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10/14/2019 4:07:49 PM | Por Federico A. Arborio Mella
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Religião Babilônica

As escolas teológicas estão empenhadas em duas frentes: de um lado, faz-se necessário simplificar o imenso panteão, recorrendo ao sincretismo, tentnado reduzir o número dos deuses e especificando que muitos deles não são, na realidade, mais que expressões diversas de um mesmo deus. De outro lado, é cada vez mais necessário disciplinas meticulosamente o culto em todo o país, indicando exatamente quais são os deuses menores para com quem se deve mostrar reverência. Para citar um exemplo, no grande templo de Marduk, seu filho Nabu, a sua família, toda a corte, os ministros, os servos, e por fim, seus quatro cães de caça. Uma lista longa. E para fazer a coisa em regra, acontecia que em todos os templos em honra a Marduk, espalhados pelo reino, deviam ser adorados precisamente os mesmos personagens, mesmo os cães, e a estes templos se enviavam "pergaminhos" com listas escrupulosas. Era responsabilidade dos sacerdotes prover de modo que não se esquecesse de nenhum.

O prestígio de Marduk está no ápice. Não só é o mais importante deus da Babilônia, mas até na Assíria conta tantos prosélitos quanto Assur, deus dos militares. Tuculti-Ninurta não percebera este fato, e assim adquirira a inimizada de um vasto setor da opinião pública.

O templo continua a ser um forte centro de poder religioso e financeiro. Em cada cidade há pelo menos uma dúzia e à cabeça de cada um está o Sumo Sacerdote (o Enu) com a mulher, também sacerdotisa (a Entu). O Enu é acima de tudo administrador do imenso partrimônio do templo e é coadjuvado por numerosos sacerdotes chamados geralmente, de Changu, significando mais ou menos contador ou atuário, e subdivididos em categorias segundo as funções: Achipu (exorcistas; magos); Baru (adivinhos, profetas); Calu (cantores, músicos, carpideiros).

Também eram alentadas as fileiras das sacerdotisas, na maioria as esposas dos Changu, e das prostitutas do templo, ou sagradas.

Originalmente a religião mesopotâmica baseava-se na adoração das forças fundamentais da natureza, pois as religiões dos povos asiânicos se assemelhavam as indo-européias primitivas. Os deuses dos sumérios, cuja concepção foi desenvolvida durante o quarto milênio a.e.c., fundiram-se com elementos semíticos da cultura acadiana, formando um grande conjunto de divindades que regulavam todos os aspectos dos fenômenos naturais e das aspirações humanas, assim como o governo de cada localidade, com uma hierarquia definida, embora imprecisamente.

Os deuses mesopotâmicos, como os helênicos, tinham atributos humanos, e eram superlativamente bons ou maus, dotados de força extraordinária e, como é natural, de imortalidade. Deles irradiava um esplendor, a luminosidade característica da sua divindade.

Os espíritos e deuses mesopotâmicos ocupam vários níveis hierárquicos; o mais baixo correspondia aos demônios e incluía os guardiães (anjos da guarda) de cada indivíduo. O nível mais elevado correspondia a tríade suprema: Na (Anu em babilônio), deus do céu e divindade suprema; Enlil, deus do ar, que governa efetivamente o universo; e Enki (Ea em babilônio), deus das águas, portador da inteligência suprema, amigo dos seres humanos. Três outros deuses pertenciam ao conselho superior que governa o mundo: dois deuses astrais, Nana (Sin em babilônio), deus lunar, que preside o calendário; e Utu (Shamash em babilônio), o deu solar, que é também o deus da justiça. O terceiro é Inana (Ishtar em babilônio), deusa do amor e da guerra. Em um nível secundário está seu esposo Dumuzi (Tamuz em babilônio), que ela trouxe para a “terra de onde não se volta” trocada por si mesma. 

Os deuses das cidades eram soberanos dos seus locais respectivos. No curso do tempo dois deles emergiram como divindades supremas, assumindo o papel de Enlil: Marduk, deus da Babilônia, e Ashur, da Assíria.

Uma variedade de mitos descreve a gênese dos deuses mais importantes e suas aventuras mais conhecidas. Os mitos mais salientes são aqueles relativos a origem do universo e ao grande dilúvio.

O poema Enuma elish (Quando no céu), conhecido por suas primeiras palavras, expõe o mito cosmogônico. Quando nada ainda tinha nome (isto é, nada tinha sido criado), Tiamat, a genitora, que representa o mar, confundia dentro de si todas as águas: Apsu, a água doce, e Mumu, representando as nuvens e a neblina. Dois deuses primordiais emergiram do caos cósmico: Lahu e Lahamu, personificando o aluvião, seguidos por Anshar e Kishar, os horizontes do céu e da terra. Da sua união nasceu Anu, o deus do céu. Anu deu a luz Nudimud, outro nome para Ea ou Enki, deu das águas, originalmente representando a própria terra. Depois nasceram os outros deuses, mas nada se dizia deles a não ser que eram ruidosos e turbulentos, prejudicando a paz de Tiamat. Por isso Tiamat, Apsu e Mumu decidiram eliminá-lo Mas Ba, amigo dos deuses e dos seres humanos, frustrou a conspiração com uma magia que paralisou Mumu e fez com que Apsu adormecesse; pôde assim aprisioná-lo, apoderar-se da sua coroa e matá-lo. Depois disso Ba voltou a sua moradia e engravidou a esposa, Damkina, que dele teve um filho, Marduk, com atributos extraordinários. Irritada, a imortal Tiamat declarou guerra aos deuses e pariu monstros terríveis para combatê-los sob as ordens do seu filho, Kingu. Informados por Ea do que estava acontecendo, os deuses ficaram apavorados, recusando-se a lutar. Só Marduk declarou que estava disposto a combater, impondo porém a condição, aceita pelos deuses, de que seria o seu líder. Marduk escolheu as armas: o arco e a flecha, o raio, uma rede e a tempestade. Assim equipado, enfrentou Tiamat, prendendo-a com a sua rede, lançou a tempestade na boca da deusa, mantendo-a aberta, e atravessou-a com uma flecha ate atingir seu coração. Os monstros de Tiamat fugiram, aterrorizados. Marduk prendeu Kingu com sua rede, retalhou o cadáver de Tiamat “como se fosse um peixe seco”, fazendo o céu com uma metade e a terra com a outra. Em seguida decapitou Kingu, e com o seu sangue Ba criou a humanidade.

Esse mito é uma adaptação babilônica de uma versão suméria mais antiga, porque os feitos de Marduk se baseiam nos atributos de Enlil, deus do ar. Há também uma versão alternativa para a origem da humanidade, apresentada no poema, Atrahasis, cujo tItulo babilônico era Inuma ilu awi-lum (Quando os deuses eram como os homens). Enquanto Enuma Elish constuía para os babilônios a representação mítica da origem do cosmos. Inuma ilu awi-lum era considerada a história mítica da origem da humanidade. De acordo com esse mito, certa vez os deuses se cansaram de trabalhar, e alguns deles chegaram a pôr fogo em suas ferramentas. Foi quando Ea propôs a criação dos seres humanos para que fizessem o trabalho dos deuses. Todos concordaram, e We, um dos denses — eventualmente o líder dessa revolta — foi sacrificado, e a deusa Mami (Nintu, a Mãe Terra) fez o primeiro homem, misturando o seu sangue com barro-Depois, outras deusas genitoras fizeram sete homens e sete mulheres, cuidando dos partos.

Esse mesmo mito é também uma das narrativas mesopotâmicas do dilúvio universal, história que será incorporada à Bíblia judaico-cristã, provavelmente por algum cativo judeu mais letrado na babilônia de Nabucodonosor II. De acordo com a continuação do poema Atrahasis, 1.200 anos depois da criação dos seres humanos a população tinha-se multiplicado de tal maneira que o seu clamor perturbou o sono de Enlil. Este, depois de tentar resolver o problema de vários modos, e vendo que os deuses não podiam impedir os seres humanos de continuar a procriar, decidiu exterminá-los com uma grande inundação. Ba, porém, avisou Utanapishtim, um homem reputado pela sua sabedoria, do que iria acontecer, instruindo-o a construir um grande barco para nele embarcar com a família e representantes de todas as espécies animais. Depois do dilúvio, Ba convenceu Enlil a perdoar Utanapishtim que, juntamente com a esposa, recebeu o dom da imortalidade.

A sombria religião mesopotâmica permeava a totalidade da vida das pessoas. Os seres humanos eram serviçais dos deuses, criados para trabalhar em seu lugar, devendo prestar-lhes serviços e homenagens continuas. Os deuses eram os proprietários da terra, os reis e sacerdotes eram apenas seus representantes.

Os deuses mesopotâmicos eram reverenciados como seres vivos, por meio de suas estátuas, nos templos respectivos. A estátua de cada deus ou deusa era guardada no templo que lhe era dedicado, na cella, normalmente na posição sentada. O ambiente era ricamente decorado, o deus vestido com ricas roupas, trocadas periodicamente, com flores e presentes por toda parte. Quatro refeições eram servidas diariamente, consumida pelos sacerdotes e os serviçais do templo, embora se acreditasse que o próprio deus as comia, por trás das cortinas. Nos festivais, a estatua do deus era carregada solenemente em procissão, acompanhada pelo povo.

Um aspecto peculiar do templo mesopotâmico era o Zigurate — uma estrutura de torres piramidais sobrepostas, cada uma menor do que a de baixo. A mais alta servia como observatório astronômico. Além das suas funções religiosas os templos tinham objetivos econômicos, educativos e científicos importantes. Possuíam amplas áreas agrícolas que exploravam com intermédio de gerentes, os uku, sob a direção de um supervisor geral, o nubanda. Esse sistema era responsável pela educação dos escribas e administrava a maioria das escolas. Os templos eram também centros de investigação cientifica, praticando o estio mesopotâmico característico de unir os procedimentos científicos aos exorcismos mágicos.

Embora a religião da Mesopotâmia fosse essencialmente cultista e ritualística, a cultura mesopotâmica combinava preceitos éticos elevados com normas de boa conduta, generosidade e modéstia semelhantes as dos credos monoteístas, com comandos rituais e pessoais cujo descumprimento era um pecado, sem levar em conta a intenção da pessoa faltosa. A regra geral era a obediência estrita aos superiores, desde o irmão mais velho, o pai e a mãe, o rei e os deuses. A discrição dos deuses, a recompensa pela boa conduta do fiel era uma vida longa, feliz, próspera, com saúde — essencialmente recompensas mundanas. A vida no outro mundo, o Aralu, a terra da qual não se volta, era uma espécie de Hades grego, onde a vida se passava no silêncio e na sombra, sob o domínio de Ereshkigal, irmã de Innana, e do seu marido Nergal. Os reis, contudo, podiam receber dos deuses do Inferno um vida post-mortem um pouco menos sombria, cercados pelos seus criados e tesouros.

A imortalidade, que Utanapishtim recebeu a titulo excepcional, não estava ao alcance dos seres humanos. O grande herói mítico da Suméria, Gilgamesh, rei legendário de Uruk, tentou sem êxito conseguir a imortalidade. O poema épico nos conta como, depois de muitas vicissitudes, recebeu de Utanapishtim o segredo para recuperar sua juventude: era preciso colher uma planta espinhenta no fundo do mar. Gilgamesh mergulhou, recolheu a planta e voltou à superfície, mas enquanto se refrescava com um banho ela foi roubada por uma serpente.

História - Civilização Babilônica
9/26/2019 5:01:36 PM | Por Junito de Souza Brandão
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Mito, Rito e Religião

É necessário deixar bem claro, nesta tentativa de conceituar o mito[1], que o mesmo não tem aqui a conotação usual de fábula, lenda[2], invenção, ficção, mas a acepção que lhe atribuíam e ainda atribuem as sociedades arcaicas, as impropriamente denominadas culturas primitivas, onde mito é o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais. Em outros termos, mito, consoante Mircea Eliade, é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípio, illo tempôre, quando, com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão-somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano.

Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo, que não era, começou a ser. De outro lado, o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é, por conseguinte, a parole, a palavra "revelada", o dito. E, desse modo, se o mito pode se exprimir ao nível da linguagem, "ele é, antes de tudo, uma palavra que [36] circunscreve e fixa um acontecimento".[3] Maurice Leenhardt precisa ainda mais o conceito: "O mito é sentido e vivido antes de ser inteligido e formulado. Mito é a palavra, a imagem, o gesto, que circunscreve o acontecimento no coração do homem, emotivo como uma criança, antes de fixar-se como narrativa".[4]

O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações. E, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se. E, como afirma Roland Barthes, o mito não pode, consequentemente, "ser um objeto, um conceito ou uma ideia: ele é um modo de significação, uma forma".[5] Assim, não se há de definir o mito "pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como a profere".

É bem verdade que a sociedade industrial usa o mito como expressão de fantasia, de mentiras, daí mitomania, mas não é este o sentido que hodiernamente se lhe atribuí.

 O mesmo Roland Barthes, aliás, procurou reduzir, embora significativamente, o conceito de mito, apresentando-o como qualquer forma substituível de uma verdade. Uma verdade que esconde outra verdade. Talvez fosse mais exato defini-lo como uma verdade profunda de nossa mente. É que poucos se dão ao trabalho de verificar a verdade que existe no mito, buscando apenas a ilusão que o mesmo contém. Muitos vêem no mito tão-somente os significantes, isto é, a parte concreta do signo. É mister ir além das aparências e buscar-lhe os significados, quer dizer, a parte abstrata, o sentido profundo.

Talvez se pudesse definir mito, dentro do conceito de Carl Gustav Jung, como a conscientização dos arquétipos do inconsciente coletivo, quer dizer, um elo entre o consciente e o inconsciente coletivo, bem como as formas através das quais o inconsciente se manifesta.

Compreende-se por inconsciente coletivo a herança das vivências das gerações anteriores. Desse modo, o inconsciente coletivo expressaria a identidade de todos os homens, seja qual for a época e o lugar onde tenham vivido.

Arquétipo, do grego arkhétypos, etimologicamente, significa modelo primitivo, ideias inatas. Como conteúdo do inconsciente coletivo foi empregado pela primeira vez por Jung. No mito, esses conteúdos remontam a uma tradição, cuja idade é impossível determinar. Pertencem a um mundo do passado, primitivo, cujas exigências espirituais são semelhantes às que se observam entre culturas primitivas ainda existentes. Normalmente, ou didaticamente, se distinguem dois tipos de imagens:

a) imagens (incluídos os sonhos) de caráter pessoal, que remontam a experiências pessoais esquecidas ou reprimidas, que podem ser explicadas pela anamnese individual;

 b) imagens (incluídos os sonhos) de caráter impessoal, que não podem ser incorporados à história individual. Correspondem a certos elementos coletivos: são hereditárias. [37]

A palavra textual de Jung ilustra melhor o que se expôs: "Os conteúdos do inconsciente pessoal são aquisições da existência individual, ao passo que os conteúdos do inconsciente coletivo são arquétipos que existem sempre e a priori".[6]

Embora se tenha que admitir a importância da tradição e da dispersão por migrações, casos há e muito numerosos em que essas imagens pressupõem uma camada psíquica coletiva: é o inconsciente coletivo.[7] Mas, como este não é verbal, quer dizer, não podendo o inconsciente se manifestar de forma conceitual, verbal, ele o faz através de símbolos. Atente-se para a etimologia de símbolo, do grego sýmbolon, do verbo symbállein, "lançar com", arremessar ao mesmo tempo, "com-jogar". De início, símbolo era um sinal de reconhecimento: um objeto dividido em duas partes, cujo ajuste, confronto, permitiam aos portadores de cada uma das partes se reconhecerem. O símbolo é, pois, a expressão de um conceito de equivalência.

Assim, para se atingir o mito, que se expressa por símbolos, é preciso fazer uma equivalência, uma "con-jugação", uma "re-união", porque, se o signo é sempre menor do que o conceito que representa, o símbolo representa sempre mais do que seu significado evidente e imediato.

Em síntese, os mitos são a linguagem imagística dos princípios. "Traduzem" a origem de uma instituição, de um hábito, a lógica de uma gesta, a economia de um encontro.

Na expressão de Goethe, os mitos são as relações permanentes da vida.

Se mito é, pois, uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo, então o que é mitologia?

 Se mitologema é a soma dos elementos antigos transmitidos pela tradição e mitema as unidades constitutivas desses elementos, mitologia é o "movimento" desse material: algo de estável e mutável simultaneamente, sujeito, portanto, a transformações. Do ponto de vista etimológico, mitologia é o estudo dos mitos, concebidos como história verdadeira. [38]

Quanto à religião, do latim religione, a palavra possivelmente se prende ao verbo religare, ação de ligar, o que parece comprovado pela imagem do grande poeta latino Tito Lucrécio Caro (De Rerum Natura, I, 932): Religionum animum nodis exsoluere pergo — esforço-me por libertar o espírito dos nós das superstições — onde o poeta epicurista joga, como está claro, com as palavras religio e nodus, religião ("ligação") e nó.

Religião pode, assim, ser definida como o conjunto de atitudes e atos pelos quais o homem se prende, se liga ao divino ou manifesta sua dependência em relação a seres invisíveis tidos como sobrenaturais. Tomando-se o vocábulo em um sentido mais estrito, pode-se dizer que a religião para os antigos é a reatualização e a ritualização do mito. O rito possui, no dizer de Georges Gusdorf, "o poder de suscitar ou, ao menos, de reafirmar o mito".[8]

Através do rito, o homem se incorpora ao mito, beneficiando-se de todas as forças e energias que jorraram nas origens. A ação ritual realiza no imediato uma transcendência vivida. O rito toma, nesse caso, "o sentido de uma ação essencial e primordial através da referência que se estabelece do profano ao sagrado".[9] Em resumo: o rito é a práxis do mito. É o mito em ação. O mito rememora, o rito comemora.

Rememorando os mitos, reatualizando-os, renovando-os por meio de certos rituais, o homem torna-se apto a repetir o que os deuses e os heróis fizeram "nas origens", porque conhecer os mitos é aprender o segredo da origem das coisas. "E o rito pelo qual se exprime (o mito) reatualiza aquilo que é ritualizado: re-criação, queda, redenção".[10] E conhecer a origem das coisas — de um objeto, de um nome, de um animal ou planta — "equivale a adquirir sobre as mesmas um poder mágico, graças ao qual é possível dominá-las, multiplicá-las ou reproduzi-las à vontade".[11] Esse retorno às origens, por meio do rito, é de suma importância, porque "voltar às origens é readquirir as forças que jorraram nessas mesmas origens". Não é em vão que na Idade Média muitos cronistas começavam suas histórias com a origem do mundo. A finalidade era recuperar o tempo forte, o tempo primordial e as bênçãos que jorraram illo tempôre. [39]

Além do mais, o rito, reiterando o mito, aponta o caminho, oferece um modelo exemplar, colocando o homem na contemporaneidade do sagrado. É o que nos diz, com sua autoridade, Mircea Eliade: "Um objeto ou um ato não se tornam reais, a não ser na medida em que repetem um arquétipo. Assim a realidade se adquire exclusivamente pela repetição ou participação; tudo que não possui um modelo exemplar é vazio de sentido, isto é, carece de realidade".[12]

O rito, que é o aspecto litúrgico do mito, transforma a palavra em verbo, sem o que ela é apenas lenda, "legenda", o que deve ser lido e não mais proferido. [40]

No entanto, também é possível ver no sagrado um modo de ser independente do observador. Na medida em que o sobrenatural aflora através do natural, não é mais o sentimento que cria o caráter sagrado, e sim o caráter sagrado, preexistente, que provoca o sentimento. Deste ponto de vista, não há solução de continuidade entre a manifestação da divindade através de uma pedra, de uma árvore, de um animal ou de um homem consagrados. Nesse caso, nem a pedra, nem a árvore, nem o animal, nem o homem são sagrados e sim aquilo que revelam: a hierofania faz que o objeto se torne outra coisa, embora permaneça o mesmo (...). Um objeto ou uma pessoa não são 'apenas' aquilo que se vê; são sempre 'sacramento', sinal sensível de outra coisa; e, por isso mesmo, permitem o acesso ao sagrado e a comunhão com ele".[13]

Nada mais apropriado para encerrar este capítulo que as palavras de Bronislav Malinowski, o grande estudioso dos costumes indígenas das Ilhas Trobriand, na Melanésia. Procura mostrar o etnólogo que "a consciência mítica", embora rejeitada no mundo moderno, ainda está viva e atuante nas civilizações denominadas primitivas: "O mito, quando estudado ao vivo, não é uma explicação destinada a satisfazer a uma curiosidade científica, mas uma narrativa que faz reviver uma realidade primeva, que satisfaz a profundas necessidades religiosas, aspirações morais, a pressões e a imperativos de ordem social e mesmo a exigências práticas. Nas civilizações primitivas, o mito desempenha uma função indispensável: ele exprime, exalta e codifica a crença; salvaguarda e impõe os princípios morais; garante a eficácia do ritual e oferece regras práticas para a orientação do homem. O mito é um ingrediente vital da civilização humana; longe de ser uma fabulação vã, ele é, ao contrário, uma realidade viva, à qual se recorre incessantemente; não é, absolutamente, uma teoria abstrata ou uma fantasia artística, mas uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria prática".[14]

À ideia de reiteração prende-se a ideia de tempo. O mundo transcendente dos deuses e heróis é religiosamente acessível e reatualizável, exatamente porque o homem das culturas primitivas não aceita a irreversibilidade do tempo: o rito abole o tempo profano e recupera o tempo sagrado do mito. É que, enquanto o tempo profano, cronológico, é linear e, por isso mesmo, irreversível (pode-se "comemorar" uma data histórica, mas não fazê-la voltar no tempo), o tempo mítico, ritualizado, é circular, voltando sempre sobre si mesmo. É precisamente essa reversibilidade que liberta o homem do peso do tempo morto, dando-lhe a segurança de que ele é capaz de abolir o passado, de recomeçar sua vida e recriar seu mundo. O profano é o tempo da vida; o sagrado, o "tempo" da eternidade.

J.B. Barruel de Lagenest tem uma página luminosa acerca da dicotomia do profano e do sagrado. Para o teólogo em pauta, o profano e o sagrado podem ser enfocados subjetiva e objetivamente: "Se considerarmos a experiência sensível como o elemento mais importante da atitude religiosa, a percepção do sagrado (...) será valor determinante da vida profunda de um indivíduo ou de um grupo. Diante da divindade a criatura só se pode sentir fraca, incapaz, totalmente dependente.

Esse sentimento se transforma em instrumento de compreensão, pois torna aquele que o vive capaz de descobrir, como que por intuição, o eterno no transitório, o infinito no finito, o absoluto através do relativo. O sagrado é, assim, o sentimento religioso que aflora. [40]

 

Mitologia - Mitologia Grega
6/20/2019 2:52:34 PM | Por Eduardo Bueno
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22 de Abril de 1500, o achamento do Brasil

Na terça-feira à tarde, foram os grandes emaranhados de “ervas compridas a que
os mareantes dão o nome de rabo-de-asno”. Surgiram flutuando sobre as águas, ao lado das naus, e sumiram no horizonte. Na quarta-feira pela manhã, o voo
dos fura-buchos, uma espécie de gaivota, rompeu o silêncio dos mares e dos céus, reafirmando a certeza de que a terra se encontrava próxima. Ao entardecer, silhuetados contra o fulgor do crepúsculo, delinearam-se os contornos arredondados de “um grande monte”, cercado por terras planas, vestidas de um arvoredo denso e majestoso.

Era 22 de abril de 1500. Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro Alvares Cabral vislumbrava terra - mais com alívio e prazer do que com surpresa ou espanto. Nos nove dias seguintes, nas enseadas generosas do sul da Bahia, os treze navios da maior armada já enviada
à índia pela rota descoberta dois anos antes por Vasco da Gama permaneceriam reconhecendo
a nova terra e seus habitantes. O primeiro contato, amistoso como os demais, deu-se já no dia seguinte, quinta-feira, 23 de abril. O capitão Nicolau Coelho, veterano da índia e companheiro de Gama, foi a terra, em um batel, e deparou-se com dezoito homens “pardos, nus, com arcos e setas nas mãos”. Coelho deu-lhes um gorro vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto. Em troca, recebeu um cocar de plumas e um colar de contas brancas. O Brasil, então batizado Ilha de Vera Cruz, misturava, naquele instante, sua história ao curso da história da expansão europeia.

A chegada dos portugueses está registrada com requinte e minúcia. Poucas são as nações
que possuem uma “certidão de nascimento” tão precisa e fluente quanto a carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, Dom Manuel, relatando o “adiamento” da nova terra. Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para oeste do que o necessário para chegar à índia. Terá sido a chegada ao Brasil um mero acaso?

É provável que a questão jamais venha a ser plenamente esclarecida. No entanto, a assinatura do Tratado de Tordesilhas que, seis anos antes, dera a Portugal a posse das terras que ficassem a 370 léguas (em torno de dois mil quilómetros) a oeste de Cabo Verde, a naturalidade com que a nova terra foi avistada, o conhecimento preciso das correntes e das rotas, as boas condições climáticas durante a viagem e a probabilidade de que aquele território já tivesse sido avistado anteriormente parecem ser a garantia de que o desembarque, naquela manhã de abril de 1500, foi mera formalidade: Cabral poderia estar apenas tomando posse de uma terra
que os portugueses já conheciam, embora superficialmente. Uma terra pela qual, de qualquer forma, ainda demorariam cerca de meio século para se interessar de fato.

Um império ultramarino

O grande impulso que conduziu a frota de Pedro Alvares Cabral de Lisboa
a Calicute, na índia - e o levou a topar com o Brasil no meio do caminho foi apenas um pequeno, ainda que reluzente, movimento na grande sinfonia que configura o processo de expansão ultramarina dos portugueses ao redor do planeta. Para muitos historiadores, é justamente a “abertura” do mundo desencadeada pelos navegadores de Portugal que estabelece, mais que o advento da imprensa ou a queda de Constantinopla, o legítimo início da Era Moderna. Ao
se aventurar “por mares nunca dantes navegados”, os portugueses derrubaram os mitos da geografia arcaica e provaram, com adorável arrogância, que o ciclo do saber não estava fechado a sete selos. Sua aventura marítima foi o primeiro processo humano de dimensões planetárias.

Simples pescadores até o crepúsculo do século XIII, os portugueses começaram a constituir sua marinha no alvorecer do século XIV, tendo por mestres os genoveses. Em 1415, sob o comando de D. João I, uma frota portuguesa alçou-se em sua primeira investida militarista e conquistou Ceuta,
no Marrocos. Seria o marco inicial de uma aventura expansionista que, pelos dois séculos seguintes, estendeu o domínio português pelos sete mares e por cinco continentes. A obra de D. João I teve continuidade com seu filho, o infante D. Henrique, que vislumbrou nos oceanos o futuro de Portugal.

Em 1420, navegadores formados na escola de D. Henrique (re)descobriram a ilha da Madeira. Em 1434, Gil Eanes venceu o cabo Bojador, no Saara espanhol. Em 1455, chegou-se ao Cabo Verde e, em 1487, Bartolomeu Dias atingiu o limite da África, dobrando o cabo das Tormentas, rebatizado de cabo da Boa Esperança. Em 1498, Vasco da Gama, enfim, desvendou a rota marítima para a índia. Mais tarde os portugueses chegariam à China e ao Japão. Lisboa se tornou, então, uma cidade cosmopolita, cujos estaleiros viviam em febril atividade,
e as ruas eram percorridas por astrónomos judeus, banqueiros genoveses, cartógrafos catalães, marinheiros italianos e mercadores holandeses. A capital de Portugal se tornava também uma das capitais do mundo.

A viagem de Cabral

Era domingo, e Lisboa, capital ultramarina da Europa, estava em festa. Os treze navios da frota mais poderosa
já armada por Portugal balouçavam nas águas reluzentes do Tejo. “E muitos batéis rodeavam as naus e ferviam todos com suas librés de cores diversas, que não parecia
mar, mas um campo de flores, e o que
mais elevava o espírito eram as trombetas, atabaques, tambores e gaitas”, registrou
o cronista João de Barros, testemunha
ocular do dia memorável. Oito meses
antes, chegara àquele mesmo porto a diminuta frota de Vasco da Gama. Trazia
a notícia que durante quase um século
fora a obsessão portuguesa: desvendara-se, enfim, a rota marítima que conduzia à índia. Agora, o rei D. Manuel queria que todos, especialmente os espiões espanhóis, italianos e franceses, vislumbrassem a gloriosa partida de sua nova missão (comercial
e guerreira) ao reino das especiarias.

Celebrava-se a missa. No altar estava
D. Diogo Ortiz, um dos três homens que, uma década antes, vetara financiamento português ao projeto de Colombo de chegar à índia pelo rumo do oeste. Junto a ele, Pedro Alvares Cabral, filho, neto e bisneto
de conquistadores, mais um militar do que propriamente um navegador, rezava, silente. Aos 32 anos, estava pronto para sua primeira missão além-mar.

Os navios partiram na segunda-feira,
9 de março de 1500. Cabral e Gama haviam conversado longamente. Dois anos antes, ao fazer um grande arco no rumo do oeste, para aproveitar melhor as correntes do Atlântico, Gama passara tão perto do Brasil que talvez tenha mesmo pressentido a presença de terra. Cabral se aventurou ainda mais em direção ao poente (tanto que, segundo seus cálculos, julgava estar no local onde hoje é Brasília). Chegou à Terra dos Papagaios - uma escala ideal para as índias.

Dez dias depois, ao zarpar de Porto Seguro, Cabral parece ter deixado ali,
além de dois degredados e cinco grumetes desertores, a porção que lhe restava de
sorte. Na terceira semana de maio, nas proximidades do cabo das Tormentas, depois de um cometa ter luzido no céu por dez noites, tenebrosa tempestade se abateu sobre a frota. Quatro naus, entre as quais a de Bartolomeu Dias, foram tragadas pelo mar.

Não houve sobreviventes. Reduzida a sete embarcações (uma havia naufragado logo após a partida e o navio de mantimentos seguira de volta a Portugal com a notícia
da descoberta), a armada chegou à Índia
em fins de agosto. Cabral obteve permissão para fundar uma feitoria, mas, em 16 de dezembro, o estabelecimento foi atacado por mercadores árabes. O comandante reagiu e bombardeou Calicute por dois dias, provocando grandes estragos e mortes. Com seis navios repletos de especiarias, iniciou a viagem de volta. Foi bem recebido pelo rei. A seguir, porém, após desentendimentos com o monarca, caiu em desgraça na Corte e nunca mais voltou a navegar. Retirou-se para Santarém. Lá morreu em 1520, quase na obscuridade - virtualmente sem saber que revelara à Europa um território de dimensões continentais.

A semana de Vera Cruz

As ordens eram claras: a portentosa esquadra de Pedro Álvares Cabral estava em missão rumo à Índia. Deveria seguir pela rota descoberta por Vasco da Gama, estabelecer relações comerciais e diplomáticas com o samorun de Calicute e, de imediato, fundar uma feitoria em pleno coração do reino das especiarias. Por isso, apesar da exuberância
da paisagem, da complacência dos nativos
e das benesses do clima, os portugueses permaneceram apenas dez dias nas paragens paradisíacas da Ilha de Vera Cruz.

No dia 2 de maio de 1500, onze navios partiram rumo à pimenta, à canela e ao gengibre. O décimo segundo, sob comando de Gaspar de Lemos, zarpou na direção oposta, levando ao reino as cartas que anunciavam o achamento da nova terra. Quantas foram as missivas que a nau dos mantimentos conduziu em seu bojo é questão que jamais se elucidará. O certo é que tanto Cabral como os demais capitães enviaram relatos ao rei. Ainda assim, apenas três cartas sobreviveram. De longe, a melhor e mais detalhista é a redigida pelo escrivão Pero Vaz de Caminha. Graças a ela, ainda é possível reconstituir, passados cinco séculos, o período que alguns historiadores chamam de “Semana de Vera Cruz”.

Quarta-feira, 22 de abril de 1500: No fim da tarde, a frota de Cabral avistou o cume do monte Pascoal. Ao crepúsculo, a 24 quilómetros da praia e a uma profundidade de 34 metros, os navios lançaram âncoras.

Quinta-feira, 23 de abril: Às dez horas da manhã, os navios ancoraram defronte à foz de um rio (provavelmente o atual Caí). Nicolau Coelho, veterano das Índias, foi até a praia, num bote, e lá fez o primeiro contato com dezoito nativos.


Sexta-feira, 24 de abril: Por conselho dos pilotos, a armada levantou âncora e partiu
em busca de melhor porto. Encontraram-no, seguro, 70 quilómetros mais ao norte. Ali, dois nativos subiram a bordo. Pouco falaram e logo dormiram no tombadilho da nave de Cabral.

Sábado, 25 de abril: Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho e Pero Vaz de Caminha foram à praia e encontraram cerca de duzentos indígenas. Houve troca de presentes de pouco valor.


Domingo, 26 de abril: Frei Henrique, franciscano que depois seria inquisidor, rezou a primeira missa em solo brasileiro, no recife da Coroa Vermelha. Houve grande confraternização entre nativos e estrangeiros ao longo de todo o domingo.


Segunda-feira, 27 de abril: Diogo Dias e dois degredados visitaram a aldeia dos Tupiniquim, erguida a uns dez quilómetros da praia. Não lhes foi permitido dormir lá.

Terça-feira, 28 de abril: Os portugueses recolheram lenha, lavaram roupa e prepararam uma grande cruz.


Quarta-feira, 29 de abril: Ao longo de todo o dia, o navio dos mantimentos, que seria enviado de volta a Portugal, foi esvaziado de sua carga.

Quinta-feira, 30 de abril: Cabral e os capitães desembarcaram. Na praia, havia
uns quatrocentos nativos, com os quais eles passaram o dia dançando e cantando.

Sexta-feira, 1 de maio: A tripulação deixou os navios e seguiu em procissão para o erguimento da cruz.


Sábado, 2 de maio: A esquadra partiu para Calicute, e o navio dos mantimentos foi
para Portugal. Dois grumetes desertaram
da nau capitânia. Na praia, aos prantos, foram deixados dois degredados.

A carta de batismo

Por mais de três séculos, o principal e mais esplendoroso documento relativo à chegada dos portugueses ao Brasil permaneceu desconhecido - “praticamente sequestrado”, de acordo com o historiador português Jaime Cortesão - no Arquivo
da Torre do Tombo, em Lisboa. Foi redescoberto em fevereiro de 1773 pelo guarda-mor do arquivo, José Seabra da Silva. Ainda assim, quase meio século se passaria antes de a carta de Pero Vaz de Caminha ser publicada pela primeira vez, pelo padre Manuel Aires do Casal, em sua Corografia Brasílica, editada em 1817. O padre, porém, arvorou-se a cortar vários trechos que considerou “indecorosos”. Talvez por isso, somente em 1900 - quando da comemoração do quarto centenário do descobrimento do Brasil -, a carta voltaria a receber a atenção dos eruditos. Oito anos mais tarde, Capistrano de Abreu lançou seu extraordinário estudo Vaz de Caminha e sua carta. Só então se revelaram plenamente a agudeza das observações,
a fragrância dos retratos, a vivacidade descritiva, a precisão etnológica e a acuidade histórica daquela, apesar do evidente anacronismo, que pode ser considerada uma espécie de “certidão de nascimento” do Brasil.

No instante em que Caminha escrevia
a sua carta em Porto Seguro, havia mais de meio século que os escrivães portugueses exercitavam e afinavam a arte de registrar
os fatos de maior relevo ocorridos em suas viagens marítimas. Praticamente nenhum daqueles relatos, no entanto, fora redigido por escrivães de ofício. Caminha seguia na frota de Cabral com a missão de tornar-se o escrivão (cargo equivalente ao de contador) da futura feitoria de Calicute. Mas era
mais do que isso: era um escritor feito, um homem de letras, requintado e perspicaz, em pleno domínio de sua arte.

O texto que Caminha legou à posteridade não apenas captura, com minúcia e frescor, o alvorecer de uma nação, como se constitui em sua primeira obra-prima.
Ainda assim, a Carta do Mestre João - físico-mor (ou médico chefe) da armada de Cabral - e a chamada Relação do piloto anónimo (publicada já em 1507) ficaram, de início, muito mais conhecidas que o relato
de Caminha. Todos os documentos relativos à primeira viagem ao Brasil submergiram, porém, no mesmo ostracismo ao qual Cabral foi relegado, após se recusar a assumir a subchefia de uma nova esquadra que seria enviada para a índia. Depois de seu desempenho na viagem de 1500, Cabral se julgava em condições de ser chefe de qualquer missão e não quis se submeter às ordens de Vasco da Gama.

O terremoto que em 1755 abalou Lisboa também colaborou para o sumiço da documentação relativa à primeira (e única) viagem de Pedr’Álvares. Por caminhos ainda misteriosos, a carta de Pero Vaz chegaria até o Arquivo da Real Marinha
do Rio de Janeiro, provavelmente quando da vinda da família real para o Brasil, em 1808. Nove anos mais tarde, seria, enfim publicada pelo padre Aires do Casal.

Pero Vaz de Caminha nasceu na cidade do Porto, na quinta década do século
XV. Filho de família oriunda da chamada “pequena nobreza”, fora cavaleiro das casas de D. Afonso V, de D. João II e de D. Manuel. Deveria ter por volta de 50 anos quando
se juntou à frota de Cabral. A carta que o imortalizou viria a ser um de seus últimos atos: quando a feitoria lusitana em Calicute foi atacada, em 16 de dezembro de 1500, entre os mortos em combate encontrava-se o profético cronista do nascimento do Brasil. Mas seu último desejo foi atendido: na carta, ele solicitara ao rei que seu genro, Jorge Osouro, fosse trazido de volta do exílio que amargava em uma das ilhas do Cabo Verde, por ter atacado um padre. Na mitologia autodepreciativa que o Brasil produz sobre si mesmo, costuma-se afirmar que Caminha havia pedido emprego para um parente...

O reino do pau-brasil

Em plena vertigem da índia, com a pimenta inflamando as imaginações, a notícia da descoberta de Cabral seria recebida, em Lisboa, com certo fastio. A nova terra não possuía metais preciosos nem especiarias. O tédio e a desilusão, porém, não teriam sido imediatos à chegada da nave de Gaspar de Lemos, que levava as cartas confirmando o “achamento” do Brasil (e que, talvez, levasse também algumas toras de pau-brasil). Mas a expedição seguinte, feita em 1501 para reconhecer a nova terra, da qual participou, como cosmógrafo, o florentino Américo Vespúcio, traçaria o destino deste território, reduzindo-o, por quase meio século, à condição de mero coadjuvante no grande painel das descobertas portuguesas.

“(...) nessa costa não vimos coisa de proveito, exceto uma infinidade de árvores de pau-brasil (...) ejá tendo estado na viagem bem dez meses, e visto que nessa terra não encontrávamos coisa de minério algum, acordamos nos despedirmos dela”, escreveu Vespúcio, em setembro de 1504, ao magistrado de Florença, Piero Soderini, repetindo o que já dissera ao rei de Portugal, D. Manuel.

Durante as primeiras décadas, desinteressada em colonizar a terra à qual Cabral chegara, a Coroa portuguesa acabou por transformá-la em uma imensa fazenda
de pau-brasil, logo arrendada à iniciativa privada. Dessa forma, a árvore que ajudou a dar o nome ao país começaria a se tornar também a mais perfeita metáfora vegetal
do Brasil - mais do que a borracha, o açúcar ou o café.

O pau-brasil (Caesalpinia echinata) tingia linhos, sedas e algodões, concedendo-lhes um “suntuoso tom carmesim ou purpúreo”: a cor dos reis e dos nobres. Uma espécie semelhante, a Caesalpinia sappan, nativa da Sumatra, já era conhecida na Europa desde os primórdios da Idade Média.

A partir do século XVII, porém, praticamente todos os tecidos produzidos
em Flandres e na Inglaterra passaram a ser coloridos pelo “pau de tinta” brasileiro. Nessa época, a indústria têxtil já começara a se tornar o motor da economia europeia. Depois de anos de contrição
ou andrajos, as mulheres do continente descobriam, enfim, os requintes da moda. Abria-se, assim, enorme mercado para
as roupas realçadas pela polpa da árvore, extraída aos milhões do litoral da Bahia e de Pernambuco. A operação era realizada por centenas de traficantes espanhóis, ingleses e, sobretudo, franceses. Eles foram os primeiros “brasileiros” - e os únicos de fato merecedores desse nome.

A terra da bem aventurança

O Brasil se chama assim por causa do pau-brasil, certo? Em parte. Apesar
de os livros didáticos e o senso comum estabelecerem uma relação direta entre o nome do país e o da árvore, abundante no território descoberto por Cabral, a origem etimológica da palavra brasil é misteriosa e repleta de ressonâncias. Há mais de vinte interpretações sobre a origem do étimo, e as discussões parecem longe do fim. O certo é que a palavra é muito mais antiga do que o costume de se utilizar o “pau de tinta” para colorir os tecidos. Mais certo ainda é que a lenda e a cartografia antigas assinalavam, em meio às névoas do mar Tenebroso (o Atlântico), a existência
de uma ilha mítica chamada Hy Brazil.

Por um lado, “brasil” vem do francês brésil que, por sua vez, é originário do toscano verzino, como era denominada, na Itália, a madeira usada na tinturaria. Por outro, também é correto afirmar que brasil advém do celta bress, origem do inglês to bless (abençoar), expressão que batizou a Ilha da Bem-Aventurança, Hy Brazil.

Foi a incrível coincidência entre o vocábulo bresail (terra abençoada) e a palavra “brasil” que fez com que surgisse
a confusão da qual resultou a certeza de
que do nome da madeira nascera o nome
do país. Segundo O Brasil na lenda e na cartografia antigas, estudo de Gustavo Barroso, lançado em 1941, os homens letrados do século XVI não duvidavam de que o nome Brasil provinha da ilha lendária. “Prevaleceu, porém, a opinião do vulgo, já que eram simples marinheiros aqueles que traficavam a madeira rubra.”

O pau-brasil pode não ter dado seu nome ao país. Mas foi com certeza ele
que batizou seu povo: eram chamados
de “brasileiros” aqueles que traficavam o “pau de tinta”. Se prevalecessem as regras gramaticais, os nativos do Brasil deveriam se chamar brasilienses.

História - Brasil
6/18/2019 6:28:59 PM | Por Flávio Fortes DAndrea
Texto indicado para estudantes de Psicologia
Desenvolvimento da personalidade, a Fase fálica

A fase fálica corresponde ao período que vai dos três aos cinco ou seis anos de idade. Por volta dos três anos, a zona oral já perdeu sua predominância como área de gratificação erótica e a criança que teve um desenvolvimento normal já aprendeu a controlar os esfincteres e sublimou o interesse pelas excreções. Além disso, está bem mais consciente de si mesma, percebe com mais clareza o mundo que a rodeia, interessa-se pelo ambiente e começa a indagar sobre o significado e as causas dos fatos. Aumenta seu interesse pelo próprio corpo, principalmente pelos genitais, o que se manifesta pela masturbação, pelo exibicionismo e pela tendência ao maior contato físico com o sexo oposto. Também surgem fantasias sexuais, geralmente associadas à masturbação.

O termo fálico, relativo ao pênis, usado para esta fase, provém do fato da libido concentrar-se nos orgãos genitais que passam a ser a zona erógena predominante. O menino sente prazer pela manipulação do pênis e a menina do seu análogo, o clitóris. É como se houvesse, para ambos os sexos, apenas um órgão genital, o masculino. Assim, no início, o menino conhece somente seu órgão sexual o qual supervaloriza e tende a atribuir um pênis a qualquer objeto do mundo externo, seres vivos ou inanimados. Nas meninas esta tendência é menos evidente, mas há dados atestando que elas também atravessam um período fálico, embora de curta duração. Suas sensações eróticas começam na região do clitóris acompanhadas de fantasias sexuais ativas, de penetração, semelhantes às dos meninos. Entretanto, o clitóris é um rudimento de pênis e os “desejos masculinos” nunca [59] atingem grande intensidade. Mais tarde, sensações na vulva competem com as clitorianas, tendendo a inibir “os impulsos masculinos”. Porém, não há ainda uma percepção nítida da abertura vaginal, que é confundida com o orifício anal. De qualquer forma, há um conflito entre ter algo que possa ser introduzido numa cavidade e ter uma cavidade que possa receber algo, isto é, entre uma tendência “masculina” de penetrar e outra “feminina” de ser penetrada. Por sua vez, o menino, durante algum tempo, nada sabe a respeito de uma abertura vaginal nas mulheres, separada do ânus. Além disso, suas sensações genitais confundem-se com as anais e os desejos ativos estão mesclados com os passivos, como ocorre com as meninas. A diferenciação surge pela predominância, no decorrer do desenvolvimento, dos impulsos ativos no sexo masculino, e dos passivos no sexo feminino. Assim, anatomicamente, há uma base para o conceito de bissexualidade como existe, fisiologicamente, pela presença de hormônios masculinos e femininos nos dois sexos. A bissexualidade persiste durante toda a vida, sendo mais pronunciada na infância e na puberdade. Se o desenvolvimento é normal ela torna-se invisível na maturidade, ocultando-se, por vezes, nas grandes amizades, certas atividades sociais, manifestações artísticas etc. Quando há um bloqueio da heterossexualidade, por uma determinada razão, os desejos homossexuais aparecem, como comumente se observa, por exemplo, nos quartéis, nas prisões, colégios internos. Também nos neuróticos, o componente homossexual está quase sempre presente.

O Complexo de Édipo

Na fase fálica, as relações interpessoais da criança caraterizam-se pela seleção de um objeto sexual bem definido. Os impulsos eróticos são acompanhados de fantasias relativas ao objeto, as quais se associam à masturbação, e isto estimula o aparecimento de conflito. A presença de conflitos não é novidade para uma criança nesta fase, pois ela já os experimentou nas fases anteriores. Assim, no primeiro ano de vida, suas exigências orais encontraram oposição nos limites impostos pela mãe e, mais tarde, no treinamento dos esfíncteres, sua rebeldia foi bloqueada pelas barreiras criadas pelo meio. Entretanto, estes conflitos se [60] deram em confronto com a realidade externa enquanto, na fase fálica, o conflito sexual ocorre sem uma suficiente causa exterior. Parece que, no decorrer da evolução da humanidade, ele se transformou de um problema real, externo, em uma condição interna, herdada no passar dos séculos.

O conflito sexual da fase fálica está ligado ao fenômeno conhecido como complexo de Édipo. Os conhecimentos a respeito deste fenômeno surgiram das observações de Freud que descobriu nas manifestações inconscientes de seus pacientes neuróticos frequentes fantasias de incesto com o progenitor do sexo oposto, associadas ao ciúme e a impulsos homicidas contra o progenitor do mesmo sexo. Freud[1]denominou estas ideias carregadas de afetos de complexo de Édipo por analogia á lenda grega na qual Édipo, sem o saber, assassinou o próprio pai e casou-se com a mãe, tendo filhos com ela. Mais tarde, ao se descobrir a verdade, a mãe enforcou-se e Édipo vazou os próprios olhos e foi perseguido pela fúria dos deuses.

Evidenciou-se, posteriormente, que o complexo de Édipo não era um apanágio das mentes doentias mas um evento comum a todas as pessoas. A existência de desejos incestuosos na infância e os conflitos que originam é universal, embora possam aparecer com roupagens diferentes conforme a cultura.

As relações objetais ligadas ao complexo de Édipo são da maior importância no desenvolvimento da personalidade. Freud considerou, mesmo, os eventos do período edipiano como cruciais na formação de uma personalidade normal ou patológica, embora hoje saibamos que problemas de fases anteriores podem ser, em alguns casos, mais importantes.

A forma mais simples do complexo de Édipo consiste no amor do menino pela mãe e no ódio pelo pai. Sentindo, pelo pai, apenas, ódio, o conflito é menos complicado e manifesta-se em hostilidade aberta contra a figura paterna, tornando-se portanto uma luta externa. Na realidade, porém, isto raramente acontece, pois há quase sempre, uma atitude ambivalente do menino para com o pai, isto é, ao mesmo tempo que o odeia, também o quer bem. Estes sentimentos ambivalentes constituem [61] o aspecto mais importante para o desenvolvimento do complexo. No sentido inverso, o mesmo ocorre com a menina. Entretanto, as relações objetais edipianas no sexo feminino são um pouco mais complexas, pois a menina precisa dar um passo maior que o menino para ir de encontro ao seu objeto amoroso. Isto porque, no início da fase fálica, tanto um como outro estão fortemente ligados à mãe. Assim, ao contrário do menino, a menina precisa desligar-se emocionalmente da mãe, ou melhor, trocá-la pelo pai e passar a considerá-la uma rival.

O complexo de Édipo pode assumir uma forma negativa quando o elemento odiado é o progenitor do sexo oposto e o amado e do mesmo sexo. Em alguns casos, o conflito edipiano começa normalmente (forma simples, positiva) mas logo segue um rumo desviado por causa de experiências atuais ou de fases anteriores. Isto se observa, por exemplo, quando o amor do menino pela mãe transforma-se em ódio como consequência de decepções no relacionamento com ela. Então há uma troca de objetos, os impulsos amorosos do menino dirigindo-se ao pai, podendo ser este um dos caminhos para o homossexualismo.

As tentativas de negação da existência do fenômeno edipiano são sempre frustradas frente aos fatos. Uma pessoa isenta de preconceitos perceberá com facilidade o colorido erótico que existe no relacionamento da criança com o progenitor do sexo oposto e a competição com o do mesmo sexo. Nesta fase, é frequente observar-se o menino dizer que vai se casar com a mãe ou que é seu marido ou a menina comentar que está namorando o pai e como ambos procuram afastar os competidores do seu amor. Observa-se, ainda, que os sentimentos são ambivalentes, pois o objeto amoroso também é o disciplinador e o objeto odiado também é o provedor de segurança e proteção.

Uma boa ilustração do conflito edípico aparece no filme japonês O Corvo Amarelo, que conta a história de um menino, filho único, que viveu com a mãe num ambiente cheio de afeição, enquanto o pai se ausentara por um período relativamente longo. Quando voltou, a criança demonstrou-lhe abertamente sua hostilidade não aceitando sua amizade e tentando impedir sua aproximação da mulher. Os conflitos transpareceram em seu comportamento no jardim da infância, a ponto de chamar a atenção da professora que, então, discutiu o assunto com os pais. [62] Felizmente, estes eram compreensivos e, com carinho e paciência, ajudaram o filho a resolver seu problema emocional.

Alguns pais, entretanto, acham difícil suportar a tendência da criança a dominar o ambiente familiar em função de seu amor ao progenitor do sexo oposto. O controle do objeto amado e a hostilidade aos outros membros da família, com os quais a criança não deseja reparti-lo, podem ser sentidos como um ataque à autoridade paterna. Nem todos os pais compreendem que a criança passa por um difícil conflito emocional e que precisa de apoio. Quando os pais são compreensivos, o que geralmente ocorre quando também o foram em relação aos problemas das fases anteriores, a criança facilmente se adapta à realidade. Em casos normais, para evitar a perda de amor, a criança identifica-se com o progenitor do mesmo sexo, encontrando nele, à custa da parte positiva da ambivalência, um objeto ideal a ser imitado. Renuncia ao objeto de amor incestuoso, substituindo-o por outras “figuras permitidas” nas quais encontra os traços desejáveis desse objeto. O menino, por exemplo, dirige-se emocionalmente para outras mulheres do lar ou de fora, vai aos poucos dessexualizando sua ternura para com a mãe e imagina que, no futuro, será tão valoroso como o pai e se casará com uma mulher tão boa quanto a mãe. Esta conduta reforçará também as suas tendências masculinas que encontrarão expressão, mais tarde, em outras atividades, nos estudos, nos jogos etc.

O complexo de Édipo, contudo, nem sempre se resolve satisfatoriamente. Aliás, o mais frequente é sua resolução incompleta levando, mais tarde, a várias dificuldades no relacionamento amoroso e colaborando na formação do núcleo inconsciente das neuroses. Vimos que uma atitude correta dos pais em relação à criança neste período difícil do desenvolvimento é de primordial importância para a solução do problema. Porém, há muitas formas de influir negativamente e impedir uma adequada resolução do conflito edipiano. Assim, por exemplo, se uma mãe comportar-se de modo sedutor, despindo-se perto do filho, acumulando-o de carinhos, permitindo que durma em sua cama, exporá a criança a uma situação de ansiedade. Se, por outro lado, a mãe assumir uma atitude depreciatória em relação ao marido e aos homens em geral, poderá prejudicar o processo de identificação do menino com o pai. Se este for fraco e submisso trará [63] ainda maiores problemas para a criança do que se for severo e punitivo. Embora os impulsos da criança em relação aos pais tenham um aspecto erótico, eles estão longe de equivaler a um impulso sexual adulto. Ela não tem noção exata da anatomia nem das relações sexuais e seus sentimentos são vagos e fantasiosos. Desta forma, a observação de atos sexuais ou de partes genitais adultas podem ser muito traumáticas e interpretadas distorcidamente. Também, conflitos e discussões entre os pais, o nascimento de um irmão que estimula fantasias e ciúme, a ausência de informações sexuais adequadas à idade e à compreensão da criança, são outros dos muitos fatores que podem contribuir para uma inadequada resolução do complexo de Édipo.

Em relação ao triângulo amoroso que se estabelece quando a criança atravessa o período edipiano, pode surgir a questão: “O que ocorre com o complexo de Édipo quando a criança é órfã de um ou dois pais?”. A experiência mostra que em tais casos há uma criação de pais na fantasia e desenvolvimento de atitudes edipianas em relação a estas figuras fantásticas;Se, por exemplo, é o menino que não tem pai, ele cria um pai poderoso na sua imaginação. Mesmo se o pai for vivo, mas fraco ou inexpressivo, um substituto é encontrado na figura de um homem com características ideais, existente dentro ou fora da família[2].

O Complexo de Castração

É importante que se compreenda quão difícil é a prova a que são submetidos o menino e a menina durante a vivência do complexo de Édipo. O menino teme a desaprovação, vingança e castigos de seu pai por causa dos seus sentimentos em relação à mãe, Porque na fase fálica o pênis passou a ser a parte do corpo mais valiosa como fonte de prazer, ele teme que o castigo para seus impulsos proibidos recaiam sobre seus genitais causando sua perda. As ideias e as emoções ligadas com o medo de perder o pênis constituem o que se denomina complexo de castração[3]. Como o complexo de Édipo, o complexo de castração [64] é universal, dando testemunho disto a análise de adultos e crianças, pesquisas antropológicas, mitos religiosos e populares, expressões artísticas, etc. O temor de perder o pênis como castigo, aparece no conjunto de chistes e ameaças referentes à castração que comumente os adultos fazem às crianças. Não é difícil perceber que atemorizar os outros é um excelente meio de acalmar os próprios temores, isto é, se uma pessoa acredita que é suficientemente poderosa para assustar os demais, julgará não haver razão para sentir medo.

O nascimento, o desmame e a evacuação de fezes podem ser considerados como precursores do complexo de castração. A separação da criança do útero materno, ao nascer, constitui o trauma original e isto condiciona uma qualidade traumática a todo o tipo de separação posterior, real ou fantasiada. O desmame implica numa separação do seio da mãe que é experimentado pela criança como perda de parte de si mesma. O mesmo ocorre com o conteúdo dos intestinos, com a diferença que as fezes pertencem mesmo ao indivíduo e o seio faz parte do ego apenas no sentido psicológico. A perda do seio e das fezes, bem como outras eventuais perdas, por exemplo, das amígdalas, de dentes, preparam emocionalmente o terreno para as ideias de perda do pênis. Do mesmo modo, o nascimento pode ser fantasiado, retrospectivamente, como castração. O complexo de castração, no senso estrito, refere-se aos órgãos genitais mas, simbolicamente, representa qualquer tipo de lesão ou separação. Assim, a ameaça de perda de amor de pessoas significativas tem um significado de grave injúria para o ego, como se lhe fosse tirar uma parte.

A criança alivia a tensão dos impulsos relacionados ao complexo de Édipo predominantemente através da masturbação e pelas fantasias que a ela se associam. O interesse pelos genitais representa, nesta época, também a preocupação pela sua integridade, preocupação esta originada dos temores de castração. A masturbação não ocasiona nenhuma lesão genital, não faz mal à saúde nem enfraquece o cérebro. No entanto, afirmações opostas são comumente usadas pelos adultos que lidam com a criança, como meio de impedir a prática socialmente repudiada. Desta forma, o medo da castração é reforçado e transmitido de geração para geração. No início, o menino pode continuar manipulando [65] os genitais negando essas ameaças. Mais tarde, ao observar as meninas e dando-se conta que não possuem pênis, passa a supor que elas o perderam e que o mesmo lhe acontecerá se continuar transgredindo.

O menino, que atribuía a todas as pessoas um pênis, fica muito desapontado quando descobre que mesmo sua mãe não o possui. Entretanto, procura reconciliar-se com o fato, imaginando que ela tenha um pênis oculto. É a imagem da mulher fálica, que comumente aparece em sonhos, mitos ou fantasias. Se esta ideia prevalecer fortemente, na vida adulta, o indivíduo tenderá a rejeitar sexualmente as mulheres. Por outro lado, o conhecimento de que a mulher não tem pênis pode criar no menino sentimentos de desprezo ao sexo feminino e tendência a considerar as mulheres como seres inferiores. Quando, porém, há, pela bissexualidade, uma predominância de tendências femininas no menino, ele aceita a castração e tem, ele próprio, sentimentos de inferioridade. Assim, pode tornar-se feminino, passivo e homossexual ou, por formação reativa, supercompensar o sentimento de inferioridade, com atitudes agressivas e excessivamente “masculinas” . Um dos exemplos encontrados na prática clínica de que a criança de sexo masculino aceitou a castração como um fato consumado é o complexo de pênis pequeno. Ao lado de uma possível base anatômica, o que chama a atenção nestes indivíduos é a atitude crônica de inferioridade sexual e de queixa contra “a injunção do destino”.

Como sabemos, nas fases pré-fálicas, a mãe constitui o primeiro objeto de amor tanto para o menino como para a menina. Esta, na pretensão de ter todo o amor materno para si, sente os outros membros da família, inclusive o pai, como intrusos competidores. Como o menino, ela chega também à fase fálica, onde as sensações sexuais são experimentadas no clitóris. Durante esta fase, o descobrimento do pênis leva-a a considerar-se, pela comparação com o clitóris, injustamente mutilada e a desenvolver fortes sentimentos de inveja ao sexo oposto, aparentemente melhor dotado. Tende a responsabilizar a mãe como causadora do seu “defeito físico” e sua relação afetiva com ela é abalada. Então, o pai passa a ser percebido como uma figura importante, aquele que pode lhe restituir o pênis que ela não tem, o que é depois substituído pelo desejo de ter um filho. Assim, a menina [66] dirige seus impulsos eróticos para o pai desejando substituir a mãe nas suas relações com ele. Enquanto, no menino, o complexo de Édipo é seguido pelo temor da castração, na menina desenvolve-se depois da aceitação da castração. O complexo de castração na menina manifesta-se pela inveja do pênis.

Quando não há uma aceitação da suposta castração, a menina rebela-se e comporta-se em muitos aspectos de maneira masculina. A primitiva inveja do pênis desloca-se para todas as prerrogativas masculinas físicas, mentais e sociais e a mulher passa a competir com os homens desejando ser como eles. Nesta linha pode inclusive ter impulsos inconscientes de desmaculinizar os homens. Estes, em geral, percebem as intenções deste tipo de mulher e vulgarmente o chamam de “mulheres castradoras.” Eventualmente, estas fantasias tornam-se realidade e aparecem em manchetes de jornais descrevendo casos em que uma mulher corta o pênis de um homem.

O Problema da Educação Sexual

Na época atual, a excessiva propaganda, assim como a literatura pseudocientífica sobre sexo, têm se difundido nas várias camadas sociais e as pessoas, inclusive pais e mestres, parece que se uniram, em comum acordo, para derrubar todos os tabus sexuais existentes de longa data. Entretanto, a ignorância sobre o desenvolvimento psicossexual, a má interpretação dos fatos, aliados às formações reativas de quem não resolveu os próprios conflitos, acabam por gerar maiores problemas, em vez de educar.

Na educação sexual, a simplicidade, o recato e a segurança na explicação dos fatos às crianças, são fundamentais. Para tornar-se um adulto sexualmente normal, uma criança não precisa, por exemplo, presenciar os pais nus ou participar de conversas de adultos, “cheias de espontaneidade”, sobre sexo, como querem alguns. Pelo contrário, ela deve ser protegida de cenas e experiências que ainda não possam compreender e dominar, para evitar angústias e frustrações. Nem sempre a criança diz tudo o que sente, mas é pródiga em fantasias. No difícil período que é a fase fálica, ela tem um desenvolvimento acentuado da imaginação, ao lado de uma ausência de crítica ou dúvida na [67] interpretação dos fatos. Assim, qualquer dado da realidade pode ser distorcido e considerado como verdadeiro. Uma criança por exemplo, sob a angústia de castração, ao ver por acaso, uma roupa íntima de sua mãe, manchada de sangue menstrual, pode interpretar como a consequência de ferida ou mutilação.

Nesta fase,entretanto, a curiosidade infantil é grande e os pais deveriam proporcionar informações relativas ao campo sexual na medida das demandas dos filhos. Em outras palavras, suas perguntas simples e sem malícia devem ser respondidas com linguagem adequada, levando em conta o que a criança quer saber e a sua capacidade de compreensão. Por exemplo, se um menino pergunta para a mãe: “De onde vim?” a resposta correta seria: “Você veio da barriga da mamãe” . Por muito tempo, ele ficará com sua curiosidade satisfeita. Mais tarde, fará outras perguntas que deverão ser respondidas com a mesma honestidade e simplicidade. Alguns pais, porém, pensam que precisarão contar tudo sobre as relações sexuais, à primeira pergunta que a criança faça a respeito.

Outro problema é o da masturbação. Embora esta seja um fenômeno normal e universal no desenvolvimento da personalidade, muitas pessoas acreditam que deve haver algum mal nela, em qualquer idade. A maioria dos investigadores do assunto concordam que a masturbação, além de ser universal, é necessária para um desenvolvimento sexual satisfatório. Desde o primeiro ano de vida, a criança sente prazer manipulando a área genital e a manipulará em várias ocasiões. No período fálico e na adolescência, a masturbação é mais intensa, mas nunca se constituirá num problema social ou pessoal, se bem manejado. Entretanto, quando é encarada como algo pernicioso, levará a criança a ter sentimentos de culpa e fantasias de punição ou danos físicos, o que poderá interferir, mais tarde, no sucesso de sua vida sexual adulta. A masturbação, em geral, está associada à necessidade de descarga de tensão, más há casos em que ela se torna excessiva levando a supor dificuldades subjacentes na personalidade.

Quando os pais são positivos na sua tarefa educacional, a criança ultrapassará a fase fálica, tendo resolvido satisfatoriamente seu complexo de Édipo, seu complexo de castração e sem o perigo de se transformar num masturbador crônico.Caso contrário, podem ficar fixados auto-eroticamente, procurando o [68] prazer egocêntrico pela masturbação e permanecer apegados às figuras parentais, em vez de relacionar-se com pessoas fora da família. A impotência e a frigidez sexual podem ser também consequentes a fixações na fase fálica.

Muitos pais pensam que não devem informar seus filhos a respeito de assuntos sexuais, pois temem que eles acabem por transmitir o que souberam a outras crianças e assim escandalizar a vizinhança. Por outro lado, pensam que os filhos aprenderão de qualquer forma, como ocorreu com eles próprios. É claro que as crianças se comunicam umas com as outras, conversam sobre sexo e tem uma observação muito arguta das coisas. Porém, acham difícil acreditar no que ouvem fora de casa se não tiverem a confirmação dos pais. Entretanto, podem ter sido tratadas de tal modo por eles, quando lhes indagaram sobre o assunto, que passaram a considerá-lo inconveniente para tratá-lo com os pais. Assim, gastarão uma boa quantidade de energia em fantasias a respeito de fatos sexuais que não foram suficientemente esclarecidos no período oportuno. Então pergunta-se: “O que é preferível, escandalizar a vizinhança com a verdade simples e ter filhos seguros e tranquilos ou deixar que eles se entreguem às suas fantasias ou aprendam os fatos distorcidamente, prejudicando seu futuro desenvolvimento sexual?” Por outro lado, não é preciso temer que a criança se torne depravada. Permitir que ela satisfaça sua curiosidade e aceite seus impulsos sexuais não é a mesma coisa que permitir que ela não tenha nenhum controle sobre eles. Aliás, esta é a conduta que deveria ser rotina nos pais: não desaprovar os impulsos e as tendências naturais dos filhos mas serem capazes de ajudá-los a exercer sobre os mesmos um adequado controle. Não é preciso dizer que assim muita ansiedade seria evitada, agora ou mais tarde.

Desenvolvimento Psicossocial

Erikson[4]considera que na fase fálica, à qual denomina genital-locomotora, o desenvolvimento da personalidade envolve um equilíbrio entre duas atitudes psicossociais: iniciativa e culpa. [69] A iniciativa está intimamente ligada à busca dos objetos de satisfação dos impulsos. É a iniciativa o que move a criança na direção do progenitor do sexo oposto como objeto sexual, como também é ela que a auxilia depois a renunciar este mesmo objeto, a dirigir-se a objetos substitutos e a buscar no progenitor do mesmo sexo o modelo para identificação. A culpa surge como consequência dos sentimentos de onipotência, rivalidade, competição e ciúmes que acompanham o desejo de obter, a qualquer custo, os fins procurados. Nesta fase, o comportamento infantil apresenta-se repleto de fantasias e atividades caracterizadas pela iniciativa. Assim, são as ideias de penetração em outros corpos, por meio do ataque físico, a intromissão nos ouvidos e na mente dos outros, através de palavras agressivas, a invasão dos espaços, pela locomoção vigorosa, e a exploração do desconhecido, pela curiosidade. Os aspectos afetivos cognitivos e conativos associam-se na formação das atitudes psicossociais neste período. As crianças consideram os atos sexuais dos adultos como agressões mútuas, em que o homem tem um papel intrusivo e a mulher um papel incorporativo, retentivo. Em ambos os sexos, a conduta social básica é a de “tirar vantagens”: ataque frontal, prazer na competição e na conquista, insistência em alcançar uma meta. A criança quer ser grande e identificar-se com pessoas cujo trabalho ou personalidade são respeitados e apreciados. Por exemplo, quando a criança está brincando, ela não está simplesmente usando sua vontade ou habilidade de manipular, mas está também fazendo projetos e planeja uma série de coisas que a levarão à sua independência. Entretanto, o medo inconsciente de retribuição taliônica às fantasias de onipotência cria formas de controlar as iniciativas. Naturalmente, o desenvolvimento da iniciativa, que é uma atitude social desejável, depende da compreensão que os pais tenham dos impulsos naturais da criança e das medidas justas que imponham à sua satisfação. Por exemplo, uma menina pequena no afã de ser grande, de parecer-se com a mãe, deseja pintar-se ou arrumar a casa. Outra, quer guiar o automóvel ou usar um facão de cozinha. Evidentemente as duas últimas situações que implicam em perigo para a criança devem ser proibidas. Seria ideal que os pais pudessem estimular todas as iniciativas que não implicassem em prejuízo para o próprio indivíduo ou para os outros. [70]

Caráter Fálico e Caráter Genital

As pessoas com um caráter fálico são temerárias, resolutas, seguras de si mesmas, mas estes traços são reativos a sentimentos de inferioridade. Estas pessoas são narcísisticamente fixadas na fase fálica, superestimando o pênis e confundindo-o com o corpo. A fixação pode ter duas origens: ou é uma reação ao medo de castração ou uma defesa contra as tendências à passividade anal. Em geral, esses indivíduos, também oralmente dependentes, são muito vaidosos, hipersensíveis e abertamente agressivos, o que evidencia tanto necessidades narcisísticas como reações a temores de castração. Usam o pênis não como instrumento de amor, mas como uma arma, e diante da possibilidade de um ataque, atacam primeiro. São provocativos, não tanto pelo que dizem ou fazem mas pela forma como se expressam. Inclinados a exibir sua masculinidade têm, no entanto, hostilidade e despeito para com as mulheres. Comportam-se como se, sentindo-se inconscientemente castrados, recuperassem o pênis perdido e o exaltassem frente aos demais. Algo semelhante ocorre com as mulheres capazes de proporcionar bem-estar a outros. Demonstram traços de fases precedentes orientados de uma forma socialmente adequada. Isto é, são receptivos, autoconfiantes, responsáveis e possuem um grau adequado de cautela e previsão. Na realidade, porém, como pondera Fenichel[5], caráter genital é um conceito ideal.

Convém lembrar aqui, que a classificação de tipos de caráter que utilizamos está relacionada à evolução psicossexual do indivíduo. Assim, foram considerados cinco tipos de caráter: oral, anal, uretral, fálico e genital. Há outros tipos de classificação, como a que é feita em termos clínicos, incluindo, por exemplo, o caráter depressivo, o histérico, o obsessivo, o esquizóide, o fóbico etc.[6][72]



 

Psicologia - Psicanálise
6/18/2019 1:38:20 PM | Por Eduardo Bueno
Livre
O Brasil Indígena

Quem são, de onde vieram, para onde vão? Cinco séculos depois do primeiro encontro, os indígenas do Brasil permanecem um mistério para o homem branco. Não se pode afirmar com certeza de onde vieram, embora a teoria da migração via estreito de Behring continue sendo a mais provável - mesmo tendo perdido a exclusividade. Quando teriam chegado à América também é assunto ainda polêmico: 12 mil, 38 mil, ou 53 mil anos atrás? Ninguém sabe ao certo. Sabe-se apenas que aqui estavam.

De qualquer modo, sua simples presença já configurava um enigma. Quem seriam aqueles homens "nus, pardos, e bons narizes e bons corpos", que negros não eram, nem mouros, nem hindus? Descenderiam de qual das dez tribos de israel? Ou de qual dos três filhos de Noé? Teriam alma? Em caso afirmativo, como poderiam ter vivido tanto tempo "à margem de deus"?

Cristóvão Colombo, achando que chegara ao Oriente, decidira chama-los de "índios" - mas índios os portugueses sabiam que não eram. O que seriam então esses "negros da terra"? Bons selvagens, como sugeriu Pero Vaz de Caminha (e os filósofos Montaigne, Rosseau e Diderot ecoaram), ou antropófagos bestiais e intratáveis, como os Aimoré - que comiam carne humana" por mantimento e não por vingança ou pela antiguidade de seus ódios" -, e outros tão mansos e pacíficos, como os Carijó, "o melhor gêntio da costa"?

Passados 500 anos de convivência sempre conflituada, os indígenas continuam sendo pouco mais do que um mito brasileiro. Afinal, são pessimistas incuráveis, que se suicidam por puro desespero, como membros dos Guarani-Kayowá, ou empresários bem-sucedidos, como os Kayapó? Podem ser apenas sete, como os Xetá, ou 23 mil como os Tikuna. Para onde vão? A resposta não depende deles.

A história brasileira não celebra um único herói indígena - nem aqueles que ajudaram os portugueses a conquistar a terra, como os Tupiniquim Tibiriçá, que salvou São Paulo em 1562; o Temiminó Arariboia, que tomou parte na vitória sobre os franceses em 1567; ou o Potiguar Felipe Camarão, que ajudou a derrotar os holandeses em 1649. O "Cacique" Kayapó Raoni é um herói - mas não no Brasil. É um herói para alguns europeus cheios de boas intenções e má consciência. Raoni parece ter-se tornado um a imagem. Uma imagem tão incongruente quanto a do quadro O último Tamoio, de Rodolfo Amoedo. Na história real, nenhum jesuíta jamais chorou a morte do último Tamoio - que eram aliados dos franceses e foram abandonados pelos padres. Haverá alguém para chorar pelo último Ianomâmi?

 

Os Senhores do Litoral

Dos baixios lamacentos do que é o atual Estado do Maranhao às longas extensões arenosas da costa do sul do Brasil, praticamente todo o litoral brasileiro estava ocupado por tribos do grupo Tupi-Guarani quando, em abril de 1500, Pedro Alvares Cabral desembarcou nas praias de areias faiscantes de Porto Seguro. Havia cerca de 500 anos, Tupinamba e Tupiniquim tinham assegurado a posse dessa longa e recortada costa, expulsando, para os rigores do agreste, as tribos "bárbaras" que eles chamavam de "Tapui".

O que os conduzira ate lá não fora apenas um impulso nômade: partindo dos vales dos rios Madeira e Xingu (afluentes da margem direita do Amazonas), os Tupi-Guarani deram inicio, no começo da Era Cristã, a uma ampla migração de fundo religioso, em busca de uma suposta "Terra Sem Males". Em vez do paraíso, depararam, quinze séculos depois, com estranhos homens barbudos e pálidos, vindos do Leste. A história desse encontro é a história de um genocídio. As seguintes tribos ocupavam as praias brasileiras, de norte a sul:

Potiguar: Senhoreavam a costa em dois territórios distintos: desde os arredores da atual cidade de São Luís, no Maranhão, até as margens do rio Parnaíba; e das margens do rio Acaraú, no Ceará, até as proximidades da atual cidade de Joao Pessoa, na Paraíba. Exímios canoeiros, eram inimigos dos portugueses. Seriam uns 90 mil;

Tremembé: Grupo não Tupi, que vivia do sul do Maranhão ao norte do Ceará, entre os dois territórios potiguares. Grandes nadadores e mergulhadores, foram, alternadamente, inimigos e aliados dos portugueses. Eram cerca de 20 mil;

Tabajara: Viviam entre a foz do rio Paraíba e a ilha de Itamaracá. Aliaram-se aos portugueses. Eram aproximadamente 40 mil;

Caete: Os deglutidores do bispo Sardinha viviam desde a ilha de Itamaracá até as margens do rio São Francisco. Depois de comerem o bispo, foram considerados "inimigos da civilização" Em 1562, Mem de Sá determinou que fossem "escravizados todos, sem exceção' Assim se fez. Seriam 75 mil;

Tupinambá: Os tupinambá constituía o povo Tupi por excelência - o pai de todos, por assim dizer. As demais tribos Tupi era, e certa forma, suas descendentes, embora o que de fato os unisse fosse a teia de uma inimizade crônica. Os Tupinambá propriamente ditos ocupavam da margem direita do rio São Francisco até o Recôncavo Baiano. Seriam mais de 100 mil. De todos os povos indígenas litorâneos, é o mais conhecido;

Aimoré: Grupo não Tupi, também chamado de Botocudo, vivia do sul da Bahia ao norte do Espirito Santo. Grandes corredores e guerreiros temíveis, foram os responsáveis pela derrocada das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espirito Santo. Só foram vencidos no inicio do século XX. Eram apenas 30 mil;

Tupiniquim: Foram os indígenas que tomaram contato com a expedição de Cabral. Viviam em dois territórios: no sul da Bahia e em São Paulo, entre Santos e Bertioga. Eram 85 mil;

Temiminó: Ocupavam a ilha do Governador, na baia de Guanabara, e o sul do Espirito Santo. Inimigos dos Tamoio, aliaram-se aos portugueses. Sob a liderança de Arariboia, foram decisivos na conquista do Rio. Eram 8 mil na ilha e 10 mil no Espirito Santo;

Goitacá: Ocupavam a foz do rio Paraíba do Sul. Tidos como os nativos mais selvagens e cruéis do Brasil, infligiram temor aos portugueses. Grandes canibais e intrépidos pescadores de tubarão. Eram cerca de 12 mil e não pertenciam ao grupo Tupi;

Tamoio: Os verdadeiros senhores da baía de Guanabara, aliados dos franceses e liderados por Cunhambebe e Aimberê, lutaram até o ultimo homem. Eram 70 mil;

Carijó: Seu território ia de Cananeia- SP até a Lagoa dos Patos - RS. Considerados "o melhor gentio da costa", foram receptivos à catequese. Isso não impediu sua escravização em massa por parte dos colonos de São Vicente. Em 1564, participaram de um grande ataque a São Paulo. Eram cerca de 100 mil.

 

O Banquete Antropofágico

De todos os "costumes bárbaros" que professavam os índios brasileiros quando da chegada dos colonizadores ao Novo Mundo, nenhum se revelou mais espantoso ao olhar europeu do que a antropofagia. Ainda que o canibalismo não fosse prerrogativa dos indígenas e já houvesse, em plena Europa, o registro de casos ocorridos em épocas de crise e fome, nada conhecido ate então se comparava aos requintes tétricos do chamado "banquete antropofágico" tal como realizado por quase todos os Tupi e alguns grupos Tapuia.

A morte ritualizada e a deglutição eucarística dos cativos representavam o ponto culminante de uma cerimonia cujo sacramento maior, e o objetivo quase único, era a vingança. O festim canibal foi minuciosamente descrito por cronistas coloniais, entre os quais o pastor calvinista jean de Lery, o franciscano Andre Thevet e o capuchinho Claude Abbeville - os três, franceses. A narrativa mais impressionante, porém, foi feita pelo mercenário alemão Hans Staden, prisioneiro dos Tupinamba entre 1554 e 1557. Graças a eles - e aos estudos realizados nas primeiras decadas do século XX pelo antropólogo francês Alfred Metraux -, é possível reconstituir, passo a passo, as etapas do banquete.

A vitima era capturada no campo de batalha e pertencia àquele que primeiro a houvesse tocado. Triunfalmente conduzido à aldeia do inimigo, o prisioneiro era insultado e maltratado por mulheres e crianças. Tinha de gritar:

"Eu, vossa comida, cheguei".

Apos essas agressões, porém, era bem tratado, recebia como companheira uma irmã ou filha de seu captor e podia andar livremente - fugir era uma ignominia impensável.

O cativo passava a usar uma corda presa ao pescoço: era o calendário que indicava o dia de sue execução - o qual podia prolongar-se por muitas luas (e até por vários anos). Quando a data fatídica se aproximava, os guerreiros preparavam ritualmente a clava com a qual a vitima seria abatida. A seguir, começava o ritual que se estendia por quase uma semana e do qual participava toda a tribo, das mulheres aos guerreiros, dos mais velhos aos recém-nascidos.

Na véspera da execução, ao amanhecer, o prisioneiro era banhado e depilado. Depois, deixavam-no "fugir" apenas para recapturá-lo em seguida. Mais tarde, o corpo da vítima era pintado de preto, untado de mel e recoberto por plumes e cascas de ovos. Ao pôr do sol, iniciava-se uma grande beberagem de cauim - um fermentado, ou "vinho" de mandioca.

No dia seguinte, pela manha, o carrasco avançava pelo pátio, dançando e revirando os olhos. Parava em frente ao prisioneiro e perguntava:

"Não pertences à nação... (tal ou qual), nossa inimiga? Não mataste e devoraste, tu mesmo, nossos parentes?".

Altiva, a vitima respondia:

"Sim, sou muito valente, matei e devorei muitas..."

Replicava, então, o executor:

"Agora estas em nosso poder; logo seres morto por mim e devorado por todos"

Para a vitima, aquele era um momento glorioso, já que os indígenas brasileiros consideravam o estômago do inimigo a sepultura ideal. O carrasco desferia então um golpe de tacape na nuca da vitima. Velhas recolhiam, numa cuia, o sangue e os miolos: o sangue devia ser bebido ainda quente. A seguir, o cadáver era assado e escaldado, para permitir a raspagem da pele. Introduzia-se um bastão no ânus, para impedir a excreção. Os membros eram esquartejados e, depois de feita uma incisão na barriga do cadáver, as crianças eram convidadas a devorar os intestinos. A seguir, retalhava-se o tronco, pelo dorso. Língua e miolos eram destinados aos jovens. Os adultos ficavam com a pele do crânio e as mulheres com os órgãos sexuais. As mães embebiam o bico dos seios em sangue e amamentavam os bebes. As crianças eram encorajadas a besuntar as mãos no sangue vertente e celebrar a consumação da vingança. Os ossos do morto eram preservados; o crânio, fincado numa estaca, ficava exposto em frente à case do vencedor; os dentes eram usados como colar e as tíbias transformavam-se em flautas e apitos.

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Uma festa brasileira na França

O profundo impacto que os indígenas brasileiros provocaram nos viajantes europeus, ao serem vistos - desnudos, pintados, dançando (e eventualmente devorando uns aos outros) - nas praias do Novo Mundo, seria largamente amplificado assim que alguns deles foram levados para a Europa e exibidos nas cortes. O primeiro teria embarcado já na naveta que Cabral fez retornar a Portugal com a noticia da descoberta - pelo menos de acordo com o relato que o padre Simão de Vasconcelos escreveu em 1658 (mais de 150 anos depois daqueles acontecimentos, portanto):

"E foi recebido com alegria do Rei e do Reino. Não se fartavam os grandes e pequenos de ver e ouvir o gesto, a fala, os meneios ele novo individuo da geração humana. Huns o vinhão a ter por um Semicapro, outros por um Fauno, ou por alguns daqueles monstros antigos, entre poetas celebrados".

A surpresa não foi exclusividade portuguesa: já em 1504, o francês Pauhnier de Goneville levou para a França o filho de um líder Carijó, chamado Essomeriq (supostamente "Iça-Mirim"). Ele seria apenas o primeiro de uma longa serie de nativos conduzidos a Paris, Rouen e Dieppe durante as seis décadas que os franceses frequentaram as costas brasileiras, traficando pau-brasil e permanentemente dispostos a estabelecer uma colônia em pleno coração do território português, fosse no Rio, fosse no Maranhão.

Mas nenhuma iniciativa dos franceses envolvendo os nativos do Brasil pode ser comparada, em assombro e magnificência, a chamada "Festa Brasileira em Rouen": Dispostos a impressionar o rei Henrique II e a rainha Catarina de Medici - e convencê-los a investir mais nas expedições "ilegais" ao Brasil -, os armadores e os comerciantes de Rouen prepararam uma impressionante celebração quando da visita real a cidade, no dia 1° de outubro de 1550. Em uma área, às margens do rio Sena, montaram uma autêntica maquete das terras brasileiras: as arvores foram enfeitadas com flores e frutos trazidos do Brasil, o cenário ficou repleto de micos, saguis e papagaios. Entre as malocas indígenas, desnudos e bronzeados, andavam trezentos homens e mulheres. Pelo menos cinquenta eram Tupinamba genuínos, trazidos da Bahia ou do Maranhão especialmente para a comemoração. Os demais eram marinheiros normandos que conheciam bem o Brasil, fluentes em tupi e habituados no trato com os nativos. As mulheres foram recrutadas entre as prostitutas locais.

