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Fragmentos e principais passagens
Publicado por:
Odsson Ferreira | 22 Mar , 2022 - 13:18 | Atualizado em: 3/24/2022 5:41:23 PM
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https://bit.ly/36HnLJd
Meditação - Mindfulness
Pensamentos automáticos e sua influência em nossas emoções
Psicologia, psicologia positiva, emoções, mindfulness, atenção plena
ABNT
Williams,
Mark,
Penman,
Danny.
Por que nos atacamos?.
in:
Atenção plena:
Mindfulness.
Rio de Janeiro/RJ:
Sextante,
2015.
Cap. 2.
p.21-34.
APA
Williams,
M.
Penman,
D.
(2015).
Por que nos atacamos?.
in:
M.
Williams
D.
Penman
(Ed.),
Atenção plena:
Mindfulness.
(pp.21-34).
Rio de Janeiro/RJ:
Sextante.
Livre
Por Danny Penman, Mark Williams
Pontos-chave
... se você está se sentindo um pouco es­tressado ou vulnerável, uma pequena mudança emocional pode acabar arruinando seu dia - ou até mesmo lançá-lo num período prolongado de insatisfação ou preocupação. Essas mudanças costumam surgir do nada, deixando-o sem energia e se perguntando por que está tão infeliz.
... é raro experimentarmos a tensão ou a tristeza isoladamente - raiva, irritabilidade, amargura, ciúmes e ódio às vezes estão ligados em um novelo intricado. Esses sentimentos podem até ser dirigidos aos outros, mas na maioria das vezes são voltados para nós mesmos, ainda que não percebamos. Ao longo da vida, esses emaranha­dos emocionais podem se tornar mais associados aos pensamentos, aos sentimentos, às sensações físicas e aos comportamentos. É assim que o passado consegue ter um efeito tão difuso no presente.
Quando nos preocupamos ou tememos alguma coisa - seja ela real ou imaginária - nossas reações de luta ou fuga entram em ação. Mas aí algo mais ocorre: a mente começa a percor­rer nossas lembranças em busca de algo que explique por que nos sen­timos daquele jeito. Assim, se nos sentimos tensos ou em perigo, nossa mente desenterra memórias de ocasiões passadas em que nos sentimos ameaçados e depois cria cenários do que poderá ocorrer no futuro se não conseguirmos explicar o que está acontecendo agora. O resultado é que os sinais de alerta do cérebro são ativados não apenas pelo perigo atual, mas por ameaças passadas e preocupações futuras. Tal processo se dá de forma instantânea, sem que percebamos.

 

Aparentemente, Lucy era uma representante de vendas bem-suce­dida de uma rede de lojas de roupas. Mas ela estava se sentindo paralisada. Às três da tarde, olhando pela janela do escritório, estres­sada, exausta e totalmente indisposta, ela se perguntava: "Por que não consigo fazer meu trabalho direito? Por que não consigo me concentrar? O que há de errado comigo? Estou tão cansada! Nem consigo pensar direito...". Lucy vinha se punindo com esses pensamentos autocríticos constan­temente. Mais cedo, naquele dia, ela tivera uma conversa longa e ansiosa com a professora do jardim de infância sobre sua filha, Emily, que an­dava chorando quando era deixada na escola. Depois, telefonou para o bombeiro para saber por que não tinha ido consertar a descarga que­brada em sua casa. Agora fitava uma planilha, sentindo-se sem energia e mastigando um muffin de chocolate no lugar do almoço.

As exigências e tensões na vida de Lucy estavam piorando gradual­mente nos últimos meses. O trabalho se tornava cada vez mais estressante e começava a se estender até bem depois do horário do expediente. As noites haviam se tornado insones, os dias, mais sonolentos. Seu cor­po começou a doer. A vida perdeu a alegria. Seguir em frente era uma luta. Ela já havia se sentido assim antes, mas sempre fora uma situação temporária. Jamais imaginara que aquilo poderia se tornar um aspecto permanente de sua vida.

Ela vivia se perguntando: O que aconteceu com a minha vida? Por que me sinto tão exausta? Eu deveria estar feliz. Eu costumava ser feliz. Para onde foi minha alegria?

A vida de Lucy girava em torno de excesso de trabalho, infelicidade, insatisfação e estresse. Ela fora privada de sua energia mental e física e se sentia perdida. Queria voltar a ser feliz e estar em paz consigo mesma, mas não tinha ideia de como chegar lá. Sua frustração não era grave a ponto de justificar uma ida ao médico, mas era suficiente para solapar o seu prazer de viver. Ela não vivia, apenas sobrevivia.

A história de Lucy não é um caso isolado. Ela é uma das milhões de pessoas que não estão deprimidas nem ansiosas na acepção médica - mas também não são felizes de verdade. O humor de todos nós passa por altos e baixos. Às vezes nosso estado de espírito muda de uma hora para outra, sem nem sabermos por quê: num momento estamos felizes, contentes e despreocupados, então algo sutil acontece e começamos a ficar estressados. Pensamos em nossas dificuldades, em todas as coisas que precisamos fazer, na falta de tempo para resolver tudo. O ritmo das exigências é cada vez mais implacável. Nesse estado, ficamos cansados o tempo todo, de forma que nem uma boa noite de sono nos revigora. E nos perguntamos: Como isso foi acontecer? Por que ficamos assim? Talvez não tenha havido nenhuma grande mudança em nossa vida: não perdemos um amigo, não nos endividamos de forma descontrolada. Nada mudou, mas de alguma forma a alegria desapareceu, sendo subs­tituída por uma espécie de aflição generalizada.

Na maior parte do tempo, as pessoas conseguem escapar dessa espiral descendente. Esses períodos difíceis costumam passar. No entanto, às vezes podem perdurar e nos levar para o fundo do poço. No caso de Lucy, a tristeza e a frustração duraram meses, sem qualquer razão apa­rente. Nas situações mais graves, a pessoa pode ser acometida por uma crise séria de ansiedade ou de depressão clínica.

Embora períodos persistentes de aflição e exaustão geralmente pare­çam surgir do nada, existem processos ocorrendo no fundo da mente que só se tornaram conhecidos na década de 1990. E essa descoberta trouxe a percepção de que podemos nos libertar das preocupações, da infelicidade, da ansiedade, do estresse, da exaustão e até da depressão.

Se você perguntasse a Lucy como estava se sentindo naquela tarde, ela teria dito que estava “exausta” ou “tensa”. À primeira vista, essas sen­sações parecem afirmações factuais, mas se olhasse para dentro de si mesma com mais atenção, Lucy teria percebido que não havia algo es­pecífico que pudesse ser rotulado de “exaustão” ou “tensão”. Ambas as emoções eram, na verdade, feixes de pensamentos, sentimentos, sensa­ções físicas e impulsos (como o desejo de gritar ou de sair correndo da sala). As emoções são assim: uma “cor de fundo” criada quando a mente funde pensamentos, sentimentos, impulsos e sensações físicas para evo­car um tema norteador ou estado mental geral. Todos os elementos que formam as emoções interagem entre si e podem intensificar o estado de humor geral. É uma dança intricada, cheia de ligações sutis que só agora começamos a entender.

Tomemos os pensamentos como exemplo. Algumas décadas atrás, acreditava-se que os pensamentos conseguiam mudar nosso estado de espírito e nossas emoções, mas a partir dos anos 1980 descobriu-se que o contrário também pode acontecer: nosso estado de espírito pode mudar nossos pensamentos. Na prática, isso significa que mesmo os momentos passageiros de tristeza podem acabar se autoalimentando para criar pensamentos negativos, definindo a maneira como você vê e interpreta o mundo. Assim como um céu nublado pode fazê-lo se sen­tir melancólico, uma pequena irritação pode trazer à tona lembranças ruins, aprofundando ainda mais seu nervosismo. O mesmo vale para outras emoções: se você se sente estressado, esse estado pode criar ainda mais estresse. Isso também acontece com a ansiedade, o medo, a raiva, e com emoções “positivas” como amor, felicidade, compaixão e empatia.

Mas não são apenas pensamentos e estados de ânimo que se alimen­tam mutuamente e destroem o bem-estar - o corpo também se envolve nesse processo. Isso acontece porque a mente não existe de forma isolada. Ela é uma parte fundamental do corpo, e ambos compartilham informa­ções emocionais entre si o tempo todo. Na verdade, grande parte do que o corpo sente é influenciado pelos pensamentos e pelas emoções, e tudo o que pensamos é influenciado pelo que está ocorrendo no corpo. Pesquisas recentes mostram que nossa perspectiva de vida pode ser alterada por mínimas mudanças corporais: atitudes sutis como fechar a cara, sorrir ou corrigir a postura podem ter um impacto enorme em nosso estado de espírito e em nossos pensamentos.

Para compreender melhor o poder da interação entre o corpo e o es­tado de humor, os psicólogos Fritz Strack, Leonard Martin e Sabine Stepper1 pediram a um grupo de pessoas que assistisse a desenhos ani­mados e depois avaliasse quão engraçados eram. Alguns voluntários tiveram que colocar um lápis entre os lábios, sendo forçados a franzi­dos e fazer uma cara triste. Outros assistiram aos desenhos com o lápis entre os dentes, simulando um sorriso. Os resultados foram impres­sionantes: aqueles forçados a sorrir acharam os desenhos bem mais engraçados do que aqueles obrigados a fechar a cara. Todos sabemos que sorrir demonstra que estamos felizes, mas, convenhamos: é sur­preendente descobrir que o ato de sorrir pode ele próprio torná-lo feliz. Esse é um exemplo perfeito de como são estreitos os vínculos entre a mente e o corpo.

Sorrir também é contagioso. Quando você vê alguém sorrindo, quase inevitavelmente sorri de volta. Pense nisto: o simples ato de sorrir pode deixá-lo contente (ainda que seja um sorriso forçado). E, se você sorrir, os outros sorrirão de volta, o que reforça sua felicidade. É um círculo virtuoso.

Mas também existe um círculo vicioso, que atua na direção oposta. Ao pressentirmos uma ameaça, ficamos tensos, prontos para lutar ou fugir. Essa reação de “luta ou fuga” não é consciente: é controlada por uma das partes mais “primitivas” do cérebro e, por isso, ele pode ser um pouco simplista na maneira de interpretar o perigo. O cérebro não faz distinção entre uma ameaça externa (como um tigre) e uma interna (como uma lembrança incômoda ou uma preocupação futura), tratan­do as duas como um perigo equivalente. Quando uma ameaça é detecta­da - seja real ou imaginária -, o corpo fica tenso e se prepara para entrar em ação. Isso pode se manifestar de várias formas, como rosto franzido, frio na barriga ou tensão nos ombros. A mente lê a reação do corpo e entende que está diante de uma ameaça (lembra como uma cara amar­rada pode fazê-lo se sentir triste?), o que faz o corpo tensionar ainda mais. O círculo vicioso começou.

Na prática, isso significa que, se você está se sentindo um pouco es­tressado ou vulnerável, uma pequena mudança emocional pode acabar arruinando seu dia - ou até mesmo lançá-lo num período prolongado de insatisfação ou preocupação. Essas mudanças costumam surgir do nada, deixando-o sem energia e se perguntando por que está tão infeliz.

Oliver Burkeman, colunista do jornal The Guardian, descobriu isso sozinho e escreveu sobre como pequenas sensações corporais se retroalimentavam para lançá-lo em uma espiral emocional descendente:

Geralmente sou feliz, mas de vez em quando sou atingido por um estado de infelicidade e ansiedade que se intensifica muito rápido. Nos piores dias, sou capaz de passar horas perdido em divagações angustiantes, refletindo sobre as grandes mudanças que preciso fazer em minha vida. De repente, percebo que me esqueci de almoçar. Como um sanduíche de atum e o mau humor desapa­rece. No entanto, minha primeira reação à sensação ruim nunca é pensar que estou com fome. Aparentemente, meu cérebro prefere se chatear com reflexões sobre a falta de sentido da existência a me direcionar até a geladeira.

Como Oliver Burkeman constatou em sua própria experiência, quase sempre essas “divagações angustiantes” se desfazem rápido. Algo atrai nosso olhar e nos faz sorrir - um amigo telefona, encontramos um bom filme passando na TV, tomamos uma deliciosa xícara de chocolate quente ou decidimos ir para a cama cedo. Em geral, toda vez que somos atingidos pelos turbilhões da vida, algo de bom acontece para restabe­lecer o equilíbrio. Mas nem sempre é assim. Às vezes o peso de nossa história entra em ação e adiciona uma carga emocional extra, já que nossas lembranças têm um impacto poderoso em nossos pensamentos, sentimentos, impulsos e, em última análise, em nosso corpo.

Vamos voltar ao exemplo de Lucy. Embora se descreva como uma pessoa “ambiciosa” e “relativamente bem-sucedida”, ela tem consciên­cia de que algo fundamental está faltando em sua vida. Ela conquistou quase tudo o que queria, por isso acha estranho que não se sinta feliz, contente e em paz consigo mesma. Constantemente repete a frase “Eu deveria estar feliz”, como se dizer isso fosse suficiente para expulsar a tristeza.

Os surtos de infelicidade de Lucy começaram na adolescência. Seus pais se separaram quando ela tinha 17 anos e a casa da família precisou ser vendida, forçando seus pais a se mudarem para locais não muito adequados. Lucy surpreendeu a todos por segurar a barra. É claro que no início ficou arrasada com o divórcio, mas logo aprendeu a tirar o foco dos problemas se empenhando nos estudos. Essa foi sua tábua de salvação. Tirou boas notas, entrou na faculdade e se formou com uma qualificação satisfatória. Seu primeiro emprego foi como trainee numa loja de roupas. Ao longo dos anos, foi subindo na hierarquia da empresa, até chegar a chefe de uma pequena equipe de representantes de vendas. Aos poucos, o trabalho dominou a vida de Lucy, deixando-a cada vez mais sem tempo para si mesma. Aconteceu tão lentamente que ela mal percebeu que deixava sua vida de lado. Ocorreram coisas boas também, é claro, como o casamento com Tom e o nascimento das duas filhas. Ela adorava sua família, mas não conseguia se livrar da sensação de que apenas algumas pessoas tinham direito de viver de forma plena. Sua impressão era de estar caminhando em areia movediça.

Essa areia movediça era sua rotina, seu estresse, seus padrões de pen­samentos e seus sentimentos do passado. Embora por fora Lucy pare­cesse uma pessoa de sucesso, por dentro ela morria de medo do fracas­so. Esse medo fazia com que qualquer mau humor passageiro desenca­deasse lembranças dolorosas, enquanto seu crítico interno dizia que era vergonhoso exibir tais fraquezas. Sensações vagas de insegurança aca­bavam despertando uma sucessão de sentimentos negativos do passado que pareciam bem reais e rapidamente assumiam vida própria, ativando outra onda de emoções nocivas.

Como Lucy atestará, é raro experimentarmos a tensão ou a tristeza isoladamente - raiva, irritabilidade, amargura, ciúmes e ódio às vezes estão ligados em um novelo intricado. Esses sentimentos podem até ser dirigidos aos outros, mas na maioria das vezes são voltados para nós mesmos, ainda que não percebamos. Ao longo da vida, esses emaranha­dos emocionais podem se tornar mais associados aos pensamentos, aos sentimentos, às sensações físicas e aos comportamentos. É assim que o passado consegue ter um efeito tão difuso no presente. Se ativamos uma chave emocional, as outras são ativadas em seguida (o mesmo ocor­re com as sensações físicas, como a dor). Tudo isso pode desencadear padrões de pensamento, comportamento e sentimentos que sabemos que são nocivos, mas que simplesmente não conseguimos evitar. E que, quando combinados, são capazes de transformar qualquer contratempo em uma tempestade emocional.

Aos poucos, o acionamento repetitivo de pensamentos e humores ne­gativos começa a abrir sulcos na mente. Com o tempo, esses sulcos se tornam mais profundos, fazendo com que os pensamentos negativos, a autocrítica, a melancolia e o medo se instalem com mais facilidade e se dissipem com mais esforço. A conseqüência disso é que os períodos prolongados de fragilidade podem ser desencadeados por coisas cada vez mais banais, como uma chateação momentânea ou uma baixa de energia - tão banais que às vezes nem as reconhecemos. Com frequên­cia, os pensamentos negativos aparecem disfarçados de perguntas duras que fazemos a nós mesmos: Por que estou tão infeliz? O que está aconte­cendo comigo? Onde será que errei? Onde isso vai acabar?

Os vínculos estreitos entre os diversos aspectos da emoção, que o tem­po todo recorrem ao passado, podem explicar por que um sentimento passageiro pode ter um efeito significativo sobre o estado de humor. Às vezes esses sentimentos chegam e partem tão rápido quanto uma rajada de vento. Outras vezes, no entanto, o estresse, a fadiga e o mau humor ficam grudados como adesivos em nossa mente, e nada parece ser capaz de arrancá-los dali. A impressão que se tem é que é justamente isso que está ocorrendo: a mente é ativada para entrar em alerta máximo, mas depois não consegue ser desativada, como deveria acontecer.

Uma boa forma de ilustrar esse processo é comparar a maneira como humanos e animais reagem diante do perigo. Tente se lembrar do últi­mo documentário sobre a vida selvagem a que assistiu na TV. Deve ter aparecido um rebanho de gazelas sendo caçado por um leopardo na savana africana. Aterrorizados, os animais correram feito loucos até que o leopardo capturou um deles ou desistiu da caçada naquele dia. Uma vez passado o perigo, as gazelas voltaram a pastar tranquilamente. Algo no cérebro delas foi acionado quando avistaram o leopardo e depois desativado quando a ameaça se dissipou.

Mas a mente humana é diferente, sobretudo quando se trata de amea­ças “intangíveis” capazes de desencadear ansiedade, estresse, preocupa­ção ou irritabilidade. Quando nos preocupamos ou tememos alguma coisa - seja ela real ou imaginária - nossas reações de luta ou fuga entram em ação. Mas aí algo mais ocorre: a mente começa a percor­rer nossas lembranças em busca de algo que explique por que nos sen­timos daquele jeito. Assim, se nos sentimos tensos ou em perigo, nossa mente desenterra memórias de ocasiões passadas em que nos sentimos ameaçados e depois cria cenários do que poderá ocorrer no futuro se não conseguirmos explicar o que está acontecendo agora. O resultado é que os sinais de alerta do cérebro são ativados não apenas pelo perigo atual, mas por ameaças passadas e preocupações futuras. Tal processo se dá de forma instantânea, sem que percebamos.

Estudos recentes feitos a partir de tomografias do cérebro confirmam que pessoas que sentem dificuldade de viver o presente e têm rotinas muito agitadas possuem uma amígdala cerebral (a parte primitiva do cérebro envolvida no instinto de luta ou fuga) em “alerta máximo” o tempo todo.2 Assim, quando trazemos à tona lembranças de ameaças e perdas antigas e as juntamos ao “perigo” atual, nosso mecanismo de luta ou fuga não é desativado quando a ameaça passa. Ao contrário das gazelas, não paramos de correr.

Então, a forma como reagimos pode transformar emoções temporá­rias e não problemáticas em dores persistentes e incômodas. Em suma, a mente pode acabar agravando a situação. Isso vale para muitos outros sentimentos do dia a dia. Eis um exemplo:

Enquanto está lendo este livro, veja se consegue perceber qualquer sinal de fadiga em seu corpo. Passe um momento observando-o a fun­do. Depois que tiver se conscientizado de seu cansaço, faça a si mesmo as seguintes perguntas: Por que estou me sentindo tão exausto?O que fiz de errado? O que essa sensação revela sobre mim? O que acontecerá se eu não conseguir me livrar dessa fadiga?

Reflita sobre essas questões por um tempo. Deixe-as ecoar em sua mente. Por que estou tão cansado? O que aconteceu comigo? O que vou fazer se permanecer assim?

Como se sente agora? Provavelmente pior. Acontece com todo mun­do, porque aliado a essas perguntas existe um desejo de se livrar da fadi­ga e de descobrir suas causas e conseqüências.3 O impulso de explicar e expulsar a exaustão deixou você mais exausto.

O mesmo vale para uma série de sentimentos, como a infelicidade, a ansiedade e o estresse. Quando estamos infelizes, é natural tentarmos descobrir a razão por nos sentirmos assim e procurarmos um meio de resolver esse “problema”. Mas tensão, infelicidade ou exaustão não são problemas que possam ser resolvidos. São emoções. Refletem estados da mente e do corpo. Como tais, não podem ser resolvidas - apenas sentidas. Se você as percebeu e abandonou a tendência de explicá-las ou resolvê-las, terá mais chances de vê-las desaparecer sozinhas, como a névoa numa manhã de primavera.

Isso lhe soa estranho? Deixe-me explicar melhor.

Quando você tenta resolver o “problema” da infelicidade (ou de qual­ quer outra emoção “negativa”), mobiliza uma das ferramentas mais poderosas da mente: o pensamento crítico racional. Funciona assim: você se vê num lugar (infeliz) e sabe onde deseja estar (feliz). Sua mente analisa o hiato entre os dois polos e tenta descobrir a melhor forma de transpô-lo. Para isso, usa seu modo Atuante (assim chamado porque é eficiente para resolver problemas e realizar tarefas), que reduz progres­sivamente o hiato entre onde você está e onde deseja chegar. Ele faz isso fragmentando o problema, resolvendo cada uma das partes e depois ve­rificando se isso o ajudou a se aproximar de seu objetivo. Esse processo é instantâneo e nem nos damos conta dele. É uma forma incrivelmente poderosa de resolver problemas: é assim que nos orientamos nas cidades desconhecidas, dirigimos carros e organizamos cronogramas de trabalho frenéticos. Numa escala maior, foi como os povos antigos construí­ram pirâmides e navegaram pelo mundo em veleiros primitivos.

Parece perfeitamente natural, portanto, aplicar essa abordagem para resolver o “problema” da infelicidade. Mas, na verdade, é a pior coisa que se pode fazer, pois requer que você se concentre no hiato entre como está e como gostaria de estar. Então você faz perguntas como: O que há de errado comigo? Onde foi que errei? Por que cometo sempre os mesmos erros? Esses questionamentos, além de duros e autodestrutivos, exigem que a mente forneça indícios para explicar seu descontentamento. E a mente é de fato brilhante em fornecer tais indícios.

Imagine-se passeando num belo parque em um dia de primavera. Você está feliz, mas, por alguma razão desconhecida, uma centelha de tristeza surge em sua mente. Pode ser por causa da fome, já que você não almo­çou, ou talvez porque você tenha se lembrado sem querer de alguma coisa incômoda. Após alguns minutos, você começa a se sentir um pouco aba­tido. Assim que percebe seu desânimo, pensa: O dia está lindo. O parque é maravilhoso. Gostaria de me sentir mais contente do que estou agora.

Repita: Gostaria de me sentir mais contente.

Como se sente depois disso? Provavelmente, ainda mais triste. Você se concentrou no hiato entre como se sente e como quer se sentir. E concentrar-se no hiato o realçou. A mente vê a distância entre os dois estados como um problema a ser resolvido. Essa abordagem é desastro­sa quando se trata das emoções, devido à interligação complexa entre pensamentos, emoções e sensações físicas. Todos se alimentam mutua­mente e podem conduzir sua mente em direções perturbadoras. Em pouco tempo, você se vê sufocado pelos próprios pensamentos. Você começa a analisar demais a situação, a remoer o sentimento, a se culpar por não se sentir feliz.

Seu estado de ânimo piora. Seu corpo fica tenso, seu rosto se franze e o desânimo se instala. Algumas dores podem surgir. Essas sensações realimentam sua mente, que se sente mais ameaçada. Seu astral pode cair a tal ponto que você deixa de aproveitar o passeio no parque e não presta mais atenção na beleza do dia.

Claro que ninguém fica remoendo os problemas porque acredita que é uma forma nociva de pensar. As pessoas acreditam que, preocupando-se o suficiente com sua infelicidade, acabarão encontrando uma solu­ção para ela. Mas as pesquisas provam o oposto: na verdade, remoer pensamentos reduz nossa capacidade de solucionar problemas, e é um artifício absolutamente inútil para lidar com dificuldades emocionais.

Os sinais são claros: remoer pensamentos é o problema, não a solução.

Escapando do círculo vicioso

Não dá para deter o fluxo de lembranças infelizes, monólogos inter­nos negativos e outras formas de pensamento prejudiciais - mas você pode evitar o que acontece a seguir. Como já dissemos, você pode im­]pedir que o círculo vicioso se autoalimente e desencadeie a próxima es­piral de pensamentos negativos. E pode fazer isso experimentando um jeito novo de se relacionar consigo mesmo e com o mundo. Se você pára e reflete por um momento, a mente não apenas pensa: ela tem consciência de que está pensando. Essa forma de pura consciência permite que você veja o mundo de outra maneira, de um ponto de vista distanciado, sem sofrer a interferência de seus pensamentos, sentimentos e emoções. É como estar numa montanha alta - um ponto de observação - da qual você pode ver tudo por quilômetros a sua volta.

A pura consciência transcende o pensamento. Permite que você cale a mente tagarela e iniba seus impulsos e emoções reativas. Possibilita que você olhe para o mundo com os olhos abertos. E quando faz isso, a sensação de contentamento reaparece em sua vida.

 

Notas

1 Strack, E, Martin, L. & Stepper, S. (1988), “Inhibiting and facilitating condi­tions of the human smile: A nonobtrusive test of the facial feedback hypo­ thesis”, Journal of Personality and Social Psychology, 54, pp. 768-777.

2 Way, B. M„ Creswell, J. D., Eisenberger, N. I. & Lieberman, M. D. (2010), “Dispositional Mindfulness and Depressive Symptomatology: Correlations with Limbic and Self-Referential Neural Activity During Rest”, Emotion, 10, pp. 12-24.

3 Watkins, E. 8c Baracaia, S. (2002), “Rumination and social problem-solving in depression”, Behaviour Research and Therapy, 40, pp. 1.179-1.189.

Referências
Bibliografia
( 41 )
Mais de: Psicologia positiva
4/11/2022 2:53:07 PM | Por Danny Penman, Mark Williams
Despertando a atenção plena

Imagine-se no topo de uma montanha, contemplando lá do alto a pai­sagem urbana e cinzenta sob a chuva. A cidade parece fria e inóspita. Os prédios são velhos e desgastados. As avenidas estão engarrafadas e as pessoas caminham infelizes e mal-humoradas. Então algo milagroso acontece: as nuvens se dissipam e o sol começa a brilhar. Num instante, a paisagem muda. As janelas dos prédios ficam douradas. O concreto cinza muda para um bronze lustroso. As ruas parecem reluzentes e limpas. Um arco-íris surge. O rio lodoso se transforma numa serpente exótica que corta as ruas. Por um momento, tudo fica em suspenso: sua respiração, seu coração, sua mente, os pássaros no céu, o tráfego nas ruas, o próprio tempo. Tudo parece pausar, absorver a transformação.

Essas mudanças de perspectiva têm um efeito dramático - não apenas no que você vê, mas também no que pensa e sente e na maneira como se relaciona com o mundo. Elas podem alterar sua visão da vida de forma radical num piscar de olhos. Mas o que é notável nessa situação é que, de fato, pouca coisa muda: a cena permanece exatamente a mesma, mas quando o sol aparece você vê o mundo sob uma luz diferente. Só isso.

Observar sua vida sob uma luz diferente também pode transformar seus sentimentos. Lembre-se de uma época em que você estava se pre­parando para as férias. Havia coisas de mais por fazer e tempo de menos para dar conta de tudo. Você chegou tarde em casa depois de passar o dia tentando deixar o trabalho em ordem antes de sair para seus dias de folga. Você se sentia como um hamster preso numa roda que não para­va de girar. Enquanto arrumava as malas, estava tão cansado que teve dificuldades de selecionar o que levar. Não conseguiu dormir direito porque sua mente continuava revivendo as atividades daquele dia. Na manhã seguinte, você acordou, pôs a bagagem no carro, trancou a casa e partiu... E acabou.

Pouco depois você estava deitado à beira da praia, relaxando e con­versando com os amigos. O trabalho de repente ficou a milhares de qui­lômetros de distância e você mal conseguia se lembrar dos problemas relacionados a ele. Você se sentia revigorado porque sua vida simples­mente mudara de marcha. Sua rotina estressante continuava existindo, é claro, mas você agora a estava vendo de um ponto de vista diferente.

O tempo também pode alterar profundamente sua perspectiva. Pense na última vez que você teve uma discussão com um colega ou um estranho - talvez um atendente de telemarketing. Você ficou uma fera. Passou horas pensando em todas as coisas inteligentes que pode­ria ou deveria ter dito para derrubar seu oponente. Os efeitos da dis­cussão arruinaram seu dia. Porém, poucas semanas depois, o episódio já não o afeta mais. Na verdade, você nem se lembra dele. O evento continua tendo ocorrido, mas você pensa nele de um ponto diferente no tempo.

Mudar sua perspectiva pode transformar sua experiência de vida, como mostram os exemplos. Mas eles também evidenciam um proble­ma fundamental: todos ocorreram porque algo fora de você havia mu­dado - o sol surgiu, você saiu de férias, o tempo passou. Acontece que, se você depender somente da mudança de circunstâncias externas para se sentir feliz e energizado, terá de esperar muito tempo. E enquanto você espera o sol aparecer ou as férias chegarem, sua vida passa despercebida.

Mas as coisas não precisam ser assim.

É fácil ficar preso num ciclo de sofrimento e aflição quando você tenta eliminar seus sentimentos ou se  emaranha num excesso de análises. Os sentimentos negativos persistem quando o modo Atuante da mente se oferece para ajudar, mas em vez disso acaba aumentando as dificuldades que você estava tentando superar.

Mas existe uma alternativa. Nossa mente tem outra maneira de se relacionar com o mundo: o modo Existente. Assemelha-se a uma mu­dança de perspectiva, embora vá bem além disso. Ela nos permite ver como a mente tende a distorcer a “realidade” e nos ajuda a eliminar o hábito de pensar, analisar e julgar demais. Com ela, podemos experi­mentar o mundo de forma direta, vendo qualquer dificuldade de um novo ângulo e enfrentando os obstáculos de maneira bem diferente. Por causa dela, somos capazes de mudar nossa paisagem interna (ou paisa­gem mental, se preferir) independentemente do que estiver ocorrendo a nossa volta. Deixamos de depender das circunstâncias externas para encontrar a felicidade, o contentamento e o equilíbrio. Voltamos a ter o controle de nossa própria vida.

Se o modo Atuante é uma armadilha, o modo Existente é a liberdade.

Ao longo das eras, as pessoas aprenderam a cultivar essa forma de ser, e qualquer um de nós é capaz de fazer o mesmo. A meditação da atenção plena é a porta pela qual podemos acessar o modo Existente. E, com um pouco de prática, poderemos abrir essa porta sempre que precisarmos.

A atenção plena surge espontaneamente do modo Existente quando aprendemos a prestar atenção deliberada, no momento presente e sem julgamento, nas coisas como de fato são.

Na atenção plena, começamos a ver o mundo como ele é, não como esperamos que seja, como queremos que seja ou como tememos que se torne.

Essas idéias podem soar um pouco nebulosas. Pela própria natureza, elas precisam ser experimentadas para serem compreendidas da manei­ra correta. Assim, para facilitar o entendimento, vou explicar a seguir ponto a ponto as diferenças entre os modos Atuante e Existente. Embora algumas das definições talvez não fiquem muito claras no início, os bene­fícios da prática da atenção plena são inquestionáveis. Na verdade, é até possível verificar os benefícios de longo prazo se enraizando no cérebro usando algumas das tecnologias de imagens mais avançadas do mundo.

Ao ler as páginas seguintes, é importante que você tenha em mente que o modo Atuante não é um inimigo a ser derrotado. Com frequência, é até um aliado. Ele só se torna um “problema” quando se oferece para uma tarefa que é incapaz de realizar, como “solucionar” uma emoção preocupante. Quando isso acontece, vale a pena mudar a marcha para o modo Existente.

É exatamente isto que a atenção plena proporciona: a capacidade de mudar de marcha quando precisamos, em vez de ficar presos sempre na mesma.

As sete características dos modos atuante e existente

1. Piloto automático X escolha consciente

O modo Atuante é muito eficiente em automatizar nossa vida por meio dos hábitos, mas esta é uma das características que menos perce­bemos. Sem a capacidade da mente de aprender com a repetição, ainda estaríamos tentando lembrar como amarrar o sapato - algo que hoje fazemos automaticamente. O lado ruim disso é que, quando cedemos demais ao piloto automático, podemos acabar pensando, trabalhando, comendo, caminhando ou dirigindo sem uma consciência clara do que estamos fazendo. O maior perigo é que grande parte da nossa vida passe assim, sem que de fato estejamos vivendo.

A atenção plena nos traz de volta à consciência: um local de escolha e intenção.

O modo Existente - ou “atento” - nos permite voltar a ter total consciência de nossa vida. Proporciona a capacidade de nos conec­tarmos com nós mesmos de tempos em tempos para que possamos fazer escolhas intencionais. A medi­tação da atenção plena nos leva a gastar menos tempo para realizar as coisas. É simples: quando se torna mais atento, suas intenções e ações ficam alinhadas, e você deixa de ser desviado toda hora do rumo pelo piloto automático. Aprende a parar de perder tempo à toa com sua velha maneira de pensar e agir, que se provou inútil. Além disso, diminui sua tendência a lutar demais por objetivos dos quais é melhor abrir mão. Você se torna plenamente vivo e consciente de novo.


2. Analisar X sentir

O modo Atuante precisa pensar. Ele analisa, recorda, planeja e compara. Esse é seu papel, e quase todo mundo se acha bom nisso. Passamos grande parte do tempo perdidos, desligados, sem notar o que se passa a nossa volta. A correria do mundo nos absorve de tal forma que destrói nossa percepção do agora, forçando-nos a viver mais no mundo dos nossos pensamentos do que no mundo real. E, como vimos no capítulo anterior, os pensamentos podem facilmente ser desviados para uma direção peri­gosa. Isso nem sempre ocorre, mas é um risco constante.

A atenção plena é uma forma diferente de experimentar o mundo. Não é como pegar um caminho novo; estar plenamente atento é entrar em contato com seus sentidos, de modo que possa ver, ouvir, tocar, cheirar e degustar as coisas que você já conhece como se fosse a primeira vez. Você se torna curioso de novo. Esse contato sensorial direto com o mundo pode parecer trivial de início. No entanto, quando você começa a sentir os momentos da vida comum, descobre algo fora do comum. Você cultiva uma sensação intuitiva do que está ocorrendo a sua volta, o que aumenta sua capacidade de observar as pessoas e a vida de uma nova maneira. Eis a essência da atenção plena: acordar para o que está acontecendo no mundo e dentro de você, momento a momento.

3. Lutar X aceitar

O modo Atuante envolve julgar e comparar o mundo “real” com o mundo que idealizamos em nossos sonhos e pensamentos. Ele foca a atenção na diferença entre os dois, o que acaba gerando uma insatisfa­ção permanente.

O modo Existente, por outro lado, nos convida a suspender o jul­gamento temporariamente. Significa ficar de lado por um momento e observar o mundo e a vida se desenrolando, permitindo que as coisas sejam como são. Ao analisar um problema ou uma situação sem precon­ceitos, não somos mais forçados a chegar a uma conclusão preconcebi­da. Desse modo, não precisamos reduzir nossa criatividade.

Aceitação não é o mesmo que resignação. Aceitar é reconhecer que a experiência existe e, em vez de deixar que ela controle sua vida, observá-la compassivamente, sem julgá-la, criticá-la ou negá-la. A aceitação pro­movida pela atenção plena permite que você impeça que uma espiral ne­gativa comece, ou, se já começou, reduza seu ímpeto. Ela nos concede a liberdade de escolher e, no processo, nos liberta da infelicidade, do medo, da ansiedade e da exaustão. Com isso, adquirimos um controle maior sobre a nossa vida. O mais importante é que nos permite lidar com os problemas da forma mais eficaz possível e no momento mais apropriado.

4. Ver os pensamentos como reais X tratá-los como eventos mentais

No modo Atuante, a mente usa as próprias criações, pensamentos e imagens como matéria-prima. As idéias são a sua moeda e adquirem valor próprio. Você pode começar a confundi-las com a realidade. Na  maioria das vezes, isso faz sentido. Se você saiu para visitar um amigo, precisa ter em mente seu destino. A mente planejadora, ativa, racional levará você até lá. Não faz sentido duvidar da verdade de seu pensa­mento: Vou mesmo visitar meu amigo? Em tais situações, é necessário considerar seus pensamentos como verdadeiros.

Mas isso se torna um problema quando você está estressado. Você poderia dizer a si mesmo: Vou enlouquecer se isso continuar. Eu deve­ria fazer melhor do que isso. Você pode considerar esses pensamentos verdadeiros também. Seu astral despenca quando sua mente reage de forma rude: Sou fraco, não presto, não sirvo para nada. Assim, você se esforça cada vez mais, ignorando as mensagens de seu corpo castigado e o conselho de seus amigos. Os pensamentos deixaram de ser seus servos e se tornaram seu senhor - um senhor rígido e implacável.

A atenção plena nos ensina que pensamentos não passam de pensa­mentos. São eventos criados pela mente. Costumam ser valiosos, mas não são “você” ou “a realidade”. São uma narração interna sobre você e seu mundo. A simples compreensão desse fato o liberta do excesso de preocupação, elucubração e ruminação, o que lhe permite enxergar um caminho claro pela vida de novo.

5. Evitar X aproximar-se

O modo Atuante resolve problemas não apenas mantendo na lem­brança seus objetivos e destinos, mas também lembrando “antiobjetivos” e lugares aonde você não quer ir. Isso faz sentido quando, por exemplo, você vai de carro do ponto A ao ponto B, porque convém saber quais partes da cidade você deve evitar. No entanto, esse pro­cesso se torna um problema quando se trata de estados mentais dos quais você gostaria de fugir. Por exemplo, se tentar resolver o proble­ma do cansaço e do estresse, você manterá na mente os “lugares que não deseja visitar”, como a exaustão, o esgotamento e o colapso. Então, além de se sentir cansado e estressado, você começará a invocar novos medos, aumentando sua ansiedade e gerando ainda mais estresse. O modo Atuante, usado no contexto errado, conduz você passo a passo ao esgotamento e à exaustão.

O modo Existente, por outro lado, convida você a se “aproximar” das coisas que sente vontade de evitar. Instiga-o a se interessar por seus estados mentais mais difíceis. A atenção plena não diz “não se preocupe” ou “não fique triste”: ela reconhece o medo, a tristeza, a fadiga e a exaustão e o encoraja a se voltar para aquelas emoções que ameaçam engoli-lo. Essa abordagem compassiva dissipa pouco a pouco o poder dos sentimentos negativos.

6. Viagem no tempo mental X permanecer no momento presente

Sua memória e sua capacidade de planejar o futuro são cruciais para o bom andamento da vida diária, mas elas sofrem distorções por causa de seu estado de espírito. Quando você está sob estresse, tende a se lembrar somente das coisas ruins, traumáticas, e a ter dificuldade de se lembrar das coisas boas, prazerosas. Algo semelhante ocorre quan­do você pensa no futuro: quando se sente infeliz, acha quase impossível olhar para a frente com otimismo. No momento em que esses sentimentos percorreram sua mente consciente, você deixa de perceber que não passam de memórias do passado ou de planos para o futuro. Você se perde na viagem no tempo mental.

Nós revivemos eventos passados e voltamos a sentir a dor; nós antevemos desastres futuros e sentimos seu impacto com antecedência.

A meditação treina a mente para que você conscientemente “veja” seus pensamentos quando ocorrerem, para que possa viver sua vida conforme ela se desenrola no presente. Isso não significa que você fica aprisionado no agora. Ainda consegue se lembrar do passado e planejar o futuro, mas o modo Existente permite que você os veja como são: a memória como memória e o planejamento como planejamento. Ter essa clareza evita que você seja escravo da viagem no tempo mental. Você consegue impedir a dor de reviver o passado e de se preocupar com o futuro.

7. Atividades exaustivas X tarefas revigorantes

Quando você está preso no modo Atuante, não é apenas o piloto au­tomático que o impele: você tende a se envolver em projetos pessoais e  profissionais importantes, e em tarefas exaustivas como cuidar da casa, dos filhos, dos pais idosos. Essas atividades costumam ser válidas, mas por demandarem tanto tempo é fácil concentrar-se nelas e excluir todo o resto, inclusive sua saúde e seu bem-estar. De início, você pode tentar convencer-se de que tudo isso é temporário e de que você está disposto a abrir mão dos hobbies e passatempos que nutrem sua alma. Mas desistir dessas coisas pode esgotar seus recursos internos aos poucos e levá-lo a se sentir vazio, apático e exausto.

O modo Existente restaura o equilíbrio, ajudando-o a identificar as atividades que o revigoram e aquelas que o esgotam. Ele o faz perceber que necessita de tempo para renovar sua alma e proporciona o espaço e a coragem para tal. Também o ensina a lidar com as inevitáveis tarefas do dia a dia que drenam a energia de sua vida.

Mudança consciente de marcha

A meditação da atenção plena ensina a sentir as sete dimensões de­ lineadas anteriormente e, com isso, ajuda a reconhecer em que modo sua mente está operando. Ela age como um alarme suave que avisa, por exemplo, quando você está analisando demais uma situação e lembra que existe uma alternativa: você ainda tem opções, por mais infeliz ou estressado que esteja. Ou seja, se sente que está emaranhado no excesso de análises e críticas, a atenção plena pode torná-lo mais aberto e fazê-lo aceitar a dificuldade com receptividade e curiosidade.

Agora podemos lhe revelar um segredo: se você mudar ao longo de qualquer uma dessas dimensões, as outras mudarão também. Por exem­plo, durante o programa de atenção plena, você pode praticar a recepti­vidade e se tornará menos crítico. Você pode praticar a permanência no presente e passará a interpretar seus pensamentos de forma menos literal. Se olhar para si mesmo com generosidade, também terá mais empatia pelos outros. E, ao fazer todas essas coisas, uma sensação de entusiasmo, energia e equilíbrio surgirá como uma fonte de água límpida há muito esquecida.

Embora as práticas ocupem apenas vinte a trinta minutos de “tempo de relógio” a cada dia, os resultados podem ter um impacto em toda a sua vida. Você logo perceberá que, embora certo grau de comparação e julgamento seja necessário, nossa civilização dá valor excessivo a essas coisas. Muitas escolhas que fazemos no dia a dia são desnecessárias. Elas são impelidas por seu fluxo de pensamentos. Você não precisa se comparar aos outros. Não precisa comparar seu pa­drão de vida atual com uma visão fictícia de futuro ou uma lembrança romantizada do passado. Não precisa ficar acordado à noite avaliando o impacto que um comentário casual, feito durante uma reunião de tra­balho, causará em seu emprego. Apenas aceite a vida como ela é, e você se sentirá mais realizado e livre de preocupações. E quando precisar to­mar alguma atitude, a decisão mais sábia provavelmente surgirá em sua mente no momento em que você não estiver pensando no assunto.

Precisamos enfatizar outra vez que aceitação atenta não é resignação. Não é aceitar o inaceitável. Nem é uma desculpa para ser preguiçoso e não fazer nada com sua vida, seu tempo, seus talentos e seus dons inatos. (O trabalho significativo, seja remunerado ou não, é uma forma segura de promover a felicidade.) A atenção plena é uma “recuperação dos sentidos”, uma consciência que começa a vir à tona espontaneamen­te quando você reserva tempo para praticá-la. Ela permite que você ex­perimente o mundo pelos sentidos - com calma e sem espírito crítico. Proporciona uma grande sensação de perspectiva, que o ajuda a sentir o que é importante ou não.

No longo prazo, a atenção plena o encoraja a tratar a si mesmo e aos outros com compaixão. Isso o liberta da dor e da preocupação, e em seu lugar surge uma sensação de felicidade que se propaga à vida diária. Não é o tipo de felicidade que se dissipa à medida que você se torna imune às alegrias. Pelo contrário, é um estado permanente de contentamento que invade sua rotina.

Um dos aspectos mais espantosos da meditação da atenção plena é que você consegue ver seus efeitos positivos alterando o funcionamen­to cerebral. Avanços científicos recentes nos permitem ver que as áreas do cérebro associadas às emoções positivas - como felicidade, empatia e compaixão - se tornam mais fortes e ativas quando as pessoas meditam. As novas tecnologias de imagem conseguem mapear redes críticas do cérebro sendo ativadas, quase como se estivessem brilhando e vibrando com uma vida renovada. Com essa reenergização promovida pela me­ditação, a infelicidade, a ansiedade e o estresse começam a se dissolver, deixando uma sensação profunda de revigoramento. Mas você não pre­cisa passar anos meditando para constatar esses benefícios: cada minuto conta.

Pesquisas mostraram que já é possível sentir seus efeitos se você se dedicar à prática diária por um período de oito semanas.

Durante muitos anos acreditou-se que todos temos uma espécie de “termostato emocional”, que determina nosso grau de felicidade na vida. Presumivelmente, algumas pessoas teriam um temperamento feliz, en­quanto outras teriam um temperamento infeliz. Embora grandes acon­tecimentos, como a morte de um ente querido ou ganhar na loteria, possam alterar de forma significativa o nosso estado de humor, às vezes por semanas ou meses a fio, sempre se supôs que havia um ponto de referência ao qual retornaríamos. Esse ponto de referência emocional estaria codificado em nossos genes ou seria fixado na infância. Em ou­tras palavras: algumas pessoas nasciam felizes e outras não.

Anos atrás, porém, esse pressuposto foi abalado por Richard David­son, da Universidade de Wisconsin, e Jon Kabat-Zinn, da Faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts. Eles descobriram que a prática da atenção plena permitia às pessoas escaparem da atração gravitacional de seu ponto de referência emocional. O trabalho deles nos ofereceu a possibilidade extraordinária de alterar permanentemente nosso nível de felicidade.

Essa descoberta tem suas raízes no trabalho do Dr. Davidson sobre a indexação (ou mensuração) da felicidade de uma pessoa por meio do exame da atividade elétrica em diferentes partes do cérebro, usando sensores no couro cabeludo ou por meio de ressonância magnética. Ele descobriu que quando as pessoas estão emocionalmente perturba­das - zangadas, ansiosas ou deprimidas -, o córtex pré-frontal direito se ilumina mais do que a parte equivalente do cérebro situada à esquerda. Quando as pessoas estão num astral positivo - contentes, entusiasma­das, radiantes -, o córtex pré-frontal esquerdo se ilumina mais do que o direito. Essa pesquisa levou o Dr. Davidson a conceber um “índice de humor” baseado na relação entre a atividade elétrica nos cortices pré-frontais esquerdo e direito. Essa relação consegue prever seu estado de ânimo diário com grande precisão. É como dar uma espiada no termos­tato emocional - se a relação tende para a esquerda, é provável que você esteja feliz, contente e energizado. Esse é o sistema da “abordagem”. Se a relação tende para a direita, a probabilidade é de que você esteja mais sombrio, desanimado e sem energia. É o sistema da “fuga”.

Davidson e Kabat-Zinn decidiram estender o trabalho e examinar os efeitos da atenção plena nos termostatos emocionais de um grupo de trabalhadores de biotecnologia. Os voluntários praticaram a meditação da atenção plena por oito semanas. Então algo incrível aconteceu: eles não apenas ficaram menos ansiosos, mais contentes, mais energizados e mais envolvidos com seu trabalho, como também o índice de ativação do cérebro deles passou a tender para a esquerda. Surpreendentemente, o sistema da abordagem continuou operando mesmo quando eles fo­ram expostos a músicas melancólicas e a lembranças do passado que os deixavam tristes. A tristeza gerada nesses momentos deixou de ser vista como um inimigo e passou a ser encarada como algo amigável, passível de ser administrado. Ficou claro não só que a prática da atenção plena aumenta os níveis de felicidade (e reduz o estresse), como também que essa mudança se reflete na forma como o cérebro funciona. Isso sugere que a atenção plena tem efeitos positivos que criam raízes profundas no cérebro.

Outro benefício inesperado foi que o sistema imunológico dos vo­luntários se fortaleceu. Os pesquisadores ministraram uma injeção com o vírus da gripe nos participantes e depois mediram a concentração de anticorpos específicos que haviam sido produzidos por cada um. Aque­les cujo cérebro mostrava maior tendência ao sistema da abordagem tiveram o sistema de defesa mais estimulado.

Mas um trabalho ainda mais interessante estava por vir. A Dra. Sa­rah Lazar, do Hospital Geral de Massachusetts, descobriu que quando as pessoas continuam meditando por vários anos, essas mudanças po­sitivas alteram a estrutura física do cérebro. O termostato emocional é reiniciado - para melhor. Isso significa que, com o tempo, você terá mais tendência a se sentir feliz em vez de triste, despreocupado em vez de agressivo, energizado em vez de cansado e apático. Essa mudança nos circuitos cerebrais é mais pronunciada numa parte da superfície do cérebro conhecida como insula, que controla muitas das características centrais à nossa humanidade.

Numerosos testes clínicos mostram que esses efeitos positivos sobre o cérebro se traduzem em benefícios para a felicidade, o bem-estar e a saúde. Veja alguns exemplos a seguir.

Atenção plena e Reisiliência

Descobriu-se que a atenção plena aumenta a resiliência - ou seja, a capacidade de resistir aos golpes e reveses da vida - num grau conside­rável. Essa capacidade de resistência varia muito de pessoa para pessoa. Algumas se saem bem em desafios estressantes que intimidariam mui­tas outras, como bater altas metas de desempenho no trabalho, acampar no Polo Sul ou cuidar de três filhos, da casa e do emprego.

O que faz com que pessoas “resistentes” sejam capazes de enfrentar as adversidades enquanto as outras se desesperam diante delas? A Dra. Su­zanne Kobasa, da City University de Nova York, identificou três traços psicológicos envolvidos nesse processo: controle, compromisso e desa­fio. Outro psicólogo eminente. Dr. Aaron Antonovsky, também tentou definir os principais aspectos psicológicos que permitem que algumas pessoas suportem uma tensão extrema, enquanto outras não. Ele con­centrou seus estudos em sobreviventes do Holocausto e encontrou três traços que se combinam para gerar uma sensação de coerência: inteligibilidade, maneabilidade e significabilidade. Assim, as pessoas “fortes” acreditam que os acontecimentos têm um significado, que são capazes de manejar sua vida e que a situação é compreensível, ainda que pareça caótica e descontrolada.

De certa forma, todos os traços identificados por Kobasa e Anto­novsky definem nosso grau de resiliência. Em termos gerais, quanto mais forte for nossa tendência a essas características, maior será nossa capacidade de enfrentar as provações e adversidades da vida.

A equipe de Jon Kabat-Zinn, da Faculdade de Medicina da Univer­sidade de Massachusetts, decidiu testar se a meditação conseguia me­lhorar essa tendência e, portanto, aumentar a capacidade de resiliência das pessoas. Os resultados foram claros. Em geral, os participantes não apenas se sentiram mais felizes, mais energizados e menos estressa­dos, como também ganharam mais controle sobre sua vida. Descobri­ram que ela fazia sentido e que os desafios podiam ser vistos como oportunidades, não como ameaças. Outros estudos confirmaram essas descobertas.

Mas talvez a descoberta mais intrigante sobre o assunto seja que esses traços de personalidade não são imutáveis. Eles podem ser mudados para melhor em apenas oito semanas de treinamento em atenção ple­na. Essas transformações não devem ser subestimadas, pois têm uma enorme importância para nossa vida diária. A empatia, a compaixão e a serenidade são vitais para o nosso bem-estar, mas certo grau de força e resistência também é necessário. E a prática da atenção plena pode ter um papel crucial nesses aspectos da vida.

Os estudos realizados em laboratórios e clínicas do mundo inteiro es­tão mudando a maneira como os cientistas pensam sobre a mente e vêm aumentando a confiança das pessoas nos benefícios da atenção plena. Muitos praticantes contam que a meditação aumenta a alegria diária. Isso significa que mesmo as coisas mais simples podem voltar a ser cativantes.

Psicologia - Psicologia positiva
3/24/2022 5:41:23 PM | Por Danny Penman, Mark Williams
Pensamentos automáticos e sua influência em nossas emoções

Aparentemente, Lucy era uma representante de vendas bem-suce­dida de uma rede de lojas de roupas. Mas ela estava se sentindo paralisada. Às três da tarde, olhando pela janela do escritório, estres­sada, exausta e totalmente indisposta, ela se perguntava: "Por que não consigo fazer meu trabalho direito? Por que não consigo me concentrar? O que há de errado comigo? Estou tão cansada! Nem consigo pensar direito...". Lucy vinha se punindo com esses pensamentos autocríticos constan­temente. Mais cedo, naquele dia, ela tivera uma conversa longa e ansiosa com a professora do jardim de infância sobre sua filha, Emily, que an­dava chorando quando era deixada na escola. Depois, telefonou para o bombeiro para saber por que não tinha ido consertar a descarga que­brada em sua casa. Agora fitava uma planilha, sentindo-se sem energia e mastigando um muffin de chocolate no lugar do almoço.

As exigências e tensões na vida de Lucy estavam piorando gradual­mente nos últimos meses. O trabalho se tornava cada vez mais estressante e começava a se estender até bem depois do horário do expediente. As noites haviam se tornado insones, os dias, mais sonolentos. Seu cor­po começou a doer. A vida perdeu a alegria. Seguir em frente era uma luta. Ela já havia se sentido assim antes, mas sempre fora uma situação temporária. Jamais imaginara que aquilo poderia se tornar um aspecto permanente de sua vida.

Ela vivia se perguntando: O que aconteceu com a minha vida? Por que me sinto tão exausta? Eu deveria estar feliz. Eu costumava ser feliz. Para onde foi minha alegria?

A vida de Lucy girava em torno de excesso de trabalho, infelicidade, insatisfação e estresse. Ela fora privada de sua energia mental e física e se sentia perdida. Queria voltar a ser feliz e estar em paz consigo mesma, mas não tinha ideia de como chegar lá. Sua frustração não era grave a ponto de justificar uma ida ao médico, mas era suficiente para solapar o seu prazer de viver. Ela não vivia, apenas sobrevivia.

A história de Lucy não é um caso isolado. Ela é uma das milhões de pessoas que não estão deprimidas nem ansiosas na acepção médica - mas também não são felizes de verdade. O humor de todos nós passa por altos e baixos. Às vezes nosso estado de espírito muda de uma hora para outra, sem nem sabermos por quê: num momento estamos felizes, contentes e despreocupados, então algo sutil acontece e começamos a ficar estressados. Pensamos em nossas dificuldades, em todas as coisas que precisamos fazer, na falta de tempo para resolver tudo. O ritmo das exigências é cada vez mais implacável. Nesse estado, ficamos cansados o tempo todo, de forma que nem uma boa noite de sono nos revigora. E nos perguntamos: Como isso foi acontecer? Por que ficamos assim? Talvez não tenha havido nenhuma grande mudança em nossa vida: não perdemos um amigo, não nos endividamos de forma descontrolada. Nada mudou, mas de alguma forma a alegria desapareceu, sendo subs­tituída por uma espécie de aflição generalizada.

Na maior parte do tempo, as pessoas conseguem escapar dessa espiral descendente. Esses períodos difíceis costumam passar. No entanto, às vezes podem perdurar e nos levar para o fundo do poço. No caso de Lucy, a tristeza e a frustração duraram meses, sem qualquer razão apa­rente. Nas situações mais graves, a pessoa pode ser acometida por uma crise séria de ansiedade ou de depressão clínica.

Embora períodos persistentes de aflição e exaustão geralmente pare­çam surgir do nada, existem processos ocorrendo no fundo da mente que só se tornaram conhecidos na década de 1990. E essa descoberta trouxe a percepção de que podemos nos libertar das preocupações, da infelicidade, da ansiedade, do estresse, da exaustão e até da depressão.

Se você perguntasse a Lucy como estava se sentindo naquela tarde, ela teria dito que estava “exausta” ou “tensa”. À primeira vista, essas sen­sações parecem afirmações factuais, mas se olhasse para dentro de si mesma com mais atenção, Lucy teria percebido que não havia algo es­pecífico que pudesse ser rotulado de “exaustão” ou “tensão”. Ambas as emoções eram, na verdade, feixes de pensamentos, sentimentos, sensa­ções físicas e impulsos (como o desejo de gritar ou de sair correndo da sala). As emoções são assim: uma “cor de fundo” criada quando a mente funde pensamentos, sentimentos, impulsos e sensações físicas para evo­car um tema norteador ou estado mental geral. Todos os elementos que formam as emoções interagem entre si e podem intensificar o estado de humor geral. É uma dança intricada, cheia de ligações sutis que só agora começamos a entender.

Tomemos os pensamentos como exemplo. Algumas décadas atrás, acreditava-se que os pensamentos conseguiam mudar nosso estado de espírito e nossas emoções, mas a partir dos anos 1980 descobriu-se que o contrário também pode acontecer: nosso estado de espírito pode mudar nossos pensamentos. Na prática, isso significa que mesmo os momentos passageiros de tristeza podem acabar se autoalimentando para criar pensamentos negativos, definindo a maneira como você vê e interpreta o mundo. Assim como um céu nublado pode fazê-lo se sen­tir melancólico, uma pequena irritação pode trazer à tona lembranças ruins, aprofundando ainda mais seu nervosismo. O mesmo vale para outras emoções: se você se sente estressado, esse estado pode criar ainda mais estresse. Isso também acontece com a ansiedade, o medo, a raiva, e com emoções “positivas” como amor, felicidade, compaixão e empatia.

Mas não são apenas pensamentos e estados de ânimo que se alimen­tam mutuamente e destroem o bem-estar - o corpo também se envolve nesse processo. Isso acontece porque a mente não existe de forma isolada. Ela é uma parte fundamental do corpo, e ambos compartilham informa­ções emocionais entre si o tempo todo. Na verdade, grande parte do que o corpo sente é influenciado pelos pensamentos e pelas emoções, e tudo o que pensamos é influenciado pelo que está ocorrendo no corpo. Pesquisas recentes mostram que nossa perspectiva de vida pode ser alterada por mínimas mudanças corporais: atitudes sutis como fechar a cara, sorrir ou corrigir a postura podem ter um impacto enorme em nosso estado de espírito e em nossos pensamentos.

Para compreender melhor o poder da interação entre o corpo e o es­tado de humor, os psicólogos Fritz Strack, Leonard Martin e Sabine Stepper1 pediram a um grupo de pessoas que assistisse a desenhos ani­mados e depois avaliasse quão engraçados eram. Alguns voluntários tiveram que colocar um lápis entre os lábios, sendo forçados a franzi­dos e fazer uma cara triste. Outros assistiram aos desenhos com o lápis entre os dentes, simulando um sorriso. Os resultados foram impres­sionantes: aqueles forçados a sorrir acharam os desenhos bem mais engraçados do que aqueles obrigados a fechar a cara. Todos sabemos que sorrir demonstra que estamos felizes, mas, convenhamos: é sur­preendente descobrir que o ato de sorrir pode ele próprio torná-lo feliz. Esse é um exemplo perfeito de como são estreitos os vínculos entre a mente e o corpo.

Sorrir também é contagioso. Quando você vê alguém sorrindo, quase inevitavelmente sorri de volta. Pense nisto: o simples ato de sorrir pode deixá-lo contente (ainda que seja um sorriso forçado). E, se você sorrir, os outros sorrirão de volta, o que reforça sua felicidade. É um círculo virtuoso.

Mas também existe um círculo vicioso, que atua na direção oposta. Ao pressentirmos uma ameaça, ficamos tensos, prontos para lutar ou fugir. Essa reação de “luta ou fuga” não é consciente: é controlada por uma das partes mais “primitivas” do cérebro e, por isso, ele pode ser um pouco simplista na maneira de interpretar o perigo. O cérebro não faz distinção entre uma ameaça externa (como um tigre) e uma interna (como uma lembrança incômoda ou uma preocupação futura), tratan­do as duas como um perigo equivalente. Quando uma ameaça é detecta­da - seja real ou imaginária -, o corpo fica tenso e se prepara para entrar em ação. Isso pode se manifestar de várias formas, como rosto franzido, frio na barriga ou tensão nos ombros. A mente lê a reação do corpo e entende que está diante de uma ameaça (lembra como uma cara amar­rada pode fazê-lo se sentir triste?), o que faz o corpo tensionar ainda mais. O círculo vicioso começou.

Na prática, isso significa que, se você está se sentindo um pouco es­tressado ou vulnerável, uma pequena mudança emocional pode acabar arruinando seu dia - ou até mesmo lançá-lo num período prolongado de insatisfação ou preocupação. Essas mudanças costumam surgir do nada, deixando-o sem energia e se perguntando por que está tão infeliz.

Oliver Burkeman, colunista do jornal The Guardian, descobriu isso sozinho e escreveu sobre como pequenas sensações corporais se retroalimentavam para lançá-lo em uma espiral emocional descendente:

Geralmente sou feliz, mas de vez em quando sou atingido por um estado de infelicidade e ansiedade que se intensifica muito rápido. Nos piores dias, sou capaz de passar horas perdido em divagações angustiantes, refletindo sobre as grandes mudanças que preciso fazer em minha vida. De repente, percebo que me esqueci de almoçar. Como um sanduíche de atum e o mau humor desapa­rece. No entanto, minha primeira reação à sensação ruim nunca é pensar que estou com fome. Aparentemente, meu cérebro prefere se chatear com reflexões sobre a falta de sentido da existência a me direcionar até a geladeira.

Como Oliver Burkeman constatou em sua própria experiência, quase sempre essas “divagações angustiantes” se desfazem rápido. Algo atrai nosso olhar e nos faz sorrir - um amigo telefona, encontramos um bom filme passando na TV, tomamos uma deliciosa xícara de chocolate quente ou decidimos ir para a cama cedo. Em geral, toda vez que somos atingidos pelos turbilhões da vida, algo de bom acontece para restabe­lecer o equilíbrio. Mas nem sempre é assim. Às vezes o peso de nossa história entra em ação e adiciona uma carga emocional extra, já que nossas lembranças têm um impacto poderoso em nossos pensamentos, sentimentos, impulsos e, em última análise, em nosso corpo.

Vamos voltar ao exemplo de Lucy. Embora se descreva como uma pessoa “ambiciosa” e “relativamente bem-sucedida”, ela tem consciên­cia de que algo fundamental está faltando em sua vida. Ela conquistou quase tudo o que queria, por isso acha estranho que não se sinta feliz, contente e em paz consigo mesma. Constantemente repete a frase “Eu deveria estar feliz”, como se dizer isso fosse suficiente para expulsar a tristeza.

Os surtos de infelicidade de Lucy começaram na adolescência. Seus pais se separaram quando ela tinha 17 anos e a casa da família precisou ser vendida, forçando seus pais a se mudarem para locais não muito adequados. Lucy surpreendeu a todos por segurar a barra. É claro que no início ficou arrasada com o divórcio, mas logo aprendeu a tirar o foco dos problemas se empenhando nos estudos. Essa foi sua tábua de salvação. Tirou boas notas, entrou na faculdade e se formou com uma qualificação satisfatória. Seu primeiro emprego foi como trainee numa loja de roupas. Ao longo dos anos, foi subindo na hierarquia da empresa, até chegar a chefe de uma pequena equipe de representantes de vendas. Aos poucos, o trabalho dominou a vida de Lucy, deixando-a cada vez mais sem tempo para si mesma. Aconteceu tão lentamente que ela mal percebeu que deixava sua vida de lado. Ocorreram coisas boas também, é claro, como o casamento com Tom e o nascimento das duas filhas. Ela adorava sua família, mas não conseguia se livrar da sensação de que apenas algumas pessoas tinham direito de viver de forma plena. Sua impressão era de estar caminhando em areia movediça.

Essa areia movediça era sua rotina, seu estresse, seus padrões de pen­samentos e seus sentimentos do passado. Embora por fora Lucy pare­cesse uma pessoa de sucesso, por dentro ela morria de medo do fracas­so. Esse medo fazia com que qualquer mau humor passageiro desenca­deasse lembranças dolorosas, enquanto seu crítico interno dizia que era vergonhoso exibir tais fraquezas. Sensações vagas de insegurança aca­bavam despertando uma sucessão de sentimentos negativos do passado que pareciam bem reais e rapidamente assumiam vida própria, ativando outra onda de emoções nocivas.

Como Lucy atestará, é raro experimentarmos a tensão ou a tristeza isoladamente - raiva, irritabilidade, amargura, ciúmes e ódio às vezes estão ligados em um novelo intricado. Esses sentimentos podem até ser dirigidos aos outros, mas na maioria das vezes são voltados para nós mesmos, ainda que não percebamos. Ao longo da vida, esses emaranha­dos emocionais podem se tornar mais associados aos pensamentos, aos sentimentos, às sensações físicas e aos comportamentos. É assim que o passado consegue ter um efeito tão difuso no presente. Se ativamos uma chave emocional, as outras são ativadas em seguida (o mesmo ocor­re com as sensações físicas, como a dor). Tudo isso pode desencadear padrões de pensamento, comportamento e sentimentos que sabemos que são nocivos, mas que simplesmente não conseguimos evitar. E que, quando combinados, são capazes de transformar qualquer contratempo em uma tempestade emocional.

Aos poucos, o acionamento repetitivo de pensamentos e humores ne­gativos começa a abrir sulcos na mente. Com o tempo, esses sulcos se tornam mais profundos, fazendo com que os pensamentos negativos, a autocrítica, a melancolia e o medo se instalem com mais facilidade e se dissipem com mais esforço. A conseqüência disso é que os períodos prolongados de fragilidade podem ser desencadeados por coisas cada vez mais banais, como uma chateação momentânea ou uma baixa de energia - tão banais que às vezes nem as reconhecemos. Com frequên­cia, os pensamentos negativos aparecem disfarçados de perguntas duras que fazemos a nós mesmos: Por que estou tão infeliz? O que está aconte­cendo comigo? Onde será que errei? Onde isso vai acabar?

Os vínculos estreitos entre os diversos aspectos da emoção, que o tem­po todo recorrem ao passado, podem explicar por que um sentimento passageiro pode ter um efeito significativo sobre o estado de humor. Às vezes esses sentimentos chegam e partem tão rápido quanto uma rajada de vento. Outras vezes, no entanto, o estresse, a fadiga e o mau humor ficam grudados como adesivos em nossa mente, e nada parece ser capaz de arrancá-los dali. A impressão que se tem é que é justamente isso que está ocorrendo: a mente é ativada para entrar em alerta máximo, mas depois não consegue ser desativada, como deveria acontecer.

Uma boa forma de ilustrar esse processo é comparar a maneira como humanos e animais reagem diante do perigo. Tente se lembrar do últi­mo documentário sobre a vida selvagem a que assistiu na TV. Deve ter aparecido um rebanho de gazelas sendo caçado por um leopardo na savana africana. Aterrorizados, os animais correram feito loucos até que o leopardo capturou um deles ou desistiu da caçada naquele dia. Uma vez passado o perigo, as gazelas voltaram a pastar tranquilamente. Algo no cérebro delas foi acionado quando avistaram o leopardo e depois desativado quando a ameaça se dissipou.

Mas a mente humana é diferente, sobretudo quando se trata de amea­ças “intangíveis” capazes de desencadear ansiedade, estresse, preocupa­ção ou irritabilidade. Quando nos preocupamos ou tememos alguma coisa - seja ela real ou imaginária - nossas reações de luta ou fuga entram em ação. Mas aí algo mais ocorre: a mente começa a percor­rer nossas lembranças em busca de algo que explique por que nos sen­timos daquele jeito. Assim, se nos sentimos tensos ou em perigo, nossa mente desenterra memórias de ocasiões passadas em que nos sentimos ameaçados e depois cria cenários do que poderá ocorrer no futuro se não conseguirmos explicar o que está acontecendo agora. O resultado é que os sinais de alerta do cérebro são ativados não apenas pelo perigo atual, mas por ameaças passadas e preocupações futuras. Tal processo se dá de forma instantânea, sem que percebamos.

Estudos recentes feitos a partir de tomografias do cérebro confirmam que pessoas que sentem dificuldade de viver o presente e têm rotinas muito agitadas possuem uma amígdala cerebral (a parte primitiva do cérebro envolvida no instinto de luta ou fuga) em “alerta máximo” o tempo todo.2 Assim, quando trazemos à tona lembranças de ameaças e perdas antigas e as juntamos ao “perigo” atual, nosso mecanismo de luta ou fuga não é desativado quando a ameaça passa. Ao contrário das gazelas, não paramos de correr.

Então, a forma como reagimos pode transformar emoções temporá­rias e não problemáticas em dores persistentes e incômodas. Em suma, a mente pode acabar agravando a situação. Isso vale para muitos outros sentimentos do dia a dia. Eis um exemplo:

Enquanto está lendo este livro, veja se consegue perceber qualquer sinal de fadiga em seu corpo. Passe um momento observando-o a fun­do. Depois que tiver se conscientizado de seu cansaço, faça a si mesmo as seguintes perguntas: Por que estou me sentindo tão exausto?O que fiz de errado? O que essa sensação revela sobre mim? O que acontecerá se eu não conseguir me livrar dessa fadiga?

Reflita sobre essas questões por um tempo. Deixe-as ecoar em sua mente. Por que estou tão cansado? O que aconteceu comigo? O que vou fazer se permanecer assim?

Como se sente agora? Provavelmente pior. Acontece com todo mun­do, porque aliado a essas perguntas existe um desejo de se livrar da fadi­ga e de descobrir suas causas e conseqüências.3 O impulso de explicar e expulsar a exaustão deixou você mais exausto.

O mesmo vale para uma série de sentimentos, como a infelicidade, a ansiedade e o estresse. Quando estamos infelizes, é natural tentarmos descobrir a razão por nos sentirmos assim e procurarmos um meio de resolver esse “problema”. Mas tensão, infelicidade ou exaustão não são problemas que possam ser resolvidos. São emoções. Refletem estados da mente e do corpo. Como tais, não podem ser resolvidas - apenas sentidas. Se você as percebeu e abandonou a tendência de explicá-las ou resolvê-las, terá mais chances de vê-las desaparecer sozinhas, como a névoa numa manhã de primavera.

Isso lhe soa estranho? Deixe-me explicar melhor.

Quando você tenta resolver o “problema” da infelicidade (ou de qual­ quer outra emoção “negativa”), mobiliza uma das ferramentas mais poderosas da mente: o pensamento crítico racional. Funciona assim: você se vê num lugar (infeliz) e sabe onde deseja estar (feliz). Sua mente analisa o hiato entre os dois polos e tenta descobrir a melhor forma de transpô-lo. Para isso, usa seu modo Atuante (assim chamado porque é eficiente para resolver problemas e realizar tarefas), que reduz progres­sivamente o hiato entre onde você está e onde deseja chegar. Ele faz isso fragmentando o problema, resolvendo cada uma das partes e depois ve­rificando se isso o ajudou a se aproximar de seu objetivo. Esse processo é instantâneo e nem nos damos conta dele. É uma forma incrivelmente poderosa de resolver problemas: é assim que nos orientamos nas cidades desconhecidas, dirigimos carros e organizamos cronogramas de trabalho frenéticos. Numa escala maior, foi como os povos antigos construí­ram pirâmides e navegaram pelo mundo em veleiros primitivos.

Parece perfeitamente natural, portanto, aplicar essa abordagem para resolver o “problema” da infelicidade. Mas, na verdade, é a pior coisa que se pode fazer, pois requer que você se concentre no hiato entre como está e como gostaria de estar. Então você faz perguntas como: O que há de errado comigo? Onde foi que errei? Por que cometo sempre os mesmos erros? Esses questionamentos, além de duros e autodestrutivos, exigem que a mente forneça indícios para explicar seu descontentamento. E a mente é de fato brilhante em fornecer tais indícios.

Imagine-se passeando num belo parque em um dia de primavera. Você está feliz, mas, por alguma razão desconhecida, uma centelha de tristeza surge em sua mente. Pode ser por causa da fome, já que você não almo­çou, ou talvez porque você tenha se lembrado sem querer de alguma coisa incômoda. Após alguns minutos, você começa a se sentir um pouco aba­tido. Assim que percebe seu desânimo, pensa: O dia está lindo. O parque é maravilhoso. Gostaria de me sentir mais contente do que estou agora.

Repita: Gostaria de me sentir mais contente.

Como se sente depois disso? Provavelmente, ainda mais triste. Você se concentrou no hiato entre como se sente e como quer se sentir. E concentrar-se no hiato o realçou. A mente vê a distância entre os dois estados como um problema a ser resolvido. Essa abordagem é desastro­sa quando se trata das emoções, devido à interligação complexa entre pensamentos, emoções e sensações físicas. Todos se alimentam mutua­mente e podem conduzir sua mente em direções perturbadoras. Em pouco tempo, você se vê sufocado pelos próprios pensamentos. Você começa a analisar demais a situação, a remoer o sentimento, a se culpar por não se sentir feliz.

Seu estado de ânimo piora. Seu corpo fica tenso, seu rosto se franze e o desânimo se instala. Algumas dores podem surgir. Essas sensações realimentam sua mente, que se sente mais ameaçada. Seu astral pode cair a tal ponto que você deixa de aproveitar o passeio no parque e não presta mais atenção na beleza do dia.

Claro que ninguém fica remoendo os problemas porque acredita que é uma forma nociva de pensar. As pessoas acreditam que, preocupando-se o suficiente com sua infelicidade, acabarão encontrando uma solu­ção para ela. Mas as pesquisas provam o oposto: na verdade, remoer pensamentos reduz nossa capacidade de solucionar problemas, e é um artifício absolutamente inútil para lidar com dificuldades emocionais.

Os sinais são claros: remoer pensamentos é o problema, não a solução.

Escapando do círculo vicioso

Não dá para deter o fluxo de lembranças infelizes, monólogos inter­nos negativos e outras formas de pensamento prejudiciais - mas você pode evitar o que acontece a seguir. Como já dissemos, você pode im­]pedir que o círculo vicioso se autoalimente e desencadeie a próxima es­piral de pensamentos negativos. E pode fazer isso experimentando um jeito novo de se relacionar consigo mesmo e com o mundo. Se você pára e reflete por um momento, a mente não apenas pensa: ela tem consciência de que está pensando. Essa forma de pura consciência permite que você veja o mundo de outra maneira, de um ponto de vista distanciado, sem sofrer a interferência de seus pensamentos, sentimentos e emoções. É como estar numa montanha alta - um ponto de observação - da qual você pode ver tudo por quilômetros a sua volta.

A pura consciência transcende o pensamento. Permite que você cale a mente tagarela e iniba seus impulsos e emoções reativas. Possibilita que você olhe para o mundo com os olhos abertos. E quando faz isso, a sensação de contentamento reaparece em sua vida.

 

Psicologia - Psicologia positiva
12/8/2021 12:36:12 PM | Por Robert Biswas-Diener, Todd B. Kashdan
Por que é bom não estar bem

No primeiro tempo de um jogo de basquete profissional, quando Pat Riley era o treinador do Los Angeles Lakers, o time estava totalmente desconcentrado. Os jogadores ficavam olhando para as meninas da torcida, fazendo piadas, praticamente ignorando o que se passava na quadra. O único a manter a cabeça no lugar foi o astro do basquete Kareem Abdul-Jabbar. No inter­ valo, Riley simulou um ataque de raiva, que começou com gritos e culminou com uma bandeja cheia de copos de água derrubada. O único atingido foi Kareem, que ficou encharcado. Essa cena le­vou os jogadores a se sentirem culpados pelo mau comportamen­to que fez Kareem sofrer injustamente a ira do treinador. A partir daí eles se compenetraram, superaram a diferença de 24 pontos e venceram o jogo. Acontece que, desde o começo, Riley teve a in­tenção de jogar a água em Kareem, e a estratégia funcionou.

Alguém acha que o time teria jogado melhor se, no intervalo, Riley tivesse ido para o vestiário com a intenção de criar uma atmosfera de alegria, calma e contentamento? Naquele momen­to, a raiva era exatamente o que a situação exigia. Como vimos pela reação dos jogadores, as emoções negativas podem ser alta­mente motivadoras. Se você não se abrir para aceitar sentimentos negativos, poderá perder ótimas oportunidades de usar alguns dos [87] instrumentos mais úteis na vida. Se cair na tentação de procurar sempre algo positivo em que se agarrar, na esperança de eliminar, dissimular ou esconder emoções negativas, vai sair perdendo no jogo da vida. Ao evitar as emoções negativas, você estará, invo­luntariamente, sufocando a felicidade, a fortaleza de caráter, a curiosidade, a maturidade, a sabedoria e o crescimento pessoal. Se você abafar as emoções negativas, abafa as positivas também. Lembra-se dos norte-americanos deprimidos que não riram do filme cômico?

Por que o mau pode ser mais potente que o bom

Roy Baumeister e seus colegas da Universidade Estadual da Fló­rida publicaram um artigo intitulado “Bad is Stronger thatn Good” [O mau é mais forte que o bom].1 É sse título ousado sugere que os psicólogos tinham dado um jeito de medir o bom e o mau no mun­do, e o resultado foi a favor do lado mau. Na verdade, o artigo afir­ma que temos uma reação mais forte aos eventos negativos da vida do que aos eventos positivos. Tomemos apenas um exemplo: nu­ma pesquisa com adultos norte-americanos escolhidos aleato­riamente e mais ou menos como nós, constatou-se que o fato de terem passado um dia muito agradável não influenciava a quali­dade do dia seguinte. Por outro lado, um dia péssimo se refletia no dia seguinte logo ao acordar (cambaleando), no café da manhã (achando tudo horrível), indo para o trabalho (fechando todos os carros na via expressa para ganhar dois minutos). O mesmo pa­drão surge diversas vezes na pesquisa psicológica:[88]

  • O sexo bom no casamento está relacionado a cerca de 20% da diferença de satisfação marital entre marido e mulher.2 Quando o sexo não é bom, a variação sobe para 50% a 75%.
  • Perguntaram a crianças em idade escolar se algum colega de classe era um “amigo indesejável”.3 Se punham alguém na lista, justificavam dizendo que o colega não era bom nos esportes ou no dever de casa, entre outros mil defeitos. Mas na lista de “amigos desejáveis” não vinha ao caso se era atlé­tico, estudioso ou bonito.
  • As pessoas têm uma reação mais forte a cheiros desagradá­veis - franzindo o nariz por mais tempo - do que a odores agradáveis, que lhes põe um breve sorriso nos lábios.4

A equipe de Baumeister relatou um estudo abrangente e mui­to interessante que mostra que eventos, experiências, relaciona­mentos e estados psicológicos negativos têm um peso muito maior em nossa sensibilidade do que os positivos. Você pode questionar essa conclusão aparentemente pessimista, mas lembremos que a negatividade é nosso direito evolucionário inato.5 Avaliações ne­gativas são essenciais à sobrevivência (a folha amarga é também venenosa), e a maior verdade disso é o caso das emoções negativas. As emoções são como um sistema de rastreamento das experiên­cias, e fornecem um rápido sinal mental de aprovação ou desapro­vação para aceitar ou recusar uma determinada situação.

É fácil ver que um breve desentendimento com seu parceiro permanece mais na lembrança do que um doce beijo de despedida de manhã, mas e os estados desagradáveis, como a frustração e a decepção? São sentidos com maior intensidade do que seus pri­mos felizes - o entusiasmo e a satisfação? Veja isso como uma porta aberta para refletir sobre as emoções negativas. Pare um [89] momento e escreva todas as palavras que significam emoções ne­gativas que lhe vierem à mente. Depois, escreva todas as que sig­nificam emoções positivas. Provavelmente, sua primeira lista é mais longa que a segunda. Isso pode ser porque as palavras nega­tivas têm um significado mais específico do que as positivas (tente definir amor e raiva ou feliz e medo).6 Pesquisadores interessados em saber como as pessoas se lembram dos eventos emocionais monitoraram estados de espírito de adultos no dia a dia, e depois pediram que se lembrassem da frequência e intensidade de suas emoções durante as duas semanas do estudo.7

Como se pode ima­ginar, as pessoas tiveram mais propensão a se lembrar dos eventos intensos, tanto positivos como negativos. Mas é interessante notar que subestimaram a frequência das emoções positivas, e não tive­ram dificuldade em recordar os eventos negativos. Temos muito mais técnicas para reduzir, eliminar e tolerar emoções negativas do que para destacar as positivas.

Pense na última vez em que você precisou falar com um serviço de atendimento ao cliente. Talvez estivesse querendo marcar uma consulta médica e havia poucos horários disponíveis, ou tentando conseguir isenção de juros de um pagamento atrasado do cartão de crédito. Ou talvez estivesse convencendo uma atendente da companhia aérea a dar um jeitinho de lhe conseguir um lugar me­lhor no avião. Você se lembra de como se expressou? Falou num tom simpático e educado? Ou levantou a voz e falou com agressi­vidade? Supomos que você seja uma pessoa bem-educada e tenha escolhido a forma gentil. Difícil de engolir - pelo menos para a maioria de nós - é que frequentemente os arrogantes e grosseirões conseguem o que querem.

Personalidades irritadiças, embora desagradáveis, podem ser tremendamente eficientes. A agilidade psicológica que defendemos [90] aqui pode expandir seu repertório para lhe dar acesso a abor­dagens mais duras, mais diretas, e às vezes mais eficazes. Você provavelmente evita essa estratégia porque acha que ser negativo é... negativo. Pode pensar que as pessoas agressivas, hostis ou francamente ruins são idiotas, e não quer fazer parte dessa turma. A boa notícia é que há toda uma gama de negatividade - negatividade benéfica, veja bem - que nada tem a ver com idiotice.

