhures sobre seu objeto privilegiado, as faculdades mentais.

Mas, deveríamos crer, ingenuamente, que a aplicação de um pressuposto ou de um método sobre um objeto faria com que ele se apresentasse aos nossos olhos sem possibilidade de ocultação?

Outros são os termos de Darwin e outra também a história desse saber. Essa psicologia, como qualquer outra, não se fez por depuração metodológica, mas pela constituição de dispositivos de legitimidade e pela emergência de novos temas. O papel desempenhado pela psicologia foi relevante para a constituição da própria teoria da seleção natural, modificando a mão dessa trilha que liga a psicologia à biologia.

O evolucionismo constitui um exemplo do equívoco apontado acima. Embora o conceito de evolução tenha se identificado com a evolução orgânica, ele não se restringe à biologia e pode ser remetido a campos diversos das ciências naturais e das ciências humanas e sociais (por exemplo, cosmologia evolutiva, termodinâmica evolutiva, algumas teorias da linguagem, as ciências sociais, a geologia). Como afirmou Lewontin (1985:249), Darwin representa o ponto culminante da teoria da evolução orgânica, não a matriz do evolucionismo do século XIX.

Podemos dizer que Darwin forneceu, com seu livro inaugural, uma credibilidade, segundo os cânones da ciência de então, à noção de evolução Jacquard (1986) lembra, entretanto, que o termo só apareceu na sexta edição da obra Origem das espécies. Na verdade, um dos grandes organizadores e difusores da tese evolucionista na Inglaterra do século XIX foi Herbert Spencer (1820-1903).

Spencer é atualmente um pensador muito ignorado; todavia, a ressurgência das forças liberalistas tem sido acompanhada da revalorização de parte de sua obra. Assim, há uma simpatia por seu pensamento quer pelos filósofos de mercado, quer pela renovada tentativa de aplicar os princípios evolucionistas à sociedade humana. A ausência de formação universitária e inserção profissional acadêmica de Spencer não impediu que ele fosse indicado a receber, ao longo dos últimos trinta anos de sua vida, uma série de homenagens acadêmicas (tendo recusado quase todas).

Juntamente com Edward Burnett Tylor (1832-1917) e Lewis Henry Mor­gan (1818-1881), Spencer está entre os três mais destacados evolucionistas do século XIX, e embora, segundo Burrow (1968), seu trabalho tenha sido exaltado da Rússia aos EUA, sua importância entre os pensadores do século XIX tem sido exagerada. Sua herança intelectual inclui também, além do evolucionismo, o liberalismo clássico calcado no individualismo, na noção puramente econômica das relações sociais, no Estado mínimo e na negação gradual das instituições com exceção da propriedade. Estas características fizeram dele o grande DARWINISTA SOCIAL, pois foi sobretudo seu evolucionismo e não o de Darwin, que, associado ao  liberalismo individualista, deu suporte às práticas excludentes e perigosas do evolucionismo social. 

O positivismo determinista presente nas ciências sociais na segunda metade do século XIX encontrou em Spencer um de seus mais firmes adeptos. Sua crença na causação natural o levou a adotar a teoria evolucionista. Tendo escrito algu­mas de suas obras onde a concepção de evolução é exposta antes mesmo da publicação do livro Origem das espécies de Darwin, Spencer buscou aplicar o princípio da evolução sistematicamente a todo o universo e es­ pecialmente à sociedade humana. Spencer considerava-se o Newton das ciências morais, a aplicar a lei universal da conservação de energia traduzida em princípio da evolução ao universo. Assim, para além do mundo ao qual os físicos se dirigem, a evolução se aplicaria também ao mundo dos seres vivos, aos homens e suas organizações sociais.

Sua concepção de evolução não vem, pois, de Darwin, nem ele foi um darwiniano. A concepção de evolução relaciona-se à sua crença na causação natural e a uma ciência determinista e, no caso de sua aplicação aos seres vivos, vem muito mais de um conhecimento de segunda mão das concepções de Jean-Baptiste Lamarck do que de uma reflexão a partir da obra de Darwin. Seu credo liberal valorizava, assim como os utilitaristas da primeira metade do século XIX, o indivíduo, mas de uma forma renovada, ao propor o conceito de estrutura social.

É dessa perspectiva individualista que se pode compreender a expressão de Spencer - “sobrevivência do mais apto" - para o conceito darwiniano de seleção natural. A seleção natural, tão importante por ter fornecido um sentido para as transformações e diferenças entre os seres vivos, inexplicáveis na perspectiva lamarquista, se ancora na comunidade, não no indivíduo. Spencer desloca para o indivíduo esse conceito crucial dos trabalhos de Darwin e o aloca na perspectiva do progresso. Além da deformação conceitual que representa a transformação da seleção natural em sobrevivência do mais apto, Spencer manteve até o final de sua vida a crença na concepção lamarquista de herança dos traços adquiridos. O evolucionismo liberalista de Spencer pode então hierarquizar as organizações sociais tomando como cume a organização liberal da Inglaterra colonialista.

Spencer foi muito mais resenhado por autores das ciências sociais que da psicologia. Contudo, considerando o retorno das abordagens evolucionistas ou evolucionárias na psicologia, Spencer tem sido retomado e historicamente revalorizado. Assim é que se indica repetidamente o elogio de Darwin e de William James a Herbert Spencer. 

Nessa vertente do melhoramento biológico, social e psíquico que se elaborou teoricamente na Inglaterra também pode ser incluído o contemporâneo de Spencer, Sir Francis Galton (1822-1911). As contribuições de Galton para a psicologia podem ser divididas em dois campos: a eugenia e a psicologia diferencial. 

A Eugenia significa “bem-nascido e consistia no estudo e no uso da reprodução seletiva com o fito de melhorar as espécies, principalmente dos atributos hereditários, ao longo das gerações. A defini­ção de eugenia foi refinada por Galton ao distinguir a eugenia positiva, que incentivava a reprodução do mais apto à da eugenia negativa, que buscava evitar ou dificultar a proliferação do menos apto. Assim, e nos termos marcadamente conservadores da Inglaterra vitoriana, Galton afirmou da maneira mais desqualificada sua impaciência e objeção em relação à tese da igualdade natural entre os homens (Galton, 1869: 44).

O esforço de Galton foi o de mostrar que as habilidades mentais – o que ele chamava gênio — eram traços hereditários tanto quanto os padrões físicos e estavam, consequentemente, submetidas aos mesmos dispositivos de transmissão. O lorde inglês utilizou para demonstrar tal propósito dois instrumentos de legitimação, um artifício matemático (a teoria das probabilidades) e as palavras de Darwin (a seleção artificial). O problema principal para Galton foi como ter acesso às habilidades mentais e como mostrar que eram traços hereditários. Para tanto, Galton fez uma passagem cheia de consequências ao correlacionar as habilidades mentais superiores à reputação profissional alcançada pelos individuos. O pressuposto era o de que a reputação so pode ser alcançada através das altas habilidades mentais. Em seguida era preciso mostrar como os indivíduos de alta reputação mantinham um padrão here­ditário. Em outras palavras, tratava-se de naturalizar as diferenças sociais. Além disto, observe-se que o termo correlacionar aqui é importante porque os instrumentos matemáticos permitem “limpar” as escolhas morais de Galton, uma vez que a sofisticação introduzida pelas matemáticas obstruem frequentemente a percepção dos interesses e consequências político-sociais envolvidos nessas analises.

O primeiro passo foi dado sem maiores dificuldades —“Estou con­vencido... – , o segundo foi dado ao indicar a similaridade entre a forma de distribuição das habilidades mentais e dos traços físicos herdados (ambos eram distribuídos segundo a curva normal). Embora tal similaridade não permitisse indicar a hereditariedade das habilidades mentais, o que importa notar é que o instrumental matemático ajudou a sustentar uma fraude cien­tífica muito mais por suas consequências sociais que por qualquer má-fé de seu criador e de seus divulgadores.

O argumento era circular; sem ter como medir a hereditariedade das habilidades mentais, Galton mediu as frequências com que a eminência ou reputação aparecia em famílias de grande notabilidade segundo o grau de parentesco. Comparando-as com as frequências de eminência esperada da população mais ampla, descobriu que as relações de homens eminentes exibiam uma frequência muito maior de eminência que a esperada na base e que ela declinava conforme o grau de parentesco dessas relações. Então, aí está a circularidade do argumento, Galton concluiu que esse padrão só poderia resultar da herança das habilidades mentais.

Independentemente das falhas do procedimento de Galton, estaría­mos enganados ao diminuir as consequências das propostas eugênicas. Elas tiveram uma ampla aplicação ao longo do século XX e estão presentes em nossos dias. O infame programa eugênico levado a cabo na Alemanha nazista em nome da pureza da raça ariana foi realizado pela esterilização forçada de centenas de milhares de pessoas consideradas mentalmente desadaptadas e pelos programas de eutanásia compulsória que mais tarde desembocaram no assassinato de milhões de “indesejáveis”, incluindo judeus, ciganos e ho­mossexuais, durante o Holocausto perpetrado na Segunda Grande Guerra.

O segundo maior movimento eugênico ocorreu nos EUA que, desde o final do século XIX, implantou leis sob a égide da eugenia proibindo o casamento dos epilépticos, imbecis e débeis mentais. As teses eugenistas também estiveram presentes em 1924 nas decisões do Congresso estadunidense de dificultar a imigração, ao serem aconselhados sobre os riscos de espalhar entre os estadunidenses um “estoque inferior” proveniente da Europa Oriental e do sul. Assim, também sob inspiração eugênica, foram adotadas, ainda nos EUA, leis contra o incesto e de antimiscigenação, bem como levados a cabo programas de esterilização que atingiram milhares de estadunidenses considerados desadaptados. Um relatório favorável desse programa de esterilização foi apontado pelo governo nazista como evi­dência de que a esterilização era praticável e humana e, durante o Tribunal de Nuremberg dos Crimes de Guerra, os administradores nazistas de programas de esterilização em massa apontaram os programas estadunidenses como sua inspiração. Contudo, observe-se que, com exceção do Reino Unido, quase todos os países não católicos da Europa Ocidental implan­taram ao longo do século XX uma legislação eugênica.

Após a Segunda Grande Guerra, os programas perdem força, mas muitos eugenistas nos EUA criam o termo criptoeugenia com a intenção de manter as propostas eugênicas disfarçadas. Assim, diversas argumentações sobre raça, imigração, pobreza, criminalidade e saúde mental são categorizadas como criptoeugênicas, ou seja, publicações e práticas eugênicas ganham novos nomes. Atualmente, um dos programas de inspiração eugênica de maior alcance está ligado ao projeto genoma de mapeamento do código genético.

Uma importante modificação nos procedimentos classificatórios praticados pelos pesquisadores do mundo natural no final do século XVIII e início do século XIX consistiu no abandono da descrição do que era observado diretamente na superfície das coisas e na eleição de princípios ordenadores invisíveis que pudessem fornecer sentido à classificação dos seres. A história natural própria ao século XVIII ordenava seu mundo pela comparação das características visíveis das plantas e dos animais em um sistema fechado, refratário às transformações. As novas noções de vida, de função e de órgãos que emergem no século XIX deslocam o procedi­mento descritivo da história natural e se impõem na formação de novas práticas que constituem a biologia (Foucault, 1987). Também o tempo passa a constituir uma dimensão invisível que ordena as relações entre os seres vivos. A genealogia se impõe à comparação.

Darwin, representante dessas modificações, também se perguntou so­bre o sentido da classificação. As aproximações e as diferenças que emergem da pura comparação entre os seres vivos geravam uma infinidade de categorias, tornando a classificação pouco operacional. Essas categorias poderiam ser drasticamente reduzidas se fosse eleito um princípio norteador que fornecesse uma inteligibilidade manuseável. Enquanto biólogos mais ligados à Igreja —os teólogos naturalistas —se esforçavam em agrupar os seres vivos em círculos simbólicos que revelariam a escrita de Deus própria ao criacionismo, Darwin, na esteira transformacionista, elege a genealogia como critério que fornece sentido às aproximações e diferenciações que permitem agrupar os tipos animais e vegetais. Entende, pois, que as enormes diferenças existentes entre os seres vivos remontariam a um longo passado reple­to de pequenas bifurcações. Se todos os seres existentes e que existiram pudessem ser coletados, então seria possível estabelecer suas séries, relacionando-os em um grande e indivisível grupo.

Ainda que esse princípio tenha sido altamente difundido a par­tir de então na biologia, não devemos esquecer sua artificialidade. As “ordens, famílias e gêneros são termos meramente artificiais extrema­mente úteis para mostrar o parentesco daqueles membros da série que não se tornaram extintos” (Darwin, 1859). Darwin ainda comenta que os natu­ralistas sabem que seus critérios são artificiais, mas têm a estranha tendência a esquecer essa característica e conceber suas propostas como o simples reflexo do mundo natural.

A psicologia entra em cena nos trabalhos de Darwin a partir de sua tentativa de saber como o homem descende de alguma forma preexistente. Se no livro Origem das espécies (1859) não houve menção à genealogia humana, com o sucesso de suas propostas, a pergunta encontra seu encaminhamento vinte e poucos anos depois em A ascendência do homem (1871) e em A ex­pressão das emoções em homens e animais (1872).

As conexões do homem com alguma forma preexistente foram procuradas nas variações da estrutura corporal e nas faculdades mentais. A assimetria dos critérios que garantem a conexão genealógica entre os seres vivos quando referidos às estruturas corporais e às faculdades mentais marca uma diferenciação presente entre biologia e psicologia. Darwin tem muito mais dificuldade em estabelecer critérios de ordenação das faculda­des mentais e seus elos com formas anteriores, em franco contraste com os critérios utilizados para as estruturas corporais.

Ainda que Darwin não tenha desenvolvido uma teoria sofisticada da relação mente-corpo, ele concebe as faculdades mentais como produtos do funcionamento cerebral. Seu argumento era bastante simples: assim com o não se sabe por que a gravitação é um efeito da matéria e ninguém fica perplexo por isso, também não sabemos por que a mente é um efeito do cérebro. Com essa definição naturalista, as faculdades mentais, tanto quanto os atri­butos estruturais dos organismos, poderiam ser utilizadas para classificá-los, legitimando a comparação entre homens e animais no campo da psicologia.

Entretanto, a tentativa de classificar um tipo animal por seus hábitos ou instintos havia se mostrado muito insatisfatória. Devemos lembrar sem­pre que as tentativas de classificação centradas em apenas um critério eram concebidas pelo naturalista com inadequadas e insuficientes, mas de uma forma geral o comportamento e as faculdades mentais não serviram ou não tiveram o mesm o respaldo que os critérios atinentes às estruturas corporais para o sistema classificatório.

Se fica claro que a base de sustentação da teoria biológica diferen­ciou-se da psicológica, por outro lado estaríamos equivocados ao afirmar que não houve interação entre elas, ou mesmo que a primeira tenha sido imposta à segunda. As faculdades mentais e o comportamento não são determinados passivamente pela evolução, tendo sido concebidos pelos transformacionistas como desempenhando um papel relevante na trajetória dos seres vivos. Jean-Baptiste Lamarck concebia o comportamento como simultaneamente produto e instrumento das transformações das espécies. Sua obra teve importante influência no pensamento de Darwin que a conheceu durante seus estudos em Edimburgo (onde tentou sem sucesso formar-se em medicina como seu pai e seu avo) e que manteve por longo tempo no eixo de suas reflexões. O pensamento do naturalista francês atua sobre o jovem Darwin da seguinte forma: algumas modificações no ambiente constrangem os animais a novos hábitos, em decorrência de novas exigencias. Novos habitos alteiam as estruturas cerebrais bem como outros órgãos, se praticados ao longo de muitas gerações. Para Darwin, a memória ou o pensamento, quando tornados habituais e involuntários, afetam a estrutura física do cérebro, podendo tais transformações ser transmitidas à prole. Dessa forma, os instintos ganhavam uma explicação materialista, mas grandes brechas ficaram abertas, a mais conhecida e mais grave sendo a pergunta: como conectar a modificação estrutural produzida pelo hábito com a transmissão para a prole das estruturas adquiridas?

Os instintos maravilhosos eram, para Darwin, extremamente difíceis de explicar pelo hábito. Sua dificuldade principal estava na acentuação do caráter não intencional e não consciente de comportamentos complexos. Como poderia a solitária vespa aprender a cavar um buraco, paralisar uma aranha e colocar seus ovos, se suas crias nascerão depois de sua morte.

Que benefício futuro ela poderá tirar? Que tipo de ajuste do comportamento pode ser evocado para dar sentido a este tipo de instinto? Em um formigueiro pode haver formigas divididas em duas ou mais castas, sendo algumas estéreis. Como esses insetos sexualmente neutros poderiam deixar prole?

Darwin encontrou respostas a estas perguntas na transposição do foco de análise do indivíduo para a população. A solução encontrada que permitiu a aplicação da teoria da seleção natural a estes casos foi o reconhecimento da diferença entre o animal que seleciona um comportamento por sua utilidade (o animal é o centro decisório) e o animal que é selecionado por seu comportamento útil (o animal é parte de um processo). A unidade de medida passa a ser a população ou a comunidade.

Um problema considerado psicológico como o do instinto ocupou, portanto, um lugar destacado no estabelecimento da teoria da seleção natural, envolvendo-a numa longa reflexão sobre a moral e as faculdades mentais.

Como dito anteriormente, foi principalmente nas obras A ascendência do homem (1871) e A expressão das emoções em homens e animais (1872) que Darwin buscou explicitar o parentesco comum entre homens e animais através das expressões e das faculdades mentais.

Ao longo desses livros foram desfiados extensos comentários sobre as semelhanças psicológicas entre homens e animais calcados em “fatos” colhidos por mais de quarenta anos através de observações, de questionários e de experimentações. A liberdade com que foram aplicados atributos mentais aos animais a partir das observações de viajantes e missionários salienta uma opção pela continuidade mental entre eles, já que esses “fatos” eram tremendamente antropomórficos e antropocêntricos. Muito mais do que uma fonte intelectual e documental para a construção de uma psico­logia comparada ou uma etologia, a psicologia de Darwin se apresenta como uma crítica aos argumentos que isolam qualitativamente homens e animais. Assim é que a observação dos cachor­ros pode fornecer uma evidência anticartesiana, uma vez constatado que eles constroem “uma ideia geral dos gatos e das ovelhas, e conhece[m] as palavras correspondentes tão bem quanto as pode conhecer um filósofo” (Fontenay, 1998: 566). Ou mesmo que os animais se espantem; aqui, lembramos ser o espanto uma característica-chave para a atividade filosófica na concepção de Platão e Aristóteles. Ficamos também cons­trangidos ao sermos comparados pelo naturalista em relação aos nobres sentimentos de um cão que, no momento mesmo de sua vivisseção, lambe a mão de seu dono: sinal não só de aceitação de seu martírio em nome da nobre causa da ciência, como de seu perdão por uma ação tão cruel.

O esforço de Darwin se justificava pela barreira imposta à teoria da seleção natural diante da descontinuidade das capacidades mentais do homem e dos animais. A genealogia simiesca do homem, apesar de ge­rar intensas discussões, foi aceita por um público amplo. Se o clero e algumas camadas dominantes a rejeitaram com fervor, o livro Darwin alcançou várias tiragens, as palestras de Huxley atraíam multi­dões e houve também a produção de uma literatura popular, divul­gando valores evolucionistas, avida­mente consumida por um grande público.

Mas, no plano das argumentações acadêmicas, muito havia ainda a ser feito para garantir a continuidade homem-animal no plano mental. Os esforços de George John Romanes (1848-1894) e Conwy Lloyd Morgan (1852-1936) foram os mais relevantes em continuidade com os do mais conhecido naturalista inglês.

Encarregado por Darwin de realizar a extensão das teses evolucionistas à mente e ao comportamento, Romanes realizou um estudo de psicologia comparada centrado na experiência humana consciente. Para ele, a força de uma teoria estava na possibilidade de fornecer inteligibilidade a campos novos que não tinham sido seu foco inicial e este era o caso da teoria da seleção na explicação de temas psicológicos como o instinto, a razão e o senso moral.

Seu projeto consistiu principalmente na elaboração de princípios explicativos da gênese da mente, mas ele também realizou estudos sobre o intelecto, a emoção, a vontade, a moral e a religião. Há um claro esforço em atestar a continuidade homem-animal, o que o levou a uma seleção bastante tendenciosa do material a ser analisado. Explicando: como seu material continuava provindo, em grande parte, de viajantes e missionários nas colônias europeias, Romanes o selecionava conforme a fama do autor do relato. Se o autor não fosse reconhecido, fazia a verificação da qualidade da observação através da confrontação das informações. Como a maioria dos relatos utilizados era proveniente de eminentes ingleses trabalhando nas longínquas terras daquele então vasto império colonial, não questionava seus dados nem sua interpretação, já que, segundo seus critérios, estes eram válidos e confiáveis. Dessa forma, o antropomorfismo das observações ganhava uma teorização academicamente legitimadora na obra de Romanes. 

Contudo, também contou com observação mais controlada e chegou mesmo a cuidar de um MACACO CEBUS COULO parte de suas pesquisas. A mente, em sua concepção, é imediatamente dada a nós, não podemos duvidar de que temos conhecimento de um certo fluxo de Pensamentos e sentimentos. Com esta perspectiva, a observação de outras mentes torna-se possível por inferência, a partir das atividades dos organismos que parecem exibi-las. Solipsismo e antropomorfismo regem a reflexão. Primeiro passo: os humanos têm acesso introspectiva e diretamente às suas mentes (é por analogia que podemos afirmar que todos partilhamos esta característica). Segundo passo: como só podemos inferir as mentes em animais a partir das atividades dos or­ ganismos, devemos compará-las às dos homens para, na medida de sua semelhança, vislumbrá-las.

Romanes justifica seu procedimento lançando mão de um argumento teológico. Assim como os teólogos mostraram que a mente divina só pode ser concebida por analogia com a nossa, ainda que imperfeita, também em reação à mente animal devemos impor tal entendimento e aplicar o “antropomorfismo invertido” (invertido aqui em comparação ao alvo teológico que, na primeira comparação, se dirige a Deus),

A consciência e a escolha são os traços distintivos que indicam a existência da mente entre os animais. Assim como os comportamentos humanos que não se restringem  ao conjunto de hábitos herdados podem ser explicados pela consciência e pela escolha, também as atividades dos animais que escapam ao hábito podem indicar decisão e consciência. Mas a mente só pode ser inferida a partir de atividades que se sobrepõem às determinações inatas. Atividade consciente e aprendizagem se aproximam e a distinção inato-aprendido passa ao primeiro plano.

Coube a Conwy Lloyd Morgan indicar um caminho para que a psicologia comparada pudesse se livrar das pesadas lentes do antropomor­fismo. Seu monismo metafísico o fez adotar a concepção de consciência de William James evitando o “forte preconceito de que temos estados mentais e de que o cérebro os condiciona” (1977a [1894]). Seu monismo fornece três ve­tores ao trabalho do pesquisador: uma teoria monista do conhecimento, uma interpretação monista da natureza e um monismo analítico. O primeiro evita tanto o idealismo quanto os dualismos que segmentam sujeito e objeto como entidades separadas e independentes. Nesta direção, os aspectos subjetivos e objetivos são uma divisão que se faz sobre o fluxo unitário da experiência pela atividade da razão. A concepção monista da natureza, por sua vez, o leva a conceber a análise psicológica e a biológica como aspectos de um mesmo processo, a mente consistindo em um dos aspectos da existência natural. Finalmente, o monismo analítico indica que a divisão mente-corpo resulta do trabalho do conhecimento. A atividade do conhecimento cria um objeto a ser conhecido para além dos sentidos, uma vez que o acesso a ele ocorre somente pela reflexão. O homem é concebido como objeto natural, sendo seus aspectos corporais e mentais estabelecidos pelo mesmo movimento e sem que um determine o outro.

Evocando a experiência subjetiva do leitor, Lloyd Morgan escreve “que ele sabe o que quero afirmar quando digo que ele é consciente” (1977a [1894]: 11). O termo mente é utilizado como o conjunto das atividades psí­quicas que, não tendo uma realidade independente do corpo, correspondem a diferentes modos de olhar o mesmo conjunto de ocorrências naturais.

Lloyd Morgan transformou a divisão entre a mente e o corpo em diferença de superfície, isto é, evitou sua duplicação ontológica. Entretanto, manteve a introspecção como via de acesso à mente: só podemos ter um conhecimento direto e imediato dos próprios processos psíquicos, o que faz da introspecção o ponto de partida de toda a psicologia comparada.

Mas seu monismo falha justamente na tentativa de conhecer as mentes animais. Podemos colocar sua questão da seguinte forma: se só temos conhecimento direto de nossa própria mente e derivamos sua existência nos outros homens por analogia, dada a semelhança interna à nossa espécie, como conhecer as mentes animais? E o aspecto corporal que sustenta a comparação porque permite estabelecer uma ponte en­tre as mentes humanas e as animais. Se a observação direta das mentes animais nos é vedada, as semelhanças corporais sustentam a hipótese das semelhanças psíquicas. O trajeto da comparação tem como ponto de partida o aspecto mental dos homens, passando em seguida a seu aspecto corporal, de onde, dadas as semelhanças, passa-se ao aspecto corporal de alguns animais para, finalmente, alcançarmos seu aspecto mental. A teoria da evolução constitui o solo desse trajeto, já que tanto o aspecto mental quanto o corporal são o resultado de exigências ambientais.

O dualismo de aspecto apresentado por Lloyd Morgan — que, em sua argumentação filosófica, seria secundário em relação ao monismo metafísico —, levou-o a uma valorização anômala (como compatibilizar a hierarquia dos aspectos com o monismo?) do aspecto corporal sobre o mental. A comparação entre os psíquismos segundo Lloyd M organ é legí­tima quando realizada, no máximo, em relação aos vertebrados superiores, porque seus estados psíquicos podem ser inferidos a partir da semelhança de seus hemisférios cerebrais com os dos homens. A dificuldade em atribuir esse privilégio ao aspecto físico, incoerente com o monismo, deixa em aberto o conhecimento dos estados psíquicos de animais cujas estruturas cerebrais são muito diferenciadas da dos homens.

Lloyd Morgan também introduziu o “princípio da simplicidade” na atividade comparativa. Este princípio diz que não se deve interpretar uma ação de um animal através de uma faculdade psíquica superior se ela puder ser explicada por uma outra mais simples. Tal princípio atuará no estabelecimento das diferenças entre as funções psíquicas de homens e animais, introduzindo uma continuidade imprevista ao legitimar a busca e a generalização de explicações “objetivas” das características mentais — os animais. É conhecido como cânon de Lloyd Morgan, organizando
pesquisas comparadas a partir da teoria da evolução. O parâmetro para inferir as habilidades mentais dos animais tem necessariamente que resultar de seu comportamento nos ambientes, já que a seleção natural não poderia explicar uma faculdade mental superior às exigidas por essa interação.

