Templodeapolo.net
Astronomia
C. Humanas
C. Naturais
Filosofia
História
Mitologia
Psicologia

Reflexão!

Happiness
Como citar esta página?
Imprimir
Fragmentos e principais passagens
Publicado por:
Odsson Ferreira | 26 Jul , 2020 - 13:22 | Atualizado em: 7/26/2020 4:21:00 PM
LINK CURTO:
https://bit.ly/3f49Ifa
Emoções positivas
Os princípios do prazer
Psicologa positiva, emoções positivas, afeto, emoção, felicidade, bem-estar subjetivo
ABNT
Snyder, 
C. R., 
Lopez,
Shane J.
Os princípios do prazer. 
in: 
__________. 
 
Psicologia Positiva: 
Uma abordagem científica e prática das qualidades humanas. 
 
 
Porto Alegre/RS: 
Artmed, 
2009. 
Cap. 7. 
p.123-141. 
APA
Snyder, 
C .
Lopez,
S .
 
(2009). 
Os princípios do prazer. 
in: 
C .
Snyder, 
S .
Lopez,
(Ed.),
Psicologia Positiva: 
Uma abordagem científica e prática das qualidades humanas. 
(pp.123-141). 
Porto Alegre/RS: 
Artmed. 
Livre
Por Shane J. Lopez

Parado diante de um pequeno auditório, Ed Diener, psicólogo da Universidade de Illinois e pesquisador do tema da felicida­de, com renome mundial, segurava um cérebro de verdade em um frasco conten­do um líquido azul, que ele chamava de “suco da alegria” e que gotejava de um sa­quinho plástico segurado de cima. Ele pe­dia ao público que fingisse que seu cére­bro poderia ser tratado com um hormônio (ou seja, o suco da alegria) que deixaria as pessoas em um êxtase de felicidade, e elas poderiam se sentir felizes todo o tempo. Aí, ele fazia a pergunta fundamental: “Quantas pessoas nesta sala gostariam de fazer isso?”. Dos 60 presentes, só duas levanta­ram a mão para indicar seu desejo de feli­cidade perpétua.

Como eu (S.J.L.) tive pouco acesso a textos filosóficos e como minha formação de graduação e pós-graduação em psico­logia não me propiciou conhecer a ciência da felicidade, não havia pensado muito so­bre o tema em suas muitas formas. A per­gunta do Dr. Diener me deixou intrigado, e, desde que assisti à sua palestra em 1999, tenho tentado desenvolver uma com­preensão melhor do lado positivo da expe­riência emocional, o que me levou à pes­quisa sólida da qual apresento aqui um resumo.

Neste capítulo, tento acrescentar al­go ao que você sabe sobre prazer, indo muito além do prin­cípio do prazer de Freud (1936) (a de­manda pela satisfa­ção de uma neces­sidade instintiva, in­dependentemente das conseqüências) e estimulando a com­preensão dos muitos princípios de prazer que têm sido relacionados ao bem-viver. Nesse processo, apresentamos o que já se sabe sobre aquilo que torna a vida moderna prazerosa. Também resumimos pesqui­sas que examinam as distinções entre afeto positivo e negativo. Da mesma forma, des­tacamos as emoções positivas e seus bene­fícios para a expansão do prazer, e explora­mos as muitas definições de felicidade e bem-estar, qualidades do viver prazeroso. Para começar, esclarecemos os diversos ter­mos e conceitos que usamos neste capítulo. [123]

Definindo termos emocionais

Os termos afeto e emoção costumam ser usados de forma intercambiável em li­teraturas acadêmicas e populares, e bem-estar e felicidade parecem ser sinônimos em artigos de psicologia. Infelizmente, contu­do, o uso intercambiável desses termos causa muita confusão. Embora tentemos esclarecer as distinções entre essas idéias intimamente relacionadas, reconhecemos que há coincidências. Começamos sugerin­do que o afeto é um componente da emo­ção e que a emoção é uma versão mais es­pecífica do humor.

Afeto

O afeto é a resposta fisiológica ime­diata de uma pessoa a um estímulo e ge­ralmente se baseia em uma sensação subjacente de excitação. Especificamente, o professor Nico Frijda (1999) argumen­tou que o afeto envolve a avaliação de um evento como prazeroso ou doloroso - ou seja, sua Valencia - e a experiência da exci­tação autonômica.

Emoção

E difícil encontrar definições parcimoniosas de emoção, mas esta parece des­crever o fenômeno de forma sucinta: “As emoções, devo dizer, envolvem julgamen­to em relação a coisas importantes, julga­mentos esses nos quais, avaliando um ob­jeto externo como sendo importante para nosso próprio bem-estar, reconhecemos nossa própria carência e imperfeição dian­te de partes do mundo que não controla­mos por inteiro” (Nussbaum, 2001, p.19). Essas respostas emocionais ocorrem ao nos tornarmos cientes de experiências doloro­sas ou prazerosas e com a excitação autonô­mica associada a elas (ou seja, afeto; Frijda, 1999), e avaliamos a situação. Uma emo­ção tem uma qualidade específica e “moldada”, dado que sempre tem um objeto (Fredrickson, 2002) e está associada ao avanço na busca de objetivos (Snyder et al., 1991; Snyder, 1994). Por outra pers­pectiva, um humor não tem objeto, é livre e duradouro.

Felicidade

A felicidade é um estado emocional positivo, subjetivamente definido por um pessoa. O termo raramente é usado em estudos científicos, pois há pouco consen­so em relação a seu significado. Neste capítulo, o termo somente será utilizado quando for esclarecido por meio de informações complementares.

Bem-estar subjetivo

O bem-estar subjetivo é a avaliação subjetiva da própria situação atual no mun­do. Mais especificamente, Diener (198- 2000; Diener, Lucas e Oishi, 2002) define o bem-estar subjetivo como uma combi­nação de afeto positivo (na ausência de afeto negativo) e satisfação geral com a vida (isto é, a apreciação subjetiva das gra­tificações da vida). A expressão bem-estar subjetivo é muito usada como sinônimo de felicidade na literatura de psicologia. Qua­se sem exceção, a palavra felicidade, mais acessível, é usada na imprensa popular no lugar da expressão bem-estar subjetivo.

Diferenciando o positivo do negativo

Hans Selye (1936) é conhecido por sua pesquisa sobre os efeitos da exposição prolongada ao medo e à raiva. Repetida­mente, ele concluiu que o estresse fisioló­gico prejudicava o corpo, ainda que tenha valor de sobrevivência para os seres huma­nos. De fato, as funções evolutivas do medo têm intrigado pesquisadores e leigos. [124] Considerando-se a tradição histórica e as des­cobertas científicas relativas aos efeitos negativos, sua importância em nossas vi­das não foi questionada no decorrer do úl­timo século.

Historicamente, os afetos positivos têm recebido pouca atenção, de um século para cá, porque poucos estudiosos traba­lharam com a hipótese de que as gratifica­ções de alegria e contentamento iam além dos valores hedonistas [baseados no pra­zer), podendo ter alguma importância evolutiva. As potencialidades do afeto posi­tivo ficaram mais evidentes nos últimos 20 anos (Fredrickson, 2002) à medida que a pesquisa traçou distinções com o negativo.

David Watson (1988), da Universida­ de de Iowa, realizou pesquisas sobre as motivações do afeto prazeroso voltado à aproximação - incluindo estudos rigorosos de afetos negativos e positivos. Para facili­tar sua pesquisa sobre as duas dimensões da experiência emocional, Watson e sua colaboradora Lee Anna Clark (1994) desen­volveram e validaram a Forma Ampliada da Escala de Afeto Positivo e Negativo (Positive and Negative Affect Scale - PANAS-X), que se tornou uma medida muito utilizada nessa área. Essa escala de 20 itens já foi usada em centenas de estu­dos para quantificar duas dimensões do afeto: Valencia e conteúdo. Mais especifi­camente, a PANAS-X trata da valência “ne­gativa” (desagradável) e “positiva” (agra­dável). O conteúdo dos estados de afeto negativo pode ser mais bem descrito como desconforto geral, ao passo que o afeto positivo inclui jovialidade, autoconfiança e uma postura atenciosa. (Vide a PANAS, predecessora da PANAS-X, que é curta e válida para a maioria dos propósitos clíni­cos e de pesquisa.)

Usando a PANAS e outras medidas de "afeto, os pesquisadores têm tratado siste­maticamente de uma questão básica: “Po­demos vivenciar afetos negativos e positi­vos ao mesmo tempo?” (vide Diener e Emmons, 1984; Green, Salovey e Truax, 1999.) Por exemplo, pode-se ir assistir a um filme envolvente e sair sentindo prazer e medo? Embora os afetos positivos e ne­gativos fossem con­siderados, anterior­mente, como polos opostos, Bradburn (1969) demonstrou que ambos são in­dependentes e têm correlates diferentes. Psicólogos como Wat­son (2002) continuam
a examinar essa ques­tão da independência em suas pesquisas. Em um estudo recente, ele concluiu que existe correlação do afeto negativo com a jovialidade, a autoconfiança e a postura atenciosa em apenas -0,21, -0,14 e -0,17, respectivamente. As baixas magnitudes dessas correlações negativas sugerem que, embora o afeto negativo e positivo este­jam inversamente correlacionados, como era de se esperar, as relações são bastante frágeis e indicam independência dos dois tipos de afeto. O tamanho dessas relações, contudo, pode aumentar quando as pes­soas são submetidas aos fatores de estresse diários (Keyes e Ryff, 2000; Zautra, Potter e Reich, 1997).

Emoções positivas: expandindo o repertório do prazer

À medida que alguns psicólogos refi­nam a distinção entre os lados positivo e negativo da experiência emocional por meio de pesquisa básica e medição, outros estudiosos (por exemplo, Isen, Fredrick­ son) começaram a explorar questões so­bre a potência e as potencialidades das emoções positivas. (Nesse caso, usamos o termo emoção em lugar de afeto porque estamos nos referindo às tendências de res­posta específicas que fluem da experiência do afeto.) A psicóloga da Universidade de [125] Cornell, Alice Isen, é pioneira no exame das emoções positivas. A Dra. Isen concluiu que, ao vivenciar experiências positivas moderadas, temos mais probabilidades de:

  1. ajudar outras pessoas (Isen, 1987);
  2. ser flexíveis em nosso pensamento (Ashby, Isen e Turken, 1999) e
  3. produzir soluções para nossos proble­mas (Isen, Daubman e Nowicki,1987).

Em pesquisas clássicas relacionadas a esses aspectos, Isen (1970; Isen e Levin, 1972) realizou uma manipulação experi­mental na qual os participantes encontra­ram ou não moedas (colocadas ali pelos pesquisadores) na abertura para devolu­ção de um telefone público. Comparados aos que não encontraram a moeda, os que encontraram tiveram mais probabilidades de ajudar uma pessoa a carregar uma pi­lha de livros ou juntar papéis que caíram no chão. Sendo assim, encontrar uma moe­da e sentir a emoção positiva associada a isso fizeram que as pessoas se comportas­ sem de maneira mais altruísta.

Sentir emoções positivas também po­de ajudar a enxergar opções para solucio­nar problemas e descobrir pistas para to­mar boas decisões (Estrada, Isen e Young, 1997). Em um estudo relacionado a esses aspectos, os pesquisadores designaram aleatoriamente médicos a uma condição experimental na qual receberam ou não um saquinho contendo seis balas e quatro cho­colates (eles não podiam comer os doces durante o experimento). Os médicos que receberam o presente apresentaram raciocínio e tomada de decisões superiores em relação aos que não o receberam. Especifi­camente, os médicos na condição de emo­ção positiva não tiraram conclusões preci­pitadas, e sim foram cautelosos, ainda que tenham chegado ao diagnóstico mais rapi­damente do que os que estavam na outra condição (Alice Isen, comunicação pessoal, 13 de dezembro de 2005). Talvez devêsse­mos levar uns doces ao nosso médico na próxima vez que formos consultar!

Aqui, uma descrição mais detalhada do estudo que nos levou a essa sugestão descontraída. (Embora a Dra. Isen use o termo afeto, acreditamos que emoção seria o termo mais adequado nesse caso.) 

Quarenta e qua­tro médicos fo­ram designados aleatoriamente a um entre três grupos: um gru­po de controle, um grupo com indução de afe­tos (esses parti­cipantes rece­beram um sa­quinho com do­ces) ou um gru­po cujos participantes deveriam ler declarações humanistas com relação à prática da medicina. Pediu-se que os [127] médicos em todos os três grupos “pensassem em voz alta” enquanto chegavam a uma solução para um paciente com problemas no fígado. As transcrições dos comentá­ rios dos médicos foram digitadas, e dois avaliadores analisaram as transcrições para determinar com que rapidez o diag­ nóstico de doença do fígado foi cogitado e definido, bem como até onde o pensa­ mento foi distorcido e inflexível. O grupo do afeto, inicialmente, cogitou o diagnós­ tico de doença do fígado em um momen­ to bastante precoce do experimento e de­ monstrou pensamento muito menos in­ flexível do que os controles. Os grupos de afeto e de controle definiram o diagnósti­ co em momentos semelhantes do experi­ mento. Dessa forma, o afeto positivo le­ vou a uma integração anterior da infor­ mação (cogitar a doença do fígado antes) e resultou em pouca definição prematura do diagnóstico.

Partindo do trabalho de Isen, Fre­drickson (2000) desenvolveu uma nova es­trutura teórica, o modelo potencia­lizar e construir, que pode oferecer algumas explicações para os robustos efei­tos sociais e cogni­tivos das experiên­cias emocionais po­sitivas. Na revisão que fez de modelos de emoções (Smith, 1991), Fredrickson concluiu que as res­postas às emoções positivas não haviam sido muito estuda­das e que, quando isso aconteceu, elas ha­viam sido examinadas de forma vaga e pou­co especificada. Além disso, as tendências à ação geralmente estiveram associadas a reações físicas às emoções negativas (mais uma vez, imagine “fugir ou lutar”), ao pas­so que as emoções humanas às emoções positivas costumam ser mais cognitivas do que físicas. Por essas razões, a autora pro­pôs descartar o conceito de tendência à ação específica (que sugere uma faixa res­trita de possíveis opções comportamentais) em favor do termo mais novo e mais includente repertórios de pensamentos- ações momentâneos (que sugere uma ampla gama de opções comportamentais: imagine “tirar a venda” e ver as oportuni­dades disponíveis).
Para ilustrar as diferenças naquilo que segue às emoções positivas e negativas, veja a experiência de infância de um dos autores (S.J.L.). Observe como as emoções po­sitivas (por exemplo, excitação e alegria) levaram à flexibilidade cognitiva e à cria­tividade, ao passo que as emoções negativas (como o medo e a ansiedade) estão li­gadas a uma resposta de fuga e à finali­zação das atividades.

Em uma visita à casa de minha avó, em um sábado à noite, diverti-me muito jo­gando videogames e brincando de escon­der com meu irmão e quatro primos. As horas de brincadeiras levavam a excita­ção e muitas risadas..., e à criação de no­vas regras e obstáculos para o jogo. A ale­gria desmedida que sentimos naquela tar­de nos fez sentir livres, parecia que aque­le dia duraria para sempre. Infelizmente, a diversão foi interrompida. O final súbi­to chegou quando meu primo Bubby me viu escondido atrás do capim alto, nos fundos da propriedade de minha avó. Saí como uma bala de meu esconderijo para escapar dele. Ao correr pela casa, acabei entrando no terreno baldio do vizinho. Rindo com alegria, corri o máximo que pude. De repente, um obstáculo estava no meu caminho. Pulei sobre ele enquanto Bub gritava descontrolado. Quando me virei, vi que havia pulado sobre um trigonocéfalo de mais de um metro, uma cobra altamente venenosa. O meu primo continuava a gritar, e eu ia ficando cada vez mais nervoso. Sem pensar, afastamo-nos da cobra... e corremos para salvar nossas vidas. Quando finalmente paramos de correr, não conseguíamos recuperar o fôlego. Ninguém estava machucado, mas nosso medo e nossa ansiedade haviam aca­bado com a diversão do dia. [128]

Ao testar seu modelo de emoções po­sitivas, Fredrickson (2000) demonstrou que a experiência da alegria amplia os domínios daquilo que uma pessoa tem vontade de fazer no momento, o que se chama de ampliação do repertório momentâneo de pensamentos-ações de um indivíduo. De­ pois de um filme curto com emoção (os curtas induziam uma entre cinco emoções: alegria, contentamento, raiva, medo ou uma condição neutra), pediu-se que os par­ticipantes da pesquisa listassem tudo o que gostariam de fazer no momento (vide os resultados na Figura 7.1).

Os participantes que vivenciaram ale­gria ou contentamento listaram bem mais possibilidades desejadas do que as pessoas nas condições neutra ou negativa. Essas possibilidades ampliadas para atividades futuras, por sua vez, deveriam levar os in­divíduos alegres a iniciar ações subsequentes. Os que expressaram emoções mais ne­gativas, por outro lado, tenderam a encer­rar seu pensamento sobre possíveis ativi­dades subsequentes. Dito de forma simples, a alegria parece nos abrir para muitos pen­samentos e comportamentos, ao passo que as emoções negativas desanimam nossas idéias e ações.

A alegria também aumenta nossa pro­babilidade de nos comportarmos positiva­mente em relação a outras pessoas, assim como desenvolver mais relacionamentos positivos. Além disso, a alegria induz à ati­vidade lúdica (Frijda, 1994), que é muito importante porque esses comportamentos são evolutivamente adaptativos na aquisi­ção dos recursos necessários. A atividade lúdica juvenil forma:

  1. recursos sociais e intelectuais duradou­ros ao estimular o vínculo;
  2. níveis mais elevados de criatividade e
  3. desenvolvimento cerebral(Fredrickson, 2002).

Parece que, por intermédio dos efei­tos dos processos de ampliação, as emo­ções positivas também podem ajudar a construir recursos. Em 2002, Fredrickson e seu colega Thomas Joiner demonstraram esses fenômenos de fortalecimento ao ava­liar as emoções positivas e negativas das pessoas e seu enfrentamento com uma mente aberta (resolver problemas por meios criativos) em duas ocasiões, com cin­co semanas de distância. Os pesquisado­res concluíram que os níveis iniciais de emoções positivas indicavam aumentos gerais na solução criativa de problemas. Tais mudanças de enfrentamento também indicavam mais aumentos nas emoções po­sitivas (vide a Figura 7.2).

Da mesma for­ma, controlando os níveis iniciais de emo­ção positiva, os níveis iniciais de enfrentamento indicavam aumento nas emoções positivas, o que, por sua vez, indicava aumentos no enfrentamento. Esses resulta­dos confirmaram ser verdadeiros apenas para emoções positivas, e não para as [130] ne gativas. Assim, as emoções positivas, como a alegria, podem ajudar a gerar recursos e manter uma sensação de energia vital (ou seja, mais emoções positivas).

Fredrickson (2002) se referiu a essa seqüência positiva como a “espiral ascen­dente” das emoções positivas (vide a Figu­ra 7.3). [131]

Ampliando seu modelo de emoções positivas, Fredrickson e colaboradores exa­minaram o potencial para “desfazer” que as emoções positivas têm (Fredrickson, Mancuso, Branigan e Tugade, 2000) e a re­lação entre experiências emocionais posi­tivas e negativas que está associada à prosperidade humana (Fredrickson e Losada, 2005). Fredrickson e colaboradores (2000) levantaram a hipótese de que, dados a am­pliação e os efeitos de fortalecimento das emoções positivas, a alegria e o contenta­mento podem funcionar como antídotos às negativas.

Para testar essa hipótese, os pesqui­sadores expuseram todos os participantes de seu estudo a uma situação que gerava emoção negativa e, imediatamente após, designaram as pessoas, aleatoriamente, a condições de emoção (desencadeadas por vídeos evocativos) que iam da alegria mo­derada à tristeza. A recuperação cardio­ vascular representou o processo de desfa­zer e foi operacionalizada como o tempo que passou desde o início do vídeo a que as pessoas foram aleatoriamente designa­das até que as reações psicológicas indu­zidas pela emoção negativa inicial retor­nassem ao ponto inicial. A hipótese do des­fazer foi sustentada, dado que os partici­pantes das condições de alegria e conten­tamento conseguiram desfazer os efeitos das emoções negativas mais rapidamente do que as pessoas nas outras condições. Essas descobertas sugerem que há uma in­compatibilidade entre emoções positivas e negativas e que os efeitos potenciais das experiências negativas podem ser compensados por emoções positivas, como alegria e contentamento.

Considerando-se que as emoções po­sitivas ajudam as pessoas a construir re­cursos duradouros e a se recuperar de ex­periências negativas, Fredrickson e Losada (2005) formularam a hipótese de que as emoções positivas estejam associadas a uma saúde mental ideal ou à prosperidade*' (bem-estar psicológico e social; vide o modelo de saúde mental completo - pá­gina 220). Ao submeter à análise matemá­tica os dados sobre a saúde mental de par­ticipantes que eram estudantes de gradua­ção (relativos a uma medida de prosperi­dade) e sua experiência emocional (os es­tudantes classificaram o nível em que vivenciaram 20 emoções a cada dia, por 28 dias), os pesquisadores concluíram que uma razão média de 2:9 entre emoções positivas e negativas é um fator de predição de prosperidade humana. Essa conclu­são oferece informações de diagnóstico sobre os efeitos das experiências emocio­nais cotidianas sobre nossa saúde mental.

Felicidade e bem-estar subjetivos: vivendo uma vida prazerosa

Definições muito antigas de felicidade

Buda saiu de casa em busca de uma existência com mais sentido e acabou en­contrando a iluminação, uma sensação de paz e felicidade. Aristóteles acreditava que a eudaimonia (a prosperidade humana as­sociada a uma vida de virtudes) ou a felici­dade baseada em toda uma vida em busca de objetivos de desenvolvimento que se­jam plenos de sentido (ou seja, fazer o que vale a pena fazer) era a chave para o bem-viver (Waterman, 1993). Os fundadores da nação estadunidense argumentaram que a bus­ca da felicidade era tão importante quanto nossos direitos inalienáveis à vida e à li­berdade. Essas definições muito antigas de felicidade, junto com muitas outras conceituações de bem-estar emocional, têm [132] influências claras sobre as visões de estudio­sos dos séculos XX e XXI, mas as teorias psicológicas e as pesquisas genéticas mais recentes nos ajudaram a esclarecer a feli­cidade e seus correlatos.

As teorias da felicidade foram dividi­das em três grupos:

  1. teorias da satisfação de necessidades e objetivos;
  2. teorias de processo/atividade; e
  3. predisposição genética/personalidade (Diener et al., 2002). 

Em relação às teorias de satisfação de necessidades/objetivos, os líderes de determinadas escolas de psicoterapia pro­feriram essas idéias em relação à felicida­de. Por exemplo, teóricos da psicanálise e humanistas (Sigmund Freud e Abraham Maslow, respectivamente) sugeriram que a redução da tensão ou a satisfação das necessidades levaria à felicidade. Resumin­do, teorizou-se que somos felizes porque atingimos nossos objetivos. Essa “felicida­de da satisfação” faz da felicidade uma meta de nossas buscas psicológicas.

No campo dos processos/atividades, as teorias postulam que se envolver em de­terminadas atividades na vida gera felici­dade. Por exemplo, Mike Csikszentmihalyi, que foi um dos primeiros teóricos do sé­culo XX a examinar as conceituações de felicidade baseadas em processos/atividades, propôs que as pessoas que experi­mentam sensações de flow (envolvimento em atividades interessantes que correspondem ou desafiam suas habilidades relacio­nadas a tarefas) na vida cotidiana tendiam a ser muito felizes. Na verdade, o trabalho
de Csikszentmihalyi (Csikszentmihalyi, 1975/2000, 1990) sugere que o engaja­mento em uma atividade produz felicida­de. Outros teóricos dos processos/ativida­des (como Emmons, 1986; Snyder, 1994) enfatizaram como o processo de ir em bus­ca de objetivos gera energia e felicidade. Essa perspectiva de busca pela felicidade reflete a promessa dos fundadores da na­ ção americana, de “vida, liberdade e busca da felicidade”.
Os que defendem as teorias da feli­cidade baseadas em predisposições ge­néticas e da personalidade (Diener e Larsen, 1984; Watson, 2000) tendem a ver a felicidade como estável, ao passo que os teóricos dos campos da “felicidade como satisfação” e de processos/atividades a consideram como algo que muda com as con­dições de vida. Sobre essa questão, Costa e McCrae (1988) concluíram que a felicida­de mudou pouco em um período de 6 anos, dando credibilidade a teorias de felicidade como algo baseado na personalidade ou na biologia. Demonstrando esse vínculo entre felicidade e personalidade, Lucas e Fujita (2000) apontaram que a extroversão e o neuroticismo, dois dos cinco grandes fatores de personalidade (abertura, conscienciosidade, extroversão, agradabilidade, neuroticismo), estavam intimamente rela­cionados às características da felicidade.

Estudos dos determinantes biológicos ou genéticos da felicidade concluíram que até 40% da emocionalidade positiva e 55% da negativa são de base genética (Tellegen et al., 1988). Obviamente, isso deixa cerca de 50% da discordância na felicidade que não é explicada por componentes biológicos. Por­ tanto, em termos gerais, uma compreensão minuciosa da felicidade necessita de um exa­me dos fatores genéticos e das variáveis su­geridas pelos teóricos da satisfação de neces­sidades/objetivos e de atividades/processos.

Bem-estar subjetivo como sinônimo de felicidade

Partindo de uma tradição utilitária e dos preceitos da psicologia hedonista (que [133] enfatiza o estudo do prazer e da satisfação na vida), Diener (1984; 2000; Diener et al., 2002) considera o bem-estar como a avaliação subjetiva da própria situação no mundo. Mais especificamente, o bem-es­tar envolve nossa experiência de prazer e nossa apreciação das recompensas da vida. A partir dessa visão, Diener define o bem-estar subjetivo como uma combinação de afeto positivo (na ausência de afeto nega­tivo) e satisfação geral com a vida. Mais além, o autor usa a expressão bem-estar subjetivo como sinônimo de felicidade. (O componente de satisfação costuma ser me­dido com a Escala de satisfação com a vida, a Satisfaction with life scale; Diener, Emmons, Larsen e Griffin, 1985).

O bem-estar subjetivo enfatiza os re­latos das pessoas acerca de suas experiên­cias de vida. Nessa linha, o relato subjeti­vo é aceito como valor nominal. Esse en­foque subjetivo parte do pressuposto de que as pessoas de muitas culturas estão confortáveis ao tratar de avaliações individualistas de seu afeto e sua satisfação, e de que as pessoas serão francas nessas aná­lises pessoais (Diener et al., 2002). Essas premissas orientam as tentativas dos pes­quisadores de entender as experiências subjetivas à luz de suas circunstâncias ob­ jetivas.

Determinantes do bem-estar subjetivo

Ao examinar a satisfação de estudan­tes universitários (de 31 países) em vários domínios da vida, os estudantes de países pobres apresentaram uma correlação mais alta entre situação financeira e satisfação do que os de países ricos (Diener e Diener, 1995). Além disso, as pessoas de países ri­cos geralmente estavam mais felizes do que as dos países empobrecidos. O exame en­tre nações desse vínculo entre renda e bem-estar revela que, uma vez que a renda sobe acima da linha de pobreza, mais crescimen­to na renda não está necessariamente as­sociado a aumento do bem-estar. Quando se dividem mais ainda os dados sobre bem-estar, por categorias de situação financei­ra (muito pobres e muito ricos), parece ha­ver uma forte relação entre renda e bem-estar entre os empobrecidos, mas uma re­lação insignificante entre as duas variáveis entre os prósperos (Diener, Diener e Diener, 1995).

Dados específicos de amostras ociden­tais indicam que tanto homens quanto mulheres casados informam ser mais feli­zes do que os que não são casados (que nunca o foram, divorciados ou separados; Lee, Seccombe e Shehan, 1991). A relação entre bem-estar subjetivo e ser casado se [134]  aplica a pessoas de todas as idades, níveis de renda e graus de instrução, bem como origens racial-étnicas (Argyle, 1987). Não surpreende que a qualidade conjugal tam­bém esteja associada positivamente ao bem-estar pessoal (Sternberg e Hojjat, 1997).

Em um estudo sobre os 10% mais fe­lizes entre os estudantes universitários nos Estados Unidos, Diener e Seligman (2003) concluíram que as qualidades de boa saú­de mental e bons relacionamentos sociais surgiam constantemente na vida dos jovens adultos mais felizes da amostra. Olhando seus dados mais de perto, as análises reve­laram que um bom funcionamento social entre o subconjunto de estudantes mais felizes era uma causa de felicidade neces­sária, mas não suficiente.

Felicidade + significado = bem-estar

Os psicólogos que sustentam a pers­pectiva hedonista consideram o bem-estar subjetivo e a felicidade como sinônimos. Por outro lado, os estudiosos cujas idéias sobre bem-estar são mais coerentes com as visões de Aristóteles em relação à eudaimonia acreditam que a felicidade e o bem-estar não são sinônimos. Formulado de maneira simples: bem-estar = felicidade + significado. Para concordar com essa úl­tima visão de bem-estar, deve-se entender a virtude e as implicações do comporta­mento diário. Mais além, essa visão requer que os que buscam o bem-estar sejam au­tênticos e vivam segundo suas reais neces­sidades e objetivos (W aterman, 1993). Dessa forma, levar uma vida eudaimônica vai além de vivenciar as “coisas prazero­sas”, cobrindo a prosperidade como obje­tivo de todas as nossas ações. As versões hedonista e eudaimônica da íelicidade têm influenciado as definições do século XXI.

Definições de felicidade do século XXI

A moderna psicologia ocidental tem se concentrado fundamentalmente em uma visão pós-materialista da felicidade (Diener et al., 2002) que enfatiza prazer, satisfação e significado na vida. Na verdade, o tipo de [137] felicidade tratada em grande parte da lite­ratura popular de hoje enfatiza hedonismo, significado e autenticidade. Por exemplo, Seligman (2002) sugere que, a partir da fe­licidade que resulta do uso de nossas quali­dades psicológicas, se pode construir uma vida prazerosa e dotada de sentido.

Ao descrever um novo modelo de fe­licidade, Lyubomirsky, Sheldon e Schkade (2005) propuseram que “o nível de felici­dade crônica de uma pessoa é comandado por três principais fatores: um ponto de partida geneticamente determinado, fa­tores circunstanciais relevantes e ativida­des e práticas relevantes para a felicidade” (p. 111). A “arquitetura da felicidade sus­tentável” de Lyubomirsky e colaboradores (p. 114) incorpora aquilo que se sabe sobre os componentes genéticos da felicidade, os seus determinantes circunstanciais/demográficos e o processo complexo de mudan­ça humana intencional. Com base em pes­quisas passadas, as quais resumem, Lyubo­mirsky e colaboradores propõem que a ge­nética responde por 50% da variância na população em termos de felecidade, ao pas­so que as circunstâncias de vida (sejam boas ou más) e a atividade intencional (tentati­vas de viver de forma saudável e de fazer mudanças positivas) respondem por cerca de 10% e 40% da variância na população em termos de felicidade, respectivamente. Esse modelo reconhece os componentes da felicidade que não podem ser mudados, mas também deixa espaço para volição e os objetivos autogerados que levam à ob­tenção de prazer, sentido e boa saúde.

Sem dúvida, os estudiosos do século XXI produzirão muitas outras visões mais refinadas acerca da felicidade. Nossa previ­são é que a busca de felicidade por meio da ciência da psicologia e da prática positi­vas acabarão por desenvolver um melhor entendimento dos correlatos e das bases genéticas (resumidos em Lyubomirsky et al., 2005), neurológicas (Urry et al., 2004) e neurobiológicas da felicidade, e assumi­rão o contentamento, a paz e a felicidade da filosofia oriental, junto com a sabedoria popular do mundo ocidental. Dessa forma, imagine uma ciência que seja baseada no que se conhece sobre as bases genéticas e biológicas da felicidade, e que examine o rigor e a relevância dos ensinamentos de Buda e, ao mesmo tempo, as recomenda­ções de Benjamin Franklin para um viver virtuoso (vide a Figura 7.4). Por intermédio de uma boa ciência biológica e psicológica, e uma apreciação universal das visões filo­sóficas da felicidade, pode-se elevar a rele­vância internacional de nossos estudos acadêmicos no campo da psicologia positiva.

A saúde mental completa: bem-estar emocional, social e psicológico

Ryff e Keyes (1995; Keyes e Lopez, 2002; Keyes e Magyar-Moe, 2003) combi­nam muitos princípios de prazer para defi­nir a saúde mental completa. Especifica­mente, os autores consideram o funciona­mento ideal como sendo a combinação de bem-estar emocional (que é como se referem ao bem-estar subjetivo, definido como a presença de afeto positivo e satis­fação com a vida e a ausência de afeto ne­gativo), bem-estar social (incorporando a aceitação, realização, contribuição, coe­rência e integração) e o bem-estar psico­lógico (combinando autoaceitação, crescimento pessoal, propósito na vida, domínio do ambiente, autonomia, relações positi­vas com outras pessoas). Levando-se em consideração os sintomas da doença men­tal, eles definem “saúde mental completa” como a combinação de “altos níveis de sin­tomas de bem-estar emocional, bem-estar psicológico e bem-estar social, bem como a ausência de doença mental recente” (Keyes e Lopez, 2002, p. 49).

Essa visão de doença mental combi­na todas as facetas do bem-estar em um modelo que é, a um só tempo, dimensional (porque reflete extremos de saúde mental e sintomatologia da doença) e categórico (porque é possível a atribuição a distintas categorias de diagnóstico). Esse modelo de estado completo (Keyes e Lopez, p. 49; vide a Figura 7.5) sugere que a saúde men­tal e os sintomas de doença mental combi­nados podem estar em permanente mudan­ça, resultando em flutuações do bem-estar geral, que vão desde a doença mental com­pleta até a saúde mental completa.

Aumentando a felicidade em sua vida

Embora haja diversas teorias da feli­cidade e incontáveis definições acerca dela (por exemplo, Sheldon e Lyubomirsky. 2004), os pesquisadores começaram a usar trabalhos anteriores (Fordyce, 1977,1983) em suas tentativas de responder à pergun­ta que nos fazem muitos de nossos clientes: “Posso aprender a ser mais feliz?”. David Myers (1993), especialista no [138] assunto e autor de The pursuit of happiness, apre­senta estratégias gerais para aumentar a felicidade em sua vida (vide a Figura 7.6). Apresentamos Estratégias para melhorar a vida, com vistas a elevar a felicidade em esferas específicas.

Avançando em direção ao positivo

É muito fácil encontrar os aspectos desagradáveis e negativos das emoções e disfunções na vida (Baumeister, Bratslavsky, Finkenhaur e Vohs, 2001). Tudo o que você precisa fazer é ler o jornal matinal ou assis­tir ao telejomal da noite. Nossa necessida­de humana de entender o negativo é gran­de, por causa do sofrimento e da perda as­sociados à raiva e ao medo, bem como das funções evolucionárias das estratégias de evitação. Embora os aspectos positivos das experiências emocionais raramente captem a atenção da mídia ou da ciência, isso está começando a mudar.

Apenas três décadas atrás, por exemplo, alguns bravos cientis­tas sociais (como Braàbum, 1969-, Meéhl, 1975) expuseram suas idéias sobre o lado mais leve da vida. Hoje em dia, sabemos que a circulação do “fluido da alegria” (o termo irreverente de Paul Meehl para aqui­lo que induz experiências emocionais pra­zerosas) e fatores biológicos são importan­tes, mas não definem toda a nossa experiên­cia emocional. Nas palavras de Diener e colaboradores (2002, p. 68), “parece que a forma como as pessoas percebem o mundo é muito mais importante para a felicidade do que as circunstâncias objetivas”. [139]

Notas

Termos fundamentais

Afeto: Resposta instintiva de uma pessoa a um estímulo; caracterizado por uma sen­sação de excitação. O afeto é considerado o elemento mais básico do sentimento e envolve a avaliação de um estímulo como bom ou ruim.

Bem-estar emocional: Presença de afeto positivo e ausência de afeto negativo, as­sim como satisfação com a vida.

Bem-estar psicológico: Estado de bem-estar caracterizado por autoaceitação, cres­cimento pessoal, propósito na vida, domí­nio do ambiente, autonomia e emoções po­sitivas.

Bem-estar social: Estado de bem-estar caracterizado por aceitação, realização, contribuição, coerência e integração com os outros.

Bem-estar subjetivo: Julgamento indivi­dual que uma pessoa tem de sua atual si­tuação no mundo. Muitas vezes, a expres­são é usada como sinônimo de felicidade.

Conteúdo do afeto: Uma dimensão do sentimento medida pela Forma Ampliada da Escala de Afeto Positivo e Negativo (PANAS-X), de Watson e Clark (1994). Re­fere-se ao tipo de experiência dentro do estado de afeto positivo ou negativo. Por exemplo, o conteúdo do afeto positivo pode incluir jovialidade, autoconfiança ou uma postura atenciosa, ao passo que o afeto negativo pode incluir raiva, tristeza e medo.

Emoção: Estado de sentimento que resulta da avaliação de um objeto externo como sen­do importante para nosso próprio bem-estar. Uma emoção tem uma qualidade específica, “moldada”, dado que sempre tem um objeto.

Eudaimonia: Prosperar humano, ou feli­cidade, associada a uma vida de virtudes.

Flow: Segundo Csikszentmihalyi (1990), a experiência prazerosa que resulta do envolvimento em uma atividade interessan­te que esteja no nível ou desafie as habili­dades e capacidades da pessoa.

Humor: Sentimentos gerais, livres, que duram mais do que uma emoção. O hu­mor é considerado vinculado a expectati­vas de afeto positivo ou negativo futuro.

Modelo de emoções positivas “poten­cializar e construir”: Modelo desenvol­vido por Fredrickson (2000), que sugere que as emoções positivas ampliam aquilo que uma pessoa tem vontade de fazer em um determinado momento. Fredrickson chama essa expansão de ampliar o re­pertório momentâneo de pensamentos-ações de um indivíduo. As emoções posi­tivas também permitem às pessoas poten­cializar recursos, aumentando a solução criativa de problemas e o reconhecimento de recursos pessoais.

Modelo de estado completo: Modelo de­ senvolvido por Keyes e Lopez (2002), no qual a saúde mental é definida como altos níveis de bem-estar emocional, psicológi­co e social, e a ausência de sintomas de doença mental; o modelo reconhece que o bem-estar e a sintomatologia das doenças mentais mudam com o passar do tempo.

Princípio do prazer: Ideia de Sigmund Freud, segundo a qual os seres humanos buscam reduzir a tensão gratificando ne­cessidades instintivas. Ele acreditava que o bem-estar era resultado de necessidades biológicas e fisiológicas satisfeitas e que os seres humanos buscarão gratificação inde­pendentemente das conseqüências.

Repertório momentâneo de pensamentos-ações: Sugerido por Fredrickson (2000), é a potencialização de uma ten­dência específica à ação para incluir res­postas físicas bem como cognitivas a uma emoção. Fredrickson sugere que as ten­dências a ações específicas associadas a emoções negativas não levam em conside­ração respostas a emoções positivas, que muitas vezes são mais cognitivas do que físicas. Vide, também, tendência a ações es­pecíficas.

Tendência a ações específicas: Sugerida pela maior parte dos modelos de emoção, a tendência a agir de uma maneira especí­fica que segue uma emoção. A tendência a ação específica mais famosa é a resposta “luta ou fuga”, cuja teoria sugere que, quando se deparam com uma situação que evoca uma emoção negativa, seres huma­nos e animais agirão abordando (luta) ou se retirando (fuga) da situação.

Teorias da felicidade baseadas em processos/atividades: Teorias sobre a felici­dade que sugerem que ela é produzida quando nos envolvemos em certas ativida­des ou trabalhamos por um objetivo.

Teorias da felicidade baseadas em pre­disposições genéticas e da personalida­de: Teorias que sugerem que a felicidade pode ser um traço ou uma característica de personalidade mais estável do que de base genética.

Teorias da felicidade com base na satis­fação de necessidades/objetivos: Teorias que sugerem que a felicidade reside na re­dução da tensão por meio da satisfação de objetivos e necessidades.

Valência: Direção do afeto, seja positivo (agradável) seja negativo (desagradável).

Referências
Bibliografia
( 8 )
Mais de: Psicologia positiva
7/28/2020 3:40:40 PM | Por Shane J. Lopez
Fazendo o melhor de nossas experiências emocionais

Em alguns momentos, no decorrer do sé­culo XX, a pesquisa e a prática da psicolo­gia macularam a reputação das emoções. Na pior das hipóteses, os profissionais da ajuda e o público em geral caracterizavam as emoções como perniciosas para nossa vida ou prejudiciais para a tomada racio­nal de decisões. Na melhor, as emoções foram retratadas como reflexos da satisfa­ção na vida ou como sinais de atitudes específicas que precisavam ser tomadas no dia a dia. A pesquisa popularizada no sé­culo XXI (e examinada no Capítulo 7 e nes­te) demonstra que as emoções positivas e as negativas podem determinar o quanto somos adaptativos em nossa vida cotidia­na (vide o Capítulo 7 para a definição de emoção de Nussbaum [2001]). O propósi­to deste capítulo é lhe apresentar a forma como as pessoas fazem o melhor de suas experiências emocionais - ou seja, como elas geralmente lidam com as emoções po­sitivas e negativas de uma maneira que leve a um resultado positivo, discutindo a teo­ria e a pesquisa associadas com o enfren­tamento voltado às emoções, à inteligên­cia emocional, à seletividade socioemo­cional e à narração emocional de histórias. Discutimos de que forma nos beneficiamos com a mobilização de nossas emoções, co­mo podemos aprender a processar e usar de forma competente o material carrega­do de emoções e como selecionar de forma mais eficiente o conteúdo emocional bom e ruim da vida, à medida que avançamos na idade. Por fim, descrevemos como o ato de compartilhar histórias de perturbação emocional nos ajuda a superar o estresse traumático e o sofrimento.