Emoções negativas também podem ajudar a se concentrar na situação em curso. Quando você pega a furadeira para fazer um furo na parede, deve prestar atenção no local do furo e também na posição da sua mão. A ansiedade associada ao risco de erro ajuda a fazer o furo no lugar exato. (Cortar um bolo de aniversário com uma faca de plástico é uma experiência muito diferente, em que um método “também serve” de fato também serve.) Uma pesquisa de Kate Harkness, da Universidade de Queens, mostra que pessoas com propensão a estados depressivos também tendem a prestar mais atenção em detalhes.8 Isso é verdade, particularmente em se tratando de expressões faciais. Indivíduos alegres e expansivos veem os traços em geral - um nariz, dois olhos, e talvez as sobran­celhas estejam franzidas. No estudo de Harkness, os menos exu­berantes tinham olhos de águia para expressões faciais, captando o menor tremor dos lábios, o mais leve movimento dos olhos. É por isso que - como você provavelmente já terá notado -, quan­do está brigando com a pessoa amada (um evento negativo), você “lê” as mínimas mudanças na atitude dela, coisas que jamais no­taria quando tudo está bem. A questão é: se as pessoas felizes pas­sam por cima das minúcias, e se isso conduz a interações mais confortáveis, não devemos nos satisfazer com “está bom assim”? Não. Você prefere contratar um advogado alegre e bonachão, em vez de um ranzinza, que identifica as menores falhas num contra­to? Nós também não.[91]

O clima das salas de controle de tráfego aéreo tende a ser ne­gativo. Isso se deve, em parte, ao fato de os controladores terem plena consciência de sua responsabilidade pela segurança, e qual­ quer erro pode ser fatal. Na extremidade menos grave do espetro, os erros podem causar atrasos e complicações logísticas, e no ou­tro extremo o custo pode chegar a dezenas de milhões de dólares e à morte de centenas de pessoas. O trabalho exige muita atenção aos detalhes. Os pontinhos bipando na tela do radar são aeronaves, cada uma com sua identificação, altitude, velocidade e plano de voo. Emoções negativas, como ansiedade e suspeição, podem agir como um funil estreitando os olhos da mente para detalhes im­portantes. No controle de tráfego aéreo, não há lugar para “tam­bém serve”. Em consonância com o que vimos aqui, enquanto tudo funciona bem ninguém nota. As pessoas só voltam sua aten­ção para o controle aéreo quando há um desastre.

Greg Petto, controlador de tráfego aéreo em Louisville, Ken­tucky, nos contou que sua torre é responsável por 230 quilômetros quadrados de tráfego aéreo entre o chão e uma altitude de três mil metros. É um trabalho estressante, em que aviões que vão chegan­do a uma distância de cinco quilômetros um do outro ficam peri­gosamente próximos. Petto compara o radar a um dojo, nome dado a salas de treinamento de artes marciais japonesas. Os controla­dores orientam setecentos voos por dia, e o maior movimento é durante a noite, quando os jatos do correio expresso, FedEx, che­gam em grande número. Perguntamos a ele se, sabendo que os aviões da FedEx estavam transportando carga, e não passageiros, a tensão na sala de controle era menor que durante o dia.

- Para ser franco - ele respondeu -, preciso pensar que cada ponto na tela é um avião. Se eu parasse para pensar o que está se passando lá no céu, ficaria maluco. E acrescentou: - Mas é muito [92] bom alinhar todos os aviões na distância exata e no tempo exato. É muito bom mesmo. - Apesar de se orgulhar do trabalho, Petto é o primeiro a admitir que há alguma negatividade entre os pró­prios controladores. - Eles ficam malcriados ou competitivos quando a coisa aperta. A gente lida com isso implicando uns com os outros, ou indo para casa rezar, ou beber, dependendo da ten­dência cultural.

Aqui é importante fazer uma pausa para frisar que muitas pessoas cometem um erro enorme, muito comum, quando se trata de emoções negativas.

Elas separam a experiência de sentimentos negativos da expressão de sentimentos negativos. Muitas pessoas com quem conversamos aceitam rapidamente que estar mal é uma experiência psicológica válida, e até mesmo inevitável. Por outro lado, expressar frustração, ou muita tristeza, é um horror! É como se tivéssemos que ser computadores, cujos processos in­ternos estivessem escondidos e separados do que aparece na tela. Essa atitude existe em vários graus em nossa cultura; faz parte da ideia de que é mais fácil viver numa sociedade de pessoas sorri­dentes do que coexistir com gente que esbraveja e chora. Não se pode ignorar que a expressão emocional tem razões para existir. A expressão emocional é um meio importante de se comunicar com os outros. Um cenho franzido, um olhar carrancudo, avisa aos outros que se afastem porque não estamos de bom humor (e às vezes não estamos mesmo de bom humor). Um grito de medo tem tamanho efeito contagiante que quem está por perto também sente o aumento da adrenalina e olha nervosamente em torno. A expressão de sentimentos, inclusive negativos, é uma parte ne­cessária da experiência emocional humana. [93]

Se as emoções negativas são tão proveitosas, por que não gostamos delas? 

Pare um momento para pensar: quanto você pagaria para não pre­cisar repetir uma palestra em que as pessoas não riam, não sorriam e não paravam de se remexer na cadeira? Pense numa ocasião em que você infernizou uma pessoa inocente por causa de sua própria insegurança: quanto você pagaria para não repetir essa atitude vergonhosa? Do outro lado da moeda: quanto pagaria para reviver a emoção do primeiro encontro com seu/sua atual marido/esposa/parceiro/parceira/amante? Pense na melhor massagem que você teve na vida: quanto você pagaria para ter uma igualmente relaxante neste momento?

O dr. Hi Po Bobo Lau, da Universidade de Hong Kong, e sua equipe colocaram essas mesmas questões numa pesquisa.10 Imagi­ne-se no invejável cenário dos participantes dessa pesquisa. Você recebe duzentos dólares para alterar sua experiência psicológica de modo que sua vida se aproxime do ideal. Pense numa situação específica em que você se sentiu muito feliz. Quantos desses du­zentos dólares você pagaria para recriar esse sentimento? Se você já decidiu quantos dólares exatamente, vamos passar para outra emoção positiva. Calma e tranqüilidade? Animação? Muito bem. Agora vamos a emoções negativas. Pense numa situação que lhe causou muito remorso. Quantos dos duzentos dólares você paga­ria para evitar ter esse sentimento novamente? E medo? Vergonha? Estamos dizendo que determine a quantia exata para cada um dos sentimentos. E agora você já pode imaginar que, para os partici­pantes da pesquisa, evitar o sofrimento valia mais do que comprar felicidade. Vejamos a cotação dos participantes da pesquisa do dr. Lau, detalhada até os centavos de dólar: [94]

  • $44,30 por calma e tranqüilidade;
  • $62,80 por animação;
  • $79,06 por felicidade;
  • $83,27 para evitar o medo;
  • $92,80 para evitar a tristeza;
  • $99,81 para evitar a vergonha;
  • $106,26 para evitar o remorso.

Apenas um sentimento foi considerado mais valioso do que evitar o remorso: o amor. Felicidade, animação, tranqüilidade, é muito bom, mas, como criaturas sociais, queremos que alguém aceite, valorize e cuide do nosso ser interior. O amor foi cotado a 113,55 dólares. Se você, leitor, não for de Hong Kong, pode duvi­dar dessas cotações. Portanto, vamos mostrar que essas mesmas questões, colocadas para adultos do Reino Unido, obtiveram os mesmos valores de compra, em dólares: vale a pena comprar tran­qüilidade por $53,47 e animação por $60,90, mas não se compara à vontade de fugir da vergonha, cotada em $71,83, e do remorso, valendo $64,40. E nada tem mais valor que o amor, cotado em $115,16.

Esses valores em dólar dão uma ideia da motivação dos seres humanos para alterar seu mundo interno e externo. Da maior im­portância é o desejo de ser aceito. Isso é um problema porque não temos o menor controle sobre o que as pessoas vão dizer de nós. Só podemos controlar o que pensamos e como agimos. A falta de controle, o sentimento de incerteza, pode ser o estado psicológico mais desconfortável. Logo atrás vêm os medos do remorso e da vergonha. Portanto, os estados psicológicos mais valorizados es­tão centrados em como somos vistos pelos outros. Infelizmente, as [95] inquietações frequentemente dificultam a aprovação imediata. Mas essa é apenas uma das razões para nossa antipatia pelas emo­ções negativas.

Evitamos as emoções negativas não porque somos tolos a pon­to de ignorar que não devemos, mas por quatro motivos básicos, e muito intuitivos:

  1. São desagradáveis.
  2. Representam estagnação.
  3. São associadas à perda de controle pessoal.
  4. São associadas (corretamente!) a um alto custo social.

Vamos examinar melhor esses motivos fundamentais. Em pri­meiro lugar, evitamos nos sentir mal porque se sentir mal é mau. Ou seja, as emoções negativas são desagradáveis. A ideia de pas­sar uma tarde inteira com tédio, ou estresse, ou frustração, é tão sedutora quanto passar o dia inteiro fazendo depilação com cera quente. Contudo, as pessoas se enganam, não em seu desejo de evitar o desagradável, mas em subestimar sua capacidade de tole­rar a chatice das emoções negativas. Como vimos no exemplo das mulheres à espera de saber se estavam grávidas, as emoções nega­tivas são um pouco menos chatas do que a gente espera. Você já teve raiva e medo, e - assim esperamos - não está sentindo nada disso neste momento. Isso já passou, e você não está pior porque teve esses sentimentos. Você é mais capaz de lidar com emoções desagradáveis do que imagina.

Pense na última vez em que teve tédio, por exemplo. Peter Toohey, da Universidade de Calgary, afirma que o tédio é uma ferra­menta muito útil, que tem a função de nos fazer saber quando as interações sociais ou a rotina estão nos dando desejos que não [96] estamos satisfazendo. Talvez pouco haja a fazer para espantar o té­dio quando você está ouvindo um discurso infindável ou numa longa viagem de avião, mas muitas vezes é possível escapar de si­tuações entediantes. O tédio pode ser um indicador importante de que você está fazendo más escolhas ou entrando em situações com uma atitude restritiva (talvez com mentalidade estreita ou abertamente crítica). O mais interessante é que, mesmo odiando o tédio, você lida muito bem com esse sentimento a cada vez, e ele logo passa. Quando você pensa no tédio, naturalmente se concentra em quanto é desconfortável. Você não atenta para o fato de que lidou efetivamente com o tédio centenas (ou milhares) de vezes na vida.

Um segundo motivo comum para as pessoas desejarem se afastar das emoções negativas é a crença em que elas são como areia movediça - puxam a gente para baixo, sem esperança de escapar. É muito comum a noção de que a depressão, por exem­plo, é um estado difícil de mudar, e, quanto mais crônica for a emoção negativa, maior é o risco de que se torne permanente. Ve­jamos a Prova A, com pessoas que lutam há anos contra a depres­são. De fato, algumas evidências dão suporte à crença popular. Cerca de 60% de adultos que têm um episódio clinicamente sig­nificativo de depressão grave têm um segundo; as que têm um segundo episódio têm cerca de 70% de chance de ter um terceiro, o que dispara para 90% de chance de ter um quarto episódio.1 Sim, essas estatísticas são alarmantes, principalmente se você esquecer a matemática. Se 100 pessoas têm um episódio de depres­são e 60 delas têm um segundo episódio, 42 têm um terceiro, e 38 têm um quarto episódio. Para essas 38 pessoas, é um problema grave, sem dúvida. Mas a grande maioria de pessoas que lutam contra a depressão não está confinada a uma prisão emocional da [97] qual não há escapatória. A maioria estará livre depois de uns pou­cos - notoriamente desagradáveis - episódios. O mesmo se aplica a outros estados. Apesar da tendência a acreditar que a raiva irá acionar algum mecanismo interno que nos transformará em ban­didos violentos, ou que o pânico nos deixará escondidos debaixo da mesa pelo resto da vida, basta você dar uma olhada em sua experiência pessoal para saber que isso não é verdade.

Um terceiro motivo pelo qual evitamos sentimentos negativos é o temor de que, tal como um tsunami psicológico, eles desabem sobre nós e nos arrastem para um destino desconhecido e indesejado de pensamentos. Portanto, o temor das pessoas, ainda que não o articulem, é de que um determinado estado as leve a perder o controle e fazer coisas que de outro modo não fariam. O caso mais óbvio é a raiva. Certamente, há um elemento de verdade nisso, o que leva o sistema judiciário a considerar que um assassi­nato cometido “no calor do momento” é menos grave do que um assassinato planejado. É como se a comunidade jurídica tivesse se reunido e concordado: “Sim, a pessoa com a cabeça quente tem uma tendência a se descontrolar um pouco.” Mas quantas pessoas você conhece que já cometeram um assassinato, de um modo ou de outro? É extremamente incomum, e por isso vira notícia.

É muito improvável que a raiva faça de você um criminoso, mas pode afetá-lo de outras maneiras, às vezes surpreendentes. Alguns pesquisadores interessados no termo “cabeça quente” in­vestigaram se haveria alguma associação entre cabeça e calor na mente das pessoas.12 Num estudo, apresentaram a alguns partici­pantes (mas não a todos) palavras relativas à raiva, como desde­nhoso, hostil e irritado, dizendo que essas palavras eram parte de uma experiência de memória. Em outra tarefa, disseram aos par­ticipantes que opinassem se a média de temperatura de trinta [98] cidades que eles não conheciam era fria ou quente. Os pesquisadores constataram que os participantes que lembraram mais as palavras ligadas à raiva opinaram muito mais que as cidades eram quentes.

O quarto motivo pelo qual evitamos emoções negativas é o me­do das conseqüências sociais de expressá-las. Você tem uma noção intuitiva de que, se ficar no local de trabalho se lastimando ou tendo súbitos ataques de raiva, as pessoas vão se esconder em seus cubículos até que você fique longe delas. Mais uma vez, há um grão de verdade nessa crença, mas seu medo é muito exagerado. Nossos estados negativos têm poder sobre os outros.

Num estudo clássico, o pesquisador Thomas Joiner investigou se o ânimo de colegas de quarto era contagioso. Ele constatou que, se um deles estivesse deprimido logo que se instalaram, havia uma alta proba­bilidade de que o outro desenvolvesse depressão nas três semanas subsequentes. Isso é verdade, apesar de Jointer ter feito o controle pelas taxas básicas da depressão e a presença ou ausência de even­tos de vida negativos. A depressão não somente é contagiosa, mas, contradizendo o folclore recente, é mais provável que o colega de quarto deprimido afete o outro negativamente do que o colega mais feliz modifique o ânimo depressivo do primeiro. É mais um exemplo de que o mal é mais forte que o bem.

Você agora deve estar surpreso com o fato de que nós, os auto­res, esmiuçamos os quatro principais motivos pelos quais as pes­soas evitam emoções negativas e não os invalidamos, um a um. Não podemos. Todos eles têm pelo menos alguma validade. A questão importante é: para que servem as emoções negativas? Constituem uma parte importante da nossa arquitetura emocional. Embora confusas, desagradáveis e às vezes problemáticas, não deixam de ser úteis. As emoções - todas as emoções - são informações. Estar bem ou estar mal nos mostra a qualidade de nossos progressos, [99] interações, ambiente e ações. Numa comparação sumária, as emo­ções são como um aparelho de GPS no painel do carro, trans­mitindo informações metafóricas sobre sua posição, o terreno à frente e atrás, o ritmo de progresso. Quem tenta desesperadamente evitar, esconder e fugir de estados negativos perde todas essas valiosas informações. Para esclarecer ainda mais:

  • Você quer sentir o arrepio de medo em situações de perigo físico.
  • Você quer sentir o calor da raiva quando precisa defender seus filhos.
  • Você quer sentir frustração quando não progride nas aulas de violão.
  • Você quer se arrepender de ter dito aos seus filhos que eles não são bonitos, nem inteligentes, nem boas pessoas.

Em cada uma dessas situações, as emoções são sinal de que algo não vai bem e exige sua atenção imediata. Se a raiva e outros sentimentos maus forem tamponados instantaneamente, deixa­rão de sinalizar o que os despertou e o curso de ação a ser tomado. É difícil enfatizar toda a importância disso. Você deve estar pen­sando: Há milhares de motivos para evitar os sentimentos negativos, mas deixe-me entender hem: só há um único motivo para serem bons? Ainda que seja um único motivo, é um motivo excelente. Imagine viver num mundo em que ninguém sentisse culpa. Em que nin­guém se revoltasse contra a injustiça. Em que ninguém sentisse frustração por não atingir um objetivo. Em que você não conseguis­se sentir medo na presença de um incêndio em casa, um assaltante ou uma seringa de injeção usada boiando ao seu lado num banho de mar. Na ausência desses sentimentos negativos, estaríamos [100] vivendo num mundo desprovido de humanos em pleno funcionamento.

Um passeio por três emoções temidas

Raiva

Matthew Jacobs é um carpinteiro autônomo de 50 e poucos anos. Mora num apartamento coletivo em San Francisco, Califórnia. É conhecido pela boa qualidade de seu trabalho, joga futebol e lê obras de não ficção nas horas livres. Quando jovem, serviu por algum tempo como oficial da polícia militar na Guerra do Vietnã. Ele diz ter sido um jovem de cabeça quente, mas há muito tempo se acalmou e almeja levar uma vida sem encrencas.

Em maio de 2013, já tarde da noite, uma camelô vietnamita estava vendendo a Jacobs uma tigela depho numa rua do centro da cidade, quando um homem grandalhão se aproximou, gritan­do com ela. O homem, totalmente desconhecido, chegou exigindo que a mulher lhe desse uma moeda, ela disse que não tinha, e ele começou a berrar xingamentos com palavras ofensivas à raça de­la. Duas colegiais estavam presentes, dando mostras de nervosis­mo, obviamente temerosas de chamar a atenção do homem.

À medida que os insultos do homem ficavam mais acalorados, Jacobs viu que ninguém por perto iria se adiantar para defender a mulher e as adolescentes. Recorrendo a um preceito pessoal - sempre oferecer duas interações gentis antes de passar a um tom mais agressivo -, ele disse calmamente ao homem: “Com licença. Poderia falar mais baixo, por favor?” O homem se voltou para Jacobs e começou a berrar com ele também. “Eu agradeceria se [101] você se retirasse”, disse Jacobs. “Estamos tentando comer em paz; ninguém aqui quer confusão.” Jacobs tinha usado a sua segunda e última cota de boa vontade. Infelizmente, não obteve o efeito calmante que desejava, e o homem chegou mais perto de Jacobs, gritando obscenidades.

Jacobs largou cuidadosamente sua tigela de macarrão e elevou a voz, num tom de ameaça: “Na minha terra, isso quer dizer que você está procurando briga. Muito bem, estou aqui. Vamos lá!” O homem recuou, surpreso, murmurou uns xingamentos para manter a pose e foi embora. Jacobs respirou fundo para recuperar a calma, grato pela altercação não ter chegado à agressão física, e a vendedora e as adolescentes não terem sido feridas. Ele olhou para elas, esperando um gesto de simpatia ou uma palavra de agradecimento. Não houve. Em vez disso, notou que elas pare­ciam ter tanto medo dele quanto do grosseirão.

Essa é uma história verdadeira, não uma narrativa dramati­zada que termina em briga, ou numa donzela em perigo recom­pensando o salvador com imorredoura gratidão. É um exemplo de como os sentimentos negativos se apresentam na vida real. As emoções negativas, como a raiva no caso de Jacobs, geralmente afloram em resultado de circunstâncias externas (em oposição a “surgir do nada”). Podem ser tremendamente úteis, apesar de terem um preço (como assustar as pessoas presentes). Como vimos aqui, a raiva altera drasticamente o comportamento das outras pessoas, muitas vezes levando-as a recuar ou a transigir rápido. Por essa mesma razão, a raiva e outros sentimentos negativos são às vezes mais oportunos que a positividade.

A raiva em si não é boa nem má; o que importa é o que você faz com ela. Pesquisas sugerem que apenas 10% de acessos de raiva levam a alguma forma de violência, mostrando que raiva não é [102] exatamente igual à agressão. Em geral, a raiva surge quando acre­ditamos que fomos tratados injustamente, ou que algo está blo­queando nossa capacidade de alcançar objetivos significativos. Em nossos dados, registramos 3.679 dias em que as pessoas rela­taram ter tido raiva no dia a dia.13 Descobrimos que em 63,3% desses episódios a culpa foi atribuída a outra pessoa (em oposição a, digamos, se irritar com o teclado do computador). Tipicamen­te, a raiva é causada por algo que outra pessoa fez, ou que não fez, ou que poderia ter feito.

A dificuldade de transitar num mundo complexo, hipotético, e muitas vezes imprevisível, de trocas sociais que podem incluir a raiva, é precisamente a razão pela qual os humanos adultos pos­suem o cérebro tão pesado (47 vezes mais pesado que o cérebro de um gato e 19,5 vezes mais pesado que o cérebro de um cão beagle). Todos nós já fomos ofendidos ou magoados por outra pessoa. Ape­sar da sua vibração gentil e compassiva, você também já foi im­portunado, provocado, hostilizado, traído, enganado e tratado com grosseria. A positividade não dá conta de nos ajudar a transitar pelas relações e interações sociais. A raiva é uma ferramenta que nos ajuda a apreender e responder a situações sociais complicadas. Quanto aos benefícios, pesquisas indicam, com uma frequência esmagadora, que sentir raiva aumenta o otimismo, a criatividade e o desempenho efetivo, enquanto expressar raiva leva a negocia­ções mais bem-sucedidas e a um caminho mais rápido para mobilizar as pessoas como agentes de mudança. Vejamos cada caso separadamente.

Primeiro, o sentimento de raiva é associado a uma atitude mais otimista. Num estudo, os participantes foram orientados a virar quantas cartas quisessem até um total de 32 cartas, cada uma com [103] um valor de pontos específico.14 Misturadas nas 32, porém, havia três “cartas de bancarrota”, que custariam centenas de pontos ao participante que virasse uma delas (muito mais do que os poucos pontos ganhos com outras cartas). Numa versão, os participan­tes podiam decidir antecipadamente quantas cartas iriam virar, desde 1 a 32. Esperava-se que ninguém iria querer virar as 32, sa­bendo que três delas os levariam à bancarrota, e sairiam do jogo. Quantas iriam virar? As pessoas previamente induzidas a sentir uma ligeira raiva arriscaram mais. A raiva as deixou mais propen­sas a explorar os limites da possibilidade.

Esse achado foi sustentado por uma equipe de pesquisa inte­ressada em investigar como as pessoas avaliam riscos.15 Nesse estudo, fizeram aos participantes perguntas relativas ao - entre outras temas - risco de se divorciar, contrair uma doença venérea, e um tratamento experimental de uma doença grave que iria sal­var muitas vidas se desse certo, mas iria matar muitas mais se não desse. Os participantes que os pesquisadores incitaram a ter raiva apresentaram maior tendência a achar que tinham controle sobre os resultados, acreditavam que um resultado positivo era alta­mente provável e que valia a pena correr riscos. Pode ser que a rai­va - uma alta elevação emocional que nos prepara para lidar com ameaças - ajude a predispor as pessoas à ação. Talvez por isso seja tão comum ver atletas com raiva para entrar no clima psicológico.

Em segundo lugar, a raiva pode acender a fagulha da criativi­dade. Vale a pena repetir, porque pode soar louco demais para crer: sim, a raiva pode nos ajudar a ser criativos. Na psicologia, o estudo da criatividade pode ser muito divertido. Vejamos o exem­plo clássico: quantas utilidades você acha que um tijolo pode ter? Não tenha pressa. Pare um momento e faça uma lista de todas as [104] utilidades que puder imaginar. O mais provável é que as mais óbvias lhe venham primeiro à mente. Você pode pensar facilmen­te numa parede. Depois você fica mais esperto e pensa em utilida­des que tenham a ver com o peso, forma e durabilidade do tijolo. Talvez sua lista inclua um batente de porta, peso de papel, um banquinho ou um projétil. Muito bem. Mas podemos tentar pen­sar em outras aplicações? Que tal colocar um tijolo na mochila para melhorar sua postura? E usar para apoiar uma panela quen­te, ou junto ao pneu do carro como calço numa ladeira? Você pode até usar, para fazer graça, como moldura de um celular da primei­ra geração e falar com ele na orelha.

Os psicólogos usam o teste de utilidades do tijolo para medir a criatividade. O teste pode servir para avaliar a fluência (quantas idéias foram criadas?), a originalidade (quantas idéias constam em quantas outras listas?) e a flexibilidade (quantas categorias de uso você pode propor?). Num estudo, os pesquisadores deram às pessoas feedbacks irritados (negativos) ou neutros numa ativida­de prévia, e depois aplicaram o teste do tijolo.16 Algumas pessoas manifestaram grande necessidade de entender bem as regras e queriam saber o que se esperava delas em determinada situação. Entre estas, as que tinham tido feedbacks negativos tiveram me­lhor desempenho. Melhor desempenho significa aqui que obtive­ram melhores resultados do que as pessoas com características similares que tinham recebido feedback neutro. A mensagem é que, em alguns casos, a raiva induz a maior criatividade. Por ou­tro lado, em pessoas rebeldes, menos equilibradas, a criatividade é embotada pela raiva. Isso mostra que o contexto é importante quando se trata de raiva, e que o preconceito generalizado contra ela é um equívoco. [105]

Por fim, a raiva é seletivamente útil enquanto ferramenta de melhora do desempenho. Ninguém quer viver sob o jugo de um tirano, mas um pequeno acesso de irritação pode fazer alguém sair correndo para trabalhar. Alguns pais sabem que é uma estratégia que funciona com os filhos, e muitos patrões sabem disso muito bem. Num estudo com gerentes de construção no Reino Unido, os pesquisadores descobriram que alguns acessos de raiva eram de­ploráveis e outros funcionavam como um remédio perfeito.17 Um gerente de construção comentou:

Não faz muito tempo, tive um ataque de raiva numa reunião com o engenheiro estrutural porque eles estavam querendo virar o acerto contratual sem qualquer justificativa, e aquilo já vinha acontecendo havia algum tempo... Acho que [a reu­nião] terminou com o surto emocional. Em retrospecto, me arrependo? Provavelmente não, na verdade, porque resolveu a questão...

O que diferenciou as querelas lamentáveis das eficazes não foi o tamanho da raiva envolvida. Foi uma questão de contexto. Con­tudo, mesmo os gerentes que aprovavam uma palavra mais forte de vez em quando reconheceram que não era - e não podia ser - uma atitude permanente na interação com os outros. Um deles resumiu brilhantemente:

Funcionou, eu consegui a reação que esperava, todo mundo voltou ao trabalho, e o que estava pendente foi resolvido na mesma hora, de modo que tudo deu muito certo. Acho que se acontecesse com muita frequência, se ficasse sempre usando uma linguagem grosseira com as pessoas, chegaria ao ponto [106] de não surtir mais efeito. Se você usar de vez em quando, acho que funciona.

Outro contexto em que a raiva funciona bem é nas negocia­ções. Quando duas ou mais pessoas estão tentando chegar a uma resolução, a raiva é uma espécie de alavanca. Numa série de estu­dos, os participantes tiveram a tarefa de negociar o maior preço possível por um lote de telefones celulares (e a recompensa na vida real estava diretamente ligada ao desempenho deles).18 Após um valor inicial ser pedido pelo vendedor, o comprador apresen­tou uma série de contrapropostas. Para atingir os objetivos do ex­perimento, alguns participantes foram escalados para ter um comprador irritadiço, e outros foram contemplados com compra­dores alegres ou neutros. Viu-se que, diante da raiva, as pessoas têm muito menos propensão a fazer exigências. Na terceira roda­da de negociação, quem tentava vender os celulares a um compra­ dor com raiva acabava cedendo e dando 20% de desconto, e, na sexta rodada de negociação, já davam mais de 33% de seus ganhos potenciais. Os pesquisadores sugeriram que pessoas com raiva eram vistas como poderosas e de alto status na situação. Portanto, vemos que a raiva em certas competições faz pender o resultado a seu favor. A felicidade não rende os mesmos dividendos.

Por outro lado, não basta adotar uma postura zangada na es­perança de obter uma transação favorável. Esses mesmos pesqui­sadores advertem - e a ciência está a favor deles - contra a raiva fingida. Num estudo, os pesquisadores constataram que, quan­do um ator experiente fingia uma raiva superficial em oposição a uma raiva intensa, era inconvincente.19 Em negociações, as pes­soas fazem exigências maiores de quem finge raiva, em parte por­ que estes parecem menos confiáveis. [107]

Tomemos, do mundo real, o exemplo de Barack Obama. Sejam quais forem suas cores políticas, você tem que admitir que Obama é mais afável que a maioria dos presidentes dos Estados Unidos jamais foi. Ele tem a fala suave, a voz profunda e bem modulada. Quando houve o vazamento do petroleiro britânico no golfo do México, em 2010, Obama foi criticado por sua reação fria. Mais tarde ele expressou raiva na televisão, mas essa resposta mais emo­cional teve o efeito oposto ao desejado: as pessoas perceberam que o presidente não estava sendo sincero.

Por fim, a raiva tem o poder de despertar uma ação coletiva diante de ameaças inadequadas, injustas. Em toda autobiografia, encontramos a mesma história: o impulso inicial de lutar contra a injustiça foi motivado pela raiva, como a faísca da ignição que põe o motor do carro em funcionamento. Martin Luther King Jr. dis­se: “A tarefa suprema é organizar e unir o povo para que sua raiva seja uma força transformadora.” Foi a raiva que transformou W. E. B. Du Bois de acadêmico - brilhante, mas ineficaz num mundo de exploração e racismo desenfreados - num poderoso ativista em defesa dos direitos civis:

Justamente na época em que minhas pesquisas tinham maior sucesso, veio aquele corte nos meus planos de cientista, um clarão vermelho que não podia ser ignorado. Lembro-me de quando me atingiu como um raio...20 A notícia me despertou: Sam Hose fora linchado, e diziam que seus dedos estavam ex­postos num açougue... Passei a me afastar do trabalho... Não é possível continuar a ser um cientista calmo, frio e distancia­ do enquanto negros eram linchados, assassinados e mortos de fome. [108]

Pouco adiante, em sua autobiografia, Du Bois narra como a raiva o incitou à ação e ele fundou o Niagara Movement, que mais tarde veio a ser a NAACP.

Ao recordar suas atividades em defesa dos opositores à Pri­meira Guerra Mundial, Bertrand Russell relata que ficou “cheio de desesperada ternura pelos jovens que iriam ser massacrados, e de raiva contra os estadistas da Europa”. Da mesma forma, He­len Caldicott deu os primeiros passos como ativista quando ficou “indignada”. Sua indignação inspirou uma geração de movimen­tos sociais.

Quando a raiva aflora, somos levados a prevenir ou eliminar ameaças iminentes ao nosso bem-estar, ou ao bem-estar das pes­soas que nos são caras. Muitas vezes, o altruísmo nasce da raiva. Quando se trata de mobilizar pessoas e conseguir apoio para uma causa, não existe emoção mais forte. É um erro supor que bonda­de, compaixão, amor e equidade estão de um lado do continuum, e raiva, fúria e aversão estão do outro lado. A raiva é um elemento poderoso, difamado pela noção errônea de que uma sociedade saudável é isenta de raiva.

O grande preconceito contra a raiva é amplamente injustifica­do.21 Decerto, é uma emoção forte e altamente inflamável. A cau­tela com a raiva é aconselhável, assim como o conhecimento de que não deve ser usada em demasia ou indiscriminadamente. Seu melhor uso é acompanhado de uma atitude de respeito pelo ponto de vista da pessoa ou das pessoas que violam seu bem-estar. Quem se dispõe a arcar com as conseqüências tem mais facilidade para utilizar uma expressão eficaz da raiva. Tomando certas precau­ções, a raiva - a raiva autêntica - é totalmente apropriada para certas pessoas em certas situações. [109]

O jeito certo de ficar com raiva

Quando você quiser expressar raiva, ou outra emoção negativa, um modo conveniente é começar com o que chamamos de aviso de desconforto. Deixe o outro saber explicitamente que você está ten­do emoções intensas e, por causa disso, é mais difícil se comuni­car com clareza. Desculpe-se por antecipação, não por suas emoções ou ações, mas pela falta de clareza na forma de comuni­cação do que você vai dizer. Comece com uma declaração do tipo: “Quero que você saiba que estou me sentindo muito desconfortá­vel, o que significa que não é o melhor momento para me expressar. Mas dadas as circunstâncias, é importante, para mim, dizer...” O objetivo do aviso de desconforto é desarmar o outro, evitando que fique na defensiva. Quando alguém ouve que você está se sen­tindo desconfortável e a conversa é difícil para você, é mais prová­vel que receba com empatia o que você tem a dizer. Depois dessa introdução, você pode se aprofundar no motivo do aborrecimen­to, no que pensa e sente por causa do que aconteceu (por que a raiva irrompeu, em vez de outros sentimentos).

Você pode usar a tática do aviso de desconforto mesmo quan­do estiver se sentindo perfeitamente confortável ao expressar a raiva ou outros sentimentos negativos, desde que sejam autênti­cos. Lembre-se: o objetivo é provocar uma mudança no que o ou­tro está fazendo ou sentindo, diminuir a progressão da situação de modo a torná-la mais favorável à sua mensagem. Se for ade­quadamente controlada, a raiva nos oferece um modo de ser proativo na alteração ou remoção de ameaças e obstáculos. Portanto, não tenha medo de usar pequenas mostras físicas de raiva, o que chamamos de “microagressão”, para expressar o nível da emoção que está sentindo. Ponha as mãos abertas com força em cima da mesa. Aperte os punhos. Ok, você entendeu. [110]

Se ainda não se convenceu da importância de expressar a rai­va abertamente para repelir uma ameaça, considere o seguinte: O dr. Ernest Harburg e sua equipe de pesquisa da School of Public Health da Universidade de Michigan passaram várias décadas fazendo acompanhamento de alguns adultos num estudo longitu­dinal sobre a raiva.22 Constataram que homens e mulheres que es­condiam a raiva diante de uma agressão injusta apresentavam maior tendência a ter bronquite e infarto, e a morrer mais cedo do que os que liberavam a raiva quando se deparavam com pessoas ofensivas e irritantes.

A dificuldade óbvia está em saber como pôr a raiva em funcio­namento, principalmente em relacionamentos. Primeiro, quere­mos desencorajá-lo a se policiar no sentido de controlar ou evitar a raiva, dizendo a si mesmo, por exemplo: “Preciso me livrar des­sa raiva”, ou “Tenho que guardar a raiva para mim mesmo”, ou “Por que não posso ter menos raiva?”. Em vez disso, reconheça a diferença entre eventos que você pode mudar e os que estão além da sua capacidade de controlar. Se está viajando e perde o casaco no primeiro dia, não há nada a fazer, e portanto não há benefício em expressar a raiva. Mas, se está numa loja pechinchando o pre­ço de um casaco e se zanga porque a balconista está tentando lhe vender por um preço mais alto do que o freguês anterior pagou, é uma situação em que você tem algum controle. Nesse caso, co­mo pode comunicar o aborrecimento ou a raiva de modo a obter um resultado favorável? O psicólogo e autor de Anger Disorders, dr. Howard Kassinove, diz que a chave é usar “um tom apropriado, sem aviltar a outra pessoa”.23

Segundo, desacelere a situação. Nossa tendência é mergulhar de cabeça na situação e agir no mesmo instante, especialmente [111] quando o sangue está fervendo. Em vez disso, imagine a raiva variando entre depressa e devagar, como você querendo gritar ver­sus querendo motivar a pessoa de maneira calculada. Quando es­tiver zangado, permita-se fazer uma pausa, mesmo que tenha alguém esperando sua resposta. Pode até deixar que saibam que está diminuindo o ritmo da situação. Tome decisões boas, e não apressadas. Quando estiver zangado, respirar fundo, fazer pausas e momentos de reflexão exercem mais poder do que respostas rá­pidas. Se você ficar menos zangado depois disso, ótimo, mas não é o objetivo. Trata-se de ter mais opções numa situação emocio­nalmente carregada.

Pense como um jogador de xadrez. Antes de se decidir por um curso de ação, imagine como o outro irá reagir e como estará a situação dois movimentos adiante. Se lhe parecer boa, prossiga. Se lhe parecer má, pense num caminho alternativo, imagine qual será a reação do outro e avalie esse cenário. Mantenha uma avalia­ção constante, perguntando-se: “Minha raiva está ajudando ou piorando a situação?” Num diálogo, não há uma resposta “tama­nho único” para essa questão, pois as emoções, comportamentos e ações envolvidas estão sempre mudando. Em certo momento, quero contar uma história para afirmar meu domínio da discus­são, e minutos depois posso querer ignorar um comentário forte para aumentar o sentimento de conexão.

Quando a raiva chega ao extremo, parece que, se não partir­mos para o ataque, iremos sofrer sérias conseqüências. O psicólo­go John Riskind, especialista no tratamento de pessoas com emoções aparentemente incontroláveis, desenvolveu técnicas pa­ra desacelerar os eventos ameaçadores.24 Riskind constatou que a experiência de raiva não é tão problemática quanto a crença em [112] que a seqüência de eventos desencadeadores da raiva vai acelerando, o perigo vai aumentando, e a saída para a ação está se fe­chando rapidamente. Esse sentimento de perigo iminente leva as pessoas a fazer algo que dê um fim imediato à ameaça, mas, em longo prazo, irá piorar a situação (como dar um soco em quem furou a fila no caixa do supermercado).

O primeiro passo é avaliar consigo mesmo se a raiva está au­mentando, diminuindo ou estável em determinada situação. Para um autoexame escrupuloso, use um número ou algumas palavras que descrevam a intensidade da raiva, como se pode ver no exem­plo do velocímetro:25

Se a raiva estiver acima do limite de velocidade, será preciso mais tempo para conservar o máximo de flexibilidade e controle a fim de lidar com quem a provocou. Nesse caso, pense em redu­zir a velocidade. Em alta velocidade, a tendência é perder um pouco o controle; portanto, imagine-se freando para que o modo [113] como você está agindo e que o outro está agindo seja reduzido de 130 para 100, e de 100 para 80. Crie uma imagem visual de sua aparência no momento, e da aparência do outro. Repare que o ou­tro já não está tão perto fisicamente de você. Escute com atenção o que o outro está dizendo, e leia a mensagem corporal dele. Use a baixa velocidade para ver se o outro está aberto ou fechado ao diálogo, se está realmente disposto a atacar ou procurando um meio de sair da confusão.

O que acontece quando você imagina a situação desaceleran­do? Como observa Riskind sobre a raiva: “Você pode achar que há muito a fazer e pouco tempo para fazer tudo.” Esse exercício de concentração na velocidade em que as coisas estão acontecendo nos dá um pouco mais de espaço psicológico para respirar. Expe­rimente. O objetivo aqui é aprender a trabalhar a raiva, em vez de deixá-la sair do controle.

Culpa e vergonha

Na sociedade contemporânea, as pessoas pensam na culpa da mes­ma maneira que pensam na obesidade: um estado temível, inacei­tável do ponto de vista social e da saúde. Talvez por isso engordar seja tão frequentemente associado à culpa. Em nossa cultura, “cul­par” alguém é algo falado aos cochichos, terapeutas acenam com redução da culpa, gurus da autoajuda encorajam as pessoas a “se libertarem”, conselheiros do bem-viver escarnecem das palavras “você deve fazer/ser”. Em contraste, queremos remover o estigma da culpa. Não estamos dizendo que é sempre bom sentir culpa, mas em certas ocasiões a culpa traz vantagens. Por exemplo: quando você se sente culpado, fica mais motivado para melhorar, [114] enquanto seus colegas menos propensos à culpa não têm essa mo­tivação.

Doug Hensch, de 40 e poucos anos, ajuda organizações a de­senvolver líderes fortes, mas sua paixão na vida é treinar o time de futebol americano de seu filho de 9 anos. Sua melhor experiên­cia como treinador aconteceu quando estava trabalhando com um atleta musculoso, rápido, chamado Zander, que tinha vindo de Gana para os Estados Unidos. Era desagradável porque, em vez de aplicar suas qualidades no esporte, Zander ficava esguichando água ou enfiando o dedo lambido na orelha dos outros meninos. Cansado daquilo, Doug convocou uma reunião para falar com Zander e todo o time.

Doug não tinha o menor prazer em ter aquela conversa, e não tentou esconder isso na reunião. Começou com um aviso de des­conforto. (“Sou o treinador de vocês, sou pai, mas também já fui menino, e joguei futebol dos 9 aos 21 anos, assim como muitos de vocês jogarão. Por isso eu sei que uma reunião com um treinador frustrado é difícil. Entendam que é desconfortável para mim tam­bém.”) E prosseguiu: Vejam seus companheiros neste time. Pensem no esforço de cada um deles a cada semana, se machucando, se sujando, suando, ficando sem fôlego, e às vezes com ânsias de vômito. Agora, pensem bem: O que você faz aqui está ajudando ou preju­dicando o time?

Doug se calou por um minuto inteiro, e então pediu que cada um desse um exemplo de como tinha ajudado o time no treino da­ quele dia. Depois pediu que cada um desse um exemplo de como [115] tinha prejudicado o time naquela temporada, por menor que fos­se a falta. Todos tinham alguma coisa a dizer e, depois do último menino falar, Doug disse:

Quando você faz alguma coisa que não ajuda o time, está pre­judicando seus colegas, meninos que vão proteger você, vão brigar por você, vão se arriscar a serem machucados por al­guém duas vezes maior que eles na disputa da bola, para que vocês façam uma boa jogada. De hoje em diante, vou fazer sempre essa mesma pergunta a todos, e se acharem que estão prejudicando o time, não precisam se sentir culpados; só tratem de melhorar. Entenderam?

Quando todos concordaram com um gesto de cabeça, Doug lhes disse para se unirem de mãos dadas e gritarem o nome do time três vezes.

Zander perdeu sua posição de estrela no time inicial. Se você quiser saber se a motivação dele foi a vergonha ou a culpa, Doug lhe dirá que, quando Zander voltou a jogar, pegou a bola e correu cem metros para um touchdown que trouxe a primeira vitória do time na temporada. E, quando Zander viu que os colegas o respei­tavam mais pelas ações que ajudavam do que pelas que prejudi­cavam o time (embora algumas de suas palhaçadas fossem muito engraçadas), investiu mais energia nos treinos e passou a animar os outros jogadores, mostrando uma atitude completamente di­ferente. Doug ajudou Zander a se tornar um jovem adulto res­ponsável e, revelando seu próprio desconforto e induzindo a um pouquinho de culpa, conseguiu melhorar o menino e o time.

Nós, os autores, usamos a mesma pergunta em sala de aula (“O que você faz está ajudando ou prejudicando a classe?”) e aos [116] nossos filhos (“O que você está fazendo está melhorando ou piorando a situação?”). Na condição de psicólogos socialmente incômodos, fazemos a mesma pergunta a nós mesmos quando conversamos com as pessoas (“O que estamos fazendo está ajudando ou preju­dicando esse relacionamento?”). Sugerimos que você considere essa pergunta com relação à culpa: vai ajudar ou prejudicar a von­tade de ser uma pessoa melhor, mais forte e mais sábia?

Se quiser mais um exemplo de utilidade da culpa, vamos pen­sar naqueles que foram banidos temporariamente pela sociedade devido a suas más ações: os prisioneiros. Segundo o National Re­cidivism Study of Released Prisoners, conduzido pelo Bureau of Justice dos Estados Unidos, dos 272.111 presos libertados em 15 estados em 1994, 67,5% voltaram dentro de três anos para a prisão por crimes ou contravenções graves.26 Cometer um crime depois de sair do presídio é a norma, e não uma exceção.

Ao tomar conhecimento dessa estatística, você pode julgar que os prisioneiros são pessoas más. Ou pode acreditar que a maioria deles não é muito diferente de nós - eles querem achar um lugar onde sejam aceitos, sentir que têm controle sobre a vida deles, encontrar pelo menos uma aparência de significado e propósito na vida, e ter a esperança de que seus filhos tenham uma vida me­lhor que a deles. Seja como for, a pergunta-chave é: o que evita que um meliante solto volte a cometer atos ilegais ou imorais? A dra. June Tangney, eminente psicóloga clínica, passou quase dez anos investigando se sentimentos morais como a culpa são o segredo para evitar o crime. Em pesquisa recente, ela constatou que os presos com tendência ao sentimento de culpa sofriam mais pelos atos cometidos e eram mais motivados para confessar, pedir perdão e reparar os problemas que causaram.27 Após serem [117] libertados, tinham menor probabilidade de serem presos novamente. Ou seja, presos propensos a sentir culpa pelo mal que causaram contrariam as estatísticas e não causam mais problemas.

A culpa dá mais fibra moral, dá motivação para sermos cida­dãos mais socialmente sensíveis e conscienciosos, e esses bene­fícios se estendem à comunidade não criminosa. Por exemplo: pesquisadores constataram que adultos propensos a sentir culpa eram menos propensos a dirigir bêbados, roubar, usar drogas ile­gais e atacar as pessoas.28 Se o caráter se reflete naquilo que você faz quando ninguém está vendo, a emoção moral chamada culpa é um elemento de construção do caráter. Ao ignorar o valor da culpa, pais e educadores encaram uma dificuldade muito maior para formar as crianças que constituirão o futuro de uma socieda­de saudável.

A fracassada campanha destacando a culpa é uma conseqüên­cia direta de se confundir culpa e vergonha. Segundo o dicionário American Heritage, a culpa é “arrependimento consciente de ter feito algo mau”, e “autorreprovação por suposta inadequação ou transgressões”. A vergonha é diferente. Quando sentimos ver­gonha, não nos contentamos em achar que nossas ações foram erradas ou equivocadas, mas nos vemos como pessoas fundamen­talmente más. No caso da culpa, a consciência da transgressão se limita a uma situação específica. A vergonha nos parece ser uma medida de quem somos. A culpa é útil; sua prima, a vergonha, não é. A culpa é local, a vergonha é global.

Há maneiras úteis e inúteis de sentir remorso pelos fracassos e transgressões. Para aprender a adicionar a negatividade às ferra­mentas psicológicas úteis, vejamos as diferenças. [118]

As pessoas que sentem vergonha sofrem. Pessoas envergo­nhadas se desaprovam e querem mudar, se esconder, ou livrar-se totalmente de si mesmas. Pessoas que sentem culpa querem aprender com seus erros e são motivadas a melhorar. Embora não queiram que sua transgressão esteja escrita na testa, as pessoas culpadas são menos propensas a esconder suas más ações. O mo­tivo? Estão prontas a reparar os danos e dispostas a se esforçar para que não se repitam. Quanto à vergonha, vejamos os resíduos sombrios desse sentimento. Lembremos que os adultos são mais inclinados a pagar quantias exorbitantes para evitar um remorso insistente. Vamos investigar por quê.

Faz seis meses que você tomou a última dose de uísque e a razão de estar sóbrio são as reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Na condição de adulto novamente sóbrio, pessoas desconhecidas se aproximam para ouvir sua história. Sabendo que é típico falar [119] sobre problemas pessoais em reuniões do AA, você cede, e até con­corda em gravar um vídeo. Entre as perguntas sobre como você começou a beber, como isso afetou seus relacionamentos etc., a entrevistadora pede que você fale sobre “a última vez em que bebeu e se sentiu mal por ter bebido”. É uma solicitação pesada, que lhe traz lembranças desagradáveis, mas você responde com franque­za. Passam-se quatro meses até que a entrevistadora volte a procurá-lo, trazendo um calendário, pedindo-lhe que anote todos os dias em que bebeu desde a entrevista. Tendo a garantia de que seria confidencial e anônimo, você preenche o calendário.

A entrevistadora era a dra. Jessica Tracy, ou seu aluno de pós-graduação, Daniel Randles, da Universidade de British Colum­bia, e eles fizeram algo realmente criativo.29 A dra. Tracy queria saber se as manifestações de vergonha ao falar sobre bebida aju­davam a prever quais adultos recém-sóbrios voltariam a beber. (Se você quiser identificar vergonha na expressão corporal de al­guém, veja se a pessoa mantém os ombros caídos e a área do peito encolhida ou se fica curvada na cadeira como se buscasse uma posição fetal.)

Os resultados desse estudo podem causar espanto. No decorrer de quatro meses, adultos recém-sóbrios que não demonstraram vergonha durante a entrevista tomaram 7,91 drinques. Quanto aos que demonstraram maior vergonha na entrevista (os 10% mais envergonhados) - imagine só - consumiram, em média, 117,89 drinques no mesmo período. Para aqueles que tinham uma relação de vergonha com o comportamento de beber foi muito mais difí­cil evitar uma recidiva. [120]

De gavião à pombinha

Todo mundo comete erros. No trabalho, você se encarrega de man­dar flores para uma colega doente e se esquece de mandar. Em casa, você reclama do descaso de sua vizinha com o lixo e o jardim dela, e depois descobre que ela estava de cama, com pneumonia. Sentir culpa, por definição, tira a felicidade da pessoa. Mas vimos que, embora à custa da felicidade imediata, a culpa pode ser útil em longo prazo. Além disso, a culpa beneficia os outros. Nas pa­lavras do pesquisador Roy Baumeister, a culpa nos “causa mal-estar, mas, para evitar esse desconforto, precisamos fazer algo melhor para nossos parceiros e membros do nosso grupo”. O agui­lhão da culpa pelo que nossas ações causaram em alguém nos im­pele a agir com maior sensibilidade social na próxima vez.

Por outro lado, se você ficar envergonhado, seus problemas vão aumentar, e tentar melhorar o comportamento de alguém ape­lando para a vergonha também não adianta nada. Esperamos que essas palavras sejam lidas por pais bem-intencionados que casti­gam os filhos obrigando-os a dar a volta no quarteirão com um cartaz dizendo: “Acessei pornografia no computador lá de casa.” Esperamos que sejam levadas em consideração por juizes que condenam motoristas bêbados a colocar no carro um adesivo para que todos saibam da infração. Esperamos que essa informação atinja professores que colocam na sala de aula um painel infor­mando quantas vezes uma criança de 6 anos mordeu, lambeu ou bateu num coleguinha. Essas táticas não surtem o efeito desejado, não estimulam as pessoas a ter mais respeito e consideração pelos outros. Os resultados de pesquisas sobre isso são muito claros: quanto mais envergonhadas as pessoas se sentem, mais ansiosas, agressivas e distanciadas elas se tornam. Usar a vergonha como [121] forma de punição tem o trágico efeito paradoxal de acentuar o comportamento que se tenta extinguir.

Se você quiser motivar, escolha a culpa, e não a vergonha. Co­mo diz a dra. June Tangney: “Sentimos culpa porque damos im­portância [às pessoas] - uma mensagem relevante para quem magoamos ou ofendemos.” Atos incorretos não são prova de que você é uma pessoa incorreta. Assuma a responsabilidade por suas ações, sinta a dor de ter magoado uma pessoa, caso aconteça, e volte a atenção para nada mais e nada menos que a ação específica que causou aquele agravo. Sinta, erre, falhe, se aborreça, e então fique mais atento ao bem-estar dos outros na próxima ocasião de interações sociais.

Como escapar da armadilha da vergonha

Supondo que você não desconheça a compaixão, oferecemos as seguintes sugestões para inspirar a culpa em lugar da vergonha.

Tenha em mente o objetivo. Um erro comum ao lidar com a par­te culpada é partir diretamente para o ataque pessoal. É fácil se apressar em associar - até de forma inconsciente - a culpa à au­sência de valores, idiotice, ganância e a tantas outras falhas de caráter. O problema é que ninguém quer ouvir que é uma pessoa má. As pessoas estão mais abertas a ouvir que fizeram algo mau. Você tem maior probabilidade de ser ouvido, se reforçar as virtu­des e pontos fortes da pessoa (se você de fato os reconhece; não invente) ao mesmo tempo em que a responsabiliza por suas ações.

Comece estabelecendo um terreno comum. Se alguém fez algo er­rado, mostre, se possível, que vocês têm os mesmos valores e obje­tivos. Depois mostre como o comportamento da pessoa a afastou desses valores e que há alternativas, comportamentos mais saudáveis [122], mais compatíveis com quem ela é. Outro terreno em comum, como já dissemos, é compartilhar seu desconforto. Essas conver­sas são difíceis, e às vezes parece ser mais fácil desconsiderar o mau comportamento. É tão desconfortável para quem está apon­tando o dedo acusador quanto para quem está se encolhendo de arrependimento. Para que a conversa resulte numa modificação do comportamento do outro, é preciso ter a honestidade de ver por que a conversa lhe causa desconforto.

Em vez de tentar controlar o outro, ofereça autonomia. Ao contrá­rio do que se pensa, as pessoas não se incomodam que lhes digam o que fazer. Por exemplo: você tem boa vontade para levar o lixo para fora quando lhe pedem, você entrega trabalhos com prazo apertado, quando vai ao supermercado e alguém lhe pede que tra­ga algo mais, se for razoável, você acrescenta à lista e traz. As pessoas se incomodam é que lhes digam como fazer alguma coisa. Ninguém quer conselhos sobre a maneira de colocar o saco de li­xo, como formatar o relatório em que você está trabalhando há meses ou como comparar preços no supermercado. Cientistas que estudam a motivação humana sabem que uma de nossas necessidades básicas, na mesma medida da sobrevivência física, é o dese­jo de dirigir a própria vida. Ao conversar com a parte culpada, não lhe dê instruções de como agir no futuro. Deixe que tenha autonomia para fazer as modificações possíveis. As conseqüên­cias das más ações conduzem a melhores resultados quando o pla­nejamento de mudança do comportamento para melhor é visto como um processo criativo entre o culpado e a vítima.

Ansiedade

Muito se tem escrito sobre o valor da ansiedade. Em suma, pouca ansiedade sugere uma situação enfadonha, ausência de estímulos, [123] a mente num estado de hibernação em que a atenção, as motiva­ções prioritárias, a energia e a determinação são deixadas de lado. Como você pode imaginar, patrões e gerentes não apreciam essa condição, pois os empregados se distraem, buscando estímulo em videogames e brincadeiras com os colegas. Ansiedade em excesso sugere uma situação incontrolável, chegando a paralisar efetiva­mente a pessoa. Quando a ansiedade é passageira, o desempenho é afetado, mas no final dá certo e você se sente bem. E sabemos que períodos prolongados de ansiedade são desastrosos para a saúde física e mental. Quem tem ansiedade muito intensa com muita frequência envelhece prematuramente. Podemos constatar isso em nível celular, na deterioração dos telômeros, que formam as extremidades dos cromossomos.30 Por isso, especialistas em desempenho e empresários dão preferência a pessoas que têm a “quantidade certa” de ansiedade, suficiente para despertar a mo­tivação, sem levar a incontroláveis ataques de pânico e a estresse crônico.31 Perfeito. Estamos totalmente de acordo.

Só nos perguntamos por que chegamos a esse ponto. Nossos ancestrais hominídeos, que viviam em pequenas comunidades caçadoras e coletoras na África, sobreviviam graças a um conjunto específico de circuitos de ansiedade. Criado pela seleção natural e desenvolvido no decorrer da história evolucionária da nossa es­pécie, esse programa especializado em ansiedade opera basica­mente fora da nossa consciência, e por isso mesmo é subvalorizado, pois resolve nossos problemas sem um esforço da vontade. Assim como nós, autores, você já deve ter ouvido dizer que as emoções positivas expandem o pensamento e o comportamento em deter­minadas situações e, em contraste, a ansiedade restringe o pensa­mento e o comportamento, levando-nos a “não ter uma visão geral da situação”. A isso, vamos contrapor: o expandido não é melhor [124] que o restringido. O importante é você usar todos os softwares instalados no seu cérebro. O que acontece quando há uma possibilidade de perigo e o programa de ansiedade está ativado?

Consideremos três situações problemáticas que podem iniciar seu programa mental de ansiedade. Você está sendo ridiculariza­do na frente de um grupo de pessoas por alguém que quer aumen­tar o próprio status social perante o grupo, em detrimento do seu. A pessoa com quem você tem um envolvimento romântico está se comportando de modo estranho, chegou atrasada para um jantar, e vocês ficam longos momentos em silêncio, o que não acontecia antes. Você tem palpitações cardíacas enquanto conversa sobre problemas financeiros, e é a primeira vez que isso acontece. Nes­sas situações, e em muitas outras que induzem a pensamentos e sensações de ansiedade, a parte mais antiga do cérebro, associada à sobrevivência, já está considerando três tipos de ação: fugir, lu­tar ou paralisar. Esse processo ocorre sem qualquer contribuição da sua consciência. Na verdade, muito se tem pesquisado sobre o que causa esse estresse indevido, pois a sobrevivência não é mais o problema cotidiano dos tempos em que compartilhávamos o planeta com os tigres-dentes-de-sabre.

Entretanto, ainda há relíquias remanescentes no disco rígido da ansiedade, forças que permanecem ocultas até o momento an­sioso. Nesses momentos você consegue acessar um aumento da percepção, inclusive uma amplificação da visão, sendo capaz de enxergar a uma grande distância, e uma amplificação da audição, e capaz de sintonizar com maior clareza ruídos aleatórios vindos de uma determinada direção. Você tem maior capacidade de solu­cionar problemas. Para citar um exemplo dado pelos psicólogos da evolução John Tooby e Leda Cosmides: “Lugares estranhos, que você não ocupa normalmente - armário do corredor, galhos [125] de árvore podem subitamente se salientar como locais incluídos na categoria lugar seguro ou esconderijo.”32

A utilidade da ansiedade para seu sucesso, o de sua família, de seu parceiro e da sua empresa está ausente de discussões anterio­res. A surpreendente verdade sobre a ansiedade é:

  • Há situações em que você gostaria de ser uma pessoa alta­mente ansiosa.
  • Você precisa de uma pessoa ansiosa em sua equipe.
  • Sem ansiedade, pequenos problemas podem facilmente ir se transformando num desastre.

Já abordamos o fato de que os erros são necessários para a criati­vidade e as inovações. Sem os erros, não aprendemos nem evoluí­mos. Mas não devemos superestimar o valor dos erros; precisamos identificá-los logo no início, a fim de aprendermos a lição sem nin­guém sair prejudicado. É aí que o valor da ansiedade entra em cena.

O que há de especial em ansiosos sempre apavorados com ameaças e perigos potenciais é a sofisticada contribuição que dão aos outros. Quando tomados pela ansiedade, temos a mesma fun­ção que os canários nos túneis das minas: somos sentinelas, rea­gindo rápida e sonoramente ao primeiro sinal de perigo. Isso ocorre em cinco passos:

  • Medo: pessoas ansiosas ficam em estado de alerta à menor mudança no ambiente. São, portanto, extremamente aten­tas a problemas potenciais, especialmente em situações no­vas ou ambíguas. [126]
  • Sobressalto: pessoas ansiosas reagem com rapidez e intensi­dade à menor indicação de presença de perigo (por exem­plo, sons diferentes, ritmos interrompidos).
  • Aviso: pessoas ansiosas são rápidas em advertir os outros so­bre um perigo iminente. Possuem um desejo incomum de vigiar e cuidar; esse ato de “sair de seu caminho para ajudar os outros” as acalma.
  • Patrulha: se os outros não lhe dão atenção imediata, as pes­soas ansiosas vão investigar e coletar mais dados. Reúnem informações com o intuito de ser mais persuasivas, a fim de construir uma aliança com os outros e, juntos, afastarem o perigo.
  • Vigilância: pessoas ansiosas se abstêm de necessidades im­portantes, como dormir ou comer, e perseveram até que o problema seja resolvido.

Sim, você não quer ter ansiedade crônica. Sim, você não quer ter uma família ou uma equipe formada apenas por pessoas an­siosas. Mas, como pode ver, há enormes vantagens em ter um sis­tema de alarme humano. Pessoas não ansiosas não percebem sinais ambíguos que podem significar perigo. Pessoas não ansio­sas tendem mais a ignorar até os sinais óbvios de um perigo em potencial porque não julgam a informação mais premente do que qualquer outra coisa que lhes passa pela cabeça.

Em uma pesquisa fascinante, membros de um grupo foram levados a crer que tinham ativado, acidentalmente, um vírus de computador que infectou rápido todos os arquivos.33 A caminho de comunicar o ocorrido à administração, eles encontraram qua­tro obstáculos, impedindo que comunicassem ou pedissem ajuda a outros. Uma pessoa lhes pediu que respondessem a um pequeno [127] questionário para uma pesquisa, um funcionário disse onde pode­riam encontrar o administrador do prédio, mas lhes pediu o favor de ajudar com umas fotocópias, na porta da sala do administrador havia uma placa pedindo que visitantes aguardassem e, finalmen­te, depois de serem encaminhados a um técnico em computado­res, passaram por um aluno que “acidentalmente” deixou cair no chão uma pilha de papéis. Quatro obstáculos sociais planejados para fazê-los tropeçar. Para superar os obstáculos, eles precisavam ser determinados e insistentes, duas qualidades nem sempre asso­ciadas a pessoas que sofrem de ansiedade. No entanto, diante do perigo, as pessoas mais ansiosas contornaram todos os obstáculos sem perder o foco. Recusando pedidos de ajuda e atos de gentileza, foram mais eficientes do que seus colegas mais tranqüilos e feli­zes para alertar sobre o perigo e conseguir assistência imediata.

Melhor que a positividade

As vantagens de ser uma pessoa ansiosa não estão ao alcance de quem vive tipicamente no reino da positividade. Pesquisadores constataram que ser extrovertido, sociável e dominante não com­bina com a determinação férrea e a concentração das pessoas ansiosas.34 Em zonas de perigo, a ansiedade prevalece sobre a po­sitividade. Nas situações em que há possibilidade de perigo, mas os sinais são obscuros, complicados ou duvidosos, a ansiedade prevalece sobre a positividade. Nesses casos, as pessoas ansiosas descobrem soluções e, tendo gente à sua volta (amigos, família, co­legas), compartilham os problemas e as soluções. Os grupos são mais bem-sucedidos quando formados por uma mistura de tipos de personalidade com pontos fortes variados e pelo menos uma sentinela ansiosa. [128] 

Como aplicar efetivamente à ansiedade

  1. Crie uma atmosfera em que a atitude vigilante das pessoas ansiosas seja encarada como um ponto psicologicamente forte, e não uma neurose a ser curada. Fale claramente, ex­plicando aos outros que o valor inerente à ansiedade traz o equilíbrio necessário a uma cultura, tentando maximizar o prazer, o crescimento e a busca de realização de sonhos e aspirações. Um grupo bem-sucedido mescla pessoas com diversas motivações, desde alcançar objetivos até evitar os perigos.
  2. Estimule sempre a atenção aos problemas. Crie canais de informação, designando para trabalhar no centro do grupo alguém que tenha a medida exata de pontos fortes, isto é, que seja sensível, articulado, persuasivo, socialmente co­nectado e ciente dos diversos pontos fortes das outras pes­soas (a fim de encontrarem as soluções mais rápidas).
  3. Crie uma estrutura de incentivos, com recompensas para formas mais discretas de detectar e neutralizar os proble­mas. Isso significa que uma força antiterrorista que impede a entrada de armas num aeroporto deve ser tão valorizada quanto um agente que agarra um criminoso prestes a explodir uma bomba escondida na mochila. A mídia adora exal­tar um indivíduo como herói porque propicia uma matéria mais fácil, mais continuada, mais romantizada. Organiza­ções devem escrever suas próprias histórias, criando opor­tunidades para as sentinelas ganharem os aplausos quando merecidos. [129]
  4. Em vez de pensar em ameaças como algo presente-ausente, liga-desliga, lembre que as maiores ameaças frequentemen­te começam como sinais de fumaça, fracos, insidiosos, mal perceptíveis, que de repente aumentam muito. Reconheça a qualidade de quem detecta o começo da ameaça. É preciso deixar de estigmatizar esse processo, a fim de ver seu lado saudável, quando as pessoas ficam à vontade para falar de desgaste e desconforto.

Lembretes

  • Quando não evitamos emoções negativas, ganhamos agilida­de emocional, a capacidade de usar todas as nuanças das experiências emocionais.
  • Raiva, culpa, ansiedade e outras emoções negativas têm vá­rias e inesperadas serventias. Servem para nos dar coragem, regular o comportamento, manter-nos alertas ao ambiente e recarregar as energias criativas, além de outras vantagens.
  • Estratégias concretas como diminuir a velocidade podem ser usadas para transformar as emoções consideradas nega­tivas em boas ferramentas.
  • Abandone a ideia de rotular emoções como exclusivamen­te negativas ou positivas. Em vez disso, identifique o que é aconselhável ou não em cada situação.

Quando você era criança, provavelmente imaginava possuir al­gum superpoder (se não imaginou, perdeu uma boa oportunida­de). Talvez imaginasse poder voar, ter uma força descomunal ou ser invulnerável. Quando você pensa à luz dos benefícios associa­dos a todos os sentimentos - positivos e negativos -, se dá conta de [130] que não tem um único superpoder, e sim vários: tem um potenciador de coragem (raiva), um comportamento que mantém a ética nos trilhos (culpa) e um vigilante sempre alerta ao seu lado (an­siedade). No próximo capítulo, vamos examinar seu menospreza­do detector de mentiras (tristeza). Como seus sentimentos vêm e vão, você tem sempre um poder ao seu dispor.

Afinal, muitos preconceitos contra as experiências emocionais negativas surgem porque as pessoas misturam emoções proble­máticas, extremas, arrebatadoras, com suas primas mais benignas. Culpa não é vergonha, raiva não é fúria, ansiedade não é distúrbio de pânico. Em cada caso, o primeiro é uma fonte benéfica de in­formações emocionais que ativa a atenção, o pensamento e o com­portamento que conduzem a resultados desejáveis. [131]

 

 

Psicologia - Psicologia positiva
11/17/2021 1:04:11 PM | Por Robert Biswas-Diener, Todd B. Kashdan
Por que o modo de buscarmos a felicidade não nos fará felizes

Na  Dinamarca do século XVI, Tycho Brahe era tão famoso pelo seu estilo extravagante quanto pelo seu gênio científico. O nariz de Brahe foi cortado num duelo (colocou no lugar um de metal) e ele ia a festas levando seu alce de estimação (que bebia ál­cool exageradamente), mas perpetuou sua fama com a contribuição para a astronomia. Em vez de aceitar as velhas noções filosóficas ou religiosas sobre a natureza do céu, Brahe observou e cartogra­fou todas as estrelas que via. Suas anotações levaram a descobertas extraordinárias, como o nascimento e morte de estrelas, um fe­nômeno em contradição com as antigas teorias de que todos os corpos celestes eram fixos. Nariz artificial e alce bêbado à parte, a obra de Brahe lhe valeu um lugar na história como pai da astro­nomia moderna, ao lançar a base na qual seu assistente, Johannes Kepler, e todos os astrônomos modernos construíram esta ciência.

Hoje a psicologia vive um “momento Brahe”. Até agora mui­tos têm tido sucesso em criar abordagens intuitivas para melhorar a qualidade de vida. Você provavelmente conhece algumas dessas teorias, como a hierarquia de necessidades de Abraham Maslow - a ideia de que as pessoas precisam satisfazer suas necessidades básicas, como comida e segurança, antes de se ocuparem das [19] necessidades de autoestima e realização pessoal. O bom senso não poupa conselhos para a pessoa tornar-se mais feliz: ser gentil, va­lorizar o que tem, não se dedicar totalmente ao trabalho, passar mais tempo com a família e os amigos, ter uma vida frugal e mo­deração em tudo. Boas sugestões, mas haverá motivos para crer que essas dicas são universalmente aplicáveis ou sempre verda­deiras?

Felizmente, estamos vivendo numa era admirável da psicolo­gia, graças à introdução da sofisticada neurociência, aos avanços da estatística, ao computador portátil, que permite comunicação imediata de experiências cotidianas, e a outras conquistas técni­cas e metodológicas. É o nosso momento Brahe, promovendo a mudança do entendimento básico da qualidade de vida. No campo da psicologia em geral, e no tema específico da felicidade, esses novos instrumentos produziram duas descobertas transformado­ras: primeira, nossa abordagem do tema da felicidade está toda errada; segunda, podemos fazer alguma coisa para corrigir isso.

Por que o modo de buscarmos a felicidade não nos fará felizes

Faz muito tempo que os humanos deixaram de viver em socie­dades caçadoras-coletoras. Já que passamos menos tempo nos preocupando com abrigo, períodos de seca e a próxima caça é ra­zoável voltar nossa atenção coletiva para a busca da felicidade. De fato, num estudo com mais de dez mil participantes de 48 países, os psicólogos Ed Diener, da Universidade de Illinois, e Shigehiro Oishi, da Universidade de Virgínia, constataram que pessoas de [20] todos os cantos do mundo consideram a felicidade mais impor­tante do que qualquer outra realização pessoal altamente desejá­vel, como ter uma vida significativa, ficar rico ou ir para o céu.2

A pressa de ser feliz é estimulada, pelo menos em parte, por um crescente campo de pesquisa sugerindo que a felicidade não só faz a gente se sentir bem, mas faz bem para a gente. Pesquisa­ dores da felicidade associaram sentimentos positivos a uma série de vantagens, desde maiores ganhos financeiros ao melhor fun­cionamento do sistema imunológico e a maior predisposição à gentileza.3 Esses resultados positivos desejáveis não só estão rela­cionados à felicidade, mas a ciência indica que emoções positivas são a causa da felicidade. Alguns pesquisadores, como Barbara Fredrickson, da Universidade da Carolina do Norte, chegam a afirmar que a felicidade é um direito evolucionário inerente à humanidade.4 Ela argumenta que a felicidade ajuda a criar recursos pessoais e sociais vitais para ter sucesso na vida e - do ponto de vista evolucionário - para a própria sobrevivência.

Mas a pergunta que não quer calar mostra uma face não tão feliz assim: se a felicidade proporciona uma vantagem evolucionária, se a valorizamos tanto e temos milhares de anos de bons conselhos para conquistá-la, por que ela não é mais disseminada? Por que não estamos falando sobre uma epidemia de felicidade, em vez de aumentos astronômicos de casos de ansiedade e depres­são? O pesquisador Corey Keyes, da Universidade de Emory, ana­lisou uma amostra de três mil adultos norte-americanos de idades variadas e fez a constatação alarmante de que apenas 17% estavam progredindo psicologicamente. [21] Como é possível acontecer isso? Verifica-se que, apesar de toda a atenção dada a esse tópico, as pessoas não sabem fazer escolhas que levem à felicidade. Não queremos criticar sua malhação na academia, férias na praia, prática de meditação ou a decisão de pôr seus filhos em quatro atividades diferentes depois da escola. Quando se trata de encontrar a felicidade, somos tão culpados quanto você, pois também não chegamos lá. Na verdade, várias pesquisas recentes mostram que todo mundo está mais ou menos nesse desencontro.

Vamos começar com a pesquisa de Barbara Mellers, da Uni­versidade da Pensilvânia, e seus colegas Tim Wilson e Daniel Gilbert, o autor do best-seller O que nos faz felizes? Esse trio condu­ziu uma série de estudos sobre “erros de previsão emocional”. As­ sim como meteorologistas experientes cometem pequenos erros que podem ter um grande impacto na previsão do tempo de uma semana, as pessoas fazem a mesma coisa ao prever como um even­to as afetará emocionalmente no futuro. Superestimamos, por exemplo, o quanto ficaremos felizes se nosso candidato ganhar as eleições ou nosso time de futebol vencer o jogo.8 E tendemos a subestimar dificuldades que teremos, como mudar para outra cidade.

Tomemos como exemplo o estudo em que Mellers e seus co­ legas investigaram mulheres que fizeram teste de gravidez na instituição de planejamento familiar Planned Parenthood.9 (É im­portante saber que nenhuma das mulheres nesse estudo estava tentando engravidar.) Em termos sucintos, as mulheres caíram em dois grupos: as que temiam ter um filho e gostariam de um resultado negativo, e as que gostariam de um resultado positivo. Os pesquisadores disseram às mulheres que fizessem uma previ­ são do grau de felicidade que teriam se tivessem o resultado [23] desejado. Eles esperavam que as mulheres desejosas do resultado negativo sentissem uma espécie de júbilo ao saber que não estavam grávidas, e que as desejosas de engravidar ficassem muito contentes ao receber o resultado positivo.

Ao final do teste, os pesquisadores ficaram surpresos ao cons­tatar que não houve agonia nem êxtase, mas apenas uma ponti­nha de declínio no equilíbrio emocional das mulheres dos dois grupos. As que desejavam um filho não ficaram abatidas ao rece­ber o resultado negativo; ficaram só um pouquinho desapontadas e voltaram rapidamente ao estado emocional normal (podemos esperar reações diferentes, se essas mulheres tivessem tentando engravidar, sem sucesso, durante meses ou anos). Quanto às mu­lheres que não queriam ter um filho e descobriram que havia um embrião não planejado em seu ventre, o temor previsto não se concretizou, pois tiveram uma reação muito mais tranqüila (e uma pequena minoria teve uma inesperada sensação de prazer). Uma razão pela qual erramos ao prever o que nos fará felizes no futuro é que não avaliamos bem nossa capacidade de tolerar, e até de nos adaptar a, situações incômodas. Tomando outro exemplo: um novo emprego nos intimida na primeira semana, mas pouco depois estamos agindo como se já trabalhássemos lá há anos.

A maior razão para se preocupar com os erros de previsão emocional é que quase todas as decisões que você toma agora se baseiam na suposição de como espera se sentir no futuro. Você compra uma casa espetacular de cinco quartos num condomínio chique, imaginando-se tomando café da manhã na varanda de frente para um belo gramado, minimizando os trinta minutos a mais que levará para ir e voltar do trabalho ou para visitar os ami­gos. Você abre mão de passar muito tempo com a família enquanto [25] tenta conseguir uma boa promoção no trabalho. Você escolhe um/a parceiro/a, decide quando (ou se quer) ter filhos ou escolhe uma região ideal para morar, mas geralmente essas decisões são com­ prometidas pela falta de compreensão do seu mundo emocional. Nisso, você não está só. Todos nós tendemos a exagerar o grau de positividade da reação a eventos positivos, e subestimamos nossa capacidade de tolerar o desconforto. Quando se trata de como va­mos nos sentir no futuro, quase sempre erramos.

O pior de tudo na busca da felicidade é a informação de uma recente série de pesquisas conduzidas por íris Mauss, da Uni­versidade da Califórnia, em Berkeley.10 Mauss é um pouco como Tycho Brahe; em vez de aceitar frequentemente as suposições, do tipo “podemos ser felizes”, prefere mapear os céus metafóricos para descobrir o que está lá no firmamento emocional. Ela chega ao ponto de fazer perguntas desconcertantes, como: “As pessoas devem buscar a felicidade?” Um estudo de Mauss e seus colegas mostrou que as pessoas que valorizam a busca da felicidade são de fato mais solitárias que as demais. Os pesquisadores manipula­ram a importância dada à felicidade, fazendo com que a metade dos participantes lesse um artigo falso de jornal exaltando as mui­ tas vantagens da felicidade. Aqueles que leram o artigo disseram se sentir mais solitários do que os que não leram, e produziam uma taxa menor de progesterona (um hormônio liberado quando nos sentimos ligados a outra pessoa). Portanto, apostar tanto na feli­cidade tem implicações na saúde também!

Em suma: nós, humanos, somos péssimos em supor se sere­mos felizes no futuro e, no entanto, baseamos decisões importan­tes na vida nessas previsões equivocadas. Compramos aparelhos de televisão, fazemos seguro de vida, aceitamos convites para jantar [26], tudo por causa de previsões imperfeitas da felicidade que nos trará. Não é à toa que nos damos mal no departamento da felici­dade, e o tema da felicidade está em alta para escritores, instruto­res e conselheiros. A trabalheira imposta pela noção universal de felicidade - com as pessoas seguindo à risca os passos ditados pe­lo bom senso e supostamente benéficos para todo mundo - não funciona. É um pouco como o nariz postiço de Tycho Brahe: uma imitação razoável, mas não melhora a respiração. O que todos nós precisamos com relação à felicidade é um novo conjunto de estra­tégias. Precisamos de uma percepção mais relevante e completa da abrangência disso.

Num mundo em que rejeição, fracasso, insegurança, hipocri­sia, perdas, tédio, e pessoas chatas e detestáveis são inevitáveis, nós, os autores, rejeitamos a noção de que a positividade é o único lugar para encontrar as respostas. Rejeitamos a crença em que saudável é ter uma vida com a menor dor possível. Na verdade, é somente quando tentamos nos esquivar das inescapáveis dores da vida - seja a morte do parceiro, um divórcio, não conseguir a pro­moção no trabalho - que o sofrimento se torna algo que sentimos como dor. A dor aparece quando damos as costas a um aumento do desconforto emocional, físico ou social.

Em vez de batalhar por mais felicidade, valorizamos a capaci­dade de acessar toda a gama de estados psicológicos, tanto os po­sitivos como os negativos, a fim de aproveitar efetivamente o que a vida oferece. Numa palavra: inteireza. Diante dos desafios ine­vitáveis que a vida nos traz, agimos melhor quando paramos de fazer tentativas ineficazes ou desnecessárias de controlar pensa­mentos e sentimentos negativos. Uma pessoa plena age a serviço daquilo que define como importante, e às vezes isso exige recorrer ao lado obscuro da gama de emoções. [37] 

Pesquisas científicas apoiam a ideia de que, em geral, aquilo que vemos como sentimentos negativos podem ser mais benéficos do que os positivos. Estudos mostram, por exemplo:

  • Alunos que têm dificuldades mas não desanimam, têm me­lhor desempenho nas provas do que seus colegas que “enten­dem tudo” rapidamente.11
  • Pessoas centenárias - as que têm 100 anos ou mais - acham que os sentimentos negativos, e não os positivos, estão asso­ciados à saúde melhor e mais atividade física.12
  • Detetives da polícia que foram vítimas de crimes mostram mais determinação e envolvimento no trabalho com civis vítimas de crimes.13
  • Marido e/ou mulher que perdoam agressões físicas ou ver­bais são mais sujeitos a sofrer outras agressões, mas para os que não perdoam há uma forte diminuição das agressões.14
  • Trabalhadores que têm mau humor de manhã e bom humor à tarde demonstram mais concentração no trabalho do que seus colegas bem-humorados o dia inteiro.15

Quanto à criatividade, os pesquisadores viram que as idéias suge­ridas por pessoas que têm estados de ânimo tanto positivo como negativo são consideradas 9% mais criativas, em comparação com as idéias apresentadas por pessoas contentes. No trabalho, a ten­são associada a desafios parece promover a motivação. Ronald Bedlow e seus colegas, que conduziram um recente estudo sobre envolvimento no trabalho, descreveram suas descobertas assim:

Defendemos que adaptativo é o equilíbrio entre a aptidão pa­ra suportar fases de afeto negativo e conseguir mudar para [28] afetos positivos. Minimizar as experiências negativas e repri­mir as positivas não é funcional para a motivação no trabalho nem para o desenvolvimento pessoal.16

A pesquisa da equipe de Bedlow enfatiza também um ponto vital e frequentemente ignorado sobre os estados psicológicos: são temporários. Quando as pessoas falam em felicidade ou em de­pressão, supõem que são experiências relativamente estáveis. No movimento da psicologia positiva moderna, está na moda falar em felicidade sustentável, como se clicar num botão produzisse um sorriso permanente. A verdade é que alternamos entre estados po­sitivos e negativos. Pessoas que têm inteireza, aquelas que se dis­põem a trocar o positivo pelo negativo a fim de obter os melhores resultados numa dada situação, são mais saudáveis, mais bem-sucedidas, aprendem mais e gozam de maior bem-estar. Chama­mos a isso “20% de vantagem” porque a inteireza abrange os que vivem na positividade cerca de 80% do tempo, mas que também podem se valer dos estados negativos nos outros 20% do tempo. Certamente, não pretendemos sugerir que esses percentuais se­jam exatos, que possam ser usados como valores corretos. Não. Só estamos dizendo que a razão de 80:20 é uma regra de ouro para o entendimento da inteireza.

A maré crescente da ansiedade

A ansiedade é notícia há mais de uma década. Guerras, terroris­mo, impasses políticos, crise do mercado imobiliário, obesidade infantil - tudo isso constitui eventos geopolíticos e econômicos importantes. Mas o insidioso aumento da ansiedade é tão digno [29] de nota quanto os outros. O estresse é epidêmico e, como qualquer vírus, não faz discriminação de classe social, nível de inteligência ou profissão. Segundo o National Institute of Mental Health, em qualquer período de 12 meses, um em cada cinco norte-ameri­canos adultos é acometido de distúrbio de ansiedade.17 Em ado­lescentes, o número é mais alto: 25% sofrem de um distúrbio de ansiedade clinicamente significativo. Levando em conta o tempo de vida de um adulto, os números saltam para a elevadíssima ta­xa de um em cada três norte-americanos sofrendo de ansiedade. E essas estatísticas só mostram as pessoas que lutam contra uma ansiedade diagnosticável. Se acrescentarmos estresses do cotidia­no, medo de viajar de avião, de falar em público, de preocupações financeiras, o número chega a quase 100%.

Paradoxalmente, ficamos cada vez mais estressados porque colocamos muita ênfase no conforto. Temos purificadores de ar, ar-condicionado no carro, óculos polarizados, banhos de espuma, roupas à prova d’água, cobertores elétricos e camas adaptadas à conformação específica de nossa espinha dorsal. É difícil enfati­zar suficientemente esse ponto: enquanto, historicamente, escolhe­mos o prazer em vez da dor - quem não o faria? -, a era moderna traz uma aberração na história humana. Não apenas gozamos do conforto, mas somos viciados em conforto.

Por que o conforto é indicativo de um problema? Os altos ní­veis atuais refletem a tendência a usar sabonetes antibacterianos. Esses sabonetes significam que ficamos menos expostos a bacté­rias e, portanto, menos capazes de resistir a elas. Sim, nos velhos tempos a vida era dura, muito trabalhosa, mas teve o efeito cola­teral positivo de enrijecer mentalmente nossos ancestrais. Prova disso é um anúncio clássico do serviço público britânico de 1939, em plena guerra: “Mantenha a calma e vá em frente.” [Keep calm and carry on.] [30] Em outras palavras, as bombas estão caindo, mas não entre em pânico; continue levando a vida. Hoje, seguimos na direção oposta. Vejamos um popular anúncio do serviço público norte-americano contemporâneo: “Se liga. Não polua.” A ideia central dessa mensagem é que as pessoas têm hoje tantos luxos e acessórios que - espere aí! - não podemos parar de jogar coisas no chão e usar a lata de lixo? Quando o lixo dos cidadãos se torna um problema, é sinal de que a sociedade atingiu um elevado estado de conforto.

Atualmente, com tantos supérfluos à nossa disposição, cria­mos a tendência de evitar o desconforto. Clicamos loucamente no smartphone toda vez que estamos sozinhos - sai fora, tédio! Cor­remos como loucos para pegar a faixa expressa na estrada - frus­tração no trânsito, não! Ligamos a televisão assim que chegamos do trabalho - chega de estresse e confusão! O que muita gente não percebe é que essa aparente atração natural por uma vida mais fácil tem raízes numa fuga ao desconforto. Quem teme a rejeição evita as pessoas; quem teme o fracasso não assume riscos; quem teme a intimidade se refugia na televisão ou na internet quando chega em casa. A fuga é uma atitude básica em nossos dias.