A acentuação do experimentalismo nos estudos psicológicos no iní­cio do século XX introduziu definitivamente uma desconfiança quanto à validade da observação. Se essa validade já havia sido notada por Romanes, os novos pesquisadores se ampararam sobretudo na observação planejada, não casual, e a tornaram dispositivo de legitimação indispensável.

A aproximação entre homens e animais levada a cabo por Darwm foi o solo de onde emergiu a psicologia comparada. Canguilhem (1970) mos­tra, entretanto, com o a metodologia desta se desenvolveu, em parte, contra a perspectiva darwiniana. A psicologia que compara homens e animais se tornou possível transformando o difundido paralelismo homem-ammal, com sua intransponível barreira, numa genealogia de muitas e pequenas
diferenças. Assim, noções como retorno, luta pela vida, adaptação por seleção natural forneceram instrumentos para a comparação na psicologia, mas sua aplicação teve que esperar até os trabalhos de Lloyd-Morgan.

A noção de meio específico da vida desenvolvida por Jacob von Uexküll (1864-1944) – considerado por alguns etólogos como figura cen­tral para emergência de seu campo – e, mais tarde, pela etologia permitiu o abandono dessa homogeneização promovida por Darwin na medida em que dissociou estrutura e comportamento. As características psicológicas do animal, se não anularmos as diferenças, devem ser tomadas pelas relações entre o organismo do animal e o meio que ele determina por sua estrutura: “A atenção de um animal é inseparável de seu modo de capturar suas presas. A rã aguarda e o sapo procura” (Canguilhem. 1970:125).

A psicologia elaborou essa relação entre homens e animais de três modos, primeiramente, tomando a conduta dos animais como referenciada a experiencia humana conscientemente vivida. Em seguida, a psicologia abordou as condutas animais como tema da fisiologia, compreendida como parte da biologia que aborda as relações entre o organismo e o meio. Uma terceira via foi o estudo do comportamento animal isolado de seu meio, isto é, inserido no laboratório e abordado analiticamente. Foi necessário que a psicologia se liberasse dessas formas de pesquisa para considerar o animal como sujeito de sua experiência, ou seja, foi necessário que esse caminho fosse percorrido para que a psicologia se despojasse de seu antropomorfismo.

Psicologia - História da Psicologia
1/12/2020 1:25:14 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Funcionalismo: as influências anteriores

Jenny estava vestida como qualquer criança típica de 2 anos, e certamente se comportava como uma criança de 2 anos. Milhares de pessoas afluíam para vê-la. Elas a encaravam maravilhados, encantados, pois Jenny - tão inocente, tão humana, na realidade era um orangotango, um macaco, como a maioria das pessoas a chamava. Jenny estava em exibição em uma gaiola de girafa no zoológico de Londres. O ano era 1838.

Poucas pessoas na Inglaterra, ou em qualquer lugar da Europa jamais tinham visto tal criatura, e aqueles que foram vê-la estavam surpresos, até mesmo desconcertados pelos maneirismos a que estavam tão familiarizados. Vestida em um vestido de babado, ela se sentava à mesa, usava uma colher para comer de um prato, tomava chá em uma xícara e parecia entender o que seu cuidador lhe dizia. Também parecia saber o que era e o que não era permitido fazer.

Um visitante escreveu:

O cuidador mostrou-lhe uma maçã, mas não a dava, o que fez com que se atirasse de costas, chutando e cho­rando, precisamente como uma criança malcriada... O cuidador disse: "Jenny, se parar de berrar e se comportar como uma menina boazinha, eu lhe dou a maçã." Ela certamente entendeu cada palavra e, embora como criança que custa a parar de choramingar, conseguiu a maçã (apud Aydon, 2002, p. 128).

Aparentemente, Jenny fazia com que aquele visitante se lembrasse de seus dois filhos pequenos, pois ele voltou ao zoológico alguns meses mais tarde, levando um instrumento de boca (gaita) e um espelho. Ele tocou o instrumento na frente da gaiola e depois o deu a ela pelas grades. Imediatamente ela o colocou nos lábios, como ele havia feito. Quando ele deu o espelho, ela ficou se olhando continuadamente como se estivesse surpresa com sua imagem, assim como os filhos daquele homem haviam ficado a primeira vez que se viram em um espelho.

Ele a observou aceitando pão de outro visitante, olhando primeiro para o seu cuida­dor para ver se podia comer. Mas Jenny também exibia comportamento voluntarioso e desobediente. Com frequência ela fazia algo que haviam dito que não deveria fazer. Quando ela acha que o cuidador não vai ver, mas que sabe que fez algo errado, ela se esconde. (...) Quando acha que vai ser chicoteada, ela se cobre com palha ou um cobertor (.apud Keynes, 2002, p. 50).

Observar o comportamento de Jenny teve um profundo efeito no nosso visitante. Ele escreveu o seguinte comentário em seu caderno: "Deixe o homem ver o orangotango domesticado e sua inteligência.... e depois deixe que se vanglorie de sua superioridade orgulhosa. (...) O homem, na sua arrogância, pensa que é o resultado de um grande tra­balho, digno da intervenção de uma divindade. Mais humilde e, creio verdadeiro, seria considerá-lo descendente dos animais" (apud Ridley, 2003, p. 9).

Quem era esse distinto visitante que ficou tão impressionado com Jenny? Seu nome era Charles Darwin.

O Protesto Funcionalista

Charles Darwin, com sua noção de evolução, mudou o foco da nova psicologia da estrutura da consciência para as suas funções. Era inevitável que a escola de pensamento funcionalista se desenvolvesse.

O funcionalismo se preocupa com as funções da mente, em como ela é usada por um organismo para se adaptar ao seu ambiente. O movimento da psicologia funcional focou em uma questão prática: O que os processos mentais conseguem realizar? Os funcionalistas estudaram a mente não do ponto de vista de sua composição - seus elementos mentais ou sua estrutura - mas sim como um conglomerado ou acúmulo de funções e processos que levam a consequências práticas no mundo real. As pesquisas realizadas por Wundt e Titchener nada revelaram sobre os resultados ou realizações da atividade mental humana, mas este não era o objetivo. Tais preocupações utilitárias eram incompatíveis com a sua abordagem puramente científica da psicologia.

Como um primeiro sistema de psicologia, puramente estadunidense, o funcionalismo foi um protesto deliberado contra a psicologia experimental de Wundt e a psicologia estrutural de Titchener, ambas vistas como restritivas demais. Essas primeiras escolas de pensamento não podiam responder às perguntas que os funcionalistas estavam fazendo: O que a mente faz? E como age?

Como resultado dessa ênfase nas funções mentais, os funcionalistas passaram a se in­teressar pelas aplicações em potencial da psicologia aos problemas da vida diária, de como as pessoas funcionam e se adaptam a diferentes ambientes. O rápido desenvolvimento da psicologia aplicada nos Estados Unidos pode ser considerado o legado mais importante do movimento funcionalista.

Este capítulo trata das raízes do movimento da psicologia funcional, incluindo os trabalhos de Darwin, Galton e os primeiros estudiosos do comportamento animal. É importante observar a época em que esses precursores do funcionalismo estavam desen­volvendo suas ideias: o período anterior e durante os anos em que a nova psicologia estava começando a evoluir.

A obra pioneira de Darwin sobre a evolução, On the origin of species (1859), foi publicada um ano antes do livro de Fechner, Elements of psychophysics (1860), e 20 anos antes de Wun­dt instalar o laboratório na University of Leipzig. Galton começou a trabalhar no problema das diferenças individuais em 1869, antes de Wundt escrever a obra Principies of physiological psychology (1873-1874). As experiências com psicologia animal já eram realizadas na década de 1880, antes de Titchener seguir da Inglaterra para a Alemanha para estudar com Wundt.
Portanto, a maior parte dos trabalhos a respeito das funções da consciência, das diferen­ças individuais e do comportamento animal estava sendo realizada ao mesmo tempo em que Wundt e Titchener optaram por excluir essas áreas das suas definições de psicologia. Somente com a chegada da nova psicologia aos Estados Unidos é que as funções mentais, as diferenças pessoais e os ratos de laboratório ganharam destaque na psicologia.

 

A Revolução da Teoria da Evolução de Charles Darwin (1809-1882)

A ideia da evolução não começou com Darwin. Na época em que ele publicou sua teoria em 1859, não havia nada realmente novo a esse respeito (ver Gribbin, 2002). A hipótese de que os seres vivos mudam com o tempo, noção fundamental da evolução, pode ser já encontrada no século V a.C., embora só fosse investigada de forma sistemática a partir do final do século XVIII. O fisiologista inglês Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin e de Francis Galton) afirmava que todo animal de sangue quente havia evoluído de um único filamento vivo e animado por Deus.

Erasmus Darwin acreditava que havia um Deus que originalmente havia estabelecido vida na Terra em movimento, mas que não interveio depois disso para alterar a flora ou fauna ou para criar espécies. As mudanças nas formas animais, dizia, ocorriam de acordo com as leis naturais que fazem com que as espécies continuamente se adaptem às mu­danças em seu ambiente.

Em 1809, o naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck formulou a teoria comportamentalista da evolução, que enfatizava a modificação das características físicas do animal mediante o esforço de adaptação ao ambiente. Lamarck sugeria que essas modificações eram herdadas por gerações sucessivas. Por exemplo, a girafa desenvolveu o seu longo pescoço por várias gerações devido à necessidade de alcançar os galhos cada vez mais altos para obter comida.

Em meados da década de 1800, o geólogo britânico Charles Lyell introduziu a noção da evolução na teoria geológica, argumentando que a Terra havia passado por vários está­gios de desenvolvimento até chegar à estrutura atual. No Capítulo 13, veremos que a ideia de evolução também influenciou o trabalho de Freud.

Passados tantos séculos aceitando-se a doutrina bíblica da criação, por que os inte­lectuais buscavam uma explicação alternativa? Uma das razões era a de que os cientistas estavam adquirindo cada vez mais conhecimento sobre as outras espécies que habitaram a Terra. Os exploradores estavam descobrindo formas de vida animal antes desconheci­das. Portanto, era inevitável que alguém questionasse como Noé fora capaz de colocar um casal de cada espécie animal na arca. Tantas foram as espécies descobertas que não havia como os pesquisadores continuarem a acreditar nessa história.

O navegador italiano Américo Vespúcio escrevera, já em 1501, após a terceira viagem em torno da costa da América do Sul: "Não há como descrever a enorme variedade de animais selvagens, a abundância de pumas, panteras, gatos selvagens, diferentes dos que vemos na Espanha, mas parecidos com os das ilhas Antípodas; tantos lobos, veados ver­melhos, macacos e felinos, saguis de diversas espécies e várias cobras enormes. (...) Tantas espécies não caberiam na arca de Noé" (apud Boorstin, 1983, p. 250).

Na década de 1830, os ingleses e europeus viram pela primeira vez espécies animais constrangedoramente semelhantes aos seres humanos. Antes disso, somente alguns explo­radores corajosos haviam visto animais como os orangotangos e chimpanzés. Em 1835, um ano antes de Darwin retornar de uma viagem de exploração que durou cinco anos, um chim­panzé chamado Tommy foi exibido no zoológico de Londres. Em 1837, uma orangotango foi exibida e outra, dois anos depois; ambas se chamavam Jenny. Na década de 1850, um orangotango macho foi exibido em várias cidades da Inglaterra e da Escócia e a propaganda dizia que ele exibia comportamentos inteligentes quase no mesmo nível dos humanos.

Em 1853, o Museu Britânico exibiu o esqueleto de um gorila ao lado de um esqueleto humano. Tamanha era a semelhança que muitos observadores alegavam sentir-se emba­raçados. Era possível continuar insistindo que os seres humanos eram as únicas criaturas totalmente diferentes das outras espécies? Talvez não.

Exploradores também descobriram fósseis e ossadas de criaturas que não correspon­diam aos das espécies existentes, esqueletos aparentemente pertencentes a animais que em algum momento perambularam pela Terra mas que haviam desaparecido. Essas des­ cobertas fascinaram os cientistas e leigos interessados, e muitas pessoas começaram a colecionar fósseis.

A Grã-Bretanha do século XVIII foi um marco de requinte e impecável bom gosto na propriedade e exibição de coleções de fósseis. Os próprios objetos não apenas eram raros e bonitos (...) como a sua simples posse era uma indicação de sede de conhecimento, de consciência da filosofia natural, de compreensão solidária dos processos misteriosos da Terra. (Winchester, 2001, p. 106)

As pessoas desejavam saber o que aqueles fósseis e ossadas poderiam revelar sobre a origem do homem. Para os cientistas, o crescente acúmulo desses artefatos dava indicações de que as formas vivas não podiam mais ser consideradas constantes, imutáveis desde o início dos tempos e deviam ser vistas como sujeitas a mudanças e modificações. As espé­cies antigas evidentemente tornaram-se extintas, dando lugar a novas, sendo algumas delas versões alteradas das formas existentes. Talvez tudo na natureza fosse resultado de mudanças e ainda continuasse no processo de evolução.

O impacto da mudança contínua foi observado não apenas nos círculos científicos e intelectuais, como também na vida cotidiana. O Zeitgeist social estava se transformando por causa da Revolução Industrial. Os valores, as relações e as normas culturais, mantidos constantes por várias gerações, de repente foram rompidos quando a migração em massa da zona rural para as pequenas cidades promoveu o rápido desenvolvimento dos centros industriais urbanos.

A crescente dominação da ciência contaminava as atitudes populares. As pessoas esta­vam cada vez menos convencidas das ideias a respeito da natureza humana e da sociedade baseadas nos dogmas das antigas autoridades religiosas. Ao contrário, estavam dispostas e ávidas para transferir essa crença para a fé científica.

Mudança era a ordem do dia. Afetava o fazendeiro, cuja vida agora pulsava no ritmo de uma máquina e não das estações do ano, assim como afetava o cientista, cujo tempo era gasto tentando desvendar uma ossada desenterrada. A atmosfera intelectual produziu a noção de evolução não apenas respeitável cientificamente, como também necessária. Entretanto, durante muito tempo os estudiosos analisaram, especularam e levantaram hipóteses, mas ofereceram poucas provas concretas. Então, Darwin, em seu livro On the origin of species, apresentou informações tão bem organizadas que a teoria da evolução não pôde mais ser ignorada. O Zeitgeist demandava essa teoria e Charles Darwin tornou-se o seu agente.

A Biografia de Darwin

Ele foi um dos homens mais felizes que já viveu. Seus dois avôs foram dois dos homens mais famosos na Inglaterra. Graças a eles, acostumou-se desde pequeno à companhia de pessoas inteligentes e artísticas. Cresceu em uma casa confortável, cheia de afeto, onde sua imaginação era livre para vagar. Seu pai era muito rico, e no final da sua adolescência percebeu que não teria que fazer nada na vida que não quisesse. Para o resto de sua vida, ele fez exatamente o que lhe agradava. E, até o final de sua vida, foi sempre rodeado pelo mesmo ambiente de amor e proteção de sua infância. (Aydon, 2002, p. xxiii)

Quando criança, Charles Darwin dava poucas indicações de que se tornaria o cientista tão dedicado e entusiasmado que o mundo viria a conhecer. Era rude e maldoso, aprontando travessuras, mentindo e roubando para chamar a atenção. Os biógrafos relatam, sobre a infância de Darwin, um episódio em que ele tentou quebrar a janela de uma sala em que fora trancado como castigo por mau comportamento (veja Desmond e Moore, 1991). Ele parecia tão pouco promissor que seu pai, um rico médico, acreditava que o jovem Charles acabaria desgraçando o nome da família.

Embora seu desempenho escolar fosse fraco, demonstrava interesse por história natu­ral e em colecionar moedas, minérios e conchas. Seu pai o mandou para a University of Edinburgh para estudar medicina, mas logo o jovem se mostrou entediado. Como resposta, o pai disse-lhe que deveria tornar-se clérigo. Ele passou três anos na Cambridge University e achou a experiência uma perda de tempo, pelo menos do ponto de vista aca­dêmico. No âmbito social, no entanto, achou fantástico, tendo sido esse o período mais feliz da sua vida. Passava os dias e as noites bebendo, cantando, jogando cartas, fazendo parte de um grupo que descrevia como esbanjador e de baixo nível intelectual. Também colecionava besouros.

O botânico John Stevens Henslow, um de seus professores, conseguiu uma indicação para Darwin como naturalista para fazer parte da excursão do HMS Beagle, um navio que o governo britânico estava preparando para uma viagem científica ao redor do mundo.

A famosa excursão, que durou de 1831 a 1836, explorou as águas da América do Sul, seguin­do para o Taiti e Nova Zelândia, e retornou à Inglaterra, passando pela Ilha Ascensão e pelos Açores. Todavia, Darwin quase fora recusado para trabalhar a bordo do navio por causa do formato do seu nariz. O capitão, Robert Fitzroy, orgulhoso de sua capacidade de julgar o caráter pelas feições do rosto, tinha certeza de que o nariz de Darwin indicava um homem preguiçoso, mas ele conseguiu convencê-lo do contrário. Fitzroy, um homem extremamente religioso, desejava a presença de um naturalista a bordo para encontrar provas concretas sobre a teoria bíblica da criação. Escolhera o homem errado.

A viagem rendeu a Darwin a oportunidade ímpar de observar uma variedade de vida animal e vegetal e de coletar diversas espécies, além de enorme quantidade de dados. A viagem também parece ter mudado sua personalidade. Não mais um diletante e amante do prazer, Darwin retornou à Inglaterra como um cientista dedicado e com uma única paixão: desenvolver a teoria da evolução.

Casou-se em 1839 e três anos depois mudou-se com a esposa para o vilarejo de Down, a 26 quilômetros de Londres, onde pôde concentrar-se no trabalho sem as agitações da vida urbana. Sempre teve a saúde frágil e agora começava a sofrer de perturbações físicas como vômitos, gases, furúnculos, erupções cutâneas, tonturas, tremores e depressão. Sua casa se transformou em uma “enfermaria onde ninguém era saudável; a doença era regra e a saúde uma exceção" (Desmond, 1997, p. 291).

Os sintomas de Darwin eram aparentemente de fundo neurótico, provocados por qualquer interrupção na sua rotina diária. Sempre que alguma interferência externa o impedia de trabalhar, sofria outro ataque. A doença tornara-se um mecanismo convenien­te, protegendo-o dos afazeres mundanos e proporcionando a solidão e a concentração, necessárias para ele criar e desenvolver sua teoria. Um escritor batizou a condição de Darwin de "maldição criativa" (Pickering, 1974).

Ele se isolava, evitava festas e declinava de compromissos; chegou a instalar um espelho do lado de fora da janela da sua sala de estudos para espiar os visitantes que vinham procurá-lo. Dia após dia, semana após semana, o estômago o incomodava. (...) Era um homem preocupado. (Desmond e Moore, 1991, p. xviii-xix)

Darwin tinha motivos de sobra para se preocupar. A ideia de evolução vinha sendo condenada pelas autoridades religiosas conservadoras e até em alguns meios acadêmicos. O clero, entendendo-a como moralmente degenerativa e subversiva, pregava que, se as pessoas fossem retratadas como animais, igualmente se comportariam. O resultado de tal selvageria certamente causaria o colapso da civilização.

Darwin se autodenominava o "capelão do demônio", dizendo a um amigo que traba­lhar na teoria da evolução era como confessar um assassinato (Desmond e Moore, 1991). Ele sabia que, quando publicasse o livro, seria condenado por heresia. Percebeu que essas preocupações com o trabalho eram a causa dos seus persistentes males físicos, "a maior parte dos males de que a minha carne é herdeira” (apud Desmond, 1997, p. 254). Esperou 22 anos para apresentar publicamente as suas ideias, pois desejava ter a certeza de que, ao fazê-lo, a teoria estaria perfeitamente apoiada em provas científicas irrefutáveis. Assim, Darwin prosseguiu no trabalho com calma e com cuidado extremamente rigoroso.

Em 1842, Darwin redigiu um esquema de 35 páginas da sua teoria da evolução. Dois anos mais tarde, expandiu as ideias em um ensaio de 200 páginas, mas ainda não estava satisfeito. Continuou a manter segredo da maior parte do seu trabalho, compartilhando as ideias ape­nas com os amigos mais íntimos, como o geólogo Charles Lyell e o botânico Joseph Hooker.

Por mais 15 anos Darwin elaborou e trabalhou seus dados, conferindo, aperfeiçoando, revi­sando, insistindo para que todos os aspectos da sua posição fossem inquestionáveis.

Ninguém sabe ao certo quanto tempo mais ele se estenderia no trabalho se não houves­ se recebido uma carta chocante, em junho de 1858, de uma pessoa chamada Alfred Russel Wallace, um naturalista 14 anos mais jovem que ele. Morando nas índias Orientais para se recuperar de uma doença, Wallace esboçara uma teoria da evolução nitidamente semelhante à de Darwin, embora não estivesse baseada em dados tão ricos como os coletados por ele. E o pior é que Wallace afirmava ter desenvolvido a sua teoria completa em apenas três dias! Pedia a opinião e a ajuda de Darwin para publicá-la. O biógrafo de Wallace escreveu:

No intervalo de duas horas, desde os primeiros arrepios da febre até ficar banhado em um mar de suor [sintomas da malária], Wallace disse que havia desenvolvido toda a teoria da seleção natural, e a esboçou naquela mesma noite, apesar de sua exaustão física. Foi uma luz de inspiração que uniu anos de experiência e contemplação. Nas duas noites seguintes ele escreveu toda a sua teoria. (Slotten, 2004, p. 144)

Em sua carta a Darwin, Wallace pediu sua opinião sobre suas ideias e ajuda para que seu trabalho fosse publicado. Wallace escreveu anos mais tarde que o efeito desse curto trabalho sobre Darwin foi "praticamente paralisante", como se Darwin estivesse lendo sua própria teoria. "Qualquer noção da sua importância desaparecera, sua originalidade fora massacrada" (apud Raby, 2001, p. 137).

Assim como vários cientistas, Darwin era muito ambicioso. Escreveu em seu diário: "Gostaria de conseguir não valorizar tanto essa tal de fama. (...) E ainda abomino a ideia de escrever porque é importante criar; todavia certamente ficaria contrariado se outra pessoa publicasse essas doutrinas antes de mim" (apud Merton, 1957, p. 647-648). Darwin disse ao amigo Lyell que, se ajudasse Wallace a publicar sua teoria, todos os seus anos de
trabalho árduo e, o mais importante, o crédito pela criação da teoria da evolução estariam perdidos (Benjamin, 1993).

Enquanto ficava em dúvida se devia ajudar Wallace ou apressar a publicação do seu trabalho, seu filho de 18 meses morreu de febre escarlatina. Desesperado, Darwin remoía a respeito das implicações da carta de Wallace e as opções que surgiam para si próprio. Finalmente, munido de enorme sentido de justiça e de bom senso, decidiu: "Parece difícil para mim perder a prioridade de vários anos de dedicação, mas não tenho certeza absolu­ta de que isso altere a justiça do caso. (...) Seria desonesto de minha parte publicar agora" (apud Merton, 1957, p. 648).

Lyell e Hooker sugeriram que tanto o trabalho de Wallace como partes do livro de Darwin que estava para ser publicado fossem lidos em um encontro na Sociedade Linneana (uma sociedade científica cujo nome homenageia o naturalista sueco Linnaeus), em 10 de julho de 1858, no mesmo dia em que o filho de Darwin fora enterrado. O resto está registrado na história. Todas as 1.250 cópias da primeira edição do livro de Darwin, On the origin ofspecies, foram vendidas no dia da publicação. A obra provocou reações e discussões imediatas, e Darwin, embora fosse objeto de consideráveis críticas, ganhou a "tal da fama".

Quando o livro foi publicado, Darwin foi acometido de novas enfermidades. Ele des­creveu uma terrível e longa ânsia de vômito", "furúnculos que ardiam", além de se sentir “extremamente mal e em cacos" (apud Desmond, 1997, p. 257). Fugiu para uma estância hidromineral no norte da Inglaterra, onde se escondeu do mundo por dois meses. Wallace nunca expressou ressentimento por não receber o reconhecimento proporcional pelo desenvolvimento de uma teoria tão semelhante à de Darwin. Na verdade, sua reação foi pratica­mente contrária. Quando soube que o seu trabalho e o de Darwin seriam lidos na Sociedade Linneana, Wallace declarou haver recebido "mais reconhecimento e crédito do que mere­cia". Mostrou-se satisfeito quando soube que, ao mandar seus papéis para Darwin, ele fora o "meio inconsciente que fez com que [Darwin] se concentrasse na tarefa" para completar um dos livros mais importantes da história (Wallace, apud Raby, 2001, p. 141-142).

Depois de ler o livro de Darwin, Wallace escreveu a um amigo que "Jamais teria me igualado à totalidade desse livro, seu enorme acúmulo de evidência, sua impressionante argumentação, e seu admirável tom e espírito. (...) Sr. Darwin criou uma nova ciência." Em uma nota pessoal a Darwin fez elogios semelhantes e guardou a resposta que lhe foi enviada. Darwin respondeu "Com quanta nobreza você trata dessa falha da humanidade. Mas você fala com modéstia demasiada de si mesmo; se tivesse tido as mesmas vantagens, teria feito o trabalho tão bem, ou talvez ainda melhor do que eu." (Slotten, 2004, p. 172-173).

A Origem das Espécies por meio da Seleção Natural

A teoria da evolução darwiniana é tão conhecida que neste tópico abordaremos apenas alguns pontos básicos. A partir do fato evidente da variação entre os membros individuais de uma espécie, Darwin deduziu ser essa variabilidade espontânea transmitida de uma geração à outra. Na natureza, o processo de seleção natural resulta na sobrevivência dos organismos mais bem adaptados ao seu ambiente e na eliminação dos demais. A batalha pela sobrevivência é constante e as formas de vida sobreviventes são as que se adaptam ou se ajustam com êxito às circunstâncias ambientais a que forem expostas. Resumindo, as espécies que não se adaptam não sobrevivem.

Darwin formulou as ideias sobre a luta pela sobrevivência e a “sobrevivência do mais apto" após a leitura de Essay on the principie of population (1789), de autoria do economista Thomas Malthus, no qual observou que o suprimento de alimentos tende a crescer em proporção aritmética, enquanto a população humana, em progressão geométrica. O resul­tado inevitável seria, como Malthus descreveu em tom melancólico, muitos seres huma­nos vivendo praticamente em condições de inanição. Somente os mais fortes, espertos e adaptáveis sobreviveriam.

Darwin aplicou o princípio malthusiano a todos os organismos humanos para desenvol­ver a sua teoria da seleção natural. Esses seres vivos que sobrevivem à batalha e atingem a maturidade tendem a transmitir aos seus descendentes as mesmas habilidades e vantagens que lhes permitiram prosperar. Além disso, como a variação é uma das leis gerais da here­ditariedade, a prole também apresenta variações; alguns descendentes acabam tendo suas boas qualidades mais desenvolvidas que as dos pais. As qualidades tendem a sobreviver e, ao longo de várias gerações, ocorrem mudanças que podem ser bastante significativas a ponto de produzirem as diferenças observadas hoje entre as espécies.