Era mais do que uma exibição: era um quadro vivo. E, desde o inicio, havia ação: indígenas e figurantes caçavam, pescavam, namoravam nas redes, colhiam frutas e carregavam o pau-brasil. E então, subitamente, no clímax do espetáculo, a aldeia Tupinambá foi assaltada por um bando de Tabajara - índios que, no Brasil, eram aliados dos portugueses. Ocas foram incendiadas, canoas viradas, arvores derrubadas. Houve um combate simulado, ainda que feroz, ao fim do qual os Tabajara haviam sido amplamente derrotados. Na plateia, além do rei e da rainha franceses, estavam também a rainha Mary Stuart, da Escócia, duques, condes e barões, os embaixadores da Espanha, da Alemanha, de Portugal e da Inglaterra, bispos, prelados, cardeais e inúmeros príncipes, além de Nicolas Villegaignon, futuro líder da chamada "Franca Antártica" -, todos assombrados com aquela espetacular representação da vida nos trópicos: o primeiro show brasileiro na Europa.

Durante décadas os indígenas brasileiros continuariam causando sensação na França. Em 1613, três deles tocaram maracas na composição que Gautier, um músico da corte, fez para homenagem os Tupinamba. Mais tarde, inspirando um outro tipo de homenagem - desta vez, filosófica.

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O mito do bom selvagem

O principal legado da atribulada relação entre Brasil e França durante o período colonial não foi politico nem econômico: deu-se no campo das ideias. É provável que tenha sido a frequente presença de nativos brasileiros em cidades portuárias francesas, como Dieppe, Rouen e Saint-Malo, a principal responsável pelo surgimento do mito do bom selvagem - tese que, dois séculos depois de seu aparecimento, adquiriria contornos revolucionários e se transformaria num dos motores da Revolução Francesa. Pelo menos essa é a instigante ideia defendida pelo escritor Afonso Arinos de Mello Franco no saboroso ensaio O índio brasileiro e a Revolução Francesa - As origens brasileiras da teoria da bondade natural, publicado em 1937.

Tudo começou com Michel de Montaigne (1533-1592), que não apenas tinha um criado que convivera com os nativos do Brasil, durante a malfadada experiência da França Antártica entre 1556 e 1558, no Rio, como manteve contato pessoal com três Tupinamba, na França, em 1562. A partir desses dois episódios, e da leitura atenta que fez dos livros de Andre Thevet e Jean de Lery, Montaigne compôs seu clássico ensaio Dos canibais, texto que está na origem do mito do bom selvagem e cujos efeitos seriam duradouros.

Com o fulgor e o radicalismo típicos, Montaigne traçou um painel idílico e vigoroso da vida selvagem, da qual se serve, como num espelho convexo, para atacar os "malefícios da civilização". Ainda assim, ao final do texto, não se esquece de ironizar os índios que idealizou:

"Está tudo muito bem, mas, bom Deus, eles não usam calcas!"

Dos canibais teria duradoura influência, tanto entre filósofos do século XVII, como Locke e Espinosa, como, mais especialmente, entre os humanistas do século XVIII. Em O espirito das leis, que redigiu em 1748, Montesquieu louva o amor à liberdade e o igualitarismo entre os índios. No verbete "Selvagens" de sua monumental Enciclopédia, publicada em 1751, Diderot também apresenta uma versão idealizada e altamente elogiosa dos povos indígenas. Nada se compara, porem, ao clamor revolucionário e a paixão incandescente com a qual Jean-Jacques Rousseau escreveu, entre 1753 e 1760, o Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens e o contrato social.

Ambos os textos foram meditados em seus devaneios de caminhante solitário pela floresta, em Montmorency. Ambos defendem a ideia da bondade natural do homem e de sua corrupção pela civilização. Ambos serviram para estimular os revoltosos de julho de 1789.

Voltaire, uma espécie de versão bizarra de Rousseau, também abordaria o tema. Como lhe convinha, porém, o fez com escarnio e escracho no romance Cândido, de 1759. Além do ataque frontal aos jesuítas, Candido, o herói "otimista" de Voltaire, viaja, em companhia de sua amante, pelo Paraguai, Brasil e Guianas, deplorando os costumes canibais. Nesse sentido, Voltaire ecoa o ceticismo cínico de Shakespeare, que, dois séculos antes, zombara do idealismo de Montaigne ao criar, na peça A tempestade, o personagem Caliban - selvagem rude e cruel. Ainda assim, foram as ideias defendidas por Montaigne as que prevaleceram. E ate hoje são elas que parecem pautar - para o bem e para o mal - a visão dos europeus sobre os nativos americanos.

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O futuro dos índios no Brasil

Como na história bíblica de Ló - o sobrinho de Abraão que sobreviveu à destruição de Sodoma e Gomorra e teve de praticar o incesto com as duas filhas para evitar o fim da própria tribo -, apenas uma relação incestuosa poderá salvar os índios Ava-Canoeiro da extinção. Outrora temidos e numerosos - eram mais de três mil em 1750 -, os Ava-Canoeiro não são, na aurora do Terceiro Milênio, mais do que dez. Entre essa única e ultima dezena de sobreviventes, apenas o garoto Trumack (nascido em 1987) e a menina Potdjawa (de 1989) podem ter filhos. Só que Potdjawa e Trumack são irmãos. Como entre muitos outros povos do mundo, entre os Ava-Canoeiro a pena para o incesto é a morte. O dilema dessa tribo é exemplar: haverá para os índios do Brasil futuro que não seja perverso?

Tão desesperador quanto o caso dos Ava-Canoeiro é o dos Xeta, do Paraná, tribo da qual so restam sete membros. Do descobrimento até hoje, mais de mil grupos étnicos já foram extintos no Brasil. Sobram 200 tribos e pouco mais de 300 mil índios. Suas reservas ocupam 850 mil quilômetros quadrados, ou cerca de 10% do território nacional - área sob constante ameaça de invasores e posseiros. Em pleno século XXI, o Brasil ainda trata seus nativos como mero entrave ao avanço da civilização. Dessa forma, infelizmente, não é possível dizer se ainda haverá salvação para os habitantes originais de Pindorama, a Terra das Palmeiras.

De todos os dramas vividos pelas tribos brasileiras, o mais rumoroso tem sido o do suicídio coletivo dos Guarani-Kayowa, de Mato Grosso do Sul. Agrupados em reservas improdutivas, submetidos a um regime de trabalho semi-escravo e despojados de suas tradições, 236 Kayowa se mataram em menos de uma década. Só em 1995, foram 54 os que cometeram o dedui, o suicídio ritual - ou rito de "apagar o Sol", como os próprios índios, trágica e poeticamente, o denominam.

Em dezembro de 1995, o então Ministro da Justiça Nelson Jobim foi a Mato Grosso do Sul e aumentou a área de uma das menores reservas dos Kayowa. No mesmo dia, porém, o jovem Odair Lescano, de 17 anos, enforcou-se no abacateiro em frente à sua choupana. Poucas semanas antes da morte de Lescano, antropólogos da Funai haviam contatado, em Rondônia, um casal de índios de um grupo desconhecido até então. De acordo com os dois sobreviventes, o restante da tribo já havia sido exterminado por fazendeiros.

No Brasil, a Idade da Pedra ainda não acabou.

História - Brasil
6/17/2019 7:57:27 PM | Por Flávio Fortes DAndrea
Texto indicado para estudantes de Psicologia
Desenvolvimento da personalidade, a Fase anal

A fase oral termina, mais ou menos no fim do primeiro ano de vida. Isto, obviamente, não significa que as atividades orais deixem de existir. Vão, porem, cedendo lugar a outras atividades. A criança passa, aos poucos, de uma posição predominantemente passiva e receptiva para uma posição predominantemente ativa. Sua habilidade muscular aumenta, aprende a gatinhar, a ficar de pé sem apoio, a andar e a falar. Seu interesse pelo mundo que a rodeia é maior e este já lhe faz, de forma verbal, exigências de acordo com as normas socioculturais. Paralelamente, desenvolve-se a capacidade de julgar a realidade e antecipar situações, o que possibilita uma maior tolerância à tensão.

Durante o segundo e terceiro ano de vida,a região do ânus adquire uma importância fundamental na formação da personalidade. Neste período a energia libidinosa está concentrada na porção posterior do trato digestivo e a satisfação anal ocupa uma posição de destaque. A criança obtém prazer pela estimulação da mucosa retal e das partes adjacentes. As funções da parte terminal dos intestinos são tão prazerosas agora, como o foram a da entrada do tubo digestivo, na fase oral. Além do prazer natural pelas atividades anais, a criança é ainda estimulada pela valorização que os pais dão a estas funções. Assim, se criança está constipada, a mãe pode dar laxantes ou fazer enemas, para que as fezes sejam eliminadas. Evacuações muito frequentes são também razão para preocupações e cuidados redobrados. Deste modo, o excesso de atenção dos adultos pode aumentar o interesse da criança pelas funções excretoras. [47]

Além disso, em condições normais, a criança tem que aprender a controlar os intestinos de acordo com as exigências do meio em que vive. Este aprendizado atinge-a, emocionalmente, mais que outros, como o de vestir-se ou deixar de brincar para ir dormir, pois liga-se a seu corpo e suas sensações.As diversas sociedades e culturas têm atitudes diferentes quanto ao controle dos intestinos e da bexiga. Umas são mais frouxas, outras mais rígidas em suas exigências de limpeza, asseio e controle das excreções. Na nossa sociedade, em que pese as diferenças familiares, geralmente espera-se que a criança ao atingir os três anos tenha adquirido hábitos de limpeza e tenha aprendido a controlar seus esfíncteres.

Estas exigências do meio, naturalmente, estão em desacordo com os impulsos do indivíduo. Se os intestinos ou a bexiga estão cheios, ele deseja esvaziá-los imediatamente para obter alívio de tensão e prazer. Entretanto, o mundo externo determina normas para as atividades eliminatórias, local apropriado, horários etc. Por isso, a criança tem que aprender a reter os excrementos, quando desejaria eliminá-los. Todavia, logo descobre, que retendo, o prazer posterior da eliminação é maior. Então deseja reter, quando o meio quer que elimine. Portanto, a fase anal, como a oral, tem também duas etapas: — a expulsiva e a retentiva. Na primeira, inconscientemente, a criança considera as fezes como objetos internos que são destruídos pela eliminação e evacuar pode ser, assim, uma expressão da liberação de forças destrutivas. Nas relações objetais a excreção assume características de agressividade prazenteira, portanto sádicas. Isto é observado quando a criança faz uso das evacuações para contrariar os pais que desejam mantê-la limpa. Na etapa retentiva, o prazer principal deixa de ser a expulsão das fezes, para ser a retenção. Além da antecipação de um prazer maior pela expulsão posterior, a retenção determina uma intensa estimulação prazerosa da mucosa retal. Por outro lado, o valor que os adultos dão a evacuação, leva a criança a fantasiar que os produtos fecais são material precioso e a querer guardá-los para si. Aqui, também surge o aspecto sádico, pois a criança em vez de oferecer suas fezes de presente, como expressão de amor, poderá retê-las como gesto hostil aos pais que desejam a evacuação. [48]

Naturalmente as atitudes dos familiares, principalmente da mãe, em relação ao aprendizado do controle dos esfíncteres, bem como de outros cuidados, como lavar as mãos, escovar os dentes, tomar banho, manter-se arrumada, deixar os brinquedos em ordem, ser atenciosa com os companheiros, ser bem educada com os parentes e visitas, são decisivas para o sucesso no desenvolvimento da criança nessa fase.

Na maioria dos lares, há sempre grande quantidade de afazeres que aumentam quando há crianças. As fraldas para lavar, os brinquedos em desordem, as marcas de mãos sujas nas paredes, são motivos para as mães desejarem que os filhos aprendam, o mais depressa possível, a se comportarem como gente grande, a serem ordeiros e limpos, proporcionando assim, aos familiares, menos trabalho e maior satisfação-estética. Por isso exercem toda sorte de pressões para obterem da criança a conduta exigida. Esta que, durante a fase oral, vivia numa dependência quase absoluta, com nenhuma responsabilidade, tem agora que colaborar ativamente e ser responsável. Isto é, tem que mudar de uma posição de receptor para outra de doador. Quando a criança está suficientemente amadurecida para aceitar o novo papel, isto é, quando a musculatura está mais desenvolvida, as fibras nervosas mielinizadas, a compreensão das comunicações verbais aumentada, ela terá maior controle das situações e maiores oportunidades para descarga de tensões. Não é preciso dizer que exigir de uma criança, fisicamente não amadurecida, comportamentos que dependem deste amadurecimento, é submetê-la a uma injusta carga de tensão e ansiedade, cujas consequências serão sempre negativas.

A facilidade com que se adquire o controle dos esfíncteres depende, principalmente, dos seguintes fatores: 1) o grau de amadurecimento físico, isto é, o desenvolvimento neuromuscular que permite à criança manter-se sentada e a mielinização dos feixes piramidais que possibilita o controle voluntário da musculatura estriada; 2) a capacidade de compreensão e de comunicação da criança; 3) atitudes compreensivas dos pais; 4) a tolerância da criança em suportar tensões; 5) a gratificação associada ao processo de aprendizagem.

Certas famílias levam em conta as capacidades da criança e o controle dos esfincteres começa somente após um ano de [49] idade. Esta é uma atitude correta, pois a criança realmente não está preparada para isto, antes desta época. Alguns pediatras recomendam que o início do aprendizado do controle esfincteriano comece aos 18 meses. Obviamente há variações individuais, umas aprendem mais cedo, outras mais tarde. O que há de importante a se considerar é que o treinamento não é fácil nem rápido. É preciso uma dose grande de paciência e compreensão por parte dos pais, pois são necessários vários meses para que a criança assimile o aprendizado. Mesmo as mães de crianças inteligentes e bem desenvolvidas devem estar preparadas para iniciar o treinamento, por volta de um ano, e aguardar de seis a doze meses que a criança aprenda a controlar os intestinos. Em relação ao controle vesical, o período é mais longo, indo até os três ou três anos e meio. Muitas mães. entretanto, não consideram o amadurecimento físico e a compreensão da criança e agem como se o treinamento completo devesse se realizar em poucos dias. Pressionam, assim, o filho com exigências e reprovações é, mesmo, castigos físicos, sendo tudo isto muito traumático para o desenvolvimento da mentalidade infantil.

Angústia Objetiva e Precursores do Superego

Neste período de desenvolvimento da personalidade, o fenômeno da angústia tem características particulares. A criança ao assumir a posição de doador estabelece, com o meio, relações mais objetivas, tendo que contribuir com sua conduta para satisfazer as suas demandas. Ela percebe, agora, que há formas de conservar o amor dos pais e evitar a punição. Basta corresponder as suas exigências. Desenvolve-se, então, uma angústia objetiva que é a antecipação da desaprovação externa se a criança comporta-se ou deseja comportar-se em desacordo com as normas do meio.É claro que o desenvolvimento da angústia objetiva depende das características deste meio. Quando ele é incoerente nas suas normas ou faz exigências além do limite de tolerância ou das capacidades da criança, esta terá dificuldade em avaliar [50] , a realidade e antecipar suas respostas, vivendo num estado permanente de ansiedade, como se estivesse constantemente ameaçada.

Na angústia objetiva, os controles não estão, de início, solidificados na personalidade. Quer dizer, a criança tende a ter um comportamento “ético” na presença dos pais, mas não se comportará assim, na sua ausência. Não sentirá, nestas circunstâncias, remorso ou vergonha por sua conduta, mas poderá temer que os pais a descubram. Um exemplo comum é o da mãe que relata ao médico não compreender o “estranho” comportamento de seu filho, que, embora já tenha aprendido a evacuar no penico e a manter-se limpo, foi surpreendido brincando com as fezes que havia feito no chão, num dia em que ela não pode estar a seu lado.

À medida que o tempo passa, as proibições paternas vão sendo internalizadas, constituindo as primeiras etapas de formação do superego. A introjeção das proibições se deve principalmente ao medo de perder o afeto dos pais. Embora Melanie Klein[1]tenha considerado que os sentimentos de perda de amor, que serviriam de base para a estruturação do superego, já existam na fase oral, aqui o fenômeno é mais objetivo pelo maior desenvolvimento da consciência. É frequente observar-se crianças que, antes de realizar um ato proibido, olham para a mãe ou uma figura correspondente e movem o dedo ou meneiam a cabeça dizendo não. As proibições podem ser projetadas em outras pessoas, como policiais ou mendigos, que passam a ser precursores externalizados do superego. Aos poucos, mesmo na ausência de outras pessoas, a criança procurará manter-se limpa e ter uma conduta socialmente adequada. Sentirá, também, vergonha e humilhação se tiver descontroles intestinais ou vesicais mesmo que os pais sejam compreensivos. É como se não mais temesse ofendê-los mas sim ao hábito higiênico introjetado.

Ambivalência, Bissexualidade, Sadismo e Masoquismo

As relações do indivíduo com os objetos na fase anal continuam sendo ambivalentes como na etapa oral agressiva. Quer dizer, a criança continua tendo impulsos contraditórios, [51] construtivos e destrutivos, ou seja, de amor e ódio às pessoas significativas de seu mundo. A ambivalência anal tem sua base fisiológica na atitude contraditória da criança para com as fezes. Expulsar e reter podem ter significados diferentes, de acordo com a educação do controle dos esfíncteres. As fezes, como vimos anteriormente, podem expressar amor quando consideradas objetos preciosos ou hostilidade depois de serem condenadas como sujas; expulsar pode significar uma atitude positiva de doação ou uma ostentação de desprezo. É comum na linguagem popular expressões como “vou soltar o tutu (dinheiro) e ajudar Fulano” ou “cago um quilo por tudo o que ele disse”[2]. Estas expressões representam resquícios da simbologia do processo de evacuação. Do mesmo modo, reter pode ambivalentemente ser uma demonstração de amor ou de ódio. No primeiro caso, significará amparar, proteger, tomar a seu cuidado uma pessoa, levar em consideração sua felicidade; no segundo caso significará reter para si, não dar nada a ninguém, ser avarento.

Nas relações da criança com os pais, na fase anal, os sentimentos positivos e negativos ocorrem simultaneamente. A criança ao mesmo tempo que ama seus pais e quer colaborar com eles, reconhecendo o amor que deles recebe, também os odeia, pois sente-os como obstáculos a satisfação de seus impulsos. Embora a ambivalência seja um fenômeno universal e permaneça durante toda a vida do indivíduo, poderá haver um reforço de um de seus polos. Este reforço depende, em grande parte, das atitudes dos pais para com a criança no período anal de desenvolvimento.

De modo geral, pode-se dizer que a compreensão e a tolerância dos pais na educação dos filhos reforçará, nestes, as atitudes positivas. Conduta oposta dos pais gerará hostilidade e negativismo, reforçando o aspecto negativo da ambivalência.

A concomitância de impulsos construtivos e destrutivos e a necessidade de satisfação destes impulsos levam a criança a dominar aqueles que a rodeiam e fazer tudo o que possa para obter. Lembramos que, no período anal, há também o desenvolvimento da linguagem e as palavras assumem um poderoso meio de manipular os dados da realidade. A criança adquire a crença mágica de que pode dominar qualquer coisa nomeando-a. O poder da palavra aparece depois no adulto, nos juramentos, nas obscenidades etc. [52] prazer, mesmo à custa do sofrimento alheio. Em contraposição a este sadismo, a criança desenvolve a necessidade de punição e castigo que afasta magicamente o perigo da perda de amor pelas atitudes sádicas. Mas não é só isto. A necessidade de sofrer castigo está ligada também à satisfação de impulsos autodestrutivos e eróticos. O castigo físico proporciona indiretamente certo prazer, pela estimulação das nádegas e outras partes do corpo. Assim, sadismo e masoquismo, isto é, a tendência a fazer sofrer e a sofrer, constituem uma associação complexa que se torna mais evidente na fase anal. Observam-se, por exemplo, crianças que tentam dominar o meio através de “birras” e crises de nervos e que se acalmam e mostram-se contentes se são castigadas. Embora sempre associados pode haver predominância, em certos indivíduos, de um ou outro comportamento, quer dizer, há pessoas predominantemente sádicas e outras predominantemente masoquistas. A presença destes comportamentos de forma persistente na criança ou no adulto, decorre do mau manejo da ambivalência por parte dos pais que não souberam estimular nos filhos as atitudes positivas.

Outro aspecto relacionado à fisiologia das excreções é a bissexualidade. O reto é um órgão oco que tanto pode expulsar ativamente algo como ser estimulado por um corpo estranho em seu interior (por exemplo, um cilindro de fezes, supositórios etc.). Tendências masculinas derivam do primeiro aspecto e femininas do segundo. Por outro lado, a matéria fecal, pelo pensamento mágico da criança, pode ser considerada como algo valioso ou parte do próprio corpo que é eliminada. A perda das fezes na fase anal, assim como o desligamento do seio na fase oral, são assim substratos para o futuro desenvolvimento do complexo de castraçãoque veremos no capítulo seguinte.

Quanto à micção, o prazer em urinar ou em reter urina e os conflitos que advém do aprendizado do controle da bexiga estão mais Intimamente ligados com a sexualidade genital. Fenichel[3]considera que o erotismo uretral está entrelaçado com a fase fálica. Os fins originais dos impulsos uretrais são, de início, narcisistas ou auto-eróticos como os impulsos orais e anais. [53]

Depois voltam-se para os objetos externos nas fantasias eróticas de urinar nos mesmos. Urinar, na fantasia infantil tanto do menino quanto da menina, pode ter um duplo aspecto: um masculino ou mesmo sádico, equivalendo a uma penetração ativa no objeto ou sua destruição, e outro feminino, equivalente a uma atitude de soltar a urina, ou seja, entregar-se passivamente. Quando a parte ativa do erotismo uretral é mais tarde substituída no menino pela genitalidade, os impulsos uretrais passivos, geralmente associados a impulsos anais, podem entrar em conflito com o comportamento sexual masculino. Na menina, os impulsos uretrais e anais ativos podem, por sua vez, entrar em conflito, mais tarde, com o comportamento sexual feminino. É claro que estes conflitos so aparecerão se houver perturbações nas relações interpessoais, prejudicando o processo de identificação masculina ou feminina.

Desenvolvimento Psicossocial

Levando em conta os aspectos socioculturais, Erikson[4]concebeu para a fase anal um conflito básico de cuja resolução depende o desenvolvimento psicossocial da criança nesta fase. O conflito é o da autonomia versus vergonha, dúvida. O desenvolvimento da musculatura geral da qual faz parte, naturalmente, os esfíncteres, proporciona a criança um domínio maior do ambiente.À medida que aprende a manejar a musculatura, desenvolve sua capacidade de realizar o que quer. Uma criança que aprendeu na fase oral a confiar na mãe e no mundo e, portanto, em si mesma, tem que testar esta confiança. Assim, coloca sua vontade contra a dos outros, mesmo a de seus protetores. As culturas têm formas diferentes de incentivar ou de impedir o desenvolvimento desta autonomia. Algumas culturas, como a nossa, alimentam o sentimento de vergonha sempre que a criança impõe a sua vontade contra a vontade dos demais. A criança que maneja seus esfíncteres, fazendo uso da sua autonomia, sem levar em conta as exigências de pontualidade e limpeza do meio, pode ouvir dos familiares a frase: “Você não tem vergonha de fazer isto?” Nesta [54] fase ela começa a se ruborizar, sintoma de que sente-se criticada e ridicularizada. Naturalmente, a proporção de autonomia e de vergonha depende dos obstáculos colocados pelos familiares e pelos valores culturais às manifestações de independência. Uma criança de um meio familiar ou de uma cultura pode sentir-se embaraçada numa situação em que outra criança, de outra família ou outra cultura, não se embaraçaria. Em qualquer caso, para a boa adaptação psicossocial, ao lado de uma certa dose de vergonha e dúvida, é necessário uma prevalência da autonomia. Uma proporção exagerada de dúvida, como uma medida para evitar “passar vergonha” e sentimentos de ridículo, pode tornar o indivíduo socialmente inibido e inadaptado. Por outro lado, a ausência de sentimentos de vergonha ou dúvida pode tornar ineficaz a autonomia do indivíduo, pela rejeição social que provoca.

Assim, o meio familiar tem de ensinar a criança a desenvolver proporções adequadas dessas atitudes em função da cultura em que vive.

Simbologia das Excreções e Expressão Social

À medida que se desenvolve em contato com o meio social, a criança vai substituindo seu primitivo interesse pelas fezes pelo interesse por dinheiro e outras coisas de valor para guardar ou para trocar. Evidências da relação simbólica entre dinheiro e matéria fecal aparece na vida cotidiana, na linguagem e no folclore. Expressões como “solte o dinheiro” , “me limparam” ou “está podre de rico” são comuns na linguagem popular. O primitivo costume de dar purgantes aos devedores para “fazê-los pagar”, contos populares como o da galinha dos ovos de ouro, do burrinho que cagava dinheiro, são outros exemplos. Nos jogos infantis, nos sonhos e nos testes projetivos essa simbologia também aparece.

A redireção do apego prazeroso às fezes para algo mais aceito socialmente representa o processo de sublimação dos impulsos anais. Ferenczi[5]fez uma interessante descrição das substituições graduais de interesses que adota a criança no seu afã de [55] sublimar o original prazer de brincar com as fezes. Considera a seguinte sequência: 1) a criança manipula as fezes que são marrom, úmidas e pastosas, cheiram mal e são inúteis; 2) passa depois a brincar com barro, que tem características próximas às das fezes, menos o cheiro; 3) depois descobre a areia que já não tem a umidade; 4) a seguir sua atenção volta-se para pedrinhas e pequenos objetos que não tem mais a consistência mole; 5) começa a colecionar estampas, figurinhas e finalmente dinheiro que tem mais cor e maior valor social. É óbvio que esta sequencia é esquemática, mas de útil conhecimento para que se proporcionem oportunidades ao desenvolvimento de sublimações na criança. Oferecer-lhe areia para brincar, massa para modelar, aquarela, material para finger-paint etc., além de favorecer o desapego progressivo das fezes, auxiliará no desenvolvimento de sua capacidade criadora.

Os primitivos impulsos anais e a resolução dos conflitos associados a seu manejo podem levar o indivíduo por diferentes caminhos na sua expressão como ser social, dependendo do grau de satisfação sublimada. Assim, algumas pessoas são simplesmente desbocadas e “sujas”, outras são desbocadas e “sujas” apenas nas peças literárias que escrevem, outras transformam seus antigos desejos em beleza pictórica e obras de arte plástica, outras ainda podem ser eminentes parasitologistas.

Caráter Anal

As restrições que os pais fazem às iniciativas da criança, principalmente quanto à satisfação dos impulsos anais, através do controle dos intestinos, influem no desenvolvimento da personalidade, levando à formação de traços de caráter correspondentes a esta fase. A predominância do caráter anal na personalidade dependerá do grau das fixações e das formações reativas, sublimações e outros mecanismos de defesa utilizados no manejo dos impulsos anais. Por exemplo, observa-se que pessoas com prisão de ventre parecem também “aprisionadas” dentro, de si mesmas no relacionamento com os outros. São em geral fechadas, mal humoradas, possuindo uma hostilidade encoberta. Além disso, são geralmente mesquinhas, obstinadas, ordeiras e [56] meticulosas, preocupam-se com detalhes, regras e formalidades. Sua necessidade de ordem pode ser excessiva e inadequada, custando-lhe considerável quantidade de tempo e esforço. Os conflitos da fase anal retratam-se no caráter dos indivíduos que, por exemplo, gastam um tempo exagerado cuidando de detalhes insignificantes e depois se afobam ao perceber que sobrou pouco tempo para realizar coisas importantes. Algumas pessoas ficam constipadas por muito tempo e de repente têm diarréias explosivas. Outras apresentam-se, por fora, meticulosamente limpas e arrumadas, estando entretanto sujas na intimidade. Os objetos sobre seus móveis podem estar muito bem arrumados, mas dentro das gavetas reinará a mais completa desordem. O ditado popular: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento” ilustra bem a ambivalência do caráter anal. Tais pessoas tem muitas dúvidas se conservam as coisas ou as repartem com os outros, se gastam ou economizam, se dão ou se negam. Podem ser frias e racionais, agindo com atitudes rígidas de autômato. Geralmente têm-se em elevado conceito e orgulham-se de sua inteligência e integridade moral. Paradoxalmente, porém, são inseguras e criticam-se pelas mínimas falhas. A sensibilidade que têm pelas próprias deficiências parece não ajudá-las a serem tolerantes. Assim, são críticos destrutivos e vingativos.

Estes traços que se originaram, basicamente, nas relações interpessoais da criança com as figuras parentais significativas, continuam sendo a base do relacionamento social do indivíduo. Assim, a pessoa com um caráter anal, pode sentir que há sempre alguém que está querendo lhe tirar alguma coisa ou que os outros a envergonharão se ela expressar seus verdadeiros sentimentos.

Indivíduos paranóides, que têm sentimentos de grandeza mas também temem ser atacados pelos outros, frequentemente, têm fortes características anais. O ponto chave do caráter anal parece ser o fato de que o indivíduo, supercontrolado na fase anal, desenvolverá fantasias inconscientes que devem esconder os sentimentos de agressão pois se estes forem exteriorizados ele estará sob a mira do ódio e do perigo. Desta forma desenvolve maneiras defensivas de preservar a autonomia, evitando expor-se no contato com os outros.

Os traços de caráter anal podem ou não estar suficientemente desenvolvidos para interferir com a gratificação de necessidades [57] básicas e com a adaptação psicossocial do indivíduo. Alguns traços são mesmo desejáveis, como por exemplo, a ordem, a pontualidade, a perseverança, a perfeição no trabalho e a habilidade em economizar. Estes traços ajudam na formação de um bom profissional e podem levar uma pessoa a ser um bom chefe, se a autoridade vier acompanhada de compreensão e amabilidade. Entretanto, num grau acentuado, podem transformar o indivíduo, num transtorno para os que o rodeiam. Se for um pai será rígido demais, viverá pela ordem, não tolerará nenhum deslize em si ou na família e pouca alegria será permitida em casa. Se for um patrão, seu exagerado perfeccionismo criará um ambiente de tensão intolerável para os empregados.

Quanto ao erotismo uretral, os conflitos a ele associados podem levar a características de comportamento que dependem de formações reativas em relação aos sentimentos de vergonha. Ambição, piromania, necessidade de gabar-se dos próprios feitos e uma grande impaciência são os principais traços de caráter uretral descritos na literatura. Geralmente, os portadores destes traços tiveram enurese até uma idade superior à normal para o controle da bexiga. No caso da piromania, por exemplo, a linguagem inconsciente do indivíduo seria: “Se posso secar qualquer coisa com ‘meu fogo’, não há razão para eu sentir vergonha por molhar a cama.” [58]

Psicologia - Psicanálise
6/16/2019 2:41:59 PM | Por Marco Aurélio Antonino Augusto
Livre
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VII

1. O que é a maldade? É o que tens visto muitas vezes. E a propósito de tudo o que acontece, tenhas presente que isso é o que tens visto muitas vezes. Em resumo, de baixo para cima, encontrarás as mesmas coisas, das que estão cheias as histórias, as antigas, as médias e as contemporâneas, das quais estão cheias agora as cidades e as casas. Nada novo; tudo é habitual e efêmero.

2. As máximas vivem. Como, de outro modo, poderiam morrer, a não ser que se extinguissem as imagens que lhes correspondem? Em tuas mãos está reavivá-las constantemente. Posso, em relação a isso, conceber que é preciso. E se, como é natural, posso, por que perturbar-me? O que está fora, de minha inteligência nenhuma relação tem com a inteligência. Aprenda isso e estarás no que é correto. É possível reviver. Olhe novamente as coisas como as tens visto, pois nisso consiste o reviver.

3. Vão desejo à pompa, representações em cena, rebanhos de gado menor e maior, lutas com lança, ossos jogados aos cães, migalhas destinadas aos viveiros de peixes, fatigas e colônias de formigas, idas e voltas de ratos assustados, fantoches movidos por fios. Convém, pois, presenciar esses espetáculos benevolamente e sem rebeldia, mas seguir e observar com atenção que o mérito de cada um é tanto maior quanto meritória é a tarefa objeto de seus alas.

4. É preciso seguir, palavra por palavra, o que se diz, e, em todo impulso, seu resultado; e, no segundo caso, ver diretamente a que objetivo aponta a tentativa; e no primeiro, velar por seu significado.

5. Minha inteligência é suficiente para isso ou não? Se é suficiente, sirvo-me dela para esta ação como se fosse um instrumento concedido pela natureza do conjunto universal. Mas se não me basta, cedo a obra a quem seja capaz de cumpri-la melhor, a não ser, por outro lado, que isso seja de minha incumbência, ou bem coloco as mãos à obra como possa, com a colaboração da pessoa capaz de fazer, com a ajuda do meu guia interior, o que nesse momento é oportuno e benéfico à comunidade. Porque o que estou fazendo por mim mesmo, ou em colaboração com outro, deve tender, exclusivamente, ao benefício e à boa harmonia com a comunidade.

6. Quantos homens, que foram muito celebrados, caíram já no esquecimento! E quantos homens que os celebraram já há tempos partiram?

7. Não sintas vergonha de ser socorrido. Pois está estabelecido que cumpras a tarefa imposta como um soldado no assalto a uma muralha. Que farias, pois, se, vítima de ferimentos na perna, não pudesses tu somente escalar as fortalezas e, em troca, isso te fosse possível com ajuda de outro?

8. Não te inquiete o futuro; pois irás a seu encontro, se for preciso, com a mesma razão que agora utilizas para as coisas presentes.

 9. Todas as coisas se encontram entre si e seu comum vínculo é sagrado e quase nenhuma é estranha à outra, porque todas estão coordenadas e contribuem à ordem do mesmo mundo. Que um é o mundo, composto de todas as coisas; um é deus que se estende através de todas elas, única a substância, única a lei, uma só razão comum de todos os seres inteligentes, uma também a verdade, porque também uma é a perfeição dos seres do mesmo gênero e dos seres que participam da mesma razão.

10. Tudo o que é material se desvanece rapidamente na substância do conjunto universal; toda causa se funde rapidamente na razão do conjunto universal; a lembrança de todas as coisas fica em um instante sepultada na eternidade.

11. Para o ser racional o mesmo ato está de acordo com a natureza e com a razão.

12. Direito ou endireitado.

13. Como existem os membros do corpo nos indivíduos, também os seres racionais foram constituídos, por esse motivo, para uma idêntica colaboração, ainda que em seres diferentes. E mais te ocorrerá esse pensamento se muitas vezes fizer essa reflexão contigo mesmo. Sou um membro do sistema constituído por seres racionais. Mas se dissesses que és parte, com a mudança da letra “R”, não amas ainda de coração os homens, ainda não te alegras integramente de fazer-lhes favores; mais ainda, se o fazes simplesmente como um dever, significa que ainda não compreendes que fazes um bem a ti mesmo.

14. Aconteça exteriormente o que se queira aos que estão expostos a serem afetados por este acidente. Pois aqueles, se querem, se queixarão de seus sofrimentos; mas eu, se não imagino que o acontecido é um mal, ainda não sofri dano algum. E de mim depende não imaginá-lo.

15. Digam ou façam o que queiram, meu dever é ser bom. Como se o ouro, a esmeralda ou a púrpura dissessem sempre isso: “Façam ou digam o que queiram, meu dever é ser esmeralda e conservar minha própria cor”.

16. Meu guia interior não se altera por si mesmo; quero dizer, não se assusta nem se aflige. E se algum outro é capaz de assustá-lo ou afligi-lo, que o faça. Pois ele, por si mesmo, não se moverá conscientemente a semelhantes alterações. Preocupe-se o corpo, se pode, de não sofrer nada. E se sofre, manifeste-o. Também o espírito animal, que se assusta, que se aflige. Mas o que, em resumo, pensa sobre essas considerações, não há nenhum temor que sofra, pois sua condição não lhe impulsionará a um juízo semelhante. O guia interior, por sua mesma condição, carece de necessidade, a não ser que as crie, e por isso mesmo não tem tribulações nem obstáculos, a não ser que se perturbe e se ponha obstáculos a si mesmo.

17. A felicidade é um bom numenou um bom “espírito familiar”. Que fazes, pois, aqui, ó imaginação? Vá, pelos deuses, como vieste! Não te necessito. Vieste segundo teu antigo costume. Não me aborreço contigo; unicamente, vá.

18. A mudança é temida? E que pode acontecer sem mudança? Existe algo mais querido e familiar à natureza do conjunto universal? Poderias tu mesmo lavar-te com água quente, se a lenha não se transformasse? Poderias alimentar-te se os alimentos não se transformassem? E outra coisa qualquer entre as úteis, poderia cumprir-se sem transformação? Não percebes, pois, que tua própria transformação é algo similar e igualmente necessária à natureza do conjunto universal?

19. Pela substância do conjunto universal, como através de uma torrente, cooperam todos os corpos, naturais e colaboradores do conjunto universal, como nossos membros entre si. Quantos Crisipos, quantos Sócrates, quantos Epítetos absorveu já o tempo! Idêntico pensamento tenhas tu em relação a todo tipo de homem e a todas as coisas.

20. Apenas uma coisa me inquieta: o temor de que faça algo que minha constituição de homem não quer, ou da maneira que não quer, ou o que agora não quer.

21. Próximo está seu esquecimento de tudo, próximo também o esquecimento de tudo em relação a ti.

22. Próprio do homem é amar inclusive os que tropeçam. E isso se consegue quando pensas que são teus familiares e que pecam por ignorância e contra sua vontade e que, dentro de pouco tempo, ambos estarão mortos e que, ante tudo, não te prejudicou, posto que não fez o teu guia interior pior do que era antes.

23. A natureza do conjunto universal, valendo-se da substância do conjunto universal, como de uma cera, modelou agora um potro; depois, o fundiu e utilizou sua matéria para formar um arbusto, depois, um homenzinho, e mais tarde outra coisa. E cada um desses seres subsistiu por pouquíssimo tempo. Mas não é nenhum mal um cofre ser desmontado nem tampouco ser montado.

24. O semblante rancoroso é demasiado contrário à natureza. Quando se afeta reiteradamente, sua beleza morre e finalmente se extingue, de maneira que torna-se impossível reavivá-la. Tente, ao menos, ser consciente disso, na convicção de que é contrário à razão. Porque se desaparece a compreensão do agir mal, que motivo para seguir vivendo nos sobra?

25. Tudo quanto vês, enquanto ainda não é, será transformado pela natureza que governa o conjunto universal, e outras coisas fará de sua substância, e ao mesmo tempo outras da substância daquela, a fim de que o mundo sempre rejuvenesça.

26. Cada vez que alguém cometa uma falta contra ti, medite sobre que conceito do mal ou do bem tinha ao cometer dita falta. Porque, uma vez que tenhas examinado isso, terás compaixão dele e nem te surpreenderás, nem te irritarás com ele. Já que compreenderás tu também o mesmo conceito do bem que ele, ou outro similar. Em consequência, é preciso que lhe perdoemos. Mas ainda se não chegues a compartilhar com seu conceito do bem e do mal, serás mais facilmente benévolo com seu extravio.

27. Não imagines as coisas ausentes como já presentes; antes, selecione dentre as presentes as mais favoráveis, e, à vista disso, lembre-se como as buscarias, se não estivessem presentes. Mas ao mesmo tempo tenha precaução, não deixes que, por comprazer-te a tal ponto em seu prazer, habitua-te a subestimá-las, de maneira que, se alguma vez não estivessem presentes, pudesses sentir-te inquieto.

28. Recolha-te em ti mesmo. O guia interior racional pode, por natureza, bastar-se a si mesmo praticando a justiça e, segundo essa prática, conservando a calma.

29. Apague a imaginação. Detenha o impulso de marionete. Circunscreva-te ao momento presente. Compreenda o que te acontece ou a outro. Divida e separe o objeto dado em seu aspecto causal e material. Pense em tua hora posterior. A falta cometida por aquele, deixe-a ali onde se originou.

30. Compare o pensamento com as palavras. Submerge teu pensamento nos acontecimentos e nas causas que o produziram.

31. Faça resplandecer em ti a simplicidade, o pudor e a indiferença no relativo ao que é intermediário entre a virtude e o vício. Ame o gênero humano. Siga a Deus. Aquele diz: “tudo é convencional, e em realidade só existem os elementos”. E basta lembrar que nem todas as coisas são convencionais, mas poucas.

32. Sobre a morte: ou dispersão, se existem átomos; ou extinção ou mudança, se existe unidade.

33. Sobre a dor: o que é insuportável mata, o que se prolonga é tolerável. E a inteligência, retirando-se, conserva sua calma e não aja em detrimento do guia interior. E em relação às partes danificadas pela dor, se há alguma possibilidade, manifestem-se sobre o particular.

34. Sobre a fama: examine quais são seus pensamentos, quais coisas evitam e quais perseguem. E que, assim como as dunas ao amontoar-se uma sobre outras ocultam as primeiras, assim também na vida os acontecimentos anteriores são rapidamente encobertos pelos posteriores.

35. E a aquele pensamento que, cheio de grandeza, alcança a contemplação de todo tempo e de toda essência, crês que lhe parece grande coisa a vida humana? Impossível, disse. Então, tampouco tal homem considerará terrível a morte? De forma alguma.

36. “Cabe ao rei fazer o bem e receber calúnias”.

37. É vergonhoso que o semblante aceite acomodar-se e alienar-se como ordena a inteligência, e que, em troca, ela seja incapaz de acomodar-se e seguir sua linha.

38. “Não devemos nos irritar com as coisas, pois a elas nada lhes importa”.

39. “Oxalá pudesses dar motivos de regozijo aos deuses imortais e a nós!”.

40. “Ceifar a vida, tal como uma espiga madura, e que um exista e o outro não”.

41. “Se os deuses me esqueceram e esqueceram meus dois filhos, também isso tem sua razão”. 

42. “O bem e a justiça estão comigo”.

43. Não associar-se a suas lamentações, nem a seus estremecimentos.

44. “Mas eu te responderia com esta justa razão: estás equivocado, amigo, se pensas que um homem deve calcular o risco de viver ou morrer, inclusive sendo insignificante a sua valia, e, em troca, pensas que não deve examinar, quando age, se são justas ou não suas ações e próprias de um homem bom ou mau”.

45. “Assim é, atenienses, em verdade. Onde quer que um esteja por considerar que é o melhor ou no posto que seja designado pelo general, ali deve, no meu entender, permanecer e correr risco, sem ter em conta em absoluto nem a morte nem nenhuma outra coisa com preferência à infâmia”.

46. Porque não deve o homem que valorize sê-lo preocupar-se com a duração da vida, tampouco deve ter excessivo apego a ela, mas confiar à divindade esses cuidados e dar crédito às mulheres quando afirmam que ninguém poderia evitar o destino. A obrigação que lhe incumbe é examinar de que modo, durante o tempo que viverá, poderá viver melhor.

47. Contemple o curso dos astros, como se tu evoluísses com ele, e considere sem cessar as transformações mútuas dos elementos. Porque esses pensamentos purificam a vida das sujeiras da vida terrena.

48. Belo o texto de Platão: “preciso é que quem faz discursos sobre os homens examine também o que acontece na terra, como do alto de um monte: manadas de tribunais, regiões desertas, populações bárbaras diversas, festas, trovões, reuniões públicas, toda a mistura e a conjunção harmoniosa procedente dos contrários”.

49. Com a observação dos acontecimentos passados e de tantas transformações que se produzem agora, também o futuro é possível prever. Porque inteiramente igual será seu aspecto e não será possível sair do ritmo dos acontecimentos atuais. Em consequência, ter investigado a vida humana durante quarenta anos ou durante dez mil é a mesma coisa. Pois, o que mais verás?

50. “O que nasceu da terra à terra retorna; o que germinou de uma semente etérea volta novamente à abóboda celeste”. Ou também isso: dissolução dos entrelaçamentos nos átomos e dispersão semelhante dos elementos impassíveis.

51. “Com manjares, bebidas e feitiços, tratando de desviar o curso, para não morrer”. “É forçoso suportar o sopro do vento impulsionado pelos deuses entre sofrimentos sem lamentos”.

52. É melhor lutador; mas não mais generoso com os cidadãos, nem mais reservado, nem mais disciplinado nos acontecimentos, nem mais benévolo cornos menosprezados dos vizinhos.

53. Quando pode cumprir-se uma tarefa de acordo com a razão comum aos deuses e aos homens, nada há que temer ali. Quando é possível obter um beneficio graças a uma atividade bem embasada e que progrida de acordo com sua constituição, nenhum prejuízo deve suspeitar-se ali.

54. Em toda parte e continuamente, de ti depende estar piedosamente satisfeito com a presente conjectura, comportar-te com justiça com os homens presentes e colocar toda tua arte ao serviço da impressão presente, a fim de que nada se infiltre em ti de maneira imperceptível.

55. Não direciones seu olhar para guias interiores alheios, antes, dirija seu olhar diretamente ao ponto aonde te conduz a natureza do conjunto universal por meio dos acontecimentos que te sucedem, e a tua própria pelas obrigações que te exige. Cada um deve fazer o que corresponde a sua constituição. Os demais seres foram constituídos por causas dos seres racionais e, em toda outra coisa, os seres inferiores por causas dos superiores, mas os seres racionais foram constituídos para ajudarem-se mutuamente. Em consequência, o que prevalece na constituição humana é a sociabilidade. Em segundo lugar, a resistência às paixões corporais, pois é próprio do movimento racional e intelectual demarcar limites e não ser derrotado nunca nem pelo sensitivo nem pelo instintivo. Pois ambos são de natureza animal, enquanto que o movimento intelectual quer prevalecer e não ser subjugado por aqueles. Em terceiro lugar, na constituição racional não ocorre a precipitação nem a possibilidade de engano. Assim, que o guia interior, que possui essas virtudes, cumpra sua tarefa com retidão, e possua o que lhe pertence.

56. Como homem que já morreu e que não viveu até hoje, deves passar o resto de tua vida de acordo com a natureza.

57. Amar unicamente o que te acontece e o que é traçado pelo destino. Pois, o que pode adaptar-se melhor a ti?

58. Em cada acontecimento, conservar ante os olhos aqueles aos quais lhes aconteciam as mesmas coisas, e logo se afligiam, se estranhavam, censuravam. E agora, onde estão aqueles? Em nenhuma parte. O que, então? Queres proceder de igual modo? Não queres deixar estas atitudes estranhas aos que as provocam e as sofrem, e aplicar-te inteiramente a pensar como servir-te dos acontecimentos? Os aproveitarás bem e terás matéria. Preste atenção e seja teu único desejo ser bom em tudo o que faças. E tenha presente estas máximas: o que importa são os atos, não os resultados.

59. Cave em teu interior. Dentro se encontra a fonte do bem, e é uma fonte capaz de brotar continuamente, se não deixas de escavar.

60. É preciso que o corpo fique solidamente fixo e não se distorça, nem no movimento nem no repouso. Porque do mesmo modo que a inteligência se manifesta em certa maneira no rosto, conservando-se sempre harmonioso e agradável à vista, assim também deve exigir-se no corpo inteiro. Mas todas essas precauções devem ser observadas sem afetação.

61. A arte de viver assemelha-se mais à luta que à dança no que se refere a estar firmemente disposto a fazer frente aos acidentes, inclusive imprevistos.

62. Considere sem interrupção quem são esses dos quais desejas que contribuam com seu testemunho, e quais guias interiores têm; pois, nem censurarás aos que tropeçam involuntariamente, nem terás necessidade de seu testemunho, se diriges teu olhar às fontes de suas opiniões e de seus instintos.

63. “Toda alma, afirmam, se vê privada contra sua vontade da verdade”. Igualmente também da justiça, da prudência, da benevolência e de toda virtude semelhante. E é bastante necessário que o tenhas presente em todo momento, pois serás mais condescendente com todos”.

64. Em qualquer caso de dor, reflita: não é indecoroso nem tampouco deteriorará a inteligência que me governa; pois não a destrói, nem no aspecto racional, nem no aspecto social. Nas maiores dores, entretanto, lembra-te da máxima de Epicuro: nem é insuportável a dor, nem eterna, se te lembras de teus limites e não imaginas além da conta. Lembra-te também de que muitas coisas, que são o mesmo que a dor, nos incomodam e não percebemos, assim, por exemplo, a sonolência, o calor exagerado, a inaptidão. Depois, sempre que te aborreças com alguma dessas coisas, diga para ti mesmo: cedi à dor.

65. Cuide de não experimentar com os homens não-humanos algo parecido ao que estes experimentam em relação aos homens.

66. De onde sabemos se Telauges não tinha melhor disposição que Sócrates? Pois não basta o fato de que Sócrates tenha morrido com mais glória nem que tenha dialogado com os sofistas com muito mais habilidade nem que tenha passado toda a noite sobre gelo mais pacientemente nem que, havendo recebido a ordem de prender Salaminio, tenha decidido opor-se com maior coragem, nem que tenha congregado tanta gente pelas ruas. Sobre o que não se sabe precisamente nem se é certo. Mas é preciso examinar o seguinte: que tipo de alma tinha Sócrates e se podia conformar-se com ser justo nas relações com os homens e piedoso em suas relações com os deuses, sem indignar-se com a maldade, sem tampouco ser escravo da ignorância de ninguém, sem aceitar como coisa estranha nada do que era designado pelo conjunto universal ou resistir a ela como insuportável, sem tampouco dar ocasião a sua inteligência a consentir nas paixões da carne.

67. A natureza não te misturou com o composto de tal modo, que não te permitisse fixar-te uns limites e fazer o que te incumbe e é tua obrigação. Porque é possível em demasia converter-te em homem divino e não ser reconhecido por ninguém. Tenha sempre presente isso e ainda mais o que direi: em muito pouco radica a vida feliz. E não porque tenhas escassa confiança em chegar a ser um dialético ou um físico, renuncies com base nisso a ser livre, modesto, sociável e obediente a Deus.

68. Passa a vida sem violências em meio do maior júbilo, ainda que todos clamem contra ti as maldições que queiram, ainda que as feras despedacem os pobres membros dessa massa pastosa que te circunda e sustenta. Porque, o que impede que, no meio de tudo isso, tua inteligência se conserve calma, tenha um juízo verdadeiro do que acontece em torno de ti e esteja disposta a fazer uso do que está ao seu alcance? De maneira que eu juízo possa dizer ao que aconteça: “Tu, és isso em essência, ainda que te mostres diferente em aparências”. E teu uso possa dizer ao que aconteça: “Te buscava. Pois para mim o presente é sempre matéria de virtude racional, social e, em resumo, matéria da arte humana ou divina”. Porque tudo o que acontece se faz familiar a Deus ou ao homem, e nem é novo nemé difícil de manejar, mas conhecido e fácil de manejar.

69. A perfeição moral consiste nisso: em passar cada dia como se fosse o último, sem convulsões, sem entorpecimentos, sem hipocrisias.

70. Os deuses, que são imortais, não se irritam pelo fato de que durante tão longo período de tempo devam suportar de um modo ou outro, repetidamente, os malvados, que são de tais características e tão numerosos. Mas ainda, preocupam-se com eles de muitas maneiras diferentes. E tu, que quase estás a ponto de terminar, renuncias, e isso sendo tu um dos malvados?

71. É ridículo não tentar evitar tua própria maldade, o que é possível, e, em troca, tentar evitar a dos demais, o que é impossível.

72. O que a faculdade racional e sociável encontra desprovido de inteligência e sociabilidade, com muita razão o julga inferior a si mesma.

73. Quando tenhas feito um favor e outro o tenha recebido, que terceira coisa ainda continuas buscando, como os ignorantes?

74. Ninguém se cansa de receber favores, e a ação de favorecer está de acordo com a natureza. Não te canses, pois, de receber favores ao mesmo tempo em que tu o fazes.

75. A natureza universal empreendeu a criação do mundo. E agora, ou tudo o que acontece se produz por consequência, ou é irracional inclusive o mais sobressalente, objetivo ao qual o guia do mundo dirige seu impulso próprio. A lembrança desse pensamento te fará em muitos aspectos mais sereno.

Filosofia - Estoicismo
5/28/2019 2:12:58 PM | Por Marco Aurélio Antonino Augusto
Livre
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VI

1. A substância do conjunto universal é dócil e maleável. E a razão que a governa não tem em si nenhum motivo para fazer mal, pois não tem maldade, e nem faz mal algum nem nada recebe mal daquela. Tudo se origina e chega a seu fim de acordo com ela.

2. Seja indiferente para ti passar frio ou calor, se cumpres com teu dever, passar a noite em vigia ou saciar-te de dormir, ser criticado ou elogiado, morrer ou fazer outra coisa. Pois uma das ações da vida é também aquela pela qual morremos. Assim, basta também para este ato “dispor bem o presente” .

3. Olhe o interior; que de nenhuma coisa te escape nem sua peculiar qualidade nem seu mérito.

4. Todas as coisas que existem rapidamente serão transformadas e, ou evaporarão, se a substância é uma, ou se dispersarão.

5. A razão que governa sabe como se encontra, o que faz e sobre qual matéria. 

6. A melhor maneira de defender-te é não te assemelhar a eles.

7. Regozija-te e repouse em uma só coisa: em passar de uma ação útil à sociedade a outra ação útil à sociedade, tendo sempre Deus presente.

8. O guia interior é o que desperta a si mesmo, que se gira e se faz a si mesmo com quer, e faz que todo acontecimento lhe pareça tal como ele quer.

9. Todas e cada uma das coisas chegam ao seu fim de acordo com a natureza do conjunto, e não segundo outra natureza que abarque o mundo exteriormente, ou esteja incluída em seu interior, ou esteja desvinculada no exterior.

10. Barulho, entrelaçamento e dispersão, ou bem união, ordem e providência. Se efetivamente é o primeiro, por qual desejo demorar minha estância em uma mistura azarada e confusão? E por que terá importância outra coisa que não seja saber como “converter-me um dia em terra?”. E por que perturbar-me? Pois a dispersão me alcançará, faça o que faça. E se é o segundo, venero, persisto e confio no que governa.

11. Sempre que te vejas obrigado pelas circunstancias a sentir-te confuso, retorne a ti mesmo rapidamente e não te desvies fora de teu ritmo mais do que o necessário. Pois serás mais dono da harmonia graças a teu contínuo retomá-la.

12. Se tivesses simultaneamente uma madrasta e uma mãe, atenderias àquela, mas, contudo, as visitas a tua mãe seriam contínuas. Isso tu tens agora: o palácio e a filosofia. Assim, pois, retorne frequentemente a ela e nela repouse; graças a esta, as coisas de lá te parecem suportáveis e tu és suportável entre eles.

13. Assim como se tem um conceito das carnes e peixes e comestíveis semelhantes, sabendo que isso é um cadáver de peixe, aquele cadáver de um pássaro ou de um porco; e também que o Falerno é suco de uva, e a toga pretexta lã de ovelha tingida com sangue de marisco; e em relação ao ato sexual, que é uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão. Como, de fato, esses conceitos alcançam seus objetos e penetram em seu interior, de modo que se pode ver o que são! Assim, é preciso agir ao longo da vida inteira, e quando as coisas te derem a impressão de serem dignas de crédito em excesso, analise-as e observe seu nulo valor, e despoje-as da ficção, pela qual se vangloriam. Pois o orgulho é um terrível enganador da razão, e quando pensas ocupar-te principalmente das coisas sérias, então, ainda assim, te enganas. Olhe, por exemplo, o que diz Crates sobre o próprio Xenócrates.

14. A maior parte das coisas que o vulgo admira se referem às mais gerais, às constituídas por uma espécie de ser ou natureza: pedras, madeira, figueiras, vinhas e oliveiras. As pessoas um pouco mais comedidas tendem a admirar os seres animados, como os rebanhos de vacas, ovelhas ou, simplesmente, a propriedade de escravos. E as pessoas ainda mais agraciadas, as coisas realizadas pelo espírito racional, mas não o universal, e sim aquele que tanto é hábil nas artes ou engenhoso de outras maneiras (ou simplesmente capaz de adquirir multidão de escravos). Mas o que honra a alma racional universal e social não direciona seu olhar a nenhuma das demais coisas, e diante de tudo, procure conservar sua alma em disposição e movimento em acordo com a razão e o bem comum, e colabore com seu semelhante para alcançar esse objetivo.

15. Coloque sempre seu empenho em chegar a ser algumas coisas, em outras coloque seu afã em persistir, mas uma parte do que chega a ser já se extinguiu. Fluxos e alterações renovam incessantemente o mundo, assim como o passo ininterrupto do tempo proporciona sempre nova a eternidade infinita. Em meio a esse rio, sobre o qual não é possível deter-se, que coisa entre as que passam correndo poderiam ser estimadas? Como se alguém começasse a se apaixonar pelas aves que voam ao nosso redor, e logo desaparecem diante de nossos olhos. Tal é de certa forma a vida de cada um, como a exalação do sangue e a inspiração do ar. Pois, assim como o inspirar uma vez o ar e expulsá-lo, coisa que fazemos a cada momento, também é devolver ali, de onde retiraste pela primeira vez, toda a faculdade respiratória, que tu adquiriste ontem ou anteontem, recém chegado ao mundo.

16. Nem é valoroso transpirar como as plantas, nem respirar como o gado e as feras, nem ser impressionado pela imaginação, nem ser movido como uma marionete pelos impulsos, nem agrupar-se como rebanhos, nem alimentar-se; pois isso é semelhante à evacuação das sobras de comida. O que vale à pena, então? Ser aplaudido? Não. Assim, tampouco ser aplaudido pelo bater de línguas, porque os elogios do vulgo são bater de línguas. Portanto, renunciaste também à vangloria. O que sobra como digno de estima? Opino que o mover-se e manter-se de acordo com a própria constituição, fim ao qual conduzem as ocupações e as artes. Porque toda arte aponta para esse objetivo, para que a coisa constituída seja adequada à obra que motivou sua constituição. E tanto o homem que se ocupa do cultivo da vinha, como o domador de cavalos, e o que adestra cães, perseguem esse resultado. E a que objetivo tendem com afinco os métodos de educação e ensino? A vista está, pois, o que é digno de estima. E se nisso tens êxito, nenhuma outra coisa te preocupará. E não deixarás de estimar muitas outras coisas? Então nem serás livre, nem te bastarás a ti mesmo, nem estarás isento de paixões. Será necessário que invejes, tenhas ciúme, receies os que possam tirar-lhe os seus bens, e terás necessidade de conspirar contra os que têm o que tu estimas. Em resumo, forçosamente a pessoa que sente falta de alguns daqueles bens estará perturbada e, além disso, censurará muitas vezes aos deuses. Mas o respeito e a estima ao teu próprio pensamento farão de ti um homem satisfeito contigo mesmo, perfeitamente adaptado aos que convivem ao teu lado e em concordância com os deuses, isso é, um homem que louva o que lhe foi concedido e designado.

17. Para cima, para baixo, em círculo, são os movimentos dos elementos. Mas o movimento da virtude não se encontra em nenhum desses, mas é algo um tanto divino e segue seu curso favorável por um caminho difícil de conceber.

18. Curiosa atuação! Não querem falar bem dos homens de seu tempo e que vivem ao seu lado, e, em troca, têm em grande estima serem elogiados pelas gerações vindouras, a quem nunca viram nem verão. Isso vem a ser como se te afligisses, porque teus antepassados não tiveram para ti palavras de elogio.

19. Não penses, se algo te resulta difícil e doloroso, que isso seja impossível para o homem; antes bem, se algo é possível e natural ao homem, pense que também está ao teu alcance.

20. Nos exercícios dos ginásios, alguém nos arranhou com suas unhas e nos feriu com uma cabeçada. Entretanto, nem o colocamos de manifesto, nem nos incomodamos, nem suspeitamos mais tarde dele como conspirador. Mas sim, certamente, nos colocamos em guarda, mas não como se fosse um inimigo, nem com receio, mas esquivando-o benevolamente. Algo parecido ocorre nas demais conjunturas da vida. Deixemos de lado muitos receios mútuos dos que nos exercitamos como nos ginásios. Porque é possível, como dizia, evitá-los sem mostrar receio nem aversão.

21. Se alguém pode refutar-me e provar de modo conclusivo que penso ou procedo incorretamente, de bom grado mudarei minha forma de agir. Pois persigo a verdade, que nunca prejudicou ninguém; ao contrario, sim se prejudica o que persiste em seu próprio engano e ignorância.

22. Eu, pessoalmente, faço o que devo; o demais não me atrai, porque é algo que carece de vida, ou de razão, ou anda extraviado e desconhece o caminho.

23. Aos animais irracionais e, em geral, às coisas e aos objetos submetidos aos sentidos, que carecem de razão, tu, posto que estás dotado de entendimento, trate-os com magnanimidade e liberalidade; mas aos homens, como dotados de razão, trate-os ademais sociavelmente.

24. Alexandre, da Macedonia e seu tropeiro, uma vez mortos, encontram-se em uma mesma situação; pois, ou foram reabsorvidos pelas razões geradoras do mundo ou foram igualmente desagregados em átomos.

25. Perceba quantas coisas, no mesmo lapso de tempo, brevíssimo, brotam simultaneamente em cada um de nós, tanto corporais como espirituais. E assim não te surpreenderás de que muitas coisas, mais ainda, todos os acontecimentos da vida residam ao mesmo tempo no ser único e universal, que chamamos mundo.

26. Se alguém te faz a pergunta de como se escreve o nome de Antonino, não soletrarias cada uma de suas letras? E no caso de que se aborrecessem, replicarias tu também te aborrecendo? Não seguirias enumerando tranquilamente cada uma das letras? Da mesma forma, também aqui, considere que todo dever se cumpre mediante certos cálculos. É preciso olhá-los com atenção sem perturbar-se nem incomodar-se com os que se incomodam, e cumprir metodicamente o proposto.

27. Quão cruel é não permitir aos homens que dirijam seus impulsos ao que lhes parece apropriado e conveniente! E o certo é que, de algum modo, não estás de acordo em que façam isso, sempre que te aborreces com eles por suas falhas. Porque se mostram absolutamente arrastados ao que consideram apropriado e conveniente para si. “Mas não é assim”. Consequentemente, esclareça-os e demonstre a eles, mas sem irritar-se.

28. A morte é o descanso da reação sensitiva, do impulso instintivo que nos move como fantoches, da evolução do pensamento, do tributo que nos impõe a carne.

29. É vergonhoso que, no decorrer de uma vida na qual teu corpo não desfalece, neste desfaleça primeiramente tua alma.

30. Cuidado! Não te convertas em um César, não te manches sequer, porque costuma ocorrer. Mantenha-te, portanto, simples, bom, puro, respeitável, sem arrogância, amigo do justo, piedoso, benévolo, afável, firme no cumprimento do dever. Lute por conservar-te tal qual a filosofia quis fazer-te. Respeite os deuses, ajude a salvar os homens. Breve é a vida. O único fruto da vida terrena é uma piedosa disposição e atos úteis à comunidade. Em tudo, proceda como discípulo de Antonino; sua constância em agir conforme a razão, sua equanimidade em tudo, a serenidade de seu rosto, a ausência nele de vangloria, seu afa no que se refere à compreensão das coisas. E lembra-te de como não haveria omitido absolutamente nada sem uma profunda análise prévia e sem uma compreensão com clareza; e como suportava sem replicar os que lhe censuravam injustamente; e como não tinha presa por nada; e como não aceitava as calúnias; e como era escrupuloso indagador dos costumes e dos feitos; mas não era insolente, nem lhe atemorizava a agitação, nem era desconfiado, nem charlatão. E como tinha bastante com pouco, para sua casa, por exemplo, para seu leito, para sua vestimenta, para sua alimentação, para seu serviço; e como era diligente e amistoso; e capaz de permanecer na mesma tarefa até o entardecer, graças à sua dieta frugal, sem ter necessidade de evacuar os resíduos fora da hora de costume; e sua firmeza e uniformidade na amizade; e sua capacidade de suportar aos que se opunham sinceramente a suas opiniões e de alegrar-se, se alguém lhe mostrava algo melhor; e como era respeitoso com os deuses sem superstição, para que assim te surpreendas, como a ele, a última hora com boa consciência.

31. Retorna a ti e reanima-te, e uma vez que tenhas saído de teu sonho e tenhas compreendido que te perturbavam pesadelos, novamente desperto, olhe essas coisas como olhavas aquelas.

32. Sou um composto de alma e corpo. Portanto, para o corpo tudo é indiferente, pois não é capaz de distinguir; mas ao espírito lhe são indiferentes quantas atividades não lhe são próprias, e, em troca, quantas atividades lhe são próprias, todas elas estão sob seu domínio. E, apesar disso, somente a atividade presente lhe preocupa, pois suas atividades futuras e passadas lhe são também, desde este momento, indiferentes.

33. Não é contrario à natureza nem o trabalho da mão nem tampouco o do pé, desde que o pé cumpra a tarefa própria do pé, e a mão, a da mão. Do mesmo modo, pois, tampouco é contrario à natureza o trabalho do homem, como homem, desde que cumpra a tarefa própria do homem. E, se não é contrário à sua natureza, tampouco lhe é nocivo.

34. Que classe de prazeres desfrutaram bandidos, lascivos, parricidas, tiranos!

35. Não vês como os artesãos se colocam de acordo, até certo ponto, com os profanos, mas não deixam de cumprir as regras de seu ofício e não aceitam renunciar a ele? Não é surpreendente que o arquiteto e o médico respeitem mais a razão de seu próprio ofício que o homem a sua própria, que compartilha com os deuses?

36. Asia, Europa, cantos do mundo; o mar inteiro, uma gota de água; o Atos, um pequeno monte do mundo; todo o tempo presente, um instante da eternidade; tudo é pequeno, mutável, passageiro. Tudo procede de lá, arrancando daquele princípio norteador ou derivando dele. Assim, a boca do leão, o veneno e tudo o que faz mal, como as espinhas, como o lodo, são parte daquelas coisas veneráveis e belas. Não te imagines, pois, que essas coisas são alheias a aquele a quem tu veneras; mas antes, reflita sobre a fonte de todas as coisas.

37. Quem viu o presente, tudo viu: a saber, quantas coisas surgiram desde a eternidade e quantas coisas permanecerão até o infinito. Pois tudo tem uma mesma origem e um mesmo aspecto.

38. Medite com frequência sobre a conexão de todas as coisas existentes no mundo e em sua mútua relação. Pois, de certa forma, todas as coisas se entrelaçam umas com as outras e todas, nesse sentido, são amigas entre si; pois uma está à continuação da outra devido ao movimento ordenado, do hábito comum e da unidade da substância.

39. Amolda-te às coisas nas quais tens sorte; e aos homens com os quais tens de conviver, ame-os, mas de verdade.

40. Um instrumento, uma ferramenta, um objeto qualquer, se realiza o trabalho para o qual foi construído, é bom; ainda que esteja fora dali o que os construiu. Mas tratando-se das coisas que se mantêm unidas por natureza, em seu interior reside e persiste o poder construtor; por essa razão é preciso ter um respeito especial por ele e considerar, caso te comportes e procedas de acordo com seu propósito, que todas as coisas ocorrem segundo a inteligência. Assim também ao Todo suas coisas ocorrem conforme a inteligência.

 41. Em qualquer coisa das alheias a tua livre vontade, que consideres boa ou má para ti, é inevitável que, segundo a evolução de tal dano ou da perda de semelhante bem, censures os deuses e odeies os homens como responsáveis de tua queda ou privação, ou como suspeitos de sê-lo. Também nós cometemos muitas injustiças devido às diferenças em relação a essas coisas. Mas no caso de que julguemos bom e mau unicamente o que depende de nós, nenhum motivo nos resta para culpar os deuses nem para manter uma atitude hostil frente aos homens.

42. Todos nós colaboramos para o cumprimento de um só fim, uns consciente e Consequentemente, outros sem sabê-lo; como Heráclito, creio, diz que, inclusive os que dormem, são operários e colaboradores do que acontece no mundo. Um colabora de uma maneira, outro de outra, e inclusive, por acréscimo, o que critica e tenta se opor e destruir o que faz. Porque também o mundo tinha necessidade de gente assim. Em conseqüência, pense com quem formarás partido adiante. Pois o que governa o conjunto do universo te dará um trato estupendo em tudo e te acolherá em certo posto entre seus colaboradores e pessoas dispostas a colaborar. Mas não ocupes um posto tal, como o vulgo e ridículo da tragédia que recorda Crisipo.

43. Acaso o sol acha justo fazer o que é próprio da chuva? Acaso Esculápio o que é próprio da deusa, portadora dos frutos? E o que dizer de cada um dos astros? Não são diferentes e, entretanto, cooperam na mesma tarefa?

44. Se, efetivamente, os deuses deliberaram sobre mim e sobre o que deve me acontecer, bem deliberaram; porque não é tarefa fácil conceber um deus sem decisão. E por qual razão iriam desejar causar-me dano? Qual seria seu ganho ou da comunidade, que é sua máxima preocupação? E se não deliberaram em particular sobre mim, sim, ao menos, o fizeram profundamente sobre o bem comum, e dado que essas coisas me acontecem por conseqüência com este, devo abraçá-las e amá-las. Mas se é certo que sobre nada deliberam (dar crédito a isso é impiedade; não façamos sacrifícios, nem súplicas, nem juramentos, nem os demais ritos que todos e cada um fazem na idéia de que vão destinados a deuses presentes e que convivem com nós), se é certo que sobre nada do que nos concerne deliberam, então me é possível deliberar sobre mim mesmo e indagar sobre minha conveniência. E a cada um lhe convém o que está de acordo co sua constituição e natureza, e minha natureza é racional e sociável. Minha cidade e minha pátria, enquanto Marco Aurélio, é Roma, mas enquanto homem, é o mundo. Em conseqüência, o que beneficia a essas cidades é meu único bem.

45. O que acontece a cada um importa ao conjunto. Isso deveria ser suficiente. Mas ademais, en geral, verás, se percebeste atentamente, que o que é útil a um homem, o é também a outros homens. Aceite agora “a utilidade” na acepção mais comum, aplicada às coisas indiferentes.

46. Assim como os jogos do anfiteatro e de lugares semelhantes te inspiram repugnância, pelo fato de que sempre as mesmas coisas são vistas, e a uniformidade faz o espetáculo fastidioso, assim também ocorre ao considerar a vida em seu conjunto; porque todas as coisas, de cima para baixo, são as mesmas e procedem das mesmas. Até quando, pois?

47. Medite sem cessar na morte de homens de todas as classes, de todo tipo de profissões e de toda sorte de raças. De maneira que podes descender nessa enumeração até Filístio, Febo e Origânio. Passe agora aos outros tipos de gente. E preciso, pois, que nos desloquemos para lá, para onde se encontra tão grande número de hábeis oradores, tantos filósofos e veneráveis: Heráclito, Pitágoras, Sócrates, tantos heróis com anterioridade, e, depois, tantos generais, tiranos. E, além desses, Eudóxio, Hiparco, Arquimedes, outras naturezas agudas, magnânimos, diligentes, trabalhadores, ridicularizadores da mesma vida humana, mortal e efêmera, como Menipo, e todos os de sua classe. Medite sobre todos esses que há tempo nos deixaram. O que há nisso, pois, de terrível para eles? E c que há de terrível para os que de nenhuma forma são nomeados? Uma só coisa vale à pena: passar a vida em companhia da verdade e da justiça, benévolo com os mentirosos e com os injustos.

48. Sempre que queiras alegrar-te, pense nos méritos dos que vivem contigo, por exemplo, a energia no trabalho de um, a discrição de outro, a liberalidade de um terceiro e qualquer outra qualidade de outro. Porque nada produz tanta satisfação como os exemplos das virtudes, ao manifestarem-se no caráter dos que vivem conosco e ao serem agrupadas na medida do possível. Por essa razão devem ser tidas sempre à mão.

49. Ficas incomodado por pesar tantas libras e não trezentas? Da mesma forma, também, porque deves viver um número determinado de anos e não mais. Porque assim como te contentas com a parte de substância que te foi designada, assim também com o tempo.

50. Tente persuadi-los; mas aja, inclusive contra a sua vontade, sempre que a razão da justiça o imponha. Entretanto, se alguém se opuser fazendo uso de alguma violência, mude para a complacência e para o bom trato, sirva-te dessa dificuldade para outra virtude e tenha presente que com discrição te movias, que não pretendias coisas impossíveis. Qual era, pois, tua pretensão? Alcançar tal impulso em certa maneira. E o consegues. Aquelas coisas às quais nos movemos, chegam a concretizar-se.

51. O que ama a fama considera bem próprio a atividade alheia; o que ama o prazer, seu próprio apreço; o homem inteligente, ao contrario, sua própria atividade.

52. Cabe a possibilidade, no que concerne a isso, de não haver conjectura alguma e de não turbar a alma; pois as coisas, por si mesmas, não têm uma natureza capaz de criar nossos juízos.

53. Acostuma-te a não estar distraído ao que diz outro, e inclusive, na medida de tuas possibilidades, adentre a alma do que fala.

54. O que não beneficia a colméia, tampouco beneficia a abelha.

55. Se os marinheiros insultassem seu piloto ou os enfermos o médico, se dedicariam a outra coisa além de colocar em prática os meios para salvar a tripulação, o primeiro, e para curar os que estão sob tratamento, o segundo?

56. Quanto, em companhia dos quais entrei no mundo, já partiram!

57. Aos ictéricos lhes parece amargo o mel; aos que foram mordidos por um cachorro raivoso são hidrófobos, e os pequenos gostam da bola. Por que, pois, aborrecer-te? Parece-te menos poderoso o erro que a bílis no ictérico e o veneno no homem mordido por um animal raivoso?

58. Ninguém te impedirá de viver segundo a razão de tua própria natureza; nada te ocorrerá contra a razão da natureza comum.

59. Quem são aqueles a quem quer agradar! E por quais ganhos, e graças a quais procedimentos! Quão rapidamente o tempo sepultará todas as coisas e quantas já sepultou!

Filosofia - Estoicismo
5/1/2019 5:14:05 PM | Por Marco Aurélio Antonino Augusto
Livre
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro V

1. Ao amanhecer, quando de má vontade e de forma preguiçosa te despertas, recorra a este pensamento: “desperto para cumprir uma tarefa própria de homem”. Irei, pois, continuar insatisfeito, se me encaminho para fazer aquela tarefa que justifica minha existência e para a qual nasci? Ou, por acaso, nasci para me esquentar, reclinado entre pequenos cobertores? “Mas isso é mais agradável”. Nasci, pois, para desfrutar? E, em resumo, nasci para a passividade ou para a atividade? Não vês que os arbustos, os pássaros, as formigas, as aranhas, as abelhas, cumprem sua função própria, contribuindo por sua conta para a ordem do mundo? E tu, então, te recusas a fazer o que é próprio do homem? Não persegues com afinco o que está de acordo com a sua natureza? “Mas é necessário também repousar”. Sim, é necessário; também eu repouso. Mas também a natureza delimitou limites para o repouso, como também fixou limites na comida e na bebida e, apesar disso, não ultrapassas a medida, excedendo-te mais do que é suficiente? E em tuas ações não somente não cumpres o suficiente, como também ficas aquém de tuas possibilidades. Assim, não te amas a ti mesmo, porque certamente naquele caso amarias tua natureza e seu propósito. Outros, que amam sua profissão, consomem-se no exercício do trabalho idôneo, sem cuidarem de sua higiene e sem comer. Mas tu estimas menos tua própria natureza que o cinzelador sua cinzeladura, o dançarino sua dança, o avarento seu dinheiro, o presunçoso sua vangloria. Estes, entretanto, quando sentem paixão por algo, nem comer nem dormir querem antes de terem contribuído para o progresso daqueles objetivos aos quais se entregam. E a ti, parecem-te que as atividades comunitárias são desprovidas de valor e merecedoras de menos atenção?

2. Quão fácil é recusar e apagar toda imaginação incômoda ou imprópria, e imediatamente encontrar- se em uma calma total!

3. Julga-te digno de toda palavra e ação de acordo com a natureza; e que a crítica que alguns suscitarão a seu propósito não te desvie do teu caminho; pelo contrário, se é bom ter agido e ter falado, não te consideres indigno. Pois aqueles têm seu guia particular e se valem de sua particular inclinação. Mas não cobices essas coisas; antes, atravesse o reto caminho em consonância com tua própria natureza e com a natureza comum; pois o caminho de ambas é único.

4. Caminho seguindo as trilhas de acordo com a natureza, até cair e ao fim descansar, expirando neste ar que respiro todos os dias e caindo nesta terra de onde meu pai colheu a semente, minha mãe o sangue e minha ama o leite; de onde, a cada dia, depois de tantos anos, me alimento e me refresco; que me sustenta, enquanto caminho, e que dele posso aproveitar de tantas maneiras.

5. “Não podem admirar tua perspicácia”. Está bem. Mas existem outras muitas qualidades sobre as quais não podes dizer: “não tenho dons naturais”. Procura-te, pois, aquelas que estão inteiramente em tuas mãos: a integridade, a gravidade, a resistência ao esforço, o desprezo aos prazeres, a resignação frente ao destino, a necessidade de poucas coisas, a benevolência, a liberdade, a simplicidade, a austeridade, a magnanimidade. Não percebes quantas qualidades podes procurar já, em relação às quais não tens pretexto algum de incapacidade natural nem de insuficiente aptidão? Contudo, persistes ainda por própria vontade aquém de tuas possibilidades. Acaso te vês obrigado a murmurar, a ser mesquinho, a adular, a culpar o teu corpo, a comprazer-te, a comportar-te imprudentemente, a ter tua alma tão inquieta por causa de tua carência de aptidões naturais? Não, pelos deuses! Há tempos poderias estar livre desses defeitos, e apenas ser acusado talvez de excessiva lentidão para compreender. Mas também isso é algo que deve ser exercitado, sem menosprezar a lentidão nem comprazer-se nela.

6. Existe certo tipo de homem que, quando faz um favor a alguém, está disposto também a cobrar-lhe o favor; enquanto outra pessoa não está disposta a agir assim. Mas, contudo, em seu interior, o considera como se fosse um devedor e é consciente do que fez. Um terceiro nem sequer, de certa forma, é consciente do que fez, mas é semelhante a uma vinha que produziu frutos e nada mais reclama depois de ter produzido o fruto que lhe é próprio, como o cavalo que galopou, o cachorro que seguiu o rastro da presa ou a abelha que produziu o mel. Assim, o homem que fez um favor, não persegue um benefício, mas o cede a outro, do mesmo modo que a vinha se empenha em produzir novos frutos a seu devido tempo. Depois, é preciso encontrar-se entre os que agem assim, de certa forma, inconscientemente? “Sim, mas é preciso perceber isso; porque é próprio do ser social, manifestar-se, perceber que age de acordo e conforme o bem comum, e, por Zeus, também querer que o outro perceba”. Certo é o que dizes, mas percebas o que acabo de dizer. Por isso tu serás um daqueles que mencionei anteriormente, pois aqueles também se deixam extraviar por certa aparência lógica. E se tentares compreender o sentido das minhas palavras, não temerás, por isso, realizar qualquer ação útil à sociedade.

7. Súplica dos atenienses: “Envia-nos a chuva, envia-nos a chuva, amado Zeus, sobre nossos campos de cultivo e prados”. Ou não é preciso rezar, ou é preciso fazê-lo assim, com simplicidade e espontaneidade.

8. Como é costume dizer: “Esculápio lhe ordenou a equitação, os banhos de água fria, o caminhar descalço”, de modo similar também isso: “a natureza universal ordenou para este uma doença ou uma mutilação ou a perda de um órgão ou alguma outra coisa semelhante”. Pois ali o termo “ordenou” significa algo assim como: “prescreveu a ti este tratamento como apropriado para recuperar a saúde”. E aqui: “o que acontece a cada um lhe foi, de certa forma, designado como correspondente ao seu destino”. Assim também nós dizemos que o que nos acontece nos convém, assim como os pedreiros costumam dizer que nas muralhas ou nas pirâmides as pedras quadrangulares encontram-se umas com as outras, harmoniosamente, segundo determinado tipo de combinação. Em resumo, harmonia não há mais que uma, e do mesmo modo que o mundo, corpo de tais dimensões, complementa-se com os corpos, assim também o Destino, causa de tais dimensões, complementa-se com todas as causas. E inclusive, os mais ignorantes compreendem minhas palavras. Pois dizem: “o Destino trouxe isso”. Assim, isso lhe foi trazido e lhe foi designado. Aceitemos, pois, esses acontecimentos como as prescrições de Esculápio. Muitas são, na verdade, duras, mas as abraçamos com a esperança da saúde. Gere em ti impressão semelhante o cumprimento e consumação do que decide a natureza comum, como se fosse a tua própria saúde. E da mesma forma abrace tudo o que lhe acontece, ainda que lhe pareça penoso, porque conduz àquele objetivo, à saúde do mundo, ao progresso e ao bem-estar de Zeus. Pois não haveria acontecido algo assim se não fosse importante para o todo; porque a natureza, qualquer que seja, nada produz que não se adapte ao ser governado por ela. Assim, convém amar o que acontece a ti por duas razões: uma, porque para ti se foi feito, e a ti foi designado e, de certa forma, a ti estava vinculado desde cima, encadeado por causas muito antigas; e em segundo lugar, porque o que acontece a cada um em particular é causa do progresso, da perfeição e, por Zeus, da mesma continuidade daquele que governa o conjunto do universo. Pois fica mutilado o conjunto inteiro, se for cortada, ainda que minimamente, sua conexão e continuidade, tanto de suas partes como de suas causas. E, assim, quebra-se dito encadeamento, na medida em que de ti depende, sempre que desanimas e, de certa forma, o destrói.