Há dois tipos de fuga que causam problemas: evitar o prazer e evitar o sofrimento. A primeira vista, é difícil acreditar que não se queira ter prazer, mas todos nós conhecemos alguém que não quer se divertir, alegando que tem coisa melhor para fazer. (Você pode ser uma dessas pessoas.) Nessa mesma linha, também há quem ache que alardear a felicidade pode dar azar, que comemorar al­guma coisa boa - o aniversário, uma promoção, atuação perfeita numa aula de kickboxing - vai atrair muita atenção e causar des­peito nas pessoas. Os psicólogos chamam a isso “desqualificar o positivo”.18 Infelizmente, ao desqualificar o positivo, perdemos [31] esses momentos de ouro, magníficos, que fazem parte de uma vi­da bem vivida. Ao privar os outros da oportunidade de comparti­lhar nossas emoções positivas, nossas relações sociais se tornam menos íntimas. Se não saboreamos os detalhes de eventos positi­vos, fica mais difícil acessar as boas lembranças para animar um dia sombrio.

A outra forma de fuga, a mais comum de todas, é recusar os estados psicológicos considerados negativos, como a raiva e a an­siedade. Essa atitude reflete a filosofia dos hedonistas da Grécia Antiga - fortes antagonistas intelectuais dos estoicos - cujo pres­suposto era que o bom da vida está no prazer. O problema com a filosofia hedonista é que as pessoas podem se tornar excessiva­mente céticas a respeito de tudo o que for negativo. Isso é uma grande verdade nos tempos modernos, quando dizemos aos ami­gos “veja o lado bom”, “vamos lá, dê um sorriso”, “anime-se”. Além do famoso estudo de Fritz Strack, que mostra que os parti­cipantes da pesquisa que mantinham o lápis entre os dentes (sem saber que assim ativavam os músculos do sorriso) escreviam com maior clareza e tinham opiniões mais positivas a respeito de si mesmos que os demais pesquisados.19 Numa prática vergonhosa, conselheiros de felicidade têm usado esse estudo como prova de que as pessoas devem “fingir até conseguir”. Em essência, todas essas estratégias tentam convencer as pessoas a sair de um estado negativo. Infelizmente, evitar os problemas significa também evi­tar encontrar as soluções para eles.

Você pode imaginar as lutas históricas pela igualdade racial ou por direitos humanos sem um toque de raiva? Pode imaginar vi­ver num mundo em que ninguém tenha remorsos? Pode imaginar uma viagem a um país exótico em que tudo se passe exatamente como planejado? Ou uma vida em que você nunca se debateu com [32] a grave decisão de desistir de um objetivo e continuou insistindo apesar da pouca chance de sucesso? Existe um mal disfarçado preconceito contra estados negativos, e a conseqüência de evitá-los é inibir, inadvertidamente, o crescimento, a maturidade, a aven­tura e o sentido da vida.

Como a interireza se apresenta

Agora é um momento oportuno para ilustrar como a inteireza se apresenta na vida real. Recorremos ao apoio de cientistas que acre­ditam que a história pessoal é mais significativa do que as escalas de felicidade artificiais dominantes em tantas pesquisas. Se existe algo próximo a um exame de sangue ou raios X para qualidade de vida, são as ricas histórias de nossa experiência diária. As histó­rias que contamos sobre os eventos do dia - um pneu furou, che­guei atrasado para a reunião, conheci uma pessoa interessante, vi um pôr do sol lindo - revelam realizações, fracassos, atitudes, de­sejos e anseios, expõem nossa identidade e aquilo a que aspiramos ser e a fazer. Nesse viés, vamos descrever três pessoas que encar­nam aspectos da qualidade que chamamos de inteireza.

Por trás da síndrome do impostor

Apesar de estar cursando o terceiro ano da faculdade de psicologia clínica na Universidade Pacific, Jennifer ainda abria a correspon­dência esperando receber uma carta com o timbre da universidade. Em sua imaginação, a carta diria: “Jennifer, lamentamos infor­mar que cometemos um erro ao aceitá-la no curso de graduação. Sua solicitação deveria ter sido negada.” Como muita gente, Jennifer [33] tinha o sentimento de inadequação pessoal chamado de “síndrome do impostor”, muito comum quando a pessoa atinge um nível mais alto: promoção no trabalho, mudança de carreira, estu­dos avançados. Esse sentimento de duvidar de si mesmo é descon­fortável, às vezes até doloroso. Em casos extremos, é tão forte que leva a pessoa a rejeitar a oportunidade.

Muita gente não vê que o fato da dúvida, com moderação, tem uma função saudável. A dúvida é um estado psicológico que nos leva a fazer um balanço de nossas competências, e a um esforço para melhorar nas áreas de deficiência. Karl Wheatley, pesquisa­dor da Universidade Estadual de Cleveland, afirma que a dúvida pode ser benéfica - pelo menos no caso de professores primários.20 Ele destaca o fato de que, quando um professor tem incerteza sobre seu desempenho, esse sentimento incita à colaboração com outras pessoas, promove a reflexão, motiva o desenvolvimento pessoal e prepara para aceitar mudanças.

Jennifer, ainda novata, usava a dúvida para tomar boas deci­sões sobre quais pacientes encaminhar para terapeutas mais ex­perientes, e quais ela poderia atender. À medida que adquiria mais conhecimentos, ela usava a dúvida para aprimorar sua com­petência e ajudar seus pacientes. Ao eleger a dúvida como ferra­menta, entre tantas outras, mas sem reprimir ou rejeitar essas outras, Jennifer se tornou uma excelente terapeuta e continua a se aperfeiçoar profissionalmente.

As vantagens de jogar a toalha

Em 1995, um aventureiro sueco chamado Goran Kropp estabele­ceu um novo padrão de extremos para um grupo de peritos em escaladas do monte Everest.21 Ao contrário de seus pares [34] alpinistas, Kropp queria escalar sem cilindros de oxigênio, sem cordas e escadas fixas, sem ajuda de sherpas e sem transporte motorizado de qualquer espécie. Montou numa bicicleta e percorreu os quase 13 mil quilômetros de sua casa na Suécia até Katmandu. De lá, foi carregando grandes fardos nas costas até o acampamento no pé do Everest. Saiu do acampamento antes de qualquer outra expedição, e foi subindo por uma trilha de gelo e neve nas escarpas rochosas. No dia de chegar ao cimo, porém, faltando apenas cem metros para alcançar o ponto mais alto da Terra, Kropp tomou a difícil decisão de voltar atrás. Sua decisão se baseou nas condições do fim de tarde, na situação em que ele teria que descer, com muito frio, cansaço, e na escuridão.

O extraordinário autocontrole de Kropp, a decisão de voltar quando estava tão perto do objetivo, depois de ter investido tanto, foi muito sensata e quase divinatória. Uma semana depois, mem­bros de várias expedições sofreram o que se chama “febre do topo” e ficaram presos no flanco do Everest, fustigados pelas nevascas, porque não voltaram no tempo previsto.22 Os dias que se seguiram ficaram conhecidos como o Desastre de 1996 no Everest, que le­vou oito vidas na temporada mais mortal na história das escaladas do Himalaia. Nesse contexto, a decisão de Kropp talvez tenha sal­vado sua vida. E lança outra luz na suposição comumente aceita de que a perseverança é boa e a desistência é má.

É muito fácil ter um objetivo. Pessoas que têm metas específi­cas usam um padrão de medida para avaliar o êxito, diretrizes para aderir aos seus valores, um alvo definido para motivá-las e uma bússola para tomar decisões.23 O ramo dos negócios tem me­tas para melhorar a produção, e os times de futebol têm gols - li­teralmente - para vencer os jogos. Para muita gente, ter uma meta é sinônimo de compromisso, e compromisso com a meta, por sua [35] vez, é quase sinônimo de sucesso. O lendário boxeador Muham­mad Ali disse, em tom jocoso: “Eu odiava cada minuto de treino, mas dizia: ‘Não desista. Sofra agora e seja campeão pelo resto da vida.”’24 Aí está a clara noção de que apostar tudo nas metas é o caminho mais provável do sucesso. Por outro lado, desistir é re­servado para os moral e fisicamente fracos.

Como você já percebeu, rejeitamos a noção de que desistir (certamente um desconforto psicológico) seja horrível. A fidelida­de cega às metas produziu, entre outras coisas, a “febre do ouro”, frequentemente associada à Corrida do Ouro na Califórnia, em 1859, quando mineradores fizeram enormes investimentos finan­ceiros, físicos e emocionais em busca da fortuna, e resultou em nada. A pesquisadora Eva Pomerantz, da Universidade de Illi­nois, afirma que investir pesadamente na busca de um objetivo pode elevar a ansiedade a ponto de corroer a qualidade de vida psicológica da pessoa.25 Isso é tanto mais verdadeiro quando a pessoa se esforça, mas põe o foco no possível impacto negativo de não atingir a meta, aumentando ainda mais o estresse.

Uma das maiores vantagens de algum desânimo - tipicamente desconfortável e que as pessoas sempre tentam evitar - é que, ao senti-lo, nossa tendência é desistir de atingir a meta. A tristeza, frustração, confusão, e até a culpa, servem ao mesmo propósito. São sinais para você puxar o freio e recuar para dentro de si mes­mo a fim de refletir, de conservar sua energia e seus recursos. Isso é especialmente importante para minimizar nossa tendência de continuar investindo em causas impossíveis ou agir com base em um fundo perdido, em vez de tomar a decisão de diminuir as per­das quando os ganhos parecem cada vez menos prováveis. As pes­soas com inteireza são capazes de ter flexibilidade na busca de objetivos, continuando a investir à medida que há progressos num [36] ritmo aceitável e, quando o fracasso é quase certo, trocando os antigos objetivos por outros.

As vantagens da fantasia

Quando menina, o sonho de Melanie Baumgartner era ser juíza. Na universidade, porém, ela se apaixonou e sua vida tomou um rumo inesperado. Em vez de cursar direito, Melanie encontrou um novo sentido em ser dona de casa e mãe. Às vezes, levando e buscando as crianças da escola, ela se surpreendia devaneando sobre aquela outra vida, batendo o martelo para exigir ordem no tribunal.

Num fenômeno psicológico chamado sehnsucht, não é incomum o fato de o anseio por uma oportunidade perdida ou um objetivo não alcançado despertar uma rica fantasia, em que nos imagina­mos realizados naquela situação.26 Sehnsucht é um bálsamo psico­lógico importante para o tormento da oportunidade perdida. Os participantes de uma pesquisa internacional que tinham sehnsucht foram capazes de aceitar a fantasia e transformá-la em compen­sação emocional. A única exceção digna de nota foram os norte-americanos. Ao contrário dos europeus, os norte-americanos são muito mais propensos a achar que seus sonhos são realizáveis e, portanto, relutam em mantê-los no reino da fantasia, o que ten­dem a considerar uma atitude negativa. Mas a fantasia pode ser um recurso muito valioso.

Hoje, com seus filhos crescidos, Melanie pode voltar à facul­dade de direito. Mas ela já não sente tanto o desejo de ser juíza, em parte porque vivenciou as conquistas emocionais em suas fan­tasias. Sehnsucht é uma das muitas estratégias que as pessoas inteiras [37] usam para administrar as conseqüências de terem tomado outro caminho, para tornar a desistência palatável quando foi sen­sata, e a lidar com o desapontamento.

Sabemos que o sofrimento é terrível. Vamos deixar bem claro que não desejamos que você fique arrasado por objetivos frustrados ou porque seu namorado dormiu com a sua irmã. Não estamos sugerindo que você prenda a respiração embaixo de água gelada sem tremer um músculo. Estamos apenas dizendo que acumular emoções que parecem agradáveis agora e evitar emoções que pa­recem desagradáveis agora não é a melhor estratégia para viver bem. Neste livro, oferecemos a inteireza como alternativa a que­rer tirar proveito somente do positivo. A característica principal das pessoas inteiras é a grande capacidade de negociar com tudo o que a vida lhes apresenta. Elas possuem o que chamamos de agi­lidade emocional. Por quê? Porque sabem tirar o maior proveito possível de uma situação, adequando seu comportamento - do la­do bom ou do lado obscuro - a cada desafio que enfrentam. Elas sabem usar os dois lados de todos os traços de personalidade: sé­rio e brincalhão, passional e objetivo, extrovertido e introvertido, altruísta e egoísta. São bondosas, mas seletivas ao conceder seu tempo e energia. Finalmente, pessoas que têm inteireza se bene­ficiam da relutância em desprezar qualidades que a sociedade menospreza. A seguir, vamos expor o que significa ser emocional, social e mentalmente ágil, para você entender a amplitude, a be­leza e as vantagens da inteireza. [38]

Agilidade emocional

Na inteireza, não se trata de evitar emoções negativas, mas de ti­rar o “negativo” delas. Pode-se ver isso no braço da ciência em que se apoiam as boas psicoterapias. Os psicólogos Jonathan Adler (do Franklin W. Olin College of Engineering) e Hal Hershfield (da Universidade de Nova York), testaram a crença predominante de que a terapia funciona quando livra a pessoa de problemas como a depressão, e ajuda a montar estratégias para estimular a positividade.27 Esses pesquisadores observaram 47 adultos em tratamento terapêutico de ansiedade e depressão, e para aprender a lidar com eventos de maior tensão, como a transição para a paternidade/maternidade. Adler e Hershfield queriam saber o que acontece antes de o cliente resolver seus problemas, antes de sua qualidade de vida melhorar e antes de passar realmente a gostar de si mesmo.

Você pode se surpreender tanto quanto eles ao saber que as pessoas em terapia não têm menos experiências negativas e mais experiências positivas, mas passam a se dizer mais felizes. Na ver­dade, o sucesso da terapia começa quando a pessoa passa a se sen­tir confortável com emoções mistas (tanto alegres quanto tristes) sobre o trabalho, os relacionamentos e qualquer outra situação. Vejamos o relato de um cliente após algumas sessões:28

Foram semanas difíceis. Minha esposa e eu comemoramos a boa notícia de uma gravidez saudável com nove semanas (o tempo em que perdemos a gravidez em janeiro passado). Mas também sinto tristeza por ainda estar procurando emprego, e por minha mulher, cuja avó está morrendo. Sinto assim: “quan­to mais posso aguentar?” Mas ao mesmo tempo me sinto razoavelmente [39] confiante e feliz. Não que não fique abatido, mas agradeço as coisas boas da minha vida, especialmente meu ca­samento.

O ponto crucial aqui é que essa pessoa, e tantas outras que de­monstram a capacidade de vivenciar emoções positivas e negativas, teve, subsequentemente, ganhos maiores em bem-estar. Não é o que acontece no caso oposto: sentir a positividade não melhora a capacidade de ser emocionalmente ágil. Esse estudo sugere que a maior vantagem não está na felicidade, e sim que a maior vanta­gem provém de ser plenamente capaz, de ser inteiro, tolerando o bom e o mau sempre que surgirem.

Agilidade social

Os humanos são primatas e, portanto, criaturas sociais. Assim co­mo nossos primos chimpanzés, temos o cérebro altamente desen­volvido para a interação social. Podemos, por exemplo, interpretar facilmente expressões faciais sutis, enquanto os cães, porcos e fal­cões não podem. Temos também centros de linguagem altamente evoluídos, que nos permitem expressar grandes quantidades de informação complexa, inclusive toda a gama de intenções e dese­jos. De fato, somos tão sociais que muitos pesquisadores afirmam que só podemos sobreviver por meio da interdependência. Dacher Keltner, psicólogo em Berkeley, afirma que a generosidade, a hospitalidade e a benevolência são nossos estados naturais.29 Em­bora possamos citar facilmente exemplos de egoísmo, fraude, ganância e outros males sociais, tendemos a achar que as pessoas são capazes de boas ações extraordinárias. De fato, ensinamos às crianças que a bondade é a virtude suprema. [40]

Os efeitos colaterais da bondade e gentileza são inúmeros: as pessoas bondosas vivem mais, ganham mais, são cidadãos melho­res, e os relacionamentos íntimos que cultivam podem sanar mui­tos danos de uma infância problemática. Mas se olharmos mais de perto o mundo social, teremos que admitir um fato incômodo: se estamos envolvidos no amor, no trabalho, em qualquer recreação, precisamos ser gentis, mas também precisamos ser seletivos. Não podemos nos dar ao luxo de nos entregar completamente a qual­quer pessoa. Tempo e energia são recursos limitados, que precisa­mos empregar com discernimento.

Às vezes, em certas situações, precisamos até agir de maneira diametralmente oposta à gentileza. Quem se dispõe a acessar seu lado obscuro está em posição de vantagem, sejam pais, atletas, soldados, professores ou empresários. E aqui vem a parte mais di­fícil de assimilar: é melhor assim para todo mundo. Mesmo os me­lhores pais têm momentos em que não estão dispostos a se esmerar pelos filhos; paternidade e maternidade, como qualquer emprego, precisam de uma hora de almoço. É quando os pais não se cuidam que os filhos sofrem de formas inesperadas e desnecessárias.

Antes que você jogue este livro pela janela ou venda para um sebo, queremos lhe apresentar uma de nossas heroínas científicas, Esther Kim, socióloga da Universidade de Yale. Kim é uma pessoa singular entre os acadêmicos, pois larga o laboratório e sai para o mundo.30 A fim de observar como pessoas desconhecidas intera­gem, Kim percorreu milhares de quilômetros em ônibus de trans­porte público. Ela ficou particularmente fascinada pelo modo como as pessoas evitam sutilmente que outro passageiro ocupe o assento vago ao lado.

Todos nós já tivemos a experiência de ver um passageiro en­trando no ônibus, trem ou avião, enquanto entoamos [41] silenciosamente o mantra “ao meu lado, não; ao meu lado, não”. Kim observou uma variedade impressionante de táticas criativas para evitar a convivência indesejada: gente no assento do corredor com fones de ouvido para fingir que não ouviam o outro pedir licença; sacola colocada no assento ao lado; cenho franzido, pernas estica­das, fingindo dormir; e a lista se alonga. Esses passageiros não são rudes; são humanos. Estão interessados na própria segurança, na energia gasta para interagir com um desconhecido, no conforto durante uma viagem longa. O estudo de Kim ilustra uma situação em que temos propensão a sair da norma de “ser gentil”.

Agilidade social é a capacidade de reconhecer como uma si­tuação difere de outra e alterar o comportamento de acordo com essas diferenças. A pessoa socialmente ágil é proativa, seleciona e influencia as situações que se apresentam. Dependendo das especificidades da situação, a pessoa socialmente ágil pode ser acolhe­dora, dizer mentiras inofensivas, ou fazer pressão; pode se exibir, flertar, elogiar, oferecer ajuda. Pode até mencionar casualmente que limpou a geladeira recentemente para mostrar ao marido que é boa dona de casa. As pessoas socialmente ágeis não são maquia­vélicas, mas operam com um conjunto de normas sociais mais inclusivo e flexível do que o básico “seja gentil”. É interessante notar que, em muitos casos de infração das regras, não intencionamos obter algum ganho pessoal, e sim fazer com que o outro se sinta bem, fortalecer relacionamentos e alcançar metas signifi­cativas.

Agilidade mental

O conceito psicológico de mindfulness (consciência plena) é famo­síssimo. Tem raízes nas práticas budistas, e é a superstar das [42] estratégias mentais. Uma pessoa mindful é aquela focada em viver o momento presente, em “observar com suavidade” o que está acon­tecendo no momento presente, em oposição a “julgar”. As pessoas mindful são mais conscientes, supostamente mais atentas e mais propensas a apreciar a vida do que as outras. Se você for a uma livraria, verá uma estante inteira de livros sobre comer conscien­te, pais conscientes, liderança consciente e até pôquer consciente. Autoridades no assunto dizem que a hiperconsciência é talvez o estado supremo do funcionamento humano, um lugar em que de­sejamos entrar e lá viver perpetuamente. Em conformidade com o provocativo tema deste livro, queremos ser os primeiros a lhe di­zer que é impossível permanecer em estado mindful constante. Se­ja escovando os dentes, seja levando as crianças à escola no piloto automático, é uma maravilha ter um cérebro que nos permite encontrar atalhos que liberam a energia mental para outros empre­endimentos mais significativos, mais intensos. É essencial ter um sistema inconsciente que processa a informação automaticamente, sem autoconsciência e esforço intencional.

Uma das áreas mais fascinantes da psicologia lida especifica­mente com nossa suscetibilidade a influências dos sinais sutis que existem por baixo da atenção consciente. Num estudo com alunos, conduzido pelo psicólogo holandês Ap Dijksterhuis, por exemplo, os sujeitos deviam cumprir uma tarefa antes de responder a perguntas de um teste.31 Um grupo de alunos devia escrever sobre como seria ser um professor. Esse grupo na “condição de professor” respondeu 60% das questões sobre conhecimento geral corretamente, enquanto o grupo de controle respondeu correta­mente a 50% das questões.

A atuação da mente inconsciente cria uma circunstância privi­legiada para mudanças de comportamento, em geral para melhor, [43] sem o esforço exigido normalmente. Por exemplo: num estudo, os pesquisadores levaram sutilmente alguns participantes - mas não todos - a sentir o cheiro de produtos de limpeza (escondidos num balde num canto do laboratório).32 Em seguida, os participantes comeram biscoitos crocantes, e os que tinham sentido o cheiro dos produtos de limpeza comeram com mais cuidado e limparam os farelos. O inconsciente age também ajudando a processar infor­mações complexas. No fenômeno conhecido como “dormir sobre o assunto”, as pessoas distraídas - e portanto não mindful são mais capazes de chegar a boas decisões de compra do que as pes­soas que “se esforçam” de modo consciente.33 Embora a mentalidade da consciência plena de “estar aqui e agora” tenha de fato suas vantagens, é um erro pensar que é o úni­co estado positivo. Quando nos utilizamos de tudo o que somos, de nosso ser por inteiro, podemos alternar atenção e desatenção de acordo com as circunstâncias. Isso nos ajuda a conservar os recur­sos mentais e nos concentrar nas questões que realmente conside­ramos mais importantes.
 

Psicologia - Psicologia positiva
11/17/2021 1:01:13 PM | Por Robert Biswas-Diener, Todd B. Kashdan
A Intolerância ao desconforto e a ascensão da classe acomodada

Para os cientistas sociais, o Google é mais que uma ferramenta de busca. Em vários aspectos, é um termômetro da socieda­de. O Google pode ser usado para rastrear atitudes coletivas e ma­pear tendências populares. Tomemos como exemplo uma simples busca de imagem das palavras “desconforto” e “conforto”. Clicando em “desconforto”, surgem imagens de pessoas franzindo as sobrancelhas, massageando as têmporas, esfregando um joelho dolorido ou contraindo o estômago. Em contraste, a busca da pa­lavra “conforto” traz imagens de camas macias, poltronas fofas e primeira classe em aviões a jato. A implicação é clara: o des­conforto é interno, um fenômeno subjetivo, uma experiência in­dividual, e seu antídoto, o conforto, é encontrado no exterior, no mundo material que nos cerca.

Essa noção popularizada de desconforto como um estado in­terno, desagradável e frequentemente fora de controle, é tema cen­tral neste livro. Se a inteireza remete à capacidade de vivenciar e utilizar toda a gama de estados psicológicos - emocionais, cogni­tivos e sociais -, nosso mal-estar generalizado com o desconforto deve estar ligado a uma estreiteza da experiência. Evitar estados desconfortáveis, ainda que proveitosos, nos impede de alcançar todo o nosso potencial. É interessante notar que essa relação distanciada [50] com o desconforto é um fenômeno muito ocidental, e especificamente norte-americano. Os norte-americanos são mui­tas coisas: criativos, confiantes, industriosos e famosos por serem irremediáveis otimistas. Acima de tudo, porém, são adeptos do conforto. Apesar dos bolsões de pobreza total e da assombrosa dis­paridade na distribuição de renda, os Estados Unidos são um lu­gar notavelmente organizado, conveniente e confortável para se viver. Os sinais de trânsito funcionam, os cinemas têm temperatura controlada, banheiros completos são tão comuns quanto manguei­ras para regar jardim, todo mundo tem acesso a xampu, e as pes­soas escolhem o colchão conforme o material, tamanho e maciez.

À medida que o mundo enriquece, não são apenas os norte-americanos que estão vivendo com mais conforto. Quanto mais uma sociedade se aproxima da dos Estados Unidos - Austrália, Canadá e o Reino Unido me vêm à mente -, maior é a probabili­dade de ter uma atitude semelhante (mas não idêntica) em rela­ção ao conforto. Quanto mais distante é uma cultura - pense no Zimbábue, China, Paquistão -, maior é a probabilidade de se sen­tir confortável com o desconforto. No entanto, em muitas partes do mundo em fase de desenvolvimento econômico, vemos uma classe média emergente que se distingue pelo conforto na mesma medida em que é separada pela renda.

Se você quiser ter uma noção de quão arraigada é a propensão da sociedade norte-americana ao conforto e a uma atitude positi­va, faça a seguinte pergunta: “Jesus era feliz?” Foi exatamente a pergunta feita pelo psicólogo Shigehiro Oishi e seus colegas da Universidade de Virgínia.1 Esses cientistas estavam menos interes­sados em encontrar uma resposta factual a essa questão do que em usá-la para avaliar as atitudes das pessoas. Os pesquisadores par­tiram do princípio de que, já que existe um único Jesus e uma narrativa [51] geral de sua vida (a narrativa bíblica), as diferenças de opi­nião em larga escala sobre a felicidade dele dariam uma espécie de teste de Rorschach cultural, em que as pessoas projetam suas predisposições mentais. Para essa investigação, eles pediram a de­zenas de pessoas nos Estados Unidos e na Coréia do Sul que escre­vessem tudo o que pensavam sobre Jesus. (O número de cristãos era praticamente o mesmo - cerca de 60% - nos dois grupos.)

Os norte-americanos mostraram acreditar muito mais que os sul-coreanos que Jesus era feliz. Além disso, descreveram Jesus como sendo muito mais extrovertido, aberto e agradável do que os sul-coreanos. Ainda mais interessante, os sul-coreanos menciona­ram mais desconforto com relação a Jesus. Escreveram muito mais - em muitos casos, cinco vezes mais - sobre sofrimento, sa­crifício, crucificação e sangue. Embora eventos desconfortáveis como a perseguição e a crucificação sejam centrais na narrativa da vida de Jesus, os norte-americanos mostraram uma tendência significativa a dizer que Jesus era maravilhoso, bom e gentil.

A tendência dos norte-americanos para o positivo não signifi­ca necessariamente desviar os olhos das adversidades. Será que não? Christie Napa Scollon, pesquisadora na Singapore Manage­ment University, e sua colega Laura King, da Universidade de Missouri, conduziram uma série de estudos inédita.2 Em vez de seguir a metodologia habitual, usando sofisticados modelos esta­tísticos de felicidade para determinar onde as pessoas se situam numa escala, os pesquisadores que colaboravam com elas pergun­taram a várias pessoas em que medida a riqueza, a felicidade, e o trabalho árduo contribuíam para o “bem viver”, que incluía bem-estar e sentido da vida. Os norte-americanos atribuíram maior valor à felicidade, e preferiam uma vida fácil a uma vida de traba­lho árduo, principalmente quando o trabalho árduo foi quantificado [52] em horas de trabalho. Os pesquisadores constataram tam­bém que os norte-americanos tendiam a considerar um relaciona­mento satisfatório mais importante para o bem viver do que um trabalho satisfatório. De fato, constataram que os participantes ti­nham opinião muito severa sobre pessoas, hipotéticas, que não tinham bons relacionamentos e achavam o trabalho compensador; muitos disseram que elas eram imorais e alguns chegaram a classificá-las de amaldiçoadas.

O anseio norte-americano por uma vida feliz e confortável não é apenas um assunto de interesse acadêmico abstrato. Vemos isso claramente em seu comportamento, especialmente enquanto con­sumidores. Desde a Segunda Guerra Mundial, os norte-america­nos têm vivido um período de riqueza sem precedentes. Mesmo no atual contexto econômico, em que vivem à sombra de uma cri­se do mercado imobiliário, de um alto nível de desemprego e falências em larga escala, a maioria está se saindo melhor que nunca em termos materiais. A aquisição de casa própria está ab­surdamente em alta nos Estados Unidos, assim como o consumo de aparelhos eletrônicos, automóveis e aparelhos de ar-condicionado. A população corre em busca de conforto e conveniências.3 Segundo Juliet Schor, autora de The Overspent American, atual­mente as pessoas sonham com viagens de luxo, casas melhores e mais conforto.4 Ela cita um estudo longitudinal da Universidade de Connecticut em que as pessoas deviam indicar os itens básicos que consideram como necessidade. Nos anos 1970, 13% apro­varam ar-condicionado no carro, e 25% precisavam de ar-condicionado em casa. Em meados dos anos 1990, as atitudes tinham mudado para incluir mais conforto pessoal, com 41% precisando de ar-condicionado no carro, e 50% precisando de ar-condiciona­ do em casa. [53]

Esse súbito desejo de ar-condicionado é particularmente inte­ressante no contexto da hierarquia de necessidades de Maslow.5 Lembremos que, em 1954, Maslow sugeriu que as pessoas satisfa­zem primeiro suas necessidades básicas, como alimento e abrigo, depois satisfazem necessidades sociais, e só então passam a se preocupar com autoestima e criatividade. Muitos cometem o en­gano de julgar que Maslow estava dando uma prescrição do bem viver. Sua proposta era descrever o funcionamento básico da mo­tivação humana.

À luz do nosso apego atual ao conforto, é interessante conside­rar o que realmente significa a palavra “básica” na expressão “ne­cessidade básica”. É fácil entender que o acesso à água limpa é uma necessidade básica para a sobrevivência. É ainda mais fácil entender que a termorregulação - a manutenção da temperatura normal da pessoa em todas as circunstâncias - é uma necessidade básica. Mas enquanto os humanos precisam de agasalhos para protegê-los contra o perigo da hipotermia, é difícil justificar que o ar-condicionado no carro seja uma necessidade básica, princi­palmente sabendo-se que um carro já é um luxo de proporções quase miraculosas.

Se o desejo das pessoas continuar a seguir essa trajetória, em breve o ar-condicionado no carro já não será suficiente. Haverá a necessidade de assentos aquecidos ou zonas separadas, aquecidas ou refrigeradas, para motorista e passageiros. Ah, e tem mais, nes­se exato momento, está surgindo um novo padrão nos novos car­ros! Seria interessante saber o número de pessoas que já consideram uma tela de vídeo no carro uma necessidade.

Aqui chegamos à tese deste capítulo. A medida que as pessoas vão se tornando mais capazes de satisfazer o desejo de conforto, mais restrita vai se tornando sua gama de experiências, e elas vão [54] perdendo a prática de lidar com as dificuldades da vida. Colocan­do de maneira mais linear: 1) o conforto material e os artigos de conveniência levam a 2) uma compulsão a usar objetos externos para se sentir bem, o que leva a 3) menor imunidade psicológica a circunstâncias menos confortáveis e mais inconvenientes. Não se engane: o conforto material afeta sua capacidade de se adaptar psicologicamente ao ambiente e lidar com dificuldades. O confor­to associado ao ar-condicionado induz, ao longo do tempo, uma situação em que estados internos como raiva, dúvida, desistência, incerteza e mindlessness se tornam esmagadores, ou vistos como reprováveis. É unicamente o vício do conforto que nos divide en­quanto indivíduos e nos impede de desfrutar de toda a gama de bem-estar psicológico.

Enquanto nossos avós podiam suportar poeira, chuva, sol a pino, as pessoas de hoje parecem ser menos capazes disso. Segun­do estatísticas do US Department of Health and Human Services, a taxa de crianças com alergia a alimentos nos Estados Unidos su­biu mais de 40% entre 1997 e 2011, e a prevalência de alergias de pele subiu quase 70% nesse grupo no mesmo período.6 A asma afeta hoje 17% das crianças norte-americanas, e vale notar que a taxa é mais elevada entre crianças que vivem 200% acima da li­nha de pobreza. Uma possibilidade é a chamada “hipótese de hi­giene”, em que as condições da vida moderna na classe média são limpas demais e dão muito poucas oportunidades de exposição e aquisição de resistência a agentes infecciosos.

O que aconteceu? Como a sociedade norte-americana e, em menor grau, a de seus primos culturais em outras sociedades oci­dentais modernas mudaram tão drasticamente? O que aconteceu entre o tempo dos homens das cavernas, que labutavam diaria­mente para manter uma existência frugal, e hoje, quando comerciais [55] de televisão ou cinco minutos de engarrafamento no trânsito parecem intoleráveis? Quando foi que perdemos a imunidade ao desconforto?

As origens do vício do conforto

Conforto e desconforto são temas tão antigos quanto as pessoas. É fácil imaginar o primeiro homem das cavernas que pegou a pedra que lhe servia de travesseiro dizendo: “Ugh! Quero mais macio!”, e pousando a cabeça sobre um monte de agulhas de pi­nheiro. O mesmo impulso de se manter aquecido (ou de evitar o calor), de relaxar os músculos doloridos, de ter contato com textu­ras macias, tem sido uma motivação universal através dos séculos.

Até a famosa frase de Hamlet: “Ser ou não ser”, da obra de Shakespeare, trata basicamente de tentar ou não superar a adversidade.7 Vejam bem:

Ser ou não ser, eis a questão:

Se ao espírito é mais nobre suportar
O disparo das flechas da fortuna infame
Ou pegar em armas contra um mar de dores.*

A pergunta do jovem príncipe fictício da Dinamarca é seme­lhante à de pessoas deprimidas que vivem hoje em Pensacola, To­ ronto ou Manchester: devo escolher a vida ou a morte? A resposta é baseada em graus de desconforto. Hamlet concluiu pela adesão à vida - apesar de todos os contratempos -, não porque fosse aventuroso [56] ou destemido, mas porque a alternativa - o desconhecido reino do além - causava ainda mais ansiedade do que os percalços da vida cotidiana! Vejamos mais uma vez o príncipe em ação:

Mas o pavor de algo após a morte, Desconhecido reino de cujo rio
Viajante algum retorna, refreia a vontade, E faz preferir sofrer os males que já temos.*

Em 1930, Sigmund Freud, a figura mais importante na histó­ria da psicologia, escreveu sobre o perigo do canto da sereia do conforto. Ele disse: “Isso significa colocar o prazer à frente da realidade e logo receber a punição.” Freud não tinha nada contra o prazer de dormir num travesseiro macio ou de sentir a brisa no rosto, e sim contra o prazer como motivador primário da ação. Ele dizia que a busca do conforto, e não o conforto propriamente dito, pode levar a decisões autocentradas e ter conseqüências sociais negativas.

Ainda mais incisivo foi o filósofo alemão Hegel, que disse: “O que os ingleses chamam de ‘conforto’ é algo inexaurível e ilimitável.” Hegel concluiu que “a necessidade de cada vez mais con­forto não surge diretamente na pessoa, mas é sugerida por aqueles que esperam tirar proveito de sua criação”.9 Vafle notar que, tal como Freud, Hegel enfatizou não o conforto em si, mas a “neces­sidade de conforto”. Hegel sugeriu que a necessidade de conforto é uma ilusão, do tipo alimentado hoje pelos gurus da propaganda das grandes lojas. Assim como o vício de tomar café, por exemplo, *Tradução livre. (N. da T.) [57] para Hegel, um desejo pode ser inócuo, mas não é natural nem saudável.

Em nossa era, mais moderna, a industrialização traz conforto e conveniência em proporções sem precedentes. Em um estudo do ritmo de vida, o psicólogo Robert Levine e seus colegas encontra­ram uma relação entre o PIB e o ritmo de vida acelerado.10 Levine mediu a rapidez com que as pessoas andam, a rapidez com que os carteiros cumprem sua tarefa básica, e o grau de exatidão dos re­lógios públicos para avaliar o ritmo relativo de vida de socieda­des. Não só a riqueza nacional está associada a um ritmo de vida mais rápido, como o ritmo de vida mais rápido está associado a uma taxa mais alta de consumo de energia. Pensemos em carros, eletrodomésticos, aquecedores de água - todos são artigos relacio­nados à conveniência e ao conforto. Mas aí vem o outro lado: um ritmo de vida mais acelerado está relacionado a taxas menores de empreendimentos e poupança financeira. Quanto mais artigos de conveniência as pessoas têm, menos se dão ao trabalho de ter autocontrole nos gastos. Vejamos o exemplo da frustração. Em lu­gares onde tudo é feito com rapidez, as pessoas acham intolerável a espera numa fila ou no trânsito. Em outras palavras, quanto mais confortável é sua vida, menos paciente você é diante do que julga ser um problema.

Embora este livro seja basicamente sobre conforto psicológi­co, vamos nos deter um momento para dizer que existe uma rela­ção direta entre conforto físico básico (em psicologia, chamamos de “sensações confortáveis”) e confortos psicológicos mais com­plexos (que seriam o que chamamos de “estados emocionais”). Afi­nal, estamos todos presos a essa existência física pelo corpo. O corpo é uma membrana, por assim dizer, entre os eventos do mundo e a pessoa que entendemos [58] como “si mesmo”. O corpo age como uma espécie de termos­tato - muitas vezes, literalmente - por meio do qual vivenciamos os confortos e desconfortos do mundo. Pesquisadores observaram que todo mundo tem uma gama específica de adaptação às condi­ções do ambiente, o que inclui odores, ruídos, temperatura. É por isso que você não nota como seu escritório é refrigerado até sair em pleno calor do verão lá fora. O impulso para ter conforto físico é normal, e sua capacidade natural de se adaptar é parte desse impulso.

Talvez você se surpreenda ao saber que a repugnância fornece um exemplo perfeito de como as sensações físicas e psicológicas podem se entrelaçar. O nojo é uma sensação que nos leva a evitar coisas nocivas, como alimentos estragados. Pesquisadores usam testes extremamente criativos para medir a sensibilidade à repug­nância. Já fizeram os participantes assoarem o nariz em um rolo de papel higiênico, tomar suco de laranja num urinol, e obser­varam se conseguiam chegar perto de uma cabeça de porco decepada. Há também um tipo mais psicológico de repugnância, conhecido como “repugnância moral”. As pessoas tendem a evitar se deitar numa cama em que dormiu um assassino, da mesma for­ma que evitam uma poça de vômito. Têm tanta relutância em vestir um suéter que pertenceu a Hitler quanto a comer um cho­colate com formato de cocô de cachorro. Vê-se que a sensibilidade à repugnância está diretamente relacionada ao senso de conforto, principalmente quando se trata do mundo natural.

Os pesquisadores Robert Bixler e Myron Floyd ficaram curio­sos para investigar sua hipótese de que a gama de conforto das pes­soas foi se tornando mais restrita ao longo dos anos.12 Quando perguntaram a centenas de crianças em idade escolar como se sen­tiam em relação à natureza, crianças medrosas e com repugnâncias [59] disseram preferir passar a hora do recreio em ambiente fechado ou, se um adulto detestável as obrigasse a ir para o ar livre, prefe­riam passear em parques bem cuidados. Em seguida, apresenta­ram às crianças frases com uma escala do quanto sentiriam falta de conforto se passassem uma semana inteira ao ar livre, numa “simulação” de acampamento de pioneiros na colonização do Te­xas. “Eu não sentiria nenhuma falta” teve zero na escala. “Eu não poderia viver sem conforto” obteve 4. A média para banho de chu­veiro ou banheira foi 3; descarga no banheiro, 2,63; água quente, 2,69; e ar-condicionado, 2,66. É claro que os verdadeiros colonizadores do Texas viviam muito bem sem ter nada disso. Fomos ficando gradualmente mais frouxos desde o tempo em que os pioneiros atravessavam os Estados Unidos em carroções até o advento de poltronas reclináveis e jogos Playstation. O que consideramos conforto se tornou cada vez mais limitado.

Vale notar que esse estudo das atitudes de crianças com rela­ção ao conforto foi publicado em 1997, e foi nos anos 1990 que o vício do conforto deslanchou. Não se questiona que a geração que enfrentou a Grande Depressão de 1929 e a Segunda Guerra Mun­dial - chamada de Greatest Generation - foi capaz de lidar com adversidades. Apesar do progresso da economia nos anos após a Segunda Guerra Mundial, as décadas de 1950,1960 e 1970 foram definidas basicamente pelo movimento de direitos civis, com hip­pies protestando contra o sistema e questionando a Guerra do Vietnã. Quando Ronald Reagan assumiu a presidência, em 1981, o clima social e econômico amainou, culminando com a passagem do governo para Bill Clinton, em 1990. Aqui começamos a ver o drástico aumento da classe confortável, e ouviu-se pela primeira vez a expressão comfort food, numa indicação óbvia de que nossa relação com as necessidades básicas estava mudando. [60]

Hoje, décadas depois, no contexto da Primavera Árabe e das guerras no Iraque e Afeganistão, é difícil recordar o quanto os anos 1990 foram uma época singular. Para quem viveu os tempos dos movimentos de protesto dos anos 1960, da crise de gasolina e dos reféns nos anos 1970,1980 e especialmente os 1990, foi uma época muito diferente. Havia um sentimento de que o mundo es­tava ficando melhor. Após décadas de injustiça institucionaliza­da, o apartheid na África do Sul ruiu. A União Soviética, rival por excelência dos Estados Unidos no palco mundial, espatifou. Co­mo se fosse preciso ter mais provas de seu poderio militar, os Es­tados Unidos derrubaram a máquina militar de Saddam Hussein em uma semana. A bolsa de valores norte-americana subia à estratosfera, e a internet se tornava um novo motor global da criati­vidade e das finanças. Em suma, tudo parecia muito confortável nos Estados Unidos, como nunca se vira em toda a história da humanidade.

As expectativas subiram na mesma medida da maré econômi­ca e política. A felicidade passou a ser vista, não como um objeti­vo desejável, mas como um imperativo moral. Até Shigehiro Oishi - do estudo sobre Jesus, já mencionado - e seus colegas usaram o Google para buscar exemplos da pessoa feliz em livros norte-ame­ricanos de 1800 a 2008.13 Como se pode imaginar, os autores de 1800 e início de 1900 ignoravam essa expressão. Só depois, nos Loucos Anos 20 (the Roaring Twenties), os livros começaram a fa­lar da pessoa feliz, um fenômeno que veio num crescendo e che­gou ao auge na década de 1990, quando dificilmente alguém saía de uma livraria sem comprar um livro que tivesse essa expressão. Nos anos que se seguiram, o uso do termo pessoa feliz não caiu mui­to. De 1990 a 2008, o número de referências à “pessoa feliz” foi [61] igual ao dos cinqüenta anos precedentes. As normas sociais estavam claramente a caminho.

Foi no início dos anos 1990 que a primeira lei de “morte com dignidade” foi promulgada nos Estados Unidos. Em essência, a lei admite a morte planejada de pessoas com enorme desconforto físico ou perda de dignidade, o que é também uma forma de des­conforto mental. Essa lei, independentemente do que você pensa a respeito, reflete uma sociedade que chegou a tal extremo para satisfazer as necessidades básicas que é possível marcar a hora e o modo da morte de uma pessoa. Foi também no início dos 1990 que ouvimos pela primeira vez a expressão zona de conforto - uma ga­ma de experiências muito familiares, que geram a sensação de estar à vontade - no contexto do mundo dos negócios. Um texto sobre negócios aconselha explicitamente os empresários a manterem seus empregados fora da zona de conforto.

A cereja do bolo de conforto é possivelmente a maior invenção confortável de todos os tempos. Nos anos 1960, cientistas da NA­SA criaram uma tecnologia para diminuir o desconforto dos as­tronautas no lançamento e no espaço. Mas somente em 1991 essa tecnologia foi colocada no mercado, ao alcance dos civis: a espu­ma de memória foi lançada na forma dos colchões, almofadas e travesseiros mais confortáveis na face da Terra. Especialistas em marketing concluíram que, durante os anos 1990, as pessoas estavam dispostas a pagar preços exorbitantes por uma cama que se adaptava perfeitamente às suas dimensões: a última palavra em termos de sono confortável. Como se colchões de mola ou de água não fossem confortáveis o suficiente, tínhamos agora um mate­rial que se amoldava de maneira a nos sentirmos repousados até nos menores contornos do corpo. Após 200 mil anos, os humanos [62] podiam finalmente dormir do modo como - supostamente - me­reciam.

Pesquisadores observam que, à medida que ficamos mais con­fortáveis, há uma queda em nossa saúde psicológica. A ansiedade, especialmente, parecia estar em ascensão. Em 1996, pela primeira vez na história, as clínicas das faculdades começaram a receber alunos queixando-se de ansiedade com maior frequência do que de depressão e problemas relacionados, e essa tendência perma­nece até hoje.14 Em consonância, os anos 1990 viram uma peque­na alta de agressão no trânsito nos Estados Unidos. Em estatísticas coletadas para a AAA Foundation for Traffic Safety, o número de incidentes agressivos no trânsito passou de 1.129 em 1990 para 1.708 em 1995, um aumento de 50%.15 A capacidade dos norte-americanos para tolerar pequenas frustrações nas horas de rush e entender que uma fechada no trânsito não era um insulto pes­soal estava diminuindo. Durante os anos 1990 foram registrados mais de 10 mil incidentes agressivos em que duzentas pessoas morreram e 12 mil foram feridas. Nos anos 1990, a vida era tão boa que as pessoas às vezes não sabiam o que fazer quando algu­ma coisa saía dos trilhos.

Mais importante ainda, em meados dos anos 1990 surgiu um termo agourento relativo ao conforto psicológico. A medida que as pessoas dormiam melhor, desfrutando de mais objetos de con­veniência e contando com uma felicidade cada vez maior, iam se adaptando a uma vida sem muitas provações e dificuldades. Foi então que o termo evitação experiencial entrou no léxico da psico­logia.16 A evitação experiencial pode ser definida como a tentativa de recalcar pensamentos e sentimentos indesejados, de se escon­der deles tão ativamente que sobra pouca energia para estar pre­sente no correr da vida. Sim, foi a primeira vez que as pessoas tiveram [63] escolhas, liberdade e possibilidades suficientes para evi­tar as coisas - muitas coisas. E evitaram. Principalmente as emo­ções. O crescente desconforto diante de dúvidas, tédio e emoções negativas produziu mudanças mensuráveis. Uma estratégia de escape comum, por exemplo, é ver televisão. O entretenimento proporcionado pela televisão é inquestionável, mas se alia à fun­ção de nos afastar das questões do cotidiano. Entre os anos 1950 e 1970, a média de tempo de assistir à televisão numa casa era de cinco a seis horas por dia. Nos anos 1980 e 1990, esse número su­biu para sete horas e meia por dia.17

É possível evitar o que está dentro de você?

O recurso principal de profissionais de saúde mental para diag­nóstico e tratamento é o Diagnostic and Statistical Manual of Men­tal Disorders, mais conhecido como DSM. Em 1980, o DSM era um livro de peso, com 494 páginas e 265 doenças mentais adicio­nadas. Em 1994, era um monstro com o dobro do tamanho, 886 páginas e mais 32 doenças mentais classificadas. Os profissionais de saúde pareciam concordar que sentir muita tristeza, muita an­siedade, raiva muito freqüente ou muito intensa, e se defrontar com pensamentos complicados eram sinais de doença. O DSM classifica muitos problemas legítimos, como a esquizofrenia, mas é difícil aceitar a noção de que sentir tristeza durante duas semanas ou mais num grau que interfere com o trabalho ou os relacionamentos é um problema clinicamente significativo. Mas a população em geral captou a mensagem: o sofrimento é ruim, e os profissionais de saúde mental podem ajudar a evitar. Mas como evitar o que está dentro de você? [64]

Os líderes da American Psychological Association tiveram boas razões para eleger dr. Albert Ellis o “segundo psicólogo mais im­portante no século XX” (um lugar à frente de Sigmund Freud e atrás somente de Carl Rogers).18 Ellis lançou a ideia de que alguns comportamentos não podem ser controlados pelo pensamento racional. Fundador da terapia cognitivo-comportamental (TCB), Ellis identificou três crenças disfuncionais importantes na cons­trução direta do sofrimento e do comportamento destrutivo:

  1.  “Preciso fazer tudo bem e obter a aprovação dos outros para ser aceito. ”
  2. “Os outros precisam fazer ‘o que é certo’, se não, não são bons.”
  3. “A vida tem que ser fácil, sem desconforto e inconveniências.”

Nos anos 1950 e 1960, essas idéias eram revolucionárias. Em vez de atribuir a conflitos não resolvidos na infância ou a eventos traumáticos as causas de dificuldades psicológicas, Ellis propu­nha que os problemas se originam nas crenças adotadas pelas pes­soas sobre si mesmas, os outros e o mundo ao seu redor. Ellis não só articulou o problema, mas criou um sistema em que o terapeu­ta pode ajudar o cliente a identificar e questionar suas crenças pessoais. Seu método é eficaz, reprodutível, e teve grande desta­que na psicoterapia durante décadas. Renomeada em 1990 como “otimismo aprendido” pelo dr. Martin Seligman, fundador da psi­cologia positiva, a ideia de Ellis é ensinar as pessoas a reduzir o sofrimento emocional que sabota a felicidade.19 Apesar de todo o seu mérito, essa é uma extensão lógica do vício do conforto fí­sico. Se as condições físicas não são do nosso agrado, tentamos modificá-las até que o sejam. Da mesma forma, se nosso ânimo [65] e nossas lembranças nos deixam infelizes, devemos modificá-los até que sejam menos incômodos.

Essa ideia enfrentou desafios durante trinta anos. Depois, al­guns hippies expostos ao movimento do potencial humano e a fi­losofias orientais nos anos 1960 cresceram, se tornaram psicólogos e lançaram uma nova forma de terapia conhecida como terapia da aceitação e compromisso, ou ACT20. Os doutores Steven Hayes, Kelly Wilson, Elizabeth Gifford, Victoria Follette e Kirk Strosahl trouxeram questões novas e provocativas. E se os terapeutas esti­vessem usando o critério errado para determinar o que é normal e anormal? E se o foco na intensidade e negatividade dos pensa­mentos, sentimentos e comportamentos não fosse o melhor indi­cador de saúde mental? E se, em vez disso, víssemos o que as pessoas fazem com esses pensamentos, sentimentos e comporta­mentos? Esse grupo de pesquisadores observou que, quando as pessoas têm um sofrimento psicológico, elas agem da mesma for­ma que as pessoas que têm um sofrimento físico. Quando você torce o tornozelo, por exemplo, tende a restringir o uso da perna. O mesmo se aplica a uma adversidade mental. Quando um amigo ou namorado fere seus sentimentos, você restringe a amizade, in­teragindo menos. Quando as emoções se intensificam, você as evi­ta assistindo à televisão, dormindo ou tomando cerveja.

A alternativa a mudar ou evitar pensamentos, lembranças, sensações e sentimentos dolorosos é aprender que você pode su­portar o desconforto psicológico, da mesma maneira que suporta o desconforto físico de dar uma caminhada numa tarde de chuva. Pode não ser a sua preferência, mas não há dúvida de que você po­de. Imagine como será libertador aproveitar a vida sem que pensa­mentos e sentimentos indesejáveis sejam inimigos contra os quais temos que lutar, e conseguir vencer. Imagine que esses pensamentos [66] e sentimentos sejam como uma música de fundo tocando no rádio. Eles estão sempre lá, mas podemos prestar muita ou pouca atenção. A premissa central da ACT é que você carrega os pensa­mentos e sentimentos difíceis lá dentro. Você os observa, mas eles e você não são a mesma coisa.

Vale repetir: você não é suas experiências psicológicas, ainda que elas possam afetar você. Pode soar esquisito - até mesmo ra­dical - sugerir que você não é a mesma coisa que seus pensamen­tos e sentimentos. Você não é os pensamentos desconfortáveis em sua cabeça - nem os sentimentos que eles despertam - justamente porque você pode observá-los. Seja quem ou o que for o observa­dor - o self, a personalidade, a alma, chame como quiser - está, por definição, separado desses sentimentos, e o fato de que você pode observá-los é prova disso. Quando você reconhece que esse observador está separado do sofrimento, pode conseguir tolerar melhor o sofrimento.

A maioria dos nossos problemas não advêm dos pensamentos e sentimentos indesejáveis, como Ellis sugeriu, mas da relutância em abordá-los. Vale dizer que, quando se trata da ansiedade, há um só problema subjacente: a evitação.21 Um rápido olhar no mais recente DSM mostra que existem vários tipos de distúrbios de ansiedade, desde a ansiedade social até a ansiedade pós-traumática e ao distúrbio de pânico. Cada um desses tipos é uma forma legítima de sofrimento, mas todos têm um denominador comum. Quando você acha que está sendo rejeitado ou que suas falhas de caráter poderão ser expostas, é compreensível que tente evitar a ansiedade. Infelizmente, em vez de acalmar, evitação da ansieda­de tem o efeito oposto, e só a intensifica no correr do tempo.

Muitos terapeutas bem sabem que os clientes geralmente têm problemas emocionais secundários. A pessoa pode se sentir culpada, [67] por exemplo, e se culpar por se sentir culpada! Ou se sentir deprimida e ter raiva de estar deprimida. A mesma coisa acontece com a ansiedade. A pessoa se sente ansiosa com certas situações, e a tensão é agravada pelo medo de ficar ansiosa. Imagine como a vida seria mais fácil se a pessoa conseguisse remover essa segunda camada de problema mental simplesmente se sentindo forte o su­ficiente para suportar a ansiedade.

Essa noção, de ter uma atitude mais rija a respeito de estados internos, é importante. Desenvolver a tolerância a estados psico­lógicos mais desafiadores não só nos ajuda enquanto indivíduos, mas também, em longo prazo, é bom para a sociedade. Isso porque o vício do conforto não é um incômodo apenas individual. Em termos coletivos, é um legado para nossos filhos.

Vício do conforto: o legado para nossos filhos 

Na sociedade moderna muito se tem escrito sobre os vários males que podem afetar nossos filhos. Obesidade. Bullying. Videogames. Mensagens eróticas enviadas por celular. Uso de drogas. Gravidez indesejada. Doenças sexualmente transmissíveis. Violência. Não passar de ano. Piruetas de skate. A lista de perigos cai nos ouvidos dos pais como uma avalanche e, num surto de protecionismo bem-intencionado, corremos a salvá-los como nunca antes. Em meados da década de 1980, as pessoas começaram a colocar o ade­sivo de Bebê a Bordo nos carros, como aviso para outros motoris­tas e um modo de evocar um mundo mais seguro. Não vivemos mais numa era centrada nos adultos, em que as crianças deviam ser vistas, mas não ouvidas. Atualmente, as crianças são o ponto [68] focal, e os pais agem como uma espécie de segurança privada para assegurar seu bem-estar.

De fato, nos últimos trinta anos os pais vêm ficando cada vez mais preocupados com segurança. Hoje usamos ameaças e recom­pensas, por exemplo, o que era raro nos anos 1950, 60 e 70 nas relações com os filhos. Pesquisadores de atitudes parentais obser­varam que hoje em dia os pais tendem muito mais a organizar as atividades dos filhos e a direcioná-los para essas atividades. As pesquisadoras australianas Trine Fotel e Thyra Thomsen se inte­ressaram em saber se essas taxas mais altas de direcionamento seriam devidas a outros fatores, como distâncias mais longas para a escola.22 Elas constataram que aproximadamente 55% a 60% do aumento da prática de levar os filhos de carro para a escola estão diretamente relacionados ao receio de riscos. Apesar de estatísti­cas mostrarem uma diminuição de acidentes envolvendo bicicletas de crianças, os pais têm mais medo de deixar os filhos dividirem as ruas com os carros.23 Após se queixar das condições perigosas do trânsito, uma mãe concluiu:

Foi um problema para ele eu não ter ensinado como proceder [de bicicleta] no trânsito. Somente quando vi o quanto os co­legas riam dele porque sempre chegava à escola de carro, foi que percebi como isso o afetava. Precisei tomar uma atitude, e ele se revelou muito bom na bicicleta.24

Uma das mudanças mais óbvias nas atitudes dos pais ocorreu nos playgrounds. Poucas décadas atrás, os playgrounds das esco­las eram cheios de brinquedos de madeira, mas tábuas apodreci­das e farpas em abundância levaram pais e diretores de escolas a trocá-los por brinquedos de metal e plástico.

Em um estudo recente [69] sobre segurança em playgrounds, Anita Bundy e seus cole­gas colocaram na área do play objetos soltos, sem finalidade, como caixas de papelão, tambores de plástico, fardos de feno, pneus de carros e pedaços de canos.25 Na coleta de dados sobre as atitudes das crianças e dos professores-supervisores, os pesquisadores vi­ram que o equipamento menos estruturado provocou uma série de mudanças. Primeiro, as crianças demonstraram um aumento sig­nificativo de atividades físicas vigorosas. Segundo, os supervisores se preocuparam mais. Os professores-supervisores elogiaram mui­to o aumento substancial de brincadeiras criativas, de socializa­ção, e a diminuição da agressividade. Sendo assim, se os materiais dos playgrounds das escolas antigas trouxeram tantos benefícios tangíveis, por que eles ficaram preocupados? Os pesquisadores relataram que a preocupação maior foi com o risco de as crianças se machucarem e eles sentiam ter a responsabilidade de impedir.

O ambiente das escolas parece ser tão aterrorizante que pais adentram as salas de aula para ajudar a proteger os filhos contra perigos psicológicos em potencial, como bullying, problemas de autoestima, de aceitação, ou ficar para trás nos estudos. A isso, a socióloga Catharine Warner chama de “salvaguarda emocional”, mas nós chamamos de “helicóptero parental”.26 É interessante no­tar que essas intromissões são mais comuns entre pais de classe média, ou seja, são mais freqüentes entre aqueles que estão mais confortáveis. Numa análise dessa tendência parental, Warner con­clui que pais bem-intencionados têm desejos conflitantes com rela­ção aos filhos. Por um lado, querem que os filhos tenham desafios intelectuais e, por outro lado, querem que sejam felizes, popu­lares, compreendidos, psicologicamente confortáveis. É como se nós, pais, coletivamente, não pudéssemos ver que esses mesmos desafios, frustrações e fracassos aceitos por nós como estimulantes [70] para o crescimento acadêmico de nossos amados rebentos são também necessários ao desenvolvimento psicológico deles.

Aqui está a atitude de conforto, muito bem resumida num co­mentário feito pela mãe de uma aluna do primeiro ano que parti­cipou do estudo de Warner:

Queremos que ela esteja num lugar onde sinta segurança, on­de sua autoestima seja realmente estimulada, e não espezi­nhada. Penso que essa é nossa maior preocupação. E também, é claro, queremos que ela esteja num lugar em que seja bem acolhida e educada, mas que ao mesmo tempo seja devidamente exposta a desafios.

Se você tem 30 anos ou mais, temos certeza de que seus pais jamais disseram algo parecido com isso numa reunião de pais e professores. Em vez disso, devem ter olhado nos olhos da profes­sora e perguntado algo do tipo: “Como ela está em matemática?” Não que o jeito antigo fosse áspero, ou que somente agora tenha­mos aberto os olhos para o bem-estar das crianças. Acontece que os pais modernos entenderam muito mal a diferença. Vemos peri­go em toda parte. Aqui está o outro lado da história, visto por uma professora do primeiro ano, muito elogiada por pais de alunos, que também participou da pesquisa de Warner:

Os pais vivem dizendo: “Ah, meu filho fica muito ansioso quando vem à escola, ele não quer vir à escola.” Mas, na ver­dade, quando a criança chega aqui, fica ótima. Eu acho que talvez os pais é que fiquem ansiosos quanto a alguma coisa, e a criança adota esse sentimento. [71]

Ela resumiu a situação. O mundo parece perigoso. Sem dúvi­da, existem perigos reais à nossa volta, mas adotamos uma visão de mundo coletiva que amplifica os perigos reais. No que concerne aos nossos filhos, se insistirmos numa criação muito antisséptica, eles estarão mal preparados para as intempéries da adolescência e da idade adulta. Em vários aspectos, os pais modernos estão cegos para os diversos benefícios dos desafios. Não se preocupe, não es­tamos apontando o dedo para você; estamos prontos a reconhecer nossa parte da culpa. Pode ser tão fácil aceitar a ideia de que o de­safio intelectual é uma parte vital da educação quanto pode ser difícil aceitar o fato de que o desafio é igualmente benéfico para o desenvolvimento social e emocional.

Qual é a alternativa?

Para conhecer de perto uma realidade alternativa - um mundo em que estados negativos são tolerados - você tem de viajar para a Ásia. Pessoas de origem asiática são frequentemente chamadas de “coletivistas”, porque sua unidade social básica é o grupo e não o indivíduo.27 Os coletivistas tendem mais a refrear seus próprios desejos, se isso contribuir para o bem do grupo. Tendem mais a querer se adaptar do que se destacar. Tendem mais a se ver como seres de identidade fluida, e não de características estáveis trans­feridas de uma situação a outra. O lendário psicólogo social Ro­bert Wyer resumiu da seguinte maneira:

O individualista acha que, se alguém o convida para jantar, ele deve retribuir, convidando a pessoa para jantar algum tempo [72] depois. O coletivista, por sua vez, pode achar que, se uma pes­soa o convida para jantar, ele deve convidar alguém, qualquer pessoa, para jantar algum tempo depois. [28]

Correndo o risco de certo exagero, dizemos que os asiáticos têm uma relação com suas experiências emocionais de um modo muito diferente do ocidental. Por exemplo: se você perguntar a um caucasiano norte-americano ou canadense “Você está feliz?”, ambos farão um rápido cálculo interno. Provavelmente, estarão vasculhando seu próprio estado de espírito momento a momento, e uma olhadela no estado interior produzirá uma resposta preci­sa. Se essa mesma pergunta for feita a uma mulher sul-coreana, por exemplo, ela provavelmente colocará o mesmo peso em sua experiência interna e nas normas culturais para saber como ela deve se sentir naquela determinada situação. [29]

Pesquisadores descobriram diferenças culturais interessantes no modo como as pessoas preferem se sentir.30 Os asiáticos, por exemplo, tendem mais a desejar emoções positivas de baixa in­tensidade, como paz, harmonia, contentamento e calma. Em con­traste, os ocidentais tendem mais a desejar emoções positivas de alta intensidade, como entusiasmo, alegria e orgulho. Ou seja, os norte-americanos gostam de estar agitados e essa tendência emo­cional é autoestimulante. Num estudo conduzido por nós, exami­namos as experiências emocionais de pessoas de várias culturas.31 Vimos que a intensidade do prazer afeta as recordações que os norte-americanos têm de suas experiências emocionais; eles asso­ciam lembranças de sensações mais prazerosas às ocasiões em que tiveram sensações mais intensas. Essa particularidade não se apli­ca aos japoneses em suas recordações. [73]

As diferenças entre orientais e ocidentais são especialmente pronunciadas quando se trata de experiências psicológicas negati­vas, e a maior diferença entre as relações emocionais se refere à re­pressão. Em termos psicológicos, a repressão tem raízes na teoria freudiana de mecanismos de defesa, uma manobra mental que as pessoas empregam para manter o sofrimento emocional afastado. Reprimir (esquecer) experiências más e recorrer ao humor para rir da adversidade são exemplos de mecanismos de defesa. Re­primir significa recalcar, ou empurrar para baixo, a experiência. Muitos ocidentais se prendem ao estereótipo do asiático reprimi­do porque, tipicamente, é difícil saber o que eles estão pensando. Isso acontece porque, em geral, as culturas coletivistas preconizam o hábito de manter uma expressão impassível para atuar no meio social. Mas se os asiáticos são mais propensos a reprimir a expres­são da emoção, não é assim que reagem à verdadeira experiência da emoção. O fato é que os asiáticos tendem a tolerar muito bem as experiências emocionais desagradáveis. Estudos mostram que, ao contrário dos ocidentais, quando eles têm períodos de tristeza ou rompantes de irritação, não tentam buscar uma distração ou apelar para o humor.

Essa tendência pode ser vista na maneira como os norte-ame­ricanos e as pessoas de cultura asiática diferem quando estão de­primidos. Você, como praticamente todo mundo que conhece, tem uma noção intuitiva do que é a depressão. Talvez você já tenha estado deprimido. Seja como for, você sabe que a depressão inclui tristeza, falta de energia, incapacidade de aproveitar a vida, e às vezes problemas de sono, falta de cuidados corporais e de concen­tração. Em casos extremos pode apresentar pensamentos de suicí­dio e sentimento de desesperança. Muitos ocidentais lidam com esses sentimentos opressivos usando alguma estratégia de amortecimento [74] para evitá-los, que pode incluir abuso de drogas ou exces­so de sono. Os asiáticos não costumam adotar essa estratégia.

Em um estudo, os pesquisadores exibiram um trecho de um filme engraçado a norte-americanos e a descendentes de asiáticos, todos deprimidos.32 Os asiáticos riram e sorriram diante das cenas cômicas, e os norte-americanos, não. Em outro estudo, norte-ame­ricanos deprimidos reagiram apenas com mutismo diante de um filme triste. Os asiáticos deprimidos mostraram mais tendência a chorar. Ao que parece, os norte-americanos desligaram um botão de sentimento, enquanto os asiáticos sentiram fortemente a emo­ção. Em suma, os asiáticos parecem ficar mais confortáveis com sentimentos desagradáveis, e é aqui que talvez possamos nos be­neficiar de examinar mais detidamente esse fenômeno.

Vê-se que a tendência cultural a se aproximar ou se afastar de estados psicológicos negativos é aprendida. É estranho pensar que seus sentimentos lhe foram ensinados da mesma maneira que a língua materna, mas é exatamente o que acontece. Esse ponto foi ilustrado brilhantemente numa série de estudos conduzidos por Jeanne Tsai, da Universidade de Stanford, e seus colegas.33 Os pes­quisadores listaram os livros infantis mais vendidos publicados nos Estados Unidos e em Taiwan em 2005. Uma análise detalhada das ilustrações mostrou que os livros norte-americanos apresenta­vam sorrisos mais largos, expressões faciais mais animadas e mo­vimentos mais exuberantes. Em um estudo de acompanhamento, Tsai e colegas leram separadamente para crianças norte-america­nas e taiwanesas, e logo após as crianças foram escolhidas aleato­riamente para ouvir a versão agitada, americana, de uma história sobre nadar numa piscina (mergulho bala de canhão!) ou a versão mais calma, taiwanesa, da mesma história (boiando suavemente). [75]

Depois, apresentaram às crianças uma série de atividades lú­dicas, cada qual com uma versão agitada e outra mais calma. Uma das perguntas foi: “Você prefere tocar um tambor rápido, BUM-BUM-BUM, ou um tambor lento e suave, tap-tap-tap?” Independentemente da origem cultural, as crianças que haviam sido expostas à história agitada preferiram as atividades mais agita­das. Quantas histórias você leu para seus filhos mostrando a capa­cidade de um personagem tolerar emoções negativas? Devemos reconhecer que o dr. Seuss abordou esse tema em vários livros, in­clusive I Had Trouble in Getting to Solla Sallew, mas ele parece ser exceção. Livros sobre tolerância à negatividade são muito mais comuns na Ásia. Os norte-americanos, em contraste, brindam as crianças com aniversários animados, refeições alegres e finais fe­lizes, mas não há tristeza e pesar nos intervalos. Pais e educadores interessados podem ver aqui uma oportunidade de usar materiais educativos e interações sociais do cotidiano para ensinar os filhos a tolerar o desconforto.

Não pretendemos romantizar a cultura asiática. De fato, várias pesquisas sugerem que os asiáticos tendem a evitar saborear expe­riências positivas.34 Talvez vejam as condições num fluxo contínuo e portanto tenham mais cautela, ao invés da avidez dos norte-ame­ricanos pelos momentos positivos. Seja qual for a dinâmica psi­cológica envolvida, os asiáticos parecem sacrificar um pouquinho da felicidade e tolerar melhor as emoções desagradáveis. Nossa intenção aqui é enfatizar a real possibilidade de que os norte-ame­ricanos e outros povos ocidentais consigam largar o vício do con­forto e a intolerância psicológica que o acompanha.

Se as sociedades ocidentais puderem se abrir para um pouqui­nho mais de perigo, uma lasquinha a mais de risco, um tiquinho a mais de adversidade e até um bocadinho de fracasso, poderão [76] recuperar um pouco da robustez mental que anda de mãos dadas com essas experiências. É claro que não estamos recomendando que você jogue seu ar-condicionado pela janela, atire longe seu smartphone e arranque as descargas dos banheiros. Não estamos encorajando ninguém a deixar os filhos brincarem em lugares pe­rigosos, nem a sair correndo para comprar livrinhos taiwaneses a fim de estimular a tolerância dos filhotes aos estados negativos. Ainda assim, algumas mudanças são necessárias se quisermos criar pessoas mais firmes, mais preparadas psicologicamente. Sa­bendo que é sempre difícil empreender uma mudança importan­te, encorajamos você a dar um pequeno passo de cada vez para conhecer os benefícios do desconforto emocional, os resultados positivos de estados cognitivos complicados, e aprender a expan­dir os horizontes, por meio da tolerância, ao lidar com situações sociais mais exigentes.

O Santo Graal da Psicologia

É tentador pensar na psicologia moderna como sinônimo de psicoterapia. Os filmes que mostram psicólogos geralmente os re­tratam como terapeutas e raramente, se é que alguma vez, como pesquisadores. Existe alguma verdade nesse estereótipo: dos 175 mil psicólogos nos Estados Unidos, bem mais da metade são tera­peutas com mestrado ou doutorado. Os demais são, mais ou menos, pesquisadores, professores ou consultores. Dado que uma parte tão grande da psicologia é hoje voltada para o estudo e tratamento de depressão, ansiedade e outros problemas mentais prevalentes, é fácil ignorar o simples fato de que a ciência da psicologia se con­centra há muito tempo em otimizar o funcionamento humano. [77]

A psicologia é uma ciência relativamente jovem. Em seus primórdios, tentando se firmar como uma ciência empírica legítima, médicos como Hermann von Helmholtz trabalharam no sentido de uma compreensão confiável das funções humanas básicas. Ele conseguiu, por exemplo, computar a velocidade de impulsos elé­tricos nervosos atravessando o corpo (27,43 metros por segundo).35 Na virada do século XX, os psicólogos mudaram o foco: em vez de tentar entender como as pessoas funcionam, passaram a tentar en­tender o que as faz funcionar bem. Muitos dos maiores intelectos do século XX se concentraram em descobrir como o ser humano evolui. Sigmund Freud e William James, para tomar dois exemplos proeminentes, abusaram de palavras como integração, desenvolvi­mento e salutar. Eles acreditavam que os humanos são diferentes dos animais, dado que, coletivamente, podemos transcender nos­sa natureza e fazer planejamentos para um futuro que podemos alcançar (e nos distanciar de situações muito incômodas).

Depois da Segunda Guerra Mundial, a psicologia desviou o foco da saúde psicológica para a doença psicológica. Palavras co­mo “potencial” foram substituídas por “sintoma” e “distúrbio”. Em vista de legiões de soldados retornando do front com depres­são e traumas, era de esperar que a psicologia criasse tratamentos mais eficazes contra esses males. Essa tendência permanece - mais ou menos - até hoje. Mesmo assim, houve quem conduzisse aos aspectos positivos da psicologia, acadêmicos muito enamora­dos de tópicos positivos como generosidade, resiliência, confiança e perdão, em vez de focalizar apenas a doença mental. Nos anos 1950, 60 e 70, Abraham Maslow, Carl Rogers e outros humanistas reacenderam o interesse pelo potencial humano. Mais recente­mente, psicólogos - nós entre eles - voltamos a atenção para aspectos mais solares da natureza humana. [78] O momento de retomada desses tópicos se encaixou muito bem numa nova onda de prosperidade. O desenvolvimento econô­mico dos anos 1970, 80 e 90, como já mencionamos, gerou nos norte-americanos uma mudança de foco, elegendo o conforto e o sucesso. O excesso de conforto debilitou o vigor norte-americano, mas o objetivo geral de ser bem-sucedido impulsionou as crescen­tes pesquisas da psicologia positiva. Sugerimos que esses dois pon­tos do interesse - o potencial humano e o manejo do lado obscuro da humanidade - não precisam ser conflitantes. A fusão desses dois temas nos dá um acesso pleno à complexidade do que significa ser humano.
 

Psicologia - Psicologia positiva
4/2/2021 12:32:55 PM | Por Charles Richard Snyder
Escolarização positiva

Considerando-se que as escolas cumprem um papel central na promoção dos precei­tos da psicologia positiva, incluímos um capítulo inteiro sobre escolarização. A escolarização, uma palavra menos utilizada para “educação”, transmite a importância da comunidade toda no ensino das crian­ças, e por isso a usamos no título deste ca­pítulo. Começamos tratando das visões in­felizmente negativas que algumas pessoas têm sobre os professores e seu trabalho, e investigamos as características daqueles poucos professores que são realmente ruins. A seguir, descrevemos o apoio que se dá (ou se deixa de dar) à educação nos Estados Unidos. Sendo assim, dedicamos grande parte do capítulo a um exame dos seis componentes das escolas eficazes. Após, resumimos a aplicação educacional desenvolvida por Donald Clifton, pioneiro da psicologia positiva, e damos um pano­rama de alguns professores impressionan­tes, que são exemplos de ensino positivo. Por fim, expomos idéias com relação a agra­decer aos professores que fizeram diferen­ças positivas na vida de seus alunos.

"Quem é professor é porque não consegue emprego de verdade"

A própria existência desse sentimen­to sugere que os professores não são reco­nhecidos por seus esforços (Buskist, Benson e Sikorski, 2005). Não apenas os professo­res recebem salários relativamente baixos por seu trabalho profissional, como tam­bém são alvo de comentários depreciati­vos. Sobre esse último aspecto, eu (C.R.S.) estava na fila do correio para comprar se­los quando um senhor na minha frente reclamou com seu amigo, em voz alta: “Es­ses professores preguiçosos”. Sendo um desses “professores preguiçosos”, fiquei quieto, só esperando para pegar os selos. Foi então que esse mesmo homem anun­ciou para que todos que estavam no saguão ouvissem: “Esses professores não estariam lecionando se fossem bons o suficiente para conseguir empregos de verdade!”. E com­pletou com a declaração impressionante: “Todo mundo sabe que quem não conse­gue arrumar emprego de verdade é que [341] acaba lecionando!”. Não consegui mais morder a língua, e se seguiu uma interação ríspida.

Embora não haja mérito nenhum em declarações do tipo “quem não sabe ensi­na” (como “quem sabe faz, quem não sabe ensina” ou “quem não sabe ensinar ensina os professores”), é provável que todos já tenhamos aguentado maus professores. Entretanto, também tivemos alguns profes­sores maravilhosos. Nesse sentido, muitas das idéias deste capítulo vêm de professo­res premiados que usaram princípios da psicologia positiva em suas iniciativas de sala de aula (vide Snyder, 2005b). Esses professores são talentosos..., poderiam se sair bem em muitas esferas da vida, além da sala de aula. Por isso, dedicamos este capítulo aos que “sabem e ensinam”!

Psicologia negativa: "quem não sabe fazer não deveria estar ensinando"

Concordamos que alguns professores são tão ruins que não deveriam chegar per­to de salas de aula. Esses são aqueles que, “quando recebem o privilégio de lecionar, entediam em lugar de inspirar, contentam-se com o mínimo denominador comum em lugar de aspirar ao máximo numerador, consideram o trabalho como algo fácil em lugar de se maravilhar permanentemente com a benção - pecados contra todas as mentes que eles fecharam, desinformaram e alienaram da educação” (Zimbardo, 2005, p. 12).

O fato de que esses maus professores podem causar danos é mais do que espe­culação. As pesquisas sobre o assunto mos­tram repetidamente que os maus profes­sores têm efeitos negativos sobre os alu­nos (para uma visão geral do tema, vide o livro influente de Jennifer King Rice, de 2003, Teacher quality). Na verdade, con­cluiu-se que a baixa qualidade dos profes­sores é o mais influente de todos os fatoresnrelacionados à escola em termos de preju­dicar a aprendizagem dos alunos e suas ati­tudes em relação à educação como um todo (Rice, 2003). Além disso, os efeitos dos maus professores são aditivos e cumulativos com o passar do tempo (Sanders e Rivers, 1996), sendo que a qualidade dos profes­sores responde por 7,5% da variância no desempenho dos estudantes (Hanushek, Kain e Rivkin, como é relatado em Goldhaber, 2002).

Quais os fatores que determinam a qualidade dos professores? Das várias ma­neiras de avaliar as qualidades, a forma­ção escolar de um professor e suas notas são duas das fontes mais influentes quan­do se trata de aumentar a aprendizagem dos estudantes (Monk e King, 1994; Rowan, Chiang e Miller, 1997). Igualmen­te, Darling-Hammond e Youngs (2002) in­formaram que os índices de desempenho e preparação adequada dos professores fo­ram indicadores sólidos do desempenho dos alunos nas áreas de matemática e lei­tura. Para concretizar o impacto da quali­dade dos professores, consideremos a con­clusão de que a diferença entre ter um mau professor e um bom professor reflete todo um nível de notas em termos de desempe­nho dos alunos (Hanushek, 1994). Em ter­mos gerais, portanto, os maus professores deixam atrás de si trilhas de tédio intelec­tual e desrespeito.

Obviamente, há razões legítimas para que alguns professores “saiam ruins”. A mais óbvia é o burnout, ou esgotamento, em que o educador perde entusiasmo após encontrar obstáculos constantes e falta de apoio para seus esforços (vide Maslach, 1999). Entretanto, não há desculpas para um professor que não faz qualquer coisa para tratar desse burnout. É difícil ter sim­patia pelos professores que continuam sim­plesmente “tocando em frente” quando se trata de entusiasmo e preparação de seus alunos. Mais do que não conseguir ensinar mentes jovens em formação quando elas estão mais abertas ao entusiasmo da apren­dizagem, eles também desligaram essas [342] mentes para toda a vida (vide Zimbardo, 1999).

Embora os professores negativos se­jam relativamente raros, só um deles já é demais. Já seria ruim o suficiente se esses maus professores apenas prejudicassem a aprendizagem de seus alunos, mas eles também podem causar sofrimento e dano psicológicos. Tragicamente, os estudantes podem se tornar participantes involun­tários de profecias autorrealizáveis nas quais eles fracassam nas esferas acadêmi­ca e pessoal. Dessa forma, por mais que possamos ser apaixonados por garantir que a psicologia positiva preencha as mentes e as salas de aula de nossos professores e seus alunos, também somos inflexíveis em rela­ção a querer que os maus professores se­jam identificados muito precocemente em suas carreiras e sejam ensinados a mudar ou saiam das salas de aula.

"Nenhuma criança deixada para trás" e além disso

Em uma carta a John Adams (incluí­da em Barber e Battistoni, 1993, p. 41), Thomas Jefferson expôs sua visão sobre a mudança da aristocracia de “privilégio por herança” dos Estados Unidos para um tipo de aristocracia mais baseado no talento. Desde aqueles tempos longínquos, o ideal norte-americano tem sido o de que a edu­cação pública deveria fazer com que o des­fecho da vida das pessoas dependa menos de situação familiar e mais do uso da edu­cação pública. Dessa forma, as escolas fo­ram idealizadas para fazer uma diferença enorme na vida de nossas crianças.

Infelizmente, essa visão romantizada das escolas dos Estados Unidos tem sido mais sonho do que realidade. É irônico que o presidente Lyndon Johnson acreditasse na força das escolas como as “grandes equalizadoras” (uma expressão populari­zada pelo filósofo e líder da educação do século XIX, Horace Mann) das pessoas. Nessa linha, ele encomendou um estudo enorme, cujos resultados ele (e outros) acreditava que mostrariam de uma vez por todas que a qualidade dos recursos esco­lares (como as instalações, os currículos, os livros) era responsável pelos resultados educacionais superiores dos cáucaso-estadunidenses, comparados com os das pes­soas de cor. Ao contrário dessas expectati­vas, contudo, a publicação do Relatório Coleman Report (tecnicamente chamado de Equality of Educational Opportunity Report) em 1966 (Coleman et al., 1966) levou à conclusão de que “as escolas não fazem muita diferença” nos rumos da vida dos estudantes (vide Fritzberg, 2001, 2002).

Essa foi uma referência extrema­mente perturbadora para os educadores, assim como para o presidente Johnson.

As conclusões do relatório de Coleman e colaboradores (1966) significam que nada pode ser feito em termos de ensino escolar para melhorar a aprendizagem dos alunos? Felizmente, a resposta é não, e já mencio­namos o fator que parece, sim, render me­lhor aprendizagem: a qualidade dos profes­sores. Antes de tratarmos do que se pode fazer para melhorar a qualidade de nossos professores, contudo, descrevemos o atual ambiente da educação nos Estados Unidos.

Com a aprovação da lei No child left behind (Nenhum criança deixada para trás), em 2001, a ênfase tem estado cada vez mais nas responsabilidades dos profes­sores e dos sistemas escolares para produ­zir aprendizagem direcionada e objetivos de desempenho. Para um excelente [343] panorama dessa abordagem, sugerimos o volu­me No child left behind? The politics and practice of accountability, de Peterson e West (2003).

Como observamos, a pesquisa mos­tra que a qualidade dos professores é fun­damental para gerar resultados relaciona­dos à aprendizagem (Monk e King, 1994; Rice, 2003; Rowan et al., 1997). De que forma, então, pode-se aumentar o número de professores qualificados em nossas es­colas? Assim como acontece com muitas escolas, o dinheiro parece cumprir um pa­pel importante. Ou seja, a pesquisa rele­vante mostra que os distritos escolares com salários mais altos e melhores instalações provavelmente atrairão e manterão profes­sores de maior qualidade (Hanushek, Kain, O’Brien e Rivkin, 2004). Além disso, uma competição entre escolas eleva a qualida­de dos professores, bem como melhora a qualidade da educação como um todo (Hanushek e Rivkin, 2003). (Deve-se ob­servar, contudo, que os professores não são totalmente movidos por salários e que a raça, ou etnicidade, e o desempenho dos estudantes em determinadas escolas tam­bém são importantes [Hanushek e Rivkin, 2004].)

Parece que a legislação voltada a ele­var impostos para pagar por escolas e pro­fessores não está recebendo muito apoio entre os eleitores dos Estados Unidos. De­tectamos duas implicações negativas nes­sa tendência. Em primeiro lugar, apenas os distritos escolares mais afluentes terão condições de pagar os altos salários necessá­rios para atrair os melhores professores. Obviamente, isso perpetua o problema da falta de professores excelentes nos distri­tos escolares pobres. Em segundo, as famí­lias ricas estão mandando seus filhos para escolas privadas, de forma que as públicas são deixadas para os professores de mais baixa qualidade.