Enfrentamento voltado às emoções: descobrindo o potencial adaptativo da aproximação emocional

O poder das emoções é descrito tra­dicionalmente, em termos negativos, como “a fera interior” (Averill, 1990). Emoções intensas eram consideradas disfuncionais e opostas à racionalidade. A pesquisa no século XX muitas vezes sustentou essa vi­são das experiências emocionais ao vinculá-las a resultados mal-adaptativos na vida. Entretanto, quando Annette Stanton, psicó­loga positiva da Universidade da Califórnia, [143] em Los Angeles, exa­minou o potencial adaptativo do enfrentamento voltado às emoções (isto é, regular as emoções que cercam um even­to estressante), con­cluiu que havia um problema na forma como as emoções eram definidas e medidas em parte das pesquisas. De fato, era visível que havia uma grande disparidade nos itens usa­dos para medir o fenômeno do enfrentamento voltado às emoções, e isso levou a associações pouco claras entre o que era cha­mado de “enfrentamento voltado às emo­ções” e o ajuste psicológico. Ou seja, Stanton, Danoff-Burg, Cameron e Ellis (1994) concluíram que as escalas que ava­liavam o enfrentamento voltado às emo­ções continham itens nos quais o respondente tinha que censurar a si mesmo ou admitir ter desconforto ou psicopatologia sempre que reconhecesse vivenciar uma emoção intensa. As respostas a itens como “Eu me culpo por me tornar emotivo de­mais” (Scheier, Weintraub e Carver, 1986) e “Eu me incomodo e libero minhas emo­ções” (Carver, Scheier e Weintraub, 1989) tinham mais probabilidades de apresentar correlação positiva com respostas a itens sobre uma visão negativa de si próprio ou a desconforto geral. Quando se retiraram as perguntas que situavam a regulação emocional dessa maneira confusa dos pro­tocolos de pesquisa, a relação muito cita­da entre maior enfrentamento voltado às emoções e resultados inferiores na vida foi considerada inválida.
Stanton e colaboradores passaram a última década trabalhando para esclarecer o que significa “enfrentamento voltado às emoções”.

Especificamente, Stanton, Parsa e Austenfeld (2002, p. 150) declararam que “se pode dizer que o enfrentamento por meio da aproximação emocional tem po­tencial adaptativo, cuja realização pode depender... do contexto situacional, do meio interpessoal e de atributos do indiví­duo”. O que eles chamam de aproxima­ção emocional está relacionado a movi­mento ativo em direção a um evento estressante, em lugar de para longe dele. Essa distinção entre aproximação emocio­nal e evitação emocional é sustentada pela existência de dois sistemas neurobiológicos que comandam os comportamentos de aproximação (ou seja, apetente) e evitação. O sistema de ativação comportamental re­gula nossa motivação para a aproximação, que nos ajuda a concretizar recompensas emocionais ou comportamentais, ao passo que o sistema de inibição comportamental funciona para nos ajudar a evitar eventos negativos e punição (Depue, 1996).

Stanton, Kirk, Cameron e Danoff-Burg (2000) identificaram dois processos rela­cionados, mas distintos, no enfrentamento voltado às emoções com base na aproxima­ção. Um deles envolve o processamento emocional, ou as tentativas de entender as emoções, e um segundo reflete a expressão emocional ou demonstrações de sen­timento livres e intencionais. Os pesquisa­dores, então, criaram escalas para dar conta desses dois enfoques do processamento emocional e da expressão emocional (vide o Quadro 8.1 para uma lista de componen­tes dos dois processos).
Com o enfrentamento voltado às emo­ções definido e medido de forma mais clara e objetiva, Stanton e colaboradores (Stanton et al., 2000; Stanton, Danoff-Burg e Huggins, 2002) conseguiram elucidar as funções da aproximação emocional. Usan­do suas medidas revisadas, Stanton e cola­boradores (2000) estudaram o impacto do enfrentamento voltado às emoções sobre a adaptação de mulheres ao câncer de mama. Durante um período de três meses, mulheres que usavam enfrentamento voltado às emo­ções perceberam sua situação de saúde co­mo melhor, tiveram desconforto psicológico menor e menos consultas médicas em [144] funcão de dores e indisposições relacionadas ao câncer, comparadas às que não usavam. Trabalhando com uma população de estudantes de graduação, Stanton, Kirk, Cameron e Danoff-Burg (2000) concluíram que os que estavam lidando com a doença psicológica ou física de um dos pais enfren­tavam melhor seus fatores de estresse se estivessem designados a sessões adequa­das às suas tendências de aproximação emocional. Ou seja, as pessoas que anteriormente haviam informado uma prefe­rência por expressar emoções sob pressão se saíram melhor quando participavam de sessões que lhes permitiam liberar as emo­ções em vez de, simplesmente, receber fa­tos. Por outro lado, os participantes que não informaram uma preferência por ex­pressar emoções quando estavam lidando com estresse se saíam melhor quando co­locados na condição de informação do que na condição de enfreníamento voltado às emoções. Essas conclusões sugerem que as preferências emocionais relacionadas ao enfrentamento podem interagir com as contingências ambientais para determinar os resultados psicológicos.

Trabalhos recentes sobre enfrentamen­to voltado às emoções, resumidos em uma revisão de Austenfeld e Stanton (2004), destacam o potencial adaptativo da expres­são e do processamento emocional ao en­frentar a infertilidade, o câncer e a dor crô­nica. Evidências de casos coletadas dos re­latos de nossos clientes e amigos sugerem que o potencial adaptativo da aproximação emocional também se concretiza em cir­cunstâncias de vida normais. Por exemplo, todos os dias, somos desafiados por estresses menores (spans em sua caixa de e-mail, gen­te ruim, tráfego) e por problemas reais (fal­ta de dinheiro, pequenas doenças, precon­ceitos sutis) que ativam emoções das quais podemos nos aproximar ou evitar. A maio­ria das pessoas parece se beneficiar, pelo menos no curto prazo, ao expressar suas emoções de forma significativa. Mais do que isso, o processamento emocional parece se tornar mais adaptativo à medida que as pes­soas aprendem mais sobre como se sentem e porque se sentem assim.

Dadas as consistentes conclusões re­lacionando o enfrentamento voltado às emoções e os resultados adaptativos sob determinadas circunstâncias, é importante entender de que forma a aproximação emo­cional nos beneficia. Evidentemente, se afastássemos nossas atenções dos [145] sentimentos desagradáveis cada vez que os sen­tíssemos, muito pouco aprenderíamos so­bre como esses sentimentos influenciam a nós e a nossos amigos (Salovey, Mayer e Caruso, 2002). Essa abordagem de enfrentamento pode ajudar a entender melhor nossas experiências e direcionar nossa aten­ção para resultados centrais (Frijda, 1994). Além disso, com o passar do tempo, pode­mos desenvolver a tendência a enfrentar nosso fatores de estresse direta e repetida­mente (em lugar de evitá-los em determi­nadas ocasiões) e assim nos habituar a cer­tas experiências negativas previsíveis. Aprendemos que o sofrimento emocional acaba por ceder e que o tempo cura as fe­ridas emocionais e físicas. Como se discute posteriormente neste capítulo, entender a experiência emocional pode ajudar a pes­soa a escolher relações e ambientes ideais (Carstensen, 1998). Em âmbito neuroló­gico, Depue (1996) aponta o envolvimento do sistema de ativação comportamental e LeDoux (1996) revela que uma determi­nada estrutura cerebral, a amígdala, cum­pre um papel de destaque no proces­samento de questões de importância emo­cional. Especificamente, LeDoux sugere que, em circunstâncias livres de estresse, nosso pensar é comandado pelo hipo­campo, mas, durante tempos mais estressantes, nossos processos de pensamento - e, portanto, aspectos de nosso enfrentamento - são comandados pela amígdala. Futuros exames da neurobiologia do enfrentamento focado nas emoções podem desmistificar ainda mais os benefícios de se aproximar das emoções e os funciona­mentos de estruturas cerebrais como amíg­dala relacionados a isso.

O caso de um sobrevivente de furacão

Enquanto esperava na fila para assis­tência, junto com dúzias de sobreviventes, testemunhei (S.J.L.) pessoas que estavam evitando todas as emoções, e algumas que estavam visivelmente dominadas pelo que estavam vivenciando. Meu palpite é que as que estavam enfrentando suas emoções estão se saindo melhor hoje em dia do que as que não estavam. Eu era um visitante na área do desastre, a casa de minha mãe" foi atingida, mas ela estava sã e salva. Ela e eu conversamos com muitos de nossos vizinhos que haviam perdido suas casas e estavam tentando retomar suas vidas.

Comecei uma conversa com um homem da minha idade. Achei que o reconhecera da escola de ensino médio e acabei sabendo que Ted era da região de Nova Orleans, a cerca de 250 quilômetros de distância. Ele e sua mulher haviam sobrevivido ao furacão Katrina, mas sua casa estava inabitável. Ele se mudou para New Iberia para encontrar uma casa para sua família e então o furacão Rita atingiu aquela cidade. Ted me contou a história toda. Ele ou­viu dizer que o Katrina havia posto mais de 1,5 metro de água dentro de sua casa em Nova Orleans, mas ele não tinha permissão para voltar e ver, em função da fal­ta de segurança. Ele acabou indo para Nova Iberia e alugou um apartamento para sua mulher e seus dois filhos. Depois, disse Ted “O Rita chegou e assustou muito a minha família”. Ele me contou que estava assustado porque talvez nunca mais conseguisse manter sua mulher e seus filhos segu­ros. Ted expressou suas emoções em lingua­gem simples, que transmitia a profundida­de de seu medo e de sua tristeza.

Ted e eu conversamos um pouco mais e ficou claro que ele havia passado muito tempo com sua mulher, processando suas emoções. Perguntei sobre como seus meni­nos estavam enfrentando a situação. Ele riu: "As crianças são impressionantes!”. Ele disse que eles não entendiam a necessida­de de todas as mudanças em suas vidas, mas haviam enfrentado bem os altos e bai­xos. Na época, ele me disse: “Ontem, com­pramos beliches para os meninos e os mon­tamos na noite passada. Coloquei meu fi­lho na cama de cima e, bom..., sabe o que ele disse? "Pai, está começando a parecer que a gente tem casa de novo’”. Ted [146] mudou de assunto e disse: “Espero que essa fila comece a andar”.

Inteligência emocional: aprendendo as habilidades que fazem a diferença

Daniel Goleman, autor de artigos científicos em inúmeros periódicos e jor­nais, popularizou o conceito de inteligên­cia emocional na década de 1990. Seu li­vro de 1995, Inteligência emocional: por que ela pode ser mais importante do que o QI, apresentou ao público em geral os con­ceitos emocionais que vinham sendo dis­cutidos por psicólogos e leigos durante dé­cadas. Profissionais de todos os tipos se basearam nesse importante tema do mo­mento e divulgaram suas visões acerca da inteligência emocional na imprensa popu­lar, ou no que se chamou de “indústria do desenvolvimento organizacional” (que se trata, basicamente, de programas de for­mação voltados a ajudar empregados a atingir seu potencial profissional atingin­do seu potencial pessoal). Até o momen­to, inúmeros amálgamas de constructos psicológicos foram conceituados como reflexos da inteligência emocional (vide Bar-On, 1997; Schutte et al., 1998). Por exem­plo, Bar-On (1997, 2000) define inteligên­cia emocional como um conjunto de ca­pacidades, competências e habilidades não-cognitivas que nos ajudam a lidar com as demandas do ambiente, mas o inven­tário relacionado, o EQ-1 (Bar-On, 1997), mede basicamente variáveis de persona­lidade e humor, como autorrespeito, empatia, tolerância e felicidade. Essa ver­são ateórica da inteligência emocional pode ser distinta de outras formas de in­teligência, mas, ainda assim, parece coin­cidir com operacionalizações existentes de variáveis psicológicas significativas. Portanto, medir esse tipo de inteligência emo­cional pode não proporcionar novas in­formações que possam ajudar um pesqui­sador ou profissional a predizer resulta­dos positivos na vida.

Acreditamos que a proliferação de modelos de inteligência emocional, junto com o apelo geral e a popularidade desse constructo positivo, levou a uma turvação das águas. Como resultado disso, talvez a inteligência emocional seja atualmente um dos constructos mais mal entendidos e mal representados da psicologia. Por isso, vol­tamos às raízes da pesquisa em inteligên­cia emocional e demonstramos como aprendemos a administrar material carre­gado de emoções em nosso benefício e de outros.

Em 1960, Mowrer respondeu ao pen­samento dominante de que as emoções minavam a inteligência, sugerindo que a emoção era, na verdade, “uma inteligên­cia de ordem superior” (p. 308). Peter Salovey, da Universidade de Yale, e John Mayer, da Universidade de New Hampshire (Mayer, DiPaolo e Salovey, 1990; Salovey e Mayer, 1990) compartilhavam o senti­mento de Mowrer e teorizaram que, para se adaptar às circunstâncias da vida, eram necessárias capacidades cognitivas e habili­dades emocionais que conduzissem nosso comportamento. Em seus artigos originais de 1990, Salovey e Mayer construíram uma estrutura teórica para a inteligência emo­cional. Ela continha três componentes centrais: avaliação e expressão, regula­ção e utilização. Es­sas idéias incipientes sobre um conjunto de capacidades emocio­nais que poderiam dar às pessoas um estoque de recursos in­telectuais foram bem recebidas pelo pú­blico em geral e pe­los estudiosos da psi­cologia.

O modelo de inteligência [147] emocional de Salovey e Mayer, baseado em ca­pacidades e com quatro ramos (vide o Qua­dro 8.2; Mayer, DiPaolo e Salovey, 1990; Mayer e Salovey, 1997; Salovey e Mayer, 1990; Salovey et al., 2002), fundamentava-se na visão de que as habilidades necessárias para raciocinar sobre as emoções e usar o material emocional podem ser aprendidas. O ramo 1 do modelo envolve as habilidades necessárias para perceber e expressar sentimentos. Mais especifica­mente, a percepção das emoções requer a identificação de sinais emocionais sutis que podem ser expressos na voz ou no rosto de uma pessoa. Por exemplo, ao conversar com um amigo sobre um tópico político carregado emocionalmente, uma pessoa habilidosa na percepção das emoções sabe determinar quais aspectos da discussão são território seguro ou inseguro com base no comportamento não-verbal do amigo. Es­sas habilidades de percepção podem ser consideradas como uma competência básica que deve ser adquirida para que as outras três competências da inteligência emocional possam ser desenvolvidas.

O ramo 2 desse modelo de capacida­des diz respeito a usar as emoções e o en­tendimento emocional para facilitar o pen­samento. Dito de forma simples, as pesso­as emocionalmente inteligentes aproveitam as emoções e trabalham com elas para melhorar a solução de problemas e aumentar a criatividade.

O feedback fisiológico da experiência emocional é usado para priorizar as deman­das sobre nossos sistemas cognitivos e direcionar a atenção ao que for mais [148] importante (Easterbrook, 1959; Mandler, 1975). Nesse aspecto, imagine que uma pessoa tenha que tomar uma decisão importante sobre um relacionamento. Ela deveria investir mais tempo em uma ami­zade que tem estado meio congelada ou assimilar as perdas e terminar a amizade de maneira civilizada? A forma como ela se sente física e emocionalmente quando pensa em continuar ou terminar a amiza­de pode dar algumas pistas sobre como proceder. Sendo assim, essa informação emocional direciona a atenção a diferen­tes possibilidades para lidar com a amiza­de. Além disso, quanto mais as emoções forem usadas em esforços para tomar boas decisões, maior será o aumento na inteli­gência emocional.

O ramo 3 de inteligência emocional destaca as habilidades necessárias para de­ senvolver uma compreensão das emoções complexas, das relações entre as emoções e das relações entre emoções e conseqüên­cias comportamentais. Alguém que apre­sente um elevado nível de compreensão emocional saberia que a esperança é um antídoto ao medo (vide o Capítulo 9) e que a tristeza ou a apatia são respostas mais apropriadas à perda de um amor do que o ódio. As pessoas com essas habilidades entendem que emoções como ciúme e in­veja são destrutivas por si sós (devido a suas repercussões fisiológicas e psicológi­cas) e que elas estimulam um comporta­mento interpessoal mal-adaptativo, que provavelmente resultará em uma prolife­ração de emoções negativas. A apreciação das relações dinâmicas entre emoções e comportamentos dá a uma pessoa emo­cionalmente inteligente uma sensação de que sabe “ler” melhor uma pessoa ou uma situação, e agir adequadamente, dadas as demandas do ambiente. Por exemplo, ima­gine o esforço emocional de uma pessoa a quem um amigo íntimo pede que traia a confiança de um colega de aula ou de trabalho. Essa pessoa pode se sentir decep­cionada ou chateada pelo fato de que o amigo lhe pediu que se comportasse de ma­neira inadequada. Caso se sinta tentada a romper a confiança, ela pode sentir uma onda de vergonha. Então, entender essas emoções complexas pode ajudá-la a defi­nir a atitude correta naquele momento.

Quanto mais praticarmos habilidades que estejam associadas aos ramos 1 a 3, mais conteúdo emocional haverá para ad­ministrar. A administração das emoções, o ramo 4, envolve diversas habilidades de regulação de humores, as quais são de di­fícil domínio, dado que a regulação é um ato de equilíbrio. Com excesso de regula­ção, uma pessoa pode se tornar emocio­nalmente reprimida; com muito pouca, sua vida emocional se torna avassaladora. As pessoas que ficam muito hábeis na regu­lação de seus humores também são capa­zes de compartilhar essas habilidades com outras. É comum que os melhores pais, professores, técnicos esportivos, líderes, chefes e modelos de comportamento sai­bam administrar suas emoções e que, ao mesmo tempo, instilem confiança nos ou­tros para que estejam abertos a sentimen­tos e os administrem adequadamente.

Cada uma das quatro dimensões do modelo de capacidades é avaliada com dois conjuntos de tarefas em uma medida cha­mada de Teste de Inteligência Emocional de Mayer-Salovey-Caruso (Emotional Intelligence Test, MSCEIT; Mayer, Salovey e Caruso, 2001). As tarefas relacionadas à percepção das emoções pedem que os respondentes identifiquem as emoções ex­pressas em fotografias de rostos, bem como os sentimentos sugeridos por desenhos ar­tísticos e paisagens. Para usar as emoções com vistas a facilitar o pensamento, devem descrever os sentimentos usando palavras não-relacionadas a sentimentos e indicar os sentimentos que possam facilitar ou in­terferir no desempenho bem-sucedido em várias tarefas. A dimensão relacionada a entender as emoções é avaliada com per­guntas sobre a maneira com que as emo­ções evoluem e como alguns sentimentos são gerados por misturas de emoções. Para cobrir a capacidade de administrar as [149] emoções, o MSCEIT apresenta uma série de ce­nários que evocam as formas mais adaptativas de regular os próprios sentimentos, bem como sentimentos que surjam em si­tuações sociais e em outras pessoas.

A prática de algumas das 16 habili­dades associadas aos quatro ramos da in­teligência emocional está fortemente asso­ciada ao funcionamento interpessoal posi­tivo. Por exemplo, Lopes, Brackett, Nezlek, Schütz, Sellin e Salovey (2004) examina­ram a relação entre a inteligência segundo a autoavaliação (usando MSCEIT; Mayer et al., 2001) e o comportamento social. Esses pesquisadores concluíram que as ca­pacidades daqueles estudantes universitá­rios (n = 118) de administrar emoções estavam positivamente correlacionadas com a qualidade das interações sociais. Outro trabalho com um grupo pequeno (n = 76) de universitários (Lopes, Salovey, Cote, Beers e Petty, 2005) revelou que as quali­dades relacionadas à regulação emocional estavam positivamente associadas à sensi­bilidade interpessoal (autoavaliações e in­dicações de colegas), com tendências pró-sociais e com as proporções entre indica­ções de colegas positivas e negativas. Es­sas relações permaneceram significativas após a realização de controle para os Cin­co Grandes traços de personalidade, bem como para inteligência verbal e fluida. Da mesma forma, em uma amostra de 103 estudantes universitários, Lopes, Salovey e Straus (2004) concluíram que indivíduos com habilidades de alto nível na administração de emoções tinham mais probabili­dades de informar relacionamentos positi­vos com outras pessoas, bem como apoio parental percebido, e menos probabilida­des de informar interações negativas com amigos íntimos. Essas associações se man­tiveram estatisticamente significativas mes­mo quando se realizou controle para os Cinco Grandes traços de personalidade e para inteligência verbal. Conclusões des­ses últimos estudos (Lopes, Salovey, Cote, Beers e Petty; Lopes, Salovey e Straus) des­tacam o valor agregado da inteligência emocional para entender a natureza das interações pessoa-a-pessoa, ou seja, a in­teligência emocional nos diz alguma coisa sobre o funcionamento social que os tra­ços de personalidade e a inteligência ana­ lítica não explicam.

Como revelado na revisão da seção anterior, acerca de pesquisas sobre enfrentamento voltado às emoções, envolver-se mais profundamente em suas experiências emocionais (ou perceber, usar, entender e administrar as emoções, para usar o jar­gão dos pesquisadores da inteligência emocional) tem seus benefícios. Mais do que isso, para pessoas que demonstram inteli­gência emocional, o funcionamento emo­cional positivo pode se concretizar. Como essas duas linhas de pesquisa (o trabalho de Stanton sobre a aproximação emocio­nal e o exame de Salovey e Mayer da inte­ligência emocional) estabelecem o poten­cial para trabalhar com suas emoções, nos­sa atenção se volta agora para o debate sobre a possibilidade de serem aprendidas habilidades emocionais. Mais de 300 pes­soas que trabalham no desenvolvimento de programas (Salovey et al., 2002) têm se intrigado com a possibilidade de ensinar a inteligência emocional. Sobre essa questão, as evidências de casos sugerem que as crianças, os jovens e os adultos podem ser ensinados a usar as experiências emocio­nais para enriquecer suas vidas cotidianas e podem ser capacitados para lidar com os eventos bons e ruins com que se deparam. O tempo e uma análise mais empírica, con­tudo, dirão se o desenvolvimento intencio­nal de habilidades realmente produz ga­nhos em inteligência emocional.

Também são necessárias mais pesqui­sas para determinar os substratos neuroló­gicos da inteligência emocional. Há algu­mas evidências de que a operação eficien­te da amígdala e do córtex pré-frontal ventromedial pode estar envolvida com a inteligência emocional (vide Damasio. 1994), mas a interação entre estruturas ce­rebrais nas pessoas com inteligência emocional elevada ainda não foi aprofundada. [150]

O caso de Maria

Maria é uma talentosa professora de ensino fundamental que adora seu traba­lho. Há alguns anos, eu (S.J.L.) tive o pri­vilégio de assistir à sua aula enquanto tra­balhava com um projeto de psicologia po­sitiva em sua escola. No primeiro dia em que a vi trabalhar com seus alunos, desen­volvi uma hipótese sobre o ensino eficaz, que ainda sustento: os bons educadores (em todos os níveis) ensinam conhecimen­tos e habilidades e são emocionalmente in­teligentes. Ou seja, acredito que, indepen­dentemente do foco da disciplina (por exemplo, matemática, química, espanhol, literatura, psicologia), os bons professores entendem o conteúdo emocional na sala e fazem pequenos ajustes em suas posturas de ensino para conseguir compartilhar efe­tivamente seu conhecimento com o grupo.

Na minha primeira visita à sala de aula de Maria, fiquei impressionado com a forma como ela conseguia “ler” uma [152] turma. Ela parecia saber o que cada aluno pre­cisava em qualquer momento dado, e pare­cia ter uma sensação do teor emocional ge­ral da sala. Por exemplo, antes do “daily check-in” (o nome que ela dava para uma verificação), Maria respondia à ansiedade da sala com comentários calmantes e um exercício de relaxamento rápido. Sua capa­cidade de perceber as emoções de seus alu­nos e responder a eles de maneira estraté­gica foi demonstrada repetidas vezes duran­te minhas cinco horas de observação.

Com base em minhas interações com Maria, parecia que ela também tinha um sentido aguçado de sua própria experiên­cia emocional. Ela se descrevia como in­tuitiva, e como alguém que parecia se ade­quar..., mas havia mais. Embora parecesse saber instintivamente o que ela e seus alu­nos estavam sentindo, também tinha habi­lidade de usar as emoções para despertar sua própria criatividade na sala de aula. Ela conseguia descartar a aula que havia pre­parado e criar uma atividade envolvente na hora, se os alunos estivessem ficando entediados ou inquietos. E tinha uma gran­de sensação do momento quando realiza­va essas mudanças importantes no plane­jamento, de forma que os estudantes nem se davam conta de que ela saiu do roteiro para chamar mais atenção.

É possível que minha visão sobre a elevada inteligência emocional de Maria tenha sido consolidada no dia em que a vi resolver uma disputa entre cinco alunos no pátio. As crianças estavam frustradas e cho­rosas, e Maria parecia entender as emoções delas e sua rápida troca de acusações e ex­plicações. Aos poucos, ela acalmou a situa­ção e ajudou cada aluno a sair bem do pro­blema... Então, de repente, um dos alunos gritou: “Você não está sendo justa, eu odeio você!”. Nesse momento, ela estimulou as outras crianças a voltar à brincadeira e se ajoelhou para falar com o que estava furi­oso, olho no olho. Com o tempo, sua pos­tura e sua careta pareceram se suavizar, e ele concordou com a cabeça e voltou a seus amigos. Ficou claro que a capacidade dela de administrar suas próprias emoções aju­dou esse menino a administrar as dele.

Maria compartilhou sua inteligência emocional com seus alunos todos os dias, dando exemplos de comportamento adaptativo. Minha opinião é que alguns de seus alunos aprenderam como obter o melhor de suas emoções assistindo-a.

Seletividade socioemocional: concentrando-se em etapas posteriores da vida, em emoções positivas e objetivos relacionados a emoções

Nossa capaci­dade de fazer o me­lhor de nossas ex­periências emocio­nais é determinada, em parte, por de­mandas pessoais e do ambiente, como nossa situação de saúde, nosso entor­no social e as normas culturais. Está fican­do claro, atualmente, que a capacidade sin­gular dos seres humanos de acompanhar o tempo durante toda sua vida também pode determinar quanta energia se dedica a objetivos emocionais. (Vide o Capítulo 9 para uma discussão relacionada à influência da perspectiva do tempo.) De fato, a teoria da seletividade socioemocional da psicóloga da Universidade de Stanford Laura Carstensen (1998; Carstensen e Charles, 1998) postula que a juventude pode ser subvalorizada e que os anos pos­teriores (os “anos dourados”) podem ser valiosos porque nos concentramos menos nas emoções negativas, nos envolvemos menos profundamente com o conteúdo emocional de nossos dias e desfrutamos das “coisas boas” da vida (por exemplo, esta­belecendo e aprimorando [153] relacionamentos). Carstensen argumenta que somos ca­pazes de apreciar esses benefícios em nos­sa idade avançada porque nos damos con­ta de que nos resta pouco tempo.

Em seu laboratório, Carstensen de­monstrou que os jovens e os mais velhos tratam materiais carregados de emoções de forma muito diferente. Em testes de aten­ção a estímulos novos, por exemplo, os participantes mais jovens prestaram aten­ção mais rapidamente a imagens negati­vas, ao passo que os mais velhos se volta­ram com mais rapidez a imagens carrega­das de emoções positivas (rosto sorrindo, bebê feliz, cachorrinho) (Charles, Mather e Carstensen, 2003). Com relação à lem­brança de eventos emocionais, Charles e colaboradores concluíram que os jovens (em idade universitária e um pouco mais velhos) lembraram-se de material positivo e negativo no mesmo nível, mas as pesso­as mais velhas tiveram um viés positivo no qual se lembravam do material positivo mais rapidamente do que do negativo. Es­ses estudos sugerem que o processo de interação com as emoções é diferente em adultos jovens e adultos mais velhos.

Independentemente de nossas ten­dências a prestar atenção e nos lembrar­mos de certos tipos de eventos, a vida dá a todos nós bênçãos e problemas. Nesse as­pecto, Carstensen e colaboradores concluí­ram que há efeitos relacionados à coorte etária para a forma como lidamos com ex­periências cotidianas positivas e negativas. Depois de monitorar os estados de humor de 184 pessoas (de 18 anos para cima) por uma semana, Carstensen, Pasupathi, Mayr e Nesselroade (2000) descobriram que seus participantes de pesquisa mais velhos não apenas não se incomodavam com coisas sem importância (que é como viam os even­tos negativos), como também desfrutavam dos eventos positivos (vivenciavam os re­síduos bons dos eventos positivos por pe­ríodos mais longos do que os mais jovens). Dadas essas conclusões, parece que as ex­periências e as emoções positivas passam a ser nossa prioridade à medida que enve­lhecemos e começamos a levar em consi­deração nossa mortalidade.

Por fim, ao contrário da fascinação dos jovens com objetivos orientados ao fu­turo com relação à aquisição de informa­ção e à ampliação de horizontes, as pes­soas mais velhas parecem se orientar a objetivos “aqui-e-agora”, que estimulam o sentido emocional (Kennedy, Fung e Carstensen, 2001). Lembrar-se de experi­ências positivas, desfrutar de momentos bons e estabelecer e investir em objetivos voltados às emoções influenciam sistema­ticamente as preferências sociais, a regu­lação emocional e o processamento cogni­tivo. Em termos gerais, contudo, o processo de envelhecimento parece estar ligado ao esforço por uma vida emocional mais profunda.

Narração emocional de histórias: o paradigma de pennebaker como foma de processar emoções negativas intensas

De vez em quando, vivenciamos even­tos que nos abalam muito. Eventos trau­máticos que causam agitação podem dre­nar igualmente os recursos de pessoas com um bom enfrentamento emocional, das emocionalmente inteligentes e dos jovens e dos velhos. É muito provável (com uma probabilidade de 95%) que, quando viven­ciamos um evento emocional avassalador, compartilhemos essa experiência com um amigo ou parente, no mesmo dia de sua ocorrência, geralmente nas horas seguin­tes (Rime, 1995). É quase como se fôsse­mos estimulados a contar a história de nos­so sofrimento emocional. É possível que tenhamos aprendido que não falar sobre nossas emoções intensas tem conseqüên­cias terríveis? Essa pergunta e muitas hipó­teses de pesquisa relacionadas a ela têm servido como motivação para o trabalho do psicólogo da Universidade do Texas [154] Jamie Pennebaker. Em 1989, o Dr. Pennebaker fez trabalhos revolucionários nessa área de pesquisa ao fazer a seguinte solici­tação para participantes de pesquisa que eram estudantes de graduação, em um gru­po experimental de um estudo:

Durante os próximos quatro dias, gosta­ria... que vocês escrevessem sobre seus mais profundos pensamentos e sentimen­tos com relação à sua experiência de vida mais traumática. Ao escrever, eu gostaria que vocês realmente se soltassem e ex­plorassem suas emoções e seus pensamentos mais profundos. Podem relacionar seu tópico a seus relacionamentos, incluindo os pais, parceiros amorosos, amigos e pa­rentes. Também podem relacionar a ex­periência a seu passado, seu presente ou seu futuro, ou a quem foram, a quem gos­tariam de ser ou a quem são agora. Po­dem escrever sobre as mesmas questões gerais ou experiências em todos os dias de redação, ou sobre traumas diferentes a cada dia. Tudo o que escreverem será completamente confidencial (p. 215).

Solicitou-se aos participantes do gru­po de controle que escrevessem durante 15 minutos por dia, ao longo de quatro dias, mas sobre um tópico não-emocional (como a descrição da sala em que estivessem sen­tados). Todos os participantes deveriam escrever de forma contínua, sem se preocu­par com ortografia, gramática e estrutura de sentenças. Os efeitos imediatos das duas intervenções foram tais que o grupo experi­mental ficou mais desconfortável. A seguir, com o passar do tempo (depois de duas semanas após o estudo), os membros do grupo de narração emocional de histórias vivenciaram diversos benefícios à saúde, incluindo menos consultas médicas no ano seguinte, do que os do grupo de controle.

Esse procedimento de pesquisa, en­volvendo o simples ato de abrir a própria perturbação emocional por escrito, que chamamos em geral de narração emocio­nal de histórias, é chamado agora de paradigma de Pennebaker (abrir-se por escrito, sistematicamente, em sessões bre­ves) . Essa técnica tem sido usada para abor­dar as emoções associadas a perda de em­prego (discutidas no Capítulo 17), diagnós­tico de doenças e rompimento de relacio­namentos (analisado em Pennebaker, 1997). Os efeitos positivos de longo prazo da narração emocional de histórias são muito consistentes, mas parece que as pes­soas com hostilidade (o que geralmente sugere dificuldade pessoal de administrar as emoções) têm uma resposta imune po­sitiva maior do que as pessoas com baixa hostilidade (Christensen e Smith, 1998), e os participantes que têm elevado traço de alexitimia (dificuldade de identificar e en­tender as emoções) vivenciaram efeitos mais saudáveis do que os que têm esse tra­ço baixo (Paez, Velasco e Gonzales, 1999). Citamos essas conclusões, especificamen­te, porque elas podem sugerir que as pes­soas que geralmente não têm a tendência (ou a habilidade) de trabalhar com o con­teúdo de vida emocionalmente carregado podem ter mais benefícios com esse meio de processamento de emoções negativas intensas.

As explicações teóricas para os benefí­cios da narração emocional de histórias em resposta a eventos traumáticos continuam a ser refinadas. Parece que a desinibição (abrir mão de estresse relacionado a emo­ções), o processamento emocional e as di­nâmicas sociais (quando o ato de se abrir ocorre fora do laboratório) estão em fun­cionamento (Niederhoffer e Pennebaker, 2002) quando alguém que esteja experi­mentando agitação emocional conta sua história. Dito de forma clara, “expressar experiências desconfortáveis em palavras permite que as pessoas parem de inibir seus pensamentos e sentimentos, comecem a organizar os pensamentos e, talvez, encon­trem sentido em seus traumas e reintegrem suas redes sociais” (Niederhoffer e Penne­ baker, p. 581). Acreditamos que essas ex­plicações para a potência da narração emo­cional de histórias podem ser resumidas como sendo o trabalhar estrategicamente com as emoções dentro de um contexto social. [155]

Trabalhando com as emoções para gerar mudança positiva

Psicólogos clínicos há muito discutem o papel das emoções no processo de mu­dança psicológica. Durante nossa forma­ção como psicólogos, somos aconselhados a identificar as emoções dos clientes e a refletir o conteúdo emocional de suas his­tórias por meio de declarações empáticas que fazemos em voz alta. As emoções eram consideradas os indicadores da qualidade do funcionamento, pois nos ajudavam a acompanhar como o cliente estava se sain­do. Agora, em função das pesquisas discu­tidas neste capítulo, formamos nossos alu­nos de graduação para considerar as emo­ções como determinantes da mudança po­sitiva, e não apenas como indicadores de crescimento. Na verdade, o quão bem nós e nossos clientes lidamos com eventos emo­cionais estabelece, em parte, os limites máximos do bem-estar pessoal.

Um ato de equilíbrio emocional

Lidar com os aspectos emocionais da vida certamente é um ato de equilíbrio (Salovey et al., 2002). Às vezes, experiên­cias emocionais intensas que sobrecarre­gam nossos recursos psicológicos podem resultar em respostas de evitação..., e isso provavelmente é adaptativo, mas lidar com emoções negativas de um modo que resul­te em ruminação (pensamento obsessivo) pode ser bastante mal-adaptativo. Equili­brar as tendências à aproximação e à evitação pode resultar em um melhor fun­cionamento.

Algumas pessoas são hábeis em ad­ministrar emoções negativas, mas não con­seguem identificar qualquer emoção posi­tiva intensa. Outras pessoas podem igno­rar as importantes mensagens de proteção transmitidas por emoções negativas, ao mesmo tempo que se mantêm abertas a sentimentos “bons”. Essas tentativas dese­quilibradas de processar sentimentos po­dem resultar em muitos dados perdidos, o que pode levar à tomada de más decisões. Fazer o melhor das experiências emocio­nais por meio de enfrentamento voltado às emoções, à inteligência emocional, à de­finição de objetivos emocionais e à narra­ção emocional de histórias pode ajudar a criar um meio equilibrado de lidar com a informação obtida a partir de todas as ex­periências emocionais.

Certamente, há muitas formas, pro­dutivas e não-produtivas, de lidar com as informações carregadas de emoções que processamos todos os dias. É importante aprender a trabalhar com as emoções [158] diversificando o seu repertório de habilida­des de enfrentamento e depois determinan­do o que é eficaz e leva a resultados dese­jados na vida. [159]

Psicologia - Psicologia positiva
7/26/2020 4:21:00 PM | Por Shane J. Lopez
Os princípios do prazer

Parado diante de um pequeno auditório, Ed Diener, psicólogo da Universidade de Illinois e pesquisador do tema da felicida­de, com renome mundial, segurava um cérebro de verdade em um frasco conten­do um líquido azul, que ele chamava de “suco da alegria” e que gotejava de um sa­quinho plástico segurado de cima. Ele pe­dia ao público que fingisse que seu cére­bro poderia ser tratado com um hormônio (ou seja, o suco da alegria) que deixaria as pessoas em um êxtase de felicidade, e elas poderiam se sentir felizes todo o tempo. Aí, ele fazia a pergunta fundamental: “Quantas pessoas nesta sala gostariam de fazer isso?”. Dos 60 presentes, só duas levanta­ram a mão para indicar seu desejo de feli­cidade perpétua.

Como eu (S.J.L.) tive pouco acesso a textos filosóficos e como minha formação de graduação e pós-graduação em psico­logia não me propiciou conhecer a ciência da felicidade, não havia pensado muito so­bre o tema em suas muitas formas. A per­gunta do Dr. Diener me deixou intrigado, e, desde que assisti à sua palestra em 1999, tenho tentado desenvolver uma com­preensão melhor do lado positivo da expe­riência emocional, o que me levou à pes­quisa sólida da qual apresento aqui um resumo.

Neste capítulo, tento acrescentar al­go ao que você sabe sobre prazer, indo muito além do prin­cípio do prazer de Freud (1936) (a de­manda pela satisfa­ção de uma neces­sidade instintiva, in­dependentemente das conseqüências) e estimulando a com­preensão dos muitos princípios de prazer que têm sido relacionados ao bem-viver. Nesse processo, apresentamos o que já se sabe sobre aquilo que torna a vida moderna prazerosa. Também resumimos pesqui­sas que examinam as distinções entre afeto positivo e negativo. Da mesma forma, des­tacamos as emoções positivas e seus bene­fícios para a expansão do prazer, e explora­mos as muitas definições de felicidade e bem-estar, qualidades do viver prazeroso. Para começar, esclarecemos os diversos ter­mos e conceitos que usamos neste capítulo. [123]

Definindo termos emocionais

Os termos afeto e emoção costumam ser usados de forma intercambiável em li­teraturas acadêmicas e populares, e bem-estar e felicidade parecem ser sinônimos em artigos de psicologia. Infelizmente, contu­do, o uso intercambiável desses termos causa muita confusão. Embora tentemos esclarecer as distinções entre essas idéias intimamente relacionadas, reconhecemos que há coincidências. Começamos sugerin­do que o afeto é um componente da emo­ção e que a emoção é uma versão mais es­pecífica do humor.

Afeto

O afeto é a resposta fisiológica ime­diata de uma pessoa a um estímulo e ge­ralmente se baseia em uma sensação subjacente de excitação. Especificamente, o professor Nico Frijda (1999) argumen­tou que o afeto envolve a avaliação de um evento como prazeroso ou doloroso - ou seja, sua Valencia - e a experiência da exci­tação autonômica.

Emoção

E difícil encontrar definições parcimoniosas de emoção, mas esta parece des­crever o fenômeno de forma sucinta: “As emoções, devo dizer, envolvem julgamen­to em relação a coisas importantes, julga­mentos esses nos quais, avaliando um ob­jeto externo como sendo importante para nosso próprio bem-estar, reconhecemos nossa própria carência e imperfeição dian­te de partes do mundo que não controla­mos por inteiro” (Nussbaum, 2001, p.19). Essas respostas emocionais ocorrem ao nos tornarmos cientes de experiências doloro­sas ou prazerosas e com a excitação autonô­mica associada a elas (ou seja, afeto; Frijda, 1999), e avaliamos a situação. Uma emo­ção tem uma qualidade específica e “moldada”, dado que sempre tem um objeto (Fredrickson, 2002) e está associada ao avanço na busca de objetivos (Snyder et al., 1991; Snyder, 1994). Por outra pers­pectiva, um humor não tem objeto, é livre e duradouro.

Felicidade

A felicidade é um estado emocional positivo, subjetivamente definido por um pessoa. O termo raramente é usado em estudos científicos, pois há pouco consen­so em relação a seu significado. Neste capítulo, o termo somente será utilizado quando for esclarecido por meio de informações complementares.

Bem-estar subjetivo

O bem-estar subjetivo é a avaliação subjetiva da própria situação atual no mun­do. Mais especificamente, Diener (198- 2000; Diener, Lucas e Oishi, 2002) define o bem-estar subjetivo como uma combi­nação de afeto positivo (na ausência de afeto negativo) e satisfação geral com a vida (isto é, a apreciação subjetiva das gra­tificações da vida). A expressão bem-estar subjetivo é muito usada como sinônimo de felicidade na literatura de psicologia. Qua­se sem exceção, a palavra felicidade, mais acessível, é usada na imprensa popular no lugar da expressão bem-estar subjetivo.

Diferenciando o positivo do negativo

Hans Selye (1936) é conhecido por sua pesquisa sobre os efeitos da exposição prolongada ao medo e à raiva. Repetida­mente, ele concluiu que o estresse fisioló­gico prejudicava o corpo, ainda que tenha valor de sobrevivência para os seres huma­nos. De fato, as funções evolutivas do medo têm intrigado pesquisadores e leigos. [124] Considerando-se a tradição histórica e as des­cobertas científicas relativas aos efeitos negativos, sua importância em nossas vi­das não foi questionada no decorrer do úl­timo século.

Historicamente, os afetos positivos têm recebido pouca atenção, de um século para cá, porque poucos estudiosos traba­lharam com a hipótese de que as gratifica­ções de alegria e contentamento iam além dos valores hedonistas [baseados no pra­zer), podendo ter alguma importância evolutiva. As potencialidades do afeto posi­tivo ficaram mais evidentes nos últimos 20 anos (Fredrickson, 2002) à medida que a pesquisa traçou distinções com o negativo.

David Watson (1988), da Universida­ de de Iowa, realizou pesquisas sobre as motivações do afeto prazeroso voltado à aproximação - incluindo estudos rigorosos de afetos negativos e positivos. Para facili­tar sua pesquisa sobre as duas dimensões da experiência emocional, Watson e sua colaboradora Lee Anna Clark (1994) desen­volveram e validaram a Forma Ampliada da Escala de Afeto Positivo e Negativo (Positive and Negative Affect Scale - PANAS-X), que se tornou uma medida muito utilizada nessa área. Essa escala de 20 itens já foi usada em centenas de estu­dos para quantificar duas dimensões do afeto: Valencia e conteúdo. Mais especifi­camente, a PANAS-X trata da valência “ne­gativa” (desagradável) e “positiva” (agra­dável). O conteúdo dos estados de afeto negativo pode ser mais bem descrito como desconforto geral, ao passo que o afeto positivo inclui jovialidade, autoconfiança e uma postura atenciosa. (Vide a PANAS, predecessora da PANAS-X, que é curta e válida para a maioria dos propósitos clíni­cos e de pesquisa.)