9. Não fiques insatisfeito, nem desanimes, nem fiques impaciente, se nem sempre for possível agir de acordo com retos princípios. Pelo contrário, quando fores menosprezado, recobre a tarefa com renovado ímpeto e fique satisfeito se a maior parte de tuas ações forem mais humanas e se amas aquilo ao qual, novamente, encaminhas teus passos, e não recorras à filosofia como a um professor de escola, mas como os que têm alguma enfermidade nos olhos se encaminham à esponja e à clara de ovo, como outro recorre à cataplasma, como outro à loção. Pois assim não te colocarás contrário à razão, mas, sim, repousarás nela. Lembre-se também de que a filosofia só quer o que a tua natureza quer, enquanto que tu querias outra coisa contrária à natureza. Porque, que coisa é mais agradável que isso? Não nos seduz o prazer por seus atrativos? Mas, examine se é mais agradável a grandeza da Alma, a liberdade, a simplicidade, a benevolência, a santidade. Existe algo mais agradável que a própria sabedoria, sempre que consideres que a estabilidade e o progresso procedem em todas as circunstâncias da faculdade da inteligência e da ciência?

10. As coisas encontram-se, de certa forma, em uma envoltura tal, que muitos filósofos, e não quaisquer filósofos, acreditaram que elas são absolutamente incompreensíveis; aliás, inclusive os próprios estóicos acreditam que são difíceis de compreender. Todos os nossos julgamentos podem mudar; pois, onde está o homem que não muda? Pois bem, encaminhe teus passos aos objetos submetidos à experiência; quão efêmeras são, sem valor e capazes de estarem em posse de um libertino, de uma prostituta ou de um ladrão! Em seguida, passe a indagar o caráter dos que contigo vivem: dificilmente se pode suportar o mais agradável deles, por não dizer que inclusive a si mesmo se suporta com dificuldade. Assim, pois, em meio a tal escuridão e sujeira, e de tão grande fluxo da substância e de tempo, do movimento dos objetos móveis, não concebo que coisa pode ser especialmente desejada ou, em resumo, objeto de nossos afas. Pelo contrário, é preciso exortar-se a si mesmo e esperar a desintegração natural, e não inquietar-se por sua demora, mas acalmar-se com esses únicos princípios: um, que nada me acontecerá em desacordo com a natureza do todo; e outro, que tenho a possibilidade de não fazer nada contrário a meu Deus e Gênio interior. Porque ninguém me forçará a ir contra eles.

 11. Para que me serve agora a minha Alma? Em todo caso, fazer-me esta pergunta e indagar o que tenho agora nessa parte que precisamente chamam guia interior, e de quem tenho alma no momento presente. Acaso de uma criança, de um jovem, de uma mulher, de um tirano, de uma besta, de uma fera?

12. Quais são as coisas que o vulgo considera boas, poderias compreendê-lo pelo seguinte: porque se alguém pensasse de verdade que certas coisas são boas, como a sabedoria, a prudência, a justiça, a valentia, depois de uma compreensão prévia desses conceitos, não seria capaz de ouvir isso: “tão cheio está de bens”, pois não harmonizaria com ele tal característica. Enquanto que se um concebe previamente o que o vulgo reputa por bom, ouvirá e aceitará facilmente como designação apropriada o que o poeta cômico diz. Até tal ponto o vulgo intui a diferença! Entretanto, esse verso não deixaria de chocar nem de ser repudiado, enquanto que aquele, tratando-se da riqueza e boa fortuna que conduzem ao luxo ou à fama, o acolhemos como apropriada e elegantemente. Prossiga, pois, e pergunte se deves estimar e imaginar tais coisas como boas, essas que se fossem avaliadas apropriadamente, poderia concluir-se que seu possuidor, devido à abundância de bens, “não tem onde esvaziar”.

13. Fui composto por causa formal e matéria; nenhum desses elementos acabará no não-ser, da mesma forma que tampouco surgiram do não-ser. Assim, qualquer parte minha será designada por transformação a uma parte do universo; por sua vez, aquela se transformará em outra parte do universo, e assim até o infinito. E por uma transformação similar eu nasci, e também meus progenitores, sendo possível remontarmos até outro infinito. Porque nada impede falar assim, ainda que o universo seja governado por períodos limitados.

14. A razão e o método lógico são faculdades auto-suficientes para si e para as operações que lhes concernem. Partem, assim, do princípio que lhes é próprio e caminham a um fim preestabelecido; por isso tais atividades são denominadas “ações retas”, porque indicam a retidão do caminho.

15. Nenhuma das coisas que não competem ao homem, enquanto homem, deve este observar. Não são exigências do homem, nem sua natureza as anuncia, nem tampouco são perfeições da natureza do homem. Pois bem, tampouco reside nelas o fim do homem, nem tampouco o que contribui a culminar o fim: o bem. E mais: se algumas dessas coisas pertencessem ao homem, não seria de sua incumbência menosprezá-las nem revoltar-se contra elas; tampouco poderia ser elogiado o homem que se apresentasse como se não tivesse necessidade delas, se realmente elas fossem bens. Mas agora, quanto mais alguém se despoja dessas coisas ou outras semelhantes ou inclusive suporta ser despojado de uma delas, tanto mais é homem de bem.

16. Como formares tua imaginação, repetidas vezes, assim será tua inteligência, pois a alma é colorida por sua imaginação. Tinge-a, pois, com uma sucessão de pensamentos como estes: onde é possível viver, também ali é possível viver bem e é possível viver em um palácio, logo é possível também viver bem no palácio. E assim como cada ser tende ao fim pelo qual foi constituído e em virtude do qual foi constituído. E onde está o fim, ali também o interesse e o bem de cada um se encontra. Naturalmente, o bem de um ser racional é a comunidade. Que efetivamente nascemos para viver em comunidade, que há tempos foi demonstrado. Não estava claro que os seres inferiores existem com vistas aos superiores, e estes para ajudarem-se mutuamente? E os seres animados são superiores aos inanimados, e os racionais superiores aos animados.

17. Perseguir o impossível é próprio de loucos; mas é impossível, também, que os maus deixem de ter algumas necessidades.

18. A ninguém acontece nada que não possa, por sua natureza, suportar. A outro lhe acontece o mesmo e, seja por ignorância do ocorrido, seja por ostentar magnanimidade, mantém-se firme e resiste sem dano. É terrível, de fato, que a ignorância e a excessiva complacência sejam mais poderosas que a sabedoria.

19. As coisas por si mesmas não tocam em absoluto a alma nem têm acesso a elas nem podem girá-la nem movê-la. Somente ela se gira e move a si mesma, e faz com que as coisas submetidas a ela sejam semelhantes aos juízos que estime dignos de si.

20. Em um aspecto o homem é o mais estritamente vinculado a nós, tanto que devemos lhes fazer bem e suportá-los. Mas enquanto que alguns criam obstáculos para as ações que nos são próprias, converte-se o homem em uma das coisas indiferentes para mim, não menos que o sol, o vento ou a besta. E por culpa desses poderia ser criado obstáculo para alguma das minhas atividades, mas graças ao meu instinto e à minha disposição, não são obstáculos, devido à minha capacidade de seleção e de adaptação às circunstâncias. Porque a inteligência derruba e afasta tudo o que é obstáculo para sua atividade encaminhada ao objetivo proposto, e converte-se em ação o que retinha essa ação, e em caminho o que era obstáculo nesse caminho.

21. Respeito o melhor que há no mundo; e isso é o que serve de tudo e cuida de tudo. E igualmente estime o melhor que reside em ti; e isso é do mesmo gênero que aquilo. E em ti o que aproveita aos demais é isso e isso é o que governa tua vida.

22. O que não é prejudicial à cidade, tampouco prejudica o cidadão. Sempre que imagines que tenhas sido vítima de um mal, busque esse princípio: se a cidade não é prejudicada por isso, tampouco eu serei prejudicado. Mas se a cidade é prejudicada, não deves irritar-te com o que prejudica a cidade? O que justifica tua negligência?

23. Reflita repetidamente sobre a rapidez de trânsito e afastamento dos seres existentes e dos acontecimentos. Porque a substância é como um rio em incessante fluir, as atividades estão mudando continuamente e as causas sofrem inúmeras alterações. Quase nada persiste e muito perto está este abismo infinito do passado e do futuro, no qual tudo desaparece. Como, pois, não estará louco o que nessas circunstancias se orgulha, se desespera ou se queixa por ter sofrido alguma dor por certo tempo e inclusive longo tempo?

24. Lembre-se de que a totalidade da substância, da qual participa minimamente, e a totalidade do tempo, do qual lhe foi destinado um intervalo breve e insignificante, e do destino, do qual, que parte ocupas?

25. Comete outro, uma falta contra mim? Ele verá. Tem sua peculiar disposição, seu peculiar modo de agir. Tenho eu agora o que a comum natureza quer que tenha agora, e faço o que minha natureza quer que agora faça.

26. Seja o guia interior e soberano de tua alma uma parte indiferente ao movimento, suave ou áspero, da carne, e não se misture, mas que se circunscreva, e limite aquelas paixões aos membros. E quando estas progredirem e alcançarem a inteligência, por efeito dessa outra simpatia, como em um corpo unificado, então não terá que enfrentar-se à sensação, que é natural, mas tampouco acrescente o guia interior de por si opinar de que se trata de um bem ou de um mal.

27. “Conviver com os deuses”. E convive com os deuses aquele que constantemente lhes demonstra que sua alma está satisfeita com a parte que lhe foi destinada, e faz tudo quanto quer o gênio divino, que, na qualidade de protetor e guia, fração de si mesmo, designou Zeus a cada um. E esta divindade é a inteligência e razão de cada um.

28. Tu te incomodas com o que cheira a bode? Tu te incomodas com o homem que te mau hálito? Que podes fazer? Assim é sua boca, assim são suas axilas; é necessário que tal emanação saia de tais causas. “Mas o homem tem razão, afirma, e pode compreender, se reflete, a razão pela qual se incomoda”. Seja parabenizado! Pois também tu tens razão. Incite com tua disposição lógica a disposição lógica dele, faça que compreenda, sugira a ele. Pois se te atender, lhe curarás e não haverá necessidade de irritar-se. Nem ator trágico nem prostituta.

29. Tal como projetas viver depois de partir daqui, assim será possível viver neste mundo; mas caso não lhe permitam, então saia da vida, mas convencido de que não sofres nenhum mal. Há fumaça e irei. Por que consideras isso um negócio? Enquanto nada semelhante me coloque para fora, permaneço livre e ninguém me impedirá de fazer o que quero. E eu quero o que está de acordo com a natureza de um ser vivo racional e social.

30. A inteligência do conjunto universal é sociável. Assim, por exemplo, foram feitas as coisas inferiores em relação com as superiores e foram harmonizadas as superiores entre si. Vês como foi subordinado, coordenado e distribuído a cada um segundo seu mérito, e foram reunidos os seres superiores com o objetivo de uma concórdia mútua.

31. Como tens se comportado até a data com os deuses, com teus pais, teus irmãos, tua mulher, teus filhos, teus Mestres, teus preceptores, teus amigos, teus familiares, teus criados? Acaso no trato com todos até agora podes aplicar: “nem fazer mal a ninguém nem dizê-lo”. Lembra-te de que também por quais lugares passaste e que cansaço foste capaz de aguentar; e, mesmo assim, que a história de tua vida já está completa e teu serviço cumprido; e quantas coisa belas viste, quantos prazeres e dores desdenhaste, quantas ambições de glória ignoraste; com quantos insensatos te comportaste com deferência.

32. Por que almas rudes e ignorantes confundem uma alma instruída e sábia? Qual é, pois, uma alma instruída e sábia? A que conhece o principio e o fim e a razão que abarca a substância do conjunto e que, ao longo de toda a eternidade, governa o Todo de acordo com ciclos determinados.

 

 33. Dentro de pouco, cinza e esqueleto, e ou bem um nome ou nem sequer um nome; e o nome, um ruído e um eco. E inclusive as coisas mais estimadas na vida são vazias, podres, pequenas, cães que se mordem, crianças que amam a briga, que riem e em seguida choram. Pois a confiança, o pudor, a justiça e a verdade, “ao Olimpo, longe da terra de largos caminhos”. O que é, pois, o que ainda te detém aqui, se as coisas sensíveis são mutáveis e instáveis, se os sentidos são cegos e susceptíveis de receber facilmente falsas impressões, e o mesmo hálito vital é uma exalação do sangue, e a boa reputação entre gente assim algo vazio? O que, então? Aguardarás benévolo tua extinção ou teu traslado? Mas, quando se apresenta aquela oportunidade, o que basta? E que outra coisa senão venerar e bendizer aos deuses, fazer bem aos homens, lhes dar suporte e abster-se? E em relação a quanto se encontra dentro dos limites de tua carne e hálito vital, lembra-te de que isso nem é teu e nem depende de ti.

34. Podes viver bem a tua vida, se és capaz de caminhar pelo bom caminho, se és capaz de pensar e agir com método. Essas duas coisas são comuns à alma de Deus, à alma do homem e à alma de todo ser racional: o não ser impedido por outro, o buscar o bem em uma disposição e atuação justa e o colocar fim a tua aspiração aqui.

35. Se isso nem é maldade pessoal nem resultado de minha maldade nem prejudica a comunidade, por que inquietar-me por isso? E qual é o mal à comunidade?

36. Não te deixes arrastar totalmente pela imaginação; antes, ajude na medida de tuas possibilidades e segundo o mérito de cada um; e ainda que estejam em inferioridade nas coisas medíocres, não imagines, entretanto, que isso é prejudicial, pois seria um mau hábito. E assim como o ancião que, ao partir, pedia o pião de seu pequeno, sabendo que era apenas um pião, também tu procedes assim. Logo te encontrarás na tribuna gritando. Homem, é que esqueceste de que se tratava? “Sim, mas outros nessas coisas colocam grande empenho”. Acaso por isso, irás tu também enlouquecer?

Filosofia - Estoicismo
4/28/2019 3:33:42 PM | Por Flávio Fortes DAndrea
Texto indicado para estudantes de Psicologia
Desenvolvimento da personalidade, a Fase oral

É o período de aproximadamente um ano que segue ao nascimento. Este período do desenvolvimento da personalidade é assim chamado porque a maior parte das necessidades e interesses da criança está concentrada na porção superior do trato digestivo. Quer dizer, seus impulsos são satisfeitos principalmente na área da boca, esôfago e estômago, ou melhor, a libido está intimamente associada ao processo da alimentação. A alimentação, aqui, não deve ser entendida como uma simples incorporação de material nutritivo para que a vida se torne possível, mas, também, o contato e calor humano providos pela figura materna, isto é, toda a gama de afetos que acompanha a dieta. Vimos que as primeiras experiências sofridas pelo ser humano contribuem enormemente no padrão de suas reações futuras. Assim, a satisfação das exigências do recém-nascido e da criança nos primeiros meses de vida, através dos cuidados maternos é extremamente importante. Nesta época, a mãe é a única fonte de satisfação da criança e, a partir da atitude materna, esta criará sua configuração do mundo em termos orais, utilizando-se dos mecanismos de introjeção e projeção. Na percepção irrealística da criança, dada a impossibilidade, nos primeiros meses após o nascimento, de distinguir o “eu” do “não eu” e as partes do todo, o seio materno representará, como fonte de nutrição e como elemento de ligação com o exterior, o próprio mundo. Se o seio for gratificador, uma imagem gratificadora é introjetada e as expectativas futuras do mundo, em termos projetivos, serão [35] otimistas. Se o seio for frustrador, a imagem negativa é introjetada e as expectativas futuras do mundo em termos projetivos serão pessimistas. Neste ponto, poderá surgir a questão: “Qual o resultado, no psiquismo infantil, da alimentação feita com mamadeira?” De modo geral, se a mamadeira é dada de forma semelhante ao oferecimento do seio, seja quanto aos horários, a posição da criança no colo, à ternura e ao calor que acompanham a amamentação, à quantidade e o fluxo do leite, não haverá diferenças fundamentais entre os dois. Do mesmo modo, o seio pode ser substituído por outros objetos, como a chupeta ou o polegar, naturalmente não como função nutritiva, mas como objeto de satisfação erótica, de obtenção de segurança e tranquilidade. Na mente infantil, o seio, a mamadeira ou a chupeta na boca podem ser percebidos como a retenção da própria mãe ou de sua proteção. Assim, de agora em diante, quando falarmos em seio, estaremos incluindo no seu significado os objetos da oralidade infantil e as atitudes maternas para com a criança.

O seio, que cumpre sua finalidade de maneira satisfatória, torna-se um “objeto bom”. O seio, que não satisfaz, será um objeto mau” contra o qual a criança tende a se defender pela recusa a sugar, pelo virar da cabeça ou pelo vômito. Como há seios bons e maus, há seios ambíguos. Por exemplo, o peito ou a mamadeira podem ser oferecidos à criança em momentos que não coincidem com a chegada da fome. Há mães que obedecem cegamente às recomendações do pediatra quanto aos horários da alimentação sem estarem atentas para o ritmo próprio da criança. O seio pode chegar cedo demais e tornar-se uma imposição, pois não vem de acordo com as necessidades. Se vier tarde demais, encontrará, pela incapacidade de postergação dos impulsos, uma criança frustrada que não pode mais aceitar um objeto frustrador. Além disso, variações nas amamentações e nas atitudes maternas, como, por exemplo, um aleitamento feito em condições de tranquilidade alternado com outro, feito às pressas ou sob tensão, mamadas interrompidas, mudanças bruscas na maneira de segurar a criança etc., dificultarão as identificações positivas com o seio, levando à insegurança e intranquilidade. [36]

Por outro lado, a necessidade de satisfação oral pode vir independente da necessidade de alimento. Mesmo sem fome, a criança succiona a língua, os dedos da mão ou do pé e tende a levar à boca qualquer objeto que pode alcançar. Embora ligada à pulsão de autopreservação, a energia libidinosa é, em parte, usada para obtenção de satisfação erótica, ou seja, no alívio das tensões do organismo que não pode ser obtido pela simples ingestão de alimentos. Deste modo, uma criança inquieta, por qualquer razão que não a fome, acalma-se com a chupeta. Afora isso, a criança tem outras necessidades além das orais, como ver, tocar, ouvir a mãe. Estas necessidades adicionais também são importantes no estabelecimento das primeiras relações objetais.

Nas primeiras semanas após o nascimento, a criança tem uma diminuta relação com o mundo externo, percebendo com muita dificuldade qualquer coisa que a ele pertença, inclusive a própria pessoa que a alimenta. Tem, entretanto, sensações de prazer e desprazer no seu próprio corpo, que comunica, respectivamente, através da placidez ou sono e pelo choro ou expressões de desconforto. Não é capaz, porém, de localizar as fontes de prazer ou desprazer, não distinguindo os estímulos internos daqueles que vêm de fora. Desta forma, os objetos do mundo externo confundem-se com a criança, sendo o seio materno, virtualmente, uma parte dela própria. Neste sentido, a libido não tem objeto que esteja fora do próprio organismo. A libido é, portanto, nos primeiros meses de vida, narcisista. A distinção entre o indivíduo e o mundo externo começa quando, através de experiências repetidas de satisfação ou frustração dos impulsos, há uma percepção de que a fonte de gratificação está fora, e o seio começa a ser distinguido como um objeto externo. Isto torna-se mais evidente à medida que a criança toma conhecimento das privações e o leite vai sendo substituído gradativamente por outras formas de alimento. Inevitavelmente ocorrerá a segunda reação de separação da mãe (a primeira foi o nascimento). A frustração da separação do seio, o meio através do qual a criança acostumara-se a receber alimento e amor e que primitivamente era parte de si mesma, é insuportável. No entanto, o indivíduo vai desenvolvendo mecanismos de defesa que o protegem da angústia do novo desligamento, ao mesmo tempo que forçam a libido a sair de sua posição narcisista e dirigir-se às relações com objetos do mundo externo. [37] Investigações clínicas com crianças, levaram Melanie KIein[1]a postular que as relações do indivíduo com os objetos do inundo externo, no primeiro ano de vida, desenvolvem-se em duas fases, que ela chamou de posições. Na primeira, correspondendo aos três ou quatro primeiros meses, a criança relaciona-se com objetos parciais, ou seja, há uma falta de percepção das pessoas como um todo. Através dos mecanismos de introjeção e projeção, tanto o ego como os objetos externos representados pelo seio são percebidos e manejados como partes boas e partes más e a criança tende a separá-las, conservando as partes boas e defendendo-se das más, com as quais luta como se fossem objetos perseguidores. O objeto mau é o seio frustrador mais as projeções dos próprios impulsos destrutivos do indivíduo no seio. O objeto bom é o seio que gratifica, bem como as projeções dos proprios impulsos sexuais naquele. A criança não integra os dois objetos em um só, como não concebe a coexistência, em si mesma, de impulsos de vida e de morte. Assim, há uma cisão interna, acompanhada de sentimentos persecutórios. Por isso, esta posição foi chamada de esquizoparanóide. A segunda posição Melanie Klein denominou depressiva. Seu pico ocorre por volta dos seis meses, quando a criança já com um grau de consciência desenvolvido reconhece a mãe como uma pessoa, ou seja, inicia suas relações com objetos totais. Como os objetos externos agora são percebidos como independentes e capazes de reagir positiva ou negativamente, integrados em seus aspectos bons e maus, a criança desenvolve sentimentos de ansiedade e culpa. Quer dizer, as reações da mãe são sentidas como dependentes das manifestações dos impulsos da criança. Assim, uma expressão de hostilidade para o seio gratificador poderá resultar, na fantasia infantil, como a perda deste seio e o auto-aniquilamento. Mesmo que a mãe não reaja com rejeição, a criança que morde seu seio e procura feri-la sente culpa pelos seus impulsos destruidores ao objeto de quem depende, e deprime-se. Para Melanie Klein, nestas primitivas relações objetais, começaria a se formar o superego[2]. [38] 

Experiências de Privação ou de Separação Materna

Os relatos pioneiros de A. Freud e D. Burlinghan[3]sobre os traumas sofridos pelas criancinhas separadas de suas mães por ocasião da Segunda Guerra Mundial, bem como os estudos, também pioneiros de Spitz[4]com crianças institucionalizadas, chamaram a atenção de muitos investigadores para o problema do rompimento das relações materno-infantis, nos primeiros anos de vida. Bowlby[5]verificou em crianças pequenas hospitalizadas uma síndrome, onde distinguiu três fases: angústia, depressão e defesa. Na primeira fase, que pode durar horas ou dias, a criança apresenta-se agudamente angustiada com a perda da mãe e procura reavê-la com todas as suas forças. Por isso, chora, grita, agarra-se às grades do leito e apega-se a qualquer imagem que possa representar o objeto perdido. Naturalmente, a intensidade desta reação depende de muitos fatores, como, por exemplo, a manutenção da separação por longo tempo, o relacionamento prévio com a mãe e o grau de amadurecimento da criança. Na segunda fase, a preocupação de recuperar o objeto perdido é ainda grande, mas o comportamento da criança sugere uma crescente perda de esperanças. Os movimentos ativos diminuem ou cessam, pode haver choro monótono e intermitente, inapetência e abatimento, enfim, um pesar próprio das pessoas de luto. Na terceira fase, a criança que antes rejeitava outras pessoas do hospital pode aceitar a enfermeira, receber sem protestos os alimentos, sorrir e ser sociável. Aparentemente, tudo vai bem. Entretanto, quando recebe a visita da mãe, reage com marcante indiferença, como se ela fosse uma estranha. Permanece distante e apática, não demonstrando alegria em revê-la. Parece procurar evitar o contato com a mãe para não ter que sofrer de novo. Se a experiência de separação, em crianças internadas por muito tempo, foi repetidacom enfermeiras às quais se apegaram, mas que, por causa do sistema de rodízios, tiveram de ser substituídas, os interesses da criança desviam-se de qualquer pessoa e passam [39] para coisas materiais.Isto levaria ao desenvolvimento de um traço de caráter prejudicial: o desapego ou indiferença afetiva. Essa situação é mais difícil de ocorrer com crianças de mais de três anos, porque são capazes de uma maior compreensão da realidade e também porque já são mais sociáveis e podem fazer amizades com as outras crianças.

Bakwin[6]e Spitz[7]referem que encontraram distúrbios no desenvolvimento da personalidade, resultantes da privação materna, de crianças hospitalizadas no primeiro ano de vida, chamando-os de hospitalismo. Bakwin descreve-o como uma síndrome, caracterizada por palidez, apatia, fraca resposta aos estímulos, apetite indiferente, déficitno ganho de peso, aceleração do trânsito intestinal, sono agitado, surtos febris, todos estes sintomas e sinais sem causa orgânica apatente. Atribui-se esta sindrome à ausência de contato e calor humano que sofreriam determinadas crianças hospitalizadas. Aqui, também, a intensidade dos sintomas depende do relacionamento prévio da criança com a mãe. Assim, crianças que já sofriam de privação do contato materno, apresentariam um aspecto apático, macilento e pouco atraente, próprio de quem está perdido em si mesmo. Com este aspecto, não desertariam a mesma reação de simpatia provocada por uma criança esperta e comunicativa. A falta de resposta afetiva por parte das enfermeiras, que tenderiam a ministrar somente os cuidados físicos necessários, levaria a uma continuação da situação prévia de privação emocional.

Obviamente, a criança não precisa ser hospitalizada para levar à vida adulta traços de personalidade que se formaram a partir de condições desfavoráveis de desenvolvimento na fase oral. [40]

Antes porém, de falarmos nas consequências do estágio oral na personalidade, vamos resumir as principais características desta fase, para aclarar aspectos que possam ter ficado obscuros.

Na fase oral, a libido está concentrada na porção superior do trato digestivo, principalmente na boca. A libido, entretanto, não está a serviço apenas das necessidades nutricionais, mas também pura satisfação oral. A satisfação erótica na zona da boca, bem como outras necessidades libidinosas desta fase, como a necessidade de calor e contato humano, são bases para as relações da criança com os objetos do mundo externo. No início do período, ela não distingue o mundo externo de si mesma: sujeito e objeto confundem-se num todo e o seio materno é parte integrante da criança. Neste sentido, a libido estaria voltada para o próprio indivíduo, sendo portanto narcisista. A medida que vai se dando conta das satisfações e privações, o ego vai se diferenciando da realidade externa. O primeiro objeto de contato que é a própria mãe começa a ser percebido como uma pessoa independente e a libido é forçada, então, a sair de sua posição narcisista. Nos três primeiros meses, a relação com o objeto não é total, a criança relaciona-se com partes da mãe que se confundem com partes de si mesma. Não percebendo o objeto e o ego como entidades separadas, a criança faz uma cisão de suas partes, dividindo-as em boas e más e reage de conformidade com cada uma delas. Por volta dos seis meses, já há uma percepção da mãe como uma pessoa total, integrada em seus aspectos bons e maus. Então, as relações da criança com a mãe são em termos mais realistas e começa o aprendizado do controle dos impulsos frente às demandas do meio. Naturalmente,a mãe, como primeiro objeto de satisfação dos impulsos e também como primeiro objeto restritor, é a base para a configuração que a criança fará do mundo.

Quando a mãe oferece uma quantidade suficiente de afeto e calor, colocando medidas justas nas restrições às demandas da criança, esta ultrapassará com segurança o período oral, fortalecendo o ego e aumentando a sua auto-estima. Estará, assim, preparada para enfrentar as novas dificuldades da fase seguinte do desenvolvimento. Entretanto, quando isso não ocorre, pode haver [41] fixações que impedirão um desenvolvimento normal nas outras fases levando para a vida adulta padrões orais de comportamento.

Desenvolvimento psicossocial

Erikson[8]preocupou-se com a contribuição da oralidade no desenvolvimento psicossocial da criança. Ao lado da evolução psicossexual concebida por Freud, com base ao desenvolvimento biologico e as modificações de direção da libido, Erikson concebeu o desenvolvimento da personalidade, considerando as atitudes originadas da resolução de conflitos próprios de cada fase. Para ele, a oralidade é um complexo de experiências centradas na boca e desenvolve-se em relação à mãe que alimenta que apoia, que acaricia, que esquenta. A modalidade básica de comportamento nesta fase, que chamou de oral-sensorial, é a incorporação. A primeira coisa que se aprende na vida é receber. A criança recebe não só com a boca mas com os sentidos, com os olhos, com os ouvidos, com o tato. A atitude psicossocial basica que deve aprender, neste estágio, é aquela de saber se pode confiar no mundo representado pela figura da mãe; saber se esta virá alimentá-la, se dará o alimento nos horários adequados, na quantidade correta e se lhe proporcionará conforto, quando sentir-se desconfortável. A correspondência entre as necessidades e a satisfação obtida é a base da confiança. Nos animais tudo isto é fornecido pelo seu equipamento instintivo, no Homem tem que ser aprendido e a mãe é a professora. Mães de diferentes culturas, classes ou raças ensinam a confiança de maneiras diferentes, fornecendo aos filhos sua versão cultural do universo. Aprender a desconfiar também é importante. As pessoas tendem a negar coisas que consideram negativas, como desconfiar. Entretanto, em qualquer situação social, é necessário diferenciar quando se pode confiar e quando se deve desconfiar. A desconfiança, como uma forma de prontidão ao perigo e uma antecipação do desconforto faz parte do equipamento instintivo dos animais. O Homem precisa aprendê-la, também da mãe. [42]

Assim, no primeiro estágio de desenvolvimento, o conflito basíco a ser resolvido em termos psicossociais é o da confiança versus a desconfiança. A criança deve estar preparada para um equilíbrio entre os dois pólos. Entretanto, há mães que não ministram a dose necessária de frustrações às demandas do filho na fase oral.

Isto desenvolverá uma configuração falsa do mundo, um otimismo exagerado e uma confiança muito grande, que não preparará suficientemente o individuo para enfrentar os problemas sociaisde sua vida futura. Outras mães frustram demais e levam o indivíduo a defender-se exageradamente do mundo externo, perdendo as vezes, pela desconfiança, oportunidades importantes para aumentar sua auto-estima e desenvolver sua personalidade.

Estas considerações podem parecer uma repetição da conceituação do “seio bom” e “seio mau” a que nos referimos anteriormente. Entretanto, o conceito de seio bom e seio mau faz-se no plano do desenvolvimento da libido. Para os impulsos, carregados de energia libidinosa, seio bom é o que gratifica e seio mau o que frustra. Em termos psicossociais, porém, bom seria o seio capaz de fornecer uma base justa de confiança e desconfiança, preparando o indivíduo para o posterior sucesso nas relações sociais. Este seio, portanto, deve basear-se na cultura, pois qualquer contradição com as características culturais, o transformariam num seio mau, em termos psicossociais. Um exemplo, seria o caso de uma mãe que sofreu as influências de um meio frustrador e que cria o filho neste mesmo meio. Tentando compensar-se através da criança, proporciona-lhe o máximo de satisfação e indulgência, dando-lhe assim uma imagem distorcida do mundo. Ao ter que enfrentar, posteriormente, as dificuldades existentes no meio, a criança estará mal preparada e sofrera maiores frustrações.

Caráter Oral

Como vimos, as atitudes das pessoas encarregadas de cuidar da criança nesta primeira fase do desenvolvimento, podem levar a diferentes consequências na personalidade, em forma de padrões de reação, que constituem traços de caráter. O caráter oral é aquele cujo modo habitual de adaptação contém importantes [43] elementos de fixações orais. Seu significado é muito amplo e pode servir para explicar uma série de atitudes individuais, desejáveis ou não, pertinentes a uma personalidade normal ou como substrato de diversos quadros psicopatológicos.

Sabemos que na fase oral há duas formas principais de atividade: succionar e morder. Na primeira, mais precoce, há simplesmente uma tendencia à incorporação do objeto, no caso o seio. Na segunda, que aparece mais tarde, quando há um maior desenvolvimento da musculatura perioral e o aparecimento dos dentes, há uma tendência a destruir, morder, triturar o objeto antes de incorporá-lo. Nesta fase, costuma-se dividir o caráter oral em dois tipos principais: caráter oral receptivo ou incorporativo e o caráter oral agressivo. Quando ao primeiro, se a criança, no período de sucção, não sofreu privações, obtendo uma grande quantidade de prazer, acredita-se que esta experiência impressa no caráter leve o indivíduo a ser otimista e a sentir que tudo conseguirá facilmente e que terá êxito em qualquer empreendimento. Além disso, pode ser despreocupado e tender à passividade e à inatividade. É como se o seio materno jorrasse leite e afeto eternamente e isto pode, por identificação, levar o indivíduo a ser muito generoso para com os outros. Se, pelo contrário, a criança sofreu excessivas frustrações, ela poderá tornar-se uma pessoa pessimista, com uma tendência ao ressentimento e a crença de que suas necessidades nunca serão satisfeitas. Em vista disto,pode, desesperadamente, tentar ligar-se aos outros ou, então isolar-se, assumindo, pela perda de esperanças, atitudes negativistas em relação aos demais.

Quanto ao segundo tipo, oral agressivo, há também uma grande necessidade de ser cuidado, mas a pessoa não sente que possa obter o que precisa sem lesar ou prejudicar outras pessoas. Há uma tendência a odiar e destruir, a ter ciúmes da atenção que outros recebem, a nunca estar satisfeito com o que tem e a desejar que os outros não tenham determinadas coisas mesmo que não as queira para si. É como se a pessoa adquirisse forças e se vingasse das frustrações que o seio lhe proporcionara. Em vez de implorar ou isolar-se sem esperanças, como faria um indivíduo fixado na fase de sucção, o portador de um caráter oral agressivo, atacaria o seio e obteria satisfação compensatória pelo sadismo. [44]

Devemos deixar claro que estamos abordando de forma simplificada problemas muito complexos. A oralidade tem evidentemente uma enorme importância na estruturação da personalidade adulta, mas o caráter do adulto é o resultado não somente da boa ou má resolução dos problemas da fase oral, mas lambem daqueles das fases seguintes. Daí, quando se falar em caráter oral, deve-se estar considerando a predominância dos traços orais sobre outros traços originados de outras fases.

As formas particulares dos caracteres orais dependem da proporção de sublimações e formações reativas no manejo dos impulsos orais. Algumas pessoas manifestam suas necessidades de dependência solicitando, quase diretamente, que os demais cuidem delas. Em geral “grudam” nos outros e solicitam atenção imiscuindo-se em suas vidas. Predomina nas suas atitudes um tom de insatisfação e exigência como se não se reassegurassem com aquilo que recebem. Para estas pessoas cada atenção recebida induz a pedir mais. Parecem querer comer os outros ou estabelecer com eles uma ligação parasitária através das palavras. De início podem causar boa impressão, pois falam fluentemente, estabelecendo contatos sociais com facilidade. Entretanto, logo deixam transparecer que não conseguem parar de falar e que seu contato fácil é apenas aparente. A causa deste desconcertante comportamento tem suas raízes na frustração duradoura das necessidades da fase-oral, as quais procuram inutilmente satisfazer na vida adulta.

Outras pessoas tendem a reagir às suas necessidades de dependência por meio de uma conduta extremamente ativa, aparentando ser completamente independentes. Esta formação reativa parece ser típica de indivíduos que padecem de úlcera péptica.

Várias atividades de indivíduos normais podem representar impulsos orais sublimados. Por exemplo, a habilidade oratória de um político, que com palavras eloquentes quer conseguir melhoramentos para a população, pode ser a sublimação de impulsos orais agressivos.

A tendência a procurar satisfação ou alívio de tensão por meios orais é comum a todas as pessoas, seja qual for a fase [45] de desenvolvimento. Verifica-se isto no prazer pela comida, pela bebida, no fumar, no mascar chicletes. Uma pessoa um pouco ansiosa ou deprimida por problemas da vida cotidiana poderá encontrar num cigarro ou numa boa refeição um meio de sentir-se melhor. Entretanto, alguns indivíduos tiveram mães que supervalorizaram o alimento e por conseguinte as atividades orais, mães que, à mínima expressão de desconforto dos filhos, ministravam alimentos para alivia-lo. Acreditam, assim, que o alimento e a coisa mais importante do mundo e tendem a compensar pela comida ou pela bebida qualquer frustração.

Não é difícil de associar-se a fixações orais dois distúrbios da personalidade muito frequentes: o alcoolismo e a obesidade. O alcoólatra e o obeso, em geral, procuram através da bebida ou do comer excessivo uma gratificação de necessidades orais não satisfeitas na infância ou um retorno psicológico a uma etapa onde não havia os problemas que têm que enfrentar na atualidade, ou então, um alivio de fortes sentimentos de solidão, originados da carência afetiva nos primeiros meses de vida. [46]

Psicologia - Psicanálise
4/27/2019 2:26:24 PM | Por Daniel Defoe
Livre
Capitão Edward Teach, o Barba-Negra

Edward Teach era natural de Bristol. Nasceu ali, mas por certo tempo velejou em navios corsários a serviço da Jamaica, durante a última guerra contra os franceses. Entretanto, embora muitas vezes ele se distinguisse pela audácia e a coragem pessoal incomuns, jamais chegou a um posto de comando. Isto, até iniciar os seus atos de pirataria, o que creio ter acontecido em fins do ano 1716, quando o capitão Benjamin Hornigold colocou-o para comandar uma chalupa que havia capturado. A parceria deles prosseguiu até pouco antes de Hornigold se render.

Na primavera do ano de 1717, Teach e Hornigold zarparam da ilha de Providence para o continente da América, e pelo caminho capturaram uma chalupa procedente de Havana, com 120 barris de farinha de trigo, e também outra das Bermudas, comandada por Thurbar, de quem levaram apenas alguns galões de vinho, deixando-o depois seguir seu rumo. E também apreenderam um navio da ilha da Madeira com destino à Carolina do Sul, no qual fizeram pilhagens de valor considerável.

Após limparem as costas da Virgínia, retornaram às índias Ocidentais e, na latitude 24, tomaram um navio de grande porte da Guiné Francesa, com destino a Martinico onde, com o assentimento de Hornigold, Teach assumiu o comando como capitão, iniciando um cruzeiro na embarcação. Hornigold voltou com sua chalupa para Providence e ali, quando da chegada do capitão Rogers, o governador, ele aceitou o Ato de Clemência do rei, conforme a proclamação. [59]

Já no comando de sua embarcação da Guiné, Teach equipou-a com quarenta canhões, trocando o seu nome para Queen Anrís Revenge. Vagueou pelas proximidades da ilha de São Vicente, capturando outro grande navio, o Great Allen, comandado por Christopher Taylor. Os piratas saquearam tudo o que lhes interessava, desembarcaram toda a tripulação na mencionada ilha, e em seguida o incendiaram.

Alguns dias mais tarde, Teach deparou-se com a fragata Scarborough, de trinta canhões, que o enfrentou em combate por algumas horas. Mas vendo que os piratas se defendiam muito bem, mesmo tendo usado toda sua munição, a fragata desistiu da luta e retornou para Barbados, onde costumava ficar estacionada. E Teach se dirigiu para a América espanhola.

Pelo caminho encontrou com um navio pirata de dez canhões, comandado por um certo major Bonnet (que mais tarde tornou-se um cavalheiro de boa reputação e proprietário na ilha de Barbados), e ao qual ele se juntou. Porém poucos dias depois, achando que Bonnet nada entendia da vida no mar, colocou outro homem, chamado Richards, para comandar a chalupa, com o consentimento dos próprios tripulantes. E levou Bonnet para o seu navio, dizendo-lhe que, já que não estava acostumado às fadigas e aos cuidados de um posto como aquele, seria melhor ele renunciar a ele, vivendo mais folgadamente e à vontade ali naquele outro navio, onde ninguém o forçaria a realizar as obrigações necessárias a uma viagem marítima.

Em Turniff, a sessenta quilômetros da baía de Honduras, os piratas se abasteceram de água fresca. E enquanto desciam âncora ali, avistaram um barco aproximando-se, ao que Rchards, na chalupa Revenge, recolheu as amarras e apressou-se a enfrentá-lo. Este, assim que viu hasteada a bandeira negra, baixou suas velas e se rendeu ao implacável capitão Teach. O barco chamava-se Adventure e era da Jamaica, sob o comando de David Harriot. Teach conduziu este e os seus homens ao seu navio, e mandou certo número de tripulantes com Israel Hands, contramestre do navio de Teach, para dirigirem a chalupa em outras ações de pirataria.

No dia 9 de abril eles levantaram âncora de Turniff, depois de permanecerem ali por cerca de uma semana, e velejaram para a baía. Ali avistaram um navio e quatro chalupas, três das quais pertencentes [60] a Jonathan Bernard, da Jamaica, e a outra ao capitão James. O navio procedia de Boston, chamava-se Protestant Caesar, e tinha o comando do capitão Wyar. Teach içou a sua bandeira negra e disparou um canhão, ao que o capitão Wyar e todos os seus homens imediatamente abandonaram o navio em um escaler, e foram para terra. O contramestre de Teach e mais oito homens de sua tripulação tomaram posse do navio de Wyar, e Richard se encarregou das chalupas, uma das quais foi incendiada, por ódio a seu dono. Também incendiaram o Protestant Caesar, depois de saqueá-lo, porque ele era de Boston, local onde alguns homens haviam sido enforcados por pirataria. E às três chalupas pertencentes a Bernard eles deram permissão para irem-se embora.

Dali em diante, os piratas velejaram para Turkill, depois para Grand Caimanes, pequena ilha a cerca de cento e oitenta quilômetros a oeste da Jamaica, onde capturaram um pequeno pesqueiro de tartarugas, e em seguida para Havana, para as carcaças das Bahamas, seguindo dali para a Carolina, e pelo caminho capturando um brigue e duas chalupas. Fizeram uma parada de cinco ou seis dias ao largo da baía de Charles-Town. Ali capturaram um navio com destino a Londres, comandado por Robert Clark, assim que este zarpava para a Inglaterra, com alguns passageiros a bordo. No dia seguinte, apossaram-se de uma outra embarcação que saía de Charles-Town, e mais dois pesqueiros que se dirigiam para lá. E mais um brigue, com quatorze negros a bordo. Tudo isso diante da cidade, provocando um grande terror em toda a província da Carolina que, tendo pouco antes recebido a visita de Vane, outro famoso pirata, rendeu-se ao desespero, sem quaisquer condições de resistência. Havia oito barcos no porto, prontos para partirem, mas sem coragem de se aventurar a isso, pois seria quase impossível escapar. Igualmente, os barcos que chegavam também sofriam do infeliz dilema, tanto que o comércio dali fora totalmente interrompido. O que agravava ainda mais essas desgraças era que, pouco antes que os piratas infestassem a região, a colônia enfrentara uma longa e dispendiosa guerra, recentemente encerrada, contra a população nativa.[1]

Teach deteve consigo todos os navios e prisioneiros que capturara e, como estava precisando de medicamentos, resolveu exigir que o Governo da Província lhe entregasse uma caixa deles. Por isso enviou Richards, o capitão da chalupa Revenge, acompanhado de mais dois ou três piratas, com o sr. Marks — um dos que foram feitos prisioneiros no navio de Clark. Fizeram as suas exigências da forma mais insolente, ameaçando, caso não recebessem logo a caixa de medicamentos, e não se permitisse [61] que os piratas-embaixadores retornassem sem se cometer qualquer violência contra eles, todos os prisioneiros seriam assassinados, suas cabeças enviadas ao governador, e também seriam incendiados todos os navios capturados por eles.

Enquanto o sr. Marks apresentava ao Conselho o requerimento dos piratas, Richards e seus companheiros caminhavam ostensivamente pelas ruas, à vista de todos. Eram olhados com toda indignação, como ladrões e assassinos, autores de atos de injustiça e de opressão. Porém não se podia pensar em vingança, por medo de se provocar ainda maiores calamidades contra si mesmos. Assim, foram todos forçados a deixar que os bandidos passeassem impunes pelo meio deles. O Governo não levou muito tempo para concluir a deliberação, apesar de ser aquela a maior afronta que já recebera. Mas, para salvar tantas vidas humanas (entre as quais, a do sr. Samuel Wragg, membro daquele Conselho), eles agiram conforme a necessidade, e enviaram a bordo um cofre, com um valor aproximado de quatrocentas libras, e os piratas retornaram incólumes aos seus navios.

Barba-Negra (pois foi assim que Teach passou a ser geralmente conhecido, como adiante mostraremos), tão logo recebeu os medicamentos e seus companheiros bandidos, libertou os navios e os prisioneiros, tendo antes tirado deles, em ouro e prata, cerca de mil e quinhentas libras esterlinas, além de mantimentos e outros bens.

Da baía de Charles-Town, eles navegaram para a Carolina do Norte. O capitão Teach seguia no navio chamado por eles de fragata, e os capitães Richards e Hands nas chalupas, chamadas de navios corsários, e mais outra chalupa servindo como barco de apoio. Agora, Teach já planejava desfazer a companhia, garantindo para si próprio e para os companheiros com quem tinha mais amizade, o dinheiro e a maior parte dos bens roubados, aplicando um golpe nos demais. Assim, sob a alegação de que precisava entrar no estreito de Topsail para fazer uma faxina, ele fez com que seu navio encalhasse. Depois, como se aquilo tivesse acontecido acidentalmente, deu ordens para que a chalupa de Hands viesse ajudá-lo, mandando-o seguir novamente, e ao fazer isso, levou a chalupa a se juntar à outra, na praia, e assim ambas se perderam. Feito isto, ele foi para o barco de apoio, com quarenta homens, e deixou lá o Revenge. Tomou então dezessete outros homens e os abandonou numa pequena ilha de areia deserta, a cerca de seis quilômetros do continente, sem quaisquer pássaros, animais ou vegetação para que pudessem subsistir, e onde teriam fatalmente morrido se o major Bonnet não aparecesse dois dias depois e os resgatasse dali. [62] Então, Teach foi até o governador da Carolina do Norte, acompanhado de uns vinte homens, e apresentou a sua rendição, de acordo com a proclamação de Sua Majestade, recebendo o seu certificado de perdão das mãos de Sua Excelência. Mas parece que aquela submissão ao Ato de Clemência nada tinha a ver com uma regeneração real de comportamento, sendo apenas pretexto para aguardar a melhor oportunidade para seguir com o mesmo jogo de antes. O que ele conseguiu de fato, pouco depois, e com maior segurança para si próprio, além de perspectivas de sucesso muito maiores, pois por esse tempo ele havia cultivado um relacionamento muito bom com Charles Eden, Esq., o governador que mencionamos antes.[2]

O primeiro favor que esse amável governador prestou a Barba-Negra foi conceder-lhe direitos sobre o grande navio que capturou — e que passou a chamar-se Queen Annes Revenge — quando nele percorria os mares praticando seus atos de pirataria. Para isso, um tribunal do Vice-Almirantado foi realizado em Bath-Town. E, apesar de Teach jamais ter recebido qualquer autorização em sua vida, e de a embarcação pertencer aos comerciantes ingleses, sendo capturada em tempos de paz, mesmo assim aquele barco foi desapropriado e qualificado como presa tomada pelos espanhóis pelo referido Teach. Tais procedimentos demonstram que governadores, afinal, não passam de simples homens.

Antes de zarpar para novas aventuras, Teach casou-se com uma jovem de uns dezesseis anos, numa cerimônia que foi oficiada pelo governador. Enquanto aqui o costume é um padre celebrar os casamentos, lá é um magistrado que os celebra. E aquela esposa, segundo fui informado, a décima quarta com que Teach se casou, donde se conclui que pelo menos doze outras esposas ainda deviam estar vivas. O comportamento dele naquele estado foi simplesmente extraordinário, pois, enquanto a chalupa se encontrava no estreito de Okerecock (Ocracoke), e ele em terra, na fazenda onde vivia sua esposa, e com a qual passava todas as noites era seu hábito convidar cinco ou seis dos seus brutais companheiros, forçar a sua mulher a se prostituir com todos eles, um em seguida ao outro, e diante dos seus olhos.

Em junho de 1718 ele seguiu em nova expedição marítima, dirigindo rota para as Bermudas. Encontrou pelo caminho dois ou três barcos ingleses, roubando-lhes apenas as provisões, os estoques e outros artigos necessários para o seu consumo. Porém perto das mencionadas ilhas, retirou-se com dois navios franceses, um carregado de açúcar e cacau e o [63] outro vazio, ambos com destino a Martinico. O que nada transportava, permitiram que seguisse viagem, antes transferindo para ele todos os homens do navio carregado, e este ele trouxe de volta à Carolina do Norte, onde o governador e os piratas dividiram o butim.

Quando Teach e a sua presa chegaram, ele e mais quatro tripulantes foram até Sua Excelência e assinaram uma declaração de que encontraram o navio francês no mar, sem sequer uma alma a bordo. Em seguida, reuniu-se uma corte e o navio foi desapropriado para o bem público, ficando o governador com sessenta tonéis de açúcar como seu dividendo, um tal sr. Knight, secretário do governador e coletor de impostos da província, ficou com vinte tonéis, e o restante foi dividido entre os outros piratas.

Antes ainda de se concluir o negócio, o navio permanecia ancorado, com a possibilidade de alguém vir pelo rio e reconhecê-lo, e descobrir toda a velhacaria. Mas Teach maquinou um jeito para evitar isso e, sob o pretexto de que o navio estava com muitos vazamentos e com o risco de afundar, obstruindo assim a saída do estreito, ou enseada, onde se encontrava, obteve uma ordem do governador para conduzi-lo até o rio e ali incendiá-lo, o que foi logo executado: o navio foi queimado perto da margem, o casco afundou e, com ele, todos os temores de por acaso se levantarem suspeitas contra eles.

O capitão Teach, conhecido como Barba-Negra, passou três ou quatro meses percorrendo o rio, algumas vezes ancorando nas enseadas, outras velejando de um estreito a outro, comerciando com os barcos que encontrava o butim de que se apropriara, muitas vezes dando-lhes de presente os estoques e os mantimentos que tirara deles próprios. Isto é, sempre que se encontrava com humor propenso à generosidade. De outras vezes, ele se mostrava atrevido, apossando-se de tudo o que quisesse, sem nem dizer “Com a sua permissão”, sabendo que ninguém se atreveria a enviar-lhe depois a conta. Muitas vezes ele se divertia, indo a terra misturar-se aos fazendeiros, onde fazia farras por vários dias e noites. Era bem recebido por eles, mas não posso garantir se era por amizade ou medo. Às vezes ele se mostrava extremamente cortês, dando-lhes rum e açúcar de presente, em recompensa pelo que lhes havia tirado. Quanto às libertinagens (era o que se dizia), ele e os seus companheiros frequentemente tomavam as esposas e filhas dos fazendeiros, e não posso assumir a responsabilidade de afirmar se ele pagava ou não por elas ad valorem. Outras vezes, comportava-se com nobreza para com eles, colocando mesmo alguns como seus pensionistas. E não apenas isso, muitas vezes ele intimidava o governador. [64]

Não que eu tenha descoberto o mais leve motivo de rixa entre ambos, mas parece que ele o fazia só para mostrar que do que era capaz.

As chalupas que faziam o comércio acima e abaixo daquele rio eram saqueadas com tanta frequência pelo Barba-Negra, que elas resolveram entrar em entendimentos com os comerciantes e alguns dos melhores fazendeiros da região quanto ao melhor caminho a seguir. Tinham perfeita noção da inutilidade de qualquer recurso ao governador da Carolina do Norte, a quem cabia propriamente encontrar algum tipo de reparação, de modo que se não recebessem algum socorro por parte de outra região, provavelmente Barba-Negra continuaria reinando impunemente. Por isso, sob maior segredo possível, eles enviaram uma delegação à Virgínia para apresentar o assunto diante do governador daquela colônia, solicitando uma força armada das fragatas que lá se encontravam, para prender ou eliminar aquele pirata.

O governador conferenciou com os capitães das duas fragatas, a Pearl e a Lime, que há dez meses aproximadamente se encontravam estacionadas no rio James. Ficou combinado que algumas chalupas menores seriam contratadas pelo governador, e as fragatas lhes forneceriam os homens e as armas. Isto foi feito, ficando o comando delas com o sr. Robert Maynard, primeiro-tenente da Pearl, um oficial experiente e cavalheiro de grande bravura e resolução, como ficará demonstrado por seu valente comportamento nessa expedição. As chalupas foram bem equipadas com munição e armas de pequeno porte, porém não dispunham de nenhum canhão.

Próximo ao momento da partida, o governador convocou uma assembléia na qual ficou decidido publicarem uma proclamação oferecendo recompensas a todos que, no período de um ano a contar daquela data, prendessem ou acabassem com qualquer pirata. Temos essa proclamação em nossas mãos, e a reproduzimos a seguir:

Pelo Vice-Governador de Sua Majestade e Comandante-em-Chefe da Colônia e Domínio da Virgínia.

Proclamação

Onde se publicam as recompensas pela prisão ou morte dos piratas

Pela qual — por um Ato de Assembléia aprovado em uma sessão, realizada na capital, Williamsburg, no dia 11 de novembro do Quinto Ano ao Reinado de Sua Majestade, e intitulado Ato Para Encorajar a Prisão e : Aniquilamento dos Piratas — fica aprovado, entre outras questões, que [65] toda pessoa, ou pessoas, a partir e após o décimo quarto dia de novembro do ano de Nosso Senhor de mil setecentos e dezoito, e antes do décimo quarto dia de novembro do ano de mil setecentos e dezenove; toda pessoa ou pessoas, pois, que prender — ou prenderem — qualquer pirata, ou piratas, em mar ou em terra, ou que em caso de resistência, venham a matar esse pirata, ou esses piratas, na localização entre os graus trinta e quatro e trinta e nove de latitude norte, e dentro dos limites de seiscentos quilômetros do continente da Virgínia, ou no âmbito das províncias da Virgínia, ou da Carolina do Norte, diante da convicção ou da devida prova da morte de todos e de cada um desses piratas, perante o governador e o Conselho, estarão capacitados a ter e a receber dos cofres públicos, pelas mãos do tesoureiro desta Colônia, as diversas recompensas a seguir relacionadas, e que são: para Edward Teach, comumente chamado capitão Teach, ou Barba-Negra, cem libras; para qualquer outro comandante de navio, chalupa ou qualquer outra embarcação pirata, quarenta libras; para todo imediato, comandante, timoneiro ou contramestre, mestre de equipagem, ou carpinteiro, vinte libras; para qualquer outro oficial inferior, quinze libras, e para todo pirata capturado a bordo de um navio, chalupa ou qualquer embarcação desse tipo, dez libras. E para qualquer pirata capturado em qualquer navio, chalupa ou embarcação pertencente a esta Colônia, ou à Carolina do Norte, dentro do prazo mencionado acima, e em qualquer localização, as mesmas recompensas serão pagas de acordo com a qualidade e a condição desses mesmos piratas. Pelo que, para o encorajamento de todos os que desejam servir à Sua majestade e ao seu país num empreendimento tão justo e honrável, qual seja o da supressão de um tipo de pessoas que podem ser verdadeiramente chamadas de Inimigos da Humanidade. Por tudo isso. achei apropriado — com a opinião e o consentimento do Conselho de Sua Majestade — expedir esta Proclamação, pela qual declaro que as referidas recompensas serão pontual e judiciosamente pagas, em moeda corrente da Virgínia, de acordo com as instruções do referido Ato. E ordeno efetivamente e determino que esta Proclamação seja publicada pelos oficiais municipais, em suas respectivas sedes administrativas, e por todos os prelados e leitores nas diversas igrejas e capelas por toda esta Colônia.

Apresentado em nossa Câmara do Conselho 

EM WlLLIAMSBURG NESTE DIA 24 DE NOVEMBRO DE 1718, NO QUINTO ANO DE REINADO DE SUA MAJESTADE.

Deus salve o Rei. A. Spotswood. [66]

No dia 17 de novembro de 1718, o oficial zarpou de Kicquetan [Hampton], no rio James, Virgínia, e na noite do dia 31 chegou à embocadura do estreito de Okerecock, onde logo pôde avistar o pirata. Aquela expedição fora feita sob sigilo, e ele manobrou com toda a prudência necessária, impedindo que todos os navios e barcos que passavam pelo rio prosseguissem viagem, impossibilitando dessa forma que qualquer informação chegasse até Barba-Negra, ao mesmo tempo que recebia destes relatórios sobre o local onde o pirata se emboscava. Porém, apesar das precauções tomadas, Barba-Negra conseguiu informações sobre a operação, por meio de sua Excelência o Governador da Província. E o secretário deste, o sr. Knight, escreveu a ele uma carta mostrando-se particularmente preocupado, e insinuando ter-lhe enviado quatro dos seus homens, os que pôde encontrar pela cidade e arredores, e por isso insistia para que ele ficasse em alerta. Aqueles homens pertenciam a Barba-Negra e tinham sido envidados de Bath-Town para o estreito de Okerecock, onde a chalupa estava estacionada, e que fica a cerca de cento e vinte quilômetros.

Barba-Negra já recebera diversos relatórios antes, que provaram não ser verdadeiros, de modo que deu pouca atenção àquele aviso. E tampouco ficou convencido do fato, até que avistou as chalupas. Então, já era tempo de pôr o navio em posição de defesa. Não tinha mais do que vinte e cinco homens a bordo, embora dissesse que eram quarenta a todos os barcos com que se comunicou. Quando viu que já estava preparado para a batalha, então desembarcou e passou a noite bebendo com o comandante de um navio mercante que, como se dizia, tinha mais negócios com Teach do que deveria.

O tenente Maynard precisou ancorar, pois sendo aquela uma região de águas rasas, e o canal muito intrincado, não havia como chegar até Teach aquela noite. Porém na manhã seguinte ele levantou ferros, enviando o seu escaler à frente das chalupas, para fazer uma sondagem. Assim que chegou à distância de um tiro de canhão do pirata, este disparou imediatamente, ao que Maynard içou a bandeira do rei, partindo diretamente para cima dele, com o máximo de velocidade que permitiam suas velas e seus remos. Barba-Negra recolheu os seus cabos e tentou combater durante a fuga, mantendo um fogo incessante de canhões contra os adversários. Maynard, que não dispunha de nenhum canhão, respondia ao ataque com as suas armas de pequeno porte, enquanto alguns homens davam rido o que podiam nos remos. Pouco tempo depois, a chalupa de Teach calhou. Maynard retirava do seu barco mais água do que Teach do dele, [67] de modo que não podia aproximar-se. Teve de ancorar à distância da metade de um tiro de canhão e, para aliviar o peso de sua embarcação e lançar-se à abordagem, o tenente ordenou que todo o lastro fosse lançado ao mar, e que se abrissem buracos no casco para que toda a água pudesse sair. Logo em seguida levantou ferros e rumou para onde estava o pirata. Foi quando Barba-Negra gritou-lhe grosseiramente: “Malditos vilões, quem são vocês? De onde vêm?”, ao que o tenente respondeu: “Podes ver pela nossa bandeira que não somos piratas.” Barba-Negra propôs que ele viesse num escaler até o seu navio, para saber de quem se tratava. Porém Maynard respondeu: “Não posso desperdiçar o meu escaler, mas abordarei o teu navio o mais rápido que puder, e com a minha chalupa.” Ouvindo isso, Barba-Negra apanhou uma taça e fez um brinde a ele, proferindo as seguintes palavras: “Maldita seja a minha alma se eu me apiedar de ti, ou merecer alguma piedade de ti.” A isto, Maynard respondeu que não esperava piedade alguma de sua parte, e tampouco teria alguma por ele.

Nesse meio-tempo, o navio de Barba-Negra conseguiu flutuar, enquanto as chalupas de Maynard remavam em sua direção. As velas, entretanto, tinham na sua parte baixa pouco mais do que trinta centímetros, o que deixava os homens cada vez mais expostos, à medida que se aproximavam (até aquele momento pouco ou nada ainda fora feito, por qualquer dos lados). Foi quando do flanco do navio o pirata disparou uma descarga simultânea de todas as suas armas, o que foi uma fatalidade para Maynard, pois vinte dos seus homens morreram ou ficaram feridos, e mais nove de outro barco também morreram. A situação não apresentava saída, pois, sem que qualquer vento soprasse, eles eram forçados a continuar remando, caso contrário o pirata poderia fugir, e isto, ao que parece, o tenente estava resolvido a impedir a todo custo.

Depois desse desafortunado golpe, a chalupa de Barba-Negra adernou na praia. Uma outra embarcação de Maynard, que tinha o nome de Range, recuou, por estar muito avariada naquele momento. Então o tenente, achando que o seu próprio barco tinha condições, e que em pouco tempo poderia abordar o de Teach, ordenou que todos descessem ao porão, com medo de uma outra descarga de tiros, o que poderia significar a sua destruição e o fracasso da expedição. Só Maynard permaneceu no convés, além do timoneiro, a quem ele mandou que se agachasse e ficasse escondido. E aos homens embaixo ordenou que estivessem com as pistolas e as espadas prontas para uma luta corpo a corpo, e que [68] subissem assim que ele os chamasse. Para isso, puseram duas escadas junto aos alçapões, para maior agilidade. Quando o barco do tenente abordou o do capitão Teach, os homens deste começaram a atirar-lhes granadas feitas com garrafas[3]cheias de pólvora, chumbo, balas, pregos e outros pedaços de ferro, com um pequeno pavio preso no gargalo. Quando aceso este, a chama ia do gargalo até a pólvora e, atirando-se logo em seguida a garrafa, geralmente o dano era muito grande, além de provocar uma enorme confusão entre os homens. Porém graças à boa sorte, ali elas não produziram o efeito desejado, pois os homens se encontravam escondidos no porão. Barba-Negra, quando não viu ninguém a bordo, concluiu que estavam fora de combate, a não ser uns dois ou três. Portanto, exclamou ele: “Vamos pular a bordo e fazer todos em pedaços!”

Em seguida, oculto pela fumaça da explosão de uma das garrafas mencionadas, Barba-Negra penetrou no barco seguido de quatorze homens, sem que Maynard se desse conta logo. Entretanto, assim que a fumaça se foi dispersando, Maynard deu o sinal para seus homens subirem ao convés, e então eles atacaram os piratas com uma bravura inigualada numa ocasião daquelas. Barba-Negra e o tenente foram os primeiros a atirar, um contra o outro, deixando o pirata ferido. Em seguida, eles lutaram com as espadas até que, por má sorte, a de Maynard se partiu. Quando este recuou para recarregar sua pistola, Barba-Negra atacou-o com um cutelo, mas um dos homens de Maynard desferiu-lhe um terrível golpe no pescoço e na garganta, salvando Maynard, que ficou apenas com um pequeno ferimento nos dedos.

Agora, todos lutavam ardentemente num corpo-a-corpo, de um lado o tenente com doze homens; do outro, Barba-Negra e os seus quatorze piratas, até o mar ao redor da embarcação se tingir completamente de sangue. Barba-Negra levou um tiro de Maynard, mas mesmo assim se manteve firme e prosseguiu lutando furiosamente. Recebeu ao todo vinte e cinco ferimentos, cinco dos quais a bala. No final, quando engatilhava uma outra arma, depois de tantas que havia usado, ele tombou morto. Até então, oito dos seus quatorze companheiros já haviam morrido, e os outros, já gravemente atingidos, pularam no mar e suplicaram por clemência. E isto lhes foi concedido, embora aquela prorrogação de suas vidas não fosse além de uns poucos dias, apenas. A chalupa Ranger chegou e foi combater os piratas que haviam permanecido no barco de Barba-Negra, lutando com a mesma bravura, até que eles também pediram clemência. [69]

E ali se acabou a vida daquele homem brutal, que era dotado de muita coragem, e que poderia ter passado pelo mundo como um herói caso se houvesse empregado em uma boa causa. Seu aniquilamento, que foi da maior importância para as colônias, deveu-se inteiramente à conduta e à bravura do tenente Maynard e de seus homens. Eles poderiam tê-lo morto ao custo de muito menos vidas, caso pudessem contar com um navio bem equipado com canhões. Mas foram forçados a empregar embarcações pequenas, pois não se poderia chegar até as tocas e outros redutos onde se escondia o pirata em navios de maior calado. E não foram poucas as dificuldades que aquele cavalheiro enfrentou para chegar até ele, encalhando com seu barco umas cem vezes, pelo menos, na subida do rio, além de outras tantas situações desanimadoras, que teriam feito qualquer outro senhor, menos resoluto e audacioso que aquele tenente, desistir da empresa sem prejuízo da própria honra.

A descarga de artilharia disparada por Teach, que tanto dano produzira antes da abordagem, com toda certeza acabou salvando os outros de uma destruição total, pois pouco antes Teach, já sem esperança alguma de poder escapar, postara no quarto da pólvora um comparsa criado por ele próprio, um negro resoluto, mantendo um pavio aceso entre as mão; e pronto a detonar tudo ali, a uma ordem sua. O momento combinado seria o da entrada no barco de Maynard com os outros homens. Assim, ele destruiria tanto os vencedores quanto a si mesmo. E quando o negro descobriu o que se passara com Barba-Negra, dois prisioneiros que estavam no porão da chalupa o dissuadiram a muito custo daquele ato temerário.

O que nos parece bastante estranho é que alguns homens daqueles, que com tanta bravura se comportaram contra Barba-Negra, mais tarde também se tornaram piratas, um deles tendo sido levado por Roberts Porém não acho que estivessem preparados para tal atividade, a não ser um deles, que foi enforcado. Mas isto é uma digressão.

O tenente ordenou que arrancassem a cabeça de Barba-Negra e a pendurassem na ponta do gurupés.[4]Em seguida ele zarpou para Bath-Town, para tratar dos seus feridos.

Devemos observar que, ao ser revistada a chalupa do pirata, foram encontrados cartas e documentos diversos, que revelaram a correspondência entre Barba-Negra e o governador Eden, com o secretário e coletor, e também com alguns comerciantes de Nova York. É provável que ele, em consideração aos seus amigos, destruísse aqueles papéis antes da batalha, a fim de impedir que caíssem em mãos que não dariam um [70] destino nada bom para a reputação desses cavalheiros. Isto, se não fosse a sua firme resolução de explodir com tudo, ao ver que não havia possibilidade de escapar.

Quando o tenente chegou a Bath-Town, ele foi corajosamente até o depósito do governador tomar os sessenta tonéis de açúcar que ali se encontravam, e também os vinte tonéis do honesto sr. Knight, coisas que, ao que parece, eram o seu dividendo pela pilhagem do navio francês. Este último cavalheiro não sobreviveu àquela vergonhosa apreensão pois, com medo de ser chamado a explicar semelhantes quinquilharias, caiu doente de tanto pavor, vindo a morrer poucos dias depois.

Depois que os feridos se recuperaram completamente, o tenente velejou de volta ao rio James, na Virgínia, onde se encontrava a fragata de Barba-Negra. A cabeça do pirata seguia pendurada na ponta do gurupés, e o barco também conduzia quinze prisioneiros, treze dos quais acabaram enforcados. Durante o julgamento, revelou-se que um deles, de nome Samuel Odell, saíra com o navio mercante apenas na noite anterior à batalha. Esse pobre indivíduo teve muito pouca sorte naquela nova profissão: depois da batalha, apresentava no corpo nada menos que setenta ferimentos, e apesar disso conseguiu sobreviver e se curou de todos eles. A outra pessoa a escapar das galés foi um certo Israel Hands, contramestre da chalupa de Barba-Negra, e ex-capitão desta, antes que o Queen Annes Revenge encalhasse no estreito de Topsail.

Acontece que o referido Hands não participou da batalha, tendo sido preso mais tarde, em terra firme, em Bath-Town. Barba-Negra o aleijara pouco tempo antes, num daqueles seus selvagens acessos, o que se passou da seguinte maneira: certa noite, bebendo em sua cabine em companhia de Hands, do piloto e de mais outro homem, Barba-Negra, sem que ninguém provocasse, pegou escondido um par de pequenas pistolas e carregou-as debaixo da mesa. Percebendo isso, o terceiro homem imediatamente saiu para o convés, deixando na cabine Hands, o piloto e o capitão. Carregadas as pistolas, Teach soprou a vela e, cruzando as mãos, disparou contra os companheiros. Acertou Hands num joelho e o deixou coxo pelo resto da vida. A outra pistola não acertou ninguém. Ao lhe perguntarem por que tinha feito aquilo, ele respondeu apenas, enquanto os xingava, que se de vez em quando não matasse alguém ali, eles acabariam por esquecer quem ele era.

Depois de preso, Hands foi julgado e condenado, mas, pouco antes da da execução, aportou na Virgínia um navio com uma Proclamação que prolongava por um determinado prazo o perdão de Sua Majestade para [71] os piratas que se rendessem. Apesar de já sentenciado, Hands requereu o perdão e obteve o benefício. Há pouco tempo ele foi visto em Londres, pedindo esmolas para sobreviver.

Agora que já apresentamos um relato sobre a vida e os feitos de Teach, não seria inoportuno falarmos a respeito da sua barba, já que a contribuição desta não foi de pouca monta para que o seu nome se tornasse tão terrível naquelas regiões.

Plutarco e outros historiadores sérios já observaram que entre os romanos diversos homens notáveis recebiam os seus apelidos por certos sinais característicos em suas fisionomias. Como Cícero, que era assim chamado por um sinal, ou verruga, no nariz; Também o nosso herói, o capitão Teach, ganhou o cognome de Barba-Negra a partir daquela enorme quantidade de pêlos ocultando totalmente o seu rosto, e que, tal como um terrível meteoro, amedrontou a América muito mais do que qualquer cometa que por lá tivesse surgido há tempos.

A barba era efetivamente negra, e ele a deixou crescer até um comprimento extravagante. De tão ampla, batia-lhe nos olhos. Costumava amarrá-la com fitas, em pequenos cachos, lembrando as perucas em estilo Ramilies, contornando com eles as orelhas. Quando em ação, ele trazia uma funda sobre os ombros, onde carregava à bandoleira três braçadeiras de pistolas, dentro dos seus coldres. E prendia mechas de fogo no chapéu, de cada lado do rosto, o que lhe dava uma tal figura — que naturalmente já era tão feroz e selvagem, pela expressão do olhar — que não se poderia imaginar uma fúria do próprio inferno mais aterrorizante.

Se o seu olhar era o de uma fúria, os seus humores e paixões não ficavam atrás. Vamos contar mais duas ou três extravagâncias dele, que omitimos no corpo desta narrativa, e através das quais ficará evidente até que ponto de maldade a natureza humana pode chegar, se as suas paixões não forem contidas.

Na comunidade dos piratas, aquele que levar mais longe as suas maldades é invejado pelos outros, como um homem de extraordinária valentia, e capacitado por isso a destacar-se em algum posto. E se além disso esse alguém ainda é dotado de coragem, então com toda certeza deve ser um grande homem. O herói sobre o qual escrevemos aqui era totalmente realizado naquela maneira, e algumas das suas loucuras e maldades eram de tal forma extravagantes que o seu objetivo parecia querer que seus homens acreditassem ser ele a encarnação de um demônio. Pois certa vez, no mar, já um tanto tonto de bebida, ele disse: [72] "Venham, vamos criar nosso próprio inferno, e ver até que ponto poderemos aguentar.” Então, acompanhado por mais dois ou três homens, desceu até o porão onde, depois de fechadas todas as escotilhas, encheu vários jarros com enxofre e outros materiais inflamáveis, e atearam fogo neles. E ali permaneceram até alguns sufocarem, gritando que precisavam de ar. No fim ele abriu as escotilhas, e não ficou nem um pouco satisfeito por ter resistido mais que os outros.

Na noite anterior à sua morte, ele se sentou para beber até de manhã com alguns dos seus homens e com o comandante de um navio mercante. Informado que duas chalupas aproximavam-se para atacá-lo, como já observamos antes, um dos homens lhe perguntou se, caso algo lhe acontecesse durante a batalha, a sua mulher saberia onde ele enterrara o seu dinheiro, ele respondeu que além dele e do diabo ninguém mais sabia, e que quem vivesse mais tempo ficaria com tudo.

Os que sobreviveram de sua tripulação, e que foram presos, contaram uma história que pode parecer um tanto inacreditável. No entanto, achamos que não seria justo omiti-la, uma vez que a obtivemos de suas próprias bocas. Um dia, durante um cruzeiro, eles descobriram que havia a bordo um homem a mais na tripulação. O homem foi visto por diversas vezes entre eles, umas vezes no porão, outras no convés, mas ninguém no navio sabia dizer quem ele era ou de onde viera. E ele desapareceu pouco antes de haverem naufragado em seu navio, e parece que todos acreditavam que fosse o diabo.

Imaginávamos que esse tipo de coisa pudesse convencê-los a mudar de vida, mas toda aquela gente perversa se reunia o tempo todo encorajando-se e animando-se uns aos outros para cometer maldades, além da bebida constante que também não era um estímulo pequeno. Pois no diário de Barba-Negra, que se conseguiu obter, havia diversos memorandos, escritos de próprio punho, e da seguinte natureza: “Que dia, todo o rum foi embora. Nossa turma um tanto séria. Maldita confusão entre as pessoas! Os velhacos conspirando. Muita conversa de separação. Por isso teve que procurar muito por uma presa. Dia desses consegui uma, com muita bebida a bordo, e a turma ficou quente, quente pra danar, e aí tudo ficou bem novamente.”

E era dessa maneira que os desgraçados passavam a vida, com pouquíssimo prazer ou satisfação, na posse daquilo que eles violentamente davam dos outros e na certeza de, finalmente, terem de pagar por tudo um dia, com uma morte ignominiosa. [73]

Os nomes dos piratas mortos na batalha são os seguintes: 

Edward Teach, comandante.

Philip Morton, artilheiro.

Garrai Gibbons, contramestre.

Owen Roberts, carpinteiro.

Thomas Miller, intendente. John Husk

Joseph Curtice

Joseph Brooks (1)

Nath. Jackson

Todos os demais, com exceção dos dois últimos, foram feridos e mais tarde foram enforcados na Virgínia.

John Carnes Joseph Brooks (2) James Blake John Gills

Thomas Gates James White

Richard Stiles

Caesar

Joseph Philips

James Robbins

John Martin

Edward Salter

Stephen Daniel

Richard Greensail IsraelHands, perdoado. Samuel Odell, absolvido.

Nas chalupas piratas e no interior de um galpão em terra, perto do local do navio, havia vinte e cinco tonéis de açúcar, onze barris e cento e quarenta e cinco sacos de cacau, um barril de índigo e um fardo de algodão. Isto, com o que se recuperou do governador e do secretário, e acrescentado à venda da chalupa, chegou a um valor total de duas mil e quinhentas libras, tudo dividido entre as companhias dos dois navios, Lime e Pearl, ancorados no rio James. Além disso, as recompensas foram pagas pelo governador da Virgínia, de acordo com sua proclamação. Os bravos companheiros que as receberam, e que o fizeram apenas para obterem o seu quinhão entre os demais, só foram pagos quatro anos mais tarde. [74]

Sobre o capitão Teach

[Do apêndice no volume II]

Vamos agora acrescentar alguns detalhes sobre o famoso Barba-Negra — que não foram mencionados em nosso primeiro volume — relativos à captura por ele dos navios da Carolina do Sul, e do insulto àquela colônia. Isso foi nos tempos em que os piratas tinham conseguido um tal poder, que não se preocupavam absolutamente em se preservarem perante a lei e a justiça. Só pensavam em fazer progredir esse poder, mantendo sua soberania não apenas sobre os mares, mas, além disso, estendendo seu domínio às próprias colônias, e aos governadores também, por esse mesmo fato. Tanto que, quando os prisioneiros chegavam ao navio dos seus captores, os piratas revelavam abertamente o relacionamento que mantinham com aquelas autoridades, e jamais se esforçaram para ocultar os nomes deles, ou onde moravam, assim como se fossem cidadãos de alguma legítima nação, resolvidos a tratar a todos na base de um Estado livre. Todos os processos judiciais que se faziam em nome de Teach qualificavam-no com o título de comodoro.

Todos os prisioneiros da Carolina foram colocados no navio do comodoro, e depois minuciosamente interrogados sobre a carga que transportavam e o número e a situação de outros comerciantes ancorados no porto, quando achavam que eles iriam partir, e qual o seu destino. E o inquérito era realizado de forma tão severa que os piratas chegavam a fazer um juramento de que todo aquele que mentisse, ou que modificasse as suas informações, ou respondesse de forma evasiva às perguntas, seria morto. Ao mesmo tempo, todos os seus documentos eram examinados com igual diligência, assim como se aquilo se passasse no escritório do secretário, aqui na Inglaterra. Ao terminar aquela parte, ordenou-se que prisioneiros fossem imediatamente encaminhados de volta ao seu navio, do qual previamente já se haviam retirado os mantimentos e estoques. E tudo com tanta pressa e precipitação, que provocou um grande terror entre aquelas infelizes criaturas, que acreditavam estarem sendo verdadeiramente encaminhadas para a própria destruição. O que parecia confirmar essa impressão era que não se manifestava nenhuma consideração pela situação social dos prisioneiros: comerciantes, cavalheiros de posição, e até mesmo uma criança, o filho do sr. Wragg, foram jogados a [73] bordo em meio a grande confusão e tumulto, e trancados sob os alçapões, acompanhados de apenas um pirata.

Aqueles seres inocentes foram largados naquela deprimente situação, a lamentar durante horas o seu destino, e esperando a cada instante que se acendesse algum pavio e tudo ali fosse pelos ares, ou que se incendiasse ou afundasse o navio. De um modo ou de outro, todos ali acreditavam que seriam sacrificados à brutalidade dos piratas.

Mas finalmente, um lampejo de luz caiu sobre eles, fazendo seus abatidos ânimos se elevarem um pouco: os alçapões foram destrancados e eles receberam ordens de retornar imediatamente a bordo do comodoro. E então começaram a achar que os piratas haviam desistido da sua selvagem resolução, e que Deus os inspirara com sentimentos menos atordoantes à natureza e à humanidade, e subiram todos ao navio como se estivessem se encaminhando para uma nova vida. Seu chefe foi trazido diante de Barba-Negra, o general dos piratas, que lhe informou sobre um extraordinário procedimento que iriam ter. Que eles tinham apenas sido afastados temporariamente dali, enquanto se realizava um conselho durante o qual não era tolerada a presença de nenhum prisioneiro a bordo. Barba-Negra revelou-lhes que a companhia estava necessitando muito de medicamentos, e que precisava obter suprimentos da província; que o seu primeiro cirurgião redigira uma lista desses medicamentos que deveria ser enviada ao governador e à Câmara por dois dos seus oficiais. E, para garantir o retorno a salvo desses oficiais, como também da caixa com os medicamentos, eles haviam resolvido manter os prisioneiros como reféns, os quais seriam todos mortos caso suas exigências não fossem atendidas ponto por ponto.

O sr. W ragg respondeu que talvez eles não tivessem condições para atender a todas aquelas exigências, e que temia que algumas drogas da lista do cirurgião não se pudessem encontrar na província. E que, se fosse este o caso, esperava que eles se satisfizessem com alguma substituição. Também propôs que um dos prisioneiros acompanhasse os dois embaixadores, para manifestarem o perigo real que estavam correndo, e convencê-los a se submeterem de forma mais imediata, a fim de salvar as vidas de tantos súditos do rei, e ainda, também, para impedir qualquer insulto às pessoas da comitiva por parte da gente comum (por cujo comportamento, em semelhante ocasião, eles não podiam se responsabilizar).

Sua Excelência Barba-Negra achou razoáveis as ponderações, e por isso convocou uma outra assembléia, que igualmente aprovou a emenda. [76]

Então o sr.Wragg, que era a maior autoridade ali, e conhecido por ser um homem de grande discernimento entre os cidadãos da Carolina, ofereceu-se para ir com a delegação, disposto a deixar seu jovem filho nas mãos dos piratas até sua volta, o que ele prometia fazer, mesmo que o governo recusasse as condições para a libertação dos prisioneiros. Porém Barba-Negra negou peremptoriamente esta oferta, alegando que conhecia demasiado bem a importância daquele senhor na província, o qual também era de enorme importância ali e que, portanto, seria o último homem que permitiriam deixá-los.

Depois de algumas discussões, concordou-se que o sr. Marks ia acompanhar os embaixadores. E assim, eles se afastaram da frota em uma canoa, estipulando-se dois dias para o seu retorno. Nesse meio-tempo, o navio do comodoro permaneceria a cerca de trinta e cinco quilômetros de distância do litoral, aguardando as condições requeridas para a paz. Porém ao expirar o prazo, e vendo que não surgia nada vindo do porto, Teach chamou o sr. Wragg à sua presença, e, com uma horrível expressão, disse-lhe que eles não admitiriam ser trapaceados, que achava estar sendo tramada alguma louca traição e que nada, a não ser a morte imediata de todos, seria a consequência disso. O sr. Wragg implorou-lhe que prorrogasse por mais um dia a terrível execução, pois tinha absoluta certeza de que todos na Província estimavam tanto as suas vidas que teriam a maior presteza possível em conseguir o seu resgate. E que com toda certeza algum infeliz acaso teria acontecido com a canoa, na ida, ou os seus próprios homens poderiam também ter causado o atraso, e qualquer das duas hipóteses seriam difíceis de suportar.

Por aquele momento Teach conseguiu acalmar-se, permitindo que se aguardasse mais um dia pelo regresso da delegação. Porém findo também aquele prazo, ele se enfureceu ao ver-se frustrado, chamando a todos mil vezes de vilões e jurando que ninguém ali teria mais que duas horas de vida. O sr. Wragg tentava apaziguá-lo de todas as formas, insistindo em que se fizesse uma minuciosa observação ao redor. A coisa parecia ter chegado ao extremo, agora, e ninguém entre os prisioneiros podia pensar que suas vidas valessem um dia apenas, que fosse. Os inocentes passavam por uma terrível agonia, certos de que só um milagre poderia impedir que todos fossem esmagados pelo inimigo. Foi quando se ouviu do castelo da proa a notícia de que um pequeno barco surgia à vista. Isso elevou novamente os ânimos e fez renascerem as esperanças. O próprio Barba-Negra foi olhar com sua luneta, e declarou que estava vendo o [77] seu Scarlet Cloak que havia emprestado ao sr. Marks para que este fosse a terra. Aquilo foi uma segurança para todos, embora temporária, pois, ao se aproximar novamente o barco do navio, os temores voltaram, uma vez que entre os passageiros não se viam nem os piratas, nem o sr. Marks e tampouco a caixa com os medicamentos.

Aquela embarcação tinha sido enviada pelo sr. Marks e trazia uma mensagem escrita com a máxima prudência, a fim de que a demora não fosse mal interpretada. A causa dessa demora fora um infeliz acidente, devidamente relatado ao comodoro pelos recém-chegados. O barco que fora enviado a terra afundou, depois de virar a uma súbita rajada de vento, e com grande dificuldade os homens conseguiram nadar até a praia de uma ilha deserta, a ilha de [em branco no texto], situada a cerca de vinte e poucos quilômetros do continente, onde permaneceram por algum tempo até se verem reduzidos a uma situação extrema, sem qualquer tipo de mantimento, e apavorados diante do desastre que iria acontecer aos prisioneiros a bordo. Os homens colocaram o sr. Marks sobre uma tábua no mar, em seguida se despiram e foram nadando atrás, empurrando-a para adiante, tentando ver se daquela forma conseguiriam chegar até a cidade. Aquele transporte mostrou ser extremamente penoso, e com toda a certeza teriam todos perecido, não tivesse um barco de pesca, que largara velas pela manhã, avistado algo a flutuar sobre a água. Dirigiram-se então para o local e recolheram os homens, quando estes já se encontravam quase exaustos pelo cansaço.