Em função dessas tendências, vislum­bramos importantes desafios às contribui­ções da psicologia positiva à escola do sé­culo XXI nos Estados Unidos, desafios es­ses que são ampliados pelo fato de que aproximadamente 3 milhões de professo­res, desde a educação infantil até o ensino médio, precisarão ser substituídos na pró­xima década por causa de aposentadorias (Goldhaber, 2002). [345]

Os componentes da escolarização positiva

Antes de examinar os componentes da escolarização positiva (que é uma abordagem à educação que consiste em um alicerce de cuidado, confiança e respeito pela diversidade, em que os professores ajustam os objetivos para que cada aluno engendre a aprendizagem e, a seguir, tra­balham com ele para desenvolver os pla­nos e a motivação para atingir esses obje­tivos), citamos brevemente alguns dos prin­cipais educadores que abriram caminho para essa abordagem. Filósofos de desta­que, como Benjamin Franklin, John Stuart Mill, Herbert Spencer e John Dewey, trata­ram dos recursos dos estudantes (Lopez, Janowski e Wells, 2005). Alfred Binet (Binet e Simon, 1916) costuma ser considerado o pai do conceito de idade mental, mas também destacou o aprimoramento das habilidades dos estudantes em lugar de prestar atenção apenas na solução das fragilidades.

Da mesma forma, Elizabeth Hurlock (1925) acentuou o estímulo como sendo mais influente do que a crítica, como determinante dos esforços dos estudantes. Lewis Terman (Terman e Oden, 1947) tam­bém passou toda a sua carreira exploran­do o pensamento de alunos realmente brilhantes, e Arthur Chickering (1969) bus­cou entender a evolução dos talentos dos estudantes. Mais recentemente, Donald Clifton identificou e depois aprofundou os talentos específicos dos estudantes, em lu­gar de se concentrar em suas fragilidades (vide Buckingham e Clifton, 2001; Clifton e Anderson, 2002; Clifton e Nelson, 1992; Rath e Clifton, 2004).

A seguir, tratamos dos principais com­ponentes da escolarização positiva (vide Buskist et al., 2005; Lopez et al., 2005; Ritchel, 2005). Para o leitor interessado em um currículo real de uma semana para in­serir idéias da psicologia positiva no ensi­no médio, recomendamos a unidade de Amy Fineburg (2002), além de detalhes de vários currículos universitários para ensi­no positivo, os quais podem ser acessados em http://www.positivepsychology.org/ teachingpp.htm.

Figura 16.1

A Figura 16.1 é uma representação visual das lições que são comuns na escola­rização positiva. A referida figura mostra o prédio onde funciona a escola da psico­logia positiva construído em seis partes, desde as bases. Começamos com o alicer­ce, onde descrevemos a importância do cuidado, da confiança e da diversidade. A seguir, o primeiro e o segundo andares de nossa escola positiva representam os obje­tivos de ensino, planejamento e motivação dos alunos. O terceiro andar detém a es­perança, e o telhado representa as contri­buições da sociedade e as compensações geradas pelos alunos egressos de nossa es­cola baseada na psicologia positiva.

Cuidado, confiança e respeito pela diversidade

Começamos com um alicerce que en­volve o cuidado, a confiança e o respeito pela diversidade. É absolutamente crucial ter uma atmosfera de apoio, baseada em cuidado e confiança, porque os estudantes prosperam nesse tipo de ambiente. Ao par­ticipar de cerimônias de homenagem para professores de destaque, observamos que tanto os professores quanto seus alunos comentam sobre a importância de uma sen­sação de cuidado. Os estudantes precisam, como modelos de referência, de professo­res que os atendam e estejam disponíveis permanentemente. Esse cuidado e essas emoções positivas por parte dos professo­res proporcionam a base segura que pos­sibilita que os jovens explorem e encontrem formas de atingir seus próprios obje­tivos acadêmicos e de vida (Shorey, Snyder, Yang e Lewin, 2003). [346]

Talvez uma história pessoal ajude a mostrar a importância de os professores cuidarem dos alunos. Eu (C.R.S.) sempre pensei que queria ser professor, e sabia dis­so já quando entrei na universidade. No outono de 1963, eu estava no primeiro se­mestre da Southern Methodist University, e o início de minha carreira universitária estava indo bem. Então, em 22 de novem­ bro de 1963, a menos de 15 quilômetros da minha faculdade, o presidente John F. Kennedy foi assassinado no centro de Dallas, estado do Texas. Como eu havia feito campanha para ele, sua morte foi tão devastadora que disse a meus professores que iria deixar a faculdade. Eu não conse­guia ir às aulas e, quando ia, estava tão perturbado que não conseguia anotar nada. Em resposta a meu anúncio, meus profes­sores passaram um tempo considerável conversando comigo e me disseram que precisava passar pelo luto. Suas reações de cuidado impediram que abandonasse a fa­culdade, e provavelmente eu não teria [347] conseguido me tornar professor universitário anos depois se esses professores não ti­vessem me ajudado naquele momento crucial. Os bons professores sabem quando ser solidários e ajudar alunos que estejam en­frentando crises.

A confiança em sala de aula recebeu atenção considerável entre os educadores, e o consenso é que ela rende benefícios psicológicos e de desempenho para os es­tudantes (Bryk e Schneider, 2002; Collins, 2001). A confiança é fundamental já des­de as primeiras séries. Por exemplo, em seu influente livro de 2003, Learning to trust: transforming difficult elementary classrooms through developmental discipline, Marilyn Watson (psicóloga educacional) e Laura Ecken (professora do ensino fundamental) tratam do espinhoso problema da adminis­tração da sala de aula e da disciplina nas escolas fundamentais. Sua proposta é es­tabelecer relacionamentos de confiança com os alunos mais difíceis, com a lógica de que isso terá efeitos cascata que se es­palharão para o resto da turma.

Watson e Ecken (2003) defendem o que chamam de disciplina do desenvol­vimento. Essa noção deriva dos princípios da teoria do vínculo (vide o Capítulo 13), que defende ajudar aqueles alunos que têm vínculos inseguros com seus cuidadores. As autoras escrevem que “a construção de re­lacionamentos baseados no cuidado e na confiança passa a ser o objetivo mais im­portante na socialização dessas crianças. Obviamente, enquanto estamos construin­do esses relacionamentos, devemos encon­trar formas não-punitivas de impedir que as crianças agressivas e controladoras cau­sem danos a outras e de estimular a auto­nomia e a autoconfiança nas que são re­traídas e dependentes” (p. 12). Para o leitor interessado em como estabelecer a con­fiança em salas de aula de ensino médio com estudantes em situação de risco, tam­bém sugerimos o volume de 1998, Empo­wering discipline, de Vicki Phillips.

Os professores devem se certificar de que há uma sensação de confiança em suas salas de aula. Eles devem evitar se tornar cínicos em relação aos alunos, pois isso so­lapa a confiança que é tão crucial à apren­dizagem. Muitas vezes, os alunos preferem se comportar mal (e sofrer qualquer puni­ção) do que parecer burros na frente dos colegas. Em suas interações com alunos, contudo, os professores positivos tentam encontrar maneiras de fazer que seus pu­pilos acabem parecendo bem. A menos que sintam que há respeito por parte do pro­fessor, os estudantes não correrão os ris­cos que são tão importantes à aprendiza­gem. As vezes, o melhor ensino acontece quando o professor fica em silêncio e es­cuta as visões dos alunos em uma aula. A premiada professora Jeanne Stahl, do Morris Brown College, comentou: “O silên­cio é a melhor postura quando não se sabe de onde um aluno vem ou para onde está indo” (Stahl, 2005, p. 91).

Uma parte importante do cuidado com os alunos está relacionada a passar grandes quantidades de tempo com eles. Quando se perguntou a alunos de gradua­ção o que eles consideravam os aspectos mais importantes de ser professor univer­sitário (por exemplo, pesquisa, preparar aulas e provas, reuniões de comissões), informaram repetidamente que a disposi­ção dos professores de passar tempo com eles foi a característica mais importante (Bjomesen, 2000).

Outro aspecto do alicerce da psicolo­gia positiva para as escolas é a importância da diversidade das origens e das opiniões dos estudantes na sala de aula. Isso come­ça se estimulando que eles sejam sensíveis às idéias de pessoas que não pertencem à sua coorte étnica ou etária, e pode ser obti­do se revelando aos alunos que eles têm muito em comum com os que são diferentes deles. Também é fundamental se certificar de que as visões de todos os públicos em uma turma tenham voz na sala de aula. A premissa da psicologia positiva é estimular um ponto de vista “NÓS/EU”, ou seja, um ambiente apropriado para o coletivo. (A perspectiva “NÓS/EU” é discutida mais [348] profundamente no Capítulo 18.) Um meio visual interessante para ajudar os alunos a pensar além de seus próprios pontos de vista (EU) é fazer com que pensem sobre as visões refletidas de outros (NÓS).

Uma abordagem excelente para de­senvolver uma atmosfera “NÓS/EU” é im­plementar “a sala de aula quebra-cabeça,” projetada pelo professor emérito da Univer­sidade da Califórnia, em Santa Cruz, Elliot Aronson (Aronson e Patnoe, 1997). Nesse enfoque, os estudantes e os professores usam objetivos baseados em grupos, e os alunos que têm origens diferentes são colocados em unidades de trabalho em que devem compartilhar informações para que o gru­po - e, portanto, cada um de seus mem­bros - tenha êxito. Na sala de aula quebra-cabeça, cada aluno tem parte da informa­ção que é vital para o sucesso do grupo como um todo, e assim há uma forte moti­vação para incluir as contribuições de cada um deles. A sala de aula quebra-cabeça en­sina a cooperação em lugar da competi­ção. Pesquisas sobre o tema mostram que os estudantes aprendem o assunto, junto com respeito por seus colegas. Ela também impede que os alunos se tornem “caçadores de notas” que querem ter sucesso por meio de competição hostil e comparações sociais uns com os outros (Aronson, 2000; Aronson, Blaney, Stephin, Sikes e Snapp, 1978).

Antes de sairmos desta seção sobre diversidade, enfatizamos o quanto é fun­damental ter programas compensatórios voltados a estudantes que possam ter difi­culdades de aprendizagem. Discutimos es­ses programas em detalhe no Capítulo 15, sobre interceder para ajudar as pessoas. Uma questão que não foi destacada neste capítulo, e que deve ser parte da escolarização da psicologia positiva, é que deve­mos ter programas para estimular nossos alunos verdadeiramente talentosos. Mui­tas vezes, prevalece uma atitude infeliz de que esses alunos já têm vantagens tão im­pressionantes que deveríamos simplesmen­te “deixá-los em paz”. Aplaudimos as pala­vras de Martin Seligman (1998d):

Antes da Segun­da Guerra Mun­dial, o talento superior era uma missão da psico­logia. À medida que o nosso cam­po se voltou ca­da vez mais para populações clíni­cas, o gênio foi esquecido com­pletamente. No entanto, é fun­damental ao te­ma principal da psicologia positiva - a psicologia dedicada às melhores coisas da vida, bem como a curar as piores - a busca e a construção da expressão integral do talento de alto nível.

Não foi apenas a psicologia que negli­genciou as crianças superdotadas e ta­lentosas. [A negligência] é encontrada em toda a sociedade, mesmo nos mais impor­tantes formuladores de políticas no go­verno. Tive um encontro impressionante com um alto funcionário do Ministério da Educação dos Estados Unidos, em uma reunião do Conselho de Presidentes da Science Society, recentemente. Ele havia feito uma exposição sobre a política do governo Clinton, de difícil implemen­tação, mas elogiável, de tentar elevar as notas médias de todas as crianças do país em ciências e em matemática.

“O futuro das ciências e da matemáti­ca nos Estados Unidos depende não ape­nas de uma cidadania que tenha conheci­mento de ciências, mas, mais fundamentalmente, dessas próprias pessoas de pou­ca idade que irão se tornar nossos futu­ros cientistas e matemáticos”, comentei. “O que vocês estão fazendo para ajudar essas crianças?” “As crianças talentosas sabem se cui­dar”, ele respondeu.

Essa visão, muito difundida é, ao mes­mo tempo, equivocada e perigosa. Ela condena um número muito grande de crianças talentosas a ser deixadas de lado, em desespero e frustração. O talento in­telectual surge em muitas formas, e os pais, colegas e escolas muitas vezes não [349] conseguem reconhecer ou apoiar esses ta­lentos superiores e, o que é pior, rejeitam-nos à mediocridade. Essa negligência não é benigna, ela desperdiça um recurso na­cional precioso e insubstituível sob uma bandeira do “anti-elitismo”. A psicologia deve assumir de novo essa causa (p. 3).

Tendo dito isso, sobre o estímulo aos alunos mais inteligentes, fecharíamos esta seção observando que o alicerce da escolarização da psicologia positiva reside em uma atmosfera na qual professores e estu­dantes têm respeito e cuidado com vários pontos de vista e origens. Esse respeito flui dos professores aos alunos e dos alunos aos professores.

Objetivos (conteúdo)

O componente dos objetivos é re­presentado pelo se­gundo piso do pré­dio escolar baseado nas qualidades (vide a Figura 16.1). Ex­plorando as respostas dos alunos des­de a educação in­fantil até a facul­dade, a professora da Universidade de Stanford, Carol Dweck, montou um programa de pesquisa impres­sionante mostrando que os objetivos proporcionam um meio de tratar dos esforços de aprendizagem dos estudantes. Além dis­so, esses objetivos são especialmente úteis se forem um consenso entre professor e alu­nos (Dweck, 1999; Locke e Latham, 2002). Talvez os alvos mais úteis sejam os objeti­vos ampliados, nos quais o aluno busca um objetivo de aprendizagem um pouco mais difícil do que o atingido anteriormente. Objetivos razoavelmente desafiadores ge­ram aprendizagem, especialmente se puderem ser ajustados a estudantes específi­cos (ou grupos deles).

É importante que os alunos sintam al­guma sensação de contribuição em rela­ção à condução das aulas por parte de seus professores. É claro que estes estabelecem os objetivos da aula, mas, ao fazê-lo, têm a sabedoria de levar em consideração as re­ações de seus alunos anteriores. O sucesso dos objetivos de aula de­manda que se tome, sempre que possível, o material relevante em relação às expe­riências da vida real dos alunos (Snyder e Shorey, 2002). Isso aumenta a probabilida­de de que eles venham a se envolver com o material e aprendê-lo (vide Dweck, 1999).

Não recomendamos dar um destaque muito rígido às notas, uma vez que se te­nham estabelecido os objetivos de apren­dizagem. Cumprir metas, por exemplo, pode transformar os alunos em caçadores de notas, mais fascinados com seus desem­penhos e com se sair melhor do que seus colegas do que com aprender. De fato, esse tipo de cenário já foi associado a níveis mais baixos de esperança (Shorey et al., 2004) e mais ansiedade relacionada a fazer pro­vas (Dweck, 1999).

Também ajuda fazer com que os ob­jetivos sejam compreensíveis e concretos, assim como dividir um objetivo de apren­dizagem mais amplo em subobjetivos que possam ser cumpridos em etapas. Igual­mente, como observamos com relação às questões de diversidade na seção anterior, a definição de objetivos é facilitada quan­do os professores permitem que parte das notas dos alunos seja determinada por ati­vidades coletivas, nas quais a cooperação com outros alunos seja essencial. Mais uma vez, o paradigma da “sala de aula quebra-cabeça” (www.jigsaw.org), de Aronson, é muito útil para estabelecer objetivos.

Planos

Na Figura 16.1, o primeiro andar da escola das qualidades se divide em planos e [350] motivação, ambos interagindo com os ob­jetivos educacionais no segundo andar (e com o conteúdo). Assim como a construção da ciência a partir da acumulação de idéias, o ensino necessita de um processo cuidadoso de planejamento por parte dos educadores. Uma outra abordagem com relação ao planejamento é defendida pelo conhe­cido psicólogo social Robert Cialdini, da Arizona State University (vide Cialdini, 2005). Depois de estabelecer um objetivo de aprendizagem com relação a um deter­minado conteúdo psicológico, o professor Cialdini apresenta histórias de mistério aos alunos. Ao resolver o mistério, o aluno aprendeu o conteúdo específico. (A neces­sidade inerente de fechamento [vide Kruglanksi e Webster, 1996] com relação aos mistérios também motiva os alunos; a motivação é a companheira do planejamen­to, que discutimos na seção seguinte. Da mesma forma, como as estórias de misté­rio têm início, meio e fim, há um interesse inerente por parte dos alunos de chegar à conclusão [vide Green, Strange e Brock, 2002, sobre a motivação para se chegar ao fim de uma narrativa].)

Outro aspecto a ser levado em consi­deração ao se aumentar a motivação dos alunos é tornar o material relevante a eles (Buskist et al., 2005). No nível mais bási­co, quando as informações da disciplina são relevantes, os alunos têm mais probabili­dades de ir à aula, de prestar atenção e de fazer comentários durante as exposições (Lowman, 1995; Lutsky, 1999). Para au­mentar a relevância do material, os educa­dores podem desenvolver demonstrações de sala de aula e trabalhos para fazer em casa com vários fenôme­nos aplicáveis a situações com que os alu­nos se deparam fora da sala de aula.

Alguns educadores fazem levanta­mentos no início do semestre, quando pe­dem que os alunos descrevam os eventos positivos e negativos que aconteceram em suas vidas. Depois, podem utilizar os even­tos citados com mais frequência para construir demons­trações em sala de aula (Snyder, 2004). Ou, quando o educa­dor descreve um fe­nômeno, pode-se pe­dir que os alunos deem exemplos de suas próprias experi­ências. 

Antes de sair do tema da relevância, alertamos os educadores de mais idade para que não tentem cooptar as manifes­tações dos estilos de vida de alunos muito mais jovens. Essa é uma forma certeira de anular a motivação dos alunos. Nas pala­vras de Snyder (2004, p. 17-18),

Você já viu um professor de mais de 50 ou 60 anos de idade que se esforça tudo o que pode para ser tão “bacana” quanto seus alunos de 21? Não sei o que é mais digno de pena nesse fantasma. Seriam as roupas jovens do velho professor que pa­recem tão fora de lugar? É o corte de ca­belo rebelde, deslocado, feito em uma ca­beça com cabelos já insuficientes? Ou são as tentativas desajeitadas do professor gri­salho de tomar emprestada a linguagem dos universitários? É tolice, em minha opi­nião, que um educador de mais idade tente permanecer “na moda” e fazer parte da turma mais jovem. Na verdade, acho que esses professores acabam fazendo um papel ridículo e de mau gosto. Deixem disso, eu lhes digo, pois só quando somos jovens - porque é o que realmente somos nesse momento - é que é adequado. Além disso, a verdade é que nossos alunos não querem um parceiro de rock como pro­fessor.

Motivação (e mais: dando vida ao conteúdo da disciplina para os alunos)

Os professores devem estar entusias­mados em relação a seus conteúdos para [351] que consigam aplicar as aulas que prepa­raram (vide a seta interativa entre planos e motivação, no primeiro piso da Figura 16.1). Os professores são modelos de en­tusiasmo para seus alunos, de modo que, quando tornarem os objetivos e os planos de aula interessantes para si mesmos, os alunos facilmente captarão essa energia.

Os professores motivados são sensí­veis às necessidades e às reações de seus alunos. Professores que se baseiam em qua­lidades também levam muito a sério as perguntas de seus alunos, e fazem todos os esforços para lhes dar as melhores res­postas. Se o professor não sabe a resposta à pergunta de um aluno, será um estímulo para a turma se ela for informada de que, embora o professor não saiba a resposta naquele momento, fará todos os esforços para encontrá-la. A seguir, o professor passa a localizar a resposta à pergunta e a apre­senta na próxima aula.

Os alunos em geral gostam muito dessa capacidade de respon­der às suas demandas.

Os professores também aumentam o nível motivacional quando assumem riscos e experimentam novas abordagens em aula (Halperin e Desrochers, 2005). Quando esses riscos resultam em um exercício de sala de aula que não funciona, o professor pode rir de si mesmo. O humor gera ener­gia para o próximo exercício, junto com o nível de esforço do professor. Um lema do ensino baseado em qualidades é: “Se você não rir de si mes­mo, não entendeu a maior das piadas” (Snyder, 2005a).

Qualquer coi­sa que um professor possa fazer para que os alunos assumam mais responsabili­dade também pode elevar sua motiva­ção (Halperin e Des­ rochers, 2005). Nes­sa mesma linha, os alunos que esperam ser chamados em aula para responder a perguntas geralmente estão preparados para cada aula, tendo lido o material e acompanhado a exposição (McDougall e Granby, 1996).

Lembre-se de que a abordagem discu­tida anteriormente, da sala de aula “que­bra-cabeça”, estimula a aprendizagem e o planejamento de objetivos coletivos e que, ao fazê-lo, também gera motivação dos alunos à medida que eles trabalham jun­tos. De fato, ser parte de uma iniciativa co­letiva pode gerar uma sensação de energia.

Por fim, o elogio é muito motivador, mas é melhor fazê-lo em privado, porque um aluno pode se sentir desconfortável quando é individualizado na frente de seus colegas. O elogio público também pode aumentar a propensão dos alunos a com­petir entre si. Uma visita à sala do profes­sor ou uma reunião com o aluno fora da sala de aula podem ser bons momentos para apontar seu bom trabalho ou seus avanços (ou elogiá-lo por fazer boas per­guntas). Além disso, o correio eletrônico é um veículo adequado para dar feedback po­sitivo em privado, que pode ser motivador. As oportunidades para interagir bem com os alunos e os motivar são muitas, e os pro­fessores da psicologia positiva muitas ve­zes tentam transmitir esse feedback energizante.

Esperança

Se as lições mencionadas antes com relação a objetivos, planejamento e moti­vação forem aplicadas em uma sala de aula, haverá um espírito de investigação que os alunos captarão (Ritschel, 2005). Como disse o premiado professor da Auburn University, William Buskist (2005, p. 116),

Um aspecto essencial de nosso ensino é passar a tocha - compartilhar nossos va­lores acadêmicos, nossas curiosidades e nosso entusiasmo voltado à disciplina, e estimular os alunos a assumir esses [352] valores e qualidades e se apropriar deles. Ensinar não é emitir fatos e números sem nenhuma paixão. Ensinar é influenciar. E se preocupar profundamente com as idéias e com a forma como essas idéias são transmitidas, entendidas e expressa­das. É se preocupar profundamente com o conteúdo e com os alunos a quem o estamos comunicando. E é por meio des­se cuidado apaixonado que inspiramos os alunos.

Quando os alunos adquirem esse es­pírito, sua aprendizagem se amplia para aumentar sua sensação de fortalecimento. Dessa forma, eles são fortalecidos para se tornar solucionadores de problemas para toda a sua vida. Essa “aprendizagem de como aprender” se baseia em pensamento voltado a objetivos, baseado em caminhos, bem como na motivação do tipo “eu sou capaz”. Sendo assim, a escolarização da psicologia positiva não apenas transmite os conteúdos das disciplinas, como também produz uma sensação de esperança nos alunos. (Vide o Capítulo 9 para uma dis­cussão detalhada sobre a esperança.) A esperança é mostrada na cobertura do pré­dio da escola positiva da Figura 16.1. Um estudante esperançoso acredita que conti­nuará aprendendo muito tempo depois que já tiver saído da sala de aula. Ou talvez seja mais acertado dizer que o pensamen­to esperançoso não conhece limites na vida de um estudante que nunca parou de aprender.

Contribuições da sociedade

Uma última lição da psicologia posi­tiva é que os alunos entendam que fazem parte de um esquema social mais amplo, no qual compartilham aquilo que apren­deram com outras pessoas. Como mostra­do na nuvem potencialmente fomentadora acima da escola metafórica da Figura 16.1, essas contribuições da sociedade represen­tam as compensações duradouras que uma pessoa educada dá aos que estão ao seu redor, seja ensinando crianças a pensar positivamente, seja compartilhando visões e entusiasmo com a multidão de outras pessoas com as quais ela tem contato du­rante toda a sua vida. Portanto, a educa­ção positiva transforma os estudantes em professores que continuam a compartilhar aquilo que aprenderam com outras pessoas. Dessa forma, os benefícios do processo de aprendizagem são retransmitidos a uma ampla gama de outras pessoas. Na escolari­zação positiva, contudo, os alunos se tor­nam professores de outros.

Um exemplo de escolarização positiva: O programa StrenghtsQuest

O StrengthsQuest é um programa vol­tado a desenvolver e a engajar estudantes do ensino médio e universitários para que possam ter sucesso em seus empreendimen­tos acadêmicos em particular e em sua vida em geral. Esse programa deve sua existên­cia ao psicólogo positivo Donald Clifton, que começou seu trabalho com esse enfoque da psicologia da educação na Universidade de Nebraska-Lincoln, na década de 1950. An­tes de nos aprofundarmos em sua teoria e no programa educacional relacionado a ela, saudamos esse homem admirável. Don Clifton foi homenageado pela American Psychological Association como o “pai” da abordagem baseada em qualidades na psi­cologia, além de “avô” da psicologia positi­va (McKay e Greengrass, 2003). Ao contrá­rio das correntes intelectuais e aplicadas dos anos de 1950 até os de 1990, que nadaram nas águas turvas da psicologia voltada aos defeitos, o professor Clifton sempre pare­ceu ter uma questão crucial e diferente: “O que aconteceria se estudássemos o que está certo nas pessoas, em lugar de o que há de errado com elas?”.

Essa pergunta está no centro do pro­grama StrengthsQuest (vide Clifton e Anderson, 2002). É claro que esse enfoque [353] contrasta com a abordagem tradicional à educação, na qual os alunos são ensinados explícita e implicitamente que devem “con­sertar” suas deficiências e, se não o fize­rem, são reprovados (Anderson, 2005). Em termos da esperança e das motivações re­lacionadas a ela discutidas na seção ante­rior, o programa StrengthsQuest energiza os alunos. Isso acontece quando eles se dão conta de que são vistos como alguém que tem os talentos cognitivos naturais para ter sucesso na escola.

O programa StrengthsQuest começa fazendo com que os alunos realizem o Clifton StrengthsFinder, uma avaliação computadorizada, via internet, das cinco áreas de seus maiores talentos naturais. A avaliação envolve 180 itens. Em cada um deles, os respondentes selecionam o descritor mais aplicável de um par (por exem­plo, “Leio instruções com atenção” versus “Gosto de passar diretamente para o que interessa”). O aluno também classifica o grau em que a declaração escolhida é me­lhor do que aquela à qual está associada no par. Há 34 temas possíveis. e o estudante aprende quais cinco temas são mais aplicáveis a ele.

Até o momento, mais de 100 estudos já usaram o enfoque de avaliação do StrengthsFinder para predizer com preci­são uma série de indicadores de resulta­dos (Schmidt e Rader, 1999). Além disso, essa técnica passou por uma razoável vali­dação empírica de constructo (Lopez, Hodges e Harter, 2005).

A seguir, os estudantes completam (pela internet ou em formato impresso) o caderno de exercícios StrengthsQuest: discover and develop your strengths in academics, career, and beyond (Clifton e Anderson, 2002). Esse caderno ajuda os estudantes (assim como os professores, orientadores, coordenadores de residências estudantis e outras pessoas que trabalham com os estudantes) a entender e a cons­truir suas qualidades principais naquilo a que estejam se dedicando na escola naque­le momento. Por fim, os estudantes reali­zam uma formação mais profunda se ins­crevendo na página do StrengthsQuest (www. strengthsquest.com).

Na segunda e na terceira etapas des­sa abordagem educacional, os estudantes trabalham em suas qualidades principais, reveladas nos cinco temas mais consisten­tes do StrengthsFinder. Clifton e colabora­dores, incluindo pesquisadores da organi­zação Gallup (propriedade da família Clifton, que a opera), basearam essa se­gunda fase em suas conclusões de pesqui­sa de que as pessoas com os melhores de­sempenhos e os melhores estudantes

  1. claramente reconhecem seus talentos e os desenvolvem;
  2. aplicam qualidades naquelas áreas em que há boas associações com talentos e interesses naturais e
  3. geram formas de aplicar seus recursos na busca de objetivos desejados.

Essa parte do programa é semelhan­te aos elementos de objetivos e caminhos discutidos na seção anterior, sobre escolarização positiva (Anderson, 2005).

Paralelamente a esses três passos na abordagem Clifton, os alunos parecem pas­sar por três etapas distintas (o que se re­flete em artigos escritos por estudantes que participam do programa; Clifton e Harter, 2003). Na primeira etapa, parece que os estudantes identificam seus talentos; na segunda e na terceira etapas, respectiva­mente, eles têm revelações sobre como in­tegrar essas áreas de talento em suas autoconceituações e, após, fazem mudanças de comportamento (Buckingham e Clifton, 2001). À medida que o programa avança, os estudantes participantes observam exem­plos de coisas que estão fazendo que refli­tam suas predileções e talentos naturais (por exemplo, assumir papel de liderança em situações difíceis, dar instruções a ou­tros, aprender determinadas habilidades novas em determinadas áreas, com muita facilidade). Os alunos não apenas [354] reconhecem seus talentos, como também cada vez mais começam a “se apropriar” deles.

O programa StrengthsQuest está re­cebendo mais atenção nas escolas de ensi­no médio e nas faculdades em todos os Estados Unidos. Os estudos de resultados disponíveis sugerem que o programa tem efeitos positivos sobre os estudantes (vide Hodges e Harter, 2005). Por exemplo, em um estudo realizado com 212 alunos da UCLA que passaram pelo programa, por exemplo, eles relataram aumentos impor­tantes em altruísmo, autoconfiança, eficá­cia e esperança (Crabtree, 2002; Rath, 2002). Da mesma forma, um estudo reali­zado em outra grande universidade esta­dual concluiu que a esperança como esta­do dos estudantes (ou seja, motivação [355] voltada a objetivos, vinculada a um determi­nado tempo e situação, vide Snyder et al. [1996]) aumentou em fun­ção de seu envolvimento no programa StrengthsQuest (Hodges e Clifton, 2004). O que vale a pena destacar sobre essas con­clusões, tomadas em seu conjunto, é o grau em que as atividades envolvidas no pro­grama correspondem aos componentes re­lacionados à esperança (agência, caminhos e objetivos) descritos anteriormente neste capítulo e mostrados na Figura 16.1.

O ensino como vocação 

Assim como os professores negativos prejudicaram esse processo, os professores positivos desencadearam o entusiasmo e a alegria de aprender. Esses professores da escolarização positiva consideram seus es­forços como uma vocação em lugar de um trabalho (Wrzesniewski, McCauley, Rozin e Schwartz, 1997). Uma vocação se defi­ne como uma forte motivação na qual a pessoa repetidamente assume uma atitu­de intrinsecamente satisfatória (vide Buskist, Benson e Sikorski, 2005). Quando os preceitos da psicologia positiva são apli­cados ao ensino, acreditamos que os ins­trutores se comportam como se tivessem vocações nas quais demonstram um amor profundo e intenso por ensinar.

Alguns exemplos de mestres do ensi­no podem dar ao leitor uma sensação me­lhor de sua dedicação. Wilbert McKeachie, da Universidade de Michigan, que é muito aclamado por ter escrito o “manual” sobre ensino positivo em nível universitário, está chegando ao seu 60º ano na atividade de lecionar. Sobre sua atividade como professor, Mc­ Keachie (2002, p. 487) declara que o que quer é estar “pre­parando as aulas da semana seguinte, co­ordenando discussões, apresentando de­monstrações, trabalhando com monitores, interagindo com alunos de diversas ori­gens, lendo os diários dos alunos e, inclusive, comentando e dando notas a provas”.

Outro patriarca do ensino universitá­rio é Charles Brewer, da Universidade Fur­man. Ele retrata seu ensino como “praze­roso, revigorante, misterioso, frustrante, apaixonado, precioso e sagrado”. O pro­fessor Brewer (2002, p. 507) chega a ad­mitir que “lecionar proporciona mais diver­são do que a maioria das pessoas deveria ter”.

David Worley (2001, p. 279) retrata sua atividade de professor como “um so­nho que se tornou realidade” que ele dei­xa “viver a cada dia”. Worley também diz a seus alunos: “Eu fiz pós-graduação e pas­sei pelo trabalho difícil e desafiador, por uma única razão: queria estar aqui com vocês, hoje”.

Todos esses mestres do ensino consi­deram sua vocação como um privilégio, isto é, a chance de influenciar positivamente a vida de seus alunos (Buskist et al., 2005). O estudante e o professor, juntos, realizam uma jornada surpreendente, ilustrada na Figura 16.2.

Figura 16.2

Retribuindo aos professores

Nossa observação final com relação à escolarização positiva diz respeito ao pa­pel que você pode cumprir para melhorar [356] os professores. Há várias coisas que você pode fazer para ajudar os professores em particular e o sistema escolar em geral. Em primeiro lugar, pode trabalhar com os pro­fessores para ajudar, de qualquer maneira possível, a melhorar a aprendizagem de seus próprios filhos. A aprendizagem obviamente acontece fora da escola, e recomen­damos que você experimente várias ativi­dades com seus filhos, para reforçar e pra­ticar as lições que são ensinadas na escola. Da mesma forma, ofereça-se como volun­tário para ajudar em várias atividades es­colares. Seus filhos, assim como outras crianças, ficarão impressionados com o fato de que aprender não é uma coisa com a qual só os professores se preocupam.

Você pode também fazer visitas aos professores de suas escolas locais, tanto de nível fundamental quanto de nível médio, e lhes perguntar do que eles precisam para tornar seu ensino mais eficaz. As necessi­dades dos professores podem variar segun­do a disciplina, mas os computadores cos­tumam ser presentes úteis para a maioria das salas de aula. Se forem necessários computadores novos, ou outros materiais escolares, talvez uma atividade promovi­da por pais e membros da comunidade possa arrecadar o dinheiro necessário. Veja de que outros materiais os professores po­dem precisar para suas salas de aula. Tal­vez seus livros velhos possam ser doados para a biblioteca da escola.

Faça o que pu­der para que esses itens ou serviços sejam obtidos. Se você tem habilidades especi­ais, ofereça-se para ir às aulas e fazer de­ monstrações aos alunos. Você pode querer iniciar uma atividade política para elevar os impostos para a educação, com vistas a aumentar os salários dos professores e seus benefícios, ou construir novas salas de aula. Você é parte da solução da psicologia posi­tiva para melhorar as escolas em sua co­munidade.

Se houver professores em seu siste­ma escolar local que fizeram um trabalho maravilhoso quando lhe ensinaram, des­cubra quando esses professores planejam se aposentar. Eles dedicaram suas vidas a educar as crianças de sua comunidade, então por que não se reunir com outros ex-alunos? Ou ajude a organizar uma festa de despedida para o professor estimado. [359]

Psicologia - Psicologia positiva
1/19/2021 5:26:08 PM | Por Charles Richard Snyder
Intercedendo para prevenir o que é ruim e potencializar o que bom

Ávida para começar, uma nova clien­te de psicoterapia anunciou apaixonadamente: “Quero fazer que as coisas ruins parem de acontecer, mas não só isso... que­ro mais coisas boas!”. Suas palavras dão conta das duas categorias amplas de inter­venção que exploramos neste capítulo. A primeira categoria, interromper o que é ruim, envolve esforços para prevenir que coisas negativas ocorram posterior­mente, e pode ser dividida em prevenções primárias e secundárias. As prevenções pri­márias reduzem ou eliminam os problemas físicos ou psicológicos antes que eles sur­jam. As prevenções secundárias reduzem os problemas após seu surgimento. Esse se­gundo processo costuma ser chamado de psicoterapia.

A segunda categoria, produzir mais coisas boas, significa potencializar aquilo que as pessoas querem de suas vidas; ela também pode ser dividida em tipos primá­rio e secundário. As potencializações primá­rias estabelecem um bom funcionamento e uma boa satisfação. As potencializações secundárias vão ainda mais longe, contu­do, partindo de funcionamento e satisfa­ção já bons para chegar a experiências máximas. As potencializações primárias tornam as coisas boas (criam experiências ótimas), ao passo que as secundárias si­tuam as coisas no melhor que elas podem ser (criam experiências máximas).

Se cada uma dessas abordagens pri­márias e secundárias à prevenção e potencialização tivesse que ter um slogan, suge­riríamos os seguintes:

  • Prevenção primária: “parar o que é ruim antes que aconteça”.
  • Prevenção secundária (psicoterapia): “consertar o problema”.
  • Potencialização primária: “tomar a vida boa”.
  • Potencialização secundária: “fazer da vida o melhor possível”.

Prevenção primária: interromper o que é ruim antes que aconteça 

Definição

Como mostrado na extrema esquer­da da Figura 15.1, as prevenções primá­rias refletem as ações que as pessoas rea­lizam para reduzir ou eliminar a probabi­lidade de ter dificuldades psicológicas (Heller, Wyman e Allen, 2000) ou proble­mas físicos (Kaplan, 2000) subsequentes. Com as prevenções primárias, as pessoas ainda não estão manifestando quaisquer problemas, e é só mais tarde que esses [312] problemas vão aparecer, se não forem dados passos para proteção, ou profiláticos (Snyder, Feldman, Taylor, Schroeder e Adams, 2000). Quando a prevenção pri­mária é dirigida à população de uma co­munidade inteira, chama-se de prevenção universal (por exemplo, vacinações em crianças); quando visam a uma determi­nada população em risco, chama-se pre­venção seletiva (como visitas aos domicí­lios em busca de crianças que nascem abai­xo do peso; Munoz e Mendelson, 2004).

Figura 15.1

As atividades de prevenção primária se baseiam na esperança em relação ao futuro. Como expressam Snyder e colabo­radores (2000, p. 256), “sugeriríamos que a prevenção é, em seu âmago, um ato de esperança, uma visão positiva, fortalecida, sobre a capacidade da pessoa de agir com vistas a conquistar melhores amanhãs”. Como um exemplo intrigante (descrito em Munoz e Mendelson, 2004) do fato de que a prevenção não precisa implicar um en­tendimento completo de um determinado problema ou doença, consideremos o sur­to de cólera em Londres, no século XIX. Embora John Snow ainda não soubesse qual era o verdadeiro fator causal em ní­vel bioquímico, ele sabia o suficiente para conseguir interromper a epidemia ao re­mover a alavanca da bomba de água na Rua Broad! O palpite de Snow era de que a cólera era transmitida por alguma coisa na água que vinha da bomba desse local.

De fato, ele conseguiu impedir a difusão da cólera ao cortar essa fonte.

A prevenção primária pode ocorrer em nível governamental. Ao estabelecer e aplicar as leis que permitem que as pesso­as tenham sucesso em função de seus mé­ritos e seus esforços, por exemplo, um go­verno pode reduzir as conseqüências ne­gativas para seus cidadãos (Snyder e Feldman, 2000). Havendo uma legislação contra práticas contratuais danosas, como racismo e sexismo, os cidadãos individuais provavelmente permanecerão satisfeitos porque percebem que têm oportunidades iguais de obter os empregos que desejam. Da mesma forma, quando os cidadãos per­cebem que as leis possibilitam oportunida­des iguais de ir em busca de atividades vol­tadas a objetivos, eles deveriam

  1. sentir-se menos frustrados a agressivos (um aspecto da hipótese de frustração-agressão [Zillman, 1979]);
  2. continuar a fazer esforços em seus am­bientes profissionais e pessoais (o re­sultado negativo, nesse caso, foi cha­mado de desamparo aprendido [Peter­son, Maier e Seligman, 1993]); e
  3. ter menos probabilidades de cometer suicídios (Rodriguez-Hanley e Snyder, 2000).

Sobre esse último aspecto, em um estudo realizado em diversos países, Krauss [313] e Krauss (1968) examinaram o grau em que os cidadãos consideravam que seus governos os bloqueavam em suas diversas atividades voltadas a objetivos. Os pesqui­sadores concluíram que os maiores blo­queios percebidos tinham uma correlação significativa com taxas de suicídio mais ele­vadas entre os diversos países.

O que quer que se possa fazer para aumentar os níveis educacionais, em ter­mos locais e nacionais, servirá a propósi­tos de prevenção primária ao reduzir as chances de que os cidadãos venham a ter má saúde e ser psicologicamente infelizes (Diener, 1984; Veroff, Douvan e Kulka, 1981). Além disso, quaisquer ações reali­zadas para promover o emprego devem impedir que as pessoas incorram em desa­justes psicológicos e físicos (Mathers e Schofield, 1998; Smith, 1987).

Aprevenção primária é eficaz?

Em termos gerais, as intervenções pri­márias são bastante eficazes (Albee e Gullotta, 1997; Durlak, 1995; Durlak e Wells, 1997; Mrazek e Haggerty, 1994; Yoshikawa, 1994). Para entender a magni­tude dos efeitos das iniciativas de preven­ção primária, considere os resultados de uma meta-análise (uma técnica estatística que possibilita que os pesquisadores com­binem resultados de vários estudos para descobrir tendências comuns) realizada por Durlak e Wells (1997). Durlak e Wells examinaram a eficácia dos programas de prevenção para problemas comportamentais e sociais de crianças e adolescentes, concluindo que a prevenção dava resulta­dos eficazes semelhantes em magnitude (e, em alguns casos, superiores) aos procedi­mentos médicos, como quimioterapia para câncer ou cirurgia para implantação de ponte de coronária.

Além disso, os autores observaram que, com relação a participan­tes de grupos de controle, os que partici­param de programas de prevenção estavam em algum ponto entre 59 e 82% melhores em termos de redução de problemas e au­mento de competências.

Componentes das prevenções primárias eficazes

Heller e colaboradores (Heller et al., 2000, p. 663-664) apresentaram cinco su­gestões para implementar prevenções pri­márias com sucesso. Em primeiro lugar, as populações-alvo devem receber informa­ções sobre o comportamento de risco a ser prevenido. Em segundo, o programa deve ser atraente, devendo motivar os partici­pantes potenciais a aumentar os compor­tamentos desejados e reduzir os indesejados. Em terceiro, o programa deve ensi­nar habilidades de solução de problemas e como resistir a retomar aos padrões con­traproducentes anteriores. Quarto, deve mudar quaisquer normas ou estruturas so­ciais que reforcem comportamentos con­traproducentes. Sobre esse último aspecto, são necessários o apoio e a aprovação social para superar as qualidades gratificantes dos comportamentos problemáticos. Quinto, devem-se coletar dados para possibilitar a avaliação das conquistas do programa. Es­ses dados de avaliação podem ser usados posteriormente para argumentar em nome da implementação de programas de pre­venção primária em outros ambientes.

O programa Head Start: um exemplo de prevenção primária

Talvez o exemplo mais destacado de prevenção primária seja o programa Head Start, que teve início na década de 1960, como parte da guerra contra a pobreza, do presidente Lyndon Johnson. O programa foi implementado em resposta a amplas preo­cupações de que crianças pobres dos Esta­dos Unidos não estivessem recebendo [314] estimulação cognitiva e intelectual suficientes para ter os benefícios adequados de seus estudos. Infelizmente, algumas crianças eram reprovadas com frequência, desde o momento em que ingressavam na escola.

O objetivo era dar às crianças pobres um nível de preparação que refletisse aquele de seus colegas economicamente mais privilegiados. Além de seus componentes educacionais, o Head Start acrescentou refeições nutritivas, triagens médicas e for­mação para os pais. Esta se revelou especi­almente eficaz, com os resultados tendo mostrado que, quando as crianças freqüen­tavam o programa por pelo menos três dias por semana, durante dois anos ou mais, e quando os pais estavam envolvidos, os be­nefícios em termos de desempenho esco­lar eram sólidos e duradouros (Ramey e Ramey, 1998). O Head Start também mos­trou a crianças e seus pais que eles não precisavam retomar comportamentos con­traproducentes anteriores; além disso, esse programa mostrou que era possível uma vida melhor para as crianças. Por fim, com­parado a vários outros programas de pre­venção, o Head Start foi testado exaustiva e repetidamente para mostrar que funcio­nava. Talvez o resultado mais fundamental tenha sido que as crianças que participa­ram do programa tiveram melhores resul­tados acadêmicos do que seus colegas que não participaram (Ramey e Ramey, 1998).

Prevenções primárias para minorias étnicas

Em uma versão modificada dos pro­gramas de redução de risco para crianças da área rural, de Bierman (1997), Alvy (1988) desenvolveu um programa eficaz de formação de pais voltado a afro-americanos. Esse programa enfatizava o orgu­lho, as habilidades de estudo e a obediên­cia às autoridades. Da mesma forma, ensi­nou-se aos pais a importância de dar apoio familiar a seus filhos. Alvy teve o cuidado de usar funcionários de diversas origens raciais, tanto em nível local quanto nacio­nal, com especialistas afro-americanos. Um programa igualmente eficaz foi implemen­tado para a formação de mães mexicano-americanas (D. L. Johnson, 1988).

O fato de membros da família e da comunidade terem sido abordados de for­mas culturalmente sensíveis parece ter sido um importante fator para o sucesso desses programas. Além disso, todos os programas destacam que o apoio da comunidade de inserção é crucial para a adoção de novas atitudes (orgulho, estudo, disciplina, etc.) Por fim, embora tenha havido alguma testagem empírica da eficácia desses pro­gramas, devem-se continuar as análises para examinar suas utilidades, dentro e fora das culturas das minorias envolvidas.

Prevenções primárias para crianças

Vários programas de prevenção pri­mária visavam a crianças e jovens em situa­ção de risco. O trabalho de Shure e Spivak (Shure, 1974; Shure e Spivak, 1988; Spivak e Shure, 1974) é exemplar para ensinar ha­bilidades de solução de problemas a crian­ças que tinham probabilidades de usar res­postas impulsivas e inadequadas ao se de­parar com problemas interpessoais. Projetavam-se vidas infelizes para essas crian­ças, nas quais elas recorreriam ao crime e a comportamentos agressivos. Como antí­doto a esses problemas previstos, as crian­ças aprenderam a produzir outras soluções para seus problemas, que não as explosões agressivas. Esses exitosos programas de prevenção primária com base na solução de problemas foram ampliados a turmas de 5a a 8a séries (Elias, Gara, Ubriaco, Rothbaum, Clabby e Schuyler, 1986) e a adolescentes identificados com probabili­dades de usar drogas (Botvin e Torn, 1988), engravidar (Weissberg, Barton e Shriver, 1997) ou contrair o HIV (Jemmot, Jemmot e Fong, 1992).

Discutimos agora um programa que teve bastante êxito em ajudar crianças em [315] risco de depressão. Usando o modelo de otimismo aprendido de Seligman (vide o Capítulo 9), Gillham, Reivich, Jaycox e Seligman (1995) implementaram um pro­grama de prevenção primária de 12 sema­nas, para crianças de 5a a 6a séries. O pro­grama de prevenção ajudou as crianças a identificar visões negativas de si mesmas e a mudar suas atribuições para outras, mais otimistas e realistas. Em relação a um gru­po de controle de crianças que não recebe­ram esse pacote de prevenção, as que par­ticiparam do grupo experimental tiveram depressão significativamente mais baixa. Essas conclusões estavam diretamente liga­das a sua aprendizagem de atribuições mais otimistas. (Para conclusões análogas com estudantes do ensino médio, vide Clarke, Hawkins, Murphy, Sheeber, Lewinsohn e Seeley [1995].) O programa de Seligman é especialmente elogiável porque tem ava­liado sua eficácia permanentemente em termos de resultados positivos das crian­ças participantes que, caso contrário, estariam em risco de depressão grave.

Prevenções primárias para idosos

Os programas de prevenção destina­dos a idosos podem se concentrar em mui­tos objetivos diferentes, incluindo a tria­gem para reduzir a probabilidade de pro­blemas de saúde física e doenças posterio­res (Ory e Cox, 1994), a verificação das condições de moradia para remover riscos físicos que podem levar a quedas e outros acidentes (Stevens et al., 1992) e tentati­vas de maximizar o envolvimento profis­sional, social e interpessoal dos idosos (Payne, 1977). Um desses intrigantes pro­gramas de prevenção, chamado Grandma Please, faz que as crianças telefonem para seus avós depois da escola (Szendre e Jose, 1996). Embora tenham sido variados, os resultados desse programa se baseiam na premissa contundente de que manter os idosos envolvidos e participando ativamen­te em suas famílias os impede de entrar em uma espiral de vida marcada pelo iso­lamento e a depressão. Infelizmente, esses programas para idosos não geraram ne­cessariamente resultados uniformes. Por exemplo, Baumgarten, Thomas, Poulin de Courval e Infante-Rivard (1988) partiram do pressuposto de que fazer com que os adultos mais velhos ajudassem seus vizi­nhos debilitados seria benéfico para os pri­meiros, mas acabaram não encontrando re­sultados positivos. Em relação a essa últi­ma ausência de resultados esperados, pode ser o caso de que passar tempo com a fa­mília seja mais importante para os idosos nessas atividades de prevenção do que passá-lo com novos amigos (Thompson e Heller, 1990). Obviamente, é necessário fa­zer mais pesquisas para entender quais ti­pos de prevenção realmente funcionam para os idosos, e isso se tornará mais importante à medida que a grande coorte de nascidos na explosão demográfica posteri­or à Segunda Guerra Mundial tenha uma idade mais avançada.

Advertências com relação à prevenção primária

Vários fatores dificultam a implemen­tação de programas de prevenção primá­ria. Em primeiro lugar, as pessoas tendem a acreditar que o futuro resultará em coi­sas boas que acontecerão a elas, enquanto as coisas ruins acontecerão aos outros. Esse fenômeno foi chamado de ilusão da sin­gularidade (Snyder e Fromkin, 1980) ou invulnerabilidade singular (Snyder, 1997). Uma forma de redução dessas vi­sões falsas é proporcionar às pessoas in­formações estatísticas sobre o quanto é tí­pico se deparar com problemas. Isso faz que pareça mais “normal” ter o problema, e os receptores dessa informação ficam mais dispostos a buscar ajuda antes que o problema cresça a um tamanho tal que seja difícil de tratar.

Em um teste empírico dessa aborda­gem, Snyder e Ingram (1983) disseram a [316]  estudantes universitários, metade dos quais tinha ansiedade elevada em testes, que havia alta prevalência de ansiedade entre universitários. Os resultados mostraram que apenas os estudantes com alta ansie­dade passaram a percebê-la como normal e tiveram mais probabilidades de procurar tratamento. Uma abordagem parecida é mostrar anúncios de televisão curtos ou es­trelas de filmes contando que buscaram tra­tamento e agora estão melhores (Snyder e Ingram, 2000b). Resumindo, ao normali­zar o problema, as pessoas que o têm po­dem estar mais dispostas a buscar ajuda para tratá-lo.

Outra força que sabota as atividades de prevenção é a dificuldade de convencer as pessoas de que esses programas são efi­cazes e valem o esforço. As pessoas ten­dem a permanecer passivas e a acreditar que “as coisas vão acabar dando certo”. Além disso, as instituições de financiamen­to podem não enxergar o ganho, ou seja, que fazer alguma coisa agora vai ter bene­fícios anos mais tarde. Uma maneira de corrigir essa percepção equivocada é reali­zar pesquisas para mostrar os ganhos dire­tos em termos de aumento de produtivida­de e dinheiro economizado por essas instituições onde se podem ampliar as preven­ções (empresas, organizações governamen­tais, etc.) (Snyder e Ingram, 2000b). Se as pesquisas mostrarem a uma empresa que iniciativas de prevenção primária podem economizar seu dinheiro no longo prazo, ela provavelmente investirá dinheiro nes­sas atividades.

Por fim, ainda que tenha havido avanços na área de prevenção, é necessário um tempo considerável até que essas conclu­sões sejam publicadas e se tornem parte da base de conhecimento da psicologia (Clark, 2004). Embora tenhamos bastante conhecimento sobre como intervir contra as psicopatologias (em função da aplica­ção ampla do modelo anterior de patolo­gias), temos muito menos entendimento de prevenção para promover a saúde e redu­zir futuros problemas entre populações identificadas (Holden e Black, 1999). Mes­mo assim, a prevenção primária pode ser aplicada com eficácia a comportamentos-alvo relacionados à saúde psicológica e fí­sica. A prevenção primária pode ajudar a manter as enfermidades físicas contidas e aumentar a qualidade psicológica da vida nos anos seguintes (Kaplan, 2000; Kaplan, Alcaraz, Anderson e Weisman, 1996; Ka­ plan e Anderson, 1996).

Prevenção secundária (psicoterapia): "consertar o problema"

A prevenção secundária trata de um problema quando ele começa a surgir. Comparada com a prevenção primária, portanto, ela ocorre mais tarde na seqüên­cia temporal do problema que se desen­volve (vide a Figura 15.1). Snyder e cola­boradores (2000, p. 256) descreveram a prevenção secundária como algo que ocorre quando “o indivíduo produz ensina­mentos ou ações para eliminar, reduzir ou conter o problema uma vez que este apa­receu”. Sendo assim, o tempo em relação ao problema é um fator de diferenciação fundamental nesses dois tipos de preven­ção, com a prevenção primária envolven­do ações iniciadas antes do problema se de­senvolver e a secundária, ações realizadas depois que o problema apareceu.

A prevenção secundária é sinônimo de intervenções psicoterápicas. Embora a maioria das pessoas provavelmente se dê conta de que há muitas formas de psicoterapia, muitos se surpreendem ao saber que os profissionais atualmente estão pratican­do mais de 400 tipos diferentes de inter­venção (Roth, Fonagy e Parry, 1996).

Consideramos a psicoterapia como um excelente exemplo de prevenção secun­dária porque as pessoas que vêm a esse tipo de tratamento sabem que têm [317] determinados problemas que estão além de suas ca­pacidades de enfrentamento, e é isso que as leva a buscar ajuda (Snyder e Ingram, 2000a). De fato, a literatura relacionada revela que os problemas específicos dos fatores de estresse na vida desencadeiam a busca de ajuda psicológica (Norcross e Prochaska, 1986; Wills e DePaulo, 1991). É claro que, quando a psicoterapia é bem sucedida, ela também pode produzir a ca­racterística de prevenção primária de re­duzir ou prevenir a recorrência de proble­mas semelhantes no futuro.

A prevenção secundária é eficaz?

Desde as sínteses mais antigas sobre a eficácia da psicoterapia (por exemplo. Smith, Glass e Miller, 1980) às mais con­temporâneas (vide Ingram, Hayes e Scott, 2000), há evidências constantes de que ela melhora a vida de adultos e crianças. Quan­do dizemos que a psicoterapia “funciona”, queremos dizer que há uma redução da gravidade e/ou frequência dos problemas e sintomas do cliente. Em média, por exem­plo, uma pessoa que fez psicoterapia me­lhorou na magnitude de 1 desvio-padrão (ou seja, está cerca de 34% melhor) em vários indicadores de resultado, em rela­ção à que não fez (Landman e Dawes, 1982; Shapiro e Shapiro, 1982). Sendo assim, existe sustentação científica consistente para a eficácia do que chamamos de tratamentos baseados em evidências para adultos (Chambless et al., 1998; Chambless e Hollon, 1998; Chambless et al., 1996), crianças (Casey e Berman, 1985; Kasdin, Siegel e Bass, 1990; Roberts, Vemberg e Jackson, 2000; Weisz, Weiss, Alicke e Klotz, 1987), idosos (Gallagher-Thompson et al., 2000; Woods e Roth, 1996) e para mino­rias étnicas (Malgady, Rogler e Costantino, 1990). Além disso, os clientes que passa­ram por tratamentos psicoterápicos infor­mam estar muito satisfeitos com suas experiências (Seligman, 1995).

Para o leitor interessado em panora­mas de tratamentos eficazes para depres­sões, transtornos bipolares, fobias, trans­tornos de ansiedade generalizada, agorafobias, transtornos obsessivo-compulsivos, transtornos alimentares, esquizofrenia, transtornos de personalidade, dependência e abuso de álcool e disfunções sexuais, recomendamos o livro de 1996, What works for whom? A critical review of psychotherapy research, organizado por Anthony Roth e Peter Fonagy. As intervenções eficazes para problemas específicos são resumidas no Anexo A, dispostas nas páginas 334-335.

Componentes comuns das intervenções secundárias

Sobre a eficácia da psicoterapia, o renomado psiquiatra e estudioso da psico­terapia Jerome Frank (1968, 1973, 1975) sugeriu que a esperança seria o processo subjacente comum a todos os enfoques bem-sucedidos da psicoterapia. Partindo das idéias pioneiras de Frank, Snyder e colaboradores (Snyder, Ilardi, Cheavens, et al., 2000; Snyder, Ilardi, Michael e Chea­ vens, 2000; Snyder, Parenteau, Shorey, Kahle e Berg, 2002) usaram a teoria da es­perança (vide o Capítulo 9) para demons­trar como o pensamento dirigido a objeti­ vos, baseado em caminhos e em agência, facilita os bons resultados na psicoterapia. Aprofundamos, a seguir, a discussão sobre a aplicação desses processos de agência e caminhos a processos de psicoterapia.

Os efeitos placebo na pesquisa em psicoterapia representam o quanto os clien­tes iriam melhorar se fossem motivados a acreditar que as mudanças iriam aconte­cer. Portanto, se o tamanho do efeito de resultado terapêutico do placebo for com­parado com o tamanho do efeito terapêutico para clientes que não recebem ex­pectativas motivacionais, podemos produ­zir aquilo que eqüivale a um efeito-agência (ou motivação). Igualmente, se [318] tomar-mos o efeito de resultado total do trata­mento (incluindo agência e mais os cami­nhos do tratamento) e subtrairmos o efei­to placebo (agência), permanece havendo um efeito de tipo caminhos. Já se mostrou que o tamanho do efeito da agência típico é de 0,47 desvios-padrão em magnitude (isto é, os clientes ficam 16% melhores do que estariam se não tivessem recebido tra­tamento), e o efeito de caminhos foi de 0,55 desvios-padrão em magnitude (isto é, os clientes ficam 19% melhores do que es­tariam se não tivessem recebido tratamen­to; dados de Barker, Funk e Houston, 1988). Somando-se esses efeitos de agência e caminhos, tem-se o tamanho geral do efeito da esperança, de 1,02 desvios-padrão (isto é, os clientes ficam cerca de 35% melhores do que estariam se não tivessem recebido tratamento). Como é mostrado na Figura 15.2, podemos ver que cerca de me­tade do importante efeito de resultado da psicoterapia está relacionado à motivação de agência, e a outra metade do efeito da psicoterapia está relacionada aos caminhos aprendidos em intervenções específicas.

Programas de prevenção secundária para adultos

A maioria dos enfoques de psicote­rapia usou o que Berg e de Shazer (1992) chamam de “discurso do problema” em lugar do “discurso da solução”. Ou seja, o foco tradicional tem estado na redução dos pensamentos e comportamentos negativos em lugar de se concentrar na construção de pensamentos e comportamentos positi­vos (Lopez, Floyd, Ulven e Snyder, 2000). Embora o enfoque do comportamento hu­mano com base na patologia ainda seja o modelo predominante, nos últimos anos muitos terapeutas têm começado a prestar atenção às qualidades dos clientes. Igual­mente, às vezes é necessário que um clien­te desaprenda pensamentos e comporta­mentos negativos antes de aprender os positivos.

Figura 15.2

Antes de tratar de exemplos de abor­dagens terapêuticas mais novas da psico­logia positiva, seria interessante descrever abordagens anteriores que se mostraram eficazes para reduzir os problemas dos [319] clientes. Nesse sentido, algumas interven­ções de psicoterapia envolvem a autogestão (Rokke e Rehm, 2001). Uma delas é o modelo de autoeficácia de Bandura, dis­cutido anteriormente, no Capítulo 9. Se­gundo esse modelo, um cliente pode apren­der visões de eficácia por meio de

  1. conquistas reais em termos de desem­penho na área problemática;
  2. seguir o modelo de outra pessoa que está enfrentando de forma eficaz;
  3. persuasão verbal por parte do profissio­nal da ajuda e
  4. controle de processos cognitivos nega­tivos ao aprender a implementar humo­res positivos (Forgas, Bower e Moylan, 1990).

É importante observar que existem comportamentos-alvo específicos nessas abordagens baseadas na autoeficácia.

Um segundo tipo de autogestão en­volve a formação autodidática de Meichenbaum (1977), que geralmente se destina a tratar problemas de ansiedade. A etapa inicial dessa abordagem é coletar informa­ções sobre o problema, incluindo cognições mal-adaptativas. Isso se consegue quando o profissional pede que o cliente imagine o problema e descreva o diálogo interno que está ocorrendo. Na segunda etapa da abordagem de tratamento de Meichenbaum, ensinam-se diálogos internos mais adaptativos ao cliente. Por fim, o cliente pratica esses novos diálogos de enfrentamento para fortalecer a probabilidade de vir a usá-los de verdade.

Uma terceira abordagem baseada na autogestão é o modelo de autocontrole em três etapas, de Kanfer (1970), que costuma ser usado com problemas de ansiedade. Na primeira etapa, de automonitoramento, o cclente observa o comportamento problemá­tico no contexto de seus antecedentes e con­seqüências. Na segunda, de autoavaliação, o cliente aprende a comparar o comporta­mento problemático atual com o padrão melhorado de desempenho que se deseja, e entende que está ficando abaixo dele. Na terceira etapa, a de autorreforço, o cliente aprende a se reforçar (com recompensas ou punições) para o controle do comportamen­to indesejado. Além disso, o cliente deve es­tar comprometido a mudar e deve perceber que os comportamentos em questão estão sob seu controle.

Não podemos descrever todas as prin­cipais abordagens psicoterapêuticas em detalhes aqui. Para revisões das várias abor­dagens, vide o 2000 handbook of psycholo­gical change: psychotherapy processes & practicesfor the 21stcentury, organizado por C. R. Snyder e R. E. Ingram, e o 2004 handbook of psychotherapy and behavior change, organizado por M. J. Lambert. Os principais modelos de psicoterapia incluí­ram abordagens psicodinâmicas, técnicas comportamentais, estratégias cognitivo-comportamentais, modelos humanistas e abordagens do sistema de família, junto com o possível uso de medicações psicotrópicas (Plante, 2005).

Voltemos agora às abordagens de pre­venção secundária que são descritas den­tro do novo campo da psicologia positiva. Para uma revisão dessas abordagens da psicoterapia, recomendamos 2004 positive psychology in practice, organizado por E A. Linley e S. Joseph.

Seligman usou sua teoria do otimis­mo aprendido como uma estrutura de retreinamento de atribuições para desen­volver uma abordagem terapêutica à de­pressão. Para visões gerais de sua terapia de adultos, sugerimos o livro de 1991 de Seligman, Learned optimism e Authentic happiness, de 2002.

O retreinamento de atribuições para adultos de Seligman começa por ensinar às pessoas os ‘ABCs” relacionados a even­tos negativos em suas vidas. Especificamen­te, A é de adversidade, B para crença (belief) em relação à razão por trás do even­to negativo e C é de conseqüências em ter­mos de sentimentos (geralmente negativos ou deprimidos). A seguir, o autor ensina o adulto a acrescentar o D à seqüência ABC. [320]

Esse D representa a aprendizagem por par­te do cliente de confrontar e questionar a crença anterior, contraproducente e que gera depressão, com evidências contunden­tes e precisas. Por exemplo, na seqüência a seguir, considere um cliente hipotético, cha­mado Jack:

Adversidade = A percepção de Jack de que seu amigo Bob o tem ignorado.
Belief (a crença de Jack) = Bob não gosta dele porque Jack “não é divertido”.
Conseqüência = Jack se sente mal.

Com o treinamento para questionar com vistas a aprender outras explicações para o comportamento de Bob, Jack con­seguirá se sentir melhor consigo mesmo. Por exemplo, observe a seqüência a seguir, na qual se acrescenta o questionamento:

Adversidade = Bob não fala com Jack du­rante toda a tarde, no trabalho.
Belief (a crença de Jack) = Bob não gosta de Jack.
Conseqüência = Jack se sente mal.
Questionamento = Jack invoca a atri­buição mais otimista de que Bob também tem estado silencioso com outras pessoas no trabalho. Jack observa que, na verdade, Bob havia falado com ele no intervalo do café, pela manhã. Sendo assim, tendo feito essas atribuições mais otimistas, Jack con­segue se sentir muito melhor com a situação.

Além de aprender a terapia do oti­mismo, prestou-se um pouco de atenção à implementação do que se chamou de “te­rapia da esperança” em cenários de conta­to individual (Lopez et al., 2000; Lopez et al., 2004; McDermott e Snyder, 1999), com casais (Worthington et al., 1997) e em gru­pos (Klausner et al., 1998). Por exemplo, Klausner e colaboradores (Klausner et al., 1998; Klausner, Snyder e Cheavens, 2000) desenvolveram uma intervenção grupal válida para adultos mais velhos deprimi­dos. Especificamente, em uma série de 10 sessões de grupo, aprender as atividades direcionadas a objetivos que são inerentes à teoria da esperança reduziu a depressão e levantou os níveis de atividade física para pessoas mais velhas deprimidas. Além dis­so, essas melhorias baseadas no tratamen­to por meio da esperança foram superio­res às obtidas por um grupo de compara­ção que se submeteu à terapia grupal das reminiscências de Butler (1974), que im­plica que os idosos relembrem épocas ante­riores de suas vidas, mais prazerosas.

Também usando a teoria da esperan­ça como base, Cheavens e colaboradores (Cheavens, Feldman, Gum, Michael e Snyder, no prelo; Cheavens et al., 2001) desenvol­veram uma intervenção eficaz de oito ses­sões, para adultos deprimidos.

Em mais uma aplicação terapêutica da esperança, pacientes que faziam consultas em um centro de saúde mental comunitá­rio receberam uma preparação terapêutica pré-tratamento com base na teoria da espe­rança (isto é, aprenderam os princípios bá­sicos dessa teoria) e receberam as interven­ções psicoterápicas normais que são aplica­das nessa instituição. Os resultados mostra­ram que as pessoas que receberam instruções pré-tratamento na teoria da esperança melhoraram mais nos tratamentos subse­quentes do que as que não receberam essas preparações prévias (Irving et al., 2004). Deve-se enfatizar que todos os clientes nes­se estudo receberam tratamentos reais com­paráveis, mas o grupo que recebeu forma­ção pré-tratamento na teoria da esperança aproveitou melhor suas intervenções. Em mais uma intervenção com base na espe­rança, Trump (1997) formulou um trata­mento gravado em videoteipe usando nar­rativas esperançosas de mulheres que ha­viam sobrevivido ao incesto na infância. Os resultados mostraram que assistir a essa fita aumentava os níveis de esperança dessas mulheres em relação aos que assistiram a uma fita de controle.

Como mostrado no Anexo B (página 336), que é uma planilha para se usar na implementação da teoria da esperança com adultos, o cliente que passa pela terapia [321] da esperança é investigado em relação a seus objetivos em diferentes áreas da vida. A seguir, pede-se que escolha um domínio da vida específico, para nele trabalhar. Nas sessões seguintes, o terapeuta ajuda o clien­te a esclarecer os objetivos ao apontar referências concretas que sejam visíveis, para avaliar o progresso em atingir esses objeti­vos. Várias vias para se atingir os objetivos são ensinadas a seguir, junto com formas de motivar a pessoa para usar realmente essas vias. Os impedimentos aos objetivos desejados são previstos, e os clientes rece­bem instruções sobre como instituir rotas alternativas para os objetivos. À medida que diferentes objetivos são praticados ao longo do tempo, os clientes aprendem como aplicar a terapia da esperança natu­ralmente, em suas buscas cotidianas de objetivos. O propósito geral é ensiná-los a usar os princípios da terapia da esperança para atingir objetivos de vida atuais, espe­cialmente quando se encontram obstácu­los (Cheavens, Feldman, Woodward e Snyder, no prelo).

Prevenções secundárias para minorias étnicas

Os comentários a seguir, sobre psicoterapia para clientes que sejam membros de minorias étnicas, devem ser considera­ dos à luz do fato de que as pessoas de cor tendem a não buscar tratamento. Por exem­plo, enquanto os membros de grupos minoritários representam cerca de 30% da população dos Estados Unidos, eles perfa­zem apenas 10% dos que buscam psicoterapia (Vessey e Howard, 1993). Esse pro­blema é aumentado pelo fato de que mem­bros de grupos minoritários que entram em psicoterapia têm mais probabilidades do que os caucasianos de encerrar o tratamen­to antes (Gray-Little e Kaplan, 2000).

Mencionamos esses fatos para desta­car que o sistema não é eficaz para chegar às pessoas de cor e ajudá-las. Além disso, foi feita tão pouca pesquisa com clientes de psicoterapia que sejam de origem afri­cana, hispânica ou asiática, que atualmen­te não se podem fazer declarações em re­lação às melhores abordagens para tais tra­tamentos. Ao comentar a falta de amos­tras suficientes de clientes de minorias, Gray-Little e Kaplan (2000, p. 608) escre­veram: “Nossa revisão nos fez sentir como o convidado para jantar que comentou que a comida foi decepcionante e que ‘as por­ções eram muito pequenas!”’. Obviamen­te, uma das missões da psicologia positiva deveria ser entender as razões para a subutilização dos profissionais de saúde mental por membros de grupos minori­tários, bem como aumentar suas propensões a buscar esses serviços e se manter em tratamento.

Prevenção secundária para crianças

Para panoramas de prevenções secun­dárias para crianças, consulte as duas pá­ginas na internet http://www.state.hi.us/ doh/camhd/index.html e http://www.clinicalchildpsychology.org. Trataremos ago­ra de intervenções de psicologia positiva específicas para crianças. Anteriomente, neste capítulo, discutimos a abordagem de Seligman para o otimismo e seu uso como programa de prevenção primária para de­pressão em alunos de 5a série (vide, tam­bém, Jaycox, Reivich, Gillham e Seligman, 1994). Ém seu livro de 1995, The optimistic child, Martin Seligman mostra a professo­res e pais como educar as crianças para atingir as habilidades de vida necessárias de forma a diminuir a depressão. Esse pro­grama também melhora a autoconfiança, o desempenho escolar e a saúde física.

Usando a teoria da esperança como a desenvolveram Snyder e colaboradores, também tem havido programas explora­tórios para elevar a esperança de crianças. Nesses programas de treinamento para a esperança, as crianças aprendem a estabe­lecer objetivos claros e a encontrar várias rotas viáveis para chegar a eles. A seguir, ]322]  aprendem a se motivar para usar as rotas que levem aos objetivos desejados. Em seu livro Hope for the journey, Snyder, McDer­mott, Cook e Rapoff (2004) usam histórias para implantar pensamentos e comporta­mentos esperançosos nas crianças. Além disso, os programas iniciais nas escolas de ensino fundamental (McDermott et al., 1996) e nas de ensino médio (Lopez, 2000) usaram histórias para promover modestos aumentos na esperança. Da mesma forma, McNeal (1998) informou que a esperança das crianças aumentou após seis meses de psicoterapia, e Brown e Roberts (2000) concluíram que uma colônia de férias de seis semanas resultou em melhoras signi­ficativas nos escores de esperanças das cri­anças (essas mudanças se mantiveram após quatro meses). (Para mais um panorama das intervenções com base em esperança voltadas a crianças, leia The great big book of hope, de McDermott e Snyder [2000].)

Prevenções secundárias para idosos

A depressão é o problema mais fre­qüente entre pessoas mais velhas que vêm à psicoterapia. Nas palavras de Blazer (1994), a depressão é como o resfriado na vida psicológica dos idosos. A abordagem terapêutica mais predominante com os ido­sos é a cognitivo-comportamental (Thomp­son, 1996), embora a psicodinâmica (Newton, Brauer, Gutmann e Grimes, 1986), a interpessoal (enfatizar as habilidades de comunicação; Klerman, Weissman, Roun- saville e Chevron, 1984) e a das reminiscências (Butler, 1974) também tenham sido usadas com eficácia. Como os idosos ge­ralmente enfrentam eventos negativos qua­se inevitáveis (redução de renda e saúde, perda de amigos e cônjuge, etc.), o desen­volvimento de visões mais adaptativas em relação às próprias circunstâncias e a si mesmos é especialmente aplicável (Galla- gher-Thompson et al., 2000). Nessa abor­dagem, é importante se certificar de que o cliente idoso:

  1. tem expectativas apropriadas daquilo que virá à tona no tratamento;
  2. consegue ouvir e ver claramente nas sessões; e
  3. tem sessões estruturadas para avançar com a calma necessária para que as lições sejam absorvidas.

Embora a abordagem usual seja con­duzir esse tratamento em um setting indi­vidual, os formatos grupais também podem funcionar. Nesse sentido, a abordagem psicoeducacional com adultos de mais ida­de será cada vez mais importante no futu­ro. (Para um manual sobre como conduzir uma aula dessas, vide Thompson, Gallagher e Lovett, 1992).

Uma advertência sobre intervenções secundárias

Infelizmente, há um estigma relacio­nado a consultar um profissional de saúde mental para fazer psicoterapia. Embora a maioria das pessoas não tenha problemas em consultar outros profissionais de saú­de, como oftalmologistas ou cirurgiões, elas ficam reticentes em relação a ver um psi­quiatra ou um psicólogo profissional. Um exemplo claro desse estigma ocorreu na eleição presidencial de 1972 nos Estados Unidos, quando o candidato democrata George McGovern escolheu o senador Thomas Eagleton como seu candidato a vice-presidente. Quando o público norte- americano descobriu que o senador Eagleton havia feito tratamento para depressão clí­nica com terapia eletroconvulsiva de cho­que, houve uma preocupação de que uma pessoa depressiva pudesse estar a “a um passo da presidência” se alguma coisa acon­tecesse a McGovern (caso ele fosse eleito presidente). O estigma associado à depres­são acabou fazendo que McGovern retiras­se Eagleton da chapa.

Outro exemplo vem da ex-primeira dama Rosalynn Carter (Carter, 1977), que escreveu, [323] 

Quando eu era criança em Plains, no Es­tado da Geórgia, eu não ouvia falar em “saúde mental” e “doença mental”. Com os anos, escutei que um vizinho nosso teve um “colapso nervoso” e outro amigo “não estava muito bem”, e que um primo dis­tante havia sido colocado em uma instituição do Estado na qual, supus, todo mundo era louco. Lembro-me claramen­te de quando meu primo veio para casa uma vez visitar a família. Acho que me lembro da ocasião com tanta clareza por­que ele correu atrás de mim pela rua - e eu nunca me senti tão apavorada. Eu não sabia porque deveria fugir... Como nação, ainda estamos fugindo de pessoas que ti­veram ou ainda têm transtornos mentais e emocionais. E o estigma ligado à sua sina é uma desgraça não merecida... Em suma, a doença mental ainda não é acei­tável em nossa sociedade” (p. D4).

Os meios de comunicação tocam nes­ses assuntos em programas de televisão ocasionais, como The Bob Newhart Show e Frasier, em que rimos do humor inerente ao comportamento de psicoterapeutas es­quisitos. Esse tipo de televisão nada faz para reduzir o estigma, contudo, e pode muito bem alimentar os estereótipos ne­gativos. De fato, restam poucas dúvidas de que esse estigma persiste na sociedade dos Estados Unidos, pois a maioria das pessoas ainda evita falar de seu cuidado com a saú­de mental. A tragédia, nesse caso, é que esse estigma impede muitas pessoas de buscar o tratamento de que necessitam. Além disso, se as pessoas conseguirem pro­curar tratamento nas primeiras fases de seus problemas psicológicos, a probabili­dade de que tenham resultados eficazes no tratamento aumenta. Entretanto, elas po­dem esperar até que o problema psicológi­co se torne tão grave que seja extremamen­ te difícil intervir de forma eficaz. Talvez a psicologia positiva possa trabalhar para re­duzir esse pensamento preconceituoso fa­zendo com que as pessoas pensem em psicoterapia não apenas como uma solução para problemas, mas também como o for­talecimento das qualidades da pessoa e seus talentos, para que ela se torne mais produtiva e mais feliz. Em outras palavras, com o crescimento da psicologia positiva, o estigma associado à psicoterapia pode se reduzir, pois as pessoas passariam a ver o tratamento como algo que envolve proces­sos para aumentar seus recursos.

Potencialização primária: "tornar a vida boa" 

A potencialização primária é o es­forço para estabelecer funcionamento e sa­tisfação ótimos. Como mostrado no lado es­ querdo da Figura 15.3, a potencialização primária envolve tentativas de aumentar o bem-estar hedônico ao maximizar o que é agradável ou aumentar o bem-estar eudaimônico ao estabelecer e atingir objetivos (Ryan e Deci, 2001; Waterman, 1993). En­quanto as potencializações primárias hedônicas visam à indulgência no prazer e à satisfação de apetites e necessidades, as potencializações primárias eudaimônicas enfatizam o funcionamento eficaz e a feli­cidade, como resultado desejável do proces­so de busca de objetivos (Seligman, 2002; Shmotkin, 2005). Nesse aspecto, deve-se observar que a pesquisa de análise fatorial sustentou a distinção entre motivações hu­manas hedônicas e eudaimônicas (Compton, Smith, Cornish e Qualls, 1996; Keyes, Shmotkin e Ryff, 2000).

Figura 15.3

Antes de descrever as várias rotas para a potencialização primária, são necessários alguns comentários sobre o papel da evolu­ção. Em um sentido evolutivo, determina­das atividades são biologicamente predis­postas a produzir satisfação (Buss, 2000; Pinker, 1997). Uma premissa evolutiva é que as pessoas vivenciam o prazer sob circuns­tâncias favoráveis à propagação da espécie humana (Carr, 2004). Assim, a felicidade é resultado de laços interpessoais íntimos, es­pecialmente os que levam ao acasalamento e à proteção da prole. De fato, as pesquisas mostram que a felicidade vem: [324]

  1. de uma unidade de vida segura e que proporcione apoio, com pessoas que tra­balham juntas;
  2. de um ambiente que seja fértil e produ­tor de alimentação;
  3. da ampliação dos limites de nosso cor­po por meio do exercício e da busca de objetivos dotados de senti­do no trabalho (Diener, 2000; Kahne- man, Diener e Schwartz, 1999; Lykken, 1999).

Mais uma advertência cabe aqui. Muitas das experiências que estão na cate­goria de potencialização primária também se encaixam na de potencialização secun­dária, envolvendo experiências de pico. A divisão entre uma experiência ótima e uma experiência de pico pode ser muito sutil.

Potencialização primária: saúde psicológica

Muitas pessoas em seus leitos de mor­te podem pensar: “Eu queria ter passado mais tempo com minha família”. Isso su­gere que nossos relacionamentos são cru­ciais para a satisfação na vida. De fato, para maioria das pessoas, os relacionamentos interpessoais com parceiros amorosos, pa­rentes e bons amigos são as fontes mais poderosas de bem-estar e satisfação na vida (Berscheid e Reis, 1998; Reis e Gable, 2003).

Realizar atividades compartilhadas que sejam agradáveis aumenta o bem-es­tar psicológico (Watson, Clark e Tellegen, 1988), especialmente se essa participação conjunta gera excitação e atividades novas (Aron, Norman, Aron, McKenna e Heyman, 2000). Igualmente, é benéfico para ambas as partes enfrentar atividades intrinsecamente motivadas, nas quais podem com­partilhar aspectos de suas vidas deixando-se absorver pelo flow atual de seus com­portamentos (Csikszentmihalyi, 1990).

Para além do relacionamento com o parceiro amoroso, as satisfações da poten­cialização primária também podem advir de outras relações, por exemplo, com ami­gos e parentes. As circunstâncias de vida para estar em proximidade física com a família também podem produzir os apoios sociais que são tão cruciais para a felicida­de. A rede formada por alguns amigos ín­timos também pode gerar contentamento. Por fim, há argumentos evolutivos contun­dentes (Argyle, 2001) e pesquisa empírica (Diener e Seligman, 2002) para sustentar as razões pelas quais esses relacionamen­tos com parentes e amigos são fundamen­tais para a felicidade.

Outro relacionamento que gera feli­cidade é o envolvimento em questões de [325] religião e espirituais (Myers, 2000; Pied­ mont, 2004). Em parte, isso pode ser um reflexo do fato de que a religiosidade e a oração estão relacionadas à esperança ele­vada (Laird, Snyder, Rapoff e Green, 2004; Snyder, 2004c). Da mesma forma, parte da satisfação com a religião provavelmente provém dos contatos sociais que ela proporciona (Carr, 2004). A felicidade tam­bém pode resultar da espiritualidade oriun­da dos relacionamentos de uma pessoa com uma força superior. Sobre esse aspecto, há evidências de um possível vínculo genéti­co com as necessidades espirituais das pes­soas (vide Hamer, 2004).

O trabalho gratifícante também é uma importante fonte de felicidade (Argyle, 2001). Se as pessoas estiverem satisfeitas com seu tra­balho, elas também ficarão mais felizes (uma correlação geral de 0,4 entre estar empregado e o nível de felicidade; Diener e Lucas, 1999). A razão para essa conclu­são é que, para muitas pessoas, o trabalho proporciona uma rede social e também pos­sibilita testar talentos e habilidades. Para adquirir esse tipo de satisfação no traba­lho, contudo, é fundamental que os em­pregos ofereçam bastante variedade nas atividades realizadas. Além disso, as tare­fas devem ser adequadas às habilidades e aos talentos do trabalhador. Também aju­da ter um chefe que apoie e estimule a au­tonomia (Warr, 1999) e, ao mesmo tem­po, possibilite ao trabalhador individual en­tender e assumir como sendo seus os obje­tivos mais amplos da empresa (Hogan e Kaiser, 2005).

As atividades de lazer também podem gerar prazer (Argyle, 2001). Relaxar, des­cansar e fazer uma boa refeição têm todos o efeito de curto prazo de fazer que as pes­soas se sintam melhor. As atividades recre­ativas, como praticar esportes, dançar e escutar música, possibilitam às pessoas es­tabelecer contatos prazerosos com as ou­tras. Embora possa parecer incoerente com o termo lazer, as pessoas costumam ser muito ativas ao participar de atividades desse tipo. Portanto, às vezes a felicidade vem da estimulação e de uma sensação de excitação positiva, ao passo que, em ou­tras vezes, ela reflete um processo tranqüilo e de repor as energias.