Usando a PANAS e outras medidas de "afeto, os pesquisadores têm tratado siste­maticamente de uma questão básica: “Po­demos vivenciar afetos negativos e positi­vos ao mesmo tempo?” (vide Diener e Emmons, 1984; Green, Salovey e Truax, 1999.) Por exemplo, pode-se ir assistir a um filme envolvente e sair sentindo prazer e medo? Embora os afetos positivos e ne­gativos fossem con­siderados, anterior­mente, como polos opostos, Bradburn (1969) demonstrou que ambos são in­dependentes e têm correlates diferentes. Psicólogos como Wat­son (2002) continuam
a examinar essa ques­tão da independência em suas pesquisas. Em um estudo recente, ele concluiu que existe correlação do afeto negativo com a jovialidade, a autoconfiança e a postura atenciosa em apenas -0,21, -0,14 e -0,17, respectivamente. As baixas magnitudes dessas correlações negativas sugerem que, embora o afeto negativo e positivo este­jam inversamente correlacionados, como era de se esperar, as relações são bastante frágeis e indicam independência dos dois tipos de afeto. O tamanho dessas relações, contudo, pode aumentar quando as pes­soas são submetidas aos fatores de estresse diários (Keyes e Ryff, 2000; Zautra, Potter e Reich, 1997).

Emoções positivas: expandindo o repertório do prazer

À medida que alguns psicólogos refi­nam a distinção entre os lados positivo e negativo da experiência emocional por meio de pesquisa básica e medição, outros estudiosos (por exemplo, Isen, Fredrick­ son) começaram a explorar questões so­bre a potência e as potencialidades das emoções positivas. (Nesse caso, usamos o termo emoção em lugar de afeto porque estamos nos referindo às tendências de res­posta específicas que fluem da experiência do afeto.) A psicóloga da Universidade de [125] Cornell, Alice Isen, é pioneira no exame das emoções positivas. A Dra. Isen concluiu que, ao vivenciar experiências positivas moderadas, temos mais probabilidades de:

  1. ajudar outras pessoas (Isen, 1987);
  2. ser flexíveis em nosso pensamento (Ashby, Isen e Turken, 1999) e
  3. produzir soluções para nossos proble­mas (Isen, Daubman e Nowicki,1987).

Em pesquisas clássicas relacionadas a esses aspectos, Isen (1970; Isen e Levin, 1972) realizou uma manipulação experi­mental na qual os participantes encontra­ram ou não moedas (colocadas ali pelos pesquisadores) na abertura para devolu­ção de um telefone público. Comparados aos que não encontraram a moeda, os que encontraram tiveram mais probabilidades de ajudar uma pessoa a carregar uma pi­lha de livros ou juntar papéis que caíram no chão. Sendo assim, encontrar uma moe­da e sentir a emoção positiva associada a isso fizeram que as pessoas se comportas­ sem de maneira mais altruísta.

Sentir emoções positivas também po­de ajudar a enxergar opções para solucio­nar problemas e descobrir pistas para to­mar boas decisões (Estrada, Isen e Young, 1997). Em um estudo relacionado a esses aspectos, os pesquisadores designaram aleatoriamente médicos a uma condição experimental na qual receberam ou não um saquinho contendo seis balas e quatro cho­colates (eles não podiam comer os doces durante o experimento). Os médicos que receberam o presente apresentaram raciocínio e tomada de decisões superiores em relação aos que não o receberam. Especifi­camente, os médicos na condição de emo­ção positiva não tiraram conclusões preci­pitadas, e sim foram cautelosos, ainda que tenham chegado ao diagnóstico mais rapi­damente do que os que estavam na outra condição (Alice Isen, comunicação pessoal, 13 de dezembro de 2005). Talvez devêsse­mos levar uns doces ao nosso médico na próxima vez que formos consultar!

Aqui, uma descrição mais detalhada do estudo que nos levou a essa sugestão descontraída. (Embora a Dra. Isen use o termo afeto, acreditamos que emoção seria o termo mais adequado nesse caso.) 

Quarenta e qua­tro médicos fo­ram designados aleatoriamente a um entre três grupos: um gru­po de controle, um grupo com indução de afe­tos (esses parti­cipantes rece­beram um sa­quinho com do­ces) ou um gru­po cujos participantes deveriam ler declarações humanistas com relação à prática da medicina. Pediu-se que os [127] médicos em todos os três grupos “pensassem em voz alta” enquanto chegavam a uma solução para um paciente com problemas no fígado. As transcrições dos comentá­ rios dos médicos foram digitadas, e dois avaliadores analisaram as transcrições para determinar com que rapidez o diag­ nóstico de doença do fígado foi cogitado e definido, bem como até onde o pensa­ mento foi distorcido e inflexível. O grupo do afeto, inicialmente, cogitou o diagnós­ tico de doença do fígado em um momen­ to bastante precoce do experimento e de­ monstrou pensamento muito menos in­ flexível do que os controles. Os grupos de afeto e de controle definiram o diagnósti­ co em momentos semelhantes do experi­ mento. Dessa forma, o afeto positivo le­ vou a uma integração anterior da infor­ mação (cogitar a doença do fígado antes) e resultou em pouca definição prematura do diagnóstico.

Partindo do trabalho de Isen, Fre­drickson (2000) desenvolveu uma nova es­trutura teórica, o modelo potencia­lizar e construir, que pode oferecer algumas explicações para os robustos efei­tos sociais e cogni­tivos das experiên­cias emocionais po­sitivas. Na revisão que fez de modelos de emoções (Smith, 1991), Fredrickson concluiu que as res­postas às emoções positivas não haviam sido muito estuda­das e que, quando isso aconteceu, elas ha­viam sido examinadas de forma vaga e pou­co especificada. Além disso, as tendências à ação geralmente estiveram associadas a reações físicas às emoções negativas (mais uma vez, imagine “fugir ou lutar”), ao pas­so que as emoções humanas às emoções positivas costumam ser mais cognitivas do que físicas. Por essas razões, a autora pro­pôs descartar o conceito de tendência à ação específica (que sugere uma faixa res­trita de possíveis opções comportamentais) em favor do termo mais novo e mais includente repertórios de pensamentos- ações momentâneos (que sugere uma ampla gama de opções comportamentais: imagine “tirar a venda” e ver as oportuni­dades disponíveis).
Para ilustrar as diferenças naquilo que segue às emoções positivas e negativas, veja a experiência de infância de um dos autores (S.J.L.). Observe como as emoções po­sitivas (por exemplo, excitação e alegria) levaram à flexibilidade cognitiva e à cria­tividade, ao passo que as emoções negativas (como o medo e a ansiedade) estão li­gadas a uma resposta de fuga e à finali­zação das atividades.

Em uma visita à casa de minha avó, em um sábado à noite, diverti-me muito jo­gando videogames e brincando de escon­der com meu irmão e quatro primos. As horas de brincadeiras levavam a excita­ção e muitas risadas..., e à criação de no­vas regras e obstáculos para o jogo. A ale­gria desmedida que sentimos naquela tar­de nos fez sentir livres, parecia que aque­le dia duraria para sempre. Infelizmente, a diversão foi interrompida. O final súbi­to chegou quando meu primo Bubby me viu escondido atrás do capim alto, nos fundos da propriedade de minha avó. Saí como uma bala de meu esconderijo para escapar dele. Ao correr pela casa, acabei entrando no terreno baldio do vizinho. Rindo com alegria, corri o máximo que pude. De repente, um obstáculo estava no meu caminho. Pulei sobre ele enquanto Bub gritava descontrolado. Quando me virei, vi que havia pulado sobre um trigonocéfalo de mais de um metro, uma cobra altamente venenosa. O meu primo continuava a gritar, e eu ia ficando cada vez mais nervoso. Sem pensar, afastamo-nos da cobra... e corremos para salvar nossas vidas. Quando finalmente paramos de correr, não conseguíamos recuperar o fôlego. Ninguém estava machucado, mas nosso medo e nossa ansiedade haviam aca­bado com a diversão do dia. [128]

Ao testar seu modelo de emoções po­sitivas, Fredrickson (2000) demonstrou que a experiência da alegria amplia os domínios daquilo que uma pessoa tem vontade de fazer no momento, o que se chama de ampliação do repertório momentâneo de pensamentos-ações de um indivíduo. De­ pois de um filme curto com emoção (os curtas induziam uma entre cinco emoções: alegria, contentamento, raiva, medo ou uma condição neutra), pediu-se que os par­ticipantes da pesquisa listassem tudo o que gostariam de fazer no momento (vide os resultados na Figura 7.1).

Os participantes que vivenciaram ale­gria ou contentamento listaram bem mais possibilidades desejadas do que as pessoas nas condições neutra ou negativa. Essas possibilidades ampliadas para atividades futuras, por sua vez, deveriam levar os in­divíduos alegres a iniciar ações subsequentes. Os que expressaram emoções mais ne­gativas, por outro lado, tenderam a encer­rar seu pensamento sobre possíveis ativi­dades subsequentes. Dito de forma simples, a alegria parece nos abrir para muitos pen­samentos e comportamentos, ao passo que as emoções negativas desanimam nossas idéias e ações.

A alegria também aumenta nossa pro­babilidade de nos comportarmos positiva­mente em relação a outras pessoas, assim como desenvolver mais relacionamentos positivos. Além disso, a alegria induz à ati­vidade lúdica (Frijda, 1994), que é muito importante porque esses comportamentos são evolutivamente adaptativos na aquisi­ção dos recursos necessários. A atividade lúdica juvenil forma:

  1. recursos sociais e intelectuais duradou­ros ao estimular o vínculo;
  2. níveis mais elevados de criatividade e
  3. desenvolvimento cerebral(Fredrickson, 2002).

Parece que, por intermédio dos efei­tos dos processos de ampliação, as emo­ções positivas também podem ajudar a construir recursos. Em 2002, Fredrickson e seu colega Thomas Joiner demonstraram esses fenômenos de fortalecimento ao ava­liar as emoções positivas e negativas das pessoas e seu enfrentamento com uma mente aberta (resolver problemas por meios criativos) em duas ocasiões, com cin­co semanas de distância. Os pesquisado­res concluíram que os níveis iniciais de emoções positivas indicavam aumentos gerais na solução criativa de problemas. Tais mudanças de enfrentamento também indicavam mais aumentos nas emoções po­sitivas (vide a Figura 7.2).

Da mesma for­ma, controlando os níveis iniciais de emo­ção positiva, os níveis iniciais de enfrentamento indicavam aumento nas emoções positivas, o que, por sua vez, indicava aumentos no enfrentamento. Esses resulta­dos confirmaram ser verdadeiros apenas para emoções positivas, e não para as [130] ne gativas. Assim, as emoções positivas, como a alegria, podem ajudar a gerar recursos e manter uma sensação de energia vital (ou seja, mais emoções positivas).

Fredrickson (2002) se referiu a essa seqüência positiva como a “espiral ascen­dente” das emoções positivas (vide a Figu­ra 7.3). [131]

Ampliando seu modelo de emoções positivas, Fredrickson e colaboradores exa­minaram o potencial para “desfazer” que as emoções positivas têm (Fredrickson, Mancuso, Branigan e Tugade, 2000) e a re­lação entre experiências emocionais posi­tivas e negativas que está associada à prosperidade humana (Fredrickson e Losada, 2005). Fredrickson e colaboradores (2000) levantaram a hipótese de que, dados a am­pliação e os efeitos de fortalecimento das emoções positivas, a alegria e o contenta­mento podem funcionar como antídotos às negativas.

Para testar essa hipótese, os pesqui­sadores expuseram todos os participantes de seu estudo a uma situação que gerava emoção negativa e, imediatamente após, designaram as pessoas, aleatoriamente, a condições de emoção (desencadeadas por vídeos evocativos) que iam da alegria mo­derada à tristeza. A recuperação cardio­ vascular representou o processo de desfa­zer e foi operacionalizada como o tempo que passou desde o início do vídeo a que as pessoas foram aleatoriamente designa­das até que as reações psicológicas indu­zidas pela emoção negativa inicial retor­nassem ao ponto inicial. A hipótese do des­fazer foi sustentada, dado que os partici­pantes das condições de alegria e conten­tamento conseguiram desfazer os efeitos das emoções negativas mais rapidamente do que as pessoas nas outras condições. Essas descobertas sugerem que há uma in­compatibilidade entre emoções positivas e negativas e que os efeitos potenciais das experiências negativas podem ser compensados por emoções positivas, como alegria e contentamento.

Considerando-se que as emoções po­sitivas ajudam as pessoas a construir re­cursos duradouros e a se recuperar de ex­periências negativas, Fredrickson e Losada (2005) formularam a hipótese de que as emoções positivas estejam associadas a uma saúde mental ideal ou à prosperidade*' (bem-estar psicológico e social; vide o modelo de saúde mental completo - pá­gina 220). Ao submeter à análise matemá­tica os dados sobre a saúde mental de par­ticipantes que eram estudantes de gradua­ção (relativos a uma medida de prosperi­dade) e sua experiência emocional (os es­tudantes classificaram o nível em que vivenciaram 20 emoções a cada dia, por 28 dias), os pesquisadores concluíram que uma razão média de 2:9 entre emoções positivas e negativas é um fator de predição de prosperidade humana. Essa conclu­são oferece informações de diagnóstico sobre os efeitos das experiências emocio­nais cotidianas sobre nossa saúde mental.

Felicidade e bem-estar subjetivos: vivendo uma vida prazerosa

Definições muito antigas de felicidade

Buda saiu de casa em busca de uma existência com mais sentido e acabou en­contrando a iluminação, uma sensação de paz e felicidade. Aristóteles acreditava que a eudaimonia (a prosperidade humana as­sociada a uma vida de virtudes) ou a felici­dade baseada em toda uma vida em busca de objetivos de desenvolvimento que se­jam plenos de sentido (ou seja, fazer o que vale a pena fazer) era a chave para o bem-viver (Waterman, 1993). Os fundadores da nação estadunidense argumentaram que a bus­ca da felicidade era tão importante quanto nossos direitos inalienáveis à vida e à li­berdade. Essas definições muito antigas de felicidade, junto com muitas outras conceituações de bem-estar emocional, têm [132] influências claras sobre as visões de estudio­sos dos séculos XX e XXI, mas as teorias psicológicas e as pesquisas genéticas mais recentes nos ajudaram a esclarecer a feli­cidade e seus correlatos.

As teorias da felicidade foram dividi­das em três grupos:

  1. teorias da satisfação de necessidades e objetivos;
  2. teorias de processo/atividade; e
  3. predisposição genética/personalidade (Diener et al., 2002). 

Em relação às teorias de satisfação de necessidades/objetivos, os líderes de determinadas escolas de psicoterapia pro­feriram essas idéias em relação à felicida­de. Por exemplo, teóricos da psicanálise e humanistas (Sigmund Freud e Abraham Maslow, respectivamente) sugeriram que a redução da tensão ou a satisfação das necessidades levaria à felicidade. Resumin­do, teorizou-se que somos felizes porque atingimos nossos objetivos. Essa “felicida­de da satisfação” faz da felicidade uma meta de nossas buscas psicológicas.

No campo dos processos/atividades, as teorias postulam que se envolver em de­terminadas atividades na vida gera felici­dade. Por exemplo, Mike Csikszentmihalyi, que foi um dos primeiros teóricos do sé­culo XX a examinar as conceituações de felicidade baseadas em processos/atividades, propôs que as pessoas que experi­mentam sensações de flow (envolvimento em atividades interessantes que correspondem ou desafiam suas habilidades relacio­nadas a tarefas) na vida cotidiana tendiam a ser muito felizes. Na verdade, o trabalho
de Csikszentmihalyi (Csikszentmihalyi, 1975/2000, 1990) sugere que o engaja­mento em uma atividade produz felicida­de. Outros teóricos dos processos/ativida­des (como Emmons, 1986; Snyder, 1994) enfatizaram como o processo de ir em bus­ca de objetivos gera energia e felicidade. Essa perspectiva de busca pela felicidade reflete a promessa dos fundadores da na­ ção americana, de “vida, liberdade e busca da felicidade”.
Os que defendem as teorias da feli­cidade baseadas em predisposições ge­néticas e da personalidade (Diener e Larsen, 1984; Watson, 2000) tendem a ver a felicidade como estável, ao passo que os teóricos dos campos da “felicidade como satisfação” e de processos/atividades a consideram como algo que muda com as con­dições de vida. Sobre essa questão, Costa e McCrae (1988) concluíram que a felicida­de mudou pouco em um período de 6 anos, dando credibilidade a teorias de felicidade como algo baseado na personalidade ou na biologia. Demonstrando esse vínculo entre felicidade e personalidade, Lucas e Fujita (2000) apontaram que a extroversão e o neuroticismo, dois dos cinco grandes fatores de personalidade (abertura, conscienciosidade, extroversão, agradabilidade, neuroticismo), estavam intimamente rela­cionados às características da felicidade.

Estudos dos determinantes biológicos ou genéticos da felicidade concluíram que até 40% da emocionalidade positiva e 55% da negativa são de base genética (Tellegen et al., 1988). Obviamente, isso deixa cerca de 50% da discordância na felicidade que não é explicada por componentes biológicos. Por­ tanto, em termos gerais, uma compreensão minuciosa da felicidade necessita de um exa­me dos fatores genéticos e das variáveis su­geridas pelos teóricos da satisfação de neces­sidades/objetivos e de atividades/processos.

Bem-estar subjetivo como sinônimo de felicidade

Partindo de uma tradição utilitária e dos preceitos da psicologia hedonista (que [133] enfatiza o estudo do prazer e da satisfação na vida), Diener (1984; 2000; Diener et al., 2002) considera o bem-estar como a avaliação subjetiva da própria situação no mundo. Mais especificamente, o bem-es­tar envolve nossa experiência de prazer e nossa apreciação das recompensas da vida. A partir dessa visão, Diener define o bem-estar subjetivo como uma combinação de afeto positivo (na ausência de afeto nega­tivo) e satisfação geral com a vida. Mais além, o autor usa a expressão bem-estar subjetivo como sinônimo de felicidade. (O componente de satisfação costuma ser me­dido com a Escala de satisfação com a vida, a Satisfaction with life scale; Diener, Emmons, Larsen e Griffin, 1985).

O bem-estar subjetivo enfatiza os re­latos das pessoas acerca de suas experiên­cias de vida. Nessa linha, o relato subjeti­vo é aceito como valor nominal. Esse en­foque subjetivo parte do pressuposto de que as pessoas de muitas culturas estão confortáveis ao tratar de avaliações individualistas de seu afeto e sua satisfação, e de que as pessoas serão francas nessas aná­lises pessoais (Diener et al., 2002). Essas premissas orientam as tentativas dos pes­quisadores de entender as experiências subjetivas à luz de suas circunstâncias ob­ jetivas.

Determinantes do bem-estar subjetivo

Ao examinar a satisfação de estudan­tes universitários (de 31 países) em vários domínios da vida, os estudantes de países pobres apresentaram uma correlação mais alta entre situação financeira e satisfação do que os de países ricos (Diener e Diener, 1995). Além disso, as pessoas de países ri­cos geralmente estavam mais felizes do que as dos países empobrecidos. O exame en­tre nações desse vínculo entre renda e bem-estar revela que, uma vez que a renda sobe acima da linha de pobreza, mais crescimen­to na renda não está necessariamente as­sociado a aumento do bem-estar. Quando se dividem mais ainda os dados sobre bem-estar, por categorias de situação financei­ra (muito pobres e muito ricos), parece ha­ver uma forte relação entre renda e bem-estar entre os empobrecidos, mas uma re­lação insignificante entre as duas variáveis entre os prósperos (Diener, Diener e Diener, 1995).

Dados específicos de amostras ociden­tais indicam que tanto homens quanto mulheres casados informam ser mais feli­zes do que os que não são casados (que nunca o foram, divorciados ou separados; Lee, Seccombe e Shehan, 1991). A relação entre bem-estar subjetivo e ser casado se [134]  aplica a pessoas de todas as idades, níveis de renda e graus de instrução, bem como origens racial-étnicas (Argyle, 1987). Não surpreende que a qualidade conjugal tam­bém esteja associada positivamente ao bem-estar pessoal (Sternberg e Hojjat, 1997).

Em um estudo sobre os 10% mais fe­lizes entre os estudantes universitários nos Estados Unidos, Diener e Seligman (2003) concluíram que as qualidades de boa saú­de mental e bons relacionamentos sociais surgiam constantemente na vida dos jovens adultos mais felizes da amostra. Olhando seus dados mais de perto, as análises reve­laram que um bom funcionamento social entre o subconjunto de estudantes mais felizes era uma causa de felicidade neces­sária, mas não suficiente.

Felicidade + significado = bem-estar

Os psicólogos que sustentam a pers­pectiva hedonista consideram o bem-estar subjetivo e a felicidade como sinônimos. Por outro lado, os estudiosos cujas idéias sobre bem-estar são mais coerentes com as visões de Aristóteles em relação à eudaimonia acreditam que a felicidade e o bem-estar não são sinônimos. Formulado de maneira simples: bem-estar = felicidade + significado. Para concordar com essa úl­tima visão de bem-estar, deve-se entender a virtude e as implicações do comporta­mento diário. Mais além, essa visão requer que os que buscam o bem-estar sejam au­tênticos e vivam segundo suas reais neces­sidades e objetivos (W aterman, 1993). Dessa forma, levar uma vida eudaimônica vai além de vivenciar as “coisas prazero­sas”, cobrindo a prosperidade como obje­tivo de todas as nossas ações. As versões hedonista e eudaimônica da íelicidade têm influenciado as definições do século XXI.

Definições de felicidade do século XXI

A moderna psicologia ocidental tem se concentrado fundamentalmente em uma visão pós-materialista da felicidade (Diener et al., 2002) que enfatiza prazer, satisfação e significado na vida. Na verdade, o tipo de [137] felicidade tratada em grande parte da lite­ratura popular de hoje enfatiza hedonismo, significado e autenticidade. Por exemplo, Seligman (2002) sugere que, a partir da fe­licidade que resulta do uso de nossas quali­dades psicológicas, se pode construir uma vida prazerosa e dotada de sentido.

Ao descrever um novo modelo de fe­licidade, Lyubomirsky, Sheldon e Schkade (2005) propuseram que “o nível de felici­dade crônica de uma pessoa é comandado por três principais fatores: um ponto de partida geneticamente determinado, fa­tores circunstanciais relevantes e ativida­des e práticas relevantes para a felicidade” (p. 111). A “arquitetura da felicidade sus­tentável” de Lyubomirsky e colaboradores (p. 114) incorpora aquilo que se sabe sobre os componentes genéticos da felicidade, os seus determinantes circunstanciais/demográficos e o processo complexo de mudan­ça humana intencional. Com base em pes­quisas passadas, as quais resumem, Lyubo­mirsky e colaboradores propõem que a ge­nética responde por 50% da variância na população em termos de felecidade, ao pas­so que as circunstâncias de vida (sejam boas ou más) e a atividade intencional (tentati­vas de viver de forma saudável e de fazer mudanças positivas) respondem por cerca de 10% e 40% da variância na população em termos de felicidade, respectivamente. Esse modelo reconhece os componentes da felicidade que não podem ser mudados, mas também deixa espaço para volição e os objetivos autogerados que levam à ob­tenção de prazer, sentido e boa saúde.

Sem dúvida, os estudiosos do século XXI produzirão muitas outras visões mais refinadas acerca da felicidade. Nossa previ­são é que a busca de felicidade por meio da ciência da psicologia e da prática positi­vas acabarão por desenvolver um melhor entendimento dos correlatos e das bases genéticas (resumidos em Lyubomirsky et al., 2005), neurológicas (Urry et al., 2004) e neurobiológicas da felicidade, e assumi­rão o contentamento, a paz e a felicidade da filosofia oriental, junto com a sabedoria popular do mundo ocidental. Dessa forma, imagine uma ciência que seja baseada no que se conhece sobre as bases genéticas e biológicas da felicidade, e que examine o rigor e a relevância dos ensinamentos de Buda e, ao mesmo tempo, as recomenda­ções de Benjamin Franklin para um viver virtuoso (vide a Figura 7.4). Por intermédio de uma boa ciência biológica e psicológica, e uma apreciação universal das visões filo­sóficas da felicidade, pode-se elevar a rele­vância internacional de nossos estudos acadêmicos no campo da psicologia positiva.

A saúde mental completa: bem-estar emocional, social e psicológico

Ryff e Keyes (1995; Keyes e Lopez, 2002; Keyes e Magyar-Moe, 2003) combi­nam muitos princípios de prazer para defi­nir a saúde mental completa. Especifica­mente, os autores consideram o funciona­mento ideal como sendo a combinação de bem-estar emocional (que é como se referem ao bem-estar subjetivo, definido como a presença de afeto positivo e satis­fação com a vida e a ausência de afeto ne­gativo), bem-estar social (incorporando a aceitação, realização, contribuição, coe­rência e integração) e o bem-estar psico­lógico (combinando autoaceitação, crescimento pessoal, propósito na vida, domínio do ambiente, autonomia, relações positi­vas com outras pessoas). Levando-se em consideração os sintomas da doença men­tal, eles definem “saúde mental completa” como a combinação de “altos níveis de sin­tomas de bem-estar emocional, bem-estar psicológico e bem-estar social, bem como a ausência de doença mental recente” (Keyes e Lopez, 2002, p. 49).

Essa visão de doença mental combi­na todas as facetas do bem-estar em um modelo que é, a um só tempo, dimensional (porque reflete extremos de saúde mental e sintomatologia da doença) e categórico (porque é possível a atribuição a distintas categorias de diagnóstico). Esse modelo de estado completo (Keyes e Lopez, p. 49; vide a Figura 7.5) sugere que a saúde men­tal e os sintomas de doença mental combi­nados podem estar em permanente mudan­ça, resultando em flutuações do bem-estar geral, que vão desde a doença mental com­pleta até a saúde mental completa.

Aumentando a felicidade em sua vida

Embora haja diversas teorias da feli­cidade e incontáveis definições acerca dela (por exemplo, Sheldon e Lyubomirsky. 2004), os pesquisadores começaram a usar trabalhos anteriores (Fordyce, 1977,1983) em suas tentativas de responder à pergun­ta que nos fazem muitos de nossos clientes: “Posso aprender a ser mais feliz?”. David Myers (1993), especialista no [138] assunto e autor de The pursuit of happiness, apre­senta estratégias gerais para aumentar a felicidade em sua vida (vide a Figura 7.6). Apresentamos Estratégias para melhorar a vida, com vistas a elevar a felicidade em esferas específicas.

Avançando em direção ao positivo

É muito fácil encontrar os aspectos desagradáveis e negativos das emoções e disfunções na vida (Baumeister, Bratslavsky, Finkenhaur e Vohs, 2001). Tudo o que você precisa fazer é ler o jornal matinal ou assis­tir ao telejomal da noite. Nossa necessida­de humana de entender o negativo é gran­de, por causa do sofrimento e da perda as­sociados à raiva e ao medo, bem como das funções evolucionárias das estratégias de evitação. Embora os aspectos positivos das experiências emocionais raramente captem a atenção da mídia ou da ciência, isso está começando a mudar.

Apenas três décadas atrás, por exemplo, alguns bravos cientis­tas sociais (como Braàbum, 1969-, Meéhl, 1975) expuseram suas idéias sobre o lado mais leve da vida. Hoje em dia, sabemos que a circulação do “fluido da alegria” (o termo irreverente de Paul Meehl para aqui­lo que induz experiências emocionais pra­zerosas) e fatores biológicos são importan­tes, mas não definem toda a nossa experiên­cia emocional. Nas palavras de Diener e colaboradores (2002, p. 68), “parece que a forma como as pessoas percebem o mundo é muito mais importante para a felicidade do que as circunstâncias objetivas”. [139]

Psicologia - Psicologia positiva
7/25/2020 2:06:05 PM | Por Shane J. Lopez
Vivendo bem em todas as etapas da vida

Diante da negligência de cada palestrante em relação ao lado positivo do funciona­mento humano, Paul Baltes se contorcia um pouco mais na poltrona. Por fim, chegou a oportunidade de o Dr. Baltes apresentar sua visão sobre a sabedoria (vide o Capítulo 10). No entanto, a essas alturas ele tinha outra coisa em mente. Relembrou educadamente ao grupo de psicólogos, a maioria com formação em especialidades sociais, de personalidade e clínicas, que havia um ramo da psicologia que nunca vacilara em seu compromisso com o estudo da adapta­bilidade e do funcionamento positivo. Esse ramo foi o da psicologia do desenvolvimen­to. Na verdade, os psicólogos do desenvol­vimento geralmente haviam abordado sua pesquisa com questões sobre o que estava funcionando, em vez de o que não estava. Os esforços dos psicólogos do desenvolvmento e de outros estudiosos do desenvol­vimento (outros que mantêm perspectivas voltadas ao transcurso da vida) produzi­ram conclusões que muitas vezes transcen­deram fronteiras históricas, geográficas, ét­nicas e de classe, para se concentrar nas tendências das pessoas à autocorreção.

Neste capítulo, analisamos as desco­bertas dos pesquisadores do desenvolvi­mento em relação “ao que funciona” no transcurso da vida. Para nossos propósitos, o transcurso da vida é descrito como in­fância (do nascimento aos 11 anos), juven­tude (dos 12 aos 25), idade adulta (26 a 59) e idade adulta avançada (dos 60 até a morte). Partimos do pressuposto de que seu conhecimento das teorias mais destacadas sobre o desenvolvimento (vide o Quadro 6.1) proporcionará um pano de fundo para discussões sobre resiliência na infância, de­ senvolvimento positivo na juventude, viver bem como adulto e envelhecimento bem-sucedido.

Pesquisadores da resiliência e es­tudiosos do desenvolvimento jovem posi­tivo têm interesses comuns nos traços e nos resultados positivos dos jovens. Como se discute mais adiante, os profissionais que estudam a resiliência identificam os recur­sos pessoais e ambientais “que ocorrem naturalmente” e ajudam as crianças e os adolescentes a superar os muitos desafios da vida. Os estudiosos do desenvolvimen­to jovem positivo põem em ação as con­clusões dos pesquisadores da resiliência e outros psicólogos positivos, e dão um im­pulso ao crescimento ao formular e reali­zar programas que ajudam os jovens a ca­pitalizar seus recursos pessoais e os recur­sos ambientais. [100]

Na primeira metade deste capítulo, destacamos o que os pesquisadores do de­senvolvimento descobriram sobre o cresci­mento saudável. Além disso, tratamos de algumas das limitações dessa linha de pes­quisa. Os estudiosos do desenvolvimento adulto geralmente conseguem proporcionar informações prospectivas sobre o desenro­lar gradual da vida das pessoas. Seu conhe­cimento profundo do passado e do presen­te os ajuda a predizer o futuro. Mais do que destacar momentos isolados da vida, os es­tudiosos do desenvolvimento que lidam com os adultos usam uma metodologia seme­lhante à fotografia por aceleração do tem­po (time-lapse) - milhares de imagens pa­radas da vida (ou entrevistas de pessoas) são ligadas para contar uma história con­tundente de desenvolvimento individual.

Na segunda metade do capítulo, ex­ploramos as tarefas de vida associadas à vida adulta e às características das pessoas que envelhecem com sucesso e discutimos também muitas das lacunas em nosso co­nhecimento sobre a idade adulta. Durante o capítulo, recomendamos que o leitor ana­lise os fatores ambientais associados à adaptação e ao bem-viver.

Resiliência na infância

Na década de 1970, um importante grupo de cientistas do desenvolvimento co­meçou a estudar crianças que tinham bom desempenho na vida apesar de obstáculos graves. Essas crianças que triunfaram di­ante da adversidade foram chamadas de “resilientes”, e suas histórias cativaram o interesse de clínicos, pesquisadores e lei­gos. Nesta seção sobre crianças resilientes, começamos apresentando um caso breve. A seguir, definimos o termo resiliência e questões relacionadas sobre as quais os es­tudiosos tiveram divergências. Depois, descrevemos o trabalho de Emmy Wemer e outros pesquisadores da resiliência (como Garmezy e Rutter). Por fim, discutimos os recursos internos (pessoais) e externos (ambientais) que protegem as crianças de agres­sões vindas do ambiente, junto com os pro­blemas dessa pesquisa sobre resiliência.

O caso de Jackson

Conhecemos muitas crianças resilien­tes em nosso trabalho como professores e clínicos. A história das lutas e dos triunfos de Jackson se destaca. Segundo todas as descrições, ele era encantador desde o nas­cimento. Suas risadinhas faziam as pessoas gargalhar. Elas eram atraídas para ele na­turalmente, que parecia estar confortável com todos os parentes e amigos, confian­do neles.

Quando entrou na escola, prosperou em termos sociais e acadêmicos, e parecia estar crescendo saudável e forte. Infelizmente, aos 8 anos, um parente abusou se­xualmente de Jackson, que rapidamente aprendeu a se proteger do autor do abuso, e tudo se limitou a um incidente, mas os efeitos foram importantes. Sua confiança nas pessoas ficou abalada. Algumas sema­nas depois do abuso, ele se retraiu, ficou gravemente ansioso e desenvolveu dores de estômago e de cabeça constantes. Seus pro­blemas psicológicos e físicos levaram a au­sências e a baixo desempenho escolar. Ten­do sido, um dia, uma criança confiante, com um olhar voltado para o futuro, ele agora parecia assustado e seus olhos sugeriam que ele estava perdido no passado.

Com o tempo, alguns adultos aten­ciosos na vida de Jackson se deram conta de que ele estava lutando. Os professores de sua escolinha viram que ele não era mais a criança de antes. Dois desses professores se dirigiram a ele, e um deles disse: “Não sabemos o que o está incomodando, mas, o que quer que seja, estamos aqui para aju­dar”. Embora ele não viesse a falar sobre o incidente do abuso até 20 anos mais tarde, Jackson conseguiu receber o apoio de que necessitava de seus professores. Ele che­gava à escola um pouco mais cedo todas [102]  manhãs e se sentava quieto na turma de um dos professores. Não falavam muito, mas os sorrisos discretos que trocavam co­municavam bastante.

Os dois professores do ensino funda­mental deram a Jackson um lugar seguro para se estabelecer e se curar. O apoio dis­creto o ajudou a abandonar seus medos. Com o tempo, ele começou a interagir mais confortavelmente com os adultos. Dentro de um ano, sua ansiedade havia cedido e suas notas, melhorado. Ele retomou às suas atitudes antigas, encantador, e construiu um grande círculo de amigos e mentores em sua juventude. Hoje em dia, é casado, está feliz e tem um emprego de que gosta muito. Jackson, como é o caso de outras crianças resilientes, é um sobrevivente.

O que é resiliência?

Talvez a definição mais simples de resiliência seja “recuperar-se”: os seguin­tes comentários sobre a resiliência de Masten e Reed (2002, p. 75) ilustram esse pro­cesso positivo. Especificamente, a resiliên­cia se refere a

... uma classe de fenômenos que se caracte­rizam por padrões de adaptação positiva no contexto de adversidade ou risco impor­tante. A resiliência deve ser inferida, por­ que são necessários dois julgamentos im­portantes para identificar indivíduos como pertencentes a essa classe de fenômenos. Em primeiro lugar, há um julgamento de que os indivíduos estão se “saindo bem”, ou melhor do que isso, com relação a um conjunto de expectativas de comporta­mento. Em segundo, há um julgamento de que houve circunstâncias atenuantes, que representaram uma ameaça aos bons resultados. Assim sendo, o estudo dessa classe de fenômenos requer a definição de critérios ou métodos para garantir a boa adaptação e a existência passada ou presente de condições que representem uma ameaça à boa adaptação.

Essa definição genérica é amplamen­te aceita. Os estudiosos concordam em que o risco ou a adversidade deve estar pre­sente para que uma pessoa seja considera­ da resiliente. Apesar desse consenso, toda­via, há um debate considerável sobre a universalidade dos fatores de proteção (Harvey e Delfabbro, 2004) e até onde as crianças estão se “saindo bem” segundo cri­térios de boa adaptação (Luthar, Cicchetti e Becker, 2000; Masten, 1999; Wang e Gordon, 1994). Portanto, ainda que se te­nha identificado uma lista de fatores de proteção (vide a discussão posterior, neste capítulo), há diferenças visíveis no quanto esses fatores “protegem” (isto é, no quan­to proporcionam resultados positivos), jun­to com variabilidade em como e quando as pessoas lançam mão de determinados recursos ao se deparar com riscos e des­vantagens (Harvey e Delfabbro, 2004). De fato, dado o estado da pesquisa sobre resiliência, os estudiosos sugerem o que pode funcionar, mas não conseguem des­crever uma fórmula para a operação da resiliência.

Os pesquisadores discordam com re­lação à resposta para a pergunta: “Recuperou-se para chegar onde?”. Ao deter­minar o nível de funcionamento posterior à ameaça em uma criança resiliente, os observadores estão em busca de um retor­no ao funcionamento normal (ou seja, atin­gir marcos do desenvolvimento) e/ou por evidências de excelência (funcionamento acima e além do que se espera de uma criança da mesma idade). Todavia, a maio­ria dos investigadores “estabeleceu o pata­mar no nível da faixa normal, sem dúvida porque seu objetivo é entender como os indivíduos mantêm ou recuperam níveis normativos de funcionamento e evitam problemas significativos apesar da adver­sidade - um objetivo compartilhado por muitos pais e sociedades” (Masten e Reed, 2002, p. 76). Certamente, os casos mais celebrados de resiliência costumam ser descrições de indivíduos que superam cir­cunstâncias muito desfavoráveis para se tornarem mais fortes. (Por exemplo, Mattie Lepanak, um poeta-criança, aparentemente [103] se tornou mais prolífico à medida que a doença neuromuscular que enfrentou foi ficando mais difícil de administrar.)
Uma importante consideração que pode passar despercebida na conceituação de resultados de resiliência é a cultura (Rigsby, 1994; vide o Capítulo 5, para uma discussão relacionada). A pergunta “Recuperou-se para chegar aonde?” deve ser res­pondida dentro do contexto dos valores predominantes na cultura e das expectati­vas que a comunidade tem em relação a seus jovens. As forças culturais ditam se os pesquisadores examinam resultados edu­cacionais positivos, funcionamento intrafamiliar saudável ou bem-estar psicológico - ou, talvez, todos os três. Embora seja de­sejável alguma constância no que os estu­diosos medem, é difícil avaliar até onde os membros da comunidade estimulam deter­minados resultados.

Com relação à “boa adaptação”, os pesquisadores da resiliência concordam que a adaptação externa (cumprir as ex­pectativas sociais, educacionais e ocupacionais da sociedade) é necessária para de­ terminar quem é resiliente, mas a rede de pesquisadores se divide quanto à necessi­dade, também, de uma determinação da adaptação interna (bem-estar psicológi­co positivo). Esse debate gera confusão porque algumas pessoas consideram a re­cuperação inexoravelmente ligada à adap­tação emocional e intrapsíquica.

As raízes da pesquisa sobre resiliência

Os estudos de caso são usados há muito tempo para contar histórias de pes­soas impressionantes e seus triunfos. His­tórias de jovens que transcendem circuns­tâncias de vida terríveis levaram as pessoas a descobrir mais sobre essas pessoas resilientes e sobre os processos de resiliência. Alguns pesquisadores (como Garmezy, 1993; Garmezy, Masten e Tellegen, 1984) fazem seu trabalho tratando das peças com que se constrói a resiliência e depois iden­tificando como tais peças se juntam e se manifestam em um grande grupo de pes­soas que estão em risco em função de um fator de estresse. Outros (como Werner e Smith, 1982) identificam subamostras de grupos maiores de pessoas que estão funcionando bem, apesar de ter vivenciado um fator recente desse tipo. A seguir, esses pes­quisadores estudam profundamente as pes­soas resilientes para determinar as seme­lhanças que elas compartilham entre si e com membros de grupos menos resilien­tes, bem como para identificar o que as diferencia das pessoas que não conseguem se recuperar.

A Dra. Emmy Werner, chamada, às ve­zes, de “mãe da resiliência”, pesquisa o te­ma com foco na pessoa. Ela identificou pessoas resilientes e passou a conhecê-las bem com o tempo. Em função de seu desta­que nessa área da psicologia positiva, dis­cutimos seu trabalho como um exemplo da pesquisa informativa em resiliência. Werner trabalhou em conjunto com sua colega Ruth Smith (Wemer e Smith, 1982, 1992) em um estudo que envolveu uma coorte de 700 crianças nascidas na ilha de Kauai (no Havaí) entre 1955 e 1995. A partir do nascimento, foram coletados dados psico­lógicos das crianças e dos cuidadores, mui­tos dos quais trabalhavam em atividades associadas às plantações de cana-de-açú­car que dominavam a ilha. Ao nascer, um terço dessas crianças era considerado em risco de problemas acadêmicos e sociais em função de seu déficit de apoio familiar e seus ambientes em casa (como pobreza, alcoolismo dos pais e violência doméstica).

Dos estudantes em situação de risco, um terço parecia ser invulnerável à deter­minação dos fatores de risco. Duas carac­terísticas básicas respondiam pela resiliên­cia dessas crianças:

  1. elas nasceram com disposições extro­vertidas e
  2. eram capazes de envolver várias fontes de apoio. (Melhor cuidado durante a infância, inteligência e percepções de [104] valor próprio também contribuíram para resultados positivos.)

Os outros dois terços das crianças no grupo de alto risco desenvolveram proble­mas importantes durante a infância e a adolescência. Entre os 20 e os 30 anos, a maioria dos participantes da pesquisa em Kauai informava (e os teste psicológicos e os relatórios da comunidade corrobora­vam) que eles haviam “se recuperado” dos obstáculos enfrentados anteriormente em suas vidas. Com o passar do tempo, mais de 80% do grupo original de alto risco ti­nha se recuperado. Em retrospecto, mui­tos dos que foram residentes atribuíram sua força ao apoio de um adulto que os cuidou (como um parente, um vizinho, um pro­fessor, um mentor).

Com essas conclusões, os pesquisado­res da resiliência nas três últimas décadas examinaram as disposições de crianças em situação de risco, junto com os recursos fí­sicos e sociais dos jovens que enfrentaram essas desvantagens. Nesse sentido, a con­clusão de que muitas pessoas que não tive­ram fatores de proteção (até sua quarta década de vida) recuperaram-se não foi explicada adequadamente.