A seleção natural não foi o único mecanismo de evolução reconhecido por Darwin. Ele também concordava com a doutrina de Lamarck de que as modificações na forma, derivadas da experiência durante o ciclo de vida do animal, podem ser transferidas às gerações subsequentes.

Thomas Henry Huxley e a polêmica sobre a evolução.

À medida que os estudiosos de diversas áreas aderiam à teoria da evolução ou a execravam, o próprio Darwin permanecia à parte e não se interessava em participar das crescentes discussões. Thomas Henry Huxley (1825-1895), ambicioso biólogo que foi a força diretriz no estabelicimento da ciência inglesa, estava disposto a se envolver nas polêmicas e foi um dos defensores mais ávidos da teoria.

Darwin chamava Huxley de seu "bom e gentil agente propagador do evangelho [da evolução]". Huxley era um orador eloquente e carismático e tinha prazer em debater com os inimigos da ciência, agora inimigos da evolução. Era dotado de enorme apelo popular, principalmente entre os operários. Para eles, Huxley promovia a ciência como uma nova religião, um novo caminho para a salvação. O biógrafo de Huxley disse: "Operários barbudos com as mãos calejadas acotovelavam-se para ouvir seus discursos. (...) Ele arrebanhava multidões semelhantes às que vemos hoje em encontros cristãos protestantes ou apresentações de rock" (Desmond, 1997, p. xvii). As pessoas paravam-no na rua para pedir autógrafo e os taxistas não lhe cobravam a corrida.

No período de um ano após a publicação de On the origin of species, a British Association for the Advencement of Science promoveu um debate a respeito do evolucionismo na Oxford University. Os amigos e defensores de Darwin pressionavam-no a participar do debate, no entanto ele não suportava a ideia de ter de se defender em público. Seus amigos insistiam e a situação tornava-se insustentável. Finalmente, escreveu um biógrafo, "seu estômago o salvou. Dois dias antes da reunião sua saúde deteriorou-se completamente Uma crise como essa nunca fora tão bem-vinda (Browne, 2002, p. 118).

No encontro, os oradores foram Huxley, defendendo Darwin e a evolução, e o bispo Samuel Willberforce (apelidado de Soapy [Sam, o Chato] por causa dos seus intermináveis discursos), que defendia a bíblia.

Com relação às ideias de Darwin, [Wilberforce] se felicitava (...) por não descender de um macaco. Veio a resposta de Huxley "Se tivesse de escolher, preferiria ser descendente de um simples macaco do que de um homem que emprega seu conhecimento e sua eloquencia para deturpar a imagem daqueles que dedicam a vida em busca da verdade". (White, 1896/1965, p. 92)

Outro orador no debate em Oxford foi Robert Fitzroy, o capitão do navio Beagle durante a viagem de Darwin. Fitzroy declarava-se culpado por ajudar na pesquisa de Darwin, aprovando a sua seleção para fazer parte da excursão como naturalista (apesar do formato do seu nariz). Fitzroy agitava a bíblia, enquanto conclamava o público a acreditar na palavra de Deus, expressando seu profundo pesar e arrependimento por ter proporcionado a Darwin a oportunidade de coletar dados para o desenvolvimento de sua teoria. Ninguém estava interessado em ouvir as lamentações de Fitzroy. "A sala permanecia em silêncio", declarou o biógrafo de Darwin, e, por fim, Fitzroy "afundou-se em seu assento sem praticamente ser ouvido" (Browne, 2002, p. 123).

Fitzroy tinha tida uma vida difícil desde a viage do Beagle Após servir o Parlamento e um período curto e não bem-sucedido como governador da Nova Zelândia, retornou à Inglaterra para se dedicar ao estudo da meteorologia. "Desenvolveu as técnicas fundamentais de previsão do tempo [e] inventou o sistema de avisos e sinais anunciando tempestades que salvaram inúmeras vidas nas décadas que se seguiram, e foi o responsável pela publicação de previsões diárias de tempo. Na verdade, ele inventou o termo 'previsão do tempo'" (Gribbin e Gribbin, 2004, p. 5). Mas sua obsessão lhe custou a fortuna da família.

Ficou também bastante atormentado com o papel que teve em habilitar Darwin a produzir a teoria da evolução. Ele estava convicto que se não tivesse escolhido Darwin para acompanhá-lo na viagem no Beagle, a teoria não teria surgido. Quando Darwin lhe enviou uma cópia do On the origin of species, ele respondeu que "não conseguia achar nada enobrecedor ser descendente do mais antigo dos macacos" (apud Nichols, 2003, p. 311).

Cinco anos depois do debate em Oxford, em um domingo de manhã no meio de sua preparação para ir à igreja, o pensativo capitão suicidou-se cortando sua garganta com uma lâmina. A Sra. Darwin escreveu que seu marido "havia sentido muito o acontecido com Fitzroy, mas que não estava nada surpreso. Lembrou-se de uma ocasião em que ele [Fitzroy] quase enlouqueceu na viagem no Beagle" (apud Browne, 2002, p. 264).

Posterior­mente Darwin enviou uma considerável quantia de dinheiro à viúva desamparada.

Outros trabalhos de Darwin.

O segundo importante trabalho sobre a evolução, The descent of man (1871), reunia as provas da evolução humana a partir das formas de vida mais simples, enfatizando a semelhança entre os processos mentais humanos e animais. O livro rapidamente ganhou popularidade, e um famoso escritor de revista ressaltou: "Na sala de estar, o livro compete com o mais recente romance; na sala de estudos, incomoda como o homem da ciência, o moralista e o teólogo. De todos os lados escorrem enxurra­das mistas de ódio, admiração e encantamento" (apud Richards, 1987, p. 219).

Darwin realizou um estudo intensivo sobre as expressões emocionais nos humanos e nos animais. Sugeriu que as mudanças dos gestos e das posturas típicas de vários estados emocionais podiam ser interpretadas com base no evolucionismo. Na obra The expression of the emotions in man and animals (1872), explicou as expressões emocionais como vestí­gios dos movimentos que em dado momento tiveram alguma função prática.

Darwin alegava que as expressões faciais e a chamada linguagem corporal eram "manifestações inatas e incontroláveis" dos estados emocionais internos. Por exemplo, a dor era acompanhada de trejeitos e o prazer, de um sorriso. Darwin afirmava que esses tipos de expressões humanas e de outras espécies animais surgiam por meio da evolução. Seu biógrafo relatou: "As expressões que surgem nos rostos humanos eram, para ele, uma prova viva e diária da ancestralidade animal" (Browne, 2002, p. 369).

Darwin também deu uma pequena contribuição para a literatura psicológica infantil com o diário sobre seu filho. Ele registrou cuidadosamente o desenvolvimento da criança e publicou o material intitulado “A biographical sketch on an infant” (1877) na revista Mind. O diário é um importante precursor da psicologia do desenvolvimento, um exemplo da tese de Darwin de que as crianças passam por uma série de estágios do desenvolvimento paralelos aos estágios da evolução humana.

A Evolução em Andamento: o Bico dos Tentilhões

Darwin realizou várias de suas observações a respeito da variação entre as espécies quan­ do esteve nas Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico, próximo à costa da América do Sul. Observou como os animais da mesma espécie haviam evoluído de formas diferentes em resposta às diversas condições ambientais.

Seguindo os passos de Darwin, os biólogos Peter e Rosemary Grant, da Princeton University, acompanhados de um grupo dedicado de estudantes de pós-graduação, visi­taram as ilhas para monitorar as modificações encontradas nas gerações subsequentes de 13 espécies de tentilhões, decorrentes da adaptação dos pássaros às drásticas mudanças ambientais. O programa da pesquisa começou em 1973 e durou mais de 30 anos. Os pesquisadores testemunharam a evolução em andamento, observando as diferenças nas pequenas aves cantoras de uma geração a outra. Os Grants chegaram à conclusão de que Darwin havia subestimado a força da seleção natural. No caso dos tentilhões, a evolução era mais rápida do que se imaginava.

As variações observadas em uma espécie de tentilhão iniciaram durante um rigoroso período de seca que afetara o suprimento alimentar das aves, reduzindo-o a pequenas sementes duras e pontiagudas. Somente os tentilhões de bicos mais grossos, cerca de 15% da população, eram capazes de quebrar para abrir as sementes. Muitas aves de bicos finos não conseguiam abrir as sementes e logo morriam. Portanto, sob essas condições de seca, os bicos mais grossos eram ferramentas necessárias para a adaptação.

Quando essas aves de bicos mais espessos se reproduziam, sua ninhada também herdava essa característica, com bicos de 4% a 5% maiores do que os dos seus ancestrais antes da seca. Em apenas uma geração, a seleção natural produzira uma espécie mais bem adaptada e forte.
Logo vieram as chuvas, com enormes tempestades e enchentes que varreram da ilha as sementes graúdas, deixando apenas as miúdas como fonte de alimentação dos pássaros. Agora as aves de bicos mais grossos estavam em desvantagem, pois não conseguiam pegar a quantidade adequada de comida. Era nítida a necessidade de bicos mais finos para a sobrevivência. A partir daí, é fácil deduzir o que aconteceu. Peter Grant escreveu: “A sele­ção provocou uma verdadeira revolução na vida dos pássaros. As aves maiores, com bicos grandes, estavam morrendo enquanto as aves pequenas, com bicos menores, estavam se desenvolvendo. A seleção mudou rapidamente de lado" (apud Weiner, 1994, p. 104).

Na geração seguinte, o tamanho médio do bico era menor. Uma década mais tarde, como consequência da seca entre 2003-2004, observou-se outra evolução no tamanho do bico, em resposta àquele ambiente modificado (Grant e Grant, 2006). Mais uma vez a espécie havia evoluído, adaptando-se às mudanças do seu ambiente. Assim como Darwin previra, apenas os mais aptos sobreviveram.

O elo perdido? Em 2006, cerca de 147 anos depois da publicação de On the origin of the species, um grupo de cientistas dos Estados Unidos descobriu diversos fósseis em uma ilha remota do Canadá, ao norte do Círculo Ártico. Acredita-se que os fósseis encontrados eram os restos do esqueleto de um peixe enorme, medindo quase três metros de comprimento, e foi considerado o tão procurado elo perdido - isto é, um peixe no processo de evolução para se tornar um animal terrestre (Daeschler, Shubin e Jenkins, 2006; Shubin, Daeschler e Jenkins, 2006).

Os fósseis, que se acreditava ter 275 mil anos, tinham todas as características de peixe, como barbatanas e escama, e também mostravam evidência de membros em formação. Tinham ossos que correspondiam ao ombro, parte superior dos braços, cotovelo e traços semelhan­tes ao punho, desconhecidos em outras espécies de animais. Essas descobertas forneceram suporte adicional às ideias de Darwin sobre a transição de uma espécie para outra.

A Influência de Darwin na Psicologia

O trabalho de Darwin, bem no final do século XIX, influenciou a psicologia contempo­rânea, mediante:

  • o enfoque na psicologia animal, que formou a base da psicologia comparativa;
  • a ênfase nas funções e não na estrutura da consciência;
  • a aceitação da metodologia e dos dados de diversas áreas;
  • o enfoque na descrição e mensuração das diferenças individuais.

A teoria da evolução suscitou a intrigante possibilidade da continuidade do funcio­namento mental entre os humanos e os animais inferiores. Se a mente humana fosse uma evolução das mentes mais primitivas, então será que haveria semelhanças entre o funcionamento mental dos animais e dos homens? Dois séculos antes, Descartes insis­tira haver uma diferença entre o funcionamento humano e o animal. Agora a questão voltava à tona.

Os psicólogos perceberam a importância do estudo do comportamento animal para a compreensão do comportamento humano e concentraram a pesquisa no funcionamentomental dos animais, introduzindo um novo tópico no laboratório de psicologia. A investi­gação da psicologia animal viria exercer grande impacto no desenvolvimento da área.

A teoria da evolução provocou também uma mudança no objeto de estudo e na meta da psicologia. O enfoque da escola de pensamento estruturalista era a análise do conteúdo da consciência. O trabalho de Darwin inspirou alguns psicólogos que trabalhavam nos Estados Unidos a analisarem as funções da consciência. Para alguns pesquisadores, esse enfoque pareceu mais importante do que a descoberta de qualquer elemento estrutural da consciência. E assim, gradualmente, à medida que a psicologia se dedicava mais ao estudo do funcionamento do ser humano e dos animais na adaptação ao seu ambiente, a investigação detalhada dos elementos mentais, iniciada por Wundt e Titchener, perdia
o seu apelo.

As ideias de Darwin influenciaram a psicologia, ampliando os métodos que essa nova ciência passara a usar com legitimidade. Os métodos empregados no laboratório de Wundt, em Leipzig, foram derivados principalmente da fisiologia, mais especificamente dos métodos psicofísicos de Fechner. Os métodos de Darwin, que produziam resultados aplicáveis tanto nos seres humanos como nos animais, não tinham qualquer semelhança com as técnicas baseadas na fisiologia. Os dados de Darwin foram obtidos de diversas fon­tes, incluindo a geologia, a arqueologia, a demografia, as observações de animais selvagens e domésticos e a pesquisa com reprodução. Foram as informações obtidas de todos esses campos que deram suporte à sua teoria.

Essa foi uma prova tangível e impressionante da possibilidade de os cientistas estuda­rem a natureza humana adotando técnicas que não a introspecção experimental. Seguindo o exemplo de Darwin, os psicólogos que aceitavam a teoria evolucionista e sua ênfase nas funções da consciência tornaram-se mais ecléticos em relação aos seus métodos de pesquisa, expandindo, assim, os tipos de informações obtidos.
Outro efeito da evolução na psicologia foi o crescente enfoque nas diferenças indivi­duais. Durante a viagem do Beagle, Darwin observou várias espécies e formas, de modo que, para ele, era evidente a variação entre os membros da mesma espécie. Se cada geração fosse idêntica aos seus ancestrais, não haveria evolução. Portanto essas variações, ou seja, essas diferenças individuais, consistiam em um princípio importante do evolucionismo.

Enquanto os psicólogos estruturalistas continuavam a buscar as leis gerais que abranges­sem toda a mente, os psicólogos influenciados pelas ideias de Darwin procuravam as dife­renças mentais individuais e logo apresentaram técnicas para medir essas diferenças.
O material a seguir foi extraído da autobiografia de Darwin. Essa passagem não se refere à sua pesquisa ou à sua teoria, mas trata-se da imagem que ele tinha de si próprio e sua opinião sobre as qualidades pessoais que o levaram ao sucesso.


Texto original

Trecho Extraído de The Autobiography of Charles Darwin (1876)

Meus livros tiveram boa vendagem na Inglaterra, foram traduzidos para vários idiomas e passaram por várias edições em outros países. Ouvi dizer que o sucesso de um trabalho no exterior é o melhor teste para verificar seu valor perene. Tenho dúvidas se, afinal, essa afir­mação é digna de confiança; todavia, a julgar por esse padrão, o meu nome deve perdurar por alguns anos. Portanto, talvez seja de valia tentar analisar as qualidades mentais e as con­dições das quais dependeu o meu sucesso, embora ciente de não haver homem capaz de fazê-lo corretamente.
Não sou dotado de grande rapidez de apreensão ou sagacidade, que é notável em alguns homens inteligentes como, por exemplo, Huxley. Considero-me, assim, um mau crítico: quando leio pela primeira vez um trabalho ou um livro, normalmente ele suscita a minha admiração e somente depois de muita reflexão é que percebo os pontos fracos. Minha capacidade de seguir uma linha de pensamento extensa e puramente abstrata é bastante limitada e, portan­to, nunca teria êxito na metafísica ou na matemática. Minha memória é boa, porém vaga: suficiente para me alertar, indicando-me morosamente já ter eu observado ou lido algo que contradiga a conclusão a que estou chegando ou, de modo contrário, a favoreça; e depois de algum tempo, geralmente sou capaz de lembrar-me onde buscar o embasamento necessário. Em certo sentido minha memória é tão fraca, que jamais fui capaz de memorizar por alguns dias uma única data ou um verso de um poema. (...)

O lado favorável da balança, creio ser superior aos homens comuns no aspecto de obser­var algo que facilmente escapa da atenção, analisando-o cuidadosamente. Minha dedicação ao trabalho de observação e à coleta dos fatos chega praticamente ao extremo, O meu amor firme e ardente pela ciência natural é o mais importante.

Esse amor puro, no entanto, tem sido alimentado pela ambição de ser estimado por meus colegas naturalistas. Desde a juventude, sinto o profundo desejo de compreender ou explicar tudo que observo, ou seja, de agrupar todos os fatos sob algumas leis gerais. Essas causas combinadas proporcionaram-me paciência para refletir ou ponderar por quanto tempo fosse necessário a respeito de qualquer problema inexplicável. No que me concerne julgar, não tenho capacidade para seguir cegamente outros homens. Tenho me dedicado com fir­meza para manter minha mente livre de modo a renunciar a qualquer hipótese, mesmo que muito querida (e não resisto a criar uma sobre qualquer assunto), assim que se apresentem fatos que a desmintam. De fato, não possuo outra alternativa senão agir dessa forma, pois, - exceção dos Corais de Reefs, não tenho lembrança de uma única primeira hipótese que não tenha sido, deoois de algum tempo, renunciada ou bastante modificada. Isso me conduziu, naturalmente a rejeitar totalmente o raciocínio dedutivo nas ciências mistas. Por outro lado, não sou tão cético, uma característica da mente que creio ser um insulto para o progresso da ciência. Uma boa dose de ceticismo ao cientista é aconselhável para evitar muita perda de tempo, [mas] conheci não poucos homens que, sinto com certeza, várias vezes foram assim dissuadidos da experiência ou das observações que poderiam provar-se direta ou indireta­mente válidas (...)

Meus hábitos são metódicos e essa qualidade vem se mostrando bastante eficaz para a minha linha particular de trabalho. Ultimamente, venho tendo amplo lazer por não ter de obter meu próprio sustento. Até mesmo o meu estado de enfermidade, embora aniquilando vários anos da minha vida, salvou-me das distrações e divertimentos sociais.

Portanto, o meu sucesso como um homem da ciência, aonde quer que ele tenha me levado, foi determinado, de acordo com o meu julgamento, por condições e qualidades mentais diver­sificadas e complexas. Dentre essas características, as mais importantes são o amor à ciência, a paciência irrestrita para longas reflexões sobre qualquer assunto, o trabalho dedicado na obser­vação e coleta dos fatos e uma fatia razoável de criatividade, além do senso comum. Com essas modestas habilidades que possuo, é realmente surpreendente que eu houvesse influenciado tão extensamente a crença dos homens da ciência em alguns pontos importantes.


Diferenças Individuais: Francis Galton (1822-1911)

O trabalho de Galton a respeito da herança mental e das diferenças individuais da capacidade humana incorporou efetivamente o espírito da evolução na nova psicologia. Antes dele, o fenô­meno das diferenças individuais quase não era considerado um tema adequado para estudo.
Um dos poucos cientistas pioneiros a reconhecer as diferenças individuais nas habi­lidades e nas atitudes foi o médico espanhol Juan Huarte (1530-1592). Trezentos anos antes dos estudos de Galton nessa área, Huarte havia publicado um livro intitulado The examination of talented individuals (O exame dos indivíduos talentosos), em que apresentava uma grande variedade de diferenças individuais da capacidade humana (apud Diamond, 1974). Huarte sugeria que as crianças começassem a estudar desde cedo para que a educa­ção pudesse ser planejada individualmente de acordo com as suas habilidades. Por exem­plo, mediante uma avaliação adequada, seria oferecida ao aluno com aptidão musical a oportunidade de estudar música e as disciplinas afins.

O livro de Huarte teve alguma repercussão, no entanto suas ideias não eram formalmen­te seguidas antes de Galton. Embora Weber, Fechner e Helmholtz houvessem observado as diferenças individuais nas pesquisas experimentais, não investigaram sistematicamen­te essas descobertas.

Além disso, Wundt e Titchener sequer consideravam as diferenças individuais como parte legítima do estudo da psicologia.

A Biografia de Galton

Francis Galton era dotado de extraordinária inteligência (um QI estimado de 200) e riqueza de ideias originais. Entre alguns dos tópicos da sua pesquisa estão as impressões digitais que a polícia acabou adotando para a identificação criminal), a moda, a distribuição geo­gráfica da beleza, o levantamento de peso e a eficácia da oração religiosa. Ele inventou uma versão inicial da impressora de teletipo, um dispositivo para abrir cadeados e um periscópio que o permitia olhar por sobre as cabeças das pessoas durante um desfile de rua.

Galton era o caçula de nove filhos e nasceu em 1822, nas proximidades de Birmingham Inglaterra. Seu pai era um banqueiro próspero cuja família abastada e socialmente desta­cada incluia pessoas de esferas de grande influência como o governo, a Igreja e o exército. Francis era uma criança precoce que aprendia rapidamente. Um biógrafo escreveu que, aos 12 meses Galton conseguia reconhecer todas as letras maiúsculas; aos 18 meses conhecia bem o alfabeto inglês e o grego e chorava se fossem retirados de sua vista- aos 2 anos e meio leu seu primeiro livro... Aos 5 já estava bem familiarizado com os trabalhos de Homero. (Brooks, 2004, p. 18)

Aos 16 anos, pela insistência de seu pai, Galton começou a aprender medicina no Birmingham General Hospital, como assistente de médico. Distribuía medicamentos lia ívros de medicina, tratava de fraturas, amputava dedos, extraía dentes, aplicava vacina nas crianças e divertia-se lendo os clássicos da literatura. No geral, entretanto, não achava uma experiencia prazerosa e continuava somente por pressão do pai.

Um incidente ocorrido durante o aprendizado médico de Galton é um exemplo da sua curiosidade. Desejando conhecer os efeitos dos diversos medicamentos da farmácia ele passou a tomar pequenas doses de cada um e a anotar a sua reação, iniciando, de forma sistematica, com os que começavam com a letra "A". Essa aventura científica teve fim na etra C, quando tomou uma dose de óleo de cróton, um forte laxante.

Depois de um ano no hospital, continuou seus estudos de medicina no King's College em Londres. No ano seguinte mudou os planos e matriculou-se no Trinity College da Cambridge University. Ali, diante do olhar do busto de sir Isaac Newton, procurou seguir seu interesse pela matemática. Embora seu trabalho houvesse sido interrompido por um profundo surto mental, conseguiu formar-se. Retomou o odioso estudo da medicina, até que a morte do seu pai finalmente o libertou daquela profissão.

Nesse momento, a viagem e a exploração chamavam a atenção de Galton. Viajou por toda a Africa fazendo viagens difíceis e perigosas para áreas onde homens brancos jamais tinham visitado. Ele achou tudo muito empolgante e animador, exceto talvez por um incidente contado por seu biógrafo:

Só e longe de casa, parece que Galton possa ter superado sua timidez e procurou os serviços de uma prostituta. Sua coragem foi retribuída com uma grande dose de doença venérea que o perseguiu intermitentemente por muitos anos. Quer seja verdade ou não, a sua atitude em relação às mulheres esfriou notadamente apartir de 1846. o ano em questão. (Brookes, 2004, p. 60)

Quando voltou para a Inglaterra publicou histórias sobre suas viagens, que lhe renderam uma medalha da Royal Geographic Society [Sociedade Real de Geografia], Na década e 1850, parou de viajar, alegando como causas o casamento e a saúde frágil, mas manteve o interesse pela exploraçao e escreveu um famoso guia intitulado The art of travel. O livro fez tanto sucesso que publicado em oito edições, em oito anos, e reimpresso em 2001. Galton tambem organizava expedições para exploradores e dava orientações sobre a vida do campo a soldados em treinamento para servirem em país estrangeiro.

Sua inquietação mental o conduziu em seguida à meteorologia e à criação de instru­mentos para coletar informações meteorológicas. Seu trabalho nesse campo resultou no desenvolvimento do tipo de mapa meteorológico utilizado até hoje. Galton resumiu suas descobertas em um livro considerado a primeira tentativa de cartografar em grande esca­la os padrões de meteoros.

Quando seu primo Charles Darwin publicou On the origin of species, Galton ficou fas­cinado pela nova teoria. Escreveu, dizendo que o livro "marcou época no meu próprio desenvolvimento mental, assim como no pensamento humano em geral (apud Gillham, 2001, p. 155). O primeiro ponto a chamar sua atenção foi o aspecto biológico da evolução, e assim ele realizou uma pesquisa sobre os efeitos das transfusões de sangue entre os coe­lhos para descobrir se as características adquiridas seriam herdadas. Embora seu interesse pelo lado genético do evolucionismo não houvesse durado muito tempo, as implicações sociais da teoria direcionaram seu trabalho subsequente e determinaram sua influência na psicologia moderna.

A Herança Mental

O primeiro livro importante de Galton para a psicologia foi Hereditary genius (1869). Quando Darwin o leu, escreveu a Galton, dizendo nunca ter lido algo tão interessante e original. Galton procurou demonstrar que a grandeza ou a genialidade individuais ocorriam com tanta frequência dentro das famílias que a mera explicação da influência ambiental não era suficiente. Resumindo, sua tese afirmava que um homem notável teria filhos homens notáveis (naquele tempo, as filhas tinham poucas oportunidades de se destacarem, a não ser por meio de um casamento com algum homem importante).

A maioria dos estudos biográficos descritos por Galton em Hereditary genius era pes­quisas sobre os ancestrais de influentes cientistas e médicos contemporâneos. Os dados demonstravam que uma pessoa famosa herdava não apenas a genialidade, como também sua forma específica. Por exemplo, um grande cientista nascia em uma família que já se houvesse destacado na ciência.

O objetivo de Galton era incentivar o nascimento de indivíduos mais notáveis ou mais aptos na sociedade e desencorajar o nascimento dos inaptos. Para essa finalidade, fundou a ciência da "eugenia", palavra por ele cunhada. Eugenia, ele afirmou, lida com as "questões relacionadas com o termo grego, Eugenes, isto é, de boa estirpe, hereditariamente dotado de qualidades nobres" (apud Gillham, 2001, p. 207). Galton desejava impulsionar o aperfeiçoamento das qualidades herdadas da raça humana. Argumentava que os seres humanos, assim como os animais de criação, podiam ter as características melhoradas mediante a seleção artificial. Se as pessoas de muito talento fossem selecionadas e acasa­ladas geração após geração, o resultado seria uma raça humana extremamente talentosa. Propôs o desenvolvimento de testes de inteligência para selecionar homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução seletiva, e recomendou que os melhores recebessem incentivos financeiros para se casarem e procriarem.

Na tentativa de verificar sua teoria da eugenia, Galton estudou problemas de mensuração e de estatística. Para o livro Hereditary genius, aplicou conceitos estatísticos a problemas de hereditariedade, classificando os homens extraordinários de sua amostragem em categorias, conforme a frequência com que seus níveis de capacidade ocorriam na população. Os dados comprovaram que os homens notáveis apresentavam maior probabilidade de terem filhos extraordinários do que os homens comuns. A amostragem consistia em 977 homens famosos, cada um tão notável que a proporção era de 1 para cada 4.000 homens. Aleatoriamente, a expectativa seria de haver no grupo apenas um parente importante; no entanto havia 332.