Sejam quais forem as atividades es­pecíficas de potencialização primária, as ações totalmente absorventes são as mais agradáveis. Csikszentmihalyi e colaborado­ res (Csikszentmihalyi, 1990; Nakamura e Csikszentmihalyi, 2002) estudaram as cir­cunstâncias que levam a uma sensação de envolvimento total. Essas atividades cos­tumam ser intrinsecamente fascinantes por levar os talentos a níveis satisfatórios, nos quais as pessoas se deixam levar e perdem a noção do tempo. Esse tipo de potencia­lização primária já foi chamado de expe­riência de flow, e artistas, cirurgiões e ou­tros profissionais relatam ter esse tipo de flow em seu trabalho (vide o Capítulo 11, para mais discussão sobre flow).

Uma outra via para se atingir uma sensação de contentamento é a contempla­ção, no momento presente, do ambiente externo e interno da pessoa. Uma linha comum no pensamento oriental é a de que se tem imenso prazer por meio de “ser” ou vivenciar. Mesmo nas sociedades ociden­tais, contudo, a meditação sobre as expe­riências internas ou pensamentos ganhou muitos seguidores (Shapiro, Schwartz e Santerre, 2002). A meditação foi definida como “uma família de técnicas que têm em comum uma tentativa consciente de con­centrar atenção de forma não analítica e uma tentativa de não se manter no pensa­mento discursivo, ruminativo” (Shapiro, 1980, p. 14). Por exemplo, a meditação mindfulness (Langer, 2002) envolve uma atenção sem julgamento, que possibilita uma sensação de paz, serenidade e prazer. Kabat-Zinn (1990) propôs as sete qualida­des a seguir em relação à meditação mind­fulness: não-julgar, aceitar, abrir-se, não lutar, ter paciência, ter confiança e desvencilhar-se (vide o Capítulo 11). Igualmente, naquilo que se chama de meditação con­centrada, a consciência é restringida por [326]  meio da concentração em um único pen­ samento ou objeto, como um mantra pes­ soal, a própria respiração, uma palavra (Benson e Proctor, 1984), ou mesmo um som (Carrington, 1998).

Outro processo que se assemelha à meditação em sua forma de operação é a apreciação (savoring), que envolve pensa­mentos e ações que visam apreciar e, tal­vez, amplificar, uma experiência positiva de algum tipo (vide Bryant, 2004; Bryant e Veroff, 2006). Segundo Fred Bryant (2005), psicólogo que cunhou esse termo e que produziu as principais pesquisas e teorias a respeito, a apreciação pode assu­mir três formas temporais:

  1. Antecipação, ou o prazer por um even­to positivo vindouro.
  2. Estar no momento, ou pensar e fazer coisas para intensificar e, talvez, pro­longar um evento positivo à medida que ele ocorra.
  3. Reminiscência, ou se lembrar de um evento positivo para resgatar os senti­mentos e pensamentos favoráveis.

Além disso, a apreciação pode assu­mir a forma de:

  • Compartilhar com outras pessoas.
  • Tirar “fotografias mentais” para cons­truir a própria memória.
  • Congratular-se.
  • Comparar com o que se sentiu em ou­tras circunstâncias.
  • Afiar os sentidos por meio da concen­tração.
  • Ser absorvido pelo momento.
  • Expressar-se por intermédio do compor­tamento (rir, gritar, dar socos no ar).
  • Dar-se conta do quão fugaz e preciosa é a experiência.
  • Contar as próprias bênçãos.

Como exemplo de apreciação, veja os comentários (retirados de seu diário), de Bertrand Piccard (1999), quando este con­templava a última noite de sua viagem de balão ao redor do mundo, quando que­brou recordes

Na última noite, saboreei mais uma vez o rela­cionamento ínti­mo que estabele­cemos com nos­so planeta. Sen­tindo calafrios no assento do piloto, tenho a sensação de ter saído da cápsula para voar sob as estrelas que engoliram nosso ba­lão. Sinto-me tão privilegiado que quero desfrutar cada segundo deste mundo aé­reo... Em seguida, ao clarear do dia, [o balão] aterrissará na areia do Egito... [e eu] precisarei imediatamente encontrar palavras para satisfazer a curiosidade do público. Mas agora, silenciado dentro de minha japona, deixo que a mordida fria da noite me lembre de que ainda não ater­rissei, de que ainda estou vivendo um dos momentos mais bonitos da minha vida... a única maneira por meio da qual posso fazer que este instante dure é compar­tilhá-lo com outras pessoas (p. 44).

Ainda há mais que as pessoas podem fazer, para além da apreciação. Nesse sen­tido, a psicóloga Barbara Fredrickson (2002), da Universidade da Carolina do Norte, desenvolveu seu pioneiro modelo “ampliar e potencializar” (vide o Capítulo 7, para uma discussão mais detalhada do modelo) após observar que as emoções negativas, como a raiva e a ansiedade, ten­dem a limitar o repertório de pensamento e ação de uma pessoa. Ou seja, quando sentem emoções negativas, as pessoas se interessam por proteção - e seus pensa­mentos e ações passam a estar limitados a umas poucas opções restritas, que visam a se manter “em segurança”. Por outro lado, Fredrickson propôs que, ao experimentar emoções positivas, as pessoas se abrem e se tornam flexíveis em seus pensamentos e em seus comportamentos. Dessa forma, [327] as emoções positivas ajudam a produzir uma mentalidade voltada a “ampliar e potencializar”, na qual acontece um carros­sel positivo de emoções, pensamentos e ações subsequentes. Portanto, qualquer coisa que a pessoa possa fazer para vivenciar alegria, talvez por meio de diver­são ou outras atividades, pode render be­nefícios psicológicos.

Em sua pesquisa, Fredrickson (1999, 2001, 2002) induziu emoções positivas, fa­zendo que os participantes se lembrassem de um evento alegre, ouvissem uma música favorita, assistissem a um bom filme e rece­bessem avaliações positivas acerca de si mesmos, para citar alguns exemplos. Essas induções emocionais positivas, por sua vez, tornam as pessoas mais felizes, mais perceptivas, melhores na solução de problemas, com mais facilidade nas interações sociais, e assim por diante. O ciclo de “am­pliar e potencializar” é mostrado no Capí­tulo 7, na Figura 7.3. As emoções positivas abrem a pessoa às circunstâncias em que ela está inserida, bem como às importantes pistas que são relevantes às tarefas nessas circunstâncias. Além disso, as emoções po­sitivas lembram a pessoa de outros episódios de sucesso em sua vida, elevando, assim, a possibilidade percebida de se sair bem nas condições atuais. Portanto, o modelo de “ampliar e potencializar”, de Fredrickson, põe em movimento um carrossel positivo.

O psicólogo Steve Ilardi e colabora­dores da Universidade do Kansas, inicia­ram um novo tratamento para a preven­ção da depressão e para o aumento da feli­cidade pessoal, chamado de Mudança te­rapêutica de estilo de vida, Therapeutic Lifestyle Change ([TLC], Ilardi e Karwoski, 2005; para mais informações sobre o programa, consulte a página na internet www.psych.ku.edu/TLC). O preceito básico do TLC é o de que o desenvolvimento de determinadas postu­ras em relação ao estilo de vida, especial­mente as atividades que eram parte natu­ral da vida de nossos ancestrais que vive­ram há muito tempo, gera uma redução da depressão e um aumento da felicidade.

Os componentes do TLC são o exer­cício, suplementos de ácidos graxos ômega- 3, exposição à luz, menos ruminação e pre­ocupações, apoio social e bom sono. Inicial­mente, são recomendados 35 minutos de exercício aeróbico ao menos três vezes por semana. A ideia é fazer que o batimento cardíaco da pessoa chegue entre 120 e 160 por minuto. Segundo, os suplementos de ácidos graxos ômega-3 (óleos de peixe, vendidos sem prescrição médica) podem ser comprados em farmácias. Parece que nossos ancestrais consumiam quantidades mais altas de peixe do que nós consumi­mos hoje. Em terceiro, tente obter pelo menos 30 minutos de luz do sol por dia. Pode-se fazer isso naturalmente, ficando ao sol ou se sentando próximo a uma caixa de luz especial que emite luz muito bri­lhante (10.000 lux). Quarto, pare de rumi­nar. Entre as coisas que funcionam para re­duzir essa preocupação estão telefonar a um amigo, exercitar-se, colocar os pensa­mentos negativos em um diário ou reali­zar outras atividades prazerosas. Em quin­to lugar, certifique-se de estar com outras pessoas. Isso também ajuda a distraí-lo da ruminação. Sexto, durma ao menos 8 ho­ras por noite. Faça isso assumindo um ritu­al para a hora de dormir e evite cafeína e álcool muitas horas antes de deitar. Em sín­tese, o TLC parece ser uma nova aborda­gem promissora (com base em ações hu­manas muito antigas) que pode aumentar nossa felicidade. Além disso, deve-se regis­trar que o TLC envolve inerentemente vá­rios processos já discutidos nesta seção e cobre a potencialização primária da saúde psicológica.

Martin Seligman e colaboradores rea­lizaram um programa de pesquisa voltado a encontrar intervenções que fossem [328] eficazes para potencializações primárias (vide Seligman, Steen, Park e Peterson, 2005). Especificamente, Seligman recrutou 577 adultos que visitaram a página na internet de seu livro Authentic happiness (Seligman, 2002). A maioria dessas pessoas era de origem caucasiana, com alguma instrução universitária, entre 35 e 40 anos de idade, e 58% eram mulheres. Antes e depois de passar pela intervenção de potencialização primária, cada participante realizou medi­das de autoavaliação da felicidade. (Em­bora os participantes tenham sido desig­nados aleatoriamente a condições diversas, tratamos de uma condição de controle e três condições de intervenção para poten­cialização primária.)

A condição de controle para compa­ração era um exercício placebo no qual os participantes escreviam durante uma sema­na sobre suas memórias mais antigas. Os participantes colocados na intervenção de gratidão receberam uma semana para “entregar pessoalmente uma carta de gra­tidão a alguém que tivesse sido especial­mente gentil com eles, mas que nunca hou­vesse recebido os devidos agradecimentos (Seligman et al., 2005, p. 416). Os partici­pantes designados à condição que envol­via três coisas boas na vida deveriam es­crever, durante uma semana, sobre três coisas que foram bem a cada dia, junto com as causas por trás de cada uma delas. Por fim, pediu-se que um grupo de partici­pantes examinasse suas qualidades de ca­ráter de uma nova maneira, durante uma semana.

Os resultados mostraram que cada uma dessas três intervenções de potencia­lização primária teve efeitos positivos consistentes para revelar os níveis de feli­cidade dos participantes em relação aos que estavam na condição de controle/placebo. A visita de gratidão gerou os maiores aumentos em felicidade, mas eles duraram apenas por um mês. Além disso, escrever sobre três coisas boas que tivessem acontecido, junto com o uso de qualidades pessoais aplicados de uma nova maneira, tornou as pessoas mais fe­lizes, e essas mudanças positivas duraram até 6 meses.

Tomadas em seu conjunto, essas con­clusões sugerem que os psicólogos podem ajudar a desenvolver e a implementar in­tervenções de potencialização primária que elevem a felicidade das pessoas. Em seus comentários finais sobre essas descobertas pioneiras, Seligman e colaboradores (2005, p. 421) concluíram que “a psicoterapia é, há muito tempo, o lugar aonde se vai para falar dos problemas... Sugerimos que a psicoterapia do futuro também possa ser o lugar aonde se vai falar das próprias quali­dades”.

Antes de encerrarmos esta seção so­bre potencialização primária na saúde psi­cológica, a observação a seguir pode surpreendê-lo: um objetivo que não parece se adequar à potencialização primária é a busca de saúde financeira pessoal. Além de garantir as necessidades básicas da vida, o dinheiro pouco faz para melhorar o bem-estar (Diener e Biswas-Diener, 2002; Myers, 2000). Pense nas pessoas que você conhe­ce. É provável que as que se dedicam a obter riqueza provavelmente não sejam tão felizes. Na verdade, como apontamos em nosso capítulo anterior sobre os anteceden­tes da felicidade (Capítulo 7), adquirir muito dinheiro não é o caminho das pe­dras para a satisfação na vida.

Potencialização primária: saúde física

O exercício é um caminho comum para se obter uma sensação de condicio­namento físico, boa forma e força. Um as­pecto importante do exercício e da boa for­ma é dar às pessoas maior segurança de suas capacidades de realizar as atividades que formam suas rotinas cotidianas. Mais do que as melhorias fisiológicas que resul­tam dos exercícios, a segurança que eles geram também aumenta a felicidade e o bem-estar (Biddle, Fox e Boutcher, 2000). Embora os exercícios elevem os humores [329] positivos no curto prazo, é no longo prazo que eles produzem maior felicidade (Argyle, 2001; Sarafino, 2002). Nesse sentido, pode-se acrescentar o exercício à seção anterior sobre potencialização primária e saúde psicológica.

Parte da motivação para o exercício pode ser ter boa aparência e obter uma imagem física melhor (Leary, Tchividijian e Kraxberger, 1994). Outra razão por trás disso pode ser o desejo de ter boa saúde física. Sobre isso, algumas pessoas encon­tram prazer em ingerir vitaminas e alimentação nutritiva.

Atividades físicas regulares produzem benefícios psicológicos e físicos. Por exem­plo, a atividade física está relacionada aos seguintes benefícios (de Mutrie e Faulkner, 2004, p. 148):

  1. menores chances de morrer prematu­ramente;
  2. menos probabilidade de morrerprema­turamente de doenças cardíacas;
  3. menos riscos de diabete;
  4. menos probabilidade de desenvolver pressão sanguínea elevada;
  5. menos chances de desenvolver câncer de colo;
  6. perda e controle do peso e 
  7. ossos, músculos e articulações saudáveis.

Uma advertência sobre a potencialização primária

As pessoas devem tomar cuidado, em potencializações primárias, para não exa­gerar nessas atividades. Quando são se­duzidas pelos prazeres que derivam da po­tencialização de suas qualidades, as pes­soas podem perder a noção de equilíbrio nas atividades de sua vida. Assim como ocorre com qualquer atividade, pode ser necessária moderação.

Potencialização secundária: "Fazer da vida o melhor possível"

Em comparação com a potencializa­ção primária - na qual a pessoa busca um desempenho ótimo e uma satisfação por meio da busca de objetivos na potencialização secundária o objetivo é aumen­tar níveis já positivos para chegar ao máximo em termos de desempenho e satisfação (vide o lado direto da Figura 15.3). Em um sentido temporal, as atividades de potencialização secundária acontecem após terem sido atin­gidos níveis básicos de desempenho e satis­fação com a potencialização primária.

Potencialização secundária: saúde psicológica

A potencialização secundária da saú­de psicológica permite que as pessoas ma­ximizem seus prazeres partindo de sua saú­de mental positiva pré-existente. Momen­tos psicológicos de pico muitas vezes en­volvem importantes conexões humanas, como o nascimento de um filho, um casa­mento, a formatura de uma pessoa queri­da ou, talvez, o amor apaixonado e com­panheiro em relação ao parceiro.

Existem experiências psicológicas co­letivas cujo propósito é ajudar as pessoas a atingir prazeres extremos por meio do re­lacionamento profundo com outras. Já na década de 1950, por exemplo, os grupos de treinamento, ou grupos T, como eram chamados (Benne, 1964), enfatizavam a forma como as pessoas poderiam se juntar para vivenciar integralmente suas emoções positivas (Forsyth e Corazinni, 2000). (Por vezes, esses grupos eram chamados de “treinamento para a sensibilidade” [F. Johnson, 1988].)

A contemplação existencialista do sentido da vida é mais uma abordagem [330] para se chegar a uma experiência trans­cendentemente gratificante. Viktor Frankl (1966, 1992), ao analisar a questão de “qual é a natureza do sentido”, concluiu que o máximo em termos de vivenciar o sentido da vida vem de pensar sobre nos­sos objetivos e nossos propósitos. Mais do que isso, especulamos que a satisfação maior vem de contemplar nossos propósi­tos em tempos nos quais estamos sofren­do. Os pesquisadores da psicologia positi­va relataram que esse sentido na vida está relacionado à esperança muito elevada (Feldman e Snyder, 2005). Para o leitor interessado em instrumentos de autoapoio relacionados ao sentido na vida, reco­mendamos o Teste do propósito da vida (Purpose in life test, Crumbaugh e Maholick, 1964; Crumbaugh e Maholick, 1981), o índice de Interesse na Vida (Life Regard Index, Battista e Almond, 1973) e a Escala de sensação de coerência (Sense of cohe­rence scale, Antonovsky e Sagy, 1986).

Às vezes, ocorrem potencializações psicológicas secundárias em contextos em que as pessoas conseguem competir umas com as outras. Essas “competições normais” (vide Snyder e Fromkin, 1980) estão rela­cionadas ao envolvimento em disputas competitivas. Há regras para essas dispu­tas, e com o tempo uma ou mais pessoas surgem como vencedores. O elevado nível de prazer que esses vencedores sentem é descrito muitas vezes como “pura alegria”.

Ocasionalmente, os níveis máximos de prazer são resultado de maior envolvi­mento do que qualquer pessoa pode atin­gir sozinha (Snyder e Feldman, 2000). Tra­balhando juntas, as pessoas conseguem lutar por conquistas que seriam impensá­veis para qualquer indivíduo (vide Lemer, 1996). Depois, como parte dessa unidade coletiva, elas podem experimentar uma sensação de sentido e emoções que fazem parte dessa escala mais grandiosa. A histó­ria está cheia desses casos de triunfo cole­tivo diante da adversidade. Da mesma for­ma, a literatura costuma detalhar o inten­so êxtase vivenciado por pessoas que tra­balharam juntas para superar obstáculos difíceis e desafiadores para atingir seus objetivos coletivos. Alguns psicólogos já deram início a experiências com enfrentamento de ambientes selvagens, nas quais um pequeno grupo de pessoas aprende o júbilo supremo de cooperar como grupo para conseguir realizar diversas tarefas em ambientes difíceis e naturais (mergulho, canoagem, rafting, escaladas, etc.).

Ajudar os outros também faz com que as pessoas se sintam muito bem consigo mesmas. Outra experiência transcendente é ver outra pessoa fazendo algo que seja tão es­pecial que inspire admiração ou eleve. Nes­sas circunstâncias, é como se tivéssemos tido a dádiva de testemunhar o que de melhor há nas pessoas, e assistir a isso pro­duz um estado de profunda admiração (vide Haidt, 2000, 2002). Considere um exemplo real dessa admiração que (C.R.S.) tive o privilégio de testemunhar. O que aconteceu foi o seguinte: eu tinha tido um dia muito ruim. Não apenas as coisas ti­nham ido mal no trabalho (tinham-me dito que minha solicitação de bolsa havia sido negada), como também eu estava me sen­tindo mal fisicamente. Fui almoçar com meus colegas na associação dos estudan­tes apenas para descobrir que eles, tam­bém, não estavam em um bom momento. De repente, um jovem que vestia um abri­go da Universidade do Kansas correu até uma mesa do outro lado do corredor e ad­ministrou a manobra de Heimlich em um homem mais velho que estava se engas­gando. A cantina imediatamente ficou em [331] silêncio enquanto as pessoas assistiam a esse ato heroico que pode ter salvado a vida do homem. Quando a comida foi retirada da garganta dele, rompeu-se o silêncio à medida que as pessoas aplaudiam o ato do jovem. Com uma aparência um pouco constrangida, ele sorriu e foi saindo. Senti uma tremenda elevação que durou o resto do dia (e os vários dias que se seguiram). Foi um dos eventos mais comoventes em [332] que jamais estive envolvido, e meu único papel foi o de testemunhar essa ação im­pressionante e altruísta. Sem sombra de dúvida, observar um ato como esse, ver­dadeiramente excepcional, pode gerar um tipo de potencialização secundária.

Finalmente, por meio das artes, como a música, a dança, o teatro e a pintura, são proporcionados grandes prazeres às mas­sas. Assistir a apresentações artísticas im­portantes pode elevar públicos aos mais altos níveis de satisfação e prazer (Snyder e Feldman, 2000). Podemos estimular adul­tos de mais idade a resgatar algumas das alegrias e prazeres que vêm com a explo­ração e com as conquistas de novas habilidades quando somos mais jovens. 

Potencialização secundária: saúde física

A potencialização secundária da saú­de física diz respeito aos níveis de pico da saúde física, níveis esses que estão além daqueles das pessoas em boa condição. As pessoas que buscam potencialização secun­dária lutam por níveis de condicionamen­to físico que ultrapassam em muito os que geralmente são atingidos por pessoas que simplesmente realizam exercícios. Não per­ca de vista, contudo, que essas pessoas não precisam ser atletas de nível olímpico que competem contra outros atletas de elite com o objetivo de chegar ao máximo de­ sempenho em um esporte. Em lugar disso, os atletas que buscam os níveis mais ele­vados de competição podem ver a forma física como meio de aumentar as probabi­lidades de vencer. Por outro lado, as pes­soas que tipificam a potencialização secun­dária da saúde física são motivadas para atingir os níveis mais altos de proeza física por si só. Esse último nível superior de for­ma física reflete aquilo que Dienstbier (1989) definiu como robustez (toughness').

Advertências com relação à potencialização secundária

Por mais estranho que possa soar, as pessoas podem se tornar quase viciadas nas experiências de pico que refletem a poten­cialização secundária. Há uma força de equilíbrio natural, contudo, no fato de que as atividades mundanas da vida necessi­tam que as pessoas prestem atenção a elas, o que as deixa com pouco tempo para ir em busca de potencialização primária e secundária.

Também temos uma preocupação sé­ria com o desenvolvimento potencial de ins­trutores pessoais para ajudar as pessoas a atingir experiências de pico em termos de potencialização secundária. Nossa preo­cupação é que apenas os ricos tenham con­dições de pagar esses instrutores, o que se­ria antiético em relação ao espírito de igual­dade que acreditamos que deva guiar o cam­po da psicologia positiva. A proliferação de instrutores pessoais de psicologia positiva deve acontecer de tal forma que as pessoas de todos os grupos étnicos e socioeconômicos possam ter acesso a eles. Como já dis­ semos em outros momentos, a psicologia positiva deve ser para muitos, e não para uns poucos (Snyder e Feldman, 2000).

O equilíbrio entre sistemas de prevenção e potencialiação

Neste capítulo, descrevemos separa­damente as intercessões de prevenção e potencialização. As prevenções primárias e secundárias implicam esforços para ga­rantir que os resultados negativos não aconteçam, ao passo que as potencializações primárias e secundárias refletem iniciativas para garantir que os resultados positivos aconteçam. Libertas de seus pro­blemas por meio de prevenções primárias e secundárias, as pessoas podem dar aten­ção a potencializações primárias e secun­dárias com vistas a atingir experiências e [333] satisfação na vida em níveis ótimos ou até mesmo de pico (Snyder, Thompson e Heinze, 2003). Juntas, prevenções e potencializações formam uma díade podero­sa para o enfrentamento e a excelência.

Note-se que a prevenção e a potencialização têm um paralelo com as duas maio­res motivações da psicologia. A prevenção reflete processos voltados a evitar resulta­dos prejudiciais, enquanto a potencialização reflete os processos que tratam de atin­gir resultados benéficos. A justaposição dos sistemas de evitação e aproximação tem uma longa tradição na psicologia, incluin­do as primeiras idéias sobre defesas, na teoria psicanalítica de Freud (1915/1957), a pesquisa comportamental (Miller, 1944), a pesquisa fenomenológica (Lewin, 1951) sobre o tema do conflito humano e, mais recentemente, a psicologia da saúde (Carver e Scheier, 1993, 1994).

Embora o sistema de evitação tenha sido retratado como contraproducente (para uma revisão, vide Snyder e Pulvers, 2001), essas primeiras visões ignoraram a possibilidade de que, por meio do pensa­mento de evitação, as pessoas estejam pen­sando e se comportando de maneira pró-ativa para evitar um resultado ruim mais tarde. Essa última definição está no centro das abordagens de prevenção primária e secundária, as quais têm benefícios eviden­tes. Em lugar de sugerir que a evitação é sempre “ruim”, fechamos este capítulo su­gerindo que os processos de evitação e aproximação (ou, como são chamados às vezes, processos aversivos e apetentes) fun­cionam, ambos, para ajudar a pessoa a enfrentar. Dessa forma, as intercessões de potencialização proporcionam desafios que as pessoas devem equilibrar em suas vidas cotidianas. [334]

Psicologia - Psicologia positiva
12/3/2020 12:19:34 PM | Por Ryan Niemiec
Forças de assinatura, pesquisa e prática

Na publicação Character strengths and virtues (Peterson & Seligman, 2004), que articulou o critério, o desenvolvimento e o enquadramento para a classificação VIA, houve mais de 2 mil referências acadêmicas e 800 páginas de discussão das 24 forças de caráter, porém não mais que duas frases abor­daram o tema das “forças de assinatura”. Entretanto, aquelas poucas palavras foram o suficiente, pois inúmeros estudos sobre forças de assinatura surgiram desde 2004, articulando os benefícios e o valor das forças de assinatura. Os estudos têm examinado a correlação, a causalidade, os mediadores, os mo­deradores, as populações, a avaliação e as intervenções na tentativa de com­preender esse robusto tema. Este capítulo revisa os achados de pesquisas e oferece estratégias práticas para trabalhar com as forças de caráter.

Por que as forças de caráter são importantes?

A importância das forças de assinatura pode ser rapidamente defendida, não apenas pela ciência que surgiu durante as últimas duas décadas, mas também pela perspectiva do problema do desengajamento crônico em muitas organizações, relacionamentos e indivíduos. Eis um resumo de ambos.

  • Desengajamento de indivíduos - falta de florescimento. As pesquisas mos­tram que menos de 25% da população dos EUA está florescendo (Keyes, 2003), e resultados semelhantes são encontrados na Nova Zelândia (Hone, Jarden, Duncan, & Schofield, 2015). Isso significa que as pessoas não estão funcionando com um alto nível de bem-estar, social e psicologicamente. [65]
    • Apoio para as forças Um estudo mostrou que as pessoas que as pessoas que utilizam muito suas forças são 18 vezes mais propensas a florescer do que as quo não as utilizam (Hone et al., 2015). Cada um dos elementos essenciais do florescimento - emoções positivas, engajamento, significado, relacionamentos positivos e realização (Seligman, 2011) - está significativamente associado às forças de caráter.
  • Desengajamento de indivíduos - desconhecimento geral das forças. As pesquisas demonstram que dois terços das pessoas desconhecem suas forças (Linley, 2008). Dessa forma, se as pessoas não sabem quem são e do que são capazes, como se pode esperar que tenham um bom desempenho no trabalho e na vida?
    • Apoio para as forças. Uma amostra representativa de trabalhadores na Nova Zelândia revelou que aqueles que conheciam bem suas forças eram nove vezes mais propensos a florescer do que aqueles que as desconhe ciam (Hone et al., 2015). As forças de caráter têm sido associadas ao engajamento em vários estudos (por exemplo, Peterson et al., 2007).
  • Desengajamento de casais. Os relacionamentos estão sofrendo com altas taxas de divórcio para novos casamentos.
    • Apoio para as forças. Pesquisas crescentes apontam não apenas para o valor da apreciação, mas também em particular para a apreciação das forças. Em estudos com casais, aqueles que relatam que seu parceiro reconhece e aprecia suas forças de assinatura têm maior satisfação no relacionamento, são mais comprometidos com o relacionamento, e re­latam que suas necessidades básicas estão sendo satisfeitas (Kashdan et al., 2017). Diversos estudos fazem conexões entre as forças de cará­ter e a saúde do relacionamento (por exemplo, Lavy, Littman-Ovadia, & Bareli, 2014a, 2014b).
  • Desengajamento de funcionários. As taxas de desengajamento dos trabalha­dores estão acima de 79%, segundo a Organização Gallup, e há um desalinhamento entre as forças de caráter exigidas dos indivíduos e as forças de caráter que são naturais deles (Money, Hillenbrand, & Camara, 2008).
    • Apoio para asforças. A utilização das forças de assinatura está associa­da a engajamento no trabalho, produtividade, satisfação na vida e tra­balho como um chamado (por exemplo, Harzer & Ruch, 2015, 2016; Lavy & Littman-Ovadia, 2016; Littman-Ovadia & Davidovitch, 2010). [66] Uma análise de três anos do engajamento dos funcionários mostrou que as forças de assinatura eram um dos motivadores mais cruciais (Crabb, 2011). A Organização Gallup constatou que os funcionários que têm a oportunidade de utilizar suas forças são seis vezes mais propensos a se engajar em seu trabalho (Sorenson, 2014).

O desengajamento parece ser extremamente alto em muitos domínios de nossa vida. Isso exige uma nova ação. As forças de assinatura estão surgindo em domínios não apenas como uma fonte importante de engajamento, mas também como um caminho central. 

Conceitos centrais

As forças de assinatura são um dos conceitos mais pesquisados e praticados na psicologia positiva. Trabalhar com as forças de assinatura tem muitos dos diferenciais do sucesso:

  • É muito fácil de fazer: os praticantes não precisam mudar seu estilo ou abordagem.
  • Os clientes encontram benefícios imediatos.
  • Há suporte científico.
  • É diferente e único para os clientes que estão acostumados a focar no que está errado com eles.

As forças de assinatura têm sido bastante discutidas em fóruns acadêmicos e de consumidores. A publicação original sobre a classificação VIA, Character Strengths and Virtues, discute as forças de assinatura como traços pessoais po­sitivos que um indivíduo possui, celebra e exercita frequentemente (Peterson [67] & Sclignwn, 2004). Desta forma, as forças de assinatura estão associadas à Identidade da pessoa e ao conceito de quem são, e essas não podem ser con­sideradas à parte do contexto.

Seligman (2002) propôs diversas formas de pensar sobre as forças de as­sinatura, sugerindo que uma força de assinatura satisfaria a maioria, se não a todos esses critérios:

  • Um senso de apropriação e autenticidade (“Este sou eu de verdade”).
  • Um sentimento de entusiasmo ao demonstrar a força.
  • Uma rápida curva de aprendizagem quando a força é primeiramente em­pregada.
  • Um senso de anseio por encontrar novas maneiras de utilizar a força.
  • Um sentimento de inevitabilidade para utilizar a força (“Tente me parar”).
  • Revigoramento, em vez de exaustão após empregar a força.
  • Criação e busca de projetos pessoais que girem em torno da força.
  • Alegria, entusiasmo e até êxtase ao empregar a força.

A convenção entre os pesquisadores da psicologia positiva tem sido focar nas cinco forças do topo do perfil do indivíduo como suas forças de assinatura. Pesquisas iniciais sugerem que os indivíduos têm entre três e sete forças de assinatura (Peterson & Seligman, 2004). O Instituto VIA de Caráter investi­gou o construto com profundidade e conduziu quatro estudos, examinando o conceito inicial conforme discutido nos dois textos anteriores, em uma ten­tativa de compreender a quantidade de forças de assinatura nos indivíduos (Mayerson, 2013). Foram empregadas diferentes estratégias, juntamente com níveis variáveis de rigor no critério utilizado para determinar uma força de assinatura. As forças de assinatura mostraram ter pontuações VIA significati­vamente mais altas que as demais forças, desse modo, destacando as forças de assinatura como uma categoria distinta de forças. Alguns anos mais tarde, Ro­bert McGrath conduziu três estudos para desenvolver e validar o Questionário de Forças de Assinatura (Signature Strenghts Survey, SSS). O primeiro estudo examinou as diferenças da média entre as forças nos dados do Questionário VIA de quase meio milhão de pessoas, e o segundo estudo envolveu admi­nistrar o SSS preliminar e, depois, entrevistar os participantes sobre seus pa­drões de resposta. Quando foi pedido que fornecessem uma justificativa para [68] suas escolhas de forças de assinatura, a resposta mais comum foi que a força é "parte de quem sou". Esses estudos informaram uma iteração final do SSS, que foi administrado (terceiro estudo) em 41.31 pessoas e levou à identifcação de 5,5 forças de assinatura, em média. Esses resultados apoiam o construto das forças de assinatura que as pessoas acham que têm é consistente com o que os pesquisadores de psicologia positiva propuseram anteriormente, embora os critérios sejam mais rigorosos do que originalmente hipotetizados. O critério para determinar uma força de assinatura que parece ser a mais importante, o qual tem sido corroborado por outras pesquisas, é se a força é ou não vista como central ou essencial para quem a pessoa é.

Outra estratégia para pensar as forças de assinatura. que esclarece sua importância central em nossa vida, é engajar-se em um exercício de subtração mental. Considere como seria a vida se você não tivesse uma de suas forças de assinatura. Você pode imaginar como seria sua vida se não pudesse expressar sua força da criatividade? E se a força da curiosidade fosse tirada de você? Ao conduzir esse exercício experimental em milhares de pessoas, descobri que muitos respondem a ele com uma reação de “ah-ha”, e não é incomum ouvir suspiros de choque e horror com o pensamento de eles não terem suas forças centrais. Aqui estão algumas respostas típícas:

  • “Seria como se estivesse sufocado sem minha criatividade. Como se esti­vesse ofegante tentando respirar*.
  • “Prudência e cautela são quem eu sou. Isso é o que faço. Como você tiraria isso de mim?*
  • "Não ter minha curiosidade na vida seria como estar minimamente sobrevivendo".
  • “Sem minha inteligência social, não sei como iria interagir com as pessoas". [68]

As forças são apresentadas e exibidas por toda parte ao nosso redor, especialmente na mídia. Meu colega, Danny Wedding, e eu escrevemos sobre mais de 1.500 exemplos de filmes que exibem cada uma das forças de caráter da classificação VIA (Niemiec & Wedding, 2014). Nos filmes, aprendemos sobre as forças de assinatura de cada personagem, e com frequência vemos nossas próprias forças de assinatura refletidas de volta para nós. Podemos também voltar-nos para livros, shows de televisão, websites, blogs e redes sociais, e observar as forças de assinatura dos indivíduos sendo demonstradas ou fazendo a criação.

Ao ler um livro, pergunte-se: Quais são as forças de assinatura do narrador e dos personagens coadjuvantes? Quais são as forças de assinatura das celebridades na televisão? Dos líderes no governo ou na empresa? Para onde quer que olhemos, podemos identificar forças e nomear as forças de assinatura dos indivíduos ou personagens. Esse tipo de abordagem tem recebido crescente atenção nas escolas (por exemplo, White & Waters, 2014), Considere o ganhador do Oscar de Melhor Filme, O discurso do rei (2010), Este filme apresenta a metáfora perfeita para ilustrar o que as forças de assinatura realmente significam - ser autêntico e expressar nosso verdadeiro eu. No filme o rei George VI, da Grã-Bretanha (Colin Firth), sofre de um severo transtorno de gagueira, sendo incapaz de falar com clareza para ajudar a Informar e amenizar o pânico do povo na iminência da Segunda Guerra Mundial, o rei começa a trabalhar com um treinador de discursos (Geofrey Rush), que utiliza um alto grau de criatividade, curiosidade, bondade e perspectiva para ajuda-Io a encontrar sua voz. O “encontrar sua voz” é uma metáfora para a expressão das forças de assinatura. Lionel encoraja o rei a “ter fé em sua própria voz", e uma interação comovente, na qual o rei supera a gagueira e expressa-se claramente, acontece assim:

Rei: Escute-me!

Lionel: Escutar você? Com que direito?

Rei: Pelo direito divino se quer mesmo saber, eu sou seu rei.

Lionel: Não, você não é, você mesmo disse-me. Você não queria isso, Por que perderia meu tempo escutando?

Rei: Por que tenho o direito de ser ouvido. Eu tenho voz!... [pausa]  

Lionel: Sim, você tem... Você tem tanta perseverança, Bertie, você é o homem mais valente que conheço. [70]

 É nessa conversa que o rei encontra sua voz (seu eu autêntico, essencial); ela é clara, contundente e genuína. Lionel utiliza uma variedade de abordagens no papel de “treinador” - intervenção paradoxal, confrontação, resistência, conselheiro e apoiador - que ajuda o rei a reconhecer que seu verdadeiro eu é importante e que ele pode expressá-lo. No diálogo anterior, o telespectador pode observar a afiada percepção de Lionel para identificar e valorizar duas das forças de assinatura do rei - bravura e perseverança.
Podemos perceber as forças de assinatura dos indivíduos em praticamente qualquer situação. Considere o seguinte obituário:
Infelizmente, a própria Mary sofreu muitas tragédias durante sua vida. tanto exterior como interiormente. Suas forças de caráter foram a determinação e a vontade de supe­rar a adversidade. Com frequência, sua compaixão por outros tinha mais importância que sua doença (Pocono Record, 2012).

Essas três frases no obituário informam que Mary era uma mulher com as forças de assinatura da perseverança e bondade - ela superou obstáculos internos e externos e continuou lutando, além disso, emanava um senso de cuidado pelos outros ao longo do caminho.

Pesquisas sobre forças de assinatura

Forças de assinatura de novas maneiras

Na atual pesquisa sobre intervenção mais citada na psicologia positiva, Seligman et al. (2005) conduziram um estudo duplo-cego, de atribuição randomizada, controlado por placebo - um estudo padrão-ouro em termos de boa pesquisa. O estudo consistiu na participação de 577 adultos distribuídos [71] aleatoriamente em um dos cinco grupos, ou no grupo de placebo. Aqui estão os grupos e a tarefa principal de intervenção:

  • Visita da gratidão. Escreva e entregue em mãos uma carta de gratidão para alguém que foi especial para você, mas a quem você não agradeceu adequadamente.
  • Três coisas boas. Escreva sobre três coisas que foram boas e explique a causa, todas as noites.
  • Você no melhor de si. Escreva a respeito de um momento que você estava expressando o melhor de si e reflita sobre as forças demonstradas na histó­ria; revise essa história e as forças uma vez por dia.
  • Utilizando as forças de assinatura de uma nova maneira. Responda ao Questionário VIA, revise as cinco forças do topo e utilize uma dessas for­ças de uma maneira nova e diferente a cada dia.
  • Identificando as forças. Responda ao Questionário VIA de Forças, revise suas forças do topo e utilize-as mais durante a semana.
  • Placebo. Escreva sobre uma memória antiga a cada noite.

Embora tenha havido benefícios iniciais para cada grupo de intervenção, os benefícios duradouros foram observados em dois grupos: o grupo das “três coisas boas” (também chamado “contando as bênçãos” ou “praticando a grati­dão”), e o grupo de “utilizando as forças de assinatura de uma nova maneira”. Esses dois grupos tiveram aumentos significativos de felicidade e diminuição da depressão com efeitos duradouros por mais de seis meses. Os efeitos não apenas são fantásticos, mas também é impressionante notar que as interven­ções foram realizadas on-line e sem a assessoria pessoal de um praticante oferecendo apoio e orientação. Se essas intervenções fossem pinturas, seriam consideradas “minimalistas”.

As intervenções duraram apenas uma semana; no entanto, Seligman et al. (2005) verificaram que aqueles que apresentaram os resultados mais eficazes decidiram continuar a intervenção por si mesmos por um período de tempo. Isso mostra como pode ser intrinsecamente gratificante trabalhar com as forças de as­sinatura, assim como é preciso tempo e persistência para se criar novos hábitos.

A intervenção de utilizar as forças de assinatura de novas maneiras, com­parada a grupos de controle e a outras intervenções, tem sido replicada ou [72] parcialmente replicada em diversos ambientes, populações e culturas. Os benefícios em longo prazo (seis meses) da utilização das forças de assinatura foram replicados em uma amostra europeia (Gander, Proyer, Ruch, & Wyss, 2013), e benefícios foram encontrados em outros países, como Canadá (Mongrain & Anselmo-Matthews, 2012), Austrália (MHcheft, Stanimtrovíc, Klein, & Vella-Brodrick, 2009), RU (Linley, Nielsen, Gtflett, & Bsfwas-Diener, 2010), e China (Duan & Bu, 2017; Duan, Ho, Tang, Lí, ScZhang, 2013). Outro estudo mostrou que as três intervenções e o placebo tiveram efeitos positivos (por exemplo, elevações significativas de felicidade), com a intervenção em forças de assinatura melhorando o máximo em uma margem substancial, e o grupo de placebo de forma compreensível melhorando o mínimo após seis meses. O estudo, no entanto, sofreu uma alta taxa de desistência, no qual menos de um quarto dos sujeitos que iniciaram o estudo o completou (Woodworth, O’Brien-Malone, Diamond, & Schüz, 2017).

Populações de jovens a adultos mais idosos têm focado nas forças de as­sinatura com sucesso. Por exemplo, jovens que trabalharam suas forças de assinatura juntamente com definição de metas de significado experimentaram um aumento no engajamento e na esperança (Madden et aL, 2011). Em uma população de adultos mais idosos (de 50 a 79 anos), o grupo designado para trabalhar com uma força de assinatura de uma nova maneira teve a interven­ção mais eficiente de forma geral, e isso levou tanto ao aumento da felicidade como à diminuição da depressão. Outras intervenções foram parcialmente
eficazes comparadas ao placebo; por exemplo, conduzir a visita de gratidão e lembrar-se de três coisas boas beneficiaram os níveis de felicidade, enquanto lembrar de três coisas engraçadas reduziram os níveis de depressão (Prover, Gander et al., 2014a).
Outro estudo controlado e randomizado designou indivíduos para (1) um grupo instruído a utilizar duas forças de assinatura, (2) um grupo instruído a utilizar uma força de assinatura e uma força de baixo, ou 3) um grupo de controle. Os resultados revelaram ganhos significativos em satisfação com a vida para ambos os grupos de tratamento (Rust, Diessner, & Reade, 2009). Os participantes dos dois grupos de tratamento escreveram sobre um evento ou ocorrência no passado em que utilizaram suas forças de caráter de maneira bem-sucedida. A cada semana, eles também escreveram sobre um plano ou situação para a semana seguinte, em que poderiam aplicar a força. De [73] maneira semelhante, em um estudo não randomizado, Rashid (2004) observou que os grupos de estudantes que trabalharam com as forças de assinatura ou com ouras forças experimentaram aumento significativo de bem-estar, comparado ao grupo de controle. Uma pesquisa com estudantes de direito mostrou que a utilização das forças do topo levou à diminuição da depressão e do estresse, bem como ao aumento da satisfação dos estudantes (Peterson & Peterson, 2008). Outro experimento randomizado mostrou que o grupo de intervenção que trabalhoucom as forças e outros exercícios de gratidão e bondade melhorou o equilíbrio do afeto positivo e negativo ao longo do tempo, comparado ao grupo de controle (Drozd, Mork, Nielsen, Reader, & Bjiorkli, 2014). Em um estudo longitudinal, a utilização das forças em geral (não as forças VIA de caráter) mostrou ser um importante preditor do bem-estar e levou a menos estresse e aumento do afeto positivo, vitalidade e autoestima aos três meses e aos seis meses de acompanhamento (Wood, Linley, Matlby, Kashdan, & Hurling, 2011).

As forças de assinatura em diversos contextos

As intervenções com torças de assinatura tem sido aplicadas de maneira bem sucedida em uma variedade de contextos psicológicos com efeitos positivos; por exemplo, em uma unidade de internação para pessoas com depressão e comportamentos suicidas (Huffman et al.2014), em uma unidade de neuropsicologia para pessoas com traumatismo cranioencefalico (Andrew Walker. & O'Neill. 2014), em uma unidade ambulatorial para adultos com psicose (Riches, Schrank. Rashid. & Slade. 2016), em uma Administração de Reabilitação de Veteranos em que os veteranos colocaram um aviso para não [75] se esquecerem de utilizar as forças (Kbau et al. 2011), e em um contexto de aconselhamento de carreira (Littman-Ovadia, Lazar-Butbul, & Benjamin, 2014). No último estudo, o aconselhamento de carreira baseado nas forças foi comparado ao aconselhamento de carreira convencional, e os dois grupos de clientes tiveram um aumento na utilização diaria das forças, mas apenas o primeiro teve melhora na autoeatima. Em trés meses de acompanhamcmo, o grupo de aconselhamento de carreira baseado nas lorças teve uma taxa mais alta de emprego (81%) do que o grupo de aconselhamento convencional da carreira (60%).

A psicoterapia positiva é uma abordagem de terapia que foca na construção de emoções positivas, forças e significado na vida dos clientes paia promovera felicidade. Experimentos preliminares constataram que essa abordagem é superior ao tratamento convencional para depressão (Rashld & Anjum, 2008; Seligman, Rashid. & Parks, 2006). Tayyah Rashid notou que bem mais de 50% da psicoterapia positiva gira em torno da utilização e da prática das forças de caráter (Rashid, comunicação pessoal, 2011). As sessões focam nas intervenções gerais de forças de caráter (por exemplo, duas sessões para identificar e cultivar as forças de assinatura; duas sessões sobre a “árvore de forças da família” e “presente do tempo" para promover significado), forças específicas (por exemplo, uma sessão sobre perdão; uma sessão sobre gratidão), e promoção de um tema central da psicologia positiva (por exemplo, amor para cultivar engajamento; esperança para cultivar prazer).

Resultados bem-sucedidos associados ao foco nas forças (não as forças de caráter) têm também sido mostrados nas pesquisas do Minhas (2010) e Cox (2006); o último autor mostrou que a abordagem baseada nas forças (quando também validada e praticada pelo terapeuta) levou à redução na pontuação de vários comportamentos sociais e emocionais problemáticos.

As intervenções com forças de caráter são com frequência integradas em programas mais abrangentes que focam na construção do bem estar, resiliência, realização e outras áreas dentro do campo da psicologia positiva. Com frequência, a abordagem adotada nesses programas envolve ajudar os participantes a identificar suas forças de assinatura e então entrar em ação de alguma maneira com essas forças. Esses programas têm incluído uma variedade de contextos, como o educacional, organizacional e o serviço militar. Embora os resultados dessas iniciativas de programas sejam muito encorajadores e, em [75]  alguns casos, revolucionários e altamente influentes, os pesquisadores geral­mente não separam as contribuições feitas pelas forças de assinatura e outros componentes das forças de caráter de outras intervenções da psicologia posi­tiva. Apesar de as forças de assinatura serem, com frequência, descritas como “centrais” em muitos desses programas, perguntas como as seguintes perma­necem: Qual o elemento mais crucial desses programas abrangentes? Quanto valor os componentes das forças de caráter trazem para esses programas?
O que se segue são domínios comuns em que as forças de caráter, espe­cialmente o trabalho com as forças de assinatura, estão sendo aplicadas. Re­sultados de pesquisas são apresentados aqui e mencionados por todo o livro.

Organização

O contexto organizacional/local de trabalho tem sido um domínio par­ticularmente robusto de estudo para a ciência do caráter (veja Mayerson, 2015). Claudia Harzer e Willibald Ruch têm conduzido vários estudos no ambiente de trabalho. Eles constataram que os funcionários que utilizaram quatro ou mais de suas forças de assinatura no trabalho tiveram mais expe­riências positivas no trabalho e o trabalho como um chamado, do que os que utilizaram menos de quatro forças (Harzer & Ruch, 2012), e que as forças de assinatura estão conectadas às experiências positivas de trabalho, indepen­dentemente de quais sejam as forças mais altas (Harzer & Ruch, 2013). Em outros estudos, eles observaram que as forças de caráter estavam conectadas ao desempenho no trabalho (Harzer & Ruch, 2014), e ao enfrentamento do estresse (Harzer & Ruch, 2015). Finalmente, em um estudo de intervenção, eles descobriram que o alinhamento das forças de caráter dos funcionários com suas tarefas levou ao aumento da visão do trabalho como um chamado (Harzer & Ruch, 2016).

Um estudo sobre apoio supervisionado mostrou que os funcionários que receberam apoio do supervisor (mas não o apoio de colegas) aumentaram a utilização de suas forças no dia seguinte (Lavy, Littman-Ovadia, & Boiman-Meshita, 2016). Esses mesmos pesquisadores publicaram outro estudo sobre o ambiente de trabalho mostrando que a utilização de todos os tipos de forças (forças de assinatura, forças de felicidade, forças menores) estava associada com resultados positivos. Por exemplo, as forças de assinatura foram o maior contribuidor para o desempenho no trabalho, comportamentos de cidadania organizacional, e menos comportamentos contraprodutivos no trabalho; e as forças de felicidade foram o maior contribuidor para o significado, engaja­mento e satisfação no trabalho (Littman-Ovadia, Lavy, & Boiman-Meshita, 2016). Um estudo qualitativo examinou a utilização das forças de caráter por mulheres no local de trabalho e constatou que, em todos os casos, as forças levaram a um círculo virtuoso no qual a utilização das forças as ajudou a superar barreiras que haviam impedido o emprego das forças (Elston & Boniwell, 2011). Todos os sujeitos obtiveram benefícios de valor único utilizando as forças de caráter no trabalho. Outro estudo com funcionários mostrou que empregar as forças de assinatura de novas maneiras combinado a uma reunião estruturada de dez minutos foi benéfico para aumentar a utilização das forças e o número de metas traçadas, comparado ao grupo que utilizou apenas for­ças de assinatura de novas maneiras (Butina, 2016).

Recomenda-se que as organizações encontrem formas de ajudar seus co­laboradores a utilizar suas forças mais frequentemente no trabalho, pois a utilização das forças, em geral (não respondendo ao Questionário VIA), tem sido associada a níveis de autoeficácia e comportamento proativo dos colabo­radores (van Woerkom, Oerlemans, & Bakker, 2016), a afeto positivo e capital psicológico (Meyers & van Woerkom, 2016), e a absentismo reduzido (van Woerkom, Bakker, & Nishii, 2016). O clima de uma organização pode tam­bém apoiar os colaboradores a empregar suas forças. Em um estudo com 442 colaboradores de 39 departamentos em oito organizações, o clima psicológico baseado nas forças estava associado ao afeto positivo e ao desempenho no trabalho (van Woerkom & Meyers, 2014). A Organização Gallup tem focado suas pesquisas nas forças no local de trabalho e constatou que os dois previsores mais importantes da retenção dos colaboradores e da satisfação são; (1) relatar a utilização das forças do topo no trabalho e (2) relatar que um supervi­sor próximo reconheça as forças do topo do funcionário. Infelizmente, o Gal­lup observou que apenas 20% dos colaboradores acham que seus supervisores conhecem suas forças e um terço dos colaboradores diz ter a oportunidade de fazer o que faz melhor todos os dias. Quando a liderança de uma organização não foca nas forças do indivíduo, as chances de o colaborador estar engajado são de 9%; no entanto, quando a liderança foca nas forças do colaborador, essas chances aumentam para 73% (para mais detalhes, ver Asplund et al., 2007; Clifton & Harter, 2003; Hodges & Clifton, 2004). [77]  

Educação

Os achados mostram que as forças de caráter não foram apenas uma importante fonte de bem-estar entre estudantes (Gillham et al., 2011), mas tambem têm sido o grande foco dos programas de educação positiva ao redor do mundo. Em um artigo seminal, que argumenta sobre a integração das forças de caráter na educação, Linkins, Niemiec, Gillham e Mayerson (2015) desta­cam por que as abordagens educacionais tradicionais sobre caráter nos EUA e em outros países deveriam mudar todas as abordagens monilíticas e unifor­mizadas (a autoridade escolar escolhe algumas forças para todos os estudantes construírem), em vez de abordagens individualizadas que funcionam com as forças únicas de assinatura dos estudantes.

Embora as forças de caráter desempenhem um papel importante para criar bem-estar positivo (Oppenheimer, Fialkov, Ecker, & Portnoy, 2014) e resulta­dos positivos na sala de aulas (Weber e Ruch, 2012b; Weber et al., 2016), elas têm sido incorporadas a todos na escola, envolvendo colaboradores, professo­res, estudantes e líderes dos programas. Alguns programas empregam as forças de caráter como o único foco (ver Fox Eades, 2008; Proctor & Fox Eades, 2011), assim como o foco principal (ver Yeager, Fisher, & Shearon, 2011). A Academia das Forças (Strentghs Gym), criada por Carmel Proctor e Jennifer Fox Eades, é um exemplo de programa de intervenção em psicologia positiva baseado nas forças no qual crianças e adolescentes participam de várias atividades envolvendo forças de caráter aplicadas diretamente aos estudantes e Integradas na grade curricular da escola. Um estudo avaliou o impacto da Aca­demia das Forças em adolescentes e descobriu que os que participaram dos exercícios com forças tiveram satisfação na vida significativamente mais alta do que os adolescentes que não participaram (Proctor et al., 2011). Em um contexto educacional chinês, uma intervenção de treinamento com as forças (que envolvia perceber quando, onde e como as forças do topo são utilizadas, e escrever sobre isso), foi eficaz para promover a satisfação na vida em curto e longo prazo. Os pesquisadores excluíram o efeito placedo, informando a alguns participantes o propósito do estudo e não a outros, e saber/não saber o propósito não teve efeito em longo prazo na satisfação com a vida (Duan et al, 2013).

Os programas de educação positiva demonstraram aumentar as notas aca­dêmicas, as habilidades sociais, a apreciação e o engajamento na escola, assim [78] como melhorar as forças de caráter da curiosidade, do amor ao aprendizado e da criatividade (Seligman, Ernst, Gillham, Reivich, & Linkins. 2009). Resultados preliminares de acompanhamento de três anos de um programa de educação positiva (Gillham, 2011) mostraram que a educação positiva teve um impacto no engajamento e realização, mas não no bem-estar subjetivo. Programas extensivos de educação positiva têm sido implementados em diver­sas escolas, como a Escola Primaria Geelong e a Faculdade St. Peter, ambas de muito prestigio na Austrália, e isso têm resultado em muitas descrições de treinamentos, utilização criativa das forças de caráter e outros métodos de im­plementação da psicologia positiva (ver Norrish. 2015; White & Murray, 2015, respectivamente), O trabalho com as forças de caráter é geralmente visto como o fundamento desse programa, em geral ensinado nas primeiras sessões, e envolve identificar as forças de caráter, escrever narrativas sobre momentos do melhor eu, entrevistar membros da família sobre forças, aprender como utilizar as forças para superar desafios, desenvolver as forças mais baixas e identificar professores e líderes no campus, os quais os alunos acreditam ser modelos de uma força específica. O trabalho com as forças de caráter está integrado mais profundamente na grade e atividades escolares, e inclui identificar forças na literatura clássica (por exemplo, A morte de um caxeiro viajante, Macbeth e Me­tamorfose) e infundir as forças nos esportes. White e Waters (2014) descrevem a abordagem na Faculdade St. Peter e detalham exemplos de cinco iniciativas em que as forças de caráter foram integradas nas áreas de esporte, liderança dos estudantes, aconselhamento e grade curricular de inglês.

Trabalhos muito estimulantes estão surgindo também no domínio das escolas públicas. O Instituto VIA fez parceria com a Academia Mayerson, que começou a integrar o programa das forças de caráter em mais de 40 escolas públicas (Bates-Krakoff, McGrath, Graves, & Ochs, 2016), em Cincin­nati, região de Ohio, envolvendo treinamentos de estudantes e professores, aprendizagem com videogames on-line por meio do Happify e coaching dos professores. A avaliação desse programa, chamado Comunidades de Aprendi­zagem do Florescimento (Thriving Learning Communities), mostra resultados preliminares promissores, como aumento da aprendizagem de competências socioemocionais), autoconsciência das forças, capacidade de apreciar a escola, taxas mais baixas de absentismo e disciplina, e ponto médio de classificação mais alto (grade point average, GPA, uma escala de até 4) (Darwish, comuni­cação pessoal, 26 de setembro, 2016). [79]

Serviço militar

As forças de caráter têm sido avaliadas e/ou utilizadas nas várias forças armadas em todo o mundo, como Noruega. Suécia, Argentina, Austrália e índia, entre outras (ver Banth & Singh. 2011; Consentino & Castro, 2012; Gayton & kehoe, 2015; Matthews, Bid, Kelly. Bailey, & Peterson, 2006). O Exército dos EUA é um exemplo de organização que incorporou as forças de caráter como componente central de seu treinamento de psicologia positiva e resiliência, denominado Comprehensive Soldier Fitness Program (Cornum, Matthews, & Seligman, 2011; Reivich, Seligman, & McBride, 2011). As forças de caráter estão entre as principais áreas avaliadas pelo Global Assessment Tool implemen­tado nesse programa (Peterson, Park, & Castro, 2011; Vie, Scheier, Lester, &
Seligman. 2016). Um dos módulos centrais do programa de treinamento inclui a identificação das forças de assinatura, a prática de procurar as forças nos outros e a prática de utilizar as forças individuais e de equipe para superar um desafio ou alcançar uma meta. Após responder ao Questionário VIA, os solda­ dos exploram as seguintes perguntas (Reivich et al., 2011):

  • O que você aprendeu sobre si mesmo?
  • Que forças você desenvolveu durante seu serviço no exército?
  • Como suas forças contribuem para você realizar uma missão e alcançar suas metas?
  • Como você está utilizando suas forças para construir relacionamentos fortes?
  • Quais são os lados obscuros de suas forças e como você pode minimizá-los?

Os soldados engajam-se, então, em exercícios individuais e de equipe envol­vendo revisão das experiências individuais e de equipe sobre superar barreiras e alcançar sucessos, revisar estudo de casos, escrever histórias sobre “força nos desafios” e realizar uma missão em equipe que exige a utilização das forças de caráter de equipe.

Os pesquisadores do serviço militar também têm escrito sobre os benefí­cios de identificar as forças de caráter, como a coragem (Hannah, Sweeney, & Lester, 2007), e sobre a importância do caráter com “C grande” na liderança (Hannah & Jennings, 2013). [80]

Outros domínios e populações

As forças de caráter são importantes em uma infinidade de contextos e em uma variedade de populações. As forças de caráter/forças de assinatura estão sendo estudadas e aplicadas para avaliar e/ou tratar jovens e adultos com va­rias deficiências. Alguns desses incluem jovens com deficiências intelectuais/de desenvolvimento (Biggs & Carter, 2015; Carter et aL, 2015; Shogren, Wehme­yer, Lang, & Níemiec, 2017; Shogren, Wehmeyer, & Niemiec. 2017), interesses vocacionais em adolescentes (Proyer, Stdler, Weber, Sc Ruch, 2012), pais de crianças com deficiências (Fung et al., 2011; Woodard. 2009), adultos com deficiências intelectuais/desenvolvimento (Samson & Antonelli, 2013; Tomasulo, 2014), adultos com deficiências físicas (Chan, Chan, Ditchman, Phillips, & Chou, 2013), pessoas com dislexia (Kannangara, 2015; Kannangara, Griffiths, Carson, & Munasinghe, 2015), e adultos com autismo sem deficiência intelectual (Kirchner, Ruch, & Dziobek, 2016). As aplicações das pesquisas e práticas das pesquisas em forças de caráter têm sido delineadas com adapta­ções sugeridas para pessoas com deficiências intelectuais/de desenvolvimento (Niemiec, Shogren, & Wehmeyer, 2017).

As forças de caráter foram aplicadas ao se examinar as várias dimensões da saúde física, como alimentação saudável, condicionamento físico, higiene pessoal, prevenção do uso de substância e estilo de vida ativo (Proyer, Gander, Wellenzohn, & Ruch, 2013). Em experimentos randomizados e controlados que envolveram milhares de meninas da índia vivendo na pobreza, as meni­nas que receberam uma grade curricular que incorporou as forças de caráter (identificação e utilização das forças de assinatura e exemplos concretos de ou­tras forças) exibiram saúde física significativamente melhor e benefícios de saúde psicossocial, em comparação com aquelas que não receberam nenhuma grade curricular (controles) (Leventhal et aL, 2015,2016).

Uma análise quali­tativa também revelou e explicou como as meninas perceberam que construir as forças de caráter as ajudou a melhorar seu engajamento escolar e evitar matrimônio infantil, violência baseada no gênero, assédio e abandono esco­lar (DeMaria, Andrew, & Leventhal, 2016). Um experimento randomizado e controlado, com crianças gravemente doentes, mostrou que a intervenção de “realizar um desejo” reduziu a náusea e aumentou a satisfação na vida, as emoções positivas e as forças, comparado ao grupo de controle (Chaves, Vazquez, & Hervas, 2016). Em outro estudo, esses pesquisadores constataram [81] que aumentos nas forças de caráter gratidão e amor) e descobertas de benfícios previram satisfação na vida ao longo do tempo em crianças portadoras de doença com risco de morte (Chaves, Hervas, Garcia, & Vasquez, 2016), Com relação a outras populações únicas analisadas, muitos estudos têm examinado as dinâmicas das forças de assinatura e/ou forças de caráter, en­tre as quais: docência (McGovern & Miller, 2008), professores (Chan, 2009; Gradisek, 2012), sobreviventes de abuso (Moore, 2011), moradores de rua (Tweed, Blswas-Diener, & Lehman, 2012), dependências (Krentzman, 2013; Logan, Kilmer, & Marlatt, 2010), tratamento clínico com diferentes populaçóes (Smith & Barros-Gomes, 2015), crianças muito pequenas pela descrição dos pais (Park & Peterson, 2006c), músicos (Güsewell & Ruch, 2015), funcionários de centrais de atendimentos (Moradi, Nima, Ricciardi, Archer, & Garcia, 2014), casais (Goddard, Olson, Galovan, Schramm, & Marshall, 2016; Guo, Wang, & Liu, 2015), experiências de lazer (Coghlan & Filo, 2016), liderança de serviço (Shek & Yu, 2015), adultos que praticam sua religião (Berthold & Ruch, 2014), resultados de torneios esportivos (Proyer, Gander, Wellenzohn, & Ruch, 2014b), pais envolvidos na adaptação escolar dos filhos (Shoshani & ílanit Aviv, 2012), as forças de caráter desejadas em parceiros ro­mânticos adolescentes (Weber & Ruch, 2012a), e estudantes de direito (Kern & Bowling, 2015), para mencionar apenas algumas. 

Amplificar uma força do topo ou remediar uma fraqueza?

O campo da psicologia passou mais de um século focando em remediar deficiências, examinando os problemas e ajudando outros a aliviar o sofrimento. Essa abordagem de “consertar” o que está errado tem permeado muitas [82] disciplinas, incluindo organizações, educação e saúde. Portanto, pedir a um cliente, estudante ou colaborador que passe um tempo refletindo sobre suas forças é uma mudança substancial. É uma pergunta que faz o indiví­duo pensar duas vezes: Você tem certeza? Você não quer que eu fale sobre meu estressor mais recente ou dificuldade? Apesar de décadas de sucessos em pesquisas que apoiam as abordagens baseadas nas deficiências, utilizadas na terapia cognitivo-comportamental (Beck, Rush, Shaw, & Emery, 1979), Cheavens et al. (2012) decidiram colocar a noção de “fraquezas versus for­ças” à prova. Eles designaram, de forma randomizada, adultos com depressão grave (transtorno depressivo maior), para terapeutas treinados que focaram em suas “forças únicas de TCC” ou para terapeutas treinados que focaram em suas “fraquezas únicas de TCC” (as duas primeiras forças do topo, ou as duas últimas forças, respectivamente). As áreas das forças ou fraquezas foram avaliadas em quatro aspectos - habilidades comportamentais, habilidades cog­nitivas, habilidades interpessoais e habilidades de atenção plena - todas im­portantes para a gestão dos sintomas da depressão. Os resultados mostraram que o grupo das forças teve mudanças mais rápidas nos sintomas de depressão e manteve melhora por 16 semanas de tratamento. Comparado ao grupo das fraquezas, o grupo das forças teve melhoras maiores e mais duradouras. Esse estudo, embora precise ser replicado, desafia a sabedoria convencional sobre remediar problemas e deficiências. Ele nos desafia a mudar nossa abordagem, aprimorar e focar no que há de melhor no cliente.

Essa abordagem de focar nas forças do cliente é citada nos estudos de Cheavens como “capitalização”, em outras palavras, capitalizar o que já está funcionando. Um estudo de pesquisadores holandeses também mos­trou os benefícios do modelo da capitalização, em que os participantes que focaram no desenvolvimento das forças demonstraram aumentos mais fortes no crescimento pessoal do que aqueles com foco nas deficiências (Meyers, van Woerkom, de Reuver, Bakk, & Oberski, 2015). O grupo do desenvolvimento das forças envolveu os participantes que receberam feedback de cinco a sete pessoas sobre suas forças (mencionado como exer­cício do melhor eu refletido; Spreitzer, Stephens, & Sweetman, 2009) e pensaram sobre suas forças e as discutiram com um pequeno grupo. Além disso, eles desenharam um pôster destacando como utilizam suas forças na vida diária, compararam seus perfis de forças aos perfis de vagas de [83] emprego, consideraram o ajuste entre as forças e a função do trabalho, e desenvolveram uma descrição em 30 segundos, enfatizando suas forças para um trabalho imaginado. Em outro estudo, o apoio organizacional percebido dos colaboradores para a utilização das torças e  o comportamento da utilização das forças estavam significativamente correlacionados à autoclassificação e à classificação do gestor sobre o desempenho do trabalho, enquanto o apoio organizacional percebido para a correção da deficiência e o comportamento de correção da deficiência não estavam relacionados ao desempenho (van Wocrkom Mostert et ah, 2016).

Esses estudos se associam a algumas das perguntas mais comuns formu­ladas pelos praticantes que estão aprendendo sobre forças: Deve ser dada atenção às forças de assinatura ou às forças mais baixas? Embora as forças mais baixas no perfil de forças de caráter do cliente não sejam vistas como fraquezas, a sabedoria desses estudos sobre capitalizar as melhores qualidades
pode ser acatada. Isso não significa que não há valor em se trabalhar as forças mais baixas, pois as pesquisas têm oferecido algum apoio para isso também (por exemplo. Rust et al., 2009), Um estudo examinou mais de perto algumas das diferenças entre os que focam nas forças do topo versus as forças de baixo. Esse experimento randomizado e controlado dividiu os participantes em três grupos: adultos que focaram em suas cinco forças do topo, adultos que focaram em suas cinco forças de baixo e um grupo de placebo. Os dois grupos de intervenções mostraram benefícios em felicidade por até três meses, assim como benefícios em depressão. Aqueles participantes com níveis inicialmente mais altos de forças tenderam a se beneficiar mais trabalhando com as forças mais baixas, ao passo que aqueles com níveis inicialmente mais baixos tende­ram a se beneficiar mais trabalhando com as forças mais altas (Proyer, Gander, Wellenzohn, & Ruch, 2015).

Atualmente, a partir de pesquisas, concluiu-se que trabalhar com qualquer força é benéfico quando o indivíduo pratica ações positivas para melhorar a si mesmo. Embora isso não tenha sido muito estudado, é razoável acreditar que trabalhar com as forças de assinatura seja superior a trabalhar com as forças mais baixas em longo prazo. pois as forças do topo são mais reforçadoras e energizantes e levam o indivíduo a sentir-se mais autêntico do que tentar construir uma força que pode esgotar a energia ou não ser tão motivadora internamente. [84]  

Porque e como as forças de caráter funcionam?

Após determinar o sucesso de uma prática, uma próxima pergunta natural, é adquirir um melhor entendimento das razões pelas quais a prática foi bem-sucedida. Em termos práticos, é provavelmente óbvio para a maioria que, se uma pessoa torna-se impossibilitada de expressar suas forças de assinatura, em breve, sentirá um sentimento de vazio (por exemplo, Escandón, Martinez & Flaskerud, 2016), mas é importante compreender também essa questão da perspectiva científica. Quais são os mecanismos de ação que ajudam a explicar o sucesso da intervenção? Alex Linley e sua equipe levaram adiante essa investigação e encontraram evidência inicial para apoiar as razóes por que a utilização das forças de assinatura está associada ao bem estar (Linley et al, 2010). Eles constataram que empregar as forças de assinatura está relacionado ao progresso das metas da pessoa e à satisfação das necessidades psicológicas básicas de autonomia, afinidade e competência, ou seja, os elementos essen­ciais da teoria da autodeterminação (Deci & Ryan, 2000). Isso cria um sentido bom e prático: as forças de assinatura surgem naturalmente em nós e são a expressão de quem somos. Portanto, quando permitimos que nossa parte es­sencial seja expressa, estamos satisfazendo as necessidades básicas humanas que têm a ver com fazer conexões em nossos relacionamentos e realizar, tanto quanto podemos, nessa vida. O sucesso com as metas flui naturalmente com isso. Como resultado, experimentamos maior felicidade. Essa explicação, en­tretanto, é apenas parcial.

Em outro estudo, a utilização das forças de assinatura elevou os indivíduos a uma “paixão harmoniosa”, que se refere a indivíduos que realizam atividades escolhidas livremente e sem limitações, as quais são altamente importantes e parte da identidade do indivíduo. A paixão harmoniosa levou, então, a maior bem-estar (Forest et al., 2012). A autoestima tem sido outro mecanismo que
vincula as forças de caráter com a satisfação na vida (Douglass & Duffy, 2015). Quinlan, Swain e Vella-Brodrick (2011) sugerem uma variedade de outros mecanismos pelos quais as forças de caráter podem influenciar o bem-estar.

Eles observam a distinção dos efeitos que estão “entre nós” (isto é, sociais), dos que estão “em nós” (isto é, pessoais), e criam hipóteses sobre os seguintes mecanismos:

  • As forças aumentam nosso esforço e perseverança, portanto, aumen­tam o bem-estar (Dweck, 1986). [85]
  • As forças aumentam a satisfação nos relacionamentos (Gable, Reis, impett, & Asher, 2004).
  • As forças ajudam os indivíduos a superar a adaptação hedônica (Diener. Lucas, & Scollon. 2006).

A autoconcordância é outra explicação ou mecanismo envolvido. Os cien­tistas constataram que há muitos benefícios em se traçar e alcançar metas e ter progresso em direção às metas (Miller & Frisch, 2009; Sheldon & Elliot, 1999; Sheldon & Houser-Marko, 2001). Mais especificamente, quando traça­mos uma meta que está alinhada com nossos valores e interesses, isso é cha­mado de metas autoconcordantes. As pesquisas mostram que experimentamos maior felicidade quando alcançamos uma meta autoconcordante, em vez de alcançarmos uma meta que não seja consistente com quem somos (Sheldon & Kasser, 1998). Valorizamos claramente nossas forças de assinatura e senti­mos energia e alegria ao expressá-las, portanto, alinhar metas e forças é uma maneira de ter mais sucesso ao criar a vida que queremos viver.

Em outro estudo, que constatou benefícios significativos para a utilização das forças de assinatura de novas maneiras, comparado ao placebo padrão, Mongrain e Anselmo-Matthews (2012) sugerem que o acesso do indivíduo à informação autorrelevante e positiva pode ser o mecanismo que explica os benefícios dessa intervenção. Wellenzohn, Proyer e Ruch (2016b) examinaram a força de caráter do humor em um estudo de intervenção que mostrou um aumento da felicidade e diminuição da depressão e estudaram alguns mecanis­mos diferentes: eles constataram que houve mudança da atenção em direção ao positivo nas intervenções voltadas para o presente e o futuro, e houve savoring das emoções positivas nas intervenções voltadas para o passado e o presente.

No contexto organizacional, o afeto positivo foi um mediador que explicou a conexão entre a utilização das forças de assinatura e uma variedade de resul­tados no ambiente de trabalho, tais como engajamento, significado, satisfação e desempenho no trabalho, comportamento de cidadania organizacional e comportamentos contraprodutivos no trabalho (Littman-Ovadia et al. 2016). Em outro estudo, o afeto positivo mostrou ser um mediador para a utilização das forças de caráter e bem-estar no trabalho (Meyers & van Woerkom, 2016).

De modo semelhante, em outro estudo, as emoções positivas e o engajamento explicaram a conexão entre a utilização das forças de caráter no trabalho e a [86] produtividade, comportamento de cidadania organizacional e satisfação no trabalho (Lavy & Littman-Ovadia, 2016). Esse mecanismo de afeto positivo, assim como outros mecanismos discutidos anteriormente, como o acesso às qualidades positivas internas e a definição de metas, tem forte associação com a teoria de expandir e construir de Barbara Fredrickson (2001), conforme originalmente aplicada às emoções positivas. Essa teoria afirma que as emo­ções positivas expandem o repertório de potenciais de ações no presente e constroem recursos para o indivíduo no futuro. Esse processo cria uma espiral ascendente de bem-estar (Fredrickson & loiner, 2012). Talvez as forças de caráter, especialmente se vistas pela perspectiva dos traços como distribuições de densidade dos estados emocionais (Fleeson, 2001), possam ser considera­das do ponto de vista da teoria do expandir e construir. Isso significa que as forças estão conectadas ao bem-estar porque expandem as possibilidades para a ação ótima no momento e, simultaneamente, constroem nossos recursos pessoais para ação posterior.

Em um estudo que examinou as relações (moderadores) da utilização das forças de assinatura, nível das forças de assinatura, chamado na vida e satis­fação na vida, os indivíduos com baixo chamado e altos níveis de forças de caráter tiveram a conexão mais forte entre a utilização das forças de assinatura e satisfação na vida (Allan & Duffy, 2013). Um achado-chave nesse estudo foi que o emprego das forças de assinatura é particularmente importante para aqueles com baixo significado e propósito.

No estudo de intervenção mais longo já realizado na psicologia positiva, Proyer, Wellenzohn et al. (2014) examinaram as conexões entre várias inter­venções positivas (por exemplo, forças de assinatura de novas maneiras, três coisas boas) e o tipo de intervenção adequado à pessoa, para predizer felicidade/depressão. Eles pretendiam examinar sob quais condições as forças de assinatura e outras intervenções positivas funcionam melhor em longo prazo. Com base no conceito de Lyubomirsky e Layous (2013) do melhor ajuste en­tre pessoa-atividade, Proyer e colegas constataram que os quatro elementos seguintes foram particularmente importantes como preditores da felicidade/depressão três anos e meio depois da intervenção:

  • Prática continuada. A continuação voluntária da prática além do tem­po designado (como observado de modo fortuito por Seligman et al., 2005). A prática continuada ajuda a facilitar o desenvolvimento de um hábito (Lyubomirksy, Sheldon, & Schkade, 2005). [87] 
  • Esforço. Como as pessoas trabalham com a intervenção, se completam mais, ou se menos, no tempo orientado.
  • Preferência. Se a pessoa gosta ou percebe os benefícios da intervenção (uma importante variável encontrada em um estudo de preferências de Schueller, 2010).
  • Reatividade precoce. Como as pessoas reagem à intervenção. Elas mostram uma resposta rápida, como um aumento imediato das emoções positivas?

Eles constataram que a combinação desses quatro indicadores foi muito bem-sucedida para prever a felicidade e a depressão em longo prazo. Eles explicaram que “a maneira como as pessoas pensam sobre as intervenções de psicologia positiva, a maneira como trabalham com elas, e a maneira como rea­gem a elas desempenha um papel na predição do bem-estar, posteriormente"
(Proyer, Wellenzohn et al., 2014, p. 14). São esses elementos do ajuste entre a pessoa e a intervenção que contribuem para os benefícios em longo prazo.

Como está provavelmente claro, há um número de fatores que explica a relação entre forças de caráter e bem-estar. Cada um desses nos fornece expli­cações mais profundas sobre a razão de a utilização das forças, especialmente das forças de assinatura, ser uma intervenção bem-sucedida. A medida que o mecanismo torna-se mais claramente compreendido, é provável que os achados alinhem-se à tendência natural que os seres humanos têm de desenvolver suas capacidades essenciais, de utilizar seus potenciais naturais e de se tornar tudo aquilo que podem ser (Buckingham & Clifton, 2001; Linley & Harring­ ton, 2006). Linley e Harrington (2006, p. 42), em seus argumentos para pro­moção do coaching baseado nas forças, resumem a base histórica substancial na qual as abordagens baseadas nas forças se apoiam:

E, mais fundamentalmente, uma abordagem baseada nas forças é solidamente alicer­çada no estabelecimento da aprendizagem e abordagens psicológicas que remetem à linhagem de Aristóteles, passando por Carl Jung, Karen Horney e Carl Rogers, até as abordagens do coaching moderno de Whitmore e Gallwey, integrando-se finalmente com a definição da psicologia do coaching, que agora sustenta os desenvolvimentos e a direção dessa nova disciplina.

Questões-chave no trabalho com as forças de assinatura

Esta seção analisa os importantes tópicos que os praticantes devem consi­derar com atenção, que estão relacionados à expressão das forças de caráter, [88] e começa a se aprofundar explorando o "como" do trabalho com as forças de aaainatura. Há multas formas de trabalhar com as forcas de carater, como você lerá a respeito em cada capitulo desta obra. Esta seção destaca algumas ideias essenciais para ajudá-Io a começar a explorar suas próprias forças de assinatura e aquelas de seus clientes.

Tipos do cegueira das forças

A fim de aprofundar a compreensão e apreciação das forças de assinatura, é importante primeiro considerar o conceito e o problema da cegueira das forças. ... Niemiec (2014a) apresentou quatro categorias de cegueira das forças, que são apresentadas em ordem de grau de desconhecimento, começando com o que é mais provável de representar ao menos conhecido.

  1. Desconhecimento geral dos forças

Essa categoria reflete uma falta generalizada de autoconsciência ou desconexão da pessoa com quem ela é (identidade). Muitas pessoas têm dificuldades de reconhecer suas forças (Linley & Harrington, 2006). Não é incomum encontrar  indivíduos que ficam atônitos, como um cervo sob a luz dos faróis, quando lhes perguntam quais são suas forças em uma entrevista de trabalho ou em uma primeira sessão de coaching ou psicoterapia. Alguns desses indivíduos não são reflexivos e não têm compreensão psicológica de si e de outros, enquanto outros simplesmente nunca pensaram sobre o assunto de “suas forças". Pessoalmente, continuo a sentir uma onda de tristeza quando pergunto a um cliente quais são suas forças e ele diz: “Não sei” ou “Não tenho nenhuma” e olha para baixo, para seus sapatos. Infelizmente, essa tem sido uma resposta muito comum.

  1. Desconexão com um significado

Pesquisas com questionários têm mostrado que apenas um terço das pessoas tem consciência significativa de suas forças (Linley, 2008), apesar de haver razões para acreditar que esse número cresça no contexto do trabalho (McQuaid & VIA Institute on Character, 2015). Alguns indivíduos apresentam uma resposta superficial à pergunta geral sobre nomear suas melhores forças, mas a resposta deles não é substanciosa. As respostas são vagas (por exemplo: “Tenho boas qualidades”), ou confundem forças de caráter com outros domínios de [89] forças, como um Interesse (por exemplo, "Gosto de ouvir música”), e talento/ habilidade (por exemplo, *Sou bom em futebol”). Uma pessoa pode dizer que tem desempenho melhor que a média em bascbol recreativo, no entanto, é o caráter que faz a conexão com o significado e a substância. Nesse exemplo, são as forças da perseverança, trabalho em equipe e autocontrole no campo de basebol que começam a nos dizer algo sobre as forças desse indivíduo.

  1. Ver as forças como ordinárias em vez de extraordinárias

As vezes, os indivíduos minimizam ou desvalorizam suas forças, ou são indi­ferentes sobre terem forças (Biswas-Dicner et al., 2011). Nesses casos, o indiví­duo responde ao Questionário VIA e reage com uma resposta do tipo “Sim, eu já sabia disso, não é nada demais”. Esse tipo de indiferença é uma bandeira ver­melha para a cegueira das forças. Pode ser verdade que a pessoa teria um palpite sobre quais são suas forças mais altas, mas esse não é o ponto. É provável que o indivíduo não esteja apreciando seu engajamento em algo que tem o potencial de ser um trampolim para muitos resultados positivos, como conhecer suas pró­prias metas pessoais. Em vez de ter um mindset de crescimento e curiosidade, eles veem a si mesmos com um mindset fixo. Eles passam por cima de seus tra­ços essenciais e não fazem conexões ativas entre as forças e suas experiências, não se engajam na conversa sobre forças no momento, e não fazem brainstorm para buscar ativamente maneiras de crescer com a expressão das forças.

A subutilização das forças é um fenômeno que provavelmente fundamenta cada uma das três categorias mencionadas. Acredito que todas as pessoas uti­lizam pouco suas forças periodicamente. Em outras palavras, 100% de nós te­mos pontos cegos sobre nosso autoconhecimento acerca das forças de caráter. Há sempre novas abordagens, ajustes, utilização e perspectivas que podem ser considerados quando se trata da utilização das forças, especialmente ao se incorporar o mindset de crescimento com as forças de assinatura (Dweck, 2006). Um dado indivíduo pode estar cego para utilizar uma de suas forças em certo contexto ou situação particular, cego a respeito de como uma força pode estar presente, mas disfarçada, ou não estar consciente de como suas forças se apresentam nas rotinas diárias, ao surgirem estressores, ou ao traba­lhar em direção a uma meta específica. Nesse sentido, é provavelmente justo dizer que a maioria das pessoas poderia beneficiar-se de maior mindfulness ao compreender e aplicar suas forças de caráter. [90] 

  1. A superutilizaçâo das forças

A superutilizaçâo das forças de caráter é um quarto tipo especial de ce­gueira. Ela ocorre quando um individuo emprega sua(s) força(s) de maneira muito forte em uma situação específica. Uma pessoa pode expressar tanta curiosidade que se torna intrometida, ou tanta liderança que parece contro­ladora. Frequentemente, a superutilizaçâo das forças tem um impacto nos relacionamentos, e o indivíduo que está superutilizando não está consciente (ou seja, cego) desse impacto ou pelo menos da extensão do impacto. Outras vezes, o indivíduo pode estar cego a respeito do que fazer sobre seu pesado es­forço de prudência no trabalho, ou da superutilizaçâo da humildade que deixa sua individualidade de lado.

Uma maneira de trabalhar com cada um dos tipos de cegueira das forças é integrar mindfulness e forças de caráter. O cultivo de mindfulness para melho­rar a utilização das forças de caráter é chamado de “utilização consciente das forças”, e a utilização das forças de caráter para promover uma prática de mind­fulness é referida como “mindfulness forte” (Niemiec, 2012; Niemiec, Rashid, & Spinella, 2012). O programa personalizado, chamado prática das forças ba­seada em mindfulness (mindfulness-based strengths practice - MBSP), para in­tegrar e melhorar ambos os fenômenos, tem mostrado resultados promissores (Ivtzan, Niemiec, & Briscoe, 2016; Niemiec, 2014a; Niemiec & Lissing, 2016).