Recursos de resiliência

Segundo Masten e Reed (2002), con­clusões tiradas a partir de estudos de caso, pesquisas qualitativas e projetos quantita­tivos de grande escala “convergem com uma regularidade impressionante a um conjunto de atributos individuais e ambien­tais associados ao bom ajuste e ao bom desenvolvimento sob uma série de condi­ções que ameaçam a vida em diferentes contextos culturais” (p. 82).

Esses fatores de proteção potentes no desenvolvimento foram identificados na pesquisa e em revisões nas décadas de 1970 e 1980 (Garmezy, 1985; Masten, 1999; Masten e Garmezy, 1985; Rutter, 1985; Werner e Smith, 1982), e alguns fatores de proteção continuam a surgir a partir de estudos em andamento. De fato, essa lista ampla nos ajudou razoavelmente no de­correr do tempo e entre grupos (vide o Quadro 6.2). (Tais fatores são tratados em outra parte deste livro. Por exemplo, a autoeficácia e uma perspectiva positiva da vida são discutidas no Capítulo 9.)
Embora concordemos que grande parte desses recursos da resiliência é posi­tiva para a maioria das pessoas em muitas situações, há poucas verdades universais na literatura sobre resiliência (com a pos­sível exceção de que um adulto atencioso pode ajudar uma criança ou um jovem a se adaptar). Por exemplo, D’Imperio, Dubow e Ippolito (2000) concluíram que muitos fatores de proteção identificados anterior­mente não fizeram distinção entre jovens que enfrentaram bem a adversidade e os que não o fizeram. A cultura e outros fato­res (por exemplo, experiências passadas com a adversidade) certamente influen­ciam a forma como os jovens se recupe­ram da adversidade.

Os recursos listados no Quadro 6.2 foram traduzidos em estratégias para au­mentar a resiliência. (Observe a coincidên­cia entre algumas dessas recomendações e as que são discutidas na próxima seção, sobre desenvolvimento positivo. Algumas dessas estratégias podem impedir simultaneamente o que é “ruim” e promover o que é “bom” nas pessoas.) Usando essas estratégias, os estudiosos do desenvolvi­mento desenvolveram milhares de progra­mas que podem ajudar os jovens a superar as adversidades e a construir competên­cias. Alguns estudiosos (como Doll e Lyon, 1998) afirmam que a proliferação dos pro­gramas de resiliência ocorreu na ausência de pesquisas rigorosas que examinassem o constructo e a eficácia dos programas que supostamente a estimulam. Doll e Lyon ob­servam, ainda, que muitos desses progra­mas ensinam habilidades de vida que não são reforçadas nas culturas em que tais jo­vens vivem. Em função dessas preocupa­ções sobre a implementação de programas, formuladores de políticas e pessoas que desenvolvem iniciativas de promoção de­ veriam tentar adotar os programas existen­tes que tenham efetivamente servido a jo­vens semelhantes (isto é, promovido as competências relacionadas à resiliência), ou avaliar a eficácia dos programas com pequenas amostras concentradas, em lu­gar de grandes grupos da comunidade. ('Vide o Quadro 6.3.)

Desenvolvimento jovem positivo 

Nesta seção, definimos o desenvolvi­mento jovem positivo e os resultados so­cialmente valorizados que foram identifi­cados pelos defensores da juventude e pes­quisadores do tema. Além disso, identifi­camos programas de desenvolvimento para jovens que funcionam. [106]

O que é o desenvolvimento positivo dos jovens?

Os professores, terapeutas e psicólo­gos comprometidos com o desenvolvimen­to positivo de jovens reconhecem o que é bom em nossa juventude e se concentram nas qualidades e nos potenciais de cada criança (Damon, 2004). A partir da defini­ção de Pittman e Fleming (1991, p. ii, pri­meira linha de nossa definição), formula­mos (Lopez e McKnight, 2002, p. 3) como os componentes do desenvolvimento inte­ragem com o passar do tempo, para possi­bilitar adultos saudáveis:

O desenvolvimento jovem positivo deve ser visto como um processo em andamen­to, inevitável, no qual todos os jovens estão engajados e do qual todos estão in­vestidos. Os jovens interagem com seu ambiente e com agentes positivos (como jovens e adultos que dão suporte ao de­ senvolvimento saudável, instituições que criam climas e cultivam recursos que le­vam ao crescimento, programas que esti­mulam a mudança) para atender a suas necessidades básicas e cultivar os recur­sos. Por meio de sua iniciativa (por vezes combinada com o apoio de agentes posi­tivos), ganha-se força e os jovens que são capazes de responder a necessidades bá­sicas desafiam a si próprios para atingir outros objetivos; os jovens usam os recur­sos para construir outros recursos psico­lógicos que facilitem o crescimento. Em termos ideais, o desenvolvimento jovem positivo gera competências físicas e psi­cológicas que servem para facilitar a tran­sição para a vida adulta ao se lutar pelo crescimento continuado.

As qualidades positivas de nossos jo­vens se combinam (de maneira intencio­nal) com os recursos do ambiente e dos agentes positivos (jovens e adultos que pro­porcionem cuidado) no contexto de um programa (vide as descrições a seguir) para promover o desenvolvimento adulto. O desenvolvimento saudável é marcado pela concretização de alguns dos nove resulta­dos positivos a seguir (Catalano, Berglund, Ryan, Lonczak e Hawkins, 1998) visados por programas positivos. (Todos esses re­ sultados positivos são tratados em outras partes deste livro.)

  1. Recompensar o vínculo.
  2. Promover competências sociais, emo­cionais, cognitivas, comportamentais e morais.
  3. Estimular a autodeterminação.
  4. Estimular a espiritualidade.
  5. Cultivar uma identidade clara e positiva.
  6. Construir crenças no futuro.
  7. Reconhecer comportamento positivo.
  8. Proporcionar oportunidades de desen­volvimento social.
  9. Estabelecer normas pró-sociais.

Programas de desenvolvimento jovem positivo que funcionam

O relatório sobre Desenvolvimento Jovem Positivo (Catalano et al., 1998) é um recurso valioso para as pessoas que acreditam que “estar livre de problemas não quer dizer estar totalmente prepara­do” (Pittman e Fleming, 1991, p. 3). Na verdade, alguns estudiosos do desenvolvimento concentram seus úteis esforços em jovens que não estão lutando contra gran­des problemas em suas vidas, mas não pos­suem os recursos pessoais ou ambientais necessários para atingir muitos dos seus objetivos ao realizarem a transição à vida adulta. Como tal, o desafio em relação àqueles que podem passar despercebidos é a construção da segurança e competên­cias nos jovens.

Os programas de desenvolvimento jo­vem positivo se apresentam de muitas for­mas (Benson e Saito, 2000), incluindo ati­vidades estruturadas ou semi-estruturadas (como Big Brothers e Big Sisters), organi­zações que oferecem atividades e relacio­namentos positivos (como Boy’s Club, ACM), sistemas de socialização que pro­movem o crescimento (como creches, es­colas, bibliotecas, museus) e comunidades que facilitem a coexistência de programas, organizações e comunidades. A solidez desses programas é determinada pelo grau em que eles promovem o que é “bom” e previnem o que é “mau” nos jovens de hoje.

Os programas que funcionam ajudam os jovens a avançar rumo às competências que tornam suas vidas mais produtivas e sig­nificativas. Uma breve lista de mais de uma dúzia de programas eficazes foi elaborada após uma revisão crítica de avaliações de programas publicadas e não-publicadas que incluiu, no mínimo, os seguintes (Catalano et al., 1998; Jamieson, 2005):

  • Formato e medidas de resultados que sejam adequados.
  • Descrição adequada das metodologias de pesquisa.
  • Descrição da população servida.
  • Descrição da intervenção e fidelidada de implementação.
  • Efeitos demonstrados em resultados comportamentais. [111]

Com relação à efetividade, Catalano e colaboradores (1998) escreveram: “Fo­ram incluídos programas que apresentas­sem resultados comportamentais em algum momento, mesmo que esses resultados de­caíssem com o tempo. Também foram in­cluídos programas que demonstrassem efeitos sobre parte da população estuda­da” (p. 26). Esses programas eficazes in­cluem alguns muito conhecidos e outros nem tanto. Com o propósito de ilustrar como eles envolvem os jovens e cultivam os recursos pessoais, descrevemos as ope­rações básicas e os efeitos de Big Brothers/ Big Sisters e Penn Resiliency Program. Des­crevemos, também, algumas das tarefas de desenvolvimento associadas a uma experi­ência universitária positiva.

Big Brothers e Big Sisters é um progra­ma de mentores de base comunitária (3 a 5 horas de contato por semana) iniciado em 1905. Sem cobrança, o programa estabele­ce o contato de crianças e adolescentes de baixa renda com voluntários adultos que estejam comprometidos com dar carinho e estabelecer relações de apoio. Em geral, os mentores passam por uma cuidadosa tria­gem e depois recebem algum tipo de forma­ção para influenciar positivamente os jo­vens. As atividades dos mentores são não-estruturadas ou semi-estruturadas e costu­mam acontecer na comunidade. Com rela­ção à eficácia do programa, Tierney e Grossman (2000) concluíram que esse programa consegue promover o que é bom (bom de­ sempenho escolar, relações de confiança com os pais) e prevenir o que é ruim (vio­lência, uso de álcool e drogas, falta às aulas).

O Penn Resiliency Program (Gillham e Reivich, 2004) é um programa altamente estruturado, voltado às habilidades de vida, oferecido a escolares por um determinado preço (ou como parte de um projeto de pes­quisa) . Um facilitador bem-treinado conduz as reuniões na sala de aula, segundo um roteiro. As doze sessões são focadas na cons­ciência acerca de padrões de pensamento e na modificação do estilo explicativo dos es­tudantes para alterar as atribuições em re­lação aos eventos, de forma que elas pos­sam se tornar mais flexíveis e precisas. A avaliação ampla do programa demonstrou sua eficácia na prevenção do que é mim (o desencadear e a gravidade dos sintomas depressivos) e na promoção do otimismo e melhoria da saúde física.

Faculdades e universidades, como sis­temas de socialização, também podem promover o desenvolvimento jovem po­sitivo. O trabalho de Chickering (1969; Chickering e Reisser, 1993) sobre educa­ção e identidade proporciona uma gama de tarefas de desenvolvimento que é o foco conjunto de estudantes universitários e agentes positivos (colegas estudantes, pro­fessores e funcionários). No modelo de Chickering, o desenvolvimento de compe­tências é identificado como um rumo ou objetivo básico de desenvolvimento para universitários em suas experiências educa­cionais. Tendo cada vez mais confiança em suas capacidades, os estudantes começam a trabalhar na tarefa de desenvolvimento voltada a administrar as emoções, avan­çando pela autonomia até a independên­cia, desenvolvendo relacionamentos in­terpessoais maduros, identidade, propósi­to e integridade. O avanço em direção a cada um desses objetivos capacita os estu­dantes para o sucesso na escola, no traba­lho e na vida em geral. Um foco mais in­tencional no desenvolvimento de faculda­des e universidades para que sejam siste­mas de socialização poderia melhorar o valor de uma educação universitária para os alunos e para a sociedade como um todo. Integrar os programas de desenvolvimen­to de qualidades à experiência universitá­ria também poderia melhorar os efeitos positivos da educação superior (Lopez, Janowski e Wells, 2005).
Agora que conhecemos os tipos de programas que promovem o desenvolvi­mento jovem positivo, nossa atenção se volta à seguinte questão: “Por que esse pro­grama funciona?”. Embora não se tenham analisado sistematicamente os componen­tes desses programas para determinar o  que funciona e o que não, há várias suges­tões sobre o que os torna benéficos, inclu­indo as idéias de que:

  1. mais é melhor (quanto mais tempo com­prometido com os jovens, melhores são os resultados);
  2. quanto mais cedo, melhor (quanto mais jovem for o participante do programa, mais probabilidades terá de desenvol­ver competência);
  3. o que é estruturado é melhor (os pro­gramas que são dirigidos e sistemáticos conseguem replicar aquilo que funciona com mais facilidade) (Jamieson, 2005).

As tarefas de vida da idade adulta

Alguns estudos longitudinais (como Werner e Smith, 1982) começaram em fun­ção do interesse de um pesquisador nas ex­periências da infância, mas continuaram por décadas) para revelar muito sobre as experiências adultas. Nesta seção, descre­vemos dois desses estudos prospectivos (o Life Cycle Study, com crianças superdotadas, de Terman, e o estudo, de Harvard, sobre "os melhores dos melhores”, conhecido como Estudo sobre Desenvolvimento Adul­to). Deve-se observar que muitos aspectos do desenvolvimento adulto são tratados nesta seção e em importantes teorias do desenvolvimento (vide o Quadro 6.1), mas ainda há muita coisa desconhecida com relação a como as pessoas crescem e mu­dam entre os 26 e os 59 anos.

As trajetórias de crianças precoces

Lewis Terman (Terman e Oden, 1947) passou a maior parte de sua vida estudan­do a inteligência, que ele considerava como sendo a qualidade adaptativa que levaria ao sucesso na vida e, mais especificamen­te, à liderança nacional. Na década de 1920, Terman deu início a um ambicioso
estudo com 1.500 crianças intelectu­almente talentosas (QI > 140) que eramindicadas por profes­sores das escolas da Califórnia. Os parti­ cipantes do estudo apelidaram a si mes­ mos de “térmitas”.

Esses participantes eram fisicamente fortes na infância e, em geral, mais saudáveis do que seus colegas e amigos. A maioria das crianças terminou o ensino superior e garantiu bons empregos. Embora muitas das térmitas tenham sido produtivas em seus empregos, poucas chegaram a ser lí­deres nacionais, que era a hipótese de Terman. Portanto, deve-se assinalar que o QI elevado na infância não garantiu suces­so como adultos e melhor saúde mental.

Embora as predições de Terman com relação às proezas adultas de crianças inte­ligentes não se tenham confirmado, sua amostra revelou informações sobre o de­senvolvimento adulto. No lado negativo do funcionamento humano, Peterson, Seligman, Yurko, Martin e Friedman (1998) es­tudaram as respostas das térmitas na in­fância a questões abertas e concluíram que um estilo explicativo caracterizado pelo catastrofismo (explicar maus eventos com causas globais) era um indicador de riscos de mortalidade nessa amostra de crianças saudáveis. Essa relação entre estilo explica­tivo e longevidade/mortalidade provavel­mente é mediada por opções de estilo de vida. Em função dessas conclusões, parece que um QI em nível de gênio e uma boa saúde na infância não protegem os indiví­duos de fazer escolhas equivocadas que levam à má saúde e à morte prematura.

Quais são as principais tarefas da idade adulta?

Um subconjunto da amostra de da­dos de Terman foi revisado por George [113] Vaillant, o responsá­vel por décadas de dados do estudo de Harvard (descritos em mais detalhes posteriormente). De forma específica, 90 mulheres na amos­tra de Terman foram entrevistadas por Vaillant para exa­minar a generabilidade de suas con­clusões sobre desen­volvimento adulto a partir de sua amostra composta somente por homens. O exame dos dados de Terman e a revisão dos da­dos do Estudo sobre desenvolvimento adul­to ajudaram a partir de teorias do desen­volvimento existentes e identificar as tare­fas associadas à vida adulta.

Orientado pela teoria do desenvolvi­mento em etapas de Erik Erikson (1950), Vaillant mapeou (1977) e refinou (2002) seis tarefas do desenvolvimento adulto: identidade, intimidade, consolidação pro­fissional, geratividade, guardião do signi­ficado e integridade. A identidade geralmente se desenvolve durante a adolescên­cia ou no início da idade adulta, quando as pessoas passam a ter visões, valores e inte­resses próprios, em lugar das visões de seus cuidadores (não desenvolver uma identi­dade pessoal pode impedir um envolvi­mento dotado de significado com pessoas e trabalho). Com o desenvolvimento da identidade, uma pessoa tem mais probabi­lidades de buscar um relacionamento independente e comprometido com outra pessoa e, assim, adquirir intimidade. Mui­tas das mulheres na amostra original de Terman identificaram amizades íntimas com mulheres como suas relações mais ín­timas, ao passo que os homens do estudo de Harvard invariavelmente identificaram suas relações com suas esposas como as conexões mais íntimas. Uma conclusão re­lacionada a essa, de Vaillant (2002, p. 13), foi que “não são as coisas ruins que nos acontecem que nos destroem, são as pes­soas boas que nos acontecem em qualquer idade que facilitam uma velhice agradável".

A consolidação profissional é uma tarefa de vida que requer o desenvolvimen­to de uma identidade social. O envolvi­mento com uma profissão se caracteriza pelo contentamento, pela compensação, pela competência e pelo compromisso. Para muitas pessoas, a consolidação profissio­nal, assim como outras tarefas, é “traba­lhada”, em lugar de adquirida. Isso signifi­ca que as pessoas podem consolidar suas profissões por décadas, mesmo quando ja avançam à aposentadoria. Na força de tra­balho de hoje em dia, a consolidação mui­tas vezes é comprometida pela necessidade de mudar de emprego. Como resulta­do, a adaptação profissional (Ebberwein, Krieshok, Ulven e Prosser, 2004; Super e Knasel, 1981) surgiu como um pré-requi­sito da consolidação profissional.

Com relação às tarefas associadas à geratividade, as pessoas podem se envol­ver na construção de um círculo social mais amplo ao “se doar”. Ao dominar as três primeiras tarefas, os adultos podem possuir a competência e o altruísmo ne­cessários para servir como mentores dire­tos para a próxima geração de adultos. De fato, à medida que as pessoas envelhecem, os objetivos sociais se tornam mais signi­ficativos do que os objetivos voltados às realizações (Carstensen e Charles, 1998; Carstensen, Pasupathi, Mayr e Nesselroa- de, 2000).

No contexto de um círculo social maior, algumas pessoas assumem a tarefa de se tornar guardiões do significado. O guardião do significado tem uma visão so­bre os mecanismos do mundo e das pessoas e está disposto a compartilhar esse conhe­cimento com os outros. Ele protege as tradições e os rituais que possam facilitar o desenvolvimento dos mais jovens. Em es­sência, liga o passado ao futuro. Por fim, a realização da tarefa de desenvolvimento de integridade traz paz à vida de uma pes­soa. Nessa etapa, uma espiritualidade mais [114] elevada muitas vezes acompanha mais con­tentamento com a vida.

O domínio dessas tarefas é o objeto da vida adulta. O trabalho intencional em cada uma dessas tarefas leva ao trabalho na próxima tarefa, e o domínio de todas as tarefas é a essência do bem-envelhecer.

O caso de Sarah

A capacidade de prever mudanças no trabalho, fazer planos em relação a opor­tunidades futuras, desenvolver novas habilidades e criar uma rede social que facili­te a transição no trabalho tem sido apre­sentada por dúzias de nossos clientes com o passar dos anos, mas a história de Sarah chama a atenção porque ela havia previsto a necessidade dessa flexibilidade em sua sexta década de vida. Esse é um momento em que muitos diriam que ela chegou à consolidação profissional.

Sarah havia trabalhado no mesmo emprego, para a mesma empresa, por 33 anos. Como designer gráfica de uma empresa na­cional de cartões de felicitações, ela sabia que seu cargo era valorizado, e também entendia que os programas de computador e as impressoras de alta qualidade estavam substituindo seus tradicionais métodos de lápis e papel. Ela aprendeu novas habilida­des de design por computador, mas não ti­nha a mesma satisfação criativa a partir dessa nova forma de trabalhar. Como poderia continuar se sentindo criativa para poder ter prazer no trabalho? Em primeiro lugar, ela tinha que identificar exatamente aquilo de que gostava no processo criativo, Após semanas de reflexão, ocorreu-lhe que gostava de pensar em design mais do que gostava do processo real de realizá-lo, seja em um bloco de papel, seja na tela de um computador. Ela poderia convencer o chefe de sua equipe a lhe pagar para “pensar sobre design” em lugar de produzir designs? No início de um dia de trabalho, quando estava se sentindo particularmente corajosa levou a ideia ao chefe de sua equipe, que pareceu ficar intrigado e aliviado. Acon­tece que o chefe estava tentando descobrir uma maneira de dizer a Sarah que alguns aspectos do trabalho de design iriam ser fei­tos por pessoas de outros grupos (que cus­tam muito menos por hora) e que se pedi­ria à pequena equipe de designers atuais que produzisse conceitos para os artistas mais jovens que trabalhavam em computadores. Sendo assim, nos últimos 10 anos de sua vida profissional, Sarah descobre que será paga por idéias em lugar de trabalhos concretos. Ela também tem o prazer de visi­tar jovens artistas gráficos de outras partes do mundo. Embora estivesse bastante con­fiante em seu futuro profissional, continua a prever mudanças no setor de cartões, que podem dar rumo ao seu trabalho e sua vida.

Bem-envelhecer

Com a incorporação dos nascidos na explosão demográfica do pós-guerra ao grupo de norte-americanos mais velhos, as histórias sobre bem-envelhecer estão ga­nhando mais destaque nos meios de comu­nicação de hoje em dia. As narrativas de adultos mais velhos oferecem lições valio­sas a todos nós. Esse foi o caso, certamen­te, de Morrie Schwartz (o foco do livro Tuesdays with Morrie, de Mitch Albom, pu­blicado em 2002), que viveu a vida em sua integralidade e encontrou muito sentido durante sua decadência física e sua morte.

O estudo dos aspectos positivos do en­velhecimento (chamados de envelhecimento positivo, bem-envelhecer e envelhecer com qualidade) começou a apenas algumas dé­cadas, mas se tornará um foco importante da ciência psicológica, em função das ten­dências na demografia dos Estados Unidos [e do Brasil] que demandarão a atenção dos cientistas e do público em geral. Nosso objetivo nes­ta seção é descrever o bem-envelhecer com base no MacArthur Study of Successful Aging e no estudo prospectivo de Vaillant (2002).

No que consiste o bem-envelhecer?

O termo bem-envelhecer (successful aging) foi popularizado por Robert Havighurst (1961) quando ele escreveu sobre “acrescentar mais vida aos anos” (p. 8) na primeira edição de The gerontologist. Havighurst também foi pioneiro do interes­se acadêmico nos aspectos saudáveis do envelhecimento. Rowe e Kahn (1998), resu­mindo as conclusões do MacArthur Study of Successful Aging, propuseram três com­ponentes do bem-envelhecer:

  1. evitar a doença;
  2. envolver-se com a vida e
  3. manter um alto funcionamento cognitivo e físico.

Esses três componentes são aspectos da “manutenção de um estilo de vida que envolve atividades normais, valorizadas e benéficas” (Williamson, 2002, p. 681). Vaillant (2002) simplifica ainda mais a de­finição caracterizando o bem-envelhecer como alegria, amor e aprendizado. Essas descrições, embora não sejam detalhadas, oferecem uma imagem adequada do bem-envelhecer (successful aging).

O estudo da Fundação MacArthur sobre o bem-envelhecer

O estudo sobre o bem-envelhecer rea­lizado pela Fundação MacArthur (McAr­thur Foundation Study of Successful Aging, que aconteceu entre 1988 e 1996) foi rea­lizado por John Rowe e por um grupo multidisciplinar de colaboradores. Eles in­vestigaram fatores físicos, sociais e psico­lógicos relacionados a habilidades, saúde e bem-estar. Uma amostra de 1.189 vo­luntários adultos saudáveis, com idade entre 70 e 79 anos, foi selecionada em um grupo de 4.030 participantes potenciais usando critérios físicos e cognitivos. Es­ses adultos com alto nível de funciona­mento participaram de uma entrevista pessoal de 90 minutos e, depois, foram acompanhados durante uma média de sete anos, período em que completaram entrevistas periódicas.

Como mencionado anteriormente, o estudo MacArthur revelou que os três com­ponentes do bem-envelhecer eram evitar a doença, envolver-se com a vida e manter o funcionamento físico e cognitivo (Rowe e Kahn, 1998). Aqui, tratamos do envolvi­mento com a vida porque é o componente que os psicólogos positivos têm mais pro­babilidades de abordar em suas pesquisas e em suas práticas. Na verdade, os dois componentes de envolvimento com a vida. apoio social e produtividade (Rowe e Kahn) têm um paralelo com os objetivos de amor, trabalho e atividade lúdica de que tratamos em muitos capítulos deste livro.

O apoio social é mais potente quan­do é mútuo, pois o apoio dado é contraba­lançado pelo apoio recebido. Dois tipos de apoio são importantes para o bem-enve­ lhecer: o apoio socioemocional (gostar e amar) e o apoio instrumental (auxílio quando alguém está em necessidades). Uma análise mais profunda dos dados do estudo MacArthur revelou que o apoio au­mentou com o tempo (Gurung, Taylor e Seeman, 2003). Os respondentes com mais vínculos sociais também demonstraram menos declínio do funcionamento com o passar do tempo (Unger, McAvay, Bruce, Berkman e Seeman, 1999). Mostrou-se que os efeitos positivos dos vínculos sociais va­riaram segundo o gênero e as capacidades físicas básicas do indivíduo (Unger et al.). O gênero também influenciou como os participantes casados (um subconjunto da amostra total que continha 439 pessoas) recebiam apoio social: “Os homens [116] recebiam apoio social principalmente de suas esposas, ao passo que as mulheres se baseavam mais em seus amigos e parentes, assim como nos filhos, para obter apoio emocional” (Gurung et al., p. 487).

Com relação à atividade produtiva na idade adulta avançada. Glass e colabora­dores (1995) examinaram padrões de mu­dança nas atividades de uma amostra com alto funcionamento, de pessoas entre 70 e 79 anos, em um grupo de 162 pessoas com funcionamento entre moderado e baixo, durante um período de três anos. A coorte de funcionamento mais elevado foi consi­derada significativamente mais produtiva do que o grupo de comparação. As mudan­ças em produtividade com o passar do tem­po foram associadas a mais internações hospitalares e derrames, ao passo que a idade, o casamento e um domínio maior de determinadas habilidades estavam re­lacionados a mais proteção contra declí­nios. Essas conclusões estão de acordo com o trabalho de Williamson (2002), que su­gere que a atividade física sustentada (um aspecto da atividade produtiva) ajuda a manter um funcionamento saudável. Da mesma forma, interrupções dos regimes de atividade física costumam precipitar de­ clínios no bem-estar geral.

O estudo de desenvolvimento adulto

Vaillant (2002) reconhece que a ava­liação subjetiva do funcionamento não é o enfoque mais rigoroso à identificação de quem envelhece bem. Ele se baseou em um sistema de avaliações independentes do funcionamento (como física, psicológica, ocupacional) dos participantes do Estudo sobre Desenvolvimento Adulto. Os 256 par­ticipantes originais, caucasianos e social­mente em vantagem, foram identificados no final da década de 1930 pelos reitores de Harvard (que consideravam esses alu­nos como saudáveis em todos os aspectos). Nos últimos 80 anos, esses participantes foram estudados por meio de exames físi­cos, entrevistas pessoais e surveys. Mais de 80% dos participantes do estudo passaram dos 80 anos, comparados com apenas 30% de seus contemporâneos que viveram até essa idade. O amplo estudo feito com es­ses adultos mais velhos (e membros de dois estudos prospectivos) identificou os seguin­tes fatores de predição do envelhecimento saudável no estilo de vida: não fumar ou parar de fumar ainda jovem, enfrentamento adaptativo, com defesas maduras, não usar álcool em excesso, manter um peso saudável, um casamento estável e fa­zer algum exercício, além de receber [117] educação escolar. Essas variáveis diferencia­vam as pessoas nos extremos do espec­tro de saúde: os felizes-sadios (62 in­divíduos que vivenciaram boa saúde em termos objetivos e subjetivos, biológi­cos e psicológicos) e os tristes-doentes (40 indivíduos que foram classificados como in­felizes em pelo menos uma dessas três di­mensões: saúde mental, apoio social ou sa­tisfação na vida). O fator de predição mais forte para estar no grupo feliz-sadio em re­lação ao triste-doente foi o nível em que as pessoas usavam estilos de enfrentamento psicológico maduros (como altruísmo e humor) no dia a dia.

Talvez a predição do bem-envelhecer não seja tão complexa quanto o estudo da MacArthur e Vaillant fazem que seja. O bem-envelhecer, ou no mínimo a longevi­dade, resume-se a vivenciar emoções no início da vida? Danner, Snowdon e Friesen (2001), em seu estudo das autobiografias de 180 freiras católicas escritas no início do século XX, demonstraram que o con­teúdo emocional positivo nos escritos es­tava inversamente correlacionado com o risco de mortalidade 60 anos depois. Essas freiras, que aparentemente tinham tido um estilo de vida que levaria ao bem-envelhecer, apresentavam mais probabilida­des de passar dos 70 ou 80 anos se tives­sem descrito histórias de suas vidas que fossem carregadas de emoções positivas muitas décadas antes.

O corpo de pesquisa sobre envelhe­cer bem está crescendo rapidamente, e as conclusões sugerem que as pessoas têm mais controle sobre a qualidade de suas vidas durante o processo de envelhecimen­to do que costumávamos acreditar. Mais além, em vários estudos, o apoio social é um dos fatores psicológicos que promovem o bem-envelhecer. Apesar desse aspecto em comum, à medida que se realizam e se publicam mais pesquisas intercultural parece que o envelhecimento e o bem-em velhecer podem variar segundo os países estudados. Sendo assim, o bem-envelhecer não deve ser medido segundo um padrão universal (Baltes e Carstensen, 1996). Isso sugere que os futuros trabalhos deverão levar em consideração aspectos de enve­lhecimento adaptativo ao buscar pistas que levem ao bem-viver na idade avançada.

Um foco mais voltado ao desenvolvimento na Psicologia postiva 

Enfrentamos dificuldades e adversidades diárias. Isso se aplica à infância, adolescência, à idade adulta e à idade adul­ta avançada. Ao envelhecer, espera-se, pas­samos a ter mais recursos e capacidade; de adaptação. Parece ser esse o caso, pois há diversos fatores de desenvolvimento positivo que ajudam as crianças e os adultos a se recuperar. As conclusões discutidas neste capítulo também sugerem que a psi­cologia positiva vai bem em sua maneira de identificar e compartilhar informações importantes com relação a viver uma vida melhor. Faça os miniexperimentos pessoais para dar vida a algumas dessas conclusões.

Embora se saiba muito sobre como prosperar durante cada década de nossas vidas, a próxima geração de psicólogos positivos (você e seus colegas) tem muitas perguntas a responder com relação a tópi­cos como desenvolvimento adulto positivo e a promoção do bem-envelhecer para mui­tas pessoas. Além disso, são necessárias mais teoria e pesquisa para nos ajudar a entender como cada qualidade humana se manifesta e descrever como a cultura mol­da uma determinada qualidade e sua [118] potência com o passar do tempo. Para que a psicologia positiva cresça como campo, acreditamos que é crucial entender os proressos de desenvolvimento que se desen­rolam da infância até a idade avançada. [119]

Psicologia - Psicologia positiva
7/23/2020 8:19:27 PM | Por Charles Richard Snyder
Desenvolvendo as qualidades humanas e vivendo bem em um contexto cultural

David Satcher, o 16“ diretor de saúde dos Estados Unidos (cargo mais alto no sis­tema de saúde pública do país), que de­sempenhou a função entre 1998 e 2002, estava sentado em um palco pouco ilumi­nado em uma sala de convenções lotada. Junto ao corpo, trazia o calhamaço do relatório intitulado “Saúde mental: cultura, raça e etnicidade” (Mental health: culture, race, ethnicity, U.S. Department of Health and Human Services [DHHS], 2001), que estava sendo lançado oficialmente naque­le mesmo dia. Os psicólogos começavam a encher a sala de reuniões para ouvir a sínte­se do Dr. Satcher sobre o relatório, que vi­nha sendo elaborado há anos. Quando che­gou sua hora de falar, Satcher discorreu sobre as influências fundamentais da cul­tura na saúde mental. Este trecho do rela­tório resume alguns de seus comentários:

A cultura [grifos nossos] é definida, em termos gerais, como um legado ou con­junto de visões, normas e valores comuns (U.S. DHHS, 1999). Ela se refere aos atri­butos compartilhados de um grupo... A cultura influencia inclusive se as pessoas chegam a procurar ajuda para sua saúde, que tipo de ajuda elas procuram, de que estilos de enfrentamento e apoios sociais dispõem, bem como quanto estigma elas atribuem às doença mentais. Todas as cul­turas também têm qualidades, como a resiliência e formas adaptativas de en­frentamento, que podem proteger algu­mas pessoas de determinados transtornos. Os consumidores de serviços de saúde mental trazem naturalmente essa diver­sidade cultural para o setting terapêutico... A cultura do clínico e o sistema de aten­ção à saúde como um todo comandam a resposta dada a um paciente com uma doença mental. Eles influenciam muitos aspectos da prestação de cuidados, in­cluindo o diagnóstico, o tratamento e a organização e o reembolso dos serviços. Os clínicos e os sistemas de prestação dos serviços têm estado mal equipados para atender às necessidades de pacientes com diferentes origens e, em alguns casos, têm demonstrado preconceito na prestação de atendimento (U.S. DHHS, 2001).

Havia duas mensagens-síntese no re­sumo de Satcher. Em primeiro lugar, “a cultura é importante” na consideração da etiologia (a causa de algo, como uma doença), efeitos e tratamento de proble­mas educacionais e psicológicos. Em segun­do, os psicólogos necessitam incorporar questões culturais a suas conceituações dos problemas e tratamentos psicológicos.

A necessidade de reconhecer influên­cias culturais amplas também se aplica aos nossos esforços para entender eventos educacionais, qualidades psicológicas e a [85] própria natureza do bem-viver. Essa ne­cessidade, contudo, não tem sido atendi­da, segundo críticos da iniciativa da psicologia positiva. Esses críticos observaram que a maioria dos estudos voltados às qua­lidades não trata das influências culturais em nossos planos de pesquisa, prestação de serviços e avaliações de programas (Ahuvia, 2001; Leong e Wong, 2003; Sue e Constantine, 2003). Mais além, os crí­ticos demandam mais discussão sobre como a “cultura é importante” nas ativi­dades de pesquisa e na prática da psicolo­gia positiva.

Exortamos quaisquer futuros psicólo­gos positivos que estejam lendo este capí­tulo a levar em conta a cultura como uma importante influência sobre o desenvolvimen­to e a manifestação das qualidades e do bem-viver humanos. Esse objetivo é desafiador porque a psicologia, como disciplina, tem sido ineficaz para incluir as variáveis cul­turais no estudo da saúde e das doenças mentais. Da mesma forma, os psicólogos positivos parecem estar divididos sobre a questão de se a ciência e a prática são isen­tas da influência cultural (ou seja, têm uma postura neutra e objetiva no exame dos tra­ços e comportamentos humanos “univer­sais”) ou são carregadas de cultura (ou seja, reconhecem as influências dos valores cul­turais no exame das qualidades e do funcio­namento positivo).

Neste capítulo, descrevemos:

  1. as posturas históricas dos psicólogos com relação aos papéis da cultura so­bre os comportamentos positivos e ne­gativos;
  2. os enfoques dos psicólogos positivos à incorporação das perspectivas culturais em seu trabalho e
  3. o papel das influências culturais em nossas futuras explorações das qualida­des e do funcionamento positivo.

Inicialmente, tratamos das tentativas históricas (e, muitas vezes, fracassadas) do campo em entender os papéis das forças culturais na determinação de nossas [87] formações culturais. Em segundo, examina­mos as afirmações de que a psicologia po­sitiva é isenta de influências culturais ou de que é carregada de cultura. Em terceiro e último lugar, discutimos os passos neces­sários para posicionar a psicologia positi­va no contexto cultural. Ao final deste ca­pítulo, pode ser que tenhamos levantado mais perguntas do que respostas. Obvia­mente, consideramos essas perguntas como fundamentais para o futuro da psicologia positiva, e muitos dos leitores deste texto podem ser chamados a tratar dessas ques­tões em suas carreiras.

Entendendo a cultura: uma questão de perspectiva

A psicologia, no século XX, viveu um corpo-a-corpo com o tópico de diferenças individuais. Muitas das discussões sobre esse tema estavam relacionadas à cultura. Nos últimos 100 anos, por exemplo, a psi­cologia avançou, passando da identifica­ção das diferenças associadas à cultura para a identificação e apreciação da singulari­dade individual.

No final do século XIX e início do XX, antropólogos e psicólogos costumavam se referir à raça e à cultura como determi­nantes das características e comportamen­tos pessoais, positivos e negativos. Os paradigmas de pesquisa, influenciados pe­las forças sociopolíticas da época, produ­ziram conclusões que, em termos gerais, estavam em sintonia com a visão de que a raça ou a cultura dominante era superior a todos os outros grupos étnicos ou minori­tários dos Estados Unidos. Essas aborda­gens que destacavam a inferioridade de determinados grupos raciais ou culturais foram chamadas de perspectivas genética e culturalmente deficientes sobre a diversida­ de humana, ao passo que a perspectiva ge­neticamente diferente reconhece o potencial de cada cultura para engendrar qualida­des únicas (Sue e Sue, 2003).

A hipótese dos psicólogos que apoia­ram o modelo geneticamente deficiente era de que as diferenças biológicas expli­cavam lacunas percebidas nas capacidades intelectuais entre grupos raciais. Mais além, os proponentes desse modelo afirmavam que as pessoas que possuem inteligência in­ferior não poderiam se beneficiar das opor­tunidades de crescimento e, como tal, não contribuíam para o avanço da sociedade.

Usou-se a pseudociência para de­monstrar a suposta base genética da inte­ligência e destacar a “descoberta” da supe­rioridade intelectual de europeus e euro-americanos. Por exemplo, a craniometria, que é o estudo da relação entre as caracte­rísticas do crânio e a inteligência (às ve­zes, medindo-se a quantidade de semen­tes de pimenta necessárias para encher crâ­nios secos), era uma abordagem pseudo-científica para demonstrar a relativa supe­rioridade de um grupo sobre outro.

Tais noções de inferioridade genética constituíram um foco importante da pes­quisa em eugenia (o estudo dos métodos de redução da “inferioridade genética” por meio de procriação seletiva) liderada por psicólogos norte-americanos como G. Stanley Hall e Henry Goddard. Hall “acre­ditava firmemente em raças humanas ‘su­periores’ e ‘inferiores’” (Hothersall, 1995, p. 360). Goddard tinha visões semelhan­tes com relação à raça e inteligência, e no início do século XX, estabeleceu procedi­mentos de triagem (usando testes formais de inteligência semelhantes aos que se usam hoje em dia) na Ilha de Ellis, para aumentar os níveis de deportação de pes­soas “pouco inteligentes” (Hothersall, 1995). Assim, pessoas de todo o mundo recebiam testes de inteligência complexos, geralmente em uma língua que não a sua, no mesmo dia em que chegavam de uma longa viagem pelo oceano. Não surpreen­de que os resultados desses testes fossem uma estimativa ruim do funcionamento intelectual dos imigrantes.

Em meados do século XX, a maioria dos psicólogos havia abandonado a visão [88] de que a raça predeterminava as capacida­des cognitivas e os resultados que a pessoa obteria na vida. Na verdade, o foco foi redirecionado, passando da raça à cultura ou, mais especificamente, às “deficiências culturais” evidenciadas nas vidas cotidia­nas de algumas pessoas. Na abordagem culturalmente deficiente ao entendimen­to das diferenças entre as pessoas, os psi­cólogos (como Kardiner e Ovesey, 1951) identificavam uma série de fatores ambien­tais, nutricionais, lingüísticos e interpes­soais que supostamente explicariam o ra­quítico crescimento físico e psicológico de membros de determinados grupos. A hipótese era de que as pessoas careciam de determinados recursos psicológicos porque sua exposição aos valores e costumes pre­dominantes na época, ou seja, os dos euro-americanos, era limitada (vide a discussão de privação cultural em Parham, White e Ajamu, 1999). Muitos pesquisadores e pro­fissionais tentaram explicar os problemas e esforços das pessoas examinando cuida­dosamente a justaposição de culturas, es­pecificamente aquelas que eram conside­radas como marginais de alguma forma, quando comparadas às consideradas pre­dominantes (de classe média, suburbanas, socialmente conservadoras). Os desvios da cultura normativa eram considerados “de­ficientes” e motivo de preocupação. Em­bora desse mais atenção aos efeitos das variáveis externas do que ao modelo gene­ricamente deficiente anterior, esse modelo continuava aplicando uma-estrutura precon­ceituosa, negativa e simplista para avaliar es capacidades cognitivas dos membros de grupos minoritários (Kaplan e Sue, 1997).

Após décadas em que alguns psicólo­gos afirmavam que certas raças e culturas eram melhores do que outras (ou seja, que os euro-americanos eram superiores às minorias), muitos profissionais começaram a apoiar a perspectiva culturalmente di­ferente, na qual se reconheciam a singularidade e as qualidades de todas as cultu­ras. Recentemente, pesquisadores e profissionais começaram a considerar explica­ções da diversidade inerente em compor­tamentos humanos positivos e negativos que são culturalmente pluralistas (que re­conhecem entidades culturais distintas e adotam alguns valores norte-americanos tradicionais) e culturalmente relativistas (que interpretam os comportamentos den­tro do contexto da cultura). Muito embora as explicações pluralistas e relativistas se­jam amplamente aceitas, debate-se se a pesquisa e a prática em psicologia positiva são isentas da influência da cultura ou es­tão carregadas dela. Esse debate é situado e discutido na próxima seção.

Psicologia positiva: isenta ou carregada de influências culturais?

Os cientistas e os profissionais da psi­cologia positiva estão comprometidos com o estudo e a promoção do bom funciona­mento humano. Embora tenhamos esse ob­jetivo comum, vamos em busca dele por muitos caminhos diferentes. Observadores externos podem concluir que todos os pesquisadores do campo da psicologia positiva fazem perguntas semelhantes e usam mé­todos semelhantes. Tais observadores tam­bém podem observar que todos os profissio­nais da psicologia positiva se concentram nas qualidades dos clientes e ajudam as pes­soas a avançar em direção a resultados po­sitivos em suas vidas. Nossas especialidades educacionais (como a psicologia social, de saúde, da personalidade, do desenvolvimen­to, terapêutica e clínica), contudo, podem determinar aspectos específicos das ques­tões examinadas e das ferramentas de pesquisa utilizadas. Da mesma forma, nossas orientações teóricas para a terapia (como a humanista, a cognitivo-comportamental, focada em resultados) podem influenciar nossos esforços para ajudar as pessoas a fun­cionar melhor. Até que ponto consideramos a pesquisa e a prática da psicologia positiva como isentas ou carregada de influências [89] da cultura também pode ser um fator a moldar nossos focos e métodos.