Quando todos já se encontravam providencialmente a salvo, o sr. Marks foi até [em branco no texto], alugando ali uma embarcação para transportá-los até Charles-Town. Nesse meio-tempo, enviou aquele barco para fazer a todos um relatório sobre o acidente. O sr.Teach acalmou-se mais ouvindo a narrativa, e consentiu em que se esperasse mais dois dias, já que o atraso não parecia culpa deles. Mas, passados os dois dias, todos acabaram perdendo a paciência. Agora, ninguém mais podia convencer o comodoro a lhes prorrogar a vida mais que até a manhã seguinte, caso o barco não retornasse dentro daquele prazo. Ainda na expectativa, e também desiludidos, os cavalheiros não sabiam o que dizer, nem como explicar o comportamento dos seus amigos em terra. Alguns declararam aos piratas que tinham motivos iguais ao deles para condenar aquela conduta. Que não tinham dúvidas quanto ao sr. Marks ter realizado a sua [78] tarefa com toda a lealdade. Mas, uma vez que haviam recebido notícias da ida a salvo do barco até Charles-Town, não podiam imaginar o que poderia atrapalhar a execução do plano, a menos que lá eles estivessem dando mais valor à caixa de medicamentos do que a oitenta homens prontos para serem exterminados. Por sua parte, Teach acreditava que os seus homens tinham sido presos. Recusava-se a aceitar uma outra prorrogação de prazo para os prisioneiros, e jurou mais de mil vezes que não seriam só eles a morrer, mas sim, qualquer cidadão da Carolina que lhe caísse nas mãos. Por fim, os prisioneiros pediram que ao menos um último grande favor lhes fosse concedido: que se pudesse deslocar a esquadra até certa distância do porto, e então, se mesmo assim eles não avistassem o barco aproximando-se, os próprios prisioneiros dirigiriam os navios até em frente à cidade onde, se quisessem abatê-los a todos, eles se manteriam de pé ali, até o último homem.

Aquela proposta de vingança contra a suposta traição (como o comodoro gostava de se referir ao fato) mostrou-se muito adequada ao selvagem temperamento do general e de seus brutamontes, e ele concordou imediatamente. O projeto foi igualmente aprovado pelos Mirmidões[5]e assim, um total de oito navios — a presa que os piratas mantinham em custódia — içaram suas âncoras, e se enfileiraram ao longo do litoral da cidade. Foi quando os habitantes tiveram o seu quinhão naquele horror, pois ficaram esperando nada menos que um ataque generalizado à cidade. Todos os homens foram convocados a se armarem, porém não da forma apropriada, caso fosse menor a surpresa. As mulheres e as crianças corriam enlouquecidas pelas ruas. Mas, antes que as coisas chegassem a um ponto extremo, avistou-se o barco que se aproximava trazendo consigo a redenção para os pobres cativos, e a paz para todos.

A caixa foi levada para bordo, e convenientemente recebida. Além disso, ficou claro que o sr. Marks havia realizado bem a sua tarefa, ao passo que a culpa por todo o atraso coube exclusivamente aos dois piratas que seguiram na embaixada. Pois, enquanto reuniam-se os cavalheiros com o governador em assembléia, para discutirem a questão, os outros dois grandes personagens passeavam pela a cidade, bebendo com antigos amigos e companheiros, de taverna em taverna, de forma que não puderam ser localizados quando os medicamentos ficaram prontos para a remessa. [79]

E o sr. Marks sabia que partir sem os dois piratas significaria a morte para todos os prisioneiros, uma vez que o comodoro não iria acreditar facilmente, caso eles não retornassem, na velhacaria praticada por ambos Mas agora só se viam expressões sorridentes no navio. A tempestade que tão pesadamente ameaçara os prisioneiros dissipou-se, sucedendo-se belo dia ensolarado. Para resumir, Barba-Negra libertou a todos, conforme prometera, mandou-os nos navios após servir-se destes, e em seguida velejou para alto-mar, como já mencionado.

O que se segue agora são reflexões sobre um cavalheiro, já falecida que foi governador da Carolina do Norte e cujo nome era Charles Edec. Esq. É necessário dizer aqui algo que possa anular a calúnia lançada contra ele por aqueles que não interpretaram bem sua conduta durante os grandes eventos da época. Recebemos ultimamente informações a esse respeito, embora estas careçam de um justo fundamento.

Ao analisar o papel que ele desempenhou na história de Barba-Negra não nos parece, considerando imparcialmente os episódios, que o referido governador tivesse qualquer ligação criminosa com o pirata. E fui informado posteriormente, e por fontes muito boas, que o sr. Eden, na medida das suas possibilidades, sempre se comportou de forma conveniente ao seu posto, demonstrando um caráter de bom governador e de honesto cidadão.

Porém a sua desgraça foi a fragilidade da colônia que governava, a sua falta de poder para punir as desordens cometidas por Teach, que mandavam e desmandava em tudo, não somente na colônia, mas até mesmo na residência do governador, ameaçando destruir a cidade pelo fogo e a espada se qualquer golpe fosse desferido contra ele ou seus comparsas, a ponto de algumas vezes chegar a direcionar os seus canhões contra a cidade. Certa vez, suspeitando que havia um plano para prendê-lo, armou-se dos pés à cabeça e foi ter com o governador, em terra, deixando ordens com seus homens para que, no caso de ele não retornar em uma hora (segundo determinou com total liberdade), eles arrasassem completamente a residência, apenas isso, e mesmo que ele próprio se encontrasse no seu interior. Eram assim as ultrajantes insolências daquele vilão, tão grande na maldade, que decidiu vingar-se a todo custo dos inimigos, mesmo tendo de dar a própria vida em sacrifício para conseguir aqueles objetivos perniciosos.

Devemos observar, entretanto, a respeito dos atos de pirataria de Barba-Negra, que ele assinara a Proclamação de Perdão e, portanto, estava quite com a lei. E, tendo nas mãos um certificado expedido por Sua Excelência, ninguém poderia processá-lo pelos crimes cometidos até ali, [80] pois todos haviam sido apagados pela referida Proclamação. E quanto à desapropriação do navio franco-martiniquês, que posteriormente ele trouxe para a Carolina do Norte, o governador procedeu judiciosamente ao convocar um tribunal do Vice-Almirantado, em virtude de seu cargo, no qual quatro tripulantes juraram ter encontrado o navio à deriva, sem ninguém a bordo. Consequentemente, o tribunal expropriou o navio, como qualquer outro tribunal teria feito, colocando a carga em disponibilidade, também de acordo com a lei.

Sobre a expedição secreta à Virgínia, empreendida pelo governador e por dois capitães de fragatas, todos tinham os seus inconfessados objetivos nela: as fragatas haviam permanecido ancoradas durante os dez últimos meses, enquanto os piratas infestavam o litoral, praticando inúmeros desmandos. É provável que por essa razão eles devessem ser chamados a se explicar. Mas o sucesso da ação contra Teach, conhecido como Barba-Negra, talvez tenha impedido essa investigação, embora eu me perca ao querer levantar todos os atos de pirataria cometidos por ele, depois que se rendeu á Proclamação. O navio francês foi desapropriado conforme a lei, como já se disse antes, e se Barba-Negra cometeu depredações entre os fazendeiros, como parece que eles se queixaram, isto não ocorreu em alto-mar, mas sim no rio, ou nas praias e, portanto, não poderia estar sob a jurisdição do Almirantado, nem tampouco das leis antipirataria. O governador da Virgínia se beneficiou com o fato, pois enviou ao mesmo tempo uma força por terra que apreendeu consideráveis bens de Barba-Negra, na província do governador Eden, o que certamente era algo novo para um governador de província — cuja autoridade limitava-se à sua própria jurisdição — exercer autoridade sobre um outro governo e sobre o próprio governador local. Assim, foi o pobre sr. Eden insultado e maltratado de todos os lados, sem poder se justificar ou afirmar os seus direitos legais.

Em suma, para se fazer justiça ao caráter do governador Eden, que morreu depois disso, não foram encontrados indícios — tanto nos documentos e cartas apreendidos na chalupa de Barba-Negra, quanto em rodas as demais evidências — de que o referido governador estivesse envolvido em alguma prática maléfica. Pelo contrário, durante todo o tempo em que permaneceu no posto, foi ele honrado e amado pelo povo da sua colônia, por sua retidão, probidade e prudente administração. Quanto às questões particulares do seu secretário, não tenho nenhum conhecimento, que morreu alguns dias depois da liquidação de Barba-Negra, e nenhum inquérito foi instaurado. Talvez não tenha havido ocasião para fazê-lo. [81]



 

História - Inglaterra
4/20/2019 3:55:55 PM | Por Marco Aurélio Antonino Augusto
Livre
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro IV

1. Quando está de acordo com a natureza, o nosso “dono interior” adota, em relação aos acontecimentos, uma atitude tal que sempre, e com facilidade, pode adaptar-se às possibilidades que lhe são dadas. Não tem predileção por nada predeterminado, mas se lança instintivamente frente o que lhe é apresentado, com prevenção, e converte em seu favor inclusive o que lhe era obstáculo. Como o fogo, quando se apropria dos objetos que caem sobre ele, sob os quais uma pequena chama haveria sido apagada. Mas um fogo resplandecente com grande rapidez se familiariza com o que se encontra sobre ele e o consome totalmente levantando-se a maior altura com esses novos escombros.

2. Nenhuma ação deve empreender-se sem motivo nem de modo divergente à norma consagrada pela arte.

3. As pessoas buscam retiros no campo, na costa e no monte. Tu também tens o costume de desejar tais retiros. Mas tudo isso é do mais vulgar, porque podes, no momento em que queiras, retirar-te em ti mesmo. Em nenhuma parte o homem se retira com maior tranqüilidade e mais calma que em sua própria alma. Sobretudo aquele que possui em seu interior tais bens, que, ao se inclinar a eles, de imediato consegue uma tranqüilidade total. E denomino tranqüilidade única e exclusivamente à boa ordem. Concede-te, pois, sem pausa, esse retiro e recupera-te. Sejam breves e elementares os princípios que, tão logo sejam localizados, serão suficientes para enclausurar-te em toda a tua alma e para enviar-te de novo, sem aborrecimento, àquelas coisas da vida frente as que te retiras. Porque, contra quem te aborrecerás? Contra a maldade dos homens? Lembra-te que os seres racionais nasceram uns para os outros, que a tolerância é parte da justiça, e que seus erros são involuntários. Lembra, também, quantos inimigos, suspeitos ou odiosos, feridos por lança, estão detidos, reduzidos a cinzas. Modera-te de uma vez.

Mas estás aborrecido pela parte que te cabe? Lembra-te do dilema: “Se não há uma providência, então só há os átomos”, e graças a quantas provas foi demonstrado que o mundo é como uma cidade.

Preocupam-te ainda as coisas corporais? Reconhece que o pensamento não se mistura com o hábito vital que se move suave ou violentamente, uma vez que se recuperou e compreendeu seu peculiar poder. Enfim, tem presente o que ouviste e aceitaste em relação à dor e ao prazer.

Acaso te arrastará a vangloria? Dirige teu olhar à profundidade com que se esquece tudo e ao abismo do tempo infinito por ambos os lados, à veracidade do eco, à versatilidade e irreflexão dos que dão a impressão de elogiar-te, à amargura do lugar em que se circunscreve a glória. Porque a terra inteira é um ponto, e quanto ocupa o nosso cantinho que habitamos nela? E ali, quantos e que classe de homens elogiar-te-ão? Considera que resta-te, pois, o refugio que se encontra nesse pequeno campo de ti mesmo. E, acima de tudo, não te atormentes nem te esforces demasiadamente; antes, seja um homem livre e olha as coisas como varão, como homem, como cidadão, como ser mortal. E entre as máximas que terás à mão e às quais te inclinará, estejam presentes essas duas: uma, que as coisas não alcançam a alma, mas se encontram fora dela, desprovidas de temor, e as perturbações surgem da única opinião interior. E a segunda, que todas essas coisas que estás vendo, logo se transformarão e já não existirão. Pensa também, constantemente, de quantas transformações tu mesmo já fostes testemunha.

O mundo é uma constante transformação; e a vida, opinião”.

4. Se a inteligência nos é comum, também a razão, segundo a qual somos racionais, nos é comum. Admitido isso, a razão que ordena o que deve ser feito ou evitado, também é comum. Concedido isso, também a lei é comum. Sendo assim, somos cidadãos. Aceito isso, participamos de uma cidadania. Se isso é assim, o mundo é como uma cidade, pois, de que outra comum cidadania poder-se-á afirmar que participa toda a espécie humana? Disso, dessa cidade em comum, procedem tanto a inteligência mesma como a razão e a lei. Ou, de onde? Porque assim como a parte de terra que existe em mim é oriunda de certa terra, a parte úmida, de outro elemento, a parte que infunde vida, de certa fonte, e a parte cálida e ígnea de uma fonte particular (pois nada se origina de nada, como tampouco nada desemboca no que não é), do mesmo modo a inteligência procede de alguma parte.

5. A morte, assim como o nascimento, é um mistério da natureza, combinação de certos elementos (e dissolução) neles mesmos. Em suma, nada acontece nela pelo qual alguém pudesse sentir vergonha, pois não é a morte contrária à continuação de um ser inteligente nem tampouco à lógica de sua constituição.

6. E natural que essas coisas sejam produzidas necessariamente assim a partir de tais homens. E o que assim o aceita, pretende que a figueira não produza seu suco. Enfim, lembra-te de que dentro de brevíssimo tempo, tu e ele estareis mortos, e pouco depois, nem sequer vosso nome perdurará.

7. Destrói a opinião e destruído estará o pensamento “fui prejudicado”. Destrói a queixa “fui prejudicado” e destruído estará o dano.

8. O que não deteriora o homem, tampouco deteriora sua vida e não lhe prejudica nem externa nem internamente.

9. A natureza do útil está obrigada a produzir utilidade.

10. “Tudo o que acontece, por justiça acontece”. Tu constatarás isso, se prestares a devida atenção. Não digo somente que acontece de forma ordenada, mas também segundo o justo e inclusive como se alguém atribuísse à parte correspondente segundo o seu mérito. Segue, pois, observando como ao princípio, e o que fizeres, faze-o com o desejo de ser um homem de bem, de acordo com o conceito próprio do homem de bem. Conserva esta norma em toda ação.

11. Não consideres as coisas tal como as julga o homem insolente ou como quer que as julgues. Mas antes, examina-as tal como são em realidade.

12. E preciso ter sempre preparadas essas duas disposições: uma, a de executar exclusivamente aquilo que a razão de tua faculdade real e legislativa te sugira para favorecer os homens; outra, a de mudar de atitude, caso apareça alguém que te corrija e que te faça desistir de alguma das tuas opiniões. Entretanto, é preciso que essa nova orientação tenha sempre sua origem em certa convicção de justiça ou de interesse à comunidade e as motivações devem ter exclusivamente tais características, não o que pareça agradável ou popular.

13. Tens razão? - Tenho - Então porque não a utilizas? Pois se isso já demonstra o seu papel, que mais queres?.

14. Existes como parte. Desaparecerás no que te engendrou. Melhor dizendo, serás reabsorvido. mediante um processo de transformação, dentro de tua razão geradora.

15. Muitos pequenos grãos de incenso encontram-se sobre o altar: um caiu primeiro, outro, depois. Tanto faz.

16. Dentro de dez dias parecerás um deus aos que agora têm a impressão de que és uma besta e um bruto, se retornares aos princípios e à veneração da razão.

17. Não ajas na ideia de que viverás dez mil anos. A necessidade inevitável paira sobre ti. Enquanto vives, enquanto é possível, sê virtuoso.

18. Quanto tempo livre ganha o que não olha o que o outro disse, fez ou pensou, mas exclusivamente o que ele mesmo faz, a fim de que sua ação seja justa, santa ou inteiramente boa. Não dirijas o olhar à escuridão, mas corre direto para a linha de chegada, sem se desviar.

19. O homem que se deslumbra pela glória póstuma não imagina que cada um dos que se lembraram dele morrerá também em breve. Depois, a sua vez, morrerá o que lhe sucedeu, até que se extinga toda sua lembrança em um avanço progressivo por meio de objetos que se acendem e se apagam. Mas, supõe que são imortais os que de ti se lembrarão, e imortal também a tua lembrança: em que isso afeta? E não quero dizer que nada em absoluto afete o morto; mas ao vivo, que lhe importa o elogio? A não ser em algum caso, por determinado propósito. Abandona agora, pois, essa glória que depende de algo externo.

20. Além do mais, tudo o que é belo, seja o que for, belo é por si mesmo, e em si mesmo completo, sem considerar o elogio como parte de si mesmo. Em conseqüência, o referido objeto nem se torna pior nem melhor. Afirmo isso, inclusive, tratando-se das coisas que comumente são denominadas belas, como, por exemplo, os objetos materiais e os objetos fabricados. O que, em verdade, é realmente belo de que tens necessidade? Nada mais que a lei, a verdade, a benevolência ou o pudor. Qual dessas coisas é bela pelo fato de ser elogiada o se destrói por ser criticada? A esmeralda se deteriora porque não a elogiam? E o que dizer do ouro, do marfim, da púrpura, da lira, do punhal, da flor, do arbusto?

21. Se as almas sobrevivem desde a eternidade, consegue o ar dar-lhes vida? E como a terra é capaz de conter os corpos dos que vêm sendo enterrados há tanto tempo? Assim como, depois de certa permanência, a transformação e a dissolução desses corpos cede lugar a outros cadáveres, também as almas transportadas aos ares, depois de um período de residência ali, se transformam, se dispersam e se inflamam fundindo-se na razão geradora do conjunto, e, dessa forma, dão espaço às almas que vivem em outro lugar. Isso poderia ser respondido na hipótese da sobrevivência das almas. E convém considerar não somente a multidão de corpos que assim são enterrados, mas também a dos animais que diariamente comemos e inclusive o resto de seres vivos. Pois, quão grande número é consumido e, de certa forma, é sepultado nos corpos dos que com eles se alimentam! E, entretanto, têm lugar porque se convertem em sangue, se transformam em ar e fogo. Como investigar a verdade sobre esse ponto? Mediante a diferenciação entre a causa material e a formal.

22. Não te deixes arrastar. Pelo contrário, em todo impulso, corresponde com o justo, e em toda fantasia, conserva a faculdade de compreender.

23. Harmoniza comigo tudo o que para ti é harmonioso, ó mundo! Nenhum tempo oportuno para ti mesmo é prematuro nem tardio para mim. E fruto para mim tudo o que produzem tuas estações, ó natureza! De ti procede tudo, em ti reside tudo, tudo volta a ti. Aquele diz: “Querida cidade de Cecrops!”, e tu não dirás: “Ah, querida cidade de Zeus!”?

24. Disse alguém: “Realiza poucas atividades, se queres manter o bom humor”. Não seria melhor fazer o necessário e tudo quanto prescreve, e da maneira que o prescreve, a razão do ser sociável por natureza? Porque este procedimento não somente procura boa disposição de ânimo para agir bem, mas também é otimismo que provém de estar pouco ocupado. Pois a maior parte das coisas que dizemos e fazemos, ao não serem necessárias, se fossem suprimidas, reportariam bastante mais ócio e tranqüilidade. Em conseqüência, é preciso questionar-se pessoalmente em cada coisa: “não estará isso entre o que não é necessário?” E não somente é preciso eliminar as atividades desnecessárias, mas inclusive as fantasias. Assim, deixarão de acompanhá-las atividades supérfluas.

25. Comprova como é a vida do homem de bem que se contenta com a parte do conjunto que lhe cabe e que tem o suficiente com sua própria atividade justa e com sua benévola disposição.

26. Viste aquilo? Vê também isso. Não te espantes. Mostra-te simples. Erra alguém? Erra consigo mesmo. Aconteceu algo contigo? Está bem. Tudo o que te sucede estava determinado pelo conjunto desde o princípio e estava tramado. Em resumo, breve é a vida. Devemos aproveitar o presente com bom juízo e justiça. Sê sóbrio ao relaxar-te.

27. Ou um mundo ordenado, ou uma mistura confusa muito revoltosa, mas sem ordem. É possível que exista em ti certa ordem e, ao contrário, no todo desordem, precisamente quando tudo está tão transformado, distinto e solidário?

28. Caráter sombrio, caráter afeminado, caráter teimoso, feroz, bruto, infantil, indolente, falso, palhaço, vigarista, tirânico!

29. Se estranho ao mundo é quem não conhece o que há nele, não menos estranho é também quem não conhece o que nele acontece. Desertor é o que foge da razão social. Cego o que tem fechados os olhos da inteligência. Mendigo o que tem necessidade de outro e não tem perto de si tudo o que é necessário para viver. Alheio ao mundo o que renuncia e se afasta da razão da natureza comum pelo fato de que está contrariado com o que lhe acontece, pois produz isso aquela natureza que também em te produziu. E um fragmento da cidade, o que separa sua alma particular da dos seres racionais, pois a ala é uma só.

30. Um, sem túnica, vive como filósofo; o outro, sem livro; aquele outro, seminu, diz: “Não tenho pão, mas preservo a razão”. E eu tenho os recursos que proporcionam os estudos e não persevero.

31. Ama, admite o pequeno ofício que aprendeste, e passa o resto de tua vida como uma pessoa que confiou, com toda a sua alma, todas as suas coisas aos deuses, sem tornar-te um tirano nem um escravo de nenhum homem.

32. Pensa, por exemplo, nos tempos de Vespasiano. Verás sempre as mesmas coisas: pessoas que se casam, criam seus filhos, adoecem, morrem, promovem a guerra, celebram festas, comerciam, cultivam a terra, adulam, são orgulhosos, receiam, conspiram, desejam que alguns morram, murmuram contra a situação presente, amam, aprisionam, ambicionam os consulados e os poderes reais... Pois bem, a vida daqueles já não existe em parte alguma. Lembra-te, agora, dos tempos de Trajano: encontraremos idêntica situação, também aquele modo de viver desapareceu. Da mesma forma, contempla e dirige o olhar ao resto de documentos dos tempos e de todas as nações, quantos, depois de tantos esforços, caíram pouco depois e se desintegraram em seus elementos. Especialmente, deves refletir sobre aquelas pessoas que tu mesmo viste esforçarem-se em vão, e que se esqueceram de fazer o que estava de acordo com sua constituição: perseverar sem descanso nisso e contentar-se com isso. De tal modo, é necessário considerar que a atenção adequada a cada ação tem seu próprio valor e proporção. Pois, assim, não desanimarás, a não ser que ocupes mais tempo do apropriado em tarefas bastante uteis.

33. As palavras, antes familiares, são agora locuções caducas. O mesmo ocorre com os nomes de pessoas, que muito celebrados em outros tempos, são agora, de certa forma, locuções caducas: Camilo, Cesônio, Leonato. E pouco depois também Cipião e Catão. Também Augusto. E mais tarde Adriano e Antonino. Tudo se extingue e pouco depois se converte em legendários. E logo cai em um total esquecimento. E me refiro aos que, de certa forma, alcançaram surpreendente destaque, porque os demais, desde que desapareceram, são desconhecidos, não relembrados. Mas, o que é, afinal, a lembrança eterna? Vaidade total. O que é, então, o que deve impulsionar nosso afã? Tão somente isso: um pensamento justo, umas atividades consagradas ao bem comum, uma linguagem incapaz de enganar, uma disposição para abraçar tudo o que acontece, como necessário, como familiar, como fluente do mesmo princípio e da mesma fonte.

34. Entrega-te sem reservas à Parca e deixa-a tecer a trama com os acontecimentos que queira.

35. Tudo é efêmero: a lembrança e o objeto lembrado.

36. Contempla continuamente que tudo nasce por transformação, e habitua-te a pensar que nada ama tanto a natureza do conjunto como transformar as coisas existentes e criar novos seres semelhantes. Todo ser, de certa forma, é semente do que dele surgirá. Mas tu somente imaginas as sementes que se lançam à terra ou a uma matriz. E isso é ignorância excessiva.

37. Estarás morto em seguida, e ainda não és nem simples, nem imperturbável, nem andas sem receio de que possam causar-te dano desde o exterior, nem tampouco és benévolo para com todos, nem medes a sensatez na prática exclusiva da justiça.

38. Examine com atenção seus guias interiores e indague o que evitamos sábios e o que perseguem.

39. Não consiste teu mal em um guia interior alheio nem tampouco na variação e alteração do que te circunda. Em que, pois? Naquilo em ti que opina sobre os males. Por tanto, que não opine essa parte e tudo irá bem. E ainda no caso de que seu mais próximo vizinho, o corpo, seja cortado, queimado ou apodreça, permaneça com tudo tranqüila a pequena parte que sobre isso opina, ou seja, não julgues nem mal nem bom o que igualmente pode acontecer a um homem mau e a um bom. Porque o que acontece tanto ao que vive conforme a natureza como ao que vive contra ela, isso nem é conforme a natureza nem contrário a ela.

40. Conceba sem cessar o mundo como um ser vivo único, que contém uma só substância e uma alma única, e como tudo se refere a uma só faculdade de sentir, a sua, e como tudo o faz com um só impulso, e como tudo é responsável solidariamente de tudo o que acontece, e qual é a trama e contexto.

41. “E suma pequena alma que sustenta um cadáver”, como dizia Epíteto.

42. Nenhum mal acontece ao que está em vias de transformação, como tampouco nenhum bem ao que nasce por conseqüência de uma transformação.

43. O tempo é um rio e uma corrente impetuosa de acontecimentos. Mal se deixa ver cada coisa, é arrastada; aparece outra, e esta também será arrastada.

44. Tudo o que acontece é tão habitual e bem conhecido como a rosa na primavera e os frutos no verão; algo parecido ocorre com a enfermidade, a morte, a difamação, a conspiração e tudo quanto alegra ou aflige os ignorantes.

45. As consequências estão sempre vinculadas com os antecedentes; pois não se trata de uma simples enumeração isolada e que contam tão somente o determinado pela necessidade, mas de uma combinação racional. E assim como as coisas que existem têm uma coordenação harmônica, assim também os acontecimentos que se produzem manifestam não uma simples sucessão, mas certa admirável afinidade.

46. Ter sempre presente a máxima de Heráclito: “a morte da terra é converter-se em água, a morte da água é converter-se em ar, a morte do ar é converter-se em fogo, e o inverso”. E recordar também o do que esquece para onde conduz o caminho. E também que “com aquilo que mais freqüente trato têm, a saber, com a razão que governa o conjunto do universo, com isso disputam, e lhes parecem estranhas as coisas que diariamente lhes sucedem”. E ainda: “não se deve agir nem falar como se estivesse dormindo”, pois também então nos parece que agimos e falamos. E que “não é preciso ser como filhos dos pais”, ou seja, aceitar as coisas de forma simples, como forma herdadas.

 47. Como se um deus tivesse dito a ti: “amanhã morrerás ou, em todo caso, depois de amanhã”, não terias colocado maior empenho em morrer depois de amanhã que amanhã, a menos que fosses extremamente vil (porque, quanta é a diferença?). Da mesma forma, não consideres de grande importância morrer daqui a muitos anos em vez de amanhã.

48. Considere sem cessar quantos médicos morreram depois de terem fechado os olhos repetidas vezes os seus doentes; quantos astrólogos, depois de terem previsto, como fato importante, a morte de outros; quantos filósofos, depois de terem sustentado inúmeras discussões sobre a morte ou sobre a imortalidade; quantos chefes, depois de terem matado muitos; quantos tiranos, depois de terem abusado, como se fossem imortais, com tremenda arrogância, de seu poder sobre vidas alheias, e quantas cidades inteiras, por assim dizer, morreram: Hélica, Pompéia, Herculanum e outras incontáveis. Acrescente também, um após o outro, todos o que conheceste. Este, depois haver tributado as honras fúnebres a aquele, foi sepultado em seguida por outro; e assim sucessivamente. E tudo em pouco tempo. Assim, examine sempre as coisas humanas como efêmeras e carentes de valor: ontem, germe; amanhã, múmia ou cinza. Portanto, percorra este pequeno lapso de tempo obediente à natureza e termine tua vida alegremente, como a azeitona que, madura, caísse elogiando a terra que lhe deu vida e dando graças à árvore que a produziu.

49. Ser igual ao rochedo contra o qual, sem interrupção, se quebram as ondas. Este se mantém firme, e em torno dele adormece a espuma da onda. “Sou infeliz, porque isso me aconteceu”. Mas não, ao contrário: “sou feliz, porque, devido ao que me ocorreu, persisto até o fim sem aflição, nem perturbado com o presente nem assustado com o futuro”.Porque algo semelhante poderia acontecer a todo mundo, mas nem todo mundo poderia seguir até o fim, sem aflição, depois disso. E por que, então, será isso um infortúnio mais que boa fortuna? Acaso denominas, afinal, desgraça de um homem ao que não é desgraça da natureza do homem? E acreditas ser aberração da natureza humana o que não vai contra o desígnio de sua própria natureza? Por que, então? Aprendeste tal desígnio? Esse fato te impede de ser justo, magnânimo, sensato, prudente, reflexivo, sincero, discreto, livre, etc., conjunto de virtudes com as quais a natureza humana contém o que lhe é peculiar? Lembra-te, a partir de agora, em todo acontecimento que te induza à aflição, de utilizar este princípio: não é isso um infortúnio, mas uma felicidade suportá-lo com dignidade.

50. Remédio simples, mas eficaz, para menosprezar a morte, é lembrar-se dos que se apegaram com tenacidade à vida. O que mais têm em relação aos que morreram prematuramente? Em qualquer caso, jazem em alguma parte Ceciliano, Fábio, Juliano, Lépido e outros como eles, que a tantos levaram à tumba, para serem também eles levados depois. Em resumo, pequeno é o intervalo de tempo; e esse, através de quantas dificuldades, em companhia de que tipo de homens e em que corpo passarás! Depois não o tenhas por negócio. Olhe atrás de ti o abismo da eternidade e diante de ti outro infinito. À vista disso, em que se distinguem a criança que viveu três dias e o que viveu três vezes mais que Gereneo?

51. Corra sempre pelo caminho mais curto, e o mais curto é o que está de acordo com a natureza. Em conseqüência, fale e aja em tudo da maneira mais correta, pois tal propósito libera das aflições, da disciplina militar, de toda preocupação administrativa e afetação.

Filosofia - Estoicismo
4/19/2019 12:59:56 PM | Por Daniel Defoe
Livre
O capitão Avery e sua tripulação

Jamais algum desses intrépidos aventureiros conseguiu ser tão comentado, e por tanto tempo, quanto o capitão Avery. Produziu ele tanto alarde pelo mundo quanto agora o faz Meriveis.[1]E foi considerado uma pessoa de extrema importância. Na Europa, representavam-no como alguém que chegara até a dignidade de um verdadeiro rei, com capacidade para fundar uma nova monarquia. Dizia-se que ele se apoderara de imensas fortunas, e que se casara com a filha do Gran Mogol,[2]raptada de um navio indiano que ele capturou. E que teve muitos filhos com ela, vivendo em grande fausto e realeza. Que construiu fortalezas, grandes arsenais e que foi senhor de uma poderosa esquadra de navios, manobrados por indivíduos capazes e desesperados, provenientes de todas as nações do mundo. Que distribuía autorizações em seu nome aos capitães dos seus navios e aos comandantes dos fortes, e que por estes era reconhecido como o seu Príncipe. Escreveu-se até uma peça teatral sobre ele, chamada The Successful Pirate? Essas histórias conseguiram uma tal credibilidade que diversos planos foram apresentados ao Conselho para a equipagem de uma esquadra para aprisioná-lo, ao passo que muitos outros eram a favor de conceder, a ele e a seus comparsas, um Ato de Clemência, chamando-o para a Inglaterra com todos os seus tesouros, uma vez que o seu crescente poder ameaçava o comércio da Europa com as índias Orientais.

Entretanto, tudo isso não passava de falsos rumores, aumentados pela credulidade de uns e o senso de humor de outros, que adoram contar coisas bizarras. Pois, enquanto se dizia que ele aspirava à Coroa, na [43] verdade ele estava à cata de pelo menos algum shilling. E ao mesmo tempo que se espalhava ser imensa a sua riqueza em Madagascar, na realidade ele estava passando fome na Inglaterra.

Sem dúvida alguma, o leitor terá curiosidade de saber o que aconteceu com esse homem, e quais seriam os fundamentos para tantos relatos falsos a seu respeito. Por isso, da maneira mais sucinta que puder, irei contar a sua história.

Ele nasceu no oeste da Inglaterra, perto de Plymouth, em Devonshire. Tendo recebido educação para a vida marítima, serviu como imediato num navio mercante em diversas viagens comerciais. Isso foi antes da Paz de Ryswick (1697),[3]quando havia uma aliança entre Espanha, Inglaterra e Holanda contra a França, pois os franceses de Martinico realizavam um comércio de contrabando com os espanhóis do continente, no Peru, o que, pelas leis da Espanha, não é permitido às nações amigas em tempos de paz, pois ninguém, a não ser os espanhóis nativos, têm permissão para comerciar naquela região, ou desembarcar no litoral, a menos que sejam trazidos como prisioneiros. Por isso são mantidos navios constantemente circulando ao longo da costa, chamados Guarda del Costa, com ordens de apreender quaisquer embarcações que possam ser localizadas dentro do limite de trinta quilômetros da terra. Com os franceses mostrando-se cada vez mais audaciosos no comércio, e os espanhóis dispondo de pouquíssimos navios — e os que possuíam, sem poder algum —, frequentemente acontecia que ao localizarem os contrabandistas franceses eles não contavam com uma força suficiente para atacá-los. Por isso a Espanha resolveu contratar dois ou três navios estrangeiros poderosos para o seu serviço. Ao saberem disso em Bristol, alguns comerciantes daquela cidade equiparam dois navios, cada qual com trinta e poucos canhões e cento e vinte tripulantes, bem abastecidos de provisões e munição, e com todos os demais estoques necessários. E, uma vez aprovado o contrato por alguns agentes da Espanha, os navios receberam ordens para navegar com destino a Corunna (Groine) para ali serem instruídos e tomarem como passageiros alguns cavalheiros espanhóis que iam para a Nova Espanha.[4]

Em um daqueles navios — que segundo acredito, chamava-se Duke, comandado pelo capitão Gibson — Avery estava como primeiro imediato. Sendo um indivíduo mais astucioso do que propriamente de coragem, ele soube insinuar-se nas boas relações com vários tripulantes dentre os mais corajosos, a bordo de ambos os navios. Sondando as inclinações deles antes de revelar suas verdadeiras intenções, e percebendo que eles [44] estavam maduros para os seus desígnios, finalmente lhes propôs fugirem com o navio, falando-lhes sobre a imensa fortuna que poderiam obter nas costas da índia. Mal acabou de falar e já todos concordavam, ficando resolvido que a conspiração seria executada às dez horas da noite seguinte.

Deve-se notar que o comandante era daqueles profundamente dados ao vício do ponche, tanto que a maior parte do tempo ele passava em terra, bebendo em alguma pequena taverna. Entretanto, naquele dia, contrariando o costume, ele não foi para terra, o que contudo não atrapalhou o plano, pois ele ficou bebendo as suas doses usuais a bordo mesmo, e assim, foi deitar-se antes da hora combinada para o negócio. Os homens que não estavam informados sobre a conspiração também foram para os seus catres, não ficando ninguém no convés além dos conspiradores. Os quais, diga-se de passagem, constituíam a maioria da tripulação. Na hora combinada, o escaler do Duchess surgiu e, a um sinal combinado de Avery, os homens que se encontravam nele deram a senha: “Seu comandante bêbado está a bordo?” A resposta afirmativa de Avery, dezesseis homens muito fortes subiram a bordo e se juntaram ao grupo.

Quando o nosso pessoal viu que estava tudo em ordem, aferrolharam os alçapões e puseram-se ao trabalho. Não recolheram a âncora, mas sim deixaram que esta pendesse solta, para que dessa forma pudessem ir para o mar sem qualquer distúrbio ou perturbação, apesar de vários navios estarem naquele momento ancorados na baía, entre os quais uma fragata holandesa de quarenta canhões, cujo capitão recebera uma grande oferta para que acompanhasse o navio em sua viagem. Porém Mynheer, certamente não pretendendo encarregar-se de tal missão, e também não podendo convencer algum outro navio a fazer o trabalho, permitiu que o sr. Avery seguisse sua viagem, para onde tivesse a intenção de ir.

O capitão, que nesse meio-tempo acordou, quer pelo movimento do navio, quer pelo barulho nos cordames, tocou a sineta. Avery e mais dois outros chegaram até a cabine, e o capitão, ainda meio dormindo e numa espécie de pavor perguntou: “O que é isso?”Avery respondeu friamente: “Nada.” Ao que o capitão replicou: “Está acontecendo alguma coisa com o navio, ele está à deriva? Como está o tempo?” — achando que certamente estava havendo uma tempestade, e que o navio fora arrastado do ancoradouro. Avery respondeu: “Não, não. Estamos em alto-mar, com vento favorável e o tempo está muito bom.” Exclamou o capitão: “Em alto-mar! Como é possível?” E Avery: “Vamos, não fique tão apavorado. Olha, vista-se, que vou lhe contar um segredo: Você precisa saber que [45] agora eu é que sou o comandante deste navio, e que esta é a minha cabine, e que por isso você deve dar o fora daqui. Nosso destino é Madagascar, onde vou fazer a minha própria fortuna, e todos os companheiros de coragem estão comigo.”

O capitão, que ainda não recobrara totalmente os sentidos, só então começou a entender o que se passava. Mas o seu pavor continuava tão grande como antes, e Avery, percebendo isso, disse-lhe que nada temesse; “Pois”, falou, “se o senhor quiser se juntar a nós, nós o aceitaremos, e se ficar sóbrio e cuidar das suas coisas, talvez oportunamente eu o torne um dos meus tenentes. Se não, tem um escaler preparado e o senhor poderá voltar nele para terra.”

O capitão gostou de ouvir essa proposta, e a aceitou. Chamou-se então toda a tripulação para saber quem queria voltar para a terra, com o capitão, e quem preferia ficar e buscar sua fortuna com os demais. Não mais do que cinco ou seis homens apenas mostraram-se desejosos de abandonar o navio. Pelo que, foram no mesmo instante postos no escaler, com o capitão, dirigindo-se para o litoral do jeito que puderam.

O navio seguiu viagem para Madagascar, porém parece-me que eles não capturaram nenhum navio pelo caminho. Ao chegarem à região nordeste da ilha, deram com duas chalupas ancoradas na costa. Os homens que lá se encontravam largaram imediatamente os cabos e correram para terra, embrenhando-se no mato. As embarcações tinham sido usadas por eles para fugirem das índias Ocidentais. Ao verem o barco de Avery, acharam que devia tratar-se de alguma fragata enviada para prendê-los e assim, sabendo que não dispunham de força suficiente para enfrentá-la, fizeram o possível para se salvar.

Imaginando onde poderiam estar, Avery enviou alguns de seus homens para informá-los que eram amigos e propor-lhes que ficassem juntos em nome da segurança comum. Os homens das chalupas estavam bem armados e se haviam embrenhado num bosque deixando sentinelas para observar se o navio iria desembarcar os seus homens para persegui-los. Ao verem apenas dois ou três caminhando em sua direção, e desarmados, não lhes opuseram resistência. Mas deram-lhes ordens para se identificar, e a resposta foi que eram amigos. Então os conduziram até o seu grupo, onde a mensagem foi transmitida. A princípio acharam que podia ser uma armadilha para prendê-los, quando estivessem a bordo, mas à proposta dos embaixadores, de que o próprio capitão e alguns tripulantes, citados nominalmente, estavam dispostos a encontrá-los sem armas na [46] praia, eles acreditaram na sua seriedade e imediatamente se estabeleceu uma mútua confiança: os que estavam a bordo desceram à praia, e alguns dos que estavam na praia subiram a bordo.

Os homens das chalupas comemoraram a nova aliança, pois as suas embarcações eram pequenas demais para atacar algum navio, de qualquer potência que fosse, tanto que até então não haviam capturado nenhuma presa considerável. Mas agora esperavam poder voar bem mais alto. Avery também gostou daquele reforço, que vinha aumentar a sua capacidade para algum empreendimento mais audacioso, e não obstante o butim tivesse de diminuir para cada um, tendo de dividir-se em muito mais partes, mesmo assim ele descobriu um expediente para que ele próprio não levasse prejuízo por isso, como será demonstrado oportunamente.

Tendo todos deliberado o que fazer, decidiu-se que a galera e as duas chalupas largariam velas numa viagem de exploração. Assim, lançaram-se todos à preparação das duas chalupas para a viagem, partindo em seguida em direção às costas da Arábia. Ao chegarem perto do rio Indus, o vigia do mastro principal avistou velas ao longe, e imediatamente eles iniciaram a perseguição. Aproximando-se mais, perceberam que o navio era de grande altura, e acharam que poderia ser algum navio holandês retornando das índias Orientais. Porém logo descobriram que a presa ainda era maior. Quando deram tiros para rendê-la, ela içou a bandeira do Mogol, aparentando ficar na defensiva. Avery atirou com seus canhões apenas de longe, pelo que alguns dos seus homens desconfiaram que ele afinal não era aquele herói que esperavam. Entretanto, as chalupas não perderam tempo e, chegando uma até a proa e a outra ao tombadilho, chocaram-se com o casco e invadiram o navio, que imediatamente recolheu sua bandeira e se entregou. O navio pertencia à frota pessoal do Mogol, e nele se encontravam vários dos mais importantes membros da sua corte, entre os quais, dizia-se, uma de suas filhas, em viagem de peregrinação a Meca — pois os maometanos são obrigados a fazer, pelo uma vez na vida, uma visita àquele local. E levavam ricas oferendas para colocarem no túmulo de Maomé. Como se sabe, os povos orientais costumam viajar em grande magnificência, e assim, vinham com todos os seus escravos e criados, riquíssimos vestuários e jóias, jarros de ouro e prata, e ainda, grandes somas de dinheiro para arcarem com suas despesas em terra. Pelo que, o que se conseguiu saquear ali dificilmente poderá ser contabilizado.

Depois de transportarem todo o tesouro para os seus navios, e de despojarem a presa de tudo o mais que admirassem ou cobiçassem, eles [47] deixaram o navio partir. Como este não tinha mais condições para prosseguir viagem, teve de retornar. Tão logo as notícias chegaram até o Mogol, e este ficou sabendo que o roubo fora praticado por ingleses, fez grandes ameaças, declarando que iria enviar um poderoso exército, armado com espadas e armas de fogo, para expulsar os ingleses de todos os seus povoados na costa indiana. A Companhia das índias Orientais, na Inglaterra, ficou grandemente alarmada. Entretanto, pouco a pouco foi encontrando meios para pacificar o Mogol, prometendo envidar todos os esforços possíveis para prender os ladrões e entregá-los nas suas mãos. Em todo o caso, o grande alarde que a notícia provocou na Europa, como também na índia, foi o que ocasionou a criação de todas essas estórias românticas a respeito da grandeza de Avery.

Enquanto isso, os nossos bem-sucedidos saqueadores eram de opinião que se devia fazer tudo para retornar a Madagascar, estabelecendo ali um local para armazenar seus tesouros, com a construção de uma pequena fortaleza, e deixando sempre na praia alguns homens para vigiá-la e defendê-la de possíveis assaltos dos nativos. Mas Avery rejeitou o projeto, achando-o desnecessário.

Enquanto eles seguiam seu caminho, como foi dito, Avery enviou um escaler até cada uma das chalupas, solicitando a vinda de seus chefes a bordo do navio para realizarem um conselho. Assim fizeram, e ele lhes declarou ter uma proposta, em nome do bem comum, relativa às medidas necessárias de precaução contra acidentes. Propôs que considerassem bem se os tesouros que possuíam eram suficientes para todos, e se poderiam responder pela sua segurança em algum local, ou alguma praia. Caso contrário, tudo que tinham a temer seria que alguma desgraça acontecesse aos tesouros durante a viagem. Sugeriu-lhes que examinassem bem as conseqüências de se verem, de uma hora para outra, separados uns dos outros pelo mau tempo, caso em que as chalupas — se caíssem em poder de algum navio de guerra, qualquer uma delas — ou seriam apreendidas, ou naufragariam, e os tesouros que levavam a bordo seriam fatalmente perdidos para todos. Isto, para não mencionar os acidentes que costumam acontecer no mar. Ele, por sua parte, dispunha de força suficiente para enfrentar qualquer barco que lhe surgisse à frente, nos mares; e se algum se mostrasse acima das suas possibilidades, e ele não pudesse capturá-lo, tampouco o poderiam capturar a ele, uma vez que contava com uma [48] tripulação tão capacitada como a sua. Além disso, o seu navio navegava em grande velocidade, e podia desfraldar velas quando as chalupas não o podiam. Pelo exposto, o que lhes recomendava era que colocassem todos os tesouros a bordo do seu navio, lacrando cada cofre com três selos, um selo para cada um deles. E propunha também combinarem um ponto de encontro, para o caso de uma consequente separação entre as embarcações.

Depois de examinarem bem a proposta, a acharam tão razoável que prontamente concordaram, raciocinando que de fato poderia ocorrer algum acidente com uma das chalupas, enquanto a outra pudesse escapar, pelo que aquela medida era pelo bem de todos. A proposta foi concretizada conforme o combinado, os tesouros foram transportados para o navio de Avery e os cofres, devidamente selados. Eles navegaram juntos naquele dia e no dia seguinte com tempo bom. Nesse ínterim, Avery ficou tramando com seus companheiros, dizendo-lhes que agora sim, dispunham do suficiente para viver folgadamente, pois o que os impediria de ir para algum país onde ninguém os conhecesse, e viver na abundância, nas praias, pelo resto dos seus dias? Todos compreenderam o que ele insinuava, e concordaram em ludibriar os novos aliados, os homens das chalupas. Acho que nenhum sentiu a menor náusea percorrer-lhe o estômago, diante daquela desonra, e que o fizesse desistir daquele ato de traição. Em resumo, eles se aproveitaram da escuridão da noite, mudaram o rumo para outra direção e, pela manhã, já não mais podiam ser vistos.

Vamos deixar que o leitor imagine as pragas e a balbúrdia que reinaram entre o pessoal das chalupas pela manhã, ao perceberem que Avery lhes pregara uma peça. Pois logo puderam ver, pelas boas condições do tempo e a rota que tinham combinado, que a coisa só poderia ter sido proposital. Mas devemos deixá-los agora, passando a acompanhar o sr. Avery.

Avery e os seus homens, após deliberarem qual destino a tomar, chegaram a uma resolução: a de procurarem o melhor meio de chegar à América. Como nenhum deles era conhecido naquelas regiões, a intenção era repartir os tesouros, trocar os seus nomes, desembarcar em diferentes partes do litoral, comprar casas e então passar a viver folgadamente. A primeira terra a que chegaram foi a ilha de Providence, recentemente colonizada. Ali ficaram por algum tempo. Até que, refletindo que quando eles chegassem à Nova Inglaterra, as grandes proporções do navio haveriam de provocar muitas perguntas; e que, possivelmente, algumas pessoas da Inglaterra, já tendo ouvido contar a história do navio roubado em Groine, poderiam suspeitar serem eles os autores do roubo; em vista disso, eles resolveram [49] colocar à venda o navio, em Providence. Avery, pretendendo que ele fora equipado particularmente como um navio corsário, no que não fora bem-sucedido, declarou ter recebido ordens dos proprietários para que dispusesse do barco da melhor forma possível, e logo encontrou um comprador. Imediatamente, ele próprio comprou uma chalupa.

Nessa chalupa, ele e seus companheiros embarcaram, parando em diversos pontos da América onde ninguém suspeitava deles. Alguns foram para terra, e ali se dispersaram pelo país, depois de receberem os dividendos que Avery lhes deu. Pois ele escondeu a maior parte dos diamantes consigo, já que na pressa do saque destes não prestaram muita atenção à quantidade e tampouco conheciam o seu valor.

Finalmente chegou a Boston, na Nova Inglaterra, aparentemente com a intenção de se estabelecer ali. Alguns companheiros também desembarcaram, mas ele acabou mudando de ideia. Propôs aos poucos homens que ainda o acompanhavam navegarem rumo à Irlanda. Todos concordaram. Achava que a Nova Inglaterra não era o lugar adequado, pois uma grande parte da sua riqueza era em diamantes e se os exibisse ali, com toda certeza seria preso como suspeito de pirataria.

Em sua viagem à Irlanda, eles evitaram passar pelo canal de São George, desembarcando num dos portos ao norte daquele reino. Venderam o navio e, chegando até a praia, ali se separaram, alguns indo para Cork, outros para Dublin. Dentre esses dezoito obtiveram, mais tarde, o perdão concedido pelo rei William. Depois que Avery permaneceu por algum tempo naquele reino, começou a sentir medo de colocar os seus diamantes à venda, pois uma investigação sobre a maneira como foram obtidos poderia levar à descoberta de tudo. Assim, refletindo consigo mesmo o melhor a fazer, lembrou-se de que em Bristol viviam algumas pessoas nas quais ele poderia arriscar-se a confiar. Imediatamente resolveu atravessar para a Inglaterra. Assim que chegou lá, foi a Devonshire, onde mandou um recado para um desses amigos encontrá-lo na cidade de Biddiford. Encontrando-se com ele e consultando-o sobre os meios de dispor da sua mercadoria, ambos chegaram à conclusão de que o melhor seria colocá-la nas mãos de alguns comerciantes que ele conhecia e que, sendo homens ricos e com crédito na sociedade, não provocariam nenhuma investigação a respeito. Aquele amigo lhe revelou ser muito íntimo a alguns deles, que eram mais indicados para o negócio, e se lhes fosse concedida uma boa comissão, realizariam a coisa de forma bem confiável. A proposta agradou a Avery, que também não via outro modo de conduzir [50] os seus negócios, visto que não podia aparecer neles pessoalmente. Assim, seu amigo retornou a Bristol e apresentou a questão aos comerciantes. Estes seguiram para Biddiford, para encontrar-se com Avery. Ali, depois de muitos argumentos em favor de sua honradez e integridade, Avery lhes entregou sua mercadoria, que consistia em diamantes e alguns vasos de ouro. Os comerciantes lhe deram um pouco de dinheiro, para sua subsistência por aquele momento. E se foram embora.

Avery trocou de nome e viveu em Biddiford sem chamar atenção, e assim quase não foi percebida a sua presença ali. Entretanto, deixou que uns poucos conhecidos seus soubessem do seu paradeiro, e eles vieram vê-lo. Em pouco tempo, o seu dinheiro acabou, e ele continuava sem qualquer notícia dos comerciantes. Escreveu-lhes muitas cartas e, ao cabo de muitos incômodos, eles acabaram enviando-lhe uma pequena soma, o bastante apenas para ele saldar as suas dívidas. Resumindo, as quantias que lhe enviavam, de tempos em tempos, eram tão escassas que nem para o pão eram suficientes, e tampouco podia obtê-las senão à custa de muitos problemas e incômodos. Pelo que, cansado daquela vida, ele foi em segredo a Bristol entender-se pessoalmente com os comerciantes. Mas lá, ao invés de dinheiro, o que ele recebeu foi uma violenta rejeição. Pois quando quis que lhe prestassem contas, eles o fizeram calar-se, ameaçando denunciá-lo. Assim, os nossos comerciantes se revelaram tão bons piratas em terra quanto ele havia sido nos mares.

Não se sabe se ele se amedrontou com as ameaças, ou se viu alguém que achou que o reconhecia, o certo é que ele partiu imediatamente para a Irlanda, de onde ficava insistentemente pedindo dinheiro aos comerciantes, mas sem qualquer resultado, pois chegou mesmo a ver-se reduzido à mendicância. Naquela situação extrema, decidiu voltar e atacá-los, fossem quais fossem as consequências. Embarcou num navio mercante para Plymouth, pagando a sua passagem com trabalho, e dali foi a pé até Biddiford onde, apenas alguns dias depois, ficou doente e morreu, sem merecer ao menos que lhe comprassem um caixão.

Assim, apresentei tudo o que me foi possível reunir com alguma certeza a respeito desse homem, rejeitando as histórias infundadas que se criaram sobre a sua fantástica grandeza, e pelas quais fica demonstrado que as suas ações foram mais inconsequentes que a de outros piratas depois dele, embora provocassem maior alarde pelo mundo.

E agora retornaremos para oferecer aos nossos leitores alguma informação sobre o que se passou com as duas chalupas. [51] 

Referimo-nos ao ódio e à confusão que certamente tomaram conta deles, ao darem pelo desaparecimento de Avery. Prosseguiram no seu curso, alguns ainda animando-se uns aos outros, dizendo que ele apenas os ultrapassara durante a noite e que com certeza iriam encontrá-lo no local combinado. Mas ao chegarem lá, sem quaisquer notícias sobre ele, as esperanças se extinguiram. Era hora de pensar no que fazer, eles mesmos: todo o estoque de mantimentos estava quase acabado e, não obstante haver arroz e peixe, e aves que se poderiam abater na praia, ainda assim a quantidade não seria suficiente para se manterem no mar sem se abastecerem adequadamente de sal, o que não era possível fazer ali. Assim, já que não mais podiam sair circulando pelos mares, era tempo de pensar em se estabelecerem em terra. E com esse propósito, retiraram tudo das chalupas, fabricaram barracas com as velas e armaram um acampamento. Era grande a quantidade de munição e de pequenas armas de que dispunham.

Ali encontraram vários conterrâneos, da tripulação de um navio corsário comandado pelo capitão Thomas Tew. E, uma vez que isto constituirá apenas uma pequena digressão, vou relatar como eles chegaram até lá.

O capitão George Dew e o capitão Thomas Tew tinham sido autorizados pelo então governador das Bermudas a levarem seus navios diretamente até o rio Gâmbia, na África, onde, com a assessoria e a assistência dos agentes da Royal African Company, tentariam ocupar uma fábrica francesa em Goorie (Goree), que ficava no litoral. Poucos dias após a partida, durante uma violenta tempestade, Dew não só viu rachar-se o mastro do seu navio, como também perdeu de vista o companheiro. Assim, teve de retornar para fazer reparos na embarcação, enquanto Tew. ao invés de prosseguir viagem, dirigiu-se para o cabo da Boa Esperança, que contornou, direcionando então o seu curso para o estreito de Babel Mandei (Bab el Mandeb), que é a entrada para o mar Vermelho. Lá ele se deparou com um grande navio, ricamente carregado, viajando da índia para a Arábia, e com trezentos soldados a bordo além dos marinheiros. Mesmo assim, Tew teve a audácia de abordá-lo, dominando-o logo. E dizem que, com aquela presa, os homens dividiram cerca de três mil libras para cada um. Conseguiram dos prisioneiros a informação de que outros cinco navios, com carregamentos igualmente ricos, iriam passar por ali, e seguramente Tew os teria atacado, mesmo sendo eles muito poderosos, não fosse dissuadido disso pelo contramestre e por outros tripulantes. Essa desavença de opiniões criou um certo clima rancoroso entre eles, [52] tanto que resolveram acabar com a pirataria. Nenhum lugar seria mais apropriado para recebê-los do que Madagascar, e foi para lá que se dirigiram, decidindo viver nas praias e desfrutar o que haviam ganho.

Quanto a Tew pessoalmente, em pouco tempo, com alguns outros, embarcou para Rhode Island, para viver em paz dali por diante.

Assim descrevemos a companhia que os nossos piratas acabaram encontrando.

Deve-se observar que os nativos de Madagascar são negros, porém de uma espécie diferente dos da Guiné: o cabelo é comprido e a tez não é negro azeviche. Organizam-se em pequenos principados numerosos, que estão constantemente fazendo guerra uns aos outros. Escravizam os seus prisioneiros e, ou bem os vendem, ou os matam, segundo sua disposição de ânimo no momento. A primeira vez que os nossos piratas se estabeleceram ali, a aliança com eles foi algo que aqueles príncipes muito desejaram, de forma que às vezes os piratas se associavam a um determinado príncipe, outras vezes a um outro, mas, de qualquer lado que se colocassem, sempre saíam vitoriosos. Pois os negros não tinham armas de fogo, e nem sabiam como usá-las. Tanto que, por fim, os piratas se tornaram figuras tão terríveis para eles que, ao entrarem em guerra entre si, o fato de haver mesmo que apenas dois ou três piratas dando apoio a um dos lados fazia com que o outro fugisse imediatamente, sem desferir nem um só golpe.

Dessa forma eles se tornaram não apenas temidos, como também poderosos. Todos os prisioneiros eram escravizados. Tomaram como esposas as mais belas negras, não uma ou duas, porém quantas desejassem. Eram tantas que cada um deles dispunha de um harém tão vasto quanto o ao Grande Senhor de Constantinopla. Empregavam os escravos na plantação de arroz, na pesca, na caça etc., além de, para se garantirem contra possíveis ataques de seus poderosos vizinhos, darem também proteção a muitos outros nativos, os quais por esse motivo retribuíam-lhes prestando-lhes espontâneas homenagens. Até que começou a se verificar uma divisão entre os próprios piratas, cada qual indo viver com suas esposas, seus escravos e dependentes, como um verdadeiro príncipe, separado dos demais. E, como o poder e a fartura naturalmente geram as contendas, algumas vezes eles brigavam um com o outro, atacando-se reciprocamente diante de seus numerosos exércitos. E muitos foram mortos nessas guerras civis. Porém um acidente sucedeu que os forçou a se unirem novamente, em nome da salvação comum. [53]

Deve-se observar que esses homens, tornados grandes de uma hora para outra, usavam o poder como verdadeiros tiranos, e foram ficando cada vez mais desumanos em sua crueldade. Nada mais comum entre eles do que, pela mais simples ofensa, mandarem amarrar a uma árvore algum, dos seus dependentes e o matarem com um tiro no coração, qualquer que fosse a espécie de crime cometido, leve ou grave. Era essa sempre a punição. Diante disso, os negros tramaram uma conspiração para, numa única noite, livrarem-se daqueles depredadores. E como agora eles viviam separados, a coisa poderia ter sido facilmente executada, não fosse uma mulher, que fora esposa ou concubina de um deles, ter corrido em três horas quase trinta quilômetros para revelar-lhes o plano. Imediatamente após o aviso eles se juntaram o mais depressa que podiam, de modo que quando os negros chegaram lá encontraram-nos completamente em guarda. Assim, bateram em retirada, sem nada tentar.

O fato de conseguirem escapar fez com que dali em diante eles ficassem muito mais cautelosos. Vale a pena descrever aqui a política desses homens brutais, e as medidas que tomaram para se garantirem.

Descobriram que o medo que despertava o seu poder não constituía nenhuma segurança contra um possível ataque de surpresa: quando está dormindo, o mais corajoso homem pode ser morto por qualquer um, por pior que seja, em coragem e força. Por isso, sua primeira medida de segurança foi fazer tudo para fomentar as guerras entre os negros vizinhos, enquanto para si mantinham sempre a neutralidade. Assim, era frequente que os derrotados corressem para eles em busca de proteção, para não serem mortos ou escravizados. E eles apoiavam aquele determinado partido, forçando alguns membros a se comprometerem, por interesse. Quando não estava havendo nenhuma guerra, ficavam maquinando algum modo de incitarem uma disputa qualquer entre eles e, ao menor desentendimento, faziam que um lado ou o outro se vingasse, ensinando-os como atacar ou surpreender os adversários, e emprestando-lhes pistolas ou mosquetes carregados para darem cabo uns dos outros. A consequência disso era que o assassino era forçado a procurar refúgio entre eles, para salvar a sua vida, e das suas mulheres, filhos e parentes.

E esses então se tornavam amigos fiéis, uma vez que as suas vidas dependiam da segurança daqueles protetores. Pois, como observamos antes, nossos piratas tinham se tornado de tal forma terríveis que nenhum dos vizinhos era suficientemente audacioso para atacá-los em uma guerra [54] declarada.

Com semelhantes artimanhas, e no decorrer de alguns anos, o grupo deles aumentou muito. Então começaram a se separar, distanciando suas moradias cada vez mais uma da outra, pretendendo necessitarem de mais espaço para si, e se dividiram assim como os judeus, em tribos, cada qual carregando consigo mulheres, filhos (por essa época eles já contavam com famílias muito numerosas), e também a sua cota de dependentes e de seguidores. E, se o poder e o comando servem para distinguir um príncipe, então aqueles rufiões portavam consigo todas as marcas da realeza, e até mais que isso, pois sofriam dos mesmos temores que comumente afetam os tiranos, como se pode constatar pelo extremo cuidado com que fortificavam suas moradias.

Quanto ao plano dessas fortificações, eles se copiavam uns aos outros. Suas residências eram mais propriamente cidadelas do que casas. O lugar que escolhiam era sempre cercado de florestas, próximo a algum lago, ou rio, enfim, alguma fonte de água. Ao redor, construíam uma muralha tão vertical e alta que seria impossível escalá-la, principalmente quem não dispunha de escadas de assalto. Sobre aquela muralha, faziam uma passagem para a selva. A residência, que na verdade era apenas uma cabana, situava-se naquela parte da floresta considerada mais adequada pelo príncipe morador, porém ficava tão encoberta pela vegetação que ninguém podia vê-la antes de chegar bem perto. Mas a maior demonstração de astúcia era o caminho que levava até a cabana, tão estreito que só uma pessoa roçando-lhe ambos os lados podia caminhar por ele, e concebido de maneira tão intrincada que na verdade constituía um confuso labirinto, dando voltas e mais voltas, e com diversos cruzamentos. Assim, alguém que não conhecesse bem o caminho poderia ficar andando ali, para lá e para cá, por horas e horas, sem conseguir encontrar a cabana. Além disso, por todos os lados dessas estreitas passagens eram fincados no chão longos espinhos de uma determinada árvore da região, com a ponta em riste para cima, e, como o traçado do caminho era recurvo e serpenteante, se alguém pretendesse chegar à cabana durante a noite, certamente seria atingido por um deles, mesmo que contasse com a mesma chave que Ariadne deu a Teseu, quando este penetrou na gruta do Minotauro.

E assim viviam todos lá, como verdadeiros tiranos, a tudo temendo e por todos temidos. E nessa situação foram encontrados pelo capitão Woodes Rogers, quando este foi a Madagascar a bordo do Delicia um navio de quarenta canhões destinado à compra de escravos a fim de vendê-lo aos holandeses na Batávia, ou na Nova Holanda.[5][55] Aconteceu de ele aportar a uma região da ilha em que, nos últimos sete ou oito anos, jamais navio algum fora visto, encontrando alguns piratas que, por aquele tempo, já se encontravam ali havia mais de vinte e cinco anos, agora com uma variegada descendência de filhos e netos, onze dos quais ainda estão vivos.

Quando viram aquela embarcação de tamanha potência e tantos carregamentos, acharam que seria algum navio de guerra enviado para prendê-los. Por isso, correram a esconder-se em suas fortalezas. Mas, quando alguns homens do navio desembarcaram na praia sem darem qualquer sinal de hostilidade, e ainda oferecendo-se para comerciar com os negros, então eles se aventuraram a sair de suas tocas, cercados por seus criados, assim como uns verdadeiros príncipes. E, uma vez que de fato eram reis, por uma espécie de direito adquirido, é assim que temos de falar sobre eles.

Pode-se bem imaginar que, tendo passado tantos anos naquela ilha, suas roupas há muito se haviam rasgado, tanto que Suas Majestades tinham os cotovelos de fora. Não posso dizer que estivessem propriamente esfarrapados, visto que não eram roupas de verdade o que vestiam: cobriam-se apenas com couros de animais, crus e com toda pelagem. Não tinham sapatos ou meias, parecendo-se com a figura de Hércules com a pele do leão. E também, com as barbas e os cabelos crescidos, seu aspecto era o mais selvagem que a imaginação humana pode conceber.

Entretanto, logo eles puderam recompor-se, pois barganharam muitos daqueles coitados que subjugavam por roupas, facas, serras, pólvora, balas, e tantas outras coisas. E se mostraram tão à vontade que decidiram subir a bordo do Delicia, sempre tão curiosos a respeito de tudo, examinando todo o interior do navio, e também amigáveis com os tripulantes, a quem convidaram para visitá-los em terra. Seu propósito, como mais tarde confessariam, era tomar de surpresa o navio durante a noite, o que pensavam que seria fácil pois a guarda de bordo era insuficiente, e eles dispunham de barcos e de muitos homens sob o seu comando. Mas parece que o capitão estava ciente da sua intenção, pois manteve uma vigilância tão cerrada no convés que eles concluíram que seria vã qualquer tentativa nesse sentido. Diante disso, ao desembarcarem alguns tripulantes, eles procuraram engodá-los, propondo-lhes uma conspiração para seqüestrar o capitão e prender o resto dos homens debaixo dos alçapões quando estes fossem fazer a vigia noturna. Ficaram de lhes dar um sinal para subirem a bordo e se juntarem a eles. Caso fossem bem-sucedidos, a idéia era saírem juntos pelos mares, praticando a pirataria. Sem dúvida [56] que com um navio daqueles eles seriam capazes de capturar qualquer coisa que encontrassem pelo mar. Porém o capitão, observando a crescente intimidade entre os piratas e alguns dos tripulantes, concluiu que aquilo não poderia visar nada de bom, e assim pôs-lhe um ponto final antes que fosse tarde, e não permitiu mais qualquer comunicação entre eles. E quando enviou à praia um barco com um oficial para negociar a venda de escravos, a tripulação teve de permanecer no barco, não se permitindo que ninguém mais se entendesse com eles, a não ser a pessoa designada para isso.

Antes que o barco partisse, e vendo que nada poderiam fazer, eles confessaram os desígnios que tinham contra o capitão. E assim, o capitão deixou-os da mesma forma que os encontrou, ou seja, no mesmo estado de realeza e de imundície e com muito menos súditos do que antes pois, como observamos há pouco, vários foram vendidos. E, se a ambição costuma ser a paixão preferida dos homens, não há dúvida de que eles eram felizes. Um daqueles grandes príncipes havia sido antes barqueiro no Tâmisa de onde, depois de cometer um assassinato, escapou para as índias Ocidentais. Fazia parte do grupo que fugiu com as chalupas. O restante compunha-se de antigos vigias de mastro. Entre eles não havia um só que soubesse ler ou escrever, e tampouco os seus secretários de Estado tinham mais instrução. E é este o relato que podemos fazer sobre aqueles reis de Madagascar, alguns dos quais provavelmente ainda estejam reinando em nossos dias. [57]

História - Inglaterra
4/18/2019 2:30:29 PM | Por Maria Ester Garcia Arzeno
Texto indicado para estudantes de Psicologia
O psicodiagnóstico clínico na atualidade

O psicodiagnóstico está recuperando-se de uma época de crise durante a qual poderíamos dizer que havia caído no descrédito da maioria dos profissionais da saúde mental. Considero imprescindível revalorizar a etapa diagnóstica no trabalho clínico e sustento que um bom diagnóstico clínico está na base ea orientação vocacional e profissional, do trabalho como peritos forenses ou trabalhistas, etc. Se somos consultados é porque existe um problema, alguém sofre ou está incomodado e devemos indagar a verdadeira causa disso.

Fazer um diagnóstico psicológico não significa necessariamente o mesmo que fazer um psicodiagnóstico. Este temo implica automaticamente a administração de testes e estes nem sempre são necessários ou convenientes.

Mas um diagnóstico psicológico tão preciso quanto possível é imprescindível por diversas razões:

1.             Para saber o que ocorre e suas causas, de forma a responder ao pedido com o qual foi iniciada a consulta.

2.             Porque iniciar um tratamento sem o questionamento prévio do que realmente ocorre representa um risco muito algo. Significa, para o paciente, a certeza de que poderemos “curá-lo” (usando termos clássicos). E o que ocorre se logo aparecem patologias ou situações complicadas com as quais não sabemos lidar, que vão além daquilo que podemos absorver, através de supervisões e análises? Buscaremos a forma de interromper, através de supervisões e análises? Buscaremos a forma de interromper (consiente ou inconscientemente) o tratamento com a consequinte hostilidade ou decepção do paciente, o qual teá muitas dúvidas antes de tornar a solicitar ajuda.

3.             Para proteger o psicólogo, que ao iniciar um tratamento contrai automaticamente um compromisso em dois sentidos: clínico e ético.Do ponto de vista clínico deve estar certo de poder ser idôneo perante o caso sem cair em posturas ingênuas nem onipotentes. Do ponto de vista ético, deve proteger-se de situações nas quais está implicitamente comprometendo-se a fazer algo que não sabe exatamente o que é. No entanto, as consequências do não cumprimento de um contrato terapêutico são, em alguns países a cassação da carteira profissional.

Por estas razões insisto na importância da etapa diagnóstica, sejam quais forem os instrumentos científicos utilizados na mesma. Na obra “A iniciação do tratamento” Freud fala da importância desta etapa, à qual ele dedicava os primeiros meses do tratamento. Coloque que ela é vantajosa tanto para o paciente quanto para o profissional, que avalia assim se poderá ou não chegar a uma conclusão positiva.

Não sou favorável a ideia de dedicar tanto tempo ao diagnóstico, porque se estabelece assim uma relação transferencial muito difícil de dissolver se a decisão for a de não continuar. Além do mais, dispomos na atualidade de todos os recursos descritos neste livro (e muitos outros) que permitem solucionar as dúvidas em um tempo menor.

Vejamos agora com que finalidades pode ser utilizado o psicodiagnóstico:

1.  Diagnóstico. Conforme o exposto acima é óbvio que a primeira e principal finalidade de um estudo psicodiagnóstico é a de estabelecer um diagnóstico. E cabe esclarecer que isto não equivale a “colocar um rótulo”, mas a explicar o que ocorre além do que o paciente pode descrever conscientemente.

Durante a primeira entrevista elaboramos certas hipóteses presuntivas. Mas a entrevista projetiva, mesmo sendo imprescindível, não é suficiente para um diagnóstico cientificamente fundamentado.

Meninger foi durante muitos anos chefe da Clínica que leva seu nome e apoiou e animou a criação e o desenvolvimento dos testes tanto projetivos como objetivos. Cada paciente que ingressava na clínica era submetido a uma bateria completa de testes (T. A.T., Rorschach, Weschler e outros).

Eu concordo ainda hoje com este modelo de trabalho, porque acredito que a entrevista clínica não é uma ferramente infalível, a não ser quando em mãos de grandes mestres, e às vezes, nem mesmo nesses casos.

Os testes tampouco o são. Mas se utilizarmos ambos os instrumentos de forma complementar há uma margem de segurança maior para chegar a um diagnóstico correto, especialmente se incluirmos testes padronizados.

Além do mais, a utilização de diferentes instrumentos diagnósticos permite estudar o paciente através de todas as vias de comunicação: pode falar livremente, dizer o que vê em uma lâmina, desenhar, imaginar o que gostaria de ser, montar quebra-cabeças, copiar algo, etc. Se por algum motivo o domínio da linguagem verbal não foi alcançado (idade, doença, casos de surdos-mudos, etc.) os testes gráficos e lúdicos facilitam a comunicação. 

A bateria de testes utilizada deve incluir instrumentos que permitam obter ao máximo a projeção de si mesmo.

Por isso, se pedimos ao paciente que desenhe uma figura humana, sabemos que haverá projeção, mas muito mais se lhe pedirmos que desenhe uma casa ou uma árvore, já que ele não pode controlar totalmente o que projeta.

Como disse antes, é importante incluir testes padronizados porque nos dão uma margem de segurança diagnóstica maior.

Lembro o caso de uma jovem que foi consultar devido a fracasso escolar, impossibilidade de concentração nos estudos e dificuldades de compreensão. Considerava-se de baixo nível intelectual. Após ter solicitado a ela o Desenho Livre e o H.T.P., entreguei-lhe o pequeno caderno do Teste de Matrizes Progressivas de Raven. O mesmo dá ao paciente trinta minutos para realiza-lo. Ela o fez em quinze. Eu obsevava as suas anotações e percebi seu excelente resultado. Por isso, quando a tarefa foi concluída, entreguei-lhe a grade de avaliação, para que ela mesma fizesse a correção. Fizemos o cáculo devido e buscamos a cifra na tabela mais apropriada. O resultado final indicava um Q.I. superior à média. Ela ficou surpresa e incrédula, mas os resultados eram irrefutáveis. Voltou à sua casa muito contente. Obviamente, essa não era a solução final do problema. Haviamos desarticulado um mecanismo através do qual ela brincava de “menina boba”. Agora era necessário estudar o porquê. Apareceu então (principalmente pela reinteração de respostas de “uma figura e a outra é o reflexo em um espelho”, no Rorschach) seu enorme narcisismo e seu grau de aspiração de ser a número um em tudo. A ferida narcisistica por não consegui-lo era tão terrível que, inconscientemente, preferia ser “burra” para não se expor.

Outro elemento importante que nos é dado pelo psicodiagnóstico refere-se à relação de transferência-contratransferência.

Ao longo de um processo que se extende entre três e cinco entrevistas aproximadamente, e observando como o paciente se relaciona diante de cada proposta e o que nós sentimos em cada momento, podemos extrair conclusões de grande utilizade para prever como será o vínculo terapêutico (se houver terapia futura), quais serão os momentos mais difíceis do tratamento, os riscos de deserção, etc.

Porém, nem todos os psicólogos, psicanalistas e psicólogos clínicos concordam com este ponto de vista. Alguns reservam a utilização do psicodiagnóstico para casos nos quais surgem dúvidas diagnósticas ou quando querem obter uma informação mais precisa, diante, por exemplo, de uma suspeita de risco de suicídio, dependência de drogas, desestruturação psicótica, etc. Em outras ocasiões o solicitam porque têm dúvidas sobre o tratamento mais aconselhável, se a psicanálise ou uma terapia individual ou vincular. Finalmente, existe outro grupo de profissionais que não concordam em absoluto com este ponto de vista e prescindem totalmente do psicodiagnóstico. Ainda mais, não concedem valor científico algum aos testes projetivos. Alguns vão mais longe, dizendo que de forma alguma é importante fazer um diagnóstico inicial, que isso chega com o tempo, ao longo do tratamento. Ouvi isto de um palestrante estrangeiro durante um congresso internacional, ao que outro especialista replicou: “Então o senhor começaria com antibióticos e transfusões de sangue, mesmo antes de saber qual o problema do paciente?”

Acredito que todas as posições são respeitáveis, porém devem ser fundamentadas cientificamente e, até o momento, não tenho encontrado ninguém que me demonstre, baseado na teoria da projeção e da psicologia da personalidade, que os testes projetivos carecem de validade.

 

2.  Avaliação do tratamento. Outra forma de utilizar o psicodiagnóstico é como meio para avaliar o andamento do tratamento. É o que se denomina “re-testes” e consiste em aplicar novamente a mesma bateria de testes aplicados na primeira ocasião. Havendo suspeita de que o paciente lembre perfeitamente o que fez na primeira vez e se deseje variar, pode-se criar uma bateria paralela selecionando estes equivalentes, como o teste “Z” de Zulliger no lugar do Rorschach.

Algumas vezes isto é feito para apreciar os avanços terapêuticos de forma mais objetiva e também para planejar uma alta. Em outras é para descobrir o motivo de um “impasse” no tratamento e para que tanto o paciente como o terapeuta possam falar sobre isso, estabelecendo, talvez, um novo contrato sobre bases atualizadas. Em outros casos ainda, é porque existe disparidade de opiniões entre eles. Um deles acredita que pode dar fim ao tratamento, enquanto que o outro se opõe.

Estes casos representam um trabalho difícil para o psicólogo, pois passa a ocupar o papel de um árbitro que dará a razão a um dos dois. É então conveniente esclarecer ao paciente que o psicodiagnóstico não será realizado para demonstrar-lhe que estava enganado, mas, como um fotógrafo, ele registrará as situações para depois comentá-las. O mesmo esclarecimento deve ser dado ao terapeuta. Obviamente, é conveniente que a entrevista de devolução seja feita por aquele que realizou o estudo, tendo um cuidado muito especial em mostrar uma atitude imparcial e fundamentando as afirmações no material dado pelo paciente.

Nos tratamentos particulares, o terapeuta é quem decide o momento adequado para um novo psicodiagnóstico (ou talvez para o primeiro). No entanto, nos tratamentos realizados em instituições públicas ou privadas, são elas que fixam os critérios que devem ser levados em consideração. Algumas deixam isto a critério dos terapeutas. Outras decidem pauta-lo, considerando tanto a necessidade de avaliar a eficiência de seus profissionais quanto a de contar com um banco de dados úteis, por exemplo, para fins de pesquisa. Assim é possível que o primeiro psicodiagnóstico seja indicado quando o paciente entra na instituição, e o outro de seis a oito meses após, dependendo isto do período destinado a cada paciente.

3.  Como meio de comunicação.Existem pacientes com dificuldades para conversar espontaneamente sobre sua vida e seus problemas. Outros, como é o caso de crianças muito pequenas, não podem  fazê-lo. Outros emudecem e só dão respostas lacônicas e esporádicas. Com adolescentes e crianças podemos introduzir algumas modificações que muitas vezes despertarão seu entusiasmo. Assim que é sugerido, as crianças começam a desenhar ou a modelar; o jogo do rabisco de Winnicott entusiasma a todos, especialmente porque quebra a assimetria do vínculo.

Favorecer a comunicação é favorecer a tomada de insight, ou seja, contribuir para que aquele que consulta adquira a consciência de sofrimento suficiente para aceitar cooperar na consulta. Também provoca a perda de certas inibições, possibilitando assim um comportamento mais natural.

Não se trata de cair em atitudes condescendentes, mas de realizar a tarefa dentro de um clima ideal de comunicação, na medida do possível. Procura-se também respeitar o timingdo paciente, ou seja, o seu tempo. Alguns estabelecem rapportimediatamente, enquanto que para outros isso pode exigir bastante tempo.

Por isso seria grotesco ficar em silêncio por um longo período, apoiando-se no princípio de que a entrevista é livre e é o consultante quem deve falar, como seria também grotesco interrompê-lo enquanto está relatando algo importante pra impor-lhe a tarefa de desenhar.

O psicodiagnóstico possui um fim em si mesmo, mas é também um meio para outro fim: conhecer esta pessoa que chega porque precisa de nós. A finalidade é conhece-la da forma mais profunda possível. Para isso o bom rapporté imprescindível.

4.  Na investigação. No que se refere à investigação, devemos distinguir dois objetivos: um é a criação de novos instrumentos de exploração da personalidade que podem ser incluídos na tarefa psicodiagnóstica. Outro, o de planejar a investigação para o estudo de uma determinada patologia, algum problema trabalhista, educacional ou forense, etc. Neste caso, usa-se o psicodiagnóstico como uma das ferramentas úteis para chegar a conclusões confiáveis e, portanto, válidas.

Um exemplo do primeiro caso é o que fez o próprio Hermann Rorschach quando criou as manchas e selecionou entre milhares aquelas que demonstravam ser mais estimulantes para os pacientes.

Para dar validade a este teste mostrou as lâminas a um grupo de pacientes selecionados aleatoriamente e, após, a outro grupo já diagsnosticado com o método de entrevista clínica (esquizofrênicos, fóbicos, etc.). Assim pôde estabelecer as respostas populares (próprias da maioria estatística selecionada aleatoriamente) e as diferentes “síndromes” ou perfil de respostas típico de cada quadro patológico.

Da mesma forma procedeu Murray, criador do T.A.T. (Thematic Apperception Test). As respostas estatisticamente mais frequentes foram denominadas “populares”. Os desvios dessas respostas populares eram considerados significativos tanto no aspecto enriquecedor e criativo como no sentido oposto, ou seja, no aspecto patológico, podendo proceder do mesmo modo que Rorschach.

A criação de um teste não é uma tarefa fácil. Não podem ser colhidos alguns registros e deles extraídas conclusões com a pretensão de que sejam válidas para todos. É necessário respeitar aquilo que a psicoestatística indica como modelo de investigação para que as suas conclusões sejam aceitáveis. Também é necessário um conhecimento abrangente e o trabalho em equipe para a correta interpretação dos resultados. Assim, por exemplo, se se pretende criar um teste que avalie a inteligência em crianças surdas-mudas, será imprescindível a presença de um especialista dessa área. Se a intenção é criar um teste para pesquisar determinados conflitos do grupo étnico ao qual pertence o pesquisador, já que, não sendo assim, se a pesquisa tratasse de estudar o mesmo aspecto, mas em crianças suecas ou japonesas, sem a presença de um antropólogo e um psicólogo conhecedores da matéria, como integrantes da equipe pesquisadora, poderiam ser tiradas conclusões incorretas. Em relação ao segundo objetivo, trata-se em primeiro lugar de definir claramente o que se deseja pesquisar. Suponhamos que a finalidade é descobrir se existe um perfil psicológico típico dos homossexuais, dependentes de drogas ou claustrofóbicos. O primeiro passo deve ser selecionar adequadamente os instrumentos a serem utilizados, a ordem que será seguida, as ordens dentro dos quais podemos admitir variações individuais (por exemplo, podemos admitir que desenhe o Bender em mais de uma folha, que queira usar o verso, que acrescente detalhes às figuras, mas não que use borracha, de forma que tudo fique registrado). Isto é o que é chamado de padronizar a forma de administração do psicodiagnóstico. Se cada examinador trabalhasse à sua maneira, seria impossível comparar os registros colhidos e, portanto, não poderíamos pretender tirar deles conclusões cientificamente válidas.

Logo após, administraremos este psicodiagnóstico assim planejado: por um lado, a uma amostra de homossexuais, dependentes de drogas, etc., e por outro lado, o mesmo psicodiagnóstico, à outra amostra chamada de controle, que não registra a mesma patologia do grupo em estudo. Em uma terceira etapa, serão buscadas as recorrências e convergências em ambos os grupos, para poder-se assim chegar a conclusões válidas. Por exemplo, é significativo que os homossexuais desenhem primeiro a figura do sexo oposto, no Teste das Duas Pessoas. Estou usando um exemplo simples com a finalidade de transmitir claramente em que consiste essa tarefa. A utilidade destas pesquisas varia muito. As mais interessantes são aquelas que permitem identificar indicadores que servirão para detectar precocemente problemas clínicos, trabalhistas educacionais, etc., com a consequente economia de sofrimento, problemas e até complicações institucionais.