A principal ideia desta seção é que a cegueira das forças pode ser disse­minada. Aqui está um exemplo: um de meus filhos apresenta alguns atrasos no desenvolvimento e está muito atrás de seus colegas para engatinhar e an­dar. Ele foi a vários especialistas e praticantes de intervenção precoce para receber auxílio. Passei muitas horas conversando com esses ajudantes, com membros da família e outros sobre o que deveríamos fazer e as estratégias para chegar lá. Expressei preocupação, de forma rotineira, sobre os atrasos no desenvolvimento e o impacto potencial em seu cérebro em desenvolvimento e relacionamentos sociais. Em uma de minhas discussões com a colaboradora de uma creche, a respeito da minha agenda para a equipe manter uma série de estratégias na tentativa de fazê-lo engatinhar, ela fez o seguinte comentário: “Ele está se movimentando para todos os lugares! Ele está conseguindo chegar onde precisa ir. Apesar de não engatinhar, ele está se movendo muito bem! Ele vê um brinquedo ou um grupo de crianças do outro lado da sala onde [91] quer chegar e vai até tá”. Foi aí que percebi. Meu filho já estava expressando diversas forças e enfrentando as dificuldades no desenvolvimento relacionadas a exploração, curiosidade e mobilidade de causa e efeito, indo do ponto A ao ponto B. Eu não estava sabendo - ou pelo menos valorizando - esse fato, que estava bem à minha frente! Estava mais entrincheirado em uma abordagem de deficiência, gastando meu tempo e recursos no que ele não estava fazendo ou no que ele deveria estar fazendo, em vez de estudar e celebrar o que ele estava fazendo (e fazendo muito bem). Seus deslocamentos - embora muito menos tradicionais do que os da maioria das crianças - foi algo que ele construiu. Essa conversa levou-me imediatamente para o modo savoring. Saboreei seus deslocamentos, sabendo que ele iria em breve superar esse estágio interes­sante e maravilhoso. Criei oportunidades para ele praticar esses movimentos, o que encheu meu coração de alegria (e meu celular de vídeos). Não ignorei os aspectos baseados no problema, em vez disso construi sobre eles, em vez de paredes os problemas tornaram-se um trampolim. Naquela situação, essa colaboradora ajudou-me a interromper minha cegueira das forças. [92]

O paradoxo das forças

Existe um paradoxo interessante no trabalho com as forças. Por um lado, os indivíduos tendem a não estar muito sintonizados com suas melhores qua­lidades na maior parte do tempo. Portanto, as forças são facilmente ignoradas, esquecidas e tratadas como comuns. Por outro lado, quando os indivíduos estão dispostos a explorar suas melhores qualidades, rapidamente encontram as forças em suas histórias e conversas com outros. Em geral, é fácil falar sobre forças de caráter e identificar-se com elas, e até mesmo as complexida­des sobre as forças são facilmente compreendidas se aos indivíduos é dada a oportunidade. Isso foi mostrado em um estudo que explorou as forças de caráter VIA com estudantes do ensino médio (Steen, Kachorek, & Peterson, 2003). Até mesmo crianças muito pequenas podem facilmente compreender cada uma das 24 forças quando se dedica tempo para ensiná-las (Fox Eades, 2008). E os praticantes que lideram discussões sobre forças com os clientes - mesmo aqueles muito deprimidos ou desengajados - percebem que esses se interessam e se engajam. É como se uma nova porta fosse aberta, permitindo ao cliente ver as coisas de uma nova maneira.

Denomino essa discrepância, entre o desconhecimento das forças e o alto potencial para sua utilização, de “paradoxo das forças”. Os praticantes po­dem aprender a utilizar o paradoxo das forças em seu favor. Nossas forças de assinatura parecem ser, em grande parte, pré-conscientes (para roubar um termo de Freud de um século atrás). É como se nossas forças de assinatura e as conversas sobre forças estivessem esperando para serem exploradas bem abaixo do conhecimento consciente. Isso significa que há um grande potencial para todo cliente romper com seus pontos cegos, mover-se além da superfície de sua consciência e deixar a qualidade positiva fluir.

Tenho me referido às forças de assinatura como um verdadeiro “divisor de águas”, especialmente quando trabalho com clientes (Niemiec, 2014a). As forças de assinatura ajudam os praticantes a preencher a lacuna do paradoxo das forças. Em todo evento esportivo há, com frequência, um momento em que a dinâmica muda em favor de um time, mobilizando a energia, o traba­lho em equipe, a liderança e impulsionando aquele time rumo à vitória. Isso pode ser um grito arrebatador de um jogador, um roubo defensivo, um gol de placa, ou um esforço abrupto. As forças de assinatura podem ser esse divisor [93] cegos. Portanto, quando as forças são trazidas para a atenção deles, há com frequência uma reação do tipo "Ah sim, é claro!",

Além da consciência dos forças de caráter

Não há praticamente discordância entre nenhum dos líderes da psicologia das forças e do couching de forças de que conhecer as próprias forças de as­sinatura seja importante e necessário para o bem-estar (Biswas-Diener et al., 2011; Buckingham & Clifton, 2001; Cooperrider & Whitney, 2005; Duttro, 2003; Forster, 2009; Kauffman, Silberman, & Sharpley, 2008; Linley, 2008; Lopez, 2008; Madden et al., 2011; Niemiec, 2012; Peterson, 2006a; Proctor & Fox Eades, 2011; Rashid, 2009; Rath, 2007; Seligman et al., 2005). E é notável que alguns têm relatado benefícios em apenas identificar suas forças de caráter com o Questionário VIA, em uma variedade de populações (por exemplo, Kobau et al., 2011; Seligman et al., 2005; Sims, Barker, Price, & Fornells-Ambrojo, 2015).

Todavia, conhecer as próprias forças é provavelmente necessário, mas não é o suficiente para resultados particularmente importantes, tal como o florescimento humano. É a expressão das forças de caráter que parece promover benefícios substanciais. E está se tornando mais claro que as forças de caráter podem ser desenvolvidas deliberadamente (por exemplo, Biswas-Diener et al., 2011; Louis, 2011; Seligman et al., 2005).

As pesquisas têm corroborado importantes benefícios da utilização das forças de caráter como diferentes de apenas ter consciência (Littman-Ova- dia & Steger, 2010). Isso tornou-se mais claro em um estudo que mencionei anteriormente - com uma amostra representativa de colaboradores da Nova Zelândia, de Lucy Hone e colegas (2015), que examinaram a consciência das forças, a utilização das forças e os níveis de florescimento. Esses pesquisa­dores constataram que os colaboradores que estavam altamente conscientes de suas forças foram nove vezes mais propensos a florescer do que os que não estavam conscientes delas, mas aqueles que relataram alta quantidade na utilização das forças foram 18 vezes mais propensos a florescer do que os que relataram quantidade muito baixa na utilização das forças. Embora esses números não signifiquem que o conhecimento ou a utilização das forças cause o florescimento nessas taxas, é interessante ver as distinções não apenas entre a consciência das forças e o desconhecimento das forças, mas também entre a consciência das forças e sua utilização. [94] 

Muitas pessoas que respondem ao Questionário VIA reconhecem isso ao examinar seu perfil de forças de caráter e, ao acumular alguma autoconsciência sobre suas forças, deparam-se com a utilidade prática de seu uso, dizendo: “Tudo bem, respondi ao Questionário VIA, e agora o que faço?"

Muitos praticantes caem na armadilha da abordagem simplista do trabalho com as forças e “pulam” imediatamente do “identificar” para o “utilizar", o que é geralmente insuficiente como abordagem (Biswas-Diener et al., 2011). Niemiec (2013) notou que há um passo básico, mas crucial, que tais pratican­tes perdem, e que ocorre depois de identificar as forças e antes de estabelecer um plano de ação - ajudar o cliente a explorar suas forças.

Dois conceitos gerais são cruciais quando se trabalha com as forças de caráter: a) priorizar as forças de assinatura e b) todas as 24 forças importam. Ajudar o cliente a focar, sintonizar-se e dominar suas forças de assinatura em vários contextos provavelmente lhe dará mais benefícios e mais flexibilidade para alcançar suas metas. Ao mesmo tempo, os clientes preci­sam ser lembrados de que têm muitas forças que podem ser desenvolvidas e utilizadas. Para um cliente novo no mundo das forças ou novo em colocar os “óculos das forças”, pode ser intimidante - se não impossível - tentar focar ou construir todas as 24 forças. Dessa forma, é geralmente melhor começar por onde eles sentem-se energizados e entusiasmados e podem expressar-se natu­ralmente (forças de assinatura), e, depois, partir desse ponto. Considerando isso, muitas pessoas ao longo dos tempos têm sistematicamente passado pelas principais virtudes ou forças tentando construí-las uma a uma. O estadista norte-americano do século XVIII, Benjamin Franklin (1962), escreveu sobre como monitorou, manteve um diário, discutiu e tentou melhorar várias virtu­des, focando em uma virtude diferente a cada semana.

As pessoas às vezes acham surpreendentemente desafiador descobrir novas maneiras de utilizar uma de suas forças de assinatura. Isso acontece porque não temos prática em utilizar nossas forças e, quando as utilizamos, fazemos isso sem muita conscienciosidade. Por exemplo, você tem prestado bastante atenção em sua força de autocontrole enquanto se veste? Em seu nível de prudência ou bondade ao dirigir? Em sua humildade durante uma reunião de equipe? [95]

Como utilizar as forças de assinatura de novas maneiras

À medida que as pesquisas sobre a utilização das forças de assinatura de novas maneiras tornam-se sólidas e continuam a expandir-se, os praticantes e clientes ficam ansiosos para empregá-las. Por isso, apresento aqui quatro estratégias: comportamentos simples, ancoragem, mapeamento dos contextos e mapeamento holistico.

Essas dicas práticas, algumas das quais menciono na obra Character streng­ths matter (Polly & Britton, 2015), ajudarão você e seus clientes a desenvolver suas forças de caráter e tornarão esse exercício mais prático, fácil de fazer e até mesmo revigorante. Os leitores podem desejar retornar à Tabela 1.2 no Capítulo 1 para revisar exemplos de “pequenos" usos das forças no dia a dia que ofereci para cada uma das 24.

 

Comportamentos simples

Para iniciar, muitos praticantes e clientes acham útil começar com uma lista dos comportamentos das forças de assinatura. A Tabela 2.1 inclui duas idéias para a utilização de cada força de caráter de uma nova maneira. [96]

Tabela 2.1 - Utilizando as forças de assinatura de novas maneiras

Ancoragem

Ancore as forças de assinatura a uma atividade diária que você já faz. O que você faz todos os dias que faz parte de sua rotina? Dirigir, preparar o almoço, participar de uma reunião, de escrita criativa, brincar com seus filhos, relaxar com seu cônjuge, enviar e-mails para amigos. Comece escolhendo uma dessas atividades de rotina, e comprometa-se a utilizar uma ou mais de suas forças de assinatura durante aquela atividade. Por exemplo, se você ancorar a imparciali­dade à conversa com seu cônjuge, poderá, conscientemente, assegurar-se de lhe permitir uma quantidade igual de tempo para que ele compartilhe sobre seu dia e que escolha a atividade relaxante para vocês dois realizarem juntos. Se você an­corar a bondade ao dirigir, poderá, de forma deliberada, encontrar uma ou duas maneiras em cada viajem de ser sensível às necessidades potenciais de outros mo­toristas, e sair de seu caminho para sorrir/acenar para eles e dirigir com cuidado.

Mapeamento do contexto

Quando considerar os principais domínios de sua vida - trabalho, escola, família, relacionamentos, comunidade - tome nota do grau em que você ex­pressa, confortavelmente e regularmente, todas as suas forças de caráter em cada domínio. Muitas pessoas acham que há uma lacuna no grau em que expressam uma força em um ou dois domínios, em comparação a outros domí­nios. Gere alguns exemplos da expressão de suas forças de caráter, escrevendo sobre como você utiliza suas forças do topo em cada domínio. Em que domí­nios sua escrita é mais fluida e rica? Em que domínios você tem dificuldades de pensar em exemplos? Permita a cada domínio informar outros ao gerar mais e mais idéias sobre como utilizar suas forças de assinatura de novas maneiras. [99]

Mapeamento holístico

Originalmente baseadas no modelo de dois fatores de Peterson (2006a), as forças de caráter foram mapeadas em duas continuas (VIA Institute. 2014): forças que são do coração (por exemplo, sentimento, corpo, emoção, intuição), ou da cabeça (por exemplo, lógica, análise, raciocínio), e forças que são mais in­terpessoais (com outros), ou intrapessoais (quando se está sozinho). A Figura 2.1 retrata o gráfico circumplexo da classificação VIA, denominado “gráfico do equilíbrio de dois fatores” dos dados analisados por Robert MacGrath, em 2014 (veja também um relatório de amostra com o mapeamento circumplexo em http://www.viacharacter.org/www/ Portals/O/VIA%20Pro%20Report,pdf).

Mapear cada força de assinatura em quatro aspectos é ainda outra maneira de expandir seus pensamentos e ações sobre como você pode utilizar suas forças de assinatura. Isso permite uma visão mais completa e holística de si mesmo e serve para acionar a potencialidade de cada força de caráter. Veja a Tabela 2.2 para um exemplo da utilização da força de gratidão. [100]

Tabela 2.2 - Mapeamento holístico da força de gratidão.

 

Psicologia - Psicologia positiva
11/22/2020 1:43:38 PM | Por Ryan Niemiec
Fundamentos da prática baseada nas forças

Era 2009. Eu havia escrito um livro sobre forças de caráter no ano anterior e era uma das poucas pessoas que tinha se dedicado a tal esforço sobre esse tópico. Mesmo assim, percebi que sabia muito pouco sobre forças de caráter. Havia estudado, minuciosamente, as 24 forças, pesquisas, aplicações existentes e o extenso histórico da classificação VIA, mas a verdadeira profundidade sobre a natureza do caráter e a versatilidade da prática não estavam lá. Teria sido fácil pensar que já sabia tudo quando cheguei ao Instituto VIA, mas isso teria sido um mindset fixo, atitude de especialista, e um trágico erro. Apreciando minhas forças da curiosidade e esperança, estabeleci um processo de estar aberto para novas idéias e visões. Depois de ter tido algumas conversas com Neal Mayerson (Presidente do Instituto VIA), expandi meu pensamento sobre o que realmente significa caráter. Por meio desses diálogos, e por ser desafiado pelo pensamento crítico e criativo da equipe do Instituto VIA, diariamente - com reflexão solitária - comecei a compreender realmente a profundidade desse trabalho. Ficou claro para mim que todos os que trabalham com forças de caráter estão envolvidos no trabalho de uma vida. Essas forças são catalisadoras de ações e narrativas positivas, que utilizamos em qualquer situação para o resto de nossa vida.

Ao ler este capítulo, você construirá uma base de conhecimentos sobre forças de caráter na qual as práticas e as intervenções com forças de caráter (IFC) apresentadas nos capítulos posteriores são baseadas. Destaco sete con­ceitos centrais subjacentes às forças de caráter: uma linguagem comum, dimensionalidade e contexto, pluralidade, todas as forças de caráter importam, diferentes tipos de forças, as forças de caráter podem ser desenvolvidas, e ser e [31] fazer. Embora os conceitos discutidos não sejam exaustivos, servem como um trampolim para os leitores e, especialmente, para os praticantes que trabalham com indivíduos que utilizam uma abordagem baseada nas forças. Com esse propósito, as “dicas para praticantes baseadas nas forças” são oferecidas para o praticante transformar as idéias em ação.

Como complemento deste capítulo, recomendo que você leia o Apêndice A, 1 que oferece um histórico sobre a classificação VIA de forças de caráter e virtudes e sobre os instrumentos de mensuração do Questionário VIA. Muitos pra­ticantes acharão útil explicar esses conceitos para seus clientes. O Resumo 1.1 lista uma variedade de definições de forças de caráter da literatura sobre o tema.

As forças de caráter são características/capacidades positivas que são pes­soalmente enriquecedoras, não diminuem os outros, são universais e valoriza­das em todas as culturas, e alinhadas com diversos resultados positivos para si mesmo e outros. [32]

Linguagem comum

As 24 forças de caráter, como um grupo, são uma linguagem comum que descreve o que há de melhor nos seres humanos. Essa é uma descoberta ino­vadora, pois nunca houve, historicamente, uma linguagem do caráter que atravessasse culturas. As realidades desse princípio estão em toda parte: os coaches e terapeutas utilizam essa “linguagem comum” com seus clientes para ajudá-los a identificar suas melhores qualidades. Os gestores utilizam a “lin­guagem” para ajudar seus colaboradores a se tornarem mais produtivos e felizes no trabalho, e os professores a utilizam para ajudar seus alunos a con­solidar a aprendizagem mais profundamente. As famílias a utilizam para criar
uma cultura positiva em casa e os indivíduos a utilizam para seu autodesenvolvimento. Ter uma linguagem facilmente compreendida por todos permite a cada pessoa estar “na mesma página” que outros ao abordar um desafio, engajar-se em uma conversa e apoiar um ao outro.

E importante compreender que essa linguagem não é uma compilação alea­tória de palavras positivas. Muito pelo contrário, pois ela é o resultado de um projeto de três anos e da colaboração entre cientistas. Sob os auspícios do Instituto VIA de Caráter, organização global sem fins lu­crativos, os cientistas/acadêmicos, Chris Peterson e Martin Seligman, lideraram uma equipe de 55 cientistas bem conhecidos no projeto de anos, que envolveu uma extensa revisão histórica e análise do melhor pensamento sobre o tema do caráter na filosofia, ética das virtudes, educação moral, psicologia e teologia dos últimos 2.500 anos. O resultado foi uma classificação de seis virtudes (sabedo­ria, coragem, humanidade, justiça, temperança e transcendência), encontradas universalmente nos seres humanos, em todas as religiões, culturas, nações e sistemas de crenças. Após aplicar vários critérios de forças, surgiram 24 forças que representam fortemente os caminhos para cada uma das seis virtudes. Essa pesquisa, análise e revisão é amplamente discutida em Character strengths and virtues: A handbook and classification (Peterson & Seligman, 2004).  Instrumentos de mensuraçáo também foram desenvolvidos e passa­ram por diversas alterações no decorrer dos anos até serem finalizados com boa psicometria. Foram criadas duas classificações - o Inventário VIA de Forças (VIA-IS; coloquialmente referido como Questionário VIA), para adultos, e o Questionário VIA Youth, para jovens de 10 a 17 anos de idade. [33]

Uma linguagem comum significa portas abertas de comunicação. Significa que os praticantes têm um modelo para pensar e trabalhar com os clientes. Sig­nifica que os clientes têm uma nova maneira de ver a si mesmos; a linguagem serve como um guia para compreender a essência de quem são. Dessa com­preensão mútua, podem germinar intervenções e estratégias, bem como surgir conversas em que o cliente e o praticante identificam as forças um do outro. [34]

Como mencionado anteriormente, o modelo original da conceituação de Character strengths and virtues (Peterson & Seligman, 2004) explicou o nível mais alto da hierarquia como virtudes, seguido pelas 24 forças de caráter que formam cada virtude, as quais são seguidas por temas situacionais em que as forças de caráter são expressas (veja a Figura 1.1). A medida que surgem pesquisas de vários estudos no mundo, níveis adicionais podem ser considerados, pelo menos para os praticantes refletirem. A Figura 1.2 [35] oferece algumas distinções úteis que são relevantes para os praticantes. Note que esse não é um modelo científico, mas conceitual. A relação entre cada um dos elementos na figura não foi explorada com profundidade. Uma das duas adições é o contexto, ou seja, a força de caráter é expressa no trabalho, na escola, em casa, na comunidade, ou em outro contexto em geral? Há muitos estudos específicos para um contexto, tais como a miríade de estudos sobre forças de caráter no contexto do ambiente de trabalho (por exempo, Harzer & Ruch, 2012), e no ambiente escolar (por exemplo, Weber, Wagner, & Ruch, 2016). Esses estudos oferecem ao praticante e cliente sabedoria so­bre quais resultados poderão ocorrer no trabalho ou na escola, em casa ou na comunidade, em geral, caso as forças de caráter sejam empregadas. Isso é distinto do nível com nuances dos temas situacionais, o qual não tem sido explorado tão profundamente. Por exemplo, no contexto do trabalho, como as forças de assinatura poderão ser expressas de maneira diferente em uma situação com seus consumidores ou clientes, em uma situação em que os projetos de trabalho e o estresse estejam se acumulando, em uma situação de interação com o chefe durante uma revisão de colaboradores, ou a situação de um colaborador ficar doente, mas saber que precisa concluir um projeto? A quantidade de temas situacionais potenciais é infinita em cada contexto. Entretanto, esse é o trabalho de exploração no diálogo entre praticante e cliente acerca da utilização das forças.

Outra adição na Figura 1.2 apresenta as três virtudes - cuidado, interesse e autocontrole. McGrath (2015c) estudou mais de 1 milhão de pessoas entre quatro amostras e medidas múltiplas de forças de caráter e encontrou apoio para que as 24 forças de caráter fossem divididas em três fatores. Isso demons­trou consistência com as descrições filosóficas das virtudes, assim como a ex­periência dos líderes nos campos do caráter moral e educação moral. Embora possa ser argumentado que essas três virtudes podem substituir as seis virtu­des originais nessa conceituação prática, essa possibilidade não alcancou um consenso científico para isso ser feito, por isso retive o original para fornecer nais nuances e diálogo entre os praticantes. Poderá haver uma “força mestre” em um nível até mais alto? Alguns pesquisadores, praticantes e teóricos ar­gumentam a esse favor, mais comumente notando a perspectiva/inteligência social (ou seja, sabedoria prática), autorregulação, humildade e gratidão, no entanto, não há consistência entre os cientistas sobre esses argumentos. [36]

Figura 1.1

Figura 1.2

O foco desta obra é, certamente, o nível de forças de caráter; no entanto, os leitores encontrarão intervenções para os níveis mais altos e muita discus­são por toda a obra sobre a aplicação das forças em diferentes contextos e situações específicas.

Dimensionalidade e contexto

Um homem honesto que trabalha arduamente. Uma mulher íntegra que toma boas decisões morais. Uma pessoa de negócios com má reputação. No mundo atual, cada uma dessas pessoas seria, provavelmente, descrita como tendo bom ou mau caráter. Tais concepções representam as visões tradicionais e limitadas sobre o caráter, popularizadas durante décadas. Elas têm a conse­qüência lamentável de refletir as percepções de tudo ou nada do caráter. A [37] rotulação do caráter das pessoas como om/mau, alto/baixo, positivo/negativo está arraigada em muitas culturas e é rapidamente testemunhada, absorvida e mostrada nas visões da sociedade sobre presidentes, líderes, estrelas de cinema e atletas profissionais.

Na realidade, o caráter é mais complexo do que isso. O caráter de uma pessoa, seja ela Tiger Woods ou |. K Rowling, é multidimensional. A dimencionalidade significa que o caráter é visto em graus; em outras palavras, quanto da força de caráter da imparcialidade você está demonstrando? Isso está em contraste com o abordagem categórica utilizada para diagnosticar transtornos psicológicos e médicos, dos quais o indivíduo preenche os critérios para buli­mia, transtorno do pânico, diabetes tipo II, ou não preenche os critérios. Ou a pessoa tem o transtorno, ou não o tem.

A classificação VIA e o Questionário VIA refletem essa abordagem dimen­sional, pois as forças de caráter são expressas em graus - temos graus de cria­tividade, honestidade, entusiasmo, e assim por diante. Isso está alinhado ao conceito dos “traços contínuos", em que qualquer força de caráter pode aparecer em um variado continuum de mais ou menos (Miller, 2013). Explicado de outra maneira, utilizando o exemplo de outros traços de personalidade:

A introversão e extroversão são tipicamente concebidas e mensuradas como dimen­sões (como são as forças de caráter VIA), então, perguntar quantos introvertidos há é como perguntar quantas pessoas altas há. A resposta depende de onde escolhemos fazer o corte na dimensão de interesse. Dito isso, a avaliação psicológica é dimensional e embora amemos respostas simplificadas que nos permitam falar sobre introvertidos, otimistas ou gênios, a questão é que há alguns “tipos” preciosos na psicologia, casos extremos (Chris Peterson, comunicação pessoal, 5 de janeiro de 2010, tradução nossa).

As pesquisas que utilizam o Questionário VIA mostram que essa visão da dimensionalidade é a que melhor descreve as forças de caráter (McGrath, Rashid, Park, & Peterson, 2010), mas isso não exclui inteiramente uma abor­dagem categórica na qual a pessoa tem ou não tem uma força de caráter em uma situação particular, semelhante ao critério da “ausência seletiva” de Pe­terson e Seligman (2004), ao estabelecerem a classificação VIA. Por exemplo, uma criança que está batendo implacavelmente na outra no parquinho pode ter ausência de bondade naquela situação, mas essa mesma criança pode ir para casa e expressar bondade genuína para sua mãe (dessa forma, a bondade não está completamente ausente nela). O mesmo, geralmente, não poderia ser [38] dito de uma pessoa com o "rótulo categórico* de dependente de álcool; O alcoolismo está. categoricamente, presente nela quando está no trabalho, em casa ou com amigos. Desse modo, embora as distinções categóricas de tudo ou nada, como *ou você tem criatividade, ou não tem*, rsejam globalmente menos precisas sobre uma pessoa, elas podem ter úteis em situações particular?!. Alguns acadêmicos do caráter moral têm argumentado que há um limiar mí­nimo ou certos padrões pelos quais um traço de caráter deve primeiramente se qualificar (isto é, traço categórico), antes que possa ser definido como um traço contínuo (Miller 2013).
Considerado de forma mais profunda, há uma multidímensionalidade pata cada força de caráter; por exemplo, a bondade envolve dimensões de compai­xão, generosidade, cuidado, encorajamento, altruísmo e gentileza, cada uma oferecendo um sabor ou dimensão diferente dessa força chamada bondade.

“Não há algoritmo para a vida*, explica Fowers (2005, p. 13), em seu texto sobre a prática da virtude; em outras palavras, sempre haverá subjetividade, fatores individuais únicos e, especialmente, nuances baseadas no contexto.

O grau de expressão das forças de caráter está baseado no contexto em que se está inserido. O contexto é cruciai para se entender e, por fim, utilizar as forças de caráter com sabedoria prática (Fowers, 2005, 2008; Schwartz & Sharpe, 2006). Os indivíduos provavelmente expressarão suas forças de caráter de diferentes maneiras e em maior ou menor extensão com base nas circunstâncias em que se encontram. Por exemplo, o nível ou quantidade de bondade expressa com o companheiro de relacionamento (por exemplo, oferecer-se para fazer o jantar) difere em extensão da força expressa em relação a um morador de rua (por exemplo, dar R$ 15 para a pessoa). Além disso, o indivíduo pode achar muito fácil expressar bondade com os colegas de traba­lho, mas muito difícil em outra situação, como prestar consultoria a um cliente ou comunicar-se com seu supervisor. [39]

As forças de caráter não operam de forma isolada dos ambientes, em vez disso são moldadas pelo contexto em que nos encontramos. Um indivíduo pode potencializar sua bondade ou curiosidade quando está com amigos, uti­lizar o autocontrole e a gratidão ao alimentar-se, empregar a liderança e cria­tividade no trabalho e demonstrar amor e trabalho em equipe com a família.

O grau da força de caráter que a pessoa expressa com a família pode diferir dependendo do contexto - quem está com ela, onde está, o que está fazendo, quais são as expectativas ou demandas da situação, experiências passadas da situação, cultura familiar, e assim por diante. Por exemplo, a força do amor de uma pessoa pode ser expressa em grau diferente com uma mãe comedida versus um pai jovial, e isso também irá variar dependendo da localidade em que aquelas pessoas se encontram - estão todos em um restaurante lotado, em um evento esportivo barulhento, ou em uma sala de cinema? E, há deman­das situacionais que encorajam ou desencorajam certas forças (por exemplo, menos humor em um velório, mais entusiasmo em um parque ao ar livre)? Há histórico familiar de ter passado por aquela situação, ou há expectativas incorporadas de se comportar de certa maneira?

Considere a expressão da(s) força(s) de caráter em resposta a cada per­gunta, quando o contexto é detalhado e as nuances, bem como a complexi­dade, aumentam:

  • Quanta da força de caráter você expressa?
  • Quanta curiosidade você expressa?
  • Quanta curiosidade você expressa no trabalho?
  • Quanta curiosidade você expressa no trabalho quando está com seu chefe?
  • Quanta curiosidade você expressa no trabalho quando está com seu chefe falando sobre assuntos pessoais?
  • Quanta curiosidade você expressa no trabalho quando está com seu chefe falando sobre assuntos pessoais e seu chefe está com um humor positivo?
  • Quanta curiosidade você expressa no trabalho quando está com seu chefe falando sobre assuntos pessoais e seu chefe está com um humor positivo, mas você está atrasado para um evento especial?

Cultura: Um tipo especial de contexto

As forças de caráter VIA são, frequentemente, descritas com o universais, ou onipresentes, em todos os seres humanos, independentemente da nação, [40] cultura ou filiação religiosa. O contexto cultural no qual uma dada força de caráter é expressa oferece, com frequência, uma aparência única da força. Muitas vezes, a força de caráter manifesta-se de uma maneira diferente para um propó­sito diferente, variando de acordo com a cultura; e as normas e os rituais cultu­rais reforçarão, com frequência, as forças que ajudam o indivíduo a manter a família e a comunidade unidas (Rashid, 2012). Em outras palavras, há nuances específicas da cultura sobre como as forças de caráter são demonstradas.

No VIA, sou constantemente abordado por indivíduos de diferentes cul­turas que me dizem algo semelhante ao seguinte: "Em minha cultura, temos ________ , e acho que essa seja uma força também. Por que ela não está na classificação VIA?” Essa importante pergunta precisa de adequada explora­ção da cultura e do significado da palavra em questão. De maneira geral, há diversas possíveis explicações para isso, e embora seja necessária evidência empírica sobre as especificidades, os seguintes pontos podem servir como guia inicial e fornecer insight:

  • A força mencionada é uma expressão cultural de uma força de caráter VIA já existente. Por exemplo, o traço da hospitalidade, comum nas culturas do Oriente Médio, pode ser notado. É provável que essa seja, na maior parte nas circunstâncias, uma variação da força de caráter da bondade. Em outras palavras, a bondade pode ser apresentada de maneira significa­tivamente única como hospitalidade (no entanto, ainda é a bondade que está sendo expressa).
  • A força mencionada é uma força composta. É uma combinação das forças de caráter VIA existentes. Por exemplo, a tolerância é hipotetizada como a combinação da imparcialidade, bondade e discernimento/senso crítico (Peterson, 2006b; Peterson & Seligman, 2004). A força da responsabilida­de pode ser vista como uma mistura da perseverança e trabalho em equipe (Peterson, 2006b)). A força da paciência, por outro lado, é vista como uma combinação da perseverança, autocontrole e discernimento/senso crítico (Peterson & Seligman, 2004), embora outros tenham enfatizado a impar­cialidade e o perdão em suas análises (Schnitker & Emmons, 2007).
  • A força mencionada é uma “força associada à cultura”, vinculada a uma cultura particular e não onipresente - Um importante atributo da classifi­cação VIA é a declaração de não incluirmos nenhuma “força associada a [41] uma cultura** (Peterson & Seligman, 2004). O exemplo da ambição pode ser aplicado aqui como um grande traço ocidental que certamente existe em outras culturas, como em certas partes da África, mas talvez com me­nos prioridade e valor.
  • A força mencionada é uma forma mais intensa da força de caráter VIA já existente. Na cultura finlandesa há o sisu, uma força especial de determi­nação e firmeza para superar grandes adversidades. O sisu é celebrado na Finlândia, e uma maneira de representar isso é uma forma intensa de per­severança e, à medida que essa perseverança é implantada, outras forças de caráter fluem no sisu, incluindo a bravura.

Não estou sugerindo que uma ou mais das razões citadas anteriormente expliquem e captem completamente todas as nuances culturais (ou seja, a imparcialidade, a bondade e o critério não explicam 100% da tolerância), mas talvez essas explicações ofereçam um ponto de partida substancial para se compreender as forças culturais e sua expressão contextual. Por fim, o praticante orientado pelas forças pode fazer perguntas e explorar as nuances da cultura de um indivíduo, em vez de oferecer um ponto de vista autoritário e etnocêntrico.

Há, aparentemente, inúmeros exemplos de qualidades importantes que surgem quando as nuances da cultura de um indivíduo são examinadas. Lomas (2016) conduziu uma busca quase sistemática por palavras “intraduzíveis” relacionadas ao bem-estar, e “caráter” foi uma das três categorias globais em seu enquadramento, o qual ele subdividiu posteriormente em recursos e espiritualidade. Exemplos de recursos incluem sumud e baraka, termos árabes traduzidos como firmeza imperturbável e o dom da energia espiritual transferida de uma pessoa para outra, respectivamente. Também foram incluídos os termos japoneses ikigai e sunao, traduzidos, respectiva­mente, como razão de ser, e uma conotação positiva de humildade exem­plificando o respeito que um estudante demonstra por um professor. Na subcategoria da espiritualidade de Loma, ele oferece uma variedade de palavras intraduzíveis, como smriti, conceito budista para consciência do momento presente. Rashid (2012) sugere palavras adicionais que são espe­cíficas para algumas culturas, como respeito, amabilidade, dever, devoção e savoir-faire (diplomacia). [42]

Pluralidade

Quando solicitaram a Chris Peterson, cientista líder do desenvolvimento da classificação VIA e ex-diretor de ciência do Instituto VIA, para compartilhar seu achado mais importante entre a infinidade de pesquisas e avanços na ciên­cia das forças de caráter, ele respondeu simples e distintamente: “O caráter ê plural" (Peterson, comunicação pessoal, 2010). O que Peterson quis dizer foi que as pessoas não são simplesmente bondosas ou humildes, corajosas, ou esperançosas, ou honestas. Em vez disso, as pessoas têm muitas forças de caráter e essas forças são expressas em combinações, tendo cada pessoa um perfil único de forças de caráter. Essa variação, multiplicidade e singularidade revelam a rica trama do caráter de um indivíduo.

Há uma estrutura em nosso caráter - isso é mais bem descrito como um perfil único de forças de caráter com altas e baixas variáveis (isto é, os indiví­duos têm forças mais altas, forças médias e forças mais baixas). Há mais de 5,1 milhões de possíveis combinações das cinco forças de caráter do topo que um indivíduo pode ter, e entre a ordem completa da classificação de 1 a 24, o nú­mero de perfis de forças de caráter é exponencialmente maior que o número de pessoas que vive no planeta. Embora isso pareça virtualmente infinito, quando se considera que a expressão das forças de caráter de cada pessoa é única (por exemplo, não há duas pessoas com criatividade como força do topo que a expressam de maneira idêntica), a expressão das forças de caráter (ou seja, frequência, duração e intensidade), para qualquer indivíduo, é verdadeiramente “exclusiva”. Dessa maneira, o caráter é necessariamente individualizado e idiossincrático.

As forças de caráter não são expressas isoladamente, mas em combinações ou constelações entre elas (Biswas-Diener, Kashdan, & Minhas, 2011; Niemiec, 2013; Peterson, 2006a). É improvável que um indivíduo expresse somente uma força. Por exemplo, enquanto estou aqui digitando essas frases espero estar expressando alguma criatividade e discernimento/senso crítico, mas há também graus de esperança, perspectiva, liderança, entusiasmo, e assim por diante. Quando expressamos uma força de caráter deliberadamente, muitas outras acompanham a jornada de forma automática e fluida. Tenho observado, repeti­damente, que, quando as situações se tornam crescentemente mais complexas e desafiadoras, o número de forças de caráter sendo expressas aumenta. Por exemplo, um pai que lida com um novo diagnóstico médico para um de seus filhos está na posição de agir fortemente com uma variedade de forças de carater, enquanto o pai que assiste filme com seu filho pode não expressar tantas forças de caráter em termos de quantidade ou intensidade.

Isso leva ao conceito relacional de que as forças de caráter são interdependen­tes - elas "inter-são” (Niemiec, 2012). a partir do conceito budista de inter-ser (Nhat Hanh, 1993). Há dinâmicas que acontecem quando as forças interagem umas com as outras, causam o aumento uma na outra, ou diminuem a expressão entre elas. É difícil ser criativo sem algum nível de curiosidade. Você consegue expressar bondade de maneira forte, sem expressar humildade e talvez uma dose de bravura? Esse conceito de interdependência das virtudes tem sido apontado por grandes filósofos, como Platão, que observou que as quatro virtudes de justiça, sabedoria, temperança e coragem, são interdependentes - se faltar uma
virtude, e especialmente se faltar justiça, então as outras três não podem ser in­ teiramente alcançadas. Para os atenienses da Antiguidade, a contribuição social e o florescimento pessoal estavam envoltos no conceito da virtude. Um princípio fundamental de suas crenças era que as virtudes representavam um todo sem descontinuidades. Ser virtuoso exigia excelência em todas as virtudes, não ape­nas em uma, uma ideia que tem sido chamada de reciprocidade das virtudes. Como concebeu a filósofa moral Susan Wolf (2007) (embora sem refutação filosófica) - ter uma virtude é ter todas elas. E quando os cientistas examinaram as correlações das 24 forças de caráter, umas com as outras (ou seja, criando uma matriz de intercorrelação), eles constataram que todas as forças têm entre elas uma relação em algum grau. Algumas forças se relacionam mais altamente entre si (por exemplo, entusiasmo e esperança), enquanto outras se relacionam minimamente entre si (por exemplo, humildade e amor ao aprendizado). [44]

Todaa as 24 forças de caráter importam

Quando as pessoas respondem ao Questionário VIA e veem seus resultados, às vezes, ficam satisfeitas e orgulhosas, e outras vezes, decepcionadas. Isso está relacionado ao nível de significado e importância que elas atribuem para certas forças e onde esperavam e queriam que essas forças estivessem em seu perfil, em ordem de classificação. Na realidade, não importa se o indivíduo tem alto autocontrole, bondade ou curiosidade. Cada uma das 24 forças é positiva e pode ser utilizada para o bem. Cada uma está associada com diferentes resultados positivos na ciência do caráter. Cada uma é uma capacidade que pode ser melhorada. Portanto, cada uma das 24 forças de caráter é importante.

Algumas forças de caráter têm associações mais diretas com a felicidade; outras possibilitam oportunidades de realização e alcance de metas; já outras parecem mais conectadas a uma melhor saúde física. A Tabela 1.1 mapeia uma variedade de associações positivas para cada uma das 24 forças, conforme originalmente apresentadas na obra de Peterson e Seligman (2004). Algumas atualizações podem ser encontradas em outras fontes (por exemplo, Niemiec, 2013; 2014a; Niemiec & Wedding, 2014).

As forças de caráter têm conseqüências importantes. Essas conseqüências e esses resultados diferem de acordo com a força particular. Por exemplo, entusiasmo e esperança são as forças de caráter que mostram repetidamente estar mais fortemente associadas à felicidade (Park, Peterson, & Seligman, 2004; Peterson; Ruch, Beermann, Park, & Seligman, 2007; Proctor, Maltby, & Linley, 2009; Shimai, Otake, Park, Peterson, & Seligman, 2006), e há evi­dência de que as forças de caráter podem “causar” felicidade (Proyer, Ruch, & Buschor, 2013). A perseverança é uma força de caráter associada à realização acadêmica (Lounsbury, Fisher, Levy & Welsh, 2009; Park & Peterson, 2009). A força de caráter da gratidão tem sido associada com alta emoção positiva, otimismo, satisfação na vida, vitalidade, religiosidade e espiritualidade, e com menos depressão e inveja do que para indivíduos menos agradecidos (Em­ mons & McCullough, 2003). Esses estudos mostram que algumas forças de caráter são mais importantes para resultados específicos. Da mesma forma, algumas forças de caráter podem importar mais em períodos particulares da vida. Por exemplo, em uma amostra representativa de adultos na Suíça, as forças que promoveram filiação e comprometimento estavam entre aquelas [45] mais alinhadas ao bem-estar para adultos com quase 30 até 30 e poucos anos de idade; forças que apoiam a manutenção da família e trabalho para aqueles com quase 40 anos até 45 anos; e forças que facilitam o envolvimento vital com o ambiente para aqueles com quase 50 anos até quase 60 anos (Martinez- •Marti & Ruch. 2014). [46]

Tabela 1.1a

Segundo observação de acadêmicos, pesquisadores e praticantes, cada uma das 24 forças de caráter parece estar presente, em graus variados, nos seres humanos. É fácil ignorar ou presumir os menores graus da utilização das forças. De fato, você provavelmente utilizou todas as 24 forças de caráter nos útimos dois dias. Por exemplo, hoje de manhã você escovou os dentes, tomou banho, vestiu-se e tomou o desjejum? Se você fez uma dessas coisas, estava utilizando algum nível de autocontrole e prudência. Esses são “peque­nos” usos de duas forças que são, consistentemente, as duas forças de caráter menos endossadas em todo o mundo (McGrath, 2015b; Park, Peterson & Seligman, 2006).

Tabela 1.1b

Durante muito tempo, os pesquisadores têm se interessado em estabelecer distinções entre os “grandes” e “pequenos” usos das forças de caráter. Por exemplo, a criatividade com “C grande” (Simonton, 2000) pode ser vista na Nona Sinfonia de Mozart, no filme Amelie de Jean Pierre-Jeunet (2001), e na pintura Noite estrelada de Van Gogh, enquanto a criatividade com “c pequeno” pode ser vista quando temos um lampejo de insight sobre uma dificuldade pessoal e uma nova ideia de arranjo de flores para a mesa da cozinha. Em outros textos, tenho compartilhado diversos exemplos do “grande” e do “pequeno” uso das forças de caráter encontrados na literatura de pesquisa e em outras fontes (Niemiec, 2014a). Para destacar os usos sutis, com frequência, inconscientes dessas forças de caráter, a Tabela 1.2 apresenta exemplos de como cada uma das 24 forças pode aparecer em “pequenas” doses. É claro, a palavra “pequena” não deve ser considerada literalmente em termos de importância, pois pequenas doses das forças de caráter não apenas são ingredientes dos “grandes” usos das forças de caráter, mas também po­dem potencialmente servir como fontes importantes de significado e impacto positivo em si mesmas. [48]

Tabela 1.2

Uma das teorias dominantes na psicologia positiva é a teoria do bem-estar articulada por Seligman (2011), e concebida no acrônimo PERMA, no qual cada letra significa um caminho independente e mensurável para a vida de florescimento - uma vida plena de bem-estar substancial. Seligman (2011, p. 24, tradução nossa) descreve a relação integral que as 24 forças têm com o florescimento dessa forma; “Na teoria do bem-estar as 24 forças sustentam todos os cinco elementos, não apenas o engajamento: empregar suas forças mais altas leva a mais emoção positiva, mais significado, mais realização e á relacionamentos melhores” .

A Tabela 1.3 mostra várias conexões empíricas entre essas cinco áreas do florescimento (ou seja, PERMA), e as forças de caráter. Em termos práticos, isso significa que um indivíduo pode utilizar suas forças de caráter deliberadamente para envolver-se mais no trabalho, encontrar significado na vida, experimentar emoções positivas, melhorar os relacionamentos e alcançar metas. Um estudo (Peterson et al., 2007) observou especificamente a relação entre as forças de caráter e três elementos do PERMA (emoções positivas/prazer, engajamento e os componentes do significado da teoria da felicidade autêntica), e identificou as forças mais correlacionadas com aqueles elementos.

Tabela 1.3

Para esclarecer esse conceito de que todas as 24 forças de carater impor­tam, considere a força que normalmente aparece por último em meu perfil de forças de caráter - o humor. Valorizo imensamente o humor e as brin­cadeiras, e utilizo essa força regularmente. Eu a utilizo para conectar com novas pessoas durante uma conversa, para ser socialmente apropriado, e às vezes deixo o humor fluir conscientemente para lidar com o estresse da vida. Particularmente, aprecio utilizar a ludicidade com meus filhos pequenos. Nesse momento, minhas forças mais baixas realmente brilham. Com base nisso, o humor merece estar no final de meu perfil, porque não o utilizo como estratégia para me conectar com as pessoas logo de inicio em situações [51] sociais, contando piadas e histórias engraçadas que atraem ou cativam o público. Sinto-me constrangido quando uma situação demanda algo engraçado no momento e não tenho um comentário bem-humorado para acrescentar. Ao refletir sobre meu uso dessa força, uma das diferenças-chave entre mim e alguém que tem o humor como força de assinatura é que expresso o humor mais reativamente que proativamente. Com exceção de brincar com meus filhos, em que sou muito proativo com as brincadeiras, sou normalmente reativo com sorrisos e risadas em resposta ao humor de outros, em vez de iniciar piadas ou brindadeiras. Utilizar o humor é importante para me ajudar a ser mais equilibrado, versátil e, em algumas atuações, mais feliz. Poderia treinar minha força do humor e me tornar um comediante? Claro, e pesquisas demonstram que o humor é maleável e pode ser construído com treino (McGhee, 1999; Proyer, Gander, Wellenzohn. &. Ruch. 2014a; Wellenzohn, Proyer, & Ruch, 2016a). Mas, na realidade, o valor para mim, pessoalmente em elevar essa força ao teto é baixo. Deixarei meu humor onde está, apreciado e valorizado, mas no porão.

Diferentes tipos de forças

Um importante caminho na direção da compreensão das forças de é saber o que elas não são. Uma maneira de explorar esse insight é aprender sobre outros tipos de “forças” que os seres humanos term nomeadameme. talentos, habilidades, interesses, recursos e valores. Podemos colocar um microscópio nas forças de caráter e examinar seus subgrupos, como as forças de assinatura, forças fásicas e forças mais baixas. O que se segue são outras categorias gerais de forças e suas conexões com as forças de caráter.

Talentos (o que fazemos bem, naturalmente)

Um estudo sobre competência constatou que desenvolver um talento leva milhares de horas de prática, na verdade 10 mil horas de pratica deliberada durante pelo menos dez anos (Ericsson & Ward, 2007). Como o melhor pia­nista do mundo, o rebatedor superstar de home run, ou o campeão de xadrez [52] poderiam possivelmente desenvolver seus talentos sem a utilização intensa das forças de caráter da perseverança e do autocontrole? Diversas outras forças precisam ser utilizadas, como o entusiasmo, em que o indivíduo despende energia significante, paixão e vitalidade, esforçando-se intensamente nas práticas diariamente. O trabalho líder sobre talentos/habilidades é a teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner (1983), um psicólogo de Harvard, que propôs que os humanos não têm apenas uma inteligência, mas  pelo menos sete inteligências essenciais ou talentos: intrapessoal, interpes­soal, lógico-matemática, espacial, corporal-cincstésica, lingüística e musical. Essa teoria manteve-se forte por mais de três décadas. O atleta olímpico uti­liza sua inteligência/talento corporal-cinestésico em grande parte por causa de seu extensivo autocontrole, perseverança, prudência, esperança e muitas outras forças de caráter, enquanto a pessoa que é naturalmente talentosa em
comunicar-se com outros (ou seja, inteligência/talento interpessoal), provavel­mente, utiliza a perspectiva, inteligência social, imparcialidade e criatividade. Considere um jovem que empregou curiosidade e interesse no mundo para construir sua inteligência espacial. Ele fez perguntas sobre seu ambiente, ex­plorou novas vizinhanças onde morava e logo mapeou mentalmente a cidade onde vivia. Ele utilizou curiosidade para aproveitar ao máximo seu talento para o raciocínio espacial.

Habilidades (o que treinamos para fazer)

À medida que os indivíduos constroem uma proficiência, tal como apren­der tarefas e ofícios de trabalho, é provável que sejam motivados pela força de caráter da esperança, no sentido de haver um propósito maior ou razão pela qual estão aprendendo a habilidade. Por exemplo, a pessoa pode tentar receber uma promoção no trabalho aprendendo a utilizar um novo pro­grama de computador ou obtendo uma certificação em alguma habilidade que a ajudará a melhorar seu desempenho no trabalho. Em alguns casos, a força do amor ao aprendizado pode ser um motivador. De forma concebível, qualquer uma das 24 forças de caráter pode levar à construção de uma habi­lidade. Os jovens são, com frequência, treinados em certas habilidades que escolas, pais, coaches e outros profissionais percebem que falta na criança ou no adolescente, como habilidades do controle da raiva ou de comunicação. [53] Nessas situações, constantemente a força do pai ou do profissional impulsiona o interesse na construção da habilidade como a força de caráter do amor ao desejar o melhor para o filho ou a esperança que a criança tenha uma vida melhor.

Interesses (nossas paixões)

As pesquisas mostram que há uma associação importante entre nossas forças de assinatura e nossos interesses; a saber, nossas paixões naturais, har­moniosas na vida (Forest et al. 2012). Nossas forças de caráter mais altas - e não apenas o amor ao aprendizado e a curiosidade - estão intrinsecamente relacionadas com nossos interesses e paixões na vida. Podemos escolher hob­bies e outras áreas de interesse para expressar forças de caráter particulares.

Pratico esportes a dois porque posso expressar minha perseverança e entu­siasmo, esportes em equipe porque posso utilizar as forças do trabalho em equipe e inteligência social, e xadrez on-line para exercitar minhas forças de discernimento/senso crítico e perspectiva juntas. Sem dúvida, minha paixão por colecionar balas Pez me permite utilizar minha força do humor/ludicidade. Em meu trabalho, tenho forte interesse em educar os outros sobre o fenômeno universal nos seres humanos, como forças de caráter, mindfulness, savoring e espiritualidade. Quando meus interesses e paixões são despertados, as forças de caráter os seguem. Ao ensinar, meu entusiasmo eleva-se, e minhas forças de esperança e amor são reavivadas quando vejo o impacto imediato que esses ensinamentos têm na vida das pessoas e as muitas maneiras como isso poderá ser utilizado em nosso futuro. A conexão entre minhas forças de caráter e minhas forças de interesse parece inseparável. É uma sinergia - uma espiral de devoção e entusiasmo.

Recursos (nossos apoios externos)

A única categoria de forças que é externa a nós é os recursos. Os recursos são aqueles apoios importantes para nós, como residir em uma vizinhança segura, ter diversos amigos “chegados”, fazer parte de uma boa comunidade de aprendizagem e ter uma família com que podemos contar. Construir e man­ter nossos recursos sociais e espirituais exige caráter, como as forças que nos ajudam nos relacionamentos (por exemplo, imparcialidade, bondade, perdão), [54] e as que nos ajudam a nos conectarmos com algo fora de nós (por exemplo espiritualidade, gratidao, esperança).

Valores (o que estimamos multo Internamente)

Os valores vivem em nossa mente e dessa forma existem em nossos pen­samentos e emoções; os valores não nos falam sobre nossas ações e com­portamentos. Um indivíduo pode ter um valor sobre família, mas isso reside em seus pensamentos e emoções; passar tempo com a família e demonstrar amor, bondade e imparcialidade a alguém da família exige “caráter” e es­sencialmente é colocar os valores em ação. Portanto, o caráter não é apenas sobre cognição e emoção, também diz respeito a expressar o que está em nossa mente por meio de nossos comportamentos no mundo. É interessante notar que o nome da organização sem fins lucrativos por trás do trabalho da classificação VIA e do Questionário VIA era originalmente “Instituto Valores em Ação”. Depois, o nome foi mudado para representar de forma adequada o que é central a esse trabalho - o caráter - e desde então o nome, por mais de uma década, tem sido Instituto VIA de Caráter.

A força propulsora

As forças de caráter estão distribuídas em cada categoria de forças como uma força propulsora, catalisando ou conectando-se intimamente com outros domínios de forças. Há uma história comovente sobre um jovem chamado Benny, um influente e talentoso palestrante de empresas e programas de edu­cação para jovens. Benny era casado, tinha dois filhos, uma comunidade es­piritual forte e muitos amigos. Ele era um homem carismático e com muitos talentos, recursos e interesses. Infelizmente, o trabalho, o estresse, as dificul­dades financeiras e a pressão dos colegas começaram a ter um impacto sobre Benny e ele começou a vender drogas para aumentar sua renda. Benny perce­beu que seus recursos começaram a diminuir à medida que ele priorizava a turma errada e evitava seus amigos de infância. A situação dele piorou quando mergulhou profundamente nesse perigoso estilo de vida. Um dia, quando ele andava até seu carro em plena luz do dia, levou vários tiros no estômago e braços. Benny passou por 17 cirurgias e perdeu todas as suas economias, não conseguiu manter-se no trabalho, sua esposa o deixou e ele afastou-se dos [55] filhos e de sua comunidade da igreja. Essas circunstâncias foram acompanha­das por sentimentos profundos de depressão, o que quase sempre significa anedonia - uma perda de interesse no que ele previamente tinha interesse. Enquanto esse jovem recontava sua história para mim, também compartilhou um insight comovente que lhe veio um dia enquanto estava deitado em uma cama de hospital olhando para o teto: “Perdi tudo, as pessoas em minha vida, meu dinheiro, meu trabalho e até a função de algumas partes de meu corpo, mas uma coisa que não perdi foi minhas forças centrais. Estas não poderiam ser tiradas de mim.” Ele estava falando da bravura, honestidade, criatividade, inteligência social e esperança.

Em suma, talentos podem ser desperdiçados, recursos podem ser perdidos rapidamente, interesses mudam, habilidades diminuem com o tempo, mas quando tudo parece completamente perdido, ainda temos nossas forças de caráter. Ao focar nas forças, elas são cristalizadas e evoluem, e podem se inte­grar com outras qualidades positivas e contribuir para o bem maior.

Subgrupos das forças de caráter

A maioria desses conceitos é explorada em maior profundidade nos capítu­los posteriores, e, portanto, as seguintes explicações serão breves. Esses con­ceitos estão listados a seguir na ordem dos mais para os menos pesquisados. [56]

Forças de assinatura

Aquelas forças de caráter que sãomais centrais para quem a pessoa é e que melhor captam sua singularidade e essência, Elas também têm maior probabilidade de ser mais energizantes e expressas mais naturalmente que as outras forças do perfil da pessoa.

Forças da felicidade

Em diversos estudos com diferentes culturas, algumas forças do caráter surgem repetidamente como mais correlacionadas à satisfaçáo na vida, um tipo de felicidade. Essas torças, começando (tipicamente) com a correlação mais forte, são entusiasmo, esperança, amor, gratidão e curiosidade (veja, por exemplo, Buschor, Proyer, & Rucli, 2013; Park et al., 2004).

Forças mais baixas

As vezes, chamadas de forças menores ou forças de baixo, essas forças de caráter surgem entre as últimas quatro a sete forças no perfil do indivíduo. Elas não são vistas como fraquezas, em vez disso são forças pouco desen­volvidas, não reconhecidas, não valorizadas como outras forças, ou menos utilizadas, comparadas a outras forças no perfil.

Forças fásicas

As forças “que emergem na ocasião”, o que significa que quando uma dada circunstância demanda a utilização de uma força particular que não seja a força de assinatura do indivíduo, ele não apenas emprega a força em questão, mas o faz fortemente e de maneira adaptativa.

Forças médias

Forças de caráter que provavelmente apoiam ou melhoram a utilização das forças de assinatura de um indivíduo. Às vezes chamadas de “forças apoiadoras”, elas encontram-se no meio do perfil de forças de caráter da pessoa.

Forças perdidas

Essas forças de caráter ficaram adormecidas por um período ou foram mi­nadas pela consciência e utilização do indivíduo. Uma força de caráter pode [57] ter sido suprimida por uma figura de autoridade (por exemplo, pai ou mãe, professor, chefe, treinador, irmão, amigo), ou desencorajada por restrições culturais ou sociais. Uma força perdida pode ser qualquer força de caráter no perfil do indivíduo.

As forças de caráter podem ser desenvolvidas

Recordo-me que uma mulher de meia-idade aproximou-se de mim antes de um workshop que iria iniciar em Sydney, Austrália. Ela se aproximou de mim com entusiasmo, ansiosa para compartilhar sua novidade. Ela me disse que ha­via respondido ao Questionário VIA seis anos antes e descobriu que sua força de caráter do autocontrole era de número 24 na ordem de classificação. Ela sentiu-se infeliz com isso e trabalhou muito para melhorar deliberadamente seu autocontrole durante anos, descobrindo que era fácil para ela fazer isso. Ao responder ao Questionário VIA uma semana antes do workshop, percebeu que essa era a força número 2. Ela compartilhou várias explicações sobre como elevou sua força.

Embora possa haver muitas razões para essa mudança na ordem de classificação e para o que precisamente ajudou na mudança do autocontrole, há razões para acreditar que ela impactou diretamente uma de suas forças de caráter.

Uma crença tradicional comumente mantida durante o último século é que nosso caráter - muito semelhante a uma marca impressa gravada na pedra seria imutável. Novas pesquisas em psicologia da personalidade mos­tram que a personalidade é mais mutável do que se pensou originalmente (Blackie, Roepke, Forgeard, Jayawickreme, & Fleeson, 2014; Harris, Brett, Johnson, & Deary, 2016; Hudson & Fraley, 2015; Roberts et al., 2017), e que a mudança não é necessariamente lenta e gradual, ocorrendo durante muito anos, o que foi outro pressuposto mantido previamente. Além disso, a nova ciência das forças de caráter, introduzida pela classificação VIA, tem lançado luz sobre esse erro. Primeiro, é importante apreciar a estabilidade das forças de caráter. Dados de 11.635 usuários repetidos do Questionário MA, separados por pelo menos seis meses, mostram que menos de 1% dos usuários repetidos não tem sobreposição entre as cinco forças do topo, da primeira para a segunda vez, e 76% dos usuários repetidos têm de três a cinco forças em comum com suas forças do topo, da primeira para a segunda vez (Niemiec, 2009). Além disso, pesquisas longitudinais que examinaram [58] as virtudes da classificação VIA em jovens com idade eatre 12 e 14 anos mostraram estabilidade nas virtudes de caráter por três anos; esses pesquisadores observaram que além de as meninas terem uma classificação mais alta que os meninos nas seis virtudes, houve apenas um pequeno aumento nas virtude de humanidade e justiça por três períodos de classificação (Fêrragut, Blanca, & Ortiz-Tallo, 2014).

Estamos aprendendo que as forças de caráter podem ser desenvolvidas. Pesquisas sobre personalidade têm mostrado que os traços de personalidade podem se alterar por uma série de razões, como mudanças normativas basea­das em nossa genética e mudanças previsíveis no papel social (por exemplo» casar-se, ter um filho), assim como mudanças não normativas. Mudanças não normativas incluem mudanças menos comuns, mas deliberadamente escolhi­das no papel social de uma pessoa (por exemplo, entrar para o serviço militar e eventos de vida atípicos (por exemplo, passar por um trauma) (Borghans. Duckworth, Heckman, & ter WeeI, 2008). Em um estudo sobre o ultimo, gra­tidão, bondade, liderança, amor, espiritualidade e trabalho em equipe aumen­taram em uma amostra dos EUA (mas não na amostra europeia) dois meses após o ataque de 11 de Setembro (2001) no World Trade Center, em Nova York (Peterson & Seligman, 2003). Dez meses mais tarde as forças de caráter ainda estavam elevadas, mas em menor grau.

Outro fator que demonstrou ter impacto sobre a mudança da personali­dade foram as intervenções deliberadas com foco na melhora de uma característica. O último é particularmente empolgante e aplicável aos temas desta obra, pois os praticantes baseados nas forças estão especialmente interessados nas mudanças impactantes de uma parte de nossa personalidade - nossas forças de caráter. Os estudos em intervenções estão mostrando que nossos traços são maleáveis e que as mudanças intencionais podem ter impacto po­sitivo (Hudson & Fraley, 2015; Roberts et al., 2017; Yeager, Johnson et aL, 2014). O teórico em personalidade, Will Fleeson (2001), escreveu vastamente sobre isso em seu “modelo de distribuição de densidade” de traços, que apre­senta uma resolução promissora para o debate de décadas sobre a situação e a pessoa: A personalidade seria mais o resultado das diferenças em traços individuais, ou das mudanças de deixas situacionais/de contexto? De acordo com o modelo de Fleeson, os traços são estáveis por haver uma variação con­fiável entre as pessoas (que são consistentemente distintas umas das outras). [59] e são mutáveis por haver variação significante em uma mesma pessoa (que mostra uma variedade de qualidade), com base na situação (Blackic et al, 2014; Fleeson, 2001, 2004; Fleeson, Malanos, & Achille. 2002). Esse modelo sugere que há uma vasta gama de possibilidades para as pessoas desenvolverem seus traços, especialmente as forças de carater. Quando discute a teoria da virtude, Bright (2016), citando diversos filósofos de muitos séculos, explica que as virtudes são traços de segunda natureza para a pessoa, desenvolviveis e adquiridos pela intenção e esforço.

Em um estudo com milhares de funcionários de 65 países, Michelle McQuaid e o Instituto VIA de Caráter (2015) testaram uma breve intervenção com forças envolvendo três passos para mudança de hábitos - deixa, rotina, recompensa - baseados no trabalho dc McQuaid sobre conectar as forças de caráter com hábitos positivos (McQuaid & Lawn, 2014), e pesquisas sobre a teoria do hábito (Duhigg, 2012). Eles constataram que as forças de carater (não especificadas como forças de caráter propriamente ditas) foram maleá­veis no grau em que houve os seguintes resultados entre essa grande amostra de funcionários:

  • 41% melhoraram a habilidade de nomear suas próprias forças.
  • 60% tornaram-se melhores em traçar metas semanais baseadas nas forças.
  • 41% melhoraram seus sentimentos de ter a oportunidade de fazer o que faziam melhor a cada dia.
  • 39% melhoraram a probabilidade de ter uma conversa significativa sobre forças com seu supervisor.
  • 32% sentiram que sua organização estava mais comprometida em desen­volver suas forças.
  • Benefícios adicionais incluíram: maior florescimento, engajamento, sentir-se valorizado, energizado, e o senso de que estavam fazendo a diferença.

O desenvolvimento do caráter não é um tema novo, nem tampouco o argu­mento de que as intervenções deliberadas ou intencionais podem ser empre­gadas para melhorar uma força de caráter. Muitos séculos atras, Aristóteles (4ºAEC/2000) e São Tomás de Aquino (1265-1273/1989) enfatizaram que a virtude poderia ser adquirida pela prática. Um dos pais fundadores dos EUA, Benjamin Franklin (1962) elaborou um sistema pessoal no qual focava sua [60] atenção em melhorar uma virtude por semana, deixando as outras virtudes em “suas chances comuns”. Franklin alcançou progresso e fez um diário sobre suas experiências. Em sua autobiografia, ele descreve sua abordagem como algo que contribuiu grandemente para sua felicidade e sucessos na vida. As pessoas podem aprender a ser curiosas, mais agradecidas, mais imparciais, ou melhores pensadoras críticas. A chave é criar novos hábitos por meio da prática e esforço ao longo do tempo, o que nos permite romper com rotinas. Muitos outros têm enfatizado a importância de construir as forças de caráter pela prática e criação de hábitos (veja Franklin, 2009; Linley, 2008; McQuaid & Lawn, 2014; Niemiec, 2014a; Peterson, 2006a).

Ser e fazer

A literatura sobre mindfulness tem feito distinção entre ser e fazer (Kabat-Zinn, 1990; Niemiec, 2014a; Segai, Williams, & Teasdale, 2013). Podemos passar o dia como “humanos fazedores”, correndo por aí de tarefa em tarefa, fazendo multitarefas, pensando apenas sobre o que fazer em seguida, sem es­tarmos presentes e conscientes na maior parte de tudo. Ou, podemos suscitar um sentido de estar presente em nosso dia - conectando com o alimento que comemos, percebendo os variados tons de verde nas árvores ao dirigirmos na via expressa, vendo o sorriso no rosto daqueles que amamos, e assim por diante. A prática de mindfulness, de muitas maneiras, diz respeito ao desen­volvimento do “nosso modo de ser”.

Os conceitos de ser e fazer também são relevantes para o trabalho das for­ças de caráter, mas de maneira diferente. O trabalho com as forças de caráter é claro: é ser e fazer. É “ser” porque o trabalho com as forças de caráter tem a ver com nossa identidade, compreender quem somos, e nos ajuda a “ser nós mesmos”. E também sobre “fazer” porque as forças de caráter são sobre expressar essas 24 forças no mundo, praticar ações e fazer o bem que precisa ser feito. Trata-se de colocar nossos valores em ação. [61]

Há apoio para as duas abordagens na literatura: pesquisas sobre forças de assinatura refletem nosso “ser” - nossa identidade, aquelas forças que são mais centrais em nós (por exemplo, Seligman, Steen, Park, & Peterson, 2005). Como observou o pesquisador Rhett Diessner, “Os traços são ontologicamente mais próximos da essência do ser humano do que o pensamento ou o raciocínio” (Diessner, Davis, &. Toney, 2009, p. 255); existência e ser antes do pensamento. Ao mesmo tempo, há uma abundância de pesquisas que associam as forças de caráter a diferentes tipos de desempenho - que podem ser vistos como nosso “fazer” - colocar nossas melhores qualidades em ação (por exemplo, Lounsbury et al„ 2009; Wagner & Ruch, 2015).

Durante a pós-graduação em psicologia, passei grande parte de meu tempo livre escrevendo poesias, bebendo scotch e lendo livros de filosofia. Não estou certo do quanto absorvi de filosofia, mas uma coisa ficou clara - havia um debate intenso sobre a natureza dos humanos como pessoas que essencialmente “são” ou “tornam-se”. De forma simplificada, “ser” refere-se à integralidade e completude do momento, ao passo que “tornar-se” refere-se à natureza constantemente mutável e em desenvolvimento da vida. Extrapo­lando as complexidades e a profundidade da filosofia, apresentarei uma visão simplista. As forças de caráter descrevem nossa natureza essencial - quem somos no mundo (isto é, beingness, qualidade de ser). Por exempo, alguém pode dizer “Defino-me como uma pessoa boa, amorosa, humilde e curiosa”. Ao mesmo tempo, a expressão de nossas forças de caráter reflete o que esta­mos nos “tornando” - não apenas nossas ações e como nos conectamos, mas nossa natureza mutável (isto é, doingness, qualidade de fazer). Por exemplo, expressar amor pelo cônjuge, gratidão ao colega de trabalho e liderança com a equipe.

Nas palavras do acadêmico de virtudes Andre Comte-Sponville (2001, p.3):

A virtude é um jeito de ser, Aristóteles explicou, mas um jeito de ser adquirido e duradouro; é o que somos (e, portanto, o que podemos fazer), e o que somos é o que nos tornamos... é nosso jeito de ser e agir humanamente... nosso poder de agir bem.

Podemos ver a nós mesmos pelas lentes de nossas forças de caráter e ver que nossa verdadeira natureza é sermos fortes sendo nós mesmos (isto é, au­tenticidade), e fazermos o bem empregando uma força para beneficiar outros (isto é, expressando bondade). [62]

Psicologia - Psicologia positiva
11/11/2020 12:43:52 PM | Por Ana Clara Gonçalves Bittencourt
Psicologia positiva e psicoterapias

As fronteiras da Psicologia estão constantemente em um processo de mudança e a sua expansão historicamente, deu-se de forma contundente por época da inserção dessa ciência no mercado de trabalho após a Segunda Guerra Mundial. A Psicologia tinha como um dos seus pilares cuidar das doenças mentais, fazer diagnósticos e estabelecer meios para tratar os transtornos mentais, sendo essa, en­tão, uma das suas três importantes missões. As outras duas missões da Psicologia - tornar boa a vida das pessoas e elencar os talentos superiores dos indivíduos - ficaram negligenciadas por longos anos (SNYDER & LO­ PEZ, 2009).

A Psicologia Positiva instaura um novo paradigma no que se refere ao entendimento sobre as potencialidades humanas, a felicidade e o bem-es­tar. (SELIGMAN, 2011). Esses estudos se encontram em expansão no Brasil e estão ganhando notoriedade cada vez maior ao serem propagados em diversos segmentos nos quais suas aplicabilidades são possíveis. A Psicolo­gia Positiva que é composta portrês pilares - o nível subjetivo, relacionado aos estudos dos conteúdos sobre felicidade e bem-estar; o nível indivi­dual, que diz respeito aos traços e características individuais positivas e o nível coletivo, voltado para as virtudes cívicas e instituições com funciona­mento positivo (SELIGMAN & CSIKSZENTMIHALYI, 2000) - vem ganhando espaço também no contexto da Psicologia Clínica.

Inúmeros estudiosos da Psicologia Positiva apontam os aspectos sau­dáveis - potencialidades, virtudes, forças de caráter, pontos fortes, emoções positivas, felicidade, otimismo, esperança, resiliência, dentre tantos outros aspectos funcionais - como sendo fatores preditivos da saúde mental e física (SNYDER & LOPEZ, 2009), além de serem verdadeiras molas pro­pulsoras para o alcance de mudanças positivas na vida. [59]

O movimento científico da Psicologia Positiva foi retratado na edição especial de 2000 do periódico American Psychologist, mostrando que esse movimento é uma "tentativa de levar os psicólogos contemporâneos a adotarem uma visão mais aberta e apreciativa dos potenciais, das motiva­ções e das capacidades humanas". (SHELDON & KING, 2001, p. 216).

Psicologia Positiva e seu crescimento no Brasil

Encontramos relatos dos avanços da Psicologia Positiva e de suas apli­cações no Brasil quer seja no contexto individual ou coletivo, desenhando um novo panorama onde os psicólogos mostram interesse em conhecer essas abordagens científicas com a intenção de usá-las para tornar melhor a vida das pessoas. No Brasil, a porta de entrada para a Psicologia Positiva, aplicada ao contexto clínico, ocorreu com os estudos sobre resiliência, em função dos fatores de vulnerabilidade e das situações de risco existentes no contexto brasileiro, destacando sua importância para a determinação de novos horizontes para pesquisas nas áreas das ciências humanas e so­ciais. (YUNES, 2003).

A expansão da Psicologia Positiva no Brasil foi retratada através de um estudo realizado por Paludo e Koller no ano de 2007. À época, já conside­ravam que a Psicologia Positiva estava em processo de expansão dentro da ciência psicológica, ganhando mais relevância no Brasil apenas mais recentemente. De acordo com o entendimento dessas estudiosas, acima referenciadas, é importante compreender o surgimento da Psicologia Po­sitiva no Brasil para que exista uma maior e melhor apropriação dos seus princípios pelos psicólogos em âmbito nacional. De acordo com Pureza et al. (2012), foi realizada uma pesquisa de re­visão sistemática da literatura científica em Psicologia Positiva no Brasil. Essa pesquisa considerou o período das primeiras publicações (anos 90) até 2012. Os fundamentos psicológicos que receberam destaque nessa pesquisa foram: o bem-estar, a felicidade, os pontos fortes e as virtudes humanas. O descritor utilizado foi "Psicologia Positiva" e a revisão foi rea­lizada com base nos dados de publicações nacionais SciELO, BVS e BDTD.

Através dessa pesquisa, no que se refere aos construtos teóricos, ob­servou-se que o bem-estar continua sendo o tema central da maioria dos [60] estudos e, também, foram identificados sete diferentes instrumentos de pesquisa utilizados para avaliação de diferentes construtos da Psicologia Positiva. Como o leitor pode perceber, a Psicologia Positiva vem fazendo um caminho promissor no Brasil, a partir de investigações sobre as potencialidades humanas com suas aplicações, também, no contexto da Psicologia Clínica.

Contribuições da Psicologia Positiva e sua interface com a Psicologia Clínica

Entre as principais contribuições da Psicologia Positiva para a Psicolo­gia Clínica destacam-se a construção de instrumentos de avaliação, métodos preventivos, aprimoramento de técnicas de avaliação psicológica destinadas a identificar as virtudes e os aspectos positivos humanos. (SELIGMAN, 2002).

Esse saber científico pode ser estendido a diversas áreas do conheci­mento, tendo em vista que abrange as potencialidades humanas em qual­quer segmento da vida do indivíduo e, por esse motivo, há que se falar da multidisciplinaridade desse saber. Uma multidisciplinaridade legitimada não somente no tocante ao campo da Psicologia, mas, também, em outras tantas áreas. Essa multidisciplinaridade contribuiu para a dimensão da Psi­cologia Positiva tanto no contexto de pesquisa quanto da prática dos seus preceitos, demarcando a proposta de desenvolver um campo da ciência voltado para uma "vida que vale a pena". (CORRÊA, 2016).

E, de acordo com Pureza et al. (2012), as investigações apontam a efe­tividade de intervenções através dos construtos propostos pela Psicologia Positiva, sugerindo a aproximação desta com as áreas da Psicologia Clínica, da Saúde e da Educação. (PUREZA et al, 2012).
No que se refere ao campo da Psicologia Clínica, a Psicologia Positiva pode ser empregada para a prevenção e a promoção de saúde focando a melhora da qualidade de vida. Portanto, as contribuições desse novo sa­ber científico para a Psicologia Clínica são significativas, pois possibilitam a identificação e o desenvolvimento dos aspectos positivos e preservados do indivíduo no contexto psicoterapêutico. Esses aspectos, uma vez potencia­lizados, tornam-se um fator de proteção para o próprio indivíduo e levam à ampliação da sensação de bem-estar e à conquista de uma vida mais feliz. [61]

Em um sentido mais completo, a aplicação da Psicologia Positiva na Psicoterapia tem como objetivos principais: abordar os recursos positivos dos clientes, por exemplo, as emoções positivas; possibilitar a mudança de estruturas cognitivas pessimistas para pensamentos otimistas; estimular o aumento da resiliência para o enfrentamento; desenvolver e fortalecer as forças de caráter, além de tratar as queixas apresentadas pelos clientes (SELIGMAN, RASHID & PARKS). 

Seligman, Rashid e Parks (2006) desenvolveram a Psicoterapia Positiva elaborada a partir de atendimentos para pacientes deprimidos. E de acordo com esses estudos a Psicoterapia Positiva agrada um conjunto de técnicas que possuem mais eficácia se utilizadas assomadamente com os princípios terapêuticos básicos propostos pelas abordagens teóricas da Psicologia (Seligman, 2011). 

Nesse sentido, imbuído do desejo de mostrar aos indivíduos a importância de se viver bem, Seligman (2011) propõe que o bem-estar depende de uma busca constante de viver com mais emoções positivas, ser engajado naquilo que se faz, ter relacionamentos significativos, encontrar sentido na vida e ter realização. A proposta da Teoria de Seligman sobre o Bem-Estar se adequa e pode ser perfeitamente funcional no trabalho psicoterápico, uma vez que conduzir os clientes para a descoberta de suas próprias potencialidades, sem claro, negligenciar as difuncionalidades e fraquezas, favorece experiências positivas e transformadoras uma vez que se cria, nesse sentido, um círculo virtuoso onde a vivência de emoções positivas no Setting terapêutico tende a aumentar o grau de comprometimento do cliente em tornar-se uma pessoa melhor e mais saudável.

De acordo com Paludo & Koller (2007), a Psicoterapia Positiva visa fortalecer os aspectos saudáveis dos indivíduos. Nesse sentido, focar nas virtudes e forças de caráter é uma das propostas que se aplica perfeitamente a esse contexto, pois, segundo esses estudiosos, ao ampliar as forças pessoais dos clientes possibilita a eles a busca por mudanças mais saudáveis na vida. Como se pode perceber, alavancar esses recursos internos positivos nos clientes, no contexto da Psicoterapia, é de total relevância, uma vez que funcionam como fatores de proteção para problemas futuros, para a saúde e o bem-estar (SCORSOLINI-COMIN & POLETTO, 2016). [62]

A relação das descobertas do movimento científico da Psicologia Po­sitiva com a Psicologia Clínica encontra-se no cerne dos objetivos da Parte II desta obra. Objetivamos mostrar aos psicoterapeutas: que os princípios desse "novo olhar" podem ser aplicados no processo de Psicoterapia para ajudar os seus pacientes a se desenvolverem e se fortalecerem para lidar com o momentos adversos da vida tornando-os mais resilientes; que ao identificarem, maperarem e aprimorarem os aspectos positivos dos seus pacientes estão instrumentalizando-os, de forma mais palpável, para que se tornem pessoas mais felizes; que os pacientes ao edificarem uma visão mais positiva de si mesmos estarão facilitando a construção de uma vida com mais sentido; e que estarão proporcionando experiências com maior bem-estar.

Como o leitor pode perceber, o campo investigativo acerca das con­tribuições da Psicologia Positiva para que as pessoas alcancem uma vida melhor vem crescendo e ganhando um espaço que, aos poucos, está con­solidando-se. E, no contexto da Psicoterapia, essas contribuições mostram que são crescentes as possibilidades dessas aplicações com o intuito de ajudar os clientes a se desenvolverem e se fortalecerem não somente para enfrentarem os transtornos pelos quais são acometidos, mas também para buscarem viver com maior bem-estar e ter uma vida mais satisfatória e plena.

O espaço da Psicoterapia é um contexto no qual os princípios da Psicologia Positiva podem ser empregados, de forma contun­dente, contabilizando resultados significativos favorecedores do desen­volvimento de pessoas mais felizes. Mostrar aos clientes que todos nós somos dotados de características positivas que nos tornam mais funcio­nais e proativos, proporciona o aumento do otimismo, da esperança, da motivação e de vários outros sentimentos positivos, além de estimular o comprometimento desses para buscarem os resultados na Psicoterapia e, consequentemente, a evolução satisfatória das queixas. [63]

Psicologia - Psicologia positiva
11/6/2020 2:29:27 PM | Por Mattieu Ricard
Altruism and happiness

This paper will first explain the close connection between altruism and happiness and then consider the scientific evidence pointing out the interdependence of these two important aspects of human society. Altruism is a factor that will determine the quality of the current and future existence of all. It must not be regarded only as a utopian thought created by a few individuals with big hearts. Altruism can be defined as, ―The wish and determination to attain the well-being of others.‖ As far as possible, this state of mind will lead to behavior that strives to realize this objective.

Why happiness cannot be separated from altruism

Modern life confronts us with a number of unique challenges, each with its own temporality and priority. We can view them as three different categories based on preoccupations and time scales: the economy in the short-term, life satisfaction in the mid-term, and the environment in the long-term.

Stock markets soar and crash overnight; the economy and financial world are evolving at an ever-faster pace. Life satisfaction is measured by a life project, a career, a family, or a generation. The evolution of the environment is measured by a century, millennium, or era, even though ecological upheavals are accelerating the rhythm of these changes. We are now in the era called ―anthropocene‖, the first era where humans have a global impact on the earth‘s ecosystem.

How can we work with these three-time scales simultaneously? How do we reconcile them? We know how difficult it is to change our habits. Investors are not prepared to put their money in treasury bonds that will only mature in 100 years. Those who are well off don‘t feel like sacrificing their lifestyle for the benefit of others, much less for the sake of future generations. Those who live in need naturally aspire to more prosperity and economic growth in order to better their own situation and catch up with the richest nations. Those who profit the most from exploiting natural resources do not want to minimize their earnings. Individualism keeps us from adopting a global vision of these problems, from drawing the necessary conclusions, and from implementing the corresponding measures.

There is, however, a vital thread that links these three-time scales and harmonizes their priorities - Altruism. Altruism is not just a noble, somewhat [156] naive ideal or a luxury only the affluent can afford. Now, more than ever, altruism is a necessity for the wellbeing of all.

If we were more altruistic, if we were more considerate of others, we would not indulge in wild speculations with the savings of investors who placed their trust in us.

If we were more considerate of the quality of life of those around us, we would make sure that working conditions, family life, and many other aspects of society were improved.

Finally, if we were more considerate of future generations, we would not blindly sacrifice the environment they are inheriting from us in favor of our short-lived wants and needs.

Altruism is a factor that will determine the quality of the current and future existence of all. It must not be regarded only as a utopian thought created by a few individuals with big hearts. We must have the insight to recognize its essential role and have the audacity to say so.

Economists have based their theories on the assumption that human beings exclusively follow their own personal interests. Although this hypothesis is mistaken, it is the foundation of the current economic systems. They are based on the principle of free exchange of goods and services as posited by Adam Smith. They neglect to take into account the need for each individual to care for the wellbeing of others. This omission created a society that cannot function harmoniously. Adam Smith himself wrote about this need in his The Theory of Moral Sentiments, a work that is often overlooked by economists: ―To restrain our selfish, and to indulge our benevolent affections, constitutes the perfection of human nature; and can alone produce among mankind that harmony of sentiments and passions in which consists their whole grace and propriety (Smith 1759). Modern economists are now increasingly calling for acknowledging the role of altruistic propensities in every aspect of human life, including the economy. For example, Dennis Snower the founder of the GES (Global Economic Symposium) has stressed that along the ―voice of reason, economists, politician, and individuals alike must now also speak with the ―voice of care‖ (Snower 2012).

Evolutionists also remind us that we should not forget the emphasis placed by Darwin on the vital importance of cooperation in the world of living beings. Martin Nowak, among others, reminds us: ―Cooperation is the architect of creativity throughout evolution, from cells to multicellular creatures to anthills to villages to cities. Without cooperation, there can be neither construction nor [157] complexity in evolution. Cooperation—not competition—underpins innovation (Nowak 2011)

Exploring altruism

Altruism can be defined as, ―The wish and determination to attain the well-being of others. As far as possible, this state of mind will lead to behavior that strives to realize this objective. Altruism can be considered to be authentic only if achieving somebody else‘s well-being is the primary motivation and the ultimate aim of a particular behavior.

Goodness is not a doctrine or a principle, It is a way of living, wrote historian Phillip Hallie (Hallie 1978). Altruism can be a momentary state of mind, or grow into a lasting way of being. In its essence, altruism is a benevolent state of mind that is fueled by the feeling of concern for the fate of all those around us and wishing them well strengthened by our determination to act accordingly.

The link with happiness is obvious. In Buddhism altruistic love is defined as ― the wish that all beings find happiness and the causes of happiness. These altruistic wishes must be accompanied by a determination to do everything in our power to make them come true. This determination will drive the activity, but it must be enlightened and empowered by discernment and wisdom.

Compassion is the form altruistic love takes when it is confronted with suffering. Buddhism defines compassion as ― the wish that all beings be freed from suffering and its causes.

Empathy is the capacity to enter into resonance with the other person, to resonate with his feelings and become aware of his situation. The word empathy is a translation of the German word Einfühlung, which means, 'to feel in‘. Psychologist Edward Tichtener used the term for the first time in English at the beginning of the 20th century. Empathy happens spontaneously when we witness other people‘s situations and their emotions as manifested by their facial expressions, looks, the sound of their voices, and their behavior. Empathy conveys to us the nature and the intensity of their suffering. We may consider it as the catalyst that transforms altruistic love into compassion. There are different modalities of empathy, some are emotional, others cognitive.