Desde 1998, o debate sobre as in­fluências culturais na pesquisa e na práti­ca da psicologia positiva tem sido realiza­do formalmente em convenções e informal­mente em listas de discussões pela internet e em salas de aula. A maioria dos profis­sionais provavelmente tem confiança na objetividade de seus métodos. Eles também provavelmente reconhecem a necessidade de entender a impressionante diversidade da existência humana. Alguns deles ado­tam posições extremas (como “a psicolo­gia positiva é isenta de influências da cul­tura e NÃO ESTÁ carregada de cultura”, ou “a psicologia positiva ESTÁ carregada de cultura e NÃO ESTÁ isenta de influên­cias da cultura”) e defendem suas visões com muito vigor. Tendo testemunhado es­ses debates e participado de alguns deles, as três questões recorrentes parecem estar relacionadas:

  1. aos efeitos dos valores culturais dos profissionais em suas pesquisas e prá­ticas;
  2. à universalidade das qualidades hu­manas e
  3. à universalidade da busca da felicidade.

O Quadro 5.1 apresenta os extremos de cada uma dessas três posições. Nas se­ções que seguem, detalhamos as perspec­tivas dos proponentes de cada posição. Além disso, apresentamos miniexperimentos para provocar o leitor a pensar sobre a aplicação dessas perspectivas.

Quadro 5.1

Pesquisa e prática isentas de influências culturais na psicologia positiva

Os que defendem a abordagem “isen­ta de influências culturais” sustentam que a ciência social positiva é descritiva e objeti­va e que seus resultados “transcendem cul­turas e políticas específicas e abordam a universalidade” (Seligman e Csikszentmi- halyi, 2000, p. 5). Esses profissionais afir­mam que os valores culturais dos pesqui­sadores e dos profissionais não influenciam seu trabalho. A lógica subjacente é de que os cientistas rigorosos usam métodos bem-desenvolvidos e ferramentas validadas. Da mesma forma, os terapeutas consciencio­sos e eficientes utilizam avaliações e inter­venções validadas.

Com relação à universalidade de nu­merosas qualidades humanas, Peterson e Seligman (2004) detalham sua ampla bus­ca por virtudes e qualidades que são valo­rizadas por todas as pessoas em diferentes culturas (vide o Capítulo 4 para uma [90] discussão da Classificação de Qualidades VIA). As 24 características pessoais identificadas por Peterson e Seligman estariam presen­tes em todas as sociedades e seriam consi­deradas positivas em todos os grupos cul­turais. De fato, pesquisadores que foram aos quatro cantos do mundo para entre­vistar membros de tribos (como os Inuit, da Groenlândia, e os Maasai, no Quênia) informam evidências descritivas e quanti­tativas que sustentam a existência e a desejabilidade dessas Qualidades VIA em cul­turas específicas (Biswas-Diener e Diener, no prelo).

A ideia de que todo mundo quer ser feliz é o pressuposto orientador do livro de David Myers, A busca dafelicidade (The pursuit of happiness, 1993), e muitos psi­cólogos positivos concordam com essa vi­são. Sobre isso, pesquisadores do bem-es­ ar subjetivo (como Kahneman, Diener e Schwartz, 1999) fizeram levantamentos com pessoas de todo o mundo e concluí­ram que a felicidade define as experiên­cias emocionais das pessoas na maioria dos países.

Pesquisa e prática carregadas de cultura na psicologia positiva

A perspectiva culturalmente carrega­ da sobre a psicologia positiva está intima­mente associada a esforços para contextualizar todas as iniciativas de pesquisa e prática. Especificamente, as [91] recomendações sensíveis à cultura com relação à prá­tica, à pesquisa e à formulação de políticas (APA, 2003) estimulam os profissionais a desenvolver competências específicas para ajudar a levar em conta as influências cul­turais sobre a psicologia. Nessa linha, os apoiadores da posição culturalmente car­regada concordariam que a pesquisa e a prática são realizadas na intersecção entre as culturas dos profissionais e as dos parti­cipantes ou clientes. Sendo assim, afirma-se que os valores culturais do pesquisador e do profissional influenciam a psicologia positiva.

Embora reconheçam que pode existir um grupo principal de traços e processos positivos em todas as culturas, os profissi­onais que acreditam que todas as qualida­des são carregadas de cultura sustentam que a maioria deles se manifesta de for­mas muito diferentes, com propósitos dis­tintos, em culturas diferenciadas. Sandage, Hill e Vang (2003) apresentam um bom exemplo de como o perdão (uma das 24 qualidades VIA) é valorizado em diferen­tes culturas e, ainda assim, opera de forma muito distinta dentro de cada uma delas. Em sua análise do processo de perdão en­tre norte-americanos descendentes dos Hmong, na Ásia, Sandage e colaboradores descobriram que ele se concentra na res­tauração do respeito e na recuperação da relação, enfatiza um componente espiritual e é facilitado por um terceiro. Embora ou­tras conceituações do perdão enfatizem a recuperação da relação, os componentes espirituais e a necessidade da facilitação de um terceiro parecem ser raros.

Sobre a noção de felicidade como um estado humano desejado universalmente, os psicólogos (por exemplo, Constantine e Sue, 2006; Leong e Wong, 2003; Sue e Constantine, 2003) observaram que o so­frimento e a transcendência são os objeti­vos de alguns indivíduos que adotam uma perspectiva oriental sobre a psicologia po­sitiva (vide o Capítulo 3). Dessa forma, a felicidade pode ser simplesmente um sub­ produto do processo da vida. Ahuvia (2001, p. 77) narrou sua experiência com pessoas que não compartilhavam do dese­jo “universal” de ser felizes:

Há alguns anos, um indiano, meu aluno de doutorado, viu a contracapa do livro de Myers (1993), que dizia “Todos que­remos ser felizes...”. O aluno sim­plesmente disse: “Eu não”. Eu me lembro de outra conversa, com um jovem de Cingapura, que me contou que ia se ca­sar com sua noiva porque isso era espera­do dele socialmente, e não porque ele seria feliz no casamento... Da mesma for­ma, troquei longos e-mails com um aluno coreano que era muito explícito em rela­ção a escolher uma carreira para ficar rico, não para ser feliz, de forma que pudesse agradecer seus pais, comprando-lhes um Mercedes novo.

Os resultados de inventários subjeti­vos em nível nacional sobre bem-estar (Kahneman, Diener e Schwartz, 1999) tam­bém sugerem que há diferenças, com o passar das décadas, em relação aos níveis de felicidade entre países.

Isenta de cultura versus carregada de cultura: um debate em andamento?

A discussão dessa questão pode não ser necessariamente o melhor uso dos re­cursos profissionais. John Chambers Chris­ topher (2005), da Universidade de Mon­tana, nos Estados Unidos, argumenta que “a psicologia positiva requer uma filosofia das ciências sociais que seja consistente o suficiente para dar conta de questões ontológicas, epistemológicas e éticas/morais, indo além do objetivismo e do relativismo” (p. 3-4). O texto completo do artigo de Christopher, reimpresso aqui, detalha suas sugestões para dar à psicologia positiva uma estrutura conceitual mais forte. [92]  

Situando a psicologia positiva em um contexto cultural

As perspectivas passadas da psicolo­gia sobre a cultura, junto com o debate "isenta de cultura-carregada de cultura”, narram as ciladas e o avanço associados às tentativas profissionais de entender as in­fluências da cultura sobre a pesquisa e a prática da psicologia positiva. Apresenta­mos aqui recomendações para ajudar a entender o papel da cultura na psicologia positiva.

Examinando a equivalência dos "positivos" para determinar o que funciona

Estabelecer a aplicabilidade intercultural de constructos e processos vai além de se determinar se as qualidades e os me­canismos de enfrentamento existem e são valorizados por membros de diferentes grupos culturais. Além disso, demanda um conhecimento da psicologia específica do grupo (Sandage et al., 2003) que conte a história de como e quando a qualidade ou o processo passou a ser valorizado dentro da cultura e como ele funciona atualmen­te de forma positiva.

O estudo qualitativo do uso que uma pessoa faz de uma determinada qualidade em sua vida cotidiana poderia melhorar nosso conhecimento de como a cultura é importante no desenvolvimento e na ma­nifestação dessa qualidade; e estudos rigo­rosos, quantitativos e interculturais pode­riam revelar mais informações sobre como uma qualidade leva a um determinado re­sultado voltado na vida ou está associada a ele em uma cultura, mas a outro, em outra.

Outra forma de desvelar as nuanças culturais associadas a um constructo ou processo positivo é perguntar às pessoas como uma determinada qualidade ganhou força em suas vidas cotidianas. Por exem­plo, o “Teste de esperança: cabeça, coração, sagrado” se mostrou uma maneira eficaz de começar discussões (dentro e fora de sessões de terapia) e exposições sobre a es­perança possibilita que as pessoas reflitam sobre a história de como a esperança veio a ser importante em suas vidas e a fazer parte de sua cultura. Introduzimos esse tes­te da seguinte forma (Lopez, 2005, p. 1):

Hoje falaremos do poder da esperança em nossa vida. Antes de começar, preciso sa­ber como vocês entendem essa coisa cha­mada esperança. O que faremos é o se­guinte: levantem as duas mãos (o monitor levanta as mãos). Quando eu contar até três, quero que apontem de onde vem a SUA esperança. Em função da origem e de todas as experiências de vida de vocês, onde vocês acham que sua experiência se origina... em sua cabeça (o monitor apon­ta para a cabeça), essa parte pensante de vocês, em seu coração (o monitor aponta para o coração), do amor que vocês têm por outras pessoas e elas por vocês, ou do sagrado (o monitor aponta para cima e para tudo ao redor), sua vida espiritual? Agora, podem usar as duas mãos para apontar para um lugar se acharem que sua esperança vem daquele lugar, ou po­dem usar uma mão para apontar para um lugar e a outras para apontar para outro (o monitor demonstra). Alguma pergun­ta? Então, quando eu contar até três, apontem para o lugar de onde vem sua esperança... 1, 2, 3.

Inevitavelmente, há uma diversidade de gestos que captam as visões das pesso­as acerca de sua esperança. À medida que olham ao redor da sala, os participantes começam a fazer perguntas uns aos outros e, às vezes, iniciam histórias. Algumas des­sas histórias sobre a esperança são conta­das ao grupo mais amplo, e a base cultural da esperança de cada pessoa fica mais evi­dente. A esperança, como a entendem as pessoas leigas, está claramente baseada em visões, valores e experiências.

Chang (1996a, 1996b), em uma sé­rie de estudos quantitativos sobre [95] otimismo em asiático-americanos e caucasianos, destacou a importância de se entender a equivalência dos constructos entre grupos culturais. Em um estudo, Chang (1996a) examinou a utilidade do otimismo e do pessimismo para predizer comportamentos em relação a solução de problemas, sintomas depressivos, sintomas psicológicos gerais e sintomas físicos. Em geral, os resultados desse estudo revelam que os asiático-ame­ricanos foram muito mais pessimistas do que os caucasianos (segundo o Extended life orientation test; Chang, Maydeu-Olivares e D’Zurilla,1997), mas não muito diferentes dos caucasianos em seu nível de otimismo. Essas conclusões foram corrobo­radas quando se examinaram dados de uma mostra independente (Chang, 1996b). Chang aponta para o fato de que suas con­clusões podem sugerir que os asiático-ame­ricanos são geralmente mais negativos em sua afetividade do que os cáucaso-americanos, exceto pelo fato de que o autor não encontrou diferenças significativas nos sin­tomas depressivos informados entre os dois grupos. Na verdade, o otimismo teve corre­lação negativa com os sintomas psicológicos e físicos gerais para os ásio-americanos, mas não para os cáucaso-americanos. Além dis­so, a solução de problemas apresentou correlação negativa com sintomas depressivos para ásio-americanos, mas nenhuma rela­ção para os caucasianos. Por fim, foi reve­lado que, enquanto o pessimismo apresen­tou correlação negativa com os comporta­mentos de solução de problemas para os caucasianos, a correlação para os ásio-ame­ricanos foi positiva.

Até mesmo em casos em que pessoas de diferentes origens usam estratégias co­muns de formas semelhantes, os benefícios dessas estratégias muitas vezes não são os mesmos. Sendo assim, devemos ter caute­la ao prescrever determinadas estratégias de coping que, na superfície, parecem ser de beneficio universal. Consideremos ou­tro exemplo: Shaw e colaboradores (1997) concluíram que o uso de quatro estraté­gias de coping parecia transcender a cultu­ra (ou eram valorizadas da mesma forma nas culturas) para parentes que eram cuidadores (os participantes de Xangai, na China, e de San Diego, nos Estados Uni­dos) que cuidavam de um ente querido que enfrentava a doença de Alzheimer. Essas quatro estratégias envolviam:

  1. agir;
  2. usar o apoio social;
  3. reavaliar cognitivamente situações da vida; e
  4. negar os problemas de saúde e suas de­mandas ou evitar pensar a respeito.

Contudo, os benefícios dessas quatro estratégias não eram comuns entre dife­rentes grupos culturais. Os resultados eram coerentes com outras pesquisas que indi­cavam que as mesmas estratégias de coping têm efeitos específicos em cada cultura (Liu, 1986).

As discussões com clientes, junto com estudos quantitativos e qualitativos bem-delineados com participantes, podem ofe­recer bons dados sobre a equivalência dos constructos e processos positivos em dis­tintas culturas. Com esses dados na mão, seremos mais capazes de avaliar quais qualidades beneficiam a quem (em quais si­tuações) e quais intervenções positivas po­dem ajudar as pessoas a criar vidas melho­res para si.

A medida que os profissionais tentam aprimorar as qualidades em grupos cultu­ralmente diversificados de pessoas (vide o Capítulo 15, junto com Linley e Joseph [2004] para discussões sobre psicologia po­sitiva na prática), devemos nos fazer e res­ponder a seguinte pergunta: “O que funciona para quem?”.

Determinando as bases do bem-viver

Como foi sugerido na seção anterior, as visões culturais das pessoas em relação a perdão, esperança, otimismo, enfrentamento, independência, coletivismo, [96] espiritualidade, religião e muitos outros tópicos podem ter influência sobre como determi­nadas qualidades funcionam em suas vidas, como elas respondem a esforços para aprimorar qualidades pessoais e quais re­sultados na vida elas valorizam. Nossa ver­são de uma história comum, que chama­mos de “O sábio do golfo”, corporifica al­gumas dessas questões. 

As visões sobre o bem-viver são cons­truídas pessoalmente ao longo de nossa vida. No início, temos demandas naturais que persistem, como comer e dormir, e, à medida que nos tomamos mais cônscios de nosso entorno, vinculamos nossas deman­das naturais a outras, culturais, como co­mer determinados alimentos e adotar ri­tuais para dormir. Esse vínculo de nossas necessidades naturais com as influências culturais define os contornos de nosso dia a dia (Baumeister e Vohs, 2002). A partir das experiências de nosso cotidiano, cons­truímos nossas visões pessoais sobre o que é a vida e formamos visões de mundo (Koltko-Rivera, 2004), ou “forma[s] de des­crever o universo e a vida nele, tanto em termos do que é quanto do que deveria ser” (p. 4). Teoricamente, nossa visão pessoal do mundo define quais motivações e com­portamentos são desejáveis e quais são in­desejáveis e, em última análise, quais ob jetivos de vida deveriam ser buscados (Koltko-Rivera). Dado que nossas experiên­cias culturais podem estar intrinsecamente ligadas ao que consideramos como as bases do bem-viver, seria razoável crer que todas as pessoas (no mundo) desejam a fe­licidade (como a definem os psicólogos positivos norte-americanos; vide o Capítu­lo 7)? Ou há resultados na vida que são tão valorizados e valorizáveis quanto a fe­licidade? Essas são perguntas que podem ser exploradas em uma discussão casual entre amigos (recomendamos que você a faça), mas também devem ser examinadas empiricamente. Uma pesquisa mundial rea­lizada com rigor científico, como a que está atualmente sendo promovida pela Organi­zação Gallup, pode esclarecer as grandes esperanças das pessoas. O futuro trabalho e a pesquisa em psicologia positiva tam­bém devem levar em consideração a possi­bilidade de que as forças culturais influen­ciem aquilo que os indivíduos consideram como as bases do bem-viver.

Reflexões finais sobre a complexidade das influências culturais

A psicologia e os futuros psicólogos positivos continuarão a lutar para enten­der a complexidade das influências cultu­rais sobre o desenvolvimento e a manifes­ tação das características pessoais positivas e os resultados desejáveis na vida. A di­versidade cultural cada vez maior dos Estados Unidos, junto com rápidos avan­ços tecnológicos que facilitam nossa interação com pessoas de todo o mundo (Friedman, 2005), irá ultrapassar o ritmo de nossas descobertas sobre os papéis es­pecíficos que as culturas cumprem na psi­cologia. Dado que não se pode ter certeza em relação a questões como a universali­dade de determinadas qualidades ou ate onde a cultura modifica a forma como uma qualidade se manifesta, devemos fazer o melhor que pudermos para determinar se e como “a cultura é importante” em cada interação com um cliente ou participantes de pesquisa.
Os avanços em direção ao objetivo de levar em conta a cultura como influência básica no desenvolvimento e na manifes­tação das qualidades e do bem-viver hu­manos em nossas pesquisas e em nossa prática podem ser mais facilitados quando se tem consciência daquilo em que se acre­dita em termos da interação entre fenôme­nos culturais e psicológicos. Por meio de nossas experiências pessoais e profissionais, temos feito alguns progressos no sentide de situar o positivo em um contexto cultu­ral. Nossas atuais visões ou pressupostos se baseiam no que se sabe e no que não se sabe sobre qualidades e cultura humanas... e estão definitivamente abertas à análise crítica e ao debate. Em primeiro lugar, a qualidade psicológica é universal. Em di­versas épocas, lugares e culturas, a maio­ria das pessoas desenvolveu e refinou qua­lidades extraordinárias que promovem a adaptação e a busca de uma vida melhor. Em segundo, não há qualidades universais. Embora a maioria das pessoas as manifes­te, a natureza da manifestação difere sutilmente e nem tanto em diferentes épo­cas, lugares e culturas. Em terceiro lugar, os contextos afetam a forma como as qua­lidades são desenvolvidas, definidas, ma­nifestadas e aprimoradas, e nosso enten­dimento desses contextos contribui para uma apresentação diversificada da [98] capacidade humana. A história, a passagem do tempo, a cultura, as situações e os am­bientes, as perspectivas profissionais e as potencialidades humanas são determina­das reciprocamente. Quarto, a cultura é reflexo e determinante dos objetivos de vida que valorizamos e buscamos. O bem-viver está na mente de quem o vivência, e a visão daquilo que é importante será a força motriz de nossos objetivos na vida.

Psicologia - Psicologia positiva
7/22/2020 3:40:50 PM | Por Shane J. Lopez
Classificações e medidas das qualidades e resultados positivos do ser humano

Karl Menninger, um dos irmãos que aju­daram a construir a mundialmente famo­sa Clínica Menninger, tentou mudar a for­ma como os profissionais de saúde viam o diagnóstico, a prevenção e o tratamento das doenças mentais. Como parte de sua missão, estimulou clínicos e pesquisadores a dispensar velhos e confusos rótulos da doença. Então, conclamou ao desenvolvi­mento de um sistema de diagnóstico sim­ples que descrevesse os processos da vida, em lugar de estados ou condições precárias de saúde. Por fim, ele nos lembrou do poder das “expressões sublimes do instinto da vida” (Menninger et al, 1963, p. 357), especificamente a esperança, a fé e o amor. Nos últimos 50 anos, a psicologia e a psiquiatria têm-se ocupado dos aspectos con­fusos e sofridos da natureza humana e, como resultado de se manter um foco na patologia, os prestadores de serviços de saude ajudaram milhões de pessoas a aliviar seu sofrimento. Infelizmente, muito poucos profissionais se envolveram em to­do o exercício de ima­ginação descrito an­teriormente, e isso re­sultou em necessida­des não-atendidas de outros milhões de pessoas. Continua­mos a acrescentar complexidade a um sistema de diagnós­tico que não pára de crescer (American Psychiatric Association, 2000), pouco se sabe sobre o processo do viver e gastamos muito pouco tempo e pouca energia para entender os intangíveis do bem-viver, isto é, a esperança, a fé e o amor. Se Menninger estivesse vivo, acredito que consideraria nossa perspicácia e nosso conhecimento profissional como carentes de utilidade e fora de equilíbrio. Mais importante, ele [57] provavelmente perguntaria: “E o que é feito dos aspectos produtivos e saudáveis do fun­cionamento pessoal?”.

Imaginemos que se pudesse estabelecer um tipo de régua ou medida para o sucesso da vida, para o grau de satisfação que têm o indivíduo e o ambiente em suas tentativas mútuas de se adaptar um ao outro. Mais próxi­mo ao extremo dessa medida, poderiam surgir adjetivos positivos como "pa­cífico", "construtivo", "produtivo" e, na outra ponta, palavras como "confu­so", "destrutivo", "caótico". Elas descreveriam a situação em termos gerais. Para o indivíduo, em si, poderia haver, em uma extremidade, termos como "saudável", "feliz", "criativo", enquanto no outro estariam "desgraçado", "cri­minoso", "delirante". – Menninger, Mayman e Pruyser (1963, p. 2)

Embora as missões de muitos psicó­logos positivos tenham semelhanças com as idéias do Dr. Menninger, há muito por fazer para medir as qualidades humanas. (Estamos de acordo com a definição de Linley e Harrington [2006] de qualidade como a capacidade de sentir, pensar e se comportar de forma que possibilite o fun­cionamento ideal na busca de resultados valorizados.) Nesse sentido, pode-se afir­mar que o trabalho na classificação das doenças teve um avanço de 2000 anos com as iniciativas mais recentes de classificar as qualidades e os resultados possíveis. Portanto, é fácil entender por que conhece­mos melhor os defeitos do que as qualida­des das pessoas. Na revisão de Menninger e colaboradores (1963) da história da clas­sificação de doenças, observa-se que os sumérios e os egípcios faziam distinções entre histeria e melancolia já em 2600 a.e.c. A primeira tentativa de definir um conjun­to de virtudes está contida nos ensinamen­tos confucianos que datam de 500 a.e.c., nos quais Confúcio trata sistematicamente de jen (humanidade ou benevolência), li (ob­servância de rituais e costumes), xin (sin­ceridade), yi (dever ou justiça) e zhi (sa­bedoria) (Cleary, 1992; Haberman, 1998; vide o Capítulo 2, para uma discussão da filosofia confuciana e outras perspectivas orientais na psicologia positiva).

No século XXI, duas classificações de doenças conquistaram aceitação mundial. Em primeiro lugar, a Classificação Interna­cional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (1992) está em sua 10ª edição e continua a evoluir. Em segundo, o Manual diagnóstico e estatístico de transtor­ nos mentais (DSM), da American Psychiatric Association (2000) está agora em sua 6ª iteração como o DSM-IV-TR (Texto revisa­do). A CID tem uma abrangência mais am­pla do que o DSM, no sentido de que classifica todas as doenças, ao passo que o manual des­creve apenas os transtornos mentais. Atual­mente, nenhuma classificação das qualida­des ou dos resultados positivos humanos con­seguiu utilização ou aceitação mundial, mas algumas classificações e medidas foram cria­das, refinadas e amplamente disseminadas na última década. Neste capítulo, discutem- se os três sistemas de classificação a seguir:

  1. The Gallup Themes of Talent (Bucking­ham e Clifton, 2001), medido pelo Clifton StrengthsFinder e o CliftonYouth Strengths Explorer
  2. A Classificação de Qualidades Values in Action (VIA) (Peterson e Seligman, 2004) medida pelas versões adulta e jovem do VIA Inventory of Strengths
  3. Os 40 Recursos para o Desenvolvimen­to do Instituto Search (Benson, Leffert, Scales e Blyth, 1998), medidos por meio dos Perfis de Vida de Estudantes: Atitu­des e Comportamentos, do Instituto Search.

Em seguida, exploramos as dimensões de bem-estar geralmente usadas para des­crever a saúde mental. Pedimos que haja mais dedicação ao desenvolvimento de des­crições mais amplas e medidas mais sensí­veis dos resultados positivos. Por fim, enfati­zamos a necessidade de uma classificação abrangente do comportamento humano.

Classificações e medidas das qualidades humanas

Seja por traços e comportamentos positivos seja por negativos, o desenvolvi­mento de sistemas de classificação e medi­das é influenciado pelos valores da socie­dade e dos profissionais que criam tais va­lores. Como as culturas mudam com o pas­sar do tempo, é importante que essas ferramentas sejam revisadas regularmente para que permaneçam aplicáveis aos seus grupos-alvo. Discutimos agora as três es­truturas atuais, junto com medidas de qua­lidades positivas e suas propriedades psicométricas (as características de me­dição das ferramentas). Especificamente, comentamos a confiabilidade (até onde a escala é constante ou estável) e a valida­de (até onde a escala mede o que se pro­põe a medir) dessas ferramentas recente­mente elaboradas.

O Clifton Strengths Finder, da organização Gallup

Durante sua carreira de 50 anos na Universidade de Nebraska, na Selection Research Incorporated e na Gallup Orga­nization, Donald Clifton estudou o suces­so em uma ampla variedade de domínios empresariais e educacionais (Buckingham e Clifton, 2001; Clifton e Anderson, 2002; Clifton e Nelson, 1992). Ele baseava sua análise do sucesso em uma pergunta sim­ples: “O que aconteceria se estudássemos o que as pessoas têm de positivo?”. Ele tam­bém tratava de noções diretas que passa­ram no teste do tempo e no exame empí­rico. Em primeiro lugar, acreditava que os talentos podem ser operacionalizados, es­ tudados e acentuados em ambientes pro­fissionais e acadêmicos. Especificamente, ele definia o talento como “padrões natu­ralmente recorrentes de pensamento, sen­timento ou comportamento que possam ser aplicados de forma produtiva” (Hodges e Clifton, 2004, p. 257) e manifestados em experiências de vida caracterizadas por anseios, aprendizagem rápida, satisfação e atemporalidade. Ele considerava essas “matérias-primas” na forma de traços como sendo produtos do desenvolvimento nor­mal e saudável e de experiências bem-su­cedidas na infância e na adolescência. Igualmente, Clifton considerava as quali­dades como extensões do talento. Mais precisamente, o constructo da qualidade com­bina talento com conhecimento e habili­dades associados, e se define como a capa­cidade de ter desempenho constante, qua­se perfeito, em uma determinada tarefa.

Em segundo lu­gar, Clifton conside­rava o sucesso como aliado próximo dos talentos, das quali­dades e da inteli­gência analítica das pessoas. Com base nessas crenças, ele identificou centenas de talentos pessoais que indicavam su­cesso no trabalho e no desempenho aca­dêmico. Além disso, ele construiu entre­vistas semi-estruturadas de base empírica (tendo como referência a teoria e resulta­dos de pesquisas) para identificar esses talentos. Ao elaborar essas entrevistas, Clifton e colaboradores examinaram os pa­péis prescritos de uma pessoa (por exem­plo, um estudante, um vendedor, um ad­ministrador), visitaram o local de trabalho ou o ambiente acadêmico, identificaram pessoas com desempenho destacado nes­ses papéis e nesses ambientes, e determi­naram os pensamentos, sentimentos e com­portamentos duradouros associados ao sucesso situacional. Essas entrevistas também foram úteis na predição de resultados po­sitivos na vida (Schmidt e Rader, 1999) e, posteriormente, foram administradas a mais de 2 milhões de pessoas com propó­sitos de enriquecimento pessoal e seleção de funcionários. Ao considerar a criação de uma medida objetiva de talento em me­ados da década de 1990, Clifton e colabo­ radores sistematicamente revisaram dados dessas entrevistas e identificaram cerca de três dúzias de temas relacionados ao ta­lento envolvendo qualidades humanas po­sitivas e duradouras (vide o Quadro 4.1, para uma lista e uma descrição de 34 te­mas no sistema de classificação Gallup).

O primeiro passo para desenvolver o Clifton Strengths Finder como medida na internet (vide www.strengthsfinder.com) foi construir um conjunto de mais de 500 itens. A seleção desses itens foi baseada em evidências de validação de constructos, con­teúdos e critérios que sugeriam que a ferramenta cobria atributos subjacentes, toda a profundidade e amplitude do conteúdo, além das relações compartilhadas e dos poderes preditivos, respectivamente. Um conjunto menor foi deduzido posteriormen­te com base no funcionamento dos itens. Mais especificamente, as evidências usadas para avaliar os pares de itens foram tiradas de um banco de dados de mais de 100 estu­dos de validade preditiva (Schmidt e Rader, 1999). Foi realizada análise fatorial e de confiabilidade em várias amostras, para pro­duzir máxima informação sobre temas em um instrumento de mínima extensão. Mui­tos grupos de itens foram submetidos a testes-piloto, mantendo-se os que tinham as propriedades psicométricas mais fortes.

Em 1999, foi lançada uma versão do Clifton StrengthsFinder na internet, com­posta de 35 temas. Depois de vários meses de coleta de dados, os pesquisadores se de­cidiram por 180 pares de itens (360 itens, 256 dos quais são contabilizados) e a ver­são de 34 temas disponível atualmente. Embora os nomes de alguns temas tenham mudado desde 1999, suas definições e os 180 pares de itens não foram alterados. (Vide a Figura 4.1 para um resumo dos te­mas principais do autor do livro-texto.)

Nos últimos seis anos, pesquisadores da Gallup realizaram muitas pesquisas com o Clifton StrengthsFinder (resumidas em um relatório técnico feito por Lopez, Hodges e Harter, 2005). Entre as amostras, concluiu-se que a maioria das escalas (ou seja, os temas) é coerente internamente (apesar de poder conter não mais de quatro itens) e estável durante períodos entre 3 semanas e 17 meses. Especificamente, os coeficien­tes alfa variaram de 0,55 a 0,81 (um pa­drão psicométrico desejável seria de 0,70 ou mais) com WOO apresentando a mais alta coerência interna (0,81), e Conexão e Restaurador, as mais baixas (ambas abai­xo de 0,60).

No que se refere à estabilidade das escalas, a maioria das correlações teste-reteste esteve acima de 0,70 (considerado adequado para medir um traço pessoal).

Com relação à validade de constructo, algumas intercorrelações entre escores de temas sustentam a independência relativa dos temas, mostrando, assim, que os 34 temas proporcionam informações únicas. Por fim, um estudo correlacionando os te­mas do Clifton StrengthsFinder aos cinco grandes constructos de personalidade (abertura, conscienciosidade, extroversão, cordialidade e neuroticismo, conforme McCrae e Costa, 1987) forneceu evidências iniciais para a medição da validade con­vergente (isto é, eles estavarn correlaciona­dos, mas não em um nível que sugerisse redundância). Até o momento, não há es­tudos publicados que examinem as interco­rrelações entre os 34 escores de temas e as medidas de personalidade (além da medi­da dos cinco grandes).

Hoje em dia o Clifton StrengthsFinder está disponível em 17 línguas. É adequado para ser administrado a adolescentes e adultos com leitura em nível de 2ª série do ensino médio ou acima. Embora sejam usa­dos para identificar talentos pessoais, os materiais de apoio (por exemplo, Buckingham e Clifton, 2001; Clifton e Ander­ son, 2002; Clifton e Nelson, 1992) podem ajudar a descobrir como potencializar seus talentos para desenvolver qualidades den­tro dos papéis específicos que desempe­nham na vida. Deve-se sublinhar, contudo, que esse instrumento não é projetado ou validado para uso em seleção de pessoal ou em triagem relacionada à saúde men­tal. Cabe também outra advertência: co­mo o feedback do Clifton StrengthsFinder (apresentado como sendo os seus “Cinco temas principais”) é oferecido para estimu­lar o desenvolvimento intrapessoal, não se recomenda seu uso para comparações en­tre perfis de indivíduos. (Os cinco temas principais do respondente, em ordem de potência, estão incluídos no feedback. Os outros temas não são classificados ou co­municados aos respondentes. Também é o caso do feedback de qualidades que resulta [62] da medida Values in Action, a ser discutida a seguir.) Ademais, o Clifton StrengthsFinder não é sensível à mudança e, como tal, não deve ser usado como medida de crescimento para comparações do tipo “an­tes e depois”.

A Organização Gallup está desenvol­vendo um novo sistema de classificação de talentos, adequado para crianças e adoles­centes (entre 10 e 14 anos). Chama-se Clifton Youth Strengths Explorer, lançado em 2006. Seus formuladores acreditam que o conhecimento sobre as qualidades dos jo­vens irá ajudar a direcionar suas energias para maximizar seus potenciais (comuni­cação pessoal. Pio Juszkiewicz, 7 de no­ vembro de 2005). A versão do StrengthsExplorer testada no verão de 2005 cobre 10 temas (realizar, cuidado, competição, autoconfiança, dependência, descobridor, pensador do futuro, organizar, presença e relacionar-se). (O relatório psicométrico para a medida estará disponível após seu lançamento.) Ao preencher a medida, os [64] respondentes recebem um Caderno de Exercícios (Youth Workbook) resumindo seus três principais temas e incluindo ações e exercícios que, se completados, podem ajudar esses jovens a capitalizar suas qua­lidades. Também estarão disponíveis gui­as para pais e educadores, de forma que os cuidadores possam ajudar os jovens a de­ senvolver suas características positivas.

A classificação de qualidades VIA

A classificação de qualidades VIA (VIA Classification of Strengths, Peterson e Seligman, 2004) serve como antítese do DSM e é promissora para estimular e en­tender as qualidades psicológicas. Peterson e Seligman afirmam que, atualmente, te­mos uma linguagem comum para falar so­bre o lado negativo da psicologia, mas não há uma terminologia equivalente para des­crever as qualidades humanas. A classifi­cação proporciona essa linguagem comum e estimula um enfoque ao diagnóstico e ao tratamento mais baseado em qualidades (talvez, um dia, haja manuais de tratamento voltados a potencializar as qualidades acompanhando o manual de diagnóstico). Como escrevem esses psicólogos revolucio­nários, “nós... nos baseamos na ‘nova’ psico­logia dos traços que reconhece as diferen­ças individuais” ... que são estáveis e gerais, mas também são moldadas pelo ambiente do indivíduo e, portanto, capazes de mu­dar” (Peterson e Seligman, 2004, p. 5).

O sistema de classificação VIA, origi­nalmente encomendado pela Fundação Mayerson, foi gerado em resposta a duas perguntas básicas:

  1. “Como se podem definir os conceitos de ‘qualidade’ e ‘potencial máximo’; e
  2. como se pode saber se um programa de desenvolvimento positivo jovem atingiu seus objetivos?” (Peterson e Seligman, 2004, p. v).

Essas questões levaram a outras, mais filosóficas e mais práticas, sobre o caráter humano. Peterson e Seligman, assim co­mo muitos de seus colaboradores, aca­baram decidindo que os componentes do caráter incluem as virtudes (caracterís­ticas fundamentais valorizadas por al­guns filósofos mo­rais, pensadores reli­giosos e pessoas do dia-a-dia), qualida­des positivas de cará­ter (processos e mecanismos psicológicos que definem as virtudes) e temas situacionais (hábitos específicos que levam as pessoas a manifestar qualidades em deter­minadas situações).

A geração de itens para o sistema de classificação foi tentada pela primeira vez por um pequeno grupo de psicólogos e psi­quiatras após a revisão de dúzias de inven­tários de virtudes e perspectivas de cará­ter. Aplicando-se 10 critérios de qualidade (por exemplo, uma qualidade é valorizada moralmente por si só; uma demonstração de qualidade por parte de uma pessoa não diminui outras pessoas) a uma longa lista de constructos potenciais, foram identifi­cadas 24 qualidades, que depois foram or­ganizadas sob 6 virtudes gerais (sabedoria e conhecimento, coragem, humanidade, justiça, temperança e transcendência), das quais é sabido que “surgem de forma con­sensual em diferentes culturas e ao longo do tempo” (Peterson e Seligman, 2004, p. 29). O Quadro 4.2 lista e descreve as 6 vir­tudes e as 24 qualidades. Peterson e Seligman declaram que seu enfoque à clas­sificação é sensível às diferenças de desen­volvimento nas quais as qualidades de ca­ráter são apresentadas e empregadas.
A medida desse sistema de virtudes e qualidades, o Values in Action Inventory of Strengths (VIA-IS), foi elaborada para des­crever as diferenças individuais de quali­dades de caráter, e não como categorias [65] distintas. O desenvolvimento da medida foi influenciado por uma ferramenta que era conhecida como a medida “fonte” (Lutz, 2000) e “se inspirou na medida StrengthsFinder, da Organização Gallup... ao formu­lar os itens de forma extrema (‘Eu sem­pre...’) e oferecer feedback aos respondentes com relação às suas qualidades de caráter superiores, e não das mais inferio­res” (Peterson e Seligman, 2004, p. 628).

Até hoje, o VIA-IS foi aperfeiçoado várias vezes, e a versão atual parece con­fiável e válida para identificar qualidades em adultos (com base em resumo de in­formações apresentado em Peterson e Seligman [2004] que é citado com muita frequência neste parágrafo. Com relação à confiabilidade da medida, todas as escalas têm constância e estabilidade satisfatórias em um período de quatro meses. As corre­lações entre as escalas são mais altas do que o esperado, dado que o inventário foi elaborado para medir 24 constructos.

As mulheres têm escores mais altos nas qualidades relacionadas às humanida­des do que os homens, e os afro-americanos têm escores mais altos do que mem­bros de outros grupos étnicos na escala da qualidade de espiritualidade. As evidências da validade da medida contêm os três con­juntos de conclusões a seguir.

  1. Indicações de qualidades por parte de amigos e parentes estão correlacionadas em um nível de cerca de 0,50 com os escores das escalas associadas para a maior parte das 24 qualidades.
  2. A maioria das escalas está correlacio­nada positivamente em medidas de sa­tisfação na vida.
  3. A análise fatorial oferece alguma susten­tação para a existência de 6 virtudes.

Os resultados da análise fatorial rea­lizada com os dados existentes, contudo, sugere, na verdade, 5 fatores (qualidades de moderação, qualidades intelectuais, qualidades interpessoais, qualidades emo­cionais e qualidades teológicas) em lu­gar das 6 virtudes propostas. Peterson e Seligman (2004) descreveram estudos comparando qualidades entre grupos de pessoas e argumentam que o VIA-IS é uma medida de resultados sensível à mudança. Os pesquisadores no Instituto VIA plane­jam realizar mais exames das proprieda­des psicométricas das medidas.

A 6ª versão do VIA-IS está disponível na internet (www.positivepsychology.org) e em papel, em inglês e em várias outras línguas. Os 240 itens (10 para cada quali­dade), respondidos com uma escala Likert de 5 pontos, podem ser completados em cerca de 30 minutos. O relatório de feed­ back consiste nas 5 principais qualidades, que são chamadas de qualidades principais. Vide a Figura 4.2, para o resumo das con­clusões do autor deste livro (S.J.L.) a par­tir do VIA-IS.

Uma versão para adolescentes dessa medida, chamada de Values in Action Inven­tory of Strengths for Youth (VIA-Youth), foi desenvolvida e está em processo de valida­ção, podendo estar disponível em 2006 (Christopher Peterson, comunicação pes­soal, 15 de outubro de 2004). Informações preliminares sobre o VIA-Youth, que contém 198 itens ( 6 a 12 itens para cada uma das 24 qualidades com uma escala de Likert de 5 pontos), sugeriram que a coerência é ade­quada para maioria e que a estrutura bási­ca da medida pode ser mais bem descrita por 4 fatores do que por 6 (Peterson e Park, 2003) . Versões para crianças e jovens de testes com cartões, contendo qualidades (Quinn, 2004; Lopez, Janowski e Quinn, 2004) , baseadas nas 24 qualidades do VIA, foram desenvolvidas, inicialmente validadas e são muito usadas por profissionais.

Os 40 recursos para o desenvolvimento, do Instituto Search

Os Recursos para o Desenvolvimento, do Instituto Search (Developmental Assets, Benson et al., 1998), originalmente concei­tuados na década de 1980 em resposta à questão “O que protege as crianças dos pro­blemas de hoje em dia?”, levam em consi­deração as variáveis internas e externas que contribuem para que uma criança prospe­re. Os pesquisadores do Instituto Search, coordenados por Peter Benson, realizaram diversos projetos de pesquisa, além de pro­mover discussões informais e grupos focais para garantir que os recursos para o desen­volvimento incluídos em sua estrutura fossem aplicáveis a todas as pessoas, culturas e ambientes nos Estados Unidos.

Os 40 Recursos para o Desenvolvi­mento, do Instituto Search, são vistos como experiências e qualidades positivas de sen­so comum, e se considera que reflitam fa­tores básicos que contribuem para que os jovens prosperem. A estrutura de Recur­sos de Desenvolvimento os categoriza se­gundo grupos internos e externos de 20 re­cursos cada um. Os 20 recursos externos são as experiências positivas que as crian­ças e os jovens obtêm por meio de intera­ções com pessoas e instituições; os 10 re­cursos internos são as características e com­portamentos pessoais que estimulam o de­senvolvimento positivo de pessoas jovens (vide o Quadro 4.3.).

O inventário de 156 itens, chamado de Search Institute Profiles of Student Life: Attitudes and Behaviors (Perfis de Vida de Estudantes: Atitudes e Comportamentos, do Instituto Search), foi realizada em 1989 e revisada em 1996 (vide Benson et al., 1998, para uma revisão). A medida (adequada para crianças e jovens) descreve os 40 Re­cursos para o Desenvolvimento dos respondentes, junto com 8 indicadores de prosperidade, 5 déficits de desenvolvimento e 24 comportamentos de risco. Infelizmente, há poucas informações no domínio públi­co sobre suas propriedades psicométricas.

Outras listas de recursos para o desen­volvimento (para bebês, crianças pequenas, crianças em idade pré-escolar, etc.) foram criadas pelo Dr. Benson e pelos pesquisado­ res do Instituto Search. Os pais e outros cuidadores são orientados a observar os re­cursos manifestados pelas crianças e que estão disponíveis no ambiente.

Distinguindo as medidas das qualidades humanas

Embora tenham sido criados por ra­zões diferentes, o Clifton StrengthsFinder, o VIA-IS e os Search Institute Profiles of Student Life identificam as qualidades bá­sicas de uma pessoa. O Quadro 4.4 ilustra [70] algumas das semelhanças e diferenças en­tre essas medidas. Essa informação pode ajudar na escolha do instrumento adequa­do para propósitos específicos, mas devem ser solicitados mais dados sobre as medi­das, a quem as desenvolveu, antes de ser feita uma escolha final.