Método para que o consultante aceite melhor as recomendações

O psicodiagnóstico inclui, além das entrevistas iniciais, os testes, a hora de jogo com crianças, entrevistas familiares, vinculares, etc. As conclusões de todo o material obtido são discutidas com o interessado, com seus pais, ou com a família completa, conforme o caso e o sistema do profissional.

Os testes realizados individualmente são reservados, geralmente, para a entrevista individual com essa pessoa, para a entrega dos resultados. Porém o que tem sido feito e conversado entre todos pode ser mostrado ou assinalado para exemplificar algum conflito que os consultantes minimizam ou negam.

Por exemplo, um rapaz em torno de 25 anos que consultou por se sentir amarrado demais à noiva a à mãe, disse no Questionário Desiderativo que gostaria de ser o vento porque é livre e também um cão porque é uma companhia fiel. Além do restante do registro, estas duas catexias serviram para enfrenta-lo com a própria contradição: querer ser livre como o vento e ao mesmo tempo precisar da companha de alguém que lhe desse afeto. Logo aceitou que isto criava uma situação interna difícil e que não podia pensar que o problema seria solucionado trocando de noiva ou distanciando-se de sua mãe.

Em outra ocasião, com os pais de um menino de doze anos que se recusavam a aceitar a seriedade da doença do mesmo, usei outro recurso. Mostrei-lhes a lâmina III do Rorschach dizendo que o teste não estava sendo feito com eles, mas que a observassem silenciosamente por um instante e logo cada um dissesse o que havia visto. Ambos disseram algo semelhante à resposta popular: “Duas pessoas fazendo algo”. Então disse-lhes que o menino havia respondido: “Dois esqueletos”. Ambos ficaram muito impressionados e começaram a levar mais a sério minhas advertências.

Poderia eu ter tido a surpresa de que eles também dessem respostas muito patológicas. Nesse caso teria comentado de passagem o que o filho tinha visto e desviado a atenção para outro material. Quando as distorções são compartilhadas por pais e filhos, a conclusão inevitável é a de que uma terapia familiar é urgente.

Outro caso é o de uma moça de uns 20 anos que chega a um Serviço de Psicopatologia de um Hospital pedindo um estudo vocacional. Toda a sua conduta na sala de espera e o pedir a entrevista deixava clara uma grave patologia. A ansiedade era enorme, apertava nervosamente as mãos, sentava-se e levantava-se incessantemente, etc. Queria que fosse feito exclusivamente o “teste” vocacional. Com muita relutância, aceitou responder o Desiderativo. Suas respostas foram: 1+, “Gostaria de ser uma pomba”, que é graciosa e alegre”, e no 1- “Não gostaria de ser uma hiena porque vive se alimentando de desperdícios”; 2- Um gladíolo porque me lembra velórios”; 3- “Algo mineral, o carvão. Não me pergunte por quê”.

Entre a aparência alegre e inocente da pomba, inevitavelmente associada à vida e à paz, e a hiena que vive de cadáveres há uma dissociação abismal. As três colocações negativas estão relacionadas com a morte; o gladíolo com velórios, e o carvão é um vegetal sepultado sob a terra durante milênios. Isto facilitou o início da conversa com ela, sobre o quanto a preocupava a ideia da morte e com isso a deixava ansiosa. Ela deixou de insistir com o teste vocacional e começou a relatar fatos da sua vida, especialmente sobre a perda de vários seres queridos. Mesmo assim, recebeu algumas sugestões vocacionais, mas aceitou ir ao Serviço uma vez por semana para continuar falando sobre essas coisas que tanto perturbavam o seu dia-a-dia.

Escolha da estratégia terapêutia mais adequada

Um psicodiagnóstico completo e corretamente administrado permite-nos estimar o prognóstico do caso e a estratégia mais adequada para ajudar o consultante: entrevistas de esclarecimento, de apoio, terapia breve, psicanálise, terapia de grupo familiar ou vincular, sistêmica ou estrutural; análise transacional, gestáltica, etc.

Assim, por exemplo, um paciente trabalhará muito bem na psicanálise se aceitar a sua responsabilidade no conflito, se mostrar colaboração para fazer associações, contar lembranças, entrar em sua vida paticular, em seu passado. Diante da tarefa do Desenho Livre, aceita com prazer e responde com um bom nível de simbolização e riqueza em suas associações. As lâminas menos estruturadas como as do Rorschach não lhe causam impacto. A lâmina em branco do Phillipson o estimula favoravelmente. A entrevista final torna-se agradável de se preocupar, chorar, ou ao menos ficar deprimido na medida certa para empreender a tarefa psicanalítica com uma boa motivação.

Muito diferente seria o caso de outra pessoa que não tolera a entrevista aberta e prefere um inquérito pautado, que se bloqueia no Desenho Livre, no Rorschach e na lâmina branca do Phillipson. Pergunta “O que faço, que desenho?” e sente alívio quando nós damos uma ordem mais precisa, por exemplo “Bem, desenhe uma casa, uma árvore e uma pessoa”. A série A do Phillpson o deixa muito ansioso e gosta mais da B que é mais definida e menos difusa. Esta pessoa trabalhará melhor com uma terapia cara a cara, na qual se combinem interpretações cautelosas com sugestões e alguns direcionamentos. A situação de solidão e de regressão do divã seria para ele, por enquanto, insuportável, e só poderia aceita-la após uma primeira etapa com as características descritas.

As entrevistas diagnósticas vinculares e familiares são de grande utilidade para decidir entre a recomendação de um tratamento individual, vincular ou familiar.

Existem algumas técnicas projetivas idealizadas para serem aplicadas simultaneamente a um casal ou a um grupo (filial, familiar, de trabalho, etc.)

Entre elas posso citar o Teste do Casal em Interação (TPI) do psicólogo de Rosario, Luis Juri, o Teste Cinético da Família de Rana Frank de Verthelyi (adaptação) em suas formas atual e prospectiva; também o teste de Rorshchach com a técnica de consenso.

Estes testes são muito úteis para decidir a capacidade de agrupamento ou não de um indivíduo, ou para fazer um diagnóstico sobre como irá funcionar um grupo em formação.Os terapeutas de grupo têm usado muito, para isto, o teste das bolitas do Dr. Usandivaras. Ester Romano apresentou seu MEP (Modelo Experimental Perceptivo) à Associação Argentina de Psicanálise, idealizado sobre a base de estímulos gráficos ao estilo do Wartegg e não estruturados ao estilo do Rorschach.

No psicodiagnóstico individual, o motivo da consulta manifesto e latente dá-nos uma pauta para recomendar ou não a terapia de grupo. Quando as dificuldades situam-se na relação do indivíduo com os demais (pares, superiores ou subalternos) o mais indicado é recomendar a terapia de grupo. Se, no entanto, o conflito está mais centralizado no intrapsíquico, o mais adequado seria terapia individual.

O teste de Phillipson (especialmente as lâminas grupais AG, BG, e CG) nos dá uma informação muito útil a respeito, já que, se nelas a produção for boa, comprovaria a nossa suspeita de que uma terapia em grupo seria adequada, enquanto que se nelas o paciente se desarticula, sofre impactos, as nega ou distorce a produção, haveria que pensar que, longe de ser uma ajuda, a terapia de grupo aumentaria a sua angústia. De forma que, independentemente do motivo da consulta, isto seria um elemento para contra-indica-lá.

 

Em síntese, tentei resumir as diferentes aplicações que pode ter o psicodiagnóstico, e certamente serão abertos outros novos caminhos ainda não explorados.

Psicologia - Psicodiagnóstico
4/18/2019 2:22:04 PM | Por Flávio Fortes DAndrea
Texto indicado para estudantes de Psicologia
Pressupostos básicos da personalidade segundo a Psicanálise

Personalidade é um tema complexo. Conceituá-la de modo útil e compreensivo é uma difícil tarefa para os estudiosos do assunto. Se desejamos realizá-la, devemos, de início, considerar alguns itens fundamentais. Assim, sabemos que não há duas personalidades idênticas como não existem duas pessoas idênticas, embora muitas pessoas possuam traços em comum. A personalidade é temporal, pertence a uma pessoa que nasce, vive e morre. Na sua temporalidade, não pode ser considerada como uma simples soma de funções vitais mas uma integração dinâmica cuja resultante se expressa pelo comportamento individual frente a estímulos de variada natureza.

A personalidade, obviamente, existe em função de um meio no qual procura adaptar-se e, pertencendo a um ser vivo, tem que sofrer um processo de desenvolvimento. Neste sentido, cada indivíduo tem sua história pessoal e esta é a unidade básica a ser levada em conta no estudo da personalidade.

Na história pessoal devemos considerar: os dados biopsicológicos herdados; o meio, isto é, as condições ambientais, sociais e culturais nas quais o indivíduo se desenvolve; os dados adquiridos na interação hereditariedade — meio; as características e condições de funcionamento do indivíduo nessa interação, possibilitando previsões a respeito do seu comportamento em situações futuras.

Considerando-se a personalidade como a unidade individual que se desenvolve em um determinado meio, toda manifestação [9] daquela, sob a forma de diferentes tipos de comportamento, resulta de experiências passadas e de estímulos atuais do meio. Portanto, deve ser estudada através de dois prismas: um longitudinal, isto é, o da sucessão de diversas fases, do passado para o presente, e outro transversal, isto é, o dos comportamentos atuais sob as influências do meio.

Com esses elementos podemos ensaiar uma definição simplificada de personalidade:

Personalidade é a resultante psicofísica da interação da hereditariedade com o meio, manifestada através do comportamento, cujas características são peculiares a cada pessoa.

Constituição, Temperamento e Caráter

O desenvolvimento da personalidade está intimamente associado ao desenvolvimento físico. Entretanto, as pessoas tendem a dissociar o psíquico do físico, supervalorizando funções psíquicas como, por exemplo, a afetividade e subestimando funções físicas como, por exemplo, a excreção. Sabe-se, porém, que as primeiras motivações e ansiedades do ser humano estão ligadas aos processos fisiológicos.

Seja qual for a fase de desenvolvimento, a personalidade apóia-se na estrutura física do indivíduo, a qual chamamos constituição. Nesta há um conjunto de características individuais hereditárias que podem ou não se desenvolver nas interações com o meio. A este conjunto dá-se o nome de genótipo, Por outro lado, existem características individuais adquiridas basicamente por influência do meio e que no conjunto são chamadas de paratipo. Entretanto, quando se observa uma pessoa, ela apresenta-se com sua estrutura fenotípica que é o resultado da integração genótipo-patatipo.

Sem aprofundar o significado dos conceitos acima, por analogia, podemos relacionar, no plano psicológico, temperamento com genótipo, caráter com paratipo e personalidade com fenótipo. Temperamento é a tendência herdada do indivíduo para reagir [10] ao meio de maneira peculiar. Assim, desde o nascimento, entre os indivíduos verificam-se diferentes limiares de sensibilidade frente aos estímulos internos ou externos, diferenças no tom afetivo predominante, variações no ritmo, intensidade e periodicidade dos fenômenos neurovegetativos etc. Caráter é o conjunto de formas comportamentais mais elaboradas e determinadas pelas influências ambientais, sociais e culturais, que o indivíduo usa para adaptar-se ao meio. Ao contrário do temperamento, o caráter é predominante volitivo e intencional. Entretanto, de modo geral, temperamento e caráter estão intimamente associados, podendo estar tão imbricados que se torna difícil sua distinção. Portanto, personalidade é a integração dos aspectos físicos, temperamentais e caracterológicos. Esta integração é dinâmica e evolutiva. Assim, ao mesmo tempo que seus componentes interagem ativamente em diferentes proporções, segundo as condições de cada acontecimento de que participa, a personalidade vai adquirindo variadas e sucessivas modalidades durante a vida embora conserve certas características que lhe conferem consistência e continuidade[1].

Enfoque Psicodinâmico da Personalidade

Numerosas teorias têm sido elaboradas buscando linhas diretivas para o estudo da personalidade. Entre elas a teoria psicodinâmica é de fundamental importância na compreensão da conduta humana. Sem conhecer as bases desta teoria, as pessoas já adotam uma atitude psicodinâmica quando tratam com seus semelhantes. Pois, quando alguém deseja compreender o comportamento de outrem, em determinada circunstância, esforça-se por descobrir a motivação de suas atitudes e opiniões, sentimentos e crenças. Isto é, procura relacionar a conduta com impulsos, emoções, pensamentos e percepções que a determinaram e atua do mesmo modo na previsão de novos comportamentos.

No decorrer dos séculos, numerosas pessoas, entre escritores, filósofos, artistas e leigos, têm evidenciado especial capacidade para a compreensão psicodinâmica da conduta humana, mas cabe [11] a Freud o mérito de ter estabelecido as bases científicas desta compreensão, suprindo a falta de um denominador comum teórico que possibilitasse um sistema organizado de encontro das diferentes observações individualizadas.

Este denominador comum, concebido por Freud, ampliado por seus seguidores e que constitui o que chamamos de enfoque psicodinâmico da personalidade, é o ponto de vista sob o qual são formulados os conceitos apresentados neste livro.

O Aparelho Psíquico

Vimos que personalidade implica em estrutura e desenvolvimento. A compreensão da estrutura é inseparável da compreensão do processo de desenvolvimento através do qual a estrutura evoluiu. Qualquer manifestação do comportamento depende da existência de algum tipo de estrutura. Assim, por exemplo, a atividade motora está ligada à existência de um aparelho osteomuscular. Freud[2]concebeu também para a atividade psíquica uma estrutura a que chamou de aparelho psíquico. Este é composto de três partes: id, ego e superego.

Id

O Id é a parte original desse aparelho a partir da qual, posteriormente desenvolvem-se as outras duas. Constitui a porção herdada e que está ligada à constituição. É a totalidade do aparelho psíquico do indivíduo ao nascer e está voltado para a satisfação das necessidades básicas da criança no começo de sua vida. A atividade do id consiste de impulsos que obedecem ao princípio do prazer, isto é, que buscam o prazer e evitam a dor, na medida em que estas sensações são definidas pela própria natureza do organismo. Neste sentido, a atividade humana, no início da existência, é basicamente animal. Nesta época, a criança ao buscar satisfazer seus impulsos básicos, naturalmente não procura avaliar sua racionabilidade nem as fontes de satisfação disponíveis. Ela deseja gratificação imediata e não tolera a frustração. Entretanto, à medida que cresce terá que adaptar-se às exigências e condições impostas pelo meio. Para esta adaptação, diferencia-se do id uma nova parte do aparelho psíquico, o Ego, que terá como [12] principal função agir como intermediário entre o id e o mundo externo.

O Ego

Ao defrontar-se com as demandas do meio a criança precisa gradualmente redirigir os impulsos do id, de modo que estes sejam satisfeitos dentro de outro princípio que não o do prazer: o princípio da realidade. Isto significa que o indivíduo deve suportar um sofrimento para depois alcançar o prazer e renunciar a um prazer que poderá fazê-lo sofrer mais tarde.No entanto, ambos os princípios visam o mesmo fim — alcançar a satisfação e evitar a dor. Portanto, pode-se considerar o princípio da realidade como o princípio do prazer modificado pelo desenvolvimento da razão.Assim, o ego tem uma função de autopreservação, pois se houvesse apenas a busca da gratificação imediata sem levar em conta as consequências da total evitação do sofrimento, o indivíduo sucumbiria. Como intermediário entre o mundo interno (id) e o mundo externo, o ego exerce uma série de funções. Em relação ao primeiro, aprende a controlar as demandas dos impulsos, decidindo se estes devem ser satisfeitos imediatamente, mais tarde ou nunca. Em relação ao segundo, percebe os estímulos, avaliando sua qualidade e intensidade a partir de lembranças de experiências passadas, protege-se dos estímulos percebidos como perigosos, aproveita os estímulos favoráveis e realiza modificações no meio, que possam resultar em benefício da própria pessoa. Em outras palavras, são funções do ego: perceber, lembrar, pensar, planejar e decidir.

O Superego

À proporção que se desenvolve, a criança descobre que certas demandas do meio persistem sob a forma de normas e regras estabelecidas. Desta forma o ego tem que lidar repetidamente com os mesmos tipos de problemas e aprender a encontrar para estes soluções socialmente aceitáveis. O indivíduo, entretanto, não precisará, indefinidamente, parar para pensar cada vez que isto ocorrer. A decisão far-se-á automaticamente pois as regras e normas impostas pelo mundo externo vão se incorporar na estrutura psíquica, constituindo o superego. Este, que popularmente, é chamado de “consciência” representa a resposta automática, “certo” ou “ errado” , que surge na pessoa diante das várias situações que exigem uma tomada de posição. Assim, o superego representa a herança sócio-cultural do indivíduo, enquanto o id representa a herança biológica. [13]

As três partes da estrutura psíquica, não podem ser consideradas isoladamente no seu desenvolvimento e funcionamento. Elas são interdependentes. O ego desempenha papel de integrador lidando simultaneamente com as demandas do id, do superego e do mundo externo. O seguinte exemplo ilustra o papel desempenhado pelo ego:

Um empregado de uma loja sentiu-se tentado a roubar um objeto de adorno que o atraía. Diz o id: “ Quero o objeto porque gosto dele e porque não suporto a tensão do desejo de ter as coisas que não tenho”. O superego retruca automaticamente: “ Você não deve roubar o objeto”. O ego então, como bom advogado, aconselha: “Você poderá ter esse objeto sem precisar roubá-lo. Basta economizar parte do seu ordenado ou trabalhar algumas horas extras e comprá-lo”.

Nem o id nem o superego são realistas, pois agem imediata e irrefletidamente, o primeiro buscando de forma indiscriminada o prazer e o segundo censurando automaticamente. O ego é a parte racional que realiza uma transação realista considerando os aspectos próprios da natureza do indivíduo e o tipo de meio onde este vive. Decide o que fazer, quando e de que forma, visando sempre o bem estar do organismo integral. O desenvolvimento do Homem como ser social, baseia-se num equilíbrio entre as forças dos impulsos primitivos e irracionais do id e as forças dás exigências do superego e do meio a partir do qual este se formou.O bom resultado deste equilíbrio dependerá da existência de um ego fortalecido, de um superego moderado e do conhecimento da natureza dos impulsos do id. Caso contrário, o equilíbrio da personalidade obedecerá a padrões desviados da normalidade, entendendo-se aqui, por normalidade a tendência a um completo bem-estar biopsico-social.

Conceito de Energia Mental

Vimos que a hipótese estrutural de aparelho psíquico supõe suas partes interagindo dinamicamente. Para que haja esta [14] interação é indispensável considerar-se um substrato energético. Todas as atividades psíquicas manifestam-se com diversos graus de intensidade.Assim, pode-se estar muito ou pouco motivado para a obtenção de determinados fins, pode-se realizar um maior ou um menor esforço para se vencer um obstáculo, pode-se sentir mais ou menos Intensamente amor, ódio, alegria ou tristeza e assim por diante.Para entender-se esta variabilidade de grau das manifestações psíquicas, postula-se a existência de diferentes cargas de energia. Embora usado na dinâmica física, o termo energia aplicado na psicodinâmica não tem necessariamente o mesmo significado. O uso é feito por analogia e não implica em identidade conceitual, pois ao contrário do conceito de energia física, o conceito de energia mental deve conter a ideia de motivação. Isto é, a energia mental alimenta sempre um ciclo motivacional formado de uma necessidade ou impulso, da percepção de um objetivo ou fim e de um comportamento dirigido à obtenção do objeto que virá satisfazer o impulso.

A fonte primária de energia mental é o id cujos impulsos dependem de específicas condições físico-químicas do organismo. No funcionamento da personalidade, ela é empregada na obtenção de diversos fins, imediatos ou não. Freud, levando em conta este aspecto finalista da energia psíquica, estabeleceu que ela pode ser usada, basicamente, em dois sentidos: um construtivo e outro destrutivo. Relacionou a energia dirigida num sentido construtivo a um grupo de impulsos cujo objetivo é a autopreservação e a perpetuação das espécies. Denominou-os impulsos de vida, sexuais ou Eros e a correspondente energia, libido. A energia no sentido destrutivo foi relacionada a outro grupo de impulsos com a finalidade de reduzir o complexo molecular vivo a complexos inorgânicos mais simples. Freud chamou estes impulsos de Tanatos ou impulsos de morte, não reservando nenhum nome especial a sua energia, que foi, posteriormente, chamada por Federn de mortido. Há uma constante luta entre a vida e a morte. Nesta luta o organismo acaba sucumbindo, reduzindo-se a matéria inorgânica. Entretanto, os impulsos de [15] vida saem vitoriosos sempre que houver a geração de um novo indivíduo que dará continuidade à espécie.

É relativamente fácil compreender o comportamento de um indivíduo motivado pelos impulsos eróticos, tanto no sentido da autoconservação como da propagação da espécie, pois pode-se perceber objetivamente os fins buscados, por exemplo, a alimentação ou a união com o sexo oposto. Os impulsos destrutivos são de compreensão mais difícil, pois operam dentro da personalidade não parecendo buscar objetos no mundo externo. Portanto, suas manifestações são menos acessíveis a observação. Mesmo o sadismo, que geralmente é atribuído aos impulsos destrutivos, não pode ser considerado simplesmente como um representante destes, porque vem sempre acompanhado de impulsos eróticos e são objetos do mundo externo, e não o próprio indivíduo, a serem destruídos pelo sadismo. Por outro lado, a própria existência de impulsos de morte poderia ser contestada, pois a quase todo comportamento construtivo, há um componente destrutivo. Assim, para alimentar-se é preciso destruir: matar seres vivos, mastigar etc. Nesse caso a destruição seria uma expressão dos impulsos de autopreservação. Entretanto, há ocasiões em que o indivíduo trabalha a favor da própria destruição com enorme força, como ocorre em certas doenças físicas ou mentais: o câncer, as depressões que levam ao suicídio, as automutilações, as psicoses etc. Isto reforça a afirmação da existência de impulsos básicos de morte. Sem precisar levar em conta esses exemplos extremos, podem-se observar manifestações menores de autodestruição, como a tendência que possuem certas pessoas para fracassarem continuamente nos seus empreendimentos, atribuindo seus fracassos a um inexorável destino. A esta tendência à autodestruição, Freud chamou de masoquismo primário, em contraposição ao masoquismo real que vem sempre acompanhado de energia libidinosa.

Embora a energia mental, num sentido construtivo ou destrutivo, tenha como fonte primária o id, no desenvolvimento da personalidade ela estará a serviço de qualquer uma de suas partes. Assim, poderá ser utilizada tanto para a satisfação dos impulsos do id, como para alimentar as pressões do superego ou para fortalecer o ego na sua luta adaptativa. [16]

Consciente, Pré-consciente e Inconsciente

Consideramos, até aqui, a estrutura do aparelho psíquico e energias ou forças que nele atuam. Passaremos a considerar os diversos planos em que se manifestam as atividades mentais correspondendo ao que para Freud[3]constitui a hipótese topográfica do funcionamento psíquico. Topograficamente, o aparelho psíquico é dividido em três planos ou sistemas: o consciente, o pré consciente e o inconsciente.

O consciente é uma parte relativamente pequena e inconstante da vida mental de uma pessoa. Corresponde a tudo aquilo de que o indivíduo está ciente em determinado instante e cujo conteúdo provém de duas fontes principais: o conjunto dos estímulos atuais, percebidos pelo aparelho sensorial e as lembranças de experiências passadas, evocadas naquele instante. Quanto mais a atenção do indivíduo estiver voltada para os fatos da realidade presente, menos haverá lugar para lembranças do passado. Em contraposição, quando mais a consciência estiver ocupada pelas recordações, menos atento estará o indivíduo para as ocorrências atuais. Se o consciente corresponde a tudo o que ocupa a atenção de um indivíduo em determinado instante, o reservatório de tudo o que possa ser lembrado no instante seguinte corresponde ao pré-consciente. Resta uma área da vida psíquica, onde se encontram os impulsos primitivos que influenciam o comportamento e dos quais não se tem consciência e um grupo de ideias, carregadas emocionalmente, que uma vez foram conscientes, mas em vista de seus aspectos intoleráveis foram expulsas da consciência para um plano mais profundo, de onde não poderão vir à tona voluntariamente. Esta área corresponde ao inconsciente. No que diz respeito às partes da estrutura psíquica, o id é inteiramente inconsciente. O ego, sendo a porção que se diferenciou do id para contatuar com o mundo externo e ao mesmo tempo receber informações do mundo interno, é parte consciente (e pré-consciente) e parte inconsciente. O superego sendo a incorporação no psíquico, dos padrões autoritários e ideias da sociedade é [17] passível de compreensão consciente, uma vez que se originou do ego no seu contato com o mundo externo.

Duas analogias são comumente empregadas para a ilustração da hipótese topografica do funcionamento mental. A primeira toma como exemplo o iceberg, em que a porção acima da superficie corresponde ao consciente, a porção que se torna visível contorne o movimento das águas, corresponde ao pré-consciente e a parte sempre submersa, proporcionalmente muito maior corresponde ao inconsciente. A outra analogia, compara o consciente com um holofote, dirigido para um palco, iluminando apenas a área onde incide sua luz. O pré-consciente seria a franja de penumbra intermediária entre a região iluminada e a escuridão. Os movimentos do holofote se fazem por iniciativa do ego mas obedecendo às pressões do id e às determinações do superego 5eja qual for o movimento do holofote, haverá sempre áreas além da penumbra, as quais o ego não conseguirá, normalmente fazer iluminar. Estas áreas equivalem ao inconsciente. Quando o ego não está atento ao controle do holofote, por exemplo no sono, a luz fica a mercê das forças antagônicas do id e do superego, percorrendo o palco desfocadamente e fornecendo substrato para as imagens distorcidas dos sonhos. O inconsciente nunca é acessível direta e claramente, só podendo ser explorado através da análise de dados indiretos como é o caso da interpretação dos sonhos.

Freud[4], através do estudo minucioso do fenômeno dos sonhos e das manifestações neuróticas de seus pacientes, evidenciou importantes características do inconsciente, tanto em relação ao conteúdo quanto ao seu mecanismo.

Quanto ao conteúdo, o inconsciente compreende, por um lado, os impulsos fundamentais e disposições afetivas hereditárias e comuns a todos os indivíduos, e que constituem seus elementos arcaicos. Estes são passíveis de observação, através de substituições simbólicas, nos mitos, religiões primitivas e arte popular. Jung[5]desenvolveu o conceito de inconsciente arcaico de [18] Freud, denominando-o inconsciente coletivo. Por outro lado, o inconsciente compreende todas as experiências pessoais que uma vez foram conscientes ou percebidas subliminarmente e depois recalcadas, passando a constituir o inconsciente de cada indivíduo.

Quanto ao mecanismo, o inconsciente obedece a leis opostas àquelas dos processos conscientes e pré-conscientes. No conjunto, as leis de funcionamento do inconsciente são denominadas de processo primário  em contraposição ao processo secundário que pertence ao consciente e pré-consciente. No processo primário, não existe a noção de tempo. Os conteúdos inconscientes não se desgastam, são sempre atuantes. Assim um impulso básico tem no presente, a mesma força que possuía no passado e uma emoção recalcada permanece com a mesma intensidade com que foi. inconscientemente sentida pela primeira vez. Não há lógica para o inconsciente, ou seja, este desconhece os princípios de identidade, contradição e causalidade. As coisas são e não são ao mesmo tempo, dois impulsos contrários coexistem sem se opor; a noção de espaço não corresponde à da realidade: uma pessoa pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Não há dúvidas ou incertezas no inconsciente. Nos sonhos ou nos sintomas neuróticos uma pessoa pode lutar contra alguém que já não exista, mas que inconscientemente contínua sendo uma imagem concreta. A condensação e o deslocamento são outras características do inconsciente. Duas ou mais imagens ou desejos, podem estar contidos numa só representação. Um objeto ou pessoa podem estar no lugar de outros objetos ou pessoas. Exemplos: num sonho uma mesa pode condensar o desejo de ver toda a família reunida, no neurótico o medo de castração pode estar deslocado para o medo de coisas insignificantes. linguagem do inconsciente é simbólica e não verbal. Como há o Inconsciente coletivo e o pessoal, existem símbolos universais e individuais. Um cetro simbolizará, em toda parte, o órgão genital masculino e o poder, mas, para um determinado indivíduo poderá também simbolizar a tranca da porta, de sua casa ou a bengala de seu pai. Outro fenômeno do inconsciente é a identificação. Nesta o sujeito se iguala a um objeto ou um objeto é igualado a outro, independentemente de semelhanças reais. No primeiro caso, o sentido pode ser de objeto para sujeito — introjeção — ou de sujeito para objeto — projeção. Exemplos: Através da [19] introjeção, uma jovem identifica-se com sua mãe e inconscientemente adota suas atitudes, ideais ou crenças. Outro jovem, critica fortemente um colega que julga irresponsável, sem ter consciência da sua crítica quanto à própria displicência a qual projeta no colega. Quando um objeto é igualado a outro temos o fenômeno da transferência. Um exemplo seria o caso de um empregado que frente ao patrão sempre teme ser reprovado e desconsiderado e procura desempenhar suas funções tão bem que possa apenas receber elogios. Esta maneira de comportar-se é a repetição do antigo modo de reagir frente a seu pai, punitivo e severo.

Todos os fenômenos do inconsciente descritos, além de outros que não mencionamos para evitar um alongamento, aqui desnecessário, são incompatíveis com qualquer forma consciente de adaptação à realidade externa. Regidos pelo processo primário sempre surpreendem a quem procura compreendê-los à luz dos processos mentais conscientes e pré-conscientes. Estes, como vimos, são regidos pelo chamado processo secundário.

O processo secundário considera a sequência de tempo dos eventos, estabelece relações lógicas, introduz fatores casuais, preenche as lacunas na linha dos pensamentos. Quanto melhor funciona mais lógico é o pensamento. O processo do pensamento inicia-se pelas ideias pré-conscientes que vão chegar ao consciente no estado de vigília. Nos sonhos, o processo secundário também é atuante, pois pode-se perceber nestes, palavras, ideia e imagens, que provêm quase inalteradas do estado de vigília. O sonhador poderá aproveitá-las para mascarar o significado da expressão de conteúdos inconscientes. Do mesmo modo, nas, neuroses e nas psicoses, o processo secundário pode servir aos mesmos propósitos. Por exemplo, um psicótico que tem um delírio de que as pessoas estão se transformando em macacos (ilogicidade própria do processo primário) pode ter tido o conhecimento (processo secundário) das teorias da Darwin. Do mesmo modo, um neurótico pode dar explicações lógicas para sintomas cuja causa real é inconsciente. [20]

Mecanismos de defesa

Na estrutura psíquica, o ego surge em resposta às frustrações e exigências que o mundo externo impõe ao organismo. À medida que se desenvolve, aprende a obedecer ao princípio da realidade, enquanto que o id persiste seguindo o princípio do prazer. Obviamente, então, haverá conflito entre o ego e o id. O superego incorporou-se ao ego como um controle automático devido às exigências impostas pelo meio. Entretanto, o próprio meio pode ser fonte de tentações para os impulsos do id e haverá então um conflito entre o ego e o superego.

Em vista disto, desenvolvem-se os mecanismos de defesa destinados a proteger a pessoa contra impulsos ou afetos que possam ocasionar aqueles conflitos, os quais são fontes de angústia. A angústia é a reação do ego diante da percepção inconsciente de qualquer ameaça à sua integridade e se traduz por sintomas e sinais equivalentes a uma reação intensa de medo, porém sem objeto aparente. As ameaças podem provir da própria natureza e intensidade da pulsão, do sentimento de culpa frente ao superego se houver satisfação da pulsão, do sentimento de inferioridade se a pulsão não for satisfeita e do receio da crítica social se o indivíduo não rejeitar as próprias tendências.

Os mecanismos de defesa têm funções protetoras e alguns deles são empregados por todos, na vida cotidiana, para conseguir a estabilidade emocional. Podem ser usados para auxiliar na integração da personalidade, apoiando-a na adaptação ao meio e nas relações interpessoais. Entretanto, seu uso pode ser feito de forma inadequada ou mesmo destrutiva, tornando-os em si mesmos, ameaças para o bom funcionamento do ego, levando ao aparecimento de distúrbios psicológicos.

A literatura refere mais de trinta mecanismos de defesa, na sua grande maioria inconscientes. Consideraremos a seguir alguns dos principais:

Compensação

É um mecanismo de defesa pelo qual o indivíduo, inconscientemente, procura compensar uma deficiência real ou imaginária. Exemplo: Um homem com um defeito físico pelo qual sente-se inferiorizado perante os demais, despende grande esforço para desenvolver sua capacidade intelectual e chega [21] a ser uma pessoa famosa. Não tem consciência de que o prestigio alcançado teve como motivação seus sentimentos de inferioridade.

Deslocamento

Através deste mecanismo, uma pulsão ou sentimento é inconscientemente deslocado de um objeto original para um objeto substituto. O deslocamento é um dos mecanismos fundamentais da neurose conhecida como fobiae o exemplo clássico é o caso do pequeno Hans, tratado por Freud. O menino não podendo aceitar conscientemente a intolerável ideia de odiar seu querido pai, procurou resolver o conflito entre o amor e o ódio, deslocando os sentimentos negativos para os cavalos. Os impulsos agressivos e os temores de resposta taliônica, originalmente dirigidos ao pai, passaram para aqueles animais. Por isso Hans os temia, a ponto de não mais sair de casa para não vir a encontrá-los.

Através do deslocamento, o indivíduo é protegido do sofrimento que resultaria da consciência da real origem de um problema. Seus efeitos podem vir à tona, mas o motivo original é disfarçado.

Fantasia

É um conjunto de ideias ou imagens mentais que procuram resolver os conflitos intrapsíquicos, através da satisfação imaginária da pulsão. As fantasias conscientes muito comuns na adolescência são também chamadas de sonhos diurnos. Em qualquer pessoa, as fantasias podem atuar como um saudável mecanismo de adaptação à realidade externa sempre que a obtenção de determinados desejos são impossíveis de satisfação imediata. Por exemplo, um estudante que sente seus professores demasiadamente austeros e exigentes, imagina-se como um futuro professor que tem para com seus alunos atitudes indulgentes e compreensivas. As fantasias podem ser inconscientes tomadas no próprio inconsciente ou terem sido conscientes e depois recalcadas. Por exemplo, fantasias a respeito do nascimento ou e relações incestuosas em geral são inconscientes, sabemos delas por suas manifestações indiretas nos sonhos, nos jogos infantis, nas obras artísticas etc. A fantasia reveste-se de [22] um caráter patológico quando tende a impedir continuamente resolução dos conflitos, a satisfação real das pulsões vitais e contato com a realidade.

Formação reativa

Mecanismo inconsciente pelo qual atitudes, desejos e sentimentos, desenvolvidos pelo ego são a antítese do que é realmente almejado pela pulsão. Assim, uma atitude de extrema solicitude para com os outros pode estar escondendo sentimentos inconscientes de hostilidade ou, então, uma pessoa ativa e batalhadora poderá inconscientemente ter desejos de passividade e submissão. Na formação reativa, a pulsão inconsciente, em geral, consegue uma indireta satisfação. O exemplo clássico é o da mãe superprotetora que acumula seu filho de cuidados e benevolências, mas que o rejeita inconscientemente.

Sua superproteção poderá satisfazer as pulsões hostis inconscientes, porque, pelos excessivos cuidados, limitará a liberdade e o desenvolvimento da criança.

Introjeção

Com fins didáticos, chamaremos de introjeção a todos os tipos de identificação onde o indivíduo, inconscientemente, procura igualar-se a outro, transferindo para si mesmo vários elementos de sua personalidade.Como mecanismo de defesa, a introjeção pode ser definida como um processo inconsciente pelo qual objetos externos positivos ou negativos são internalizados. A introjeção é o inverso da projeção. Ambos os mecanismos são importantes na formação da personalidade. O exagero ou inadequação de seu uso pode, entretanto, torná-los patogênicos. Um exemplo de introjeção normal é o do menino que se identifica com as atitudes e ideias do seu pai, procurando desenvolver padrões apropriados de comportamento masculino.

Negação

É um dos mais simples e primitivos mecanismos de defesa. Consiste no bloqueio de certas percepções do mundo externo, ou seja, o indivíduo frente a determinadas situações intoleráveis da realidade externa, inconscientemente nega sua existência para proteger-se do sofrimento. Exemplo, uma mãe que dedicou praticamente toda sua vida a uma filha única, ao "perdê-la” quando esta se casou, continuou a fazer sua cama todas as manhãs e a colocar o seu prato na mesa, como se ela nunca tivesse saído de casa. [23] 

Projeção

É o processo mental pelo qual atributos da própria pessoa, não aceitos conscientemente, são imputados a outrem, sem levar em conta os dados da realidade. Exemplo: Um homem, não podendo conscientemente aceitar seus fortes sentimentos hostis em relação a um superior de quem depende, considera que este o persegue e maltrata, embora isto não corresponda às atitudes reais do referido superior[6].

Racionalização

É uma tentativa de explicação consciente visando justificar manifestações de impulsos ou afetos inconscientes e não aceitos pelo ego. Por exemplo, uma atitude agressiva em relação a um semelhante, pode ser justificada pelo agressor como defesa a uma provocação. O que o indivíduo não percebe são seus sentimentos de hostilidade para as pessoas, independente de provocações. Quando esses sentimentos são expressos, procura explica-los usando de argumentos aparentemente lógicos.

Repressão (ou Recalque)

É o processo automático que mantém fora da consciência, pulsões, ideias ou sentimentos inaceitáveis, os quais não podem tornar-se conscientes através da evocação voluntária. A repressão é o mais importante dos mecanismos de defesa do ego e é utilizado desde os primeiros anos de vida para protegê-lo da angústia originada dos conflitos psíquicos. É um mecanismo de defesa básico e precede a maioria dos outros, os quais, em geral, funcionam como reforços ou adjuntos, quando o recalque é incompleto. Descrevem-se duas formas de recalque. Uma primária, consistindo na perpetuação no inconsciente de material que nunca foi consciente, como as pulsões não organizadas do id e as primitivas experiências infantis, por exemplo, o próprio nascimento. A outra, secundária, consiste na automática expulsão da consciência, de conteúdos do [24] ego não podem ser conservados dentro dos limites do pré-consiente serem uma ameaça para a integridade daquele. Esta forma é considerada a mais importantee o seguinte exemplo a ilustra: Duas senhoras da sociedade eram bastante amigas e costumavam trabalhar juntas em campanhas filantrópicas. Posteriormente as circunstancias fizeram com que tomassem rumos, diferentes: uma delas por problemas financeiros precisou mudar-se de cidade. Dois anos mais tarde, reencontraram-se em uma festa e foram apresentadas, uma a outra, por um amigo comum que não sabia de seu prévio relacionamento. Enquanto a primeira senhora mostrou-se bastante alegre pelo encontro, a segunda não a reconheceu por mais esforço que fizesse. Percebendo que algo estava errado, procurou não dar mostras de seu comportamento e respondeu a outra no mesmo tom. Entretanto o fato preocupou-a muito. Uma posterior analise trouxe-lhe à consciência que sentira no passado muita raiva da companheira por sua melhor sorte. Assim, para evitar reviver aqueles desagradáveis sentimentos, “esqueceu-se” inclusive do seu objeto causador.

Às vezes, o recalque é confundido com outro mecanismo de defesa denominado supressão. Os dois levam ao “esquecimento”, mas a diferença é que, na supressão, há um esforço consciente para desviar a atenção de indesejáveis ideias, objetos ou sentimentos. Assim, ocupando-se com outras atividades, uma pessoa pode “esquecer-se”, durante o dia, da consulta que fará ao dentista no fim da tarde.

Sublimação

É o processo pelo qual uma pulsão é modificada de forma a ser expressa de conformidade com as demandas do meio. Este processo inconsciente é considerado sempre como uma função do ego normal. Neste sentido, não é propriamente um mecanismo de defesa pois não impõe nenhum trabalho defensivo ao ego. Quer dizer, não é necessário um controle sobre o impulso, pois este apresenta-se modificado de tal forma que pode ser satisfeito sem proibições. O ego, na sublimação, ajuda o id a obter expressão externa, o que não ocorre quando usa outros mecanismos de defesa. Embora a pulsão original não seja consciente, na sublimação não existe a recalque pois, ao deparar com a rejeição pela consciência, o impulso é desviado para canais socialmente aceitos.Exemplo: o desejo infantil de brincar com [25] fezes, geralmente repudiado pelos pais, pode ser redigido e ganhar expressão na atividade sublimada de um escultor.

Desenvolvimento da Personalidade

Nos parágrafos anteriores descrevemos a estrutura psíquica, a natureza da energia a ela subjacente, os planos em que as atividades mentais funcionam e alguns dos mecanismos de defesa utilizados para a manutenção do equilíbrio psíquico. O objetivo, agora, é considerar os processos através dos quais o indivíduo se desenvolve, de um ser associal para uma pessoa socializada, desde a infância até a velhice.

Freud[7]concebeu o desenvolvimento da personalidade a partir do conceito de libido. Libido é um conceito biológico e significa a energia que está à disposição das pulsões de vida ou sexuais. Esta energia provém de certos processos bioquímicos cujo dinamismo intrínseco ainda não é totalmente conhecido. É submetida a um processo de desenvolvimento que ocorre numa série de estágios ou fases predeterminadas. Quer dizer, todas as pessoas, seja qual for o meio em que vivam, atingirão a vida adulta através da sucessão de fases numa sequência praticamente inevitável. Naturalmente, a pessoa cresce e se desenvolve à custa das pulsões  construtivas, as quais necessitam de objetos do mundo externo para sua satisfação. Os diversos estágios diferenciam-se pelo tipo de objeto ao qual a energia da pulsão está dirigida. Nos primeiros anos de vida, entretanto, o objeto da libido reside no próprio indivíduo. Neste sentido, fala-se de libido narcisista.À medida que as pulsões vão buscando seus objetos no mundo externo, a libido narcisista vai se transformando na libido objetal. Quanto maior a libido objetal mais maduro e socializado será o indivíduo.

O desenvolvimento da personalidade ocorre em sete fases: oral, anal, fálica, latência, adolescência, maturidade e velhice. Em [26] cada fase a pessoa deve aprender a resolver certos problemas específicos, originados do próprio crescimento físico e da interação com o meio. A solução dos diferentes problemas, que em grande parte depende do tipo de sociedade ou cultura, resulta na passagem de uma fase para outra e na formação do tipo peculiar da personalidade.No decorrer das fases, a pessoa expressa suas pulsões ou suas necessidades básicas dentro de moldes que visam preservar a continuação da cultura.

Na fase oral, que corresponde ao primeiro ano de vida, a libido esta centrada na porção superior do trato digestivo. A energia está, fundamentalmente, à disposição do impulso de auto-preservação, especialmente ligada à necessidade de alimentar-se.

Na fase anal, que corresponde ao segundo e terceiro ano de vida, a energia libidinosa, concentra-se na atividade anal e é reforçada pelas exigências dos pais quanto ao controle dos esfíncteres.

Na fase fálica, correspondente ao período que vai dos três aos cinco anos, o interesse libidinoso dirige-se para os órgãos genitais, iniciando-se a masturbação infantil. Nesta fase, a criança passa pela mais importante experiência de seu desenvolvimento psicológico, que é o complexo de Édipo. A resolução satisfatória deste problema predisporá a criança a sair definitivamente de seu narcisismo e buscar a satisfação de suas pulsões  nos objetos do mundo externo e fora da família, levando em conta as barreiras e facilidades que o próprio meio oferece.

Freud considera que os cinco primeiros anos de vida são decisivos na formação da personalidade. A maneira como a pessoa resolve os problemas desses três primeiros estágios e os mecanismos de defesa ou adaptação utilizados são os responsáveis pela estrutura básica do seu caráter, base esta que é o ponto de partida para o desenvolvimento futuro.

À fase fálica, segue-se o período de latência, onde aparentemente, os impulsos do id são relegados a um segundo plano, em função do desenvolvimento intelectual. A criança entra para a escola e seus interesses concentram-se nos estudos. Esta fase dura até o eclodir da puberdade, quando se inicia a adolescência. Na adolescência, os impulsos sexuais, voltam à ação, agora reforçados pelo desenvolvimento dos órgãos sexuais. O jovem dirige [27] seus interesses para as relações heterossexuais, preparando-se para a maturidade onde, mais cedo ou mais tarde, conforme a cultura, realizará sua função como perpetuador da espécie. À maturidade segue-se a velhice e a morte, fechando assim o que podemos chamar de ciclo vital.

Cada uma destas fases será estudada, com detalhes, nos capítulos seguintes.

Progressão, Fixação e Regressão

Vimos que, em cada fase do desenvolvimento da personalidade, o ser humano tem que resolver problemas específicos. Em outras palavras, precisa superar as dificuldades de cada fase para poder passar para a fase seguinte. O sucesso na superação de cada obstáculo proverá o indivíduo de mais confiança, independência e integridade. Quando isto ocorre, falamos de progressão no desenvolvimento. Nem sempre, entretanto, há condições favoráveis para esta progressão. Seja por fatores constitucionais ou do próprio meio, certos indivíduos não conseguem ultrapassar adequadamente certa fase, detendo aí seu desenvolvimento. Este fenômeno denomina-se fixação. As fixações são consequentes a duas causas principais: 1) excessiva gratificação das necessidades próprias de uma fase, determinando uma resistência à passagem para a fase seguinte; 2) excessiva frustração das necessidades próprias da fase, levando a uma interminável busca de gratificação.

Alguns indivíduos, conseguem passar de um estágio de desenvolvimento para outro, porém ao enfrentar problemas de maior dificuldade, falham e retornam a um estágio anterior onde se sentiam mais seguros e gratificados. Assim, não conseguindo satisfação das necessidades de uma determinada fase, devido aos obstáculos que não consegue ultrapassar, a pessoa regride. É óbvio que para haver regressão a uma determinada fase deve ter havido nesta um certo grau de fixação. Fixação e regressão são complementares. Quanto mais intensa for a fixação, mais facilmente haverá regressão diante de novos obstáculos.

A seguinte ilustração exemplifica os conceitos acima. Três amigos tiveram destinos diferentes quanto à realização matrimonial. [28] O primeiro teve uma mãe afetuosa e firme que sempre foi capaz de ajudar o filho a enfrentar com coragem as dificuldades da vida. Aos 21 anos, enamorou-se de uma jovem com quem veio a casar-se dois anos depois. Apesar de serem de religiões diferentes constituíram-se num casal feliz. O segundo teve uma mãe exagerada no cuidado dos filhos, excessivamente indulgente e preocupada em satisfazer-lhes os mínimos desejos. Ele casou-se aos 30 anos, com uma mulher que se revelou, após o casamento, muito independente, exigindo atitudes semelhantes do marido. Após algum tempo, o casamento fracassou. O rapaz preferiu voltar para sua mãe em busca da antiga situação de dependência, em vez de tornar-se um chefe de família. O terceiro sentia que nunca recebera bastante amor e compreensão em sua casa e vivia na esperança que o seu progresso profissional o tornasse mais querido dos pais. Assim motivado, deixou de procurar fora do lar alguém que o ajudasse a realizar-se afetivamente e permaneceu solteiro. Os três casos ilustram, respectivamente, progressão, regressão e fixação. [29]

Psicologia - Psicanálise
4/16/2019 9:04:24 PM | Por Mary Beard
Livre
Os perigos, vícios e diversões da vida noturna na Roma antiga

Muitos de nós conseguem imaginar os brilhantes espaços cobertos de mármore da Roma antiga em um dia ensolarado, porque esta é a imagem exibida por filmes e séries, além dos livros de história. Mas o que acontecia ao anoitecer? Mais especificamente, o que acontecia com a grande maioria da população da cidade imperial que vivia em casas abarrotadas e não nas amplas mansões dos mais ricos? Lembre-se de que, no século 1 a.C., na época de Júlio César, a Roma antiga era uma cidade de 1 milhão de habitantes: ricos e pobres, escravos e ex-escravos, nativos e estrangeiros.

Foi a primeira métropole multicultural do mundo, com bairros marginais, residências de múltiplas ocupações e zonas de aterros sanitários - e tendemos a nos esquecer disso tudo quando nos concentramos em suas magníficas colunas e praças.

Então, como era a cidade de Roma, a verdadeira Roma, depois que se apagavam as luzes?

Caminhar pelas ruas podia ser fatal

O melhor ponto de partida é a sátira do poeta Juvenal, que evocou uma imagem desagradável da vida cotidiana em Roma ao redor de 100 d.C..

Juvenal alertou sobre os riscos de caminhar pelas ruas ao anoitecer sob janelas abertas. No melhor dos casos, podiam chover os excrementos armazenados durante o dia. No pior, uma pessoa podia ser acertada na cabeça pelos objetos lançados dos andares superiores.

"Penses nos diferentes e diversos perigos da noite. (...)

Se tu fores a um jantar sem um testamento, merecerás a pena de ser chamado de incauto e indiscreto, porque estarás sujeito a muitos perigos.

Há morte sob cada janela aberta em seu caminho.

Farás bem, portanto, se ao céu pedires que a maior desgraça que tentem te causar, seja que se contentem em banhar-te, jogando sobre ti o vaso pestilento."

Juvenal também fala do risco de topar com pessoas ricas que passeavam com seus mantos escarlates e comitivas de seguidores parasitas e empurravam para o lado quem estivesse em seu caminho.

Mas esta visão do poeta de Roma à noite é precisa? Foi realmente um lugar onde coisas caíam sobre as cabeças dos transeuntes, onde os ricos e poderosos te derrubavam no chão e passavam por cima e no qual, como Juvenal observa em outras passagens, uma pessoa corria o risco de ser assaltada e roubada por gangues de bandidos? Provavelmente, sim.

Não havia força policial

Fora do esplêndido centro cívico, Roma era um labirinto de ruelas estreitas e corredores. Não havia iluminação pública, nem locais adequados onde jogar fora excrementos ou, ainda, vigilância de uma força policial. Ao anoitecer, deve ter sido um lugar ameaçador.

A única proteção pública possível de esperar era a força paramilitar dos vigias urbanos. O que exatamente faziam e quão efetivos eram são pontos abertos para debate.

Estavam divididos em batalhões, e sua principal tarefa era vigiar o surgimento de incêndios, algo frequente nos blocos de casas mal construídas, com braseiros ardendo nos andares de cima.

Mas havia poucas ferramentas para lidar com eles, além de uma pequena quantidade de vinagre, algumas mantas para sufocar as chamas e hastes pesadas para derrubar as construções vizinhas e evitar que o incêndio se propagasse.

Às vezes, eles se tornavam heróis. De fato, há um memorial para um vigia em Ostia, perto de Roma, que tentou resgatar pessoas presas pelo fogo e morreu no processo - seu enterro foi pago pelo poder público.

Mas nem sempre eram tão altruístas. No grande incêndio de Roma do ano 64 d.C., a história conta que os vigias participaram dos saques à cidade e se aproveitaram de seu conhecimento sobre ela para encontrar grandes riquezas.

Proteção por conta própria

De qualquer forma, os vigias não eram uma força policial e tinham pouca autoridade quando ocorriam pequenos delitos noturnos.

Quem fosse vítima de um, tinha de se defender sozinho, como mostra um caso particularmente difícil discutido em um antigo manual sobre direito romano.

O caso se refere a um comerciante que mantinha seu negócio aberto à noite e deixou uma luminária no balcão que dava para a rua. Quando o objeto foi roubado, o dono da loja perseguiu o ladrão, e eles começaram a brigar.

O criminoso tinha uma arma - um pedaço de corda com um metal na ponta - e a usou contra o comerciante, que reagiu com um golpe tão forte que arrancou o olho do ladrão.

O dilema dos advogados romanos era se o comerciante era responsável pelo ferimento. Em um debate que ecoa alguns dos nossos próprios dilemas de até onde o dono de um negócio ou imóvel pode ir para se defender de um criminoso, os advogados disseram que o ladrão estava armado e havia dado o primeiro golpe, portanto, devia assumir a responsabilidade de ter pedido um olho.

O incidente é um bom exemplo do que poderia ocorrer nas ruas de Roma depois do anoitecer: pequenas brigas podiam ganhar grandes proporções e uma vasilha jogada de uma janela poderia ser fatal. 

Bares e jogos de azar

Mas a noite romana não era apenas perigosa: era também divertida. Havia clubes, tabernas e bares abertos até altas horas.

Ainda que uma pessoa compartilhasse uma casa pequena com muita gente, se fosse um homem, poderia escapar do aperto por algumas horas para beber, fazer apostas ou se divertir com as garçonetes.

A elite romana desprezava estes locais. Ainda que o jogo fosse uma das atividades favoritas da sociedade romana - dizia-se que o imperador Claudio havia escrito um manual sobre o tema -, isso não impediam que as classes mais altas denunciassem os maus hábitos dos pobres e seu vício em jogos de azar.

Felizmente, temos algunas imagens da diversão em bares romanos do ponto de vista dos cidadãos comuns e não de seus críticos. Elas não estão em Roma, mas nas paredes dos bares de Pompeia, e mostram cenas típicas: grupos de homens sentados ao redor de mesas, pedindo outra rodada de bebidas, a interação entre clientes e garçonetes e uma grande quantidade de jogos. Há até indícios de violência.

Nesta pintura de um bar de Pompeia, que hoje está no Museu Arqueológico de Nápoles, vemos à esquerda uma dupla de jogadores que têm uma desavença sobre o jogo e, na direita, o proprietário ameaçando expulsá-los dali.

E os ricos?

Onde estavam os mais ricos durante essa agitada vida noturna nas ruas? A maioria estava cômodamente dormindo em suas camas, em casas luxuosas, com o auxílio de escravos e a proteção de cães de guarda.

Por trás das suas portas, reinava a paz - a menos, é claro, que houvesse um ataque -, e só ouviam os sons da vida dura nas ruas. Mas havia romanos na elite para quem a vida nas ruas era muito mais emocionante, e era ali que eles queriam estar.

Nas ruas de Roma, podia-se encontrar o imperador Nero em suas noites livres. Ao anoitecer, segundo conta seu biógrafo Suetônio, ele se disfarçava, visitava os bares da cidade e vagava pelas ruas, provocando confusão com seus companheiros.

Quando cruzava com homens a caminho de casa, os golpeava. Quando tinha vontade, invadia lojas fechadas e vendia no palácio o que roubava. Também se metia em brigas e, aparentemente, corria com frequêcia o risco de ser ferido ou morto.

E, ainda que muitos dos ricos evitasem sair de casa depois do anoitecer, outros faziam isso acompanhados por escravos que atuavam como seguranças privados ou um grande séquito de ajudantes, em busca de diversão.

Pelos relatos de Suetônio, talvez um dos maiores perigos de se andar à noite em Roma fosse encontrar o imperador.

História - Civilização Romana
4/16/2019 6:58:28 PM | Por Dalia Ventura
Livre
Teodora do prostíbulo, a mulher por quem um imperador mudou a lei do Império Bizantino

Justiniano é bastante conhecido na esfera jurídica desde que foi imperador do Império Bizantino no século 6. A fama se deve a seu impressionante legado: a compilação do direito romano na obra Corpus Juris Civilis, que ainda é a base do direito civil de muitos Estados modernos. Não é de se espantar que haja várias publicações sobre esse período e sobre Justiniano, muitas vezes chamado de "o último dos romanos". O curioso é que quase nada foi escrito sobre sua esposa, Teodora, não só porque ela reinou ao lado dele, algo incomum na época, mas porque viveram um daqueles romances que marcaram a história.

A imagem que temos dela foi descrita no controverso livro História Secreta, de autoria de Procópio de Cesareia, secretário pessoal de um dos grandes generais de Justiniano, Belisário.

A obra, que o autor não se atreveu a publicar enquanto os protagonistas estavam vivos, é um ataque violento a Belisário, sua mulher, Antonina, e seus amigos Teodora e Justiniano.

Foi Procópio quem inventou o apelido "Teodora do prostíbulo" com a intenção de insultá-la.

João de Éfeso, historiador e líder da Igreja Ortodoxa Oriental no século 6, também chegou a afirmar que ela "vinha de um bordel".

Mas como um imperador e uma cortesã acabaram juntos?

Ele

Petrus Sabbatius nasceu em uma pequena aldeia por volta do ano 482 d.C. no seio de uma família humilde. Se não fosse por seu tio Justino, que o adotou, ele teria sido agricultor.

Justino havia sido promovido a comandante dos excubitores - unidade militar que atuou como guarda imperial e cujos comandantes tinham grande poder durante o século 6 - na capital do império, Constantinopla (atual Istambul).

Seu sobrinho, que adotou o nome de Justiniano, se beneficiou da educação que recebeu e da experiência de frequentar a corte do imperador Anastácio I.

Quando Anastácio I morreu sem deixar herdeiros, Justino foi coroado como novo imperador de Roma em Constantinopla - uma decisão que historiadores contemporâneos acreditam ter sido orquestrada por ninguém menos que seu astuto sobrinho.

A essa altura, Justino já tinha cerca de 65 anos e, durante parte de seu reinado, foi senil.

Justiniano estava o tempo todo ao seu lado, ocupando altos cargos no governo.

Foi então que ele conheceu Teodora.

Ela

Teodora nasceu aproximadamente no ano 495 d.C. em Constantinopla.

Seu pai era adestrador de ursos no Hipódromo de Constantinopla - centro esportivo, social e cultural da capital do Império Bizantino - e morreu quando ela tinha 5 anos.

Sua mãe, uma artista de teatro, se casou novamente e arrumou para o novo marido o mesmo emprego do pai de Teodora. 

Em seguida, ensinou às filhas os movimentos de braço e os gestos silenciosos que eram consagrados pela plateia de teatro da época, e as levou para se apresentarem no hipódromo.

Teodora virou atriz, dançarina, mímica e comediante. Aos 15 anos, era a estrela do hipódromo. 

Ela também se tornou, como muitas atrizes da época, prostituta.

Aos 18 anos, largou tudo para ficar com o governador da atual Líbia.

Pouco depois, eles se separaram e, ao voltar para Constantinopla, Teodora se juntou a uma comunidade ascética no deserto, perto de Alexandria.

A experiência fez dela uma devota do monofisismo, vertente do cristianismo que acredita que Jesus é totalmente divino - e não divino e humano como sustenta a Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica.

Como consequência, ela renunciou oficialmente a sua vida como atriz e, quando voltou à capital do império, foi morar perto do palácio para ser tecelã.

Ela tinha 21 anos, e foi então que conheceu Justiniano.

Eles

Apesar da diferença de idade e personalidade, os dois formavam o casal perfeito.

Ela era linda, segura de si e com a língua afiada. Já ele era reservado, avesso a sorrisos e não tão bonito. 

No entanto, "ele se dedicou a ela, havia uma confiança mútua absoluta", escreveu o historiador Robert Browning, autor do livro Justiniano e Teodora.

O problema era legal: naquela época era proibido um funcionário do governo se casar com uma atriz, profissão que era sinônimo de prostituta, mesmo que ela fosse "reformada".

Embora Justiniano tivesse poder e grande influência sobre o tio, a imperatriz Eufemia, sua tia, se recusou a aceitar o casamento - dizem que ela se via refletida em Teodora, porque seu passado também era "vergonhoso".

No entanto, logo após a morte de Eufemia, Justino concordou em mudar a lei. Eles se casaram no ano 525 d.C.

Dois anos depois, no mesmo hipódromo em que Teodora entretinha a multidão, o casal foi coroado.

O filho de camponês e a atriz se tornaram imperador e imperatriz do Império Bizantino - ou Romano, como chamava na época -, que se prolongaria por mil anos.

Juntos 

Nessa espetacular ascensão ao poder, Teodora não foi apenas uma figurante.

O casal era conhecido por governar de igual para igual: ela era de fato uma corregente.

E ele usou esse poder para criar uma narrativa completamente nova, na qual o gênero e a classe tinham um papel menor do que a ambição e a capacidade.

Juntos, eles criaram um legado duradouro, moldando o conceito do Estado ocidental moderno, o poder da Igreja Ortodoxa Oriental e as bases do direito europeu.

Justiniano ordenou uma completa compilação e modernização do direito romano, conhecido como Codex, de modo que, como diz o documento, "a majestade imperial (...) não apenas está honrada com as armas, mas também fortalecida pelas leis, de modo que em tempos, tanto de guerras quanto de paz, possa ser bem governada, e o princípio romano sobreviva, não só em batalhas com inimigos (...)".

As seções que se referem às mulheres revelam a influência de Teodora, particularmente quando se trata de seu status legal.

Mas é nas leis que surgiram depois da criação do Codex que sua presença se faz ainda mais evidente.

Ela, imperatriz

Para Teodora, a prostituição era uma questão de justiça social, em vez de um problema moral pessoal - ela abordou o papel da desigualdade econômica na adoção dessa ocupação.

E atuou em prol dos direitos das prostitutas fechando bordéis, criando abrigos e aprovando leis para proibir a prostituição forçada.

As leis também foram ferramenta para elevar o papel das mulheres na sociedade de uma forma mais ampla. Ampliando, por exemplo, seus direitos em caso de divórcio, concedendo direito à propriedade e instituindo a pena de morte em caso de estupro.

Ao mesmo tempo, também aboliu uma lei que permitia que as mulheres fossem mortas por cometer adultério.

Mesmo após sua morte, o status das mulheres no Império Bizantino era considerado muito superior ao das mulheres no Oriente Médio e na Europa.

A imperatriz também se empenhou em proteger os monofisitas perseguidos, construindo casas de culto que serviam como abrigos.

Eles, regentes

Teodora e Justiniano viveram em uma época de grandes mudanças, às vezes atormentada por confrontos religiosos e políticos.

O episódio mais significativo foi a Revolta de Nika, que começou com uma corrida de cavalos no hipódromo e rapidamente se tornou, aos olhos de seus oponentes, uma oportunidade de derrubar Justiniano.

Quando o imperador e seus oficiais se preparavam para fugir, Teodora proferiu um discurso que, segundo os historiadores, salvou o império de Justiniano.

"Para um rei, a morte é preferível à deposição ou ao exílio", dizia sua mensagem.

Justiniano enviou então suas tropas para atacar o hipódromo. Para conseguir a vitória, mataram mais de 30 mil rebeldes.

A revolta destruiu grande parte de Constantinopla, mas o casal se pôs a reconstruir a capital do império, transformando a cidade naquela que durante tantos séculos foi considerada uma das mais maravilhosas do mundo.

Eles construíram aquedutos, pontes e mais de 25 igrejas, incluindo a Basílica de Santa Sofia, a "Igreja da Santa Sabedoria", que foi a maior igreja da época e um dos principais ícones da arquitetura bizantina.

Teodora morreu em 548, aos 48 anos, e Justiniano viveu até 565.

Dizem que ele sofreu profundamente em seu funeral.

História - Império Bizantino
4/13/2019 4:55:11 PM | Por Daniel Defoe
Livre
Uma história dos piratas

Uma vez que os piratas nas índias Ocidentais têm se mostrado terríveis e numerosos a ponto de interromperem o comércio europeu naquelas regiões e que os nossos comerciantes ingleses, particularmente, têm sofrido mais com as suas depredações do que com as forças reunidas da França e da Espanha na última guerra, não temos dúvidas de que o mundo terá curiosidade de conhecer a origem e a evolução desses facínoras, que foram o terror da atividade comercial do mundo.

Mas, antes de penetrarmos em sua história particular, será oportuno, à guisa de introdução, demonstrar, por alguns exemplos, a grande maldade e o perigo que ameaçam reinos e nações provenientes do desenvolvimento desse tipo de ladrão, quando, quer por problemas da época em particular, quer pela negligência dos governos, eles não são esmagados antes de ganharem força.

Até agora, o que vinha acontecendo é que, ao se tolerar que um simples pirata percorresse livremente os mares — como se não merecesse nenhuma atenção por parte dos governos — ele crescia gradativamente até se tornar tão poderoso que, antes que o pudessem eliminar, despendia-se muito sangue e riquezas. Não iremos analisar como se passou o constante crescimento dos nossos piratas nas índias Ocidentais, até recentemente. Esta investigação cabe à Legislatura, aos representantes do povo no Parlamento, e a deixaremos a seu encargo.

Nosso trabalho será demonstrar brevemente como outras nações já sofreram também do mesmo problema, iniciado de forma igualmente trivial. [19]

Nos tempos de Marius e de Sulla, Roma se encontrava no auge do poder, e mesmo assim foi tão dilacerada pelas facções daqueles dois grandes homens, que tudo o que se relacionava ao bem público também foi negligenciado. Foi quando irromperam na região certos piratas provenientes da Cilicia, país da Asia Minor situado na costa do Mediterrâneo, entre a Síria, a leste, da qual se separa pelo monte Tauris, e a Armênia Minor, a oeste. Esse início foi medíocre e insignificante: não mais que dois ou três barcos e uns poucos homens, com os quais eles circulavam pelas ilhas gregas apossando-se dos navios que se encontravam desarmados e desprotegidos. Entretanto, ao capturarem grandes quantidades de despojos, logo eles cresceram em riqueza e poder. Sua primeira ação a ficar famosa foi o sequestro de Júlio César, então ainda um jovem e que, vendo-se forçado a fugir das crueldades de Sulla, que pretendia acabar com a sua vida, partiu para a Bitínia. Ali permaneceu por algum tempo com Nicomedes, rei daquele país. Em seu retorno por mar foi interceptado e preso por alguns piratas, perto da ilha de Pharmacusa. Esses piratas tinham o bárbaro costume de amarrar os prisioneiros uns ao outros pelas costas e depois atirá-los ao mar. Porém, percebendo que César deveria ser alguém de alta linhagem, a julgar pelas suas vestes púrpura e pelo grande número de criados que o cercavam, acharam que seria mais lucrativo poupá-lo, podendo receber uma grande soma por seu resgate. Assim, disseram-lhe que ele obteria sua liberdade se lhes pagasse vinte talentos, o que achavam ser uma exigência bem elevada — em nossa moeda, cerca de três mil e seiscentas libras. César sorriu e, por sua livre vontade, prometeu-lhes cinquenta talentos. Eles ficaram muito satisfeitos e ao mesmo tempo surpresos com a resposta, consentindo em que vários criados dele partissem com as suas instruções para levantar o dinheiro. E assim César foi deixado no meio daqueles rufiões, com três criados apenas. Ficou ali por trinta e oito dias, e parecia tão despreocupado e sem medo que muitas vezes, ao ir dormir, costumava ordenar que ninguém fizesse barulho, ameaçando enforcar quem o perturbasse. Também jogava dados com eles, e algumas vezes escreveu versos e diálogos que costumava repetir em voz alta, [20] obrigando-os também a repeti-los, e se eles não os elogiassem e os admirassem xingava-os de animais e bárbaros, declarando que os crucificaria. Eles interpretavam aquilo como meras tiradas de humor juvenil, e mais se divertiam com a coisa do que se desagradavam.

Passado o tempo, os criados retornaram, trazendo o resgate, que foi devidamente pago, e César foi libertado. Velejou então para o porto de Miletum onde, tão logo chegou, concentrou toda sua arte e diligência na preparação de uma esquadra naval, equipada e armada à sua própria custa. E, içando suas velas na busca dos piratas, foi surpreendê-los ancorados entre as ilhas. Prendeu aqueles que o haviam sequestrado, além de mais alguns outros, tomou-lhes como butim todo o dinheiro que possuíam para reembolsar suas despesas no empreendimento, e os transportou para Pérgamo — ou Tróia — deixando-os presos lá. Em seguida, recorreu a Junius, que então governava a Ásia, e a quem cabia julgar e determinar a punição devida àqueles homens. Mas Junius, percebendo que não lhe caberia nenhum dinheiro com aquilo, respondeu que ia pensar com calma no melhor a fazer com os prisioneiros. César despediu-se dele e retornou a Pérgamo, onde ordenou que lhe trouxessem os prisioneiros e os executassem, segundo a lei própria para aquele caso, a qual vem referida em um capítulo ao final deste livro sobre os regulamentos nos casos de pirataria. E assim, com toda a seriedade, ele lhes aplicou a mesma punição com que, brincando, tantas vezes os havia ameaçado.

César partiu diretamente para Roma, onde passou a empenhar-se nos desígnios de sua própria ambição, como faziam quase todos os homens importantes de Roma, e dessa forma, os piratas que restaram tiveram tempo suficiente para crescerem até atingir um poder prodigioso. Pois, enquanto perdurava a guerra civil, os mares ficavam desprotegidos, tanto que Plutarco nos conta que os piratas puderam construir vários arsenais, com todo o tipo de estoques de guerra, amplos portos, erguer torres de observação e faróis ao longo de toda a costa da Cilicia; que dispunham de uma poderosa frota, muito bem equipada e abastecida, com galeotes nos remos e manobradas não apenas por homens com a coragem que confere o desespero, mas também por experientes pilotos e marinheiros; possuíam potentes navios, além de leves pinaças para circular pelos mares e fazer descobrimentos, num total não inferior a mil barcos. E se exibiam com tamanha magnificência que despertavam tanto inveja pela sua aparência galante quanto temor pela sua força. [21]

A popa e os alojamentos dos navios eram folheados a ouro; os remos, revestidos de prata, e as velas eram em tecido de púrpura. Assim como se o maior deleite deles fosse glorificar a própria iniquidade. E também não se contentavam em cometer no mar os seus atos de pirataria e de insolências, mas praticavam além disso grandes depredações em terra, e realizavam conquistas, pois tomaram e saquearam nada menos do que quatrocentas cidades, exigindo tributos de muitas outras, devastando também os templos dos deuses e se enriquecendo com as oferendas ali depositadas. Muitas vezes desembarcavam bandos de homens que não apenas saqueavam as cidades do litoral, como também assaltavam as belas residências dos nobres ao longo do Tibre. Um grupo desses sequestrou certa vez Sextilius e Bellinus, dois pretores romanos, que se encontravam em seus trajes púrpura, indo de Roma para os seus governos, e os levaram com todos os seus atendentes, oficiais e mestres-de-cerimônia. Também raptaram a filha de Antonius — um cônsul que já fora honrado com o Triunfo quando ela viajava para a casa de campo do pai.

Mas seu mais bárbaro costume acontecia quando se apoderavam de algum navio, ao interrogarem os passageiros sobre os seus nomes e países de origem. Se algum deles declarasse ser romano, eles então se atiravam teatralmente aos seus pés, como se estivessem apavorados diante de toda a grandiosidade daquele nome, e lhe suplicavam perdão pelo que lhe haviam feito, implorando-lhe misericórdia, agindo ao redor dele como se fossem verdadeiros criados. Quando percebiam que o haviam iludido quanto à sua sinceridade, então desdobravam a escada exterior do navio e, aproximando-se da vítima cheios de demonstrações de cortesia, declaravam-lhe que ela estava livre, e que podia ir-se embora do navio, e isso em pleno oceano. Vendo a sua surpresa, o que era perfeitamente natural, então a jogavam ao mar, aos gritos e gargalhadas, tão libertinos eram em sua crueldade.

Assim, Roma, nos tempos em que era a “senhora do mundo”, sofria, mesmo às suas portas, tais insultos e afrontas desses poderosos ladrões. Mas o que por algum tempo fez cessar o faccionarismo interno e levantar a coragem daquele povo, que jamais fora acostumado a sofrer injúrias de um inimigo à sua altura, foi a excessiva escassez de provisões em Roma, ocasionada pelo fato de todos os navios com grãos e outros suprimentos, vindos da Sicília, da Córsega e de outros lugares, serem interceptados e tomados por aqueles piratas, a ponto de ser a cidade quase [22] reduzida à situação de fome. Naquele momento, Pompeu, o Grande, foi imediatamente nomeado general para dar início à guerra. Quinhentos navios foram logo equipados, e ele contou com quatorze senadores como vice-almirantes, todos com grande experiência na guerra. E os rufiões se haviam transformado num inimigo tão considerável, que foi necessário nada menos que um exército de cem mil soldados a pé e cinco mil cavalarianos para os enfrentar por terra. Para grande sorte de Roma, Pompeu lançou seus barcos ao mar antes que os piratas fossem informados sobre a operação que se armava contra eles, de forma que os seus navios tiveram de debandar por todo o Mediterrâneo, assim como abelhas fugindo em todas as direções da colméia, tentando levar para a terra os seus carregamentos. Pompeu dividiu a sua frota em treze esquadras, que destinou a diversos postos, de modo que os piratas foram caindo em suas mãos, em grande número, navio por navio, sem que nenhum se perdesse. Quarenta dias ele passou vasculhando o Mediterrâneo em todas as direções, alguns barcos da frota circulando pela costa da África, outros perto das ilhas, e outros ainda percorrendo as costas italianas, de modo que frequentemente os piratas que fugiam de uma esquadra eram capturados por outra. Mesmo assim, alguns conseguiram escapar, indo diretamente para a Cilicia e dando conhecimento a seus confederados na praia sobre o que havia acontecido. Marcaram um encontro de todos os navios que se puderam salvar no porto de Coracesium, naquele mesmo país. Quando Pompeu viu que as águas do Mediterrâneo já estavam limpas, acertou uma reunião de toda a sua frota no porto de Brundisium. Em seguida, velejando dali para o Adriático, foi atacar diretamente os fugitivos em suas colméias. Assim que se aproximou de Coracesium, na Cilicia, onde estavam os piratas remanescentes, estes tiveram a ousadia de se voltarem para enfrentá-lo em batalha. Mas prevaleceu o gênio da velha Roma, e os piratas sofreram uma arrasadora derrota, sendo todos capturados ou aniquilados. Entretanto, como haviam construído um grande número de sólidas fortalezas por todo o litoral, e também castelos e fortes no interior, perto da base do monte Taurus, Pompeu viu-se forçado a sitiá-los ali com seu exército. Alguns locais ele tomou nos ataques, outros se renderam à sua mercê, e a estes ele poupou suas vidas, realizando finalmente uma conquista total.

Entretanto, é provável que caso aqueles piratas tivessem recebido informação suficiente sobre os preparativos dos romanos, de maneira a terem tempo de reunir as suas forças espalhadas em um só corpo, [23] enfrentando Pompeu no mar, a vantagem penderia grandemente para o lado deles, tanto em número de navios quanto de homens. Tampouco lhes faltava coragem, o que ficou claro quando eles saíram do porto de Coracesium para enfrentar Pompeu em batalha, contando com forças muito inferiores às dele. Acho que se houvessem derrotado Pompeu, provavelmente executariam outros atentados maiores, e Roma, que conquistara o mundo inteiro, poderia vir a ser submetida por uma turma de piratas.

Esta é uma prova de como é perigoso os governos serem negligentes e não tomarem providências imediatas para suprimir esses bandidos do mar, antes que eles possam se fortalecer.

A verdade desta máxima pode ser mais bem exemplificada na história de Barbarouse, natural da cidade de Mitylene, na ilha de Lesbos, no mar Egeu. Homem de origem simples que, educado para a vida marítima, partiu dali pela primeira vez, segundo relatos de piratas, apenas com um pequeno barco, porém, pelos despojos que capturou, pôde juntar uma riqueza imensa. Ao saberem que ele já dispunha de numerosos navios de grande porte, todos os sujeitos atrevidos e dissolutos daquelas ilhas acorreram para ele, alistando-se ao seu serviço, cheios de esperanças por butins. De maneira que as suas forças cresceram até se converterem numa imensa frota. Com esta, ele realizou tais proezas de audácia e aventura, que acabou se transformando no “Terror dos Mares”. Por essa época, aconteceu que Selim Entemi, rei da Algéria, que se recusava a pagar tributo aos espanhóis, e vivia em constante apreensão ante uma possível invasão deles, fez um trato com Barbarouse, com base numa aliança, pelo qual aquele viria dar-lhe ajuda e liberá-lo do pagamento do tributo. Barbarouse concordou prontamente. Partindo para a Algéria com uma grande frota, desembarcou naquela praia uma parte de seus homens e, de acordo com um plano para tomar de surpresa a cidade, executou-o com grande sucesso, assassinando Selim quando este se encontrava na banheira. Logo em seguida, foi coroado ele próprio rei da Algéria. Depois disso, declarou guerra a Abdilabde, rei de Tunis, derrotando-o numa batalha. Ampliou as suas conquistas em todas as direções. E assim, passou de ladrão a poderoso rei. E, não obstante ter sido finalmente morto numa batalha, mesmo assim se estabelecera tão bem naquele trono que, ao morrer sem herdeiros, deixou o reino para seu irmão, um outro pirata. [24]

Agora passo a falar dos piratas que infestam as índias Ocidentais, onde são mais numerosos que em qualquer outra parte do mundo, e por diversas razões:

A primeira, porque existem tantas ilhotas desertas e bancos de areia, com portos convenientes e seguros para se descarregarem os barcos, e abundantes naquilo que eles estão sempre necessitando: provisões, ou seja, água, aves marinhas, tartarugas, mariscos e outros peixes. Ali, se trouxerem consigo bebidas fortes, eles ficam se deliciando por algum tempo até estarem prontos para novas expedições, antes que alguma denúncia os alcance e os derrube.

Talvez não seja desnecessária aqui uma pequena digressão para explicar o que se chama key nas índias Ocidentais. São pequenas ilhas de areia, aparecendo apenas um pouco acima da superfície da água, com alguns arbustos somente, ou sargaços, porém (aquelas mais distantes de terra firme) cheias de tartarugas, esses animais anfíbios que escolhem sempre os locais mais tranquilos e menos frequentados para depositar os seus ovos, atingindo um grande número na estação apropriada, e que pouco são vistos (exceto pelos piratas) a não ser nessas ocasiões. Então, barcos vindos da Jamaica e de outros governos empreendem até elas viagens chamadas turtling, que se destinam a suprir a população desse tipo de alimento, que ali é muito comum e apreciado. Sou levado a crer que essas keys, especialmente as mais próximas das ilhas, eram unidas a elas em tempos passados, e depois foram separadas por terremotos (que ali são frequentes) ou inundações, pois algumas delas, que eram sempre visíveis, como as que ficam mais perto da Jamaica, agora verifica-se, em nossa época, que estão se consumindo, e desaparecendo, e diariamente outras também vão reduzindo de tamanho. Elas não têm exclusivamente a utilidade mencionada para os piratas, mas acredita-se que sempre foram usadas como esconderijo de tesouros, nos tempos dos bucaneiros, e frequentemente como abrigo enquanto os seus protetores, em terra, tentavam encontrar meios de lhes conseguir imunidade pelos seus crimes. Pois é preciso que se entenda que quando os atos de clemência [25] eram mais frequentes, e menos severas as leis, aqueles homens continuamente conseguiam favores e estímulos na Jamaica, e talvez mesmo agora nem todos ainda estejam mortos. Disseram-me que muitos com o mesmo tipo de prática ainda estão vivos, e que só são deixados em paz porque agora podem ganhar honestamente a vida, com risco apenas dos pescoços alheios.

A segunda razão pela qual aqueles mares são preferidos pelos piratas é o grande comércio que ali se pratica com navios franceses, espanhóis, holandeses e principalmente ingleses. Ali, na latitude daquelas ilhas tão boas para o comércio, eles estão certos de encontrar muitos despojos, butins de mantimentos, vestuários e estoques navais, e também dinheiro, uma vez que por aquela rota seguem grandes somas para a Inglaterra (os pagamentos pelos contratos do Assientoou pelo comércio particular de escravos com as índias Ocidentais espanholas), resumindo: todas as riquezas do Potosí[1].

Uma teiceira tazão é a natural segurança que lhes proporcionam as dificuldades das fragatas para persegui-los, em meio àquelas inúmeras enseadas e lagoas e ancoradouros das ilhas solitárias e dos bancos de areia.

É geralmente ali que os piratas dão início aos seus empreendimentos, estabelecendo-se primeiro com uma força bem reduzida. Depois, à medida que vão infestando os mares locais e do continente norte-americano, dentro de um ano, se a sorte lhes for favorável, eles conseguem acumular um poder que os habilita a se lançarem em expedições ao estrangeiro. Normalmente, sua primeira expedição é para a Guiné, atacando pelo caminho as ilhas dos Açores e de Cabo Verde, e depois o Brasil e as índias Orientais, e, caso tenham sido lucrativas essas viagens, desembarcam em Madagascar ou nas ilhas vizinhas, onde, junto aos seus companheiros veteranos, vão desfrutar com total impunidade as riquezas que conseguiram ilicitamente. Mas, para não parecer que estamos encorajando essa profissão, devemos informar aos leitores que se dedicam à navegação que a grande maioria desses bandidos é logo exterminada durante as perseguições, e que de uma hora para outra eles se vêm precipitados no “outro mundo”. [26]

A ascensão desses vagabundos desde a Paz de Utrecht (1713) — ou, pelo menos, a sua grande proliferação — pode imputar-se com toda a justiça ao estabelecimento das colônias espanholas nas índias Ocidentais. Lá os governadores, muitos deles cortesãos ávidos, que para ali foram enviados com o fito de fazerem fortuna, ou reconstruí-la, geralmente empregam todos os procedimentos que costumam acarretar lucros: pretendendo impedir a intromissão de algum outro comerciante, concedem autorizações a grande número de fragatas para capturarem quaisquer navios ou barcos que ultrapassem o limite de trinta quilômetros ao longo da costa, coisa que os nossos navios ingleses não conseguem evitar muito bem, quando se dirigem para a Jamaica. Porém, se acontecer de os capitães espanhóis abusarem dessa incumbência, roubando e saqueando à vontade, permite-se que as vítimas apresentem queixa e entrem com um processo no tribunal. Após muitas despesas com trâmites legais, prorrogações de prazo e diversos outros inconvenientes, é possível que eles acabem por obter uma sentença favorável. Mas, quando vão reclamar o navio e a carga, depois de novas despesas processuais, eles descobrem, para sua angústia, que estes foram previamente desapropriados e o espólio, distribuído pela tripulação. Vem-se a descobrir que o comandante que fez a captura, considerado o único responsável, é um pobre-diabo desonesto, que não vale um vintém e que, sem dúvida, foi colocado naquele posto propositadamente.

As frequentes perdas sofridas pelos nossos comerciantes no exterior, graças a esses piratas, constituíram uma provocação suficiente para que se tentasse alguma coisa em represália. E no ano de 1716 uma ótima oportunidade para isso se apresentou, e os comerciantes das índias Ocidentais tiveram todo o cuidado de não deixá-la escapar, fazendo dela o melhor uso que as circunstâncias permitiam.