A probabilidade de superioridade em algumas famílias não era alta o suficiente para Galton aceitar seriamente qualquer possibilidade de influência de um ambiente superior, como melhores oportunidades educacionais ou vantagens sociais. Seu argumento era de que a eminência ou a sua ausência deviam-se exclusivamente a uma função hereditária, e não à oportunidade.

Galton escreveu também English men of science (1874), Natural inheritance (1889) e mais 30 trabalhos a respeito da hereditariedade. Publicou a revista Biometrika, fundou o labo­ratório de eugenia na University College, de Londres, e uma organização para promover suas ideias acerca do aperfeiçoamento das qualidades mentais da raça humana.

No trecho a seguir, extraído de Hereditary genius, Galton discute os limites do desen­volvimento tanto físico como mental impostos pela hereditariedade. Ele observa que nenhum tipo de esforço, mental ou físico, possibilita que uma pessoa avance além de suas características genéticas.


Texto original

Trecho Extraído de Hereditary Genius: an Inquiry into Its Laws and Consequences (1869), de Franeis Galton

Não tenho como admitir a hipótese ocasionalmente expressa, e muitas vezes implícita, prin­cipalmente nas histórias escritas a fim de ensinar as crianças a serem boas, de que os bebês recém-nascidos são muito parecidos e que os únicos agentes a criarem as diferenças entre dois garotos e entre dois homens sejam a rígida aplicação e o esforço moral. É da maneira mais incondicional que faço objeção contra as pretensões da igualdade natural. As experiên­cias do berçário, da escola, da universidade e das carreiras profissionais formam uma cadeia de provas contrárias. Admito francamente o enorme efeito da educação e das influências sociais no desenvolvimento dos poderes ativos da mente, assim como reconheço o efeito do uso no desenvolvimento dos músculos do braço de um ferreiro e nada mais. Deixe o ferreiro simplesmente trabalhar, e ele descobrirá que existem algumas proezas acima do seu poder que são convenientes para a força de um homem de feitio hercúleo, embora possa ter tido uma vida sedentária. (...)

Todo aquele que se exercita fisicamente descobre a magnitude da sua força muscular para o refinamento. Quando começa a caminhar, a remar, a utilizar halteres ou a correr, descobre, para seu deleite, que seus [músculos] se fortalecem e a sua resistência à fadiga aumenta dia após dia. Enquanto é um novato, talvez se vanglorie da inexistência de um limite designável ao treinamento dos seus músculos; todavia logo notará que o ganho diário diminui e que, por fim, acaba desaparecendo. Seu desempenho máximo torna-se uma quantidade rigidamen­te determinada. Aprende a medir milimetricamente a sua capacidade de salto em altura ou sua ausência quando atinge o mais alto grau de treinamento. Aprende a dosar a força que pode aplicar no dinamômetro, comprimindo-o. É capaz de aplicar um golpe na máquina utilizada para medição de impacto e obter certo grau de índice, mas nada mais. É assim na corrida, no remo, na caminhada e em qualquer outra forma de exercício. A força muscular humana possui um limite definido que não pode ser ultrapassado por nenhum exercício ou treinamento.

Esse argumento é precisamente similar à experiência vivida por cada aluno que trabalha com a sua capacidade mental. O garoto ansioso no primeiro dia de aula, ao confrontar-se com as dificuldades intelectuais, fica maravilhado com seu progresso. Vangloria-se do desenvolvi­mento mental recém-conquistado e da sua capacidade crescente de aplicação e, talvez, cari­nhosamente acredite estar a seu alcance tornar-se um dos heróis que deixaram a sua marca ao longo da história mundial. Os anos passam, ele compete repetidas vezes com os seus colegas nos exames da escola e da faculdade e logo conquista o seu lugar entre eles. Sabe que pode vencer este ou aquele concorrente; que existem alguns com quem compete em igualdade de condições e outros com feitos intelectuais dos quais ele nen se aproxima. (...)

Dessa maneira, com esperanças recém-renovadas e com toda a ambição de um jovem de 22 anos, sai da universidade e ingressa em um campo de competição ainda maior. Ali, o mesmo tipo de experiência pelo qual já passou o aguarda. Surgem as oportunidades - e as surgem para todo homem - e ele se sente incapaz de agarrá-las. Ele tenta e é tentado de diversas maneiras. Em mais alguns anos, a menos que definitivamente cegado pela própria vaidade, aprende exatamente quais são os desempenhos de que é capaz e quais são os que estão além da sua capacidade. Quando atinge a maturidade, é confiante apenas dentro de determinados limites e se conhece, ou deveria conhecer-se, assim como é provavelmente julgado pelo mundo, com todas as suas inconfundíveis fraquezas e todas as suas inegáveis forças. Não se tortura mais em realizar esforços inúteis pelos discursos falaciosos da presunçosa vaidade, todavia limita as suas realizações às matérias abaixo do nível de seu alcance e descobre o verdadeiro repouso moral na convicção honesta de que está enga­jado na melhor empreitada de que é capaz de desempenhar, proporcionada pela sua natureza.


Métodos Estatísticos

Galton nunca ficava totalmente satisfeito com um problema até encontrar alguma maneira de quantificar os dados e analisá-los estatisticamente. Quando precisava, até desenvolvia os próprios métodos. 

Adolph Quetelet (1796-1874), um matemático belga que também era pintor, poeta e escritor, acreditava fortemente na utilidade da estatística, "convencido de que a estatística fornecia um insight ao comportamento humano e à compreensão da sociedade (Cohen, 2005, p. 126). Quetelet foi o primeiro a usar métodos estatísticos e a curva normal de distribuição em dados biológicos e sociais. A curva normal fora empregada em trabalhos acerca da distribuição de medidas e erros na observação científica, mas não havia sido aplicada à variabilidade humana até Quetelet demonstrar que as medidas de altura de 10 mil indivíduos ficavam próximas da curva normal. A sua expressão l homme moyen (o homem médio) explicava a descoberta de que a maioria das medidas físicas ficavam distribuídas em torno da média ou do centro da distribuição e poucas se encontravam
próximas de qualquer extremo.

Galton ficou impressionado com os dados de Quetelet e presumiu que resultados simi­lares seriam obtidos para as características mentais. Por exemplo, Galton descobriu que as notas atribuídas nos exames das universidades seguiam a curva normal. Devido à simplicidade da curva normal e à sua consistência em vários traços, ele sugeriu que qualquer conjunto grande de medidas ou de valores das características humanas podia ser descrito satisfatoriamente por dois números: o valor médio da distribuição (a média aritmética) e a dispersão ou a faixa de variação em torno desse valor médio (o desvio-padrão).

O trabalho estatístico de Galton produziu uma das medidas científicas mais importan­tes: a correlação. O primeiro relatório, utilizando o que ele chamou de "correlação" foi elaborado em 1888. As modernas técnicas estatísticas para a determinação da validade e confiabilidade dos testes, bem como dos métodos analítico-fatoriais, são resultado direto da sua pesquisa de correlação, os quais foram baseados na observação da tendência das características herdadas de regressarem na direção da média. Por exemplo, ele observou que, na média, os homens de estatura alta não são tão altos quanto seus pais; por outro lado, os filhos de homens de estatura bem baixa são mais altos do que os pais. Ele represen­tou graficamente as propriedades básicas do coeficiente de correlação e criou uma fórmula para o cálculo, embora não seja mais usada.

Incentivado por Galton, seu aluno Karl Pearson (1857-1936) desenvolveu a fórmula usada atualmente para calcular o coeficiente de correlação (o coeficiente de correlação produto-momento de Pearson), cujo símbolo é a letra "r" inicial da palavra "regressão", como homenagem à descoberta da tendência dos traços humanos herdados de regressão para a média feita por Galton. Durante muitos anos Pearson se preocupou com a ideia de que sua reputação científica não passaria de uma simples "nota de rodapé em uma fórmula (...) Esse medo tornou-se uma grande verdade" (E. Baumgartner, 2005, p. 84).

A correlação é uma ferramenta fundamental para as ciências sociais e comportamentais, bem como para a engenharia e as ciências naturais. Além disso, outras técnicas de estatística foram desenvolvidas graças ao trabalho pioneiro de Galton.

Testes Mentais

A expressão testes mentais foi cunhada por James McKeen Cattell, discípulo estadunidense de Galton e aluno de Wundt. Entretanto foi Galton quem deu origem ao conceito de testes mentais. Ele imaginava que a inteligência podia ser medida com base na capacidade sensorial individual e que, quanto mais inteligente, mais alto seria o nível de funcionamento sensorial do indivíduo. Galton extraiu essa ideia da visão empirista de John Locke de que todo conhecimento é adquirido por meio dos sentidos. Se Locke esti­vesse correto, as pessoas mais inteligentes teriam os sentidos mais aguçados.

A fim de atingir seus objetivos, Galton precisava inventar um aparelho que realizasse medidas sensoriais em um grande número de pessoas com rapidez e precisão. Por exemplo para determinar a frequência sonora mais alta, passível de detecção, inventou um apito que testou em animais e em seres humanos. Caminhava pelo zoológico de Londres com uma bengala que tinha o apito afixado em uma ponta e na outra uma espécie de bexiga de bor­racha que ele apertava para tocar o apito, enquanto observava a reação dos animais. O apito de Galton tornou-se uma peça-padrão entre os equipamentos do laboratório de psicologia até ser substituído, na década de 1930, por um dispositivo eletrônico mais sofisticado.

Entre outros instrumentos usados por Galton estão o fotômetro, para medir a precisão com que uma pessoa consegue encontrar dois pontos da mesma cor, um pêndulo calibra­do, para medir a velocidade de reação à luz e ao som, e uma série de pesos ordenados para medir a sinestesia ou a sensibilidade muscular. Criou ainda uma barra com várias medidas de distância para testar a estimativa de extensão visual e conjuntos de recipientes contendo diversas substâncias para testar a distinção olfativa. Em sua maioria, os testes de Galton serviram como protótipos para equipamentos que se tornaram padrão de laboratório.

Munido de seus novos testes, Galton prosseguiu coletando uma enorme quantidade de dados. Fundou o Laboratório Antropométrico na International Health Exhibition [Ex­posição Internacional de Saúde], em 1884, e mais tarde transferiu-o para o museu South Kensington de Londres. O laboratório funcionou durante seis anos e, nesse período, Galton coletou dados de mais de 9 mil pessoas. Ele arrumava os instrumentos para as medidas psicométricas e antropométricas sobre uma mesa comprida, no fundo de uma sala estrei­ta, de mais ou menos 2m de largura por 11m de comprimento. Mediante o pagamento de uma pequena taxa, o visitante entrava, passava por todo o comprimento da mesa e um atendente realizava a avaliação e registrava os dados em um cartão.

Além dessas medidas mencionadas, os funcionários do laboratório registravam a altu­ra, o peso, a capacidade respiratória, a força de impulsão e compressão, a rapidez de sopro, a audição, a visão e a percepção cromática. Cada pessoa passava por um total de 17 testes. O objetivo do programa de testes em larga escala de Galton era nada menos que a defini­ção da variedade da capacidade humana de toda a população britânica para determinar seus recursos mentais coletivos.

Um século mais tarde, um grupo de psicólogos estadunidenses analisou esses dados (Johnson et al, 1985) e descobriu muitas correlações teste-reteste, indicando a consistência estatística dos dados. Esses psicólogos constataram também que os dados forneciam informações acerca das tendências do desenvolvimento infantil, juvenil e adulto, dentro da população testada. As medidas como o peso, o alcance do braço, a capacidade respiratória e a força de compressão mostraram-se similares às descritas na literatura psicológica mais recente, exceto em reiação à velocidade de desenvolvimento que, na época de Galton, parece ter sido um pouco mais lenta. Os psicólogos chegaram à conclusão de que esses dados continuam instrutivos.

A Associação de Ideias

Galton trabalhou em dois problemas relacionados com a área da associação:

  1. a diversidade de associações de ideias;
  2. o tempo de reação (o tempo necessário para a produção de associações).

Um dos métodos usados por Galton para estudar a diversidade de associações era cami­nhar cerca de 400m pela rua Pall Mall (em Londres, entre a Trafalgar Square e o palácio de St. James), concentrando sua atenção em um objeto até que ele lhe incitasse uma ou duas associações de ideias.

A primeira vez em que realizou essa experiência, surpreendeu-se com o número de associações provocadas por cerca de 300 objetos que vira. Muitas dessas associações eram lembranças de experiências do passado, inclusive de incidentes que pensava ter se esque­cido havia muito tempo. Ao repetir a caminhada alguns dias depois, constatou uma considerável repetição das associações ocorridas na primeira experiência, o que pôs fim ao seu interesse na questão. Voltou-se para as experiências sobre o tempo de reação, que produziam resultados mais satisfatórios.
Preparou uma lista de 75 palavras e escreveu cada qual em uma tira de papel separada. Depois de uma semana, leu uma palavra de cada vez e, com o cronômetro, registrou o tempo que levou para produzir duas associações para cada palavra. Muitas delas consistiam em apenas uma palavra, mas algumas eram imagens e figuras mentais que exigiam diversas palavras para descrevê-las. A tarefa seguinte era determinar a origem dessas associações. Identificou cerca de 40% dos acontecimentos da infância e da adolescência, demonstração inicial da influência das experiências da infância na personalidade adulta.

Galton também ficou bastante impressionado com a influência dos processos de pensamento do seu inconsciente, que trouxeram para o nível consciente incidentes que acreditava haver esquecido muito tempo atrás. Disse que chegou a acreditar "que o meu melhor trabalho cerebral era totalmente independente da [consciência]" (apud Gillham, 2001, p. 221). Escreveu sobre a importância do inconsciente em um artigo publicado na revista Brain (1879). Em Viena, Sigmund Freud, que tinha ideias próprias a respeito da importância do inconsciente, era assinante da revista e foi nitidamente influenciado pelo trabalho de Galton.

Mais importante que os resultados foi o método experimental que Galton desenvol­veu para estudar as associações, hoje conhecido como o teste de associação de palavras. Wilhelm Wundt adaptou a técnica no laboratório de Leipzig, como mencionamos no Capítulo 4, limitando as respostas dos indivíduos a apenas uma palavra. O analista Cari Jung aprimorou a técnica para aplicá-la na sua pesquisa de associação de palavras relativas à personalidade.

Imagens Mentais

As pesquisas de Galton a respeito das imagens mentais marcaram a primeira aplicação ampla do questionário psicológico. Pedia-se às pessoas que se lembrassem de alguma cena, como, por exemplo, a mesa do café-da-manhã daquele dia, e tentassem inferir imagens. Elas eram instruídas a relatar se as imagens eram obscuras ou nítidas, claras ou escuras, coloridas ou não, e assim por diante. Para sua surpresa, o primeiro grupo de pessoas, cien­tistas conhecidos, não relatou nenhuma imagem nítida. Alguns não entenderam muito bem do que Galton estava falando. Tomando uma amostragem mais ampla da população, Galton obteve relatos de imagens nítidas e bem distintas, cheias de detalhes e de cores. As imagens descritas pelas mulheres e crianças eram mais concretas e detalhadas. Utilizando-se da análise estatística, Galton descobriu que as imagens mentais, assim como muitas outras características humanas, estavam distribuídas na população conforme a curva normal.

O trabalho de Galton sobre as imagens estava baseado na sua contínua tentativa de demonstrar as semelhanças hereditárias. Descobriu que a probabilidade de ocorrência de imagens semelhantes era maior entre parentes do que entre pessoas desconhecidas.

Aritmética Olfativa e Outros Tópicos

A riqueza do talento de Galton fica evidente na variedade dos seus estudos de pesquisa. Ele chegou a se colocar no estado mental de uma pessoa que sofre de paranóia, imaginando que todos ou tudo que via estavam o espionando. Um historiador relata que, quando ele fazia isso durante a sua caminhada matutina, "sentia como se todo cavalo olhasse direta­mente para ele ou, desconfiadamente, dissimulasse a espionagem, simplesmente fazendo de conta que não lhe prestava atenção" (Watson, 1978, p. 328-329).

No auge da controvérsia entre o evolucionismo de Darwin e a teologia fundamentalista, Galton estudou a questão com a objetividade necessária e concluiu que, embora muitas pessoas tivessem fortes crenças religiosas, não havia provas suficientes da sua validade. Realizou uma pesquisa sobre o poder da oração na produção de resultados e verificou não ter ela eficácia para os médicos curarem pacientes ou para os meteorologistas tentarem mudar as condições do tempo, nem para os religiosos aplicarem-na na vida cotidiana. Acreditava haver pouca diferença entre as pessoas possuidoras de fortes crenças religiosas e as que não possuíam, em termos de expectativa de vida, de relacionamento interpessoal ou de enfrentamento dos próprios problemas. Galton esperava que um conjunto de cren­ças mais efetivo pudesse ser estruturado em termos científicos. Pensava que o desenvol­vimento de uma raça humana superior por meio da evolução, mediante a eugenia, devia ser a meta da sociedade e não um lugar no céu.

Seu interesse na quantificação e na análise estatística muitas vezes se expressava no seu apego aos números. Passava o tempo entre palestras e peças teatrais contando os boce­jos e as tossidas do público. Descrevia os resultados como uma medida do tédio. Em uma ocasião, quando um artista pintava o seu retrato, contou o número de pinceladas: cerca de 20 mil. Um dia decidiu contar pelo cheiro e não por números, e praticou bastante para poder esquecer o significado deles. Mas, em vez de esquecer os números, atribuiu valores numéricos aos odores, como o cheiro de menta, e aprendeu a adicionar e subtrair pensan­do no cheiro. Esse exercício intelectual deu origem a um trabalho intitulado “Arithmetic by smell" ("Aritmética olfativa"), publicado na primeira edição da revista especializada estadunidense Psychological Review.

Comentários

Galton passou 15 anos pesquisando problemas psicológicos e seus esforços tiveram um impacto significativo na direção da nova psicologia, embora não fosse realmente um psicólo­go. Era uma pessoa extremamente bem dotada, cujos talento e temperamento não ficaram restritos a uma única disciplina. Basta verificar os métodos e o escopo do seu interesse: adaptação, hereditariedade versus ambiente, comparação das espécies, desenvolvimento infantil e testes mentais. Seu trabalho exerceu maior influência na evolução da psicologia estadunidense do que o trabalho do fundador da disciplina, Wilhelm Wundt.

A Psicologia Animal e a Evolução do Funcionalismo

A teoria da evolução de Darwin foi comprovadamente um estímulo para o desenvolvimento da psicologia animal. Antes da publicação de On the origin ofspecies, não havia razão para os cientistas se preocuparem com a mente animal, já que os animais eram apenas robôs sem mente e sem alma. Afinal, Descartes afirmou que os animais não tinham qualquer semelhança com os homens.

O trabalho de Darwin alterou essa visão conformista, pois suas conclusões apontaram para a inexistencia de qualquer distinção evidente entre a mente humana e a animal. Assim os cientistas propuseram a continuidade entre todo aspecto mental e físico dos seres humanos e dos animais, com base na teoria de que o homem descende do animal por meio do continuo processo de desenvolvimento evolutivo. Darwin afirmou: "Não existe diferença fundamental entre o homem e os mamíferos superiores em relação às faculdades mentais" (1871, p. 66). E ainda, acreditava que os animais inferiores sentiam prazer e dor, alegria e tristeza; tinham sonhos e até certo grau de imaginação. Mesmo as minhocas, afirmou Darwin, demonstram prazer ao comer, além de paixão sexual e senti­mento social, sendo tudo uma prova da existência de alguma forma de mente animal.

Se fosse possível provar a existência da habilidade mental nos animais, além de compro­var a continuidade entre a mente animal e a mente humana, essas evidências colocariam por terra a dicotomia humano/animal defendida por Descartes. Desse modo, estava lança­do o desafio para os cientistas buscarem as provas da existência da inteligência animal.

Darwin defendeu suas ideias sobre a inteligência animal no livro The expression of the emotions in man and animais (1872), em que argumentava que o comportamento emo­cional humano deriva do comportamento herdado que um dia fora útil aos animais mas que não é mais relevante para o homem. Um exemplo é a expressão nos lábios de uma pessoa quando ela quer demonstrar escárnio. Darwin alegava ser esse gesto remanescente da forma como os animais enfurecidos mostravam os dentes caninos.

Nos anos que se seguiram à publicação de On the origin of species, o tema da inteligencia animal ganhou popularidade, não apenas entre a comunidade científica como tambem entre o publico em geral. Nas décadas de 1860 e 1870, muitas pessoas escreviam para as revistas populares e científicas pedindo exemplos de comportamento animal que comprovassem habilidades mentais antes ignoradas. Histórias circulavam dando conta de feitos marcantes da inteligência de gatos e cães domésticos, cavalos e porcos e até de lesmas e pássaros.
Nem o grande experimentalista Wilhelm Wundt escapou dessa tendência. Em 1863 antes de tornar-se o primeiro psicólogo da história, Wundt escreveu a respeito das habili­dades intelectuais de vários seres vivos, desde besouros até castores. Ele presumia que os animais que exibissem qualquer capacidade mínima sensorial também deviam ser dotados de poder de julgamento e de inferência consciente. Na verdade, os animais simples não deviam ser considerados inferiores ou menos inteligentes, pois diferiam dos seres huma­nos não tanto pela habilidade como por terem recebido menos educação e treinamento! Trinta anos depois, a sua generosidade em relação à inteligência animal havia diminuído mas durante algum tempo sua afirmação juntou-se às várias que sugeriam serem os animais tão bem dotados quanto os seres humanos.

George John Romanes (1848-1894)

O fisiologista britânico George Romanes formalizou e sistematizou o estudo da inteligên­cia animal. Ainda criança, foi considerado pelos pais "um perfeito idiota" (Richards, 1987, p. 334). Quando jovem, ficou impressionado com os trabalhos de Darwin. Tornaram-se amigos, e Darwin deu a Romanes seu caderno de anotações sobre o comportamento ani­mal. Desse modo, Darwin escolheu Romanes para dar continuidade àquele aspecto do seu trabalho, aplicando a teoria da evolução à mente assim como ele havia aplicado ao corpo, e Romanes mostrou-se um sucessor de valor. Por ser rico, Romanes não precisava se preocupar em ganhar a vida. O único emprego que teve foi como professor de meio período na University of Edinburgh, que exigia a sua presença no total de duas semanas no ano. Passava o inverno em Londres e Oxford e o verão na praia, onde construiu um laboratório tão bem equipado quanto o de uma universidade.

Romanes publicou Animal intelligence (Inteligência animal) (1883), geralmente consi­derado o primeiro livro de psicologia comparativa. Coletou dados do comportamento de protozoários, formigas, aranhas, répteis, peixes, pássaros, elefantes, macacos e animais domésticos. Seu objetivo era demonstrar o alto nível da inteligência animal e a sua seme­lhança com o funcionamento intelectual humano, mostrando assim a continuidade do desenvolvimento mental. Com suas palavras, Romanes desejava demonstrar que "não há diferença de modalidade entre os atos racionais executados pelo caranguejo e qualquer ato racional humano" (apud Richards, 1987, p. 347).

Romanes desenvolveu o que chamou de "escada mental", em que ordenava as várias espécies animais por grau de funcionamento mental (Tabela 6.1). Observa-se na tabela que ele creditava até às formas de vida inferior (como a água-viva, o ouriço e a lesma) um alto grau de funcionamento mental. Ele formou essas opiniões, de algum modo surpreenden­tes, coletando dados por meio do método anedótico, definido como o uso de relatos ou narrativas de observações, muitas vezes casuais, sobre o comportamento animal. Muitos dos relatos foram de observadores não-treinados e acríticos, cujas observações poderiam ser parciais e negligentes.

Tabela 6.1

Romanes desenvolveu essas definições a respeito da inteligência animal com base nas observações anedóticas obtidas por meio de uma técnica curiosa chamada introspecção por analogia, que acabou sendo descartada. Nessa abordagem, os pesquisadores partem do princípio de que os mesmos processos mentais que ocorrem em suas mentes ocorrem na mente dos animais observados. Assim, presume-se a existência de uma função men­tal específica, observando-se o comportamento do animal e criando-se uma analogia, seja por alguma correspondência seja por relação, entre os processos mentais humanos conhecidos e os processos que, deduz-se, estejam ocorrendo na mente do animal.

Para começar, com base no conhecimento subjetivo das operações da minha mente e das atividades que essas operações parecem indicar em meu organismo, sigo por analogia para deduzir, a partir das atividades observáveis demonstradas por outros organismos, o fato de que certas operações mentais sustentam ou acompanham essas atividades, (Romanes apud Mackenzie, 1977, p. 56-57)

Com a técnica da introspecção por analogia, Romanes sugeria que os animais eram capazes de realizar os mesmos tipos de racionalização, ideação, raciocínio complexo, processamento de informação e solução de problemas que os humanos. Alguns de seus seguidores credi­tavam aos animais níveis de inteligência muito superiores ao do ser humano médio.

Romanes acreditava que, excluindo o macaco e o elefante, o gato era o animal mais inteligente. Escreveu muito sobre o comportamento do gato que pertencia ao seu motorista. Realizando vanos movimentos intrigantes, o gato era capaz de abrir as portas fechadas que conduziam ao estábulo. Empregando a introspecção por analogia, Romanes concluiu que:

Nos casos como esse, os gatos têm uma ideia perfeitamente definida das propriedades mecâ­nicas de uma porta; sabem que, para abri-la, mesmo quando destrancada, têm de empur­ra-la. (...) Primeiro, o animal deve ter observado que a porta é aberta pela mão que segura a maçaneta e move o trinco. Em seguida, deve raciocinar, pela "lógica dos sentimentos", que, se a mão é capaz de fazer isso, por que não a pata? (...) O ato de empurrar com a pata traseira após baixar o trinco deve-se a razões de adaptação. (Romanes, 1883, p. 421-422)

O trabalho de Romanes empregava métodos muito aquém do rigor científico moder­ no e, muitas vezes, a divisão entre a interpretação factual e a subjetiva de seus dados não era clara. Todavia, embora os cientistas reconhecessem a deficiência dos seus dados e métodos, ele era respeitado pelos esforços pioneiros, incentivando o desenvolvimento da psicologia comparativa e abrindo caminho para o estudo do comportamento animal.

Em diversas areas da ciência, a utilização de dados observacionais antecede o desenvolvimento de uma metodologia experimental mais refinada. E foi Romanes quem deu início ao estágio observacional da psicologia comparativa.

C. Lloyd Morgan (1852-1936)

O ponto fraco inerente aos métodos anedótico e da introspecção por analogia foi indicado formalmente por Conwy Lloyd Morgan (1852-1936), a quem Romanes designou como seu sucessor. Morgan foi aluno de Thomas Henry Huxley e tornou-se professor de psicologia e de educação da University of Bristol, na Inglaterra, além de ter sido uma das primeiras pessoas a pedalar uma bicicleta dentro dos limites da cidade. Também se interessava por geologia e zoologia e propôs a lei da parcimônia (também denominada Cânone de Lloyd Morgan) para neutralizar a tendência predominante de atribuir excessiva inteligência aos animais.