Psychologist Daniel Batson, one of the most eminent contemporary specialists in altruism, distinguishes up to eight kinds of empathy (Batson, C.D. 2009). In order to be altruistically concerned by another person‘s situation, we have to begin by adopting their point of view. Philosopher Jean-Jacques Rousseau wrote, ― The rich person has only a little compassion for the poor because he [158] cannot imagine himself to be poor. The next step is to value others since it is not enough to merely imagine oneself in someone else‘s place or feel what they feel. Sympathetic joy consists of celebrating and rejoicing from the bottom of one‘s heart in the achievements and virtues of someone else, or in people who shower humanity with good deeds and whose beneficial projects have been successful.

Impartiality is another essential component of altruism. The wish that all beings be delivered from suffering must not depend on our personal biases or on the way others treat us. Impartiality is exemplified by the mindset of a compassionate physician who rejoices when others are in good health and who is concerned with the healing of all sick people, whomever they may be, without being influenced by moral judgments and personal preferences.

Biological altruism is inherited from evolution. It is based on parental care and is inherent to our nature and needs no instruction. But it is limited and partial since it depends on our ties of kinship or on the way others behaved towards us. It is extended to strangers with difficulty, and even more so to enemies. Conversely, extended altruism that is directed to all beings is free from such bias. However, for most of us, this is not instinctive and requires some instruction and training. Though it is based on biological altruism, it transcends its limits.

Momentary states of mind and durable dispositions

Psychologist Daniel Batson defines altruism as: ― a motivational state with the ultimate goal of increasing another‘s welfare. Altruism can be juxtaposed to egoism, which is a motivational state with the ultimate goal of increasing one‘s own welfare. (Batson 2011) For Batson, altruism is not so much a way of being as a motivational force oriented towards a goal that disappears once the goal has been achieved. He prefers to speak of altruism rather than altruists because the same person may have an altruistic motivation at one moment and an egotistic motivation at another moment or with regard to another person.

It seems appropriate, however, to speak also of altruistic or egotistic dispositions, depending on the mindsets habitually prevalent in a person in varying degrees between genuine altruism and blind egoism.

Such an inner disposition seems to go together with a particular world vision. According to Kristen Monroe of Irvin University, ― Altruists simply have a different way of seeing things. Where the rest of us see a stranger, altruists see a fellow human being. While many disparate factors may contribute to the existence and development of what I will identify as an altruistic perspective, it is the perspective itself that constitutes the heart of altruism. (Monroe 2009) [159] Fundamentally, to the extent that altruism permeates our mind, it will express itself as soon as it is faced with another‘s need, be it a need for help, care, or affection. As stated by philosopher Charles Taylor, ― Much contemporary moral philosophy ... has focused on what is right to do rather than on what is good to be (Taylor 1989) This way of seeing things puts altruism in a more vast perspective and allows the possibility of cultivating it as a way of being.

Altruism and happiness: A win-win or a lose-lose situation

According to Buddhism, there is a direct relationship between altruism and happiness. Joy and satisfaction are closely tied to love and affection. Misery, on the contrary, goes hand in hand with selfishness and hostility. Altruistic love and compassion are attuned to reality insofar as they recognize and appreciate the interdependent nature of all beings. This naturally brings more empathic concern for others (Batson 2011) through the recognition that we are all the same in wanting to avoid suffering (Dalai Lama 1999). As they are attuned to reality, altruistic love and compassion are ―functional‖. Someone who sees phenomena as interdependent cultivates compassion and then acts accordingly, will feel a sense of harmony. This is a win-win situation.

The research in neuroscience and psychology also indicates that loving- kindness and compassion are among the most positive of all positive emotions or mental states. As Barbara Fredrickson, a pioneer from the University of Maryland in the field of positive psychology, writes about altruistic love, which she defines as ―positive resonance:

I want to emphasize, though, that love isn‘t simply one of the many positive emotions that sweep through you from time to time. It‘s bigger than joy, amusement, gratitude, or hope. It has special status. I call it our supreme emotion. First, that‘s because any of the other positive emotions – joy, amusement, gratitude, hope, and so on – can be transformed into an instance of love when felt in close connection with another. Yet casting love as shared positive emotion doesn‘t go nearly far enough.Second, whereas all positive emotions provide benefits – each, after all, broadens your mindset and builds your resourcefulness – the benefits of love run far deeper, perhaps exponentially so. Love is our supreme emotion that makes us come most fully alive and feel most fully human. It is perhaps the most essential emotional experience for thriving and health. (Fredrickson 2013)

At the opposite end, a selfish individual who has little regard for another‘s welfare and is primarily, or even exclusively, concerned with the pursuit of his [160] personal interest as an ultimate goal will consider others as a tool to achieving his own wellbeing. The problem is that such a person will usually fail to achieve both his own happiness and that of others.
Psychologist Michael Dambrun and myself (Dambrun and Ricard 2011) have argued that lasting happiness is associated with selflessness rather than self-centeredness. The scientific literature reviewed by these two authors indicates that highly self-centered people are more focused on enjoying hedonic pleasure than on cultivating eudemonic happiness and that, consequently, only a fluctuating well-being will result. Conversely, people who reduce their self-centered tendencies seem to enjoy the quality of a life filled with inner peace, fulfillment, and serenity, as opposed to a life filled with inner conflicts and afflictions.

There are two reasons for this. First, on an emotional level, selfishness is not a pleasant state of mind. By attempting to build happiness within the bubble of self-centeredness while considering that the happiness of others is not our job, we usually make ourselves miserable while making everyone around us miserable as well. Being constantly centered on yourself leads to endless ruminations and hopes and fears that are detrimental to well-being. As the French writer Romain Rolland said, ― If the only goal of your life is selfish happiness, your life will soon be without any goal. (Rolland 1952) It is a lose-lose situation.

Second, such an attempt - ― I will build up my happiness on my side; take care of yours: it‘s none of my business - is by nature dysfunctional since it assumes that the world is made of separate entities which is not the case. All beings and phenomena are by nature interdependent. This was also the view expressed by Einstein:  

A human being is part of a whole, called by us the Universe, a part limited in time and space. He experiences himself, his thoughts and feelings, as something separated from the rest - a kind of optical delusion of his consciousness. The striving to free oneself from this delusion is in the one issue of true religion. Not to nourish the delusion but to try to overcome it is the way to reach the attainable measure of peace of mind (Einstein 1950)

The two-fold accomplishment of the happiness of others and of one‟s own

People often claim that to be truly altruistic an action must imply a ― sacrifice for oneself. One should keep in mind however that what seems like a sacrifice for someone else, might be experienced as deep fulfillment for the person who accomplishes the action. Someone, for instance, who forsakes a promising career to devote himself to a humanitarian cause, might be seen as doing a ― sacrifice by friends and relatives who value a high-flung career above everything else. But for the person who is devoting himself to efficiently removing suffering, [161] activities are much more meaningful and fulfilling than the career he was promised. Such activities actually bring about the two-fold accomplishment of others‘ happiness and one‘s own happiness. It is a win-win situation. An altruistic act is not less altruistic because it also brought happiness as a bonus to the person who performed that deed. As long as the initial motivation and ultimate goal were to benefit others, it can be deemed to be an altruistic action.

Conversely, selfishness cannot be considered to be an efficient way to love oneself since it is one of the main causes of misery. This is a fundamental point according to Buddhist psychology, which is also expressed by psychologist Erich Fromm:

The love of my own self is inseparably connected with the love of any other-self. Selfishness and self-love, far from being identical, are actually opposites. The selfish person does not love himself too much but too little; in fact he hates himself. (Fromm 1947)

Generosity, the natural outcome of altruism, has also been found to accomplish the twofold benefit of others and oneself. Social psychologist Elizabeth Dunn of the University of British Columbia (UBC) in Vancouver, Canada, found that people who reported spending money on others were happier than those who spend all their resources on themselves. (Dunn, 2008 and 2011, Aknin, 2009).

The science of altruism and happiness

Many studies have highlighted the link that exists between altruism and well-being (Myers 2000; Diener & Seligman 2002). Research done by Martin Seligman, in particular, indicates that the joy of undertaking an act of disinterested kindness provides profound satisfaction (Seligman 2002). In this study, some students were given a sum of money and asked to go out and have fun for a few days, while others were told to use this money to help people in need (elderly, sick patients, etc.) All were asked to write a report for the next class. The study has shown that the satisfactions triggered by a pleasant activity, such as going out with friends, seeing a movie, or enjoying a banana split, were largely eclipsed by those derived from performing an act of kindness. When the act was spontaneous and drew on humane qualities, the entire day was improved; the subjects noticed that they were better listeners that day, more friendly, and more appreciated by others.

From a social perspective, altruism is obviously beneficial for others, but there are also benefits for the person expressing them. Several works support the idea that pro-social behavior affects health in a positive way. Various studies (Caprara 2005; Dovidio 2001; Post 2005) have found that generosity toward others is associated with higher levels of well-being. According to McCullough (2002) and Watkins (2003), grateful thinking improves positive affects and well-being. Participating in volunteer activities, membership in non-profit [162] organizations, and the ability to use one‘s skills to help others goes hand in hand with a high level of wellbeing.

Psychologist Allen Luks assessed the subjective wellbeing of thousands of Americans who regularly participated in volunteer activities. He found that they were generally in better health than others of the same age, they showed more enthusiasm and energy, and they were less prone to depression than the average population (Luks A. & Payne 1991and Post 2011) Adolescents who spend part of their time to volunteering are less likely to be involved with substance abuse, teenage pregnancy, and school dropout (Johnston Nicholson 2004). People who are going through periods of depression after tragic events such as loss of a spouse recover faster if they spend time helping others (Brown 2008).

Having reviewed six investigations that have taken into account more carefully other factors that could influence the results, Doug Oman concluded that volunteering not only enhances the quality of life of older people, but also its duration (Oman 2007).

Training altruistic happiness

The collaborative research involving neuroscientists and Buddhist contemplatives began in earnest fifteen years ago. These studies led to numerous publications that have established the credibility of research on meditation and on achieving emotional balance, an area that had not been taken seriously until then. In the words of the American neuroscientist Richard Davidson, ―the research on meditation demonstrates that the brain is capable of being trained and physically modified in ways few people can imagine (Kaufman,2005).

While meditating on loving-kindness and compassion (Lutz 2004), most experienced meditators showed a dramatic increase in the high-frequency brain activity called gamma waves in areas of the brain related with positive emotions and with empathy.

Twenty years ago it was almost universally accepted by neuroscientists that the brain contained all its neurons at birth, and that their number did not change with experience and time. We now know that new neurons are produced up until the moment of death and we speak of neuroplasticity, a term which takes into account the fact that the brain changes continuously in relation to our experience. For example, a particular training such as learning a musical instrument or a sport can bring about a profound change. Mindfulness, altruism, compassion, and other basic human qualities that contribute to [163] happiness can be cultivated through meditation in the same way, and we can acquire the 'know-how' to enable us to do this.

In Buddhism, to meditate means 'to get used to‘ or 'to cultivate‘. Meditation consists of getting used to a new way of being, of perceiving the world and mastering our thoughts. Meditation is a matter not of theory, but of practice. Cultivating loving-kindness and compassion is, according to Buddhism, central to happiness (Ricard 2010).

Barbara Fredrickson tested the effects of learning on self-generated positive emotions through loving kindness meditation. She tested 140 volunteers with no previous experience in meditation and randomly assigned 70 of them to practice loving-kindness meditation 30 minutes a day for seven weeks. She compared the results with the 70 other subjects who did not follow the training. The results were abundantly clear. In her words, ―When people, completely new to meditation, learned to quiet their minds and expand their capacity for love and kindness, they transformed themselves from the inside out. They experienced more love, more engagement, more serenity, more joy, more amusement – more of every positive emotion we measured. And though they typically meditated alone, their biggest boosts in positive emotions came when interacting with others. Their lives spiraled upwards. The kindheartedness they learned to stoke during their meditation practice warmed their connections with others (Fredrickson 2008). Later experiments confirmed that it was these connections that most affected their bodies, making them healthier (Kok 2010).

At Emory University, Atlanta, a team led by Chuck Raison has shown that short-term meditation on loving-kindness reinforces the immune system and diminishes the inflammatory response (Pace 2009).

The contrary forces

Selfishness, excessive self-centeredness, exacerbated individualism, and narcissism are obvious contrary forces to altruism and, consequently, to happiness. Individualism has a constructive aspect that has led to the notion that every person deserves respect and cannot be used as a mere instrument for the interests of others. This concept has led to the recognition of basic human rights and is allowing people to make choices about how they want to spend their lives without being constrained by authoritarian norms imposed upon them.

However, there is another, more harmful aspect of individualism that has increased significantly in the last few generations. It is a form of egocentricity that aims at distancing oneself from any sense of responsibility towards others [164] and encourages the individual to simply follow his desires and inclinations without much consideration for society. Such individualism has led, particularly in highly developed countries, to negative effects described by psychologist Jean Twenge in The Narcissism Epidemic (Twenge 2011). Twenge‘s research has shown that: ―Understanding the narcissism epidemic is important because its long-term consequences are destructive to society According to the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV-TR, 2000) one of the characteristics of narcissism is a lack of empathy.
Individualism and a selfish lack of concern for others and for global issues such as the environment, is a characteristic that American psychologist Tim Kasser found among people who give priority to external values and consumerism. Kasser and his colleague at the University of Rochester discovered through studies spanning two decades and within a representative sample of the population that individuals who focused their lives on wealth, image, social status, and other materialistic values promoted by the consumer society are less satisfied with their lives (Kasser 2003 and 2008).

Consumerist beliefs are not only associated with higher levels of suffering, but also with lower levels of happiness. They report fewer pleasant emotions such as being happy, pleased, joyous, and content. They are more depressed and anxious and prone to headaches and stomach pains. They drink more alcohol and smoke more cigarettes.

They prefer competition to cooperation, contribute less to the public interest as they are primarily focused on themselves, and they give little attention to environmental issues. Their social ties are weakened and they have fewer true friends. They show less empathy and compassion towards those who suffer, are manipulative, and tend to exploit others according to their interests. Even their health is poorer than that of the rest of the population. They are also less interested in solutions that require an overview of problems and a spirit of cooperation.

Similar results have been reported in North America, Europe, and Asia. To summarize, this body of research suggests that a set of beliefs central to consumerism seems to promote, rather than to reduce, personal suffering and works against healthy, compassionate human interactions. For example, the cross-cultural research of Schwartz (1992) reveals that to the extent people value goals such as wealth and status, they tend to care less about values such as 'protecting the environment,‘ 'attaining unity with nature,‘ and having 'a world of beauty.‘
[165]

Conclusion

In this preliminary essay, we have attempted to show that altruism, and its main components, loving-kindness, empathic concern, and compassion, not only promote other‘s happiness, but also is an important cause for flourishing for those who cultivate these values in their minds and express them in their behavior. Altruism, thus, appears to be the most direct way to accomplish both the happiness of others and one‘s own. This concept is not only central to Buddhist philosophy and practice, but has been corroborated in recent years by extensive research in psychology and neurosciences. It, therefore, seems that promoting altruism and compassion not only in one‘s personal life, but also within education and in society at large is a much needed and direct way to address the challenges of the modern world. [166]

Psicologia - Psicologia positiva
11/2/2020 2:36:49 PM | Por Andréa Perez Corrêa
O que é Psicologia positiva?

Falar sobre um campo científico, sem destacar o devido valor que os questionamentos de mentes brilhantes e reflexivas produzem, é simplesmente não falar sobre ciência. A inquie­tação, o incômodo e o descompasso que pesquisadores brilhantes devolvem diante da observação da realidade à sua volta é que dá origem ao desenvolvimento do conhecimento humano ao longo da história da Humanidade. Abrir esta parte da obra com a pergunta de Donald Clifton, na minha concepção, revela o âmago do estudo da Psicologia Positiva, à medida que busca o entendimento dos indivíduos em sua totalidade, res­gatando o olhar sobre nossos aspectos positivos, menos destacados ao longo do tempo, diante de nosso instinto de sobrevivência, que reservou a indiscutível necessidade de relevância de aspectos e emoções negativas.

Partindo dessa premissa, fica mais fácil entender a importância e a premência que o estudo científico da felicidade e das qualidades humanas positivas apresenta. Isso porque estamos vivendo diante de um momen­to social, não apenas no Brasil - que quase se desfigura diante de tantas impropriedades, violência, crise política, desonestidade e desequilíbrio socioeconômico - mas também em muitos outros lugares do mundo, as­solado por conflitos civis desumanos, por desrespeito às circunstâncias de gênero, sexo, idade, religião, condição econômica, raça, entre outros, por violência desmedida, pela fome e pela incompreensão sobre a essencialidade de um olhar sobre o desenvolvimento sustentável para as próximas gerações.

Desde que conheci a Psicologia Positiva, sempre percebi, ou, acima de tudo, senti que, com base em seus estudos científicos sólidos, seria possível favorecer: a compreensão de que podemos produzir mudanças sociais positivas; o desenvolvimento individual a partir do [27] "autoconhecimento para colocá-la em prática e o máximo que ele conseguia chegar próximo era um tema sobre "prevenção". (SELIGMAN, 2009).

Foi quando, num momento com sua filha Nikki de cinco anos, chegou mais próximo da visão do que seria a sua missão e do tema na gestão da APA. E entre vários questionamentos que o envolveram, destaca-se: "Pode haver uma ciência psicológica que se concentre nas melhores coisas da vida?" (SELIGMAN, 2009).

Impulsionado por desvendar a resposta a essa questão, Seligman, num plano audacioso, que emergiu em poucos anos mundialmente, começou a reunir estudiosos que estavam trabalhando com o estudo de forças hu­manas, mais que focando exclusivamente em problemas humanos, o que gerou a atenção de muitos outros pesquisadores. (DIENER, 2011).
Desde essa época, Seligman dedicou intensamente seus esforços para promover conferências e campanhas de financiamento para pesquisas e para as aplicações da Psicologia Positiva, cuja espinha dorsal seria: ser uma boa ciência. (SNYDER & LOPEZ, 2009).

Apesar de Seligman ser considerado o pai da Psicologia Positiva, quem inicialmente cunhou a expressão Psicologia Positiva foi Abraham Maslow, usando-a num título de um dos capítulos de seu livro "Motivação e Perso­nalidade", em 1954. (SNYDER & LOPEZ, 2009; LOPEZ & GALLAGHER, 2011). Contudo, como já afirmado, é a Seligman que é dada a notoriedade sobre o início do uso do termo.

E essa origem da Psicologia Positiva, com ênfase em aspectos positi­vos da vida humana, reflete-se em estudos desenvolvidos por humanis­tas como Maslow, mas que acabaram por tratar as temáticas sem o rigor científico necessário para que a academia reconhecesse a pertinência dos resultados do uso de suas temáticas. (CSIKSZENTMIHALYI & SELIGMAN, 2000).

No ano 2000, em continuidade aos esforços de Seligman, aos quais Snyder e Lopez (2009) afirmam que devemos ter uma dívida de gratidão, é publicada a edição "Special Issue on Happiness, Excellence, and Optimal [29] Human Functioning - da American Psychologist", revista da American Psy­chology Association, tendo como editores convidados Martin E. P. Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi e como tema a Psicologia Positiva.

E é nessa edição exemplar que a Psicologia Positiva se configura no campo acadêmico, sendo apresentada com sua definição, proposta, pila­res, situando-a no contexto da Psicologia onde se deu o seu surgimento, o que será apresentado no item a seguir.

Definindo a Psicologia Positiva

Conceituar a Psicologia Positiva, necessariamente, perpassa por um longo caminho e, neste momento, a intenção é oferecer uma exposição clara sobre as missões da ciência da Psicologia, para então compreender como surge esse estudo.

A Psicologia, anteriormente à Segunda Guerra Mundial, tinha três mis­sões distintas, a saber:

  • curar doenças mentais;
  • tornar a vida das pessoas mais produtiva e cheia de satisfação; e
  • identificar e desenvolver talentos. (CSIKSZENTMIHALYI & SELIGMAN, 2000) .

Após a Segunda Guerra Mundial, dois eventos mudaram o cenário da Psicologia: a fundação, em 1946, da Veterans Administration, levando inú­meros psicólogos a se dedicarem ao tratamento de doenças mentais; e a fundação, em 1947, do National Institute of Mental Health, quando os aca­dêmicos consideraram que poderiam obter recursos para suas pesquisas em doenças mentais. (SELIGMAN, 1998; CSIKSZENTMIHALYI & SELIGMAN, 2000).

Essa concentração trouxe um avanço grandioso na reparação dos da­nos das doenças psíquicas e para o entendimento das terapias dos trans­tornos mentais, mas as duas outras missões da Psicologia foram pratica­mente esquecidas (CSIKSZENTMIHALYI & SELIGMAN, 2000) e aspectos sobre o que está certo nas pessoas e do que favorece uma vida boa foram absolutamente negligenciados. (PETERSON, 2006).

Nesse contexto, a Psicologia Positiva surge tendo como intenção [30] coloca ao lado desses três pilares de pesquisa e aplicabilidade apontados como base da Psicologia Positiva, de acordo com o que indicam Solano e Solano e Perugini (2010; 2014), no First World Congress on Positive Psycho­logy em 2009, Seligman propôs em sua apresentação um quarto pilar da Psicologia Positiva: RELACIONAMENTOS POSITIVOS, com origem nas pes­quisas sobre o bem-estar psicológico das pessoas extremamente sociáveis como as mais felizes. Contudo esse pilar apresenta raríssimos estudos e indicações e não está tão sistematizado como os pilares preliminares (SO­LANO & PERUGINI, 2010; 2014).

Como definição, Gable e Haidt (2005, p. 104) afirmam que a Psicolo­gia Positiva é "o estudo das condições e processos que contribuem para o florescimento e o funcionamento ótimo das pessoas, dos grupos e das instituições".

De acordo com o site Authentic Happiness (2013), a Psicologia Positiva é um ramo da Psicologia que foca o estudo empírico de certas coisas, por exemplo: emoções positivas, forças de caráter e instituições saudáveis e é definida como: "O estudo científico das forças e virtudes que permitem aos indivíduos e às comunidades prosperarem".

Acrescentam ainda que:

O campo se fundamenta na crença de que as pessoas querem conduzir uma vida significativa e de realizações, para cultivar o que há de melhor nelas mesmas e para elevar suas experiências de amor, trabalho e diversão. (AUTHENTIC HAPPINESS, 2013).

De forma a concluir este item, considerando que a amplitude da Psi­cologia Positiva extrapola, já no momento, as fronteiras da ciência da Psi­cologia, em função de sua transdisciplinaridade, e inspirada por Linley e colegas (2009), que indicam que restringir a Psicologia Positiva apenas à Psicologia seria restringir a condição de poder mudar o mundo e a vida das pessoas, apresento, a seguir, uma nova definição reformulada da apresen­tada por Corrêa (2013): [32] 

"A Psicologia Positiva é a ciência da felicidade que contempla o estudo das características, aspectos e emoções humanas, com foco em teoria, medição, intervenções e práticas que potencializem, no âmbito individual e coletivo, o bem-estar."

A Psicologia Positiva e sua contribuição nas intervenções de prevenção e de potencialização

Neste item, o leitor será apresentado a duas significativas contribui­ções da Psicologia Positiva, Tratando-se o foco da presente obra a Psicologia Clínica, é essencial destacar as contribuições da Psicologia Positiva na abordagem sobre prevenção de potencialização de Snyder e Lopez (2009).

Para os autores, as prevenções, que afirmam ser "interromper o que é ruim" (SYNDER & LOPEZ, 2009, p. 313), envolvem esforços para prevenir que coisas ruins aconteçam posteriormente. Essas são divididas em:

PREVENÇÃO PRIMÁRIA - "Interromper o que é ruim antes que aconteça" (SNYDER & LOPEZ, 2009, p. 303):
- ações que reduzem ou eliminam os problemas físicos ou psicológi­cos antes que aconteçam. Essas prevenções podem acontecer em nível governamental por meio de campanhas, a exemplo de campanhas de vaci­nação; (SNYDER & LOPEZ, 2009), e

PREVENÇÃO SECUNDÁRIA - "Consertar o Problema" (SNYDER & LO­ PEZ, 2009, p. 303):
- ações que reduzem o problema após já ter surgido, sendo chamado de Psicoterapia. (SNYDER & LOPEZ, 2009)
No campo das prevenções secundárias, temos as abordagens da Psi­cologia Positiva, tais como a teoria do otimismo apreendido de Seligman, uma estrutura de retreinamento de atribuições para desenvolver uma abordagem terapêutica à depressão e a teoria da esperança que se propõe [33] a ensinar a buscar objetivos na vida atual, especialmente quando se encon­tram obstáculos. (SNYDER & LOPEZ, 2009).

De acordo com os autores, a categoria das potencializações, que se­riam "produzir mais coisas boas" (SNYDER & LOPEZ, 2009, p. 303), significa potencializar tudo que as pessoas querem de suas vidas e podem ser divi­didas em:

POTENCIALIZAÇÃO PRIMÁRIA - "Tornar a Vida Boa" (SNYDER & LO­ PEZ, 2009, p. 324):
- ações que geram um bom funcionamento e uma boa satisfação; é o esforço para estabelecer funcionamento e satisfação ótimos; (SNYDER & LOPEZ, 2009), e

POTENCIAUZAÇÃO SECUNDÁRIA - "Fazer da Vida o Melhor Possível" (SNYDER & LOPEZ, 2009, p. 330);
- ações que partem do que já é um funcionamento e satisfação bons para se chegar a experiências máximas. (SNYDER & LOPEZ, 2009).

Constata-se, a partir das prevenções ou potencializações, o enriqueci­mento das intervenções e propostas que podem ser aplicadas para o favorecimento do bem-estar na vida das pessoas. Atualmente, com a Psicologia Positiva, se pode identificar o que gera maior felicidade nas pessoas, a fim de poder colaborar com clientes, no sentido de intensificar as atividades que lhes favoreçam a cura e o bem viver.

Já como dizia Martin Seligman (2002) em seu capítulo Positive Psycho­logy, Positive Prevention, and Positive Therapy: "Como um efeito colateral do estudo dos traços humanos positivos, a ciência vai aprender como tra­tar melhor e prevenir doenças mentais, assim como as físicas" (p. 67) e "Como um efeito principal, nós aprenderemos como construir as qualida­des que ajudam os indivíduos e as comunidades, não apenas a suportar e sobreviver, mas também a florescer" (p. 67). [34]

Só teoria não basta, é preciso aplicar

A prática da Psicologia Positiva é sobre facilitar a boa vida ou sobre possibilitar que as pessoas sejam o seu melhor. É uma abordagem de um determinado domínio de investigação. (LINLEY et ai, 2009).

A Psicologia Positiva tem aplicações que abrangem quase todas as áreas da Psicologia aplicada e outras. Além do alívio da psicopatologia, a Psicologia Positiva aplicada também tem visto o desenvolvimento de feli­cidade por meio do aumento de intervenções específicas. (LINLEY et ai, 2009).

Transitando em áreas e abordagens tais como: Jornalismo, Psiquiatria, Educação, Coaching, organizações, tecnologia, Economia, políticas públi­cas, Psicologia, recursos humanos, mentoria, Medicina, entre tantas ou­tras, a Psicologia Positiva renova-se com resultados de inúmeras pesquisas, o que é extremamente construtivo e favorecedor a toda a sociedade, pois permite atalhos para atingir de forma positiva e significativa a vida de mais pessoas.

Complementando essas indicações iniciais, Warren e Donaldson (2017) destacam a orientação da Psicologia Positiva se estendendo longe da Psi­cologia, em campos díspares como: Sociologia, Filosofia, Ciências Políticas, Engenharia, legislação, criminalidade, Forças Armadas, Oncologia, Farma­cologia, Epidemiologia, religião. Antropologia, Lingüística, design, trabalho social, sem mencionar todos.

Quem, pela primeira vez, depara-se com essa temática da Psicologia Positiva, talvez como você, leitor, espanta-se e com razão diante de tama­nha dimensão de aplicação. E isso considerando um estudo científico que acabou de sair da "maioridade". O que quer dizer isso? Quer dizer que suas temáticas permeiam a nossa vida, quem somos, o que desejamos, o que vislumbramos de significado e sentido em nossa existência, o que fazemos e, acima de tudo, o nosso direito de sermos todos felizes, independente­mente de qualquer aspecto que nos iguale ou diferencie uns dos outros.

Joseph (2014) afirma que, por ter a Psicologia Positiva capturado o interesse sobre o que a Psicologia pode oferecer tanto academicamente [35] como profissionalmente, isso promoveu a atenção sobre as aplicações no "mundo real". Para ele: "Ao contrário de muitas áreas tradicionais da Psico­logia, a Psicologia Positiva tem aplicação clara e direta na vida cotidiana". (JOSEPH, 2015, p. 2).

Apesar de sua origem nos Estados Unidos, vem crescendo e se popu­larizando em trabalhos desenvolvidos por acadêmicos e profissionais em países como Austrália, Canadá, França, Alemanha, Israel, Suécia, Suíça e Reino Unido. (JOSEPH, 2014).

Conforme aponta Corrêa (2016), no segmento de clínica, aconselha­mento, terapia da saúde e Psicoterapia existem práticas com uso da Psico­logia Positiva, a saber: (LINLEY et a i, 2009)

  • Well-being Therapy: é uma Psicoterapia de curto prazo com aproxi­madamente oito sessões de 30 a 50 minutos cada uma, que enfatiza a auto-observação. (LINLEY et a i, 2009).
  • Mindfulness-Based Cognitive Therapy: baseada na abordagem da prática dos mindfulness em função dos benefícios que promove e há cres­cente evidência para apoiar a eficácia dessa abordagem. (LINLEY et ai, 2009).
  • Quality of Life Therapy: fornece uma coleção de técnicas terapêuti­cas cognitivas que o terapeuta pode usar para ajudar os clientes a move­rem-se em direção a uma felicidade maior. Os clientes são encorajados a mudar suas circunstâncias, pensar diferentemente, estabelecer novos pa­drões, mudar suas prioridades sobre o que é importante na vida e pensar sobre outras áreas da vida. (LINLEY et ai, 2009).
  • Positive Psycotherapy: utiliza os principais dogmas e princípio da Psicologia Positiva. Apoia-se na premissa central de que a construção de emoções positivas, forças e significado são eficientes no tratamento psicopatológico. Trabalho preliminar indicou que é ao menos tão eficaz para a depressão como um tratamento farmacológico tradicional. (LINLEY et ai, 2009).

Um ponto interessante ao leitor é destacar que a Psicologia Positiva tem aplicação tanto na Psicoterapia como no Coaching, tendo sido [36] consi derado este último como o processo mais bem casado com a proposta da Psicologia Positiva. (SELIGMAN, 2011).

Dessa forma, destaca-se a prática do Life Coaching com uso da Psico­logia Positiva. Segundo Linley et al. (2009), a área que a Psicologia Positiva achou como uma casa pronta e bem-vinda é o Coaching, destacando algu­mas razões: ambos são explicitamente preocupados com o aprimoramento do bem-estar e da performance; ambos implicitamente desafiaram os pro­fissionais a questionar as premissas fundamentais que detêm sobre a na­tureza humana; a Psicologia Positiva provocou um interesse na Psicologia das forças humanas, uma área que proporciona potencial significativo para coaches em aproveitar o potencial dos clientes a serviço de suas metas e desejos e houve muitas cobranças para uma base de evidências para sus­tentar o Coaching e, nesse sentido, a Psicologia Positiva está bem colocada para fornecer apoio às intervenções do Coaching. (LINLEY et a i, 2009).

Ratificando a multidisciplinaridade da aplicação da Psicologia Positiva, deve-se dar importante destaque a quem é delegável o uso dos estudos e intervenções da Psicologia Positiva. Segundo Linley et al. (2009), a Psico­logia Positiva não é restrita nem deve vir a ser apenas para a Psicologia. Tratando-se de uma abordagem de questões relacionadas ao ser humano e ao bem viver, transpassa por várias outras instâncias.

E isso significa também que as aplicações da Psicologia Positiva não devem restringir-se apenas às esferas acadêmicas ou ficar nas mãos dos profissionais da Psicologia. Preferencialmente, os avanços progressivos das suas aplicações virão por meio da parceria e da colaboração com áreas nas quais possamos ter as maiores diferenças e atingir um grande número de vidas, no trabalho, na educação, por meio da saúde, tanto quanto através da política, e das abordagens populacionais. (LINLEY et al., 2009).

Para concluir este item, destaco o que afirma Corrêa (2013):

Com certeza, muitos são os avanços, integrações e parcerias pelas quais as aplicações da Psicologia Positiva ainda passarão no futuro, conside­rando ainda o alicerçamento necessário de sua maturidade, mas é im­portante que cada pessoa, acadêmica ou não, profissional ou não, da área, mas conhecedora dos benefícios que as intervenções da Psicologia [37] Positiva podem produzir, faça a sua parte, não apenas aplicando-se es­sas intervenções, mas, acima de tudo, vivendo congruentemente com esses princípios, de forma a envolver positivamente nessas práticas ou­tras pessoas pelo mundo afora e gerando benefícios para toda a huma­nidade. (CORRÊA, 2013, p. 60).

Concluída essa exposição sobre a aplicação da Psicologia Positiva de forma breve, destacam-se a seguir as principais teorias produzidas no cam­po, que permitirão uma compreensão das temáticas abordadas pelos au­tores em seus capítulos.

Teorias e estudos principais da Psicologia Positiva

A escolha pelas teorias que serão apresentadas neste item justifica-se pela disseminação que essas concepções apresentam em inúmeros estu­dos e desdobramentos, inclusive em outras ciências, em especial as que se enquadram de forma ajustada à proposta do pilar das instituições posi­tivas, cujas teorias e estudos bebem da fonte dos outros dois pilares, das emoções positivas e das qualidades humanas positivas.

Teoria Ampliar-e-Construir

Publicado em 2009, o livro "Positividade", de Fredrickson, apresenta a Teoria Ampliar-e-Construir ao público, em geral, abordando a temática das emoções positivas. Nesse momento, a teoria recebe uma ampla divul­gação, mas, no contexto acadêmico, porém, para chegar nesse ponto, Fre­drickson já vinha há muitos anos se dedicando aos estudos das emoções positivas, inclusive com diversos artigos publicados, que trazem muitas informações e dados sobre pesquisas, bem como a própria teoria ampliar-e-construir, criada inicialmente por Fredrickson no final de 1998. (FREDRI­CKSON, 2009).

Conforme resume Corrêa (2016), a positividade, segundo Fredrickson (2009), apresenta algumas características importantes de serem [38] destacadas. A positividade é boa; é a centelha de sentir-se bem que desperta a motivação para mudar; ela muda a forma como a sua mente trabalha: ela muda o conteúdo de sua mente trocando pensamentos maus por bons e ainda aumenta o raio de alcance ou os limites da sua mente; a positivi­dade transforma o seu futuro: enquanto as suas emoções se acumulam, elas constroem reservas; a positividade coloca um freio na negatividade: funciona como um botão de "reset" para a negatividade; a positividade obedece a um ponto de equilíbrio: com a sucessão de cada momento bom, você sente-se para cima, para fora, não para baixo e para dentro; você pode aumentar a sua positividade: você pode pender a sua balança e liber­tar seu potencial para florescer.

Fredrickson (2009) afirma que, devido a sua transitoriedade, é preciso gerar sempre mais positividade, destacando a importância do que chama de quociente de positividade, definido como: "O seu quociente de positi­vidade é a frequência de felicidade em um dado espaço de tempo dividida pela frequência de negatividade durante o mesmo espaço de tempo", (p. 23). Partindo de um ponto de equilíbrio que cada pessoa possui, Fredrick­son (2009) aborda as espirais: a espiral descendente, quando a negativida­de puxa o quociente para baixo e do outro, o defendido em sua teoria, a espiral ascendente, quando decolamos numa espiral energizada pela po­sitividade.

Mesmo sendo imensamente respeitado o trabalho de Fredrickson e de sua argumentação teórica sobre as emoções positivas, como aponta­do por ícones como Daniel Gilbert, Daniel Goleman e Martin Seligman, por exemplo (BARLETT, 2013), sua concepção acabou sofrendo críticas (BROWN, SOKAL; FRIEDMAN, 2013; BROWN, SOKAL & FRIEDMAN (2014), consideradas pertinentes, gerando a exclusão - digamos assim, matemá­tica - de um aspecto de sua teoria, o quociente de positividade de 3 para 1, o que quer dizer: para cada emoção negativa que aconteça ou que você viva em sua vida, produza ao menos três emoções positivas sinceras. É esse o quociente de equilíbrio que descobriu ser o ponto de equilíbrio e que demonstra se as pessoas murcham (espirais descendentes) ou florescem (espirais ascendentes). [39]

Fredrickson (2013) mantém sua concepção sobre os benefícios de mais emoções positivas e menos emoções negativas, mesmo descartando a proporção original da razão, e estudos estão sendo realizados para per­mitir que seja identificado o quociente de positividade.

Não se limitando seu trabalho apenas ao quociente de positividade, suas descobertas são amplamente aplicadas em diversos contextos.

Fredrickson (2009) propôs que, ao contrário das emoções negativas que limitam a ideia de ações possíveis, as emoções positivas ampliam o julgamento sobre elas, abrindo nossa consciência para uma ampla gama de pensamentos e ações, surgindo assim o que ela chama de primeira ver­dade: "a positividade nos abre", (p.28). Concluiu que as emoções positivas e negativas eram importantes em momentos diferentes para os nossos an­tepassados. As atitudes oriundas das emoções negativas eram importantes nas situações ameaçadoras à sobrevivência e as atitudes inovadoras e cria­tivas das emoções positivas eram importantes em longo prazo, por cons­truir recursos, encorajando o desenvolvimento da versatilidade, habilida­des e características úteis, funcionando esses como o que a autora chama de reservas. E aí surge a segunda verdade: "a positividade nos transforma para melhor", (p.31). Com esses pressupostos define-se a teoria ampliar- -e-construir de Fredrickson (2009).

Firmada a concepção da teoria sobre a positividade, Fredrickson (2009) discorre sobre as dez formas de positividade: alegria, gratidão, se­renidade, interesse, esperança, orgulho, diversão, inspiração, admiração e amor, tendo sido identificadas para a abordagem em função da quanti­dade de pesquisas sobre cada uma delas. (FREDRICKSON, 2009).
É importante destacar que é bastante relevante a teoria ampliar-e-construir de Fredrickson para o campo da Psicologia Positiva, podendo afirmar que se trata de uma concepção de imensa contribuição para des­dobramento de novos estudos, conceitos, pesquisas e teorias. Isso é per­ceptível claramente nas 11.900 indicações somente do Google Acadêmico que mencionam a temática, ao lado de 61.500 links na plataforma Google em 2017. [40]

A Ciência da Felicidade

Em 2007, a Teoria A Ciência da Felicidade foi divulgada ao público em geral pelo livro "A Ciência da Felicidade - Como atingir a felicidade real e duradoura", de Sonja Lyubomirsky. Contudo, os estudos a respeito dos aspectos em torno dessa teoria já vinham sendo feitos ao longo de vários anos, não apenas por Lyubomirsky, como também por outros estudiosos.
Apesar de constar também no livro publicado em 2007, já em 2005, no artigo Pursuing Happiness: The Architecture of Sustainable Change, Son­ja Lyubomirsky, Ken M. Sheldon e David Schkade identificaram os fatores mais importantes que determinam a felicidade, conforme ilustra a figura abaixo (LYUBOMIRSKY et a i, 2005; LYUBOMIRSKY, 2008).

Figura 10.1

A Teoria da Ciência da Felicidade está alicerçada, se assim podemos dizer, no que a autora chama de Solução dos 40%, como detalhado na ima­gem.

Segundo os autores, as circunstâncias variam nossos níveis de felicidade [41] em apenas 10% e o ponto decisivo, que se refere à nossa carga genética, definirá, num percentual de 50%, o quanto poderemos ser felizes ou não ao longo de nossas vidas. (LYUBOMIRSKY, 2008).

Lyubomirsky (2008) destaca como sendo o melhor é que se chegou à conclusão de que 40% de nossa felicidade está em nossas mãos, por meio da promoção de atividades intencionais que recaem em nosso comporta­mento, na nossa forma de agir e de pensar. (LYUBOMIRSKY, 2008).

No que tange às ações intencionais a serem produzidas com o percen­tual da Solução 40%, a partir de estudos e pesquisas com comportamentos de pessoas felizes, chegou-se à conclusão de que determinadas estratégias são comprovadamente eficazes para o aumento da felicidade para as pes­soas. (LYUBOMIRSKY & LAYOUS, 2013).

Merece destaque que a eficiência dessas estratégias pode variar de pessoa para pessoa e, por isso, torna-se essencial que cada um possa iden­tificar o que funciona melhor para elevar a sua felicidade, levando em con­sideração aqui que cada pessoa tem suas necessidades, interesses, valores, recursos e inclinações singulares que nos predispõem a nos empenharmos mais ou menos em determinadas estratégias de ação. Nesse sentido, um ponto que a autora coloca como uma exigência vital é fazer escolhas sen­satas na hora de formular um programa individual de felicidade. (LYUBO­ MIRSKY, 2008).

No contexto da Psicologia Clínica, foco desta obra, de igual forma, psicoterapeutas devem dar atenção significativamente à identificação de quais práticas geram resultados mais positivos para seus clientes, reser­vando grande atenção sobre o momento de substituição de alguma prática por outra que venha trazer mais melhoria de bem-estar ou remissão de sintomas.

Na proposta apresentada pela autora, a fim de dar início a uma es­tratégia de ações intencionais de sua teoria, Lyubomirsky (2008) apresen­ta como proposta alguns passos: Autoaplicação da Escala de Felicidade Positiva; Análise dos Pontos Possíveis de Ajustes de acordo com o perfil [42] da pessoa; Aplicação de Ajuste de Diagnóstico de Atividades às Pessoas; Questionário Oxford de Felicidade e Aplicação das Ações Intencionais, as quais são as seguintes, e que se relacionam de forma harmoniosa com as indicadas entre parênteses.

  1. Expressar gratidão (4 e 7)
  2. Cultivar o otimismo (9 e 7)
  3. Evitar cismar e fazer comparações sociais (6 e 10)
  4. Praticar gestos de cortesia (9 e 8)
  5. Cultivar as relações sociais (4 e 12)
  6. Desenvolver estratégias de superação de dificuldades (10 e 7)
  7. Aprender a perdoar (6 e 2)
  8. Aumentar as experiências de fluxo (flow12) (9 e 10)
  9. Saborear as alegrias da vida (8 e 10)
  10. Comprometer-se com seus objetivos (9 e 6)
  11. Praticar a religião e a espiritualidade (12 e 6)
  12. Cuidar do corpo e da alma (10 e 9)

Outro artigo com indicações favorecedoras para que psicoterapeutas possam ajustar de forma adequada as ações intencionais a seus clientes foi publicado em 2013, intitulado “How Do Simple Positive Activities Increase Well-being?" de autoria de Lyubomirsky e Layous, no qual são apresenta­ dos estudos e pesquisas recentes sobre a análise de condições ideais sob as quais as atividades intencionais positivas aumentam a felicidade e os mecanismos pelos quais funcionam. (LYUBOMIRSKY & LAYOUS, 2013)

O "Positive-Activity Model" (Modelo de Atividade Positiva), que tem como objetivo explicar como e porque realizar atividades positivas torna as pessoas mais felizes, é apresentado nesse artigo e se baseia em evidências teóricas e empíricas para descrever: uma visão global das características das atividades e das pessoas que tornam uma atividade positiva otimamen­te efetiva; e os mecanismos que fundamentam a melhoria do bem-estar [43] das atividades positivas. Além disso, em que medida que qualquer carac­terística de uma atividade positiva, que gera sucesso, depende da ligação entre a pessoa (exemplo: sua personalidade ou cultura) e as característi­cas da atividade (exemplo: dosagem ou suporte social; que representam ajuste pessoa-atividade). (LYUBOMIRSKY & LAYOUS, 2013). Acrescenta-se ainda que as características de atividades positivas (por exemplo, a dosa­gem e variedade) e da pessoa (por exemplo, de motivação e de esforço) influenciam o grau em que as atividades melhoram o bem-estar. Desta­ca-se ainda a identificação das condições em que as atividades positivas são mais eficazes e os processos pelos quais elas trabalham. Além disso, o modelo também revela lacunas na evidência empírica (por exemplo, sobre o papel do apoio social) e os resultados conflitantes (por exemplo, sobre o papel do próprio estado afetivo inicial) que esperam por novas pesquisas, e ainda pode ser estendido para prever a extensão da persistência dos que praticam atividades positivas para poder continuar a colher os benefícios. (LYUBOMIRSKY & LAYOUS, 2013).

Os autores afirmam também que, como os pesquisadores começam a entender o como, o quê, quando e o porquê das estratégias de aumento de felicidade, eles poderão fornecer conselhos com base empírica para os milhões de pessoas em diversos segmentos que anseiam por serem mais felizes. (LYUBOMIRSKY & LAYOUS, 2013).

Em consonância com a teoria de Lyubomirsky, outro artigo que traz contribuições aos psicoterapeutas é o "Positive Activities as Protective Fac­tors Against Mental Health Conditions", de Kristin Layous, Joseph Chancel­lor e Sonja Lyubomirsky, de 2014, onde os estudiosos propõem que ati­vidades positivas possam servir como fatores de proteção que atenuem fatores de risco, descrevendo exemplos de como elas podem mitigar dois fatores de risco, as ruminações e a solidão, e contrariar desencadeadores ambientais (ou seja, moderadores) que possam ampliá-los. E incluem ain­da a argumentação de que as atividades positivas podem ser ensinadas aos jovens para desenvolver padrões positivos de conceitos, pensamentos e comportamentos que podem vir a servir como fatores de proteção ao longo de suas vidas, além de proporem outras atividades que possam ser adequadas para certos indivíduos e fatores de risco específicos. [44]

Teoria Felicidade Autêntica

Divulgada por meio da publicação do livro "Felicidade Autêntica - Usan­do a Psicologia Positiva para a Realização Permanente" a teoria da Felici­dade Autêntica foi apresentada ao público no ano de 2002, por Martin E. P. Seligman. Toda a investigação nessa teoria concentra-se na felicidade que é feita por meio de três elementos: Emoções Positivas; Engajamento (flow); e Sentido. (SELIGMAN, 2002; SELIGMAN, 2011).

Como critérios para cada um dos três elementos, o autor destaca: es­colhemos cada elemento por eles mesmos e esses podem ser definidos e devidamente medidos.

O primeiro elemento, a emoção positiva, representa o que sentimos, a saber: prazer, entusiasmo, êxtase, calor, conforto e sensações afins. Uma vida conduzida com êxito acerca desse elemento é o que Seligman cha­ma de "vida agradável" (pleasant life). (SELIGMAN, 2011). Estão ligadas ao presente (prazeres físicos, prazeres maiores, como enlevo e conforto), ao passado (satisfação, contentamento, orgulho e serenidade) e ao futuro (otimismo, esperança, confiança e fé).

O segundo elemento, o engajamento, está ligado a uma posição de entrega: entregar-se completamente sem se dar conta do tempo transcor­rido, e ocorre quando se perde a consciência de si mesmo numa atividade envolvente. Seligman (2011) afirma que no engajamento é como se nos fundíssimos com o objeto. Destaca que, para esse engajamento, é essen­cial utilizarmos nossas forças pessoais. As pessoas que vivem com esse objetivo têm o que o autor chama de "vida engajada"(good life). (SELIG­ MAN, 2011).

O terceiro elemento, o sentido, significa que é essencial vivermos com sentido e propósito com vistas a pertencer e servir a algo maior que nós mesmos. Através de algumas instituições criadas pela humanidade pode-se vivenciar isso: a religião, o partido político, a família, movimento ecoló­gico, entre outros. (SELIGMAN, 2011). Nesse sentido, Seligman (2009) defi­ne a "vida significativa" (meaningful life), que considera como a "utilização [45] das suas forças e virtudes pessoais a serviço de algo maior". (SELIGMAN, 2009, p. 384).

Na Teoria Felicidade Autêntica, o tema é a felicidade, o objetivo da Psi­cologia Positiva é aumentar a quantidade de felicidade na vida das pessoas e do planeta e o padrão de mensuração é a satisfação com a vida que é fei­ta a partir de um relato subjetivo e, dessa forma, o seu objetivo é aumentar essa satisfação. (SELIGMAN, 2011).

Teoria do Bem-Estar

A Teoria do Bem-Estar foi divulgada no ano de 2011, com a publicação do livro "Florescer (Flourish) - Uma nova Compreensão sobre a Natureza da Felicidade e do Bem-Estar" de Martin E. P. Seligman. Diferentemente do tema felicidade, foco de sua primeira teoria, na Teoria do Bem-Estar o tema passou a ser o bem-estar (SELIGMAN, 2011) e esse é considerado um construto, sendo composto por diversos elementos, todos eles mensurá­veis. Cada um desses elementos é real e contribuem para o bem-estar, mas não o definem. (SELIGMAN, 2011). O autor utiliza a sigla PERMA, formada pelas iniciais dos nomes dos cinco elementos:

Figura 2

Segundo a Teoria do Bem-Estar, seus elementos, cada um deles, pre­cisam apresentar as seguintes propriedades: contribuição para a [46] formação do bem-estar; os indivíduos buscam o próprio elemento, e não apenas para obter algum dos outros quatro. (SELIGMAN, 2011).

Quanto aos elementos das emoções positivas, do engajamento e do sentido, Seligman (2011) não aponta diferenciações com reiação ao que apresenta na Teoria Felicidade Autêntica.

O quarto e novo elemento, a realização, que é buscada por ela própria, consiste em perseguir o sucesso, a vitória, a conquista e o domínio por eles mesmos, ainda que não gere emoção positiva, sentido ou relacionamentos positivos. Seligman (2011) menciona o termo "vida realizadora" na forma ampliada da realização.

O quinto e novo elemento, os relacionamentos, refere-se ao fato de que "as outras pessoas são o melhor antídoto para os momentos ruins da vida e a fórmula mais confiável de bons momentos". (SELIGMAN, 2011, p. 31).

Na Teoria do Bem-Estar, o tema é o bem-estar, o objetivo é aumentar o florescimento humano pelo aumento das emoções positivas, do enga­jamento, do sentido, dos relacionamentos positivos e das realizações. E o padrão de mensuração é de cada um dos elementos separadamente. (SELIGMAN, 2011).

Neste ponto, destaco que o entendimento preciso da Teoria do Bem-Estar pode possibilitar ao psicoterapeuta a identificação de rotas de florescimento humano e bem-estar de seus clientes, favorecendo a indica­ção e criação de estratégias e ações intencionais que mais sejam produti­vas à potencialização dos elementos que melhor representam a felicidade do cliente.

Flow

Na obra "Flow - The Psychology of Optimal Experience", Mihaly Csikszentmihalyi (1990) define a experiência ótima baseada no conceito de Flow como o estado no qual as pessoas estão envolvidas numa atividade em que nada parece importar; a experiência por ela mesma é tão agradável que as pessoas irão fazer isso mesmo a qualquer custo pelo simples fato de fazer isso. (CSIKSZENTMIHALYI, 1990). [47]

Segundo o autor, o nosso cotidiano é formado por atividades que rea­lizamos ao longo do dia, e que absorvem toda a nossa energia psíquica, as quais divide em três categorias:

  • Atividades Produtivas: a primeira e maior, que inclui aquelas atividades que objetivam a sobrevivência e o conforto (exemplo: trabalho, estudo);
  • Atividades de Manutenção: manter o corpo em forma (exemplo: comer, descansar, cozinhar, limpar);
  • Atividades de Lazer: o tempo livre estaria enquadrado nestas atividades e seria dividido em três tipos de atividade: 
    • a primeira, o consumo de mí­dia (a maioria em ver televisão, pinceladas no jornal e leitura de revistas);
    • a segunda, a conversa; e
    • a terceira, que é o uso mais ativo do tempo livre, que seriam as atividades como hobbies, fazer música, prática de esportes e exercícios.

O autor destaca que essas atividades fornecem as informações que vão à nossa mente ao longo do dia, dia após dia e que, na essência, nossa vida consiste dessas experiências. (CSIKSZENTMIHALYI, 1997).

Um ponto importante é que Csikszentmihalyi (1997) aponta a concen­tração como essencial para adquirir controle sobre a sua vida psíquica, que é o combustível básico do pensamento e acrescenta que concentrar a atenção é fundamental para executar operações mentais com algum tipo de profundidade. O que é comum nesses momentos de imersão é que a consciência é cheia de experiências e essas estão em harmonia umas com as outras. E é a esses momentos excepcionais que o autor dá a definição de Flow. (CSIKSZENTMIHALYI, 1997). Nesses momentos, nós nos sentimos no controle de nossas ações e mestres de nosso próprio destino; sentimos um senso de hilaridade, um profundo senso de prazer; é a esses momentos excepcionais, a que ele se refere como experiência ótima, que denomina como experiência de Flow. (CSIKSZENTMIHALYI, 1990; CSIKSZENTMIHALYI, 1997).

As atividades que propiciam o Flow apresentam os seguintes compo­nentes:

  • Metas: o Flow acontece quando as pessoas encaram determinadas me­tas claras e compatíveis que requeiram respostas apropriadas. [48]
  • Feedback: a atividade deve fornecer feedback imediato. Elas deixam cla­ro o quanto você vai bem no que está fazendo; e
  • Habilidade: o Flow tende a acontecer quando as habilidades da pessoa estão inteiramente envolvidas na superação de um desafio. (CSIKSZENTMIHALYI, 1997).

As experiências ótimas usualmente envolvem um bom equilíbrio en­tre a habilidade para agir e as oportunidades disponíveis para a ação, os desafios. E é quando ambos, habilidade e desafios, são altos que se dá a experiência de Flow, conforme demonstra a figura a seguir.

Figura 3

Além disso, trata-se necessariamente de uma experiência compensadora e requer concentração na sua execução. Inclui, ainda, uma perda da consciência do tempo, e a ausência da autoconsciência, com perda [49] momentânea do ego, desaparecendo o autorreconhecimento, transformando a pessoa em parte da atividade. Edurante a atividade dá-se o paradoxo do controle, ou seja, a atividade envolve um senso de controle; existe uma despreocupação com a perda do controle, já que há elementos que podem ou não ser controlados. Acrescenta-se que há a fusão da ação e da consciência, à medida que a pessoa está tão envolvida que a realiza no automá­tico, tornando-se espontânea. (CSIKSZENTMIHALYI, 1997).

As atividades que induzem o estado de Flow são chamadas de ativi­dades de Flow, já que elas favorecem que esse aconteça. (CSIKSZENT­ MIHALYI, 1997). O autor elenca em suas obras diversas atividades que po­dem propiciar o estado de Flow, tais como: fazer música, escaladas, dançar, caminhar, ler, artes, velejar, jogar, entre outras. Destaca que o importante é identificar as atividades que compõem o nosso dia e elencar aquelas que nos colocam em estado de Flow, pois estas elevarão nossas vidas.

Virtudes e Forças de Caráter

A primeira tentativa de definir um conjunto de virtudes humanas está contida nos ensinamentos de Confúcio, que datam de 500 a.e.c. e, até os dias de hoje, ainda nenhuma classificação de qualidades ou resultados positivos humanos conseguiu utilização ou aceitação mundial. (SNYDER & LOPEZ, 2009). Contudo, grandes esforços e resultados já vêm sendo alcançados para se obter um inventário para definir as qualidades humanas. (SNYDER & LOPEZ, 2009). Esses esforços sustentaram-se relevantemente com a iniciativa do dr. Neal H. Mayerson que, em 1999, procurou Martin Seligman com o seguinte questionamento: "Podemos manter a esperança de que a Psicologia Positiva será capaz de ajudar as pessoas a evoluir em direção ao seu maior potencial?" Mayerson e Seligman chegaram rapida­ mente à conclusão de que duas questões prioritárias deveriam ser respon­ didas e essas acabaram por moldar o projeto do início até o final: "Como podemos definir os conceitos de forças e de potencial máximo? Como se pode saber que um programa de desenvolvimento positivo de jovens atin­giu seus objetivos?" (PETERSON & SELIGMAN, 2004).

Figura 4

Para responder a essas perguntas por meio de pesquisas e estudo, em [50] 2001, a Fundação Manuel D. e Rhonda Mayerson criou o Value in Action (VIA) Institute, uma organização sem fins lucrativos dedicada ao desen­volvimento de uma base científica do conhecimento das forças humanas. (PETERSON & SELIGMAN, 2004; VIA INSTITUTE ON CHARACTER, 2013a).

À frente do projeto, Seligman foi designado diretor científico do VIA Institute e convidou Christopher Peterson para ser seu diretor de Projeto. Em três anos, a partir do ano 2000 e com a participação de mais de 150.000 pessoas que participaram das medições, Seligman e Peterson, com a as­sistência de diversos prestigiosos acadêmicos e profissionais, conceberam uma classificação de forças de caráter e virtudes e os meios de medi-las. (PETERSON & SELIGMAN, 2004; VIA INSTITUTE ON CHARACTER, 2013).

Essa classificação foi apresentada no livro "Character Strengths and Virtues - A Handbook and Classification", em 2004, de autoria de Seligman e Peterson, não traduzido para o Português, e o VIA Classification on Cha­racter Strengths serve como antítese do DSM e é promissora para estimu­lar e entender as qualidades psicológicas. A classificação proporciona uma linguagem comum para descrever as qualidades humanas e estimula um enfoque ao diagnóstico e ao tratamento voltados a potencializar as quali­dades. O inventário VIA identificou 24 forças de caráter, organizadas sob seis virtudes. (SNYDER & LOPEZ, 2009). As virtudes, segundo os autores, são as características fundamentais valorizadas por filósofos e religiosos e as forças de caráter são os ingredientes psicológicos que definem as virtu­des. (PETERSON & SELIGMAN, 2004). [51]

Para a medição deste sistema de virtudes e forças de adultos, foi cria­do o Values In Action Inventory of Strengths (VIA-IS) ou VIA Inventory of Strengths, ou ainda conhecido mais popularmente como VIA Survey (In­quérito VIA) que é uma avaliação de forças cientificamente validada. (VIA INSTITUTE ON CHARACTER, 2013b). O VIA Survey foi postado na internet sem nenhum custo para as pessoas, e atualmente já conta com mais de 5 milhões de respondentes ao assessment das forças de caráter. (VIA INS­TITUTE ON CHARACTER, 2017).

Trata-se o VIA-IS do único levantamento de forças no mundo que é gratuito, online e psicometricamente válido, e, além da versão original com 240 itens, dez para cada uma das forças de caráter, na atualidade, encontra-se disponível uma nova versão da avaliação original VIA-IS chamada *New* VIA Survey-120 que leva em torno de 15 minutos para ser preenchi­da com 120 itens apenas. (VIA INSTITUTE ON CHARACTER, 2013b).

Conforme destaca Niemiec (2017), devido a problemas que foram identificados na versão do VIA Survey que vem sendo utilizada, estudos sobre o assessment começaram a ser desenvolvidos desde 2014, para me­lhorar, substancialmente, a medição das forças de caráter e para algumas outras adequações. Isso inclui uma revisão profunda do VIA-IS com análise de todas as escalas, com dois formulários curtos (The Signatures Strengths Survey e o Virtues Survey), e um punhado de outras medições de forças de caráter, num estudo desenvolvido por McGrath (2017), indicados a seguir. A essa série de pesquisas, para atualização do VIA-IS, como parte de um conjunto de assessments, foi dado o nome de VIA Assessment Suite for Adults e o uso desses novos instrumentos são gratuitos e direcionados a uso por pesquisadores com propósito de pesquisas, as quais devem ser submetidas ao VIA formalmente. (MCGRATH, 2017). Além disso, itens das escalas foram adequados de forma a extrair com maior precisão, o que efe­tivamente contemplam as descrições de algumas forças - exemplo: para a Espiritualidade/Senso de Significado foram retirados-os itens relacionados à religiosidade, mantendo apenas itens relacionados a crenças sobre uma realidade não-física. (MCGRATH, 2017).

O VIA-IS tem opções de diferentes tipos de relatórios que podem ser escolhidos pelos respondentes. Ao preencher o questionário, o respondem [53] te tem acesso a uma lista/relatório gratuito com o ranking de suas forças em ordem de classificação. O seu relatório de feedback destaca as cinco forças que são chamadas de forças principais, mas também apresenta as demais forças de caráter em ordem decrescente de pontuação. (SNYDER & LOPEZ, 2009). Já estão disponíveis no site há algum tempo o VIA®Me! Character Strengths Profile, o VIA PRO Character Strengths Profile e o VIA PRO Team Report. Novos relatórios encontram-se disponíveis, atualmente, para aquisição ao lado do VIA PRO Character Strengths Profile, como o Peer Comparison Report, que faz um comparativo do resultado do respondente com o público de características demográficas semelhantes e o Lesser Character Strengths Report, que apresenta uma revisão aprofundada das forças que pontuaram mais baixo, com uma análise de como as pesquisas interpretam esses resutados e que intervenções podem ser favorecedoras para sua potencialização. (VIA INSTITUTE ON CHARACTER, 2017).

Além da versão de inventário para adultos, foi criado o Value In Ac­tion (VIA) Inventory of Strengths For Youth (VIA-Youth), popularmente co­nhecido como Youth Survey VIA, que mede forças do respondente através de uma pesquisa, atualmente com 96 itens. Ele leva aproximadamente 15 minutos para ser concluído e é projetado para jovens entre 11-17 anos de idade, sendo oferecido em 20 línguas e em Português (Portugal). (VIA INS­TITUTE ON CHARACTER, 2017). Assim como o VIA Survey, o VIA-Youth gera uma lista "rank" de suas forças de caráter em ordem de classificação, sen­do gratuito. (VIA® ME, 2013). Só que não para por aí. Ao lado dos relatórios principais (VIA-IS 120 para adultos e VIA-96 para a juventude), oferecidos para o público em geral, o VIA também oferece outros instrumentos dis­ poníveis para pesquisadores como um meio para avançar a ciência sobre as forças de caráter. São eles: o VIA Youth-198; VIA-IS; VIA-72; VIA-IS-R; VIA-IS-M; VIA-IS-P; VIA-IS-V6; VIA-IS-V3, para uso em pesquisas; os Global Assessment of Character Strengths - 24 (GACS-24); Global Assessment of Character Strengths-72 (GACS-72); Signature Strengths Survey (SSS), de domínio público, dos quais pode ser feito o download no site da versão, em Inglês, para aplicação como pesquisa; e o Overuse, o Underuse & Opti­mal-Use (OUOU) of Character Strengths, este último em pesquisas iniciais para uma aplicação específica. (VIA INSTITUTE ON CHARACTER, 2017). [54]

A temática das forças de caráter tem imensa aplicabilidade e é consi­derada a espinha dorsal da Psicologia Positiva. Com a proposta da strengths-opproach, as forças de caráter são utilizadas em contextos organizacio­nais, da Educação, do Coaching e da Psicoterapia.

Considerando a temática desta obra concentrada na Psicologia Clíni­ a, a título de observação, destaco um trabalho inacabado de Christopher Peterson, o qual considero que traria imensa significância à melhoria de diagnósticos e tratamento de clientes no contexto psicoterapêutico. No Terceiro Congresso Mundial da Associação Internacional de Psicologia Po­sitiva de 2013, Seligman lançou um desafio aos presentes, com vistas ao desenvolvimento e conclusão de uma proposta de estudo, não finalizada por Peterson, sobre a teoria de que a saúde psicológica é a presença de resistência e que ser mentalmente doente significa a ausência, o excesso de, ou oposição a uma ou mais das forças de caráter. (NEWS DAILY, 2013).

Nessa proposta de estudo, parte-se da premissa de que as 24 forças de caráter existentes poderiam ter 72 patologias relacionadas. Parte do desafio desse estudo é o de considerar como essas 72 patologias se rela­cionariam com os transtornos e patologias elencados no DSM. Algumas perguntas foram apresentadas que talvez pudessem ser respondidas a par­tir da conclusão do estudo. Por exemplo, o Desespero pode ser tratado com terapia cognitiva? Solidão com o treinamento antitimidez? Será que a compreensão dos transtornos mentais dessa forma pode levar a escolhas mais efetivas de terapias? Poderia o fortalecimento de forças de caráter oferecer proteção contra os transtornos mentais? Seligman concluiu que Peterson havia deixado o seu maior projeto desfeito. (NEWS DAILY, 2013).

Conforme narra Niemiec (2017), em 2009 e 2010, com apoio de Peter­son, foi sugerida por ele uma linguagem sobre essa temática a um grupo de estudiosos e profissionais das forças de caráter, o que foi considera­ do incipiente para a aplicação prática, sendo difícil para usos com alunos, clientes e empregados. Com a ajuda de estudiosos renomados, a partir desse momento, Niemiec (2014), tentando manter-se o mais próximo da concepção de Peterson (2006), concebe uma abordagem para um modelo [55] de um continuum entre overuse (uso em excesso), uso ideal e underuse (subutilização), para cada uma das forças de caráter. Além de ser uma pro­posta abraçada por inúmeros estudiosos, já é considerada uma aborda­ gem útil e apurada para predizer desordens psicológicas, especialmente transtorno de ansiedade social, como apontam Freidlin e colegas (2017), conforme indicado por Niemiec ( 2017).

Considerando as explanações acerca desses estudos, é importante destacar que as forças de caráter, para serem consideradas moralmente apreciáveis, precisam manifestar-se em seu âmago, em sua manifestação ideal e apreciável. Contudo, cada uma delas apresenta significados distin­tos quando se apresentam com overuse (uso excessivo) ou underuse (su­butilização) dessa medida ideal. Fora isso, as forças de caráter apresentam maiores similaridades com algumas das demais forças de caráter. (NIEMIEC, 2017). Destacam-se esses pontos, pois é essencial que o psicoterapeuta que deseje atuar com a Psicologia Positiva aprofunde-se na compreensão da totalidade de aspectos que envolve a temática das forças de caráter, com vista a favorecer o entendimento de seus clientes, quanto a suas qualidades humanas e a como potencializá-las em prol de seu bem-estar ou melhoria de seus quadros emocionais.

Esta explanação apresenta, de forma ínfima, informações sobre essa temática, sem pretender de forma alguma sugerir que um psicoterapeuta possa atuar com forças de caráter apenas a partir desta breve leitura.

Neste ponto, conclui-se a Parte I desta obra, cumprindo sua proposta de subsidiar o entendimento mais claro das temáticas que serão indicadas nos capítulos das Partes II, III e IV. [56]

Psicologia - Psicologia positiva
10/23/2020 3:46:01 PM | Por Martin Seligman
A centralidade das forças de caráter e como usá-las na Psicoterapia positiva

A obra Character strengths and virtues (CSV), de Peterson e Seligman (2004), foi o primeiro esforço abrangente, coerente e sistemático em psicologia para classificar as forças humanas essenciais (veja a Tabela 4.1: Valores em Ação: Classificação das Forças). As forças de caráter são definidas como traços universais que são valorizados por si só e não necessariamente le­vam a resultados instrumentais. Em sua maior parte, as forças de caráter não diminuem; ao contrário, indivíduos com tais forças elevam aqueles que testemunham essa força, produzin­do admiração em vez de ciúme. São tremendas as variações nos padrões das forças que pos­suímos. As instituições sociais tentam cultivar essas forças de caráter por meio de rituais. No entanto, a classificação das CSV é descritiva, e não prescritiva, e as forças de caráter podem ser estudadas como outras variáveis comportamentais.

Tabela 4.1

Forças de Caráter, Valores e Talentos

O que distingue forças (descrições do compor­tamento desejado) de valores (prescrições do comportamento desejado)? Forças de caráter e valores são ambos moralmente desejáveis, po­rém diferem em alguns pontos:

Primeiramente, comparadas a um conjunto mais amplo de valores nucelares, as forças de caráter são atributos do nosso self mais detalhados e sutis. Por exemplo, o valor de ter um bom relacionamento com outras pes­soas é extrapolado a partir de atributos mais específicos (forças de caráter), como capaci­dade de amar e ser amado, gentileza, inteli­gência social, trabalho em equipe e gratidão.

Em segundo lugar, comparados às forças de caráter, os valores frequentemente são culti­vados ativamente por instituições, por meio de práticas parentais, educação e um sistema intricado de recompensas e reconhecimento. Somos considerados bons cidadãos se defen­demos ou demonstramos esses valores. Em outras palavras, os valores são usados como critério para nos avaliar como indivíduos.

Tabela 4.1

Valores e forças são primos próximos, apre­sentando inúmeras semelhanças. Um ou mais valores nucleares podem estar operando subjacentes a várias forças de caráter, e inúmeras forças de caráter podem interseccionar com um ou mais valores nucleares. Tanto os valores quanto as forças de caráter guiam nosso com­portamento. Tanto os valores quanto as forças de caráter nos oferecem uma oportunidade de refletir sobre quem somos e os princípios que orientam nossas ações e decisões. Tanto os valores quanto as forças de caráter estão forte­mente associados a maior satisfação com a vida e bem-estar.

Os valores tendem a ser mais prescritivos do que as forças de caráter. Por exemplo, o valor de ser bem-sucedido é não só desejado em nome do sucesso - há muito mais nisso. Instituições como escolas, empresas, trabalho, política, ar­tes e esportes estabeleceram regras e exigências [39] específicas para medir e ter acesso ao nosso su­cesso. Algumas dessas regras incluem os valo­res de ter bom relacionamento com as pessoas, manter boa higiene, manter-se organizado e ser meticuloso. Esses valores são atributos pratica­mente necessários para a realização pessoal e profissional. Comparativamente, as forças de caráter são consideradas como atributos mais personalizados. Por exemplo, a pessoa A pode ser igualmente bem-sucedida e realizada (valo­res) com as forças de caráter de criatividade, coragem, autenticidade, prudência e ludicidade comparada à pessoa B, com as forças de caráter de curiosidade, imparcialidade, inteligência so­cial, autorregulação e espiritualidade.
Forças de caráter também são distintas de talento. Talentos como habilidade musical, agi­lidade atlética ou destreza manual são mais ina­tos e fixos, enquanto as forças são adquiridas, construídas individualmente e com frequência nutridas por instituições sociais maiores. Os ta­lentos tendem a ser mais automáticos, enquanto as forças podem ser exercidas deliberadamente (p. ex., compreender quando é apropriado usar gentileza versus imparcialidade). Conforme ob­servado, os talentos são mais inatos (p. ex., mu­sical, atlético, destreza manual) e algumas vezes são desperdiçados. Indivíduos cujas forças marcantes são gentileza, curiosidade, gratidão ou otimismo frequentemente encontram manei­ras de usar, e não de desperdiçar, seus talentos. Os talentos tendem a ser moralmente neutros, enquanto as forças e os valores têm uma moral subjacente. Evidências mostram que indivíduos que são gratos, curiosos, atenciosos, otimistas e entusiasmados têm mais probabilidade de [41] ser satisfeitos com suas vidas. Em outras pala­ vras, as forças de caráter melhoram o bem-estar (Peterson, Park, & Seligman, 2005).

Os talentos tendem a ser mais independentes do que as forças ou os valores. A agilidade atlé­tica de uma pessoa tem menos influência em seu funcionamento intelectual, e a habilidade artística de alguém tem menos probabilidade de estar relacionada a sua inteligência prática cotidiana. As forças, comparadas aos talentos, são mais inter-relacionadas e com frequência funcionam em conjunto. Alguém com alta dose de curiosidade provavelmente também terá alta dose de criatividade; autorregulação e prudên­cia andam de mãos dadas, assim como lideran­ça e cidadania.

Terceiro, as forças de caráter são expres­sas em combinações (e não isoladamente) e vistas dentro do contexto em que são usadas. Por exemplo, forças como gentileza e perdão podem consolidar vínculos sociais, mas, se usa­das em excesso, podem ser tomadas por permissividade. Nesse esquema de classificação, forças de caráter (p. ex., gentileza, trabalho em equipe, entusiasmo) são distintas de talentos e habilidades. Destreza atlética, memória foto­gráfica, afinação perfeita, destreza manual e agilidade física são exemplos de talentos e habilidades que são frequentemente valorizados porque levam a outros resultados. As forças têm características morais, enquanto os talentos e habilidades, não.

Incorporando as forças à psicoterapia positiva

No curso da psicoterapia positiva (PPT), o clí­nico procura ativamente acontecimentos, ex­periências e expressões de forças nas vidas de seus clientes. Estas podem se manifestar por meio de habilidades, competências, talentos, capacidades e aptidões que podem ser nutridas para o enfrentamento e potencialmente prote­ger contra transtornos psicológicos. Os psicó­logos positivos com frequência são criticados por minimizarem as fraquezas ou focarem ex­clusivamente nas forças e nos aspectos positi­vos. Reiteramos, como fazemos ao longo deste manual, que explorar as forças de caráter não significa ignorar os sintomas. Acreditamos que os clientes podem passar do mal-estar para o bem-estar se seus sintomas forem integrados às forças, o risco aos recursos e a vulnerabilidade à resiliência para oferecer-lhes um retrato com­plexo, porém realista, do autoconhecimento. No entanto, a integração cuidadosa das forças no perfil global dos clientes é algo geralmente feito na psicoterapia tradicional. Recomenda­mos, portanto, a utilização de três considera­ções para realçar as forças do cliente:

  • Utilizar medidas válidas e confiáveis das forças.
  • Desenvolver uma compreensão matizada e contextualizada das forças.
  • Estruturar as forças em objetivos significa­tivos.

Usando Medidas Válidas e Confiáveis das Forças

As forças em intervenções mais positivas costu­mam ser avaliadas usando-se a medida on-line gratuita Values in Action - Inventory of Strengths (https://www.viacharacter.org/) (VIA-IS; Peterson & Seligman, 2004). Algumas medidas alternativas das forças de caráter também fo­ram desenvolvidas e validadas empiricamente, entre elas Strength Finder (Buckingham & Clif­ ton, 2001), Realise 2 (Linley, 2008), Adult Nee­ds and Strengths Assessment (Nelson & Johns­ ton, 2008) e Quality of Life Inventory (Frisch, 2013). Em geral, os clínicos seguem uma es­tratégia simples de “identificar e usar suas for­ças”, em que os cinco escores principais (de um total de 24) são considerados como forças de assinatura. Os clientes são, então, convidados a encontrar novas formas de usar suas forças de assinatura. Essa abordagem, embora útil e efe­tiva em contextos não clínicos, pode não aten­der a necessidades clínicas essenciais. O foco exclusivo nos escores de forças de maior classi­ficação pode levar os clientes a pensar que suas cinco forças principais têm o maior potencial terapêutico quando, na verdade, esse pode não ser o caso para todos os clientes. Por exemplo, um cliente de meia-idade e bem-sucedido, em nossa prática, disse: "Depois de cada conquista. [42] minha reação instintiva é que outra pessoa fez melhor". Um cliente como esse pode não se be­neficiar de trabalhar em suas forças principais, que incluem persistência, liderança e amor ao aprendizado. Algumas de suas forças inferio­res, como gratidão, espiritualidade e atitude lúdica, podem lhe proporcionar maior efeito te­rapêutico. É importante observar que nem todas as 24 forças têm o mesmo potencial terapêutico em cada caso.

Desenvolvendo uma Compreensão Matizada e Contextualizada das Forças

O aspecto mais crítico da abordagem terapêuti­ca baseada nas forças é um uso contextualizado das forças, o que mantém os problemas e sinto­mas presentes no centro das atenções. O con­texto clínico frequentemente requer uma abor­dagem mais matizada e teoricamente orientada para uso das forças (Biswas-Diener, Kashdan, & Minhas, 2011). Para superar essa dificulda­de, sugerimos a utilização de uma abordagem abrangente de avaliação das forças (Rashid & Seligman, 2013). Nessa abordagem, o clínico fornece aos clientes uma breve descrição de cada força essencial (aproximadamente 20 a 25 palavras por força - com base no CSV) e pede que eles identifiquem (não classifiquem) até cinco forças que melhor ilustram sua perso­nalidade. Além disso, o cliente recolhe dados colaterais obtidos com um amigo ou familiar para compartilhar com o clínico. O clínico, en­tão, sintetiza toda essa informação e fornece ao cliente descrições das forças selecionadas com seus títulos - para identificar cada força com um nome e contexto específico. A seguir, o clí­nico encoraja o cliente a compartilhar lembran­ças, experiências, histórias da vida real, episó­dios, realizações e competências que ilustram o uso dessas forças em situações específicas. O cliente, então, completa uma medida de autorrelato das forças (p. ex., VIA-IS). Em cola­boração com o clínico, os clientes estabelecem objetivos específicos, atingíveis e mensuráveis voltados para suas preocupações presentes e identificam usos adaptativos de suas forças de assinatura. Em um estudo clínico recente, en­tre os clientes com diagnóstico de depressão e ansiedade, as forças de curiosidade, humor e autenticidade foram as mais prováveis de ser identificadas por outras pessoas, enquanto hu­mildade, imparcialidade e perspectiva foram as menos prováveis de ser endossadas por outros (Rashid et al., 2013).

Estruturando as Forças em Objetivos Significativos

É importante que os objetivos sejam pessoal­mente significativos, além de adaptativos no contexto interpessoal dos clientes. Por exem­plo, se o objetivo do cliente for usar mais a curiosidade, o cliente e o clínico discutem qual é o equilíbrio ideal da curiosidade por meio de ações concretas, de modo que o uso de curio­sidade não leve a indiscrição (excesso/uso excessivo) ou aborrecimento (falta/subutilização). Os clientes também são ensinados a usar suas forças de maneira equilibrada e flexível no estabelecimento de objetivos para enfrentar de modo adaptativo os desafios situacionais (Biswas-Diener, Kashdan, & Minhas, 2011; Schwartz & Sharpe, 2010).

Considere o caso a seguir de nossa jovem cliente, Emma, que procurou psicoterapia para lidar com o divórcio depois de um casamento de curta duração.

Como muitos clientes, Emma começou a terapia sentindo-se magoada, prejudicada e traída. Ela se sentia envergonhada por ter escolhido se casar ainda relativamente jovem, contra a vontade de seus pais conservadores, que queriam que continuasse seus estudos. Ela relatou ter pensamentos intrusivos ne­gativos. Nosso foco terapêutico inicial foi no proces­samento do trauma, simplesmente criando de forma mútua um espaço onde Emma conseguisse compar­tilhar seus sentimentos de mágoa, raiva e traição e onde pudesse sentir empatia e validação - ao ser ou­vida. Nessas conversas, o clínico focou nos detalhes do trauma, além de gentilmente apontar alguns dos comportamentos sadios que a cliente demonstrava (como enfrentamento sadio e resiliência). O clínico também demonstrou valorização pelo empenho de Emma em vir para a terapia (reconhecimento), além de conseguir compartilhar seu constrangimento, [43] arrependimentos e medos (coragem) e seu esforço e persistência. Esse apoio ajudou a cliente a expres­sar um desejo de mudança. O clínico, com base nas forças, demonstrou compreensão pelo momento e encorajou Emma a discutir a possibilidade de mudar, compartilhando delicadamente suas forças observa­das em terapia até aquele momento. Embora inicial­mente hesitante em reconhecer suas forças, o simples fato de ouvir o clínico falar sobre elas de forma genuí­na já aumentou a autoeficácia de Emma.

Incorporando forças em Psicoterapia positiva: Competências e estratégias

A avaliação das forças de um cliente propor­ciona uma abertura clínica única para elaborar os objetivos colaborativamente. Os clínicos podem discutir com os clientes o objetivo do tratamento. Por exemplo: “Você quer se livrar de todas as suas preocupações, medos, estressores e dúvidas ou também está interessado em ser feliz, confiante e satisfeito?”. Quase todos os clientes em nossa experiência endossam essa última parte da pergunta, além da primeira.

No entanto, é essencial que os clínicos estejam cientes de que o objetivo da PPT é ajudar os clientes a compreenderem que a ausência de fraquezas não é o único objetivo clínico e que a presença de bem-estar é igualmente importante para o tratamento e a prevenção de transtornos psicológicos (Keyes, 2013). A seguir, apresen­tamos estratégias para a incorporação das for­ças na PPT.

Formas de Avaliar Forças de Caráter

A maioria das medidas de psicopatologia é cara e requer realização em contextos clínicos. Medidas das forças que sejam válidas e confiá­veis, desenvolvidas por profissionais e pesqui­sadores da psicologia positiva, estão facilmente acessíveis on-line e gratuitamente. Por exem­plo, o website Authentic Happiness (www.authentichappiness.org; afiliado à Universidade da Pensilvânia) e o website Values in Action (www.viacharacter.org) oferecem muitas des­sas medidas. Os clientes podem completar as medidas em casa e trazer os resultados impres­sos para a terapia. Conforme mencionado [47] anteriormente, uma das medidas mais amplamente usadas para avaliar as forças é a VIA-IS (Peter­son & Seligman, 2004; www.viacharacter.org). Com base no modelo CSV das forças, a VIA-IS está disponível em duas versões - em 240 e 120 itens. Também com base no modelo CSV, uma versão breve com 72 itens com mecanismo de feedback encontra-se disponível (Rashid et al., 2013, www.tayyabrashid.com). Todos es­ses três websites fornecem, em inglês, medidas gratuitamente e feedback instantâneo sobre as forças e outros atributos positivos.

Além das medidas de autorrelato, entrevis­tas guiadas por pesquisa podem ser usadas para avaliar as forças. Se os clínicos preferirem não usar avaliação formal, podem usar perguntas no começo ou durante a terapia para evocar for­ças, emoções positivas e propósito. Exemplos de perguntas incluem: “O que dá a sua vida um senso de propósito? Vamos fazer uma pausa aqui e falar sobre coisas em que você é bom. Quais são seus pensamentos e sentimentos ini­ciais quando você vê alguém realizando um ato de gentileza ou coragem?”. Flückiger e colabo­radores (2009) usaram uma entrevista clínica para evocar as forças do cliente no processo terapêutico. A seguir, apresentamos várias das suas “perguntas para ativação dos recursos” que podem ser facilmente incorporadas a um questionário sobre a história do paciente ou à entrevista clínica na prática rotineira:

  • De que você mais gosta? Por favor, descreva suas experiências mais prazerosas,
  • Em que você é bom? Por favor, descreva experiências que despertaram o melhor em você.
  • Quais são suas aspirações para o futuro?
  • O que faz com que um dia seja satisfatório para você?
  • Que experiências lhe dão um sentimento de autenticidade?
  • Por favor, descreva uma situação em que você se sentiu “verdadeiramente você”.

Em seu estudo dos psicoterapeutas, Michael Scheel e colaboradores (2012) identificaram cinco temas que podem guiar os clínicos que conduzem PPT ou alguma terapia baseada nas forças para avaliar as forças dos clientes por meio de entrevistas. Esses temas são descritos a seguir, com exemplos de nossa prática clínica.