Cerca de dois anos antes, alguns galeões espanhóis — a Frota da Prata — tinham naufragado no golfo da Flórida, e diversos barcos de Havana ali se encontravam trabalhando, com equipamentos de mergulho, para recuperarem a prata que estava a bordo daqueles galeões.

Os espanhóis já tinham recolhido alguns milhões em moedas de ouro de oito dólares, e levado todas para Havana. Porém agora já estavam com cerca de 350.000 moedas de prata de oito dólares, ali naquele local, e diariamente conseguindo resgatar ainda mais moedas. Foi quando dois [27] navios e três barcaças, com tripulações da Jamaica, Barbados etc., sob o comando do capitão Henry Jennings, velejaram até o golfo, deparando-se com os espanhóis ali no local do naufrágio. O dinheiro a que nos referimos antes tinha sido deixado num armazém na praia, sob a supervisão de dois comissários e de uma guarda de cerca de sessenta soldados.

Para resumir, os bandidos foram diretamente para o local, desembarcando trezentos homens que atacaram a guarda, que se pôs imediatamente em fuga, e se apoderaram do tesouro, levando-o o mais rapidamente possível para a Jamaica.

Infelizmente, no caminho encontraram um navio espanhol, viajando de Porto Bello com destino a Havana, cheio de artigos preciosos como fardos de cochonila, tonéis de índigo e mais sessenta mil moedas de ouro, do que se apoderaram logo e, tendo pilhado todo o navio, deixaram-no ir.

Zarparam para a Jamaica com o seu butim, mas foram seguidos até o porto pelos espanhóis que, tendo-os visto se dirigindo para lá, retornaram até Havana, onde relataram o ocorrido ao governador, o qual imediatamente mandou um navio ao governo da Jamaica para se queixar daquele roubo e reclamar de volta os artigos roubados.

Como aquele fato ocorrera em período de plena paz, e fosse totalmente contrário à Justiça e ao Direito, o governo da Jamaica não pôde tolerar que eles ficassem impunes, e muito menos que recebessem proteção. Por isso, não tiveram outra saída senão arranjarem-se sozinhos. Assim, para piorar ainda mais as coisas, eles voltaram ao mar, mas não sem antes dispor vantajosamente de sua carga e se abastecerem de munição, provisões etc. Então, o desespero fez com que acabassem se tornando piratas, roubando não apenas os espanhóis, mas também os seus próprios conterrâneos, e navios de qualquer nacionalidade em que pudessem pôr as mãos.

Por esse tempo aconteceu que os espanhóis, com três ou quatro pequenas fragatas, caíram sobre os nossos cortadores de pau-campeche nas baías de Campeachy e de Honduras. E, após terem capturado os navios e barcos a seguir mencionados, entregaram três chalupas aos homens que neles se encontravam, para conduzi-los de volta. Mas os homens, desesperados com sua desgraça e depois do contato com os piratas, passaram-se para o lado deles, aumentando assim o seu número. [28]

Sentindo-se agora muito poderosos, aqueles bandidos consultaram-se entre si sobre a necessidade de arranjar algum local para onde se retirar, em que poderiam acomodar todas as suas riquezas, limpar e consertar os navios, arrumando também algum tipo de residência duradoura. Não demoraram muito em fazer a sua escolha, fixando-se na ilha de Providence, a maior das ilhas Bahamas, na latitude de aproximadamente 24 graus Norte, e a leste da Flórida espanhola.

Essa ilha mede aproximadamente quarenta e cinco quilômetros de comprimento e dezoito e meio na sua parte mais larga. O porto é suficientemente grande para abrigar quinhentos barcos, e diante dele fica uma pequena ilha, formando duas enseadas; de ambos os lados uma barragem impede a passagem de qualquer navio de quinhentas toneladas.

As ilhas Bahamas foram possessão inglesa até o ano de 1700, quando os [29] franceses e espanhóis de Petit Guavus as invadiram, capturaram o forte e prenderam o governador na ilha de Providence, pilharam e destruíram a colônia etc., levaram metade dos negros, e o restante da população — que fugiu para a selva retirou-se depois disso para a Carolina.

Em março de 1706, a Câmara dos Lordes, em mensagem à sua última rainha, descreveu como os franceses e espanhóis haviam devastado e saqueado as ilhas Bahamas por duas vezes, durante a guerra, e que ali não estava havendo nenhuma espécie de governo; que se poderia facilmente equipar o porto da ilha de Providence como posição de defesa, e que haveria perigosas consequências se aquelas ilhas caíssem nas mãos do inimigo, pelo que os lordes humildemente imploraram que Sua Majestade empregasse os métodos que achasse mais adequados para manter a posse daquelas ilhas, com o objetivo de garanti-las para a Coroa do Reino, como também para segurança e proveito do comércio na região.

Mas, apesar do ocorrido, nada se fez para cumprir aquela petição garantindo a posse das ilhas Bahamas, até que os piratas ingleses fizeram da ilha de Providence o seu retiro e abrigo. Em seguida, achou-se que era absolutamente necessário desocupar aquela tumultuada colônia. E, após chegarem ao governo informações dos comerciantes sobre as atrocidades que ali se cometiam, e as que fatalmente ainda se iriam cometer, Sua Majestade dignou-se a expedir a seguinte Ordem:

Whitehall, 15 de setembro de 1717

Tendo chegado até Sua Majestade queixas vindas de um grande número de comerciantes, comandantes de navio e outros, como também por parte de vários governadores das ilhas e colônias de Sua Majestade nas índias Ocidentais, de que os piratas cresceram em número a tal ponto que infestam não apenas os mares próximos da Jamaica, mas até os do continente norte da América; e que, a menos que se empreguem certos meios eficazes, todo o comércio da Grã-Bretanha com aquelas regiões ficará não apenas obstruído como em iminente risco de ser perdido. Sua Majestade, após madura deliberação em Conselho, tem a satisfação, em primeiro lugar de ordenar o emprego de uma força adequada para a supressão dos referidos piratas, e esta força deverá ser como se segue: [30](...) Além dessas fragatas, duas outras foram designadas para atenderem ao capitão Rogers, último comandante dos dois navios de Bristol, de nomes Duke e Dutchess, que capturaram o rico navio Acapulco e fizeram uma volta ao redor do mundo. Aquele cavalheiro foi encarregado por Sua Majestade para ser governador da ilha de Providence, e foi investido do poder de empregar quaisquer métodos para aniquilar os piratas. E para que nada lhe faltasse, ele levou consigo a Proclamação de Perdão do Rei, para os que retornassem a seu dever dentro de um determinado tempo. A Proclamação é a seguinte:

Pelo Rei, Proclamação para a supressão dos piratas. 

George R.

Embora nos tenham chegado informações de que diversas pessoas, súditos da Grã-Bretanha, vêm cometendo desde o dia 24 de junho do ano de Nosso Senhor de 1715 diversos atos de pirataria e de roubos em alto-mar, nas índias Ocidentais, ou próximo às nossas colônias, que podem e deverão ocasionar grande prejuízo para os comerciantes da Grã-Bretanha, e de outras nações que comerciam naquelas regiões; e embora tenhamos designado uma força que consideramos capaz de suprimir os referidos atos de pirataria, e com a maior eficácia pôr um fim a estes, pensamos ser apropriado, segundo o parecer do nosso Conselho do Rei, expedir a presente Proclamação Real, por meio da qual prometemos e declaramos que no caso de um desses piratas — ou alguns deles — no dia 5, ou antes, do mês de setembro do ano de 1718 de Nosso Senhor, pretender ou pretenderem se render a algum dos nossos principais secretários de Estado na Grã-Bretanha ou Irlanda, ou a qualquer governador ou vice-governador de qualquer das nossas colônias de além-mar, esse ou esses piratas que se renderem, como já foi dito, obterão o nosso gracioso Perdão dos seus atos de pirataria cometidos antes do dia 5 do próximo mês de janeiro. E por meio da presente, ordenamos estritamente a todos os nossos almirantes, capitães e outros oficiais marítimos, e a todos os governadores e comandantes de quaisquer fortes, castelos ou outros locais em nossas colônias, e a todas as nossas demais autoridades civis e militares, que capturem e prendam os piratas que se recusarem ou [32] que custarem a se render devidamente. E pela presente, declaramos também que no caso de qualquer ou quaisquer pessoas que, no dia 6 de setembro — ou antes — do ano de 1718, venham a descobrir ou a capturar, ou a descobrir ou fazer com que sejam descobertos qualquer ou quaisquer desses piratas que se recusam ou demoram em se render, como foi dito antes, fazendo com que estes compareçam perante a Justiça e sejam condenados pelas referidas ofensas, essa ou essas pessoas, efetuando assim tal descoberta ou captura, ou causando ou provocando essa descoberta ou captura, deverão ter e receber de nossa parte uma Recompensa por isso, ou seja: para todo comandante de qualquer navio ou barco particular, a soma de cem libras; para todo tenente, comandante, contramestre, carpinteiro, atirador de canhão, a soma de quarenta libras; para todo oficial subalterno, a soma de trinta libras; e para todo homem particular, a soma de vinte libras. E se alguma pessoa, ou pessoas, pertencendo ou fazendo parte da tripulação de algum desses navios ou barcos piratas, no dia 6, ou antes, do mês de setembro de 1718, capturarem e entregarem, ou fizerem com que sejam capturados e entregues qualquer ou quaisquer comandantes desses navios ou barcos piratas, de forma que estes venham a comparecer perante a Justiça, e a serem condenados pelas referidas ofensas, tal pessoa ou pessoas receberão como recompensa por isso a soma de duzentas libras para cada comandante capturado. O Lorde Tesoureiro ou os atuais Encarregados do Tesouro têm orientação para pagarem devidamente essas quantias.

Expedido em nossa Corte, em Hampton-Court, no dia 5 de setembro de 1717, no quarto ano de nosso reinado. Deus salve o Rei.

 

Antes que o governador Rogers partisse, a Proclamação foi enviada aos piratas, que fizeram com ela a mesma coisa que Teague fez com o acordo, ou seja: apossaram-se de tudo — do navio e também da proclamação. Em todo caso, mandaram retornar os que andavam circulando pelos mares, e [33] convocaram um conselho geral de guerra. Porém o tumulto e a confusão no decorrer deste foram tais que não se pôde chegar a acordo algum. Para uns, a solução seria fortificarem a ilha, permanecerem nas suas posições e negociarem com o governo, como se constituíssem uma nação de verdade. Outros, que também eram a favor de se fortificar a ilha em nome da segurança, por outro lado não davam muita importância às formalidades, preferindo um perdão generalizado que não os obrigasse a qualquer restituição, retirando-se, com todos os seus bens, para as colônias britânicas mais próximas.

Porém o capitão Jennings, que era o seu comodoro e que sempre exerceu grande influência sobre todos eles, sendo um homem de bom senso, e também bom político — antes de ser assaltado pelo capricho de tornar-se pirata — , resolveu render-se sem mais delongas, aceitando os termos da proclamação, o que desarticulou de tal maneira o Congresso que este terminou precipitadamente, sem se chegar a conclusão alguma. Então Jennings — e com o seu exemplo, mais outros cento e cinquenta homens — dirigiram-se até o governador das Bermudas e obtiveram os seus certificados, embora a maioria deles retornasse depois à pirataria, como cães retornando ao próprio vômito. Os comandantes que se encontravam então na ilha, além do capitão Jennings, acho que eram os seguintes: Benjamin Hornigold, Edward Teach, John Martel, James Fife, Christopher Winter, Nicholas Brown, Paul Williams, Charles Bellamy, Oliver la Bouche, major Penner, Ed. England, Thomas Burgess, Tho. Cocklyn, R. Sample, Charles Vane, e mais dois ou três outros. Hornigold, T. Burgess e La Bouche naufragaram posteriormente. Teach e Penner foram mortos e suas tripulações, presas; James Fife foi assassinado por seus próprios homens; a tripulação de Martel foi aniquilada e ele, abandonado em uma ilha deserta. Cocklyn, Sample e Vane foram enforcados. Winter e Brown se renderam aos espanhóis em Cuba, e England vive hoje em Madagascar.

No mês de maio ou junho de 1718, o capitão Rogers chegou ao local de seu governo, com dois navios de Sua Majestade. Ali encontrou vários dos piratas acima referidos, os quais, à vista das fragatas, renderam-se todos para obterem o perdão, exceto Charles Vane e seus tripulantes, fato que se passou da seguinte maneira.

Já antes fiz referência às duas enseadas que o porto possuía, formadas por uma pequena ilha que ficava diante de sua abertura. Por uma dessas enseadas entraram as duas fragatas, deixando livre a outra, pela qual Vane soltou suas amarras, ateou fogo a um grande barco roubado [34] que mantinha ali e retirou-se intempestivamente, disparando contra os navios enquanto se afastava.

Tão logo instalou-se o capitão Rogers em seu governo, construiu um forte para defendê-lo, guarnecendo-o com todos os homens que conseguiu reunir na ilha. Os ex-piratas, em número de quatrocentos, foram organizados em companhias, e ele concedeu patentes de oficial àqueles em que mais confiava. Em seguida, partiu para fazer comércio com os espanhóis no golfo do México. E foi em uma dessas viagens que ele morreu. O capitão Hornigold, um daqueles famosos piratas, foi lançado contra uns rochedos a grande distância da terra, e pereceu, embora cinco de seus homens conseguissem subir a uma canoa e se salvar.

O capitão Rogers tinha enviado uma chalupa para obter mantimentos, entregando o comando a um certo John Augur, um dos antigos piratas que aceitaram o Ato de Clemência. Durante a viagem, eles cruzaram por duas chalupas, e então John e os seus camaradas, ainda não esquecidos do seu anterior meio de vida, usaram de sua antiga liberdade e as capturaram, roubando o dinheiro e artigos no valor aproximado de quinhentas libras. Depois disso, dirigiram-se para Hispaniola [Haiti], sem saber se o governador admitiria que mantivessem duas atividades comerciais a um só tempo, e dessa forma, decidiram dar adeus às ilhas Bahamas. Mas como a má sorte os pegou, enfrentaram um violento tornado, ficando sem o mastro do barco, e foram arrastados de volta a uma das ilhas desertas das Bahamas, perdendo-se completamente a chalupa. Os homens conseguiram chegar até a praia, e viveram como puderam por um certo tempo na floresta, até que o governador Rogers, ouvindo falar daquela expedição, e aonde eles tinham ido parar, enviou uma chalupa armada para a referida ilha. O comandante desta, com belas palavras e boas promessas, conseguiu que os náufragos subissem a bordo, levando-os todos para Providence. Eram onze homens. Dez foram julgados por um tribunal do almirantado, condenados e enforcados, graças ao testemunho do décimo primeiro, diante de todos os antigos companheiros de roubos. Os criminosos estavam loucos para instigar os antigos piratas perdoados, e recuperá-los das mãos dos oficiais da justiça, dizendo-lhes, de dentro da prisão, que jamais poderiam pensar que dez homens como eles se deixassem amarrar e enforcar como cães, enquanto trezentos de seus leais companheiros e amigos, comprometidos por juramento, tranquilamente assistiam ao espetáculo. Um certo Thomas Morris foi mais longe ainda, acusando-os de fraqueza e de covardia, como se fosse uma desonra eles não se revoltarem e os salvarem da morte [35] ignominiosa que iriam sofrer. Mas foi tudo em vão. O que lhes responderam foi que agora o que eles precisavam fazer era voltar suas mentes para o outro mundo, e se arrependerem sinceramente de todas as maldades que haviam praticado neste. “Sim”, respondeu um deles, “eu me arrependo terrivelmente, me arrependo de não ter praticado mais maldades ainda, e que não tenhamos degolado todos os que nos prenderam, e sinto uma pena enorme que vocês não sejam enforcados como nós.”Ao que um outro comentou: “Eu também.”E um terceiro: “E eu a mesma coisa.” E assim, foram todos eliminados, sem poder fazer mais nenhum discurso final, a não ser um certo Dennis Macarty, que contou aos presentes que uns amigos seus muitas vezes lhe diziam que ele haveria de morrer calçado em seus sapatos, mas que agora ele faria com que eles fossem uns mentirosos, e então chutou os sapatos para longe. E assim, chegaram ao fim as vidas e as aventuras daqueles pobres desgraçados, as quais poderão servir como triste exemplo de que o perdão de pouco serve para os que se deixaram levar por um mau caminho na vida.

Para que não me julguem muito severo quanto ao repúdio que sinto pelo modo como nos tratavam os espanhóis nas índias Ocidentais, mencionarei apenas um ou dois exemplos, procurando ser o mais conciso possível, e em seguida transcreverei algumas cartas originais, do governador da Jamaica e de um oficial de uma das fragatas, aos alcaides de Trinidado, na ilha de Cuba, com as suas respectivas respostas traduzidas para o inglês. Depois, procederei à narrativa daquelas histórias de piratas e seus tripulantes que maior perturbação causaram no mundo dos nossos dias.

Por volta de março de 1722, o capitão Walron, comandante de uma de nossas fragatas — a galera Greyhound — durante uma viagem comercial pelo litoral de Cuba, convidou alguns comerciantes para jantar, com seus atendentes e amigos, os quais subiram a bordo, em número de dezesseis ou dezoito pessoas. E, após as mesuras de praxe, seis ou oito deles sentaram-se à mesa do comandante, na cabine, enquanto os outros permaneciam no convés. Nesse momento, o contramestre soou o apito do jantar para toda a companhia do navio. Imediatamente os tripulantes apanharam as bandejas, receberam suas refeições e desceram ao porão, deixando lá em cima, além dos espanhóis, apenas quatro ou cinco marujos, os quais imediatamente foram mortos, enquanto os alçapões eram fechados sobre os demais. Os que se encontravam na cabine já estavam preparados para aquilo, assim como seus comparsas, pois na mesma hora sacaram suas pistolas e mataram o capitão, o cirurgião e mais um outro [36] convidado, ferindo gravemente o tenente. Este entretanto conseguiu fugir pela janela e salvar-se, utilizando uma escada lateral. Dessa forma, em apenas um instante eles ficaram senhores do navio. Por uma acidental boa sorte, entretanto, antes que pudessem levá-lo embora, ele foi resgatado. Pois o capitão Walron alguns dias antes enviara a Windward, para fazer comércio, uma chalupa levando trinta marujos de sua tripulação, fato este que era de pleno conhecimento dos espanhóis. Assim que a ação destes terminou, eles avistaram a referida chalupa aproximando-se do navio com ventos favoráveis. Imediatamente eles apanharam dez mil libras em espécie, segundo me informaram, abandonaram o navio e se foram na sua embarcação, sem serem molestados.

Aproximadamente na mesma época, uma Guarda dei Costa, de Porto Rico, comandada por um italiano de nome Matthew Luke, capturou quatro embarcações inglesas, matando todo os tripulantes. Porém foi por sua vez capturada, em maio de 1722, pela fragata Lanceston, que a levou para a Jamaica. Ali, excetuando-se sete dos seus homens, todos os demais foram devidamente enforcados. É provável que a fragata não lhes houvesse prestado muita atenção, caso não fossem eles próprios que, por confusão, abordaram o Lanceston pensando tratar-se de algum navio mercante, e que, portanto, conquistariam uma bela presa. Mais tarde, durante as buscas, foi encontrado um cartucho de pólvora fabricado com um pedaço de jornal inglês e que, em minha opinião, pertencia ao brigue Crean. Finalmente, após os devidos exames e serem interrogados, descobriu-se que eles haviam capturado aquele barco e assassinado toda a tripulação. Um dos espanhóis confessou, antes de ser executado, que só ele, com suas próprias mãos, matara vinte ingleses.

 

Jago de la Vega, 20 de Fevereiro. Carta de Sua Excelência Srir. Nicholas Laws, nosso Governador, para os alcaides de Trinidado, em Cuba, datada de 26 de janeiro de 1721

Cavalheiros,

As frequentes depredações, roubos e outros atos de hostilidade metidos contra os súditos de meu Real Senhor, o Rei, por uma turma de bandidos que pretende possuir autorização V. Sas., e que são na realidade protegidos pelo vosso governo, dão motivo a que eu envie o portador desta, [37] capitão Chamberlain, comandante do brigue Happy, de Sua Majestade, para exigir satisfações de V. Sas. por tantos roubos evidentes que recentemente vosso povo tem cometido contra os súditos do Rei nesta ilha. Particularmente, pelos traidores Nicholas Brown e Christopher Winter, a quem V. Sas. concedem proteção. Procedimentos como esses não constituem apenas uma brecha na Lei das Nações, mas devem aparecer ao mundo como de natureza absolutamente extraordinária, quando se vê que os súditos de um príncipe que mantém relações de cortesia e amizade com outro aprovam e encorajam essas vilanias. Confesso que sempre tive a maior paciência, evitando empregar meios violentos para obter uma satisfação, com esperanças no tratado de deposição de armas que tão oportunamente foi firmado entre os nossos respectivos soberanos, e que teria colocado um ponto final nessas desordens. Mas, pelo contrário, descubro agora que o porto de Trinidado é um abrigo para vilões de todos os países. Por isso, acho bom avisar a V. Sas. — e o afirmo em nome de meu Senhor, o Rei — que se no futuro efetivamente eu vier a encontrar algum desses velhacos navegando pelas costas desta ilha, vou ordenar que sejam imediatamente enforcados, sem apelação. E espero e exijo de V. Sas. que façam plena restituição ao capitão Chamberlain de todos os negros que os referidos Brown e Winter recentemente levaram da parte norte desta ilha, como também das chalupas e outros bens que foram capturados e roubados desde a assinatura do tratado de deposição de armas. Espero também que V. Sas. entreguem ao capitão portador os ingleses que se encontram agora confinados, ou que ainda permanecem em Trinidado, e que de agora em diante evitem conceder quaisquer autorizações, ou tolerar que esses notórios bandidos sejam equipados e preparados em vosso porto. Caso contrário, podem V. Sas. ter a certeza de que os que eu vier a encontrar serão qualificados e tratados como piratas. Do que achei apropriado dar-vos conhecimento, e sou &c.

 

Carta do Sr. Joseph Laws, tenente do brigue Happy, navio de Sua majestade, aos Alcaides de Trinidado.

Cavalheiros,

Fui encarregado pelo comodoro Vernon, comandante-em-chefe de todos os navios de Sua Majestade nas índias Ocidentais, de exigir, em nome de nosso senhor, o Rei, [a devolução de] todas as embarcações, com [38] seus bens, &c., e também dos negros tomados da Jamaica, desde a cessação das hostilidades. Igualmente, de todos os ingleses que se encontram detidos, ou que permanecem em vosso porto de Trinidado, especialmente Nicholas Brown e Christopher Winter, ambos os quais são traidores, piratas e inimigos comuns de todas as nações. O referido comodoro também ordenou-me que vos desse conhecimento da sua surpresa ao saber que súditos de um príncipe, que tem relações de cordialidade e amizade com outro, conceda abrigo a tão notórios vilões. Aguardando vossa imediata concordância, sou, cavalheiros,

Vosso humilde servidor, Joseph Laws. Ao largo do rio Trinidado 8 de fevereiro de 1721.

 

Resposta dos Alcaides de Trinidado às cartas do sr. Laws:

Capitão Laws,

Em resposta a vossa carta, a presente pretende dar-vos conhecimento de que nem nesta cidade, nem no porto encontram-se quaisquer negros ou embarcações que tenham sido tomados na vossa ilha de Jamaica, ou naquela costa, desde a cessação das hostilidades. E que os navios apreendidos naquela época o foram porque realizavam um comércio ilegal nesta costa. Quanto aos ingleses fugitivos mencionados, eles se encontram aqui, assim como outros súditos do Rei nosso senhor, tendo-se voluntariamente convertido à nossa fé católica, e recebendo a água do batismo. Mas se eles provarem ser bandidos e não cumprirem com seus deveres, para os quais estão presentemente destinados, serão devidamente castigados segundo as prescrições de nosso Rei, que Deus o preserve. Pedimos que vosso navio recolha sua âncora o mais rápido possível, e se afaste deste porto e destas costas, pois em hipótese alguma será tolerado que este realize comércio ou qualquer outra atividade, pois estamos decididos a não mais permitir estas coisas de ora em diante. Que Deus vos guarde. Beijamos as vossas mãos.

Assinado, Hieronimo de Fuentes, Benette Alfonso del Manzano Trinidado, 8 de fevereiro de 1721. [39]

 

Resposta do sr. Laws à carta dos Alcaides:

Cavalheiros,

Vossa recusa em entregar os súditos do senhor meu Rei é de fato surpreendente pois acontece em tempos de paz. A detenção deles consequentemente é contrária à Lei das Nações. Apesar da vossa frívola pretensão (para a qual o único fundamento é forjar uma desculpa) de impedir-me de realizar um inquérito para chegar à verdade dos fatos que expus em minha carta anterior, devo dizer-vos que minha decisão é de permanecer na costa até realizar minhas represálias. E se por acaso encontrar algum navio pertencente a vosso porto, não irei tratá-lo como súdito da Coroa da Espanha, mas sim como pirata, uma vez que é parte de Vossa religião nesse lugar proteger esses bandidos.

Vosso humilde servidor Joseph Laws. Ao largo do rio Trinidado. 8 de fevereiro de 1721. 

 

Resposta de um dos Alcaides à réplica do sr. Laws:

Capitão Laws,

Podeis ficar certo de que jamais faltarei com os deveres próprios do meu posto. Os prisioneiros que aqui se encontram não estão na prisão, mas sim são mantidos aqui apenas para serem posteriormente enviados ao governador de Havana. Se, como dizeis, vós comandais no mar, eu comando em terra. Se tratardes os espanhóis, que por acaso capturardes, como piratas, farei o mesmo com qualquer um do vosso povo que eu venha a capturar. Usarei de boas maneiras, se assim também fizerdes. Sei também agir como soldado, caso a ocasião se ofereça, pois conto aqui com muita gente para tal propósito. Caso exista alguma outra pretensão de vossa parte, podeis executá-la nesta costa. Que Deus vos guarde. Beijo as vossas mãos.

Assinado, Benette Alfonso del Manzano Trinidado 20 de fevereiro de 1721. [40]

 

As últimas informações que obtivemos das nossas colônias na América, datadas de 9 de junho de 1724, relatam-nos o seguinte: que o capitão Jones, do navio John and Mary encontrou, no dia 5 do referido mês, nas proximidades dos cabos da Virgínia, uma Guarda dei Costa espanhola comandada por um certo Don Benito, que dizia estar autorizado pelo governador de Cuba. Sua tripulação era de sessenta espanhóis, dezoito franceses, dezoito ingleses e um capitão que era tanto inglês quanto espanhol, um tal Richard Holland, que antes pertencera à fragata Suffolk, da qual desertou em Nápoles, asilando-se em um convento. Serviu na frota espanhola sob o almirante Cammock, na guerra do Mediterrâneo. E, após o tratado de deposição de armas com a Espanha, estabeleceu-se com diversos conterrâneos seus (irlandeses) nas índias Ocidentais Espanholas. Essa Guarda dei Costa capturou o navio do capitão Jones, mantendo sua posse do dia 5 até o dia 8, e durante esse tempo ela também tomou o Prudent Hannah, de Boston, cujo comandante era Thomas Mousell, e o Dolphin, de Topsham, cujo comandante era Theodore Bare, ambos carregados e com destino à Virgínia. Enviaram o primeiro destes, com três homens e o imediato sob o comando de um oficial espanhol e de uma tripulação também de espanhóis, no mesmo dia em que foi capturado. O segundo eles levaram consigo, colocando o comandante e toda a tripulação a bordo do navio do capitão Jones. Saquearam este último, apoderando-se de trinta e seis escravos homens, certa quantia de ouro em pó, todas as suas roupas, quatro canhões grandes e pequenas armas, e ainda cerca de quatrocentos galões de rum, além dos mantimentos e estoques, num total de mil e quinhentas libras esterlinas. [41]

História - Inglaterra
4/12/2019 2:10:59 PM | Por Sigmund Freud
Texto indicado para estudantes de Psicologia
Tipos de desencadeamento da neurose (1912)

Nas páginas que se seguem, descreverei, com bases em impressões alcançadas empiricamente, as mudanças que as condições têm de experimentar a fim de ocasionar a irrupção de uma doença neurótica numa pessoa com disposição a essa. Tratarei assim da questão dos fatores precipitantes das enfermidades e pouco terei a dizer sobre suas formas. O presente exame das causas precipitantes diferirá de outros pelo fato de que as mudanças a serem enumeradas referem-se exclusivamente à libido do indivíduo, pois a psicanálise nos ensinou que são as vicissitudes da libido que decidem em favor da saúde ou da moléstia nervosa. Neste sentido, tampouco se gastarão palavras sobre o conceito de disposição. Foi precisamente a pesquisa psicanalítica que nos capacitou a demonstrar que a disposição neurótica reside na história do desenvolvimento da libido, e a remontar os fatores operantes nesse desenvolvimento a variedade inatas de constituição sexual e a influências do mundo externo experimentadas na primeira infância.

(a) A causa precipitante mais óbvia, mais facilmente descobrível e mais inteligível de um desencadeamento da neurose deve ser vista no fator externo que pode ser descrito, em termos gerais, como frustração. O indivíduo foi sadio enquanto sua necessidade de amor foi satisfeita por um objeto real no mundo externo; torna-se neurótico assim que esse objeto é afastado dele, sem que um substituto ocupe seu lugar. Aqui, a felicidade coincide com a saúde e a infelicidade, com a neurose. É mais fácil para o destino que para o médico ocasionar uma cura, pois aquele pode oferecer ao paciente um substituto para a possibilidade de satisfação que perdeu.

Assim, para este tipo, ao qual indubitavelmente pertence a maioria dos seres humanos em geral, a possibilidade de cair enfermo surge apenas quando há abstinência. E daí se pode avaliar que papel importante na causação das neuroses pode ser desempenhado pela limitação imposta pela civilização ao campo das satisfações acessíveis. A frustração tem efeito patogênico por represar a libido e submeter assim o indivíduo a um teste de quanto tempo ele pode tolerar este aumento de tensão psíquica e que métodos adotará para lidar com ela. Há apenas duas possibilidades de permanecer sadio quando existe uma frustração persistente de satisfação no mundo real. A primeira é transformar a tensão psíquica em energia ativa, que permanece voltada para o mundo externo e acaba por arrancar dele uma satisfação real da libido. A segunda é renunciar à satisfação libidinal, sublimar a libido represada e voltá-la para a consecução de objetivos que não são mais eróticos e fogem à frustração.O fato de estas duas possibilidades serem realizadas nas vidas dos homens prova que a infelicidade não coincide com a neurose e que a frustração não decide sozinha se sua vítima permanece sadia ou tomba enferma. O efeito imediato da frustração reside em ela colocar em jogo os fatores disposicionais que até então haviam sido inoperantes.

Onde estes se acham presentes e são desenvolvidos de modo suficientemente intenso, há o risco de a libido tornar-se ‘introvertida’. Ela vira as costas à realidade, que, devido à frustração persistente, perdeu o valor para o indivíduo, e volta-se para a vida da fantasia, na qual cria novas estruturas de desejo e revive os traços de outras anteriores, esquecidas. Em consequência da estreita vinculação existente entre a atividade da fantasia e o material presente em todos, que é infantil e reprimido e se tornou inconsciente, bem como graças à excepcional posição desfrutada pela vida de fantasia com referência ao teste de realidade, a libido pode, daí por diante, mover-se num curso retroativo; pode seguir o caminho da regressão ao longo de linhas infantis e lutar por objetivos que se coadunem com elas. Se estes esforços, que são incompatíveis com a individualidade atual do paciente, adquirem intensidade suficiente, tem de resultar um conflito entre eles e a outra parte da personalidade, que manteve sua relação com a realidade. O conflito é solucionado pela formação de sintomas e seguido pelo desencadeamento da doença manifesta. O fato de todo o processo ter-se originado da frustração no mundo real reflete-se no resultado: os sintomas, nos quais o terreno da realidade é mais uma vez alcançado, representam satisfações substitutas.

(b) O segundo tipo de causas precipitante da enfermidadenão é, de maneira alguma, tão evidente quanto o primeiro e, em verdade, só foi possível descobri-lo através de minuciosas investigações analíticas que se seguiram à teoria dos complexos da escola de Zurique. Aqui o indivíduo não cai enfermo em resultado de uma mudança no mundo externo, que substituiu a satisfação pela frustração, mas em resultado de um esforço interno para conseguir a satisfação que lhe é acessível na realidade. Cai enfermo por causa de sua tentativa de adaptar-se à realidade e de atender às exigências da realidade - tentativa no curso da qual se defronta com dificuldades internas insuperáveis.

É aconselhável traçar uma distinção nítida entre os dois tipos de desencadeamento de enfermidade, uma distinção mais nítida do que a observação via de regra permite. No primeiro tipo, o proeminente é uma mudança no mundo externo; no segundo, a ênfase recai sobre uma mudança interna. No primeiro, o indivíduo cai doente a partir de uma experiência; no segundo, a partir de um processo de desenvolvimento. No primeiro caso, defronta-se com a tarefa de renunciar à satisfação e cai enfermo devido à sua incapacidade de resistência; no segundo, sua tarefa é trocar um tipo de satisfação por outro, e sucumbe devido à sua inflexibilidade. No segundo caso, o conflito entre o esforço do indivíduo para permanecer tal como é e o esforço para modificar-se, a fim de atender a novos intuitos e novas exigências da realidade, acha-se presente desde o início. No primeiro caso, o conflito só surge após a libido represada haver escolhido outras, e incompatíveis, possibilidades de satisfação. O papel desempenhado pelo conflito e pela fixação anterior da libido é incomparavelmente mais óbvio no segundo tipo que no primeiro, onde tais fixações imprestáveis podem talvez surgir apenas como resultado da frustração externa.

Um jovem que até então tenha satisfeito sua libido por meio de fantasias que findem pela masturbação, e que agora busca substituir um regime que se aproxima do auto-erotismo pela escolha de um objeto real - ou uma jovem que dedicou toda sua afeição ao pai ou ao irmão e que deve agora, a bem de um homem que a está cortejando, permitir que seus desejos libidinais incestuosos até então inconscientes se tornem conscientes -, ou uma mulher casada, que gostaria de renunciar a suas inclinações polígamas e fantasias de prostituição, de modo a tornar-se uma consorte fiel ao marido e perfeita mãe para o filho: todos estes caem enfermos devido aos mais louváveis esforços, se as fixações anteriores de suas libidos são suficientemente poderosas para resistir a um deslocamento; e este ponto será decidido, uma vez mais, pelos fatores da disposição, da constituição e da experiência infantil. Todos eles, poder-se-ia dizer, defrontam-se com a sorte da arvorezinha do conto de fadas de Grimm, que queria ter folhas diferentes. Do ponto de vista higiênico - que, certamente, não é o único a ser levado em consideração - só se poderia desejar para eles que continuassem a ser tão subdesenvolvidos, inferiores e inúteis como o eram, antes de caírem enfermos. A mudança pela qual os pacientes se esforçam, mas realizam apenas imperfeitamente ou de modo algum, tem invariavelmente o valor de um passo à frente do ponto de vista da vida real. Mas é diferente se aplicarmos padrões éticos; vemos as pessoas caírem enfermas tão frequentemente quando põem de lado um ideal como quando buscam atingi-lo.

Apesar das diferenças muito claras entre os dois tipos de desencadeamento de enfermidade que descrevemos, eles, não obstante coincidem em seus pontos essenciais e podem, sem dificuldade, ser reunidos numa unidade. Cair doente devido à frustração também pode ser encarado como uma incapacidade de adaptação à realidade - isto é, no caso específico em que a realidade frustra a satisfação da libido. Cair enfermo sob as condições do segundo tipo conduz diretamente a um caso especial de frustração. É verdade que a realidade não frustra aqui todos os tipos de satisfação, mas frustra aquele que o indivíduo declara ser o único possível. Tampouco a frustração provém imediatamente do mundo externo, mas, em primeiro lugar, de certas tendências no ego do indivíduo. Não obstante, ela permanece sendo o fator comum e o mais abrangente. Em consequência do conflito que se estabelece imediatamente no segundo tipo, ambas as espécies de satisfação - tanto a habitual quanto a que se visa - são igualmente inibidas; dá-se um represamento da libido, com todas as suas consequências, tal como no primeiro caso. Os eventos psíquicos que conduzem à formação de sintomas são, se é que há alguma diferença, mais fáceis de acompanhar no segundo tipo que no primeiro; pois naquele as fixações patogênicas da libido não precisam ser recentemente estabelecidas, mas já se encontraram em vigor enquanto o indivíduo era sadio. Certa quantidade de introversão da libido em geral já se acha presente; e poupa-se parte da regressão do indivíduo ao estádio infantil, devido ao fato de seu desenvolvimento não ter ainda completado seu curso.

(c) O tipo seguinte, que descreverei como cair doente devido a uma inibição no desenvolvimento, parece uma exageração do segundo, ou seja, cair doente devido às exigências da realidade. Não existe razão teórica para distingui-lo, mas apenas prática, pois aqueles em que nos achamos interessados aqui são pessoas que caem enfermas logo que passam da idade irresponsável da infância e que, assim, nunca atingiram uma fase de saúde - isto é, uma fase de capacidade de realização e fruição que é geralmente ilimitada. A característica essencial do processo disposicional é, nestes casos, muito simples. A libido nunca abandonou as fixações infantis; as exigências da realidade não são subitamente feitas a uma pessoa integral ou parcialmente madura, mas originam-se do próprio fato de ficar mais velho, visto ser óbvio que elas constantemente se alteram com a idade crescente do indivíduo. Assim, o conflito cai para o segundo plano, em comparação com a insuficiência. Mas também aqui toda nossa outra experiência leva-nos a postular um esforço de superação das fixações da infância; pois, de outra maneira, o resultado do processo nunca poderia ser a neurose, mas apenas um infantilismo estacionário.

(d) Tal como o terceiro tipo apresentou-nos a determinante disposicional quase em isolamento, também o quarto tipo, que agora se segue, chama nossa atenção para outro fator, que entra em consideração em todo caso isolado e facilmente poderia, por essa própria razão, ser negligenciado num exame teórico. Vemos cair enfermas pessoas que até então haviam sido sadias, que não se defrontaram com nenhuma experiência nova e cuja relação com o mundo externo não sofreu alteração, de maneira que o desencadeamento de sua moléstia inevitavelmente dá a impressão de espontaneidade. Uma consideração mais chegada desses casos, contudo, demonstra-nos que, não obstante, uma mudança realizou-se neles, mudança cuja importância temos de avaliar em alto grau como causa de enfermidade. Em resultado de haverem atingido um período específico da vida, e em conformidade com processos biológicos normais, a quantidade de libido em sua economia mental experimentou um aumento que em si é suficiente para perturbar o equilíbrio da saúde e estabelecer as condições necessárias para uma neurose. É notório que aumentos mais ou menos súbitos de libido deste tipo acham-se habitualmente associados à puberdade e à menopausa - quando as mulheres chegam a determinada idade; além disso, em algumas pessoas, eles se podem manifestar em periodicidades que ainda são desconhecidas. Aqui, o represamento da libido é o fator primário; ele se torna patogênico em consequência de uma frustração relativa procedente do mundo externo, que ainda teria concedido satisfação a uma reivindicação menor por parte da libido. Esta, insatisfeita e represada, pode mais uma vez abrir caminhos para a regressão e despertar os mesmos conflitos que demonstramos no caso da frustração externa absoluta. Desse modo, lembramo-nos de que o fator qualitativo não deve ser negligenciado em qualquer consideração das causas precipitantes da doença. Todos os outros fatores - frustração, fixação, inibição de desenvolvimento - permanecem ineficientes, a menos que afetem determinada quantidade de libido e ocasionem um razoável represamento desta. É verdade que não podemos medir esta quantidade de libido que nos parece indispensável para um efeito patogênico; só podemos postulá-la após a moléstia resultante haver começado. Só há uma direção na qual podemos determiná-la mais precisamente. Podemos supor que não se trata de uma quantidade absoluta, mas da relação entre a cota de libido em operação e a quantidade de libido com que o ego individual é capaz de lidar - isto é, de manter sob tensão, sublimar ou empregar diretamente. Por este motivo, um aumento relativo na quantidade de libido pode ter os mesmos efeitos que um aumento absoluto. Um debilitamento do ego, devido a doença orgânica ou a alguma exigência especial à sua energia, poderá causar o surgimento de neuroses que de outra maneira permaneceriam latentes, apesar de qualquer disposição que pudesse se achar presente.

A importância na causação de doenças que deve ser atribuída à quantidade de libido acha-se em concordância satisfatória com duas teses principais da teoria das neuroses a que a psicanálise nos levou; em primeiro lugar, a tese de que as neuroses derivam do conflito entre o ego e a libido e, em segundo, a descoberta de que não existe distinção qualitativa entre as determinantes da saúde e as da neurose, e que, pelo contrário, as pessoas sadias têm de avir-se com as mesmas tarefas de dominação de sua libido - simplesmente, saíram-se melhor nelas.

Resta dizer algumas palavras sobre a relação destes tipos com os fatos da observação. Se passar em revista o conjunto de pacientes em cuja análise acho-me presentemente empenhado, tenho de registrar que nem um só deles constitui exemplo puro de qualquer dos quatro tipos de desencadeamento. Em cada um, antes, encontro uma parte de frustração operando lado a lado com uma parte de incapacidade a adaptar-se às exigências da realidade; a inibição no desenvolvimento, que coincide, naturalmente, com a inflexibilidade das fixações, tem de ser levada em contaem todos eles e, como já disse, a importância da quantidade de libido nunca deve ser desprezada. Descubro, em verdade, que em diversos desses pacientes a doença apareceu em ondas sucessivas, entre as quais houve intervalos sadios, e que cada uma dessas ondas foi remontável a um tipo diferente de causa precipitante. Dessa maneira, a formulação desses quatro tipos não pode reivindicar qualquer valor teórico elevado; eles são simplesmente modos diferentes de estabelecer uma constelação patogênica específica na economia mental - a saber, o represamento da libido, que o ego não pode desviar sem danos com os meios à sua disposição. Mas esta situação em si apenas se torna patogênica em resultado de um fator quantitativo; ela não chega como novidade à vida mental e não é criada pelo impacto daquilo que se denomina ‘causa da doença’.

Determinada importância prática pode ser prontamente concedida a estes tipos de desencadeamento. Na verdade, devem ser encontrados em sua forma pura em casos individuais; não teríamos observado o terceiro e o quarto tipos se eles não houvessem, em certos indivíduos, constituído as únicas causas precipitantes da enfermidade. O primeiro tipo expõe-nos a influência extraordinariamente poderosa do mundo externo, e o segundo, a influência não menos importante - e que se opõe à primeira - da individualidade peculiar do sujeito. A patologia não poderia fazer justiça ao problema dos fatores precipitantes nas neuroses enquanto estivesse simplesmente preocupada em decidir se estas afecções eram de natureza ‘endógena’ ou ‘exógena’. Era obrigada a enfrentar toda observação que apontasse para a importância da abstinência (no sentido mais alto da palavra) como causa precipitante, com a objeção de que outras pessoas toleram as mesmas experiências sem caírem enfermas. Se, contudo, buscasse enfatizar a individualidade peculiar do sujeito como sendo o fator decisivo essencial entre a doença e a saúde, estaria obrigada a tolerar a ressalva de que pessoas que possuem esta peculiaridade podem permanecer sadias indefinidamente, enquanto são capazes de mantê-la. A psicanálise alertou-nos de que devemos abandonar o contraste infrutífero entre fatores externos e internos, entre experiência e constituição, e ensinou-nos que invariavelmente encontraremos a causa do desencadeamento da enfermidade neurótica numa situação psíquica específica que pode ser ocasionada de várias maneiras. 

Psicologia - Psicanálise
4/10/2019 5:41:36 PM | Por Marco Aurélio Antonino Augusto
Livre
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro III

1. Não deves considerar apenas isso: que a cada dia se gasta a vida e nos sobra uma parte menor dela. Mas deves refletir também que, se uma pessoa prolonga sua existência, não está claro se sua inteligência será igualmente capaz, mais a frente, para a compreensão das coisas e da teoria que tende ao conhecimento das coisas divinas e humanas. Porque, no caso dessa pessoa começar a caducar, a respiração, a nutrição, a imaginação, os instintos e todas as demais funções semelhantes não lhe faltarão. No entanto, a faculdade de dispor de si mesmo, de calibrar com exatidão o número dos deveres, de analisar as aparências, de deter-se a refletir sobre se já chegou o momento de abandonar essa vida e quantas necessidades de características semelhantes precisarem um exercício exaustivo da razão, tudo isso se extinguirá antes. Convém, pois, apressar-te não somente porque a cada instante estamos mais perto da morte, mas também porque cessa com antecedência a compreensão das coisas e a capacidade de nos acomodarmos a elas.

2. Convém, também, observar que inclusive as mudanças das coisas naturais têm algum encanto e atrativo. Por exemplo, o pão, ao ser assado, abre-se em certas partes; essas aberturas que se formam e que, de certo modo, são contrárias à promessa da arte do padeiro, são adequadas, e excitam singularmente o apetite. Assim também são os figos, que quando estão muito maduros, entreabrem-se. Assim, também, as azeitonas, que ficam maduras nas árvores, e sua mesma proximidade à podridão acrescenta ao fruto uma beleza singular. Igualmente as espigas que se inclinam para baixo, o pelo do leão e a espuma que brota do focinho dos javalis e muitas outras coisas, examinadas em particular, estão longe de serem belas. Entretanto, ao ser consequência de certos processos naturais, apresentam um aspecto belo e são atrativas. De maneira que, se uma pessoa tem sensibilidade e inteligência suficientemente profunda para captar o que acontece no conjunto, quase nada lhe parecerá, inclusive entre as coisas que acontecem por efeitos secundários, não conter algum encanto singular. E essa pessoa verá as goelas ameaçadoras das feras com o mesmo agrado que todas as suas reproduções realizadas por pintores e escultores. Inclusive, poderá ver com seus sagazes olhos certa plenitude e maturidade na anciã e no ancião e, também, nas crianças, seu amável encanto. Muitas coisas semelhantes não se encontrarão ao alcance de qualquer um, mas, exclusivamente, para o que de verdade esteja familiarizado com a natureza e suas obras.

3. Hipocrates, depois de ter curado muitos enfermos, adoeceu também e morreu. Os caldeus predisseram a morte de muitos, e também o destino os alcançou. Alexandre, Pompeu e Caio César, depois de terem arrasado, tantas vezes, até os cimentos de cidades inteiras e de terem destruído, em ordem de combate, numerosas miríades de cavaleiros e infantes, também eles acabaram por perder a vida. Heráclito, depois de ter feito pesquisas sobre a conflagração do mundo, acabou hidrópico[1]. coberto de excrementos. A Demócrito, mataram vermes. Vermes também, mas diferentes, acabaram com Sócrates. O que isso significa? Já eu embarcaste, atravessaste mares, atracaste: desembarca! Se for para entrar em outra vida, tampouco ali deverá estar vazia de deuses, assim como aqui não é. Mas se for para encontrar-te na insensibilidade, deixarás de suportar fadigas e prazeres e de estar a serviço de uma envoltura quanto pior e quanto mais superior for a parte subordinada. Esta é inteligência e divindade. Aquela, terra e sangue mesclada com pó.

4. Não consumas a parte da vida que te resta fazendo conjecturas sobre outras pessoas, a não ser que teu objetivo aponte para o bem comum; porque certamente te privas de outra tarefa. Ao querer saber, ao imaginar o que faz fulano e por que, e o que pensa e o que trama e tantas coisas semelhantes que provocam teu raciocínio, tu te afastas da observação do teu guia interior. Convém, consequentemente, que, no encadear das tuas ideias, evites admitir o que é fruto do azar e supérfluo, mas muito mais o inútil e pernicioso. Deves também acostumar-te a ter unicamente aquelas ideias sobre as quais, se te perguntassem de súbito “em que pensas agora?”, com franqueza pudesses responder no mesmo instante “nisso e naquilo”, de maneira que no mesmo instante se manifestasse que tudo em ti é simples, benévolo e próprio de um ser isento de toda cobiça, inveja, receio ou qualquer outra paixão, da qual pudesses envergonhar-te ao reconhecer que a possui em teu pensamento. Porque o homem com essas características, que já não demora em situar-se entre os melhores, converte-se em sacerdote e servo dos deuses, posto ao serviço também da divindade que habita seu interior; tudo que o imuniza contra os prazeres, o faz invulnerável a toda dor, intocável a todo excesso, insensível a toda maldade, atleta da mais excelsa luta, luta que se entrava para não ser abatido por nenhuma paixão, impregnado a fundo de justiça, apegado, com toda a sua alma, aos acontecimentos e a tudo o que lhe tenha acontecido. E, raramente, a não ser por uma grande necessidade e tendo em vista o bem comum, cogita o que a outra pessoa diz, faz ou pensa. Colocará unicamente em prática aquelas coisas que lhe correspondem, e pensa sem cessar no que lhe pertence, o que foi alinhado ao conjunto. Enquanto, por um lado, cumpre o seu dever, por outro, está convencido de que é bom. Porque o destino designado a cada um está envolvido no conjunto e ao mesmo tempo o envolve. Tem também presente que todos os seres racionais têm parentesco e que preocupar-se com todos os homens está de acordo com a natureza humana. Mas não deves considerar a opinião de todos, mas somente a opinião daqueles que vivem conforme a natureza. E, em relação aos que não vivem assim, prossegue recordando até o fim como são em casa e fora dela, pela noite e durante o dia, e com que classe de gente convivem. Consequentemente, não considera o elogio de tais homens que nem consigo mesmos estão satisfeitos.

5. Não ajas contra tua vontade, nem de maneira insociável, nem sem reflexão, nem arrastado em sentidos opostos. Não trates de mascarar teu pensamento. Nem sejas demasiadamente eloquente, nem multifacetado. Mais ainda, sê o deus que em ti habita, protetor e guia de um homem venerável, cidadão, romano e chefe que a si mesmo designou seu posto, como um homem que aguarda o chamado para deixar a vida, bem desprovido de ataduras, sem ter necessidade de juramento nem tampouco de pessoa alguma na qualidade de testemunha. Habitam em ti a serenidade, a ausência de necessidade de ajuda externa e da tranquilidade que outros procuram. Convém, consequentemente, manter-se reto antes que retificado.

 6. Se no percurso da vida humana encontras um bem superior à justiça, à verdade, à moderação, à valentia e, em suma, a tua inteligência que se basta a si mesma, naquelas coisas nas quais te facilita agir de acordo com a reta razão, e de acordo com o destino das coisas repartidas sem seleção prévia; se percebes, digo, um bem de maior valor que esse, dirige-te a ele com toda a alma e desfruta do bem supremo que descobriste. Mas se nada melhor aparece que a própria divindade que em ti habita, que o haver submetido a seu domínio os instintos particulares, que vigia as ideias e que, como dizia Sócrates, tenha se desapegado das paixões sensuais, que tenha se submetido à autoridade dos deuses e que, preferencialmente, se preocupa com os homens; se encontras todo o restante como menor e vil, não dá lugar a nenhuma outra coisa, porque uma vez arrastado e inclinado a ela, já não serás capaz de estimar preferencialmente e de contínuo aquele bem que te é próprio e te pertence. Porque não é lícito opor ao bem da razão e da convivência outro bem de distinto gênero, como, por exemplo, o elogio da multidão, dos cargos públicos, da riqueza ou do gozo de prazeres. Todas essas coisas, ainda que pareçam momentaneamente harmonizar com nossa natureza, prontamente se impõem e nos desviam. Portanto, reitero: escolha simples e livremente o melhor e persevere nisso. “Mas o melhor é o conveniente”: se assim é para ti, tanto quanto seja racional, observa-o. Mas se assim é para a parte animal, manifesta-o e conserva teu juízo sem orgulho. Trata somente de fazer teu exame de modo seguro.

7. Nunca estimes como útil para ti o que um dia te forçará a transgredir tua fé, a renunciar ao pudor, a odiar alguém, a mostrar-te receoso, a maldizer, a fingir, a desejar algo que precisa de paredes e cortinas. Porque a pessoa que prefere, diante de tudo, sua própria razão, sua divindade e os ritos do culto devido à excelência desta, não se presta a espetáculos, não se lamenta, não precisará de solidão e nem de aglomerações de pessoas. E o que é mais importante: viverá sem perseguir nem fugir. Tanto se for maior o tempo que viverá o corpo unido à alma, quanto se for menor, não lhe importa em absoluto, porque ainda no caso de precisar se desprender dele, irá tão resolutamente como se fosse empreender qualquer outra das tarefas que podem ser executadas com discrição e decoro; tratando de evitar, durante toda a vida, somente isso: que seu pensamento se comporte de maneira imprópria de um ser dotado de inteligência e sociável.

8. No pensamento do homem que se disciplinou e se purificou profundamente, nada purulento, nem manchado, nem mal cicatrizado poderias encontrar. E o destino não arrebata sua vida incompleta, como se poderia afirmar do ator que se retirasse da cena antes de ter finalizado seu papel e concluído a obra. E mais, nada escravo há nele, nenhuma afetação, nada acrescentado, nem dissociado, nada submetido a redenção de contas nem necessitado de esconderijo.

9. Venera a faculdade intelectual. Nela radica tudo, para que não se encontre jamais em teu guia interior uma opinião inconsequente com a natureza e com a disposição do ser racional. Essa faculdade garante a ausência de precipitação, a familiaridade com os homens e a conformidade com os deuses.

10. Abandona, pois, todo o restante e conserve somente uns poucos preceitos. E, além disso, lembra que cada um vive exclusivamente o presente, o instante fugaz. O restante, ou se viveu ou é incerto. Insignificante é, portanto, a vida de cada um, e insignificante também o cantinho da terra onde vives. Pequena é assim a fama póstuma, inclusive a mais prolongada, e esta se dá por meio de uma sucessão de homenzinhos que logo morrerão, que nem sequer conhecem a si mesmos, nem tampouco ao que morreu há tempos.

11. Aos conselhos mencionados, acrescenta ainda um: delimitar ou descrever a imagem que sobrevêm, de maneira que se possa vê-la tal qual é em essência, nua, totalmente inteira através de todos os seus aspectos, e possa designar-se com seu nome preciso e com os nomes daqueles elementos que a constituíram e nos quais se desintegrará. Porque nada é tão capaz de engrandecer o ânimo, com a possibilidade de comprovar, com método e veracidade, cada um dos objetos que se apresentam na vida, e vê-los sempre de tal modo que possa, então, compreender-se em que ordem se encaixa, qual a sua utilidade, que valor tem em relação ao todo, e qual valor tem o cidadão da cidade mais excelsa, da qual as demais cidades são como casas. O que é, e de que elementos está composto e quanto tempo é natural que perdure esse objeto que provoca agora em mim essa imagem, e que virtude preciso em relação a ele, por exemplo: mansidão, coragem, sinceridade, fidelidade, simplicidade, auto-suficiência etc. Por essa razão, deves dizer em relação a cada uma: “Isso procede de Deus” ou “Aquilo se dá segundo o encadeamento dos fatos, segundo a trama compacta, segundo uma causalidade”. Isso procede de um ser da minha raça, de um parente, de um colega que, no entanto, ignora o que está de acordo com a natureza. Mas eu não o ignoro. Por essa razão me relaciono com ele, de acordo com a lei natural própria da comunidade, com benevolência e justiça. Com tudo, em relação às coisas de menos importância, dou o merecido valor.

12. Se executares a tarefa presente seguindo a reta razão, diligentemente, com firmeza, com benevolência e sem nenhuma preocupação alheia, antes, vele pela pureza de teu deus, como se já fosse preciso restituí-lo. E, além disso, se nada esperas nem evitas, mas te conformas com a atividade presente conforme a natureza e com a verdade heróica em tudo o que digas e comentes, viverás feliz. E ninguém será capaz de te impedir.

13. Do mesmo modo que os médicos sempre têm à mão seus instrumentos para as emergências, assim também, tem tu à mão os princípios fundamentais para conhecer as coisas divinas e as humanas, e assim realizar tudo, inclusive a ação mais trivial, recordando a relação íntima e mútua das coisas umas com as outras. Pois não terá final feliz nenhuma atividade humana sem relacioná-la, ao mesmo tempo, com as atividades divinas, nem tampouco o inverso.

14. Não divagues mais, porque nem lerás tuas próprias memórias, nem tampouco os feitos dos romanos antigos e gregos, nem as seleções de escritos que reservavas para a tua velhice. Apressa-te, pois, ao fim, e renuncie às vãs esperanças e acode em tua própria ajuda, se é que algo de ti mesmo te importa, enquanto te resta essa possibilidade.

15. Desconhecem-se os conceitos corretos dos termos: roubar, semear, comprar, viver em paz, ver o que se deve fazer. Esses conceitos não se consegue com os olhos, mas com uma visão diferente.

16. Corpo, alma, inteligência. São próprias do corpo, as sensações; da alma, os instintos; da inteligência, os princípios. Receber impressões por meio da imagem é próprio também dos animais. Ser movido como um fantoche pelos instintos corresponde também às feras, aos andróginos, aos Falaris[2]e aos Neros. Mas ter a inteligência como guia em relação aos deveres aparentes pertence também aos que não crêem nos deuses, aos que abandonam sua pátria e aos que agem a seu prazer, uma vez que se fecharam as portas. Portanto, se o restante é comum aos seres mencionados, resta, como peculiar do homem bom, amar e abraçar o que lhe sobrevêm e se entrelaça com ele, e o não confundir nem perturbar jamais a Deus, que tem a morada dentro de seu peito com múltiplas imagens, mas antes, velar para que se conserve propício, submisso, disciplinadamente a Ele, sem mencionar uma palavra contrária à verdade, sem fazer nada contrário à justiça. E se todos os homens desconfiam desse homem bom, de que vive com simplicidade, modéstia e bom humor, nem por isso ele se aborrece com ninguém, nem se desvia do caminho traçado que o leva ao fim de sua vida, objetivo ao qual deve encaminhar-se, puro, tranquilo, livre, sem violências e em harmonia com seu próprio destino.

Filosofia - Estoicismo
4/7/2019 11:17:52 AM | Por Paul Gendrop
Livre
O despertar da Civilização Maia Clássica

Existem poucos exemplos na historia da humanidade de uma civilização surgida dentro de um meio natural tão pouco propicio como Peten (onde atualmente, alias, não vivem mais que uns poucos índios Lacandons, sem contar as turmas de chicleros que extraem da sapota o látex destinado a fabricação da goma de mascar). Tendo um subsolo essencialmente calcário, revestido de uma fina camada de humo, o relevo enrugado é frequentemente tortuoso apresenta aqui e ali bajos ou pântanos sazonais, aguadas ou pontos de agua frequentemente remanejados pelo homem, uns raros lagos ou lagunas e um numero ainda menor de cursos de agua. Retalhada por savanas que, segundo certos autores, foram mais abundantes nos primórdios de nossa era, estende-se a mata densa, composta de espécies muito diversas, compreendendo um sub-bosque cerrado de uma altura media de três metros, seguido de uma floresta de arvores cuja altura varia entre 30 e 50m, onde dominam a sapota, o acaju, o figo selvagem, o ramón ou arvore da fruta-pão, o copal, do qual se extrai a resina que constitui o incenso mesoamericano... enfim, um universo vegetal animado pelos sons de macacos e bandos de pássaros tropicais e atravessado pelo cervo, pelo tapir, pelo pecari (porco selvagem) e o jaguar. No calor úmido do sub-bosque, vive um pequeno mundo inquieto de insetos, repteis e anfíbios. Some-se a isso a escassez de recursos naturais, assim como a penúria total deste produto necessário a vida que é o sal, trazido de muito longe, junto com outras tantas materias-prima, e eis o cenário dentro do qual um povo voluntarioso estava destinado não somente a sobreviver ao longo de muitos séculos, mas também a moldar uma dessas conquistas coletivas do espirito humano que se chama civilização.

Não nos esqueçamos, além disso, de que os Maias, da mesma forma que os demais povos da Mesoamerica, não dispunham senão de uma tecnologia bastante limitada, sob muitos aspectos exatamente comparável ao estagio dito "neolítico", não conhecendo o uso da roda nem do torno, e não dispondo de animal algum de tração. Desconheciam o trabalho em metais, e assim permaneceram ate o final do período clássico. Tudo isso, porém, em nossa opinião, não torna senão mais admiráveis as suas conquistas em outros domínios, visto que - por um desses prodígios da inteligência humana, e superando condições muito adversas, tanto naturais como inerentes as suas próprias limitações tecnológicas - os Maias deveriam revelar-se como um dos povos mais bem dotados para a astronomia, como também para certos ramos da matemática, sem contar suas aptidões artísticas.

Desde os primórdios da fase pré-clássica recente (800-600 a.e.c.), encontram-se traços de ocupação humana - e de cerâmica - em Peten, a começar por sítios como o Altar de Sacrifícios e Seibal (sobre as margens do rio de la Pasión), ou Barton Ramie, no território de Belize, mais a leste. Nos anos 600, Tikal é, por sua vez, povoado, como atestam os restos de cerâmica dessa época, assim como objetos em obsidiana e quartzite, que já nos falam de uma rede de trocas comerciais. A escolha dessa localização em pleno centro de um oceano verde de vegetação, a uns 30 quilômetros do lago Flores, pode-se explicar então, parcialmente, tanto pela posição ligeiramente mais elevada em relação aos bajos circundantes como também pela importância dos estratos de sílex, que farão de Tikal um dos principais centros regionais na distribuição dessa matéria-prima.

Só em torno do ano 200 a.e.c. - quando, na área meridional, Izapa e Kaminaljuyu se encontram no ponto culminante de sua ascensão - é que Tikal parece dispor, enfim, de suficiente vitalidade para se lançar por sua vez ao cerimonialismo monumental, iniciando um extenso processo de remanejamento e ampliação de seu centro cerimonial, processo esse que, desenrolando-se de forma ininterrupta durante um período de dez a onze séculos, a transformará na maior cidade do mundo clássico maia. Trata-se, porém, de uma evolução sobretudo arquitetônica, a escultura monumental não fazendo sua aparição em Tikal senão um milênio mais tarde, de onde o costume se expandira em seguida para o restante das Terras Baixas. É sobre essa arquitetura, pois, que por enquanto concentraremos nossos interesses, analisando a metamorfose de um conjunto cerimonial dos mais significativos de Tikal: a Acrópole do Norte, dando para a Grande Praia central, e que apos ter sido escavada ate a rocha nos apresenta hoje em dia a sequência mais explicita e impressionante dessa longa evolução.

Diante desse imenso conglomerado de edifícios (assentados sobre uma vasta plataforma artificial de mais de 10m de espessura, em media), mal podemos imaginar que, em torno dos anos 200 a.e.c., tudo começara, nesse mesmo local, por uma modesta plataforma artificial a aproximadamente um metro acima da ondulação do terreno. Dali, as cerimonias do culto se tornavam visíveis a uma extensa congregação de fieis, que provavelmente se comprimia sobre uma serie de terraços construídos com essa finalidade, de baixo para cima, possivelmente no lugar onde ainda hoje se situa o Terraço Norte, vizinho a Grande Praia. Apesar da simplicidade, esse local de culto não devia carecer de grandiosidade: em meio a uma vasta clareira (conquistada a custa de não se sabe quantas dificuldades), essa suave escarpa rugosa e parcialmente modelada em sucessivos terraços revestidos de estuque, com um altar em nível mais elevado sobressaindo-se contra uma cortina de arvores, e descendo em rampa bastante brusca sobre um daqueles barrancos que, muito cedo em Tikal, foram trabalhados a fim de se transformarem em grandes reservatórios naturais de água pluvial. Com os ângulos fortemente arredondados, as arestas suavizadas, os ornatos enquadrados junto a base por uma grande moldura horizontal ao fundo, esta plataforma, ainda modesta, afirma todavia tendências estilísticas acentuadamente marcadas.

A partir dai os progressos arquitet6nicos vão se desenvolver a um ritmo acelerado. No século I a.e.c., o modesto altar inicial transforma-se em majestosa plataforma com mais de 2m de espessura, claramente visível da Grande Praia e servindo de base, pelo que se depreende, a santuários feitos ainda quase inteiramente de materiais perecíveis. Aproveitam-se as obras de aterro para sepultar os restos mortais de algum personagem importante, acompanhado de ricas oferendas. Cinquenta anos mais tarde, em decorrência da necessidade de prover esses túmulos de uma cobertura mais resistente, surgem às primeiras tentativas de abóbada em mísula, principio que se tornara praticamente inseparável da arquitetura monumental maia. Essa técnica de construção consiste em fazer projetar-se, a partir da linha de prumo de dois muros opostos, fileiras sucessivas de pedras de suporte em balanço, que vão se fechando a medida que se aproximam do cume, ate que o espaço restante na parte superior possa ser fechado por uma simples fileira de lajes.

Ao redor do ano 1 da nossa era, a plataforma cerimonial já esta consideravelmente ampliada, e seus ornatos inclinados já apresentam a sucessão de planos recortados e de ângulos reentrantes que conferem a arquitetura do Peten um aspecto tão característico. Os santuários sobre ela erigidos comportam agora seu próprio embasamento piramidal em degraus, geralmente flanqueados de enormes máscaras em relevo a cada lado da escadaria de acesso. O templo propriamente dito também apresenta, desde essa época, a maioria das características que persistirão até o final do período clássico, com seus muros - afinal em alvenaria -, cujas engenhosas diferenças de nível, visíveis do exterior, atestam o deslocamento de planos e o numero de compartimentos, frequentemente dois, existentes no interior. A fragilidade de certos muros e a amplitude relativa dos espaços interiores traem uma construção onde o teto ainda é feito de materiais perecíveis; no entanto, em certos santuários pequenos, de muros mais aproximados, ensaiam-se já timidamente as primeiras abóbadas, cujo principio, deriva da arquitetura funerária.

Enquanto na arquitetura se cristaliza um estilo regional bem determinado, uma nova iconografia se afirma, refletindo ainda certa subordinação diante da arte de Abaj Takalik, Izapa e Kaminaljuyu, que se encontravam ainda, conforme lembramos, no ponto culminante de sua evolução. É mesmo provável que, até essa época, a elite de Tikal tenha provindo da área meridional. Alguns restos de pintura mural desse período em Tikal, assim como grandes máscaras em estuque, ladeando as escadarias da famosa pirâmide "E-VII-sub" de Uaxactfin, revelam um estilo ainda mais fortemente influenciado pelas tradições meridionais, além de um longínquo "gosto remanescente" olmeca, cujos eflúvios só se dissiparão bem mais tarde. Se essas influencias são perfeitamente compreensíveis em uma época em que Tikal, em pleno coração da área central, é praticamente a única, junto com Uaxactun, a lançar as bases de um novo fenômeno, a balança se inclina cada vez mais em favor de uma total liberação com respeito as ingerências culturais vindas do exterior.

Entre os anos 150 e 250, durante a fase chamada "protoclássica", é que se produz o movimento decisivo para o declínio de Izapa e Kaminaljuyii, marcando o fim da preponderância cultural da área meridional, em favor de Tikal, que irá, por algum tempo, dar tom ao fenômeno que, dai em diante, poderá ser qualificado como plenamente "maia". Além da arquitetura monumental cujos elementos básicos já tinham adquirido consistência, havia muitas gerações, em Peten e provavelmente em outras regiões da área central e do Yucatan, uma nova efervescência se faz sentir nas Terras Baixas, tanto no domínio da cerâmica, como na formulação de uma iconografia inteiramente original. De forma quase insensível, enquanto uma bela cerâmica policromada faz sua aparição, efetua-se a passagem ao período "clássico", assinalado em Tikal por numerosas inovações entre os anos 250 e 300, particularmente significativas na medida em que afetarão o futuro das Terras Baixas.

Por volta de 250, depois de muitas adições e superposições através das quais as edificações antigas foram arrasadas, entulhadas e recobertas gradativamente de novas camadas geológicas (contam-se aproximadamente 15 para essa época, de um total de 20, assim como uma centena de edifícios soterrados!), a Acrópole Norte havia adquirido as dimensões definitivas, justificando plenamente seu nome atual de "acrópole". No cume dessa gigantesca plataforma erigida artificialmente, novos santuários foram sendo construídos, agora sólidos, acusando uma tendência a verticalidade que se acentuaria através dos quase seis séculos de vida clássica. Encimando o teto desses edifícios, aparece uma enorme cresteria (cumeeira em telha canal), a qual, sem grandes alterações, permanecerá inseparável da arquitetura religiosa de Peten, vindo a ser adotada, com muitas outras variantes, pela quase totalidade das Terras Baixas. Cabe notar que esse acréscimo, cujos lados se vão reduzindo gradativamente em direção ao cume, e ao qual a rica ornamentação da fachada principal deveria conferir um importante valor simbólico, convém admiravelmente a tendência vertical dos templos-pirâmides dessa região. Por outro lado, é curioso observar que, quanto mais se avança no tempo, mais se retrai o espaço interior desses santuários, cujas peças se reduzem algumas vezes a corredores escuros e estreitos (devido, talvez em parte, a necessidade de suportar o peso considerável da cresteria que, em Peten, se apóia, entretanto, quase exclusivamente sobre o muro posterior).

A abóbada em mísula, desde então empregada para cobrir os espaços interiores, começando pelos templos, se difundira em seguida aos "palácios" e outros edifícios, tornando-se um dos elementos característicos da civilização maia, a tal ponto que, entre outros fatores, sua incidência territorial é frequentemente utilizada como diagnóstico para determinar as fronteiras culturais das Terras Baixas maias; tanto mais que as grandes áreas culturais do restante da Mesoamerica apresentavam uma preferencia acentuada pelos tetos planos em terraço, sustentados por travas apoiadas sobre muros leves ou colunas, e cujos primeiros exemplos remontam, ao que parece, aos anos 800-600 a.e.c., na região de Oaxaca.

Outro fator cultural que se tornará determinante é a adoção pelos Maias do culto do "altar-estela", geralmente associado ao costume de erigir, a intervalos regulares de tempo, monumentos datados conforme o sistema de numeração e escritura glífica. Tendo talvez origens fora das Tetras Baixas, esse sistema será, entretanto, levado a um grau extraordinário de precisão nessa região, que dele fara uso quase exclusivo, embora variando em frequência, segundo as localidades. As datas mais antigas registradas na Mesoamerica provém, como notamos, da área meridional. Dado, porém, o contexto cultural existente durante a fase "Miraflores", parece plausível que também as Terras Baixas tenham participado desse processo criador e que, por diversas razões, seus monumentos datados tenham sido destruídos. De qualquer modo, a primeira data glifica até agora descoberta dentro de um contexto verdadeiramente maia é a que esta inscrita sobre a estela 29 de Tikal, Segundo o principio do "Calculo Longo", lê-se: "8. 12. 14. 8. 15", o que corresponde, em nosso calendário, ao ano 292. Isso, porém, nos leva a falar do calendário e dos princípios da escrita.

 

A astronomia, o calendário e a escrita glifica

Todos os grandes povos da Mesoamerica sentiram-se poderosamente fascinados pelo mistério do cosmo: a recorrência cíclica e previsível dos fenômenos celestes, o ritmo infatigável das estações e a influencia destas nas diversas fases da cultura do milho; o próprio ciclo da vida e da morte, do dia e da noite em sua alternância inexorável mas necessária. Com a finalidade de devassar mais profundamente o segredo dos astros, que para ele representava a vontade dos deuses, o homem mesoamericano moldou, através dos séculos, um aparelho especulativo fortemente complexo. Entregando-se a uma incessante - e angustiante - interrogação sobre os astros, ele mediu, com espantosa precisão, seus movimentos aparentes. Naturalmente, o Sol e a Lua o atraíam mais que tudo, assim como o planeta Vênus, particularmente visível nas latitudes tropicais, onde segue periodicamente o Sol. Desde os primeiros séculos de nossa era (talvez mesmo a partir do grande desenvolvimento olmeca) esses povos possuíram - caso único na história da humanidade - dois calendários dos quais se serviam simultaneamente; um calendário ritual de 260 dias divididos em 13 grupos de 20 dias; e um calendário solar, "vago" ou civil, de 365 dias mais uma fração de que trataremos em seguida, comportando 18 grupos de 20 dias mais cinco dias adicionais, geralmente considerados nefastos. Os dias de cada um desses calendários, permutando-se de forma cíclica segundo uma ordem determinada, terminavam por fazer os dois calendários se reencontrarem no mesmo ponto de partida a cada 52 anos, quando recomeçava o ciclo. Como uma revolução completa de Vênus se efetua em 584 dias, os sacerdotes-astrônomos mesoamericanos, bem cedo ao que parece, se deram conta de que o duplo ciclo de 52 anos coincidia com as 65 revoluções sinódicas de Vênus. Se a essas observações elementares juntarmos a interseção dos movimentos aparentes desses astros mediante a análise das fases lunares e dos eclipses, perceberemos a que ponto esses povos, e muito particularmente os Maias, conseguiram atingir uma precisão incomum em seus cálculos astronômicos.

Para administrar esses cálculos, foi concebido um sistema simples e engenhoso - tendo por base o numero 20 - reduzindo-se ao emprego de dois símbolos: o ponto para a unidade, a barra para o cinco, mais um signo em forma de concha alongada equivalente a "zero", ou melhor, significando ausência de valor. Esses signos prestavam-se facilmente a composição de números inteiros, podendo ultrapassar o milhar. Segundo esse sistema mesoamericano, o valor de posição crescia progressivamente, nas colunas verticais, de baixo para cima. Para exprimir, por exemplo, 37.960 numero de dias compreendidos em 104 anos civis de 365 dias), pocedia-se da seguinte maneira:

. . . . .               4x20x20x20                           = 32.000

. . . . .               14x 20x20                               = 5.600

=====

. . .                   18 x 20                                                = 360

===

Ø         ausencia de unidades de 1 a 20       =          0

=          37.960

 

É interessante observar que essa concepção do "zero" foi uma das duas primeiras tentativas desse gênero na história das civilizações antigas. A outra é a mesma de que nos servimos atualmente, tendo igualmente nascido durante o I milênio a.e.c., no Ceilão, mas só entrando no mundo ocidental muitos séculos depois, por intermédio do Islã... Voltemos, porem, a Mesoamerica e ao modo como as datas eram registradas dentro do sistema de escrita glifica conhecido sob o nome de Calculo Longo ou de Series Iniciais, que os Maias continuariam a aperfeiçoar durante o período clássico.

Nesse sistema de notação - que por motivos práticos utilizava um ano (tun) de somente 360 dias, isto é, amputando intencionalmente quase cinco dias e um quarto -, um Glifo Introdutor precede a data glifica, fazendo referencia a uma data retrospectiva (normalmente 4 Ahau 9 Cumku), dada como ponto fixo no passado. Segundo a opinião da maioria dos especialistas, baseando-se em crônicas recolhidas pelos espanhóis a partir da conquista, essa data fixa corresponde ao ano 3113 a.e.c. Se a inscrição glifica estiver bem conservada, o restante não será mais que uma questão de aritmética. Assim, a data registrada na estela E de Quirigud, que se lê 9.17.0.0.0., 13 Ahau 18 Cumku, interpreta-se da seguinte maneira:

 

9 baktuns (1-A), 17 katuns (I-B), 0 tuns (2-A), 0 uinals (2-B),

0 kins (3-A), 13 Ahau (3-B), 18 Cumku (7-B), o que significa:

 

9 baktuns (ou grupos de 144.000 dias)         =          9 x 144.000     = 1.296.000 dias

17 katuns (ou grupos de 7.200 dias)             =          17 x     7.200   = 122.400 dias

0 tuns  (ou grupos de 360 dias)                     =          0 x       360      =          0 dia

0 uinais (ou grupos de 20 dias)                     =          0 x       20        =          0 dia

0 bins  (ou dias compreendidos entre 1 e 20 dias)  = 0 x    0          =          0 dia 

= 1.418.400 dias.

Esse total indica o numero de dias decorridos desde o ponto de partida convencional (4 Ahau 8 Cumku do ano 3113 a.e.c.) Basta uma simples operação para estabelecer a equivalência entre essa data e o nosso calendário atual: esse exemplo, segundo Sylvanus G. Morleyl corresponde a 24 de Janeiro de 771. Os especialistas, alias, tendem a designar certas fases pelo seu respectivo número de baktuns, ou seja, o ciclo de 144 mil dias. Assim, para se referirem as datas mais antigas registradas na Mesoamerica, falam do baktun (ou "ciclo") 7; o baktun 8 corresponde aos primeiros anos da fase clássica "antiga", enquanto o baktun 9 compreende o essencial da fase "recente" (a "idade de ouro" da civilização maia); e as raras datas que ocorrem no baktun 10 situam-se na fase "terminal", que marca o declínio dessa civilização.

 

Primórdios do período clássico nas Terras Baixas

Voltemos por enquanto a Tikal onde, em 292, erige-se a estela 29, marcando o inicio de uma longa tradição clássica. Considerável numero de elementos dessa estela recorda ainda, inevitavelmente, a arte de Abaj Takalik, lzapa e Kaminaljuyu: a deusa bizarramente mascarada de serpente que, do angulo superior, vira a face para baixo, e a atitude rígida do personagem central, com mascaras realçando o seu traje e com o lábio proeminente, religando-se a uma longínqua filiação olmeca. Acrescente-se a isso o aspecto cerrado da composição, onde os atributos secundários, destituídos de preocupações quanto a hierarquia, invadem as duas dimensões do baixo-relevo, formando um emaranhado do qual inúmeras estelas do primeiro período terão dificuldades em se libertar. Apesar de tudo sente-se já aqui um estilo que se afirma, e do qual muitas convenções fazem parte de um contexto definitivamente maia: a volumosa barra cerimonial, terminada a cada extremidade pela fantástica cabeça de serpente que tão frequentemente acompanha os grandes sacerdotes maias; e a própria proeminência, em comparação com os elementos mitológicos, do personagem, que ocupa praticamente todo o espaço disponível e nos sugere a emergência de uma casta superior. Não estamos diante do halach-uinic, "o homem verdadeiro", aquele que preside aos destinos do comum dos mortais e, ao que parece, acumula com frequiencia as funções sacerdotais, civis e, por vezes, militares?

Vemo-nos assim em face de uma sociedade maia dentro da qual, desde o inicio do período clássico, se produz a articulação dos principais mecanismos. No topo da pirâmide social, como interprete da vontade dos deuses, está o halach-uinic, incorporando um poder as vezes rotativo, frequentemente partilhado, de uma nobreza hereditária que distribui entre si os demais cargos religiosos, administrativos, comerciais ou militares. Mais abaixo, em diversos degraus na escala social, situam-se guerreiros, "burocratas", artistas e artesãos especializados na produção de objetos do culto ou de artigos suntuários; depois, os camponeses e o povo miúdo encarregado de tarefas diversas (servidores, carregadores etc.); e finalmente os escravos, extraídos geralmente de dentre os prisioneiros de guerra ou descontados do tributo imposto as regiões conquistadas. Durante os primeiros séculos do período clássico, tem-se a impressão de um sistema bastante flexível, permitindo uma distribuição relativamente equitativa das tarefas pesadas, assim como dos cargos públicos (estes últimos dão acesso a um certo modo de vida que não somente permite o consumo de produtos de luxo, mas - o que é altamente valorizado ate hoje entre os Maias - assegura ao individuo um certo prestigio).

Um certo tempo será necessário para que esse sistema, regido a partir de Tikal, se estenda a quase totalidade das Terras Baixas. Um pouco por toda parte, entretanto, e as vezes antes mesmo de Tikal, a emergência de uma arquitetura monumental, como em Chiapa de Corzo e em Dzibilchaltun, parece anunciar, da parte de determinados lugares, a vontade de se erigirem em cidades. Por outro lado, entre 150 e 250, o "deslizamento" cultural que - entre outras manifestações de declínio generalizado - marca, na área meridional, o abandono do sistema de escrita glifica em proveito das Terras Baixas, favorece sem duvida a recrudescência de movimentos migratórios em sua direção. As migrações se intensificarão de 250 a 300 (no advento do período clássico), em especial no momento do êxodo que se seguiria a erupção do vulcão Ilopango em El Salvador. Aproximadamente nessa época, novos sítios, por sua vez, iniciam-se na arquitetura monumental: Piedras Negras e depois Yaxchilan, nas margens do Usumacinta; Yaxuna e Acanceh na parte setentrional da península de Yucatan; e, no centro desta, Santa Roxa Xtampak e Becan (este ultimo construindo então o grande fosso defensivo que se conserva entre as mais antigas fortificações conhecidas na América).

Uma após outra, constituindo incontáveis marcos dentro desse fenômeno de "florescimento" cultural, surgem as primeiras estelas datadas, primeiro nos sítios compreendidos em um raio de 40 quilômetros de Tikal (como Uaxactun, Uolantun, Balakbal, El Zapote, Yaxha...). Depois, à medida que se avança pelo baktan 9 e se distancia do núcleo central, aparecem Coba e Oxkintok na península do Yucatan (a nordeste e noroeste, respectivamente), Copan a sudeste, Altar de Sacrifícios e Três Islas a sudoeste; e, no sentido oeste, Piedras Negras, Yaxchilan e Toning.

História - Civilização Maia
4/3/2019 1:31:38 PM | Por Claisy Maria Marinho-Araujo
Texto indicado para estudantes de Psicologia
Intervenção institucional, ampliação crítica e política da atuação em Psicologia Escolar

A Psicologia brasileira, enquanto ciência e profissão, tem uma história recente, datada a partir de 1960. É uma história marcada por mudanças e críticas, nas dimensões espistemológica, conceitual e ideológica, que redefiniram referenciais teóricos e a atividade profissional.

No início da história científica no país, a Psicologia referendou pressupostos e ações que enfatizavam concepções deterministas na constituição da subjetividade humana; em consequência, as produções da área refletiam um projeto de controle social, ideologicamente vinculado aos interesses hegemônicos da classe detentora do poder, a partir da organização socioeconômica capitalista da época.

Essas ações estiveram muito próximas da Educação, desde seus primórdios. A partir dos anos 1960, com a ampliação do sistema educacional em suas diversas modalidades, passaram a ocorrer consequentes solicitações por serviços de atendimento psicológico ligados aos estudantes de classes populares que passaram a ter acesso à escola.