Identificando suas qualidades pessoais

Durante anos, perguntamos a cente­nas de clientes e estudantes sobre seus de­ feitos e qualidades. Quase sem exceção, as pessoas respondem muito mais rapidamen­te sobre os defeitos do que as qualidades. (Vide os Miniexperimentos pessoais, para examinar essa questão e explorar suas qua­lidades passando pelas medidas discutidas neste capítulo.) Também se observou que as pessoas se esforçam para encontrar pa­lavras quando descrevem qualidades, ao passo que não lhes faltam palavras ou his­tórias que deem vida a seus defeitos.

Esperamos que os leitores aproveitem a oportunidade de descobrir suas qualida­des e que, dentro de algumas décadas, as pessoas venham a ter tanto a dizer sobre suas qualidades quanto sobre seus defei­tos. Nossas observações sobre pessoas que completaram uma avaliação de qualidades sugerem que as informações novas ou vali­dadas sobre suas qualidades pessoais lhe darão um impulso leve e temporário em termos de emoções positivas e em autocon­fiança. Você também irá querer comparti­lhar os resultados com pessoas à sua volta.

O caso de Shane

Na condição de psicólogos positivos, assumimos um compromisso com o desen­volvimento do que é positivo nos outros e, é claro, tentamos praticar aquilo que pre­gamos. Identificamos nossas qualidades por meio de avaliações formais e informais, e tentamos capitalizá-las todos os dias. Apresentamos aqui uma breve descrição de como um de nós (S.J.L.) usa suas qualida­des no dia-a-dia.

Quando recebi os resultados do Clifton StrengthsFinder (vide a Figura 4.1) e do VIA-IS (vide a Figura 4.2), refleti sobre os resultados e tentei entender como poderia dar uso imediato a ambos. Foi quando me dei conta de que tenho usado essas quali­dades todos os dias..., e é por isso que elas são minhas qualidades! Mesmo assim, de­cidi ser mais intencional em meus esforços para dar vida a elas. Esse objetivo de intencionalidade tratava de como eu [71] capitalizaria minhas qualidades, mas não tinha tratado do por quê. Acontece que era mui­to simples - eu queria tornar minha vida, que já era boa, ainda melhor. Era esse o resultado que eu desejava, e acreditava que essas “novas” qualidades proporcionariam um caminho em direção a esse objetivo.

Tenho que admitir que meus primei­ros esforços para usar intencionalmente minhas qualidades no dia a dia não foram muito bem-sucedidos. Embora tivesse acha­do que as conclusões estavam certas e fi­cado entusiasmado ao receber o feedback das qualidades, fui tomado pela ideia de melhorar meu uso de 5 ou 10 qualidades ao mesmo tempo. Por isso, decidi capitali­zar as qualidades que achei que seriam mais úteis para tornar minha vida melhor.

Escolhi os dois principais temas (Futurista e Maximizador) do feedback do Gallup e a principal qualidade (Gratidão) dos resul­tados do VIA. Imediatamente, parecia viá­vel se concentrar em três qualidades.

Com essas “três qualidades mais im­portantes” (como passei a chamá-las) em mãos, consultei os itens relacionados a ações (contidos em um formulário para impressão, como suplemento aos Temas Principais apresentados na Figura 4.1) as­ sociados a meus temas Futurista e Maximizador. Para o Futurista, decidi-me por uma atividade diária que poderia despertar mi­nha tendência a projetar em direção ao futuro: reservar um tempo para pensar so­bre o futuro. Soa bastante direto, mas ler essa ação me fez entender que eu poderia [72]  passar muito tempo sem pensar sobre o futuro, o que levou a uma insatisfação so­bre como andava minha vida. Colocar essa orientação em prática demandou fazer caminhadas diárias dedicadas a pensar so­bre o futuro. Muitas vezes, caminho à noi­te e converso com minha mulher sobre o futuro de nosso trabalho e de nossa famí­lia. Outras vezes, saio do meu escritório em torno do meio-dia e caminho pelo cam­pus refletindo sobre minhas aspirações. Essas caminhadas se tornaram um tempo apreciado que rende idéias empolgantes e muita satisfação.

Com relação ao meu tempo de Maximizador, acredito que esse tempo para me­lhorar os projetos, as idéias e as relações que já são bons contribui em muito para meu sucesso profissional. Examinando meus hábitos em casa e no trabalho, vi que estava me saindo muito bem em usar sistematicamente essa qualidade, o que me deixou com uma sensação de incerteza so­bre como proceder em meus esforços para capitalizá-la. Um dia, encontrei uma pes­soa que se orgulhava de fazer o papel do advogado do diabo cada vez que uma ideia era apresentada em uma reunião. Pensei nos muitos advogados do diabo que encon­trei ao longo dos anos e concluí que esses sujeitos não estavam necessariamente oferecendo qualquer feedback construtivo, que tornasse uma ideia melhor. Tampouco es­ tavam apresentando idéias alternativas que funcionassem melhor. Em minha opinião, tudo o que estavam fazendo era solapar minha criatividade e meu entusiasmo (ou os de outras pessoas). Para maximizar, en­tendi que deveria me cercar de pessoas que soubessem como tornar idéias boas ainda melhores. Esse critério tornou-se fundamental quando escolho amigos, colegas e alunos, e acredito que aumentou minha criatividade e a qualidade de meu trabalho. Tenho usado os temas Futurista e Maximizador no trabalho e em casa e creio que meus esforços me ajudaram nas duas esferas. Acredito que capitalizar essas qua­lidades levou a mais criatividade e produ­tividade no trabalho e mais sentido de pro­pósito para minha família e para mim. Usar a gratidão (minha terceira “qualidade mais importante”) com mais intencionalidade não gerou mais produtividade ou mais cla­reza em minha missão pessoal, mas foi gratificante no sentido de que traz alegria e uma sensação de intimidade com as pes­soas. Para fazer o máximo de minha grati­dão, decidi passar parte de minhas tardes de sexta-feira escrevendo bilhetes de agra­decimento (escritos à mão e enviados pelo correio, à moda antiga) a pessoas que to­caram minha vida naquela semana, outras vezes agradeço a quem me fez algo de bom na semana. Ocasionalmente, escrevo a alguém que me fez algo assim há anos (e a quem eu nunca havia agradecido ou que­ria agradecer de novo). Por fim, escrevo também a pessoas que fizeram bons traba­lhos (posso conhecê-las pessoalmente ou não) para expressar minha gratidão por seus esforços. Essa prática enriqueceu mi­nha vida emocional e fortaleceu muitas de minhas relações.

Ao me concentrar em três de minhas qualidades, tenho conseguido tornar mi­nha vida ainda melhor. Com o tempo, te­nho tido mais facilidade de capitalizar ou­tras qualidades, especialmente ideação, esperança e sabedoria. Vivenciar minhas qualidades passou a ser um estilo de vida para mim, e quero descobrir como isso irá influenciar o futuro das pessoas que amo e o meu.

Resultados de vida positivos para todos

Dimensões do bem-estar

A busca de felicidade tem sido tema de discussão em obras religiosas, textos fi­losóficos e proclamações dos puritanos pre­ cursores dos Estados Unidos. Mais recen­temente, artigos de revistas e livros para o público em geral situaram a felicidade [73] como sendo o principal resultado de vida concreto, da pesquisa e da prática da psi­cologia positiva. Contudo, como se descre­ve neste texto, a busca da felicidade é ape­nas um aspecto da psicologia positiva. Como pesquisadores e profissionais da psi­cologia positiva, certamente queremos que nossos participantes e clientes sejam feli­zes, mas também estamos interessados em saber se eles estão concretizando seus po­tenciais, indo em busca de seus interesses, cuidando de outras pessoas e levando vi­das autênticas. Até o momento, contudo, a felicidade (reflexo espontâneo de senti­mentos agradáveis e desagradáveis sobre a experiência imediata da pessoa) e a sa­tisfação na vida (sensação de contenta­mento e paz que vem de todas as lacunas entre desejos e necessidades) são de mui­to interesse para o campo da psicologia po­sitiva. Nesta seção do capítulo, discutimos a felicidade e a satisfação na vida como componentes do bem-estar, mas não como o único ou mais importante resultado de vida na psicologia positiva. (Este capítulo apresenta uma descrição básica da felici­dade como um resultado significativo na vida. A pesquisa básica sobre a felicidade é discutida no Capí­tulo 7.)

As teorias sobre o bem-estar subjetivo (também chamado de bem-estar emo­cional e felicidade), como o modelo emo­cional proposto por Diener e colaborado­res (Diener, 1984; Diener, Suh, Lucas e Smith, 1999), suge­rem que as avalia­ções dos indivíduos acerca de suas pró­prias vidas captam a essência do bem-estar. Ryff (1989) e Keyes (1998) propuseram en­ foques objetivos ao entendimento do bem-estar psicológico e do bem-estar social, respectivamente. Nossa visão é de que o bem-estar nos planos psicológico e social oferece estruturas úteis para conceituar o funcionamento humano. Tomadas juntas, as descrições subjetivas de bem-estar subjeti­vo (isto é, felicidade) e descrições objetivas de bem-estar psicológico e social constituem um retrato mais completo da saúde mental (Keyes e Lopez, 2002). O Quadro 4.5 apre­senta as descrições dos três tipos de bem-estar e uma amostra de itens que cobrem esses componentes do funcionamento po­sitivo.

O bem-estar emocional consiste em percepções de felicidade e satisfação com a vida declaradas explicitamente, junto com o equilíbrio de sentimentos negativos e po­sitivos. Essa estrutura tripla de bem-estar emocional consiste em satisfação na vida, sentimentos positivos e ausência de senti­mentos negativos, e foi confirmada em di­versos estudos (como Bryant e Veroflj 1982; Lucas, Diener e Suh, 1996; Shmotkin, 1998). Na verdade, o acoplamento de satisfação e afeto serve como conceituação significativa e mensurável do bem-estar emocional.

Ryff (1989) propõe que alguns dos re­sultados favoráveis descritos pelos psicó­logos positivos podem ser integrados em um modelo de bem-estar psicológico (vide o Quadro 4.5). Autoaceitação, crescimen­to pessoal, propósito na vida, domínio do ambiente e relações positivas com outras pessoas são os seis componentes da concei­tuação de funcionamento positivo de Ryff. Esse modelo de bem-estar já foi investiga­do em diversos estudos, e as conclusões re­velam que as seis dimensões são constructos de bem-estar independentes, embora correlacionados. Especificamente, Ryff e Keyes (1995) realizaram uma análise em seis partes do modelo de bem-estar e con­cluíram que o modelo multidimensional tinha um ajuste superior em relação a um modelo de bem-estar de fator único.

Keyes (1998) sugere que, assim como classificam os desafios sociais que são evi­dentes na vida de um indivíduo, os clíni­cos deveriam avaliar as dimensões sociais do bem-estar. Sobre isso, ele propõe que [74] as dimensões da coerência, integração, rea­ lização, contribuição e aceitação são os componentes críticos do bem-estar social.

Keyes (Keyes e Lopez, 2002) também sugere que a saúde mental completa pode ser conceituada por meio de combinações de altos níveis de bem-estar emocional, psicológico e social. Indivíduos com esses altos níveis são descritos como prósperos (vide os critérios no Quadro 4.6). Nessa li­nha, indivíduos que não tenham doença mental, mas que tenham níveis baixos de bem-estar são descritos como abatidos. (Concluímos que a avaliação informal de níveis de bem-estar proporciona informa­ções valiosas com relação à faixa de fun­cionamento entre ser próspero e estar abatido.) Essa conceituação de saúde mental descreve uma síndrome de sintomas que podem ser tratados com técnicas de inter­venção voltadas a aumentar os níveis de bem-estar emocional, social e psicológico. Conceituação e tratamento estão bem li­gados nesse modelo.

Uma perspectiva teórica nova e integradora sobre o bem-estar pode oferecer mais ajuda para diminuir a lacuna entre nosso conhecimento baseado em pesquisa sobre o bem-viver e a capacidade de pro­movê-lo (Lent, 2004). Ao descrever um modelo que explica nossa capacidade para funcionar positivamente em condições nor­mais de vida e um que fornece orientação para restaurar o bem-estar em circunstân­cias difíceis, Lent destaca diversas alterna­tivas de tratamento (como a definição de objetivos, o aumento da eficácia, a cons­trução de apoio social) que promovem esse resultado de vida tão valorizado.

Rumo a um melhor conhecimento dos resultados positivos da vida

Como foi discutido neste capítulo e sugerido em outras partes do livro, acredi­tamos que as qualidades sejam ingredientes ativos do viver positivo. Essa visão pode ser testada empiricamente na vida cotidia­ na e em pesquisas se, e somente se, as de­finições e as medidas de qualidade captarem a verdadeira essência do melhor nas pessoas. Portanto, neste capítulo, apresen­tamos informações sobre três classificações de qualidades e suas respectivas medidas à sua avaliação crítica.

A maioria dos capítulos a seguir trata da ciência das qualidades positivas huma­nas (algumas dessas qualidades não estão listadas nos sistemas de classificação) que está sendo desenvolvida por psicólogos do desenvolvimento, da saúde, evolutivos, da personalidade, escolares e sociais. Muitos dos capítulos tratam da prática de levar uma boa vida e de como você, seus amigos e seus parentes podem capitalizar as qualidades e potencializar as emoções positivas para con­quistar resultados positivos na vida. Obser­ve que não tratamos da “ciência do bem-viver”. As iniciativas de pesquisa da psico­logia positiva pouco fizeram para descrever e medir resultados que não os que estão as­sociados à felicidade e à satisfação na vida, ou à “vida prazerosa” (Seligman, 2002).

Muito embora recomendemos um foco nos aspectos objetivos do bem-estar, argumentamos que é necessária uma con­ceituação mais ampliada do bem-viver para orientar nossos esforços em direção à mu­dança e ao crescimento positivo. Na parte final deste capítulo, sonhamos um pouco com o futuro da psicologia positiva, um fu­turo em que o amor romântico e agápico, uma escola, um trabalho e contribuições cívicas gratificantes figurem ao lado de ati­vidades lúdicas que geram recursos sejam todos, tão destacados quanto a própria fe­ licidade.

Resultados positivos na vida associados ao amor

O ágape é um amor espiritual que reflete abnegação e altruísmo. Esse tipo de amor envolve a preocupação pelo bem-es­tar do outro e uma postura relativamente [78] não exigente em relação a si mesmo. Em­bora essa não seja a forma mais celebrada de amor, pode ser a mais benéfica. Nossa visão é de que poderíamos usar nossas qua­lidades para ser mais generosos e para construir relações baseadas na abnegação. O amor romântico, especialmente o amor romântico apaixonado (tema apro­fundado no Capítulo 13), é muito deseja­do e comentado por pessoas de todas as idades. Pouco se celebra, no entanto, o amor romântico resiliente e o amor român­tico sustentado. Quais qualidades são ne­cessárias para fazer que uma relação fun­cione apesar dos momentos difíceis e, as­sim, prospere por 10, 30, 50 anos? Pode­ríamos determinar isso por meio de estu­dos mais sistemáticos de casais que rela­tam altos níveis de amor romântico depois de se relacionarem por muitos anos.

Resultados positivos na vida associados a escola, trabalho e contribuições cívicas

As escolas estão se tornando mais res­ponsáveis pelos resultados educacionais de seus alunos, e as empresas continuam a observar de perto o resultado final. Embo­ra os resultados desejados para estudantes e funcionários estejam bastante bem-formulados como aprendizagem e produtividade, respectivamente, devem haver ou­tros resultados positivos associados a [79] essas atividades importantes que nos ocupam durante toda a nossa vida.

Certamente, é possível descrever o sentido das realizações acadêmicas e do tra­balho, mas se pode medir até onde a escola­ridade (vide o Capítulo 16) e o emprego pro­veitoso (vide o Capítulo 17) estimulam o crescimento psicológico? E as medidas distais de resultados do estudo e do traba­lho? As contribuições cívicas de estudantes e empregados poderiam estar ligadas a ganhos em termos de desenvolvimento atin­gidos em estágios iniciais durante períodos importantes da escola ou do trabalho.

Resultados positivos na vida associados à atividade lúdica

A atividade lúdica nos introduz às ne­cessidades sociais, emocionais e físicas ne­cessárias para fazer o melhor da vida. Na verdade, divertir-se é considerado como uma “forma de prática ou crescimento proximal, ou domínio de habilidades” (Lutz, 2000, p. 33). Os resultados positi­vos de brincar na infância são inegáveis..., mas, ainda assim, não valorizamos o papel da atividade lúdica na idade adulta. Os benefícios dessa atividade, quando adulta e competitiva ou não competitiva, não fo­ram estabelecidos, e esse é um tópico ma­duro para mais pesquisa.

Identificando qualidades e avançando rumo a um equilíbrio vital

A visão estabelecida da doença men­tal como sendo progressiva e resistente foi questionada pelo conhecido psiquiatra Karl Menninger (Menninger et al., 1963). Ele conclamou os psiquiatras a considerar a do­ença mental como sujeita a mudança. As­sim, essa nova visão da doença mental faria um contraponto à visão antiga. Os psi­cólogos positivos agora demandam uma nova visão equilibrada da vida humana, que presta atenção tanto a defeitos quanto a qualidades. Embora não haja dúvidas de que atualmente se sabe muito mais sobre as falibilidades do que sobre os recursos de que dispõem os seres humanos, uma ciência forte e aplicações robustas volta­das às qualidades humanas irão proporcio­nar uma visão não apenas mais minuciosa, mas também mais precisa, da condição humana.

Observação

Em janeiro de 2003, o Dr. Clifton rece­beu uma homenagem da American Psychological Association como reco­nhecimento por seu papel pioneiro na psicologia baseada nas qualidades. A homenagem diz: “Vivendo com base na visão de que a vida e o trabalho pode­riam ser uma questão de construir o que é melhor e mais elevado, e não apenas de corrigir os defeitos, [Clifton] tornou-se o pai da psicologia baseada em qualidades e o avô da psicologia positiva”.

Psicologia - Psicologia positiva
7/20/2020 6:02:43 PM | Por Charles Richard Snyder
As virtudes humanas sob as perspectivas Oriental e Ocidental

Uma questão de perspectiva “A boa sorte pode anunciar uma des­ventura, a qual, por sua vez, acaba por re­velar uma boa sorte.” Esse provérbio chi­nês exemplifica a perspectiva oriental de que o mundo e seus habitantes estão em um estado de fluxo perpétuo. Sendo assim, da mesma forma que ocorrem bons tem­pos, os tempos ruins nos visitarão. Os de­safios da vida, por sua vez, podem ser arau­tos de nossos triunfos. Esse equilíbrio en­tre bom e ruim é buscado ao longo da vida. De fato, essa expectativa e esse desejo de equilíbrio distinguem as visões dos orien­tais sobre o funcionamento ideal do cami­nho mais linear adotado pelos ocidentais para resolver problemas e monitorar o pro­gresso (vide o Capítulo 2). Portanto, os ori­entais buscam se tornar unos com o ritmo da mudança, encontrando sentido nos al­tos e baixos naturais da vida. Sempre adaptativos e atentos, avançam com o ci­clo da vida até que o processo de mudança se torne natural, chegando-se à ilumina­ção (isto é, ser capaz de ver as coisas cla­ramente pelo que elas são). Diferentemente dos ocidentais, que buscam gratificações no plano físico, os orientais buscam trans­cender o plano humano e se elevar ao es­piritual.

Os estudiosos da psicologia positiva visam definir as qualidades dos seres hu­manos, destacando os vários caminhos que levam a vidas melhores (Aspinwall e Staudinger, 2002; Keyes e Haidt, 2003; Lopez e Snyder, 2003; Peterson e Seligman, 2004; Snyder e Lopez, 2002). Dado que a civilização ocidental e os eventos e valores da Europa moldaram o campo da psicolo­gia como o conhecemos hoje nos Estados Unidos, não surpreende que as origens da psicologia positiva se tenham concentrado mais nos valores e nas experiências dos ocidentais. Cada vez mais, contudo, os his­toriadores estão levando em conta os even­tos históricos e culturais mais amplos para entender as qualidades e as práticas associadas ao bem-viver (vide, por exemplo, Leonge Wong, 2003; Schimmel, 2000; Sue e Constantine, 2003). As sabedorias ante­riormente negligenciadas das tradições orientais estão sendo consultadas para acrescentar diferentes pontos de vista em relação a essas qualidades humanas.

Neste capítulo, discutimos as perspec­tivas e os ensinamentos orientais em ter­mos de suas influências na pesquisa e nas aplicações da psicologia positiva. [45] Em primeiro lugar, apresentamos os principais preceitos do confucionismo, taoísmo, bu­dismo e do hinduísmo, e demonstramos como cada tradição caracteriza importan­tes qualidades e resultados na vida. A se­guir, discutimos algumas das diferenças fundamentais e inerentes entre os sistemas de valores, processos de pensamento e os resultados que se buscam na vida nas cul­turas oriental e ocidental. Também expomos a ideia oriental do “bem-viver” e dis­cutimos as qualidades associadas a ela (mais embutidas nas culturas orientais do que nas ocidentais) que ajudam os orien­tais a atingir resultados positivos em suas vidas. Em seguida, encerramos com uma discussão das visões ocidentais sobre os conceitos de compaixão e harmonia como as duas qualidades básicas e necessárias para se atingir uma boa vida.

Confucionimo, Taoísmo, Budismo e Hinduísmo

Resumir milhares de anos de ideolo­gia e tradição orientais está, obviamen­te, além dos objetivos deste capítulo. Por­ tanto, destacamos os preceitos básicos das quatro disciplinas orientais influentes do confucionismo, do taoísmo (tradições geralmente associadas à China), do budismo e do hinduísmo (enraizadas em tra­dições do Sudeste da Ásia). Como é o caso no contexto histórico ocidental, o conceito de “bem-viver” existe na tra­dição oriental há muitos séculos. Ao contrário da ideia da cultura ocidental sobre o funciona­mento ideal como algo que ocorre intrapsiquicamente, as culturas orientais acreditam que uma experiência de vida ideal é uma jornada espiritual envolvendo transcendência e iluminação. Essa busca por transcendência espiritual é paralela às buscas esperançosas ocidentais de uma vida melhor na Terra.

Confucionismo

Confúcio, ou o Sábio, como é chama­do às vezes, sustentava que a liderança e a educação são centrais à moralidade. Nasci­do em um tempo em que sua pátria chinesa era assolada por conflitos, Confúcio en­fatizou a moralidade como potencial para os males da época (Soothill, 1968). A ética confucionista, que já foi comparada às obras do filósofo ocidental Immanuel Kant, tem definições claras e significados relativamen­te inflexíveis (Ross, 2003; por exemplo, “Sua tarefa é a de governar, e não a de matar”, Analecto, 12:19, em instruções a governan­tes que recorrem à força). Os preceitos do confucionismo estão cheios de citações que estimulam cuidar do bem-estar dos outros. Na verdade, um dos ditados mais famosos de Confúcio é um precursor da chamada “regra de ouro” e poderia ser traduzido como: “Você gostaria que outros lhe fizes­sem aquilo de que gostaria para si mesmo” (Ross, 2003; Analecto, 6:28). Esses ensina­mentos estão reunidos em diversos livros, sendo que o mais famoso deles é o I Ching (O livro das mutações).

A conquista da virtude está no centro dos ensinamentos confucianos. As cinco virtudes consideradas centrais a uma exis­ tência moral são jen (humanidade, a virtu­de mais exaltada por Confúcio), yi (dever); li (etiqueta); zhi (sabedoria) e xin (since­ridade). O poder de jen deriva do fato de que se diz que ela engloba as outras qua­tro virtudes. O conceito de yi descreve o tratamento inadequado que se dá aos ou­tros e pode ser definido como o dever de [46] tratá-los bem. O conceito de li promove a retidão e as boas maneiras, junto com sen­sibilidade aos sentimentos dos outros (Ross, 2003). Por fim, as idéias de zhi e xin defi­nem a importância da sabedoria e da sin­ceridade, respectivamente. Os seguidores de Confúcio devem se esforçar para tomar decisões sábias com base nessas cinco vir­tudes. E também devem ser fiéis a elas. O esforço contínuo para atingir essas virtu­des leva o seguidor confuciano à ilumina­ção, ou ao bem-viver.

Taoísmo

As idéias taoístas antigas são difíceis de discutir com públicos ocidentais, em parte em função da natureza intraduzível de alguns conceitos fundamentais na tra­dição taoísta. Lao-Tzu (o criador da tradi­ção taoísta) declara em suas obras que os seguidores devem viver segundo o Tao (tra­duzido, de forma geral, como “O cami­nho”). O caractere chinês que retrata o conceito de Caminho é uma cabeça em mo­vimento e “se refere simultaneamente a direção, movimento, método e pensamen­to” (Peterson e Seligman, 2004, p. 42; Ross, 2003); além disso, corporifica a natureza ubíqua dessa força. O Tao é a energia que circunda a todos e é uma força que “envol­ve, circunda e flui por meio de todas as coisas” (Western Reform Taoism, 2005, p. 1). Nesse sentido, Lao-Tzu (1994, p. 47) descreve o Caminho da seguinte forma:

Pode-se falar do Caminho,
Mas não será um caminho constante; Pode-se pronunciar seu nome,
Mas não será um nome constante.
O inominável é a origem de todos os seres;
O que é nominável foi a mãe de todos os seres.
Por isso, livre-se constantemente dos desejos, para observar sua sutileza;
Mas permita-se sempre ter desejos para observar o que vem depois.
Os dois têm as mesmas origens, mas nomes diferentes.
De ambos se diz escuros,
Trevas sobre trevas
O portal a tudo é sutil.

Embora Lao-Tzu seja eloqüente ao expor suas visões sobre o Caminho, mui­tos leitores dessas li­nhas ficam com al­guma incerteza so­bre seu real signifi­cado. Segundo tra­dições taoístas, a di­ficuldade de enten­der o Caminho pro­vém do fato de que não se pode ensinar sobre ele a outra
pessoa. Em lugar disso, a compreensão flui de se vivenciar o Caminho por conta própria, participando da vida de forma integral. Nesse processo, as experiências boas e más podem contri­buir para uma compreensão maior do Ca­minho. Também se diz que ele engloba o equilíbrio e a harmonia entre conceitos contrastantes (isto é, não haveria luz sem escuro, não haveria masculino sem femi­nino, e assim por diante) (Ontario Consul­tants on Religious Tolerance, 2004). Sobre esse último aspecto, o símbolo de yin e yang (descrito mais detalhadamente a se­guir) reflete esse equilíbrio em constante mudança entre forças e desejos opostos.

Conquistar a naturalidade e esponta­neidade na vida é o objetivo mais impor­tante na filosofia taoísta. Logo, as virtudes da humanidade, da justiça, da temperança e da retidão devem ser praticadas pelo [47] individuo virtuoso sem esforços (Cheng, 2000). Alguém que chegou à transcendência den­tro dessa filosofia não tem que pensar so­bre o funcionamento ideal, pois se com­porta naturalmente de forma virtuosa.

Budismo

A busca do bem dos outros está entretecida em todos os ensinamentos do “Mestre” ou do “Ilu­minado” - o Buda. Em uma passagem, o Buda teria dito “Vão, para o bem-estar de muitos, pa­ra a felicidade de muitos, por compai­xão pelo mundo” (Sangharakshita, 1991, p. 17). Ao mesmo tempo, ele ensina que o sofrimento é parte do ser e que é causado pela emoção huma­na do desejo. Esse desejo se reflete nas Quatro Nobres Verdades do budismo:

  1. Avida é sofrimento; ela é essencialmen­te dolorosa do nascimento à morte.
  2. Todo o sofrimento é causado pela igno­rância da natureza da realidade e pelos desejos intensos, os vínculos e o senti­mento de posse que resultam.
  3. O sofrimento pode ser extinto na supe­ração da ignorância.
  4. O caminho para o alívio do sofrimento é o Caminho Nobre de Oito Passos (vi­sões corretas, intenções corretas, fala correta, ação correta, meio de vida cor­reto, esforços corretos, disposições cor­retas e contemplação correta).

Segundo a ideologia budista, enquan­to houver anseios intensos, não se poderá conhecer a paz, e essa existência sem paz é considerada sofrimento (Sangharakshita, 1991). Esse sofrimento só pode ser reduzi­do ao se atingir o nirvana, que é a destinação final na filosofia budista. Nessa li­nha, o nirvana é um estado no qual o eu é libertado do desejo de qualquer coisa (Schumann, 1974). Deve-se observar que os estados de nirvana pré-mortal e pós-mortal são apresentados como possíveis para o indivíduo. Mais especificamente, o nirvana pré-mortal pode ser associado, em última análise, à ideia do “bem-viver”. O nirvana pós-mortal pode ser semelhante à ideia cristã de paraíso.

Assim como as outras filosofias ori­entais, o budismo atribui um importante lugar à virtude, que é descrita em vários catálogos de qualidades pessoais. Os bu­distas falam de Brahma Viharas, as virtu­des que estão acima de todas as outras em importância (descritas por Peterson e Seligman, 2004, p. 44, como “virtudes uni­versais”) e incluem o amor (maitri), a com­paixão (karuna), alegria (mudita) e a equanimidade (upeksa) (Sangharakshita, 1991). Os caminhos para se atingirem es­sas virtudes dentro do budismo requerem que as pessoas se desvinculem da emoção humana do desejo para dar um fim ao so­frimento.

Hinduísmo

A tradição hindu difere um pouco das outras três filosofias discutidas anterior­mente, no sentido de que não parece ter um fundador específico, e não está claro quando teve início na história (Stevenson e Haberman, 1998). Além disso, não há um texto único que permeie essa tradição, embora muitas pessoas mencionem os Upanishads como o conjunto mais usado de escritos. Em lugar de seguir diretrizes escri­tas, muitos seguidores do hinduísmo “pensam em sua religião como algo baseado em uma forma de ação, em lugar de um texto escrito” (Stevenson e Haberman, p. 45). Os principais ensinamentos da tradição hindu enfatizam o caráter interconectado de to­das as coisas. A ideia de uma união harmoniosa entre todos os indivíduos está [48] entretecida nos ensinamentos do hinduísmo que se referem a um “princípio único e unificador que está por trás de toda a Ter­ra” (Stevenson e Haberman, 1998, p. 46).

Os Upanishads discutem dois cami­nhos possíveis após a morte: o da reencarnação (ou retorno à Terra para continuar a tentar chegar à necessária iluminação) ou o da não-reencarnação (que significa que se atingiu o conhecimento mais eleva­ do possível durante a vida). Esse último caminho é o mais glorificado e o que os seguidores do hinduísmo tentariam atingir. O objetivo da pessoa dentro dessa tradição seria o de viver a vida de forma tão inte­gral e correta que ela iria diretamente para a vida que há depois da morte, sem ter de repetir as lições da vida em uma forma reencarnada (Stevenson e Haberman, 1998). Os ensinamentos hindus são muito claros em relação às qualidades que se de­vem corporificar para evitar a reencarnação: “Retornar a este mundo é um indica­tivo de que não se conseguiu atingir o conhecimento máximo do próprio eu” (Stevenson e Haberman, p. 53). Dessa for­ma, o objetivo da vida de uma pessoa é chegar ao máximo autoconhecimento e lutar pelo maior aprimoramento possível de si mesma (o que também é um conceito ocidental). Essa ênfase no aprimoramento pessoal faz eco aos ensinamentos budistas, mas contrasta muito com a crença confuciana de que a cidadania e o bem coletivo são muito mais importantes do que melho­rar individualmente (Dahlsgaard, Peterson e Seligman, 2005; Peterson e Seligman, 2004). Isso não significa, contudo, que o foco da tradição hindu esteja somente no indivíduo. Os indivíduos são estimulados a ser bons para com os outros, além de aprimorar a si mesmos. Os Upanishads di­zem: “Um homem se torna algo de bom por meio das boas ações, e algo de mau por meio das más ações” (Stevenson e Haberman, p. 54).

As “boas ações” também são estimu­ladas no sentido de que, se não se atinge o máximo autoconhecimento na própria vida e se tem que retornar à Terra via reencarnação após a morte, as boas ações da vida anterior estão diretamente correlacionadas com uma melhor colocação no mundo nes­ta vida (Stevenson e Haberman, 1998). Esse processo é conhecido como carma. Na próxima vida, o indivíduo deve, mais uma vez, lutar para se aprimorar, e assim o fará em sucessivas vidas, até que atinja seu ob­jetivo maior de autoconhecimento. Portan­to, o bem-viver na tradição hindu engloba indivíduos que estão permanentemente ad­quirindo conhecimento e trabalhando em direção a boas ações (Dahlsgaard, Peterson e Seligman, 2005; Peterson e Seligman, 2004; Stevenson e Haberman, 1998).

Resumo das filosofias orientais

Cada uma das filosofias orientais dis­cutidas aqui incorpora idéias sobre a im­portância da virtude, junto com qualida­des do ser humano, à medida que as pes­soas avançam rumo à boa vida (ou seja, rumo à transcendência). Também se po­dem identificar semelhanças entre as qua­tro, especialmente os tipos de qualidades humanas e experiências que são valoriza­das. Elas são discutidas em detalhe nas se­ções que seguem, mas, antes, é importan­te comparar as visões orientais com a ideologia ocidental para entender as diferen­ças na psicologia positiva vistas a partir de cada perspectiva.

Quando o Oriente encontra o Ocidente

As ideologias orientais e ocidentais são oriundas de eventos históricos e tradi­ções muito diferentes. Tais diferenças po­dem ser vistas explicitamente nos sistemas de valores de cada uma dessas visões em relação ao viver, suas orientações sobre o tempo e seus respectivos processos de pen­samento. Essas diferenças culturais dão [49] mais informações sobre as qualidades identificadas em cada cultura e sobre as formas como se buscam e se atingem re­ sultados positivos na vida.

Sistemas de valores

Os sistemas culturais de valores têm impactos importantes na determinação das qualidades versus defeitos (Lopez, Edwards, Magyar-Moe, Pedrotti e Ryder, 2003). En­quanto a maioria das culturas ocidentais tem perspectivas individualistas, a maioria das culturas orientais (japonesa, chinesa, vietnamita, indiana e outras) é guiada por pontos de vista coletivistas (vide também o Capítulo 18). Nas culturas individualistas, o principal foco é a pessoa individual, que é considerada como mais importante do que o grupo. A competição e a conquista pessoal são enfatizadas dentro dessas cul­turas. Nas culturas coletivistas, contudo, o grupo é valorizado acima do indivíduo, e se acentua a cooperação (Craig e Baucum, 2002). Tais diferentes ênfases sobre o que se valoriza determinam quais constructos são considerados como qualidades em cada tipo de cultura. Por exemplo, as culturas ocidentais valorizam muito as idéias de li­berdade e autonomia pessoal. Por esse motivo, a pessoa que “caminha com os próprios pés” é considerada como possuidora de força dentro dessa visão de mundo. Em uma cultura oriental, por outro lado, essa afirmação do eu não seria vista como um recurso positivo, já que a sociedade busca estimular a interdependência dentro do grupo.

Intimamente relacionados à interde­pendência valorizada nas culturas coleti­vistas estão os conceitos de compartilha­mento e dever para com o grupo. Além dis­so, dá-se valor a se manter fora de confli­tos e “seguir a maré” nas formas orientais de pensar. A história japonesa “Momotaro” (“O menino-pêssego”, Sakade, 1958) ofe­rece um exemplo excelente da importân­cia cultural dos traços de interdependência, da capacidade de evitar o conflito e do dever para com o grupo. A história come­ça com um casal de idosos que sempre quis um filho, mas nunca conseguiu conceber. Um dia, quando a mulher está lavando suas roupas em um riacho, um pêssego gigante flutua até onde ela está e, ali chegando, abre-se, revelando um bebê! A mulher leva Momotaro (“O menino-pêssego”) para casa, e ela e o marido o criam. Momotaro cresce e se torna um jovem excelente e, aos 15 anos, diz aos pais que já chega de os ogros do país vizinho atormentarem o povo de sua vila. Para orgulho de seus pais, ele decide lutar contra os ogros e trazer de volta o tesouro para a vila. No caminho, Momotaro faz muitas amizades com ani­mais, um a um. Os animais querem lutar contra cada animal novo que encontram, mas, diante dos pedidos de Momotaro, “o cachorro-do-mato, o macaco e o faisão, que costumavam se odiar, tornam-se amigos e seguem Momotaro fielmente” (Sakade, 1958, p. 6 ). No final da história, Momotaro e seus amigos animais derrotam os ogros ao trabalhar juntos, e trazem o tesouro de volta à vila, onde todos os que ali vivem compartilham a recompensa. Como herói, Momotaro retrata as qualidades valoriza­das na cultura japonesa e em outras cultu­ras asiáticas:

  1. ele parte em busca do bem do grupo, embora arrisque danos individuais (coletivismo);
  2. ao longo do caminho, impede as brigas mesquinhas de outros (promoção da harmonia);
  3. trabalha com eles para atingir esse obje­tivo (interdependência e colaboração); e 
  4. traz de volta um tesouro para compar­tilhar com o grupo (interdependência e compartilhamento).

Em comparação com essa estória de Momotaro, a estória do herói ocidental pode diferir em vários pontos, especialmen­te naquele em que o herói necessita da aju­da de outros, dado que as conquistas [50] individuais costumam ser mais valorizadas do que as conquistas coletivas. Dessa forma, a orientação cultural determina quais ca­racterísticas são transmitidas aos seus mem­bros como sendo qualidades.

Orientação em relação ao tempo

Também há diferenças entre o Orien­te e o Ocidente em termos de suas orienta­ções em relação ao tempo. Em culturas oci­dentais tais como a dos Estados Unidos, mui­tas vezes olhamos para o futuro (vide os capítulos 2 e 9). Na verdade, algumas das qualidades que parecemos valorizar mais (como a esperança, o otimismo, a autoeficácia, vide o Capítulo 9) refletem o pen­samento voltado ao futuro. Nas culturas orientais, contudo, há um foco e um respei­to maiores em relação ao passado. Esse foco no passado se revela no antigo provérbio chinês “Para conhecer a estrada que tens por diante, pergunta aos que estão voltando”. Portanto, determinadas características de personalidade podem ser definidas como qualidades em termos de sua compatibili­dade com uma determinada orientação em relação ao tempo. Por exemplo, certos ti­pos de solução de problemas podem ser considerados mais vantajosos do que outros. Em uma antiga fábula chinesa, “O cavalo velho conhece o caminho”, um grupo de soldados viaja para longe de casa - nas montanhas - e, quando tenta encontrar o caminho de volta, perde-se. Um dos solda­dos propõe a seguinte solução: “Podemos usar a sabedoria de um cavalo velho. Liber­tem os cavalos velhos e os sigam, e assim encontrem a estrada certa” (Pei, 2005, p. 1). As culturas orientais valorizam a carac­terística de saber “olhar para trás” e reco­nhecer a sabedoria dos mais velhos.

Processos de pensamento

Ao considerar os aspectos únicos dos pensamentos ocidental e oriental, muitas vezes nos concentramos na natureza de idéias específicas, mas não refletimos sobre o processo de conectar e integrar idéias. De fato, como já observaram pesquisado­res (como Nisbett, 2003), existem diferenças claras nos próprios processos de pen­samento usados por ocidentais e orientais, o que resulta em visões de mundo e enfo­ques à produção de sentido marcadamente divergentes. Richard Nisbett, professor da Universidade de Michigan que estuda a psicologia social e a cognição, ilustra como entendeu algumas dessas diferenças duran­te uma conversa com um estudante chinês. Nisbett relembra.

Alguns anos atrás, um estudante chinês muito inteligente começou a trabalhar comigo em questões de psicologia social e raciocínio. Um dia, no início de nossa convivência, ele disse: “Sabe de uma coi­sa, a diferença entre você e eu é que eu vejo o mundo como um círculo, e você o vê como uma reta...”. Os chineses acredi­tam na transformação permanente, mas com tudo sempre retornando a algum estado anterior. Eles prestam atenção a uma ampla gama de eventos, buscam re­lações entre as coisas e acham que não se pode entender a parte sem entender o todo. Os ocidentais vivem em um mundo mais simples, mais determinista; eles se concentram em objetos ou pessoas sali­entes, em lugar do quadro mais amplo, e acreditam que conseguem controlar eventos porque conhecem as regras que comandam o comportamento dos objetos (p. xiii).

Como demonstra a história de Nisbett, o pensamento utilizado pelo estudante chi­nês, e não apenas as idéias em si, é muito diferente do de Nisbett. O estilo mais cir­cular de pensamento é mais bem exem­plificado pela figura taoísta do yin/yang. A maioria das pessoas conhece o símbolo, que representa a natureza circular, em constante mudança, do mundo, da manei­ra que o vê o pensamento oriental. A parte escura do símbolo representa o feminino e o passivo, e a parte clara, o masculino e o [51] ativo. Cada parte existe em função da outra, e nenhuma delas poderia existir só segundo a visão taoísta. Quando se experimenta um estado, o outro não tardará a segui-lo; se estamos passan­do por tempos difíceis, outros mais fáceis estão a caminho. Esse padrão de pensa­mento mais circular afeta a maneira como o pensador oriental mapeia sua vida e, por­ tanto, pode influenciar as decisões que uma pessoa toma na busca de paz.

Um exemplo dos efeitos dessas for­mas diferentes de pensar pode ser encon­trado nas coisas que o ocidental busca em sua vida, em comparação com o oriental. Enquanto nos Estados Unidos damos alta prioridade ao direito “à vida, à liberdade e à busca da felicidade”, os objetivos de um oriental podem ter foco diferente. Tome­mos, por exemplo, o constructo da psico­logia positiva sobre a felicidade (vide o Capítulo 7). Os pesquisadores propuseram que a felicidade (seja coletiva, seja indivi­dual) é um estado comumente buscado tanto por orientais quanto por ocidentais (Diener e Diener, 1995). A diferença na abordagem filosófica à vida, contudo, pode dar às buscas aparências muito diferentes. Por exemplo, o ocidental cujo objetivo é a felicidade traça uma linha reta até esse objetivo, procurando cuidadosamente os obstáculos e encontrando possibilidades de se desviar deles. Seu objetivo é atingir a felicidade eterna. Para o oriental que se­gue o yin/yang, todavia, esse objetivo da felicidade pode não fazer sentido. No caso de buscar a felicidade e encontrá-la, na forma oriental de pensar, isso só significa­ria que a infelicidade estaria próxima. Em lugar disso, o oriental pode ter como obje­tivo o equilíbrio, acreditando no fato de que, embora possa haver muita infelicida­de ou muito sofrimento na vida de uma pessoa, eles seriam equilibrados por muita felicidade. Esses dois tipos distintos de pen­samento criam formas muito diferentes de estabelecer objetivos e conquistar a boa vida.