A lei da parcimônia afirma que o comportamento animal não deve ser interpretado como o resultado de um processo mental superior, quando pode ser explicado por um processo mental inferior. Morgan desenvolveu essa ideia em 1894 e pode tê-la criado com base na lei da parcimônia similar, descrita por Wundt dois anos antes. Wundt havia observado que "os princípios explicativos complexos devem ser empregados somente quando os [princípios] mais simples forem insuficientes" (Richards, 1980, p. 57).

A intenção de Morgan não era a exclusão completa do antropomorfismo dos traba­lhos sobre o comportamento animal, mas a redução do seu uso e aplicação, de modo mais científico, dos métodos da psicologia comparativa. Morgan concordava com Romanes em que os relatos subjetivos eram inevitáveis, no entanto tentou manter ao mínimo as infe­rências anedóticas no seu trabalho. Morgan disse:

Com relação às várias observações anedóticas de Romanes (...) noto, e sem dúvida ele também notou, que a ciência da psicologia comparativa não deve ser construída com tais fundamentos anedóticos. A maioria das histórias são meros registros casuais, complemen­tados por opiniões amadorísticas de observações passageiras, cujo treinamento psicológico é praticamente desprezível. Então, levanto dúvidas se alguém é capaz de extrair da mente do animal (...) os dados exigidos para uma ciência. (1930/1961, p. 247-248)

No geral, Morgan seguiu a abordagem de Romanes na observação do comportamen­to de um animal e na sua explicação por meio de uma análise introspectiva dos próprios processos mentais. No entanto, ao aplicar a lei da parcimônia, evitou atribuir processos mentais de nível mais elevado aos animais, quando o comportamento podia ser explicado em termos de processos de nível inferior.

Ele acreditava que a maioria dos comportamentos animais resultava da aprendizagem ou da associação com basea na experiência sensorial; esse tipo de aprendizagem consistia em um processo de nível inferior, e não em um pensamento racional ou em uma ideação.

Com a aceitação do cânon de Morgan, o método da introspecção por analogia foi aperfei­çoado e proporcionou dados mais úteis, mas acabou sendo superado por outros métodos mais objetivos.

Morgan foi o primeiro cientista a conduzir estudos experimentais em larga escala na psicologia animal. Embora suas experiências não fossem realizadas sob as condições cien­tíficas rígidas exigidas hoje, elas constituíram observações cuidadosas do comportamento animal, a maioria em ambientes naturais, mas com algumas modificações artificiais. Apesar de esses estudos não comportarem o mesmo grau de controle das experiências realizadas em laboratórios, foram um avanço importante do método anedótico de Romanes.

Comentários

O trabalho inicial na psicologia comparativa foi conduzido na Inglaterra, mas a liderança no campo passou rapidamente para os Estados Unidos. Romanes faleceu mais ou menos aos 40 anos, vitimado por tumor cerebral, e Morgan trocou sua pesquisa por uma carreira administrativa na universidade.

A psicologia comparativa surgiu da excitação e da polêmica provocadas pela sugestão de Darwin a respeito da continuidade entre as espécies humana e animal. As ideias bási­cas da teoria darwiniana são a noção de função e a afirmação de que as espécies evoluem e que as estruturas físicas são determinadas pela luta pela sobrevivência. Essa premissa levou os biólogos a considerarem cada estrutura anatômica um elemento utilitário ou funcional em um sistema total de vida e adaptação. Quando os psicólogos começaram a examinar os processos mentais da mesma maneira, estabeleceram o trabalho de base para um novo movimento: a psicologia funcional.

Psicologia - História da Psicologia
1/7/2020 1:46:13 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
O estruturalismo

Você seria voluntário para engolir um tubo de borracha que vai até o seu estômago? Para em seguida despejarem água quente por ele? E depois água gelada, tudo pela glória da pesquisa psicológica? Precisa de mais tempo para decidir?

Se fosse um aluno de pós-graduação em psicologia na Cornell University ao norte de Nova York, no início do século XX, teriam lhe feito essa pergunta, ou até mes­mo lhe incentivado para que aceitasse participar disso. E o professor Edward Bradford Titchener, o psicólogo que conduziu o experimento, era um ser humano tão admi­rável que quase todos os seus alunos concordavam com as coisas muitas vezes absurdas que lhes pedia, tudo em nome da ciência. Os alunos estavam fornecendo dados para o sistema psicológico que estava desenvolvendo. Mas como? Eles executavam uma forma de introspecção.

Introspecção era um sério empreendimento na Cor­nell daqueles tempos, e os alunos de pós-graduação de Titchener eram dedicados ao seu trabalho. Considere o tubo de borracha, por exemplo, pedia-se que engolissem o tubo para estudar a sensibilidade de seus órgãos inter­nos. Os alunos engoliam os tubos pela manhã e perma­neciam com ele ao longo do dia. Pode-se imaginar que não era fácil desempenhar suas atividades normais com um tubo enfiado na garganta. Muitos vomitavam, mas depois acabavam se acostumando. Durante o dia, em horários determinados, os alunos se apresentavam ao laboratório para que se despejasse água quente pelos tubos. Depois os alunos relatavam as sensações.

Posteriormente, eles repetiam o processo com água fria. Em outro experimento, os alunos carregavam cadernos até o banheiro para que relatassem seus sentimentos e sensações quando urinassem ou evacuassem. E também houve o estudo sobre sexo, outro exemplo de dados que estavam perdidos por muitos anos antes de terem sido recuperados.

Pedia-se a alunos casados que anotassem suas sensações e sentimentos elementares du­rante a relação sexual e que amarrassem dispositivos de medição aos seus corpos para registrar respostas fisiológicas. Esta pesquisa não foi muito anunciada na época. Foi revelada em 1960 por Cora Friedline, uma das alunas de Titchener, em palestra proferida no Randolph-Macon College, em Lynchburg, Virgina. O estudo tornou-se muito conhecido no campus da Cornell daquela época, mas atribuiu ao laboratório de psicologia a reputação de um local imoral. As responsáveis pelos dormitórios femininos não permitiam que suas alunas visitassem o laboratório depois de escurecer. E quando se espalhou a notícia de que estavam colocando preservativos nos tubos que os alunos engoliam, o que se falava nos dormitórios, segundo Friedline, era que o laboratório "não era um lugar seguro para ninguém".

Edward Bradford Titchener (1867-1927)

Embora professasse ser um fiel seguidor de Wilhelm Wundt, E. B. Titchener alterou dras­ticamente o sistema de psicologia ao levá-lo da Alemanha para os Estados Unidos. Ele apresentou uma abordagem própria, à qual denominou estruturalismo, embora alegasse tratar do mesmo sistema estabelecido por Wundt. Na realidade, os dois eram comple­tamente distintos e a denominação "estruturalismo" é adequada para definir apenas a psicologia de Titchener. O estruturalismo permaneceu em evidência por cerca de 20 anos nos Estados Unidos até ser superado por outros movimentos mais novos.

Wundt havia identificado elementos ou conteúdos da consciência, mas a questão que mais chamava sua atenção era a organização desses elementos, ou seja, a sua síntese em processos cognitivos superiores por meio da apercepção. Na opinião de Wundt, a mente era dotada do poder de organização voluntária dos elementos mentais, posição divergente da explicação mecanicista da passividade mental sustentada pela maioria dos empiristas e associacionistas britânicos.

Titchener se concentrava nos elementos ou conteúdos mentais, assim como na conexão mecânica mediante o processo da associação, mas descartava a doutrina da apercepção de Wundt. O seu enfoque estava nos elementos propriamente ditos e, na sua opinião, a principal tarefa da psicologia consistia na descoberta da natureza das experiências cons­cientes elementares - a determinação da estrutura da consciência mediante a análise das suas partes componentes.

Os anos mais produtivos de Titchener foram os que passou na Cornell University, em Nova York. Vestia sua toga de Oxford University para dar aulas e fazia delas uma produção grandiosa. O cenário era cuidadosamente preparado por seus assistentes sob sua rigorosa supervisão. Os docentes mais novos, obrigados a assistirem às suas aulas, faziam fila à porta  para tomarem os primeiros assentos, enquanto Titchener entrava diretamente por outra porta dirigindo-se ao tablado. Embora tivesse estudado apenas dois anos com Wundt, seus modos eram muito parecidos com os do seu mentor, copiando seu estilo autocrático, sua maneira formal de dar aulas e até mesmo o uso da barba. Embora Titchener fosse inglês por nascimento, “aqueles que o conheciam pouco, ou que só tinham ouvido falar sobre ele, achavam que fosse alemão" (Boring, 1927, p. 493). Um de seus alunos, E.G. Boring, que mais tarde tornou-se um eminente historiador de psicologia, comentou que Wundt e Titchener tinham personalidades semelhantes, pois ambos eram autocráticos e dominadores.

A Biografia de Titchener

Nasceu em Chichester, na Inglaterra, em uma família tradicional, mas de poucos recur­sos. Graças à sua considerável capacidade intelectual, Titchener obteve bolsas de estudos para cursar a faculdade. Frequentou a Malvern College e mais tarde a Oxford University, onde estudou filosofia e os clássicos, além de trabalhar como assistente de pesquisa em fisiologia. Ganhou muitos prêmios acadêmicos e foi visto como um aluno brilhante, com um gosto por línguas, incluindo latim, grego, alemão, francês e italiano. Um professor de Oxford certa vez deu a Titchener um artigo em holandês e pediu um relatório no prazo de uma semana. Titchener protestou, pois não sabia holandês. O professor lhe disse que aprendesse - e ele o fez.

Titchener interessou-se pela psicologia wundtiana enquanto estudava em Oxford, entu­siasmo não compartilhado e tampouco incentivado pela universidade. Por isso, naturalmen­te, teve de partir para Leipzig, a meca dos cientistas pioneiros, para estudar com o próprio Wundt, lá obtendo o doutorado em 1892. Durante a vida estudantil, criou uma relação muito estreita com Wundt e sua família, a cuja casa muitas vezes era convidado, e passou pelo menos um Natal na residência dos Wundt, nas montanhas (Leys e Evans, 1990).

Ao receber o doutorado, Titchener esperava tornar-se o inglês pioneiro da nova psicolo­gia, experimental de Wundt, mas, quando retornou a Oxford, seus colegas ainda estavam céticos em relação à chamada abordagem científica sobre os seus temas filosóficos favoritos. Ali permaneceu alguns meses até perceber que as melhores oportunidades estavam em outro lugar. Deixou a Inglaterra e partiu para a Cornell University, nos Estados Unidos, para lecionar psicologia e dirigir um laboratório. Estava então com 25 anos, e ali passou o resto da vida até falecer de tumor cerebral, aos 60 anos.

De 1893 a 1900, Titchener implementou seu laboratório, conduziu pesquisas e escre­veu artigos acadêmicos, publicando, por fim, mais de 60 trabalhos. Devido ao grande número de alunos atraídos a Cornell por causa da sua psicologia, teve de abrir mão da tarefa de participar pessoalmente dos estudos de pesquisa, deixando a cargo dos estudan­tes a condução das experiências. Desse modo, a sua posição sistemática atingiu o auge do desenvolvimento por meio da sua orientação das pesquisas realizadas pelos alunos. Em 35 anos na Cornell, Titchener orientou mais de 50 doutorandos em psicologia, cujas dissertações, na maioria, contêm a marca das suas ideias. Exerceu nítida autoridade na seleção dos temas de pesquisa dos orientandos, atribuindo-lhes as questões de seu maior interesse. Dessa forma, criou o sistema do estruturalismo, que mais tarde alegou ser a "única psicologia científica digna do nome" (apud Roback. 1952. p. 184).

Titchener traduziu os livros de Wundt do alemão para o inglês. Quando concluiu a tradução da terceira edição de Principies of physiological psychology, Wundt já havia terminado a quarta edição. E, ao traduzir a quarta, constatou que o incansável Wundt havia acabado de publicar a quinta edição.

Entre as obras de sua autoria estão An outline of psychology (1896), Primer of pshychology (1898) e, em quatros volumes, Experimental pshychology:  manual of Laboratory practice (1901-1905). Esses últimos mais conhecidos como Manuals (manuais), incentivaram o trabalho ode laboratório da psicoligia nos Estados Unidos e influenciaram a geração dos psicólogos experimentalistas. Seus livros foram traduzidos para diversos idiomas, como russo, italiano, alemão, espanhol e francês.

Como Wundt, Titchener era elogiado como um excelente professor cuias aulas ninguém queria perder; frequentemente os corredores ficavam superlotados. Quando Boring foi a sua primeira aula com Titchener, encontrou alunos "espalhados por todas as salas adjacentes. Não exagero quanto ao seu magnetismo como professor... Lembro-me aula sobre ritmo de sons como sendo especialmente empolgante; imagine fazer com que ritmo de sons seja estimulante! Era aluno de engenharia na época, e no entanto foi a lembrança dessas aulas que fez com que mudasse para a psicologia cinco anos mais tarde" (Boring 1927, p. 494).

À medida que Titchener envelheceu, seus hobbies passaram a ocupar seu tempo e energia afastando-o do trabalho em psicologia. Titchener dividia sua energia entre o trabalho com a psicologia e diversos passatempos. Regia um pequeno grupo musical que se reunia todos
os domingos à tarde na sua casa e, mesmo antes da criação do departamento de música em Cornell, por vários anos foi o "Professor responsável por essa disciplina". Colecionava moedas e graças a esse hobby, aprendeu chinês e árabe para decifrar os caracteres gravados nos metais. Correspondia frequentemente com vários colegas, na maioria das vezes por meio de cartas datilografadas, porem com muitas observações manuscritas.

Com o passar dos anos, Titchener afastou-se do convívio social e acadêmico adquirindo o status de lenda viva de Cornell, embora muitos docentes sequer o houvessem conhecido ou visto. Preferia trabalhar em casa e, a partir de 1909, lecionava apenas nas tardes de segunda-fara, durante a primavera. Sua esposa selecionava as pessoas que o procuravam, protegendo-o de estranhos e os alunos eram orientados a procura-lo apenas em caso de urgência.

Embora sustentasse o modo autocrático como um estereótipo do professor alemão, era gentil e solicito com colegas e estudantes, desde que fosse tratado com a deferência e o respeito de que acreditava ser merecedor. Histórias dão conta de docentes mais jovens e estudantes de pós-graduação que lavavam o seu carro e instalavam telas de proteção na janela da sua residência no verão, não por obrigação, mas por admiração.
O ex-aluno Karl Dallenbach cita uma afirmação de Titchener segundo a qual "um homem não pode ter esperança de tornar-se um psicólogo enquanto não aprender a fumar" (Dallenbach, 1967. p. 85). E, realmente vários alunos começaram a fumar charutos, pelo menos na presença do mestre. (O próprio Dallenbach conta ter ficado enjoado quando fiou seu primeiro charuto).

A doutoranda Cora Friedline lembrou de um dia em que ela

estava na sala de Titchener discutindo com ele e sua pesquisa quando o inseparável charuto encostou na barba, que começo a queimar. Ele falava de forma tão imponente naquele momento  que a ela faltou coragem para interrompê-lo. Finalmente, dirigiu-lhe a palavra, dizendo: "Queira me perdoar, Dr. Titchener, mas suas suíças estão em chamas." Quando Titchener conseguiu finalmente extinguir o fogo, as chamas já estavam atingindo a camisa e a camiseta que vestia por baixo.

Nem a preocupação pelos alunos e muito menos a influência sobre suas vidas ter­minavam quando eles se formavam e deixavam a Cornell. Depois de receber o título de Ph.D., Dallenbach planejava cursar a escola de medicina, mas Titchener arranjou-lhe uma posição acadêmica na University of Oregon. Dallenbach pensou que Titchener aprovaria a sua intenção de seguir medicina, mas estava enganado. "Tive de ir para Oregon, já que [Titchener] não estava disposto a ver todo o seu trabalho e toda a sua orientação perdidos" (Dallenbach, 1967, p. 91).

Outro ex-aluno, E. G. Boring, lembrou-se de que nem todos aceitavam a ingerência de Titchener sobre suas vidas. "Diversos de seus alunos mais brilhantes ressentiram-se da interferência e do controle e acabaram rebelando-se, vendo-se, então, excluídos, excomun­gados, magoados, em uma relação sem retorno" (Boring, 1952, p. 32-33).

Às vezes as relações de Titchener com os psicólogos fora do seu grupo também eram tensas. Eleito pelos fundadores como membro da APA em 1892, renunciou logo em seguida porque a associação negou-se a expulsar um membro que ele acusava de plagiário. Conta-se que um amigo pagou as taxas de Titchener durante vários anos para que o nome dele conti­nuasse sempre aparecendo na lista de membros.

Os Experimentalistas de Titchener: Proibido para as Mulheres

Em 1904, um grupo de psicólogos autodenominados "os experimentalistas de Titchener" começou a se reunir regularmente para comparar as observações obtidas nas pesquisas. Além de selecionar os temas e os participantes, Titchener geralmente conduzia as reu­niões. Uma das regras era a proibição de participação das mulheres. E. G. Boring conta que Titchener desejava "ouvir relatos com liberdade para interromper, debater e criticar, em um ambiente encoberto pela fumaça dos charutos e sem a presença das mulheres (...) elas são delicadas demais para fumar" (Boring, 1967, p. 315).

Algumas alunas da Bryn Mawr College, na Pensilvânia, tentaram frequentar essas reuniões, no entanto foram prontamente convidadas a se retirar. Em uma das reuniões elas se esconderam sob a mesa, enquanto a noiva de Boring e outra amiga aguardavam na sala ao lado "com a porta entreaberta para descobrirem como era a psicologia masculina sem censuras". Boring lembrou-se de que elas saíram "ilesas" (Boring, 1967, p. 322).

Em 1912, com o intuito de participar da reunião dos experimentalistas, Christine Ladd-Franklin (1847-1930) escreveu para Titchener, solicitando-lhe uma oportunidade para ler o relatório da sua pesquisa relativa à psicologia experimental. Havia trabalhado no problema da visão das cores no laboratório de G. E. Müller na University of Gõttingen, na Alemanha, e no laboratório de Helmholtz, em Berlim. Antes disso, havia completado as exigências para o obtenção do Ph.D. em matemática na Johns Hopkins University mas teve o título negado por ser mulher. A direção da universidade acabou redimindo-se e concedeu-lhe o título de doutorado somente 44 anos mais tarde.

Quando Titchener recusou seu pedido, ela escreveu para ele, dizendo-se "chocada em saber que ainda hoje, em 1912, vocês não permitem a participação das mulheres nas reuniões dos psicólogos experimentalistas. Como podem ser tão retrógrados?" (apud Furumoto, 1988, p. 107). Sem desistir da sua posição, continuou a protestar durante vários anos, chamando a política de Titchener de imoral e anticientífica.

Titchener escreveu a um amigo, dizendo: "A Sra. Ladd-Franklin acusou-me de injúria por não permitir a participação das mulheres nas reuniões e ameaça fazer um escândalo pessoalmente e por escrito. Possivelmente ela conseguirá dissolver o grupo e nos obrigará a realizar reuniões escondidas em tocas escuras, como os coelhos" (apud Scarborough e Furumoto, 1987, p. 126).

Embora Titchener continuasse a excluir as mulheres das reuniões dos experimenta­listas, encorajava e apoiava seu progresso na psicologia. Ele aceitava mulheres nos progra­mas de pós-graduação em Cornell, mas as universidades de Harvard e Columbia não as admitiam. Mais de um terço dos 56 doutorados concedidos por Titchener foi para mulhe­res. Nenhum psicólogo daquela época concedeu tantos títulos de doutorados a mulheres como Titchener. Ele também apoiava a contratação de professoras, ideia que muitos cole­gas consideravam avançada demais. Em uma ocasião, ele insistiu na contratação de uma professora, mesmo diante da recusa do diretor.

A primeira mulher a obter o doutorado em psicologia foi Margaret Floy Washburn, que também fora a primeira orientanda de doutorado de Titchener. Ela lembrou que: "Ele não sabia muito bem o que fazer comigo" (Washburn, 1932, p. 340). Depois do doutora­do, ela escreveu um importante livro sobre a psicologia comparativa (The animal mind, 1908) e foi a primeira psicóloga eleita para a Academia Nacional de Ciências. Além disso chegou a ser presidente da APA.

Essa breve menção ao sucesso de Washburn tem o intuito de salientar o constante apoio de Titchener à mulher na psicologia. Embora ele não abrisse mão da proibição de mulheres nas reuniões dos experimentalistas, envidou esforços para abrir as portas total­mente fechadas, pela maioria dos psicólogos, às mulheres.

Em 1929, dois anos após a morte de Titchener, os experimentalistas renasceram como Sociedade de Psicólogos Experimentais, ainda ativa hoje. A nova sociedade admitia mulheres (Washburn foi uma das duas mulheres titulares) e tinha reuniões anuais para discutir a pesquisa de seus convidados (ver Goodwin, 2005). Em 2004, a Sociedade de Psicólogos Experimentais organizou uma reunião por ocasião de seu centenário, no campus da Cornell University. Um dos professores da Cornell trouxe um convidado para a reunião (...) o cérebro de Titchener que já levado à sessão de abertura e agora, conforme seu desejo, faz parte da coleção de cérebros de Cornell (Beniamin 2006a, p. 137).

O Conteúdo da Experiência Consciente

Deacordo com Titchener, o objeto de estudo da psicologia é a experiência consciente como dependente do indivíduo que a vivência. Esse tipo de experiência difere da estudada por cientistas outras áreas. Por exemplo, tanto a física como a psicologia podem estudar a luz e o som. Enquanto os físicos examinam os fenômenos do ponto de vista dos proces­sos físicos envolvidos, os psicólogos analisam a luz e o som com base na experiência e na observação humanas desses fenômenos.

As outras ciências não dependem da experiência pessoal. Titchener citou, como exem­plo da física, a temperatura de uma sala que pode ser, digamos, de 30°C, haja ou não uma pessoa presente para senti-la. Todavia, quando há observadores que relatem sentir um calor desconfortável, essa sensação - a experiência da temperatura elevada - depende das experiên­cias individuais dos presentes. Para Titchener, esse tipo de experiência consciente é o único enfoque adequado para a pesquisa psicológica. Ele descreveu a diferença entre a experiência dependente e a independente no livro A text book of psychology, publicado em 1909.

No estudo da experiência consciente, Titchener fez um alerta a respeito de se cometer o que chamou de erro de estímulo, que gera uma confusão entre o processo mental e o objeto da observação. Por exemplo, o observador que vê uma maçã e a descreve apenas como a fruta maçã em vez de descrever elementos como a cor, o brilho e a forma que está observado, comete o erro de estímulo. O objeto da observação não deve ser descrito na lin­guagem cotidiana, mas em termos do conteúdo consciente elementar da experiência.

Quando o observador concentra-se no objeto de estímulo e não no conteúdo conscien­te, não faz distinção entre o conhecimento adquirido no passado em relação ao objeto (por exemplo, que o nome do objeto é maçã) e a própria experiência imediata e direta. Todo observador sabe que a maçã é vermelha, redonda e tem certo brilho. Ao descrever outras características que não sejam a cor, o brilho e o formato, em vez de observar o objeto, o obser­vador o está interpretando. Trata-se, assim, da experiência mediata, e não da imediata.

Titchener definia a consciência como a soma das experiências existentes em deter­minado momento. A mente é a soma das experiências acumuladas ao longo do tempo. A consciência e a mente sâo semelhantes, apenas com a diferença de que a consciência envolve os processos mentais que ocorrem em determinado momento, e a mente, o total desses processos.

A psicologia experimental, na visão de Titchener, era uma ciência pura. Ele não se preocupava com a aplicação do conhecimento psicológico. A psicologia, afirmava, não se propõe a curar mentes doentias nem a reformar a sociedade. O único propósito legítimo da psicologia é descobrir os fatos estruturais da mente. Ele acreditava que os psicólogos deviam manter-se distantes das especulações sobre o valor prático do seu trabalho. Por isso posicionou-se contra o desenvolvimento da psicologia infantil, animal e outras áreas incompatíveis com a psicologia introspectiva experimental do conteúdo da experiência consciente.

Introspecção

Titchener empregava a introspecção, ou auto-observação, com base em observadores rigoro­samente treinados para descrever os elementos no seu estado consciente, em vez de relatar o estímulo observado ou percebido, utilizando apenas nomes conhecidos. Percebeu que todos aprendemos a descrever a experiência em termos do estímulo, por exemplo, chamar o objeto vermelho, redondo e brilhante de maçã, o que é suficiente e útil para o cotidiano. Todavia, no seu laboratório de psicologia, essa prática teve de ser desaprendida.

Titchener adotou a mesma definição de Kúlpe para descrever o seu método, introspec­ção experimental sistemática. Como Kúlpe, ele utilizava relatos detalhados, subjetivos e qualitativos das atividades mentais dos indivíduos durante o ato, de jntrospecção. Ele se opunha à abordagem de Wundt, cujo foco eram as mensurações quantitativas e objetivas, porque acredilava não serem úteis na análise das sensações e imagens elementares da consciência, ponto central da sua psicologia.

Em outras palavras, Titchener divergia de Wundt porque estava interessado em analisar a experiencia consciente complexa a partir das partes componentes, e não a síntese dos elementos mediante a apercepção. Titchener dava ênfase às partes, enquanto Wundt, ao todo. Alinhado com a maioria dos empiristas e associacionistas britânicos o objetivo de Titchener era descobrir os chamados átomos da mente.

Seu conceito de introspecção aparentemente já se havia formado antes de ele estudar com Wundt, em Leipzig. Um historiador disse que, quando ele ainda frequentava a Oxford, fora influenciado pelos trabalhos de James Mill (Danziger 1980).

O espirito da filosofia mecanicista também o influenciou, como se pode observar na imagem que ele tinha dos observadores que lhe forneciam dados. Nos seus relatos de pesquisa publicados, eram chamados de reagentes, termo usado por químicos para se referirem as substancias que, por causa de sua capacidade para certas reações para detectar, examinar ou medir outras substâncias. O reagente normalmente é passivo ou seja, e usado para provocar reações nas outras substâncias.

Percebe-se que, ao aplicar esse conceito aos observadores humanos Titchener os enxergava como instrumentos mecânicos de registro, que reagiam e respondiam de forma objetiva as observações das características do estímulo observado. Os indivíduos seriam meramente maquinas neutras e imparciais. Seguindo a ideia de Wundt as observações treinadas se tornariam tão mecanizadas e habituais que os observadores não perceberiam mais se estavam realizando um processo consciente, Titchener dizia:

"Ao prestar atenção no fenômeno, o observador da psicologia, assim como o observador da física, esquece completamente de atribuir atenção subjetiva ao estado de observação (...) os observadores, como é do nosso conhecimento, são treinados; seu estado de observação já está mecanizado." (Titchener, 1912a, p. 443)

Se esses observadores eram considerados máquinas, então não faltava muito para generalizar esse conceito a todo ser humano. Esse pensamento mostra a contínua influência da visão mecânica do universo de Galileu e Newton, conceito que não desaparece com a extinção do estruturalismo. Com os desdobramentos da história da psicologia observa-se que a imagem do homem como máquina continuou a caracterizar a psicologia experimental até a primeira metade do século XX.