Nessa época, surgiu, com uma identidade pouco definida a figura do psicólogo escolar ou psicólogo educacional, chamado. Resolver ou enfrentar as situações-problemas oriundas na escola. Tornou-se responsabilidade do psicólogo na escola o atendimento individual a alunos encaminhados com queixas escolares de diversas ordens, com um intuito claro de ajustamento às normas e condutas escolares vigentes.

A parceria Psicologia e Educação sustentavae disseminava explicações para o desenvolvimento humano e a aprendizagem pautadas em fundamentos e pressupostos vinculados ideologicamente a ações de discriminação, dominação e exclusão educacional e social. Grande parte das teorias psicológicas utilizadas para atender às demandas escolares, naturalizava e individualizava as soluções e saídas para os problemas escolares, desconsiderando ou reduzindo o papel da realidade sociale das práticas pedagógicas, prescrevendo medidas “corretivas”, “punitivas” ou marginalizadoras.

Naquele momento histórico, a Psicologia identificava-se como uma profissão associada ao conservadorismo, reprodutivismo social, tecnicismo, individualismo. Essas características refletiam-se na Psicologia Escolar, que sustentava a psicologização das questões educacionais, “tratando” os problemas escolares individualmente, de forma adaptativa e remediativa, com ênfase no ajustamento.

Para Patto (1990), esse momento histórico foi especialmente decisivo para a reformulação dos objetivos da Psicologia Escolar.Surge, especialmente a partir das reproduções dessa autora, uma crítica crucial às concepções biologizantes da dificuldade de aprendizagem, clamando por um redirecionamento de explicações e intervenções sobre o fracasso escolar que visavam a culpabilização direta ou indireta da vítima – o aluno –, desconsiderando a instituição pedagógica, seus atores e suas relações sociais.

A partir dos anos 80, a história da Psicologia Escolar registra contrapontos a essa identificação com uma ciência elitizada e descomprometida com fenômenos sociais amplos. No cenário nacional, ocorreram profundas transformações socioesconômicas advindas, principalmente, das lutas por melhores condições de trabalho, saúde, educação, além de uma nova organização política, expressa pelo surgimento de entidades representativas das diversas categorias profissionais.

A mobilização e a participação dos psicólogos junto a outros profissionais, nessas lutas sociais, fortaleceram o período de mudanças nas produções da Psicologia. Cresceram e diversificaram-se as formas de organização da categoria tanto na busca de novas práticas quanto nos debates e questionamentos teoricocientíficos.

[...]

Na última década, ocorreu a ampliação da produção e da atuação da Psicologia Escolar para outros contextos, estendendo-se “para além dos muros da escola”. Entretanto, acredita-se e defende-se que a grande contribuição do trabalho do psicólogo escolar constitui-se a apartir da imersão na escola. Esse é, ainda, um espaço institucional de efetiva atualização das potencialidades dos sujeitos e locus privilegiado para a ocorrência de processos de mediação semi-ótica, conquistado por meio do acesso ao conhecimento cultural e científico organizado, sistematizado e socialmente transformado.

Ao se sustentar essa posição, não se está optando por uma visão ingênua ou tradicional da escola como meio exclusivo de redenção ou salvação dos indivíduos, tampouco se concorda com a concepção naturalista ou liberal de que a escola seja o local propício para o “cultivo” das potencialidades “naturais” humanas ou para o preparo individual, autônomo e intelectualizado para a sobrevivência fora de seus muros. Ao contrário, concorda-se com as críticas endereçadas à escola, quando esta se apresenta como instituição que se “decola” da sociedade e de seus saberes; nega sua participação na transformação social, adotando uma postura de falsa neutralidade; enfatiza e valoriza o “encastelamento” dos saberes escolares e a emblematização de seus conteúdos com suportes para a veiculação de modelos de desenvolvimento individualizados e individualizantes, competitivos, a-críticos, subservientes e alienantes.

Por outro lado, há que se reconhecer, na escola, uma função política, um espaço singular, ainda que pautado por contradições e incoerências, mas fecundo ao exercício da cidadania e da luta em prol de uma sociedade mais justa. Um espaço que desafia a forma como psicólogo escolar, a partir de uma perspectiva dialética, em que os conflitos e as rupturas fornecem férteis espaços de transformações. Nessa perspectiva, entende-se o papel mediador da escola como fonte de superação de explicações dicotômicas ou definições limitadoras.

Entender que a escola não é nem fonte essencial das desigualdades sociais, nem reflete passivamente a ideologia dominante (atualmente difundida em inúmeros outros meios e contextos para além da escola), é defender que há, na instituição escolar, intencionalidades, finalidades, utilidades que lhe permitem reinterpretar e ressignificar a ideologia ao difundi-la ou transmiti-la. Isso a retira do lugar determinista de “fonte de opressão social”, ainda que sirva de instrumento à alienação, que, no entanto, preexiste a ela.

A escola pode ser vista como parte dinâmica de um contexto social-econômico que sofre influência da desigualdade, da ideologia da mais-valia advinda do sistema capitalista produtivo, da ênfase na qualificação como vínculo direto entre educação e produção. Mas pode, por outro lado, servir de instrumento para outro quadro social que não o da dominação, acredita-se que as “falhas” ou “incompetências” atribuídas à escola são, na verdade, a expressão dialeticamente contraditória de sua função mediadora dos “interesses dos dominados”, pois que, partindo do senso comum, de suas habilidades e capacidades, de seu conhecimento cotidiano, de sua cultura, é na escola que esta parela da sociedade irá elaborar, explicitar e ampliar seus saberes e sua consciência. Não se pode descartar, na análise a ser feita da escola, a dimensão mediadora das ações que ocorrem no processo educativo em função deste contexto extremamente complexo e multideterminado por influências não só ideológicas, mas históricas, econômicas, políticas e sociais.

Esse caráter mediador realça o enfrentamento cotidiano das forças sociais que não se reproduzem tal e qual na escola, mas que influenciam seus processos de ensino, aprendizagem, gestão e desenvolvimento das relações interpessoais. São necessárias mediações técnicas, culturais e sociopolíticas que, em vez de negar os ideais, os recriem em bases mais justas, sustentados por escolhas conscientes.

A mediação que supõe fonte de exigenação na e da escola deve reconhecer e enfrentar as lutas sociais que a perpassam, denunciando a falsa “igualdade de oportunidades” que camufla a desigualdade social, assumindo finalidades pedagógicas que preparem para a cooperação sem desconsiderar o conflito, assumindo sua função precípua de transmissão de um saber técnico e científico de alto nível, que seja capaz de transformar as relações sociais.

O espaço escolar constitui local privilegiado para aprendizagem e desenvolvimentos, pois, por um lado, nele explicitam-se contradições e antagonismos e, por outro, possibilita a articulação de interesses sociais mais justos, democráticos e solidários. No entanto, para avançar em transformações que gerem qualidade na educação e desenvolvimento saudável de seus participantes, não basta apenas reconhecer e evidenciar as contradições presentes na escola; é preciso ocupar as brechas que também são originadas por essas mesmas contradições, expandindo-as. Torna-se necessário e urgente apropriar-se de forma consciente e intencional, dessas rupturas e contrapontos, amalgamados pelo trablho coletivo e mediadas nas relações intersubjetivas que abundam no contexto escolar.

Tornar-se lúcido que essa função da escola leva a novas inquietações, pois remete a discussões sobre os direitos sociais, políticos e civis daqueles que frequentam e dos que atuam na escola. A contribuição da escola à redução das desigualdadessociais não se efetivará sem o enfrentamento crítico e corajoso dos inúmeros impedimentos que se colocam à construção da cidadania e que comparecem tanto no interior dos muros da escola (pelo currículo – formal, real, oculto), quanto fora dela, por meio de políticas públicas que atestam o descaso com necessidades, desejos e demandas concretas oriundas do contexto escolar.

Muitas vezes, o descaso de tais políticas recai, mais fortemente, sobre as populações mais desfavorecidas, que frequentam escolas públicas brasileiras nas periferias e que acabam sendo vitimizadas por atitudes de clientelismo e populismo, que transformam direitos legítimos em “favores” do Estado. Por vezes, o foco das políticas é retirar dos sujeitos o poder de reivindicação, de luta e de conquista de seus direitos, sanando-o por meio de doações que amordaçam, silenciam, imobilizam. A prática do favorecimento, dos donativos e outras ações populistas, extremamente presentes no cenário das políticas governamentais brasileiras, exercem forte atração nos menos favorecidos, geram submissão do usuário e o poder e controle do Estado.

Patto (1990) já alertava para a desmobilização em ações políticas descomprometidas com o atendimento responsável a uma demanda escolar real:

a própria construção do prédio escolar, num projeto arquitetônico padronizado pelos órgãos competentes, e sua inauguração através de solenidades, nas quais frequentemente a entrega assume um significado de favor dos governantes, constribui para uma concepção, por seus usuários, como algo que não lhes percente(p. 128).

A despeito dessa realidade, entende-se como equivocado o caráter reducionista da concepção de escola atrelada a um único e soberano instrumento de preservação dos privilégios de grupos dominantes. Há, de fato, restrições estruturais no cerne dos problemas educacionais; no entanto, não se deve minimizar as potencialidades das ações e da resistência dos atores da escola na construção de uma contraideologia. A possibilidade de formulação de uma nova hegemonia, na luta contra a opressão, tem sua gênese na dimensão contraditória das práticas sociaisque, se por um lado preservam a dominação e a desigualdade, por outro fortalecem e estimulam a libertação.

Nesse sentido, dominação, libertação e desigualade social não se redizem às questões estrturuais no interior da escola. Mais do que explica-la como reprodutora da organização social, é preciso recoloca-la como importante espaço de transformações sociais e culturais complexas, ainda que contraditórias. Legitimar mediaçõesque não só explicitem as injustiças presentes na esocla, mas, também, vislumbrem mudanças, é sustentar ações transformadoras no interior do sistema educacional, revisitando práticas, criticando limites coercitivos, orquestrando vozes nos espaços de interlocução, denunciando a opressão e a desigualdade nas oportunidades.

Mesmo que a integração entre projetos sociais e responsabilidades éticas leve o debate e as ações para além dos muros das escolas, acredita-se que é no interior desse contextoque se depositam as esperanças e expectativas, ainda que difusas, de grande parte da população, especialmente os mais desfavorecidos economicamente. E isto nos remete a um compromisso ético, uma obrigação profissional, de planetar possibilidades de trabalho que consderem a história presente em uma sala de aula, projetada e projetando a ampla e complexa trama social, na qual não deixa de comparecer o modo singular e único dos sujeitos que dela participam e a fazem.

Ao representar esse espaço repleto de diferentes mediações e múltiplas determinações, a realidade educacional retoma sua importância social como instancia fundamental para a compreensão do real e do conhecimento historicamente aumulado. É por oportunizar trocas e relações socioculturais, cognitivas e afetivas, necessárias ao desenvolvimetno psíquico, que a escola mediatiza a transformação social por meio da “transformação das consciências”.

Entende-se que a realidade que a Psicologia Escolar tem pela frente é repleta de conflitos, pois que se reconhece por meio de seus atores, sujeitos em transformação; é uma escola com descontinuidades em seus projetos e suas ações, pois que reflete politicas públias descompromissadas e descontextualizadas; é uma escola com mortificações cotidianas, pois que concretiza torturas e aflições simbólicas, expressas em diversas violências, perdas e fracassos que marcam o cotidiano escolar. Porém, apesar e para além dessas características, trata-se de uma escola cujas contradições mobilizam o desejo por mudança e a resistência ao controle; cujos desafios revigoram ações combativas e paradoxalmente afetivas; cujas desigualdades impulsionam a busca coletiva por alternativas que expressem a diversidade e validem uma justiça da diferença; cujas experiências e projetos, ainda que pontuais, sinalizem para a consolidação de uma ética baseada em princípios de justiça e solidariedade. Portanto, acredita-se que as tensões existentesna escola não impedem o emergir de forças de luta e resistência pelo restabelecimento da cidadania.

Essa escola fértil e desafiante à construção do sujeito e às transformações sociais, é espaço profícuo de atuação para a Psicologia Escolar, especialmente na educação pública. Uma Psicologia Escolar desvinculada de onipotência, de acreditar-se capaz da compreensão absoluta e da aceitação total que sustentam práticas equivocadas de “cuidado” ou “ajuda” a “sofredores”, para torna-los “felizes”, “adaptados” e “equilibrados”. Uma Psicologia Escolar que, em contrapartida, comprometa-se com a construção de concepções críticas e dialéticas sobre o homem, seu desenvolvimento, sua subjetividade, seus processos de aprendizagem e de comunicação; que, a partir dessas concepções, empenhe-se em intervenções que levem em conta as influências histórico-culturais na constituição do psiquismo humano e que sejam respaldadas por opções teóricas que consideram a interdependência entre aprendizagem, desenvolvimento, mediação, consciência e emoção.

Muitas poderão ser as contribuições da Psicologia Escolar ao seu campo específico de atuação, embora não único: a escola. E, ao assumir o compromisso com uma postura crítica e com as transformações que se fazem necessárias, especialmente no interior da escola pública brasileira, é que a Psicologia Escolar poderá sustentar e consolidar explicações e intervenções coerentes com a natureza histórica e cultural dos sujeitos.

Intervenção institucional em Psicologia Escolar: ampliação política da atuação

As reflexões e argumentos apresentados corroboram fortemente a compreensão e defesa da escola como instituição que oportuniza, por sua constituição contraditória e dialeticamente transformadora, potencialidades e desenvolvimetnos dos sujeitos que dela participam.Nessa perspectiva, defende-se, igualmente, que a função do psicólogo escolar tem sua marca principal na escola, principalmente como membro integrante da esquipe educacional.

Por outro lado, concorda-se com a compreensão de que a função social da educação não ocorre apenas na instituição escolar, mas se estende a outros contextos institucionais comprometidos e investidos da função educativa.

Nessa direção, as possibilidades de atuação desenvolvidas pelo psicólogo escolar, nas últimas décadas, vêm se ampliando, expandindo-se a outros contextos além da escola: creches, orfanatos, associações educativas e profissionais, organizações não governamentais, serviços públicos de educação e saúde, empresas de pesquisas, assessorias, instituiçãos assistenciais, empresariais, filantrópicas ou outras que contemplem, em algumas de suas ações, a dimensão educativa.

A ampliação da intervenção em Psicologia Escolar tem sido notada também em modalidades de ensino e seguimentos não tradicionalmente amparados pela área, como a educação de jovens e adultos (EJA), a educação a distência (EaD), o ensino superior.

A complexidade a extensão das demandas dirigidas aos psicólogos escolares evidenciam a necessidade premente de se desenvolverem renovados modelos de atuação, que contemplem as inúmeras potencialidades de transformação protagonizadas em tais contextos por seus atores.

Entretanto, reconhecendo e valorizando que tal ampliação da atuação da Psicologia Escolar vem expressando a consolidação da área e o reconhecimento social por suas efetivas contribuições, ainda efatiza-se que a escola constitui-se como espaço privilegiado para a atuação do psicólogo escolar.

A atuação institucional surge como alternativa para uma intervenção mais ampla na escola e que pode proporcionar aos psicólogos o desenvolvimento lúcido de competências. Essa atuação oportuniza intervenções que potencializem o trabalho em equipe, favorecendo mudanças nas concepções deterministas sobre desenvolvimento e aprendizagem, que cristalizam práticas pedagógicas e originam preconceitos e exclusão.

Corroborando esse argumento, Martinez (2010), ao analisar as formas de atuações emergentes em Psicologia Escolar, destaca a possibilidade de

Diagnóstico, análise e intervenão em nível institucional, especialmente no que diz respeito à subjetividade social da escola, visando delinear estratégias de trabalho favorecedoras das mudanças necessárias para a otimização do processo educativo.Para a autora, tal ação permite reconhecer as dimensões psicoeducativa e psicossocial da escola de forma integrada (p. 47)

Acredita-se que a ênfase na atuação institucional possa ser alncançada por meio de um novo direcionamento na análise da realidade educativa: o foco de compreensão e intervenção deve se deslocar para a conscientização e o empoderamento do coletivo da escola, contextualizdo e mediado pelas relações e pelos processos de subjetivação que, dialeticamente, ressignificam os diversos atores e suas ações.

Os caminhos para a intervenção do psicólogo escolar devem, portanto, estar ancorados na compreensão de que as relações subjetivas originam o processo interdependente de construções e apropriações de significados e sentidos que acontece entre os sujeitos, influenciando seu desenvolvimento. Para intervir nessa complexidade intersubjetiva presente nas instituições educativas, defende-se que o psicólogo deva fazer uma escolha consciente por uma atuação institucional com foco preventivo, sustentada por teorias psicológicas cujo enfoque privilegia uma visão de homem e sociedade dialeticamente constituídos em suas realções históricas e culturais.

Fundamentados por esse referencial, os psicólogos escolares podem se instrumentalizar para, dentre outras ações, criar com e entre os sujeitos institucionais um espaço de interlocução que privilegia, sobretudo, o exercicio da conscientização lúcida e intencional de concepções e ações. Nesse movimento o psicólogo escolar contribuiria para a promoção da conscientização de papéis, funções e responsabilidades dos participanetes das compelas redes interativas que permeiam os contextos educacionais.

Ao trabalhar em prol da conscientização dos sujeitos, intervindo em processos subjetivos, o psicólogo escolar estará se colocando como mediador do desenvolvimento humano nos contetos educativos, nas diversas dimensões e momentos desse desenvolvimento. Sua ação, a partir desta orientação, poderá abranger os diversos sujeitos que compartilham da subjetividade institucional, dos estudantes à equipe pedagógica, à família e aos demais atores socioinstitucionais.

As subjetividades que transversalizam a construção do conhecimento, a ação pedagócia global, os processos de gestão, a dinâmica e diversidade dos diversos contextos educativos pode constituir-se como focos privilegiados da ação da Psicologia Escolar. Para intervir nos processos relacionais e subjetivos que promovem conscientização dos atores do processo educacional, o psicólogo escolar poderá: observar a realidade institucional para mapear espaços, tempos, fazeres, crenças, concepções, dinâmicas; desenvolver uma sensibilidade de escuta dos discursos institucionais e das “vozes da escola” provocar a ressignificação das demandas e criar novos espaços para interlocução e circulação de falas e discursos dos sujeitos. Essas ações poderão ser fundamentais à intervenção psicológica coadunada ao desenvolvimento de uma conscientização que pode provocar mudanças significativas, consistentes e duradoras na prática pedagógica.

A conscientização, portanto, torna-se importante pilar da atuação em Psicologia Escolar. E essa é uma ação política, pois que, para além de um processo abstrato, caracteriza-se por uma transformação pessoal e social, que influencia mudança nos contextos e na forma de se relacionar no mundo. Assim, servindo-se da Práxis como mecanismo integrador das experiências pessoais e profissionais, o psicólogo escolar deverá oportunizar, por meio de atuações coletivas, a superação da visão conservadora de adaptação ou psicologização das práticas psicológicas nos contextos educativos.

Proposta de intervenção institucional em Psicologia Escolar

Acreditando que o locusda escola é rico em manifestações concretas de transformações, e que estas estão presentes em atividades pedagógicas cotidianas, a atuação do psicólogo escolar precisa ser estabelecida em uma dimensão preventiva diante de reais e complexas demandas que a escola, como instituição, coloca-lhe.

Privilegiar uma atuação preventiva pode gerar entendimentos equivocados ao que realmente se pretente com esta proposta de intervenção. Isto porque, ao conceito de prevenção, é comum se associar a ideia de antecipação ao ajustamento de comportamentos que se encontram fora dos padrões socialmente aceitos. Geralmente, atrela-se à compreensão de prevenção a busca por adequação das manifestações escolares dos estudantes a modelos adaptativos e normativos, no sentido de, previamente, evitar “maiores problemas futuros”. Nessa perspectiva, a prevenção assume uma conotação quase perversa, contaminada por uma sutil forma de controle social, favorecendo padronizações adaptativas a um coletivo supostamento homogêneo, cuja ideologia tende a obscurecer a característica histórica e social de casa sujeito.

Ao contrário dessa perspectiva, na forma de intervenção aqui defendida, os caminhos para uma atuação institucional preventiva são ancorados em concepções e ações orientadas para um lúcido reconhecimento coletivo desses modos de controle que proliferam por meio de práticas de ensino e avaliação, ingênuas ou alienadas. Na atuação preventiva, o psicólogo escolar, visando a superação de uma visão conservadora e adaptacionista, poderá facilitar e incentivar a construção de estratégias de ensinotão diversificadas quanto forem as possiblidades interativas de aprendizagem; promover a reflexão e a conscientização sobre as concepções deterministas de sujeito e aprendizagem; incentivar os atores educacionais a buscarem, de forma consciente e competente, a superação dos obstáculos à apropriação do conhecimento.

A partir das concepções e reflexões aqui expostas, apresenta-se uma proposta de intervenção institucional para a atuação em Psicologia Escolar, já publicada e adotada am alguns contextos.

Essa proposta caracteriza-se por uma ação dinâmica, participativa e sistemática no interior da instituição e está ancorada em quatro grandes dimensões: Mapeamento Institucional, Escuta Psicológica, Assessoria ao Trabalho Coletivo, Acompanhamento ao Processo de Ensino-aprendizagem.

Detalham-se, a seguir, sugestões para o delineamento do trabalho em cada uma dessas dimensões, ampliando a proposição inicial de Marinho-Araújo e Almeida (2005). É importante considerar que tais dimensões não se apresentam como etapas hierarquizadas em escala sequencial de prioridades, elas devem ocorrer de forma integrada, articuladas à realidade e à dinâmica da escola, dialeticamente ressignificadas em função dos contextos, tempos, espaços, considerando características pessoais e profissionais, ao longo da ação psicológica.

Como é inerente a toda ação da Psicologia na escola, essas também devem ser atividades previamente explicadas e negociadas com os gestores e demais profissionais da escola.

Assim, a constante reflexão sobre os aspectos institucionais oportunizada pelo mapeamento, realizado de forma ampla, sistemática e contínua ao longo de todo o processo de trabalho, levam a constantes e renovados direcionamentos do planejamento e das práticas dos psicólogos em sua atuação com o coletivo da escola. Algumas orientações podem ser úteis à operacionalização do mapeamento na concepção aqui descrita.

O psicólogo escolar poderá realizar uma análise de conjuntura histórica, econômica, política, geográfica, social na qual a escola e seus participantes estão inseridos. Podem ser estudadas, por exemplo, as características do contexto sociodemográfico e político-pedagógico da escola; localização, histórico, modalidades de ensino, dinâmica de funcionamento (turmas, turnos), espaço físico, recursos humanos (professores, alunos, servidores, especialistas); relação com órgãos públicos de regulação, controle, manutenção e fomento; parcerias com a comunidade. Esse conhecimento, que deve ser constantemente atualizado, promove uma clareza ao psicólogo e ao coletivo da escola com relação aos desdobramentos de tais influências nas concepções que transversalizam as práticas pedagógicas.

Uma atividade fundamental ao mapeamento institucional é a análise documental. Investigar as convergências, incoerências, aproximações, inovações existentes entre as normas prescritas e as reais práticas educativas, os discursos e as concepções dos atores educacionais pode contribuir para transformações institucionais e processos de conscientização mediados para Psicologia Escolar. É útil a esse processo de conscientização evidenciar influências ideológicas, filosóficas, epistemológicas, políticas presentes nos diversos aspectos institucionais e normatizados pelas diretrizes pedagógicas como: projeto político pedagógico, proposta pedagógica de cursos ou disciplinas, regimento escolar, projetos educacionais ou de gestão administrativa. O psicólogo deverá realizar a análise desses e de outros documentos, buscando subsídios tanto à clarificação das possíveis contradições entre o discurso e a prática, quanto às aproximações entre as diretrizes libertadoras e o planejamento intencional de ações profissionais que originem autonomia, pensamento crítico, criatividade, equidade nos processos de ensino aprendizagem.

As observações institucionais interativas também fazem parte do mapeamento e deverão constar das atividades da Psicologia na análise dinâmica do contexto escolar. Ao participar do currículo vivificado, nas amplas e múltiplas expressões que assume na escola, o psicólogo ativamente inserido poderá analisar, nas práticas pedagógicas, nas rotinas de sala de aula, nos projetos e tendências educacionais, as concepções subjacentes e orientadoras que os profissionais têm de escola, educação, ensino, desenvolvimento, aprendizagem, avaliação. Oportunizar reflexões sobre a concepção de currículo expressa na estrutura e na dinâmica do trabalho pedagógico, na organização temporal e espacial de atividades e projetos e em outras ações, pode fornecer a lucidez necessária à tomada de decisões intencionais em relação à formas de ensinar mais inclusivas e potencializadoras de desenvolvimento.

No movimento de participação ativa nas atividades curriculares, o psicólogo escolar também poderá planejar sua participação em vários espaços em que ocorrem o processo de gestão escolar: reuniões de coordenação pedagógica; reuniões de professores, gestores, especialistas; conselhos de classe; elaboração do projeto político pedagógico; definição de indicadores e diretrizes para os objetivos, conteúdos, avaliação e orientações didáticas para as modalidades de ensino. Nessas oportunidades, poderão ser analisadas concepções de aprender e de ensinar; relações estruturais entre grupos(gestores, professores, especialistas, servidores administrativos, comunidade); fóruns de deliberações horizontalizados ou centralização nas decisões; interações entre instituição e comunidade (projetos, campanhas, ações); relações entre a escola e as famílias.

Refletir sobre essas análises com a equipe escolar deve objetivar a elaboração de ações pedagógicas conjuntas, que visem potencializar a qualidade dos processos pedagógicos e a criação de uma visão compartilhada das responsabilidades e funções inerentes às ações institucionais intencionalmente planejadas. Espera-se, ainda, a partir de tais ações coletivas, impactar especialmente o professor para que seu fazer contidiano seja fundamentado por mediações de aprendizagem e desenvolvimento sustentadas por um planejamento intencional, consciente, competente e reflexivo do ensino.

As observações institucionais interativas prevêm outras inúmeras participações do psicólogo na escola como entrevistas ou conversas informais com profissionais, estudantes, famílias; trabalhos e projetos com equipes multiprofissionais; elaboração de assessorias e formação continuada aos profissionais da escola, no âmbito do conhecimento psicológico; parceria com instituições de antendimento psicológico, jurídico, médico, assistencial e outros para futuros encaminhamentos ou projetos dentre outras.

Escuta psicológica

Para realizar o mapeamento institucional é primordial o desenvolvimento de métodos de observação das situações e relaçõesnos contextos específicos em que ocorrem, porém, articulado a esses métodos, é necessário que o psicólogo desenvolva competências para criar estratégias de escuta psicológica das vozes institucionais, para compreender os aspectos intersubjetivos presentes nos processos relacinais do contexto escolar.

Acredita-se que, a partir de uma análise institucional, crítica e reflexiva sobre as inúmeras vozes da escola presentes nas concepções e nas formas de organização institucional, novas ações irão se configurar para a atuação psicológica na instituição escolar: será possível a “oxigenação”, o arejamento de discursos, significados e sentidos presentes nas falas e comunicações, oportunizando aos próprios atores a percepção das contradições e rupturas presentes no seu contexto, bem como a reflexão acerca de sua profissão, do seu papel social e das competências que lhe são exigidas.

A intervenção institucional da Psicologia Escolar não pode prescindir, portanto, de uma escuta psicológica específica, com o objetivo de fomentar processos de implicação dos profissionais quanto à mediação do desenvolvimento pessoal e dos estudantes, visando o sucesso escolar.

A defesa por uma escuta psicológica na atuação do psicólogo escolar, quando de sua invervenção institucional, não significa embasar essa atuação no modelo “clínico-médico”, orientado pelo paradigma dicotômico “saúde versus doença”, já bastante criticado na literatura sobre Psicologia Escolar e também completamente descartado neste trabalho.

Trabalhar com uma escuta psicológica coloca o psicólogo em situação de ouvir e compreender a singularidade das demandas, mas, também, de investiga-las e questioná-las, buscando, com lucidez, gerir a intersubjetividade presente nas relações.

Essa escuta psicológica pressupõe um arcabouço teórico advindo dos conhecimentos científicos da Psicologia aliado a uma sensibilidade da escuta dos processos intersubjetivos, proveniente de um envolvimento ético com sujeitos que se encontram, muitas vezes, em posições diferentes, mas que atuam ressignificando os sentidos da singularidade e da complexidade do fenômeno compartilhado. A escuta psicológica recupera e compreende, ativamente, o sujeito no interior dos sistemas simbólicos relacionais.

Para desenvolver a escuta psicológica, o psicólogo escolar deverá, de forma sensível, ética e cuidadosa, procurar estar com o outro e com o coletivo, perscrutar os fenômenos psicológico e interpsicológicos, encontrar o sujeito, o grupo e a instituição, na interdependência expressa em suas ações, histórias, significados, afetos. É necessário se disponibilizar a ouvir, ver, sentir, viver indicadores objetivos, subjetivos, simbólicos do amálgama dialético entre o psíquico e o social.

A escuta psicológica pressupõe, ainda, o reconhecimento dos próprios envolvimentos psíquicos do profissional, suas escolhas e sentimentos, mobilizados no espaço intersubjetivo e que devem ser compreendidos e mediados pelas ferramentas teóricas que a ciência psicológica disponibiliza.

O espaço de escuta psicológica na atuação dos psicólogos escolares deve desencadear ações originadas tanto da urgência do cotidiano escolar (escuta de angústias e sofrimento psíquico de estudantes, professores, gestores, profissionais, pais), quanto das atividades planejadas intencionalmente nesta perspectiva (estudo de caso, relatos de experiência, encontros para estudo ou orientação à equipe escolar, aos alunos e à família, observação e análise dos processos intersubjetivos e das condutas afetivas presentes no ensinar e aprender).

O psicólogo escolar, ao exercitar a atividade complexa da escuta psicológica torna-se ouvinte de um cenário multifônico, que geralmente grita verdades isoladas, preconceitos consolidadados, dificuldades intransponíveis; mas que, também, sussurra pequenas conquistas, barreiras superadas, sucessos inesperados. O grande desafio é transitar por esse complexo cenário aprendendo a não isolar os significados e sentidos do coro de vozes; a não amenizar conflitos ou camuflar contradições, mas recolocar em circulação falas e discursos produzidos na ambiguidade e na diversidade; a escutar, de forma global e institucional, os pedidos de ajuda disfarçados nas queixas; a provocar a ressignificação das demandas, contraditórias ou imaginárias, introduzindo-as em uma ordem simbólica; a reverberar as vozes de volta aos seus autores, mediando conscientização pessoal e coletiva a partir de outras escutas, individuais e institucionais.

A circulação de sentidos, afetos, dores, esperanças, frustrações, conquistas, abandonos, sucessos, e tantos outros fenômenos subjetivos e intersubjetivos que comparecem no contexto escolar, clamam por uma escuta qualificada cientificamente e comprometida eticamente. Tal escuta deverá auxiliar uma intervenção competente que não adepte, adeque, normatiza, naturalize esses fenômenos, mas que os recoloque, enquanto manifestações legítimas de sujeitos que criam e recriam, vivem e revivem, dinamicamente, seus próprios processos de desenvolvimento enquanto trabalham o ensino e a aprendizagem.

Assessoria ao trabalho coletivo

É importante que o psicólogo escolar desenvolva, concomitante ao mapeamento institucional e à escuta clínica, a realização de planejamentos e assessorias ao trabalho coletivo, concretizados junto ao corpo docente, à direção e à equipe técnica. Essa assessoria não é uma ação esporádica e emergencial de um psicólogo que visita a escola eventualmente ou para atender a demandas pontuais, ao contrário, é uma atividade totalmente inserida na participação cotidiana do psicólogo na escola, realizada de forma contextualizada nessas ações e junto a seus atores.

Nessas ações, o psicólogo escolar poderá apresentar grande parte do pontencial de sua atuação institucional, mediar o desenvolvimento humano dos profissionais no contexto escolar, no âmbito do conhecimento psicológico, articulado ao assessoramento das práticas pegagógicas revisitadas, poderão oportunizar segurança e bem-estar à equipe.

Na assessoria da Psicologia, pode estar previsto o desenvolvimento de competências específicas para o desempenho profissionais e a ação pedagógica, especialmente dos professores. Esses desenvolvimentos compartilhados de competências podem constituir-se como marco importante para a autoavaliação docente e um consequente redirecionamento de esforços visando às transformações e reorientações no trabalho pedagógico.

Para que tais ações sejam bem-sucedidas, é fundamental que o psicólogo construa uma relação de confiança com os profissionais da escola. A partir disso, ele poderá criar espaços de interlocução com e entre professores, coordenadores pedagógicos, especialistas, gestores em fóruns já constituídos institucionalmente (coordenações pedagógicas, reuniões de professores, conselhos de classe etc.), com o objetivo de promover reflexão, conscientização e possíveis transformações das concepções orientadoras das práticas pedagógicas (concepções de desenvolvimento, ensino e aprendizagem).

Ao instrumentalizar a equipe escolare, principalmente, o corpo docente, para estudo, planejamento, operacionalização e avaliação de ações de ensino intencionalmente planejadas, o psicólogo estará oportunizando, por essa assessoria, processos de formação continuada em serviço aos profissionais envolvidos. Essa formação pode vir a expandir-se por intermédio de outros agentes e especialistas presentes no contexto escolar atualizando os perfis profissionais. É importante que as competências e ações formativas construídas a partir da assessoria oportunizem perfis que contemplem:

a)    Habilidades de análise, reelaboração e síntese sobre sua área de conhecimento vinculada ao compromisso com o desenvolvimento global do aluno;

b)   Competências para a contrução de estratégias interdisciplinares de comunicação e de ação que orientem o trabalho na direção do sucesso escolar;

c)    Comprometimento com a função policossocial transformadora da realidade, entendida como uma das funções da escola.

Com o desenvolvimento da assessoria ao trabalho coletivo na escola, é possível ao psicólogo fornecer subsídios para que as ações escolares ocorram tanto em uma dimensão coletiva quanto individual, valorizando os saberes dos professores, sua prática, sua identidade profissional, sua experiência de vida; estimulando a experimentação e a inovação de modos de trabalho pedagógico; respeitando o tempo necessário para acomodar as inovações a as mudanças, reconhecendo a especificidade do conhecimento didático e pedagógico já produzido.

Além disso, essa assossoria pode ter como meta provocar nos professores e na equipe escolar a revisão e atualização de sua atuação, em busca da melhoria da qualidade educacional.

Acompanhamento ao processo de ensino e de aprendizagem

Nesta dimensão da intervenção institucional, a meta prioritária é melhorar o desempenho escolar dos estudantes, em busca da concretização de uma cultura de sucesso escolar. O acompanhamento dos processos de ensino e de aprendizagem deverão subsidiar o professor sobre a importância de sua mediação nesse processo.

A ênfase do trabalho do psicólogo escolar deve se voltar para a análise e intervenção na relação professor, aluno e objeto de conhecimento, compreendendo a importância desta relação como núcleo do processo de ensino e de aprendizagem e, por isso, geradora de obstáculos ou avanços à construção do conhecimento pelos estudantes. É fundamental que o psicólogo escolar identifique essa relação como unidade de análise da prática pedagógica, para que possa planejar, com intencionalidade e de forma efetiva, intervenções psicopedagógicas que visem o sucesso escolar.

No trabalho específico junto aos professores, o psicólogo escolar poderá assessorá-o na:

a)    Promoção de situações didáticas de apoio à aprendizagem incorporadas às práticas pedagógicas cotidianas;

b)   Criação de um novo foco de análise para o processo de ensino e aprendizagem, enfatizando a relação bidirecional constitutiva do ensinar e do aprender como processo não dicotomizado de articulação entre teoria e prática;

c)    Construção de alternativas teoricometodológicas de ensino e de avaliação com o foco na construção de competências dos alunos.

Para orientar metodologicamente esse acompanhamento do processo de ensino e de aprendizagem, com ênfase em uma bem-sucedida relação ensinar e aprender, defende-se a utilização sistemática da observação dinâmica de sala de aula e dos demais contextos socioeducativos. A observação não deve prescindir dos conhecimentos teoricometodológicos da ciência psicológica, chamando-se a atenção para a realização de um planejamento que contemple a especificidade de ferramentas e instrumentos a serem utilizados. Geralmente, utiliza-se como procedimento para essa assessoria: observação (participante, de contexto, interativa), entrevistas (individuais, coletivas), questionários, memorial, oficinas, grupos focais.

De modo geral, esse acompanhamento deve objetivar a disseminação de experiências educativas bem-sucedidas, ampliando as oportunidades de aperfeiçoamento em serviço de professores, coordenadores, gestores e outros atores educacionais. Os procedimentos para essas ações são diversos: observação do contexto da sala de aula e e seus processos e relações, em contraponto às observações individualizadas no aluno; participação nas coordenações pedagógicas, implementando propostas de formação em serviço; acompanhamento de reuniões e conselhos, promovendo reflexões e investigações sobre a relação de ensinar e aprender com foco na turma; coordenação de rodas de reflexão (grupos de estudo, de planejamento e oficinas sobre desenvolvimento humano).

Também se acredita ser importante, no acompanhamento do psicólogo escolar ao processo de ensinar e aprender, a realização de uma análise coparticipativa com o professor sobre a produção escolar dos alunos dos quais há queixa escolar. Como prática geral, a aprendizagem é avaliada pela natureza das produções dos outros alunos, considera-se que existem “problemas de aprendizagem”. A produção do aluno pode vir a refletir, ainda, não só o tom dos mecanismos avaliativos escolares, mas, também as estratégias de ensino tilizadas para o desenvolvimento de competências específicas e necessárias à aprendizagem.

Nesse sentido, a produção do aluno pode revelar uma avaliação norteada por princípios tradicionais ou progressistas, pode indicar o desenvolvimento escolar do aluno em relação a si mesmo, pode indicar a pertinência, ou não, dos tipos de intervenção realizados pelo professor (ou a sua ausência), pode sugerir os mecanismos pedagógicos que oportunizem exercícios imaginativos, criativos e demais processos sognitivos, importantes para a prendizagem dos alunos. Asssim, acredita-se que desenvolver no professor um olhar analítico sobre a produção do aluno pode ser um processo avaliativo importante para a reflexão sobre sua própria atuação.

Espera-se que o psicólogo escolar, ao planejar e operacionalizar tais ações, potencialize uma atuação de combate às dificuldades de aprendizagem e a outras manifestações do fracasso escolar.

Ainda como trabalho de assessoria continuada a professores e coordenadores pedagógicos, considera-se que o psicólogo escolar possa dar usa contribuição na discussão sobre os objetivos de cada área de atuação e sua vinculação às concepções de ensino e de aprendizagem, sobre as expectativas de atuação interdisciplinar e sobre outros aspectos teórico-metodológicos que norteiam o fazer pedagógico.

Considera-se, ainda, que, no âmbito da atuação da psicologia escolar, devem estar as ações ligadas às famílias dos alunos e aos servidores da escola. Entende-se, por outro lado, que tais atores estejam contemplados nas ações planejadas para a atuação institucional aqui apresentada, especialmente quando do mapeamento institucional, dos estudos de caso, das informações, orientações e escuta psicológicas, do trabalho com foco nas relações interpessoais.

É possível que também o psicólogo escolar necessite, para a instrumentalização necessária à atuação institucional, de espaços de formação continuada, onde os psicólogos de uma instituição ou de um sistema de ensino possam realizar estudos sitematizados, trocas prodissionais, atualizações e aprofundamentos teoricometodológicos, acompanhados de omentos de reflexão, autoavaliação e planejamentos conjuntos.

É importante evidenciar que a proposta de atuação institucional, relacional e preventiva do psicólogo na escola, aqui relatada, pode ser desenvolvida individualmente ou em equipes multiprofissionais, cada vez mais comuns nas escolas.

As ações propostas para compor a atuação institucional não se esgotam nas dimensões aqui detalhadas. Ao contrário, entende-se que a perspectiva institucional na atuação do psicólogo escolar, abre inúmeras possibilidades de diversificação dessa atuação.

Retomando a categorização de Martinez (2010) das atuações emergentes em Psicologia Escolar, acredita-se que várias dessas podem ser desenvolvidas no âmbito da atuação institucional aqui defendida. Algumas dessas ações emergentes já foram sinalizadas no detalhamento apresentado na presente proposta como:

participação na construção, no acompanhamento e na avaliaão da proposta pedagógica da escola, participação de seleção dos membros da equipe pedagógica e no processo de avaliação dos resultados do trabalho, contribuição para a coesão da equipe de direção pedagógica e para sua formação técnica; facilitar, de forma crítica, reflexiva e criativa, a implementação das políticas públicas (p. 47)

Por outro lado, não se pretende desqualificar as ações conhecidas como tradicionais em Psicologia Escolar, avaliação psicológica, atendimento de alunos com dificuldades escolares, orientação profissional, orientação sexual, coordenação de projetos educativos específicos em relação à violência, ao uso de drogas, dentre outros).

Ao se fazer ação pela atuação institucional, tal como foi aqui defendida, pretende-se contribuir para a visibilidade de novas formas de intervenção psicológica no contexto escolar.

Finalizando

Esse capítulo teórico se propôs a apresentar as transformações históricas da Psicologia Escolar, especialmente nas últimas três décadas; a concepção de escola como locus privilegiado da atuação da Psciologia Escolar; e uma proposta de atuação com o foco na intervenção institucional, coletiva e relacional.

Propor novas formas de atuação para o psicólogo escolar, examinar as concepções de sujeito, desenvolvimento, aprendizagem, ensino, educação subjacentes a cada uma delas, desdobra-se em um convite à reflexão do perfil profissional esperado desse psicólogo. É importante que o psicólogo escolar mobilize conhecimentos e saberes, da ciência e da experiência, em processos de construção e reconstrução de competências, visando se instrumentalizar para uma atuação ampliada a um coletivo profissional e a um cenário complexo.

Os novos paradigmas, que estão norteando a Psicologia Escolar brasileira contemporênea, o apelo a uma ética de princípios justos e solidários e a um compromisso social consciente e crítico, têm exigido posturas dos profissionais para as quais a formação lúcida e intencional, inicial ou continuada, deve ser constantemente buscada.

Defende-se que, para a consolidação da indentidade do psicólogo escolar e para o desenvolvimento intencional de competências, são necessárias propostas de formação continuada se coadunem às exigências de um perfil profissional ancorado no cotidiano do contexto no qual estará inserido.

As contribuições que a Psicologia Escolar pode e deve oferecer à sociedade, neste início de milênio, considerando seus múltiplos e diversificados campos de atuação, devem ter vículos estreitos com uma postura crítica no interior das instituições educativas, com as transformações ideológicas e éticas que se fazem necessárias no âmbito da Psicologia e da Educação, e com a sustentação e consolidação de intervenções coerentes à natureza social, histórica e cultural dos sujeitos.

Ao contrapor e neutralizar a antiga representação adaptacionista normatizadora impregada na área há décadas, a Psicologia Escolar contemporânea dissemina concepções críticas e dialéticas acerca do homem, de seu desenvolvimento, de sua subjetividade, de seus processos de aprendizagem e de sua comunicação. Suas práticas e estudos que balizem transformações inovadoras, criativas, consistentes e competentes para a atuação do psicólogo escolar.

Nesse sentido, esse trabalho assume a intervenção institucional como uma forte opção para a ampliação crítica e política da atuação em Psicologia Escolar. As ações de conscientização, justiça e equidade que se pretendem desencadear no contexto escolar podem ser potencializadas a partir da utilização adequada da diversidade teórica e metodológica do conhecimento psicológico, a fim de buscar suporte consistente para a intencionalidade dessas ações.

A intervenção institucional pode vir a se tornar referência tanto na produção teórica e conceitual, quanto para as opções da prática profissional em Psicologia Escolar.

Psicologia - Psicologia Escolar e Educacional
3/31/2019 2:24:33 PM | Por Marco Aurélio Antonino Augusto
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Solilóquios de Marco Aurélio - Livro II

1. Ao despontar a aurora, faça estas considerações prévias: encontrarei com um indiscreto, com um ingrato, com um insolente, com um mentiroso, com um invejoso, com um não-sociável. Tudo isso lhes ocorre por ignorância do bem e do mal. Mas eu, que observei que a natureza do bem é o belo, e que a do mal é o vergonhoso, e que a natureza do próprio pecador, que é meu parente, porque participa, não do mesmo sangue ou da mesma semente, mas da inteligência e de uma porção da divindade, não posso receber dano de nenhum deles, pois nenhum me cobrirá de vergonha; nem posso me aborrecer com meu parente nem odiá-lo. Pois, nascemos para colaborar, como os pés, as mãos, as pálpebras, os dentes, superiores e inferiores. Agir, pois, como adversários uns para com os outros é contrário à natureza. E é agir como adversário o fato de manifestar indignação e repulsa.

2. Isso é tudo o que sou: um pouco de carne, um breve fôlego vital e o guia interior. Deixe os livros! Não te distraias mais; não está permitido a ti. Mas que, na ideia de que já és um moribundo, despreza a carne: sangue e pó, ossos, fino tecido de nervos, de pequenas veias e artérias. Olha também em que consiste o fôlego vital: vento, e nem sempre o mesmo, pois em todo momento se expira e de novo se aspira. Em terceiro lugar, pois, te resta o guia interior. Reflete assim: és velho; não o consintas por mais tempo que seja escravo, nem que siga ainda arrastando-se como marionete por instintos egoístas, nem que maldigas o destino presente ou tenhas receio do futuro.

3. As obras dos deuses estão cheias de providência. As da Fortuna não estão separadas da natureza ou da trama e entrelaçamento das coisas governadas pela Providência. Disso flui tudo. Acrescenta-se o necessário e o conveniente para o conjunto do universo, do qual és parte. Para qualquer parte da natureza, é bom aquilo que colabora com a natureza do conjunto e o que é capaz de preservá-la. E conservam o mundo tanto as transformações dos elementos simples como as dos compostos. Sejam suficientes para ti essas reflexões, se são princípios básicos. Afasta tua sede de livros, para não morrer amargurado, mas verdadeiramente resignado e grato de coração aos deuses.

4. Lembra de quanto tempo faz que diferencias isso e quantas vezes recebeste avisos prévios dos deuses sem aproveitá-los. E preciso que a partir desse momento percebas de que mundo és parte e de que governante do mundo procedes como emanação, e compreenderás que tua vida está circunscrita em um período de tempo limitado. Caso não aproveites essa oportunidade para serenar-te, ela passará, e tu também passarás, e já não haverá outra.

5. Em todas as horas, preocupa-te resolutamente, como romano e homem, em fazer o que tens nas mãos com pontual e não fingida gravidade, com amor, liberdade e justiça, e procura tempo livre para libertar-te de todas as demais distrações. E conseguirás teu propósito se executas cada ação como se fosse a última da tua vida, desprovida de toda irreflexão, de toda aversão apaixonada que tenha te afastado do domínio da razão, de toda hipocrisia, egoísmo e despeito no que se refere ao destino. Estás vendo como são poucos os princípios que precisamos dominar para viver uma vida de curso favorável e de respeito aos deuses. Porque os deuses nada mais reclamarão a quem observa esses preceitos.

6. Humilha-te, humilha-te, alma minha! E já não terás ocasião para honrar-te. Breve é a vida para cada um! Tu, praticamente, a consumiste sem respeitar a alma que te pertence, e, entretanto, torna dependente a tua felicidade à alma de outros.

7. Não permitas te arrastem os acidentes exteriores; procura tempo livre para aprender algo bom e pare de girar como um peão. Adiante, deves precaver-te também de outros desvios. Porque deliram também, em meio a tantas ocupações, os que estão cansados de viver e não têm alvo ao qual dirigir todo impulso e, em resumo, sua imaginação.

8. Não é fácil ver um homem desacreditado por não ter sondado o que se passa na alma de outros. Mas quem não segue com atenção os movimentos de sua própria alma, forçosamente é infeliz.

9. É preciso ter sempre presente isso: qual é a natureza do conjunto e qual é a minha, e como se comporta em relação àquela e qual parte, a qual conjunto pertence; ter presente também que ninguém te impeça de agir sempre e dizer o que é consequente com a natureza, da qual és parte.

10. A partir de uma perspectiva filosófica, afirma Teofrasto, em sua comparação das faltas, como poderia compará-las um homem segundo o sentido comum, que as faltas cometidas por concupiscência são mais graves que as cometidas por ira. Porque o homem irado parece desviar-se da razão com certa dor e aperto no coração; enquanto que a pessoa que peca por concupiscência, derrotado pelo prazer, mostra-se mais fraco e lânguido em suas faltas. Com razão, pois, e de maneira digna de um filósofo, disse que o que peca com prazer merece maior reprovação que o que peca com dor. Resumindo, o primeiro se parece mais a um homem que foi vítima de uma injustiça prévia e que se viu forçado a sentir ira por dor; o segundo, lançou-se à injustiça por si mesmo, movido a agir por concupiscência.

11. Na convicção de que pode sair da vida a qualquer momento, faça, fale e pense todas e cada uma das coisas em consonância com essa ideia. Pois distanciar-se dos homens, se existem deuses, em absoluto é temível, porque estes não poderiam atirar-te ao mar. Mas, se em verdade não existem, ou não lhes importam os assuntos humanos, para que viver em um mundo vazio de deuses ou vazio de providência? Mas sim, existem, e lhes importam as coisas humanas, e criaram todos os meios a seu alcance para que o homem não sucumba aos verdadeiros males. E se restar algum mal, também haveriam previsto, a fim de que contasse o homem com todos os meios para evitar cair nele. Mas o que não torna pior um homem, como isso poderia fazer pior a sua vida? Nem por ignorância nem conscientemente, mas por ser incapaz de prevenir ou corrigir esses defeitos, a natureza do conjunto o teria consentido. E, tampouco, por incapacidade ou inabilidade teria cometido um erro de tais dimensões como acontece aos bons e aos maus indistintamente, bens e males em partes iguais. Entretanto, morte e vida, glória e infâmia, dor e prazer, riqueza e penúria, tudo isso acontece indistintamente ao homem bom e ao mal, pois não é nem belo nem feio, porque, efetivamente, não são bons nem maus.

12. Como em um instante tudo desaparece: no mundo, os próprios corpos, e no tempo, sua memória! Como tudo é sensível, especialmente o que nos atrai pelo prazer ou nos assusta pela dor ou o que nos faz gritar por orgulho! Como tudo é vil, desprezível, sujo, facilmente destrutível e cadavérico! Isso deve considerar a faculdade da inteligência! O que é isso, cujas opiniões e palavras procuram boa fama? Que é a morte? Porque se a vemos exclusivamente e se abstraem, pela divisão de seu conceito, os fantasmas que a recobrem, já não sugerirá outra coisa senão que é obra da natureza. E se alguém teme a ação da natureza, é uma infantilidade. Mas não somente a morte é uma ação de natureza, mas, também, uma ação útil da natureza.

13. Nada mais infeliz que o homem que percorre em círculo todas as coisas e que pergunta sobre as “profundidades da terra” e que busca, mediante conjecturas, o que ocorre na alma do vizinho, mas sem perceber que é necessário, apenas, estar junto à única divindade que habita seu interior e ser seu sincero servo. E o culto que se deve a essa divindade consiste em preservá-la pura da paixão, da falta de reflexões e do desgosto contra o que procede dos deuses e dos homens. Porque o que procede dos deuses é respeitável por excelência, mas o que procede dos homens nos é querido por nosso parentesco e, às vezes, inclusive, de certa forma inspira compaixão, por sua ignorância acerca do bem e do mal, uma cegueira que nos impede de discernir entre o branco e o escuro.

14. Ainda que pudesses viver três mil anos e outras tantas vezes dez mil, ainda assim lembra-te de que ninguém perde outra vida além da que vive, nem vive outra além da que perde. Consequentemente, o mais longo e o mais curto confluem em um mesmo ponto. O presente, de fato, é igual para todos; o que se perde é também igual, e o que se separa é, evidentemente, um simples instante. Assim, nem o passado nem o futuro podem ser perdidos, porque, o que não se tem, como alguém nos poderia tirar? Tenha sempre presente, portanto, essas duas coisas: uma, que tudo, desde sempre, se apresenta de forma igual e descreve os mesmos círculos, e nada importa que se contemple a mesma coisa durante cem anos, duzentos ou um tempo indefinido; a outras, que o que viveu mais tempo e o que morrerá mais prematuramente, sofrem perda idêntica. Porque somente podemos ser privados do presente, posto que possuímos apenas o presente, e o que não se possui, não se pode perder.

15. “Tudo é opinião”. Evidente é isso o que diz o cínico Mônimo. Também, a utilidade do que ele diz é clara, se extrairmos o essencial.

16. A alma do homem confronta-se, principalmente, quando, no que dela depende, converte-se em um tumor e em algo parecido a uma excrescência do mundo. Porque incomodar-se com algum acontecimento é uma separação da natureza, em cuja parcela estão abrigadas as naturezas de cada um dos seres restantes. Em segundo lugar, confronta-se, também, quando sente aversão a qualquer pessoa ou comporta-se hostilmente com intenção de machucá-la, como é o caso das naturezas dos que se deixar levar pela cólera. Em terceiro lugar, confronta-se, quando sucumbe ao prazer e ao pesar. Em quarto lugar, quando é hipócrita e faz ou diz algo com ficção ou contra a verdade. Em quinto lugar, quando se desentende de uma atividade ou impulso que lhe é próprio, sem perseguir nenhum objetivo, mas que, à sorte ou inconscientemente, dedica-se a qualquer tarefa sendo que, inclusive as mais insignificantes atividades, deveriam ser realizadas considerando-se sua finalidade. E a finalidade dos seres racionais é obedecer à razão e a lei da cidade e constituição mais venerável.

17. O tempo da vida humana: um ponto. Sua substância: um fluxo. Sua sensação: trevas. A composição do conjunto do corpo: facilmente corruptível. Sua alma: um remoinho. Sua felicidade: algo difícil de conjecturar. Sua fama: indecifrável. Em poucas palavras: tudo o que pertence ao corpo, um rio; sonho e vapor, o que é próprio da alma; a vida, guerra e estância em terra estranha; a fama póstuma, esquecimento. O que pode, então, fazer-nos companhia? Unica e exclusivamente a filosofia. E ela consiste em preservar o guia interior, isento de ultrajes e de danos, dono de prazeres e dores, sem fazer nada por acaso, sem valer-se da mentira nem da hipocrisia, à margem do que outro faça o deixe de fazer; mais ainda, aceitando o que acontece e o reconhecendo como precedente daquele lugar de onde ele mesmo viera. E, principalmente, aguardando a morte com pensamento favorável, com a convicção de que a morte não é outra coisa além da dissolução de elementos que compõem cada ser vivo. E se para os mesmos elementos não existe nada de temível no fato de que cada um se transforma continuamente em outro, por que temer a transformação e dissolução do todas as coisas? Pois isso está de acordo com a natureza, e nada pode ser mal se está em conformidade com a natureza. Isso foi escrito em Carnuntum.

Filosofia - Estoicismo
3/30/2019 9:46:04 PM | Por
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O que podemos aprender com a ideia de felicidade dos astecas?

Havia filósofos e sofistas, e uma educação formal para ensinar valores e ideias profundas sobre a vida - tudo por meio de tratados, exortações e diálogos. Mas não estamos falando da Grécia antiga, e sim do império asteca. Entre o século 15 e o início do século 16, os astecas montaram um império com uma cultura de grande riqueza filosófica onde hoje ficam as regiões central e sul do México. "Havia bastante registro na língua nativa, o náhuatl", escreveu Lynn Sebastian Purcell, professor de filosofia na Universidade Estadual de Nova York (SUNY), em artigo publicado em 2017 na revista de divulgação científica Aeon.

"Como poucos livros pré-coloniais do tipo hieroglífico sobreviveram à destruição dos espanhóis, as nossas principais fontes de conhecimento derivam de registros mantidos por padres católicos até o início do século 17", acrescentou.

Purcell pesquisou extensivamente sobre filosofia e ética antigas, particularmente na América Latina e mais especificamente entre os astecas.

"Acho fascinante que os nahuas (astecas) tenham sido uma outra cultura pré-moderna com ética das virtudes, embora pensassem muito diferente de Aristóteles e Confúcio", disse ele à Associação Filosófica Americana em uma entrevista de 2017.

Mas Purcell também reconheceu que era atraente mergulhar em um campo no qual, ao longo dos séculos, a academia deixou um "vazio evidente".

Ele acrescentou que os dois grandes estudiosos da filosofia asteca, o antropólogo mexicano Miguel León-Portilla e o filósofo americano James Maffie, fizeram um grande trabalho ao analisar sua metafísica, mas não sua ética.

A boa vida

O famoso Códice Florentino, coletânea de conhecimentos sobre os astecas feita pelo missionário franciscano espanhol Bernardino de Sahagún, reproduz o discurso de um rei antes de tomar posse.

Na obra, Sahagún trata de como vive um homem "venerado": é "defensor e sustentador", ele diz, "como o cipreste, no qual as pessoas se refugiam".

Mas esse mesmo homem também "chora e sofre". O rei então pergunta a si mesmo: "Existe alguém que não deseje a felicidade?"

O texto, segundo Purcell, mostra uma das maiores diferenças entre a filosofia da Grécia antiga e a do império asteca.

"Os astecas não acreditavam que houvesse qualquer vínculo conceitual entre levar a melhor vida que pudermos, por um lado, e experimentar prazer ou 'felicidade' do outro", escreveu ele.

Ou seja, para eles ter uma vida boa e ser feliz não estavam ligados, algo que pode ser estranho, dada a tradição filosófica do Ocidente.

Terra escorregadia

Em artigo premiado pela Associação Filosófica Americana em 2016 como o melhor sobre América Latina, Purcell explicou que essa dissociação está enraizada em um problema existencial descrito por filósofos ou tlamatinimes (sábios).

Há um provérbio asteca que resume este problema e que poderia ser traduzido como "escorregadia, a terra é indescritível".

"O que eles queriam dizer é que, mesmo de tivermos as melhores intenções, nossa vida na terra é aquela em que as pessoas estão propensas a erros, sujeitas a falhas em seus objetivos e, provavelmente, a 'cair' como se estivessem na lama", explicou Purcell.

"Além disso, esta terra é um lugar onde as alegrias só vêm misturadas com dores e transtornos."

Os astecas acreditavam que, por mais talentoso ou inteligente que alguém pudesse ser, coisas ruins poderiam acontecer com todo mundo, assim como todos estão sujeitos a cometer erros, escorregar e cair.

Logo, em vez de buscar deliberadamente uma felicidade que, no melhor dos casos, seria transitória e perigosa, a meta para os astecas era levar uma vida digna de ser vivida.

Quatro níveis

Para definir o que é uma vida que vale a pena, os astecas usavam a palavra neltiliztli, que pode ser traduzida como "arraigada" ou "enraizada".

Essa vida enraizada poderia ser alcançada em quatro níveis, segundo escreveu Purcell em um artigo também publicado pela revista Aeon, este em 2016.

O primeiro nível "começa com o próprio corpo, algo que muitas vezes é negligenciado na tradição europeia, preocupada com a razão e a mente", disse o filósofo.

Para isso, os astecas tinham um regime diário de exercícios surpreendentemente semelhante ao yoga.

O segundo nível envolve estar enraizado em sua própria psique, um conceito que abrange igualmente não apenas a mente mas também os sentimentos.

Em terceiro lugar, a comunidade, algo de importância crucial para os astecas.

Diferentemente de Platão e Aristóteles, que propunham uma ética das virtudes centrada no indivíduo, essa civilização indígena posicionava o eixo na sociedade.

Uma vida que valesse a pena não seria possível sem laços familiares ou com amigos e vizinhos, aqueles que o ajudarão a se levantar depois das inevitáveis quedas na terra escorregadia.

Por último, havia o enraizamento do teotl, uma divindade que nada mais era do que a natureza.

A decisão de Ulisses

Às vezes, as ideias filosóficas dos astecas são recebidas com algum ceticismo.

Assim, em suas aulas na SUNY, Purcell tem utilizado "A Odisseia", de Homero, para explicar por que esta civilização indígena estava certa em afirmar que a felicidade é uma meta ruim de vida.

Em uma passagem do poema épico grego, o protagonista, Ulysses, vive em uma ilha paradisíaca há sete anos com a deusa Calypso.

A deusa, então, coloca-o em um dilema: ele pode ficar com ela e desfrutar da imortalidade e da eterna juventude na ilha, ou voltar ao mundo real, cheio de dor e sacrifício, mas também onde mora sua família.

Ulisses "decide se aventurar em águas abertas dentro de um navio em ruínas em busca de sua esposa e filho", lembra Purcell.

Ele então pergunta a seus alunos o que teriam escolhido. "Eu nunca vi alguém que discordasse de Ulysses."

História - Civilização Asteca
3/30/2019 9:20:27 PM | Por David Hughes
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Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

Astronomia - Sistema Solar
3/26/2019 2:20:22 PM | Por Richard O. Straub
Livre
Permanecendo saudável: Prevenção primária e psicologia positiva

Quando Sara Snodgrass encontrou um nôdulo em seu seio, seus primeiros pensamentos foram a tia e a mãe, que morreram após lutar contra o câncer de mama. Depois de ser diagnosticada com câncer, sua tia “foi para casa, fechou todas as cortinas, recusou­se a sair exceto para as quimioterapias e recebia pouquíssimas visitas. Ela esperou pela morte” (Snodgrass, 1998, p. 3). A biópsia de Sara foi seguida por uma lumpectomia (remoção do tumor maligno) e dois meses de radioterapia. Embora o médico e ela tivessem esperança de que tivesse se curado, menos de um ano depois, foram encontradas metástases em seu abdomem. Em suas palavras, ela havia "submergido no câncer" desde então, tendo passado por três cirurgias, cinco ciclos diferentes de quimioterapia, dois tipos de terapia hormonal, três meses de radioterapia, um transplante de medula e um transplante de células-tronco. No decorrer do tratamento, ela também sofria dores imprevisíveis e debilitantes de 10 a 14 dias por mês.

Todavia, ao contrário de sua tia. Sara continuou seu trabalho como professora universitária, enquanto fazia cirurgias, radioterapia e quimioterapia. Determinada a não deixar o câncer interferir em sua vida, também continuou a mergulhar, esquiar e fazer outras atividades que surgiam de seu otimismo, seu senso de domínio pessoal e sua confiança naturais. E ela assumiu o controle de seu tratamento, aprendendo tudo o que pudesse sobre ele, tomando suas próprias decisões e recusando-se a trabalhar com médicos que não a tratassem com respeito e aceitassem seu desejo de manter um sentido de controle sobre a vida.

Talvez o mais notável de tudo seja a convicção de Sara de que seu câncer levou a uma reorganizaçao de sua autopercepção, seus relacionamentos e sua filosofia de vida. Essa convicção a ensinou a viver mais no presente e a não ter preocupação com o futuro. Ela parou de se preocupar se encontraria o homem certo, se seus alunos lhe dariam boas avaliações e se teria dinheiro suficiente para viver de forma confortável durante a aposentadoria. Aprendeu também que os relacionamentos com amigos e familiares são a parte mais importante de sua vida. Quando pensa sobre morrer, ela diz: “Não vou dizer que queria ter escrito mais artigos. Porém, posso dizer que queria ter visto ou falado com mais amigos ou conhecidos com quem perdi contato" E é isso que ela está fazendo, se correspondendo, telefonando e viajando para renovar velhos relacionamentos e se divertindo em novas relações que ampliaram sua rede de apoio social por todo o país.

De uma perspectiva estatística, apenas 15% das pacientes com metástase do câncer de mama vivem cinco anos. Ainda assim, em oito anos, o câncer de Sara nâo se espalhou e cresceu deforma imperceptível. Igualmente importante, Sara acredita que está evoluindo [144] como pessoa e experimentando a vida de um modo mais positivo do que antes. Conforme sua própria descrição, sua experiência da adversidade trouxe benefícios inesperados que permitiram florescer psicologicamente.

A relação entre o estilo de vida e a saúde desencadeou grande esforço de pesquisa, visando a prevenir doenças e ferimentos. Às vezes, a doença não pode ser prevenida, como no caso de Sara. Ainda assim, mesmo nesses casos extremos, desenvolver nossas potencialidades humanas pode nos dar a capacidade de florescer. Iniciamos este capítulo considerando a conexão entre o comportamento e a saúde. Depois disso, exploramos de que maneira o foco biopsicossocial da psicologia da saúde em abordagens baseadas em potencialidades para  aprevenção, primeiro, da psicologia positiva, em segundo lugar, podem ajudar a formar indivíduos, famílias e comunidades saudáveis.

Saúde e comportamento

É difícil imaginar uma atividade ou um comportamento que não influenciem a saúde de alguma forma para melhor ou pior, direta ou indiretamente, de imediato ou a longo prazo. Os comportamentos de saúde são comportamentos das pessoas para melhorar ou manter sua saúde. Exercitar-se com regularidade, usar protetor solar, seguir uma dieta com baixo teor de gordura, dormir bem, praticar sexo seguro e usar o cinto de segurança são comportamentos que ajudam a "imunizar" você contra doenças e ferimentos.Exemplos menos óbvios incluem passatempos prazerosos, meditação, rir, férias regulares e até ter um animal de estimação. Essas atividades ajudam muitas pessoas a lidar com o estresse e manter uma perspectiva otimista sobre a vida.

Visto que os comportamentos de saúde ocorrem em um continuum, alguns deles podem ter tanto um impacto positivo quanto negativo sobre a saúde (Schocnborn et al., 2004). Por exemplo, praticar exercícios e fazer dieta podem ocasionar uma perda de peso benéfica; se levados ao extremo, contudo, pode ser desencadeado um “efeito sanfona” de perda e ganho de peso que pode ser prejudicial à saúde. De maneira semelhante, a classificação de uso “saudável” de álcool é problemática, pois, ainda que abundem estudos sobre os benefícios á saúde do uso leve ou moderado do álcool, exatamente o que constitui esse"leve" ou "moderado" parece depender do gênero e de outras características da pessoa (Green et al., 2004).

O abuso de álcool é exemplo de comportamento de risco para a saúde que tem impacto negativo direto sobre a saúde física. Outras atitudes influenciam a saúde diretamente por meio de sua associação com comportamentos que tenham impacto direto sobre a saúde. Beber muito calé, por exemplo, pode aumentar o risco de doenças cardíacas, pois muitas pessoas que tomam caté em excesso também fumam e praticam outros comportamentos de risco que podem aumentar a ameaça de cardiopatia (Cornelis et al., 2006).

Como parte de seu projeto Youth Risk Behavior Surveillance, o Centers For Disease Control and Prevention (2010) identificou os seguintes comportamentos de risco à saúde em geral com início na juventude que colocam as pessoas em situação de risco de morte prematura, deficiência e doenças crônicas: 

1.    Fumar e outras formas de uso de tabaco;

2.    Comer alimentos com alto teor de gordura e baixo de fibras;

3.    Não fazer atividades físicas suficientes;

4.    Abusar de álcool ou outras substâncias (incluindo as de prescrição);

5.    Não usar métodos médicos comprovados para prevenir ou diagnosticar doenças precocemente (p. ex., vacinas para gripe, decisões saudáveis relacionadas com o sexo, papanicolau, colonoscopias, mamogramas);

6.    Participar de comportamento violento ou que possa causar lesões involuntárias (p. ex., dirigir intoxicado).

Alguns comportamentos afetam imediatamente a saúde por exemplo, envolver-se em um acidente automobilístico sem usar cinto de segurança. Outros, como comer uma dieta com alto teor de gordura, tém efeito a longo prazo. E alguns comportamentos, como lazer exercícios ou fumar cigarro, apresentam um efeito imediato e a longo prazo sobre a saúde. Os comportamentos relacionados com a saúde interagem e frequentemente são inter-relacionados. Uma pessoa que fuma, por exemplo, também pode ingerir álcool e quantidades excessivas de café. O efeito combinado desses comportamentos sobre a saúde é mais forte do que se a pessoa realizasse apenas um deles. De modo semelhante, praticar exercícios, comer alimentos saudáveis e beber bastante água também tendem a ocorrer juntos, mas de modo positivo. Às vezes, a pessoa pode ter comportamentos saudáveis e insalubres – por exemplo, beber álcool e praticar exercícios. Nesses casos, um pode minimizar o efeito do outro. Finalmente, um comportamento de saúde pode substituir um insalubre. Por exemplo, muitos ex-fumantes verificam que a prática regular de exercícios aeróbicos proporciona um substituto saudável (e eficaz) para a nicotina.

Qual é o impacto potencial de adotar um estilo de vida mais saudável? Em um estudo epidemiológico clássico iniciado em 1965, Lester Breslow e Norman Breslow começaram a acompanhar a saúde e os hábitos do estilo de vida de homens residentes em Alameda County, na Califórnia. Durante os muitos anos desse estudo notável, os efeitos salutares de sete hábitos de saúde dormir de 7 a 8 horas diariamente, nunca fumar, estar próximo de seu peso ideal, beber álcool com moderação, fazer exercícios físicos com regularidade, comer desjejum e evitar comer entre as refeições mostraram-se surpreendentes. [145] 

Teorias sobre o comportamento de saúde

Os psicólogos da saúde desenvolveram diversas teorias para explicar por que as pessoas praticam ou não determinados comportamentos de saúde. Nesta seção, discutiremos algumas das teorias mais influentes.

O modelo de crença de saúde

Segundo o modelo de crença de saúde, as decisões relacionadas com o comportamento de saúde se baseiam em quatro fatores que interagem e influenciam nossas percepções a respeito de ameaças à saúde([Strecher e Rosenstock, 1997]):

§ Suscetibilidade percebida. Algumas pessoas preocupam-se constantemente com sua vulnerabilidade a ameaças à saúde, como o virus da imunodeficiência humana (HIV); outras acreditam que não estejam em perigo. Quanto maior a suscetibilidade percebida, maior a motivação para praticar comportamentos que promovam a saúde. Os adolescentes, especialmente, parecem viver suas vidas seguindo uma fábula da invencibilidade. Eles têm um falso senso de “invulnerabilidade” que fornece pouca motivação para mudar seus comportamentos de risco;

§ Gravidade percebida de ameaça à saúde. Entre os aspectos considerados estão o fato de que dor, deficiência ou morte podem ocorrer, assim como se a doença terá impacto para a família, os amigos e os colegas de trabalho. Sara Snodrass (da introdução do capítulo) reconheceu a gravidade de sua condição e dedicou-se a ter comportamentos e modos de pensar saudáveis;

§ Benefícios e barreiras percebidos ao tratamento. Ao avaliar os prós e os contras de determinado comportamento de saúde, a pessoa decide se seus benefícios percebidos como evitar uma doença potencialmente fatal excedem as barreiras como causar efeitos colaterais desagradáveis ou desencadear uma reação negativa de seus amigos. Por exemplo, alguém pode ignorar as enormes vantagens de parar de fumar por preocupação com engordar e perder a beleza;

§ Dicas para ação. Conselhos de amigos, campanhas de saúde nos meios de comunicação e fatores como idade, status socioeconômico e gênero também influenciam a probabilidade de que o indivíduo venha a agir de determinada maneira.

Em resumo, o modelo de crença de saúde é uma teoria lógica a qual propõe que as pessoas irão agir para afastar ou controlar condições que induzem doenças: [147]

1.    se considerarem que são suscetíveis à condição;

2.    se acreditarem que a condição possa trazer consequências pessoais sérias;

3.    se acreditarem que uma linhade ação disponível irá reduzir sua suscetibilidade ou a gravidade da condição;

4.    se acreditarem que os custos de agir dessa forma serão superados pelos benefícios ocasionados por fazê-lo; e

5.    se as influências ambientais incentivarem a mudança (Strecher e Rosenstock, 1997).

O modelo de crença de saúde foi o primeiro modelo de saúde submetido a pesquisas extensivas. Aprendemos que as pessoas têm mais probabilidade de fazer exames dentais regulares, praticar sexo seguro, comer de maneira saudável, fazer exames para câncer colorretal e outras formas de câncer e participar de outros comportamentos protetores da saúde se sentirem-se suscetíveis aos diversos problemas de saúde que poderiam advir de não fazê-lo (Deshpande, Basil e Basil, 2009; Manne et al., 2002), Estudos também mostram que intervenções educacionais visando a mudar as crenças de saúde aumentam os comportamentos de proteção à saúde. Por exemplo, mulheres que recebem mensagens educativas objetivando aumentar seu conhecimento dos benefícios de fazer mamografia têm quase quatro vezes mais probabilidade de realizar o exame do que mulheres de um grupo de controle (Champion, 1994).

Apesar desses sucessos, alguns estudos verificaram que as crenças de saúde apenas conseguem prever comportamentos relacionados com a saúde de forma modesta e que outros fatores, como a percepção de barreiras contra a prática de comportamentos saudáveis, são determinantes mais importantes (Janz et al., 1997). Por exemplo, em um importante estudo prospectivo, Ruth Hyman e colaboradores (1994) verificaram que a percepção de suscetibilidade ao câncer de mama não conseguiu prever o uso de serviços de mamografia pelas participantes do estudo, embora houvesse a percepção de benefícios e de barreiras (como o fato de ter uma clínica acessível e um médico que recomendasse o exame). O mesmo estudo verificou que a etnia de uma mulher era o melhor prognóstico de todos, havendo significativamente mais probabilidade de as afro-americanas obterem mamografias com regularidade do que as norte-americanas de origem europeia.

Outros críticos afirmam que o modelo de crença de saúde concentre-se demais em atitudes sobre o risco percebido, em vez de respostas emocionais, que podem prever o comportamento de forma mais precisa (Lawton, Conner e Parker, 2007). O modelo de crença de saúde representa uma perspectiva relevante, mas é incompleto. Vamos ampliar nosso pensamento com outra teoria que focaliza o importante papel que as intenções e a autoeficácia das pessoas desempenham em seus comportamentos de saúde.

A teoria do comportamento planejado

Assim como o modelo de crença de saúde, a teoria do comportamento planejado especifica relações entre atitudes e comportamentos (Ajzen, 1985) (Fig. 6.3). A teoria sustenta que a melhor maneira de prever se um comportamento irá ocorrer é medir a intenção comportamental da pessoa - a decisão de participar de determinado comportamento relacionado com a saúde ou de abster-se dele. As intenções comportamentais são moldadas por três fatores. O primeiro é nossa atitude em relação ao comportamento, que é determinada por nossa crença de que o comportamento levará a certos resultados. Por exemplo, podemos decidir que reduzir a quantidade de gordura saturada em nossa dieta é bom, pois acreditamos que diminuir a gordura levará a perda de peso e mais beleza pessoal.

O segundo determinante da intenção de agir é a norma subjetiva, que reflete nossa motivação para aderir às visões de outras pessoas com relação ao [148] comportamento em questão. Por exemplo, podemos ter dificuldade de mudar para uma dieta com pouca gordura se essa modificação não estiver de acordo com o comportamento de nossos amigos e parentes. Temos fortes intenções para agir quando nossas atitudes em relação ao comportamento em questão são positivas e acreditamos que as pessoas também o consideram apropriado.

O terceiro componente das intenções comportamentais é a percepção de controle do comportamento, que se refere a nossa expectativa de sucesso em realizar o comportamento de saúde esperado. Quanto mais recursos e oportunidades para efetuar uma mudança comportamental acretarmos ter, maior nossa crença de que possamos de fato mudar o comportamento. Se, ao mudar uma dieta com baixo teor de gordura, tivermos confiança de que seremos capazes de encontrar receitas saudáveis, comprar os ingredientes, ter tempo para preparar as refeições e ainda gostar do sabor mesmo com uma dieta mais restrita, teremos uma inteção comportamental mais forte do que algém que esteja em dúvida.

As atitudes e inteções autorrelatadas pelas pessoas preveem uma variedade de ações que promovem a saúde, incluindo fazer testes genéticos para doenças, tomar medicamento, perder peso, fazer exercícios, comer alimentos saudáveis, usar preservativo, não fumar, fazer autoexame dos seios ou dos testículos, realizar mamografias e fazer acompanhamento pré-natal, exames de câncer, consultas de acompanhamento para resultados anormais em exames de saúde e dispor-se a doar sangue.

Devido a sua ênfase no planejamento, não é de surpreender que o modelo do comportamento planejado seja mais preciso para prever comportamentos intencionais orientados para objetivos e encaixe-se em um modelo racional. Em alguns casos, como no consumo de substâncias tóxicas, no comportamento sexual pré-conjugal e ao dirigir alcoolizado, o modelo obteve menos sucesso. Talvez isso se deva em parte ao fato de que, para muitas pessoas, especialmente adolescentes e adultos jovens, esses comportamentos de saúde costumam ser reações a situações sociais. Por exemplo, jovens indo a festas em que outras pessoas fumem maconha ou bebam em excesso ou cedam às demandass de um(a) namorado(a) que queira sexo. Conforme observou Frederick Gibbons (1988), em tais cenários, a pergunta: “O que você está disposto a fazer?” provavelmente descreva o apuro em que se encontra o jovem (e prevê seu comportamento subsequente) de forma mais precisa do que: “O que você planeja fazer?”.

Disposição comportamentalrefere-se à motivação de uma pessoa em dado momento para envolver-se em um comportamento de risco. Assim como a intenção comportamental, a disposição comportamental é função de normas subjetivas. Uma maior disposição comportamental está associada a uma percepção de que outras pessoas afetivamente significativas, em especial amigos, participam e aprovam o comportamento em questão. Além disso, assim como a intenção comportamental, a maior disposição comportamental também esta ligada às nossas atitudes positivas para com o comportamento. Por fim, o fato de o comportamento já haver sido realizado em ocasião anterior está associado à maior intenção e disposição de realizá-lo novamente.

Disposição comportamental difere de intenção comportamental no sentido de que ela é reativa, em vez de deliberativa(Gibbons et al., 1998). Os comportamentos de risco e aqueles que comprometem a saúde com frequência são eventos sociais espontâneos, nos quais as pessoas seguem o líder do grupo, em vez de tomarem a decisão pessoal de seguir aquele comportamento. Por essa razão, os comportamentos de risco possuem imagens sociais claras que influenciam a disposição momentânea de uma pessoa de se comportar de certa forma. Uma quantidade substancial de pesquisas recentes corrobora o conceito de disposição comportamental em comportamentos relacionados com a saúde. Pesquisas realizadas com adolescentes sexualmente ativos, por exemplo, demonstram que a atividade sexual costuma ser reativa, em vez de planejada (Ingham et al., 1991). Parece que o mesmo ocorre com o ato de dirigir alcoolizado (Gerrard et al., 1996).

O modelo transteórico

Um tio obeso que tenho continuava a fumar e seguir uma dieta com alto conteúdo de gordura apesar da recomendação de seu médico para modificar esses comportamentos que comprometem a saúde. Quando o pressionaram para explicar por que não estava mudando seus maus hábitos de saúde, respondeu que estava ciente dos riscos e acreditava que devia melhorar seu estilo de vida mas que não estava “pronto”. Alguns meses mais tarde, depois de um ataque cardíaco quase fatal, ele declarou que estava pronto para largar o cigarro. E assim o fez. Infelizmente, também "desistiu" seis meses depois. Ele lutou para alcançar esse objetivo até o final de sua vida. Será que meu tio não lembra alguém que vocé conheça?

As teorias do comportamento de saúde que consideramos até aqui tentam identificar variáveis que influenciem atitudes e comportamentos relacionados com a saúde e combiná-los em uma formula que preveja a probabilidade de que determinado indivíduo aja de certa maneira em determinada situação. Por exemplo, a teoria do comportamento planejado poderia prever que meu tio continuaria a fumar porque tinha uma atitude positiva em relação ao cigarro, já que fumar era esperado entre seus amigos e dava um sentimento de controle sobre a vida. O modelo transteórico (também denominado modelo de estágios da mudança), entretanto, sustenta que o comportamento muda sistematicamente ao longo de cinco estágios distintos(Prochaska, 1994; Prochaska et al., 1992).

Esse modelo afirma que as pessoas progridem por meio de cinco estágios ao alterar comportamentos relacionados com a saúde. Os estágios são definidos em termos de comportamentos passados e intenções de ações futuras.

Estágio I: Pré-contemplação. Durante este estágio, as pessoas não estão pensando seriamente sobre mudar seu comportamento; podem até evitar reconhecer que o comportamento deva ser mudado.

Estágio 2: Contemplação. Neste estágio, as pessoas reconhecem a existência de um problema (como o hábito de fumar) e estão considerando seriamente a possibilidade de mudarem seu comportamento (parar de fumar) em um luturo próximo (em geral, em seis meses). [150]

Estágio 3: Preparação. Este estágio envolve pensamentos e ações. Ao prepararem-se para parar de fumar, por exemplo, as pessoas obtêm uma receita para um adesivo de nicotina, entram para um grupo de apoio, buscam suporte familiar e fazem outros planos específicos.

Estágio 4: Ação. No decorrer deste estágio, as pessoas já mudaram o comportamento e estão tentando manter os esforços.

Estágio 5: Manutenção. As pessoas nesta etapa continuam a obter sucesso em seus esforços para alcançar seu objetivo final. Embora este estágio possa manter-se indefinidamente, sua duração em geral é definida de forma arbitrária em seis meses.

O modelo de estágios da mudança reconhece que as pessoas mudam entre os estágios de maneira não linear, como em uma espiral(Velicer e Prochaska, 2008). Como meu tio, muitos ex-fumantes recentes têm recaída entre a manutenção e a preparação, seguindo um ciclo dos estágios 2 a 5 uma ou mais vezes até que concluam sua mudança comportamental.

Embora o modelo transteórico tenha mais êxito para prever certos comportamentos do que outros (Bogart e Delahanty, 2004; Rosen, 2000), a pesquisa costuma confirmar que pessoas em estágios mais elevados têm mais sucesso ao tentar melhorar seus comportamentos relacionados com a saúde, como adotar uma dieta saudável (Armitage et al., 2004), testagem domiciliar para nível de radônio (Weinstein e Sandman, 1992), prevenção da osteoporose (Blalock et al., 1996), vacinas contra hepatite B (Hammer, 1997), tabagismo (DiClemente, 1991), exames para câncer de mama e colorretal (Champion et al., 2007; Lauver et al., 2003; Manne et al., 2002), comportamentos sexuais seguros (Bowen e Trotter, 1995), prevenção do HIV (Prochaska et al., 1994) e dieta (Glanz et al., 1994).