Oriente e ocidente: algum é melhor?

Diferenças importantes nos tipos de idéias e na forma como elas são organiza­das surgem das tradições orientais e oci­dentais, mas é importante lembrar que nenhuma é “melhor” do que a outra. Isso é especialmente relevante para discussões com relação às qualidades. Portanto, de­vemos usar a cultura como uma lente para avaliar se uma determinada característica pode ser considerada como uma qualida­de ou um defeito dentro de um determina­ do grupo.

Caminhos diferentes para resultados positivos

Até aqui, discutimos como os estilos de pensamento influenciam o desenvolvi­mento de objetivos nas vidas de ocidentais e orientais. Também existem diferenças, contudo, nos caminhos que cada grupo utiliza para avançar em direção a esses objetivos. O pensamento de orientação ocidental se concentra nos objetivos do in­divíduo, ao passo que os filósofos orientais sugerem um foco diferente, no qual o gru­po se destaca. Por exemplo, Confúcio dis­se: “Se quiser chegar a seu objetivo, ajude os outros a chegar aos seus” (Soothill, 1968, Analectos, 6:29). Da mesma forma, embora a esperança possa ser a ferramen­ta básica do “individualista rigoroso” (isto é, o ocidental, vide o Capítulo 2) ao avan­çar rumo ao bem-viver, outras ferramentas podem ter precedência na vida do orien­tal. Por exemplo, qualidades que ajudam a criar e sustentar relações interdependentes para os orientais podem ser mais valiosas para ajudá-los a atingir seus objetivos. [52] Essas virtudes podem ser muito importantes para ajudar os orientais a desenvolver ca­minhos que garantam que se atinjam obje­tivos coletivos, ajudando-os a realizar seus objetivos individuais.

Nos principais ramos dos ensina­mentos orientais (confucionismo, taoísmo, budismo e hinduísmo), mencionam-se re­petidamente os dois constructos da com­paixão pelos outros e da busca de harmo­nia ou equilíbrio na vida. Dessa forma, cada um deles tem um lugar claro no estudo da psicologia positiva a partir da perspectiva oriental.

Compaixão

A ideia da compaixão tem suas ori­gens nas filosofias ocidental e oriental. Dentro da primeira, Aristóteles costuma ser apontado por seus escritos precoces sobre o conceito de compaixão. Da mesma for­ma, a compaixão pode ser identificada nas tradições orientais do confucionismo, do taoísmo, do budismo e do hinduísmo. Nos ensinamentos confucianos, a compaixão é discutida dentro do conceito de jen (hu­manidade) e se diz que ela engloba todas as outras virtudes. Na visão taoísta, a hu­manidade também reflete comportamen­tos que devem ocorrer naturalmente, sem premeditação. Por fim, Buda costuma ser descrito como “perfeitamente iluminado e infinitamente compassivo” (Sangharak- shita, 1991, p. 3). Como tal, a ideia da compaixão, ou karuna, também está entretecida em todo o budismo como vir­tude no caminho em direção à trans­cendência. Por fim, dentro da tradição hindu, a compaixão é evocada em boas ações em relação aos outros, que irão direcionar os seguidores para o caminho que não exigirá que retornem à Terra após a morte.

Em recentes trabalhos de psicologia positiva, o médico Eric Cassell (2002) pro­pôs os três requisitos a seguir para a com­paixão:

  1. as dificuldades do receptor devem ser graves,
  2. elas não podem ser causadas por ele mesmo e
  3. nós, como observadores, devemos ser capazes de nos identificar com seu so­frimento.

A compaixão é descrita como uma “emoção unilateral” (Cassell, p. 435) que é dirigida para fora da pessoa. Nos ensi­namentos budistas, atingir a compaixão significa ser capaz de “transcender a preo­cupação com a centralidade do eu” (Cas­sell, p. 438), isto é, concentrar-se em ou­tros em lugar de simplesmente em nós mes­mos. A capacidade de possuir sentimentos por algo que é completamente separado de nosso próprio sofrimento nos permite transcender o eu e, dessa forma, chegar mais perto do bem-viver. Na verdade, diz-se que a compaixão transcendental é a mais importante das quatro verdades universais, e muitas vezes é chamada de Grande Com­paixão (mahakaruna) para diferenciá-la da karuna, mais aplicada (Sangharakshita, 1991). Da mesma forma, embora discuti­das de maneiras um pouco diferentes como princípios confucianos, taoístas e hindus, as capacidades de sentir e fazer algo pelos outros são centrais para se conquistar o bem-viver também para cada uma dessas tradições.

A compaixão ajuda a pessoa a ter êxi­to na vida e é considerada uma caracterís­tica importante na tradição oriental. Os sentimentos por membros do mesmo gru­po podem possibilitar a identificação com outros e o desenvolvimento de coesão de grupo. Além disso, o agir com compaixão estimula a felicidade coletiva em lugar da individual.

A compaixão também pode vir mais naturalmente à pessoa de uma cultura coletivista do que àquela de uma cultura individualista. Nesse aspecto, pesquisado­res afirmaram que uma cultura coletivista pode construir um sentido de compaixão na forma de um comportamento [53] pró-social por parte de seus membros (Batson, 1991; Batson, Ahmad, Lishner e Tsang, 2002). Quando se forma uma identidade de grupo, portanto, a escolha natural pode ser a dos benefícios coletivos em detrimen­to dos individuais. Seria interessante ter mais informações de estudos qualitativos e quantitativos nessa área para se defini­rem os mecanismos usados para estimular essa compaixão.

Peterson e Seligman (2004) indicam que a característica de “humanidade” pode ser considerada como um “ponto forte uni­versal” em seu livro Character strengths and virtues: a handbook and classification (Qua­lidades de caráter e virtudes: manual e clas­sificação). Para as tradições ocidental e oriental, eles afirmam que a capacidade de ter sentimentos pelos outros é uma parte necessária na busca do bem-viver. A com­paixão, um aspecto da humanidade, signi­fica olhar para fora de nós mesmos e pen­sar nos outros, ao nos identificarmos e nos preocuparmos com eles. Esse foco para além do eu é necessário para transcender o corpo físico, segundo as tradições orien­tais. O nirvana só pode ser atingido quando a própria identidade independente e os de­sejos de motivação própria que a acompa­nham forem erradicados completamente.

Sendo assim, ao avançar em direção à boa vida, a compaixão é essencial para lidarmos com as tarefas do dia-a-dia. Ao se percorrer o caminho que leva a esse bem-viver, o objetivo permanente é transcender o plano humano e se tornar iluminado por meio de experiências com outros e com o mundo. A compaixão pede que as pessoas pensem para fora de si mesmas e se conectem às outras. Ademais, ao entender os ou­tros, a pessoa se aproxima do autoconhecimento. Esse é mais um componente fun­damental para se atingir a transcendência.

Harmonia

Na história ocidental, diz-se que os gregos consideravam a felicidade como a capacidade de “exercer poderes na busca de excelência em uma vida livre de restri­ções” (Nisbett, 2003, p. 2-3). Dessa forma, a boa vida é considerada como aquela sem vínculos com o dever e com liberdade para ir em busca de objetivos individuais. Há distinções claras quando se compara essa ideia com os ensinamentos confucianos, por exemplo, nos quais o dever (yi) é uma virtude básica. Na filosofia oriental, a feli­cidade é descrita como ter as “satisfações de uma vida rural plena, compartilhada com uma rede social harmoniosa” (Nisbett, p. 5-6, grifos nossos). Nessa tradição, a harmonia é considerada central para se atingir a felicidade.
Nos ensinamentos budistas, ao atin­gir um estado de nirvana, as pessoas che­garam a um estado de paz que implica “harmonia, estabilidade e equilíbrio com­ pletos” (Sangharakshita, 1991, p. 135). Do mesmo modo, nos ensinamentos confucionistas, a harmonia é considerada crucial para a felicidade. Confúcio elogi­ava muito as pessoas capazes de harmo­nizar; ele comparava essa capacidade com “um bom cozinheiro misturando os sabo­res e criando algo harmônico e delicioso” (Nisbett, 2003, p. 7). Relacionar-se bem com outros possibilita que a pessoa se li­berte dos objetivos individuais e, ao fazê-lo, alcance a “ação coletiva” (Nisbett, p. 6 ) para produzir o que é bom para o gru­po. Dessa forma, o princípio harmonizador é um preceito central ao estilo de vida oriental. O equilíbrio e a harmonia que se atingem como parte de uma vida ilumi­nada são considerados, muitas vezes, como representantes da finalidade maior da boa vida. Nos ensinamentos hinduístas, também se pode ver que, como todos os seres humanos estão interconectados por um “único princípio unificador” (Steven­ son e Haberman, 1998, p. 46), deve-se buscar a harmonia. Se um indivíduo ca­minha pela vida sem considerar os outros conectados a ele, os efeitos podem ser pro­fundos para esse indivíduo e para o gru­po (Stevenson e Haberman). [54]

Até agora, o conceito de harmonia re­cebeu atenção mínima no campo da psicolo­gia positiva, embora se tenha tratado um pouco da ideia de apreciar o equilíbrio na vida em relação a outros constructos (como a sabedoria; vide Baltes e Staudinger, 2000, e o Capítulo 10). Clifton e colaboradores (Buckingham e Clifton, 2001; Lopez, Hod­ ges e Harter, 2005) incluem um tema relacio­nado à harmonia no Clifton Strengths Finder (vide o Capítulo 4), descrevendo esse constructo como um desejo de encontrar consenso entre o grupo, em vez de promo­ver idéias conflituosas. A literatura sobre psi­cologia nos Estados Unidos deu um pouco mais de atenção acadêmica à harmonia. Con­siderando-se o papel central da harmonia como um ponto forte nas culturas orientais, podem ser necessárias mais pesquisas sobre esse tópico no futuro. Em primeiro lugar, o conceito de harmonia muitas vezes é con­fundido com a noção de conformidade. Es­tudos para identificar as diferenças entre es­ses dois constructos poderiam ser benéficos para definir cada um deles mais claramente. Como o termo conformidade tem conotações um pouco negativas em nossa cultura vol­tada à independência, é possível que algu­mas dessas mesmas caracterizações negati­vas tenham sido estendidas ao conceito de harmonia.

Em segundo, poderiam ser usados métodos qualitativos de pesquisa para de­senvolver uma definição melhor de harmo­nia. Atualmente, o conceito de harmonia se reflete na virtude da justiça, como dis­cutido por Peterson e Seligman (2004) em sua classificação de qualidades. Esses au­tores observam que a capacidade de “tra­balhar bem como membro de um grupo ou equipe, de ser leal ao grupo, de fazer a sua parte” (p. 30) pode ser uma subdivi­são da ideia de qualidade cívica. Embora essa possa ser uma forma de classificar essa qualidade, pode-se dizer que a ideia de harmonia é mais ampla do que essa defini­ção específica e pode ser pensada separa­damente da lealdade e da contribuição. Além disso, o fenômeno da harmonia pode ser um ponto forte interpessoal (conforme descrito nos parágrafos anteriores) e um ponto forte intrapessoal.
Por fim, depois de realizar mais tra­balho conceitual, os estudiosos da psicolo­gia positiva poderiam aproveitar muito do desenvolvimento de mecanismos de avalia­ção confiáveis e válidos. Essas ferramentas ajudariam os pesquisadores a desvelar os fatores básicos que contribuem para a har­monia, bem como seus correlatos.

Reflexões finais

É importante reconhecer que, ao se discutirem os pensamentos orientais neste capítulo, um preceito fundamental dos es­tilos de vida orientais se rompe, em fun­ção do método de ensino decididamente ocidental, didático, usado para trazer essa informação a estudantes de psicologia po­sitiva. O oriental tradicional se oporia à noção de que tais conceitos podem ser aprendidos a partir de meras palavras, e afirmaria que só com a experiência isso seria possível. Como parte dos ensinamen­tos orientais, a autoexploração e experiên­cia prática real são essenciais para a verdadeira compreensão dos conceitos que são apresentados de maneira apenas introdu­tória neste capítulo. Portanto, recomenda­mos que você busque mais experiência com essas idéias na vida cotidiana e tente desco­brir a relevância que qualidades como com­paixão e harmonia têm para sua própria vida. Embora possam ser originárias da ideologia oriental, essas idéias são impor­tantes para os ocidentais que querem des­cobrir novas maneiras de pensar sobre o funcionamento humano. Ao estudar psico­logia positiva, você pode continuar a am­pliar seus horizontes refletindo sobre as idéias do Oriente. Desafie a si mesmo a ter uma mente aberta aos tipos de característi­cas aos quais poderia atribuir a denomina­ção qualidade, e se lembre que diferentes tradições trazem consigo valores distintos. [55]

Psicologia - Psicologia positiva
7/19/2020 3:12:21 PM | Por Shane J. Lopez
A história ocidental da esperança

A esperança tem sido uma força podero­sa por trás da civilização ocidental. Na ver­dade, olhando hoje a história registrada da civilização ocidental, a esperança - o pen­samento baseado na agência, concentrado em objetivos que fazem com que você saia daqui e chegue lá - tem estado tão entre­laçada no tecido das épocas e dos eventos de nossa civilização que pode ser difícil de detectar, como o fermento no pão. Nesse sentido, a crença em um futuro positivo se reflete em muitas das idéias e palavras de nosso dia-a-dia. Por exemplo, palavras como planejar e acreditar são portadoras de suposições sobre quanto tempo nos res­ta de vida e as probabilidades de que nos­sas ações venham a ter efeitos positivos nesses eventos futuros.

Este capítulo volta o olhar para idéias fundacionais e eventos exemplares que de­finiram a esperança moderna e o século XXI. Somos intencionalmente lineares em nossa narração histórica, começando com o mito grego da caixa de Pandora e termi­nando com uma história moderna de tri­unfo. No entanto, exploraremos antes como e por que uma força robusta como a esperança tem estado ausente de partes da narrativa da civilização ocidental.

Esperança: onipresente, mas oculta

Embora a esperança tenha um po­der impressionante e penetrante, muitas vezes não estamos conscientes de sua pre­sença, talvez porque esteja embutida em muitas idéias relacionadas. Por isso, a es­perança muitas vezes não é identificada pelo nome em fontes que são essencialmente relacionadas a ela (por exemplo, para uma visão minuciosa de como a es­perança raramente é discutida na filoso­fia, vide o livro O princípio da esperança [1959], de Ernst Bloch. Na verdade, se examinarmos os sumários de conteúdos ou índices de importantes obras ociden­tais, a palavra esperança não será encon­trada. Por exemplo, o índice do livro Key ideas in human thought (Idéias fundamen­tais do pensamento humano, McLeish, 1993) não contém um item para esperan­ça. Imagine a ironia de omitir o termo es­perança de um registro supostamente completo das idéias humanas! Segundo Bloch, a esperança tem sido “tão inexplo­rada quanto a Antártica” (citado em Schu­ macher, 2003, p. 2).

A Esperança como parte da Mitologia grega

Ao longo de toda a história humana, tem havido uma necessidade de que o mal possa ser transformado em bem, de que o feio se torne bonito e de que os problemas sejam solucionados, mas as civilizações di­feriram no grau em que consideravam es­sas mudanças possíveis. Por exemplo, ve­jamos o mito grego da caixa de Pandora, uma história sobre a origem da esperança. Há duas versões para essa história.

Em uma dessas versões, Zeus criou Pandora, a primeira mulher, para se vin­gar de Prometeu (e de todos os seres hu­ manos) porque este havia roubado o fogo dos deuses. Pandora foi dotada de beleza e graça impressionantes, mas também de uma tendência a mentir e a enganar. Zeus enviou Pandora com o baú contendo seu dote a Epimeteu, que se casou com ela. Usando o que pode ser um dos primeiros exemplos de psicologia reversa, Zeus ins­truiu Pandora a não abrir o baú quando chegasse à Terra. Obviamente, ela o igno­rou e abriu. Dali saíram todos os tipos de problemas para o mundo, mas não a espe­rança, que permaneceu no baú - não para ajudar a humanidade, mas para provocá- la com a mensagem de que a esperança não existe realmente. Nessa versão, por­tanto, a esperança não passava de um lo­gro cruel.

Uma segunda versão dessa história diz que todos os infortúnios terrenos fo­ram causados pela curiosidade de Pandora, antes de qualquer natureza inerentemente má. Os deuses a testaram com instru­ções de não abrir o baú com o dote. Ela foi mandada a Epimeteu, que a aceitou, malgrado os avisos de seu irmão, Prome­teu, sobre os presentes de Zeus. Quando Pandora abriu o baú, a esperança não era um logro, e sim uma fonte de conforto para os infortúnios (Hamilton, 1969). Nessa versão positiva da história, a esperança deveria servir como antídoto aos males (como a gota, o reu­matismo e a cólica para o corpo; e como a inveja, a malevo­lência e a vingança para a mente) que escaparam quando o baú foi aberto. Quer seja um logro quer seja um antídoto, es­sas duas versões des­sa história revelam a tremenda ambivalência dos gregos em re­lação à esperança.

A Esperança religiosa na civilização ocidental

A história da civilização ocidental se dá em paralelo às histórias do judaísmo e do cristianismo. É por isso que a expressão herança judaico-cristã costuma ser asso­ciada à civilização ocidental. Não é por aci­dente que a linha do tempo da civilização ocidental (vide as figuras 2.1 a 2.4) coinci­de com a herança judaico-cristã, incluindo o período antes da era comum (a.e.c.) e era comum (e.c.). Essas linhas do tempo destacam eventos importantes na história da religião: a inauguração da Catedral de Notre Dame, a construção da fachada oes­ te da catedral de Chartres e a publicação de Summa Theologica, de São Tomás de Aquino. Nesse aspecto, a presença da es­perança nos primórdios da civilização ocidental é ilustrada claramente em passagens bíblicas como “venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade” (Mateus, 6:10) e “...na esperança de que a própria criação seja redimida do cativeiro da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Romanos, 8:18, 20, 21). Essas passagens refletem uma visão de esperança pelo Reino de Deus na Terra, bem como a [35]  esperança de que sua vontade seja feita assim na Terra como no céu. Ou, vejamos Coríntios 115:19, em que São Paulo escreve sobre a fé em Cristo nesta vida na Terra e além dela: “Se é só para esta vida que te­mos posta nossa esperança em Cristo, so­mos, de todos os homens, os mais dignos de lástima”. Além disso, as doutrinas do cristianismo sustentam que o reino de Deus na Terra não só é esperado, como também está previsto. Dessa forma, é lógico que a crença na esperança influencie as idéias e os pressupostos intelectuais seculares.

Como demonstrado por estes exem­plos de esperança e religião, de uma dis­posição esperançosa podem resultar em­preendimentos humanos impressionantes. Em cada caso, um verbo ativo está conec­tado a um substantivo que se refere a um resultado - uma conquista. Observe as pa­lavras abrir, construir e publicar. Deve-se observar, também, que esses verbos foram seguidos de substantivos que denotam con­quistas de nossa civilização, como as cate­drais de Chartres e Notre Dame.

Esses exemplos também são impor­tantes por serem conquistas em um cami­nho que parte de um período às vezes cha­mado de Idade das Trevas. É difícil, para nós, apreciar a força de vontade e os esfor­ços de nossos ancestrais, que lutaram para realizar importantes conquistas em um período conhecido pela ausência delas. De fato, embora essa época não tenha sido realmente obscura, a Idade Média (500-1450), antes do Renascimento, certamen­te estava envolvida nas sombras da opres­são e da ignorância, quando a inércia e a lassidão intelectual eram a norma. Como escreve Davies (1996, p. 291), Há um ar de imobilidade em muitas des­crições do mundo medieval. A impressão se cria por meio da ênfase no ritmo lento das transformações tecnológicas, no ca­ráter fechado da sociedade medieval e nas percepções fixas e teocráticas da vida hu­mana. Os principais símbolos do período são o cavaleiro de armadura em seu ca­valo, que se movia com dificuldade; os servos ligados à gleba (domínio ou pro­priedade) de seu senhor; e monges e frei­ras rezando em clausura. Eles são feitos para representar a imobilidade física, a imobilidade social, a imobilidade inte­lectual.

Essa imobilidade intelectual e social refletia uma paralisia da curiosidade e da iniciativa. A partir dos anos da Idade Mé­dia (500-1500), essa paralisia impediu o planejamento e a ação intencionais e sus­tentados que são necessários para que haja uma sociedade com esperança e desen­volvimento. Os fogos do avanço foram reduzidos a brasas durante esse milênio obscuro e se mantiveram acesos apenas em instituições como os monastérios e suas escolas.

Com o tempo, quando a Idade das Trevas foi encerrada pelas luzes brilhantes do Renascimento, com seu crescimento e prosperidade econômicos, a esperança pas­sou a ser considerada mais importante para a vida presente na Terra do que para de­pois da vida (ou seja, uma vida melhor na Terra se tornou possível, até mesmo pro­vável). Portanto, a esperança religiosa que se concentrava em um futuro distante, após a vida na Terra, tornou-se um pouco menos importante quando surgiu o Renascimento. Na verdade, o foco durante o Renascimento caiu na antecipação contemporânea de dias melhores no presente. Em relação a esse novo foco, o filósofo Immanuel Kant deci­diu que a natureza religiosa da esperança impedia sua inclusão nas discussões sobre como gerar transformações na Terra. Com essa mudança, a concepção religiosa de esperança se desvaneceu como motivação principal da ação. O fortalecimento e a ace­leração dessa mudança constituíram outro aspecto da esperança religiosa, identificada pelo que Farley (2003) chamou de “passi­vidade desejosa”, uma perspectiva que ain­da hoje influencia a esperança religiosa. Farley observa: ‘A esperança religiosa... dá uma falsa sensação de que tudo está real­mente bem e tudo ficará bem. A crença em um futuro final, nessa visão, direciona o [36] compromisso para um futuro que ainda chegará” (p. 25). Em outras palavras, a esperança religiosa voltada à vida após a morte pode se tornar uma barreira incons­ciente à ação nesta vida. O problema desse tipo de esperança religiosa, como descrito por Farley, é que ela pode dar uma sensa­ção de conforto postergado em relação a condições futuras. Infelizmente, ao se con­centrar em um estado desejado para o fu­turo, em lugar daquilo que deve acontecer para se atingir esse estado, as atenções e os esforços da pessoa são afastados do que é necessário no momento presente.

O comentário de Farley (2003) é se­melhante a um importante argumento apresentado por Eric Fromm em seu livro A revolução da esperança-tecnologia huma­nizada (1974). Fromm diz que algumas de­finições de esperança costumam ser “mal-entendidas e confundidas com atitudes que nada têm a ver com Esperança e, na ver­dade, são exatamente o seu oposto” (p. 6). O autor aponta que esperança não é a mes­ma coisa que desejos ou anseios (isto é, produtos da visualização de uma possibili­dade de mudança sem que se tenha um plano ou a energia necessária para produ­zir essa mudança). Diferentemente da es­perança, essas últimas motivações têm ca­racterísticas passivas nas quais se faz pou­co ou nenhum esforço para concretizar o objetivo desejado. Um nível extremo des­sa passividade gera o que Fromm chamou de niilismo (p. 8).

Revisão da história da esperança na civilização ocidental

O período pré-renascentista

As crenças positivas e a esperança por parte da civilização ocidental se solidifica­ram após o Renascimento, mas se deve observar que a esperança não estava total­mente ausente em épocas anteriores. Con­sideremos, por exemplo, a seguinte lista breve de exemplos de atividades humanas que aconteceram antes do Renascimento.

  • A construção do museu e da biblioteca de Alexandria (307 a.e.c.)
  • A abertura da primeira escola inglesa, em Canterbury (598 e.c.)
  • A publicação da coletânea de poesia in­glesa Exeter Book (970 e.c.)
  • O desenvolvimento da notação musical sistemática (990 e.c.)
  • Reflorescimento das tradições artísticas na Itália (1000)
  • Tentativa de voar ou flutuar (1000)
  • Início da construção da Catedral de York, na Inglaterra (1070)
  • Fundação da Universidade de Bolonha, na Itália (1119)
  • Construção do Hospital de São Bartolo­meu, na Inglaterra (1123)
  • Finalização da fachada oeste da cate­dral de Chartres, na França (1150)
  • Popularização do xadrez na Inglaterra (1151)
  • Fundação das universidades de Oxford (1167) e Cambridge (1200), na Inglaterra
  • Abertura da Catedral de Notre Dame, em Paris (1235)
  • Impressão da Summa Theologica, de São Tomás de Aquino (1273)
  • Desenvolvimento da cidade italiana de Florença como importante centro co­ mercial e cultural da Europa (1282)

Observemos es­ ses eventos na linha do tempo da Figura 2.1. Eles são reflexos do espírito das pes­soas para atingir ob­jetivos e de seu esfor­ço para tanto. Tais marcos históricos exigiram ações volta­das a objetivos, em lugar da simples es­pera pela chegada de tempos melhores ou o acontecimento de  coisas boas. Com o advento do Renasci­mento, esses pensamentos ativos e espe­rançosos começaram a ser acoplados a ações voltadas a objetivos. Na próxima se­ção, trataremos do Renascimento e de eventos cruciais.

O Renascimento

Começando na Itália, em 1450, e se estendendo até cerca de 1600, o Renas­cimento produziu mudanças nos costumes e nas instituições que dominaram a Euro­pa no milênio anterior. O feudalismo, o domínio da Igreja Católica e a vida rural e isolada deram lugar ao surgimento do nacionalismo, aos negócios e ao comércio, ao crescimento das cidades e à expansão das artes e da academia. A esperança ganhou vida durante esse renascer. Esse período histórico é visto agora mais como uma evo­lução do que uma revolução, e foi uma vi­rada que facilitou o surgimento da espe­rança ativa.

Dado que, no Renascimento, parte da ênfase estava no passado, como ele pode­ria ser considerado o começo da esperan­ça “moderna”? A resposta a esta pergunta é que, embora o Renascimento tenha ana­lisado a Antiguidade, grande parte da aná­lise foi feita para avançar e promover o conhecimento. Por exemplo, o direito ro­mano surgiu como uma área fundamental para os estudos jurídicos porque os juris­tas do Renascimento queriam examinar seus grandes códigos, o Digesto e o Códex. Portanto, a perspectiva renascentista era de [38] que a aprendizagem sobre o passado era necessária para atender às demandas de uma sociedade complexa e materialista que estava surgindo a partir do final da Idade Média. Da mesma forma, avanços em ou­tras áreas da vida e dos assuntos públicos foram construídos a partir de compreensões precisas da literatura, da filosofia e da arte anteriores.

Embora se tenham tornado campos em si, os estudos desses campos foram de­ senvolvidos basicamente para atingir obje­tivos mais mundanos como facilitar o co­mércio e a economia mercantilista. Sendo assim, a sociedade do Renascimento come­çou a considerar a realização mundana mais importante do que a preparação para a morte ou a realização após a morte.

Durante esse período, as pessoas tam­bém começaram a se considerar como in­divíduos em lugar de representantes de uma classe. Mais além, esse recém-surgido interesse nos méritos das realizações pessoais levou a uma dedicação a fazer coisas relacionadas a esta vida. Enquanto homens e mulheres medievais (500-1500 e.c.) estavam em busca de suas almas, os cidadãos do Renascimento olhavam para fora e para a frente, e isso para atingir ob­jetivos do aqui e agora, que se baseavam em suas capacidades e seus interesses pes­soais. Vide a Figura 2.2 para importantes eventos e conquistas do Renascimento.

O lluminismo

O período que se seguiu ao Renasci­mento, de cerca de 1700 ao final daquele século, é conhecido como a Era do [39] Iluminismo. Essa época marcou a superação de uma imaturidade caracterizada pela indis­posição para usar os próprios conhecimen­tos e inteligência.

Sobre isso, Immanuel Kant (1784) es­creveu: “Sapere aude! ‘Tem coragem de fa­zer uso de teu pró­prio entendimento!’ - Esse é o mote do Iluminismo” (citado em Gay, 1969, p.ll). Com efeito, o Ilumi­nismo representou uma declaração de independência em relação à aceitação, há muito estabele­cida, da autoridade na religião e na polí­tica, que datava dos tempos bíblicos.

Em uma atmosfera cultural que leva­va à exploração e à mudança, o Iluminismo estava enraizado no ressurgimento renas­centista do interesse pelos livros e pelas idéias de gregos e latinos, junto com o in­teresse por este mundo e não pelo outro. À medida que a autoridade religiosa da Igre­ja se enfraquecia, as influências comerciais, políticas e científicas começaram a ter um impacto cada vez maior nas vidas espiri­tuais, físicas e intelectuais das pessoas.

A palavra científico é fundamental para caracterizar o Iluminismo. A publica­ção de Princípios matemáticos de filosofia natural, de Isaac Newton, em 1687, tem sido usada por alguns para marcar o início do Iluminismo e a ascensão do método científico. Embora as raízes desse trabalho datem da época bíblica, as idéias de Newton cumpriram outros propósitos no sentido de ajudar a entender e a reverenciar a Deus.

A Revolução Científica foi parte inte­grante do Iluminismo e teve início quando a atmosfera política se tornou mais favo­rável a um clima de descoberta, como ex­presso nos trabalhos de estudiosos como Kepler, Galileu, Newton e Descartes. Gay (1966) descreve esse grupo de pensadores como um tipo de “coalizão” de cientistas e filósofos que consideravam as iniciativas de pesquisa como “passos” em um proces­so cumulativo, em lugar de meras desco­bertas acidentais e isoladas.

O Iluminismo refletiu a natureza da esperança, em função de sua ênfase em ações e capacidades racionais. Essas quali­dades estavam entrelaçadas com a crença dominante da época, a de que a razão que ganhou vida com o método científico leva­va a conquistas na ciência e na filosofia. Essas perspectivas estão em contraste di­reto com a predominância da ignorância, da superstição e da aceitação da autorida­de que caracterizaram a Idade Média. Des­crito em termos de uso da matemática como meio de descoberta e progresso, esse processo enfatizava a vontade racional. Assim, não é surpresa que a educação, a livre expressão e a aceitação de novas idéias crescessem muito durante o Iluminismo. Na verdade, as conseqüências desse pensa­mento ilustrado foram duradouras e refle­tiam o poder da esperança. Sobre esse aspecto, um exemplo é a educação e como ela reduz a probabilidade de que as ações venham a ser impulsivas, ou seja, a educa­ção deve promover análises e planos refle­tidos para se atingirem objetivos desejados. Mais além, a dignidade e o valor humanos foram reconhecidos durante o Iluminismo. Tomada em seu conjunto, a ideia de que conhecimento e planejamento poderiam produzir uma percepção de fortalecimen­to levou Francis Bacon ao objetivo de me­lhorar a condição humana. Entende-se, portanto, que Condorcet observou em seu Esboço para um quadro histórico do progres­so do espírito humano (1795) que o Iluminismo garantiu o progresso futuro e presente dos seres humanos.

Os resultados das crenças esperanço­sas podem ser vistos no impacto desses eventos importantes do Iluminismo:

  • Invenção da lançadeira (1773), que deu início à tecelagem moderna.
  • Redação da Declaração de Independên­cia dos Estados Unidos (1776)[40]
  • Ridicularização da alta sociedade pelo poeta Alexander Pope em Rape of the lock (1714)
  • Inauguração do Museu Britânico (1759)
  • Publicação de Crítica da razão pura, de Kant(1781)
  • Composição das três últimas sinfonias de Mozart (1788)
  • Publicação de Reflexões sobre a Revolu­ção na França, de Edmund Burke (1790)
  • Outros eventos e marcos são aponta­ dos na Figura 2.3.

A revolução industrial

Começando aproximadamente no fi­nal do século XVIII e continuando até o fi­nal do XIX, deu-se o período conhecido como Revolução Industrial (ou Era da Industrialização).

A passagem da produção de casas e pequenos ateliês para grandes fábricas au­mentou em muito os benefícios materiais para os cidadãos individuais (vide a Figura 2.4). Embora alguns resultados dessa épo­ca tenham sido disfuncionais e contrapro­ducentes, houve contribuições muito reais e importantes. Brogan (1960) descreve es­ ses avanços:

Como resultado dos avanços do século XIX e início do XX, as pessoas passaram a vi­ver mais tempo, poucas crianças morriam ainda bebês e muitos se alimentavam melhor, tinham moradia melhor e forma­ção escolar melhor. A unidade física do mundo se tornou possível com o navio a vapor, a locomotiva, o automóvel e o avião. A unidade da ciência foi exempli­ficada pela adaptação, alguns anos após [41] sua descoberta, do trabalho de Louis Pasteur sobre bactérias feito em Paris à prática de cirurgia antisséptica por Joseph Lister, na Escócia. Passou a ser fácil viver em áreas do mundo que anteriormente eram inabitáveis, ou habitáveis somente em um nível muito baixo de existência (citado em Burchell, 1966, p. 7).

Como escreveu, de forma eloqüente, Bronowski (1973) em seu capítulo A busca pelo poder, de A escalada do homem, a Re­volução Industrial tornou o mundo “nos­so”. De fato, a Revolução Industrial mar­cou uma virada no progresso da humani­dade, por ter proporcionado tantos benefícios materiais e pessoais. Talvez ainda mais importante, criou conforto que a maioria dos cidadãos poderia obter e des­frutar. Assim, os bens passaram a estar dis­poníveis para muitos, em vez de apenas para uns poucos. Esses benefícios incluíam a máquina a vapor e suas muitas aplica­ções, o ferro e o aço e as estradas de ferro (transporte e comunicação eficientes para todos), para citar apenas alguns exemplos que surgiram no século XX.

A civilização ocidental foi definida por sua massa crítica de eventos e crenças es­perançosos. Antes do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Industrial, e mesmo durante a Idade Média, o pensa­mento esperançoso foi uma parte funda­mental do sistema de crenças da humani­dade. Se algumas áreas históricas não re­velam sinais importantes, ainda assim houve marcos implícitos de esperança. [42] Portanto, embora a Reforma e a Idade da Razão (1600-1700) não sejam destacadas aqui, esses períodos testemunharam importan­tes avanços que contribuíram para a socie­dade. A seguir, uma amostra de eventos de destaque nesses períodos:

  • O avanço do conhecimento, de Francis Bacon (1604)
  • Bússola proporcional, de Galileu (1606)
  • O início da construção intensa de es­tradas na França (1606)
  • O telescópio astronômico de Galileu (1608)
  • Descoberta da circulação sanguínea por Harvey (1619)
  • Publicação do Weekly News, em Londres (1622)
  • A abertura da primeira cafeteria, em Londres (1632)
  • A abolição da tortura na Inglaterra (1638)
  • Lançamento da Carta da Faculdade Harvard (1650)
  • Experimentos de Newton com a gravi­dade e sua invenção do cálculo diferen­cial (1665)
  • Estabelecimento do observatório de Greenwich (1681)
  • Abertura das primeiras cafeterias em Viena (1683)
  • Implementação da iluminação pública em Londres (1684)
  • Primeira feira comercial moderna, em Leiden, na Holanda (1689)
  • Pedro, o Grande, envia 50 estudantes russos para estudar na Inglaterra, na Holanda e em Veneza (1698)

Olhando para os eventos do Renasci­mento, do Iluminismo e da Revolução In­dustrial, talvez seja razoável considerar to­das as épocas, começando pelo Renasci­mento e seguindo até 1900, como parte de um novo período chamado a Era do Pro­gresso.

Essa Era do Progresso caracteriza a civilização ocidental e reflete o componen­te inerente do pensamento esperançoso. Como escreve Nisbet (1980, p. 4), em sua obra History of the idea of progress (Histó­ria da ideia de progresso). Nenhuma ideia foi mais importante do que, talvez, a ideia do progresso na civili­zação ocidental, por 3.000 anos. Enten­didas suas falhas e distorções, a ideia do progresso tem sido, em sua arrasadora maioria, uma ideia nobre na história oci­dental, nobre pelo que celebrou em in­contáveis obras filosóficas, religiosas, cien­tíficas e históricas, e, acima de tudo, pelo que significou para as motivações e aspi­rações daqueles que compuseram a subs­tância humana da civilização ocidental.

Essa fé no valor e na promessa de nossa civilização é essencial para o conceito de esperança, e vice-versa. Dessa forma, a esperança é a essência da fé no valor e na promessa de nossa civilização ocidental.

Conclusões

A esperança é a crença de que a vida pode ser melhor, junto com as motivações e os esforços para torná-la melhor. Mais do que desejar, ter anseios ou sonhar acor­dado, a esperança caracteriza o pensar que conduz a ações dotadas de sentido. Um anseio visualiza a mudança, mas pode não levar à ação. Pode-se desejar ganhar na loteria, mas isso não necessariamente leva a atividades importantes ou sustentadas para concretizá-lo. Mais além, as condições em torno da concretização de um anseio não são promissoras, porque pode haver poucos meios razoáveis ou, mesmo, realis­tas para fazê-lo.

Deve-se destacar que a civilização ocidental não detém o monopólio da ideia da esperança. Em todas as civilizações e pe­ríodos históricos, houve crenças e ativida­des esperançosas, mas a esperança não parece ser uma crença motivadora tão im­portante em todas as perspectivas cultu­rais. Por exemplo, nas culturas indígenas [43] dos Estados Unidos, há menos expectativa de progresso. Em lugar disso, se o meio ambiente for respeitado e cuidado, as coi­sas devem ficar bem, mas não necessaria­mente ótimas. A crença dessas culturas é de que as tradições e as crenças podem não trazer prosperidade, mas ajudarão a evitar os desastres. Nesse caso, então, as diferen­ças entre os dois sistemas podem ser mais quantitativas do que qualitativas. As cul­turas indígenas dos Estados Unidos não supõem que as ações positivas levem a re­ sultados positivos tanto quanto no sistema de crenças da civilização ocidental euro­péia, de modo que a esperança pode não ser uma força de motivação tão importan­te nas primeira culturas quanto no caso das segundas (Pierotti, comunicação pessoal,2005).

A ideia de esperança serviu como es­trutura para o pensamento na civilização ocidental. Como observou Bronowski (1973) em relação à Revolução Industrial, a esperança ajudou a tornar o mundo nos­so. Aonde a esperança nos levará, por sua vez, talvez seja a pergunta mais importan­te sobre o século XXI que se descortina.

Psicologia - Psicologia positiva
7/19/2020 3:05:47 PM | Por Charles Richard Snyder
Bem-vindo à Psicologia positiva

As ultimas linhas desse discurso feito por Robert F. Kennedy na Universidade do Kansas apontam para o conteúdo deste livro: as coisas que fazem com que a vida valha a pena. Entretanto, imagine que alguém se ofereça para ajudar a entender os seres humanos, mas, ao fazê-lo, ensine apenas acerca de seus defeitos e patologias. Ainda que pareça um exagero, um questionamento do tipo “O que há de errado com as pessoas?” orientou o trabalho da maioria dos praticantes da psicologia aplicada (clínicos, escolares, etc.) no século XX. Em virtude das muitas formas de falibilidade humana, essa pergunta gerou uma avalanche de idéias sobre o “lado obscuro” do ser humano. Contudo, à medida que o século XXI avança, começamos a nos fazer outra pergunta: “O que há de certo com as pessoas?”. Essa interrogação está no centro da iniciativa emergente da psicologia positiva, que é o enfoque científico e aplicado da descoberta das qualidades das pessoas e da promoção de seu funcionamento positivo. (Vide o artigo “Construindo as qualidades humanas,” [17] no qual o pioneiro da psicologia positiva, Martin E. P Seligman, apresenta suas visões sobre a necessidade desse campo.)

O produto nacional bruto não possibilita que nossas crianças tenham saúde, educação ou a alegria de brincar. Ele não inclui a beleza de nossa poesia ou a força de nossos casamentos, a inteligência de nosso debate público ou a integridade de nossas autoridades. Ele não mede a nossa inteligência nem a nossa coragem, nem a nossa sabedoria, nem os nossos ensinamentos, nem a nossa compaixão, nem nossa devoção a nosso país. Ele mede tudo, resumindo, com exceção daquilo que faz que a vida valha a pena. – Robert F. Kennedy

Embora outras subáreas da psicologia não tenham se concentrado nos defeitos das pessoas, a psicologia e a psiquiatria aplicadas do século XX geralmente o fizeram. Por exemplo, consideremos a declaração - atribuída a Sigmund Freud - de que o objetivo da psicologia deveria ser “substituir o sofrimento neurótico por felicidade comum” (citado em Simonton e Baumeister, 2005, p. 99). Dessa forma, a psicologia aplicada do passado estava mais relacionada à doença mental, e à compreensão e ao auxílio das pessoas que estavam vivenciando tais tragédias. A psicologia positiva, por sua vez, oferece um equilíbrio em relação a essa abordagem anterior, sugerindo que também devemos explorar as qualidades das pessoas, junto com seus defeitos. Ao defender esse foco nas qualidades, contudo, de forma nenhuma pretendemos diminuir a importância e a dor associadas ao sofrimento humano. [18] A ciência e a prática da psicologia positiva estão direcionadas para a identificação e a compreensão das qualidades e virtudes humanas, bem como para o auxílio no sentido de que as pessoas tenham vidas mais felizes e mais produtivas. Ao entramos no século XXI, estamos em condições de estudar toda a dimensão humana explorando recursos e desvantagens psicológicas. Apresentamos este livro como um guia para essa jornada e para dar as boas-vindas àqueles de vocês que são novos nessa abordagem. Neste capítulo, começamos orientando o leitor em relação aos benefícios potenciais de se concentrar no positivo, seja durante a vida cotidiana seja na pesquisa [20] em psicologia. Nesta primeira parte, mostramos como uma reportagem de jornal positiva pode iluminar o que está certo no mundo e como contar esse tipo de história pode gerar reações muito favoráveis entre os leitores. Na segunda parte, discutimos a importância de uma perspectiva equilibrada envolvendo as qualidades e os defeitos das pessoas. Estimulamos os leitores a não se enredarem no debate entre os campos das qualidades e dos defeitos, sobre qual deles reflete melhor a “verdade”. Em terceiro, exploramos a atenção que a psicologia atual tem dado às qualidades humanas. Na quarta seção, levamos o leitor a perceber suas reações emocionais típicas e discutimos como isso pode condicionar sua forma de ver o mundo. Além disso, compartilhamos um de nossos sábados como exemplo típico dos pensamentos e sentimentos que caracterizam a psicologia positiva. Na quinta seção, que segue, guiamos o leitor pelas oito principais partes do livro e lhe apresentamos panoramas breves dos conteúdos de cada capítulo. Por fim, sugerimos que a psicologia positiva representa uma potencial “era de ouro” nos Estados Unidos do século XXI.