A proposta de Titchener consistia na abordagem experimental para a observação introspectiva na psicologia. Ele obedecia às normas da experimentação, afirmando que 

um experimento é uma observação que pode ser repetida, isolada e variada. Quanto maior a quantidade de repetições das observações, maior a probabilidade de clareza na percepção e de precisão na descrição do objeto observado. Quanto mais isolada a observação, mais fácil será a execução da tarefa e menor o risco de confusão proveniente de circunstâncias irrelevantes ou de ênfase no ponto errado. Quanto mais amplamente se puder variar a observação, mais clara será a percepção da uniformidade da experiência e maior a chance de descoberta de leis (Titchener, 1909, p. 20).

A introspeção realizada pelos reagentes ou observadores do laboratório de titchener era baseada em vários estímulos, proporcionando observações extensas e detalhadas dos elementos de suas experiências. Por exemplo, um acorde com três notas seria tocado no piano. Os observadores tinha que relatar quantos sons separados eles conseguiam distinguir,  as características mentais dos sons, e quaisquer outros átomos básicos ou elementos cons­cientes que pudessem detectar.

Outro experimento envolvia uma determinada palavra falada em voz alta. Como Titchener descreveu, pedia-se ao reagente que “observasse o efeito que esse estímulo produz sobre a consciência: como a palavra afeta a pessoa, que ideias veem à mente, e assim por diante" (Titchener, 1910, apud Benjamin. 1997, p. 174). Pode-se ver por esses exemplos por que os observadores no laboratório de Titchener tinham que ser rigorosamente treinados, e como suas observações eram necessariamente subjetivas, ou qualitativas.

Os Elementos da Consciência

Titchener apresentou três propostas básicas para a psicologia:

  1. reduzir os processos conscientes aos seus componentes mais simples;
  2. determinar as leis de associação desses elementos da consciência;
  3. conectar os elementos às suas condições fisiológicas.

Assim, as metas da psicologia estrutural de Titchener coincidem com as das ciências naturais. Depois de decidir a parte do universo natural que desejam estudar, os cientistas tentaram descobrir seus elementos para demonstrar como eles compõem um fenômeno complexo e para formular as leis que os governam. A parte principal da pesquisa de Ti­tchener dedicava-se ao primeiro problema: descobrir os elementos da consciência.

Titchener definiu três estados elementares da consciência: o estado da sensação, o da imagem e os estados afetivos. As sensações são elementos básicos da percepção e estão presentes nos sons, nas visões, nos cheiros e nas outras experiências provocadas pelos objetos físicos do ambiente. As imagens são elementos das ideias e estão no processo que reflete as experiências não realmente presentes no momento, como a lembrança de uma experiência do passado. Os estados afetivos, ou as afeições, são elementos da emoção e encontram-se nas experiências como o amor, o ódio e a tristeza.

Em An outline of psychology (1896), Titchener apresentou a lista dos elementos da sensação descobertos nas suas pesquisas. São cerca de 44.500 qualidades sensoriais individuais, sendo 32.820 visuais e 11.600 auditivas. Cada elemento é considerado consciente e distinto dos demais, podendo haver a combinação entre eles para a formação das percepções e das ideias.

Embora básicos e irredutíveis, os elementos mentais podem ser categorizados, do mesmo modo que os elementos químicos são agrupados em classes. Apesar da simplicidade, os elementos mentais são dotados de atributos distintivos. Aos atributos de qualidade e intensidade definidos por Wundt, Titchener adicionou a duração e a nitidez. Essas quatro características eram consideradas fundamentais, já que estão, em certo grau, em toda experiência.

  • Qualidade é a característica, como "frio" ou "vermelho”, que distingue claramente um elemento de todos os demais;
  • Intensidade refere-se a força, fraqueza, sonoridade ou brilho de uma sensação;
  • Duração é o curso da sensação ao longo do tempo;
  • Nitidez refere-se à função da atenção na experiência consciente; uma experiência no foco da nossa atenção é mais nítida do que a que não seja alvo da nossa atenção.

As sensações e as imagens possuem todos esses quatro atributos, todavia os estados afe­tivos são dotados apenas de três: a qualidade, a intensidade e a duração, não possuindo a nitidez. Por quê? Titchener acreditava ser impossível concentrar a atenção diretamente em um elemento de emoção ou sentimento. Quando tentamos fazê-lo, a qualidade afetiva, como a tristeza ou a satisfação, desaparece. Alguns processos sensoriais, especialmente a visão e o tato, são dotados de outro atributo, a extensão, já que envolvem a noção espacial.

Todo processo consciente pode ser reduzido a um desses atributos. As descobertas feitas no laboratório de Külpe, em Würzburg, sobre o problema do pensamento sem ima­gens, não fizeram Titchener mudar de opinião. Ele reconhecia que algumas qualidades mal definidas podem ocorrer durante o pensamento, no entanto afirmava que, ainda assim, consistiam em sensações ou imagens. Para Titchener estava claro que os observadores de Külpe sucumbiram ao erro de estímulo por concentrarem mais atenção nos estímulos do objeto do que nos próprios processos conscientes.

Os alunos da pós-graduação de Cornell realizaram muitas pesquisas relacionadas com os estados afetivos e suas constatações levaram Titchener a rejeitar a teoria tridimen­sional dos sentimentos de Wundt. Titchener alegava estar o afeto presente em apenas uma dimensão - no prazer/desprazer - e rejeitava as dimensões de tensão/relaxamento e excitação/depressão definidas por Wundt.

No final da vida, Titchener alterou de forma significativa a sua psicologia estrutural. Começou a trabalhar no que imaginava ser a exposição completa do seu sistema. Por volta de 1918, não abordava mais o conceito de elementos mentais nas aulas e afirmava que a psicologia devia dedicar-se ao estudo das dimensões ou dos processos mentais mais amplos —qualidade, intensidade, duração, nitidez e extensão - e não dos elementos bási­cos. Alguns anos mais tarde, escreveu a um aluno de pós-graduação: "Desista de pensar em termos de sensações ou afetos. Esses conceitos eram válidos há 10 anos, mas hoje (...) estão completamente desatualizados. (...) Pense em termos de dimensões e não de constructos sistemáticos como a sensação" (Evans, 1972, p. 174).

Na década de 1920, Titchener colocou em dúvida o uso do termo "psicologia estru­tural" e passou a chamar sua abordagem de psicologia existencial. Reavaliou seu método de introspecção e adotou o tratamento fenomenológico, examinando a experiência como um todo e não dividida em elementos.

Essa mudança de perspectiva foi drástica e, se Titchener tivesse vivido tempo suficien­te para implementá-la, ele teria alterado radicalmente o destino e a visão da psicologia estrutural. Essas ideias supõem flexibilidade e abertura para mudanças que os cientistas acreditam possuir, mas que nem sempre são capazes de demonstrar. As provas dessas mudanças foram reunidas pelos historiadores mediante a análise cuidadosa de cartas e aulas de Titchener (veja Evans, 1972; Henle, 1974). Embora não tenham sido incorporadas formalmente ao seu sistema, essas ideias indicam a direção para a qual ele seguia, mas a morte o impediu de atingir esse objetivo.

Críticas ao Estruturalismo

Muitas vezes, as pessoas ganham notoriedade na história porque se opõem a um ponto de vista mais antigo, mas no caso de Titchener não foi bem assim, pois ele se manteve firme, mesmo quando todos haviam mudado de opinião. Na segunda década do século XX, o pensamento intelectual estadunidense e europeu havia mudado, mas o sistema formal de Titchener permanecia o mesmo. Consequentementé váriós psicólogos chegaram a considerar a psicologia estrutural uma tentativa fútil de ater-se a princípios e métodos antiquados. O psicólogo James Gibson, que conheceu Titchener já quase no final da vida, observou que, embora ele "inspirasse verdadeira admiração (...) a minha geração prescindia da sua teoria ou do seu método. Sua influência estava em declínio" (Gibson, 1967, p. 130).

Titchener acreditava que estava estabelecendo uma base para a psicologia, no entanto seus esforços fizeram parte apenas de uma fase da história da disciplina. O estruturalis­mo morreu juntamente com Titchener. O fato de se ter mantido por tanto tempo deve-se exclusivamente à admiração por sua personalidade dominadora.

Críticas à Introspecção

As críticas mais relevantes em relação ao método de introspecção estavam voltadas ao tipo de observação praticada nos laboratórios de Titchener e Külpe, que lidava com relatos sub­jetivos de elementos da consciência, diferentemente do método de percepção de Wundt, o qual lidava com as reações mais objetivas e quantitativas ao estímulo externo.

A introspecção, no sentido mais amplo, foi empregada por décadas, e as críticas ao método não eram novidade. Um século antes do trabalho de Titchener, o filósofo alemão Immanuel Kant declarou que qualquer tentativa de introspecção alterava necessariamen­te a experiência consciente observada, porque introduzia uma variável de observação no conteúdo da experiência consciente.

O filósofo positivista Auguste Comte criticou o método introspectivo, alegando que, se a mente fosse capaz de observar as próprias atividades, teria de se dividir em duas partes: uma observadora e outra observada e, para ele, obviamente, isso era impossível (Wilson, 1991).

A mente é capaz de observar todos os fenômenos, exceto os próprios. (...) O órgão observador e observado neste caso é o mesmo e a sua ação não pode ser pura e natural. Para realizar uma observação, o intelecto deve fazer uma pausa em sua atividade; no entanto essa é exatamente a atividade que se deseja observar. Se essa pausa não for possível, será impossível realizar a observação; e, se for possível, não haverá objeto a ser observado. Os resultados desse método são igualmente proporcionais ao seu absurdo. (Comte, 1830/1896, v. 1, p. 9)

O médico inglês Henry Maudsley também fez críticas à introspecção e falou sobre a psicopatologia: 

Não existe consenso entre os observadores da introspeção. Se houver concordância, deve-se ao fato de eles estarem rigorosamente treinados e, assim, produzirem observações parciais. (...) Devido à extensão patológica da mente, o autorrelato é dotado de pouca credibilidade. (Maudsley, 1867, apuei Tmnex, 1967, p. 11)

Desse modo, muito antes de Titchener modificar e aprimorar o método, tornando-o mais preciso para adequá-lo aos métodos científicos, havia dúvidas substanciais a respeito da introspecção e as críticas continuaram. Um dos alvos das críticas era a definição, já que Titchener aparentemente tinha difi­culdades em definir exatamente o significado do método introspectivo. Ele tentava explicá-lo, relacionando-o com condições experimentais específicas.

A direção seguida pelo observador varia nos detalhes em relação à natureza da consciên­ cia observada, ao objetivo do experimento, [e] à instrução dada pelo pesquisador. Assim, introspecção é um termo genérico e abrange um grupo indefinido enorme de procedi­mentos metodológicos específicos. (Titchener, 1912b, p. 485)

O segundo alvo das críticas à metodologia de Titchener estava relacionado com a tarefa exata que os observadores estruturalistas eram treinados para executar. Os alunos de pós-graduação de Titchener, que serviam de observadores, eram instruídos a ignorar algumas classes de palavras (as denominadas palavras com significado) que faziam parte do seu vocabulário. Por exemplo, a frase "Vejo uma mesa" não era dotada de significado científico para o estruturalista; a palavra "mesa" possui significado, com base no conhe­cimento estabelecido e geralmente aceito, relacionado com a combinação específica de sensações que aprendemos para identificar e chamar o objeto de mesa. Portanto, a obser­vação "Vejo uma mesa" não expressava, para o psicólogo estruturalista, nada a respeito dos elementos da experiência consciente do observador. O interesse do estruturalista não se concentrava no conjunto das sensações resumido na palavra com significado, mas nas formas básicas específicas da experiência. Os observadores que respondiam "mesa" esta­vam cometendo o que Titchener chamava de erro de estímulo.

Mas, se as palavras comuns eram ignoradas do vocabulário, como os observadores treinados descreveriam as experiências? Seria necessário desenvolver uma linguagem introspectiva. Titchener (e Wundt) enfatizava que as condições experimentais externas deviam ser cuidadosamente controladas, de forma a permitir a determinação precisa da experiência consciente. Assim, dois observadores teriam de vivenciar experiências idên­ticas e produzir resultados que se corroborassem mutuamente. E com a realização dessas experiências, praticamente idênticas sob condições controladas, teoricamente seria possível desenvolver para os observadores um vocabulário de trabalho com palavras sem signifi­ cado. Afinal, é em virtude das experiências compartilhadas no dia-a-dia que as palavras familiares adquirem significados comuns a todos.

A ideia da criação da linguagem introspectiva nunca se concretizou. Havia muita discordância entre os observadores, mesmo quando as condições eram extremamente controladas. Os observadores de laboratórios diferentes apresentavam resultados distintos. Mesmo os indivíduos do mesmo laboratório, observando o mesmo material de estímulo, muitas vezes, não conseguiam obter a mesma observação. Ainda assim, Titchener insistia que a concordância acabaria ocorrendo. Se houvesse uniformidade suficiente nas desco­ bertas introspectivas, talvez a escola do estruturalismo tivesse durado mais tempo.

Os críticos também alegavam ser a introspecção, na verdade, uma forma de retrospecção, porque havia um intervalo entre a experiência e o seu relato. Ebbinghaus já demonstrara que a taxa de esquecimento é mais elevada imediatamente após a experiência, portanto provavel­mente parte dela se perdia antes da introspecção e do relato. Os estruturalistas respondiam a essa crítica de duas formas: primeiro, alegando que os observadores trabalhavam com o míni­mo intervalo e, segundo, propondo a existência de uma imagem mental primária que supos­ tamente mantinha a experiência na mente dos observadores até que pudessem relatá-la.

Observamos anteriormente que o próprio ato de examinar a experiência de forma introspectiva pode, de algum modo, alterá-la. Analisemos, por exemplo, a dificuldade de introspecção de um estado consciente de ira. No processo racional de prestar atenção e tentar dividir a experiência em suas partes componentes, a ira provavelmente diminui­ria ou desapareceria. No entanto, Titchener continuava firme na sua crença de que seus observadores treinados continuariam a realizar automaticamente a observação, sem alterar conscientemente a experiência.

A noção da mente inconsciente, proposta por Sigmund Freud no início do século XX (veja no Capítulo 13), fomentou outra crítica ao método introspectivo. Se, como afirmava Freud, parte da nossa função mental era inconsciente, obviamente a introspecção não servia para explorá-la. Um historiador afirmou:

A base da análise introspectiva estava na crença de que todo o funcionamento da mente era passível de observação consciente e, se fosse possível observar cada aspecto do pen­samento humano e da emoção, a introspecção proporcionaria, na melhor das hipóteses, apenas um retrato fragmentado e incompleto do funcionamento mental. Se a consciên­cia representava apenas a ponta visível do iceberg, com a maior parte da área da mente permanentemente encoberta pelas poderosas barreiras defensivas, a introspecção estava realmente condenada. (Lieberman, 1979, p. 320)

Mais Críticas ao Sistema de Titchener

A introspecção não era o único alvo das críticas. O movimento estruturalista foi acusado de artificial e estéril na tentativa de analisar os processos conscientes a partir dos elementos básicos. Os críticos afirmavam não ser possível resgatar a totalidade da experiência partindo posteriormente de qualquer associação ou combinação das partes elementares. Argumentavam que a experiência não ocorria na forma de sensações, imagens ou estados afetivos individuais, mas em uma totalidade unificada. Parte da experiência consciente perde-se inevitavelmen­ te em qualquer esforço artificial de análise. A escola de psicologia da Gestalt (Capítulo 12) partiu desse princípio para lançar sua revolta efetiva contra o estruturalismo.
A definição estruturalista da psicologia tornara-se alvo dos ataques. Nos anos finais da vida de Titchener, os estruturalistas haviam excluído várias especialidades do escopo da psicologia, porque elas não estavam de acordo com a sua visão de psicologia. Titchener não considerava a psicologia infantil e a animal como psicologia. O seu conceito era tão restrito que não permitia incluir os novos trabalhos feitos e as novas direções que estavam sendo exploradas. A psicologia ultrapassava a fronteira de Titchener, e com muita rapidez.

Contribuições do Estruturalismo

Apesar de todas essas críticas, os historiadores dão o devido crédito às contribuições de Titchener e dos estruturalistas. Seu objeto de estudo - a experiência consciente - era cla­ramente definido. Seus métodos de pesquisa, baseados na observação, experimentação e medição, eram cientificamente os mais tradicionais. O método mais adequado para o estudo da experiência consciente consistia na auto-observação, já que a consciência é mais bem percebida pela pessoa que a vivência.

Embora o objeto de estudo e os propósitos dos estruturalistas não sejam mais funda­mentais, o método de introspecção, mais amplamente definido como relato oral baseado na experiência, ainda é empregado em diversas áreas da psicologia. Há pesquisadores da psicofísica que pedem aos observadores para relatarem se o segundo tom é mais alto ou mais baixo que o anterior. Há relatos de pessoas expostas a ambientes incomuns, como a falta de gravidade nos voos espaciais. Os relatórios clínicos de pacientes, bem como as respostas dos testes de personalidade e a análise do comportamento, são de natureza introspectiva.

Os relatorios introspectivos que envolvem processos cognitivos como o raciocínio são requentemente usados na psicologia atual. Por exemplo, os psicólogos industriais/orga­nizacionais obtem relatos introspectivos dos funcionários a respeito da interação com os terminais de computador. Essas informações podem ser utilizadas para o desenvolvimento de componentes de computador de mais fácil manuseio e móveis ergonômicos. Os relatos verbais baseados na experiência pessoal são formas legítimas de coleta de dados. Além disso, a psicologia cognitiva, com seu renovado interesse nos processos conscientes, vem conferindo maior legitimidade à introspecção (veja no Capítulo 15). Dessa forma, o méto­do introspectivo, embora diferente daquele visto por Titchener, permanece vivo e ativo.

Outra contribuição importante do estruturalismo foi ter servido de alvo de críticas. O estruturalismo proporcionou o estabelecimento de forte ortodoxia contra a qual os mais recentes movimentos da psicologia puderam concentrar as suas forças. Essas novas escolas de pensamento devem sua existência à reformulação progressiva da posição estruturalista. Os avanços científicos demandam a existência de uma oposição. Com o estruturalismo de Titchener sendo o alvo da oposição, a psicologia superou seus limites iniciais.

Psicologia - História da Psicologia
1/6/2020 2:32:58 PM | Por Saulo de Freitas Araújo
Livre
Wilhelm Wundt e o estudo da experiência imediata

Wilhelm Wundt (1832-1920) é normalmente considerado, na historiografia da psicologia, como o fundador da psicologia científica, tí­tulo este que está diretamente relacionado ao fato de ter criado, em 1879, o Laboratório de Psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Além disso, é um dos autores mais citados e mencionados nos manuais de história da psicologia. Entretanto, apesar de toda essa fama, Wundt ainda é um autor não só bastante desconhecido, como também aquele, dentre os chamados “fundadores” da psicologia, cujas ideias mais sofreram distorções na literatura psicológica. Não só a extensão e as dificuldades de acesso à sua obra original, mas principalmente a atitude de vários historiadores da psicologia, que têm se detido apenas em partes dela, sem se preocupar com o sentido geral do seu sistema de pensamento, têm contribuído para essa situação desconfortável. Sendo assim, a primeira coisa que o leitor interessado em se aproximar da psicologia de Wundt deve ter em mente é que estamos ainda longe de ter uma clara e adequada compreensão de toda a sua obra e o que aqui nos interessa mais de perto, do lugar que seu projeto psicológico nela ocupa.

É bem verdade que, sobretudo a partir da década de 1980, começa­ram a surgir novos e importantes estudos sobre a obra de Wundt que têm procurado reavaliar o seu pensamento e mostrar as origens de algumas interpretações equivocadas tradicionalmente presentes nos manuais de história da psicologia. Alguns desses estudos, contudo, apesar de terem contribuído significativamente para mostrar a complexidade do projeto wundtiano de psicologia, são ainda superficiais e podem acabar introdu­zindo novos problemas na interpretação do pensamento de Wundt, na medida em que deixam de considerar textos fundamentais de sua obra, como seus escritos psicológicos iniciais, que abrangem o período de 1858 a 1863, quando ele ainda não tinha ido para Leipzig. Muitas questões permanecem mal resolvidas na obra de Wundt. Em primeiro lugar, coloca-se a questão da continuidade ou ruptura de seu projeto de psicologia. Teria ele apresentado vários sistemas teóricos distintos, introduzindo modificações essenciais em cada um deles? Ou haveria um único sistema psicológico, cujas alterações posteriormente introduzidas não afetariam sua unidade fundamental? Isso nos remete a uma outra questão, que diz respeito aos interesses e pressupostos filosófi­cos fundamentais de Wundt, que subjazem ao seu projeto de psicologia. Wundt é, antes de tudo, um filósofo que formulou um sistema de filosofia, incluindo uma lógica, uma teoria do conhecimento, uma ética e uma metafísica. Sem uma adequada compreensão de seus escritos filosóficos, os problemas relativos à interpretação de sua psicologia não poderão ser satisfatoriamente resolvidos.

Como as questões acima referidas aguardam uma solução definitiva, cujas exigências demandam um aprofundamento que extrapola os objetivos do presente texto, vamos privilegiar aqui, em vez de uma apresentação sistemática de todo o percurso wundtiano, alguns dos principais tópicos de seu pensamento psicológico, tomando como base sua fase madura, que se expressa na última grande síntese teórica de seu projeto de psicologia — o livro Compêndio de psicologia, cuja primeira edição é de 1896.

A natureza da psicologia

Talvez a melhor maneira de iniciar uma apresentação introdutória da psicologia wundtiana seja explicitando a própria definição de psicologia pro­ posta por Wundt. Neste sentido, a pergunta “O que é psicologia?" receberia a seguinte resposta: "A psicologia é uma ciência empírica cujo objeto de estudo é a experiência imediata”. No entanto, torna-se ainda necessário esclarecer o conceito de “experiência imediata”.

Wundt entende por experiência em geral um todo unitário e coerente, que pode ser concebido e elaborado cientificamente a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: toda experiência pode ser analisada pelo seu conteúdo objetivo (experiência mediata) ou subjetivo (experiência ime­diata). No primeiro caso, a ênfase recai sobre os objetos da experiência (mundo externo), pensados independentemente do sujeito da experiência, enquanto, no segundo caso, investiga-se o próprio sujeito da experiência (mundo interno) em sua relação com os conteúdos da experiência. Com base nesses dois pontos de vista, surge uma dupla possibilidade de se fazer ciência empírica: a ciência natural (física, química, fisiologia etc.), que cuida dos conteúdos específicos da experiência mediata, uma vez que os objetos fornecidos na experiência são sempre mediados pelos fatores subjetivos; e a psicologia, que tem por objeto a experiência imediata, já que não abstrai o próprio sujeito, como a ciência natural.

Com essa definição de psicologia, Wundt pretende, em primeiro lugar, atacar um tipo de psicologia bastante difundida em sua época, que vinha sendo definida como ciência da alma ou mente. Segundo Wundt, essa psicologia está assentada em hipóteses metafísicas (espiritualismo ou materialismo) que extrapola no domínio da experiência possível. Como sua intenção é inaugurar uma nova psicologia, autônoma e independente de teorias metafísicas, o único caminho possível era recusar essa psicologia e construir uma outra, que se atém somente à experiência psicológica pro­priamente dita. Para a psicologia wundtiana, só há a experiência, vista como um conjunto de processos interligados, e nada mais. É importante enfatizar que, de acordo com essa definição, não há uma diferença essencial de natureza entre o mundo interno e o externo — uma vez que a experiência é um todo organizado que abrange ambos —, mas apenas uma diferença na maneira de se abordá-los. Por isso, a relação entre a psicologia e as ciências da natureza (Naturwissenschaften) é de complementaridade. Elas se complementam, na medida em que fornecem relatos diferentes da mesma experiência, sem que haja a possibilidade de haver uma subordinação ou redução de uma a outra.

Por outro lado, na medida em que a psicologia é a ciência das formas universais da experiência humana imediata, ela pode ser considerada a mais geral de todas as ciências do espírito (Geisteswissexschaftex) e, portanto, o fundamento de cada uma delas em particular (filologia, história, direito etc.).

Há que se considerar ainda a relação entre psicologia e filosofia. De todas as disciplinas empíricas, Wundt considera que a psicologia é aquela cujos resultados mais contribuem para a investigação dos problemas gerais da teoria do conhecimento e da ética, os dois domínios filosóficos fundamen­tais para ele. Se a psicologia, portanto, é complementar às ciências naturais e o fundamento das ciências do espírito, podemos dizer que é preparatória para a filosofia. Em outras palavras, os resultados da investigação psicológica podem guiar a construção de um sistema filosófico.

A questão do método e a subdivisão da psicologia

Como a psicologia não estuda um objeto diferente do objeto das ciências naturais, mas apenas a mesma experiência de um outro ponto de vista, seus métodos de investigação também não podem diferir. A psicologia vai se servir, portanto, dos dois principais métodos utilizados pelas ciências da natureza: o experimento e a observação. O experimento consiste na interferência proposital (manipulação) do pesquisador sobre o início, a duração e o modo de apresentação dos fenômenos investigados (como na física, na química e na fisiologia). A observação propriamente dita refere-se à mera apreensão de fenômenos ou objetos, sem que haja qualquer interferência por parte do observador (como na botânica, na anatomia e na astronomia).

No que diz respeito ao experimento, a psicologia de Wundt utiliza-o diretamen­te em suas investigações, como demonstram os estudos sobre a sensação, a percepção e a representação, ou seja, aquilo que Wundt chama de psicologia individual, fisiológica ou experimental. Nesse caso, pode-se investigar cui­dadosamente tanto o início quanto o curso desses processos, visando sempre à sua relação com seus elementos constituintes.

Há, porém, uma diferença metodológica significativa entre a psi­cologia e as ciências da natureza, decorrente da especificidade da pers­pectiva psicológica. Em primeiro lugar, já que a psicologia é o estudo da experiência imediata, seu conteúdo revela apenas processos, jamais objetos estáveis, como acontece na observação científica da natureza. Em segundo lugar, a psicologia não pode desconsiderar ou colocar entre parênteses, como fazem as ciências naturais, o sujeito da experiência, uma vez que este é precisamente o assunto de seu interesse. Além disso, seria muito difícil que, mesmo em situações frequentemente repetidas, os mesmos elementos objetivos da experiência imediata viessem acompanhados da mesma condição do sujeito. Em outras palavras, a intenção do observador, que deve estar presente nas observações científicas, altera significativa­mente o início e o curso dos processos psíquicos. Levando em conside­ração essa particularidade dos eventos psicológicos, o psicólogo estaria, portanto, impossibilitado, por princípio, de utilizar a observação pura ou auto-observação (Selbstbeobachtung) no domínio da psicologia individual.