Outras pesquisas mostram que as teorias de estágios, como o modelo transteórico, têm uma vantagem bastante prática: promovem o desenvolvimento de intervenções de saúde mais efetivas, proporcionando uma “receita” para a mudança comportamental ideal(Sutton, 1996). Isso possibilita aos psicólogos da saúde e a outros profissionais combinarem a intervenção com as necessidades específicas de [151] uma pessoa que esteja “presa” em determinado estágio (Perz et al., 1996). O modelo também reconhece que diferentes processos comportamentais, cognitivos e sociais podem assumir a dianteira quando tentamos alcançar nossos objetivos básicos de saúde. Entre eles, estão a conscientização (p. ex., procurar mais informações sobre um comportamento que compromete a saúde), contracondicionamento (substituir comportamentos alternativos pelo comportamento-alvo) e uso de reforço (recompensar-se ou ser recompensado pelo sucesso).

Vejamos um exemplo. É provável que tentar convencer uma pessoa obesa que esteja no estágio de pré-contemplação a perder peso fracasse, pois as pessoas que se encontram nesse estágio não acreditam que estejam com um problema de saúde. A intervenção mais efetiva nesse momento seria incentivá-la a considerar mudar seu comportamento, talvez fornecendo informações sobre os riscos da obesidade para a saúde. No entanto, uma pessoa no estágio de preparação ou ação não precisa de mais persuasão para mudar seu comportamento. Todavia, ela pode precisar de dicas específicas sobre como implementar um plano de ação efetivo.

Abordando os benefícios percebidos de comportamentos de risco elevado

Ainda que o modelo de crença de saúde, a teoria do comportamento planejado e o modelo transteórico incluam benefícios e riscos percebidos, a intenção desses modelos era, a princípio, explicar comportamentos preventivos motivados pelo desejo de evitar doenças e lesões. Consequentemente, esses modelos tendem a enfocar os riscos de comportamentos insalubres, em vez de quaisquer benefícios percebidos de comportamentos de alto risco para o indivíduo. Os pesquisadores observaram, contudo, que os benefícios percebidos são importantes preditores de certos comportamentos, como o ato de beber em adolescentes (Katz et al., 2000), o uso de tabaco (Pollay, 2000) e sexo desprotegido (Parsons et al., 2000).

Em uma pesquisa com estudantes do quinto, sétimo e nono anos, Julie Goldberg e colaboradores (2002) apresentaram aos participantes o seguinte cenário:

Imagine, agora, que vocé esteja em uma festa. Durante a festa, você toma algumas doses de bebidas alcoólicas (como duas taças de vinho, dois copos de cerveja ou duas doses de destilados). Mesmo que isso seja algo que você jamais faria, tente imaginar.

Depois de ler o cenário, os estudantes devem responder várias perguntas abertas sobre as coisas boas e ruins que poderiam ocorrer se bebessem em uma festa. Eles também devem falar de sua experiência verdadeira com o álcool e as consequência de beber. Seis meses depois, são questionados mais uma vez sobre seu comportamento com a bebida.

Os pesquisadores descobriram muito sobre os benefícios percebidos da bebida. Mais que os alunos do quinto e sétimo anos, os do nono ano perceberam que os benefícios físicos e sociais do álcool (p. ex., “Gosto do barato que dá quando bebo”; “Vou me divertir mais na festa”) são mais prováveis, e os riscos físicos e sociais (p. ex., “Vou passar mal”; “Vou fazer algo de que depois vou me arrepender”), menos prováveis de acontecer.

Esses resultados têm uma implicação profunda para campanhas de educação em saúde voltadas para adolescentes. Embora os pesquisadores muitas vezes concluam que os adolescentes são irracionais em suas decisões, pois se envolvem cm comportamentos de risco mesmo conhecendo os riscos, [152] esses resultados sugerem que os jovens, de fato, ponderam os prós e contras de seus comportamentos. Mensagens mais efetivas sobre a saúde poderiam se concentrar em como os adolescentes podem obter os benefícios percebidos de comportamentos de risco à saúde de formas mais seguras. Por exemplo, as mensagens poderiam identificar outras maneiras de se sentir mais maduro e ser mais sociável em festas do que por meio da bebida.

Prevenção

Geralmente, pensamos na prevenção apenas em relação aos esforços para modificar o risco da pessoa antes que a doença a atinja. De fato, pesquisadores diferenciaram três tipos de prevenção, que são realizados antes, durante e depois de uma doença atacar.

Prevenção primária refere-se a ações que promovem a saúde, que são realizadas para prevenir que uma doença ou lesão ocorra. Exemplos de prevenção primária são usar cinto de segurança, seguir uma boa nutrição, fazer exercícios, não fumar, manter padrões saudáveis de sono e fazer exames de saúde regularmente.

Prevenção secundária envolve ações para identificar e tratar uma doença no começo de seu curso. No caso de uma pessoa com pressão alta, por exemplo, a prevenção secundária envolveria exames regulares para monitorar sintomas, o uso de medicamentos para a pressão e alterações na dieta.

Prevenção terciária envolve ações para conter ou retardar danos uma vez que a doença já tenha avançado além de seus estágios iniciais. Um exemplo de preverição terciária é o uso de radioterapia ou quimioterapia para destruir um tumor. A prevenção terciária também busca reabilitar as pessoas ao maior nível possível.

Embora menos efetiva em termos de custos e menos benéfica do que as prevenções primária ou secundária, a prevenção terciária é, de longe, a forma mais comum de cuidado de saúde. O cuidado terciário é muito mais fácil de implementar, pois os grupos-alvo adequados (pessoas com doenças ou lesões) são facilmente identificados. Além disso, pacientes em tratamento terciário em geral têm mais motivação para aderir ao tratamento e a outros comportamentos que promovam a saúde.

Apesar disso, neste capítulo, enfocaremos as iniciativas de prevenção primária dos psicólogos da saúde. Esses profissionais incentivam os médicos e outros trabalhadores na área da saúde a aconselharem seus pacientes. Por mais que essa atenção personalizada possa parecer efetiva, muitos médicos têm dificuldade em usar medidas preventivas. Uma razão para essa dificuldade é que as faculdades de medicina tradicionalmente colocam pouca ênfase em medidas preventivas. Outra é a falta de tempo, devido ao número de pessoas que os médicos precisam atender a cada dia.

Os psicólogos também promovem a saúde incentivando a ação legislativa e realizando campanhas educativas na mídia. Esses esforços focalizam muitos níveis, do individual à comunidade e à sociedade como um todo. Conforme discutido no Capítulo 1, esses objetivos devem aumentar o tempo de vida saudável, diminuir as disparidades em saúde entre diferentes segmentos da população e proporcionar acesso universal a serviços preventivos.

Às vezes, somos nossos piores inimigos na batalha pela saúde. Na adolescência e no começo da idade adulta, quando estamos desenvolvendo hábitos relacionados com a saúde, normalmente somos bastante saudáveis. Fumar cigarros, comer muita gordura e não fazer exercícios nessa época são coisas que não parecem ter efeito algum sobre a saúde. Desse modo, os jovens têm poucos incentivos imediatos para praticar bons comportamentos e corrigir mais hábitos relacionados com a saúde. [153]

Muitos comportamentos que promovem a saúde, como fazer exercícios vigorosos e seguir uma dieta com baixo teor de gordura, são menos prazerosos ou mais difíceis do que alternativas menos saudáveis. Se um comportamento (como comer quando está deprimido) causar alívio ou gratificação imediata, ou se não apresentá-lo proporciona desconforto imediato, será difícil eliminar tal comportamento.

Os comportamentos sexuais de alto risco que podem resultar em infecção por HIV e aids são um exemplo trágico desse principio. No período de 3 a 6 semana após a primeira exposição, algumas pessoas soropositivas desenvolvem irritação na garganta, febre e um rash parecido com sarampo. Essa forma precoce de infecção por HIV geralmente desaparece e às vezes é tão leve que nem sequer é lembrada. Podem passar meses ou anos sem outros sintomas explícitos. No decorrer desse período, o HIV está sendo produzido ativamente e enfraquecendo o sistema imune. Não se sabe o tempo exato necessário antes que a aids se desenvolva em determinado indivíduo. Alguns pesquisadores acreditam que o período de incubação - o tempo entre a exposição ao vírus e a primeira aparição de sintomas da doença - pode ser de até 20 anos. Quando a aids completa aparece, a morte (se não prevenida por novos tratamentos) costuma ocorrer nos próximos dois anos. As consequências negativas remotas e potenciais do comportamento de risco muitas vezes são diminuídas pelos prazeres imediatos do momento.

Vida saudável

O mito da “fonte da juventude” está presente nas histórias de quase todas as culturas e encontra sua expressão atual nos elixires, cremes e dispositivos supostamente rejuvenescedores que são alardeados em comerciais, em websites de medicina alternativa e em vitrines de farmácias. Afirmações de que as pessoas logo chegarão a viver 200 anos devido a megadoses de antioxidantes, vitaminas, ervas ou alguma outra “bala mágica” resultam em confusão a respeito da longevidade. Por décadas, os cientistas investigaram de forma sistemática as alegações de pessoas que excederam muito o tempo de vida normal e, em cada caso, essas explicações não puderam ser verificadas. [154]

Mesmo sem uma “bala mágica”, as pessoas na atualidade podem esperar viver muito mais do que coortes anteriores. As principais doenças dos nossos ancestrais, como a pólio, a catapora, o tétano, a difteria e a febre reumática, foram quase totalmente erradicadas.

Quando se concentram na expectativa de vida saudável, os psicólogos da saúde buscam reduzir a quantidade de tempo que os idosos passam em morbidade (deficientes, doentes ou com dor). Para ilustrar isso, considere dois irmãos gêmeos que, mesmo geneticamente idênticos e expostos aos mesmos riscos de saúde enquanto cresciam, tiveram experiências muito diferentes em relação à saúde desde a adolescência. O primeiro irmão fuma duas carteiras de cigarros por dia, é obeso, jamais faz exercício, tem uma visão exasperada e pessimista em relação à vida e come alimentos com quantidades excessivas de gordura animal e açúcar. O outro irmão busca um estilo de vida muito mais saudável, evitando o tabaco e o estresse excessivo, fazendo exercícios regularmente, observando sua dieta e desfrutando do apoio social de um círculo íntimo de familiares e amigos. Embora os dois irmãos tenham as mesmas vulnerabilidades genéticas a doenças pulmonares, circulatórias e cardiovasculares, o estilo de vida insalubre do primeiro o condena a um longo período de morbidade na vida adulta, começando por volta dos 45 anos de idade. Em comparação, o estilo de vida mais saudável do segundo irmão posterga a doença até muito mais adiante em sua vida. Se ele contrair alguma das doenças, é provável que seja menos grave, e a recuperação será mais rápida. Em alguns casos, como o câncer de pulmão, pode ser “postergado” para além do fim de sua vida.

Exercícios

Praticar exercícios é o mais perto que podemos chegar de uma fonte da juventude. Isso torna-se ainda mais importante à medida que as pessoas envelhecem, pois promove o bem-estar físico e psicológico e pode ajudar a desacelerar ou até reverter muitos dos efeitos do envelhecimento. A prática regular de exercícios pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, muitos tipos de câncer e outras condições relacionadas com o estresse. Pessoas fisicamente ativas também têm níveis mais baixos de ansiedade e menos depressão. O mais importante para manter a vitalidade é o exercício aeróbico, no qual o coração acelera para bombear quantidades maiores de sangue, a respiração é mais profunda e mais frequente, e as células do corpo desenvolvem a capacidade de extrair quantidades crescentes de oxigênio do sangue. Além disso, exercícios aeróbicos com uso de pesos, como caminhar, correr e jogar com raquetes, ajudam a preservar a flexibilidade dos músculos, bem como manter a densidade óssea.

Foi demonstrado que fazer exercícios protege contra a osteoporose, uma doença caracterizada por um declínio na densidade óssea devido à perda de cálcio. Isso é especialmente verdadeiro em indivíduos que foram ativos durante a juventude, quando os minerais dos ossos estavam se acumulando (Hind e Burrows, 2007). Embora a osteoporose seja mais comum em mulheres na pós-menopausa, também ocorre em homens, assim como o efeito protetor dos exercícios. Por volta de 1 em cada 4 mulheres com mais de 60 anos tem osteoporose, sendo que mulheres brancas e asiáticas estão em maior risco do que as afro-americanas. A osteoporose resulta em mais de 1 milhão de fraturas ósseas por ano apenas nos Estados Unidos, entre as quais as mais debilitantes são as nos quadris. Em um estudo retrospectivo, mulheres e homens idosos descreveram seu nível de exercício na adolescência, novamente aos 30 anos e mais [155] uma vez aos 50 (Greendale et al., 1995). Tanto homens quanto mulheres com níveis maiores de atividade apresentaram densidade bem maior de minerais ósseos do que seus correlates sedentários.

Além de aumentar a força física e manter a densidade óssea, a prática regular de exercícios reduz o risco da pessoa idosa de duas das condições crônicas mais comuns na idade adulta: doença cardiovascular e câncer. Em um estudo, pesquisadores investigaram fatores de risco coronariano em homens idosos, de 65 a 84 anos (Caspersen et al., 1991). Mesmo exercícios moderados, como jardinagem e caminhadas, resultaram em aumentos significativos nas lipoproteínas de alta densidade (colesterol HDL) - o chamado “bom colesterol”—e reduziram o colesterol sérico total. A prática regular de exercícios está ligada a níveis mais baixos de triglícerídeos, que foram implicados na formação de placas ateroscleróticas (Lakka e Salonen, 1992), assim como em níveis mais baixos de lipoproteínas de baixa densidade (colesterol LDL), o colesterol “ruim”, e níveis maiores de HDL (Szapary, Bloedon e Foster, 2003). Como veremos no Capítulo 9, os exercícios também são uma arma valiosa no controle do diabetes tipo I(Coim el al., 2008).

Vários estudos amplos relatam que a atividade física também oferece proteção contra cânceres de colo e reto, mama, endométrio, próstata e pulmão(Miles, 2008; Thune e Furberg, 2001). Enfocando as práticas de caminhar, andar de bicicleta, correr, nadar, jogar tênis e golfe, Goya Wannamethee e colaboradores (1993) encontraram uma relação inversa entre o nível de atividade física e mortes por todos os tipos de câncer. A atividade física regular pode reduzir o risco de câncer, influenciando citocinas proinflamatórias (Stewart et al., 2007), que, por sua vez, têm efeitos benéficos sobre o desenvolvimento e crescimento de células tumorais (Rogers et al., 2008). Além disso, a atividade física promove o funcionamento das células imunológicas, retardando alguns declínios relacionados com a idade nos glóbulos brancos do sangue. Por exemplo, atletas que fazem treinamento de resistência preservam o cumprimento dos telômeros em seus glóbulos brancos — que, de outro modo, diminui sistematicamente em adultos sedentários que envelhecem (LaRocca, Seals e Pierce, 2010).

Os benefícios de fazer exercícios estendem-se ao nosso bem-estar psicológico, embora as evidências científicas sobre isso sejam menos conclusivas(Larun et al., 2006). Mesmo assim, parece claro que a prática regular de exercícios está associada a melhoras no humor e no bem-estar após a mesma (Moti et al., 2005). Estudos mostram que, com o tempo, os exercícios atuam como uma proteção efetiva contra o estresse (Trivedi et al., 2006), aumentam a autoestima e a autoeficácia (McAuley et al., 2003) e oferecem proteção contra depressão (Daley, 2008) e ansiedade (Wipfli, Rethorst e Landers, 2008).

A boa forma física em homens e mulheres retarda a mortalidade e pode estender a vida em dois anos ou mais. Em última análise, as pessoas podem “lucrar” com os benefícios dos exercícios, com uma maior longevidade como seus dividendos (Paffen- barger et al., 1986). Todavia, durante a velhice, a intensidade dos exercícios deve ser ajustada para refletir declínios no funcionamento cardiovascular e respiratório. Para alguns adultos, isso significa que uma caminhada substituí a corrida; para outros, como o ex maratonista Bill Rodgers, agora com mais de 60 anos, isso significa treinar uma corrida de seis minutos por milha, em vez de cinco.

Como diretriz, o relatório Healthy People 2000 recomenda 150 minutos de exercícios totais a cada semana, dos quais pelo menos 60 minutos envolvem atividades aeróbicas rítmicas e contínuas. Para muitos adultos, desligar a televisão serve como trampolim para a prática de exercícios e uma saúde melhor. O Family Heart Study mostrou que pessoas que assistiam uma hora de televisão por dia se exercitavam mais e tinham índices de massa corporal e outros fatores de risco coronariano) significatívamente menores do que pessoas que assistiam três horas de televisão por dia (Kronenberg et al., 2000;. [156]

Pode ser tarde demais para começar a fazer exercícios?

Não. Em um estudo, indivíduos frágeis que residiam em lares para idosos, com idades entre 72 e 98 anos, participaram de um programa de 10 semanas de treinamento em resistência e fortalecimento muscular, três vezes por semana (Raloff, 1996). Depois de 10 semanas, os sujeitos do grupo que fez exercícios mais que dobraram sua força muscular e aumentaram sua capacidade de subir escadas em 28%. Em outro estudo, Maria Fiatarone e colaboradores (1993) dividiram aleatoriamente 100 sujeitos com idade média de 87 anos em quatro grupos. Os sujeitos do primeiro grupo fizeram exercícios regulares para treinamento de resistência. Os do segundo grupo tomaram um suplemento multivitamínico diário. Os do terceiro grupo tomaram o suplemento e fizeram o treinamento de resistência. Os do quarto grupo poderiam fazer três atividades físicas de sua escolha (incluindo exercícios aeróbicos), mas não poderiam fazer o treinamento de resistência. No decorrer do estudo, a força muscular mais que dobrou nos grupos da resistência, com um aumento médio de 113%, comparado com um aumento minúsculo, de 3%, nos sujeitos do segundo grupo. Curiosamente, o grupo que fez exercícios e tomou o suplemento não apresentou melhora maior do que os grupos que fizeram exercícios, mas não tomaram suplementos.

Outras evidências de que nunca é tarde para começar a se exercitar advêm de estudos demonstrando que exercícios, mesmo em um ponto avançado da vida, ainda podem ajudar a prevenir ou reduzir a taxa de perda na densidade óssea. Em comparação com um grupo de controle de mulheres sedentárias, mulheres de 50 a 70 anos que foram colocadas em um grupo de exercícios, apresentaram uma perda bastante reduzida no conteúdo de minerais ósseos (Nelson ct al., 1994). Como um benefício adicional, as mulheres do grupo de exercícios aumentaram sua massa e força musculares. Juntos, esses benefícios são associados a menor morbidade e mortalidade entre idosos fisicamente ativos (Everett, Kinser e Ramsey, 2007).

Por que mais idosos não fazem exercícios?

Apesar dos documentados benefícios físicos e psicológicos da prática de exercícios por toda a vida, a porcentagem de pessoas que se exercitam regularmente diminui com a idade(Phillips et al., 2001). Porcentagens estimadas de 32% dos homens e 42% das mulheres nos Estados Unidos descrevem-se como sedentários (USCB, 2009). Por quê? Uma razão é que alguns adultos mais velhos relutam e até temem fazer exercícios demais devido aos mitos associados à prática de exercícios. Esses mitos envolvem a ideia de que os exercícios podem acelerar a perda de densidade óssea, causar artrite e até aumentar o risco de morrer de ataque cardíaco.De fato, é muito mais provável que o corpo enferruje do que se desgaste. Como diz o ditado: “Use ou perca!"

O comportamento de fazer exercícios também está relacionado com as crenças do indivíduo sobre os benefícios para a saúde, a confiança em sua capacidade de desempenhar certas habilidades físicas corretamente(autoeficácia para o exercício) e a automotivação. Acreditar que os exercícios possam ajudar a pessoa a viver uma vida mais longa e mais saudável é um forte estímulo para iniciar a fazé-los. Muitas pessoas idosas podem não ter informações básicas sobre os benefícios de atividades físicas apropriadas e podem considerar os exercícios difíceis, inúteis ou perigosos (Lee, 1993). Ou podem sentir que é tarde demais para melhorar sua saúde com exercícios, pois acreditam que os declínios na saúde são inevitáveis e irreversíveis com o aumento da idade (O ’Brien e Vertinsky, 1991).

Existem várias razões para os idosos não possuírem autoeficácia para os exercícios. Por um lado, geralmente têm menos experiência com a prática de exercícios e menos modelos que os inspirem a praticá-los do que pessoas mais jovens. Por outro, os idosos também enfrentam estereótipos etaristas sobre o que constitui o comportamento apropriado; a prática de exercícios vigorosos, sobretudo para as mulheres, é contrária aos estereótipos da velhice. Por fim, muitos idosos consideram que a velhice é uma época de repouso e relaxamento e têm menos probabilidade de começar e manter a realização de exercícios regulares.

Para explorar por que alguns adultos decidem fazer exercícios e outros não, Sara Wilcox e Martha Storandt, da Washington University (1996), estudaram uma amostra aleatória de 121 mulheres entre as idades de 20 e 85, concentrando-se em três variáveis psicológicas: autoeficácia para exercícios, automotivação e atitudes para com a prática de exercícios. A amostra consistia em dois grupos: indivíduos que faziam exercícios e indivíduos que não faziam exercícios. As mulheres no grupo dos exercícios vinham fazendo atividades aeróbicas por pelo menos 20 minutos, três vezes ou mais por semana, por pelo menos quatro meses antes do estudo. As que não faziam exercícios relataram fazer pouco ou nenhum (menos de duas vezes por mês) nos quatro meses antecedentes ao estudo.

Os resultados revelaram que o desejo de fazer exercícios e a disposição para tal têm menos a ver com a idade do que com as atitudes em relação à prática de atividades físicas. A crença de que exercícios seriam prazerosos e benéficos diminuiu com a idade, mas apenas entre indivíduos que não os faziam. Aquelas que fizeram exercícios durante a idade adulta foram significativamente mais automotivadas, tinham mais autoeficácia em relação a eles e atitudes mais positivas a respeito deles do que as que não faziam exercícios. Esses resultados sugerem que a educação que enfatiza os benefícios e a frequência, duração e intensidade necessárias para que os exercícios alcancem esses benefícios deve ser um componente fundamental em intervenções com exercícios para idosos. Além disso, os estereótipos sobre a velhice como um tempo de declínio inevitável devem ser questionados. Os idosos terão menos probabilidade de começar um regime de exercícios se acreditarem que são incapazes de fazer mesmo atividades básicas, de modo que a intervenção deve incluir instruções fundamentais. Finalizando, os programas apropriados para a idade, como o tai chi, reduzem temores em relação a problemas que são comuns em idosos, especialmente o medo de cair (Zijlstra et al„ 2007).

Sono saudável

Se o exercício é a "fonte da juventude”, os hábitos saudáveis relacionados com o sono podem ser o “elixir da saúde"(Grayling, 2009). Infelizmente, por volta de 1 em cada 5 adultos não dorme o suficiente e experimenta privação do sono (AAS.Vl, 2010) (ver dicas de especialistas para higiene do sono, p. 159). Para cerca de 70 milhões de norte-americanos, um transtorno do sono, como a insônia, a narcolepsia, o sonambulismo ou a apneia, é a causa. Para outros, o estresse ou um horário pesado de trabalho ou estudo contribuem para seus maus hábitos de sono. Os adolescentes, que precisam de 8,5 a 9,5 horas de sono por noite, hoje dormem uma média abaixo de sete horas duas horas a menos do que seus avós quando eram adolescentes. Quase um terço dos estudantes do ensino médio que responderam a uma pesquisa recente admitiu pegar no sono rotineiramente na classe (Sleep Foundation, 2010).

O sono deficiente cobra um preço do bem-estar físico e psicológico. Considere alguns dos resultados de estudos sobre a privação crônica do sono:

§  A dívida crônica de sono promove um aumento no peso corporal. Crianças e adultos que dormem menos têm uma porcentagem maior de gordura corporal do que aqueles que dormem mais(Taheri,2004). O sono deficiente estimula um aumento no hormônio da fome, agrelina, e uma redução no hormônio supressor do apetite, a leplina. A perda do sono também eleva os níveis do hormônio do estresse, o cortisol, que promove o armazenamento de calorias na gordura corporal (Chen, Beydoun e Wang, 2008). Esse efeito pode ajudar a explicar por que universitários com privação crônica do sono costumam adquirir peso; [158]

§  A privação do sono suprime o funcionamento imunológico. As moléculas de sinalização imunológica, como o fator de necrose tumoral, a interleucina-1 e a interleucina-6, desempenham um papel importante na regulação do sono. Níveis elevados dessas citocinas, que podem ocorrer com o sono inadequado, também são associados a diabetes, doenças cardiovasculares e diversas outras condições crônicas (Motivala e Irwin, 2007). Idosos que não apresentam privação do sono podem, na verdade, viver mais tempo que pessoas que têm dificuldade para pegar no sono ou permanecer adormecidas (Dew et al., 2003);

§  A perda do sono tem um efeito adverso sobre o funcionamento metabólico, neural e endócrino de nosso corpo de maneira semelhante ao envelhecimento acelerado(Pawlyck et al., 2007). Outros efeitos do sono inadequado são dificuldades de concentração, memória e criatividade, bem como maior tempo de reação, erros e acidentes (Stickgold, 2009). Estudos sugerem que o cérebro usa o sono para reparar lesões, repor os estoques de energia e promover a neurogênese, ou seja, a formação de novas células nervosas (Winerman, 2006);

Especialistas têm algumas dicas para promover hábitos saudáveis para o sono, muitas vezes chamados de higiene do sono:

§ Evite qualquer forma de cafeína antes de dormir. (Isso inclui café, chá, refrigerantes, chocolate e nicotina.);

§ Evite o álcool, que pode perturbar o sono;

§ Faça exercícios regularmente, mas termine sua ginástica no mínimo três horas antes de deitar;

§ Estabeleça um horário consistente e uma rotina relaxante para deitar(p. ex., tomar um banho ou ler um bom livro);

§ Crie um ambiente que conduza ao sono, que seja escuro, silencioso e preferencialmente fresco e confortável.

Se você tiver problemas com sono ou sonolência durante o dia, considere manter um diário do sono, como o publicado pela National Sleep Foundation. Nesse diário, registre seus padrões de sono e o quanto dorme. O diário ajudará a examinar [159] alguns de seus hábitos de saúde e sono para que você e seu médico possam identificar possíveis causas de problemas com o sono (Sleep Foundation, 2010).

Promovendo famílias e comunidades saudáveis

O modelo biopsicossocial da saúde não se limita a indivíduos. A pesquisa sobre a psicologia da saúde preventiva tem-se concentrado cada vez mais nos diversos sistemas externos que influenciam a saúde do indivíduo. O principal entre esses sistemas é a família. Em uma pesquisa nacional com mais de 100 mil adolescentes do 7 ao 12 anos, Resnick e colaboradores (1997) observaram que o contexto social da família tinha uma forte influência sobre os comportamentos de risco. Nas palavras dos pesquisadores, as “conexões com pais-família” previram o nível de perturbação emocional de adolescentes na família, sua probabilidade de usar drogas e álcool e, até certo ponto, o quanto se envolviam em violência. Outros fatores importantes que afetaram os comportamentos desses adolescentes eram se seus pais estavam presentes em períodos cruciais do dia e se eles tinham poucas ou muitas expectativas em relação ao desempenho acadêmico de seus filhos.

Mais recentemente, Rena Repetti e colaboradores (2002) verificaram que certas características familiares produzem uma “cascata de riscos” que começa cedo na vida ao “criar vulnerabilidades (e exacerbar vulnerabilidades biológicas preexistentes) que formam a base para problemas de saúde física e mental a longo prazo” (p. 336). Essas características de risco familiares dividem-se em duas: conflitos familiares explícitos, manifestados em episódios frequentes de raiva e agressividade, e criação deficiente, incluindo relacionamentos de pouco apoio, distantes e até negligentes.

À maneira da teoria sistêmica, a psicologia da saúde comunitária concentra-se na comunidade como unidade de intervenção, reconhecendo que os indivíduos fazem parte de famílias, assim como de contextos culturais, econômicos e comunitários. Os psicólogos da saúde comunitários costumam defender políticas públicas que promovam a justiça socíal, os direitos humanos e a igualdade no acesso a tratamento de saúde e outros serviços humanos de qualidade (de La Cancela et al., 2004).

Barreiras familiares

Os hábitos de saúde costumam ser adquiridos dos pais e de outras pessoas que funcionam como modelos para comportamentos de saúde. Pais que fumam, por exemplo, têm uma probabilidade significativamente maior de ter filhos que fumam (Schulenberg et al., 1994). De maneira semelhante, pais obesos têm mais chance de ter filhos obesos, e os filhos de alcoolístas apresentam um risco maior de abusar do álcool (Schuckit e Smith, 1996).

Embora possa haver uma base genética para esses comportamentos, as crianças também podem adquirir expectativas sobre comportamentos de risco observando seus familiares. Em um estudo, Elizabeth D’Amico e Kim Fromme (1997) demonstraram, de maneira convincente, o impacto de irmãos maiores sobre o comportamento e as atitudes de irmãos adolescentes mais jovens. Seus resultados sugerem que a aprendizagem com um irmão mais velho seja um dos mecanismos pelos quais os adolescentes podem formar expectativas sobre comportamentos de risco à saúde. [160]

Barreiras da comunidade

A comunidade é uma força poderosa para promover ou desencorajar uma vida saudável. As pessoas têm mais probabilidade de adotar comportamentos que promovam a saúde quando eles são defendidos por organizações comunitárias, como escolas, agências governamentais e o sistema de saúde. Como exemplo, várias escolas em Minnesota mudaram o horário de início para mais tarde em resposta a estudos que demonstram que os adolescentes precisam dormir mais. Citando evidências de que a privação do sono em adolescentes está associada a deficiências no processamento cognitivo, ansiedade, depressão e acidentes de trânsito, os novos horários de início das aulas entraram em vigor durante o ano escolar de 1997 a 1998. Três anos de dados mostraram que os novos horários de início resultaram em maior possibilidade de que os estudantes fazerem o desjejum, melhoraram a frequência, reduziram os atrasos, aumentaram a atenção na classe, levaram a uma atmosfera escolar mais calma e demonstraram menos encaminhamentos ao diretor por indisciplina e menos idas dos alunos à orientação educacional e à enfermaria da escola por problemas relacionados com o estresse e outros problemas de saúde (National Sleep Foundation, 2010). Nos últimos anos, também tivemos um progresso significativo em mudar atitudes em relação a prática de exercícios e nutrição correta. Estamos muito mais informados sobre a importância de reduzir fatores de risco para o câncer, doenças cardíovasculares e outras condições crônicas graves. Todavia, ainda existem fortes pressões sociais que levam as pessoas a se envolverem em comportamentos que comprometem a saúde.

Considere o uso de álcool. Pesquisas nacionais indicam que o uso de álcool é mais prevalente entre universitários norte-americanos do que entre seus pares que não frequentam a faculdade (Adelson, 2006; Quigley e Marlatt, 1996). Outras pesquisas revelam que tomar bebedeiras entre universitários está associado a vários fatores de risco sociais, incluindo morar em certos dormitórios “festeiros”. Para alguns estudantes, a empolgação por estarem juntos em um ambiente pouco supervisionado pode desencadear esses comportamentos de risco (Dreer et al., 2004).

Felizmente, a maior parte dos comportamentos de risco inspirados pelos colegas representa um experimento efêmero que é abandonado antes de haver consequências irreversíveis e a longo prazo. Embora a frequência do consumo de álcool aumente significativamente na transição do ensino médio para o primeiro ano da faculdade, o consumo pesado diminui à medida que os estudantes ficam mais velhos, assumem mais responsabilidades e apresentam um padrão chamado de maturing out(Bartholow et al., 2003).

Psicologia da saúde comunitária e controle de lesões

Todos os anos, nos Estados Unidos, quase 120 mil pessoas morrem de ferimentos, incluindo 45 mil em acidentes automobilísticos e outros acidentes relacionados [162] com o transporte; 33 mil devido a suicídios; 71 mil mortes em incêndios, afogamento, quedas, envenenamentos e outros acidentes sem relação com o transporte; e 17 mil em decorrência de homicídios (Xu, Kochanek e Tejada-Vera, 2009). Quando todas as pessoas entre 1 e 44 anos são consideradas como um grupo, os ferimentos representam a principal causa de morte, à frente das doenças cardiovasculares e do câncer. Adicionados a esse custo em mortalidade, existem 3,3 milhões de anos potenciais de vida perdida prematuramente a cada ano como resultado de lesões. Os termos lesões e trauma substituem o uso da palavra acidente para enfatizar o fato de que a maior parte dos ferimentos não advém de eventos aleatórios e inevitáveis — eles são previsíveis e evitáveis (Sleet et al, 2004).

A adoção de uma abordagem de prevenção primária no controle de ferimentos é um fenômeno recente. Ainda na década de 1980, a prevenção de lesões não era tratada na maioria dos livros didáticos sobre psicologia comunitária. Os psicólogos da saúde comunitários geralmente se concentram em três estratégias aceitas em programas de prevenção de lesões: educação e mudança de comportamento, legislação efiscalização e engenharia e tecnologia. As estratégias de educação e mudança de comportamento costumam visar à redução dos comportamentos de risco (qualquer aspecto que aumente a probabilidade de a pessoa se ferir) e ao aumento dos comportamentos de proteção (qualquer aspecto que minimize o perigo potencial em um comportamento de risco).

Educação para a saúde comunitária

É provável que haja maior ênfase na promoção da saúde atualmente do que em qualquer outra época da história. Novas leis federais relacionadas com o cuidado de saúde foram aprovadas em março de 2010, esforços substanciais são dedicados para moldar a opinião pública a respeito de questões-de-saude-por meio de campanhas educativas em anúncios, nos meios de transporte público, em revistas e jornais, na televisão, no rádjo e em websites. A importância dessas campanhas é revelada em controvérsias nas pesquisas sobre a maneira como as informações devem ser apresentadas, (p. ex., será que as campanhas de prevenção ao HIV devem se concentrar em formas mais seguras de sexo ou em abstinência?)

Educação para a saúde refere-se a qualquer intervenção planejada envolvendo a comunicação que promova o aprendizado de comportamentos mais saudáveis. O modelo mais usado em educação para a saúde é o depreceder/proceder (Green e Rreuter, 1990; Yeo, Berzins e Addington, 2007). Segurido esse modelo, o planejamento da educação para a saúde comeca com a identificacão de problemas de saúde especificos em determinado grupo. A seguir, são identificados elementos do estilo de vida e do ambiente que contribuam para o problema visado (assim como aqueles que protegem contra ele). Então, fatores da história que predisponham, causem ou reforcem esses fatores relacionados com o estilo de vida e o ambiente são analisados para determinar a possível utilidade da educação para a saúde e de outras intervencões. Duxante a fase fina de implementacão, os programas de educação para a saúde, são projetados, iniciados e avalidados.

Vamos examinar como o modelo de preceder/proceder se aplicaria a uma campanha de educação para a saúde sobre o câncer de pulmão. Em primeiro lugar, os psicólogos da saúde identificam o grupo-alvo para a intervenção. A seguir, investigam fatores ambientais que possam afetar o grupo-alvo, pois a doença pode resultar de condições de vida ou trabalho insalubres, em que as pessoas estejam expostas a poluentes perigosos. Além disso, esses psicólogos consideram fatores psicológicos e sociais. Eles começam determinando quem fuma. Quando começou a fumar? Por quê? Pesquisadores verificaram que o hábito de fumar inicia normalmente durante a adolescência, sobretudo em resposta a pressões sociais (Rodriguez, Romer e Audrain-McGovern, 2007), que incluem a imitação de familiares, amigos e modelos, como [163] atores e atletas conhecidos. Muitos adolescentes consideram difícil resistir às pressões sociais, pois ser aceito pelos amigos é fonte de reforço extremamente importante. Também existem fatores causais relevantes: os cigarros costumam ser muito fáceis de obter, e as ações contra o hábito de fumar são mínimas.

Havendo determinado quais são os fatores que contribuem para o problema, os psicólogos preparam um programa de educação para a saúde contrabalançando esses fatores. Por exemplo, se for verificado que a pressão social é fator importante, eles podem projetar um programa de educação para a saúde que se concentre em aumentar a capacidade dos adolescentes de resistir à pressão social. Esse tipo de programa envolve modelos de comportamento que estimulem os adolescentes a não fumar, políticas antitabagismo em prédios públicos, sanções mais firmes contra a comercialização de cigarros e/ou impostos mais altos sobre a venda.

Qual é o nível de eficácia das campanhas de educação para a saúde? Pesquisadores verificaram que campanhas educacionais simplesmente informando as pessoas dos perigos de comportamentos que comprometem a saúde em geral são ineficazes para motivá-las a mudar hábitos de saúde antigos(Kaiser Foundation, 2010). Por exemplo, isolados, mensagens antitabagistas e outros programas de educação contra as drogas apresentam poucos efeitos - ou até mesmo efeito negativo. Em um estudo, adolescentes que haviam participado de um programa de educação contra as drogas patrocinado por uma escola, na verdade, tiveram, mais propensão, ao consumo de maconha e dietilamida do ácido lisérgico (LSD) do que um grupo de controle de estudantes que não haviam participado do curso (Stuart, 1974). O simples fato de verificar que o próprio estilo de vida não é tão saudável quanto poderia ser é insuficiente para provocar mudanças, pois muitas pessoas acreditam estarem protegidas ou serem invulneráveis às consequências negativas de seu comportamento de risco.

De modo geral, campanhas comunitárias multifacetadas que apresentam informações de diversas frentes funcionam melhor do que campanhas em “dose única”. Por exemplo, duas décadas de campanhas antitabagismo combinando programas de intervenção escolar com mensagens nos meios de comunicação de massa no âmbito da comunidade resultaram em uma redução significativa no tabagismo experimentai e regular e em uma mudança de visão entre estudantes do 7º ao 11º  ano no sistema escolar no condado de Midwestern entre 1980 e 2001, que passaram a considerar o tabagismo mais viciante e com mais consequências sociais negativas (Chassin et al., 2003). Como outro exemplo, um programa recente de prevenção ao câncer de pele se concentrou no uso de protetor solar, chapéus, óculos de sol e outros hábitos de proteção contra o sol por crianças em aulas de natação em 15 piscinas no Havaí e em Massachusetts. Além de visar às crianças, o programa Pool Cool, que combinou educação, atividades interativas e mudanças no ambiente (fornecendo protetor solar gratuito, estruturas de sombra portáteis e pôsteres sobre a segurança contra o sol), foi uma intervenção controlada e randomizada voltada para pais, salva-vidas e instrutores de natação. Comparadas com crianças em um grupo de controle em 13 outras piscinas que receberam uma intervenção de segurança no uso de patins e bicicletas, as crianças do grupo de intervenção apresentaram mudanças positivas relevantes no uso de protetor solar e sombra, hábitos gerais de proteção contra o sol e no número de queimaduras (Glanz et al., 2002). De maneira semelhante, outros pesquisadores observaram que as intervenções com multicomponentes para proteção contra o sol são particularmente efetivas com adultos frequentadores de praias (Pagoto et al., 2003). [164]

Mensagens amedrontadoras estruturadas na forma de perdas

Será que as mensagens que provocam medo são eficazes para promover a mudança de atitude e de comportamento? Para descobrir, Irving Janis e Seymour Feshbach (1953) compararam a eficácia de mensagens que excitavam vários níveis de medo na tentativa de promover mudanças em higiene dental. As mensagens que provocavam níveis moderados de medo eram mais eficazes do que as mais extremas para fazer estudantes do ensino médio mudarem seus hábitos de higiene dental. Para explicar os resultados, os pesquisadores concluíram que os indivíduos e as circunstâncias diferem em seu nível apropriado de medo necessário para desencadear uma mudança de atitude e comportamento. Quando esse nível é ultrapassado, as pessoas podem recorrer à negação ou a medidas de enfrentamento evitativo.

Um fator fundamental na determinação da eficácia de mensagens de saúde ameaçadoras é a percepção de controle comportamental daquele que a recebe. Antes que possam ser persuadidas, as pessoas devem acreditar que possuam a capacidade de seguir as recomendações. Em um estudo, Carol Self e Ronald Rogers (1990) apresentaram mensagens extremamente ameaçadoras em relação aos perigos da vida sedentária com ou sem informações que indicassem se os sujeitos conseguiriam realizar o comportamento favorável à saúde (como praticar exercícios) e melhorar sua saúde. O que eles descobriram? Mensagens ameaçadoras funcionariam apenas se os participantes estivessem convencidos de que eram capazes de enfrentar a ameaça a sua saúde; já as tentativas de assustar os participantes sem assegurá-los disso foram ineficazes.

Heike Mahler e colaboradores (2003) observaram que frequentadores de praia com idade universitária eram particularmente responsivos a uma campanha educacional para promover o uso de protetor solar e outros comportamentos de proteção contra o sol quando ela se concentrava nos perigos da exposição ao sol para a aparência de cada indivíduo. A intervenção começou com uma apresentação de slides de 12 minutos contendo fotos de casos extremos de rugas e marcas de envelhecimento. Depois disso, o rosto de cada sujeito foi fotografado com a câmera com filtro ultravioleta que acentuava as manchas marrons, as sardas e outras lesões cutâneas existentes causadas pela exposição ao ultravioleta. Um mês de seguimento indicou que a exposição resultara em um aumento significativo em comportamentos de proteção contra o sol e uma redução substancial da prática de tomar banho de sol.

Todavia, as táticas de susto que provocam muito medo, como fotografias de gengivas totalmente deterioradas ou doentes, tendem a perturbar as pessoas. Como resultado, essas mensagens podem ter o efeito contrário e diminuir a probabilidade de que uma pessoa mude suas crenças e, assim, seu comportamento (Beck e Frankel, 1981). Esse tipo de mensagem aumenta a ansiedade de tal forma que o único recurso de enfrentamento que percebem é a recusa em encarar o problema.

Concluindo, pesquisas sobre a estruturação de mensagens relacionadas com a saúde revelam um padrão básico: as mensagens estruturadas na forma de ganhos são eficazes para promover comportamentos de prevenção. [166] enquanto as estruturadas na forma de perdas são eficazes para promover comportamentos que impulsionem a detecção de doenças (exames)(Salovey, 2011).

Promovendo locais de trabalho saudáveis

Os psicólogos da saúde ocupacionais são pioneiros em projetar locais de trabalho saudáveis. Quatro dimensões do trabalho saudável foram identificadas: o estresse, relações entre trabalho e família, prevenção à violência e relações no trabalho(Quick et al., 2004). Uma vez que o estresse no trabalho é uma epidemia nos Estados Unidos, a pesquisa e as intervenções psicológicas são vitais para a saúde dos trabalhadores. Cada vez mais, as seguradoras estão reconhecendo que as causas de deficiências no local de trabalho estão mudando, de ferimentos para o estresse.

O local de trabalho tem um efeito psicológico profundo em todos os aspectos de nossas vidas e das vidas de nossos familiares. Por exemplo, os estressores encontrados no trabalho podem resultar em interações sociais menos sensíveis e menos solidárias e mais negativas e conflituosas na família, que podem afetar negativamente as respostas biológicas das crianças ao estresse, bem como sua regulação emocional e competência social (p. ex. Perry-Jenkins et al., 2000). Foram observados dois efeitos cruzados comportamentais entre as experiências de estresse no trabalho por um trabalhador e o bem-estar de outros membros da família. O transbordamento de emoções negativas ocorre quando frustrações relacionadas com o trabalho contribuem para um aumento na irritabilidade, na impaciência ou em outros comportamentos negativos em casa. O retraimento social ocorre quando um ou mais pais ou cuidadores adultos que trabalham retraem-se comportamental ou emocionalmente da vida familiar depois de dias muito estressantes no emprego.

Nos últimos 20 anos, houve uma mudança significativa na maneira como pensamos sobre a relação entre o trabalho e a vida familiar. À medida que mais e mais famílias consistem em dois adultos que trabalham em horário integral, os patrões e agências governamentais começam a reconhecer que todos os empregados enfrentam desafios complexos para equilibrar os papéis profissionais e familiares. Essas novas visões de­ sencadearam uma explosão de pesquisas sobre a relação entre o trabalho e a família. Entre os resultados mais consistentes, está o fato de que, nos Estados Unidos, a maioria dos empregados encontra pouco apoio e tem pouca voz nas políticas trabalhistas que os afetam e atingem suas famílias (Quick et al., 2004). Consequentemente, eles ficam a sua própria sorte para organizar os cuidados dos filhos, equilibrar horários de trabalho, prevenir o estresse no trabalho e coisas do gênero. A Family and Medical Leave Act, de 1993, ajuda alguns trabalhadores protegendo seus empregos enquanto cuidam de bebês e familiares doentes, mas muitos profissionais não são cobertos por essa legislação.

A violência no local de trabalho e nos campi universitários tem recebido considerável atenção nos últimos anos. Conforme algumas estimativas, o homicídio se tornou a segunda causa principal de morte por ferimentos ocupacionais, perdendo apenas para óbitos decorrentes de acidentes automobilísticos. A maioria dessas mortes ocorre durante assaltos, mas por volta de 10% podem ser atribuídos a colegas de trabalho ou ex-empregados. Outros 2 milhões de pessoas são agredidas todos os anos no trabalho (Bureau of Labor Statistics, 2006). Diversos fatores aumentam o risco de um trabalhador ser vítima de violência (Quick et al., 2004):

§ Contato com o público;

§ Transação em dinheiro;

§ Entrega de passageiros e mercadorias ou prestação de serviços;

§ Local de trabalho móvel;

§ Trabalho com pessoas instáveis ou voláteis (p. ex., em ambientes médicos ou de assistência social);

§ Trabalho realizado só, tarde da noite e em áreas com alta criminalidade [167]

Na área das relações trabalhistas, construir uma cultura de trabalho saudável exige que os empregados aceitem a responsabilidade por sua própria saúde e segurança e pela segurança e saúde de seus colegas. De maneira mais geral, conforme observaram Dorothy Cantor e colaboradores (2004), construir uma cultura de trabalho saudável exige atenção a três fatores: a pessoa (diferenças individuais, educação, personalidade), o ambiente (condições de trabalho, equipamento, sistemas de gestão) e comportamento (comportamentos de risco, procedimentos, desempenho do grupo).

Em uma cultura de trabalho saudável, as políticas baseadas na tríade de segurança motivam os empregados a agirem de maneiras que deem um exemplo saudável e tornem o ambiente de trabalho seguro, prestando também atenção a fatores individuais da pessoa.

Programas de bem-estar no local de trabalho

Por várias razões, o local de trabalho é o lugar ideal para promover a saúde. Primeiro, os trabalhadores consideram conveniente participar desses programas. Alguns patrões até mesmo permitem que seus empregados participem de programas de prevenção durante o dia de trabalho. Além disso, o local de trabalho oferece a maior oportunidade para contato continuado, acompanhamento efeedback. Finalmente, os colegas de trabalho estão disponíveis para proporcionar apoio social e ajudam a motivar as pessoas nos momentos difíceis. O mesmo se aplica a programas de bem-estar em universidades e faculdades.

Os programas de bem-estar no local de trabalho começaram a surgir em um ritmo acelerado com o advento do movimento do bem-estar durante a década de 1980. Hoje, nos Estados Unidos, mais de 80% das organizações com 50 ou mais funcionários oferecem algum tipo de programa de promoção da saúde. Os programas de bem-estar no local de trabalho oferecem uma variedade de atividades, incluindo controle do peso, orientação nutricional, cessação do tabagismo, exames preventivos de saúde, seminários educacionais, controle do estresse, cuidados com a coluna lombar, academias de ginástica, programas de imunização e programas pré-natais.

No centro do movimento do bem-estar, está a compreensão de que prevenir doenças é mais fácil, mais barato e muito mais desejável do que curá-las. Um exemplo: a campanha de vacinação para o H1N1 em campi universitários na temporada de 2009 a 2010. Ao redor do mundo, os custos com tratamento de saúde aumentaram de cerca de 3% do produto interno bruto (PIB) em 1948 para aproximadamente 8% nos dias atuais. Os Estados Unidos gastam 16% de seu PIB em tratamento de saúde (Smith et al., 2006). Conforme já foi observado, uma proporção cada vez maior desses [168] custos tem sido transferida para os patrões que pagam os prêmios do seguro de saúde de seus empregados. Segundo um estudo realizado em 2006 por William B. Mercer, 97% dos custos de benefícios de saúde cooperativos são gastos para tratar condições evitáveis, como doenças cardiovasculares, problemas com a coluna lombar, hipertensão, acidente vascular encetálico (AVE), câncer de bexiga e abuso de álcool. Os patrões compreenderam que mesmo programas com resultados modestos em melhorar a saúde dos empregados podem resultar em economias substanciais.

Esses programas são eficazes? Vários estudos minuciosos revelam que sim. O custo dos programas é mais que compensado pelas reduções em ferimentos relacionados com trabalho, absenteísmo e rotatividade de funcionários. Por exemplo, empregados da Union Pacific Railroad que participavam de um programa de bem-estar reduziram o risco de pressão alta (45%) e colesterol alto (34% ), saíram da faixa de risco para obesidade (30%) e pararam de fumar (21%), gerando uma economia líquida para a empresa de 1,26 milhão de dólares (Scott, 1999).

Estudos demonstraram que, para ter sucesso, os programas de bem-estar no local de trabalho devem:

§ Ser voluntários;

§  Incluir exames de triagem de saúde, que têm o maior impacto sobre os custos de saúde no local de trabalho;

§  Estar relacionados com comportamentos de saúde de interesse para os empregados;

§  Garantir a confidencialidade das informações de saúde;

§  Ser convenientes e ter apoio da empresa;

§ Oferecer outros incentivos, como descontos em planos de saúde, bônus monetários ou outros prêmios pelo sucesso.

Psicologia positiva e florescimento

Em 2001, a American Psychological Association (APA) modificou sua declaração de missão, que já durava 60 anos, para incluir a palavra saúde pela primeira vez. Mais de 95% dos membros da organização endossaram a mudança no regimento, enfatizando sua percepção de que, embora existam elementos físicos e psicológicos que contribuem para doença e deficiência em cada pessoa, existem outros que cooperam para saúde, bem-estar e florescimento. A mudança no regimento foi parte da Healthy World Initiative da APA, que se alinhou com o novo movimento da psicologia positiva, descrito no Capítulo 1, para promover uma abordagem preventiva baseada em potencialidades para pesquisa e intervenções, em vez do tratamento mais tradicional da psicologia de atacar problemas depois que ocorreram (Seligman, 2002). Conforme afirmou a presidente da APA, Norine Johnson (2004), "Devemos trazer a construção de potencialidades para o primeiro plano no tratamento e na prevenção de doenças, para a promoção do bem-estar e da saúde” (p. 317).

Um tema central do movimento da psicologia positiva é que a experiência da adversidade, seja de natureza física ou psicológica, às vezes pode trazer benefícios, como fez para Sara Snodgrass, que conhecemos no começo do capítulo. Conforme observou Charles Carver (Carver et al., 2005), quando temos uma adversidade física ou psicológica, ocorrem pelo menos quatro resultados possíveis:

§  Uma piora continuada;

§  Sobrevivência com capacidade reduzida ou comprometimento;

§  Um retorno gradual ou rápido ao nível de funcionamento anterior à adversidade;

§  A emergência de uma qualidade que deixa a pessoa melhor do que antes. [169]

Florescimento refere-se a esse quarto resultado paradoxal, no qual a adversidade leva as pessoas a maior bem-estar psicológico e/ou físico (O’Leary e Ickovics, 1995). Como pode ser isso? Segundo o neurocientista Bruce McEwen (1994, 2011), que introduziu o conceito de carga alostática, “ Em condições de estresse, devemos esperar um enfraquecimento físico do sistema, mas pode haver mudanças psicológicas positivas muitas vezes no contexto do florescimento psicológico. Em termos fisiológicos, isso se traduz em mais processos restauradores do que destrutivos em ação” (p. 195). Usando a analogia de atletas que fortalecem seus músculos decompondo-os por meio de exercícios, permitindo que se recuperem, e depois repetindo esse padrão para produzir músculos mais fortes e capazes de fazer mais trabalho, os psicólogos positivos apontam para evidencias de que a adversidade pode desencadear uma “musculação psicológica” (Pearsall, 2004).

Alostasia e saúde neuroendócrina

Conforme vimos no Capítulo 4, em resposta a um estressor, a ativação do eixo hipotálamo-hipófiso-adrenal (HAA) causa uma mudança no estado metabólico geral do corpo. Na maior parte do tempo, as células do corpo estão ocupadas com atividades que constroem o corpo (anabolismo). Quando o cérebro percebe uma ameaça ou um desafio iminentes, contudo, o metabolismo anabólico é convertido em seu oposto, o catabolisnio, que decompõe os tecidos para fornecer energia.O metabolismo catabólico caracteriza-se pela liberação de catecolaminas, cortisol e outros hormônios responsáveis pelas reações de “luta ou fuga” que ajudam o corpo a mobilizar energia rapidamente. Para combater essas reações neuroendócrinas, o sistema nervoso parassimpático (SNP) desencadeia a liberação de hormônios anabólicos, incluindo o hormônio do crescimento (GH), o fator do crescimento semelhante à insulina (1GF-1) e os esteroides sexuais. O metabolismo anabólico combate a excitação e promove o relaxamento, o armazenamento de energia e processos de cura, como a síntese de proteínas.

Lembre, do Capítulo 4, que alostasia refere-se à capacidade do corpo de se adaptar ao estresse e a outros elementos de ambientes que sofrem mudanças rápidas(McEwen, 2011). Uma medida do florescimento físico é um sistema alostático fluido, que muda flexivelmente de níveis altos para níveis baixos de excitação do sistema nervoso simpático (SNS), dependendo das demandas do ambiente. Os hormônios catabólicos, por exemplo, são essenciais à saúde no curto prazo. Todavia, quando as pessoas encontram-se em um estado constante de excitação, elevações prolongadas desses hormônios podem prejudicar o corpo e promover doenças crônicas. Como exemplo, o estresse repetido pode afetar muito o funcionamento cerebral, em especial no hipocampo, que tem grandes concentrações de receptores de cortisol(McEwen, 1998, 2011). As consequências de elevações de longo prazo em hormônios catabólicos, quando vistos em conjunto, parecem-se muito com o envelhecimento. Hipertensão, músculos desgastados, úlceras, fadiga e um risco maior de doenças crônicas são sinais comuns de envelhecimento e estresse crônico. Esse estado, que tem sido chamado de carga alostática, é indicado pela predominância da atividade catabólica em repouso. Um nível elevado de cortisol salivar ou sérico em repouso é um indicador biológico de carga alostática e do funcionamento geral do eixo HAA. Em contrapartida, a predominância de hormônios anabólicos em repouso reflete melhora na saúde e uma carga alostática baixa.

Uma série de estudos clássicos de Jay Weiss e colaboradores (1975) demonstraram que a excitação do estresse pode levar a uma melhor saúde física, condicionando o corpo a ser resistente a estressores futuros. Você aprendeu que, quando experimentam estresse crônico, cobaias de laboratório sofrem de desamparo aprendido e depleção de catecolamina. Paradoxalmente, Weiss observou que a exposição de cobaias a [170] estressores intermitentes seguida por períodos de recuperação pode levar a um “endurecimento fisiológico”, incluindo resistência a depleção de catecolamina e supressão de cortisol, e maior resiliência a estressores subsequentes. Outros estudos revelaram que a exposição a estressores precoces na vida às vezes pode resultar no desenvolvimento de resiliênciaem macacos-de-cheiro (Lyons e Parker, 2007).

Fatores psicossociais e florescimento fisiológico

Em outra parte do livro, vimos como o sistema imune reage ao encontrar patógenos e como seu funcionamento é influenciado por citocinas e sinais de outros sistemas corporais, incluindo o cérebro. Grande parte dessa discussão enfatizou como os fatores psicossociais podem modificar o funcionamento imunológico e outros sistemas do corpo.

Diversas variáveis psicológicas foram relacionadas com reduções nos níveis de hormônios do estresse ou maior imunidade em resposta ao estresse, incluindo autoestima e percepções de competência e controle pessoal sobre os resultados(Sceman et al., 1995), autoeficácia(Bandura, 1985) e uma sensação de coerência na vida(Myrin e Lagcrstrom, 2006). No local de trabalho, uma sensação de controle e autonomia vem acompanhado por níveis basais mais baixos de catecolaminas, mesmo quando as demandas do teste e os níveis de estresse são muito elevados(Karaseketal., 1982). A empresa Google, por exemplo, tem uma área de lazer onde os funcionários podem jogar basquete, pingue-pongue e outros jogos quando estão se sentindo cansados.

Autoengrandecimento

Um corpo crescente de pesquisas relaciona estados mentais positivos, mesmo estados irrealistas envolvendo ilusões positivas, com um funcionamento fisiológico mais saudável(p. ex., Taylor et al., 2003). Pessoas que tendem ao autoengrandecimento, por exemplo, têm a tendência desproporcional a recordar informações positivas sobre suas personalidades e seus comportamentos, de se enxergarem de maneira mais positiva do que os outros as veem e de aceitar o crédito por bons resultados(Taylor e Brown, 1988). Ao contrário de visões anteriores em psicologia, que consideravam esse tipo de autopercepção inflada evidência de narcisismo, autocentrismo e má saúde mental, estudos recentes sugerem que, em vez de ser associado ao desajuste, o auto­engrandecimento é indicativo de saúde, bem-estar e da capacidade de se sentir bem a respeito de si mesmo, o autoengrandecimento também foi relacionado com a capacidade de desenvolver e manter relacionamentos, de ser feliz e de prosperar em ambientes inconstantes ou mesmo ameaçadores(Taylor et al., 2003).

Visões errôneas, mas positivas, de nossa condição médica e da percepção de nosso controle sobre ela parecem promover a saúde e a longevidade. Por exemplo, indivíduos HIV-positivo e aqueles diagnosticados com aids que mantém visões positivas irreais sobre seus prognósticos apresentam uma deterioração menos rápida e mesmo um tempo mais longo até a morte (Reed et al., 1999). Embora esses resultados correlacionais não provem uma relação de causalidade, pesquisadores especulam que as cognições de autoengrandecimento podem abrandar as respostas fisiológicas e neuroendócrinas ao estresse e, assim, reduzir as respostas do eixo HAA a esta condição(Taylor et al.,2000).

Em um estudo, Shelley Taylor e colaboradores (2003) pediram a 92 universitários que preenchessem o How I See Myself Questionnaire, uma medida do [171] autoengrandecimento na qual os participantes se avaliam em comparação com indivíduos correspondentes em capacidade acadêmica, autorrespeito e 19 outras qualidades positivas, assim como egoísmo, pretensiosidade e 19 outras características negativas. Eles também responderam a escalas de personalidade que avaliavam recursos psicológicos como otimismo, extroversão e felicidade. Uma semana depois, os participantes compareceram a um laboratório da UCLA onde forneceram uma amostra de saliva para análise de cortisol e fizeram diversos testes padronizados de aritmética mental que induziam o estresse de maneira confiável. Enquanto respondiam aos testes, suas frequências cardíacas e pressões sistólica e diastólica eram monitoradas. Depois de concluírem os testes de estresse, uma segunda medida do nível de cortisol foi colhida.

Os resultados mostraram que os indivíduos que tendiam ao autoengrandecimento apresentavam níveis basais mais baixos de cortisol no começo do estudo e respostas mais baixas de frequência cardíaca e pressão arterial durante os testes de estresse. Os resultados para os níveis basais de cortisol sugerem que o autoengrandecimento esteja associado a níveis mais baixos do eixo HAA em repouso, indicando um estado neuroendócrino cronicamente mais saudável. As respostas reduzidas em frequência cardíaca e pressão arterial sugerem que autopercepções positivas ajudem as pessoas a lidar com estressores agudos. Com o tempo, os autoengrandecedores podem ter menos desgaste relacionado com o estresse em seus corpos. Interessantes de igual modo foram as respostas dos participantes ao questionário de recursos psicológicos, as quais indicaram que a relação entre o autoengrandecimento e a resposta neuroendócrina era medida por maior autoestima, otimismo, extroversão e apoio social mais forte, bem como um maior envolvimento ocupacional e comunitário do que o observado em sujeitos com escores baixos em medidas do autoengrandecimento.

Envolvimento social

Sara Snodgrass (a nossa introdução) acredita que um aspecto fundamental de seu florescimento psicológico seja o nível em que reorganizou as prioridades de sua vida em torno de seus relacionamentos com amigos e familiares. De fato, a importância do envolvimento social foi demonstrada por estudos epidemiológicos, os quais evidenciaram que pessoas cujos laços sociais são fortes têm mais probabilidade de manter a saúde e de viver mais tempo(Berkman et al., 2000). O envolvimento social também parece estar diretamente relacionado com a saúde neuroendócrina.Estudos revelaram, por exemplo, um aumento na contagem de linfócitos em resposta ao apoio social. Intervenções que incluem alguma forma de apoio social têm efeitos maiores sobre a citotoxicidade das células natural killer (NK), a proliferação de linfócitos e a imunidade mediada pelas células (Miller e Cohen, 2001). Os proponentes de tratamentos médicos alternativos (ver Cap. 14) também são encorajados por evidências de que a massagem, que exige contato físico entre pelo menos dois indivíduos, tem efeitos promotores de imunidade, como maior atividade das células N K (Ironson et al., 1996).

Os indivíduos costumam procurar o apoio de outras pessoas para revelar seus sentimentos durante momentos de adversidade. Pesquisas realizadas, pelo menos nos últimos 15 anos, documentaram que esse tipo de revelação emocional altera a atividade autonômica e o funcionamento imunológico de maneiras que promovem a saúde. O trabalho de James Pennebaker e colaboradores (1995, 1988) mostrou que, quando discutem situações que geram estados [172] emocionais negativos, os indivíduos apresentam elevações na atividade das células N K e na proliferação de linfócitos.

Relaxamento

Conforme discutimos no Capítulo 5, o relaxamento desperto atingido por meio da meditação, da música, de simples exercícios de respiração, da ioga e uma variedade de outros meios simples também está associado a reduções em emoções negativas e alterações nas funções neuroendócrinas(Daruna, 2004). Por exemplo, estudos mos­ traram que o relaxamento promove decréscimo na contagem de leucócitos, maior atividade das células N K e, no caso de estudantes que praticam relaxamento regularmente, melhor funcionamento imunológico durante períodos de exames estressantes (Davidson et al., 2003; Kiecolt-Glaser et al., 1985,1986), O resultado mais consistente associado ao relaxamento é um aumento na secreção de imunoglobulina A (IgA), um dos hormônios anabólicos já discutidos no capítulo. De maneira interessante, a hipnose, que também parece induzir relaxamento, produz ainda aumentos na secreção de IgA (Johnson et al., 1996).

Aspectos do florescimento psicológico

Um corpo crescente de pesquisas revela que a curiosidade e uma sensação de controle sobre a vida contribuem muito para o florescimento psicológico. Vamos examinar cada um desses fatores.

Curiosidade

Curiosidade refere-se à orientação ou à atração de uma pessoa em relação a estímulos novos. Pesquisas sugerem que a curiosidade em pessoas idosas esteja associada com manutenção da saúde do sistema nervoso central (SNC) em envelhecimento. Ao analisarem a relação entre a curiosidade em mulheres e homens idosos e as taxas de sobrevivência, pesquisadores verificaram que, depois de cinco anos, indivíduos com os níveis mais altos de curiosidade sobreviveram mais tempo do que aqueles que tinham níveis mais baixos (Swan e Carmelli, 1996). É importante observar, porém, que essa evidência correlacionai não indica que a curiosidade aumentará automaticamente as chances de sobrevivência de uma pessoa idosa. Ela pode apenas ser um sinal de que seu SNC esteja operando de maneira adequada. Em alguns indivíduos, os declínios na curiosidade relacionados com a idade refletem a queda no funcionamento mental. Em sustentação parcial a essa hipótese, um estudo mostrou menor curiosidade (medida como uma redução nos movimentos exploratórios dos olhos em resposta a estímulos visuais novos) em indivíduos com doenças graves do SNC, em comparação com controles normais de idade correspondente (Daffner et al., 1994). Visto que certas estruturas cerebrais reconhecidamente envolvidas na doença de Alzheimer também estão implicadas na atenção dirigida e no comportamento de busca de novidades, a redução na curiosidade pode ser um dos primeiros sinais do envelhecimento anormal do SNC.

Pressupondo que a pessoa seja um adulto normal e saudável, a curiosidade pode promover o envelhecimento sadio, pois possibilita aos idosos enfrentarem com sucesso os desafios físicos e ambientais do cotidiano. Desse modo, o idoso curioso usa estratégias ativas de enfrentamento (ver Cap. 5) para abordar problemas e obstáculos potenciais e, desse modo, consegue reduzir a pressão sobre seus recursos físicos e mentais. Parece que esses indivíduos têm uma chance maior de ser física e mentalmente saudáveis nos anos mais avançados (Ory e Cox, 1994). [173] 

Percepção de controle e autoeficácia

Em um importante estudo prospectivo sobre traços da personalidade e saúde, pesquisadores entrevistaram 8.723 pessoas idosas e no final da meia-idade que viviam de forma independente ou em residências adaptadas para idosos na Holanda (Kempen et al., 1997). Três medidas da personalidade foram investigadas: domínio ou controle pessoal, autoeficácia geral e neurose (instabilidade emocional). O domínio diz respeito ao nível em que o indivíduo considera que as mudanças ocorridas em sua vida estejam sob seu controle, em vez de serem fatalísticas. A autoeficácia refere-se à crença de conseguir realizar determinados comportamentos. A neurose está relacionada com a preocupação constante de que as coisas possam dar errado e a forte reação emocional de ansiedade a esses pensamentos. Os sujeitos que tinham níveis baixos de neurose e níveis elevados de domínio e autoeficácia perceberam taxas significativamente mais elevadas de funcionamento e bem-estar.

Por que uma sensação de controle e domínio deveria melhorar a saúde? As explicações comportamentais e fisiológicas são viáveis. Aqueles que têm uma sensação maior de controle apresentam maior probabilidade de agir, de apresentar comportamentos que promovam a saúde e de evitar comportamentos que a prejudiquem(Rodin, 1986). Como acreditam que seus atos façam alguma diterença, os indivíduos que têm uma sensação elevada de controle agem de maneira mais saudável(Lachman et al., 1994). Em contrapartida, aqueles que se sentem desamparados e não percebem qualquer relação entre seus atos e os resultados são mais propensos a doenças (Peterson e Stunkard, 1989), talvez porque não se envolvam em práticas promotoras da saúde ou porque tendam a comportamentos que a comprometam (“Posso ter câncer de pulmão não importa o que fizer, portanto vou fumar”).

O fato de ter uma sensação de controle também parece apresentar efeitos fisiológicos. Pesquisas mostraram que pessoas com uma sensação elevada de controle tem níveis mais baixos de cortisol e retornam mais rapidamente aos níveis basais após uma situação de estresse(Seeman e Lewis, 1995). Elas também possuem sistemas imunes mais fortes, conforme evidenciado por sua capacidade de combater doenças(Rodin, 1986).

Outras evidências da relação entre uma forte sensação de controle e boa saúde advêm de pesquisas envolvendo pessoas de diferentes níveis socioeconômicos. Margie Lachman e Suzanne Weaver, da Brandeis University (1998), analisaram três grandes amostras nacionais de homens e mulheres com idades de 25 a 75 anos, de classes sociais variadas, e verificaram que, para todos os grupos de renda, o maior controle percebido estava relacionado com melhor saúde, mais satisfação na vida e menos emoções negativas. Embora os resultados mostrassem que, em média, aqueles com renda mais baixa tinham menos percepção de controle, assim como pior saúde, as crenças de controle desempenharam um papel moderador, e os participantes no nível de renda mais baixo com uma sensação elevada de controle apresentaram níveis comparáveis de saúde e bem-estar aos dos grupos de maior renda. Os resultados proporcionam evidências de que variáveis psicossociais, como a sensação de controle, podem ajudar a compreender as diferenças na saúde relacionadas com a classe social.

Neste capítulo, exploramos a conexão entre o comportamento e a saúde. Vimos como o foco biopsicossocial da psicologia da saúde em abordagens a prevenção baseadas em potencialidades promove indivíduos, famílias, locais de trabalho e comunidades mais saudáveis. Esse foco é um afastamento da abordagem mais tradicional [174] da psicologia de atacar os problemas depois de sua ocorrência, à medida que esse modelo mais saudável e mais positivo se firma, poderemos alcançar um ponto em que o cuidado de saúde simplesmente passe de sua ênfase tradicional na prevenção terciária para um sistema de prestação de serviço mais equilibrado que favoreça a prevenção primária. [175]

Psicologia - Psicologia da Saúde
3/24/2019 4:20:17 PM | Por Marco Aurélio Antonino Augusto
Livre
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro I

1. Aprendi com meu avô Verus: o bom caráter e a serenidade.

2. Da reputação e memória legadas por meu pai: o caráter discreto e viril.

3. De minha mãe: o respeito aos deuses, a generosidade e a abstenção não somente do agir mal, como também de incorrer em semelhante pensamento; mais ainda, a frugalidade no regime de vida e o distanciamento do modo de viver próprio dos ricos.

4. Do meu bisavô: o não haver frequentado as escolas públicas e ter desfrutado de bons mestres em casa, e ter compreendido que, para tais fins, é preciso gastar com generosidade.

5. Do meu preceptor: o não ter pertencido à facção nem dos Verdes, nem dos Azuis, nem partidário dos Grandes-Escudos, nem dos Pequenos-Escudos; o suportar as fatigas e ter poucas necessidades; o trabalho com esforço pessoal e a abstenção de excessivas tarefas, e a desfavorável acolhida à calúnia.

6. De Diogneto: o evitar inúteis ocupações; e a desconfiança do que contam os que fazem prodígios e feiticeiros sobre encantamentos e invocação de espíritos, e de outras práticas semelhantes; e o não dedicar-me à criação de codornas nem sentir paixão por essas coisas; o suportar a conversa franca e familiarizar-me com a filosofia; e o ter escutado primeiro a Báquio, depois a Tandárido e Marciano; ter escrito diálogos na infância; e ter desejado a cama coberta de pele de animal, e todas as demais práticas vinculadas à formação helênica.

7. De Rústico: o ter concebido a ideia da necessidade de direcionar e cuidar do meu caráter; o não ter me desviado para a emulação sofista, nem escrever tratados teóricos nem recitar discursos de exortação nem fazer-me passar por pessoa ascética ou filantrópica com vistosos alardes; e o ter me afastado da retórica, da poética e dos belos modos. E o não passear de toga pela casa e nem fazer coisas semelhantes. Também o escrever as cartas de maneira simples, como aquela que ele mesmo escreveu em Sinuessa para minha mãe; o estar disposto a aceitar com indulgência a chamada e a reconciliação com os que nos ofenderam e incomodaram, assim que queiram retratar-se; a leitura com precisão, sem contentar-me com umas considerações gerais, e o não dar meu consentimento com prontidão aos charlatões; o haver tido contato com os Comentários de Epicteto, das quais me entregou uma cópia sua.

8. De Apolônio: a liberdade de critério e a decisão firme, sem vacilo nem recursos fortuitos; não dirigir o olhar a nenhuma outra coisa além da razão, nem sequer por pouco tempo; o ser sempre inalterável, nas fortes dores, na perda de um filho, nas enfermidades prolongadas; o ter visto claramente, em um modelo vivo, que a mesma pessoa pode ser muito rigorosa e, ao mesmo tempo, despreocupada; o não mostrar um caráter irracional nas explicações; o ter visto um homem que claramente considerava como a mais ínfima de suas qualidades a experiência e a diligência ao transmitir as explicações teóricas; o ter aprendido como se deve aceitar os aparentes favores dos amigos, sem desejar ser subornado por eles nem rejeitá-los sem tato.

9. De Sexto: a benevolência, o exemplo de uma casa governada patriarcalmente, o projeto de viver conforme a natureza; a dignidade sem afetação; o atender aos amigos com presteza; a tolerância para com os ignorantes e para com os que opinam sem refletir; a harmonia com todos, de tal forma que seu trato era mais agradável que qualquer adulação, e os demais, naquele preciso momento, sentiam o máximo respeito por ele; a capacidade de descobrir com método indutivo e ordenado os princípios necessários para a vida; o não ter dado nunca a impressão de cólera nem de nenhuma outra paixão, mas antes, ser o menos afetado possível pelas paixões e, ao mesmo tempo, ser o que mais profundamente ama a humanidade; o elogio, sem estridências; o saber multifacetado, sem alardes.

10. De Alexandre, o gramático: a aversão à crítica; o não repreender com injúrias os que tenham proferido um barbarismo, solecismo ou som mal pronunciado, mas proclamar com destreza o termo preciso que deveria ser pronunciado, em forma de resposta, ou de ratificação ou de uma consideração em comum sobre o próprio tema, não sobre a expressão gramatical, ou por meio de qualquer outra sugestão ocasional e apropriada.

11. De Frontão: o ter me detido a pensar como é a inveja, a astúcia e a hipocrisia própria do tirano, e que, em geral, os que entre nós são chamados “eupátridas”, são, de certa forma, incapazes de afeto.

12. De Alexandre, o platônico: o não dizer a alguém muitas vezes e sem necessidade ou lhe escrever por carta: “estou ocupado”, e não recusar, assim, sistematicamente, as obrigações que impõem as relações sociais, com a justificativa de ter muitas ocupações.

13. De Catulo: o não dar pouca importância à queixa de um amigo, ainda que casualmente fosse infundada, mas tentar consolidar a relação habitual; o elogio cordial aos mestres, como faziam Domício e Atenodoto; o amor verdadeiro pelos filhos.

14. De “meu irmão” Severo: o amor à família, à verdade e à justiça; o ter conhecido, graças a ele, a Tráseas, Helvídio, Catão, Dião, Bruto; o ter concebido a ideia de uma constituição baseada na igualdade ante a lei, regida pela equidade e pela liberdade de expressão igual para todos, e de uma realeza que honra e respeita, acima de tudo, a liberdade de seus súditos. Dele também: a uniformidade e constante aplicação a serviço da filosofia; a beneficência e generosidade constante; o otimismo e a confiança na amizade dos amigos; nenhuma dissimulação para com os que mereciam sua censura; o não requerer que seus amigos conjecturassem sobre o que queriam ou o que não queriam, pois estava claro.

15. De Máximo: o domínio de si mesmo e o não deixar-se arrastar por nada; o bom humor em todas as circunstâncias e, especialmente, nas enfermidades; a moderação de caráter, doce e, ao mesmo tempo, grave; a execução, sem teimar, das tarefas propostas; a confiança que todos tinham nele, porque suas palavras respondiam a seus pensamentos e em suas atuações procedidas sem má fé; o não surpreender-se nem perturbar-se; em nenhum caso, precipitação ou lentidão, nem impotência, nem abatimento, nem riso a gargalhadas, seguidas de acessos de ira ou de receio. A benevolência, o perdão e a sinceridade; o dar a impressão de homem reto e inflexível mais que retificado; que ninguém se sentisse menosprezado por ele, nem suspeitasse que se considerava superior a ele; sua amabilidade enfim.

16. De meu pai: a mansidão e a firmeza serena nas decisões profundamente examinadas. O não vangloriar-se com as honras aparentes; o amor ao trabalho e à perseverança; o estar disposto a escutar aos que podiam contribuir de forma útil para a comunidade. O dar, sem vacilo, a cada um segundo seu mérito. A experiência para distinguir quando é necessário um esforço sem desmaios, e quando é preciso relaxar. O saber por fim às relações amorosas com os adolescentes. A sociabilidade e o não consentir aos amigos que participassem, sempre, de suas refeições e que não o acompanhassem, necessariamente, em seus deslocamentos; mas antes, quem o tivesse deixado, momentaneamente, por alguma necessidade, o encontrasse sempre igual. O exame minucioso nas deliberações e na tenacidade, sem aludir a indignação, satisfeito com as primeiras impressões. O zelo ao conservar os amigos, sem mostrar nunca desgosto nem louca paixão. A autosuficiência em tudo e a serenidade. A previsão de longe e a regulação prévia dos detalhes mais insignificantes sem cenas trágicas. A repressão das aclamações e de toda adulação dirigida a sua pessoa. O velar constantemente pelas necessidades do Império. A administração dos recursos públicos e a tolerância à crítica em qualquer uma dessas matérias; nenhum temor supersticioso em relação aos deuses, nem disposição para captar o favor dos homens mediante agasalhos ou esmolas ao povo; pelo contrário, sobriedade em tudo e firmeza, ausência absoluta de gostos vulgares e de desejo inovador. O uso dos bens que contribuem para uma vida fácil e a fortuna, os usufruía em abundância, sem orgulho e, ao mesmo tempo, sem pretextos, de tal forma que os acolhia com naturalidade, quando os possuía, mas não sentia necessidade deles quando lhe faltavam. O fato de que ninguém o tivesse tachado de sofista, vulgar ou pedante; pelo contrário, era tido por homem maduro, completo, inacessível à adulação, capaz de estar à frente dos assuntos próprios e alheios. Além disso, o apreço pelos que filosofam de verdade, sem ofender aos demais nem deixar-se, tampouco, ser enganado por eles; mais ainda, seu trato afável e bom humor, mas não em excesso. O cuidado moderado do próprio corpo, não como quem ama a vida, nem com excessos nem com negligência, mas de maneira que, graças ao seu cuidado pessoal, em contadíssimas ocasiões, teve necessidade de assistência médica, de fármacos e remédios. E, especialmente, sua complacência, isenta de inveja, aos que possuíam alguma faculdade, por exemplo, a facilidade de expressão, o conhecimento da história, das leis, dos costumes ou de qualquer outra matéria; seu afinco em ajudá-los para que cada um conseguisse as honras de acordo com sua peculiar excelência; procedendo em tudo segundo as tradições ancestrais, mas procurando não fazer ostentação nem sequer disso: de velar por essas tradições. Além disso, não era propício a movimentar-se nem a agitar-se facilmente, mas gostava de permanecer nos mesmos lugares e ocupações. E, imediatamente, depois das fortes dores de cabeça, rejuvenescido e em plenas faculdades, se entregava às tarefas habituais. O não ter muitos segredos, mas muito poucos, excepcionalmente, e apenas sobre assuntos de Estado. Sua sagacidade e cautela na celebração de festas, na construção de obras públicas, nas designações e em outras coisas semelhantes, é próprio de uma pessoa que olha exclusivamente para o que deve ser feito, sem se preocupar com a aprovação popular em relação às obras realizadas. Nem banhos fora do tempo, nem amor à construção de casas, nem preocupação pelas comidas; nem pelas telas, nem pelas cores dos vestidos, nem pela boa aparência de seus servidores; a vestimenta que usava procedia de sua casa de campo em Lorio, e a maioria de suas vestes, das que tinha em Lanúvio. Como tratou o cobrador de impostos em Tusculo que lhe fazia reclamações! E todo o seu caráter era assim; não foi nem cruel, nem arrebatador, nem duro, de maneira que jamais se pudesse falar sobre ele: “até o suor”, mas tudo havia sido calculado com exatidão, como se lhe sobrasse tempo, sem perturbação, sem desordem, com firmeza, concertadamente. E caberia bem a ele o que se recorda de Sócrates: que era capaz de abster-se e desfrutar daqueles bens, cuja privação debilita a maior parte, enquanto que seu desfrute lhe faz abandoná-los. Seu vigor físico e sua resistência, e a sobriedade, em ambos os casos, são propriedades de um homem que tem uma alma equilibrada e invencível, como mostrou durante a enfermidade que lhe levou à morte.

17. Dos deuses: o ter bons avós, bons pais, boa irmã, bons mestres, bons amigos íntimos, parentes e amigos, quase todos bons; o não haver me deixado levar facilmente, nunca, a ofender nenhum deles, apesar de ter uma disposição natural idônea para poder fazer algo semelhante, se a ocasião tivesse sido apresentada. É um favor divino que não me apresentava nenhuma combinação de circunstâncias que me colocassem à prova; o não ter sido educado muito tempo junto à concubina do meu avô; o ter conservado a flor da minha juventude e o não ter demonstrado antes do tempo minha virilidade, mas, inclusive, ter demorado por algum tempo; o ter estado submetido às ordens de um governante, meu pai, que deveria arrancar de mim todo orgulho e me fazer compreender que é possível viver no palácio sem ter necessidade de guarda pessoal, de vestimentas suntuosas, de candelabros, de estátuas e outras coisas semelhantes e de um luxo parecido; mas, que é possível centrar-se em um regime de vida muito próximo ao de um simples cidadão, e nem por isso ser mais desgraçado ou mais negligente no cumprimento dos deveres que, soberanamente, a comunidade exige de nós. O ter tido sorte de ter um irmão capaz, por seu caráter, de incitar-me ao cuidado de mim mesmo e que, ao mesmo tempo, me alegrava por seu respeito e afeto; o não ter tido filhos anormais ou disformes; o não ter progredido demasiadamente na retórica, na poética e nas demais disciplinas, nas quais, talvez, pudesse ter me detido, se tivesse percebido que estava progredindo em um bom ritmo. O ter me antecipado a situar meus educadores no ponto de dignidade que imaginava que desejavam, sem demorar, com a esperança de que, já que eram tão jovens, o faria na prática mais tarde. O ter conhecido Apolônio, Rústico, Máximo. O ter me mostrado claramente e em muitas ocasiões o que é a vida de acordo com a Natureza, de maneira que, na medida em que depende dos deuses, de suas comunicações, de seus socorros e de suas inspirações, nada impedia já que vivia de acordo com a natureza, e se continuo ainda longe desse ideal, é culpa minha por não observar as sugestões dos deuses e, com dificuldade, seus ensinamentos; a resistência do meu corpo durante longo tempo em uma vida com essas características; o ter me afastado de Benedita e de Teodoto, e inclusive, mais tarde, embora ter sido vítima de paixões amorosas, ter me curado delas; o não ter me excedido, nunca, com Rústico, apesar das frequentes disputas, do qual teria me arrependido; o fato de que minha mãe, que deveria morrer jovem, vivesse, entretanto, comigo, nos últimos anos; o fato de que todas as vezes que quis socorrer um pobre ou necessitado de outras coisas, jamais ouvi dizer que não tinha dinheiro disponível; o não ter caído, eu mesmo, em uma necessidade semelhante para p