Gostaríamos de destacar dois aspectos sobre a postura que assumimos ao escrever este volume. Em primeiro lugar, acreditamos que os maiores benefícios podem advir de uma psicologia positiva baseada nos mais recentes e mais rigorosos métodos experimentais. Resumindo: uma psicologia positiva duradoura pode ser construída a partir de princípios científicos. Sendo assim, em cada capítulo apresentamos o que consideramos as melhores bases de pesquisa disponíveis para os vários tópicos que exploramos. Ao utilizar essa abordagem, contudo, descrevemos a teoria e as conclusões de vários pesquisadores, em lugar de aprofundar ou detalhar seus métodos. Nossa fundamentação para adotar essa postura que opta pela “superfície em detrimento da profundidade” vem do fato de que este é um livro de nível introdutório, mas os métodos usados para deduzir as várias conclusões da psicologia positiva representam os melhores e mais sofisticados projetos de pesquisa e estatísticas no campo da psicologia.

Em segundo, embora não tratemos em um capítulo separado dos fundamentos da fisiologia e da neurobiologia (e, ocasionalmente, os evolutivos) da psicologia positiva, consideramos essas perspectivas muito importantes. Portanto, nossa abordagem discute os fatores fisiológicos, neurobiológicos e evolutivos no contexto dos tópicos específicos tratados em cada capítulo. Por exemplo, no capítulo sobre autoeficácia, otimismo e esperança, discutimos as forças neurobiológicas subjacentes. Da mesma forma, no capítulo sobre gratidão, exploramos os padrões de ondas cardíacas e cerebrais que estão por trás delas. Além disso, ao discutir o perdão, mencionamos as vantagens evolutivas dessa resposta.

Passando do Negativo ao Positivo

Suponha que você seja um repórter de jornal com a tarefa de descrever os pensamentos e ações das pessoas que estão presas em um aeroporto, em uma sexta-feira à noite, em função do mau tempo. O conteúdo da reportagem sobre esse tipo de situação provavelmente seria negativo e cheio de ações que retratam as pessoas de um ponto de vista muito desconfortável. Essas histórias são do mesmo gênero que as ênfases apresentadas pelos psicólogos do século XX em relação aos seres humanos, mas, como veremos, nem todas as histórias são negativas em relação às pessoas. [21]

Uma reportagem positiva

Compare as reportagens negativas à seguinte história contada por um autor consagrado em um jornal local (Snyder, 2004d, p. D4). A cena se passa no Aeroporto Internacional de Filadélfia, sexta-feira à noite, no momento em que os voos chegam com atraso ou são cancelados.

... pessoas que estão tentando fazer o melhor possível a partir de situações difíceis. Por exemplo, quando um soldado do Exército, recém-chegado do Iraque, deu-se conta de que havia perdido a aliança de sua namorada, os funcionários do aeroporto e todos nós que estávamos no saguão de espera imediatamente começamos a procurar. Em pouco tempo, o anel foi encontrado, e se ouviu um grito de alegria da multidão.

Por volta de 19h40, o alto-falante nos disse que haveria atrasos ainda mais longos em vários voos. Para minha surpresa e prazer, descobri que meus companheiros viajantes (e eu) simplesmente demos conta da situação. Alguns tiraram coisas de comer que haviam guardado nas bolsas e ofereceram esses tesouros aos outros. Apareceram baralhos, e vários jogos tiveram início. As companhias aéreas distribuíram lanches. Havia explosões de gargalhadas.

Como se fôssemos soldados esperando nas trincheiras durante um momento de calma entre batalhas, alguém ao longe começou a tocar uma gaita. Meninos fizeram uma quadra de beisebol - e, à medida que seu jogo avançava, ninguém parecia se importar com o quanto uma de suas bolas passaria perto. Embora não houvesse lugares para todos se sentarem, as pessoas usaram a criatividade para fazer cadeiras e sofás com suas bagagens. As pessoas que tinham computadores os pegaram e jogaram videogames umas com as outras. Um cara até transformou a tela do seu em um dispositivo semelhante a um drive-in, no qual várias pessoas assistiram ao filme Matrix. Eu usei o meu notebook para escrever esta coluna.

Uma vez, ouvi dizer que a virtude está em fazer coisas simples quando todo mundo está enlouquecendo. Quando bradar, gritar, ficar com raiva, incomodar-se e geralmente perder a cabeça parecem estar próximos, é maravilhoso, em lugar disso, ver a beleza aconchegante das pessoas, como raios de sol em um dia frio.

Reações a essa reportagem positiva

Depois que essa reportagem positiva apareceu, eu (C.R. Snyder) não estava preparado para as reações dos leitores. Nunca havia escrito qualquer coisa que gerasse tantos elogios sinceros e tanta gratidão. Já na primeira semana depois da publicação, fui inundado com e-mails elogiosos. Alguns falavam de como a reportagem os fez lembrar momentos em que testemunharam as pessoas se comportando da melhor maneira possível. Outros escreviam sobre como esse texto jornalístico os fez se sentirem melhor pelo resto do dia e até mesmo por vários dias depois disso. Várias pessoas disseram que gostariam que houvesse mais matérias dessas no jornal. Nem uma única pessoa, entre as respostas que recebi, tinha qualquer coisa negativa para dizer sobre a coluna.

Por que as pessoas reagiriam de forma tão igualmente receptiva a essa breve história sobre uma sexta-feira à noite no aeroporto de Filadélfia? Em parte, elas provavelmente querem ver e ouvir mais sobre a bondade nos outros. Seja por meio de reportagens como essa, seja por meio dos estudos científicos e aplicações que apresentamos neste livro, há uma sede de saber mais sobre o que há de bom nas pessoas. É como se o sentimento coletivo fosse: “Basta de toda essa negatividade em relação às pessoas!”.

Ao escrever este livro sobre psicologia positiva, experimentei os efeitos edificantes de revisar as muitas aplicações em pesquisa e clínica que estão surgindo sobre o estudo das qualidades humanas e das emoções positivas. Ao ler sobre as qualidades de seu semelhante e sobre os muitos recursos que promovem o melhor nas pessoas, verifique se você também se sente bem. Há muitas coisas pelas quais é possível elogiar as pessoas, e daremos muitos exemplos disso.

A Psicologia positiva busca uma visão equilibrada e mais completa do funcionamento humano

Ver apenas o que há de bom nas próprias reações e o que há de ruim nas dos outros é um defeito humano comum. Validar somente os lados positivos ou negativos da experiência humana não é uma atitude produtiva. É muito tentador concentrar-se apenas no bom (ou no mau) do mundo, mas isso não é boa ciência, e não podemos cometer esse erro ao promover a psicologia positiva. Embora não concordemos com os preceitos dos modelos anteriores baseados nas patologias, seria errado descrever seus defensores como maus estudiosos, maus cientistas, maus profissionais ou más pessoas. Em lugar disso, esse paradigma anterior foi promovido por pessoas bem-intencionadas e inteligentes, que estavam respondendo a determinadas circunstâncias de sua época.

Da mesma forma, essas pessoas não estavam equivocadas com relação à descrição do ser humano. Elas desenvolveram diagnósticos e abordagens para esquizofrenia, depressão e alcoolismo e validaram muitos tratamentos eficazes para problemas específicos, como transtorno de pânico e fobias em relação a sangue ou a se machucar (vide Seligman, What you can change and what you can’t, 1994).

Assim, os que operaram dentro do modelo das patologias estavam bastante corretos em suas descrições de algumas pessoas em determinadas épocas de suas vidas. Eles também conseguiram ajudar certas pessoas com problemas específicos. Não obstante, os defensores da abordagem das patologias descreveram a humanidade de forma incompleta. Não resta dúvida de que o negativo é parte da humanidade, mas apenas uma parte. A psicologia positiva oferece um olhar sobre o outro lado, ou seja, o que é bom e forte na humanidade e em nossos ambientes, junto com formas de cultivar e sustentar essas qualidades e recursos.

Embora exploremos o positivo, enfatizamos que essa metade não representa a totalidade da história, mais do que o lado negativo. Futuros psicólogos devem desenvolver uma abordagem includente que examine os defeitos e as qualidades das pessoas, bem como os fatores de estresse e os recursos que estão presentes no ambiente. Essa abordagem seria a mais abrangente e válida. Entretanto, ainda não chegamos a esse ponto, porque faltam desenvolver e explorar completamente a ciência e a prática da psicologia positiva. Somente quando tivermos realizado esse trabalho de detetive sobre as qualidades das pessoas e os muitos recursos dos ambientes positivos é que seremos verdadeiramente capazes de entender os seres humanos de forma equilibrada. Nossa tarefa nestas páginas é compartilhar com você o que sabemos sobre psicologia positiva nesse momento relativamente inicial de seu desenvolvimento.

Vislumbramos o momento futuro, no campo da psicologia, em que o positivo terá tantas probabilidades quanto o negativo de ser usado para avaliar as pessoas e as ajudar a ter existências mais satisfatórias. Esse tempo provavelmente chegará durante a vida dos leitores deste livro. Alguns de vocês podem ir em busca de carreiras em psicologia nas quais irão levar em consideração as qualidades das pessoas, junto com seus defeitos. Na verdade, acreditamos [22] muito que nossa geração será a que implementará uma psicologia que equilibre verdadeiramente os preceitos de uma abordagem positiva com os da orientação anterior, voltada às patologias. Também esperamos que os pais de hoje em dia usem técnicas de psicologia positiva para servir de alicerce às suas famílias e trazer à tona o melhor em seus filhos. Da mesma forma, vislumbramos um tempo em que crianças em idade escolar e jovens sejam valorizados tanto por suas qualidades principais quanto por suas notas em provões ou vestibulares.

Dedicamos este livro a vocês. Como vocês podem ser os condutores da psicologia com um equilíbrio entre positivo e negativo que acabará por nascer, alertamos para o debate que já está em andamento sobre a superioridade de uma abordagem em relação à outra. Na próxima seção, tentamos inoculá-los contra o pensamento do tipo “nós contra eles”.

Visões da realidade que incluem o positivo e o negativo

A realidade reside nas percepções das pessoas sobre os eventos e os acontecimentos no mundo (Gergen, 1985), e as perspectivas científicas, portanto, dependem de quem as defina. Nessa linha, os “campos” da psicologia positiva e da patologia podem entrar em choque sobre como construir sistemas significativos para entender nosso mundo. Sobre esse processo de negociação da realidade (isto é, o avanço em direção a visões de mundo sobre as quais haja acordo), Maddux, Snyder e Lopez (2004, p. 326) escreveram o que segue:

Os significados desses e de outros conceitos não são revelados pelos métodos da ciência, e sim negociados entre as pessoas e instituições da sociedade que têm interesse em suas definições. Aquilo que as pessoas chamam de “fatos” não são verdades, e sim reflexos de negociações da realidade por parte dessas pessoas que têm interesse em usar os “fatos”.

Sendo assim, quer se acredite na perspectiva da psicologia positiva quer na da patologia, deve-se ter claro que esse debate envolve construções sociais sobre esses fatos. Em última análise, as visões predominantes estão vinculadas a valores sociais dos indivíduos, grupos e instituições mais poderosos da sociedade (Becker, 1963). Igualmente, como as visões predominantes são construções sociais que contribuem para os objetivos e valores socio-culturais vigentes, tanto a perspectiva das patologias quanto a psicologia positiva oferecem diretrizes sobre como as pessoas deveriam viver suas vidas e o que faz com que valha a pena vivê-las. Acreditamos que tanto a visão da psicologia positiva quanto a visão mais tradicional baseada nas patologias são úteis, de forma que seria um erro enorme continuar o debate “nós contra eles” entre esses dois grupos. Os profissionais dos dois campos querem entender e ajudar as pessoas. Para chegar a esses objetivos, a melhor solução científica e prática é adotar ambas as perspectivas. Dessa forma, embora introduzamos os preceitos, a pesquisa e as aplicações da psicologia positiva neste livro-texto, fazemos isso como forma de acrescentar a abordagem baseada nas qualidades como complemento a idéias que foram deduzidas a partir do modelo anterior, baseado nos defeitos. Estimulamos os leitores deste livro - que acabarão por se tornar os líderes no campo - a evitar ser arrastados para o debate que visa provar o modelo da psicologia positiva ou o das patologias.

Onde nos encontramos e quais serão as nossas interrogações

A psicologia positiva encontra-se atualmente em um período de expansão, nem [23] tanto em termos de porcentagem relativa no campo todo que ela representa, mas em termos da influência dessas ideias para chamar a atenção da comunidade da psicologia em particular e da sociedade em geral. Uma conquista notável do movimento da psicologia positiva nesta primeira década foi o sucesso no aumento da atenção dada a suas teorias e conclusões de pesquisa.

O psicólogo da Universidade da Pensilvânia, Martin Seligman, deve ser destacado por ter dado início à recente explosão de interesse na psicologia positiva, bem como por ter lhe dado o nome de psicologia positiva. (Abraham Maslow foi quem realmentec unhou a expressão psicologia positiva quando a usou como título de um Capítulo em seu livro de 1954, Motivação e personalidade.) Cansado do fato de que a psicologia não estava rendendo suficiente “conhecimento do que faz com que a vida valha a pena” (Seligman e Csikszentmihalyi, 2000, p. 5; observe a semelhança de sentimento em relação ao lamento de Robert Kennedy sobre o produto interno bruto, na citação de abertura deste capítulo), Seligman buscou um tema provocativo quando se tornou presidente da Associação Norte-Americana de Psicologia em 1998. Foi durante sua gestão que ele usou sua posição privilegiada para chamar atenção ao tópico da psicologia positiva. Desde aquela época, Seligman trabalhou de forma incansável para dar início a conferências e programas de financiamento para pesquisa e às aplicações dessas à psicologia positiva. Durante todo o tempo em que esteve à frente do crescente movimento da psicologia positiva, Seligman lembrou aos psicólogos que a espinha dorsal da iniciativa deveria ser a boa ciência. Sem dúvida, portanto, temos uma dívida de gratidão para com os esforços continuados de Martin Seligman para garantir que a psicologia positiva prospere.

Às vezes, cometeremos erros em nossa busca pelas qualidades humanas. Contudo, fazendo um balanço, acreditamos firmemente que essa busca resultará em algumas idéias maravilhosas sobre a humanidade. Ao avaliar o sucesso da psicologia positiva, sustentamos que ela deve ser submetida aos mais elevados padrões da lógica da ciência. Da mesma forma, a psicologia positiva deve passar pelas análises de mentes céticas, mas abertas. Deixamos essa função importante para vocês.

Qual é a sua cara? Uma foto da Psicologia positiva em tamanho “passaporte”

Ao começarmos essa jornada na psicologia positiva, pedimos-lhe que pegue sua foto de passaporte. Ela servirá como sua identificação para passar pelos vários territórios da psicologia positiva. Feche os olhos e relaxe por alguns segundos. Em seguida, pense sobre o rosto que a maioria das pessoas vê quando você faz suas atividades cotidianas. Quando tiver um rosto em mente, abra os olhos e veja a fila de rostos simples na Figura 1.1. Faça um círculo ao redor do que melhor se parece com você, entre essas possibilidades. Lembre- se, esse não é o rosto que você quer que os outros vejam, mas o que eles realmente veem.

Em vários momentos deste livro, falamos sobre como as pessoas reagem às outras. O rosto humano - a cara - muitas vezes é o que os outros olham quando formam uma impressão.

Na verdade, o rosto está relacionado ao termo básico para o subcampo da psicologia chamado de personalidade. Nas antigas tragédias e comédias, os atores (todos homens) seguravam máscaras que representavam os papéis que estavam desempenhando. A palavra para essa máscara era persona. Assim, nossas máscaras são o que os outros veem. O ator Jack Nicholson é conhecido por seu sorriso, que é sua forma permanente de demonstrar sua postura despreocupada e divertida em relação à vida.

Figura 1.1

Depois de decidir que rosto melhor se ajusta a você, acrescentaríamos imediatamente que a forma como você está se sentindo será influenciada pelas coisas que lhe aconteceram este mês, esta semana, hoje ou, talvez, há apenas cinco minutos. Portanto, geralmente sorrimos quando tivemos êxito na busca de um objetivo importante. Examinemos aqui a experiência de total satisfação do ciclista Lance Armstrong quando se deu conta de que iria vencer pela sexta vez seguida a Volta da França na prova de 2004. (É claro, um ano mais tarde, em sua última corrida antes de se aposentar do ciclismo, Armstrong venceu sua sétima Volta da França).

No artigo, “You smile, I smile” (Você sorri, eu sorrio, 2002), Roger Martin conta um incidente pessoal no qual ele foi profundamente influenciado pelo sorriso de uma pessoa que encontrou. Você alguma vez já se deparou com uma pessoa que sorriu para você, e você respondeu com um sorriso igualmente grande? Somos criaturas sociais e, como exploramos no Capítulo 7, nossas emoções são parte de nossa felicidade e nossa satisfação na vida. Nos Mini experimentos pessoais (p. 201), apresentamos diferentes atividades para você experimentar com vistas a melhorar seu estado emocional.

Um sábado recente: um exemplo de Psicologia positiva

Permitam-me (C.R.S.) usar hoje um exemplo de onde encontrar psicologia positiva, bem como de onde não a encontrar. Sendo sábado, ligo o rádio. Minhas preferências para rádio mudaram nos últimos tempos.

Eu costumava escutar música country, na qual ouvia histórias de como alguém perdeu a namorada, o emprego, o cachorro ou a caminhonete. As melodias eram muito parecidas, assim como o eram as letras cheias de angústia. Pode ser o caso de que essas letras repetidamente negativas tenham-me levado a uma estação de rádio que toca os clássicos, não os clássicos do rock-and-roll dos anos de 1960 e 1970, mas obras de Beethoven, Handel, Chopin e outros. Suas melodias parecem fortes e enriquecedoras.

Na hora do almoço, esbanjo e vou à Baskin-Robbins para um sorvete de chocolate com amêndoas, com mais uma bola [25] de flocos em cima. Depois, corto a grama do jardim e, em um momento de altruísmo, decido também cortar a da minha vizinha. Na metade do serviço, ela sai e me diz: “Não é necessário fazer isso!”. Eu sei, claro, e provavelmente seja por isso que é tão gratificante. Considero ajudar os outros como, talvez, a atividade mais prazerosa na vida. (Voltaremos a esse tema mais tarde.)

A essas alturas, já são 3h da tarde e estou de volta em casa, trabalhando neste capítulo. Ouço a campainha. Abro a porta, e lá está meu neto de nove meses, Trenton. Seu pai me pergunta se posso cuidar dele o resto do dia (incluindo passar a noite), e digo que sim, imediatamente. Eu não costumava ser tão entusiasmado em relação a ficar com crianças, mas mudei muito depois dos cinqüenta. Estou fascinado com bebês e crianças pequenas, e gosto de brincar com eles, observá-los, dar-lhes de comer e assim por diante. Durante grande parte da tarde, Trenton e eu ficamos sentados no gramado do jardim, olhando passarinhos, esquilos, coelhos e qualquer coisa que se mexesse, especialmente as pessoas que sorriem quando passam, parece que com pressa, na calçada da frente. Fico pensando para onde é que elas vão com tanta pressa.

Para mim, é um grande prazer ver meu neto enxergar essas coisas pela primeira vez - tudo parece tão novo para ele, e isso respinga em mim. Dou-lhe de comer e não me incomodo com o fato de que ele põe mais em mim e ao redor dele do que na boca. Coloco-o no andador, e caminhamos bastante. Ele adora estar na rua, e eu adoro estar com ele.

Quando voltamos, minha mulher já chegou do trabalho, e me decepciono por ela querer ficar com o bebê. Então, monto um velho balanço que ganhamos, com minha mulher furiosa porque não uso escada, e sim subo em uma precária mesinha de madeira. O balanço já está pendurado em um galho de árvore. Depois do jantar, [26] decidimos colocar Trenton na cadeirinha de crianças, e ele vai direto para o chão, pois é muito pesado. Rebecca e eu rimos de meu planejamento não muito perfeito.

Quando se vê, já é hora do ritual de ir para a cama - e, para qualquer leitor que tenha (ou tenha tido) filhos, esse processo provavelmente é muito conhecido e envolve uma luta de vontades em que, neste caso, os avós e o neto, cansados e exaustos, acabam desabando de sono. (Quando pegamos no sono, minha mulher e eu parecemos a antítese das imagens nos catálogos românticos e sensuais de lojas de lingerie [27] que mostram estrelas de Hollywood. Em lugar delas, nossa roupa de dormir geralmente é composta de calças de moletom muito antigas, manchas do jantar ou de “coisas que fomos consertar em casa”, baba de criança seca ou coisa pior... Nossos pijamas poderiam ser chamados de “Estrelas do Kansas”.)

Essa breve crônica de sábado ilustra várias coisas acerca de psicologia positiva. De longe, o aspecto mais positivo de meu dia está relacionado a fazer coisas com outras pessoas. Cortar a grama da vizinha e cuidar de meu neto são muito gratificantes. Essas atividades lhe dão uma ideia de como e onde a psicologia positiva “funciona” para mim. Muito do prazer que fluiu desse sábado de verão veio de minha capacidade de manter o foco de minhas atividades nas coisas que me dão prazer. Na verdade, o positivo está ao redor da maioria de nós. Observe, também, que nem todas essas atividades resultam de ações hedonistas positivas; em lugar disso, as atividades que são, de longe, as mais gratificantes estão vinculadas a ajudar os outros. Dar é receber. Esse é apenas um dos paradoxos surpreendentes sobre a psicologia positiva que iremos deslindar para você neste livro.

Um guia para este livro

Este livro foi escrito tendo os leitores em mente. Por meio de nosso trabalho conjunto, perguntamos um ao outro: “Este capítulo trará a psicologia positiva para a vida dos alunos?”. Essas discussões nos ajudaram a entender que o livro precisava ser um excelente resumo da ciência e da prática da psicologia positiva e que teria que conquistá-los para aplicar seus princípios em seu dia-a-dia. Com esse objetivo em mente, tentamos destilar os mais rigorosos estudos da psicologia positiva e as estratégias de prática mais eficazes, e construímos dúzias de miniexperimentos e estratégias pessoais que promovem seu envolvimento com os aspectos positivos nas pessoas e no mundo. Ao terminar de ler este livro, vocês estarão mais informados sobre psicologia e terão se tornado mais hábeis para capitalizar suas características humanas fortes e gerar emoções positivas, o que configura nosso objetivo.

Dividimos este livro em oito partes. Na Parte I, “Um olhar positivo sobre a psicologia”, há quatro capítulos. O Capítulo 1, que você está quase terminando de ler, é introdutório. Nosso propósito foi lhe dar uma ideia do entusiasmo que sentimos em relação à psicologia positiva e compartilhar algumas das questões fundamentais que movem o desenvolvimento desse novo campo. Os Capítulos 2 e 3 se chamam “Perspectivas ocidentais sobre a psicologia positiva” e “Perspectivas orientais sobre a psicologia positiva”, respectivamente. Neles, você verá que, embora haja vínculos óbvios da psicologia positiva com as culturas ocidentais, também há temas importantes para as culturas orientais. O Capítulo 4, “Classificações e medidas das qualidades e resultados positivos do ser humano”, dará uma ideia de como os psicólogos classificam os vários tipos de qualidades humanas. Para leitores familiarizados com o modelo de psicologia mais tradicional, baseado em patologias, essa seção irá oferecer uma classificação que serve de contraponto, construída a partir das qualidades humanas.

Na Parte II, “Psicologia positiva em contexto”, dedicamos dois capítulos aos fatores associados ao bem-viver. No Capítulo 5, “Desenvolvendo as qualidades humanas e vivendo bem em um contexto cultural”, examinamos como as forças da sociedade e do ambiente ao nosso redor podem contribuir para uma sensação de bem-estar. Mais além, no Capítulo 6, “Vivendo bem em todas as etapas da vida”, mostramos como as atividades de infância podem ajudar uma pessoa a se tornar adaptativa mais tarde.

A Parte III, “Estados e processos emocionais positivos”, consiste em dois capítulos sobre tópicos que dizem respeito a [28] processos relacionados às emoções. No Capítulo 7, “Os princípios do prazer: entendendo a afetividade positiva, as emoções positivas, a felicidade e o bem-estar”, tratamos da pergunta freqüente: “O que torna uma pessoa feliz?”. No Capítulo 8, “Fazendo o melhor de nossas experiências emocionais: enfrentamento voltado às emoções, à inteligência emocional, à seletividade socioemocional e à narração emocional de histórias”, apresentamos novas descobertas com relação às emoções como recursos extremamente importantes para atingir nossos objetivos.

Na Parte IV “Estados e processos cognitivos positivos”, incluímos três capítulos. O Capítulo 9, “Observando nossos futuros por meio da autoeficácia, do otimismo e da esperança”, trata das três motivações mais pesquisadas para enfrentar o futuro: autoeficácia, otimismo e esperança. No Capítulo 10, “Sabedoria e coragem: duas virtudes universais”, examinamos os tópicos de psicologia positiva, envolvendo os recursos que as pessoas trazem para circunstâncias que ampliam suas habilidades e sua capacidade. Da mesma forma, no Capítulo 11, “Mindfulness, flow e espiritualidade: em busca das melhores experiências”, discutimos como as pessoas se conscientizam do processo permanente de pensar e sentir, junto com a necessidade humana de acreditar em forças maiores e mais poderosas do que elas próprias.

Na Parte V, “Comportamento pró-social”, descrevemos as ligações positivas gerais que os seres humanos têm com outras pessoas. No Capítulo 12, “Empatia e egotismo: portais para o altruísmo, a gratidão e o perdão”, mostramos como os processos relacionados à bondade operam em benefício das pessoas. E, no Capítulo 13, “Vínculo, amor e relacionamentos que prosperam”, analisamos a importância dos vínculos humanos íntimos para uma série de resultados positivos.

A Parte VI, “Compreendendo e mudando o comportamento humano”, descreve como prevenir que aconteçam coisas negativas, bem como fazer que coisas positivas aconteçam. O Capítulo 14, “Conceituações equilibradas de saúde mental e comportamento”, e o Capítulo 15, “Intercedendo para prevenir o que é ruim e potencializar o que é bom”, ajudará você a ver como as pessoas podem melhorar suas circunstâncias de vida.

A Parte VII, ‘Ambientes positivos”, observa ambientes específicos. No Capítulo 16, “Escolarização positiva”, descrevemos descobertas recentes relacionadas a resultados positivos na aprendizagem para estudantes. No Capítulo 17, “Bom trabalho: a psicologia do emprego gratificante”, discutimos os componentes de empregos que são produtivos e satisfatórios. E, no Capítulo 18, “O equilíbrio eu/nós: construindo comunidades melhores”, sugerimos que os ambientes mais produtivos e satisfatórios são aqueles em que os habitantes possam manifestar algum sentido de que são especiais e algum sentido de semelhança com relação a outras pessoas.

O livro se encerra com a Parte VIII, “Um olhar positivo sobre o futuro da psicologia”. Essa seção traz o Capítulo 19, “Tornando-se positivo,” no qual especulamos sobre os avanços no campo da psicologia positiva na próxima década. Além disso, convidamos especialistas da área para dar suas impressões sobre as questões fundamentais para o campo da psicologia positiva no século XXI.

Miniexperimentos pessoais

Na maioria dos capítulos (incluindo este), estimulamos que você teste as idéias de importantes psicólogos positivos. Em Miniexperimentos pessoais, pedimos que leve a psicologia positiva para dentro de sua vida, realizando o tipo de experimento que os pesquisadores da psicologia positiva podem dar a seus clientes como trabalho de casa. Alguns desses experimentos levam menos de meia hora para ser realizados, ao passo que outros levam mais de uma semana. [29]

Estratégias para melhorar a vida

Encontrar o positivo na vida cotidiana não requer, necessariamente, um experimento total. Na verdade, acreditamos que uma abordagem cuidadosa à vida do dia-a-dia revela o poder das emoções positivas e das qualidades humanas. Sendo assim, para os capítulos que tratam especificamente das emoções positivas, qualidades e processo saudáveis, elaboramos estratégias para melhorar a vida, que podem ser implementadas em uma questão de minutos. Decidimos desenvolver essas estratégias para ajudá-lo a atingir os três mais importantes resultados na vida: conexão com outras pessoas, busca de sentido e a vivência de algum grau de prazer ou satisfação. Especificamente, o amor, o trabalho e o lazer têm sido citados como os três grandes domínios da vida (Seligman, 1998e). Freud definiu a normalidade como a capacidade de amar, trabalhar e se divertir, e os pesquisadores da psicologia se referiram a essa capacidade como “saúde mental” (Cederblad, Dahlin, Hagnell e Hansson, 1995). Os pesquisadores do desenvolvimento descreveram o amor, o trabalho e o lazer como tarefas normais associadas ao crescimento humano (Icard, 1996) e como chaves para um envelhecimento saudável (Vaillant, 1994). Os profissionais interessados em psicoterapia consideram a capacidade de amar, trabalhar e se divertir como um aspecto do processo de mudança (Prigatano, 1992), ao passo que outros a veem como um dos principais objetivos da terapia (Christensen e Rosenberg, 1991). Embora um envolvimento integral na busca do amor, do trabalho e do lazer não garanta uma vida boa, acreditamos que ele é necessário para viver bem. Com essa ideia em mente, estimulamos você a participar das diversas estratégias para melhorar a vida que irão aprimorar sua capacidade de amar, trabalhar e se divertir.

Isso conclui nosso breve resumo de por onde planejamos ir nos capítulos que seguem e de nossas muitas esperanças em relação a você. Se você se envolver totalmente com o material e com os exercícios deste livro, obterá conhecimentos e habilidades que podem lhe ajudar a levar uma vida melhor.

Raramente, um estudante tem a oportunidade de testemunhar a construção de um novo campo desde o princípio. Se nosso trabalho foi feito como deveria ser, você irá sentir a emoção que vem de ter estado presente no início.

O Panorama geral

Apesar do horror e da incerteza do terrorismo e dos desastres naturais, os Estados Unidos do século XXI são prósperos, estáveis e estão em condições de atingir a paz. Em um momento tão positivo para sua evolução, uma cultura pode se concentrar em questões como virtudes, criatividade e esperança. Três culturas anteriores se depararam com eras positivas semelhantes. No século V a.e.c., Atenas usava seus recursos para explorar as virtudes humanas - bom caráter e boas ações. A democracia se formou durante esse período. Na Florença do século XV, riquezas e talentos eram empregados para promover a beleza. E a Inglaterra vitoriana usava seus recursos para uma busca das virtudes humanas de dever, honra e disciplina. Como as dádivas que emanam dessas épocas anteriores, talvez a contribuição dos Estados Unidos do século XXI resida na adoção e na exploração dos preceitos da psicologia positiva, isto é, do estudo e da aplicação do que é bom nas pessoas (Seligman e Csikszen- tmihalyi, 2000). Certamente, nunca em nossas carreiras testemunhamos um novo desenvolvimento no campo da psicologia que fosse potencialmente tão importante. Mas estamos nos adiantando, porque o verdadeiro teste virá quando novos estudantes forem atraídos para essa área. Por hora, damos as boas-vindas à psicologia positiva. [30]

Psicologia - Psicologia positiva
Todos os textos >>
Todos Psicologia >>
Todos Psicologia positiva >>

Quando os deuses querem nos punir, eles atendem às nossas preces.

Oscar Wild
Todas as citações
{+} Oscar Wild
REDES SOCIAIS
Psicologia positiva
Cultura
Desenvolvimento
Emoções positivas
Esperança
Inteligência emocional
Métodos e medidas
Texto
Virtudes
DESTAQUES
... o afeto é um componente da emo­ção e que a emoção é uma versão mais es­pecífica do humor
O afeto é a resposta fisiológica ime­diata de uma pessoa a um estímulo e ge­ralmente se baseia em uma sensação subjacente de excitação
... o afeto envolve a avaliação de um evento como prazeroso ou doloroso - ou seja, sua Valencia - e a experiência da exci­tação autonômica
As emoções ... envolvem julgamen­to em relação a coisas importantes, julga­mentos esses nos quais, avaliando um ob­jeto externo como sendo importante para nosso próprio bem-estar, reconhecemos nossa própria carência e imperfeição dian­te de partes do mundo que não controla­mos por inteiro
Uma emo­ção tem uma qualidade específica e “moldada”, dado que sempre tem um objeto .. e está associada ao avanço na busca de objetivos
A felicidade é um estado emocional positivo, subjetivamente definido por um pessoa. O termo raramente é usado em estudos científicos, pois há pouco consen­so em relação a seu significado
O bem-estar subjetivo é a avaliação subjetiva da própria situação atual no mun­do. Mais especificamente, ... o bem-estar subjetivo [é] uma combi­nação de afeto positivo (na ausência de afeto negativo) e satisfação geral com a vida (isto é, a apreciação subjetiva das gra­tificações da vida)
... ao vivenciar experiências positivas moderadas, temos mais probabilidades de: (1) ajudar outras pessoas; (2) ser flexíveis em nosso pensamento (3) produzir soluções para nossos proble­mas
Sentir emoções positivas também po­de ajudar a enxergar opções para solucio­nar problemas e descobrir pistas para to­mar boas decisões
... a experiência da alegria amplia os domínios daquilo que uma pessoa tem vontade de fazer no momento, o que se chama de ampliação do repertório momentâneo de pensamentos-ações de um indivíduo
... a alegria parece nos abrir para muitos pen­samentos e comportamentos, ao passo que as emoções negativas desanimam nossas idéias e ações
A alegria ... aumenta nossa pro­babilidade de nos comportarmos positiva­mente em relação a outras pessoas, assim como desenvolver mais relacionamentos positivos. Além disso, ... induz à ati­vidade lúdica ..., que é muito importante porque esses comportamentos são evolutivamente adaptativos na aquisi­ção dos recursos necessários
A atividade lúdica juvenil forma: (1) recursos sociais e intelectuais duradou­ros ao estimular o vínculo; (2) níveis mais elevados de criatividade e (3) desenvolvimento cerebral
... dados a am­pliação e os efeitos de fortalecimento das emoções positivas, a alegria e o contenta­mento podem funcionar como antídotos às negativas
... há uma in­compatibilidade entre emoções positivas e negativas e que os efeitos potenciais das experiências negativas podem ser compensados por emoções positivas, como alegria e contentamento
... teóricos da psicanálise e humanistas (Sigmund Freud e Abraham Maslow, respectivamente) sugeriram que a redução da tensão ou a satisfação das necessidades levaria à felicidade. Resumin­do, teorizou-se que somos felizes porque atingimos nossos objetivos. Essa “felicida­de da satisfação” faz da felicidade uma meta de nossas buscas psicológicas
No campo dos processos/atividades, as teorias postulam que se envolver em de­terminadas atividades na vida gera felici­dade
Estudos dos determinantes biológicos ou genéticos da felicidade concluíram que até 40% da emocionalidade positiva e 55% da negativa são de base genética
... tanto homens quanto mulheres casados informam ser mais feli­zes do que os que não são casados
Seligman (2002) sugere que, a partir da fe­licidade que resulta do uso de nossas quali­dades psicológicas, se pode construir uma vida prazerosa e dotada de sentido
... o nível de felici­dade crônica de uma pessoa é comandado por três principais fatores: um ponto de partida geneticamente determinado, fa­tores circunstanciais relevantes e ativida­des e práticas relevantes para a felicidade
... Lyubo­mirsky e colaboradores propõem que a ge­nética responde por 50% da variância na população em termos de felecidade, ao pas­so que as circunstâncias de vida (sejam boas ou más) e a atividade intencional (tentati­vas de viver de forma saudável e de fazer mudanças positivas) respondem por cerca de 10% e 40% da variância na população em termos de felicidade, respectivamente
... os autores consideram o funciona­mento ideal como sendo a combinação de bem-estar emocional (que é como se referem ao bem-estar subjetivo, definido como a presença de afeto positivo e satis­fação com a vida e a ausência de afeto ne­gativo), bem-estar social (incorporando a aceitação, realização, contribuição, coe­rência e integração) e o bem-estar psico­lógico (combinando autoaceitação, crescimento pessoal, propósito na vida, domínio do ambiente, autonomia, relações positi­vas com outras pessoas)
É muito fácil encontrar os aspectos desagradáveis e negativos das emoções e disfunções na vida ... Tudo o que você precisa fazer é ler o jornal matinal ou assis­tir ao telejomal da noite. Nossa necessida­de humana de entender o negativo é gran­de, por causa do sofrimento e da perda as­sociados à raiva e ao medo, bem como das funções evolucionárias das estratégias de evitação
“... parece que a forma como as pessoas percebem o mundo é muito mais importante para a felicidade do que as circunstâncias objetivas”
Área/conhecimento
Antropologia
Astronomia
Ciências humanas
Ciências naturais
Filosofia
História
Mitologia
Psicologia
Tema
Análise do comportamento
Epistemologia
Genética do comportamento
Gestalt
História da Psicologia
Licenciatura em Psicologia
Neuropsicologia
Psicanálise
Psicodiagnóstico
Psicologia Analítica
Psicologia da Saúde
Psicologia Escolar e Educacional
Psicologia Evolucionista
Psicologia humanista
Psicologia Jurídica
Psicologia positiva
Psicologia social
Sistema Nervoso
Tópicos
Angústia
Ansiedade
Avaliação psicológica
Biografia
Casos Clínicos
Cultura
Desenvolvimento
Educação
Emoções positivas
Esperança
Grupos
Hipnose
História
Inteligência emocional
Intervenção institucional
Materialismo histórico-dialético
Memória
Mente
Métodos e medidas
Personalidade
Preconceito
Psicologia social crítica
Psicopatologia
Psicoterapia
Saúde
Sistema límbico
Sono
Teorias de base
Texto
Vara Criminal e de Execuções
Virtudes
Autores
A. D. P. Serafim
A. S. Franchini
Alice Mills
Ana Maria Efron e cols
Ana Mercês Bahia Bock
André Bonnard
Anita Guazzeli Bernardes
Antone Minard
Antônio Daniel Abreu
Arthur Arruda Leal Ferreira
Calvin Springer Hall
Carl Gustav Jung
Carlos Augusto de Proença Rosa
Carlos Caballero Jurado
Carmen Seganfredo
Catherine Salles
Celana Cardoso Andrade
Charles Richard Snyder
Chester G. Starr
Christian Jacq
Christine el Mahdy
Claisy Maria Marinho-Araujo
Claudine Le Tourneur
Cláudio da Cunha
Cristiano Valério dos Santos
Dalia Ventura
Daniel C. Mobrabi
Daniel Defoe
David Hughes
David Levering Lewis
David Linden
David Rosenfeld
Deanna Paniataaq Kingston
Douglas Palmer
Duane P. Schultz
Eduardo Bueno
Elizabeth Dimock
Eva Ontiveros
Federico A. Arborio Mella
Fernanda Orsomazo
Fernando Vidal
Flávia Galil Tastch
Flávio Fortes DAndrea
Francis Joannès
Francisco Bethencourt
Francisco Teixeira Portugal
G. A. Trevarthen
Gabriel Cardona
Gaia Vince
Gerald Bernard Mailhiot
Greg Bailey
Gregory J. Feist
Hugo Elídio Rodrigues
Isabel Trindade
Iván Izquierdo
J. P. Ribeiro
James Graham-Campbell
Janine Trotereau
Jean Bottéro
Jean Vercoutter
Jess Feist
John Baines & Jaromir Málek
John Haywood
John Matthews
José Carlos Libâneo
José Luis Sanchez
José Roberto Guido
José Roberto V. Costa
Julliette Wood
Junito de Souza Brandão
Jurema Alcides Cunha
Karl Marx
Leontina Barca
Lillian M. Frazão
Luis Cláudio Mendonça Figueiredo
Luís Manuel de Araújo
Luiz Alexandre Rossi
Luiz Gonzaga Beluzzo
Márcia Gimenez
Marco Aurélio Antonino Augusto
Maria Ester Garcia Arzeno
Maria Luisa Siqueira de Ocampo
Marie Claire Sekkel
Marina Massimi
Mário Curtis Giordani
Mark Anthony Rolo
Martín Caparrós
Mary Beard
Mary Vincent
Michael Angold
Michael Roaf
Milton Rondó
Mirella Faur
Nanon Gardin
Nicolau Tadeu Arcaro
Okusitino Mahina
Osvaldo Iazzetta
Owen Jarus
Paul Gendrop
Paul Veyne
Paulo Dalgalarrondo
Pedrinho A. Guareschi
Pedro Pablo G. May
Philip Matyszak
Philip Wilkinson & Neil Philip
Phillipe Ariès
Pierre Grimal
Pierre Lévêque
Platão
Priscila Laroca
Reinaldo Dias
Richard Hycner
Richard O. Straub
Robert Dinwiddie
Robert Foley
Robert Graves
Roberto Amaral
Rosana Rios
Rudolf Simek
Sarah Bartlett
Saulo de Freitas Araújo
Shane J. Lopez
Sigmund Freud
Silvia Tatiana Maurer Lane
Simon Roberts
Sofia Lerche Vieira
Steven Mithen
Stuart B. Schwartz
Suzana Herculano-Houzel
Teresa Cristina Rego
Tomi-Ann Roberts
Vladimir Palmeira
Voltaire Schilling
Yolanda Cintrão Forguieri
Zaro Barach Nedelman Dreiblatt
Shane J. Lopez
Explore o templodeapolo.net
Astronomia
Ciências humanas
Ciências naturais
Filosofia
História
Mitologia
Psicologia
Templodeapolo.net
2019 - v.11.97
CONTATO
RECLAMAÇÕES DE DIREITOS
POLÍTICA DE PRIVACIDADE
SOBRE O TEMPLO

Templodeapolo.net desde 2007 - Todos os textos publicados e seus respectivos direitos são de resposabilidade de seus autores e editoras - Textos que não incluam a autoria não são propriedade do editor deste sítio. Para receber as referências nestes casos, clique no link respectivo e solicite autoria e referências. - O Templodeapolo.net não possui nenhuma finalidade comercial. Não há propaganda e esperamos continuar assim. A proposta do sítio é puramente acadêmica, consistindo na publicação de textos com temas variados, classificados e organizados contextualmente para facilitar as pesquisas e navegação. - Caso você seja autor de algum material publicado sem sua devida autorização, por favor entre em contato para remoção imediata. - O editor é psicologo graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUCGO. Pós graduado lato sensu em Psicologia Positiva pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS e stricto sensu Adult Learning and Global Change (ALGC) pela The University of British Columbia - UBC.

Templodeapolo.net ® Todos os direitos reservados aos seus respectivos proprietários.