É importante estar atento para este ponto, tendo em vista o fato de que Wundt é muitas vezes acusado de ser um dos principais defensores da auto-observação ou introspecção tradicional, que remonta à tradição filosófica. No entanto, o que permanece em grande parte ignorado por seus intérpretes, e que está implícito nas considerações anteriores, é a diferença fundamental que ele estabeleceu entre a auto-observação (Selbstbeobachtung) e a percepção interna (innere Wahrnehmung). Essa última, segundo Wundt, por estar baseada no controle experimental das condições externas da experiência, substituiria a introspecção tradicional e livraria a psicologia das duras críticas feitas por diversos autores ao introspeccionismo.

Isso não significa, porém, que não haja lugar para a pura observação na psicologia. Ao contrário, existem fatos psíquicos que, embora não sejam objetos reais do mundo externo, possuem o caráter de objetos psíquicos, na medida em que sua natureza é relativamente estável e que independem do observador. Além disso, eles têm uma outra característica em comum, que os tornam adequados à observação: eles são inacessíveis pelo méto­do experimental. Mas que objetos psíquicos são esses? São aquilo que Wundt chama de produtos mentais surgidos ao longo da história, como a linguagem, a religião, os mitos e os costumes, que dependem de certas condições psíquicas gerais, as quais podemos inferir com base em suas características objetivas.

Uma característica fundamental desses produtos mentais é que eles pressupõem a existência de uma comunidade de muitos indivíduos que compartilham uma certa mentalidade, embora sua fonte última sejam sempre as características psíquicas do indivíduo em particular. E por estarem ligados a uma comunidade popular que Wundt chamou essa área de investigação psicológica de psicologia dos povos (Völkerpsychologie), que complementa a psicologia individual ou experimental na busca de uma compreensão geral dos princípios fundamentais da vida psíquica. No entanto, há uma curiosa diferença na atitude de Wundt em relação a essas duas áreas de investigação psicológica. Enquanto na psicologia individual ele procurou sempre investigar direta e empiricamente os fenômenos, na psicologia dos povos Wundt o fez apenas indiretamente, baseando-se acima de tudo nos relatos e estudos etnológicos. Os últimos 20 anos de sua vida (1900-1920) foram dedicados principalmente a essa psicologia dos povos, esforço esse que resultou em dez extensos volumes.

Em suma, a psicologia dispõe, assim como a ciência natural, de dois métodos de investigação, que darão origem a duas formas complementares de estudo psicológico: o experimento, que a psicologia individual/fisioló­gica utiliza na análise dos processos psíquicos mais simples; e a observação dos produtos mentais, através da qual a psicologia dos povos investiga os processos psíquicos superiores. É importante termos sempre em mente que essa subdivisão da psicologia é uma necessidade apenas metodológica, que em princípio não compromete a unidade do seu objeto de estudo (os processos psíquicos revelados na experiência).

Principais conceitos e ideias psicológicas

Uma das principais ideias psicológicas de Wundt é a de que a vida psíquica desenvolve-se gradual e continuamente do simples para o complexo, através de uma série de processos regulares, que constituem nossa experiência psicológica na vida cotidiana. Neste sentido, nossa experiência imediata só nos fornece conteúdos de natureza complexa, que resultam da ligação de vários elementos simples.

Esses elementos psíquicos, que são revelados através da análise psicológica e, portanto, de uma abstração - uma vez que em nossa experiência eles nunca aparecem isolados, mas somente ligados a outros conteúdos -, constituem a base de toda nossa vida mental. Como o conteúdo de nossa experiência imediata varia entre dois pólos, um objetivo e outro subjetivo, os elementos podem ser, seguindo essa divisão, de dois tipos: as sensações ligadas ao conteúdo objetivo (som, luz etc.) e os sentimentos simples rela­cionados ao conteúdo subjetivo (prazer, desprazer etc.).

O próximo passo é a formação, a partir das sensações ou dos sentimen­tos simples, daquilo que Wundt chamou de complexos psíquicos (psychische Gebilde), que se diferenciam uns dos outros por certas características próprias, formando uma unidade relativamente autônoma. Eles podem assumir quatro formas diferentes: representações, sentimentos compostos, afetos e processos volitivos. Enquanto as representações têm sua origem nas sensações, todos os outros complexos psíquicos originam-se a partir dos sentimentos simples.

É importante ressaltar aqui que, para Wundt, os complexos psíquicos, embora sejam compostos de elementos psíquicos, possuem características que não pertencem a nenhum de seus elementos em particular. E a ligação dos elementos que produz essas novas características, que pertencem so­mente aos complexos enquanto tais. Aqui entra em cena uma das principais ideias da teoria psicológica de Wundt, que permanece ignorada por muitos comentadores, a saber, o conceito de fusão (Verschmelzung) e o princípio da síntese criadora. 

É a fusão - que tem como resultado a síntese criadora — que liga os elementos e constitui os complexos psíquicos, enquanto que a associação é um processo secundário, que se refere apenas à ligação de elementos já presentes em diversos compostos. O processo fundador da complexidade psíquica é, pois, a fusão, e não a associação. Sendo assim, Wundt está longe do associacionismo britânico, como faz questão de ressaltar inúmeras vezes.

Os complexos psíquicos podem ainda se conectar, formando um todo unitário. Essa conexão dos complexos psíquicos Wundt denomina consciência. E o processo através do qual um conteúdo psíquico é trazido à clareza da consciência é chamado de apercep­ção (Apperception), que vem acompanhado do estado de atenção. Mas é possível também apreender conteúdos sem a presença da atenção, e nisso consiste exatamente a percepção (Perception). Desta forma, fazendo uma analogia com o sistema visual, Wundt chama o conteúdo ao qual a atenção está dirigida de ponto focal (Blickpunkt) da consciência, e o conteúdo restante de campo visual (Blickfeld) da consciência.

 

 

Outra importante ideia psicológica de Wundt é o conceito de “cau­salidade psíquica”, que está diretamente relacionado ao seu paralelismo Psícofísico. Para Wundt, a experiência pode, como já foi dito, ser conhecida a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: objetivo (experiência mediata) e subjetivo (experiencia imediata). 

Certas partes da experiência direta com partes da experiência imediata, sem que uma possa ser reduzida à ou derivada da outra. De acordo com o princípio do parelelismo psicofísico, quando isso acontece há uma relação necessária entre cada processo psíquico elementar e seu processo físico correspondente. No entanto, existem vários conteúdos da nossa experiência que so podem ser conhecidos a partir de um único ponto de vista, seja ele físico ou psicológico. Nesse caso, somos obrigados a reconhecer a autonomia do conhecimento psicológico e estamos justificados a supor uma causalida­de própria para o domínio dos processos mentais, do mesmo modo que supomos a causalidade física na natureza. Os dois tipos de causalidade são complementares e nunca podem entrar em contradição entre si. Assim como a causalidade física está fundamentada nas leis da natureza, a causalidade psíquica vai encontrar sua fundamentação última nas leis fundamentais da vida psíquica.

A institucionalização da psicologia

O título de fundador da psicologia, normalmente consagrado a Wundt em quase todos os manuais de história da psicologia, encontra frequentemente justificativa na fundação, em 1879, do Laboratório de Psicologia da Universidade de Leipzig, onde ele permaneceu até se aposentar em 1917. Entretanto, esse fato seria por si só insuficiente para sustentar tal escolha. Tendo em vista a rápida disseminação de labora­tórios de fisiologia por praticamente toda a Alemanha do século XIX, é sempre possível apontar a existência de laboratórios anteriores ao de Leipzig, onde também eram realizadas investigações de cunho psicoló­gico, o que colocaria em questão o pioneirismo de Wundt.

Ao investigarmos mais detalhadamente a vida acadêmica de Wun­dt. sobretudo o período de Leipzig, podemos perceber mais claramente onde reside a verdadeira justificativa para a eleição de Wundt como o fundador da psicologia científica. Não se trata da fundação do laboratório em si, mas sim daquilo que ele passou a representar a partir de então. Durante todo o úl­timo quarto do século XIX, o Laboratório de Leipzig atraiu estudantes de várias partes do mundo (Estados Unidos, Ca­nadá, Inglaterra, entre outros) e tornou-se o primeiro e maior centro de formação de toda uma geração de psicólogos, que posteriormente regressaram a seus locais de origem e fundaram novos laboratórios nos moldes wundtianos.

Foi também o sucesso do laboratório de Leipzig que impulsionou a institucionalização formal da psicologia, quando, em 1883, o Instituto de Psicologia teve sua existência oficial­mente reconhecida pela Universidade de Leipzig e passou a ser incluído no orçamento universitário. No entanto, essa institu­cionalização não deve ser entendida como uma autonomia e separação institucional da psicologia em relação à filosofia, uma vez que até a metade do século XX a psicologia continuou subordinada à Faculdade de Filosofia nas universidades alemãs. Trata-se, ao contrário, de uma desvinculação programática, na medida em que Wundt pretendia fundar um novo campo de investigação científica, sem a influência deletéria das especulações metafísicas.

Além de tudo isso, é digno de nota o fato de Wundt ter fundado e publicado, em 1883, um dos primeiros periódicos de psicologia, que ini­cialmente se chamava Philosophische Studien (Estudos filosóficos), e, a partir de 1906, passou a se chamar Psychologische Studien (Estudos psicológicos). Esse periódico era o veículo oficial de publicação dos trabalhos realizados no Instituto de Psicologia.

Não podemos nos esquecer também que o próprio Wundt, desde seus primeiros trabalhos psicológicos (1858-1863), que antecedem por mais de dez anos sua chegada a Leipzig (1875), sempre reivindicou para si o ato de fundação de uma nova psicologia, restrita ao campo da experiência possível. Foi Wundt, mais do que qualquer outra pessoa, que lutou para fixar o significado do termo “psicologia” em conformidade com a tradição científica do século XIX na Alemanha.

No que diz respeito ao desenvolvimento e à institucionalização da psicologia no Brasil, é praticamente impossível estabelecer qualquer ligação direta entre esta e a obra de Wundt. Se levarmos em consideração que a penetração da psicologia no Brasil ocorreu principalmente pela via da psicologia aplicada — seja na psiquiatria ou na pedagogia, com ênfase na psicometria — e que Wundt jamais se preocupou seriamente com qualquer aplicação da psicologia, torna-se evidente a distância. O máximo que podemos afirmar é que, caso tenha havido alguma influência, esta ocorreu de maneira muito indireta, com a criação de laboratórios de psicologia e a utilização de alguns instrumentos de medição de fenômenos psicológicos.

Wundt e Titchener

Um dos equívocos cometidos com mais frequência nos manuais de história da psicologia é a afirmação de que Wundt seria, ao lado de Titchener, um dos principais representantes do estruturalismo. Esse equívoco, que por si só já representa uma total falta de compreensão da psicologia wundtiana, está diretamente relacionado a outros ainda mais graves —p. ex., quando ele é apontado como um defensor do elementarismo e do associacionismo britânicos —, na medida em que subvertem os principais fundamentos filosóficos de seu pensamento.

Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que existem diferenças importantes entre Wundt e Titchener, pelo menos enquanto este último se definiu como estruturalista e foi fiel aos seus princípios. Foi Titchener quem fundou o estruturalismo, e não Wundt. Embora tenha sido aluno e colaborador de Wundt no Laboratório de Leipzig, ele construiu sua própria concepção de psicologia, que em muitos aspectos se distanciou do pensamento wundtiano. A divergência fundamental está na própria concepção de objeto e método da psicologia. Para Titchener, a psicologia é fundamentalmente o estudo dos elementos da consciência através da introspecção. E tudo o que não puder ser relacionado com os elementos estruturais da consciência não deve ser considerado assunto da psicologia. Fica evidente, portanto, que o sistema de Titchener é muito mais restrito do que o de Wundt, uma vez que grande parte da análise wundtiana dos conteúdos relativos à psicologia dos povos não teria lugar no sistema titcheneriano. E mesmo considerando apenas a psicologia individual, Titchener parece ter se distanciado metodologicamente de Wundt, ao utilizar amplamente a introspecção criticada por ele.

Há ainda uma outra divergência importante. Titchener foi reconhe­cidamente um defensor do elementarismo e do associacionismo. A análise ou decomposição dos processos psíquicos conscientes em seus elementos mais básicos (estruturas fundamentais) e a descoberta dos seus mecanismos associativos subjacentes eram os objetivos últimos de sua psicologia estruturalista. Para Wundt, a análise era apenas um meio de se alcançar a meta principal da psicologia, que era a descoberta das leis universais da vida psíquica em todas as suas manifestações. Além disso, quando rotulou seu sistema psicológico de voluntarismo, uma de suas maiores preocupa­ções era manifestar sua insatisfação com a psicologia associacionista, que segundo ele era incapaz de explicar a dimensão afetiva (sentimentos) e volitiva (vontade) da vida mental.

Os equívocos acerca de Wundt presentes na historiografia tra­dicional da psicologia só poderão vir a ser definitivamente corrigidos quando os estudos sobre sua obra alcançarem uma maior consistência, permitindo-nos, desta forma, resolver problemas cruciais de interpretação do seu pensamento, como, por exemplo, a questão da relação entre seus textos psicológicos iniciais e seu pensamento maduro. Ainda está por vir uma análise exaustiva do projeto wundtiano de psicologia.

Psicologia - História da Psicologia
1/6/2020 1:40:56 PM | Por Arthur Arruda Leal Ferreira
Livre
A psicologia no recurso aos vetos kantianos

Para entender os rumos da psicologia, especialmente na Alemanha do século XIX. é necessário em primeiro lugar entender as críticas a que foi submetida desde o final do século XVIII. E o mais notável de todos os seus críticos foi Imannuel Kant, considerado o inaugurador da filosofia contemporânea. A ele caberá a colocação dos novos parâmetros para o conhecimento ocidental.

Neste aspecto, processa-se uma transformação capital com relação ao século XVIII, uma vez que se passa a distinguir ciência de metafísica, esta entendida como um saber sem fundamento.

É ai que ameaçavam ser alojados os saberes psicológicos do século XVIII, relegados à mera metafísica na impossibilidade de serem ciências legítimas, graças as críticas kantianas. As criticas foram voltadas para um dos pilares da psicologia de língua alemã do século XVIII, Christian Wolff. Mas essas não se voltaram apenas para a psicologia racional de Wolff mas também para a sua psicologia empírica. Segundo Kant, em seus Princípios metafísicos da ciência da natureza (1989 [1786]: 32-33), a psicologia empírica para se provar como ciência propriamente dita deveria:

  1. descobrir o seu elemento de modo similar à química, para com isto efetuar análises e sínteses;
  2. facultar a esse elemento um estudo objetivo, em que sujeito e objeto não se misturem como na introspecção;
  3. produzir uma matematização mais avançada que a geometria da linha reta, apta a dar conta das sucessões temporais da nossa consciência (o sentido interno).

Durante todo o século XIX, a psicologia, para se fundar e ser aceita no restrito clube das ciências, tentou pleitear o recurso a tais vetos e aos de outros filósofos, como o positivista Augusto Comte. Assim, nesse in­tento, esboçaram-se alguns projetos de psicologia como os de Rudolph Lotze (1817-1881), na Alemanha, e Francis Galton (1822-1911), na Inglaterra. 

A superação dos vetos kantianos: fisiologia sensorial e psicofísica

O primeiro problema listado, a falta de um elemento objeti­vo, será resolvido pela teoria das energias nervosas específicas de Johannes Müller, formulada explicitamente em seu Manual de fisiologia de 1826. Para esse fisiólogo, cada via nervosa aferente possuiria uma enema nervosa especifica que se traduziria em um tipo de sensação específica de cada nervo.

Assim, o nervo ótico excitado pela ação da retina, ou por forças mecânicas e químicas, produziria sempre imagens luminosas. O mesmo ocorreria com os demais sentidos.

A posição de Müller conduziu a uma espécie de “kantismo fisioló­gico”, em que o mundo percebido seria uma mera propriedade das nossas energias nervosas específicas (no lugar do sujeito transcendental), estimula­das sempre por um fator físico qualquer, não importando a sua natureza. A sensação, enquanto variação das energias nervosas específicas, representaria um elemento preciso, corporalmente situado como fenômeno, ao contrário das ideias e impressões descritas pelos filósofos empiristas do século XVIII. Foi por tal razão que a sensação veio a ser utilizada como elemento para a construção de uma possível psicologia, pois ela ligaria:

  • o mundo físico que constantemente estimula os sentidos; 
  • o fisiológico, uma vez que as energias nervosas específicas estão ligadas aos nervos e
  • o psicológico, uma vez que a sensação seria a base de nossas representações.

Quanto ao segundo problema kantiano, quem apresenta a solução é um discípulo de Müller. Hermann von Helmholtz. Esse autor elabo­rou em 1860 uma teoria sobre o surgimento das representações psicológicas, ou apercepções, que, no seu reverso, irá fomentar um novo método para o estudo objetivo das sensações. A teoria proposta é a das inferências inconscientes, de claro cunho empirista, e o método, o da introspecção experimental, bem dife­rente do produzido pela psicologia do século XVIII. 

Vejamos primeiro a teoria das inferências inconscientes.

Para esse fisiólogo alemão, as nossas sensações seriam organizadas por experiências passadas, que seriam armazenadas como as premissas maiores de um silogismo, aptas a ordenar de modo inconsciente e rápido as premissas menores informadas pelos sentidos, produzindo como conclusão as nossas representações psi­cológicas. O modo de análise das sensações, a introspecção experimental, se processaria de modo inverso a essas sínteses inconscientes, visando neutralizar os efeitos dessa inferência silogística operada pela experiência passada.

Para neutralizar essa síntese inconsciente, processa-se então uma análise consciente, em que os sujeitos dos experimentos são treinados para reconhecer o aspecto mais bruto e selva­gem de nossa experiência. Fazendo uma analogia, isso ocorreria da mesma maneira que a reeducação de animais selvagens domesticados em seu retorno ao ambiente natural. Essa necessidade de treinamento dos sujeitos faz com que esse estudo não possa ser feito com crianças, primitivos, ou doentes mentais, visando evitar o erro do estímulo, qual seja, a confusão do objeto percebido com os juízos inconscientes acumulados pela experiência passa-da. Por isso, o estudo objetivo das sensações em um sujeito só poderia ser feito se esse mesmo sujeito fosse também um fisiólogo, apto a distinguir o joio da experiência passada do trigo das sensações. Por todos esses cuidados metodológicos, o treinamento e a presença de um estímulo objetivo a ser percebido pelo sujeito (mesmo que a experiência observada ocorra com o próprio sujeito), é que o método introspectivo se distingue da introspecção dos filósofos-psicólogos do século XVIII.

Restava ainda o problema da matematização, o terceiro colocado por Kant. E aqui que entra a psicofísica de Gustav Fechner, delineada no livro Elementos de psicofísica, de 1860. Pode-se dizer que ela também oferece uma resposta experimental ao segundo veto kantiano, referente à impossibilidade de estudos objetivos. Mas a sua principal conquista está em oferecer a qualquer estudo psicológico a possibilidade de desenvolver uma matemática mais avançada que a “geometria de uma linha reta” (nos termos da críticas kantianas). Isso, através do estabelecimento da primeira lei matemática na psicologia, batizada por ele Lei Weber-Fechner, em função do aproveitamento da equação desenvolvida por Ernst Weber sobre a relação de proporcionalidade entre as diferenças apenas percebidas (dap) entre dois estímulos (Ea e Eh) e os valores absolutos destes, gerando a fórmula: dap = Ea —Eb/ Eb. Para entendermos o que Weber quis mostrar com sua fórmula, basta pensarmos na diferença percebida na relação entre um peso de 1 kg e outro de 2 kg, e a compararmos com a diferença percebida entre um peso de 21 kg e outro de 20 kg. A diferença absoluta é a mesma (um quilo), mas a diferença relativa, que é a efetivamente percebida, depende da relação da diferença com os valores absolutos.


Gustav Fechner (1801-1887) foi também um personagem bastante versátil: formado em medicina em 1822, dedicou-se no início de sua carreira às matemáticas e especialmente à física. Até 1839 destacava-se nesse campo, quando renunciou à cátedra em função de um comprometimento ocular, adquirido no exame da luz solar através de lentes coloridas. Essa enfermidade lhe causou uma reclusão de cerca de cinco anos, quando Fechner passou a meditar sobre uma série de postulados metafísicos e religiosos, o panpsiquismo e a sua visão diurna. Sua recuperação, creditada por ele a esse pensamento, conduziu à publicação de uma série de livros, dos quais o mais conhecido é Elementos de psicofísica (1860), em que o autor busca comprovar empiricamente a relação indissociável entre matéria e espírito. Nesse período, ele se dedica ao estudo de fenômenos diversos como a estética experimental (determinação estatística das formas do gosto comum) e fenômenos paranormais, ao acompanhar o médium espírita Henry Slade.

Ernst Weber (1795-1878) foi fisiólogo e anatomista, tendo lecionado na Universidade de Leipzig. Fez parte também da fundação da moderna fisiologia alemã, realizando uma série de estudos sobre sensibilidade tátil e propondo a lei das diferenças apenas percebidas (dap), posteriormente retrabalhada por Fechner em termos loga­rítmicos, gerando a rebatizada Lei Weber-Fechner, em que as daps são assumidas como medidas de sensação.

Este trabalho , proposto em 1860, tem a sua importância não apenas por ser um suposto marco para a psicologia, mas por ter gerado uma linha de pesquisa presente até os dias de hoje. Ainda que a psicofísica atual seja mais inspirada nos trabalhos de Stanley Stevens (1906-1973), a Sociedade Internacional de Psicofísica (ISP —Intenational Society of Psychophysics) ainda hoje promove congressos internacionais. No Brasil destacam-se pesquisadores como José Aparecido da Silva (USP), Nikon Ribeiro Filho (UFRJ) e Elton Matsushima (UFF), organizadores do Congresso da ISP no Brasil em 2002.


Fechner, além de complexificar a equação, irá transformar as diferenças apenas percebidas (daps) em sensações (S), sugerindo a primeira medição psicológica. Mas, antes de se identificar o trabalho de Fechner como o início da psicologia experimental (ao menos na Alemanha), deve-se perguntar por que um físico como ele iria se dedicar a estabelecer uma lei rigorosamente matemática sobre a relação entre o domínio físico e o psicológico (daí o termo da área de conhecimento proposto, psicofísica). Temos então que relacionar esse texto com o conjunto de sua obra, que caracteriza um trabalho mais ou menos sistemático na direção do que o próprio Fechner designou como visão diurna ou panpsiquismo. Por panpsiquismo entendia-se um conjunto de pensamentos e reflexões sobre o mundo enquanto composto por uma hierarquia de seres em que o espírito e o corpo seriam coextensivos, em todas as esteras. O domínio físico e o mental não seriam duas naturezas, mas uma única natureza composta de duas perspectivas, de resto um mistério tão complexo como saber se uma esfera é côncava ou convexa (Fechner, 1850, p. iv). Ficariam assim excluídas as concepções dualistas da natureza (que creem na existência de substâncias), e principalmente as materialistas (que negam a existência de qualquer fator de natureza espiritual), denominadas por Fechner visão noturna. O trabalho psicofísico de Fechner não representa, pois, uma exceção dentro de sua concepção da natureza, mas uma tentativa de estabelecer a prova e o rigor matemático desta.

Por se tratar da possível superação do último veto kantiano é que se pode dizer que o trabalho de Fechner representa o primeiro pilar de uma psicologia a nascer. As fundações desse pilar se encontrariam no sonho de Fechner de 22 de outubro de 1850, em que intuiu matematicamente a relação entre os elementos físicos (estímulos) e espirituais (sensações), data que é reconhecida por alguns historiadores da psicologia como o marco do surgimento da psicologia experimental (Boring, 1950). Mas deve-se lembrar que o valor desse trabalho está correlacionado ao poder de resposta que ele oferece às críticas kantianas. É nesse circuito que se concretiza a importância do trabalho de Fechner, pois ele abriu espaço para a primeira formulação de psicologia reconhecida como científica pelos novos padrões do século XIX, ou seja, superando os impasses da psicologia empírica do século XVIII. 

Assim, quando em 1879 Wilhelm Wundt inaugura a psicologia como formação e Area de investigação acadêmica, todos os elementos possibilitadores desse ato já estarão garantidos, pelas respostas indiretas tanto da fisiologia quanto da psicofísica aos vetos kantianos.

Antes do sonho de Fechner havia o sonho da psicologia de acordar do sono dogmático de todo saber metafísico denunciado por Kant. O sonho de Fechner pode ter brevemente acordado a psicologia (ou ter feito sonhar que acordou) do sono dogmático, apesar de sua intenção ter sido mais nos acordar do sono materialista. Pois correlacionar o físico (estímulo) e o espiritual (sensação), para Fechner, não visava provar uma psicologia matematizável, mas um duplo aspecto de uma mesma natureza extensível a todos os seres, o seu panpsiquismo. Contudo, a história da psicologia prosseguirá na proliferação de escolas e sistemas que se postulam como a quintessência da cientificidade. Em função da proliferação desses mundos científicos possíveis é que se pode perguntar se os vetos kantianos, formulados no final do século XVIII, não continuam a assombrar a psicologia.

Wilhelm Wundt: alguns dados biográficos

Saulo de Freitas Araújo

Wilhelm Maximiliam Wundt, filho de um pastor protestante, nasceu em 16 de agosto de 1832 no vilarejo de Neckarau, nas cercanias de Mannheim (sul da Alemanha). Já aos quatro anos mudou-se com a família para Heidelsheim, onde passou a maior parte de sua infância solitária e deu início aos seus estudos. Aos oito anos, sua educação ficou por conta de um tutor, assistente de seu pai. Em 1845, quando já contava com 13 anos, mudou-se para a casa de sua tia em Heidelberg para frequentar o ginásio. Ao término desse período, Wundt teve que escolher uma carreira profissional. Como tinha interesse em se mudar, ainda que por pouco tempo, de Heidelberg, ele acabou escolhendo o curso de medicina na Universidade de Tübingen, onde seu tio era professor de anatomia e fisiologia. No entanto, ele só permaneceu lá por um ano, após o qual retornou a Heidelberg, acompanhando a transferência de seu tio para aquela universidade.

Foi em Heidelberg que Wundt terminou seu curso de medicina e começou sua brilhante carreira profissional. Além de fisiologia, estudou matemática, física e também química, área em que con­seguiu sua primeira publicação, em 1853, relativa a um experimento sobre a concentração de sal na urina. Em 1855, ele finalmente conseguiu sua habilitação para a prática médica. No entanto, após um curto período em que trabalhou como assistente clínico em um hospital municipal sob a direção de um de seus ex-professores, Wundt começou a ter dúvidas sobre sua capacidade para a prática da medicina, o que o levou de volta à vida acadêmica. Em 1857, após ter anteriormente estudado fisiologia com Johannes Müller e DuBois-Reymond em Berlim, habilitou-se como docente {Privatdozent) e proferiu seu primeiro curso de fisiologia experimental.

Em 1858, Wundt tornou-se assistente de Helmholtz em Heidelberg, posição que ocupou até o início de 1865. Foi durante esse período que realizou seus primeiros estudos em psicologia, que foram posteriormente reunidos no seu primeiro livro propriamente psicológico - Beiträge zur Theorie der Sinneswahmehmung (Contribuições à Teoria da Percepção Sensonal) —, publicado em 1862. Esses estudos vieram precedidos de um ensaio introdutório - o primeiro texto puramente teórico de Wundt —, em que ele propõe uma reforma conceitual e metodológica na psicologia. No ano seguinte, publicou as Vorlesungen über die Menschenund Thierseelc (Conferências sobre a mente humana e animal), obra que representa uma extensão dos princípios fundamentais expostos nas Beiträge.