Amplificação das forças

Este tema ajuda os clientes a ver suas forças no passado, notar os aspectos positivos no que está sendo apresentado e provocar sucessos, mesmo que pequenos.

Exemplos: Um cliente que apresentava sintomas de ansiedade social compartilhou uma história de supe­ração do medo de praticar seu esporte à frente dos "olhos penetrantes" da multidão quando entrou na quadra e jogou por três minutos durante toda a tem­porada e marcou três pontos - mas isso foi suficiente para levar seu time às finais. Uma cliente com sinto­mas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depressão conseguiu recordar de sua coragem ao enfrentar alguém que estava intimidando sua amiga. Essas histórias oferecem aos clínicos oportunidades de amplificar forças passadas dos clientes.

Considerações contextuais

Para situações que requerem mais do que um foco no problema, o clínico precisa compreen­der a limitação das forças. O trabalho com o tema das considerações contextuais postula que pressionar com muita pressa pode impedir a aceitação futura das forças por parte do cliente.

Exemplos: Clientes com sintomas agudos de trans­torno de pânico ou transtorno obsessivo-compulsivo precisam de protocolos de tratamento específicos bem estabelecidos. Sugerir que um cliente que tem sintomas graves de ansiedade social aprimore espon­taneamente suas competências sociais, ou pedir que um cliente considere o crescimento pós-traumático sem processar seu trauma primeiro, pode afastá-los de uma abordagem futura baseada nas forças.

Processos orientados para as forças

Este tema busca encontrar formas de definir a identidade a partir de um lugar de forças, aju­dando os clientes a transpor sua atenção sele­tiva nos problemas e défícits e tirar partido de bons momentos para discutir as forças.

Exemplo: Durante a fase inicial da terapia, uma cliente comentou que "apesar de fazer aulas de me­ditação, eu me sinto inquieta... Sinto como se minha [48] mente estivesse sempre na via expressa". O clínico guiou essa cliente para a recordação consciente dos últimos três dias, um dia de cada vez, e pediu que ela procurasse pelo menos uma experiência posi­tiva - mesmo que pequena. Ela conseguiu recordar e, então, anotou essas três experiências. O clínico complementou com a força de saborear (reminiscência), além da apreciação da beleza (uma experiência recordada incluía o prazer de uma caminhada de 5 minutos, exatamente quando o sol espreitava entre as nuvens). A experiência de escrever sobre acontecimentos positivos serviu como uma indicação visual para retornar aos momentos positivos. A cliente con­cordou em começar um Diário de Gratidão e, porfim, conseguiu tornar útil sua prática de meditação.

Resultados orientados para as forças

Este tema ajuda os clientes a aumentar a auto­ria das mudanças, formar objetivos usando suas forças e aprender a estabelecer objetivos de encontrar ou aproveitar uma força específica.

Exemplo: Uma cliente tinha inaugurado uma firma de consultoria financeira de sucesso, mas veio para terapia porque sentia falta de propósito e significa­do. Ao compilar o perfil de suas forças, a cliente con­seguiu se dar conta de que o processo de abrir uma empresa a partir do zero e fazer dela um sucesso em um mercado competitivo não teria sido possível sem sua persistência e um constante sentimento de otimismo e resiliência. Durante o processo, ela en­controu muitos obstáculos, mas suportou. Nomear as forças ajudou a cliente a reconhecê-las profunda­mente, pois ela nunca havia tido tempo para si mes­ma e para celebrar suas conquistas. Sempre havia outra meta a ser atingida antes de avançar para a seguinte. Além disso, essa cliente foi capaz de per­ceber que sua firma mantinha muitos empregados e suas famílias - uma percepção que aumentou seu senso de propósito. Para desenvolver ainda mais seu senso de propósito, a cliente decidiu conceder uma bolsa de estudos a um estudante de origem econo­micamente desfavorecida.

Produção de propósito positivo

O clínico utiliza o tema da produção de pro­pósito positivo quando ajuda os clientes a per­ceberem que as forças se desenvolvem com a crescente compreensão de seus problemas, ao ajudar os clientes a equilibrarem seus traços negativos e positivos por meio de perspectiva realista e ajudando-os a compreender o con­texto em que um desafio ou problema pode ser uma força.

Exemplo: Um cliente experimentou traumas duran­te toda a sua vida, entre os quais sobreviver a mui­tos ataques aéreos em sua terra natal, guerra civil constante e luta para obter a condição de refugiado. Em seu novo país, o cliente teve que trabalhar mais de 60 horas por semana e freqüentar o ensino médio e depois a faculdade. No começo da terapia, ele se via como nada mais do que uma coleção de sintomas de TEPT, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, ansiedade e depressão. A identificação das for­ças e sua conceituação por meio de desafios na vida real ajudaram a alterar sua autopercepção. As forças facilitaram e ajudaram o cliente a perceber sua trans­formação de vítima em sobrevivente. Agora ele está ajudando outras vítimas de tortura e trauma como conselheiro - um dos poucos que fala a língua delas e compreende suas nuanças culturais.

Localizando Forças no Ambiente

Alguns clientes terão mais consciência de suas forças do que outros. Os clínicos podem enco­rajar seus clientes a procurarem informações colaterais de familiares, colegas e amigos acer­ca de suas próprias forças, além das forças de indivíduos envolvidos com os clientes. Isso é particularmente útil na avaliação e identifica­ção de moderadores sociais e comunitários. Por exemplo, além de averiguarem problemas com os familiares, os clínicos podem avaliar o ape­go, o amor e a proteção oferecidos pelo grupo de apoio primário, instituições (associações, sociedades, clubes, fraternidades, irmandades) e redes sociais. Os problemas do cliente no tra­balho ou na comunidade devem ser explorados, assim como os benefícios e apoios incluídos nas instituições sociais (Wright & Lopez, 2009).

Exemplos de Força

Para ajudar os clientes a discernirem e identifica­rem as próprias forças, os clínicos podem fazer referência a paradigmas (também denominados exemplos ou ícones). Exemplos incluem Mala-la Yusuf Zai representando bravura; Mahatma Gandhi representando liderança e autorregulação; Madre Teresa representando gentileza e humanidade; Nelson Mandela representando liderança e persistência; Martin Luther King [49] Jr. representando coragem, autorregulação e justiça; Albert Einstein representando curiosi­dade; Charlie Chaplin representando humor e postura lúdica; Bill Gates representando altruís­mo; e Meryl Streep representando criatividade.

O uso de ícones específicos e personagens de filmes para discutir as forças permite discussões concretas de sua aplicação dentro do contexto de conflitos na vida real e apoia o desenvolvimento das forças ao apresentar exemplos com os quais aprender. Os clínicos podem explorar as formas como um cliente se identifica e como não se identifica com os ícones específicos de forças re­levantes e podem fazer referência a esses ícones quando trabalham para resolver dilemas na vida do cliente. Os clínicos podem fornecer ilustra­ções concretas das forças usando recursos como o Positive psychology at the movies (Niemiec & Wedding, 2013), que lista filmes, seus temas e seus personagens associados a cada uma das 24 forças VIA.

Avaliando as Forças no Início da Terapia

As forças podem ser avaliadas logo no início do processo terapêutico. Quando o rapport está sendo construído por meio da escuta empática, o clínico pode começar observando as forças enquanto os clientes revelam suas histórias. Recomendamos a discussão das forças assim que possível na terapia por várias razões. Pri­meiro, conhecer e reconhecer as forças pode ser particularmente benéfico se ocorrer uma crise. Essa compreensão equipa os clínicos com um valioso recurso adicional que potencialmente pode ser ativado, em especial quando é neces­sária resiliência para enfrentar situações difí­ceis. No Health & Wellness Centre, University of Toronto Scaborough, onde um dos autores do manual é psicólogo clínico e pesquisador, a avaliação on-line de forças de caráter faz parte da avaliação de ingresso habitual. Ao comple­tarem uma medida das forças, os clientes rece­bem feedback sobre suas forças de caráter evi­dentes. A seguir, apresentamos três exemplos.

Exemplo 1: Uma jovem que passou por um acidente de automóvel apresentava, na admissão, sintomas graves de depressão, inclusive lentidão cognitiva e motora. O clínico chamou a atenção para uma de suas forças - gratidão - e perguntou como ela a re­presenta. A cliente sorriu relutantemente e, depois de uma longa pausa, disse: "Sou grata por estar viva... Eu achava que as coisas sempre iam estar lá, consi­derava tudo como garantido. Agora nunca mais vou considerar nada como garantido".

Exemplo 2: Um estudante do terceiro ano começou terapia individual depois de ter recebido uma carta de cancelamento da faculdade, devido às suas di­ficuldades acadêmicas. Durante a primeira sessão, ele parecia desalentado e disse que a faculdade não era para ele. O clínico ouviu empaticamente suas preocupações e então lhe pediu que compartilhasse algum episódio que pudesse demonstrar sua força de inteligência social. Apesar das dificuldades acadê­micas, ele sempre se sobressaía no trabalho como re­presentante de vendas em uma grande loja varejista. "Eu podia me conectar com quase todos e convencê-los de que precisavam daquele produto específico. Ao final do meu primeiro ano, para minha absoluta surpresa, o gerente me disse que eu era o número três em todo o país, em termos de produtos vendidos e receita gerada."

Exemplo 3: Uma mulher de meia-idade havia rece­bido diagnóstico de transtorno da personalidade borderline e buscou terapia individual depois de ter participado de um grupo de terapia comportamental dialética em regime ambulatorial. No seu ingresso, quando a cliente e o clínico discutiram as principais forças de caráter da cliente, ela comentou: "Já passei por muitos tratamentos, psicoterapias, grupos de apoio, mas esta é a primeira vez que um tratamento começa me dizendo o que eu sou capaz de fazer, de uma maneira positiva... Sempre ouvi sobre as minhas fraquezas. Isso é muito generoso de sua parte".

A avaliação sistemática das forças de cará­ter, além dos sintomas, irá enriquecer a com­preensão clínica do cliente. Se existe um rastro de sofrimento por trás de cada sintoma, tam­bém existe uma história de resiliência, conexão e realização para cada força. Nomear as for­ças lhe dá a oportunidade de se conectar com o cliente de formas que irão incutir esperança, otimismo, coragem e criatividade. [50]

Psicologia - Psicologia positiva
10/23/2020 1:53:48 PM | Por Tayyab Rashid
Psicopatologia, sintomas e forças

O conceito principal de psicopatologia em psicoterapia positiva (PPT) reside na noção de que os aspectos positivos (p. ex., forças de caráter, emoções positivas, significado, relações posi­tivas e realizações) são tão centrais quanto os sintomas na avaliação e no tratamento da psicopatologia. Este é um afastamento significa­tivo da visão tradicional da psicopatologia, em que os sintomas ocupam a posição central. Um sistema de classificação puramente baseado nos sintomas é inadequado para compreender as vidas ricas e complexas dos clientes. Antes de apresentarmos nossos argumentos, gostaría­mos de esclarecer que compreendemos as ra­zões por trás do foco exclusivo nos sintomas. De fato, sintomas perturbadores se destacam e são mais prontamente abordados e avaliados em um contexto clínico do que os aspectos po­sitivos.

Experiências negativas geralmente são um convite a um discurso clínico mais comple­xo e mais profundo - para clientes e clínicos. Portanto, não é de causar surpresa que os clientes que procuram serviços clínicos facil­mente se recordem de acontecimentos nega­tivos, reveses e fracassos, ou que os clínicos prontamente avaliem, elaborem e interpretem histórias de conflito, ambivalência, engano e déficits pessoais ou interpessoais. Devido ao seu valor informativo aparentemente maior, os clínicos prestam mais atenção aos aspectos negativos e se engajam em processamento cog­nitivo complexo (p. ex., Peeters & Czapinski, 1990). Assim, a avaliação clínica é tipicamente conduzida para explorar sintomas e transtor­nos. Entretanto, um foco quase exclusivo nos sintomas limita a avaliação clínica de formas importantes, conforme será discutido a seguir.

Sintomas

Os Ingredientes Centrais

Os sintomas são avaliados com um pressupos­to subjacente de que são os ingredientes cen­trais do discurso clínico. Assim, os sintomas justificam uma exploração séria, enquanto os aspectos positivos são considerados subprodu­tos do alívio sintomático que não precisam ser avaliados. Esse pressuposto está tão arraigado que atributos tradicionalmente positivos são frequentemente considerados como defesas. Por exemplo, a ansiedade foi teorizada como uma força propulsora por trás de um trabalho ético que caracterizou a Reforma Protestante (Weber, 2002). Foi teorizado que a depressão se desenvolve como um mecanismo de defesa para afastar sentimentos de culpa, e a compai­xão resulta como compensação por esses senti­mentos (McWilliams, 1994). Na PPT, as forças humanas são tão reais quanto os pontos fracos humanos, tão velhas como o tempo, e valoriza­das em todas as culturas (Peterson & Seligman, 2004). As forças são tão essenciais na avaliação e no tratamento da psicopatologia quanto são os sintomas. As forças não são consideradas como defesas, subprodutos ou compensações. Elas são valorizadas e avaliadas independentemente dos pontos fracos no procedimento de avalia­ção. Por exemplo, humildade não é necessaria­mente um traço utilizado para obter coopera­ção de outras pessoas refreando-se a si mesmo. [25]

Ser útil não é necessariamente uma tentativa de dispersar ou neutralizar uma situação estressante, e criatividade não é apenas aproveitar a ansiedade para a inovação.

Perfis Tendenciosos e Estruturação

A tradicional avaliação e abordagem terapêu­tica orientada para o déficit rotula os clientes dentro das categorias artificias do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos men­tais (DSM; American Psychiatric Association, 2013). Rotular não é, por si só, algo indesejá­vel; rótulos classificam e organizam o mundo (Maddux, 2008). No entanto, reduzir ou objetificar os clientes com um rótulo de psicopatologia pode despojá-los de sua rica complexidade (Boisvert & Faust, 2002, Szasz, 1961). Quando ocorre esse foco excessivo no diagnóstico, os diagnósticos baseados no DSM produzem um perfil de personalidade do cliente que descre­ve predominantemente déficits, disfunções e transtornos. A avaliação clínica da personalida­de deve ser um processo híbrido que explore as forças e as fraquezas (Suldo & Shaffer, 2008). Depois que a avaliação clínica estrutura a ques­tão presente como um problema, a redução dos problemas apresentados é vista como uma medida do sucesso da intervenção. No entanto, problemas psicológicos são complexos e multidimensionais e frequentemente têm apresenta­ção idiossincrásica (Harris & Thoresen, 2006). Além disso, a melhora dos sintomas psiquiá­tricos não assegura que os clientes atingiram o bem-estar. O real estado clínico, em termos de tempo e recursos alocados, é finito. Se a maior parte desse estado real for ocupada pela me­lhoria dos sintomas, não restará muito tempo e esforço para a amplificação dos pontos fortes, significado ou propósito.

Estigma

A prática clínica atual é, em grande parte, dire­cionada para a descoberta de traumas infantis, a avaliação dos pensamentos distorcidos e a análise das dificuldades interpessoais e do caos emocional. As pessoas evitam procurar serviços clínicos porque temem ser estigmatizadas caso seus problemas sejam formulados dentro de um diagnóstico psiquiátrico (Corrigan, 2004). As representações de indivíduos com doenças mentais na mídia popular mantêm o estigma contra a saúde mental (Bearse, McMinn, See- gobin, & Free, 2013). Além disso, indivíduos cada vez mais diversos e cosmopolitas nem sempre se encaixam nos rótulos diagnósticos eurocêntricos (Zalaquett et al., 2008).

Psicopatologia como desregulação das forças

Judith Johnson e Alex Wood (2017) defende­ram que a maioria dos construtos estudados pela psicologia positiva e clínica existe em contínuos que oscilam entre positivo e negativo (p. ex., gratidão e ingratidão, calma e ansie­dade), e, portanto, não faz sentido falar de um ou outro campo estudando o “positivo” ou o “negativo”. A psicologia tradicional baseada no déficit se beneficiaria com a integração da psicologia positiva porque

  • Construtos da psicologia positiva, como as forças de caráter e emoções positivas, po­dem de forma independente prever o bem-estar quando contabilizam fatores clínicos tradicionais, tanto transversalmente quanto prospectivamente.
  • Os focos principais dos psicólogos positivos, como as forças e as emoções com valência positiva, interagem com fatores de risco para prever os resultados, dessa forma atribuindo resiliência.
  • As intervenções em psicologia positiva (como a PPT) tipicamente usadas para am­pliar o bem-estar também podem ser usadas para aliviar os sintomas.
  • A pesquisa clínica em grande parte eurocêntrica pode ser adaptada para aplicações transculturais por meio da incorporação de construtos da psicologia positiva.

A luz desses argumentos, convidamos os clínicos a reconceitualizar os transtornos psi­cológicos baseados no DSM. Mais de duas décadas atrás, Evans (1993) postulou que comportamentos ou sintomas negativos têm formas positivas alternativas. Até certo ponto, [26]  essa reciprocidade é uma questão de semân­tica. Os sintomas são definidos na linguagem cotidiana, que sempre pode ser traduzida em opostos simples, embora nem todos os sinto­mas ou transtornos se prestem naturalmente a essa reciprocidade. Por exemplo, coragem pode ser conceituada como a antítese de ansiedade, mas nem todos os indivíduos ansiosos não têm coragem. Evans argumentou que a maioria dos construtos em psicopatologia pode ser escalo­nada em duas dimensões paralelas. Primeiro, o atributo patológico ou indesejável partindo do desvio grave, passando por algum ponto neu­tro até sua não ocorrência positiva. Segundo, o atributo antitético partindo da não ocorrência, passando por algum ponto neutro até sua forma desejável.

De acordo com o mesmo princípio, Peterson (2006) propôs que os transtornos psicológicos podem ser considerados como uma Ausência da força, o Oposto da força ou o Excesso da força (AOE). Peterson argumenta que a ausência de forças de caráter não necessariamente se aplica a transtornos como esquizofrenia e transtorno bipolar, os quais apresentam claros marcadores biológicos. Muitos transtornos de base psicológica (p. ex., depressão, ansiedade, problemas de atenção e conduta e transtornos da persona­lidade) podem ser mais compreendidos holisticamente, tanto em termos da presença de sinto­mas quanto da ausência, oposto ou excesso de forças de caráter. Usando a abordagem AOE de Peterson, conformidade se deve à ausência de originalidade, especialmente quando um grupo inteiro adere à conformidade. A ausência de curiosidade seria desinteresse. O desinteresse que impõe limites ao que uma pessoa pode sa­ber é indesejável. O oposto da curiosidade seria o tédio. Curiosidade exagerada pode ser igual­mente prejudicial, especialmente se alguém é curioso em relação a violência, sexo ou drogas ilícitas. Levar em conta as sensibilidades e as sutilezas clínicas, aplicando-se uma abordagem AOE em um contexto clínico, pode ser desa­fiador. Conceituar os clientes com uma total ausência de forças (p. ex., coragem, otimismo ou gentileza), com opostos das forças (p. ex., banalidade para criatividade, falsidade para ho­nestidade ou preconceito para justiça) ou com exagero das forças (promiscuidade emocional para inteligência emocional, chauvinismo1 para cidadania ou bufonaria2 para humor) pode ser desanimador tanto para os clínicos quanto para os clientes e pode até mesmo não ser teorica­mente plausível. Mas é difícil imaginar que al­guém possa não ter um pingo de gentileza ou que lhe falta coragem completamente. Portan­to, propomos uma visão ligeiramente modifica­da de AOE em relação às forças.

Propomos que os transtornos baseados no DSM sejam revisados em termos de falta ou excesso de forças. Por exemplo, a focalização nas faltas pode resultar em depressão, em parte devido à falta de esperança, otimismo ou entusiasmo, entre outras variáveis; da mesma forma, falta de coragem e paciência pode ex­plicar alguns aspectos de ansiedade; e falta de imparcialidade, equidade ou justiça pode estar subjacente a transtornos da conduta. Inúmeros transtornos psicológicos podem plausivelmente ser conceituados como um excesso de forças específicas. Por exemplo, a depressão pode ser, em parte, um excesso de humildade (relutân­cia em mostrar as próprias necessidades), um excesso de gentileza (em relação aos outros, à custa do autocuidado), um excesso de pers­pectiva (uma visão da realidade restritamente construída) e um excesso de significado (o que leva a um foco excessivo e a um comprome­timento inflexível).

A falta de forças isoladamente é insuficiente para justificar um diagnóstico. No entanto, linhas de pesquisa emergentes feitas por Alex Wood, na Universidade de Sterling, Reino Unido, estão mostrando que a ausência ou a falta de aspectos positivos representa um risco para uma condição clínica. Em um estudo longitudinal com 5.500 participantes, Wood e Joseph (2010) constataram [27] que indivíduos com poucas características posi­tivas— como autoaceitação, autonomia, propósi­to na vida, relações positivas com outras pesso­as, domínio do ambiente e crescimento pessoal – tinham até sete vezes mais probabilidade de experimentar sintomas depressivos na diversida­de clínica. A ausência de características positivas consistia, independentemente, em um fator de risco para transtorno psicológico, ultrapassan­do a presença de inúmeros aspectos negativos, inclusive depressão atual e prévia, neuroticismo e doença-saúde física. Além disso, pessoas com alto nível de características positivas estão pro­tegidas do impacto de acontecimentos negativos na vida, inclusive problemas clínicos (Johnson et al, 2010; Johnson, Gooding, Wood, & Tarrier, 2010).

Como, exatamente, uma falta ou excesso de forças pode atuar segundo uma perspectiva da PPT? Consideremos um exemplo clínico. A Escala de Depressão do Centro para Estudos Epidemiológicos (CES-D; Radloff, 1977) é uma das medidas mais frequentemente usadas de sintomas depressivos. Com 16 itens nega­tivos e 4 positivos, acreditava-se amplamente que essa medida examinava dois fatores sepa­rados – depressão e felicidade (Shafer, 2006). Analisando-se os dados de 6.125 adultos, Alex Wood e colaboradores demonstraram que uma estrutura bidimensional da CES-D é, mais pro­vavelmente, um artefato estatístico: depressão e felicidade podem, em grande parte, ser si­nônimos, e a medida existente pode alcançar diferentes extremidades do mesmo continuum (Wood, Taylor, & Joseph, 2010). Ou seja, de­pressão e felicidade fazem parte do mesmo continuum, e estudá-las separadamente duplica de forma desnecessária o esforço da pesquisa. Igualmente, o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (Spielberger et al., 1983) pode ser con­ceituado em um continuum de ansiedade até relaxamento.

Diferenças Individuais

Na PPT, nossa escolha dos traços para des­crever uma falta ou excesso de forças é uma mescla de forças definidas e bem pesquisadas (como gratidão, curiosidade e perdão) e tra­ços que são expressos em experiências na vida cotidiana (como despreocupação, serenidade, reflexão e flexibilidade). Uma forma de reconceituar sintomas é considerar seus opostos – isto é, suas forças – como em falta ou em excesso nas experiências cotidianas. Embora os termos cotidianos que utilizamos para des­crever a falta ou o excesso de forças possam ter diferenças individuais discerníveis e men­suráveis, muitos deles não têm sido foco de exame empírico.

Falta e Excesso de Forças

Percebemos que inúmeros termos usados para descrever uma falta ou excesso de forças podem implicar que sua falta ou excesso é indesejável, tornando as forças normativas. Por exemplo, a falta de perspectiva, moderação e coragem é geralmente considerada um estado indesejável, enquanto excesso de entusiasmo, perseveração e assunção de riscos é geralmente considerado um estado desejável. Nossa abordagem e esfor­ço são para oferecer uma compreensão menos [35] subjetiva e mais científica. Evidências mostram que mais quantidade de gratidão, gentileza, curiosidade, amor e esperança está fortemen­te relacionada a satisfação com a vida (Park, Peterson, & Seligman, 2004), enquanto uma falta de inteligência social, moderação, autorre-gulação e perseverança está associada a proble­mas psicológicos (Aldao, Nolen-Hoeksema, & Schweizer, 2010; Bron et al., 2012).

Dinâmica Situacional

Transtornos psicológicos e sintomas relaciona­dos podem ser mais bem percebidos pela com­preensão de situações complexas e meios culturais nos quais os clientes estão inseridos e dos quais eles frequentemente têm pouco controle para mudar essas dinâmicas. Apresentamos dois exemplos:

Um de nossos clientes, Michel, tinha sintomas de an­siedade social. Ele evitava situações sociais porque era excessivamente cauteloso por medo de dizer algo errado ou inapropriado porque inglês não era sua pri­meira língua. Michel tornou-se socialmente ansioso quando inadvertidamente disse algo inapropriado, o que ofendeu um de seus amigos, que o acusou de discriminá-lo. Examinar os sintomas em termos de uma falta ou excesso de pontos fortes também requer compreensão das características contextuais. Michel não mostrava sinais de ansiedade social en­quanto interagia com amigos que falavam sua língua nativa; nessa situação, ele se sentia confiante, fazia piadas e demonstrava empatia. Uma abordagem orientada para o sintoma provavelmente descreveria a situação como:"o cliente não exibe sintomas de an­siedade social quando interage na sua língua nativa". Uma abordagem baseada nas forças provavelmente descreveria a mesma situação como: "o cliente é ale­gre, socialmente à vontade e empático quando inte­rage na sua língua nativa".

Outra cliente, Sharon, tinha dois empregos de meio período - um em uma loja de luxo e o ou­tro em uma clínica psiquiátrica na qual trabalhava com crianças com problemas de desenvolvimento. Na loja, Sharon precisava ser muito profissional e vigi­lante e prestar atenção aos mínimos detalhes na hora de uma venda. Ela dizia que era muito cautelosa em seu trabalho na loja e gradualmente foi ficando preo­cupada com a possibilidade de cometer erros ou se esquecer de alguma coisa. No outro emprego, apesar de ter a tarefa desafiadora de envolver as crianças em atividades terapêuticas, Sharon se percebia relaxada, alegre e social. Uma abordagem voltada para o sin­toma provavelmente descreveria a situação como: "a cliente experimenta níveis moderados de ansie­dade antecipatória em seu trabalho na loja. Ela não experimenta um nível similar de ansiedade em seu trabalho na clínica psiquiátrica". Uma abordagem baseada nas forças provavelmente descreveria a mes­ma situação como: "a cliente na posição de vendedo­ra é cautelosa e vigilante - algumas vezes mais do que deveria. Assim, ela não é capaz de usar algumas de suas outras forças, como criatividade e alegria. Na instituição psiquiátrica, no entanto, ela é mais capaz de usar suas forças. Ela é alegre, relaxada e se conecta genuinamente com os outros".

É importante levar em conta a dinâmica si­tuacional e como as forças desempenham um papel com muitas nuanças na compreensão das vidas complexas e ricas dos clientes.

Ter Forças versus Desenvolver Forças

Ter uma constelação específica de sintomas que causam acentuado sofrimento e deficiência funcional geralmente produz um diagnóstico clínico. Esse foi o caso com uma de nossas clientes, Yasmin, que chegou à terapia depois de ser diagnosticada com transtorno da personalidade borderline por vários profissionais de saúde mental.

Nos primeiros 10 minutos do nosso tempo juntos, Yasmin narrou seus sintomas quase literalmente conforme listado no DSM. Tudo o que ela via em si mesma era desregulação emocional, dificuldades de relacionamento e impulsividade autodestrutiva. Depois de ter concluído uma avaliação abrangen­te das forças, sem desvalorizar seus sintomas, nós a descrevemos como alguém que basicamente é uma pessoa afetuo­sa a quem faltam competências para expressar amor apropriadamente e como alguém que poderia se beneficiar de compreender e então adquirir as com­petências de construção de empatia, gentileza e pru­dência. Embora Yasmin tenha sido capaz de identifi­car muitos domínios nos quais tendia a demonstrar mau julgamento, também conseguia compartilhar momentos em que exercitava um bom julgamento. Ela compartilhou um incidente em que sua reação espontânea e oportuna salvou a vida de um amigo. Uma avaliação de suas forças a fez perceber que tinha [36]  forças específicas e que, embora essas qualidades se­jam de fato forças, um uso excessivo delas a deixou com problemas. Ao mesmo tempo, ela não tem forças específicas, como prudência, autorregulação e uso adaptativo de entusiasmo, as quais poderia usar para resolver seus problemas.

O mero conhecimento dos sintomas ou for­ças, segundo nossa visão, é insuficiente para estimular a mudança. Pode ocorrer mudança terapêutica quando o clínico ajuda o cliente a desenvolver um uso adaptativo e diversificado de suas forças. A mudança acontece quando o clínico destaca sucessos passados do cliente para lidar com as dificuldades presentes, quan­do é suficientemente proficiente para identifi­car mesmo um pequeno ou breve exemplo de uso ou exibição de forças, quando comunica a autovalorização do cliente por meio de exem­plos concretos das forças e quando não desiste de procurar essas forças.

Grau ou Extensão

O clínico deve averiguar se um cliente apresen­ta quantidade suficiente de uma força particular para que possa aplicá-la efetivamente (Ajzen & Sheikh, 2013). Por exemplo, Julia, uma cliente de meia-idade, estava experimentando sintomas de transtorno de ansiedade generalizada marcados por preocupação excessiva, inquietação e dificuldades de concentração. Se seus sintomas pudessem ser tratados pelo desenvolvimento de forças, então em que medida Julia precisaria ter, por exemplo, pensamento crítico, perspectiva e saborear? Existe um pareamento específico ou constelações de forças que poderiam ser terapeuticamente efetivas? Pesquisas demonstraram que trabalhar em nossas forças de assinatura ou trabalhar em menos forças é igualmente efetivo para aumentar a satisfação com a vida (Gelso, Nutt Williams, & Fretz, 2014; Rashid, 2004; Rust, Diessner, & Reade, 2009). [37]

Psicologia - Psicologia positiva
10/22/2020 3:53:45 PM | Por Martin Seligman
Intervenções positivas e pressupostos teóricos

As intervenções psicológicas voltadas para os aspectos positivos são poucas e dispersas. Ini­ciamos este capítulo revisando brevemente as primeiras intervenções e tratamentos relacio­nados, os quais servem como precursores das intervenções em psicologia positiva (IPPs) contemporânea e psicoterapia positiva (PPT).

Uma visão histórica das intervenções psicológicas positivas

Cientistas, filósofos e sábios tentaram descre­ver felicidade, bem-estar e prosperidade segun­do muitas perspectivas. Por exemplo, Confúcio acreditava que o significado da vida residia na existência humana comum combinada com dis­ciplina, educação e relações sociais harmoniosas. Para atingir a felicidade, a busca de uma vida virtuosa é a condição necessária segundo Sócrates, Platão e Aristóteles. Antes da Segun­da Guerra Mundial, a psicologia tinha três mis­sões claras: curar a psicopatologia, tornar as vidas de todas as pessoas mais produtivas e gratificantes e identificar e estimular altos talentos (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000). William James observou, em Varieties of religious experiences (1902), que coragem, esperança e confiança podem vencer a dúvida, o medo e a preocupação. John Dewey (1934) sublinhou a necessidade de trocas artísticas e estéticas entre as pessoas e o ambiente. Henry Murray (1938) postulou que o estudo de experiências positivas, prazerosas e fecundas é essencial para a compreensão dos seres humanos.

Imediatamente após a Segunda Guerra Mun­dial, em grande parte devido a exigências eco­nômicas e políticas, a avaliação e o tratamento da psicopatologia se tornaram o foco principal mais restrito da psicologia. No entanto, psicó­logos humanistas como Carl Rogers, Abraham Maslow, Henry Murray, Gordon Allport e Rollo May continuaram a defender abordagens posi­tivas para a psicoterapia. Eles tentaram descre­ver uma boa vida e identificar formas como nossa tendência inerente ao crescimento pode facilitar essa vida. Maslow (1970) apontou:

A ciência da psicologia teve muito mais su­cesso no lado negativo do que no positivo. Ela nos revelou muito acerca das deficiências do homem, sua doença, seus pecados, mas pouco sobre seus potenciais, suas virtudes, suas aspi­rações realizáveis ou sua estatura psicológica plena. É como se a psicologia tivesse volunta­riamente se restringido apenas à metade da sua competência legítima, a metade mais sombria, mais vil. (p. 354)

Marie Jahoda discutiu o conceito de saúde mental positiva na década de 1950 (Jahoda, 1958). Michael Fordyce transformou essas no­ções em algumas intervenções positivas e as testou com estudantes universitários (Fordyce, 1983). A terapia focada na solução, desenvol­vida na década de 1980 por Steve de Shazer e Ing Kim Berg (De Shazer et al, 1986; Hawkes, 2011), foca na geração de soluções e objetivos a partir de opções modificáveis. A terapia do bem-estar integra a terapia cognitivo-compotamental a elementos de bem-estar e [9] demonstrou ser efetiva no tratamento de transtornos afetivos e de ansiedade (Ruini & Fava, 2009). Igualmente, a terapia da qualidade de vida de Frisch integra a terapia cognitiva a ideias da psicologia positiva e provou ser eficaz com clientes depressivos (Frisch, 2013). Entretanto, considerando-se que havia tão poucas interven­ções focadas nos aspectos positivos se compa­radas com o número esmagador de tratamentos orientados para o déficit, os psicoterapeutas aprenderam muito sobre danos, déficits e disfunções e muito pouco sobre os ingredientes para uma boa vida e como estes podem ser cul­tivados.

Intervenções em Psicologia positiva e Psicoterapia positiva

A PPT é uma abordagem terapêutica baseada amplamente nos princípios básicos da psico­logia positiva. Em outras palavras, a PPT é o trabalho clínico e terapêutico dentro da psicolo­gia positiva. A PPT é composta por 14 práticas específicas que foram validadas empiricamente como IPPs, seja isoladamente, seja em conjun­tos de duas ou três práticas (Seligman et al., 2005). Depois da validação empírica, essas práticas foram organizadas em um protocolo coe­so e denominadas psicoterapia positiva (PPT). Nesta seção, avaliamos a posição empírica das IPPs antes de descrevermos a PPT mais deta­lhadamente.

Frequentemente realizadas on-line, as IPPs são estratégias relativamente simples para au­mentar o bem-estar. Martin Seligman e colaboradores validaram empiricamente três IPPs {Três coisas boas, também conhecida como Diário de bênçãos; Utilização das forças de assinatura de uma maneira nova; e Visita de gratidão; Seligman et al., 2005). Linhas de pesquisa independentes replicaram esses acha­dos (Gander et al., 2013; Mitchell et al, 2009; Mongrain, Anselmo-Mathews, 2012; Odou & Vella-Brodrick, 2013; Schueller & Parks, 2012; Duan et al., 2014; Shotanus-Dijkstra et al., 2015; Vella-Brodrick, Park, & Peterson, 2009).

Desde sua validação inicial, as IPPs têm sido amplamente aplicadas (p. ex., Parks et al., 2012; Proyer et al., 2013; Quinlan et al., 2015; Winslow
et al., 2016). Elas deram um novo impulso a tentativas teóricas e clínicas paralelas de fo­mentar o bem-estar e atributos positivos como gratidão (Emmons & McCullough, 2003), per­dão (Worthington & Drinkard, 2000), saborear (Bryant, 1989), forças (Buckingham & Clifton, 2001; Saleebey, 1997), bem-estar psicológico (Ryff & Singer, 1996; Ryff, Singer, & David­ son, 2004) e empatia (Long et al., 1999).

Tanto a estrutura teórica quanto as implica­ções aplicadas das IPPs estão atraindo estudos acadêmicos na forma de obras editadas. The handbook of positive psychology interventions (Parks & Schueller, 2014) oferece uma visão abrangente de IPPs já estabelecidas, novas e emergentes. Alex Wood e Judith Johnson pu­blicaram recentemente um volume editado abrangente. The handbook of positive clinical
psychology
(Wood & Johnson, 2016). Ele ofe­rece uma perspectiva integrada do bem-estar e faz relação com a personalidade, a psicopatologia e os tratamentos psicológicos examinando condições clínicas como depressão, desregulação emocional, ansiedade, transtorno de es­tresse pós-traumático, suicidalidade e psicose. O Handbook também discute tratamentos clí­nicos baseados na psicologia positiva, como a PPT (Rashid & Howes, 2016), a terapia do bem-estar (Fava, 2016) e a terapia da qualidade de vida (Frisch, 2016), e reinterpreta tratamen­tos tradicionais, como a terapia de aceitação e compromisso, a terapia centrada no cliente e a terapia dos esquemas segundo a posição estra­tégica da psicologia positiva.

Essas IPPs focam em problemas clínicos centrais, como depressão, ansiedade, transtornos alimentares, suicidali­dade e problemas de conduta. Essas linhas de pesquisa independentes demonstram de forma clara que as IPPs são efetivas na redução dos sintomas. De forma notável, aparentemente por meio do uso de construtos focados (como gratidão, esperança, gentileza, perdão e pontos  fortes no caráter), as IPPs podem ser usadas no tratamento ativo ou adjunto de uma ampla gama de questões de saúde, como problemas e reabilitação cardíacos, reabilitação após aci­dente vascular cerebral (AVC), lesão cerebral, diabetes tipo II e câncer de mama. As IPPs foram aplicadas transculturalmente em países como Hong Kong, Indonésia, Irã, Coréia, Aus­ trália, Alemanha e Espanha.

Essas informações são particularmente importantes para os clínicos porque demonstram que, em­bora a PPT seja uma modalidade de tratamento nova e em desenvolvimento, tais práticas apre­sentam uma base de evidência.

As bases teóricas das IPPs, seu mecanismo potencial de mudança e seu papel na explica­ção das condições clínicas também têm sido explorados, incluindo gratidão como uma com­pensação para os efeitos perniciosos da depres­são (Wood, Maltby, Gillett, Linley, & Joseph, 2008), esperança como um mecanismo de mu­dança no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático (Gilman, Schumm, & Chard, 2012), o papel terapêutico da espiritualidade e seu significado na psicoterapia (Steger & Shin, 2010; Worthington, Hook, Davis, & McDaniel, 2011) e perdão como um processo gradual de exercer o próprio direito de vingar-se ou deixar a raiva passar (Harris et al., 2006; Worthington, 2005). Outros estudos documentaram a relação entre criatividade e transtorno bipolar (Murray & Johnson, 2010), emoções positivas e ansiedade (Kashdan et al., 2006) e relações sociais e depressão (Oksanen et al., 2010). Fitzpatrick e Stalikas (2008) sugerem que as emoções posi­tivas são fortes previsores de mudança terapêu­tica.

Resultados

O grupo de PP relatou melhorias nos períodos de pré e pós-intervenção na intensidade da dor, no controle da dor, na catastrofízação da dor.
na interferência da dor, na satisfação com a vida, no afeto positivo e na depressão. As melhorias em satisfação com a vida, depressão, intensidade da dor, interferência da dor e controle da dor foram mantidas até o follow-up de 2,5 meses.

Outras evidências científicas convergentes mostram que emoções positivas não refletem simplesmente sucesso e saúde; elas também produzem sucesso e saúde ao mudarem adaptativamente atitudes e mentalidades (Fredrickson, 2009).

A eficácia geral e a relevância de IPPs tam­bém foram exploradas em várias revisões. Essas revisões sintetizam vertentes teóricas e oferecem importantes implicações clínicas re­ferentes à aplicação de IPPs.

A primeira metanálise, conduzida por Sin e Lyubomirsky (2009), de 51 intervenções positivas, que in­cluiu amostras clínicas e não clínicas, encon­trou que as intervenções positivas são efetivas, com tamanhos de efeito moderados na redução significativa de sintomas de depressão (mé­dia r = 0,31) e melhoria do bem-estar (média r = 0,29). A segunda metanálise, feita por Bolier e colaboradores (2013), envolveu 6.139 participantes (e incluiu 19 estudos de Sin e Lyubomirsky). Foi relatado que IPPs [16] reduziram a depressão com tamanhos de efeito pe­quenos (média r = 0,23), mas aumentaram o bem-estar com tamanhos de efeito moderados (r = 0,34). Ao explorarem a eficácia de 40 IPPs, Hone, Jarden e Schofield (2015) usaram uma estrutura padronizada, a RE-AIM, avaliando o Alcance (Reach), a Eficácia (Efficacy), a Ado­ção (Adoption), a Implementação (Implemen­tation) e a Manutenção (Maintenance) de uma intervenção (Glasgow, Vogt, & Boles, 1999; National Collaborating Centre for Methods and Tools, 2008). A RE-AIM avalia a representatividade das amostras do estudo e contextos, custos e duração dos efeitos em âmbito indivi­dual e institucional. De acordo com a RE-AIM, os escores em IPP variaram substancialmen­te: Alcance 64%, Eficácia 73%, Adoção 84%, Implementação 58% e Manutenção 16%. Duas metanálises que usaram emoções po­sitivas - uma com ativação comportamental (Mazzucchelli, Kane, & Rees, 2009) e outra com abordagens baseadas em mindfulness (Casellas-Grau & Vives, 2014) - demonstraram que abordagens baseadas nas forças podem me­lhorar o bem-estar.

Outras revisões exploraram a eficácia de atributos positivos específicos, como emoções positivas em regulação emocional (Quoidbach, Mikolajczak, & Gross, 2015), e a eficácia de forças específicas (gratidão e gentileza) na re­dução dos sintomas e na melhoria do bem-estar (D’raven & Pasha-Zaidi, 2014; Drvaric et al., 2015). Outras revisões examinaram como atri­butos positivos afetam o manejo de problemas de saúde físicos (Macaskill, 2016), câncer de mama e gratidão (Ruini & Vescovelli, 2013) e a identificação de medidas robustas dos resul­tados (Stoner, Orrell, & Spector, 2015). A rele­vância das IPPs em situações complexas como trauma e guerra também foi explorada (Al-Krenawi et al., 2011), assim como sua relevância para a neurociência (Kapur et al., 2013).

Louise Lambert D ’raven e Pasha-Zaidi (2016) revisaram a relevância de intervenções positivas utilizando forças de caráter como gra­tidão, saborear, autocompaixão e relações posi­tivas no contexto do aconselhamento. Os auto­res concluem que IPPs são efetivas na geração de afeto e experiência positiva e no alívio da depressão. O que é mais importante, IPPs [19] usadas em um contexto clínico podem mobilizar habilidades inerentes para ajudar a motivar os clientes a fazer as mudanças desejáveis. Além disso, IPPs oferecem estratégias para práticas clínicas em geral para manter e melhorar emo­ções positivas e bem-estar.

As IPPs aplicadas em diversos contextos clínicos, combatendo problemas clínicos com­plexos, estão avançando a base de conhecimen­to da psicoterapia e os resultados em saúde. Fortes evidências empíricas e o trabalho emer­gente em IPPs têm sido essenciais no estabele­cimento de uma base para o desenvolvimento e o refinamento da PPT.

Psicoterapia positiva e a Teoria do bem-estar

A PPT está baseada em duas teorias importan­tes: a conceituação de bem-estar PERMA de Seligman (Seligman, 2002a, 2012) e forças de caráter (Peterson & Seligman, 2004). Come­çamos explicando PERMA, que é um modelo que organiza o bem-estar em cinco compo­nentes cientificamente mensuráveis e manejáveis, conforme descrito na Tabela 2.3: Teoria do Bem-Estar (PERMA): (a) emoções positi­vas (positive), (b) engajamento (engagement), (c) relações (relationships), (d) significado (meaning) e (e) realizações (accomplishment) (Seligman, 2012).

Tabela 2.3

Pesquisas demonstraram que o cumprimento de três dimensões de PERMA (emoções positivas, engajamento e significado) está associado a taxas mais baixas de depres­são e a maior satisfação com a vida (Asebedo & Seay, 2014; Bertisch et al, 2014; Headey, Schupp, Tucci, & Wagner, 2010; Kem et al., 2015; Lambert D’raven & Pasha-Zaidi, 2016; Lamont, 2011; Schueller & Seligman, 2010; Sirgy & Wu, 2009).

Emoções Positivas

As emoções positivas representam a dimensão hedônica da felicidade. Essa dimensão consis­te em experimentar emoções positivas sobre o passado, o presente e o futuro e aprender com­petências para amplificar a intensidade e a du­ração dessas emoções.

  • Emoções positivas sobre o passado incluem satisfação, contentamento, concretização, orgulho e serenidade.
  • Emoções positivas sobre o futuro incluem esperança e otimismo, fé, confiança e segu­rança.
  • Emoções positivas sobre o presente são ex­periências complexas, como saborear e min­dfulness (Seligman, 2002a).

Comparadas com as emoções negativas, as emoções positivas tendem a ser [20] transitorias; no entanto, elas desempenham um papel importante em tomar os processos de pensa­mento mais flexíveis, criativos e eficientes (Fredrickson, 2009). Pesquisas também mos­traram que emoções positivas constroem resiliência ao “desafazerem” os efeitos das emo­ções negativas (Fredrickson, Tugade, Waugh, & Larkin, 2003; Johnson et al., 2009) e estão fortemente associadas a longevidade, satis­fação conjugal, amizade, renda e resiliência (para revisões veja Fredrickson & Branigan, 2005; Lyubomirsky, King, & Diener, 2005). Barry Schwartz e colaboradores (2002) cons­tataram que clientes deprimidos que procuram terapia tendem a experimentar uma relação de menos de 0,5 para 1 de emoção positiva para emoção negativa. Aparentemente, então, essa ausência de emoções positivas é central para a psicopatologia.

Emoções positivas também impactam a saúde física. Por exemplo, agentes de saúde pública mantêm registros de doença cardíaca como causa subjacente de morte. Eles também coletam dados sobre possíveis fatores de risco, como taxas de tabagismo, obesidade, hiper­tensão e falta de exercícios. Esses dados estão disponíveis para cada condado nos Estados Unidos. Uma equipe de pesquisa da Universi­dade da Pensilvânia buscou correlacionar essa epidemiologia física com sua versão digital no Twitter. Com base em um conjunto de tweets feitos entre 2009 e 2010, esses pesquisadores estabeleceram dicionários emocionais para analisar uma amostra aleatória de tweets de indivíduos que haviam disponibilizado suas localizações. Com tweets suficientes e dados de saúde de aproximadamente 1.300 conda­dos americanos, os quais contêm 88% da po­pulação do país, eles constataram que, depois de controlar a renda e o nível educacional, as expressões de emoções negativas como raiva, estresse e fadiga nos tweets das pessoas em um determinado condado foram associadas a risco mais elevado de doença cardíaca naquele condado. Por sua vez, expressões de emoções positivas como entusiasmo e otimismo foram associadas a risco mais baixo (Eichstaedt et al., 2015).

Engajamento

Engajamento é a dimensão do bem-estar rela­cionada à busca de engajamento, envolvimento e absorção no trabalho, relações íntimas e lazer. A noção de engajamento provém do trabalho de Csikszentmihalyi (1990) sobre flow, que é o estado psicológico decorrente de intensa concentração que tipicamente resulta em perda da noção do tempo enquanto se está engajado em uma atividade, como ao se sentir “em comunhão com a música”. Desde que os níveis de competência de uma pessoa sejam suficientes para enfrentar os desafios da tarefa, os indivíduos provavelmente permanecerão profunda­mente absorvidos ou “em comunhão” com a experiência e perderão a noção da passagem do tempo. Seligman (2002a) propôs que uma ma­neira de aumentar o engajamento é identificar as forças de “assinatura” do cliente ... e ajudá-lo a encontrar oportunida­des de usá-las com mais frequência. IPPs que encorajam os indivíduos a usar intencionalmen­te suas forças de assinatura de novas maneiras foram identificadas como particularmente efe­tivas (Azanedo et al., 2014; Berthold & Ruch, 2014: Buschor et al., 2013; Forest et al., 2012; Güsewell & Ruch, 2012; Khumalo et al., 2008; Littman-Ovadia & Lavy, 2012; Martinez-Marti & Ruch, 2014; Peterson et al., 2007; Proyer et al, 2013; Ruch et al., 2007).

Na PPT, os clientes aprendem a realizar atividades que usam suas forças de assinatura para criar engajamento. Essas atividades são relativamente intensivas e podem incluir esca­lada em rocha; xadrez; basquete; dança; cria­ção ou experiência de arte, música ou litera­tura; atividades espirituais; interações sociais; e outras atividades criativas, como cozinhar, fazer jardinagem e brincar com uma criança. Comparadas com prazeres sensoriais, que se dissipam rapidamente, essas atividades de en­gajamento duram mais tempo, envolvem mais pensamento e interpretação e não criam hábito muito facilmente. O engajamento pode ser um antídoto importante para o tédio, a ansiedade e a depressão. [21] Anedonia, apatia, tédio, multitarefas e agi­tação — características de muitos transtornos psicológicos — são em grande parte manifestações de perturbação da atenção (Donaldson, Csikszentmihalyi, & Nakamura, 2011; Mc­ Cormick et al., 2005). O engajamento intenso elimina o tédio e a ruminação —ao se tentar realizar uma tarefa com sucesso, os recursos atencionais precisam ser ativados e direcio­nados para a tarefa em questão, dessa forma deixando menos capacidade para o proces­samento de informações autorrelevantes e relacionadas à ameaça. Além disso, um sen­timento de realização depois de feita a ativi­dade frequentemente nos deixa recordando e relaxados, que são duas formas de ruminação positiva (Feldman, Joormann, & Johnson, 2008). Essas características do engajamento foram aplicadas com sucesso a intervenções terapêuticas (Grafanaki et al., 2007; Nakamu­ra & Csikszentmihalyi, 2002).

Relações

Foi alegado que todos os humanos têm uma “necessidade de pertencer” fundamental que foi moldada pela seleção natural no curso da evolução humana (Baumeister & Leary, 1995). Relações positivas e seguras estão for­temente relacionadas a uma sensação de bem-estar (Wallace, 2013). Segundo a American Time Use Survey, passamos a maior parte das horas em que estamos acordados interagindo de uma maneira ou de outra, ativa ou passiva­mente, o que pode incluir discutir, colaborar e trocar produtos com outras pessoas (Bureau of Labor Statistics, 2015). A qualidade de nos­sas relações é mais importante do que as ca­racterísticas quantitativas, como o número de amigos que temos ou o tempo que passamos juntos. Por exemplo, crianças com amplo su­porte social, incluindo os pais, pares e pro­fessores, apresentam menos psicopatologia (i.e., depressão e ansiedade) e mais bem-estar (satisfação com a vida) do que seus pares sem esses suportes, independentemente de seu de­ sempenho acadêmico (Demir, 2010; Stewart & Suldo, 2011). Além disso, relações positi­vas não só nos protegem da psicopatologia; elas também somam longevidade. Em 148 estudos que envolveram 308.849 participan­tes, aqueles que tinham relações sociais mais fortes apresentaram probabilidade de sobre­vivência aumentada em 50%. Esse achado permaneceu consistente comparando-se ida­de, sexo, condição de saúde inicial, causa da morte e período de follow-up (Holt-Lunstad & Timothy, 2010). Quase todas as práticas de PPT envolviam reflexões internas da pessoa ou recordações que envolvem outros. Em um ensaio randomizado, os pesquisadores cons­tataram que indivíduos que realizavam ativi­dades focadas nas relações relatavam maior satisfação nas relações (O’Connell, O’Shea, & Gallagher, 2016).

Significado

Significado consiste de usar forças de assina­tura para pertencer e servir a alguma coisa que seja maior que a própria pessoa. Victor Frankl (1963), um pioneiro no estudo do significa­do, enfatizou que a felicidade não pode ser atingida simplesmente desejando felicidade. Em vez disso, ela deve acontecer como a con­seqüência não intencional de trabalhar para um objetivo maior do que nós mesmos. As pessoas que buscam com sucesso atividades que as conectam com esses objetivos mais amplos atingem uma “vida significativa”. São inúmeras as formas como isso pode ser obtido: relações interpessoais próximas; busca de ino­vações artísticas, intelectuais ou científicas; contemplação filosófica ou religiosa; e espiritualidade ou outras buscas potencialmente solitárias, como a meditação (p. ex., Stillman & Baumeister, 2009; Wrzesniewski, McCau­ ley, Rozin, & Schwartz, 1997). Independentemente da forma como uma pessoa estabelece uma vida significativa, fazer isso produz um sentimento de satisfação e a crença de que ela viveu bem (Ackerman, Zuroff, & Moskowitz, 2000; Hicks & King, 2009).

Adultos com níveis mais altos de propósito na vida apresentam recuperação mais rápida de danos cerebrais (Ryff et al., 2016). A tera­pia pode ser um investimento útil para auxi­liar os clientes a definirem e estabelecerem objetivos concretos e esclarecerem signifi­cados abrangentes associados a esses [22] objetivos de forma que se aumente a probabilidade de atingi-los (McKnight & Kashdan, 2009). Há boas evidências de que ter um sentimento de significado e propósito ajuda a nos recu­perarmos rapidamente da adversidade e nos protege contra sentimentos de desesperança e falta de controle (Graham, Lobel, Glass, & Lokshina, 2008; Lightsey, 2006). Clientes cujas vidas estão imbuídas de significado têm mais probabilidade de persistir em vez de de­sistir diante de uma situação difícil (McKni­ ght & Kashdan, 2009). A PPT pode ajudar os clientes a estabelecer conexões para lidar com problemas psicológicos.

Realização

Realização pode denotar realizações objetivas e concretas; promoções; medalhas; ou recompen­sas. No entanto, a essência da realização reside na sua busca subjetiva por progresso, avanço e, em última análise, crescimento pessoal e inter­ pessoal. No modelo PERMA de bem-estar, rea­ lização é definida como aproveitar nossas for­ ças, habilidades, talentos e competências para atingir algo que nos dá um sentimento profundo de satisfação e realização.

Realização requer o uso ativo e estratégi­co das forças (i.e., quais forças usar e quan­do) e o monitoramento atento das flutuações situacionais para fazer mudanças oportunas. Juntamente com as mudanças, realização re­quer consistência de comportamentos ou há­bitos específicos. Por fim, a realização pode ter recompensas externas, mas ela estimula o bem-estar quando buscamos e atingimos um objetivo intrinsecamente motivador e signifi­cativo.

Psicoterapia positiva: pressupostos teóricos

A PPT foi desenvolvida sobre as bases empí­ricas de estudos de intervenção positiva e os fundamentos teóricos do modelo PERMA e forças de caráter. No entanto, a PPT também opera segundo três pressupostos referentes a natureza, causa, curso e tratamento de padrões comportamentais específicos, conforme discu­tido a seguir.

Psicoterapia positiva 23 Capacidade Inerente para Crescimento

De modo consistente com a psicologia huma­nista, a PPT postula que a psicopatologia ocorre quando as capacidades inerentes do cliente para crescimento, realização e bem-estar são frustra­das por dificuldades psicossociais prolongadas. A psicoterapia oferece uma oportunidade úni­ca para desencadear ou recuperar o potencial humano por meio do poder transformador da conexão humana. Ela apresenta uma interação inigualável na qual um clínico empático e não crítico compartilha emoções, desejos, aspira­ções, pensamentos, crenças, ações e hábitos mais profundos de um cliente. Se esse acesso exclusivo for usado preponderantemente para processar os aspectos negativos — algo que naturalmente ocorre conosco - e corrigir os piores deles, a oportunidade de estimular o crescimen­to será ofuscada ou, com frequência, completa­mente perdida.

O foco nas forças possibilita que os clientes aprendam competências específicas para que possam ser mais espontâneos, alegres, criativos e agradecidos, em vez de meramente aprende­rem a não ser rígidos, aborrecidos, convencio­nais e queixosos. Evidências mostram que as forças podem desempenhar um papel essencial no crescimento - mesmo em circunstâncias graves na vida. As forças de caráter predizem resiliência, para além de demografia, suporte social, autoestima, satisfação com a vida, afeto positivo, autoeficácia e otimismo (Martínez-Martí & Ruch, 2016). Evidências crescentes estão apoiando esse pressuposto sobre a impor­tância das forças. Por exemplo, Linley e cola­boradores (2010) demonstraram que pessoas que usam suas forças têm maior probabilidade de atingir seus objetivos. Além disso, o uso das forças amortece o impacto das experiências ne­gativas (Johnson, Gooding, Wood, & Tarrier, 2010). Os sintomas depressivos entre adultos idosos foram reduzidos quando eles focaram em suas forças, como otimismo, gratidão, sa­borear, curiosidade, coragem, altruísmo e pro­pósito na vida (Ho, Yeung, & Kwok, 2014). Tomada em conjunto, a PPT assume que os clientes são capazes de crescimento e enfatiza o processo de crescimento, o qual, por sua vez, ajuda a reduzir os sintomas. [23]

As Forças são Tão Autênticas Quanto os Sintomas

A PPT valoriza as forças por direito próprio. Ela considera as emoções positivas e as for­ças tão autênticas e reais quanto os sintomas negativos e os transtornos. As forças não são defesas, ilusões ou subprodutos do alívio dos sintomas que ficam sentados de braços cru­zados na periferia clínica. Se ressentimento, trapaça, competição, ciúme, ganância, preocu­pação e estresse são reais, também são reais atributos como honestidade, cooperação, con­tentamento, gratidão, compaixão e serenidade. Pesquisas demonstraram que a mera ausência de sintomas não corresponde diretamente à presença de bem-estar mental (Bartels et al., 2013; Keyes & Eduardo, 2012; Suldo & Sha­ ffer, 2008). A incorporação das forças aos sin­tomas expande a autopercepção dos clientes e oferece ao clínico rotas adicionais de interven­ção. Cheavens e colaboradores (2012) mostra­ram que focar nas forças relativas dos clientes em psicoterapia, em vez de nos seus pontos fracos, leva a um resultado superior. Igual­mente, Flückiger e Grosse Holtforth (2008) constataram que focar nas forças do clien­te antes de cada sessão de terapia melhorou os resultados da terapia. Quando um clínico trabalha ativamente para recuperar e cultivar coragem, gentileza, modéstia, perseverança e inteligência social, as vidas dos clientes pro­vavelmente se tornarão mais gratifícantes. Contudo, quando o clínico foca na melhoria dos sintomas, as vidas dos clientes podem se tornar menos infelizes.

Relação Terapêutica

O terceiro e último pressuposto da PPT é que relações terapêuticas efetivas podem ser cons­truídas sobre a exploração e a análise de características pessoais e experiências positivas (p. ex., emoções positivas, pontos fortes e virtu­des), e não apenas falando sobre problemas. O estabelecimento de uma aliança terapêutica é um fator central comum para a mudança te­rapêutica (Horvath et a l , 2011; Kazdin, 2009). Scheel, Davis e Henderson (2012) descobriram que focar nas forças ajudava os clínicos a cons­truir relações de confiança com os clientes e motivá-los ao instilarem esperança. Outro estu­do, com base em entrevistas com 26 terapeutas brasileiros, constatou que, quando os clínicos derivam emoções positivas da contribuição de um paciente na terapia, essa contribuição posi­tiva possibilita ao clínico maior conscientiza­ção dos recursos do paciente. Além disso, emo­ções positivas fortalecem a relação terapêutica quando os recursos do cliente são vistos com igual importância, comparados aos seus déficits (Vandenberghe & Silvestre, 2013). Assim, a aliança terapêutica pode ser estimulada por meio de uma relação que incorpora as forças.

Esse processo está em contraste com a abor­dagem tradicional da psicoterapia, em que um clínico analisa e explica para um cliente a constelação de sintomas e problemas na forma de um diagnóstico. Esse papel do clínico é ainda mais reforçado pela representação da psicoterapia na mídia popular, que mostra as relações terapêuticas marcadas pela conversa sobre pro­blemas, exposição de emoções contidas e recu­peração da autoestima perdida ou abalada com a ajuda de um clínico. [24]

Psicologia - Psicologia positiva
10/22/2020 2:09:49 PM | Por Tayyab Rashid
Psicoterapia positiva - o que é e por que precisamos dela?

Por mais de um século, a psicoterapia tem sido o lugar em que os clientes discutem seus pro­blemas. Milhares de pessoas a cada ano participam de palestras motivacionais, workshops, retiros e cursos e ainda compram livros e apli­cativos digitais de autoajuda. O foco dessas iniciativas terapêuticas está baseado no pressu­posto de que a descoberta de traumas infantis, a distorção de pensamentos falhos ou o restabelecimento de relações disfuncionais é curativo. Esse foco nos aspectos negativos faz sentido intuitivamente, mas, como autores deste ma­nual, acreditamos que os clínicos perderam de vista a importância dos aspectos positivos. A psicoterapia faz um bom trabalho ao fazer os clientes se sentirem menos deprimidos e menos ansiosos, mas o bem-estar dos clientes não é um objetivo explícito da terapia. A psicoterapia positiva (PPT), por sua vez, é um esforço tera­pêutico dentro da psicologia positiva (PP) que visa aliviar o estresse sintomático por meio da valorização do bem-estar.

(...)

O que é psicoterapia positiva?

A PPT é uma abordagem terapêutica emergen­te amplamente baseada nos princípios da PP. A PP estuda as condições e os processos que possibilitam que os indivíduos, comunidades e instituições prosperem. Ela explora o que funciona, o que é certo e o que pode ser cul­tivado (Rashid, Summers, & Seligman, 2015). O impacto da PPT em áreas da psicologia pode ser verificado pelos resultados de uma exten­sa revisão sistemática (Donaldson, Dollwet, & Rao, 2015) que apurou 1.336 artigos publica­ dos entre 1999 e 2013. Desses artigos, mais de 750 incluem testes empíricos das teorias, prin­cípios e intervenções da PP.

A PPT é o braço clínico ou terapêutico da PP. A PPT integra os sintomas com as forças, os riscos com os recursos, os pontos fracos com os valores e os pesares com as esperanças, tendo como objetivo compreender as complexidades inerentes da experiência humana de forma equilibrada. Sem ignorar ou minimizar as preocupa­ções do cliente, o clínico em PPT compreende empaticamente, dá atenção à dor associada ao trauma e simultaneamente explora o potencial para crescimento. Não consideramos que a PPT seja um novo gênero de psicoterapia; em vez disso, a consideramos como uma [3] reorientação terapêutica - um modelo para “construir o que é forte” - que complementa a tradicional abordagem de “consertar o que está errado” (Duckworth, Steen, & Seligman, 2005).

A PPT vai mais além dos aspectos positivos. Como clínicos em PPT, não estamos sugerin­do que outras psicoterapias são negativas, e, na verdade, a PPT não pretende substituir as psicoterapias existentes. Em vez disso, a PPT é uma mudança gradual para dar um equilíbrio ao foco terapêutico nos pontos fracos. Clien­tes em sofrimento psicológico podem ser mais bem compreendidos e atendidos se aprende­rem a usar seus mais altos recursos - pessoais e interpessoais - para enfrentar os desafios na vida. Conhecer nossos pontos fortes; aprender as competências necessárias para cultivar emo­ções positivas; fortalecer relações positivas; e incluir significado e propósito em nossas vidas pode ser tremendamente motivador, empoderador e terapêutico. O objetivo final da PPT é ajudar os clientes a aprender competências concretas, aplicáveis, pessoalmente relevantes que melhor utilizem suas forças para lutar por vidas engajadas, satisfatórias e significativas. Ao atingir esse objetivo, a PPT amplia o papel do clínico de uma autoridade prescritiva que diagnostica déficits para uma que também fa­cilita ativamente o crescimento, a resiliência e o bem-estar.

Por que precisamos da Psicoterapia positiva?

A psicoterapia é a atividade central dos pro­fissionais de saúde mental (como psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e conselheiros) e lança mão de um amplo espectro de métodos teóricos (Watkins, 2010). Entre todos os mé­todos, a psicoterapia demonstrou ser eficiente na melhoria do sofrimento psicológico (p. ex., Castonguay, 2013; Seligman, 1995). Ela supera significativamente o placebo e, em muitos ca­sos, tem melhores resultados no longo prazo do que medicação isoladamente (p. ex., Leykin & DeRubeis, 2009; Siddique et al., 2012). De fato, a psicoterapia demonstrou ser tão eficaz quanto muitos tratamentos médicos validados empiricamente, entre os quais quase todas as intervenções em cardiologia (p. ex., betabloqueadores, angioplastia e estatinas), medicina geriátrica e asma (Wampold, 2007). Encontram-se dispo­níveis psicoterapias validadas empiricamente para muitos transtornos psicológicos, como depressão, esquizofrenia, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo, fobias, transtorno de pânico e transtornos alimentares (Barlow, 2008; Seligman, 1995). O website Substance Abuse and Mental Health Service Administration (SAMHSA) lista 145 tratamentos manualizados para 84 dos mais de 365 transtornos mentais (SAMHSA, 2015). Aspectos mais sutis da psicoterapia, como aliança terapêutica, nuances da comunicação te­rapêutica, linguagem não verbal, influências do terapeuta, processo de tratamento e processo de feedback para o cliente e do cliente, foram todos estudados (Wampold, 2001; Watkins, 2010).

O foco da terapia tradicional no que saiu er­rado resultou em tratamentos que reduzem os sintomas para muitos transtornos. No entanto, acreditamos que o foco intensivo dos psicoterapeutas no negativo chegou a um impasse: entre 20 e 30% dos clientes experimentam pouca mudança durante a terapia, e de 5 a 10%, na ver­dade, deterioram durante o tratamento (Hansen, Lambert, & Forman, 2002; Lambert, 2013). Assim, a psicoterapia, segundo nosso ponto de vista, enfrenta uma barreira significativa, que chamamos de “barreira dos 65%”, isto é, 65% dos clientes em psicoterapia encontram algum benefício com o tratamento. Acreditamos que uma abordagem baseada nas forças, como a PPT, pode melhorar a eficácia da psicoterapia da seguinte forma:

  • expandindo a abrangência da psicoterapia;
  • ampliando para além do modelo médico;
  • expandindo os resultados da psicoterapia; e
  • atenuando o impacto no clínico

Expandindo a Abrangência da Psicoterapia

A tendência dos clínicos de voltar o foco na direção dos aspectos negativos é compreensí­vel. A evolução nos dotou de cérebros que são orientados e mais fortemente responsivos às ex­periências negativas do que às positivas [4] (p. ex..  Baumeister. Bratslavsky, Finkenauer, & Vohs, 2001; Rozin & Royzman, 2001). Essa propen­são inata para a negatividade nos ajudou a ga­rantir abrigo, alimento e parceria no passado evolucionário. A mente humana consome uma quantidade de tempo desproporcional pensando no que está errado, mas nem de perto um tempo suficiente pensando no que está correndo bem em nossas vidas. Em essência, o negativo defi­ne em grande parte a função da terapia. Embora os aspectos negativos sirvam a uma função im­portante em psicoterapia. eles também limitam sua abrangência.

Como seres humanos, queremos vidas que sejam imbuídas de propósito e significado (Duckworth, Steen. & Seligman, 2005). Com o crescente conhecimento das questões de saú­de mental, as pessoas com doença mental estão tendo mais voz, descrevendo como são suas vidas e o que as ajudaria a ir além do papel de um paciente com um transtorno psiquiátrico (Seeker, Membrey, Grove, & Seebohm. 2002). Esses clientes desejam uma recuperação ple­na, o que inclui esperança, relações positivas e objetivos significativos (Seeker, Membrey, Grove, & Seebohm, 2002; Slade, 2010). A psi­coterapia apresenta uma oportunidade ímpar de apoiar o desenvolvimento pessoal dos clientes por meio do cultivo de suas forças, e esse pro­cesso não deve ser desperdiçado pela atenção exclusiva à melhora dos sintomas ou déficits. Recuperação não é melhorar ou eliminar os problemas; é avaliar e fortalecer os pontos fo­rtes, competências, habilidades, talentos e apti­dões (Crits-Christoph et al., 2008; Le Boutillier et al., 2011: Rapp & Gosha, 2006).

Ampliando para Além do Modelo Médico

A psicoterapia continua a operar segundo um modelo médico em que os transtornos mentais são doenças do cérebro causadas pela desregulação de neurotransmissores, anomalias ge­néticas e defeitos na estrutura e na função ce­rebral (Deacon, 2013; Maddux, 2008). David Elkin (2009) e muitos outros observaram que a sobreposição do modelo médico em psicote­rapia é um problema. No modelo médico, um médico diagnostica uma doença com base nos sintomas e administra o tratamento desenvolvi­do para curar a doença. Em psicoterapia, tanto a doença quanto o tratamento frequentemente dependem de características contextuais inter­pessoais – que têm pouco a ver com medicina —, mas o modelo médico permanece como es­trutura descritiva dominante porque empresta à psicoterapia um nível de respeitabilidade cultu­ral e vantagens econômicas que outros sistemas descritivos não lhe conferem (Elkins, 2009). Entretanto, diferentemente dos distúrbios mé­dicos, os transtornos psiquiátricos não podem ser atribuídos a agentes etiológicos simples.

James Maddux (2008) observou que a influ­ência do modelo médico na psicoterapia pode ser comprovada pelos termos que são mais comumente associados à psicoterapia, entre os quais sintomas, disfunção, diagnósticos, transtorno e tratamento. Essa influência deter­mina desproporcionalmente o foco clínico nos transtornos e nas disfunções, e não na saúde. Em vez de abandonar o modelo médico da psi­coterapia, o qual está totalmente arraigado no treinamento, na pesquisa e nas organizações profissionais, sugerimos a incorporação de uma abordagem baseada nas forças para tornar a psicoterapia mais equilibrada. Evidências mos­tram que as forças podem se tornar ingredientes ativos no tratamento de aflições graves como psicose (Schrank et al., 2016), ideação suici­da (Johnson et al., 2010) e transtorno da per­sonalidade borderline (Uliaszek et al., 2016). Ao fundir e integrar os pontos fortes, o campo da psicoterapia pode enriquecer a experiência dos clientes e dos clínicos. Slade (2010) defen­de que essa expansão também pode oferecer aos clínicos a oportunidade de desafiar o es­tigma e a discriminação, além de promover o bem-estar social. No entanto, expandir o mode­lo psicoterápico do déficit para os pontos fortes irá exigir mudanças tanto na avaliação quanto no tratamento. Essa mudança no papel do clí­nico pode se tornar a norma em vez da exceção no século XXI. Alex Wood e Nicholas Tarrier (2010) sugeriram que a compreensão e o trata­mento dos níveis clínicos de sofrimento devem ser equilibrados com um foco de mesmo peso nos aspectos positivos porque [5] as forças podem servir como defesa contra o efeito de acontecimentos negativos no sofri­mento, potencialmente prevenindo o desenvolvimento de transtorno psicológico (Huta & Hawley, 2008; Marques, Pais-Riberio, & Lopez, 2011).

  • As forças têm sido associadas a vários in­dicadores de bem-estar, como qualidade de vida (Proctor et al., 2011), bem-estar psi­cológico e bem-estar subjetivo (Govindji & Linley, 2007), e quase todas as forças de caráter estão relacionadas a satisfação aca­dêmica, média das notas (Lounsbury et al., 20099) e saúde mental (Littman-Ovadia & Steger, 2010; para uma revisão, veja Quinlan et al., 2012).
  • Intervenções baseadas nas forças produzem inúmeros benefícios. Elas predizem transtor­no psicológico além do poder preditivo da presença de características negativas ou de sintomas (Wood et al., 2009). Intervenções baseadas nas forças conferem inúmeros be­nefícios (para uma revisão, veja Quinlan et al., 2012).
  • O aprimoramento das forças pode ser mais eficiente e aceitável para clientes de diferen­tes origens culturais (Harris, Thoresen, & Lopez, 2007; Pedrotti, 2011).
  • As forças de caráter de inteligência social e gentileza são indicativas de menos estig­ma em relação a pessoas com problemas de saúde mental. Pessoas de mentalidade aberta não consideram os indivíduos com diagnós­tico de transtornos mentais como pessoal­mente responsáveis por adquirir esses trans­tornos (Vertilo & Gibson, 2014).

Expandindo os Resultados da Psicoterapia

Pesquisadores dos resultados da psicoterapia enfatizaram que indicadores de qualidade de vida e bem-estar psicológico devem ser incorporados à definição de recuperação (Fava & Ruini, 2003). Larry Davidson e colaboradores usaram o termo “atendimento orientado para a recuperação” para descrever o tratamento que cultiva os elementos positivos da vida de uma pessoa —como recursos, aspirações, es­peranças e interesses -, pelo menos na medida em que tenta melhorar e reduzir os sintomas (Davidson, Shahar, Lawless, Sells, & Tondo- ra, 2006).

Uma análise temática de 30 documentos internacionais que oferecem um guia prático orientado para a recuperação recomenda que a noção de recuperação seja expandida além da remissão dos sintomas para incluir o bem-estar. A análise sugere que a recuperação inclua a avaliação e a utilização das forças e dos apoios naturais para informar a avaliação, revisões, planos de atendimento e objetivos e que a as­sistência e o tratamento façam uso efetivo des­sas forças (Le Boutillier et al., 2011). Definir e expandir a recuperação também expande o pa­pel do profissional de saúde mental, com maior ênfase na parceria com o cliente (Slade, 2010). Schrank e Slade (2007) conceituam recupera­ção como um processo único profundamente pessoal no qual a atividade, valores, sentimen­tos, objetivos e papéis do indivíduo se modi­ficam.

Recuperação completa significa que, apesar das limitações causadas pelo sofrimen­to psicológico, o indivíduo é capaz de ter uma vida gratificante e satisfatória. Recuperação completa também envolve o desenvolvimento de novo sentido e propósito na vida enquanto o indivíduo se desenvolve e supera os efeitos catastróficos da doença mental.

Atenuando o Impacto no Clínico

A própria natureza da psicoterapia requer que os clínicos em saúde mental escutem descri­ções graficamente detalhadas de acontecimen­tos algumas vezes terríveis e sejam testemu­nhas da repercussão psicológica (e algumas vezes física) de atos de intensa crueldade e/ou violência. Se a psicoterapia em grande parte implica confrontar lembranças negativas e experiências adversas — sutis e severas —, a experiência cumulativa de tal engajamento empático pode ter efeitos negativos nos clíni­cos. Evidências demonstraram que esses efeitos se manifestam por meio da exaustão emocio­nal, despersonalização e falta de realização pes­soal - o que causa burnout e fadiga por compai­xão (Berzoff & Kita, 2010; Deighton, Gurris, & Traue, 2007; Hart, 2014). Ao explorarem o que mantém o bem-estar dos clínicos e o que os torna exemplares, Harrison e Westowood [6]  (2009) encontraram uma orientação positiva abrangente transmitida por uma habilidade de manter a confiança em três atributos: (a) o self como sufícientemente bom - isto é. o clínico tem confiança em sua expertise; (b) o processo de mudança terapêutica; e (c) o mundo como um lugar de beleza e potencial (apesar e além da dor e do sofrimento). Esses três atributos são essenciais para a orientação teórica da PPT e são promovidos durante as práticas.

A barreira dos 65%

Conforme observado anteriormente, alguns clientes não obtêm nenhum benefício com psi­coterapia, e outros (entre 5 e 10%) na verdade deterioram durante a terapia (Lambert, 2007). Vamos discutir essa barreira aplicada à forma mais comum de psicopatologia: a depressão - um transtorno algumas vezes denominado como “o resfriado comum entre as doenças mentais”. Considere dois tratamentos que sa­bemos ser efetivos: terapia cognitivo-comportamental e uso de inibidores seletivos da recaptação da serotonina como Prozac, Zoloft e Lexapro. Cada tratamento produz uma taxa de resposta de aproximadamente 65%, e sabemos que essa resposta incorpora um efeito place­bo que varia de 45 a 55% (p. ex., Rief et al., 2011); quanto mais realista o placebo, maior a resposta ao placebo. Esses números ocor­rem repetidamente. Uma revisão metanalítica recente de 30 anos de ensaios randomizados de antidepressivos controlados com placebo documenta que uma alta porcentagem do efei­to do tratamento pode ser atribuída à resposta ao placebo (Kirsch et al., 2002; Undurraga & Baldessarini, 2017).
Por que existe uma barreira de 65% e por que os efeitos específicos da terapia são tão pe­quenos? Acreditamos que isso ocorra porque a mudança comportamental é difícil para as pessoas em geral e especialmente difícil para os clientes que estão buscando terapia, que po­dem não ter motivação, que têm comorbidades ou que vivem em ambientes insalubres que não são suscetíveis à mudança. Em conseqüência, muitos clientes continuam a se comportar de maneiras arraigadas e mal-adaptativas, e a no­ção de mudança pode ser percebida como ameaçadora e impossível de ser atingida.

Na verdade, muitos clínicos abandonaram a noção de cura. A gestão da saúde e os orçamen­tos limitados para tratamento algumas vezes resultaram em situações em que os profissionais de saúde mental dedicaram seu tempo e talento para apagar incêndio em vez de fazer prevenção de incêndio. Seu foco é quase inteiramente no manejo da crise e na oferta de tratamentos cosméticos. O fato de o tratamento ser com fre­quência apenas cosmético explica parcialmente a barreira dos 65% (Seligman, 2006).

Na psicoterapia tradicional orientada para o déficit, muitos clínicos acreditam que uma for­ma de minimizar as emoções negativas, especialmente a raiva contida, é expressá-las, com a suposição de que, se a raiva não for expressa, ela se manifestará por meio de outros sintomas. A literatura terapêutica está repleta de expres­sões, como “esmurrar a almofada”, “relaxar” e “botar pra fora”, que ilustram esse tipo de pen­samento (Seligman, 2002a). No entanto, essa abordagem deixa a psicoterapia atual em gran­de parte como uma ciência da vitimologia que retrata os clientes como respondentes passivos às circunstâncias. Impulso, instinto e necessi­dade criam conflitos inevitáveis que podem ser aliviados apenas parcialmente por meio do desabafo. Em nossa opinião, desabafar é, na melhor das hipóteses, um remédio cosmético e, na pior das hipóteses, um tratamento que pode desencadear raiva amplificada, ressentimento e doença cardíaca (Chida & Steptoe, 2009).

Alternativas às abordagens psicoterápicas tradicionais

Aprender a funcionar bem em face do sofri­mento psicológico é uma abordagem alternati­ a que é adotada pela PPT. Depressão, ansieda­de e raiva frequentemente resultam de traços de personalidade herdados que podem ser melho­rados, mas não eliminados. Todas as emoções negativas e traços de personalidade negativos têm fortes fronteiras biológicas, e é irrealista esperar que a psicoterapia possa ultrapassar esses limites. O melhor que a terapia tradicio­nal pode fazer com sua abordagem paliativa [7] é ajudar os clientes a viver na parte superior dessas variações de depressão, ansiedade ou raiva. Considere Abraham Lincoln e Winston Churchill, duas figuras históricas que sofreram de doença mental grave (Pediaditakis, 2014). Ambos eram seres humanos com funcionamen­to incrivelmente alto que desempenhavam bem apesar de vivenciarem problemas significativos de saúde mental. Talvez eles funcionassem bem porque utilizavam seus pontos fortes. A psicoterapia precisa desenvolver intervenções que ensinem os clientes a utilizar suas forças para funcionarem bem na presença de sintomas. Es­tamos convencidos de que a PPT pode ajudar os clientes a funcionar bem e possivelmente romper a barreira dos 65%.

Há outra razão essencial para desafiar e mudar as abordagens tradicionais da psicoterapia. Uma boa vida, o objetivo final da psicoterapia, não pode ser plenamente atingida por meio da estrutura tradicional orientada para o déficit. Por exemplo, em um estudo que controlou essas características negativas, os pesquisadores encontraram que pessoas que tinham poucas características positivas (p. ex., esperança e otimismo, autoeficácia e gratidão) tinham risco duas vezes maior de desenvolver depressão (Wood & Joseph, 2010). Da mesma forma, a presença de for­ças de caráter (p. ex., esperança; apreciação da beleza e excelência; e espiritualidade) de­monstrou prestar uma contribuição significa­tiva para recuperação de depressão (Huta & Hawley, 2008). Esperança e otimismo (Carver, Scheier, & Segerstrom, 2010), além de gratidão (Flinchbaugh, Moore, Chang, & May, 2012), demonstraram conduzir a níveis mais baixos de estresse e depressão. [8]

Psicologia - Psicologia positiva
10/21/2020 2:18:45 PM | Por Charles Richard Snyder
Tornando-se positivo

Começamos este capítulo final descreven­do um cliente de psicoterapia com uma agenda que refletia um preceito fundamen­tal da psicologia positiva: o desejo de acen­tuar o bom da vida. A seguir, discutimos um enigma para os psicólogos positivos: por que as informações negativas parecem ter mais poder sobre as pessoas do que as positivas (ou seja, “por que o que é ruim tem mais força do que o que é bom”)? Após, avaliamos as atenções dadas à psicologia positiva na mídia e no campo da própria psicologia, seguido de um chamamento que fazemos para que a psicologia positiva seja um fenômeno de alcance mundial. Afirma­mos que ela deve ser para todos, e não para uns poucos. Também examinamos até onde os jovens foram recrutados para o estudo do tema. Em uma importante seção a seguir, vários líderes nesse novo campo apresentam idéias so­bre o futuro da psicologia positiva. Por fim, encerramos com duas histórias que ilus­tram vividamente o poder de se concen­trar no positivo.

Trocando o que é ruim po rum pouco do que é bom: O caso de Molly

As mudanças que descrevemos como resultado da iniciativa da psicologia posi­tiva são semelhantes aos processos pelos quais as pessoas passam na psicoterapia bem-sucedida, isto é, são capazes de subs­tituir alguns pensamentos e ações negati­vos por outros, mais positivos. Considere­mos, por exemplo, o caso de Molly, uma mulher de 75 anos e de língua afiada, que veio a um dos autores (C.R.S.) em busca de psicoterapia. A declaração inicial de Molly foi: “Eu quero trocar alguns dos meus maus hábitos por outros, melhores!”. No final das contas, esse caso não era tão sim­ples quanto suas palavras sugeriam, mas esse tipo raramente é.

Em primeiro lugar, Molly disse que queria deixar de ser tão desagradável. Quando se perguntou o que ela poderia ganhar sendo tão irritada e difícil, ela pa­recia confusa. “Você quer dizer que eu faço isso por alguma razão?”, perguntou. Pen­sando em suas possíveis motivações para [423] ser irritada, Molly fez uma pausa e depois afirmou: “Eu quero estar mais no contro­le”. Ela também disse que não gostava de como sua família parecia prestar mais aten­ção quando ela reclamava de suas dores e sofrimentos.

Sugeri que ela começasse a fazer tra­balho voluntário em um hospital. Essa ideia tinha várias vantagens, sendo que a mais importante era que seus am