Um aspecto da vida de Wundt que também merece atenção é o seu envolvimento com a política. Tendo sido convidado para ministrar conferências populares na Associação Educativa dos Operá­rios, ele se engajou não só no movimento para a educação dos operários, mas foi se envolvendo cada vez mais nas discussões políticas, o que o levou a se eleger pelo Partido Progressista, em 1866. como membro do Parlamento de Baden. Dois anos depois, ele abandonou a carreira política para se dedicar exclusivamente à vida acadêmica.

Antes de deixar Heidelberg, Wundt publicou o livro que lhe deu fama e reconhecimento aca­dêmico — Grundziige der physiologischen Psychologie (Elementos de psicologia fisiológica). Este livro, que teve seis edições revistas e ampliadas durante sua vida, influenciou por muito tempo a formação e a direção do trabalho de toda uma geração de novos psicólogos.

Em 1874, Wundt recebeu um convite para assumir a cátedra de filosofia indutiva na Universidade de Zurique, na Suíça. No entanto, ele só permaneceu lá por um ano, pois em 1875 foi chama­do para lecionar na Universidade de Leipzig, onde permaneceu até 1917, quando se aposentou. Sua primeira grande realização foi a fundação, em 1879, do famoso Laboratório de Psicologia, que atraiu estudantes de várias partes do mundo e deu a ele a fama de fundador da psicologia científica. Juntamente com o laboratório, Wundt fundou também, em 1883, um periódico de psicologia, que inicialmente se chamava Philosophische Studien (Estudos filosóficos) e, a partir de 1906, passou a se chamar Psychologische Studien (Estudos psicológicos).

Foi em Leipzig que Wundt escreveu a maior parte de sua obra. Além de suas já tradicionais publicações na área da psicologia fisiológica, ele escreveu longos tratados de filosofia - Logik (1880-1883), Ethik (1886) e System der Philosophie (1889) — e uma síntese teórica do seu projeto de psicologia — o Gmndriss der Psychologie (Compêndio de psicologia) (1896) - entre outros. Apartir de 1900, dedicou-se especialmente à Völkerpsychologie (Psicologia dos Povos) - para muitos, sua maior realização acadêmica - até publicar o décimo volume, em 1919. Neste mesmo ano, terminou sua auto-biografia - Erlebtesund Erkanntes (O que eu vivi e conheci) - e veio a falecer no dia 31 de agosto, pouco depois de completar 88 anos de idade.

Psicologia - História da Psicologia
1/5/2020 7:01:02 PM | Por Duane P. Schultz
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O nascimento da Psicologia

Wilhelm Wundt não tinha ouvido falar de multitarefas. E mesmo que tivesse, não teria acreditado que fosse possível prestar atenção a mais de um estímulo, ou se envolver em mais de uma atividade mental, exatamente ao mesmo tempo. É claro que ninguém tinha ouvido falar de multitarefas na metade do século XIX, antes do telefone, e muito menos mensagens instantâneas, e-mail, videogames, e outros aparelhos eletrônicos, solicitando simultaneamente nosso tempo e nossa atenção.

O ano era 1861. Nos Estados Unidos, a Guerra Civil estava começando. Na Alemanha, um ambicioso Wilhelm Wundt, um pesquisador de 29 anos na área de fisiologia, lecionava meio período na University of Heidelberg. Descrito por amigos como distraído e sonhador, tentava encontrar seu caminho ensinando técnicas básicas de laboratório para alunos universitários. No laboratório improvisado em sua casa, ele tentava conduzir pesquisas para deslanchar o desenvolvimento da nova ciência psicológica.

Ultimamente, Wundt andava pensando a respeito do que Friedrich Bessel, o astrônomo alemão, havia cha­mado de "equação pessoal" - os erros de medição entre os astrônomos que haviam levado à demissão de David Kinnebrook em 1796. Como explicado por um historiador da psicologia, Wundt estava intrigado pelas diferenças entre os astrônomos ao medirem a passagem da grade quadriculada dos telescópios. Essas peque­nas diferenças [simplesmente meio segundo entre Kinnebrook e Maskelyne] ocorriam dependendo do que focalizavam primeiro - a estrela ou o cronômetro. (Blumenthal, 1980, p. 121)

Se o observador olhasse primeiro a estrela, ele obteria uma leitura, mas se olhasse primeiro a grade quadriculada, ele faria uma leitura ligeiramente diferente. Era impossível para o observador focar sua atenção nos dois objetos ao mesmo tempo. O interesse de Wundt por esse problema o levou a modificar um relógio de pêndulo de forma a apresentar dois estímulos - um auditivo e um visual - no caso, um sino e um pêndulo balançando diante de um ponto fixo. Ele chamou o instrumento de Geáankenmesser, o que significa "medidor do pensamento" ou "medida da mente", e ele o usava para medir o processo mental para perceber dois estímulos.

Colocando-se como único sujeito desse experimento, ele concluiu que era impossível perceber essas duas coisas ao mesmo tempo. Ele conseguia prestar atenção ao som do sino, ou ao movimento do pêndulo passando por um ponto específico. Os resultados de suas medidas mostraram que levava um oitavo de segundo para registrar os dois estímu­los sequencialmente. Para o observador casual, os estímulos pareciam ocorrer simultaneamente, mas não para o pesqui­sador treinado.

Wundt escreveu que "a consciência retém só um pen­samento, uma única percepção. Quando parece que temos diversas percepções simultâneas, somos enganados pela sua rápida sucessão" (apud Diamond, 1980b, p. 39). Com essa descoberta, Wilhelm Wundt havia medido a mente. É verdade que Fechner já havia feito isso antes, mas foi Wundt quem usou o experimento como base para uma nova ciência (e David Kinnebrook jamais soube do seu papel nisso).

O Pai da Psicologia Moderna

Wilhelm Wundt foi o fundador da psicologia como disciplina acadêmica formal. Instalou o primeiro laboratório, lançou a primeira revista especializada e deu início à psicologia experimental como ciência. Os temas de suas pesquisas, como sensação e percepção, atenção, sentimento, reação e associação, tornaram-se capítulos básicos de livros didáti­cos e são até hoje fontes inesgotáveis de estudo. Tanto que  a maior parte da história da psicologia pós-wundtiana é caracterizada pela contestação ao seu ponto de vista da psicologia, fato que não desvaloriza sua importância nem seus feitos como seu fundador.

Por que foi Wundt e não Fechner a receber os méritos pela fundação da nova psicologia? A obra Elements of psychophysics, de Fechner, foi publicada em 1860, cerca de 15 anos antes de Wundt iniciar os estudos de psicologia. O próprio Wundt declarou que o trabalho de Fech­ner representava a "primeira conquista" da psicologia experimental (Wundt, 1888, p. 471). Quando Fechner faleceu, seus papéis foram doados a Wundt, que proferiu palavras honrosas em sua memória durante o funeral. Além disso, E. B. Titchener, discípulo de Wundt, referia-se a Fechner como pai da psicologia experimental (Benjamin, Bryant, Campbell, Luttrell e Holtz, 1997). Os historiadores são unânimes em relação à importância de Fechner, e alguns até questionam se a psicologia teria começado naquele momento sem a sua contribuição. Então, por que eles não creditam a Fechner os méritos pela fundação da psicologia?

A resposta encontra-se na natureza do processo de fundação de uma escola de pensa­mento. A fundação consiste em um ato deliberado e intencional que envolve características e habilidades pessoais diferentes das exigidas na produção de contribuições científicas extraordinárias. Um historiador da psicologia disse:

Quando as ideias básicas estão todas elaboradas, algum promotor toma essas ideias e as organiza, adicionando informações que pareçam ser (...) essenciais, publica-as, divulga-as e as promove e, em resumo, "funda" uma escola. (Boring, 1950, p. 194)

O comentário mais recente sobre a natureza do fundador fala sobre a necessidade de se vender uma ideia à comunidade científica: "Para que uma importante contribuição ao conhecimento seja completa, assegurar o impacto de uma ideia é tão importante quanto a originalidade dessa ideia. Vender a ideia com sucesso talvez seja ainda mais importante" (Berscheid, 2003, p. 110).

A contribuição de Wundt para a fundação da psicologia moderna é devida não tanto a uma única descoberta científica quanto à promoção vigorosa da experimentação sistemática realizada por ele. Portanto, fundação não é sinônimo de criação, embora essa distinção não tenha intenção de ser depreciativa. Tanto os fundadores como os criadores são essenciais para a formação de uma ciência, assim como os arquitetos e os construtores são indispen­sáveis na construção de um edifício.

Com essa distinção em mente é possível compreender por que Fechner não foi iden­tificado como o fundador da psicologia. Na verdade, ele simplesmente não estava tentan­do fundar uma nova ciência. Seu objetivo era compreender a relação entre os universos mental e material. Ele buscava descrever com base científica um conceito unificado de mente e corpo.

Wundt, no entanto, estava determinado a fundar uma nova ciência. No prefácio da primeira edição da sua obra Principles of physiological psychology (Princípios da psicologia fisiológica) (1873-1874), ele escreveu: "O trabalho que ora apresento ao público consiste em uma tentativa de demarcar um novo domínio da ciência". Seu objetivo era promover a psicologia como uma ciência independente. Todavia é preciso reafirmar que, embora Wundt seja considerado o fundador da psicologia, ele não foi o seu criador. A psicologia é o resultado de uma longa sequência de esforços criativos.

Na segunda metade do século XIX, o Zeitgeist estava propício para a aplicação da metodologia experimental aos problemas da mente. Wundt foi um agente poderoso do que já estava em andamento, um promotor talentoso do inevitável.

Wilhelm Wundt (1832-1920)

A Biografia de Wundt

Wilhelm Wundt passou os anos iniciais de sua vida nas pequenas vilas das proximidades de Mannheim, na Alemanha. Teve uma infância solitária (seu irmão mais velho ficava em um internato) e a sua única diversão era ficar sonhando em um dia se tornar um escritor famoso. Seu rendimento escolar foi baixo nos anos iniciais. Seu pai era pastor, mas Wundt não tinha boas recordações dele, embora tanto o pai como a mãe fossem descritos como pessoas sociáveis. Lembrava-se de um dia em que o pai fora visitar a escola e dera-lhe uma bofetada no rosto por não prestar atenção ao professor. No início do segundo ano, a responsabilidade pela sua educação ficou a cargo de um assistente do pai, um jovem vigário por quem o garoto acabou criando uma forte afeição. Quando o pároco foi trans­ferido para uma cidade vizinha, Wundt ficou tão aborrecido que foi autorizado a viver com ele até os 13 anos.

A família Wundt era dotada de forte tradição acadêmica, com ancestrais renomados intelectualmente em praticamente todas as áreas. Entretanto parecia que essa extensa linhagem seria interrompida com o jovem Wundt. Ele passava a maior parte do tempo sonhando em vez de estudar, e fora reprovado no primeiro ano do Gymnasium. Sua relação com os colegas de classe não era muito amistosa e ele era ridicularizado pelos professores. Aos poucos, no entanto, aprendeu a controlar seus devaneios, tornando-se relativamente popular. Embora nunca houvesse apreciado a escola, esforçou-se para desenvolver seus interesses e sua capacidade intelectual. Quando se formou, com 19 anos, estava preparado para prosseguir os estudos universitários.

Decidiu tornar-se médico por duas razões: desejava trabalhar com a ciência e ganhar a vida. Frequentou a escola de medicina das universidades de Tübingen e de Heidelberg, nesta tendo cursado anatomia, fisiologia, física, medicina e química. No decorrer do curso, per­cebeu não ter tanta inclinação para a medicina e decidiu especializar-se em fisiologia.

Depois de estudar um semestre na University of Berlin, com o importante fisiologista Johannes Müller, retornou à University of Heidelberg e completou o doutorado em 1855. Lecionou fisiologia em Heidelberg, de 1857 a 1864, e foi indicado para ser assistente de laboratório de Helmholtz. Wundt detestou a tarefa de dar orientações básicas aos estu­dantes no laboratório e deixou a função. Em 1864, foi promovido a professor adjunto e permaneceu em Heidelberg por mais 10 anos.

Estando envolvido na pesquisa em fisiologia, Wundt começou a conceber o estudo da psicologia como uma disciplina científica experimental independente. Primeiramente, sintetizou as ideias no livro intitulado Contributions to the theory of sensoryperception, publi­cado em partes, entre 1858 e 1862. Descreveu suas experiências originais, realizadas em um laboratório improvisado em sua casa, e os métodos que considerava adequados para a nova psicologia, usando pela primeira vez o termo "psicologia experimental". Esse livro, juntamente com o Elements of psychophysics (1860), de Fechner, é considerado marco lite­rário do surgimento da nova ciência.

No ano seguinte, Wundt publicou Lectures on the minds of men and animais (1863). Sua revisão cerca de 30 anos mais tarde, a tradução para o inglês e as seguidas reimpressões da obra após a morte de Wundt são indicadores da importância do livro, no qual Wundt abordou vários temas, como o tempo de reação e a psicofísica, que ocupariam a atenção dos psicólogos experimentais durante vários anos.

Em 1867, Wundt começou a ministrar um curso de psicologia fisiológica na Heidelberg, o primeiro curso formal dessa área no mundo. Suas aulas também produziram material para outro importante livro, Principles of physiological psychology (Princípios da psicologia fisiológica), publicado em duas partes, em 1873 e 1874. Em 37 anos, Wundt revisou o livro em seis edições, sendo a última publicada em 1911. Principles é, indubitavelmente, sua obra-prima, na qual Wundt estabeleceu a psicologia como uma ciência laboratorial inde­pendente, com problemas e métodos de experimentação próprios.

Por vários anos, as sucessivas edições de Principles of physiological psychology serviram como base de informações para os psicólogos experimentais e de registro do progresso da psicologia. O termo "psicologia fisiológica" pode dar margem a interpretações equi­vocadas, já que naquela época o vocábulo "fisiológica" era sinônimo da palavra alemã que queria dizer "experimental”. Na realidade, Wundt estava lecionando e escrevendo a respeito de psicologia experimental e não sobre a psicologia fisiológica no sentido atual da palavra (Blumenthal, 1998).

Os Anos em Leipzig

Wundt começou a mais longa e importante fase da sua carreira em 1875, ao tornar-se professor de filosofia da University of Leipzig, onde trabalhou durante incríveis 45 anos. Logo depois de chegar a Leipzig, instalou um laboratório e, em 1881, lançou a revista Philosophical Studies, publicação oficial do novo laboratório e da nova ciência. Havia pen­sado em chamar a revista de Psychological Studies (Estudos Psicológicos), mas mudou de ideia aparentemente porque já existia outra com o mesmo nome (embora abordasse temas relacionados com ocultismo e espiritismo).

Em 1906, renomeou a revista de Psychological Studies. Agora tendo nas mãos um manual, um laboratório e uma revista acadêmica especializada, a psicologia estava em um bom caminho.

O laboratório de Wundt e também a sua crescente fama atraíram a Leipzig muitos estudantes que desejavam trabalhar com ele, dos quais vários se tornaram pioneiros, difun­dindo versões próprias de psicologia para as gerações seguintes. Entre eles estavam diversos estadunidenses que retornaram aos Estados Unidos para implementar laboratórios próprios. Assim, o laboratório de Leipzig exerceu enorme influência no desenvolvimento da psico­logia moderna, servindo como modelo para novos laboratórios e constantes pesquisas.

Além dos laboratórios instalados nos Estados Unidos, outros foram implementados por alunos de Wundt na Itália, na Rússia e no Japão. Nenhum outro idioma teve mais livros traduzidos de Wundt do que o russo e a admiração por ele chegou ao ponto de os psicólogos de Moscou construírem uma réplica do seu laboratório. Outra réplica foi cons­truída por estudantes japoneses na Tokyo University, em 1920, ano da morte de Wundt, mas foi destruída durante um conflito estudantil nos anos 1960.

Wundt foi um professor bastante popular e, em um dos cursos por ele ministrado em Leipzig, o número de estudantes matriculados ultrapassou a 600. Sua maneira de lecionar foi descrita da seguinte forma pelo estudante E. B. Titchener, em uma carta que escreveu em 1890, depois de assistir pela primeira vez a uma aula de Wundt:

O [funcionário] abriu a porta e Wundt entrou, todo vestido de preto, é claro, dos sapatos à gravata: uma figura magra, de ombros estreitos, com a coluna um pouco curvada a partir da cintura, dava a impressão de ser alto, no entanto, duvido que tivesse efetivamente mais de 1,75m de altura.
Ele caminhava ruidosamente - não há outra palavra para aquilo - subindo pelo corredor lateral os degraus da plataforma; batia com os pés e fazia barulho, como se as solas dos sapatos fossem de madeira. Realmente fiquei com má impressão daquele modo ruidoso de caminhar, todavia parece que ninguém se deu conta.

Alcançou a plataforma e pude ter uma boa visão da figura. Cabelos grisalhos, em quantidade razoável, exceto no topo da cabeça, cuidadosamente coberto por alguns fios longos puxados da lateral...

Wundt, pude perceber, não consultou qualquer tipo de anotação para dar a aula nem olhou em algum momento para o suporte de livros, embora tivesse alguns papéis misturados entre os cotovelos...

Wundt não deixava os braços sobre o descanso: mantinha os cotovelos fixos, mas movia constantemente os braços e as mãos, apontando e acenando... os movimentos eram controlados e pareciam, de alguma forma, misteriosamente ilustrativos...

Ele parou pontualmente ao soar do relógio e saiu pisando e fazendo barulho, um pouco curvado, assim como havia entrado. Se não fosse pelo ruído absurdo do seu cami­nhar, não teria outro sentimento a expressar senão o de admiração pelo seu procedimento. (Baldwin, 1980, p. 287-289)

Sua vida pessoal foi tranquila e modesta e seus dias eram cuidadosamente planejados. Pela manhãs trabalhava em um livro ou algum artigo, lia os trabalhos dos alunos e edita­va a revista. Às tardes realizava exames ou encaminhava-se para o laboratório, cuja visita, conforme lembrou um estudante estadunidense, não durava mais de cinco ou dez minutos. Aparentemente, apesar de acreditar na pesquisa de laboratório, "o próprio Wundt não era um pesquisador de laboratório" (Cattell, 1928, p. 545).

Mais ao final do dia, Wundt fazia uma caminhada e mentalmente preparava a aula da tarde que ministrava habitualmente às quatro horas. À noite dedicava-se à música, à política e, quando mais jovem, às atividades relacionadas com os direitos do trabalhador e do estudante. Levava uma vida confortável e a família dispunha de empregados domés­ticos e usufruía de lazer.

A Psicologia Cultural

Com a implementação do laboratório e a criação da revista especializada, além da gran­de quantidade de pesquisas em andamento, Wundt voltou a atenção para a filosofia. De 1880 a 1891, escreveu a respeito da ética, da lógica e da filosofia sistemática. Publicou a segunda edição de Principies of physiological psychology em 1880 e a terceira em 1887; ainda contribuía com artigos para a revista. Outra área em que Wundt concentrou seu grande talento fora esquematizada em seu primeiro livro: a criação da psicologia social. Ao retomar esse projeto, Wundt produziu um trabalho em 10 volumes, intitulado Cultural psychology (Psicologia cultural), que publi­cou entre 1900 e 1920 (muitas vezes, o título é traduzido equivocadamente como Folk psychology [Psicologia do povo]).

A psicologia cultural tratou de várias etapas do desenvolvimento mental humano mani­festado pela linguagem, nas artes, nos mitos, nos costumes sociais, na lei e na moral. O impacto dessa publicação na psicologia foi mais significativo do que o conteúdo em si, já que serviu para dividir a nova ciência em duas partes principais: a experimental e a social.

Wundt acreditava que as funções mentais mais simples, como a sensação e a percepção, deviam ser estudadas por meio de métodos de laboratório. Todavia os processos mentais superiores, como a aprendizagem e a memória, não podiam ser investigados pela experi­mentação científica por serem condicionados pela língua e por outros aspectos culturais. Wundt somente acreditava no estudo dos processos de pensamento superiores com o emprego de meios não-experimentais como os usados na sociologia, na antropologia e na psicologia social. A noção do significativo papel das forças sociais no desenvolvimen­to dos processos cognitivos ainda é considerada importante; no entanto, a conclusão de
Wundt de que tais processos não são passíveis de estudo por meio de experimentos foi logo contestada e invalidada.

Wundt dedicou 10 anos ao desenvolvimento da psicologia cultural; entretanto o campo, na forma como havia previsto, exerceu pouco impacto sobre a psicologia estadunidense. Uma pesquisa abrangendo os artigos publicados em 90 anos na American Journal of Psychology mostrou que, de todas as citações referentes às publicações de Wundt, menos de 4% estavam relacionadas com a obra Cultural psychology. Entretanto, Principies of physiological psychology era responsável por 61% das referências aos seus trabalhos (Brozek, 1980).

Uma razão provável para a falta de interesse dos psicólogos estadunidenses na psicologia cultural de Wundt seria a época da publicação: entre 1900 e 1920. Nesse período uma nova psicologia estava surgindo nos Estados Unidos, com uma abordagem um pouco distinta da de Wundt. Os psicólogos estadunidenses passaram a confiar nas próprias ideias e nas instituições educacionais e não sentiam mais tanta necessidade de voltar a atenção para os acontecimentos da Europa. Um destacado pesquisador observou que a psicologia cultural não atraía tanto interesse porque ela "surgiu em um estágio de maturidade da psicologia estadunidense em que os pesquisadores estadunidenses estavam bem menos suscetíveis às impressões estrangeiras do que nas décadas de 1880 e 1890" (Judd, 1961, p. 219).

Wundt prosseguiu na pesquisa sistemática e no trabalho teórico até a morte, em 1920. Graças ao seu estilo de vida organizado, conseguiu completar as memórias dos seus regis­tros psicológicos pouco antes de morrer. Análises acerca da sua produção constataram que ele escreveu 54 mil páginas entre 1853 e 1920, em uma média de 2,2 páginas por dia (Boring, 1950; Bringmann e Balk, 1992). Ele havia concretizado o sonho da infância de tornar-se um escritor famoso.

O Estudo da Experiência Consciente

A psicologia de Wundt utilizava os métodos experimentais das ciências naturais, princi­palmente as técnicas empregadas pelos fisiologistas. Wundt adaptou esses métodos cientí­ficos de investigação para a nova psicologia e prosseguiu na sua pesquisa do mesmo modo como os cientistas físicos se dedicavam ao objeto de estudo de sua própria área. Dessa forma, o Zeitgeist na fisiologia e na filosofia contribuiu para moldar tanto os métodos de investigação como o objeto de estudo.

O objeto de estudo de Wundt consistia, para definir em uma única palavra, na cons­ciência. No sentido mais amplo, o impacto do empirismo e do associacionismo do século XIX refletia-se ao menos parcialmente, no sistema de Wundt. Na sua perspectiva, a cons­ciência incluia varias partes diferentes e podia ser estudada pelo método da análise ou da redução. Ele declarou: "A primeira etapa da investigação de um fato deve ser uma descrição dos elementos individuais (...) dos quais consiste" (apuá Diamond, 1980, p. 85).

Todavia, a semelhança entre a abordagem de Wundt e a da maioria dos empiristas e dos associacionistas concentrava-se apenas nesse ponto de vista. Wundt não aceitava a ideia de os elementos da consciência serem estáticos (assim denominados átomos da mente) e se conectarem de forma passiva mediante algum processo mecânico de associação. Ao contrário, ele acreditava no papel ativo da consciência em organizar o próprio conteúdo.

Portanto, o estudo separado dos elementos, do conteúdo ou da estrutura da consciência proporcionaria apenas o ponto inicial para a compreensão dos processos psicológicos.

Voluntarismo.

Wundt concentrou-se no estudo da capacidade própria de organização da mente, dando o nome de voluntarismo ao seu sistema, em referência à palavra volição, que significa o ato ou a força de vontade. O voluntarismo refere-se à força de vontade pró­pria de organizar o conteúdo da mente em processos de pensamento superiores. Wundt enfatizava não os elementos em si, como os empiristas e associacionistas britânicos (assim como Titchener mais tarde enfatizara como aluno de Wundt), mas o processo ativo de organizaçao e síntese desses elementos. No entanto é importante lembrar que Wundt embora alegasse que a mente consciente era dotada do poder de sintetizar os elementos em processos cognitivos de nível superior, nunca deixou de reconhecer serem básicos os elementos da consciência. Na ausência desses elementos, não havia nada a ser organizado na mente.

Experiencia mediata e imediata.

Na opinião de Wundt, os psicólogos deveriam dedi­car-se ao estudo da experiência imediata e não da experiência mediata. A experiência mediata proporciona ao indivíduo as informações ou o conhecimento relacionado com algo além dos elementos de uma experiência. É a forma usual de empregar a experiência para adquirir o conhecimento do nosso mundo. Por exemplo, quando olhamos uma rosa e dizemos "A rosa e vermelha", subentende-se que nosso interesse principal concentra-se na flor e não no fato de percebermos algo denominado "[cor] vermelha". Todavia a experiência imediata de visualizar a flor não está no objeto propriamente dito, e sim na experiência de perceber que alguma coisa é vermelha. Para Wundt, a expe­riencia imediata não sofre nenhum tipo de influência de interpretações pessoais, como a descrição da experiência de visualizar a cor vermelha da rosa em termos do obieto ou seja, da flor em si.

Do mesmo modo, ao descrevermos a sensação de desconforto provocada por uma dor de dente relatamos a nossa experiência imediata. No entanto, se apenas dissermos: "Estou com dor de dente", referimo-nos somente à experiência mediata.

Na perspectiva de Wundt, as experiências básicas humanas, como a percepção da cor vermelha ou a sensação de desconforto provocada pela dor, formam os estados da consciência (os elementos mentais) organizados de forma ativa pela mente. A proposta de Wundt consistia em analisar a mente com base nos seus elementos, nas partes componen­tes, exatamente do mesmo modo que os cientistas naturalistas trabalhavam para dividir o seu objeto de estudo, ou seja, o universo físico. A ideia da tabela periódica desenvolvi­da pelo químico russo Dimitri Mendeleev serviu de apoio para o objetivo de Wundt. Os historiadores sugeriram que talvez Wundt estivesse tentando desenvolver uma espécie de "tabela periódica" da mente (Marx e Cronan-Hillix, 1987).

O Método de Introspecção

Wundt descrevia a sua psicologia como a ciência da experiência consciente. Assim, o método da psicologia científica deve abranger as observações da experiência consciente. No entanto, somente o indivíduo que passa pela experiência é capaz de observá-la. Wundt estabeleceu que o método de observação devia necessariamente utilizar-se da introspec­ção, ou seja, do autoexame do estado mental. Ele se referia a esse método como percepção interna. Wundt não foi o criador do método da introspecção, que já existia no tempo de Sócrates. A inova